Autor: HERMANN BAVINCK
(1854 -1921)
Bavinck pastoreou a Igreja
Reformada em Franeker, foi
Professor titular de Teologia
Sistematica em Kampem e finalmente
da Universidade Livre de Amsterda.
Bavinck apresentou, atraves de
sua pena, diversos assuntos da mais
alta importancia sobre: educa<;ao,
etica, familia, psicologia etc., sendo
sua obra Reformed Dogmatics
(Gereformeerd Dogmatiek), segundo os
crfticos, a mais relevante.
Bavinck, na sua piedade e estilo
de vida, influenciou muitos te6logos,
holandeses e norte-americanos da
linha reformada, entre eles Louis
Berkhof.
FUNDAMENTOS
TEOLOGICOS DA FE CRISTA
Autor: Hermann Bavinck
Professor Titular de Teologia,
Universidade Livre de Amsterda
Traduzido do Ingles por Vagner Barbosa
~
TEOLOGIA SISTEMATICA
Autor: Hermann Bavinck
Tradutor: Vagner Barbosa
Revisores: Ademar de Oliveira Godoy e Loyde Wenzel de Paula
Editor Responsavel: Arival Dias Casimiro
Setembro de 2001
Dados Internacionais de Catalogaao na Publicaao (CIP)
(Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Bavinck, Hermann
B354r Our reasonable faith. Traduzido da edi<;:ao holan-
desa, magnalia Dei, por Henry Zylstra. Grand Rapids: Baker
Book House, 1977.
559 p.
1. Teologia Sistematica. 2. Doutrina Crista. I. Titulo.
CDD-230
Copyright© 2001 por SOCEP
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deste livro, sem o expresso consentimento dos editores.
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Filiadoa:
PREFACIO A TRADU<;AO BRASILEIRA
0
pensamento calvinista vi-
veu, no seculo XIX, uma
fase de reavivamento e
expansao.
Nos Estados Unidos, o Semi-
nario de Princeton foi o principal
centro de forma<;:ao e difusao do
calvinismo, Velha Escola, nas
Americas. Archibald Alexander
(1772-1851), Charles Hodge (1797-
1878), Archibald Alexander
Hodge (1823-1886) e Benjamin B.
Warfield (1851-1921), respectiva-
mente, foram os mestres formu-
ladores da Velha Teologia de
Princeton. Os principais elemen-
tos dessa teologia foram: a aceita-
c;ao da inspirac;ao plena da Biblia
e a sua infalfvel autoridade; a ado-
<;:ao do metodo indutivo para a sis-
tematiza<;:ao teol6gica; o ensino da
ciencia subordinado ateologia; a
defesa da fe ou do ensino bfblico
confessional como urn clever pas-
toral.
5
0 protestantismo brasileiro
foi, na sua origem, moldado pelo
calvinismo norte-americana, da
Velha Escola. As obras: Teologia
Sistematica, (3 volumes) de C.
Hodge e Esbo~os de Teologia, de A.
A. Hodge foram utilizadas como
texto principal na forma<;:ao de
pastores brasileiros. Atualmente,
essas obras estao traduzidas para
o portugues.
Herman Bavinck (1854 -
1921) foi, no final do seculo XIX,
juntamente com Abraham Kuy-
per, urn te6logo de destaque no
reavivamento neocalvinista na
Igreja Reformada Holandesa. Foi
professor de teologia sistematica
no Seminario Teol6gico em Kapen
(1882-1902) e na Universidade Li-
vre de Amsterdam (1902-1920). A
sua principal obra foi Gerefor-
meerde Dogmatiek, Dogmatica Re-
formada, em quatro volumes, ori-
ginalmente publicados entre 1895
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
e 1901, dos quais somente o segun-
do volume foi traduzido para o
ingles como A Doutrina de Deus.
Nao existe nenhuma obra de
Bavink traduzida para o portugu-
es. Bavinck influenciou profunda-
mente muitos te6logos reforma-
dos, holandeses e norte-america-
nos, sendo Louis Berkho( o mais
conhecido no Brasit por causa da
sua Teologia Sistematica.
Para Bavinck, a teologia era
o estudo sistematico do conheci-
mento de Deus, revelado em Cris-
to e na Biblia, e resumido pela
Igreja por meio dos credos, cate-
cismos e confiss6es. Segundo ele,
a religiao, o temor de Deus, deve ser
o elemento que inspira e anima n in-
vestigar;iio teol6gica. Isso deve mar-
car a cadencin da ciencia. 0 te6logo e
uma pesson que se esforr;a pnra falar
sabre Deus. Professar a teologia eum
trnbnlho santo. E realizar umn
6
ministrar;iio sacerdotal na casa do Se-
nhor. Isso epar si mesmo um servir;o
de culto, uma consagrar;iio da mente
e do corar;iio em honra ao Seu nome.
A SOCEP - Sociedade Cris-
ta Evangelica de Publica<;:6es
Ltt:la., de forma pioneira e inedi-
ta, traz ao publico brasileiro, o
pensamento de Bavinck. A obra
Teologia Sistenuitica: Os Funda-
mentos da Fe Crista, traduzida do
ingles, Our Rensonable Faith, e uma
sintese do pensamento teo16gico
de Bavinck, apresentada de ma-
neira simples, profunda e pasto-
ral.
Agradecemos ao rev. Her-
minsten Maia Pereira da Costa
pela c6pia em ingles. A SOCEP
pelo grande investimento e valio-
sa contribui<;:ao aos continuadores
do calvinismo no Brasil.
Arival Vias Casimiro
PREFAcio AEoic;Ao EM INGLES
A
queles que estao familia-
rizados com a hist6ria das
igrejas Reformadas da
Holanda- isto e, das gereformeerde
como distintas das Hervormde
Kerken- saberao que entre os her-
deiros da Afscheiding de 1834 e a
Dolenntie de 1886 nao ha nomes
tao estimados quanto os de
Abraham Kuyper e Hermann
Bavinck. Eles foram figuras her6i-
cas de realizac;:oes gigantescas no
trabalho cristao. Suas carreiras, re-
alizadas praticamente ao mesmo
tempo, no final do seculo XIX e no
comec;:o do seculo XX devem ser
consideradas como urn favor es-
pecial de Deus em beneficia do
Cristianismo Hist6rico tanto na
Europa quanto no N<1vo Mundo.
Esses dois homens, que com
o tempo chegaram a ser mencio-
nados juntos como partidarios da
causa da Reforma na Holanda,
tern sido frequentemente compa-
7
rados e contrastados. Alguns os
diferenciam da seguinte forma:
"Em Kuyper n6s temos urn exem-
plo de genio brilhante, em
Bavinck urn exemplo de talento
mentalmente preciso e de julga-
mento esclarecido". 0 Rev. J. H.
Landwehr, primeiro bi6grafo de
Bavinck, aponta outro contraste:
Bavinck tinha urn espirito
Aristotelico, enquanto Kuyper ti-
nha urn espirito Platonico.
Bavinck era o homem do conceito
claro e preciso, enquanto Kuyper
era o homem da ideia produtiva.
Bavinck trabalhou com dados his-
t6ricos; Kuyper trabalhou espe-
culativamente por meio da intui-
c;:ao. Bavinck tinha espirito carac-
teristicamente indutivo; Kuyper
tinha mente de natureza dedu-
tiva. Esses dois homens se
complementaram no renasci-
mento da vitalidade do Calvinis-
mo na vida e no pensamento da
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Holanda do seculo XIX.
Hermann Bavinck nasceu
em 13 de dezembro de 1854. 0
centenario de seu nascimento foi
grandemente celebrado na
Holanda em 1954, e a natureza e
o escopo de suas contribui~5es
foram revistas com grande apre-
~o. Bavinck nasceu na cidade de
Hoogeveen na provincia de
Drenthe. Seu povo veio originari-
amente do condado de Bentheim.
Seu pai, o Rev. Jan Bavinck, foi urn
ministro das igrejas que em 1834
se interessaram em manter a pura
tradi~ao do Cristianismo Hist6ri-
co separada da Igreja do Estado
da Holanda.
0 jovem Bavinck alcan~ou
distin~ao como estudante de urn
colegio em Zwolle e foi para a Es-
cola Teol6gica de sua igreja em
Kampben. Ali ele permaneceu por
apenas urn ano. Ele quis ir para
Leiden para realizar seus estudos
teol6gicos superiores. Leiden deu
a ele pelo menos duas coisas: urn
grande respeito pela erudi~ao e
uma confronta~ao, em primeira
mao, com a moderna teologia li-
beralmente afetada. Essas duas li-
~5es foram de grande importan-
cia para ele. 0 ideal de uma eru-
di~ao teologicamente s6lida para
o Cristianismo Reformado orto-
doxo permaneceu firme em sua
vida no decorrer de toda a sua car-
reira. Seu conhecimento profundo
sobre os mais novos pensamentos
religiosos serviu para aprofundar
8
suas convic~5es Calvinistas e ha-
bilitou-o a elaborar uma teologia
realisticamente voltada para os
problemas de seu tempo.
Em 1880 ele se graduou em
Leiden, tendo feito sua disserta~ao
sobre a etica de Ulrico Zwinglio.
Ele trabalhou como ministro de
uma igreja em Franeker por urn
ano, e foi entao nomeado Profes-
sor de Dogmatica na Escola Teo-
16gica de Kampben. 0 assunto de
sua aula inicial, "A Ciencia da San-
ta Divindade" (De Wetenschap der
Heilige Godgeleerdheid, 1882), fasci-
nou-o durante toda a sua vida.
Durante a decada de seus arduos
estudos e ensino eficaz em
Kampben, Bavinck tres vezes foi
convidado para lecionar teologia
na Universidade Livre de Amster-
da. Ele s6 aceitou depois do ter-
ceiro convite, e s6 depois de satis-
fazer sua consciencia (veja sua
brochura Decline or Accept [Blijven
of Heengaan], Kampben, 1902) de
que isso nao prejudicaria a inte-
gridade da educa~ao teol6gica em
sua igreja. Foi s6 quando
Abraham Kuyper trocou a pasta
de catedratico em Amsterda pela
pasta de Ministro no governo de
Hague que Bavinck tornou-se seu
sucessor em Amsterda.
Bavinck era primariamente
o te6logo, o dogmatico. Sua
magnus opus sao os quatro volu-
mes de sua Reformed Dogmatics
(Gereformeerde Dognwtiek). Essa
obra foi o fruto de seu trabalho em
PREFAcro
Kampben, surgindo primeira-
mente durante os anos 1895-1901
e, depois, em uma forma revisa-
da, em 1906-1911. Urn volume de
sua obra, A Doutrina de Deus, edi-
tado e traduzido pelo Dr. W.
Hendriksen, foi publicado em
Grand Rapids em 1951. 0 presen-
te volume, Os Fundamentos de Nos-
sa Fe, escrito em 1909 como a
Magnalia Dei (As Maravilhosas
~h·as de Deus), e um resumo de
~:_:a Dogmatica em quatro volu-
::-:'.<:?5. Os Fundamentos,de Nossa Fee
=~cc?nos tecnico, menos exclusiva-
=~1ente profissionat mais intenci-
~nalmente popular do que a
~ .-gmfr.tica, e e mais amplamente
.::.:11parado por referencias da Es-
-::'·~tura, mas e, como a obra mai-
=·:·. urn livro de dogmatica Crista
·~, Asica. Ele apresenta claramente e
2:11 fina perspectiva as doutrinas
~·,n--.damentais do ensino bfblico.
Alguns tern dito que
Bavinck foi mais urn fil6sofo do
que urn te6logo. Everdade que
sua filosofia exibe a disciplina do
treinamento e da informa<;ao de
urn fil6sofo, mas o que ele queria
ser antes de tudo era urn te6logo
Escrituristico. Ecomo Landwehr
disse: II Assim como Calvino ex-
traiu seus pensamentos da Escri-
tura, Bavinck tambem sempre se
inclinou sobre a Escritura para
extrair dela as suas ideias, e sem-
pre foi guiado pela Escritura em
sua sistematizac;:ao de seus ensi-
nos". Alem disso, em seu exerci-
9
cio teol6gico ele nao era o espec-
tador imparcial que observava
descomprometidamente a reali-
dade da religiao. Em sua aula
inaugural em Amsterda, Religiiio
e Teologia, ele disse:
Religiao, o temor de Deus,
deve ser o elemento que inspira e
anima a investigac;:ao teol6gica.
Isso deve marcar a cadencia da
ciencia. 0 te6logo e uma pessoa
que se esforc;:a para falar sobre
Deus porque ele fala fora de Deus
e por meio de Deus. Professar a
teologia e fazer urn trabalho san-
to. Erealizar uma ministrac;:ao sa-
cerdotal na casa do Senhor. Isso e
por si mesmo urn servic;:o de cui-
to, uma consagrac;:ao da mente e
do cora<;ao em honra ao Seu nome.
Foi dessa forma que Bavinck
conduziu sua carreira. Seu primei-
ro bi6grafo, Landwehr, registra
como ele agia na sala de aula: A
lic;:ao, ele diz, transformava-se em
urn sermao, pois o professor fica-
va comovido com a verdade. A
maioria de seus bi6grafos registra
as palavras por ele pronunciadas
na fase terminal da doenc;:a que o
matou: II Agora minha erudic;:ao
de nada me vale, nem minha
Dogmatica: S6 a minha fe pode
me salvar". Com essa afirma<;ao
ele nao estava depreciando toda
uma vida de esforc;:o no estudo te-
ol6gico, estava apenas indicando
a correta ordem de importancia.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Quando o Dr. J. C. Rullmann
submeteu seu artigo sobre
Bavinck ao Christelijke Ency-
clopaedie em 1925, ele percebeu
que dificilmente poderia explicar
a obra de Bavinck melhor do que
fazendo uma cita<;:ao do colega de
Bavinck na Universidade Livre,
Dr. W. J. Geesink. Essa cita<;:ao
tambem sera litil para n6s. Dr.
Geesink disse - ele estava, natu-
ralmente, usando o idioma holan-
des:
Como professor, Bavinck es-
taria no lugar mais elevado de
qualquer faculdade de qualquer
universidade. Sua tremenda eru-
di<;:ao e sua vasta leitura tornaram-
no ricamente expressivo na sala de
aula. Sendo urn erudito profundo
e entusiasmado, ele tinha o dom
de descobrir problemas, e quan-
do ele os descobria, ele os levava
ao conhecimento de sua audien-
cia em termos compreensiveis. Se
ele tivesse a solu<;:ao, ele tambem
a dividia com seus ouvintes, nun-
ca de forma apressada, mas pau-
sadamente e com calma. E se ele
ainda nao tivesse a solu<;:ao, sua
erudi<;:ao honesta conservava-o
distante daquilo que era ilus6rio,
e que faria com que urn problema
fosse resolvido as custas da cria-
<;:ao de outro. E com seu respeito
pela 16gica e com sua minuciosa
disciplina na escola ele sabia mui-
to bern como afastar os perigos do
irracionalismo mesmo sabendo
10
que ha problemas que nao podem
ser resolvidos.
Como te6logo e dogmatico
por profissao, Bavinck seguiu
Calvino em sua teologia Reforma-
da. Fazendo isso, e levando em
conta, apesar de nao sem critica e
reserva, sua erudi<;:ao moderna e
seu conhecimento, ele ajudou a ti-
rar a teologia Reformada do
processo de endurecimento e
fossiliza<;:ao no qual estava
inserida desde cerca de 1750... As-
sim como Agostinho, que ele co-
loca na vanguarda de todos os
pensadores antes e depois do
quarto seculo, procurou na filoso-
fia da revela<;:ao uma resposta para
os problemas da vida e do mun-
do - por uma resposta, deve ser
dito, que satisfa<;:a tanto o cora<;:ao
quanto a mente.
Bavinck escreveu urn im-
pressionante numero de obras
substanciais nas areas de religiao
e teologia, filosofia e etica pratica,
e, de forma especial, tambem
psicologia e teoria da educa<;:ao.
A bibliografia de sua obra
publicada, que inclui alem de toda
a extensao das muitas palestras
inaugurais e outras palestras aca-
demicas que ele deu, mas que nao
incluem seu movimentado traba-
lho jornalistico, ocupam cerca de
sessenta itens na tabela de
Landwehr. Na area de religiao e
teologia, as seguintes obras devem
ser mencionadas alem da
PREFAC!O
Dogmatica Reformada e Os Funda-
mentos de Nossa Fe. Em 1888 ele
lan<;ou seu eterno cLissico sobre o
ecumenismo intitulado A Cato-
licidade do Cristianismo e a Igreja.
(De Katholiciteit van Christendom en
Kerk). Em 1894 ele deu uma pales-
tra definitiva sobre urn tema pri-
meiramente delineado por
Calvino e tambem grandemente
desenvolvido por Abraham
Kuyper, chamado Grar;a Cormnn
(De Algenreene Genade). Suas boni-
tas meditac;:oes em 0 Sacrificio do
Louvor (De Offerande des Lofs, 1901)
ja estavam na sua sexagesima edi-
<;ao na epoca de sua morte e fo-
ram traduzidas para o ingles e
publicadas nos Estados Unidos
em 1922. Urn tipo de livro
devocional, A Certeza da Fe (De
Zekerheid des Geloofs), foi publica-
do no mesmo ano. Importantes
tambem sao suas palestras minis-
tradas em 1911 intituladas Moder-
nismo e Ortodoxia (Modernisme en
Orthodoxie), e seu Clzamado e Rege-
nerar;ao (Roeping en Wedergeboorte)
de 1903.
Entre seus livros mais filoso-
ficamente orientados estao as
Conferencias Stone de Princeton,
proferidas em 1908 e publicadas
em ingles no ano seguinte como
A Filosofia da Revelar;flo: Etica para
Hoje (Hedendaagsche Moraal, 1902),
e as duas palestras filos6ficas de
1904 intituladas Filosofia Cristtl
(C{nistelijke Wetenschap) e 0 Mun-
do Cristiio e a Perspectiva de Vida
11
(Christelijke Wereldbeschou-
wing). Urn tema que ocupou
Bavinck por muito tempo e ao
qual ele dedicou sua mais madu-
ra reflexao foi a interliga<;ao entre
a religiao e o ensino. Nenhuma
institui<;ao de educa<;ao Crista
ortodoxa de nivel superior pode
ignorar suas varias publica<;oes
sobre esse assunto: Religiflo e Di-
vindade (Godsdienst en Godgeleer-
dheid, 1902), Educar;flo e Teologia
(Opleiding en Theologie, 1896), 0
Oficio do Doutor ou Professor de Te-
ologia (Het Doctorenambt, 1899), A
Autoridade da Igreja eaLiberdade da
Ciencia (Het Recht der Kerken en de
Vrijheid der Wetenschap, 1899), En-
sino e Filosofia (Geleerdheid en
Wetenschap, 1899), e A Escola Teo-
l6gica e a Universidade Livre
(Theologische School en Vrije
Universiteit, 1899).
Foi durante OS ultimos anos
de sua vida profissional que
Bavinck tornou-se expressivo nas
duas mais elevadas esferas de
vida e pensamento, que sao etica
aplicada e psicologia aplicada a
moral. Aprimeira categoria de in-
teresse pertencem obras como
0 Papel da Mulher na Sociedade
Moderna (De Vrouw in de
Hedendaagsche Maatschappij, 1918),
A Familia Crista, (Het Christelijke
Huisgezim, 1908), A Irnitar;flo de
Cristo na Vida Moderna (De
Navolging van Christus in het
Modern Leven, 1918), 0 Problema da
Guerra, (Het Problem van den
- - - - - - - - - -
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
Oorlog, 1915), e Cristianismo, Guer-
ra, eaLiga das Nar;oes (Christendom,
Oorlog, Volkenbond, 1920). Esta ul-
tima obra nos mostra como
Bavinck se interessava pelos pro-
blemas do nosso seculo. Alem dis-
so, deve ser dito que ele tinha urn
fino "senso de sua propria epoca".
Isso leva em conta sua pronunci-
ada preocupac;ao com Psicologia
e os principios de educac;ao. Em
1915 ele escreveu o tratado Sabre
o Sub Consciente (Het Onbewuste),
em 1897 Os Principios de Psicologia
(Beginselen der Psycologie), e em
1920 a Psicologia Bfblica e Religiosa
(Bijbelsche en Religieuse Psycologie).
Sua maior obra sobre a teoria da
educac;ao e Principios Pedag6gicos
(Paedagogische Beginselen, 1904).
Nao e de se admirar que essa area
de estudos tenha atraido tanto sua
atenc;ao. 0 livro Filosofia Educacio-
nal de Hermann Bavinck, escrito
pelo Dr. Cornelius Jaarsma
(Grand Rapids, 1935) eo livro De
Paedagogiek van Bavinck, escrito
pelo Dr. L. Van der Zweep
(Kampben, sem data) falam sobre
lSSO.
Hermann Bavinck visitou a
America duas vezes; a primeira
em 1892, quando foi convidado
pela Alianc;a das Igrejas Reforma-
das que adotam o Sistema
Presbiteriano, para ministrar uma
palestra em Toronto sobre o tema:
"A Influencia da Reforma Protes-
tante nas Condic;6es Morais e re-
ligiosas das Pessoas e Nac;oes"; e
12
a segunda foi em 1908, quando ele
demonstrou atraves de suas Con-
ferencias Stone de Princeton que
merecia ser considerado com
Kuyper, Warfield, Hodge, e Orr
como urn destacado te6logo
Calvinista moderno. Na vida po-
litica pratica ele era menos ativo
do que Kuyper, sendo mais incli-
nado afilosofia politica do que a
politica. Ele era, contudo, urn
membro da Casa Alta, represen-
tando o sul da Holanda nos Esta-
dos Gerais desde o anode 1911 em
diante. Seus melhores servic;os
nesta area de atuac;ao foram da-
dos como consultor e conselheiro
na area da educac;ao. A traduc;ao
das suas obras para o ingles tern
sido intermitente e dispersa. Des-
sa forma, desde muito tempo, ape-
nas 0 Sacrificio do Louvor, 0 Reina
de Deus, A Filosofia da Revelar;ao eo
pequeno tratado Evolur;ao estao
disponiveis em lingua inglesa. Os
Fundamentos de Nossa Fe e, por
isso, urn importante incremento.
Ai esta tambem uma biografia nao
definitiva. Tres precursores ja es-
creveram sobre isso. 0 primeiro
foi J. H. Landwehr com seu In
Memoriam, de 1921.0 segundo foi
o Dr. V. Hepp como seu Hermann
Bavinck, escrito tambem em 1921-
o prometido segundo volume que
da sequencia ao primeiro nunca
foi escrito. 0 terceiro foi A. B. W.
Kok, com seu Hermann Bavinck, de
1945. Uma boa quantidade de es-
tudos peri6dicos holandeses tern
PREFAcro
analisado as ideias de Bavinck.
Neste pais [USA] n6s temos, alem
do livro do Dr. Jaarma, a nao
publicada disserta<;ao de doutora-
do em Princeton, do Dr. Anthony
Hoekema da doutrina de Bavinck
sobre o Facto.
Podemos dizer que no con-
junto de sua apologia pelo Cristi-
anismo Escrituristico Reformado
Bavinck tinha quatro influencias
opostas em mente, sendo duas
delas de fora e duas delas de den-
tro da entao palida fe Reformada.
As duas influencias externas eram
o moderno liberalismo religioso e
o Catolicismo Romano. As duas
influencias internas eram uma or-
todoxia formal moribunda por
urn lado e o pietismo vazio de
outro. Ele falou com frequencia e
eloquencia contra todas essas for-
<;as. Observe, por exemplo, o sen-
timento e a perspectiva com que
ele defendeu o envolvimento do
mundo por urn Calvinismo uni-
versal, em vez de uma fuga do
mundo por urn pietismo sectario:
N6s nao podemos ser uma
seita. N6s nao podemos querer ser
uma seita e nao podemos ser uma,
a nao ser que neguemos o carater
absoluto da verdade. Alem disso,
0 reino dos ceus nao e deste mun-
do, mas exige que tudo neste
mundo o sirva. Eexclusivo e ciu-
mento, e se satisfaz quando nao ha
urn reino independente ou neutro
encostado nele. Naturalmente se-
15
ria muito mais facil abandonar
essa era aos seus pr6prios cami-
nhos, e procurar nossa for<;a ern
urn sossegado retiro. Todavia,
nem semelhante descanso nos e
permitido aqui. Porque toda cria-
tura e boa, e nada deve ser recu-
sado se for recebido com a<;6es de
gra<;:as, pois todas as coisas sao
santificadas pela Palavra de Deus
e ora<;:ao; portanto, a rejei<;:ao de
qualquer criatura e ingratidao
para com Deus, urn julgamento
errado ou uma deprecia<;:ao de
suas ben<;:aos e de suas dadivas.
Nossa guerra deve ser conduzida
somente contra o pecado. Ne-
nhum problema que dificulte os
relacionamentos entre os crentes
em Cristo deve existir. Nenhum
problema ou dificuldade virtual-
mente sem solu<;:ao, seja de ordem
social, polltica, e especialmente de
ordern cientlfica, devern existir,
nas quais nossa desconfian<;:a e fra-
queza se apoiem orgulhosamente
para tirar-nos da luta, talvez ate
mesmo sob a alega<;:ao de rnotiva-
<;:ao Crista, ou rejeitando a cultura
de nosso tempo como demoniaca.
Essa e uma das notas que
Bavinck gostava de entoar em de-
fesa da fe. Ele ensinava isso em sua
palestra intitulada A Catolicidade
do Cristianismo e a Igreja. Essa e
uma afirma<;:ao representativa. "A
fe", ele dizia, "tern a prornessa de
vit6ria sobre o mundo". 0 Dr.
Hepp muito apropriadamente es-
Fu11dame11tos Teol6gicos da Fe Cristii
creveu como conclusao da biogra-
fia de Bavinck, as seguintes pala-
vras:
0 que outrora foi dito sobre
Calvino serve tarnbern para ele: A
posteridade "nao pode encontrar
rnelhor forma de honrar seu pio-
14
neiro e rnestre do que confessar
corn o cora~ao e corn os Llbios:
Dele, por Ele e para Ele sao todas
as coisas. A Ele, pois, seja a gloria
para sernpre".
Agosto de 1955.
Henry Zylstra
~
INDICE
Prefacio aTradw;ao Brasileira ................................................................ 05
Prefacio aEdi<;:ao em Ingles ..................................................................... 07
1. 0 Maior Bern do Homem ................................................................. 17
2. 0 Conhecimento de Deus ................................................................ 25
3. A Revelac;:ao Geral ............................................................................. 33
4. 0 Valor da Revelac;:ao Geral ............................................................ 47
5. A Questao da Revelac;:ao Especial ................................................... 65
6. 0 Conteudo da Revela<;:ao Especial ................................................ 79
7. As Sagradas Escrituras ................................................................... 103
8. A Escritura e a Confissao .............................................................. 127
9. 0 Ser de Deus .................................................................................. 139
10. A Divina Trindade .......................................................................... 155
11. A Criac;:ao e a Providencia .............................................................. 175
12. A Origem, a Essencia eo Prop6sito do Homem ......................... 199
13. 0 Pecado e a Marte ......................................................................... 243
14. 0 Pacta da Grac;:a ............................................................................. 287
15. 0 Mediador da Alianc;:a .................................................................. 309
16. A Natureza Divina e a Natureza Humana de Cristo ................. 339
17. A Obra de Cristo em Sua Humilha<;:ao ......................................... 363
18. A Obra de Cristo em Sua Exaltac;:ao ............................................. 391
19. 0 Dom do Espirito Santo ............................................................... 423
20. A Vocac;:ao Crista ............................................................................. 443
21. A Justificac;:ao ................................................................................... 483
22. A Santificac;:ao .................................................................................. 515
23. A Igreja de Cristo ............................................................................ 563
24. A Vida Eterna .................................................................................. 597
15
CAPITULO
1l
0 MAIOR BEM oo HoMEM
D
eus, e somente Deus, eo
maior bern do homem.
Em um sentido geral po-
demos dizer que Deus e o maior
bern de todas as Suas criaturas,
pois Deus e o Criador e o
Sustentador de todas as coisas, a
fonte de todo o sere de toda a vida
e a fonte inesgotavel da qual flui
tudo o que e born. Todas as cria-
turas devem sua existencia so-
mente aquele que e o Ser unico,
eterno e onipresente.
Mas a ideia do mais eleva-
do bern, geralmente inclui o pen-
samento de que este bern e reco-
nhecido e desfrutado como tal
pelas pr6prias criaturas. Eclaro
que esse nao e o caso das criatu-
ras inanimadas e nao racionais. As
criaturas inanimadas possuem
apenas o ser, mas nao possuem o
principio da vida. Outras criatu-
ras, tais como as plantas, possu-
em o principio da vida, mas sao
17
desprovidas de consciencia. Os
animais, e verdade, possuem,
alem de sua existencia e de sua
vida, um certo tipo de conscien-
cia, mas essa consciencia alcan<;:a
apenas aquilo que pode ser visto
ou sentido ao seu redor. Eles sao
conscientes das coisas terrenas,
mas nao das celestiais; eles tern
consciencia da realidade, do pra-
zer e da utilidade, mas nao pos-
suem qualquer no<;:ao de verdade,
bondade e beleza; eles possuem
consciencia sensorial e desejo sen-
sorial e, portanto, satisfazem-se
com o que e sensorial e nao po-
dem penetrar atraves da ordem
espiritual.
0 caso do homem e diferen-
te. Ele e a criatura que, inicialmen-
te, foi criada a imagem e seme-
lhan<;:a de Deus, e essa origem di-
vina e essa marca divina nenhum
erro pode destruir. Contudo ele
perdeu, por causa do pecado, os
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
gloriosos atributos de conheci-
mento, justi<;a e santidade que es-
tavam contidos na imagem de
Deus. Todavia, esses atributos
ainda estao presentes em "peque-
nas reservas" remanescentes da
sua cria<;ao; essas reservas sao su-
ficientes nao somente para torna-
lo culpado, mas tambem para dar
testemunho de sua primeira gran-
deza e lembra-lo continuamente
de seu chamado divino e de seu
destino celestial.
Em todos os seus pensamen-
tos e em todas as suas obras, em
toda a vida e atividade do ho-
mem, fica claro que ele euma cri-
atura que nao pode ser plenamen-
te satisfeita com o que o mundo
fisico tern para oferecer. De fato
ele eurn cidadao de uma ordem
fisica, mas ele tambem se ergue
acima dessa ordem para uma or-
dem sobrenatural. Com seus pes
firmemente plantados no chao ele
levanta sua cabe<;a e lan<;a seu
olhar para cima. Ele tern conheci-
mento de coisas que sao visiveis
e temporais, mas tambem tern
consciencia de coisas que sao in-
visiveis e eternas. Seu desejo vai
alem do que eterreno, sensorial e
transit6rio e alcan<;a tambem os
bens celestiais, espirituais e eter-
nos.
0 homem compartilha sua
consciencia sensorial com os ani-
mais, mas alem dessas qualida-
des ele foi dotado de entendimen-
to e razao, que o tornam capaz de
18
pensar e levantar-se acima do
mundo de imagens sensoriais
para urn mundo de pensamentos
incorp6reos e para urn reino de
ideias eternas. 0 pensamento e o
conhecimento do homem, apesar
de serem extraidos de seu cerebra,
sao todavia em sua essencia uma
atividade inteiramente espiritual,
pois transcendem aquilo que ele
pode ver e tocar. Atraves do pen-
samento ele estabelece uma cone-
xao com urn mundo que ele nao
pode ver nem tocar, mas que e
real e que possui mais realidades
essenciais do que a corporalidade
desta terra. 0 que ele realmente
esta procurando nao euma reali-
dade tangivel, mas a verdade es-
piritual, a verdade que eunica,
eterna e imperecivel. Seu enten-
dimento s6 pode encontrar des-
canso na absoluta verdade Divi-
na.
Como dissemos, o homem
compartilha seu desejo sensorial
com os animais. Consequente-
mente, ele sente necessidade de
comida e bebida, luz e ar, traba-
lho e descanso, e ecompletamen-
te dependente da terra para sua
existencia fisica. Porem, acima
desse nivel de desejos ele possui
a vontade, que, dirigida pela sua
razao e pela sua consciencia, pro-
cura por bens maiores e mais ele-
vados. 0 prazer e a utilidade, ape-
sar de terem seu valor e seu lugar
em seu tempo, nao podem
satisfaze-lo totalmente; ele quer e
0 MAJOR BEM oo HoMEM
procura urn bern que nao se torna
born por causa das circunstanci-
as, mas que e born em e atraves
de si e para si mesmo, urn bern
imuhivet espiritual e eterno. E
novamente essa vontade s6 pode
encontrar descanso nas ben<;aos
absolutas e elevadas de Deus.
Tanto a razao quanto a von-
tade possuem, de acordo com o
ensino das Sagradas Escrituras,
sua raiz no cora<;ao do homem.
Com rela<;ao ao cora<;ao o autor de
Proverbios diz que deve ser guar-
dado com toda a diligencia, pois
dele procedem as saidas da vida
(Pv 4.23). Assim como o cora<;ao
no sentido fisico e 0 ponto de ori-
gem e de for<;a propulsora da cir-
cula<;ao do sangue, assim tam-
bern, espiritual e eticamente ele e
a fonte da mais elevada vida do
homem, a sede de sua auto cons-
ciencia, de seu relacionamento
com Deus, de sua subserviencia
aSua lei, enfim, de toda a sua na-
tureza morale espiritual. Portan-
to, toda a sua vida racional e
volitiva tern seu ponto de origem
no cora<;ao e e governada por ele.
Agora n6s veremos, em
Eclesiastes 3.11, que Deus colo-
cou o mundo no cora<;ao do ho-
mem1. Deus fez tudo formoso a
seu tempo, e fez tudo acontecer
no seu exato momento, no mo-
mento que Ele tinha fixado para
que acontecesse. Essa hist6ria no
seu conjunto ou em suas partes se
refere ao conselho de Deus e re-
vela a gloria desse conselho. E
Deus colocou o homem no meio
deste mundo e colocou a eterni-
dade no seu cora<;ao, de forma
que ele nao encontrasse descanso
nas manifesta<;oes visiveis e exter-
nas, mas que procurasse conhecer
os pensamentos eternos de Deus
no curso temporal da natureza e
da hist6ria.
Esse desideriunr aeternitatis,
essa ansia por uma ordem eterna,
que Deus plantou no cora<;ao do
homem, no mais intimo esconde-
rijo do seu ser, no centro de sua
personalidade, e a causa do fato
indiscutivel de que nem mesmo
tudo que pertence aordem tem-
poral pode satisfazer o homem.
Ele e urn ser sensoriat terreno, li-
mitado e mortal, mas ainda e atra-
ido para a eternidade e destina-
do a ela. Nao ha proveito para o
homem que possui uma boa es-
posa, filhos, casas e campos, te-
souros e propriedades, ou mesmo
o mundo todo, se perder a sua
alma (Mt 16.26). Nem mesmo o
mundo todo pode ter o mesmo
valor de urn homem. Ninguem e
tao rico que possa por qualquer
meio redimir a alma de seu ir-
mao, nem dar a Deus uma razao
para que fa<;a isso; a reden<;ao
da alma e preciosa demais para
que seja alcan<;ada por qualquer
7
A edi9ao de Almeida diz que Deus colocou nctemidade 110 cora9ao do lwmem (N doT).
19
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
criatura (Sl49.7-9).
* * * * *
Como geralmente acontece,
muitas pessoas estao plenamen-
te dispostas a admitir isso logo
que os prazeres sensoriais e os
tesouros terrenos sao citados. Elas
prontamente reconhecem que es-
sas coisas nao podem satisfazer o
homem e nao correspondem ao
seu destino elevado. Mas seu jul-
gamento e mudado logo que OS
assim chamados valores ideais -
ciencia, arte, cultura, o exercicio
da fidelidade, a bondade, a bele-
za, a dedicac;ao da vida em favor
do proximo, e o desejo de servir
ahumanidade- sao colocados em
cena. Porem, todas essas coisas
tambem pertencem ao mundo do
qual as Escrituras dizem que e
passageiro (1 Jo 2.17).
A ciencia, o conhecimento, e
o aprendizado certamente sao
boas dadivas, que descem do Pai
das Luzes, e portanto devem ser
levadas em alta estima.
Quando Paulo chama a sa-
bedoria do mundo de loucura di-
ante de Deus (1 Co 3.19), e quan-
do ele em outro lugar nos adver-
te contra a filosofia (Cl 2.8), ele
tern em mente a falsa e inutil su-
posta sabedoria que nao reconhe-
ce a sabedoria de Deus em sua
revelac;ao geral e em sua revela-
c;ao especial (1 Co 1.21) e que se
tornou nula em seus pr6prios ra-
20
ciocinios (Rm 1.21). Mas no restan-
te, Paulo e as Sagradas Escrituras,
em sua totalidade, colocam o co-
nhecimento e a sabedoria em urn
plano de grande importancia. E
nao poderia ser de outra forma,
pois a Biblia afirma que Deus e
sabio, que Ele tern conhecimento
perfeito de Si mesmo e de todas
as coisas, que pela Sua sabedoria
Ele estabeleceu o mundo, que Ele
manifesta a Sua multiforme sabe-
doria a Igreja, que em Cristo es-
tao escondidos todos os tesouros
da sabedoria e do conhecimento,
e que o Espirito e o Espirito da
sabedoria e do conhecimento, que
perscruta ate mesmo as
profundezas de Deus (Pv 3.19; Rm
11.33; 1 Co 2.10; Ef3.10; Cl2.3). Urn
livro do qual procedem mensa-
gens como essas nao pode subes-
timar o conhecimento nem pode
desprezar a filosofia. Pelo contra-
rio, nele aprendemos que a sabe-
doria e mais preciosa do que pe-
rolas, e tudo o que podemos de-
sejar nao pode ser comparado a
ela (Pv 3.15); ela e urn dom daque-
le que e o Deus do conhecimento
(Pv 2.6; 1 Sm 2.3).
0 que a Escritura exige e urn
conhecimento cuja origem seja o
temor do Senhor (Pv 1.7). Quan-
do essa conexao com o temor de
Deus erompida, o nome de co-
nhecimento e mantido, embora
sob falsas pretensoes, mas ele vai
se degenerando gradualmente
ate se transformar em uma sabe-
0 MAJOR BEM DO HOMEM
doria mundana, que e loucura
diante de Deus. Qualquer ciencia,
filosofia ou conhecimento que
pense poder se manter sobre suas
proprias pressuposic;:oes e que
pode tirar Deus de considerac;:ao,
transforma-se em seu proprio
oposto, e qualquer pessoa que
construa suas expectativas sobre
isso ficara desiludida.
Isso e facil de ser entendido.
Em primeiro lugar, a ciencia e a
filosofia sempre possuem urn ca-
rater especial e podem tornar-se
acessiveis a poucas pessoas. Es-
sas pessoas privilegiadas, que
podem dedicar toda a sua vida a
disciplina do aprendizado, po-
dem conhecer apenas uma peque-
na parte do todo, permanecendo,
assim, estranhos ao restante.
Qualquer que seja a satisfac;:ao
que o conhecimento possa dar,
todavia, ele nunca podera, devi-
do ao seu carater especial e limi-
tado, satisfazer as necessidades
profundas que foram plantadas
na natureza humana na criac;:ao, e
que estao presentes em todas as
pessoas.
Em segundo lugar, a filoso-
fia, que depois de urn periodo de
decadencia entra em periodo de
fortalecimento, sempre cria uma
expectativa extraordinaria e exa-
gerada. Nessas epocas ela vive a
esperanc;:a de que atraves de uma
seria investigac;:ao ela resolvera o
enigma do mundo. Mas sempre
depois dessa fervente expectativa
21
chega a velha desilusao. Em vez
de diminuir, os problemas au-
mentam com os estudos. 0 que
parece estar resolvido vern a ser
urn novo misterio, eo fim de todo
o conhecimento e entao novamen-
te a triste e as vezes desespera-
dora confissao de que o homem
caminha sobre a terra em meio a
enigmas, e que a vida e o destino
sao urn misterio.
Em terceiro lugar, e born
lembrar que tanto a filosofia
quanto a ciencia, mesmo que pu-
dessem chegar muito mais longe
do que chegam agora, ainda as-
sim nao poderiam satisfazer o co-
rac;ao do homem, pois o conheci-
mento sem a virtude, sem a base
moral, torna-se urn instrumento
nas maos do pecado para conce-
ber e executar grandes males, e
assim a cabec;:a que esta cheia de
conhecimento passa a trabalhar
para urn corac;:ao depravado. Nes-
se sentido o apostolo escreve:
Ainda que eu tenha o dom de pro-
fetizar e conhec;:a todos os miste-
rios e toda a ciencia; e ainda que
eu tenha tamanha fe a ponto de
transportar montes, se nao tiver
amor, nada serei (1 Co 13.2).
0 mesmo e verdade com re-
lac;:ao a arte. A arte tambern e urn
dom de Deus. Como o Senhor nao
e apenas verdade e santidade, mas
tambern gloria e expande a bele-
za de Seu nome sobre todas as
Suas obras, entao e Ele, tambem,
que, pelo Seu Espirito, equipa os
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
artistas com sabedoria e entendi-
mento e conhecimento em todo
tipo de trabalhos manuais (Ex
31.3; 35.31). A arte e, portanto, em
primeiro lugar, uma evidencia da
habilidade humana para criar.
Essa habilidade e de carater espi-
ritual, e da expressao aos seus
profundos anseios, aos seus altos
ideais, ao seu insaciavel anseio
pela harmonia. Alem disso, a arte
em todas as suas obras e formas
projeta urn mundo ideal diante
de nos, no qual as discordias de
nossa existencia na terra sao subs-
tituidas por uma gratificante har-
monia. Desta forma a beleza reve-
la o que neste mundo caido tern
sido obscurecido asabedoria mas
esta descoberto aos olhos do ar-
tista. E por pintar diante de nos
urn quadro de uma outra e mais
elevada realidade, a arte e urn
conforto para nossa vida, levanta
nossa alma da consterna<;:ao e en-
che nosso cora<;:ao de esperan<;:a e
alegria.
Mas apesar de tudo o que a
arte pode realizar, e apenas na
imagina<;:ao que nos podemos
desfrutar da beleza que ela reve-
la. A arte nao pode fechar o abis-
mo que existe entre o ideal e o
real. Ela nao pode transformar o
alem de sua visao no aqui de nos-
so mundo presente. Ela nos mos-
tra a gloria de Canaa adistancia,
mas nao nos introduz nesse pais
nem nos faz cidadaos dele. A arte
e muito, mas nao e tudo. Ela nao
22
e, como urn homem distinto uma
vez a chamou, a coisa mais nobre
e mais santa, a (mica religiao e a
unica salva<;:ao do homem. A arte
nao pode perdoar pecados. Ela
nao pode nos limpar de nossa
sujeira. E ela nao e capaz de en-
xugar nossas lagrimas nos fracas-
sos da vida.
Quanta a cultura, civiliza-
<;ao, humanitarismo, vida social,
ou seja la como voce quiser cha-
mar/ tambem nao e 0 mais eleva-
do bern do homem. Sem duvida
nos podemos falar de urn tipo de
progresso nas ideias humanitari-
as, e de urn desenvolvimento da
filantropia. Quando nos compara-
mos como o pobre e o doente, o
miseravel eo indigente, as viuvas
e os orfaos, os loucos e os prisio-
neiros eram freqiientemente trata-
dos em tempos anteriores e como
eles sao tratados agora, nos certa-
mente temos motivo de alegria e
de gratidao. Urn espirito de afeto
e de misericordia tern vindo sa-
bre aqueles que procuram os per-
didos e demonstram compaixao
pelos oprimidos. Mas, ao mesmo
tempo em que isso acontece nos
presenciamos uma tao medonha
suntuosidade de horriveis vicios,
de mamonismo, de prostitui<;ao,
alcoolismo e abomina<;6es seme-
lhantes, que somas constrangidos
a perguntar se estamos nos mo-
vendo para frente ou para tras.
Em urn momenta n6s somas oti-
mistas, mas no momenta seguin-
0 MAIOR BEM oo HoMEM
te somos mergulhados novamen-
te em urn pessimismo profunda.
Seja como for, uma coisa e
certa: Se a vida de servi<;o ahu-
manidade e de amor ao proximo
nao for baseada na lei de Deus, ela
perde sua for<;a e seu carater.
Alem disso, o amor ao proximo
nao e uma especie de auto peni-
tencia que surge espontilnea e na-
turalmente do cora<;ao humano. E
urn sentimento, ou melhor, e uma
a<;ao, e urn servi<;o que requer
uma tremenda for<;a de vontade e
que deve ser sempre sustentado
contra as imensas fon;as da preo-
cupa<;ao por si mesmo e da busca
dos proprios interesses. Alem dis-
so, o amor ao proximo frequen-
temente encontra pouco suporte
no proximo. As pessoas geral-
mente nao sao tao amaveis a pon-
to de nos podermos, naturalmen-
te, sem esfor<;o e luta, aprecia-las
e ama-las como amamos a nos
mesmos. Alem disso, o amor ao
proximo so pode ser sustentado
se, por urn lado, ele e baseado na
lei de Deus e, por outro lado, se
Deus nos concede o desejo de vi-
ver honradamente de acordo com
seus mandamentos.
* * * * *
A conclusao, portanto, e
aquela de Agostinho, que disse
que o cora<;ao do homem foi cria-
do por Deus e que por isso ele nao
pode encontrar descanso a nao ser
23
no corac;ao de Deus. Sendo assim,
todos os homens estao procuran-
do por Deus, mas eles nao o pro-
curam da forma certa nem no lu-
gar certo. Eles procuram aqui
embaixo, mas Ele esta la em cima.
Eles o procuram na terra, mas Ele
esta no ceu. Eles o procuram lon-
ge, mas Ele esta perto. Eles o pro-
curam no dinheiro, na proprieda-
de, na fama, no poder e na paixao;
e Ele esta no alto e santo lugar, e
tambem como contrito eo abati-
do de espirito (Is 57.15). Mas eles
o procuram como se, tateando,
pudessem encontra-lo (At 17.27).
Eles o procuram e ao mesmo tern-
po fogem dele. Eles nao se inte-
ressam em conhecer os seus cami-
nhos, e nao podem faze-lo sem
Ele. Eles se sentem atraidos a
Deus e ao mesmo tempo repeli-
dos por Ele.
Nisso, como Pascal profun-
damente observou, consiste a
grandeza e a miseria humana. Ele
anseia pela verdade e e falso por
natureza. Ele anseia por descan-
so e se lanc;a de uma diversao
para outra. Ele suspira por uma
felicidade permanente e eterna e
se agarra a prazeres momentane-
os. Ele procura por Deus e se per-
dena criatura. Ele e urn filho nas-
cido em casa e come as bolotas
dos porcos em terra estranha. Ele
abandonou a fonte de aguas vivas
e cavou cisternas rotas, que nao
retem as aguas (Jr 2.13). Ele e urn
faminto que sonha que esta co-
Fundamenfos Teol6gicos da Fe Crista
mendo e quando acorda descobre
que sua alma esta vazia; e e como
urn homem sedento que sonha
que esta bebendo, e quando acor-
da descobre que esta fraco e que
sua alma esta desfalecida (Is 29.8).
A ciencia nao pode explicar
essa contradi<;ao no homem. Ela
reconhece apenas sua grandeza e
nao sua miseria, ou apenas sua
miseria e nao sua grandeza. Ela o
eleva a grandes alturas ou o aper-
- - - - - - -
24
ta em urn abismo, pois ela nao co-
nhece a origem divina do homem
nem sua queda. Mas as Escritu-
ras conhecem tanto urn quanto o
outro, e lan<;am sua luz sobre o
homem e sobre a ra<;a humana; e
as contradi<;6es sao desfeitas, a
nevoa se esvai e as coisas ocultas
sao reveladas. 0 homem e urn
enigma cuja solu<;ao s6 pode ser
encontrada em Deus.
CAPITULO
~
0 CONHECIMENTO DE DEUS
D
eus e 0 mais elevado bern
do homem - esse e 0 tes-
temunho de toda a Escri-
tura.
A Biblia come<;:a dizendo que
Deus criou o homem asua propria
imagem e semelhan<;:a para fazer
com que ele soubesse que Deus e
o seu Criador eo amasse de todo
o seu cora<;:ao e vivesse com Ele em
eterna bem-aventuran<;a. E a Bi-
blia termina com a descri<;:ao da
nova Jerusalem, cujos habitantes
verao Deus face a face e terao Seu
nome escrito em sua testa.
Entre esses dois momentos
repousa a revela<;ao de Deus em
todo o seu comprimento e ampli-
tude. 0 conteudo dessa revela<;:ao
e a grande e {mica promessa
abrangente do pacto da Gra<;:a: Eu
serei o vosso Deus e v6s sereis
meu povo. E no centro e no ponto
mais elevado dessa revela<;:ao esta
o Emanuet o Deus Conosco. A
i
25
promessa e o seu cumprimento
caminham de maos dadas. A Pa-
lavra de Deus eo come<;:o, o prin-
cipio, a semente, e eo ato no qual
a semente alcan<;:a sua plena reali-
za<;:ao. Assim como no come<;:o,
Deus criou todas as coisas pela
Sua palavra, assim tambem pela
Sua palavra Ele criara, no curso
das eras, novos ceus e nova terra,
na qual o tabernaculo de Deus es-
tara entre os homens.
Epor isso que de Cristo, que
e a Palavra que se fez carne, diz-
se que echeio de Gra<;:a e de ver-
dade (Jo 1.14).
Ele ea Palavra que no come-
<;:o estava com Deus e Ele mesmo
era Deus, e como tal Ele era a vida
e a luz dos homens, pois o Pai
compartilha Sua vida com Cristo
e da expressao ao Seu pensamen-
to em Cristo, portanto a plenitu-
de do ser de Deus erevelada nEle.
Ele nao apenas nos apresenta o Pai
Fzmdamentos Teol6gicos da Fe Crista
e nos revela Seu nome, mas Ele
nos mostra o Pai em Si mesmo e
nos da o Pai. Cristo e a expressao
de Deus e a dadiva de Deus. Ele e
Deus revelando a Si mesmo e
Deus compartilhando a Si mesmo,
e portanto Ele e cheio de verdade
e tambem cheio de Gra<;:a. A pala-
vra da promessa, "Eu serei o vos-
so Deus", que estava incluida des-
de o momenta em que foi proferi-
da, estara em vigor ate o seu cum-
primento. Deus se da a Si mesmo
ao Seu povo para fazer com que o
Seu povo se entregue a Ele.
Nas Escrituras n6s encontra-
mos Deus constantemente repe-
tindo esta declara<;:ao: Eu sou o teu
Deus. Desde a promessa-mae em
Genesis 3.15 em diante, esse rico
testemunho, abrangendo todas as
ben<;:aos e a salva<;:ao, e repetido
varias vezes, seja na vida dos pa-
triarcas, seja na hist6ria do povo
de Israel, ou na Igreja do Novo
Testamento. E em resposta a essa
declara<;:ao a igreja vern usando
uma variedade sem fim de expres-
soes de fe, dizendo em gratidao e
louvor: //Tu es o nosso Deus, en6s
somos o Teu povo e ovelhas do
Teu pastoreio//.
Essa declara<;:ao de fe por
parte da igreja nao e uma doutri-
na cientifica/ nem uma cerimonia
de unidade que esta sendo repeti-
da, mas a confissao de uma reali-
dade sentida profundamente e de
uma convic<;:ao da realidade que
tern sido experimentada na vida.
26
Os profetas, os ap6stolos e os san-
tos que aparecem diante de nos no
Velho e no Novo Testamento e
posteriormente, na Igreja de Cris-
to, nao se sentaram e filosofaram
sobre Cristo em conceitos abstra-
tos, mas disseram o que Deus sig-
nifica para eles e que eles depen-
dem de Deus em todas as circuns-
tancias da vida. Deus nao era para
eles urn conceito frio, que eles pu-
dessem analisar racionalmente,
mas era a vida, for<;:a pessoal, uma
realidade infinitamente mais real
do que o mundo que os cercava.
Eles levavam em conta em suas
vidas, eles moravam em Sua ten-
cia, andavam como se estivessem
sempre diante de Sua face, servi-
am-no em Sua corte, e cultuavam-
no em Seu santuario.
A genuinidade e profundi-
dade de sua experiencia se expres-
sam na linguagem que eles usa-
ram para explicar o que Deus sig-
nificava para eles. Eles nao tinham
que se esfor<;:ar para encontrar
palavras/ pois os seus labios fala-
vam daquilo de que seu cora<;:ao
estava cheio, eo mundo e a natu-
reza forneceram-lhes figuras de
linguagem. Deus era para eles o
Rei, o Senhor, o Valente, o Cabe-
<;:a, o Pastor, o Salvador, o Reden-
tor, o Ajudador, o Medico, o Ho-
mem eo Pai. Toda a sua felicida-
de e bern estar, sua verdade e jus-
ti<;:a, sua vida e piedade, sua for<;:a
e poder, sua paz e seu descanso
eles encontraram em Deus. Para
0 CoNHECIMENTo DE DEus
eles Deus era o sole escudo, o pro-
tetor, a luz e o fogo, a cascata e a
nascente, a rocha eo abrigo, ore-
ft:igio e a torre, o premio e a som-
bra, a cidade eo templo. Todos os
be11S que o mundo tern para ofe-
recer eram considerados por eles
como a imagem e semelhanc;:a das
plenitudes insondaveis da salva-
c;:ao, disponiveis em Deus, para o
Seu povo. Foi por isso que Davi
no Salmo 16.2 disse a Jeova o se-
guinte: "Tu es o meu Senhor; ou-
tro bern nao possuo, senao a ti so-
mente1'. Da mesma forma Asafe
tambem cantou no Salmo 73:
"Quem mais tenho eu no ceu? Nao
ha outro em quem eu me
compraza na terra. Ainda que a
minha carne e o meu corac;:ao des-
falec;:am, Deus e a fortaleza do meu
corac;:ao e a minha heranc;:a para
sempre". 0 santo, coberto com
todas essas benc;:aos, seria nulo e
sem valor se nao tivesse Deus; e
quando vive em comunhao com
Deus ele nao se preocupa com o
que e terreno, pois o amor de Deus
supera todos os outros bens.
Tale a experiencia dos filhos
de Deus. Eles tiveram essa expe-
riencia porque Deus se apresentou
a eles, para alegria deles, na pes-
soa do Filho de Seu amor. Nesse
sentido Cristo disse que a vida
eterna, isto e, a totalidade da sal-
'ac;:ao, consiste no conhecimento
do unico e verdadeiro Deus e em
Jesus Cristo, que foi enviado por
Deus.
27
Cristo disse essas palavras
em urn momento propicio. Ele es-
tava atravessando o ribeiro
Cedrom para entrar no jardim do
Getsemani e travar ali a ultima
batalha. Todavia, antes de chegar
ao Getsemani, Ele se prepara
como nosso Sumo Sacerdote para
Sua paixao e morte e ora ao Pai
para que o Pai o glorifique em Seu
sofrimento para que depois o Fi-
lho glorifique o Pai ao entregar
todas as benc;:aos que Ele alcanc;:a-
ria pela Sua obediencia ate a mor-
te. E quando o Filho ora desta for-
ma, Ele nada deseja alem de fazer
a vontade do Pai. 0 Pai lhe deu
poder sobre toda a carne para que
o Filho pudesse dar a vida eterna
a todos aqueles que o Pai lhe dera.
Essa vida eterna consiste em co-
nhecer o unico e verdadeiro Deus
e Jesus Cristo, que foi enviado
para revela-lo (Jo 17.3).
* * * * *
0 conhecimento do qual Je-
sus fala aqui tern seu proprio ca-
niter peculiar. Ele e diferente de
qualquer outro conhecimento que
possa ser obtido, e essa diferenc;:a
nao e de grau, mas de principio e
de essencia. Essa diferenc;:a surge,
de forma clara, quando n6s come-
c;:amos a comparar os dois tipos de
conhecimento. 0 conhecimento
de Deus do qual Jesus falou, dife-
re do conhecimento das coisas cri-
adas com relac;:ao a sua ongem,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
seu objeto, sua essencia e seus efei-
tos.
Ele difere, antes de mais
nada, em sua origem, pois ele e
completamente devido a Cristo.
De certa forma podemos dizer que
obtemos todo o outro conheci-
mento pela razao, pelo discerni-
mento e julgamento e pelo nosso
proprio esfor<;o e estudo. Mas
para obter esse conhecimento do
unico e verdadeiro Deus, nos,
como crian<;as, devemos esperar
que Cristo no-lo de. Esse conheci-
mento nao eencontrado fora de
Cristo, nem em escolas ou em fi-
losofos destacados. So Cristo co-
nhece o Pai. Ele estava com Deus
no inicio, descansou em Seu peito
e viu-o face a face. Ele mesmo era
Deus, o brilho da gloria de Deus e
a imagem expressa de Sua pessoa,
o proprio Filho amado e unigenito
do Pai, em quem o Pai tinha pra-
zer (Mt 3.17; Jo 1.14; Hb 1.3). Nada
no ser do Pai esta escondido para
o Filho, pois o Filho compartilha
da mesma natureza, dos mesmos
atributos e do mesmo conheci-
mento que o Pai. Ninguem conhe-
ce o Pai senao o Filho (Mt 11.27).
Esse Filho veio ate nos ere-
velou-nos o Pai. Ele revelou o
nome de Seu Pai aos homens. Foi
para isso que Ele se fez carne e
habitou na terra: para nos dar o
conhecimento do que e verdadei-
ro (1Jo 5.20). N6s nao conheciamos
Deus, nem tinhamos interesse em
conhecer os Seus caminhos, mas
28
Cristo motivou-nos a conhecer o
Pai. Ele nao era urn filosofo, nem
urn erudito, nem urn artista. Sua
obra era revelar-nos o nome do
Pai. Ele o fez, completamente,
durante toda a Sua vida. Ele reve-
lou Deus em Suas palavras, em
Suas obras, em Sua vida, em Sua
morte, em Sua pessoa e em tudo o
que Ele foi e fez. Ele nunca fez ou
disse qualquer coisa exceto aqui-
lo que viu Seu Pai fazendo. A Sua
comida era fazer a vontade de Seu
Pai. Quem quer que o tenha visto,
viu tambem o Pai (Jo 4.34; 8.26-28;
12.50; 14.9).
A Sua revela<;ao e confiavel
porque Ele e Jesus Cristo, o que
foi envindo. Ele recebeu do proprio
Deus o nome de Jesus porque Ele
foi enviado para salvar o Seu povo
dos seus pecados (Mt 1.21). E Ele
echamado Cristo porque Ele eo
Ungido do Pai, escolhido e quali-
ficado para o exercicio de todos os
Seus oficios pelo proprio Deus (Is
42.1; Mt 3.16). Ele e0 Unico Envi-
ado porque, ao contrario de mui-
tos falsos profetas, Ele nao veio em
Seu proprio nome, nem exaltou a
Si mesmo, nem procurou Sua pro-
pria honra. Mas Deus amou tanto
o mundo que deu Seu Filho
unigenito para que todo aquele
que nEle ere nao pere<;a, mas te-
nha a vida eterna, pois Ele e o en-
viado de Deus (Jo 3.16).
Aqueles, pois, que o aceitam
e creem nEle recebem o direito e
sao qualificados para usar o nome
0 CoNHECIMENTO DE DEus
de filhos de Deus (Jo 1.12). Eles
nasceram de Deus, partilham de
Sua natureza, eles conhecem Deus
sob as vistas de Cristo, Seu Filho.
Ninguem conhece o Filho senao o
Pai, e ninguem conhece o Pai se-
nao o Filho, e aquele a quem o Fi-
lho o quiser revelar (Mt 11.27).
Em segundo lugar, o conhe-
cimento de Deus difere do outro
conhecimento com rela<;ao ao seu
objeto. Quanto ao outro conheci-
mento, ele pode, especialmente
ern nosso tempo, ser rnuito arnplo
ern seu alcance, mas ele ainda gira
ern torno da criatura, elirnitado,
temporal e nunca pode alcan<;ar o
que eeterno. De fato, ha a revela-
<;ao do poder eterno de Deus e as
obras de Deus na natureza. Mas o
conhecimento derivado dessa fon-
te efraco, obscuro, contarninado
pelo erro, e nao tao irnportante. 0
hornern, conhecendo Deus atraves
da natureza, nao o glorificou
como Deus, e se tornou nulo ern
seu proprio raciocinio e mudou a
gloria do Deus incorruptivel em
semelhanc;:a da imagem da criatu-
ra. 0 rnundo e tanto urn oculta-
mento quanto uma revelac;:ao de
Deus (Rm 1.20-23).
Mas aquina orat;:ao sacerdo-
tal [Jo 17], o Unico que fica em evi-
dencia e Aquele que nos transmi-
te outro conhecimento e que nos
desafia a falar sobre o conhecinzen-
to de Deus! Quem pode compre-
ender Deus como objeto do conhe-
cimento humano? Como o ho-
29
mern pode conhecer Deus, o Infi-
nito e Incompreensivel, que nao
pode ser medido pelo tempo, nem
pela eternidade, em cuja presen-
<;a os anjos cobrem a face com as
asas, que vive ern luz inacessivel,
e a quem o homem nunca viu nem
pode ver? Como pode alguern as-
sim ser conhecido pelo homem,
cujo f6lego esta em suas narinas e
que e menos que nada e rnenos
que o vacuo? Como poderia ele
conhecer Deus, se seu melhor co-
nhecimento eurn trapo remenda-
do? Todo o seu conhecimento e
sabre, e nao de. 0 que ele sabe so-
bre a origem, a essencia e o pro-
posito das coisas? Ele nao esta ro-
deado de misterios por todos os
lados? Ele nao esta sempre beiran-
do a fronteira do desconhecido?
E n6s poderfamos supor que urn
homem pobre, fraco, pecaminoso
e carente poderia conhecer Deus,
o Sublime, o Santo, o Unico e
Todo-Poderoso Deus?
Ele esta fora de nossa com-
preensao, mas Cristo viu o Pai e
0 revelou a nos. Nos podemos
crer que Seu testemunho e verda-
deiro e digno de total aceita<;ao. E
se voce quer saber quem e Deus,
nao pergunte ao sabio, nem ao
escriba, nem aos debatedores de
nossos dias, mas procure por Cris-
to e ou<;:a o que Ele diz. Nao diga
em seu cora<;ao: "Quem subiu ao
ceu, ou quem desceu ao abismo?".
A palavra que Cristo proclama
esta perto de voce. Ele mesnw e"
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Palavra, a perfeita revela<;ao do
Pai - igualmente justo, santo,
cheio de Gra<;a e de verdade. Em
Sua cruz todo o conteudo da fe do
Velho Testamento foi revelado:
"0 Senhor e misericordioso e
compassivo; longanimo e assaz
benigno. Nao repreende perpetu-
amente, nem conserva para sem-
pre a sua ira. Nao nos trata segun-
do os nossos pecados, nem nos re-
tribui consoante as nossas iniqui-
dades. Pois quanto o ceu se alteia
acima da terra, assim e grande a
sua misericordia para com os que
o temem. Quanto dista o Oriente
do Ocidente, assim afasta de nos
as nossas transgressi5es. Como urn
pai se compadece de seus filhos,
assim o Senhor se compadece dos
que o temem." (Sl103.8-13). Even-
do a gloria de Deus no espelho de
Sua palavra, nos gritamos em ex-
tase: Nos o conhecemos porque
Ele nos conheceu primeiro. "Nos
amamos porque Ele nos amou pri-
meiro" (1 Jo 4.19).
A origem e o conteudo de-
terminam tambem a peculiar es-
sencia do conhecimento de Deus.
Nos versiculos da ora<;ao sa-
cerdotal acima referida, Jesus fala
de urn conhecimento que nao e
mera informa<;ao, mas urn real co-
nhecimento. Ha uma grande dife-
ren<;a entre urn e outro. Obter in-
forma<;ao em livros a respeito de
plantas, animais, pessoas, paises
e povos nao significa ter conheci-
mento pessoal direto sobre esses
30
assuntos. Essa informa<;ao e sim-
plesmente baseada na descri<;ao
que outra pessoa fez sobre algum
assunto. Nesse sentido, a informa-
<;ao e apenas uma transmissao de
noticias. 0 conhecimento real in-
clui urn elemento de contato, urn
envolvimento pessoal e uma ati-
vidade do cora<;ao.
Everdade que uma descri-
<;ao pode ser encontrada na Pala-
vra do conhecimento de Deus que
Cristo da, e deste modo e possi-
vel ter uma informa<;ao sobre
Deus que difira essencialmente do
real conhecimento de Deus que
Cristo transmite. Urn tipo de co-
nhecimento da vontade do Senhor
desacompanhado de uma prepa-
ra<;ao do cora<;ao faz com que isso
seja possivel (Lc 12.47,48). 0 ho-
mem pode damar "Senhor! Se-
nhor!" e nao ter acesso ao Reino
dos ceus (Mt 7.21). Ha a fe, como
ados demonios, que nao condu-
zem ao amor, mas ao ternor e ao
tremor (Tg 2.19). Ha ouvintes da
palavra que nao querem ser pra-
ticantes dela e que portanto serao
frustrados (Tg 1.22)
Quando Jesus fala nesse tex-
to sobre o conhecimento de Deus,
Ele tern em mente urn conheci-
mento do mesmo tipo do conhe-
cimento que Ele mesmo possui.
Ele nao era urn teologo, nem urn
doutor ou professor de divinda-
de. Ele conhecia Deus atraves de
urn contato direto e pessoal; Ele
via Deus em todos os lugares, na
0 CONHECIMENTO DE DEUS
natureza, em Sua palavra, em Seu
servic;:o; Ele o amou acima de to-
das as coisas e foi obediente a Ele
em todas as coisas, ate mesmo na
morte de cruz. Seu conhecimento
da verdade era completo. 0 co-
nhecimento e o amor caminham
juntos.
Alem disso, conhecer Deus
nao consiste em ter uma grande
quantidade de conhecimento so-
bre Ele, mas em enxerga-lo napes-
soa de Cristo, em leva-lo em con-
ta nos caminhos de nossa vida, e
em sentir na alma Suas virtudes,
Sua justic;:a, Sua compaixao e Sua
Grac;:a.
Epor isso que esse conheci-
mento, em distinc;:ao ao outro co-
nhecimento/ recebe o nome de co-
nhecimento da fe. Ele nao e resul-
tado de estudo cientifico nem de
reflexao/ mas de uma fe infantile
simples. Essa fe e1 nao apenas urn
conhecimento seguro, mas uma
firme certeza de que, nao somen-
te para os outros, mas tambem
para mim, a remissao dos peca-
dos, a justic;:a e a salvac;:ao eterna
foram dadas por Deus/ somente
pela Sua Grac;:a, somente em con-
siderac;:ao aos meritos de Cristo.
Somente aqueles que se tornarem
como criancinhas poderao entrar
no reino dos ceus (Mt 18.3). 56 os
puros de corac;:ao podem vera face
de Deus (Mt 5.8). 56 aqueles que
nasceram da agua e do Espirito
podem entrar no reino (Jo 3.5).
Aqueles que conhecem o nome de
Deus confiam nEle (519.10). Deus
e conhecido na mesma proporc;:ao
em que Ele e amado.
Se n6s entendemos o conhe-
cimento de Deus dessa forma/ nao
devemos nos surpreender com o
fato de que sua operac;:ao e seu efei-
to seja nada menos que a vida eter-
na. De fato, parece existir pouca
relac;:ao entre o conhecimento e a
vida. Nao foi o autor de Eclesiastes
que disse que na muita sabedoria
ha muito enfado; e quem aumen-
ta ciencia aumenta tristeza; e ain-
da que nao ha limite para fazer li-
vros e o muito estudar e enfado
da carne (Ec 1.18; 12.12)?
Conhecimento e poder- isso
n6s podemos entender/ pelo me-
nos ate urn certo limite. Todo co-
nhecimento e urn triunfo do espi-
rito sobre urn certo assunto, uma
sujeic;:ao da terra ao senhorio do
homem. Mesmo na ordem natu-
rat a profundidade e a riqueza da
vida sao aumentadas pelo conhe-
cimento. Quanto maior foro co-
nhecimento, maior sera a intensi-
dade da vida. As criaturas inani-
madas nao possuem conhecimen-
to/ e elas nao vivem. Quando os
sentidos dos animais se desenvol-
vem, sua vida tambem se desen-
volve em satisfac;:ao e oportunida-
de. Entre os homens, a vida mais
rica e aquela que mais conhece.
Alem disso, como a vida do
insano, do imbecit do idiota, do
subdesenvolvido? Epobre e limi-
tada quando comparada com a de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
urn pensador e poeta. Mas qual-
quer diferen<;a que possa ser no-
tada aqui e apenas urna diferen<;a
de grau. A propria vida nao e
rnudada por isso. E a vida, seja a
do rnais distinto erudito ou a do
rnais simples operario, deve ne-
cessariarnente terrninar na rnorte,
pois ela se enche apenas corn as
fontes lirnitadas deste rnundo.
Mas esse conhecimento de
que Cristo fala nao se refere a urna
criatura, mas ao verdadeiro Deus.
Se o conhecimento das coi-
sas visiveis podern enriquecer a
vida, o que o conhecimento de
Deus fara corn ela? Deus nao e urn
Deus de rnortos e nern da rnorte,
mas de vivos e da vida. Todos
aqueles que forarn recriados aSua
irnagern e descansarn ern Sua corn-
panhia sao elevados acirna do ni-
vel da rnorte e da rnortalidade.
II Aquele que ere ern rnirn", disse
Jesus, II ainda que rnorra, vivera;
e todo o que vive e ere em rnirn
nao rnorrera eternarnente" (J0
11.25,26). 0 conhecimento de
Deus ern Cristo traz consigo a vida
eterna, alegria imperturbavel,
benc;aos celestiais. Esses nao sao
apenas efeitos, pois o conhecimen-
to de Deus e, ern si rnesrno, urna
vida nova, eterna e aben<;oada.
De acordo corn esse ensino
das Sagradas Escrituras, a Igreja
Crista deterrninou o carater desse
32
corpo de conhecirnentos ou den-
cia que desde tempos antigos tern
sido charnado de Teologia ou Di-
vindade. A Teologia e a ciencia
que extrai o conhecimento de
Deus de Sua revela<;ao, que estu-
da e pensa sobre ela sob a orienta-
c;ao do Espirito Santo, e entao ten-
ta descreve-la de forma a honrar
a Deus. E urn te6logo, urn verda-
deiro te6logo, e aquele que fala de
Deus, atraves de Deus, sobre Deus
e sernpre no intuito de glorificar
Seu nome. Entre o estudado e o
simples ha apenas urna diferenc;a
de grau. Ambos possuern urn s6
Senhor, urna s6 fe, urn s6 batisrno,
urn s6 Deus e Pai de todos, o qual
e sobre todos, age por meio de to-
dos e esta em todos. E a Gra<;a foi
concedida a cada urn de n6s se-
gundo a propor<;ao do dom de
Cristo (Ef 4.5-7).
Nesse espirito, Calvino co-
mec;ou o catecismo de Genebra
com a questao: Quale 0 firn prin-
cipal do hornem? E a resposta
vern, clara e retumbante: Conhe-
cer Deus, por quem ele foi criado.
Da mesrna forma o Catecisrno de
Westminster corne<;a suas li<;oes
com a seguinte pergunta: Qual e
o fim supremo e principal do ho-
rnem? A resposta e breve e rica: 0
fim supremo e principal do ho-
rnern e glorificar a Deus e goza-lo
plena e eternarnente.
CAPITULO
~
A REVELA<;AO GERAL
§
e e verdade que 0 homem
pode ter conhecimento de
Deus, entao esse fato pres-
supoe que Deus, de Sua parte,
voluntariamente resolveu, de al-
guma forma, fazer-se conhecido
aohomem.
N6s nao podemos creditar o
conhecimento de Deus a n6s mes-
mos, anossa descoberta, investi-
ga<;:ao ou reflexao. Se esse conhe-
cimento nao nos fosse dado por
urn ato livre e espontaneo de
Deus, nao haveria qualquer pos-
sibilidade de que n6s o alcan<;:as-
semos pelos nossos pr6prios es-
for<;:os.
Quando nos referimos ao co-
nhecimento das coisas criadas, a
situa<;:ao e bern diferente. N6s so-
mos totalmente dependentes de
Deus ate mesmo para adquirir co-
nhecimento sobre as coisas cria-
3as, contudo, no momento da cri-
a<;:ao Ele encarregou o homem de
subjugar e dominar toda a terra,
equipou-o para realizar essa tare-
fa e deu-lhe interesse para isso. 0
homem esta acima da natureza.
Ele pode medir os fenomenos na-
turais, pode estuda-los e, ate cer-
to ponto, pode artisticamente cri-
ar objetos. Ele pode, de certa for-
ma, fazer com que a natureza se
revele a ele e descobrir seus segre-
dos.
Contudo, esta habilidade
tambem e limitada em todas as
formas nas quais esta disponivel.
Na medida em que a ciencia pe-
netra mais e mais fundo no feno-
meno e se aproxima da essencia
dele, ela ve que OS misterios au-
mentam e sente-se encurralada
por todos os lados pelo desconhe-
cido. Nao sao poucos os que es-
tao convencidos das limita<;:oes do
conhecimento humano a ponto de
dizer: "N6s nada sabemos", e, em
algumas ocasioes: "N6s nunca
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
chegaremos a saber".
Se tallimita<;ao do conheci-
mento humano logo se torna cla-
ra no estudo da natureza inanima-
da, ela se torna ainda mais nota-
vel no estudo das criaturas vivas,
animadas e racionais.
Isso acontece porque nessa
area n6s entramos em contato com
realidades que nao podem ser
manuseadas arbitrariamente. Elas
ficam diante de n6s em sua objeti-
vidade e podem ser conhecidas
por n6s na medida em que
correspondem aquilo que encon-
tramos em n6s mesmos. A vida, a
consciencia, o sentimento e a per-
cep<;ao, o entendimento e a razao,
o desejo e a vontade, nao podem
ser desmontadas e remontadas.
Nao sao de natureza med1nica,
mas organica; temos que
considera-los em si mesmos e
respeita-los em sua natureza mis-
teriosa. Desmembrar a vida e o
mesmo que mata-la.
Isso vale para a maior parte
da natureza humana, pois apesar
de ser verdade que o homem eurn
ser fisico e que essa dimensao nao
pode escapar de nossa percep<;ao,
e apenas sua manifesta<;ao exter-
na que n6s podemos perceber. Por
tras dessa manifesta<;ao esta uma
vida misteriosa que tern em sua
forma externa uma expressao im-
perfeita e inadequada. Ate urn cer-
to ponto o homem tern a habili-
dade de ocultar a outras pessoas
o mais intimo de sua natureza. Ele
34
pode controlar sua expressao
facial de modo que seus museu-
los faciais nao revelem o que esta
acontecendo dentro dele; ele pode
usar uma linguagem que esconda
seus pensamentos; ele pode, com
suas a<;6es, assumir uma atitude
que esteja em conflito como que
ele pensa. E ate mesmo quando
n6s estamos tratando com uma
pessoa que despreze essas sutile-
zas do engano, nosso conhecimen-
to sobre ele dependera grande-
mente daquilo que, de sua parte,
quiser revelar sobre si mesmo.
Alias, as vezes isso acontece de
forma involuntaria; 0 homem nao
tern controle absoluto sobre si
mesmo, e ele freqi.ientemente se
trai sem que tenha a inten<;ao de
faze-lo. Ao mesmo tempo ele
pode, atraves de sua vida, de suas
palavras e de seus feitos, com ou
sem o seu consentimento, revelar
o misterio de sua personalidade,
e n6s poderemos conhece-lo urn
pouco como ele e. 0 conhecimen-
to de uma pessoa s6 e possivel
quando ela, involuntariamente ou
consciente e deliberadamente ore-
vela a n6s.
Tais considera<;6es nos con-
duzem a urn correto entendimen-
to das condi<;6es sob as quais urn
ser humano pode dizer que tern
conhecimento de Deus. Deus e
absolutamente independente, per-
feitamente soberano. Ele nao de-
pende de n6s para coisa alguma,
mas n6s, tanto naturalmente
A REVELA<;:Ao GERAL
quanto racionalmente e moral-
mente, somos completamente de-
pendentes dEle. Portanto, n6s nao
temos controle e nao temos poder
sobre Ele, e por isso nao podemos
faze-lo o objeto de nosso estudo e
reflexao. A nao ser que Ele se per-
mita ser encontrado, n6s jamais o
encontraremos. A nao ser que Ele
se de a n6s, n6s jamais poderemos
recebe-lo. Alem do mais, Deus e
invisivel. Ele mora em luz inaces-
sivel e nenhum homem jamais o
viu e nem pode ver. Se Ele se man-
tiver oculto n6s nao podemos
traze-lo para o alcance de nossa
percep<_;:ao fisica ou espiritual; e, e
claro, sem qualquer tipo de per-
cep<_;:ao1 0 conhecimento nao e pos-
sivel. Finalmente, para encerrar-
mos o assunto, Deus e Todo-Po-
deroso. Ele tern nao apenas Suas
criaturas, mas tambem a Si mes-
mo sob total controle. Apesar dos
seres humanos estarem sempre se
revelando, algumas vezes mais
outras menos, seja de forma deli-
berada ou nao, Deus s6 se revela
na medida em Ele deseja faze-lo,
e s6 porque Ele o quer. Nao existe
algo como uma manifesta<_;:ao
involuntaria de Deus, ocorrendo
fora da esfera de Sua consciencia
e de Sua liberdade. Deus tern to-
tal, absoluto e perfeito controle
sobre Si mesmo, e Ele s6 se revela
na medida em que sente prazer
em fazer isso.
Portanto, o conhecimento de
Deus s6 e possivel atraves da re-
35
vela<_;:ao que Ele faz de Si mesmo.
0 conhecimento de Deus s6 e
acessivel ao homem quando, e s6
quando, Deus livremente deseja
revelar-se.
* * * * *
Essa auto apresenta<_;:ao de
Deus e geralmente chamada de
revela~ao. A Escritura usa varios
verbos para expressar essa reve-
la<_;:ao de Deus, tais como aparecer,
falar, ordenar, trabalhar, fazer co-
nhecido, e outros semelhantes.
Isso mostra que a revela<_;:ao nem
sempre acontece do mesmo modo,
mas de varias formas. Na pratica,
todas as obras de Deus, sejam pa-
lavras ou atos, sao partes consti-
tuintes da unica revela<_;:ao de
Deus, grande, abrangente, e sem-
pre continua. A cria<_;:ao, manuten-
<_;:ao e o dominio de todas as coi-
sas, o chamado e o destaque de
Israel, o envio de Cristo, a desci-
da do Espirito Santo, o registro da
Palavra de Deus, o sustento e a
propaga<_;:ao da Igreja, sao formas
pelas quais a revela<_;:ao de Deus
vern ate n6s. Cada uma dessas for-
mas nos revela algo de Deus. Nes-
se sentido, tudo o que existe e tudo
o que acontece pode conduzir-nos
ao conhecimento de Deus.
Essa revela<_;:ao pode ser ge-
ral ou especial, de acordo com as
suas caracteristicas.
Em primeiro lugar, a revela-
<_;:ao sempre tern sua origem em
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
urn ato livre da parte de Deus.
Nesse ato, como em todas as ou-
tras coisas, Ele e absolutamente
soberano, e age com perfeita liber-
dade. De fato, ha alguns que re-
pudiam a cren<;a em urn Deus pes-
soal e auto consciente, e ainda as-
sim falam de uma revela<;ao de
Deus. Isso da urn significado a
palavra que entra em conflito com
seu sentido usual. Do ponto de
vista daqueles para os quais a di-
vindade e apenas uma for<;a todo-
poderosa, impessoal e inconscien-
te, e possivel falar em uma mani-
festa<;ao involuntaria dessa for<;a,
mas nao de uma revela<;ao real,
pois essa e uma ideia que pressu-
poe a perfeita consciencia e liber-
dade de Deus. Toda revela<;ao dig-
na desse nome procede da ideia
de que Deus existe pessoalmente,
que Ele e consciente de Si mesmo
e que Ele pode fazer-se conhecido
as Suas criaturas. Nosso conheci-
mento humano de Deus tern sua
base e sua origem no conhecimen-
to que Deus tern de Si mesmo. A
nao ser que haja auto consciencia
e auto conhecimento em Deus,
nenhum conhecimento de Deus
sera possivel ao homem. Qual-
quer pessoa que negue isso che-
gara a conclusao irracional de que
nenhum conhecimento de Deus e
possivel, ou que Deus alcan<;a
auto consciencia somente no ho-
mem, o que coloca o homem no
lugar de Deus.
A Escritura ensina algo mui-
56
to diferente disso. Apesar de ser
inacessivel, a morada de Deus e
luz; Ele conhece a Si mesmo per-
feitamente e, portanto, pode reve-
lar-se a n6s. Ninguem conhece o
Filho senao o Pai; e ninguem co-
nhece o Pai senao o Filho, e aque-
le a quem o Filho o quiser revelar
(Mt 11.27).
Em segundo lugar, toda re-
vela<;ao que procede de Deus e
auto revelar;iio. Deus e a origem e
tambem o conteudo de Sua reve-
la<;ao. Isso faz com que seja ver-
dadeira a rnais elevada revelac;ao,
que veio a nos em Cristo, pois o
proprio Cristo disse que Ele reve-
lou o nome de Deus ao homem (Jo
17.6). 0 Filho unigenito, que esta
no seio do Pai, revelou-nos Deus
(Jo 1.18). Mas o mesmo e verdade
sobre qualquer revelac;ao que
Deus tenha dado ao homem sobre
Si mesmo. Todas as obras de Deus,
em natureza e em Grac;a, na cria-
c;ao e na regenerac;ao, no mundo e
na historia, mostram-nos algo sa-
bre o incompreensivel e adoravel
ser de Deus. Elas nao o fazem da
mesma forma e nem com o mes-
mo alcance; ha infinitas diferenc;as
entre elas. Uma obra fala de Sua
justic;a, e outra de Sua Grac;a; de
uma resplandece Seu poder infi-
nito, e de outra Sua divina sabe-
doria.
Contudo, todas juntas e cada
uma delas em seu proprio alcan-
ce, declaram-nos as poderosas
obras de Deus, e informam-nos
A REVELA<;:Ao GERAL
sobre Suas virtudes e perfei<;:oes,
sobre Seu sere Suas auto diferen-
cia<;:oes, sobre Seu pensarnento e
sobre Sua palavra, e sobre Sua
vontade e seu prazer.
Nessa conexao n6s nunca
devernos nos esquecer, e claro,
que a revela<;:ao de Deus, indepen-
denternente da riqueza de seu
conteudo, nunca sera identica ao
auto conhecimento de Deus. Esse
auto conhecimento ou auto cons-
ciencia e tao infinito quanto Seu
Sere Sua natureza, portanto, nao
esta sujeito aapreensao de qual-
quer criatura. A revela<;:ao de Deus
em Suas criaturas, tanto objetiva-
rnente nas obras de Sua mao quan-
to subjetivarnente na consciencia
de Suas criaturas racionais, pode
rnostrar, sernpre, apenas urna pe-
quena parte do infinito conheci-
mento que Deus tern de Si rnes-
rno. E nao sornente n6s, seres hu-
rnanos sobre a terra, mas tarnbern
os santos e os anjos nos ceus, e
tarnbern o Filho de Deus ern Sua
natureza hurnana, possuern urn
conhecimento de Deus que e dife-
rente ern principio e ern essencia
do auto conhecimento de Deus.
~-'co rnesrno tempo, o conhecimen-
to que Deus tern distribuido ern
Sua revela<;:ao, e que pode ser ob-
tido pelas criaturas racionais a
partir dessa revela<;:ao, lirnitado e
iinito como e e sera pelo resto da
eternidade, e, contudo, urn conhe-
cimento real e cornpleto. Deus se
re,·ela ern Suas obras exatamente
37
como Ele e. A partir dessa Sua re-
vela<;:ao n6s podernos conhece-lo.
Portanto, nao ha repouso para o
hornern ate que ele se coloque aci-
rna e alern da criatura e chegue ate
o proprio Deus. No estudo dare-
vela<;:ao nossa preocupa<;:ao deve
ser a de conhecer Deus. 0 prop6-
sito desse estudo nao e aprender
a usar alguns argurnentos e a fa-
lar algumas palavras. 0 objetivo
prirnario desse estudo e conduzir-
nos atraves da criatura ate o Cria-
dor, e fazer-nos encontrar descan-
so no cora<;:ao do Pai.
Ern terceiro lugar, a revela-
<;:ao que procede de Deus, e que
tern Deus como seu conteudo,
tarnbern tern Deus como seu pro-
p6sito. Essa revela<;:ao e dEle, e
atraves dEle e tarnbern para Ele;
Ele fez todas as coisas para Si rnes-
mo (Rrn 11.36; Pv 16.4). Apesar do
conhecimento de Deus, que e dis-
tribuido ern Sua revela<;:ao, ser es-
sencialrnente diferente de Seu
auto conhecimento, ele e tao rico,
tao arnplo e tao profundo, que
nunca pode ser totalrnente absor-
vido pela consciencia de qualquer
criatura racional. Os anjos exce-
dern o homern ern conhecimento,
e veern incessanternente a face do
Pai que esta nos ceus (Mt 18.10),
mas eles desejararn perscrutar as
coisas que nos forarn anunciadas
por aqueles que anunciararn o
Evangelho (1Pe 1.12). E na rnedi-
da ern que as pessoas pensarn
mais e rnais profundarnente sobre
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
a revela<;:ao de Deus elas sao mais
impelidas a damar como Paulo:
"6 profundidade da riqueza, tan-
to da sabedoria como do conheci-
mento de Deus! Quao insondaveis
sao os seus juizos, e quao
inescrutaveis, os seus caminhos"
(Rm 11.33)! Contudo, a revela<;:ao
nao pode ter o seu proposito final
no homem; ela o ultrapassa e se
levanta alto;m dele.
Everdade que o homem tern
urn importante lugar na revela<;:ao.
Ela e dirigida ara<;:a humana para
que o homem possa buscar a
Deus, se, porventura, tateando,
puder encontra-lo (At 17.27); e o
Evangelho deve ser pregado a to-
das as criaturas, para que, crendo,
tenham vida eterna (Me 16.15,16;
Jo 3.16,36). Mas esse nao pode ser
o proposito final e mais elevado
da revela<;:ao. Deus nao pode des-
cansar no homem. Pelo contrario,
o homem deve conhecer e servir a
Deus, motivo pelo qual deve, jun-
tamente com as outras criaturas,
e afrente delas, dar a Deus a de-
vida honra por todas as Suas
obras. Em Sua revela<;:ao, querela
passe alem do homem ou ao lado
do homem, Deus esta preparan-
do Seu proprio louvor, glorifican-
do Seu proprio nome, e manifes-
tando diante de Seus proprios
olhos, no mundo de Suas criatu-
ras, Suas excelencias e perfei<;:6es.
Pelo fato da revela<;:ao ser de Deus
e atraves de Deus, ela tern seu fim
e proposito tambem em Sua glo-
38
rifica<;:ao.
Toda essa revela<;:ao, que e
de Deus e atraves dele, tern seu
ponto mais elevado na pessoa de
Cristo. Nao e o firmamento
relampejante, nem a natureza po-
derosa, nem qualquer principe ou
genio da terra, nem qualquer filo-
sofo ou artista o ponto mais alto
da revela<;:ao de Deus, mas sim o
Filho do Homem. Cristo eo Ver-
ba feito carne, que estava no co-
me<;:o com Deus e que era Deus, o
Unigenito do Pai, a Imagem de
Deus, o brilho de Sua gloria e a
exata expressao de Sua pessoa;
quem o ve tambern ve o Pai (Jo
14.9). Nessa fe o Cristao permane-
ce de pe. Ele aprendeu a conhecer
Deus na pessoa de Jesus Cristo,
que foi enviado pelo proprio
Deus. Deus, que disse que nas tre-
vas resplandecera a luz, Ele mes-
mo resplandeceu em nosso cora-
<;:ao, para ilumina<;:ao do conheci-
mento da gloria de Deus, na face
de Cristo (2Co 4.6).
* * * * *
Desse ponto altamente
privilegiado o Cristao olha asua
volta, para a frente, para tras e
para todos os lados. E se, ao fazer
isso, a luz do conhecimento de
Deus, que recebe de Cristo, ele se
detem na natureza e na historia,
no ceu ou sobre a terra, entao ele
descobre tra<;:os do mesmo Deus
que ele aprendeu a conhecer e a
A REVELA<;:Ao GERAL
cultuar em Cristo como seu Pai.
0 Sol da justi<;a proporciona uma
vista maravilhosa que se estende
ate as extremidades da terra. Atra-
ves dessa luz ele olha para tra.s,
para as noites de tempos passa-
dos, e atraves dela ele penetra no
futuro de todas as coisas. A sua
frente e atras de si 0 horizonte e
claro, apesar do ceu estar geral-
mente encoberto pelas nuvens.
0 Cristao, que ve tudo aluz
da Palavra de Deus, pode ser qual-
quer coisa, menos estreito em sua
perspectiva. Ele tern amplitude de
cora<;ao e mente. Ele olha por toda
a terrae considera tudo como sen-
do seu, pois ele ede Cristo e Cris-
to ede Deus (1Co 3.21-23). Ele nao
pode desvincular sua cren<;a da re-
·ela<;ao de Deus em Cristo, a
quem ele deve sua vida e sua sal-
va<;ao, pois essa cren<;a tern urn
carater especial. Essa cren<;a nao
o exclui do mundo, mas coloca-o
em condi<;ao de seguir a pista da
revela<;ao de Deus na natureza e
na hist6ria, e coloca meios asua
disposi<;ao pelos quais ele pode
reconhecer a verdade, o bern e a
beleza e separa-los das rela<;6es
ralsas e pecaminosas dos homens.
Dessa forma, ele faz distin-
(ao entre uma revela<;ao geral e
uma revela<;ao especial de Deus.
:a revela<;ao geral Deus faz uso
da ocorrencia usual dos fenome-
:ws e do curso usual dos eventos;
:' :1 re·ela<;ao especial Ele geral-
:--:.1:'nte emprega meios nao usuais,
39
tais como apari<;6es, profecias e
milagres para fazer-se conhecido
ao homem. 0 conteudo da reve-
la<;:ao geral sao geralmente Seus
atributos de poder, sabedoria e
bondade; o conteudo da revela<;ao
especial sao especialmente a san-
tidade e a justi<;:a, a compaixao e a
Gra<;a. A revela<;ao geral edirigida
a todos os homens e, por meio da
gra<;a comum, serve para restrin-
gir a prolifera<;ao do pecado; are-
vela<;ao especial edirigida a todos
aqueles que vivem sob o Evange-
lho e possuem, pela Gra<;a especi-
al, o perdao dos pecados e a reno-
va<;ao de vida.
Apesar desses dois tipos de
revela<;ao serem essencialmente
distintos, eles estao intimamente
ligados urn ao outro. Os dois pos-
suem sua origem em Deus, em
Sua bondade soberana e em seu
favor. A revela<;ao geral e uma
dadiva do Verbo que estava com
Deus no principia, que fez todas
as coisas, que brilhou como a luz
nas trevas e iluminou todos os
homens que vieram ao mundo (Jo
1.1-9). A revela<;ao especial euma
dadiva do mesmo Verbo, que foi
feito carne em Cristo, e que agora
echeio de Gra<;:a e de verdade (Jo
1.14). A Gra<;:a eo conteudo de
ambas as revela<;6es, de tal forma
que uma seja indispensavel aou-
tra.
Ea gra<;:a comum que torna
possivel a Gra<;a especiat prepa-
ra o caminho para ela, e depois lhe
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
da o suporte; e a Grac;a especiat
por sua vez, ergue a grac;a comurn
ao seu proprio nivel e coloca-a a
seu servic;o. Ambas as revelac;oes
tern como proposito a conserva-
c;ao da rac;a humana; a primeira
sustentando-a e a segunda
redimindo-a; e desta forma as
duas cumprem a sua finalidade,
que e glorificar todas as excelen-
cias de Deus.
* * * * *
0 conteudo de ambas as re-
velac;oes, nao apenas o da especi-
al, mas tambem o da geral, esta
contido na Sagrada Escritura. A
revelac;ao geral, apesar de estar
contida na natureza, e, contudo,
extraida da Sagrada Escritura,
pois, sem ela, n6s, seres humanos,
por causa da escuridao de nosso
entendimento, nunca teriamos
sido capazes de encontra-la na
natureza. Sendo assim, a Escritu-
ra lanc;a luz sobre nosso caminho
atraves do mundo, e coloca em
nossas maos a verdadeira compre-
ensao da natureza e da historia.
Ela nos faz ver Deus onde nos de
outra forma nao o veriamos. Ilu-
minados por ela nos contempla-
mos as excelencias de Deus em
toda a expansao das obras de Suas
maos.
A propria criac;ao, ensinada
pela Escritura, demonstra a reve-
lac;ao de Deus na natureza, pois
ela e em si mesma um ato de re-
40
velac;ao, o inicio eo primeiro prin-
cipia de toda a revelac;ao posteri-
or. Se o mundo tivesse permane-
cido eternamente sozinho, ou se
tivesse sido eternamente descon-
siderado por Deus, ele nao teria
sido uma revelac;ao de Deus.
Alias, tal mundo teria sido urn
obstaculo a Deus e a Sua revela-
c;ao de Si mesmo. Mas quem quer
que o contemple junto com as Es-
crituras, desde a criac;ao do mun-
do, ere que Deus se revela em todo
o mundo. Toda obra da testemu-
nho de seu realizador a tal ponto
que em urn certo sentido pode ser
chamada de produto de seu reali-
zador.
Por ser o mundo, em urn
sentido absoluto, uma obra de
Deus, e por clever, tanto sua natu-
reza quanto seu ser, no comec;o e
sempre depois, ao seu Criador,
toda criatura manifesta algo das
excelencias e das perfeic;oes de
Deus. Logo que a revelac;ao de
Deus na natureza e negada ou li-
mitada somente ao corac;ao ou ao
sentimento do homem, surge o
perigo de que a criac;ao de Deus
nao seja reconhecida, que a natu-
reza seja governada por outro po-
der que aquele que governa o co-
rac;ao humano, e que desta forma,
quer seja abertamente, quer seja
de forma encoberta, o politeismo
seja introduzido no pensamento
humano. A Escritura, ao ensinar
a criac;ao, sustenta a revelac;ao de
Deus e ao mesmo tempo a unida-
A REVELA<;:Ao GERAL
de de Deus e a unidade do mun-
do.
Ah~m do mais, a Escritura
ensina nao apenas que Deus cha-
mou o mundo a existencia, mas
tambem que esse mundo e, conti-
nuamente, momento ap6s mo-
mento, sustentado e governado
por esse mesmo Deus. Ele e infi-
nitamente exaltado nao apenas
sobre todo o mundo, mas tambem
mora em todas as Suas criaturas
por Seu poder infinito e onipre-
sente. Ele nao esta longe de quem
quer que seja, pois nEle n6s vive-
mos, enos movemos, e existimos
(At 17.27,28). A revela<;ao que vern
ate n6s atraves do mundo, toda-
via, nao e apenas urn lembrete de
uma obra de Deus que Ele reali-
zou ha muito tempo atras: e urn
testemunho tambem daquilo que
Deus, em nossos tempos, quer e
faz.
~ Quando levantamos nossos
olhos podemos ver nao apenas
quem criou essas coisas e faz sair
o seu exercito em grande m:ime-
ro, mas tambem que Ele as chama
pelos seus nomes, pela grandeza
de Seu poder, porque Ele e forte
em poder e por isso nenhuma de-
las vern a £altar (Is 40.26). Os ceus
declaram as obras de Deus e o
firmamento anuncia as obras das
Suas maos (Sl 19.1). Ele se cobre
de luz como de urn manto e esten-
de os ceus como uma cortina. Ele
poe nas aguas 0 fundamento da
Sua morada e toma as nuvens por
41
Seu carro e voa nas asas do vento
(Sl 104.2,3). As montanhas e os
vales estao estabelecidos no lugar
que Deus tinha para eles prepara-
do e Ele os rega do alto de Sua
morada (Sl 104.8,13). Ele farta a
terra com o fruto de Suas obras,
faz crescer a relva para os animais
e as plantas para o servi<;o do ho-
mem, de forma que da terra tire o
seu pao e o vinho, que alegra o
cora<;ao do homem (Sl104.13-15).
Cingido de poder Ele, por Sua for-
<;a, consolida os montes e aplaca o
rugir dos mares (Sl65.6,7). Ele ali-
menta as aves do ceu e veste os
lirios do campo (Mt 6.26-30). Ele
faz nascer o sol sobre rnause bons
e faz vir chuvas sobre justos e in-
justos (Mt 5.45). Ele fez o homem
urn pouco menor do que os anjos,
e coroou-o com gloria e honra, e
deu-lhe dominio sobre as obras de
Suas maos (Sl 8.5,6).
Alem disso Ele cumpre Seu
conselho e estabelece Sua obra
tanto na natureza quanto na his-
t6ria. Ele de urn s6 fez todas as
na<;oes para habitar a terra (At
17.26). Ele destruiu a primeira ra<;a
humana no dih:ivio e ao mesmo
tempo preservou-a na familia de
Noe (Gn 6.6-9). Na torre de Babel
Ele confunde a linguagem dos ho-
mens e os dispersa sobre a face da
terra (Gn 11.7-8). E quando o
Altissimo dividiu entre as na<;oes
a sua heran<;a e separou os filhos
de Adao, Ele determinou os tem-
pos previamente estabelecidos e
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
os limites da sua habita<;ao, de
acordo como numero de tilhos em
Israel (Dt 32.8; At 17.26). Apesar
de ter escolhido os filhos de Israel
para serem os portadores de Sua
revela<;ao especial, e permitido
que as na<;6es pagas seguissem
seu proprio caminho (At 14.16),
Ele nao se esqueceu deles nem
abandonou-os a sua propria sor-
te. Pelo contrario, Ele nao os dei-
xou sem urn testemunho de Si
mesmo, fazendo o bern, dando-
lhes chuvas do ceu e esta<;6es fru-
tiferas, enchendo o cora<;ao deles
de fartura e de alegria (At 14.17).
0 que de Deus se pode conhecer
e manifesto entre eles, porque
Deus lhes manifestou (Rm 1.19),
para que eles busquem a Deus, se
porventura, tateando, possam
encontra-lo (At 17.27).
Por meio dessa revela<;ao
geral Deus preservou os povos e
conduziu-os ate a dispensa<;ao da
plenitude dos tempos, fazendo
com que todas as coisas conver-
gissem para Cristo, tanto as do ceu
como as da terra (Ef 1.10). De to-
das as na<;6es, povos, ra<;as e Hn-
guas Ele reuniu Sua igreja (Rm
11.25; Ef 2.14 e ss.; Ap 7.9), e pre-
para o fim do mundo, no qual os
salvos de todas as na<;:6es andarao
na luz da cidade de Deus, e todos
os reis e povos da terra darao sua
gloria e honra a Ele (Ap 21.24-26).
Na ciencia da teologia os ho-
mens tern tentado organizar todos
esses testemunhos da natureza e
42
da historia sobre a existencia e o
ser de Deus e classifica-los em gru-
pos. Por isso nos as vezes falamos
de seis evidencias da existencia de
Deus.
Em primeiro lugar, o mun-
do, sendo sempre tao poderoso e
abrangente, esta, contudo, conti-
nuamente dando testemunho de
que esta confinado ao espa<;o e ao
tempo, testemunhando, assim,
que e temporal, acidental e de ca-
rater dependente e que requer,
portanto, urn Ser eterno, essenci-
al e independente como a causa
final de todas as coisas. Esse e o
argumento cosmologico.
Em segundo lugar, o mun-
do, em suas leis e ordenan<;as, em
sua unidade e harmonia e na or-
ganiza<;:ao de todas as suas criatu-
ras, exibe urn proposito cuja expli-
ca<;:ao seria ridicula na base da ca-
sualidade, e que, portanto, apon-
ta para urn ser todo abrangente e
todo poderoso que com mente in-
finita estabeleceu esse proposito,
e por seu poder infinito e
onipresente age para alcanca-lo.
Esse e o argumento teologico.
Em terceiro 1ugar, ha na
consciencia de todos os homens
alguma no<;ao de urn ser supremo,
sobre o qual nao se pode conce-
ber algo que seja mais elevado, e
que e auto existente. Setal ser nao
existe, a maior, mais perfeita e
mais inevitavel ideia seria uma
ilusao, e o homem perderia sua
confian<;:a na validade de sua cons-
A REVELA<;:Ao GERAL
Ciencia. Esse e o argumento
ontol6gico.
0 quarto argumento e urn
coroL1rio do terceiro: o homem
nao e apenas urn ser racionat ele
tambem e urn ser moral. Ele sente
em sua consciencia que e limita-
do por uma lei que esta acima de
si mesmo e que requer obedien-
cia incondicional de sua parte. Tal
lei pressupoe urn santo e justo le-
gislador que pode preservar e des-
truir. Esse e o argumento moral.
Dois outros argumentos sao
adicionados a esses quatro, deri-
vados da similaridade ou corres-
pondencia de povos e da hist6ria
da humanidade. Eurn fenomeno
notavel que nao existam povos ou
na<;oes sem religiao. Alguns eru-
ditos tern argumento que nao e
bern assim, mas as investiga<;oes
hist6ricas tern provado mais e
mais que eles estao errados. Nao
ha tribos nem povos ateus. Esse fe-
nomeno e de grande imporhincia,
pois a absoluta universalidade
dessa no<;ao de religiao coloca di-
ante de nos uma escolha entre
duas op<;oes: ou nesse ponto a
humanidade esta sofrendo sob
uma supersti<;ao estupida, ou esse
conhecimento e servi<;o de Deus,
que em formas distorcidas apare-
ce entre todos os povos, esta ba-
seado na existencia de Deus.
Da mesma forma a hist6ria
da humanidade, quando vista a
luz da Escritura, exibe urn plano
e urn padrao que aponta para o
43
governo de todas as coisas por urn
ser supremo. Everdade que essa
ideia encontra todo tipo de obje-
<;6es e dificuldades tanto na vida
de individuos quanto na de na-
<;6es. Todavia e notavel que qual-
quer pessoa que fa<;a urn estudo
serio da hist6ria supoe que a his-
t6ria e algo no qual 0 planejamen-
to e a ordem sao evidentes e que
faz de sua tarefa a descoberta e a
continuidade desse planejamento
e dessa ordem. A hist6ria e a fila-
sofia da hist6ria estao baseadas na
fe, na providencia de Deus.
Todas essas assim chamadas
evidencias nao sao suficientes
para fazer com que o homem
creia. A ciencia e a filosofia tern
muito poucas evidencias capazes
de fazer isso. Pode ser que nas ci-
encias formais, como na matema-
tica e na 16gica, isso seja possivel,
mas no momento em que temos
contato como fenomeno real na
natureza, e tambem na hist6ria,
nossas argumenta<;oes e conclu-
soes, via de regra, sao objeto de
todo tipo de desconfian<;a e obje-
<;6es. Na religiao e na etica, na lei
e na estetica, depende ainda mais
da atitude do investigador se ele
se submete ou nao a essa convic-
<;ao. 0 insensato pode, apesar de
todo o testemunho contrario, di-
zer em seu cora<;ao que Deus nao
existe (5114.1), eo pagao, mesmo
tendo conhecimento de Deus, nao
o glorificou e nem lhe deu gra<;as
(Rm 1.21). Os argumentos da exis-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tencia de Deus acima menciona-
dos nao se dirigem ao homem
como uma criatura meramente
16gica e capaz de racionar, mas
como urn ser racional e moral. 0
apelo desses argumentos nao se
refere somente asua mente racio-
nal e analitica, mas tambem ao seu
corac;:ao e ao seu sentimento, sua
razao e sua consciencia. Eles tern
seu merito, fortalecendo a fee es-
tabelecendo o vinculo de ligac;:ao
entre a revelac;:ao de Deus fora do
homem e a Sua revelac;:ao dentro
dohomem.
* * * * *
Alem disso, a revelac;:ao de
Deus na natureza e na hist6ria nao
teria efeito sobre o homem se nao
houvesse algo no homem que re-
agisse a ela. A beleza da natureza
e da arte nao poderiam dar ao
homem qualquer prazer a nao ser
que ele tivesse urn sentimento de
beleza em seu peito. A lei moral
nao encontraria resposta nele se
ele nao reconhecesse a voz da
consciencia dentro de si. Os pen-
samentos que Deus, por Sua Pala-
vra, expressou no mundo seriam
incompreensiveis ao homem se
ele nao fosse em si mesmo urn ser
pensante. E da mesma forma are-
velac;:ao de Deus em todas as obras
das suas rnaos seriam totalmente
ininteligiveis ao homem se Deus
nao tivesse plantado em sua alma
urna inextinguivel noc;:ao de Sua
44
existencia e de Seu ser. 0 fato
indisputavel, todavia, e que Deus
acrescentou a Si mesmo arevela-
c;:ao externa na natureza e areve-
lac;:ao interna no homem. As inves-
tigac;:oes hist6ricas e psicol6gicas
da religiao revelam repetidamen-
te que a religiao nao pode ser
explicada a nao ser sobre a base
de uma noc;:ao nao criada pelo ho-
rnem. Ao firn de seu estudo os
pesquisadores sempre retornam a
proposic;:ao que eles repudiavam
desde o inicio, a de que o homem
e, no fundo, uma criatura religio-
sa.
A Escritura nao deixa qual-
quer duvida sobre isso. Depois de
Deus ter feito todas as coisas Ele
criou o homem, e criou-o aSua
imagern e sernelhanc;:a (Gn 1.26).
0 homem egerac;:ao de Deus (At
17.28). Embora, como o filho per-
dido da parabola, o homem tenha
fugido de sua casa paternal, rnes-
mo em seus mais distantes afasta-
rnentos ele acalenta uma memo-
ria de sua origem e finalidade. Em
sua mais profunda queda ele ain-
da conserva certos resquicios da
imagem de Deus segundo a qual
ele foi feito. Deus se revela fora do
homem; Ele se revela tarnbem
dentro do homem. Ele nao deixa
o corac;:ao e a consciencia humana
sem testemunho de si mesmo.
Essa revelac;:ao de Deus nao
deve ser considerada como uma
segunda revela<;ao, suplemen-
tando a primeira. Ela nao e urna
A REVELA<;:Ao G ERAL
fonte de conhecimento indepen-
dente da primeira. Ela e uma ca-
pacidade, uma sensibilidade, uma
direc;:ao para encontrar Deus em
Suas obras e entender Sua revela-
c;:ao. Euma consciencia do divino
em n6s que nos torna capazes de
ver o divino fora de n6s mesmos,
assim como o olho nos torna ca-
pazes de detectar luz e cor, e o
ouvido nos habilita a perceber os
sons. Trata-se, como disse Calvina,
de urn senso de divindade, ou,
como Paulo o descreveu, de uma
habilidade para ver as coisas invi-
siveis de Deus, isto e, Seu eterno
poder e dominio, nas coisas visi-
veis da criac;:ao.
Quando n6s tentamos anali-
sar esse senso de divindade nao
criado pelo homem, descobrimos
que ele consiste de dois elementos.
Em primeiro lugar, o senso de de-
pendencia absoluta e caracteristi-
co dele. Por baixo de nossa mente
e vontade, por baixo de nosso pen-
samento e ac;:ao, haem n6s uma
auto consciencia que e interde-
pendente com nossa propria exis-
tencia e parece coincidir com ela.
Antes de pensarmos, antes de de-
sejarmos, n6s somos, n6s existi-
mos. N6s existimos de uma forma
definida, e em unidade indissoluvel
com essa existencia n6s temos uma
nor;fio de existencia e uma nor;fio de
existirmos como somos. Eo nucleo
dessa identificac;:ao de auto exis-
tencia e auto consciencia eo senti-
menta de dependencia. No mais
45
profunda de nosso ser n6s somos,
sem auxilio da razao e anterior a
razao, conscientes de n6s mesmos
como seres criados, limitados e de-
pendentes. N6s somos dependen-
tes de tudo ao nosso redor, de
tudo no mundo espiritual e mate-
rial. 0 homem e urn dependente
do universo. Alem disso ele e de-
pendente, junto com outras coisas
criadas, e de uma forma absoluta,
de Deus, que eo unico ser eterno
e verdadeiro.
Mas esse senso de divinda-
de tern mais urn elemento consti-
tuinte. Se o ser cujo poder causou
esse sentimento permanecer total-
mente indefinido, entao esse seria
urn sentimento que conduziria o
homem a uma revolta impotente
ou a uma resignac;:ao est6ica, pas-
siva. Mas esse senso de divinda-
de tern em si urn senso da nature-
za daquele ser de quem o homem
se sente dependente. Eurn senso
do mais elevado e absoluto poder,
mas nao de uma forc;:a cega, irra-
cional, imperturbavel e impassiva,
equivalente ao destino ou a
necessidade. Mais do que isso, e
urn senso de uma forc;:a suprema,
que e tambem perfeitamente
justa, sabia e boa. Eurn senso de
urn poder eterno, mas tambern de
dominio, ou seja, absoluta perfei-
c;:ao de Deus. Portanto, esse senti-
menta de dependencia nao impli-
ca em desanimo e desespero em
nossa fraqueza, mas impele o ho-
mem areligiao, a servir e honrar
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
a Deus. Em outras palavras, a de-
pendencia da qual 0 homem e
consciente e urn tipo muito espe-
cial de consciencia do ser divino.
Ela contem em si o elemento de
liberdade. Essa nao e a dependen-
46
cia de urn escravo, mas de urn fi-
lho, embora seja de urn filho per-
dido. Esse senso de divindade,
portanto, como disse Calvino, e a
semente da religiao.
CAPITULO
~
0 VALOR DA REVELA<;Ao GERAL
A
o determinarmos o valor
da revelac;ao geral corre-
mos o risco tanto de
superestima-la quanto de
subestima-la. Quando n6s nos
concentramos detidamente sobre
as riquezas da Grac;a com a qual
Deus nos deu Sua revelac;ao espe-
cial, n6s costumamos ficar tao en-
cantados com ela que a revelac;ao
geral acaba perdendo seu signifi-
cado e merito para n6s. Por outro
lado, quando refletimos sobre a
bondade, a verdade e a beleza que
ha na revelac;ao geral de Deus na
natureza e na hist6ria da humani-
dade, pode acontecer que a Gra-
c;a especial, manifesta a n6s na
pessoa e obra de Cristo, perca sua
gloria e apelo aos olhos da alma.
Esse perigo de extraviar-se
para a esquerda ou para a direita
sempre existiu na igreja Crista, e
vez por outra a revelac;ao geral e
a revelac;ao especial sao ignoradas
47
ou negadas. Cada uma por sua
vez tern sido negada na teoria e
nao menos fortemente na pratica.
No presente a tentac;ao de se fa-
zer injustic;a arevelac;ao geral nao
etao forte quanto foi no passado.
Muito mais forte, contudo, eaten-
tac;ao, que se aproxima por todos
os lados, de reduzir a revelac;ao
especial aos mais estreitos limi-
tes, por exemplo, a pessoa de
Cristo, ou pior ainda, negar tudo
e fazer da pessoa de Cristo uma
parte da revelac;ao geral.
N6s temos que estar atentos
a essas duas tendencias; e n6s se-
remos mais prudentes se, aluz da
Sagrada Escritura, considerarmos
a hist6ria da humanidade e dei-
xarmos que ela nos ensine o que
OS povos devern a revelac;ao ge-
ral. Isso deixara claro para n6s
que, possuindo a luz dessa reve-
lac;ao, os homens tern realizado
grandes empreendimentos, em-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
bora seu conhecimento e habilida-
de em outras areas encontre limi-
tes intransponiveis.
Quando o primeiro homem
e a primeira mulher transgredi-
ram a ordem de Deus no paraiso
sua puni<;ao nao foi imediata e
nem foi aplicada com total inten-
sidade. Eles nao morreram no
mesmo instante em que pecaram,
mas permaneceram vivos; eles
nao foram enviados para o infer-
no, mas receberam uma missao
para cumprir na terra; sua linha-
gem nao pereceu: eles receberam
a promessa da semente da mu-
lher. Em resumo, podemos dizer
que com o primeiro pecado hou-
ve o surgimento de uma condi<;ao
que Deus fixou, mas que o homem
nao era capaz de prever. Essa con-
di<;ao possui urn carater muito
especial. Enela que c6lera e Gra-
<;:a, puni<;:ao e ben<;:ao, julgamento
e longanimidade estao mesclados
uns com os outros. Essa e a con-
di<;ao que ainda existe na nature-
za e entre os homens e que abran-
ge os mais bern delineados con-
trastes.
N6s vivemos em urn mun-
do estranho, urn mundo que nos
apresenta tremendos contrastes.
0 alto eo baixo, o grandee ope-
queno, o sublime e o ridiculo, o
bonito eo feio, o tragico eo c6mi-
co, o berne o maC a verdade e a
mentira; tudo isso e encontrado
em urn inter-relacionamento in-
sondavel. A seriedade e a vaida-
48
de da vida se agarram a n6s. Em
urn momento n6s estamos incli-
nados ao otimismo, e no momen-
to seguinte ao pessimismo. 0 ho-
mem que chora esta constante-
mente dando motivos ao homem
que ri. 0 mundo todo conserva o
born humor, que poderia ser me-
lhor descrito como urn sorriso
entre lagrimas.
A causa mais profunda des-
se presente estado do mundo e
essa: por causa do pecado do ho-
mem Deus esta constantemente
manifestando Sua ira e, ao mes-
mo tempo, movido pelo Seu pro-
prio prazer, revelando tambem
Sua Gra<;:a. N6s somos consumi-
dos pela Sua ira e saciados com a
Sua benignidade (Sl90. 7)4). Nao
passa de urn momento a Sua ira;
o Seu favor dura a vida inteira. Ao
anoitecer, pode vir o choro, mas a
alegria vern pela manha (Sl30.5).
A maldic,;ao e a benc,;ao sao tao sin-
gularmente interdependentes
que as vezes uma parece transfor-
mar-se em outra. Trabalhar no
suor do rosto e maldi<;ao e tam-
bern e benc,;ao. Tanto a maldic,;ao
quanta a benc,;ao apontam para a
cruz, que e ao mesmo tempo 0
mais alto julgamento e a Grac,;a
mais rica. Isso acontece porque a
cruz e o centro da hist6ria e a re-
concilia<;ao de todas as antiteses.
Essa condi<;ao teve inicio
imediatamente depois da queda
e, durante o primeiro periodo,
isto e, ate a chamada de Abraao,
0 VALOR DA REVELA<;:Ao GERAL
ela teve uma caracteristica muito
especial. Os onze primeiros capi-
tulos de Genesis sao extremamen-
te importantes: Eles constituem o
ponto de partida e a funda<;ao de
toda a hist6ria do mundo.
* * * * *
Devemos atentar imediata-
mente para o fato de que a reve-
la<;ao geral e a revela<;ao especial,
apesar de distintas, nao ficam iso-
ladas uma ao lado da outra, mas
estao em constante inter-relacio-
namento, e que ambas sao
direcionadas as mesmas pessoas,
isto e, a ra<;a humana. A revela<;ao
especial nao foi dada a urn peque-
no grupo de pessoas nem restrita
a urn determinado povo, mas dis-
tribuida a todos os seres huma-
nos. A cria<;ao do mundo, a for-
ma<;ao do homem, a hist6ria do
paraiso e da queda, a puni<;ao
pelo pecado e 0 primeiro anun-
cio da Gra<;a de Deus (Gn 3.15),
tanto quanto o culto publico (Gn
4.26), o inicio da cultura (Gn 4.17),
o diluvio, a constru<;ao da torre de
Babel - tudo isso sao tesouros
que a ra<;a humana tern carrega-
do ao longo de sua hist6ria como
parte de seu equipamento em sua
jornada pelo mundo. Portanto,
nao ede estranhar que relatos des-
ses eventos, mesmo que seja em
formas distorcidas, tenham surgi-
do entre varios povos da terra. A
hist6ria da humanidade tern urn
49
come<;o comum, e esta edificada
sobre uma ampla base comum.
Todavia, apesar dessa uni-
dade e desse passado em comurn,
uma divisao logo se desenvolveu
entre os homens. A causa dessa
divisao foi a religiao, o relaciona-
mento entre o homem e Deus. 0
culto ao Senhor ainda era muito
simples. Nao havia possibilidade
de realizar-se urn culto publico
como n6s o conhecemos porque
a ra<;a humana consistia apenas de
umas poucas familias. Contudo o
culto a Deus existia desde o co-
me<;o sob a forma de sacrificios e
ora<;oes, apresenta<;ao de ofertas
e a consagra<;ao a Deus do melhor
que havia (Gn 4.3,4). A Escritura
nao nos fala como esses sacrifici-
os eram oferecidos, e a interpre-
ta<;ao dos eruditos sobre a origem
dos sacrificios e muito diver-
sificada em nossos dias. Mas fica
claro que aqueles primeiros sacri-
ficios tiveram origem no senso de
dependencia de Deus e de grati-
dao a Ele, e que eles eram de ca-
rater simb6lico. Seu objetivo era
expressar a consagra<;ao humana
e sua entrega a Deus. A questao
nao era propriamente a oferta,
mas a disposi<;ao do ofertante ex-
pressa na oferta. Tanto quanto a
disposi<;ao quanto a oferta, Abel
trouxe urn sacrificio melhor do
que ode Cairn (Hb 11.4), e foi re-
compensado com o favor do Se-
nhor. Mas desde o come<;o havia
divisao entre os filhos de Adao,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
uma divisao entre o justo e o
impio, entre o martir eo carrasco,
entre a igreja e o mundo. E, ape-
sar de Cairn ter cometido o assas-
sinato, Deus ter tornado conta
dele, procurando-o e admoestan-
do-o a conversao e sendo-lhe mais
favoravel em vez de condena-lo
(Gn 4.9-16), a ferida ainda nao es-
tava cicatrizada. A divisao se ex-
pandiu e culminou com a separa-
s;:ao entre os descendentes de
Cairn e os descendentes de Sete.
* * * * *
No cia dos filhos de Cairn a
incredulidade e a apostasia au-
mentavam aos saltos e de geras;:ao
em geras;:ao. E verdade que eles
nao chegaram ao ponto da idola-
tria e do culto a imagens; a Escri-
tura nao menciona a existencia
dessas perversoes entre os ho-
mens antes do diluvio. Essas for-
mas de falsa religiao nao sao ori-
ginais, mas o produto de urn de-
senvolvimento posterior, e sao
uma evidencia do senso religio-
so que os descendentes de Cairn
abrigavam em seu coras;:ao. Os
descendentes de Cairn nao se en-
tregaram asuperstis;:ao, mas tam-
bern nao creram. Eles chegaram
ao ponto de negar a existencia e a
revela<;;ao de Deus nao na teoria,
mas na pratica. Eles viveram como
se Deus nao existisse; eles comi-
am e bebiam, casavam-se e da-
vam-se em casamento, ate que
50
veio o diluvio e os levou a todos.
Assim sera a vinda do Filho do
Homem (Mt24.37-39). Alegrando-
se em sua longa vida que as ve-
zes durava centenas de anos (Gn
5.3 ss.), possuindo ricas posses e
uma for<;;a flsica titanica e osten-
tando o poder de sua espada (Gn
4.23)4), eles pensavam que a for-
<;;a de seu proprio bra<;;o poderia
salva-los.
Nas gera<;;6es de Sete, o co-
nhecimento de Deus e o culto a
Deus foram preservados de forma
pura, por longo tempo. De fato,
n6s lemos que nos dias de seu fi-
lho Enos os homens comes;:aram a
invocar o nome do Senhor (Gn
4.26). Isso nao significa que o ho-
mem comes;:ou a cultuar a Deus
com sacrificios e ora<;;oes nessa
epoca, pois isso era ja feito antes.
N6s lemos sobre sacrificios em
conexao com Cairn e Abet e ape-
sar de nada ser dito sobre ora<;oes,
nao ha duvida de que elas faziam
parte do culto a Deus desde o ini-
cio, pois sem a ora<;;ao nenhum
culto a Deus e concebivel. Alem
disso, o oferecimento do sacrifi-
cio e em si mesmo uma ora<;;ao
materializada, e ele sempre e em
todos os lugares foi acompanha-
do pela ora<;;ao. A expressao usa-
cia em Genesis 4.26 nao significa
que o homem comec;ou a chamar
Deus de Senhor, pois indepen-
dente da questao de se o nome de
Deus ja era conhecido, a natureza
de Deus expressa nesse nome s6
0 VALOR DA REVELA<;:AO GERAL
foi revelada pelo Senhor muito
depois, a Moises (Ex 3.14). 0 sig-
nificado mais provavel dessa in-
voca<;ao ao nome do Senhor e que
nessa epoca os filhos de Sete se
separaram dos filhos de Cairn,
formando urn grupo, organizan-
do reunioes publicas para a con-
fissao do nome do Senhor, nas
quais eles, publicamente e uni-
dos, em distin<;ao aos descenden-
tes de Cairn, davam testemunho
de sua lealdade no culto ao Se-
nhor. Suas ora<;oes e ofertas nao
foram feitas apenas individual-
mente por muito tempo. Elas se
tornaram a expressao de urn tes-
temunho unificado. Na mesma
propor<;ao em que os filhos de
Cairn se entregaram ao culto do
mundo e procuraram nele a sua
salva<;ao, os filhos de Sete se en-
tregaram a Deus e invocaram o
Seu nome em ora<;;ao e gratidao,
em prega<;ao e confissao, no meio
de uma gera<;ao perversa.
Atraves dessa prega<;ao pu-
blica uma chamada ao arrependi-
mento era continuamente estendi-
da aos filhos de Cairn. Todavia os
descendentes de Sete come<;aram
a se misturar como mundo, o que
provocou uma decadencia religi-
osa e moral entre eles. 0 neto de
Enos foi chamado Maalaleel, que
significa "o prazer de Deus" (Gn
3.13). Enoque andou com Deus
(Gn 5.22). Lameque, na epoca do
nascimento de Noe, expressou sua
esperan<;a de que seu filho lhe tra-
51
ria conforto do trabalho penoso de
suas maos, por causa da terra que
o Senhor tinha amaldi<;;oado (Gn
5.29). E finalmente Noe se tornou
urn pregador da justi<;;a (1Pe 2.5)
e pregou aos seus contemporane-
os o Evangelho da justi<;;a atraves
do Espirito de Cristo (1Pe 3.19,20).
Mas santos como esses,
eram cada vez mais raros. Os des-
cendentes de Sete e os descenden-
tes de Cairn se misturaram atra-
ves do Casamento e geraram filhos
que superaram as gera<;;oes ante-
rimes em destreza fisica (Gn 6.4).
A corrup<;;ao da especie humana
era implacavel, a imagina<;;ao do
cora<;ao dos homens era rna des-
de a sua mocidade, e a terra en-
cheu-se da violencia deles (Gn
6.5,12,13; 8.21). Apesar de Deus
em Sua longanimidade ter conce-
dido o adiamento de cento e vin-
te anos (Gn 6.3; 1Pe 3.20) e apesar
da prega<;;ao de Noe ter apontado
para uma via de escape, a antiga
ra<;;a humana afastou-se da finali-
dade para a qual tinha sido cria-
da e pereceu nas aguas do dilu-
vio.
* * * * *
Depois desse terrivel julga-
mento, no qual Noe e sua familia
foram poupados, teve inicio uma
epoca muito diferente daquela
que tinha existido antes do dilu-
vio. 0 diluvio, como a Escritura
registra, foi urn evento unico na
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
hist6ria da humanidade e tera seu
paralelo somente na conflagra<;ao
mundial dos ultimos dias (Gn
8.21ss.). Esse diluvio e como urn
batismo que condena o mundo e
resgata os crentes (1Pe 3.19,20).
A nova dispensa<;ao foi
introduzida pela conclusao de
urn pacto. Quando, depois do di-
luvio, Noe constr6i urn altar e ofe-
rece sacrificios a Deus sobre ele,
expressando dessa forma a grati-
dao e o louvor de seu cora<;ao,
entao o Senhor diz a Si mesmo que
nunca tornara a enviar urn juizo
como esse sobre a terra e que in-
troduzira uma ordem fixa para o
curso da natureza. A considera<;ao
para essa ocasiao e que o desig-
nio intimo do homem e mau des-
de a sua mocidade (Gn 8.21). Es-
sas palavras sao muito parecidas
e ao mesmo tempo muito diferen-
tes daquelas de Genesis 6.5 onde
n6s lemos que era continuamen-
te mau todo o designio do cora-
c;:ao do homem. As palavras usa-
das em Genesis 6.5 referem-se a
condenar;ao da terra, e as usadas
em Genesis 8.21 referem-se asua
preservar;ao. No primeiro caso a
enfase cai sobre os atos maus nos
quais a corrup<;ao do cora<;ao da
antiga ra<;a humana encontrava
expressao; no segundo caso a en-
fase esta sobre a natureza rna, que
continua no homem, mesmo de-
pois do diluvio.
Parece, portanto, que o Se-
nhor nessas ultimas palavras de-
52
seja dizer que Ele sabe o que es-
perar de Suas criaturas se Ele as
abandonar aos seus pr6prios de-
feitos. 0 corac;:ao do homem, que
sempre permanece o mesmo, ex-
plode em todos os tipos de horri-
veis pecados, constantemente pro-
vocando a ira de Deus e dando-
lhe motivo para destruir o mun-
do outra vez. E isso Ele nao quer
fazer. Portanto, Ele agora estabe-
lece leis fixas para o homem e
para a natureza, prescreve urn
curso estavel para os dois, atraves
dos quais Ele pode limita-los e
cerca-los. Tudo isso acontece no
pacto que Deus estabelece com
Sua criac;:ao depois do diluvio, e
que e por isso chamado de pacto
da natureza.
Everdade que, em urn sen-
tido amplo, esse pacto nasceu da
Gra<;a de Deus. Ao mesmo tempo
ele difere em principia daquele
que e geralmente chamado de
pacto da Gra<;a e e firmado com a
Igreja de Cristo, pois esse pacto
da natureza repousa sobre a con-
siderac;:ao de que o corac;:ao do
homem e mau e permanece mau
desde a sua mocidade, em dian-
te. Ele tern como seu conteudo a
restaura<;ao da ben<;ao, dada na
criac;:ao, de multiplicar-se e domi-
nar os animais (Gn 9.1-3,7), e urn
mandamento contra o assassina-
to (Gn 9.5,6). Esse pacto foi firma-
do com Noe, o ancestral da segun-
da ra<;a humana, e tambem com
toda a cria<;ao, animada e inani-
0 VALOR DA REVELA<;:AO GERAL
mada (Gn 9.9 ss.). Esse pacto e
selado com uma manifesta~ao
natural, o arco-iris (Gn 9.12 ss.) e
seu prop6sito eevitar urn segun-
do julgamento como o diluvio, e
garantir a continuidade da exis-
tencia da ra~a humana e do mun-
do (Gn 8.21,22; 9.14-16).
* * * * *
Dessa forma a existencia do
homem e do mundo passa a des-
cansar sobre uma base firme.
Essa base nada mais eque o
ato da cria~ao e a lei da cria~ao;
esse emais urn ato do favor e da
longanimidade de Deus. Nao e
pela razao de suas ordenan~as da
cria~ao que Deus e obrigado a
conceder ao homem sua vida e
existencia, mas pelo pacto no qual
Ele se obriga a manter a Sua cria-
~ao a despeito de sua queda e re-
beliao. Pelos termos desse pacto
Deus se obriga a sustentar o mun-
do e sua vida. Nesse pacto Ele
deu Seu nome e Sua honra, Sua
verdade e Sua credibilidade, Sua
palavra e Sua promessa as Suas
criaturas como penhor da conti-
nua~ao de sua existencia. Osman-
damentos que governam o ho-
mem eo mundo sao, todavia, fir-
memente estabelecidos no pacto
de Gra~a feito com toda a nature-
za2.
Esse pacto da natureza cha-
rna a existencia uma ordem com-
pletamente diferente de assuntos
que nao existiam antes do dilu-
vio. As tremendas for~as naturais
que antigamente operavam e que
estiveram em a~ao durante o pro-
prio diluvio foram refreadas. Os
terriveis monstros que havia en-
tre as demais criaturas antes do
diluvio agora estao mortos. As
tremendas catastrofes que antiga-
mente faziam tremer todo o cos-
mos deram lugar a urn curso re-
gular de eventos. A dura~ao da
vida humana foi encurtada, a for-
~a do homem foi reduzida, sua
natureza foi suavizada, ele foi
habilitado a cumprir as exigenci-
as de uma sociedade e colocado
sob disciplina e governo. Por esse
pacto limites e restri~oes foram
impastos ao homem e a natureza.
Leis e ordenan~as apareceram em
todos os lugares. Foram criados
barragens e diques para segurar
o fluxo de iniquidades. Ordem,
medida e numero passaram a ser
caracteristicas da cria~ao. Deus
refreou o animal selvagem no ho-
mem e deu-lhe a oportunidade de
desenvolver suas habilidades e
energias na arte e na ciencia, no
estado e na sociedade, no traba-
lho e na voca~ao. Dessa forma
Deus forneceu as condi~oes neces-
sarias para viabilizar a hist6ria.
* * * * *
Gn 8.21)2; ]614.5,6; 26.10; S/119.90,91; 148.6; Is 28.24 ss.; Jr 5.24; 31.35,36; 33.20,25.
53
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Mais uma vez, contudo, essa
hist6ria e interrompida pela inter-
venc;ao da mao de Deus na confu-
sao de linguas em Babel. Depois
do diluvio a rac;a humana viveu
primeiramente na regiao de
Ararate, nas montanhas da
Armenia, e ali Noe tornou-se la-
vrador (Gn 9.20). Como as pesso-
as aumentaram em numero, uma
parte delas se espalhou pelas
margens dos rios Tigre e Eufrates,
a leste do Ararate, e assim chegou
as planicies de Sinear ou
Mesopotamia (Gn 11.2). Ali eles
criaram colonias e muito cedo,
como cresceram em riqueza e po-
der, fizeram planos de construir
uma grande torre para fazer cele-
bre o seu nome e evitar a disper-
sao do grupo. Em desobediencia
aordem de Deus de multiplicar e
dominar toda a terra, eles tenta-
ram criar urn grande centro para
manter a unidade e reunir toda a
humanidade em urn reino mun-
dial que encontraria sua susten-
tac;ao na fore;a e na glorificac;ao do
prop6sito e do esforc;o humano.
Pela primeira vez na hist6ria sur-
ge a ideia de concentrac;ao e orga-
nizac;ao de toda a humanidade
com toda a sua forc;a e sabedoria,
com toda a sua arte, ciencia e cul-
tura, contra Deus e Seu reino. Essa
ideia foi ventilada varias vezes
depois dos eventos de Babel, e sua
realizac;ao tern sido o objetivo de
todos os tipos de grandes homens
no curso da hist6ria.
54
Isso tornou necessaria a in-
tervenc;ao de Deus, fazendo com
que todo o esforc;o para o estabe-
lecimento de urn imperio mundi-
al fosse infrutifero. Deus fez isso
pela confusao das linguas, pois
nessa epoca havia apenas uma lin-
guagem. N6s nao somos informa-
dos sobre como e em que perio-
do de tempo essa confusao acon-
teceu. 0 que aconteceu foi que
pessoas fisiol6gica e psicologica-
mente diferentes umas das outras
comec;aram a ver e a dar nome as
coisas diferentemente, e em con-
sequencia eles foram divididos
em nac;oes e povos, e se dispersa-
ram em todas as direc;oes sobre
toda a terra. Devemos nos lembrar
que essa confusao de linguas foi
preparada pela separac;ao em tri-
bos e familias dos descendentes
dos filhos de Noe (Gn 10.1 ss.) e
pela migrac;ao desses descenden-
tes da Armenia para a terra de
Sinear (Gn 11.2). Toda a ideia de
uma torre de Babel nao teria sur-
gido se a ameac;a de dispersao
nao tivesse se apresentado de for-
ma seria por longo tempo.
Dessa forma, a Escritura ex-
plica o surgimento de nac;oes e
povos, e de linguas e dialetos. De
fato, a surpreendente divisao da
ras;a humana e urn fato singular e
inexplicavel. Pessoas que tiveram
os mesmos antepassados, o mes-
mo espirito e a mesma alma, com-
partilham a mesma carne e o mes-
mo sangue, comec;aram a se tra-
0 VALOR DA REVELA<;:Ao GERAL
tar como estranhos. Eles nao en-
tendiam uns aos outros e nao po-
diam comunicar-se uns com os
outros. Alem disso, a especie hu-
mana e dividida em rac;as que dis-
putam sua existencia umas com
as outras, estao determinadas a se
destruirem urnas as outras e vi-
vern, entra seculo e sai seculo, em
fria ou declarada guerra. Instinto
racial, senso de nacionalidade,
inimizade e 6dio, essas sao as for-
c;as da divisao entre os povos. Essa
e uma surpreendente punic;ao e
urn juizo terrivet e nao pode ser
desfeita por qualquer cosmopo-
litismo ou liga de paz, nem por
uma lingua universat nem por
qualquer estado mundial ou cul-
tura internacional.
Se algum dia houver nova-
mente unidade entre os seres hu-
manos, ela nao sera devida a qual-
quer reuniao externa e mecanica
em torno de uma torre de Babet
mas uma reuniao sob urn mesmo
Cabec;a (Ef 1.10), pela criac;ao pa-
cifica de todas as pessoas em urn
novo homem (Ef 2.15), pela rege-
nerac;ao e renovac;ao atraves do
Espirito Santo (At 2.6), e pelo an-
dar de todas as pessoas sob a
mesma luz (Ap 21.24).
A unidade da rac;a humana
que s6 pode ser restaurada por
uma operac;ao interna, comec;an-
do de dentro para fora, e, portan-
to, uma unidade que na operac;ao
interna daquela primeira divisao
de linguas era basicamente atra-
55
palhada. A unidade espuria esta-
va tao radicalmente organizada
que pouco poderia ser feito pela
verdadeira unidade. 0 estado
mundial foi destruido quando o
reino de Deus foi introduzido na
terra. Portanto, desse tempo em
diante as nac;oes foram separadas
e dispersas pela face da terra. E
de todas essas nac;oes Israel foi
escolhida para ser a portadora da
revelac;ao de Deus. A revelac;ao
geral e a especiat inter-relaciona-
das ate agora, sao momentanea-
mente separadas para se encontra-
rem novamente aos pes da cruz.
Israel e separado para andar nos
caminhos e mandamentos de
Deus, e o Senhor deixa as outras
nac;oes seguirem seus pr6prios
caminhos (At 14.16).
* * * * *
E claro que n6s nao pode-
mos interpretar isso de tal forma
que parec;a Deus nao se importar
com todas essas nac;oes e que as
tenha abandonado a sua propria
sorte. Tal pensamento e em si
mesmo irracionaL pois Deus e 0
Criador, o Mantenedor e Gover-
nador de todas as coisas, e nada
existe ou acontece sem Seu poder
infinito e onipresente.
Alem disso, a Escritura fala
repetidamente de algo completa-
mente oposto a negligencia de
Deus aos outros povos. Quando
o Altissimo distribuia as heranc;as
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
as nac;:oes, quando separava OS fi-
lhos dos homens uns dos outros,
fixou os limites dos povos, segun-
do o numero dos filhos de Israel
(Dt 32.8). Na repartic;:ao da terra,
Deus deu a Israel urn territ6rio
que correspondia ao numero de
israelitas; mas Ele tambem deu as
outras nac;:oes a sua heranc;:a e fi-
xou suas fronteiras. Ele de urn s6
fez toda a rac;:a humana para habi-
tar sobre toda a face da terra, pois
Ele nao a criou para ser urn caos,
mas para ser habitada (Is 45.18).
Consequentemente Ele tambem
trac;:ou os tempos que tinham sido
previamente fixados para a dura-
c;:ao dos varios povos e das fron-
teiras por eles habitadas. A dura-
c;:ao da vida e o lugar da morada
das nac;:oes foram determinadas
pelo Seu conselho e fixadas pela
Sua providencia (At 17.26).
Embora nos tempos passa-
dos Ele tenha permitido que to-
dos os povos andassem em seus
pr6prios caminhos, Ele nao os
deixou sem testemunho de Si
mesmo, fazendo o bern, dando do
ceu chuvas e estac;:oes frutlferas,
enchendo o corac;:ao deles de far-
tura e de alegria (At 14.16,17). Ele
faz nascer o sol sabre maus e
bons, e vir chuvas sabre justos e
injustos (Mt 5.45). Atraves dessa
revelac;:ao na natureza e na hist6-
ria Ele fez ouvir Sua voz no cora-
c;ao e na consciencia de todos (Sl
19.1). A todos os homens Deus
manifestou Seus atributos invisi-
56
veis por meio das coisas que fo-
ram criadas, isto e, Seu poder eter-
no e Sua divindade (Rm 1.19,20).
Embora as nac;:oes pagas nao te-
nham recebido a lei como Israel a
recebeu, e em urn sentido concre-
to eles nao possuam lei, eles de-
monstram por aquilo que fazem
que sao dirigidos pela lei de sua
natureza moral, servindo de lei
para si mesmos, e tendo a lei gra-
vada em seu corac;:ao. E isso e con-
firmado pelo testemunho de sua
propria consciencia e de seus pen-
samentos, acusando-se ou defen-
dendo-se (Rm 2.14,15).
Portanto, o sensa religioso e
moral dos gentios prova que
Deus continuou a se importar com
eles. Pelo Verbo que estava no
comec;:o com Deus e que era Deus,
todas as coisas foram feitas, e a
vida e a luz dos homens estava no
Verbo; o ser, a consciencia eo en-
tendimento dos gentios sao devi-
dos a esse Verbo, nao somente em
seu ponto de origem, mas tam-
bern pelo sustento que recebem
do Verbo de Deus, pois Ele e nao
apenas o Criador de todas as coi-
sas, mas tambem o Mantenedor e
o Governador de tudo o que ha
no mundo. Assim como Ele deu
aos homens a vida, atraves da
consciencia, razao e entendimen-
to Ele iluminou todas as pessoas
do mundo (Jo 1.3-10).
* * * * *
0 VALOR DA REVELA<;:Ao G ERAL
A hist6ria sela o testemunho
da Escritura. No cla dos descen-
dentes de Cairn todos os tipos de
inven<;6es e iniciativas vieram a
florescer logo depois da queda
(Gn 4.17 ss.), eo povo que se diri-
giu para as planicies de Sinear
logo depois do diluvio alcan<;ou
rapidamente urn elevado nivel
cultural. De acordo com Genesis
10.8, Ninrode, urn filho de Cuxe,
filho de Cam, foi o fundador do
reino de Babel. A Escritura fala
dele como de urn ca<;ador pode-
roso diante do Senhor, pois com
sua for<;a fisica incomum ele des-
truia as £eras predat6rias, fez da
planicie de Sinear urn local segu-
ro para habita<;ao e levou o povo
a estabelecer nessa regiao a sua
habita<;ao. Dessa forma ele cons-
truiu varias cidades: Babel,
Ereque, Acade e Calne, todas na
planicie de Sinear. E dali ele pe-
netrou na terra da Assiria e fun-
dou as cidades de Ninive,
Reobote-Ir, Cala e Resem.
De acordo com as Escrituras,
portanto, os mais antigos habitan-
tes de Sinear nao foram OS Semitas,
mas OS Camitas, e a recente den-
cia da Assiriologia, que se ocupa
com os escritos cuneiformes en-
contrados na Assiria, confirma
essa informa<;ao, visto que ensina
que Sinear foi ocupada original-
mente por uma tribo de Sumerios
que nao pode ser considerada
como uma parte dos Semitas. 0
que aconteceu foi que essa antiga
57
popula<;ao de Sinear foi posteri-
ormente invadida por uma migra-
<;ao de Semitas. Esses entao con-
servaram sua propria linguagem,
mas assimilaram a cultura dos
Sumerios e se misturaram com
eles, formando o povo Caldeu.
Especificamente o elemento
Semita era dominante quando
Hamurabi, o rei de Babel, talvez
o mesmo Anrafel de Genesis 14.1,
elevou Babel ao status de capital
e subjugou toda a planicie de
Sinear. 0 capitulo 10 de Genesis
expressa o mesmo pensamento,
pois, embora no versiculo 11 n6s
leiamos que Ninrode, o Camita,
tenha ido para a terra da Assiria e
fundado cidades ali, o versiculo
22 nos fala que Assur, isto e, o
povo que vivia na Assiria, esta
relacionado com Arfaxade, Lude
e Ara, ou seja, estava entre os po-
vos de Sem.
A qualidade da civiliza<;ao
que n6s encontramos na terra de
Sinear, tanto em sua ciencia e arte,
quanto em sua moralidade e ju-
risprudencia, em seu comercio e
em sua industria, e tao desenvol-
vida e avan<;ada que a maioria dos
objetos que encontramos nas es-
cava<;6es nos enche de espanto.
N6s nao sabemos exatamente
como e quando essa civiliza<;ao
floresceu, mas a ideia geral de que
quanto mais antigos, mais gros-
seiros e barbaros sao os povos que
encontramos e totalmente desa-
creditada por ela. Na medida em
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
que nos divertimos com todos os
tipos de noc;:oes fantasticas sobre
os estados selvagens dos assim
chamados povos primitives e, gui-
ados pela hist6ria, tentamos pene-
trar atraves do passado. Confir-
mamos assim o relato da Escritu-
ra de que o mais antigo periodo
da civilizac;:ao depois de Noe, sob
a lideranc;:a de homens como
Ninrode, alcanc;:ou urn elevado
nivel cultural.
Alem disso, essa civilizac;:ao
nao permaneceu confinada ater-
ra de Sinear. Como a especie hu-
mana se espalhou mais e mais
depois da confusao das linguas,
os povos se instalaram por todas
as partes da terra. Dessa forma al-
gumas tribos foram se afastando
cada vez mais do centro de cultu-
ra e civilizac;:ao, fixando suas resi-
dencias em terras selvagens e hos-
tis da Europa, Asia e Africa. Nao
e de se admirar que essas tribos e
povos, vivendo isoladamente, te-
nham cortado todo o comercio
com outras nac;:oes e,lutando sem-
pre contra uma natureza selvagem
e indisciplinada, tenham estagna-
do seu desenvolvimento cultural
ou, em alguns casos, tenham ate
regredido. Nos estudos hist6ricos
n6s nos referimos a esses povos
como "povos primitives", mas tal
designac;:ao e enganosa e incerta,
pois entre todos esses povos n6s
encontramos as caracteristicas e
propriedades que sao os elemen-
tos basicos da civilizac;:ao. Todos
58
eles sao Seres humanos distintos
dos nao humanos; todos eles pos-
suem consciencia e vontade, razao
e entendimento, familia e comu-
nidade, ferramentas e ornamen-
tos.
Outro ponto que deve ser
considerado e que nao existem
muitas diferenc;:as entre essas na-
c;:oes que nos permitam distingui-
las como civilizadas e nao civili-
zadas. Ha uma diferenc;:a marcante
entre a cultura dos aborigenes sul
africanos, a populac;:ao da
Polinesia e as rac;:as negr6ides. In-
dependente disso, todavia, eles
possuem urn fundo comum de
ideias, tradic;:oes - relacionadas
ao diluvio, por exemplo- mem6-
rias e esperanc;:as. Isso aponta para
uma origem comum.
Isso acontece tambem com
os assim chamados "povos civili-
zados", como os hindus, os chi-
neses, os fenicios e os egipcios. As
fundac;:oes do pano de fundo
mundiat o Weltanschauung, que
n6s encontramos entre todos es-
ses povos, sao os mesmos que
chamaram nossa atenc;:ao nas es-
cavac;:oes de Sinear. Essa e a ori-
gem da cultura, o ber<;:o da rac;:a
hurnana. Foi a partir da Asia cen-
tral que a especie hurnana se es-
palhou; e foi a partir desse centro
cultural que ela adquiriu os ele-
mentos culturais que sao comuns
aos povos civilizados, e que cada
um deles independentemente e
de sua propria forma procurou
0 VALOR DA REVELA<;:Ao GERAL
desenvolver. A antiga cultura da
Babilonia, com sua escrita, sua
astronomia, sua matematica, seu
calendario, e coisas semelhantes,
e a base sobre a qual nossa cultu-
ra foi construida.
* * * * *
Contudo, quando n6s revi-
samos toda a hist6ria da civiliza-
<;ao de urn ponto de vista religio-
so-moral, n6s observamos urn
profunda senso de insatisfa<;ao e
desilusao. 0 ap6stolo Paulo dis-
se que os gentios, conhecendo
Deus atraves de Sua revela<;ao
geral, nao o glorificaram como
Deus e nem lhe deram gra<;as, an-
tes tornaram-se nulos em seus
pr6prios raciodnios, obscurecen-
do-lhes o cora<;ao insensato. Incul-
cando-se por sabios, tornaram-se
loucos e mudaram a gloria do
Deus incorruptivel em semelhan-
<;a da imagem de homem corrup-
tive!, bern como de aves,
quadnipedes e repteis (Rm 1.21-
23). Uma investiga<;ao hist6rica
imparcial das religi6es de varios
povos nos conduz a mesma con-
clusao. E possivel que alguem,
com a ajuda de uma falsa filoso-
fia, estude as varias formas de re-
ligiao e encontre a essencia nebu-
losa da religiao nos sentimentos
do homem, e assim obscure<;a a
seriedade da conclusao do ap6s-
tolo Paulo. Mas o fato permanece
o mesmo: a especie humana, ao
59
longo da hist6ria da civiliza<;ao,
nao tern glorificado a Deus, nem
tern sido grata a Ele.
Ate mesmo entre os mais
antigos habitantes das planfcies
de Sinear n6s encontramos o cui-
to a criatura e nao ao Criador. De
acordo com alguns estudiosos, a
ideia da base da religiao
babilonica, assim como a base de
outras religi6es, e a ideia da sin-
gularidade de Deus, e nao ha du-
vida de que tal concep<;ao da di-
vindade deve ter existido antes
mesmo da divindade ser aplica-
da as criaturas. A religiao da
Babilonia consistia na glorifica<;ao
de todos os tipos de criaturas.
Elas eram consideradas como
deuses. Como ocorreu essa tran-
si<;ao da glorifica<;ao do unico e
verdadeiro Deus para a glorifica-
<;ao de criaturas, n6s nao sabemos
devido a £alta de dados hist6ricos.
Contudo, sabemos que e im-
provavel e arbitrario dizer que a
religiao se desenvolveu a partir
do polidemonismo (a glorifica<;ao
de todos os tipos de almas e espi-
ritos: fetichismo, animismo e
totemismo) para a forma de
politeismo (a glorifica<;ao de to-
dos os tipos de coisas boas) ate
chegar ao monoteismo (a glorifi-
ca<;ao de urn unico Deus). Em lu-
gar nenhum n6s vemos que tal de-
senvolvimento tenha acontecido.
Israel e a unica exce<;ao. 0 que a
hist6ria nos ensina e que 0 ho-
mem caiu da glorifica<;ao de urn
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
unico Deus para a glorifica<;ao de
varios deuses: n6s testemunha-
mos isso na hist6ria de Israel, na
hist6ria de muitas igrejas cristas
e tambem na epoca em que vive-
mos. Quando a cren<;a em urn s6
Deus e abandonada, todos as es-
pecies de ideias politeistas e pra-
ticas supersticiosas logo apare-
cem.
Alem disso, nao ha meios de
se fazer diferen<;a entre a "alta" e
a "baixa" religiao, entre a religiao
dos assim chamados povos civi-
lizados e nao civilizados, como
geralmente se alega. As mesmas
ideias e praticas, apenas com a for-
ma modificada, sao observadas
entre todos os povos pagaos; e
essas ideias e praticas existem
tambem nas chamadas na<;6es
cristas. Com a decadencia do Cris-
tianismo nos drculos modernos
essas mesmas ideias e praticas
sao agora revividas.
Quais sao essas ideias e pra-
ticas? Antes de mais nada, ha a
idolatria eo culto a imagens. Isso
existe entre todos os povos. A ido-
latria e a coloca<;ao de qualquer
coisa no lugar que pertence so-
mente ao unico e verdadeiro
Deus, ou ao lado dEle, e a coloca-
<;ao da confian<;a nessa coisa. As
vezes os idolos sao criaturas, o
firmamento, por exemplo, como
o sol, a lua e as estrelas, como na
religiao babilonica, que e, portan-
to, apropriadamente chamada de
religiao astral; as vezes os idolos
60
sao her6is, genios ou grandes ho-
mens, considerados como urn tipo
de seres intermediaries, os medi-
adores entre os deuses e os ho-
mens, como acontece, por exem-
plo, no culto dos gregos; as vezes
eles sao ancestrais que, depois de
sua morte, passaram para urn di-
ferente e mais elevado estado de
existencia, como na religiao chi-
nesa, que glorifica seus patriarcas;
algumas vezes esses id6latras
substituem Deus por urn ou ou-
tro animal, como urn crocodile,
por exemplo, adorado no Egito;
ou- para especificar mais urn tipo
de idolatria - algumas vezes al-
mas e espiritos sao considerados
como inquilinos de algumas cria-
turas animadas ou inanimadas,
constituindo, assim, urn objeto de
culto nas religioes de povos civi-
lizados e nao civilizados.
Independente da forma de
idolatria considerada, ela sempre
representa uma adora<;ao a cria-
tura e nao ao Criador. A distin<;ao
entre Deus e o mundo e perdida.
A santidade de Deus, que e Sua
distinc;:ao, e Sua absoluta trans-
cendencia de toda criatura - foi
isso que os gentios esqueceram.
Em segundo lugar, todos os
tipos de falsas ideias sobre o ho-
mem eo mundo acompanham a
idolatria. Entre os gentios, a reli-
giao nao e algo independente, que
se mantem por si mesma, mas esta
intimamente relacionada com
toda a vida do adorador, com o
0 VALOR DA REVELA<;:AO GERAL
estado e a sociedade, com a arte e
a ciencia. Em lugar nenhum n6s
encontramos uma religiao que
consista meramente de atitudes e
estados de espirito. A religiao,
que e 0 relacionamento do ho-
mem com Deus, governa todas as
outras rela<;6es, e portanto impli-
ca em uma visao definitiva do
homem e do mundo, e da origem,
essencia e prop6sito das coisas.
As ideias religiosas que acompa-
nham a cren<;a nos deuses sempre
possui urn sentido no passado e
no futuro. Ha reminiscencias do
paraiso e expectativas futuras em
todas as religioes, e ha ideias so-
bre a origem eo futuro do homem
e do mundo. Ha no<;6es de uma
era dourada que existiu no come-
<;o, seguida por epocas de prata,
ferro, barro e ha no<;6es da imor-
talidade do homem, da vida de-
pois da morte, e do julgamento
que no fim ocorrera para todos, e
de uma diferen<;a de status entre
o justo e o injusto, quando isso
acontecer. Em muitas religi6es
essas varias ideias recebem enfa-
ses diferentes. A religiao chinesa
olha para o passado e cultua seus
ancestrais; a religiao egipcia olha-
'a para o futuro, preocupada com
a morte, e era de fato uma religiao
da morte. Mas em todas as religi-
6es, em umas mais, em outras
menos, esses elementos sao en-
contrados.
Todas essas representa<;6es
religiosas tern em comum o fato
61
de misturarem o componente da
verdade com todo tipo de erro e
loucura. A linha entre o Criador e
a criatura foi apagada, e, portan-
to, a fronteira entre o mundo e o
homem, entre a alma e o corpo,
entre o ceu eo inferno, em lugar
nenhum tern sido posicionada
corretamente. 0 fisico e o moral,
o material e o espiritual, o terre-
no eo celestial, tern sido confun-
didos e misturados uns aos ou-
tros. Na ausencia de urn senso de
santidade de Deus ha a ausencia
correspondente de urn senso de
pecado. 0 mundo do paganismo
nao conhece Deus, nao conhece o
mundo e o homem, e nao conhe-
ce o pecado e a miseria.
Em terceiro lugar, todas as
religi6es das na<;6es sao caracte-
rizadas pelo esfor<;o de se alean-
<;ar a salva<;ao pelo exercicio da
for<;a humana. A idolatria natural-
mente conduz a uma religiao
antropocentrica. Quando o culto
de urn unico Deus e abandonado,
e nao ha uma revela<;ao hist6rica
e objetiva a qual recorrer, o ho-
mem tenta fazer com que os deu-
ses ou espiritos que ele mesmo in-
ventou se revelem. A idolatria e
sempre acompanhada de supers-
ti<;ao, predi<;6es e magia. Adivi-
nha<;ao e o nome dado ao esfor<;o
que alguem faz, por sua propria
conta, ou com a ajuda de sacerdo-
tes, adivinhos, oraculos divinos
ou coisas semelhantes, e por meio
da astrologia, da interpreta<;ao de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sonhos, e outras estratt~gias para
conhecer a vontade dos deuses.
Magia e o nome dado ao esfon;:o
feito por meio de orac;oes
formalisticas, sacrificios volunta-
rios, flagelos e praticas similares
para fazer com que a vontade dos
deuses seja aplicavel a alguem.
Naturalmente essas coisas
tambem sao manifestas de formas
variadas. Contudo elas estao sem-
pre presentes nas religi6es e cons-
tituem urn componente necessa-
ria a religiao dos gentios. 0 ho-
mem e a figura central e e ele
quem procura obter sua salvac;ao.
Em nenhuma dessas religi6es a
real natureza da redenc;ao (recon-
ciliac;ao) e da Grac;a sao compre-
endidas.
* * * * *
Embora esse esboc;o sirva
para caracterizar as religi6es pa-
gas de forma geral, em muitas
delas tern ocorrido modificac;6es
que merecem nossa atenc;ao e con-
siderac;ao. Quando por urn lado
a religiao de urn povo perde seu
carater em todos os tipos de for-
mas de superstic;ao e adivinhac;ao
grosseiras, e por outro lado a cul-
tura ou civilizac;ao se desenvolve,
urn conflito esta prestes a aconte-
cer. E fora dessa divergencia, sem
d uvida sob a providencia de
Deus, ha aqueles homens que lu-
tam por uma reconciliac;:ao e ten-
tam tirar a religiao de sua profun-
62
da degenerac;ao. Urn desses ho-
mens foi Zarathustra, que viveu
na Persia provavelmente no seti-
mo seculo antes de Cristo. Outro
foi Confucio, na China, no sexto
seculo antes de Cristo. Outro foi
Buda, na India, no quinto seculo
antes de Cristo e Maome, na
Arabia, no setimo seculo depois
de Cristo. Existiram muitos ou-
tros, nem todos conhecidos pelo
nome.
Nao pode haver diferenc;a de
opiniao sobre o fato de que a reli-
giao fundada por esses homens e
em muitos aspectos muito supe-
rior as religi6es tribais nas quais
eles foram criados. As hip6teses
de evoluc;ao e de degenerac;ao
apresentam-se, ambas, na religiao
e em todas as outras areas da cul-
tura, muito parciais e inadequa-
das para prestar contas da pleni-
tude de evidentes manifestac;oes
em todas elas, ou pelo menos
para prestar contas por meio de
qualquer formulac;ao. Periodos de
desenvolvimento e de decaden-
cia, de avivamento e de recaida
sao constantes na hist6ria de to-
dos os povos e em todas as esfe-
ras da vida.
Alem disso, nao pode ser
dito que esses homens foram em-
busteiros, instrumentos ou agen-
tes de Satanas. Eles foram homens
serios e em sua propria alma lu-
taram contra os conflitos que sur-
giram na fe popular ou tribal e em
suas pr6prias consciencias ilumi-
0 VALOR DA REVELA<;:Ao G ERAL
nadas. Pela luz que lhes foi con-
cedida eles lutaram por uma for-
ma melhor pela qual pudessem
obter a verdadeira felicidade.
Da mesma forma, embora
seu merito deva ser reconhecido,
essas reformas religiosas fizeram
diferen<;a somente em grau, e nao
no tipo de idolatria do povo. De
fato, esses homens cortaram os
galhos selvagens da arvore da fal-
sa religiao. Mas eles nao a arran-
caram. Zarathustra em sua prega-
<;:ao real<;:ou o contraste entre o bern
eo mal, mas admitiu esse contras-
te como sendo nao simplesmente
etico, mas primariamente fisico
em seu carater. Portanto, ele foi
fon;:ado a distinguir entre urn born
Deus e urn mau Deus, e assim
criou o dualismo que se estendeu
a todas as coisas no mundo natu-
ral, humano e animal, e que tern
o efeito pratico de mutilar a vida.
0 confucionismo foi uma religiao
do Estado, composta de outros
elementos religiosos alem dos
seus pr6prios e que combinou em
si mesmo o culto aos deuses na-
turais e aos ancestrais. 0 budis-
mo, em seu inicio, nao foi uma
religiao, mas uma filosofia que
postulava o sofrimento como a
fonte do male a existencia como
a fonte do sofrimento e que, por-
tanto, recomendava abstinencia, o
entorpecimento da consciencia, e
a aniquila<;ao do ser como forma
3e salva<;ao. E Maome, que co-
:1hecia o cristianismo e o judais-
63
mo, e que por meio de sua arden-
te fe em urn julgamento proximo
que, como estava convencido, cer-
tamente alcan<;aria seus contem-
poraneos materialistas, chegou a
confissao de urn unico Deus, ere-
alizou uma reforma religiosa e
moral. Mas em sua vida pessoal
o pregador da religiao foi dando
lugar a urn estadista e legislador,
e a religiao que ele fundou nao
promoveu a uniao entre Deus e o
homem, pois ela nao entendia a
causa da separa<;ao nem a forma
de reconcilia<;ao. Para Maome a
salva<;ao dos ceus consiste em
uma total satisfa<;ao dos desejos
sensua1s.
* * * * *
Quando, portanto, n6s pas-
samos os olhos em todo o terreno
da revela<;ao geral, descobrimos,
por urn lado, que ela tern sido de
grande valor e que tern produzi-
do ricos frutos e, por outro lado,
a especie humana nao encontrou
Deus atraves dela. Egra<;as are-
vela<;ao geral que algum senso re-
ligioso e etico esta presente em
todos OS homens; tambem, egra-
<;as a ela que eles ainda possuem
alguma consciencia de verdade e
mentira, de bern e mal, de justi<;a
e injusti<;a, de beleza e de feiura;
que eles vivem em rela<;oes ma-
trimoniais, em familia, em comu-
nidade e Estado; que eles estao
seguros pelo refreamento da de-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
genera<;ao e da bestialidade; que,
dentro de seus limites, eles se ocu-
pam com a produ<;ao, distribui-
c;ao e o prazer de todos os tipos
de bens materiais e espirituais.
Em resumo, a especie humana
pela revelac;ao geral e preservada
em sua existencia, mantida em
sua unidade e habilitada a conti-
nuar e desenvolver sua hist6ria.
Apesar disso, a verdade,
como disse Paulo, e que na sabe-
doria de Deus, o mundo nao o
conheceu por sua propria sabedo-
ria (1Co 1.21). A luz da revela<;ao
geral o mundo acumulou um te-
souro de sabedoria referente as
coisas da vida terrena. Essa sabe-
64
doria do mundo faz com que ele
seja indesculpavel, pois ela pro-
va que nao carece a rac;a humana
de tais dadivas de Deus, como
mente e razao, habilidade racio-
nal e moral. A sabedoria do ho-
mem demonstra que ele, por cau-
sa da escuridao de sua mente e do
endurecimento de seu cora<;ao
nao usou corretamente as dadivas
que lhe foram dadas.
A luz brilhou nas trevas,
mas as trevas nao a compreende-
ram (Jo 1.5). 0 Verbo estava no
mundo, mas o mundo nao o co-
nheceu (Jo 1.10). Em toda a sua
sabedoria o mundo nao conheceu
Deus (1Co 1.21).
CAPITULO
~
A QuEsTAo DA REVELA<;Ao EsPECIAL
A
inadequa<;;ao da revela-
<;;ao geral demonstra a ne-
cessidade da revela<;;ao
especial.
Essa necessidade deve ser
entendida corretamente. Ela nao
significa que Deus foi obrigado ou
fon;ado, seja internamente pela
razao de Seu ser, seja externamen-
te pelas circunstancias, a revelar-
se de uma forma especial. Toda
revela<;;ao, especialmente aquela
que vern a n6s em Cristo, atraves
das Escrituras, e urn ato da Gra<;;a
de Deus, urn livre uso da Sua von-
tade, e uma manifesta<;;ao de Seu
imerecido favor. Portanto, n6s po-
demos falar da necessidade ou da
indispensabilidade da revela<;;ao
especial somente no sentido de
que tal revela<;;ao esta indis-
soluvelmente conectada com o
prop6sito que Deus em Si mesmo
designou para Sua cria<;;ao. Se o
prazer de Deus e restaurar a cria-
65
<;;ao devastada pelo pecado e re-
criar o homem a Sua imagem e
faze-lo viver definitivamente na
eterna bem-aventuran<;;a dos ceus,
entao uma revela<;;ao especial e
necessaria. Para esse prop6sito a
revela<;;ao geral e inadequada.
Contudo, nao e esse prop6-
sito o grande motivo que faz com
que uma revela<;;ao especial seja
necessaria, pois quando n6s ve-
mos e reconhecemos a inade-
qua<;;ao da revela<;;ao geral para
esse destino do mundo e do ho-
mem, n6s vemos tambem que
devemos essa convic<;;ao arevela-
<;;ao especial. Pela natureza n6s
consideramos a n6s mesmos e
nossas habilidades, o mundo e
seus tesouros, suficientes para
nossa salva<;;ao. As religioes pagas
nao fogem a essa regra, pelo con-
trario, confirmam-na. E verdade
que todas elas falam de sacerdo-
tes, videntes, oraculos e coisas
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
semelhantes, e apelam a eles
como guardiaes de uma revela-
c;ao especial. Esse fato em si mes-
mo e uma forte evidencia para a
tese de que a revelac;ao geral e
inadequada, e que todos sentem
em seu corac;ao a necessidade de
uma diferente e mais profunda
revelac;:ao de Deus do que aquela
que a natureza e a hist6ria podem
dar. Mas essas revelac;:oes especi-
ais, as quais o paganismo recorre
claramente, demonstram tambem
que o homem, que perdeu a ami-
zade com Deus, nao pode enten-
der Sua revelac;:ao na natureza e
que por isso ele tateia procuran-
do por Deus em seus pr6prios
caminhos. Isso o afasta cada vez
mais do conhecimento da verda-
dee o conduz a uma dura escra-
vidao a servic;o da idolatria e da
injustic;:a (Rm 1.20-32).
Consequentemente, a reve-
lac;:ao especial de Deus e necessa-
ria tambem para urn correto en-
tendimento de Sua revelac;:ao ge-
ral na natureza e na hist6ria, no
corac;:ao e na consciencia. N6s pre-
cisamos dela para purgar o con-
teudo da revelac;:ao geral de todo
tipo de erro humano e assim dar
a revelac;ao geral o seu justo va-
lor. Equando n6s nos submete-
mos aluz das Escrituras que co-
mec;:amos a reconhecer que a re-
velac;ao geral tern urn rico signifi-
cado para toda a vida humana, e
que, todavia, toda essa sua rique-
za e insuficiente e inadequada
66
para alcanc;:ar o fim genuino do
homem.
Se, portanto, no intuito de
facilitar o discernimento, n6s fa-
lamas primeiro da revelac;:ao ge-
ral e de sua insuficiencia, e n6s
agora falaremos da revelac;:ao es-
pecial, esse modo de tratar o as-
sunto nao deve nos fazer pensar
que enquanto tratavamos da reve-
lac;ao geral deixavamos de lado a
revelac;:ao especial. Pelo contrario,
fomos guiados pela revelac;:ao es-
pecial tambem quando tratava-
mos da revelac;ao gerat e ela der-
ramou sua luz sobre nossa apro-
ximac;:ao do problema.
Portanto, nesse estudo da
revelac;ao especial que faremos
agora, nossa proposta nao e con-
duzir a investigac;:ao pelas assim
chamadas pressuposic;:oes. N6s
nao devemos, como fazem os
cepticos de nossos dias, atraves-
sar uma gama de varias religioes
para verse nelas podemos encon-
trar a revela<;:ao especial de Deus
que nosso cora<;:ao requer. 0 fato
de n6s conhecermos as falsas re-
ligioes como sendo falsas, e de
termos aprendido que a idolatria
e o culto a imagens, a feiti<;:aria e
a adivinha<;:ao, a incredulidade e
a supersti<;:ao, quer elas se apre-
sentem de forma grosseira ou re-
finada, como sendo pecaminosas
- esse fato e devido a revela<;:ao
especial que nos e concedida em
Cristo. N6s, portanto, estaremos
deliberadamente nos desfazendo
A QuEsTAaDA REVELA<;:Ao EsPECIAL
da luz que nos ilumina, se colo-
carmos a revela<;ao especial de
lado ou se nao a levarmos em con-
ta, mesmo que seja temporaria-
mente ou como urn recurso
metodol6gico. Fazer isso seria
provar que n6s amamos mais as
trevas do que a luz para que nao
aconte<;a que nossos pensamentos
e atos sejam manifestos (Jo 3.19-
21).
A revela<;ao geral pode, de
fato, demonstrar a necessidade de
uma revela<;ao especial. Ela pode
apresentar alguns fortes motivos
que justifiquem essa revela<;ao,
pois se algw:'m nao se afasta com
o materialismo e o panteismo ne-
gando praticamente toda a revela-
<;ao, e em vez disso ele realmente
ere na existencia de urn Deus pes-
soal que fez o mundo, que deu ao
homem uma alma imortal e des-
tinou-o a salva<;ao eterna, e que
ainda sustenta e domina todas as
coisas pela Sua providencia, en-
tao nao ha razao fundamental para
que exista uma revela<;ao especi-
al. A Cria<;ao e revela<;ao, urna re-
vela<;ao muito especiat absoluta-
mente sobrenatural e maravilho-
sa. Quem quer que seja que acei-
te a ideia da Cria<;ao reconhece,
em prindpio, a possibilidade de
toda a revela<;ao posterior, inclu-
sive a da encarna<;ao do Verbo.
Mas qualquer revela<;ao geral que
possa contribuir para a causa da
necessidade e possibilidade de
uma revela<;ao especiat nada
67
pode dizer sobre a realidade des-
sa revela<;ao especial, pois ela
descansa inteiramente na livre
vontade de Deus. A realidade da
revela<;ao especial pode ser de-
monstrada somente atraves de
sua propria existencia. Esomen-
te atraves de sua luz que ela pode
ser vista e reconhecida.
* * * * *
Essa revela<;ao especiat na
qual Deus nos fala primeiro atra-
ves dos profetas e depois atraves
de Seu Filho (Hb 1.1,2), e que n6s
nao aceitamos em consequencia
de argumentos e evidencias, mas
com uma fe infantit permanece
em continuo relacionamento com
a revela<;ao gerat mas ao mesmo
tempo e essencialmente diferen-
te dela. Essa diferen<;a ja foi men-
cionada anteriormente, mas sera
tratada com mais delonga especi-
almente quanto ao modo pelo qual
ela acontece, ao conteudo que ela
compreende e ao prop6sito a que
ela visa.
0 modo pelo qual a revela-
<;ao especial e dada nao e sempre
o mesmo, mas difere em fun<;ao
dos meios que Deus usa para isso.
Portanto ela e caracterizada por
varios nomes, como apari<;ao, re-
vela<;ao, proje<;ao, fazer-se conhe-
cido, proclama<;ao, ensino e ou-
tros termos semelhantes. A
especifica<;ao dizer e especialmen-
te curiosa. As Escrituras empre-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
gam essa palavra para as obras de
Deus na cria~ao e na providencia.
Disse Deus: Haja luz. E houve luz
(Gn 1.3). Os ceus por Sua Palavra
se fizeram e, pelo sopro de Sua
boca, o exercito deles (Sl 33.6).
Pois Ele falou e tudo se fez; Ele
ordenou, e tudo passou a existir
(Sl33.9). Ouve-se a voz do Senhor
sobre as aguas; troveja o Deus da
gloria. A voz do senhor quebra os
cedros. A voz do Senhor despede
chamas de fogo. A voz do Senhor
apavora e destroi o inimigo (Sl
29.3-9; 104.7; Is 30.31; 60.6).Todas
essas obras de Deus na cria~ao e
na providencia podem ser chama-
das de voz ou dizeres porque o Se-
nhor Deus e urn ser pessoat cons-
ciente e pensante, que traz todas
as coisas aexistencia pela palavra
de Seu poder, e que poe os pen-
samentos na cabe~a do homem,
que, sendo Sua imagem e seme-
lhan~a, pode entende-los e
interpreta-los. Deus certamente
tern algo a dizer ao homem em Sua
obras.
Ha urn pequeno desacordo
sobre essa voz de Deus nas obras
de Suas maos. Muitos que negam
a revela~ao especial, apesar dis-
so gostam de falar sobre a revela-
c;ao de Deus na criac;ao. Entre os
que fazem isso ha uma diferen~a
consideravel. Alguns encontram a
maior parte dessa revela~ao na
criac;ao, enquanto outros encon-
tram a maior parte dessa revela-
c;ao na historia de homens famo-
68
sos, e outros a encontram na his-
toria das religioes e dos lideres de
varios segmentos religiosos. Alem
disso, ha aqueles que enfatizam a
revelac;ao que vern ao homem
pelo lado de fora, seja na nature-
za ou na historia, enquanto outros
enfatizam a que eencontrada den-
tro do proprio homem, em seu
cora~ao, em sua mente e em sua
consciencia. Cada vez mais vai
ganhando terreno em nossos dias
o pensamento de que a revela~ao
e a religiao estao intimamente re-
lacionados, que ambas possuem
o mesmo contet1do e que sao ape-
nas os dois lados de uma mesma
moeda. A revela~ao, dessa forma,
econsiderada como o elemento
divino e a religiao como o elemen-
to humano na rela~ao de Deus
com o homem. A ideia e que Deus
se revela ao homem para que ele
tenha uma religiao, e o homem
possui mais religiao na medida
em que Deus se revela a ele.
Essa ideia tern sua origem
no panteismo, que identifica Deus
e o homem, e portanto identifica
tambem a revelac;ao e a religiao.
Aqueles que aderem a esse pan-
to de vista dificilmente poderao
falar de qualquer revela~ao real
de Deus, seja na natureza e na his-
toria, ou no mundo e no homem,
pois a revela~ao, quando correta-
mente compreendida, assume,
como mencionamos acima, que
Deus e consciente de Si mesmo,
que Ele conhece a Si mesmo, e
A QuEsTAo DA REYELA<;:Ao EsPECIAL
que portanto Ele pode, a Seu bel
prazer, partilhar o conhecimento
de Si mesmo com Suas criaturas.
No panteismo a auto consciencia
de Deus e Seu auto conhecimen-
to e cognoscibilidade sao nega-
das. No panteismo Deus e nada
mais que a essencia de todas as
coisas em todas as coisas. Conse-
qiientemente, o panteismo pode
falar somente de uma inconscien-
te e involuntaria manifesta<;:ao ou
obra de Deus. Tal manifesta<;:ao
ou obra de Deus nao seria e nao
poderia ser apresentada amente
humana na forma de pensamen-
tos, ideias ou conhecimento de
Deus, ela poderia apenas excitar
alguns humores, afei<;:oes, ou ati-
tudes no cora<;:ao humano. Cabe-
ria ao homem assimilar essas afei-
<;:6es, em completa independencia
e liberdade, e de acordo com seu
desenvolvimento cultural e edu-
cacional, transforma-los em pala-
vras. Praticamente isso faz com
que a religiao, tanto para toda a
especie humana quanto para o
individuo, seja urn processo pelo
qual Deus toma consciencia de Si
mesmo e adquire conhecimento
de Si mesmo. Dessa forma Deus
nao fala ao homem, nem se reve-
la ao homem. Eo homem que re-
vela Deus a Si mesmo, fazendo
com que Ele se conhe<;:a.
Se essa linha panteista de
pensamento ainda faz uso dos ter-
mos revelar;fio, voz de Deus e outros
termos semelhantes, ela os empre-
69
ga nao por sua propria filosofia,
pois nela nao ha lugar para isso,
mas por aquele outro mundo e
outro ponto de vista encontrado
nas Escrituras. Dessa forma o
panteismo falsifica esses termos.
0 que a Escritura chama de reve-
la<;:ao geral de Deus e urn pronun-
ciamento de Deus, pois essa reve-
la<;:ao procede da ideia de que
Deus realmente tern algo a dizer
nessa revela<;:ao e Ele de fatoo faz.
A Escritura tambem ensina que
Deus eo homem sao seres distin-
tos, e que a religjao e a revela<;:ao
tambem sao distintas. Se Deus
tern Seu proprio pensamento e co-
nhece a Si mesmo, e se Ele tern
dado expressao a esse pensamen-
to em maior ou menor propor<;:ao
em Suas obras, entao a possibili-
dade permanece real de que o
homem, por causa de sua mente
obscurecida, entenda equivoca-
damente esses pensamentos de
Deus e se torne nulo em seu pro-
prio entendimento. Desse modo
a religiao poderia tanto ser o ou-
tro lado da revela<;:ao, quanto tor-
nar-se uma culpada e errada in-
terpreta<;:ao dela.
* * * * *
Ao interpretar a revela<;:ao
geral do jeito que ela interpreta e
ao usar a figura da voz de Deus, a
Escritura mantem aberto o cami-
nho para uma posterior e mais
essencial pronuncia<;:ao da parte
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
de Deus em Sua revela<;:ao espe-
cial. Toda a Escritura nos apre-
senta Deus como sendo aquele
que e consciente de Si mesmo,
como urn ser que pode pensar e
falar. Observe a questao levanta-
da no Salmo 94.9: "0 que fez o
ouvido, acaso nao ouvira? Eo que
formou OS olhos sera que nao en-
xerga?". Essa questao poderia, de
acordo com o sentido dado pelo
Espirito Santo, ser parafraseada
da seguinte forma: "Aquele que
se conhece perfeitamente nao po-
deria transmitir conhecimento de
Si mesmo as Suas criaturas?".
Quem quer que negue essa pos-
sibilidade estara negando nao
apenas o Deus da regenera<;:ao,
mas tambem o Deus da cria<;:ao e
da providencia, como a Escritura
o revela a n6s. Da mesma forma,
quem quer que entenda a revela-
<;:ao geral no born, isto e, no senti-
do Escritur:fstico, perde o direito
de levantar objec;oes a voz de
Deus em Sua revela<;:ao especial.
Deus pode revelar-se a Si mesmo
de uma forma especial porque
Ele o faz de uma forma geral. Ele
pode falar em urn sentido literal
porque tambern pode falar em urn
sentido metaf6rico. Ele pode ser
o Recriador porque Ele e o Cria-
dor de todas as coisas.
A grande diferenc;a entre
essa pronuncia<;ao da parte de
Deus na revela<;ao geral e, aquela
na revela<;:ao especial e que, na
primeira Deus deixa o homem
70
encontrar por si mesmo Seus pen-
samentos nas obras de Suas maos
e na segunda, Ele mesmo da ex-
pressao direta a esses pensamen-
tos e dessa forma OS oferece a
mente do homem. Em Isaias 28.26
n6s lemos que Deus instrui o la-
vrador, ensinando-o a fazer o seu
trabalho. Mas essa instruc;ao nao
vern ao lavrador por escrito, em
algumas palavras, nem na forma
de li<;5es escolares; e urn
ensinamento que esta contido e
expresso nas leis da natureza, nas
caracteristicas do are do solo, do
tempo e do lugar, do grao e do
cereal. 0 que o lavrador deve fa-
zer e conscientemente esfor<;ar-se
para aprender todas essas leis da
natureza, e dessa forma aprender
a li<;ao que Deus lhe ensina. Em
seu esfor<;o ele esta sujeito ao en-
gano e ao erro, mas quando ele
aprende adequadamente esse en-
sino ele deve agradecer a Deus,
de quem procedem todas as boas
dadivas e que e grande em con-
selho e realiza<;5es.
Na revela<;ao geral tal ensi-
no e adequado ao seu prop6sito.
0 que Deus quer fazer atraves
dEle e incitar 0 homem a procura-
lo, senti-lo e encontra-lo (At 17.27),
e, nao o encontrando, ser
indesculpavel (Rm 1.20). Mas em
Sua revela<;ao especial Deus tern
compaixao do homem que esta
extraviado e que por isso nao
pode encontra-lo. Nessa revela<;ao
Deus procura o homem e Ele mes-
A QUESTAO DA REVELA<;:Ao ESPECIAL
mo fala ao homem quem e o que
Ele e. Ele nao permite que o ho-
mem deduza e infira de urn gru-
po de fatos quem Deus e. Ele mes-
mo fala ao homem nessas pala-
vras: "Eu sou Deus". E verdade
que na revela<;_:ao especial Deus
tambem usa os fatos da natureza
e da hist6ria para revelar-se em
Suas muitas excelencias. E esses
fatos, que muitas vezes sao mila-
gres, nao sao apenas urn suple-
mento ou urn adendo, mas urn
elemento indispensavel na reve-
lac;ao. Porem, esses nao sao me-
ros fatos cuja interpretac;ao e dei-
xada por nossa conta. Em vez dis-
so eles estao rodeados por todos
os lados pela Palavra de Deus.
Eles sao precedidos por essa Pa-
lavra, sao acompanhados por ela
e sao seguidos por ela. 0 conteu-
do central da revela<;;ao especial e
a pessoa e obra de Cristo. Esse
Cristo e anunciado e descrito se-
culos antes no Velho Testamento,
e quando Ele aparece e completa
Sua obra, Ele e novamente inter-
pretado e explicado nos escritos
do Novo Testamento. A revelac;ao
especial, consequentemente, se-
gue a linha que nos conduz ate
Cristo, mas em paralelo com ela e
em conexao com ela, essa revela-
c;ao nos conduz as Escrituras, que
sao a Palavra de Deus.
For essa razao, a revela<;;ao
especial pode ser mais propria-
mente chamada de fala do que a
revela<;;ao geral, apesar desta po-
der ser tambem assim designada.
0 primeiro versiculo da epistola
aos Hebreus compreende toda a
revela<;ao de Deus, tanto no Ve-
lho quanto no Novo Testamento,
os profetas eo Filho, no seguinte
termo: falado. Mas Ele imediata-
mente acrescenta que essa revela-
<;_:ao foi dada muitas vezes e de
muitas maneiras. A primeira ex-
pressao, "muitas vezes", significa
que a revelac;ao nos foi dada de
forma perfeita e completa em urn
momento, mas atraves de muitos
eventos sucessivos e percorreu
urn longo periodo hist6rico. A
segunda expressao, "de muitas ma-
neiras", significa que as varias re-
vela<;6es divinas nao foram dadas
todas da mesma forma, e sim que,
acontecendo em varias epocas e
lugares, ela aconteceu tambem
em diversos modos e foi dada em
diferentes formas.
* * * * *
Em muitos pontos das Sa-
gracias Escrituras3
, n6s lemos sim-
plesmente que o Senhor apareceu,
disse, ordenou, e coisas seme-
lhantes, e nao encontramos co-
mentarios sobre como isso acon-
teceu. Outros textos tambem lan-
<;am alguma luz sobre a questao
da revela<;_:ao, e neles n6s pode-
For cxcmplo, em Gn 2.16,18; 4.6; 6.13; 12.7; 13.14.
71
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mos distinguir dois tipos de mei-
os que o Senhor empregou para
transmitir Sua revelac;ao.
Ao primeiro tipo de trans-
missao da revelac;ao especial, per-
tencem aqueles meios que possu-
em urn carater externo e objetivo.
Atraves deles, Deus aparece ao
homem e fala com ele. Ele
frequentemente aparecia a
Abraao, a Moises, ao povo de Is-
rael no monte Sinai, sobre o
tabernaculo e no Santo dos San-
tos e nas colunas de nuvem e de
fogo4
• Em outros momentos Ele
transmite Sua mensagem atraves
de anjos5
, especialmente atraves
do Anjo do pacto, que traz Seu
nome (Ex 23.21). Posteriormente
Ele faz uso de outros meios pe-
dagogicos para revelar-se a Israel
(Pv 16.33), o Urim e Tumim (Ex
28.30). Algumas vezes Ele fala
com uma voz audivel6
, ou Ele
mesmo escreve Sua lei nas tabu-
as do testemunho (Ex 31.18;
25.16).
Os milagres tambem fazem
parte desse grupo de meios de
revelac;ao. Nas Escrituras os mi-
lagres ocupam urn espac;o impor-
tante. Em nossos dias eles tern
sido atacados por todos os lados.
Eurn esforc;o inutil tentar defen-
der os milagres da Sagrada Escri-
tura contra aqueles que rejeitaram
a perspectiva escrituristica da
vida e do mundo. Pois, se Deus
nao existe - e essa e a tese tanto
do ateismo quanto do materialis-
mo - ou se Ele nao tern uma exis-
tencia propria, pessoal e indepen-
dente- como afirma o panteismo
- ou se, depois da criac;ao, Ele
abandonou o mundo aos seus
proprios caminhos- como afirma
0 deismo - entao e evidente que
milagres nao acontecem. E se a
impossibilidade dos milagres e evi-
dente desde o comec;o, nenhum
argumento sobre sua realidade e
necessario.
Mas a Escritura tern uma
ideia totalmente diferente de
Deus e do mundo, e tambem da
relac;ao que existe entre eles. Em
primeiro lugar, ela ensina que
Deus e urn ser consciente e oni-
potente, que chamou aexistencia
todo o mundo com todas as suas
energias e leis e que, ao fazer isso,
fez uso apenas de Seu proprio
poder. Ele possui em Si mesmo a
plenitude da vida e da forc;a.
Nada e maravilhoso demais ou
dificil para Ele (Gn 18.14); para Ele
todas as coisas sao possiveis (Mt
19.26).
Alem disso a perspectiva
biblica nao considera o mundo
como uma unidade cujas muitas
partes possuem a mesma nature-
za e a mesma substancia, exibin-
do diferenc;a apenas nas formas
4
Gn 15.17; Ex 3.2; 13.21; 19.9; 33.9; Lu16.2, e em vcirios outros lugarcs.
Gn 18.2; 32.1; On 8.13; Zc 1.9; Mt 1.20, c em vdrios outros lugrzres.
" Ex 19.9; Ot 4.33; 5.26; Mt 3.17; 2 Pe 1.1 7.
72
A QUESTAO DA REVELA<;:AO ESPECIAL
de sua rnanifestac;ao. Ern vez dis-
so ela considera o rnundo como
urn organismo cujos membros,
embora pertenc;arn ao todo, sao
todos dotados de diferentes pro-
priedades e destinados a diferen-
tes func;oes. No mundo ha lugar
para diferentes seres que, apesar
de serern todos sustentados e go-
vernados pelo mesmo poder di-
vino, diferern uns dos outros ern
sua natureza. Esse rnundo rico
contem materia e espirito, corpo
e alma, terra e ceus. Ele contern o
organico eo inorganico, o anima-
do e o inanirnado, o racional e o
nao-racional, rninerais, plantas e
anirnais, seres hurnanos e anjos.
E dentro do ser humano ha dife-
renc;:a entre sua cabec;:a e seu cora-
c;:ao, sua razao e sua consciencia,
seus conceitos e suas afeic;:oes.
Todas essas esferas contidas no
rnesrno dependern de diferentes
energias e habilidades, e operarn
de acordo corn diferentes leis. De
fato, todas as coisas sao interde-
pendentes urnas das outras, assim
como os rnernbros de urn corpo.
Da rnesrna forma cada parte tern
seu proprio lugar e sua propria
func;:ao no todo.
Ern terceiro lugar, as Escri-
turas ensinarn que Deus eo rnun-
do, apesar de serem diferentes urn
do outro, nunca estao separados.
Deus tern urna unica, perfeita e
independente existencia em Si
mesmo, mas Ele nao esta isolado
do mundo; pelo contrario, nele
73
nos vivemos, e nos movernos e
existimos (At 17.28). Eclaro que
Ele e o Criador, que a seu tempo
chamou todas as coisas aexisten-
cia, mas Ele continua sendo o pro-
prietario, o possuidor, o Rei e o
Senhor atraves de quem Seu po-
der onipotente e onipresente sus-
tenta e rege todas as coisas. Ele e
a primeira causa de todas as coi-
sas, nao apenas em seu principia,
mas tambem na sua preservac;:ao.
As causas secundarias por meio
das quais Ele trabalha diferern
umas das outras, mas a causa pri-
rnaria de todas as criaturas e e
continuara sendo Deus, e somen-
te Deus.
Se nesses conceitos basicos
nos concordamos com as Escritu-
ras e firmamos nossa posic;:ao no
terreno firme do teismo1 nos nao
temos base para lanc;:ar duvidas
sobre a possibilidade dos mila-
gres ou para atacar essa possibi-
lidade. De acordo com a Escritu-
ra, todo fenomeno da natureza e
da historia e urn ato e uma obra
de Deus, e nesse sentido e urn
rnilagre. Os assirn chamados rni-
lagres nada mais sao que a mani-
festac;:ao especial daquele rnesmo
poder divino que age em todas as
coisas. Esse poder opera de vari-
as formas, faz uso de diferentes
meios (causas secundarias) de
acordo corn diferentes leis, e par-
tanto alcanc;:a varios resultados.
Tern sido dito, e nao injustarnen-
te, que para a pedra e urna mara-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vilha que a planta possa crescer,
para a plantae uma maravilha que
o animal possa mover-se, para o
animal e uma maravilha que o ho-
mem possa pensar, e para o ho-
mem e uma maravilha que Deus
possa veneer a morte. Se e verda-
de que Deus, com Seu poder oni-
potente e onipresente, trabalha
atraves de todas as criaturas usan-
do Seus meios, por que Ele nao
seria capaz de trabalhar de uma
forma diferente com o mesmo
poder- uma forma diferente, isto
e, diferente daquela que nos e fa-
miliar no curso normal da natu-
reza e da hist6ria? Os milagres
nao sao uma viola<;:ao das leis na-
turais, pois essas leis sao plena-
mente reconhecidas na Escritura,
muito embora nao sejam classifi-
cadas e formuladas ali. Dessa for-
ma, por exemplo, de acordo com
a Escritura, as leis de toda a natu-
reza sao firmemente fixadas pelo
pacto da natureza que Deus fez
com Noe (Gn 8.22). Mas assim
como o homem domina a terra
atraves da sua razao e vontade, e
governa e controla a natureza atra-
ves de sua cultura, da mesma for-
ma Deus tern o poder de fazer
com que esse mundo cumpra
suas determina<;:oes. 0 que os
milagres provam e que nao 0
mundo, mas o Senhor e Deus.
*****
74
Nada disso teria sido neces-
saria, se 0 homem nao tivesse ca-
ido. Dessa forma ele teria conhe-
cido Deus atraves das obras de
Suas maos. Sem entrar na questao
de se teriam existido milagres se
nao tivesse existido o pecado, bas-
ta-nos dizer que nesse caso, se os
milagres tivessem existido, eles
seriam de natureza diferente e te-
riam outro prop6sito, pois os mi-
lagres que aconteceram e, estao
registrados nas Escrituras, possu-
em seu prop6sito e seu carater es-
pedfico.
No Velho Testamento, o jul-
gamento e a reden<;:ao caminham
lado a lado como acompanhantes
dos milagres. Dessa forma, o di-
luvio foi urn meio de destruir a
perversa gera<;:ao daquela epoca
e ao mesmo tempo urn meio de
preservar Noe e sua familia den-
tro da area. Os milagres que acon-
teceram em torno das pessoas de
Moises e Josue - as pragas do
Egito, a travessia do Mar Verme-
lho, a entrega da lei no Sinai, a
invasao e conquista de Canaa -
tiveram como seu prop6sito o jul-
gamento dos inimigos de Deus e
o estabelecimento de uma mora-
cia segura para Seu povo na terra
da promessa. Os milagres que
aconteceram mais tarde, dos quais
a maioria foram realizados por
Elias, aconteceram no tempo de
Acabe e Jezabel, uma epoca em
que o paganismo tentava suprimir
totalmente o culto ao Senhor, e
A QuESTAO DA REVELA<;:Ao ESPECIAL
alcanc;ou seu ponto mais alto no
Carmelo, onde a luta entre Deus
e Baal foi decidida.
Todos os milagres do Velho
Testamento tern em comum o fato
de que, negativamente, revelam o
julgamento sobre as nac;oes
impias, e positivamente revelam
a criac;ao e a preservac;ao de urn
lugar entre o povo de Israel para
a continuac;ao da revelac;ao de
Deus. Nisso eles alcanc;am seu
prop6sito, pois contra toda idola-
tria e culto a imagens o Deus de
Israel, o Deus do pacto, e conhe-
cido e reconhecido como Deus:
"Vede, agora, que Eu Sou, Eu so-
mente, e mais nenhum deus alem
de mim; eu mato, e eu fac;o viver;
eu firo e eu saro; e nao ha quem
possa livrar alguem da minha
mao (Dt 32.39; 4.35; Is 45.5,18,22).
E quando esse prop6sito e alcan-
c;ado, ele resulta rapidamente na
total revelac;ao na pessoa de Cris-
to.
Essa pessoa de Cristo e em
si mesma, em sua origem, em sua
essencia, em suas palavras e
obras, urn milagre. Jesus e 0 mila-
gre da hist6ria do mundo. Conse-
quentemente, os milagres que Ele
realiza possuem uma natureza
muito peculiar. Em primeiro lu-
gar, Ele mesmo, durante Sua vida
na terra, fez muitos milagres: mi-
lagres nos quais Ele demonstrou
Seu poder sobre a natureza (trans-
formando a agua em vinho, ali-
mentando grandes multidoes,
75
acalmando tempestades, andan-
do sobre as aguas, e outros seme-
lhantes); milagres nos quais Ele
demonstrou Seu poder sobre as
consequencias do pecado, tais
como doen<;as terminais, molesti-
as contagiosas e sofrimentos da
vida; e, finalmente, milagres nos
quais Ele demonstrou poder so-
bre si mesmo, mantendo-se livre
da culpa do pecado e da domina-
c;ao de Satanas (perdoando peca-
dos e expulsando demonios). A
unidade da pessoa de Cristo se
expressa nesses tres tipos de mi-
lagres. Aexcec;ao da maldic;ao so-
bre a figueira esterit todos os mi-
lagres de Jesus apontam para Sua
obra redentiva. Ele nao veio para
condenar o mundo, mas para
salva-lo (Jo 3.17). Atraves de Seus
milagres Ele exerce Seus oficios
de profeta, sacerdote e rei e tam-
bern realiza a obra para a qual o
Pai o designou (Jo 4.34; 5.36; 9.4).
Essa pessoa de Cristo e mais
claramente manifesta nos mila-
gres que foram feitos nao por Ele,
mas nEle e com Ele. Nesses mila-
gres n6s podemos ver de forma
nitida quem e o que Ele e. Sua
concepc;ao sobrenatural, Sua vida
e Sua morte miraculosas, Sua res-
surreic;ao, ascensao e Seu lugar a
destra do Pai sao os milagres
redentivos mais claros. Eles pro-
vam, mais marcadamente que os
milagres que Ele mesmo realizou,
Seu absoluto poder sobre o peca-
do e sobre suas consequencias,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sobre Satanas e sobre toda a do-
mina<;:ao satanica. Todos eles ilus-
tram, mais claramente do que to-
das as outras obras, que esse po-
der da pessoa de Cristo e urn po-
der redentivo e regenerativo, que
obtera a vit6ria final nos novos
ceus e na nova terra.
Os milagres que foram rea-
lizados nos tempos apost6licos
pelas primeiras testemunhas po-
dem ser caracterizados como
obras do Cristo exaltado (At 3.6;
4.10). Seu prop6sito era mostrar
que Jesus, que tinha sido rejeita-
do pelo mundo, pregado na cruz
e entregue amorte- que esse Je-
sus ainda estava vivo e que tinha
todo o poder no ceu e sobre a ter-
ra. Os milagres do Velho Testa-
mento mostraram que Jeova e
Deus e que nao havia nenhum
outro alem dEle. Os milagres do
Novo Testamento mostram que
Jesus Cristo, o Nazareno, que os
judeus crucificaram, foi ressusci-
tado por Deus e colocado a Sua
mao direita, como Principe e Sal-
vador (At 4.10; 5.30,31). Quando
esse fim foi alcan<;:ado, quando a
Igreja foi plantada no mundo,
uma Igreja que ere e confessa essa
revela<;:ao do Paino Filho atraves
da comunhao do Espirito Santo,
os milagres visiveis e externos
cessaram, mas os milagres espiri-
tuais da regenera<;:ao e da conver-
sao continuam na Igreja ate que
venha a plenitude dos gentios e
Israel seja salvo. No fim das eras,
76
de acordo com as Escrituras, acon-
tecera o maior dos milagres, a
apari<;:ao de Cristo, ressuscitado
da morte, o julgamento, os novos
ceus e a nova terra.
0 fim eo objeto de toda re-
vela<;:ao e dos milagres nessa re-
vela<;:ao e a restaura<;:ao da huma-
nidade caida, a recria<;:ao do mun-
do, e o reconhecimento de Deus
como Deus. Portanto os milagres
nao sao elementos singulares e es-
tranhos na revela<;:ao, nem urn
adendo arbitrario a ela. Eles sao
urn componente necessaria e in-
dispensavel da revela<;:ao. Eles
sao em si mesmo revela<;:ao. Deus
se fez conhecido ao homem em
todas as Suas excelencias e perfei-
<;:6es por meio de palavras e obras.
* * * * *
A esse primeiro tipo de mei-
os, todos de carater externo e ob-
jetivo, urn segundo grupo deve
ser acrescentado. A esse grupo
pertencem todos aqueles meios
que sao subjetivos, que sao reali-
zados dentro do homem, nos
quais Deus fala ao homem nao por
fora, mas por dentro.
0 primeiro lugar entre esse
tipo de meios pertence arevela<;:ao
sem igual que veio a Moises como
o mediador do Velho Testamen-
to. Ela e descrita como uma reve-
la<;:ao na qual o Senhor fala a Moi-
ses face a face, como urn homem
fala como seu amigo (Ex 33.11).
A QUESTAO DA REVELA<;:Ao ESPECIAL
0 papel de Moises no Velho
Testamento foi especial. Ele foi
colocado acima dos profetas. Deus
falou com ele, nao por meio de
visao, mas por urn discurso dire-
to. Moises viu Deus, nao como em
urn sonho, mas diretamente: ele
viu Sua similitude, Sua forma, nao
Seu ser ou Sua face, mas Suas cos-
tas quando a gloria de Deus pas-
sou por ele (Ex 33.18-33).
A esse tipo de meios perten-
ce tambem o sonho (Nm 12.6; Dt
13.1-6); a visao, isto e, urn estado
do ser no qual os olhos fisicos sao
fechados para o mundo externo e
os olhos da alma sao abertos para
as realidades divinas (Nm 12.6; Dt
13.1-6); e especialmente a inspira-
c;:ao da mente humana pelo Espi-
rito de Deus.7
Esses ultimos mei-
os de revelac;:ao ocorrem frequen-
temente no Velho Testamento,
onde sao sempre representados
como uma operac;:ao do Espirito
que desce sobre o profeta por urn
determinado momento. Mas no
Novo Testamento, depois da des-
cida do Espirito Santo, a inspira-
c;:ao nao apenas tornou-se mais
comum como meio de revelac;:ao,
mas tambem assumiu urn carater
mais organico e permanente.
Esses dois tipos de meios de
revelac;:ao podem ser classificados
sob os nomes de manifestar;tio e re-
velar;tio. Ao fazer isso n6s nao de-
vemos nos esquecer que a mam-
festar;fio nao consiste apenas de
atos, mas inclui tambem pensa-
mentos e palavras. Devemos tam-
bern atentar para o fato de que a
inspirar;fio a que nos referimos aqui
difere tanto da atividade do Es-
pirito que inspirou profetas e
ap6stolos no registro da revelac;:ao
em forma escrita (a inspirac;:ao das
Escrituras) quanto daquela ilumi-
nac;:ao interna que e a porc;:ao de
todos os crentes.
7
Nm 11.25-29; 25m 23.2; Mt 16.17; At 8.29; 1Co 2.12; 2Pe 1.21
77
CAPITULO
®)
0 CONTEUDO DA
REVELA<;Ao EsPECIAL
T
endo tornado nota das va-
rias formas nas quais a
revela<_;:ao especial veio ao
homem, n6s agora vamos consi-
derar o seu conteiido. Assim como
no estudo da revela<;ao gerat nes-
te tambem n6s faremos uma revi-
sao breve da hist6ria da revela<_;:ao
especial. Desta forma seu prop6-
sito ficani claro.
A revelac;ao especial nao co-
me<_;:ou com Abraao. Ela come<_;:ou
imediatamente depois da queda.
Portanto e de muita importancia
observar que Abraao foi filho de
Teni, que foi descendente da oita-
va gera<;ao de Sem. E de Sem n6s
lemos que o Senhor foi seu Deus
(Gn 9.26). Foi na familia de Sem,
como na de Sete, antes do diluvio,
que o conhecimento de Deus foi
preservado por mais tempo e em
seu estado mais puro. Portanto,
quando o Senhor chama Abraao,
Ele nao se apresenta como urn
Deus diferente, mas como o mes-
mo Deus que Abraao ja conhecia
e confessava. Alem disso, n6s
aprendemos em outra passagem
da Escritura, a saber, naquela que
fala de Melquisedeque (Gn 14.18-
20), que o conhecimento do ver-
dadeiro Deus nao tinha sido intei-
ramente perdido. Somos informa-
dos de que outros gentios tambem
reconheceram e honraram o Deus
de Abraao, como foi o caso de
Abimeleque, rei de Gerar, os filhos
de Hete em Hebrom, e Fara6 do
Egito.8
Depois da confusao das lin-
guas e da divisao da ra<_;:a huma-
na, a incredulidade nao se desen-
volveu entre os homens, mas a
8 Gn 20.3; 21.22; 23.6; 26.29: 40.8: -11 ,_: ___ _
79
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
supersti<;ao e a idolatria sim. Isso
aconteceu no Egito (Ex 18.9-12),
em Canaa (Gn 15.16; 18.1 ss.), e na
Babilonia. Ate mesmo entre os
descendentes de Sem a verdadei-
ra religiao deu lugar a idolatria.
De acordo com Josue 24.2,14,15, os
pais de Israel, Teni, pai de Abraao,
Naor e Hara serviram a outros
deuses quando viviam do outro
lado do rio. E de Genesis 31.19 e
35.2-4 n6s aprendemos que Labao
tinha deuses familiares e os ado-
rava. Labao era urn arameu, urn
sirio (Gn 31.20; Dt 26.5).
Em vez de evitar que a espe-
cie humana caisse na supersti<;ao
e na injusti<;a, o pacto da natureza
com Noe foi sendo quebrada, e o
prop6sito de Deus para a ra<;a
humana ficou amea<;ado. Por isso
Deus tomou urn novo curso de
a<;ao com Abraao. Ele nao podia
destruir novamente os filhos dos
homens em urn diluvio, mas dei-
xando que os povos seguissem
seus pr6prios caminhos Ele podia
firmar urn pacto com uma pessoa,
e atraves dessa pessoa com urn
povo, e dessa forma o pacto alcan-
<;aria seu cumprimento total. E
quando o pacto se completasse Ele
poderia incluir toda a humanida-
de em suas ben<;aos. A separa<;ao
temporaria de urn povo torna-se,
assim, o meio para a permanente
unifica<;ao da ra<;a humana.
Com Abraao urn novo esta-
gio tern inicio na hist6ria da reve-
la<;ao. Essa parte da revela<;ao que
80
foi dada no tempo dos patriarcas
e conectada aquela que tinha sido
dada anteriormente, mas tambem
e real<;ada e desenvolvida poste-
riormente. Consequentemente, e
muito importante que entenda-
mos as caracteristicas dessa nova
revela<;ao. Ela e muito importan-
te porque a revela<;ao dada a
Abraao constituiu a essencia da
religiao de Israel.
Em nossos dias, muitas pes-
soas tern obstruido o caminho
para urn correto entendimento da
essencia da religiao de Israel. Ern
primeiro lugar, eles se recusam a
dar ao periodo dos patriarcas urn
valor hist6rico e consideram
Abraao, Isaque, Jac6 e outros pa-
triarcas como semideuses ou he-
r6is, como, por exemplo, aqueles
que sao celebrados na Iliada de
Homero. Em segundo lugar eles
consideram que a religiao de Is-
rael teve sua origem em uma for-
ma paga de religiao, como o
animismo, fetichismo, culto aos
ancestrais, polidemonismo, ou
politeismo. E, em terceiro lugar,
eles tentam mostrar que a essen-
cia da religiao de Israel, como veio
a ser no tempo dos profetas, par-
ticularmente no oitavo seculo an-
tes de Cristo, consistiu de uma eti-
ca monotefsta, quer dizer, o reco-
nhecimento de urn Deus que e
onipotente mas tarnbem e urn ser
justo e born.
Essa moderna concep<;ao do
Velho Testamento deve ser consi-
0 CONTEUDO DA REVELA<;:AO ESPECIAL
derada urn esfon;o para explicar
toda a religiao de Israel e de ou-
tros povos sobre bases puramen-
te naturais, como urn pequeno e
gradual desenvolvimento aconte-
cendo sem uma revela<;ao especi-
al. Contudo, toda a Escritura se
opoe a esse ponto de vista e pune
a moderna concep<;ao, atraves do
fracasso em seus esfor<;os para
entender, tanto a origem quanto
a natureza da religiao de Israel.
Nao e por esse caminho que
a origem da religiao de Israel pode
ser encontrada. Nao e verdade
que os profetas apresentavam a
cada momenta urn deus diferen-
te. Eles sempre pregaram a pala-
vra em nome do mesmo Deus, que
eo Deus de Abraao, Isaque e Jac6,
o Deus de seus pais, o Deus de Is-
rael, e a quem os povos sao obri-
gados, por meio dos termos do
pacto, a servir e cultuar. Muitos
que sentem o peso dessa conside-
ra<;ao voltam dos profetas para
Moises e referem-se a ele como o
real fundador da religiao de Isra-
el. Mas Moises tambem nao apa-
receu, e nao podia aparecer, em
nome de urn deus estranho, des-
conhecido. Se isso tivesse aconte-
cido ele nao teria encontrado uma
rea<;ao favora.vel por parte do
povo. Em vez disso ele se acomo-
dou ao povo e asua hist6ria e con-
vocou-o para o exodo do Egito em
nome e sob ordens daquele Deus
que era o Deus Fiet que tinha fir-
mado urn pacto com os patriarcas
81
e que veio cumprir Sua promes-
sa.
N6s temos que voltar a esse
periodo se quisermos entender a
essencia e a natureza da religiao
de Israel. Essa essencia certamen-
te nao se encontra na assim cha-
mada etica monoteista. De fato, a
religiao de Israel tambem inclui
esse elemento, que sustenta ser
Deus onipotente, justo e santo,
mas a religiao de Israel nao e ca-
racterizada por isso de forma de-
finitiva. Esse elemento e a sua
base, e nao seu conteudo. 0 cora-
<;ao eo centro da religiao de Israel
e esse: que Deus, que e urn, eter-
no, justo e santo, obrigou-se, pelo
pacto, a ser o Deus de Israel.
* * * * *
Foi assim que Paulo enten-
deu a religiao de Israel. Em Roma-
nos 4 (texto como qual Galatas 5.5
ss. deve ser comparado), Paulo
pergunta qual e a dadiva caracte-
ristica que Abraao recebeu de
Deus. Baseado em Genesis 15.6 ele
responde a essa pergunta dizen-
do que a dadiva caracteristica que
Abraao recebeu de Deus esta nao
nas obras, mas na justi<;a da fe ou,
em outras palavras, na Gra<;a do
perdao de pecados, no imerecido
favor de Deus. Davi considerou o
perdao de pecados como a maior
ben<;ao do pecador.
0 ap6stolo Paulo tambem
argumenta que essa grande dadi-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
va da Grac;a nao foi dada a Abraao
quando ele estava sob a circunci-
sao, mas quando era ainda
incircunciso (Gn 15.6), e que a ins-
tituic;ao da circuncisao, que acon-
teceu quatorze anos depois (Gn
17), presumiu a justic;a da fee ser-
viu como urn sinal e selo dela.
Consequentemente o perdao de
pecados, e tambem toda a obra da
salvac;ao, e independente da lei e
de suas demandas. 0 mesmo
pode ser dito sobre o alcance uni-
versal desse favor: ele nao e pela
lei, mas muito antes da lei e inde-
pendente da lei a promessa veio a
Abraao assegurando que ele seria
o pai de muitas nac;oes e que her-
daria o mundo.
Todo o argumento do ap6s-
tolo Paulo se baseia na propria
hist6ria do Velho Testamento. 0
pano de fundo dessa hist6ria e
esse: nao o que Abraao sabe sobre
Deus e faz para Deus, mas o que
Deus da a Abraao. Em primeiro
lugar, e Deus quem procura
Abraao, e o chama, e o envia a
Canaa. Segundo, e Deus quem
promete que sera o Deus de
Abraao e de sua descendencia.
Terceiro, Deus promete a Abraao
que, apesar de tudo indicar o con-
trario, ele tera uma posteridade,
sera pai de uma grande nac;ao, e
que essa nac;ao tera Canaa como
sua heranc;a. Quarto, Deus diz que
em sua posteridade Abraao sera
uma benc;ao para todas as nac;oes
da terra. E, por ultimo, Deus faz
essa promessa no contexto do pac-
ta, sela-a como sinal da circunci-
sao e, depois da prova de fe de
Abraao, confirma-a com juramen-
to9.
Todas essas promessas jun-
tas constituem o conteudo da re-
velac;ao de Deus a Abraao. 0 nu-
cleo de todas elas e a grande e
unica promessa: "Eu serei o teu
Deus eo Deus da tua descenden-
cia". Essas promessas se estendem
do povo e da terra de Israel ate
Cristo, e em Cristo a toda a rae;a
humana e a todo o mundo (Rm
4.11 ss.). Nao a lei, mas o Evange-
lho; nao as exigencias, mas a pro-
messa; esse eo nucleo da revela-
<;ao. E, pelo lado humano, o cor-
respondente da fe ea conduta ou
o andar pela fe (Rm 4.16-22; Hb
11.8-21). A promessa nao pode ser
nossa a nao ser pela fe, e a fe se
expressa em uma conduta justa
(Gn 17.1). Abraao eo exemplo de
uma fe que ere, Isaque e o exem-
plo de uma fe submissa e Jac6, de
uma fe que luta.
Ena hist6ria dos patriarcas
que a natureza e o chamado do
povo de Israel nos sao apresen-
tados. Enquanto as na<;6es da
terra estao andando em seus pr6-
prios caminhos e desenvolvendo
o que foi dado atraves da revela-
<;ao geral, urn ato criativo de Deus
9
Gn 12.1-3,7; 13.14-17; 15.1 ss.; 15.17-21; 18.10; 22.1.7-19.
82
0 CONTEUDO DA REVELA<;:AO ESPECIAL
(Gn 18.10; Dt 32.6; Is 51.1,2) fez
um povo nascer de Abraao. Assim
como ele, esse povo tambem deve
viver pela fe, deve reconhecer que
deve a terra de sua heran~a nao a
sua propria for~a, mas aGra~a de
Deus. Esse povo s6 pode alcan~ar
uma influencia aben~oada sobre
os povos ao seu redor quando,
como Isaque, fielmente relembra
a promessa da salva<;:ao do Se-
nhor, e apenas quando, como Jac6,
fortemente se atem ao cumpri-
mento da promessa. Nenhum cal-
culo ou delibera<;:ao humana pode
promover o cumprimento dessa
promessa, e muito menos a fra-
queza e os pecados humanos po-
dem impedir esse cumprimento,
pois Deus e aquele que da e que
cumpre a promessa. Ate mesmo
quando Ele pune o pecado Ele
cumpre Seu prop6sito. E Israet
assim como Jac6, s6 usufrui dessa
promessa e ben~ao do Senhor
quando, refinado pelo sofrimen-
to, com sua for<;:a quebrada, ele
alcan<;:a a vit6ria atraves da luta de
fee ora<;:ao. "Eu nao te deixarei ir,
se me nao aben~oares" (Gn 32.26;
Os 12.4)
* * * * *
Nessa promessa encontra-se
o conteudo de toda a revela~ao
que lhe sucedeu no Velho Testa-
mento. Ela e elaborada, eclaro, e
desenvolvida. E essa promessa
tambem contem o nucleo e a es-
83
sencia da religiao de Israel. De
fato, a conclusao do pacto do Sinai
e a dispensa<;:ao da lei que Deus
instituiu entao, marca o come<;:o de
uma nova epoca. Mas em vez de
entender a natureza da religiao de
Israel e a economia do Velho Tes-
tamento n6s devemos ser profun-
damente marcados pela convic<;:ao
de que a promessa, previamente
dada a Abraao, nao foi destruida
pela dispensa<;:ao da lei.
Aqui novamente recorremos
ao ensino do ap6stolo Paulo.
Em Galatas 3.15 ss. Paulo
compara a promessa feita a
Abraao e asua descendencia com
um contrato, ou melhor, com um
testamento que, depois de confir-
mado, nao pode ser anulado. 0
mesmo acontece com a promessa
de Deus a Abraao e com todas as
ben<;:aos nela contidas. A promes-
sa eum ato livre de Deus. Ela foi
pronunciada e feita por Deus a
Abraao e a sua descendencia, e
portanto deve, em algum momen-
ta, em virtude da dire~ao de Deus,
ser colocada nas maos dessa des-
cendencia. Nem todos os descen-
dentes de Abraao segundo a car-
ne fazem parte da sua posterida-
de favorecida pela promessa. Seus
descendentes atraves de Hagar e
Quetura (Gn 17.20; 25.2) nao es-
tao incluidos nessa promessa, pois
a Escritura nao fala de "descen-
dencias", isto e, de muitas gera-
<;:6es e povos, mas de apenas uma
semente, uma descendencia, o
Ftmdamentos Teol6gicos da Fe Crista
povo que nasceria do filho da pro-
messa, de Isaque, e do qual nas-
ceria Cristo, o descendente pree-
minente.
Quando Deus estendeu a
salvac;:ao a Abraao e asua descen-
dencia como promessa na forma
de urn testamento, essa a<;ao su-
bentende que essa salvac;:ao algum
dia pertenceu a Cristo, que foi Sua
propriedade e possessao, e que
seria dada por Ele aIgreja reuni-
da de todas as partes do mundo.
Conseqiientemente a promessa
dada a Abraao na forma de urn
testamento, isto e, sem dependen-
cia de qualquer condic;:ao huma-
na, baseada somente na soberana
dispensac;:ao de Deus, nao pode
ser anulada por uma lei suple-
mentar posterior. Se isso tivesse
acontecido, Deus teria aniquilado
Sua promessa, Sua propria dadi-
va, Seu proprio testamento, e Seu
proprio juramenta.
Ha somente duas possibili-
dades: Ou nos recebemos os be-
neficios inclufdos na promessa
estando dentro da promessa ou
recebemos esses beneficios estan-
do dentro da lei, pela Grac;:a ou
pelo merito, pela fe ou pelas obras.
Ecerto que Abraao recebeu a jus-
tic;:a da fe pela promessa, ate mes-
mo antes da circuncisao ser insti-
tufda; que os israelitas no tempo
dos patriarcas, e no Egito, por cen-
tenas de anos receberam os mes-
mos beneficios somente em virtu-
de da promessa, pois a lei ainda
84
nao tinha sido dada; e que Deus
deu a promessa a Abraao e asua
descendencia e nela incluiu Cris-
to, que a estendeu a toda a rac;:a
humana, e que Deus, portanto,
deu-a como urn pacto eterno, con-
firmado com urn precioso jura-
menta (Gl 3.17; Hb 6.13 ss.). Se
tudo isso e verdade, entao eim-
possivel que a lei, que Deus deu a
Israel em uma data posterior, te-
nha abolido Sua promessa.
* * * * *
Se isso realmente e assim,
entao, a questao se torna ainda
mais importante: Por que Deus
deu a lei a Israel? Em outras pala-
vras, qual eo significado e aim-
portancia da dispensac;:ao do pac-
to da Grac;:a que comec;:a com a lei,
equal e a natureza ou essencia da
religiao de Israel? Essa questao foi
importante nos dias de Paulo e
nao e menos importante em nos-
sos dias.
Havia algumas pessoas no
tempo dos ap6stolos que procu-
ravam a essencia da religiao de
Israel na lei, e que por isso exigi-
am que os gentios viessem a Cris-
to pelo mesmo caminho de Israel,
ou seja, pela circuncisao e a obser-
vancia da lei.
E havia outros que despre-
zavam a lei, que atribufam a lei a
urn deus inferior, e que conside-
ravam-na como representante de
uma posic;:ao religiosa inferior. 0
0 CONTEUDO DA REVELA<;:Ao ESPECIAL
nomismo e o antinomismo repre-
sentavam posic;oes diametral-
mente opostas.
Em nossos dias as mesmas
atitudes eshio presentes, apesar
dos nomes dados e das formas
assumidas serem diferentes. Al-
guns encontram a essencia dare-
ligiao de Israel no monismo eticoI
ou seja, no reconhecimento de que
Deus e urn Deus santo que exige
apenas que n6s obedec;amos Suas
ordens; esses encontram a essen-
cia do Cristianismo da mesma for-
ma, e assim a distinc;ao entre Isra-
el e a Igreja e perdida: OS judeus
iluminados e os cristaos ilumina-
dos confessam a mesma religiao.
Outros, porem, desprezam a res-
ponsabilidade da liberdade espi-
ritual sobre a base estreita e me-
lindrosa do legalismo judaico; es-
ses nao enxergam ideal mais ele-
vado do que emancipar a rac;a hu-
mana das maos dos judeus. Eles
seguem a pista de todo o mal ate
o Judaismo, e procuram todo o
bern na rac;a indo-europeia. Os
espiritos semita e anti-semita se
opoem urn ao outro, e, como ex-
tremos, geralmente se encontram
no mesmo erro.
Para Paulo, o problema do
significado e da intenc;ao da lei era
tao importante, que ele tratou des-
se assunto varias vezes, em suas
cartas. Sua soluc;ao para esse pro-
blema e a seguinte.
Primeiro, a lei e algo que foi
adicionado apromessa, algo que
veio depois dela e que nao estava
originalmente ligada a ela. A lei
foi dada muitos anos depois da
promessa, e quando ela foi dada,
tinha urn carater temporario e
transit6rio. Apesar da promessa,
ou do pacto da Grac;a ser eterno, a
lei s6 teria validade ate que o ver-
dadeiro descendente de Abraao,
que e Cristo, aparecesse, pois nEle
a promessa foi cumprida e Ele re-
cebeu o seu conteudo e o distri-
buiu (Rm 5. 20; Gl3.17-19).
Segundo, esse carater tem-
porario e transit6rio da lei e ex-
presso em sua propria origem. E
verdade que a lei tern sua origem
em Deus, mas Ele nao a deu dire-
ta e imediatamente ao povo e a
cada individuo desse povo. Todos
os tipos de dispositivos de medi-
ac;ao estiveram presentes. Da par-
te de Deus, a lei foi dada por meio
de anjos, em meio a trovoes e re-
lampagos, em uma nuvem escu-
ra, e com a voz de uma trombe-
ta10. E da parte do povo, que esta-
va cheio de temor, e que tinha que
permanecer ao pe da montanha,
Moises foi chamado para servir
como mediador, para falar com
Deus e receber a lei11
. Com a pro-
messa nao foi assim. A promessa
nao foi transmitida por anjos, mas
10
Ex 19.16-18; Hb 12.18 ss. At 7.38,53; Gl 3.19
11
Ex 19.21 ss.; 20.19; Dt 5.22-27; 18.16; Hb 12.19; Gl 3.19,20.
85
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
pelo proprio Filho de Deus. E, de
nossa parte, nenhum mediador foi
designado para nos representar e
aceitar a promessa por nos. Em
Cristo todos OS crentes vern pes-
soalmente usufruir da promessa
(Jo 1.17; Gl3.22,26).
Terceiro, visto que a lei vern
de Deus, ela e justa, santa, boa e
espiritual; Ela nao provoca o pe-
cado, apesar de ser usada pelo
pecado para despertar a concupis-
cencia. De fato, a lei em si mesma
nao e desprovida de energia e for-
c;:a, pois e a lei da vida; 0 que care-
ce de energia e forc;:a e 0 homem,
pois ele e carne pecaminosa. Mas
mesmo diante dessas considera-
c;:oes nao podemos negar que a lei
difere da promessa nao meramen-
te em grau, mas em especie. De
fato, ela nao e oposta apromessa,
nem entra em conflito com ela,
mas ela nao pertence apromessa
da fe. Portanto a lei nao pode ter
sido dada para revogar a promes-
sa. Sendo diferente da promessa
em sua natureza, a lei tern urn pro-
posito diferente12
•
Quarto, esse proposito espe-
cial que e proprio da lei e pelo qual
Deus deu a lei tern urn carater
duplo. Em primeiro lugar, ela foi
acrescentada apromessa por cau-
sa das transgressoes (Gl3.19), isto
e, para fazer com que a transgres-
sao fosse mais grave. De fato, ha-
via pecado antes da entrega da lei
12
Rm 7.7-14; 8.3; G/3.17,21.
86
(Rm 15. 12,13), mas esse pecado
era diferente. Ele nao era uma
"transgressao" no sentido em que
Paulo faz distinc;:ao entre ela e o
pecado em geral. Porem, como em
Adao, que recebeu uma ordem de
cuja obediencia dependia sua vida
(Rm 5.12-14), assim tambem em
Israel, que herdaria a vida ou a
morte pela obediencia ou pela de-
sobediencia, o pecado assume urn
carciter diferente.
Esse pecado, sendo cometi-
do contra a lei a qual a vida e a
morte estao ligadas, torna-se uma
"transgressao". Ele assume o ca-
rater de urn pacto quebrado, uma
colocac;:ao de si mesmo fora e con-
tra o peculiar relacionamento que
Deus tinha estabelecido em Seu
pacto de obras com Adao e em Seu
pacto sinaitico com Israel. Onde
nao ha lei tambem nao ha trans-
gressao (Rm 4.15). Os pecados dos
gentios certamente sao pecados,
mas eles nao sao uma quebra do
pacto como sao para Israel; e nao
possuindo uma lei semelhante a
que Deus deu a Israet os gentios
sao condenados tambem sem lei
(Rm 2.12).
Em Israel, os pecados se tor-
naram transgressoes, exatamente
porque o povo recebeu a lei de
Deus que estava acompanhada
pela promessa de vida ou morte.
Portanto, foi a lei que fez com que
isso fosse possivel. Dessa forma
0 CoNTEDoo oA REVELA<;:Ao EsPECIAL
Paulo pode dizer que a lei do
Sinai, apesar de ser santa e nao
provocar o pecado, foi acrescen-
tada apromessa para aumentar as
II transgressoes", isto e, a forc;a do
pecado, e despertar o desejo, e que
esse pecado, atraves do manda-
mento, se torna uma transgressao,
e que sem a lei o pecado esta ador-
mecido, e que a lei faz aumentar a
ofensa- ofensa, isto e, nao no sen-
tido do pecado em geral, mas no
sentido daqueles pecados especi-
ais que sao da natureza de urn
erro, queda, ou de rompimento do
pacto13
. Mas tendo em vista que a
lei carrega tudo isso em sua estei-
ra, ela tambem provoca ira, isto e,
ela ameac;a a punic;ao divina, pro-
nuncia julgamento sobre todos os
homens e sobre todas as suas
obras, nao justifica o pecador e
coloca todos os pecadores debai-
xo de maldic;ao, sujeitando todos
a ira de Deus14
• Portanto, se no
Velho Testamento ha pessoas que
receberam o perdao de pecados e
a vida eterna, eles devem isso a
promessa, e nao alei.
Contudo, em conexao com
esse prop6sito negativo, o aumen-
to das transgressoes e a agravac;ao
do julgamento, a lei tambem pos-
sui urn sentido positivo, pois, pre-
cisamente por dar ao pecado o
carater de transgressao, de quebra
do pacto, de incredulidade, preci-
13
Cl 3.19; Rm 5.13, 20; 7.8; 1Co 15.56.
14
Rm 3.19,20; 4.15; Cl 3.10,11,12.
87
samente por fazer do pecado o
desejo secreto do corac;ao, e par-
tanto fazer com que o pecador seja
merecedor da ira de Deus e da
maldic;ao da morte (Rm 3.20; 7.7;
lCo 15.56)- precisamente por fa-
zer isso a lei torna mais clara a
necessidade da promessa e prova
que se a justificac;ao do pecador e
possivel, alguma outra justic;a
alem daquela baseada na lei e nas
obras da lei tern que ser colocada
asua disposic;ao (Gl3.11). Em vez
de ser oposta apromessa, a lei ser-
ve precisamente como urn meio
nas maos de Deus para trazer a
promessa constantemente para
mais perto de seu cumprimento.
A lei colocou Israel sob restric;oes,
como urn prisioneiro e colocado
sob restric;oes em detrimento de
sua liberdade de movimento.
Como urn pedagogo, a lei tomou
Israel pela mao acompanhando-o
sempre e em todo lugar e nunca
nem por urn momento perdeu-o
de vista. Como urn guardiao e
como urn torcedor a lei manteve
uma vigilancia rigorosa sobre Is-
rael para que aprendesse a conhe-
cer e a amar a promessa e sua ne-
cessidade e em sua gloria. Pode-
mos dizer que, sem a lei, a promes-
sa e seu cumprimento nao teriam
utilidade. Israel rapidamente teria
voltado ao paganismo e teria per-
dido tanto a revelac;ao de Deus
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
quanta Sua promessa, tanto sua
religiao quanta seu lugar entre as
na<;:i5es. Mas a lei cercou Israel,
separou-o, conservou-o isolado,
guardou-o contra a dissolw:;:ao, e
assim criou uma area, uma esfera
definida na qual Deus pode pre-
servar Sua promessa, dar-lhe urn
alcance mais amplo, desenvolve-
la, aumenta-la e traze-la sempre
cada vez mais para perto de seu
cumprimento. A lei foi util ao
cumprimento da promessa. Ela
colocou todos sob a ira de Deus e
sob a senten<;:a de morte, ela colo-
cou todos dentro dos dominios do
pecado, para que a promessa,
dada a Abraao e cumprida em
Cristo, fosse dada a todos os cren-
tes e que todos eles entrassem em
sua heran<;:a como crian<;:as (Gl
3.21; 4.7).
* * * * *
Quando n6s olhamos pela
perspectiva do ap6stolo Paulo n6s
obtemos urn panorama maravi-
lhoso da revela<;:ao de Deus no
Velho Testamento, da religiao de
Israel, do significado da lei, de his-
t6ria e de profecia, dos salmos e
dos livros de sabedoria.
Com o surgimento de
Moises a revela<;:ao de Deus e a
hist6ria de Israel entram em urn
novo periodo. Mas assim como a
revela<;:ao dada a Abraao nao re-
vogou as comunica<;:i5es anteriores
de Deus, mas deu continuidade a
88
elas, assim tambem a dispensa<;:ao
da Gra<;a de Deus sob a lei da con-
tinuidade adispensa<;ao da Gra<;:a
de Deus antes da lei. A lei, que foi
acrescentada apromessa, nao a
inutiliza nem a destr6i, mas da-lhe
o necessaria impulso para que se
desenvolva e alcance seu cumpri-
mento. A promessa e principal; a
lei e subordinada. A primeira e o
objetivo; a segunda e 0 meio. 0
nucleo da revela<;:ao de Deus e da
religiao de Deus nao esta na lei,
mas na promessa. E por essa pro-
messa ser uma promessa de Deus,
ela nao e urn som surdo, mas urna
palavra cheia de poder, que e a
expressao de uma vontade incli-
nada a realizar todos os prazeres
de Deus (Sl33.9; Is 55.11). Portan-
to essa promessa e a mola mestra
da hist6ria de Israel ate alcan<;ar
seu cumprimento em Cristo.
De acordo com Isaias 29.22,
Abraao foi redimido da terra dos
caldeus pelo chamado de Deus, e
depois que, pela livre dispensa<;:ao
de Deus ele recebeu a promessa
do pacto, Israel foi enviado por
Deus ao Egito e ali tornou-se es-
cravo de Fara6 para depois disso
ser redimido de sua miseria e
como urn povo ingressar no pac-
to de Deus no monte Sinai. Esses
tres eventos, a escravidao no Egi-
to, a liberta<;ao dessa escravidao
pela mao forte e pelo bra<;:o esten-
dido de Deus, e a conclusao do
pacta no Sinai sao a funda<;:ao da
hist6ria de Israel e os pilares so-
0 CoNTEUDO oA REVELA<;:Ao EsPECIAL
bre os quais repousa sua religiao
e sua etica. Esses sao eventos vi-
vos na memoria de Israel de gera-
<;:ao a gera<;:ao, sao constantemen-
te mencionados nas historias, na
salmodia e na profecia, e nao
pode, nem mesmo pelo mais ra-
dical criticismo, ser negada a sua
historicidade.
Alem disso esses eventos
significativos fornecem provas de
que a lei nao foi dada, e nao podia
ter sido dada, para anular a pro-
messa. Pelo contraxio, quando
Deus aparece a Moises na sar<;:a
ardente, chamando-o para o seu
oficio, nao e urn Deus estranho e
desconhecido que aparece, mas o
Deus de Abraao, o Deus de Isaque
e o Deus de Jaco, o Deus que tern
visto a opressao de Seu povo, e
ouvido seu clamor e que, por ser
o Senhor, o Fiel, agora dispoe-se a
cumprir Sua promessa e a resga-
tar Seu povo da miseria da escra-
vidao (Ex 3.6 ss.). Israel nao se tor-
nou o povo de Deus nas proximi-
dades do Horebe, nem foi aceito
como Seu povo com base na lei.
Israel, na epoca de sua liberta<;:ao
do Egito, ja era o povo de Deus
em virtude de Sua promessa, e em
virtude dessa mesma promessa
Israel foi redimido de sua miseria.
Miseria e reden<;:ao precedem a
entrega da lei no Sinai. E assim
como Abraao foi redimido em seu
chamado e recebeu a promessa de
Deus em uma fe inocente, e em
termos dessa promessa levou uma
89
vida santa diante da face de Deus
(Gn 17.1), assim tambem Israel,
tendo sido liberto da escravidao
pelo bra<;:o forte de Deus, e admo-
estado e limitado por Deus no
Sinai a uma nova obediencia. A lei
que veio ao povo por meio de
Moises era uma lei de gratidao; ela
veio na esteira da reden<;:ao e as-
sumiu e restaurou a promessa. Em
Sua for<;:a Deus guiou Seu povo a
santa habita<;:ao de sua gloria (Ex
15.13). Ele levou Seu povo sobre
asas de aguia, trazendo-o a Si (Ex
19.4; Dt 32.11,12). Por isso a lei foi
introduzida com o preambulo:
"Eu sou o Senhor, teu Deus, que
te tirei da terra do Egito, da casa
da servidao (Ex 20.2; Dt 5.6).
Mas esse relacionamento
pactual agora exige uma ordem
mais especifica de obediencia.
No periodo patriarcal, quan-
do umas potlCas famflias viviam
na ben<;:ao da promessa de
Abraao, nao havia necessidade de
uma regulamenta<;:ao mais especi-
fica; e no Egito, quando o povo
estava sob o domfnio egfpcio, nao
havia oportunidade para isso.
Mas agora Israel era redimido;
tornou-se urn povo livre e inde-
pendente vivendo em sua propria
terra. Se nessas circunstancias ele
permanecesse como urn povo,
uma na<;:ao de Deus, o pacto da
Gra<;:a teria que ser estabelecido na
forma de urn pacto nacional, e a
promessa, em vez de se manter e
de se desenvolver sozinha, teria
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
que fazer uso do auxilio da lei.
Isso era ainda mais necessa-
rio porque Israel- como Paulo diz
-era ainda uma crian~a. Israel ti-
nha tido urn aprendizado diffcil
no Egito, e tinha adquirido, pela
sua experiencia de escravidao, urn
profundo senso de dependencia,
uma profunda consciencia de ne-
cessidade de ajuda e suporte. Mas
Israel nao estava imediatamente
pronto para a independencia.
Toda a sabedoria e mansidao de
Moises era necessaria (Nm 12.3)
para providenciar a lideran~a in-
dispensavel para urn povo nessas
condi~oes, tanto na saida do Egi-
to quanto na peregrina~ao pelo
deserto. Varias vezes esse povo e
chamado de povo de dura cerviz
porque nao cumpria as ordens de
Deus (Ex 32.9; 33.3; 34.9; Dt 9.6).
No deserto e, posteriormente, em
Canaa, Israel constantemente
mostrou sua natureza infantil.
Esse nao era urn povo racional e
razoavel; ele precisava adquirir
consciencia de si mesmo, espirito
investigativo, mente filos6fica eo
poder do pensamento abstrato.
Consequentemente, esse era urn
povo de sentimento e emo~ao.
Conseqiientemente Israel
era urn povo muito receptivo a
todos os tipos de influencias, sus-
cetivel aos sentimentos do mun-
do, e, portanto, muito inclinado a
influencias terrenas e celestiais;
para isso eles foram formados
pelo proprio Deus para serem os
90
guardiaes de Sua revela~ao. Esse
lado do carciter israelita nos con-
fronta nas Escrituras em todos
aqueles homens e mulheres de
Deus que, honrados com a chama-
cia do Senhor, tern apenas uma
humilde e sincera resposta: "Aqui
estou eu, fala, Senhor, pois teu ser-
vo, tua criatura, ouve- seja feito
conforme a tua palavra!" Eles acei-
tavam a palavra do Senhor e con-
servavam-na em seu cora~ao. Pelo
outro lado, Israel era, como vemos
em Ex 32.8, "disposto a voltar ra-
pidamente pelo caminho", incli-
nado a extraviar-se, instavet ca-
prichoso, temperamentat teimo-
so, facilmente desviado por algu-
ma pessoa ou incidente, passional,
capaz de alimentar urn 6dio ar-
dente e de amar com urn amor
profundo, suave, semelhante ao
amor materno; em urn momento
sofrendo com a morte e no mo-
mento seguinte saltando aos ceus
de alegria; nunca tendo a calma
ocidental, mas sempre ardendo
com a paixao oriental: gosta de
comidas temperadas com alho e
cebola (Nm 11.5), de lentilhas (Gn
25.34) e carne (Gn 27.14 ss.), gosta
de cores brilhantes, lindas roupas,
perfumes e pedras preciosas (Js
7.21; Is 3.18 ss.), e de tudo que bri-
lha sob o sol. DaCosta e Heine sao
filhos de Israel.
Tal povo tinha que ser colo-
cado sob a guarda e a disciplina
da lei se quisesse conservar seu
chamado atraves da promessa
0 CoNTEDoo DA REVELA<;:Ao EsPECIAL
para ser uma benc;ao a todas as ge-
rac;oes da terra. E a natureza da lei
corresponde anecessidade de Is-
rael.
Em primeiro lugar, a lei nao
teve sua origem na promessa ou
na fe, mas foi acrescentada apro-
messa, e serve nao para anular a
promessa, mas para pavimentar o
caminho para o seu cumprimen-
to. Nos tempos modernos ha mui-
tos que tentam reverter os papeis
da lei e da promessa. Eles falam
nao da lei e dos profetas, mas dos
profetas e da lei, e dizem que a lei
nos livros de Moises s6 veio secu-
los depois dele e estendeu-se ate
depois do exilio. Nessa interpre-
tac;ao pode-se reconhecer muito
de born que estava acrescentado
na lei, que era a coisa principal da
revelac;ao de Deus e na religiao de
Israel. A promessa precedeu a lei,
ocupou o lugar mais elevado, e a
lei foi o meio usado para que isso
fosse possivel. Portanto, e bern
possivel que a lei de Moises tenha
sido revisada posteriormente por
editores secundarios ou terciarios,
e que tenha sido dessa forma
enriquecida por meio de
interpolac;oes ou adendos inseri-
dos por causa das circunsbincias
de seu tempo. A lei tinha em sua
totalidade urn carater temporal e
transit6rio. Ja no livro de
Deuteron6mio Moises tinha mo-
dificado varios pontos. Contudo,
o ponto de vista sugerido acima,
de que os profetas precederam a
91
lei, corre contra todos os fatos,
contra a natureza da lei, contra a
natureza e func;ao da profecia, e
tambem contra a voz da razao.
Certamente, nao pode haver dis-
puta sobre o fato de que Israel ti-
nha seu templo, sacerdotes, sacri-
ficios e coisas semelhantes muito
tempo antes do oitavo seculo an-
tes de Cristo, e que por causa dis-
so muitas leis e regulamentac;:oes
para a vida social e politica eram
necessarias. Uma religiao sem cul-
to e sem ritual e regulamentac;:ao
e inconcebivel em qualquer lugar,
particularmente na antiguidade e
em Israel. Alem disso, a objec;:ao
de que nao ha lugar para uma lei
escrita com urn conteudo tao rico,
como esta registrado de Exodo a
Deuteron6mio, no tempo de
Moises, perdeu toda a sua forc;:a
com a descoberta da lei de
Hamurabi, urn homem que viveu
2.250 anos antes de Cristo e que
reinou sobre Babel durante cin-
quenta e cinco anos.
Em segundo lugar, o conteu-
do da lei esta em pleno acordo
como prop6sito que Deus lhe deu.
Em vez de determinar seu meri-
to, n6s vamos compara-la com as
leis que estao em vigor em esta-
dos cristaos hoje, pois mesmo que
a lei de Moises, especialmente em
seus principios, continue sendo
importante ainda hoje, n6s sabe-
mos que Deus concebeu-a como
uma constituic;:ao temporaria, e
que na plenitude do tempo, quan-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
do a promessa alcan<;ou seu cum-
primento, a lei foi colocada de
lado por causa de sua fraqueza e
inutilidade.
Da mesma forma, a compa-
ra<;ao da lei de Israel com a lei dos
povos antigos, de Babel, por
exemplo, nao pode servir como
criterio de julgamento. Eclaro que
tal compara<;ao tern sua utilidade,
chama nossa aten<;ao para todos
os tipos de pontos de similarida-
de e diferen<;a, e assim pode aju-
dar-nos a entender melhor a lei
mosaica e algumas circunstancias.
Mas Israel era urn povo particu-
lar, separado por Deus, e tinha seu
proprio destino, que era ode ser
guardiao da promessa. Portanto,
Israel tinha que viver seu proprio
tipo de vida e tambem tinha que
ter uma perspectiva de seu propo-
sito.
Olhando para a lei do Se-
nhor dada a Israel desse ponto de
vista, nos podemos distinguir as
seguintes caracteristicas:
Primeira: Euma lei comple-
tamente religiosa. Nao apenas em
algumas partes, como naquelas
que regulam o culto publico, por
exemplo, mas em sua totalidade,
ou seja, em suas prescri<;6es eticas,
civicas, sociais e politicas, ela tam-
bern e religiosa. Acima de toda a
lei estao as palavras: "Eu sou o
Senhor, teu Deus, que te tirei da
terra da escravidao". A lei nao esta
baseada em urn monoteismo abs-
trato, mas sobre urn relaciona-
92
mento historico entre Deus e Seu
povo, urn relacionamento criado
pelo proprio Deus. Essa e uma lei
pactual e regula a vida de Israel
de acordo com as exigencias da
promessa. Deus e o legislador de
todos esses mandamentos, e por
isso todos eles devem ser cumpri-
dos. Toda a lei e permeada pelo
pensamento: Deus primeiro amou
voce, procurou por voce, redimiu
voce, inseriu voce em seu pacto;
portanto voce agora deve amar o
Senhor, seu Deus, de todo o seu
cora<;ao, de toda a sua alma, e de
toda a sua for<;a (Dt 6.5; 10.12).
Esse eo primeiro grande manda-
mento (Mt 22.37,38).
Segunda: Euma lei comple-
tamente moral. Geralmente se fala
de tres partes distintas na lei: a lei
moral, a lei civile a lei cerimonial.
Essa e uma boa classificac;:ao. Mas
ao fazer essa distin<;ao nos nao
podemos nos esquecer de que
toda a lei e inspirada e sustentada
por principios morais. A aplica<;ao
desses principios morais a casos
particulares costuma ser diferen-
te da aplicac;:ao que nos fariamos
hoje. 0 proprio Jesus disse que
Moises permitiu aos homens la-
vrar carta de divorcio para suas
esposas por causa da dureza do
corac;:ao deles (Mt 19.8). Mas o es-
pirito que permeia a lei mosaica e
o espirito de amor. Amaras o teu
proximo como a ti mesmo (Lv
19.18). Esse eo segundo manda-
mento, semelhante ao primeiro
0 CoNTEVDO DA REVELA<;:Ao EsPECIAL
(Mt 22.39) e o cumprimento de
toda a leil5
• Esse amor deve ser
expresso ao fraco e oprimido, ao
pobre, ao estrangeiro, as viuvas,
aos 6rfaos, aos servos, aos prisio-
neiros, aos surdos, aos cegos, aos
idosos e outras pessoas semelhan-
tes. Nenhuma outra lei que a an-
tiguidade apresenta e assim. Tern
sido corretamente dito que o c6-
digo moral de Israel foi escrito do
ponto de vista do oprimido. Isra-
el nunca se esqueceu de que tinha
sido estrangeiro e escravo no Egi-
to.
Terceira: A lei de Israel euma
lei santa, e essa caracteristica nao
e restrita aquela parte da lei que e
especificamente chamada de lei de
santidade (Lv 17-26). Nao ha lei na
antiguidade que trate o pecado tao
profundamente como pecado. Esse
pecado recebe varios nomes. Ele
e chamado de ofensa, culpa, des-
via, rebeliao e, em ultima analise,
e sempre considerado como sen-
do cometido contra Deus, contra
o Deus do pacto. Portanto o peca-
do sempre tern o carater de trans-
gressao, de quebra do pacto. To-
davia ha perdao para todos esses
pecados, mas nao no sentido de
que Israel possa alcan<:;ar esse per-
ciao por suas boas obras ou por
seus sacrificios. 0 perdao vern
pela promessa; ele e urn beneficia
nao da lei, mas do Evangelho; ele
15
Rm13.8; Gl5.14; 1 Tm 1.5.
16
Ex 33.19; 34.6,7,9; Nm 14.18-20.
93
nao e obtido atraves dos sacrifici-
OS, mas recebido em humildade
pela fe16
.
Mas os mesmos textos que
declaram tao poderosamente a li-
vre Gra<:;a de Deus sao notaveis
por acrescentar imediatamente
que Deus nao passara por alto a
culpa, mas que visitara a iniqui-
dade dos pais nos filhos ate a ter-
ceira e quarta gera<:;ao. Uma afir-
ma<:;ao nao entra em conflito com
outra. Precisamente porque Deus
perdoa os pecados de Seu povo
pela Sua Grac;a atraves da promes-
sa, Ele deseja que esse povo, ten-
do recebido tao grande Gra<:,:a,
ande no caminho do pacto. E se
Israel nao anda nesse caminho,
Deus, de acordo com a natureza
do pecado cometido, impetra uma
das tres maldi<:,:oes. Em alguns
momentos a lei, atraves dos sacri-
ficios, abre a possibilidade de re-
concilia<:;ao. Isso acontece quando
a ofensa nao tern consequencias
civis. Quando a ofensa tern con-
sequencias civis a lei determina a
imposi<:;ao de uma penalidade ci-
vil que, em alguns casos, pode
chegar a morte. E em urn grande
numero de casos Deus retem Seu
juizo por algum tempo e depois
vern ao povo com Seu julgamento
atraves de pestilencia, exilio e coi-
sas semelhantes. E esses tres tipos
de puni<;ao que Deus reserva para
~~
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
Seu povo no caso de alguma trans-
gressao nao anulam a promessa,
mas sao apenas meios pelos quais
Deus cumpre Sua promessa e evi-
ta que 0 povo se entregue aincre-
dulidade mesmo em dias de
apostasia e ofensa.
De todas as gerac;:6es da ter-
ra, o Senhor escolheu apenas Is-
rael; todavia Ele pune todas as ini-
quidades de Seu povo.
Quarta: Finalmente, a lei
mosaica e tambem uma lei deli-
berdade. Ela tanto assume quan-
to garante uma larga margem de
liberdade. Isso se torna aparente
imediatamente quando o povo, de
sua parte, voluntariamente aceita
o pacto de Deus e voluntariamen-
te se submete aSua lei. Deus nao
imp6e a Si mesmo e ao Seu pacto
sobre Seu povo, Ele o convida a
uma aceita<;:ao voluntaria17
. Alem
disso, a lei nao interfere em direi-
tos e relac;:6es ja existentes, ela ape-
nas os assume e os reconhece.
Antes da entrega da lei no Sinai e
depois dela, Israel ja estava mais
ou menos organizado. Ele estava,
por exemplo, genealogicamente
dividido em casas, familias (gru-
po de casas), gera<;:6es e tribos e
estava organizado de forma patri-
arcal. Cada uma dessas quatro
subdivisoes do povo tinha seu l:i-
der representativo. E todos esses
lideres representativos, chamados
17
Ex 19.8; 24.3,7; Dt 5.27; js 24.15-25
anciaos ou principes, constituiam
a assembleia de Israel (Js 7.14).
Algumas assembleias desses
anciaos tinham existido tambem
no Egito (Ex 3.16 ss.; 4.9), e eles
foram frequentemente reunidos
depois do exodo para ouvir as
palavras do Senhor (Ex 19.7), ou
para apresentar propostas a
Moises (Dt 1.22,23). Alem dessas
assembleias de anciaos o povo de
Israel tinha ainda dois tipos de
oficiais: primeiro, os oficiais que
tratavam de questoes pertinentes
aordem civil, e que ja estavam em
atividade no Egitd8
; e, segundo,
os Juizes que Moises instituiu para
ajuda-lo nas questoes legais19
. Tan-
to esses Juizes quanto esses ofici-
ais tinham que ser designados em
todas as cidades pelos anciaos.
Nessa organizac;:ao do povo
a casa constituia o ponto de parti-
da e a base. Ainda hoje a casa con-
tinua ocupando a posi<;ao de mai-
or honra entre os judeus. E pelo
fato da casa ocupar urn lugar tao
importante em Israel a esposa e
mais honrada em Israel do que
entre outros povos antigos. A
questao central nesse caso- como
tern sido corretamente observado
- e se o homem era considerado
em Israel primariamente como
urn membro da familia, seja mari-
do, pai ou filho, ou primariamen-
te como urn cidadao ou guerrei-
10
Ex 5.6,10,14,19; Nm 11.16; Dt 1.5; 16.18; /5 23.2.
19
Ex 18.21-23; Dt 1.13 55.
94
0 CoNTEDoo DA REvELA<;:Ao EsPECIAL
ro. A ultima hip6tese era verdade
tanto na Grecia quanto em Roma,
eo resultado disso eque a mulher
foi colocada de lado e considera-
da como inferior. Mas em Israel o
homem era considerado antes de
tudo como urn membro da fami-
lia, e sua tarefa era antes de tudo
cuidar da familia. Dessa forma ele
nao era colocado contra ou acima
da esposa, mas ao lado dela. Tan-
to ela quanto ele dedicavam res-
peito e amor aos filhos (Ex 20.2) e
ela tinha o direito de merecer o
louvor do marido (Pv 12.4; 31.10
ss.).
* * * * *
Toda essa forma de governo
patriarcal-aristocratica existia em
Israel antes mesmo de seu reco-
nhecimento e confirma~ao pela lei.
Urn born numero de leis se refere
ao matrimonio e serve para man-
ter a santidade desse estado de
vida e proteger a casa. Outras re-
gulamentac;:6es protegem a forma
de governo patriarcal tanto do sa-
cerd6cio quanto do reinado. Os
anciaos, os oficiais e os juizes sao
diferenciados dos sacerdotes e dos
levitas. Era apenas na mais alta
corte de justi~a que os sacerdotes
tambem tinham que se sentar20
,
·isto que uma boa explanac;:ao da
lei - uma tarefa designada aos sa-
0! 173-13; 19.17,18.
L ]() 3-11; Ez 7.26; 44.23; Jr 18.18.
cerdotes21
- era muito importante
para o peso das decis6es tomadas
nesse nivel.
Em toda a sua vida politica
Israel tinha uma rigida hierarquia.
Dessa forma, nao havia lugar para
despotismo depois da lei. Poste-
riormente, quando Israel desejou
ter urn rei e Deus lhe deu urn (lSm
8.7L esse rei nao poderia reinar
como os reis de outros povos; ele
era limitado pela lei de Deus e ti-
nha que executar Sua vontade (Dt
17.14-20). Em uma analise final,
Deus era o Rei, assim como Ele
tambem era o Legislador eo Juiz
de IsraeFZ. Isso e expresso no fato
de que, como regra gerat Ele pro-
nunciava a sentenc;:a por meio dos
Juizes, que tinham que ser estrita-
mente imparciais em seus julga-
mentos, nao podiam ter conside-
ra~ao especial por certas pessoas,
e tinham que fazer seus julgamen-
tos somente de acordo com a nor-
ma da lei. Isso encontra expressao
tambem no fato de que em casos
especiais Ele fez Sua vontade co-
nhecida atraves do Urim e Tumim
e atraves dos profetas. E isso en-
contra expressao mais fortemen-
te ainda no fato de que no caso de
muitas transgress6es Ele retinha o
direito de impor a punic;:ao por si
mesmo. Urn grande numero de
prescric;:6es da lei nao eram regras
no sentido de que cada uma delas
E.:: 15.18; 19.6; f,hn 23.21; Dt 33.5; fz 8.22 ss.; 1 Snz 8.7; I~ 33.22; 5!4-d:.::-.· ~~~ "~:::
95
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
assegurava uma penalidade espe-
cifica no caso de viola~ao, mas
simplesmente fortes admoesta-
~6es e advertencias. Elas eram
dirigidas a consciencia e portanto
davam urn alto grau de liberdade
a Israel. Os tipos de puni~6es tam-
bern eram limitados, consistindo
principalmente de censuras fisicas
e, no caso de viola~6es pesadas
(blasfemia, idolatria, feiti~aria,
maldi~ao de pais, assassinato e
adulterio), morte por apedreja-
mento. Nao se menciona inqui-
si~ao, incinera~ao na estaca,
deten~ao, exilio, confisco de pro-
priedade, morte por enforcamen-
to, e coisas semelhantes. Se Israel
andasse no caminho do pacto, re-
ceberia as ben~aos do Senhor; mas
se nao obedecesse Sua voz, seria
visitado com Sua maldi~ao e re-
ceberia todos os tipos de calami-
dade (Dt 28.29).
0 prop6sito de Deus ao dar
a lei a Israel torna-se evidente a
partir dessas caracteristicas da lei.
0 Senhor define esse prop6sito
quando, na conclusao do pacto do
Sinai, Ele diz a Moises para falar
ao povo de Israel que se o povo
ouvir Sua voz e conservar o pac-
ta, ele sera propriedade peculiar
de Deus dentre todos os povos,
urn reino de sacerdotes e na~ao
santa (Ex 19.5,6). Por sera na~ao
escolhida por Deus dentre todos
os povos da terra Israel deve fir-
mar-se no caminho do pacto. Is-
rael nao foi escolhido por seus
96
meritos, mas pelo soberano amor
de Deus e Seu juramenta aos seus
pais (Dt 7.6-8). E Israel nao rece-
beu esse gracioso privilegio para
desprezar as outras na~6es e se
exaltar sobre elas, mas para ser urn
reino de sacerdotes, cuja tarefa
sacerdotal se estende as na~6es
para traze-las ao conhecimento e
servi~o de Deus, e somente dessa
forma reinar sobre elas. Israel s6
podera cumprir esse chamado se
for uma na~ao santa, se for urn
povo inteiramente consagrado ao
Senhor, ouvir Sua voz e andar no
caminho do pacto.
Essa santidade para a qual
Israel foi chamado nao alcan~ou
seu cumprimento total no sentido
profunda que a santidade recebe
no Novo Testamento. Ela compre-
ende nao apenas a santidade mo-
ral, mas torna-se especialmente
claro da lei de santidade em
Levftico 17.26 que ela inclui tam-
bern a santidade cerimonial. 0 que
n6s devemos observar e que as
partes moral e cerimonial da lei
nao estao colocadas uma contra a
outra. Elas sao os dois lados da
mesma moeda. Israel e urn povo
santo quando, tanto interna quan-
ta externamente, em fee conduta,
vive de acordo com a lei moral,
social e cerimonial entregue ao
povo no Sinai. E se esse povo -
como o Senhor sabe- por causa
de sua incredulidade nao puder
cumprir esse chamado, e no de-
correr de sua hist6ria tornar-se
0 CONTEUDO DA REVELA<;:AO ESPECIAL
culpado de desobediencia e afas-
tar-se do pacto, o Senhor certa-
mente visitara o povo com puni-
c;:oes mais pesadas do que qual-
quer outra nac;:ao do mundo rece-
beria. Somente ao fim dessas pu-
nic;:oes o Senhor se voltaria para
Seu povo e teria compaixao dele,
circuncidaria seus corac;:oes e os
corac;:oes de seus filhos para que
amassem o Senhor seu Deus com
todo o seu corac;:ao e com toda a
sua alma (Dt 4.29-31; 30.1 ss.). Ele
nao pode deixar que Seu povo siga
seus proprios caminhos porque
Ele zela pelo Seu proprio nome e
por Sua honra contra Seus inimi-
gos (Dt 32.26 ss.). A despeito da
incredulidade de Israel e apesar
dela o Senhor deve estabelecer Sua
propria credulidade, a integrida-
de de Sua palavra, a imutabilidade
de Seu conselho, e a estabilidade
de Seu pacto. Ele deve demonstrar
que e Deus e que nao ha outro
Deus alem dEle (Dt 32.39). Dessa
forma a lei termina na promessa,
assim como comec;:ou nela. Ela
retorna ao seu ponto de partida.
* * * * *
Do ponto de vista da Escri-
tura o pacto abrange toda a histo-
ria de Israel. 0 proposito da Es-
critura nos livros historicos do
Velho Testamento nao e apresen-
tar urn exaustivo e unificado re-
21
Ex 19.8; 24.3,7; Dt 5.27.
97
gistro de todos os acontecimentos
em Israet nem trac;:ar a conexao
entre esses eventos. 0 que a Es-
critura descreve nesses livros e o
progresso do reino de Deus. Aqui-
la que tern pouca ou nenhuma
import'incia para esse fim e men-
cionado brevemente ou totalmen-
te ignorado. Da mesma forma ela
se demora sobre aquilo que tern
importancia para esse reino. No
relato da historia de Israel a Es-
critura quer nos ensinar quem eo
que Deus e para Seu povo. Ecom
certa propriedade, portanto, que
os escritos historicos de Israel na
Escritura tern sido chamados de
diario ou agenda de Deus. Como
em urn diario, Deus faz urn regis-
tro a cada dia para mostrar o que
tern sido Seus cuidados e Suas ex-
periencias para Israel.
Anteriormente, quando o
povo ainda vivia sob o impacto
das poderosas obras de Deus, ele
permanecia crendo em Sua lei. For
tais atos o Senhor havia provado
de forma incontestavel que Ele e
o tmico Deus (Ex 6.6; 18.18) e que
o povo nem devia pensar em ou-
tros deuses. Quando o povo ou-
via a palavra do Senhor no monte
atraves de Moises, todo o povo
respondia a uma so voz: "Tudo o
que o Senhor disser nos fare-
mos"23. Mais tarde, quando Israel
recebeu a terra de Canaa por he-
ranc;:a e foi confrontado por Josue
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
com a escolha de quem ele queria
servir, Israel deu a mesma respos-
ta: "Deus proibiu que nos aban-
donassemos o Senhor para servir
outros deuses (Js 24.16 ss.; Jz 2.7).
Mas quando Josue e OS
anciaos do povo que tinham tes-
temunhado os poderosos feitos de
Deus morreram e levantou-se ou-
tra gerac;ao, que nao conhecia o
Senhor nem os feitos que tinha
realizado em favor de Israel, o
povo se afastou do Senhor, o Deus
de seus pais, que os tirou do Egi-
to, e seguiu outros deuses, os deu-
ses das nac;oes vizinhas (Jz 2.6-13).
De fato, Israel nao produziu ido-
latria. Israel nao criou sua propria
falsa religiao, apenas tomou para
si os deuses pagaos ou comec;ou a
servir o Senhor na forma de ima-
gens semelhantes as que OS pa-
gaos usavam. No Egito e no de-
serto o povo praticou o culto egip-
cio aos idolos;24
Mais tarde, ja na
Palestina, o povo tornou-se culpa-
do por adorar os deuses cananitas,
fenicios (Baal, Astarote, Ashera),
e Assirios (o fogo e as estrelas).
Continuamente Israel violava o
primeiro eo segundo mandamen-
tos, e assim violava os fundamen-
tos do pacto.
Logo no comec;o dos dias
dos juizes, esses herois do povo da
lei, a historia de Israel foi uma
mistura de apostasia, punic;ao e
consequente temor, de urn lado, e
24
Ex 16.28; Js 24.14; Ez 20.7,13.
98
de resgate e benc;ao de outro (Jz
2.11-23). Esse foi urn periodo de
confusao, durante o qual as tribos
de Israel perderam a visao dena-
cionalidade, cada uma se engajou
em sua propria politica, e todo
homem fazia o que achava certo
aos seus proprios olhos (Jz 17.6;
21.25). Essa situac;ao so chegou ao
fim com Samuel e a instituic;ao do
reino. Contudo depois de
Salomao a unidade nacional foi
totalmente quebrada e dez tribos
se separaram da casa real de Davi.
Jeroboao transformou essa divisao
politica em uma divisao religiosa
ao construir urn santuario em Da,
introduzindo o culto de imagens
e abolindo o sacerdocio legitimo.
Assim ele se tornou o rei que "fez
pecar a Israel". A historia do rei-
no de Efraim durante dois secu-
los e meio transformou-se numa
historia de afastamento progres-
sivo de Deus. A profecia em vao
levantou sua voz, e o fim dessa
historia foi o cativeiro das dez tri-
bos. Juda, de fato, foi muito mais
privilegiado do que Israel, pois foi
continuamente governado pela
casa real de Davi, continuou com
o sacerdocio legitimo e como tem-
plo legitimo. Apesar de tudo isso
e das muitas reformas realizadas
por reis piedosos, a apostasia e a
idolatria se espalharam tambem
em Juda e o juizo de Deus se fez
sentir. Aproximadamente 140
0 CoNTEDDo DA REVELAc;:Ao EsPECIAL
anos depois de Israet Juda tam-
bern foi levado cativo.
A apostasia do povo de Is-
rael nao deve nos impedir de en-
xergar o fato de que Deus, atra-
ves dos seculos, preservou urn re-
manescente entre eles de acordo
com a eleic;ao da Grac;a. Houve urn
grupo em Israel que permaneceu
fiel ao pacto de Deus. Mesmo nos
dias dificeis de Elias houve sete
mil que nao dobraram seus joe-
lhos a Baal. Esses eram os piedo-
sos, os justos, os crentes, e, como
aqueles que foram mencionados
nos Salmos, continuaram colocan-
do sua confianc;a no Deus de Jac6
e nao se portaram de forma ina-
dequada com o pacto. Eles suspi-
ravam por Deus assim como a
corsa suspira pelas correntes das
aguas; eles preferiram 0 templo de
Deus a qualquer outro lugar; eles
meditaram na lei de Deus e se ape-
garam as Suas promessas. Para
eles a lei nao era urn fardo, mas
urn prazer; eles se alegravam nela
todos os dias. Eles repetiam as
palavras de Moises e diziam que
a guarda dessa lei provaria ser
sabedoria e entendimento aos
olhos das nac;oes. Quando o povo
ouviu as ordenanc;as da lei, cla-
mou: "Verdadeiramente este e urn
povo sabio e entendido, pois que
nac;ao e tao grande que tenha es-
tatutos e juizos tao justos como
toda esta lei que n6s hoje recebe-
mos (Dt 4.6-8)?
Amedida em que os tempos
99
ficavam mais carregados, mais fir-
memente eles se apegavam a pro-
messa. Deus nao abandonaria a
obra de Suas maos. Em conside-
rac;ao ao Seu nome e aSua fama
Ele nao podia quebrar o pacto que
tinha estabelecido com os ances-
trais do povo de Israel. De dentro
desse remanescente fiel, Deus cha-
mou homens que, como os profe-
tas, OS salmistas e OS sabios, decla-
raram a palavra de Deus e desdo-
braram o significado da promes-
sa de forma esclarecedora. Eles
colocaram sua cabec;a para fora
das profundidades de suas cala-
midades. Pela luz do Espirito do
Senhor eles viram o futuro e pro-
fetizaram urn novo dia, o dia do
Senhor, do Filho de Davi, do re-
novo de Jesse, do Emanuel, do
Carvalho de Justic;a, do Servo do
Senhor, do Anjo do Facto, e da
descida do Espirito Santo. 0 Ve-
lho Testamento comec;a, depois da
queda, com a promessa do des-
cendente da mulher (Gn 3.15) e
termina com o anuncio da vinda
do Anjo do Pacto (Ml3.1).
* * * * *
Depois do cativeiro tambem
houve urn remanescente fiel em
Israel (Ml 3.16). Atraves do cati-
veiro o povo, como povo, foi pur-
gado, permanentemente limpo da
idolatria e do culto a imagens, e
foi colocado sob a firme discipli-
na da lei por Esdras e Neemias.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Isso trouxe novos perigos em sua
esteira. Eles desenvolveram urn
escolasticismo escrituristico que
perscrutava a letra da lei mas que
cegava os olhos para toda a essen-
cia e espirito do velho pacto. Sur-
giram seitas como ados fariseus,
dos saduceus e dos essenios, que
por urn tratamento arbitrario da
revela<;ao divina substituiram o
ensino espiritual por urn ensino
terreno. Todavia, tambem nos
quatrocentos anos que decorre-
ram entre Malaquias e Joao Batis-
ta, Deus continuou conduzindo
Seu povo. Depois do exilio Israel
nunca mais teve independencia
politica plena. Israel passou de urn
dominio a outro e tornou-se suces-
sivamente sujeito a Persia e Me-
dia, Macedonia, Egito, Siria e
Roma. Israel tornou-se urn servo
em sua propria terra (Ne 9.36,37).
Contudo essa sujei<;ao poli-
tica trouxe beneficios. Israel pas-
sou a refletir cada vez mais sobre
seu proprio carater e chamado,
criou novamente orgulho de sua
possessao espiritual da revela<;ao
divina e encarou-a como seu pri-
vilegio peculiar, e tomou o maior
cuidado possivel com a cole<;ao e
preserva<;ao dessa revela<;ao. Essa
consciencia de seus privilegios
espirituais se tornou tao real em
Israel que nao apenas seu carater
foi formado por ela, mas tambem
atraves dela, Israel foi capaz de
manter sua identidade nacional
mesmo sob pesada persegui<;ao.
100
Israel sofreu e foi oprimido como
nenhum outro povo do mundo.
Tanto na Palestina quanto
fora dela Israel continuou existin-
do. Em seu Velho Testamento Is-
rael tinha urn tesouro mais valio-
so do que toda a sabedoria dos
gentios. Israel formou uma comu-
nidade cosmopolita tendo Jerusa-
lem como sua capital. Em suas si-
nagogas os israelitas ofereceram
as na<;oes idolatras urn espetacu-
lo de uma religiao sem uma ima-
gem sequer, e sem altar, sem sa-
crificio e sem sacerdocio. Eles pre-
garam em todos os lugares a uni-
dade e a integridade do Deus de
Israel e tambem carregaram em
seu peito a inacreditavel esperan-
<;a de urn futuro glorioso no qual
Israel seria ben<;ao para todas as
na<;oes. Dessa forma eles pavi-
mentaram o caminho do Cristia-
nismo entre os povos pagaos. E
em Israel, pela Gra<;a de Deus,
muitos crentes foram preserva-
dos, que, como Simeao e Ana, e
muitos outros, esperavam a re-
den<;ao de Israel em total expec-
tativa. Maria, a mae do Senhor, e
o mais glorioso exemplo desses
santos. Nela Israel alcan<;ou seu
destino, ou seja, recebeu a mais
alta revela<;ao de Deus em humil-
de fe, e conservou-a. "Aqui esta a
serva do Senhor; que se cumpra
em mim conforme a tua palavra"
(Lc 1.38).
* * * * *
0 CoNTEUDO DA REVELA<;:Ao EsPECIAL
Como podemos ver, toda a
revela<;ao de Deus no Velho Tes-
tamento converge para Cristo, nao
para uma nova lei, ou doutrina, ou
institui<;ao, mas para a pessoa de
Cristo. Essa pessoa e a completa
revela<;ao de Deus; o Filho do
Homem e o proprio e unigenito
Filho de Deus. A rela<;ao entre o
Velho eo Novo Testamento nao e
como a da lei e do Evangelho. E
como a da promessa e seu cum-
primento (At 13.12; Rm 1.2), da
sombra e do objeto (Cl 2.17), da
imagem e da realidade (Hb 10.1),
das coisas abaladas e das coisas
que nao se abalam (Hb 12.27t da
escravidao e da liberdade (Rm
8.15; Gl 4). Ja que Cristo eo con-
teudo real da revela<;ao do Velho
Testamento (Jo 5.39; 1Pe 1.11; Ap
19.10), Ele e a coroa da dis-
pensa<;ao do novo pacto. Ele eo
cumprimento da lei, de toda Jus-
ti<;a (Mt 3.15; 5.17), de todas as pro-
messas, o sim eo amem (2Co 1.20).
0 povo de Israet com sua hist6-
ria, com seus oficios e institui<;iSes,
com seu templo e seu altar, com
seus sacrificios e cerimonias, com
sua profecia, com sua salm6dia e
com seu ensino sabio alcan<;ou seu
objetivo e seu prop6sito em Cris-
to. Cristo e o cumprimento de
tudo, primeiro em Sua pessoa e
surgimento, e tambem em Suas
palavras e obras, em Seu nasci-
mento e em Sua vida, em Sua
morte e em Sua ressurrei<;ao, em
Sua ascensao e em Sua posi<;ao a
101
direita de Deus.
Portanto, se Ele apareceu e
terminou Sua obra, a revela<;ao de
Deus nao pode ser ampliada ou
aumentada. Pode ser apenas
explicada pelo testemunho dos
ap6stolos, e ser pregada a todas
as na<;iSes. Como a revela<;ao esta
completa, e chegado o momento
no qual seu conteudo e feito pro-
priedade da ra<;a humana. Da
mesma forma que tudo no Velho
Testamento aponta para Cristo,
tudo no Novo Testamento e deri-
vado dEle. Cristo e o ponto cen-
tral de todas as epocas. A promes-
sa feita a Abraao agora chega a
todas as na<;iSes. A Jerusalem que
era de baixo da lugar aJerusalem
que e de cima, a qual e nossa mae
(Gl4.26). Israel e suplantado pela
Igreja em todas as linguas e po-
vos. Essa ea dispensa<;ao da ple-
nitude dos tempos, na qual a pa-
rede do meio foi derrubada, na
qual judeus e gentios sao feitos
novas criaturas e na qual tudo e
reunido sob a mesma Cabe<;a, a
saber, Cristo (Ef 1.10; 2.14)5).
Essa dispensa<;ao continua-
rei. ate que a medida dos gentios
se complete e Israel seja salvo.
Quando Cristo tiver reunido Sua
Igreja, preparado Sua noiva, leva-
do a cabo a expansao de Seu rei-
no, Ele o clara ao Pai para que
Deus seja tudo em todos (1Co
15.28). "Eu serei teu Deus, e tu se-
ras meu povo". Esse eo conteudo
da promessa. Essa promessa al-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
can<;ara seu cumprimento pleno
na nova Jerusalem em Cristo, o
102
que era, 0 que e, e 0 que ha de vir
(Ap 1.4).
CAPITULO
If
As SAGRADAS EscRITURAS
N
osso conhecimento dare-
velac;:ao, tanto da geral
quanto da especial, vern
a n6s atraves das Escrituras.
Eimportante entender are-
lac;:ao entre a revelac;:ao e a Escri-
tura. Por urn lado, ha uma dife-
renc;:a importante entre elas. Are-
velac;:ao, por exemplo, precedeu o
seu registro em alguns casas por
urn longo tempo. Dessa forma,
embora certamente houvesse re-
velac;:ao antes de Moises, ainda
nao havia Escritura. Alem disso,
a revelac;:ao continha muito mais
do que foi posteriormente regis-
trado. Os livros dos profetas,
como por exemplo, o do profeta
Amos, sao geralmente urn resumo
do que ele falou pessoalmente
aos seus contemporaneos. Alguns
profetas do Velho Testamento e
alguns profetas do Novo Testa-
mento - e eles eram canais da re-
velac;:ao especial - nao deixaram
103
registros escritos. E n6s somas ate
mesmo informados de que Jesus
realizou muitos outros sinais, tao
numerosos que se cada urn deles
fosse escrito o mundo nao pode-
ria canter os livros (Jo 20.30; 21.25).
E por outro lado Deus pode ter
revelado algo aos Seus profetas e
ap6stolos que eles nao sabiam ate
o momenta em que comec;:aram a
escrever, e portanto, algo sabre o
que eles ainda nao tinham prega-
do. Isso everdade, pelo menos em
parte, sabre a revelac;:ao que Joao
teve em Patmos com relac;:ao ao
futuro.
Portanto, a Escritura nao ea
revelac;:ao em si, mas a descric;:ao,
o registro que pode ser conheci-
do da revelac;:ao. Todavia, quan-
do se diz que a Escritura eo re-
gistro da revelac;:ao, n6s devemos
evitar cair em outro erro. Ha aque-
les que nao apenas distinguem
entre a revelac;:ao e a Escritura,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mas tambem separam as duas.
Eles reconhecem que Deus esta-
va agindo de forma especial na
revela<;:ao que precede a Escritu-
ra, mas creem que o registro da
revela<;:ao foi totalmente deixado
por conta das pessoas que a es-
creveram, e que isso aconteceu
totalmente fora dos limites da
providencia especial. De acordo
com esse ponto de vista a Escri-
tura continua sendo urn registro
da revela<;:ao especial, mas urn
registro incidental e sujeito ao
erro. 0 resultado disso e que n6s
devemos, a custo de grande difi-
culdade, examinar as Escrituras
para ver quais das suas partes
pertencem e quais nao pertencem
a revela<;:ao especial. Nessa base
uma grande distin<;:ao e feita en-
tre a Palavra de Deus e as Sagra-
das Escrituras. Esse ponto de vis-
ta afirma que a Escritura nao ea
Palavra de Deus, mas contem a
Palavra de Deus.
Tal ponto de vista da ques-
tao nao e verdadeiro, pois alem
de interpretar a rela<;:ao entre a
palavra e a Escritura muito meca-
nicamente, ele tambem se esque-
ce do fato de que, quando Deus
quis dar uma revela<;:ao especial
que, na descendencia de Abraao
era apontada para toda a ra<;:a hu-
mana em Cristo, Deus tambern
tomou providencias para pre-
serva-la em seu estado puro e fa-
zer com que a revela<;:ao seja sem-
pre confiavel. A palavra escrita
104
difere da palavra falada pelo fato
de que ela nao se perde no ar, mas
e preservada; ela nao e como as
tradi<;:oes orais, sujeitas a falsifi-
ca<;:ao; e seu alcance nao e limita-
do a umas poucas pessoas que
podem ouvi-la, pelo contrario, a
palavra escrita pode se espalhar
por todos os povos e em todas as
terras. A escrita da urn carater de
permanencia a palavra falada,
protege-a contra a falsifica<;:ao e
aumenta seu alcance.
Todavia n6s nao temos ne-
cessidade de nos demorarmos
nessa argumenta<;:ao humana. 0
fato de que a revela<;:ao especial
procede de Deus e que a Escritu-
ra veio a existencia sem receber
um cuidado especial da parte de
Deus e diretamente contrario ao
proprio testemunho da Escritura.
Ela repetida e enfaticamente de-
clara que a Escritura e a Palavra
de Deus. De fato a Escritura deve
ser diferenciada da revela<;:ao que a
precede, mas nao pode ser seprmz-
drz da revela<;:ao. A Escritura nao e
urn suplemento humano, inci-
dental, arbitrario e sujeito a erro
feito arevela<;:ao, mas urn compo-
nente da revela<;:ao. A Escritura e
o cumprimento e a pedra angular
da revela<;:ao.
* * * * *
Vejamos agora as claras afir-
ma<;:oes que a Escritura faz sobre
Sl mesma.
As SAGRADAS EsCRITURAs
Primeiro, Deus freqi.iente-
mente envia Seus profetas nao
meramente para proclamar a re-
velac;:ao pela palavra de seus 1<1-
bios, mas tambem para escreve-
la. Em Exodo 17.14 Moises rece-
be ordem do Senhor para escre-
ver o registro da luta e da vit6ria
contra Amaleque- uma batalha
que foi de grande importancia
para Israel - como memorial no
livro dos atos redentivos de Deus.
Em Exodo 24.3,4,7 e 34.27 Moises
e incumbido de escrever as leis e
os estatutos de acordo com os
quais Deus firmou Seu pacto com
Israel. E quando Israel chegou ao
fim de sua jornada pelo deserto e
chegou novamente a Jerico nos
campos de Moabe, n6s somos ex-
pressamente informados de que
Moises relatou as jornadas dos fi-
lhos de Israel de acordo com o
mandado do Senhor (Nm 33.2).
Alem disso, e dito especificamen-
te sobre o cantico de Moises re-
gistrado em Deuteronomio 32 que
ele deveria ser escrito e ensinado
aos filhos de Israel para que em
dias de apostasia ele servisse de
testemunha contra Israel (Dt
31.19,22). Ordens semelhantes
para registrar a revelac;:ao recebi-
da foram dadas aos profetas em
seu tempo25
• Embora tais ordens
se refiram somente a uma peque-
na parte da Escritura, elas mos-
tram que Deus profbe que o ho-
mem acrescente ou diminua algo
de suas palavras (Dt 4.2; 12.32; Pv
30.6) e tern dedicado urn cuidado
especial ao registro escrito de Sua
revelac;:ao.
Em segundo lugar, Moises
e os profetas sao perfeitamente
conscientes do fato de que eles
estao proclamando a mensagem
de Deus nao apenas de forma
oral, mas tambem de forma escri-
ta. Moises e chamado para sua
tarefa especial, isto e, echamado
para ser o Iider do povo de Israel
(Ex 3). Mas o Senhor tambem fala
com ele face a face, como urn ho-
mem fala ao seu amigo (Ex 33.11),
e coloca-o a par de todos os Seus
estatutos e ordenanc;:as. Repetidas
vezes, e como urn preambulo para
cada lei especifica, sao menciona-
das as palavras: "E o Senhor dis-
se", "eo Senhor falou", e outras
semelhantes (Ex 6.1,10,13). Tanto
nos livros de Moises como em
toda a Escritura, toda a entrega da
lei e atribuida ao Senhor. Ele mos-
trou Sua palavra a Jac6, Seus es-
tatutos e Seus juizos a Israel. Nao
fez assim a nenhuma outra nac;:ao,
e para seu julgamento, outras na-
c;:oes nao o conheceram (Sl
147.19,20; 103.7). Os profetas tam-
bern sao conscientes da fonte de
sua profecia. Eles sabem que o
Senhor os chamou26
, e que rece-
25
Is 8.1; 30.8; Jr 25.13; 30.12; 36.2; Ez 24.2; Dn 12.4; He 2.2.
26
1 Sm 3; ls 6; Jr 1; Ez 1-3; Am 3.7,8; 7.15.
105
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
beram dele a Sua revela<;ao27
• 0
que Amos diz era a convic<;ao de
todos eles: "Certarnente o Senhor
nao fara coisa algurna sern prirnei-
ro revelar o seu segredo aos seus
servos, os profetas" (Am 3.7. Corn-
pare com Gn 18.17). Mas eles tarn-
bern sabiarn que quando escrevi-
arn estavam proclamando a pala-
vra do Senhor, e nao a sua propria
palavra. Assirn como fez Moises
ao registrar as leis, assirn tarnbern
os profetas introduziarn suas pro-
fecias corn as formulas: "Assirn
diz o Senhor", "a palavra do Se-
nhor veio a rnirn", ou "a visao",
"a palavra", ou "a rnensagern" do
Senhor28
.
Ern terceiro lugar ha o teste-
rnunho do Novo Testamento. Je-
sus e os apostolos repetidarnente
faziam cita<;6es do Velho Testa-
mento sob o nome de Moises,
Isaias, Davie Daniel (Mt 8.4; 15.7;
22.43; 24.15). Corn a rnesrna fre-
quencia eles faziarn uso das se-
guintes frases introdutorias: "Esta
escrito" (Mt 4.4), ou "como diz a
Escritura" (Jo 7.38), ou "assirn diz
o Espfrito Santo" (Hb 3.7), e ou-
tras frases sernelhantes. Por esse
rnetodo de referenda eles indi-
carn claramente que a Escritura do
Velho Testamento, apesar de ter
sido cornposta de varias partes e
escrita por varios autores, e urn
conjunto organico tarnbern ern
sua forma escrita, e seu autor e
Deus. Nern Jesus nern Seus apos-
tolos rnencionarn a Escritura de
forma indireta. Eles fazern cita-
<;6es diretas corn as rnesrnas pala-
vras usadas pelo escritor. Jesus
declara que a Escritura nao pode
ser quebrada- isto e, nao pode ser
destituida de sua autoridade (Jo
10.35), e declara tarnbern que Ele
pessoalrnente nao veio para anu-
lar a lei ou os profetas, mas para
curnpri-los (Mt 5.17; Lc 6.27). 0
apostolo Pedro escreve que a pa-
lavra da profecia e verdade e dig-
na de aceita<;ao, e e urna luz que
brilha em lugar tenebroso. Isso
acontece porque a Escritura con-
tida no Velho Testamento nao re-
pousa sobre urna prega<;ao pesso-
al e uma interpretaao pessoal
sobre o futuro, pois a profecia da
Escritura nao provem de particu-
lar elucida<;ao; porque nunca ja-
rnais qualquer profecia foi dada
por vontade hurnana; entretanto,
homens [santos] falararn da parte
de Deus, rnovidos pelo Espirito
Santo (2 Pe 1.19-21; 1 Pe 1.10-12).
No rnesrno sentido Paulo testifica
que as Sagradas Escrituras podern
fazer-nos sabios para a salva<;ao,
se nos as lernos e pesquisarnos
pela fe que esta ern Cristo Jesus,
pois elas nos sao dadas pela ins-
pira<;ao de Deus, e por isso sao
uteis para o ensino, para a repre-
'
7
Is 5.9; 6.9; 22.14; 28.22; Jr 1.9; 3.6; 20.7-9;_Ez 3.16,26,27; Am 3.8.
28
Js 1.1; 2.1; 8.1; 13.1; Jr 1.2; 2.1; 4.11; Ez 1.1; 2.1; 3.1; D11 7.1; Am 1.3,6,9.
106
As SAGRADAS EscruTURAs
ensao, para a corre<;ao na justi<;a
(2 Tm 3.16).
Em quarto lugar, sobre as
Escrituras do Novo Testamento,
podemos dizer que embora Jesus
nao tenha deixado urn documen-
to escrito sobre Si mesmo, Ele es-
colheu, chamou e qualificou Seus
ap6stolos para sair pelo mundo,
particularmente depois de Sua
partida, para serem Suas testemu-
nhas29. Ele os equipou para a rea-
liza<;ao dessa tarefa dando-lhes
gra<;as e poderes especiais30
, e
mais especificamente dotou-os
com o Espirito Santo, que traria
todas as coisas que Jesus tinha fei-
to asua lembran<;a (Jo 14.26) e que
os guiaria a toda a verdade, inclu-
sive a verdade sobre coisas que
ainda estavam por vir (Jo 15.26,27;
Jo 16.13). Assim como o Filho veio
para glorificar o Pai, o Espirito
Santo veio para glorificar o Filho
e, para alcan<;ar esse objetivo, o
Espirito recebe do Filho tudo o
que Ele fala e faz (Jo 16.14).
Os ap6stolos deram seu tes-
temunho de Cristo nao apenas
aos seus contemporaneos e aos
seus compatriotas, que viviam em
Jerusalem, Judeia e Samaria, mas
tambem a todas as criaturas e ate
aos confins da terra31
. Nesse man-
dato de ir por todo o mundo esta-
va contida a ordem de dar teste-
munho de Jesus tambern em for-
29
Mt 10.1; Me 3.13; Le 6.13; 9.1; fa 6.70.
rna escrita, apesar dos ap6stolos
nao terem recebido sua missao
nesses termos especificos. Mas se
a promessa dada a Abraao tam-
bern alcan<;aria toda a ra<;a huma-
na em Cristo, ela nao poderia
cumprir seu prop6sito a menos
que fosse registrada por escrito e
desta forma fosse preservada por
todas as epocas e distribuida a
todos os povos. Os ap6stolos fo-
ram guiados em sua missao pelo
Espirito Santo, que eles natural-
mente proclamavam atraves de
sua pena e atraves das epistolas
pelas quais eles davam testemu-
nho da plenitude da Gra<;a e da
verdade que existia em Cristo Je-
sus. Nao apenas em sua prega<;ao
oral, mas tambem em seus escri-
tos, eles demonstravam ter clara-
mente percebido o prop6sito di-
vino de que eles revelassem aver-
dade que Deus tinha revelado em
Cristo e que atraves de Seu Espi-
rito tinha tornado conhecida a
eles.
Mateus escreve o livro da
gera<;ao, isto e, da hist6ria de Je-
sus Cristo, o Filho de Davi (Mt
1.1). Marcos fala como o Evange-
lho come<;ou com Jesus Cristo, o
Filho de Deus, e teve seu ponto
de origem nEle (Me 1.1). Lucas
quer, por meio de uma cuidado-
sa investiga<;ao e de urn registro
organizado, dar seguran<;a a
30
Mt 10.1,9; Me 16.15 ss.; At 2.43; 5.12; Rm15.19; Hb 2.4.
31
Mt 28.19; Me 16.15; At 1.8.
107
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Teofilo a respeito das coisas que
eram verdadeiramente cridas en-
tre os santos com base nos teste-
munhos dos apostolos (Lc 1.1-4).
Joao escreve seu Evangelho para
que nos creiamos que Jesus e0
Cristo, o Filho de Deus, e para
que, crendo, tenhamos vida em
Seu nome (Jo 20.31); e em sua pri-
meira carta ele tambem declara o
que tinha visto e ouvido, e o que
os seus olhos tinham contempla-
do, e o que suas maos tinham
apalpado, com rela<;ao ao Verbo
da Vida (1 Jo 1.1-3). Paulo esta
persuadido de que foi chamado
nao apenas para ser urn ap6stolo
pelo proprio Cristo (Gl1.1), e que
recebeu seu Evangelho do pro-
prio Cristo atraves de uma reve-
la<;ao32, mas tambem que pela pa-
lavra de seus labios e de sua pena
ele esta proclamando a Palavra de
Deus33
. Ele chega ate mesmo a
dizer que se alguem pregar outro
Evangelho e maldito (Gl 1.8). E,
como todos os apostolos
conectaram a vida eterna ou a
morte eterna com a aceita<;ao ou
com a rejei<;ao da mensagem que
pregavam, o apostolo Joao, no
ultimo capitulo do Apocalipse diz
que todos aqueles que acrescen-
tarem ou tirarem qualquer coisa
desse livro receberao pesadas pu-
ni<;6es (Ap 22.18,19).
* * * * *
32
Gil. 12; Ef3.2; 1 Till 1.12.
A atividade especial do Es-
pirito Santo por meio da qual foi
feito o registro da revela<;ao geral-
mente recebe o nome de inspira-
~fio (2Tm 3.16). Alguma luz e
lan<_;ada sobre a natureza da ins-
pira<;ao atraves de compara<;6es
emprestadas da natureza e atra-
ves de explana<;6es especificas nas
Sagradas Escrituras. De forma ge-
ral e verdade que 0 ser humano e
capaz de assimilar em sua mente
o pensamento de outras pessoas
e de ser influenciado por outros
em seu pensamento. Toda instru-
<;ao e educa<;ao e baseada nessa
habilidade, assim como a ciencia
eo conhecimento. Tal comunica-
<;ao de pensamentos entre duas
pessoas geralmente acontece me-
diante o emprego de meios, que
podem ser sinais ou gestos, pala-
vras faladas ou escritas. Dessa for-
ma, quando nos somos influenci-
ados pelos pensamentos de outra
pessoa, nos geralmente os estu-
damos deliberada e intencional-
mente, e geralmente a custa de
consideravel esfor<;o. Dessa forma
nos tentamos fazer com que os
pensamentos e ideias de outras
pessoas passem a fazer parte de
nossa vida espiritual. Mas os fe-
nomenos de hipnotismo, suges-
tao e outros semelhantes provam
que sem uma atividade conscien-
te de nossa parte pensamentos e
33
1 Ts 2.13; 2 Ts 2.15; 3.14; 1 Co 2.4,10-13; 2 Co 2.17.
108
As SACRADAS EscruTURAs
ideias de outras pessoas podem
ser introduzidos em nossa cons-
ciencia, podem ser impostos a n6s
e podem comandar nosso desejo
e ac;:ao. Dessa forma as pessoas
podem ser transformadas em ins-
trumentos passivos que simples-
mente carregam o desejo do
hipnotizador. Tanto a Escritura
quanto a experiencia nos ensinam
que desta forma 0 ser humano e
suscetivel a influencias e poderes
de maus espiritos; em tais casos
as pessoas nao falam e agem por
si mesmas, mas sao governadas
pelo mau espirito em seu pensa-
mento e em sua conduta. Em Mar-
cos 1.24, por exemplo, e 0 espiri-
to impuro que fala atraves do ho-
mem possesso e reconhece Jesus
como sendo o Santo de Deus.
Outro fenomeno que pode
servir para lanc;:ar luz sobre ana-
tureza da inspirac;:ao do Espirito
Santo e a assim chamada inspira-
c;:ao dos artistas. Todos os grandes
pensadores e poetas aprenderam
pela experiencia que devem a
melhor e mais bonita parte de sua
produc;:ao nao ao seu proprio es-
forc;:o, mas a repentinos flashes de
discernimento. Naturalmente
uma experiencia nao exclui a in-
vestigac;:ao preliminar e a reflexao.
0 genio nao faz esforc;:o e empre-
endimentos desnecessarios.
Apesar de, em tais casos o
34
Gn 1.3; Sl 33.6; 104.30.
35
J6 33.4; 51139. 1-16 ss.
109
estudo ser uma regra geral, a in-
dispensavel experiencia inspira-
cional e o discernimento que dela
resulta nao sao conseqiiencias 16-
gicas ou frutos maduros do estu-
do. Nos homens de genio sempre
ha urn poder secreto que nao e
suscetivel a elaborac;:oes 16gicas.
Ao escrever para sua irma,
Nietzsche disse a respeito desse
poder secreto: "Voce nao imagi-
na como sao poderosas essas ins-
pirac;:oes; elas enchem a pessoa
com urn apaixonado extase men-
tal, que ela se sente transportada
e totalmente alem de si mesma,
nada ouve e nada ve - simples-
mente aceita. 0 pensamento vern
como uma luz. Tudo acontece
involuntariamente, como sea pes-
soa estivesse sob uma tempesta-
de de liberdade, independencia,
poder e divindade. Essa e a mi-
nha experiencia de inspirac;:ao".
Certamente, que se manifes-
tac;:oes desse tipo acontecem na
vida normal das pessoas e dos
artistas, nao pode haver base para
se atacar a influencia de Deus so-
bre a vontade e o pensamento de
Suas criaturas. Atraves de Seu Es-
pirito, Deus opera em Suas cria-
turas e esta presente nelas34
. E
dessas criaturas e mais particular-
mente o homem que foi feito pelo
sopro do Todo Poderoso e pelo
Espirito de Deus35
. Em Deus n6s
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
------------------
vivemos, enos movemos e existi-
mos (At 17.28). Nosso pensamen-
to, vontade e execw;ao, mesmo
sob a maldi<;:ao do pecado, acon-
tece sob o dominio de Deus, e
nada acontece fora do conselho de
Sua vontade (Ef 1.11). Como ribei-
ros de aguas, assim e0 cora<;:aO do
rei nas maos do Senhor; este, se-
gundo o seu querer, o inclina (Pv
21.1). Os caminhos do homem es-
tao perante o Senhor, e ele consi-
dera todas as suas veredas (Pv
5.21; 16.9; 19.21; 21.2). E, de uma
forma totalmente diferente e mui-
to mais intima, Deus, pelo Seu
Espirito, mora no cora<;:ao dos
Seus filhos. Por esse Espirito, Ele
os traz aconfissao de Cristo como
seu Senhor (1Jo 4.3), faz com que
eles conhe<;:am as coisas que lhes
sao dadas por Deus (1Co 2.12; 1Jo
2.20; 3.24; 4.6-13), concede-lhes as
ben<;:aos da sabedoria e do conhe-
cimento (1Co 12.8) e efetua neles
tanto o querer quanta o realizar
segundo a Sua boa vontade (Fp
2.13).
Obviamente todas essas in-
fluencias de Deus sobre o mundo
e sobre a Igreja nao sao identicas
a inspira<;:ao que veio sobre OS
profetas e ap6stolos, mas servem
ao mesmo tempo como esclareci-
mento e explana<;:ao. Se everda-
de que realmente ha algo como
uma morada e opera<;:ao do Espi-
rito de Deus em todas as criatu-
ras, e se o mesmo Espirito, de
uma forma diferente e especial,
110
mora nos filhos de Deus, entao
nao ha motivo para que se pense
que uma atividade especial cha-
mada inspira<;:ao seja impossivel
ou improvavel. Contudo, ao mes-
mo tempo enecessaria fazer a dis-
tin<;:ao entre a opera<;:ao do Espiri-
to de Deus no mundo e na Igreja,
por urn lado, e nos profetas e
ap6stolos, por outro. Essa distin-
<;:ao come<;:a a tornar-se aparente
quando comparamos Romanos
8.14 com 2Pedro 1.21. No primei-
ro texto Paulo diz que todos os
que sao guiados pelo Espirito de
Deus sao filhos de Deus; mas, no
segundo, Pedro declara que ho-
mens santos de Deus foram movi-
dos pelo Espirito Santo, e assim foi
dada a profecia. A dire<;:ao do Es-
pirito ea por<;:ao de todos OS cren-
tes e consiste em uma ilumina<;:ao
da mente e de urn governo e dire-
<;:ao da vontade e das inclina<;:oes;
em razao dessa influencia a men-
te recebe o conhecimento e o po-
der e o desejo que agradam a
Deus. Mas a "mo<;:ao" do Espirito
Santo foi concedida somente aos
profetas e aos ap6stolos e consis-
tiu de uma excita<;:ao e de uma
provoca<;:ao para fazer com que a
revela<;:ao da vontade de Deus fos-
se conhecida por eles.
0 carater especial dessa re-
vela<;:ao eindicado na forma pela
qual o Novo Testamento se refe-
re ao Velho, dizendo que aquila
que foi dito no Velho Testamento
foi falado pelo Senhor atraves dos
As 5AGRADAS ESCRITURAS
profetas (Mt 1.22; 2.15, 17, 23; 3.3;
4.14). 0 texto grego usa uma ex-
pressao para essa forma que de-
signa Deus como a fonte ou ori-
gem daquilo que foi dito, e que
designa os profetas como meios
ou agentes daquilo que foi dito. A
distin<;ao e destacada de modo
mais evidente quando nos lemos
que Deus falou pela boca de Seus
profetas36
• A verdade que a Escri-
tura ensina e, portanto, a seguin-
te: que Deus, ou Seu Espirito, e
quem realmente fala Sua palavra,
mas para dar expressao a ela Ele
faz uso dos profetas e apostolos
como Seus agentes.
* * * * *
Contudo nos entenderemos
a Escritura de forma equivocada
se inferirmos dessas indica<;6es
que os profetas e os apostolos fo-
ram agentes meramente passivos,
mental e volitivamente inativos,
e que serviram ao Espirito Santo
meramente como urn megafone,
pois e verdade nao apenas que
Deus honra Sua propria obra e
nunca trata Suas criaturas racio-
nais como se elas fossem irracio-
nais, mas tambem que a a<;ao do
Espirito Santo e contraria a qual-
quer ideia mecanica de inspira-
<;ao. Apesar dos profetas terem
36
Lc 1.70; At 1.16; 3.18; 4.25.
3 7
Mt 22.43,45; fa 1.23; 5.46; Rm 10.20.
38
fa 14.26; 1fo 1.1-3.
39
Nm 21.14; fs 10.13.
111
sido movidos ou dirigidos pelo
Espirito Santo, eles mesmos tambem
falaram (2 Pe 1.21). As palavras
que eles escreveram sao varias
vezes chamadas de suas palavras37
•
Em varias passagens nos vemos
que eles foram preparados para
seu oficio, separados e equipados
para ele (Jr 1.5; At 7.22; Gl1.15). E
assim como aconteceu ao receber
a palavra, tambem ao escrever a
revela<;ao eles permaneceram
conscientes de seus atos; sua pro-
pria atividade nao e suprimida
pelo mover do Espirito. Mas e
aperfei<;oada e purificada por Ele.
Eles mesmos fizeram diligentes
investiga<;6es (Lc 1.3), refletiram
sobre a revela<_;ao que tinham re-
cebido em data anterior38
, fizeram
uso de fontes historicas39
, e alguns
deles, os salmistas, por exemplo,
encontraram o material para suas
musicas em sua propria experien-
cia, e, em todos os escritos dos
quais a Biblia e composta, a dis-
posi<;ao do escritor, a qualidade
especial de seu carater, seu desen-
volvimento pessoal e sua educa-
<_;ao, sua propria linguagem e seu
estilo- tudo isso e expresso atra-
ves de cada urn dos varios escri-
tores. 0 estudo da Escritura nos
ensina nao apenas a unidade da
Palavra de Deus; ele nos faz co-
nhecer as diferentes pessoas que
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
a escreveram. Quanta diferen<;a
existe entre os livros de Reis e
Cronicas, entre Isaias e Jeremias,
entre Mateus e Lucas, entre Joao,
Pedro e Paulo!
* * * * *
Tal concep<;ao de inspira<;ao
como essa que foi aqui sugerida
permite-nos fazer plena justi<;a ao
lado humano das Sagradas Escri-
turas. A Bfblia nao chegou ate n6s,
completa e totalmente, em apenas
urn momento. Ela se desenvolveu
gradativamente. 0 Velho Testa-
mento como n6s o conhecemos e
composto por trinta e nove livros:
cinco deles falam sobre a lei, doze
sao hist6ricos (de Josue a Ester),
cinco sao poeticos (de J6 aos
Canticos de Salomao), e dezessete
sao profeticos. Essa ordem, natu-
ralmente, nao e cronol6gica, pois
muitos livros hist6ricos, como por
exemplo os de Esdras, Neemias e
Ester sao de uma data muito pos-
terior a muitos dos livros poeti-
cos e profeticos, e entre os livros
profeticos muitos dos menores,
tais como Joel, Obadias, Amos e
Oseias sao mais antigos que os
livros maiores de Isaias, Jeremias,
Ezequiel e Daniel. A ordem e ba-
seada na natureza do conteudo,
nao na cronologia. E o registro de
todos esses livros aconteceu gra-
dualmente, durante muitos secu-
los, em circunstancias muito dife-
rentes e atraves do labor de ho-
112
mens diferentes.
Na ciencia da teologia ha
uma area que se ocupa especial-
mente com a investiga<;ao das cir-
cunstancias sob as quais urn de-
terminado livro da Bfblia veio a
existir, por quem ele foi escrito, a
quem foi endere<;ado, e coisas se-
melhantes. Devido aos abusos
que ocorreram nessa area de es-
tudos, ela recebeu urn nome ruim.
N6s ouvimos de vez em quando
que a "alta critica" tern sistemati-
camente arrancado pagina por
pagina da Biblia. Mas o abuso
com que urn objeto e usado nao
faz com que seu correto uso seja
mau. Se n6s queremos entender
as Escrituras em sua totalidade e
em suas partes e necessaria co-
nhecer exatamente como a Bfblia
foi gradualmente sendo escrita e
sob quais circunstancias cada li-
vro foi escrito. A longo prazo esse
conhecimento pode apenas bene-
ficiar a interpreta<;ao da Palavra
de Deus. N6s aprendemos com
isso que a inspira<;ao do Espirito
de Deus entrou profunda e am-
plamente na vida dos santos ho-
mens de Deus.
For seculos, isto e, ate o tem-
po de Moises, nao havia Escritu-
ra, nao havia urn registro escrito
da Palavra de Deus. Pelo menos
n6s nao temos conhecimento da
existencia de tal registro. Eclaro
que isso nao significa que seja
impossivel que algo como urn re-
gistro escrito de alguma palavra
As SAGRADAS EscRITURAS
ou evento tenha sido feito antes
do tempo de Moises, alguma pa-
lavra ou evento que tenha sido
muito importante para a hist6ria
da revelac;:ao e que por isso tenha
sido posteriormente preservado
nos livros de Moises.
Nao faz muito tempo que o
fato dessa possibilidade ser admi-
tida seria chamada de loucura,
pois supunha-se que a arte da es-
crita nao era conhecida no tempo
de Moises. Mas em razao de des-
cobertas feitas na Babilonia e no
Egito n6s agora estamos melhor
informados e sabemos nao so-
mente que a arte da escrita era
conhecida muito antes do tempo
de Moises, mas que tambem era
muito usada.
N6s temos conhecimento de
eventos e de leis dessa epoca que
foram escritos. A escrita era co-
nhecida varios seculos antes de
Moises. Portanto nao e totalmen-
te irrazoavel supor que Moises,
antes de seus registros hist6ricos
e da entrega da lei, tenha feito uso
de fontes mais antigas. 0 registro
de Genesis 14, por exemplo, pode
muito bern ser urn desses casos.
Mas n6s nao podemos ter
certeza disso e em geral n6s po-
demos dizer que antes de Moises
nao ha registro da Palavra de
Deus. Eclaro que havia a Palavra
de Deus, pois a revelac;:ao especi-
al comec;:ou logo depois da que-
cia e, portanto, havia tambem nes-
se sentido algo que poderia ser
115
chamado de canon, isto e, uma
regra de fe e vida. A rac;:a humana
jamais ficou totalmente desprovi-
da da Palavra de Deus. Sempre,
desde sua origem, o homem tern
possuido nao apenas a revelac;:ao
geral de Deus em sua consciencia,
mas tambem a revelac;:ao especial
de Deus na palavra e na hist6ria.
Mas essa palavra de Deus nao foi
escrita imediatamente; ela foi
transmitida oralmente por famili-
as e gerac;:oes, sendo passada dos
pais aos filhos. Naqueles tempos
antigos em que a populac;:ao da
terra era bern pequena, quando as
pessoas ainda desfrutavam da
benc;:ao de urna longa vida, quan-
do o relacionamento familiar, o
senso de familia e o respeito ao
passado representavam muito
mais do que em nosso tempo,
essa forma de continuidade era
suficiente para a preservac;:ao
pura e a expansao da Palavra de
Deus.
Posteriormente, contudo,
quando as pessoas comec;:aram a
se espalhar pela face da terra, e
quando cairam em todo tipo de
idolatria e superstic;:ao, a tradic;:ao
oral deixou de ser suficiente. E
por isso Moises comec;:ou a regis-
trar a Palavra de Deus. Pode ser
que existissem registros que ele
tenha resolvido incluir em seus
escritos. Como foi dito, n6s nao
temos certeza, mas a probabilida-
de de que isso tenha acontecido
aumenta quando em apenas
Fundamentos Teol6gicos da FC Crista
umas poucas passagens mencio-
na-se nos assim chamados cinco
livros de Moises que ela tenha
sido escrita pelo proprio
Moises40
• Portanto e perfeitamen-
te possivel que varias pon;oes
dos cinco livros de Moises tenham
existido antes de seu tempo, e
tambem que eles tenham sido re-
visados por Moises ou mesmo
depois de sua morte, por alguem
las (1 Co 16.21). E o livro de Sal-
mas e considerado, as vezes, to-
talmente da autoria de Davi par-
que ele foi o fundador da
salm6dia, e isso e feito apesar de
urn born numero de salmos nao
terem sido escritos por Davi, mas
por outros autores.
* * * * *
que tenha editado a sua obra e Sabre a base da lei mosaica,
acrescentado essas pon;oes. Essa isto e, sabre a base do pacta de
ultima possibilidade tern sido Deus, que Deus firmou com OS
bern aceita em periodos recentes patriarcas, que Deus confirmou
com rela<;ao ao registro da morte com Israel no Sinai, e que orde-
de Moises (Dt 34), mas pode ser nou na lei de Moises, desenvol-
ampliada para incluir tambem os veram-se, na hist6ria posterior de
adendos e as tais por<;oes, como Israel, sob a dire<;ao do Espirito
aquelas encontradas em Genesis Santo, tres tipos de literatura: a
12.6b; 13.7; 36.31b, e outras seme- salm6dia, a profecia, e a literatu-
lhantes. Isso em nada diminui a ra de sabedoria. Essas dadivas
autoridade divina da Palavra, e especiais do Espirito Santo foram
essa possibilidade em nada con- conjugadas com as dadivas natu-
tradiz a expressao usada na Escri- rais que sao peculiares a ra<;a
tura: a lei, o livro de Moises41
. Os semita, e particularmente ao povo
cinco livros de Moises continuam de Israel, mas ao mesmo tempo
sendo os livros de Moises, embo- transcenderam essas dadivas na-
ra algumas partes tenham sido turais e receberam urn chamado
citadas de outras fontes, mesmo para o uso no servi<;o de Deus e
que tenham sido inseridas por para o beneficia da humanidade.
seus auxiliares ou por urn editor A profecia come<;ou com
posterior. Paulo tambem nao es- Abraao42
, passou por Jac643
,
creveu pessoalmente suas cartas, Moises44
e Miriam45
, mas tornou-
mas usou outra mao para escreve- se mais especifica em Samuel e
----------------~----------------------~--
'" Ex 17.14; 24.4,7; 34.27; Nm 33.2; Dt 31.9,22.
41
1 Re 2.3; 2 Re 14.6; M/4.4; Me 12.26; Lc 24.27,44; Jo 5.46,47.
42
Gil 18.17; 20.7. Veja tambem Am 3.7 e 51105.15.
43
Gn 49.
11
Nm 11.25; Dt 18.18; 34.10; Os 12.13.
45
Ex 15.20; Nm 12.2.
114
As SAGRADAS ESCRITURAS
depois dele, acompanhando a his-
t6ria de Israel ate depois do cati-
veiro. Os livros dos profetas sao
divididos no Velho Testamento
Hebraico em dois grandes gru-
pos, a saber, o grupo dos profe-
tas anteriores e o grupo dos pro-
fetas posteriores. 0 primeiro gru-
po compreende os livros de Josue,
Juizes, Samuel e Reis. A razao
pela qual esses livros sao deno-
minados anteriores e que eles fo-
ram escritos por profetas que pre-
cederam os profetas posteriores
das Escrituras.
Em outras palavras, havia
muito mais profetas em Israel do
que os quatro maiores e os doze
menores, cujos livros foram pre-
servados na Biblia. Os livros his-
t6ricos mencionados acima estao
cheios de nomes de profetas e em
alguns casos incluem extensas
descri<;6es de suas atividades.
Eles falam de Debora, Samuel,
Gade, Natan, Aias, Semias,
Azarias, Hanani, Jeu, filho de
Hanani, Elias, Eliseu, Hulda, e
Zacarias, o primeiro martir entre
os profetas do reino de Juda, e
muitos outros, alguns dos quais
nao sao citados pelo nome (2 Cr
25). Nada escrito por esses profe-
tas chegou as nossas maos em for-
ma escrita. Algumas vezes n6s
lemos ate mesmo sobre escola de
profetas46
, nas quais muitos filhos
e disdpulos de profetas se dedi-
cavam a exerdcios espirituais e
deveres teocraticos. Muito prova-
velmente os escritos profeticos
foram feitos nessas escolas e, e
claro, nos livros de Josue, Juizes
e outros semelhantes. Especial-
mente nos livros de Cronicas ha
varias referencias aos escritos dos
profetas47
.
Os profetas, cujas ativida-
des sao descritas nos livros hist6-
ricos, sao geralmente descritos
nos nossos dias como profetas de
atos, em distin<;ao aos profetas
posteriores, que sao chamados de
profetas de palavra. Essa distin<;ao
s6 pode ser feita se n6s nos lem-
brarmos de que todos os profetas,
tanto os posteriores quanto os
anteriores, foram profetas de pa-
lavra. Todos eles falam e dao seu
testemunho; o original hebraico
provavelmente aponta para isso
(Ex 4.16; 7.1), e as caracteristicas
fundamentais do ensino profeti-
co estao contidas no testemunho
dos profetas mais antigos. Mas ha
dois pontos nos quais os profetas
anteriores sao distintos dos pro-
fetas posteriores. Em primeiro
lugar, os profetas anteriores limi-
tam suas vis6es as exigencias in-
ternas do povo de Israel, e nao
incluem nela outros povos nos li-
mites de sua perspectiva; e em se-
gundo lugar, eles prestam maior
H 1 Sm 10.5-12; 19.19 ss.; 2 Re 2.3,5; 4.38,43; 6.1.
47
1 Cr 29.29; 2 Cr 9.29; 20.34, e outros.
115
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
atenc;ao ao presente do que ao fu-
turo. Sua palavra de admoestac;ao
e ameac;a tern, em sua maior par-
te, urn proposito imediato e pra-
tico. Esse e o periodo no qual,
durante o reinado de Davi e de
Salomao e muito tempo depois
deles, ainda ha esperanc;a de que
Israel mantenha o pacto de Deus
e ande em Seus caminhos.
Mas quando, no nono secu-
lo antes de Cristo, Israel
gradativamente vai se envolven-
do na politica externa com seus
vizinhos, e a despeito de seu des-
tina e de sua vocac;ao, vai se dei-
xando envolver, entao os profetas
incluem os povos vizinhos em
suas profecias. Eles nao esperam
o cumprimento perfeito das pro-
messas de Deus no presente
apostata. Em vez disso eles
olham para o futuro messHinico,
urn futuro que o proprio Deus tra-
ra. Permanecendo em suas tones
de vigia esses profetas posterio-
res olham por toda a extensao e
profundidade da terra, e apontam
os sinais dos tempos nao como
eles mesmos entendem, mas de
acordo com a luz do Espirito San-
to48. Eles medem as situac;5es em
Israet sejam eticas, religiosas, po-
liticas ou sociais, tanto quanto as
relac;5es de Israel com outros po-
vos, tais como Edom, Moabe,
Assur, Caldeia, e Egito que con-
"
8
1 Pe 1.4; 2 Pe 2.20,21.
49
Is 8.1; He 2.2; Is 36.3.
116
trariam os preceitos do pacto que
Deus firmou com Seu povo. To-
dos eles, cada urn de acordo com
sua propria natureza, em seu pro-
prio tempo e de sua propria for-
ma, prega essencialmente a rues-
rna palavra de Deus: a proclama-
c;ao dos pecados de Israel e a pu-
nic;ao que eles acarretam; confor-
tam o povo do Senhor com a
imutabilidade de Seu pacto, com
a promessa de seu cumprimento
e como perdao para todas as in-
justic;as; e dirigem todos os olhos
para o futuro, no qual Deus, atra-
ves de urn rei da casa de Davi ex-
pandira seu dominio sobre Israel
e sobre todos os povos.
Dessa forma, a palavra que
eles pregavam em nome de Deus,
assume urn significado que vai
alem do tempo em que eles pre-
garam. Essa palavra nao tern seu
limite e seu proposito no Israel
antigo; em vez disso ela tern urn
conteudo que se estende aos con-
fins da terra, e so pode alcanc;ar
seu cumprimento em toda a rac;a
humana. E agora a palavra da pro-
fecia esta pronta para ser escrita.
Do nono seculo antes de Cristo
em diante, ou seja, desde os tem-
po de Joel e Obadias, os profetas
comec;aram a colocar o conteudo
de suas profecias em forma escri-
ta, algumas vezes por ordem ex-
pressa de Deus49. Eles fizeram
As SACRADAS EscruTURAS
isso com o prop6sito claro de que
sua palavra permanecesse ate o
ultimo dia, ate a eternidade (Is
30.8) e ate que sua autenticidade
pudesse ser reconhecida pelas
gera<;:oes posteriores (Is 34.16).
* * * * *
A salm6dia tomou urn cur-
so paralelo ao da profecia. Ela
tambem tern origem em uma epo-
ca remota. A musica era muito
amada em IsraeP0
. Can<;:oes sobre
varios assuntos foram preserva-
das nos livros hist6ricos. Ha a can-
<;:ao da espada (Gn 4.23,24), a can-
<;:ao do bern (Nm 21.17)8), a can-
<;:ao da conquista de Hesbom (Nm
21.27-30), a can<;:ao da travessia do
Mar Vermelho (Ex 15), a can<;:ao de
Moises (Dt 32), o cantico de De-
bora (Jz 5), o cantico da Ana (1 Sm
2), o lamento de Davi pela morte
de Saul e Jonatas (2 Sm 1) e seu
lamento por Abner (2 Sm 3.33,34),
eo Livro dos Justos (Js 10.13; 2 Sm
1.18), que parece ter contido mui-
tos canticos. Muitos canticos sao
registrados nos livros dos profe-
tas. Por exemplo, o cantico da vi-
nha em Isaias 5, o hino triunfal
sobre a queda de Babilonia em
Isaias 14, o dintico de Ezequias
em Isaias 38, a ora<;:ao de Jonas em
Jonas 2, 0 cantico de louvor de
Habacuque, e muitos outros.
Muitos desses canticos estao re-
50
1 Sm 18.7; 2 Sm 19.35; Am 6.5.
117
lacionados bern de perto com os
Salmos. A transi<;:ao de urn para o
outro e dificilmente perceptivel.
Ha tambem urn estreito relaciona-
mento entre a salm6dia e a profe-
cia. Isso e aparente ate mesmo na
forma. Ambas tiveram sua origem
em uma inspira<;:ao poderosa do
Espirito Santo, ambas incluiram
em sua perspectiva todo o mun-
do da natureza e da hist6ria,
ambas puseram todas as coisas
sob a luz da Palavra de Deus,
ambas tinham como tema de sua
proclama<;:ao o Reino do Messias,
e ambas fizeram uso de lingua-
gem e forma poetica. Quando o
poeta dos Salmos e levado aos
misterios da vontade e do conse-
lho de Deus ele se torna urn vi-
dente, e quando a alma do profe-
ta e refrescada pelas promessas
de Deus sua profecia e colocada
no plano da poesia (1 Cr 25.1-3).
Asafe e chamado de vidente (2 Cr
29.30)e Davie chamado de profe-
ta (At 2.30).
Mas e claro que ha diferen-
<;:as entre os dois. A poesia dos
salmos ja existia no cantico de
Miriam, no cantico de Moises (Dt
32) e no salmo de Moises (Sl 90),
mas alcan<;:ou seu apogeu depois
do reavivamento do servi<;:o de
Deus realizado por Samuet nos
salmos de Davi, o suave cantor de
Israel (2 Sm 23.1). A salm6dia
davidica compreende as formas
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
fundamentais que a salm6dia
posterior de Salomao, Jeosafa,
Ezequias e que o periodo duran-
te e depois do cativeiro colocou
em uso. No final do salmo 72 os
salmos de Davi sao chamados de
ora<;:oes. Essa caracteristica e pe-
culiar a todos os salmos. Eles sao
muito diferentes uns dos outros.
Alguns deles sao can<;:6es de lou-
vor e de a<;:6es de gra<;:as, alguns
sao lamentos e suplicas. Alguns
sao hinos, outros sao poemas
melanc6licos, e outros sao do tipo
profetico-didatico. Ha salmos que
celebram as obras de Deus na na-
tureza e salmos que celebram as
obras de Deus na hist6ria. Eles
falam do passado, do presente e,
em alguns casos, do futuro. Mas
esta sempre presente neles a es-
trutura basica de ora<;:ao. Essa e a
caracteristica de todos eles. Se no
caso da profecia o Espirito Santo
se apodera do profeta, controlan-
do-o e movendo-o, no caso da
salm6dia Ele dirige o poeta as
profundidades de sua vida espi-
ritual. Urn estado pessoal espiri-
tual e sempre a ocasiao para sua
can<;:ao. Mas tal estado de alma
tern sido sempre formado e mol-
dado pelo Espirito do Senhor.
Davi nao teria sido o suave
cantor de Israel se nao tivesse sido
o homem de carater firme e de ri-
cas experiencias de vida que ele
sempre foi. E esse era seu estado
de mente, ou estado de alma, em
todas as suas varia<;:oes de desgos-
118
toe ansiedade, tenta<;:ao e dire<;:ao,
persegui<;:ao e resgate, e experien-
cias semelhantes, que sao as cor-
das sobre as quais sao tocadas as
melodias das palavras e atos ob-
jetivos de Deus na natureza e na
hist6ria, nas instituicoes e na pre-
ga<;:ao, no julgamento e na reden-
<;:ao. E a harmonia da revela<;:ao
objetiva de Deus e sua dire<;:ao
subjetiva que e cantada no cantico,
e que e cantada na presen<;:a de
Deus, dedicada a Sua honra, que
chama todas as criaturas para se
alegrarem em Seu louvor, que
continua cantando ate que os ceus
e a terra se levantern em seus acor-
des e que e, portanto, para todas
as epocas e para todas as gera-
<;;6es, a mais rica expressao das
mais profundas experiencias que
a alma humana pode sentir. Os
Salmos nos ensinam a dizer o que
acontece em nosso cora<;;ao em
conexao com a revela<;:ao de Deus
em Cristo atraves do Espirito. Por
causa de sua importancia esses
Salmos nao ficaram restritos so-
mente aos salmistas, mas foram
colocados nos labios da igreja de
todas as epocas.
* * * * *
Aprofecia e a salm6dia de-
vern ser acrescentados os chokma,
isto e, OS proverbios OU a literatu-
ra de sabedoria. Isso tambem tern
origem nas dota<;:6es naturais,
como se torna claro na fabula de
As SAGRADAS EscruTURAS
Jotao (Jz 9.7 ss.), no enigma de
Sansao (Jz 14.14t na parabola de
Natan (2Sm 12), na conduta da
rnulher de Tecoa (2 Srn 14), e ern
outros casos. Mas essa literatura
de sabedoria e dedicada especi-
alrnente a Salornao51
e teve conti-
nuidade nos proverbios do ho-
rnern sabio (Pv 22.17 ss.) enos li-
vros de J6, Eclesiastes e Canticos
de Salornao, e continuou ate de-
pois do cativeiro. A profecia re-
vela a vontade de Deus para a his-
t6ria de Israel e de outros povos;
a salrn6dia da expressao ao que a
vontade de Deus realiza na alma
dos Seus santos; e os proverbios
da literatura de sabedoria relatam
a vontade de Deus para a vida
pratica e para a conduta. Essa li-
teratura de sabedoria tarnbem re-
pousa sobre o fundarnento da re-
vela<;:ao divina; seu ponto de par-
tida e que o temor do Senhor e o
principio da sabedoria (Pv 1.7).
Esse tipo de literatura nao relata
a revela<;:ao da hist6ria dos povos,
nem a experiencia subjetiva da
alma, porern, faz suas aplica<;:6es
avida diaria, avida do homem e
da rnulher, paise filhos, arnigos e
sociedade, neg6cios e profissao.
Ela nao age no plano elevado da
profecia, e nern enxerga tao lon-
ge. Ela nao explora a alma tao pro-
fundarnente como a salm6dia,
mas concentra sua aten<;:ao em to-
das as vicissitudes da vida - ex-
51
1 Rc 4.29-34.
119
periencias sob as quais o povo
tende a sucumbir - e levanta o
povo novarnente ao nivel dessas
experiencias. Ela faz isso atraves
da fe na justi<;:a da providencia de
Deus. Dessa forma a literatura de
proverbios tern urn significado
hurnano geral, e, sob a dire<;:ao do
Espirito Santo, foi preservada por
todas as epocas.
A revela<;:ao, a lei, a vontade
de Deus, principalmente a partir
dos livros de Moises, completa-
se nos dias do Velho Testamento
na prega<;:ao dos profetas, nas can-
<;:6es dos cantores, e nas maxirnas
dos sabios. 0 profeta e a cabe<;:a,
0 cantor e 0 cora<;:ao, e 0 sabio e a
mao.
Os oficios profetico, sacer-
dotal e real completararn dessa
forma seu chamado na Velha
Dispensa<;:ao. E em Cristo esse te-
souro inavaliavel de literatura
sagrada tornou-se propriedade
comurn do mundo.
* * * * *
Assirn como a prornessa cul-
mina ern seu curnprirnento, assirn
tambern a Escritura do Velho Tes-
tarnento culmina na Escritura do
Novo Testamento. Urn e incom-
pleto sern o outro. Esomente no
Novo Testamento que o Velho e
revelado, eo Novo esta em essen-
cia! contido no Velho. A revela-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
c;ao entre os dois e como a do pe-
destal e a estatua, entre a fecha-
dura e a chave, a sombra eo obje-
to. As designac;oes Velho Testa-
mento e Novo Testamento faziam
referencia as duas dispensac;oes
do pacto da Grac;a que Deus deu
ao Seu povo antes e depois de
Cristd2
• Posteriormente os termos
foram transferidos aos dois cor-
pos de escritos que constituem a
descric;ao e a interpretac;ao dessas
duas dispensac;oes do pacto. Em
Exodo 24.7, a lei, que era o pro-
nunciamento ou declarac;ao do
pacto de Deus com Israel, e cha-
mada o livro do pacto (compare
com 2 Rs 23.2), e em 2 Corintios
3.14 Paulo fala de uma leitura do
Velho Testamento- uma referen-
cia naturalmente aos livros que
compoem esse Testamento. De
acordo com esses exemplos a pa-
lavra testamento foi gradualmente
sendo usada para designar os li-
vros ou escritos contidos na Bfulia
e que dao uma interpretac;ao da
velha e da nova dispensac;ao da
Grac;a.
Assim como o Velho, o
Novo Testamento tambem e com-
posto por varios livros. Ele com-
preende cinco livros hist6ricos (os
quatro Evangelhos e Atos dos
ap6stolos), vinte e um livros dou-
trinarios (as epistolas ou cartas
dos ap6stolos) e urn livro profeti-
co (Apocalipse). E apesar dos trin-
52
Jr 31.31 ss.; 2 Co 3.6 ss.; Hb 8.6 ss.
120
ta e nove livros do Velho Testa-
mento terem sido compostos du-
rante um periodo de mais de mil
anos, os vinte e sete livros do
Novo Testamento foram todos
escritos na segunda metade do
primeiro seculo da era crista.
Os Evangelhos vern primei-
ro no Novo Testamento. Nova-
mente a ordem nao e cronol6gi-
ca, mas material. Muito embora
varias das cartas dos ap6stolos
tenham sido escritas antes do
Evangelhos, OS Evangelhos vern
primeiro porque tratam da pessoa
e obra de Cristo que constituem a
base de todo o esforc;o apost6li-
co. A palavra Evangelho tinha urn
sentido geral de mensagem agra-
davel, mensagem boa. Nos dias
do Novo Testamento ela passou
a designar as boas noticias procla-
madas por Jesus Cristo (Me 1.1).
S6 mais tarde os escritores eclesi-
asticos como Inacio, Justino e ou-
tros usaram-na para designar os
livros ou registros escritos que
contem a boa mensagem de Cris-
to.
Ha quatro Evangelhos no
Novo Testamento. Eclaro que eles
nao contem quatro Evangelhos
diferentes, mas apenas urn Evan-
gelho, o Evangelho do Senhor Je-
sus Cristo (Me 1.1; Gl1.6-8). Mas
urn Evangelho, uma boa nova de
salvac;ao, e pregada de diferentes
formas, por diferentes pessoas, de
As SAGRADAS ESCRITURAS
quatro diferentes pontos de vis-
ta. Essa ideia e bern expressa nos
quatro livros de nossas Bfblias: o
Evangelho segundo Mateus, segun-
do Marcos e assim por diante. 0
pensamento e que nos quatro
Evangelhos o unico Evangelho, a
unica imagem da pessoa e obra
de Cristo, e apresentado de pon-
tos de vista diferentes. Por isso
na igreja antiga os quatro evan-
gelistas foram comparados aos
quatro querubins de Apocalipse
4.7: Mateus foi comparado ao
homem, Marcos ao leao, Lucas
ao novilho e Joao a aguia. Isso
aconteceu porque o primeiro
evangelista descreveu Cristo
como Ele era em Sua manifesta-
c;:ao humana, o segundo, como Ele
era em Sua manifestac;:ao profeti-
ca, o terceiro como Ele era em Sua
manifestac;:ao sacerdotat e o quar-
to como Ele era em Sua natureza
divina.
Mateus, que era o publicano
chamado Levi, escolhido para o
oficio de ap6stolo (Mt 9.9; Me
2.14; Lc 5.27), originalmente escre-
veu seu Evangelho, segundo
Irineu, em linguagem aramaica,
na Palestina, por volta do ano 62,
e especialmente para os judeus e
cristaos judeus da Palestina para
mostrar-lhes que Jesus realmente
era o Cristo e que todas as profe-
cias do Velho Testamento se cum-
priram nEle (Mt 1.1).
Marcos era o filho de Maria
(At 12.12), que muito provavel-
121
mente tinha sua propria casa em
Jerusalem (At 1.13; 2.2). Marcos
primeiramente trabalhou com
Paulo e depois com Pedro (1 Pe
5.13), e, de acordo com a tradic;:ao,
foi convidado pelos cristaos de
Roma para registrar o comec;:o do
Evangelho de Jesus Cristo (Me
1.1). 0 convite foi feito porque,
tendo estado em Jerusalem e sido
disdpulo de Pedro, estava muito
bern informado sobre o assunto.
Ele respondeu ao convite dos ro-
manos, presumivelmente, entre
os anos 64 e 67.
Lucas, o medico amado,
como Paulo o chama (Cl 4.14),
pode ter vindo de Antioquia. Ele
pertenceu aigreja dessa localida-
de por volta do ano 40. Ele era urn
companheiro de viagem e colega
de trabalho de Paulo, e manteve
sua lealdade a ele ate o fim (2 Tm
4.11). Ele escreveu urn livro de
hist6ria, nao somente da pessoa e
obra de Cristo (em seu Evange-
lho), mas tambem da expansao
inicial do Evangelho na Palestina,
Asia Menor, Grecia e Roma (em
Atos dos ap6stolos). Ele escreveu
o segundo desses livros aproxi-
madamente entre os anos 70-75 e
endere<;ou-o a urn certo Te6filo,
uma pessoa de algum status, que
tinha interesse no Evangelho.
Esses tres Evangelhos estao
intimamente relacionados urn ao
outro. Eles estao baseados na tra-
dic;:ao que havia a respeito dos
ensinos e da vida de Jesus no cir-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
culo de Seus discipulos. 0 quar-
to Evangelho e diferente dos de-
mais. Joao, o disdpulo amado,
permaneceu em Jerusalem depois
da ascensao de Jesus e, juntamen-
te com Tiago e Pedro, foi urn dos
tres pilares da igreja (Gl2.9). Mais
tarde ele saiu de Jerusalem e per-
to do fim de sua vida foi para
Efeso trabalhar como sucessor de
Paulo. De Efeso, sob o dominio de
Domiciano, ele foi banido para a
ilha de Patmos por volta do ano
95 ou 96, e morreu no ano 100
como martir. Joao nao teve uma
participa<;ao muito irnportante na
expansao missionaria. Ele nao foi
o fundador de novas igrejas, mas
dedicou seus esfon;:os apreserva-
<;:ao das igrejas que ja existiam,
pregando o puro conhecimento da
verdade. Uma situa<;:ao diferente
foi se desenvolvendo gradati-
vamente na Igreja no final do pri-
meiro seculo. A luta entre a rela-
<;:ao da Igreja Crista com Israel, a
lei e a circuncisao, estava de vol-
ta. A Igreja estava se tornando in-
dependente em rela<;:ao aos ju-
deus e estava penetrando cada
vez mais no mundo greco-roma-
no. Ela fez contato com outras cor-
rentes espirituais, particularmen-
te como gnosticisrno. E dessa for-
mao prop6sito de Joao foi dirigir
a Igreja seguramente por causa
desses perigos do mundo
anticristao e da tendencia de ne-
gar a encarna<;:ao do Verbo (lJo
2.22; 4.3). Contra essa tendencia
122
anticrista, Joao, em seus escritos,
todos datados entre os anos 80 e
95, afirma que Cristo e o Verbo
feito carne. Em seu Evangelho
Joao indica que Cristo e o Verbo
encarnado. Em sua estada na ter-
ra e em suas cartas ele indica que
Cristo e o Verbo Encarnado da
Igreja. E no Apocalipse ele indica
que Cristo no futuro tambem sera
o Verbo Encarnado.
Todos os escritos do Novo
Testamento aos quais nos referi-
mos, sob a dire<;:ao do Espirito
Santo, vieram aluz atraves de oca-
sioes hist6ricas. Isso tambem e
verdade com rela<;:ao aos escritos
de Paulo e Pedro, de Tiago e
Judas. Depois da ascensao de Je-
sus e depois da persegui<;:ao da
Igreja em Jerusalem os ap6stolos
come<;:aram a pregar o Evangelho
a judeus e gentios; eles tambem
permaneceram nas congrega<;:6es
que foram sendo fundadas, man-
tendo a amizade e vivendo com
elas. Eles receberam informa<;:6es
orais ou escritas a respeito da con-
di<;:ao espiritual dessas igrejas,
interessaram-se pelo seu desen-
volvimento, e preocuparam-se
com elas (2Co 11.28). Por esse
motivo eles foram chamados a, se
possivel, visitar pessoalmente as
igrejas e, se nao fosse possivel,
por meio de epistolas ou cartas
admoestar e consolar as igrejas de
acordo com suas necessidades,
preveni-las e encoraja-las, e por
todos esses meios dirigi-las, mais
As SAGRADAS EscRITURAS
profundamente, na verdade para
a salva<;:ao.
Assim como seu esfor<;:o
apost6lico de forma geral, seu es-
for<;o escrituristico, que constituiu
uma parte hist6rica, organica e
essencial do trabalho apost6lico,
foi basico e fundamental para a
Igreja crista. Os Evangelhos e as
cartas dos ap6stolos sao, assim
como os livros dos profetas, escri-
tos originados em ocasioes espe-
dficas. Mas ao mesmo tempo eles
se estendem alem do tempo e do
local das igrejas daqueles dias,
sendo dirigidos as igrejas de to-
das as epocas.
Toda a Escritura, apesar de
seu arrojo hist6rico, e, como dis-
se Agostinho, uma carta de Deus
dos ceus para Sua Igreja na terra.
E, longe de pensar que a investi-
ga<;ao hist6rica da origem dos li-
vros da Biblia- evitando-se o abu-
so que pode ser feito nesse estu-
do - faz violencia ao carater divi-
no da Escritura, n6s podemos ver
que tal estudo e especialmente
adequado para nos mostrar o
modo maravilhoso pelo qual
Deus trouxe Sua obra a existencia.
* * * * *
Esse relance da origem dos
livros da Biblia certamente nao
exaure o estudo da Biblia. Ele e
apenas o seu inicio. Gradualmen-
te urn complexo grupo de ciel'Ci-
as tern se desenvoh·ido a p?.:-:::- _:::;
125
Biblia. 0 objetivo de todos eles e
melhor entender o significado das
Escrituras. Deve ser suficiente
aqui dizer apenas umas poucas
coisas sobre esses estudos.
Em primeiro lugar n6s sabe-
mos que cada livro, tendo tido
uma origem individual, eventu-
almente ocupou seu lugar no con-
junto ou canon, isto e, uma lista
ou grupo de escritos que consti-
tuem uma regrade fee vida. Uma
cole<;:ao semelhante ja tinha acon-
tecido dentro dos limites de urn
livro: os Salmos e os Proverbios
foram escritos por varias pessoas
e foram aos poucos sendo reuni-
dos em urn corpo de escritos. Mais
tarde OS varios livros foram reu-
nidos em urn unico livro, que re-
cebeu o nome de Biblia. Contudo
n6s nao devemos supor que a
Igreja tenha feito esse canon ou
que tenha concedido autoridade
can6nica aos escritos dos profetas
e dos ap6stolos. Pelo contrario,
esses escritos, desde o momento
em que foram escritos foram
autoritativos para a Igreja e foram
usados como regra de fe e vida.
A Palavra de Deus, nao escrita
antes e escrita mais tarde, nao de-
riva sua autoridade do homem,
nem mesmo dos crentes, mas de
Deus, que zela por ela e faz com
que seja reconhecida.
Quando 0 numero de livros
profeticos e apost6licos cresceu e
~.~·J_ardo O'L:tros escritos come<;a-
- -
::_ ..:: -2 : 2 ~ e=~ ";.-,~· _~.- ::<· :_"" .?.. :· ?.. _2 _.::.-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mente a eles, nao tendo sido es-
critos por profetas e ap6stolos,
mas que alegadamente tinham
sido escritos por eles ou foram
aceitos como tais, em alguns cir-
culos, entao tornou-se necessario
que a Igreja distinguisse os ver-
dadeiros livros canonicos dos li-
vros falsos, alegados, ap6crifos
ou pseudo-epigrafos, e fizesse
uma lista com os verdadeiros. Isso
foi feito com os livros do Velho
Testamento antes de Cristo, e com
os livros do Novo Testamento no
quarto seculo depois de Cristo. Ha
uma ciencia que trabalha para in-
vestigar essa questao e lan<;:ar luz
sobre a canonicidade da Biblia.
Em segundo lugar, deve ser
mencionado o fato de que os ma-
nuscritos originais escritos pelos
profetas e pelos ap6stolos foram,
sem exce<;:ao, perdidos. N6s te-
mos apenas c6pias deles. A mais
antiga dessas c6pias do Velho
Testamento data do nono ou de-
cimo seculo, e a mais antiga co-
pia do Novo Testamento data do
quinto seculo depois de Cristo53
•
Em outras palavras, seculos sepa-
ram os manuscritos originais das
c6pias que possuimos. Durante
esse periodo o texto foi submeti-
do a maiores ou menores mudan-
<;:as. Por exemplo - s6 para men-
cionar urn aspecto dessa questao
tao complexa - nao havia vogais
nem pontua<;:ao nos manuscritos
hebraicos originais, e tanto umas
como outras foram introduzidas
nas c6pias seculos mais tarde. A
divisao em capitulos como a que
conhecemos hoje, surgiu no come-
<;:o do terceiro seculo, e a divisao
em versiculos data do sexto secu-
lo. Por isso uma ciencia especial
era necessaria para, fazendo uso
de todos os meios, estabelecer o
texto original e apresenta-lo como
base para a exegese.
Em terceiro lugar, devemos
observar que o Velho Testamen-
to foi escrito em hebraico e o
Novo Testamento foi escrito em
grego. Portanto, no momento em
que a Biblia foi distribuida entre
todos os povos que nao entendi-
am essas linguas, a tradu<;:ao tor-
nou-se necessaria. No terceiro se-
culo antes de Cristo foi dado o
primeiro passo, com a tradu<;:ao
do Velho Testamento para ogre-
go. E depois a tradu<;:ao do Velho
Testamento e do Novo em mui-
tas linguas antigas e - ainda hoje
- em muitas linguas modernas
continua sendo feita. Depois do
reavivamento de miss6es aos po-
vos pagaos ocorrido no seculo
dezenove esse trabalho de tradu-
<;:ao foi mais energicamente im-
pulsionado e hoje partes da Escri-
tura ou a Escritura inteira sao en-
contradas em mais de quatrocen-
53
Essas datas sao, logicamente, da cpoca em que o livrofoi escrito, nofinal do scculo XIX. Hoje sao
conlzccidos manuscritos muito mais mztigos (N. doT.).
124
As SAGRADAS EscruTURAS
tos idiomas. 0 estudo dessas tra-
dw;:oes, especialmente as mais
antigas, e muito importante para
o entendimento adequado da Sa-
grada Escritura, pois cada tradu-
ao e urn tipo de interpretaaO.
Em quarto lugar, finalmen-
te, urn tremendo amontoado de
cuidado e esforo tern sido dedi-
cado a interpretaaO da Sagrada
Escritura. Isso comeOU nos dias
dos antigos judeus, e atravessou
os seculos, e agora existem em
125
nosso tempo. E embora seja ver-
dade que cada exegeta tern sua
propria inclinaao, e que boa par-
te da interpretaao tern sido par-
ciat a historia da interpretaao da
Escritura tern tido urn progresso;
urn progresso que cada seculo
tern contribuido para aumentar.
Em uma analise final e o proprio
Deus que, apesar do erro huma-
no, mantern Sua Palavra e faz com
que Seus pensamentos triunfem
sobre a sabedoria do mundo.
CAPITULO
®
A EscRITURA E A CoNFissAo
N
ao havia na epoca dos
ap6stolos e logo depois
dela, escassez de diferen-
<;as sobre a essencia do Cristianis-
mo e sobre o relacionamento do
Cristianismo com judeus e genti-
os. Todavia, e notavel a unanimi-
dade com que a Escritura tern sido
aceita como Palavra de Deus em
toda a Igreja Crista.
Isso e verdade em primeiro
lugar com rela<;ao ao Velho Tes-
tamento. No ensino de Jesus e dos
ap6stolos isso e constantemente
mencionado. 0 Velho Testamen-
to foi mencionado varias vezes.
De forma totalmente imperceptf-
vel, e como a coisa mais natural
do mundo, a autoridade do Ve-
lho Testamento dos judeus foi
inserida, atraves do ensino de Je-
sus e dos ap6stolos, na Igreja Cris-
ta. 0 Evangelho depende do Ve-
lho Testamento e nao pode ser
reconhecido sem ele. 0 Evange-
127
lho e 0 cumprimento das promes-
sas do Velho Testamento. Semele
o Evangelho fica suspenso no ar.
0 Velho Testamento e o pedestal
sobre o qual o Evangelho repou-
sa, e a raiz da qual ele brota. Onde
quer que o Evangelho encontre
guarida, as Escrituras do Velho
Testamento ja tinham sido aceitas
como Palavra de Deus. Em outra
palavras, nao existe algo como
uma igreja do Novo Testamento
sem a Bfblia, pois desde o come-
<;o a Igreja possuia a lei, os Salmos
e os profetas.
Os escritos apost6licos fo-
ram adicionados ao Velho Testa-
mento. Em parte esses escritos
eram, assim como o Evangelho e
as epistolas gerais, destinados a
toda a Igreja. Em parte, algumas
das epistolas foram endere<;adas
a igrejas especificas - a de Roma,
de Corinto, de Colossos e de ou-
tros lugares.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Ebastante natural que todos
esses escritos, tendo vindo dos
ap6stolos e de pessoas a eles re-
lacionadas, que gozavam de ele-
vada reputa<;ao no inicio das igre-
jas cristas, tenham sido lidos nas
reunioes e que tenham ate sido
enviados para outras igrejas para
que fossem lidos. Dessa forma,
por exemplo, o ap6stolo Paulo
pediu que a carta que enviou a
igreja de Colossos fosse lida na de
Laodiceia, e que a de Laodiceia
fosse lida em Colossos (Cl 4.16).
E em 2Pedro 3. 15)6, Pedro faz
men<;ao nao apenas de uma carta
que seus leitores tinham recente-
mente recebido de Paulo, mas
tambem fala de outras cartas de
Paulo que ensinavam a mesma
doutrina que Pedro tambem en-
sinava, mas que as vezes eram
dificeis de entender e suscetiveis
de serem distorcidas pelas pesso-
as instaveis. N6s nao temos o di-
reito de inferir que nessa epoca
houvesse uma II cole<;:ao" das car-
tas de Paulo. 0 que n6s podemos
inferir eque OS escritos de Paulo
eram conhecidos em urn drculo
muito mais amplo do que o das
igrejas locais as quais cada Carta
foi destinada. Naturalmente o co-
nhecimento do Evangelho da mai-
or parte das igrejas do primeiro
periodo, veio atraves dos ap6sto-
los e de seus disdpulos.
Mas quando eles morreram
e sua prega<;:ao nao pode mais ser
ouvida, os escritos dos ap6stolos
128
se tornaram, naturalmente, cada
vez mais e mais valiosos. Do tes-
temunho que chegou ate n6s de
meados do segundo seculo n6s
sabemos que os Evangelhos e
posteriormente tambem as epis-
tolas ou cartas eram regularmen-
te lidos na assembleia dos cren-
tes, eram usados como evidencia
da verdade, e eram colocados na
mesma linha de autenticidade dos
livros do Velho Testamento. A
partir do fim do segundo seculo
os escritos do Novo Testamento
junto com os do Velho Testamen-
to eram considerados II toda a Es-
critura", como "a funda<;ao e pi-
lar da fe", como a Santa Escritura,
e eram regularmente lidos nos
servi<;:os religiosos (Irineu, Cle-
mente de Alexandria e Tertu-
liano). Everdade que com rela<;:ao
a alguns escritos (Hebreus, Tiago,
Judas, 2 Pedro, 2 Joao, 3 Joao,
Apocalipse e os livros posterior-
mente julgados ap6crifos) perma-
neceu, por longo tempo, uma di-
feren<;a de opiniao sobre se eles
deveriam ou nao ser aceitos como
Sagrada Escritura. Mas essa ques-
tao foi gradualmente ganhando
unanimidade. Os escritos geral-
mente reconhecidos eram reuni-
dos e recebiam o nome de dinon
(significando regra de verdade e
fe), e foram registrados e estabe-
lecidos como tais no Sinodo de
Laodiceia no ano 360, em Hippo
Regius na Numidia no ano 396 e
em Cartago no ano 397.
A EscRITURA E A CoNFissAo
Essas Escrituras do Velho e
do Novo Testamento, constituem
a funda<;ao dos profetas e dos
ap6stolos sobre a qual todas as
igrejas cristas, em comunhao
umas com as outras, constroem
sua estrutura. Em suas confiss5es
oficiais todas as igrejas reconhe-
cem a autoridade divina dessas
Escrituras e se apropriam dela
como regra de fe e vida. Nao tern
havido diferen<;a ou conflito sobre
esse ponto do dogma entre as igre-
jas cristas. Formalmente o ataque
contra a Escritura como Palavra de
Deus vern pelo lado de fora, dos
filosofos pagaos como Celso e
Porfirio no segundo seculo; de
dentro da cristandade nao apare-
ce urn ataque desse tipo desde o
seculo dezoito.
*****
A Igreja nao recebeu essa
Escritura de Deus para simples-
mente repousar sobre ela, muito
menos para enterrar esse tesouro
na terra. Pelo contnirio, a Igreja e
chamada para preservar essa Pa-
lavra de Deus, explana-la, prega-
la, aplica-la, traduzi-la, difundi-la
no estrangeiro, recomenda-la e
defende-la- em uma palavra, fa-
zer com que os pensamentos de
Deus, revelados na Escritura, tri-
unfem em todos os lugares e em
todas as epocas sobre OS pensa-
mentos do homem. Toda a obra
que a Igreja e chamada a fazer e a
129
de ministrar a Palavra de Deus. A
Igreja ministra a Palavra de Deus
quando ela e pregada na assem-
bleia dos crentes, e interpretada e
aplicada, quando e compartilha-
da nos sinais do pacto e quando a
disciplina e mantida. Em urn sen-
tido mais amplo, o servi<;o da Pa-
lavra e muito mais abrangente.
Em nossos cora<;5es e vidas, em
nossa profissao e negocios, em
casa, no campo e no escritorio, na
ciencia e na arte, no estado e na
comunidade, em obras de mise-
ricordia e miss5es, e em todas as
esferas e caminhos da vida, essa
Palavra deve ser aplicada, elabo-
rada e aceita como regra. A Igreja
deve ser o pilar e o terreno da ver-
dade (1Tm 3.15), ou seja, deve ser
urn pedestal e uma funda<;ao so-
bre a qual a verdade seja apresen-
tada, mantida e estabelecida con-
tra o mundo. Quando a Igreja ne-
gligencia e se esquece do seu cle-
ver com rela<;ao aEscritura ela se
torna remissa em seu clever e mina
sua propria existencia.
Logo que a Igreja se torna
frouxa no cumprimento de seu
clever ela desenvolve uma dife-
ren<;a de opini5es a respeito da
Palavra de Deus. Muito embora
o Espfrito Santo tenha sido pro-
metido aIgreja e tenha sido dado
como Guia para conduzi-la a toda
verdade, isso nao significa que a
Igreja tenha sido, inteiramente, ou
em suas partes, agraciada com o
dom da infali~~ili8aie. _:e r:'e.-:-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
mo nas igrejas do periodo apos-
t6lico surgiram varias heresias
que tinham seu ponto de partida
no paganismo ou no judaismo.
Atraves da sucessao das eras es-
ses sao dois recifes nos quais a
Igreja continuamente amea<;a es-
barrar, e eles devem, com muita
vigiH1ncia e cuidado, ser evitados.
Contra tais heresias, tanto
pela direita quanto pela esquer-
da, a Igreja e obrigada a £alar re-
soluta e claramente afirmando
qual e a verdade revelada por
Deus em Sua Palavra. A Igreja faz
isso nas menores e nas maiores
assembleias (sinodos), nas quais
estabelece, de acordo com suas
convic<;oes, o que deve ser aceito
como verdade divina e dessa for-
ma urn ensino da Igreja sobre urn
determinado ponto em particular,
ou outro. Dessa forma a Igreja se
coloca sob a dire<;ao das Escritu-
ras por parte daqueles que creem
e abra<;am uma confissiio, urn cre-
do. A confissao e a obriga<;ao de
todos OS crentes, e e tambem urn
ditado deles aos seus pr6prios
cora<;5es; a pessoa que realmente
ere, com todo o seu cora<;ao e com
toda a sua alma, nao pode fazer
outra coisa senao confessar, isto
e, dar testemunho da verdade que
a libertou e da esperan<;a que foi
plantada em seu cora<;ao por essa
verdade54
. Dessa forma todo cren-
te e toda igreja - se o testemunho
do Espirito Santo tern estado pre-
sente ali- confessa que a Palavra
de Deus e a verdade. E como os
erros e as heresias se desenvol-
vem sutilmente, a Igreja e
impelida a fazer urn cuidadoso
registro da verdade que confessa
e a estabelecer seu credo em ter-
mos bern definidos e precisos.
Naturalmente, a confissao oral,
por for<;a das circunstancias, tor-
na-se uma confissao escrita.
N6s sabemos da existencia
daqueles que se levantam contra
a formula<;ao e manuten<;:ao de
tais tipos de confissao eclesiasti-
ca. Os Remonstrantes55
da
Rolanda, por exemplo, diziam
que a confissao violava a autori-
dade exclusiva da Escritura, e a
liberdade de consciencia, e que
impedia o desenvolvimento do
conhecimento. Todavia, essas ob-
je<;:5es sao baseadas em equivo-
cos. A fun<;ao das confissoes ou
credos nao e puxar a Escritura
para tras, mas mante-lae protege-
la contra caprichos individuais.
Longe de violar a liberdade da
consciencia, elas dao suporte a
essa liberdade contra todo tipo de
espiritos hereticos que procuram
fazer com que almas fracas e
desinformadas se extraviem. E,
54
Mt 10.32; Rm 10.9,10; 2Co 4.13; 1Pe 3.15; 1Jo 4.2,3
55
Os Rcmonstmntcs cram arminianos oriundos da Igreja Reformada Holandesa. Recebemm esse
nome por tcrem estado presentes aRemonstrance de 1610. Os Remonstmntesforam na Holanda
(1619-25) eforam reconhecidos como igreja indepcndente em 1795 (N. doT.)
150
A EscRITURA E A CoNFissAo
finalmente, as confissoes nao im-
pedem o desenvolvimento do co-
nhecimento, mas conservam-no
no curso correto do mesmo, e sao
elas mesmas checadas e revisadas
aluz das Sagradas Escrituras, que
sao a unica regrade fe. Tal exame
e revisao podem acontecer a qual-
quer tempo, apesar de terem que
ser feitos de forma segura e legi-
tima.
0 Credo Apost6lico (os
doze artigos) e 0 mais antigo dos
credos. Ele nao foi formulado pe-
los ap6stolos, mas veio aexisten-
cia no comec;o do segundo secu-
lo. Ele foi desenvolvido a partir
do comando batismal de Mateus
28.19. Originalmente ele era urn
pouco mais curta do que e agora,
mas basicamente ele era o mesmo.
Ele era urn curta resumo dos fa-
tos sobre os quais o cristianismo
repousa, e como tal ele continua
sendo urn terreno comum e urn
vinculo inquebravel da unidade
de toda a cristandade. A esse Cre-
do Apost6lico quatro confissoes
tern sido acrescentadas, todas de
carater ecumenico (isto e, geral),
e todas elas sao aceitas por mui-
tas igrejas. Sao elas: o credo do
Condlio de Niceia em 325; o cre-
do que no artigo IX da Confissiio
de Fe Reformada e chamado de
credo niceno, mas que apesar de
ter absorvido o credo de Niceia, e
na verdade, uma expansao desse
credo e veio a existencia bern
mais tarde; o credo do Condlio de
151
Calcedonia em 451; e, finalmente,
o credo equivocadamente chama-
do de credo de Atanasio.
Em todas essas confissoes a
doutrina concernente a Cristo e a
Trindade e afirmada. Esses eram
os pontos de litigio durante os
primeiros seculos. 0 que voce
pensa de Cristo?- essa era a ques-
tao mais importante que, basea-
da na Palavra de Deus, a Igreja ti-
nha que responder para si mesma
e sustentar contra o mundo todo.
Para o lado judeu da ques-
tao foram todos aqueles que re-
conheciam Jesus como urn ho-
mem, urn homem enviado por
Deus, urn homem dotado com ha-
bilidades especiais, animado pelo
espirito profetico, poderoso em
palavras e obras, mas apenas urn
homem. E para o lado pagao fo-
ram todos aqueles que reconhe-
ciam Jesus como urn filho dos
deuses, uma divindade que veio
dos ceus e que, como os anjos do
Velho Testamento, manifestou-se
durante algum tempo sobre a ter-
ra em urn corpo etereo. Esses fo-
ram incapazes de confessa-lo
como o Unigenito do Pai que se
fez carne. Contra essas duas here-
sias, a Igreja, seguindo a linha da
Escritura, tern que manter, por urn
lado, que Cristo eo unigenito Fi-
lho de Deus, e por outro lado que
ele veio em carne. E essa foi a con-
fissao de fe que a Igreja fez em
seus credos depois de urn longo
debate. Ela rejeitou, juntamente
Fundamentos Teol6gicos da FC Crista
como ap6stolo Joao, todos os en-
sinos anticristaos que negavam
que o Filho de Deus veio em car-
ne (1Jo 2.18,22; 4.2,3). Dessa forma
a Igreja crista, pela formula<;ao e
afirma<;ao de tais credos, mante-
ve a essencia, o cora<;ao e o cara-
ter peculiar da religiao crista. E e
por isso que os condlios e sinodos
nos quais essas confissoes foram
elaboradas sao de tao grande e
fundamental importancia para
toda a cristandade. Nos fatos do
cristianismo, que a confissao
apost6lica resume, e na doutrina
da pessoa de Cristo e do triuno
ser de Deus, ha urn acordo nas
igrejas cristas que encaixa-as to-
das juntas como uma unidade
contra o judaismo e contra o pa-
ganismo. Essa euma unidade que
nao pode, por causa das divisoes
que as separam, ser ignorada.
Fora dessa base comum de-
senvolveram-se todos os tipos de
diferen<;:as e divisoes. 0 exercicio
da disciplina levou a separa<;:ao
dos Montanistas na segunda me-
tade do segundo seculo, dos
Novacianos na metade do tercei-
ro seculo e dos Donatistas no
quarto seculo. Muito mais serios
foram os cismas que grada-
tivamente se desenvolveram en-
tre as Igrejas do Ocidente e do
Oriente. Muitas causas contribui-
ram para isso. Antes de mais nada
foi a aversao entre gregos e lati-
nos, a continua tensao entre
Constantinopla e Roma, a luta
132
pela supremacia entre os patriar-
cas e o papa. A essas foram sendo
acrescentadas muitas diferen<;:as
menores sobre a doutrina eo cui-
to. A mais importante delas foi a
confissao da Igreja grega de que
no ser de Deus o Espirito Santo
nao procedeu do Pai e do Filho,
como a Igreja do Ocidente dizia,
mas somente do Pai. A separa<;:ao,
que tinha acontecido periodica-
mente durante breves intervalos,
tornou-se permanente em 1054. A
Igreja do Oriente, que preferiu
pensar de si mesma que era a Igre-
ja Ortodoxa, pois supunha que
tinha permanecido mais leal ao
ensino da Igreja primitiva, sofreu
grandes perdas com a forma<;ao
de seitas (os Cristaos Armenios,
Nestorianos na Siria, os Jacobitas
na Siria, os Coptas no Egito, os
Maronitas no Libano) e tambem
por causa dos rrm<;ulmanos, que
em 1453 conquistaram Constan-
tinopla. Ao mesmo tempo, a Igre-
ja do Oriente, deu urn passo im-
portante com a conversao dos
Eslavos e continua a existir como
Igreja Ortodoxa na Grecia, Tur-
quia, Russia, Bulgaria, Iugoslavia
e Romenia.
*****
A Igreja Cat6lica do Ociden-
te, sob a lideran<;:a dos bispos de
Roma, desdobrou-se cada vez
mais no curso dos seculos. Urn
periodo de descanso, privilegio e
A ESCRITURA E A CONFISSAO
prestigio seguiu-se a conversao
do Imperador Constantino, de-
pois de urn longo periodo de per-
seguic;:ao e 6dio. E apesar da se-
cularizac;:ao ter tornado terreno, a
Igreja desde o tempo da conver-
sao de Constantino ate o tempo da
Reforma realizou muito. Durante
OS primeiros seculos a Igreja re-
sistiu e conquistou o paganismo,
trabalhou duro pela conversao
das nac;:oes e pela civilizac;:ao da
Europa, manteve as grandes ver-
dades do Cristianismo e a inde-
pendencia da Igreja com louvavel
firmeza, e cooperou efetivamen-
te para o desenvolvimento da arte
e da ciencia crista. Todavia, a des-
peito desses grandes meritos, nao
pode ser negado que em sua ex-
pansao e ascendencia ao poder a
Igreja moveu-se na direc;:ao que
nao era apontada pelo cristianis-
mo apost6lico. Isso tornou-se cla-
ro, especialmente, de tres formas.
Em primeiro lugar a Igreja
Cat6lica elevou cada vez mais a
tradir;ao, dando-lhe o status de
uma regra de fe independente,
mantendo-a proxima e, algumas
vezes, contra as Escrituras. Uma
grande quantidade de doutrinas
e usos da Igreja Cat6lica, tais
como a missa, o celibato para os
religiosos, a canonizac;:ao de san-
tos, a concepc;:ao imaculada de
Maria, e outros semelhantes nao
podem ser provados por qual-
quer texto da Escritura. Contudo
tais doutrinas e praticas sao
155
mantidas sobre a base da tradic;:ao.
Com relac;:ao a essa tradic;:ao, e ale-
gado que ela pode compreender
apenas aquilo que "tern sido cri-
do sempre e em todos os lugares,
e por todas as pessoas", mas na
analise final e 0 papa que deter-
mina se algo pertence ou nao a
tradic;:ao.
Dessa forma todo o relacio-
namento entre a Escritura e a Igre-
ja tern sido mudado por Roma. A
Escritura nao e indispensavel,
mas meramente util para a Igreja,
mas a Igreja e indispensavel para
a Escritura, pois a Escritura nao
tern autoridade, a nao ser que a
Igreja lhe de essa autoridade de-
clarando-a merecedora de fe. Des-
sa forma a Escritura eobscura e
necessita da ac;:ao da Igreja para
que seja esclarecida; ela nao pre-
cede e nem constitui o fundamen-
to da Igreja; a Igreja tern preceden-
cia sobre ela e constitui a base so-
bre a qual ela repousa. Embora os
profetas e ap6stolos tenham rece-
bido o dom da inspirac;:ao, o papa
tambern, quando fala II ex
cathedra" em seu oficio papal,
recebe o suporte especial do Es-
pirito e assim torna-se infalivel. A
Igreja esuficiente em si mesma, e
poderia, se assim o desejasse,
existir sem a Escritura, e e a uni-
ca, verdadeira e perfeita mediado-
ra da salvac;:ao. A Igreja e tambem
a possuidora e distribuidora dos
beneficios da Grac;:a contida nos
sacramentos. A Igreja eo meio de
Fundamentos Teol6gicos da FC Cristii
Grac;:a, o estado e o reino de Deus
na terra.
Em segundo lugar, a Igreja
Cat6lica, se nao perdeu o corac;:ao
do Evangelho, isto e, a livre Gra-
c;:a de Deus, a justificac;:ao dos pe-
cadores somente pela fe, pelo
menos misturou-a com compo-
nentes impuros e assim confun-
diu a distinc;:ao entre a lei eo Evan-
gelho. Essa distorc;:ao do Evange-
lho original aconteceu ja nos seu
prim6rdios, mas depois desen-
volveu-se livremente e ganhou
aprovac;:ao oficial. Na luta entre
Agostinho e Pelagio,luta que ain-
da continua, a Igreja Romana, par-
ticularmente depois da Reforma,
tern se alinhado cada vez mais a
Pelagio, dizendo que, de fato,
Deus concedeu habilidade ao ho-
mem que ouve o Evangelho de
abandonar os seus pecados e vol-
tar-se para Deus e perseverar em
sua conversao. Mas a disposic;:ao
e a perseveranc;:a sao contribuic;:6es
do proprio homem. Por meio de
boas obras, portanto, ele deve
obter entrada no reino de Deus
sobre a terra.
Essas boas obras sao classi-
ficadas de duas formas pela Igre-
ja Cat6lica: as obras de obedien-
cia aos mandamentos regulares
como se aplicam a todas as pes-
soas, e as obras destinadas a sa-
tisfac;:ao dos conselhos que Cristo
acrescentou a lei (celibato, mise-
ria e obediencia). 0 primeiro ca-
minho e urn born caminho, mas o
134
segundo e melhor e mais diffcit
apesar de ser mais curto e mais
seguro. 0 primeiro caminho e
destinado as pessoas leigas, e 0
segundo aos religiosos - padres
e freiras. Seja quem for que ande
nesse caminho de boas obras re-
cebeni da Igreja, atraves dos sa-
cramentos, sempre muito mais
Grac;:a do que tern merecido. Fi-
nalmente, se perseverar ate o fim,
chegara - nao ao tempo de sua
conversao ou de sua morte, mas
s6 depois de anos de sofrimento
no purgat6rio- ao reino dos ceus.
Em terceiro lugar, a Igreja
Cat6lica comec;:ou a fazer distin-
c;:ao entre o clero e o laicato. Nao
sao os crentes em geral, mas os
clerigos, que sao apropriadamen-
te os sacerdotes. E nesse status
clerical varias classificac;:6es tern
sido feitas.
No Novo Testamento os no-
mes presbitero e bispo sao designa-
c;:oes intercambiaveis para os mes-
mos oficios. Mas logo no segun-
do seculo essa unidade foi omiti-
da: o bispo foi elevado a urn ni-
vel superior ao dos diaconos e
presbiteros e gradualmente come-
c;:aram a ser considerados suces-
sores dos ap6stolos e preser-
vadores da tradic;:ao. Esses bispos
tinham conegos, sacerdotes e
capelaes como seus inferiores e
arcebispos, patriarcas e finalmen-
te o papa como seus superiores.
Essa hierarquia culminava no
papa, que no Condlio Vaticano
A ESCRITURA E A CONFISSAO
de Roma, em 1870, foi oficialmen-
te declarado infalivel. Ele e o
"pai" (papa significa pai) de toda
a Igreja, o sumo sacerdote", o su-
cessor de Pedro, o vice-gerente de
Cristo, a maior autoridade judici-
al e legislativa e aquele que, com
a ajuda de urn amplo colegiado
de oficiais (cardeais, prelados,
procuradores, notarios, e outros
oficios semelhantes), governa
toda a Igreja.
Esses erros, que tern seu
ponto de partida em fracos des-
vias do curso correto, desenvol-
veram-se mais e mais no decorrer
dos anos. Eles se desenvolveram
e continuam a se desenvolver
numa dire<;ao em que a velha
igreja cat6lica crista esta cada vez
mais se tornando a Igreja
Ultramontanista, Romana (isto e,
inseparavelmente sujeita aigreja
em Roma), e Papal, na qual Ma-
ria, a mae de Jesus, eo papa como
substituto de Cristo empurram a
pessoa e obra de Cristo cada vez
mais para tras.
As tres heresias ou erros
mencionadas acima representam
uma redu<;ao dos ofkios profeti-
co, sacerdotal e real de Cristo, e
uma viola<;ao deles.
* * * * *
Essa corrup<;ao da Igreja nao
se desenvolveu sem energicos e
constantemente renovados esfor-
<;os para conte-la. Especialmente
155
na Idade Media nao havia escas-
sez de pessoas e tendencias que
visassem introduzir melhoras.
Mas todos esses movimentos ti-
nham pouco sucesso nessa epo-
ca. Alguns deles tinham muito
pouco efeito pratico. Outros fo-
ram suprimidos com sangue. Con-
tra a Reforma do seculo dezesseis
esses meios de repressao e ani-
quilamento foram utilizados, mas
nessa ocasiao eles nao tiveram
sucesso. A epoca estava pronta
para uma reforma. A Igreja che-
gou a urn nfvel espiritual e etico
tao baixo que nao conseguia mais
ganhar a confian<;a nem mesmo de
seu proprio povo. Havia urn sen-
so comum em todos os lugares de
que esse tipo de coisa nao podia
continuar acontecendo, e havia
tambem o desejo de se fazer al-
guma coisa para mudar essa situ-
a<;ao; e urn born numero de pes-
soas, na Italia, por exemplo, caiu
em zombaria e completa incredu-
lidade. 0 que teria acontecido a
Igreja sem a Reforma e diffcil de
imaginar. Ela foi uma ben<;ao tam-
bern para a Igreja Cat6lica, e con-
tinua sendo ainda hoje.
A Reforma nao foi apenas o
unico tremendo rnovimento exi-
gido pelos novos tempos. Ela foi
precedida, acompanhada e segui-
da por outros movimentos, e cada
urn deles teve sua importancia na
esfera da Reforma. A descoberta
da arte da impressao e a desco-
berta da p6lvora, a ascensao da
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
classe media, a descoberta da
America, o renascimento da lite-
ratura e da arte, a nova ciencia e
filosofia natural- todos esses im-
portantes movimentos e eventos
do despertar da auto consciencia
e da transic;ao da Idade Media
para urn novo tempo.
E a Reforma, apesar de ter
procedido de seus pr6prios prin-
cipios e ter se dirigido aos seus
pr6prios objetivos, deu origem e
serviu de suporte para todos es-
ses movimentos.
Alem disso - e essa nao e a
considerac;ao menos importante-
A Reforma em oposic;ao a Igreja
Romana lanc;ou-se araiz do pro-
blema. Ela nao se satisfazia com a
melhoria das formas externas,
mas insistia em que a causa da
corrup<;:ao tinha que ser removi-
da. Para isso ela precisava de urn
firme ponto de partida, uma nor-
ma ou criteria confiavel e urn
principia positivo. Em contraste
com a Igreja Romana, a Reforma
encontrou essa norma nao na tra-
di<;:ao, mas na Palavra de Cristo,
necessaria para que a Reforma
fosse merecedora de considera<;:ao
e respeito, necessaria para a vida
e bern estar da Igreja e tambem,
totalmente suficiente e clara. A
Reforma afirmou, contra as boas
obras que a Igreja Romana tinha
anexado asalva<;:ao do homem, a
Palavra de Cristo, que e perfeita
e que nao precisa de comple-
menta<;:ao humana. E, finalmente,
136
a Reforma afirmou, contra o papa,
que se apresentava como o infali-
vel representante de Cristo, que
o Espirito de Cristo purifica a Igre-
ja e conduz os filhos de Deus a
toda verdade.
A Reforma nao encontrou
seu principia positivo atraves de
investigac;oes cientificas e refle-
xao, mas atraves da experiencia
do cora<;:ao culpado e oprimido,
que encontrou reconcilia<;:ao e per-
ciao somente na livre Gra<;:a de
Deus. A Reforma nao foi urn mo-
vimento filos6fico nem cientifico.
Ela teve urn carater religioso e
moral. Como sempre acontece em
casos de cisma e separac;ao, mui-
tos se identificaram com os
cismciticos movidos por motivos
impuros. Mas aqueles que esta-
vam no corac;ao e no centro da
Reforma eram os cansados e so-
brecarregados que estavam enfra-
quecidos sob o jugo da Igreja Ro-
mana e que agora tinham encon-
trado descanso para suas almas
aos pes do Salvador.
Essa experiencia de perdao
de pecados foi suficiente para
Lutero. Foi suficiente para ele ter
encontrado "urn Deus gracioso".
De fato, foi desse novo ponto de
vista que ele comec;ou a olhar e
considerar o mundo mais livre-
mente do que tinha feito na Igreja
Romana, que sempre da ao natu-
ral a qualidade de profano. Des-
cansando inteiramente na justifi-
ca<;:ao, que ele tinha obtido so-
A EscRITURA E A CoNFISSAo
mente pela fe, ele deixou que tudo
que fosse secular - arte e ciencia,
estado e sociedade- seguisse seu
proprio curso. A Reforma
Luterana limitou-se arestaura<;:ao
do oficio da prega<;:ao. Quando
ela encontrou na Escritura a res-
pasta para a pergunta: "Como o
homem e salvo?", ela desistiu de
fazer esfor<;:o em qualquer outro
sentido.
Para Zwinglio e Calvina,
que fizeram a Reforma na Sui<;:a,
a obra come<;:ava no ponto em que
tinha sido abandonada por
Lutero. Eles tambem chegaram ao
ponto da Reforma nao atraves de
argumentos racionais, mas atra-
ves da experiencia de pecado e
Gra<;:a, culpa e reconcilia<;:ao. Essa
experiencia foi seu ponto de par-
tida, mas nao foi seu lugar de des-
canso, nem o fim de sua jornada.
Eles penetraram mais fundo, tan-
to para a frente quanto para tras.
Atras da Gra<;:a de Deus, que se
expressa no perdao da culpa, esta
a soberania de Deus, o infinito e
glorioso ser de Deus em todas as
Suas excelencias e perfei<;:6es. Eles
viram que, assim como Deus era
soberano na obra de salva<;:ao, Ele
era soberano sempre em todos os
lugares- tanto na cria<;:ao quanto
na recria<;:ao. Se Ele tinha se tor-
nado Rei no cora<;:ao do homem,
Ele tinha se tornado Rei tambem
em sua cabe<;:a e em sua mao, em
sua casa, e em seu trabalho, no
estado e na sociedade, na arte e
137
na ciencia. Responder aquestao:
"Como o homem e salvo?" nao
era suficiente. Ela remeteu-se a
outra questao, maior, mais pro-
funda, e mais abrangente: "Como
Deus e glorificado?". Portanto,
para Zwinglio e tambem para
Calvina, a obra de Reforma tinha
apenas come<;:ado quando eles
encontraram paz de cora<;:ao no
sangue derramado na cruz. Todo
o mundo estava aberto diante de-
les, nao para ser abandonado em
seus pr6prios neg6cios, mas para
ser penetrado e santificado pela
Palavra de Deus e pela ora<;:ao.
Eles come<;:aram seu envolvi-
mento imediato dirigindo-se a
igreja das cidades onde viviam.
Eles restauraram nao apenas o
oficio da prega<;:ao, mas tambem
o culto e a disciplina da igreja;
eles reformaram nao apenas a
vida religiosa de domingo, mas
tambem a vida social e civica dos
dias da semana; eles reformaram
nao apenas a vida privada do ci-
dadao, mas tambem a vida publi-
ca do estado. A partir desse pon-
to sua Reforma se espalhou para
outras terras e lugares. A Refor-
ma Luterana limitou-se principal-
mente a Alemanha, Dinamarca,
Suecia e Noruega, mas a Reforma
de Calvina alcan<;:ou a Italia e a
Espanha, a Hungria e a Polonia, a
Sui<;:a e a Fran<;:a, a Belgica e a
Holanda, a Inglaterra e a Esc6cia,
os Estados Unidos e o Canada. Se
ela nao tivesse sido neutralizada
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
e destruida pela Contra-Reforma
dos Jesuitas em muitos paises, ela
teria colocado urn fim ao dominio
Romano.
* * * * *
Tal conquista, contudo, nao
seria permitida. A Reforma foi ata-
cada pela Igreja Romana por to-
dos os lados. No Concilio de
Trento, Roma, deliberada e cons-
cientemente, entrincheirou-se
contra a Reforma e moveu-se na
dire<;ao oposta a que a Reforma
tinha tornado. Alem disso a Refor-
ma enfraqueceu-se por causa de
divisoes internas e disputas sem
fim. Paralelamente a ela, ainda no
seculo dezesseis, surgiram 0
anabatismo e o socianismo. Am-
bos procediam da mesma ideia
basica, a saber, o incompativel
conflito entre a natureza e a Gra-
<;a. Essa mesma oposi<;ao entre a
cria<;ao e a recria<;ao, o humano e
o divino, a razao e a revela<;ao, o
ceu e a terra, a humanidade e a
cristandade, continuou em ativi-
dade muito depois disso, e conti-
nua em atividade em nossos dias.
As separa<;oes e cismas do seculo
dezesseis nao foram OS unicos. A
cada seculo esse numero aumen-
ta. 0 seculo dezessete viu nascer
o Remonstrantismo na Holanda,
138
o Independentismo na Inglaterra
e o Pietismo na Alemanha. 0 se-
culo dezoito deu origem ao
Herrnhutismo, Metodismo e
Swedenborgianismo, e no mesmo
seculo todas as igrejas foram atin-
gidas pelo Deismo. Depois da Re-
volu<;ao Francesa ate o come<;o do
seculo dezenove urn poderoso
reavivamento religioso ocorreu
tanto nas igrejas romanas quanta
nas protestantes. Mas a separa<;ao
continuou. 0 Darbyismo, o
Irvingismo, o Mormonismo, o Es-
piritismo e todos os outros tipos
de seitas surgiram de muitos frag-
mentos de igrejas que foram
enfraquecidas e consumidas por
urn espirito interno de duvida e
indiferen<;a. E, do lado de fora das
igrejas, o poder do monismo, seja
de tipo materialista ou panteista,
organizou suas for<;as para urn as-
salta final e mortal contra toda a
religiao crista.
Parece, portanto, que toda a
esperan<;a de unidade e universa-
lidade da Igreja de Cristo esta
perdida. Contudo, ha urn confor-
to - Cristo reunira Sua propria
Igreja de todas as na<;oes, povos,
ra<;as e linguas. Ele trara todas as
suas ovelhas e elas ouvirao Sua
voz. E entao havera urn s6 reba-
nho e urn s6 Pastor.
CAPITULO
®
0 SER DE DEUS
A
te aqui n6s discutimos a
natureza da revela<;ao
que Deus nos deu em Sua
Gra<;a, fizemos algumas conside-
ra<;oes sobre como a revela<;ao
veio a existencia, e como, sob a
normativa dire<;ao dos credos e
das confissoes, n6s a temos conhe-
cido. Tambem vimos o conteudo
da revela<;ao e mostramos como
essa revela<;ao age na mente e no
cora<;ao, no entendimento e na
vida. Se n6s estivemos olhando o
edificio da revela<;ao pelo lado de
fora e tivemos alguma no<;ao de
sua arquitetura, n6s vamos agora
entrar no santuario para contem-
plar todo o tesouro de sabedoria
e conhecimento contido nele e
vamos deleitar nossos olhos nes-
se banquete.
Nao e necessaria afirmar que
n6s podemos desenvolver o rico
conteudo dessa revela<;ao de va-
rias formas, e podemos colocar
159
diante de n6s seus varios mode-
los. N6s nao vamos discutir cada
uma dessas formas e modelos.
N6s vamos limitar a discussao a
dois metodos nos quais o conteu-
do da doutrina crista pode ser tra-
tado, e frequentemente e.
Em primeiro lugar, n6s po-
demos ir direto ao cristao que,
com a verdadeira fe em seu cora-
<;ao, que aceita o conteudo dare-
vela<;ao, e entao perguntar a ele
de que forma ele chegou ao co-
nhecimento da verdade, de quais
pontos esse conhecimento consis-
te, e que fruto esse conhecimento
tem produzido em seu pensamen-
to e em sua vida. Esse eo ponto
de vista assumido pelo nosso Ca-
tecismo de Heidelberg. 0 narrador
desse catecismo eo cristao. Ele da
um abrangente e claro registro
daquilo que na vida e na morte e
seu unico conforto e dos varios
pontos que e necessaria conhecer
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
se quiser viver e morrer aben<;:oa-
damente nesse conforto. Esse e urn
bonito metodo de tratamento. Ele
relata a verdade imediatamente a
toda a vida crista, resguarda-a
contra todos os argumentos aca-
demicos e especula<;:6es inuteis, e
em sua aproxima<;:ao de toda dou-
trina aponta diretamente para o
que e de valor para a mente e para
o cora<;:ao. Que beneficia e confor-
to voce recebe por crer em tudo
isso? Que eu sou justificado di-
ante de Deus em Cristo e urn her-
deiro da vida eterna.
Mas ha tambem outra forma
pela qual as verdades da fe po-
dem ser consideradas. N6s nao
estamos limitados ao metodo de
voltar ao cristao e perguntar-lhe
em que ele ere. N6s podemos
tambem nos colocarmos na posi-
<;:ao do cristao e assim tentar dar a
n6s mesmos e aos outros urn re-
gistro baseado na Escritura do
conteudo de nossa fe. Dessa for-
ma n6s nao vamos deixar que o
desenvolvimento de nossa confis-
sao seja determinado pelas ques-
t6es que nos sao dirigidas sobre
ela.
De acordo com esse segun-
do metodo n6s mesmos vamos
expor positivamente o conteudo
de nossa fe. Em vez disso n6s ten-
tamos tra<;:ar que ordem esta ob-
jetivamente presente nas verda-
des da fe, como estao elas relaci-
onadas umas as outras equal e 0
prindpio governante de todas
140
elas. Essa e a ordem seguida na
Confissfio de Fe Reformada. Nessa
Confissao o cristao tambem e o
narrador, mas ele nao espera que
as perguntas lhe sejam impostas.
Em vez disso ele mesmo explica
o conteudo de sua fe. Ele ere com
seu cora<;:ao e confessa com sua
boca que Deus fala as igrejas em
Sua Palavra atraves de Seu Espi-
rito.
Esses dois metodos de tra-
tamento, evidentemente, nao sao
opostos urn ao outro. Eles se com-
pletam entre si e sao ambos de
grande valor. Para as igrejas Re-
formadas e tambem para as Esco-
las Cristas Reformadas, e urn pri-
vilegio inavaliavel que n6s pos-
suamos a Confissao de Fe parale-
lamente ao Catecismo, e o Cate-
cismo paralelamente a Confissao
de Fe. 0 que os dois juntos nos
dao e 0 objetivo e 0 subjetivo, 0
teol6gico e o antropol6gico. Eles
estao mesclados e o cora<;:ao e a
mente sao reconciliados atraves
deles. Dessa forma a verdade de
Deus se torna uma ben<;:ao tanto
para a mente quanto para a vida.
Que esses dois metodos de
organiza<;:ao do conteudo da reve-
la<;:ao nao sao opostos, mas com-
plementares e se equilibram urn
ao outro, e fartamente provado
pelo fato de que, nao apenas no
Catecismo, mas tambem na Con-
fissao de Fe, e o cristao quem fala.
Em ambos o cristao nao esta iso-
lado, mas e urn companheiro de
0 SER DE DEUS
todos os seus irmaos e irmas. Ea
Igreja, o corpo dos crentes, que se
expressa nele. Todos n6s cremos
com o cora<;ao e confessamos com
a boca - tais sao as palavras de
abertura da Confissao e assim ela
continua, e assim ela termina. E
uma verdadeira confissao crista
contendo o sumario da doutrina
de Deus e da eterna salva<;ao das
almas.
A doutrina de Deus e a dou-
trina da eterna salva<;ao das almas
nao sao duas doutrinas indepen-
dentes que nada tern a ver uma
com a outra. Pelo contrario, elas
estao inseparavelmente relaciona-
das uma com a outra. A doutrina
de Deus e ao mesmo tempo a
doutrina da eterna salva<;ao das
almas, e a segunda esta incluida
na primeira. 0 conhecimento de
Deus na face de Jesus Cristo, Seu
Filho, essa e a vida eterna (Jo 17.3).
Esse conhecimento de Deus
e diferente em tipo, mas nao em
grau daquele que n6s obtemos na
vida diaria ou na escola. E urn
tipo peculiar de conhecimento.
Ele difere em principia, objeto e
efeito de todo tipo de conheci-
mento, como ja mostramos no ca-
pitulo 2. Esse conhecimento esta
ligado amente e tambem ao cora-
<;ao. Ele nao nos torna mais "estu-
dados", mas ele nos torna mais
sabios, melhores e mais felizes.
Ele nos torna aben<;oados enos da
a vida eterna, no porvir e aqui e
agora. As tres coisas que e neces-
141
sario que n6s conhe<;amos nao ter-
m inam aqui. N 6s devemos ser
aben<;oados tambem na morte.
Esse eo nosso fim, e n6s devemos,
tambem na vida, ser aben<;oados.
Aquele que ere no Filho tern
a vida (Jo 3.16). Aben<;oados sao
os puros de cora<;ao, pois passu-
em a promessa de que verao a
Deus (Mt 5.8), pois foram salvos
na esperan<;a (Rm 8.24).
* * * * *
Uma vez que tenhamos re-
cebido o principia da vida eterna
em nossos cora<;6es, n6s nao po-
demos fazer outra coisa senao co-
nhecer mais sobre Aquele que nos
concede essa vida. Mais e mais
n6s olhamos para Aquele que e a
fonte de nossa salva<;ao. Do con-
forto que n6s desfrutamos em
nossos cora<;6es, e do beneficia e
do fruto que o conhecimento de
Deus produz em n6s mesmos e
em nossas vidas, n6s sempre vol-
tamos ao culto do Ser Eterno. E
entao, n6s descobrimos que Deus
nao existe para n6s, mas n6s exis-
timos para Ele. N6s nao estamos
ignorando nossa salva<;ao,
estamos apenas afirmando que
essa salva<;ao e urn meio para que
Ele seja glorificado. 0 conheci-
mento de Deus nos deu vida, e a
vida que foi dada nos conduz de
volta ao conhecimento de Deus.
Em Deus n6s encontramos todo o
nosso bern estar e toda a nossa
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
gloria. Ele se torna o objeto de
nosso culto, o tema de nossa can-
c;:ao, a forc;:a de nossa vida. De
Deus, atraves de Deus e para Deus
sao todas as coisas - essa se torna
a escolha de nosso corac;:ao e o
tema de nosso trabalho. N6s mes-
mos e todas as criaturas ao nosso
redor nos tornamos meios para
que Ele seja glorificado. A verda-
de e que n6s amamos primeira-
mente porque Ele nos deu vida, e
depois disso Ele se tornou cada
vez mais e mais querido a n6s, por
causa de Si mesmo, por causa do
que Ele nos revela a respeito do
Seu Ser Eterno. Toda a doutrina
de fe, no todo ou em partes, tor-
na-se uma proclamac;:ao de louvor
a Deus, uma exibic;:ao de Suas ex-
celencias, uma glorificac;:ao de Seu
nome. 0 Catecismo nos conduz a
Confissao de Fe.
Quando n6s tentamos refle-
tir sobre o significado do fato de
n6s, criaturas pobres, fracas e pe-
cadoras, termos conhecimento do
Deus Infinito e Eterno, uma pro-
funda reverencia e uma timidez
santa apertam nossos sentimen-
tos. Sera verdade que na mente
escurecida de urn ser humano
culpado, alguma luz pode cair
daquele que nenhum homem
pode ver, que mora em luz ina-
cessivel (1Tm 6.16), que e pura luz
e em quem nao ha escuridao (1Jo
1.5)?
Ha muitas pessoas e ainda
havera muitas outras, que dao
142
uma resposta negativa a essa
questao. Mas a negac;:ao da
cognoscibilidade de Deus pode
ter sua origem em dois tipos de
atitudes mentais. Hoje em dia
esse temperamento cetico e 0 re-
sultado de argumentos cientfficos
puramente abstratos e racio-
nalistas.
Os ceticos dizem que o co-
nhecimento que esta disponivel a
mente humana e limitado aos fe-
nomenos empiricamente obser-
vaveis, eles argumentam que e
uma contradic;:ao afirmar, por urn
lado, que Deus tern personalida-
de, mente e vontade, e, por outro
lado, afirmar que Ele e infinito,
eterno e absolutamente indepen-
dente.
A esses ceticos n6s pronta-
mente replicamos que de fato nao
pode haver conhecimento de
Deus na mente do homem, a me-
nos que Deus, de uma forma ge-
ral na natureza e na hist6ria, ou
de uma forma especial em Seu
Filho, revele-se a Si mesmo. Par-
tanto, se Deus revelou-se a Simes-
mo, segue-se que Ele pode ser
conhecido na medida em que se
revelou. Mas se alguem afirmar
que de nenhuma forma e por ne-
nhum meio Ele se revelou, a im-
plicac;:ao e que 0 mundo tern exis-
tido eternamente paraleio a Deus
e independente dele, e que Deus
nao poderia revelar-se nele ou
atraves dele. E essa implicac;:ao
considerada em toda a sua pro-
0 SER DE DEUS
fundidade seria que n6s nunca
poderiamos £alar sabre Deus, pois
essa palavra seria apenas urn som
vazio, que nao possui fundo ou
base na realidade. 0 assim cha-
mado agnosticismo (a doutrina
da incognoscibilidade de Deus)
tornar-se-ia, na pratica, identica ao
ateismo (a nega<;ao da existencia
de Deus).
~as essa nega<;ao da
cognoscibilidade de Deus, tam-
bern pode surgir de urn profun-
da senso de pequenez e nulida-
de combinado com a infinita gran-
deza e a majestade esmagadora de
Deus. Nesse sentido, o reconhe-
cimento de que n6s nada sabemos
e de que o conhecimento de Deus
e maravilhoso demais para n6s,
tern sido a confissao de todos os
santos. Nos paise mestres da Igre-
ja a afirma<;ao geralmente e que,
refletindo sobre Deus, o homem
poderia na analise final dizer me-
lhor o que Deus nao e do que o
que Deus e. Calvina em algum
lugar admoesta seus leitores a nao
tentar, por sua propria for<;a, des-
cobrir os segredos de Deus, pois
esses misterios transcendem nos-
sa fragil capacidade de conheci-
mento.
Apesar dessa humilde con-
fissao da sublime majestade de
Deus e da pequenez do homem,
poder, em urn certo sentido, ser
chamada de nega<;ao da cognos-
cibilidade de Deus, parece que, a
fim de evitarmos urn entendimen-
145
to equivocado, e de acordo como
ensino da Palavra de Deus, n6s
devemos fazer distin<;ao entre a
cognoscibilidade de Deus e a Sua
insondabilidade. Certamente nao
ha livro no mundo que, na mes-
ma extensao e da mesma forma
que a Sagrada Escritura, sustente
a absoluta transcendencia de Deus
sobre todas as criaturas e ao mes-
mo tempo sustente o intima rela-
cionamento entre a criatura e seu
Criador.
* * * * *
Logo na primeira pagina da
Biblia, a absoluta transcendencia
de Deus sobre todas as Suas cria-
turas chama nossa aten<;ao. Sem
esfon;:o ou fadiga Ele chama o
mundo aexistencia somente atra-
ves de Sua palavra. Os ceus por
Sua palavra se fizeram, e, pelo
sopro de Sua boca, o exercito de-
les (Sl33.6). Pois Ele falou, e tudo
se fez; Ele ordenou, e tudo pas-
sou a existir (Sl 33.9). Segundo a
Sua vontade Ele opera com o exer-
cito do ceu e OS moradores dater-
ra; nao ha quem possa lhe deter a
mao e dizer: Que fazes? (Dn 4.35).
Eis que as na<;6es sao considera-
das por Ele como urn pingo que
cai de urn balde, e como urn grao
de p6 na balan<;a; as ilhas sao
como p6 fino que se levanta. Nem
todo o Libano basta para queimar,
nem todos os seus animais, para
urn holocausto. Todas as na<;6es
Fundamentos Teol6gicos da Fii Crista
sao perante Ele como coisa que
nao e nada; Ele as considera me-
nos do que nada, como urn vacuo.
Com que comparareis a Deus? Ou
que coisa semelhante confron-
tareis com Ele? (Is 40.15-18). Pois
quem nos ceus e comparavel ao
Senhor? Entre os seres celestiais,
quem e semelhante ao Senhor? (Sl
89.6). Nao ha nome pelo qual Ele
verdadeiramente possa ser cha-
mado: Seu nome e maravilhosd6
•
Quando Deus fala a J6 de dentro
de urn redemoinho e coloca a
magnitude de Suas obras diante
dele, J6 humildemente curva sua
cabe<;:a e diz: Sou indigno; que te
responderia eu? Ponho a mao na
minha boca (J6 40.4). Deus e
grande, e n6s nao podemos
compreende-lo (J6 36.26). Tal co-
nhecimento e maravilhoso de-
mais para mim: e sobremodo ele-
vado, nao o posso atingir (Sl
139.6).
Contudo, esse mesmo Deus
exaltado e sublime mantem urn
intimo relacionamento com todas
as Suas criaturas, ate mesmo com
a menor e mais miseravel. 0 que
as Escrituras nos dao nao e urn
conceito abstrato de Deus, como
o que os fil6sofos nos dao. A Es-
critura coloca diante de n6s o
Deus vivo e deixa que n6s o veja-
mos pelas obras de Suas maos.
N6s temos que levantar nossos
olhos e ver que Ele fez todas as
56
Gn 32. 29; fz 13.18; Pv 30.4.
144
coisas. Todas as coisas foram fei-
tas pela sua mao, criadas por Sua
vontade e por Seu ato. E todas
elas sao sustentadas pelo Seu po-
der. Portanto todas as coisas apre-
sentam o selo de Suas excelenci-
as e a marca de Sua bondade, sa-
bedoria, e poder. E dentre todas
as criaturas somente o homem foi
criado aSua imagem e semelhan-
<;:a. Somente o homem e chamado
de gerar;iio de Deus (At 17.28).
Por causa desse relaciona-
mento intimo, Deus pode ser
chamado em termos de Suas cria-
turas, e podemos falar dele
antropomorficamente. A mesma
Escritura que fala de modo mais
exaltado da incomparavel grande-
za e majestade de Deus, ao mes-
mo tempo fala dele em figuras e
imagens refulgentes. Ela fala de
Seus olhos e ouvidos, de suas
maos e pes, de Sua boca e de Seus
labios, de Seu cora<;:ao e de Suas
entranhas. Ela descreve todos os
tipos de atributos de Deus - de
sabedoria e conhecimento, vonta-
de e poder, justi<;:a e misericordia,
e descreve tambem Suas emo-
<;:6es, tais como, alegria e pena, ira,
zelo e ciume, arrependimento,
6dio e raiva. A Escritura fala de
Deus pensando e observando, ou-
vindo e vendo, lembrando-se e
esquecendo-se, cheirando e pro-
vando, sentando-se e levantando-
se, visitando e abandonando,
0 SER DE DEUS
aben<;oando e castigando. A Escri-
tura compara Deus com o sol e
com a luz, com uma fonte e com
uma nascente, com uma rocha e
com urn refugio, com uma espa-
da e com urn escudo, com urn leao
e com urn juiz, com urn marido e
com urn pastor, com urn homem
e com urn pai. Em resumo, tudo
o que pode ser encontrado em
todo o mundo na forma de supor-
te, e abrigo e socorro e original e
abundantemente encontrado em
Deus. De Deus toda a familia, tan-
to no ceu como sobre a terra, toma
o nome (Ef 3.15). Ele e o Sol e to-
das as criaturas sao Seus raios.
Eimportante, portantGl, na
questao do conhecimento de
Deus, manter esses dois tipos de
afirma<;oes concernentes ao Ser
divino e fazer justi<;a tanto a urn
quanto ao outro, pois se n6s sa-
crificamos a absoluta transcen-
dencia de Deus sobre todas as
Suas criaturas, n6s caimos no
politeismo (a religiao paga de
muitos deuses) ou no panteismo
(a religiao na qual tudo e Deus)I
duas religioes que, de acordo com
a li<;ao da hist6ria, estao intima-
mente relacionados urn com o
outro e facilmente pode-se passar
de urn para o outro.
E se n6s sacrificamos o inti-
mo relacionamento de Deus com
Suas criaturas n6s caimos na es-
teira do Deismo (cren<;a em Deus
sem auxilio de uma revela<;ao) ou
no ateismo (a nega<;ao da existen-
145
cia de Deus), duas religioes que,
assim como as outras duas, pos-
suem muitas caracteristicas em
comum uma com a outra.
A Escritura apega-se aos
dois grupos de caracteristicas
(transcendencia e relacionamen-
to), e a teologia crista tern segui-
do essa norma. Deus realmente
nao tern urn nome de acordo com
o qual n6s possamos conhece-lo
verdadeiramente, e Ele se chama
enos deixa chama-lo por muitos,
muitos nomes. Ele e o infinita-
mente exaltado, e ao mesmo tem-
po e aquele que vive com todas
as Suas criaturas. Em certo senti-
do nenhum dos Seus atributos
pode ser compartilhado, e em
outro sentido eles podem ser com-
partilhados. N 6s nao podemos
sondar esses atributos com nossa
mente. Nao existe algo como urn
conceito adequado de Deus. Nin-
guem pode dar uma defini<;ao,
uma delimita<;ao de Deus que seja
adequada ao Seu Ser. 0 nome que
expresse plenamente o que Ele e
nao pode ser encontrado. Mas urn
grupo de caracteristicas como as
que foram dadas acima nao entra
em conflito com o que Ele e. Pre-
cisamente porque Deus eo Alto e
Exaltado, e vive na eternidade,
Ele tambem mora com aqueles
que sao contritos e abatidos de
espirito (Is 57.15). N6s sabemos
que Deus nao se revela para que
n6s formulemos urn conceito filo-
s6fico de Deus a partir de sua re-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vela<;:ao, mas para que n6s aceite-
mos o Deus vivo e verdadeiro
como nosso Deus, e que o reco-
nhe<;:amos e o confessemos. Essas
coisas sao escondidas dos sabios
e entendidos, mas sao reveladas
aos pequeninos (Mt 11.25).
0 conhecimento que n6s
obtemos de Deus atraves de Sua
revela<;:ao e, portanto, urn conhe-
cimento de fe. Ele nao e adequa-
do, no sentido de que nao e equi-
valente ao Ser de Deus, pois Deus
e infinitamente exaltado acima de
todas as Suas criaturas. Tal conhe-
cimento nao e puramente simb6-
lico - ou seja, formulado em ex-
press6es arbitrariamente forma-
das e que nao correspondem a
realidade; em vez disso esse co-
nhecimento e ectipco (ectipco:
uma impressao) ou anal6gico
(analogia: correspondencia ou si-
milaridade em forma) porque e
baseado na semelhan<;:a e no rela-
cionamento que, nao obstante a
absoluta majestade de Deus, exis-
te entre Deus e todas as obras de
Suas maos. 0 conhecimento que
Deus dade si mesmo na natureza
e na Escritura e limitado, finito,
fragmentario, mas e verdadeiro e
puro. Assim e Deus, e Ele se re-
velou em sua Palavra e especifi-
camente em e atraves de Cristo; e
s6 Ele preenche as necessidades
de nosso cora<;:ao.
* * * * *
146
0 esfor<;:o de se levar em
conta todos os dados das Sagra-
das Escrituras quanta sua doutri-
na a Deus e manter tanto Sua
transcendencia quanta Seu relaci-
onamento com Suas criaturas, le-
varam a Igreja Crista a fazer dis-
tin<;:ao entre dois grupos de atri-
butos do Ser divino. Esses dois
grupos receberam varios nomes
desde os tempos da Igreja primi-
tiva. A Igreja Romana ainda pre-
fere falar em atributos negativos
e positivos, os luteranos falam em
atributos inativos e operativos e
a Igreja Reformada fala em atribu-
tos incomunicaveis e atributos
comunicaveis. Todavia, no fundo,
essa divisao e equivalente em to-
das essas igrejas. 0 objetivo de
cada uma delas e insistir na
transcendencia de Deus (Sua dis-
tin<;:ao e Sua eleva<;:ao sobre todo
o mundo) e em Sua imanencia
(Seu contato e Sua habita<;:ao no
mundo). Os nomes Reformados
de atributos incomunicaveis e
atributos comunicaveis fazem
mais justi<;:a ao seu prop6sito do
que os nomes dados pelos cat6li-
cos e pelos luteranos. A insisten-
cia sobre o primeiro grupo de atri-
butos livra-os do politefsmo e do
pantefsmo; e a insistencia sobre o
segundo grupo protege-as contra
o defsmo e o atefsmo.
Apesar de todas as nossas
designa<;:6es para esses atributos
serem inadequadas, nao ha obje-
<;:6es convincentes para que deixe-
0 SER DE DEUS
mos de usar os termos Reforma-
dos. 0 que nos devemos fazer e
nos lembrarmos que os dois gru-
pos de atributos, incomunicaveis
e comunicaveis, nao ficam urn ao
lado do outro em total separac;ao.
A forc;a da distinc;ao nao deve ser
perdida, e a verdade dessa distin-
c;ao e que Deus possui todos OS
Seus atributos incomunicaveis em
urn sentido absoluto e infinito e,
portanto, incomunicavel grau. E
verdade que o conhecimento de
Deus, Sua sabedoria, Sua bonda-
de, Sua justic;a e outros atributos
do mesmo tipo, possuem certas
caracteristicas em comum com
aquelas mesmas virtudes que
existem em suas criaturas, mas
elas sao peculiares a Deus de uma
forma independente, imutavel,
eterna, onipresente, simples- ou,
em uma palavra, em uma forma
absolutamente divina.
Nos, como seres humanos,
podemos fazer distinc;ao entre o
sere os atributos de pessoas. Urn
ser humano pode perder seu bra-
c;o ou sua perna, ou, em urn esta-
do de sono ou doenc;a, perder a
consciencia, sem deixar de ser hu-
mano. Mas em Deus isso e impos-
sivel. Seus atributos coincidem
com Seu Ser. Todo atributo e Seu
Ser. Ele e sabedoria, verdade, san-
tidade, justic;a e misericordia. For-
tanto Ele e, tambem, a fonte de
todos os atributos do homem. Ele
etudo o que Ele possui e e a fonte
de tudo o que Suas criaturas pos-
suem. Ele e a abundante fonte de
todos os bens.
*****
Os atributos incomunica-
veis de Deus sao aquelas virtudes
ou excelencias que demonstram
que tudo o que existe em Deus,
existe em uma forma absoluta-
mente divina, e, portanto, nao
pode ser compartilhada com Suas
criaturas. Esse grupo de atributos
afirma a absoluta exaltac;ao e
incomparabilidade de Deus, e
tern sua expressao maxima no
nome Elohim, ou Deus. De fato o
nome deus e tambem aplicado as
criaturas na Biblia. As Escrituras
mencionam nao apenas os idolos
dos pagaos como deuses, como
por exemplo quando nos proibe
deter qualquer outro deus dian-
te do Deus vivo (Ex 20.3). Elas
tambem designam Moises como
deus para Aarao (Ex 4.16) e para
Farao (Ex 7.1), e falam dos juizes
como deuses entre os homens (Sl
82.1,6); e Cristo apela a essa de-
signac;ao dos Salmos em Sua pro-
pria defesa (Jo 10.33-35).
147
Contudo esse uso da lin-
guagem e derivado, imitativo. 0
nome de deus original e essenci-
almente pertence somente a Deus.
Ecom esse nome que nos sempre
associamos a ideia de urn ser pes-
soal, mas que tambem e podero-
so acima de todas as Suas criatu-
ras e de tipo eterno.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
0 mesmo acontece com os
atributos incomunicaveis que Ele
possui. Eles sao peculiares e pr6-
prios somente dEle, nao sao en-
contrados nas criaturas, e nao po-
dem ser compartilhados com elas,
pois todas as criaturas sao depen-
dentes, mutaveis, compostas e
sujeitas ao tempo e ao espac;o.
Mas Deus e independente no senti-
do de que Ele nao e determinado
por nada e tudo e por Ele deter-
minado (At 17.20; Rm 11.36). Ele
e imutavel, pois Ele permanece 0
mesmo para sempre, enquanto
que todos os tipos de variac;oes e
mudanc;as sao pr6prios das cria-
turas e do relacionamento que
elas mantem com Deus (Tg 1.17).
Ele e simples, nao composto, com-
pletamente livre de toda compo-
sic;ao de espirito e materia, pen-
samento e extensao, sere propri-
edades, razao e vontade, compo-
nentes de qualquer especie e tudo
o que Ele tem e pura verdade, vida
e luz57. Ele e eterno, pois transcen-
de o tempo e penetra todos os
momentos do tempo com Sua
eternidade (Sl 90.2). E Ele e
onipresente, pois transcende todo
o espac;o e ainda preenche todos
os pontos do espac;o com Seu po-
der e com Sua forc;a sempre pre-
sente58.
Nos tempos modernos ha
poucos observadores que negam
57
5136.9; Jo 5.26; 1Jo 1.5.
ss 51139.1; At 11.27,28.
59
Dt 6.4; Me 12.29; Jo 17.3.
148
todo 0 merito religioso desses atri-
butos incomunicaveis e nada
veem neles, alem de abstrac;oes
metafisicas. Mas o oposto e pro-
vado pelo fato de que qualquer
sacrificio dessas distinc;oes, ime-
diatamente abre a porta para o
panteismo ou o politeismo.
Se Deus nao e independen-
te e imutavet eterno e onipresen-
te, simples e livre de composic;ao,
entao Ele e puxado para o nivel
da criatura e identificado com o
mundo em sua totalidade ou com
uma de suas forc;as. 0 numero esta
sempre aumentando daqueles
que trocam o Deus da revelac;ao
por uma imanente forc;a mundial
ou daqueles que confessam o
politeismo em vez de urn unico e
verdadeiro Deus. Esta claro que
a unidade e a indivisibilidade de
Deus estao diretamente relaciona-
das com os Seus atributos inco-
municaveis59. Deus e o unico
Deus somente se ninguem e nada
puder ser o que Ele e paralela-
mente a Ele ou sobre Ele. E so-
mente se Ele for independente,
imutavel, eterno e onipresente Ele
pode ser o Deus de nossa fe in-
condicionat de nossa absoluta
confianc;a, e de nossa perfeita sal-
vac;ao.
*****
0 SER DE DEUS
Entretanto, n6s precisamos
de algo mais do que esses atri-
butos incomunicaveis. Que bern
nos faria saber que Deus e inde-
pendente e imutavel, eterno e
onipresente, se n6s nao soubes-
semos que Ele e compassivo, gra-
cioso e muito misericordioso? E
verdade que os atributos inco-
municaveis nos falam da forma
pela qual tudo o que esta em
Deus existe nEle; mas eles nos
deixam nas trevas a respeito do
conteudo do Ser divino. Isso nao
acontece com os atributos comu-
nicaveis. Eles nos mostram que
esse Deus que e tao infinitamen-
te exaltado e sublime tambem
mora com Suas criaturas, e pos-
sui todas as virtudes que em uma
forma derivada e limitada tam-
bern sao pr6prias das Suas cria-
turas. Ele nao e apenas urn Deus
de longe, mas tambem de perto.
Ele nao e apenas independente e
imutavel, eterno e onipresente,
mas tambem sabio e poderoso1
justo e santo, gracioso e miseri-
cordioso. Ele e nao apenas
Elohim, mas tambem Jeova.
Assim como os atributos in-
comunicaveis sao bern expressos
no nome Elohim, assim tambem
os atributos comunicaveis sao
bern expressos no nome Jeova. A
deriva<;:ao e o significado original
desse nome nao sao do nosso co-
nhecimento. Muito provavelmen-
te ele existiu por algum tempo
antes de Moises- como parece ser
149
sugerido pelo nome proprio
Joquebede, mas nesse tempo
Deus ainda nao tinha ainda se fei-
to conhecido por esse nome ao
Seu povo. Ele se revela a Abraao
como El Shadai, o Deus todo po-
deroso (Gn 17.1; Ex 6.2), que do-
mina todas as for<;:as da natureza
e faz com que elas sirvam a Sua
Gra<;:a. Mas agora que centenas de
anos se passaram e Deus parece
ter se esquecido de Seu pacto com
os patriarcas e Sua promessa a
eles, entao Ele se faz conhecido a
Moises como Jeova, ou seja, como
o Deus que e o mesmo que apa-
receu aos patriarcas, que e fiel ao
Seu pacto, que cumpre Sua pro-
messa, e que, atraves dos seculos,
se mantem sempre ao lado de Seu
povo. 0 significado de Jeova, en-
tao, e: Eu sou o que sou (Eu serei
o que serei) e esse nome revela a
fidelidade imutavel de Deus em
Seu relacionamento com Israel.
Jeova e o Deus do pacto que, de
acordo com Seu amor soberano,
escolheu Seu povo e fez dele pro-
priedade Sua. Dessa forma, en-
quanta o nome Elohim, Deus,
aponta para o Ser eterno, em Sua
soberana eleva<;:ao sobre o mun-
do, o nome Jeova, Senhor, afirma
que esse mesmo Deus tern volun-
tariamente se revelado ao Seu
povo como urn Deus de santida-
de, Gra<;:a e fidelidade.
Toda a questao religiosa de
Israel, desde os tempos antigos
ate os nossos dias, esta relaciona-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
da, em sua essencia, com a ques-
tao de quem e Deus. Os pagaos e
rnuitos fil6sofos antigos e rnoder-
nos dizern que Jeova e apenas 0
Deus de Israel- urn Deus, lirnita-
do, nacional e pequeno. Mas
Moises e Elias e todos os profe-
tas, Cristo e todos os Seus disd-
pulos, tornarn a posi<;ao oposta e
dizern que s6 o Senhor, que fir-
rnou urn pacto corn os patriarcas
e corn o povo de Israel, eo unico,
eterno e verdadeiro Deus, e que
nao ha outro alem dEle (Is 43.10-
15; 44.6). Portanto Jeova de fato e
o verdadeiro e caracterfstico
nome de Deus (Is 42.8; 48.12). 0
Deus do pacto que de forma tao
condescendente veio para o Seu
povo e que mora corn aqueles que
sao contritos e hurnildes de espf-
rito e, ao rnesrno tempo, o Alto e
Sublime (Is 57.15).
Como podernos ver, esses
dois tipos de atributos nao entrarn
ern conflito urn corn o outro. N6s
podernos dizer que cada atributo
ilurnina e refor<;a os outros. Con-
sidere, por exernplo, o amor de
Deus. N6s nao poderiarnos £alar
sobre ele se o atributo que o ho-
mem chama de arnor nao fosse,
ern urn certo sentido, urna irn-
pressao, imagem, ou semelhan<;a
do amor que existe em Deus. Ha
urna certa correspondencia entre
o arnor divino eo amor humano,
ou entao tudo o que n6s estarnos
falando sobre o arnor de Deus e
urn sorn vazio. Contudo essa si-
150
rnilaridade nao significa identida-
de. 0 mais puro e rnais forte amor
entre OS homens e apenas Uffi fra-
CO reflexo do arnor que existe em
Deus. Podernos aplicar aqui o que
aprendernos sobre os atributos
incomunicaveis de Deus. Com
eles n6s aprendemos que o amor
de Deus transcende o amor de
Suas criaturas, pois o amor de
Deus e independente, irnutavel,
simples, eterno e onipresente. Ele
nao depende de n6s, nem e des-
pertado por n6s, mas flui, livre e
puro, das profundezas do Ser di-
vino. Ele nao conhece varia<;ao,
nao aumenta nem diminui, nao
aparece nem desaparece, e nao ha
nem mesrno sombra de mudan<;a
nEle. Ele nao e meramente uma
propriedade do Ser divino isola-
cia de outras propriedades ou
atributos, e nunca entra em con-
flito com eles, mas coincide com
o Ser divino. Deus e amor, com-
pleta e perfeitamente, e com todo
o Seu Ser, Deus e amor. Esse amor
nao e sujeito ao tempo e ao espa-
<;o, mas esta acima tanto de urn
quanto de outro, e vern da eterni-
dade para o cora<;ao dos filhos de
Deus. Tal amor e absolutamente
digno de confian<;a. Nossa alma
pode descansar nele em qualquer
necessidade, inclusive na morte,
e se tal Deus de amor e por n6s,
quem sera contra n6s? E o mes-
rno pode ser dito de todos os atri-
butos comunicaveis. Hanas cria-
turas de Deus urna vaga serne-
0 SER DE DEUS
lhan<;a do conhecimento e da sa-
bedoria, da bondade e da Gra<;a,
da justi<;a e da santidade, da von-
tade e do poder que sao pr6prios
de Deus. Tudo o que e transit6rio
e uma imagem. 0 visivel veio a
existir das coisas que nao pare-
cern (Hb 11.3). Todos esses atribu-
tos estao presentes em Deus de
forma original, independente,
imutavel, simples e infinita. Sabei
que o Senhor e Deus; foi Ele quem
nos fez, e dEle somas; somas o Seu
povo e rebanho do Seu pastoreio
(51100.3).
Os atributos comunicaveis
sao tao numerosos que e impos-
sivel enumera-los e descreve-los
aqui. Se n6s quisessemos tratar
deles adequadamente n6s teria-
mos que fazer uso de todos os
names, imagens e compara<;6es
que as Sagradas Escrituras usam
para nos dar uma ideia de quem
e de que Deus e para Suas criatu-
ras e, especificamente, para Seu
povo. As Escrituras, como n6s in-
dicamos de passagem, mencio-
nam os 6rgaos do corpo de Deus,
tais como olhos e ouvidos, maos
e pes. Ela transfere para Deus ca-
racteristicas humanas, tais como
emo<;6es, paix6es, decis6es e
a<;6es. Ela se refere a Ele com os
names de oficios e voca<;6es como
as que sao encontradas entre os
seres humanos, chamando-o de
rei, legislador e juiz, guerreiro e
her6i, marido e pastor, homem e
pai. A Escritura usa todo o mun-
151
do organico e inorganico para fa-
zer com que Deus seja real para
n6s, e compara-o com urn leao,
urna aguia, urn sol, urn fogo, urna
fonte, urn escudo, e assim por di-
ante. E todas essas formas de ex-
pressao constituem forma de aju-
dar-nos a conhecer Deus e dar-nos
uma profunda impressao da auto
suficiencia de Seu Ser. N6s, seres
humanos, precisamos de todo o
mundo ao nosso redor para nos-
sa existencia fisica e espiritual,
pois n6s somas pobres e fracas em
n6s mesmos e nada possuimos.
Mas tudo isso de que n6s preci-
samos, tanto para alma quanta
para o corpo, tanto para o tempo
quanta para a eternidade, esta,
sem exce<;ao, disponivel para n6s
-original, perfeito e infinito- em
Deus. Ele e o mais alto bern e a
fonte de todos os bens.
A primeira coisa que a Sa-
grada Escritura quer nos dar, ao
fazer uso de todas aquelas descri-
<;6es e names do Ser divino, e uma
no<;ao inerradicavel do fato de
que Jeova, o Deus que se revelou
a Israel e em Cristo, eo Deus vivo
e verdadeiro. Os idolos dos pa-
gaos e os idolos dos fil6sofos
(panteismo, politeismo, deismo e
ateismo) sao obras das maos dos
homens: eles nao podem falar,
nem ver, nao podem ouvir nem
provar, nem andar. Mas o Deus
de Israel esta no ceu e faz tudo
o que deseja. Ele e o unico Deus
(Dt 6.4), o unico Deus verdadeiro
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
(Jo 17.3), o Deus vivd0
. As pesso-
as querem tratar Deus como se Ele
fosse um Deus morto, pois assim
poderiam fazer com Ele o que
bern quisessem. Mas a mensagem
da Escritura revela que isso e er-
rado. Deus existe. Ele e o verda-
deiro Deus que esta vivo, agora e
por toda a eternidade. E horrivel
coisa e cair nas maos do Deus
vivo (Hb 10.31).
Sendo o Deus vivo, que e a
pura vida e a fonte de toda vida
(51 36.9; Jr 2.13)1 Ele e tambem Es-
pirito (Jo 4.24), sem corpor muito
embora todos os tipos de 6rgaos
sejam atribuidos a Ele (Dt4.12)6).
Portanto nenhuma imagemr seme-
lhan~a ou similitude pode ser fei-
ta dEle (Dt 4. 15-19). Ele e invis1-
vel61. Como Espfrito Ele tern cons-
ciencia, perfeito conhecimento de
Si mesmo (Mt 11.27; 1Co 2.10), e
em Si mesmo Ele tambem tern
conhecimento de tudo o que exis-
te e acontece no tempo, e nada
pode ser escondido dEler por
menor que seja62. Por ser Espfrito
Ele tern vontade, e por meio dela
Ele faz tudo o que lhe agrada
(vontade secreta ou conselho)63
, e
determina qual deve ser a norma
que governara Sua conduta (von-
tade revelada ou mandamento)64
.
E, finalmenter como Esp{rito Ele
tem poder, por meio do qual, ape-
sar de toda e qualquer oposi~aor
Ele executa o que tinha planeja-
do e por isso nada e impossivel
para Ele65
.
Mas esse conhecimento ou
consciencia, essa vontade e po-
der, nao sao arbitrarios. Eles sao
eticamente determinados em to-
das as suas partes. Isso se expres-
sa na sabedoria gue nas Sagradas
Escrituras e atribuida a Deus66, e
por meio da qual Ele organiza e
dirige todas as coisas de acordo
com o prop6sito que Ele determi-
nou para elas na cria~ao e na re-
cria~ao67. Essa realidade moral
encontra sua maior expressao, por
um lado, na bondade e na Gra~a,
e, por outro lado, na santidade e
na justi<;:a que sao atribuidas a
Deus. Ele nao e apenas o todo sa-
bio eo todo poderoso; Ele e tam-
bern 0 todo born e 0 unico born
(Mt 5.45), Ele eperfeito e a fonte
de tudo o que eborn em Suas cri-
aturas (51145.9). Essa bondade de
Deus se espalha por todo o mun-
do (Sl 145.9; Mt 5.45), mas varia
6
" Dt 5.26; Jo 3.1.0; Dn 6.27; At 14.15; 2Co 6.16; 1Tm3.15; 6.17.
61
Ex 33.20; fa 1.18; 6.46; 1Tm6.16.
61
Is 46.1.0; Jr 11.20; Mt 1.0.30; Hb 4.14.
63
S/115.3; Pv 21.1; Dn 4.35.
"" Dt 29.29; Mt 7.21; 12.50.
65
Gn 18.14; Jr 22.37; ZC 8.6; Mt 19.26; 1Tm 6.15.
66
Pv 8.22-31; J6 28.20-28; Rm 16.27; 1Tm 1.17.
67
51104.24; Ef3.10; Rm 11.33.
152
0 SER DE DEUS
de acordo com os objetos aos
quais e dirigida, assumindo vari-
as formas. Ela e chamada
longanimidade ou paciencia quan-
do e manifestada ao culpado (Rm
3.25), Grafa quando e manifesta-
da aqueles que recebem 0 perdao
de pecados (Ef 2.8) e amor quan-
do Deus, movido por Sua Gra<;a
em dire<;ao as Suas criaturas, da-
se por elas (Jo 3.16; 1Jo 4.18). Ela e
chamada misericordia quando essa
bondade de Deus e manifesta
aqueles que desfrutam de Seu fa-
vor68, e agrado ou bem querer quan-
do a enfase recai sobre o fato de
que a bondade e todos os seus
beneficios sao dadivas69
•
* * * * *
A santidade e a justi<;a de
Deus caminham de maos dadas
com a Sua bondade e com a Sua
Gra<;a. Deus echamado o Santo
nao apenas porque Ele e exalta-
do sobre todas as Suas criaturas,
mas especialmente porque Ele e
separado de tudo 0 que e peca-
minoso e impuro no mundo. For-
tanto, Ele exige que Seu povo, que
pela Sua livre Gra<;a Ele escolheu
para que fosse Seu, seja santo70
, e
Ele se santifica a Si mesmo nesse
povo atraves de Cristo (Ef
5.26,27), pois apesar de Cristo ter
"' Gn 39;21; Nm 14.19; Ts 54.10; Ef 2.7.
"
9
Mt 11.26; Lc 2.14; 12.32; 2Ts 1.11.
70
Ex 19.5,6; Lv 11.44,45; 1Pe 2.9.
santificado a Si mesmo por Seu
povo e em lugar dele, esse povo
pode ser santificado na verdade
(Jo 17.19). E a retidiio e justi<;a de
Deus estao intimamente relacio-
nadas com a Sua santidade, pois,
sendo o Santo, Ele nao pode ser
amigo do pecado. Ele abomina o
pecado (Sl45.7; J6 34.10), levanta-
se contra ele (Rm 1.18), e zeloso
de Sua honra (Ex 20.5) e, portan-
to, nao pode inocentar o culpado
(Ex 25.5,7). Sua natureza santa re-
quer tambem que, fora de Simes-
mo, no mundo de Suas criaturas,
Ele mantenha a justi<;a e, de for-
ma imparcial, retribua a cada urn
segundo as Suas obras (Rm 2.2-11;
2Co 5.10). Hoje em dia ha aqueles
que tentam fazer com que outras
pessoas acreditem que Deus nao
se importa com os pensamentos
e atos pecaminosos do homem.
Mas o Deus vivo e verdadeiro que
as Escrituras nos apresentam pen-
sa muito diferente sobre isso. Sua
ira contra o pecado e terrivel, e Ele
pune o pecador tanto temporal-
mente quanto eternamente por
meio de um justo julgamento (Dt
27.26; Gl3.10).
Mas Ele nao apenas pune os
incredulos de acordo com Sua jus-
ti<;a. Eum ensino notavel das Es-
crituras que de acordo com essa
mesma justi<;a Ele conceda salva-
153
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
<;ao aos santos. De fato, esses san-
tos sao pecadores tambem, e em
nada sao melhores do que os ou-
tros. Mas enquanto o incredulo
oculta os seus pecados ou os en-
cobre, os santos os reconhecem e
confessam. Essa e a distin<;ao en-
tre eles. Apesar de serem pessoal-
mente culpados e impuros, eles
estao do lado de Deus e contra o
mundo. Eles podem, portanto,
apelar a promessa do pacto da
Gra<;a, a verdade da Palavra de
Deus, ajusti<;a que Deus realizou
em Cristo.
Em termos dessa justi<;a n6s
podemos dizer, corajosa e reve-
rentemente, que Deus e obrigado
a perdoar os pecados de Seu povo
e dar-lhe vida eterna71
. E se Deus
deixa que Seu povo espere por Ele
e prova sua fe por urn longo tern-
po, segue-se que em sua perfeita
reden<;ao a integridade e a fideli-
dade de Deus sao demonstradas
mais gloriosamente72
.
0 Senhor aperfei<;oani aque-
les que pertencem a Seu povo,
pois Sua misericordia dura para
sempre (Sl138.8). 0 Senhor e mi-
sericordioso e gracioso, longa-
nimo e abundante em bondade e
verdade73
.
Uns confiam em carros, ou-
tros, em cavalos; n6s, porem, nos
gloriaremos em o nome do Se-
nhor, nosso Deus74
• Esse Deus eo
nosso Deus para todo o sempre;
Ele sera o nosso guia ate amorte
(Sl 48.14). Ele e urn Deus
abenr;oador e glorioso (1Tm 6.15; Ef
1.17). E feliz eo povo cujo Deus e
o Senhor (Sl33.12).
71
S/4.2; 7.10; 31.2; 34.22; 35.24; 51.16; 103.17; 1Jo 1.9.
72
Gn 24.27; 32.10; Js 21.45; 2Sm 7.28; S/57.3; S/105.8.
73
Ex 34.6; S/86.15; 103.8; 145.8.
74
S! 20.7; Jr 9.23; 1Co 1.31; 2Co 10.17.
154
CAPITULO
11@
A DIVINA TRINDADE
0
Ser Eterno se revela em
Sua existencia triuna ate
mesmo de modo mais rico
e indispensavel do que em Seus
atributos. Enessa Trindade santa
que cada atributo do Seu Ser al-
can<;a, digamos, o seu conteudo
pleno e o seu significado mais
profunda. Somente quando n6s
contemplamos essa Trindade e
que n6s descobrimos quem e o
que Deus e. S6 assim n6s pode-
mos descobrir quem e o que Ele e
para essa humanidade perdida.
N6s s6 podemos descobrir isso
quando n6s o conhecemos e con-
fessamos como o Deus Triuno do
Pacto, como o Pai, o Filho eo Es-
pirito Santo.
Ao considerarmos essa par-
te da nossa confissao e particular-
mente necessaria que urn tom de
reverencia santa e urn temor inge-
nuo caracterizem nossa aproxima-
<;ao e atitude. Para Moises foi urn
155
momenta terrivel e inesquecivel
aquele em que Deus lhe apareceu
no deserto em uma sar<;a ardente.
Quando Moises olhou para a sar-
<;a ardente, que ardia e nao se con-
sumia, a certa distancia, e quis
aproximar-se, o Senhor o adver-
tiu, dizendo: "Nao te chegues para
ca; tira as sandalias dos pes, par-
que 0 lugar onde estas e terra san-
ta". Ao ouvir essas palavras
Moises temeu muito e escondeu
seu rosto, pois temia olhar para
Deus (Ex 3.1-6).
Tal respeito santo convem
tambem a n6s como testemunhas
da revela<;ao que Deus faz de si
mesmo em Sua Palavra como o
Deus Triuno, pois n6s devemos
sempre nos lembrar que, quando
n6s estudamos esse fato n6s nao
estamos tratando de uma doutri-
na sobre Deus, ou de urn concei-
to abstrato, ou de uma proposi-
<;ao cientifica a respeito da Divin-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
dade. N6s nao estamos lidando
com uma constrw:;ao humana na
qual n6s mesmos ou outras pes-
soas tenham arrumado os fatos, e
que n6s agora vamos tentar ana-
lisar logicamente e desmembrar.
N6s estamos tratando da Trinda-
de, estamos lidando com o pro-
prio Deus, com o unico e verda-
deiro Deus, que revelou-se como
tal em Sua Palavra. Isso foi o que
Ele disse a Moises: "Eu sou o
Deus de Abraao, de Isaque e de
Jac6" (Ex 3.6). Assim tambem Ele
se revela a n6s em Sua Palavra e
se manifesta a n6s como o Pai, o
Filho e o Espirito.
E e assim que a Igreja Crista
sempre tern confessado a revela-
<:;ao de Deus como o Deus Triuno,
e como tal o tern aceitado. N6s en-
contramos essa confissao nos doze
artigos do Credo apost6lico. 0
cristao nao esta nesse credo dizen-
do o que ele pensa sobre Deus.
Ele nao esta dando ao leitor uma
no<:;ao de Deus, nem dizendo que
Deus tern tais e tais atributos e que
Ele existe dessa ou daquela for-
ma. Ele simplesmente confessa:
"Creio em Deus Pai, e em Jesus
Cristo, seu unico filho, e no Espi-
rito Santo, ou seja, eu creio no
Deus Triuno". Ao fazer essa con-
fissao o cristao expressa o fato de
que Deus eo Deus vivo e verda-
deiro, que e o Deus Pai, Filho e
Espirito, o Deus de sua confian-
<:;a, a quem ele tern se rendido in-
teiramente, e em quem ele descan-
156
sa com todo o seu cora<:;ao. Deus
eo Deus de sua vida e de sua sal-
va<:;ao. Como Pai, Filho e Espiri-
to, Deus o criou, redimiu-o, san-
tificou-o e glorificou-o. 0 cristao
deve tudo a Ele. Esua alegria e
prazer que ele possa crer nesse
Deus, confiar nEle e esperar tudo
dEle.
0 que o cristao confessa so-
bre Deus nao e resumido por ele
em urn numero de termos abstra-
tos, mas e descrito como uma se-
rie de atos feitos por Deus no pas-
sado, no presente e que serao fei-
tos no futuro. Sao os atos, os mi-
lagres de Deus que constituem a
confissao do cristao. 0 que o cris-
tao confessa em seu credo e uma
longa, abrangente e elevada his-
t6ria. Euma hist6ria que compre-
ende todo o mundo em sua lar-
gura e profundidade, em seu ini-
cio, processo e fim, em sua ori-
gem, desenvolvimento e destino,
do ponto da cria<:;ao ate a plenitu-
de dos tempos. A confissao da
Igreja e a declara<:;ao dos podero-
sos feitos de Deus.
Esses feitos sao numerosos
e sao caracterizados por uma
grande diversidade. Mas eles tam-
bern constituem uma rigorosa
unidade. Eles estao relacionados
uns aos outros, preparados uns
para os outros e interdependen-
tes. Ha ordem e padrao, desenvol-
vimento e progresso nos feitos de
Deus. Eles come<:;am na cria<:;ao e
vao ate a reden<:;ao, santifica<:;ao e
A DIVINA TRINDADE
glorifica<;ao. 0 fim volta ao come-
<;o e e ao mesmo tempo 0 apice
que e exaltado acima de sua ori-
gem. Os feitos de Deus formam
urn circulo que se desenvolve na
forma de urn espiral; eles repre-
sentam a harmonia entre a linha
horizontal e a vertical; eles se mo-
vem ao mesmo tempo para frente
e para tras.
Deus eo arquiteto eo cons-
trutor de todos os Seus feitos, a
fonte eo final deles. Dele, atraves
dEle e para Ele sao todas as coi-
sas. Ele e o Fabricante, o Restau-
rador e o Plenificador. A unidade
e a diversidade das obras de Deus
se originam da unidade e diver-
sidade que existem no Ser divino.
Esse Sere urn Ser, singular e sim-
ples. Ao mesmo tempo Ele e
tripartido em Sua pessoa, em Sua
revela<;ao e em Sua inflw2ncia.
Toda a obra de Deus e compacta
e indivisivel, mas ao mesmo tem-
po compreende a mais rica varie-
dade. A confissao da Igreja com-
preende toda a hist6ria do mun-
do. Nessa confissao estao inclui-
dos os momentos de cria<;ao e de
queda, de reconcilia<;ao e perdao,
de renova<;ao e restaura<;ao. E
uma confissao que procede do
Deus Triuno e que volta para Ele.
0 artigo sobre a santa Trin-
dade e 0 cora<;ao e 0 nucleo de
nossa confissao, a marca registra-
da de nossa religiao, o prazer e o
conforto de todos aqueles que ver-
dadeiramente cn2em em Cristo.
157
Essa confissao foi a ancora
na guerra de tendencias atraves
dos seculos. A confissao da santa
Trindade e a perola preciosa que
foi confiada acustodia da Igreja
Crista.
* * * * *
Se essa confissao da Trinda-
de de Deus assume a posi<;ao cen-
tral na fe crista, entao e importan-
te conhecer sobre qual pano de
fundo ela e projetada e de qual
fonte ela tern fluido para a Igreja.
Nao sao poucos os que em nos-
sos dias afirmam que essa doutri-
na e fruto do argumento humano
e de estudo academico e que, por
isso, essa doutrina nao tern qual-
quer valor para a vida religiosa.
Para essas pessoas o Evangelho
original, como foi pregado por Je-
sus, nada sabia sobre qualquer
tipo de doutrina da Trindade de
Deus- isto e, nada sobre o termo
em si e nada sobre a realidade
que o termo expressa. 0 argumen-
to continua dizendo que o origi-
nal e simples Evangelho de Jesus
foi mesclado com a filosofia gre-
ga e foi falsificado. Dessa forma a
Igreja Crista absorveu a pessoa de
Cristo na natureza divina e even-
tualmente absorveu tambem o
Espirito Santo no Ser divino. E foi
assim que a Igreja come<;ou a con-
fessar tres pessoas no Ser divino.
Mas a Igreja crista sempre
teve urn pensamento totalmente
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
diferente sobre isso. Ela nao viu
na doutrina da Trindade uma des-
coberta de te6logos sutis, nem urn
produto da mistura do Evangelho
com a filosofia grega, mas uma
confissao que foi materialmente
concluida no Evangelho e em
toda a Palavra de Deus - em re-
sumo, uma doutrina que a fe cris-
ta extraiu da revela<;ao de Deus.
Em resposta a questao: "Desde
que ha apenas urn Ser divino, por
que voce fala de Pai, Filho e Espi-
rito Santo?", o Catecismo de
Heidelberg da uma resposta cur-
ta e conclusiva: "Porque Deus as-
sim revelou em Sua Palavra" (per-
gunta 25).A revela<;ao de Deus e
o firme terreno sobre o qual essa
confissao da Igreja repousa. A re-
vela<;ao de Deus e a fonte da qual
essa doutrina de uma Igreja Cris-
ta unica, santa e universal tern se
desenvolvido. Deus revelou-se
dessa forma. E Ele se revelou des-
sa forma, isto e, como urn Deus
Triuno, porque Ele existe dessa
forma; e Ele existe dessa forma
porque Ele se revelou assim.
A Trindade na revela<;ao de
Deus aponta para a Trindade em
sua existencia.
Essa revela<;ao nao aconte-
ceu em urn s6 momento. Ela nao
foi apresentada e aperfei<;oada em
urn s6 ponto no tempo. Pelo con-
trario, essa revela<;:ao tern uma
longa hist6ria, desenvolvida no
decorrer dos seculos. Ela come-
<;ou na cria<;ao, continuou depois
158
da queda, na promessa enos fei-
tos da Gra<;a que foram feitos em
Israel e alcan<;ou seu apice na pes-
soa e obra de Cristo, na descida
do Espirito Santo e no estabeleci-
mento da Igreja. Ela se mantem
agora atraves dos seculos, apesar
de toda a oposi<;ao, baseada no
testemunho da Escritura e na ro-
cha firme da confissao da Igreja.
Como a revela<;ao tern tido essa
longa hist6ria, ha progresso e de-
senvolvimento tambem na confis-
sao da existencia triuna de Deus.
Deus nao muda. Ele permanece
sempre o mesmo. Mas no pro-
gresso da revela<;ao Ele sempre se
faz mais claro e mais glorioso as
pessoas e aos anjos. N a medida
em que Sua revela<;ao progride,
nosso conhecimento se desenvol-
ve.
*****
Quando, nos dias do Velho
Pacto, Deus come<;a a se revelar,
o que permanece como pano de
fundo dessa revela<;ao e a unida-
de, a unicidade de Deus.
Devido ao pecado do ho-
mem o puro conhecimento de
Deus tinha sido perdido; a verda-
de, como Paulo profundamente
afirma, foi transformada em injus-
ti<;a. Ate mesmo o que de Deus
pode ser conhecido atraves das
Suas obras foi inutilizado pela
imagina<;ao dos homens e foi obs-
curecido pela vaidade de seus
A DIVINA TRINDADE
cora<;6es. Em uma de suas maos
a ra<;a humana carregava a idola-
tria, e, em outra, o culto as ima-
gens (Rm 1.18-23).
Portanto, foi necessaria que
a revela<;ao come<;asse com uma
enfase sobre a unidade de Deus.
A Escritura parece damar a ra<;a
humana: "Os deuses diante dos
quais voces se ajoelham nao sao
deuses verdadeiros. Ha somente
urn Deus verdadeiro, a saber, o
Deus que no come<;o fez os ceus e
a terra (Gn 1.1; 2.1), o Deus que se
fez conhecido a Abraao como
Deus Todo-Poderoso (Gn 17.1; Ex
6.3), o Deus que apareceu a
Moises como Jeova, como o Eu
sou o que Sou (Ex 3.14), eo Deus
que, em Sua soberania, escolheu
o povo de Israet e chamou-o e
aceitou-o em Seu pacto (Ex 19.4
ss.)". Antes de tudo, portanto, a
revela<;ao tinha como seu conteu-
do a mensagem de que s6 Jeova e
Elohim, s6 o Senhor e Deus, e nao
ha outro Deus alem dEle75
•
Tambem para o povo de Is-
rael a revela~ao da unidade de
Deus era desesperadamente ne-
cessaria. Israel estava rodeado por
todos os lados por pagaos que em
todas as epocas tentaram leva-lo
a aposta:sia e a incredulidade;
alem disso, na epoca imediata-
mente antes do cativeiro, uma
grande parte do povo de Israel
sentia-se atraida a idolatria paga
e ao culto as imagens, e varias
vezes adotaram essas praticas
pagas apesar da proscri<;ao da lei
e das advertencias dos profetas.
Diante dessa situa<;ao o proprio
Deus colocou enfase no fato de
que Ele, o Senhor, que tinha apa-
recido a Moises e que queria
redimir Seu povo por intermedio
de Moises, era o mesmo Deus
que se fez conhecido a Abraao,
Isaque e Jac6 como o Deus Todo-
Poderoso (Ex 3.6)5). Quando Ele
deu Sua lei a Israel ele escreveu
em seu preambulo: "Eu sou o Se-
nhor, teu Deus, que te tirei dater-
ra do Egito". E nos dois primei-
ros mandamentos Ele proibe toda
idolatria e culto a imagens (Ex
20.2-5). Porque o Senhor, nosso
Deus, e o unico Senhor, Israel
deve ama-lo com todo o seu cora-
~ao, com toda a sua alma e com
toda a sua for<;a (Dt 6.4,5). S6 o
Senhor e o Deus de Israel e par-
tanto, Israel deve servir somente
a Ele.
Contudo, apesar do fato da
unidade de Deus ser tao enfa-
tizada e de constituir o primeiro
artigo da lei basica de Israet as
distin<;6es dentro dessa unidade
vieram a luz tambem nessa reve-
la~ao, na medida em que ela pro-
gredia. 0 nome que egeralmente
usado para designar Deus, no
hebraico original, tern urn certo
significado aqui. Esse nome,
7
·:; Dt 4.35,39; Js 22.22; 25Jn 7.22; 22.32; lRe 18.39; Is 45.5,18,21.
159
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Elohim, e uma forma plural e,
portanto, apesar de nao designar
as tres pessoas do Ser divino, em
seu carater plural ele aponta para
a plenitude de vida e de poder
que existe em Deus. Isso, sem
duvida, em conexao como fato de
que Deus, as vezes, ao falar de Si
mesmo, usa o plural, e dessa for-
ma faz distin<;6es, dentro de Si
mesmo, que apresentam urn cani-
ter pessoal (Gn 1.26,27; 3.22; Is 6.8).
De grande imporhlncia e o
ensino do Velho Testamento de
que Deus traz tudo a existencia em
Sua cria<;ao e em sua providencia
atraves de Sua Palavra e de Seu
Espfrito. Ele nao e urn ser huma-
no, que, a custo de grande dificul-
dade e esforc;:o consegue fazer
algo a partir do material que tern
em suas maos. Ele simplesmen-
te, pela Sua Palavra, do nada, cha-
ma todas as coisas a existencia.
No primeiro capitulo do
Genesis n6s somos informados
dessa verdade pelo modo mais
sublime possfvel e nos Salmos
essa verdade e expressa mais glo-
riosamente em palavra e em can-
<;ao. Ele falou, e tudo se fez; ele
ordenou, e tudo passou a existir
(Sl33.9). Ele manda a sua palavra
e derrete o gelo (Sl147.18). A voz
do Senhor esta sobre as aguas, a
voz do Senhor faz tremer os de-
sertos, a voz do Senhor faz com
que os montes saltern como bois
selvagens e desnuda os bosques
(Sl29.3-10).
160
Duas verdades estao conti-
das nesse registro exaltado das
obras de Deus: A primeira eque
Deus e Todo-Poderoso, que pela
Sua palavra traz todas as coisas a
existencia, cuja palavra e lei (Sl
33.9) e cuja voz e poder (Sl29.4); e
a segunda e que Deus age
deliberadamente, nao sem previ-
dencia e executa todas as Suas
obras com a mais elevada sabedo-
ria. A palavra que Deus fala e po-
der, mas tambem e urn vefculo de
pensamento. Ele fez a terra pelo
Seu poder, Ele estabeleceu o mun-
do pela Sua sabedoria e com a Sua
inteligencia estendeu OS ceus (Jr
10.12; 51.15). Ele fez todas as Suas
obras com sabedoria; a terra esta
cheia das Suas riquezas (Sl
104.24). Essa sabedoria de Deus
nao teve sua origem fora dEle,
mas estava nEle desde o prind-
pio. 0 Senhor a possuia no prin-
cipia de Suas obras, antes de Suas
obras mais antigas. Quando Ele
preparou OS ceus, quando tra<;a-
Va o horizonte sobre a face do
abismo, quando firmava as nu-
vens de cima, quando estabelecia
as fontes do abismo, a sabedoria
ja estava com Ele, era sua arqui-
teta, dia ap6s dia era as Suas delf-
cias e alegrava-se diante dEle em
todo o tempo (Pv 8.22-31; J6 20.20-
28). Deus se alegrava na sabedo-
ria com a qual Ele criou o mun-
do.
Paralelamente a essa pala-
vra e a essa sabedoria o Espfrito
A DIVINA TRINDADE
de Deus surge como o Mediador
da cria<_;:ao. Exatamente da mesma
forma que Deus ao mesmo tem-
po ee possui a sabedoria, e assim
Ele pode dividi-la e exibi-la em
Suas obras, dessa mesma forma
Ele e Espirito em Seu Ser (Dt
4.12,15) e possui o Espirito, o Es-
pirito pelo qual Ele mora no mun-
do e esta sempre presente nele em
todos os lugares (Sl 139.7). Sem
que alguem tenha sido Seu con-
selheiro, o Senhor, por Seu espi-
rito, chamou todas as coisas aexis-
tencia (Is 40. 13 ss.). No principia
o Espirito se movia sobre a face
das aguas (Gn 1.2), e Ele perma-
neceu em atividade enquanto to-
das as coisas eram criadas. For
esse Espirito o Senhor enfeitou os
ceus (Jo 26.13), renova a face da
terra (Sl 104.30), da vida ao ho-
mem (Jo 33.4), mantem o f6lego
nas narinas dos homens (Jo 27.3),
da-lhe entendimento e sabedoria
(Jo 32.8), faz secar a erva e cair a
flor (Is 40.7). Em resumo, os ceus
por Sua palavra se fizeram, e, pelo
sopro de Sua boca, o exercito de-
les (Sl 33.6).
* * * * *
E essa diversidade encontra-
da em Deus fica ainda mais clara
nas obras de recria<_;:ao, pois nelas
nao e Elohim, o Deus 11
geral"1 mas
eJeoval 0 SenhorI 0 Deus do pac-
to que se revela e que se faz co-
nhecido em Suas maravilhas de
reden<_;:ao e salva<_;:ao. Como Se-
nhor Ele redime e conduz Seu
povo nao apenas atraves de Sua
palavra, mas tambem atraves do
Anjo do pacto (o Anjo do Senhor).
Esse Anjo aparece ja na historia
dos patriarcas: a Hagar (Gn 16.6),
a Abraao (Gn 18 ss.) e a Jaco (Gn
28.13 ss.). Esse Anjo revela Sua
Gra<_;:a e poder especialmente na
liberta<_;:ao de Israel de sua escra-
vidao no Egito76
• Esse Anjo do
Senhor nao possui o mesmo nivel
de importancia dos anjos criados;
Ele e uma revela<_;:ao e uma mani-
festa<_;:ao especial de Deus. For urn
lado, Ele e claramente distinto de
Deus, que fala dele como Seu
Anjo, e, por outro lado, Ele eurn
com Deus em poder, em reden<_;:ao
e ben<_;:ao, em gloria e honra. Ele e
chamado Deus em Genesis 16.13,
o Deus de Betel em Genesis 31.13,
troca de lugar com Deus, o Senhor
(Gn 18.30,32; Ex 3.4) eleva em si o
nome de Deus (Ex 23.21). Ele re-
dime de todo o mal (Gn 48.16),
resgata Israel das maos dos egip-
cios (Ex 3.8), abre as aguas do mar
(Ex 14.19-21), preserva o povo de
Deus em sua jornada, conduze-o
em seguran<_;:a para Canaa e faz
com que ele ven<_;:a os seus inimi-
gos (Ex 3.8; 23.20) e deve ser obe-
decido em tudo, como se fosse o
proprio Deus (Ex 23.20), e sempre
76
Ex 3.2; 13.21; 14.19; 23.20~23; 32.34; 33.2; Nm 20.16.
161
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
acampa-se ao redor daqueles que
temem ao Senhor (Sl34.7; 35.5).
Assim como em sua obra de
recria<;ao Jeova realiza Suas ativi-
dades redentivas atraves do Anjo
do pacto, da mesma forma Ele,
pelo Seu Espirito, da ao Seu povo
todos os tipos de energias e dadi-
vas. No Velho Testamento o Es-
pirito do Senhor e a fonte de toda
a vida, bern estar e habilidade. Ele
concede coragem e for<;a aos
juizes, a Otniel (Jz 3.10), Gideao
(Jz 6.34), Jefte (Jz 11.29) e Sansao
(Jz 14.6; 15.14). Ele concede per-
cep<;ao artistica aos construtores
do tabernaculo e de seus utensi-
lios, tambem aos construtores do
templo77
e da sabedoria e enten-
dimento aos juizes que foram es-
colhidos para auxiliar Moises
(Nm 11.17,25). Ele da o espirito de
profecia aos profetas78
e renova,
santifica e orienta todos os filhos
de Deus (Sl51.12,13; 143.10).
Em resumo, a palavra, a pro-
messa, o pacto que o Senhor deu
a Israel no exodo do Egito existiu
atraves dos tempos e continuou
de pe mesmo depois do cativei-
ro, nos dias de Zorobabel, e por
isso 0 povo nao precisava temer
(Ag 2.4,5). Quando o Senhor tirou
Israel do Egito Ele se tornou o
Salvador de Israel. E essa simpa-
tia de Deus em favor de Seu povo
expressou-se no fato de que em
77
Ex 28.3; 31.3-5; 35.31-35; 1Cr 28.12.
78
Nm 11.25)9; 24.2,3; Mq 3.8.
162
toda a opressao do povo Ele foi
oprimido (Ele considerou a afli-
<;ao de Seu povo como Sua pro-
pria afli<;ao) e portanto, enviou
Seu Anjo para preservar Seu povo.
Ele redimiu Israel por Seu amor e
Gra<;a e aceitou-o como Sua pro-
priedade especial durante todos
os dias da antiguidade. Ele en-
viou a Israel o Espirito de Sua san-
tidade para conduzi-lo nos cami-
nhos do Senhor (Is 63.9,12). Nos
dias do Velho Pacto, o Senhor,
atraves do sumo sacerdote, aben-
<;oou Seu povo com Sua ben<;ao
triplice: a ben<;ao da vigiL1ncia
sobre o povo, a ben<;ao da Gra<;a
e a ben<;ao da paz (Nm 6.24-26).
Desse modo, gradualmente,
mas de forma inequivoca, a
triplice distin<;ao dentro do ser
divino se expressa na hist6ria de
Israel. Todavia o Velho Testamen-
to inclui promessas de que no fu-
turo haveria uma revela<;ao mais
elevada e mais rica. Mas Israel
repudiou a Palavra do Senhor e
irritou Seu Espirito Santo (Is 63.10;
Sl106). A revela<;ao de Deus atra-
ves do Anjo do Pacto e do Espiri-
to do Senhor provou ser inade-
quada. Se Deus quisesse confir-
mar Seu pacto e cumprir Sua pro-
messa, outra revela<;ao, mais ele-
vada, seria necessaria.
Tal revela<;ao foi anunciada
pelos profetas. No futuro, nos tll-
A 0IVINA TRINDADE
timos dias, o Senhor chamani do
meio do povo de Israel urn profe-
ta semelhante a Moises, eo Senhor
colocara Suas palavras na boca
desse profeta (Dt 18.18). Ele sera
urn sacerdote segundo a ordem
de Melquisedeque (Sl 110.4); Ele
sera urn rei da casa de Davi (2Sm
7.12-16), o renovo de Jesse (Is 11.1),
urn rei que julga e busca o juizo
(Is 16.5). Ele sera urn ser humano,
urn homem, filho de uma mulher
(Is 7.14), sem formosura e sem
beleza (Is 53.2 ss.); Ele sera o
Emanuel (Is 7.14), o Senhor de jus-
tic;a (Jr 23.6), o Anjo do Facto (Ml
3.1), a aparic;ao do proprio Senhor
ao Seu povo (Os 1.7; Ml 3.1). Eo
Seu nome sera Maravilhoso, Con-
selheiro, Deus Forte, Pai da Eter-
nidade, Principe da Paz (Is 9.6).
Essa manifestac;ao do Servo
do Senhor sera seguida por uma
rica dispensac;ao do Espirito San-
to. Como o Espirito de sabedoria
e entendimento, de conselho e de
forc;a, de conhecimento e de temor
do Senhor, esse Espirito estara
sobre o Messias (Is 11.2; 42.1; 61.1).
Ele sera derramado sobre toda a
carne, sobre filhos e filhas, idosos
e jovens, servos e senhores79
, e
lhes clara urn novo corac;ao e urn
novo espirito e Seu povo andara
em Seus estatutos e obedecera os
Seus mandamentos80.
Dessa forma o Velho Testa-
mento nos mostra que a comple-
ta revelac;ao de Deus sera a reve-
lac;ao de Seu Triuno Ser.
* * * * *
Essa promessa e o an(mcio
de seu cumprimento no Velho
Testamento sao muito satisfa-
t6rios. Com relac;ao a isso a uni-
dade ou unicidade de Deus e o
ponto de partida de toda revela-
c;ao81. Mas a diferenc;a dentro
dessa unicidade se torna muito
mais clara no Novo Testamento.
Ela acontece primeiramente nos
grandes eventos redentivos da
encarnac;ao, satisfac;ao e derrama-
mento do Espirito e acontece tam-
bern na instruc;ao de Jesus aos
Seus ap6stolos. A palavra de sal-
vac;ao e urn todo, uma obra de
Deus com comec;o e fim. Contu-
do podemos ver nela tres grandes
momentos, que sao a eleic;ao, o
perdao e a renovac;ao e esses tres
momentos apontam para uma
causa triplice no Ser divino. Essa
causa eo Pai, o Filho e o Espirito
Santo.
0 envio de Cristo ja nos
mostra a atividade triplice de
Deus, pois enquanto o Pai da o
Filho ao mundo (Jo 3.16), o Filho
e gerado em Maria pelo Espirito
79
fl 2.28,29; Is 32.15; 44.3: Ez 36.26,27; Zc 12.10.
so Ez 11.19,20; 36.26; Jr 31.31-34; 32.38-41.
51
Jo 17.3; JCo 8.4; 1Tm 2.5.
165
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
Santo (Mt 1.20; Lc 1.35). Em Seu
batismo Jesus e ungido pelo Es-
pirito Santo e e publicamente de-
clarado o Filho amado do Pai, o
Filho no qual o Pai tern prazer (Mt
3.16,17). As obras que Jesus reali-
zou foram mostradas pelo Pai (Jo
5.19; 8.38) e realizadas no poder
do Espirito Santo (Mt 12.28). Em
Sua morte Ele se ofereceu a Deus
pelo Espirito Eterno (Hb 9.14). A
ressurrei<;:ao foi urn ato do Pai (At
2.24) e ao mesmo tempo urn ato
do proprio Jesus, pelo qual Ele
prova ser o Filho de Deus segun-
do o Espirito de Santidade (Rm
1.4). E depois de Sua ressurrei<;:ao,
Ele, no quadragesimo dia, ascen-
deu aos mais altos ceus e sujei-
tou a Si mesmo os anjos, as auto-
ridades e os poderes.
0 ensino de Jesus aos apos-
tolos concorda plenamente com a
li<;:ao desses eventos.
Jesus veio aterra para pro-
damar o Pai e fazer Seu nome co-
nhecido entre os homens (Jo 1.18;
17.6). 0 nome de Pai aplicado a
Deus como criador de todas as
coisas tambem foi usado pelos
pagaos. Esse sentido do termo
recebe apoio das Escrituras em
varios lugares82
. Alem disso, o
Velho Testamento varias vezes
usa a designa<;:ao de Pai para re-
ferir-se ao relacionamento teocra-
tico de Deus com Israel, porque
82
Lc 3.38; At 17.28; Ef 3.15; Hb 12.9.
83
Mt 11.27; Me 12.6; Jo 5.20.
164
em Sua maravilhosa habilidade
Ele criou e mantem esse relacio-
namento (Dt 32.6; Is 63.16). No
Novo Testamento uma nova luz
e gloriosamente lan<;:ada sobre
esse nome de Pai, aplicado a
Deus. Jesus sempre indica uma
diferen<;:a essencial entre o relaci-
onamento que Ele mesmo man-
tern com Deus e o relacionamen-
to que outras pessoas, tanto os
judeus quanto os discipulos, man-
tern com Ele. Quando, por exem-
plo, Ele ensina aos discipulos a
ora<;:ao dominical, Ele diz expres-
samente: "Vos orareis assim: Pai
nosso". E quando, depois da res-
surrei<;:ao, Ele anuncia a Maria a
Sua ascensao, Ele diz: "Subo para
meu Pai e vosso Pai, para meu
Deus e vosso Deus" (Jo 20.17). Em
outras palavras, Deus e Seu pro-
prio Pai (Jo 5.18). 0 Pai conhece o
Filho e o ama de tal forma que,
reciprocamente, na mesma exten-
sao, so o Filho pode conhecer e
amar o Pai83
. Entre os apostolos,
Deus e constantemente chamado
de Pai de nosso Senhor Jesus Cris-
to (Ef 1.3). Esse relacionamento
entre o Pai eo Filho nao se desen-
volveu no tempo, mas existe des-
de a eternidade (Jo 1.1,14; 17.24).
Portanto, Deus e Pai, em pri-
meiro lugar, porque em urn sen-
tido especial Ele e o Pai do Filho.
Essa e Sua caracteristica original,
A DIVINA TRINDADE
especial e pessoal.
Em urn sentido derivado
Deus e chamado de Pai de todas
as Suas criaturas porque Ele e seu
criador e Sustentador (1Co 8.6).
Ele e chamado Pai de Israel por-
que Israel e Seu povo em virtude
de elei<;ao e chamado (Dt 32.6; Is
64:.8), e o Pai da Igreja e de todos
os crentes porque o amor do Pai
pelo filho os alcan<;a (Jo 16.27;
17.24) e porque eles foram aceitos
como Seus filhos e nasceram dEle
atraves do Espfrito (Jo 1.12; Rm
8.15).
Portanto, o Pai e sempre o
Pai, a primeira pessoa, de quem,
no Ser de Deus e no conselho de
Deus, procede a iniciativa nas
obras de cria<;ao e providencia,
reden<;ao e santifica<;ao. Ele con-
cedeu ao Filho ter a vida em Si
mesmo (Jo 5.26) e enviou o Espf-
rito (Jo 15.26). Sua e a elei<;ao e o
beneplacito (Mt 11.26; Ef 1.4,9,11).
Dele procedem a cria<;ao, a provi-
dencia, a reden<;ao e a renova<;ao
(Sl 33.6; Jo 3.16). A Ele, de forma
especial, pertence o poder, o rei-
no e a gloria (Mt 6.13). Ele parti-
cularmente recebe o nome de
Deus em distin<;ao ao Senhor Jesus
Cristo e ao Espfrito Santo. Alem
disso, Cristo, como Mediador, nao
o chama apenas de Pai, mas tam-
bern de Deus (Mt 27.46; Jo 20.17)
" Lc 9.20; 1Co 3.23; Ap 12.10.
:-.j J6 38.7.
"' Dt 1.31; 8.5; 14.1; 32.6,18; Os 11.1.
25111 7.11-14; 512.7.
165
e o proprio Cristo e chamado de
Cristo de Deus84. Em uma palavra,
a primeira pessoa do Ser divino e
o Pai porque "dEle sao todas as
coisas" (1 Co 8.6).
Se Deus eo Pai, logicamente
ha tambem urn Filho que recebeu
vida dEle e que compartilha de
Seu amor. No Velho Testamento
o nome de filho de Deus foi usa-
do por anjos85, pelo povo de Isra-
el86 e particularmente tambem
para o rei teocratico desse povd7
•
Mas, no Novo Testamento esse
nome ganha urn significado mais
profundo, pois Cristo eo Filho de
Deus em urn sentido especial; Ele
e exaltado sobre todos os anjos e
profetas (Mt 13.32; 21.17; 22.2), e
Ele mesmo diz que ninguem co-
nhece o Pai senao o Filho, e nin-
guem conhece o Filho senao o Pai
(Mt 11.27). De forma distinta de
homens e anjos, Deus e o Pai do
Filho (Rm 8.32), o Filho amado em
quem o Paise compraz (Mt 3.17),
o Filho unigenito (Jo 1.18), a quem
o Pai concedeu ter vida em Simes-
mo (Jo 5.26).
Esse relacionamento (mico e
especial entre o Pai e o Filho nao
se desenvolveu no tempo atraves
de uma concep<;ao sobrenatural
do Espfrito Santo ou da un<;ao no
batismo, ou da ressurrei<;ao, ou da
ascensao - apesar de muitos pen-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sarem assim - mas e urn relacio-
namento que existe desde a eter-
nidade. 0 Filho que em Cristo
assumiu a natureza humana esta-
va no principia com Deus como o
Verbo (Jo 1.1) e subsistia em for-
ma de Deus (Fp 2.6), era coberto
de gloria (Jo 17.5,24t era o res-
plendor da gloria e a expressao
exata de Deus (Hb 1.3) e precisa-
mente por isso Ele podia, na ple-
nitude dos tempos, ser enviado,
dado, trazido ao mundo88
. Portan-
to, a cria<;ao (Jo 1.3; Cl1.16), a pro-
videncia (Hb 1.3) e a realiza<;ao de
toda a obra de salva<;ao (1Co 1.30)
sao atribuidas a Ele. Ele nao e cri-
ado, como o sao as Suas criaturas;
Ele eo unigenito delas, ou seja,
Ele e o Filho que tern a primazia
e os direitos de filho mais velho
sobre todas as criaturas (Cl 1.15).
Dessa forma Ele e o primogenito
dos mortos eo primogenito entre
todos os irmaos e, portanto, entre
todos e em todos Ele eo primeiro
(Rm 8.29; Cl 1.18). E, muito em-
bora, na plenitude dos tempos Ele
tenha assumido a forma de servo,
Ele subsistia na forma de Deus.
Ele era em todas as coisas como
Deus, o Pai (Fp 2.6): na vida (Jo
5.26), no conhecimento (Mt 11.27),
na for<;a (Jo 1.3; 5.21,26t em honra
(Jo 5.23). Ele e Deus e deve ser lou-
vado por toda a eternidade89
. As-
sim como todas as coisas perten-
ss Jo 3.16; G/ 4.4; Hb 1.6.
89
Jo 1.1; 20.8; Rm 9.5; Hb 1.8,9.
166
cern ao Pai, elas pertencem tam-
bern ao Filho (1Co 8.6).
* * * * *
Tanto o Pai quanta Filho,
juntos e unidos no Espirito Santo
e por meio do Espirito, moram em
todas as criaturas. Deus, em Sua
natureza, eEspirito (Jo 4.24) e Ele
esanto (Is 9.3); mas o Espirito San-
to e claramente distinto de Deus
como Espirito. Para fazer uma
compara<;ao podemos dizer gue
o homem e urn espirito em sua
natureza invisivet e tambem pas-
sui urn espirito por meio do qual
Ele e consciente de si mesmo. As-
sim tambem Deus eurn Espirito
por natureza e tambem possui urn
Espirito, Espirito esse que sonda
as profundezas do Ser de Deus
(1Co 2.11). Como tal esse Espirito
echamado de Espirito de Deus
ou Espirito Santo (Sl 51.12; Is
63.10)1). Dessa forma e feita uma
distin<;ao entre esse Espirito e o
espirito de urn anjo ou o espirito
de urn ser humano ou de gual-
quer outra criatura. Mas apesar de
ser distinto de Deus, do Pai e do
Filho, Ele mantem o mais intima
relacionamento com ambos. Ele e
chamado de sopro do Todo-Po-
deroso (Jo 33.4), o sopro da boca
do Senhor (Sl33.6), e enviado pelo
Pai e pelo Filho (Jo 14.26; 15.26) e
A 0IVINA TIUNDADE
procede de ambos, nao somente
do Pai (Jo 15.26), mas tambem do
Filho, pois Ele e chamado tanto de
Espirito de Cristo, quanto de Es-
pirito do Pai (Rm 8.9).
Embora o Espirito Santo seja
dado, enviado ou derramado pelo
Pai e pelo Filho, Ele geralmente
aparece como urn poder ou urn
dom que qualifica os homens
para cumprir Seu chamado ou
Seu oficio. Dessa forma, por exem-
plo, o Espirito Santo e menciona-
do em Atos em conexao como
dom da profecia (At 8.15; 10.44;
11.15; 15.8; 19.2). Mas nao e corre-
to inferir desse fato, como muitos
fazem, que o Espirito Santo nada
mais e que urn outro dom ou urn
poder de Deus. Em outros textos
Ele aparece como uma pessoa,
como alguem que tern nomes pes-
soais, caracteristicas pessoais e
realiza obras pessoais. Em Joao
15.26 e 16.13)4 (apesar da pala-
Yra grega usada para designar o
Espirito ter o genero neutro), Cris-
to usa o masculino: Ele clara teste-
munho de mime me glorificara.
Da mesma forma Cristo o chama
de Consolador, usando o mesmo
nome que e usado para Cristo em
1Joao 2.1, urn nome traduzido
como Advogado em algumas ver-
soes.
Alem desses nomes pesso-
ais, todos os tipos de caracteristi-
cas pessoais sao atribuidas ao Es-
pirito Santo: por exemplo, capa-
~idade de escolha (At 13.2), opi-
niao propria (At 15.28), auto de-
termina~ao ou vontade (1Co
12.11). Alem disso, todos os tipos
de atividades pessoais sao atribu-
fdos a Ele, tais como: conhecimen-
to (1Co 2.11), audi~ao (Jo 16.13),
fala (Ap 2.17), capacidade de en-
sinar (Jo 14.26t de interceder (Rm
8.27), e assim por diante. E tudo
isso mostra de forma clara e su-
blime que Ele esta no mesmo ni-
vel do Pai e do Filho (Mt 28.19;
2Co 13.14).
0 ultimo ponto e 0 mais
importante e indica o fato de que
o Espirito Santo nao e meramente
uma pessoa, mas e Deus. As Es-
crituras nos dao todos os dados
de que necessitamos para fazer
essa confissao. Nos temos apenas
que observar, com respeito adis-
tin~ao entre Deus e Seu Espirito
mencionada acima, que os dois
trocam de lugar frequentemente
na Escritura, de forma que nao ha
diferen~a see Deus ou Seu Espi-
rito quem fala ou faz alguma coi-
sa. Em Atos 5.3A a mentira ao Es-
pirito Santo e chamada de uma
mentira a Deus. Em 1Corintios
3.16 os crentes sao chamados tem-
plo de Deus porque o Espirito
mora neles. A esses fatos devemos
acrescentar os varios atributos di-
vinos do Espfrito, tais como: eter-
nidade (Hb 9.14), onipresen~a (Sl
139. 7), onisciencia (1Co 2.11), oni-
potencia (1Co 12. 4-6) e varias
obras divinas, como a criac;:ao (Sl
33.6), a providencia (Sl104. 30), a
167
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
reden<;:ao (Jo 3.3), sao atribuidas ao
Espirito Santo, tanto quanto ao Pai
e ao Filho. Consequentemente,
Ele desfruta da mesma gloria que
o Pai eo Filho. Ele tern Seu lugar
junto ao Pai e ao Filho como cau-
sa da salva<;:ao (2Co 13. 14; Ap 1.4).
E foi tambem em Seu nome que
n6s fomos batizados (Mt 28.19) e
aben<;:oados (2Co 13.14). Alem dis-
so, a blasfemia contra o Espirito
Santo eo pecado imperdoavel (Mt
12.31,32). Em outras palavras, as-
sim como todas as coisas sao do
Pai e atraves do Filho, todas elas
existem e repousam no Espirito
Santo.
Todos esses elementos da
doutrina da Trindade espalhados
pelas Escrituras foram reunidos
por Jesus em Sua ordem batismal
e pelos ap6stolos em suas ben-
<;:aos. Depois de Sua ressurrei<;:ao
e antes de Sua ascensao Cristo en-
viou Seus ap6stolos para irem fa-
zer discipulos de todas as na<;:6es,
batizando-os em urn unico nome,
no qual tres pessoas diferentes
sao revelados. 0 Pai, o Filho e o
Espirito Santo sao em Sua
unicidade e em Suas distin<;:6es a
plenitude da revela<;:ao de Deus.
E de acordo com o ensino dos
ap6stolos, todo o bern e a salva-
<;:ao do homem estao contidos no
amor do Pai, na Gra<;:a do Filho e
na comunhao do Espirito Santo90
•
0 beneplacito, o conhecimento, o
90
lCo 13.14; lPe 1.2; lJo 5.4-6; Ap 1.4-6.
168
poder, o amor, o reino e a for<;:a
sao do Pai. A Media<;:ao, a recon-
cilia<;:ao, a Gra<;:a, e a reden<;:ao sao
do Filho. A regenera<;:ao, a reno-
va<;:ao, a santifica<;:ao e a reden<;:ao
sao do Espirito. 0 relacionamen-
to que Cristo mantem com o Pai
corresponde exatamente ao rela-
cionamento que o Espirito man-
tern com Cristo. Assim como o
Filho nada fala e nada faz alem
daquilo que recebe do Pai (Jo 5.26;
16.15), assim tambem o Espirito
tudo recebe de Cristo (Jo 16.
13,14). Assim como o Filho dates-
temunho do Pai e glorifica o Pai
(Jo 1.18), assim tambem o Espiri-
to da testemunho do Filho e glo-
rifica o Filho (Jo 15.26; 16.14). As-
sim como ninguem vern ao Pai se
nao for trazido pelo Filho (Jo 14.6),
ninguem pode dizer que Jesus e
o Senhor se nao for atraves doEs-
pirito (1Co 12.3). Atraves do Es-
pirito n6s temos comunhao com
o Pai e com o Filho. Eno Espirito
Santo que Deus, atraves de Cris-
to, mora em nossos cora<;:6es. E se
tudo isso e assim, entao o Espiri-
to Santo e, juntamente com o Pai
e o Filho, o unico e verdadeiro
Deus, e deve ser eternamente ado-
rado como tal.
* * * * *
A essa instru<;:ao do Espirito
Santo a Igreja Crista tern dito sim
A DIVINA TRINDADE
e amem. A Igreja nao chegou a
essa rica e gloriosa confissao sem
antes passar por uma dura e lon-
ga luta de tendencias. Seculos da
mais profunda experiencia de
vida espiritual dos filhos de Deus
e dos mais agudos intelectos dos
pais e dos mestres da Igreja, fo-
ram necessarios para que esse
ponto da revelac;ao da Escritura
fosse entendido e reproduzido
com fidelidade na confissao da
Igreja. Sem duvida, a Igreja nao
teria obtido sucesso nesse esfor-
c;o de firmar seus fundamentos se
nao tivesse sido conduzida pelo
Espirito a toda a verdade e se
Tertuliano e Irineu, Atanasio e os
tres santos da Capad6cia, Agosti-
nho e Hilario e muitos outros
alem desses, nao tivessem sido
homens especialmente dotados e
capacitados de sabedoria para nos
mostrar o caminho correto.
Nada menos que a essencia
peculiar do Cristianismo estavam
em jogo nessa luta de opinioes.
Durante dois seculos a Igreja cor-
reu o risco de ser arrastada de suas
fundac;oes sobre as quais estava
edificada e assim ser engolida
pelo mundo.
Por urn lado, havia a amea-
ca do Arianismo, assim chamado
por causa do presbitero Alexan-
cirino chamado Ario, que morreu
no ano 336. Ario afirmava que so-
mente o Pai eo Deus eterno ever-
dadeiro, visto que somente Ele, no
sentido pleno da palavra, nao foi
169
gerado. A respeito do Filho, o
Logos, que em Cristo se tornou
carne, ele pensava que, por esse
Cristo ter sido gerado, Ele nao
podia ser Deus, tinha que ser uma
criatura- uma criatura, e verda-
de, que tinha sido criada antes das
outras criaturas, mas que, como
todas as outras, foi criada pela
vontade de Deus. E, da mesma
forma, Ario afirmava que o Espi-
rito Santo era uma criatura, ou
mais uma qualidade ou atributo
de Deus.
Por outro lado o partido do
Sabelianismo, assim chamado por
causa de urn certo Sabelio que vi-
veu em Roma no comec;o do ter-
ceiro seculo, estava em plena ati-
vidade. Sabelio afirmava que o
Pai, o Filho e o Espirito Santo
eram tres nomes usados para de-
signar o mesmo Deus - urn Deus
que tinha se feito conhecido, a
medida em que Sua revelac;ao
progredia, por diversas formas e
manifestac;oes. Na forma do Pai,
Deus foi o Criador e o Legislador;
na forma do Filho Ele foi o Reden-
tor; e Ele agora age na forma do
Espirito Santo na recriac;ao da
Igreja.
Enquanto o Arianismo ten-
ta manter a unicidade de Deus
colocando o Filho eo Espirito San-
to do lado de fora do Ser divino e
reduzindo-os ao nivel de criatu-
ras, o Sabelianismo tenta chegar
ao mesmo resultado roubando a
independencia das tres pessoas
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
da Trindade. Ele faz isso transfor-
mando as pessoas da Trindade em
tres formas sucessivas de revela-
<;:ao do mesmo Ser divino. No
Arianismo o modo de pensar
racionalista e deista dos judeus
encontra sua expressao caracteris-
tica, e no Sabelianismo esta a ideia
paga de pantefsmo e misticismo.
No momento em que a Igreja co-
me<;:ou a criar urn claro registro da
verdade que foi depois apresen-
tado na confissao da Trindade de
Deus, essas duas outras tenden-
cias colocaram-se a sua esquerda
e a sua direita e acompanharam a
confissao da Igreja ate os nossos
dias. A Igreja, e cada urn de seus
membros, deve estar sempre em
guarda para nao fazer injusti<;:a,
por urn lado, a unicidade de
Deus, e, por outro lado, as tres
Pessoas que compoem esse Ser
(mico. A unicidade nao pode ser
sacrificada em beneffcio da diver-
sidade, nem a diversidade em
beneficio da unicidade. Manter as
duas em sua inseparavel conexao
e em seu puro relacionamento,
nao apenas teoricamente, mas
tambem na vida pratica, e 0 cha-
mado de todos os crentes.
Para satisfazer a essa exi-
gencia a Igreja Cristae a teologia
crista primitiva fizeram uso de
varias palavras e expressoes que
nao podem ser encontradas lite-
ralmente nas Sagradas Escrituras.
A Igreja come<;:ou a falar da essen-
cia de Deus e de tres pessoas nessa
170
essencia do Ser divino. Ela falava
de caracteristicas triunas e
trinitfzrias, ou essenciais e pessoais, da
eterna gerar;iio do Filho e da proce-
dencia do Espfrito Santo do Pai e
do Filho, e outros termos seme-
lhantes.
Nao ha razao pela qual a
Igreja Cristae a teologia crista nao
devam usar esses termos e expres-
soes, pois as Sagradas Escrituras
nao foram dadas por Deus a Igre-
ja para serem desconsiderada-
mente repetidas, mas para serem
entendidas em toda a sua pleni-
tude e riqueza e para serem rea-
firmadas em sua propria lingua-
gem para que dessa forma possam
proclamar os poderosos feitos de
Deus. Alem disso, tais termos e
expressoes sao necessarios para
manter a verdade da Escritura
contra seus oponentes e coloca-la
em seguran<;:a contra equivocos e
erros humanos. E a hist6ria, tern
mostrado atraves dos seculos, que
a despreocupa<;:ao com esses no-
mes e a rejei<;:ao deles conduz a
varios afastamentos da confissao.
Ao mesmo tempo n6s deve-
mos, no uso desses termos, nos
lembrar que eles sao de origem
humana e, portanto, limitados,
sujeitos a erro e faliveis. Os pais
da Igreja sempre reconheceram
isso. Por exemplo, eles afirmavam
que o termo pessoas, que foi usa-
do para designar as tres formas de
existencia no Ser divino nao fazem
justi<;:a a verdade, mas servem de
A DIVINA TRINDADE
ajuda para manter a verdade e eli-
minar o erro. A palavra foi esco-
lhida1 nao porque fosse a mais
precisa/ mas porque nenhuma
outra melhor foi encontrada. Nes-
se caso a palavra esta atras da
ideia/ e a ideia esta atras da reali-
dade. Apesar de nao poder pre-
servar a realidade a nao ser dessa
forma1 n6s nunca devemos nos
esquecer de que e a realidade que
conta/ e nao a palavra. Certamen-
te/ na gloria/ outras e melhores
palavras e express6es serao colo-
cadas em nossos labios.
* * * * *
A realidade a que se refere
a confissao da Santa Trindade e da
maior importancia/ tanto para a
mente/ quanto para o cora<;ao.
:E atraves dessa confissao
que a Igreja mantem1em primei-
ro lugar1tanto a unicidade quan-
to a diversidade do Ser divino. 0
Ser divino e urn. Ha apenas urn
Ser que e Deus e pode ser chama-
do de Deus. Na cria<;ao e na re-
denc;:ao/ na natureza e na Grac;:a/ na
Igreja e no mundo1no estado e na
sociedade1sempre e em todo lu-
gar n6s estamos relacionados a
apenas urn Deus vivo e verdadei-
c·o. A unidade do mundo/ da ra<;a
:1umana/ da verdade/ da virtude/
da justic;:a/ e da beleza dependem
da unidade de Deus. No momen-
to em que a unidade de Deus e
negada/ a porta e aberta ao
171
politefsmo.
Mas essa unidade ou
unicidade de Deus e/ de acordo
com a Escritura e com a confissao
da Igreja/ nao uma unidade vazia/
nem solitaria1mas cheia de vida
e for<;a. Ela envolve diferen<;a1ou
distinc;:ao/ ou diversidade. Eessa
diversidade que se expressa nas
tres pessoas do Ser de Deus. Es-
sas tres pessoas nao sao meramen-
te tres modos de revela<;ao. Elas
sao modos de ser. Pail Filho e Es-
pfrito Santo compartilham da
mesma e unica natureza divina e
de suas caracterfsticas. Eles sao
urn Ser. Todavia cada urn tern Seu
nome e Sua caracterfstica particu-
lar/ pela qual e diferenciado dos
outros. Somente o Pai tern a pa-
ternidade/ somente o Filho tern a
gerac;:ao e somente o Espfrito pos-
sui a qualidade de proceder do
Pai e do Filho.
A essa ordem de existencia
no Ser divino corresponde a or-
dem das tres pessoas nas obras
divinas. 0 Pai e de quem/ o Filho
e atraves de quem eo Espfrito San-
to e em quem todas as coisas exis-
tem. Todas as coisas na cria<;ao1na
reden<;ao e na recria<;ao procedem
do Pai1atraves do Filho e do Es-
pfrito. E no Espfrito e atraves do
Filho elas voltam para o Pai. N6s
devemos ao Pai o Seu amor/ ma-
nifesto na elei<;ao; devemos ao
Filho a Sua Gra<;a redentora; de-
vemos ao Espfrito Sua a<;ao rege-
neradora e renovadora.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Em segundo lugar, a Igreja,
ao manter essa confissao, assume
uma forte posi<;ao contra as here-
sias do deismo (cren<;a em Deus
sem uma revela<;ao) panteismo
(politeismo), judaismo e paganis-
mo. Sempre ha essa dupla tenden-
cia no cora<;ao humano: a tenden-
cia de pensar em Deus como es-
tando distante e alheio ao mundo
em si mesmo, como independen-
te de Deus, e a tendencia de mes-
clar Deus com o mundo, identifi-
cando-o como mundo e assim
deificar tanto a si mesmo, quanto
o mundo ao seu redor. Quando a
primeira tendencia prevalece nos
chegamos ao ponto de pensar que
podemos viver sem Deus na na-
tureza, em nosso chamado, em
nossos negocios, em nossa den-
cia, em nossa arte e tambem na
obra de nossa reden<;ao. Quando
a segunda tendencia prevalece
nos mudamos a gloria de Deus a
imagem da criatura, deificamos o
mundo, o sot a lua, as estrelas, a
ciencia ou o estado, e, na criatura,
geralmente concebida a nossa
imagem, nos cultuamos nossa
propria grandeza. No primeiro
caso Deus esta apenas distante; no
segundo caso Ele esta apenas per-
to. No primeiro caso Ele esta fora
do mundo, sobre o mundo e livre
do mundo; no segundo caso ele
esta dentro do mundo e confun-
de-se com ele.
Mas a Igreja confessa os dois
lados da moeda: Deus esta acima
172
do mundo, e essencialmente di-
ferente do mundo e ao mesmo
tempo esta com todo o Seu Ser
presente no mundo e nunca este-
ve separado dele. Ele tanto esta
distante, quanto esta perto. Ele
tanto e exaltado acima de todas as
criaturas, quanto profundamente
condescendente com elas. Ele e
nosso Criador, que nos trouxe a
existencia por Sua vontade como
criaturas distintas dEle em espe-
cie. Ele e nosso Redentor que nos
salva, nao por causa de nossas
obras, mas pelas riquezas de Sua
Gra<;a. Ele e nosso Santificador,
que mora em nos como em Seu
templo. Sendo o Deus Triuno, Ele
e urn Deus e esta acima de nos e
dentro de nos.
Finalmente, em terceiro lu-
gar, a confissao da Igreja e tam-
bern da maior importancia para a
vida espiritual. Muito injustifi-
cadamente, algumas pessoas di-
zem que a doutrina da Trindade
e meramente urn dogma abstrato
filosofico e que nao possui qual-
quer valor para a religiao e para a
vida. A Confissao de Fe Reforma-
da tern urn ponto de vista total-
mente diferente desse. No artigo
IX dessa Confissao a Igreja afirma
que Deus e urn em essencia e tres
em pessoas. Isso nos sabemos
pelo testemunho da Escritura e
pelas atividades das tres pessoas,
especialmente aquelas que senti-
mos dentro de nos. De fato, nos
nao baseamos nossa fe na Trinda-
A DIVINA TRINDADE
de em sentimentos e experienci-
as, mas quando n6s cremos nela,
n6s notamos que a doutrina man-
tern intima relacionamento com a
experiencia espiritual dos filhos
de Deus.
Os crentes conhecem as
obras do Pai, o Criador de todas
as coisas, que lhes deu vida, £ole-
go e tudo o mais. Eles aprendem
a conhece-lo como o Legislador
que lhes deu Seus santos manda-
mentos para que eles andassem
em Seus caminhos. Eles apren-
dem a conhece-lo como o Juiz que
e provocado a uma terrfvel ira
pelas injusti<;as dos homens e que
em nenhum sentido inocenta o
culpado. E eles aprendem a
conhece-lo, finalmente, como o Pai
que par causa de Cristo e seu
Deus e Pai, em quem eles confi-
am que suprira todas as suas ne-
cessidades, do corpo e da alma e
que converted_ em bern todo o
mal que os amea<;a neste vale de
lagrimas. Eles sabem que Ele
pode fazer isso par ser o Deus
Todo-Poderoso e que Ele quer
fazer isso par ser o Pai Fiel. Par-
tanto eles confessam: Eu creio em
Deus, o Pai, o Todo-Poderoso,
Criador dos ceus e da terra.
Da mesma forma eles apren-
dem a conhecer em si mesmos as
obras do Filho, que e o unigenito
do Pai, gerado em Maria pelo Es-
pirito Santo. Eles aprendem a
conhece-lo como seu maior Pro-
feta e Mestre, que lhes revela per-
175
feitamente o secreta conselho e
vontade de Deus com rela<;ao a
Sua reden<;ao. Eles aprendem a
conhece-lo como seu unico Sumo
Sacerdote, que os redimiu pelo
unico sacriffcio de Seu corpo e que
constantemente ainda intercede
par eles junto ao Pai. Eles apren-
dem a conhece-lo como seu Rei
eterno, que os governa com Sua
Palavra e com Seu Espfrito e que
os protege e preserva pela reali-
za<;ao de Sua reden<;ao. Portanto
eles confessam: Eu creio em Jesus
Cristo, o Unigenito Filho de Deus,
nosso Senhor.
E eles tambem aprendem a
reconhecer em si mesmos as abras
do Espirito Santo, que os regene-
ra e os conduz a verdade. Eles
aprendem a conhece-lo como o
operador de sua fe, que atraves da
fe faz com que eles compartilhem
em Cristo de todos os Seus bene-
ffcios. Eles aprendem a conhece-
lo como o Consolador, que inter-
cede par eles com gemidos
inexprimfveis e que da testemu-
nho ao espfrito deles de que eles
sao filhos de Deus. Eles aprendem
a conhece-lo como o penhor de
sua heran<;a eterna, que os preser-
va ate o dia de sua reden<;ao. Par-
tanto eles confessam: Eu creio no
Espirito Santo.
Dessa forma a confissao da
Trindade e o resumo da religiao
crista. Sem ela, nem a cria<;ao, nem
a reden<;ao, nem a santifica<;ao
podem ser sustentadas.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Todo afastamento dessa
confissao conduz ao erro em ou-
tros pontos doutrimirios, exata-
mente como uma representa<;ao
errada dos artigos de fe que tern
sua origem em uma concep<;ao
errada da doutrina da Trindade.
N6s s6 podemos proclamar ver-
dadeiramente as poderosas obras
174
de Deus quando as reconhece-
mos e confessamos como uma
grande obra do Pai, do Filho e do
Espfrito.
No amor do Pai, na Gra<;a do
Filho e na comunhao do Espirito
Santo esta contida toda a salva<;ao
do homem.
CAPITULO
11 11
A CRIA<;AO E A PROVIDENCIA
0
significado pratico da
doutrina da Trindade
para a vida do cristao se
evidencia pelo fato de que as Sa-
gracias Escrituras nao querem nos
mostrar urn conceito abstrato da
divindade, mas querem nos colo-
car em contato pessoal com o
Deus vivo e verdadeiro. A Escri-
tura elimina nossas no<;oes e con-
ceitos enos conduz de volta para
Deus. Portanto, a Escritura nao
argumenta sobre Deus, ela o apre-
senta a n6s e revela-o em todas as
obras de Suas maos. A Escritura
parece nos dizer: "Levante seus
olhos e contemple aquele que fez
todas essas coisas". Os atributos
invisfveis de Deus, assim o Seu
eterno poder, como tambem a Sua
propria divindade, claramente se
reconhecem, desde o prindpio do
mundo, sendo percebidos por
meio das coisas que foram cria-
das. N6s nao aprendemos a co-
175
nhecer e a glorificar Deus inde-
pendente de Suas obras, mas atra-
ves de Suas obras, na natureza e
na Gra<;a.
Epor isso que as Sagradas
Escrituras nos apontam com tan-
ta frequencia os poderosos feitos
de Deus. A Escritura e ao mesmo
tempo uma descri<;ao deles e urn
cantico de louvor por eles. Exata-
mente porque ela quer fazer-nos
conhecer o Deus vivo e verdadei-
ro, ela fala em todas as suas pagi-
nas sobre os Seus poderosos fei-
tos. Sendo o Deus vivo, Ele e tam-
bern o Deus operativo. Ele nao
pode fazer outra coisa alem de
trabalhar. Ele trabalha sempre (Jo
5.17). Toda a eterna vida de Deus
e poder, energia, atividade. Tal e
o Criador, tal e Sua cria<;ao. Sen-
do Deus o Realizador, o Criador
de todas as coisas, Suas obras sao
grandes e maravilhosas (Sl 92.5;
139.14), sao verdade e fidelidade
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
juntas (Sl 33.4; 111.7), e justic;a e
misericordia (Sl 145.17; Dn 9.14).
Incluidas nessas obras, certamen-
te, estao a criac;ao e a manutenc;ao
de todas as coisas, ceu e terra, a
especie humana e miriades de
pessoas, as maravilhas feitas em
Israel e para Israel, e as obras que
Ele realiza atraves de Seus ser-
vos91. E todas essas obras o lou-
vam (Sl 145.10). Ele e a Rocha
cujas obras sao perfeitas (Dt 32.4).
Alem disso, todas essas
obras de Deus sao trazidas aexis-
tencia nao com indiferenc;a, nem
por obrigac;ao, mas deliberada e
livremente. Esse fato torna evi-
dente que Ele faz, sustenta e rege
todas as coisas pela Sua palavra.
Epela Sua palavra, pelo seu co-
mando, que Ele chama todas as
coisas aexistencia (Sl33.9). Sem a
Palavra que no come<;o estava
com Deus e que era Deus, nada
do que foi feito se fez (Jo 1.3). Em
J6 28.20 ss. A verdade e apresen-
tada como se Deus, antes de criar
o mundo, tivesse consultado a
sabedoria, consultando e pes-
quisando todas as coisas com ela
(Sl 104.24; Jr 10.12). As Sagradas
Escrituras tambem expressam
essa questao de uma forma dife-
97
Gn 2.2); Ex 34.10; J6 34.19; Is 19.25; Jo 9.4.
92
5133.11; Is 46.10.
93
Gn 41.32; Sl 2.7; Is 10.23; 14.27.
9
.f Rm 8.28; 9.11; Efl.ll; 3.11.
rente. Elas dizem que Deus traz
todas as coisas a exisb?ncia de
acordo com Sua vontade ou con-
selho. Em outras palavras, todas as
obras de Deus, tanto na criac;ao
quanto na redenc;ao, sao produto
nao apenas de Seu pensamento,
mas tambem de Sua vontade. Hu-
manamente falando n6s podemos
dizer que toda obra de Deus e
precedida por uma deliberac;ao
da mente e uma decisao da von-
tade. Em alguns lugares da Escri-
tura a palavra usada e conselho92
,
em outros lugares e estabeleci-
mento, determinac;ao ou decre-
to93, em outros lugares eprop6si-
to94, em outros e ordenac;ao95
e em
outros e 0 favor ou beneplacito de
Deus96
• Paulo fala do prazer e do
conselho da vontade de Deus (Ef
1.5)1).
Com rela<;ao ao conselho de
Deus, a Escritura ensina que ele e
excelente e maravilhoso (Is 28.29;
Jr 32.19), independente (Mt 11.26),
imutavel (Hb 6.17), indestrutivel
(Is 46.10) e que Deus esoberano
sobre todas as coisas, inclusive
sobre a transgressao dos injustos
ao entregar Jesus acruz e amorte
(At 2.23; 4.28). 0 fato de coisas e
eventos, inclusive os pensamen-
9
; At 13.48; 17.31; Rm 8.29)0; Ef 1.5, 11. A trndu~ao de Almeida traz a palavra predestina~ao c
suns congeneres (N. do T.).
96
Is 49.8; 53.10; 60.10; 61.2; Mt 11.26; Ef1.5,9.
176
A CRIA<;:Ao E A PROVIDENCIA
tos e atos pecaminosos dos ho-
mens, terem sido eternamente co-
nhecidos e fixados nesse conselho
de Deus, nao subtrai deles o seu
proprio carater, mas estabelece e
garante todos eles, cada urn com
seu proprio tipo e natureza, em
seu proprio contexto e circunsHin-
cias. Incluidos nesse conselho de
Deus estao o pecado e a puni<;ao,
mas tambem a liberdade e a res-
ponsabilidade, o sensa de culpa
e a consciencia, a justi<;a e a lei.
Nesse conselho de Deus tudo o
que acontece esta exatamente no
mesmo contexto que esta quando
acontece diante dos nossos olhos.
As condi<;6es sao definidas nele,
assim como as consequencias, os
meios e os fins, as formas e os re-
sultados, as ora<;6es e as respos-
tas as ora<;6es, a fee a justifica<;ao,
a santifica<;ao, e a glorifica<;ao. De
acordo com os termos do conse-
lho, Deus deu Seu Filho unigenito
para que todo aquele que nEle ere
tenha vida eterna.
Entendo que dessa forma,
no sentido da Escritura, de acor-
do com o Espirito, que a confis-
sao do sabio conselho de Deus e
uma fonte de rico conforto. Dessa
forma nos aprendemos que nao e
uma casualidade cega, nem urn
destino obscuro, nem uma vonta-
de irracional ou maligna, nem
qualquer for<;a natural que gover-
na a ra<;a humana e o mundo, e
que o governo de todas as coisas
esta nas maos do Deus Todo-Po-
deroso e do Pai misericordioso.
Certamente a fe e necessaria para
que seentenda isso. Ea fe que nos
mantem constantes na luta da
vida, e por causa dela que nos
avan<;amos para o futuro com es-
peran<;a e confian<;a. 0 conselho
do Senhor permanece para sem-
pre.
0 come<;o da execw;ao des-
se conselho do Senhor foi a cria-
<;ao do mundo. Assim como so-
mente as Sagradas Escrituras po-
dem nos dar a conhecer o conse-
lho de Deus, da mesma forma so
elas podem nos mostrar a origem
de todas as coisas, falando-nos da
onipotencia criativa de Deus. A
questao da origem do homem,
dos animais, das plantas, e muito
antiga, mas e sempre atual. A ci-
encia nao pode fornecer resposta
para ela. A propria ciencia e uma
cria<;ao e urn produto do tempo.
Ela assume sua posi<;ao na base
das coisas que foram feitas e as-
sume a existencia das coisas que
investiga; portanto, pela sua pro-
pria natureza, a ciencia nao pode
voltar no tempo, antes que tudo
viesse a existir. A ciencia nao
pode penetrar no momenta em
que tudo se tornou real.
177
Por isso a experiencia, a in-
vestiga<;ao empirica, nada podem
nos dizer sabre a origem das coi-
sas. A reflexao da filosofia tam-
bern tern, atraves dos seculos, pro-
curado uma explica<;ao para o
mundo. Cansados de pensar os fi-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
16sofos geralmente procuram des-
canso dizendo que o mundo nao
teve origem, que ele existiu eter-
namente e que vai continuar exis-
tindo. Essa e uma conclusao que
diferentes fil6sofos desenvolve-
ram em diferentes dire<;6es. Pou-
cos deles fizeram a suposi<;ao cla-
ra de que esse mundo como n6s
0 conhecemos e eterno, ou que
continuaria existindo eternamen-
te. Poucos disseram isso, mas essa
afirma<;ao encontrou tantas difi-
culdades que hoje em dia eles sao
geralmente repudiados. Ao mes-
mo tempo a ideia da evolu<;ao tern
ganho terreno. De acordo com
essa ideia, nada ee tudo se torna.
0 que o universo inteiro apresen-
ta, portanto, e 0 espetkulo de algo
que nunca come<;ou e que nunca
cessara- urn processo continuo.
A evolu<;ao e, sem duvida,
algo maravilhoso, mas sempre se
deve assumir que ha algo envol-
vido no processo que carrega o
germen do desenvolvimento. Na-
turalmente a evolw;ao nao e e nao
pode ser uma for<;a criativa, uma
for<;a que traz todas as coisas a
existencia; ela e uma expressao do
processo atraves do qual algo se
desenvolve quando ja existe. A
teoria da evolu<;ao, consequente-
mente, carece de potencial de ex-
plica<;ao para a origem das coisas.
Ela implicitamente procede da
ideia de que essas coisas, em seu
estado nao desenvolvido, existi-
am eternamente. A teoria da evo-
178
lu<;ao come<;a com uma pressupo-
si<;ao que e totalmente inde-
monstravet e por isso ela tambern
assume uma posi<;ao de fe. Nisso
ela e semelhante ateoria da cria-
<_;:ao de todas as coisas pela mao
de Deus.
Mas fazer essa pressuposi-
<;ao implicita nao garante a teoria
da evolu<_;:ao. Ela pode alegar que
todas as coisas sempre existiram
em urn estado nao desenvolvido.
Sendo assim, ela deve dar algum
tipo de registro da condi<_;:ao ori-
ginal na qual essas coisas existi-
ram e na qual o nosso mundo se
formou. Quanto a isso, duas res-
pastas podem ser dadas, depen-
dendo de qual das duas corren-
tes e a preferida. No mundo n6s
geralmente temos noticia de dois
tipos de fen6menos ou manifes-
ta<;6es. N6s geralmente os chama-
mos de espirito e materia, alma e
corpo, coisas invisiveis e coisas
visiveis, fen6menos psiquicos e
fisicos. Mas esse dualismo nao e
satisfat6rio. Hoje em dia as pes-
soas querem reduzir tudo a urn
prindpio. Epor isso que os te6ri-
cos da evolu<;ao podem escolher
urna das duas dire<_;:6es aprocura
da natureza original das coisas.
Em primeiro lugar eles po-
dem dizer que a materia e prima-
ria, eterna, e sempre teve energia
potencial. Essa e a dire<_;:ao do
materialismo. Ela sustenta que a
materia e o constituinte eterno e
originalmente imutavel do mun-
A CmA<;:Ao EA PRovrof:NcrA
do, e a partir daf tentam explicar
a energia em termos da materia, a
alma em termos do corpo, o psi-
quico em termos do fisico. Mas
existe tambem a outra posi<;ao, a
posi<;ao que diz que a energia e
primaria, que ela e 0 pano de fun-
do de tudo o que existe, que a
materia e uma expressao ou ma-
nifesta<;ao dessa energia e que o
corpo nao cria a alma, mas a alma
cria o corpo. Essa e a dire<;ao do
panteismo. Ela sustenta que a
energia eo principia basico e eter-
no de todas as coisas, e tenta tra-
<;ar a deriva<;ao do mundo a par-
tir de uma energia elementar. Essa
energia original penetrou atraves
do mundo e criou todos os tipos
de seres, seja espirito, mente,
alma, ou seja lao que for. Ao usar
esses nomes o panteismo tern algo
mais em mente do que usualmen-
te e denotado por esses termos.
Ele nao esta pensando em urn
Deus que tern razao e sabedoria,
entendimento e vontade. Ele esta
pensando em uma for<;a inconsci-
ente, irracional e desprovida de
vontade, uma for<;a que se torna
consciente, racional e volitiva so-
mente no homem, no curso do
processo evolutivo. Essa energia
eterna nao e urn espfrito, mas e
chamada de espfrito porque em
seu desenvolvimento ela se tor-
nou urn.
Em ambas as hip6teses, tan-
to a do materialismo quanta a do
pantefsmo, urn principia e assu-
mido como o come<;o da evolu<;ao
do mundo, urn prindpio que urn
diz que e predominantemente
material e 0 outro diz que e pre-
dominantemente espiritual, e do
qual nenhuma ideia clara pode
ser formada. Ele ealgo mais ne-
gativo do que positivo. Nada e
definitivo; esse prindpio mera-
mente tern o potencial de se tor-
nar tudo. Euma potencialidade
absoluta (uma possibilidade infi-
nita), urn pensamento abstrato
deificado. No fundo e a imagina-
<;ao de algo, na ausencia do Deus
verdadeiro, no qual o homem ci-
entffico coloca sua esperan<;a de
explicar 0 mundo, mas que nao e
mais merecedor de confian<;a do
que os deuses das na<;6es.
As Sagradas Escrituras assu-
mem uma posi<;ao diferente. 0
que elas nos dizem sobre a origem
das coisas nao nos e oferecido
como resultado de uma investiga-
<;ao cientffica, nem de uma expli-
ca<;ao filos6fica do mundo, mas
para que, atraves do que ela tern
a nos dizer, n6s conhe<;amos o
unico e verdadeiro Deus e colo-
quemos nEle toda a nossa confi-
an<;a. Essa e uma explica<;ao que
nao procede do mundo, mas de
Deus. Ela nao diz que o mundo e
eterno, mas que Deus e eterno.
Antes que os montes nascessem e
se formassem a terrae o mundo,
de eternidade a eternidade, Ele e
Deus (Sl 90.2). Ele e Jeova, o que
era, 0 que e, e 0 que ha de vir, que
179
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
esta alem da riqueza de todas as
palavras, urn Ser completamente
imutavel. Diferentemente dEle, o
mundo veio a existir e esta sem-
pre em muta<;ao. A coisa contra a
qual a Escritura primeiramente
nos previne e a confusao de Deus
com a Sua cria<;ao. A Escritura cor-
ta pela raiz toda descren<;a, falsa
cren<;a e supersti<;ao. Deus e o
mundo sao essencialmente dife-
rentes urn do outro. Eles se dife-
renciam como Criador e criatura.
Sendo uma criatura, todo o
mundo tern sua origem em Deus.
Nao ha algo como uma materia ou
urn espirito existindo paralela-
mente a Deus. 0 ceu, a terra e to-
das as coisas foram criadas por
Ele. Essa e a for<;a da palavra
traduzida como criou na Biblia.
Em urn sentido geral a Escritura
usa essa palavra tambem para as
obras de conserva<;ao da cria<;ao
(Sl104.30; Is 45.7). Mas em urn sen-
tido mais estrito a Escritura usa
essa palavra para dizer que Deus
criou todas as coisas do nada. De
fato, a expressao de que Deus
criou todas as coisas do nada nao
ocorre nas Escrituras. Ela s6 ocor-
re no segundo livro de Macabeus
(7.28). Alem disso, esse termo, do
nada, pode causar enganos. 0 que
e nada nao existe e nao pode ser
o prindpio ou origem a partir do
qual alguma coisa passe a existir.
Alem disso, nada pode vir do
nada. 0 que a Escritura diz e que
o mundo foi criado por Deus (Ap
180
4.11) e que as coisas que sao vis-
tas foram feitas das coisas que nao
aparecem (Hb 11.3). Da mesma
forma a expressao do nada pode
ser usada em urn sentido util e
pode prestar excelente servi<;o
contra todos os tipos de heresia,
pois ela nega que o mundo possa
ter sido feito a partir de alguma
materia ou energia que coexistiu
eternamente com Deus. De acor-
do com a Escritura, Deus nao so-
mente formou o mundo. Ele criou
o mundo. Humanamente falando,
n6s podemos dizer que Deus
existia sozinho quando o mundo
foi criado por Seu conselho e por
Sua vontade. Urn absoluto nao-ser
precedeu o ser do mundo, e nes-
se sentido n6s podemos dizer que
Deus fez o mundo do nada.
Esse certamente e o ensino
da Escritura: que Deus existe des-
de a eternidade (Sl90.2), mas que
omundo teve urn come<;o (Gn
1.1). Varias vezes n6s lemos que
Deus fez uma coisa ou outra -
predestinou, disse, ou amou -
desde antes da funda<;ao do mun-
do (Jo 17.24; Ef 1.4). Ele e tao po-
deroso que, ao £alar, as coisas pas-
sam a existir (Sl 33.9), e chama a
existencia as coisas que nao exis-
tem (Rm 4.17). Ele criou o mundo
pela Sua propria vontade (Ap
4.11). Ele fez todas as coisas, o ceu,
a terra e tudo o que neles ha (Ex
20.11; Ne 9.6). Dele e por Ele e
para Ele sao todas as coisas (Rm
11.36). Portanto Ele e tambem o
A CRIA<;:Ao E A PRoVIDENCIA
Todo-Poderoso Possuidor do ceu
e da terra (Gn 14. 19,22), que faz
todas as coisas como lhe agrada,
e cujo poder nao conhece limites,
de quem todas as criaturas pos-
suem urn absoluto senso de de-
pendencia (Sl 115.3; Dn 4.35). A
Escritura nada sabe sobre uma
materia eterna nao criada parale-
la a Deus. Ele e a causa {mica e
absoluta de tudo o que existe e
acontece. 0 visivel nao foi feito
pelo visivet mas pela palavra de
Deus (Hb 11.3).
* * * * *
Se Deus, que eo Ser eterno,
criou o mundo pela Sua vontade,
naturalmente surge uma questao:
Par que e para queJim Ele fez isso?
Para encontrar uma resposta para
essa questao, a ciencia e a filoso-
fia tern tentado fazer do mundo
uma necessidade e a partir dai
deduzir a resposta do Ser de
Deus. Novamente duas possibili-
dades sao oferecidas. Alguns di-
zem que Deus era tao pleno e tao
rico que nao conseguiu controlar
a situac;:ao, que Deus careceu de
poder sobre Seu proprio Sere que
o mundo conseqiientemente fluiu
dele como urn riacho flui da fon-
te, como a agua flui do vaso que
esta transbordando. Outros assu-
mem a posic;:ao oposta, dizendo
que Deus em Si mesmo era pobre
e vazio, que Ele possufa urn de-
sejo famigerado, e que por isso
181
trouxe 0 mundo aexistencia, para
encher-se e suprir Suas necessida-
des. De acordo com esses dois
pontos de vista, o mundo era uma
necessidade de Deus, seja para
alivia-lo de Sua superfluidez ou
para compensar Sua necessidade.
Ambas as interpretac;:oes sao
incompativeis com a Escritura. A
Escritura assume uma posic;:ao
diametralmente oposta a essas
duas interpretac;:oes. De acordo
com essas duas posic;:oes, o cen-
tro de gravidade foi transferido de
Deus para o mundo, e Deus exis-
te para o mundo. Deus e o ser
menor eo mundo eo ser maior,
pois o mundo serve para redimir
e salvar Deus, que esta infeliz em
razao de superabundancia ou de
insuficiencia. Embora esse pensa-
mento ainda esteja em moda en-
tre os pensadores de nosso tem-
po, ele e uma blasfemia. A Escri-
tura, que e a Palavra de Deus, e
que do inicio ao fim revela o pon-
to de vista de Deus, declara ple-
na, poderosa e sonoramente que
Deus nao existe em func;:ao do
mundo, mas o mundo existe em
func;:ao de Deus, por causa dEle e
para gloria dEle.
Deus e em Si mesmo auto
suficiente. Ele nao precisa do
mundo, nem de qualquer cria-
tura seja de que forma for, para
sua propria perfeic;:ao. Pode,
porventura, o homem ser de al-
gum proveito para Deus? Tern o
Todo-Poderoso interesse em que
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sejas justo ou algum lucro em que
fac;:as perfeitos os teus caminhos
(J6 22.2,3)? A justic;:a do homem
nao e vantagem para Deus, e a
transgressao do homem nao 0
empobrece. Ele nao e servido por
maos humanas, como se de algu-
ma coisa precisasse; pois Ele mes-
mo e quem a todos da vida, res-
pirac;:ao e tudo o mais (At 17.25).
Por isso e que a Escritura enfatiza
tao fortemente que Deus causou
todas as coisas porum ato de Sua
vontade. Nao havia algo como
uma forc;:a ou uma necessidade no
Ser de Deus que pudesse
constrange-lo a criar o mundo. A
criac;:ao e em sua totalidade um
ato livre de Deus. Ela nao pode
ser explicada como a conseqiien-
cia inevitavel da justic;:a de Deus,
apesar de Sua justic;:a tambem ser
manifesta nela, pois a quem Deus
poderia ficar devendo alguma
coisa? A criac;:ao tambern nao pode
ser deduzida de Sua bondade e
amor, apesar de tanto uma quan-
to o outro serem manifestos no
mundo, pois a vida em amor do
Deus Triuno nao exigia um obje-
to de amor alem de si mesmo. A
causa da criac;:ao esimples e so-
mente o livre poder de Deus, Seu
eterno beneplacito, Sua absoluta
soberania (Ap 4.11).
E claro que isso nao
equivale a dizer que a criac;:ao do
97
Veja tambem Ef3.9; Cl1.16; Hb 1.2.
98
f6 26.13; 33.4; 1Co 2.10.
182
mundo foi urn ato irracional, algo
feito arbitrariamente. Nisso, e em
todas as outras coisas, n6s deve-
mos descansar na soberania e no
beneplacito de Deus como o fim
de toda contradic;:ao, e n6s sere-
mas exercitados nisso por uma
total confianc;:a e obediencia. Da
mesma forma Deus tern Suas ra-
z6es santas e sabias para o ato de
criac;:ao.
A Escritura nos prova isso
em primeiro lugar ao representar
a criac;:ao como urn ato do Deus
Triuno. Ao fazer o homem, Deus
primeiro tomou conselho consigo
mesmo e disse: "Fac;:amos o ho-
mem a nossa imagem, conforme
anossa semelhanc;:a" (Gn 1.26). Da
mesma forma, todas as obras di-
vinas repousam sobre uma deli-
berac;:ao de Deus. Antes da criac;:ao
Ele consultou a sabedoria (J6 28.20
ss.; Pv 8.22 ss.). E a Seu tempo
Deus criou todas as coisas atraves
do Verbo que estava com Deus e
que era Deus (Jo 1.1-3)97
e criou-
as no Espirito que perscruta todas
as profundezas de Deus, da vida
as Suas criaturas, e enfeita OS
ceus98
• Por isso o salmista procla-
ma: "Que variedade, Senhor, nas
tuas obras! Todas com sabedoria
as fizeste; cheia esta a terra das
tuas riquezas" (51104.24).
Alem disso, a Escritura nos
ensina que Deus criou todas as
A CmA<;:Ao E A PRovmENCIA
coisas, e sustenta-as, e rege-as
para a Sua propria honra. 0 pro-
posito pelo qual a criac;ao foi fei-
ta nao esta na propria criac;ao,
pois o estabelecimento do propo-
sito precede o uso dos meios. A
Escritura ensina que, assim como
tudo e de Deus, tudo tambem e
por Ele e para Ele (Rm 11.36). E a
Escritura desenvolve esse ensino
mais particularmente quando re-
gistra que OS ceus proclamam a
gloria de Deus (Sl19.1), que Deus
se glorifica em Farao (Ex 14.17) e
no cego de nascenc;a (Jo 9.3), que
Ele concede todos os favores de
Sua Grac;a em considerac;ao ao Seu
proprio nome (Is 43.25; Ef 1.6),
que Cristo veio para glorificar o
Pai (Jo 17.4) e que chegara o dia
em que todo joelho se dobrara e
toda lingua confessara Sua gloria
(Fp 2.10). Edo agrado de Deus
fazer com que as excelencias de
Seu Ser Triuno se manifestem em
Suas criaturas, e assim preparar
honra e gloria para Si mesmo nes-
sas criaturas. Para essa glorifica-
c;ao de Si mesmo Deus nao preci-
sa do mundo, pois nao e a criatu-
ra que independente e suficiente-
mente exalta a honra de Deus;
pelo contrario, e Ele que, por
meio de Suas criaturas ou sem
elas, glorifica Seu proprio nome
e revela-se a Si mesmo. Deus, par-
tanto, nunca procura a criatura
para encontrar algo de que esteja
precisando. Todo o mundo, em
sua largura e profundidade, e
183
para Ele urn espelho, no qual Ele
ve refletidas as Suas excelencias.
Ele sempre repousa em Si mesmo
como o mais elevado bern, e per-
manece eternamente abenc;oado
por Suas proprias benc;aos.
* * * * *
A Escritura nos diz nao so-
mente que Deus chamou o mun-
do aexistencia do nada, mas tam-
bern nos diz algo sobre a forma
pela qual a criac;ao foi feita.
Ela comec;a com o registro de
que no comer;o Deus criou os ceus
e a terra (Gn 1.1). Esse comec;o
aponta para o momenta no qual
essas coisas comec;aram a existir.
0 proprio Deus nao tern infcio,
nem pode ter. Nem o Verbo que
estava com Deus e que era Deus,
pois Ele tambem existe desde a
eternidade. Esse comec;o marca o
momenta em que as coisas cria-
das vieram aexistencia. Portanto,
o tempo e o espac;o tambem tive-
ram seu inicio. De fato, nem urn
nem outro sao criaturas indepen-
dentes, chamados aexistencia por
urn ato poderoso e especial de
Deus. Nos nada lemos sobre isso
no registro da criac;ao. Contudo,
o tempo e o espac;o sao formas de
existencia indispensaveis para
seres criados. Somente Deus e
eterno e onipresente. As criaturas,
por serem criaturas, estao sujeitas
ao tempo e ao espac;o. 0 tempo
torna possivel que algo continue
Ftmdamentos Teol6gicos da Fe Cristii
existindo em uma sucessao de
momentos, pois uma coisa existe
depois da outra. 0 espa~o torna
possivel que urn corpo se expan-
da por todos os lados, pois urn
corpo existe proximo ao outro. 0
tempo e o espa~o, portanto, co-
me<;am a existir no mesmo tempo
em que as demais criaturas, e
como formas de existencia indis-
pensaveis para elas. Elas nao exis-
tiam antes como formas vazias
para serem enchidas pelas criatu-
ras, pois quando nada existe, nao
existe tempo, nem espa~o. Eles
nao foram feitos independente-
mente, paralelamente as criaturas,
como acompanhamentos, como
anexos. Eles foram criados em e
com as criaturas como formas nas
quais essas criaturas devem ne-
cessariamente existir como criatu-
ras limitadas e finitas. Agostinho
estava certo quando disse que
Deus nao fez o mundo no tempo,
como se ele tivesse sido criado em
uma forma ou condi~ao previa-
mente existente, mas foi criado
como tempo, eo tempo foi criado
como mundo.
0 primeiro versiculo de
Genesis diz que no come~o Deus
criou OS ceus e a terra. Como ceus
e terra, a Escritura aqui quer di-
zer tudo o mais (Gn 2.1,4; Ex
20.11), ou seja, todo o mundo,
todo o universo, que de acordo
com a vontade de Deus desde o
99
1 Re 8.27; Sl 2.4; 115.16; Mt 6.9.
184
inicio foi dividido em duas par-
tes. Essas partes sao a terra, com
tudo o que esta sobre e dentro
dela, e OS ceus, que compreen-
dem tudo o que esta fora e sobre
a terra. Aos ceus, nesse sentido,
pertencem o firmamento, eo ar, e
as nuvens (Gn 1.8,20), as estrelas,
que constituem o exercito dos
ceus (Dt 4.19: Sl 8.3), e tambem o
terceiro ceu, ou 0 ceu dos ceus,
que e a morada de Deus e dos
anjos99
• E quando o primeiro
versiculo de Genesis registra que
Deus criou os ceus e a terra no
come~o, n6s nao entendemos, por
urn lado, que isso seja apenas urn
resumo de tudo que se seguiu,
nem, por outro lado, que esteja
indicando que o ato de Deus des-
crito em Genesis 1.1 imediatamen-
te chamou a existencia OS CeUS e a
terra em sua completa condi~ao.
A primeira interpreta~ao e
refutada pelo fato de que o segun-
do versiculo come~a com a con-
jun~ao e: "E a terra era sem forma
e vazia". Urn segundo fato e, par-
tanto, acrescentado em uma serie
continua ao fato registrado no
versiculo urn. E a segunda inter-
preta~ao nao pode ser aceita par-
que 0 ceu como firmamento nao
existiu ate Genesis 1.8, e porque
0 ceu e a terra s6 foram denomi-
nados acabados, em Genesis 2.1.
Apesar de n6s nao poder-
mos falar sobre esse ponto com
A CmA<;:Ao EA PRovro.ENcrA
absoluta certeza, n6s podemos
considerar que os o~us dos ceus,
a morada de Deus, foram criados
pelo primeiro ato criativo de Deus
registrado em Genesis 1.1 e que
nessa ocasiao os anjos tambem
foram criados. Repare que, em J6
38.4-7 o Senhor responde a J6 de
dentro do redemoinho, que ne-
nhum homem estava presente
quando Ele lan<;;ou os fundamen-
tos da terrae quando assentou sua
pedra angular, mas que Ele com-
pletou essa obra com o cantico
das estrelas da alva eo jubilo dos
filhos de Deus. Esses filhos de
Deus sao os anjos. Os anjos, par-
tanto, estavam presentes quando
a cria<;;ao da terra e do homem foi
concluida.
Alem disso, pouco efalado
sobre a cria<;;ao dos ceus dos ceus
e dos anjos. Depois de menciona-
los brevemente no primeiro
versiculo, o registro de Genesis
faz no segundo versiculo urn re-
gistro mais amplo do acabamen-
to da terra. Tal acabamento ou ar-
ranjo foi necessario, pois, apesar
da terra ja ter sido feita, ela exis-
tia em urn estado selvagem e de-
serto e estava coberta pelas trevas.
:"6s nao lemos que a terra tornou-
se selvagem, isto e, sem forma. Al-
guns sustentam que foi isso o que
aconteceu, e ao assumir essa po-
si<;:ao eles mencionam urn julga-
mento que teria acontecido de-
1
"" Cn 1.2; Ex 20.11; 31.17.
pois da queda dos anjos, quando
a terra ja estava pronta. Mas
Genesis 1.2 menciona somente
que a terra estava sem forma, isto
e, que ela existia em urn estado
sem forma definida, na qual a luz
e as trevas, OS corpos e a agua, a
terra seca eo mar, nao podiam ser
diferenciados. Foram as obras de
Deus, descritas em Genesis 1.3-10,
que puseram fim afalta de forma
da terra. Por isso eque esta regis-
trado que a terra original era va-
zia. Ela carecia dos enfeites de
plantas e arvores e ainda nao era
habitada por seres vivos. As obras
de Deus, resumidas em Genesis
1.11 ss., colocam urn fim nessa
vacuidade da terra, pois Deus nao
criou a terra para que ela fosse
vazia, mas para que o homem vi-
vesse nela (Is 45.18). Claramente
as obras de Deus no arranjo ou
acabamento da terra sem forma e
vazia sao divididas em dois gru-
pos. 0 primeiro grupo de obras
ou atos eintroduzido com a cria-
c;:ao da luz. Ele traz aexistencia a
diferencia<;;ao e a distin<;:ao de for-
mas, tons e cores. 0 segundo gru-
po come<;;a com a forma<;;ao dos
luzeiros, o sot a lua e as estrelas
e serve para encher a terra com os
seus habitantes - passaros, pei-
xes, animais eo homem.
185
Toda a obra da cria<;;ao, de
acordo com os repetidos registros
da Escritura100
, completou-se em
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
seis dias. Tern havido muitas di-
ferenc;as de opiniao e liberdade de
especulac;ao sobre esses seis dias.
Ninguem menos que Agostinho
julgou que Deus tinha feito tudo
perfeito e completo e que os seis
dias nao foram seis periodos su-
cessivos de tempo, mas apenas
alguns pontos dos quais a posi-
c;ao e a ordem das criaturas de-
vern ser observados. Por outro
lado, ha muitos que sustentam
que os dias da criac;ao devem ser
considerados como perfodos de
tempo muito mais longos do que
unidades de vinte e quatro horas.
A Escritura definitivamente
fala de dias que sao reconhecidos
pela sucessao de dias e noites e
que formam a base da distribui-
c;ao dos dias da semana em Israel
e no calendario festivo. Contudo
a Escritura contem dados que nos
obrigam a pensar que esses dias
de Genesis sao diferentes dos nos-
sos dias ordinarios como determi-
nados pela rotac;ao da terra.
Em primeiro lugar n6s nao
podemos ter certeza de que o que
nose falado em Genesis 1.1,2 pre-
cede o primeiro dia ou esta inclu-
ido no primeiro dia. Em favor da
primeira suposic;ao esta o fato que
de acordo como versiculo 5o pri-
meiro dia comec;a com o criac;ao
da luz e que depois da tarde e da
noite, segue-se a manha. Mas,
apesar de poder-se reconhecer os
eventos de Genesis 1.1,2 como o
primeiro dia, pode-se levantar a
186
questao do dia atipico que consis-
tiu de trevas e tambem o fato de
que a durac;ao das trevas, que pre-
cederam a criac;ao da luz, nao e
mencionada.
Em segundo lugar, os pri-
meiros tres dias (Gn 1.3-13) devem
ter sido muito diferentes dos que
conhecemos, pois nossos dias de
vinte e quatro horas sao causados
pelas revoluc;oes da terra sobre
seu eixo e pela correspondente
diferenc;a referente ao sol que
acompanha essas revolw;oes.
Mas esses primeiros tres dias nao
podem ter sido constituidos des-
sa forma. Everdade que a distin-
c;ao entre eles foi marcada pelo
surgimento e desaparecimento da
luz, mas o proprio livro de
Genesis nos diz que o sol, a lua e
as estrelas s6 foram formados no
quarto dia.
Em terceiro lugar, e certa-
mente possivel que a segunda
serie de tres dias tenha constitui-
do a forma usual, mas se n6s le-
varmos em conta que a queda dos
anjos e dos homens e tambem o
dih:ivio que ocorreu mais tarde
causaram todo tipo de mudanc;as
no cosmos, e se, alem disso, n6s
observarmos que todas as esferas
do periodo inicial diferem noto-
riamente do desenvolvimento
normal, entao nao parece impro-
vavel que a segunda serie de tres
dias, tambem seja diferente de
nossos dias, em muitos aspectos.
Finalmente, merece conside-
A CRIA<;:Ao E A PROVIDENCIA
ra<;_:ao o fato de que tudo o que de
acordo com Genesis 1 e 2 aconte-
ceu no sexto dia, dificilmente
pode ter acontecido nos limites de
urn dia tal como n6s o conhece-
mos, pois, de acordo com a Escri-
tura, naquele dia ocorreu a cria-
<;_:ao dos animais (Gn 1.24,25), a cri-
a<;_:ao de Adao (Gn 1.26;2.7), o
plantio do jardim (Gn 2.8-14), a
proclama<;;ao da ordem proibitiva
(Gn 2.18-20), o sono de Adao e a
cria<;;ao de Eva (Gn 2.21-23).
Apesar de tudo isso os seis
dias continuam sendo a semana
da cria<;_:aO, dentro da qual OS ceus
e a terra e tudo o que neles ha fo-
ram feitos. Esses dias indicam a
ordem temporal na qual as cria-
turas foram sucessivamente cria-
das, mas ao mesmo tempo eles
contem uma sugestao de urn re-
lacionamento de categorias, no
qual essas criaturas ficam umas
sobre as outras. Nenhuma inves-
tigac;ao cientffica pode derrubar
esse relacionamento. Os sem for-
ma precedem os formados em ca-
tegoria e ordem, os inorganicos
precedem os organicos, as plan-
tas precedem os animais, e os ani-
mais precedem o homem. 0 ho-
mem e a coroa da criac;ao. A exe-
cuc;ao e a prepara<;_:ao da terra cul-
minam nele e convergem para
ele. Repare que a Escritura nos
fala pouco sobre a criac;ao dos
ceus e dos anjos, limitando-se pri-
101
S/49.2; Lc 1.70; Ef1.21.
187
mariamente a terra. Em urn senti-
do astronomico a terra pode ser
pequena e insignificante. Emma-
teria de massa e peso ela pode ser
excedida por centenas de plane-
tas, s6is e estrelas. Mas em urn
sentido religioso e moral ela e o
centro do universo. A terra e so-
mente a terra foi escolhida para
ser a morada do homem. Ela foi
escolhida para ser a arena na qual
a grande luta sera travada contra
as fon;:as do mal. Ela foi escolhi-
da para ser o lugar do estabeleci-
mento do reino dos ceus.
Tudo o que foi criado e re-
sumido na Escritura sob o nome
de ceus e terra e 0 seu exercito
(Gn 2.1) ou sob o termo mundo. As
palavras originais traduzidas sim-
plesmente por mundo, em nossas
Bfblias, algumas vezes designam
o globo fisico da terra (1Sm 2.8; Pv
8.31), as vezes designam a terra
como morada do homem e habi-
tada pelo homem (Mt 24.14: Lc
2.1). Em outras ocasioes ela desig-
na o mundo em sua natureza tem-
poral, mutavel e transit6ria101
, e
em outros casos ela significa a
unificac;ao e a totalidade das cria-
turas (Jo 1.10; At17.24). Esses dois
ultimos significados possuem urn
rico conteudo. Em outras pala-
vras, n6s podemos sempre olhar
para o mundo de dois pontos de
vista diferentes: de sua largura e
de seu comprimento.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Em primeiro lugar, o mun-
do e uma unidade, urn todo coe-
rente, no qual sua unidade exibe
uma inequivoca e rica diferencia-
<;ao. Desde o come<;o, quando foi
criado, o mundo compreende os
ceus e a terra, o visivel e o invisi-
vet anjos e homens, plantas e ani-
mais, seres animados e inanima-
dos, espirituais e nao espirituais.
Todas essas criaturas sao de novo
e infinitamente diferenciadas. En-
tre os anjos ha os tronos e pode-
res, principados e potestades.
Entre a ra<;a humana existem ho-
mens e mulheres, pais e filhos,
soberanos e servos, povos e na-
<;5es, idiomas e dialetos. E da
mesma forma as plantas, os ani-
mais e ate os minerais sao subdi-
vididos em classes e grupos, fa-
milias e especies, variedades e ti-
pos. Dentro dos limites de todas
essas criaturas ha uma natureza
peculiar que elas receberam de
Deus (Gn 1.11, 21 ss.), e dessa for-
ma elas estao sujeitas as suas pr6-
prias leis. Elas existem uma depois
da outra nao somente no sentido
em que foram criadas, mas tam-
bern existem pr6ximas umas das
outras e esse eo motivo pelo qual
elas continuam existindo ate os
nossos dias. 0 carater da cria<;ao
nao e uniforme, mas multiforme,
e contem, tanto em sua inteireza
quanto em suas partes, as mais
ricas e bonitas variedades.
Ao mesmo tempo o mundo
continua sua existencia no tempo.
188
0 fato de que tudo o que Deus fez
era muito born (Gn 1.31), nao sig-
nifica que tudo ja era como deve-
ria ser. Assim como o homem,
apesar de ter sido criado a ima-
gem e semelhan<;a de Deus, ter
recebido urn chamado e urn des-
tino que ele tinha que alcan<;ar por
meio de suas obras, da mesma
forma o mundo, quando foi cria-
do, estava em seu come<;o, nao em
seu fim. Ele ainda teria uma lon-
ga hist6ria pela frente, na qual
manifestaria mais rica e claramen-
te as excelencias de Deus. Portan-
to, a cria<;ao eo desenvolvimento
nao se excluem. Deus criou urn
mundo de variadas e ricas dife-
rencia<;oes, no qual os varios tipos
de criaturas possuem suas pr6-
prias naturezas, e no qual cada
natureza tern suas propriedades
e leis e somente por isso a evolu-
<;ao e possivel. Toda essa evolu-
<;ao tern seu ponto de partida e
tambem sua dire<;ao e seu prop6-
sito, na cria<;ao. Embora o pecado
tenha provocado disturbios e des-
trui<;ao nessa evolu<;ao ou desen-
volvimento, Deus cumpriu Seu
conselho, sustentou o mundo eo
conduz ao seu destino.
Quando a Escritura fala des-
sa forma sobre o mundo, ela im-
plicitamente pressupoe que ha
apenas urn mundo. Na tese dos fi-
16sofos esse assunto e apresenta-
do de forma bern diferente. Nao
apenas havia muitos- e ainda ha
-que afirmavam que varios mun-
A CRIA~Ao E A PRovmF:NCIA
dos coexistiram paralelamente uns
aos outros, e que nao apenas a ter-
ra, mas tambem varios outros pla-
netas eram habitados por criatu-
ras vivase racionais, mas tambem
afirmavam que varios mundos se
sucederam no decorrer do tempo.
Portanto, o nosso mundo nao eo
unico, mas foi precedido por inu-
meraveis mundos e sera sucedi-
do por tantos outros. Alguns ane-
xaram a essa afirma<;ao a ideias
de que tudo o que existe ja exis-
tiu em urn mundo antigo e volta-
ra a existir em urn mundo futuro.
Em resumo, existe urn processo
continuo; tudo esta sujeito a lei
eterna do aparecimento e desapa-
recimento, emergencia e submer-
gencia, eleva<;ao e rebaixamento.
A Escritura ignora comple-
tamente essas imagina<;oes. Ela
nos diz que no come<:;o Deus criou
esse mundo, que ele percorrera
uma hist6ria com seculos de du-
ra<;ao e que depois desse proces-
so hist6rico, o eterno Sabbath tera
inicio para o povo de Deus. A Es-
critura nada sabe sobre a
habitabilidade de outros plane-
tas. De fato, ela nos ensina que o
mundo e infinito em variedade,
que existem nao apenas homens,
mas anjos tambem e que alem da
terra ha o ceu. Alem disso, ela afir-
ma que somente o homem foi cri-
ado aimagem de Deus, que o Fi-
lho de Deus nao assumiu a natu-
reza de anjos, mas de homens, e
que o reino dos ceus se espalha
189
nessa terra.
Dessa forma a Escritura nos
diz que o mundo e finito. Isso sig-
nifica, em primeiro lugar, que o
mundo teve urn come<;o e que foi
criado junto como tempo. A ques-
tao de ha quanto tempo o mundo
existe nada acrescenta e nada sub-
trai asua finitude. Mesmo que o
mundo exista ha milhares ou mi-
lhoes de anos, isso nao faz com
que ele seja eterno, no sentido em
que Deus e eterno. 0 mundo con-
tinua sendo limitado, temporal e
coexistente com o tempo. E im-
portante observar que a Escritu-
ra, que nos ensina que o mundo
teve urn come<;o, tambem nos en-
sina que ele nao tera fim. Eclaro
que ele tera urn fim em sua pre-
sente forma, pois a forma desse
mundo e passageira, mas nao sua
substfmcia e essencia. Mas apesar
do mundo, os homens e os anjos
continuarem existindo no futuro,
eles continuarao sendo criaturas
e nunca compartilharao da eterni-
dade que Deus possui. 0 mundo
existe no tempo e continuara exis-
tindo nele, embora em outra
dispensa<;ao seja utilizado urn
padrao de medidas inteiramente
diferente desse que conhecemos.
E da mesma forma que o m undo
e limitado pelo tempo, ele tam-
bern e limitado pelo espa<;o. De
fato, a ciencia tern expandido seu
raio de a<:;ao de forma fantastica;
o mundo tern se tornado urn lu-
gar imponentemente maior do
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
que foi para nossos avos; n6s fi-
camos tontos ao ouvirmos o nu-
mero e a magnitude das estrelas,
cada uma das quais e urn mun-
do, e a distancia que as separa do
nosso mundo vai alem de qual-
quer imagina<;:ao, mas apesar dis-
so o mundo nao pode ser consi-
derado eterno como Deus e eter-
no. A diferen<;:a entre o eterno eo
duradouro e de tipo, nao de grau.
N6s nao podemos imaginar urn
tempo e espa<;:o alem do mundo.
N6s nao podemos imaginar que,
algum dia, poderemos tocar a
fronteira do universo e sermos ca-
pazes de olhar fixamente para o
vazio. 0 tempo e o espa<;:o passu-
em a mesma extensao do mundo,
indo tao longe quanto o mundo
pode ir e estando cheios de coi-
sas criadas. Mas todos juntos -
espa<;:o, tempo e mundo - sao
finitos. A associa<;:ao de partes
finitas, nao importa quao grandes
sejam essas partes, nunca resulta-
ra algo infinito. S6 Deus e eterno,
infinito e onipresente.
Finalmente, as Escrituras
nos ensinam que o mundo e bom.
Epreciso muita coragem para di-
zer isso em nossos dias. 0 tom do
seculo dezoito foi muito otimis-
ta; OS homens daquela epoca viam
tudo por urn lado brilhante. Eles
pensavam que Deus tinha criado
o melhor de todos os mundos
possiveis. Mas nos seculos
dezenove e vinte a vida, o mun-
do e a sociedade sao vistos de urn
190
ponto de vista diferente. Poetas,
fil6sofos e artistas de nosso tem-
po dizem que tudo e miseria no
mundo, que o mundo e tao mal
quanto pode ser, e que se ele des-
cesse mais urn degrau ele deixa-
ria de existir. Tudo o que existe,
de acordo como pensamento des-
sas pessoas, merece apenas a ani-
quila<;:ao. E apesar de alguns ain-
da terem vontade de se divertir e
aproveitar toda migalha de pra-
zer que o mundo possa oferecer
(comamos e bebamos, que ama-
nha morreremos), outros se ren-
dem ao desencorajamento ou ao
cansa<;:o ou a sonhos visionarios
de esperan<;:a por urn futuro, uma
utopia socialista, uma felicidade
alem da sepultura, urn nirvana -
algo que o presente nao possa dar.
A Escritura tern urn ponto de
vista diferente sobre esse assun-
to. Ela nos diz que o mundo e
born, muito born, na forma em
que foi feito pelas maos de Deus
(Gn 1.31). Ela nos diz tambem que,
por causa do pecado, a terra foi
amaldi<;:oada e o homem esta su-
jeito acorrup<;:ao e amorte, e toda
a cria<;:ao esta sujeita a vaidade.
Em lugar nenhum a fragilidade e
a transitoriedade da vida, a insig-
nificancia e a pequenez de tudo o
que existe, a profundidade e a dor
do sofrimento sao mencionados
tao forte e vivamente como nas
Sagradas Escrituras. Mas elas nao
param nesse ponto. Elas vao alem
e explicam que apesar dessa que-
A CRIA<;:Ao E A PROVIDENCIA
da, da culpa e da vaidade desse
mundo, o benepLicito de Deus
esta sendo cumprido. Elas ensi-
nam que por causa desse destino
ao qual o mundo esta sendo con-
duzido, esse mundo pode nova-
mente ser chamado born; e elas
ensinam que, apesar do pecado,
o mundo e e continuara sendo urn
meio pelo qual Deus glorifica
Seus atributos, e urn instrumento
que Ele usa para honrar Seu
nome. E, finalmente, as Escrituras
concluem sua instruc;ao a respei-
to do mundo dando a gloriosa
promessa de que esse mundo,
com todo o seu sofrimento e
opressao, se tornara novamente
born para n6s quando sujeitarmos
nossa vontade ahonra de Deus e
nos dedicarmos aSua gloria. To-
das as coisas cooperam para o
bern daqueles que amam a Deus
(Rm 8.28). N6s aprendemos a
gloriarmo-nos ate mesmo nas tri-
bulac;oes (Rm 5.3). Nossa fee a vi-
t6ria que vence o mundo (lJo 5.4).
* * * * *
Todas essas considerac;oes
naturale diretamente, conduzem-
nos da criac;ao para a providencia.
Desde o momento em que o mun-
do em seu todo ou cada urn de
seus habitantes foi chamado a
existencia pelo ato criativo de
Deus, eles imediatamente ficaram
sob a vigilancia da providencia de
Deus. Aqui nao ha transic;ao gra-
191
dual, nem qualquer tipo de abis-
mo ou brecha. Pois exatamente
como as criaturas, por serem cria-
turas, nao podem nascer de si
mesmas, da mesma forma elas
nao podem, por urn minuto se-
quer, existir por si mesmas. A pro-
videncia caminha de maos dadas
com a criac;ao. Elas sao compa-
nheiras.
Portanto, uma intima cone-
xao e urn relacionamento estreito
existe entre elas. E e da maior im-
portancia manter, contra toda
ameac;a deista, essa inseparavel
conexao entre a criac;ao e a provi-
dencia. 0 deismo aceita a ideia de
uma criac;ao originat mas ere que
Deus, depois deter criado o mun-
do, abandonou-a a sua propria
sorte. Nesse caso a noc;ao de cria-
c;ao serve apenas para dar ao mun-
do sua existencia independente,
e nesse sentido e uma ideia que
foi aceita ate mesmo por Kant e
Darwin. Mas a ideia e que, ao cri-
ar o mundo, Deus dotou-o com
total independencia e equipou-o
com energias e dadivas suficien-
tes para que pudesse por si mes-
mo existir perfeitamente bern e
pudesse tambem, sob todas as cir-
cunstancias, salvar-se. 0 mundo,
de acordo com uma figura famili-
ar, e como urn relogio, que, de-
pais de acionado, funciona por si
mesmo. Naturalmente essa foi
uma ideia que conduziu a urn
pensamento posterior de que o
mundo nao tern necessidade de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
revela~ao, pois ele alcan~ara a
verdade por suas pr6prias for~as
e pelos recursos de que disp6e.
Como podemos ver, o deismo
traz o racionalismo em seu bojo -
ou seja, o movimento que afirma
que a razao pode chegar a toda
verdade apenas pelo uso de seus
pr6prios recursos. Da mesma
forma o deismo da asas ao
pelagianismo - ou seja, a doutri-
na de acordo com a qual o desejo
do homem pode fazer com que ele
alcance sua salvac;ao. De acordo
com o deismo, o desejo do ho-
mem, assim como sua razao, foi
criado para ser independente, e
foi equipado com dons e energi-
as permanentes, que fazem com
que a obra de qualquer Mediador
da salva~ao seja superflua.
Enecessaria, entao, em vis-
ta da alternativa deista, aderirmos
arelac;ao existente entre a criac;ao
e a providencia. A Escritura faz
isso. Ela chama a obra da provi-
dencia de dadiva da vida e ativi-
dade preservadora (J6 33.4; Ne
9.6), renova~ao (Sl104.30), fala (Sl
33.9), vontade (Ap 4.11), trabalho
(Jo 5.17), o sustento de todas as
coisas pela palavra de Seu poder
(Hb 1.3), cuidado (lPe 5.7) e tam-
bern de cria~ao (Sl104.30; Is 45.7).
0 que esta implicado em todas
essas express6es e que depois da
cria~ao do mundo Deus nao o
abandonou, nem desprezou-o .
10
' Gn 22.8; 1Sm16.1; Ez 20.6; Hb 11.40.
192
Deus nao empurrou o mundo
para o lado ou para tras depois
de te-lo criado. A palavra provi-
dencia significa que Deus supre
o mundo em todas as suas neces-
sidades102. Esse nao e urn ato s6
da mente de Deus, mas tambem
de Sua vontade, em decorrencia
de Seu conselho. Euma ativida-
de pela qual, de momento em
momento, Ele conserva o mundo
em sua existencia.
A manuten~ao, que e geral-
mente vista como a primeira ati-
vidade da providencia, nao e uma
supervisao passiva. 0 ponto nao
e que Ele leva o mundo a existir,
mas que Ele faz com que o mun-
do exista. Isso e manuten~ao no
sentido verdadeiro da palavra.
Muito lindamente o Catecismo de
Heidelberg descreve essa provi-
dencia como "o poder Todo Po-
deroso e sempre presente de
Deus, pelo qual Ele sustenta o
ceu, a terrae todas as Suas criatu-
ras". Virtude, for~a e poder pro-
cedem de Deus, saem dele, fazen-
do com que o mundo continue a
existir, da mesma forma que fez
com que ele fosse criado. Sem re-
ceber essa for~a nenhuma criatu-
ra pode existir nem sequer por
urn momento. No momento em
que Deus removesse Sua mao e
suspendesse o envio de Sua for-
~a, a criatura seria reduzida a
nada. Nada vern aexistencia, nem
A CmA<;:Ao E A PROVIDENCIA
permanece existindo sem que
Deus envie Sua Palavra e Seu Es-
pfrito (Sl104.30; 107.25). Somente
Deus fala, age e quer por Si mes-
mo.
A for<;a de Deus nao vern de
longe, mas de perto; ela e uma
for<;a onipresente. Deus esta pre-
sente com todas as Suas excelen-
cias e com todo o Seu Ser em todo
o mundo e em todas as Suas cria-
turas. Nele n6s vivemos, nos mo-
vemos e existimos (At 17.28). Ele
nao esta longe de quem quer que
seja (At 17.27). Ele e urn Deus pro-
ximo, nao urn Deus distante. Nin-
guem pode se esconder em luga-
res tao secretos que Deus nao pos-
sa encontra-lo. Ele enche os ceus
e a terra (Jr 23.23,24). Quem po-
deria fugir de Seu Espfrito, ou sair
de Sua presen<;a? Ele esta no ceu
e no reino dos mortos, nas partes
mais profundas do mare nas mais
densas trevas (Sl 139.7 ss.). Sua
manuten<;ao, Seu poder susten-
tador, estende-se a todas as cria-
turas: aos lirios do campo (Mt
6.28), as aves no ceu (Mt 6.26), e
ate aos fios de cabelo da cabe<;a
(Mt 10.30). Toda criatura existe de
acordo com sua natureza - como
ela existe equal a dura<;ao de sua
existencia - atraves do poder de
Deus. Da mesma forma que tudo
procede dEle, tudo procede atra-
c'es dEle (Rm 11.36). 0 Filho, atra-
Yes de quem Deus fez o mundo,
continua a sustentar todas as coi-
sas pela Palavra de Seu poder (Hb
193
1.2,3). Ele e antes de todas as coi-
sas, e nEle tudo subsiste (Cl1.17)
e todas as coisas sao criadas e
renovadas pelo Seu Espfrito (Sl
104.30).
* * * * *
Por causa desse estreito re-
lacionamento entre a cria<;ao e a
providencia, a providencia e, as
vezes, chamada de continua<;ao
da cria<;ao ou cria<;ao progressiva.
Essa designa<;ao pode ser enten-
dida em urn sentido positivo; con-
tudo, n6s devemos nos prevenir
contra o erro. Com a mesma seri-
edade com que n6s insistimos em
manter a conexao e a rela<;ao en-
tre a cria<;ao e a providencia n6s
devemos tambem manter a distin-
<;ao entre as duas. Se ao negar essa
conexao n6s serfamos envolvidos
em urn defsmo (cren<;a em Deus
sem a revela<;ao), ao negar essa
distin<;ao n6s seriamos envolvi-
dos em uma especie de pan-
teismo. 0 panteismo mantem a
posi<;ao de que a diferen<;a em
especie entre Deus eo mundo foi
apagada e os dois sao considera-
dos identicos urn ao outro, ou me-
lhor, dois lados de urn mesmo ser.
Dessa forma Deus e considerado
a essencia do mundo eo mundo
e considerado a manifesta<;ao de
Deus. A rela<;ao entre Deus e o
mundo e como a do oceano e as
ondas, a realidade e as formas da
realidade, os lados visivel e invi-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sivel do mesmo universo.
A Escritura evita essa here-
sia muito cuidadosamente, como
faz com o deismo. Eevidente o
fato de que Deus esta presente
nao meramente como urn artesao
no comec;o da criac;ao, mas tam-
bern como urn lapidador da obra
da criac;ao103
. Na criac;ao a obra e
realizada e completa. Como foi
demonstrado acima, o descanso
de Deus nao e urn abandono de
toda a obra, pois a providencia
tambem e uma obra (Jo 5.17). Mas
e 0 abandono de urn tipo esped-
fico de obra destinada acriac;ao.
E se a criac;ao e a providencia po-
dem ser pensadas como estando
pr6ximas uma da outra no relaci-
onamento de trabalho e descanso,
entao nao pode haver duvida de
que, apesar de estarem intima-
mente relacionadas, elas sao dis-
tintas. A criac;ao e a chamada de
algo aexistencia e a manutenc;ao
e a causa pela qual o que foi cria-
do permanece existindo. Portan-
to, a criaao nao faz com que o
mundo seja independente, pois
uma criatura independente e uma
contradic;ao de termos, mas faz
com que o mundo seja uma essen-
cia distinta da essencia de Deus.
Nao e meramente em nome e em
forma que Deus e o mundo sao
distintos urn do outro, mas em
essencia, em ser. Eles diferem
como o tempo difere da eternida-
103
Cn 2.2; Ex 20.11; 31.17.
194
de, como o infinito difere do finito,
como o Criador difere da criatu-
ra.
Eda mais alta importancia
que nos apeguemos a essa dife-
rena em essencia entre Deus eo
mundo. Quem quer que deprecie
ou negue essa distinc;:ao esta fal-
sificando a religiao, puxando
Deus para o nivel da criatura e em
prindpio torna-se culpado do
mesmo pecado que Paulo atribui
aos pagaos quando diz que eles,
tendo conhecimento de Deus, nao
o glorificaram como Deus, nem
lhe deram grac;as (Rm 1.21). Mas
ha uma considerac;ao que faz com
que essa distinc;ao seja necessaria.
Se Deus for identico ao mun-
do, e, portanto, tambem indistin-
to da raa humana, entao todo
pensamento e ato do homem te-
ria que ser direta e imediatamen-
te transferido para a responsabi-
lidade de Deus. Dessa forma o
pecado tambem seria da respon-
sabilidade de Deus- em resumo,
nao haveria algo como o pecado.
Everdade que a Escritura, por urn
lado, forc;osamente afirma que o
homem, com todos os seus pen-
samentos e atos e tambem com
todos os seus pecados, esta sob o
dominio de Deus. 0 homem nun-
ca e independente de Deus. 0 Se-
nhor olha dos ceus; ve todos OS
filhos dos homens (Sl 33.13). Ele
forma o corac;ao de todos eles e
A CRrA<;:Ao EA PRovroi'NcrA
contempla todas as suas obras (Sl
33.15). Ele determina o lugar da
sua morada (Dt 32.8; At 17.26). Ele
pondera todas as veredas dos ho-
mens (Pv 5.21; Jr 10.23). Ele age de
acordo com a Sua vontade com os
exercitos dos ceus e entre OSha-
bitantes da terra (Dn 4.35). N6s
estamos em Suas maos como urn
vaso de barro, e Ele faz conosco o
que quiser104
. Quando o homem
se torna urn pecador ele nao se
emancipa de Deus. Sua depen-
dencia de Deus simplesmente
muda de cara.ter. Ele perde sua
natureza morale racional e se tor-
na uma criatura cafda. 0 homem
que se torna urn escravo do peca-
do, se desvaloriza e se torna urn
instrumento em suas maos. For-
tanto, e possfvel que a Escritura
diga que Deus endurece o cora-
c;ao dos homens105
, que Ele poe
urn espfrito de mentira na boca
dos profetas (2 Sm 24.1; 1Cr 21.1),
que Ele ruanda que Simei amal-
dic;oe Davi (2 Sm 16.10), que Ele
entrega OS homens a imundfcie
de seus pecados (Rm 1.24), que
Ele ruanda aos homens a opera-
c;ao do erro, para que eles se en-
treguem a mentira (2 Ts 2.11), e
que Ele envia Cristo para a rufna
de muitos (Lc 2.34).
Contudo, independente do
fato de que a providencia de Deus
vigia tambem o pecado, a Escri-
104
Is 29.16; 45.9; Jr 18.4; Rm 9.20,21.
105
Ex 4.21 ss.; Dt 2.30; ]s 11.20; Rm 9.18.
195
tura tambem firme e resolutamen-
te afirma que a causa dos pecados
nao esta em Deus e que deve ser
creditada nao a Deus, mas ao ho-
mem. 0 Senhor e justo e santo e
esta distante de toda iniquidade
(Dt 32.4; J6 34.10). Ele e a luz que
dissipa as trevas (1Jo 1.5). Ele nao
tenta o homem (Tg 1.13). Ele e a
fonte transbordante de todo o
berne de toda a pureza (Sl36.10;
Tg 1.17). Ele profue o pecado em
Sua lei (Ex 20) e na consciencia do
homem (Rm 2.14,15), aborrece os
que andam na iniqtiidade (Sl 5.5)
e se revela dos ceus contra toda a
impiedade e perversao dos ho-
mens (Rm 1.18) e aplica puni6es
temporais e eternas (Rm 2.8).
Essas duas linhas das Sagra-
das Escrituras, de acordo com as
quais o pecado, do comeo ao fim,
esta debaixo do governo de Deus
e ao mesmo tempo deve ser lan-
ado na conta do homem, s6 po-
dem ser conciliadas se Deus e o
mundo, por urn lado, nao forem
separados urn do outro e, por
outro lado, forem essencialmente
distintos urn do outro. A teologia
se encarrega de fazer isso quan-
do, com relaao aprovidencia de
Deus, ela fala nao apenas de ma-
nutenr;ao, mas tambem de coopera-
r;ao. Com esse termo a teologia faz
justic;a ao fato de que Deus e a pri-
meira causa de tudo o que aconte-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ce, mas que sob Ele e atraves dEle
as criaturas sao ativas como cau-
sas secundarias, cooperando com a
primeira. N6s podemos falar de
tais causas secundarias ate mes-
mo com referenda as criaturas
inanimadas, pois apesar de ser
verdade que Deus faz nascer o sol
sobre maus e bons e faz vir a chu-
va sobre justos e injustos (Mt
5.45), tambem e verdade que Ele
faz uso do sol e das nuvens em
certas ocasioes. Mas a distin<;ao
feita aqui, diz muito mais respei-
to as criaturas racionais, pois es-
sas criaturas receberam das maos
de Deus uma razao e uma vonta-
de e devem usa-las para guiar-se
e orientar-se. Everdade que nes-
sas criaturas racionais toda a exis-
tencia e toda a vida, todo o talen-
to e toda a for<;a, sao derivados de
Deus, e que, independente de
como esses talentos e essa for<;a
sao usados, eles permanecem sob
o governo da providencia de
Deus. Da mesma forma, ha uma
distin<;ao a ser feita entre a primei-
ra e a segunda causa, entre Deus
e o homem. Exatamente como ao
fazer o bern e Deus que, de acor-
do com seu beneplacito, agee re-
aliza Sua vontade, o homem tam-
bern tern vontades e age. Deus
concede a vida e a energia para
isso tambem, mas e 0 homem, e
somente o homem, que comete o
pecado e que e culpado por ele.
N6s, simplesmente nao podemos
resolver o enigma que nose apre-
196
sentado na providencia de Deus
nessa vida, mas a confissao de
que Deus e o mundo nunca po-
dem ser separados mas devem
ser diferenciados, aponta a dire-
<;ao na qual a solu<;ao deve ser
procurada e evita que n6s nos
desviemos para a esquerda ou
para a direita em nossa pesquisa.
*****
Entendida dessa forma, a
doutrina da cria<;ao e da providen-
cia e rica em encorajamento e con-
forto. Ha muitas situa<;oes na vida
que sao opressivas e que nos rou-
bam a for<;a para pensar e agir. Ha
as adversidades e os desaponta-
mentos que n6s encontramos pe-
los caminhos da vida. Ha aquelas
terriveis calamidades e desastres
que fazem com que centenas e
milhares de vidas se percam em
urn sofrimento anonimo. Mas a
vida em seu curso ordinaria, tam-
bern pode levantar duvidas em
nossa mente sobre a providencia
de Deus. Nao e urn misterio o
quinhao de toda a humanidade?
0 verme da inquieta<;ao e do
medo corr6i toda a existencia. Nao
e verdade que Deus tern uma rixa
com Suas criaturas e que n6s pe-
recemos em Sua ira e somos ater-
rorizados pela Sua c6lera? Nao,
nao sao apenas os incredulos e os
frivolos, mas tambem os filhos de
Deus, e esses mais profundamen-
te que os outros, que sofrem sob
A CRIA<;:AO E A PROVIDENCIA
a terrivel seriedade da realidade.
E em algumas ocasi6es a questao
forc;a passagem do corac;ao para
os labios: Pode ser verdade que
Deus criou o homem e a terra para
nada?
Mas nesse ponto, o cristao
desapontado pela fe na criac;ao e
na providencia de Deus nova-
mente levanta sua cabec;a. Nao o
diabo, mas Deus, o Todo-Podero-
so, o Pai de nosso Senhor Jesus
Cristo, criou o mundo. 0 mundo
eem sua inteireza e em suas par-
tes uma obra das maos de Deus e
somente das maos de Deus. De-
pais de criar o mundo, Deus nao
o abandonou. Ele o sustenta com
Seu poder infinito e onipresente.
Ele governa e rege todas as coi-
sas de tal forma que todas elas co-
operam e convergem para o cum-
primento do prop6sito que Ele
mesrno estabeleceu. A providen-
cia de Deus inclui, juntamente
com a manutenc;ao e a cooperac;ao,
urn terceiro aspecto, chamado go-
·cerno. Ele eo Rei dos reis e Senhor
dos senhores (1 Tm 6.15; Ap 19.6)
e Seu reino dura por toda a eter-
nidade (1Tm 1.17). Nao e urn aci-
dente, nem uma necessidade,
nem uma arbitrariedade, nem
uma forc;a, nem urn mero capri-
cho, nem urn destino de ferro que
controla o mundo e sua hist6ria e
a Yida e toda a humanidade. Atras
das causas secundarias esconde-
se e age o desejo todo poderoso
jo Deus Todo-Poderoso e do Pai.
197
Eclaro que ninguem pode
crer realmente nisso com seu co-
rac;ao e confessar com sua boca, a
nao ser que a pessoa seja urn fi-
lho de Deus. A fe na providencia
tern urn relacionamento muito
proximo e muito profunda com a
fe, na redenc;ao.
De fato, a providencia de
Deus pertence aquelas verdades
que em certa medida podem ser
discernidas pela revelac;ao geral
na natureza e na hist6ria. Alguns
pagaos tern expressado e descri-
to a providencia de urn modo
muito bonito. Urn deles disse que
os deuses veern e ouvem tudo,
que eles sao onipresentes e que
cuidam de todas as coisas. Urn
outro disse que a ordem e o ar-
ranjo do universo sao mantidos
por Deus e em considerac;ao a Si
mesmo. Mas nenhum deles sabia,
a confissao do cristao, de que esse
Deus que mantem e governa to-
das as coisas eo seu Deus e seu
Pai por causa da obra de Cristo.
A fe na providencia de Deus foi
consequentemente abalada pela
duvida no mundo pagao e pro-
vou ser inadequada em virtude
das vicissitudes da vida. 0 secu-
lo dezoito foi muito otimista e
afirmou que Deus criou o melhor
de todos os mundos possiveis.
Mas quando no anode 1755 a ci-
dade de Lisboa foi destruida por
urn terrivel terrernoto, rnuitos co-
mec;aram a blasfemar contra a
existencia de Deus e a negar Sua
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
existencia. Mas o cristao, que ex-
perimentou o amor de Deus no
perdao de pecados e na redenc;ao
de sua alma, esbi seguro e afirma
com o apostolo Paulo que nem
tribulac;ao, nem angustia, nem
perseguic;ao, nem fome, nem nu-
dez, nem perigo, nem espada
pode separa-lo do amor de Cris-
to (Rm 8.35). Se Deus epor nos,
quem sera contra nos? (Rm 8.31).
Ainda que a figueira nao flores-
c;a, nem haja fruto na vide; o pro-
198
duto da oliveira minta, e os cam-
pos nao produzam mantimento;
as ovelhas sejam arrebatadas do
aprisco, e nos currais nao haja
gado, todavia, eu me alegro no
Senhor, exulto no Deus da minha
salvac;ao (He 3.17)8).
Com tal alegria de corac;ao,
o cristao convida toda a terra a
louvar o Senhor: Reina o Senhor.
Regozije-se a terra, alegrem-se as
muitas ilhas (Sl 97.1).
CAPITULO
11~
A ORIGEM, A EssE:NCIA E o
PRoP6SITO no HoMEM
0
registro da origem do o2u
e da terra no primeiro ca-
pitulo de Genesis conver-
ge para a cria<;:ao do homem. A
cria<;:ao das outras criaturas1 do
ceu e da terra/ do sot da lua e das
estrelas/ das plantas e dos ani-
mais/ e registrada em breves pa-
lavras e nao se faz men<;:ao de toda
a cria<;:ao dos anjos. Mas quando
a Escritura menciona a cria<;:ao do
homem ela o faz demoradamente/
descrevendo nao apenas 0 fato/
mas tambem a maneira pela qual
ele foi criado e volta ao assunto
para maiores considera<;:5es1 no
segundo capitulo.
Essa especial aten<;:ao dedi-
cada a origem do homem serve
como evidencia de que o homem
e 0 prop6sito e 0 fim/ a cabe<;:a e a
coroa de toda a obra de cria<;:ao.
Ha varios detalhes materiais que
199
tambem iluminam a categoria su-
perior e o valor do homem entre
as demais criaturas.
Em primeiro lugar ha o es-
pecial conselho de Deus que pre-
cede a cria<;:ao do homem. Ao cha-
mar aexistencia as outras criatu-
ras/ n6s lemos simplesmente que
Deus falou e essa fala de Deus
trouxe-as aexistencia. Mas quan-
do Deus esta prestes a criar o ho-
mem Ele primeiro conferencia
consigo mesmo e decide fazer o
homem a Sua imagem e seme-
lhan<;:a. Isso indica que especial-
mente a cria<;:ao do homem repou-
sa sobre a delibera<;:ao/ sobre a
sabedoria1 bondade e onipotencia
de Deus. Nenhuma maldi<;:ao veio
aexistencia por acaso. 0 conselho
e a decisao de Deus sao mais cla-
ramente manifestos na cria<;:ao do
homem do que na cria<;:ao de to-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
das as outras criaturas.
Alem disso, nesse conselho
particular de Deus a enfase espe-
cial ecolocada no fato de que 0
homem ecriado segundo a ima-
gem e semelhan<;:a de Deus e, por-
tanto, possui urn relacionamento
com Deus totalmente diferente da-
quele que as demais criaturas
possuem. Sobre nenhuma outra
criatura edito, nem sobre os an-
jos, que eles foram criados a ima-
gem de Deus e que exibem essa
imagem. Eles podem possuir al-
guns vestigios e indica<;:6es de urn
ou de alguns atributos de Deus,
mas somente sobre o homem se
diz que foi criado a imagem e se-
melhan<;:a de Deus.
A Escritura enfatiza que
Deus criou nao urn homem, mas
OS homens, a Sua imagem e seme-
lhan<;:a. Na conclusao de Genesis
1.27 eles sao designados como
macho e femea. Nao foi apenas o
homem, nem apenas a mulher,
mas os dois, em sua interdepen-
dencia, que foram criados a ima-
gem de Deus. E, de acordo com a
ben<;:ao que foi pronunciada sobre
eles no verskulo 28, eles sao por-
tadores dessa imagem nao so-
mente em, e para si mesmos. Eles
sao portadores dessa imagem
tambem em sua posteridade. A
ra<;:a humana, em cada uma de
suas partes e em seu conjunto, e
organicamente criada a imagem e
semelhan<;:a de Deus.
Finalmente, a Escritura ex-
200
pressamente menciona que essa
cria<;:ao do homem a imagem de
Deus deve expressar-se especial-
mente em seu dominio sobre to-
dos os seres vivos e na sujei<;:ao
ao Senhor de toda a terra. 0 ho-
mem e0 rei da terra porque ele e
o filho ou a gera<;:ao de Deus. Ser
filhos de Deus e herdeiros do
mundo sao duas coisas estreita-
mente relacionadas uma com a
outra e inseparavelmente unidas
na cria<;:ao.
* * * * *
0 registro da cria<;:ao do ho-
mem no primeiro capitulo de
Genesis eelaborado e ampliado
no segundo capitulo (Gn 2.4b-25).
Esse segundo capitulo de Genesis
e, as vezes, equivocadamente de-
signado a segunda hist6ria da cri-
a<;:ao. Isso e errado porque a cria-
<;:ao do ceu e da terra e pressupos-
ta nesse capitulo e e mencionada
no versiculo 4b para introduzir a
maneira pela qual Deus formou
o homem do p6 da terra. Toda a
enfase nesse segundo capitulo cai
sobre a cria<;:ao do homem e so-
bre a forma pela qual ela aconte-
ceu. A grande diferen<;:a entre o
primeiro e o segundo capitulo de
Genesis esta nos detalhes menci-
onados no segundo capitulo refe-
rentes a forma<;:ao do homem.
0 primeiro capitulo fala da
cria<;:ao do ceu e da terra e depois
se dirige para a cria<;:ao do ho-
A ORIGEM, A Essf:NCIA Eo PRor6siTo Do HoMEM
mem. Nesse capitulo o homem e
a ultima criatura chamada aexis-
tencia pela onipotencia de Deus.
Ele esta no fim da serie de criatu-
ras, como o senhor da natureza, o
rei da terra. Mas o segundo capi-
tulo, de Genesis 2.4b em diante,
come<;a com o homem, procede
dele como ponto de partida, co-
loca-o como o centro da cria<;ao e
entao relata o que aconteceu na
cria<;ao do homem, como ele re-
cebeu essa posi<;ao de destaque,
qual morada foi designada para
ele, que voca<;ao lhe foi confiada
e qual era o seu destino e prop6-
sito. 0 primeiro capitulo apresen-
ta o homem como o fim ou pro-
p6sito da cria<;ao; o segundo apre-
senta-o como o come<;o da hist6-
ria. 0 conteudo do primeiro ca-
pitulo pode ser resumido na pa-
lavra criac;iio, e o segundo capitu-
lo pode ser resumido na palavra
paraiso.
Ha tres aspectos particula-
res que sao mencionados nesse
segundo capitulo referentes aori-
gem do homem e que servem
como elabora<;ao de tudo o que
esta contido no capitulo urn.
Em primeiro lugar ha urn
tratamento consideravelmente
longo sobre a primeira morada do
homem. 0 primeiro capitulo sim-
plesmente afirma em termos ge-
rais que 0 homem foi criado a
imagem de Deus e que foi nome-
ado senhor de toda a terra, mas
nao da pistas do lugar na face do
201
globo em que o homem viu a luz
da vida e onde ele viveu. Mas n6s
somos informados sobre isso no
segundo capitulo. Quando Deus
fez OS ceus e a terra e quando Ele
criou o sol, a lua, as estrelas, as
plantas e as aves, os animais da
terrae OS animais das aguas, ne-
nhum lugar especifico tinha sido
separado para ser a morada do
homem. Portanto Deus da urn in-
tervalo antes de criar o homem e
prepara para ele urn jardim ou
paraiso no Eden, a leste da Pales-
tina. Esse jardim e organizado de
uma forma especial. Deus planta
todos os tipos de arvores nesse
jardim- arvores agradaveis avis-
ta e de bons frutos. Duas dessas
arvores sao chamadas pelo nome,
a arvore da vida, plantada no
meio do jardim e tambem a arvo-
re do conhecimento do bern e do
mal. 0 jardim foi preparado de tal
forma que urn rio que tinha sua
nascente no proprio jardim fluia
atraves dele e dividia-se em qua-
tro bra<;os, a saber, Pisom, Giom,
Tigre e Eufrates.
Urn grande esfon;o tern sido
realizado atraves dos seculos
para se tentar determinar a locali-
za<;ao do jardim do Eden. varias
representa<;5es tern sido apresen-
tadas sobre o rio que nascia no
Eden e fluia atraves do jardim,
sobre os outros quatro rios que
eram formados por ele, sobre o
nome do territ6rio do Eden e so-
bre o jardim dentro desse territ6-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
rio. Mas todas essas representa-
<_;:6es sao apenas conjecturas. Nin-
guem conseguiu apresentar uma
prova concreta. Todavia, ha duas
representa<_;:6es que parecem me-
recer a nossa preferencia. A pri-
meira e a representa<_;:ao segundo
a qual o Eden estava localizado
ao norte da Armenia. A segunda
diz que a localiza<_;:ao correta do
Eden e bern mais ao sul da
Armenia, na Babilonia. E diflcil
decidir entre essas duas. Os deta-
lhes fornecidos pela Escritura nao
sao suficientes para determinar
exatamente onde ficava o Eden.
Contudo, quando n6s observa-
mos que o povo que descendeu
de Adao e Eva, depois que eles
foram banidos do paraiso, perma-
neceu nas proximidades do Eden
(Gn 4.16) e que a area de Noe, de-
pois do diluvio, ficou encalhada
no cume do monte Ararate (Gn
8.4) e que a humanidade depois
do diluvio espalhou-se pela ter-
ra, a partir de Babel (Gn 11.8,9),
dificilmente pode haver duvida
de que o ber<_;:o da humanidade
ficava na area compreendida en-
tre a Armenia, ao norte, e Sinear,
ao sul. Nos tempos modernos os
eruditos come<_;:aram a refor<_;:ar
esse ensino da Escritura. No pas-
sado a investiga<_;:ao hist6rica fez
todo tipo de suposi<_;:6es sobre o
lar original da humanidade, pro-
curando-o por todas as partes da
terra, mas sempre voltando pelas
suas pr6prias pegadas. A
202
Etnologia, a hist6ria da civiliza-
<_;:ao e a filologia apontam a Asia
como o continente que serviu de
ber<_;:o para a humanidade.
Urn segundo fato que atrai
nossa aten<_;:ao, em Genesis 2 e a
ordem probat6ria dada ao ho-
mem. Originariamente o primei-
ro homem foi chamado simples-
mente de o homem (ha-adam) por-
que ele estava sozinho e ninguem
havia que fosse semelhante a ele.
E somente em Genesis 4.25 que o
nome Adao aparece sem o artigo
definido. 0 nome geral tinha se
tornado urn nome pessoal. Isso
indica claramente que o primeiro
homem, que ate entao era o unico
ser humano, foi a origem de toda
a ra<_;:a humana. Como tal ele rece-
beu uma tarefa dupla para reali-
zar: primeiro, a de cultivar e pre-
servar o jardim do Eden, e, segun-
do, comer livremente de todas as
arvores do jardim, exceto da ar-
vore do conhecimento do bern e
do mal.
A primeira tarefa define seu
relacionamento com a terra, en-
quanto a segunda define seu re-
lacionamento como ceu. Adao ti-
nha que subjugar a terra e
domina-la, e isso devia ser feito
em urn sentido duplo: ele tinha
que cultiva-la, e assim extrair dela
todos os tesouros que Deus tinha
reservado para o uso humano; e
ele tinha que vigiar a terra,
protege-la contra todo o mal que
pudesse amea<_;:a-la, protege-la
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRoP6srro oo HoMEM
contra toda a corrup<;ao em que a
cria<;ao agora geme.
Mas o homem s6 poderia
cumprir sua missao com rela<;ao
aterra se ele nao tivesse quebra-
do a conexao que o unia ao CE:~u,
ou seja, somente se ele continu-
asse a obedecer a Deus. Essa tare-
fa dupla, como podemos obser-
var, e essencialmente uma s6 ta-
refa. Adao deveria dominar toda
a terra, nao ociosa e passivamen-
te, mas atraves do trabalho de sua
mente, de seu cora<;ao e de suas
maos.
E para que isso fosse possi-
vel, ele deveria servir: Ele deve-
ria servir a Deus, que e seu Cria-
dor e Legislador. Trabalho e des-
canso, dominio e servi<;o, voca<;ao
terrena e celestiat civiliza<;ao e
religiao, cultura e culto, esses pa-
res caminham juntos desde o
prindpio. Eles pertencem e estao
contidos na voca<;ao do grande,
santo e glorioso prop6sito do ho-
mem. Toda cultura, isto e, todo
trabalho que ele realiza para sub-
jugar a terra, seja atraves da agri-
cultura, da pecwiria, do comercio,
da industria, da ciencia, ou de
qualquer outra forma, e 0 cumpri-
mento de urn mandato divino.
Mas para que o homem realmen-
te cumpra esse mandato divino
ele tern que depender e obedecer
aPalavra de Deus. A religiao deve
ser o prindpio que anima toda a
vida e que a santifica a servi<;o de
Deus.
Urn terceiro detalhe desse
capitulo 2 de Genesis, e a entrega
da mulher ao homem e a institui-
<;ao do casamento. Adao tinha re-
cebido muito. Apesar deter sido
formado do p6 da terra, o homem
e urn portador da imagem de
Deus. Ele foi colocado no jardim
amorosamente feito por Deus e
que foi suprido com tudo o que
era born para ser contemplado e
comido. Ele foi incumbido de re-
alizar a prazerosa tarefa de vestir
o jardim e subjugar a terra, e para
isso ele tinha apenas que obede-
cer a ordem do Senhor, que era co-
mer livremente de toda arvore do
jardim, menos da arvore do co-
nhecimento do bern e do mal.
Mas apesar de ter sido grande-
mente favorecido e estar muito
agradecido por isso, o primeiro
homem nao estava satisfeito, nao
estava completo. A causa dessa
insatisfa<;ao lhe e indicada pelo
proprio Deus. Essa causa era a sua
necessidade. Nao e born para o
homem ficar s6. Ele nao foi cons-
tituido para isso e nao foi criado
dessa forma. Sua natureza e incli-
nada para a sociabilidade - ele
precisa de companhia. Ele deve
ser capaz de expressar-se, revelar-
se e dar-se. Ele deve ter oportuni-
dade de despejar seu cora<;ao, dar
forma aos seus sentimentos. Ele
deve poder dividir sua experien-
cia de vida com outro ser que pos-
sa entende-lo e possa sentir e vi-
ver ao seu lado. A solicitude e
205
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
miseria, abandono, degradac;ao e
perda.
E aquele que criou o homem
dessa forma, com esse tipo de ne-
cessidade de expressao e exten-
sao s6 pode decidir-se por suprir
essa necessidade na grandeza e na
Grac;a de Seu poder. 0 Criador s6
pode criar para ele uma auxi-
liadora que lhe seja idonea, que
se relacione com ele e que forme
urn conjunto com ele, como sua
companheira. 0 texto nos diz nos
versiculos 19 a 21, que Deus fez
todas as feras do campo e todas
as aves dos ceus e trouxe-as a
Adao para verse dentre todas es-
sas criaturas haveria algum ser
que pudesse servir como compa-
nhia e auxllio para ele. 0 prop6-
sito desses versiculos nao e indi-
car a ordem cronol6gica na qual
os animais e os homens foram fei-
tos, mas indicar a ordem materi-
at a categoria, os graus de relaci-
onamento no qual os dois tipos de
criaturas estao urn em relac;ao ao
outro. Esse relacionamento entre
as categorias e indicado claramen-
te no fato de Adao ter dado nome
aos animais.
Adao, portanto, entendeu
todas as criaturas, penetrou em
sua natureza e assim p6de
classifica-las e subdividi-las, e fi-
xar para cada uma delas o lugar
em todo o Eden que seria habita-
do por elas. Se ele nao descobriu
urn ser entre todas as criaturas
que pudesse relacionar-se consi-
204
go isso nao foi conseqi.iencia de
ignorancia, nem de arrogancia ou
orgulho; isso se deve ao fato de
que ha uma diferenc;a em especie
entre Adao e todas as outras cria-
turas, ou seja, uma diferenc;a nao
meramente de grau, mas de es-
sencia. De fato, existem varias cor-
respondencias entre o animal e o
homem: ambos sao seres fisicos,
ambos possuem todos os tipos de
necessidade e desejo de comida
e bebida, ambos geram descen-
dencia, ambos possuem os cinco
sentidos (olfato, tato, paladar, vi-
sao e audic;ao) e ambos comparti-
lham das atividades de cognic;ao,
experiencia, e percepc;ao. Todavia
0 homem e diferente do animal.
0 homem possui razao, entendi-
mento e vontade, e conseqi.iente-
mente possui religiao, morali-
dade, linguagem, lei, ciencia e
arte. Ele foi formado do p6 da
terra, mas recebeu de Deus o £6-
lego da vida. Ele e urn ser fisico,
mas tambem e urn ser espiritual,
racional, e moral. E foi por isso
que Adao nao encontrou uma cri-
atura sequer entre todas as cria-
turas de Deus que pudesse rela-
cionar-se consigo e fazer-lhe com-
panhia. Ele deu nome a todas as
criaturas, mas nenhuma delas me-
receu o exaltado e real nome de
ser humano.
0 homem nao encontrou o
que procurava, e totalmente inde-
pendente do engenho e do dese-
jo de Adao e sem qualquer esfor-
A ORIGEM, A Essf:NCIA E o PROP6sno oo HoMEM
<;o contributivo por parte dele,
Deus lhe deu o que por si mesmo
ele nao pode obter. As melhores
coisas que recebemos sao dadivas
de Deus. Elas caem em nosso colo
sem labor e sem pre<;o. N6s nao
as conquistamos nem as alcan<;a-
mos: n6s as obtemos do nada. A
mais rica e mais preciosa dadiva
que pode ser concedida ao ho-
mem nessa terra, e a mulher. E
essa dadiva ele recebe em urn
sono profundo, quando esta in-
consciente e sem qualquer esfor-
<;o ou trabalho de suas maos. De
fato, a procura eo senso de neces-
sidade precederam essa dadiva,
e isso levou-o a orar. Deus conce-
deu-lhe essa dadiva de forma so-
berana, sem a ajuda humana.
Deus conduziu a mulher ate o
homem pelas Suas pr6prias maos.
A primeira emo<;ao, logo
ap6s Adao abrir os olhos e ver a
mulher a sua frente, foi de espan-
to e gratidao. Ele nao se sentiu urn
estranho diante dela, mas reco-
nheceu-a imediatamente como
urn ser que possui a mesma natu-
reza que ele mesmo. Ele a reco-
nheceu como aquilo de que tinha
falta e necessidade, mas que ele
mesmo nao podia suprir. E seu
espanto se expressa no primeiro
hino de casamento que foi canta-
do sobre a face da terra: "Esta e
osso dos meus ossos e carne da
minha carne; chamar-se-a varoa,
porquanto do varao foi tomada".
Adao continuou sendo a fonte e
205
cabe<;a da ra<;a humana. A mulher
nao foi meramente criada ao lado
de Adao, mas foi criada a partir do
homem (lCo 11.8). Assim como o
material utilizado para a cria<;ao
de Adao foi tirado da terra, da
mesma forma a costela de Adao
foi a base para a vida de Eva. As-
sim como do p6 da terra o primei-
ro homem tornou-se urn ser vivo
ao receber de Deus o folego da
vida, da mesma forma, da costela
de Adao a primeira mulher tor-
nou-se urn ser vivo pela onipoten-
cia criativa de Deus. Eva foi feita
a partir de Adao e tornou-se urn
ser vivo independente de Adao.
Ela relacionava-se com ele e ao
mesmo tempo era diferente dele.
Ela pertence a mesma especie,
mas dentro dessa especie ela ocu-
pa o seu proprio lugar. Ela e de-
pendente e ao mesmo tempo e li-
vre. Ela veio depois de Adao e foi
feita apartir de Adao, mas deve sua
existencia exclusivamente a Deus.
E dessa forma ela ajuda o homem
a cumprir sua voca<;ao de sujeitar
a terra. Ela euma ajudadora, nao
uma amante ou muito menos uma
escrava, mas urn ser livre, inde-
pendente e individual, que rece-
beu sua existencia nao do homem,
mas de Deus, que deve prestar
contas a Deus e que foi concedi-
da ao homem como uma dadiva
gratuita e imerecida.
* * * * *
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Assim a Escritura registra a
origem do homem, tanto do ma-
cho quanto da femea. Esse e seu
ensino sobre a institui<;ao do ca-
samento e o come<;o da ra<;a hu-
mana. Em nossos dias uma forte
rejei<;ao e feita a esse ensino, e essa
rejei<;ao e feita em nome da cien-
cia e alegadamente com a autori-
dade da ciencia. E como essa re-
jei<;ao tern penetrado cada vez
mais na massa popular, e neces-
saria que prestemos aten<;ao a ela
por alguns momentos, como fim
de destruir as bases sobre as quais
ela repousa.
Se uma pessoa repudia o
registro biblico sobre a origem da
ra<;a humana, e claro que torna-se
necessaria que essa pessoa apre-
sente algum outro registro para
essa origem. 0 homem existe e
ninguem pode deixar de dar sua
resposta aquestao da sua propria
origem. Se ele nao deve sua ori-
gem a onipotencia criativa de
Deus, ele deve essa existencia a
alguma outra coisa. E entao nao
resta outra op<;ao a nao ser dizer
que o homem gradualmente se
desenvolveu a partir de antigos
seres inferiores e evoluiu ate a sua
presente condi<;ao elevada entre
os demais seres. A evolur;ao e, por-
tanto, a palavra magica que em
nossos dias deve de alguma for-
ma resolver todos os problemas
sobre a origem e a essencia de to-
das as criaturas. Naturalmente, a
partir do momento em que o en-
206
sino da cria<;ao e repudiadoI OS
evolucionistas sao for<;ados a
aceitar que alguma coisa existiu
no come<;o de tudo, pois o nada
s6 pode gerar o nada. Os
evolucionistas, diante desse fato,
elaboraram uma suposi<;ao com-
pletamente arbitraria e impossfvel
de que a materia, a energia e o
movimento existiam eternamente.
A isso eles acrescentam que, an-
tes que o nosso sistema solar vi-
esse aexistencia, o mundo consis-
tia somente de uma ca6tica mas-
sa gasosa. Esse foi o ponto de par-
tida que gradualmente resultou
em nosso presente mundo e em
todas as suas criaturas. Foi atra-
ves da evolu<;aO que 0 sistema
solar eo mundo vieram aexisten-
cia. Atraves da evolu<;ao os seres
animados surgiram a partir de
seres inanimados, em urn proces-
so que durou series sem fim de
anos. Pela evolw;ao, plantas, ani-
mais e homens passaram a exis-
tir. E dentro dos limites humanos,
foi tambem atraves da evolu<;ao
que a diferencia<;ao sexual, o ca-
samento, a familia, a sociedade, o
estado, a linguagem, a religiao, a
moralidade, a lei, a ciencia, a arte
e todos os outros valores da civi-
liza<;ao passaram a existir. Se al-
guem acredita nessa suposi<;ao de
que a materia e a energia e o mo-
vimento existiam eternamente,
logicamente nao ha necessidade
da existencia de Deus. 0 mundo
torna-se auto explicativo. A cien-
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
cia, segundo se ere, faz com que
Deus seja totalmente desnecessa-
no.
A teoria da evolw;ao desen-
volveu essa ideia da origem do
homem da seguinte forma: Quan-
do a terra era gelada ela se tornou
adequada para o surgimento de
criaturas vivas, e a vida se desen-
volveu sob circunstancias muito
peculiares, possivelmente de tal
forma que as primeiras combina-
<;5es de proteinas albumin6ides
se formaram e, afetadas por vari-
as influencias, desenvolveram
varias propriedades, e essas pro-
teinas atraves da combina<;ao e
mistura umas com as outras de-
ram origem ao protoplasma, o
primeiro germen da vida. A par-
tir dai come<;ou o desenvolvimen-
to biogenetico, o desenvolvimen-
to dos seres vivos. Esse processo
pode ter levado centenas de mi-
lhoes de anos.
Esse protoplasma formado
pelo nucleo das proteinas albu-
min6ides e agora reconhecido
como o constituinte basico de to-
dos os seres vivos, seja das plan-
tas, dos animais ou do homem.
Isso significa que os protozoarios
unicelulares sao os mais antigos
organismos vivos. Esses proto-
zoarios, tanto OS m6veis quanto OS
im6veis, desenvolveram-se em
plantas ou em animais. Entre os
animais, a infusoria permaneceu
em baixa escala, mas fora deles
desenvolveu-se gradualmente,
207
atraves de varios estagios inter-
mediarios e transicionais, ate for-
mar os mais elevados tipos de
animais, conhecidos como ani-
mais vertebrados, invertebrados e
moluscos. Os animais vertebra-
dos foram novamente divididos
em quatro classes: peixes, anfibi-
os, aves e mamiferos. Os mamife-
ros foram divididos em outros
tres subgrupos: os onitorrincos
(mamiferos aquaticos e oviparos),
os marsupialS, e os an1ma1s pro-
vidos de placenta; e esses ultimos
novamente foram subdivididos
em roedores, quadrupedes, as fe-
ras predadoras e os primatas. Os
primatas sao classificados em
semi-simios, simios e antro-
p6ides.
Quando n6s comparamos o
organismo fisico do homem com
0 desses varios animais n6s des-
cobrimos, de acordo com os
evolucionistas, que o homem, por
semelhan<;a1 esta mais proximo
dos vertebrados, dos mamiferos,
dos animais providos de placen-
ta e dos primatas, e que, dentre
os primatas, ele se assemelha
mais aos antrop6ides, representa-
dos pelo orangotango e o gibao
na Asia e pelo gorila eo chimpan-
ze na Africa. Portanto, esses ani-
mais devem ser considerados os
mais pr6ximos parentes do ho-
mem. De fato, eles diferem do
homem em tamanho1 em formato
e coisas desse tipo, mas eles se pa-
recem muito como homem em
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sua estrutura fisica basica. Ao
mesmo tempo o homem nao veio
de urn desses tipos de simios que
agora existem, mas de antro-
p6ides ha muito tempo extintos.
De acordo com essa teoria da evo-
lU<;ao, os sfmios e os homens sao
parentes de sangue, pertencem a
mesma ra<;a, mas apesar disso
devem ser considerados sobri-
nhos e sobrinhas e nao irmaos e
irmas.
Essa e a ideia da teoria da
evolw;ao. De acordo com essa te-
oria, esse foi o curso dos aconte-
cimentos. Mas os evolucionistas
tambem dizem algo sobre a for-
ma como isso aconteceu. Ebas-
tante facil dizer que plantas e ani-
mais e homens formam uma con-
tinua e ascendente serie de seres.
Mas os evolucionistas sentiram
ser necessario fazer algo para de-
monstrar que esse desenvolvi-
mento foi realmente possfvel, e
que urn simio, por exemplo, foi
gradualmente transformando-se
em urn homem. Charles Darwin
em 1859 tentou fazer essa de-
monstrac;ao. Ele afirmou que
plantas e animais- rosas e porn-
bas, por exemplo- podiam ser ar-
tificialmente ajudadas a, pela se-
le<;ao natural, exibir significativas
modifica<;oes. Dessa forma ele for-
mulou a ideia de que, na nature-
za, tal sele<;ao natural tambem
deve ter estado em atividade, uma
sele<;ao nao controlada pela inter-
ven<;ao humana, mas inconscien-
208
te, arbitraria e natural. Com esse
pensamento uma luz brilhou so-
bre ele. Ao aceitar essa teoria da
sele<;ao natural, ele julgou poder
explicar, como plantas e animais,
gradualmente foram sofrendo
muta<;oes, como os seres vivos
podem superar defeitos em sua
organizac;ao e dessa forma alcan-
<;ar vantagens, e que dessa forma
os seres vivos constantemente se
equipam cada vez melhor para a
ininterrupta competi<;ao com ou-
tros seres vivos na luta pela exis-
tencia. De acordo com Darwin, a
vida e sempre e em todo lugar
apenas uma luta pela sobreviven-
cia. Ao observarmos superficial-
mente, pode parecer que ha paz
na natureza, mas isso nao passa
de uma aparencia. Ha uma luta
constante pela vida, pois a terra e
pequena demais e escassa demais
para suprir e alimentar todos os
seres. Portanto, milhoes de orga-
nismos perecem por causa de ne-
cessidade; apenas os mais fortes
sobrevivem. Esses mais fortes,
que sao superiores aos outros por
causa de algumas propriedades
que eles desenvolveram, gradu-
almente transferem essas propri-
edades vantajosas a sua posteri-
dade.
Portanto, sempre ha pro-
gresso e desenvolvimento. A se-
le<;ao natural, a luta pela sobrevi-
vencia e a transferencia das velhas
e novas caracterfsticas explicam,
de acordo com Darwin, o surgi-
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRoP6sno DO HoMEM
mento de novas especies e tam-
bern a transi<;:ao do animal para o
homem.
* * * * *
Ao avaliarmos essa teoria da
evolu<;:ao, e necessario acima de
tudo, fazer uma clara distin<;:ao
entre os fatos aos quais ela recorre
e a vistlo filos6fica que os leva em
considera<;:ao. Os fatos sao: que o
homem compartilha todos os ti-
pos de caracteristicas com outros
seres vivos, mais particularmen-
te com os animais mais elevados,
e, entre esses, especialmente com
os simios. Naturalmente, esses
fatos foram, em sua maior parte,
conhecidos tambem por Darwin,
pois a correspondencia na estru-
tura flsica, nos varios 6rgaos do
corpo e em suas atividades, nos
cinco sentidos, nas percep<;:6es e
na consciencia, e em coisas seme-
lhantes, e algo que qualquer pes-
soa pode ver e simplesmente nao
pode ser negado. Mas as ciencias
da anatomia, biologia, fisiologia
e psicologia tern recentemente in-
vestigado essas caracteristicas se-
melhantes com muito mais dedi-
ca<;ao do que no passado. As ca-
racteristicas de semelhan<;:a tern
crescido em mimero e em impor-
tancia. Ha outras ciencias que dao
sua contribui<;ao para confirmar e
estender essas similaridades en-
tre o homem e o animal. A ciencia
da embriologia, por exemplo, in-
209
dicou que o ser humano em seu
desenvolvimento uterino asseme-
lha-se a urn peixe, a urn anflbio e
a urn mamlfero inferior. A
paleontologia, que se ocupa com
o estudo das condic,;oes e das cir-
cunstancias dos tempos antigos,
descobriu indicios humanos - es-
queletos, ossos, cranios, ferramen-
tas, ornamentos - que apontam
para 0 fato de que seculos atras
alguns povos em algumas partes
da terra viviam de uma forma
bern simples. E a etnologia diz
que havia tribos e povos que es-
tavam muito distantes, tanto es-
piritual quanto fisicamente, das
na<;6es civilizadas.
Quando esses fatos, trazidos
de varias partes, tornam-se co-
nhecidos, a filosofia logo se ocu-
pa em combina-los em uma hip6-
tese, a hip6tese da evolu<;:ao gra-
dual de todas as coisas e especifi-
camente, tambem do homem. Essa
hip6tese nao surgiu depois que os
fatos surgiram e nem por causa
deles, mas ja existia ha muito tem-
po atras, foi promovida por vari-
os fil6sofos e foi agora aplicada
aos fatos, alguns dos quais foram
descobertos ha muito pouco tem-
po. A velha hip6tese, a velha teo-
na, agora repousa, como se su-
p6e, firmemente sobre os fatos.
Urn tipo de grito de alegria se le-
vanta devido ao fato de que ago-
ra todos os misterios do mundo,
exceto aquela questao da materia
e da energia, foram resolvidos e
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
todos os segredos foram descober-
tos. Mas dificilmente esse vaido-
so edificio da filosofia evolu-
cionista teria sido construido
quando o ataque sobre ela come-
<;ou e ele come<;ou a desmoronar.
0 Darwinismo, diz urn distinto
fil6sofo, surgiu em 1860, teve seu
apice em 1870, foi questionado
por alguns em 1890 e desde a vi-
rada do seculo tern sido atacado
por muitos.
0 primeiro e mais afiado
ataque foi lan<;ado contra a mate-
ria na qual, de acordo com
Darwin, as varias especies vieram
a existencia. A luta pela existen-
cia e a sele<;ao natural nao sao su-
ficientes para explica-las. De fato,
ha uma luta feroz tanto no mun-
do vegetal quanto no mundo ani-
mal, e essa luta tern uma grande
influencia sobre sua natureza e
existencia. Mas nao se pode pro-
var que essa luta pela sobreviven-
cia fa<;a surgir novas especies.
A luta pela sobrevivencia pode
contribuir para o fortalecimento
de tendencias e habilidades, de
6rgaos e de potencialidades, atra-
ves de exerdcio e esfor<;o. Ela
pode desenvolver o que ja existe,
mas nao pode fazer existir o que
nao existe. Alem disso, e urn exa-
gero, como qualquer pessoa sabe
por experiencia propria, dizer que
sempre e em todo lugar nada exis-
te senao luta.
Ha mais do que 6dio e ani-
mosidade no mundo. Ha tambem
210
amor, coopera<;ao e ajuda. A dou-
trina que diz que nada ha em
qualquer lugar alem de guerra de
todos contra todos e apenas urn
contraponto aparcial e idilica vi-
sao do seculo dezoito, de que
tudo na natureza vive em paz. Ha
lugar para muitos na grande
mesa da natureza, e a terra que
Deus deu para ser a morada do
homem e inesgotavelmente rica.
Conseqiientemente, ha muitos fa-
tos e manifesta<;6es que nada tern
a ver com uma luta pela existen-
cia. Ninguem, por exemplo, pode
dizer o que as cores e figuras da
pele do caramujo, a cor negra do
ventre de varios animais vertebra-
dos, o branqueamento dos cabe-
los como aumento da idade, ou a
queda das folhas no outono tern
a ver com a luta pela existencia.
Tambem nao e verdade que nes-
sa luta os tipos mais fortes sem-
pre e exclusivamente obtem a vi-
t6ria, e que os mais fracos sao
sempre derrotados. Uma assim
chamada coincidencia, uma cir-
cunsHincia fortunada ou afortuna-
da, freqiientemente ridiculariza
todos os nossos calculos. As ve-
zes uma pessoa forte e diminui-
da na for<;a de seus anos, enquan-
to homens e mulheres fisicamen-
te fracos alcan<;am uma idade bern
avan<;:ada.
Tais considera<;6es levaram
urn erudito holandes a substituir
a teoria da sele<;ao natural de
Darwin pela teoria da muta<;ao, de
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
acordo com a qual a mudan<;;a das
especies nao acontece regular e
gradualmente, mas repentina-
mente e atraves de saltos e sobres-
saltos. Mas dessa, a forma a ques-
tao e se essas mudan<;_:as realmen-
te representam novas especies ou
simplesmente modifica<;;oes nas
especies que ja existem. E a res-
posta a essa questao depende da-
quilo que se entende por especi-
es.
Nao apenas a luta pela exis-
tencia, a sele<;;ao naturale a sobre-
vivencia dos mais capazes tern
perdido status em nosso seculo,
mas tambem a ideia de transferen-
cia de caracteristicas adquiridas.
A transferencia de caracteristicas
naturais dos pais aos filhos de-
pende daquilo que o Darwinismo
entende por especies. Durante
seculos e seculos OS homens sao
homens e nada mais. A respeito
da transferencia de caracteristicas
distintas das que foram herdadas
ha agora tanta diferen<;;a de opi-
niao que nada pode ser dito so-
bre isso com certeza absoluta. To-
davia e certo que caracteristicas
adquiridas nao sao transferidas
dos pais aos filhos. A circuncisao,
por exemplo, foi praticada por al-
guns povos durante seculos e ate
hoje nao surgiu uma crian<;;a se-
quer que herdasse essa caracteris-
tica adquirida. A transferencia por
heran<;_:a s6 acontece dentro de cer-
tos limites e nao causa qualquer
mudan<;;a de tipo ou especie. Sea
211
modifica<;;ao for produzida por
meios artificiais, ela deve ser tam-
bern artificialmente mantida ou
sera novamente perdida. 0
Darwinismo, em resumo, nao
pode explicar a hereditariedade
ou mudan<;_:a. Ambos sao fatos
que existem e nao podem ser ne-
gados, mas a conexao entre eles e
o seu relacionamento estao alem
das fronteiras do nosso conheci-
mento.
Cada vez mais o Darwi-
nismo propriamente dito, isto e,
o Darwinismo em seu sentido
mais estrito, a saber, o esfor<;;o de
se explicar a mudan<;;a das espe-
cies em termos de luta pela exis-
tencia, sele<;;ao natural e transfe-
rencia de caracteristicas adquiri-
das, tern sido abandonado pelos
homens da ciencia. A predi<;;ao de
urn dos primeiros e mais eminen-
tes dos oponentes da teoria de
Darwin esta sendo literalmente
cumprida, a saber, que essa teo-
ria para explicar os misterios da
vida nao passaria do final do se-
culo dezenove. Porem, mais im-
portante do isso e 0 fato de que 0
criticismo nao tern sido dirigido
somente contra a teoria de
Darwin, mas tambem contra a te-
oria da evolu<;_:ao. Naturalmente,
fatos sao fatos e nao podem ser
ignorados. Mas a teoria e algo
mais que isso, e algo construido
sobre os fatos, pelo pensamento.
Eo que se torna cada vez mais evi-
dente e que a teoria da evolu<;_:ao
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
nao se enquadra nos fatos, pelo
contrario, esta sempre em confli-
to com eles.
A geologia, por exemplo,
revelou que os tipos inferiores e
superiores de animais nao se-
guem uns aos outros em sequen-
cia, mas existiram juntos por urn
longo periodo. A paleontologia
nao fornece uma unica pec;a se-
quer de evidencia conclusiva da
existencia de tipos transicionais
entre os varios tipos de seres or-
ga_nicos. E, ainda, de acordo com
a teoria de Darwin da evoluc;ao
extremamente gradual por meio
de mudanc;as extremamente pe-
quenas, esses tipos nao estariam
presentes em quantidade. Apesar
da pesquisa apaixonada e da
persegui<;ao energica, urn tipo in-
termedia_rio entre o homem e o
rnacaco nao foi descoberto. A
embriologia, de fato, aponta para
certas semelhanc;as entre os vari-
os estagios do desenvolvimento
do embriao humano e do em-
briao de outros animais. Mas essa
similaridade eexterna pela sim-
ples razao de que urn ser huma-
no nunca nasceu do embriao de
urn animal e urn animal nunca
nasceu de urn embriao humano.
Em outras palavras, o homem e o
animal seguem caminhos diferen-
tes a partir da concep<;ao, mesmo
que nesse momento as diferen<;as
internas nao possam ser percebi-
das. A biologia, ate agora tern ofe-
recido pouco suporte para a pres-
212
suposi<;ao de que a vida pode ser
gerada por si mesma, a ponto de
muitos, hoje, aceitarem a impos-
sibilidade de que isso aconte<;a e
retornarem aideia de uma forc;a
viva especial ou energia. A flsica
e a qufmica, na medida em que
tern participado dessas investiga-
<;5es, tern encontrado mais e mais
segredos e maravilhas no mundo
microsc6pico, o que tern feito com
que muitos voltem ao pensamen-
to de que os constituintes basicos
do mundo material nao sao enti-
dades materiais1 e sim for<;as. E-
para nao mencionar mais eviden-
cias - todos os esfor<;os que tern
sido feitos para explicar a consci-
encia, a liberdade da vontadel a
razaoI a linguagem1 a religiaoI a
moralidade, e outras manifesta-
c;oes semelhantes, como sendo
apenas o produto da evolu<;ao nao
tern sido coroados de sucesso. A
origem dessas manifesta<;6es e
tambem de todas as outras coisas1
permanece perdida para a cien-
Cla.
Por isso eimportante notar
finalmente que quando o hornem
faz sua aparic;ao na hist6ria ele ja
eurn homem com corpo e alma e
ja possui1 em todos os lugares e
em todas as epocasl todas essas
caracteristicas e atividades huma-
nas cujas origens a ciencia tenta
descobrir. Em lugar nenhum po-
dem ser encontrados seres huma-
nos que nao possuam razao e von-
tadel racionalidade e consciencia,
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRor6sno oo HoMEM
pensamento e linguagem, religiao
e moralidade, as institui<;6es do
casamento e da familia e assim
por diante. Se tais caracteristicas
e manifesta<;6es se desenvolveram
gradativamente, tal evolu<;ao
deve ter acontecido em tempos
pre hist6ricos106
, a respeito dos
quais n6s nada sabemos direta-
mente, e sobre os quais n6s con-
jeturamos somente sobre a base
de uns poucos fatos identificados
em datas posteriores. Qualquer
ciencia, portanto, que queira pe-
netrar nesses tempos pre hist6ri-
cos para descobrir as origens das
coisas deve, pela natureza do
caso, fazer uso de suposi<;6es,
conjeduras e pressuposi<;6es. Nao
ha possibilidade de evidencia ou
prova no sentido estrito. A dou-
trina da evolu<;ao, de forma geral
e a doutrina de que o homem des-
cende dos animais, em particular,
nao recebem qualquer suporte
pelos fatos que a hist6ria nos for-
nece. De todos os elementos so-
bre os quais tais teorias estao
edificados, nada permanece alem
de urn ponto de vista filos6fico
que pretende explicar todas as
coisas e manifesta<;6es em termos
de si mesmas, deixando Deus de
lado. Urn dos proponentes do
ponto de vista evolucionista ad-
mitiu cegamente: a escolha e en-
tre a descendencia evolutiva ou o
milagre; ja que 0 milagre e total-
mente impossivel, n6s somos im-
pelidos a assumir a primeira po-
si<;ao. E tal admissao demonstra
que a teoria da origem do homem
a partir de formas animais inferi-
ores nao repousa sobre uma in-
vestiga<;ao cientffica cuidadosa,
mas sobre o postulado de uma fi-
losofia materialista ou panteista.
*****
A ideia da origem do ho-
mem esta relacionada muito de
perto com a ideia da essencia do
homem. Muitos em nossos dias
dizem que o homem eo mundo,
independente de qual tenha sido
sua origem e seu desenvolvimen-
to no passado1 sao o que sao e
continuarao sendo sempre assim.
Essa posi<;ao e inteiramente
correta: a realidade permanece a
mesma, independente se n6s for-
mamas uma ideia verdadeira ou
falsa sobre ela. E o mesmo pode
ser dito sobre a origem de todas
as coisas. Mesmo que n6s imagi-
nemos que o mundo e a ra<;a hu-
mana vieram aexistencia de algu-
ma forma particular - gradual-
mente, durante o curso dos secu-
los, por meio de todos os tipos de
infinitesimais mudan<;as, atraves
da gera<;ao espontanea- tal supo-
si<;ao, e claro, nao muda a origem
106
Os tempos pre hist6ricos siio epocas em que a escrita niio era conhecida e sabre as quais,
portanto, niio lui registro escrito (N. do T.).
215
Fundamentos Teologicos da Fe Crista
real. 0 mundo surgiu da forma
que surgiu, e nao da forma que
n6s gostariamos que ele tivesse
surgido ou da forma que n6s su-
pomos que ele tenha surgido. E a
ideia que n6s temos a respeito da
origem de todas as coisas esta di-
retamente relacionada com a ideia
que n6s temos a respeito da es-
sencia de todas as coisas.
Se a primeira estiver errada,
a segunda nao pode estar correta.
Se n6s pensamos que a terra e to-
dos os reinos da natureza, que
todas as criaturas e particularmen-
te OS Seres humanos, vieram a
existencia sem Deus, somente
atraves da evolw;ao de energias
cujos residuos permanecem no
mundo, tal ideia deve ter, neces-
sariamente, a mais importante in-
fluencia sobre nossa concepc;ao da
essencia do mundo e do homem.
De fato, o mundo eo homem
permanecerao os mesmos inde-
pendente de nossa interpretac;ao;
mas para n6s tanto o mundo quan-
ta o homem se tornam diferentes,
aumentando ou diminuindo em
valor e imporHincia de acordo
com o que n6s pensamos sobre
sua origem e como eles passaram
a existir.
Isso e tao evidente que nem
requer iluminac;ao ou confirma-
c;ao mais ampla. Mas por causa da
noc;:ao de que n6s podemos pen-
sar o que quisermos sobre a ori-
gem de todas as coisas, visto que
o que n6s pensamos sobre sua
214
essencia nao e afetado pelo que
pensamos sobre a origem, e uma
noc;:ao sempre presente - por
exemplo, na doutrina da Escritu-
ra, na religiao de Israel, na pessoa
de Cristo, na religiao, na
moralidade - pode ser util ou
nao, dependendo daquilo que
entendemos como sendo a essen-
cia do homem, para indicar a fal-
sidade dessa noc;:ao ainda mais.
Nao e dificil fazer isso, pois se o
homem tern se desenvolvido por
si mesmo, sem Deus e somente
atraves de forc;:as operativas ce-
gas, entao segue-se que o homem
nao pode diferir essencialmente
dos animais, e que, mesmo em
seu maior desenvolvimento, ele
sempre continuara sendo urn ani-
mal. Nesse caso nao ha lugar para
uma alma distinta do corpo, nem
para uma liberdade morale imor-
talidade pessoal. E a religiao, a
verdade, a moralidade, e a bele-
za perdem seu carater proprio.
Essas consequencias nao sao
algo que n6s impomos sobre os
proponentes da teoria da evolu-
c;:ao, mas algo que eles mesmos
deduzem dela. Darwin, por exem-
plo, disse que nossas mulheres
solteiras, se fossem educadas sob
as mesmas condic;:oes que as abe-
lhas, pensariam ser urn clever sa-
grado matar seus irmaos como as
abelhas fazem e as maes tentari-
am assassinar suas filhas ferteis
sem qualquer considerac;ao por
elas. De acordo com Darwin, por-
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRor6sno oo HoMEM
tanto, toda lei morale urn produ-
to das circunstancias, e, portanto,
muda quando as circunstancias
mudam. 0 bern e o mal, embora
sendo realidades antagonicas, sao
termos relativos e seu significado
e valor sao, como a moda, sujei-
tos as mudan<;as de tempo e lu-
gar. Da mesma forma, de acordo
com os evolucionistas, a religiao
e apenas uma ajuda temponiria,
algo de que o homem, na sua luta
contra a natureza, faz uso, e que
agora pode servir como urn opio
para o povo, mas algo que, como
passar do tempo, acabara morren-
do ou simplesmente desapare-
cendo, na medida em que o ho-
mem tomar consciencia de sua
plena liberdade. 0 pecado e a
transgressao, o crime e o assassi-
nato, nao constituem culpa, mas
sao efeitos de urn estado nao ci-
vilizado no qual o homem origi-
nariamente viveu e diminuirao na
mesma propor<;ao em que ele se
desenvolver e a sociedade progre-
dir. De acordo com essa posi<;ao,
os criminosos devem ser conside-
rados como crian<;as, animais ou
pessoas insanas e deveriam ser
tratados de acordo com isso. As
prisoes deveriam dar lugar aos
reformatorios. Em resumo, se o
homem nao tern uma origem di-
vina, mas uma origem animal e
gradualmente tern se desenvolvi-
do, ele deve tudo a si mesmo, e
seu proprio legislador, mestre e
senhor. Todas essas inferencias da
215
teoria (materialista ou panteista)
da evolu<;ao encontram expressao
muito claramente na ciencia con-
temporanea e tambem na literatu-
ra, arte e pratica politica contem-
poraneas.
A realidade, todavia, tern
nos ensinado algo totalmente di-
ferente. 0 homem pode crer, se
quiser, que tern feito tudo por si
mesmo e que nao tern limites ao
redor de si, mas em todos os sen-
tidos ele continua sendo uma cri-
atura dependente. Ele nao pode
fazer o que quiser. Em sua exis-
tencia fisica ele permanece limi-
tado a leis como a respira<;ao, a
circula<;ao do sangue, a digestao
e a procria<;ao. E se ele tenta con-
trariar essas leis e nao presta aten-
<;ao a elas, ele prejudica sua sail-
de e mina sua propria vida. 0
mesmo acontece com seu espiri-
to. 0 homem nao pode pensar 0
que quiser, mas esta sujeito a leis
que estao implicitas no ato de
pensar e se expressam nele. Se ele
nao segue essas leis do pensamen-
to ele se precipita no erro. 0 ho-
mem tambern nao pode desejar e
agir como mais lhe agrada. Sua
liberdade esta sob a disciplina da
razao e da consciencia; se ele
desconsidera essa disciplina ere-
duz sua vontade ao nivel de arbi-
trariedade e capricho, ele sera
auto reprovado e se tornara obje-
to de remorso, que e 0 cancer da
consciencia.
A vida da alma, portanto,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
nao menos que a vida do corpo,
esta edificada sobre algo diferen-
te de capricho e acidente. Ela nao
se origina de uma condic;ao anar-
quica, mas se origina de todos os
lados e em todas as suas ativida-
des determinada por leis. Ela esta
sujeita a leis de verdade e de bon-
dade e de beleza e assim ela de-
monstra que nao teve sua origem
em si mesma. Em resumo, o ho-
mem tern desde seu inicio sua
propria natureza e sua propria es-
sencia e nao pode viola-las. Ana-
tureza dessa questao e tao forte
que ate mesmo aqueles que ade-
rem ateoria da evoluc;ao admitem
a existencia de uma natureza hu-
mana, de atributos humanos imu-
taveis, de leis de pensamento e
etica prescritos para 0 homem e
de urn senso religioso nato. Des-
sa forma a ideia da essencia do
homem entra em conflito com a
ideia de sua origem.
Na Escritura, contudo, ha
uma perfeita concordancia entre
essas duas ideias. A essencia do
homem corresponde a sua ori-
gem. Apesar do homem ter sido
formado do po da terra, ele rece-
beu o sopro da vida, e foi criado
pelo proprio Deus, portanto, ele
e urn ser unico que possui sua
propria natureza. A essencia de
seu ser e a imagem e semelham;a de
Deus.
* * * * *
216
A imagem de Deus distin-
gue o homem tanto dos animais
quanto dos anjos. Ele possui tra-
<;os em comum tanto com os ani-
mais quanto com os anjos, mas ao
mesmo tempo ele e diferente dos
dois porque possui sua propria
natureza.
Eclaro que os animais tam-
bern foram criados por Deus. Eles
nao passaram a existir por si rues-
mos. Eles foram chamados aexis-
tencia por uma especifica palavra
do poder de Deus. Alem disso
eles foram criados em varias es-
pecies, assim como as plantas.
Todos OS homens sao descenden-
tes de urn unico casal e por isso
constituem uma rac;a. Isso nao
acontece com os animais. Eles
possuem varios ancestrais. For-
tanto, nao e de se admirar que ate
hoje a zoologia nao tenha tido
sucesso ao tentar trac;ar a linha-
gem de todos os animais ate urn
so casal de ancestrais. Ela conse-
gue apenas designar alguns gru-
pos majoritarios ou tipos basicos
de animais.
Presumivelmente e verdade
que a maioria dos tipos de ani-
mais nao estao distribuidos sobre
toda a terra, mas vivem em areas
especificas. Os peixes vivem na
agua, os passaros vivem no ar e
os animais terrestres, em sua mai-
or parte, vivem em territorios es-
pecificos. 0 urso polar, por exem-
plo, so e encontrado em regi6es
muito frias e 0 ornitorrinco so e
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
encontrado na Australia. E no li-
vro de Genesis e afirmado espe-
cificamente que Deus criou as
plantas (1.11) e tambem os ani-
mais segundo a sua especie - isto
e, de acordo com seus tipos. Na-
turalmente isso nao significa que
os tipos que foram originalmente
criados eram os mesmos nos
quais a ciencia hoje classifica to-
dos os animais, pois nossas clas-
sifica<;oes sao sempre sujeitas ao
erro porque nossa zoologia tam-
berne limitada e inclinada a con-
siderar variantes como tipos e
vice-versa. 0 conceito cientifico,
artificial, de urn animal e muito
dificil de se estabelecer, e e sem-
pre muito diferente do conceito
natural de tipo que n6s conside-
ramos. No curso dos seculos urn
grande numero de animais tern
morrido ou sido destruido. Eevi-
dente que varios tipos de animais,
como o mamute, por exemplo,
que deixou de existir ha muito
tempo, existiram em grande
quantidade. Alem disso deve ser
levado em considera<;ao que
como resultado de varias influen-
cias, grandes modifica<;oes emu-
dan<;as tern acontecido no mundo
animal e essas modifica<;oes im-
possibilitam, ou pelo menos tor-
nam extremamente dificil que a
zoologia trace a arvore geneal6-
gica de todos os animais a urn s6
tipo original.
Alem disso deve ser obser-
·ado que tanto na cria<;ao dos ani-
217
mais quanto na cria<;ao das plan-
tas n6s somos informados de que
eles foram criados por urn ato es-
pedfico do poder de Deus, mas
que nesse ato nao s6 os seres, mas
tambem a natureza espedfica de
cada urn deles foi criada. "Produ-
za a terra relva...", n6s lemos em
Genesis 1.11, "A terra pois produ-
ziu relva, ervas que davam se-
mente segundo a sua especie e
arvores que davam fruto..." (ver-
so 12). 0 registro e o mesmo em
Genesis 1.20: "Povoem-se as
aguas de enxames de seres viven-
tes; e voem as aves sobre a terra,
sob o firmamento dos ceus". E
novamente no verso 24: "Produ-
za a terra seres viventes, confor-
me a sua especie: animais domes-
ticos, repteis e animais selvaticos,
segundo a sua especie". Em cada
passo a natureza e usada como
urn instrumento de Deus. Ea ter-
ra que, naturalmente condiciona-
da e equipada por Deus para isso,
traz todas essas criaturas em suas
mais diversas diferencia<;oes.
Essa espedfica origem dos
animais lan<;a alguma luz, tam-
bern sobre sua natureza. Essa ori-
gem nos mostra que os animais
sao muito mais relacionados ater-
rae anatureza do que 0 homem.
De fato, os animais sao seres vi-
vos, e como tais, eles sao diferen-
tes dos seres inorganicos e das
criaturas inanimadas. Por se tra-
tar de seres viventes eles sao cha-
mados de almas viventes (Gn
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
1.20,21,24)1°7
• No sentido geral de
principia da vida os animais tam-
bern possuem alma108
• Mas esse
principia vivo da alma no animal
e ainda tao estreitamente relacio-
nado anatureza que nao pode al-
canar qualquer independencia
ou liberdade e nao pode existir
sem o metabolismo natural dos
animais. Portanto, quando os ani-
mais morrem, sua alma morre
tambem. Disso segue-se que os
animais, pelo menos os animais
mais elevados, possuem os mes-
mos sensos organicos do homem
e podem perceber a realidade (au-
diao, olfato, visao, tato e pala-
dar). Eles podem formar imagens
ou quadros e relatar essas ima-
gens uns aos outros. Mas os ani-
mais nao possuem razao, nao po-
dem separar a imagem da reali-
dade particular, individual e con-
creta. Eles nao podem transformar
as imagens e nem criar conceitos.
Nao podem relacionar esses con-
ceitos entre si e dessa forma criar
julgamentos, nao podem fazer
inferencia dos julgamentos, nao
podem tomar decis6es e nao po-
dem realizar essas decis6es por
urn ato da vontade. Os animais
possuem sensa6es, imagens e
combina6es de imagens; eles
possuem instintos, desejos, pai-
x6es. Mas eles nao possuem as
mais elevadas formas de desejo e
conhecimento que sao peculiares
ao homem; eles nao possuem
razao e nao possuem vontade.
Essa realidade encontra expressao
no fato de que os animais nao
possuem linguagem, religiao,
moralidade e noao de beleza;
eles nao possuem ideias de Deus,
nao possuem noao de realidades
invisiveis, de verdade, de banda-
de e de harmonia.
Dessa forma, o homem se
coloca acima do plano animal.
Entre os dois nao ha uma transi-
ao gradual, mas urn imenso abis-
mo. Aquila que constitui a natu-
reza do homem, sua essencia pe-
culiar, sua razao e sua vontade,
seu pensamento e sua linguagem,
sua religiao e sua moralidade, e
completamente ausente nos ani-
mais. Portanto, o animal nao pode
entender o homem, apesar do ho-
mem poder entender o animal. Em
nossos dias a psicologia tenta ex-
plicar a alma do homem em ter-
mos da alma dos animais, mas a
ordem correta e o contrario. A
alma do homem e a chave para a
conquista da alma dos animais.
Os animais nao possuem o que o
homem possui, mas o homem
possui tudo aquila que os ani-
mais possuem.
Naturalmente, isso nao sig-
nifica que o homem conhea a
natureza dos animais de forma
107
Algumas versoes trazem a expressiio seres viventes em Iugar de a/mas viventcs (N. do T.)
108
Gn 2.19; 9.4,10,12,16; Lv 11.10;17.11.
218
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRor6siTo oo HoMEM
perfeita. Todo o mundo e para o
homem urn problema por cuja
solu<;ao ele procura, e os animais
sao para o homem urn misterio
vivo. A importancia do animal
nao esta no fato dele ser util ao
homem como fonte de alimenta-
c;ao, meio de protec;ao, vestuario
e ornamento. Muito mais esta con-
tido no dominio que o homem,
com cobic;a e egoismo, livremen-
te exerce a seu favor. 0 mundo
animal tern importancia tambem
para nossa ciencia e arte, para nos-
sa religiao e moralidade. Deus
tern algo a nos dizer atraves do
mundo animal. Seus pensamentos
e obras nos sao comunicados em
todo o mundo, inclusive atraves
das plantas e dos animais. Quan-
do a botanica e a zoologia desco-
brem esses pensamentos, essas
ciencias e as ciencias naturais de
uma forma geral, exibem verda-
des que nenhum homem, certa-
mente nenhum cristao, pode des-
prezar. Alem disso, como o mun-
do animal e rico em importancia
moral para 0 homem! 0 animal e
a fronteira inferior, acima da qual
o homem deve se levantar e o ni-
vel ao qual ele nunca deve des-
cer. 0 homem pode se tornar urn
animal e ate menos que urn ani-
mal se perder a luz da razao, per-
der seu contato como ceu e ten-
tar satisfazer todos os seus dese-
jos sobre a terra. Os animais sao
simbolos tanto de nossas virtudes
quanto de nossos vicios: o cao e
219
urn simbolo da lealdade, a ser-
pente simboliza a sagacidade, o
leao simboliza a coragem, a ove-
lha simboliza a inocencia, a pom-
ba simboliza a integridade e a
corsa e 0 simbolo da alma que
suspira por Deus; da mesma
forma a raposa simboliza a astu-
cia, os vermes simbolizam a
podridao, o tigre simboliza a
crueldade, o porco simboliza a
canalhice, a cobra simboliza a
engenhosidade diab6lica e o go-
rila, que e 0 animal que possui 0
formato que mais se parece com
0 corpo humano, e uma demons-
trac;ao clara de uma impressio-
nante forma fisica que carece de
urn espirito, o espirito de cima.
No gorila o homem ve sua pro-
pria caricatura.
* * * * *
Assim como, devido aima-
gem de Deus, o homem se dife-
rencia dos animais, da mesma for-
ma pela imagem de Deus ele e
diferenciado dos anjos. A existen-
cia de seres como os anjos nao
pode, sem a Escritura, ser prova-
da por argumentos cientificos. A
ciencia nada sabe sobre eles, nao
pode demonstrar que eles exis-
tem e nao pode demonstrar que
eles nao existem. Contudo, e no-
tavel que a crenc;a na existencia de
seres que estao acima do homem
ocorre entre todos os povos e em
todas as religioes e ate mesmo o
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
homem que rejeita o testemunho
da Escritura referente aexistencia
dos anjos, atraves de todos os ti-
pos de formas supersticiosas vern
a crer na existencia de seres sobre-
naturais. Nossa presente gera<;ao
e um rico testemunho disso. An-
jos e demonios tern caido em des-
credito e em seu lugar tern surgi-
do em muitos drculos uma cren-
<;a em for<;as latentes, poderes na-
turais misteriosos, fantasmas, apa-
ri<;6es, visita<;6es dos mortos, es-
trelas vivas, planetas inabitados,
marcianos, atomos vivos e coisas
semelhantes. Em conexao com to-
das essas antigas e novas manifes-
ta<;6es esta a posi<;ao com a qual a
Escritura tern confrontado todas
elas. Sem levar em considera<;ao
a falsidade ou a verdade contida
nessas cren<;as, a Escritura proibe
a adivinha<;ao109
, feiti<;aria110
, as-
trologia111, necromancia112
, encan-
tamento ou consulta a oraculos113
,
magia114
e coisas semelhantes, fa-
zenda com que a supersti<;ao seja
semelhante a incredulidade. 0
Cristianismo e a supersti<;ao sao
for<;as opostas. Nao ha ciencia, ilu-
mina<;ao ou civiliza<;ao que pos-
sa nos proteger da supersti<;ao.
Somente a Palavra de Deus pode
109
Lu 19.31; 20.27; Dt 18.10-14
110
Dt 18.10; Jr 279,10; Ap 21.8
111
LD 19.26; Is 47.13; Mq 5.1
112
Dt18.11
111
Lv 19.26; Dt 18.10
114
Dt 18.11; Is 47.9
115
Mt18.10;24.36
116
51103.20; Cl1.16
220
fazer isso. A Escritura faz com que
o homem seja mais profunda-
mente dependente de Deus, e pre-
cisamente dessa forma ela o dife-
rencia das demais criaturas. Ela
coloca o homem em urn correto
relacionamento com a natureza e
assim faz com que uma verdadei-
ra ciencia natural seja possivel.
A Escritura ensina a existen-
cia de anjos, nao as cria<;6es mis-
ticas da imagina<;ao humana, nem
a personifica<;ao de for<;as miste-
riosas, nem mortos que alcan<;a-
ram um nivel superior, mas seres
espirituais, criados por Deus, su-
jeitos aSua vontade e chamados
para o Seu servi<;o. Portanto, ha
seres dos quais, aluz da Escritu-
ra, n6s podemos ter uma ideia
definida e eles nada tern em co-
mum com os seres misticos das
religioes pagas. Em conhecimen-
to eles estao acima do homem115
,
e tambem em poder116
, mas eles
foram feitos pelo mesmo Deus e
pelo mesmo Verbo (Jo 1.3; Cl1.16)
e possuem a mesma razao e a
mesma natureza moral, e por isso
e dito sobre OS bons anjos que eles
obedecem a voz de Deus e fazem
o que lhe agrada (Sl 103.20,21) e
sobre os maus anjos e dito que
· - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - · - -
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
eles nao permaneceram na verda-
de (Jo 8.44) e que se extraviaram e
cometeram pecado (2Pe 2.4).
Mas apesar dessa grande
correspondencia, existe uma gran-
de diferen<;a entre os anjos e os
homens. Essa diferen<;a consiste,
em primeiro lugar, no fato dos
anjos nao possuirem corpo nem
alma, pois sao espiritos puros (Hb
1.14). De fato, no momento em que
se revelavam ao homem, eles ge-
ralmente apareciam em forma
humana, mas as muitas formas
nas quais eles apareciam117
apon-
tam para o fato de que essa forma
de manifesta<;ao era temporaria e
que essas formas mudavam de
acordo com a natureza da missao
que eles deveriam cumprir. Os
anjos nunca sao chamados de al-
mas ou de seres viventes, como
acontece com os animais e com o
homem. A alma eo espirito dife-
rem urn do outro pelo fato de que
a alma, mesmo possuindo uma
natureza espiritual, imaterial, in-
visivel e sendo no homem uma
entidade espiritualmente inde-
pendente, esempre uma for<;a es-
piritual ou uma entidade espiri-
tual que eorientada a urn corpo,
habita em urn corpo e sem urn
corpo eincompleta e imperfeita.
A alma e urn espirito destinado
para uma vida fisica. A alma, par-
tanto, e peculiar ao homem e aos
117
Gn 18.2; Jz 18.3; Ap 19.14
118
Dt 33.2; Dn 7.10; Ap 5.11
221
animais. Quando o homem per-
de seu corpo na morte ele conti-
nua a existir, mas em uma condi-
<;ao empobrecida, e por isso a res-
surrei<;ao do ultimo dia e uma res-
taura<;ao que suprira todas as ca-
rencias. Os anjos, porem, nao sao
almas. Eles nunca ansiaram por
uma vida fisica e a morada que
lhes foi dada nao foi a terra, mas
o ceu. Eles sao espiritos puros.
Isso da a eles grandes vantagens
sabre o homem, pois os anjos sao
superiores aos homens em conhe-
cimento e em poder e possuem
uma rela<;ao muito mais livre de
tempo e espa<;o do que o homem,
podem mover-se mais livremen-
te e sao excepcionalmente bern
adaptados para cumprir as or-
dens de Deus na terra.
Mas- e essa e a segunda dis-
tin<;ao entre os homens e os anjos
- essas vantagens possuem seu
lado oposto. Por serem espiritos
puros, todos os anjos possuem
urn relacionamento relativamen-
te fraco com referenda uns aos
Olltros. Todos eles foram origina-
riamente criados juntos e todos
eles continuam vivendo juntos
uns com os outros. Porem, eles
nao formam urn conjunto organi-
co, urna ra<;a ou uma gera<;ao. De
fato, ha uma ordem natural entre
eles. De acordo com a Escritura,
ha miriades de anjos118
e eles es-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tao divididos nas seguintes clas-
ses: querubins (Gn 3.24), serafins
(Is 6.), e tronos, dominios,
potestades e poderes (Ef 1.21; Cl
1.16;2.10). E ha uma outra distin-
c;:ao ou classificac;:ao dentro dos
grupos: Miguel e Gabriel passu-
em urn lugar especial entre
eles119
. Contudo, eles nao consti-
tuem uma rac;:a, nao sao parentes
de sangue, nao estao ligados or-
ganicamente uns aos outros. E
possivel falarmos sobre uma rac;:a
humana, mas nao e possivel falar-
mos sobre uma rac;:a angelical.
Quando Cristo assumiu a nature-
za humana Ele foi imediatamen-
te relacionado ao homem, ligado
ao homem por lac;:os de sangue e
tornou-se irmao dos homens de
acordo com a carne. Mas os anjos
vivem pr6ximos uns aos outros,
cada urn presta contas de si mes-
mo e por isso uma parte deles
poderia cair, enquanto a outra
permanecia fiel a Deus.
A terceira distinc;:ao entre os
homens e os anjos esta relaciona-
da com a segunda. Por serem os
anjos espiritos e nao estarem re-
lacionados com a terra, por nao
estarem eles relacionados uns
com os outros por lac;:os de san-
gue e nao conhecerem distinc;:6es
como pai e mae, pais e filhos, ir-
maos e irmas, ha urn mundo in-
teiro de relacionamentos e cone-
x6es, ideias e emoc;:oes, desejos e
119
Dn 8.16; 9.21; 10.13,21; Lc 1.19,26
222
preocupac;:6es sobre o qual os an-
jos nada sabem. Eles podem ser
mais poderosos que os homens,
mas nao sao tao versateis. Eles
possuem relacionamentos muito
mais pobres e as riquezas e a pro-
fundidade da vida emocional hu-
mana e muito superior ados an-
jos. De fato, Jesus diz em Mateus
22.30 que o casamento terminara
nessa dispensac;:ao, mas as rela-
c;:oes sexuais sobre a terra passu-
em urn significado que se esten-
de aos tesouros espirituais da
rac;:a humana e esses tesouros nao
serao perdidos, serao preserva-
dos por toda a eternidade.
Se a tudo isso n6s acrescen-
tarmos o fato de que a mais rica
revelac;:ao que Deus nos deu e
dada atraves do nome do Pai e no
nome do Filho - que se tornou
como urn de n6s e e nosso profe-
ta, sacerdote e rei - e no nome do
Espirito Santo, que foi derrama-
do sobre a Igreja e e o Deus que
habita em n6s, n6s veremos com
facilidade que os homens, e nao
OS anjos, foram criados aimagem
de Deus. Os anjos experimentam
o poder, a sabedoria e a bondade
de Deus, mas os homens desfru-
tam de Suas benc;:aos eternas. Deus
eo Senhor dos anjos, mas nao eo
seu Pai; Cristo e o Cabec;:a dos an-
jos, mas nao e seu Reconciliador
e Salvador; o Espirito Santo e
0 0 0
quem env1a e gu1a os anJOS, mas
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRor6sno DO HoMEM
nao testifica aos espirito deles de
que eles sao filhos e herdeiros de
Deus e co-herdeiros com Cristo.
Portanto os olhos dos anjos estao
sobre a terra porque nela as mais
ricas gra<;as de Deus sao manifes-
tas, nela a luta entre o ceu eater-
ra e levada a efeito, nela a Igreja
passa a fazer parte do Corpo do
Filho e nela o golpe final algum
dia sera dado e 0 triunfo final de
Deus sera alcan<;ado. Portanto
eles desejam conhecer os misteri-
os da salva<;ao que sao revelados
na terrae desejam aprender a co-
nhecer, pela Igreja, a multiforme
sabedoria de Deus (Ef 3.10; 1Pe
1.12).
Os anjos mantem numero-
sos relacionamentos conosco, e
nos mantemos urn relacionamen-
to multifacetado com eles. Crer na
existencia e na atividade dos an-
jos nao e o mesmo que crer em
Deus e ama-lo, teme-lo e honra-
lo com todo o cora<;ao. Nos nao
podemos colocar nossa confian<;a
em uma criatura, mesmo que seja
urn anjo; nos nao podemos
cultuar os anjos, seja de que for-
ma for e nao podemos dar-lhes
honras religiosas120
• De fato, nao
ha na Escritura uma palavra se-
-=Iuer sobre urn anjo da guarda, de-
signado para servir cada ser hu-
mano em particular, nem sobre
qualquer tipo de intercessao feita
::--,or um anjo em nosso favor. Mas
:' Dt 6.13; Mt 4.10; Ap 22.9.
223
isso nao significa que crer nos an-
jos seja algo indiferente ou urn
esfor<;o imitil. Pelo contrario,
quando a revela<;ao veio a existen-
cia eles desempenharam urn pa-
pel muito importante. Na vida de
Cristo eles apareceram em todos
os pontos importantes de sua car-
reira, e chegara o dia em que eles
serao manifestos com Cristo entre
as nuvens do ceu. E eles sao espi-
ritos enviados para rninistrar
aqueles que herdarao a salva<;ao
(Hb 1.14). Eles se regozijarn quan-
do urn pecador se arrepende (Lc
15.10). Eles livram aqueles que
sao tementes a Deus (Sl 34.7;
91.11), protegem os pequeninos
(Mt 18.10), acompanham a Igreja
em sua jornada atraves da histo-
ria (Ef 3.10) e conduzern os filhos
de Deus ate o seio de Abraao (Lc
16.22).
Portanto, nos devernos
considera-los com respeito e falar
deles com honra. Devemos
alegra-los como nosso arrependi-
mento. Devernos seguir o exem-
plo deles no servi<;o de Deus e na
obediencia a Sua Palavra. Deve-
rnos mostrar-lhes ern nosso cora-
<;ao, em nossa vida e em toda a
Igreja a multiforrne sabedoria de
Deus. Devemos ser amigos deles
e juntarnente com eles declarar os
poderosos feitos de Deus. Dessa
forma ha diferen<;as entre homens
e anjos, mas nao ha conflito; ha di-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
feren<;as, mas tambem ha unida-
de; ha distin<;ao, mas tambem ha
amizade. Quando nos chegarmos
ao Monte Siao, acidade do Deus
vivo, a Jerusalem celestiat nos
encontraremos miriades de anjos
e reataremos o elo de unidade e
amor que tinha sido quebrada
pelo pecado (Hb 12.22). Tanto
eles, quanta nos temos nosso pro-
prio lugar e nossa propria fun<;ao
na rica cria<;ao de Deus. Os anjos
sao OS filhos, OS poderosos herois,
o poderoso exercito de Deus. Os
homens foram criados aimagem
e semelhan<;a de Deus e sao gera-
<;ao de Deus. Os anjos sao a ra<;a
de Deus.
* * * * *
Se a imagem de Deus e o
distintivo do homem, nos deve-
mos obter uma ideia mais clara
sobre ela.
Nos lemos, em Genesis 1.26,
que Deus criou o homem a Sua
imagem e conforme a Sua seme-
lhan<;a para que o homem tivesse
dominio sobre todas as criaturas,
particularmente sobre as criaturas
vivas. Ires coisas merecem con-
sidera<;ao aqui. Em primeiro lu-
gar, a correspondencia entre Deus
e 0 homem e expressa em duas
palavras: imagem e semelhan~a. Es-
sas duas palavras nao sao, como
muitas pessoas sup6em, materi-
almente diferentes, diferentes em
conteudo, mas servem para am-
224
plificar e dar suporte uma aou-
tra. Juntas elas servem para afir-
mar que 0 homem nao e urn re-
trato mal feito ou algo semelhan-
te, mas corresponde perfeita e to-
talmente a imagem de Deus. 0
homem e a miniatura e Deus e o
Ser em tamanho reat infinitamen-
te maior que o homem. 0 homem
esta infinitamente abaixo de Deus
e contudo mantem rela<;6es com
Ele. Como criatura o homem e to-
talmente dependente de Deus, e
como homem ele e urn ser livre e
independente. Limita<;ao e liber-
dade, dependencia e indepen-
dencia, imensuravel distancia e
intima relacionamento com Deus,
tudo isso tern sido combinado de
uma forma incompreensivel no
ser humano. Como uma criatura
pode ser ao mesmo tempo a ima-
gem de Deus. Isto e algo que vai
alem de nossa compreensao.
Em segundo lugar, nos so-
mas informados em Genesis 1.26
que Deus criou homens (o termo
original esta no plural) aSua ima-
gem e conforme aSua semelhan-
<;a. Desde o principia a inten<;ao
de Deus nao foi criar urn homem
apenas, mas homens, aSua ima-
gem. Portanto, Ele imediatamen-
te criou o homem como homem e
mulher, nao separadamente, mas
em rela<;ao e amizade urn com o
outro (Gnl.27). Nao apenas no ho-
mem, nem apenas na mulher, mas
nos dois juntos e em cada urn de
forma especiat a imagem de
A ORIGEM, A EsSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
Deus e expressa.
0 contrario e as vezes afir-
mado com base no texto de
1Corintios 11.7, onde o apostolo
Paulo diz que o homem e a ima-
gem e a gloria de Deus e que a
mulher e a gloria do homem. Esse
texto e frequentemente usado de
forma errada para que seja nega-
da a mulher a imagem de Deus e
assim ela seja colocada em urn
nivel inferior ao do homem. Mas
Paulo aqui nao fala do homem e
da mulher considerados separa-
damente, mas sobre seu relacio-
namento no matrimonio. E entao
ele diz que e 0 homem, e nao a
mulher, o cabe<;a do lar. E ele de-
duz isso do fato de que o homem
nao teve sua origem na mulher,
mas a mulher teve sua origem no
homem. 0 homem foi criado pri-
meiro, foi feito primeiro a ima-
gem de Deus e a ele Deus primei-
ro revelou Sua gloria. E sea mu-
lher desfruta de tudo isso, ela o
faz de forma mediata, atraves do
homem. Ela recebeu a imagem de
Deus, mas depois do homem e
pela media<;:ao do homem. Portan-
to1 0 homem e a imagem e a glo-
ria de Deus direta e originaria-
mente; a mulher e a imagem e a
gloria de Deus de forma deriva-
da, na qual ela ea gloria do ho-
mem. 0 que nos lemos sobre esse
assunto em Genesis 2 deve ser
acrescentado ao que lemos em
Genesis 1. A forma pela qual a
mulher foi criada em Genesis 2 e
225
a forma pela qual ela recebeu a
mesma imagem de Deus que o
homem (Gn 1.27). Nisso esta con-
tida a verdade de que a imagem
de Deus repousa sobre urn m:ime-
ro de pessoas, com diferencia<;:ao
de ra<;:a, talentos e for<;:as - em re-
sumo, na especie humana- e que
essa humanidade alcan<;ara sua
expressao maxima na nova huma-
nidade, que ea Igreja de Cristo.
Em terceiro lugar, Genesis
1.26 nos ensina que Deus tern urn
proposito ao criar o homem a Sua
imagem1 a saber, que o homem
tenha dominio sobre todas as cri-
aturas vivas e que ele se multipli-
que e se espalhe por todo o mun-
do, dominando-o. Se agora nos
compreendemos a for<;a desse
dominio sob o termo cultura, nos
podemos dizer que a cultura, em
urn sentido amplo, e o proposito
para o qual Deus criou o homem
conforme a sua imagem. E tao
pequena a diferen<;:a entre culto e
cultura, religiao e civiliza<;:ao,
Cristianismo e humanidade, que
seria verdadeiro dizer que a ima-
gem de Deus foi dada ao homem
para que, pelo seu dominio sobre
toda a terra, ele pudesse trazer a
existencia todas essas manifesta-
<;:5es. E esse dominio sobre a terra
inclui nao somente as mais anti-
gas voca<;:oes do homem, tais
como a ca<;:a e a pesca, a agricul-
tura e a estocagem, mas tambem
a industria eo comercio, as finan-
c;:as e o credito, a explora<;:ao de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
minas e montanhas, a ciencia e a
arte. Tal cultura nao tern seu fim
no homem, mas pela imagem de
Deus, estampada e impressa no
espirito humano e sobre tudo o
que ele faz, ela retorna para Deus,
que e 0 Primeiro e 0 Ultimo.
*****
0 conteudo ou significado
da imagem de Deus foi desenvol-
vido em revelac;ao posterior. For
isso, depois da Queda, o homem
continua sendo chamado de ima-
gem de Deus.
Em Genesis 5.1-3 n6s somos
mais uma vez lembrados de que
Deus criou o homem, homem e
mulher juntos, a Sua imagem e
que os abenc;oou e que Adao ge-
rou urn filho asua imagem, con-
forme a sua semelhan<;:a. Em
Genesis 9.6 o derramamento do
sangue do homem e proibido
pela razao de que o homem foi
feito aimagem de Deus. 0 poeta
que escreveu o belo Salmo oito
canta a gloria e a majestade do
Senhor que se revela no ceu e so-
bre a terra, e, de forma ainda mais
esplendida, revela-se no homem,
a quem o Senhor deu dominio
sobre todas as obras das Suas
maos. Quando Paulo fala aos
atenienses no are6pago, ele cita
urn de seus poetas, dizendo que
n6s somos gera<;:ao de Deus (At
17.28). Em Tiago 3.9, o ap6stolo,
para demonstrar o mal que a lin-
gua pode provocar, usa o seguin-
te contraste: "Com a lingua ben-
dizemos ao Senhor e Pai; tam-
bern, com ela, amaldi<;:oamos os
homens, feitos a semelhan<;:a de
Deus". E a Escritura nao apenas
chama o homem caido de imagem
de Deus, mas tambem diz que as
caracteristicas dessa imagem fo-
ram mantidas. Ela constantemen-
te apresenta o homem como urn
ser racional e morat que e respon-
savel diante de Deus por todos OS
seus pensamentos, palavras e
obras e e obrigado a fazer o servi-
c;o de Deus.
Junto com essa representa-
c;ao, contudo, n6s encontramos a
ideia de que devido ao pecado o
homem perdeu a imagem de
Deus. De fato, n6s nao recebemos
essa informa<;:ao diretamente, em
algumas palavras. Porem, isso
pode ser claramente deduzido de
todo o ensino da Escritura
concernente apecaminosidade do
homem. Alem disso, o pecado -
como n6s vamos considerar espe-
cificamente mais adiante - rou-
bou a inocencia, a justi<;:a e a san-
tidade do homem, corrompeu seu
cora<;:ao, obscureceu seu entendi-
mento, inclinou sua vontade para
o mat lanc;ou essas inclinac;oes em
seu rosto, e colocou seu corpo e
todos os seus membros a servic;o
da injustic;a. For isso o homem
deve ser mudado, regenerado,
justificado, purificado e santifica-
do. Ele pode desfrutar de todos
226
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PROP6sno no HoMEM
esses beneficios somente atraves
de Cristo, que e a perfeita Imagem
de Deus (2Co 4.4; Cll.15) e acuja
Imagem ele deve ser moldado
(Rm 8.29). 0 novo homem, que e
colocado em comunhao com Cris-
to atraves da fe, e criado de acor-
do com a vontade de Deus em
verdadeira justi<;:a e santidade (Ef
4.24) e e constantemente renova-
do em conhecimento conforme a
Imagem daquele que o criou (Cl
3.10). 0 conhecimento, a justi<;:a e
a santidade que o crente obtem
atraves da comunhao com Cristo
tern sua origem, exemplo e pro-
p6sito final em Deus e faz com
que o homem novamente compar-
tilhe da natureza de Deus (2Pe
1.4).
Esobre esse ensino da Escri-
tura que se baseia a distin<_;:ao en-
tre a imagem de Deus, em urn sen-
tido amplo e em urn sentido es-
treito, usualmente feita na Teolo-
gia Reformada. Se, por urn lado,
depois da queda e da desobedi-
encia, o homem continua a ser
chamado de imagem e gera<_;:ao de
Deus, e, por outro lado, essas vir-
tudes pelas quais ele especial-
mente se parece com Deus foram
perdidas por causa do pecado e
s6 podem ser restauradas nova-
mente atraves da comunhao com
Cristo, entao essas duas posi<_;:6es
sao compativeis uma com a outra
somente se a imagem de Deus
compreender algo mais que as
virtudes de conhecimento, justi-
227
<_;:a e santidade. Os te6logos Refor-
mados reconhecem isso, e susten-
tam essa posi<_;:ao contra os te6lo-
gos luteranos e cat6licos.
Os luteranos nao fazem dis-
tin<_;:ao entre a imagem de Deus,
em urn sentido amplo e em urn
sentido estrito. Ou, se eles fazem
essa distin<_;:ao, eles nao atribuem
a ela muita importancia e nao
compreendem seu significado.
Para eles, a imagem de Deus e
nada mais nada menos que a jus-
ti<;:a original, isto e, as virtudes de
conhecimento, justi<;:a e santidade.
Eles reconhecem a imagem de
Deus somente em urn sentido es-
trito e nao compreendem a neces-
sidade de se relacionar essa ima-
gem de Deus a toda a natureza
humana. Dessa forma, a vida reli-
giosa-moral do homem esta des-
tinada a ser uma area especial e
isolada de sua vida. Ela nao esta
relacionada e nao exerce qualquer
influencia sobre a obra a qual 0
homem e chamado no estado e na
sociedade, na arte e na ciencia. 0
cristao luterano desfruta do per-
ciao de pecados e da comunhao
com Deus atraves da fe, e isso e
tudo. Ele repousa sobre isso, ale-
gra-se por isso, mas nao consegue
relacionar sua vida espiritual, por
urn lado, ao conselho e elei<_;:ao de
Deus, e a todo o chamado terreno
do homem, por outro.
A partir dai, em outra dire-
<_;:ao, segue-se que o homem, quan-
do por causa do pecado perdeu a
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
justic;:a original, perdeu toda a
imagem de Deus. Nenhum res-
quicio dela permaneceu no ho-
mem, nem mesmo urn cisco. E
dessa forma a sua natureza moral
e racionat que ainda permanece
nele, e subestimada e vista com
maus olhos.
Os cat6licos romanos, pelo
contrario, fazem uma distinc;:ao
entre uma imagem de Deus em
urn sentido amplo e em urn senti-
do estrito, apesar de geralmente
nao empregarem essas palavras.
E eles tambem se dedicam a en-
contrar uma relac;:ao entre essas
distinc;:iSes. Mas para eles essa re-
lac;:ao e externa, nao interna; e ar-
tificial, nao real; e mecanica, nao
organica. Os cat6licos apresentam
o assunto como se o homem tives-
se sido concebido sem as virtudes
de conhecimento, justic;:a e santi-
dade (a imagem de Deus em urn
sentido estrito) e pudesse ter exis-
tido dessa forma. Nessa condic;:ao
o homem teria alguma vida reli-
giosa e moral, mas somente de
urn tipo e de urn grau que pudes-
se ser advindo da religiao natu-
rale da moralidade natural. Seria
uma religiao e uma moralidade
que permaneceria limitada a esta
terra, e nunca poderia abrir cami-
nho para as bem-aventuranc;:as do
ceu e para a imediata visao de
Deus. Ainda que seja possivel,
falando de forma abstrata, que
uma pessoa possa, sem possmr a
imagem de Deus em urn sentido
estrito, cumprir os deveres dare-
ligiao naturale da lei moral natu-
ral, isso e uma realidade impro-
vavel, pois 0 homem e urn ser
material, fisico e sensual121
• Ana-
tureza sensual do homem e sem-
pre caracterizada pelo desejo.
Esse desejo, em si mesmo, pode
nao ser pecado, mas certamente
da ocasiao ao pecado. Isso acon-
tece porque esse carater sensual
da natureza humana, sendo fisi-
co, e oposto ao espirito e sempre
constitui uma tentac;:ao. 0 perigo
e que essa razao e essa vontade
superem o poder da carne.
Por essas duas razoes, se-
gundo o pensamento cat6lico,
Deus, em Seu favor soberano,
acrescentou a imagem de Deus em
urn sentido estrito ao homem.
Mas por ter previsto que o ho-
mem cairia muito facilmente
como escravo dos desejos da car-
ne e tambem, porque Ele queria
colocar o homem no mais eleva-
do estado de bem-aventuranc;:a
aqui sobre a terra, isto e, coloca-
lo na gloria celestial e na imedia-
ta presenc;:a de Deus, Deus acres-
centou a justic;:a original ao ho-
mem natural e assim tirou-o de
seu estado natural e conduziu-o
a urn estado mais elevado e so-
121
Aqui a pnlavm sensunlniio se refere avohlpin sexual, mas ao usa dos sentidos (pnladar, olfato,
tnto, visiio eaudi~iio.) (N. doT.).
228
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PRoP6sno DO HoMEM
brenatural. Dessa forma urn du-
plo prop6sito foi alcan<;,:ado. Ern
prirneiro lugar, corn a ajuda des-
se acrescirno sobrenatural, o ho-
rnern passou a poder controlar
facilrnente os desejos herdados da
carne; e, ern segundo lugar, ao
curnprir os deveres sobrenaturais
prescritos para ele pela justi<;,:a
original (a irnagern de Deus ern
urn sentido estrito), o hornern
pode agora alcan<;_:ar urna salva<;_:ao
sobrenatural que corresponde ao
seu desenvolvimento. Dessa for-
rna o addendum sobrenatural da
justi<;,:a original serve para dois
prop6sitos, segundo a teologia
cat6lica: serve para restringir a
carne e para abrir carninho para o
ceu atraves dos rneritos.
Os te6logos Reforrnados
possuem seu proprio ponto de
vista entre as posi<;,:6es luterana e
cat6lica. De acordo com a Escri-
tura, a imagern de Deus e maior e
mais inclusiva do que a justi<;,:a
original, pois apesar da justi<;,:a
original ter sido perdida por cau-
sa do pecado, o hornem continua
a ser chamado, na Escritura, de
imagem de Deus e gera<;,:ao de
Deus. Permanecem nele alguns
poucos tra<;_:os da imagem de Deus
de acordo com a qual ele foi cria-
do. Essa justi<;,:a originat portan-
to, nao poderia ser uma
capacita<;,:ao isolada e indepen-
dente e sern qualquer rela<;_:ao com
a natureza humana. Nao e verda-
Je que o homem primeiro existiu,
229
seja somente em pensarnento,
seja em realidade concreta, como
urn ser puramente naturat ao
qual a justi<;,:a original foi posteri-
ormente acrescentada. Em vez dis-
so, tanto em pensamento quanto
ern cria<;,:ao o hornem foi forrnado
com essa justi<;,:a original. A ideia
do hornern inclui a ideia dessa
justi<;_:a. Sem ela o homern nao po-
deria ser concebido e nao pode-
ria existir. A imagem de Deus, em
urn sentido estrito, esta integral-
mente relacionada com a imagem
de Deus em urn sentido arnplo.
Nao e correto dizer que o homern
simplesmente carrega a imagem
de Deus; o homem ea irnagern de
Deus. A imagem de Deus e iden-
tica ao homem, faz parte da hu-
rnanidade do homem. Ate certo
ponto, mesmo no estado de peca-
do, o homern continua sendo ho-
mem, ate certo ponto ele conser-
va resquicios da imagem de Deus;
e na medida ern que ele perdeu a
imagem de Deus, ele deixou de
ser urn verdadeiro e perfeito ho-
rnem.
Alem disso, a imagem de
Deus em urn sentido estrito e nada
mais nada menos que a totalida-
de espiritual do homem. Quando
urn ser humano se torna doente
no corpo ou na alma, mesmo que
ele fique louco ele continua sen-
do urn ser humano. Contudo, nes-
se estado ele perde algo que per-
tence aharmonia do homem e re-
cebe algo que entra em conflito
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
corn essa harmonia. Da rnesrna
forma, quando por causa do pe-
cado o hornern perdeu a justi<;a
original, ele continuou a ser urn
ser hurnano, mas perdeu algo que
e inseparavel da ideia de hornern
e recebeu algo que nao pertence
a essa ideia. Portanto, o hornern,
quando perdeu a irnagern de
Deus, nao se tornou algo diferen-
te de urn ser hurnano, pois ele
preservou sua natureza moral e
racional. 0 que ele perdeu foi
algo que pertencia asua nature-
za, e o que ele recebeu foi algo
que corrornpeu toda a sua natu-
reza. Assirn como a justi<;a origi-
nal era toda a vida e toda a saude
espiritual do hornern, 0 pecado e
a sua doen<;a e a sua rnorte. 0 pe-
cado e corrup<;ao moral, rnorte
espiritual, rnorte ern delitos e pe-
cados, como a Escritura o descre-
ve.
Tal concep<;ao da irnagern de
Deus abrange todo o ensino da
Escritura sobre esse assunto. Essa
concep<;ao rnantern o relaciona-
rnento e tarnbern a distin<;ao en-
tre a natureza e a Gra<;a, entre a
cria<;ao e a reden<;ao. Graciosa e
eloqtienternente essa concep<;ao
reconhece a Gra<;a de Deus que,
depois da queda, perrnitiu que o
hornern conhnuasse sendo ho-
rnern e continuasse sendo urn ser
racional, moral e responsavel. E
ao rnesrno tempo ela reconhece
que o hornern, tendo perdido a
irnagern de Deus, esta totalrnente
230
corrornpido e inclinado a fazer o
mal. A vida e a hist6ria confirrnarn
esse ensino. Apesar da mais bai-
xa e rnais profunda queda, ana-
tureza hurnana continua sendo a
natureza humana. E nao importa
o grau de desenvolvimento que
o homem possa alcan<;ar, ele con-
tinuara sendo pequeno, fraco, cul-
pado e irnpuro. Somente a irna-
gem de Deus faz corn que o ho-
mern seja verdadeira e perfeita-
rnente humano.
* * * * *
Se, agora, n6s tentarrnos bre-
vemente dar urna olhada panora-
mica no conteudo da imagern de
Deus, a prirneira coisa que nos
charnara a aten<;ao e a natureza
espiritual do hornern. 0 hornern
e Uffi ser fisico1 mas tambern e Uffi
ser espiritual. Ele tern urna alma
que, em essencia, e urn espirito.
Isso se torna evidente pelo fato de
que a Escritura nos fala a respeito
da origem, da essencia e da dura-
<;ao da alma hurnana. A respeito
da origem, n6s lemos que Adao,
de forma diferente dos anirnais,
recebeu de Deus o folego da vida
(Gn 2.7), e ern urn certo sentido
iSSO e valido para todos OS ho-
mens. E Deus quem da a cada
homem o seu espirito (Ec 12.7),
que forma o espirito do homem
dentro dele (Zc 12.1), e que, por-
tanto, em distin<;ao aos pais da
carne, pode ser charnado de Pai
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PROP6srTo oo HoMEM
dos espiritos (Hb 12.9). Essa ori-
gem especial da alma humana de-
termina tambem sua essencia. De
fato, a Escritura algumas vezes
atribui a alma tambem aos ani-
mais (Gn 2.19; 9.4) mas nesses ca-
sos a referencia, como algumas
tradw;;oes indicam, e ao principia
da vida em urn sentido geral. 0
homem possui uma alma diferen-
te e mais elevada, uma alma que
em sua essencia e espiritual. Isso
se torna evidente pelo fato de que
a Escritura atribui urn espirito
particular ao homem, mas nao o
atribui aos animais. Os animais
possuem urn espirito no mesmo
sentido em que o possuem as cri-
aturas que sao criadas e sustenta-
das pelo Espfrito de Deus (Sl
104.30), mas eles nao possuem
seu proprio espirito independen-
te. 0 homem, sim, possui urn es-
pirito independente.122
. Devido a
sua natureza espiritual, a alma
humana e imortal. Ela nao e como
a dos animais, que morre quando
eles morrem, mas retorna a Deus,
que e quem da o espirito (Ec 12.7).
Ela nao e como o corpo, que pode
ser morto pelo homem (Mt 10.28).
Como espirito ela continua a exis-
tir (Hb 12.9; 1Pe 3.19).
Essa espiritualidade da
alma coloca o homem em urn nf-
vel superior ao do animal e da a
ele urn ponto de semelhanc;a com
os anjos. De fato, o homem per-
tence ao mundo dos sentidos, e
terreno, mas em virtude de seu
espirito ele transcende a terra e
caminha com liberdade real na re-
alidade dos espfritos. Por sua na-
tureza espiritual o homem pode
se relacionar com Deus, que e Es-
pfrito (Jo 4.24) e pode morar na
eternidade (Is 57.15).
Em segundo lugar, a ima-
gem de Deus e revelada nas habi-
lidades e poderes com os quais o
espfrito humano foi dotado. E
verdade que os animais mais ele-
vados podem, atraves dos senti-
dos, formar imagens e relatar es-
sas imagens uns aos outros, mas
eles nao podem fazer mais do que
isso. 0 homem, pelo contrario,
coloca-se acima do nivel das ima-
gens e entra na realidade de con-
ceitos e ideias. Atraves do pensa-
mento, que nao pode ser entendi-
do como urn movimento do ce-
rebra, mas deve ser relacionado
como uma atividade espiritual, o
homem deduz o geral do particu-
lar, levanta-se acima do que e vi-
sivel e contempla 0 que e invisi-
vel, forma ideias de verdade, de
bondade, de beleza e aprende a
conhecer o eterno poder de Deus
e o dominio de Deus sobre todas
as criaturas. Atraves de sua von-
tade, que deve ser vista em dis-
tinc;ao de seus desejos pecamino-
sos, o homem se emancipa do
mundo material e se enriquece
122
Dt 2.30; ]z 1.5.19; Ez 3.14; Lc 23.46; At 7.59; lCo 2.11; 5.3,4.
251
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
com realidades invisiveis e sobre-
naturais. Suas emoc;oes nao de-
vern ser apenas consideradas
uteis e agradaveis manifestac;oes
do mundo material, mas como re-
alidades elevadas e estimuladas
por ideais e bens espirituais, cujo
calculo aritmetico e totalmente
impossivel. Todas essas habilida-
des e atividades possuem seu
ponto de partida e seu centro na
auto consciencia pela qual o ho-
mem conhece a si mesmo e pela
qual o homem carrega dentro de
si uma inerradicavel noc;ao de sua
propria existencia e da peculiari-
dade de sua natureza racional e
moral. Alem disso, todas essas
habilidades particulares se ex-
pressam atraves da linguagem e
da religiao, da moralidade e da
lei, da ciencia e da arte - todas
elas, e claro e muitas outras, sao
peculiares ao homem e nao sao
encontradas no mundo animal.
Todas essas habilidades e
atividades sao caracteristicas da
imagem de Deus. Deus, de acor-
do com a Sua revelac;ao na natu-
reza e na Escritura, nao e uma for-
c;a inconsciente e cega, mas urn
Ser pessoal, auto consciente,
volitivo e ativo. Embora as emo-
c;oes, disposic;oes e paixoes, tais
como a ira, o ciume, a compaixao,
a misericordia, o amor e coisas
semelhantes, sejam inquestiona-
velmente atribuidas a Deus nas
Escrituras, elas nao sao emoc;oes
sentidas de forma passiva, mas
232
atividades de Seu Todo-Podero-
so, Santo e Amoroso Ser. A Escri-
tura nao poderia falar dessa for-
ma humana sobre Deus seem to-
das as suas habilidades e ativida-
des o homem nao tivesse sido cri-
ado aimagem de Deus.
0 mesmo e verdade, em ter-
ceiro lugar, sobre o corpo huma-
no. Nem mesmo o corpo foi ex-
cluido da imagem de Deus. De
fato, a Escritura diz expressamen-
te que Deus e Espirito (Jo 4.24) e
nao atribui corpo a Deus. Contu-
do, Deus eo Criador tambem do
corpo e do mundo dos sentidos.
Todas as coisas, inclusive as ma-
teriais, possuem sua origem e sua
existencia no Verbo que estava
com Deus (Jo 1.3; Cll.l5). 0 cor-
po, embora nao seja a causa das
atividades espirituais, e 0 instru-
mento pelo qual essas atividades
sao realizadas. Nao e o ouvido
que ouve, mas o espirito humano
e que ouve atraves do ouvido.
Portanto, todas as atividades
que sao realizadas pelo corpo e
ate mesmo os orgaos ffsicos que
sao utilizados para realizar essas
atividades podem ser atribuidos
a Deus. A Escritura fala de Suas
maos e pes, de Seus olhos e ouvi-
dos e de varios outros orgaos e
membros para indicar que tudo o
que o homem pode alcanc;ar atra-
ves do corpo e, de uma forma ori-
ginal e perfeita, devido a Deus.
"0 que fez o ouvido, acaso nao
ouvira? Eo que formou os olhos
A ORIGEM, A Ess:ENCIA E o PROP6sno oo HoMEM
sera que nao enxerga?" (Sl 94.9).
Portanto, na medida em que o
corpo serve como urn instrumen-
to do espirito, ele exibe uma cer-
ta semelhan<_;:a e da uma certa no-
<_;:ao da forma pela qual Deus age
no mundo.
* * * * *
Tudo isso pertence a ima-
gem de Deus em urn sentido am-
plo. Mas a semelhan<_;:a de Deus no
homem se torna muito mais forte
na justi<_;:a original com a qual o
primeiro homem foi dotado e que
e chamada de imagem de Deus,
em urn sentido estrito. Quando a
Escritura enfatiza a justi<_;:a origi-
nal, ela declara que o que mais
nos interessa na imagem de Deus
nao e propriamente 0 fato de que
ela existe, mas o que ela e. 0 fato
principal nao e que n6s pensamos,
odiamos, amamos e desejamos. A
semelhan<_;:a entre o homem e
Deus recebe o seu significado da-
quilo que pensamos e desejamos,
daquilo que e 0 objeto de nosso
amor ou 6dio. As for<_;:as da razao
e da vontade, da inclina<_;:ao e da
aversao, foram dadas ao homem
precisamente para esse prop6si-
to, para que sejam usadas da for-
ma correta - ou seja, de acordo
com a vontade de Deus e para Sua
gloria. Os demonios tambem pos-
suem capacidade de pensamento
2 de vontade, mas eles colocam
2ssa capacidade somente a servi-
253
<_;:o de seu 6dio e de sua inimiza-
de contra Deus. Embora a cren<_;:a
na pessoa de Deus, que eem si
mesma uma coisa boa, ela nada
concede aos demonios alem de
temor e tremor de Seu julgamen-
to (Tg 2.19). Com rela<_;:ao aos ju-
deus, que foram chamados filhos
de Abraao e chamaram Deus de
seu Pai, Jesus disse que eles de-
veriam fazer as mesmas obras que
Abraao, e crer naquele que lhes
foi enviado. Mas, como eles esta-
vam fazendo precisamente o
oposto e queriam matar Jesus,
eles provaram que sao realmente
filhos do diabo e que queriam fa-
zer a vontade de seu pai (Jo 8.39-
44). Os desejos que os judeus ti-
veram e as obras que eles realiza-
ram foram usados pelo diabo.
Dessa forma, podemos observar
que a semelhan<_;:a do homem com
Deus nao esta, precisamente, no
fato do ser humano possuir razao
e entendimento, corac;ao e vonta-
de. Ela se expressa, principalmen-
te, no puro conhecimento e na
perfeita justi<_;:a e santidade, que
juntas constituem a imagem de
Deus em urn sentido estrito, e
com a qual o homem foi privile-
giado e adornado em sua criac;ao.
0 conhecimento que foi
dado ao primeiro homem nao
consistiu no fato de que ele conhe-
cia tudo e nada mais tinha a apren-
der sobre Deus, sobre si mesmo e
sobre o mundo. Ate mesmo o co-
nhecimento dos anjos e dos san-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
tos e suscetivel de desenvolvi-
mento. Assim era o conhecimen-
to de Cristo sobre a terra ate o fim
de seus dias entre n6s. Esse co-
nhecimento original do primeiro
homem, implica que Adao rece-
beu urn conhecimento adequado
para as circunstancias de seu cha-
mado e para o cumprimento de
sua missao, e que esse conheci-
mento era urn conhecimento
puro. Ele amou a verdade com
toda a sua alma. A mentira, com
todas as calamitosas conseqi.ien-
cias do erro1 da duvida, da incre-
dulidade e da incerteza ainda nao
tinham encontrado morada em
seu cora<;ao. Enquanto permane-
ceu na verdade ele viu e apreciou
todas as coisas como realmente
sao elas.
0 fruto desse conhecimento
da verdade era justi<;a e santida-
de. A santidade significa que o
primeiro homem foi criado livre
de toda e qualquer mancha cau-
sada pelo pecado. Sua natureza
era polida e brilhante. Nenhum
pensamento, deliberac;ao ou dese-
jo mal flufa de seu cora<;ao. Ele
nao era o que podemos chamar de
ingenuo ou bobo, mas ele conhe-
cia Deus e ele sabia que a lei de
Deus estava escrita em seu cora-
c;ao e ele amou essa lei com toda
a sua alma. Enquanto permane-
ceu na verdade ele permaneceu
tambem no amor. A justi<;a signi-
fica que o homem, que conhecia a
verdade em sua mente, e que era
254
santo em sua vontade e em seus
desejos, tambem correspondia
completamente alei de Deus, sa-
tisfazia completamente as exigen-
cias de sua justi<;a e permanecia
diante de Sua face sem qualquer
culpa. A verdade e o amor trou-
xeram a paz em sua esteira, paz
com Deus e consigo mesmo e com
o mundo todo. 0 homem que per-
manece no lugar correto, o lugar
que lhe pertence, tambem perma-
nece em urn correto relaciona-
mento com Deus e com suas cria-
turas.
Desse estado e da circuns-
tancia na qual o homem foi cria-
do n6s nao podemos formar uma
ideia muito precisa. A cabe<;a eo
cora<;ao, a mente e a vontade, tudo
puro e sem pecado - isso e algo
que esta muito alem do ambito de
nossas experiencias. Quando n6s
paramos para refletir como o pe-
cado tern se insinuado em nosso
pensamento e em nossas pala-
vras, em nossas escolhas e em
nossas a<;6es, quando a duvida se
levanta em nosso cora<;ao, ne-
nhum estado de verdade, amor e
paz e possivel ao homem. A Sa-
grada Escritura, contudo, nos da
a vit6ria e vence toda duvida. Em
primeiro lugar ela nos mostra, nao
apenas no come<;o, mas tambem
no decorrer da hist6ria, que a fi-
gura de urn homem que pudesse
cumprir toda a justi<;a coloca a
questao aos seus oponentes:
"Quem de voces me convence de
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PROP6SITO DO HoMEM
pecado?" (Jo 8.46). Cristo era ho-
mem, urn homem perfeito. Ele
nao pecou, nem dolo algum se
achou em Sua boca (lPe 2.22). Em
segundo lugar a Escritura nos en-
sina que o primeiro casal huma-
no foi criado aimagem de Deus
em justic;:a e santidade e como re-
sultado disso ele conheceu a ver-
dade. Dessa forma a Escritura afir-
ma que o pecado nao faz parte da
natureza humana, e que, portan-
to, ele pode ser removido e sepa-
rado da natureza humana.
Se o pecado fizesse parte da
natureza humana desde sua ori-
gem, entao pela natureza do caso
nenhuma redenc;:ao seria possivel.
A redenc;:ao do pecado seria, nes-
se caso, uma aniquilac;:ao da na-
tureza humana. Mas como o pe-
cado nao faz parte da natureza
humana, o ser humano nao ape-
nas pode existir hipoteticamente
sem o pecado, mas tal ser huma-
no santo ja existiu na realidade. E
quando ele pecou e tornou-se cul-
pado e corrompido, outro ho-
mem, o segundo Adao,levantou-
se sem pecado, para fazer com
que o homem caido ficasse livre
de sua culpa e fosse limpo de
toda e qualquer mancha. A cria-
c;:ao do homem, segundo a ima-
gem de Deus e a possibilidade da
queda incluem a possibilidade da
redenc;:ao e da recriac;:ao. Mas,
aquele que nega o primeiro, nao
pode concordar com o segundo;
a negac;:ao da queda tern como
235
efeito colateral a desconfortavel
prega<;ao da impossibilidade da
reden<;ao do homem. Para que
pudesse cair, o homem teve pri-
meiro que permanecer de pe. Para
que pudesse perder a imagem de
Deus, ele teve primeiro que pos-
sui-la.
*****
A cria<;ao do homem, segun-
do a imagem de Deus - conforme
n6s lemos em Genesis 1.26 e 28 -
teve o prop6sito imediato de ca-
pacitar o homem a encher a terra
e domina-la. Tal dominio nao e
urn elemento constituinte da ima-
gem de Deus. Tambem nao cons-
titui todo o conteudo dessa ima-
gem, como alguns tern afirmado.
A imagem de Deus nao e urn
adendo arbitrario e acidental.
Pelo contrario, a enfase que e co-
locada sobre o dominio esta rela-
cionada bern de perto com a cria-
<;ao a imagem de Deus e indica
conclusivamente que a imagem se
expressa no dominio e atraves
dele, mas deve desenvolver-se
cada vez mais. Alem disso, na
descri<;ao desse dominioI e clara-
mente afirmado que em uma cer-
ta medida ele foi imediatamente
dado ao homem como uma dota-
<;ao, mas que em urn sentido mui-
to mais elevado esse dominio se-
ria alcanc;:ado no futuro. Deus nao
apenas diz que fara "homens" a
Sua imagem e semelhan<;a (Gn
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
1.26), mas quando fez o primeiro
casal, o homem e a mulher, ele os
abenc;oou e disse: "Sede fecundos,
multiplicai-vos, enchei a terra e
sujeitai-a;..." (Gn 1.28), e posteri-
ormente Ele deu a Adao a missao
de cultivar e guardar o jardim (Gn
2.15).
Tudo isso nos mostra clara-
mente que o homem nao foi cria-
do para a ociosidade, mas para o
trabalho. Ele nao foi autorizado a
descansar sobre o trabalho alheio,
mas tinha que empreender esfor-
c;os para subjugar o mundo asua
palavra e vontade. Ele recebeu
essa grande, vasta e rica missao
sobre a terra. Ele recebeu uma
missao que lhe custaria seculos de
esforc;o para que fosse cumprida.
Ele foi colocado em uma direc;ao
cujo caminho era incalculavel-
mente longo, e a cujo fim ele teria
que chegar. Em resumo, ha uma
grande diferenc;a entre a condi~ao
na qual o primeiro homem foi cri-
ado e o destino ao qual ele foi cha-
mado. De fato, essa destinac;ao
esta intimamente relacionada com
a sua natureza e tambem com sua
origem, mas ao mesmo tempo e
diferente tanto de uma quanto de
outra. A natureza do homem, a
essencia de seu ser - a imagem de
Deus segundo a qual ele foi cria-
do - deveria desdobrar-se
constantantemente em formas
mais ricas e mais completas de
seu conteudo atraves de seu es-
forc;o para cumpnr sua
236
destinac;ao. Podemos dizer que a
imagem de Deus tinha que espa-
lhar-se pelos confins da terra e ti-
nha que ser impressa sobre todas
as obras das maos do homem. 0
homem tinha que cultivar a terra
e cada vez mais tornar-se uma re-
velac;ao dos atributos de Deus.
0 dominio da terra, portan-
to, era o mais proximo, mas nao
era 0 unico prop6sito para 0 qual
o homem foi chamado. A nature-
za do caso nos aponta para esse
fato. 0 trabalho que e realmente
urn trabalho nao pode ter seu fim
e seu prop6sito final em si mes-
mo, mas sempre tern como seu
objetivo primordial trazer algo a
exisb2ncia. Ele cessa quando seu
objetivo e alcanc;ado. Trabalhar,
simplesmente trabalhar, sem de-
liberac;ao, plano ou prop6sito e
trabalhar sem esperanc;a e sem
merito. Urn desenvolvimento que
continua indefinidamente nao e
urn desenvolvimento. 0 desen-
volvimento implica intenc;ao, cur-
so de ac;ao, prop6sito final,
destinacao. Se, entao, o homem
em sua criac;ao foi chamado para
trabalhar, isso implica que ele e
as pessoas que dele descenderi-
am entrariam em urn descanso
depois desse trabalho.
A instituic;ao da semana de
sete dias confirma e reforc;a essa
convicc;ao. Em sua obra de criac;ao
Deus descansou no setimo dia. 0
homem, feito aimagem de Deus,
imediatamente em sua criac;ao
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
ganha o direito e o privilegio de
seguir o exemplo divino tambem
com rela<;ao a esse descanso. A
obra que lhe e confiada, a saber,
dominar a terra, e uma fraca imi-
ta<;ao da atividade criativa de
Deus. 0 trabalho do homem e urn
trabalho que esta inteiramente
sujeito a deliberarao, segue urn
definido curso de a<;ao, e procura
atingir urn objetivo especifico. 0
homem nao e uma maquina que
se move inconscientemente; em
seu trabalho 0 homem e homem,
a imagem de Deus, urn ser
pensante, volitivo e ativo que pro-
cura criar algo, e que, por fim,
olha para o trabalho de suas maos
com aprova<;:ao. Como faz o pro-
prio Deus, o homem trabalha, ter-
mina seu trabalho, descansa e ale-
gra-se. A semana de seis dias co-
roada pelo sabado dignifica 0 tra-
balho do homem, coloca-o acima
de movimentos mon6tonos de
natureza mecanica e sela-o como
selo da vocac;ao divina. No dia de
sabado Deus entrou em Seu des-
canso de acordo com Seu prop6-
sito eo homem descansa de suas
obras da mesma forma que Deus
descansa das Suas (Hb 4.10). Isso
everdade com rela<;ao ao indivi-
duo e tambern com rela<;:ao aIgre-
ia e de forma geral. 0 mundo tam-
bern tern sua obra para realizar,
._una obra que e seguida e conclu-
1da pelo sabado. Cada dia de sa-
bado eurn exemplo, uma prova,
uma profecia e uma garantia do
257
descanso (Hb 4.9).
Epor isso, que o Catecismo
de Heidelberg, corretamente diz
que Deus criou o homem born e
segundo Sua propria imagem,
para que ele pudesse corretamen-
te conhecer Deus, seu Criador,
ama-lo e viver com Ele em eterna
bem-aventuran<;a para louva-lo e
glorifica-lo. 0 prop6sito final do
homem esta na eterna bem-
aventuran<;a, na glorifica<;ao de
Deus no ceu e na terra. Mas para
que esse fim seja alcan<;ado e ne-
cessaria que o homem cumpra
sua missao. Para entrar no descan-
so de Deus o homem deve primei-
ro realizar o trabalho de Deus. 0
caminho para 0 ceu passa pela
terra e sobre a terra. A entrada
para 0 sabado e aberta por seis
dias de trabalho.
Esse ensino do prop6sito do
homem repousa inteiramente so-
bre pensamentos que foram ex-
pressos em Genesis 1.26-3.3. Mas
o segundo capitulo tern outro
importante elemento constituinte
que deve ser acrescentado. Quan-
do Deus coloca o homem no pa-
raiso, Ele lhe da o direito de co-
mer livremente de todas as arvo-
res do jardim, exceto de uma. A
arvore do conhecimento do bern
e do mal e colocada por Deus
como uma exce<;ao. 0 homem e
avisado de que ele nao pode co-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mer do fruto dessa arvore e que
no dia em que ele comer certa-
mente morrera (Gn 2.16)7). Esse
mandamento e uma proibic;ao. Os
mandamentos foram conhecidos
por Adao parcialmente atraves de
seu proprio corac;ao e a outra parte
foi falada por Deus. Adao nao OS
inventou. Deus criou-os nele e
comunicou-os a ele. 0 homem
nao e religiosa e moralmente au-
tonomo. Ele nao e seu proprio le-
gislador e nao pode fazer tudo
como lhe agrada. Somente Deus
e o Legislador e o Juiz do homem
(Is 33.22). Todos os mandamentos
que Adao recebeu foram dados
para que, aquele que foi criado a
imagem de Deus, em todos os
seus pensamentos e obras, em sua
vida e trabalho, continuasse sen-
do a imagem de Deus. 0 homem
tinha que manter sua personalida-
de em sua propria vida, em seu
matrimonio, em sua famflia, em
seus seis dias semanais de traba-
lho, em seu descanso no setimo
dia, em seu cultivo da terrae em
sua multiplicac;ao, em seu domi-
nio sobre a terra e em sua guarda
do jardim. Adao nao podia seguir
seu proprio caminho, mas devia
seguir o caminho que Deus tinha
apontado para ele.
Mas todos esses mandamen-
tos, que davam a Adao ampla li-
berdade de movimento e toda a
terra como seu campo de opera-
c;ao, sao limitados por uma proi-
bic;ao. Essa proibic;ao, de comer o
238
fruto do conhecimento do berne
do mal, nao pertence a imagem
de Deus e nao e urn elemento
constituinte dela, alias, pelo con-
trario, essa proibi<;ao fixa o limite
da imagem de Deus. Se Adao
transgredisse essa proibic;ao ele
perderia a imagem de Deus, per-
deria a comunhao com Deus e
morreria. Por essa proibic;ao a
obediencia do homem foi testada.
Esse mandamento provaria se o
homem seguiria o caminho de
Deus ou seu proprio caminho,
provaria se ele se manteria na tri-
lha correta ou se ele se desviaria,
provaria se ele se manteria como
urn filho na casa do Pai ou se pre-
feriria tomar a porc;ao que lhe
cabe e partir para urn pais distan-
te. Por causa disso esse manda-
mento geralmente e chamado de
comando probativo. Ele possui,
em urn certo sentido, urn conteu-
do arbitrario. Adao e Eva nao po-
deriam encontrar razao pela qual
0 fruto dessa arvore tinha sido
proibido. Em outras palavras,
eles tinham que obedecer oman-
damento de Deus nao porque en-
tendessem que esse era urn man-
damento sensato, mas porque ti-
nha sido dado por Deus, com base
em Sua autoridade, para testar sua
obediencia. Esse e o motivo pelo
qual a arvore cujo fruto eles nao
podiam comer e chamada de ar-
vore do conhecimento do bern e
do mal. Era essa arvore que de-
monstraria tanto se o homem ar-
A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM
bitraria e auto suficientemente
queria determinar o que era bern
e o que era mat quanto se nesse
assunto ele se permitiria ser total-
mente guiado pelo mandamento
que Deus tinha dado sobre o que
ele deveria fazer.
Ao primeiro homem, par-
tanto, foi dado algo, ou melhor,
foi dado muito o queJazer; e tam-
bern havia algo que ele nao po-
deria fazer. Geralmente a ultima
exigencia e a mais dificil de ser
cumprida. Ha muitas pessoas
que estao tentando fazer muito,
por exemplo, pela sua saude, mas
nao querem deixar de Jazer algo
por ela, mesmo que seja algo bern
pequeno. Elas acham que a auto
nega~ao e uma carga exage-
radamente pesada. A proibi~ao
cria uma nuvem de misterios. Ela
levanta questoes tais como por
que, o que e como. Ela semeia a
duvida e incita a imagina~ao. 0
homem tinha que resistir atenta-
~ao que fluiu do mandamento
proibitivo de Deus. Essa era a luta
de fe que ele teria que veneer. Na
imagem de Deus segundo a qual
ele fora criado, ele recebeu tam-
bern a for~a pela qual ele poderia
ter permanecido firme e vencido.
Contudo esse mandamento
proibitivo tornou aparente, com
mais clareza do que a institui~ao
da semana de sete dias, que o fim
e destino do homem e diferente
do fim e destino de toda a cria-
~ao. Adao estava apenas no come-
239
~o do que ele deveria ser e do que
ele se tornaria quando alcan~asse
o fim para o qual fora criado. Ele
viveu no paraiso, mas nao vivia
ainda no ceu. Ele ainda tinha urn
longo caminho para percorrer an-
tes de chegar ao seu proprio des-
tino. Ele tinha que alcan~ar a vida
eterna por sua "comissao" e
"omissao". Em resumo, ha uma
grande diferen~a entre o estado
de inocencia no qual o primeiro
homem foi criado e o estado de
gloria ao qual ele estava destina-
do. A natureza dessa diferen~a se
torna clara para nos atraves do
restante da revela~ao.
Adao era dependente da
mudan~a de noite e dia, sono e
vigilia, mas nos somos informa-
dos de que na Jerusalem Celestial
nao havera noite (Ap 21.25; 22.5)
e que os redimidos pelo sangue
do Cordeiro estarao diante do tro-
no de Deus e o servirao de dia e
de noite (Ap 7.15). 0 primeiro
homem foi limitado asemana de
seis dias de trabalho e urn dia de
descanso, mas para o povo de
Deus havera urn descanso eterno,
interminavel (Hb 4.9; Ap 14.13).
No estado de inocencia o homem
diariamente precisava comer e
beber, mas no futuro Deus des-
truira tanto o estOmago, quanto os
alimentos (1Co 6.13). 0 primeiro
casal humano consistiu de urn
homem e de uma mulher e rece-
beu a seguinte ben~ao: "Sede fe-
cundos e multiplicai-vos". Mas na
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ressurrei<;ao os homens nao se
casam e nao se dao em casamen-
to, mas sao como os anjos nos ceus
(Mt 22.30). 0 primeiro homem,
Adao, era da terra, terreno, tinha
urn corpo natural e era uma alma
vivente, mas os crentes na ressur-
rei<;ao, receberao urn corpo espi-
ritual e levarao a imagem do ho-
mem celestiat a imagem de Cris-
to, o Senhor do ceu (1Co 15.45-49).
Adao foi criado de tal forma que
ele podia se desviar, podia pecar,
podia cair e podia morrer; mas os
crentes, mesmo na terra, estao, em
princfpio, acima dessa possibili-
dade. Eles nao podem viver pe-
cando, pois aquele que e nascido
de Deus nao vive na pratica do
pecado, pois o que permanece
nele e a divina semente; ora, esse
nao pode viver pecando, porque
e nascido de Deus (1Jo 3.9). Eles
nao podem cair definitivamente,
porque sao guardados pelo poder
de Deus, mediante a fe, para a sal-
va<;ao preparada para revelar-se
no ultimo tempo (1Pe 1.5). E eles
nao podem morrer, pois aqueles
que estao em Cristo possuem, ja
nesta vida, a vida eterna incor-
ruptivel; eles nao morrerao eter-
namente, mesmo que morram nes-
sa vida (Jo 11.25,26).
Ao olharmos para o primei-
ro homem, portanto, n6s devemos
evitar os dois extremos. Por um
lado n6s devemos, com base na
Sagrada Escritura, afirmar que ele
foi imediatamente criado a ima-
240
gem de Deus em verdadeiro co-
nhecimento, justi<;a e santidade.
Ele nao era uma crian<;a pequena
e ingenua que deveria se desen-
volver ate a maturidade, ele nao
era urn ser que, embora maduro
quanto ao corpo, era espiritual-
mente vazio, assumindo uma po-
si<;ao neutra entre a verdade e a
falsidade, entre o bern e mal e
muito menos era ele urn animal,
gradualmente desenvolvido e
que agora, ap6s grande empenho
e esfor<;o, tornou-se urn homem.
Tal representa<;ao esta em confli-
to irreconciliavel com a Escritura
e com a razao.
Por outro lado, o estado do
primeiro homem nao deve ser
exageradamente glorificado como
as vezes se faz na doutrina crista
e na prega<;ao. Apesar do homem
ter sido colocado por Deus em urn
lugar de destaque, ele ainda nao
tinha alcan<;ado o nfvel mais alto
possivel. Ele era capaz de nao
pecar, mas nao era incapaz de
pecar. Ele ainda nao possuia a
vida eterna que nao pode ser cor-
rompida e nao pode morrer, mas
recebeu uma imortalidade preli-
minar cuja existencia e dura<;ao
dependiam do cumprimento de
uma condi<;ao. Ele foi imediata-
mente criado aimagem de Deus,
mas ele ainda podia perder essa
imagem e toda a gloria nela con-
tida. Ele viveu no paraiso, e ver-
dade, mas 0 paraiso nao era 0 ceu.
Uma coisa estava faltando em to-
A ORIGEM, A EssENCIA Eo PROP6SITO DO HoMEM
das as riquezas, tanto espirituais
quanto fisicas, que Adao possuiu:
certeza absoluta. Se nos nao possu-
imos certeza absoluta nosso des-
canso e nosso prazer nao sao per-
feitos. De fato, o mundo contem-
poraneo com seus muitos esfor-
<;:os para segurar tudo o que o ho-
mem possui e uma satisfatoria
evidencia dessa verdade. Os cren-
tes estao seguros nesta vida e na
proxima, pois Cristo e quem OS
guarda e nao permitira que eles
sejam arrebatados de sua mao (Jo
10.28). 0 verdadeiro amor lan<;:a
fora o medo (1Jo 4.18) enos per-
suade de que nada nos separara
do amor de Deus, que esta em
241
Cristo Jesus nosso Senhor (Rm
8.38-39). Mas essa certeza absolu-
ta estava ausente no paraiso.
Adao nao estava, apesar de sua
cria<;:ao a imagem de Deus, per-
manentemente estabilizado no
bern. Independente de quanto ele
possuia, ele podia perder tudo,
nao somente ele mesmo, mas tam-
bern sua posteridade. Sua origem
era divina; sua natureza estava re-
lacionada anatureza divina; seu
destino era a eterna bem-
aventuran<;:a na presen<;:a imedia-
ta de Deus. Mas para alcan<;:ar seu
destino ele foi feito dependente
de sua propria escolha e de sua
propria vontade.
CAPITULO
11~
0 PECADO E A MaRTE
0
terceiro capitulo de
Genesis nos fala sobre a
desobediencia e a queda
do homem. Presumivelmente,
nao foi muito tempo depois da
sua cria<;:ao que o homem se fez
culpado por transgredir o manda-
mento divino. A cria<;:ao e a que-
da nao sao coexistentes e nao de-
vern ser confundidas uma com a
outra. Elas diferem uma da outra
em natureza e em essencia, mas
cronologicamente elas sao muito
pr6ximas.
As circunstancias nas quais
o homem vivia no parafso eram
muito parecidas com as circuns-
tancias dos anjos. A Sagrada Es-
critura nao nos da urn registro de-
talhado sobre a cria<;:ao e queda
dos anjos; ela nos diz somente o
que n6s precisamos saber para
que tenhamos urn correto enten-
dimento do homem e de sua que-
da. Ela nao faz considera<;:oes pos-
teriores e nao faz qualquer esfor-
<;:o no sentido de satisfazer nossa
curiosidade. Mas n6s sabemos
que os al£jos existem, que urn
grande numero deles caiu e que
essa queda aconteceu no come<;:o
do mundo. Everdade que alguns
estudiosos situam o tempo da cri-
a<;:ao dos anjos muito antes de
Genesis 1.1, mas a Escritura nao
nos da base para isso.
0 come<;:o de toda a obra de
cria<;:ao esta registrado em
Genesis 1.1 e em Genesis 1.31 e
dito que toda a obra de cria<;:ao, e
nao apenas a cria<;:ao da terra, foi
vista por Deus e foi declarada
como sendo muito boa. Isso me
faz pensar que a rebeliao e a de-
sobediencia dos anjos tenham
acontecido depois do sexto dia da
cria<;:ao.
Por outro lado, a Escritura
nos ensina que a queda dos anjos
precedeu a queda do homem. 0
243
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
pecado nao surgiu pela primeira
vez na terra, mas no ceu, na pre-
sen<;a imediata de Deus, junto ao
Seu trono. 0 pensamento, o dese-
jo, a vontade de resistir a Deus
surgiu primeiramente no cora<;ao
dos anjos. Eprovavel que o orgu-
lho tenha sido o primeiro pecado
e o principio da queda dos anjos.
Em 1Tim6teo 3.6 Paulo exorta a
igreja a nao escolher como bispo
algw?m que tenha sido converti-
do ha pouco tempo, para que ele
nao sinta orgulho e caia na con-
dena<;ao do diabo. Se esse julga-
mento ou essa condena<;ao do di-
abo significa o pecado no qual ele
caiu depois de se exaltar contra
Deus, entao n6s temos aqui urn
indicio do fato de que o pecado
do diabo come<;ou com a auto-
exalta<;ao e orgulho.
Mas pode ser que a queda
dos anjos tenha precedido a do
homem. Alem disso, o homem
nao transgrediu a lei de Deus ex-
clusivamente por si mesmo, mas
foi movido por algo fora de si
mesmo. A mulher, enganada e
tentada pela serpente, cometeu a
transgressao (2Co 11.3; 1Tm 2.14).
Certamente n6s nao devemos ima-
ginar que essa serpente seja uma
representac;:ao simb6lica, mas uma
serpente real, pois n6s somos in-
formados de que a serpente era
mais sagaz do que todos os ani-
mais selvaticos que o Senhor Deus
tinha feito (Gn 3.1; Mt 10.16). A
revela<;ao posterior nos da a en-
244
tender que uma forc;:a demoniaca
fez uso da serpente para encantar
o homem e fazer com que ele se
desviasse do caminho do Senhor.
Em varios pontos do Velho Tes-
tamento n6s lemos que Satanas e
o acusador e o tentador do ho-
mem (J6 1.1; Cr 21.1; Zc 3). 0 ter-
rivel poder das trevas foi revela-
do pela primeira vez quando a
divina luz celestial brilhou sobre
o mundo em Cristo. Entao, tor-
nou-se manifesto que ha outro
mundo ainda mais pecaminoso
do que esse aqui na terra. Ha uma
realidade espiritual do mal, na
qual inumeraveis dem6nios, espi-
ritos impuros e maus, cada urn
mais infquo que o outro (Mt
12.45), sao os servos e no qual Sa-
tanas eo chefe e o cabec;:a. Esse
Satanas recebe varios nomes. Ele
nao e chamado somente de Sata-
nas, que significa Adversario, mas
tambem de diabo, que significa
blasfemador (Mt 13.39), de inimi-
go (Mt 13.39; Lc 10.19), de mal ou
maligno (Mt 6.13; 13.19), de acu-
sador (Ap 12.10), de tentador (Mt
4.3), de Belial, que significa inutil
(2Co 6.15), de Belzebu (Beelzebul
ou Beelzebub), o nome pelo qual
o deus voador de Ecrom era cha-
mado 2Re 1.2; Mt 10.25), o princi-
pe dos dem6nios (Mt 9.34), o prin-
cipe da potestade do ar (Ef 2.2), o
prfncipe deste mundo (Jo 12.31),
o deus desta era ou o deus deste
mundo (2Co 4.4t o grande dragao
e a antiga serpente (Ap 12.9).
0 PEcAoo E A MoRTE
Essa realidade das trevas
nao existe desde o come<;:o da cri-
a<;:ao, ela passou a existir somen-
te depois da queda de Satanas e
de seus anjos. Pedro diz de for-
ma generica que os anjos pecaram
e foram punidos por Deus (2Pe
2.4), mas Judas, no sexto versiculo
de sua carta, explica com mais
precisao a natureza do pecado
dos anjos, dizendo que eles nao
guardaram seu estado original,
isto e, 0 estado no qual foram cri-
ados por Deus e abandonaram
sua habita<;:ao no ceu. Eles nao
estavam satisfeitos com o estado
que Deus lhes tinha dado e dese-
jaram algo mais. Essa rebeliao
aconteceu no principia, pois o di-
abo peca desde o principia (lJo
3.8) e desde o come<;:o ela foi
dedicada acorrup<;:ao do homem.
Jesus afirma expressamente que
Satanas era assassino desde o co-
me<;:o e que jamais se firmou na
verdade porque ementiroso (Jo
8.44).
Desse Satanas veio a tenta-
<;:ao ao homem. Ela veio na forma
de urn ataque ao mandamento
que Deus tinha dado de nao co-
mer da arvore do conhecimento
do bern e do mal. 0 ap6stolo
Tiago afirma que Deus esta acima
da tenta<;:ao, e que Ele nao pode
tentar o homem. Naturalmente o
significado dessa afirma<;:ao nao e
que Deus nao prove o homem ou
nao coloque o homem aprova. A
Escritura registra varios casos em
245
que Ele faz exatamente isso, seja
com Abraao, Moises, J6, Cristo, ou
imediatamente com o primeiro
homem, Adao. Mas quando al-
guem e reprovado nessa prova,
essa pessoa eimediatamente in-
clinada a colocar o peso da culpa
pela sua queda sobre Deus, dizen-
do que Deus queria fazer-lhe mal,
ou que queria submete-lo a uma
prova na qual essa pessoa certa-
mente seria reprovada.
N6s podemos observar que,
depois da queda, Adao imediata-
mente faz isso. Agir assim ease-
creta inclina<;:ao de todo homem.
Tiago reage a essa tendencia e afir-
ma definitiva e firmemente que
Deus esta acima do nivel da ten-
ta<;:ao e que Ele mesmo a ninguem
tenta. Ele nunca tenta uma pessoa
com a inten<;:ao de faze-la cair e
Ele nunca submete alguem a uma
prova que essa pessoa nao tenha
capacidade de suportar (lCo
10.13). 0 mandamento probativo
dado a Adao tinha o objetivo de
fazer com que a obediencia se tor-
nasse manifesta e isso significa
que ela nao estava alem de suas
for<;:as. Humanamente falando, o
homem poderia facilmente ter
cumprido esse mandamento,
pois, esse mandamento era luz, e
o seu peso nao pode ser compa-
rado com todos os outros manda-
mentos que foram dados depois
dele.
Mas da mesma forma como
Deus faz o bern, Satanas faz o mal.
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Satancis exagerou o mandamento
probativo e transformou-o em
uma tenta<;ao, urn ataque secreto
aobediencia do primeiro homem
e atraves dessa tenta<;ao sua inten-
<;ao era claramente fazer com que
o homem pecasse. Primeiro, o
mandamento que Deus tinha
dado, e representado como urn
fardo arbitrariamente colocado
sobre o homem, como uma limi-
ta<;ao infundada da liberdade hu-
mana. Dessa forma Satanas lan<;a
na alma de Eva a duvida sobre a
justi<;a desse mandamento e sobre
a sua origem divina. Depois, a
duvida se desenvolve em incre-
dulidade, por meio do pensamen-
to de que Deus deu esse manda-
mento para impedir que o homem
se tornasse como Ele, conhecedor
do berne do mal. Essa increduli-
dade e colocada a servi<;o da ima-
gina<;ao e faz com que a transgres-
sao parec;a ser, nao urn caminho
para a morte, mas urn caminho
para a vida, para a igualdade com
Deus. A imagina<;ao, dessa forma,
faz sua obra na inclina<;ao e no
esfor<;o do homem e a arvore proi-
bida passa a ter outra aparencia.
Ela se torna agradavel aos olhos
e desejavel ao cora<;ao. 0 desejo,
sendo concebido dessa forma, ex-
pulsa a vontade e carrega consi-
go o ato pecaminoso. Eva toma o
fruto e come e o da tambem ao
seu marido, e ele tambem come
(Gn 3.1-6).
246
*****
Dessa forma simples, mas
profundamente psicol6gica, a Es-
critura relata a hist6ria da queda
e a origem do pecado. Dessa mes-
ma forma o pecado continua a ser
praticado. Ele come<;a com o
obscurecimento do entendimen-
to, continua atraves da excita<;ao
da imagina<;ao, estimula o desejo
no cora<;ao e culmina em urn ato
da vontade. Contudo, ha uma
grande diferen<;a entre o primei-
ro pecado e todos os pecados pos-
teriores. Os pecados posteriores
pressup6em uma natureza peca-
minosa no homem e fazem dessa
natureza seu ponto de contato. Tal
natureza nao existia em Adao e
Eva, pois eles foram criados a
imagem de Deus. Mas n6s faze-
mas bern em nos lembrarmos que
mesmo em toda a sua perfei<;ao
eles foram criados de tal forma
que eles pudessem cair e em vir-
tude dessa natureza seu pecado
tem urn carater de insensatez.
Quando uma pessoa peca ela
sempre tenta se desculpar ou se
justificar, mas nunca tern sucesso.
Nunca ha uma base sensata para
o pecado. Sua existencia e e con-
tinuara sendo uma transgressao
da lei. Ha algumas pessoas em
nossos dias que tentam sustentar
que 0 pecador e conduzido a urn
ato pecaminoso pelas circunstan-
cias ou pela sua disposic;ao, mas
nem racionalmente, nem psicolo-
0 PECADO E A MORTE
gicamente o pecado pode ter sua
origem em uma disposic_;:ao ou
ac_;:ao que tenha qualquer razao
para existir.
Isso e particularmente ver-
dade a respeito do primeiro pe-
cado que foi cometido, o primei-
ro pecado do homem no paraiso.
Em nossos dias n6s vivemos em
circunsHl.ncias diferentes. Essas
circunstancias nao justificam 0 pe-
cado, mas limitam a medida da
culpa. Mas no pecado do primei-
ro casal humano nao havia uma
circunstancia sequer que pudes-
se diminuir ou modificar o fator
da culpa. De fato, tudo o que pode
ser designado como contexto des-
se evento - como a revelac_;:ao es-
pecial que revelou-lhes o manda-
mento probativo, o conteudo do
mandamento probativo, que exi-
gia apenas uma pequena auto ne-
gac;:ao, a seriedade da ameac;:a de
penalidade relacionada com a
transgressao, o horror das conse-
quencias, a santidade de sua na-
tureza- tudo isso agrava a exten-
sao da culpa.
N6s podemos lanc;:ar alguma
luz sobre a possibilidade da queda,
mas a transic_;:ao da possibilidade para
a realidade permanece oculta nas
trevas. A Escritura nao faz qual-
quer esforc;:o para fazer com que
essa transic_;:ao seja inteligivel. For-
tanto, a Escritura tambem susten-
ta o pecado inalterado em seu ca-
rater. 0 pecado existe, mas ele e
ilegitimo. Ele esta e permanecera
para sempre em conflito com a lei
de Deus e com o testemunho de
nossa consciencia.
Ao relatar esses dois fatos,
isto e, ao dar, por urn lado, urn
registro psicol6gico do surgi-
mento do pecado, urn relato do
que cada urn sente em sua propria
vida e ao deixar o pecado, por
outro lado, nu ecru em sua natu-
reza insensata e injustificavet o
registro da queda em Genesis 3
coloca-se imensuravelmente aci-
ma de tudo o que a sabedoria
humana no curso dos seculos tern
sido capaz de produzir sobre a
questao da origem do pecado.
Que existe 0 pecado e a miseria e
algo que todos n6s sabemos, nao
apenas por causa do registro da
Escritura; isso e algo que nos e en-
sinado diariamente e em todos os
momentos por uma natureza que
geme com gemidos inexprimi-
veis. Todo o mundo esta marca-
do pela queda. E se o mundo ao
nosso redor nao nos proclamasse
essa verdade, mesmo assim n6s
seriamos a todo momento lembra-
dos disso pela voz de nossa cons-
ciencia, que continuamente nos
acusa e pela miseria do corac;:ao,
que da testemunho de uma tris-
teza inominavel.
Epor isso, que em todas as
epocas e em todos OS lugares, a
humanidade sempre perguntou:
247
Por que o mal? Por que o mal do
pecado e o mal da miseria? Essa
e a questao que, mais do que a
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questao da origem do homem,
tern ocupado o pensamento do
homem e tern pressionado seu co-
ra<;ao e sua mente dia ap6s dia.
Mas agora compare as solu<;6es
que a sabedoria humana tern
dado a essa questao com a sim-
ples resposta das Escrituras.
Naturalmente as solu<;6es
humanas nao sao semelhantes.
Contudo, elas exibem uma certa
rela<;ao entre si e e com base nes-
sa rela<;ao que elas podem ser
classificadas. A solu<;ao mais
comumente freqiiente e aquela
segundo a qual o pecado nao esta
dentro do homem, mas fora dele e
ataca-o pelo lado de fora. Segun-
do essa ideia, a natureza humana
e boa e seu cora<;ao e limpo. 0
pecado esta nas circunstancias, no
meio ambiente, na sociedade na
qual o homem esta inserido. Eli-
mine essas circunstancias e refor-
me a sociedade - introduza, por
exemplo, uma distribui<;ao igua-
litaria de rendas e bens entre to-
dos os homens- eo homem na-
turalmente sera born. Ele nao tera
mais raz6es para fazer o mal.
Esse pensamento sobre a
origem e a essencia do mal tern
tido muitos adeptos porque o
homem e sempre inclinado a
transferir sua culpa para as cir-
cunstancias. Mas esse ponto de
vista foi especialmente favored-
do quando, a partir do seculo de-
zoito, os olhos foram abertos para
a corrup<;ao politica e social e
248
uma mudan<;a radical do estado
e da sociedade passou a ser vista
como a solw;:ao para os nossos
males. Mas sobre essa questao da
bondade natural do homem 0 se-
culo dezenove trouxe de volta
uma certa desilusao.
For causa disso outra expli-
ca<;ao sobre a origem do pecado
na natureza sensorial do homem
entrou em moda. 0 homem tern
uma alma, contudo ele tambem
possui urn corpo; ele e espirito,
mas ele tambem e corpo. A carne
em si mesma sempre tern certas
tendencias e inclina<;6es pecami-
nosas, desejos mais ou menos
impuros, paix6es e dessa forma
ela naturalmente se op6e ao espi-
rito com suas imagens, ideias e
ideais. Visto como o homem,
quando, nasce, continua por al-
guns anos a viver urn tipo de vida
botanica e animal e como crian<;a
vive em termos de imagens con-
cretas, torna-se evidente que a car-
ne pode, por anos e anos, ser o
elemento dominante, mantendo o
espirito em sujei<;ao. De acordo
com esse ponto de vista, apenas
gradualmente o espirito se eman-
cipa do poder da carne. Mas, mes-
mo que seja gradualmente, ode-
senvolvimento da carnalidade
para a espiritualidade e continuo
na ra<;a humana e no individuo.
De alguma forma, pensado-
res e fil6sofos tern repetidamente
falado sobre a origem do pecado.
Mas em tempos recentes, eles tern
0 PECADo E A MoRTE
recebido forte apoio da teoria que
diz que 0 homem eurn descen-
dente do animal, e em seu cora-
~ao ele ainda eurn animal.
Alguns chegam a afirmar
que o homem continuara sendo
urn animal para sempre. Mas al-
guns mantem a esperan<;a de que,
visto como o homem tern se de-
senvolvido tao gloriosamente em
compara~ao com seus antepassa-
dos, ele se desenvolvera ainda
mais no futuro e talvez ate chegue
a se tornar urn anjo. Portanto pode
ser que a descendencia humana a
partir dos animais possa nos for-
necer uma solu~ao para o proble-
ma do pecado. Se o homem tra~ar
sua descendencia a partir da vida
animal, entiio eperfeitamente na-
turat e nao deve causar qualquer
espanto que o velho animal con-
tinue em a~ao dentro dele contra-
lando suas a~oes.
Portanto, de acordo comes-
ses pensadores, o pecado nada
mais e do que urn vestigio da an-
tiga condi~ao animal do homem.
Sensualidade, roubo/ assassinato
e coisas semelhantes sao praticas
que eram comuns entre os povos
primitivos e essas praticas estao
presentes, em nossos dias1 entre
os assim chamados criminosos.
Mas essas pessoas, que voltam a
praticas primitivas e originais,
nao devem ser consideradas pro-
priamente como criminosos, mas
como pessoas retr6gradas, fracas/
doentes e insanas e nao devem ser
249
punidas em prisoes, mas tratadas
em hospitais. 0 que o ferimento
e para Q corpo1 0 criminoso e para
a sociedade. 0 pecado e uma do-
en~a que o homem herdou de sua
preexistencia animal e que aos
poucos vai sendo subjugada.
Se n6s levarmos essa linha
de raciodnio asua conclusao 16-
gica e procurarmos a origem do
pecado nos sentidos1 na carne/ na
origem animal, n6s chegaremos
naturalmente a doutrina, geral-
mente ensinada no passado, de
que o pecado tern seu ponto de
partida na materia, ou, para falar-
mos de modo rnais preciso, na
existencia finita de todas as cria-
turas. Na antiguidade essa era a
opiniao predominante sobre a ori-
gem do pecado. De acordo com
esse ponto de vista, o espfrito e a
materia sao opostos urn ao outro,
como a luz e as trevas. A oposi-
~ao e eterna1 e OS dois nunca po-
dem chegar a uma verdadeira e
completa comunhao urn com o
outro. A materia, entao, nao seria
algo que tivesse sido criada. 0
Deus de luz nao poderia criar a
realidade das trevas. Ela deve ter
existido eternamente paralela-
mente a Deus, sem forma, escura/
sem qualquer tipo de vida ou de
luz. Ate mesmo quando ela foi
modelada por Deus e usada para
fazer o mundo/ ela continuou sen-
do incapaz de assumir a ideia es-
piritual. As trevas absolutas nao
admitiriam a luz.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Para alguns pensadores
essa materia escura possui uma
origem divina. Nesse caso have-
ria dois deuses, que coexistiram
desde a eternidade, urn deus de
luz e urn deus das trevas, urn deus
born e urn deus mau. Outros
tentam trac;ar os dois eternos prin-
cipios do bern e do mal a urn
-Lmico deus e dessa forma fazem
de deus urn ser duplo. Ha em
Deus uma inconsciencia, uma es-
curidao, uma base secreta fora da
qual a consciencia, clareza e
luminosidade se expressam. A
primeira e a origem basica da es-
curidao e do mal no mundo, e a
segunda e a fonte de toda luz e
vida.
Se n6s dermos urn passo
mais adiante, n6s chegaremos nos
dias modernos a doutrina de al-
guns fil6sofos segundo a qual
Deus em si mesmo nada mais e
do que uma natureza escura, uma
forc;a cega, uma fome eterna, urn
desejo arbitrario, que se torna
consciente e se transforma em luz
somente na rac;a humana. Esse,
certamente, e 0 ponto de vista
diametralmente oposto ao ensino
das Escrituras. A Escritura nos diz
que Deus e luz e que nEle nao ha
trevas e que todas as coisas foram
feitas pela Sua Palavra. Mas a fi-
losofia de nossos dias nos diz que
Deus e escuridao, abismo, e que
a luz brilha para Ele somente no
mundo e na rac;a humana. Portan-
to1 nao e 0 homem que precisa ser
250
salvo por Deus, mas e Deus que
carece de salvac;ao e deve procu-
rar no homem a sua redenc;ao.
Eclaro, que essa ultima con-
clusao nao e totalmente, nem tao
fortemente afirmada por aqueles
que apreciam essa teoria, nem e
apresentada de forma tao crua e
sem rodeios, mas chega ao mes-
mo lugar da rota seguida por
aqueles que aderem as teorias
sobre a origem do pecado apre-
sentadas acima. Essas teorias po-
dem diferir umas das outras, mas
todas elas tern em comurn o fato
de procurarem a origem do peca-
do nao no desejo da criatura, mas
na estrutura e na natureza das coi-
sas, e, portanto, no Criador, que e
a causa tanto da estrutura quanto
da natureza de tudo o que existe.
Se o pecado se esconde nas cir-
cunsh1ncias, na sociedade, nos
sentidos, na carne, na materia,
entao a responsabilidade por isso
deve ser colocada sobre o Criador
e Sustentador de todas as coisas.
E dessa forma o homem fica isen-
to de culpa. Dessa forma o peca-
do nao tern sua origem na queda,
mas na criac;ao. Nesse caso a cria-
c;ao e a queda sao identicas. En-
tao a existencia, o ser em si mes-
mo, e pecado. A imperfeic;ao mo-
ral e o mesmo que a finitude e a
redenc;ao e absolutamente impos-
sivet ou culmina na aniquilac;ao
do reat no nirvana.
A sabedoria de Deus e exal-
tada acima da especulac;ao huma-
0 PECADO E A MORTE
na. A especula<;ao humana colo-
ca a responsabilidade pelo peca-
do em Deus e inocenta o homem;
a sabedoria de Deus justifica Deus
e coloca o peso da culpa sobre o
homem. A Escritura eo livro que
do come<;o ao fim inocenta Deus
e condena o homem. A Escritura
e uma grande e poderosa
teodiceia, uma justifica<;ao de
Deus, de todos os Seus atributos
e de todas as Suas obras e nisso
ela eapoiada pelo testemunho da
consciencia de todas as pessoas.
De fato, o pecado nao e algo que
esteja fora dos limites da provi-
dencia de Deus; a queda nao
aconteceu fora do escopo de Seu
conhecimento, de Seu conselho e
de Sua vontade. Todo o desenvol-
vimento e toda a hist6ria do pe-
cado e guiada por Ele e isso faz
com que a dire<;ao do pecado seja
sempre orientada. 0 pecado nao
efalta de planejamento, nem fal-
ta de poder de Deus; contra o pe-
cado Deus continua sendo Deus,
perfeito em sabedoria, bondade e
poder.
De fato, Deus e tao bondoso
e tao poderoso que pode extrair
o bern do mal e pode fazer o mal
agir contra sua propria natureza
e cooperar na glorifica<;ao de Seu
nome e no estabelecimento de Seu
reino. Mas o pecado continua pos-
suindo seu carater pecaminoso. Se
em urn sentido especffico n6s po-
demos dizer que Deus quis o pe-
cado, visto que sem Sua vontade
251
e fora dela nada pode vir aexis-
tencia, deve ser sempre lembrado
que foi como pecado que Ele o
desejou, algo anormal e ilegitimo,
portanto, algo que esta em confli-
to com seu mandamento.
Ao inocentar Deus, a Escri-
tura mantem a natureza do peca-
do. Se o pecado nao tern sua ori-
gem no desejo do Criador, mas na
essencia ou ser que precede a von-
tade, ele imediatamente perde seu
caniter moral, torna-se ffsico e na-
tural, urn mal insepanivel da exis-
tencia e da natureza das coisas.
Dessa forma o pecado seria uma
realidade independente, urn prin-
dpio original, urn tipo de mal ma-
terial como uma doen<;a. Mas a
Escritura nos ensina que o peca-
do nao ee nao pode ser issof pois
Deus e o Criador de todas as coi-
sas e tambem da materia, e quan-
do a obra de cria<;ao foi termina-
da Deus viu tudo o que tinha sido
feito e disse que tudo era muito
born.
Portanto, o pecado nao per-
tence anatureza das coisas. Ele e
uma manifesta<;ao de caniter mo-
ral que atua na esfera etica e con-
siste de urn afastamento da nor-
ma etica que Deus, por Sua von-
tade, estabeleceu para o homem.
0 primeiro pecado consistiu na
transgressao do mandamento
probativo e, dessa forma, na trans-
gressao de toda a lei moral, que,
juntamente como mandamento
probativo, possui autoridade di-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vina. Os muitos nomes que a Es-
critura usa para designar o peca-
do- transgressao, desobediencia,
injusti<;a, impiedade, inimizade
contra Deus e outros semelhantes,
apontam para a mesma dire<;ao.
Paulo diz que pela lei veio o co-
nhecimento do pecado (Rm 3.20)
e Joao declara que todo pecado1
tanto os menores quanto os mai-
ores, sao injusti<;a e transgressao
da lei (lJo 3.4).
Se transgressao e o carater
do pecado, entao esse carater nao
pode estar presente na natureza
ou essencia das coisas, pois tudo
o que existe deve sua existencia e
sua essencia somente a Deus, que
e a fonte de todo 0 bern. 0 mal,
portanto, s6 pode vir depois do
bern, pode existir somente atraves
do berne sobre o berne pode re-
almente consistir da corrup<;ao do
bern. Ate mesmo os anjos caidos,
apesar do pecado ter corrompido
sua natureza, como criaturas sao
e permanecem bons. Alem disso,
o bern, na medida em que perten-
ce aessencia das coisas, nao e ani-
quilado pelo pecado, embora seja
desviado para outra dire<;ao. 0
homem nao perdeu seu ser, sua
natureza humana, apesar do pe-
cado. Ele ainda possui uma alma
e urn corpo, razao e vontade, e
todos os tipos de emo<;5es e inte-
resses.
De acordo com a ciencia con-
temporanea, a doen<;a nao e uma
substancia especifica da materia,
252
mas uma permanencia em cir-
cunstancias transformadas, de for-
ma que as leis da vida agem so-
bre ela da mesma forma que agem
sobre urn corpo saudavel, mas os
6rgaos e fun<;5es do corpo doen-
te estao com suas fun<;5es nor-
mais prejudicadas. Ate mesmo
em urn corpo morto o funciona-
mento continua em atividade,
mas essa atividade se torna
destrutiva e desintegradora. Da
mesma forma, 0 pecado nao e
uma substancia independente,
mas urn disturbio de todas as cia-
divas e energias dadas ao homem
que faz com que elas funcionem
em uma dire<;ao diferente, nao no
sentido de conduzir a Deus, mas
no sentido de afastar-se dele. A
razao, a vontade, o interesse, as
emo<;oes, as paixoes, as habilida-
des psicol6gicas e fisicas - tudo
isso sao armas da justi<;a, mas que
foram, pela misteriosa a<;ao do
pecado, convertidos em armas da
injusti<;a. A imagem de Deus que
o homem recebeu na cria<;:ao nao
era uma substancia, mas era tao
propriamente real em sua nature-
za que, ao perde-la, o homem tor-
nou-se completamente infeliz e
deformado.
Se alguem pudesse ver o
homem como ele e, interna e ex-
ternamente, essa pessoa descobri-
ria tra<;os que se parecem mais
com Satanas do que com Deus (Jo
8.44). A doen<;a e a morte espiri-
tual tomaram 0 lugar da saude es-
0 PEcAoo E A MaRTE
piritual. Tanto a doenc;a e a morte
quanto a saude, sao elementos
constituintes de seu ser. Quando
a Escritura insiste sobre a nature-
za moral do pecado ela igualmen-
te mantem a redentibilidade do
homem.
0 pecado nao pertence aes-
sencia do mundo, mas e algo que
foi introduzido no mundo pelo
::tomem. Epor isso que ele pode
ser novamente removido do mun-
do pelo poder da Grac;a de Deus
que e mais forte que qualquer cri-
atura.
* * * * *
0 primeiro pecado que o
>omem cometeu nao ficou sozi-
~1ho por muito tempo. Ele nao era
·,1m tipo de ac;ao que, tendo sido
?raticada, poderia ser limpa no-
',·amente. Depois do pecado o ho-
:nem nao podia mais pensar no
::ue tinha acontecido. No momen-
~o exato em que o homem come-
~eu o pecado em seu pensamento
2 imagina<;:ao, em seu desejo e em
sua vontade, nesse momento uma
~remenda mudanc;a ocorreu nele.
=sso se torna evidente pelo fato de
-:'-1e, imediatamente depois dope-
~J.do, Adao e Eva tentaram escon-
-~er-se de Deus e urn do outro. Os
:·Jws de ambos se abriram e eles
::-~erceberam que estavam nus (Gn
?.:-1. Repentinamente, em urn ins-
~:mte, eles estavam mantendo urn
:.-elacionamento diferente do que
253
vinham mantendo ate entao. Eles
se viram como nunca tinham se
visto antes. Eles nao se atreveram
e nao puderam, sem reservas,
olhar urn para o outro. Eles se sen-
tiram culpados e impuros, e co-
seram folhas de figueira para
ocultarem-se urn ao outro. Eles
compartilharam dessa situac;ao e
sentiram medo e a necessidade de
se esconderem da face de Deus no
meio da arvores do jardim.
As folhas de figueira servi-
ram para esconder parcialmente
sua vergonha e desgrac;a, mas
eram inadequadas para a confron-
tac;ao face a face com Deus, e por
isso eles fugiram, fugiram para as
densas profundezas da folhagem
do jardim. A vergonha e o temor
tinham se apoderado deles, pois
eles tinham perdido a imagem de
Deus e sentiam-se culpados e im-
puros em Sua presenc;a.
Essa e sempre a conseqiien-
cia do pecado. Com relac;ao a
Deus, com relac;ao a n6s mesmos
e com relac;ao aos demais seres
humanos e perdida a espontanei-
dade espiritual e a liberdade in-
terna, pois essas sao realidades
que somente a consciencia isenta
de culpa pode excitar em nosso
corac;ao. Mas a gravidade do pri-
meiro pecado e exibida com mais
vivacidade no fato de que sua in-
fluencia se espalha do primeiro
casal para toda a humanidade. 0
primeiro passo na direc;ao errada
foi tornado e todos os descenden-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tes de Adao e Eva seguiram suas
pegadas. A universalidade do
pecado e urn fato presente na
consciencia de todas as pessoas.
A universalidade do pecado e urn
fato indisputadamente estabeleci-
do tanto pelas evidencias da ex-
periencia quanto pelas Sagradas
Escrituras.
Nao seria dificil obter teste-
munhos da universalidade do
pecado em todos os tempos e lu-
gares. A pessoa mais simples e a
mais culta concordam com isso.
Ninguem, eles diriam, nasce sem
pecado. Todos possuem suas fra-
quezas e defeitos. 0 obscured-
menta do entendimento toma seu
lugar entre as doen<;as mortais do
homem e atraves dele tomam seu
lugar tambem, nao apenas a
inevitabilidade do erro, mas tam-
bern o amor ao erro. Ninguem e
livre em sua consciencia. A cons-
ciencia e a acusadora de todos n6s
(Jo 8.9). A carga mais pesada da
humanidade e a carga da culpa.
Esses sao os sons que vern aos
nossos ouvidos por todos os la-
dos na hist6ria da humanidade.
Embora o principia fundamental
seguido pela nossa pessoa sim-
ples e pela pessoa culta seja a bon-
dade natural do homem, eles se-
rao levados, ao fim de sua inves-
tiga<;ao, a reconhecer que as se-
mentes de todos os pecados e de-
litos estao escondidas no cora<;ao
de todos os homens. Os fil6sofos
tern registrado a queixa de que
254
todos os homens sao maus por
natureza.
*****
As Sagradas Escrituras con-
firmam o julgamento que a huma-
nidade tern declarado contra si
mesma. Quando no terceiro capi-
tulo de Genesis e dado o registro
da queda, a Escritura passa a tra-
<;ar, nos capftulos seguintes, como
o pecado se espalhou pela ra<;a
humana e aumentou e como ele
alcan<;ou urn climax tao elevado
que o julgamento do diluvio tor-
nou-se uma necessidade. Com
rela<;ao agera<;ao que precedeu 0
diluvio, e dito que a maldade do
homem cresceu muito, e que to-
dos os pensamentos do cora<;ao
do homem eram continuamente
maus e que toda carne tinha cor-
rompido seu caminho na terra e
era corrupta diante de Deus
(Gn6.5,11)2). Mas o grande dilu-
vio nao trouxe mudan<;a ao cora-
<;ao do homem. Depois do dilu-
vio Deus diz que a nova humani-
dade, representada em Noe e em
sua familia, continuava tendo
maus designios desde a sua mo-
cidade (Gn 8.21).
Todos os santos do Velho
Testamento deram testemunho
desse fato. Ninguem - esse e o
lamento de J6 - da imundicie
pode tirar coisa pura (J6 14.4).
Salomao, em sua ora<;ao de dedi-
ca<;ao do templo, confessa que nao
0 PEcAoo E A MoRTE
'na homem que nao peque (1Re
S.46). N6s lemos nos salmos 14 e
33 que quando o Senhor olha des-
de 0 ceu para OS filhos dos ho-
mens para ver se ha alguem que
entenda e busque a Deus, Ele
nada ve alem de sujeira e iniqiii-
dade. Todos se desviaram e auma
se fizeram inuteis. Nao ha quem
busque a Deus, nem sequer urn.
:Jinguem pode permanecer dian-
te da face de Deus, pois aSua vis-
ta nenhum ser vivente e justifica-
do (Sl 143.2). Quem pode dizer:
Purifiquei meu cora<;ao, limpo
estou do meu pecado? (Pv 20.9).
Em resumo, nao ha homem justo
sobre a terra, que fa<;a o bern e nao
peque (Ec 7.20).
Todas essas afirma<;6es sao
de ambito tao geral e tao univer-
sal, que nao permitem qualquer
exce<;ao. Elas nao procedem de
labios de impios e malvados, que
geralmente nao mencionam seus
?r6prios pecados nem os de ou-
Tras pessoas, mas procedem do
cora<;ao de pessoas piedosas que
.:rprenderam a conhecer a si mes-
mas como pecadores, na presen-
~a de Deus. E eles nao fazem jul-
,::amento sobre pessoas que vi-
-em em pecado manifesto como
pagaos que nao possuem conhe-
cimento de Deus. Eles falam so-
bre si mesmos e sobre seu proprio
:'OVO.
;c; 51 6; 25; 32; 38; 51; 130; 143.
A Escritura nao nos descre-
ve os santos como pessoas que
viveram sobre a terra em perfei-
<;ao de santidade. Ela os apresen-
ta como pecadores que se fizeram
culpados de muitas e severas
transgress6es. Sao precisamente
os santos que, apesar de possui-
rem consciencia da justi<;a, sen-
tem-se profundamente culpados
e comparecem diante de Deus
com uma humilde confissao123
•
Mesmo quando eles se levantam
para testemunhar contra o povo e
convence-lo de sua apostasia e de
sua incredulidade elas acabam
por incluir a si mesmas nesse povo
como urn dos que deram voz a
seguinte confissao: N6s permane-
cemos em nossa vergonha e a des-
gra<;a nos cobre. Pecamos, com
nossos pais; cometemos pecado,
procedemos mal124
•
0 Novo Testamento tam-
bern nao permite a menor duvida
sobre esse estado pecaminoso de
toda a ra<;a humana. Toda a pre-
ga<;ao do Evangelho e feita sobre
essa pressuposi<;ao. Quando Joao
prega a proximidade do reino dos
ceus ele exige que os homens se
arrependam e sejam batizados,
pois a circuncisao, os sacrificios e
a obediencia a lei nao sao capa-
zes de obter justi<;a para o povo
de Israel apesar dele precisar en-
trar no reino de Deus. Por isso sa-
1
'• jr 3.15; Is 6.5; 53.4-6; 64.6; Dn 9.5 ss.; 51106.6.
255
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
:lam a ter com ele Jerusalem, toda
a Judeia e toda a circunvizinhanc;a
do Jordao; e eram por ele
batizados no rio Jordao, confes-
sando os seus pecados (Mt 3.5,6).
Cristo pregou essa mesma men-
sagem sobre o reino de Deus e Ele
tambem testificou que somente a
regenerac;ao, a fe e o arrependi-
mento podem abrir caminho para
o reino125
.
E verdade que em Mateus
9.12 e 13, Jesus diz que nao sao
todos que tern necessidade de
medico e que Ele veio chamar
pecadores, e nao justos, ao arre-
pendimento. Mas o contexto indi-
ca que Jesus eshi pensando nos
fariseus ao falar sobre a justic;a,
pois eles se recusavam a sentar-
se com publicanos e pecadores,
exaltavam-se acima deles, alarde-
avam justic;:a, e nao necessidade
de seguir o amor de Jesus.
No verso 13, Jesus afirma
expressamente que se os fariseus
entenderam que Deus, em Sua lei,
nao quer sacrificios externos, mas
piedade espirituat eles teriam
que chegar a conclusao de que,
assim como os publicanos e pe-
cadores, eram necessitados e im-
puros e precisavam arrepender-se
em nome de Jesus. Ele mesmo li-
mita Seu labor dirigindo-se as
ovelhas perdidas da casa de Isra-
el (Mt 15.24), mas depois de Sua
125
!vic 1.15; 6.12; fo 3.3.
126
Jo 1.3; C/1.16; Hb 1.2.
256
ressurreic;ao Ele da aos Seus dis-
dpulos a ordem de ir por todo o
mundo e pregar o Evangelho a
toda eriatura, pois a salvac;ao e
para todo aquele que ere em Seu
nome (Me 16.15,16).
De acordo com isso, o ap6s-
tolo Paulo comec;a sua carta aos
Romanos, com urn abrangente ar-
gumento de que todo 0 mundo e
culpado diante de Deus e que,
portanto, ninguem pode ser jus-
tificado pelas obras da lei (Rm
3.19,20). Nao somente os pagaos
precisam conheeer e glorificar a
Deus (Rm 1.18-32), mas tambem
os judeus, que se orgulham em
suas vantagens, mas que no fun-
do se fazem culpados dos mes-
mos pecados (Rm 2.1-3.20)- todos
cometeram pecados (Rm 3.9;
11.32; Gl 3.22). E isso e para que
toda boca se feche e somente a
misericordia de Deus seja
glorificada na salvac;:ao.
Alem disso, a pecamino-
sidade universal e tao fundamen-
tal na pregac;ao do Evangelho, no
Novo Testamento, que a palavra
nnmdo toma uma conotac;ao nega-
tiva, por causa dela. 0 mundo e
tudo o que nele ha foi eriado por
Deus126
, mas o pecado provoeou
uma corrupc;:ao tao profunda nele
que ele se tornou uma forc;a anta-
goniea a Deus. Ele nao eonheee o
Verbo ao qual deve sua existen-
0 PECADO E A MORTE
cia (Jo 1.10). Todo o mundo re-
pousa na maldade (1Jo 5.19) e esta
sob o governo de Satanas, que eo
principe deste mundo (Jo 14.30;
16.11) e falece em toda a sua lu-
xuria e necessidade (Tg 4.4). Por
isso quem ama o mundo prova
que nao possui o amor do Pai (1Jo
2.15) e aquele que quer ser amigo
do mundo torna-se urn inimigo
de Deus (Tg 4.4).
* * * * *
Esse terrivel estado no qual
a humanidade e o mundo exis-
tem, naturalmente levanta a ques-
tao de qual e a origem ou a causa
disso. De onde veio nao somente
o primeiro pecado, mas de onde
veio a pecaminosidade universal,
de onde veio a culpa e a corrup-
~ao de toda a ra~a humana aqual
todos - exceto Cristo - estao su-
jeitos desde o nascimento? Ha al-
guma conexao entre o primeiro
pecado cometido no paraiso e o
diluvio de iniquidade que tern
inundado o mundo? E, se houver,
qual e a natureza dessa conexao?
Ha aqueles que, juntamente
com Pelagio, negam totalmente a
existencia dessa conexao. De acor-
do com essas pessoas cada ato
pecaminoso e um ato que existe
FOr si mesmo, que nao provoca
~1ualquer mudan~a na natureza
humana e que por isso pode, no
:11omento seguinte, ser sucedido
por um ato excepcionalmente
257
born. Depois que Adao transgre-
diu o mandamento do Senhor ele
permaneceu, tanto em sua natu-
reza interna quanto em sua dispo-
si<;ao e vontade, exatamente o
mesmo. Da mesma forma todos
os filhos que descenderam desse
primeiro casal nasceram totalmen-
te isentos de culpa, assim como
Adao foi originalmente criado.
Nao ha- de acordo com esse
argumento- algo como uma na-
tureza pecaminosa, ou disposi<;ao
ou habito pecaminoso, pois toda
natureza foi criada por Deus e per-
manece sendo boa. Ha somente
atos pecaminosos e esses atos nao
formam uma serie interminavel,
mas sao tais que podem ser cons-
tantemente intercalados com bons
atos e podem ser praticados atra-
ves de uma escolha perfeitamen-
te livre da vontade. A unica influ-
encia que passa dos atos ou a<;6es
pecaminosas para a pessoa que os
pratica ou para outras que estive-
rem ao seu redor e o mal exem-
plo. Quando n6s praticamos um
ato pecaminoso n6s somos incen-
tivados a pratica-lo novamente e
nossos circunstantes sao incenti-
vados a seguir nosso exemplo. A
pecaminosidade universal da
ra<;a humana pode ser explicada
dessa forma, ou seja, em termos
de imita<;ao. Nao ha algo como
urna heran<;a pecaminosa. Todos
nascem inocentes, mas o mal
exemplo que as pessoas geral-
mente dao tern uma influencia ne-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
gativa sobre os contemporaneos
e seus descendentes. Incitados
pelo costume e pelo habito, todos
seguem o mesmo curso pecami-
noso, embora nao seja impossivel
nem improvavel que aqui e ali
algumas pessoas se levantern con-
tra a fon;a do costume e trilhem
seu proprio caminho, vivendo de
forma santa sobre a terra.
Esse esfor<;o para explicar a
pecaminosidade universal da hu-
manidade esta, portanto, nao so-
mente em conflito com a Sagrada
Escritura em muitos pontos, mas
tambem etao superficial e inade-
quado que raramente, pelo menos
na teoria, pode ser apoiado por
alguem. Ele e refutado por fatos
de nossa propria experiencia e de
nossa propria vida. Todos nos sa-
bemos, pela experiencia, que urn
ato pecaminoso nao e algo exter-
no a nos, como urna pec;:a de rou-
pa suja que pode ser tirada. Pelo
contrario, o ato pecaminoso esta
intimamente ligado anossa natu-
reza e provoca trac;:os inerradi-
caveis nela. Depois de cada ato
pecaminoso nos nao somos mais
como erarnos antes dele. 0 peca-
do nos faz culpados e impuros; ele
rouba a paz de nossa mente e de
nosso cora<;ao/ e seguido por pe-
sar e remorso, confirma nossa in-
clinac;:ao para o male deixa-nos em
uma condic;:ao na qual, finalmen-
te, nos nao podemos oferecer re-
sistencia ao poder do pecado e su-
cumbimos a leves tentac;:oes.
258
Ah~m disso, tambem contra-
ria nossa experiencia a afirma<;ao
de que 0 pecado e uma amea<;a
que vern exclusivamente de fora.
De fato maus exemplos podem
exercer uma influencia poderosa.
Podemos observar que as crian-
c;:as que possuem pais maus cres-
cem em urn meio ambiente moral
inadequado. E, por outro lado,
as crian<;as que possuem pais pi-
edosos e sao inseridas em uma
comunidade religiosa e moral re-
cebem uma benc;:ao que nao pode
ser suficientemente apreciada.
Mas esse e apenas urn lado da
questao. Esse meio ambiente mau
poderia nao ter tido uma influen-
cia tao negativa sobre a crian<;a se
a propria crian<;a nao tivesse uma
disposic;:ao para o mal em seu co-
ra<;ao; da mesma forma, urn born
meio ambiente nao teria tantas di-
ficuldades para influenciar a cri-
an<;a se essa crian<;a tivesse em
seu nascimento recebido urn co-
ra<;ao puro e suscetivel a todo o
bern.
0 meio ambiente e simples-
mente a ocasiao na qual o pecado
se desenvolve em nos. As raizes
do pecado sao profundas e se es-
condem em nosso cora<;ao. Do
cora<;ao do homem, disse Jesus,
procedem os maus pensamentos,
os adulterios, a fornicac;:ao, o as-
sassinato, o roubo e todos os ti-
pos de injusti<;a (Me 7.21). Essa
afirma<;ao e confirmada pela ex-
periencia de todos nos. Quase
0 PECADO E A MaRTE
sem o nosso desejo e conhecimen-
to, pensamentos e imagens impu-
ras vern anossa consciencia. Em
algumas ocasi6es, quando n6s en-
contramos adversidade e oposi-
c;ao, a maldade que esta profun-
damente oculta acaba por revelar-
se. Algumas vezes n6s nos assus-
tamos conosco mesmos e tenta-
mos fugir de n6s mesmos. Enga-
noso eo corac;ao mais do que to-
das as coisas, e desesperadamen-
te corrupto. Quem o conhecera?
(Jr 17.9).
Finalmente, sea imitac;ao de
maus exemplos fosse a unica cau-
sa de pecados da humanidade, a
absoluta universalidade do peca-
do nao poderia ser explicada. De
acordo com o pensamento de
Pelagio, ha aqui e ali pessoas que,
presumivelmente, vivem sem pe-
car. Mas essas excec;oes apenas
lanc;am mais luz sobre a
insustentabilidade da posic;ao de
Pelagio, pois aexcec;ao de Cristo,
nunca houve uma pessoa sobre a
terra que estivesse livre de todo e
qualquer pecado.
Nao enecessaria que n6s
conhec;amos todas as pessoas,
uma a uma, para fazer nosso jul-
gamento. A Escritura fala clara-
mente sobre isso. Toda a hist6ria
da humanidade pode provar isso.
Alem disso, o nosso proprio co-
rac;ao ea chave para 0 entendi-
mento do corac;ao de outras pes-
soas. N6s todos constituimos nao
apenas uma unidade naturat mas
259
tambem uma unidade moral. Ha
uma natureza humana que eco-
mum a todos os homens e essa
natureza eculpada e impura. A
arvore rna nao veio de maus fru-
tos, mas os maus frutos vern da
arvore rna e devem ser conside-
rados em func;ao dela.
Ha aqueles que tern reco-
nhecido a justic;a dessas conside-
rac;oes e por isso introduzido cer-
tas modificac;oes no pensamento
de Pelagio. Essas pessoas admi-
tem que a absoluta universalida-
de do pecado nao pode resultar
meramente da imitac;ao de maus
exemplos, e que o mal moral nao
vern ao homem simplesmente
pelo lado de fora, e eles se veem
impelidos a confessar que o pe-
cado mora dentro do homem des-
de o momento de sua concepc;ao
e nascimento, e que a pessoa her-
cia a natureza corrompida de seus
pais. Mas eles continuam afirman-
do que essa corrupc;ao moral, que
esta no homem atraves de sua na-
tureza enao propriamente por cau-
sa do pecado, nao tern a qualida-
de de culpa e portanto tambem
nao merece ser punida. A cor-
rupc;ao moral inata se torna peca-
do, culpa e culpabilidade somen-
te quando 0 homem chega ama-
turidade, concorda com ela, aceita
a responsabilidade por ela e atra-
ves de sua livre vontade, transfor-
ma-a em atos pecaminosos.
* * * * *
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Esse ponto de vista semi
pelagiano faz uma importante
concessao, mas, quando submeti-
do a reflexao, mostra-se inadequa-
do, pois, 0 pecado e sempre uma
ilegalidade, uma ilegitimidade,
uma transgressao e urn desvio da
lei que Deus deu as Suas criatu-
ras racionais e morais. Tal desvio
da lei se manifesta nos atos reali-
zados pelo homem, mas tambem
encontra expressao em suas dis-
posi<;6es e inclina<;6es, ou seja, em
sua natureza, desde sua concep-
<;ao e nascimento. 0 semi-
pelagianismo reconhece esse fato
e fala de uma corrup<;ao moral que
antecede as escolhas e a<;6es do
homem. Mas quem leva esse en-
sino a serio nao pode escapar da
conclusao de que a corrup<;ao mo-
ral que agora faz parte da nature-
za humana tambem e pecado e
culpa, e, portanto, merece puni-
<;ao. Ha somente essas duas pos-
sibilidades. A natureza humana
esta em harmonia com a lei de
Deus e eo que deveria ser. Nesse
caso ela nao e moralmente corrup-
ta. Por outro lado, se a natureza
humana e moralmente corrupta,
ela nao corresponde a lei de Deus
e, portanto, einjustificavel e con-
seqiientemente faz com que o ho-
mem seja culpado.
Pouca coisa pode ser dita
contra essa argumenta<;ao, mas ha
muitos que tentam escapar dela
descrevendo a corrup<;ao moral
que o homem traz dentro de si
260
pelo termo ambfguo luxuria. Na-
turalmente o uso dessa palavra
nao e errado em si mesmo. A Es-
critura tambem faz uso dela. Mas,
sob a influencia da tendencia
ascetica, que gradualmente se le-
vanta na Igreja Crista, a teologia
tern feito uso dessa palavra em
urn sentido muito limitado. Ela
tern pensado sobre esse termo
somente com rela<;ao a paixao
procriativa, que e propria do ho-
mem, e desta forma tern levanta-
do a ideia de que essa paixao,
apesar deter sido dada ao homem
na cria<;ao, e, portanto, nao ser
pecaminosa em si mesma, consti-
tui a ocasiao para o pecado.
Foi Calvino quem combateu
essa no<;:ao de luxuria. Ele nao le-
vantou obje<;6es a que se chamas-
se de luxuria a corrup<;ao moral
com a qual o homem nasce, mas
ele quis que a palavra fosse en-
tendida propriamente. Uma dis-
tin<;ao que ele achou necessaria foi
a distin<;ao entre desejo e luxuria.
Os desejos nao sao pecaminosos
em si mesmos. Cada urn deles foi
dado ao homem em sua cria<;ao.
Por ser o homem uma criatura li-
mitada, finita e dependente, ele
tern inumeraveis necessidades e,
consequentemente, tern inumera-
veis desejos. Quando ele esta com
fome, deseja comida; quando esta
com sede, deseja agua; quando
esta cansado, deseja descansar. 0
mesmo e verdade com rela<;ao ao
seu espirito. A mente do homem
0 PECADO E A MaRTE
foi criada de tal forma que deseja
a verdade, e a vontade do ho-
mem, gra<;as asua natureza cria-
da por Deus, deseja o bern. 0 de-
sejo de justi<;a e sempre born,
como n6s lemos em Proverbios
11.28. Quando Salomao nao dese-
jou riquezas, mas sabedoria, isso
foi born aos olhos do Senhor (1Re
3.5-14). E quando o poeta do sal-
mo 42 suspirou pelas correntes
das aguas, esse foi urn desejo pre-
ClOSO.
Portanto OS desejos nao sao
pecaminosos em si mesmos, mas
eles, assim como a mente e a von-
tade, foram corrompidos pelo
pecado e por isso entram em con-
flito com a lei de Deus. Nao os
desejos estritamente naturais,
mas os desejos danificados pelo
pecado e, portanto, desregulados,
que sao pecaminosos.
E a isso, em segundo lugar,
deve ser acrescentado o fato de
que os pecados nao sao restritos
anatureza fisica e sensual dana-
tureza humana. Eles pertencem
tambem asua natureza espiritual
pecaminosa. A paixao sexual nao
e 0 unico desejo natural; ela e ape-
nas urn dentre muitos. Essa pai-
xao tambern nao e pecaminosa em
si mesma, pois ela foi dada ao
homem no momento de sua cria-
c;:ao. E nao foi somente a paixao
que foi corrompida pelo pecado,
pois todos os desejos, naturais e
espirituais, tornaram-se selva-
gens e indisciplinados, por causa
261
do pecado. Os bons desejos do
homem foram transformados em
maus desejos.
Se a corrupc;:ao moral do ho-
mem e nesse sentido chamada de
desejo ou luxuria, seu carater pe-
caminoso e sua culpa estao clara-
mente corretos. Essa luxuria foi
especialmente proibida por Deus
atraves de urn mandamento (Ex
20.17). E Paulo diz que ele nao
teria conhecido o pecado se a lei
nao tivesse dito que ele nao de-
veria cobic;:ar (Rm 7.7).Quando
Paulo tornou-se conhecedor de si
mesmo e mediu nao apenas os
seus atos, mas tambem as suas in-
clinac;:oes pelo padrao da lei de
Deus, tornou-se claro para ele que
essas inclinac;:oes tambem eram
corruptas e impuras, e que elas
eram limitadas pela proibi<;ao.
Para Paulo a lei de Deus e a unica
fonte de conhecimento do pecado.
Ninguem consegue descobrir o
que e 0 pecado pela sua imagina-
c;:ao, mas somente pela lei de Deus,
que determina como e o que o
homem deve ser diante de Deus
em sua vida interna e em sua vida
externa, no corpo e no espirito,
em palavras e atos, em pensamen-
tos e inclina<;6es. Medida pelo cri-
terio da lei de Deus, nao ha duvi-
da de que a natureza humana e
corrupta e que sua cobi<;a e peca-
minosa. Nao somente o que o ho-
mem pensa e faz e pecaminoso:
ele e pecaminoso desde 0 mo-
mento de sua concep<;ao.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Alem disso, seria uma posi-
c;ao psicologicamente insustenhi-
vel dizer que 0 desejo em si nao e
pecaminoso, mas que ele se torna
pecaminoso atraves da vontade.
Abrac;ar essa posic;ao seria aceitar
o irrazoavel pensamento de que
a vontade do homem permanece
neutra e externa ao desejo, nao e
corrompida pelo pecado e, par-
tanto, pode decidir se concorda
ou nao com o desejo. Everdade
que, de acordo com a experiencia,
e perfeitamente possfvel que em
muitos casos uma pessoa, com
base em todos os tipos de consi-
derac;6es, como a moda, a respei-
tabilidade social, e coisas seme-
lhantes pode conter seus impul-
sos pecaminosos atraves da razao
e da vontade e evitar que esses
impulsos se transformem em atos
pecaminosos. No homem natural
tambem ha uma luta entre o im-
pulso e a realizac;ao, entre o dese-
jo e a consciencia, entre a cobic;a e
a razao.
Mas essa luta, e diferente em
prindpio, da luta que acontece no
homem regenerado entre o corpo
eo espfrito, entre o velho homem
e o novo homem. Essa e uma luta
externa contra a explosao da co-
bic;a. Essa luta nao invade OS fnti-
mos rec6nditos do corac;ao, nem
ataca o mal em sua raiz. Esse e urn
conflito que pode servir para res-
tringir o male limita-lo, mas nao
pode limpar internamente nem
renovar o homem. 0 carater pe-
262
caminoso da cobic;a nao e muda-
do por causa dessa luta. Embora
atraves da vontade e da razao o
homem possa em alguns casos
suprimir o desejo e a cobic;a, tan-
to a razao quanto a vontade sao
frequentemente colocados a ser-
vic;o da cobic;a. A razao e a vonta-
de nao sao opostas a cobic;a em
principio, e pela sua natureza elas
se comprazem nisso: em alimen-
ta-la e fomenta-la, em justifica-la
e vinga-la. A razao e a vontade nao
podem sequer impedir que a co-
bic;a chegue ao ponto de roubar
ao homem toda a sua indepen-
dencia e torna-lo urn escravo de
suas paix6es. Os rnaus pensamen-
tos e os maus desejos entram no
corac;ao, escurecem o entendimen-
to e poluem a vontade. 0 corac;ao
e de tal forma dominado que
pode enganar ate mesmo a razao.
*****
Todos os esforc;os para ex-
plicar a pecaminosidade univer-
sal do homem erram por procu-
rar a sua causa na queda indivi-
dual de cada pessoa. De acordo
com o pelagianismo cada homem
cai de forma independente dos
demais. Essa queda acontece par-
que ele livremente escolhe seguir
os maus exemplos dos outros. De
acordo com o semi-pelagianismo
cada homem cai por si mesmo e
sozinho por causa de sua propria
escolha de aplicar seu inerente,
0 PEcAoo E A MaRTE
porem nao pecaminoso, desejo a
sua vontade, transformando-o em
urn ato pecaminoso. Tanto uma
posi<;ao quanto a outra fazem in-
justic;:a as realidades morais que
estao presentes na consciencia de
todas as pessoas, e nenhuma das
duas posic;:6es consegue explicar
como a absoluta universalidade
do pecado da rac;:a humana pode
originar-se milh6es de vezes em
milh6es de decis6es da vontade
humana.
Contudo, esses esforc;:os, em
tempos recentes, por uma nova e
diferente forma, encontraram nu-
merosos simpatizantes. Primeira-
mente os simpatizantes dessas
duas posic;:6es eram aqueles que
criam na preexistencia do homem.
Porem, a influencia budista tern
dado nos ultimos anos urn gran-
de animo a essa crenc;:a. A suposi-
c;:ao de que os homens vivern eter-
namente, ou pelo menos durante
seculos antes de seu surgimento
na terra, ou de uma outra forma-
e essa e uma forma mais filos6fi-
ca dessa teoria - sustentam que a
vida sensual do homem sobre a
terra deve ser diferenciada de sua
forma de exisH~ncia que e total-
mente conceptive!, embora nao
possa ser vista.
Aessa ultima ideia e entao
acrescentado que a pessoa, em
sua real ou imaginaria preexis-
tencia, sente todos os seus dese-
jos, cada urn deles individual-
mente e que como punic;:ao por
265
eles deve viver aqui sobre a terra
nesse corpo material e grosseiro
e assim deve preparar-se para
outra vida, na qual ele novamen-
te recebera de acordo com as suas
obras. Ha, assim, somente uma lei
que governa toda a vida humana
antes, durante e depois de sua
vida sobre a terra e essa e a lei da
recompensa: todos receberam, re-
cebem e receberao o que suas
obras merecem. Todos colhem o
que plantam.
Essa ideia filos6fica hindu e
notavel por essa razao: ela tacita-
mente procede da pressuposic;:ao
de que nessa vida terrena a que-
da de cada pessoa individual-
mente e inconcebivel. Mas quan-
to ao resto ela nao da uma expli-
cac;:ao sobre a universalidade do
pecado semelhante aque e dada
pela teoria pelagiana. Ela sim-
plesmente empurra a dificuldade
para tras ao vincular essa vida
sobre a terra a uma vida preexis-
tente, vida essa da qual ninguem
possui recordac;:ao e da qual nada
existe, e que por isso e pura fan-
tasia. Alem disso, o ensino de que
todos serao recompensados de
acordo com seu desempenho e
uma doutrina dura para os po-
bres e doentes, os miseraveis e
destituidos. Nao ha compaixao
nessa doutrina. Ela esta em claro
contraste com os raios da Grac;:a
divina dos quais a Escritura fala.
Mas - e isso deve ser obser-
vado especialmente na presente
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
conexao - essa filosofia hindu
concorda em muitos pontos com
a doutrina pelagiana. Ambas pro-
curam a origem da universalida-
de do pecado na queda individu-
al de cada pessoa. Ambos concor-
dam em que a humanidade con-
siste de uma arbitraria agregac;ao
de almas que viveram eternamen-
te ou pelo menos durante seculos
proximas umas das outras, que
nao possuem relac;ao umas com
as outras, quanto a sua origem e
essencia e que cada uma delas
deve buscar seu proprio destino.
Cada uma delas sente somente
por si mesma, recebe seu proprio
e justo salario e tenta salvar a si
mesma. A unica coisa que une
umas as outras ea miseria na qual
todas elas existem, e, portanto, a
piedade e a simpatia sao as mais
elevadas virtudes. Mas essa teo-
ria tern sua implicac;ao obvia, ou
seja, que aqueles que vivem uma
vida afortunada na terra podem
apelar a lei da recompensa, glori-
ar-se em suas virtudes e olhar com
desdem para os desafortunados,
que de acordo com essa lei tam-
bern receberam o que lhes com-
petia.
* * * * *
Nos teremos uma vista mais
clara, dessas coisas, se apreciar-
mos a Escritura e lanc;armos luz
sobre o problema da universali-
dade do pecado humano. A Escri-
264
tura nao nos contenta com fanta-
sias ou imaginac;oes, mas reco-
nhece e respeita os fatos estabele-
cidos pela consciencia. A Escritu-
ra nao projeta a fantasia de uma
preexistencia de almas antes de
sua entrada na terra e nada sabe
de uma queda que acontece, seja
antes ou durante a vida na terra,
em cada pessoa individualmente.
Em lugar da representac;ao indi-
vidualista e atomista do budismo
e do pelagianismo, a Escritura
apresenta uma visao organica da
humanidade.
A humanidade nao consiste
de uma agregac;ao de almas indi-
viduais que incidentalmente se
uniram de todos os lados, em urn
dado lugar, e que, para melhor ou
para pior, deve agora, de alguma
forma, por causa de seus muitos
contatos, viver juntos da melhor
forma. A rac;a humana euma uni-
dade, ou melhor, urn corpo, com
muitos membros, uma arvore
com muitos galhos, urn reino com
muitos cidadaos. A humanidade
nao se transformou nessa unida-
de atraves de alguma combinac;ao
externa. Ela euma unidade des-
de o prindpio e continuara sen-
do uma unidade1 a despeito de
todas as separac;oes e cismas, pois
ela euma em sua origem e em sua
natureza. Fisicamente a humani-
dade euma porque procede do
mesmo sangue. Juridica e etica-
mente a humanidade euma por-
que, sobre a base da unidade na-
0 PECADO E A MORTE
tural, ela foi colocada sob uma e
a mesma lei divina, a lei da Ali-
an<;a das obras.
De tudo isso a Sagrada Es-
critura nos ensina que a humani-
dade permanece sendo uma em
sua queda. Eassim que a Escritu-
ra apresenta a ra<;a humana des-
de a primeira ate a ultima pagi-
na. Se ha qualquer distin<;ao en-
tre os homens, em categoria,
status, oficio, honra, talentos e
coisas semelhantes, ou se Israel,
em distin<;ao as outras na<;5es, foi
escolhido para receber a heran<;a
do Senhor, entao isso se deve so-
mente a Gra<;a de Deus. Esomen-
te essa Gra<;a que faz distin<;5es
entre os homens (1Co 4.17). Mas
em si mesmos todos os homens
sao semelhantes diante de Deus,
pois todos eles sao pecadores,
compartilham da mesma culpa,
mancharam a mesma pureza, su-
jeitam-se a mesma morte e care-
cern da mesma reden<;ao. Deus
incluiu-os todos sob a mesma de-
sobediencia para que usasse de
misericordia com todos (Rm
11.32). Ninguern tern o direito de
ser arrogante e ninguem tern o
direito de entregar-se ao desespe-
ro.
Que esse e 0 ponto de vista
da Escritura sobre a ra<;a humana
e urn fato que dispensa confirma-
<;ao. Isso e evidente a partir de
tudo o que foi dito acima sobre a
universalidade do pecado. Mas
essa unidade organica da ra<;a
265
humana com rela<;ao a lei e a
moralidade recebe urn especial e
profundo tratamento do ap6sto-
lo Paulo.
Quando em sua carta aos
Romanos ele afirrna o fato de que
todo 0 mundo econdenavel a vis-
ta de Deus (Rrn 1.18-3.20) e quan-
do ele explica como toda a justi<;a
e perdao de pecados, toda recon-
cilia<;ao e toda vida foram reali-
zadas por Cristo e colocadas a dis-
posi<;ao por Ele aos que creem
(Rm 3.21-5.11), ele conclui no ca-
pitulo 5, versos de 12-21 (antes de
descrever, no capitulo 6, os frutos
morais da justi<;a pela fe), suma-
riando que n6s devemos todo o
conteudo da salva<;ao a Cristo e
contrasta essa salva<;ao em urn
contexto da hist6ria do mundo
com toda a culpae miseria que n6s
devemos a Adao.
For urn homem, ele diz, en-
trou o pecado no mundo, e junto
com o pecado, a morte sobreveio
a todos os hornens. Pois esse pe-
cado, que o primeiro homern co-
meteu, foi totalmente diferente,
em carater, de todos os outros pe-
cados. Ele e charnado transgres-
sao, e urn tipo diferente de todos
os outros pecados que os hornens
cometeram entre Adao e Moises
(Rrn 5.14), e uma ofensa (Rm 5.15
ss.), uma desobediencia (Rm 5.19)
e como tal ela firma urn notavel
contraste com a absoluta obedien-
cia de Cristo (Rm 5.19).
Portanto, o pecado que
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Adao cometeu nao ficou restrito
somente asua pessoa. Ele conti-
nuou a operar em e atraves de
toda a ra<;a humana. N6s nao le-
mos que por urn homem entrou o
pecado em uma pessoa, mas no
mundo (Rm 5.12), e tambem a
morte sobreveio a todos os ho-
mens por causa do pecado desse
homem.
Esse eo pensamento de Pau-
lo, e isso pode ser provado pelo
fato de que ele deriva da trans-
gressao de Adao, conforme Ro-
manos 5.12 e 1Corintios 15.22.
Nesse texto n6s lemos que
todos os homens morrem, nao em
si mesmos, nem em seus pais,
mas em Adao. Isso significa que
os homens estao sujeitos amorte
nao porque eles mesmos ou seus
ancestrais tornaram-se pessoal-
mente culpados, mas porque to-
dos morreram em Adao. Foi de-
terminado pelo pecado e pela
morte de Adao que todos eles
morreriam. 0 ponto nao e que em
Adao todos os homens se torna-
ram mortais, mas que em urn sen-
tido objetivo todos os homens ja
morreram em Adao. A senten<_;:a
de morte ja foi pronunciada, em-
bora sua execu<_;:ao tenha sido de-
terminada para mais tarde. Paulo
nao reconhece nenhuma outra
morte alem daquela que e resul-
tante do pecado (Rm 6.23). Se to-
dos os homens morreram em
Adao, entao todos os homens
tambem pecaram nele. Pela trans-
266
gressao de Adao o pecado e a
morte puderam entrar no mundo
e atingir todos os homens porque
essa transgressao teve urn carater
especial. Essa foi a transgressao de
uma lei especifka e foi realizada
nao somente por Adao, mas por
Adao como cabe<;a de toda a ra<;a
humana.
Somente se o ensino de Pau-
lo em Romanos 5.12-14 for enten-
dido dessa forma sera feita plena
justi<;a ao que e dito nesses
versiculos sobre as conseqiienci-
as do pecado de Adao. Esse e
todo o desenvolvimento de uma
ideia simplesmente basica. Pela
transgressao de urn homem
(Adao) muitos (seus descenden-
tes) morreram (v.15). A culpa, (isto
e, 0 julgamento ou senten<_;:a que
Deus pronuncia como Juiz), por
esse homem que pecou, torna-se
urn julgamento que abrange toda
a ra<;a humana (v.l6). Pela ofensa
desse homem a morte reinou no
mundo sobre todos os homens
(v.17). Pela ofensa de urn, o julga-
mento veio sobre todos os ho-
mens para condena<;ao (v.18). E,
para urn resumo gerat pela deso-
bediencia de urn, os muitos (os
descendentes de Adao) tornaram-
se pecadores. Por causa dessa de-
sobediencia todos eles imediata-
mente se tornaram, diante de
Deus, pessoas pecadoras (v.19).
0 selo e colocado sobre a
interpreta<;:ao de Paulo pela com-
para<;ao que ele faz entre Adao e
0 PEcAoo E A MaRTE
Cristo. Em Romanos 5, Paulo nao
trata da origem do pecado de
Adao, mas da completa salva<;ao
conquistada por Cristo. Para exi-
bir essa salva<;ao em toda a sua
gloria ele compara-a e contrasta-
a com o pecado e a morte que se
espalharam por toda a ra<;a huma-
na a partir de Adao. Em outras
palavras, Adao estci servindo nes-
se contexto como exemplo e tipo
daquele que haveria de vir (v.14).
Em Adao e atraves de sua
transgressao a ra<;a humana foi
condenada, e em Jesus Cristo essa
ra<;a, por urn veredicto judicial de
Deus, foi declarada livre e
justificada. Por urn homem o pe-
cado entrou no mundo como a
for<;a ou poder que subjugou to-
dos os homens; da mesma forma
por urn homem foi instaurado o
governo da Gra<;a divina sobre a
humanidade. Por urn homem a
morte veio ao mundo como evi-
dencia do domfnio do pecado;
por urn homem, a saber, Jesus
Cristo, nosso Senhor, a Gra<;a co-
me<;ou a reinar atraves da justi<;a
que conduz avida eterna. A com-
para<;ao entre Adao e Cristo tern
muitas aplica<;oes. Ha somente
uma unica diferen<;a: 0 pecado e
forte e poderoso, mas a Gra<;a e
muito superior em riquezas e
abundancia.
A teologia crista compreen-
de esses ensinos da Sagrada Es-
critura na doutrina do pecado ori-
ginal. Alguem pode argumentar
267
contra essa doutrina, ou nega-la,
ou ridiculariza-la. Mas nao pode
fazer parar o testemunho da Es-
critura nem desconsiderar osfatos
sobre os quais essa doutrina se
baseia. Toda a hist6ria do mundo
e uma prova do fato de que a ra<;a
humana, tanto em seu conjunto,
quanto em seus membros indivi-
duais, e culpada diante da face de
Deus, tern uma natureza moralmen-
te corrompida, e esta sempre sujei-
ta adecadencia e amorte. 0 pecado
original inclui, antes de tudo, o
fato da culpa original. No primeiro
homem os muitos que descende-
ram dele, atraves da desobedien-
cia desse primeiro homem, por
urn justo julgamento de Deus, fo-
ram constituidos pecadores (Rm
5.18).
Em segundo lugar, o peca-
do original inclui poluic;ao original.
Todos os homens sao concebidos
em pecado e nascem em injusti<;a
(Sl51.7,8) e sao maus desde a sua
mocidade (Gn 6.5; Sl 25.7), pois
ninguem da imundfcie pode tirar
coisa pura (J6 14.4; Jo 3.6). Essa
mancha ou polui<;ao nao somen-
te se espalha sobre toda a ra<;a hu-
mana, mas tambem satura todo o
ser individual. Ela ataca o cora<;;ao,
que e mais corrupto do que todas
as coisas, doente ate a morte e as-
tuto (Jr 17.9), e e tambem a fonte
dos caminhos da vida (Pv 4.23) e
a fonte de toda injusti<;a (Me
7.21,22). Tendo o cora<;ao como
centro, a polui<;;ao obscurece o
Fundamentos Teologicos da Fe Crista
entendimento (Rm 1.21), inclina a
vontade para o mal e torna-a fra-
ca para fazer o bern (Jo 8.34; Rm
8.7), mancha a consciencia (Tt
1.15) e transforma o corpo, com
todos os seus membros, seus
olhos e ouvidos, suas maos e pes,
sua boca e lingua, em uma arma
da injusti<;a (Rm 3.13-17; 6.13).
Esse pecado e tal que todos, nao
por seus pr6prios "pecados de
comissao", mas desde o momen-
to de sua concep<;ao, estao sujei-
tos a morte e a corrup<;ao (Rm
5.14). Todos os homens ja morre-
ram em Adao (1 Co 15.22).
Duro como esse pecado ori-
ginal pode agora parecer, ele re-
pousa sobre a lei que governa
toda a vida humana, cuja existen-
cia ninguem sera bern sucedido
ao negar, e sobre a qual ninguem
registra qualquer obje<;ao contan-
to que trabalhe a seu favor.
Quando os pais adquirem
propriedades em beneficio dos
filhos, esses filhos nunca se recu-
sam a se apropriar dessa proprie-
dade deixada para eles depois da
morte de seus pais. Eles nao se
recusam a obter a heran<;a, mes-
mo que eles nao a tenham mere-
cido, mesmo que atraves de seu
comportamento escandaloso eles
tenham se mostrado indignos
dela. Se nao ha filhos, OS familia-
res mais remotos, tais como os fi-
lhos dos sobrinhos e os primos de
segundo grau surgem sem qual-
quer escrupulo de consciencia
268
para compartilhar da heranc;a que
desconhecidos e negligenciados
membros da familia deixaram
para tras. Isso diz respeito a bens
materiais. Mas ha bens espiritu-
ais, os valores de categoria e
status, de honra e de born nome,
de ciencia e de arte, que os filhos
herdam de seus paise que nao ti-
veram como merecer e dos quais
eles, contudo, se apropriam sem
protesto. Podemos dizer, portan-
to, que a lei da heran<;a e geral-
mente operativa em famflias, ge-
ra<;6es, povos, no estado e na so-
ciedade, na ciencia e na arte e em
toda a ra<;a humana. A nova gera-
c;ao vive sobre os bens que a ge-
ra<;ao precedente ajuntou; a pos-
teridade, usufrui em todas as es-
feras da vida de trabalho que os
seus ancestrais realizaram. E nin-
guem ha que, se essa heranc;a lhe
for rendosa, registre urn protesto
contra esse gracioso arranjo de
Deus.
Entretanto tudo muda quan-
do essa mesma lei de heran<;a tra-
balha em desvantagem de al-
guem. Quando os filhos sao re-
quisitados para dar suporte aos
pais pobres, eles imediatamente
cortam as relac;6es com esses pais
e apontam o caminho do fundo da
igreja reservado para o atendi-
mento a pessoas carentes. Quan-
do parentes de sangue se sentem
injuriados por algum dos mem-
bros da familia que tenha se casa-
do com alguem de uma categoria
0 PECADO E A MORTE
inferior, ou tenha feito alguma
coisa vergonhosa, eles imediata-
mente o deixam em apuros e mas-
tram seu desfavor. Em alguma
extensao, maior ou menor, essa
tendencia esta presente em tudo
que traz vantagens, mas e rejeita-
da quando corresponde a obriga-
<;5es. Essa tendencia e em si mes-
ma uma poderosa prova de que
entre as pessoas ha uma comuni-
dade de privilegios e de encargos.
Ha uma unidade, uma solidarie-
dade, uma comunidade cuja exis-
h~ncia e opera<;:ao ninguem pode
negar.
N6s, de fato, nao sabemos
exatamente como essa solidarie-
dade opera e exerce influencia
sobre as pessoas. As leis de heran-
<;:a, por exemplo, de acordo com
as quais os bens materiais e espi-
rituais dos pais sao transferidos
para OS filhos, sao ainda desco-
nhecidas por n6s. N6s nao enten-
demos o misterio: como uma pes-
soa, nascida em uma comunida-
de e mantida por ela, chega a urn
status de independencia e liber-
dade e entao exerce sobre essa
comunidade uma posi<;:ao pode-
rosa e influente. N6s nao pode-
mos apontar exatamente para o
ponto em que a comunidade e a
solidariedade cessam e a inde-
pendencia pessoal e a responsa-
bilidade pessoal come<;:am. Mas
tudo isso nao nega a existencia da
solidariedade e as pessoas, seja
em pequenas ou em grandes co-
269
munidades de inter-relaciona-
mento, estao unidas umas as ou-
tras em rela<;:ao de solidariedade.
Ha individuos, mas tambem ha
uma fronteira invisivel que une
familias, gera<;:5es e povos em
uma poderosa unidade. Ha uma
alma individual, mas ha tambem,
mesmo que seja em urn sentido
metaf6rico, uma "alma" popular
ou nacional. Ha caracteristicas
pessoais, mas ha tambem caracte-
risticas sociais peculiares a urn
dado drculo de pessoas. Ha pe-
cados particulares, individuais,
mas ha tambem pecados gerais e
sociais. E dessa forma tambem ha
culpa individual e culpa comum
ou social.
Essa solidariedade que se
expressa em centenas de formas
nos relacionamentos entre as pes-
soas, carrega em si e de forma bas-
tante natural, a ideia de represen-
ta<;:ao de muitos por poucos. N6s
nao podemos estar presentes em
tudo, nem podemos fazer tudo
pessoalmente. As pessoas estao
espalhadas sobre toda a terra e
vivem a grandes distancias umas
das outras. Elas nao vivem todas
ao mesmo tempo, mas sucedem-
se umas as outras em sucessivas
gera<;:oes. Alem disso, elas nao
possuem as mesmas habilidades
e a mesma sabedoria. Elas dife-
rem infinitamente em talentos e
habilidades. Portanto1 a cada mo-
menta uns poucos sao chamados
para pensar e falar, decidir e agir
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
no nome e em lugar de muitos.
De fato, nenhuma comunidade e
possfvel sem que haja diferen<;as
de dons e voca<;;oes, representa-
<;;ao e substitui<;ao. Nao e possfvel
haver corpo sem que haja nume-
rosos membros diferenciados, e se
todos esses membros nao forem
governados por uma cabe<;a que
pensa por eles todos e que toma
decisoes em nome de todos eles.
0 pai tern esse mesmo tipo de re-
gra para a familia, o gerente para
sua organiza<;:ao, o conselho de
diretores para sua sociedade, o
general para o seu exercito, o con-
gresso ou parlamento para o seu
eleitorado e o rei para o seu rei-
no. E os subordinados comparti-
lham das consequencias que se
seguem na esteira de suas a<;oes
representativas.
Tudo isso, contudo, refere-
se somente a uma pequena e li-
mitada parcela da ra<;:a humana.
Em tal parcela urn homem pode,
em alguma extensao, nao apenas
aben<;:oar, mas tambem amaldi<;:o-
ar muitos, mas a sua influencia e
limitada a uma esfera restrita. Ate
mesmo urn homem de poder
como Napoleao, apesar de sua
jurisdi<;:ao e influencia serem mui-
tos amplas, assume apenas urn
pequeno lugar na hist6ria do
mundo. Mas a Escritura nos fala
de duas pessoas que ocuparam
uma posi<;;ao inteiramente pecu-
liares, que foram a cabe<;;a de nada
mais nada menos que da huma-
270
nidade inteira, cuja for<;:a ou influ-
encia se estende nao apenas a uma
na<;;ao ou familia de na<;;oes, nao
apenas a urn pais ou a urn conti-
nente, nao somente a urn seculo
ou a uma combina<;ao de seculos,
mas a toda a humanidade, aos
confins da terrae a toda a eterni-
dade. Essas duas pessoas sao
Adao e Cristo. A primeira esta no
come<;;o, a segunda, no centro da
hist6ria. A primeira e a cabe<;;a da
velha humanidade e a segunda e
a cabe<;;a da nova humanidade.
Urn ea origem do pecado e da
morte no mundo eo outro e a fonte
da justi<;;a e da vida.
Em virtude das posi<;;oes
absolutamente {micas que essas
duas pessoas ocupam na cabe<;;a
da humanidade, eles sao compa-
rados urn ao outro. Existem ana-
logias ou correspondencias de
lugar, significado e influencia en-
tre eles em todas as formas de so-
lidariedade que sao manifestas
entre os homens em familias, tri-
bos e na<;;oes. E todas essas analo-
gias podem e devem servir como
exposi<;;ao iluminadora da influ-
encia exercida por Adao e por
Cristo sobre toda a ra<;;a humana.
Eles podem, em uma certa exten-
sao, nos reconciliar com a lei da
heran<;;a, operando ate mesmo em
nossa vida mais elevada, isto e,
em nossa vida religiosa e moral,
visto que essa lei nao se mantem
isoladamente, mas e geralmente
relevante e e parte da existencia
0 PECADO E A MaRTE
organica da humanidade. Ao mes-
mo tempo Adao e Cristo ocupam
urn lugar completamente unico.
Eles possuem urn significado
para a ra<;:a humana que ningw2m,
nenhum conquistador mundial,
nenhum genio de primeira cate-
goria poderia ter alcan<;:ado. 0 le-
gado pelo qual Adao nos envol-
veu em sua transgressao torna
possivel que n6s sejamos recon-
ciliados com Deus em Cristo.
Isto e, a mesma lei que nos
condena no primeiro homem nos
absolve no segundo. Se, sem o
nosso conhecimento, n6s nao ti-
vessemos recebido a condena<;:ao
em Adao, nao teria sido possivel
para n6s ter recebido a Gra<;:a em
Cristo. Se n6s nao temos obje<;:ao
ao receber vantagens que n6s nao
merecemos mas que vern a n6s
como uma dadiva ou como uma
heran<;:a, n6s nao temos o direito
de brigar por causa do legado que
nos tras o mal. "...temos recebido
o bern de Deus e nao receberia-
mos tambem o mal?" (J6 2.10).
N6s recebemos a culpa de Adao,
mas damos gra<;:as a Cristo que nos
amou tao excessivamente. Nao
olhamos para tras, para o parai-
so, mas para a £rente, para a cruz.
Atras dessa cruz esta a coroa que
nunca perdera o brilho.
* * * * *
0 pecado original no qual o
homem nasceu e foi concebido
271
nao e uma qualidade passiva e
inativa, mas uma raiz da qual nas-
cem todos os tipos de pecado,
uma fonte profana da qual o pe-
cado flui continuamente, uma for-
<;:a que esta sempre impelindo o
cora<;:ao do homem na dire<;:ao er-
rada - para longe de Deus e da
comunhao com ele e na dire<;:ao da
corrup<;:ao e da decadencia. Deve-
mos distinguir do pecado origi-
nal os pecados chamados reais,
que sao as transgressoes da lei
divina que alguem comete pesso-
almente, seja mais ou menos von-
tade deliberada. Todos os peca-
dos possuem uma origem co-
mum: eles se originam do cora<;:ao
do homem (Me 7.23). 0 cora<;:ao
humano e o mesmo para todas as
pessoas em todos os lugares e em
todas as epocas- ele nao e troca-
do pela regenera<;:ao ou renova-
<;ao. Uma natureza humana e co-
mum a todos os descendentes de
Adao, e ela e, em todos OS ho-
mens, culpada e manchada. Nao
ha razao para que uma pessoa se
separe das outras e diga: "Apar-
te-se de mim; eu sou mais santo
que voce". 0 orgulho da auto jus-
tifica<;:ao, o orgulho da nobreza, a
auto-exalta<;:ao do saber sao, do
ponto de vista da natureza huma-
na que todos compartilham, total-
mente injustificaveis. Dos milha-
res de pecados que existem, nin-
guem ha que possa dizer que nao
os conhece e que nada tern a ver
com eles. As sementes de todas as
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
iniquidades, ate mesmo as mais
abominaveis, estao no corac;ao
que carregamos no peito. Os
transgressores e criminosos nao
sao uma rac;a especial, sao mem-
bros da sociedade da qual todos
nos fazemos parte. Eles simples-
mente exibem o que esta em con-
tinua agitac;ao e turbulencia no
centro secreta de todo homem.
Visto como todos os peca-
dos surgem da mesma raiz, todos
eles na vida de cada pessoa indi-
vidualmente, e dessa forma tam-
bern na vida de uma familia, ge-
rac;ao, rac;a, povo, sociedade e de
toda a humanidade, eles estao or-
ganicamente relacionados uns aos
outros. Os pecados sao inumera-
veis em quantidade, e ha algumas
tentativas de classifica-los em gru-
pos. Alguns falam em sete peca-
dos capitais ou primarios (orgu-
lho, avareza, imoralidade, ira,
intemperanc;a, luxuria, inveja e
preguic;a). Outros os classificam
de acordo com os instrumentos
com os quais eles sao cometidos,
como pecados de pensamento,
palavra e ac;ao, ou como pecados
veniais e espirituais. Algumas ve-
zes eles sao agrupados de acordo
com os mandamentos que violam,
tais como pecados contra a pri-
meira ou segunda tabua, contra
Deus ou contra o proximo e nos
mesmos. Alguns os classificam
de acordo com a forma pela qual
eles se expressam, como pecados
de omissao ou de comissao. E ha
272
distinc;oes de grau, como pecados
secretos e publicos, humanos e di-
abolicos.
Os pecados podem diferir
uns dos outros, mas eles nunca
sao entidades completamente ar-
bitrarias, isoladas; eles estao sem-
pre interrelacionados, urn sempre
influencia o outro. Assim como na
doenc;a os orgaos e membros do
corpo continuam em opera<_;:ao,
embora operem de uma forma
inadequada, assim tambem o ca-
tater organico da vida do homem
se expressa no pecado. Ele se ex-
pressa de tal forma que a vida se
desenvolve em uma direc;ao
diametralmente contraria aquela
que deveria tomar.
0 pecado e urn terreno es-
corregadio, e nos nao podemos
atravessa-lo, e por isso, em urn
ponto arbitrariamente escolhido,
voltamos e revertemos nosso cur-
so. Urn grande poeta falou profun-
da e lindamente do curso das mas
ac;6es ao dizer que ele continua-
mente gera o mal. A Escritura lan-
<;a luz sobre essa questao. Em
Tiago 1.14,15 ela explica como os
atos pecaminosos do homem as-
sumem uma forma organica.
Quando alguem e tentado ao mal,
a causa dessa tentac;ao nao esta
em Deus, mas em sua propria co-
bic;a. Essa cobic;a e a mae do peca-
do. Essa cobic;a, no entanto, nao e
suficiente para levar o pecado
adiante (isto e, 0 ato pecaminoso,
seja em atos, palavras ou pensa-
0 PECADO E A MORTE
mentos). Ela deve primeiro con-
ceber e gerar o pecado. Isso acon-
tece quando a razao e a vontade
estao unidas com a cobi<;a. S6 en-
tao, quando a cobi<;a foi fecunda-
da pela vontade, ela gera o ato
pecaminoso. E quando esse peca-
do se desenvolve e alcan<;a sua
maturidade, ela traz a morte.
Isso acontece em cada peca-
do particular, mas edessa forma
que os varios pecados estao rela-
cionados uns aos outros. 0 mes-
mo ap6stolo aponta para esse fato
quando, no capitulo 2.10, ele diz
que aquele que guarda toda a lei
mas trope<;a em urn s6 ponto se
torna culpado de todos. Isso acon-
tece porque o mesmo Legislador
que prescreveu o mandamento
particular, prescreveu todos. Em
urn mandamento particular o
transgressor ataca o Legislador de
todos os outros e dessa forma sub-
trai toda autoridade e poder. Em
virtude tanto de sua origem,
quanto de sua natureza ou essen-
cia a lei e unica. Ela e urn corpo
organico que, violado em urn de
seus membros, torna-se deforma-
da por inteiro. Ela e uma Corrente
que quando tern urn de seus elos
partidos torna-se totalmente
danificada. A pessoa que transgri-
de urn dos mandamentos coloca
todos OS outros mandamentos a
parte, e assim vai de mal apior.
Ela se torna, como Jesus disse,
uma serva ou escrava do pecado
(Jo 8.34), ou, como diz Paulo, urn
273
escravo vendido ao dominio do
pecado, de tal forma que ela nao
e mais independente do pecado,
mas uma escrava dele (Rm 7.14).
Essa vista organica e aplica-
vel tambem aos pecados que se
manifestam em areas particulares
da vida humana. Ha pecados pes-
soais e individuais, mas ha tam-
bern pecados comuns ou sociais,
que sao OS pecados de familias,
na<;oes, e assim por diante. Toda
classe e status na sociedade, toda
voca<;ao e profissao, todo oficio e
ocupa<;ao traz consigo seus pr6-
prios perigos peculiares e seus
pr6prios pecados peculiares. Os
pecados dos habitantes da cida-
de diferem dos pecados dos ha-
bitantes do campo, os pecados dos
fazendeiros sao diferentes dos pe-
cados dos mercadores, os peca-
dos dos estudantes sao diferentes
dos pecados dos iletrados, os pe-
cados dos ricos sao diferentes dos
pecados dos pobres e os pecados
das crian<;as sao diferentes dos
pecados dos adultos. Isso nos
mostra que todos os pecados em
cada uma dessas esferas sao
interdependentes uns dos outros.
As estatisticas confirmam essa
afirma<;ao quando nos mostram,
que determinados erros sao mais
comuns em determinados gru-
pos, esta<;oes, gera<;oes, classes, e
circulos, e ocorrem com uma re-
gularidade ritmica. Como geral-
mente acontece, n6s s6 temos co-
nhecimento de uma pequena por-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
<_;:ao dos pecados cometidos em
nosso limitado grupo, e mesmo
esse conhecimento parcial e su-
perficial. Mas se n6s pudessemos
penetrar na essencia das aparen-
cias e tra<_;:ar a raiz dos pecados no
cora<_;:ao das pessoas, n6s muito
provavelmente chegariamos a
conclusao de que no pecado exis-
te unidade, conjunto - em uma
palavra, que no pecado existe urn
sistema.
A Escritura revela urn mis-
terio quando relaciona o pecado,
tanto em sua origem quanta em
seu desenvolvimento, ao reino de
Satamis. Desde que Satanas tentou
o homem e ocasionou sua queda
(Jo 8.44), em urn sentido moral ele
se tornou o principe desse mun-
do e 0 deus desse seculo (Jo 16.11;
2Co 4.4). Apesar deter sido con-
denado e lan<_;:ado fora por Cristo
(Jo 12.31; 16.11), e dessa forma
operado principalmente no mun-
do pagao (At 26.18; Ef 2.2), ele con-
tinua a atacar a Igreja. Essa Igreja,
portanto, deve com todo ardor
engajar-se na luta contra ele (Ef
6.11). Enquanto isso ele organiza
todas as suas for<_;:as para o seu fi-
nale decisivo ataque contra Cris-
to e Seu reino (Ap 12 ss.). Nao e
quando n6s fixamos nossa aten-
<;:ao sobre urn s6 pecado, ou sa-
bre os pecados de uma s6 pessoa
ou de urn s6 povo, mas quando
n6s contemplamos todo o reino
do pecado, na ra<;:a humana, par-
tindo da luz lan<;:ada sobre esse
274
reino pela Escritura, que n6s po-
demos realmente entender qual e
a verdadeira natureza ou inten<;:ao
do pecado. Em principia ou es-
sencia, ele nada mais e do que ini-
mizade contra Deus, e no mundo,
ele possui nada menos que urn
dominio soberano. E todo peca-
do, ate mesmo o menor deles, sen-
do uma transgressao da lei de
Deus, serve ao seu grande objeti-
vo em conexao com todo o seu sis-
tema. A hist6ria do mundo nao e
a opera<;:ao cega de urn processo
evolucionario, mas urn terrivel
drama, uma luta espiritual com
seculos de dura<;ao entre Cristo e
o anticristo, entre Deus e Satanas.
*****
Todavia, apesar dessa visao
do pecado merecer grande consi-
dera<;ao, n6s nao devemos su-
cumbir atenta<;:ao de manter uma
vista unilateral nem obliterar a
distin<;ao existente entre OS vari-
OS pecados. Everdade que os pe-
cados, assim como as virtudes,
sao {micos e indivisiveis, e onde
quer que se cometa urn deles, to-
dos os outros foram cometidos em
principia (Tg 2.10). Mas isso nao
significa que todos os pecados
sejam iguais em tipo e em grau.
Ha diferen<;:a entre pecados de
erro ou ignorancia e pecados de
presun<;:ao (Nm 15.27,30), entre os
pecados cometidos contra a pri-
meira e contra a segunda tabua
0 PECADO E A MORTE
(Mt 22.37,38), entre os pecados
sensuais e espirituais, humanos e
diab61icos, e assim por diante.
Devido ao fato de todos os man-
damentos da lei diferirem uns dos
outros, e as transgress6es desses
mandamentos acontecerem em
circunstancias muito diferentes e
com mais ou menos aprova<;ao da
vontade, nem todos os pecados
sao igualmente graves e nem to-
dos eles merecem a mesma puni-
<;ao. Os pecados cometidos con-
tra a lei moral sao mais graves do
que aqueles cometidos contra a lei
cerimonial, pois a obediencia e
melhor que o sacrificio (lSm
15.22). A pessoa que rouba para
saciar a fome e menos culpavel
que a pessoa que rouba por cobi-
<;a (Pv 6.30). Ha gradua<;6es de ira
(Mt 5.22). E, embora lan<;ar olhar
impuro sobre uma mulher casa-
da ja seja adulterio, a pessoa que
nao luta contra esse desejo, mas
sucumbe a ele e comete adulterio
atraves de atos, e mais culpavel.
Se n6s fizermos injusti<;a a
essa distin<;ao entre os pecados
n6s estaremos entrando em con-
flito tanto com a Escritura quanto
com a realidade. Everdade que
em urn sentido moral as pessoas
nascem iguais. Desde o come<;o
todas elas carregam a mesma cul-
pa e estao sujas com a mesma
mancha. Mas quando crescem
elas passam a diferir umas das
outras e essa diferen<;a e grande.
Os crentes as vezes caem em gra-
275
ves pecados, mas eles estao cons-
tantemente lutando contra o velho
homem em sua natureza, e po-
dern nessa terra alcan<;ar urn pe-
queno come<;o da obediencia per-
feita. E entre aqueles que nao co-
nhecem Cristo ou nao creem nEle
ha os que explodem em iniquida-
des e que bebem pecados como
agua. Mas tambem ha muitos en-
tre eles que se destacam por uma
vida dvica e eticarnente respeita-
vel e que podem servir como mo-
delo de virtude ate mesrno para
os cristaos. De fato, as sementes
do mal estao plantadas no cora-
<;ao do hornern, e quanto rnais n6s
nos conhecernos, mais n6s reco-
nhecernos a verdade de que pela
natureza n6s estamos prontos
para odiar Deus e o nosso proxi-
mo, somos incapazes de qualquer
bern e sornos inclinados para o
mal. Mas essa inclina<;ao rna nao
esta presente em todas as pesso-
as na mesma extensao. Nem todos
os que caminham pelo caminho
largo andam igualmente rapido
ou fazem o mesmo progresso.
A causa dessa diferen<;a nao
esta no homem, mas na restritiva
Gra<;a de Deus. 0 cora<;ao e o rnes-
mo em todas as pessoas. Sempre
e em todo lugar e em todas as
pessoas os mesmos maus pensa-
mento e maus desejos aparecem.
Os pensarnentos do cora<;ao sao
maus desde a mocidade. Se Deus
abandonasse a humanidade ao
sabor dos desejos de seu cora<;ao1
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
a terra seria urn inferno e nenhu-
ma sociedade humana ou hist6-
ria humana seria possivel. Mas
exatamente como o fogo dentro
da terra e mantido sob controle
pela dura crosta terrestre, e so-
mente em certas ocasi5es e em
certos lugares esse fogo explode
em erup<;5es vulcanicas, assim
tambem os maus pensamentos e
a cobi<;a do homem sao suprimi-
dos e restringidos por todos os
lados pela vida da sociedade.
Deus nao deu ao homem liberda-
de total, mas colocou o animal que
existe dentro dele em uma jaula
para que Ele possa manter Seu
conselho para a ra<;a humana e
possa executa-lo. Ele mantem em
opera<;ao no homem urn amor
natural, uma carencia de compa-
nhia, uma no<;ao de religiao e de
moralidade, consciencia e no<;ao
da lei, razao e vontade. E Ele in-
sere o homem em uma familia,
uma comunidade, urn estado, sen-
do que todas essas institui<;5es
sao usadas para dar-lhe opiniao
publica, no<;5es de decencia, dis-
posi<;ao para o trabalho, discipli-
na, puni<;ao e coisas semelhantes,
restringindo-o e educando-o para
uma vida civicamente respeit<ivel.
Atraves de todas essas vari-
as e poderosas influencias o ho-
mem continua sendo incapaz de
alcam;:ar o bern. Quando o Cate-
cismo de Heidelberg diz que o
homem e totalmente incapaz de
realizar qualquer bern e inclina-
276
do a todo o mal, por esse bem,
como os Artigos contra os
Remonstrantes claramente afir-
mam, n6s devemos entender bem
salvifico.
De tal bern salvifico o ho-
mem, por sua natureza, e total-
mente incapaz. Ele nao pode pra-
ticar 0 bern que e eterno, espiritu-
al, perfeito e puro aos olhos de
Deus, que sonda os cora<;5es, que
esteja em total harmonia tanto
com o sentido espiritual quanto
com o sentido literal da lei e que,
portanto, esteja em harmonia com
a promessa dessa lei, de que aque-
le que cumprisse a lei de forma
perfeita seria merecedor da vida
eterna. Mas isso nao significa que
o homem nao esteja em posi<;ao
de realizar o bern temporal pela
Gra<;a comum de Deus. Em sua
vida pessoal ele pode atraves de
sua razao e vontade restringir os
maus pensamentos e cobi<;a e
aplicar-se avirtude. Em sua vida
comunitaria e social ele pode ho-
nestamente cumprir suas obriga-
<;5es e promover a cultura, a den-
cia e a arte. Em uma palavra, pelo
uso de todos os meios que Deus
coloca a disposi<;ao do homem
natural ele e capaz de ter uma
vida humana aqui na terra.
Mas todas essas for~as, nao
sao suficientes para renovar o ho-
mem por dentro e geralmente sao
inadequadas ate mesmo para
manter a injusti<;a dentro de cer-
tos limites. N6s aqui nao estamos
0 PECADO E A MORTE
falando somente do mundo cri-
me, que e encontrado em toda a
sociedade e que tern sua propria
vida, mas tambem das conquistas,
colonizac;6es, guerras religiosas e
raciais, revoluc;6es populares, re-
voltas nacionais e coisas seme-
lhantes, que sao terriveis expres-
s6es da injusti<;;a presente no co-
rac;ao humano. 0 refinamento da
cultura nao subjuga a injustic;a,
apenas fomenta o acanhamento ao
pratica-la. 0 aparentemente mais
nobre dos atos prova, depois de
urn minucioso exame, ter sido
motivado por todos os tipos de
motiva<;;6es pecaminosas de auto
promoc;ao e ambic;ao. Quem quer
que entenda algo da maldade e da
sutileza do corac;ao humano nao
ficara surpreso com o mal que
existe no mundo. Pelo contrario,
ficara maravilhado com o bern
que ainda pode ser encontrado
nele. "As miseric6rdias do Senhor
sao a causa de nao sermos consu-
midos, porque as Suas miseric6r-
dias nao tern fim;..." (Lm 3.22). Ha
uma luta continua entre o pecado
do homem e a Grac;a de Deus, que
faz com que os pensamentos e as
ac;6es do homem sejam uteis ao
Seu conselho e ao Seu plano.
* * * * *
Essa Grac;a de Deus pode
humilhar o homem, como aconte-
127
Ex 4.21; 7.3; 9.12; 10.20,27.
277
ceu no caso de Acabe (lRe 21.29) e
dos habitantes de Ninive (Jn 3.5
ss.). Mas o homem, pode par urn
longo tempo, opor-se a essa Gra-
<;;a. Nesse caso a iniqua manifesta-
c;ao que na Escritura echamada de
endurecimento do corac;ao esta pre-
sente. Fara6 eo tipico exemplo
disso. Ha outros casos registrados
na Escritura, mas a natureza e o
progresso do endurecimento sao
mais claramente revelados em
Fara6. Ele era urn principe pode-
roso, o lider de urn grande reino,
orgulhoso e relutante a curvar-se
diante dos sinais do poder de
Deus. Esses sinais seguiram-se uns
aos outros, em uma ordem regu-
lar e aumentavam cada vez mais
em poder miraculoso e forc;a
destrutiva. Mas, na medida em
que os sinais iam se sucedendo,
Fara6 ficava mais obstinado. Sua
resistencia em ceder e curvar-se
diante desse poder miraculoso
perdia cada vez mais o carater de
integridade. Finalmente, com seus
olhos totalmente abertos para os
fatos, caminhou a passos largos di-
retamente para o seu destino.
Euma tremenda batalha es-
piritual que n6s, temos diante de
nossos olhos, nesse drama de
Fara6, urn drama que pode ser
visto tanto do lado de Deus quan-
ta do lado do homem. Edito que
o Senhor endureceu o corac;ao de
Fara6127
, e e dito tambem que
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Fara6 endureceu seu corac;ao128
e
que seu corac;ao estava endureci-
do129. Ha, nesse fenomeno de en-
durecimento, uma operac;ao divi-
na e uma operac;ao humana. Ha
uma operac;ao da Grac;a divina
que cada vez mais vai se transfor-
mando em julgamento, e uma
operac;:ao da resistt?ncia humana
que cada vez mais assume o cara-
ter de consciente e determinada
inimizade contra Deus. E a Escri-
tura descreve esse endurecimen-
to, da mesma forma, em outros
textos. Em Deuteronomio 2.30,
Josue 11.20 e Isaias 63.17 o Senhor
endurece; em outros textos130
e 0
povo que endurece seu proprio
corac;ao. Ha uma interac;:ao aqui,
uma luta entre os dois que nao
pode ser separada da revelac;:ao
da Grac;:a de Deus. Essa interac;:ao
esta relacionada com a Grac;:a ge-
ral, mas e particularmente a Gra-
c;a especial que tern a caracteristi-
ca de trazer julgamento, e urn cis-
rna e separac;ao entre as pessoas
(Jo 1.5; 3.19; 9.39). Cristo esta des-
tinado tanto para a ruina quanto
para o levantamento de muitos
(Lc 2.34). Ele e a rocha de salva-
c;ao e e a rocha de escandalo e
ofensa (Mt 21.44; Rm 9.32). 0
Evangelho e para a morte e para
a vida (2 Co 2.16). Ele esta escon-
dido para OS sabios e entendidos
e revelado para os pequeninos
128
Ex 7.14; 9.7; 9.35.
129
Ex 8.15,19,32; 9.34.
(Mt 11.25).E em tudo isso o Con-
selho e o beneplacito de Deus e
tambem a lei religiosa e moral sao
evidentes.
0 pecado do endurecimen-
to alcanc;:a sua expressao maxima
na blasfemia contra o Espirito
Santo. Jesus fala sobre isso em urn
contexto de seria desavenc;:a com
os fariseus. Quando Ele curou urn
homem que era cego e mudo e
que estava possufdo por urn de-
monio, as multidoes ficaram tao
maravilhadas que clamaram:
"Esse nao e o Filho de Davi, o
Messias, prometido por Deus aos
nossos pais?".
Mas essa honra dada a Cris-
to levantou 6dio e inimizade en-
tre os fariseus e eles declararam o
contrario, disseram que Cristo
expulsava demonios por
Beelzebub, o principe dos demo-
nios. Dessa forma eles assumiram
uma posic;:ao diametralmente
oposta a Cristo. Em vez de
reconhece-lo como o Filho de
Deus, o Messias, que expulsa os
demonios pelo Espirito de Deus
e que estabelece o reino de Deus
na terra, eles disseram que Cristo
eurn cumplice de Satanas e que
Sua obra e diab6lica. Contra essa
terrivel blasfemia Jesus preserva
sua dignidade refutando a afirma-
c;ao dos fariseus e mostrando sua
insensatez e ao final de Sua repli-
130
15m 6.6; 2Cr 36.13; 5195.8; Mt 13.15; At 19.9; Rm 11.7,25.
278
0 PECADO E A MORTE
ca Ele acrescenta essa grave ad-
moesta<_;:ao: "todo pecado e blas-
femia serao perdoados aos ho-
mens; mas a blasfemia contra o
Espirito nao sera perdoada. Se al-
guem proferir alguma palavra
contra o Filho do homem, ser-lhe-
a isso perdoado; mas, se alguem
falar contra o Espirito Santo, nao
lhe sera isso perdoado, nem nes-
te mundo nem no porvir" (Mt
12.31,32).
As pr6prias palavras e o
contexto no qual elas aparecem
claramente indicam que a blasfe-
mia contra o Espirito Santo nao
acontece no come<;o nem no meio
do caminho do pecado, mas no
fim. Ela nao consiste de uma du-
vida ou de incredulidade a res-
peito do que Deus revelou, nem
de uma resistencia ou de uma
murmura<_;:ao contra o Espirito
Santo, pois esses pecados podem
ser cometidos tambem pelos cren-
tes. Mas a blasfemia contra o Es-
pirito Santo acontece somente
quando Ele se apresenta aconsci-
encia humana com uma rica reve-
la<_;:ao de Deus e com uma pode-
rosa ilumina<_;:ao espiritual que o
homem fica completamente con-
vencido em seu cora<_;:ao e em sua
consciencia da verdade da divina
revela<_;:ao131
•
0 pecado consiste em que
essa pessoa, apesar de toda a re-
vela<_;:ao objetiva e da ilumina<_;:ao
131
Hb 6.4-8; 10.25-29; 12.15-17.
279
subjetiva, a despeito do fato de
que ela tern conhecido e provado
a verdade como verdade, de for-
ma consciente e com intento deli-
berado diz que a verdade e men-
tira e castiga Cristo como instru-
mento de Satamis. Nesse pecado
o humano se torna diab6lico. Nao,
isso nao consiste de duvida e in-
credulidade, mas de urn rompi-
mento total da possibilidade de
arrependimento (1Jo 5.16). Esse
pecado vai muito alem da duvi-
da, da incredulidade e do arre-
pendimento. Apesar do fato de
que o Espirito Santo e reconheci-
do como sendo o Espirito do Pai
e do Filho, Ele e, em urn testemu-
nho diab6lico, blasfemado. Nes-
se apice 0 pecado se torna tao des-
caradamente demoniaco que lan-
<;a fora todo vestigia de vergonha,
desfaz-se de toda vestimenta e se
apresenta nu e cru, despreza to-
das as aparentes razoes, manifes-
ta todo o seu prazer no mal e se
levanta contra a vontade e a Gra-
<_;:a de Deus. E, portanto, uma gra-
ve admoesta<_;:ao essa que Jesus da
em Seu ensino sabre a blasfemia
contra o Espirito Santo. Mas n6s
nao devemos nos esquecer do
conforto que esta contido nesse
ensino, pois se esse pecado e o
unico pecado imperdoavel, ate
mesmo os maiores e os mais se-
veros podem ser perdoados. Eles
podem ser perdoados nao atraves
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
de exerdcios penitenciais huma-
nos, mas pelas riquezas da Grac;a
de Deus.
* * * * *
Se o pecado pode ser perdo-
ado e lavado somente atraves da
Grac;a, a implicac;ao e que em si e
por si mesmo ele merece punic;ao.
A Escritura procede desse pre-re-
quisito quando ameac;a o pecado
com a punic;ao da morte antes
mesmo do pecado entrar no mun-
do (Gn 2.17). Alem disso ela cons-
tantemente proclama o julgamen-
to de Deus contra o pecado, sen-
do que esse julgamento pode ser
executado ja nesta vida (Ex 20.5)
ou no grande dia do julgamento
(Rm 2.5-10). Deus e o Justo e o
Santo, que odeia toda maldade132
,
que nao inocenta 0 culpado133
e
que visita a iniquidade (Rm 1.18),
amaldic;oa o impio (Dt 27.26; Gl
3.10) e lhes revela Sua ira (Na 1.2;
1Ts 4.6), e que recompensara to-
dos os homens conforme as suas
obras134
. A consciencia da teste-
munho dessa realidade a todas as
pessoas quando ela julga o indi-
viduo por causa de seus maus
pensamentos, palavras e obras, e
quando ela o persegue com urn
senso de culpa e remorso e de
medo do julgamento. Entre todos
os povos a administrac;ao da jus-
132
J6 34.10; 515.5; 45.7.
133
Ex 34.7; Nm 14.18.
tic;a e baseada sobre essa ideia de
culpabilidade do pecado.
0 corac;ao humano entra em
conflito com esse severo julga-
mento porque se sente condena-
do por ele. A ciencia e a psicolo-
gia tern entrado a servic;o do co-
rac;ao e tern tentado apresentar as
mais atrativas razoes para se
desvincular a obra e a recompen-
sa, o male a punic;ao. Assim como
a arte deve ser praticada em con-
siderac;ao a si mesma, de acordo
com essa representac;ao o bern
deve ser praticado em considera-
c;ao a si mesmo, e nao pela espe-
ranc;a de recompensa; e, dames-
ma forma, o mal deve ser evitado
pelo que e, e nao por causa da pe-
nalidade a ele vinculada. Nao ha
algo como recompensa para a vir-
tude e punic;ao para o pecado. A
unica penalidade vinculada ao
pecado eo resultado que sua pro-
pria natureza, em virtude da lei
natural, inevitavelmente traz con-
sigo. Assim como o homem vir-
tuoso tern paz de corac;ao, o peca-
dor, com sua consciencia de cul-
pa, ansiedade e temor e atormen-
tado, ou, se seus pecados sao de
bebedeira ou sensualidade, e vi-
sitado pela deficiencia da saude.
Em tempos modernos essa
filosofia do corac;ao pecaminoso
e errante tern encontrado suporte
na teoria da evoluc;ao, de acordo
134
5162.12; J6 34.11; Pu 24.12; Jr 32.19; Ez 33.20; Mt 16.27; Rm 2.6; 2Co 5.10; 1Pe 1.17; Ap 22.12.
280
0 PECADO E A MoRTE
com a qual o homem descende do
animal e que deve, inevit<ivel e
determinadamente fazer e ser o
que faz e e. 0 homem nao e urn
ser livre, racional em moral; ele
nao e responsavel pelos seus atos;
seus atos nao podem ser apresen-
tados contra ele para manifestar
sua culpa; ele simplesmente e 0
que tern que ser. Assim como ha
flares que exalam uma deliciosa
fragrancia e ha flares que exalam
mau cheiro, e assim como ha ani-
mais domesticos e feras selva-
gens, ha tambem pessoas que sao
uteis a sociedade e pessoas que
sao prejudiciais a ela. De fato, a
sociedade, no interesse de sua
auto preservac;:ao, tern o direito de
isolar esses individuos ameac;:ado-
res e ate de prende-los, mas isso
nao e punic;:ao. Nenhum homem
tern o direito de julgar outro ho-
mem e condena-lo. Os criminosos
nao sao tao malvados quanta
insanos. Eles sofrem de uma fra-
queza herdada ou de urn defeito
realc;:ado pela sociedade. Tais pes-
soas, de acordo com essa teoria,
nao merecem a cadeia, mas urn
hospital ou urn sanatoria e podem
exigir urn tratamento humano,
medico e educacional.
Para fazer justic;:a aos fatos
deve ser dito que essa nova teo-
ria criminal e uma reac;:ao a outro
extrema que existiu no passado.
Em nossos dias os criminosos sao
considerados como doentes men-
tais, e todos os outros tipos de de-
281
safortunados sao considerados
como criminosos, e as pessoas
abrem seu entendimento para
conceber danos que podem cau-
sar as mais terriveis dares em pes-
soas que sao consideradas culpa-
das e merecedoras de punic;:ao.
Mas ate mesmo isso de alguma
forma motiva essa nova teoria,
que e exatamente o contrario da
antiga. Ela faz injustic;:a agravida-
de do pecado, rouba ao homem
sua liberdade moral, rebaixa-o ao
nivel da maquina, audaciosamen-
te desafia a natureza moral do
homem com sua consciencia e sen-
so de culpa, e em principia mina
toda a base da autoridade, bern
como a administrac;:ao da lei.
A despeito de todos os
esforc;:os que a ciencia pode em-
preender para provar a inevi-
tabilidade do pecado, qualquer
pessoa cuja consciencia ainda nao
tenha se tornado insensivel sen-
te-se obrigada a fazer o berne res-
ponsavel quando faz o mal. Cer-
tamente a esperanc;:a de recom-
pensa nao e a unica e nem 0 mais
importante motivo para se fazer
o bern, e certamente o ternor da
punic;:ao pode nao sera unica coi-
sa que obrigue o homem a refrear
o mal. Mas, mesmo que seja atra-
ves desses motivos secundarios,
fazer o bern e refrear o mal, mes-
mo que seja em urn sentido exter-
no, e ainda uma situac;:ao melhor
do que aquela em que, despre-
zando essas motivac;:oes, a pessoa
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vive de acordo com seus impul-
sos. Alem disso, a virtude e a for-
tuna e o pecado e a puni<;ao estao
inseparavelmente conectados urn
ao outro nao meramente em fun-
<;ao de urn reconhecimento exter-
no, mas estao presentes tambem
na consciencia moral do indivi-
duo. 0 verdadeiro e real amor ao
bern, isto e, a plena comunhao
com Deus, significa que o homem
esta inteiramente, tanto externa
quanto internamente, inserido
nessa comunhao. Eo pecado, com
a mesma amplitude, corrompe
tanto a alma quanto o corpo do
homem.
* * * * *
A puni<;ao que Deus impoe
ao pecado ea morte (Gn 2.17), mas
essa morte corporal e temporal
nao ea unica puni<;ao do pecado.
Ela e precedida e seguida por
muitas outras penalidades.
Logo que o homem pecou
seus olhos foram abertos, ele se
envergonhou de sua nudez e es-
condeu-se com medo da face de
Deus (Gn 3.7,8). No homem aver-
gonha e o medo sao inseparaveis
do pecado porque ele imediata-
mente se sente culpado e amea-
<;ado pelo seu pecado.
A culpa, que esta relaciona-
da com a puni<;ao, e a mancha,
que ea corrup<;ao moral, sao as
consequencias que se seguiram
imediatamente a queda. Mas a
282
essas penalidades naturais Deus
acrescenta puni<;6es mais defini-
das. A mulher e punida como
mulher e tambem como mae: Ela
deve dar aluz com dores e 0 seu
desejo deve ser sempre para o seu
marido (Gn 3.16). E o homem e
punido com urn chamado especi-
fico para ele, a saber, o cultivo da
terra com o trabalho de suas maos
(Gn 3.17-19). A morte nao aconte-
ce logo depois da transgressao;
ela eadiada por centenas de anos,
pois Deus nao abandona Seus in-
tentos referentes ara<;a humana.
Mas a vida que eagora concedi-
da ao homem se torna uma vida
de sofrimento, cheia de luta e fra-
casso, uma prepara<;ao para a
morte, uma morte continua. 0 ho-
mem nao se tornou mortal por
causa do pecado: ele come<;ou a
morrer. Ele morre constantemen-
te desde o ber<;o ate a cova. Sua
vida eapenas uma curta e inutil
batalha contra a morte.
Esse fato se expressa nas
muitas formas pelas quais sao
apresentadas na Escritura a fragi-
lidade, a transitoriedade e a vai-
dade da vida humana. 0 homem
era p6, mesmo antes da queda. 0
seu corpo foi feito do p6 da terra
e assim, formado da terra, ele foi
feito alma vivente (lCo 15.45A7).
Mas a vida do primeiro homem
foi planejada para ser espiri-
tualizada e glorificada, governa-
da pelo Espirito na forma de obe-
diencia alei divina. Agora, toda-
0 PEcAoo E A MaRTE
via, como resultado da transgres-
sao, a lei esta em ac;ao: do p6 fos-
te formado, e ao p6 voltaras (Gn
3.19).
Em vez de se tornar espiri-
to, o homem se tornou carne atra-
ves do pecado. Agora sua vida e
sombra, urn sonho, urn intervalo,
urn passo, urna onda do mar que
se levanta, quebra-se e desapare-
ce, urn raio de luz que brilha e se
vai, uma flor que desabrocha e
seca. Ela de fato nao merece o ple-
no e glorioso nome de vida. Ela e
morte constante no pecado (Jo
8.21,24), uma morte em delitos e
pecados (Ef 2.1).
Essa vida, vista pelo lado
de dentro, e inteiramente corrup-
ta, refugada e dissolvida pelo
pecado. E pelo lado de fora ela e
constantemente ameac;ada por
todos os lados. Imediatamente
depois da transgressao o homem
foi expulso da paraiso. Ele nao
teve o direito de voltar para la,
pois ele foi fon;;ado a trabalhar
para viver, e no paraiso o descan-
so e a paz sao doces demais para
o homem caido. Ele tinha que se
esfon;ar para ganhar o seu pao
como suor de seu rosto e dessa
forma cumprir seu chamado. 0
homem antes da queda estava
em casa, no paraiso, mas o ho-
mem pecador, sujeito aredenc;ao,
esta na terra como urn peregrina
- numa terra que compartilha sua
queda, que por sua causa foi
amaldic;oada e que, juntamente
283
com ele, esta sujeita a vaidade
(Rm 8.20).
Dessa forma o interno e o
externo concordam: ha harmonia
entre o homem e seu meio ambi-
ente. A terra na qual n6s vivemos
nao e 0 ceu, mas tambem nao e 0
inferno. Ela esta entre os dois e
possui algo das qualidades de
cada urn. N6s nao podemos apon-
tar exatamente qual e a relac;ao
entre os pecados do homem e as
calamidades da vida. 0 proprio
Jesus nos previne para que nao
fac;amos isso. Ele diz que os
galileus, cujo sangue Pilatos mis-
turou aos seus sacrificios nao
eram mais culpados que os outros
(Lc 13.1-3), eo filho que nasceu
cego nao foi punido por causa do
pecado de seus pais, mas foi afli-
gido para que as obras de Deus
se revelassem nele (Jo 9.3). N6s,
portanto, nao podemos inferir do
fato de que calamidades aconte-
cem com uma pessoa, que sua
culpa pessoal seja a causa disso.
Os amigos de J6 argumentaram
dessa forma e estavam errados.
Contudo, nao ha duvida de
que de acordo com o ensino de
toda a Escritura existe uma cone-
xao entre o homem caido, por urn
lado, e a terra caida, por outro
lado. Eles foram criados em har-
monia urn como outro, e juntos
foram condenados a vaidade,
ambos serao em prindpio redi-
midos por Cristo e algum dia se-
rao exaltados e glorificados. 0
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
presente mundo nao e 0 melhor
possivet mas tambem nao e 0
pior, mas e urn born mundo para
o homem caido. Por si mesmo ele
produz cardos e espinhos e
compele o homem a trabalhar,
preserva-lo da decadencia e, no
fundo de seu cora<;:ao, alimentar
a esperanc;a inextinguivel de que
havera algum dia urn bern dura-
vel e uma felicidade eterna. Essa
esperan<;:a faz com que ele viva,
mesmo que seja uma vida de cur-
ta dura<;:ao e cheia de tormentas.
Toda vida humana, por na-
tureza, esta sujeita a decadencia
e amorte. Se uma pessoa for sufi-
cientemente forte ela podera resis-
tir a essa luta durante setenta ou
oitenta anos, mas a vida geral-
mente se esvai mais cedo, na for-
<;:a dos anos, na flor da mocidade
ou ate mesmo antes do nascimen-
to. A Escritura diz que essa morte
e urn julgamento de Deus, urn
pagamento ou puni<;:ao pelo pe-
cado, e essa verdade e sentida no
cora<;:ao de todas as pessoas. Ate
mesmo os assim chamados povos
primitivos sabiam que em essen-
cia 0 homem e mortal, e que nao
e a imortalidade que deve ser pro-
vada, mas a morte que deve ser
explicada. Contudo ha muitos que
em tempos antigos e em tempos
mais recentes tern afirmado que a
morte, nao como algo externo que
vern violentamente de fora, mas
internamente, como urn processo
de dissolu<;:ao, e urn fenomeno
284
natural e inevitavel. Em si mes-
ma, de acordo com esse ponto de
vista, a morte nao e terrivel; ela
simplesmente parece terrivel ao
homem porque o instinto da vida
luta contra ela. Na medida em que
a ciencia progride a morte vai se
tornando cada vez mais natural.
Chegara o dia em que o homem
morrera tao pacificamente e tao
calmamente como uma planta
que se seca ou como urn animal
cujas for<;:as se exauriram.
Mas, embora haja alguns
que falem dessa forma, ha outros
que assumem uma posic;ao total-
mente diferente. Os homens da
ciencia nao encontram meios para
concordar sobre as causas e ana-
tureza da morte. Contra esses que
veem na morte urn fim naturale
necessaria da vida ha muitos que
encontram na morte urn enigma
maior que a vida, e que declaram
que nao ha uma s6 razao pela qual
seres vivos devam morrer. Eles
chegam a dizer que, originalmen-
te, o universo era urn imensuravel
ser vivo, que a morte surgiu pos-
teriormente, e que ainda ha al-
guns animais que nao morrem. E
tallinguagem e facilmente absor-
vida em nossos dias por aqueles
que creem na preexistencia das
almas e que se referem a morte
como uma mudan<;:a de forma que
o homem sofre para evoluir para
uma vida mais elevada - como a
lagarta que se transforma em uma
borboleta.
0 PECADO E A MaRTE
Essa diferen<;a de pontos de
vista e, em si mesma, uma eviden-
cia de que a cH~ncia nao pode pe-
netrar na causa mais profunda e
final das coisas e nao pode expli-
car a morte mais do que a vida.
Tanto a morte quanto a vida con-
tinuam sendo urn misb2rio para a
ciencia. No momenta em que a
ciencia se arrisca a dar uma expli-
ca<;ao ela corre o perigo de come-
ter injusti<;as tanto com rela<;ao a
realidade da morte quanto com
rela<;ao arealidade da vida. A ci-
encia diz que a vida era, original-
mente, eterna, mas nesse caso ela
deve responder a questao de
como a morte surgiu; a ciencia
responde dizendo que a morte e
apenas uma mudan<;a de forma,
porem, por outro lado ela tenta
entender a morte como sendo na-
tural. Nesse caso a ciencia nao
sabe 0 que fazer e a vida e for<;a-
da a negar a imortalidade. Em
ambos os casos e apagada a linha
entre a vida e a morte e entre o
pecado e a santidade.
A confissao de que a morte
e urn pagamento pelo pecado,
apesar de nao ser provada pela
ciencia, tambem nao e refutada
por ela. Essa confissao simples-
mente se mantem fora dos limi-
tes da investiga<;ao cientifica e
alem de seu alcance. Alem disso
essa confissao nao necessita de
confirma<;ao da ciencia. Ela esta
baseada sobre o testemunho divi-
no e e confirmada a todo instante
pelo medo da morte acuja escra-
vidao os homens estao sujeitos
durante toda a sua vida (Hb 2.15).
Outra coisa que pode ser dita
como evidencia dessa necessida-
de ou em defesa de sua legitimi-
dade e que a morte nao e natural.
Ela nao e natural porque nao se
encaixa na essencia e no destino
do homem, nem em sua cria<;ao a
imagem de Deus, pois a comu-
nhao com Deus e incompatfvel
com a morte. Deus nao e urn Deus
de mortos, mas de vivos (Mt
22.32). Por outro lado, a morte e
natural ao homem caido, pois o
pecado, quando consumado, gera
a morte (Tg 1.15). Alem disso, de
acordo com a Sagrada Escritura,
a morte nao e uma aniquila<;ao. A
vida e prazer, ben<;ao, superabun-
dancia, e a morte e miseria, pobre-
za, fome, sede de paz e falta de
ben<;ao. A morte e dissolu<;ao, se-
para<;ao daquilo que estava jun-
to. 0 homem, criado aimagem de
Deus, possui comunhao com
Deus. Ele vive de forma plena,
eterna e aben<;oada. Mas quando
ele rompe essa comunhao ele
morre. Sua vida passa a ser caren-
te de prazer, paz e ben<;ao, e ele
se torna morto em seus pecados.
Essa morte espirituat essa sepa-
ra<;ao entre Deus eo homem, con-
tinua no corpo e culmina na mor-
te eterna, pois a existencia huma-
na nao chega ao fim depois da
separa<;ao entre a alma e o corpo.
Aos homens esta ordenado mor-
285
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
rer uma s6 vez, vindo depois dis-
too juizo (Hb 9.27).
286
E quem pode resistir a esse
julgamento?
CAPITULO
11~
0 PACTO DA GRA<;A
A
A essa questao a humani-
dade tern, em todos os
tempos e lugares, dado a
resposta de que o homem nao
pode subsistir diante de Deus e
nem morar em Sua presen<;a. Nin-
guem ha que possa dizer: "Purifi-
quei o meu cora<;ao, limpo estou
do meu pecado?" (Pv 20.9). Todos
sentem-se culpados e sujos, e to-
dos reconhecem, se nao nos ou-
tros, pelo menos em si mesmos,
que nao sao como deveriam ser.
0 pecador endurecido tern mo-
mentos nOS quaiS e dOffiH LetdO pela
agita<;ao e pela falta de descanso,
eo sentimento de auto justi<;a con-
tinua, no mais fntimo de seu ser,
esperando que Deus passe por
alto sua carencia e aceite a inten-
<;ao de boas obras.
De fato ha muitos que ten-
tam banir esses pensamentos de
sua mente orientar sua vida pelo
pensamento de que nao existe
287
Deus, nem mandamento. Eles en-
ganam a si mesmos dizendo que
nao ha Deus (5114.1), que Ele nao
se importa com os pecados do
homem e que ate mesmo o male
born aos Seus olhos (Ml2.17), que
Ele nao se lembra do mal e nem
pode ve-lo (Sl10.11; 94.7), ou ain-
da que, sendo Amor perfeito,
Deus nao punira o erro (5110.14).
Mas onde quer que haja a exigen-
cia da lei moral e o ideal etico man-
tenha sua nobreza, nao pode ha-
ver duvidas de que Deus punira
o mal. Deus e amor, mas essa glo-
riosa confissao s6 e feita com a
devida propriedade quando o
amor divino e entendido como
sendo urn amor santo e em per-
feita harmonia com Sua justi<;a. 56
ha lugar para a Gra<;a de Deus
onde Sua justi<;a estiver plena-
mente estabelecida.
Toda a hist6ria do mundo
nos da urn irrefutavel testemunho
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
dessa justi<;:a de Deus. N6s nao
podemos especular fora do mun-
do a revela<;:ao especial em Cristo
que nos fala do amor de Deus,
pois se n6s fizermos isso essa re-
vela<;:ao especial estara perdida
para n6s. E se n6s, mesmo que seja
s6 por urn momento, deixarmos
de lado a revela<;:ao de Deus em
Cristo, nao restara muito apoio
para a cren<;:a de urn Deus de
amor. Sea hist6ria do mundo cla-
ramente nos ensina algo, e que
Deus tern uma desaven<;:a com
Suas criaturas. Ha discordancia,
separa<;:ao, conflito entre Deus eo
mundo. Deus nao concorda com
o homem e o homem nao concor-
da com Deus. Cada urn segue seu
proprio caminho e cada urn tern
seus pr6prios pensamentos sobre
as coisas. Os pensamentos de
Deus nao sao os nossos pensa-
mentos e os caminhos de Deus nao
sao os nossos caminhos (Is 55.8).
Portanto, a hist6ria do mun-
do e tambem urn julgamento do
mundo. Nao, nao e, como o poeta
disse, o julgamento do mundo,
pois esse julgamento s6 acontece-
ra no ultimo dia, e 0 testemunho
de que esse julgamento nao che-
gou e que a terra ainda esta cheia
das riquezas de Deus (Sl 104.24).
Ao mesmo tempo a hist6ria do
mundo e urn julgamento, uma his-
t6ria cheia de julgamentos, cheia
de lutas e guerras, de sangue e de
lagrimas, calamidades e afli<;:6es.
Sobre isso estao escritas as pala-
288
vras que Moises disse quando viu
os israelitas sendo mortos diante
de seus olhos: "Somos consumi-
dos pela Tua ira, e pelo Teu furor,
conturbados" (Sl 90.7).
Esse testemunho que a his-
t6ria da sobre a justi<;:a de Deus e
confirmado pelo fato de que o
homem tern sempre procurado
por urn paraiso perdido, por urna
felicidade perene, e por uma re-
den<;:ao de todo o mal que o opri-
me. Ha em todos os homens uma
necessidade e uma procura pela
reden<;:ao. Eexatamente essa ne-
cessidade e essa busca que se ex-
pressam na religiao. A palavra re-
deru;ao pode ser usada em urn sen-
tido tao amplo que inclua todo o
labor do homem sobre a terra, pois
quando o homem pelo trabalho de
suas maos tenta suprir as necessi-
dades de sua vida, quando ele ten-
ta defender-se de todos os tipos de
for<;:as antagonicas na natureza e
entre os homens, e quando na ci-
encia e na arte ele se esfor<;:a por
dominar todo o mundo, tudo isso
tern o prop6sito de livra-lo do mal
e promover o bern.
Contudo, o conceito de re-
den<;:ao nunca e aplicado a esse
tipo de labor humano. Nao impor-
ta quanto esfor<;:o possa fazer com
que a vida do homem seja mais
prazerosa e mais rica, ha na hu-
manidade urn senso de que todo
esse progresso e civiliza<;:ao nao
satisfazem as mais profundas ne-
cessidades humanas e nem podem
0 p ACTO DA GRA<;:A
resgata-lo de suas piores angusti-
as. A reden<;ao e urn conceito reli-
gioso e so e aplicado corretamen-
te na esfera religiosa. A religiao
precedeu toda a cultura e civiliza-
<;ao, e ate hoje a religiao continua
a ocupar o seu proprio lugar ao
lado da ciencia, da arte e da
tecnologia. Ela nao pode ser su-
plantada, nem compensada, nem
mesmo pelos mais importantes
resultados do esfor<;o humano. A
religiao supre uma unica necessi-
dade no homem, e sua tendencia
depois da queda e sempre resgata-
lo de suas angustias.
Portanto, a ideia de reden<;ao
esta presente em todas as reli-
gioes.
E verdade que as vezes as
religioes sao classificadas como
naturais, eticas e redentivas.
Quando isso e feito a religiao
redentiva e diferenciada das ou-
tras duas como urn tipo especial
de religiao. Mas tal classifica<;ao e
objeto de muita disputa. Em urn
sentido geral a no<;ao de reden<;ao
e propria a todas as religioes. To-
das as religioes de todos os povos
pretendem ser religioes reden-
tivas. Ha diferen<;as sobre a natu-
reza do mal do qual a reden<;ao e
almejada, sobre a forma pela qual
ela pode ser obtida, e sobre o mais
elevado bern que o homem pode
esfor<;ar-se por alcan<;ar. Contudo,
todas as religioes apontam para a
reden<;ao do mal e para a obten-
<;ao do mais elevado bern. Na reli-
289
giao a grande questao e sempre a
seguinte: "0 que eu preciso fazer
para ser salvo?". Precisamente o
que nao pode ser obtido pela cul-
tura, nem pela civiliza<;ao, nem
mesmo pelo dominio sobre a ter-
ra, precisamente esse eo objeto da
religiao: felicidade perene, paz
eterna, ben<;ao perfeita. Na reli-
giao o homem esta sempre relaci-
onado com Deus. De fato, em sua
condi<;ao pecaminosa o homem
representa Deus de forma errada,
de forma diferente daquilo que
Ele e, procura-o com uma motiva-
<;ao errada e da forma errada e no
lugar errado, mas procura por
Deus como se, tateando, pudesse
encontra-lo (At 17.27).
Essa necessidade de reden-
<;ao, que e comum a toda a huma-
nidade e que procura satisfazer os
adeptos das muitas auto denomi-
nadas religioes dos povos e, em si
mesma e para o Cristianismo, de
grande importancia. Essa necessi-
dade surge continuamente no co-
ra<;ao das pessoas e e mantida ali
por Deus. Ela ilustra o fato de que
Deus nao abandonou a ra<;a huma-
na aos seus proprios caminhos. Ela
e uma esperan<;a inerradicavel e
capacita o homem em sua longa e
atribulada jornada pelo mundo a
manter-se vivo e trabalhando. E ela
serve como uma garantia e como
uma profecia do fato de que essa
reden<;ao existe, e que, enquanto os
homens procuram em vao ela e
graciosamente dada por Deus.
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
*****
Para entender corretamente
e apreciar o melhor dessa grande
reden<;ao que a Gra<;a de Deus
preparou em Cristo, sera util pa-
rar por urn momento ou dois, di-
ante dos esfor<;os empreendidos
pelo homem, alheios arevela<;ao
especial, para livrar-se do mal e
adquirir o mais elevado bern. N6s
veremos a grande diferen<;a e, ao
mesmo tempo, a grande uniformi-
dade que caracteriza todos esses
esfor<;os.
A grande diferen<;a eo gran-
de numero de religi6es que tern
existido ao longo dos seculos. 0
numero de religi6es e maior do
que o numero de na<;6es e de lin-
guas. Assim como a terra produz
cardos e espinhos, as religi6es se
desenvolvem a partir da nature-
za humana. Elas se desenvolvem.
Elas sao tao numerosas e tao dife-
rentes que dificilmente podem ser
vistas de forma panoramica e nao
sao suscetiveis e nao satisfazem a
qualquer classifica<;ao. Visto como
a religiao ocupa uma posi<;ao cen-
tral, ela assume urn carater dife-
rente de acordo com a maneira
pela qual ela ve a rela<;ao entre
Deus eo mundo, entre a natureza
e o espirito, entre a liberdade e a
necessidade, entre o destino e a
culpa, entre a hist6ria e a cultura.
De acordo com a forma pela qual
0 male visto, se ele e positivo ou
negativo, uma identidade perma-
290
nente ou urn momento passagei-
ro na hist6ria da civiliza<;ao, na-
tural ou moral, sensitivo ou espi-
ritual em seu carater, a ideia de
reden<;ao muda, e muda tambem
a forma pela qual o homem deve
busca-la e obte-la.
Quando n6s tentamos pers-
crutar a essencia dessas religi6es,
todas elas parecem possuir todos
os tipos de tra<;os de similaridade
e de relacionamento. Em primei-
ro lugar toda religiao tenta com-
preender todas as ideias sobre
Deus e sobre o mundo, sobre os
espiritos e sobre o homem, sobre
a alma e sobre o corpo, e sobre a
origem, a essencia e o prop6sito
das coisas. Toda religiao traz con-
sigo uma doutrina, uma visao do
mundo e da vida, urn dogma. Em
segundo lugar, nenhuma religiao
se satisfaz com a mera apreensao
racional dessas ideias, mas impe-
le os homens, por meio dessas
ideias e com sua assistencia, a pe-
netrar atraves do mundo sobrena-
tural de Deus e dos espiritos e a
unir-se com eles. A religiao nun-
ca e apenas urn dogma ou uma
doutrina. Ela envolve tambem a
afei<;ao dos sentimentos, a atitude
do cora<;ao e a ben<;ao do favor
divino. Mas os homens, em todos
os tempos e em todos os lugares,
sempre souberam que esse favor
divino nao lhes pertencia por na-
tureza. Por urn lado os homens
tern uma no<;ao de que devem ter
esse favor se quiserem obter a fe-
0 p ACTO DA GRA<;:A
licidade eterna e a salva<;ao de
suas almas; e, por outro lado, eles
sentem o quanto necessitam des-
se favor e que por causa de seus
pecados eles nao possuem comu-
nhao com Deus. Portanto, toda
religiao possui urn terceiro ele-
mento constituinte, ou seja, o es-
for<;o para que, de uma forma ou
outra o homem possa obter o fa-
vor de Deus e ter comunhao com
Ele para que, dessa forma, assegu-
re sua existencia no futuro. Toda
religiao possui urn grupo de idei-
as relacionadas entre si, tenta fo-
mentar afetos e sentimentos espe-
dficos e prescreve uma serie de
pniticas.
Essas praticas religiosas sao
divididas em dois tipos. Aprimei-
ra categoria pertencem aquelas
praticas que podem ser entendi-
das sob o termo culto e que con-
sistem principalmente de reuni6es
religiosas, sacriflcios, ora<;6es e
canticos. Mas a religiao nunca se
limita a essas pniticas. For ocupar
a posi<;ao central na vida huma-
na, ela preenche toda a vida e ten-
ta alinhar-se com a vida. Toda re-
ligiao apresenta ideias eticas e
proclama uma lei moral segundo
a qual a pessoa, em sua vida do-
mestica, pessoal, dvica e social
deve conduzir-se. Em toda reli-
giao ha ideias, sentimentos e a<;6es
que sao em parte relevantes para
o culto e em parte relevantes para
a vida moral, e que podem, par-
tanto, ser chamados de culticos e
291
eticos.
Nao ha uma s6 religiao na
qual qualquer desses elementos
nao esteja presente. Mas ha uma
grande diferen<;a quanto ao con-
teudo presente em cada urn deles,
sobre a rela<;ao que eles possuem
uns com os outros e sobre a enfa-
se que cada urn deles recebe. Pau-
lo diz que a essencia do paganis-
mo dos gentios e que eles muda-
ram a gloria do Deus incorruptivel
em semelhan<;a da imagem de
homem corruptive!, bern como de
aves, quadrupedes e repteis. De
acordo com a extensao em que
Deus e identificado como univer-
so, com a natureza, como homem
ou com os animais os conceitos
religiosos vao mudando, e da
mesma forma mudam as emo<;6es
e a<;6es religiosas.
Tres tipos principais devem
ser distinguidos. Quando o divi-
no e identificado com as misterio-
sas for<;as da natureza a religiao
se transforma numa grosseira su-
persti<;ao e magia. Os feiticeiros e
os magos servem para prover para
o homem poder sobre as arbitra-
riedades dos seres divinos invisi-
veis. Se o divino for visto como urn
ser humano, a religiao assume urn
carater mais humano, mas ao mes-
mo tempo cai em urn culto
ritualista de formas ou em urn
profundo moralismo. E quando o
divino e concebido como a ideia,
a alma ou a substancia do mun-
do, a religiao retrata da aparencia
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
das coisas ao misticismo do cora-
~ao, e tenta alcan~ar comunhao
com Deus por meio do ascetismo
(abstinencia) e extase (eleva~ao es-
piritual). Nas varias religioes uma
ou outra dessas tres formas prin-
cipais e expressa, mas nunca ao
ponto de mutuamente se exclui-
rem. A reden~ao e sempre vista
como urn entendimento ou conhe-
cimento, como vontade e a~ao e
como cora~ao e emo~oes.
A filosofia da suporte a tudo
isso. A filosofia tambem se ocupa
com a ideia de reden~ao e busca
uma cosmovisao que satisfa~a tan-
to a mente quanto os sentimentos.
A filosofia nasce fora da religiao,
periodicamente insere elementos
da religiao em seu sistema e para
muitos serve como urn tipo de re-
ligiao. A filosofia deduz urn prin-
cipio para a conduta da vida a
partir de sua propria cosmovisao,
tenta abrir urn caminho para are-
den~ao atraves do conhecimento,
dos atos morais e da vontade, e da
experiencia do cora~ao. Sem a re-
vela~ao especial a religiao dos ho-
mens e a filosofia dos pensadores
nao possuem urn correto conhe-
cimento de Deus e, portanto, nao
possuem urn correto conhecimen-
to do homem e do mundo, e do
pecado e da reden~ao. Ambos
procuram por Deus como se,
tateando, pudessem encontra-lo,
mas eles nao podem.
* * * * *
292
Portanto a revela~ao especi-
al e acrescentada a revela~ao ge-
ral. Nela Deus, de Sua propria
parte, expoe Seus segredos e se faz
conhecido ao homem, e prepara
para Si mesmo uma morada no
homem. Entre as religioes auto
concebidas e a religiao baseada na
revela~ao especial dada a Israel e
em Cristo ha, consequentemente,
uma diferen~a de principio. Na
primeira e sempre 0 homem que
tenta encontrar Deus, mas que
possui uma ideia falsa dEle e que,
portanto, nunca consegue ter urn
discernimento verdadeiro sobre a
natureza do pecado e a forma de
reden~ao; mas na segunda, na re-
ligiao da Sagrada Escritura, e sem-
pre Deus quem procura o homem,
que se revela ao homem culpado
e impuro, e que se faz conhecido
como verdadeiramente e em Sua
Gra~a e compmxao. Das
profundezas do cora~ao humano
nasce uma anseio: que Deus abra
OS ceus e des~a. No cristianismo
OS ceus se abrem e Deus desce a
terra. Em outras religioes e o ho-
mem que nos vemos agir, tentan-
do, pelo aumento do conhecimen-
to, cumprir todos os tipos de re-
gras, ou pela abstinencia do mun-
do e o sigilo de sua propria vida
interior, obter a reden~ao de todo
o male a comunhao com Deus. Na
religiao crista a obra do homem e
nada, e e o proprio Deus que age,
que intervem na historia, abre o
caminho da reden~ao em Cristo e
0 PACTO DA GRA<;:A
pela Sua Gra<;a traz o homem a
reden<;ao e faz com que ele viva
nela. A revela<;ao especial e a res-
posta que Deus da em palavras e
atos as questoes que, por Sua pro-
pria dire<;ao, nascem no cora<;ao
humano.
Imediatamente depois da
queda Deus veio ao homem. 0
homem tinha pecado e estava co-
berto de vergonha e temor. Ele
foge de seu Criador e se esconde
por entre a densa folhagem do jar-
dim. Mas Deus nao se esquece
dele. Ele nao o abandona, mas tern
misericordia dele, vai ao seu en-
contra, fala com ele e chama-ode
volta para ter comunhao com Ele
(Gn 3.7-15).
Eo que aconteceu imediata-
mente depois da queda continua
acontecendo na historia de gera-
<;ao em gera<;ao. Nos vemos ames-
ma coisa acontecendo sempre. Em
toda a obra de reden<;ao e Deus e
somente Deus que se manifesta
como aquele que procura e cha-
ma, como aquele que fala e age. E
Ele quem coloca Sete no lugar de
Abel (Gn 4.25), que concede Sua
Gra<;a a Noe (Gn 6.8) e que o pre-
serva do julgamento do dihivio
(Gn 6.12 ss.), que chama Abraao e
que estabelece uma Alian<;a com
ele (Gn 12.1; 17.1), que, somente
pela Sua Gra<;a, escolhe o povo de
Israel como Seu herdeiro (Dt 4.20;
7.6-8), que na plenitude dos tem-
pos envia Seu Filho unigenito ao
mundo (Gl4.4) e que agora, nessa
293
dispensa<;ao de toda a ra<;a huma-
na reline uma Igreja que Ele ele-
geu para a vida eterna e que a pre-
serva para a heran<;a celestial (Ef
1.10; 1Pe 1.5). Assim como na obra
da cria<;ao e na obra da providen-
cia, tambem na obra de reden<;ao,
e recria<;ao, Deus e o Alta e o
Omega, o prindpio eo fim (Is 44.6;
Ap 22.13). Ele nao pode mesmo
ser outra coisa, pois Ele e Deus.
Dele, por Ele e para Ele sao todas
as coisas (Rm 11.36).
Que Deus e o primeiro na
obra de salva<;ao e evidente pelo
fato de que a revela<;ao especial
procede completamente dEle, mas
tambem pelo fato de que toda a
obra redentora depende de Seu
conselho eterno. Nos afirmamos
previamente que toda a cria<;ao e
providencia de Deus nasceram
desse conselho. Mas na Escritura,
nos somos informados em lingua-
gem clara e em frases fortes que
esse eterno e imutavel conselho
tambem e a base de toda a obra
de reden<;ao, de recria<;ao.
Fala-se em varios pontos da
Escritura sabre urn conselho que
precedeu todas as coisas (Is 46.10),
que faz todas as coisas (Ef 1.11), e
cujo conteudo e especialmente a
obra de reden<;ao (Lc 7.30; At
20.27). Esse conselho nao e urn
conselho somente da mente de
Deus, mas tambem de Seu poder
e de Sua vontade (Ef 1.5,11), e
irrevogavel (Is 14.27; 26.10), imu-
tavel (Hb 6.17), e permanecera
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
para sernpre (Sl 33.11; Pv 19.21).
Outros nornes tarnbern sao usados
para designar esse conselho, elan-
<;arn rnais luz sobre o assunto.
Alem de conselho, nos lemos sobre
urn beneplacito que Deus manifes-
tou ao homem em Cristo (Lc 2.14t
e que se agrada em aceita-los
como Seus filhos (Ef 1.5,9). Nos
lemos sobre urn prop6sito que e
cumprido pela obra de elei<;ao
(Rm 9.11; Ef 1.9), e que se mani-
festa em Cristo Jesus (Ef 3.11), e
que se realiza ao chamar aqueles
que amam a Deus (Rm 8.28). Nos
lemos sobre uma elei~tio e urn
preconhecimento que nascem da
Gra<;a (Rm 11.5) e que tern Cristo
como centro (Ef 1.4), pessoas es-
pecificas como seu objeto (Rm
8.29), e a salva<;ao dessas pessoas
como seu proposito (Ef 1.4). E, fi-
nalmente, nos lemos sobre urna
ordena<;ao ou preordena<;ao que
atraves da proclama<;ao da sabe-
doria de Deus (1Co 2.7) culmina
na ado<;ao de filhos por Jesus Cris-
to para Deus e na vida eterna135
.
Quando nos reunimos todos
esses dados das Sagradas Escritu-
ras torna-se claro que o conselho
de Deus tern especialmente tres
assuntos, como seu conteudo.
0 primeiro e a elei<;aoJ que
cumpre o gracioso proposito de
Deus segundo o qual Ele ordenou
que aqueles que de antemao co-
nheceu ern arnor fossem feitos a
135
At 13.48; Rm 8.29; Ef 1.5.
294
imagem de Cristo (Rrn 8.29). E
possivel tambem falar de uma
elei<;ao de povos ou na<;oes, pois
nos dias do Velho Testamento so-
mente Israel dentre todas as na-
<;6es foi escolhido para receber a
heran<;a do Senhor; e no Novo
Testamento urn povo recebe o
Evangelho antes dos outros. Mas
essa aceita<;ao de na<;oes nao e
todo o ensino da Biblia sobre a
elei<;ao. Dentro da humanidade, a
elei<;ao se estende a na<;oes, e, den-
tro das na<;6es, ela se estende a in-
dividuos. Urn Esau e rejeitado e
umJaco e aceito (Rm 9.13). E aque-
les a quem Deus conheceu, tam-
bern chamou, e aos que chamou,
tambem justificou, e aos que jus-
tificou, tambem glorificou (Rm
8.30).
Ernbora a elei<;ao tenha indi-
viduos como seu objeto, esses in-
dividuos nao sao a base da elei-
<;ao. Essa base e somente a Gra<;a
de Deus. 0 Senhor tern misericor-
dia de quem lhe apraz ter miseri-
cordia e se compadece de quem
lhe apraz ter compaixao. Assim,
pois, nao depende de quem quer
ou de quem corre, mas de usar
Deus a Sua misericordia (Rm
9.15)6). A fe tambem nao e a base
da elei<;ao, visto que ela eo resul-
tado ou fruto da elei<;ao. A fe e
dom de Deus (Ef 2.8). Os crentes
sao eleitos em Cristo desde antes
da funda<;ao do mundo para que,
0 PACTO DA GRA<;:A
a seu tempo, cheguem afee pela
fe sejam santos e inculpaveis di-
ante de Deus (Ef 1.4). Conseqiien-
temente todos OS que creem sao
ordenados para a vida eterna (At
13.48). A vontade de Deus eo fir-
me fundamento de tudo o que
existe e acontece, e da mesma for-
ma seu beneplacito e a mais pro-
funda causa pela qual a distin<;ao
no destino eterno do homem pode
ser tra<;ada.
Em segundo lugar esta con-
tida no conselho de reden<;ao a
realiza<;ao de toda a salva<;ao que
Deus quer conceder aos Seus elei-
tos. No plano de reden<;ao nao
somente as pessoas que herdarao
a salva<;ao eterna sao indicadas,
mas o Mediador que preparara
essa salva<;ao tambem e indicado.
Nesse sentido Cristo pode ser cha-
mado de objeto da elei<;ao de
Deus. Naturalmente Ele pode ser
chamado dessa forma nao no sen-
tido de que Ele, como os membros
de Sua Igreja, seja escolhido de
uma condi<;ao de pecado e mise-
ria para urn estado de reden<;ao e
salva<;ao. Mas Ele pode ser chama-
do dessa forma em outro sentido,
no sentido de que Ele foi o Medi-
ador da cria<;ao e tambem da re-
cria<;ao e realizou Sua obra
mediat6ria na elei<;ao atraves de
Sua paixao e morte. Epor isso que
Ele e chamado de Servo do Se-
136
Mt 26.42; fa 4.34; Fp 2.8; Hb 5.8.
137
Is 53.10; Ja 6.38-40; 10.18; 12.49; 17.4.
138
Sl 2.8; Is 53.10; fa 17.4,24; Fp 2.9.
nhor, o eleito de Deus (Is 42 ss.;
Mt 12.18). Como Mediador Ele
subordinou-se ao Pai e prestou-
lhe obediencia136
• Ele tern uma
missao e uma obra para realizar
que lhe foram dadas pelo Pai137
. E
como recompensa pelo cumpri-
mento de Sua obra Ele recebeu a
gloria que tinha junto ao Pai an-
tes da cria<;ao do mundo, a salva-
<;ao de Seu povo e o mais elevado
poder no ceu e na terra138
•
0 conselho da reden<;ao,
portanto, nao vai a lugar algum
sem o Filho. N6s lemos que o eter-
no prop6sito de Deus foi estabe-
lecido em Cristo (Ef 3.11), e que
aqueles que chegam a fe foram
escolhidos em Cristo antes da fun-
da<;ao do mundo (Ef 1.4). Isso nao
significa que Cristo seja a causa ou
o fundamento da elei<;ao, pois Ele
mesmo e o objeto da escolha do
Pai no sentido ja indicado acima,
e nao pode servir como o funda-
mento e causa da salva<;ao mais do
que serve como fundamento da
cria<;ao e da providencia. Assim
como a cria<;ao e a providencia,
ambas consideradas como conse-
lho e como realidade, procedem
do Pai atraves do Filho, e dessa
forma passam a existir, da mesma
forma 0 plano de salva<;ao e feito
pelo Pai e com o Filho. Em Seu
conselho com o Pai o Filho se dis-
poe a ser o Mediador da reden<;ao
295
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
e o Cabe<;:a de Sua Igreja. E disso
n6s podernos inferir que a elei<;:ao,
ernbora tenha individuos como
seu objeto, exclui toda a possibili-
dade de escolha arbitraria ou aci-
dental, pois o prop6sito da elei<;:ao
nao e escolher algumas pessoas ao
acaso, trazendo-as asalva<;:ao. Ern
Sua elei<;:ao Deus visa nada rnenos
do que Cristo como Mediador e
Cabe<;:a de Sua Igreja, e rnolda a
Igreja como Corpo de Cristo139
.
Ern urn sentido organico a hurna-
nidade e salva na Igreja, e no novo
ceu e na nova terra o rnundo sera
restaurado.
Portanto, ern terceiro lugar,
a obra e aplica<;:ao da salva<;:ao con-
surnada por Cristo tarnbern esta
incluida no conselho de Deus. 0
plano de reden<;:ao e estabelecido
pelo Pai ern Cristo, mas tarnbern e
estabelecido na cornunhao doEs-
pfrito. Certarnente, assirn como a
cria<;:ao e a providencia vierarn a
existencia tendo sua origem no Pai
e atraves do Filho e do Espfrito,
assirn tarnbern a reden<;:ao ou re-
cria<;:ao acontece sornente atraves
da atividade aplicativa do Espfri-
to Santo. Eo Espfrito, prornetido
e enviado por Cristo (Jo 16.7; At
2.4,17), que da testernunho de
Cristo e tudo recebe de Cristo (Jo
15.26; 16.13,14), e que agora apli-
ca a regenera<;:ao aIgreja (Jo 3.3),
que concede a fe (1 Co 12.3), a ado-
<;:ao (Rrn 8.15), a renova<;:ao (Tt 3.5),
119
1Co 12.12,27; EJ1.22,23; 4.16.
296
e sela os crentes para o dia da re-
den<;:ao (Ef 1.13; 4.30). E tudo isso
o Espirito pode fazer e trazer a
existencia porque, junto corn o Pai
e corn 0 FilhoI Ele e 0 unico e ver-
dadeiro Deus que vive e reina
eternarnente. 0 arnor do Pai, a
Gra<;:a do Filho e a cornunhao do
Espfrito Santo sao o fundarnento
do povo do Senhor no eterno e
irnutavel conselho de Deus.
* * * * *
Esse conselho de Deus,
consequenternente, e tarnbern
rnaravilhosarnente rico ern con-
forto. Ele geralrnente e apresen-
tado de forma totalrnente dife-
rente - isto e, como causa de
desencorajarnento e desespero. E
dito contra esse conselho que se
tudo esta deterrninado desde a
eternidade, 0 hornern e urn rnero
brinquedo nas rnaos dos caprichos
divinos. Que vantagern leva
urna pessoa que se esfor<;:a para ter
urna vida virtuosa? Se ela for re-
provada, rejeitada, ela continuara
perdida, de qualquer forma. E - o
argurnento continua - qual e 0
prejufzo de urna pessoa que vive
no pecado e cercada da rnais gros-
seira irnoralidade? Se essa pessoa
for escolhida ela sera salva, de
qualquer rnaneira. Tal conselho de
Deus nao deixa qualquer espa<;:o
para a liberdade e para a respon-
0 PACTO DA GRA<;:A
sabilidade do homem. Ele pode
viver de acordo com os ditames
de seu cora<;ao e pode pecar para
que a Gra<;a aumente cada vez
mars.
E verdade que a confissao
do conselho de Deus tern sofrido
muitos abusos, mas nao tern sido
por Agostinho e Calvino que es-
ses abusos estao sendo pratica-
dos. Isso acontecia ja no tempo de
Jesus e dos ap6stolos. Epor isso
que a Escritura diz que os
escribas e fariseus que rejeitaram
o designio de Deus tornaram apa-
rente essa rejei<;ao ao rejeitarem
o batismo de Joao, e aquilo que
seria o instrumento de sua salva-
<;ao tornou-se o instrumento de
sua condena<;ao (Lc 7.30). 0 ap6s-
tolo Paulo chama de calunia
(blasfemia) o ato de praticar o mal
para receber o bern (Rm 3.8), e
poe a mao na boca daqueles que
pensam ter encontrado falta em
Deus (Rm 9.19,20). 0 conselho de
Deus nao somente determina os
resultados, mas tambem governa
os meios. Ele inclui nao apenas as
conseqiiencias, mas tambem as
causas. Portanto, o conselho de
Deus nao aniquila a natureza ra-
cional e moral do homem.
0 abuso que e feito dessa
confissao e mais serio porque 0
conselho de Deus e revelado e
proclamado na Sagrada Escritura,
nao para que n6s neguemos a sua
realidade enos endure<;amos con-
tra ela, mas para que, sentindo
297
nossa culpa e nosso desespero,
dependamos desse conselho de
Deus com uma fe infantit e em
toda angustia e necessidade colo-
quemos toda a confian<;a de nos-
so cora<;ao somente nele. Sea sal-
va<;ao em uma maior ou menor
medida dependesse do homem,
de sua fe e de suas boas obras, a
salva<;ao estaria eternamente per-
dida para ele. Mas o conselho de
Deus nos ensina que a obra de sal-
va<;ao desde o come<;o ate o fim e
uma obra de Deus, ou seja, que
essa e uma obra exclusivamente
divina. A reden<;ao, assim como a
cria<;ao e a providencia, e uma
obra exclusiva de Deus. Ninguem
foi conselheiro de Deus e nem lhe
deu algo para que depois lhe fos-
se restituido (Rm 11.34,35). 0 Pai,
o Filho e o Espirito Santo juntos
planejaram e determinaram toda
a obra de reden<;ao, e Eles sao os
unicos que podem leva-la a efei-
to. 0 homem nada faz em sua re-
den<;ao. Tudo e de Deus, por Deus
e para Deus. Portanto, nossa alma
pode descansar tranquilamente
no conselho de Deus. E da vonta-
de de Deus, a vontade eterna, in-
dependente e imutavel de Deus,
que, representada na Igreja, a hu-
manidade seja restaurada e salva.
N6s ficamos ainda mais con-
vencidos do conforto proporcio-
nado pela elei<;ao quando nos
lembramos que o conselho de
Deus nao e uma obra apenas de
sua mente, mas tambem de Sua
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vontade, e nao pertence somente
ao reino da eternidade, mas a urn
poder que se manifesta ja no pre-
sente. Assim acontece com as ex-
ceH~ncias e perfeic;:5es de Deus:
elas nao sao atributos passivos,
mas poderes infinitos, plenos de
vida e de ac;:ao. Cada urn de Seus
atributos e Seu Ser. Quando Deus
e chamado de Justo e Santo, isso
significa que Ele se revela como
tal, e que Ele imprime essa justic;:a
no mundo e na consciencia dos
homens e faz com que ela perma-
nec;:a ali. Quando Ele e chamado
de amor, isso nao quer dizer sim-
plesmente que Ele olha para nos
em Cristo com aprovac;:ao, mas
tambem que Ele manifesta esse
amor e purifica nosso corac;:ao
atraves do Espfrito Santo. Quan-
do Ele se apresenta como nosso
Pai Ele quer dizer que nos rege-
nera, que nos adota como Filhos e
pelo Seu Espfrito testifica com o
nosso espfrito que somos Seus fi-
lhos. Quando Ele se faz conheci-
do como o Deus Gracioso e Mise-
ricordioso, Ele nao apenas diz,
mas tambem demonstra que de
fato perdoa nossos pecados enos
conforta em todas as nossas afli-
c;:oes. Da mesma forma, quando a
Escritura nos fala sobre o conse-
lho de Deus, ela nos ensina que o
proprio Deus executa e cumpre
cabalmente esse conselho. 0 con-
selho de redenc;:ao e uma obra de
Deus na eternidade, e como tal ele
e tambem 0 princfpio, a forc;:a
298
motora e a garantia de que a obra
redentora sera realizada no tem-
po. Portanto, independente do
que pode acontecer com o mun-
do, com a rac;:a humana ou mes-
mo conosco, o infinitamente sabio
conselho de Deus permanecera
para sempre. Nada pode mudar
o conselho de Deus: ele permane-
cera de gerac;:ao a gerac;:ao. Nao ha
motivo para desencorajamento ou
desespero. Tudo certamente acon-
tecera como Deus, em Sua sabe-
doria e amor, determinou que
acontec;:a. Sua vontade poderosa e
graciosa e a garantia da redenc;:ao
da rac;:a humana e do resgate do
mundo. Portanto, mesmo nas mai-
ores aflic;:oes, nosso corac;:ao encon-
tra paz no Senhor.
* * * * *
Logo que o homem caiu o
conselho de redenc;:ao comec;:ou a
atuar. Por Sua propria e livre
iniciativa Deus desceu, procurou
pelo homem e chamou-o de vol-
ta para Si. Everdade que nesse
episodio houve urn interrogato-
rio, uma declara<;ao de culpa e
urn anuncio da penalidade, mas
a punic;:ao pronunciada sobre a
serpente, sobre a mulher e sobre
o homem e ao mesmo tempo uma
benc;:ao e urn meio de preserva-
<;ao. Alem disso, na promessa-
mae (Gn 3.14,15) o fato nao e so-
mente que a serpente sera
esmagada, e o poder do mal que
0 PACTO DA GRA<;:A
fez uso dela e condenado, mas
tambem que desde entao haveria
inimizade entre a semente da mu-
lher e a semente da serpente, e
que e o proprio Deus quem colo-
ca essa inimizade entre as duas
sementes. 0 apice dessa inimiza-
de acontecera quando a semente
da serpente ferir o calcanhar da
semente da mulher e a semente
da mulher esmagar a cabea da
semente da serpente.
Nessa promessa-mae esta
contido nada menos que o anun-
cio e a instituiao da Aliana da
Graa. De fato a palavra Aliana
(ou Pacto) nao e mencionada nes-
se texto. Essa palavra so foi usada
bern mais tarde, em conexao com
Noe, Abraao e outros, quando o
homem, em suas varias relaoes
com a natureza, com os animais e
pela experiencia pratica da vida
veio a conhecer a necessidade e a
utilidade de contratos e alianas.
Contudo, em principia e em es-
sencia estao presentes na promes-
sa-mae todos os elementos cons-
tituintes da Aliana da Graa. Por
sua transgressao- e esse eo senti-
do- o homem foi afastado da obe-
diencia a Deus, perdeu a comu-
nhao com Ele, tornou-se urn alia-
do de Satanas e firmou uma Ali-
ana com ele. E agora Deus, em
Sua Graa, vern quebrar essa rela-
ao pactual entre o homem e Sa-
tanas e colocar inimizade em vez
de amizade entre urn e outro. Por
urn ato todo poderoso de Sua von-
tade graciosa Deus traz a semen-
te da mulher, que a mesma tinha
entregue a satanas, de volta para
o Seu lado. A isso Ele acrescenta
que a semente da mulher, apesar
de sofrer muitos tipos de adversi-
dade e opressao, obteria vitoria
total sobre a semente da serpente.
Nao ha qualquer tipo de condiao
ou incerteza quanto a isso. 0 pro-
prio Deus vern ao homem, Ele
mesmo coloca a inimizade, Ele
mesmo inicia a guerra, e Ele mes-
mo promete a vitoria. 0 homem
nao tern qualquer participaao em
tudo isso, exceto ouvir e aceitar
tudo em obediente fe. Promessa e
fe formam o conteudo da Aliana
da Graa que agorae firmada com
o homem, que abre caminho da
criatura caida ate a casa do Pai,
que da acesso asalvaao eterna.
Ha grande diferena entre a
forma pela qual o homem antes da
queda desfrutava de sua vida eter-
na e a unica forma pela qual, de-
pois da queda, ele pode obter a
vida eterna. Antes da queda a re-
gra era: "Obedea e sera salvo".
Atraves de uma perfeita obedien-
cia ao mandamento de Deus o
homem receberia a vida eterna. 0
homem tinha urn born caminho
para trilhar e, se permanecesse
nesse caminho ate o fim de sua
jornada receberia a salvaao
celestial. E, de Sua parte, Deus nao
descumpriu a regra. Se houvesse
urn homem que pudesse cumprir
perfeitamente a lei, ele receberia
299
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
a vida eterna como recompensa140
•
0 homem, contudo, fez com
que a salva<;ao se tornasse impos-
sivel para ele. Ele nao pode cum-
prir a lei porque quebrou sua co-
munhao com Deus e nao mais
ama, porem, odeia a lei do Senhor
(Rm 8.7). E agora a Alian<;a da
Gra<;a abre para ele urn caminho
diferente e mais seguro. De acor-
do com esse novo caminho o ho-
mem nao precisa mais fazer algo
para entrar na vida. Nesse novo
caminho o homem imediatamen-
te no come<;o recebe a vida eter-
na, aceita-a pela fe, e com essa fe
come<;a a realizar boas obras. A
ordem e invertida. Antes da que-
cia a regra era: "Atraves das obras,
para a vida eterna". Agora, depois
da queda, na Alian<;a da Gra<;a, a
vida eterna vern primeiro, e as
boas obras a acompanham, como
fruto da fe. Antes o homem tinha
que escalar a montanha ate Deus
para ter comunhao com Ele; ago-
ra, depois da queda, Deus desce
ao homem e faz morada em seu
cora<;ao. Antes da queda os dias
de trabalho precediam o Sabbath;
agora o Sabbath da inicio asema-
na.
Esse caminho para o santu-
ario celestial para 0 homem caido,
urn novo e vivo caminho, urn ca-
minho absolutamente certo (Hb
10.20), e devido somente aGra<;a
de Deus e ao Seu conselho de re-
den<;ao. 0 conselho de reden<;ao,
estabelecido na eternidade e a Ali-
an<;a da Gra<;a, com a qual o ho-
mem foi aben<;oado imediatamen-
te depois da queda, estao intima-
mente relacionados entre si. Estao
intimamente tao relacionados que
urn fica de pe ou cai com o outro.
Everdade que ha muitos que pen-
sam de forma diferente. Eles se fir-
roam na Alian<;a da Gra<;a e dessa
posi<;ao negam e atacam o conse-
lho de reden<;ao. Em nome da pu-
reza do Evangelho eles rejeitam a
confissao da elei<;ao. Agindo as-
sim eles destroem a Alian<;a da
Gra<;a e convertem o Evangelho
em lei.
Alem disso, quando a Alian-
<;:a da Gra<;:a e separada da elei<;:ao,
ela deixa de ser uma Alian<;a da
Gra<;a e se transforma novamente
na Alian<;a das Obras. A elei<;ao
significa que Deus concede ao ho-
mem, graciosa e livremente, a sal-
va<;ao a que o homem nao possui
direito e que nunca podera alcan-
<;ar por sua propria for<;a. Mas se
essa salva<;ao nao for inteiramen-
te uma dadiva da Gra<;a e de al-
guma forma depender da condu-
ta do homem, entao a Alian<;a da
Gra<;a e convertida em uma alian-
<;a das Obras, e o homem deve,
entao, satisfazer alguma condi<;ao
para herdar a vida eterna. Ora, a
Gra<;a e as obras sao dois p6los
opostos urn ao outro e sao mutu-
140
Lv 18.15; Ez 20.11,13; Mt 19.16; Rm 10.5; Gl 3.12.
300
0 PACTO DA GRA<;:A
amente excludentes. Sea salva<;ao
e pela Gra<;a, ela nao pode ser pe-
las obras, ou entao a Gra<;a nao e
mais Gra<;a. E se a salva<;ao e pela
obras, ela nao pode ser pela Gra-
<;a, ou entao as obras nao sao obras
(Rm 11.6). A religiao crista tern
essa caracteristica exclusiva, pois
ela e a religiao da reden<;ao e da
Gra<;a. Mas ela pode ser reconhe-
cida e mantida como tal somente
se a Gra<;a for uma livre dadiva
nascida exclusivamente no conse-
lho de Deus. A elei<;ao e a base e a
garantia, 0 cora<;ao e 0 micleo da
Alian<;a da Gra<;a. A elei<;ao e tao
indispensavelmente importante
para urn intimo relacionamento
com Deus que enfraquecer ou ne-
gar esse ensino nao apenas rouba
o verdadeiro discernimento do
alcance e da aplica<;ao da salva<;ao,
mas tambem rouba ao crente o seu
unico e verdadeiro conforto na
pratica de sua vida espiritual.
Uma luz mais intensa e
lan<;ada sobre esse relacionamen-
to quando a Alian<;a da Gra<;a e
vista nao apenas no contexto da
elei<;ao, mas de todo o conselho de
reden<;ao. A elei<;ao nao e todo o
conselho de reden<;ao, ela e ape-
nas uma parte dele, a parte prin-
cipal. Tambem esta incluida nes-
se conselho a forma pela qual a
elei<;ao e realizada - isto e, todo 0
desenvolvimento e aplica<;ao da
reden<;ao. Nos sabemos que a elei-
<;ao foi planejada em Cristo, e que
o conselho de Deus nao e uma
501
obra realizada apenas pelo Pai,
mas tambern pelo Filho e pelo Es-
pirito. 0 conselho de reden<;ao e
uma obra divina realizada pela
Trindade. Em outras palavras, o
conselho de reden<;ao, em si mes-
mo, e urna Alian<;a -urna Alian<;a
na qual cada uma das tres Pesso-
as da Trindade recebe Sua propria
obra e Sua propria missao. A Ali-
an<;a da Gra<;a que e realizada no
tempo e perpetuada de gera<;ao a
gera<;ao nada mais e que a execu-
<;ao da alian<;a estabelecida desde
a eternidade no Ser Eterno. Como
no conselho de Deus, tambem na
historia cada uma das Pessoas da
Trindade aparece. 0 Pai e a fonte,
o Filho eo Realizador eo Espirito
Santo e o Aplicador de nossa sal-
va<;ao. Portanto, todos imediata-
mente e na mesma medida fazem
injusti<;a aobra do Pai, do Filho e
do Espirito quando removem o
fundamento da Alian<;a da Gra<;a
da eternidade para o tempo, fa-
zenda com que a historia perca
sua firmeza na vontade soberana
e graciosa de Deus.
* * * * *
Ao mesmo tempo, apesar do
tempo nao poder existir sem a
eternidade, e apesar da historia
conservar seu intimo relaciona-
mento com o pensamento de
Deus, os dois nao sao a mesma
coisa. Ha essa grande diferen<;a
entre eles, a saber, que na historia
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
do tempo a ideia eterna de Deus e
revelada e realizada. 0 conselho
de redenc;:ao e a Alianc;:a da Grac;:a
nao devem e nao podem ser sepa-
rados, contudo eles diferem urn
do outro nesse ponto: a Alian<;a da
Grac;:a e a realizac;:ao do conselho
de redenc;:ao. 0 plano de redenc;:ao
nao e suficiente em si mesmo. Ele
precisa ser executado. Como uma
decisao, ele carrega toda a sua for-
c;:a na sua realizac;:ao. Ele perderia
seu carater de conselho e de deci-
sao se nao fosse realizado e mani-
festo. Imediatamente depois da
queda a Alianc;:a da Grac;:a tornou-
se conhecida ao homem e foi apli-
cada a ele, e dessa forma ela con-
tinua na hist6ria de gerac;:ao a ge-
ra<;ao. Aquilo que foi decidido, foi
tambem aplicado e desenvolvido
no curso dos seculos.
Quando n6s prestamos a
devida atenc;:ao a esse desenvolvi-
mento da Alianc;:a da Grac;:a n6s
detectamos tres caracterfsticas
marcantes dessa Alianc;:a.
Em primeiro lugar, a Alian-
c;:a da Grac;:a e, em todos OS tem-
pos e em todos os lugares, essen-
cialmente {mica, embora se mani-
feste em diversas formas e em di-
ferentes dispensac;:oes. Essencial e
materialmente ela permanece sen-
do uma, seja antes, sob ou depois
da lei. Ela e sempre uma Alian<;a
da Grac;:a. Ela recebe esse nome
porque se origina na Grac;:a de
Deus, tern a Grac;:a como seu con-
teudo, e tern como seu prop6sito
302
a glorifica<;ao da Gra<;a de Deus.
Assim como era ela no mo-
mento de sua primeira proclama-
c;:ao, que estabeleceu a inimizade,
deu inicio aluta e prometeu a vi-
t6ria, Deus fez com que ela fosse
mantida desde a primeira ate a
ultima das dispensac;:oes da Alian-
c;:a da Grac;:a, seja na dispensac;:ao
de Noe, de Abraao, de Israel ou
da Igreja do Novo Testamento. A
promessa, a dadiva e a Grac;:a con-
tinuam sendo o conteudo da Ali-
anc;:a da Grac;:a. No curso do tem-
po s6 o que foi mudado foi a in-
tensifica<;ao das suas manifesta-
c;:oes. Contudo, em prindpio, a
Alianc;:a ja estava contida na pro-
messa-mae. A unica, promessa
grandee abrangente da Alianc;:a e:
"Eu serei vosso Deus, e v6s sereis
meu povo". Essa promessa e
abrangente e inclui tudo: toda a
obra de execw;ao e aplicac;:ao da
salvac;:ao, Cristo e Seus beneficios,
o Espfrito Santo e todos os Seus
dons. Uma linha de ouro sai de Gn
3.15 e vai ate a benc;:ao apost6lica
de 2Corfntios 13.13. No amor do
Pai, na Grac;:a do Filho e na comu-
nhao do Espfrito Santo esta conti-
da toda a salvac;:ao do pecador.
Cumpre-nos observar que
essa promessa nao e condicional,
mas e positiva e certa. Deus nao
diz que Ele sera o nosso Deus se
n6s fizermos alguma coisa. Mas
Ele diz que para inimizade, que
sera o nosso Deus e que em Cristo
Ele concedera todas as coisas. A
0 PACTO DA GRA~A
Alianc;a da Grac;a so pode perma-
necer a mesma durante o curso
dos seculos porque ela depende
inteiramente de Deus e porque
Deus e imutavel e fiel. A Alianc;a
das Obras que foi firmada com o
homem antes da queda era
violavel e foi violada, pois ela de-
pendia da obediencia de urn ho-
mem mutavel. Mas a Alianc;a da
Grac;a esta fixada e estabelecida
somente na compaixao de Deus.
As pessoas podem tornar-se incre-
dulas, mas Deus nao esquece Sua
promessa. Ele nao pode quebrar
essa Alianc;a; Ele prometeu por si
mesmo manter essa Alianc;a atra-
ves de urn livre e gracioso jura-
menta: Seu nome, Sua honra e Sua
reputac;ao dependem disso. Eem
considerac;ao a Si mesmo que Ele
perdoa as transgressoes de Seu
povo e nao se lembra mais de seus
pecados141
. Portanto, as monta-
nhas podem se retirar, os outeiros
podem se remover, mas a miseri-
cordia de Deus nao se apartara de
nos (Is 54.10).
Apesar de ser imutavel em
sua essencia, a Alianc;a da Grac;a
varia em suas formas nas varias
dispensac;oes. No periodo anteri-
or ao grande diluvio uma separa-
c;ao tinha acontecido entre os des-
cendentes de Sete e os descenden-
tes de Cairn, mas a promessa nao
ficou confinada a uma pessoa ou
a uma rac;a. Ela foi difundida por
141
Is 43.25; 48.9; Jr 14.7-21.
303
todos os homens. Uma separac;ao
formal ainda nao tinha aconteci-
do; a revelac;ao geral e a revelac;ao
especial ainda andavam de maos
dadas. Mas quando sob essas cir-
cunstancias a promessa correu o
risco de se perder, o diluvio tor-
nou-se necessaria e Noe levou a
promessa consigo, na area. A pro-
messa, por urn longo tempo, con-
tinuou a ser geral. Mas quando,
depois do diluvio, urn novo peri-
go surgiu colocando em risco o
progresso da Alianc;a da Grac;a,
Deus decidiu nao mais extirpar o
homem, mas fez com que os po-
vos seguissem seu proprio cami-
nho e separou Abraao para ser o
portador da promessa. A Alianc;a
da Grac;a, portanto, encontrou sua
realizac;ao na familia dos patriar-
cas. Essas familias foram separa-
das das nac;oes pela circuncisao
como urn selo de justic;a, e pela fe
como urn sinal da circuncisao do
corac;ao.
No Sinai a Alianc;a da Grac;a
foi estabelecida com Israel como
a descendencia de Abraao. Mas,
como Israel nessa epoca ja era uma
nac;ao e devia viver diante de Deus
como urna nac;ao, a Alianc;a da
Grac;a assume urn carater nacio-
nal. Ela passa a fazer uso da lei,
nao somente da lei morat mas
tambem da lei cerimonial e da lei
civica, de forma que o povo, pela
lei, fosse conduzido a Cristo. A
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
promessa era mais antiga que a lei,
e a lei nao veio para substituir a
promessa, mas para desenvolve-
la e prepani-la para o seu cumpri-
mento na plenitude dos tempos.
Em Cristo a promessa alcan<;ou
seu cumprimento, a sombra alcan-
<;ou seu objeto, a letra alcan<;ou o
espirito, e a servidao alcan<;ou a
liberdade. Dessa forma a promes-
sa se libertou de todas as frontei-
ras nacionais e externas, e, como
no come<;o, espalhou-se por toda
a ra<;a humana.
Apesar dessa variedade de
formas, a Alian<;a da Gra<;a sem-
pre teve o mesmo conteudo. Ela e
sempre o mesmo Evangelho (Rm
1.2; Gl 3.8), o mesmo Cristo (Jo
14.6; At 4.12), a mesma fe (At
15.11; Rm 4.11), e sempre confere
os mesmos beneficios de perdao
e vida eterna (At 10.43; Rm 4.3). A
luz pela qual os crentes iluminam
seu caminho e diferente, mas seu
caminho e sempre o mesmo.
A segunda peculiaridade da
Alian<;a da Gra<;a e que em todas
as suas dispensa<;5es ela possui
urn carater organico.
A elei<;ao fixa aten<;ao sobre
individuos que foram de antemao
conhecidos por Deus e no tempo
foram chamados, justificados e
glorificados, mas nao indica, por
si mesma, a rela<;ao entre essas
pessoas. Contudo a Escritura nos
diz que a elei<;ao acontece em Cris-
to (Ef 1.4; 3.11), e, portanto, foi exe-
cutada de tal forma que Cristo
304
pudesse ser o Cabe<;a de Sua Igre-
ja e a Igreja pudesse ser o Corpo
de Cristo. Dessa forma os eleitos
nao sao indivfduos isolados, eles
sao urn em Cristo. Assim como
nos dias do Velho Testamento o
povo de Israel era o povo santo de
Deus, assim tambem a Igreja do
Novo Testamento e a gera<;ao es-
colhida de Deus, urn sacerd6cio
real, uma na<;ao santa, urn povo
de propriedade exclusiva de Deus
(1Pe 2.9). Cristo eo Noivo e a Igre-
ja e a noiva; Ele e a videira, n6s
somos os ramos; Ele e a pedra an-
gular e n6s somos pedras vivas do
edificio de Deus; Ele e o Rei e n6s
somos OS suditos. Essa e a uniao
que existe entre Cristo e Sua Igre-
ja. Paulo diz: "Assim como o cor-
poe urn e tern muitos membros, e
todos os membros, sendo muitos,
constituem urn s6 corpo, assim
tambem com respeito a Cristo"
(lCo 12.12). Ha uma comunhao,
portanto, esforcem-se diligente-
mente por preservar a unidade do
Espirito no vinculo da paz; ha so-
mente um corpo e um Espirito,
como tambem fostes chamados
em uma s6 esperan<;a da vossa
voca<;ao; ha urn s6 Senhor, uma s6
fe, urn s6 batismo; urn s6 Deus e
Pai de todos, o qual e sobre todos,
age por meio de todos e esta em
todos (Ef 4.3-6).
Uma elei<;ao desse tipo nao
pode ser urn ato acidental ou ar-
bitrario. Se ela e governada pelo
prop6sito de constituir Cristo
0 PACTO DA GRA<;:A
como Cabe<;a e a Igreja como cor-
po, entao ela tern urn carater or-
ganico e inclui a ideia de urna Ali-
an<;a.
Mas no testernunho de que
a elei<;ao foi realizada ern Cristo,
algo rnais e indicado. A unidade
organica da ra<;a hurnana sob urna
cabe<;a se torna aparente pela pri-
rneira vez nao ern Cristo, mas ern
Adao. Paulo expressarnente apon-
ta Adao como exernplo daquele
que haveria de vir (Rrn 5.14) e cha-
ma Cristo de ultimo Adao (1Co
15.45). A Alian<;a da Gra<;a parece
possuir as ideias e tra<;os basicos
da Alian<;a das Obras; a Alian<;a
da Gra<;a nao e a aniquila<;ao da
Alian<;a das Obras, mas o seu curn-
prirnento, assirn como a fe nao
anula a lei, pelo contrario, confir-
rna-a (Rrn 3.21). Por urn lado,
como foi indicado acirna, a Alian-
<;a das Obras e a alian<;a da Gra<;a
possuern seu terreno rnuito bern
dernarcado e devern ser diferen-
ciadas urna da outra. Por outro
lado elas estao intirnarnente rela-
cionadas. A grande diferen<;a con-
siste nisso: que Adao perdeu seu
lugar como cabe<;a da ra<;a hurna-
na e foi suplantado por Cristo.
Cristo, contudo, curnpriu nao so-
mente aquilo que o prirneiro ho-
mem fez de errado, mas tambern
aquilo que ele deveria ter feito e
nao fez. Cristo satisfez por n6s as
exigencias feitas na lei moral, e Ele
agora reline ern urna unidade toda
a Sua Igreja na forma de urna hu-
305
rnanidade renovada sujeita a Si
rnesrno como Cabe<;a. N a
dispensa<;ao da plenitude dos
tempos Deus reline tudo nova-
mente ern Cristo - todas as coisas
no ceu e sobre a terra (Ef 1.10).
Tal reuniao s6 pode aconte-
cer de urna forma organica. Se a
Alian<;a da Gra<;a e apresentada de
forma organica ern Cristo, entao
ela deve ser organicarnente
estabelecida e executada. N6s ob-
servarnos que na hist6ria a Alian-
<;a nunca e feita de forma abstra-
ta, mas sernpre de forma objetiva,
corn urn hornern e corn sua fami-
lia ou descendencia, corn Adao,
Noe, Abraao, Israel, e corn a Igre-
ja e sua sernente. A prornessa nun-
ca se refere a urna s6 pessoa, mas
a urna pessoa e a toda a sua fami-
lia. Deus nao realiza a alian<;a da
Gra<;a "pescando" algumas pesso-
as dentre toda a hurnanidade e ao
acaso, reunindo essas pessoas ern
algurn tipo de quebra-cabe<;a. Ele
leva sua Alian<;a para a hurnani-
dade, faz corn que ela se torne
urna parte do rnundo e cuida para
que, no rnundo, ela seja preserva-
da do mal. Como Redentor e
Recriador, Deus segue a rnesrna
linha seguida como Criador,
Sustentador e Regente de todas as
coisas. A Gra<;a e rnais elevada que
a natureza, e nunca se junta ana-
tureza nern a destr6i, mas restau-
ra-a. A Gra<;a nao e urn legado
transferido de pai para filho, mas
corre pelo rnesrno leito que tern
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sido cavado nos relacionarnentos
naturais da ra<_;a hurnana. A Ali-
an<_;a da Gra<_;a nao carninha ao
acaso, mas se perpetua, hist6rica
e organicarnente, ern farnilias, ge-
ra<_;6es e na<_;6es.
Urna terceira e ultima carac-
teristica da Alian<_;a da Gra<_;a ca-
rninha lado a lado corn a segun-
da, isto e, realiza-se de tal forma
que honre cornpletarnente a natu-
reza moral e racional do hornern.
Ela esta baseada no conselho de
Deus e nada pode ser subtraido
desse fato. Por tras da Alian<_;a da
Gra<_;a esta a soberana e onipoten-
te vontade de Deus, que e pene-
trada pela energia divina e, par-
tanto, garante o triunfo do reino
de Deus sobre todo o poder do
pecado.
Mas essa vontade nao e urna
necessidade, urn destino, que se
irnp6e sobre o hornern, mas a von-
tade do Criador do ceu e da terra,
que nao pode repudiar Sua pro-
pria obra de cria<_;ao e de provi-
dencia e que nao pode arnea<_;ar o
ser hurnano que Ele rnesrno criou.
Alern disso, essa vontade e a von-
tade rnisericordiosa do Pai, que
nunca for<_;a as coisas de forma
brutal, mas que sernpre vence nos-
sa resistencia pelo poder espiritu-
al do arnor. A vontade de Deus
nao e urna for<_;a cega, irracional: e
urna vontade sabia, graciosa, arno-
rosa, e ao rnesrno tempo livre e
onipotente. Portanto, Deus traba-
lha ern conflito corn nosso enten-
306
dirnento obscurecido e nossa von-
tade pecarninosa, de modo que
Paulo pode dizer sobre o Evange-
lho que ele nao e segundo 0 ho-
rnern, nao corresponde aos tolos
discernirnentos e ao desejo erran-
te do hornern caido (Gll.ll). Mas
sirn da forma que a vontade de
Deus deve agir, precisamente par-
que Ele quer nos livrar de todo
erro e pecado e restaurar nossa na-
tureza moral e racional.
Isso acontece pelo fato de
que a Alian<_;a da Gra<_;a, que real-
mente nao faz exigencias e nao
repousa sobre certas condi<_;6es,
contudo, vern ate n6s na forma de
urn rnandarnento, adrnoestando-
nos afee ao arrependirnento (Me
1.15). Considerada ern si rnesrna,
a Alian<_;a da Gra<_;a e pura Gra<_;a,
e, portanto, exclui todas as obras.
Ela da o que exige e preenche o
que prescreve. 0 Evangelho e
boas novas, nao exige, mas pro-
mete, nao culpa, mas da. Mas para
que, como prornessa e dadiva ele
possa ser realizado ern n6s, ele
assume o carater de adrnoesta<_;ao
moral de acordo corn nossa natu-
reza. Ele nao quer nos for<_;ar, mas
quer que n6s, livrernente, aceite-
rnos por fe, o que Deus quer nos
dar. A vontade de Deus se realiza
atraves de nossa razao e de nossa
vontade. Epor isso que se diz que
urna pessoa, recebida por Deus
pela Gra<_;a, ere e se converte do
pecado para Deus.
Visto como a Alian<_;a da
0 PACTO DA GRA<;:A
Grac;a entra na rac;a humana de
forma hist6rica e organica, ela nao
pode se apresentar aqui, na terra,
de forma que corresponda plena-
mente asua essencia. Ha muitas
pessoas que estao entre os verda-
deiros crentes e se op6em diame-
tralmente a uma vida harmonia-
sa com a exigencia da Alianc;a:
II Anda na minha presenc;a e se
perfeito; Sede santos como eu sou
santo". Tambem ha pessoas que
ingressam na Alianc;a da Grac;a,
como se manifesta ela diante dos
nossos olhos e que, contudo, com
relac;ao asua incredulidade e co-
rac;ao duro, sao totalmente des-
providos dos beneficios da Alian-
c;a. Nos dias do Velho Testamen-
to, nem todos os que eram de Is-
rael eram, de fato, israelitas (Rm
9.6), pois nao sao os filhos da car-
ne, mas os filhos da promessa que
sao considerados como descen-
dentes de Abraao (Rm 9.8; 2.29).
E na igreja do Novo Testamento
ha joio entre o trigo, videiras bra-
vas na vinha e utensilios de barro
e de ouro142
. Ha pessoas que apre-
sentam forma de piedade, entre-
tanto, negam a Deus o poder (2Tm
3.5).
Na base desse conflito entre
a essencia e a aparencia alguns
tern tentado fazer uma distinc;ao
e separac;ao entre uma Alianc;a in-
terna, que foi feita exclusivamen-
te com os verdadeiros crentes, e
142
Mt 3.12; 13.29; Jo 15.2; 2Tm 2.20.
307
uma Alianc;a externa, que compre-
ende aqueles que fazem uma con-
fissao apenas externa. Mas tal se-
parac;ao e diferenc;a nao pode ser
considerada aluz do ensino da Es-
critura. 0 que Deus ajuntou, o
homem nao pode separar. Nin-
guem pode desviar-se da exigen-
cia de que a essencia deve
corresponder aaparencia, nem da
exigencia de o que se confessa com
a boca deve corresponder ao que
se ere com o corac;ao (Rm 10.9)
Mas apesar de nao haver duas
Alianc;as, pode ser dito que ha dois
lados de uma s6 Alianc;a da Gra-
c;a. Urn desses lados e visivel a n6s;
0 outro e perfeitamente visivel a
Deus, e somente a Ele. N6s temos
que manter a regra de que nao
podemos julgar o corac;ao, somen-
te a conduta externa, e mesmo as-
sim de forma imperfeita. Aqueles
que, como os olhos humanos os
veem, estao andando no caminho
da Alianc;a devem, de acordo com
o julgamento de amor, ser consi-
derados e tratados como nossos
irmaos na Grac;a. Mas, na analise
finat nao e 0 nosso julgamento,
mas o julgamento de Deus, que
determina se eles sao ou nao nos-
sos irmaos na Grac;a. Deus e o
Conhecedor dos corac;oes. Com
Ele nao ha acepc;ao de pessoas. 0
homem olha a aparencia, mas
Deus olha o corac;ao (1Sm 16.7).
"Examinai-vos a v6s mes-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mos se realmente estais na fe;
provai-vos a v6s mesmos. Ou nao
reconheceis que Jesus Cristo esta
em v6s? Se nao eque ja estais re-
provados" (2Co 13.5).
508
CAPITULO
11~
0 MEDIADOR DA ALIAN<;;A
0
conselho de reden<;ao nao
euma iniciativa humana
cuja execu<;ao depende
de todo tipo de circunstancias
imprevisiveis e, portanto, alta-
mente incerto. Ele eurn conselho
que e cumprido com absoluta cer-
teza porque e uma decisao da von-
tade graciosa e toda poderosa de
Deus. Ele foi estabelecido na eter-
nidade e e cumprido no tempo.
Tudo sobre o que a doutrina da
fe tern que tratar, portanto, e a for-
mana qual o imubivel conselho
do Senhor referente a salva<;ao da
ra<;a humana eexecutado e apli-
cado. E como esse conselho se re-
fere principalmente a tres grandes
temas, isto e, o Mediador, por
quem a salva<;ao foi obtida, o Es-
pirito Santo, por quem a salva<;ao
e aplicada e as pessoas as quais a
salva<;ao e dada, nosso roteiro
tambem seguini esses tres temas.
Prirneiro n6s devemos tratar
509
da pessoa de Cristo, que, por Sua
paixao e morte obteve a salva<;ao.
Depois, na sequencia, n6s tratare-
mos do Espfrito Santo, que faz
com que os eleitos compartilhem
dos beneffcios oriundos da mor-
te de Cristo. E em terceiro lugar
daremos algurna aten<;ao as pes-
soas que desfrutam da salva<;ao
obtida por Cristo, e devemos tra-
tar tarnbem da Igreja como Corpo
de Cristo.
Finalmente, nosso roteiro
naturalmente culrninara na pleni-
tude da salva<;ao que esta reser-
vada para os crentes. Todo o de-
senvolvimento de nosso roteiro
mostrara que o conselho de reden-
<;ao em todas as suas partes e bern
organizado e seguro. A inexpli-
cavel Gra<;a, a sabedoria multifor-
me e o poder infinito de Deus se
manifestam nele.
Na pessoa de Cristo todas
essas excelencias e atributos se
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tornam manifestos. Everdade que
crer em urn Mediador nao e uma
exclusividade da Cristandade.
Todos os homens e todas as na-
c;oes possuem urn senso nao so-
mente do fato de que eles nao
desfrutam da salvac;ao, mas eles
tambem possuem a convicc;ao em
seu corac;ao que essa salvac;ao
deve ser indicada e dada a eles de
alguma forma atraves de pessoas
especificas. 0 pensamento geral-
mente difundido e que 0 homem
nao pode se aproximar de Deus,
nem subsistir em Sua presenc;a; ele
precisa de urn intermediario para
abrir-lhe o caminho para a Divin-
dade. Portanto, em todas as reli-
gioes sao encontrados mediado-
res que, por urn lado, fazem com
que as revelac;oes divinas sejam
conhecidas ao homem, e, por ou-
tro, conduzem as ora<:_:oes e as
oferendas dos homens a Divinda-
de.
Em alguns casos deuses in-
feriores ou espiritos servem como
mediadores, mas na maioria dos
casos sao homens dotados com
conhecimento e poder sobrenatu-
ral, possuidores de uma aura es-
pecial de santidade, que fazem a
media<:_:ao entre os deuses e o ho-
mem. Na vida religiosa das na-
<;:6es eles assumem urn papel im-
portante, e em todas as ocasioes
importantes na vida publicae na
vida privada, tais como calamida-
des, guerras, pestes, e coisas se-
melhantes, eles sao consultados.
310
Seja como adivinhos ou magicos,
como santos ou sacerdotes, eles
indicam o caminho que, como
eles supoem, os homens devem
tomar para desfrutar do favor da
Divindade, mas eles mesmos nao
sao esse caminho. As religioes das
na<:_:oes sao independentes das
pessoas dos mediadores. Isso e
verdade ate mesmo com rela<:_:ao
as religioes fundadas por pesso-
as especificas. Buda e Confucio,
Zarathustra e Maome, sao OS pio-
neiros das religioes fundadas por
eles, mas eles mesmos nao sao o
conteudo dessas religioes. Sua
conexao com elas e feita em urn
sentido externo. As religioes fun-
dadas por eles permanecera a
mesma, mesmo que seus nomes
sejam esquecidos ou suas pesso-
as sejam suplantadas por outras.
No Cristianismo, porem,
tudo isso e muito diferente. De
fato, as vezes tern sido expressa a
ideia de que Cristo nunca quis ser
o unico Mediador, e que Ele pron-
tamente deixaria de lado Seu pro-
prio nome se somente Seu princi-
pia e Espfrito vivessem na Igreja.
Mas outros, que romperam total-
mente toda conexao que possui-
am como Cristianismo, atacam e
rejeitam totalmente a ideia de urn
Mediador. 0 Cristianismo man-
tern com a pessoa de Cristo urn
relacionamento muito diferente
daquele que as demais religioes
mantem com as pessoas que as
fundaram. Jesus nao foi 0 primei-
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
ro confessor da religiao que pas-
sou a levar o Seu nome. Ele nao
foi o primeiro e mais importante
cristao. Ele ocupa urn lugar com-
pletamente unico no Cristianis-
mo. Ele nao o foi fundador do
Cristianismo em urn sentido usu-
al, Ele e o Cristo, o que foi envia-
do pelo Pai e que fundou Seu rei-
no sobre a terra e agora expande-
o e preserva-o ate o fim dos tem-
pos. Cristo e o proprio Cristianis-
mo. Ele nao esta fora, Ele esta den-
tro do Cristianismo. Sem Seu
nome, pessoa e obra, nao ha Cris-
tianismo. Em outras palavras,
Cristo nao e aquele que aponta o
caminho para o Cristianismo, Ele
mesmo eo caminho. Ele eo uni-
co, verdadeiro e perfeito Media-
dar entre Deus e os homens. 0
que as varias religioes em sua
crenc;a em urn mediador tern con-
jeturado e esperado, e real e per-
feitamente cumprido em Cristo.
* * * * *
Para apreciar completamen-
te esse sentido unico de Cristo,
n6s devemos partir da ideia da
Escritura de que Cristo comec;ou
a existir, diferentemente de n6s,
nao em sua concepc;ao e nascimen-
to, mas seculos antes - de fato,
desde a eternidade Ele e o
unigenito Filho do Pai. No Velho
Testamento o Messias e designa-
143
Jo 3.13; 6.38; 12.46; 18.37.
311
do como o Pai da Eternidade, que
eo Pai eterno de Seu povo (Is 9.6),
e como aquele cujas origens sao
desde os tempos antigos, desde
os dias da eternidade (Mq 5.2). 0
Novo Testamento preserva essa
ideia, mas da uma expressao mais
exata da eternidade de Cristo. Ela
esta presente em todas aquelas
passagens nas quais a obra terrena
de Cristo e apresentada como o
cumprimento de uma obra que
lhe foi confiada por Deus. De fato,
e dito sobre Joao Batista, que ele
tinha que vir e veio como o segun-
do Elias (Me 9.11-13; Jo 1.7). Mas
a enfase colocada no fato de que
Cristo veio ao mundo para cum-
prir Sua obra e, o numero de ve-
zes em que isso e dito, aponta
para o fato de que essa expressao
e usada em urn sentido especial.
N6s nao lemos, em urn sen-
tido geral, que Ele apenas foi en-
viado pelo Pai para pregar (Me
1.38), que Ele veio para chamar
pecadores ao arrependimento e
para dar Sua alma em resgate por
muitos (Me 2.17; 10.45). Algo mais
e dito sobre Ele. Edito tambem,
que Ele foi enviado expressamen-
te para a pregac;ao do Evangelho
(Lc 4.43), que foi o Pai que o en-
viou (Mt 10.40; Jo 5.24 ss.), que Ele
procede do Pai e veio em Seu
nome (Jo 5.43; 8.42), que Ele des-
ceu do ceu e veio ao mundo143
•
Dessa forma Jesus e o Filho
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
unigenito que foi amado pelo Pai
e que foi enviado avinha depois
de todos os servos (Me 12.6). Ele
e o filho de Davi e o Senhor de
Davi (Me 12.37), existia antes de
Abraao (Jo 8.58) e tinha gloria com
o Pai antes que o mundo existis-
se (Jo 17.5,24).
Essa auto consciencia de Je-
sus com rela<_;:ao a Sua existencia
eterna e mais especificamente re-
velada no testemunho apostolico.
Em Cristo o Verbo eterno que es-
tava com Deus e que era Deus tor-
nou-se carne (Jo 1.1,14). Ele e o
brilho da gloria do Pai, a imagem
exata de Sua pessoa e que nao so-
mente e mais elevado do que to-
dos os anjos, mas pode inclusive
exigir que eles 0 cultuem, e 0
Deus eterno eo Rei eterno, e sem-
pre o mesmo e os seus anos nao
podem ser contados (Hb 1.3-13).
Ele e rico (2Co 8.9), subsistia em
forma de Deus e era semelhante
ao Pai nao somente em essencia,
mas tambem em forma, status e
gloria. Ele considerava essa igual-
dade com Deus nao como algo
que Ele devesse manter e usar por
Si mesmo (Fp 2.6), colocou tudo
isso de lado e assumiu a forma de
homem, a forma de urn servo (Fp
2.7,8), e dessa forma foi exaltado
ao Senhor, que era do ceu e que
fez urn contraste com Adao, o ho-
mem da terra (1Co 15.47). Em uma
palavra, Cristo, assim como o Pai,
e 0 Alfa e 0 Omega, 0 primeiro e
o ultimo, o principio eo fim (Ap
312
1.11-17; 22.13).
Portanto, a atividade desse
Filho encarnado de Deus nao co-
me<_;:ou somente com Seu
surgimento sobre a terra, mas an-
tecede a propria cria<_;:ao. Pelo Ver-
bo, todas as coisas, sem exce<_;:ao,
foram feitas (Jo 1.3; Hb 1.2,10). Ele
e 0 primogenito, a cabe<_;:a, 0 co-
me<_;:O de toda criatura (Cl1.15; Ap
3.14). Ele eantes de todas as coi-
sas (Cll.17). As criaturas nao so-
mente foram feitas atraves dEle,
mas subsistem nEle (Cl 1.17) e a
todo momento dependem da pa-
lavra de Seu poder (Hb 1.3). E
alem disso elas sao criadas par Ele
(Cl 1.16), pois Deus o constituiu
como o herdeiro de todas as coi-
sas (Hb 1.2; Rm 8.17). Portanto,
desde o come<_;:o ha uma estreita
rela<_;:ao entre o Filho e o mundo,
e uma rela<_;:ao ainda mais estreita
entre o Filho e o homem, pois no
Filho estava a vida, a plena, rica e
inexaurivel vida, a fonte de toda
a vida no mundo, e essa luz bri-
lhou para os homens que foram
criados a imagem de Deus, e OS
homens, de posse de sua nature-
za moral e racional, viram a fonte
da divina verdade (Jo 1.14). Ever-
dade que o homem, por causa do
pecado, ficou em trevas, mas a luz
do Verbo brilhou nessas trevas (Jo
1.5) e iluminou todo homem (Jo
1.9), pois o Verbo estava e perma-
neceu no mundo, e continua agin-
do no mundo, apesar do mundo
nao o conhecer (Jo 1.10).
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
0 Cristo que aparece sobre
a terra na plenitude dos tempos
e, portanto, de acordo como rela-
to que a Escritura faz sobre Ele,
nao urn homem como outro qual-
quer, nao o fundador de urna re-
ligiao e o pregador de uma nova
lei moral. Sua posi<;:ao e unica. Ele
e desde a eternidade 0 unigenito
do Pai. Ele e o Criador, o
Sustentador e o Governador de
todas as coisas. NEle esta a vida e
a luz dos homens. Quando Ele
aparece no mundo Ele nao e urn
estranho, mas o Senhor. A reden-
<;:ao ou recria<;:ao esta relacionada
com a cria<;:ao, a Gra<;:a anatureza,
a obra do Filho a obra do Pai. A
reden<;:ao e urn edificio construido
sobre as bases da cria<;:ao.
* * * * *
A importancia de Cristo se
torna mais clara para n6s se n6s
estudarmos o Seu relacionamen-
to com Israel. Havia uma certa
a<;:ao interna do Verbo (o Logos)
em todo o mundo e em todos os
homens. Mas embora a luz tenha
brilhado nas trevas, as trevas nao
a compreenderam, e apesar do
Verbo estar no mundo, o mundo
nao o conheceu (Jo 1.5,10). Mas o
Verbo manteve uma estreita rela-
<;:ao com Israel, pois de todas as
na<;:6es, Israel e a que foi aceita
como Sua heran<;:a, e, portanto, Is-
rael pode, em Joao 1.11, ser cha-
mada de propriedade do Verbo
313
que estava com Deus desde o co-
me<;:o e que era Deus. Israel era
Sua propriedade, e Ele estava en-
tre Israel nao da mesma forma que
estaria entre outros povos. Ele veio
para Israel deliberadamente e de-
pois de seculos de prepara<;:ao.
Segundo a carne Cristo procede
dos patriarcas (Rm 9.5). E e ver-
dade que Ele foi rejeitado pelos
que eram seus- sobre o mundo
n6s lemos que nao o conheceu,
mas sobre os judeus n6s lemos
que nao o receberam, despreza-
ram-no e rejeitaram-no- mas ape-
sar disso Sua vinda nao foi em
vao, pois a todos quantos o rece-
beram, deu-lhes o poder de serem
feitos filhos de Deus (Jo 1.12).
Quando em Joao 1.11 n6s
lemos que o Verbo veio para os
que eram seus, a referenda e, sem
duvida, aencarna<;:ao, avinda de
Cristo em carne. Mas a afirma<;:ao
implica que a rela<;:ao de proprie-
dade existente entre o Verbo e Is-
rael nao passou a existir no mo-
mento da encarna<;:ao, mas ja exis-
tia muito antes. Israel era Sua pro-
priedade e, portanto, na plenitu-
de dos tempos, Ele veio para os
que eram seus. No mesmo mo-
mento em que Jeova aceitou Isra-
el como Sua propriedade esse
povo entrou em urn relaciona-
mento especial com o Verbo (o
Logos). Ele era o Senhor que Isra-
el esperava, o Anjo da Alian<;:a
que inesperadamente viria ao Seu
templo (Ml3.1), e que vivia e tra-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
balhava em Israel desde a antigiii-
dade. Em muitos lugares doVe-
lho Testamento nos lemos sobre
o Anjo da Alian<;a ou Anjo do Se-
nhor. Como foi destacado em co-
nexao com a doutrina da Trinda-
de, e atraves do Anjo que o Senhor
se revela ao Seu povo, de uma
forma especial. Apesar de ser dis-
tinto do Senhor, esse Anjo e urn
com Ele, e os mesmos nomes, ca-
racteristicas, obras e honra podem
ser dados a Ele como sao dados
ao proprio Deus. Esse Anjo e o
Deus de Betel (Gn 31.13), o Deus
dos patriarcas (Gn 48.15,16), o
Anjo que prometeu a Hagar mul-
tiplicar sua descendencia (Gn
16.10; 21.18), que guiou os patri-
arcas (Gn 48.15,16), que resgatou
o povo de Israel do Egito e segu-
ramente conduziu-os a Canaa144
•
0 Anjo da Alian<;a da a Israel a
certeza de que o proprio Senhor
esta no meio do povo como o
Deus da reden<;ao e da salva<;ao
(Is 63.9). A revela<;ao do Anjo da
Alian<;a foi uma prepara<;ao para
a perfeita auto revela<;ao de Deus
que aconteceu na plenitude dos
tempos atraves da encarna<;ao de
Cristo. Toda a dispensa<;ao do
Velho Testamento era uma apro-
xima<;ao cada vez maior entre
Deus e Seu povo. Essa dispen-
sa<;ao termina na vinda de Cristo
e em Sua habita<;ao eterna entre
Seu povo (Ex 29.43-46).
m Ex 3.8; 14.21; 23.20; 33.14.
314
Esse ensino da natureza e
atividade do Verbo antes de Cris-
to vir em carne e da mais alta im-
portancia para uma correta inter-
preta<;ao da historia da ra<;a huma-
na e para urn verdadeiro entendi-
mento do povo e da religiao de
Israel. Dessa forma e possivel re-
conhecer toda a verdade, todo o
bern e toda a beleza que ainda
pode ser encontrada no mundo
pagao, e ao mesmo tempo reco-
nhecer a revela<;ao especial que foi
dada ao povo de Israel. Enquan-
to o Verbo e a sabedoria de Deus
estavam operando em todo o
mundo, o Filho manifestou-se em
Israel como o Anjo da Alian<;a,
como a manifesta<;ao do nome do
Senhor. No Velho e no Novo Tes-
tamento a Alian<;a da Gra<;a e uni-
ca. Os crentes do Velho Testamen-
to sao salvos da mesma forma que
nos. Ea mesma cren<;a na promes-
sa, a mesma confian<;a na Gra<;a de
Deus que garante a salva<;ao tan-
to a eles quanto a nos. E os mes-
mos beneficios de perdao e rege-
nera<;ao, de renova<;ao e de vida
eterna foram dados a eles e sao
dados a nos. Todos trilham o mes-
mo caminho, embora a luz que ilu-
minou os crentes do Velho Testa-
mento e a que nos ilumina hoje
sejam diferentes em brilho.
Outro importante detalhe
caminha junto com esse. Paulo diz
sobre os Efesios, quando eles ain-
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
da eram pagaos, que eles estavam
sem Cristo, alienados da promes-
sa da Alian<;a, sem esperan<;a e
sem Deus no mundo (Ef 2.11,12).
Em outra palavras, eles viviam em
uma condi<;ao muito diferente
daquela que os judeus viviam
antes da vinda de Cristo, pois eles
nao tinham a promessa de Deus a
qual pudessem agarrar-se. Eles
viviam sem esperan<;a no mundo,
e eles nao tinham Deus em seu
cora<;ao para que pudessem
conhece-lo e servi-lo. Natural-
mente o apostolo nao quer dizer
com isso que eles nao criam em
seus deuses, pois ele diz em ou-
tros lugares, aos atenienses, por
exemplo, que eles eram extrema-
mente religiosos, e ele fala da re-
vela<;ao que Deus permitiu que
eles tivessem (At 17.24 ss.; Rm 1.19
ss.). Mas, tendo conhecimento de
Deus, OS pagaos nao 0 glorifica-
ram como Deus, nem lhe deram
gra<;as; antes tornaram-se nulos
em seu proprio entendimento e
em seu pensamento serviram a
deuses que por natureza nao
eram deuses (Rm 1.21 ss.; Gl4.8).
E dessa forma o apostolo nao nega
que os pagaos tenham todo tipo
de expectativas referentes ao fu-
turo, mas expressa o pensamento
de que todas essas expectativas,
tanto quanta os deuses aos quais
eles serviam, sao nulos em razao
da promessa de Deus em Cristo,
nao ser a base deles.
Isso era diferente em Israel.
315
A esse povo Deus confiou Seus
oraculos (Rm 3.2). Ele OS adotou
como filhos, viveu com Sua glo-
ria entre eles, deu-lhes sucessivas
dispensa<;6es da Alian<;a na forma
de lei, de culto, e, particularmen-
te, naquelas promessas que apon-
tavam para a vinda do Messias e
apontavam para Ele como proce-
dendo de Israel segundo a carne
(Rm 9.4,5). Mas embora Cristo, na
medida em que a carne o permi-
ta, tenha procedido dos patriarcas,
Ele e mais que urn homem. Ele e
Deus e Ele existia e agia tambem
nos tempos do Velho Testamen-
to. Os cristaos em Efeso, quando
eram pagaos, viviam sem Cristo,
mas os israelitas dos tempos an-
tigos, por outro lado, estavam re-
lacionados com Cristo, isto e, ao
Cristo prometido, que como Me-
diador existia e agia entre eles. Ele
agia na dispensa<;ao de Seus be-
neficios, mas agia tambem pela
palavra, profecia e historia, pre-
parando Sua propria vinda em
carne e lan<;ando sua sombra sa-
bre o povo de Israel. Ele mostra-
va a Israel as ben<;aos espirituais
que Ele mesmo alcan<;aria para o
Seu povo na plenitude dos tem-
pos.
0 apostolo Pedro, fala cla-
ramente dessa mesma forma, no
primeiro capitulo de sua primei-
ra carta. Quando ele fala sobre a
grande salva<;ao que em principia
os crentes ja desfrutam e que al-
can<;ara sua plenitude no futuro,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ele demonstra a gloria dessa sal-
va<;ao ao frisar especificamente
que os profetas do Velho Testa-
mento fizeram dessa salva<;ao seu
objeto de estudo e reflexao. Alem
disso, todos os profetas tinham
em comurn o fato de que eles pro-
fetizavam sobre a Gra<;a que ago-
ra nos dias do Novo Testamento
esta sendo distribuida aos cren-
tes. Eles recebiam conhecimento
dessa Gra<;a pela revela<;ao, mas
essa revela<;ao nao os tornava pas-
sivos. Pelo contrario, ela os colo-
cava para trabalhar. A revela<;ao
os estimulava a estudar e investi-
gar zelosamente, nao a maneira
dos filosofos, que por sua propria
razao tentavam entender os mis-
terios da cria<;ao, mas como ho-
mens santos de Deus, que fizeram
da revela<;ao especial e da futura
salva<;ao em Cristo o objeto de sua
pesquisa. Em tal estudo eles eram
guiados nao por seus proprios
pensamentos, mas guiados pelo
Espirito Santo. 0 assunto ao qual
eles se dedicavam e sobre o qual
eles fizeram suas pesquisas era
sobre a ocasiao ou as circunstan-
cias oportunas indicadas pelo Es-
pirito de Cristo, que neles estava,
ao dar de antemao testemunho
sobre os sofrimentos referentes a
Cristo e sobre as glorias que os se-
guiriam (1Pe 1.10)1). Foi o pro-
prio Cristo que, no Velho Testa-
mento, deu Seu Espirito aos pro-
fetas e assim anunciou, atraves
desse Espirito, Sua vinda e obra.
516
0 testemunho de Jesus no cora-
<;ao daqueles que lhe pertencem
e evidente pelo fato de que eles
possuem o Espirito de profecia
(Ap 19.10).
Pelo testemunho desse Es-
pfrito, Israel alcan<;ou essas ricas
e gloriosas esperan<;as que estao
resumidas sob o nome de expec-
tativas messianicas.
*****
Essas esperan<;as ou expec-
tativas messianicas sao geralmen-
te classificadas em dois grupos.
Ao primeiro grupo pertencem
aquelas expectativas que, em ge-
rat possuem uma indica<;ao sobre
o futuro reino de Deus. Essas es-
peran<;as sao de grande importan-
cia e estao intimamente relaciona-
das aAlian<;a da Gra<;a. Certamen-
te essa promessa implica que
Deus sera o Deus de Seu povo e
de Sua semente. Ela erelevante,
portanto, nao somente para o pas-
sado e para o presente, mas tam-
bern para o futuro. Everdade que
essas pessoas repetidamente se
fizeram culpadas de deslealdade,
cairam e romperam a Alian<;a do
Senhor. Mas precisamente porque
essa e uma Alian<;a da Gnu;a, a des-
lealdade e a infidelidade das pes-
soas nao pode invalidar a fideli-
dade de Deus. A Alian<;a da Gra-
<;a e uma Alian<;a eterna que se
reproduz de gera<;ao em gera<;ao.
Portanto, quando as pessoas nao
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
andam no caminho da Alian<;a,
Deus pode por algum tempo
abandona-las, sujeita-las a casti-
gos, julgamento ou cativeiro, mas
Ele nunca viola Sua Alian<;a, pois
essa e uma Alian<;a da Gra<;a, que
nao depende da conduta do ho-
mem, mas repousa somente na
compaixao de Deus. Ele nao pode
destruir a Alian<;a, pois Seu nome,
gloria e honra estao envolvidos
nela. Depois da demonstra<;ao de
ira, Sua bondade invariavelmen-
te brilha, e depois do julgamento
vern a misericordia, depois do so-
frimento vern a gloria.
Em tudo isso Israel no cur-
so dos seculos foi instruido pela
profecia. Atraves da profecia Isra-
el obteve discernimento sobre a
essencia e proposito da historia
como nao se ve em qualquer ou-
tro povo. 0 Velho Testamento tor-
na claro para nos que Cristo, ao
vir para os que eram seus reali-
zando a vontade de Deus, aponta
para o fato de que o reino de Deus
e o conteudo, o curso e o fim da
historia. ESeu conselho, Seu con-
selho de favor e reden<;ao, que
existe desde a eternidade e que
vencera toda resistencia. Alem do
sofrimento esta a gloria, alem da
cruz esta a coroa. Deus triunfara
sobre todos os Seus inimigos e
fara com que Seu povo desfrute
do cumprimento de todas as Suas
promessas. Urn reino de justi<;a e
paz e vindo, de espiritual e mate-
rial bem-aventuran<;a. E Israel des-
517
frutara da gloria desse reino, mas
as outras na<;i5es tambem desfru-
tarao dele, pois a unidade de
Deus preserva a unidade da ra<;a
humana e da historia. Entao a ter-
ra se enchera do conhecimento do
Senhor e a promessa da Alian<;a
alcan<;ara seu pleno cumprimen-
to: Eu serei vosso Deus e vos
sereis meus filhos e filhas.
As profecias e os salmos es-
tao cheios dessas esperan<;as. Mas
isso nao e tudo. Eles vao alem e
falam da forma pela qual o reino
de Deus no futuro sera estabele-
cido e cumprido. Entao, essas es-
peran<;as se tornam expectativas
messianicas propriamente ditas, e
nos dizem como o dominio de
Deus sobre a terra no futuro sera
determinado por uma so pessoa,
pelo Messias, e sera consumado
por Ele. Everdade que algumas
pessoas em nosso tempo tern ten-
tado separar todas essas expecta-
tivas messianicas da religiao ori-
ginal de Israel e transferi-las para
o tempo do cativeiro. Mas essa
posi<;ao e satisfatoriamente ataca-
da e refutada por outras pessoas.
Todas as esperan<;as messianicas
se moviam em torno de duas idei-
as: o dia do Senhor, que seria urn
dia de julgamento para os povos
e para Israel; eo Messias que tra-
ria a reden<;ao. E ambas essas idei-
as nao sao ideias primeiramente
acalentadas pelos profetas do oi-
tavo seculo, mas existiam muito
antes desse tempo e foram mais
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
especificamente trabalhadas pe-
los profetas cujos livros foram
preservados ate os nossos dias.
A Escritura tra<;a as expecta-
tivas do futuro aos tempos mais
antigos. Naturalmente elas possu-
iam urn carater geral, mas esse
fato serve apenas para provar sua
antiguidade, e o gradual desen-
volvimento que se seguiu e que
pode ser distinto nessas expecta-
tivas serve como uma evidencia
poderosa. Na promessa-mae de
Genesis 3.15 a inimizade e colo-
cada entre a semente da serpente
e a semente da mulher, e e feita a
promessa de que o descendente
da mulher esmagara a cabe<;a da
descendencia da serpente. Por
essa semente da mulher n6s en-
tendemos, assim como Calvino,
toda a ra<;a humana, que, voltan-
do para o lado de Deus atraves da
Alian<;a da Gra<;a, deve esfor<;ar-
se por atacar os poderes antago-
nicos a Deus, e em Cristo recebe
sua Cabe<;a e Senhor. A hist6ria
demonstra que essa ra<;a humana
que esta conduzindo uma guerra
contra a semente da serpente de
forma nenhuma compreende to-
dos os povos, e esta se tornando
cada vez mais e mais limitada. A
promessa se mantem de pe so-
mente para a linhagem de Sete.
Quando a primeira ra<;a hu-
mana foi destruida no diluvio,
logo aconteceu uma separa<;ao
familiar entre Cam e Jafe por urn
lado e Sem do outro. E a promes-
518
sa e agora particularizada de tal
forma que Jeova se torna o Deus
de Sem, Jafe vira a habitar as ten-
das de Sem, e Cam sera seu servo
(Gn 9.26,27). Mais tarde, quando
o verdadeiro conhecimento e cui-
to a Deus mais uma vez correu o
risco de se perder, Abraao foi es-
colhido dentre a gera<;ao de Sem
e a promessa foi dada a ele, a pro-
messa de que ele seria aben<;oa-
do pelo Senhor e seria uma ben-
<;ao para todas as na<;oes, que to-
das as na<;oes da terra desejariam
grandemente e procurariam pela
ben<;ao que foi dada a Abraao e a
sua semente (Gn 12.2,3). Dentre os
filhos de Jac6 e as tribos de Israel,
Juda e designado como aquele
que receberia status sobre todos
os seus irmaos. De acordo com
seu nome ele se tornou louvor ao
Senhor (Gn 29.35) e poderoso en-
tre seus irmaos (1Cr 5.2). Seus ir-
maos o louvaram e sua mao su-
jeitou todos os seus inimigos. 0
dominio de Juda permanecera ate
que venha Sil6, e a ele obedece-
rao todos os povos (Gn 49.8-10).
0 nome Sil6 no verso 10 de
Genesis 49 e diffcil de se enten-
der e de interpreta<;ao variada,
mas a ideia de uma ben<;ao dada
a Juda e bern clara. Juda tern 0
primeiro lugar entre as tribos de
Israel; ele tern preeminencia sobre
seus irmaos, e dele saira o futuro
governante de todas as na<;oes.
Essa promessa foi cumprida
de forma incipiente em Davi e a
0 MEDIADOR DA ALIANc;:A
partir dele passou a urn novo es-
tagio de desenvolvimento. Quan-
do Davi descansou de todas as
suas guerras, veio a sua mente a
ideia de edificar uma casa ao 5e-
nhor. Mas o 5enhor informou, atra-
ves de Nata, que em vez de Davi
fazer uma casa para Deus, Deus e
que faria uma casa para Davi, atra-
ves da qual manteria a linhagem
real. Depois da morte de Davi o
5enhor elevou 5alomao ao trono
e foi urn Pai para ele, e ele final-
mente estabeleceu sua casa eo tro-
no de Davi para sempre. 0 trono
de Davi seria estabelecido para
sempre (25m 7.9-16; 5118.38). Des-
de esse tempo as santas esperan-
<;as de Israel estao firmadas sobre
a casa de Davi, e algumas profe-
cias simplesmente param nesse
ponto145.
* * * * *
Mas a hist6ria ensinou que
urn rei na casa de Davi nao satis-
faria todas essas expectativas. E
em conexao com ess : hist6ria a
profecia apontava mais claramen-
te para o futuro, quando o verda-
deiro filho de Davi apareceria e
se sentaria para sempre no trono
de 5eu Pai. Gradualmente esse fi-
lho de Davi come<;ou a ser desig-
145
Am 9.11; Os 3.5; Jr 17.25; 22.4.
146
Sl 23.5; 2Cr 28.15; Le 7.46.
147
Me 6.13; Le 10.34; Tg 5.14.
148
Me 16.1; Le 23.56; Jo 19.40.
149
Ex 29.36; 30.23; 40.10.
nado pelo nome de Messias. Ori-
ginalmente e por urn longo tem-
po o nome Messias tinha urn uso
geral e designava todo aquele
que em Israel era escolhido e un-
gido para urn determinado oficio.
A un<;ao com 6leo era uma prati-
ca comum entre os povos orien-
tais e servia para amaciar a pele
queimada pelo sole restaurar ao
corpo o seu frescor (51104.15; Mt
6.17). A un<;ao era urn sinal de ale-
gria (Pv 27.9) e nao era concedida
em tempo de luto (25m 14.2; Dn
10.3); a un<;ao servia para demons-
trar hospitalidade e amizade146,
era aplicada como urn remedio
para alguns tipos de doen<;as147 e
era urn sinal de respeito aos mor-
tos148. A un<;ao tambem era usada
no culto, e nesse caso recebia urn
significado religioso. Jac6 ungiu
a pedra sobre a qual ele repousou
sua cabe<;a em Berseba para que
ela servisse como urn monumen-
to, e a un<;ao foi urn sinal de dedi-
ca<;ao ao 5enhor que tinha apare-
cido a ele149
• Posteriormente, de
acordo com a lei dada a Moises, o
tabernaculo, todo o seu equipa-
mento e seu altar foram ungidos
para santifica-los e consagra-los ao
servi<;o do 5enhor. A mesma un-
<;;ao era ministrada as pessoas que
eram chamadas para urn servi<;o
319
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
especial.
Algumas vezes n6s lemos
sobre a un<;ao de profetas. Elias
ungiu Eliseu (1Re 19.16) e no Sal-
mo 105.15 a palavra ungidos e usa-
cia como sin6nimo de profetas.
Alem disso, os sacerdotes, inclu-
sive o sumo sacerdote, eram un-
gidos (Lv 8.12,30; Sl 133.2). Por
isso o sumo sacerdote era chama-
do de sacerdote ungido (Lv 4.3,5;
6.22). E n6s lemos tambem sobre
a un<;ao de reis: Saul (1Sm 10.1),
Davi (1Sm 16.13; 2Sm 2.4),
Salomao (1Re 1.34t e outros fo-
ram ungidos. Isso acontecia por-
que os reis eram chamados e un-
gidos pelo Senhor (1Sm 26.11; Sl
2.2). Desse ponto em diante o uso
da un<;ao serviu a muitos propo-
sitos. Algumas vezes na Escritu-
ra 0 termo ungido e usado para de-
signar aquelas pessoas que foram
escolhidas e capacitadas pelo Se-
nhor para o Seu servi<;o, mesmo
que uma un<;ao no sentido literal
nao tenha ocorrido. No Salmo
105.15 OS patriarcas sao designa-
dos pelas palavras ungidos e pro-
fetas. Em outros lugares o povo de
Israel ou o seu rei sao chamados
de ungidos150
. Em Isaias 45.1 o ter-
mo e aplicado a Ciro. Deve ser
enfatizado que a un<;ao com 6leo
e urn sinal que, por urn lado, in-
dica a dedica<;ao ao servi<;o do
Senhor e, por outro lado, a elei-
<;ao, o chamado e a prepara<;ao
150
Sl 84.10; 89.39; He 3.13.
520
para o servi<;o do Senhor. Quan-
do Davi foi ungido por Samuel o
Espirito do Senhor veio sobre ele
daquele dia em diante (1Sm
16.13).
Nesse sentido o nome Mes-
sias, isto e, ungido, tornou-se par-
ticularmente apropriado para o
futuro rei da casa de Davi. Ele e,
de forma especiat o Ungido, pois
Ele foi enviado pelo proprio Deus
e foi ungido nao meramente com
urn pouco de oleo, mas com o
Espirito do Senhor (Sl 2.2,6; Is
61.1). Exatamente quando o nome
Messias (Ungido) come<;ou a ser
usado como urn nome sem o arti-
go e algo que nao pode ser dito
com certeza, mas em Daniel 9.25
o nome parece ja figurar nessa for-
ma, e no tempo do ministerio ter-
reno de Jesus o nome Messias era
comumente usado dessa forma.
Em Joao 4.25 a mulher samaritana
diz a Jesus: "Eu sei que hade vir
o Messias". Nessa £rase o artigo
esta ausente. Apesar do termo
ungido originalmente ter tido urn
uso geral e ter podido designar
varias pessoas, ele tornou-se gra-
dualmente urn nome aplicado so-
mente ao futuro rei que viria da
casa de Davi. Esse Rei eo Messi-
as, o Ungido. S6 Ele eo Messias.
* * * * *
A imagem do Messias foi
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
desenvolvida e trabalhada na pro-
fecia do Velho Testamento de va-
rias formas. De forma geral, o con-
texto em que esse termo e desen-
volvido sempre da a ideia do rei-
nado do Messias. Ele echamado
de Ungido porque foi ungido
como Rei (Sl 2.2,6). Na base da
promessa que lhe foi dada, o pro-
prio Davi espera que de sua casa
venha o Rei de justi<;:a. Deus esta-
beleceu com Davi uma Alian<;:a
eterna em tudo bern definida e se-
gura (2Sm 23.3-5). E tale a expec-
tativa de todos os profetas e
salmistas. A salva<;:ao de Israel no
futuro esta inseparavelmente liga-
da acasa de Davi, e o futuro rei
dessa casa e tambem o Rei do
Reino de Deus. 0 Reino de Deus
nao e uma figura poetica nem urn
conceito filosofico. 0 Reino de
Deus e uma realidade, urn ele-
mento componente da historia.
Ele vern de cima, eespiritual, ide-
al, e vern aexistencia sob urn rei
da casa de Davi. Esse eurn reino
de Deus, embora seja profunda-
mente humano, terreno e histori-
co. Portanto o futuro reino de
Deus e pintado para nos nas pro-
fecias com tintas e cores extraidas
das circunsHincias que nao podem
ser tomadas em urn sentido lite-
ral, mas que dao uma profunda
impressao da realidade desse rei-
no. Esse reino nao ea imagem de
151
Sl 2.1 ss.; 72.9 ss.; 110.2.
712
512.8; 45.7; 72.5,8, 17; 110.2,4.
153
25m 7.12 ss.; Is 7.14; 9.5; Mq 5.2; Dn 7.13.
321
urn sonho. Ele erealizado aqui na
terra, na historia, sob urn Rei da
casa de Davi.
Mas embora esse reino do
Messias sobre a terra seja uma re-
alidade tangivel, ele difere muito
dos reinos que nos conhecemos.
Apesar do fato de que ele sempre
vern aexistencia em uma Iuta con-
tra os seus inimigos151
esse eurn
reino de perfeita justi<;:a e paz152
,
cuja justi<;:a consiste especialmen-
te no fato de que os necessitados
serao acudidos e os indigentes
serao redimidos (72.12-14). Esse
reino se lan<;:a sobre todos os seus
inimigos ate as extremidades da
terra e permanece para sempre.
No dominio do reino ha urn
principe que e urn homem mas
que ao mesmo tempo transcende
todos OS homens em meritos e
honra. Ele e urn homem, nascido
da linhagem de Davi, e urn filho
de Davi, e e chamado de filho do
homem153
. Mas ao mesmo tempo
Ele e mais que urn homem. Ele
esta sentado no lugar de honra a
direita de Deus (Sl 110.1), e Se-
nhor de Davi (51110.1), e eo Filho
de Deus em urn sentido todo es-
pecial (Sl 2.7). Ele eo Emanuel, o
Deus conosco (Is 7.14), o Senhor
de nossa justi<;:a (Jr 23.6; 33.16), em
quem o proprio Senhor em Gra<;:a
vern ao Seu povo e habita com ele.
A profecia tanto diz que o Senhor
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
reina sobre Seu povo, quanto que
o Messias reina sobre Seu povo.
Algumas vezes se diz que o Se-
nhor aparecera para julgar as na-
<;:6es e Israel, e outras vezes e o
Messias que fara isso. Assim, por
exemplo, em Isaias 40.10, 11, n6s
lemos que o Senhor Deus vira com
poder e o Seu bra<;:o dominara e
que como pastor Ele apascentara
o Seu rebanho e entre os Seus bra-
<;:os recolhera os carneirinhos. E
em Ezequiel 34.23 n6s lemos que
o Senhor designara urn pastor para
Suas ovelhas e esse pastor sera o
Seu servo Davi. Sobre a nova Je-
rusalem o profeta Ezequiel diz
que seu nome sera: 0 Senhor Esta
Ali (Ez 48.35), e Isaias apresenta o
mesmo fato ao dizer que atraves
do Messias o Senhor estara
conosco (Is 7.14). Ezequiel combi-
na esses dois pensamentos ao di-
zer: "Eu, o Senhor, lhes serei por
Deus, e o meu servo Davi sera
principe no meio delas;..." (Ez
34.24), e Miqueias diz que o Mes-
sias se mantera firme e apascen-
tara o povo na for<;:a do Senhor, na
majestade do Senhor, seu Deus
(Mq 5.4). Essa e a razao pela qual
no Novo Testamento essas duas
series de textos podem ser inter-
pretadas de modo messianico.
Atraves do Messias o proprio
Deus vern ao Seu povo; Ele e mais
que homem, Ele e a perfeita reve-
la<;:ao e por isso recebe os nomes
divinos. Ele e chamado Maravi-
lhoso, Conselheiro, Deus Forte,
322
Pai da Eternidade, Principe da
Paz (Is 9.6).
*****
A despeito de quao grandes
OS meritos e 0 poder do Messias
possam ser, a profecia apresenta
urn tra<;:o que e marcante. Ele nas-
cera, esta registrado, em urn tem-
po muito perigoso e em circuns-
tancias muito humildes. Pode ser
que esse pensamento ja esteja
implicado na afirma<;:ao de Isaias
de que uma virgem concebera e
tera urn filho, e que esse filho
compartilhara da paixao de Seu
povo, e que comera manteiga e
mel, os produtos principais de
urn pais que foi devastado e que
nao consegue se reerguer (Is
7.14,15). Mas de qualquer forma
sua humildade esta claramente ex-
pressa em Isaias 11.1 (compare
com Isaias 53.2). Ali o profeta diz
que urn rebento saira do tronco de
Jesse e que urn renovo saira de
suas raizes. Em outras palavras,
no tempo do nascimento do Mes-
sias a casa real de Davi ainda exis-
tira, mas sem urn trono, sera como
urn tronco quebrado, mas que ain-
da pode voltar a crescer.
Miqut?ias da expressao ao mesmo
pensamento em diferentes pala-
vras quando diz que a casa de
Efrata, que e a casa real de Davi,
assim chamada porque Efrata era
a area na qual Belem, a terra natal
de Davi, estava localizada, seria
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
a menor entre as milhares de Juda,
e dela sairia aquele que ha de rei-
nar ate as extremidades da terra
(Mq 5.2). Portanto, em Jeremias
23.5 e 33.15, em Zacarias 3.8 e 6.12,
o Messias e tambem designado
Renovo. Quando Israel estiver
destruido e Juda estiver em esta-
do de calamidade, quando virtu-
almente toda a esperan<;a se fore
toda a expectativa estiver extinta,
entao o Senhor levantara urn Re-
novo da casa real de Davi que
edificara o templo do Senhor e
estabelecera Seu reino na terra.
Apesar de muitos esperarem que
o Messias apare<;a em poder e glo-
ria, Ele aparecera em humildade,
montado nao em urn cavalo de
guerra, mas, como urn sinal de
paz, em urn jumento (Zc 9.9). Ele
sera Rei mas tambem sera Sacer-
dote. Ambos os offcios serao com-
binadas nEle como em
Melquisedeque, e havera perfei-
ta uniao entre ambos os offcios (Sl
110.4; Zc 6.13).
Essa ideia da humildade do
Messias serve como uma ideia
transacional aquela ideia segun-
do a qual Isaias apresenta aquele
que ha de vir como o Servo Sofre-
dor do Senhor. 0 povo de Israel
tinha que ser urn reino de sacer-
dotes (Ex 19.6). Ele tinha que ser-
vir a Deus como sacerdote e do-
minar a terra, assim como o ho-
mem originalmente foi criado a
imagem de Deus e recebeu domf-
nio sobre toda a terra. Repetida-
mente nos lemos nas profecias e
nos salmos que Deus fara justi<;a
atraves de Seu povo e lhe clara
vitoria sobre seus inimigos. Em
alguns casos essa vitoria e descri-
ta em termos muito fortes: Deus
se levantara, Seus inimigos serao
destruidos e aqueles que o odei-
am fugirao de sua face; Ele os dis-
sipara como fuma<;a; como cera
derretida no fogo eles desapare-
cerao de diante da face de Deus;
Ele esmagara a cabe<;a de Seus
inimigos; Ele trara Seu povo das
profundezas do mar, para que ele
pise o sangue de seus inimigos, e
a lingua de Seus caes se farte com
ele154
. Todas essas maldi<;5es nao
sao uma expressao de vingan<;a
pessoal, mas descri<;5es, na lin-
guagem do Velho Testamento, da
ira de Deus sobre os inimigos de
Seu povo. Mas o mesmo Deus que
de forma tao rigorosa pune os
maus, clara justi<;a, paz e alegria a
todo o Seu povo e esse povo o ser-
vira em total unanimidade. Atra-
ves da opressao e do sofrimento
Seu povo alcan<;ara urn estado de
gloria no qual o Senhor fara uma
nova Alian<;a, escrevera Sua lei
nele, lhe clara novo cora<;ao e novo
espirito, para que ele ande em
Seus estatutos e cumpra Seus de-
signios (Ez 36.25).
Essas duas caracterfsticas do
154
S/68.2,3, 21-24; Sl28.4; 31.18; 55.9; 69.23-29; 109.6-20; 137.8,9.
323
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
quadro futuro de Israel sao encon-
tradas tambem no Messias. Ele
sera urn Rei que quebrara Seus
inimigos em peda<;os, com uma
roda de ferro e os despeda<;ara
como urn vaso de oleiro (Sl 2.9;
110.5,6). Nao ha uma descri<;ao
mais realista da vitoria do Messi-
as sobre Seus inimigos do que a
que e apresentada em Isaias 63.1-
6. Ali nos lemos como o Senhor
vern com vestes de vivas cores,
glorioso em Sua vestidura, mar-
chando na plenitude de Sua for-
<;a, falando em justi<;a e poderoso
para salvar. E em resposta aper-
gunta do profeta: "Por que esta
vermelho o traje, e as tuas vestes,
como as daquele que pisa uvas no
lagar?", o Senhor responde: "0
lagar, eu o pisei sozinho, e dos
povos nenhum homem se achava
comigo; pisei as uvas na minha
ira; no meu furor, as esmaguei, e
o seu sangue me salpicou as ves-
tes e me manchou o traje todo.
Porque o dia da vingan<;a me es-
tava no cora<;ao, eo ano dos meus
redimidos e chegado". Em
Apocalipse 9.13-15 certos tra<;os
dessa descri<;ao sao aplicados a
Cristo, quando nos ultimos dias
Ele retornar e derrotar todos os
Seus inimigos. E isso acontecera
com toda certeza, pois Ele e Sal-
vador e Juiz, Cordeiro e Leao ao
mesmo tempo.
0 Messias e tambem o Re-
dentor e o Salvador. Assim como
o Senhor e justo e misericordia-
324
so, assim como Seu dia e urn dia
de ira e de reden<;ao, assim como
Israel dominara em autoridade
real sobre seus inimigos e servira
a Deus como urn sacerdote, assim
tambem o Messias e simultanea-
mente o Rei ungido de Deus e o
Servo Sofredor de Deus. Em Isaias
Ele se manifesta especialmente
dessa ultima forma. Nessa cone-
xao o profeta pensa primeiro no
povo de Israel, que esta vivendo
em urn estado de escravidao, e
que precisamente por essa forma
tem urn chamado a cumprir con-
tra os pagaos. Como essa profe-
cia se desenvolve em Isaias, essa
figura sofredora assume gradual-
mente o carater de uma pessoa,
que, como urn sacerdote, propi-
cia pelos pecados de Seu povo,
que como urn profeta proclama
essa salva<;ao ate os confins dater-
ra e que como urn rei, com os po-
derosos repartira o Seu despojo
(Is 52.13-53.12).
No Rei Ungido o Senhor re-
vela Sua gloria, Sua for<;a, a ma-
jestade e a santidade de Seu nome
(Mq 5.3); no Servo Sofredor Ele
revela Sua Gra<;a e as riquezas de
Sua misericordia (Is 53.11). A pro-
fecia em Israel contem essas duas
figuras e essa profecia tern raizes
historicas. Israel, como povo, e
urn filho de Deus (Os 11.1), urn
reino de sacerdotes (Ex 19.6), ves-
tido com a gloria do Senhor (Ez
16.14), mas ao mesmo tempo tam-
berne o servo do Senhor (Is 41.8,9),
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
recebe a ira que os inimigos do
Senhor dedicam a Ele (Sl89.51,52),
e por amor a Deus e entregue a
morte continuamente, e conside-
rado como ovelha para o mata-
douro (Sl 44.22). Tanto a gloria
quanto o sofrimento de Israel, de
Israel de forma geral, como urn
povo e de servos tais como Davi,
Jo e outros em particular, passu-
em urn carater profetico. A gloria
e o sofrimento de Israel apontam
para Cristo. Todo o Velho Testa-
mento, com suas leis e institui-
<;6es, seus offcios e ministra<;6es,
seus fatos e suas promessas, e
uma prefigura<;ao do sofrimento
que viria sobre Cristo, e da gloria
que o seguiria (1Pe 1.11). Assim
como a Igreja nos dias do Novo
Testamento tornou-se morta para
o pecado e viva para Deus em
Cristo Jesus (Rm 6.11), e assim
como seu corpo preenche o que
resta das afli<;6es de Cristo (Cl
1.24), e tambem aimagem de Cris-
to e transformada de gloria em
gloria (2Co 3.18), assim tambem a
Igreja do Velho Testamento, em
todo o seu sofrimento e gloria, era
uma prepara<;ao e uma prefigu-
ra<;ao da humilha<;ao e exalta<;ao
do Sacerdote-Rei que, a Seu tem-
po, fundaria o reino de Deus na
terra.
Nao pode haver duvidas de
que o Novo Testamento olha para
si mesmo aluz do Velho, e dessa
forma mantem estreito relaciona-
mento com ele. Jesus diz que as
525
Escrituras testificam a seu respei-
to (Jo 5.39; Lc 24.27), e esse e urn
pensamento que e encontrado na
base de todo o Novo Testamento
e e varias vezes afirmado com cla-
reza. Os primeiros disdpulos de
Jesus reconheceram-no como o
Cristo porque encontraram nEle
aqueles de quem Moises e os pro-
fetas tinham falado (Jo 1.45). Pau-
lo testifica que Cristo morreu, foi
sepultado e ressuscitou conforme
as Escrituras (1Co 15.3,4). Pedro
escreve que o Espfrito de Cristo
nos profetas, de antemao testemu-
nhou sobre os sofrimentos refe-
rentes a Cristo e sobre as glorias
que o seguiriam (1Pe 1.11). E to-
dos os livros do Novo Testamen-
to indicam, seja diretamente, seja
indiretamente, que todo o Velho
Testamento encontrou sua pleni-
tude em Cristo. A lei com suas
prescri<;6es eticas, cerimoniais e
dvicas, com seu templo e seu al-
tar, com seu sacerdocio e seus sa-
criffcios, e a profecia com sua pro-
messa de urn Rei ungido da casa
de Davie como Servo Sofredor,
apontam para Cristo como seu
cumprimento. Todo o reino de
Deus, prenunciado no reino e na
historia de Israel, delineado em
formas nacionais pela lei e procla-
mado na linguagem do Velho
Testamento pelos profetas, apro-
ximam-se de Cristo e nEle e em
Sua Igreja descem dos ceus ater-
ra.
Essa intima rela<;ao entre o
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Velho eo Novo Testamento e da
mais alta importancia para a vali-
dade e legitimidade da fe crista,
pois a confissao de que Jesus e o
Cristo, o Messias prometido a Is-
rael, forma o cora<;ao da religiao
crista e diferencia-a de todas as
outras religioes. Portanto, essa
rela<;ao e seriamente atacada pe-
los judeus, pelos mu<;ulmanos e
por todos os outros povos pagaos
e em nossos dias e atacada tam-
bern por muitos daqueles que re-
cebem o nome de cristaos. Esses
grupos tentam provar que Jesus
nunca pensou em Si mesmo como
o Messias nem se apresentou
como tal, ou, mais ainda, que Ele
formulou Sua consciencia religi-
osa interna e Sua elevada moral
de forma circunstancial, e que
dessa forma nao tern significado
para n6s hoje. Mas o testemunho
do Novo Testamento e tao nume-
roso e tao forte que nao permite
que essa afirma<;ao va muito lon-
ge. Simplesmente nao pode ser
negado que Jesus afirmou ser o
Messias e demonstrou possuir
todos os tipos de caracteristicas e
habilidades sobrenaturais. Mas
em vez de curvar-se a esse fato e
aceitar Jesus como Ele mesmo dis-
se que era, eles afirmam que Je-
sus era um ser humano sujeito a
ilusoes, excesso de entusiasmo e
todos os tipos de aberra<;6es. De
fato, o ataque vai tao longe que
muitos chegam a atribuir a Jesus
todos os tipos de doen<;as de alma
526
e de corpo, e assim explicam a
exaltada concep<;ao que Ele tinha
de Si mesmo. Essa disputa sobre
a pessoa de Jesus, que nos dias
atuais tern assumido um carater
cada vez mais serio, prova que a
questao "0 que voce pensa de
Cristo?" como aconteceu em pe-
riodos remotos da era crista, no-
vamente ocupa e divide a mente
dos homens. Assim como os ju-
deus formaram varias ideias so-
bre Jesus, e alguns chegaram a
pensar que Ele fosse Joao Batista,
outros Elias, outros Jeremias, ou
algum dos profetas (Mt 16.13,14),
e assim como alguns pensaram
que Ele fosse alguem possuido
pelos dem6nios (Me 3.21,22), as-
sim tern sido atraves dos seculos
e assim continuara sendo. Mesmo
que n6s coloquemos de lado
aqueles que dizem que Cristo era
urn ilusionista e entusiasta, have-
rei ainda milhares que, apesar de
reconhece-lo como urn profeta,
nao o confessam como o Cristo de
Deus.
E ainda que Cristo preencha
os requisitos da designa<;ao de
profeta, Ele nao se satisfaz somen-
te com a confissao de que Ele e o
Cristo. Ele e urn homem e e des-
crito como tal em todas as pagi-
nas do Novo Testamento. Ele,
apesar de ser o Verbo eterno, nas-
ceu no tempo (Jo 1.14 Fp 2.7). Ele
compartilha de nossa carne e de
nosso sangue, e em todas as coi-
sas e semelhante aos irmaos (Hb
0 MEDIADOR DA AuAN<;:A
2.14,17). Segundo a carne Ele pro-
cede dos patriarcas (Rm 9.5). Ele
e urn descendente de Abraao (Gl
3.16), Ele procedeu de Juda (Hb
7.14; Ap 5.5), e descendente de
Davi (Rm 1.3), e e nascido de uma
mulher (Gl 4.4). Ele e urn ser hu-
mano no sentido pleno e verda-
deiro, possui urn corpo (Mt 26.26),
uma alma (Mt 26.38), e urn espiri-
to (Lc 23.46), uma mente humana
(Lc 2.52), uma vontade humana
(Lc 22.42), os sentimentos huma-
nos de alegria e tristeza, ira e mi-
sericordia (Lc 10.21; Me 3.5), e as
necessidades humanas de descan-
so e relaxamento, alimento e be-
bida (Jo 4.6,7). Sempre, e em to-
dos os lugares, Jesus se manifes-
ta no Novo Testamento como urn
ser humano a quem nada que e
humano e estranho. Ele foi, como
n6s somos, tentado em todas as
coisas, mas nao cometeu pecado
(Hb 4.15). Nos dias de Sua carne
Ele elevou ora<_;oes e suplicas com
forte clamor e aprendeu a obedi-
encia pelas coisas que sofreu (Hb
5.7,8).
Seus contemporfmeos, nem
por urn s6 momenta duvidaram
de sua real natureza humana.
Usualmente ele e designado no
Evangelho pelo nome simples de
Jesus. De fato, esse nome lhe foi
dado por uma ordem expressa do
155
No texto grcgo (N. doT.)
anjo e esse nome significa que Ele
e o Salvador de Seu povo (Mt
1.21). Mas esse nome era conheci-
do em Israel ha muito tempo e
muitas pessoas se chamavam as-
sim. 0 nome Jesus e a forma gre-
ga do nome hebraico Jehoshua ou
Josue e e derivado de urn verbo
que significa resgatar ou salvar. 0
sucessor de Moises se chamava
Oseias, mas Moises passou a
chama-lo Jehoshua ou Josue (Nm
13.16). Esse Josue e chamado de
Jesus em Atos 7.45 e Hebreus
4.8155
. E n6s lemos no Novo Tes-
tamento a respeito de outras pes-
soas que receberam esse nome (Lc
3.29; Cl4.11)156
• Portanto, somen-
te o nome nao era suficiente para
que os judeus pensassem que o
filho de Maria fosse o Cristo.
Usualmente os judeus falam
de Cristo como o homem chama-
do Jesus (Jo 9.11), o filho de Jose,
o carpinteiro, cujas irmas e irmaos
eles conheciam (Mt 13.55; Jo 6.42),
0 filho de Jose de Nazare (J0 1.45)I
Jesus, o nazareno157
, Jesus, o
galileu (Mt 26.69), e o profeta de
Nazare da Galileia (Mt 21.11). Eo
titulo usual aplicado a Jesus e 0
de Rabi ou Raboni, que significa
professor, mestre, ou meu mestre
(Jo 1.38; 20.16), o nome que naque-
le tempo os escribas e fariseus re-
cebiam (Mt 23.8), e Ele nao ape-
156
0 tecto de Lucas s6 traz o nome Jesus grego, mas o texto de Colosscnscs traz o nome Jesus na
tradur;ao de Almeida (N. doT.)
157
Mt 2.23; Me 10.47; Jo 18.5,7; 19.19; At 22.8.
327
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
----- ----------------------~----------------------------
nas se apropria desse titulo, mas
tambem lhe da um sentido -Lmico
(Mt 23.8-10). Essas designa<;:6es e
titulos nao implicam, e claro, que
as pessoas o reconheciam como o
Cristo. Esse tambem nao era ne-
cessariamente o caso quando elas
o chamavam pelo termo geral Se-
nhor (Me 7.28), pelo termo filho de
Davi (Me 10.47), ou quando cha-
mavam-no de profeta (Me 6.15;
8.28).
* * * * *
Mas apesar de ser verdadei-
ro homem, Jesus estava conscien-
te desde o come<;:o que Ele era
mais que urn homem e Ele se
apresentou como tat de forma
gradativa, aos Seus disdpulos. E
isso nao acontece somente, como
geralmente se alega, no Evange-
lho de Joao e nas cartas dos ap6s-
tolos, mas acontece tambem com
clareza nos Evangelhos de Mar-
cos, Mateus e Lucas. Alem disso,
o contraste que os homens estao
tentando fazer nos tempos moder-
nos, entre o Jesus hist6rico e o
Cristo da Igreja e totalmente in-
sustentavel. Eles afirmam que Je-
sus nao era e nao queria ser mais
do que urn israelita piedoso, urn
genio religioso, urn exaltado mes-
tre da juventude e urn profeta
como os muitos que anteriormen-
te tinham aparecido em Israel. E
tudo 0 que e posteriormente con-
fessado pela Igreja com rela<;:ao ao
Jesus hist6rico - Seu nascimento
sobrenatural, Seu offcio mes-
sianico, Sua morte expiat6ria, Sua
ressurrei<;:ao e Sua ascensao ao
ceu- e urn produto da imagina-
<;:ao humana e deve ter sido acres-
centado ao quadro original do
Mestre, pelos disdpulos.
Mas contra essa obje<;:ao ha
tantas e tao serias obje<;:6es que ela
nao pode se manter de pe. Alem
disso, se todos esses fatos menci-
onados acima nao sao reais, mas
foram criados e inseridos na len-
cia de Jesus, deve haver algum
tipo de explica<;:ao de como os dis-
dpulos conseguiram fazer a
dramatiza<;:ao de todos eles e de
qual fonte eles extrairam o mate-
rial dessas supostas fabulas. A
impressao causada pela persona-
lidade incomum de Jesus nao se
prestaria a esse tipo de fantasia.
Tal impressao, mesmo que seja a
de uma pessoa altamente exalta-
da, nao possuiria urn s6 elemen-
to do Cristo que a Igreja confessa.
E esses elementos componentes
devem ser procurados entre as
seitas judaicas daquele tempo, ou
entre as religioes gregas, persas/
hindus, egipcias ou babilOnicas,
e dessa forma o Cristianismo e
roubado de sua independencia e
de sua unicidade e e misturado
as heresias pagas e judaicas.
328
Mas os Evangelhos de
Mateus, Marcos e Lucas foram
escritos por homens que tinham
a firme convic<;:ao de que Jesus era
0 MED!ADOR DA ALIAN<;:A
o Cristo. Eles foram escritos quan-
do a Igreja existia ja ha algum
tempo, quando a pregac;ao dos
ap6stolos ja tinha alcanc;ado todo
o mundo conhecido e quando
Paulo ja tinha escrito varias de
suas cartas. Contudo esses Evan-
gelhos foram geralmente aceitos
e reconhecidos como tais. Nada se
sabe sobre urn conflito entre os
ap6stolos e seus auxiliares a res-
peito da pessoa de Cristo. Todos
eles criam que Jesus e o Cristo,
que os judeus crucificaram, Se-
nhor e Cristo e em Seu nome pre-
garam o arrependimento e o per-
dao de pecados (At 2.22-38).
Essa fe existe desde o come-
c;o da fundac;ao da Igreja crista.
Paulo afirma no capitulo quinze
de sua carta aos Corintios, que o
Cristo das Escrituras, o Cristo que
morreu, foi sepultado e ressusci-
tou, era o conteudo da pregac;ao
apost6lica e da fe cristae que sem
esses dois fatos a pregac;ao e fe se
tornariam vase a salvac;ao daque-
les que morreram em Cristo seria
uma ilusao. Nao ha outra escolha:
ou os ap6stolos eram falsas teste-
munhas de Deus ou eles testifi-
caram e proclamaram aquilo que
desde o comec;o eles viram e ou-
viram, e que suas maos tocaram
com respeito ao Verbo da vida. Da
mesma forma, ou Jesus eurn hl-
so profeta ou Ele e a testemunha
fiet o primogenito dentre os mor-
tos e o principe dos reis da terra,
Aquele que nos ama, e nos lavou
dos nossos pecados, enos consti-
tuiu reino, sacerdotes para o Seu
Deus e Pai (Ap 1.5,6). Nao ha con-
flito entre o Jesus hist6rico e o
Cristo da Igreja. 0 testemunho
dos profetas e a revelac;ao e inter-
pretac;ao, dada sob a direc;ao do
Espirito Santo, do autoteste-
munho de Cristo. A estrutura da
Igreja repousa sobre os ap6stolos
e profetas, dos quais Cristo e ape-
dra angular (Ef 2.20). E ninguem
pode lanc;ar outro fundamento
alem do que foi posto/ 0 qual e
Jesus Cristo (1Co 3.11).
Por mais atrativa que seja,
nao ha oportunidade agora para
que seja dado urn completo regis-
tro do testemunho que Cristo deu
sobre Si mesmo e que os ap6sto-
los deram sobre seu Mestre e Se--
nhor. Contudo dirigirernos nossa
atenc;ao por alguns instantes, para
certos detalhes.
329
Assim como Joao Batista, Je-
sus tambem veio com a pregac;ao
de que o reino de Deus estava
proximo e a cidadania desse rei-
no s6 podia ser obtida atraves de
arrependirnento e fe (Me 1.15).
Mas Jesus se coloca em urn rela-
cionamento com esse reino mui-
to diferente do que tinha Joao ou
qualquer outro dos profetas. To-
dos os profetas profetizaram so-
bre esse reino (Mt 11.11-13), mas
Jesus e o unico que o possui. De
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
fato, Ele o recebeu do Pai, que o
confiou a Ele em Seu conselho
eterno (Lc 22.29). Portanto, esse e
precisamente o Seu reino, no qual
Ele governa todas as coisas em
favor de Seus disdpulos. Foi o Pai
que celebrou as bodas de Seu Fi-
lho (Mt 22.2), mas o Filho e que
era o noivo (Me 2.19; Jo 3.29), que
celebrara Seu proprio casamento
(Mt 25.1). 0 Pai eo dono da vinha
e o Filho e o herdeiro (Mt 21.33,
38). Dessa forma Jesus chama o
reino de Deus de Seu proprio rei-
no, e fala de Sua Igreja como es-
tando edificada sobre a rocha da
confissao, em Si mesmo (Mt
16.18). Ele e maior que Jonas e
Salomao (Mt 12.39A2). Por Sua
causa tudo, pai, mae, irmas, ir-
maos, casas, campos e ate mesmo
a propria vida devem ser renun-
ciados e negados. Aquele que
ama seu pai ou sua mae mais do
que a Ele nao edigno dEle. Aque-
le que o nega ou que o confessa
diante dos homens sera corres-
pondentemente negado ou con-
fessado por Ele diante do Seu Pai
que esta nos ceus.
A esse elevado lugar que
Jesus atribui a Si mesmo no reino
dos ceus correspondem todas as
Suas palavras e obras. Elas
correspondem perfeitamente ao
desejo de Seu Pai. Jesus e absolu-
tamente isento de pecado. Ele e
consciente de nunca ter transgre-
dido a vontade do Pai e nunca
confessa ter cometido urn so erro
550
ou pecado. Ele ate se permite ser
batizado por Joao, mas nao como
objetivo de receber perdao pelos
pecados (Mt 3.6). 0 proprio Joao,
tendo em vista que seu batismo
era urn batismo de arrependimen-
to e perdao de pecados, protestou
ao ver que Jesus queria ser bati-
zado. Jesus reconhece essa obje-
<;ao e remove-a, dizendo que Ele
nao esta se oferecendo para ser
batizado para que receba o per-
ciao de pecados, mas para que
cumpra toda a justi<;a (Mt 3.14)5).
Jesus declina o tratamento que lhe
fora conferido pelo jovem rico,
que chamou-o de born mestre (Me
10.18), mas ao fazer isso Ele nao
nega Sua perfei<;ao moral. 0 jo-
vem rico veio a Jesus da forma
como naqueles dias uma pessoa
deveria apresentar-se aos escribas
e fariseus, com todos os tipos de
sauda<;6es e tratamentos (Mt 23.7).
Ele queria lisonjear Jesus e ganhar
o Seu favor ao chama-lode born
mestre. Jesus nao aceita esse tipo
de lisonjas. Ele nao quer ser sau-
dado e honrado da mesma forma
que os escribas o sao. Born, no
sentido absoluto de sera fonte de
todos os beneficios e ben<;aos, so-
mente Deus. Dessa forma Jesus
nao nega Sua perfei<;ao morat
mas as lisonjas do jovem rico. 0
mesmo aconteceu no Getsemani.
Sua natureza humana viu o sofri-
mento que o aguardava, tornar-se
cada vez maior, e prova sua reali-
dade ao orar pedindo que esse
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
calice seja passado, mas ao mes-
mo tempo demonstra Sua perfei-
ta submissao e obediencia ao
acrescentar o pedido para que o
Pai fa<;a a Sua propria vontade (Mt
11.27).
Mas nem mesmo nesse mo-
m ento, no Getsemani ou no
Golgota, nem uma so confissao de
pecados flui de Seus hibios. Pelo
contrario, tudo 0 que Ele e, e diz,
e faz, esta em perfeito acordo com
a vontade santa de Deus. Todas
as coisas que Ele revela em Suas
palavras e atos com rela<;ao a
Deus e Seu reino lhe sao dadas
pelo Pai (Mt 11.27).
Ele ensinava, nao como os
escribas, de forma escolastica,
mas como quem tern autoridade,
como quem recebeu plena auto-
ridade profetica do proprio Deus
(Mt 7.29), e cuja autoridade se tor-
nou manifesta em Seus atos. Ele
expulsou os demonios pelo Espi-
rito de Deus (Mt 12.28) e com o
declo de Deus (Lc 11.20), tern po-
derpara perdoarpecados (Mt9.6),
e poder tambem para entregar
Sua propria vida e para reave-la
(Jo 10.18). Todo esse poder Ele re-
cebeu do Pai. Jesus relaciona to-
das as Suas palavras e obras aor-
dem de Seu Pail58
. Fazer a vonta-
de de Seu Pai e a Sua comida (Jo
4.34),de forma que, ao final de Sua
vida Ele pode dizer que glorifi-
cou Seu Pai, manifestou Seu
1
5
8
Jo 5.19,20,30; 8.26,28,38; 12.50; 17.8.
331
nome e cumpriu Sua missao (Jo
17.4,6). Essa rela<;ao existente en-
tre Jesus, Sua pessoa, Suas pala-
vras e Suas obras, por urn lado, e
0 reino, de outro lado, e expressa
em Seu carater messianico. Ha,
agora, e havera por muito tempo,
uma seria investiga<;ao para defi-
nir se Jesus se considerava o Mes-
sias prometido e como Ele teria
tornado consciencia disso.
Com rela<;ao a primeira
questao, nao pode haver duvida
de que qualquer pessoa que fa<;a
uma leitura imparcial dos Evan-
gelhos - nao somente o Evange-
lho de Joao, mas tambern os de
Mateus, Marcos e Lucas- de que
Jesus tinha plena consciencia de
que era o Messias prometido.
Para chegar a essa conclusao bas-
ta que se observe uns poucos fa-
tos: Na sinagoga de Nazare Cris-
to declarou que a profecia de
Isaias tinha se cumprido naquele
dia (Lc 4.17 ss.). Diante da pergun-
ta de Joao Batista sobre se Jesus
era ou nao o Messias, Cristo res-
ponde afirmativamente ao apon-
tar Suas obras como evidencia (Mt
11.4 ss.). Ele aceita a declara<;ao de
Pedro, que disse que Ele era o
Cristo, o Filho do Deus vivo, e
afirma que Pedro pode compre-
ender esse fato por causa de uma
revela<;ao do Pai (Mt 16.16)7). A
ora<;ao da esposa de Zebedeu e
feita em urn contexto de cren<;a de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
que Ele eo Messias, e Jesus a acei-
tou assim (Mt 20.20). Sua explica-
<;ao sobre o salmo 110 (Mt 22.42),
Sua entrada triunfal em Jerusalem
(Mt 21.2 ss.), Sua a<;ao no templo
(Mt 21.12 ss.), Sua institui<;ao da
Santa Ceia (Mt 26.26 ss.) - tudo
isso repousa sobre a pressuposi-
<;ao de que Ele eo Messias, filho
e Senhor de Davi, e que Ele pode
suplantar a velha Alian<;a por
uma nova. Eo que eabsolutamen-
te conclusivo e0 fato de que foi
nada menos que a confissao de
que Ele era o Cristo, o Filho de
Deus, que fez com que Ele fosse
condenado amorte (Me 14.62). A
epigrafe da cruz: Jesus de Nazare,
o Rei dos Judeus, eo selo de tudo
o que foi dito ate aqui sobre a
consciencia que Jesus tinha de
que Ele era o Cristo prometido.
Como ou de que forma Je-
sus tomou consciencia de que Ele
era o Messias prometido, eoutra
questao. A ideia comum, geral-
mente aceita sobre essa questao,
ea de que, a principia, Jesus nada
sabia sobre isso, e que somente
depois de Seu batismo ou ate
mesmo mais tarde, depois da con-
fissao de Pedro, foi que Ele tomou
consciencia de que era o Messias.
A suposi<;ao, entao, ea de que Ele
aceitou essa conscientiza<;ao sob
pressao, ou pelo menos como urn
modo menos apropriado, porem,
inevitavet de Seu chamado reli-
gioso. Todas essas pressuposi-
<;5es, contudo, sao diametral-
552
mente opostas ao claro ensino da
Escritura e aessencia da persona-
lidade de Jesus. Nao ha duvida de
que houve urn desenvolvimento
da consciencia humana de Cristo,
pois, n6s lemos na Escritura que
Ele crescia em sabedoria, estatu-
ra e Gra<;a, diante de Deus e dos
homens (Lc 2.52). Seu discerni-
mento humano sobre Sua propria
pessoa, sobre a obra que o Pai lhe
tinha dado e sobre a natureza do
Reino que ele veio fundar foi gra-
dualmente iluminada e aprofun-
dada no seio de Sua familia em
Nazare, sob a orienta<;ao de sua
mae, com a ajuda das Escrituras
do Velho Testamento.
Essa ilumina<;ao e esse
aprofundamento ocorreram de tal
forma, que aos doze anos, quan-
do visitava o templo, Jesus ja sa-
bia que devia ocupar-se com os
neg6cios do Pai (Lc 2.49). E antes
de ser batizado por Joao Ele sa-
bia que nao tinha necessidade de
receber o batismo para remissao
de pecados, mas que Ele tinha que
submeter-se ao batismo que em
todas as coisas fosse obediente a
vontade de Deus. Esse batismo
nao representou para Jesus a que-
bra de urn passado pecaminoso,
pois Ele nao possufa urn passado
dessa natureza. Seu batismo foi,
de Sua parte, uma total entrega e
dedica<;ao aobra que o Pai lhe ti-
nha dado e, da parte de Deus, foi
uma total capacita<;ao para o de-
sempenho dessa obra. Joao ime-
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
diatamente o reconheceu como
Messias e, no dia seguinte, os dis-
cipulos que Ele escolhera tam-
bern o reconheceram como tal.
* * * * *
Mas podemos dizer que, de
certa forma, essa confissao de que
Jesus era o Messias prometido foi
apenas uma confissao preliminar.
Essa confissao estava emparelha-
da com todos os tipos de erros
referentes a natureza da obra
messianica. Os disdpulos, embo-
ra pensassem que Jesus fosse o
Messias, eles pensavam que Ele
fosse urn Messias tal como os ju-
deus daquele tempo geralmente
o pintavam: urn rei que se
engajaria em uma batalha contra
as na<;6es pagas e colocaria Israel
como dominador de todas essas
na<;6es. Quando, depois de Sua
apari<;ao publica, Jesus nao
corresponde a essa expectativa,
ate mesmo Joao Batista fica em
duvida (Mt 11.2 ss.). E os discipu-
los tinham que ser constantemen-
te corrigidos por Jesus e instrui-
dos sobre essa questao. A expec-
tativa messianica judaica estava
tao arraigada na alma deles que
ate mesmo depois da ressurrei<;ao
de Jesus eles perguntaram se se-
ria aquela a ocasiao propicia em
que o Senhor restauraria o reino a
Israel (At L6).
Essas concep<;6es equivoca-
das que eram geralmente aceitas,
inclusive no circulo dos disdpu-
los, fizeram com que fosse neces-
saria que Jesus, em Sua prega<;ao,
seguisse uma linha de interpreta-
<;ao espedfica e pedag6gica. E
bern sabido que Jesus, na primei-
ra parte de Seu ministerio, nunca
diz claramente que Ele eo Cristo.
0 conteudo de Sua prega<;ao e o
reino dos ceus, e Ele explica ana-
tureza, a origem, o processo e a
plenitude do reino especialmen-
te por meio de parabolas. E Suas
obras sao obras de misericordia,
atraves das quais Ele cura todo
tipo de doen<;a entre o povo. Es-
sas obras dao testemunho dele, e
a partir delas Seus discipulos, in-
clusive Joao Batista, vao elaboran-
do em sua mente quem e o Mes-
sias e qual e o seu carater. Isso
pode ser apresentado de maneira
mais forte: e mais ou menos como
se a obra messianica de Jesus fos-
se secreta e ainda nao pudesse
tornar-se publica. Quanto mais
Sua obra messianica vai se tornan-
do evidente, mais Ele vai adver-
tindo as pessoas que sejam discre-
tas sobre isso159
• De fato, mesmo
quando, ja perto do fim de Seu
ministerio, os disdpulos passa-
ram a conhece-lo melhor e, pela
boca de Pedro, no caminho para
Cesareia de Filipe, confessam que
Ele e o Cristo, o Filho do Deus
159
Mt 8.4; 9.30; 12.16; Me 1.34-44; 3.12; 5.43; 7.36; 8.26; Lc 5.13.
353
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
vivo, mesmo nessa ocasiao Ele
ordena que os disdpulos nao di-
vulguem essa notfcia (Mt 16.20;
Me 8.30). Jesus era o Cristo, mas
nao o Cristo esperado pelos ju-
deus. Ele nao podia e nao queria
ser visto como o Messias de acor-
do com as expectativas popula-
res. Quando o povo desconfiava
que Ele era o Messias, os popula-
res tentavam pega-lo afor<;a para
faze-lo rei (Jo 6.14)5). Ele era o
Messias e queria ser o Messias,
mas em harmonia nao com a von-
tade e o agrado do povo, mas com
a vontade e o conselho do Pai, e
com a profecia do Velho Testa-
mento.
Foi por isso que Ele esco-
lheu, como urn nome para ser usa-
do em rela<;ao a Si mesmo, ope-
culiar nome de Filho do homem.
Esse nome e mencionado por Ele
repetidas vezes nos Evangelhos.
Nao ha duvida de que esse nome
e derivado de Daniel 7.13, onde
os reinos do mundo sao apresen-
tados como animais, mas o domi-
nio de Deus e feito atraves do Fi-
lho do Homem. Essa passagem,
em alguns drculos judaicos, era
construida em urn sentido
messianico e esse nome era co-
nhecido como uma designa<;ao
do Messias (Jo 12.34). Ao mesmo
tempo esse termo parece nao ter
sido urn nome comum, e parece
nao ter tido urn significado fixo.
Nenhuma das expectativas judai-
cas poderia ser conectada a esse
354
nome como eram conectadas aos
nomes Filho de Davi e Rei de Israel.
Portanto, esse nome era mais con-
veniente para Jesus pois expres-
sava, por urn lado, a ideia de que
Ele era o Messias prometido na
profecia, e, por outro, a ideia de
que Ele nao era o Messias espera-
do pelo povo.
Isso pode ser provado pelo
uso que Jesus faz desse nome. Ele
usa esse titulo em referenda a Si
mesmo em duas series de textos,
a saber, na serie em que Ele fala
de Sua miseria, sofrimento e hu-
milha<;ao e na serie em que Ele
fala de Seu poder, majestade e
exalta<;ao. Ele diz, por exemplo,
com rela<;ao a primeira serie: 11
...
o Filho do homem, que nao veio
para ser servido, mas para servir
e dar a sua vida em resgate por
muitos" (Mt 20.28). Com rela<;ao
asegunda serie Ele diz, por exem-
plo: "... eu vos declaro que, des-
de agora, vereis o Filho do ho-
mem assentado adireita do Todo-
poderoso e vindo sobre as nuvens
do ceu" (Mt 26.64). 0 mesmo tipo
de pensamentos e encontrado em
Mateus 8.20; 11.19; 12.40; 17.12;
18.11; 20.18, com rela<;ao aprimei-
ra serie e em Mateus 9.6; 10.23;
12.8; 13.41; 16.27; 17.9; 19.28; 24.27;
25.13. Jesus se caracteriza por esse
nome em Seu pleno carater
messianico, em Sua humilha<;ao,
em Sua exalta<;ao, em Sua Gra<;a e
em Seu poder, como Salvador e
como Juiz.
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
Nesse nome Ele engloba
toda a profecia do Velho Testa-
mento referente ao Messias.
Como nos ja indicamos, a expec-
tativa messianica se desenvolveu
em duas dire<;oes, ou seja, na di-
re<;ao do Rei ungido da casa de
Davi e na dire<;ao do Servo Sofre-
dor do Senhor. Essas duas linhas
correm paralelamente atraves do
Velho Testamento e se encontram
em Daniel. 0 Reino de Deus sera,
em urn sentido pleno, urn domi-
nio, mas esse dominio sera urn
dominio humano, o dominio do
Filho do homem. E dessa forma
Jesus e urn Rei, o Rei de Israel, 0
Rei prometido e ungido de Deus.
Contudo Ele e urn Rei diferente
daquele que os judeus espera-
vam. Ele e urn Rei que cavalga
sobre urn jumento, cria de urn
animal de carga, urn Rei de justi-
<;a e paz, urn Rei que tambem e
Sacerdote, urn Rei que tambem e
o Salvador. Poder e amor, justi<;a
e Gra<;a, exalta<;ao e humildade,
Deus e homem estao conjugados
nEle.
Ele e 0 perfeito cumprimen-
to de toda a profecia e de toda a
lei do Velho Testamento, de todo
o sofrimento e de toda a gloria
que serviram de prepara<;ao e pre-
nuncio em Israel, Ele e a realida-
de tipificada pelos reis e sacerdo-
tes de Israel, a realidade tipificada
160
Ex 4.22; Dt 14.1; Is 63.8; Os 11.1.
161
25m 11.14; 512.7; 5189.27,28.
335
pelo proprio povo de Israel, que
tinha que ser urn reino de sacer-
dotes e urn sacerdocio real. Ele e
o Rei-Sacerdote eo Sacerdote-Rei,
o Emanuel, o Deus Conosco. For-
tanto o Reino que Ele veio pregar
e estabelecer e ao mesmo tempo
interno e externo, invisivel e visi-
vel, espiritual e fisico, presente e
futuro, particular e universal, de
cima e de baixo, vern do ceu e ja
existe na terra. E Jesus voltara. Ele
veio preservar o mundo, salva-lo.
Ele vira para julga-lo.
*****
Urn outro aspecto ainda
deve ser acrescentado a esse qua-
dro de Jesus que os Evangelhos
nos apresentam. Esse aspecto e
que Ele tern consciencia de ser o
Filho de Deus em urn sentido es-
pecial.
No Velho Testamento, o
nome Filho de Deus tambem e
usado para designar os anjos (Jo
38.7), o povo de IsraeP60
, os juizes
do povo (Sl 82.6) e os reis161
• No
Novo Testamento Adao e chama-
do de filho de Deus (Lc 3.38), os
membros da Alian<;a tambem re-
cebem esse nome (2Co 6.18), e
esse nome e usado de forma es-
pecial com rela<;ao a Cristo. De
varios lados e por varias pessoas
Ele e chamado por esse nome: por
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Joao Batista e Natanael (Jo 1.34,
49), por Satanas e pelos dem6ni-
os162, pelo sumo sacerdote, pela
multwao dos judeus, e pelo
centuriao (Mt 26.63; 27.40,54), pe-
los disdpulos (Mt 14.33; 16.16), e
pelos evangelistas (Me 1.1; Jo
20.31). Everdade que Jesus nao
atribui esse nome a Si mesmo
com frequencia, mas Ele aceita
essa confissao de Sua divina
Filia<;ao sem qualquer protesto, e
em algumas ocasi6es afirma ser o
Filho de Deus163
•
Nao pode haver duvida de
que nem todas as varias pessoas
que usaram esse nome para se
referir a Jesus o fizeram em seu
sentido mais profundo. Esse
nome nao tern o mesmo significa-
do nos labios do centuriao (Mt
27.54), do sumo sacerdote (Mt
26.63), e de Pedro (Mt 16.16). 0
centuriao era urn pagao e nao cha-
mou Jesus de Filho de Deus, mas
de filho de Deus. 0 sumo sacer-
dote estava pensando especial-
mente na identidade messianica,
pois ele perguntou se Jesus era o
Cristo, o Filho de Deus. Mas quan-
do Pedro, que era urn companhei-
ro de Jesus, enfaticamente confes-
sa que Ele e o Cristo, o Filho do
Deus vivo, que tern as palavras da
vida eterna, sem duvida esse
nome assume urn significado
muito mais profundo que os ou-
7
6
2
Mt 4.3; 8.29; Me 3.11.
163
Mt 16.16,17; 26.63,64; 27.40,43.
336
tros, urn significado que os disci-
pulos, mais tarde, depois da res-
surrei<;ao, foram gradualmente
entendendo mais plena e ricamen-
te.
De fato em urn sentido
teocratico veterotestamentario Je-
sus tambem pode ser designado
por esse nome. Como Rei ungido
de Deus Ele pode ser chamado de
Filho de Deus. Ele e o Filho do
Altissimo, a quem o Senhor Deus
clara o trono de Seu pai Davi (Lc
1.32). Ele e a semente santa que
nasceu de Maria (Lc 1.35t o Santo
de Deus, como o dem6nio lhe cha-
mou (Me 1.24). Ele e o Filho do
Deus Bendito, como o sumo sa-
cerdote perguntou para especifi-
car mais claramente o Messias (Me
14.61). Mas essa significa<;ao
teocratica tern em Jesus urn senti-
do mais profundo que os outros,
e nele ela expressa urn relaciona-
mento espedfico entre Jesus e o
Pai. Ele nao se tornou Deus por
ter nascido de Maria (Lc 1.35), nem
porque no batismo Ele recebeu o
Espfrito Santo, sem medida (Mt
3.16). E tambem nao foi em virtu-
de de Sua ressurrei<;ao que Ele foi
feito Senhor e Cristo, por Deus (At
2.36). De fato, em todas essas oca-
si6es Ele foi reconhecido pelo Pai
como sendo o Filho, mas Seu me-
rito messianico nao teve origem
nessas ocasi6es. Ele teve origem
0 MEDIADOR DA ALIAN<;:A
muito antes. A Escritura nao nos
ensina que Jesus e chamado de
Filho de Deus porque Ele e o Rei
ungido de Israel, o Messias, mas
o contrario, que Ele foi feito Rei
porque Ele e, em urn sentido in-
teiramente unico, o Filho de Deus.
1
Esta alem de qualquer du-
vida que, onde quer que a Escri-
tura apresente esse assunto, ele e
apresentado exatamente dessa
forma. Em Miqueias 5.2 n6s lemos
que as origens daquele que ha de
reinar em Israel remontam aos
tempos antigos, aeternidade. Em
Hebreus 1.5; 5.5 e Salmo 2.7 e ex-
plicado que desde a eternidade
Cristo, o Filho, o brilho da gloria
de Deus e a exata expressao de
Seu Ser e gerado pelo Pai. E em
Romanos 1.4 o ap6stolo declara
que Cristo foi designado Filho de
Deus em poder, pela ressurreic;ao
dos mortos. Ele e o Filho de Deus
em urn sentido especial desde a
eternidade164
, mas em Sua concep-
c;ao sobrenatural, em Seu batismo
e em Sua ressurreic;ao, essa
Filiac;ao se tornou mais evidente.
Esse mesmo ensino n6s en-
contramos nos Evangelhos de
Mateus, Marcos e Lucas. Jesus
tern plena consciencia de manter
uma relac;ao com o Pai de forma
essencialmente diferente de todas
as outras pessoas. Desde cedo Ele
sabia que tinha que se ocupar com
os neg6cios de Seu Pai (Lc 2.49).
164
Rm 8.32; Gl 4.4; Fp 2.6.
337
Em Seu batismo e, posteriormen-
te, no monte da transfigurac;ao,
Deus declara abertamente, atra-
ves de uma voz do ceu, que Ele e
o Seu Filho amado, em quem Ele
se compraz (Mt 3.17; 17.5).
Ele fala de Si mesmo como
o Filho que e exaltado acima de
todos os anjos (Mt 24.36; Me 13.32).
Outros homens que foram envia-
dos por Deus sao servos, mas ele
eo Filho, o Filho amado do Pai e
Seu herdeiro (Me 12.6,7). 0 reino
no qual Ele reina lhe foi confiado
pelo Pai (Lc 22.29). Ele envia so-
bre Seus discipulos a promessa de
Seu Pai (Lc 24.49). E algum dia ele
voltara na gloria de Seu Pai (Me
8.38). Ele nunca se refere a Deus
como nosso Pai, mas sempre
como Seu Pai, exceto quando en-
sina os disdpulos a orar (Mt 6.9).
Em uma palavra, Ele eo Filho (Me
13.32), enquanto todos os Seus
disdpulos sao filhos de seu Pai
(Mt 5.45). Tudo lhe foi entregue
por Seu Pai e ninguem conhece o
Filho senao o Pai e ninguem co-
nhece o Pai senao o Filho e aque-
le a quem o Filho o quiser revelar
(Mt 11.27). E depois da ressurrei-
c;ao Ele da aos Seus discipulos a
ordem de ensinar todas as nac;6es,
batizando-os em nome do Pai, do
Filho e do Espirito Santo, ensina-
do-os a observar tudo o que Ele
lhes tinha ordenado (Mt 28.19).
0 Evangelho de Joao, no
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
qual nao e apenas 0 evangelista,
mas tambem o ap6stolo que
esta falando, nada acrescenta de
essencialmente novo em tudo o
que foi dito, mas trabalha com to-
das essas informa<;6es de forma
bern mais profundae mais ampla.
Em seu Evangelho o nome Filho
de Deus tambem possui, em al-
guns casos, urn sentido teo-
cratico165, mas geralmente esse
nome e usado em urn sentido
mais profunda. Nao somente Je-
sus e chamado de Filho de Deus
por outras pessoas (1.34,50; 6.69),
mas Ele mesmo se apresenta des-
sa forma166. E em algumas ocasi-
6es Ele fala sobre Si mesmo como
o Filho, sem acrescentar qualquer
outra designa<;ao. Dessa forma Ele
atribui a Si mesmo o poder de re-
alizar milagres (9.35; 11.4), de res-
suscitar mortos, espiritualmente e
fisicamente, trazendo-os a vida
(5.20 ss.), e como os pr6prios ju-
deus entenderam, se faz igual a
Deus (5.18; 10.33 ss.). Ele fala do
Pai e de Si mesmo como o Filho
de uma forma tao intima, que s6
faz sentido se Deus for o Seu Pai
(5.18). Tudo o que ele atribui ao
Pai, atribui tambem a Si mesmo.
165
fa 1.34,50; 11.27; 20.31.
166
fa 5.25; 9.35; 10.36; 11.4.
167
fa 3.16,17,35; 5.20; 17.24.
168
fa 1.18; 3.16; lfa 4.9.
558
0 Pai lhe deu poder sobre toda
carne (17.2), de forma que o desti-
no de todos os homens depende
do relacionamento que possuem
com Ele (Jo 3.17; 6.40). Assim
como o Pai ressuscita e vivifica os
mortos, assim tambem o Filho vi-
vifica aqueles a quem quer (5.21),
executa julgamento sobre todos
(5.27t faz tudo de forma seme-
lhante ao Seu Pai (5.19), e recebeu
do Pai o poder de ter a vida em Si
mesmo (5.26). Ele eo Pai sao urn
(10.30). Ele esta no Pai eo Pai esta
nEle (10.38), e ver o Pai e ver o
Filho (14.9). De fato, o Pai e maior
que ele porque o Pai o enviou,
como Jesus repetidamente decla-
ra (14.28; 5.24,30,37). Mas isso nao
anula o fato de que Ele estava na
gloria de Deus antes da encarna-
<;ao e retornara para ela (17.5). Sua
Filia<;ao nao esta baseada em sua
missao, mas Sua missao esta ba-
seada em sua filia<;ao167. Portanto
ele eo Filho, o Filho unigenito168,
o primogenito do Pai (1.14), o
Verbo que no come<;o estava com
Deus e que era Deus (1.1), o Sal-
vador do mundo (4.42), que Tome
confessou como seu Senhor e seu
Deus (20.28).
CAPITULO
11®
A NATUREZA DIVINA E A
NATUREZA HUMANA DE CRISTO
0
testemunho que, segun-
do a Escritura, Cristo deu
de si mesmo e desenvol-
vido e confirmado pela prega<;ao
dos ap6stolos. A confissao de que
urn homem, chamado Jesus, e 0
Cristo, o Unigenito do Pai, esta
em urn conflito tao direto com
nossa experiencia e com nosso
pensamento e em especial com
todas as inclina<;6es de nosso co-
ra<;:ao, que ninguem pode comple-
tamente e com toda a sua alma
crer nisso sem a atividade persu-
asiva do Espirito Santo. Pela na-
tureza tudo esta em inimizade
com essa confissao, pois essa nao
e uma confissao natural para o
homem. Ninguem pode confessar
que Jesus Cristo eo Senhor, a nao
ser atraves do Espirito Santo, e
ninguem que fala pelo Espirito de
Deus pode dizer: "Anatema, Je-
339
sus!", mas deve reconhece-lo
como seu Salvador e Rei (1Co
12.3).
Portanto, quando Cristo apa-
rece na terra e se apresenta como
o Filho de Deus, ele nao permite
que esse ensino se perca, mas tern
o cuidado, e continua tendo o cui-
dado, de fazer com que esse ensi-
no entre no mundo e seja crido
pela Igreja. Ele chamou Seus ap6s-
tolos e os instruiu, e fez com que
eles se tornassem testemunhas de
Suas palavras e de Seus atos, de
Sua morte e de Sua ressurrei<;ao.
Ele lhes deu o Espirito Santo, que
OS levou pessoalmente aconfissao
de que Ele era o Cristo, o Filho do
Deus vivo (Mt 16.16), e que mais
tarde, desde o dia de Pentecostes,
transformou-os em ministros e
pregadores de tudo o que seus
olhos viram e suas maos tocaram
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
com rela<;ao ao Verbo da vida (1Jo
1.1). Os ap6stolos nao eram as re-
ais testemunhas. 0 Espirito da
verdade, que procede do Pai, e a
originat infalfvel e poderosa tes-
temunha de Cristo, e os ap6sto-
los sao testemunhas nEle e atra-
ves dEle (Jo 15.26; At 5.32). E eo
mesmo Espfrito da verdade que,
atraves dos tempos, traz a Igreja
a essa confissao e conserva-a nela:
"Senhor, para quem iremos? Tu
tens as palavras da vida eterna; e
n6s temos crido e conhecido que
tu es o Santo de Deus" (Jo 6.68,69).
Quando os quatro evange-
listas em ordem regular registram
os eventos da vida de Jesus, eles
geralmente se referem a Ele sim-
plesmente pelo nome de Jesus,
sem qualquer qualifica<;ao ou
adendo particular. Eles nos dizem
que Jesus nasceu em Belem, que
Jesus foi levado ao deserto, que
Jesus viu a multidao e subiu ao
monte, e assim por diante. Jesus,
a pessoa hist6rica que viveu e
morreu na Palestina, eo objeto da
cronica dos evangelistas. E da
mesma forma n6s encontramos al-
gumas vezes nas cartas dos ap6s-
tolos, Jesus sendo designado sim-
plesmente pelo Seu nome hist6-
rico. Paulo diz, por exemplo, que
ningw§m pode dizer que Jesus e 0
Senhor, a nao ser pelo Espfrito
Santo (1Co 12.3). Joao da testemu-
nho de que aquele que ere que Je-
sus e o Cristo e nascido de Deus
(1Jo 1.5; compare 2.22 com 4.20).
340
E no livro de Apocalipse n6s le-
mos sobre a fe em Jesus eo teste-
munho de Jesus.
0 uso desse nome sem qua-
lifica<;ao nas cartas dos ap6stolos
e raro. Usualmente o nome e cita-
do em conexao com o Senhor,
Cristo, o Filho de Deus, e desig-
na<;6es semelhantes, e o nome
completo citado com mais fre-
qi.iencia e Jesus Cristo nosso Senhor.
Mas, independente do fato do
nome de Jesus ser citado sozinho
ou ligado a outros nomes, a sua
conexao com a pessoa hist6rica
que nasceu em Belem e morreu na
cruz esta sempre presente.
Todo o Novo Testamento,
tanto as cartas dos ap6stolos
quanto os Evangelhos, repousa
sobre o fundamento de fatos his-
t6ricos. A figura de Cristo nao e
uma ideia nem urn ideal criado
pela mente humana, como muitos
pensavam no passado, e como al-
guns em nosso tempo ainda pen-
sam, mas uma figura real que se
manifestou em urn perfodo espe-
cffico e em uma pessoa especffi-
ca, urn homem chamado Jesus.
De fato, OS varios eventos da
vida de Jesus formam o pano de
£undo das cartas. Essas cartas tern
urn prop6sito diferente dos Evan-
gelhos. Elas nao sao uma cronica
da hist6ria da vida de Jesus, mas
urn registro da importancia que
essa vida tern para a reden<;ao do
homem. Contudo todos os ap6s-
tolos estao familiarizados com a
A NATUREZA DIVINA EANATUREZAHUMANA DE CRISTO
vida de Jesus, conhecem muito
bern Suas palavras e atos, e nos
mostram que esse Jesus e o Cris-
to, exaltado por Deus aSua mao
direita, a fim de conceder o arre-
pendimento e a remissao de pe-
cados (At 2.36; 5.31).
Portanto, e comurn as cartas
dos ap6stolos mencionarem even-
tos da vida de Jesus. Eles o pin-
tam diante dos olhos de seus ou-
vintes e leitores (Gl3.1). Eles dao
enfase ao fato de que Joao Batista
foi Seu arauto e precursor (At
13.25; 19.4), que Ele procede da
familia de Jucla e do tronco de
Davi (Rm 1.3; Ap 5.5; 22.16), que
Ele nasceu de uma mulher (Gl4.4),
foi circuncidado ao oitavo dia (Rm
15.8), que Ele veio de Nazare (At
2.22; 3.6), e que ele tinha irmaos
(1 Co 9.5; Gll.19). Eles nos dizem
que Ele era perfeitamente santo e
sem pecado169
, que Ele se ofere-
ceu para ser nosso exemplo (1Co
11.1; 1Pe 2.21), e que Ele falou
palavras que tern autoridade para
n6s (At 20.35; 1Co 7.10-12). Mas e
especialmente Sua morte que e
importante para n6s. A cruz esta
no ponto central da prega<;ao
apost6lica. Traido por urn dos
doze ap6stolos que Ele tinha es-
colhido (1Co 11.23; 1Co 15.5), e
nao reconhecido pelos principes
169
2Co 5.21; Hb 7.26; 1Pe 1.11; 2.22; 1Jo 3.5.
170
G/3.13; C/2.14.
171
Fp 2.6; Hb 5.7,8; 12.2; 13.12.
172
Rm 3.25; 5.9; C/1.20.
deste mundo como o Senhor da
gloria (lCo 2.8)1 Ele foi entregue
a morte pelos judeus (At 4.10;
5.30; 1Ts 2.15), e morreu sobre o
maldito madeira da cruz170. Mas
embora tenha sofrido muito no
Getsemani e no G6lgota171
, pelo
derramamento de Seu sangue Ele
alcan<;ou a reconcilia<;ao e a justi-
<;a eterna172
• E portanto Deus o ele-
vou, exaltou-o aSua mao direita,
e fez dEle Senhor e Cristo, Princi-
pe e Salvador para todas as na-
<;6es173.
*****
Esses poucos dados sao su-
ficientes para colocar em eviden-
cia que os ap6stolos nao nega-
vam, nao ignoravam e nao negli-
genciavam os fatos do Cristianis-
mo, pelo contrario, eles honraram
plenamente esses fatos e apresen-
taram seu sentido espiritual. Nao
e encontrado nos ap6stolos urn
tra<;o sequer de qualquer tipo de
separa<;ao ou conflito entre o
evento redentivo e a palavra
redentiva, no entanto, muitos ho-
mens do passado tentaram defen-
der a existencia desse conflito. 0
evento redentivo e a realiza<;ao da
palavra redentiva; no evento
redentivo a palavra redentiva as-
173
At 2.32,33,36; 5.30,31; Rm 8.34; 1Co 15.20; Fp 2.9.
541
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sume sua real e verdadeira forma,
bern como sua ilumina<;ao e inter-
preta<;ao.
Se ainda permanecer algu-
ma duvida, ela sera totalmente
eliminada pela batalha que os
ap6stolos, ja em seus dias, tive-
ram que travar. Nao foi somente
no segundo, terceiro e quarto se-
culos, mas tambem no periodo
apost6lico certos homens surgi-
ram que consideravam os fatos do
Cristianismo como sendo de pou-
ca ou de transit6ria importancia,
e ate mesmo ignoravam esses fa-
tos, afirmando que a ideia e a coi-
sa principal, ou, pelo menos, e
suficiente. Que diferen<;a faz, eles
perguntavam, se Cristo ressusci-
tou com corpo fisico ou nao? Se
Ele vive, mesmo que seja somen-
te em espirito, nossa salva<;ao esta
suficientemente assegurada! Mas
o ap6stolo Paulo pensa de forma
muito diferente sobre isso e, em
1Corintios 15, apresenta a realida-
de e a importancia da ressurrei-
<;ao do modo mais claro possivel.
Ele prega Cristo segundo as Escri-
turas, o Cristo que, de acordo com
o conselho do Pai, morreu, foi se-
pultado, e ressuscitou, que depois
de Sua ressurrei<;ao foi visto por
muitos discipulos, e cuja ressur-
rei<;ao e 0 fundamento e a garan-
tia da salva<;ao. E, na medida do
possivel, Joao coloca ainda mais
174
Jo 20.31; lfo 2.22; 4.15; 5.5.
175
Mt 1.1,18; 16.20; Me 1.1; Jo 1.17; 17.3.
342
enfase sobre esse fato ao declarar
o que viu com seus olhos e apal-
pou com suas maos com respeito
ao Verbo da vida (1Jo 1.1-3). 0
principia do anticristo e que ele
nega a encarna<;ao do Verbo; e a
confissao crista, ao contrario, con-
siste na cren<;a de que o Verbo se
fez carne, que o Filho de Deus
veio por meio de agua e sangue
(Jo 1.14; 1Jo 3.2,3; 5.6). Toda a pre-
ga<;ao apost6lica nas cartas e nos
Evangelhos, portanto, todo o
Novo Testamento prega que Jesus,
nascido de Maria e crucificado, e
o Cristo, o Filho de Deus174
•
Agora merece aten<;ao o fato
de que, em conexao com o con-
teudo e o prop6sito da prega<;ao
apost6lica, o uso do nome Jesus
sem qualquer qualifica<;ao1 e raro
nas cartas. Usualmente os ap6sto-
los falam de Jesus Cristo ou de
Cristo Jesus, ou ate mesmo o nos-
so Senhor Jesus Cristo. Ate mes-
mo os evangelistas, que em sua
cronica usam frequentemente 0
nome Jesus! usam, seja no come<;o
ou em algum ponto importante
de seu Evangelho, o nome com-
pleto Jesus Cristo. 175
• Eles fazem
isso para indicar quem e a pessoa
sobre a qual eles escrevem em
seu Evangelho. Em Atos e nas car-
tas esse uso se torna uma pratica
regular. Os ap6stolos falam de
urn ser humano cujo nome era Je-
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
sus, mas, ao acrescentar o termo
Cristo ou Senhor eles expressam
sua ideia sobre quem esse homem
e. Eles foram pregadores do
Evangelho de Jesus Cristo, Filho
de Deus que apareceu sobre a ter-
ra.
Dessa forma eles gradual-
mente, durante seu convfvio com
Ele, aprenderam a conhece-lo. E
especialmente depois desse im-
portante momento em Cesareia de
Filipe uma luz brilhou sobre eles
a respeito da pessoa de Jesus, e
todos eles, com Pedro, confessa-
ram que Ele eo Cristo, o Filho do
Deus vivo (Mt 16.16). Dessa for-
ma Jesus se revelou a eles, mais
ou menos oculto sob o nome Fi-
lho do homem, mas de forma cada
vez mais clara na medida em que
o fim de Sua vida se aproximava.
Em Sua ora<;ao sacerdotal Ele se
apresenta como Jesus Cristo, en-
viado pelo Pai (Jo 17.3). Precisa-
mente porque Ele se dispos a ser
o Cristo, o Filho de Deus, Ele foi
condenado pelo Sinedrio por
blasfemia e condenado a morte
(Mt 26.63). E a epfgrafe sobre Sua
cruz era: Jesus de Nazare, o Rei
dos Judeus (Mt 27.37; Jo 19.19).
Everdade que os disdpulos
nao conseguiam conciliar essas
reivindica<;6es messianicas de Je-
sus com a aproxima<;ao de Sua
paixao e morte. Mas atraves da
ressurrei<;ao e depois dela, eles
aprenderam a conhecer tambem a
necessidade e o significado da
343
cruz. Depois da ressurrei<;ao eles
aprenderam que Deus tinha feito
esse Jesus, que os judeus destruf-
ram, Senhor e Cristo, e que o ti-
nha exaltado como Principe e Sal-
vador (At 2.36; 5.31). Isso nao quer
dizer que antes de Sua ressurrei-
<;ao Cristo nao fosse Senhor e Cris-
to, e que somente depois da res-
surrei<;ao Ele se tornou Senhor e
Cristo, pois Cristo tinha se apre-
sentado como o Cristo antes dis-
so, e tinha sido reconhecido e con-
fessado como tal pelos Seus dis-
dpulos (Mt 16.16). Mas antes da
ressurrei<;ao Ele era o Messias na
forma de servo, em uma forma
que Sua dignidade como Filho de
Deus estava escondida aos olhos
dos homens. Na ressurrei<;ao e de-
pois dela, Ele colocou de lado a
forma de servo. Ele reassumiu a
gloria que tinha com o Pai antes
que o mundo existisse (Jo 17.5), e
foi designado Filho de Deus em
poder, segundo o Espfrito de san-
tidade pela ressurrei<;ao dos mor-
tos (Rm 1.4).
Epor isso que Paulo pode
dizer, depois que Deus se agra-
dou em revelar Seu Filho a ele,
que nao conhecia Cristo segundo
a carne (2Co 5.16). Antes de seu
arrependimento ele conhecia Cris-
to somente segundo a carne, jul-
gava-o somente por Sua aparen-
cia externa, segundo a forma de
servo de acordo com a qual Ele
andava sobre a terra. Nessa epo-
ca ele nao podia crer que esse Je-
_______Fu_n_d_amentos Teol6gicos _da Fe Crista
sus, que nao possuia qualquer
gloria, que foi pregado numa cruz
para que morresse, fosse o Cris-
to. Mas atraves de sua conversao
tudo isso mudou. Agora ele co-
nhece e julga Cristo nao de acor-
do com a aparencia, nao segundo
formas servis, temporais e exter-
nas, mas segundo o Espirito que
estava em Cristo, de acordo com
o que Ele era realmente interna-
mente, e na ressurrei<;ao externa-
mente provou ser.
E o mesmo pode ser dito
sobre todos os ap6stolos. E ver-
dade que antes da paixao e morte
de Cristo eles tinham sido trazi-
dos a confissao de Sua realidade
messianica, mas em sua mente
essa realidade continuava sendo
irreconciliavel com Sua paixao e
morte. S6 a ressurrei<;ao reconci-
liou esses dois lados da questao.
Ele era agora para eles o mesmo
Cristo que desceu as partes infe-
riores da terra e ascendeu acima
de todos OS ceus, para que pudes-
se cumprir todas as coisas (Ef 4.9).
Ao falar sobre Cristo os ap6stolos
pensavam naquele Cristo que fora
humilhado e exaltado, no Cristo
crucificado e glorificado. Eles
conectaram seu Evangelho nao
somente com o Jesus hist6rico,
que viveu alguns anos na Palesti-
na e morreu ali, mas tambem ao
Jesus que e exaltado e esta assen-
tado a direita de Deus em poder.
176
Mt 8.2,6,21; 15.22; 17.15.
344
Eles estao no ponto em que se
encontra a linha horizontal, que
esta vinculada ao passado, a his-·
t6ria, e a linha vertical, que faz a
conexao entre eles e o Senhor que
vive no ceu. Portanto, o Cristia-
nismo e uma religiao hist6rica,
mas ao mesmo tempo euma reli-
giao que vive na eternidade. Os
disdpulos de Cristo nao sao, se-
gundo seu nome hist6rico, jesui-
tas, mas, segundo o nome de Seu
oficio, cristaos.
* * * * *
Essa posi<;ao especifica que
os ap6stolos assumiram em sua
prega<;ao depois da ressurrei<;ao
ea razao pela qual eles nao se re-
feriam a Jesus somente pelo Seu
nome hist6rico, mas virtualmen-
te falavam dele como Jesus Cris-
to, Cristo Jesus, ou Senhor Jesus
Cristo, e outras formas semelhan-
tes. 0 nome de Cristo logo per-
deu seu significado oficial no cir-
culo dos discipulos e eles come-
<;aram a usar urn outro nome. A
convic<;ao de que Jesus era o
Cristo era tao forte que Ele podia
simplesmente ser chamado
Cristo, mesmo sem o artigo que o
precede. Isso ocorre ate mesmo
nos Evangelhos176
• Mas com os
ap6stolos, especialmente corrl
Paulo, essa se torna a regra. Os
dois nomes, Jesus Cristo, chegam
A NATUREZA 0IVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
---------------------
a ser invertidos, especialmente
por Paulo, para que a realidade
messianica de Cristo ficasse ain-
da mais acentuada, eo nome pas-
sou a ser Cristo Jesus. Essa desig-
nac;ao, Jesus Cristo ou Cristo Je-
sus, era o nome mais destacado
nas igrejas apostolicas. 0 uso e
significado do nome Messias no
Velho Testamento e transferido
para o nome Cristo no Novo Tes-
tamento. 0 Nome do Senhor, ou
somente o Nome era, no Velho
Testamento, a denominac;:ao dada
a gloria revelada de Deus. Nos
dias do Novo Testamento essa
gloria foi revelada em Cristo, e
por isso agora a forc;a da Igreja
esta em Seu nome. Nesse nome os
apostolos batizam (At 2.38), falam
e ensinam (At 4.18), curam o coxo
(At 3.6), e perdoam pecados (At
10.43). Ha muita resistencia e
muitos ataques a esse nome (At
26.9). A confissao desse nome traz
sofrimento (At 5.41). Esse nome e
temido (At 22.8) e engrandecido
(At 19.17). Nesse sentido o nome
de Jesus Cristo e urn tipo de com-
pendio da confissao da Igreja, e a
forc;a de sua fe e a ancora de sua
esperanc;a. Assim como Israel nos
tempos do Velho Testamento glo-
rificava o nome de Jeova, assim a
Igreja do Novo Testamento en-
contra sua forc;a no nome de Jesus
Cristo. Nesse nome o nome de
177
Mt 14.28,30; 26.22; 11.3; 21.15-17,21.
Jeova encontra sua plena revela-
c;ao.
0 nome Senhor, que no
Novo Testamento e constante-
mente conectado ao nome Jesus
Cristo, aponta na mesma direc;ao.
Nos Evangelhos Jesus e chamado
de Senhor varias vezes e por vari-
as pessoas alem de Seus disdpu-
los, que vao ate Ele pedindo so-
corro. Em tais casos o nome nao
carrega sobre si mais forc;a do que
Rabi ou Mestre. Mas esse nome
tambem e mencionado varias ve-
zes pelos disdpulos177
. Nos Evan-
gelhos de Joao e de Lucas o nome
Jesus Cristo efrequentemente tro-
cado pelo nome Senhor178
• E, final-
mente, o proprio Jesus faz uso
desse nome e se apresenta como
Senhor179
•
Na boca do proprio Jesus e
na de Seus disdpulos esse nome
de Senhor recebe urn significado
mais profundo do que aquele con-
tido no nome Rabi ou Mestre. Nao
podemos dizer exatamente o que
todos aqueles que vao aprocura
de Jesus para lhe pedir socorro
tern em mente quando pronunci-
am esse nome, mas Jesus era em
Sua propria consciencia o Mestre,
o Senhor preeminente, e Ele atri-
bui uma autoridade a Si mesmo
que vai muito alem da autorida-
de dos escribas. Eevidente que
em passagens como Mateus 23.1-
178
Lc 1.43; 2.11,38; 7.13,31; 10.1; 11.39; 17.6; Jo 4.1; 6.23; 11.2; 20.2,13,18,25,28.
179
Mt 7.21;12.8; 21.3; 22.43-45; Me 5.19; Jo 13.14.
545
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
11 e Marcos 1.22,27 Jesus se colo-
ca como unico Mestre, acima de
todos OS outros. Mas isso e desta-
cado e colocado acima de qual-
quer duvida quando Ele afirma
ser o Senhor do sabado (MT 12.8)
eo Filho de Davie Senhor de Davi
(Mt 22.43-45). A implica<;ao des-
sas afirma<;oes e que Ele e o Mes-
sias, que esta assentado adireita
do Pai, compartilha de Seu poder
e julga os vivos e os mortos180
.
Esse profunda significado
que esta ligado ao nome Senhor e,
em parte, devido ao fato de que
os nomes de Jeova e Adonai do
Velho Testamento foram traduzi-
dos pelo termo grego Kurios, que
significa Senhor, isto e, pela mes-
ma palavra que era aplicada a
Cristo. Como Cristo vai se reve-
lando cada vez mais e os disdpu-
los vao entendendo cada vez me-
lhor a revela<;ao de Deus em Cris-
to, o nome Senhor ganhou urn sig-
nificado cada vez mais rico. Tex-
tos do Velho Testamento nos
quais Deus falou sao aplicados a
Cristo no Novo Testamento sem
hesita<;ao. Dessa forma em Mar-
cos 1.3 os texto de Isaias: "Voz do
que clama no deserto: Preparai o
caminho do Senhor, endireitai as
suas veredas", e aplicado a pre-
para<;ao feita por Joao Batista. Em
Cristo o proprio Deus, o Senhor,
veio ao Seu povo. E os disdpu-
los, ao confessarem Jesus como
180
Mt 21.4,5; 13.35; 24.42 ss.; 25.34.
346
Senhor, expressam cada vez mais
e mais claramente que Deus se
revelou e se deu a eles na pessoa
de Cristo. Tome atinge o climax
dessa confissao durante a jorna-
da de Jesus na terra quando se
joga aos pes do Cristo ressuscita-
do e lhe diz: "Senhor meu e Deus
meu!" (Jo 20.28).
Depois da ressurrei<;ao o
nome Senhor se torna o nome
comumente usado para designar
Jesus no drculo de Seus discfpu-
los. N6s encontramos esse nome
sendo continuamente usado em
Atos e nas cartas, especialmente
nas cartas de Paulo. Algumas ve-
zes o nome Senhor e usado sozi-
nho, mas usualmente ele e com-
binado com outras designa<;6es:
0 Senhor Jesus, ou o Senhor Jesus
Cristo, ou nosso Senhor Jesus
Cristo, ou nosso Senhor e Salva-
dor Jesus Cristo, e assim por di-
ante. Ao usar esse nome os cren-
tes expressam o fato de que Aque-
le que foi humilhado ao ponto de
morrer na cruz, foi, em razao de
Sua perfeita obedH~ncia, elevado
a Senhor e Principe (At 2.35; 5.31),
esta assentado a mao direita de
Deus (At 2.34), e Senhor sobre to-
dos (At 10.36), primeiro sobre a
Igreja que Ele comprou com Seu
sangue (At 20.28), e tambem de
toda a cria<;ao, que Ele urn dia jul-
gara como Juiz de vivos e mortos
(At 10.42; 17.31).
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
Portanto, todo aquele que
invocar o nome de Jesus como
Cristo e Senhor sera salvo (At 2.21;
1Co 1.2). Ser cristao e confessar
com a boca e crer com o cora<;ao
que Deus o ressuscitou dos mor-
tos181. 0 conteudo da prega<;ao e:
Cristo Jesus, o Senhor (2Co 4.5). A
essencia do Cristianismo esta tao
concentrada nessa confissao que
nos escritos de Paulo e usado o
nome de Senhor como urn nome
aplicado a Cristo em distin<;ao ao
Pai e ao Espirito. Como cristaos
n6s temos urn Deus, o Pai, de
quem sao todas as coisas, e urn
Senhor Jesus Cristo, por quem sao
todas as coisas, e urn Espirito, que
distribui a cada urn conforme a
Sua vontade (1Co 8.6; 12.11). As-
sim como o nome de Deus nos
escritos de Paulo se torna o nome
domestico do Pai, da mesma for-
ma o nome Senhor se torna o
nome domestico de Cristo.
A ben<;ao apost6lica diz que
a Igreja deve ter a Gra<;a do Senhor
Jesus Cristo, o amor de Deus, e a
comunhao do Espirito Santo (2Co
13.13). 0 unico Deus se interpre-
ta em tres pessoas: o Pai, o Filho
e o Espirito (Mt 28.19).
Se Cristo, de acordo com o
181
Rm 10.9; 1Co 12.3; Fp 2.11.
182
Mt 4.2; fo 11.35; 19.28.
183
Gl 4.4; Fp 2.8; Hb 5.8; 10.7,9.
547
testemunho dos ap6stolos, ocupa
urn lugar tao elevado, nao e de se
maravilhar que todos os tipos de
atributos e obras divinas sejam
atribuidos a Ele, e que ate mes-
mo a natureza divina seja reco-
nhecida nEle.
A figura que n6s encontra-
mos na pessoa de Cristo atraves
das paginas das Escrituras e uma
figura unica. Por urn lado Ele e
homem. Ele se tornou carne e veio
em carne (Jo 1.14; 1Jo 4.2,3). Ele
nasceu em semelhan<;a de carne
pecaminosa (Rm 8.3). Ele descen-
de dos patriarcas, segundo a car-
ne (Rm 9.5), da descendencia de
Abraao (Gl3.16), da linhagem de
Juda (Hb 7.14), e da gera<;ao de
Davi (Rm 1.3). Ele nasceu de uma
mulher (Gl 4.4), compartilha de
nossa carne e sangue (Hb 2.14),
possui urn espirito (Mt 27.50),
uma alma (Mt 26.38), e urn corpo
(1Pe 2.24), e era humano no senti-
do mais plena. Como uma crian-
<;a Ele cresceu, desenvolveu urn
forte espirito, e aumentou em es-
tatura, sabedoria e Gra<;a, diante
de Deus e dos homens (Lc 2.52).
Ele teve fome e sede, tristeza e
alegria, foi movido por emo<;i5es
e tornado de raiva182
. Ele se sub-
meteu alei e foi obediente ate a
morte183
• Ele sofreu, morreu na
cruz e foi sepultado em urn jar-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
dim. Ele nao tinha aparencia nem
formosura; olhamo-lo, mas ne-
nhuma beleza havia que nos agra-
dasse. Era desprezado eo mais re-
jeitado entre todos os homens;
homem de dores e que sabe o que
e padecer (Is 53.2,3).
Contudo esse mesmo ho-
mem foi distinto de todos os ho-
mens e elevou-se acima deles. Ele
nao foi concebido pelo Espirito
somente no que se refere a Sua
natureza humana; Ele nao apenas
foi isento, em toda a Sua vida, do
pecado; e Ele, nao somente foi res-
suscitado e elevado ao ceu. A
mesma pessoa, o mesmo Eu que
se humilhou tao profundamente,
que assumiu a forma de servo e
foi obediente ate a morte na cruz,
ja existia em uma forma diferente
de existencia, antes mesmo de Sua
encarna<;ao e humilha<;ao. Ele
existia na forma de Deus, e ape-
sar disso nao teve por usurpa<;ao
o ser igual a Deus (Fp 2.6). Em Sua
ressurrei<;ao e ascensao Ele sim-
plesmente recebeu novamente a
gloria que tinha com o Pai antes
que o mundo existisse (Jo 17.5).
Ele e eterno como o proprio Deus,
e estava com Ele no come<;o (Jo
1.1; 1Jo 1.1). Ele e o Alfa e o
Omega, o primeiro eo ultimo, o
prindpio eo fim (Ap 22.13). Ele e
onipresente, apesar de ter anda-
184
Mt 28.20; Ef1.23; 4.10.
185
At 1.24; 7.59; 16.13; Rm10.13.
186
Mt 28.18; 1Co 15.27; Ef1.22; Ap 1.4; 19.16.
187
Is 43.3,11; 45.15; Jr 14.8; Os 13.4.
548
do sobre a face da terra (Jo 1.18;
3.13); e depois de Sua glorifica<;ao
Ele permanece com a Igreja e cum-
pre tudo em todos184
; Ele e imu-
tavel e fiel e e o mesmo ontem,
hoje e o sera para sempre (Hb
13.8); Ele e onisciente e ouve nos-
sas ora<;5es185
. Ele e aquele que
conhece o cora<;ao do homem (At
1.24); Ele e onipotente, e todas as
coisas estao sujeitas a Ele e todo
poder lhe foi dado no ceu186
e na
terra, e Ele e 0 chefe de todos OS
re1s.
Na medida em que possui
os atributos divinos Cristo parti-
cipa da realiza<;ao das obras divi-
nas. Juntamente como Pai e com
o Espirito Ele e o Criador de to-
das as coisas (Jo 1.3; Cl 1.5). Ele e
o Unigenito, o come<;o, eo Cabe-
<;a de todas as criaturas (Cl 1.15;
Ap 3.14). Ele sustenta todas as
coisas pela palavra de Seu poder,
de forma que elas nao sao apenas
dEle, mas tambem nEle e atraves
dEle (Hb 1.3; Cll.17). E, acima de
tudo, Ele preserva, reconcilia e
restaura todas as coisas e as reu-
ne abaixo de Si mesmo, sendo-
lhes por Cabe<;a. Como tal Ele re-
cebe especialmente o nome de
Salvador do mundo. No Velho
Testamento o nome de Salvador
ou Redentor era dado a Deus187
,
mas no Novo Testamento tanto o
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
Filho quanto o Pai recebem esse
nome. Em alguns lugares esse
nome e dado a Deus188
, e em al-
guns lugares ele e atribufdo a
Cristo189
. Em alguns casos nao fica
muito claro se esse nome se refe-
re a Deus ou a Cristo (Tt 2.13; 2Pe
1.1), mas e em Cristo e atraves
dEle que toda a obra salvadora e
executada.
Tudo isso aponta para uma
unidade entre o Pai eo Filho, en-
tre Deus e Cristo, tal como existe
entre o Criador e Sua criatura.
Embora Cristo tenha assumido
uma natureza humana finita eli-
mitada e que comec;ou a existir no
tempo como pessoa, Cristo nao e
apresentado na Escritura como
estando do lado da criatura, mas
do lado de Deus. Ele compartilha
das virtudes e das obras de Deus;
Ele possui a mesma natureza de
Deus. Esse ultimo ponto e escla-
recido especialmente atraves de
tres nomes que sao dados a Cris-
to: Imagem de Deus, Verbo e Fi-
lho de Deus.
Cristo e a Imagem de Deus,
o brilho da gloria de Deus e a ex-
pressao exata de Sua pessoa190
•
Em Cristo o Deus invisfvel se tor-
na visivel. Quem ve Cristo ve o
Pai (Jo 14.9). Quem quiser saber
quem e o que Deus e, deve con-
templar Cristo. Como Cristo e,
188
1Tm 1.11; 2.3; Tt 1.3; 2.10.
assim e o Pai. Cristo e o Verbo de
Deus (Jo 1.1; Ap 19.13). Em Cristo
o Pai expressa perfeitamente: Sua
sabedoria, Sua vontade, Suas ex-
celencias, enfim, todo o Seu Ser.
0 Pai concedeu a Cristo ter vida
em Si mesmo (Jo 5.26). Quem qui-
ser conhecer o pensamento de
Deus, o conselho de Deus e a von-
tade de Deus para o homem e
para o mundo deve ouvir o que
Cristo tern a dizer (Mt 17.5). Final-
mente, Cristo e o Filho de Deus, o
Filho, como diz Joao, geralmente
sem qualquer qualificac;ao (1Jo
2.22; Hb 1.1,8), o Unigenito, o Fi-
lho amado, em quem o Pai se
compraz191
. Quem quer que seja
urn filho de Deus, deve aceita-lo,
pois todo aquele que o aceita re-
cebe o poder de ser feito filho de
Deus (Jo 1.12).
Tome confessou-o como Se-
nhor e Deus pouco tempo antes
de Sua ascensao (Jo 20.28). Joao da
testemunho de que Cristo era o
Verbo que estava com Deus no
principia e que era Deus. Paulo
declara que Cristo descende dos
patriarcas, segundo a carne, mas
segundo Sua essencia Ele e Deus,
o qual e sobre todos, Deus bendi-
to para sempre (Rm 9.5). A carta
aos Hebreus afirma que ele e exal-
tado acima dos anjos e e pelo pro-
prio Deus chamado de Deus (Hb
189
2Tm 1.10; Tt 1.4; 2.13; 3.6; 2Pe 1.11; 2.20; 3.18.
190
2Co 4.4; C/1.15; Hb 1.3.
191
Mt 3.17; 17.5; Jo 1.14; Rm 8.32; Ef1.6; C/1..13.
349
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
1.8,9). Paulo fala de Jesus como
nosso Deus e Salvador Jesus Cris-
to (2Pe 1.1). No mandata batismal
de Jesus como registrado em
Mateus 28.19 e nas ben<;aos dos
ap6stolos192
, Cristo esti em pe de
igualdade com o Pai e com o Es-
pirito. 0 nome e a essencia, os atri-
butos e as obras de Deus sao re-
conhecidos no Filho (e no Espiri-
to) tanto quanto no Pai.
Jesus, o Cristo, o Filho do
Deus vivo - sobre essa pedra a
Igreja esta edificada. Desde o
principia o completo significado
de Cristo estava claro para os
crentes. Ele era confessado por
todos eles como o Senhor que por
Seu ensino e por Sua vida con-
quistou a salva<;ao, o perdao de
pecados e a imortalidade, que foi
elevado amao direita do Pai e que
logo retornara como Juiz para jul-
gar os vivos e os mortos. Os mes-
mos nomes que lhe sao dados nas
cartas dos ap6stolos, sao encon-
trados tambem nos mais antigos
escritos cristaos. Por esses mes-
mos nomes Ele e identificado nas
antigas ora<;6es e canticos. Todos
estavam convencidos de que ha
urn Deus, de que eles sao Seus fi-
lhos, urn Senhor, que lhes assegu-
rou o amor do Pai e urn Espirito,
que faz com que todos eles andem
em novidade de vida. 0 manda-
ta batismal de Mateus 28.19, que
se tornou comum no final dope-
192
2Co 13.13; 1Pe 1.2; Ap 1.4-6.
550
riodo apost6lico, e a evidencia
dessa unanimidade de convio;ao.
Mas no momenta em que os
cristaos come<;am a refletir sobre
o conteudo dessa confissao, todos
os tipos de diferen<;a de opiniao
come<;am a surgir. Os membros
da igreja que foram previamente
instruidos no judaismo ou no pa-
ganismo e que passaram a maior
parte de suas vidas entre os
indoutos do pais nao estavam em
uma posi<;ao adequada para rece-
ber o ensino apost6lico. Eles vi-
viam em uma sociedade na qual
todos os tipos de ideias e corren-
tes de pensamento estavam
entrela<;adas, e por isso eles esta-
vam constantemente sujeitos a
tenta<;ao e ao erro. Ate mesmo
durante a vida dos ap6stolos va-
rios mestres hereticos for<;aram
caminho rumo aIgreja e tentaram
abalar sua cren<;a. Em Colossos,
por exemplo, havia membros que
faziam injusti<;a apessoa e obra
de Cristo e transformavam o
Evangelho em lei (Cl 2.3 ss., 16
ss.). Em Corinto havia certos
libertinos que, abusando da li-
berdade crista, queriam viver sem
qualquer tipo de regra (1Co 6.12;
8.1). 0 ap6stolo Joao, em sua pri-
meira carta, argumenta contra
certos falsos profetas que nega-
vam a vinda de Cristo em carne e
assim faziam violencia contra a
genuinidade de Sua natureza hu-
A NATUREZA DrvrNA E A NATUREZA HuMANA DE CmsTo
mana (1Jo 2.18 ss.; 4.1 ss.; 5.5 ss.).
0 mesmo aconteceu no pe-
rfodo p6s-apost6lico. Os erros e
as heresias cresceram em varieda-
de, forc;a, e distribuic;ao a partir do
segundo seculo. Havia aqueles
que criam na real natureza huma-
na de Cristo, em Seu nascimento
sobrenatural, em Sua ressurreic;ao
e ascensao, mas nada reconheci-
am de divino nEle, a nao ser uma
dose extremamente grande de
dons e poderes do Espfrito, que
teriam sido dados a Ele por oca-
siao de Seu batismo para equipa-
lo para o total cumprimento de
Sua missao religiosa e moral. Os
seguidores desse movimento vi-
viam sob a influencia da ideia ju-
daica e defsta sobre o relaciona-
mento entre Deus eo mundo. Eles
simplesmente nao podiam conce-
ber urn relacionamento mais fnti-
mo entre Deus e o homem do que
aquele que consiste de uma dis-
tribuic;ao de dons e habilidades.
Eles criam que Jesus era uma pes-
soa que tinha recebido maravilho-
sos dons espirituais, ,;_::-[ genio
religioso, mas que continuava sen-
do somente urn homem.
Mas outros, de origem paga,
foram atrafdos pela ideia
politefsta. Eles pensavam que
Cristo, de acordo com sua natu-
reza interna, deveria ser apenas
urn dentre muitos, ou talvez ate
fosse o mais elevado de todos os
seres divinos. Contudo, eles nao
conseguiam crer que urn Ser pu-
551
ramente divino pudesse ter assu-
mido uma natureza material e car-
nal. E dessa forma eles sacrifica-
vam a real natureza humana de
Cristo e diziam que Ele viveu so-
bre a terra apenas temporaria e
aparentemente, como aconteceu
com os anjos no Velho Testamen-
to. Essas duas correntes de pen-
samento, esses dois movimentos,
continuam vivos em nossos dias.
Em urn momento a divindade de
Cristo e sacrificada em beneficia
de Sua humanidade; em outro
momento a Sua humanidade que
e sacrificada em beneficia de Sua
divindade. Sempre ha extremos
que sacrificam a ideia em favor do
fato, e o fato em favor da ideia.
Eles nao compreendem a unida-
de e a harmonia dos dois.
* * * * *
Mas a Igreja crista, desde o
prindpio, se firmou em bases di-
ferentes das que foram apresen-
tadas pelos falsos mestres e na
pessoa de Cristo confessou a mais
intima, mais profunda e, portan-
to, a unica comunhao entre Deus
e o homem. Suas representac;oes
no primeiro periodo as vezes se
expressavam de forma urn tanto
desajeitada. Eles tinham que lu-
tar, primeiro para formar uma no-
c;ao clara da realidade, e depois
para dar expressao a essa ideia em
uma linguagem clara. A Igreja
evitou os extremos e aderiu ao en-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
sino dos apostolos com respeito
apessoa de Cristo.
Contudo, quando uma so
pessoa possui a natureza huma-
na e a natureza divina, segue-se
que urn esfon;;o deve ser feito para
que se possa entender como essa
pessoa est<i relacionada ao mes-
mo tempo com Deus e com o
mundo, e quando esse esforc;o foi
feito, uma linha de erro e de here-
sia se definiu tanto para a esquer-
da quanto para a direita.
Em outras palavras, quando
a unidade de Deus - que e a ver-
dade fundamental do Cristianis-
mo - foi entendida de tal forma
que o Ser de Deus foi perfeita-
mente coincidente com a pessoa
do Pai, nao houve mais lugar
para a divindade de Cristo. Cris-
to entao foi empurrado para fora
da divindade e colocado lado a
lado com o homem, pois entre
Criador e criatura nao ha transi-
c;ao gradual. Nesse caso podia-se
dizer, com Ario, que no tempo
Cristo transcendeu todo o mundo,
que Ele foi a primeira de todas as
criaturas, e que Ele era superior a
todas elas em posic;ao e em hon-
ra. Mas Cristo continuaria sendo
uma criatura. Houve urn tempo
em que Ele nao existiu e houve
urn tempo em que Ele, assim
como qualquer outra criatura, foi
trazido aexistencia por Deus.
Na tentativa de manter a
unidade de Deus e ao mesmo
tempo manter a pessoa de Cristo
552
no lugar de honra que lhe e pro-
prio, e facil cair em outro erro, o
erro que passou a ser chamado
pelo nome de seu proponente, a
saber, Sabelio. Enquanto Ario
identificou o Ser de Deus com a
pessoa do Pai, Sabelio sacrificou
todas as tres pessoas da Divinda-
de. De acordo com seu ensino, as
tres pessoas, Pai, Filho e Espirito,
nao sao realidades eternas conti-
das no Ser de Deus, mas sao for-
mas e manifestac;oes nas quais o
unico Ser divino se manifesta su-
cessivamente no curso dos secu-
los, ou seja, no Velho Testamen-
to, no ministerio terreno de Cris-
to e depois do Pentecostes.
Ambas as heresias atravessaram
os seculos e encontraram muitos
adeptos. Os assim chamados teo-
logos de Groningen, por exemplo,
renovaram essencialmente a dou-
trina de Ario, e a Moderna Teolo-
gia anda nos passos de Sabelio.
Enecessaria muita orac;ao e
muita luta para que a Igreja tome
o caminho certo entre todas essas
heresias, principalmente porque
cada uma delas foi modificada e
mesclada com todos os tipos de
variac;oes. Mas sob a lideranc;a de
grandes homens, eminentes por
sua razao, por sua piedade e por
sua forc;a de pensamento, e, por-
tanto, justamente chamados de
pais da igreja, a Igreja continuou
fiel ao ensino dos apostolos. No
Sinodo de Niceia, em 325, a Igreja
confessou sua fe no unico Deus,
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
o Pai, o Todo-Poderoso, Criador
de todas as coisas visiveis e invi-
siveis e no unico Senhor Jesus
Cristo, o Filho de Deus, gerado
pelo Pai como Seu Filho
Unigenito, isto e, gerado, e nao
feito, Deus de Deus, Luz de Luz,
verdadeiro Deus de verdadeiro
Deus, sendo de urna s6 substan-
cia corn o Pai, por quem todas as
coisas no ceu e na terra forarn fei-
tas, e no Espirito Santo.
Por rnais irnportante que
essa confissao de Niceia tenha
sido, ela nao colocou urn ponto
final nas disputas teol6gicas. Pelo
contrario, a confissao de Niceia
deu oportunidade para o
surgirnento de novas questoes e
de diferentes respostas. Apesar
do relacionarnento de Cristo corn
o Ser de Deus e corn o rnundo dos
hornens ter sido deterrninado no
sentido de que ern Sua pessoa Ele
cornpartilha tanto de urn quanto
de outro, e que Ele e ern urna s6
pessoa tanto Deus quanto ho-
rnern, ainda nao tinha sido expli-
cado como e a natureza do relaci-
onarnento entre essas duas natu-
rezas ern urna s6 pessoa. Nares-
posta a essa questao varios carni-
nhos forarn tornados.
Nest6rio concluiu que, se ha
duas naturezas ern Cristo, tern
que haver tarnbern duas pessoas,
dois seres, que possarn ser unidos
ern urn s6 ser por algurn tipo de
vinculo moral, como o que se ob-
tern no casarnento de urn hornern
353
e de urna rnulher. E Eutico, par-
tindo de urna identifica<;ao entre
a pessoa e a natureza, chegou a
conclusao de que, se ern Cristo ha
sornente urna pessoa, entao as
duas naturezas devern estar de tal
forma entrela<;adas que urna s6
natureza divino-hurnana ernergi-
ria dessa uniao. Ern Nest6rio, a
distin<;ao das naturezas foi
rnantida ern detrirnento da unida-
de da pessoa; ern Eutico, a unida-
de da pessoa foi rnantida ern de-
trirnento da dualidade das natu-
rezas.
Depois de urna longa e acir-
rada disputa, contudo, a Igreja
superou esses conflitos. No Con-
cilio de Calcedonia, ern 451, foi
afirrnado que a pessoa unica de
Cristo consistia de duas nature-
zas, que nao podern ser alteradas
nern rnisturadas (contra Eutico),
e nern separadas ou divididas
(contra Nest6rio) e que essas na-
turezas existern urna ao lado da
outra, sendo unidas ern urna s6
pessoa. Corn essa decisao que,
rnais tarde, no Sinodo de Cons-
tantinopla ern 680, foi arnpliada e
cornpletada sobre urn unico pon-
to, urna disputa secular sobre a
pessoa de Cristo chegou ao firn.
Nessas disputas a Igreja preser-
vou a essencia do CristianisrnoI 0
carater absoluto da religiao crista
e sua propria independencia.
*****
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Logicamente essas decisoes
de Niceia e Calcedonia nao sao
infaliveis. Os termos de que a
Igreja e a teologia fazem uso, tais
como pessoa, natureza, unidade
e substancia e outros semelhantes
nao sao encontrados na Escritura,
sao produto da reflexao que o
Cristianismo gradualmente tern
dedicado ao misterio da salva<;ao.
A Igreja foi impelida a essa refle-
xao pelas heresias que surgiam de
todos os lados, tanto dentro da
Igreja quanto fora dela. Todas es-
sas expressoes e afirma<;oes que
sao empregadas na confissao da
Igreja e na linguagem da teologia
nao sao designadas para explicar
o misterio que se propoem a en-
frentar, mas para manter pura e
invioliivel a confissao crista con-
tra todos aqueles que procuram
enfraquece-la ou nega-la. A
encarna<;ao do Verbo nao e urn
problema que n6s devamos resol-
ver1 mas urn fato maravilhoso que
n6s agradecidamente confessa-
mos, exatamente da forma que
Deus no-lo apresenta em Sua Pa-
lavra.
Entendida dessa forma a
confissao que a Igreja estabeleceu
em Niceia e Calcedonia e de gran-
de valor. Tern havido muitos, e
havera muitos outros, que despre-
zam a doutrina das duas nature-
zas e tentam substitui-la por ou-
tras palavras e frases. Que diferen-
<;a faz, dizem eles, se n6s concor-
damos ou nao com essa doutrina?
554
0 que importa e que n6s possuf-
mos a pessoa de Cristo e Ele e
exaltado acima dessa confissao
desajeitada. Mas logo essas pes-
soas come<;am a introduzir pala-
vras e termos para descrever a
pessoa de Cristo que elas aceitam.
Ninguem pode escapar dessa si-
tua<;ao, pois n6s nao podemos
afirmar possuir aquilo que nao
conhecemos. Se n6s cremos que
temos o Cristo, que temos comu-
nhao com Ele, que somos propri-
edade dEle, tal cren<;a deve ser
confessada com a boca e expressa
em palavras, termos, expressoes
e descri<;oes de urn tipo ou outro.
E a hist6ria tern nos mostrado que
os termos usados por aqueles que
depreciam a doutrina das duas
naturezas sao bern mais pobres
em merito e em for<;a, e que, alem
disso, geralmente deixam de fa-
zer justi<;a a encarna<;ao como a
Escritura nos ensina.
Nos tempos modernosr por
exemplo, ha muitos que pensam
na doutrina das duas naturezas
como sendo absolutamente des-
provida de racionalidade er em
sua mente, formulam urn quadro
muito diferente da pessoa de Cris-
to. Eles nao podem negar que ha
algo em Cristo que o diferencia de
todos os outros homens e coloca-
o acima de todos eles. Mas esse
elemento divino que eles reconhe-
cem em Cristo nao e visto como
uma participa<;ao na natureza di-
vina, mas como uma capacita<;ao
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
ou uma for<;a concedida a Cristo
em urn grau particularmente alto.
Eles dizem que ha dois lados em
Cristo1 a saber1 um lado divino e
urn lado humano; ou que Ele
pode ser visto de dois pontos de
vista diferentes; ou que Ele viveu
em dois estados sucessivos, o de
humilha<;ao e o de exalta<;ao; ou
que Ele, apesar de ser humano,
por Sua prega<;ao da Palavra de
Deus e pelo estabelecimento de
Seu reino, foi o extraordinario e
perfeito veiculo da revela<;ao de
Deus e assim Ele obteve para n6s
o favor de Deus. Mas qualquer
leitor imparcial percebera que es-
sas representa<;6es nao sao sim-
plesmente algumas modifica<;6es
na linguagem da Igreja, mas uma
mudan<;a da confissao que a Igre-
ja em todos os tempos tern feito
com base no testemunho dos
ap6stolos.
Alem disso, dons e poderes
divinos sao, em certa medida,
dados a todas as pessoas, pois
todo bern e toda dadiva perfeita
vem do Pai das luzes. E ate mes-
mo os dons menos comuns, como
os que foram concedidos aos pro-
fetas, por exemplo, nao colocam
esses profetas acima do plano dos
seres humanos. Os profetas e os
ap6stolos foram homens sujeitos
as mesmas paixoes que n6s. Se
Cristo simplesmente recebeu
dons e poderes extraordinarios,
Ele continua sendo urn ser huma-
no, e, portanto, nao pode ser algo
355
como uma encarna<;ao do Verbo.
Dessa forma Ele nao pode, em vir-
tude de Sua ressurrei<;ao e ascen-
sao1 ser elevado ao mesmo nivel
de Deus, nem pode obter o meri-
to de Deus por n6s. A separa<;ao
entre Deus e o homem nao e uma
diferen<;a gradual, mas urn pro-
funda abismo. Euma rela<;ao en-
tre Criador e criatura, e a criatura,
pela natureza de seu ser, nunca se
tornara o Criador, nem tera para
n6s, seres humanos, merito do
Criador, de quem somos total-
mente dependentes.
Enotavel que nos tempos
modernos, depois deter compa-
rado todas essas novas represen-
ta<;6es referentes a pessoa de Cris-
to com o ensino da Igreja e da Es-
critura, muitas pessoas honestas
tern chegado a conclusao de que,
em ultima analise, a doutrina da
Igreja faz muito mais justi<;a a
doutrina da Escritura. 0 ensino de
que Cristo e Deus e homem em
uma s6 pessoa nao e urn produto
da filosofia paga, mas urn ensino
baseado no testemunho apost6li-
co.
Esse certamente e o misterio
da salva<;ao, que Aquele que es-
tava no principia com Deus e que
era Deus (Jo 1.1), que subsistia em
forma de Deus mas nao teve por
usurpa<;ao o ser igual a Deus (Fp
2.6), que era o brilho da gloria de
Deus e a expressao exata de Seu
Ser (Hb 1.3), na plenitude do tem-
po se fez carne (Jo 1,14), nasceu de
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
uma mulher (Gl4.4), esvaziou-se,
assumindo a forma de servo, e se
tornou em semelhan<;a de homem
(Fp 2.7).
* * * * *
Cristo era Deus, e Deus e
para sempre continuara sendo
Deus. Ele nao era o Pai nem o Es-
pirito, mas era o Filho, o
unigenito e amado Filho do Pai.
E nao foi o Ser divino, nem o Pai,
nem o Espirito que se tornou ho-
mem na plenitude do tempo, mas
o Filho. E quando Ele se tornou
homem e como homem viveu na
terra, ate mesmo quando agoniza-
va no Getsemani e era pregado na
cruz Ele continuava sendo o Filho
Unigenito de Deus, em quem o
Pai se compraz. Everdade que,
como diz o ap6stolo Paulo, Cris-
to, subsistindo em forma de Deus,
nao teve por usurpa<;ao o ser igual
a Deus (Fp 2.6,7), mas e urn erro
pensar que Cristo, em Sua
encarna<;ao, no estado de humi-
lha<;ao, tenha sido privado com-
pleta ou parcialmente de Sua di-
vindade, tenha colocado de lado
Seus atributos divinos e, em Seu
estado de exalta<;ao, tenha
reassumido gradualmente tanto
Sua divindade quanto Seus atri-
butos divinos. Como isso pode-
ria ter acontecido se Deus nao
pode negar a Si mesmo (2Tm
2.13)? E como o Imutavel muda-
ria Seu Ser? Ate mesmo quando
556
Ele se tornou o que nao era, Ele
continuou sendo o que era, a sa-
ber, o Filho Unigenito do Pai. N6s
podemos expressar a encarna<;ao
de Cristo humana e simplesmen-
te da seguinte forma: antes de Sua
encarna<;ao Cristo era igual ao Pai
nao somente em essencia e atribu-
tos, mas tambem em Sua forma.
Ele era semelhante a Deus, era o
brilho de Sua gloria e a expressao
exata de Sua pessoa. Qualquer
pessoa que tivesse sido capaz de
ve-lo, imediatamente reconhece-
ria Deus. Mas isso mudou na
encarna<;ao. Em Sua encarna<;ao
Cristo assumiu a forma de urn ser
humano, a forma de servo. Qual-
quer pessoa que olhasse para ele
nao poderia reconhecer o
unigenito Filho de Deus, a nao ser
pela fe. Ele abriu mao de Sua for-
mae brilho divinos. Ele escondeu
Sua natureza divina atras de Sua
forma de servo. Na terra Ele era
urn de n6s e se parecia conosco.
A encarna<;ao implica, em
segundo lugar, que Aquele que
continuou sendo o que era pas-
sou a ser o que nao era. Ele se tor-
nou o que nao era no momento
exato da hist6ria em que o Espiri-
to Santo veio sobre Maria eo po-
der do Altfssimo a envolveu (Lc
1.35). Mas ao mesmo tempo essa
encarna<;ao foi preparada duran-
te seculos.
Se n6s quisermos entender
corretamente a encarna<;ao, n6s
podemos dizer que a gera<;ao do
A NATUREZA DIVINA EANATUREZAHUMANA DE CRISTO
Filho e a cria<;ao do mundo foram
uma prepara<;ao para a encarna-
<;ao do Verbo. Nao e suficiente
dizer que a gera<;ao e a cria<;ao ja
continham a encarna<;ao, pois a
Escritura sempre relaciona a
encarna<;ao do Filho areden<;ao do
pecado e ao cumprimento da sal-
va<;ao193. Mas a gera<;ao e a cria-
<;ao, especialmente a cria<;ao do
homem a imagem de Deus, nos
ensinam que Deus e comunicavel,
tanto em urn sentido absoluto en-
tre as pessoas da Trindade, quan-
to em urn sentido relativo, fora do
Ser de Deus. Se esse nao fosse o
caso nao haveria qualquer possi-
bilidade de uma encarna<;ao de
Deus. Quem quer que pense que
a encarna<;ao seja impossivel,
em principio, tambem nega a cri-
a<;ao do mundo e a gera<;ao do
Filho. E quem quer que aceite a
cria<;ao e a gera<;ao nao pode ter
qualquer obje<;ao, em principio, a
encarna<;ao de Deus na natureza
humana.
Mais diretamente a encar-
na<;ao do Verbo foi preparada
pela revelac;ao que comec;ou logo
depois da queda, continuou na
historia de Israel e alcan<;ou seu
climax na ben<;ao de Maria. 0 Ve-
lho Testamento e uma constante
aproximac;ao de Deus ao homem
com vistas a, na plenitude do
tempo, fazer nele uma morada
perpetua.
193
Mt 1.21; Jo 3.16; Rm 8.3; Gl4.4,5.
357
Como o Filho de Deus, que
atraves de Maria assumiu a natu-
reza humana, existia antes do tem-
po e desde a eternidade, Sua con-
cep<;ao no ventre de Maria nao
aconteceu atraves da vontade da
carne, nem da vontade do homem,
mas pelo envolvimento do Espi-
rito Santo. E verdade que a
encarna<;ao esta relacionada com
toda a revela<;ao anterior e e o seu
complemento, mas ela nao e urn
produto da natureza, nem da hu-
manidade. Ela e uma obra de
Deus, uma revela<;ao, a mais ele-
vada revela<;ao. Assim como foi o
Pai que enviou o Filho ao mundo
e o Espirito Santo envolveu Ma-
ria, o Filho voluntariamente assu-
miu nossa carne e sangue (Hb
2.14). A encarna<;ao foi uma obra
do Filho. Ele nao foi passivo nela.
Pelo contrario, Ele se fez carne
por Sua propria vontade e por Seu
proprio ato. Dessa forma Ele eli-
mina a vontade da carne e a von-
tade do homem e prepara uma
natureza humana para Si, no ven-
tre de Maria, atraves do
envolvimento do Espirito Santo.
Essa natureza humana nao
existia. Ela nao foi trazida do ceu
e colocada em Maria de fora para
dentro. Os anabatistas ensinam
isso para defender a natureza nao
pecaminosa de Cristo, mas agin-
do assim eles estao seguindo o
antigo gnosticismo, ao partir da
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ideia de que a carne e a materia
sao pecaminosas em si mesmas.
Mas tambern na encarna<;ao a Es-
critura sustenta a bondade da cri-
a<;ao e a origem divina da mate-
na.
Cristo assumiu Sua nature-
za humana em Maria194
• Com rela-
<;ao a carne, Cristo descende de
Davi e dos patriarcas195
• Portanto
Sua natureza e uma natureza ver-
dadeira e perfeitamente humana,
semelhante anossa natureza em
todas as coisas, exceto no que diz
respeito ao pecado196
• Nada que
fosse humano era estranho a Cris-
to. A nega<;ao de que Cristo veio
em carne e 0 principia do
anticristo (1Jo 2.22).
Assim como a natureza hu-
mana de Cristo nao existia antes
de Sua concep<;ao em Maria, as-
sim tambem ela nao existiu sepa-
rada de Cristo depois de Seu nas-
cimento. Maria concebeu e deu a
luz urn filho, mas esse filho nao
cresceu como urn homem para
que posteriormente fosse assumi-
do por Cristo e unido a Ele. Essa
heresia tambem foi elaborada ha
muito tempo, mas a Escritura
nada sabe sobre ela. 0 filho santo
que foi gerado em Maria era, des-
de o principia, o Filho de Deus, e
desde o principia recebeu esse
nome (Lc 1.35). 0 Verbo nao se
uniu a urn ser humano. 0 Verbo
194
Mt 1.20; Lc 2.7; Gl 4.4.
195
At 2.30; Rm 1.3; 9.5.
196
Hb 2.14,17; 4.15.
358
sefez carne (Jo 1.14). E, portanto, a
Igreja crista em sua confissao nao
diz que o Filho assumiu uma pes-
soa humana, mas uma natureza
humana. Somente dessa forma a
dualidade das naturezas e a uni-
dade da pessoa pode ser mantida.
Pois- esse eo terceiro pon-
to que merece nossa aten<;ao so-
bre esse assunto - embora a Es-
critura afirme que seja possivel
que Cristo fosse o Verbo e tenha
se tornado carne, que segundo a
carne Ele descende dos patriarcas
e segundo Sua essencia Ele e Deus
acima de todos, bendito para sem-
pre, esse Cristo e sempre uma pes-
soa. Esempre o mesmo ser que
fala e age em Cristo. 0 menino que
nasceu recebeu o nome de Deus
Forte e Pai da Eternidade (Is 9.6).
0 filho de Davi e ao mesmo tem-
po o Senhor de Davi. Aquele que
desceu e o mesmo que subiu aci-
ma de todos OS ceus (Ef 4.10).
Aquele que segundo a carne des-
cende dos patriarcas e o mesmo
que, segundo Sua essencia, e
Deus sobre todos, bendito para
sempre (Rm 9.5). Apesar de ter
vivido na terra Ele continuava no
ceu, no seio do Pai (Jo 1.18; 3.13).
Embora tenha nascido e vivido no
tempo, Ele existia antes de Abraao
(Jo 8.58). A plenitude da divinda-
de habita corporalmente nEle (Cl
2.9).
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
Em resumo, na mesma pes-
soa ha atributos e obras divinos e
humanos, eternidade e tempo,
onipresenc;a e limitac;ao, onipoten-
cia criadora e fraqueza propria da
criatura. No entanto a uniao des-
sas duas naturezas em Cristo nao
corresponde auniao de duas pes-
soas. Duas pessoas podem, pelo
amor, ficar muito intimamente li-
gadas uma a outra, mas nunca
poderao tornar-se uma so pessoa,
urn so ser. 0 amor une duas pes-
soas somente em urn sentido mis-
tico e etico. Se a uniao do Filho
de Deus com a natureza humana
tivesse esse carater ela poderia
ser distinta em grau, mas nao em
qualidade, daquela que existe
entre Deus e todas as Suas criatu-
ras, especificamente com Seus fi-
lhos. Mas Cristo ocupa uma posi-
c;ao unica. Ele nao se uniu ao ho-
mem em urn sentido moral e nao
absorveu a vida de urn ser huma-
no, mas preparou uma natureza
humana para si mesmo no ventre
de Maria e se tornou urn ser huma-
no e urn servo. Assim como urn
ser humano pode ir de urn esta-
do de vida para outro e pode vi-
ver ao mesmo tempo ou sucessi-
vamente em duas esferas de vida,
assim, por analogia, Cristo, que
existia na forma de Deus, veio a
terra e assumiu a forma de servo.
A uniao que foi realizada em Sua
encarnac;ao nao foi uma uniao
moral entre duas pessoas, mas a
uniao de duas naturezas em uma
359
so pessoa. Nao importa o quanto
homem e mulher possam unir-se
atraves do amor, eles continuam
sendo duas pessoas distintas.
Deus e o homem, embora unidos
pelo mais intimo amor, continu-
am sendo essencialmente diferen-
tes. Mas em Cristo o homem e urn
so com o Verbo que estava no
prindpio com Deus e que era
Deus. Essa e uma unica, incom-
panivel e incompreensivel uniao
de Deus como homem. E o come-
c;o e o fim de toda sabedoria e esse:
"E o Verbo se fez carne e habitou
entre nos, cheio de Grac;a e de ver-
dade, e vimos a Sua gloria, gloria
como do unigenito do Pai" (Jo
1.14).
Nessa uniao Cristo controla
todos os atributos e poderes que
sao proprios de ambas as nature-
zas. Alguns tern tentado demons-
trar uma uniao ainda mais forte e
mais proxima das duas naturezas
ensinando que essas naturezas, no
momento exato da encarnac;ao,
foram soldadas, formando uma
natureza divino-humana, ou que
a natureza divina se privou de
suas caracteristicas e condescen-
deu a limitac;ao da natureza
humana, ou que a natureza hu--
mana perdeu suas propriedades
e recebeu as propriedades da na-
tureza divina (seja todas elas ou
somente algumas delas, como
onipresenc;a, onipotencia e onis-
ciencia). Mas a confissao Reforma-
da sempre repudiou e atacou esse
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tipo de uniao das duas naturezas de que esta em Cristo. Essa fusao
e a comunicac;ao das proprieda- diminui tanto a natureza divina
des de uma aoutra. 0 resultado quanto a natureza humana, enfra-
desse ensino e a mesclagem e a quecendo a palavra da Escritura
confusao das duas naturezas e que diz que nEle, isto e, em Cris-
uma conseqiiente negac;ao to, habita corporalmente a pleni-
panteista da diferenc;a em essen- tude da divindade (Cl 2.9; 1.9).
cias entre Deus eo homem, entre Essa plenitude s6 e mantida se
o Criador e a criatura. ambas as naturezas conservarem
De fato, ha urn intimo rela- suas propriedades, mantendo-se
cionamento entre essas duas na- distintas uma da outra, nao comu-
turezas e entre suas propriedades nicando suas propriedades e atri-
e poderes. Mas esse relaciona- butos uma aoutra, mas colocan-
mento vern aexistencia na unida- do-as a servic;o de uma pessoa.
de da pessoa. Uma uniao mais Dessa forma e sempre o mesmo
forte, mais profunda e mais inti- Cristo que em Sua humilhac;ao e
rna e inconcebivel. Assim como- em Sua exaltac;ao comanda as pro-
fazendo uma comparac;ao, e nao priedades e poderes de ambas as
igualando as duas- alma e corpo naturezas e que precisamente por
estao unidos em uma pessoa e isso pode realizar as obras do
permanecem sendo distintos urn Mediador, que por urn lado sao
do outro em essencia e em pro- diferentes das obras de Deus e,
priedades, assim tambem em por outro lado, sao diferentes das
Cristo a mesma pessoa eo sujeito obras do homem e que assumem
de ambas as naturezas. A diferen- urn lugar unico na hist6ria do
c;a entre alma e corpo e a condi- mundo.
c;ao de interna uniao dos dois em Nessa doutrina das duas
urn s6 ser humano, e da mesma naturezas tudo o que a Escritura
forma a diferenc;a entre a nature- diz sobre a pessoa de Cristo e tudo
za divina e a natureza humana e o que ela atribui a Ele esta em
a condic;ao e a base de sua uniao perfeita harmonia. Por urn lado
com Cristo. A mesclagem das Ele eo eterno Filho de Deus, que
duas naturezas em uma e a cornu- com o Pai e o Espirito fez todas
nicac;ao das propriedades de uma as coisas, sustenta-as e governa-
aoutra nao estabelecem urn rela- as197
e que, portanto, e 0 objeto de
cionamento mais intimo, mas fa- nosso culto. Ele ja era o objeto de
zem uma fusao dessas duas na- culto no tempo dos ap6stolos198
,
turezas, empobrecendo a plenitu- e tanto naquela epoca quanto ago-
--------------------------------------~----
197
jo 1.3; C/1.15,16; Hb 1.2.
198
Jo 14.13; At 7.59; 9.13; 22.16; Rm 10.12)3. Fp 2.9; Hb 1.6.
560
A NATUREZA DIVINA E A NATUREZA HUMANA DE CRISTO
ra, Ele e o objeto de fe e de confi-
anc;a de todos os Seus disdpu-
los199. Mas Ele nao pode ser ambas
essas coisas a menos que seja ver-
dadeiro Deus, pois esta escrito:
"Ao Senhor, teu Deus, adoraras,
e s6 a Ele daras culto" (Mt 4.10).
A base para o culto religioso de
Cristo s6 pode ser Sua natureza
divina, e quem quer que negue
essa natureza e mantenha o culto
a Ele torna-se culpado de
deificac;ao da criatura e de idola-
tria. A divindade de Cristo nao e
uma doutrina abstrata, mas uma
doutrina da mais alta importan-
cia para a vida da Igreja.
Por outro lado Cristo tor-
nou-se homem e verdadeiramen-
te homem, semelhante a n6s em
todas as coisas, exceto no pecado.
Ele foi urn bebe, uma crianc;a, urn
jovem e urn adulto, e cresceu em
sabedoria e Grac;a diante de Deus
e dos homens (Lc 2.52). Tudo isso
nao foi apenas uma ilusao ou uma
aparencia, como dizem aqueles
que afirmam que as propriedades
divinas pertencem anatureza hu-
mana, mas foi perfeitamente real.
Houve em Cristo urn desenvolvi-
mento gradual, urn progressivo
desenvolvimento no corpo, na
alma e em Grac;a diante de Deus
e dos homens. Os dons do Espfri-
to nao lhe foram dados de uma s6
vez, mas de forma sucessiva e em
medida cada vez maior. Houve
coisas que Ele teve que aprender,
e que Ele nao sabia (Me 13.32; At
1.7). Embora Ele nao fosse capaz
de pecar, estava presente nEle,
devido afraqueza da natureza hu-
mana, a possibilidade de ser ten-
tado, sofrer e morrer. Durante
todo o tempo em que esteve na
terra Ele nao estava segundo sua
natureza humana no ceu, e par-
tanto Ele nao viveu pelo que via,
mas por fe. Ele lutou e sofreu, e
em tudo isso Ele apegou-se fir-
memente aPalavra e apromessa
de Deus. Dessa forma Ele apren-
deu a obediencia em todas as coi-
sas que sofreu, continuamente fir-
mou-se na obediencia e se santi-
ficou200. E ao mesmo tempo Ele
nos deixou o exemplo e tornou-
se o autor da salvac;ao eterna para
todos os que lhe obedecem (Hb
5.9).
199
jo 14.1; 17.3; Rm 14.9; 2Co 5.15; Ef3.12; 5.23; C/1.27.
200
Jo 17.19; Hb 5.8,9
361
CAPITULO
)]{(
A 0BRA DE CRISTO
EM SUA HUMILHA<:=AO
A
encarna<;ao e o come<;o e
a introdu<;ao da obra de
Cristo na terra, mas esse
nao e todo o seu significado, nem
o mais importante significado des-
sa obra. E born tentar urn verda-
deiro entendimento e uma ideia
correta sobre isso, pois ha aqueles
que pensam que, ao assumir ana-
tureza humana, Cristo completou
Sua obra de reconcilia<;ao e uniao
de Deus com o homem. Partindo
da ideia de que a religiao e urn tipo
de comunhao entre Deus eo ho-
mem, e que ambos precisam urn
do outro e se completam, eles afir-
mam que essa comunhao, corrom-
pida pelo pecado, ou nao acessi-
vel ao homem em urn nivel car-
nal, foi expressa e realizada na his-
toria por Cristo. Dessa forma a sin-
gularidade do Cristianismo con-
siste no fato de que a ideia de reli-
363
giao que esta plantada na nature-
za humana alcan<;a seu cumpri-
mento na pessoa de Cristo.
Nao ha duvida de que foi
uma grande honra para a huma-
nidade que o Filho unigenito de
Deus, que subsistia na forma de
Deus no seio do Pai, tenha assu-
mido a forma humana. Ao assu-
mir a forma humana Cristo rela-
cionou-se com todos os homens.
Ele se tornou participante da car-
nee do sangue do homem, e tam-
bern de sua alma e corpo, cabe<;a
e cora<;ao, mente e vontade, idei-
as e sentimentos. Cristo, nesse sen-
tido naturat e irmao de todos n6s,
carne de nossa carne e osso dos
nossos ossos. Mas essa semelhan-
<;a naturale fisica, embora seja im-
portante, nao pode ser confundi-
da nem identificada com a comu-
nhao moral e espiritual. Entre as
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
pessoas, nos devemos nos lem-
brar, e possfvel que membros da
mesma famflia e parentes de san-
gue estejam, em urn sentido espi-
ritual, separados urn dos outros
por urn longo caminho, ou ate
mesmo diametralmente opostos
urn ao outro. 0 proprio Jesus dis-
se que veio aterra para trazer di-
visao entre o homem e seu pai,
entre a filha e sua mae, e entre a
nora e a sogra, de forma que os
inimigos do homem sejam os de
sua propria casa (Mt 10.35,36).
Portanto a descendencia natural
nada tern a ver com o relaciona-
mento espiritual. A comunica<;ao
do sangue e a comunhao espiritu-
al geralmente sao polos distintos.
Portanto, se Jesus nao tives-
se feito mais do que assumir ana-
tureza humana e assim expressar
a unidade de Deus e homem, esta
alem de toda compreensao como
nos poderfamos entrar em relaci-
onamento com Ele e sermos recon-
ciliados com Deus. Assim Ele te-
ria, ao assumir uma natureza hu-
mana sem pecado e ao viver em
uma imperturbavel comunhao
com Deus, introduzido mais clivi-
sao entre nose nos lan<;ado em urn
senso ainda mais profundo de
nossa desesperan<;a, visto que nos,
criaturas fracas e pecaminosas,
nunca poderfamos segui-lo em
Seu elevado exemplo. A
encarna<;ao do Filho de Deus, por-
tanto, sem uma obra que a
complemente, nao pode ser urn
ato reconciliador e redentivo. Ela
e 0 come<;o desse ato, a prepara-
<;ao para ele e a introdu<;ao dele,
mas nao e o ato em si mesmo.
Se a encarna<;ao tivesse rea-
lizado a reconcilia<;ao entre Deus
e 0 homem, nao haveria lugar para
uma vida, nem especialmente
para urna morte do Senhor Jesus.
Teria sido suficiente para Ele, seja
atraves da concep<;ao e do nasci-
mento, seja atraves de qualquer
outra forma, ter assumido uma
natureza humana, ter vindo sobre
a terra por algum tempo e ter
retornado ao ceu. Nao teria havi-
do necessidade de uma total e pro-
funda humilha<;ao de Cristo.
564
Mas a Escritura nos ensina
algo muito diferente. Ela nos diz
que o Filho de Deus nao somente
se tornou homem, semelhante a
nos em todas as coisas exceto no
pecado, mas tambem que Ele as-
sumiu a forma de servo, humi-
lhou-se e tornou-se obediente ate
a morte, e morte de cruz (Fp 2.7,8).
Ele cumpriu toda a justi<;a (Mt
3.15) e santificou-se pelo sofrimen-
to (Hb 2.10). Estava escrito que o
Cristo deveria padecer e ressusci-
tar ao terceiro dia (Lc 24.46; 1Co
15.3-5). 0 Pai o enviou para que
Ele realizasse toda a Sua obra so-
bre a terra (Jo 4.34), e lhe deu urn
mandato para entregar a Sua vida
e tambem para reave-la (J0
10.18).Tudo o que Cristo fez, par-
tanto, foi o cumprimento daquilo
que a mao e o conselho de Deus
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao
tinham determinado que fosse fei-
to (At 2.23; 4.28). Na cruz, pela
prirneira vez, Cristo pode dizer
que tudo estava consurnado e que
Ele tinha realizado toda a obra que
o Pai lhe tinha confiado (Jo 17.4;
19.30). Apesar do registro da vida
de Cristo nos Evangelhos ser rnui-
to resumido, Sua paixao e rnorte
e abundantemente registrada. Da
mesrna forma a prega<;ao apost6-
lica rararnente menciona a concep-
c;ao eo nascimento de Jesus, mas
coloca toda a enfase sobre a cruz,
a morte eo sangue de Cristo. Nao
foi pelo nascimento, mas pela Sua
rnorte que n6s fornos reconcilia-
dos com Deus (Rm 5.10).
Da forma como e apresenta-
da na Escritura, toda a vida de
Cristo assume urn significado uni-
co para n6s, um significado extre-
mamente valioso. Ela ea obra per-
feita que o Pai lhe incumbiu de
realizar. Ela pode ser considera-
da de varios pontos de vista e
abordada por muitos lados, e n6s
devemos considera-la e aborda-la
de forma que tenhamos urna vi-
sao panoramica de seu conteudo.
N6s nunca devemos nos esquecer
que trata-se de uma obra. Ela com-
preende e ocupa toda a vida de
Cristo, desde Sua concepc;ao ate
Sua rnorte na cruz. Assim como a
pessoa de Cristo e uma em distin-
c;ao de Suas naturezas, assim Sua
obra tambem eunica. Ela e, pre-
menternente, a obra de Deus sa-
bre a terra. Essa e urna obra cuja
365
origem esta relacionada ao conse-
lho e ao pre-conhecimento com
sua revelac;ao em Israel e sua ori-
entac;ao para as nac;oes, e tern con-
tinuidade, de forma modificada,
na obra que Cristo agora realiza
em Seu estado de exaltac;ao. Essa
obra tern seu ponto central no
tempo sobre essa terra, mas que
tern sua origem na eternidade,
esta arraigada na eternidade e se
estende ate a eternidade.
* * * * *
Desde tempos antigos essa
obra de Cristo tern sido cornpre-
endida na doutrina dos tres ofici-
os, e egrac;as a Calvina que esse
metodo de abordagem da obra de
Cristo encontrou aceitac;ao na
doutrina da salvac;ao. Contudo,
varias objec;oes tern sido levanta-
das contra isso, e especialmente
quanta a doutrina dos tres oficios
tern sido dito que esses oficios na
vida de Cristo nao devem ser di-
ferenciados, e que suas atividades
fluem de urn para outro. Essa ob-
jec;ao pode ser levantada contra
um entendimento errado a respei-
to dos tres oficios, mas nao contra
a classificac;ao ern si rnesrna.
Se a ideia for a de que Jesus
executou os offcios de profeta, sa-
cerdote e rei de forma indepen-
dente urn do outro ou que Ele
cumpriu cada oficio separada e
sucessivamente, essa classificac;ao
da obra de Cristo estara errada,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
pois apesar de todos esses oficios
serem bern definidos, Jesus em
todos os momentos e em todos os
lugares ocupou-se simultanea-
mente do exerdcio desses tres ofi-
cios. Quando falava Ele proclama-
va a Palavra de Deus como urn
profeta, mas ao £alar Ele exercia
tambem Sua misericordia sacer-
dotal e Seu poder real, pois atra-
ves de Sua palavra Ele curava os
enfermos, perdoava pecados e
acalmava a tempestade. Ele era o
Rei da verdade. Seus milagres
eram sinais de Sua missao divina
e da verdade de Sua palavra, mas
eram ao mesmo tempo uma reve-
la<;:ao de Sua compaixao sabre to-
dos os aflitos, de seu dominio sa-
bre a doen<;:a e a morte e sabre o
poder de Satanas. Em resumo, toda
a Sua manifesta<;:ao, palavra e obra
tern urn carater simultaneamente
profetico, sacerdotal e real.
Mas colocando essa verdade
como pano de £undo, nos deve-
mos continuar olhando para a fi-
gura de Jesus Cristo do ponto de
vista de Seus oficios. Ha vanta-
gens nesse metoda que serao per-
didas se nos adotarmos outro.
Em primeiro lugar essa abor-
dagem deixa clara que a vinda, e
tambem toda a vida de Cristo sa-
bre a terra, e o exerdcio de urn
oficio que lhe foi dado pelo Pai.
Com rela<;:ao a Jesus nos nao po-
demos £alar de urn negocio, de urn
empreendimento e nem mesmo
de uma voca<;:ao moral que Ele
mesmo tenha escolhido. De acor-
do com a Sagrada Escritura foi-lhe
confiado urn oficio. Essa e a dife-
ren<;:a entre urn oficio e uma pro-
fissao: nao se pode escolher o ofi-
cio, pode-se apenas recebe-lo por
indica<;:ao de uma autoridade que
esta acima de nos. Everdade que
Cristo e distinto de Moises pelo
fato de que ele, nao como urn ser-
vo, mas como o Filho de Sua pro-
pria casa, foi fiel ao Pai em todas
as coisas (Hb 3.5,6), mas ao mes-
mo tempo Ele foi fiel ao Pai, que o
constituiu Apostolo e Sumo Sacer-
dote de nossa confissao (Hb 3.1).
Nao foi Ele mesmo que tomou a
honra de ser Sumo Sacerdote, mas
o glorificou Aquele que lhe disse:
"Tu es meu Filho, eu hoje te ge-
rei" (Hb 5.5). Por isso Jesus cons-
tantemente coloca toda a enfase
no fato de que o Pai o enviou, que
e Sua comida fazer a vontade do
Pai, que Ele recebeu do Pai urn
mandata sabre o que ele deveria
fazer e dizer, que Ele cumpriu a
ordem do Pai e outras afirma<;:6es
semelhantes201
•
Essa designa<;:ao para o ofi-
cio obviamente aconteceu antes
do tempo em que Cristo se tornou
homem, pois a Escritura nos ensi-
na nao somente que Cristo estava
no principia com Deus e que Ele
era Deus, mas tambem afirma ex-
201
Jo 4.34; 5.20,30; 6.38; 7.16; 8.28; 10.18; 12.49,50; 14.10,24; 17.4.
566
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
pressamente em Hebreus 10.5-7
que Ele, vindo ao mundo, disse:
"Sacrificio e oferta nao quiseste;
antes, urn corpo me formaste; nao
te deleitaste com holocaustos e
ofertas pelo pecado. Entao, eu dis-
se: Eis aqui estou (no rolo do livro
esta escrito a meu respeito), para
fazer, 6 Deus, a tua vontade". Por-
tanto, a vinda ao mundo, a
encarna<;ao, ja fazia parte da obra
que o Pai lhe tinha confiado. 0
comissionamento precedeu a
encarna<;ao, e ele nao aconteceu no
tempo, mas na eternidade.
Por isso se diz que Cristo foi
conhecido antes da funda<;ao do
mundo (1Pe 1.20), que a elei<;ao foi
feita e a Gra<;a nos foi dada em
Cristo antes que o mundo existis-
se (Ef 1.4; 2Tm 1.9), e que o livro
da vida que esta aberto diante de
Deus desde a funda<;ao do mun-
do pertence ao Cordeiro que foi
morto (Ap 13.8; 17.8). Entender a
obra de Cristo como o exerdcio de
urn oficio e o mesmo que relacio-
nar essa obra ao eterno conselho
de Deus. Cristo recebe o nome de
Messias, Cristo, o Ungido, porque
foi designado desde a eternidade
e no tempo foi ungido por Deus
com o Espirito Santo.
Em segundo lugar, os tres
oficios com os quais Cristo foi
comissionado sao uma referencia
ao chamado e ao prop6sito origi-
nal do homem. Nao foi por acaso
ou por uma arbitrariedade que
Cristo foi designado precisamen-
367
te para cumprir os offcios de pro-
feta, sacerdote e rei, e nenhum
outro oficio alem desses. Isso esta
baseado no prop6sito de Deus
para a ra<;a humana. Adao foi cri-
ado aimagem de Deus, em ver-
dadeiro conhecimento, justi<;a e
santidade, para que, como profe-
ta, proclamasse as palavras de
Deus, como rei dominasse de for-
ma justa sobre todas as outras cri-
aturas, e como sacerdote dedicas-
se a si mesmo e tudo quanta pos-
suia a Deus como urn sacrificio de
louvor. Ele recebeu uma mente
para conhecer, a mao para domi-
nar e urn cora<;ao para amar. 0
prop6sito e o destino do homem
estao no desdobramento da ima-
gem de Deus, no desenvolvimen-
to harmonioso de todos os seus
dons e poderes, no exerdcio dos
oficios de profeta, sacerdote e rei.
Mas o homem violou essa voca-
<;ao, e o motivo pelo qual Cristo
veio aterra e mostrar novamente
a verdadeira imagem ao homem
e trazer seu destino aperfeita rea-
liza<;ao. A doutrina dos tres ofici-
os esta edificada sobre uma firme
conexao entre a natureza e a Gra-
<;a, entre a cria<;ao e a reden<;ao,
entre Adao e Cristo. 0 primeiro
Adao e urn tipo, urn arauto e uma
profecia do segundo Adao, e o
segundo Adao e a contraparte e o
cumprimento do primeiro.
Em terceiro lugar a doutri-
na dos tres oficios esta vinculada
diretamente com a revela<;ao do
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Velho Testamento. Quando a ra<_;a
humana, caida em Adao, tornou-
se cada vez mais corrupta, Deus
escolheu urn povo especifico para
que fosse Sua propriedade. Em
conexao com esse chamado Israel
recebeu tambern, como urn povo,
uma missao profetica, sacerdotal
e real. Israel seria urn reino de sa-
cerdotes e uma na<_;ao santa ao Se-
nhor (Ex 19.6). Mas em urn senti-
do especial essa missao foi confi-
ada aos homens que foram chama-
dos por Deus para servir em Isra-
el como profetas, sacerdotes e reis.
Embora em sua totalidade, como
na<_;ao, Israel possa ser chamado
de Ungido do Senhor, esse nome
era especialmente usado para de-
signar os profetas, sacerdotes e
reis. Mas todos esses homens
eram pecadores, e, portanto, nao
podiam cumprir verdadeiramen-
te seus oficios. Assim como o povo
como urn todo, eles apontavam
para outro, que seria profeta, sa-
cerdote e rei ao mesmo tempo, e
que seria chamado de Ungido do
Senhor em urn sentido unico (Is
6.1). Cristo e o cumprimento de
toda a revela<_;ao do Velho Testa-
mento. Ele e a contraparte de todo
o povo de Israel e de todos os Seus
profetas, sacerdotes e reis. De fato,
e Cristo que atraves do testemunho
dos profetas, sacerdotes e reis de
Israel da testemunho de si mesmo
e prepara a Sua vinda (1Pe 1.11).
Finalmente, a obra de Cristo
s6 se revela em termos dos tres
368
oficios. Sempre tern havido ten-
dencias parciais na Igreja crista
que veem em Cristo somente o
profeta, como os racionalistas, ou
que se ocupam somente com Sua
paixao sacerdotal, como os misti-
cos, ou que s6 o aceitam como urn
rei, como os quiliastas. Mas n6s
precisamos de urn Cristo que seja
os tres ao mesmo tempo. N6s pre-
cisamos de urn profeta que nos
pregue a Palavra de Deus, de urn
sacerdote que nos reconcilie com
Deus e de urn rei que, em nome
de Deus, nos governe e proteja.
Toda a imagem de Deus deve ser
restaurada no homem - conheci-
mento, justi<_;a e santidade. 0 ho-
mem por inteiro deve ser salvo,
alma e corpo, cabe<_;a, mao e cora-
<;ao. N6s precisamos de urn Salva-
dor que nos redima perfeita e
completamente e que realize ple-
namente em n6s Seu prop6sito
original. Cristo faz isso. Sendo Ele
mesmo profeta, sacerdote e rei, Ele
faz com que n6s tambem sejamos
profetas, sacerdotes e reis para Seu
Deus e Pai (Ap 1.6).
* * * * *
Apesar de ter sido ungido
desde a eternidade, e apesar deja
estar em atividade de forma pre-
parat6ria nos tempos do Velho
Testamento como Mediador da
Alian<_;a da Gra<_;a, Cristo realizou
plenamente os oficios de profeta,
sacerdote e rei quando veio ao
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
mundo e disse: "Eis aqui estou, 6
Deus, para fazer a tua vontade".
Ele tinha que ser homem para re-
velar o nome de Deus aos homens,
para ser capaz de sofrer e morrer
na cruz, e para, como rei da verda-
de, dar testemunho da verdade.
Seu Ser concebido pelo Espi-
rito Santo foi uma preparaao pre-
liminar da natureza humana de
Cristo para a obra que Ele deve-
ria realizar. Todos os tipos de ob-
je6es tern sido levantados nos
tempos modernos contra a confis-
sao de que Cristo foi concebido
pelo Espirito Santo e nasceu da
virgem Maria, e muitos esforos
tern sido feitos para explicar os
registros de Mateus e Lucas como
uma interpolaao judaica ou paga
nos Evangelhos originais. Mas o
resultado tern sido que a verdade
dessa hist6ria tern sido confirma-
da e estabelecida melhor do que
era antes. 0 registro do nascimen-
to de Cristo nao pode ter deriva-
do dos judeus, nem dos pagaos.
Essa hist6ria repousa, como fica
evidente a partir da linguagem
usada, sobre o testemunho dos
pr6prios Jose e Maria. Natural-
mente houve urn tempo em que
essa concepao miraculosa era co-
nhecida somente por Jose e Maria
e talvez por alguns confidentes.
Pela natureza do caso, e natural
que esse fato nao fosse de conhe-
cimento publico.
Somente mais tarde, quando
as obras e as palavras e especial-
mente a ressurreiao de Cristo tor-
naram claro quem e o que Ele era,
Maria ousou revelar ao pequeno
circulo dos discipulos a secreta
concepao de Jesus. Nem mesmo
a partir desse momenta essa con-
cepao de Jesus pelo Espirito es-
teve presente na pregaao dos
ap6stolos. Essa concepaO e pro-
vavelmente pressuposta em al-
guns lugares202
, mas somente em
Mateus e Lucas ela e expressa-
mente afirmada. Ao mesmo tem-
po ela e urn componente essenci-
al do Evangelho e esta plenamen-
te de acordo com a doutrina da
pessoa de Cristo ensinada nas Es-
crituras. Cristo e, como ja foi dito,
o Filho unigenito, que estava ati-
vo em Sua propria concepao, e
atraves da atividade do Espirito
preparou para si uma natureza
humana no ventre de Maria (Fp
2.6,7). Na profecia de Isaias 7.14 e
9.6; comparada com Mt 1.25, e a
virgem conceberia e daria a luz
urn filho cujo nome seria Emanuel,
e que tambem seria chamado de
Maravilhoso, Conselheiro, Deus
Forte, Pai da Eternidade e Princi-
pe da Paz foi cumprida no nasci-
mento de Jesus.
Pela Sua concepao atraves
da aao do Espirito Santo essa na-
tureza humana de Cristo foi des-
de o principia isenta de todo pe-
202
Me 6.3; Jo 1.13; 7.41; Rm 1.3,4; 9.5; Fp 2.7; Gl 4.4.
369
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
cado humano. Como o Filho de
Deus como pessoa ja existia antes
mesmo de Sua concep<;:ao, e como
essa pessoa nao se uniu a urn ser
humano que ja existia, mas atra-
ves da a<;:ao do Espirito Santo pre-
parou para Si uma natureza hu-
mana no ventre de Maria, Ele nao
estava incluido na Alian<;:a das
obras, nao estava sujeito aculpa
original, e nao podia ser contami-
nado pelo pecado. 0 ensino de
Roma de que Maria era pura em
sua concep<;:ao e que viveu de for-
ma santificada nao tern funda-
mento e entra em conflito com
aquilo que a Escritura diz a res-
peito de Maria203
• Maria foi agra-
ciada com uma grande honra,
uma honra mais elevada ate mes-
mo que a dos profetas e ap6sto-
los. Ela e a aben<;:oada, a
favorecida entre as mulheres, a
mae do Senhor (Lc 1.42,43). Mas
ela era como todas as outras pes-
soas, como todos os homens, eo
filho santo que por ela foi conce-
bido (Lc 1.35) nada tern a ver com
a pureza de sua natureza, mas
com a criativa a santificadora a<;:ao
do Espirito Santo em seu ventre.
Embora a natureza humana
que Cristo recebeu de Maria fosse
santa, ela era fraca, como qualquer
natureza humana. Isso e expresso
na Escritura pela afirma<;:ao de que
Ele se tornou nao somente homem,
mas carne (Jo 1.14), que Ele foi en-
203
Jo 2.4; Me 3.31; Lc 11.28.
570
viado em semelhan<;:a de carne pe-
caminosa (Rm 8.3), que Ele assu-
miu a forma de servo (Fp 2.7), e que
Ele se tornou semelhante a n6s em
todas as coisas, exceto no pecado
(Hb 2.17; 4.15). Cristo teve que as-
sumir essa natureza humana sujei-
ta a fraquezas para que fosse ten-
tado, para aprender a obediencia
atraves do sofrimento, para ser ca-
paz de esfor<;:ar-se para santificar-
se, para compartilhar conosco de
nossa fraqueza e ser urn sumo sa-
cerdote compassivo. Em resumo,
Cristo assumiu essa natureza hu-
mana sujeita a fraquezas para que
fosse capaz de sofrer e morrer.
Apesar de ser semelhante a Adao
antes da queda no que diz respei-
to ao pecado, Ele estava em urn
caminho muito diferente daquele
que foi trilhado por Adao, pois
Adao foi criado adulto, mas Cristo
foi concebido no ventre de Maria e
nasceu como urn bebe. Quando
Adao foi criado tudo estava pron-
to para ele, mas quando Cristo nas-
ceu ninguem contava com Sua vin-
da, nao havia lugar para Elena hos-
pedaria. Adao veio para dominar
e sujeitar toda a terra ao seu domi-
nio. Cristo nao veio para ser servi-
do, mas para servir e dar a Sua vida
em resgate por muitos.
A encarna<;:ao do Filho de
Deus, portanto, nao foi apenas urn
ato de bondade condescendente,
tal como e em Seu estado de
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
exalta<;:ao, mas foi tambem urn ato
de profunda humilha<;:ao. A humi-
lha<;:ao teve inicio com a propria
concep<;:ao, e continuou atraves de
Sua vida ate Sua morte e sepulta-
mento. Cristo nao e urn her6i hu-
mano cujo lema e Excelso, que
supera todos os obstaculos e final-
mente alcan<;:a o pinaculo da fama.
Pelo contrario, Ele desceu sempre
mais baixo e mais profundo e mais
intimamente. 0 caminho para
dentro dessas profundezas foi
marcado por passos: concep<;:ao,
nascimento, a vida humilde em
Nazare, batismo e tenta<;:ao, opo-
si<;:ao, desprezo e persegui<;:ao,
agonia no Getsemani, condena<;:ao
diante de Caifas e Pilatos, crucifi-
ca<;:ao, morte e sepultamento. 0
caminho por Ele percorrido come-
<;:a em Sua casa, com o Pai, e vai se
aproximando cada vez mais de n6s
em nosso pecado e morte, ate que,
no mais profundo de Seu sofrimen-
to Ele expressa Sua angU.stia porter
sido desamparado pelo Pai. Depois
disso Ele finalmente expressa Sua
vit6ria: "Esta consumado".
A essa humilha<;:ao perten-
cem, em adi<;:ao aSua concep<;:ao e
nascimento, as pr6prias circuns-
tincias em que Cristo nasceu no
estabulo de Belem, a persegui<;:ao
imposta por Herodes, a fuga para
o Egito e tambem a humilde vida
de Jesus em Sua inHincia, em
Nazare. Muito pouco e registrado
sobre isso nos Evangelhos, pois os
Evangelhos nao foram escritos
371
com o objetivo de dar urn relato
completo sobre a vida de Jesus,
mas para que n6s saibamos que
Cristo e o Filho de Deus, o Salva-
dor do mundo, eo Filho unigenito
do Pai. Em conexao com esse pro-
p6sito, o pouco que sabemos so-
bre a infancia e juventude de Je-
sus e suficiente.
Mateus nos diz que Jesus,
depois de retornar do Egito, viveu
com Seus pais em Nazare da
Galileia (Mt 2.23). Sua mae vivia
nessa cidade antes de Seu nasci-
mento (Lc 1.26), e nessa cidade Je-
sus viveu ate o come<;:o de Seu mi-
nisterio publico em Israel (Lc
2.39,51; Me 1.9). Somente depois
de ser expulso da sinagoga e re-
jeitado pelos Seus conterraneos foi
que Ele se dirigiu para Cafar-
naum, onde fixou residencia (Lc
4.28 ss.; Mt 4.13). Mas Ele sempre
continuou sendo urn nazareno.
Mateus viu nesse fato o cumpri-
mento de uma profecia do Velho
Testamento (Mt 2.23), nao de uma
afirma<;:ao especifica, pois os ter-
mos Nazare e nazareno nao sao
mencionados no Velho Testamen-
to, mas a profecia como urn todo
e encontrada em todos OS profe-
tas, e diz que Cristo teria uma ori-
gem modesta (Is 11.1), e que a luz
brilharia sobre as trevas da
Galileia dos gentios (Is 8.22; 9.2).
N6s sabemos que Jesus, na
vida retirada que levou por vari-
os anos em Nazare foi uma crian-
<;:a obediente aos Seus pais (Lc
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
2.51). Como crian<;a Ele cresceu
fisicamente e se desenvolveu es-
piritualmente, alem de crescer em
Gra<;a diante de Deus e dos ho-
mens (Lc 2.40,52). Aos doze anos
de idade Ele foi com Seus pais, nao
se sabe ao certo se pela primeira
vez, a Jerusalem para celebrar a
Pascoa (Lc 2.41 ss.), e la Ele exibiu
Sua sabedoria por meio de per-
guntas e respostas aos escribas ju-
daicos, e revelou aos Seus pais que
possuia consciencia de Sua mis-
sao: como Filho Ele devia ocupar-
se com as coisas da casa de Seu Pai
(Lc 2.49). No dia de sabado Ele foi,
como era Seu costume, asinago-
ga (Lc 4.16), e durante os dias da
semana Ele, presumivelmente,
auxiliava Seu pai em seu exerci-
cio profissional. Ele chega ate mes-
mo a ser chamado de carpinteiro
(Me 6.3). Sua vida adulta lan<;a
muita luz sobre os anos de Sua
juventude: N6s sabemos que Ele
sabia ler e escrever, tinha muita fa-
miliaridade com o Velho Testa-
mento, conhecia o partido dos
fariseus e dos saduceus, conhecia
a vida moral de Seu povo, era bern
informado sobre a vida civica e
politica de sua epoca, e amava a
natureza e frequentemente sere-
tirava para ter comunhao com
Deus. Esses dados sao escassos,
mas todos eles apontam para o
fato de que Jesus, durante Sua ju-
ventude, estava se preparando
para a missao que o esperava. Fi-
cava cada vez mais clara para Ele,
372
como homem, o que Ele era o e o
que tinha que fazer. Sua Filia<;ao
e Seu Messianismo, com tudo que
estava conectado a eles e procedia
deles, se tornavam cada vez mais
claros aos olhos de Sua mente. E,
finalmente, aos trinta anos, che-
gou o tempo em que Ele tinha que
manifestar-se a Israel (Jo 1.31).
A ocasiao para essa manifes-
ta<;ao foi a prega<;ao que Joao Ba-
tista tinha come<;ado a fazer no
sul, no deserto da Judeia. Envia-
do para falar a Israel que, apesar
de ser descendente de Abraao,
apesar de sua circuncisao e de seu
senso de justi<;a propria, o povo
era culpado e corrompido e, par-
tanto, necessitava do batismo de
arrependimento para remissao de
pecados, esse mensageiro de Deus
atraves de seu apelo apenitencia
causou urn grande movimento
entre os judeus e preparou o ca-
minho para a vinda do Messias.
Muitos iam ate Ele, vindos de Je-
rusalem e da Judeia, como tam-
bern de toda a circunvizinhan<;a
do Jordao, para que foss em
batizados por Ele, confessando
seus pecados. Apesar de Joao Ba-
tista ter protestado ao batizar Je-
sus, por ter reconhecido ser Ele o
Messias, aquele que batizaria com
o Espirito Santo e com fogo, e
que pessoalmente nao necessita-
va do batismo, Jesus insistiu em
ser batizado e disse que tinha
que submeter-se ao batismo par-
que Ele veio para cumprir toda a
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
justi<;a (Mt 3.15).
Jesus nao disse que tinha que
ser batizado porque precisava de
arrependimento e perdao. Ao con-
tnirio dos outros que procuravam
Joao Batista, Ele nao confessou
Seus pecados. Mas Ele viu emJoao
urn profeta, e muito mais do que
profeta, Seu proprio arauto (Mt
11.7-14) e viu em Seu batismo nao
uma cerimonia arbitniria criada
pelo proprio Joao, mas urn encar-
go, uma missao, que Ele tinha re-
cebido do Pai (Me 11.30). Portan-
to o batismo de Joao repousava
sobre a vontade de Deus e era uma
parte da justic;a que Jesus tinha
que cumprir. Quando Jesus se
submete ao batismo Ele se sujeita,
por urn lado, avontade do Pai e,
por outro, coloca-se no mais inti-
ma dos relacionamentos com o
povo que nesse batismo recebia
arrependimento e perdao de pe-
cados. 0 batismo de Joao e para
Jesus a majestosa rendic;ao a toda
a vontade de Deus, a publica en-
trada em comunhao com todo o
Seu povo, a entrada real na arena
Messianica.
Portanto o batismo tinha
para Jesus urn significado diferen-
te do que tinha para as outras pes-
soas. Ele nao recebeu pessoalmen-
te o sinal eo selo de Seu arrepen-
dimento e perdao, mas foi batiza-
do com o Espirito Santo e com
fogo, como so o Espirito pode ba-
tizar. Posteriormente algumas sei-
tas pensaram que no, momenta de
375
Seu batismo, pela primeira vez a
natureza divina ou o poder de
Cristo se uniram com o homem
Jesus. Esse pensamento e uma he-
resia, pois faz violencia a encar-
na<;ao do Verbo na concep<;ao.
Mas uma coisa e certa: 0 batismo
de Jesus foi Sua plena prepara<;ao
para o cumprimento de Seu oficio,
pois quando Ele saiu das aguas OS
ceus se abriram e o Espirito de
Deus desceu sobre Ele e do ceu se
ouviu uma voz que dizia: "Este e
o meu Filho amado, em quem me
comprazo" (Mt 3.16)7). Apesar
desse fato ser entendido por pou-
cos, o dia do batismo de Jesus foi
o dia de Sua revelac;ao a Israel e o
dia do comec;o de Seu ministerio
como o Messias.
Antes de dar inicio ao Seu
ministerio Ele passou alguns dias
sozinho no deserto. Ele nao encon-
trou urn ser humano sequer, esta-
va rodeado somente pela nature-
za e por animais selvagens, dedi-
cado ao jejum, ameditac;ao e aora-
c;ao. Qual era a natureza dessa
medita<;ao e algo que logo fica cla-
ra para nos atraves do registro da
tentac;ao. A tenta<;ao de satanas,
que aconteceu ao fim de quarenta
dias, e da qual urn registro deta-
lhado nos e apresentado por
Mateus, formou urn climax na ba-
talha que Jesus travou, mas essa
nao foi a unica. Lucas afirma que
durante esses quarenta dias Ele foi
tentado pelo diabo (4.2), e que o
diabo, depois de ter terminado
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
todas as suas tentac;oes, apartou-
se dEle ate o momento oportuno
(4.13). Jesus foi tentado em tudo,
assim como n6s, mas sem pecado
(Hb 4.15).
Mas a tentac;ao no deserto
estava de acordo com o plano de
Seu ministerio. Depois do batismo
Ele ficou cheio do Espirito Santo
(Lc 4.1), e foi o Espirito que ole-
vou ao deserto para ser tentado
pelo diabo (Mt 4.1). Jesus estava
agora completa e claramente cons-
ciente do fato de que Ele era o Fi-
lho de Deus, o Messias, e que es-
tava no comando dos poderes di-
vinos. Mas que tipo de uso Ele
agora faria desses poderes? Sera
que Ele os utilizaria para satisfa-
zer Suas pr6prias necessidades, ou
dobraria Seus joelhos diante de
urn poder terreno para adquirir
urn reino terreno ou tentaria con-
veneer as pessoas atraves de uma
demonstrac;ao dramatica de sinais
e maravilhas? 0 tentador tenta-o
nesses tres pontos. Mas Jesus per-
manece firme. Ele se apega forte-
mente a Palavra de Deus e pela
Palavra Ele vence todas as tenta-
c;oes. Ele se sujeita avontade e ao
caminho do Pai, se estabelece na
obediencia e se santifica como urn
sacrificio a Deus. Portanto, Ele
sabe por experiencia propria o que
eser tentado, e tambem pode ter
compaixao de n6s em nossas fra-
quezas, e por nao ter sucumbido
a tentac;ao Ele pode tambem so-
correr aqueles que sao tentados
(Hb 2.18; 4.15).
* * * * *
Dessa forma Jesus foi prepa-
rado para o publico ministerio de
Seus oficios e deu inicio ao seu
exerdcio. Desses tres, no primei-
ro periodo o oficio profetico foi o
mais enfatizado. De fato, logo que
comec;ou a exercer Seu ministerio
publico Ele foi reconhecido pelo
povo nao somente como urn pro-
fessor isto e, urn mestre, urn rabi,
mas tambem como urn profeta.
Depois deter ressuscitado o jovem
em Nairn a multidao clamou:
"Grande profeta se levantou en-
tre n6s, e Deus visitou o Seu povo"
(Lc 7.16). E isso aconteceu ate o fim
de Sua vida, porque Suas palavras
e Suas obras projetavam-no como
urn profeta, mesmo nos casos em
que o povo nao tinha conhecimen-
to de Seus oficios sacerdotal e real,
ou ate mesmo quando o povo re-
jeitava esses dois oficios. Alem
disso, como urn profeta, isto e,
como uma pessoa mais habilitada
que as outras para transmitir en-
sinos sobre Deus e as realidades
divinas, Ele ehonrado ate OS nos-
sos dias por todos aqueles que res-
peitam qualquer valor de qual-
quer religiao. Mas esse mesmo
povo rejeita a ideia de que Cristo
eurn sacerdote e urn rei. Ecomo
urn profeta que Ele eexaltado. Ate
mesmo Mohamed no Corao lhe
confere essa dignidade.
574
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao
Mas Jesus queria ser profeta
em urn sentido diferente do usu-
al. Quando, depois deter sido ba-
tizado por Joao e tentado no de-
serto, Jesus voltou aGalih~ia, Ele
logo se dirigiu a sinagoga de
Nazare e aplicou a profecia de
Isaias 11.1 a Si mesmo. 0 Espfrito
do Senhor estava sobre Ele para
evangelizar os pobres e por em li-
berdade os oprimidos (Lc 4.18).
Ele nao se apresenta como urn
profeta semelhante aos demais,
mas como urn profeta que esta
acima de todos os outros. Os pro-
fetas que vieram antes dEle ti-
nham sido servos, mas Ele era o
Filho (Mt 21.37). Ele e o unico
Mestre (Mt 23.8,10; Jo 13.13,14). E
verdade que Ele tinha em comurn
com os outros profetas os dons da
voca<;ao e un<;ao, de revela<;ao e de
prega<;ao da Palavra de Deus, de
predi<;ao e poderes miraculosos.
No entanto Ele transcende todos
os outros e eexaltado sobre todos
eles. Seu chamado e Sua un<;ao
datam da eternidade; Sua separa-
<;ao e prepara<;ao come<;aram logo
que Ele foi concebido pelo Espfri-
to Santo; em Seu batismo Ele re-
cebe o Espfrito Santo sem medida
e uma voz do ceu anuncia que Ele
e0 Filho amadoI em quem 0 Pai
se compraz; Ele nao recebe reve-
la<;5es de tempos em tempos, Ele
ea revela<;ao, a plena revela<;ao de
Deus, o Verbo que estava com
Deus, era Deus e tornou-se carne;
Ele estava e estara para sempre no
375
seio do Pai, e em toda a Sua vida
Ele falou e fez somente o que o Pai
queria que Ele falasse e fizesse;
conseqiientemente, Ele nao nos
deu uma revela<;ao parcial que
poderia ser ampliada posterior-
mente por outras pessoas, pois Ele
ea perfeita revela<;ao de Deus, que
cumpre e conclui todas as outras
profecias. Deus, de muitas vezes
e de muitas maneiras falou aos
nossos pais pelos profetas, mas
nestes ultimos dias nos falou pelo
Filho (Hb 1.1). Alem disso, a pro-
fecia que no Velho Testamento
nos foi dada pelos pais falava so-
bre Cristo. Foi o Espfrito de Cris-
to que deu testemunho aos profe-
tas (1Pe 1.11), eo conteudo desse
testemunho era Cristo (Ap 19.10).
A prega<;ao de Cristo foi,
portanto, no sentido mais profun-
da, uma revela<;ao de Si mesmo.
Ela foi uma proclama<;ao de Sua
propria pessoa e de Sua obra.
Quando Ele se manifestou publi-
camente, Ele tomou Joao Batista e
os profetas do Velho Testamento
como ponto de partida: "Arrepen-
dei-vos, porque esta proximo o
reino dos ceus" (Mt 3.2; 4.17). Os
profetas anteriores e Joao Batista
eram arautos e viram o reino de
Deus no futuro (Mt 11.10,11). To-
davia agora o tempo se cumpriu
e na pessoa de Cristo o Reino de
Deus veio aterra. Deus eo Rei e o
Pai desse Reino (Mt 5.16,35,45),
mas o Pai se agradou em que
Cristo desse esse Reino aos Seus
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
discipulos204
•
Em Sua pregac;ao Cristo fala
sobre a origem e a natureza desse
reino, a forma pela qual se tern
acesso a ele, os beneficios que ele
oferece, seu desenvolvimento gra-
dual e sua plenitude final. Ele nao
faz isso atraves de argumentac;oes
filosoficas ou de discursos teolo-
gicos, mas atraves de proverbios
e parabolas. Ele retira Suas figu-
ras de linguagem dos fenomenos
naturais ou dos eventos diarios,
da vida pratica, e fala as multid6es
sempre usando uma linguagem
viva e clara, de forma que aqueles
que o ouviam pudessem entende-
lo (Me 4.33). Contudo, quando
Seus ouvintes nao entendiam Suas
palavras, isso era uma evidencia
da dureza de seus corac;oes e, tam-
bern, do prazer do Pai em escon-
der essas coisas aos sabios e en-
tendidos e revela-las aos peque-
ninos (Mt 11.25; 13.13-15). Mas em
si mesmas essas palavras sempre
eram compreensiveis, ate mesmo
quando elas se referiam aos mis-
terios mais profundos do Reino de
Deus, pois na pessoa de Seu Filho
e herdeiroI 0 proprio Deus e 0
revelador e interprete dessas pa-
lavras. Em Seu nascimento, em
Sua mensagem e em Seus atos Je-
sus nos apresentou o Pai (Jo 1.18).
Quem quer que veja o Filho, ve
tambem o Pai (Jo 14.9).
A mensagem anunciada por
'
04
Mt 11.27; Lc 12.32: 22.29.
376
Jesus era essencialmente a mesma
que fora anunciada nos tempos do
Velho Testamento. Ela incluia tan-
to a lei quanto o Evangelho, mas
Jesus nao veio para ser urn novo
legislador como intuito de ampli-
ar a lei do Velho Testamento. Eo
Evangelho anunciado por Cristo
e o mesmo que Deus vinha reve-
lando desde 0 paraiso. Jesus nao
veio para destruir a lei ou os pro-
fetas, mas para cumpri-la (Mt
5.17). Ele cumpriu a lei ao purifica-
la de todas as interpretac;6es fal-
sas e de todas as adic;6es huma-
nas, e ao traze-la a sua plena rea-
lizac;ao em Sua propria pessoa e
em Seu ministerio. Portanto, Cris-
to tern uma relac;ao com a lei dife-
rente da que tinha Moises, e uma
relac;ao como Evangelho diferen-
te da que tinham os profetas. E
verdade que a lei foi dada por
Moises eo Evangelho foi anunci-
ado pelos profetas, mas a Gra<;:a e
a verdade se encontram somente
em Jesus Cristo (Jo 1.17). Moises
carregou a lei em suas maos na for-
ma de duas tabuas de pedra, e em
sua obra ele podia ser superado
por outros. Da mesma forma os
profetas anunciaram o Evangelho,
mas eles mesmos nao eram o Evan-
gelho. Mas Cristo cumpriu a lei em
seu sentido mais pleno e mais pro-
fundo, realizando perfeitamente a
vontade do Pai, e foi nao apenas o
pregador do Evangelho, mas tam-
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao
bern seu conteudo, o mais sublime
dom que Deus deu ao mundo. A
Gra<;a e a verdade se encontraram
nEle e estao ligadas de forma
inseparcivel em Sua pessoa.
* * * * *
As palavras de Jesus foram
acompanhadas e confirmadas por
Seus atos. Esses atos tambem per-
tenciam ao Seu oficio, ao cumpri-
mento da vontade do Pai (Jo 4.34).
Esses atos nao foram realizados
por Sua propria iniciativa, mas o
Pai deu todas as coisas em Suas
maos (Mt 11.27); Jo 3.35), eo Filho
nada fez de Si mesmo, senao so-
mente aquilo que viu o Pai fazen-
do (Jo 5.19). Foi o proprio Pai, que
permanecia no Filho, que realizou
essas obras (Jo 14.10). Assim como
essas obras tinham uma origem
divina, elas possuiam tambem urn
carater divino, nao somente por
serem milagres e estarem separa-
das do curso ordinaria da nature-
za, mas tambem porque elas nao
podiam ser realizadas por outras
pessoas, pois enquanto as pesso-
as seguiam sua propria vontade,
Jesus nunca procurou Seus propri-
os interesses ou Seu prazer (Rm
15.3). Em vez disso Ele negou a Si
mesmo e cumpriu a vontade do
Pai. Entre as obras realizadas por
Jesus, os milagres ocupam urn lu-
205
fa 2.11; 3.2; 4.54; 7.31; 9.16; 10.37; 11.4.
206
Mt 12.38; 16.1; Jo 4.48.
577
gar especial. Por urn lado eles eram
sinais e evidencias da missao e do
poder divino de Cristo205
, e por
outro lado eles eram atos de Jesus
que tinham a finalidade de suprir
as necessidades fisicas e espiritu-
ais das pessoas. Todos os milagres
de Jesus sao milagres de reden<;ao
e cura, e como tais eles pertencem
ao Seu oficio sacerdotal.
Isso se torna evidente a par-
tir das limita<;6es que Jesus impoe
arealiza<;ao de Seus milagres. No
deserto Ele resistiu atenta<;ao de
satanas para que aplicasse Seu
poder divino em beneficia pro-
prio. 0 que Ele disse no jardim do
Getsemani, isto e, que Ele pode-
ria orar ao Pai e o Pai lhe manda-
ria mais de doze legioes de anjos
(Mt 26.53) e aplicavel a todo o Seu
ministerio. Em varias ocasioes Ele
se recusou a realizar Seus milagres
para satisfazer a curiosidade do
povo206
, e nao raramente Ele limi-
tava Sua revela<;ao aincredulida-
de que encontrava (Mt 13.58). Em
varias ocasioes as pessoas que re-
cebiam milagres eram exortadas
a nao falar sobre isso a outras pes-
soas (Me 1.34A4; 3.12). Jesus nao
queria alimentar ideias erradas a
respeito do Messias atraves de
Suas obras.
As obras realizadas por Je-
sus pertenciam ao Seu oficio sa-
cerdotal, e por isso elas tambem
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
eram manifestac;6es de Sua com-
paixao. N6s lemos sobre Sua com-
paixao em varios lugares207
, e 0
evangelista Mateus ve nas curas
realizadas por Jesus urn cumpri-
mento da profecia de Isaias que
diz que Ele tomou sobre Si as nos-
sas enfermidades e as nossas do-
res levou sobre Si (Mt 8.17). Em
outro lugar essa profecia e aplica-
da amorte de CristoI na qual Ele
levou sobre Si os nossos pecados
(Jo 1.29; 1Pe 2.24). Mas o pecado e
a enfermidade caminham juntos.
Como nosso compassivo Sumo
Sacerdote, Cristo nao somente re-
moveu nosso pecado, mas tam-
bern a causa de nossa miseria. E
nos varios milagres por Ele reali-
zados, na expulsao de demonios,
na cura de cegos e surdos, aleija-
dos e mutilados, na ressurrei<;ao
de mortos e no controle das for-
<;as da natureza, Ele da evidenci-
as conclusivas de que pode nos
redimir de toda a nossa miseria e
sofrimento. Nao ha culpa tao
grande, nem pecado tao profun-
da que nao possam ser removidos
por essa compaixao sacerdotal e
por esse poder real de Cristo.
Naturalmente Sua atividade
sacerdotal se expressa especial-
mente em Sua paixao e morte, na
entrega de Sua alma em resgate
por muitos e no cumprimento da
obra que ele veio realizar, e que
Ele realizou ao longo de toda a Sua
207
Mt 9.36; 14.14; 15.32.
578
vida (Mt 20.28). Como Cordeiro
de Deus Ele constantemente tira
o pecado do mundo. Sua humilha-
c;ao comec;ou em Sua encarnac;ao,
continuou atraves de Sua vida de
obediencia pelo sofrimento, e ter-
minou na morte na cruz (Fp 2.8;
Hb 5.8). Foi o Pai que designou
Cristo como sacerdote e como pro-
feta. E assim como Cristo cumpriu
Seu oficio profetico, da mesma
forma Ele cumpriu cabalmente
Seu oficio sacerdotal.
Enotavel que no Novo Tes-
tamento, Cristo s6 receba o nome
de sacerdote, na carta aos
Hebreus. Everdade que Sua vida
e morte sao apresentadas como
sacrificio, mas o termo profeta s6
e usado em Hebreus. Ha uma boa
razao para isso. Certamente Cris-
to e urn sacerdote, mas Ele e urn
sacerdote muito diferente dos que
existiam no tempo do Velho Tes-
tamento sob a lei de Moises. Ossa-
cerdotes do Velho Testamento
eram da linhagem de Aarao e da
tribo de Levi. Eles eram apenas sa-
cerdotes, eles nao eram profetas e
reis. Eles viviam e serviam por al-
gum tempo e eram substituidos
por outros. Eles faziam sacrificios
de bodes e novilhos, que nao po-
diam perdoar pecados. Mas nada
disso acontece com Cristo. Ele
procedeu da tribo de Juda e por
isso nao podia reivindicar o sacer-
d6cio (Hb 7.14).
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
De acordo com a carta aos
Hebreus, Cristo nao era urn sacer-
dote segundo a linhagem de
Aarao, mas segundo a linhagem
de Melquisedeque. Ja tinha sido
isso anunciado no Salmo 110: o
Messias sera urn sacerdote que
combinara a dignidade real com
o oficio sacerdotal. A carta aos
Hebreus desenvolve esse pensa-
mento e afirma que Cristo e urn
sacerdote nao segundo a ordem
de Aarao, mas segundo a ordem
de Melquisedeque, porque Ele e
ao mesmo tempo urn rei perfeita-
mente justo e sem pecado- urn rei
de justi<;a, que sera sacerdote para
sempre, que nunca sera substituf-
do porque traz uma oferta de Seu
proprio corpo e de Seu proprio
sangue, e nao de bodes e novilhos,
e que por intermedio de Seu sa-
crificio alcan<;a perfeita salva<;ao
para Seu povo e lhe da paz eter-
na, poise 0 rei da paz (Hb 7.20 ss.).
A admoesta<;ao pratica que os ju-
deus cristaos - que estavam ame-
a<;ados de apostasia- deduziram
de tudo isso e que eles nao tinham
uma razao sequer para voltar
atras, mas para seguir adiante
(6.1). Os sacerdotes do Velho Tes-
tamento, suas ora<;6es interces-
soras e seus sacrificios serviram
como tipos e sfmbolos para que o
povo tivesse acesso a Deus, e o
sacerdocio deles foi perfeita e eter-
namente cumprido em Cristo. Ele
abriu urn novo e vivo caminho
para a vida eterna, e por esse ca-
379
minho os cristaos podem, com
confian<;a e certeza de fe, compa-
recer diante do trono da Gra<;a
(4.16; 10.19 ss.).
* * * * *
Assim como o offcio sacer-
dotal esta relacionado ao oficio
profetico, o offcio real de Cristo
tambem esta relacionado ao Seu
oficio sacerdotal de uma forma
ainda mais intima. Uma das pe-
culiaridades do oficio sacerdotal
de Cristo e sua conexao com Sua
dignidade real (51110.4; Hb 7.17).
Alem disso, Israel foi chamado
para ser urn reino de sacerdotes
(Ex 19.6). E, embora os offcios em
Israel sejam distintos, ha a profe-
cia de que o Messias, o renovo que
brotaria em Seu proprio lugar e
edificaria o templo do Senhor, se-
ria revestido de gloria (a majesta-
de real) e se assentaria sobre Seu
trono e exerceria domfnio e seria
sacerdote sobre Seu trono. 0 Mes-
sias, que uniria as fun<;6es reais e
sacerdotais, atraves dessa uniao
traria a perfeita paz de que Seu
povo necessita (Zc 6.12,13).
Essa conexao com o oficio
sacerdotal da ao reinado de Cris-
to urn carater muito especial. Ele
procede da casa de Davi (25m
7.16), mas em tempo no qual a
casa de Davi tinha entrado em
decadencia (Mq 5.1). Ele seria urn
rei justo e equipado com a salva-
<;ao de Deus, mas tambem seria
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
humilde, e em Sua humildade ca-
valgaria em urn jumento- urn
jumentinho, uma cria de jumenta
(Zc 9.9). E assim como o Messias
nao exibiria gloria e poder terre-
nos, da mesma forma Seu reino
nao seria estabelecido atraves de
armas e violencia. De fato, nesse
dia Ele destruiria os carros de
Efraim e os cavalos de Jerusalem,
eo arco de guerra seria destruido,
eo Messias anunciaria paz as na-
c;oes e Seus dominios se estende-
riam de mar a mar e desde o
Eufrates ate as extremidades da
terra (Zc 9.10. Compare com Sl72).
Essa profecia referente a vin-
da do Messias foi perfeitamente
cumprida em Cristo. 0 Novo Tes-
tamento constante e enfaticamen-
te afirma que Ele pertence a casa
de Davi e que em virtude das leis
do reino de Israel Ele tern direito
ao trono. As d uas listas
geneal6gicas (Mt 1 e Lc 3) apre-
sentam-no como filho de Davi. 0
anjo anuncia a Maria que o Senhor
lhe clara urn filho, que sera cha-
mado de Filho do Altissimo, que
Deus lhe clara o trono de Davi, seu
pai, e que Ele reinara para sem-
pre sobre a casa de Jac6, e o Seu
reinado nao terci fim (Lc 1.32,33).
Ele e geralmente reconhecido
como Filho de Davi208
• A essa des-
cendencia de Davi esta ligado o
fato de que Ele e urn rei e tern di-
reito ao reino (Lc 23.42).
208
Mt 9.27; 12.23; 15.22; 20.30; 21.9; Rm 1.3.
380
Todavia Ele e rei em urn sen-
tido diferente daquele que os ju-
deus esperavam como o Messias.
Ele nunca fez uso de Seu direito
real ao trono de Davi, nem diante
dos governadores do povo judeu,
nem diante do rei Herodes, nem
diante do Cesar Romano. Ele re-
sistiu a tentac;ao de dominar 0
mundo atraves de poderes mun-
diais (Mt 4.8-10). Quando a mul-
tidao, depois de ser alimentada
milagrosamente quis faze-lo rei
Ele se esquivou e foi orar no mon-
te (Jo 6.15; Mt 14.23). De fato, Ele
frequentemente mostrava Seu po-
der real, mas nao dando demons-
trac;oes vazias de autoridade,
como faziam os governadores das
nac;oes, e sim servindo e entregan-
do sua alma em resgate por mui-
tos (Mt 20.25-28). Seu oficio real
encontra expressao na fon;a com
a qual Ele falava, com a qual Ele
proclamava Suas leis para o reino
dos ceus, sujeitava a Si mesmo as
forc;as da natureza, subjugava as
doenc;as e a morte, e ate mesmo
na cruz, onde Ele entregou Sua
vida para reave-la novamente, e
Ele urn dia, como rei e como juiz
julgara os vivos e os mortos.
Mas esse significado espiri-
tual que Cristo, em harmonia com
a profecia do Velho Testamento,
da ao Seu reinado, nao deve nos
fazer pensar que Ele nao seja ver-
dadeiramente urn rei e que so-
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HuMILHA<;:Ao
mente em urn sentido figurado Ele
receba essa designa<_;ao. Ele e sa-
cerdote segundo a linhagem de
Melquisedeque, e nao segundo a
linhagem de Aarao, e por essa ra-
zao Ele e urn sacerdote melhor que
os sacerdotes do Velho Testamen-
to, e, da mesma forma, por ser urn
rei diferente daqueles que gover-
nam as na<_;oes, Ele e urn rei me-
lhor do que eles. Ele eo verdadei-
ro rei, e os reis da terra sao reis
somente aSua imagem e seme-
lhan<_;a. Ele eo Rei dos reis, o prin-
cipe dos reis da terra, o rei que go-
verna, interna e externamente, es-
piritual e fisicamente, no ceu e na
terra, ate as extremidades da ter-
ra e por toda a eternidade.
Ele nunca, nem por Deus
nem pelo homem, abre mao de
Seus legitimos direitos a esse rei-
nado eterno e perfeito. Durante
Sua jornada pela terra Ele nunca
abriu mao de qualquer urn de
Seus direitos divinos ou humanos.
Ele nao tentou obter esses direi-
tos pela violencia, mas alcan<_;ou-
OS unica e exclusivamente atraves
de Sua obediencia a Deus. Em Sua
humilha<_;ao Ele provou ser o Fi-
lho de Deus e o herdeiro de todas
as coisas.
Para demonstrar que real-
mente era urn rei, Ele faz Sua en-
trada triunfal em Jerusalem no
domingo que abre a semana da
paixao. Nao havia qualquer peri-
go de que a natureza de Seu rei-
nado nao fosse bern compreendi-
381
da. Toda uma vida marcada pela
obediencia, que por palavras e
atos tinha rejeitado todo poder
terreno, agora estava atras dEle.
A inimizade entre Cristo e o povo
tinha alcan<_;ado seu ponto mais
elevado, e ainda no decorrer des-
sa semana Ele seria entregue a
morte. Apesar de ter evitado to-
dos os esfor<_;os populares no sen-
tido de coroa-lo rei, Ele agora
toma a iniciativa de fazer Sua en-
trada triunfal em Jerusalem (Mt
22.1). Antes de Sua morte Ele deve
se fazer conhecido de forma clara
e inequivoca como o Messias, en-
viado por Deus, da linhagem de
Davi. Ele faz essa revela<_;ao em
harmonia com a profecia de urn
futuro rei que seria humilde e ca-
valgaria sobre urn jumento. Foi
por ser o Messias, o Filho de Deus,
o Rei da casa de Davi, que Ele foi
condenado pelo Sinedrio e por
Pilatos (Mt 27.11). A inscri<_;ao no
alto da cruz, colocada contra a
vontade dos judeus, mais uma vez
da testemunho desse fato (Jo
19.19-22).
* * * * *
Toda a vida de Cristo com
Suas atividades profeticas, sacer-
dotais e reais, culminou em Sua
morte. A morte eo cumprimento
da vida. Jesus veio para morrer.
Ele mesmo estava claramente
consciente disso. Logo em Sua pri-
meira apari<_;ao publica, na sinago-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ga de Nazare, Ele aplicou a profe-
cia referente ao Servo Sofredor a
Si mesmo (Lc 4.16 ss.), e, portan-
to, estava perfeitamente conscien-
te de que seria levado como urn
cordeiro para o matadouro. Ele
era o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo (Jo 1.29). 0 tem-
plo de Seu corpo seria destruido,
mas depois de tres dias seria no-
vamente edificado (Jo 2.19). Assim
como Moises levantou a serpente
no deserto, assim tambem, segun-
do o conselho de Deus, o Filho do
homem seria levantado na cruz (Jo
3.14. Compare com 12.32,33). Ele
era o grao de trigo, que tinha que
morrer para que desse muito fru-
to (Jo 12.24).
Dessa forma Jesus, desde o
come<;o de Seu ministerio, descre-
ve atraves de imagens e parabo-
las que tipo de morte Ele recebe-
ria. Na medida em que o fim se
aproximava, Ele clava expressao a
esse fato de maneira mais clara e
mais objetiva. Especialmente de-
pois que Pedro, em nome de to-
dos os ap6stolos, no momento
decisivo em Cesareia de Filipos,
confessou que Jesus era o Cristo,
o Filho do Deus vivo, Ele come-
<;ou a mostrar-lhes que Ele tinha
que ira Jerusalem e sofrer muitas
coisas nas maos dos anciaos, do
sumo sacerdote e dos escribas,
morrer, e ressuscitar ao terceiro
dia (Mt 16.21). Os discipulos nao
entendiam isso e nao queriam
aceitar esse fato. Pedro foi tao Ion-
382
ge que chegou a chama-lo confi-
dencialmente e dizer-lhe: "Tern
compaixao de ti, Senhor; isso de
modo algum te acontecera". Mas
nessas palavras Jesus viu uma ten-
ta<;ao e prontamente retrucou:
II Arreda, Satanas! Tu es para mim
pedra de trope<;o, porque nao co-
gitas das coisas de Deus, mas das
dos homens" (Mt 16.22,23). Essa
firmeza de Cristo em entregar-se
a morte obteve a aprova<;ao de
Deus poucos dias depois, no mon-
te da transfigura<;ao. Ele foi a Je-
rusalem em harmonia com o sig-
nificado da lei e dos profetas
(Moises e Elias) e com a vontade
do Pai. Ele continuou sendo o Fi-
lho amado, em quem o Pai se
compraz, e os discipulos nao de-
viam censura-lo, mas submeter-se
a Ele e ouvi-lo (Mt 17.1-8).
Apesar de nao perder de vis-
ta Sua propria morte, Jesus nao
desafia os fariseus e os escribas a
que o prendessem. Apesar de sa-
ber que Sua hora se aproximava
(Jo 12.23; 17.1), e Judas quem vo-
luntariamente o vende e o trai, e
sao os servos do sumo sacerdote
e dos fariseus que o levam cativo,
e sao os membros do Sinedrio e
Poncio Pilatos que o condenam a
morte. 0 conselho de Deus nao
exclui as circunstancias hist6ricas
e nao passa por alto a culpa do
homem. Pelo contrario, atraves do
determinado conselho de Deus
Ele foi condenado, mas de tal for-
ma que os judeus injustamente o
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
aprisionassem e 0 condenassem a
morte (At 2.23; 4.28).
A morte de Cristo desde o
come<;o e o ponto central da pre-
ga<;ao apostolica209
, e nao esta pre-
sente apenas no testemunho de
Paulo, mas no testemunho de to-
dos os apostolos. Foi somente de-
pois da ressurrei<;ao de Cristo que,
sob a instru<;ao do Espirito santo,
a necessidade e a importancia do
sofrimento de Cristo foi compre-
endida. Nessa ocasiao ficou claro
para os apostolos que a paixao e a
morte de Cristo tambem eram urn
cumprimento de Sua atividade
profetica, uma prova da verdade
de Seu ensino e urn selo de toda
Sua vida. Sob Poncio Pilatos Ele
fez a boa confissao (1Tm 6.13) e em
Seu paciente sofrimento Ele nos
deu o exemplo, para que nos pu-
dessemos seguir Seus passos (1Pe
2.21). Ele e a testemunha fiel (Ap
1.5; 3.14), que como apostolo e
sumo sacerdote e o conteudo de
nossa confissao (Hb 3.1) e que eo
Autor e Consumador da nossa fe
(Hb 12.2). Assim a morte de Cris-
to e uma revela<;ao de Seu poder
reaC pois Sua morte nao foi urn ato
do destino, mas uma realiza<;ao
que Ele mesmo, por Sua propria
vontade, executou (Jo 10.17)8).
Sua morte na cruz foi Sua exalta-
<;ao sobre toda a terrae Sua vito-
ria sobre todos os Seus inimigos210
,
209
At 2.23; 3.14; 4.10 55.
210
Jo 3.14; 8.28; 12.32,34.
585
pois foi a mais perfeita obedien-
cia ao mandato do Pai (Jo 14.31).
Contudo, de acordo com o
ensino apostolico, nos nao descan-
samos sobre a morte de Cristo. Em
Sua morte Jesus foi nao somente
uma testemunha e urn guia, urn
martir e urn heroi, urn profeta e
urn rei. Acima de tudo isso Ele foi
urn sacerdote. ESua fun<;ao sacer-
dotal que ganha preeminencia em
Sua morte. De acordo como ensi-
no de toda a Escritura Sua morte
foi urn sacrificio, que Ele livremen-
te ofereceu ao Pai.
Quando o Novo Testamen-
to nos apresenta a morte de Cris-
to sob esse nome, ele a vincula di-
retamente ao Velho Testamento.
Os sacrificios existiam desde os
tempos mais remotos. Nos lemos
que Cairn e Abel ja ofereciam seus
sacrificios, que Noe e os patriar-
cas tambem os ofereciam, enos os
encontramos entre todas as na<;5es
e em todas as religioes. Geralmen-
te pode ser dito que o proposito
do sacrificio e fazer uma oferta
material, consistindo de animais
vivos ou mortos que sao destrui-
dos de uma forma espedfica se-
gundo uma cerimonia definida,
com o objetivo de obter o favor e
o agrado da divindade ou para
readquiri-lo. Deus incluiu na lei
esses sacrificios para o povo de
Israel. Mas em Israel eles seguiam
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
uma regra diferente e tinham urn firme em Israel.
significado diferente. Assim como todo o povo de
Em primeiro lugar, em Isra- Israel, em virtude de seu chama-
el os sacrificios foram limitados a do e de sua elei<;ao, era urn reino
oferta de animais (bois, ovelhas, de sacerdotes (Ex 19.6), eo sacer-
cordeiros, bodes, novilhos e porn- docio era uma institui<;ao subor-
bos) e aos produtos da terra (flo- dinada e temporaria, assim tam-
res, oleo, vinho e aromas) e so po- bern os sacrifkios (especificamen-
diam ser oferecidos a Jeova, o te as ofertas queimadas, as ofer-
Deus de Israel. 0 oferecimento de tas pelo pecado e as ofertas pela
seres humanos, o sorvimento do culpa) eram a forma pela qual os
sangue e a mutila<;ao do corpo pecados que os israelitas cometi-
eram proibidos211
. Alem disso, to- am no ambito da Alian<;a podiam
das as ofertas aos idolos, aos mor- ser perdoados214
• Os pecados mais
tos ou aos animais "santos" eram graves, que quebravam a Alian<;a
viola<;oes da vontade de Deus212
. e provocavam a ira de Deus, ape-
Em segundo lugar, os sacrificios sar de serem geralmente punidos
em Israel eram muito menos im- civicamente, eram submetidos a
portantes que a lei moral. A obe- misericordia de Deus, que os per-
diencia e melhor que sacrificios, e doava, apesar de algumas vezes
o ouvir e melhor do que a gordu- ser necessaria a intervenc;ao de
ra de carneiros. 0 Senhor quer pessoas como Abraao (Gn 18.23-
misericordia, e nao sacrificios, eo 33), Moises215
, Fineias (Nm 25.11),
conhecimento de Deus vale mais ou Amos (Am 7.4-6; Compare com
do que ofertas queimadas213
. Em Jr 15.1)216
.
terceiro lugar, os sacrificios em Atraves de todo esse servi<;o
Israel assim como o sacerdocio, o cerimonial Deus instruiu Seu
templo, o altar, e toda a regula- povo, em primeiro lugar, no sen-
menta<;ao cerimonial estavam a tido de que toda a Alian<;a da Gra-
servic;o da promessa. Eles nao le- <;a, com todos os seus beneficios,
vavam a efeito a Alian<;a da Gra- deve-se somente amisericordia de
<;a, pois essa Alian<;a repousa so- Deus. Ela tern sua origem e sua
mente sobre a graciosa eleic;ao de base na ilimitada compaixao de
Deus. Eles serviram apenas para Deus: "Terei misericordia de
estabelecer a Alian<;a e mante-la quem me aprouver ter misericor-
------------------------------~--------~--
211
Gn 22.11; Dt 12.23; 14.1; 18.10.
212
Ex 32.4ss.; Nm 25.2ss.; Os 11.2; Jr 11.12; Ez 8.10; 51106.28.
213
15m 15.22; Os 6.6; 14.2; 5140.7; 50.7-14; 51.18,19; Pv 21.3.
m Lv 4.22; 5.15,18; Nm 15.25 ss.; 35.11; Js 20.3,9.
21
' Ex 32.11-14; Nm 14.15-20.
216
Ex 33.19; 34.6; 51 78.38; 79.8,9; Is 43.25; Mq 7.18.
384
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO
dia e me compadecerei de quem
me aprouver ter compaixao" (Ex
33.19). Tambem por meio dessas
instiui<;6es cerimoniais o Senhor
fez com que Israel compreendes-
se que Ele s6 concederia o perdao
de pecados mediante expia<;ao. 0
pecado, em outras palavras, sem-
pre provoca a ira de Deus e faz
com que o homem se torne culpa-
do e corrompido. Portanto, urn
sacrificio e necessaria para que a
ira de Deus seja satisfeita, para que
o homem seja limpo de sua culpa
e de sua impureza, e para que ele
alcance mais uma vez o favor e a
comunhao com Deus. Havia pe-
cados para os quais a lei nao es-
pecificava urn sacrificio particular
para que houvesse expia<;ao. Po-
demas dizer que a expia<;ao era
deixada por conta de Deus. Eo
proprio Deus quem, nesses casos,
expia o pecado e o perdoa. 0 per-
ciao pressupoe a expia<;ao217
• Ate
mesmo com rela<;ao aos pecados
cometidos por ignorancia, e para
os quais urn sacrificio espedfico
era prescrito na lei, em ultima ana-
lise era Deus que, por meio da
oferta, do sacerdote, do altar, co-
bria os pecados e os removia (Lv
17.11; Nm 8.19). Todo o servi<;o
expiat6rio procede de Deus e foi
prescrito por Ele.
0 meio pelo qual a expia<;ao
ou reconcilia<;ao era obtida era o
derramamento do sangue do ani-
mal sacrificado. 0 sangue e a sede
da alma, a sede do principia da
vida, e foi por isso que Deus o co-
locou sobre o altar como o elemen-
to expiat6rio da alma (Lv 17.11).
Mas para que servisse como agen-
te expiat6rio esse sangue - que o
pecador trazia ao templo e sobre
o qual ele impunha suas maos-
tinha que ser purificado pela mor-
te e depois tinha que ser aspergi-
do pelo sacerdote sobre o altar (Ex
29.15 ss.). A imposi<;ao de maos, a
morte da vftima e a aspersao do
sangue sobre o altar indicavam o
fato de que o sangue como sede
da alma se tornava o elemento da
expia<;ao. E quando dessa forma
o sangue expiava os pecados, co-
bria-os e removia-os, a culpa era
perdoada, a corrup<;ao era extir-
pada, e a comunhao da Alian<;a
com Deus era restaurada. 0 sacer-
d6cio eo povo, o templo eo altar,
e todos os utensilios eram consa-
grados pelo sangue ao Senhor; to-
dos eram santificados para que
Deus pudesse morar no meio dos
filhos de Israel e ser o seu Deus
(Ex 29.43-46).
Mas todo esse servi<;o sacrifi-
cial foi preliminar e possuia so-
mente a sombra dos bens vindou-
ros (Hb 10.1). 0 tabernaculo no
deserto era apenas uma imagem
do verdadeiro santuario (Hb 8.5).
Os sacerdotes eram pecadores, e
tinham que fazer expia<;ao nao
217
Sl 65.4; 78.38; 79.9; Pv 16.6; Is 27.9; Jr 18.23; Ez 16.63.
385
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
somente pelos pecados do povo,
mas tambem pelos seus pr6prios
pecados (Hb 7.27; 9.7), e pela mor-
te eram impedidos de dar conti-
nuidade ao seu sacerd6cio (Hb
7.23). 0 sangue de bodes e de tou-
ros nao podia remover pecados
nem purificar a consciencia (Hb
9.9,13; 10.4). Portanto, esses ani-
mais tinham que ser trazidos con-
tinuamente (10.1). Em uma pala-
vra, tudo isso era externo, fraco
inutile defeituoso (Hb 7.18; 8.7), e
apontava para urn futuro melhor.
Os israelitas piedosos aprenderam
a conhecer esse futuro melhor no
decorrer dos seculos, aguardando
o dia em que o Senhor estabelece-
ria uma nova Alianc;a, na qual Ele
mesmo faria a verdadeira expia-
c;ao, e faria com que Seu povo des-
frutasse das benc;aos de perdao e
renovac;ao218
• Particularmente em
Isaias essa expectativa alcanc;a sua
mais bela expressao. Seu livro de
conforto comec;a com o anuncio a
Jerusalem de que ja e findo 0 tem-
po da sua milicia, que a sua ini-
quidade esta perdoada e que ja
recebeu em dobro das maos do
Senhorportodososseuspecados
(Is 40.2). Depois disso ele desenvol-
ve a profecia do Servo do Senhor,
que toma sobre si as nossas enfer-
midades e as nossas dores, nossas
transgressoes e nossa punic;ao, e
nos da cura e paz (Is 53.2 ss.).
ciS Jr 31.33 ss.; 33.8; Ez 11.20; 36.25 ss.
* * * * *
Em total harmonia com o
Velho Testamento, o Novo Testa-
mento ve na morte de Cristo urn
sacrificio pelos nossos pecados.
Jesus nao disse somente que ele
veio para cumprir a lei e os profe-
tas e toda a justic;a (Mt 3.15; 5.17),
mas que tambem veio aplicar a Si
mesmo a profecia de Isaias a res-
peito do Servo do Senhor, que foi
ungido pelo Espirito do Senhor e
que tinha que pregar o Evangelho
aos pobres (Lc 4.17 ss.). Ele veio
para que, em harmonia com o
mandato do Pai, pudesse entregar
Sua vida e reave-la, para que des-
se sua vida pelas Suas ovelhas, e
pudesse dar Sua carne e Seu san-
gue como comida e bebida que
permanecesse para a vida eter-
na219. Sua morte eo verdadeiro sa-
crificio e o cumprimento de todos
os sacrificios que nos dias do Ve-
lho Testamento foram oferecidos
de acordo com as prescric;oes da lei.
Alem disso, a morte de Cris-
to e a mais perfeita das rendic;oes
avontade do Pai, uma evidencia
de que Cristo nao veio para ser
servido, mas para servir. Dessa
forma Sua morte e urn resgate
pago para a libertac;ao de muitos
do poder do pecado ao qual eles
estavam presos (Mt 20.28). A mor-
te de Cristo eo cumprimento da
cJ<J fa 2.19; 3.14; 6.51; 10.11,15,18; 12.24; 15.13.
386
A 0BRA DE CRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao
oferta pactual feita no preambulo
do Velho Testamento (Ex 24.7), e
e a base da nova Alian<;a (Mt 26.28;
Hb 9.15-22). Ela e chamada de sa-
crificio e oferta (Ef 5.2; Hb 9.14,26),
e realiza a ideia do sacrificio
pascaF20
, das ofertas pelo pecado
e das ofertas pela culpa221
, e do
sacrificio feito no grande dia da
expia<;ao222
•
Nao somente os sacrificios
do Velho Testamento foram cum-
pridos em Cristo, mas tambem
todas as suas exigencias e as a<;5es
que os acompanhavam. 0 sacer-
dote que fazia a oferta tinha que
ser urn homem sem qualquer de-
feito (Lv 21.17 ss.), e esse sacerdo-
te e Cristo, santo, inculpavel, sem
macula, separado dos pecadores
(Hb 7.26). 0 animal que era sacri-
ficado tinha que ser totalmente
sem defeito (Lv 22.20 ss.), e Cristo
e o Cordeiro sem macula e sem
mancha (1Pe 1.19). Assim como o
animal do sacrificio tinha que ser
morto pelas maos do sacerdote
(Ex 29.11), Cristo foi morto como
urn cordeiro e com Seu sangue Ele
nos comprou para Deus (Ap 5.6-
9). Nenhum osso do cordeiro
pascal podia ser quebrada (Ex
12.46), e Cristo morreu sem que
sequer urn de Seus ossos fosse
quebrada (Jo 19.36). No caso de
uma oferta pelo pecado, o sacer-
220
Jo 1.29; 1Co 5.7; 1Pe 1.19; Ap 5.6.
221
Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 13.11; 1Pe 3.18.
222
Hb 2.17; 9.12.
dote, depois de imolar o animal,
aspergia o seu sangue no lugar
santo (Lv 16.15; Nm 19.4) e, no
caso de uma oferta da Alian<;a, o
sangue do animal era aspergido
sobre o povo (Ex 24.8); e exata-
mente dessa forma Cristo, pelo
Seu sangue, entrou no santo lugar
(Hb 9.12) e aspergiu Seu sangue
sobre Seu povo (1Pe 1.2; Hb 12.24).
Quando a oferta pelo pecado era
feita, o sangue do animal era tra-
zido ate o lugar santo, mas o cor-
po era queimado fora do arraial
(Lv 16.27). Da mesma forma Cris-
to, para que pudesse santificar Seu
povo com o Seu sangue, sofreu
fora da porta (Hb 13.12). Assim
como no culto do Velho Testa-
mento o sangue, como sede da
vida, atraves de sua purifica<;ao na
morte e de sua aspersao sobre o
altar se tornava o elemento pro-
prio para a expia<;ao, assim tam-
bern na nova Alian<;a o sangue de
Cristo e a causa efetiva da expia-
<;ao, perdao e elimina<;ao do nos-
so pecado223
.
Portanto, quando o Novo
Testamento fala que Cristo sofreu
e morreu como urn sacrificio, ele
faz uso de uma figura de lingua-
gem, e empresta seus termos do
culto sacrificial do Velho Testa-
mento. Mas n6s nao devemos in-
ferir desse fato que essa represen-
223
Mt 26.28; At 20.28; Rm 3.25; 5.9; 1Co 11.25; Ef 1.7; C/1.20; Hb 9.12,14; 12.24; 1Pe 1.2,19;
1Jo 1.7; 5.6; Ap 1.5; 5.9.
587
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ta<;ao seja acidental, irreal, e arbi- amor de Deus. Mas esse amor de
tniria. Pelo contrario, a Escritura Deus nao coloca a justi<;a de lado.
parte precisamente do fato de que Pelo contrario, a justi<;a esta inclu-
os sacrificios dos dias do Velho ida no amor, pois o amor de Deus
Testamento eram a imagem e a nao rouba ao pecado o seu cara-
sombra, e que receberam seu cum- ter pecaminoso, ele simplesmen-
primento no sacrificio de Cristo. te o perdoa atraves da expia<;ao.
Assim como Cristo era verdadei- Foi de acordo com o mandato do
ramente profeta, sacerdote e rei, e Pai que Cristo teve que morrer224
,
nao somente uma compara<;ao, da e atraves de Sua morte Ele satis-
mesma forma Sua entrega na mor- fez a justi<;a de Deus225
• Na morte
te nao foi urn sacrificio no sentido de Cristo Deus, perdoando os pe-
figurativo, mas no mais essencial cados de Seu povo, perfeitamente
e verdadeiro sentido da palavra. manteve Sua justi<;a e ao mesmo
N6s nao podemos negar que a tempo abriu o caminho pelo qual,
morte de Cristo tenha sido urn sa- enquanto preserva Sua justi<;a,
crificio. Negar a palavra e negar tambem justifica todos aqueles
tambern a realidade que ela repre- que, pela fe, pertencem a Jesus.
senta. E essa realidade e a mais im- Em segundo lugar, o sacrifi-
portante de todas as realidades para cio de Cristo e uma demonstra<;ao
n6s: e a fonte de nossa salva<;ao. tanto de Sua obediencia "passiva"
Alem disso, quando a morte quanto de Sua obediencia "ativa".
de Cristo e chamada de sacrificio, Em tempos antigos a obediencia
a implica<;ao e que Ele se entregou passiva era colocada em urn ter-
para ser uma oferta e urn sacriff- reno tao distante da obediencia
cio a Deus em aroma suave (Ef ativa que virtualmente desapare-
5.2). De fato, Cristo foi uma dadi- cia atras dela. Mas posteriormen-
va e uma evidencia do amor de te tanta enfase foi colocada sobre
Deus (Jo 3.16). Deus provou Seu a obediencia ativa que a primeira
amor por n6s pelo fato deter Cris- teve seu justo valor obscurecido .
to morrido por n6s, sendo n6s ain- Contudo, de acordo com a Escri-
da pecadores (Rm 5.8). Aquele que tura, ambas caminham juntas, e
nao poupou Seu proprio Filho devem ser vistas como os dois la-
tambem nos clara graciosamente dos da mesma questao. Cristo, em
com Ele todas as coisas (Rm 8.32). todos os tempos, de Sua concep-
0 nascimento, a vida, e tambem <;ao e nascimento em diante, obe-
o sofrimento e a morte de Cristo deceu ao Pai. Toda a Sua vida
demonstram e nos asseguram o deve ser vista como urn cumpri-
--------------------~----------------------
,. Mt 26.54; Lc 24.25; At 2.23; 4.28.
"·' Mt 3.15; 5.17; fa 10.17,18; Rm 3.25,26.
588
A 0BRA DE CRISTO EM suA HuMILHA<;:Ao
mento da justi<;a de Deus, de Sua
justi<;a e de Seu mandata. Ao vir
ao mundo Ele disse: "Eis aqui es-
tou para fazer 6 Deus, a tua von-
tade" (Hb 10.5-9). Essa obediencia
foi perfeitamente demonstrada
em Sua morte, mais especifica-
mente em Sua morte na cruz (Fp
2.8). 0 Novo Testamento afirma
abundantemente que atraves do
sofrimento e da morte de Cristo,
pela primeira vez o pecado foi
expiado, perdoado e removido.
Nao somente o cumprimento da
lei, mas tambem a retirada da cul-
pa pertence avontade de Deus que
Cristo realizou de forma plena.
Portanto, em terceiro lugar,
o sacriffcio de Cristo esta relacio-
nado aos nossos pecados. Ja no
Velho Testamento n6s lemos que
Abraao ofereceu uma oferta quei-
mada em lugar de seu filho (Gn
22.13L que pela imposi<;ao de
maos o israelita fazia com que urn
animal sacrificial tomasse seu lu-
gar (Lv 16.1), e que o Servo doSe-
nhor foi ferido por nossas trans-
gressoes e moido pelas nossas
iniquidades (Is 53.5). Da mesma
forma o Novo Testamento estabe-
lece uma intima rela<;ao entre o sa-
crificio de Cristo e nossos pecados.
0 Filho do homem veio ao mun-
do para dar a Sua vida em resgate
por muitos (Mt 20.27; 1Tm 2.6). Ele
foi entregue por, ou em conside-
226
Rm 8.3; Hb 10.6,18; 1Pe 3.18; 1Jo 2.2; 4.10.
ra<;ao aos nossos pecados (Rm
4.25), Sua morte estava relaciona-
da com os nossos pecados226
, ou,
como geralmente se diz, Ele mor-
reu pelos nossos pecados227
•
A comunhao que Cristo, se-
gundo as Escrituras, passou a ter
conosco e tao intimae tao profun-
da que n6s nao podemos sequer
formar uma ideia sobre ela. 0 ter-
mo sofrimento substitutivo expres-
sa apenas de uma forma fraca e
defectiva o que essa comunhao
significa, pois a realidade trans-
cende nossa imagina<;ao e nosso
pensamento. Everdade que algu-
mas analogias podem ser feitas
para explicar essa comunhao. N6s
sabemos da existencia de pais que
sofreram em e com seus filhos, de
her6is que deram sua propria vida
em beneficia de seu pais, de ho-
mens e mulheres nobres que se-
mearam o que outros posterior-
mente colheram. Em todos os lu-
gares, n6s vemos em opera<;ao, a
lei de que poucos trabalham e se
esfor<;am para que outros desfru-
tem de seu labor e dos beneficios
que ele traz. A morte de urn ho-
mem e a sobrevivencia de outro.
0 grao de trigo deve morrer para
que de fruto. Em dores a mae da a
luz o seu filho. Mas nenhuma des-
sas compara<;6es e adequada para
expressar a comunhao que Cristo
passou a ter conosco. "Dificilmen-
227
Lc 22.19,20; Jo 10.15; Rm 5.8; 8.32; 1Co 15.3; 2Co 5.14,15,21; G/3.13; 1Ts 5.10; Hb 2.9; 1Pe
2.21.
389
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
te, alguem morreria por urn justo;
pois podera ser que pelo born al-
guem se anime a morrer. Mas
Deus prova o Seu proprio amor
para conosco pelo fato deter Cris-
to morrido por nos, sendo nos ain-
da pecadores" (Rm 5.7,8).
Nao havia comunhao entre
nos e Cristo, havia apenas sepa-
ra<_:ao e oposi<_:ao, pois Ele era o
Filho unigenito do Pai, em que o
Pai se compraz, e nos eramos
como filhos perdidos. Ele era jus-
to, santo e nao tinha qualquer pe-
cado, enos eramos pecadores, cul-
pados diante de Deus, e impuros
da cabe<;a aos pes. Contudo Cris-
to colocou-se em comunhao
conosco, nao meramente em urn
sentido fisico (natural), ao assumir
nossa natureza, nossa carne enos-
so sangue, mas tambem em urn
sentido judicial (legal), e em urn
sentido etico (moral), ao entrar em
contato com nosso pecado e com
nossa morte. Ele esta em nosso
lugar; Ele se coloca no mesmo re-
lacionamento com a lei de Deus
que nos tambem mantemos; Ele
assume nossa culpa, nossa enfer-
midade, nossa puni<_:ao sobre Si
mesmo; Aquele que nao conheceu
pecado foi feito pecado por nos,
para que, nEle, fossemos feitos jus-
ti<;a de Deus (2Co 5.21). Ele se tor-
nou maldi<_:ao em nosso lugar,
para que pudesse nos redimir da
maldi<_:ao da lei (Gl3.13). Ele mor-
reu por todos, para que os que vi-
vern nao vivam mais para si mes-
390
mos, mas para Aquele que por eles
morreu e ressuscitou (2Co 5.15).
Esse e o misterio da salva-
<;ao, o misterio do amor divino.
Nos nao entendemos o sofrimen-
to substitutivo de Cristo, porque
nos, sendo hostis a Deus e uns aos
outros, nao podemos imaginar o
que 0 amor e capaz de fazer, e 0
que o amor eterno e infinito de
Deus pode realizar. Mas nos nao
temos que entender esse misterio.
Nos precisamos apenas crer agra-
deci-damente nEle, descansar
nEle, e nos gloriarmos e nos ale-
grarmos nEle. "Ele foi traspassa-
do pelas nossas transgress6es e
moido pelas nossas iniqiiidades.
0 castigo que nos traz a paz esta-
va sobre Ele, e pelas Suas
pisaduras fomos sarados. Todos
nos andavamos desgarrados
como ovelhas; cada urn de nos se
desviava pelo caminho, mas o Se-
nhor fez cair sobre Ele a iniqiiida-
de de nos todos" (Is 53.5,6).
"Que diremos, pois, avista
destas cousas? Se Deus e por nos,
quem sera contra nos? Aquele que
nao poupou Seu proprio Filho,
antes, por nos o entregou,
porventura, nao nos clara gracio-
samente com Ele todas as cousas?
Quem intentara acusa<_:ao contra
os eleitos de Deus? EDeus quem
os justifica. Quem os condenara?
ECristo Jesus quem morreu ou,
antes, quem ressuscitou, o qual
esta adireita de Deus e tambem
intercede por nos" (Rm 8.31-34).
CAPITULO
11®
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA~Ao
0
s beneficios que Cristo
nos concedeu por Seu
grande amor sao tao ricos
que seu valor simplesmente nao
pode ser calculado nem estimado.
Eles compreendem nada menos
que toda a perfeita obra de salva-
<;ao. Eles consistem na reden<;ao
do maior de todos os males, a sa-
ber, o pecado com todas as suas
consequencias de miseria e mor-
te, e a obten<;ao do maior de to-
dos os bens, a saber, a comunhao
com Deus e todas as ben<;aos dela
decorrentes. Mais adiante tere-
mos oportunidade de discutir to-
dos esses beneficios de forma de-
talhada, mas eles devem ser men-
passagem, aqm para
que possamos entender a
obra de Cristo em seu mais pro-
funda significado.
Dentre todos os beneficios
o principal. Ela e expressa no
Novo Testamento por duas pala-
vras do original grego que foram
traduzidas em portugues como
propicia<;ao, reconcilia<;ao ou ex-
pia<;ao. A primeira dessas pala-
vras - ou, para ser mais preciso,
varias palavras como mesmo sen-
tido - e encontrada em Romanos
3.25, Hebreus 2.17, lJo 2.2; 4.10, e
originalmente significa cobrir e
serve para designar a expia<;ao
efetuada pelo sacrificio. A ideia e
que o sacrificio, ou melhor, o san-
gue do sacriffcio - pois o sangue
e a sede da vida, e quando ele e
derramado e aspergido ele se tor-
na o elemento proprio da expia-
<;ao - cobre o p (culpa;
pessoa que traz a
oferta diante de Deus e, em con-
sequencia disso, ele remove a pro-
voca<;ao ira de Deus. Devido
que n6s devemos aprofunda hu- ao
milha<;ao de CristoI a expia<;ao e
e aaspersao do
a vida, a alma de
591
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
--------------------·
urn animal inocente e sem macu-
lae utilizada, Deus coloca de lado
Sua ira, muda Sua atitude com
rela<;ao ao pecador, perdoa sua
transgressao, e admite-o nova-
mente aSua presen<;a e aSua co-
munhao. 0 perdao que se segue
aexpia<;:ao etao perfeito que po-
demos dizer que os pecados fo-
ram apagados ou desfeitos (Is
43.25; 44.22), foram lan<;ados para
tras (Is 38.17), ou lan<;:ados no fun-
do do mar (Mq 7.19). A expia<;ao
perdoa tao completamente ope-
cado que e como se ele nao tives-
se sido cometido. Ela desfaz a ira
de Deus e faz com que Sua face
brilhe sobre Seu povo em aprova-
<;:ao paternal e boa vontade.
No Velho Testamento tudo
isso apontava para o sacrificio de
Cristo no futuro. Ele eo sumo sa-
cerdote que por Seu sangue
sacrificial cobre nossos pecados
da face de Deus, desvia Sua ira e
faz com que n6s desfrutemos de
Sua Gra<;:a e de Sua aprova<;:ao. 0
sacrificio do Velho Testamento
era o meio de expia<;:ao (Rm 3.25).
Cristo en expia<;:ao (1Jo 2.2; 4.10).
Como sumo sacerdote Cristo e
ativo em nossa reconcilia<;:ao com
Deus, expiando os pecados do
povo (Hb 2.17). Ha muitos que
rejeitam essa reconcilia<;ao entre
n6s e Deus atraves de Cristo. Es-
sas pessoas dizem que Deus e
amor, que Ele nao exige reconci-
lia<;:ao, e que a ideia de uma expi-
a<;:ao e propria somente da ideia
legalista e primitiva de Deus
apresentada no Velho Testamen-
to, e que essa ideia e colocada de
lado e combatida no Novo Testa-
mento. Mas essas pessoas se es-
quecem que o pecado, devido ao
seu carater profano e culpado pro-
voca a ira de Deus e merece puni-
<;:ao nao somente sob a lei de
Moises, mas tambem fora dela e
acima dela, no Novo Testamen-
to228. Eles se esquecem que Cristo
e nao apenas uma dadiva e uma
revela<;:ao do amor de Deus, mas
tambem de Sua justi<;:a (At 4.28;
Rm 3.25), e que o perdao ammo-
so de Deus nao exclui a expia<;:ao,
mas pressup6e a expia<;:ao e con-
firma-a. 0 perdao e sempre urn
ato perfeitamente voluntario e
gracioso de Deus. Ele pressup6e
que Deus tern o direito de punir,
e consiste, dessa forma, em urn
tipo de absolvi<;:ao que e compa-
tivel com a manuten<;:ao da justi-
<;a de Deus. Aquele que nega a
Deus o direito de punir nao so-
mente faz injusti<;:a ao carater pro-
fano e culpado do pecado, mas
tambem recusa o gracioso e
perdoador amor de Deus. Nesse
caso a expia<;:ao deixa de ser urn
ato gracioso, voluntario e pesso-
al para tornar-se urn processo na-
tural. A Escritura, contudo, nos
ensina que Siao e redimida pela
228
Gn 2.17; 3.14 ss.; Rm1.18; 5.12; 6.23; Gl3.10; Ef2.3.
592
A 0BRA DE CRisTo EM SuA ExALTA<;:Ao
justic;a, e que Cristo, atraves de
Seu sacrificio, satisfez essa justi-
c;a, e desviou a ira de Deus, que
tinha sido provocada pelo peca-
dozz9.
Essa expiac;ao ou reconcili-
ac;ao que Cristo alcanc;ou para n6s
com Deus tern outro significado,
motivo pelo qual outra palavra e
usada para distingui-lo. Essa pa-
lavra eusada em Romanos 5.10)1
e 2Cor1ntios 20, e tern o sentido
original de troca, compensac;ao.
Ela aponta para a nova disposi-
c;ao da Grac;a que Deus dirige ao
mundo devido ao sacrificio reali-
zado por Cristo. Tendo Cristo,
atraves de Sua morte, coberto nos-
sos pecados e desviado a ira de
Deus, Deus muda Sua atitude
com relac;ao ao mundo para uma
atitude de reconciliac;ao, e nos
fala em Seu Evangelho, que e cha-
mado de palavra de reconciliac;:ao.
Essa reconciliac;:ao tambem e
objetiva. Ela nao vern aexistencia
em virtude de nossa fe e arrepen-
dimento, mas repousa sobre a ex-
piac;ao (satisfac;ao) realizada por
Cristo, e consiste de uma reconci-
liac;ao do gracioso relacionamen-
to de Deus conosco, e n6s a rece-
bemos e aceitamos pela fe (Rm
5.11). Devido ao fato de Deus ter
colocado de lado Sua disposic;ao
hostil em relac;ao a n6s por causa
da morte de Cristo, n6s somos
orientados a, de nossa parte, aban-
229
Is 1.27; Rm 5.9,10; 2Co 5.18; G/3.13.
393
donar nossa hostilidade em rela-
c;:ao a Deus e nos deixarmos ser re-
conciliados com Deus, entrando,
assim, em urn novo relaciona-
mento com Ele, urn relacionamen-
to reconciliado, no qual Deus vern
ate n6s. Tudo esta consumado.
Nada foi deixado para que n6s fi-
zessemos. N 6s podemos com
toda a nossa alma e em todo o
tempo descansar na perfeita obra
de redenc;:ao que Cristo realizou.
N6s podemos aceitar pela fe o fato
de que Deus colocou de lado sua
ira e que em Cristo n6s fomos re-
conciliados com Deus, que tern
uma atitude de Pai em relac;:ao a
pecadores culpados e maculados.
Quem quer que sinceramen-
te creia nesse Evangelho de recon-
ciliac;ao recebe imediatamente to-
dos os outros beneficios que fo-
ram alcanc;ados por Cristo, pois na
atitude de paz que Deus assume
para com o mundo atraves de
Cristo estao incluidos todos os
outros beneficios da Alianc;a da
Grac;a. Cristo e urn, e nao pode ser
dividido nem aceito em partes. A
corrente de salvac;:ao nao pode ser
quebrada. E aqueles a quem Deus
predestinou, a esses tambem cha-
mou, e aos que chamou, a esses
tambem justificou, e aos que jus-
tificou, a esses tambem glorificou
(Rm 8.30). Portanto todos aqueles
que sao reconciliados com Deus
atraves da morte de Cristo rece-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
bern o perdao de pecados, a ado-
<_;:ao de filhos, a paz com Deus, o
direito a vida eterna e a heran<_;:a
celestiaF30
. Eles permanecem em
urn status de comunhao com Cris-
to, sao crucificados, sepultados e
ressuscitados com Ele, e estabe-
lecidos no ceu, e cada vez mais e
mais sao moldados a Sua ima-
gem231. Eles recebem o Espirito,
que os renova, conduze-os aver-
dade, da testemunho de sua ado-
<_;:ao como filhos, e os acompanha
ate o dia da reden<_;:ao232
• Nessa
comunhao com o Pai, o Filho e o
Espirito Santo, os crentes sao li-
vres da lei233
, sao elevados acima
de todo poder do mundo e da
morte, do inferno e de Satanas234
.
Deus e por eles; quem sera contra
eles? (Rm 8.31).
* * * * *
0 perfeito sacrificio que
Cristo realizou na cruz e de infi-
nito poder e merito, e plenamen-
te suficiente para a expia<_;:ao dos
pecados de todo o mundo. A Sa-
grada Escritura sempre relaciona
a todo o mundo a obra de reden-
<_;:ao e recria<_;:ao. 0 mundo e o ob-
jeto do amor de Deus (Jo 3.16).
Cristo nao veio ao mundo para
230
Rm 5.1; 8.17; G/4.5
231
Rm 6.3 ss.; 8.29; Gl 2.20; EJ4.22-24.
232
Jo 3.6; 16.3; Rm 8.15; EJ4.30.
233
Rm 7.1ss.; Gl 2.19; 3.13; 4.5; 5.1.
condena-lo, mas para salva-lo235
.
Em Cristo Deus reconciliou o
mundo, todas as coisas, no ceu e
na terra, a Si mesmo. Cristo e uma
propicia<_;:ao nao apenas para
aqueles que em urn dado mo-
mento creem nEle, mas tambem
para todo o mundo (1Jo 2.2). As-
sim como o mundo foi criado pelo
Filho, assim tambem o mundo
esta destinado a pertencer a Ele
como o Filho e herdeiro (Jo 1.29;
2Co 5.9; Cl1.20). Eo beneplacito
do Pai na dispensa<_;:ao da pleni-
tude dos tempos que reuniu to-
dos em urn, cujo Cabe<_;:a e Cristo,
tudo, isto e, no ceu e na terra (Ef
1.10). Aproxima-se o tempo dares-
taura<_;:ao de todas as coisas. Pela
promessa de Deus n6s esperamos
por urn novo ceu e por uma nova
terra, na qual habitara a justi<_;:a (At
3.21; Ap 21.1).
Devido a plena suficiencia
do sacrificio de Cristo para todo
o mundo, o Evangelho da recon-
cilia<_;:ao deve ser pregado a todas
as criaturas. A promessa do Evan-
gelho e que quem quer que creia
no Cristo crucificado nao perece-
ra, mas tera vida eterna, e esse
Evangelho deve ser proclamado
e apresentado sem distin<_;:ao a to-
das as na<_;:6es e povos aos quais
2
·H Jo 16.33; Rm 8.38; lCo 15.55; 1Jo 3.8; Ap 12.10.
235
fa 3.17; 4.42; 6.33,51; 12.47.
394
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
Deus, segundo o Seu beneplaci-
to, envia o Seu Evangelho. Ele
deve ser acompanhado pelo im-
perativo arrependimento e pela fe.
A Escritura nao nos deixa a me-
nor duvida sobre isso. No Velho
Testamento ja foi dito que o Se-
nhor nao tern prazer na morte do
impio, mas no seu arrependimen-
to e na sua vida (Ez 18.23; 33.11).
Tambem e dito que todas as na-
<;6es algum dia desfrutariam da
benc;ao de Israel236
• A ideia
missionaria ja esta presente na
promessa da Alianc;a da Grac;a
apresentada no Velho Testamen-
to, mas ela e expressa com total
clareza quando Cristo vern ao
mundo e realiza Sua obra. Ele e a
luz do mundo, o Salvador que da
a Sua vida pelo mundo237
, que
tern outras ovelhas que nao per-
tencem ao aprisco de Israel e que
devem ser conduzidas ate Ele (Jo
10.16), e por isso Ele prediz e or-
dena que o Evangelho seja prega-
do em todo o mundo238
•
Quando, depois do Pen.te-
costes, os ap6stolos levaram esse
Evangelho aos judeus e aos gen-
tios e fundaram igrejas em todos
os lugares, quase pode ser dito
que sua mensagem se espalhou
por todo o mundo, e suas pala-
vras foram ouvidas ate nos con-
fins da terra (Rm 10.18), e que a
Grac;a salvadora de Deus se rna-
136
Gn 9.27; 12.3; Dt 32.21; Is 42.1,6.
'
37
Jo 3.19; 4.42; 6.33; 8.12.
138
Mt 24.14; 26.13; 28.19; Me 16.15.
395
nifestou a todos os homens (Tt
2.11). De fato, a intercessao por
todos os homens e particularmen-
te pelos reis e por todos aqueles
que estao em posic;ao de autori-
dade e uma atitude boa e agrada-
vel a Deus, pois Ele quer que to-
dos os homens sejam salvos e che-
guem ao conhecimento da verda-
de (1Tm 2.4). A demora do retor-
no de Cristo e a evidencia da
longanimidade de Deus, pois Sua
vontade e que nenhum se perca,
mas que todos cheguem ao arre-
pendimento (2Pe 3.9).
A universalidade da prega-
c;ao do Evangelho tern suas van-
tagens para o mundo em sua in-
teireza, ate mesmo para aqueles
que nunca crerao em Cristo como
seu Salvador. Em Sua encarnac;ao
Cristo honrou toda a rac;a huma-
na, e tornou-se irmao de todos os
homens segundo a carne. A luz
brilha nas trevas e, pela Sua vin-
da ao mundo, ilumina todo ho-
mem. 0 mundo foi feito por Ele,
apesar do mundo nao o conhecer
(Jo 1.3-5). Pelo chamamento afee
ao arrependimento que Cristo da
a todo aquele que vive sob o
Evangelho, Ele da muitas benc;aos
externas no lar e na sociedade, na
Igreja e no Estado, e isso alegra
tambem aqueles que em seu co-
rac;ao nao ouvem o Evangelho.
Eles se encontram sob o dominio
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
do Verbo, sao protegidos de ter-
riveis pecados, e, em distin<;ao das
na<;6es pagas, desfrutam de mui-
tos privilegios. Alem disso, n6s
nao podemos nos esquecer que
Cristo, por Sua paixao e morte,
promoveu a liberta<;ao da criatu-
ra dos poderes da maldade, a re-
nova<;ao do ceu e da terra, a res-
taura<;ao e a reconcilia<;ao de to-
das as coisas, tanto de anjos quan-
to de homens. Em Cristo, o orga-
nismo da ra<;a humana e o mun-
do como cria<;ao de Deus, sao res-
taurados (Ef 1.10; Cll.20).
Todavia, n6s nao devemos
deduzir dessa absoluta universa-
lidade da prega<;ao do Evangelho
e da oferta da Gra<;a que os bene-
ficios de Cristo sejam destinados
a todas as pessoas individualmen-
te. Isso e negado de forma conclu-
siva pelo fato de que nos dias do
Velho Testamento Deus deixou
que os pagaos seguissem seus
pr6prios caminhos e escolheu so-
mente o povo de Israel como Sua
propriedade. Isso e negado tam-
bern pelo fato de que, na plenitu-
de dos tempos, nao obstante a
universalidade da prega<;ao do
Evangelho, Ele limitou as pro-
messas de Sua Gra<;a atraves dos
seculos a uma pequena parcela da
humanidade.
As afirma<;6es gerais que sao
encontradas aqui e ali na Escritu-
ra nao podem ser tomadas em urn
sentido absoluto por quem quer
que seja, mas devem ser conside-
radas em urn sentido relativo.
Todas elas foram escritas sob a
profunda impressao da distin<;ao
entre a dispensa<;ao do Velho e do
Novo Testamento. Dificilmente
n6s podemos perceber isso, mas
os ap6stolos, que cresceram no
particularissimo do judaismo,
sentiram profundamente a tre-
menda mudan<;a que Cristo intro-
duziu no relacionamento das na-
<;6es. Eles constantemente se refe-
rem a isso como urn grande mis-
terio que tern se mantido atraves
dos seculos, mas que foi revela-
do aos ap6stolos e profetas pelo
Espirito. Eles viam urn grande
misterio no fato de que os pagaos
seriam co-herdeiros do mesmo
corpo e que compartilhariam da
promessa de Cristo. 0 muro de
separa<;ao fora quebrado. 0 san-
gue da cruz promoveu a paz. Em
Cristo nao ha judeu nem grego,
nem barbaro nem cita. Todas as
limita<;6es de na<;ao e lingua, de
descendencia e de cor, de idade e
de familia, de tempo e de lugar
foram eliminadas. Todos os que
estao em Cristo sao novas criatu-
ras. A Igreja e constituida de to-
das as ra<;as e linguas, povos e
na<;6es239
•
Mas no momento em que a
Escritura entra na questao de para
quem Cristo alcan<;ou Seus bene-
239
Rm 16.25,26; Ef1.10; 3.3-9; C/1.26,27; 2Tm 1.10,11; Ap 5.9.
396
A OBRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
ficios, a quem Ele os garantiu e
aplicou, e quem de fato desfruta-
ra deles, ela sempre relaciona Sua
obra aIgreja. Assim como no Ve-
lho Testamento havia urn povo
especial escolhido por Deus para
ser Seu herdeiro, assim tambem,
o Novo Testamento, menciona
urn povo especial escolhido par
Deus. 0 povo escolhido apresen-
tado no Novo Testamento nao e
limitado aos descendentes de
Abraao segundo a carne. Pelo con-
tnirio, ele e constitufdo tanto por
judeus quanta par gentios, e par
todas as nac;oes e grupos de pes-
soas. Mas essa Igreja do Novo
Testamento e exatamente a reu-
niao do povo de Deus (Mt 16.18;
18.20), ela eo Israel do Novo Tes-
tamento (2Co 6.16; Gl6.16t aver-
dadeira descendencia de Abraao
(Rm 9.8; Gl 4.29). Por esse povo
Cristo derramou Seu sangue e
obteve a salvac;ao. Ele veio para
salvar esse povo (Mt 1.21), para
dar Sua vida por Suas ovelhas (Jo
10.11), para reunir todos os filhos
de Deus em urn corpo (Jo 11.52),
e garantir vida a todos aqueles
que lhe foram dados pelo Pai e
ressuscita-los no ultimo dia (Jo
6.39; 17.2), para comprar a Igreja
de Deus com o Seu sangue e
santifica-la e purifica-la com ala-
vagem de agua pela palavra (At
20.28; Ef 5.25,26). Como sumo sa-
cerdote Cristo ora nao pelo mun-
do, mas par aqueles que o Pai lhe
deu e que pela palavra dos ap6s-
tolos crerao nEle (Jo 17.9,20).
Ha, portanto, a mais perfei-
ta harmonia entre a obra do Pai,
do Filho e do Espfrito santo. To-
dos aqueles que sao escolhidos
pelo Pai sao comprados pelo Fi-
lho e, atraves da obra do Espfrito,
sao regenerados e renovados. As
Escrituras nos falam que muitos
foram comprados240
• A Escritura
nao nos ensina isso para que nos
sintamos desanimados diante de
uma norma arbitraria e de urn
numero definido, mas para que,
em meio aluta e aapostasia n6s
fiquemos perfeitamente seguros
de que a salvac;ao do comec;o ao
fim e uma obra de Deus, e que,
portanto, essa obra ira adiante in-
dependente de qualquer oposi-
c;ao. A vontade do Senhor prospe-
rara nas maos do Servo Sofredor
(Is 53.10).
Como a obra de salvac;ao e
uma obra de Deus e somente de
Deus, os beneffcios de Cristo nun-
ca nos alcanc;ariam se n6s nao ti-
vessemos sido levantados da
morte e firmados em exaltac;ao a
mao direita de Deus. Urn Jesus
morto seria o suficiente para n6s
se o Cristianismo fosse apenas
uma doutrina abstrata ou uma
prescric;ao moral e urn exemplo a
ser seguido, e nada mais. Mas a
religiao crista e alga muito dife-
'
40
Is 53.11,12; Mt 20.28; 26.28; Rm 5.15,19; J-Ib 2.10; 928.
397
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
rente e muito mais que isso. Ea
perfeita reden<_;:ao do homem
como urn todo, de todo o organis-
mo da humanidade e de todo o
mundo. Cristo veio aterra para,
nesse sentido pleno, salvar o mun-
do. Ele nao veio para abrir a pos-
sibilidade de salva<_;:ao para todos,
e a partir dai deixar ao nosso li-
vre arbitrio a aceita<_;:ao ou a rejei-
<_;:ao dessa possibilidade. Em vez
disso Ele se humilhou e se tornou
obediente ate amorte na cruz para
que realmente, perfeitamente e
eternamente pudesse nos salvar.
Portanto Sua obra nao termi-
nou em Sua morte e em Seu se-
pultamento. De fato, em Sua ora-
<_;:ao sacerdotal Ele disse que tinha
consumado a obra que o Pai lhe
tinha confiado (Jo 17.4) e, cravado
na cruz, Ele disse que tudo esta-
va consumado (Jo 19.30). Mas es-
sas afirma<_;:oes se referiam aobra
de Jesus aqui na terra. Elas se re-
feriam aSua obra de humilha<;:ao,
a realiza<_;:ao de nossa salva<;:ao.
Essa obra de fato ja foi realizada.
Ela esta completa e e perfeita.
Atraves de Sua vida e de Sua mor-
te a salva<_;:ao foi realizada de for-
ma tao perfeita que nenhuma cri-
atura precisa fazer qualquer tipo
de acrescimo a ela, e nem seria
capaz de faze-lo. Mas a realiza<_;:ao
da salva<_;:ao deve ser diferencia-
da de sua aplica<_;:ao ou distribui-
<_;:ao. A aplica<_;:ao da salva<_;:ao e tao
necessaria quanto a sua realiza-
241
At 2.36; 5.31; 1Co 15.25.
398
<_;:ao. Que beneficios esses tesou-
ros nos trariam se permanecessem
sempre alem de nosso alcance e
n6s nunca pudessemos possui-
los? Que bern Cristo nos faria se
tivesse morrido pelos nossos pe-
cados mas nunca tivesse ressus-
citado para a nossa justifica<_;:ao?
Qual seria a vantagem de urn Se-
nhor morto, que nao tivesse sido
exaltado adestra de Deus?
Como cristaos, todavia, n6s
confessamos e nos alegramos em
urn Senhor crucificado que e, ao
mesmo tempo, o Senhor ressur-
reto, em urn Salvador humilhado,
mas tambem exaltado, em urn rei
que e 0 primeiro, mas tambem e
o ultimo, que morreu, mas vive
eternamente, e que tern as chaves
do inferno e da morte (Ap 1.18).
Depois de Sua morte Cristo res-
surgiu, para que pudesse domi-
nar sobre os vivos e os mortos (Rm
14.9). Em Sua exalta<_;:ao Ele com-
pleta a constru<_;:ao cujos alicerces
Ele tinha lan<_;:ado por ocasiao de
Sua morte. Ele ressuscitou acima
de todo principado, e poder, e
potestade, e dominio, para ser o
Cabe<;:a da Igreja, que e plenitude
daquele que tudo enche em todas
as coisas (Ef 1.20-23). Em virtude
de Sua ressurrei<_;:ao Ele foi feito
Senhor e Cristo, Principe e Salva-
dor, para que Ele possa dar a Is-
rael arrependimento e perdao de
pecados, e colocar todos os Seus
inimigos sob Seus pes241
• Deus o
A 0BRA DE CrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao
exaltou e lhe deu urn nome aci-
ma de todo nome, para que ao
nome de Jesus se dobre todo joe-
lho, tanto no ceu quanto na terra,
e toda lingua confesse que Jesus
Cristo eo Senhor, para gloria de
Deus Pai (Fp 2.9-11).
A exalta<;ao de Cristo, par-
tanto, nao e urn apendice aciden-
tal nem urn adendo arbitrario que
Ele sofreu nos dias de Sua carne.
Mas, assim como a humilha<;ao,
esse e urn componente indispen-
savel da obra de reden<;ao que
Cristo realizou. Na exalta<;ao de
Cristo Sua humilha<;ao recebe Seu
selo e coroa. 0 mesmo Cristo que
desceu as partes inferiores da ter-
ra ascendeu acima de todos os
ceus (Ef4.9,10). Assimcomo a obra
de humilha<;ao lhe foi confiada, a
obra de exalta<;ao tambem o foi.
Ele tinha que realiza-la. Ela era Sua
obra, ninguem mais poderia
realiza-la. 0 Pai o exaltou preci-
samente porque Cristo se humi-
lhou tao profundamente (Fp 1.9).
0 Pai a ninguem julga, mas ao
Filho confiou todo julgamento (Jo
5.22). 0 Filho foi exaltado, e em
Seu estado de exalta<;ao Ele con-
tinua Sua obra para provar que
Ele e 0 verdadeiro, perfeito e po-
deroso Salvador. Ele nao descan-
sara ate que tenha entregue o rei-
no, perfeito e completo, ao Pai, e
possa apresentar Sua noiva, a
Igreja, ao Pai, sem mancha nem
macula (1Co 15.24; Ef 5.25). Ahon-
ra de Cristo depende do cumpri-
399
mento total de sua obra de salva-
<;ao. Ele exalta aqueles que lhe
pertencem e os traz para que fi-
quem onde Ele esta e vejam a Sua
gloria (Jo 17.24). E no fim dos tem-
pos Ele retornara para ser glorifi-
cado em Seus santos e ser admi-
rado em todos os que creram (2Ts
1.10).
*****
De acordo com a confissao
Reformada, a exalta<;ao de Cristo
come<;a em Sua ressurrei<;ao, mas
de acordo com muitas outras con-
fiss6es ela come<;a bern antes, isto
e, em Sua descida ao inferno. Essa
descida e interpretada de forma
muito variada. A igreja grega en-
tende que o significado dessa des-
cida e que Cristo, com Sua natu-
reza divina e com Sua alma hu-
mana foi ao mundo inferior para
libertar as almas dos santos ante-
passados e conduzi-las, juntamen-
te com a alma do ladrao da cruz,
ao paraiso.
De acordo com a igreja Ca-
tolica romana Cristo realmente
desceu ao mundo inferior com
Sua alma e permaneceu la por al-
gum tempo para libertar as almas
dos santos, que permaneceram la
sem qualquer sofrimento ate que
a salva<;ao tivesse sido alcan<;ada.
Do estado de morte Cristo condu-
ziu-os ao ceu, e fez com que eles
desfrutassem da aben<;oada con-
templa<;ao de Deus. A igreja
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Luterana faz uma distin<;ao entre
a real ressurrei<;ao de Cristo e Sua
ressurrei<;_:ao ou manifesta<;_:ao fisi-
ca depms de sepultado, e ensina
que no curto intervalo entre esses
dois acontecimentos Cristo, com
Sua alma e com Seu corpo, des-
ceu ao inferno para anundar Sua
vit6ria aos demonios e aos conde-
nados. E muitos te6logos, especi-
almente nos tempos modernos,
afirmam que Cristo, antes de Sua
ressurrei<;_:ao, seja em corpo seja
em alma, foi ao mundo inferior
para pregar o Evangelho aqueles
que morreram em seus pecados,
e dar-lhes oportunidade de arre-
pendimento e fe.
A grande diferen<;_:a de opi-
nioes sobre esse assunto prova
que o sentido original da expres-
sao desceu ao inferno foi perdido.
N6s nao sabemos de onde veio
essa clausula do credo, nem o que
ela queria dizer. A Escritura nada
diz sobre uma descida reat lite-
ral e espacial de Cristo ao infer-
no. Em Atos 2.27 Pedro aplica as
palavras do Salmo 16 a Cristo:
"Nao deixaras a minha alma na
morte, nem permitiras que o teu
santo veja corrup<;ao". Mas e evi-
dente que nesse caso a palavra
morte deve ser entendida como
sepultura242
. Apesar de em Sua
alma Cristo estar no paraiso, Seu
corpo estava na sepultura, e des-
sa forma no intervalo entre Sua
morte e Sua ressurrei<;_:ao Ele esta-
va na morte. Em Efesios 4.9 Pau-
lo diz que aquele que subiu tam-
bern desceu as regioes inferiores
da terra, mas isso nao e uma refe-
renda a uma desdda ao inferno,
mas uma referenda a encarna<;ao,
na qual Cristo desceu a terra ou a
morte, na qual Ele desceu a sepul-
tura. E em 1Pedro 3.19-21 Pedro
nao esta falando sobre o que Cris-
to fez entre sua morte e Sua res-
surrei<;_:ao, ele esta falando do que
Cristo fez antes de Sua encarna-
<;_:ao, atraves do Espfrito Santo, nos
dias de Noe, ou do que Ele fez
depois de Sua ressurrei<;_:ao quan-
do Ele ja estava novamente vivo.
Nao ha na Escritura o menor si-
nal de uma descida espacial de
Cristo ao inferno.
A igreja Reformada abando-
nou essa interpreta<;_:ao do credo
apost6lico e interpretou-a em re-
ferenda as afli<;_:oes infernais e as
agonias que Cristo sofreu antes de
Sua morte, tanto no G6lgota quan-
ta no Getsemani, ou relaciona-a
ao estado de morte no qual Cris-
to esteve enquanto Seu corpo es-
tava na sepultura. Ambas as inter-
preta<;_:oes se encaixam na ideia da
Escritura de que a hora em que
Jesus se entregou a morte foi a
hora e o poder das trevas (Lc
22.53). Cristo sabia que essa hora
tinha chegado, e Ele voluntaria-
mente se entregou a ela243
. Nessa
---------------------------------------------
'
42
A versiio utilizada pelo autor diz: "Niio deixarcis a minha alma no inferno, nem permitirtis que a
tw santo veja corrupr;iio" (N. do T.).
243
fa 8.20; 12.23,27; 13.1; 17.1.
400
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
hora na qual Ele expos o mais ele-
vado poder de Seu amor e obedi-
encia (Jo 10.17)8) Ele parecia es-
tar inteiramente desesperado. Os
inimigos estavam fazendo com
Ele o que bern queriam. As trevas
triunfavam sobre Ele. De fato, nao
em urn sentido espacial, mas em
urn sentido espiritual, Ele desceu
ao inferno.
Mas o poder das trevas nao
era proprio das trevas. Ele foi
dado pelo Pai (Jo 19.11). Os ini-
migos de Jesus nao entendiam que
eles eram apenas meramente
agentes ou instrumentos, e que
sem Seu conhecimento e sem Sua
vontade eles estavam cumprindo
o conselho que o Senhor tinha es-
tabelecido (At 2.23; 4.28). Em Sua
humilha<;ao Cristo era o podero-
so, que entregava Sua vida e clava
Sua alma em resgate por muitos
(Jo 7.30; 8.20). Em Sua morte Ele
venceu a morte pelo poder de Seu
amor, pela Sua perfeita negac;ao
de Si mesmo, pela Sua absoluta
obediencia avontade do Pai. For-
tanto, era impossivel que Ele, o
santo, pudesse ser retido ou do-
minado pela morte ou fosse aban-
donado por Deus e entregue a
corrup<;ao (At 2.25-27). Pelo con-
trario, o Pai o exaltou244
e Cristo
ressurgiu por Sua propria for<;a245
•
Os grilh6es da morte eram os so-
frimentos que deram origem a
uma nova vida (At 2.24). Cristo e
o primogenito dos mortos (Cl
1.18).
Essa ressurrei<;ao consistiu
no retorno de Seu corpo morto, a
vida e em Seu levantamento do
sepulcro. Os oponentes da res-
surreic;ao encontram serias difi-
culdades nesse fato. Primeiro eles
tentaram explicar que Jesus mor-
reu somente em aparencia, ou que
Seu corpo foi roubado pelos dis-
dpulos, ou que os disdpulos ti-
veram uma ilusao e simplesmen-
te imaginaram te-lo visto. Mas to-
das essas explicac;6es foram aban-
donadas, uma ap6s a outra. Atu-
almente muitos recorrem ao espi-
ritismo e encontram nele uma ex-
plica<;ao para a ressurreic;ao de
Jesus. Eles dizem que algo muito
objetivo aconteceu ali. Os discipu-
los viram algo. Eles viram uma
manifestac;ao do Cristo que tinha
morrido no corpo, mas continua-
va vivo em espirito. 0 espirito de
Cristo apareceu a eles e se reve-
lou a eles. Alguns ate mesmo dao
urn toque de piedade a tudo isso
e dizem que foi o proprio Deus
que fez com que o espirito de
Cristo aparecesse aos discipulos
para aliviar a dor que eles esta-
vam sentindo e para confirmar-
lhes a vitoria sobre a morte e a
indestrutibilidade da vida. Em
outras palavras, as apari<;6es do
244
At 2.24; 3.26; 5.30; 13.37; Rm 4.25; 1Co 15.14.
245
Jo 11.25; At 2.31; Rm1.4; 14.9; 1.Co 15.21; 1Ts 4.14.
401
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Cristo ressurreto foram "telegra-
mas do ceu", que traziam uma
mensagem divina sobre o poder
espiritual de Cristo.
Mas todo esse relata espi-
ritualista e estranho a Biblia e
diametralmente oposto ao teste-
munho que ela da a respeito da
ressurrei<;ao de Cristo. De acordo
com todos os escritores dos Evan-
gelhos, o sepulcro ficou vazio no
terceiro dia246
• Sem apresentar
uma ordem regular e sem dar urn
sumario completo dos fatos ocor-
ridos, Paulo e os evangelistas nos
dizem que Jesus apareceu as mu-
lheres, particularmente a Maria
Madalena, a Pedro, aos discipu-
los quando Tome estava ausente
e aos disdpulos quando Tome
estava presente, e a muitos outros,
inclusive a mais de quinhentos
irmaos de uma s6 vez. As primei-
ras manifesta<;6es aconteceram
nas proximidades de Jerusalem,
e as ultimas aconteceram na
Galileia, para onde Ele, como nos
diz Marcos, foi adiante dos disci-
pulos (Me 16.7). E tudo indica que
Cristo ressurgiu com o mesmo
corpo que tinha sido sepultado.
Era urn corpo de carne e ossos, e
nao urn ser etereo (Lc 24.39). Esse
corpo podia ser tocado (Jo 20.27),
e podia alimentar-se (Lc 24.41; Jo
21.10).
Cristo deixou sobre o povo,
depois de Sua ressurrei<;ao, uma
impressao muito diferente da que
tinha deixado antes dela. Aqueles
que o viram ficaram assustados e
temerosos, e lan<;avam-se aos
Seus pes eo adoravam (Mt 28.9;
Lc 24.37). Ele apareceu em uma
forma diferente daquela em que
Ele tinha aparecido antes (Me
16.12), e houve casos em que
Ele nao foi reconhecido imediata-
mente (Lc 24.16,31). Ha uma
grande diferen<;a entre a ressurrei-
<;ao de Lazaro e a de Jesus. Lazaro
retornou da morte para reassumir
sua primeira e terrena esfera de
vida, mas Jesus nao voltou. Ele foi
para frente, seguindo o caminho
da ascensao. Quando Maria pen-
sa ter recebido novamente Seu
Mestre e Senhor e se alegra na Sua
presen<;a, Ele a adverte com as
seguintes palavras: "Nao me de-
tenhas; porque ainda nao subi
para meu Pai, mas vai ter com os
meus irmaos e dize-lhes: Subo
para meu Pai e vosso Pai, para
meu Deus e vosso Deus" (Jo
20.17). Depois da ressurrei<;ao
Cristo nao pertencia mais a terra,
mas ao ceu. Essa e a razao pela
qual Sua forma foi mudada, em-
bora Ele continuasse com o mes-
mo corpo que fora colocado no
sepulcro. Paulo apresenta a ques-
tao dizendo que, ao morrer, urn
corpo naturale semeado, mas que
na ressurrei<;ao (tanto na de Cris-
to quanta na dos crentes) urn cor-
2
"
6
Mt 28.6; Me 16.6; Lc 24.3; Jo 20.2; lCo 15.4,5.
402
A OBRA DE CrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao
po espiritual e ressuscitado (1Co
15.44). Em ambos os casos o cor-
poe o mesmo, pois aqui o espin-
tual nao e oposto ao fisico, mas
ao natural. Isso acontece porque
no corpo fisico ha uma grande
parte de vida que se encontra no
ambito do espirito e existe mais
ou menos de forma independen-
te. E no corpo espiritual tanto"os
alimentos quanto o estomago"
serao destruidos (1Co 6.13) e o
que e material ficara em sujeic;ao
ao espirito.
* * * * *
A ressurreic;ao fisica de Cris-
to nao e urn fato hist6rico isola-
do. Ela e inexaurivelmente rica
em significado para Cristo, para
a Igreja e para todo o mundo. Em
geral ela significa a vit6ria de
Cristo sobre a morte. Por urn ho-
mem a morte veio ao mundo. A
transgressao da lei de Deus abriu
o caminho da morte para a huma-
nidade, pois a morte e o salario
do pecado247
. Portanto a conquis-
ta da morte havia que ser feita por
urn homem. Urn homem tinha que
ressuscitar da morte. Mesmo que
urn anjo, mesmo que o proprio
Filho de Deus tivesse descido ao
reino dos mortos e retornado ao
ceu, isso de nada nos aproveita-
ria. Mas Cristo era nao somente o
Unigenito do Pai, mas tambem
247
Rm 5.12; 6.23; 1Co 15.21.
405
era perfeito e verdadeiro homem.
Ele era Deus e era tambem o Fi-
lho do homem. Como homem Ele
sofreu, morreu e foi sepultado e
como homem Ele ressurgiu do
reino dos mortos. Na ressurreic;ao
de Cristo foi provado que houve
urn homem que nao pode ser con-
tido pela morte, nao pode ser do-
minado por Satanas, pelo poder
da corrupc;ao, urn homem que foi
mais forte que o sepulcro, rnais
forte que a morte e mais forte que
o inferno. Portanto, em principia,
Satanas nao tern mais poder sobre
a morte. Cristo, atraves de Sua
morte, venceu a morte (Hb 2.14).
Embora somente Cristo tenha res-
suscitado e embora ninguem mais
possa levantar-se do sepulcro, a
ressurreic;ao de Cristo demonstra
que ha urn homem mais forte do
que ele. As portas do reino da
morte que tinham se fechado so-
bre Ele tiveram que abrir-se no-
vamente ao Seu comando. 0 prin-
cipe deste mundo nada tern em
Cristo (Jo 14.30).
Se isso realmente e assim,
entao e evidente que o que acon-
teceu na ressurreic;ao de Cristo foi
precisamente a ressurreic;ao fisi-
ca. Uma ressurreic;ao espiritual
nao seria o suficiente e seria ape-
nas uma vit6ria parcial. Nesse
caso o homem como urn todo, o
homem como homem, como ele e
em seu corpo e em sua alma, nao
Fundarnentos Teol6gicos da Fe Crista
teria sido removido do domfnio
da morte, e satanas ainda teria o
controle de uma grande area. De
qualquer modo uma ressurreic;ao
espirituat isto e, regenerac;ao e
renovac;ao, poderia ter acontecido
em Cristo, pois Ele e santo, livre
de toda culpa, e isento de peca-
do. Para demonstrar Seu poder
sobre o pecado Ele teria que
retornar fisicamente do reino dos
mortos, e assim revelar Seu poder
espiritual sobre a morte. Atraves
de Sua ressurreic;ao fisica ficou
estabelecido que por meio de Sua
obediencia ate a cruz e ao sepul-
cro Ele perfeitamente venceu o
pecado e todas as conseqi.iencias
que ele traz, inclusive a morte que,
podemos dizer, foi expulsa e
substituida por uma nova vida de
incorruptibilidade. Portanto, a
morte pode ter entrado no mun-
do atraves de urn homem, mas a
ressurreic;ao dos mortos tambem
veio atraves de urn homem (1Co
15.21). Cristo e a ressurreic;ao e a
vida (Jo 11.25).
0 que ate aqui foi visto e 0
suficiente para demonstrar a im-
portancia da ressurreic;ao de Cris-
to, mas essa importancia tambem
pode ser apresentada em maiores
detalhes- inclusive sua importan-
cia para Cristo. Sea morte na cruz
tivesse sido o fim da vida de Je-
sus e nao tivesse sido seguida por
uma ressurreic;ao, os judeus teri-
am sido vingados ao condena-lo.
Em Deuteron6mio 21.23 n6s le-
404
mos que aquele que e pendura-
do no madeira e maldito de Deus.
0 argumento aqui e que 0 corpo
de urn criminoso, depois da mor-
te, nao deve ser mantido sobre o
madeiro durante a noite, mas
deve ser removido e sepultado no
mesmo dia. Se esse corpo perma-
necesse sobre o madeiro ele pro-
fanaria a terra que o Senhor tinha
dado ao Seu povo. A lei mosaica
nao previa a crucificac;ao, mas
quando Jesus foi enviado aos gen-
tios (Mt 20.19) e por suas maos foi
crucificado (At 2.23), Ele foi, nao
somente depois de Sua morte,
mas tambem antes dela, urn
exemplo da severidade proibida
pela lei e foi amaldic;oado por
Deus. Para os judeus, que conhe-
ciam a lei, a morte nao era apenas
uma punic;ao dolorosa e desgra-
c;ada, mas tambem uma evidencia
de que o crucificado estava com-
pletamente cheio da ira e da mal-
dic;ao de Deus. Jesus, pregado
sobre a cruz, foi aos olhos dos ju-
deus uma ofensa e uma maldic;ao
(1Co 1.23; 12.3).
Contudo, a ressurreic;ao re-
verteu todo esse julgamento.
Aquele que se tornou maldito por
nossa causae Aquele que foi aben-
c;oado pelo Pai. Aquele que foi
pregado na cruz e o Filho no qual
o Pai se compraz. 0 rejeitado da
terra e o coroado do ceu. A res-
surreic;ao e uma evidencia da
Filiac;ao de Cristo. Aquele que,
segundo a carne, era urn descen-
A 0BRA DE CrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao
dente de Davi, na ressurreic;ao e
apresentado como Filho de Deus
em poder, segundo o Espirito de
santidade que nEle esta (Rm 1.3,4).
Cristo falou a verdade e fez a boa
confissao diante de Caifas e de
Poncio Pilatos quando deu teste-
m unho de que era o Filho de
Deus. Nao foram os judeus e os
romanos que em Seu julgamento
provaram estar certos, mas Cris-
to. Ele e o justo que foi pregado
na cruz e entregue amorte. A res-
surreic;ao e a inversao divina da
sentenc;a que o mundo impos a
Jesus.
Essa evidencia da Filiac;ao e
do Messianismo de Cristo expres-
sa na ressurreic;ao nao exaure seu
significado para Cristo. Ela tam-
bern foi para Ele o ingresso em
urn estado de vida totalmente
novo, o inicio de uma exaltac;ao
progressiva. Nao apenas na eter-
nidade (Hb 1.5), nao apenas para
se tornar sumo sacerdote (Hb 5.5),
mas tambem em Sua ressurreic;ao
(At 13.33), Deus lhe disse: "Tu es
o meu Filho amado, eu hoje te
gerei". A ressurreic;ao e o dia da
coroac;ao de Cristo. Antes de Sua
encarnac;ao Ele era o Filho e o
Messias. Ele continuou sendo o
filho eo Messias em Sua humilha-
c;ao. Mas nessa ocasiao Seu Seres-
tava escondido sob a forma de
servo. Todavia Deus agora pro-
248
At 2.36; 5.31; Fp 2.9.
249
At 3.15; 4.12; 10.42.
clama eo declara Senhor e Cristo,
Principe e Salvador248
. Agora Cris-
to reassume a gloria que possuia
como Pai antes que o mundo exis-
tisse (Jo 17.5). Depois disso Ele as-
sume "outra forma", outra figu-
ra, uma forma diferente de exis-
tencia. Aquele que estava morto
reviveu, vive eternamente e tern
as chaves do ceu e do inferno (Ap
1.18). Ele e o Principe da vida, a
fonte da salvac;ao, Aquele que foi
designado por Deus para julgar
os vivos e os mortos249
.
Ah~m disso, a ressurreic;ao
de Cristo e uma fonte de beneffci-
os para Sua Igreja e para todo o
mundo. Ela e o amem do Pai so-
bre a obra do Filho. Cristo foi en-
tregue peJos nossos pecados e
ressuscitou para nossa justifica-
c;ao (Rm 4.25). Assim como os nos-
sos pecados e a morte de Cristo
estao estreitamente relacionados,
assim tambem ha uma intima re-
lac;ao entre a Sua ressurreic;ao e a
nossa justificac;ao. Ele nao alcan-
c;ou nossa justificac;ao pela Sua
ressurreic;ao, mas pela Sua morte
(5.9)9), pois essa morte foi o sa-
crificio que expiou completamen-
te os pecados e que nos trouxe
completa justic;a. Mas por ter al-
canc;ado a perfeita reconciliac;ao e
o perdao para todos os nossos
pecados, atraves de Sua paixao e
morte, Ele ressuscitou e tinha que
405
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
ressuscitar. Na ressurreic;:ao Ele, e
n6s juntamente com Ele, somos
justificados. Sua ressurreic;:ao foi
uma declara<;ao publica de nossa
absolvic;:ao. E isso nao e tudo. Cris-
to ressuscitou para nossa justifi-
ca<;ao no sentido de que, atraves
dela, Ele se apropriou pessoal-
mente de nossa absolvic;:ao. Mas
para que Ele ressuscitasse, a re-
conciliac;:ao forjada atraves de Sua
morte nao poderia ter surtido
efeito e sido aplicada. Mas agora,
Cristo e exaltado aposic;:ao de Se-
nhor, Principe e Salvador, e Ele
pode, atraves da fe, fazer com que
n6s desfrutemos dessa reconcili-
ac;:ao por Ele obtida. Sua ressur-
reic;:ao e a evidencia e a fonte de
nossa justificac;:ao.
Mas quando Cristo nos im-
puta pessoalmente a reconcilia-
c;:ao e o perdao que Ele conquis-
tou, n6s passamos a desfrutar dos
beneficios de Sua obra. Assim
como nao ha perdao sem uma re-
conciliac;:ao que o preceda, da
mesma forma nao ha perdao sem
uma santificac;:ao e uma glorifica-
c;:ao que o suceda. 0 fundamento
objetivo para essa conexao
inseparavel entre a justificac;:ao e
a santificac;:ao e o proprio Cristo.
Ele nao somente morreu, mas tam-
bern ressuscitou. Quanta a ter
morrido, uma vez para sempre
morreu pelo pecado (isto e, para
fazer propiciac;:ao pelo pecado e
efetuar a sua extirpac;:ao), mas,
quanto a viver, vive para Deus
406
(Rm 6.10). Sua vida nao mais lhe
pertence, agora que Ele morreu e
rompeu definitivamente os gri-
lhoes do pecado, ela pertence so-
mente a Deus. Portanto, agora,
quando Cristo imputa a uma pes-
soa, atraves da fe, os frutos de Sua
morte, a saber, arrependimento e
perdao de pecados, Ele, ao mes-
mo tempo, tambem da a essa pes-
soa uma nova vida. Ele nao pode
se dividir e tambem nao pode se-
parar Sua morte, de Sua ressurrei-
.:;ao. De fato, Ele s6 pode aplicar
os frutos de Sua morte porque Ele
ressuscitou. Sendo o Principe da
vida, s6 Ele tern controle sobre os
beneffcios oriundos de Sua mor-
te. Assim, como Ele mesmo mor-
reu para o pecado e vive somente
para Deus, da mesma forma, Ele
morreu por todos em Sua morte
para que todos vivam (em virtu-
de de terem morrido e ressuscita-
do com Cristo) nao para si mes-
mos, mas para Aquele que mor-
reu e ressuscitou por eles (2Co
5.15; Gl 2.20).
Da mesma forma, ha urn vin-
culo inseparavel entre o perdao
de pecados e a renovac;:ao da vida,
vista, agora, pelo lado subjetivo,
pois quem quer que aceite o per-
dao de pecados com urn corac;:ao
sincero, nesse mesmo momento,
rompe todos os vinculos com o
pecado. Ele diz adeus ao pecado,
pois 0 pecado eperdoado e 0 per-
dao e aceito pela fe, e diante des-
sa situac;:ao, o pecado s6 pode ser
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
rejeitado. Uma pessoa nessa situ-
a<;ao, como Paulo coloca, esta
morta para o pecado (Rm 6.2) e,
portanto, nao pode mais viver
nele. Pela fe, e pelo batismo como
sinal e selo da fe, ela entrou em
comunhao com Cristo, foi
crucificada, morta e sepultada
com Ele para que, desse momen-
ta em diante, possa andar em no-
vidade de vida (Rm 6.3).
A glorifica<;ao esta conec-
tada a essa santifica<;ao. Pela res-
surrei<;ao os crentes sao regenera-
dos em uma viva esperan<;a (1Pe
1.3). Atraves dela, eles obtem a
imperturbavel convic<;ao de que
a obra de salva<;ao, nao apenas foi
iniciada e continuada, mas tam-
bern foi plenamente acabada. No
ceu, 0 incorruptivel e inefavelle-
gado esta preservado para eles, e
na terra eles sao preservados pelo
poder de Deus, em fe, para a sal-
va<;ao que no ultimo dia lhes sera
revelada. Como poderia ser de
outra maneira? Deus provou Seu
amor para conosco pelo fato de
Cristo ter morrido por n6s, sendo
n6s ainda pecadores. Sendo justi-
ficados pelo sangue de Cristo n6s
seremos preservados por Deus de
Sua ira, especialmente da ira que
sera manifesta no julgamento fi-
nal.
Para aqueles que estao em
Cristo nao ha ira nem condena<;ao,
ha somente paz com Deus e a es-
25
" At 4.2; Rm 6.5; 8.11; 1Co 15.12 ss.
407
peran<;a de Sua gloria. Anterior-
mente, quando n6s ainda eramos
inimigos de Deus e sujeitos aSua
ira, Ele reconciliou-se conosco,
atraves da morte de Seu Filho.
Agora que Deus colocou de lado
Sua ira com rela<;ao a n6s, deu-nos
paz e amor, Ele nos preservara
atraves da vida que Cristo tern,
em virtude de Sua ressurrei<;ao e
na qual, como nosso intercessor,
intercede por n6s junto ao Pai (Rm
6.8-10). Dessa forma a ressurrei<;ao
de Cristo se estende por toda a
eternidade. A Seu tempo, Ele res-
suscitara os crentes e efetuara ne-
les a completa regenera<;ao, dan-
do-lhes vit6ria sobre 0 ceu eater-
razso.
Somente quando n6s enten-
demos esse significado rico e eter-
no da ressurrei<;ao de Cristo e que
n6s podemos apreciar o motivo
pelo qual os ap6stolos, de forma
especial Paulo, coloca tanta enfa-
se sobre o carater hist6rico da res-
surrei<;ao. Todos os ap6stolos sao
testemunhas da ressurrei<;ao (At
1.21; 2.32). Paulo afirma que, sem
a ressurrei<;ao, a prega<;ao dos
ap6stolos e inutil e falsa. 0 per-
ciao dos pecados, que repousa
sobre a reconcilia<;ao e e aceito
pela fe, nao aconteceria, e nao ha-
veria qualquer fundamento para
a ressurrei<;ao dos crentes. A di-
vina Filia<;:ao e a identidade
Messianica de Cristo nao existiria,
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
e Ele seria nada rnais que urn
grande rnestre. sea ressurrei-
c:;:ao de fato aconteceu: entao Cris-
to foi declarado e coroado o
Reconciliador e o Principe da
vida, e o Salvador do rnundo.
* * * * *
A ressurreic:;:ao e o cornec:;:o da
exaltac:;:ao de Jesus, e ela foi segui-
da, depois de quarenta dias, pela
ascensao. Esse evento e registra-
do rnuito brevernente251
. Esse
evento foi predito por Cristo252
.
Ele e urn componente da prega-
c:;:ao dos apostolos253
• Os aposto-
los partem do ponto de que Cris-
to, com Sua natureza hurnana,
com corpo e alma, esta no ceu.
Alem disso, os quarenta dias que
Cristo passou na terra depois de
Sua ressurreic:;:ao, foram uma pre-
parac:;:ao para a ascensao e uma
transic:;:ao para ela. Tudo o que Ele
fez, nesses quarenta dias, foi mos-
trar que Ele nao pertencia mais a
terra. Sua forma era diferente da-
quela que Ele possuia antes de
Sua morte. Ele aparecia e desapa-
recia de maneira misteriosa. Os
discipulos, sentiram que a relac:;:ao
que eles passaram a manter com
Cristo, era diferente daquela que
eles mantinham antes de Sua mor-
te. Sua vida nao pertencia mais a
251
Me 16.19; Lc 24.51; At 1.1-12.
terra, mas ao ceu.
Na ascensao, Ele se tornou
invisivel, nao por urn processo de
espiritualizac:;:ao ou de uma ade-
quac:;:ao adeidade. 0 que aconte-
ceu foi uma mudanc:;:a de lugaL
Ele estava na terrae foi para o ceu.
Sua ascensao ocorreu em urn lu-
gar espedfico, o monte das Oli-
veiras, que fica a rnenos de uma
rnilha de distancia de Jerusalem,
em direc;ao a Betania (Lc 24.50; At
1.12). Ele se separou de Seus dis-
dpulos e os abenc:;:oou. Em uma
atitude de benc;ao Ele saiu dater-
ra e foi para o ceu. Da forma pela
qual Ele veio, assim Ele viveu e
assim Ele se foi. Ele e o conteudo
de todas as benc;aos de Deus, o
realizador, o possuidor eo distri-
buidor de todas elas (Ef 1.3).
A ascensao foi um ato do
proprio Cristo. Ele tinha direito a
ela e, tinha o poder de realiza-la.
Ele subiu aos ceus por Sua pro-
pria fon;a254
. Sua ascensao e urn
triunfo, em urn sentido mais for-
te, que a ressurreic:;:ao. Em Sua as-
censao ele triunfa sobre toda a ter-
ra, sobre as leis da natureza, so-
bre a propria lei da gravidade. E
mais ainda, Sua ascensao e urn tri-
unfo sobre toda a hostilidade di-
abolica e sobre as forc:;:as humanas,
que foram despojadas de sua ar-
madura na cruz de Cristo e foram
252
Mt 26.64; Jo 6.62; 13.3,33; 14.28; 16.5,10,17,28.
'.i3
At 2.23; 3.21; 5.31; 7.55; Ef4.10; Fp 2.9; 3.20; lTs 1.10.
'
5
" Jo 3.13; 20.17; Ef4.8-10; 1Pe 3.22.
408
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
publieamente expostas ao des-
prezo e submetidas a vit6ria de
Cristo (Cl 2.15). Quando Ele su-
biu as alturas, levou cativo 0 cati-
veiro (Ef 4.8). 0 mesrno pensa-
rnento e expresso por Pedro, de
urna forma diferente. Ele diz que
Cristo, tendo sido conduzido pelo
Espirito ate o ceu (pois as pala-
vras "foi" de 1Pe 3.19 e "ir" de
1Pe 3.22 sao a mesma palavra no
texto grego original, de forma que
o complemento "para o ceu", en-
contrado no verso 22, simples-
mente diz para onde Ele foi, e esta
ligado as duas palavras), e que
em Sua ascensao Ele pregou, aos
espiritos em prisao, a Sua vit6ria,
e assumiu Seu lugar a destra de
Deus e os anjos, os principados e
as potestades se sujeitaram a Ele.
A ascensao, que e urn ato de
Cristo, etambem urn ato do pro-
prio Deus255. Tendo Cristo curn-
prido cabalmente a missao que
lhe fora confiada pelo Pai, Ele nao
apenas foi assunto ao ceu pelo
Pai, mas tambem foi admitido,
imediatamente a Sua presen~a. Os
CeUS foram abertos para Ele, OS
anjos foram ao Seu encontro e con-
duziram-no para la (At 1.10). Ele,
contudo, foi alem do ceu, foi para
OS ceus dos ceus (Hb 4.14; Ef4.10),
para assentar-se adireita de Deus,
no trono de Sua Majestade. 0 lu-
gar principal pertence a Cristo.
Assim como a ressurrei~ao foi
uma prepara~ao para a ascensao,
a ascensao foi uma prepara~ao
para a ocupa~ao de Seu lugar, a
direita de Deus. No Velho Testa-
mento esse lugar ja tinha sido pro-
metido ao Messias (Sl 110. 1). Je-
sus disse mais de uma vez que Ele
se assentaria no trono de Sua Ma-
jestade256, e depois de sua ascen-
sao Ele fez o que tinha dito (Me
16.19). E na prega~ao apost6liea
essa posi~ao que Ele oeupa, adi-
reita de Deus, egeralmente men-
eionada em urn contexto de auto-
ridade e poder257.
Nas express6es que a Escri-
tura usa para registrar esse passo
da exalta~ao uma eerta varia~ao
pode ser detectada. Algumas ve-
zes, e dito que Cristo assentou-se
ou esta assentado (Hb 1.3; 8.1). E
n6s lemos tambem, que o Pai lhe
disse: II Assenta-te aminha direi-
ta" (At 2.34; Hb 1.13), ou que o Pai
o fez sentar-se a Sua direita (Ef
1.20). Algumas vezes, a enfase eai
sobre o ato de sentar-se (Me 16.19),
em outras ocasi6es, ela eai sobre
a condi~ao ou o estado de estar
sentado (Mt 26.64; Cl 3.1). 0 lu-
gar em que Cristo esta assentado
edesignado pelas palavras: adi-
reita do Todo-Poderoso (Mt
26.64t adireita do Todo-Podero-
so Deus (Lc 22.69), a direita da
Majestade, nas alturas (Hb 1.3), a
255
Me 16.19; Lc 24.51; At 1.2,9,11,22; 1Tm3.16.
256
Mt 19.28; 25.31; 26.64.
257
At 2.34; Rm 8.34; 2Co 5.10; Ef1.20; C/3.1; Hb 1.3; 8.1; 10.12; lPe 3.22; Ap 3.21.
409
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
destra do trono da Majestade nos
ceus (:Hb 8.1), ou adestra do tro-
no de Deus (:Hb 12.2). Geralmen-
te a Escritura diz que Cristo esta
assentado, mas algumas vezes a
expressao e que Jesus esta la (Rm
8.34), ou que Ele esta de pea direi-
ta de Deus (At 7.55,56), ou que Ele
anda por entre os sete casti<;ais de
ouro (Ap 2.1). Mas, o pensamen-
to e sempre o mesmo: depois de
Sua ressurrei<;ao e ascensao, Cris-
to tern o mais elevado lugar em
todo o universo, ao lado de Deus.
Esse pensamento e expres-
so na forma de uma figura deri-
vada dos relacionamentos huma-
nos. Nos so podemos falar sobre
as realidades celestiais empregan-
do a linguagem humana, atraves
de compara<;oes. Assim como
Salomao honrou sua mae, ao
coloca-la em uma cadeira ao lado
direito de seu trono258
, assim tam-
bern o Pai glorifica o Filho, com-
partilhando Seu trono com Ele
(Ap 3.21). 0 significado e que
Cristo, por causa de Sua perfeita
obediencia, foi exaltado a mais
elevada soberania, majestade,
dignidade, honra e gloria. Ele nao
apenas recebeu de volta a gloria
que possuia com o Pai, antes que
o mundo existisse (Jo 17.5), mas
tambem foi coroado com honra e
gloria segundo Sua natureza hu-
mana (Hb 2.9; Fp 2.9-11). Ele su-
jeitou todas as coisas debaixo de
"' 1Re .2. 19; compare com Sl 45.9; Mt 20.21.
410
Seus pes. E, quando diz que to-
das as coisas lhe estao sujeitas,
certamente, exclui Aquele que
tudo lhe subordinou (lCo 15.27).
E ernbora nos agora, nao vejamos
que todas as coisas lhe estao su-
bordinadas, nos sabernos que Ele
reinara como Rei, ate que todos
os Seus inirnigos sejam colocados
debaixo dos Seus pes (:Hb 2.8; lCo
15.25). Isso acontecera em Seu re-
torno, quando Ele vier como Juiz,
para julgar os vivos e os mortos.
Sua exalta<;ao alcan<;ara seu pon-
to rnais alto, quando Ele retornar
para realizar Seu julgarnento (Mt
25.31,32).
* * * * *
Nesse estado de exalta<;ao,
Cristo continua a obra que Ele co-
rne<;ou na terra. De fato, ha urna
grande diferen<;a entre a obra que
Cristo realizou em Sua humilha-
<;:ao e, a que Ele realizou ern Sua
exalta<;:ao. Da mesma forma como
Ele, em Sua exaltac;ao, aparece em
uma forma diferente, Sua obra,
tambem assume uma forma dife-
rente. Depois de Sua ressurrei<;ao
Ele nao emais urn servo, mas urn
Senhor e Principe. Desse modo/
Sua obra agora emais urn sa-
crificio de obedienc:a/ tal como foi
em Sua morte na cruz. A obra
mediatoria de Cristo se realiza
agora, de outra forma. Em Sua
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
ascensao Ele nao entrou em urn
descanso improdutivo - o Filho
trabalha sempre, assim como o
Pai (Jo 5.17) - em vez disso, Ele
agora esta aplicando a plenitude
da obra de salva<;ao que Ele ja re-
alizou em Sua Igreja. Assim como
Cristo, atraves de Sua paixao e
morte foi, na ressurrei<;ao e na as-
censao, exaltado como Cabe<;a da
Igreja, tambem essa Igreja, agora,
deve ser moldada como corpo de
Cristo e estar cheia, da plenitude
de Deus. A obra do Mediador e a
grande e poderosa obra divina,
que teve inicio na eternidade e
sera realizada eternamente. Con-
tudo, no momento da ressurrei-
<;ao, essa obra foi dividida em
duas partes. Ate a ressurrei<;ao
Cristo era humilhado; depois da
ressurrei<;ao Ele passa a ser exal-
tado. Tanto a humilha<;ao quanto
a exalta<;ao de Cristo sao indispen-
saveis para nossa salva<;ao.
Cristo continua agindo no
estado de exalta<;ao como profe-
ta, sacerdote e rei. Ele foi ungido
desde a eternidade para exercer
todos esses offcios. Ele exerceu
esses oficios em Seu estado de
humilha~ao e continua exercen-
do-os em Seu estado de exalta<;ao.
Seu exerdcio profetico de-
pais da ressurrei<;ao se torna evi-
dente pela Sua prega<;ao. Ele con-
tinuou pregando aos Seus disci-
pulos ate o momento de Sua as-
censao. Os quarenta dias que Je-
sus passou na terra depois de Sua
411
ressurrei<;ao, constituem uma par-
te importante de Sua vida e ensi-
no. N6s, geralmente nao damos a
esse fato a aten<;ao devida, mas
quando observamos atentamente
o que Jesus disse e fez durante
esses quarenta dias, percebemos
que eles lan<;am uma luz totalmen-
te nova sobre Sua pessoa e Sua
obra. Naturalmente, n6s nao po-
demos compreender o sentido
daquilo que Jesus fez e ensinou
nesses quarenta dias, com ames-
ma profundidade que os ap6sto-
los entenderam, pois n6s vivemos
depois deles e temos a ben<;ao de
ter acesso ao Seu ensino, mas os
disdpulos que tinham convivido
com Jesus e tinham perdido a es-
peran<;a, no momento de Sua mor-
te, tornaram-se pessoas muito di-
ferentes nesses quarenta dias e
aprenderam a conhecer a pessoa
e a obra de Jesus como eles nunca
tinham sido capazes de entender
antes.
A ressurrei<;ao lan<;a uma
luz surpreendente sobre a morte
de Jesus e sobre toda a Sua vida.
Mas, esse evento redentivo nao
permanece isolado. Assim como
ele tinha sido precedido por urn
ato redentivo (a morte de Jesus),
ele e tambem sucedido por urn
ato redentivo. Os anjos que esta-
vam no sepulcro, anunciaram as
mulheres que foram a procura de
Jesus, que nao estava mais ali,
como havia 28.5,6). Eo pr6-
aos disdpu-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
los que iam para Emaus, que o
Cristo tinha que padecer e entrar
na Sua gloria e mostrou-lhes tudo
o que tinha sido dito nas Escritu-
ras a Seu respeito (Lc 24.26,27;
compare com Lc 24.44-47).
Os disdpulos, aprenderam
a conhece-lo de uma forma dife-
rente daquela, na qual Ele primei-
ramente se revelou. Ele nao era
mais o humilde Filho do homem
que veio para servir e nao para ser
servido e para dar a Sua alma em
resgate de muitos. Ele colocou de
lado a Sua forma de Servo e ago-
ra se revelou em Sua gloria. Ele
agora pertence a outro mundo.
Ele vai para Seu pai e, os Seus dis-
dpulos permanecerao na terra,
porque eles tern uma missao a
cumprir. 0 antigo companheiris-
mo confidencial nao mais existe.
Everdade que haveni urn relaci-
onamento diferente e muito mais
fntimo entre Jesus e Seus discfpu-
los, assim que eles compreende-
rem que e para 0 proprio bern que
Jesus tem que ir. Esse relaciona-
mento sera uma comunhao espi-
ritual, muito diferente daquela
que eles tinham tido, ate entao.
Agora, depois da ressurrei<;:ao,
Jesus se revela em tal gloria, em
tal sabedoria aos Seus disdpulos,
que Torne chega a fazer a confis-
sao que nenhum deles tinha feito
ate aquele momento: "Senhor
meu e Deus meu!" (Jo 20.28).
Durante esses quarenta dias
Jesus lan<;:ou mais luz sobre Sua
412
pessoa e obra, mas Ele tambem
deu uma explica<;:ao mais clara
sobre a missao que Seus disdpu-
los deveriam cumprir. Quando
Jesus foi sepultado e tudo pare-
cia ter se acabado, os disdpulos
poderiam muito bern ter formu-
lado urn plano secreto para vol-
tar a Galileia. Contudo, no tercei-
ro dia, eles ouviram sobre as ma-
nifesta<;:6es que tinham ocorrido
com Maria Madalena e com a ou-
tra Maria (Mt 28.1,9; Jo 20.14 ss.),
com Pedro (Lc 24.34; 1Co 15.5),
com os disdpulos que iam para
Emaus (Lc 24.13 ss.), e resolveram
permanecer em Jerusalem. Ao cair
da tarde, daquele mesmo dia os
disdpulos, com exce<;:ao de Tome,
receberam a visita de Jesus; oito
dias depois Ele apareceu nova-
mente, e dessa vez Tome estava
presente. Entao seguiram Jesus,
que foi adiante deles para a
Galileia (Mt 28.10) e varias apari-
<;:6es ocorreram ali (Lc 24.44 ss.; Jo
21). Ao mesmo tempo, Ele lhes
deu a tarefa de retornarem a Jeru-
salem para que fossem testemu-
nhas de Sua ascensao.
Em cada uma de Suas apa-
ri<;:6es, Jesus falou aos disdpulos
sobre a rnissao que deveriam
cumprir. Eles nao deveriam
retornar as fun<;:6es que desempe-
nhavam antes de serem chamados
para o apostolado, mas como
Suas testemunhas tinham que pre-
gar o arrependimento e o perdao
de pecados a todas as na<;:6es, co-
A 0BRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
me<_;ando em Jerusalem259
• Os
ap6stolos receberam todos os ti-
pos de instru<_;6es (At 1.2). Eles
foram ensinados a respeito de to-
das as coisas concernentes ao rei-
no de Deus (At 1.3). Seu poder foi
definido e a prega<_;ao do Evange-
lho a todas as criaturas foi coloca-
da sobre seus cora<_;6es. Agora eles
sabiam o que deviam fazer. Eles
tinham que permanecer em Jeru-
salem ate que recebessem poder
do ceu (Lc 24.49; At 1.4,5,8). Quan-
do recebessem esse poder, eles
deveriam ser testemunhas tanto
em Jerusalem, quanto em toda a
Judeia e Samaria e ate os confins
da terra (At 1.8).
Todo o conteudo de Seu en-
sino durante esses quarenta dias,
foi resumido nas palavras finais
que Ele disse aos Seus discipulos
(Mt 28.18-20). Primeiro Ele disse
que todo o poder lhe foi dado no
ceu e na terra. Ele ja tinha recebi-
do esse poder (Mt 11.27), mas ago-
ra Ele o possuia com base em Seus
meritos, e passou a usa-lo com 0
objetivo de garantir aIgreja OS be-
neficios que alcan<_;ou corn o der-
ramamento de Seu sangue. Em
nome dessa perfei<_;ao de poder
Ele deu aos Seus discipulos o
mandata de fazer discipulos em
todas as na<_;6es, batizando-os em
nome do Pai, do Filho e do Espi-
rito Santo e ensinando-os a guar-
dar todas as coisas que Ele lhes
259
Mt 28.19; Me 16.15; Lc 24.47,48; At 1.8.
413
tinha ordenado. Por ter recebido
todo o poder no ceu e na terra,
Jesus ordena que seja feito o
discipulado em todas as na<_;6es.
Ele ordena tambem a Seus disd-
pulos, que pelo batismo, passem
a ter comunhao com Deus, que se
revelou de forma perfeita como
Pai, Filho e Espirito Santo, e que
continuem a observar Suas or-
dens. E a fim de encoraja-los, Je-
sus finalmente diz que estaria com
eles para sempre, ate a consuma-
<_;ao dos seculos. Fisicamente Ele
os deixou, mas espiritualmente
Ele permanece com eles, de for-
ma que nao sao eles, mas Cristo,
que reline Sua Igreja, governa-a e
protege-a.
Mesmo depois de Sua as-
censao, Cristo continua a exercer
o offcio profetico. A prega<_;ao dos
ap6stolos, seja oralmente seja
atraves das cartas que eles escre-
veram, esta vinculada aos ensinos
de Jesus, nao somente aos que
eles receberam antes de Sua mor-
te, mas tambem aos que eles re-
ceberam durante os quarenta
dias, entre Sua ressurrei<_;ao e Sua
ascensao.
N6s nao devemos omitir
esse ultimo fato. S6 isso pode ex-
plicar o motivo pelo qual os ap6s-
tolos estavam convictos, desde o
come<_;o, que Cristo tinha nao ape-
nas morrido, mas tambem tinha
ressuscitado e estava assentado a
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mao direita de Deus como Senhor
e Cristo, Principe e Salvador, que
a salva<;:ao dos pecadores estava
contida no amor do Pai, na Gra<;:a
do Filho e na comunhao do Espi-
rito Santo.
A prega<;:ao dos ap6stolos
estava vinculada nao apenas a
prega<;:ao de Jesus. Ela era a expli-
ca<;:ao e a elabora<;:ao da prega<;:ao
de Jesus. Jesus, atraves do Espiri-
to santo, continuou a exercer Seu
oficio profetico no cora<;:ao de
Seus disdpulos. Pelo Espirito da
verdade Ele os guiou a toda ver-
dade, pois esse Espirito nao da
testemunho de Si mesmo, mas de
Cristo, fazendo com que os ap6s-
tolos se lembrem e reflitam sobre
o que Jesus lhes tinha dito e anun-
ciem as coisas que hao de aconte-
cer (Jo 14.26; 15.26; 16.13). Dessa
forma, os ap6stolos foram capa-
citados a trazer aexistencia a Es-
critura do Novo Testamento, que,
juntamente com a Escritura do
Velho Testamento, e uma luz que
ilumina o caminho da Igreja. Foi
o proprio Cristo quem deu essa
Palavra a Sua Igreja e que, por
meio dela, progressivamente de-
senvolve Seu offcio profetico. Ele
preserva e distribui, explica e in-
terpreta Sua Palavra. Ela e o ins-
trumento pelo qual Ele faz disci-
pulos de todas as na<_;:6es, os quais
Ele insere na comunhao com o
Deus triuno e faz com que eles
obede<;:am Seus mandamentos.
Atraves de Sua Palavra e de Seu
414
Espirito Cristo esta sempre
conosco, ate a consuma<;:ao dos
seculos.
*****
0 que e valido para 0 oficio
profetico de Cristo e valido tam-
bern com rela<;:ao ao Seu oficio sa-
cerdotal. Esse nao e urn oficio tem-
porario. Ele e exercido durante
toda a eternidade. No Velho Tes-
tamento, o carater eterno do sacer-
d6cio foi prenunciado na separa-
<;:ao da casa de Aarao e da tribo
de Levi, para o servi<;:o do
tabernaculo. E verdade que as
pessoas que ministraram nesse
servi<;:o morreram, mas foram
imediatamente substituidas por
outras. 0 sacerd6cio permaneceu.
Todavia, o Messias vindouro nao
seria urn sacerdote ordinario, que
exerceria Seu sacerd6cio por urn
certo tempo e depois seria subs-
tituido por outro, pois Ele nao
seria urn sacerdote segundo a or-
dem de Aarao, mas segundo a
ordem de Melquisedeque (Sl
110.4). Em distin<;:ao dos descen-
dentes de Aarao e Levi, que foram
impedidos pela morte, de exercer
seu sacerd6cio continuamente
(Hb 7.14), Melquisedeque em sua
figura misteriosa nos deu uma
imagem da dura<;:ao eterna do sa-
cerd6cio de Cristo. Ele e urn rei
de justi<;:a e paz e, ao mesmo tem-
po, e 0 unico, em toda a hist6ria
da revela<;:ao, sobre o qual nao se
A OsRA DE CrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao
menciona sua linhagem, seu nas-
cimento e sua morte. Em urn sen-
tido tipico ele foi dessa forma se-
melhante ao Filho de Deus e per-
manece sacerdote para sempre
(Hb 7.3).
Mas, aquilo que Melquise-
deque foi somente como exem-
plo, Cristo foi em realidade. Cris-
to podia em urn sentido pleno ser
o eterno sumo sacerdote porque
Ele era o Filho de Deus que exis-
te desde a eternidade (Hb 1.2,3).
Ele se ofereceu como sacrificio na
terra e no tempo, mas Ele veio de
cima, em Sua essencia pertencia a
eternidade, e, portanto, podia ofe-
recer-se a Si mesmo no tempo,
atraves do Espirito Santo (Hb
9.14). Assim como Cristo foi pre-
parado desde a eternidade para
vir ao mundo e cumprir cabal-
mente a vontade de Deus (Hb
10.5-9), Ele e tambem sacerdote
desde a eternidade. Com uma vi-
sao do cumprimento dessa von-
tade de Deus nos dias da Sua car-
ne, pode-se dizer que o sacerd6-
cio de Cristo come<;ou na terra260
•
E esse sacerd6cio terreno foi urn
meio para que Cristo, atraves de
sua ressurrei<;ao e ascensao, se
tornasse sumo sacerdote no reino
celestial e permanecesse como tal
durante to-da a eternidade. Euma
ideia interessante, desenvolvida
na carta aos Hebreus, a de que a
260
Hb 2.17; 5.10; 6.20; 7.26-28.
261
Hb 7.27; 9.12,26,28; 10.10-14.
415
vida e a obra de Cristo na terra,
nao devem ser consideradas como
final, mas como uma prepara<;ao
para Seu eterno servi<;o sacerdo-
tal, no ceu.
Alguns deduziram disso
que, segundo a carta aos Hebreus,
Cristo nao exerceu Seu oficio sa-
cerdotal na terra mas, que passou
a exerce-lo quando ascendeu ao
ceu e entrou no Santo dos Santos.
Eles fundamentam essa ideia es-
pecialmente no fato de que os sa-
cerdotes da terra procedem da tri-
bo de Levi, e que Jesus nao pro-
cedeu de Levi, mas de Jucla e que
Ele nunca fez ofertas no templo de
Jerusalem, como os sacerdotes fa-
ziam (Hb 7.14; 8.4). Dessa forma,
se Cristo era urn sacerdote, Ele
deveria ter exercido Seu sacerd6-
cio no ceu e teria que ter algo para
oferecer (Hb 8.3). E dessa forma,
eles afirmam que o que Jesus ofe-
receu foi Seu proprio sangue com
o qual Ele entrou no celestial San-
to dos Santos (Hb 9.11,12).
Mas essa conclusao e clara-
mente incorreta. Assim como to-
dos os outros escritos apost6licos,
a carta aos Hebreus coloca forte
enfase no fato de que Cristo de
umrz vez par todas, isto e, na cruz,
ofereceu-se como sacrificio e nos
trouxe eterna salva<;ao261
. 0 per-
ciao de pecados - esse grande be-
neficia do Novo testamento- foi
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
plenamente alcan~ado por esse
unico sacrificio e o Novo Testa-
mento, que foi estabelecido com
Seu sangue, poe urn fim no Ve-
lho Testamento262
. 0 pecado, a
morte e o diabo foram destruidos
Seu sacrificio263
e pelo Seu
sangue Ele santificou e aperfei-
<;oou todos aqueles que foram
obedientes a Ele (Hb 10.10,14;
13.12). Precisamente pelo fato de
Cristo ter realizado esse perfeito
sacrificio na cruz Ele pode, como
sumo sacerdote, tomar Seu lugar
a mao direita de Deus (Hb 8.1). Ele
nao sofre e nao morre mais, mas
Ele est} assentado em Seu trono
como urn conquistador264. E a en-
fase apost6lica e que n6s temos
urn Sumo Sacerdote que esta as-
sentado a direita da Majestade
nas alturas (Hb 8.1). Nao ha qual-
quer possibilidade de que acon-
tec;a no ceu urn sacriffcio de Cris-
to como o que aconteceu na terra.
Cristo e e continua sendo
sumo sacerdote no ceu. Como tal
Ele esta assentado a direita de
Deus. Sim, em urn certo sentido
pode ser dito que ao longo da car-
ta aos Hebreus, no ceu Ele se tor-
na sumo sacerdote segundo a or-
dem de Melquisedeque e assume
Seu sacerd6cio eterno265. Toda a
"" Hb 4.16; 8.6-13; 9.14-22.
263
Hb 2.14; 7.27; 9.26,28.
''" Hb 1.3,13; 2.8,9; 10.12.
265
Hb 2.17; 5.10; 6.20.
266
Hb 1.3; 3.6; 5.5.
267
J-Ib 2.10 ss.; 4.15; 5.7-10; 7.28.
Sua vida sobre a terra foi uma pre-
parac;aoI para que agora, 110 ceu,
como sumo sacerdote Ele possa
ocupar-se em nosso favor. Ele eo
Filho, e Ele tinha que ser capaz de
se tornar o nosso sumo sacerdo-
te266, mas isso nao era o suficien-
te. Embora Ele fosse o Filho, Ele
tinha que aprender a obediencia,
pelo sofrimento (Hb 5.8). A obe-
diencia que Ele possufa como Fi-
lho (Hb 10.5-7), Ele tinha que exi-
bir como ser humano em Seu so-
frimento, para tornar-se nosso
sumo sacerdote267. Todo o sofri-
mento que sobreveio a Cristo, to-
das as tentac;oes as quais Ele foi
exposto, a morte a qual Ele se su-
jeitou- tudo isso serviu como urn
instrumento nas maos de Deus
para aperfeic;oar e santificar Cris-
to para o servic;o sacerdotal que,
Ele deve agora completar no ceu,
diante da face de Deus. Natural-
mente essa santificac;ao e esse
aperfeic;oamento de Cristo nao
devem ser entendidos em urn sen-
tido morat como se Ele tivesse se
tornado obediente gradualmente
e com muita dificuldade. 0 ap6s-
tolo esta pensando na santificac;ao
em urn sentido positivo e ofici-
aF68. Cristo, tinha que manter Sua
obediencia como Filho, contra e
268
Oficial aqui significa "referente ao Seu oficio" (N. doT.)
416
A 0BRA DE CRISTO EM SUA EXALTA(:AO
sobre todas as tenta<_;:oes e assim
preparar-se para ser o sumo sa-
cerdote eterno.
Atraves de Sua obediencia,
Cristo obteve esse offcio de sumo
sacerdote, amao direita de Deus,
em Seu trono de Majestade. Com
fundamento em Seu sofrimento e
morte, com fundamento em Seu
sacriffcio perfeito, Ele esta agora
assentado amao direita da Majes-
tade nos altos ceus. Foi atraves de
Seu sangue e nao com ele, que
Cristo entrou de uma vez por to-
das no Santo dos Santos (Hb 9.12)
e esta lei agora, no verdadeiro
tabernaculo, construido pelo pro-
prio Deus. Ele e o ministro desse
tabernaculo (Hb 8.2). Agora, pela
primeira vez, Ele e plena e eter-
namente o sumo sacerdote segun-
do a ordem de Melquisedeque
(Hb 5.10; 6.20). Assim como no
Velho Testamento, no grande dia
da expia<_;:ao, o sumo sacerdote
entrava uma vez por ano no San-
to dos Santos com o sangue do
bode morto por ele mesmo e pelo
povo, para aspergi-lo por cima e
ao redor do altar, assim tambem
Cristo, pelo sangue de Seu sacri-
ficio na cruz, abriu carninho para
santuario nos ceus
. Ele nao faz uso do san-
gue derramado no G6lgota em
um sentido literal, e nao oferece
nem asperge esse sangue em urn
sentido literal, mas atraves de Seu
proprio sangue Ele entra no
tabernaculo. Ele retornou ao ceu
como o Cristo que morreu e res-
suscitou, que foi morto mas que
agora vive eternamente (Ap 1.18).
Ele esta no meio do trono como o
Cordeiro que foi morto (Ap 5.6).
Em Sua pessoa Ele e o meio de
expia<_;:ao. Ele ea propicia<_;:ao pe-
los nossos pecados e pelos do
mundo todo (1Jo 2.2).
Seu servi<_;:o sacerdotal no
ceu consiste em Sua intercessao
diante de Deus a nosso favor (Hb
9.12). Ao fazer tudo o que e ne-
cessaria para a propicia<_;:ao dos
pecados de Seu povo Ele se torna
o misericordioso e fiel sumo sa-
cerdote (Hb 2.17). Ele vern em so-
corro daqueles que sao tentados
(Hb 2.18; 4.15), e conduz muitos
filhos agloria (Hb 2.10). Atraves
de Sua obediencia Ele se tornou
urn Capitao para todos aqueles
que vao ate Deus atraves dEle. Ele
e o Capitao e o Guia, em fe, pois
Ele mesmo exerceu fe, e por isso
pode trazer outros afee preserva-
los nela ate o fim (Hb 12.2). Ele e
o Autor da vida porque Ele me-
receu essa vida pela Sua morte e
pode, portanto, agora, da-la a ou-
tros. Ele eo autor da salva<_;:ao (Hb
2.10) porque Ele mesmo abriu o
a e andou
por ele e pode, portanto,
outros atraves dele e traze-los ao
santuario (Hb 10.20).
Sempre, e em todas as coi-
sas, Cristo e o nosso intercessor
diante do Pai. Assim como na ter-
ra Ele orou por Seus discipulos e
417
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tambem por Seus inimigos (Lc
23.34), e na ora<;ao sacerdotal Ele
recomendou toda a Igreja ao Pai
(Jo 17), assim tambem no ceu Ele
continua a interceder por nos. Nos
nao devemos entender isso como
se Cristo estivesse prostrado di-
ante do Pai, suplicando-lhe e im-
plorando-lhe que conceda Sua mi-
sericordia, pois o proprio Pai nos
ama enos da Seu Filho como uma
evidencia de Seu amor. A inter-
cessao de Cristo significa que esse
amor do Pai nunca e concedido a
nos a nao ser atraves do Filho, que
se tornou obediente ate a morte
na cruz. A intercessao de Cristo
nao e, portanto, uma suplica pela
Gra<;:a, mas a expressao de Sua
poderosa vontade (Jo 17.24), a so-
licita<;:ao do Filho de que os pa-
gaos lhe sejam dados como Sua
heran<;:a e as extremidades da ter-
ra como Sua possessao (Sl 2.8). E
o Cristo crucificado e glorificado,
e o proprio Filho do Pai, que foi
obediente, mas que tambem foi
exaltado no trono de Sua Majes-
tade. Foi o misericordioso e fiel
Sumo Sacerdote que santificou e
aperfei<;:oou esse servi<;:o nos ceus,
e que agora intercede por nos di-
ante do Pai.
Contra todos os obstaculos
que a lei, Satanas e nossos propri-
os cora<;:6es levantam contra nos,
Ele sai em nossa defesa (Hb 7.25;
1Jo 2.2). Ele vern em nosso auxi-
269
fa 14.16,26; 15.26; 16.7.
418
lio em todas as tenta<;:6es. Ele tern
compaixao de todas as nossas fra-
quezas. Ele purifica nossa consci-
encia. Ele perfeitamente santifica
e salva todos aqueles que, atraves
dele, vao a Deus. Ele nos prepara
urn lugar na casa do Pai, na qual
ha muitas moradas (Jo 14.2,3) e
nos reserva uma heran<;:a incor-
ruptivel e sem macula (1Pe 1.4).
Portanto, os crentes nao tern o que
temer. Eles podem achegar-se
confiadamente ao trono da Gra<;a
(Hb 4.16; 10.22) e receber de Cris-
to o Espirito de ado<;:ao, atraves
do qual eles clamam: "Aba, Pai",
e pelo qual o amor de Deus e der-
ramado em seus cora<;:6es (Rm 5.5;
8.15). Assim como Cristo e o
intercessor dos crentes diante do
Pai, no ceu, o Espirito e o inter-
cessor do Pai nos cora<;:oes dos
crentes269
• Portanto, um importan-
te prindpio de nossa Confissao
crista e que nos temos um Sumo
Sacerdote que esta assentado a
direita do Pai, nos ceus (Hb 8.1).
Portanto, nos nao precisamos de
sacerdote, nem de sacrificio, nem
de altar, nem de templo terreno,
onde quer que seja.
* * * * *
Cristo continua a exercer
Seu oficio real tambem depois de
Sua ressurrei<;:ao. Com rela<;:ao a
isto tern havido menos diferen<;:a
A OsRA DE CRisTo EM SuA EXALTA<;:Ao
de opiniao pelo fato de que atra-
ves de Sua ressurrei<;ao e ascen-
sao, Cristo foi exaltado pelo Pai
como Senhor e Cristo, Principe e
Salvador, e esta assentado adirei-
ta do trono, e recebeu urn nome
acima de todo nome270
• 0 reina-
do de Cristo aparece com mais
destaque em Sua exalta<;ao do que
em Sua humilha<;ao.
Dentro do ambito desse rei-
nado a Escritura faz uma distin-
<;ao. Ha urn reinado de Cristo so-
bre Siao, sobre Seu povo, sobre a
Igreja271
e ha tambem o reinado
que Ele exerce sobre Seus inimi-
gos272. 0 primeiro e urn reinado
de Gra<;a eo segundo e urn reina-
do de poder.
Em rela<;ao aIgreja, o nome
de Rei, geralmente e usado no
Novo Testamento como sin6nimo
de Cabe<;a. Cristo mantem urn re-
lacionamento tao intimo com a
Igreja, que Ele comprou com Seu
sangue, que urn s6 nome nao e
suficiente para dar uma ideia de
seu conteudo. E por isso que a
Escritura apresenta todos os tipos
de figuras de linguagem, a fim de
tornar claro o que Cristo significa
para sua Igreja. Ele eo que o noi-
vo e para a noiva (Jo 3.29; Ap
21.2), 0 que 0 homem e para a
mulher (Ef 5.25; Ap 21.9), o que o
primogenito e para OS seus irmaos
(Rm 8.29; Hb 2.1lt o que a pedra
270
At 2.36; 5.31; Fp 2.9-11; Hb 1.3,4.
angular e para o edificio (Mt
21.42; At 4.11; 1Pe 2.4-8), o que a
videira e para OS ramos (Jo 15.1,2)
e 0 que a cabe<;a e para 0 corpo.
Cristo e para a Igreja tudo isso e
muito mais.
Essa ultima figura e especi-
almente mencionada varias vezes.
0 proprio Jesus diz em Mateus
21.42, que a afirma<;ao do salmo
118.22 foi cumprida nEle: a pedra
que os construtores recusaram
veio a ser a pedra de esquina. As-
sim como a pedra angular serve
para unir e firmar as paredes de
urn edificio, da mesma forma
Cristo, apesar de ter sido rejeita-
do pelos judeus, foi escolhido por
Deus para servir como uma pedra
de esquina para que a teocracia,
o reino de Deus sobre Seu povo,
alcan<;asse Sua realiza<;ao nEle. 0
ap6stolo Pedro menciona essa
ideia em Atos 4.11 e desenvolve-
a mais especificamente, em sua
primeira carta. Ele se refere nao
somente ao Salmo 118.22, mas
tambem a Isaias 28.16. Ele apre-
senta Cristo como a pedra viva,
colocada por Deus em Siao e a
qual os crentes, como pedras vi-
vas, sao unidos (1Pe 2.4-6). E Pau-
lo, desenvolve a ideia de que a
Igreja e edificada sobre a funda-
<;ao colocada pelos ap6stolos e
pelos profetas, em sua prega<;ao
do Evangelho, e que Cristo e a
271
51 2.6; 72.2-7; Is 9.6; 11.1-5; Lc 1.33; Jo 18.33.
272
512.8,9; 72.8; 110.1,2; Mt 28.18; 1Co 15.25-27; Ap 1.5; 17.14.
419
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
pedra angular do edificio da Igre-
ja, sobre a qual foi colocado o fun-
damento dos ap6stolos e profetas
(Ef 2.20). Cristo e chamado de fun-
damento da Igreja (1Co 3.10). As-
sim como o edificio, tern firmeza
em sua pedra angular, assim tam-
bern a Igreja tern sua existencia
somente na pedra viva, que e
Cristo.
Mas a figura do edificio,
apesar de apresentar Cristo como
pedra de esquina, ainda nao e
adeguada para apresentar o inti-
mo relacionamento que Cristo
mantem com a Igreja. A conexao
existente entre a pedra angular e
o edificio e uma rela<;ao artificial,
mas a unidade de Cristo com sua
Igreja e uma rela<;ao vital. Jesus
falou de Si mesmo nao apenas
como uma pedra escolhida por
Deus para ser a pedra angular,
mas tambem como a videira que
alimenta seus ramos (Jo 15.1,2).
Pedro falou de pedras vivas e
Paulo, falou nao apenas sobre urn
edifkio que e construfdo e de urn
corpo que e edificado (Ef 2.21;
4.12), mas tambem apresenta Cris-
to como a Cabe<;a cujo corpo ea
Igreja. Toda igreja local eurn cor-
po de Cristo e membro do gran-
de corpo de Cristo.
Toda igreja local eurn cor-
po de Cristo, e os membros da
igreja estao relacionados a outros
273
Ef1.22,23; 4.15,16; 5.23; C/1.18; 2.19.
274
C/1.19; 2.9; Jo 1.14)6.
420
membros, do mesmo corpo, que
precisam e servem uns aos outros
(Rm 12.4,5; 1Co 12.12-27). Mas
tambem, toda a Igreja de Cristo e
Seu corpo. Em virtude de Sua res-
surrei<;ao e ascensao Ele foi feito
Cabe<;a da Igreja273
• Como tal, Ele
eo prindpio de vida da Igreja. Ele
concede vida aIgreja, e tambem a
alimenta, cuida dela, preserva-a e
protege-a. Ele faz com que a Igre-
ja viceje e prospere, faz com que
seus membros alcancem plena
maturidade e tambem unifica-a e
faz com que todos trabalhem em
beneficio uns dos outros. Em ou-
tras palavras, Cristo enche a Igre-
ja com a plenitude de Deus.
Nos dias do ap6stolo Pau-
lo, havia mestres hereticos, que
diziam que das profundezas do
Ser divino todos os tipos de seres
emanavam em uma escala des-
cendente, e que todos esses seres
juntos formavam a plenitude de
Deus. Contra essa heresia Paulo
apresenta o fato de que toda a ple-
nitude de Deus reside exclusiva-
mente em Cristo, e que essa ple-
nitude reside nEle corporalmen-
te274 e que Cristo faz com que essa
plenitude esteja presente na Igre-
ja, que eo Seu corpo e que em
tudo e preenchida por Ele (Ef
1.23). Na Igreja nada ha., nem dom,
nem poder, nem offcio, nem mi-
nisterio, nem fe, nem esperan<;a,
A OBRA DE CRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao
nem amor, nem salva<;ao que nao
proceda de Cristo. E Cristo aper-
fei<;oani a Igreja ate que ela, no
todo e em partes, esteja cheia da
plenitude de Deus275
• Quando
isso acontecer, Deus sera tudo em
todos (1Co 15.28).
Mas Cristo, tambem recebe
o nome de Cabe<;a em outro sen-
tido. Em 1Co 11.3 Paulo diz que
Cristo e o cabe<;a de todo homem.
Em Colossenses 2.10 Paulo diz
que ele e 0 cabe<;a de todo princi-
pado e potestade, isto e, dos an-
jos, porque Ele e o primogenito
de toda a cria<;ao (Cl 1.15). E em
Efesios 1.10 ele fala do prop6sito
de Deus, na plenitude dos tem-
pos, de fazer convergir em Cris-
to, todas as coisas (a palavra gre-
ga significa reunir todas as coisas
sob uma cabe<;a), tanto no ceu
quanto na terra. Todavia, e claro
que o nome cabec;a tern urn signi-
ficado diferente nesses textos e
naqueles em que Ele e chamado
de Cabe<;a da Igreja. Quando Pau-
lo diz que Cristo e o Cabe<;a da
Igreja, ele esta pensando em uma
rela<;ao organica entre Cristo e sua
Igreja. Mas quando Cristo e cha-
mado de cabe<;a do homem, dos
• 1 .1 j•
anJOS, ou ao munao, a ngura apre-
sentada e a de Sua soberania so-
bre todas as coisas. Todas as cria-
turas, sem exce<;ao, estao subor-
dinadas a Cristo, embora Ele mes-
275
Jo 1.16; Ef3.19; 4.13.
276
1Co 15.25; 1Tm6.15; Ap 1.5; 17.14; 19.16.
421
mo, como Mediador, esteja sujei-
to ao Pai (1Co 11.3). Enquanto Ele
exerce urn governo da Gra<;a so-
bre a Igreja e, e constantemente
chamado de Cabe<;a da Igreja, Ele
e tambem, 0 soberano sobre todas
as criaturas. E nesse sentido Ele e
chamado de Cabe<;a, Rei e Senhor.
Ele e o Rei dos reis e o Senhor dos
senhores, o Principe dos reis de
toda a terrae como Rei reinara, ate
que todos os Seus inimigos sejam
colocados debaixo dos Seus
pes276.
Esse reinado de poder nao
pode ser identificado com a abso-
luta soberania que Cristo, segun-
do Sua natureza divina, tern em
comum como Pai e como Espiri-
to. A onipotencia que pertence ao
Filho desde a eternidade, deve ser
diferenciada do poder que Cristo
menciona em Mateus 28.18 e que
lhe e dado especificamente como
Mediador em ambas as Suas na-
turezas. Como Mediador Cristo
tern Sua Igreja para reunir, gover-
nar e proteger e para fazer com
que ela seja mais poderosa do
que todos os Seus inimigos e do
que os 1mm1gos Igreja. Mas
essa, certamente, n2i_o e a unica
o de
der foi concedido a Cristo. Ha ain-
da outra razao, a saber, que conw
Mediador Ele deve triunfnr sobre
todos OS Seus inimigos. Ele nao
Fundamentos Teol6gicos da FC Crista
os encontrara em urn campo de
batalha para derrota-los com sua
onipotencia, mas lhes mostrara o
poder que, como Mediador, rece-
beu atraves de Seu sofrimento e
morte. 0 conflito entre Deus e
Suas criaturas e urn conflito de jus-
ti<;a e retidao. Assim como a Igre-
ja e redimida atraves de Sua jus-
ti<_;:a, assim tambem, os inimigos
de Deus urn dia serao condena-
dos por meio dessa mesma justi-
<_;:a. Contra eles Deus nao fara uso
de Sua onipotencia, pois ja triun-
fou definitivamente sobre eles na
cruz (Cl 2.15). Se Deus fosse pu-
nir Seus inimigos com Sua onipo-
tencia, nem por urn momento se-
quer eles poderiam existir. Mas
Ele permite que eles nas<_;:am e vi-
vam, gera<_;:ao apos gera<_;:ao, secu-
lo apos seculo e concede-lhes to-
das as ben<_;:aos que possuem no
corpo e na alma, e que eles, por
422
sua parte, utilizam contra Deus.
Deus pode fazer isso e de fato o
faz, porque Cristo e o Mediador.
Embora, agora, nem todas as coi-
sas lhe estejam sujeitas, Ele e co-
roado com honra e gloria, e reina-
ra como Rei ate que todos os Seus
inimigos lhe sejam totalmente
sujeitos. Finalmente, no fim dos
tempos, quando toda a historia do
mundo e toda a historia de cada
indivfduo chegar ao fim, queren-
do ou nao, todo joelho se dobrara
e toda lingua confessara que Cris-
to e o Senhor, para a gloria de
Deus Pai (Fp 2.10,11). E nesse dia,
como o Filho do homem, Cristo
pronunciara o julgamento final
sobre toda criatura. E Ele conde-
nara todos aqueles que, em sua
propria consciencia, convencidos
pelo Espfrito, ja foram condena-
dos (Jo 3.18; 16.8-11).
CAPITULO
11®
0 DaM oo EsPfRITO SANTO
A
primeira obra que Cristo
realizou depois de Sua
exalta<;ao, a mao direita
do Pai, foi o envio do Espirito
Santo. Em Sua exalta<;ao, Ele mes-
mo recebeu do Pai o Espirito San-
to prometido no Velho Testamen-
to e, portanto, Ele pode agora,
como tinha prometido, concede-
lo aos Seus disdpulos (At 2.33).
0 Espirito que Ele concede pro-
cede do Pai foi concedido a Cris-
to pelo Pai, e e concedido por
Cristo aIgreja (Lc 24.49; Jo 14.26).
0 envio do Espirito Santo,
ocorrido no dia de Pentecostes, e
urn evento unico na hist6ria da
Igreja de Cristo. Assim como a cri-
a<;ao e a encarna<;ao, o envio do
Espirito Santo, tambem aconteceu
uma vez por todas. Ele nao foi
precedido por qualquer conces-
sao do Espirito, em igual impor-
Hl.ncia e jamais sera seguido por
uma concessao semelhante. Assim
423
como Cristo em Sua concep<;ao
assumiu a natureza humana e
nunca colocou-a de lado, assim
tambem o Espirito Santo, no dia
de Pentecostes, passou a usar a
Igreja como Sua morada, como
Seu santwirio e nunca se separa-
ra dela. A Escritura claramente
indica o significado impar desse
evento, ocorrido no dia de Pente-
costes, ao referir-se a ele como des-
cida ou derramamento do Espirito
Santo.
Logicamente isso nao signi-
fica que nao houve men<;ao da ati-
vidade do Espirito Santo antes do
dia de Pentecostes. N6s ja vimos
que o Espirito, juntamente com o
Pai e o Filho eo criador de todas
as coisas, e que na esfera de re-
den<;ao Ele eo Aplicador da vida
e da salva<;ao, de todo dome ha-
bilidade. Ha uma diferen<;a entre
a atividade do Espirito Santo nos
dias do Velho Testamento e Sua
Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii
atividade nos dias do Novo Tes-
tamento. A diferen<;a e nohivel e
essencial. Essa diferen<;a se torna
aparente, em primeiro lugar, pelo
fato de que a Velha Dispensa<;ao
sempre olhava para a £rente, para
o dia em que surgiria o Servo do
Senhor, sobre quem o Espirito re-
pousaria em toda a Sua plenitu-
de como o Espirito de sabedoria
e de entendimento, o Espirito de
conselho e de fortaleza, o Espfri-
to de conhecimento e de temor do
Senhor (Is 11.2). Em segundo lu-
gar, o Velho Testamento prediz
que, embora houvesse ja naquele
tempo uma certa opera<;ao do Es- ·
pirito Santo, que esse Espirito se-
ria derramado sobre toda a carne,
sobre filhos e filhas, sobre velhos
e jovens, sobre servos e senhores,
ate 0 ultimo dia277
•
Essas duas promessas foram
cumpridas nos dias do Novo Tes-
tamento. Jesus eo Cristo, o Ungi-
do de Deus. Ele nao apenas foi
concebido pelo Espfrito, no ven-
tre de Maria e nao somente foi
ungido sem medida, pelo Espiri-
to, por ocasiao de Seu batismo,
mas Ele continuamente viveu e
agiu atraves do Espirito. Pelo Es-
Dfrito1 E1e foi enviado ao deserto
4.1) e pelo Espfrito Ele
retornou aGalileia (Lc 4.14), pre-
gou o Evangelho, curou os enfer-
mos, expulsou demonios278
, ofe-
277
Is 44.3; Ez 39.29; Jl 2.28 ss.
"' Mt 12.28; Lc 4.18,19.
279
At 1.2; Jo 20.21)2.
424
receu-se sem macula para que fos-
se morto (Hb 9.14), ressuscitou e
foi revelado em poder (Rm 1.4).
No periodo de quarenta dias, en-
tre Sua ressurrei<;ao e Sua ascen-
sao, Ele deu mandamentos aos
Seus discipulos atraves do Espi-
rito279. E em Sua ascensao, atraves
da qual Ele sujeitou todos os Seus
inimigos e subordinou os anjos,
principados e potestades a Simes-
mo (Ef 4.8; 1Pe 3.22), Ele plena-
mente recebeu o Espirito Santo e
todos os Seus poderes. Quando
Ele subiu as alturas, levou cativo
o cativeiro, concedeu dons aos
homens, e foi exaltado acima de
todos OS ceus, para encher todas
as coisas (Ef 4.8)0).
Jesus recebeu o Espirito de
tal maneira e em tal medida que
o ap6stolo Paulo pode dizer, em
2Corintios 3.17, que o Senhor (isto
e, Cristo, como o Senhor exalta-
dot e o Espirito. Naturalmente,
atraves dessa afirma<;ao Paulo nao
quer obliterar a distin<;ao que
existe entre os dois, pois no verso
seguinte ele imediatamente fala
sobre o Espirito do Senhor. 0 que
Paulo quer dizer e que o Espirito
se tornou uma propriedade de
Cristo, e 1Jodemos dizer que Ele
foi absorvido por Cristo ou assi-
milado por Ele. Atraves da ressur-
rei<;ao, Cristo foi feito Espirito
vivificante (1Co 15.45). Cristo ago-
0 DoM oo EsPiRITO SANTO
ra possui OS sete Espfritos (isto e,
o Espirito em sua plenitude), as-
sim como possui as sete estrelas
(Ap 3.1). 0 Espfrito do Paise tor-
nou o Espirito do Filho, o Espiri-
to de Cristo, o Espirito que, nao
somente no divino Ser, mas tam-
bern em harmonia com Ele, pro-
cede do Pai e do Filho, e e envia-
do pelo Filho, assim como e envi-
ado pelo Pai (Jo 14.26; 16.7).
Com base em sua perfeita
obediencia, Cristo obteve o pleno
e livre comando sobre o Espirito
Santo e sobre todos os dons e po-
deres desse Espirito. Ele agora
pode compartilhar esse Espirito
com quem Ele quiser, na medida
em que Ele quiser, em harmonia
com a vontade do Pai e do pro-
prio Espfrito, pois o Filho envia o
Espfrito da parte do Pai (Jo 15.26)
e o Pai envia o Espirito no nome
do Filho (Jo 14.26). E o Espfrito
nao fala de si mesmo, mas diz
tudo o que ouviu. Assim como
Cristo em Seu ministerio terreno
sempre glorificou o Pat dames-
ma forma o Espirito, por Sua vez,
glorifica Cristo, recebe tudo de
Cristo e anuncia Cristo aos Seus
discipulos (Jo 16.13)4). Dessa for-
mao Espfrito, livremente, coloca-
se a servi<;o de Cristo, e no Espiri-
to e atraves do Espirito, Cristo da
a Si mesmo e os Seus beneficios,
aIgreja.
Nao e por for<;a nem por vi-
olencia, que Cristo reina no reino
que lhe foi dado pelo Pai. Ele nao
agiu assim em sua humilha<;ao e
nao agira assim em Sua exalta<;ao.
Ele continua a exercer Seus ofici-
os profetico, sacerdotal e real de
forma espirituat em Seu trono
celestial. Ele luta somente com
armas espirituais. Ele e o Rei de
Gra<;a e de poder, e comanda Seu
exercito atraves do Espirito, que
faz uso da Palavra como meio de
Gra<;a. Atraves do Espfrito Cristo
instrui, conforta e governa Sua
Igreja, e mora nela. E atraves do
mesmo Espirito Ele convence o
mundo do pecado, da justi<;a e do
juizo (Jo 16.8-11). A vit6ria total
que Cristo impora sobre Seus ini-
migos, sera uma vit6ria do Espf-
rito Santo.
*****
425
Depois que Cristo foi exal-
tado amao direita do Pai, a segun-
da promessa do Velho Testamen-
to foi cumprida. Ela fala sobre o
derramamento do Espirito sobre
toda carne. Primeiro Ele tinha que
merecer e se apropriar desse Es-
pirito para que depois pudesse
da-lo a Sua Igreja. Antes disso,
isto e, antes de Sua ascensao, o
Espirito ainda nao tinha sido der-
ramado, porque Cristo ainda nao
tinha sido glorificado (Jo 7.39).
Naturalmente, isso nao quer dizer
que antes da glorificac;:ao de Cris-
to o Espirito nao existisse, pois,
nao apenas o Velho Testamento
faz referenda ao Espirito, mas
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
tambem os Evangelhos registram
que Joao Batista era cheio doEs-
pirito Santo (Lc 1.15), que Simeao
recebeu uma revela<;ao do Espi-
rito Santo (Lc 2.26,27), que Jesus
foi concebido por Ele, ungido por
Ele e assim por diante. 0 sentido
tambem nao pode ser de que os
disdpulos nao soubessem que o
Espirito Santo existia, pois eles
tinham sido instruidos no Velho
Testamento, pelo proprio Cristo.
Nem mesmo os discipulos de
Joao que disseram a Paulo, em
Efeso, que nao tinham recebido o
Espirito Santo e que nunca sequer
tinham ouvido falar na existencia
desse Espirito (At 19.2), ignora-
vam a existencia do Espirito. 0
que eles disseram foi que nao ti-
nham conhecimento de uma ope-
ra<;_:ao nao usual do Espirito San-
to, isto e, do Pentecostes, afinal,
eles sabiam que Joao Batista era
urn profeta enviado por Deus e
capacitado pelo Espirito. A gran-
de questao e que eles tinham per-
manecido como discipulos de
Joao, nao tinham se juntado a Je-
sus e aos Seus disdpulos e por
isso viviam fora do ambito da
Igreja, que no dia de Pentecostes,
recebeu o Espirito Santo. Ate
aquele dia nunca tinha ocorrido
urn derramamento do Espirito,
como o de Pentecostes.
0 Velho Testamento ja tinha
280
Mt 3.11; fo 3.11.
281
Jo 14.16; 15.26; 16.7.
426
registrado essa promessa, e Jesus
tambem a mencionou repetida-
mente em Seu ensino. Joao Batis-
ta ja tinha anunciado que depois
dele viria o Messias, que nao ba-
tizaria com agua, mas com o Es-
pirito Santo e com fogo (isto e,
como derramamento e com o fogo
consumidor do Espirito santo)280
.
E em harmonia com essa promes-
sa Jesus afirmou aos Seus disci-
pulos que depois de Sua exalta<;_:ao
Ele enviaria, da parte do Pai, o
Espirito Santo, que os conduziria
a toda verdade. Dessa forma, Cris-
to claramente fez uma distin<;_:ao
entre as duas atividades do Espi-
rito Santo. Atraves do primeiro
tipo de atividades o Espirito San-
to, tendo sido derramado sobre o
cora<;ao dos discipulos, conforta-
os, conduze-os a verdade e per-
manece com eles eternamente281
.
Mas esse Espirito de conforto e
orienta<;_:ao e dado somente aos
discipulos de Jesus. 0 mundo nao
pode receber esse Espirito, pois
nao 0 ve nem 0 conhece (J0 14.17).
Por outro lado, no mundo o Espi-
rito realiza uma atividade muito
diferente daquela que realiza na
Igreja. Vivendo na Igreja e, por-
tanto, exercendo Sua influencia no
mundo, o Espirito convence o
mundo do pecado, da justi<;;a e do
juizo e condena-o nesses tres que-
sitos (Jo 16.8-11).
0 DaM oo EsPiRITO SANTO
Jesus cumpre Sua promessa
aos Seus disdpulos em seu senti-
do estrito, isto e antes de Sua as-
censao. Quando, na tarde do dia
da ressurrei<;ao, Ele apareceu aos
Seus discipulos pela primeira
vez, Ele os inseriu de forma dig-
na em sua missao apost6lica, so-
prou o Espirito sobre eles e disse
que se de alguem eles perdoas-
sem os pecados, os pecados des-
sa pessoa seriam perdoados e que
se eles retivessem os pecados de
alguem, esses pecados seriam de
fato retidos (Jo 20.22,23). Isso
aconteceu porque o exercicio do
offcio apost6lico que eles tinham
acabado de receber, exigia urn
dom e urn poder espedfico do
Espirito. Esse dom e esse poder
lhes foram dados por Cristo, an-
tes de Sua ascensao, pois eram dis-
tintos do dom e do poder que no
dia de Pentecostes, todos os cren-
tes receberiam.
0 derramamento do Espiri-
to aconteceu quarenta dias de-
pois da ressurrei<;ao. Nessa oca-
siao os judeus estavam celebran-
do sua festa de Pentecostes, na
qual eles se regozijavam pela co-
lheita e pela entrega da lei, no
Sinai. Os discipulos estavam em
Jerusalem, aguardando o cumpri-
mento da promessa de Jesus, e es-
tavam constantemente no templo,
orando e bendizendo ao Senhor
(Lc 24.49,53). Agora eles nao esta-
vam sozinhos. Eles perseveravam
unanimes em ora<;5es e suplicas,
427
com Maria, mae de Jesus, os ir-
maos dEle e muitos outros. E o
seu numero chegava a cento e vin-
te pessoas (At 1.14,15; 2.1). E, es-
tando eles reunidos, repentina-
mente veio urn som do ceu, como
de urn vento impetuoso, e encheu
todo o lugar onde os discipulos
estavam reunidos. E apareceram
entre eles linguas, como de fogo,
que foram distribuidas entre to-
dos os que estavam ali reunidos,
e permaneceu sobre eles. Acom-
panhando por esses sinais, que
significavam a descida e a ativi-
dade iluminadora do Espirito San-
to, ocorreu o derramamento. To-
dos os presentes ficaram cheios do
Espirito Santo (At 2.4).
Essa mesma expressao ja ti-
nha ocorrido antes (Ex 31.3; Mq
3.8; Lc 1.41). Mas, a diferen<;a esta
na superffcie. Antes do Pentecos-
tes, o Espirito Santo vinha sobre
umas poucas pessoas e permane-
cia sobre elas durante o tempo ne-
cessaria para a realiza<;ao de uma
obra espedfica. No Pentecostes
Ele desceu sobre toda a Igreja e
sobre todos os Seus membros, e
permanecera morando e traba-
lhando permanentemente nela.
Assim como o Filho de Deus apa-
receu varias vezes nos tempos do
Velho Testamento mas, s6 assu-
miu uma natureza humana como
Sua morada permanente na con-
cep<;ao, no ventre de Maria, da
mesma forma, nos tempos do Ve-
lho Testamento havia todas as for-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
mas de atividades do Espirito
Santo, mas somente no dia de Pen-
tecostes Ele passou a habitar na
Igreja, como Seu templo, que Ele
constantemente santifica, edifica e
da qual Ele nunca se esquece. A
morada que o Espirito Santo faz
na Igreja da, a Igreja de Cristo,
uma existencia independente.
Essa Igreja nao e mais restrita a
na<;ao de Israel, nem as fronteiras
da Palestina, mas vive agora de
forma independente, atraves do
Espirito que nela habita e se es-
palha por toda a terra. Fora do
templo de Siao Deus passa a mo-
rar no corpo da Igreja de Cristo, e
assim, no dia de Pentecostes nas-
ce uma Igreja missionaria e mun-
dial. A ascensao de Cristo teve
sua conseqi.iencia necessaria e a
prova de sua realidade, na desci-
da do Espirito Santo. Assim como
o Espirito santificou Cristo atra-
ves do sofrimento, aperfei<;oou e
conduziu-o a mais elevada
exalta<;ao, assim tambem Ele age
para formar o corpo de Cristo ate
que esse corpo alcance a maturi-
dade e sua plenitude, o ph~roma,
daquele que e tudo em todos.
* * * * *
Esse derramamento do Es-
pirito Santo foi acompanhado, no
primeiro perfodo, pela realiza<;ao
de todos os tipos de sinais, pelos
discipulos de Cristo. Logo que
eles foram cheios do Espirito San-
428
to, no dia de Pentecostes, eles co-
me<;aram a falar em outras lin-
guas, na medida em que o Espiri-
to concedia que falassem (At 2.4).
De acordo com a descri<;ao de
Lucas, esse milagre consistia na
fala ou na linguagem e nao na for-
ma pela qual os discipulos ouvi-
am. Lucas era urn amigo e urn
auxiliar de Paulo e conhecia mui-
to bern o fenomeno de linguas es-
tranhas, como por exemplo o que
acontecia em Corinto. Ele fala de
si mesmo, em Atos 10.46,47 e 19.6,
falando em linguas. Nao ha duvi-
da de que o fenomeno de Pente-
costes estava relacionado as lin-
guas. As linguas servem de
parametro para Pedro dizer que,
Cornelio e aqueles que com ele
estavam tinham recebido o Espi-
rito Santo, assim como Pedro e os
outros ap6stolos tinham recebido
(At 10.46,47; 11.17; 15.8). Contudo,
ha uma diferen<;a. Em 1Corintios
14, Atos 10.46 e 19.6 a fala em lin-
guas nao e modificada pelo adje-
tivo estranhas. Mas, Atos 2.4 men-
dona expressamente outras lfn-
guas. Quando os membros da
igreja de Corinto falavam em lfn-
guas, eles nao eram compreendi-
dos menos que houvesse urn in-
terprete (1Co 14.2 ss.). Mas, em
Jerusalem, falaram em outras lin-
guas e foram entendidos pela
multidao. Urn milagre na audi<;ao
eshi, portanto, totalmente fora de
questao (At 2.4). Quando a multi-
ciao ouvia os disdpulos, entendia
0 DoM no EsrfRrTo SANTO
perfeitamente, pois ela os ouvia
em sua propria lingua e modo de
falar (At 2.6,8). As outras linguas
das quais o verso 4 fala sao, sem
sombra de duvida, as mesmas lin-
guas que o verso 6 chama de lin-
gua dos ouvintes, e que no verso
8, sao mais especificamente de-
signadas como a lingua materna
de cada urn dos presentes. Essas
lfnguas, portanto, nao eram sons
incompreensiveis, mas outras lin-
guas, novas linguas, como Marcos
diz no capitulo 16.17 de seu Evan-
gelho e que nao se esperava en-
contrar nos labios de urn galileu
(At 2.7). Em todas essas linguas
eles proclamaram os maravi-
lhosos feitos de Deus, particular-
mente aqueles que tinham acon-
tecido recentemente, a saber, a
ressurrei<;ao e a exalta<;ao de Cris-
to (At 2.4,14 ss.).
Nao devemos pensar, devi-
do ao registro feito por Lucas, que
os discipulos de Cristo soubes-
sem falar todas as linguas de to-
dos os povos da terra. 0 registro
tambem nao diz, que todos OS dis-
dpulos falaram em todas as ou-
tras linguas. 0 proposito desse
milagre nao foi para que os disci-
pulos pregassem o Evangelho
aos estrangeiros em sua propria
lingua, pela razao de que, de ou-
tra forma nao seriam entendidos.
Os quinze nomes relacionados
nos versos 9-11, nao representam
o mesmo numero de linguas di-
ferentes. Esses nomes sao desig-
429
na<;ao dos paises dos quais os es-
trangeiros vieram a Jerusalem por
ocasiao do Pentecostes. Porem,
todos esses estrangeiros entendi-
am o aramaico ou o grego, de for-
ma que a capacita<;ao sobrenatu-
ral para que os discipulos falas-
sem em outras linguas, nao seria
necessaria para que a mensagem
fosse entendida. Nos nao encon-
tramos qualquer men<;ao posteri-
or no Novo Testamento, desse
dom de linguas estranhas. Paulo,
o apostolo dos gentios, que certa-
mente teria recebido esse dom,
nunca falou sobre ele. Ele podia
comunicar-se muito bern em
aramaico e grego, no mundo de
sua epoca.
0 fenomeno da fala em lfn-
guas estranhas, no dia de Pente-
costes, foi urn evento unico. De
fato ele esta relacionado ao fen6-
meno de linguas geralmente co-
nhecido e referido em outros lu-
gares, mas ele foi urn fenomeno
particular e mais elevado. Paulo
considerou o fenomeno comum e
conhecido de linguas como sen-
do de valor menor que a profecia.
Mas, o que ocorreu em Jerusalem
foi uma combina<;ao de dom de
linguas e de profecia. A opera<;ao
do Espirito Santo, que tinha aca-
bado de ser derramado, foi tao
poderosa que dominou toda a
conscH~ncia dos presentes e se
manifestou na pronuncia de sons
articulados, que foram reconheci-
dos pelos ouvintes como sua lin-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
gua materna. Oproposito, portan-
to, desse milagre, nao foi equipar
os disdpulos para que conheces-
sem linguas estranhas, mas cau-
sar em todos os presentes uma
forte impressao do grande even-
to que tinha acabado de ocorrer.
E como isso poderia ter sido fei-
to, de forma melhor do que fazen-
do com que a pequena e recente-
mente estabelecida Igreja mundi-
al, proclamasse, em muitas Hn-
guas, os poderosos feitos de
Deus? Na cria<;ao, as estrelas can-
taram juntas e todos os filhos de
Deus se alegraram. No nascimen-
to de Cristo, a multidao de hastes
celestiais exultou de jubilo. No
aniversario da Igreja, essa Igreja
canta as maravilhosas obra de
Deus em varias linguas.
* * * * *
Embora as linguas ocupem
urn lugar irnportante no Pentecos-
tes, devernos nos lernbrar que o
derrarnarnento do Espirito nesse
prirneiro periodo, tornou-se ma-
nifesto atraves de rnuitos fenorne-
nos nao usuais. 0 dorn do Espiri-
to era geralrnente dado depois
que urna pessoa rnanifestava sua
fe, geralrnente no momenta do ba-
tisrno (At 2.28), ou na irnposi<;ao
das rnaos antes do batismo (At
8.17; 9.17; 19.6). Usualrnente, o
dom do Espirito consistia de urn
poder nao usual. Dessa forma,
nos lemos que atraves do Espiri-
to os disdpulos receberarn auto-
ridade para pregar a Palavra (At
4.8,31), urna fe particularrnente
forte (At 6.5; 11.24), conforto e ale-
gria (At9.31; 13.52), sabedoria (At
6.3,10L linguas (At 10.46; 15.8;
19.6), profecia (At 11.28; 20.23;
21.11), manifesta<;oes e revela-
<;6es282, opera<;oes de rnilagres283
e coisas sernelhantes. Assirn como
as obras que Jesus realizou, esses
poderes incornuns tarnbern causa-
ram grande perturba<;ao e te-
rnor284. Por urn lado eles provo-
cararn oposi<;ao, levaram o cora-
<;ao dos inimigos ao odio e aper-
segui<;ao; mas, por outro lado,
eles tambern preparararn o terre-
no para a semente do Evangelho.
Nesse prirneiro periodo eles fo-
rarn necessarios para introduzir a
confissao crista no rnundo.
Esses dons incornuns doEs-
pirito continuararn sendo exerci-
dos durante todo o periodo apos-
tolico. Nos ternos acesso a esses
dons, especialmente atraves dos
escritos do apostolo Paulo. Ele
rnesrno, ern sua propria pessoa,
recebeu abundanternente esses
dons especiais do Espirito. De
uma forma incornum, a saber,
atraves de urna revela<;ao do pro-
prio Cristo, ele se converteu no
252
At 7.55; 8.39; 10.19; 13.2; 15.28; 16.6; 20.22.
253
At 3.6; 5.5,12,15,16; 8.7,13.
254
At 2.7,37,43; 3.10; 4.13; 5.5,11,13,24.
450
0 DaM oo EsrfRITO SANTO
caminho de Damasco, foi chama-
do para ser ap6stolo (At 9.3 ss.) e,
mais tarde, ele passou a receber
revela<;6es periodicamente285
• Ele
sabia que possuia os dons de co-
nhecimento, de profecia, de dou-
trina e de linguas (1Co 14.6,18). Ele
realizava sinais, maravilhas e
obras que evidenciavam o seu
apostolado (2Co 12.12). 0 proprio
Cristo quis trazer OS gentios aobe-
dH~ncia, por palavras e por obras,
por for<;a de sinais e prodigios,
pelo poder do Espirito Santo (Rm
15.18,19).
Apesar de Paulo estar ple-
namente consciente de seu oficio
apost6lico e de sua dignidade e
de afirma-las sempre que possi-
vel, ele sabia que os dons do Es-
pirito nao tinham sido dados so-
mente a ele, mas a todos os cren-
tes. Em 1Corintios 12.8-10 (com-
pare com Romanos 6.8) Paulo cita
alguns desses dons, e diz que eles
foram distribuidos pelo Espirito
em propor<;oes variadas, de acor-
do com a vontade do Espirito. 0
ap6stolo tern todos esses dons em
estima muito elevada. Eles nao
pertencem aos pr6prios crentes,
pois eles nada possuem que nao
tenham recebido e, portanto, nao
tern motivo algum para se exalta-
rem, colocando-se acima uns dos
outros (1Co 4.6,7). Todos esses
dons e poderes sao concedidos
285
At 16.6,7,9; 2Co 12.1-7; Gl 2.2.
286
Rm 8.23; 2Co 1.22; 5.5; Ef1.14; 4.30.
451
pelo mesmo Espirito. Eles sao urn
cumprimento da profecia feita no
Velho Testamento (Gl 3.14) e de-
vern ser considerados como
primicias e como penhor de nos-
sa futura heran<;a celestiaF86
.
Contudo, Paulo faz uma ava-
lia<;ao de todos esses dons e esta
difere significativamente da que
foi feita por muitos dos membros
da Igreja. Havia pessoas em
Corinto, que se exaltavam por
causa dos dons que tinham rece-
bido do Espirito e que olhavam
com desdem para aqueles que ti-
nham recebido menos dons ou ate
mesmo nenhum. Essas pessoas
nao aplicavam seus dons em be-
neficia dos demais, mas ostenta-
vam-nos. E elas davam uma im-
portancia a mais para o dom de
Iinguas. Paulo aponta o erro des-
sas pessoas (1Co 12-14). Em pri-
meiro lugar ele aponta para a nor-
ma, segundo a qual todos os dons
devem ser medidos. Essa norma
ea confissao de que Jesus eo Se-
nhor. Quem quer que fale da par-
te do Espirito do Senhor nao pode
amaldi<;oar Jesus. Somente aque-
le que confessa Jesus como Se-
nhor demonstra que fala da parte
do Espirito. A marca registrada
do Espirito e de todos os Seus
dons e opera<;oes ea obriga<;ao de
confessar Jesus como Senhor (1Co
12.3).
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
Em segundo lugar Paulo
aponta para o fato de que os dons
do Espirito, apesar de correspon-
derem a essa norma, sao muito
variados, e que eles sao distribu-
idos nao segundo 0 merito ou 0
esfon;:o de cada urn, mas segun-
do a vontade soberana do Espfri-
to (1Co 12.4-11). Portanto, eles
nao podem servir de ocasiao ou
de motivo para a auto-exalta~ao
nem para o desprezo ou a des-
considera~ao dos outros. Em vez
disso, todos eles devem ser apli-
cados em beneficia do proximo,
pois todos os crentes sao mem-
bros de urn s6 corpo e precisam
uns dos outros (1Co 12.12-30).
Mas, se os dons sao usados para
esse fim, se eles sao aplicados a
aquila que e proveitoso (1Co
12.7), isto e, benefico aos outros,
a edifica<;:ao da Igreja, para o que
foram designados (1Co 14.12),
entao, as gradua<;:6es entre os
dons passam a ficar evidentes,
pois, urn e mais benefico a
edifica<;:ao da Igreja que outro, e
por isso n6s podemos falar em
dons, melhores dons eo melhor
dom. Epor isso que Paulo exorta
os crentes, em 1 Corintios 12.31, a
procurar com zelo os melhores
dons.
Nessa energica aspira~ao
aos melhores dons, o amor e o
caminho por excelencia. Sem ele
o maior dos dons e vazio e sem
vida (1Co 13.1-3). 0 amor trans-
cende todos os outros dons em
432
virtude (1Co 13.4-7). 0 amor trans-
cende todos os outros dons em
dura<;:ao, pois todos os dons urn
dia cessarao, mas o amor eeter-
no. Entre as virtudes de fe, espe-
ran<;:a e amor, o amor e a de maior
merito (1Co 13.8-13). Por tudo isso
o amor deve ser seguido com zelo
em todas as coisas (lCo 14.1). Mas
nessa busca a aten<;:ao deve se con-
centrar naqueles dons que servem
para edificar a Igreja e, dessa for-
ma, exercitar o amor. Visto por
esse angulo, 0 dom de profecia e
muito superior ao de linguas,
pois aqueles que falam em lin-
guas nao sao entendidos, falam
em misterios que sao incompre-
ensiveis aos seus ouvintes, falam
ao ar, nao trazem pessoas a cren-
<;:a ou a fe, mas deixam a impres-
sao de ser doentes mentais. Se ha
membros da igreja que possuem
esse dom, eles devem fazer uso
restrito dele e, preferivelmente,
devem ser acompanhados pelo
dom de interpreta<;:ao. Se nenhu-
ma interpreta<;:ao puder ser dada,
aqueles que possuem esse dom
devem calar-se na igreja. Por ou-
tro lado ha aqueles que profeti-
zam, que atraves da revela<;:ao do
Espirito proclamam a Palavra de
Deus, promovem a edifica<;:ao, a
admoesta<;:ao e a consola<;:ao dos
homens. Eles edificam a Igreja e
conquistam os incn§dulos. Portan-
to, independente do dom que a
pessoa tenha recebido, o padrao
que afere sua genuinidade ea con-
0 DaM oo EsrfRITO SANTO
fissao de que Jesus Cristo e o Se-
nhor, eo seu uso como prop6si-
to de edificar a Igreja. Deus nao e
Deus de confusao, mas de paz.
Essa bonita abordagem so-
bre os dons espirituais deu fruto
nao somente na igreja de Corinto,
mas tern frutificado em toda a
Igreja e em todas as epocas, pois
sempre ha pessoas que se ape-
gam mais as manifestac;oes mara-
vilhosas, as revelac;oes e milagres
do que a opera<;:ao do Espirito na
regenera<;:ao, na conversao e na
renovac;ao da vida. 0 anormal e o
incomum sempre atrai atenc;ao, e
o normal e usual passam desper-
cebidos. Muitas pessoas possuem
revelac;oes, aparic;oes, arrebata-
mentos e extrtavagancias teatrais,
e ao mesmo tempo possuem os
olhos fechados para o gradual
amadurecimento do reino de
Deus. Paulo pensava diferente
dessas pessoas, e por isso ele ad-
moestou os irmaos de Corinto:
"Irmaos, nao sejais meninos no
juizo; na malicia, sim, sede crian-
c;as; quanto ao juizo, sede homens
amadurecidos" (lCo 14.20).
Dessa forma, o ap6stolo
muda o centro de gravidade das
revelac;oes temporais e transit6ri-
as do Espirito, para a obra religi-
osa e moral que ele continuamen-
te realiza na Igreja. Essa ideia so-
bre a- obra do Espirito ja estava
presente no Velho Testamento.
287
5151.12,13; Is 32.15; Ez 36.27.
455
No Velho Testamento todos os ti-
pos de dons e poderes extraordi-
narios sao atribuidos ao Espirito,
mas como os profetas e os
salmistas entraram na profundi-
dade da apostasia do povo de Is-
rael e na miseria e corrupc;ao do
corac;ao humano, eles declaram
com maior clareza e maior forc;a
que somente uma renovac;ao rea-
lizada pelo Espirito Santo pode-
ria transformar o povo de Israel
em povo de Deus em urn sentido
verdadeiro. "Pode, acaso, o etiope
mudar sua pele ou o leopardo as
suas manchas? Entao, poderieis
fazer o bern, estando acostuma-
dos a fazer o mal" (Jr 13.23). Deus,
por Seu Espirito, pode mudar o
corac;ao das pessoas, se elas anda-
rem em Seus caminhos e observa-
rem Suas ordenanc;as e Seus esta-
tutos. Somente o Espirito do Se-
nhor pode implantar a verdadei-
ra vida moral e espirituaF87
•
A pregac;ao de Jesus no
Evangelho de Joao, confirma tudo
isso. Em Sua conversa com
Nicodemos Jesus explica que nao
ha acesso ao reino de Deus, nem
qualquer forma de se desfrutar
dele, a nao ser atraves da regene-
rac;ao, e que essa regenerac;ao s6
pode acontecer atraves do espiri-
to santo (Jo 3.3-5). E em sua des-
pedida Ele desenvolve a ideia de
que o Espirito que Ele enviaria da
parte do Pai depois de sua glori-
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
fica<;ao, tomaria Seu lugar entre os
discipulos. Portanto, a partida de
Jesus foi benefica para os discipu-
los. De outra forma o Consolador
nao teria vindo para eles. Mas,
quando Ele foi para o Pai Ele
pode e de fato enviou o Espirito.
A ida de Jesus para o Pai e a evi-
dencia de que Ele realizou na ter-
ra tudo aquilo que deveria ter re-
alizado. No ceu Ele pode tomar
Seu lugar amao direita de Deus
Pai e pode assumir Suas fun<;5es
sacerdotais, intercedendo pela
Igreja na terra. Em outras pala-
vras, ao ir para o Pai, Jesus pode
orar a Ele pelo Espirito Santo em
toda a Sua plenitude e pode en-
viar Seu Espirito aos Seus disci-
pulos. E nesse Espirito Jesus con-
tinua entre Seus discipulos. 0
Espirito e o Consolador, Guia,
Intercessor e Advogado dos dis-
cipulos.
Nesse sentido os discipulos
nao sentiram a perda de Jesus.
Quando Jesus estava com os dis-
cipulos Ele entrava e saia com
eles, mas mesmo assim havia en-
tre eles muitas duvidas e muitos
equivocos. Mas, o Espirito que
viria nao permaneceria fora deles,
nem junto a eles, mas habitaria
dentro deles. Cristo permaneceu
com eles na terra durante algum
tempo, mas o Espirito que Ele
enviou nunca os deixaria, mas
permaneceria com eles ate a eter-
nidade. Alem disso, o proprio
Cristo voltaria novamente napes-
434
soa do Espirito. Ele nao deixaria
6rfaos os Seus disdpulos, mas
voltaria para eles e se alegraria
com eles no Espirito, de uma for-
ma, que antes nunca tinha sido
possivel. Eles o veriam novamen-
te. Eles viveriam como Ele vive.
Eles reconheceriam que Cristo
estaria no Pai e que eles estao em
Cristo e que Cristo estaria neles.
Em Cristo, o Pai viria ate os disci-
pulos. Atraves do Espirito, o Pai
e o Filho viriam aos discipulos. 0
Pai e o Filho viriam ate os disci-
pulos e fariam morada neles, atra-
ves do Espirito. Isso, entao, era o
que o Espirito desejava, em pri-
meiro lugar, realizar: uma comu-
nhao entre o Pai e o filho, por urn
lado, e entre os disdpulos, por
outro. Essa era uma comunhao
como nunca tinha existido antes.
E quando os discipulos des-
frutam dessa comunhao e vivem
por ela, quando eles sao unidos a
Cristo como os ramos sao unidos
a videira, quando eles nao sao
servos, mas amigos, entao o mes-
mo Espirito que fez com que eles
desfrutassem dessa comunhao,
sendo o Espirito da verdade, os
conduzini a toda verdade. Ele nao
os abandonara para que reflitam
por si mesmos sobre o que Cristo
pessoalmente falou e ensinou,
mas continuamente lhes clara tes-
temunho de Cristo. Ele dira o que
ouviu de Cristo e o que recebeu
dEle, e tambem lhes declarara o
que ha de acontecer. Os discipu-
0 DaM oo EsrfRrTo SANTo
los nao somente terao comunhao
como Pai e com Cristo, mas tam-
bern terao conscU~ncia dessa co-
munhao. 0 Espirito Santo os ilu-
minara com rela<;;ao a Cristo, Sua
unidade com o Pai e com rela<;;ao
ao relacionamento dos disdpulos
com o Pai e com o Filho. 0 pro-
p6sito final e que todos OS cren-
tes sejam um - assim Cristo diz
em suas pr6prias palavras -
como tu, 6 Pai, es em mim e eu
em ti, que eles sejam um em n6s,
para que o mundo creia que tu me
enviaste (Jo 17.21).
Quando no dia de Pentecos-
tes o espirito foi derramado, as ex-
traordinarias manifesta<;;oes pelas
quais esse derramamento foi re-
velado atrairam a aten<;:ao. Mas,
nem por isso n6s podemos fechar
nossos olhos para um fato muito
mais importante, a saber, o fato de
que os disdpulos foram unidos
de maneira mais intima a uma
Igreja santa e independente. Cris-
to e o Senhor e Salvador dessa
Igreja, e todos os crentes perseve-
ram na doutrina dos ap6stolos, na
comunhao, no partir do pao e nas
ora<;;oes (At 2.42). A unidade so-
bre a qual Cristo tinha falado foi
realizada na igreja de Jerusalem.
Quando o entusiasmo do primei-
ro amor deu lugar aquietude do
cora<;;ao e da mente, quando as
igrejas foram estabelecidas em
outros lugares e entre outros po-
288
Rm 12.5; Ef1.23; C/1.24.
455
vos, quando, mais tarde, todos os
tipos de cisma e de separa<;;ao co-
me<;:aram a ocorrer na Igreja cris-
ta, a unidade que une todos os
crentes assumiu uma forma dife-
rente, tornou-se menos vital e
menos profunda, e algumas vezes
e tao fraca que nem mesmo pode
ser sentida por todos. Mas n6s nao
podemos nos esquecer que no
meio de tantas diferen<;:as a Igreja
permanece unida ate os nossos
dias. No futuro, essa unidade se
tornara ainda mais claramente
manifesta do que na igreja de Je-
rusalem.
*****
De todos OS ap6stolos e o,
ap6stolo Paulo quem mais defen-
de a unidade da Igreja diante de
todas as divisoes que ele, ja em
seu tempo, pode testemunhar. A
Igreja eum corpo, e todos os seus
membros precisam uns dos ou-
tros e devem servir uns aos ou-
tros (Rm 12.4; 1Co 12.12 ss.). Tal
unidade se deve ao fato da Igreja
ser o corpo de Cristo288
. A unida-
de da Igreja esta fundamentada
na comunhao com Cristo e ederi-
vada dela. Cristo ea Cabe<;;a de
todo crente, de toda congrega<;;ao
local e tambem da Igreja como
um todo. Todos os crentes sao
novas criaturas, que Deus criou
em Cristo para as boas obras, as
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
quais Deus de antemao preparou
para que os crentes andassem ne-
las (2Co 5.17; Ef 2.10). Cristo vive
e mora nos crentes, e os crentes
vivem, movem-se e existem em
Cristo: Cristo e a vida deles. A
combina<;ao em Cristo (no Senhor),
ocorre mais de cento e cinqi.ienta
vezes no Novo Testamento. Ela
indica que Cristo e a fonte cons-
tante nao apenas da vida espiri-
tuat mas que tambem como tal
Ele imediata e diretamente mora
nos crentes. A unidade entre Cris-
to es os crentes e como a da pedra
angular e o templo, entre o ho-
mem e a mulher, entre a cabe<;a e
o corpo, entre a videira e os ramos.
Os crentes estao em Cristo da
mesma forma que todas as coisas,
em virtude da cria<;ao e da provi-
dencia, estao em Deus. Eles vi-
vern em Cristo como os peixes vi-
vern na agua, os passaros vivem
nos ares, o homem em sua voca-
<;ao, o erudito em seu estudo. Jun-
tamente com Cristo os crentes fo-
ram crucificados, mortos e sepul-
tados, e juntamente com Ele, eles
ressuscitaram e estao assentados
amao direita de Deus e glorifica-
dos289. Os crentes assumem a for-
ma de Cristo e mostram em seu
corpo tanto o sofrimento quanto
a vida de Cristo e sao aperfei<;oa-
dos (completados) nEle. Em resu-
mo, Cristo e tudo em todos290
•
Essa intima rela<;ao entre
Cristo e OS crentes e possfvet por-
que Cristo e compartilhado com
os crentes atraves do Espirito. Em
virtude de Sua paixao e morte
Cristo recebeu tao perfeitamente
o Espirito e todos os Seus dons e
poderes que Ele pode ser chama-
do de Espfrito (2Co 3.17t e Cristo
recebeu tambem o direito de con-
ceder o Espfrito a quem Ele qui-
ser. 0 Espirito de Deus e tambem
o Espirito de Cristo, o Espirito do
Filho, o Espirito do Senhor291
• Di-
zer que alguem recebeu o Espfri-
to e o mesmo que dizer que essa
pessoa recebeu Cristo, pois, quem
quer que nao possua o Espirito de
Cristo, tambem nao possui Cristo
e nao pertence a Ele (Rm 8.9)0).
Assim como Deus da o Filho ao
mundo, assim tambem o Filho se
da aIgreja atraves do Espirito. Os
crentes sao urn s6 espfrito com
Cristo (1Co 6.17). Eles sao templos
do Espirito Santo, atraves dos
quais Deus mora neles (1Co
3.16)7; 6.19). Eles existem, an-
dam, confessam, oram e se rego-
zijam no Espfrito292
.Eles sao seres
espirituais, que entendem e jul-
gam as coisas do Espirito (Rm 8.2;
1Co 2.14). Eles sao continuamen-
te conduzidos pelo Espirito e sao
acompanhados por Ele ate, o dia
289
Rnz 6.4 ss.; Gl 2.20; 6.14; Ef 2.6; Cl 2.12)0; 3.3.
290
Rm 13.14; 2Co 4.11; G/4.19; C/1.24; 2.10; 3.11.
291
Rm 8.9; 1Co 2.16; 2Co 3.18; G/4.6; Fp 1.19.
292
Rm 8.4,9,15; 14.17; 1Co 12.3.
456
0 DoM oo EsPiRno SANTO
da redenao293
. Atraves do Espi-
rito eles tern acesso ao Pai e sao
juntamente edificados sobre o
fundamento dos apostolos e dos
profetas para a habitaao de Deus
(Ef 2.18,22).
Em termos como esses, que
foram aqui utilizados, a Escritura
registra a maravilhosa unidade
que existe entre Cristo e Sua Igre-
ja e que veio a ser chamada de
uniao mistica. Nos nao podemos
compreender essa uniao em toda
a sua profundidade. Ela vai mui-
to alem de nosso entendimento.
Ela deve ser diferenciada, em na-
tureza e em especie, da unidade
que existe entre as tres pessoas da
Trindade, pois todas essas tres
pessoas sao urn e o mesmo Ser
divino, e e precisamente em es-
sencia que Cristo e os crentes con-
tinuam sendo distintos entre si.
De fato, a unidade existente entre
Cristo e a Igreja e mais de uma vez
comparada com a uniao que exis-
te entre Cristo e o Pai294
• Mas
quando diz isso, Cristo nao esta
falando de Si mesmo como o Fi-
lho, o Unigenito, mas como o
Mediador, que seria exaltado a
mao direita de Deus e atraves de
quem o Pai realizaria Seu propo-
sito. Assim como o Pai escolheu
Seu proprio Filho, antes da fun-
daao do mundo (Ef 1.4) para lou-
vor da gloria de Sua Graa ,que
293
Rm 8.15,16; 2Co 1.22; Ef1.13; 4.30.
291
Jo 10.38; 14.11,20; 17.21-23.
Ele nos concedeu gratuitamente
no Amado (Ef 1.6,7; At 20.28), as-
sim tambem Ele reline todos os
crentes em Cristo (Ef 1.10). 0 Pai
mora em Cristo como o Mediador
e assim da Suas benaos e a Si
mesmo, aIgreja.
0 relacionamento entre
Cristo e OS crentes e tao intimo e
inseparavel quanto o relaciona-
mento entre o Pai e o Mediador.
Esse relacionamento supera toda
uniao que possa existir entre as
criaturas e ate mesmo a uniao que
existe entre Deus e o mundo por
Ele criado. Essa uniao e diferen-
te, por urn lado, de uma mescla
panteista e, por outro lado, de
toda justaposiao deista e de todo
relacionamento contratual. A Es-
critura nos ensina algo sobre ana-
tureza dessa uniao ao compara-la
com a uniao que existe entre a vi-
deira e os ramos, entre a cabea
de urn corpo e seus membros,
entre urn homem e uma mulher.
Esse e urn relacionamento que
completa e eternamente une Cris-
to a Sua Igreja na profundidade
do ser e na essencia da personali-
dade dos crentes. Esse relaciona-
mento teve inicio na eternidade,
quando o Filho de Deus se decla-
rou pronto para fazer a mediaao
entre Deus e o homem. Esse rela-
cionamento alcanou sua existen-
cia objetiva na plenitude dos tern-
457
Fundamentos Teol6gicos da Fe Crista
pos, quando Cristo assumiu ana-
tureza humana, entrou em comu-
nhao com Seu povo e entregou-
se amorte em favor dos que sao
Seus. Esse relacionamento e rea-
lizado pessoalmente quando o
Espirito Santo entra nele, incorpo-
ra-o a Cristo e quando o crente,
por sua vez, reconhece e exerce
essa unidade com Cristo.
Essa comunhao com a pes-
soa de Cristo traz consigo todas
as ben<;aos e beneficios. Uma pes-
soa nao pode desfrutar das ben-
<;aos e dos
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  • 2.
    Autor: HERMANN BAVINCK (1854-1921) Bavinck pastoreou a Igreja Reformada em Franeker, foi Professor titular de Teologia Sistematica em Kampem e finalmente da Universidade Livre de Amsterda. Bavinck apresentou, atraves de sua pena, diversos assuntos da mais alta importancia sobre: educa<;ao, etica, familia, psicologia etc., sendo sua obra Reformed Dogmatics (Gereformeerd Dogmatiek), segundo os crfticos, a mais relevante. Bavinck, na sua piedade e estilo de vida, influenciou muitos te6logos, holandeses e norte-americanos da linha reformada, entre eles Louis Berkhof.
  • 3.
    FUNDAMENTOS TEOLOGICOS DA FECRISTA Autor: Hermann Bavinck Professor Titular de Teologia, Universidade Livre de Amsterda Traduzido do Ingles por Vagner Barbosa
  • 4.
    ~ TEOLOGIA SISTEMATICA Autor: HermannBavinck Tradutor: Vagner Barbosa Revisores: Ademar de Oliveira Godoy e Loyde Wenzel de Paula Editor Responsavel: Arival Dias Casimiro Setembro de 2001 Dados Internacionais de Catalogaao na Publicaao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Bavinck, Hermann B354r Our reasonable faith. Traduzido da edi<;:ao holan- desa, magnalia Dei, por Henry Zylstra. Grand Rapids: Baker Book House, 1977. 559 p. 1. Teologia Sistematica. 2. Doutrina Crista. I. Titulo. CDD-230 Copyright© 2001 por SOCEP Fica explicitamente proibida qualquer forma de reprodw;:ao total ou parcial deste livro, sem o expresso consentimento dos editores. Todos os direitos reservados por SOCEP Sociedade Crista Evangelica de Publicac;;oes Ltda. Rua Floriano Peixoto, 103- Centro Caixa Postal 98 - CEP 13450-970 E-mail: socep@socep.com.br Tel/Fax: 55 Oxx19- 3459.2000 Santa Barbara d'Oeste- SP -Brasil Impressao e Acabamento: Imprensa da Fe- SP Prodw;ao e Diagramar;ao: Propaganda, Marketing e Editora~ao Tel.: 19-3455.7422 Filiadoa:
  • 5.
    PREFACIO A TRADU<;AOBRASILEIRA 0 pensamento calvinista vi- veu, no seculo XIX, uma fase de reavivamento e expansao. Nos Estados Unidos, o Semi- nario de Princeton foi o principal centro de forma<;:ao e difusao do calvinismo, Velha Escola, nas Americas. Archibald Alexander (1772-1851), Charles Hodge (1797- 1878), Archibald Alexander Hodge (1823-1886) e Benjamin B. Warfield (1851-1921), respectiva- mente, foram os mestres formu- ladores da Velha Teologia de Princeton. Os principais elemen- tos dessa teologia foram: a aceita- c;ao da inspirac;ao plena da Biblia e a sua infalfvel autoridade; a ado- <;:ao do metodo indutivo para a sis- tematiza<;:ao teol6gica; o ensino da ciencia subordinado ateologia; a defesa da fe ou do ensino bfblico confessional como urn clever pas- toral. 5 0 protestantismo brasileiro foi, na sua origem, moldado pelo calvinismo norte-americana, da Velha Escola. As obras: Teologia Sistematica, (3 volumes) de C. Hodge e Esbo~os de Teologia, de A. A. Hodge foram utilizadas como texto principal na forma<;:ao de pastores brasileiros. Atualmente, essas obras estao traduzidas para o portugues. Herman Bavinck (1854 - 1921) foi, no final do seculo XIX, juntamente com Abraham Kuy- per, urn te6logo de destaque no reavivamento neocalvinista na Igreja Reformada Holandesa. Foi professor de teologia sistematica no Seminario Teol6gico em Kapen (1882-1902) e na Universidade Li- vre de Amsterdam (1902-1920). A sua principal obra foi Gerefor- meerde Dogmatiek, Dogmatica Re- formada, em quatro volumes, ori- ginalmente publicados entre 1895
  • 6.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista e 1901, dos quais somente o segun- do volume foi traduzido para o ingles como A Doutrina de Deus. Nao existe nenhuma obra de Bavink traduzida para o portugu- es. Bavinck influenciou profunda- mente muitos te6logos reforma- dos, holandeses e norte-america- nos, sendo Louis Berkho( o mais conhecido no Brasit por causa da sua Teologia Sistematica. Para Bavinck, a teologia era o estudo sistematico do conheci- mento de Deus, revelado em Cris- to e na Biblia, e resumido pela Igreja por meio dos credos, cate- cismos e confiss6es. Segundo ele, a religiao, o temor de Deus, deve ser o elemento que inspira e anima n in- vestigar;iio teol6gica. Isso deve mar- car a cadencin da ciencia. 0 te6logo e uma pesson que se esforr;a pnra falar sabre Deus. Professar a teologia eum trnbnlho santo. E realizar umn 6 ministrar;iio sacerdotal na casa do Se- nhor. Isso epar si mesmo um servir;o de culto, uma consagrar;iio da mente e do corar;iio em honra ao Seu nome. A SOCEP - Sociedade Cris- ta Evangelica de Publica<;:6es Ltt:la., de forma pioneira e inedi- ta, traz ao publico brasileiro, o pensamento de Bavinck. A obra Teologia Sistenuitica: Os Funda- mentos da Fe Crista, traduzida do ingles, Our Rensonable Faith, e uma sintese do pensamento teo16gico de Bavinck, apresentada de ma- neira simples, profunda e pasto- ral. Agradecemos ao rev. Her- minsten Maia Pereira da Costa pela c6pia em ingles. A SOCEP pelo grande investimento e valio- sa contribui<;:ao aos continuadores do calvinismo no Brasil. Arival Vias Casimiro
  • 7.
    PREFAcio AEoic;Ao EMINGLES A queles que estao familia- rizados com a hist6ria das igrejas Reformadas da Holanda- isto e, das gereformeerde como distintas das Hervormde Kerken- saberao que entre os her- deiros da Afscheiding de 1834 e a Dolenntie de 1886 nao ha nomes tao estimados quanto os de Abraham Kuyper e Hermann Bavinck. Eles foram figuras her6i- cas de realizac;:oes gigantescas no trabalho cristao. Suas carreiras, re- alizadas praticamente ao mesmo tempo, no final do seculo XIX e no comec;:o do seculo XX devem ser consideradas como urn favor es- pecial de Deus em beneficia do Cristianismo Hist6rico tanto na Europa quanto no N<1vo Mundo. Esses dois homens, que com o tempo chegaram a ser mencio- nados juntos como partidarios da causa da Reforma na Holanda, tern sido frequentemente compa- 7 rados e contrastados. Alguns os diferenciam da seguinte forma: "Em Kuyper n6s temos urn exem- plo de genio brilhante, em Bavinck urn exemplo de talento mentalmente preciso e de julga- mento esclarecido". 0 Rev. J. H. Landwehr, primeiro bi6grafo de Bavinck, aponta outro contraste: Bavinck tinha urn espirito Aristotelico, enquanto Kuyper ti- nha urn espirito Platonico. Bavinck era o homem do conceito claro e preciso, enquanto Kuyper era o homem da ideia produtiva. Bavinck trabalhou com dados his- t6ricos; Kuyper trabalhou espe- culativamente por meio da intui- c;:ao. Bavinck tinha espirito carac- teristicamente indutivo; Kuyper tinha mente de natureza dedu- tiva. Esses dois homens se complementaram no renasci- mento da vitalidade do Calvinis- mo na vida e no pensamento da
  • 8.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Holanda do seculo XIX. Hermann Bavinck nasceu em 13 de dezembro de 1854. 0 centenario de seu nascimento foi grandemente celebrado na Holanda em 1954, e a natureza e o escopo de suas contribui~5es foram revistas com grande apre- ~o. Bavinck nasceu na cidade de Hoogeveen na provincia de Drenthe. Seu povo veio originari- amente do condado de Bentheim. Seu pai, o Rev. Jan Bavinck, foi urn ministro das igrejas que em 1834 se interessaram em manter a pura tradi~ao do Cristianismo Hist6ri- co separada da Igreja do Estado da Holanda. 0 jovem Bavinck alcan~ou distin~ao como estudante de urn colegio em Zwolle e foi para a Es- cola Teol6gica de sua igreja em Kampben. Ali ele permaneceu por apenas urn ano. Ele quis ir para Leiden para realizar seus estudos teol6gicos superiores. Leiden deu a ele pelo menos duas coisas: urn grande respeito pela erudi~ao e uma confronta~ao, em primeira mao, com a moderna teologia li- beralmente afetada. Essas duas li- ~5es foram de grande importan- cia para ele. 0 ideal de uma eru- di~ao teologicamente s6lida para o Cristianismo Reformado orto- doxo permaneceu firme em sua vida no decorrer de toda a sua car- reira. Seu conhecimento profundo sobre os mais novos pensamentos religiosos serviu para aprofundar 8 suas convic~5es Calvinistas e ha- bilitou-o a elaborar uma teologia realisticamente voltada para os problemas de seu tempo. Em 1880 ele se graduou em Leiden, tendo feito sua disserta~ao sobre a etica de Ulrico Zwinglio. Ele trabalhou como ministro de uma igreja em Franeker por urn ano, e foi entao nomeado Profes- sor de Dogmatica na Escola Teo- 16gica de Kampben. 0 assunto de sua aula inicial, "A Ciencia da San- ta Divindade" (De Wetenschap der Heilige Godgeleerdheid, 1882), fasci- nou-o durante toda a sua vida. Durante a decada de seus arduos estudos e ensino eficaz em Kampben, Bavinck tres vezes foi convidado para lecionar teologia na Universidade Livre de Amster- da. Ele s6 aceitou depois do ter- ceiro convite, e s6 depois de satis- fazer sua consciencia (veja sua brochura Decline or Accept [Blijven of Heengaan], Kampben, 1902) de que isso nao prejudicaria a inte- gridade da educa~ao teol6gica em sua igreja. Foi s6 quando Abraham Kuyper trocou a pasta de catedratico em Amsterda pela pasta de Ministro no governo de Hague que Bavinck tornou-se seu sucessor em Amsterda. Bavinck era primariamente o te6logo, o dogmatico. Sua magnus opus sao os quatro volu- mes de sua Reformed Dogmatics (Gereformeerde Dognwtiek). Essa obra foi o fruto de seu trabalho em
  • 9.
    PREFAcro Kampben, surgindo primeira- mentedurante os anos 1895-1901 e, depois, em uma forma revisa- da, em 1906-1911. Urn volume de sua obra, A Doutrina de Deus, edi- tado e traduzido pelo Dr. W. Hendriksen, foi publicado em Grand Rapids em 1951. 0 presen- te volume, Os Fundamentos de Nos- sa Fe, escrito em 1909 como a Magnalia Dei (As Maravilhosas ~h·as de Deus), e um resumo de ~:_:a Dogmatica em quatro volu- ::-:'.<:?5. Os Fundamentos,de Nossa Fee =~cc?nos tecnico, menos exclusiva- =~1ente profissionat mais intenci- ~nalmente popular do que a ~ .-gmfr.tica, e e mais amplamente .::.:11parado por referencias da Es- -::'·~tura, mas e, como a obra mai- =·:·. urn livro de dogmatica Crista ·~, Asica. Ele apresenta claramente e 2:11 fina perspectiva as doutrinas ~·,n--.damentais do ensino bfblico. Alguns tern dito que Bavinck foi mais urn fil6sofo do que urn te6logo. Everdade que sua filosofia exibe a disciplina do treinamento e da informa<;ao de urn fil6sofo, mas o que ele queria ser antes de tudo era urn te6logo Escrituristico. Ecomo Landwehr disse: II Assim como Calvino ex- traiu seus pensamentos da Escri- tura, Bavinck tambem sempre se inclinou sobre a Escritura para extrair dela as suas ideias, e sem- pre foi guiado pela Escritura em sua sistematizac;:ao de seus ensi- nos". Alem disso, em seu exerci- 9 cio teol6gico ele nao era o espec- tador imparcial que observava descomprometidamente a reali- dade da religiao. Em sua aula inaugural em Amsterda, Religiiio e Teologia, ele disse: Religiao, o temor de Deus, deve ser o elemento que inspira e anima a investigac;:ao teol6gica. Isso deve marcar a cadencia da ciencia. 0 te6logo e uma pessoa que se esforc;:a para falar sobre Deus porque ele fala fora de Deus e por meio de Deus. Professar a teologia e fazer urn trabalho san- to. Erealizar uma ministrac;:ao sa- cerdotal na casa do Senhor. Isso e por si mesmo urn servic;:o de cui- to, uma consagrac;:ao da mente e do cora<;ao em honra ao Seu nome. Foi dessa forma que Bavinck conduziu sua carreira. Seu primei- ro bi6grafo, Landwehr, registra como ele agia na sala de aula: A lic;:ao, ele diz, transformava-se em urn sermao, pois o professor fica- va comovido com a verdade. A maioria de seus bi6grafos registra as palavras por ele pronunciadas na fase terminal da doenc;:a que o matou: II Agora minha erudic;:ao de nada me vale, nem minha Dogmatica: S6 a minha fe pode me salvar". Com essa afirma<;ao ele nao estava depreciando toda uma vida de esforc;:o no estudo te- ol6gico, estava apenas indicando a correta ordem de importancia.
  • 10.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Quando o Dr. J. C. Rullmann submeteu seu artigo sobre Bavinck ao Christelijke Ency- clopaedie em 1925, ele percebeu que dificilmente poderia explicar a obra de Bavinck melhor do que fazendo uma cita<;:ao do colega de Bavinck na Universidade Livre, Dr. W. J. Geesink. Essa cita<;:ao tambem sera litil para n6s. Dr. Geesink disse - ele estava, natu- ralmente, usando o idioma holan- des: Como professor, Bavinck es- taria no lugar mais elevado de qualquer faculdade de qualquer universidade. Sua tremenda eru- di<;:ao e sua vasta leitura tornaram- no ricamente expressivo na sala de aula. Sendo urn erudito profundo e entusiasmado, ele tinha o dom de descobrir problemas, e quan- do ele os descobria, ele os levava ao conhecimento de sua audien- cia em termos compreensiveis. Se ele tivesse a solu<;:ao, ele tambem a dividia com seus ouvintes, nun- ca de forma apressada, mas pau- sadamente e com calma. E se ele ainda nao tivesse a solu<;:ao, sua erudi<;:ao honesta conservava-o distante daquilo que era ilus6rio, e que faria com que urn problema fosse resolvido as custas da cria- <;:ao de outro. E com seu respeito pela 16gica e com sua minuciosa disciplina na escola ele sabia mui- to bern como afastar os perigos do irracionalismo mesmo sabendo 10 que ha problemas que nao podem ser resolvidos. Como te6logo e dogmatico por profissao, Bavinck seguiu Calvino em sua teologia Reforma- da. Fazendo isso, e levando em conta, apesar de nao sem critica e reserva, sua erudi<;:ao moderna e seu conhecimento, ele ajudou a ti- rar a teologia Reformada do processo de endurecimento e fossiliza<;:ao no qual estava inserida desde cerca de 1750... As- sim como Agostinho, que ele co- loca na vanguarda de todos os pensadores antes e depois do quarto seculo, procurou na filoso- fia da revela<;:ao uma resposta para os problemas da vida e do mun- do - por uma resposta, deve ser dito, que satisfa<;:a tanto o cora<;:ao quanto a mente. Bavinck escreveu urn im- pressionante numero de obras substanciais nas areas de religiao e teologia, filosofia e etica pratica, e, de forma especial, tambem psicologia e teoria da educa<;:ao. A bibliografia de sua obra publicada, que inclui alem de toda a extensao das muitas palestras inaugurais e outras palestras aca- demicas que ele deu, mas que nao incluem seu movimentado traba- lho jornalistico, ocupam cerca de sessenta itens na tabela de Landwehr. Na area de religiao e teologia, as seguintes obras devem ser mencionadas alem da
  • 11.
    PREFAC!O Dogmatica Reformada eOs Funda- mentos de Nossa Fe. Em 1888 ele lan<;ou seu eterno cLissico sobre o ecumenismo intitulado A Cato- licidade do Cristianismo e a Igreja. (De Katholiciteit van Christendom en Kerk). Em 1894 ele deu uma pales- tra definitiva sobre urn tema pri- meiramente delineado por Calvino e tambem grandemente desenvolvido por Abraham Kuyper, chamado Grar;a Cormnn (De Algenreene Genade). Suas boni- tas meditac;:oes em 0 Sacrificio do Louvor (De Offerande des Lofs, 1901) ja estavam na sua sexagesima edi- <;ao na epoca de sua morte e fo- ram traduzidas para o ingles e publicadas nos Estados Unidos em 1922. Urn tipo de livro devocional, A Certeza da Fe (De Zekerheid des Geloofs), foi publica- do no mesmo ano. Importantes tambem sao suas palestras minis- tradas em 1911 intituladas Moder- nismo e Ortodoxia (Modernisme en Orthodoxie), e seu Clzamado e Rege- nerar;ao (Roeping en Wedergeboorte) de 1903. Entre seus livros mais filoso- ficamente orientados estao as Conferencias Stone de Princeton, proferidas em 1908 e publicadas em ingles no ano seguinte como A Filosofia da Revelar;flo: Etica para Hoje (Hedendaagsche Moraal, 1902), e as duas palestras filos6ficas de 1904 intituladas Filosofia Cristtl (C{nistelijke Wetenschap) e 0 Mun- do Cristiio e a Perspectiva de Vida 11 (Christelijke Wereldbeschou- wing). Urn tema que ocupou Bavinck por muito tempo e ao qual ele dedicou sua mais madu- ra reflexao foi a interliga<;ao entre a religiao e o ensino. Nenhuma institui<;ao de educa<;ao Crista ortodoxa de nivel superior pode ignorar suas varias publica<;oes sobre esse assunto: Religiflo e Di- vindade (Godsdienst en Godgeleer- dheid, 1902), Educar;flo e Teologia (Opleiding en Theologie, 1896), 0 Oficio do Doutor ou Professor de Te- ologia (Het Doctorenambt, 1899), A Autoridade da Igreja eaLiberdade da Ciencia (Het Recht der Kerken en de Vrijheid der Wetenschap, 1899), En- sino e Filosofia (Geleerdheid en Wetenschap, 1899), e A Escola Teo- l6gica e a Universidade Livre (Theologische School en Vrije Universiteit, 1899). Foi durante OS ultimos anos de sua vida profissional que Bavinck tornou-se expressivo nas duas mais elevadas esferas de vida e pensamento, que sao etica aplicada e psicologia aplicada a moral. Aprimeira categoria de in- teresse pertencem obras como 0 Papel da Mulher na Sociedade Moderna (De Vrouw in de Hedendaagsche Maatschappij, 1918), A Familia Crista, (Het Christelijke Huisgezim, 1908), A Irnitar;flo de Cristo na Vida Moderna (De Navolging van Christus in het Modern Leven, 1918), 0 Problema da Guerra, (Het Problem van den
  • 12.
    - - -- - - - - - - Fundamentos Teol6gicos da Fe Cristii Oorlog, 1915), e Cristianismo, Guer- ra, eaLiga das Nar;oes (Christendom, Oorlog, Volkenbond, 1920). Esta ul- tima obra nos mostra como Bavinck se interessava pelos pro- blemas do nosso seculo. Alem dis- so, deve ser dito que ele tinha urn fino "senso de sua propria epoca". Isso leva em conta sua pronunci- ada preocupac;ao com Psicologia e os principios de educac;ao. Em 1915 ele escreveu o tratado Sabre o Sub Consciente (Het Onbewuste), em 1897 Os Principios de Psicologia (Beginselen der Psycologie), e em 1920 a Psicologia Bfblica e Religiosa (Bijbelsche en Religieuse Psycologie). Sua maior obra sobre a teoria da educac;ao e Principios Pedag6gicos (Paedagogische Beginselen, 1904). Nao e de se admirar que essa area de estudos tenha atraido tanto sua atenc;ao. 0 livro Filosofia Educacio- nal de Hermann Bavinck, escrito pelo Dr. Cornelius Jaarsma (Grand Rapids, 1935) eo livro De Paedagogiek van Bavinck, escrito pelo Dr. L. Van der Zweep (Kampben, sem data) falam sobre lSSO. Hermann Bavinck visitou a America duas vezes; a primeira em 1892, quando foi convidado pela Alianc;a das Igrejas Reforma- das que adotam o Sistema Presbiteriano, para ministrar uma palestra em Toronto sobre o tema: "A Influencia da Reforma Protes- tante nas Condic;6es Morais e re- ligiosas das Pessoas e Nac;oes"; e 12 a segunda foi em 1908, quando ele demonstrou atraves de suas Con- ferencias Stone de Princeton que merecia ser considerado com Kuyper, Warfield, Hodge, e Orr como urn destacado te6logo Calvinista moderno. Na vida po- litica pratica ele era menos ativo do que Kuyper, sendo mais incli- nado afilosofia politica do que a politica. Ele era, contudo, urn membro da Casa Alta, represen- tando o sul da Holanda nos Esta- dos Gerais desde o anode 1911 em diante. Seus melhores servic;os nesta area de atuac;ao foram da- dos como consultor e conselheiro na area da educac;ao. A traduc;ao das suas obras para o ingles tern sido intermitente e dispersa. Des- sa forma, desde muito tempo, ape- nas 0 Sacrificio do Louvor, 0 Reina de Deus, A Filosofia da Revelar;ao eo pequeno tratado Evolur;ao estao disponiveis em lingua inglesa. Os Fundamentos de Nossa Fe e, por isso, urn importante incremento. Ai esta tambem uma biografia nao definitiva. Tres precursores ja es- creveram sobre isso. 0 primeiro foi J. H. Landwehr com seu In Memoriam, de 1921.0 segundo foi o Dr. V. Hepp como seu Hermann Bavinck, escrito tambem em 1921- o prometido segundo volume que da sequencia ao primeiro nunca foi escrito. 0 terceiro foi A. B. W. Kok, com seu Hermann Bavinck, de 1945. Uma boa quantidade de es- tudos peri6dicos holandeses tern
  • 13.
    PREFAcro analisado as ideiasde Bavinck. Neste pais [USA] n6s temos, alem do livro do Dr. Jaarma, a nao publicada disserta<;ao de doutora- do em Princeton, do Dr. Anthony Hoekema da doutrina de Bavinck sobre o Facto. Podemos dizer que no con- junto de sua apologia pelo Cristi- anismo Escrituristico Reformado Bavinck tinha quatro influencias opostas em mente, sendo duas delas de fora e duas delas de den- tro da entao palida fe Reformada. As duas influencias externas eram o moderno liberalismo religioso e o Catolicismo Romano. As duas influencias internas eram uma or- todoxia formal moribunda por urn lado e o pietismo vazio de outro. Ele falou com frequencia e eloquencia contra todas essas for- <;as. Observe, por exemplo, o sen- timento e a perspectiva com que ele defendeu o envolvimento do mundo por urn Calvinismo uni- versal, em vez de uma fuga do mundo por urn pietismo sectario: N6s nao podemos ser uma seita. N6s nao podemos querer ser uma seita e nao podemos ser uma, a nao ser que neguemos o carater absoluto da verdade. Alem disso, 0 reino dos ceus nao e deste mun- do, mas exige que tudo neste mundo o sirva. Eexclusivo e ciu- mento, e se satisfaz quando nao ha urn reino independente ou neutro encostado nele. Naturalmente se- 15 ria muito mais facil abandonar essa era aos seus pr6prios cami- nhos, e procurar nossa for<;a ern urn sossegado retiro. Todavia, nem semelhante descanso nos e permitido aqui. Porque toda cria- tura e boa, e nada deve ser recu- sado se for recebido com a<;6es de gra<;:as, pois todas as coisas sao santificadas pela Palavra de Deus e ora<;:ao; portanto, a rejei<;:ao de qualquer criatura e ingratidao para com Deus, urn julgamento errado ou uma deprecia<;:ao de suas ben<;:aos e de suas dadivas. Nossa guerra deve ser conduzida somente contra o pecado. Ne- nhum problema que dificulte os relacionamentos entre os crentes em Cristo deve existir. Nenhum problema ou dificuldade virtual- mente sem solu<;:ao, seja de ordem social, polltica, e especialmente de ordern cientlfica, devern existir, nas quais nossa desconfian<;:a e fra- queza se apoiem orgulhosamente para tirar-nos da luta, talvez ate mesmo sob a alega<;:ao de rnotiva- <;:ao Crista, ou rejeitando a cultura de nosso tempo como demoniaca. Essa e uma das notas que Bavinck gostava de entoar em de- fesa da fe. Ele ensinava isso em sua palestra intitulada A Catolicidade do Cristianismo e a Igreja. Essa e uma afirma<;:ao representativa. "A fe", ele dizia, "tern a prornessa de vit6ria sobre o mundo". 0 Dr. Hepp muito apropriadamente es-
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    Fu11dame11tos Teol6gicos daFe Cristii creveu como conclusao da biogra- fia de Bavinck, as seguintes pala- vras: 0 que outrora foi dito sobre Calvino serve tarnbern para ele: A posteridade "nao pode encontrar rnelhor forma de honrar seu pio- 14 neiro e rnestre do que confessar corn o cora~ao e corn os Llbios: Dele, por Ele e para Ele sao todas as coisas. A Ele, pois, seja a gloria para sernpre". Agosto de 1955. Henry Zylstra
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    ~ INDICE Prefacio aTradw;ao Brasileira................................................................ 05 Prefacio aEdi<;:ao em Ingles ..................................................................... 07 1. 0 Maior Bern do Homem ................................................................. 17 2. 0 Conhecimento de Deus ................................................................ 25 3. A Revelac;:ao Geral ............................................................................. 33 4. 0 Valor da Revelac;:ao Geral ............................................................ 47 5. A Questao da Revelac;:ao Especial ................................................... 65 6. 0 Conteudo da Revela<;:ao Especial ................................................ 79 7. As Sagradas Escrituras ................................................................... 103 8. A Escritura e a Confissao .............................................................. 127 9. 0 Ser de Deus .................................................................................. 139 10. A Divina Trindade .......................................................................... 155 11. A Criac;:ao e a Providencia .............................................................. 175 12. A Origem, a Essencia eo Prop6sito do Homem ......................... 199 13. 0 Pecado e a Marte ......................................................................... 243 14. 0 Pacta da Grac;:a ............................................................................. 287 15. 0 Mediador da Alianc;:a .................................................................. 309 16. A Natureza Divina e a Natureza Humana de Cristo ................. 339 17. A Obra de Cristo em Sua Humilha<;:ao ......................................... 363 18. A Obra de Cristo em Sua Exaltac;:ao ............................................. 391 19. 0 Dom do Espirito Santo ............................................................... 423 20. A Vocac;:ao Crista ............................................................................. 443 21. A Justificac;:ao ................................................................................... 483 22. A Santificac;:ao .................................................................................. 515 23. A Igreja de Cristo ............................................................................ 563 24. A Vida Eterna .................................................................................. 597 15
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    CAPITULO 1l 0 MAIOR BEMoo HoMEM D eus, e somente Deus, eo maior bern do homem. Em um sentido geral po- demos dizer que Deus e o maior bern de todas as Suas criaturas, pois Deus e o Criador e o Sustentador de todas as coisas, a fonte de todo o sere de toda a vida e a fonte inesgotavel da qual flui tudo o que e born. Todas as cria- turas devem sua existencia so- mente aquele que e o Ser unico, eterno e onipresente. Mas a ideia do mais eleva- do bern, geralmente inclui o pen- samento de que este bern e reco- nhecido e desfrutado como tal pelas pr6prias criaturas. Eclaro que esse nao e o caso das criatu- ras inanimadas e nao racionais. As criaturas inanimadas possuem apenas o ser, mas nao possuem o principio da vida. Outras criatu- ras, tais como as plantas, possu- em o principio da vida, mas sao 17 desprovidas de consciencia. Os animais, e verdade, possuem, alem de sua existencia e de sua vida, um certo tipo de conscien- cia, mas essa consciencia alcan<;:a apenas aquilo que pode ser visto ou sentido ao seu redor. Eles sao conscientes das coisas terrenas, mas nao das celestiais; eles tern consciencia da realidade, do pra- zer e da utilidade, mas nao pos- suem qualquer no<;:ao de verdade, bondade e beleza; eles possuem consciencia sensorial e desejo sen- sorial e, portanto, satisfazem-se com o que e sensorial e nao po- dem penetrar atraves da ordem espiritual. 0 caso do homem e diferen- te. Ele e a criatura que, inicialmen- te, foi criada a imagem e seme- lhan<;:a de Deus, e essa origem di- vina e essa marca divina nenhum erro pode destruir. Contudo ele perdeu, por causa do pecado, os
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista gloriosos atributos de conheci- mento, justi<;a e santidade que es- tavam contidos na imagem de Deus. Todavia, esses atributos ainda estao presentes em "peque- nas reservas" remanescentes da sua cria<;ao; essas reservas sao su- ficientes nao somente para torna- lo culpado, mas tambem para dar testemunho de sua primeira gran- deza e lembra-lo continuamente de seu chamado divino e de seu destino celestial. Em todos os seus pensamen- tos e em todas as suas obras, em toda a vida e atividade do ho- mem, fica claro que ele euma cri- atura que nao pode ser plenamen- te satisfeita com o que o mundo fisico tern para oferecer. De fato ele eurn cidadao de uma ordem fisica, mas ele tambem se ergue acima dessa ordem para uma or- dem sobrenatural. Com seus pes firmemente plantados no chao ele levanta sua cabe<;a e lan<;a seu olhar para cima. Ele tern conheci- mento de coisas que sao visiveis e temporais, mas tambem tern consciencia de coisas que sao in- visiveis e eternas. Seu desejo vai alem do que eterreno, sensorial e transit6rio e alcan<;a tambem os bens celestiais, espirituais e eter- nos. 0 homem compartilha sua consciencia sensorial com os ani- mais, mas alem dessas qualida- des ele foi dotado de entendimen- to e razao, que o tornam capaz de 18 pensar e levantar-se acima do mundo de imagens sensoriais para urn mundo de pensamentos incorp6reos e para urn reino de ideias eternas. 0 pensamento e o conhecimento do homem, apesar de serem extraidos de seu cerebra, sao todavia em sua essencia uma atividade inteiramente espiritual, pois transcendem aquilo que ele pode ver e tocar. Atraves do pen- samento ele estabelece uma cone- xao com urn mundo que ele nao pode ver nem tocar, mas que e real e que possui mais realidades essenciais do que a corporalidade desta terra. 0 que ele realmente esta procurando nao euma reali- dade tangivel, mas a verdade es- piritual, a verdade que eunica, eterna e imperecivel. Seu enten- dimento s6 pode encontrar des- canso na absoluta verdade Divi- na. Como dissemos, o homem compartilha seu desejo sensorial com os animais. Consequente- mente, ele sente necessidade de comida e bebida, luz e ar, traba- lho e descanso, e ecompletamen- te dependente da terra para sua existencia fisica. Porem, acima desse nivel de desejos ele possui a vontade, que, dirigida pela sua razao e pela sua consciencia, pro- cura por bens maiores e mais ele- vados. 0 prazer e a utilidade, ape- sar de terem seu valor e seu lugar em seu tempo, nao podem satisfaze-lo totalmente; ele quer e
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    0 MAJOR BEMoo HoMEM procura urn bern que nao se torna born por causa das circunstanci- as, mas que e born em e atraves de si e para si mesmo, urn bern imuhivet espiritual e eterno. E novamente essa vontade s6 pode encontrar descanso nas ben<;aos absolutas e elevadas de Deus. Tanto a razao quanto a von- tade possuem, de acordo com o ensino das Sagradas Escrituras, sua raiz no cora<;ao do homem. Com rela<;ao ao cora<;ao o autor de Proverbios diz que deve ser guar- dado com toda a diligencia, pois dele procedem as saidas da vida (Pv 4.23). Assim como o cora<;ao no sentido fisico e 0 ponto de ori- gem e de for<;a propulsora da cir- cula<;ao do sangue, assim tam- bern, espiritual e eticamente ele e a fonte da mais elevada vida do homem, a sede de sua auto cons- ciencia, de seu relacionamento com Deus, de sua subserviencia aSua lei, enfim, de toda a sua na- tureza morale espiritual. Portan- to, toda a sua vida racional e volitiva tern seu ponto de origem no cora<;ao e e governada por ele. Agora n6s veremos, em Eclesiastes 3.11, que Deus colo- cou o mundo no cora<;ao do ho- mem1. Deus fez tudo formoso a seu tempo, e fez tudo acontecer no seu exato momento, no mo- mento que Ele tinha fixado para que acontecesse. Essa hist6ria no seu conjunto ou em suas partes se refere ao conselho de Deus e re- vela a gloria desse conselho. E Deus colocou o homem no meio deste mundo e colocou a eterni- dade no seu cora<;ao, de forma que ele nao encontrasse descanso nas manifesta<;oes visiveis e exter- nas, mas que procurasse conhecer os pensamentos eternos de Deus no curso temporal da natureza e da hist6ria. Esse desideriunr aeternitatis, essa ansia por uma ordem eterna, que Deus plantou no cora<;ao do homem, no mais intimo esconde- rijo do seu ser, no centro de sua personalidade, e a causa do fato indiscutivel de que nem mesmo tudo que pertence aordem tem- poral pode satisfazer o homem. Ele e urn ser sensoriat terreno, li- mitado e mortal, mas ainda e atra- ido para a eternidade e destina- do a ela. Nao ha proveito para o homem que possui uma boa es- posa, filhos, casas e campos, te- souros e propriedades, ou mesmo o mundo todo, se perder a sua alma (Mt 16.26). Nem mesmo o mundo todo pode ter o mesmo valor de urn homem. Ninguem e tao rico que possa por qualquer meio redimir a alma de seu ir- mao, nem dar a Deus uma razao para que fa<;a isso; a reden<;ao da alma e preciosa demais para que seja alcan<;ada por qualquer 7 A edi9ao de Almeida diz que Deus colocou nctemidade 110 cora9ao do lwmem (N doT). 19
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista criatura (Sl49.7-9). * * * * * Como geralmente acontece, muitas pessoas estao plenamen- te dispostas a admitir isso logo que os prazeres sensoriais e os tesouros terrenos sao citados. Elas prontamente reconhecem que es- sas coisas nao podem satisfazer o homem e nao correspondem ao seu destino elevado. Mas seu jul- gamento e mudado logo que OS assim chamados valores ideais - ciencia, arte, cultura, o exercicio da fidelidade, a bondade, a bele- za, a dedicac;ao da vida em favor do proximo, e o desejo de servir ahumanidade- sao colocados em cena. Porem, todas essas coisas tambem pertencem ao mundo do qual as Escrituras dizem que e passageiro (1 Jo 2.17). A ciencia, o conhecimento, e o aprendizado certamente sao boas dadivas, que descem do Pai das Luzes, e portanto devem ser levadas em alta estima. Quando Paulo chama a sa- bedoria do mundo de loucura di- ante de Deus (1 Co 3.19), e quan- do ele em outro lugar nos adver- te contra a filosofia (Cl 2.8), ele tern em mente a falsa e inutil su- posta sabedoria que nao reconhe- ce a sabedoria de Deus em sua revelac;ao geral e em sua revela- c;ao especial (1 Co 1.21) e que se tornou nula em seus pr6prios ra- 20 ciocinios (Rm 1.21). Mas no restan- te, Paulo e as Sagradas Escrituras, em sua totalidade, colocam o co- nhecimento e a sabedoria em urn plano de grande importancia. E nao poderia ser de outra forma, pois a Biblia afirma que Deus e sabio, que Ele tern conhecimento perfeito de Si mesmo e de todas as coisas, que pela Sua sabedoria Ele estabeleceu o mundo, que Ele manifesta a Sua multiforme sabe- doria a Igreja, que em Cristo es- tao escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, e que o Espirito e o Espirito da sabedoria e do conhecimento, que perscruta ate mesmo as profundezas de Deus (Pv 3.19; Rm 11.33; 1 Co 2.10; Ef3.10; Cl2.3). Urn livro do qual procedem mensa- gens como essas nao pode subes- timar o conhecimento nem pode desprezar a filosofia. Pelo contra- rio, nele aprendemos que a sabe- doria e mais preciosa do que pe- rolas, e tudo o que podemos de- sejar nao pode ser comparado a ela (Pv 3.15); ela e urn dom daque- le que e o Deus do conhecimento (Pv 2.6; 1 Sm 2.3). 0 que a Escritura exige e urn conhecimento cuja origem seja o temor do Senhor (Pv 1.7). Quan- do essa conexao com o temor de Deus erompida, o nome de co- nhecimento e mantido, embora sob falsas pretensoes, mas ele vai se degenerando gradualmente ate se transformar em uma sabe-
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    0 MAJOR BEMDO HOMEM doria mundana, que e loucura diante de Deus. Qualquer ciencia, filosofia ou conhecimento que pense poder se manter sobre suas proprias pressuposic;:oes e que pode tirar Deus de considerac;:ao, transforma-se em seu proprio oposto, e qualquer pessoa que construa suas expectativas sobre isso ficara desiludida. Isso e facil de ser entendido. Em primeiro lugar, a ciencia e a filosofia sempre possuem urn ca- rater especial e podem tornar-se acessiveis a poucas pessoas. Es- sas pessoas privilegiadas, que podem dedicar toda a sua vida a disciplina do aprendizado, po- dem conhecer apenas uma peque- na parte do todo, permanecendo, assim, estranhos ao restante. Qualquer que seja a satisfac;:ao que o conhecimento possa dar, todavia, ele nunca podera, devi- do ao seu carater especial e limi- tado, satisfazer as necessidades profundas que foram plantadas na natureza humana na criac;:ao, e que estao presentes em todas as pessoas. Em segundo lugar, a filoso- fia, que depois de urn periodo de decadencia entra em periodo de fortalecimento, sempre cria uma expectativa extraordinaria e exa- gerada. Nessas epocas ela vive a esperanc;:a de que atraves de uma seria investigac;:ao ela resolvera o enigma do mundo. Mas sempre depois dessa fervente expectativa 21 chega a velha desilusao. Em vez de diminuir, os problemas au- mentam com os estudos. 0 que parece estar resolvido vern a ser urn novo misterio, eo fim de todo o conhecimento e entao novamen- te a triste e as vezes desespera- dora confissao de que o homem caminha sobre a terra em meio a enigmas, e que a vida e o destino sao urn misterio. Em terceiro lugar, e born lembrar que tanto a filosofia quanto a ciencia, mesmo que pu- dessem chegar muito mais longe do que chegam agora, ainda as- sim nao poderiam satisfazer o co- rac;ao do homem, pois o conheci- mento sem a virtude, sem a base moral, torna-se urn instrumento nas maos do pecado para conce- ber e executar grandes males, e assim a cabec;:a que esta cheia de conhecimento passa a trabalhar para urn corac;:ao depravado. Nes- se sentido o apostolo escreve: Ainda que eu tenha o dom de pro- fetizar e conhec;:a todos os miste- rios e toda a ciencia; e ainda que eu tenha tamanha fe a ponto de transportar montes, se nao tiver amor, nada serei (1 Co 13.2). 0 mesmo e verdade com re- lac;:ao a arte. A arte tambern e urn dom de Deus. Como o Senhor nao e apenas verdade e santidade, mas tambern gloria e expande a bele- za de Seu nome sobre todas as Suas obras, entao e Ele, tambem, que, pelo Seu Espirito, equipa os
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista artistas com sabedoria e entendi- mento e conhecimento em todo tipo de trabalhos manuais (Ex 31.3; 35.31). A arte e, portanto, em primeiro lugar, uma evidencia da habilidade humana para criar. Essa habilidade e de carater espi- ritual, e da expressao aos seus profundos anseios, aos seus altos ideais, ao seu insaciavel anseio pela harmonia. Alem disso, a arte em todas as suas obras e formas projeta urn mundo ideal diante de nos, no qual as discordias de nossa existencia na terra sao subs- tituidas por uma gratificante har- monia. Desta forma a beleza reve- la o que neste mundo caido tern sido obscurecido asabedoria mas esta descoberto aos olhos do ar- tista. E por pintar diante de nos urn quadro de uma outra e mais elevada realidade, a arte e urn conforto para nossa vida, levanta nossa alma da consterna<;:ao e en- che nosso cora<;:ao de esperan<;:a e alegria. Mas apesar de tudo o que a arte pode realizar, e apenas na imagina<;:ao que nos podemos desfrutar da beleza que ela reve- la. A arte nao pode fechar o abis- mo que existe entre o ideal e o real. Ela nao pode transformar o alem de sua visao no aqui de nos- so mundo presente. Ela nos mos- tra a gloria de Canaa adistancia, mas nao nos introduz nesse pais nem nos faz cidadaos dele. A arte e muito, mas nao e tudo. Ela nao 22 e, como urn homem distinto uma vez a chamou, a coisa mais nobre e mais santa, a (mica religiao e a unica salva<;:ao do homem. A arte nao pode perdoar pecados. Ela nao pode nos limpar de nossa sujeira. E ela nao e capaz de en- xugar nossas lagrimas nos fracas- sos da vida. Quanta a cultura, civiliza- <;ao, humanitarismo, vida social, ou seja la como voce quiser cha- mar/ tambem nao e 0 mais eleva- do bern do homem. Sem duvida nos podemos falar de urn tipo de progresso nas ideias humanitari- as, e de urn desenvolvimento da filantropia. Quando nos compara- mos como o pobre e o doente, o miseravel eo indigente, as viuvas e os orfaos, os loucos e os prisio- neiros eram freqiientemente trata- dos em tempos anteriores e como eles sao tratados agora, nos certa- mente temos motivo de alegria e de gratidao. Urn espirito de afeto e de misericordia tern vindo sa- bre aqueles que procuram os per- didos e demonstram compaixao pelos oprimidos. Mas, ao mesmo tempo em que isso acontece nos presenciamos uma tao medonha suntuosidade de horriveis vicios, de mamonismo, de prostitui<;ao, alcoolismo e abomina<;6es seme- lhantes, que somas constrangidos a perguntar se estamos nos mo- vendo para frente ou para tras. Em urn momenta n6s somas oti- mistas, mas no momenta seguin-
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    0 MAIOR BEMoo HoMEM te somos mergulhados novamen- te em urn pessimismo profunda. Seja como for, uma coisa e certa: Se a vida de servi<;o ahu- manidade e de amor ao proximo nao for baseada na lei de Deus, ela perde sua for<;a e seu carater. Alem disso, o amor ao proximo nao e uma especie de auto peni- tencia que surge espontilnea e na- turalmente do cora<;ao humano. E urn sentimento, ou melhor, e uma a<;ao, e urn servi<;o que requer uma tremenda for<;a de vontade e que deve ser sempre sustentado contra as imensas fon;as da preo- cupa<;ao por si mesmo e da busca dos proprios interesses. Alem dis- so, o amor ao proximo frequen- temente encontra pouco suporte no proximo. As pessoas geral- mente nao sao tao amaveis a pon- to de nos podermos, naturalmen- te, sem esfor<;o e luta, aprecia-las e ama-las como amamos a nos mesmos. Alem disso, o amor ao proximo so pode ser sustentado se, por urn lado, ele e baseado na lei de Deus e, por outro lado, se Deus nos concede o desejo de vi- ver honradamente de acordo com seus mandamentos. * * * * * A conclusao, portanto, e aquela de Agostinho, que disse que o cora<;ao do homem foi cria- do por Deus e que por isso ele nao pode encontrar descanso a nao ser 23 no corac;ao de Deus. Sendo assim, todos os homens estao procuran- do por Deus, mas eles nao o pro- curam da forma certa nem no lu- gar certo. Eles procuram aqui embaixo, mas Ele esta la em cima. Eles o procuram na terra, mas Ele esta no ceu. Eles o procuram lon- ge, mas Ele esta perto. Eles o pro- curam no dinheiro, na proprieda- de, na fama, no poder e na paixao; e Ele esta no alto e santo lugar, e tambem como contrito eo abati- do de espirito (Is 57.15). Mas eles o procuram como se, tateando, pudessem encontra-lo (At 17.27). Eles o procuram e ao mesmo tern- po fogem dele. Eles nao se inte- ressam em conhecer os seus cami- nhos, e nao podem faze-lo sem Ele. Eles se sentem atraidos a Deus e ao mesmo tempo repeli- dos por Ele. Nisso, como Pascal profun- damente observou, consiste a grandeza e a miseria humana. Ele anseia pela verdade e e falso por natureza. Ele anseia por descan- so e se lanc;a de uma diversao para outra. Ele suspira por uma felicidade permanente e eterna e se agarra a prazeres momentane- os. Ele procura por Deus e se per- dena criatura. Ele e urn filho nas- cido em casa e come as bolotas dos porcos em terra estranha. Ele abandonou a fonte de aguas vivas e cavou cisternas rotas, que nao retem as aguas (Jr 2.13). Ele e urn faminto que sonha que esta co-
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    Fundamenfos Teol6gicos daFe Crista mendo e quando acorda descobre que sua alma esta vazia; e e como urn homem sedento que sonha que esta bebendo, e quando acor- da descobre que esta fraco e que sua alma esta desfalecida (Is 29.8). A ciencia nao pode explicar essa contradi<;ao no homem. Ela reconhece apenas sua grandeza e nao sua miseria, ou apenas sua miseria e nao sua grandeza. Ela o eleva a grandes alturas ou o aper- - - - - - - - 24 ta em urn abismo, pois ela nao co- nhece a origem divina do homem nem sua queda. Mas as Escritu- ras conhecem tanto urn quanto o outro, e lan<;am sua luz sobre o homem e sobre a ra<;a humana; e as contradi<;6es sao desfeitas, a nevoa se esvai e as coisas ocultas sao reveladas. 0 homem e urn enigma cuja solu<;ao s6 pode ser encontrada em Deus.
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    CAPITULO ~ 0 CONHECIMENTO DEDEUS D eus e 0 mais elevado bern do homem - esse e 0 tes- temunho de toda a Escri- tura. A Biblia come<;:a dizendo que Deus criou o homem asua propria imagem e semelhan<;:a para fazer com que ele soubesse que Deus e o seu Criador eo amasse de todo o seu cora<;:ao e vivesse com Ele em eterna bem-aventuran<;a. E a Bi- blia termina com a descri<;:ao da nova Jerusalem, cujos habitantes verao Deus face a face e terao Seu nome escrito em sua testa. Entre esses dois momentos repousa a revela<;ao de Deus em todo o seu comprimento e ampli- tude. 0 conteudo dessa revela<;:ao e a grande e {mica promessa abrangente do pacto da Gra<;:a: Eu serei o vosso Deus e v6s sereis meu povo. E no centro e no ponto mais elevado dessa revela<;:ao esta o Emanuet o Deus Conosco. A i 25 promessa e o seu cumprimento caminham de maos dadas. A Pa- lavra de Deus eo come<;:o, o prin- cipio, a semente, e eo ato no qual a semente alcan<;:a sua plena reali- za<;:ao. Assim como no come<;:o, Deus criou todas as coisas pela Sua palavra, assim tambem pela Sua palavra Ele criara, no curso das eras, novos ceus e nova terra, na qual o tabernaculo de Deus es- tara entre os homens. Epor isso que de Cristo, que e a Palavra que se fez carne, diz- se que echeio de Gra<;:a e de ver- dade (Jo 1.14). Ele ea Palavra que no come- <;:o estava com Deus e Ele mesmo era Deus, e como tal Ele era a vida e a luz dos homens, pois o Pai compartilha Sua vida com Cristo e da expressao ao Seu pensamen- to em Cristo, portanto a plenitu- de do ser de Deus erevelada nEle. Ele nao apenas nos apresenta o Pai
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    Fzmdamentos Teol6gicos daFe Crista e nos revela Seu nome, mas Ele nos mostra o Pai em Si mesmo e nos da o Pai. Cristo e a expressao de Deus e a dadiva de Deus. Ele e Deus revelando a Si mesmo e Deus compartilhando a Si mesmo, e portanto Ele e cheio de verdade e tambem cheio de Gra<;:a. A pala- vra da promessa, "Eu serei o vos- so Deus", que estava incluida des- de o momenta em que foi proferi- da, estara em vigor ate o seu cum- primento. Deus se da a Si mesmo ao Seu povo para fazer com que o Seu povo se entregue a Ele. Nas Escrituras n6s encontra- mos Deus constantemente repe- tindo esta declara<;:ao: Eu sou o teu Deus. Desde a promessa-mae em Genesis 3.15 em diante, esse rico testemunho, abrangendo todas as ben<;:aos e a salva<;:ao, e repetido varias vezes, seja na vida dos pa- triarcas, seja na hist6ria do povo de Israel, ou na Igreja do Novo Testamento. E em resposta a essa declara<;:ao a igreja vern usando uma variedade sem fim de expres- soes de fe, dizendo em gratidao e louvor: //Tu es o nosso Deus, en6s somos o Teu povo e ovelhas do Teu pastoreio//. Essa declara<;:ao de fe por parte da igreja nao e uma doutri- na cientifica/ nem uma cerimonia de unidade que esta sendo repeti- da, mas a confissao de uma reali- dade sentida profundamente e de uma convic<;:ao da realidade que tern sido experimentada na vida. 26 Os profetas, os ap6stolos e os san- tos que aparecem diante de nos no Velho e no Novo Testamento e posteriormente, na Igreja de Cris- to, nao se sentaram e filosofaram sobre Cristo em conceitos abstra- tos, mas disseram o que Deus sig- nifica para eles e que eles depen- dem de Deus em todas as circuns- tancias da vida. Deus nao era para eles urn conceito frio, que eles pu- dessem analisar racionalmente, mas era a vida, for<;:a pessoal, uma realidade infinitamente mais real do que o mundo que os cercava. Eles levavam em conta em suas vidas, eles moravam em Sua ten- cia, andavam como se estivessem sempre diante de Sua face, servi- am-no em Sua corte, e cultuavam- no em Seu santuario. A genuinidade e profundi- dade de sua experiencia se expres- sam na linguagem que eles usa- ram para explicar o que Deus sig- nificava para eles. Eles nao tinham que se esfor<;:ar para encontrar palavras/ pois os seus labios fala- vam daquilo de que seu cora<;:ao estava cheio, eo mundo e a natu- reza forneceram-lhes figuras de linguagem. Deus era para eles o Rei, o Senhor, o Valente, o Cabe- <;:a, o Pastor, o Salvador, o Reden- tor, o Ajudador, o Medico, o Ho- mem eo Pai. Toda a sua felicida- de e bern estar, sua verdade e jus- ti<;:a, sua vida e piedade, sua for<;:a e poder, sua paz e seu descanso eles encontraram em Deus. Para
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    0 CoNHECIMENTo DEDEus eles Deus era o sole escudo, o pro- tetor, a luz e o fogo, a cascata e a nascente, a rocha eo abrigo, ore- ft:igio e a torre, o premio e a som- bra, a cidade eo templo. Todos os be11S que o mundo tern para ofe- recer eram considerados por eles como a imagem e semelhanc;:a das plenitudes insondaveis da salva- c;:ao, disponiveis em Deus, para o Seu povo. Foi por isso que Davi no Salmo 16.2 disse a Jeova o se- guinte: "Tu es o meu Senhor; ou- tro bern nao possuo, senao a ti so- mente1'. Da mesma forma Asafe tambem cantou no Salmo 73: "Quem mais tenho eu no ceu? Nao ha outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu corac;:ao des- falec;:am, Deus e a fortaleza do meu corac;:ao e a minha heranc;:a para sempre". 0 santo, coberto com todas essas benc;:aos, seria nulo e sem valor se nao tivesse Deus; e quando vive em comunhao com Deus ele nao se preocupa com o que e terreno, pois o amor de Deus supera todos os outros bens. Tale a experiencia dos filhos de Deus. Eles tiveram essa expe- riencia porque Deus se apresentou a eles, para alegria deles, na pes- soa do Filho de Seu amor. Nesse sentido Cristo disse que a vida eterna, isto e, a totalidade da sal- 'ac;:ao, consiste no conhecimento do unico e verdadeiro Deus e em Jesus Cristo, que foi enviado por Deus. 27 Cristo disse essas palavras em urn momento propicio. Ele es- tava atravessando o ribeiro Cedrom para entrar no jardim do Getsemani e travar ali a ultima batalha. Todavia, antes de chegar ao Getsemani, Ele se prepara como nosso Sumo Sacerdote para Sua paixao e morte e ora ao Pai para que o Pai o glorifique em Seu sofrimento para que depois o Fi- lho glorifique o Pai ao entregar todas as benc;:aos que Ele alcanc;:a- ria pela Sua obediencia ate a mor- te. E quando o Filho ora desta for- ma, Ele nada deseja alem de fazer a vontade do Pai. 0 Pai lhe deu poder sobre toda a carne para que o Filho pudesse dar a vida eterna a todos aqueles que o Pai lhe dera. Essa vida eterna consiste em co- nhecer o unico e verdadeiro Deus e Jesus Cristo, que foi enviado para revela-lo (Jo 17.3). * * * * * 0 conhecimento do qual Je- sus fala aqui tern seu proprio ca- niter peculiar. Ele e diferente de qualquer outro conhecimento que possa ser obtido, e essa diferenc;:a nao e de grau, mas de principio e de essencia. Essa diferenc;:a surge, de forma clara, quando n6s come- c;:amos a comparar os dois tipos de conhecimento. 0 conhecimento de Deus do qual Jesus falou, dife- re do conhecimento das coisas cri- adas com relac;:ao a sua ongem,
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista seu objeto, sua essencia e seus efei- tos. Ele difere, antes de mais nada, em sua origem, pois ele e completamente devido a Cristo. De certa forma podemos dizer que obtemos todo o outro conheci- mento pela razao, pelo discerni- mento e julgamento e pelo nosso proprio esfor<;o e estudo. Mas para obter esse conhecimento do unico e verdadeiro Deus, nos, como crian<;as, devemos esperar que Cristo no-lo de. Esse conheci- mento nao eencontrado fora de Cristo, nem em escolas ou em fi- losofos destacados. So Cristo co- nhece o Pai. Ele estava com Deus no inicio, descansou em Seu peito e viu-o face a face. Ele mesmo era Deus, o brilho da gloria de Deus e a imagem expressa de Sua pessoa, o proprio Filho amado e unigenito do Pai, em quem o Pai tinha pra- zer (Mt 3.17; Jo 1.14; Hb 1.3). Nada no ser do Pai esta escondido para o Filho, pois o Filho compartilha da mesma natureza, dos mesmos atributos e do mesmo conheci- mento que o Pai. Ninguem conhe- ce o Pai senao o Filho (Mt 11.27). Esse Filho veio ate nos ere- velou-nos o Pai. Ele revelou o nome de Seu Pai aos homens. Foi para isso que Ele se fez carne e habitou na terra: para nos dar o conhecimento do que e verdadei- ro (1Jo 5.20). N6s nao conheciamos Deus, nem tinhamos interesse em conhecer os Seus caminhos, mas 28 Cristo motivou-nos a conhecer o Pai. Ele nao era urn filosofo, nem urn erudito, nem urn artista. Sua obra era revelar-nos o nome do Pai. Ele o fez, completamente, durante toda a Sua vida. Ele reve- lou Deus em Suas palavras, em Suas obras, em Sua vida, em Sua morte, em Sua pessoa e em tudo o que Ele foi e fez. Ele nunca fez ou disse qualquer coisa exceto aqui- lo que viu Seu Pai fazendo. A Sua comida era fazer a vontade de Seu Pai. Quem quer que o tenha visto, viu tambem o Pai (Jo 4.34; 8.26-28; 12.50; 14.9). A Sua revela<;ao e confiavel porque Ele e Jesus Cristo, o que foi envindo. Ele recebeu do proprio Deus o nome de Jesus porque Ele foi enviado para salvar o Seu povo dos seus pecados (Mt 1.21). E Ele echamado Cristo porque Ele eo Ungido do Pai, escolhido e quali- ficado para o exercicio de todos os Seus oficios pelo proprio Deus (Is 42.1; Mt 3.16). Ele e0 Unico Envi- ado porque, ao contrario de mui- tos falsos profetas, Ele nao veio em Seu proprio nome, nem exaltou a Si mesmo, nem procurou Sua pro- pria honra. Mas Deus amou tanto o mundo que deu Seu Filho unigenito para que todo aquele que nEle ere nao pere<;a, mas te- nha a vida eterna, pois Ele e o en- viado de Deus (Jo 3.16). Aqueles, pois, que o aceitam e creem nEle recebem o direito e sao qualificados para usar o nome
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    0 CoNHECIMENTO DEDEus de filhos de Deus (Jo 1.12). Eles nasceram de Deus, partilham de Sua natureza, eles conhecem Deus sob as vistas de Cristo, Seu Filho. Ninguem conhece o Filho senao o Pai, e ninguem conhece o Pai se- nao o Filho, e aquele a quem o Fi- lho o quiser revelar (Mt 11.27). Em segundo lugar, o conhe- cimento de Deus difere do outro conhecimento com rela<;ao ao seu objeto. Quanto ao outro conheci- mento, ele pode, especialmente ern nosso tempo, ser rnuito arnplo ern seu alcance, mas ele ainda gira ern torno da criatura, elirnitado, temporal e nunca pode alcan<;ar o que eeterno. De fato, ha a revela- <;ao do poder eterno de Deus e as obras de Deus na natureza. Mas o conhecimento derivado dessa fon- te efraco, obscuro, contarninado pelo erro, e nao tao irnportante. 0 hornern, conhecendo Deus atraves da natureza, nao o glorificou como Deus, e se tornou nulo ern seu proprio raciocinio e mudou a gloria do Deus incorruptivel em semelhanc;:a da imagem da criatu- ra. 0 rnundo e tanto urn oculta- mento quanto uma revelac;:ao de Deus (Rm 1.20-23). Mas aquina orat;:ao sacerdo- tal [Jo 17], o Unico que fica em evi- dencia e Aquele que nos transmi- te outro conhecimento e que nos desafia a falar sobre o conhecinzen- to de Deus! Quem pode compre- ender Deus como objeto do conhe- cimento humano? Como o ho- 29 mern pode conhecer Deus, o Infi- nito e Incompreensivel, que nao pode ser medido pelo tempo, nem pela eternidade, em cuja presen- <;a os anjos cobrem a face com as asas, que vive ern luz inacessivel, e a quem o homem nunca viu nem pode ver? Como pode alguern as- sim ser conhecido pelo homem, cujo f6lego esta em suas narinas e que e menos que nada e rnenos que o vacuo? Como poderia ele conhecer Deus, se seu melhor co- nhecimento eurn trapo remenda- do? Todo o seu conhecimento e sabre, e nao de. 0 que ele sabe so- bre a origem, a essencia e o pro- posito das coisas? Ele nao esta ro- deado de misterios por todos os lados? Ele nao esta sempre beiran- do a fronteira do desconhecido? E n6s poderfamos supor que urn homem pobre, fraco, pecaminoso e carente poderia conhecer Deus, o Sublime, o Santo, o Unico e Todo-Poderoso Deus? Ele esta fora de nossa com- preensao, mas Cristo viu o Pai e 0 revelou a nos. Nos podemos crer que Seu testemunho e verda- deiro e digno de total aceita<;ao. E se voce quer saber quem e Deus, nao pergunte ao sabio, nem ao escriba, nem aos debatedores de nossos dias, mas procure por Cris- to e ou<;:a o que Ele diz. Nao diga em seu cora<;ao: "Quem subiu ao ceu, ou quem desceu ao abismo?". A palavra que Cristo proclama esta perto de voce. Ele mesnw e"
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Palavra, a perfeita revela<;ao do Pai - igualmente justo, santo, cheio de Gra<;a e de verdade. Em Sua cruz todo o conteudo da fe do Velho Testamento foi revelado: "0 Senhor e misericordioso e compassivo; longanimo e assaz benigno. Nao repreende perpetu- amente, nem conserva para sem- pre a sua ira. Nao nos trata segun- do os nossos pecados, nem nos re- tribui consoante as nossas iniqui- dades. Pois quanto o ceu se alteia acima da terra, assim e grande a sua misericordia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nos as nossas transgressi5es. Como urn pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem." (Sl103.8-13). Even- do a gloria de Deus no espelho de Sua palavra, nos gritamos em ex- tase: Nos o conhecemos porque Ele nos conheceu primeiro. "Nos amamos porque Ele nos amou pri- meiro" (1 Jo 4.19). A origem e o conteudo de- terminam tambem a peculiar es- sencia do conhecimento de Deus. Nos versiculos da ora<;ao sa- cerdotal acima referida, Jesus fala de urn conhecimento que nao e mera informa<;ao, mas urn real co- nhecimento. Ha uma grande dife- ren<;a entre urn e outro. Obter in- forma<;ao em livros a respeito de plantas, animais, pessoas, paises e povos nao significa ter conheci- mento pessoal direto sobre esses 30 assuntos. Essa informa<;ao e sim- plesmente baseada na descri<;ao que outra pessoa fez sobre algum assunto. Nesse sentido, a informa- <;ao e apenas uma transmissao de noticias. 0 conhecimento real in- clui urn elemento de contato, urn envolvimento pessoal e uma ati- vidade do cora<;ao. Everdade que uma descri- <;ao pode ser encontrada na Pala- vra do conhecimento de Deus que Cristo da, e deste modo e possi- vel ter uma informa<;ao sobre Deus que difira essencialmente do real conhecimento de Deus que Cristo transmite. Urn tipo de co- nhecimento da vontade do Senhor desacompanhado de uma prepa- ra<;ao do cora<;ao faz com que isso seja possivel (Lc 12.47,48). 0 ho- mem pode damar "Senhor! Se- nhor!" e nao ter acesso ao Reino dos ceus (Mt 7.21). Ha a fe, como ados demonios, que nao condu- zem ao amor, mas ao ternor e ao tremor (Tg 2.19). Ha ouvintes da palavra que nao querem ser pra- ticantes dela e que portanto serao frustrados (Tg 1.22) Quando Jesus fala nesse tex- to sobre o conhecimento de Deus, Ele tern em mente urn conheci- mento do mesmo tipo do conhe- cimento que Ele mesmo possui. Ele nao era urn teologo, nem urn doutor ou professor de divinda- de. Ele conhecia Deus atraves de urn contato direto e pessoal; Ele via Deus em todos os lugares, na
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    0 CONHECIMENTO DEDEUS natureza, em Sua palavra, em Seu servic;:o; Ele o amou acima de to- das as coisas e foi obediente a Ele em todas as coisas, ate mesmo na morte de cruz. Seu conhecimento da verdade era completo. 0 co- nhecimento e o amor caminham juntos. Alem disso, conhecer Deus nao consiste em ter uma grande quantidade de conhecimento so- bre Ele, mas em enxerga-lo napes- soa de Cristo, em leva-lo em con- ta nos caminhos de nossa vida, e em sentir na alma Suas virtudes, Sua justic;:a, Sua compaixao e Sua Grac;:a. Epor isso que esse conheci- mento, em distinc;:ao ao outro co- nhecimento/ recebe o nome de co- nhecimento da fe. Ele nao e resul- tado de estudo cientifico nem de reflexao/ mas de uma fe infantile simples. Essa fe e1 nao apenas urn conhecimento seguro, mas uma firme certeza de que, nao somen- te para os outros, mas tambem para mim, a remissao dos peca- dos, a justic;:a e a salvac;:ao eterna foram dadas por Deus/ somente pela Sua Grac;:a, somente em con- siderac;:ao aos meritos de Cristo. Somente aqueles que se tornarem como criancinhas poderao entrar no reino dos ceus (Mt 18.3). 56 os puros de corac;:ao podem vera face de Deus (Mt 5.8). 56 aqueles que nasceram da agua e do Espirito podem entrar no reino (Jo 3.5). Aqueles que conhecem o nome de Deus confiam nEle (519.10). Deus e conhecido na mesma proporc;:ao em que Ele e amado. Se n6s entendemos o conhe- cimento de Deus dessa forma/ nao devemos nos surpreender com o fato de que sua operac;:ao e seu efei- to seja nada menos que a vida eter- na. De fato, parece existir pouca relac;:ao entre o conhecimento e a vida. Nao foi o autor de Eclesiastes que disse que na muita sabedoria ha muito enfado; e quem aumen- ta ciencia aumenta tristeza; e ain- da que nao ha limite para fazer li- vros e o muito estudar e enfado da carne (Ec 1.18; 12.12)? Conhecimento e poder- isso n6s podemos entender/ pelo me- nos ate urn certo limite. Todo co- nhecimento e urn triunfo do espi- rito sobre urn certo assunto, uma sujeic;:ao da terra ao senhorio do homem. Mesmo na ordem natu- rat a profundidade e a riqueza da vida sao aumentadas pelo conhe- cimento. Quanto maior foro co- nhecimento, maior sera a intensi- dade da vida. As criaturas inani- madas nao possuem conhecimen- to/ e elas nao vivem. Quando os sentidos dos animais se desenvol- vem, sua vida tambem se desen- volve em satisfac;:ao e oportunida- de. Entre os homens, a vida mais rica e aquela que mais conhece. Alem disso, como a vida do insano, do imbecit do idiota, do subdesenvolvido? Epobre e limi- tada quando comparada com a de
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista urn pensador e poeta. Mas qual- quer diferen<;a que possa ser no- tada aqui e apenas urna diferen<;a de grau. A propria vida nao e rnudada por isso. E a vida, seja a do rnais distinto erudito ou a do rnais simples operario, deve ne- cessariarnente terrninar na rnorte, pois ela se enche apenas corn as fontes lirnitadas deste rnundo. Mas esse conhecimento de que Cristo fala nao se refere a urna criatura, mas ao verdadeiro Deus. Se o conhecimento das coi- sas visiveis podern enriquecer a vida, o que o conhecimento de Deus fara corn ela? Deus nao e urn Deus de rnortos e nern da rnorte, mas de vivos e da vida. Todos aqueles que forarn recriados aSua irnagern e descansarn ern Sua corn- panhia sao elevados acirna do ni- vel da rnorte e da rnortalidade. II Aquele que ere ern rnirn", disse Jesus, II ainda que rnorra, vivera; e todo o que vive e ere em rnirn nao rnorrera eternarnente" (J0 11.25,26). 0 conhecimento de Deus ern Cristo traz consigo a vida eterna, alegria imperturbavel, benc;aos celestiais. Esses nao sao apenas efeitos, pois o conhecimen- to de Deus e, ern si rnesrno, urna vida nova, eterna e aben<;oada. De acordo corn esse ensino das Sagradas Escrituras, a Igreja Crista deterrninou o carater desse 32 corpo de conhecirnentos ou den- cia que desde tempos antigos tern sido charnado de Teologia ou Di- vindade. A Teologia e a ciencia que extrai o conhecimento de Deus de Sua revela<;ao, que estu- da e pensa sobre ela sob a orienta- c;ao do Espirito Santo, e entao ten- ta descreve-la de forma a honrar a Deus. E urn te6logo, urn verda- deiro te6logo, e aquele que fala de Deus, atraves de Deus, sobre Deus e sernpre no intuito de glorificar Seu nome. Entre o estudado e o simples ha apenas urna diferenc;a de grau. Ambos possuern urn s6 Senhor, urna s6 fe, urn s6 batisrno, urn s6 Deus e Pai de todos, o qual e sobre todos, age por meio de to- dos e esta em todos. E a Gra<;a foi concedida a cada urn de n6s se- gundo a propor<;ao do dom de Cristo (Ef 4.5-7). Nesse espirito, Calvino co- mec;ou o catecismo de Genebra com a questao: Quale 0 firn prin- cipal do hornem? E a resposta vern, clara e retumbante: Conhe- cer Deus, por quem ele foi criado. Da mesrna forma o Catecisrno de Westminster corne<;a suas li<;oes com a seguinte pergunta: Qual e o fim supremo e principal do ho- rnem? A resposta e breve e rica: 0 fim supremo e principal do ho- rnern e glorificar a Deus e goza-lo plena e eternarnente.
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    CAPITULO ~ A REVELA<;AO GERAL § ee verdade que 0 homem pode ter conhecimento de Deus, entao esse fato pres- supoe que Deus, de Sua parte, voluntariamente resolveu, de al- guma forma, fazer-se conhecido aohomem. N6s nao podemos creditar o conhecimento de Deus a n6s mes- mos, anossa descoberta, investi- ga<;:ao ou reflexao. Se esse conhe- cimento nao nos fosse dado por urn ato livre e espontaneo de Deus, nao haveria qualquer pos- sibilidade de que n6s o alcan<;:as- semos pelos nossos pr6prios es- for<;:os. Quando nos referimos ao co- nhecimento das coisas criadas, a situa<;:ao e bern diferente. N6s so- mos totalmente dependentes de Deus ate mesmo para adquirir co- nhecimento sobre as coisas cria- 3as, contudo, no momento da cri- a<;:ao Ele encarregou o homem de subjugar e dominar toda a terra, equipou-o para realizar essa tare- fa e deu-lhe interesse para isso. 0 homem esta acima da natureza. Ele pode medir os fenomenos na- turais, pode estuda-los e, ate cer- to ponto, pode artisticamente cri- ar objetos. Ele pode, de certa for- ma, fazer com que a natureza se revele a ele e descobrir seus segre- dos. Contudo, esta habilidade tambem e limitada em todas as formas nas quais esta disponivel. Na medida em que a ciencia pe- netra mais e mais fundo no feno- meno e se aproxima da essencia dele, ela ve que OS misterios au- mentam e sente-se encurralada por todos os lados pelo desconhe- cido. Nao sao poucos os que es- tao convencidos das limita<;:oes do conhecimento humano a ponto de dizer: "N6s nada sabemos", e, em algumas ocasioes: "N6s nunca
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista chegaremos a saber". Se tallimita<;ao do conheci- mento humano logo se torna cla- ra no estudo da natureza inanima- da, ela se torna ainda mais nota- vel no estudo das criaturas vivas, animadas e racionais. Isso acontece porque nessa area n6s entramos em contato com realidades que nao podem ser manuseadas arbitrariamente. Elas ficam diante de n6s em sua objeti- vidade e podem ser conhecidas por n6s na medida em que correspondem aquilo que encon- tramos em n6s mesmos. A vida, a consciencia, o sentimento e a per- cep<;ao, o entendimento e a razao, o desejo e a vontade, nao podem ser desmontadas e remontadas. Nao sao de natureza med1nica, mas organica; temos que considera-los em si mesmos e respeita-los em sua natureza mis- teriosa. Desmembrar a vida e o mesmo que mata-la. Isso vale para a maior parte da natureza humana, pois apesar de ser verdade que o homem eurn ser fisico e que essa dimensao nao pode escapar de nossa percep<;ao, e apenas sua manifesta<;ao exter- na que n6s podemos perceber. Por tras dessa manifesta<;ao esta uma vida misteriosa que tern em sua forma externa uma expressao im- perfeita e inadequada. Ate urn cer- to ponto o homem tern a habili- dade de ocultar a outras pessoas o mais intimo de sua natureza. Ele 34 pode controlar sua expressao facial de modo que seus museu- los faciais nao revelem o que esta acontecendo dentro dele; ele pode usar uma linguagem que esconda seus pensamentos; ele pode, com suas a<;6es, assumir uma atitude que esteja em conflito como que ele pensa. E ate mesmo quando n6s estamos tratando com uma pessoa que despreze essas sutile- zas do engano, nosso conhecimen- to sobre ele dependera grande- mente daquilo que, de sua parte, quiser revelar sobre si mesmo. Alias, as vezes isso acontece de forma involuntaria; 0 homem nao tern controle absoluto sobre si mesmo, e ele freqi.ientemente se trai sem que tenha a inten<;ao de faze-lo. Ao mesmo tempo ele pode, atraves de sua vida, de suas palavras e de seus feitos, com ou sem o seu consentimento, revelar o misterio de sua personalidade, e n6s poderemos conhece-lo urn pouco como ele e. 0 conhecimen- to de uma pessoa s6 e possivel quando ela, involuntariamente ou consciente e deliberadamente ore- vela a n6s. Tais considera<;6es nos con- duzem a urn correto entendimen- to das condi<;6es sob as quais urn ser humano pode dizer que tern conhecimento de Deus. Deus e absolutamente independente, per- feitamente soberano. Ele nao de- pende de n6s para coisa alguma, mas n6s, tanto naturalmente
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    A REVELA<;:Ao GERAL quantoracionalmente e moral- mente, somos completamente de- pendentes dEle. Portanto, n6s nao temos controle e nao temos poder sobre Ele, e por isso nao podemos faze-lo o objeto de nosso estudo e reflexao. A nao ser que Ele se per- mita ser encontrado, n6s jamais o encontraremos. A nao ser que Ele se de a n6s, n6s jamais poderemos recebe-lo. Alem do mais, Deus e invisivel. Ele mora em luz inaces- sivel e nenhum homem jamais o viu e nem pode ver. Se Ele se man- tiver oculto n6s nao podemos traze-lo para o alcance de nossa percep<_;:ao fisica ou espiritual; e, e claro, sem qualquer tipo de per- cep<_;:ao1 0 conhecimento nao e pos- sivel. Finalmente, para encerrar- mos o assunto, Deus e Todo-Po- deroso. Ele tern nao apenas Suas criaturas, mas tambem a Si mes- mo sob total controle. Apesar dos seres humanos estarem sempre se revelando, algumas vezes mais outras menos, seja de forma deli- berada ou nao, Deus s6 se revela na medida em Ele deseja faze-lo, e s6 porque Ele o quer. Nao existe algo como uma manifesta<_;:ao involuntaria de Deus, ocorrendo fora da esfera de Sua consciencia e de Sua liberdade. Deus tern to- tal, absoluto e perfeito controle sobre Si mesmo, e Ele s6 se revela na medida em que sente prazer em fazer isso. Portanto, o conhecimento de Deus s6 e possivel atraves da re- 35 vela<_;:ao que Ele faz de Si mesmo. 0 conhecimento de Deus s6 e acessivel ao homem quando, e s6 quando, Deus livremente deseja revelar-se. * * * * * Essa auto apresenta<_;:ao de Deus e geralmente chamada de revela~ao. A Escritura usa varios verbos para expressar essa reve- la<_;:ao de Deus, tais como aparecer, falar, ordenar, trabalhar, fazer co- nhecido, e outros semelhantes. Isso mostra que a revela<_;:ao nem sempre acontece do mesmo modo, mas de varias formas. Na pratica, todas as obras de Deus, sejam pa- lavras ou atos, sao partes consti- tuintes da unica revela<_;:ao de Deus, grande, abrangente, e sem- pre continua. A cria<_;:ao, manuten- <_;:ao e o dominio de todas as coi- sas, o chamado e o destaque de Israel, o envio de Cristo, a desci- da do Espirito Santo, o registro da Palavra de Deus, o sustento e a propaga<_;:ao da Igreja, sao formas pelas quais a revela<_;:ao de Deus vern ate n6s. Cada uma dessas for- mas nos revela algo de Deus. Nes- se sentido, tudo o que existe e tudo o que acontece pode conduzir-nos ao conhecimento de Deus. Essa revela<_;:ao pode ser ge- ral ou especial, de acordo com as suas caracteristicas. Em primeiro lugar, a revela- <_;:ao sempre tern sua origem em
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista urn ato livre da parte de Deus. Nesse ato, como em todas as ou- tras coisas, Ele e absolutamente soberano, e age com perfeita liber- dade. De fato, ha alguns que re- pudiam a cren<;a em urn Deus pes- soal e auto consciente, e ainda as- sim falam de uma revela<;ao de Deus. Isso da urn significado a palavra que entra em conflito com seu sentido usual. Do ponto de vista daqueles para os quais a di- vindade e apenas uma for<;a todo- poderosa, impessoal e inconscien- te, e possivel falar em uma mani- festa<;ao involuntaria dessa for<;a, mas nao de uma revela<;ao real, pois essa e uma ideia que pressu- poe a perfeita consciencia e liber- dade de Deus. Toda revela<;ao dig- na desse nome procede da ideia de que Deus existe pessoalmente, que Ele e consciente de Si mesmo e que Ele pode fazer-se conhecido as Suas criaturas. Nosso conheci- mento humano de Deus tern sua base e sua origem no conhecimen- to que Deus tern de Si mesmo. A nao ser que haja auto consciencia e auto conhecimento em Deus, nenhum conhecimento de Deus sera possivel ao homem. Qual- quer pessoa que negue isso che- gara a conclusao irracional de que nenhum conhecimento de Deus e possivel, ou que Deus alcan<;a auto consciencia somente no ho- mem, o que coloca o homem no lugar de Deus. A Escritura ensina algo mui- 56 to diferente disso. Apesar de ser inacessivel, a morada de Deus e luz; Ele conhece a Si mesmo per- feitamente e, portanto, pode reve- lar-se a n6s. Ninguem conhece o Filho senao o Pai; e ninguem co- nhece o Pai senao o Filho, e aque- le a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27). Em segundo lugar, toda re- vela<;ao que procede de Deus e auto revelar;iio. Deus e a origem e tambem o conteudo de Sua reve- la<;ao. Isso faz com que seja ver- dadeira a rnais elevada revelac;ao, que veio a nos em Cristo, pois o proprio Cristo disse que Ele reve- lou o nome de Deus ao homem (Jo 17.6). 0 Filho unigenito, que esta no seio do Pai, revelou-nos Deus (Jo 1.18). Mas o mesmo e verdade sobre qualquer revelac;ao que Deus tenha dado ao homem sobre Si mesmo. Todas as obras de Deus, em natureza e em Grac;a, na cria- c;ao e na regenerac;ao, no mundo e na historia, mostram-nos algo sa- bre o incompreensivel e adoravel ser de Deus. Elas nao o fazem da mesma forma e nem com o mes- mo alcance; ha infinitas diferenc;as entre elas. Uma obra fala de Sua justic;a, e outra de Sua Grac;a; de uma resplandece Seu poder infi- nito, e de outra Sua divina sabe- doria. Contudo, todas juntas e cada uma delas em seu proprio alcan- ce, declaram-nos as poderosas obras de Deus, e informam-nos
  • 37.
    A REVELA<;:Ao GERAL sobreSuas virtudes e perfei<;:oes, sobre Seu sere Suas auto diferen- cia<;:oes, sobre Seu pensarnento e sobre Sua palavra, e sobre Sua vontade e seu prazer. Nessa conexao n6s nunca devernos nos esquecer, e claro, que a revela<;:ao de Deus, indepen- denternente da riqueza de seu conteudo, nunca sera identica ao auto conhecimento de Deus. Esse auto conhecimento ou auto cons- ciencia e tao infinito quanto Seu Sere Sua natureza, portanto, nao esta sujeito aapreensao de qual- quer criatura. A revela<;:ao de Deus em Suas criaturas, tanto objetiva- rnente nas obras de Sua mao quan- to subjetivarnente na consciencia de Suas criaturas racionais, pode rnostrar, sernpre, apenas urna pe- quena parte do infinito conheci- mento que Deus tern de Si rnes- rno. E nao sornente n6s, seres hu- rnanos sobre a terra, mas tarnbern os santos e os anjos nos ceus, e tarnbern o Filho de Deus ern Sua natureza hurnana, possuern urn conhecimento de Deus que e dife- rente ern principio e ern essencia do auto conhecimento de Deus. ~-'co rnesrno tempo, o conhecimen- to que Deus tern distribuido ern Sua revela<;:ao, e que pode ser ob- tido pelas criaturas racionais a partir dessa revela<;:ao, lirnitado e iinito como e e sera pelo resto da eternidade, e, contudo, urn conhe- cimento real e cornpleto. Deus se re,·ela ern Suas obras exatamente 37 como Ele e. A partir dessa Sua re- vela<;:ao n6s podernos conhece-lo. Portanto, nao ha repouso para o hornern ate que ele se coloque aci- rna e alern da criatura e chegue ate o proprio Deus. No estudo dare- vela<;:ao nossa preocupa<;:ao deve ser a de conhecer Deus. 0 prop6- sito desse estudo nao e aprender a usar alguns argurnentos e a fa- lar algumas palavras. 0 objetivo prirnario desse estudo e conduzir- nos atraves da criatura ate o Cria- dor, e fazer-nos encontrar descan- so no cora<;:ao do Pai. Ern terceiro lugar, a revela- <;:ao que procede de Deus, e que tern Deus como seu conteudo, tarnbern tern Deus como seu pro- p6sito. Essa revela<;:ao e dEle, e atraves dEle e tarnbern para Ele; Ele fez todas as coisas para Si rnes- mo (Rrn 11.36; Pv 16.4). Apesar do conhecimento de Deus, que e dis- tribuido ern Sua revela<;:ao, ser es- sencialrnente diferente de Seu auto conhecimento, ele e tao rico, tao arnplo e tao profundo, que nunca pode ser totalrnente absor- vido pela consciencia de qualquer criatura racional. Os anjos exce- dern o homern ern conhecimento, e veern incessanternente a face do Pai que esta nos ceus (Mt 18.10), mas eles desejararn perscrutar as coisas que nos forarn anunciadas por aqueles que anunciararn o Evangelho (1Pe 1.12). E na rnedi- da ern que as pessoas pensarn mais e rnais profundarnente sobre
  • 38.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista a revela<;:ao de Deus elas sao mais impelidas a damar como Paulo: "6 profundidade da riqueza, tan- to da sabedoria como do conheci- mento de Deus! Quao insondaveis sao os seus juizos, e quao inescrutaveis, os seus caminhos" (Rm 11.33)! Contudo, a revela<;:ao nao pode ter o seu proposito final no homem; ela o ultrapassa e se levanta alto;m dele. Everdade que o homem tern urn importante lugar na revela<;:ao. Ela e dirigida ara<;:a humana para que o homem possa buscar a Deus, se, porventura, tateando, puder encontra-lo (At 17.27); e o Evangelho deve ser pregado a to- das as criaturas, para que, crendo, tenham vida eterna (Me 16.15,16; Jo 3.16,36). Mas esse nao pode ser o proposito final e mais elevado da revela<;:ao. Deus nao pode des- cansar no homem. Pelo contrario, o homem deve conhecer e servir a Deus, motivo pelo qual deve, jun- tamente com as outras criaturas, e afrente delas, dar a Deus a de- vida honra por todas as Suas obras. Em Sua revela<;:ao, querela passe alem do homem ou ao lado do homem, Deus esta preparan- do Seu proprio louvor, glorifican- do Seu proprio nome, e manifes- tando diante de Seus proprios olhos, no mundo de Suas criatu- ras, Suas excelencias e perfei<;:6es. Pelo fato da revela<;:ao ser de Deus e atraves de Deus, ela tern seu fim e proposito tambem em Sua glo- 38 rifica<;:ao. Toda essa revela<;:ao, que e de Deus e atraves dele, tern seu ponto mais elevado na pessoa de Cristo. Nao e o firmamento relampejante, nem a natureza po- derosa, nem qualquer principe ou genio da terra, nem qualquer filo- sofo ou artista o ponto mais alto da revela<;:ao de Deus, mas sim o Filho do Homem. Cristo eo Ver- ba feito carne, que estava no co- me<;:o com Deus e que era Deus, o Unigenito do Pai, a Imagem de Deus, o brilho de Sua gloria e a exata expressao de Sua pessoa; quem o ve tambern ve o Pai (Jo 14.9). Nessa fe o Cristao permane- ce de pe. Ele aprendeu a conhecer Deus na pessoa de Jesus Cristo, que foi enviado pelo proprio Deus. Deus, que disse que nas tre- vas resplandecera a luz, Ele mes- mo resplandeceu em nosso cora- <;:ao, para ilumina<;:ao do conheci- mento da gloria de Deus, na face de Cristo (2Co 4.6). * * * * * Desse ponto altamente privilegiado o Cristao olha asua volta, para a frente, para tras e para todos os lados. E se, ao fazer isso, a luz do conhecimento de Deus, que recebe de Cristo, ele se detem na natureza e na historia, no ceu ou sobre a terra, entao ele descobre tra<;:os do mesmo Deus que ele aprendeu a conhecer e a
  • 39.
    A REVELA<;:Ao GERAL cultuarem Cristo como seu Pai. 0 Sol da justi<;a proporciona uma vista maravilhosa que se estende ate as extremidades da terra. Atra- ves dessa luz ele olha para tra.s, para as noites de tempos passa- dos, e atraves dela ele penetra no futuro de todas as coisas. A sua frente e atras de si 0 horizonte e claro, apesar do ceu estar geral- mente encoberto pelas nuvens. 0 Cristao, que ve tudo aluz da Palavra de Deus, pode ser qual- quer coisa, menos estreito em sua perspectiva. Ele tern amplitude de cora<;ao e mente. Ele olha por toda a terrae considera tudo como sen- do seu, pois ele ede Cristo e Cris- to ede Deus (1Co 3.21-23). Ele nao pode desvincular sua cren<;a da re- ·ela<;ao de Deus em Cristo, a quem ele deve sua vida e sua sal- va<;ao, pois essa cren<;a tern urn carater especial. Essa cren<;a nao o exclui do mundo, mas coloca-o em condi<;ao de seguir a pista da revela<;ao de Deus na natureza e na hist6ria, e coloca meios asua disposi<;ao pelos quais ele pode reconhecer a verdade, o bern e a beleza e separa-los das rela<;6es ralsas e pecaminosas dos homens. Dessa forma, ele faz distin- (ao entre uma revela<;ao geral e uma revela<;ao especial de Deus. :a revela<;ao geral Deus faz uso da ocorrencia usual dos fenome- :ws e do curso usual dos eventos; :' :1 re·ela<;ao especial Ele geral- :--:.1:'nte emprega meios nao usuais, 39 tais como apari<;6es, profecias e milagres para fazer-se conhecido ao homem. 0 conteudo da reve- la<;:ao geral sao geralmente Seus atributos de poder, sabedoria e bondade; o conteudo da revela<;ao especial sao especialmente a san- tidade e a justi<;:a, a compaixao e a Gra<;a. A revela<;ao geral edirigida a todos os homens e, por meio da gra<;a comum, serve para restrin- gir a prolifera<;ao do pecado; are- vela<;ao especial edirigida a todos aqueles que vivem sob o Evange- lho e possuem, pela Gra<;a especi- al, o perdao dos pecados e a reno- va<;ao de vida. Apesar desses dois tipos de revela<;ao serem essencialmente distintos, eles estao intimamente ligados urn ao outro. Os dois pos- suem sua origem em Deus, em Sua bondade soberana e em seu favor. A revela<;ao geral e uma dadiva do Verbo que estava com Deus no principia, que fez todas as coisas, que brilhou como a luz nas trevas e iluminou todos os homens que vieram ao mundo (Jo 1.1-9). A revela<;ao especial euma dadiva do mesmo Verbo, que foi feito carne em Cristo, e que agora echeio de Gra<;:a e de verdade (Jo 1.14). A Gra<;:a eo conteudo de ambas as revela<;6es, de tal forma que uma seja indispensavel aou- tra. Ea gra<;:a comum que torna possivel a Gra<;a especiat prepa- ra o caminho para ela, e depois lhe
  • 40.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista da o suporte; e a Grac;a especiat por sua vez, ergue a grac;a comurn ao seu proprio nivel e coloca-a a seu servic;o. Ambas as revelac;oes tern como proposito a conserva- c;ao da rac;a humana; a primeira sustentando-a e a segunda redimindo-a; e desta forma as duas cumprem a sua finalidade, que e glorificar todas as excelen- cias de Deus. * * * * * 0 conteudo de ambas as re- velac;oes, nao apenas o da especi- al, mas tambem o da geral, esta contido na Sagrada Escritura. A revelac;ao geral, apesar de estar contida na natureza, e, contudo, extraida da Sagrada Escritura, pois, sem ela, n6s, seres humanos, por causa da escuridao de nosso entendimento, nunca teriamos sido capazes de encontra-la na natureza. Sendo assim, a Escritu- ra lanc;a luz sobre nosso caminho atraves do mundo, e coloca em nossas maos a verdadeira compre- ensao da natureza e da historia. Ela nos faz ver Deus onde nos de outra forma nao o veriamos. Ilu- minados por ela nos contempla- mos as excelencias de Deus em toda a expansao das obras de Suas maos. A propria criac;ao, ensinada pela Escritura, demonstra a reve- lac;ao de Deus na natureza, pois ela e em si mesma um ato de re- 40 velac;ao, o inicio eo primeiro prin- cipia de toda a revelac;ao posteri- or. Se o mundo tivesse permane- cido eternamente sozinho, ou se tivesse sido eternamente descon- siderado por Deus, ele nao teria sido uma revelac;ao de Deus. Alias, tal mundo teria sido urn obstaculo a Deus e a Sua revela- c;ao de Si mesmo. Mas quem quer que o contemple junto com as Es- crituras, desde a criac;ao do mun- do, ere que Deus se revela em todo o mundo. Toda obra da testemu- nho de seu realizador a tal ponto que em urn certo sentido pode ser chamada de produto de seu reali- zador. Por ser o mundo, em urn sentido absoluto, uma obra de Deus, e por clever, tanto sua natu- reza quanto seu ser, no comec;o e sempre depois, ao seu Criador, toda criatura manifesta algo das excelencias e das perfeic;oes de Deus. Logo que a revelac;ao de Deus na natureza e negada ou li- mitada somente ao corac;ao ou ao sentimento do homem, surge o perigo de que a criac;ao de Deus nao seja reconhecida, que a natu- reza seja governada por outro po- der que aquele que governa o co- rac;ao humano, e que desta forma, quer seja abertamente, quer seja de forma encoberta, o politeismo seja introduzido no pensamento humano. A Escritura, ao ensinar a criac;ao, sustenta a revelac;ao de Deus e ao mesmo tempo a unida-
  • 41.
    A REVELA<;:Ao GERAL dede Deus e a unidade do mun- do. Ah~m do mais, a Escritura ensina nao apenas que Deus cha- mou o mundo a existencia, mas tambem que esse mundo e, conti- nuamente, momento ap6s mo- mento, sustentado e governado por esse mesmo Deus. Ele e infi- nitamente exaltado nao apenas sobre todo o mundo, mas tambem mora em todas as Suas criaturas por Seu poder infinito e onipre- sente. Ele nao esta longe de quem quer que seja, pois nEle n6s vive- mos, enos movemos, e existimos (At 17.27,28). A revela<;ao que vern ate n6s atraves do mundo, toda- via, nao e apenas urn lembrete de uma obra de Deus que Ele reali- zou ha muito tempo atras: e urn testemunho tambem daquilo que Deus, em nossos tempos, quer e faz. ~ Quando levantamos nossos olhos podemos ver nao apenas quem criou essas coisas e faz sair o seu exercito em grande m:ime- ro, mas tambem que Ele as chama pelos seus nomes, pela grandeza de Seu poder, porque Ele e forte em poder e por isso nenhuma de- las vern a £altar (Is 40.26). Os ceus declaram as obras de Deus e o firmamento anuncia as obras das Suas maos (Sl 19.1). Ele se cobre de luz como de urn manto e esten- de os ceus como uma cortina. Ele poe nas aguas 0 fundamento da Sua morada e toma as nuvens por 41 Seu carro e voa nas asas do vento (Sl 104.2,3). As montanhas e os vales estao estabelecidos no lugar que Deus tinha para eles prepara- do e Ele os rega do alto de Sua morada (Sl 104.8,13). Ele farta a terra com o fruto de Suas obras, faz crescer a relva para os animais e as plantas para o servi<;o do ho- mem, de forma que da terra tire o seu pao e o vinho, que alegra o cora<;ao do homem (Sl104.13-15). Cingido de poder Ele, por Sua for- <;a, consolida os montes e aplaca o rugir dos mares (Sl65.6,7). Ele ali- menta as aves do ceu e veste os lirios do campo (Mt 6.26-30). Ele faz nascer o sol sobre rnause bons e faz vir chuvas sobre justos e in- justos (Mt 5.45). Ele fez o homem urn pouco menor do que os anjos, e coroou-o com gloria e honra, e deu-lhe dominio sobre as obras de Suas maos (Sl 8.5,6). Alem disso Ele cumpre Seu conselho e estabelece Sua obra tanto na natureza quanto na his- t6ria. Ele de urn s6 fez todas as na<;oes para habitar a terra (At 17.26). Ele destruiu a primeira ra<;a humana no dih:ivio e ao mesmo tempo preservou-a na familia de Noe (Gn 6.6-9). Na torre de Babel Ele confunde a linguagem dos ho- mens e os dispersa sobre a face da terra (Gn 11.7-8). E quando o Altissimo dividiu entre as na<;oes a sua heran<;a e separou os filhos de Adao, Ele determinou os tem- pos previamente estabelecidos e
  • 42.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii os limites da sua habita<;ao, de acordo como numero de tilhos em Israel (Dt 32.8; At 17.26). Apesar de ter escolhido os filhos de Israel para serem os portadores de Sua revela<;ao especial, e permitido que as na<;6es pagas seguissem seu proprio caminho (At 14.16), Ele nao se esqueceu deles nem abandonou-os a sua propria sor- te. Pelo contrario, Ele nao os dei- xou sem urn testemunho de Si mesmo, fazendo o bern, dando- lhes chuvas do ceu e esta<;6es fru- tiferas, enchendo o cora<;ao deles de fartura e de alegria (At 14.17). 0 que de Deus se pode conhecer e manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou (Rm 1.19), para que eles busquem a Deus, se porventura, tateando, possam encontra-lo (At 17.27). Por meio dessa revela<;ao geral Deus preservou os povos e conduziu-os ate a dispensa<;ao da plenitude dos tempos, fazendo com que todas as coisas conver- gissem para Cristo, tanto as do ceu como as da terra (Ef 1.10). De to- das as na<;6es, povos, ra<;as e Hn- guas Ele reuniu Sua igreja (Rm 11.25; Ef 2.14 e ss.; Ap 7.9), e pre- para o fim do mundo, no qual os salvos de todas as na<;:6es andarao na luz da cidade de Deus, e todos os reis e povos da terra darao sua gloria e honra a Ele (Ap 21.24-26). Na ciencia da teologia os ho- mens tern tentado organizar todos esses testemunhos da natureza e 42 da historia sobre a existencia e o ser de Deus e classifica-los em gru- pos. Por isso nos as vezes falamos de seis evidencias da existencia de Deus. Em primeiro lugar, o mun- do, sendo sempre tao poderoso e abrangente, esta, contudo, conti- nuamente dando testemunho de que esta confinado ao espa<;o e ao tempo, testemunhando, assim, que e temporal, acidental e de ca- rater dependente e que requer, portanto, urn Ser eterno, essenci- al e independente como a causa final de todas as coisas. Esse e o argumento cosmologico. Em segundo lugar, o mun- do, em suas leis e ordenan<;as, em sua unidade e harmonia e na or- ganiza<;:ao de todas as suas criatu- ras, exibe urn proposito cuja expli- ca<;:ao seria ridicula na base da ca- sualidade, e que, portanto, apon- ta para urn ser todo abrangente e todo poderoso que com mente in- finita estabeleceu esse proposito, e por seu poder infinito e onipresente age para alcanca-lo. Esse e o argumento teologico. Em terceiro 1ugar, ha na consciencia de todos os homens alguma no<;ao de urn ser supremo, sobre o qual nao se pode conce- ber algo que seja mais elevado, e que e auto existente. Setal ser nao existe, a maior, mais perfeita e mais inevitavel ideia seria uma ilusao, e o homem perderia sua confian<;:a na validade de sua cons-
  • 43.
    A REVELA<;:Ao GERAL Ciencia.Esse e o argumento ontol6gico. 0 quarto argumento e urn coroL1rio do terceiro: o homem nao e apenas urn ser racionat ele tambem e urn ser moral. Ele sente em sua consciencia que e limita- do por uma lei que esta acima de si mesmo e que requer obedien- cia incondicional de sua parte. Tal lei pressupoe urn santo e justo le- gislador que pode preservar e des- truir. Esse e o argumento moral. Dois outros argumentos sao adicionados a esses quatro, deri- vados da similaridade ou corres- pondencia de povos e da hist6ria da humanidade. Eurn fenomeno notavel que nao existam povos ou na<;oes sem religiao. Alguns eru- ditos tern argumento que nao e bern assim, mas as investiga<;oes hist6ricas tern provado mais e mais que eles estao errados. Nao ha tribos nem povos ateus. Esse fe- nomeno e de grande imporhincia, pois a absoluta universalidade dessa no<;ao de religiao coloca di- ante de nos uma escolha entre duas op<;oes: ou nesse ponto a humanidade esta sofrendo sob uma supersti<;ao estupida, ou esse conhecimento e servi<;o de Deus, que em formas distorcidas apare- ce entre todos os povos, esta ba- seado na existencia de Deus. Da mesma forma a hist6ria da humanidade, quando vista a luz da Escritura, exibe urn plano e urn padrao que aponta para o 43 governo de todas as coisas por urn ser supremo. Everdade que essa ideia encontra todo tipo de obje- <;6es e dificuldades tanto na vida de individuos quanto na de na- <;6es. Todavia e notavel que qual- quer pessoa que fa<;a urn estudo serio da hist6ria supoe que a his- t6ria e algo no qual 0 planejamen- to e a ordem sao evidentes e que faz de sua tarefa a descoberta e a continuidade desse planejamento e dessa ordem. A hist6ria e a fila- sofia da hist6ria estao baseadas na fe, na providencia de Deus. Todas essas assim chamadas evidencias nao sao suficientes para fazer com que o homem creia. A ciencia e a filosofia tern muito poucas evidencias capazes de fazer isso. Pode ser que nas ci- encias formais, como na matema- tica e na 16gica, isso seja possivel, mas no momento em que temos contato como fenomeno real na natureza, e tambem na hist6ria, nossas argumenta<;oes e conclu- soes, via de regra, sao objeto de todo tipo de desconfian<;a e obje- <;6es. Na religiao e na etica, na lei e na estetica, depende ainda mais da atitude do investigador se ele se submete ou nao a essa convic- <;ao. 0 insensato pode, apesar de todo o testemunho contrario, di- zer em seu cora<;ao que Deus nao existe (5114.1), eo pagao, mesmo tendo conhecimento de Deus, nao o glorificou e nem lhe deu gra<;as (Rm 1.21). Os argumentos da exis-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tencia de Deus acima menciona- dos nao se dirigem ao homem como uma criatura meramente 16gica e capaz de racionar, mas como urn ser racional e moral. 0 apelo desses argumentos nao se refere somente asua mente racio- nal e analitica, mas tambem ao seu corac;:ao e ao seu sentimento, sua razao e sua consciencia. Eles tern seu merito, fortalecendo a fee es- tabelecendo o vinculo de ligac;:ao entre a revelac;:ao de Deus fora do homem e a Sua revelac;:ao dentro dohomem. * * * * * Alem disso, a revelac;:ao de Deus na natureza e na hist6ria nao teria efeito sobre o homem se nao houvesse algo no homem que re- agisse a ela. A beleza da natureza e da arte nao poderiam dar ao homem qualquer prazer a nao ser que ele tivesse urn sentimento de beleza em seu peito. A lei moral nao encontraria resposta nele se ele nao reconhecesse a voz da consciencia dentro de si. Os pen- samentos que Deus, por Sua Pala- vra, expressou no mundo seriam incompreensiveis ao homem se ele nao fosse em si mesmo urn ser pensante. E da mesma forma are- velac;:ao de Deus em todas as obras das suas rnaos seriam totalmente ininteligiveis ao homem se Deus nao tivesse plantado em sua alma urna inextinguivel noc;:ao de Sua 44 existencia e de Seu ser. 0 fato indisputavel, todavia, e que Deus acrescentou a Si mesmo arevela- c;:ao externa na natureza e areve- lac;:ao interna no homem. As inves- tigac;:oes hist6ricas e psicol6gicas da religiao revelam repetidamen- te que a religiao nao pode ser explicada a nao ser sobre a base de uma noc;:ao nao criada pelo ho- rnem. Ao firn de seu estudo os pesquisadores sempre retornam a proposic;:ao que eles repudiavam desde o inicio, a de que o homem e, no fundo, uma criatura religio- sa. A Escritura nao deixa qual- quer duvida sobre isso. Depois de Deus ter feito todas as coisas Ele criou o homem, e criou-o aSua imagern e sernelhanc;:a (Gn 1.26). 0 homem egerac;:ao de Deus (At 17.28). Embora, como o filho per- dido da parabola, o homem tenha fugido de sua casa paternal, rnes- mo em seus mais distantes afasta- rnentos ele acalenta uma memo- ria de sua origem e finalidade. Em sua mais profunda queda ele ain- da conserva certos resquicios da imagem de Deus segundo a qual ele foi feito. Deus se revela fora do homem; Ele se revela tarnbem dentro do homem. Ele nao deixa o corac;:ao e a consciencia humana sem testemunho de si mesmo. Essa revelac;:ao de Deus nao deve ser considerada como uma segunda revela<;ao, suplemen- tando a primeira. Ela nao e urna
  • 45.
    A REVELA<;:Ao GERAL fonte de conhecimento indepen- dente da primeira. Ela e uma ca- pacidade, uma sensibilidade, uma direc;:ao para encontrar Deus em Suas obras e entender Sua revela- c;:ao. Euma consciencia do divino em n6s que nos torna capazes de ver o divino fora de n6s mesmos, assim como o olho nos torna ca- pazes de detectar luz e cor, e o ouvido nos habilita a perceber os sons. Trata-se, como disse Calvina, de urn senso de divindade, ou, como Paulo o descreveu, de uma habilidade para ver as coisas invi- siveis de Deus, isto e, Seu eterno poder e dominio, nas coisas visi- veis da criac;:ao. Quando n6s tentamos anali- sar esse senso de divindade nao criado pelo homem, descobrimos que ele consiste de dois elementos. Em primeiro lugar, o senso de de- pendencia absoluta e caracteristi- co dele. Por baixo de nossa mente e vontade, por baixo de nosso pen- samento e ac;:ao, haem n6s uma auto consciencia que e interde- pendente com nossa propria exis- tencia e parece coincidir com ela. Antes de pensarmos, antes de de- sejarmos, n6s somos, n6s existi- mos. N6s existimos de uma forma definida, e em unidade indissoluvel com essa existencia n6s temos uma nor;fio de existencia e uma nor;fio de existirmos como somos. Eo nucleo dessa identificac;:ao de auto exis- tencia e auto consciencia eo senti- menta de dependencia. No mais 45 profunda de nosso ser n6s somos, sem auxilio da razao e anterior a razao, conscientes de n6s mesmos como seres criados, limitados e de- pendentes. N6s somos dependen- tes de tudo ao nosso redor, de tudo no mundo espiritual e mate- rial. 0 homem e urn dependente do universo. Alem disso ele e de- pendente, junto com outras coisas criadas, e de uma forma absoluta, de Deus, que eo unico ser eterno e verdadeiro. Mas esse senso de divinda- de tern mais urn elemento consti- tuinte. Se o ser cujo poder causou esse sentimento permanecer total- mente indefinido, entao esse seria urn sentimento que conduziria o homem a uma revolta impotente ou a uma resignac;:ao est6ica, pas- siva. Mas esse senso de divinda- de tern em si urn senso da nature- za daquele ser de quem o homem se sente dependente. Eurn senso do mais elevado e absoluto poder, mas nao de uma forc;:a cega, irra- cional, imperturbavel e impassiva, equivalente ao destino ou a necessidade. Mais do que isso, e urn senso de uma forc;:a suprema, que e tambem perfeitamente justa, sabia e boa. Eurn senso de urn poder eterno, mas tambern de dominio, ou seja, absoluta perfei- c;:ao de Deus. Portanto, esse senti- menta de dependencia nao impli- ca em desanimo e desespero em nossa fraqueza, mas impele o ho- mem areligiao, a servir e honrar
  • 46.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista a Deus. Em outras palavras, a de- pendencia da qual 0 homem e consciente e urn tipo muito espe- cial de consciencia do ser divino. Ela contem em si o elemento de liberdade. Essa nao e a dependen- 46 cia de urn escravo, mas de urn fi- lho, embora seja de urn filho per- dido. Esse senso de divindade, portanto, como disse Calvino, e a semente da religiao.
  • 47.
    CAPITULO ~ 0 VALOR DAREVELA<;Ao GERAL A o determinarmos o valor da revelac;ao geral corre- mos o risco tanto de superestima-la quanto de subestima-la. Quando n6s nos concentramos detidamente sobre as riquezas da Grac;a com a qual Deus nos deu Sua revelac;ao espe- cial, n6s costumamos ficar tao en- cantados com ela que a revelac;ao geral acaba perdendo seu signifi- cado e merito para n6s. Por outro lado, quando refletimos sobre a bondade, a verdade e a beleza que ha na revelac;ao geral de Deus na natureza e na hist6ria da humani- dade, pode acontecer que a Gra- c;a especial, manifesta a n6s na pessoa e obra de Cristo, perca sua gloria e apelo aos olhos da alma. Esse perigo de extraviar-se para a esquerda ou para a direita sempre existiu na igreja Crista, e vez por outra a revelac;ao geral e a revelac;ao especial sao ignoradas 47 ou negadas. Cada uma por sua vez tern sido negada na teoria e nao menos fortemente na pratica. No presente a tentac;ao de se fa- zer injustic;a arevelac;ao geral nao etao forte quanto foi no passado. Muito mais forte, contudo, eaten- tac;ao, que se aproxima por todos os lados, de reduzir a revelac;ao especial aos mais estreitos limi- tes, por exemplo, a pessoa de Cristo, ou pior ainda, negar tudo e fazer da pessoa de Cristo uma parte da revelac;ao geral. N6s temos que estar atentos a essas duas tendencias; e n6s se- remos mais prudentes se, aluz da Sagrada Escritura, considerarmos a hist6ria da humanidade e dei- xarmos que ela nos ensine o que OS povos devern a revelac;ao ge- ral. Isso deixara claro para n6s que, possuindo a luz dessa reve- lac;ao, os homens tern realizado grandes empreendimentos, em-
  • 48.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista bora seu conhecimento e habilida- de em outras areas encontre limi- tes intransponiveis. Quando o primeiro homem e a primeira mulher transgredi- ram a ordem de Deus no paraiso sua puni<;ao nao foi imediata e nem foi aplicada com total inten- sidade. Eles nao morreram no mesmo instante em que pecaram, mas permaneceram vivos; eles nao foram enviados para o infer- no, mas receberam uma missao para cumprir na terra; sua linha- gem nao pereceu: eles receberam a promessa da semente da mu- lher. Em resumo, podemos dizer que com o primeiro pecado hou- ve o surgimento de uma condi<;ao que Deus fixou, mas que o homem nao era capaz de prever. Essa con- di<;ao possui urn carater muito especial. Enela que c6lera e Gra- <;:a, puni<;:ao e ben<;:ao, julgamento e longanimidade estao mesclados uns com os outros. Essa e a con- di<;ao que ainda existe na nature- za e entre os homens e que abran- ge os mais bern delineados con- trastes. N6s vivemos em urn mun- do estranho, urn mundo que nos apresenta tremendos contrastes. 0 alto eo baixo, o grandee ope- queno, o sublime e o ridiculo, o bonito eo feio, o tragico eo c6mi- co, o berne o maC a verdade e a mentira; tudo isso e encontrado em urn inter-relacionamento in- sondavel. A seriedade e a vaida- 48 de da vida se agarram a n6s. Em urn momento n6s estamos incli- nados ao otimismo, e no momen- to seguinte ao pessimismo. 0 ho- mem que chora esta constante- mente dando motivos ao homem que ri. 0 mundo todo conserva o born humor, que poderia ser me- lhor descrito como urn sorriso entre lagrimas. A causa mais profunda des- se presente estado do mundo e essa: por causa do pecado do ho- mem Deus esta constantemente manifestando Sua ira e, ao mes- mo tempo, movido pelo Seu pro- prio prazer, revelando tambem Sua Gra<;:a. N6s somos consumi- dos pela Sua ira e saciados com a Sua benignidade (Sl90. 7)4). Nao passa de urn momento a Sua ira; o Seu favor dura a vida inteira. Ao anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria vern pela manha (Sl30.5). A maldic,;ao e a benc,;ao sao tao sin- gularmente interdependentes que as vezes uma parece transfor- mar-se em outra. Trabalhar no suor do rosto e maldi<;ao e tam- bern e benc,;ao. Tanto a maldic,;ao quanta a benc,;ao apontam para a cruz, que e ao mesmo tempo 0 mais alto julgamento e a Grac,;a mais rica. Isso acontece porque a cruz e o centro da hist6ria e a re- concilia<;ao de todas as antiteses. Essa condi<;ao teve inicio imediatamente depois da queda e, durante o primeiro periodo, isto e, ate a chamada de Abraao,
  • 49.
    0 VALOR DAREVELA<;:Ao GERAL ela teve uma caracteristica muito especial. Os onze primeiros capi- tulos de Genesis sao extremamen- te importantes: Eles constituem o ponto de partida e a funda<;ao de toda a hist6ria do mundo. * * * * * Devemos atentar imediata- mente para o fato de que a reve- la<;ao geral e a revela<;ao especial, apesar de distintas, nao ficam iso- ladas uma ao lado da outra, mas estao em constante inter-relacio- namento, e que ambas sao direcionadas as mesmas pessoas, isto e, a ra<;a humana. A revela<;ao especial nao foi dada a urn peque- no grupo de pessoas nem restrita a urn determinado povo, mas dis- tribuida a todos os seres huma- nos. A cria<;ao do mundo, a for- ma<;ao do homem, a hist6ria do paraiso e da queda, a puni<;ao pelo pecado e 0 primeiro anun- cio da Gra<;a de Deus (Gn 3.15), tanto quanto o culto publico (Gn 4.26), o inicio da cultura (Gn 4.17), o diluvio, a constru<;ao da torre de Babel - tudo isso sao tesouros que a ra<;a humana tern carrega- do ao longo de sua hist6ria como parte de seu equipamento em sua jornada pelo mundo. Portanto, nao ede estranhar que relatos des- ses eventos, mesmo que seja em formas distorcidas, tenham surgi- do entre varios povos da terra. A hist6ria da humanidade tern urn 49 come<;o comum, e esta edificada sobre uma ampla base comum. Todavia, apesar dessa uni- dade e desse passado em comurn, uma divisao logo se desenvolveu entre os homens. A causa dessa divisao foi a religiao, o relaciona- mento entre o homem e Deus. 0 culto ao Senhor ainda era muito simples. Nao havia possibilidade de realizar-se urn culto publico como n6s o conhecemos porque a ra<;a humana consistia apenas de umas poucas familias. Contudo o culto a Deus existia desde o co- me<;o sob a forma de sacrificios e ora<;oes, apresenta<;ao de ofertas e a consagra<;ao a Deus do melhor que havia (Gn 4.3,4). A Escritura nao nos fala como esses sacrifici- os eram oferecidos, e a interpre- ta<;ao dos eruditos sobre a origem dos sacrificios e muito diver- sificada em nossos dias. Mas fica claro que aqueles primeiros sacri- ficios tiveram origem no senso de dependencia de Deus e de grati- dao a Ele, e que eles eram de ca- rater simb6lico. Seu objetivo era expressar a consagra<;ao humana e sua entrega a Deus. A questao nao era propriamente a oferta, mas a disposi<;ao do ofertante ex- pressa na oferta. Tanto quanto a disposi<;ao quanto a oferta, Abel trouxe urn sacrificio melhor do que ode Cairn (Hb 11.4), e foi re- compensado com o favor do Se- nhor. Mas desde o come<;o havia divisao entre os filhos de Adao,
  • 50.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista uma divisao entre o justo e o impio, entre o martir eo carrasco, entre a igreja e o mundo. E, ape- sar de Cairn ter cometido o assas- sinato, Deus ter tornado conta dele, procurando-o e admoestan- do-o a conversao e sendo-lhe mais favoravel em vez de condena-lo (Gn 4.9-16), a ferida ainda nao es- tava cicatrizada. A divisao se ex- pandiu e culminou com a separa- s;:ao entre os descendentes de Cairn e os descendentes de Sete. * * * * * No cia dos filhos de Cairn a incredulidade e a apostasia au- mentavam aos saltos e de geras;:ao em geras;:ao. E verdade que eles nao chegaram ao ponto da idola- tria e do culto a imagens; a Escri- tura nao menciona a existencia dessas perversoes entre os ho- mens antes do diluvio. Essas for- mas de falsa religiao nao sao ori- ginais, mas o produto de urn de- senvolvimento posterior, e sao uma evidencia do senso religio- so que os descendentes de Cairn abrigavam em seu coras;:ao. Os descendentes de Cairn nao se en- tregaram asuperstis;:ao, mas tam- bern nao creram. Eles chegaram ao ponto de negar a existencia e a revela<;;ao de Deus nao na teoria, mas na pratica. Eles viveram como se Deus nao existisse; eles comi- am e bebiam, casavam-se e da- vam-se em casamento, ate que 50 veio o diluvio e os levou a todos. Assim sera a vinda do Filho do Homem (Mt24.37-39). Alegrando- se em sua longa vida que as ve- zes durava centenas de anos (Gn 5.3 ss.), possuindo ricas posses e uma for<;;a flsica titanica e osten- tando o poder de sua espada (Gn 4.23)4), eles pensavam que a for- <;;a de seu proprio bra<;;o poderia salva-los. Nas gera<;;6es de Sete, o co- nhecimento de Deus e o culto a Deus foram preservados de forma pura, por longo tempo. De fato, n6s lemos que nos dias de seu fi- lho Enos os homens comes;:aram a invocar o nome do Senhor (Gn 4.26). Isso nao significa que o ho- mem comes;:ou a cultuar a Deus com sacrificios e ora<;;oes nessa epoca, pois isso era ja feito antes. N6s lemos sobre sacrificios em conexao com Cairn e Abet e ape- sar de nada ser dito sobre ora<;oes, nao ha duvida de que elas faziam parte do culto a Deus desde o ini- cio, pois sem a ora<;;ao nenhum culto a Deus e concebivel. Alem disso, o oferecimento do sacrifi- cio e em si mesmo uma ora<;;ao materializada, e ele sempre e em todos os lugares foi acompanha- do pela ora<;;ao. A expressao usa- cia em Genesis 4.26 nao significa que o homem comec;ou a chamar Deus de Senhor, pois indepen- dente da questao de se o nome de Deus ja era conhecido, a natureza de Deus expressa nesse nome s6
  • 51.
    0 VALOR DAREVELA<;:AO GERAL foi revelada pelo Senhor muito depois, a Moises (Ex 3.14). 0 sig- nificado mais provavel dessa in- voca<;ao ao nome do Senhor e que nessa epoca os filhos de Sete se separaram dos filhos de Cairn, formando urn grupo, organizan- do reunioes publicas para a con- fissao do nome do Senhor, nas quais eles, publicamente e uni- dos, em distin<;ao aos descenden- tes de Cairn, davam testemunho de sua lealdade no culto ao Se- nhor. Suas ora<;oes e ofertas nao foram feitas apenas individual- mente por muito tempo. Elas se tornaram a expressao de urn tes- temunho unificado. Na mesma propor<;ao em que os filhos de Cairn se entregaram ao culto do mundo e procuraram nele a sua salva<;ao, os filhos de Sete se en- tregaram a Deus e invocaram o Seu nome em ora<;;ao e gratidao, em prega<;ao e confissao, no meio de uma gera<;ao perversa. Atraves dessa prega<;ao pu- blica uma chamada ao arrependi- mento era continuamente estendi- da aos filhos de Cairn. Todavia os descendentes de Sete come<;aram a se misturar como mundo, o que provocou uma decadencia religi- osa e moral entre eles. 0 neto de Enos foi chamado Maalaleel, que significa "o prazer de Deus" (Gn 3.13). Enoque andou com Deus (Gn 5.22). Lameque, na epoca do nascimento de Noe, expressou sua esperan<;a de que seu filho lhe tra- 51 ria conforto do trabalho penoso de suas maos, por causa da terra que o Senhor tinha amaldi<;;oado (Gn 5.29). E finalmente Noe se tornou urn pregador da justi<;;a (1Pe 2.5) e pregou aos seus contemporane- os o Evangelho da justi<;;a atraves do Espirito de Cristo (1Pe 3.19,20). Mas santos como esses, eram cada vez mais raros. Os des- cendentes de Sete e os descenden- tes de Cairn se misturaram atra- ves do Casamento e geraram filhos que superaram as gera<;;oes ante- rimes em destreza fisica (Gn 6.4). A corrup<;;ao da especie humana era implacavel, a imagina<;;ao do cora<;ao dos homens era rna des- de a sua mocidade, e a terra en- cheu-se da violencia deles (Gn 6.5,12,13; 8.21). Apesar de Deus em Sua longanimidade ter conce- dido o adiamento de cento e vin- te anos (Gn 6.3; 1Pe 3.20) e apesar da prega<;;ao de Noe ter apontado para uma via de escape, a antiga ra<;;a humana afastou-se da finali- dade para a qual tinha sido cria- da e pereceu nas aguas do dilu- vio. * * * * * Depois desse terrivel julga- mento, no qual Noe e sua familia foram poupados, teve inicio uma epoca muito diferente daquela que tinha existido antes do dilu- vio. 0 diluvio, como a Escritura registra, foi urn evento unico na
  • 52.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista hist6ria da humanidade e tera seu paralelo somente na conflagra<;ao mundial dos ultimos dias (Gn 8.21ss.). Esse diluvio e como urn batismo que condena o mundo e resgata os crentes (1Pe 3.19,20). A nova dispensa<;ao foi introduzida pela conclusao de urn pacto. Quando, depois do di- luvio, Noe constr6i urn altar e ofe- rece sacrificios a Deus sobre ele, expressando dessa forma a grati- dao e o louvor de seu cora<;ao, entao o Senhor diz a Si mesmo que nunca tornara a enviar urn juizo como esse sobre a terra e que in- troduzira uma ordem fixa para o curso da natureza. A considera<;ao para essa ocasiao e que o desig- nio intimo do homem e mau des- de a sua mocidade (Gn 8.21). Es- sas palavras sao muito parecidas e ao mesmo tempo muito diferen- tes daquelas de Genesis 6.5 onde n6s lemos que era continuamen- te mau todo o designio do cora- c;:ao do homem. As palavras usa- das em Genesis 6.5 referem-se a condenar;ao da terra, e as usadas em Genesis 8.21 referem-se asua preservar;ao. No primeiro caso a enfase cai sobre os atos maus nos quais a corrup<;ao do cora<;ao da antiga ra<;a humana encontrava expressao; no segundo caso a en- fase esta sobre a natureza rna, que continua no homem, mesmo de- pois do diluvio. Parece, portanto, que o Se- nhor nessas ultimas palavras de- 52 seja dizer que Ele sabe o que es- perar de Suas criaturas se Ele as abandonar aos seus pr6prios de- feitos. 0 corac;:ao do homem, que sempre permanece o mesmo, ex- plode em todos os tipos de horri- veis pecados, constantemente pro- vocando a ira de Deus e dando- lhe motivo para destruir o mun- do outra vez. E isso Ele nao quer fazer. Portanto, Ele agora estabe- lece leis fixas para o homem e para a natureza, prescreve urn curso estavel para os dois, atraves dos quais Ele pode limita-los e cerca-los. Tudo isso acontece no pacto que Deus estabelece com Sua criac;:ao depois do diluvio, e que e por isso chamado de pacto da natureza. Everdade que, em urn sen- tido amplo, esse pacto nasceu da Gra<;a de Deus. Ao mesmo tempo ele difere em principia daquele que e geralmente chamado de pacto da Gra<;a e e firmado com a Igreja de Cristo, pois esse pacto da natureza repousa sobre a con- siderac;:ao de que o corac;:ao do homem e mau e permanece mau desde a sua mocidade, em dian- te. Ele tern como seu conteudo a restaura<;ao da ben<;ao, dada na criac;:ao, de multiplicar-se e domi- nar os animais (Gn 9.1-3,7), e urn mandamento contra o assassina- to (Gn 9.5,6). Esse pacto foi firma- do com Noe, o ancestral da segun- da ra<;a humana, e tambem com toda a cria<;ao, animada e inani-
  • 53.
    0 VALOR DAREVELA<;:AO GERAL mada (Gn 9.9 ss.). Esse pacto e selado com uma manifesta~ao natural, o arco-iris (Gn 9.12 ss.) e seu prop6sito eevitar urn segun- do julgamento como o diluvio, e garantir a continuidade da exis- tencia da ra~a humana e do mun- do (Gn 8.21,22; 9.14-16). * * * * * Dessa forma a existencia do homem e do mundo passa a des- cansar sobre uma base firme. Essa base nada mais eque o ato da cria~ao e a lei da cria~ao; esse emais urn ato do favor e da longanimidade de Deus. Nao e pela razao de suas ordenan~as da cria~ao que Deus e obrigado a conceder ao homem sua vida e existencia, mas pelo pacto no qual Ele se obriga a manter a Sua cria- ~ao a despeito de sua queda e re- beliao. Pelos termos desse pacto Deus se obriga a sustentar o mun- do e sua vida. Nesse pacto Ele deu Seu nome e Sua honra, Sua verdade e Sua credibilidade, Sua palavra e Sua promessa as Suas criaturas como penhor da conti- nua~ao de sua existencia. Osman- damentos que governam o ho- mem eo mundo sao, todavia, fir- memente estabelecidos no pacto de Gra~a feito com toda a nature- za2. Esse pacto da natureza cha- rna a existencia uma ordem com- pletamente diferente de assuntos que nao existiam antes do dilu- vio. As tremendas for~as naturais que antigamente operavam e que estiveram em a~ao durante o pro- prio diluvio foram refreadas. Os terriveis monstros que havia en- tre as demais criaturas antes do diluvio agora estao mortos. As tremendas catastrofes que antiga- mente faziam tremer todo o cos- mos deram lugar a urn curso re- gular de eventos. A dura~ao da vida humana foi encurtada, a for- ~a do homem foi reduzida, sua natureza foi suavizada, ele foi habilitado a cumprir as exigenci- as de uma sociedade e colocado sob disciplina e governo. Por esse pacto limites e restri~oes foram impastos ao homem e a natureza. Leis e ordenan~as apareceram em todos os lugares. Foram criados barragens e diques para segurar o fluxo de iniquidades. Ordem, medida e numero passaram a ser caracteristicas da cria~ao. Deus refreou o animal selvagem no ho- mem e deu-lhe a oportunidade de desenvolver suas habilidades e energias na arte e na ciencia, no estado e na sociedade, no traba- lho e na voca~ao. Dessa forma Deus forneceu as condi~oes neces- sarias para viabilizar a hist6ria. * * * * * Gn 8.21)2; ]614.5,6; 26.10; S/119.90,91; 148.6; Is 28.24 ss.; Jr 5.24; 31.35,36; 33.20,25. 53
  • 54.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Mais uma vez, contudo, essa hist6ria e interrompida pela inter- venc;ao da mao de Deus na confu- sao de linguas em Babel. Depois do diluvio a rac;a humana viveu primeiramente na regiao de Ararate, nas montanhas da Armenia, e ali Noe tornou-se la- vrador (Gn 9.20). Como as pesso- as aumentaram em numero, uma parte delas se espalhou pelas margens dos rios Tigre e Eufrates, a leste do Ararate, e assim chegou as planicies de Sinear ou Mesopotamia (Gn 11.2). Ali eles criaram colonias e muito cedo, como cresceram em riqueza e po- der, fizeram planos de construir uma grande torre para fazer cele- bre o seu nome e evitar a disper- sao do grupo. Em desobediencia aordem de Deus de multiplicar e dominar toda a terra, eles tenta- ram criar urn grande centro para manter a unidade e reunir toda a humanidade em urn reino mun- dial que encontraria sua susten- tac;ao na fore;a e na glorificac;ao do prop6sito e do esforc;o humano. Pela primeira vez na hist6ria sur- ge a ideia de concentrac;ao e orga- nizac;ao de toda a humanidade com toda a sua forc;a e sabedoria, com toda a sua arte, ciencia e cul- tura, contra Deus e Seu reino. Essa ideia foi ventilada varias vezes depois dos eventos de Babel, e sua realizac;ao tern sido o objetivo de todos os tipos de grandes homens no curso da hist6ria. 54 Isso tornou necessaria a in- tervenc;ao de Deus, fazendo com que todo o esforc;o para o estabe- lecimento de urn imperio mundi- al fosse infrutifero. Deus fez isso pela confusao das linguas, pois nessa epoca havia apenas uma lin- guagem. N6s nao somos informa- dos sobre como e em que perio- do de tempo essa confusao acon- teceu. 0 que aconteceu foi que pessoas fisiol6gica e psicologica- mente diferentes umas das outras comec;aram a ver e a dar nome as coisas diferentemente, e em con- sequencia eles foram divididos em nac;oes e povos, e se dispersa- ram em todas as direc;oes sobre toda a terra. Devemos nos lembrar que essa confusao de linguas foi preparada pela separac;ao em tri- bos e familias dos descendentes dos filhos de Noe (Gn 10.1 ss.) e pela migrac;ao desses descenden- tes da Armenia para a terra de Sinear (Gn 11.2). Toda a ideia de uma torre de Babel nao teria sur- gido se a ameac;a de dispersao nao tivesse se apresentado de for- ma seria por longo tempo. Dessa forma, a Escritura ex- plica o surgimento de nac;oes e povos, e de linguas e dialetos. De fato, a surpreendente divisao da ras;a humana e urn fato singular e inexplicavel. Pessoas que tiveram os mesmos antepassados, o mes- mo espirito e a mesma alma, com- partilham a mesma carne e o mes- mo sangue, comec;aram a se tra-
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    0 VALOR DAREVELA<;:Ao GERAL tar como estranhos. Eles nao en- tendiam uns aos outros e nao po- diam comunicar-se uns com os outros. Alem disso, a especie hu- mana e dividida em rac;as que dis- putam sua existencia umas com as outras, estao determinadas a se destruirem urnas as outras e vi- vern, entra seculo e sai seculo, em fria ou declarada guerra. Instinto racial, senso de nacionalidade, inimizade e 6dio, essas sao as for- c;as da divisao entre os povos. Essa e uma surpreendente punic;ao e urn juizo terrivet e nao pode ser desfeita por qualquer cosmopo- litismo ou liga de paz, nem por uma lingua universat nem por qualquer estado mundial ou cul- tura internacional. Se algum dia houver nova- mente unidade entre os seres hu- manos, ela nao sera devida a qual- quer reuniao externa e mecanica em torno de uma torre de Babet mas uma reuniao sob urn mesmo Cabec;a (Ef 1.10), pela criac;ao pa- cifica de todas as pessoas em urn novo homem (Ef 2.15), pela rege- nerac;ao e renovac;ao atraves do Espirito Santo (At 2.6), e pelo an- dar de todas as pessoas sob a mesma luz (Ap 21.24). A unidade da rac;a humana que s6 pode ser restaurada por uma operac;ao interna, comec;an- do de dentro para fora, e, portan- to, uma unidade que na operac;ao interna daquela primeira divisao de linguas era basicamente atra- 55 palhada. A unidade espuria esta- va tao radicalmente organizada que pouco poderia ser feito pela verdadeira unidade. 0 estado mundial foi destruido quando o reino de Deus foi introduzido na terra. Portanto, desse tempo em diante as nac;oes foram separadas e dispersas pela face da terra. E de todas essas nac;oes Israel foi escolhida para ser a portadora da revelac;ao de Deus. A revelac;ao geral e a especiat inter-relaciona- das ate agora, sao momentanea- mente separadas para se encontra- rem novamente aos pes da cruz. Israel e separado para andar nos caminhos e mandamentos de Deus, e o Senhor deixa as outras nac;oes seguirem seus pr6prios caminhos (At 14.16). * * * * * E claro que n6s nao pode- mos interpretar isso de tal forma que parec;a Deus nao se importar com todas essas nac;oes e que as tenha abandonado a sua propria sorte. Tal pensamento e em si mesmo irracionaL pois Deus e 0 Criador, o Mantenedor e Gover- nador de todas as coisas, e nada existe ou acontece sem Seu poder infinito e onipresente. Alem disso, a Escritura fala repetidamente de algo completa- mente oposto a negligencia de Deus aos outros povos. Quando o Altissimo distribuia as heranc;as
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista as nac;:oes, quando separava OS fi- lhos dos homens uns dos outros, fixou os limites dos povos, segun- do o numero dos filhos de Israel (Dt 32.8). Na repartic;:ao da terra, Deus deu a Israel urn territ6rio que correspondia ao numero de israelitas; mas Ele tambem deu as outras nac;:oes a sua heranc;:a e fi- xou suas fronteiras. Ele de urn s6 fez toda a rac;:a humana para habi- tar sobre toda a face da terra, pois Ele nao a criou para ser urn caos, mas para ser habitada (Is 45.18). Consequentemente Ele tambem trac;:ou os tempos que tinham sido previamente fixados para a dura- c;:ao dos varios povos e das fron- teiras por eles habitadas. A dura- c;:ao da vida e o lugar da morada das nac;:oes foram determinadas pelo Seu conselho e fixadas pela Sua providencia (At 17.26). Embora nos tempos passa- dos Ele tenha permitido que to- dos os povos andassem em seus pr6prios caminhos, Ele nao os deixou sem testemunho de Si mesmo, fazendo o bern, dando do ceu chuvas e estac;:oes frutlferas, enchendo o corac;:ao deles de far- tura e de alegria (At 14.16,17). Ele faz nascer o sol sabre maus e bons, e vir chuvas sabre justos e injustos (Mt 5.45). Atraves dessa revelac;:ao na natureza e na hist6- ria Ele fez ouvir Sua voz no cora- c;ao e na consciencia de todos (Sl 19.1). A todos os homens Deus manifestou Seus atributos invisi- 56 veis por meio das coisas que fo- ram criadas, isto e, Seu poder eter- no e Sua divindade (Rm 1.19,20). Embora as nac;:oes pagas nao te- nham recebido a lei como Israel a recebeu, e em urn sentido concre- to eles nao possuam lei, eles de- monstram por aquilo que fazem que sao dirigidos pela lei de sua natureza moral, servindo de lei para si mesmos, e tendo a lei gra- vada em seu corac;:ao. E isso e con- firmado pelo testemunho de sua propria consciencia e de seus pen- samentos, acusando-se ou defen- dendo-se (Rm 2.14,15). Portanto, o sensa religioso e moral dos gentios prova que Deus continuou a se importar com eles. Pelo Verbo que estava no comec;:o com Deus e que era Deus, todas as coisas foram feitas, e a vida e a luz dos homens estava no Verbo; o ser, a consciencia eo en- tendimento dos gentios sao devi- dos a esse Verbo, nao somente em seu ponto de origem, mas tam- bern pelo sustento que recebem do Verbo de Deus, pois Ele e nao apenas o Criador de todas as coi- sas, mas tambem o Mantenedor e o Governador de tudo o que ha no mundo. Assim como Ele deu aos homens a vida, atraves da consciencia, razao e entendimen- to Ele iluminou todas as pessoas do mundo (Jo 1.3-10). * * * * *
  • 57.
    0 VALOR DAREVELA<;:Ao G ERAL A hist6ria sela o testemunho da Escritura. No cla dos descen- dentes de Cairn todos os tipos de inven<;6es e iniciativas vieram a florescer logo depois da queda (Gn 4.17 ss.), eo povo que se diri- giu para as planicies de Sinear logo depois do diluvio alcan<;ou rapidamente urn elevado nivel cultural. De acordo com Genesis 10.8, Ninrode, urn filho de Cuxe, filho de Cam, foi o fundador do reino de Babel. A Escritura fala dele como de urn ca<;ador pode- roso diante do Senhor, pois com sua for<;a fisica incomum ele des- truia as £eras predat6rias, fez da planicie de Sinear urn local segu- ro para habita<;ao e levou o povo a estabelecer nessa regiao a sua habita<;ao. Dessa forma ele cons- truiu varias cidades: Babel, Ereque, Acade e Calne, todas na planicie de Sinear. E dali ele pe- netrou na terra da Assiria e fun- dou as cidades de Ninive, Reobote-Ir, Cala e Resem. De acordo com as Escrituras, portanto, os mais antigos habitan- tes de Sinear nao foram OS Semitas, mas OS Camitas, e a recente den- cia da Assiriologia, que se ocupa com os escritos cuneiformes en- contrados na Assiria, confirma essa informa<;ao, visto que ensina que Sinear foi ocupada original- mente por uma tribo de Sumerios que nao pode ser considerada como uma parte dos Semitas. 0 que aconteceu foi que essa antiga 57 popula<;ao de Sinear foi posteri- ormente invadida por uma migra- <;ao de Semitas. Esses entao con- servaram sua propria linguagem, mas assimilaram a cultura dos Sumerios e se misturaram com eles, formando o povo Caldeu. Especificamente o elemento Semita era dominante quando Hamurabi, o rei de Babel, talvez o mesmo Anrafel de Genesis 14.1, elevou Babel ao status de capital e subjugou toda a planicie de Sinear. 0 capitulo 10 de Genesis expressa o mesmo pensamento, pois, embora no versiculo 11 n6s leiamos que Ninrode, o Camita, tenha ido para a terra da Assiria e fundado cidades ali, o versiculo 22 nos fala que Assur, isto e, o povo que vivia na Assiria, esta relacionado com Arfaxade, Lude e Ara, ou seja, estava entre os po- vos de Sem. A qualidade da civiliza<;ao que n6s encontramos na terra de Sinear, tanto em sua ciencia e arte, quanto em sua moralidade e ju- risprudencia, em seu comercio e em sua industria, e tao desenvol- vida e avan<;ada que a maioria dos objetos que encontramos nas es- cava<;6es nos enche de espanto. N6s nao sabemos exatamente como e quando essa civiliza<;ao floresceu, mas a ideia geral de que quanto mais antigos, mais gros- seiros e barbaros sao os povos que encontramos e totalmente desa- creditada por ela. Na medida em
  • 58.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista que nos divertimos com todos os tipos de noc;:oes fantasticas sobre os estados selvagens dos assim chamados povos primitives e, gui- ados pela hist6ria, tentamos pene- trar atraves do passado. Confir- mamos assim o relato da Escritu- ra de que o mais antigo periodo da civilizac;:ao depois de Noe, sob a lideranc;:a de homens como Ninrode, alcanc;:ou urn elevado nivel cultural. Alem disso, essa civilizac;:ao nao permaneceu confinada ater- ra de Sinear. Como a especie hu- mana se espalhou mais e mais depois da confusao das linguas, os povos se instalaram por todas as partes da terra. Dessa forma al- gumas tribos foram se afastando cada vez mais do centro de cultu- ra e civilizac;:ao, fixando suas resi- dencias em terras selvagens e hos- tis da Europa, Asia e Africa. Nao e de se admirar que essas tribos e povos, vivendo isoladamente, te- nham cortado todo o comercio com outras nac;:oes e,lutando sem- pre contra uma natureza selvagem e indisciplinada, tenham estagna- do seu desenvolvimento cultural ou, em alguns casos, tenham ate regredido. Nos estudos hist6ricos n6s nos referimos a esses povos como "povos primitives", mas tal designac;:ao e enganosa e incerta, pois entre todos esses povos n6s encontramos as caracteristicas e propriedades que sao os elemen- tos basicos da civilizac;:ao. Todos 58 eles sao Seres humanos distintos dos nao humanos; todos eles pos- suem consciencia e vontade, razao e entendimento, familia e comu- nidade, ferramentas e ornamen- tos. Outro ponto que deve ser considerado e que nao existem muitas diferenc;:as entre essas na- c;:oes que nos permitam distingui- las como civilizadas e nao civili- zadas. Ha uma diferenc;:a marcante entre a cultura dos aborigenes sul africanos, a populac;:ao da Polinesia e as rac;:as negr6ides. In- dependente disso, todavia, eles possuem urn fundo comum de ideias, tradic;:oes - relacionadas ao diluvio, por exemplo- mem6- rias e esperanc;:as. Isso aponta para uma origem comum. Isso acontece tambem com os assim chamados "povos civili- zados", como os hindus, os chi- neses, os fenicios e os egipcios. As fundac;:oes do pano de fundo mundiat o Weltanschauung, que n6s encontramos entre todos es- ses povos, sao os mesmos que chamaram nossa atenc;:ao nas es- cavac;:oes de Sinear. Essa e a ori- gem da cultura, o ber<;:o da rac;:a hurnana. Foi a partir da Asia cen- tral que a especie hurnana se es- palhou; e foi a partir desse centro cultural que ela adquiriu os ele- mentos culturais que sao comuns aos povos civilizados, e que cada um deles independentemente e de sua propria forma procurou
  • 59.
    0 VALOR DAREVELA<;:Ao GERAL desenvolver. A antiga cultura da Babilonia, com sua escrita, sua astronomia, sua matematica, seu calendario, e coisas semelhantes, e a base sobre a qual nossa cultu- ra foi construida. * * * * * Contudo, quando n6s revi- samos toda a hist6ria da civiliza- <;ao de urn ponto de vista religio- so-moral, n6s observamos urn profunda senso de insatisfa<;ao e desilusao. 0 ap6stolo Paulo dis- se que os gentios, conhecendo Deus atraves de Sua revela<;ao geral, nao o glorificaram como Deus e nem lhe deram gra<;as, an- tes tornaram-se nulos em seus pr6prios raciodnios, obscurecen- do-lhes o cora<;ao insensato. Incul- cando-se por sabios, tornaram-se loucos e mudaram a gloria do Deus incorruptivel em semelhan- <;a da imagem de homem corrup- tive!, bern como de aves, quadnipedes e repteis (Rm 1.21- 23). Uma investiga<;ao hist6rica imparcial das religi6es de varios povos nos conduz a mesma con- clusao. E possivel que alguem, com a ajuda de uma falsa filoso- fia, estude as varias formas de re- ligiao e encontre a essencia nebu- losa da religiao nos sentimentos do homem, e assim obscure<;a a seriedade da conclusao do ap6s- tolo Paulo. Mas o fato permanece o mesmo: a especie humana, ao 59 longo da hist6ria da civiliza<;ao, nao tern glorificado a Deus, nem tern sido grata a Ele. Ate mesmo entre os mais antigos habitantes das planfcies de Sinear n6s encontramos o cui- to a criatura e nao ao Criador. De acordo com alguns estudiosos, a ideia da base da religiao babilonica, assim como a base de outras religi6es, e a ideia da sin- gularidade de Deus, e nao ha du- vida de que tal concep<;ao da di- vindade deve ter existido antes mesmo da divindade ser aplica- da as criaturas. A religiao da Babilonia consistia na glorifica<;ao de todos os tipos de criaturas. Elas eram consideradas como deuses. Como ocorreu essa tran- si<;ao da glorifica<;ao do unico e verdadeiro Deus para a glorifica- <;ao de criaturas, n6s nao sabemos devido a £alta de dados hist6ricos. Contudo, sabemos que e im- provavel e arbitrario dizer que a religiao se desenvolveu a partir do polidemonismo (a glorifica<;ao de todos os tipos de almas e espi- ritos: fetichismo, animismo e totemismo) para a forma de politeismo (a glorifica<;ao de to- dos os tipos de coisas boas) ate chegar ao monoteismo (a glorifi- ca<;ao de urn unico Deus). Em lu- gar nenhum n6s vemos que tal de- senvolvimento tenha acontecido. Israel e a unica exce<;ao. 0 que a hist6ria nos ensina e que 0 ho- mem caiu da glorifica<;ao de urn
  • 60.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista unico Deus para a glorifica<;ao de varios deuses: n6s testemunha- mos isso na hist6ria de Israel, na hist6ria de muitas igrejas cristas e tambem na epoca em que vive- mos. Quando a cren<;a em urn s6 Deus e abandonada, todos as es- pecies de ideias politeistas e pra- ticas supersticiosas logo apare- cem. Alem disso, nao ha meios de se fazer diferen<;a entre a "alta" e a "baixa" religiao, entre a religiao dos assim chamados povos civi- lizados e nao civilizados, como geralmente se alega. As mesmas ideias e praticas, apenas com a for- ma modificada, sao observadas entre todos os povos pagaos; e essas ideias e praticas existem tambem nas chamadas na<;6es cristas. Com a decadencia do Cris- tianismo nos drculos modernos essas mesmas ideias e praticas sao agora revividas. Quais sao essas ideias e pra- ticas? Antes de mais nada, ha a idolatria eo culto a imagens. Isso existe entre todos os povos. A ido- latria e a coloca<;ao de qualquer coisa no lugar que pertence so- mente ao unico e verdadeiro Deus, ou ao lado dEle, e a coloca- <;ao da confian<;a nessa coisa. As vezes os idolos sao criaturas, o firmamento, por exemplo, como o sol, a lua e as estrelas, como na religiao babilonica, que e, portan- to, apropriadamente chamada de religiao astral; as vezes os idolos 60 sao her6is, genios ou grandes ho- mens, considerados como urn tipo de seres intermediaries, os medi- adores entre os deuses e os ho- mens, como acontece, por exem- plo, no culto dos gregos; as vezes eles sao ancestrais que, depois de sua morte, passaram para urn di- ferente e mais elevado estado de existencia, como na religiao chi- nesa, que glorifica seus patriarcas; algumas vezes esses id6latras substituem Deus por urn ou ou- tro animal, como urn crocodile, por exemplo, adorado no Egito; ou- para especificar mais urn tipo de idolatria - algumas vezes al- mas e espiritos sao considerados como inquilinos de algumas cria- turas animadas ou inanimadas, constituindo, assim, urn objeto de culto nas religioes de povos civi- lizados e nao civilizados. Independente da forma de idolatria considerada, ela sempre representa uma adora<;ao a cria- tura e nao ao Criador. A distin<;ao entre Deus e o mundo e perdida. A santidade de Deus, que e Sua distinc;:ao, e Sua absoluta trans- cendencia de toda criatura - foi isso que os gentios esqueceram. Em segundo lugar, todos os tipos de falsas ideias sobre o ho- mem eo mundo acompanham a idolatria. Entre os gentios, a reli- giao nao e algo independente, que se mantem por si mesma, mas esta intimamente relacionada com toda a vida do adorador, com o
  • 61.
    0 VALOR DAREVELA<;:AO GERAL estado e a sociedade, com a arte e a ciencia. Em lugar nenhum n6s encontramos uma religiao que consista meramente de atitudes e estados de espirito. A religiao, que e 0 relacionamento do ho- mem com Deus, governa todas as outras rela<;6es, e portanto impli- ca em uma visao definitiva do homem e do mundo, e da origem, essencia e prop6sito das coisas. As ideias religiosas que acompa- nham a cren<;a nos deuses sempre possui urn sentido no passado e no futuro. Ha reminiscencias do paraiso e expectativas futuras em todas as religioes, e ha ideias so- bre a origem eo futuro do homem e do mundo. Ha no<;6es de uma era dourada que existiu no come- <;o, seguida por epocas de prata, ferro, barro e ha no<;6es da imor- talidade do homem, da vida de- pois da morte, e do julgamento que no fim ocorrera para todos, e de uma diferen<;a de status entre o justo e o injusto, quando isso acontecer. Em muitas religi6es essas varias ideias recebem enfa- ses diferentes. A religiao chinesa olha para o passado e cultua seus ancestrais; a religiao egipcia olha- 'a para o futuro, preocupada com a morte, e era de fato uma religiao da morte. Mas em todas as religi- 6es, em umas mais, em outras menos, esses elementos sao en- contrados. Todas essas representa<;6es religiosas tern em comum o fato 61 de misturarem o componente da verdade com todo tipo de erro e loucura. A linha entre o Criador e a criatura foi apagada, e, portan- to, a fronteira entre o mundo e o homem, entre a alma e o corpo, entre o ceu eo inferno, em lugar nenhum tern sido posicionada corretamente. 0 fisico e o moral, o material e o espiritual, o terre- no eo celestial, tern sido confun- didos e misturados uns aos ou- tros. Na ausencia de urn senso de santidade de Deus ha a ausencia correspondente de urn senso de pecado. 0 mundo do paganismo nao conhece Deus, nao conhece o mundo e o homem, e nao conhe- ce o pecado e a miseria. Em terceiro lugar, todas as religi6es das na<;6es sao caracte- rizadas pelo esfor<;o de se alean- <;ar a salva<;ao pelo exercicio da for<;a humana. A idolatria natural- mente conduz a uma religiao antropocentrica. Quando o culto de urn unico Deus e abandonado, e nao ha uma revela<;ao hist6rica e objetiva a qual recorrer, o ho- mem tenta fazer com que os deu- ses ou espiritos que ele mesmo in- ventou se revelem. A idolatria e sempre acompanhada de supers- ti<;ao, predi<;6es e magia. Adivi- nha<;ao e o nome dado ao esfor<;o que alguem faz, por sua propria conta, ou com a ajuda de sacerdo- tes, adivinhos, oraculos divinos ou coisas semelhantes, e por meio da astrologia, da interpreta<;ao de
  • 62.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sonhos, e outras estratt~gias para conhecer a vontade dos deuses. Magia e o nome dado ao esfon;:o feito por meio de orac;oes formalisticas, sacrificios volunta- rios, flagelos e praticas similares para fazer com que a vontade dos deuses seja aplicavel a alguem. Naturalmente essas coisas tambem sao manifestas de formas variadas. Contudo elas estao sem- pre presentes nas religi6es e cons- tituem urn componente necessa- ria a religiao dos gentios. 0 ho- mem e a figura central e e ele quem procura obter sua salvac;ao. Em nenhuma dessas religi6es a real natureza da redenc;ao (recon- ciliac;ao) e da Grac;a sao compre- endidas. * * * * * Embora esse esboc;o sirva para caracterizar as religi6es pa- gas de forma geral, em muitas delas tern ocorrido modificac;6es que merecem nossa atenc;ao e con- siderac;ao. Quando por urn lado a religiao de urn povo perde seu carater em todos os tipos de for- mas de superstic;ao e adivinhac;ao grosseiras, e por outro lado a cul- tura ou civilizac;ao se desenvolve, urn conflito esta prestes a aconte- cer. E fora dessa divergencia, sem d uvida sob a providencia de Deus, ha aqueles homens que lu- tam por uma reconciliac;:ao e ten- tam tirar a religiao de sua profun- 62 da degenerac;ao. Urn desses ho- mens foi Zarathustra, que viveu na Persia provavelmente no seti- mo seculo antes de Cristo. Outro foi Confucio, na China, no sexto seculo antes de Cristo. Outro foi Buda, na India, no quinto seculo antes de Cristo e Maome, na Arabia, no setimo seculo depois de Cristo. Existiram muitos ou- tros, nem todos conhecidos pelo nome. Nao pode haver diferenc;a de opiniao sobre o fato de que a reli- giao fundada por esses homens e em muitos aspectos muito supe- rior as religi6es tribais nas quais eles foram criados. As hip6teses de evoluc;ao e de degenerac;ao apresentam-se, ambas, na religiao e em todas as outras areas da cul- tura, muito parciais e inadequa- das para prestar contas da pleni- tude de evidentes manifestac;oes em todas elas, ou pelo menos para prestar contas por meio de qualquer formulac;ao. Periodos de desenvolvimento e de decaden- cia, de avivamento e de recaida sao constantes na hist6ria de to- dos os povos e em todas as esfe- ras da vida. Alem disso, nao pode ser dito que esses homens foram em- busteiros, instrumentos ou agen- tes de Satanas. Eles foram homens serios e em sua propria alma lu- taram contra os conflitos que sur- giram na fe popular ou tribal e em suas pr6prias consciencias ilumi-
  • 63.
    0 VALOR DAREVELA<;:Ao G ERAL nadas. Pela luz que lhes foi con- cedida eles lutaram por uma for- ma melhor pela qual pudessem obter a verdadeira felicidade. Da mesma forma, embora seu merito deva ser reconhecido, essas reformas religiosas fizeram diferen<;a somente em grau, e nao no tipo de idolatria do povo. De fato, esses homens cortaram os galhos selvagens da arvore da fal- sa religiao. Mas eles nao a arran- caram. Zarathustra em sua prega- <;:ao real<;:ou o contraste entre o bern eo mal, mas admitiu esse contras- te como sendo nao simplesmente etico, mas primariamente fisico em seu carater. Portanto, ele foi fon;:ado a distinguir entre urn born Deus e urn mau Deus, e assim criou o dualismo que se estendeu a todas as coisas no mundo natu- ral, humano e animal, e que tern o efeito pratico de mutilar a vida. 0 confucionismo foi uma religiao do Estado, composta de outros elementos religiosos alem dos seus pr6prios e que combinou em si mesmo o culto aos deuses na- turais e aos ancestrais. 0 budis- mo, em seu inicio, nao foi uma religiao, mas uma filosofia que postulava o sofrimento como a fonte do male a existencia como a fonte do sofrimento e que, por- tanto, recomendava abstinencia, o entorpecimento da consciencia, e a aniquila<;ao do ser como forma 3e salva<;ao. E Maome, que co- :1hecia o cristianismo e o judais- 63 mo, e que por meio de sua arden- te fe em urn julgamento proximo que, como estava convencido, cer- tamente alcan<;aria seus contem- poraneos materialistas, chegou a confissao de urn unico Deus, ere- alizou uma reforma religiosa e moral. Mas em sua vida pessoal o pregador da religiao foi dando lugar a urn estadista e legislador, e a religiao que ele fundou nao promoveu a uniao entre Deus e o homem, pois ela nao entendia a causa da separa<;ao nem a forma de reconcilia<;ao. Para Maome a salva<;ao dos ceus consiste em uma total satisfa<;ao dos desejos sensua1s. * * * * * Quando, portanto, n6s pas- samos os olhos em todo o terreno da revela<;ao geral, descobrimos, por urn lado, que ela tern sido de grande valor e que tern produzi- do ricos frutos e, por outro lado, a especie humana nao encontrou Deus atraves dela. Egra<;as are- vela<;ao geral que algum senso re- ligioso e etico esta presente em todos OS homens; tambem, egra- <;as a ela que eles ainda possuem alguma consciencia de verdade e mentira, de bern e mal, de justi<;a e injusti<;a, de beleza e de feiura; que eles vivem em rela<;oes ma- trimoniais, em familia, em comu- nidade e Estado; que eles estao seguros pelo refreamento da de-
  • 64.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista genera<;ao e da bestialidade; que, dentro de seus limites, eles se ocu- pam com a produ<;ao, distribui- c;ao e o prazer de todos os tipos de bens materiais e espirituais. Em resumo, a especie humana pela revelac;ao geral e preservada em sua existencia, mantida em sua unidade e habilitada a conti- nuar e desenvolver sua hist6ria. Apesar disso, a verdade, como disse Paulo, e que na sabe- doria de Deus, o mundo nao o conheceu por sua propria sabedo- ria (1Co 1.21). A luz da revela<;ao geral o mundo acumulou um te- souro de sabedoria referente as coisas da vida terrena. Essa sabe- 64 doria do mundo faz com que ele seja indesculpavel, pois ela pro- va que nao carece a rac;a humana de tais dadivas de Deus, como mente e razao, habilidade racio- nal e moral. A sabedoria do ho- mem demonstra que ele, por cau- sa da escuridao de sua mente e do endurecimento de seu cora<;ao nao usou corretamente as dadivas que lhe foram dadas. A luz brilhou nas trevas, mas as trevas nao a compreende- ram (Jo 1.5). 0 Verbo estava no mundo, mas o mundo nao o co- nheceu (Jo 1.10). Em toda a sua sabedoria o mundo nao conheceu Deus (1Co 1.21).
  • 65.
    CAPITULO ~ A QuEsTAo DAREVELA<;Ao EsPECIAL A inadequa<;;ao da revela- <;;ao geral demonstra a ne- cessidade da revela<;;ao especial. Essa necessidade deve ser entendida corretamente. Ela nao significa que Deus foi obrigado ou fon;ado, seja internamente pela razao de Seu ser, seja externamen- te pelas circunstancias, a revelar- se de uma forma especial. Toda revela<;;ao, especialmente aquela que vern a n6s em Cristo, atraves das Escrituras, e urn ato da Gra<;;a de Deus, urn livre uso da Sua von- tade, e uma manifesta<;;ao de Seu imerecido favor. Portanto, n6s po- demos falar da necessidade ou da indispensabilidade da revela<;;ao especial somente no sentido de que tal revela<;;ao esta indis- soluvelmente conectada com o prop6sito que Deus em Si mesmo designou para Sua cria<;;ao. Se o prazer de Deus e restaurar a cria- 65 <;;ao devastada pelo pecado e re- criar o homem a Sua imagem e faze-lo viver definitivamente na eterna bem-aventuran<;;a dos ceus, entao uma revela<;;ao especial e necessaria. Para esse prop6sito a revela<;;ao geral e inadequada. Contudo, nao e esse prop6- sito o grande motivo que faz com que uma revela<;;ao especial seja necessaria, pois quando n6s ve- mos e reconhecemos a inade- qua<;;ao da revela<;;ao geral para esse destino do mundo e do ho- mem, n6s vemos tambem que devemos essa convic<;;ao arevela- <;;ao especial. Pela natureza n6s consideramos a n6s mesmos e nossas habilidades, o mundo e seus tesouros, suficientes para nossa salva<;;ao. As religioes pagas nao fogem a essa regra, pelo con- trario, confirmam-na. E verdade que todas elas falam de sacerdo- tes, videntes, oraculos e coisas
  • 66.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista semelhantes, e apelam a eles como guardiaes de uma revela- c;ao especial. Esse fato em si mes- mo e uma forte evidencia para a tese de que a revelac;ao geral e inadequada, e que todos sentem em seu corac;ao a necessidade de uma diferente e mais profunda revelac;:ao de Deus do que aquela que a natureza e a hist6ria podem dar. Mas essas revelac;:oes especi- ais, as quais o paganismo recorre claramente, demonstram tambem que o homem, que perdeu a ami- zade com Deus, nao pode enten- der Sua revelac;:ao na natureza e que por isso ele tateia procuran- do por Deus em seus pr6prios caminhos. Isso o afasta cada vez mais do conhecimento da verda- dee o conduz a uma dura escra- vidao a servic;o da idolatria e da injustic;:a (Rm 1.20-32). Consequentemente, a reve- lac;:ao especial de Deus e necessa- ria tambem para urn correto en- tendimento de Sua revelac;:ao ge- ral na natureza e na hist6ria, no corac;:ao e na consciencia. N6s pre- cisamos dela para purgar o con- teudo da revelac;:ao geral de todo tipo de erro humano e assim dar a revelac;ao geral o seu justo va- lor. Equando n6s nos submete- mos aluz das Escrituras que co- mec;:amos a reconhecer que a re- velac;ao geral tern urn rico signifi- cado para toda a vida humana, e que, todavia, toda essa sua rique- za e insuficiente e inadequada 66 para alcanc;:ar o fim genuino do homem. Se, portanto, no intuito de facilitar o discernimento, n6s fa- lamas primeiro da revelac;:ao ge- ral e de sua insuficiencia, e n6s agora falaremos da revelac;:ao es- pecial, esse modo de tratar o as- sunto nao deve nos fazer pensar que enquanto tratavamos da reve- lac;ao geral deixavamos de lado a revelac;:ao especial. Pelo contrario, fomos guiados pela revelac;:ao es- pecial tambem quando tratava- mos da revelac;ao gerat e ela der- ramou sua luz sobre nossa apro- ximac;:ao do problema. Portanto, nesse estudo da revelac;ao especial que faremos agora, nossa proposta nao e con- duzir a investigac;:ao pelas assim chamadas pressuposic;:oes. N6s nao devemos, como fazem os cepticos de nossos dias, atraves- sar uma gama de varias religioes para verse nelas podemos encon- trar a revela<;:ao especial de Deus que nosso cora<;:ao requer. 0 fato de n6s conhecermos as falsas re- ligioes como sendo falsas, e de termos aprendido que a idolatria e o culto a imagens, a feiti<;:aria e a adivinha<;:ao, a incredulidade e a supersti<;:ao, quer elas se apre- sentem de forma grosseira ou re- finada, como sendo pecaminosas - esse fato e devido a revela<;:ao especial que nos e concedida em Cristo. N6s, portanto, estaremos deliberadamente nos desfazendo
  • 67.
    A QuEsTAaDA REVELA<;:AoEsPECIAL da luz que nos ilumina, se colo- carmos a revela<;ao especial de lado ou se nao a levarmos em con- ta, mesmo que seja temporaria- mente ou como urn recurso metodol6gico. Fazer isso seria provar que n6s amamos mais as trevas do que a luz para que nao aconte<;a que nossos pensamentos e atos sejam manifestos (Jo 3.19- 21). A revela<;ao geral pode, de fato, demonstrar a necessidade de uma revela<;ao especial. Ela pode apresentar alguns fortes motivos que justifiquem essa revela<;ao, pois se algw:'m nao se afasta com o materialismo e o panteismo ne- gando praticamente toda a revela- <;ao, e em vez disso ele realmente ere na existencia de urn Deus pes- soal que fez o mundo, que deu ao homem uma alma imortal e des- tinou-o a salva<;ao eterna, e que ainda sustenta e domina todas as coisas pela Sua providencia, en- tao nao ha razao fundamental para que exista uma revela<;ao especi- al. A Cria<;ao e revela<;ao, urna re- vela<;ao muito especiat absoluta- mente sobrenatural e maravilho- sa. Quem quer que seja que acei- te a ideia da Cria<;ao reconhece, em prindpio, a possibilidade de toda a revela<;ao posterior, inclu- sive a da encarna<;ao do Verbo. Mas qualquer revela<;ao geral que possa contribuir para a causa da necessidade e possibilidade de uma revela<;ao especiat nada 67 pode dizer sobre a realidade des- sa revela<;ao especial, pois ela descansa inteiramente na livre vontade de Deus. A realidade da revela<;ao especial pode ser de- monstrada somente atraves de sua propria existencia. Esomen- te atraves de sua luz que ela pode ser vista e reconhecida. * * * * * Essa revela<;ao especiat na qual Deus nos fala primeiro atra- ves dos profetas e depois atraves de Seu Filho (Hb 1.1,2), e que n6s nao aceitamos em consequencia de argumentos e evidencias, mas com uma fe infantit permanece em continuo relacionamento com a revela<;ao gerat mas ao mesmo tempo e essencialmente diferen- te dela. Essa diferen<;a ja foi men- cionada anteriormente, mas sera tratada com mais delonga especi- almente quanto ao modo pelo qual ela acontece, ao conteudo que ela compreende e ao prop6sito a que ela visa. 0 modo pelo qual a revela- <;ao especial e dada nao e sempre o mesmo, mas difere em fun<;ao dos meios que Deus usa para isso. Portanto ela e caracterizada por varios nomes, como apari<;ao, re- vela<;ao, proje<;ao, fazer-se conhe- cido, proclama<;ao, ensino e ou- tros termos semelhantes. A especifica<;ao dizer e especialmen- te curiosa. As Escrituras empre-
  • 68.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista gam essa palavra para as obras de Deus na cria~ao e na providencia. Disse Deus: Haja luz. E houve luz (Gn 1.3). Os ceus por Sua Palavra se fizeram e, pelo sopro de Sua boca, o exercito deles (Sl 33.6). Pois Ele falou e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo passou a existir (Sl33.9). Ouve-se a voz do Senhor sobre as aguas; troveja o Deus da gloria. A voz do senhor quebra os cedros. A voz do Senhor despede chamas de fogo. A voz do Senhor apavora e destroi o inimigo (Sl 29.3-9; 104.7; Is 30.31; 60.6).Todas essas obras de Deus na cria~ao e na providencia podem ser chama- das de voz ou dizeres porque o Se- nhor Deus e urn ser pessoat cons- ciente e pensante, que traz todas as coisas aexistencia pela palavra de Seu poder, e que poe os pen- samentos na cabe~a do homem, que, sendo Sua imagem e seme- lhan~a, pode entende-los e interpreta-los. Deus certamente tern algo a dizer ao homem em Sua obras. Ha urn pequeno desacordo sobre essa voz de Deus nas obras de Suas maos. Muitos que negam a revela~ao especial, apesar dis- so gostam de falar sobre a revela- c;ao de Deus na criac;ao. Entre os que fazem isso ha uma diferen~a consideravel. Alguns encontram a maior parte dessa revela~ao na criac;ao, enquanto outros encon- tram a maior parte dessa revela- c;ao na historia de homens famo- 68 sos, e outros a encontram na his- toria das religioes e dos lideres de varios segmentos religiosos. Alem disso, ha aqueles que enfatizam a revelac;ao que vern ao homem pelo lado de fora, seja na nature- za ou na historia, enquanto outros enfatizam a que eencontrada den- tro do proprio homem, em seu cora~ao, em sua mente e em sua consciencia. Cada vez mais vai ganhando terreno em nossos dias o pensamento de que a revela~ao e a religiao estao intimamente re- lacionados, que ambas possuem o mesmo contet1do e que sao ape- nas os dois lados de uma mesma moeda. A revela~ao, dessa forma, econsiderada como o elemento divino e a religiao como o elemen- to humano na rela~ao de Deus com o homem. A ideia e que Deus se revela ao homem para que ele tenha uma religiao, e o homem possui mais religiao na medida em que Deus se revela a ele. Essa ideia tern sua origem no panteismo, que identifica Deus e o homem, e portanto identifica tambem a revelac;ao e a religiao. Aqueles que aderem a esse pan- to de vista dificilmente poderao falar de qualquer revela~ao real de Deus, seja na natureza e na his- toria, ou no mundo e no homem, pois a revela~ao, quando correta- mente compreendida, assume, como mencionamos acima, que Deus e consciente de Si mesmo, que Ele conhece a Si mesmo, e
  • 69.
    A QuEsTAo DAREYELA<;:Ao EsPECIAL que portanto Ele pode, a Seu bel prazer, partilhar o conhecimento de Si mesmo com Suas criaturas. No panteismo a auto consciencia de Deus e Seu auto conhecimen- to e cognoscibilidade sao nega- das. No panteismo Deus e nada mais que a essencia de todas as coisas em todas as coisas. Conse- qiientemente, o panteismo pode falar somente de uma inconscien- te e involuntaria manifesta<;:ao ou obra de Deus. Tal manifesta<;:ao ou obra de Deus nao seria e nao poderia ser apresentada amente humana na forma de pensamen- tos, ideias ou conhecimento de Deus, ela poderia apenas excitar alguns humores, afei<;:oes, ou ati- tudes no cora<;:ao humano. Cabe- ria ao homem assimilar essas afei- <;:6es, em completa independencia e liberdade, e de acordo com seu desenvolvimento cultural e edu- cacional, transforma-los em pala- vras. Praticamente isso faz com que a religiao, tanto para toda a especie humana quanto para o individuo, seja urn processo pelo qual Deus toma consciencia de Si mesmo e adquire conhecimento de Si mesmo. Dessa forma Deus nao fala ao homem, nem se reve- la ao homem. Eo homem que re- vela Deus a Si mesmo, fazendo com que Ele se conhe<;:a. Se essa linha panteista de pensamento ainda faz uso dos ter- mos revelar;fio, voz de Deus e outros termos semelhantes, ela os empre- 69 ga nao por sua propria filosofia, pois nela nao ha lugar para isso, mas por aquele outro mundo e outro ponto de vista encontrado nas Escrituras. Dessa forma o panteismo falsifica esses termos. 0 que a Escritura chama de reve- la<;:ao geral de Deus e urn pronun- ciamento de Deus, pois essa reve- la<;:ao procede da ideia de que Deus realmente tern algo a dizer nessa revela<;:ao e Ele de fatoo faz. A Escritura tambem ensina que Deus eo homem sao seres distin- tos, e que a religjao e a revela<;:ao tambem sao distintas. Se Deus tern Seu proprio pensamento e co- nhece a Si mesmo, e se Ele tern dado expressao a esse pensamen- to em maior ou menor propor<;:ao em Suas obras, entao a possibili- dade permanece real de que o homem, por causa de sua mente obscurecida, entenda equivoca- damente esses pensamentos de Deus e se torne nulo em seu pro- prio entendimento. Desse modo a religiao poderia tanto ser o ou- tro lado da revela<;:ao, quanto tor- nar-se uma culpada e errada in- terpreta<;:ao dela. * * * * * Ao interpretar a revela<;:ao geral do jeito que ela interpreta e ao usar a figura da voz de Deus, a Escritura mantem aberto o cami- nho para uma posterior e mais essencial pronuncia<;:ao da parte
  • 70.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista de Deus em Sua revela<;:ao espe- cial. Toda a Escritura nos apre- senta Deus como sendo aquele que e consciente de Si mesmo, como urn ser que pode pensar e falar. Observe a questao levanta- da no Salmo 94.9: "0 que fez o ouvido, acaso nao ouvira? Eo que formou OS olhos sera que nao en- xerga?". Essa questao poderia, de acordo com o sentido dado pelo Espirito Santo, ser parafraseada da seguinte forma: "Aquele que se conhece perfeitamente nao po- deria transmitir conhecimento de Si mesmo as Suas criaturas?". Quem quer que negue essa pos- sibilidade estara negando nao apenas o Deus da regenera<;:ao, mas tambem o Deus da cria<;:ao e da providencia, como a Escritura o revela a n6s. Da mesma forma, quem quer que entenda a revela- <;:ao geral no born, isto e, no senti- do Escritur:fstico, perde o direito de levantar objec;oes a voz de Deus em Sua revela<;:ao especial. Deus pode revelar-se a Si mesmo de uma forma especial porque Ele o faz de uma forma geral. Ele pode falar em urn sentido literal porque tambern pode falar em urn sentido metaf6rico. Ele pode ser o Recriador porque Ele e o Cria- dor de todas as coisas. A grande diferenc;a entre essa pronuncia<;ao da parte de Deus na revela<;ao geral e, aquela na revela<;:ao especial e que, na primeira Deus deixa o homem 70 encontrar por si mesmo Seus pen- samentos nas obras de Suas maos e na segunda, Ele mesmo da ex- pressao direta a esses pensamen- tos e dessa forma OS oferece a mente do homem. Em Isaias 28.26 n6s lemos que Deus instrui o la- vrador, ensinando-o a fazer o seu trabalho. Mas essa instruc;ao nao vern ao lavrador por escrito, em algumas palavras, nem na forma de li<;5es escolares; e urn ensinamento que esta contido e expresso nas leis da natureza, nas caracteristicas do are do solo, do tempo e do lugar, do grao e do cereal. 0 que o lavrador deve fa- zer e conscientemente esfor<;ar-se para aprender todas essas leis da natureza, e dessa forma aprender a li<;ao que Deus lhe ensina. Em seu esfor<;o ele esta sujeito ao en- gano e ao erro, mas quando ele aprende adequadamente esse en- sino ele deve agradecer a Deus, de quem procedem todas as boas dadivas e que e grande em con- selho e realiza<;5es. Na revela<;ao geral tal ensi- no e adequado ao seu prop6sito. 0 que Deus quer fazer atraves dEle e incitar 0 homem a procura- lo, senti-lo e encontra-lo (At 17.27), e, nao o encontrando, ser indesculpavel (Rm 1.20). Mas em Sua revela<;ao especial Deus tern compaixao do homem que esta extraviado e que por isso nao pode encontra-lo. Nessa revela<;ao Deus procura o homem e Ele mes-
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    A QUESTAO DAREVELA<;:Ao ESPECIAL mo fala ao homem quem e o que Ele e. Ele nao permite que o ho- mem deduza e infira de urn gru- po de fatos quem Deus e. Ele mes- mo fala ao homem nessas pala- vras: "Eu sou Deus". E verdade que na revela<;_:ao especial Deus tambem usa os fatos da natureza e da hist6ria para revelar-se em Suas muitas excelencias. E esses fatos, que muitas vezes sao mila- gres, nao sao apenas urn suple- mento ou urn adendo, mas urn elemento indispensavel na reve- lac;ao. Porem, esses nao sao me- ros fatos cuja interpretac;ao e dei- xada por nossa conta. Em vez dis- so eles estao rodeados por todos os lados pela Palavra de Deus. Eles sao precedidos por essa Pa- lavra, sao acompanhados por ela e sao seguidos por ela. 0 conteu- do central da revela<;;ao especial e a pessoa e obra de Cristo. Esse Cristo e anunciado e descrito se- culos antes no Velho Testamento, e quando Ele aparece e completa Sua obra, Ele e novamente inter- pretado e explicado nos escritos do Novo Testamento. A revelac;ao especial, consequentemente, se- gue a linha que nos conduz ate Cristo, mas em paralelo com ela e em conexao com ela, essa revela- c;ao nos conduz as Escrituras, que sao a Palavra de Deus. For essa razao, a revela<;;ao especial pode ser mais propria- mente chamada de fala do que a revela<;;ao geral, apesar desta po- der ser tambem assim designada. 0 primeiro versiculo da epistola aos Hebreus compreende toda a revela<;ao de Deus, tanto no Ve- lho quanto no Novo Testamento, os profetas eo Filho, no seguinte termo: falado. Mas Ele imediata- mente acrescenta que essa revela- <;_:ao foi dada muitas vezes e de muitas maneiras. A primeira ex- pressao, "muitas vezes", significa que a revelac;ao nos foi dada de forma perfeita e completa em urn momento, mas atraves de muitos eventos sucessivos e percorreu urn longo periodo hist6rico. A segunda expressao, "de muitas ma- neiras", significa que as varias re- vela<;6es divinas nao foram dadas todas da mesma forma, e sim que, acontecendo em varias epocas e lugares, ela aconteceu tambem em diversos modos e foi dada em diferentes formas. * * * * * Em muitos pontos das Sa- gracias Escrituras3 , n6s lemos sim- plesmente que o Senhor apareceu, disse, ordenou, e coisas seme- lhantes, e nao encontramos co- mentarios sobre como isso acon- teceu. Outros textos tambem lan- <;am alguma luz sobre a questao da revela<;_:ao, e neles n6s pode- For cxcmplo, em Gn 2.16,18; 4.6; 6.13; 12.7; 13.14. 71
  • 72.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mos distinguir dois tipos de mei- os que o Senhor empregou para transmitir Sua revelac;ao. Ao primeiro tipo de trans- missao da revelac;ao especial, per- tencem aqueles meios que possu- em urn carater externo e objetivo. Atraves deles, Deus aparece ao homem e fala com ele. Ele frequentemente aparecia a Abraao, a Moises, ao povo de Is- rael no monte Sinai, sobre o tabernaculo e no Santo dos San- tos e nas colunas de nuvem e de fogo4 • Em outros momentos Ele transmite Sua mensagem atraves de anjos5 , especialmente atraves do Anjo do pacto, que traz Seu nome (Ex 23.21). Posteriormente Ele faz uso de outros meios pe- dagogicos para revelar-se a Israel (Pv 16.33), o Urim e Tumim (Ex 28.30). Algumas vezes Ele fala com uma voz audivel6 , ou Ele mesmo escreve Sua lei nas tabu- as do testemunho (Ex 31.18; 25.16). Os milagres tambem fazem parte desse grupo de meios de revelac;ao. Nas Escrituras os mi- lagres ocupam urn espac;o impor- tante. Em nossos dias eles tern sido atacados por todos os lados. Eurn esforc;o inutil tentar defen- der os milagres da Sagrada Escri- tura contra aqueles que rejeitaram a perspectiva escrituristica da vida e do mundo. Pois, se Deus nao existe - e essa e a tese tanto do ateismo quanto do materialis- mo - ou se Ele nao tern uma exis- tencia propria, pessoal e indepen- dente- como afirma o panteismo - ou se, depois da criac;ao, Ele abandonou o mundo aos seus proprios caminhos- como afirma 0 deismo - entao e evidente que milagres nao acontecem. E se a impossibilidade dos milagres e evi- dente desde o comec;o, nenhum argumento sobre sua realidade e necessario. Mas a Escritura tern uma ideia totalmente diferente de Deus e do mundo, e tambem da relac;ao que existe entre eles. Em primeiro lugar, ela ensina que Deus e urn ser consciente e oni- potente, que chamou aexistencia todo o mundo com todas as suas energias e leis e que, ao fazer isso, fez uso apenas de Seu proprio poder. Ele possui em Si mesmo a plenitude da vida e da forc;a. Nada e maravilhoso demais ou dificil para Ele (Gn 18.14); para Ele todas as coisas sao possiveis (Mt 19.26). Alem disso a perspectiva biblica nao considera o mundo como uma unidade cujas muitas partes possuem a mesma nature- za e a mesma substancia, exibin- do diferenc;a apenas nas formas 4 Gn 15.17; Ex 3.2; 13.21; 19.9; 33.9; Lu16.2, e em vcirios outros lugarcs. Gn 18.2; 32.1; On 8.13; Zc 1.9; Mt 1.20, c em vdrios outros lugrzres. " Ex 19.9; Ot 4.33; 5.26; Mt 3.17; 2 Pe 1.1 7. 72
  • 73.
    A QUESTAO DAREVELA<;:AO ESPECIAL de sua rnanifestac;ao. Ern vez dis- so ela considera o rnundo como urn organismo cujos membros, embora pertenc;arn ao todo, sao todos dotados de diferentes pro- priedades e destinados a diferen- tes func;oes. No mundo ha lugar para diferentes seres que, apesar de serern todos sustentados e go- vernados pelo mesmo poder di- vino, diferern uns dos outros ern sua natureza. Esse rnundo rico contem materia e espirito, corpo e alma, terra e ceus. Ele contern o organico eo inorganico, o anima- do e o inanirnado, o racional e o nao-racional, rninerais, plantas e anirnais, seres hurnanos e anjos. E dentro do ser humano ha dife- renc;:a entre sua cabec;:a e seu cora- c;:ao, sua razao e sua consciencia, seus conceitos e suas afeic;:oes. Todas essas esferas contidas no rnesrno dependern de diferentes energias e habilidades, e operarn de acordo corn diferentes leis. De fato, todas as coisas sao interde- pendentes urnas das outras, assim como os rnernbros de urn corpo. Da rnesrna forma cada parte tern seu proprio lugar e sua propria func;:ao no todo. Ern terceiro lugar, as Escri- turas ensinarn que Deus eo rnun- do, apesar de serem diferentes urn do outro, nunca estao separados. Deus tern urna unica, perfeita e independente existencia em Si mesmo, mas Ele nao esta isolado do mundo; pelo contrario, nele 73 nos vivemos, e nos movernos e existimos (At 17.28). Eclaro que Ele e o Criador, que a seu tempo chamou todas as coisas aexisten- cia, mas Ele continua sendo o pro- prietario, o possuidor, o Rei e o Senhor atraves de quem Seu po- der onipotente e onipresente sus- tenta e rege todas as coisas. Ele e a primeira causa de todas as coi- sas, nao apenas em seu principia, mas tambem na sua preservac;:ao. As causas secundarias por meio das quais Ele trabalha diferern umas das outras, mas a causa pri- rnaria de todas as criaturas e e continuara sendo Deus, e somen- te Deus. Se nesses conceitos basicos nos concordamos com as Escritu- ras e firmamos nossa posic;:ao no terreno firme do teismo1 nos nao temos base para lanc;:ar duvidas sobre a possibilidade dos mila- gres ou para atacar essa possibi- lidade. De acordo com a Escritu- ra, todo fenomeno da natureza e da historia e urn ato e uma obra de Deus, e nesse sentido e urn rnilagre. Os assirn chamados rni- lagres nada mais sao que a mani- festac;:ao especial daquele rnesmo poder divino que age em todas as coisas. Esse poder opera de vari- as formas, faz uso de diferentes meios (causas secundarias) de acordo corn diferentes leis, e par- tanto alcanc;:a varios resultados. Tern sido dito, e nao injustarnen- te, que para a pedra e urna mara-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vilha que a planta possa crescer, para a plantae uma maravilha que o animal possa mover-se, para o animal e uma maravilha que o ho- mem possa pensar, e para o ho- mem e uma maravilha que Deus possa veneer a morte. Se e verda- de que Deus, com Seu poder oni- potente e onipresente, trabalha atraves de todas as criaturas usan- do Seus meios, por que Ele nao seria capaz de trabalhar de uma forma diferente com o mesmo poder- uma forma diferente, isto e, diferente daquela que nos e fa- miliar no curso normal da natu- reza e da hist6ria? Os milagres nao sao uma viola<;:ao das leis na- turais, pois essas leis sao plena- mente reconhecidas na Escritura, muito embora nao sejam classifi- cadas e formuladas ali. Dessa for- ma, por exemplo, de acordo com a Escritura, as leis de toda a natu- reza sao firmemente fixadas pelo pacto da natureza que Deus fez com Noe (Gn 8.22). Mas assim como o homem domina a terra atraves da sua razao e vontade, e governa e controla a natureza atra- ves de sua cultura, da mesma for- ma Deus tern o poder de fazer com que esse mundo cumpra suas determina<;:oes. 0 que os milagres provam e que nao 0 mundo, mas o Senhor e Deus. ***** 74 Nada disso teria sido neces- saria, se 0 homem nao tivesse ca- ido. Dessa forma ele teria conhe- cido Deus atraves das obras de Suas maos. Sem entrar na questao de se teriam existido milagres se nao tivesse existido o pecado, bas- ta-nos dizer que nesse caso, se os milagres tivessem existido, eles seriam de natureza diferente e te- riam outro prop6sito, pois os mi- lagres que aconteceram e, estao registrados nas Escrituras, possu- em seu prop6sito e seu carater es- pedfico. No Velho Testamento, o jul- gamento e a reden<;:ao caminham lado a lado como acompanhantes dos milagres. Dessa forma, o di- luvio foi urn meio de destruir a perversa gera<;:ao daquela epoca e ao mesmo tempo urn meio de preservar Noe e sua familia den- tro da area. Os milagres que acon- teceram em torno das pessoas de Moises e Josue - as pragas do Egito, a travessia do Mar Verme- lho, a entrega da lei no Sinai, a invasao e conquista de Canaa - tiveram como seu prop6sito o jul- gamento dos inimigos de Deus e o estabelecimento de uma mora- cia segura para Seu povo na terra da promessa. Os milagres que aconteceram mais tarde, dos quais a maioria foram realizados por Elias, aconteceram no tempo de Acabe e Jezabel, uma epoca em que o paganismo tentava suprimir totalmente o culto ao Senhor, e
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    A QuESTAO DAREVELA<;:Ao ESPECIAL alcanc;ou seu ponto mais alto no Carmelo, onde a luta entre Deus e Baal foi decidida. Todos os milagres do Velho Testamento tern em comum o fato de que, negativamente, revelam o julgamento sobre as nac;oes impias, e positivamente revelam a criac;ao e a preservac;ao de urn lugar entre o povo de Israel para a continuac;ao da revelac;ao de Deus. Nisso eles alcanc;am seu prop6sito, pois contra toda idola- tria e culto a imagens o Deus de Israel, o Deus do pacto, e conhe- cido e reconhecido como Deus: "Vede, agora, que Eu Sou, Eu so- mente, e mais nenhum deus alem de mim; eu mato, e eu fac;o viver; eu firo e eu saro; e nao ha quem possa livrar alguem da minha mao (Dt 32.39; 4.35; Is 45.5,18,22). E quando esse prop6sito e alcan- c;ado, ele resulta rapidamente na total revelac;ao na pessoa de Cris- to. Essa pessoa de Cristo e em si mesma, em sua origem, em sua essencia, em suas palavras e obras, urn milagre. Jesus e 0 mila- gre da hist6ria do mundo. Conse- quentemente, os milagres que Ele realiza possuem uma natureza muito peculiar. Em primeiro lu- gar, Ele mesmo, durante Sua vida na terra, fez muitos milagres: mi- lagres nos quais Ele demonstrou Seu poder sobre a natureza (trans- formando a agua em vinho, ali- mentando grandes multidoes, 75 acalmando tempestades, andan- do sobre as aguas, e outros seme- lhantes); milagres nos quais Ele demonstrou Seu poder sobre as consequencias do pecado, tais como doen<;as terminais, molesti- as contagiosas e sofrimentos da vida; e, finalmente, milagres nos quais Ele demonstrou poder so- bre si mesmo, mantendo-se livre da culpa do pecado e da domina- c;ao de Satanas (perdoando peca- dos e expulsando demonios). A unidade da pessoa de Cristo se expressa nesses tres tipos de mi- lagres. Aexcec;ao da maldic;ao so- bre a figueira esterit todos os mi- lagres de Jesus apontam para Sua obra redentiva. Ele nao veio para condenar o mundo, mas para salva-lo (Jo 3.17). Atraves de Seus milagres Ele exerce Seus oficios de profeta, sacerdote e rei e tam- bern realiza a obra para a qual o Pai o designou (Jo 4.34; 5.36; 9.4). Essa pessoa de Cristo e mais claramente manifesta nos mila- gres que foram feitos nao por Ele, mas nEle e com Ele. Nesses mila- gres n6s podemos ver de forma nitida quem e o que Ele e. Sua concepc;ao sobrenatural, Sua vida e Sua morte miraculosas, Sua res- surreic;ao, ascensao e Seu lugar a destra do Pai sao os milagres redentivos mais claros. Eles pro- vam, mais marcadamente que os milagres que Ele mesmo realizou, Seu absoluto poder sobre o peca- do e sobre suas consequencias,
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sobre Satanas e sobre toda a do- mina<;:ao satanica. Todos eles ilus- tram, mais claramente do que to- das as outras obras, que esse po- der da pessoa de Cristo e urn po- der redentivo e regenerativo, que obtera a vit6ria final nos novos ceus e na nova terra. Os milagres que foram rea- lizados nos tempos apost6licos pelas primeiras testemunhas po- dem ser caracterizados como obras do Cristo exaltado (At 3.6; 4.10). Seu prop6sito era mostrar que Jesus, que tinha sido rejeita- do pelo mundo, pregado na cruz e entregue amorte- que esse Je- sus ainda estava vivo e que tinha todo o poder no ceu e sobre a ter- ra. Os milagres do Velho Testa- mento mostraram que Jeova e Deus e que nao havia nenhum outro alem dEle. Os milagres do Novo Testamento mostram que Jesus Cristo, o Nazareno, que os judeus crucificaram, foi ressusci- tado por Deus e colocado a Sua mao direita, como Principe e Sal- vador (At 4.10; 5.30,31). Quando esse fim foi alcan<;:ado, quando a Igreja foi plantada no mundo, uma Igreja que ere e confessa essa revela<;:ao do Paino Filho atraves da comunhao do Espirito Santo, os milagres visiveis e externos cessaram, mas os milagres espiri- tuais da regenera<;:ao e da conver- sao continuam na Igreja ate que venha a plenitude dos gentios e Israel seja salvo. No fim das eras, 76 de acordo com as Escrituras, acon- tecera o maior dos milagres, a apari<;:ao de Cristo, ressuscitado da morte, o julgamento, os novos ceus e a nova terra. 0 fim eo objeto de toda re- vela<;:ao e dos milagres nessa re- vela<;:ao e a restaura<;:ao da huma- nidade caida, a recria<;:ao do mun- do, e o reconhecimento de Deus como Deus. Portanto os milagres nao sao elementos singulares e es- tranhos na revela<;:ao, nem urn adendo arbitrario a ela. Eles sao urn componente necessaria e in- dispensavel da revela<;:ao. Eles sao em si mesmo revela<;:ao. Deus se fez conhecido ao homem em todas as Suas excelencias e perfei- <;:6es por meio de palavras e obras. * * * * * A esse primeiro tipo de mei- os, todos de carater externo e ob- jetivo, urn segundo grupo deve ser acrescentado. A esse grupo pertencem todos aqueles meios que sao subjetivos, que sao reali- zados dentro do homem, nos quais Deus fala ao homem nao por fora, mas por dentro. 0 primeiro lugar entre esse tipo de meios pertence arevela<;:ao sem igual que veio a Moises como o mediador do Velho Testamen- to. Ela e descrita como uma reve- la<;:ao na qual o Senhor fala a Moi- ses face a face, como urn homem fala como seu amigo (Ex 33.11).
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    A QUESTAO DAREVELA<;:Ao ESPECIAL 0 papel de Moises no Velho Testamento foi especial. Ele foi colocado acima dos profetas. Deus falou com ele, nao por meio de visao, mas por urn discurso dire- to. Moises viu Deus, nao como em urn sonho, mas diretamente: ele viu Sua similitude, Sua forma, nao Seu ser ou Sua face, mas Suas cos- tas quando a gloria de Deus pas- sou por ele (Ex 33.18-33). A esse tipo de meios perten- ce tambem o sonho (Nm 12.6; Dt 13.1-6); a visao, isto e, urn estado do ser no qual os olhos fisicos sao fechados para o mundo externo e os olhos da alma sao abertos para as realidades divinas (Nm 12.6; Dt 13.1-6); e especialmente a inspira- c;:ao da mente humana pelo Espi- rito de Deus.7 Esses ultimos mei- os de revelac;:ao ocorrem frequen- temente no Velho Testamento, onde sao sempre representados como uma operac;:ao do Espirito que desce sobre o profeta por urn determinado momento. Mas no Novo Testamento, depois da des- cida do Espirito Santo, a inspira- c;:ao nao apenas tornou-se mais comum como meio de revelac;:ao, mas tambem assumiu urn carater mais organico e permanente. Esses dois tipos de meios de revelac;:ao podem ser classificados sob os nomes de manifestar;tio e re- velar;tio. Ao fazer isso n6s nao de- vemos nos esquecer que a mam- festar;fio nao consiste apenas de atos, mas inclui tambem pensa- mentos e palavras. Devemos tam- bern atentar para o fato de que a inspirar;fio a que nos referimos aqui difere tanto da atividade do Es- pirito que inspirou profetas e ap6stolos no registro da revelac;:ao em forma escrita (a inspirac;:ao das Escrituras) quanto daquela ilumi- nac;:ao interna que e a porc;:ao de todos os crentes. 7 Nm 11.25-29; 25m 23.2; Mt 16.17; At 8.29; 1Co 2.12; 2Pe 1.21 77
  • 79.
    CAPITULO ®) 0 CONTEUDO DA REVELA<;AoEsPECIAL T endo tornado nota das va- rias formas nas quais a revela<_;:ao especial veio ao homem, n6s agora vamos consi- derar o seu conteiido. Assim como no estudo da revela<;ao gerat nes- te tambem n6s faremos uma revi- sao breve da hist6ria da revela<_;:ao especial. Desta forma seu prop6- sito ficani claro. A revelac;ao especial nao co- me<_;:ou com Abraao. Ela come<_;:ou imediatamente depois da queda. Portanto e de muita importancia observar que Abraao foi filho de Teni, que foi descendente da oita- va gera<;ao de Sem. E de Sem n6s lemos que o Senhor foi seu Deus (Gn 9.26). Foi na familia de Sem, como na de Sete, antes do diluvio, que o conhecimento de Deus foi preservado por mais tempo e em seu estado mais puro. Portanto, quando o Senhor chama Abraao, Ele nao se apresenta como urn Deus diferente, mas como o mes- mo Deus que Abraao ja conhecia e confessava. Alem disso, n6s aprendemos em outra passagem da Escritura, a saber, naquela que fala de Melquisedeque (Gn 14.18- 20), que o conhecimento do ver- dadeiro Deus nao tinha sido intei- ramente perdido. Somos informa- dos de que outros gentios tambem reconheceram e honraram o Deus de Abraao, como foi o caso de Abimeleque, rei de Gerar, os filhos de Hete em Hebrom, e Fara6 do Egito.8 Depois da confusao das lin- guas e da divisao da ra<_;:a huma- na, a incredulidade nao se desen- volveu entre os homens, mas a 8 Gn 20.3; 21.22; 23.6; 26.29: 40.8: -11 ,_: ___ _ 79
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista supersti<;ao e a idolatria sim. Isso aconteceu no Egito (Ex 18.9-12), em Canaa (Gn 15.16; 18.1 ss.), e na Babilonia. Ate mesmo entre os descendentes de Sem a verdadei- ra religiao deu lugar a idolatria. De acordo com Josue 24.2,14,15, os pais de Israel, Teni, pai de Abraao, Naor e Hara serviram a outros deuses quando viviam do outro lado do rio. E de Genesis 31.19 e 35.2-4 n6s aprendemos que Labao tinha deuses familiares e os ado- rava. Labao era urn arameu, urn sirio (Gn 31.20; Dt 26.5). Em vez de evitar que a espe- cie humana caisse na supersti<;ao e na injusti<;a, o pacto da natureza com Noe foi sendo quebrada, e o prop6sito de Deus para a ra<;a humana ficou amea<;ado. Por isso Deus tomou urn novo curso de a<;ao com Abraao. Ele nao podia destruir novamente os filhos dos homens em urn diluvio, mas dei- xando que os povos seguissem seus pr6prios caminhos Ele podia firmar urn pacto com uma pessoa, e atraves dessa pessoa com urn povo, e dessa forma o pacto alcan- <;aria seu cumprimento total. E quando o pacto se completasse Ele poderia incluir toda a humanida- de em suas ben<;aos. A separa<;ao temporaria de urn povo torna-se, assim, o meio para a permanente unifica<;ao da ra<;a humana. Com Abraao urn novo esta- gio tern inicio na hist6ria da reve- la<;ao. Essa parte da revela<;ao que 80 foi dada no tempo dos patriarcas e conectada aquela que tinha sido dada anteriormente, mas tambem e real<;ada e desenvolvida poste- riormente. Consequentemente, e muito importante que entenda- mos as caracteristicas dessa nova revela<;ao. Ela e muito importan- te porque a revela<;ao dada a Abraao constituiu a essencia da religiao de Israel. Em nossos dias, muitas pes- soas tern obstruido o caminho para urn correto entendimento da essencia da religiao de Israel. Ern primeiro lugar, eles se recusam a dar ao periodo dos patriarcas urn valor hist6rico e consideram Abraao, Isaque, Jac6 e outros pa- triarcas como semideuses ou he- r6is, como, por exemplo, aqueles que sao celebrados na Iliada de Homero. Em segundo lugar eles consideram que a religiao de Is- rael teve sua origem em uma for- ma paga de religiao, como o animismo, fetichismo, culto aos ancestrais, polidemonismo, ou politeismo. E, em terceiro lugar, eles tentam mostrar que a essen- cia da religiao de Israel, como veio a ser no tempo dos profetas, par- ticularmente no oitavo seculo an- tes de Cristo, consistiu de uma eti- ca monotefsta, quer dizer, o reco- nhecimento de urn Deus que e onipotente mas tarnbem e urn ser justo e born. Essa moderna concep<;ao do Velho Testamento deve ser consi-
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    0 CONTEUDO DAREVELA<;:AO ESPECIAL derada urn esfon;o para explicar toda a religiao de Israel e de ou- tros povos sobre bases puramen- te naturais, como urn pequeno e gradual desenvolvimento aconte- cendo sem uma revela<;ao especi- al. Contudo, toda a Escritura se opoe a esse ponto de vista e pune a moderna concep<;ao, atraves do fracasso em seus esfor<;os para entender, tanto a origem quanto a natureza da religiao de Israel. Nao e por esse caminho que a origem da religiao de Israel pode ser encontrada. Nao e verdade que os profetas apresentavam a cada momenta urn deus diferen- te. Eles sempre pregaram a pala- vra em nome do mesmo Deus, que eo Deus de Abraao, Isaque e Jac6, o Deus de seus pais, o Deus de Is- rael, e a quem os povos sao obri- gados, por meio dos termos do pacto, a servir e cultuar. Muitos que sentem o peso dessa conside- ra<;ao voltam dos profetas para Moises e referem-se a ele como o real fundador da religiao de Isra- el. Mas Moises tambem nao apa- receu, e nao podia aparecer, em nome de urn deus estranho, des- conhecido. Se isso tivesse aconte- cido ele nao teria encontrado uma rea<;ao favora.vel por parte do povo. Em vez disso ele se acomo- dou ao povo e asua hist6ria e con- vocou-o para o exodo do Egito em nome e sob ordens daquele Deus que era o Deus Fiet que tinha fir- mado urn pacto com os patriarcas 81 e que veio cumprir Sua promes- sa. N6s temos que voltar a esse periodo se quisermos entender a essencia e a natureza da religiao de Israel. Essa essencia certamen- te nao se encontra na assim cha- mada etica monoteista. De fato, a religiao de Israel tambem inclui esse elemento, que sustenta ser Deus onipotente, justo e santo, mas a religiao de Israel nao e ca- racterizada por isso de forma de- finitiva. Esse elemento e a sua base, e nao seu conteudo. 0 cora- <;ao eo centro da religiao de Israel e esse: que Deus, que e urn, eter- no, justo e santo, obrigou-se, pelo pacto, a ser o Deus de Israel. * * * * * Foi assim que Paulo enten- deu a religiao de Israel. Em Roma- nos 4 (texto como qual Galatas 5.5 ss. deve ser comparado), Paulo pergunta qual e a dadiva caracte- ristica que Abraao recebeu de Deus. Baseado em Genesis 15.6 ele responde a essa pergunta dizen- do que a dadiva caracteristica que Abraao recebeu de Deus esta nao nas obras, mas na justi<;a da fe ou, em outras palavras, na Gra<;a do perdao de pecados, no imerecido favor de Deus. Davi considerou o perdao de pecados como a maior ben<;ao do pecador. 0 ap6stolo Paulo tambem argumenta que essa grande dadi-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista va da Grac;a nao foi dada a Abraao quando ele estava sob a circunci- sao, mas quando era ainda incircunciso (Gn 15.6), e que a ins- tituic;ao da circuncisao, que acon- teceu quatorze anos depois (Gn 17), presumiu a justic;a da fee ser- viu como urn sinal e selo dela. Consequentemente o perdao de pecados, e tambem toda a obra da salvac;ao, e independente da lei e de suas demandas. 0 mesmo pode ser dito sobre o alcance uni- versal desse favor: ele nao e pela lei, mas muito antes da lei e inde- pendente da lei a promessa veio a Abraao assegurando que ele seria o pai de muitas nac;oes e que her- daria o mundo. Todo o argumento do ap6s- tolo Paulo se baseia na propria hist6ria do Velho Testamento. 0 pano de fundo dessa hist6ria e esse: nao o que Abraao sabe sobre Deus e faz para Deus, mas o que Deus da a Abraao. Em primeiro lugar, e Deus quem procura Abraao, e o chama, e o envia a Canaa. Segundo, e Deus quem promete que sera o Deus de Abraao e de sua descendencia. Terceiro, Deus promete a Abraao que, apesar de tudo indicar o con- trario, ele tera uma posteridade, sera pai de uma grande nac;ao, e que essa nac;ao tera Canaa como sua heranc;a. Quarto, Deus diz que em sua posteridade Abraao sera uma benc;ao para todas as nac;oes da terra. E, por ultimo, Deus faz essa promessa no contexto do pac- ta, sela-a como sinal da circunci- sao e, depois da prova de fe de Abraao, confirma-a com juramen- to9. Todas essas promessas jun- tas constituem o conteudo da re- velac;ao de Deus a Abraao. 0 nu- cleo de todas elas e a grande e unica promessa: "Eu serei o teu Deus eo Deus da tua descenden- cia". Essas promessas se estendem do povo e da terra de Israel ate Cristo, e em Cristo a toda a rae;a humana e a todo o mundo (Rm 4.11 ss.). Nao a lei, mas o Evange- lho; nao as exigencias, mas a pro- messa; esse eo nucleo da revela- <;ao. E, pelo lado humano, o cor- respondente da fe ea conduta ou o andar pela fe (Rm 4.16-22; Hb 11.8-21). A promessa nao pode ser nossa a nao ser pela fe, e a fe se expressa em uma conduta justa (Gn 17.1). Abraao eo exemplo de uma fe que ere, Isaque e o exem- plo de uma fe submissa e Jac6, de uma fe que luta. Ena hist6ria dos patriarcas que a natureza e o chamado do povo de Israel nos sao apresen- tados. Enquanto as na<;6es da terra estao andando em seus pr6- prios caminhos e desenvolvendo o que foi dado atraves da revela- <;ao geral, urn ato criativo de Deus 9 Gn 12.1-3,7; 13.14-17; 15.1 ss.; 15.17-21; 18.10; 22.1.7-19. 82
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    0 CONTEUDO DAREVELA<;:AO ESPECIAL (Gn 18.10; Dt 32.6; Is 51.1,2) fez um povo nascer de Abraao. Assim como ele, esse povo tambem deve viver pela fe, deve reconhecer que deve a terra de sua heran~a nao a sua propria for~a, mas aGra~a de Deus. Esse povo s6 pode alcan~ar uma influencia aben~oada sobre os povos ao seu redor quando, como Isaque, fielmente relembra a promessa da salva<;:ao do Se- nhor, e apenas quando, como Jac6, fortemente se atem ao cumpri- mento da promessa. Nenhum cal- culo ou delibera<;:ao humana pode promover o cumprimento dessa promessa, e muito menos a fra- queza e os pecados humanos po- dem impedir esse cumprimento, pois Deus e aquele que da e que cumpre a promessa. Ate mesmo quando Ele pune o pecado Ele cumpre Seu prop6sito. E Israet assim como Jac6, s6 usufrui dessa promessa e ben~ao do Senhor quando, refinado pelo sofrimen- to, com sua for<;:a quebrada, ele alcan<;:a a vit6ria atraves da luta de fee ora<;:ao. "Eu nao te deixarei ir, se me nao aben~oares" (Gn 32.26; Os 12.4) * * * * * Nessa promessa encontra-se o conteudo de toda a revela~ao que lhe sucedeu no Velho Testa- mento. Ela e elaborada, eclaro, e desenvolvida. E essa promessa tambem contem o nucleo e a es- 83 sencia da religiao de Israel. De fato, a conclusao do pacto do Sinai e a dispensa<;:ao da lei que Deus instituiu entao, marca o come<;:o de uma nova epoca. Mas em vez de entender a natureza da religiao de Israel e a economia do Velho Tes- tamento n6s devemos ser profun- damente marcados pela convic<;:ao de que a promessa, previamente dada a Abraao, nao foi destruida pela dispensa<;:ao da lei. Aqui novamente recorremos ao ensino do ap6stolo Paulo. Em Galatas 3.15 ss. Paulo compara a promessa feita a Abraao e asua descendencia com um contrato, ou melhor, com um testamento que, depois de confir- mado, nao pode ser anulado. 0 mesmo acontece com a promessa de Deus a Abraao e com todas as ben<;:aos nela contidas. A promes- sa eum ato livre de Deus. Ela foi pronunciada e feita por Deus a Abraao e a sua descendencia, e portanto deve, em algum momen- ta, em virtude da dire~ao de Deus, ser colocada nas maos dessa des- cendencia. Nem todos os descen- dentes de Abraao segundo a car- ne fazem parte da sua posterida- de favorecida pela promessa. Seus descendentes atraves de Hagar e Quetura (Gn 17.20; 25.2) nao es- tao incluidos nessa promessa, pois a Escritura nao fala de "descen- dencias", isto e, de muitas gera- <;:6es e povos, mas de apenas uma semente, uma descendencia, o
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    Ftmdamentos Teol6gicos daFe Crista povo que nasceria do filho da pro- messa, de Isaque, e do qual nas- ceria Cristo, o descendente pree- minente. Quando Deus estendeu a salvac;:ao a Abraao e asua descen- dencia como promessa na forma de urn testamento, essa a<;ao su- bentende que essa salvac;:ao algum dia pertenceu a Cristo, que foi Sua propriedade e possessao, e que seria dada por Ele aIgreja reuni- da de todas as partes do mundo. Conseqiientemente a promessa dada a Abraao na forma de urn testamento, isto e, sem dependen- cia de qualquer condic;:ao huma- na, baseada somente na soberana dispensac;:ao de Deus, nao pode ser anulada por uma lei suple- mentar posterior. Se isso tivesse acontecido, Deus teria aniquilado Sua promessa, Sua propria dadi- va, Seu proprio testamento, e Seu proprio juramenta. Ha somente duas possibili- dades: Ou nos recebemos os be- neficios inclufdos na promessa estando dentro da promessa ou recebemos esses beneficios estan- do dentro da lei, pela Grac;:a ou pelo merito, pela fe ou pelas obras. Ecerto que Abraao recebeu a jus- tic;:a da fe pela promessa, ate mes- mo antes da circuncisao ser insti- tufda; que os israelitas no tempo dos patriarcas, e no Egito, por cen- tenas de anos receberam os mes- mos beneficios somente em virtu- de da promessa, pois a lei ainda 84 nao tinha sido dada; e que Deus deu a promessa a Abraao e asua descendencia e nela incluiu Cris- to, que a estendeu a toda a rac;:a humana, e que Deus, portanto, deu-a como urn pacto eterno, con- firmado com urn precioso jura- menta (Gl 3.17; Hb 6.13 ss.). Se tudo isso e verdade, entao eim- possivel que a lei, que Deus deu a Israel em uma data posterior, te- nha abolido Sua promessa. * * * * * Se isso realmente e assim, entao, a questao se torna ainda mais importante: Por que Deus deu a lei a Israel? Em outras pala- vras, qual eo significado e aim- portancia da dispensac;:ao do pac- to da Grac;:a que comec;:a com a lei, equal e a natureza ou essencia da religiao de Israel? Essa questao foi importante nos dias de Paulo e nao e menos importante em nos- sos dias. Havia algumas pessoas no tempo dos ap6stolos que procu- ravam a essencia da religiao de Israel na lei, e que por isso exigi- am que os gentios viessem a Cris- to pelo mesmo caminho de Israel, ou seja, pela circuncisao e a obser- vancia da lei. E havia outros que despre- zavam a lei, que atribufam a lei a urn deus inferior, e que conside- ravam-na como representante de uma posic;:ao religiosa inferior. 0
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    0 CONTEUDO DAREVELA<;:Ao ESPECIAL nomismo e o antinomismo repre- sentavam posic;oes diametral- mente opostas. Em nossos dias as mesmas atitudes eshio presentes, apesar dos nomes dados e das formas assumidas serem diferentes. Al- guns encontram a essencia dare- ligiao de Israel no monismo eticoI ou seja, no reconhecimento de que Deus e urn Deus santo que exige apenas que n6s obedec;amos Suas ordens; esses encontram a essen- cia do Cristianismo da mesma for- ma, e assim a distinc;ao entre Isra- el e a Igreja e perdida: OS judeus iluminados e os cristaos ilumina- dos confessam a mesma religiao. Outros, porem, desprezam a res- ponsabilidade da liberdade espi- ritual sobre a base estreita e me- lindrosa do legalismo judaico; es- ses nao enxergam ideal mais ele- vado do que emancipar a rac;a hu- mana das maos dos judeus. Eles seguem a pista de todo o mal ate o Judaismo, e procuram todo o bern na rac;a indo-europeia. Os espiritos semita e anti-semita se opoem urn ao outro, e, como ex- tremos, geralmente se encontram no mesmo erro. Para Paulo, o problema do significado e da intenc;ao da lei era tao importante, que ele tratou des- se assunto varias vezes, em suas cartas. Sua soluc;ao para esse pro- blema e a seguinte. Primeiro, a lei e algo que foi adicionado apromessa, algo que veio depois dela e que nao estava originalmente ligada a ela. A lei foi dada muitos anos depois da promessa, e quando ela foi dada, tinha urn carater temporario e transit6rio. Apesar da promessa, ou do pacto da Grac;a ser eterno, a lei s6 teria validade ate que o ver- dadeiro descendente de Abraao, que e Cristo, aparecesse, pois nEle a promessa foi cumprida e Ele re- cebeu o seu conteudo e o distri- buiu (Rm 5. 20; Gl3.17-19). Segundo, esse carater tem- porario e transit6rio da lei e ex- presso em sua propria origem. E verdade que a lei tern sua origem em Deus, mas Ele nao a deu dire- ta e imediatamente ao povo e a cada individuo desse povo. Todos os tipos de dispositivos de medi- ac;ao estiveram presentes. Da par- te de Deus, a lei foi dada por meio de anjos, em meio a trovoes e re- lampagos, em uma nuvem escu- ra, e com a voz de uma trombe- ta10. E da parte do povo, que esta- va cheio de temor, e que tinha que permanecer ao pe da montanha, Moises foi chamado para servir como mediador, para falar com Deus e receber a lei11 . Com a pro- messa nao foi assim. A promessa nao foi transmitida por anjos, mas 10 Ex 19.16-18; Hb 12.18 ss. At 7.38,53; Gl 3.19 11 Ex 19.21 ss.; 20.19; Dt 5.22-27; 18.16; Hb 12.19; Gl 3.19,20. 85
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista pelo proprio Filho de Deus. E, de nossa parte, nenhum mediador foi designado para nos representar e aceitar a promessa por nos. Em Cristo todos OS crentes vern pes- soalmente usufruir da promessa (Jo 1.17; Gl3.22,26). Terceiro, visto que a lei vern de Deus, ela e justa, santa, boa e espiritual; Ela nao provoca o pe- cado, apesar de ser usada pelo pecado para despertar a concupis- cencia. De fato, a lei em si mesma nao e desprovida de energia e for- c;:a, pois e a lei da vida; 0 que care- ce de energia e forc;:a e 0 homem, pois ele e carne pecaminosa. Mas mesmo diante dessas considera- c;:oes nao podemos negar que a lei difere da promessa nao meramen- te em grau, mas em especie. De fato, ela nao e oposta apromessa, nem entra em conflito com ela, mas ela nao pertence apromessa da fe. Portanto a lei nao pode ter sido dada para revogar a promes- sa. Sendo diferente da promessa em sua natureza, a lei tern urn pro- posito diferente12 • Quarto, esse proposito espe- cial que e proprio da lei e pelo qual Deus deu a lei tern urn carater duplo. Em primeiro lugar, ela foi acrescentada apromessa por cau- sa das transgressoes (Gl3.19), isto e, para fazer com que a transgres- sao fosse mais grave. De fato, ha- via pecado antes da entrega da lei 12 Rm 7.7-14; 8.3; G/3.17,21. 86 (Rm 15. 12,13), mas esse pecado era diferente. Ele nao era uma "transgressao" no sentido em que Paulo faz distinc;:ao entre ela e o pecado em geral. Porem, como em Adao, que recebeu uma ordem de cuja obediencia dependia sua vida (Rm 5.12-14), assim tambem em Israel, que herdaria a vida ou a morte pela obediencia ou pela de- sobediencia, o pecado assume urn carciter diferente. Esse pecado, sendo cometi- do contra a lei a qual a vida e a morte estao ligadas, torna-se uma "transgressao". Ele assume o ca- rater de urn pacto quebrado, uma colocac;:ao de si mesmo fora e con- tra o peculiar relacionamento que Deus tinha estabelecido em Seu pacto de obras com Adao e em Seu pacto sinaitico com Israel. Onde nao ha lei tambem nao ha trans- gressao (Rm 4.15). Os pecados dos gentios certamente sao pecados, mas eles nao sao uma quebra do pacto como sao para Israel; e nao possuindo uma lei semelhante a que Deus deu a Israet os gentios sao condenados tambem sem lei (Rm 2.12). Em Israel, os pecados se tor- naram transgressoes, exatamente porque o povo recebeu a lei de Deus que estava acompanhada pela promessa de vida ou morte. Portanto, foi a lei que fez com que isso fosse possivel. Dessa forma
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    0 CoNTEDoo oAREVELA<;:Ao EsPECIAL Paulo pode dizer que a lei do Sinai, apesar de ser santa e nao provocar o pecado, foi acrescen- tada apromessa para aumentar as II transgressoes", isto e, a forc;a do pecado, e despertar o desejo, e que esse pecado, atraves do manda- mento, se torna uma transgressao, e que sem a lei o pecado esta ador- mecido, e que a lei faz aumentar a ofensa- ofensa, isto e, nao no sen- tido do pecado em geral, mas no sentido daqueles pecados especi- ais que sao da natureza de urn erro, queda, ou de rompimento do pacto13 . Mas tendo em vista que a lei carrega tudo isso em sua estei- ra, ela tambem provoca ira, isto e, ela ameac;a a punic;ao divina, pro- nuncia julgamento sobre todos os homens e sobre todas as suas obras, nao justifica o pecador e coloca todos os pecadores debai- xo de maldic;ao, sujeitando todos a ira de Deus14 • Portanto, se no Velho Testamento ha pessoas que receberam o perdao de pecados e a vida eterna, eles devem isso a promessa, e nao alei. Contudo, em conexao com esse prop6sito negativo, o aumen- to das transgressoes e a agravac;ao do julgamento, a lei tambem pos- sui urn sentido positivo, pois, pre- cisamente por dar ao pecado o carater de transgressao, de quebra do pacto, de incredulidade, preci- 13 Cl 3.19; Rm 5.13, 20; 7.8; 1Co 15.56. 14 Rm 3.19,20; 4.15; Cl 3.10,11,12. 87 samente por fazer do pecado o desejo secreto do corac;ao, e par- tanto fazer com que o pecador seja merecedor da ira de Deus e da maldic;ao da morte (Rm 3.20; 7.7; lCo 15.56)- precisamente por fa- zer isso a lei torna mais clara a necessidade da promessa e prova que se a justificac;ao do pecador e possivel, alguma outra justic;a alem daquela baseada na lei e nas obras da lei tern que ser colocada asua disposic;ao (Gl3.11). Em vez de ser oposta apromessa, a lei ser- ve precisamente como urn meio nas maos de Deus para trazer a promessa constantemente para mais perto de seu cumprimento. A lei colocou Israel sob restric;oes, como urn prisioneiro e colocado sob restric;oes em detrimento de sua liberdade de movimento. Como urn pedagogo, a lei tomou Israel pela mao acompanhando-o sempre e em todo lugar e nunca nem por urn momento perdeu-o de vista. Como urn guardiao e como urn torcedor a lei manteve uma vigilancia rigorosa sobre Is- rael para que aprendesse a conhe- cer e a amar a promessa e sua ne- cessidade e em sua gloria. Pode- mos dizer que, sem a lei, a promes- sa e seu cumprimento nao teriam utilidade. Israel rapidamente teria voltado ao paganismo e teria per- dido tanto a revelac;ao de Deus
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista quanta Sua promessa, tanto sua religiao quanta seu lugar entre as na<;:i5es. Mas a lei cercou Israel, separou-o, conservou-o isolado, guardou-o contra a dissolw:;:ao, e assim criou uma area, uma esfera definida na qual Deus pode pre- servar Sua promessa, dar-lhe urn alcance mais amplo, desenvolve- la, aumenta-la e traze-la sempre cada vez mais para perto de seu cumprimento. A lei foi util ao cumprimento da promessa. Ela colocou todos sob a ira de Deus e sob a senten<;:a de morte, ela colo- cou todos dentro dos dominios do pecado, para que a promessa, dada a Abraao e cumprida em Cristo, fosse dada a todos os cren- tes e que todos eles entrassem em sua heran<;:a como crian<;:as (Gl 3.21; 4.7). * * * * * Quando n6s olhamos pela perspectiva do ap6stolo Paulo n6s obtemos urn panorama maravi- lhoso da revela<;:ao de Deus no Velho Testamento, da religiao de Israel, do significado da lei, de his- t6ria e de profecia, dos salmos e dos livros de sabedoria. Com o surgimento de Moises a revela<;:ao de Deus e a hist6ria de Israel entram em urn novo periodo. Mas assim como a revela<;:ao dada a Abraao nao re- vogou as comunica<;:i5es anteriores de Deus, mas deu continuidade a 88 elas, assim tambem a dispensa<;:ao da Gra<;a de Deus sob a lei da con- tinuidade adispensa<;ao da Gra<;:a de Deus antes da lei. A lei, que foi acrescentada apromessa, nao a inutiliza nem a destr6i, mas da-lhe o necessaria impulso para que se desenvolva e alcance seu cumpri- mento. A promessa e principal; a lei e subordinada. A primeira e o objetivo; a segunda e 0 meio. 0 nucleo da revela<;:ao de Deus e da religiao de Deus nao esta na lei, mas na promessa. E por essa pro- messa ser uma promessa de Deus, ela nao e urn som surdo, mas urna palavra cheia de poder, que e a expressao de uma vontade incli- nada a realizar todos os prazeres de Deus (Sl33.9; Is 55.11). Portan- to essa promessa e a mola mestra da hist6ria de Israel ate alcan<;ar seu cumprimento em Cristo. De acordo com Isaias 29.22, Abraao foi redimido da terra dos caldeus pelo chamado de Deus, e depois que, pela livre dispensa<;:ao de Deus ele recebeu a promessa do pacto, Israel foi enviado por Deus ao Egito e ali tornou-se es- cravo de Fara6 para depois disso ser redimido de sua miseria e como urn povo ingressar no pac- to de Deus no monte Sinai. Esses tres eventos, a escravidao no Egi- to, a liberta<;ao dessa escravidao pela mao forte e pelo bra<;:o esten- dido de Deus, e a conclusao do pacta no Sinai sao a funda<;:ao da hist6ria de Israel e os pilares so-
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    0 CoNTEUDO oAREVELA<;:Ao EsPECIAL bre os quais repousa sua religiao e sua etica. Esses sao eventos vi- vos na memoria de Israel de gera- <;:ao a gera<;:ao, sao constantemen- te mencionados nas historias, na salmodia e na profecia, e nao pode, nem mesmo pelo mais ra- dical criticismo, ser negada a sua historicidade. Alem disso esses eventos significativos fornecem provas de que a lei nao foi dada, e nao podia ter sido dada, para anular a pro- messa. Pelo contraxio, quando Deus aparece a Moises na sar<;:a ardente, chamando-o para o seu oficio, nao e urn Deus estranho e desconhecido que aparece, mas o Deus de Abraao, o Deus de Isaque e o Deus de Jaco, o Deus que tern visto a opressao de Seu povo, e ouvido seu clamor e que, por ser o Senhor, o Fiel, agora dispoe-se a cumprir Sua promessa e a resga- tar Seu povo da miseria da escra- vidao (Ex 3.6 ss.). Israel nao se tor- nou o povo de Deus nas proximi- dades do Horebe, nem foi aceito como Seu povo com base na lei. Israel, na epoca de sua liberta<;:ao do Egito, ja era o povo de Deus em virtude de Sua promessa, e em virtude dessa mesma promessa Israel foi redimido de sua miseria. Miseria e reden<;:ao precedem a entrega da lei no Sinai. E assim como Abraao foi redimido em seu chamado e recebeu a promessa de Deus em uma fe inocente, e em termos dessa promessa levou uma 89 vida santa diante da face de Deus (Gn 17.1), assim tambem Israel, tendo sido liberto da escravidao pelo bra<;:o forte de Deus, e admo- estado e limitado por Deus no Sinai a uma nova obediencia. A lei que veio ao povo por meio de Moises era uma lei de gratidao; ela veio na esteira da reden<;:ao e as- sumiu e restaurou a promessa. Em Sua for<;:a Deus guiou Seu povo a santa habita<;:ao de sua gloria (Ex 15.13). Ele levou Seu povo sobre asas de aguia, trazendo-o a Si (Ex 19.4; Dt 32.11,12). Por isso a lei foi introduzida com o preambulo: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidao (Ex 20.2; Dt 5.6). Mas esse relacionamento pactual agora exige uma ordem mais especifica de obediencia. No periodo patriarcal, quan- do umas potlCas famflias viviam na ben<;:ao da promessa de Abraao, nao havia necessidade de uma regulamenta<;:ao mais especi- fica; e no Egito, quando o povo estava sob o domfnio egfpcio, nao havia oportunidade para isso. Mas agora Israel era redimido; tornou-se urn povo livre e inde- pendente vivendo em sua propria terra. Se nessas circunstancias ele permanecesse como urn povo, uma na<;:ao de Deus, o pacto da Gra<;:a teria que ser estabelecido na forma de urn pacto nacional, e a promessa, em vez de se manter e de se desenvolver sozinha, teria
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii que fazer uso do auxilio da lei. Isso era ainda mais necessa- rio porque Israel- como Paulo diz -era ainda uma crian~a. Israel ti- nha tido urn aprendizado diffcil no Egito, e tinha adquirido, pela sua experiencia de escravidao, urn profundo senso de dependencia, uma profunda consciencia de ne- cessidade de ajuda e suporte. Mas Israel nao estava imediatamente pronto para a independencia. Toda a sabedoria e mansidao de Moises era necessaria (Nm 12.3) para providenciar a lideran~a in- dispensavel para urn povo nessas condi~oes, tanto na saida do Egi- to quanto na peregrina~ao pelo deserto. Varias vezes esse povo e chamado de povo de dura cerviz porque nao cumpria as ordens de Deus (Ex 32.9; 33.3; 34.9; Dt 9.6). No deserto e, posteriormente, em Canaa, Israel constantemente mostrou sua natureza infantil. Esse nao era urn povo racional e razoavel; ele precisava adquirir consciencia de si mesmo, espirito investigativo, mente filos6fica eo poder do pensamento abstrato. Consequentemente, esse era urn povo de sentimento e emo~ao. Conseqiientemente Israel era urn povo muito receptivo a todos os tipos de influencias, sus- cetivel aos sentimentos do mun- do, e, portanto, muito inclinado a influencias terrenas e celestiais; para isso eles foram formados pelo proprio Deus para serem os 90 guardiaes de Sua revela~ao. Esse lado do carciter israelita nos con- fronta nas Escrituras em todos aqueles homens e mulheres de Deus que, honrados com a chama- cia do Senhor, tern apenas uma humilde e sincera resposta: "Aqui estou eu, fala, Senhor, pois teu ser- vo, tua criatura, ouve- seja feito conforme a tua palavra!" Eles acei- tavam a palavra do Senhor e con- servavam-na em seu cora~ao. Pelo outro lado, Israel era, como vemos em Ex 32.8, "disposto a voltar ra- pidamente pelo caminho", incli- nado a extraviar-se, instavet ca- prichoso, temperamentat teimo- so, facilmente desviado por algu- ma pessoa ou incidente, passional, capaz de alimentar urn 6dio ar- dente e de amar com urn amor profundo, suave, semelhante ao amor materno; em urn momento sofrendo com a morte e no mo- mento seguinte saltando aos ceus de alegria; nunca tendo a calma ocidental, mas sempre ardendo com a paixao oriental: gosta de comidas temperadas com alho e cebola (Nm 11.5), de lentilhas (Gn 25.34) e carne (Gn 27.14 ss.), gosta de cores brilhantes, lindas roupas, perfumes e pedras preciosas (Js 7.21; Is 3.18 ss.), e de tudo que bri- lha sob o sol. DaCosta e Heine sao filhos de Israel. Tal povo tinha que ser colo- cado sob a guarda e a disciplina da lei se quisesse conservar seu chamado atraves da promessa
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    0 CoNTEDoo DAREVELA<;:Ao EsPECIAL para ser uma benc;ao a todas as ge- rac;oes da terra. E a natureza da lei corresponde anecessidade de Is- rael. Em primeiro lugar, a lei nao teve sua origem na promessa ou na fe, mas foi acrescentada apro- messa, e serve nao para anular a promessa, mas para pavimentar o caminho para o seu cumprimen- to. Nos tempos modernos ha mui- tos que tentam reverter os papeis da lei e da promessa. Eles falam nao da lei e dos profetas, mas dos profetas e da lei, e dizem que a lei nos livros de Moises s6 veio secu- los depois dele e estendeu-se ate depois do exilio. Nessa interpre- tac;ao pode-se reconhecer muito de born que estava acrescentado na lei, que era a coisa principal da revelac;ao de Deus e na religiao de Israel. A promessa precedeu a lei, ocupou o lugar mais elevado, e a lei foi o meio usado para que isso fosse possivel. Portanto, e bern possivel que a lei de Moises tenha sido revisada posteriormente por editores secundarios ou terciarios, e que tenha sido dessa forma enriquecida por meio de interpolac;oes ou adendos inseri- dos por causa das circunsbincias de seu tempo. A lei tinha em sua totalidade urn carater temporal e transit6rio. Ja no livro de Deuteron6mio Moises tinha mo- dificado varios pontos. Contudo, o ponto de vista sugerido acima, de que os profetas precederam a 91 lei, corre contra todos os fatos, contra a natureza da lei, contra a natureza e func;ao da profecia, e tambem contra a voz da razao. Certamente, nao pode haver dis- puta sobre o fato de que Israel ti- nha seu templo, sacerdotes, sacri- ficios e coisas semelhantes muito tempo antes do oitavo seculo an- tes de Cristo, e que por causa dis- so muitas leis e regulamentac;:oes para a vida social e politica eram necessarias. Uma religiao sem cul- to e sem ritual e regulamentac;:ao e inconcebivel em qualquer lugar, particularmente na antiguidade e em Israel. Alem disso, a objec;:ao de que nao ha lugar para uma lei escrita com urn conteudo tao rico, como esta registrado de Exodo a Deuteron6mio, no tempo de Moises, perdeu toda a sua forc;:a com a descoberta da lei de Hamurabi, urn homem que viveu 2.250 anos antes de Cristo e que reinou sobre Babel durante cin- quenta e cinco anos. Em segundo lugar, o conteu- do da lei esta em pleno acordo como prop6sito que Deus lhe deu. Em vez de determinar seu meri- to, n6s vamos compara-la com as leis que estao em vigor em esta- dos cristaos hoje, pois mesmo que a lei de Moises, especialmente em seus principios, continue sendo importante ainda hoje, n6s sabe- mos que Deus concebeu-a como uma constituic;:ao temporaria, e que na plenitude do tempo, quan-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista do a promessa alcan<;ou seu cum- primento, a lei foi colocada de lado por causa de sua fraqueza e inutilidade. Da mesma forma, a compa- ra<;ao da lei de Israel com a lei dos povos antigos, de Babel, por exemplo, nao pode servir como criterio de julgamento. Eclaro que tal compara<;ao tern sua utilidade, chama nossa aten<;ao para todos os tipos de pontos de similarida- de e diferen<;a, e assim pode aju- dar-nos a entender melhor a lei mosaica e algumas circunstancias. Mas Israel era urn povo particu- lar, separado por Deus, e tinha seu proprio destino, que era ode ser guardiao da promessa. Portanto, Israel tinha que viver seu proprio tipo de vida e tambem tinha que ter uma perspectiva de seu propo- sito. Olhando para a lei do Se- nhor dada a Israel desse ponto de vista, nos podemos distinguir as seguintes caracteristicas: Primeira: Euma lei comple- tamente religiosa. Nao apenas em algumas partes, como naquelas que regulam o culto publico, por exemplo, mas em sua totalidade, ou seja, em suas prescri<;6es eticas, civicas, sociais e politicas, ela tam- bern e religiosa. Acima de toda a lei estao as palavras: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra da escravidao". A lei nao esta baseada em urn monoteismo abs- trato, mas sobre urn relaciona- 92 mento historico entre Deus e Seu povo, urn relacionamento criado pelo proprio Deus. Essa e uma lei pactual e regula a vida de Israel de acordo com as exigencias da promessa. Deus e o legislador de todos esses mandamentos, e por isso todos eles devem ser cumpri- dos. Toda a lei e permeada pelo pensamento: Deus primeiro amou voce, procurou por voce, redimiu voce, inseriu voce em seu pacto; portanto voce agora deve amar o Senhor, seu Deus, de todo o seu cora<;ao, de toda a sua alma, e de toda a sua for<;a (Dt 6.5; 10.12). Esse eo primeiro grande manda- mento (Mt 22.37,38). Segunda: Euma lei comple- tamente moral. Geralmente se fala de tres partes distintas na lei: a lei moral, a lei civile a lei cerimonial. Essa e uma boa classificac;:ao. Mas ao fazer essa distin<;ao nos nao podemos nos esquecer de que toda a lei e inspirada e sustentada por principios morais. A aplica<;ao desses principios morais a casos particulares costuma ser diferen- te da aplicac;:ao que nos fariamos hoje. 0 proprio Jesus disse que Moises permitiu aos homens la- vrar carta de divorcio para suas esposas por causa da dureza do corac;:ao deles (Mt 19.8). Mas o es- pirito que permeia a lei mosaica e o espirito de amor. Amaras o teu proximo como a ti mesmo (Lv 19.18). Esse eo segundo manda- mento, semelhante ao primeiro
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    0 CoNTEVDO DAREVELA<;:Ao EsPECIAL (Mt 22.39) e o cumprimento de toda a leil5 • Esse amor deve ser expresso ao fraco e oprimido, ao pobre, ao estrangeiro, as viuvas, aos 6rfaos, aos servos, aos prisio- neiros, aos surdos, aos cegos, aos idosos e outras pessoas semelhan- tes. Nenhuma outra lei que a an- tiguidade apresenta e assim. Tern sido corretamente dito que o c6- digo moral de Israel foi escrito do ponto de vista do oprimido. Isra- el nunca se esqueceu de que tinha sido estrangeiro e escravo no Egi- to. Terceira: A lei de Israel euma lei santa, e essa caracteristica nao e restrita aquela parte da lei que e especificamente chamada de lei de santidade (Lv 17-26). Nao ha lei na antiguidade que trate o pecado tao profundamente como pecado. Esse pecado recebe varios nomes. Ele e chamado de ofensa, culpa, des- via, rebeliao e, em ultima analise, e sempre considerado como sen- do cometido contra Deus, contra o Deus do pacto. Portanto o peca- do sempre tern o carater de trans- gressao, de quebra do pacto. To- davia ha perdao para todos esses pecados, mas nao no sentido de que Israel possa alcan<:;ar esse per- ciao por suas boas obras ou por seus sacrificios. 0 perdao vern pela promessa; ele e urn beneficia nao da lei, mas do Evangelho; ele 15 Rm13.8; Gl5.14; 1 Tm 1.5. 16 Ex 33.19; 34.6,7,9; Nm 14.18-20. 93 nao e obtido atraves dos sacrifici- OS, mas recebido em humildade pela fe16 . Mas os mesmos textos que declaram tao poderosamente a li- vre Gra<:;a de Deus sao notaveis por acrescentar imediatamente que Deus nao passara por alto a culpa, mas que visitara a iniqui- dade dos pais nos filhos ate a ter- ceira e quarta gera<:;ao. Uma afir- ma<:;ao nao entra em conflito com outra. Precisamente porque Deus perdoa os pecados de Seu povo pela Sua Grac;a atraves da promes- sa, Ele deseja que esse povo, ten- do recebido tao grande Gra<:,:a, ande no caminho do pacto. E se Israel nao anda nesse caminho, Deus, de acordo com a natureza do pecado cometido, impetra uma das tres maldi<:,:oes. Em alguns momentos a lei, atraves dos sacri- ficios, abre a possibilidade de re- concilia<:;ao. Isso acontece quando a ofensa nao tern consequencias civis. Quando a ofensa tern con- sequencias civis a lei determina a imposi<:;ao de uma penalidade ci- vil que, em alguns casos, pode chegar a morte. E em urn grande numero de casos Deus retem Seu juizo por algum tempo e depois vern ao povo com Seu julgamento atraves de pestilencia, exilio e coi- sas semelhantes. E esses tres tipos de puni<;ao que Deus reserva para
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    ~~ Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii Seu povo no caso de alguma trans- gressao nao anulam a promessa, mas sao apenas meios pelos quais Deus cumpre Sua promessa e evi- ta que 0 povo se entregue aincre- dulidade mesmo em dias de apostasia e ofensa. De todas as gerac;:6es da ter- ra, o Senhor escolheu apenas Is- rael; todavia Ele pune todas as ini- quidades de Seu povo. Quarta: Finalmente, a lei mosaica e tambem uma lei deli- berdade. Ela tanto assume quan- to garante uma larga margem de liberdade. Isso se torna aparente imediatamente quando o povo, de sua parte, voluntariamente aceita o pacto de Deus e voluntariamen- te se submete aSua lei. Deus nao imp6e a Si mesmo e ao Seu pacto sobre Seu povo, Ele o convida a uma aceita<;:ao voluntaria17 . Alem disso, a lei nao interfere em direi- tos e relac;:6es ja existentes, ela ape- nas os assume e os reconhece. Antes da entrega da lei no Sinai e depois dela, Israel ja estava mais ou menos organizado. Ele estava, por exemplo, genealogicamente dividido em casas, familias (gru- po de casas), gera<;:6es e tribos e estava organizado de forma patri- arcal. Cada uma dessas quatro subdivisoes do povo tinha seu l:i- der representativo. E todos esses lideres representativos, chamados 17 Ex 19.8; 24.3,7; Dt 5.27; js 24.15-25 anciaos ou principes, constituiam a assembleia de Israel (Js 7.14). Algumas assembleias desses anciaos tinham existido tambem no Egito (Ex 3.16 ss.; 4.9), e eles foram frequentemente reunidos depois do exodo para ouvir as palavras do Senhor (Ex 19.7), ou para apresentar propostas a Moises (Dt 1.22,23). Alem dessas assembleias de anciaos o povo de Israel tinha ainda dois tipos de oficiais: primeiro, os oficiais que tratavam de questoes pertinentes aordem civil, e que ja estavam em atividade no Egitd8 ; e, segundo, os Juizes que Moises instituiu para ajuda-lo nas questoes legais19 . Tan- to esses Juizes quanto esses ofici- ais tinham que ser designados em todas as cidades pelos anciaos. Nessa organizac;:ao do povo a casa constituia o ponto de parti- da e a base. Ainda hoje a casa con- tinua ocupando a posi<;ao de mai- or honra entre os judeus. E pelo fato da casa ocupar urn lugar tao importante em Israel a esposa e mais honrada em Israel do que entre outros povos antigos. A questao central nesse caso- como tern sido corretamente observado - e se o homem era considerado em Israel primariamente como urn membro da familia, seja mari- do, pai ou filho, ou primariamen- te como urn cidadao ou guerrei- 10 Ex 5.6,10,14,19; Nm 11.16; Dt 1.5; 16.18; /5 23.2. 19 Ex 18.21-23; Dt 1.13 55. 94
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    0 CoNTEDoo DAREvELA<;:Ao EsPECIAL ro. A ultima hip6tese era verdade tanto na Grecia quanto em Roma, eo resultado disso eque a mulher foi colocada de lado e considera- da como inferior. Mas em Israel o homem era considerado antes de tudo como urn membro da fami- lia, e sua tarefa era antes de tudo cuidar da familia. Dessa forma ele nao era colocado contra ou acima da esposa, mas ao lado dela. Tan- to ela quanto ele dedicavam res- peito e amor aos filhos (Ex 20.2) e ela tinha o direito de merecer o louvor do marido (Pv 12.4; 31.10 ss.). * * * * * Toda essa forma de governo patriarcal-aristocratica existia em Israel antes mesmo de seu reco- nhecimento e confirma~ao pela lei. Urn born numero de leis se refere ao matrimonio e serve para man- ter a santidade desse estado de vida e proteger a casa. Outras re- gulamentac;:6es protegem a forma de governo patriarcal tanto do sa- cerd6cio quanto do reinado. Os anciaos, os oficiais e os juizes sao diferenciados dos sacerdotes e dos levitas. Era apenas na mais alta corte de justi~a que os sacerdotes tambem tinham que se sentar20 , ·isto que uma boa explanac;:ao da lei - uma tarefa designada aos sa- 0! 173-13; 19.17,18. L ]() 3-11; Ez 7.26; 44.23; Jr 18.18. cerdotes21 - era muito importante para o peso das decis6es tomadas nesse nivel. Em toda a sua vida politica Israel tinha uma rigida hierarquia. Dessa forma, nao havia lugar para despotismo depois da lei. Poste- riormente, quando Israel desejou ter urn rei e Deus lhe deu urn (lSm 8.7L esse rei nao poderia reinar como os reis de outros povos; ele era limitado pela lei de Deus e ti- nha que executar Sua vontade (Dt 17.14-20). Em uma analise final, Deus era o Rei, assim como Ele tambem era o Legislador eo Juiz de IsraeFZ. Isso e expresso no fato de que, como regra gerat Ele pro- nunciava a sentenc;:a por meio dos Juizes, que tinham que ser estrita- mente imparciais em seus julga- mentos, nao podiam ter conside- ra~ao especial por certas pessoas, e tinham que fazer seus julgamen- tos somente de acordo com a nor- ma da lei. Isso encontra expressao tambem no fato de que em casos especiais Ele fez Sua vontade co- nhecida atraves do Urim e Tumim e atraves dos profetas. E isso en- contra expressao mais fortemen- te ainda no fato de que no caso de muitas transgress6es Ele retinha o direito de impor a punic;:ao por si mesmo. Urn grande numero de prescric;:6es da lei nao eram regras no sentido de que cada uma delas E.:: 15.18; 19.6; f,hn 23.21; Dt 33.5; fz 8.22 ss.; 1 Snz 8.7; I~ 33.22; 5!4-d:.::-.· ~~~ "~::: 95
  • 96.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista assegurava uma penalidade espe- cifica no caso de viola~ao, mas simplesmente fortes admoesta- ~6es e advertencias. Elas eram dirigidas a consciencia e portanto davam urn alto grau de liberdade a Israel. Os tipos de puni~6es tam- bern eram limitados, consistindo principalmente de censuras fisicas e, no caso de viola~6es pesadas (blasfemia, idolatria, feiti~aria, maldi~ao de pais, assassinato e adulterio), morte por apedreja- mento. Nao se menciona inqui- si~ao, incinera~ao na estaca, deten~ao, exilio, confisco de pro- priedade, morte por enforcamen- to, e coisas semelhantes. Se Israel andasse no caminho do pacto, re- ceberia as ben~aos do Senhor; mas se nao obedecesse Sua voz, seria visitado com Sua maldi~ao e re- ceberia todos os tipos de calami- dade (Dt 28.29). 0 prop6sito de Deus ao dar a lei a Israel torna-se evidente a partir dessas caracteristicas da lei. 0 Senhor define esse prop6sito quando, na conclusao do pacto do Sinai, Ele diz a Moises para falar ao povo de Israel que se o povo ouvir Sua voz e conservar o pac- ta, ele sera propriedade peculiar de Deus dentre todos os povos, urn reino de sacerdotes e na~ao santa (Ex 19.5,6). Por sera na~ao escolhida por Deus dentre todos os povos da terra Israel deve fir- mar-se no caminho do pacto. Is- rael nao foi escolhido por seus 96 meritos, mas pelo soberano amor de Deus e Seu juramenta aos seus pais (Dt 7.6-8). E Israel nao rece- beu esse gracioso privilegio para desprezar as outras na~6es e se exaltar sobre elas, mas para ser urn reino de sacerdotes, cuja tarefa sacerdotal se estende as na~6es para traze-las ao conhecimento e servi~o de Deus, e somente dessa forma reinar sobre elas. Israel s6 podera cumprir esse chamado se for uma na~ao santa, se for urn povo inteiramente consagrado ao Senhor, ouvir Sua voz e andar no caminho do pacto. Essa santidade para a qual Israel foi chamado nao alcan~ou seu cumprimento total no sentido profunda que a santidade recebe no Novo Testamento. Ela compre- ende nao apenas a santidade mo- ral, mas torna-se especialmente claro da lei de santidade em Levftico 17.26 que ela inclui tam- bern a santidade cerimonial. 0 que n6s devemos observar e que as partes moral e cerimonial da lei nao estao colocadas uma contra a outra. Elas sao os dois lados da mesma moeda. Israel e urn povo santo quando, tanto interna quan- ta externamente, em fee conduta, vive de acordo com a lei moral, social e cerimonial entregue ao povo no Sinai. E se esse povo - como o Senhor sabe- por causa de sua incredulidade nao puder cumprir esse chamado, e no de- correr de sua hist6ria tornar-se
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    0 CONTEUDO DAREVELA<;:AO ESPECIAL culpado de desobediencia e afas- tar-se do pacto, o Senhor certa- mente visitara o povo com puni- c;:oes mais pesadas do que qual- quer outra nac;:ao do mundo rece- beria. Somente ao fim dessas pu- nic;:oes o Senhor se voltaria para Seu povo e teria compaixao dele, circuncidaria seus corac;:oes e os corac;:oes de seus filhos para que amassem o Senhor seu Deus com todo o seu corac;:ao e com toda a sua alma (Dt 4.29-31; 30.1 ss.). Ele nao pode deixar que Seu povo siga seus proprios caminhos porque Ele zela pelo Seu proprio nome e por Sua honra contra Seus inimi- gos (Dt 32.26 ss.). A despeito da incredulidade de Israel e apesar dela o Senhor deve estabelecer Sua propria credulidade, a integrida- de de Sua palavra, a imutabilidade de Seu conselho, e a estabilidade de Seu pacto. Ele deve demonstrar que e Deus e que nao ha outro Deus alem dEle (Dt 32.39). Dessa forma a lei termina na promessa, assim como comec;:ou nela. Ela retorna ao seu ponto de partida. * * * * * Do ponto de vista da Escri- tura o pacto abrange toda a histo- ria de Israel. 0 proposito da Es- critura nos livros historicos do Velho Testamento nao e apresen- tar urn exaustivo e unificado re- 21 Ex 19.8; 24.3,7; Dt 5.27. 97 gistro de todos os acontecimentos em Israet nem trac;:ar a conexao entre esses eventos. 0 que a Es- critura descreve nesses livros e o progresso do reino de Deus. Aqui- la que tern pouca ou nenhuma import'incia para esse fim e men- cionado brevemente ou totalmen- te ignorado. Da mesma forma ela se demora sobre aquilo que tern importancia para esse reino. No relato da historia de Israel a Es- critura quer nos ensinar quem eo que Deus e para Seu povo. Ecom certa propriedade, portanto, que os escritos historicos de Israel na Escritura tern sido chamados de diario ou agenda de Deus. Como em urn diario, Deus faz urn regis- tro a cada dia para mostrar o que tern sido Seus cuidados e Suas ex- periencias para Israel. Anteriormente, quando o povo ainda vivia sob o impacto das poderosas obras de Deus, ele permanecia crendo em Sua lei. For tais atos o Senhor havia provado de forma incontestavel que Ele e o tmico Deus (Ex 6.6; 18.18) e que o povo nem devia pensar em ou- tros deuses. Quando o povo ou- via a palavra do Senhor no monte atraves de Moises, todo o povo respondia a uma so voz: "Tudo o que o Senhor disser nos fare- mos"23. Mais tarde, quando Israel recebeu a terra de Canaa por he- ranc;:a e foi confrontado por Josue
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii com a escolha de quem ele queria servir, Israel deu a mesma respos- ta: "Deus proibiu que nos aban- donassemos o Senhor para servir outros deuses (Js 24.16 ss.; Jz 2.7). Mas quando Josue e OS anciaos do povo que tinham tes- temunhado os poderosos feitos de Deus morreram e levantou-se ou- tra gerac;ao, que nao conhecia o Senhor nem os feitos que tinha realizado em favor de Israel, o povo se afastou do Senhor, o Deus de seus pais, que os tirou do Egi- to, e seguiu outros deuses, os deu- ses das nac;oes vizinhas (Jz 2.6-13). De fato, Israel nao produziu ido- latria. Israel nao criou sua propria falsa religiao, apenas tomou para si os deuses pagaos ou comec;ou a servir o Senhor na forma de ima- gens semelhantes as que OS pa- gaos usavam. No Egito e no de- serto o povo praticou o culto egip- cio aos idolos;24 Mais tarde, ja na Palestina, o povo tornou-se culpa- do por adorar os deuses cananitas, fenicios (Baal, Astarote, Ashera), e Assirios (o fogo e as estrelas). Continuamente Israel violava o primeiro eo segundo mandamen- tos, e assim violava os fundamen- tos do pacto. Logo no comec;o dos dias dos juizes, esses herois do povo da lei, a historia de Israel foi uma mistura de apostasia, punic;ao e consequente temor, de urn lado, e 24 Ex 16.28; Js 24.14; Ez 20.7,13. 98 de resgate e benc;ao de outro (Jz 2.11-23). Esse foi urn periodo de confusao, durante o qual as tribos de Israel perderam a visao dena- cionalidade, cada uma se engajou em sua propria politica, e todo homem fazia o que achava certo aos seus proprios olhos (Jz 17.6; 21.25). Essa situac;ao so chegou ao fim com Samuel e a instituic;ao do reino. Contudo depois de Salomao a unidade nacional foi totalmente quebrada e dez tribos se separaram da casa real de Davi. Jeroboao transformou essa divisao politica em uma divisao religiosa ao construir urn santuario em Da, introduzindo o culto de imagens e abolindo o sacerdocio legitimo. Assim ele se tornou o rei que "fez pecar a Israel". A historia do rei- no de Efraim durante dois secu- los e meio transformou-se numa historia de afastamento progres- sivo de Deus. A profecia em vao levantou sua voz, e o fim dessa historia foi o cativeiro das dez tri- bos. Juda, de fato, foi muito mais privilegiado do que Israel, pois foi continuamente governado pela casa real de Davi, continuou com o sacerdocio legitimo e como tem- plo legitimo. Apesar de tudo isso e das muitas reformas realizadas por reis piedosos, a apostasia e a idolatria se espalharam tambem em Juda e o juizo de Deus se fez sentir. Aproximadamente 140
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    0 CoNTEDDo DAREVELAc;:Ao EsPECIAL anos depois de Israet Juda tam- bern foi levado cativo. A apostasia do povo de Is- rael nao deve nos impedir de en- xergar o fato de que Deus, atra- ves dos seculos, preservou urn re- manescente entre eles de acordo com a eleic;ao da Grac;a. Houve urn grupo em Israel que permaneceu fiel ao pacto de Deus. Mesmo nos dias dificeis de Elias houve sete mil que nao dobraram seus joe- lhos a Baal. Esses eram os piedo- sos, os justos, os crentes, e, como aqueles que foram mencionados nos Salmos, continuaram colocan- do sua confianc;a no Deus de Jac6 e nao se portaram de forma ina- dequada com o pacto. Eles suspi- ravam por Deus assim como a corsa suspira pelas correntes das aguas; eles preferiram 0 templo de Deus a qualquer outro lugar; eles meditaram na lei de Deus e se ape- garam as Suas promessas. Para eles a lei nao era urn fardo, mas urn prazer; eles se alegravam nela todos os dias. Eles repetiam as palavras de Moises e diziam que a guarda dessa lei provaria ser sabedoria e entendimento aos olhos das nac;oes. Quando o povo ouviu as ordenanc;as da lei, cla- mou: "Verdadeiramente este e urn povo sabio e entendido, pois que nac;ao e tao grande que tenha es- tatutos e juizos tao justos como toda esta lei que n6s hoje recebe- mos (Dt 4.6-8)? Amedida em que os tempos 99 ficavam mais carregados, mais fir- memente eles se apegavam a pro- messa. Deus nao abandonaria a obra de Suas maos. Em conside- rac;ao ao Seu nome e aSua fama Ele nao podia quebrar o pacto que tinha estabelecido com os ances- trais do povo de Israel. De dentro desse remanescente fiel, Deus cha- mou homens que, como os profe- tas, OS salmistas e OS sabios, decla- raram a palavra de Deus e desdo- braram o significado da promes- sa de forma esclarecedora. Eles colocaram sua cabec;a para fora das profundidades de suas cala- midades. Pela luz do Espirito do Senhor eles viram o futuro e pro- fetizaram urn novo dia, o dia do Senhor, do Filho de Davi, do re- novo de Jesse, do Emanuel, do Carvalho de Justic;a, do Servo do Senhor, do Anjo do Facto, e da descida do Espirito Santo. 0 Ve- lho Testamento comec;a, depois da queda, com a promessa do des- cendente da mulher (Gn 3.15) e termina com o anuncio da vinda do Anjo do Pacto (Ml3.1). * * * * * Depois do cativeiro tambem houve urn remanescente fiel em Israel (Ml 3.16). Atraves do cati- veiro o povo, como povo, foi pur- gado, permanentemente limpo da idolatria e do culto a imagens, e foi colocado sob a firme discipli- na da lei por Esdras e Neemias.
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Isso trouxe novos perigos em sua esteira. Eles desenvolveram urn escolasticismo escrituristico que perscrutava a letra da lei mas que cegava os olhos para toda a essen- cia e espirito do velho pacto. Sur- giram seitas como ados fariseus, dos saduceus e dos essenios, que por urn tratamento arbitrario da revela<;ao divina substituiram o ensino espiritual por urn ensino terreno. Todavia, tambem nos quatrocentos anos que decorre- ram entre Malaquias e Joao Batis- ta, Deus continuou conduzindo Seu povo. Depois do exilio Israel nunca mais teve independencia politica plena. Israel passou de urn dominio a outro e tornou-se suces- sivamente sujeito a Persia e Me- dia, Macedonia, Egito, Siria e Roma. Israel tornou-se urn servo em sua propria terra (Ne 9.36,37). Contudo essa sujei<;ao poli- tica trouxe beneficios. Israel pas- sou a refletir cada vez mais sobre seu proprio carater e chamado, criou novamente orgulho de sua possessao espiritual da revela<;ao divina e encarou-a como seu pri- vilegio peculiar, e tomou o maior cuidado possivel com a cole<;ao e preserva<;ao dessa revela<;ao. Essa consciencia de seus privilegios espirituais se tornou tao real em Israel que nao apenas seu carater foi formado por ela, mas tambem atraves dela, Israel foi capaz de manter sua identidade nacional mesmo sob pesada persegui<;ao. 100 Israel sofreu e foi oprimido como nenhum outro povo do mundo. Tanto na Palestina quanto fora dela Israel continuou existin- do. Em seu Velho Testamento Is- rael tinha urn tesouro mais valio- so do que toda a sabedoria dos gentios. Israel formou uma comu- nidade cosmopolita tendo Jerusa- lem como sua capital. Em suas si- nagogas os israelitas ofereceram as na<;oes idolatras urn espetacu- lo de uma religiao sem uma ima- gem sequer, e sem altar, sem sa- crificio e sem sacerdocio. Eles pre- garam em todos os lugares a uni- dade e a integridade do Deus de Israel e tambem carregaram em seu peito a inacreditavel esperan- <;a de urn futuro glorioso no qual Israel seria ben<;ao para todas as na<;oes. Dessa forma eles pavi- mentaram o caminho do Cristia- nismo entre os povos pagaos. E em Israel, pela Gra<;a de Deus, muitos crentes foram preserva- dos, que, como Simeao e Ana, e muitos outros, esperavam a re- den<;ao de Israel em total expec- tativa. Maria, a mae do Senhor, e o mais glorioso exemplo desses santos. Nela Israel alcan<;ou seu destino, ou seja, recebeu a mais alta revela<;ao de Deus em humil- de fe, e conservou-a. "Aqui esta a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra" (Lc 1.38). * * * * *
  • 101.
    0 CoNTEUDO DAREVELA<;:Ao EsPECIAL Como podemos ver, toda a revela<;ao de Deus no Velho Tes- tamento converge para Cristo, nao para uma nova lei, ou doutrina, ou institui<;ao, mas para a pessoa de Cristo. Essa pessoa e a completa revela<;ao de Deus; o Filho do Homem e o proprio e unigenito Filho de Deus. A rela<;ao entre o Velho eo Novo Testamento nao e como a da lei e do Evangelho. E como a da promessa e seu cum- primento (At 13.12; Rm 1.2), da sombra e do objeto (Cl 2.17), da imagem e da realidade (Hb 10.1), das coisas abaladas e das coisas que nao se abalam (Hb 12.27t da escravidao e da liberdade (Rm 8.15; Gl 4). Ja que Cristo eo con- teudo real da revela<;ao do Velho Testamento (Jo 5.39; 1Pe 1.11; Ap 19.10), Ele e a coroa da dis- pensa<;ao do novo pacto. Ele eo cumprimento da lei, de toda Jus- ti<;a (Mt 3.15; 5.17), de todas as pro- messas, o sim eo amem (2Co 1.20). 0 povo de Israet com sua hist6- ria, com seus oficios e institui<;iSes, com seu templo e seu altar, com seus sacrificios e cerimonias, com sua profecia, com sua salm6dia e com seu ensino sabio alcan<;ou seu objetivo e seu prop6sito em Cris- to. Cristo e o cumprimento de tudo, primeiro em Sua pessoa e surgimento, e tambem em Suas palavras e obras, em Seu nasci- mento e em Sua vida, em Sua morte e em Sua ressurrei<;ao, em Sua ascensao e em Sua posi<;ao a 101 direita de Deus. Portanto, se Ele apareceu e terminou Sua obra, a revela<;ao de Deus nao pode ser ampliada ou aumentada. Pode ser apenas explicada pelo testemunho dos ap6stolos, e ser pregada a todas as na<;iSes. Como a revela<;ao esta completa, e chegado o momento no qual seu conteudo e feito pro- priedade da ra<;a humana. Da mesma forma que tudo no Velho Testamento aponta para Cristo, tudo no Novo Testamento e deri- vado dEle. Cristo e o ponto cen- tral de todas as epocas. A promes- sa feita a Abraao agora chega a todas as na<;iSes. A Jerusalem que era de baixo da lugar aJerusalem que e de cima, a qual e nossa mae (Gl4.26). Israel e suplantado pela Igreja em todas as linguas e po- vos. Essa ea dispensa<;ao da ple- nitude dos tempos, na qual a pa- rede do meio foi derrubada, na qual judeus e gentios sao feitos novas criaturas e na qual tudo e reunido sob a mesma Cabe<;a, a saber, Cristo (Ef 1.10; 2.14)5). Essa dispensa<;ao continua- rei. ate que a medida dos gentios se complete e Israel seja salvo. Quando Cristo tiver reunido Sua Igreja, preparado Sua noiva, leva- do a cabo a expansao de Seu rei- no, Ele o clara ao Pai para que Deus seja tudo em todos (1Co 15.28). "Eu serei teu Deus, e tu se- ras meu povo". Esse eo conteudo da promessa. Essa promessa al-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista can<;ara seu cumprimento pleno na nova Jerusalem em Cristo, o 102 que era, 0 que e, e 0 que ha de vir (Ap 1.4).
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    CAPITULO If As SAGRADAS EscRITURAS N ossoconhecimento dare- velac;:ao, tanto da geral quanto da especial, vern a n6s atraves das Escrituras. Eimportante entender are- lac;:ao entre a revelac;:ao e a Escri- tura. Por urn lado, ha uma dife- renc;:a importante entre elas. Are- velac;:ao, por exemplo, precedeu o seu registro em alguns casas por urn longo tempo. Dessa forma, embora certamente houvesse re- velac;:ao antes de Moises, ainda nao havia Escritura. Alem disso, a revelac;:ao continha muito mais do que foi posteriormente regis- trado. Os livros dos profetas, como por exemplo, o do profeta Amos, sao geralmente urn resumo do que ele falou pessoalmente aos seus contemporaneos. Alguns profetas do Velho Testamento e alguns profetas do Novo Testa- mento - e eles eram canais da re- velac;:ao especial - nao deixaram 103 registros escritos. E n6s somas ate mesmo informados de que Jesus realizou muitos outros sinais, tao numerosos que se cada urn deles fosse escrito o mundo nao pode- ria canter os livros (Jo 20.30; 21.25). E por outro lado Deus pode ter revelado algo aos Seus profetas e ap6stolos que eles nao sabiam ate o momenta em que comec;:aram a escrever, e portanto, algo sabre o que eles ainda nao tinham prega- do. Isso everdade, pelo menos em parte, sabre a revelac;:ao que Joao teve em Patmos com relac;:ao ao futuro. Portanto, a Escritura nao ea revelac;:ao em si, mas a descric;:ao, o registro que pode ser conheci- do da revelac;:ao. Todavia, quan- do se diz que a Escritura eo re- gistro da revelac;:ao, n6s devemos evitar cair em outro erro. Ha aque- les que nao apenas distinguem entre a revelac;:ao e a Escritura,
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mas tambem separam as duas. Eles reconhecem que Deus esta- va agindo de forma especial na revela<;:ao que precede a Escritu- ra, mas creem que o registro da revela<;:ao foi totalmente deixado por conta das pessoas que a es- creveram, e que isso aconteceu totalmente fora dos limites da providencia especial. De acordo com esse ponto de vista a Escri- tura continua sendo urn registro da revela<;:ao especial, mas urn registro incidental e sujeito ao erro. 0 resultado disso e que n6s devemos, a custo de grande difi- culdade, examinar as Escrituras para ver quais das suas partes pertencem e quais nao pertencem a revela<;:ao especial. Nessa base uma grande distin<;:ao e feita en- tre a Palavra de Deus e as Sagra- das Escrituras. Esse ponto de vis- ta afirma que a Escritura nao ea Palavra de Deus, mas contem a Palavra de Deus. Tal ponto de vista da ques- tao nao e verdadeiro, pois alem de interpretar a rela<;:ao entre a palavra e a Escritura muito meca- nicamente, ele tambem se esque- ce do fato de que, quando Deus quis dar uma revela<;:ao especial que, na descendencia de Abraao era apontada para toda a ra<;:a hu- mana em Cristo, Deus tambern tomou providencias para pre- serva-la em seu estado puro e fa- zer com que a revela<;:ao seja sem- pre confiavel. A palavra escrita 104 difere da palavra falada pelo fato de que ela nao se perde no ar, mas e preservada; ela nao e como as tradi<;:oes orais, sujeitas a falsifi- ca<;:ao; e seu alcance nao e limita- do a umas poucas pessoas que podem ouvi-la, pelo contrario, a palavra escrita pode se espalhar por todos os povos e em todas as terras. A escrita da urn carater de permanencia a palavra falada, protege-a contra a falsifica<;:ao e aumenta seu alcance. Todavia n6s nao temos ne- cessidade de nos demorarmos nessa argumenta<;:ao humana. 0 fato de que a revela<;:ao especial procede de Deus e que a Escritu- ra veio a existencia sem receber um cuidado especial da parte de Deus e diretamente contrario ao proprio testemunho da Escritura. Ela repetida e enfaticamente de- clara que a Escritura e a Palavra de Deus. De fato a Escritura deve ser diferenciada da revela<;:ao que a precede, mas nao pode ser seprmz- drz da revela<;:ao. A Escritura nao e urn suplemento humano, inci- dental, arbitrario e sujeito a erro feito arevela<;:ao, mas urn compo- nente da revela<;:ao. A Escritura e o cumprimento e a pedra angular da revela<;:ao. * * * * * Vejamos agora as claras afir- ma<;:oes que a Escritura faz sobre Sl mesma.
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    As SAGRADAS EsCRITURAs Primeiro,Deus freqi.iente- mente envia Seus profetas nao meramente para proclamar a re- velac;:ao pela palavra de seus 1<1- bios, mas tambem para escreve- la. Em Exodo 17.14 Moises rece- be ordem do Senhor para escre- ver o registro da luta e da vit6ria contra Amaleque- uma batalha que foi de grande importancia para Israel - como memorial no livro dos atos redentivos de Deus. Em Exodo 24.3,4,7 e 34.27 Moises e incumbido de escrever as leis e os estatutos de acordo com os quais Deus firmou Seu pacto com Israel. E quando Israel chegou ao fim de sua jornada pelo deserto e chegou novamente a Jerico nos campos de Moabe, n6s somos ex- pressamente informados de que Moises relatou as jornadas dos fi- lhos de Israel de acordo com o mandado do Senhor (Nm 33.2). Alem disso, e dito especificamen- te sobre o cantico de Moises re- gistrado em Deuteronomio 32 que ele deveria ser escrito e ensinado aos filhos de Israel para que em dias de apostasia ele servisse de testemunha contra Israel (Dt 31.19,22). Ordens semelhantes para registrar a revelac;:ao recebi- da foram dadas aos profetas em seu tempo25 • Embora tais ordens se refiram somente a uma peque- na parte da Escritura, elas mos- tram que Deus profbe que o ho- mem acrescente ou diminua algo de suas palavras (Dt 4.2; 12.32; Pv 30.6) e tern dedicado urn cuidado especial ao registro escrito de Sua revelac;:ao. Em segundo lugar, Moises e os profetas sao perfeitamente conscientes do fato de que eles estao proclamando a mensagem de Deus nao apenas de forma oral, mas tambem de forma escri- ta. Moises e chamado para sua tarefa especial, isto e, echamado para ser o Iider do povo de Israel (Ex 3). Mas o Senhor tambem fala com ele face a face, como urn ho- mem fala ao seu amigo (Ex 33.11), e coloca-o a par de todos os Seus estatutos e ordenanc;:as. Repetidas vezes, e como urn preambulo para cada lei especifica, sao menciona- das as palavras: "E o Senhor dis- se", "eo Senhor falou", e outras semelhantes (Ex 6.1,10,13). Tanto nos livros de Moises como em toda a Escritura, toda a entrega da lei e atribuida ao Senhor. Ele mos- trou Sua palavra a Jac6, Seus es- tatutos e Seus juizos a Israel. Nao fez assim a nenhuma outra nac;:ao, e para seu julgamento, outras na- c;:oes nao o conheceram (Sl 147.19,20; 103.7). Os profetas tam- bern sao conscientes da fonte de sua profecia. Eles sabem que o Senhor os chamou26 , e que rece- 25 Is 8.1; 30.8; Jr 25.13; 30.12; 36.2; Ez 24.2; Dn 12.4; He 2.2. 26 1 Sm 3; ls 6; Jr 1; Ez 1-3; Am 3.7,8; 7.15. 105
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista beram dele a Sua revela<;ao27 • 0 que Amos diz era a convic<;ao de todos eles: "Certarnente o Senhor nao fara coisa algurna sern prirnei- ro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas" (Am 3.7. Corn- pare com Gn 18.17). Mas eles tarn- bern sabiarn que quando escrevi- arn estavam proclamando a pala- vra do Senhor, e nao a sua propria palavra. Assirn como fez Moises ao registrar as leis, assirn tarnbern os profetas introduziarn suas pro- fecias corn as formulas: "Assirn diz o Senhor", "a palavra do Se- nhor veio a rnirn", ou "a visao", "a palavra", ou "a rnensagern" do Senhor28 . Ern terceiro lugar ha o teste- rnunho do Novo Testamento. Je- sus e os apostolos repetidarnente faziam cita<;6es do Velho Testa- mento sob o nome de Moises, Isaias, Davie Daniel (Mt 8.4; 15.7; 22.43; 24.15). Corn a rnesrna fre- quencia eles faziarn uso das se- guintes frases introdutorias: "Esta escrito" (Mt 4.4), ou "como diz a Escritura" (Jo 7.38), ou "assirn diz o Espfrito Santo" (Hb 3.7), e ou- tras frases sernelhantes. Por esse rnetodo de referenda eles indi- carn claramente que a Escritura do Velho Testamento, apesar de ter sido cornposta de varias partes e escrita por varios autores, e urn conjunto organico tarnbern ern sua forma escrita, e seu autor e Deus. Nern Jesus nern Seus apos- tolos rnencionarn a Escritura de forma indireta. Eles fazern cita- <;6es diretas corn as rnesrnas pala- vras usadas pelo escritor. Jesus declara que a Escritura nao pode ser quebrada- isto e, nao pode ser destituida de sua autoridade (Jo 10.35), e declara tarnbern que Ele pessoalrnente nao veio para anu- lar a lei ou os profetas, mas para curnpri-los (Mt 5.17; Lc 6.27). 0 apostolo Pedro escreve que a pa- lavra da profecia e verdade e dig- na de aceita<;ao, e e urna luz que brilha em lugar tenebroso. Isso acontece porque a Escritura con- tida no Velho Testamento nao re- pousa sobre urna prega<;ao pesso- al e uma interpretaao pessoal sobre o futuro, pois a profecia da Escritura nao provem de particu- lar elucida<;ao; porque nunca ja- rnais qualquer profecia foi dada por vontade hurnana; entretanto, homens [santos] falararn da parte de Deus, rnovidos pelo Espirito Santo (2 Pe 1.19-21; 1 Pe 1.10-12). No rnesrno sentido Paulo testifica que as Sagradas Escrituras podern fazer-nos sabios para a salva<;ao, se nos as lernos e pesquisarnos pela fe que esta ern Cristo Jesus, pois elas nos sao dadas pela ins- pira<;ao de Deus, e por isso sao uteis para o ensino, para a repre- ' 7 Is 5.9; 6.9; 22.14; 28.22; Jr 1.9; 3.6; 20.7-9;_Ez 3.16,26,27; Am 3.8. 28 Js 1.1; 2.1; 8.1; 13.1; Jr 1.2; 2.1; 4.11; Ez 1.1; 2.1; 3.1; D11 7.1; Am 1.3,6,9. 106
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    As SAGRADAS EscruTURAs ensao,para a corre<;ao na justi<;a (2 Tm 3.16). Em quarto lugar, sobre as Escrituras do Novo Testamento, podemos dizer que embora Jesus nao tenha deixado urn documen- to escrito sobre Si mesmo, Ele es- colheu, chamou e qualificou Seus ap6stolos para sair pelo mundo, particularmente depois de Sua partida, para serem Suas testemu- nhas29. Ele os equipou para a rea- liza<;ao dessa tarefa dando-lhes gra<;as e poderes especiais30 , e mais especificamente dotou-os com o Espirito Santo, que traria todas as coisas que Jesus tinha fei- to asua lembran<;a (Jo 14.26) e que os guiaria a toda a verdade, inclu- sive a verdade sobre coisas que ainda estavam por vir (Jo 15.26,27; Jo 16.13). Assim como o Filho veio para glorificar o Pai, o Espirito Santo veio para glorificar o Filho e, para alcan<;ar esse objetivo, o Espirito recebe do Filho tudo o que Ele fala e faz (Jo 16.14). Os ap6stolos deram seu tes- temunho de Cristo nao apenas aos seus contemporaneos e aos seus compatriotas, que viviam em Jerusalem, Judeia e Samaria, mas tambem a todas as criaturas e ate aos confins da terra31 . Nesse man- dato de ir por todo o mundo esta- va contida a ordem de dar teste- munho de Jesus tambern em for- 29 Mt 10.1; Me 3.13; Le 6.13; 9.1; fa 6.70. rna escrita, apesar dos ap6stolos nao terem recebido sua missao nesses termos especificos. Mas se a promessa dada a Abraao tam- bern alcan<;aria toda a ra<;a huma- na em Cristo, ela nao poderia cumprir seu prop6sito a menos que fosse registrada por escrito e desta forma fosse preservada por todas as epocas e distribuida a todos os povos. Os ap6stolos fo- ram guiados em sua missao pelo Espirito Santo, que eles natural- mente proclamavam atraves de sua pena e atraves das epistolas pelas quais eles davam testemu- nho da plenitude da Gra<;a e da verdade que existia em Cristo Je- sus. Nao apenas em sua prega<;ao oral, mas tambem em seus escri- tos, eles demonstravam ter clara- mente percebido o prop6sito di- vino de que eles revelassem aver- dade que Deus tinha revelado em Cristo e que atraves de Seu Espi- rito tinha tornado conhecida a eles. Mateus escreve o livro da gera<;ao, isto e, da hist6ria de Je- sus Cristo, o Filho de Davi (Mt 1.1). Marcos fala como o Evange- lho come<;ou com Jesus Cristo, o Filho de Deus, e teve seu ponto de origem nEle (Me 1.1). Lucas quer, por meio de uma cuidado- sa investiga<;ao e de urn registro organizado, dar seguran<;a a 30 Mt 10.1,9; Me 16.15 ss.; At 2.43; 5.12; Rm15.19; Hb 2.4. 31 Mt 28.19; Me 16.15; At 1.8. 107
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Teofilo a respeito das coisas que eram verdadeiramente cridas en- tre os santos com base nos teste- munhos dos apostolos (Lc 1.1-4). Joao escreve seu Evangelho para que nos creiamos que Jesus e0 Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos vida em Seu nome (Jo 20.31); e em sua pri- meira carta ele tambem declara o que tinha visto e ouvido, e o que os seus olhos tinham contempla- do, e o que suas maos tinham apalpado, com rela<;ao ao Verbo da Vida (1 Jo 1.1-3). Paulo esta persuadido de que foi chamado nao apenas para ser urn ap6stolo pelo proprio Cristo (Gl1.1), e que recebeu seu Evangelho do pro- prio Cristo atraves de uma reve- la<;ao32, mas tambem que pela pa- lavra de seus labios e de sua pena ele esta proclamando a Palavra de Deus33 . Ele chega ate mesmo a dizer que se alguem pregar outro Evangelho e maldito (Gl 1.8). E, como todos os apostolos conectaram a vida eterna ou a morte eterna com a aceita<;ao ou com a rejei<;ao da mensagem que pregavam, o apostolo Joao, no ultimo capitulo do Apocalipse diz que todos aqueles que acrescen- tarem ou tirarem qualquer coisa desse livro receberao pesadas pu- ni<;6es (Ap 22.18,19). * * * * * 32 Gil. 12; Ef3.2; 1 Till 1.12. A atividade especial do Es- pirito Santo por meio da qual foi feito o registro da revela<;ao geral- mente recebe o nome de inspira- ~fio (2Tm 3.16). Alguma luz e lan<_;ada sobre a natureza da ins- pira<;ao atraves de compara<;6es emprestadas da natureza e atra- ves de explana<;6es especificas nas Sagradas Escrituras. De forma ge- ral e verdade que 0 ser humano e capaz de assimilar em sua mente o pensamento de outras pessoas e de ser influenciado por outros em seu pensamento. Toda instru- <;ao e educa<;ao e baseada nessa habilidade, assim como a ciencia eo conhecimento. Tal comunica- <;ao de pensamentos entre duas pessoas geralmente acontece me- diante o emprego de meios, que podem ser sinais ou gestos, pala- vras faladas ou escritas. Dessa for- ma, quando nos somos influenci- ados pelos pensamentos de outra pessoa, nos geralmente os estu- damos deliberada e intencional- mente, e geralmente a custa de consideravel esfor<;o. Dessa forma nos tentamos fazer com que os pensamentos e ideias de outras pessoas passem a fazer parte de nossa vida espiritual. Mas os fe- nomenos de hipnotismo, suges- tao e outros semelhantes provam que sem uma atividade conscien- te de nossa parte pensamentos e 33 1 Ts 2.13; 2 Ts 2.15; 3.14; 1 Co 2.4,10-13; 2 Co 2.17. 108
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    As SACRADAS EscruTURAs ideiasde outras pessoas podem ser introduzidos em nossa cons- ciencia, podem ser impostos a n6s e podem comandar nosso desejo e ac;:ao. Dessa forma as pessoas podem ser transformadas em ins- trumentos passivos que simples- mente carregam o desejo do hipnotizador. Tanto a Escritura quanto a experiencia nos ensinam que desta forma 0 ser humano e suscetivel a influencias e poderes de maus espiritos; em tais casos as pessoas nao falam e agem por si mesmas, mas sao governadas pelo mau espirito em seu pensa- mento e em sua conduta. Em Mar- cos 1.24, por exemplo, e 0 espiri- to impuro que fala atraves do ho- mem possesso e reconhece Jesus como sendo o Santo de Deus. Outro fenomeno que pode servir para lanc;:ar luz sobre ana- tureza da inspirac;:ao do Espirito Santo e a assim chamada inspira- c;:ao dos artistas. Todos os grandes pensadores e poetas aprenderam pela experiencia que devem a melhor e mais bonita parte de sua produc;:ao nao ao seu proprio es- forc;:o, mas a repentinos flashes de discernimento. Naturalmente uma experiencia nao exclui a in- vestigac;:ao preliminar e a reflexao. 0 genio nao faz esforc;:o e empre- endimentos desnecessarios. Apesar de, em tais casos o 34 Gn 1.3; Sl 33.6; 104.30. 35 J6 33.4; 51139. 1-16 ss. 109 estudo ser uma regra geral, a in- dispensavel experiencia inspira- cional e o discernimento que dela resulta nao sao conseqiiencias 16- gicas ou frutos maduros do estu- do. Nos homens de genio sempre ha urn poder secreto que nao e suscetivel a elaborac;:oes 16gicas. Ao escrever para sua irma, Nietzsche disse a respeito desse poder secreto: "Voce nao imagi- na como sao poderosas essas ins- pirac;:oes; elas enchem a pessoa com urn apaixonado extase men- tal, que ela se sente transportada e totalmente alem de si mesma, nada ouve e nada ve - simples- mente aceita. 0 pensamento vern como uma luz. Tudo acontece involuntariamente, como sea pes- soa estivesse sob uma tempesta- de de liberdade, independencia, poder e divindade. Essa e a mi- nha experiencia de inspirac;:ao". Certamente, que se manifes- tac;:oes desse tipo acontecem na vida normal das pessoas e dos artistas, nao pode haver base para se atacar a influencia de Deus so- bre a vontade e o pensamento de Suas criaturas. Atraves de Seu Es- pirito, Deus opera em Suas cria- turas e esta presente nelas34 . E dessas criaturas e mais particular- mente o homem que foi feito pelo sopro do Todo Poderoso e pelo Espirito de Deus35 . Em Deus n6s
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ------------------ vivemos, enos movemos e existi- mos (At 17.28). Nosso pensamen- to, vontade e execw;ao, mesmo sob a maldi<;:ao do pecado, acon- tece sob o dominio de Deus, e nada acontece fora do conselho de Sua vontade (Ef 1.11). Como ribei- ros de aguas, assim e0 cora<;:aO do rei nas maos do Senhor; este, se- gundo o seu querer, o inclina (Pv 21.1). Os caminhos do homem es- tao perante o Senhor, e ele consi- dera todas as suas veredas (Pv 5.21; 16.9; 19.21; 21.2). E, de uma forma totalmente diferente e mui- to mais intima, Deus, pelo Seu Espirito, mora no cora<;:ao dos Seus filhos. Por esse Espirito, Ele os traz aconfissao de Cristo como seu Senhor (1Jo 4.3), faz com que eles conhe<;:am as coisas que lhes sao dadas por Deus (1Co 2.12; 1Jo 2.20; 3.24; 4.6-13), concede-lhes as ben<;:aos da sabedoria e do conhe- cimento (1Co 12.8) e efetua neles tanto o querer quanta o realizar segundo a Sua boa vontade (Fp 2.13). Obviamente todas essas in- fluencias de Deus sobre o mundo e sobre a Igreja nao sao identicas a inspira<;:ao que veio sobre OS profetas e ap6stolos, mas servem ao mesmo tempo como esclareci- mento e explana<;:ao. Se everda- de que realmente ha algo como uma morada e opera<;:ao do Espi- rito de Deus em todas as criatu- ras, e se o mesmo Espirito, de uma forma diferente e especial, 110 mora nos filhos de Deus, entao nao ha motivo para que se pense que uma atividade especial cha- mada inspira<;:ao seja impossivel ou improvavel. Contudo, ao mes- mo tempo enecessaria fazer a dis- tin<;:ao entre a opera<;:ao do Espiri- to de Deus no mundo e na Igreja, por urn lado, e nos profetas e ap6stolos, por outro. Essa distin- <;:ao come<;:a a tornar-se aparente quando comparamos Romanos 8.14 com 2Pedro 1.21. No primei- ro texto Paulo diz que todos os que sao guiados pelo Espirito de Deus sao filhos de Deus; mas, no segundo, Pedro declara que ho- mens santos de Deus foram movi- dos pelo Espirito Santo, e assim foi dada a profecia. A dire<;:ao do Es- pirito ea por<;:ao de todos OS cren- tes e consiste em uma ilumina<;:ao da mente e de urn governo e dire- <;:ao da vontade e das inclina<;:oes; em razao dessa influencia a men- te recebe o conhecimento e o po- der e o desejo que agradam a Deus. Mas a "mo<;:ao" do Espirito Santo foi concedida somente aos profetas e aos ap6stolos e consis- tiu de uma excita<;:ao e de uma provoca<;:ao para fazer com que a revela<;:ao da vontade de Deus fos- se conhecida por eles. 0 carater especial dessa re- vela<;:ao eindicado na forma pela qual o Novo Testamento se refe- re ao Velho, dizendo que aquila que foi dito no Velho Testamento foi falado pelo Senhor atraves dos
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    As 5AGRADAS ESCRITURAS profetas(Mt 1.22; 2.15, 17, 23; 3.3; 4.14). 0 texto grego usa uma ex- pressao para essa forma que de- signa Deus como a fonte ou ori- gem daquilo que foi dito, e que designa os profetas como meios ou agentes daquilo que foi dito. A distin<;ao e destacada de modo mais evidente quando nos lemos que Deus falou pela boca de Seus profetas36 • A verdade que a Escri- tura ensina e, portanto, a seguin- te: que Deus, ou Seu Espirito, e quem realmente fala Sua palavra, mas para dar expressao a ela Ele faz uso dos profetas e apostolos como Seus agentes. * * * * * Contudo nos entenderemos a Escritura de forma equivocada se inferirmos dessas indica<;6es que os profetas e os apostolos fo- ram agentes meramente passivos, mental e volitivamente inativos, e que serviram ao Espirito Santo meramente como urn megafone, pois e verdade nao apenas que Deus honra Sua propria obra e nunca trata Suas criaturas racio- nais como se elas fossem irracio- nais, mas tambem que a a<;ao do Espirito Santo e contraria a qual- quer ideia mecanica de inspira- <;ao. Apesar dos profetas terem 36 Lc 1.70; At 1.16; 3.18; 4.25. 3 7 Mt 22.43,45; fa 1.23; 5.46; Rm 10.20. 38 fa 14.26; 1fo 1.1-3. 39 Nm 21.14; fs 10.13. 111 sido movidos ou dirigidos pelo Espirito Santo, eles mesmos tambem falaram (2 Pe 1.21). As palavras que eles escreveram sao varias vezes chamadas de suas palavras37 • Em varias passagens nos vemos que eles foram preparados para seu oficio, separados e equipados para ele (Jr 1.5; At 7.22; Gl1.15). E assim como aconteceu ao receber a palavra, tambem ao escrever a revela<;ao eles permaneceram conscientes de seus atos; sua pro- pria atividade nao e suprimida pelo mover do Espirito. Mas e aperfei<;oada e purificada por Ele. Eles mesmos fizeram diligentes investiga<;6es (Lc 1.3), refletiram sobre a revela<_;ao que tinham re- cebido em data anterior38 , fizeram uso de fontes historicas39 , e alguns deles, os salmistas, por exemplo, encontraram o material para suas musicas em sua propria experien- cia, e, em todos os escritos dos quais a Biblia e composta, a dis- posi<;ao do escritor, a qualidade especial de seu carater, seu desen- volvimento pessoal e sua educa- <_;ao, sua propria linguagem e seu estilo- tudo isso e expresso atra- ves de cada urn dos varios escri- tores. 0 estudo da Escritura nos ensina nao apenas a unidade da Palavra de Deus; ele nos faz co- nhecer as diferentes pessoas que
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista a escreveram. Quanta diferen<;a existe entre os livros de Reis e Cronicas, entre Isaias e Jeremias, entre Mateus e Lucas, entre Joao, Pedro e Paulo! * * * * * Tal concep<;ao de inspira<;ao como essa que foi aqui sugerida permite-nos fazer plena justi<;a ao lado humano das Sagradas Escri- turas. A Bfblia nao chegou ate n6s, completa e totalmente, em apenas urn momento. Ela se desenvolveu gradativamente. 0 Velho Testa- mento como n6s o conhecemos e composto por trinta e nove livros: cinco deles falam sobre a lei, doze sao hist6ricos (de Josue a Ester), cinco sao poeticos (de J6 aos Canticos de Salomao), e dezessete sao profeticos. Essa ordem, natu- ralmente, nao e cronol6gica, pois muitos livros hist6ricos, como por exemplo os de Esdras, Neemias e Ester sao de uma data muito pos- terior a muitos dos livros poeti- cos e profeticos, e entre os livros profeticos muitos dos menores, tais como Joel, Obadias, Amos e Oseias sao mais antigos que os livros maiores de Isaias, Jeremias, Ezequiel e Daniel. A ordem e ba- seada na natureza do conteudo, nao na cronologia. E o registro de todos esses livros aconteceu gra- dualmente, durante muitos secu- los, em circunstancias muito dife- rentes e atraves do labor de ho- 112 mens diferentes. Na ciencia da teologia ha uma area que se ocupa especial- mente com a investiga<;ao das cir- cunstancias sob as quais urn de- terminado livro da Bfblia veio a existir, por quem ele foi escrito, a quem foi endere<;ado, e coisas se- melhantes. Devido aos abusos que ocorreram nessa area de es- tudos, ela recebeu urn nome ruim. N6s ouvimos de vez em quando que a "alta critica" tern sistemati- camente arrancado pagina por pagina da Biblia. Mas o abuso com que urn objeto e usado nao faz com que seu correto uso seja mau. Se n6s queremos entender as Escrituras em sua totalidade e em suas partes e necessaria co- nhecer exatamente como a Bfblia foi gradualmente sendo escrita e sob quais circunstancias cada li- vro foi escrito. A longo prazo esse conhecimento pode apenas bene- ficiar a interpreta<;ao da Palavra de Deus. N6s aprendemos com isso que a inspira<;ao do Espirito de Deus entrou profunda e am- plamente na vida dos santos ho- mens de Deus. For seculos, isto e, ate o tem- po de Moises, nao havia Escritu- ra, nao havia urn registro escrito da Palavra de Deus. Pelo menos n6s nao temos conhecimento da existencia de tal registro. Eclaro que isso nao significa que seja impossivel que algo como urn re- gistro escrito de alguma palavra
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    As SAGRADAS EscRITURAS ouevento tenha sido feito antes do tempo de Moises, alguma pa- lavra ou evento que tenha sido muito importante para a hist6ria da revelac;:ao e que por isso tenha sido posteriormente preservado nos livros de Moises. Nao faz muito tempo que o fato dessa possibilidade ser admi- tida seria chamada de loucura, pois supunha-se que a arte da es- crita nao era conhecida no tempo de Moises. Mas em razao de des- cobertas feitas na Babilonia e no Egito n6s agora estamos melhor informados e sabemos nao so- mente que a arte da escrita era conhecida muito antes do tempo de Moises, mas que tambem era muito usada. N6s temos conhecimento de eventos e de leis dessa epoca que foram escritos. A escrita era co- nhecida varios seculos antes de Moises. Portanto nao e totalmen- te irrazoavel supor que Moises, antes de seus registros hist6ricos e da entrega da lei, tenha feito uso de fontes mais antigas. 0 registro de Genesis 14, por exemplo, pode muito bern ser urn desses casos. Mas n6s nao podemos ter certeza disso e em geral n6s po- demos dizer que antes de Moises nao ha registro da Palavra de Deus. Eclaro que havia a Palavra de Deus, pois a revelac;:ao especi- al comec;:ou logo depois da que- cia e, portanto, havia tambem nes- se sentido algo que poderia ser 115 chamado de canon, isto e, uma regra de fe e vida. A rac;:a humana jamais ficou totalmente desprovi- da da Palavra de Deus. Sempre, desde sua origem, o homem tern possuido nao apenas a revelac;:ao geral de Deus em sua consciencia, mas tambem a revelac;:ao especial de Deus na palavra e na hist6ria. Mas essa palavra de Deus nao foi escrita imediatamente; ela foi transmitida oralmente por famili- as e gerac;:oes, sendo passada dos pais aos filhos. Naqueles tempos antigos em que a populac;:ao da terra era bern pequena, quando as pessoas ainda desfrutavam da benc;:ao de urna longa vida, quan- do o relacionamento familiar, o senso de familia e o respeito ao passado representavam muito mais do que em nosso tempo, essa forma de continuidade era suficiente para a preservac;:ao pura e a expansao da Palavra de Deus. Posteriormente, contudo, quando as pessoas comec;:aram a se espalhar pela face da terra, e quando cairam em todo tipo de idolatria e superstic;:ao, a tradic;:ao oral deixou de ser suficiente. E por isso Moises comec;:ou a regis- trar a Palavra de Deus. Pode ser que existissem registros que ele tenha resolvido incluir em seus escritos. Como foi dito, n6s nao temos certeza, mas a probabilida- de de que isso tenha acontecido aumenta quando em apenas
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    Fundamentos Teol6gicos daFC Crista umas poucas passagens mencio- na-se nos assim chamados cinco livros de Moises que ela tenha sido escrita pelo proprio Moises40 • Portanto e perfeitamen- te possivel que varias pon;oes dos cinco livros de Moises tenham existido antes de seu tempo, e tambem que eles tenham sido re- visados por Moises ou mesmo depois de sua morte, por alguem las (1 Co 16.21). E o livro de Sal- mas e considerado, as vezes, to- talmente da autoria de Davi par- que ele foi o fundador da salm6dia, e isso e feito apesar de urn born numero de salmos nao terem sido escritos por Davi, mas por outros autores. * * * * * que tenha editado a sua obra e Sabre a base da lei mosaica, acrescentado essas pon;oes. Essa isto e, sabre a base do pacta de ultima possibilidade tern sido Deus, que Deus firmou com OS bern aceita em periodos recentes patriarcas, que Deus confirmou com rela<;ao ao registro da morte com Israel no Sinai, e que orde- de Moises (Dt 34), mas pode ser nou na lei de Moises, desenvol- ampliada para incluir tambem os veram-se, na hist6ria posterior de adendos e as tais por<;oes, como Israel, sob a dire<;ao do Espirito aquelas encontradas em Genesis Santo, tres tipos de literatura: a 12.6b; 13.7; 36.31b, e outras seme- salm6dia, a profecia, e a literatu- lhantes. Isso em nada diminui a ra de sabedoria. Essas dadivas autoridade divina da Palavra, e especiais do Espirito Santo foram essa possibilidade em nada con- conjugadas com as dadivas natu- tradiz a expressao usada na Escri- rais que sao peculiares a ra<;a tura: a lei, o livro de Moises41 . Os semita, e particularmente ao povo cinco livros de Moises continuam de Israel, mas ao mesmo tempo sendo os livros de Moises, embo- transcenderam essas dadivas na- ra algumas partes tenham sido turais e receberam urn chamado citadas de outras fontes, mesmo para o uso no servi<;o de Deus e que tenham sido inseridas por para o beneficia da humanidade. seus auxiliares ou por urn editor A profecia come<;ou com posterior. Paulo tambem nao es- Abraao42 , passou por Jac643 , creveu pessoalmente suas cartas, Moises44 e Miriam45 , mas tornou- mas usou outra mao para escreve- se mais especifica em Samuel e ----------------~----------------------~-- '" Ex 17.14; 24.4,7; 34.27; Nm 33.2; Dt 31.9,22. 41 1 Re 2.3; 2 Re 14.6; M/4.4; Me 12.26; Lc 24.27,44; Jo 5.46,47. 42 Gil 18.17; 20.7. Veja tambem Am 3.7 e 51105.15. 43 Gn 49. 11 Nm 11.25; Dt 18.18; 34.10; Os 12.13. 45 Ex 15.20; Nm 12.2. 114
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    As SAGRADAS ESCRITURAS depoisdele, acompanhando a his- t6ria de Israel ate depois do cati- veiro. Os livros dos profetas sao divididos no Velho Testamento Hebraico em dois grandes gru- pos, a saber, o grupo dos profe- tas anteriores e o grupo dos pro- fetas posteriores. 0 primeiro gru- po compreende os livros de Josue, Juizes, Samuel e Reis. A razao pela qual esses livros sao deno- minados anteriores e que eles fo- ram escritos por profetas que pre- cederam os profetas posteriores das Escrituras. Em outras palavras, havia muito mais profetas em Israel do que os quatro maiores e os doze menores, cujos livros foram pre- servados na Biblia. Os livros his- t6ricos mencionados acima estao cheios de nomes de profetas e em alguns casos incluem extensas descri<;6es de suas atividades. Eles falam de Debora, Samuel, Gade, Natan, Aias, Semias, Azarias, Hanani, Jeu, filho de Hanani, Elias, Eliseu, Hulda, e Zacarias, o primeiro martir entre os profetas do reino de Juda, e muitos outros, alguns dos quais nao sao citados pelo nome (2 Cr 25). Nada escrito por esses profe- tas chegou as nossas maos em for- ma escrita. Algumas vezes n6s lemos ate mesmo sobre escola de profetas46 , nas quais muitos filhos e disdpulos de profetas se dedi- cavam a exerdcios espirituais e deveres teocraticos. Muito prova- velmente os escritos profeticos foram feitos nessas escolas e, e claro, nos livros de Josue, Juizes e outros semelhantes. Especial- mente nos livros de Cronicas ha varias referencias aos escritos dos profetas47 . Os profetas, cujas ativida- des sao descritas nos livros hist6- ricos, sao geralmente descritos nos nossos dias como profetas de atos, em distin<;ao aos profetas posteriores, que sao chamados de profetas de palavra. Essa distin<;ao s6 pode ser feita se n6s nos lem- brarmos de que todos os profetas, tanto os posteriores quanto os anteriores, foram profetas de pa- lavra. Todos eles falam e dao seu testemunho; o original hebraico provavelmente aponta para isso (Ex 4.16; 7.1), e as caracteristicas fundamentais do ensino profeti- co estao contidas no testemunho dos profetas mais antigos. Mas ha dois pontos nos quais os profetas anteriores sao distintos dos pro- fetas posteriores. Em primeiro lugar, os profetas anteriores limi- tam suas vis6es as exigencias in- ternas do povo de Israel, e nao incluem nela outros povos nos li- mites de sua perspectiva; e em se- gundo lugar, eles prestam maior H 1 Sm 10.5-12; 19.19 ss.; 2 Re 2.3,5; 4.38,43; 6.1. 47 1 Cr 29.29; 2 Cr 9.29; 20.34, e outros. 115
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista atenc;ao ao presente do que ao fu- turo. Sua palavra de admoestac;ao e ameac;a tern, em sua maior par- te, urn proposito imediato e pra- tico. Esse e o periodo no qual, durante o reinado de Davi e de Salomao e muito tempo depois deles, ainda ha esperanc;a de que Israel mantenha o pacto de Deus e ande em Seus caminhos. Mas quando, no nono secu- lo antes de Cristo, Israel gradativamente vai se envolven- do na politica externa com seus vizinhos, e a despeito de seu des- tina e de sua vocac;ao, vai se dei- xando envolver, entao os profetas incluem os povos vizinhos em suas profecias. Eles nao esperam o cumprimento perfeito das pro- messas de Deus no presente apostata. Em vez disso eles olham para o futuro messHinico, urn futuro que o proprio Deus tra- ra. Permanecendo em suas tones de vigia esses profetas posterio- res olham por toda a extensao e profundidade da terra, e apontam os sinais dos tempos nao como eles mesmos entendem, mas de acordo com a luz do Espirito San- to48. Eles medem as situac;5es em Israet sejam eticas, religiosas, po- liticas ou sociais, tanto quanto as relac;5es de Israel com outros po- vos, tais como Edom, Moabe, Assur, Caldeia, e Egito que con- " 8 1 Pe 1.4; 2 Pe 2.20,21. 49 Is 8.1; He 2.2; Is 36.3. 116 trariam os preceitos do pacto que Deus firmou com Seu povo. To- dos eles, cada urn de acordo com sua propria natureza, em seu pro- prio tempo e de sua propria for- ma, prega essencialmente a rues- rna palavra de Deus: a proclama- c;ao dos pecados de Israel e a pu- nic;ao que eles acarretam; confor- tam o povo do Senhor com a imutabilidade de Seu pacto, com a promessa de seu cumprimento e como perdao para todas as in- justic;as; e dirigem todos os olhos para o futuro, no qual Deus, atra- ves de urn rei da casa de Davi ex- pandira seu dominio sobre Israel e sobre todos os povos. Dessa forma, a palavra que eles pregavam em nome de Deus, assume urn significado que vai alem do tempo em que eles pre- garam. Essa palavra nao tern seu limite e seu proposito no Israel antigo; em vez disso ela tern urn conteudo que se estende aos con- fins da terra, e so pode alcanc;ar seu cumprimento em toda a rac;a humana. E agora a palavra da pro- fecia esta pronta para ser escrita. Do nono seculo antes de Cristo em diante, ou seja, desde os tem- po de Joel e Obadias, os profetas comec;aram a colocar o conteudo de suas profecias em forma escri- ta, algumas vezes por ordem ex- pressa de Deus49. Eles fizeram
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    As SACRADAS EscruTURAS issocom o prop6sito claro de que sua palavra permanecesse ate o ultimo dia, ate a eternidade (Is 30.8) e ate que sua autenticidade pudesse ser reconhecida pelas gera<;:oes posteriores (Is 34.16). * * * * * A salm6dia tomou urn cur- so paralelo ao da profecia. Ela tambem tern origem em uma epo- ca remota. A musica era muito amada em IsraeP0 . Can<;:oes sobre varios assuntos foram preserva- das nos livros hist6ricos. Ha a can- <;:ao da espada (Gn 4.23,24), a can- <;:ao do bern (Nm 21.17)8), a can- <;:ao da conquista de Hesbom (Nm 21.27-30), a can<;:ao da travessia do Mar Vermelho (Ex 15), a can<;:ao de Moises (Dt 32), o cantico de De- bora (Jz 5), o cantico da Ana (1 Sm 2), o lamento de Davi pela morte de Saul e Jonatas (2 Sm 1) e seu lamento por Abner (2 Sm 3.33,34), eo Livro dos Justos (Js 10.13; 2 Sm 1.18), que parece ter contido mui- tos canticos. Muitos canticos sao registrados nos livros dos profe- tas. Por exemplo, o cantico da vi- nha em Isaias 5, o hino triunfal sobre a queda de Babilonia em Isaias 14, o dintico de Ezequias em Isaias 38, a ora<;:ao de Jonas em Jonas 2, 0 cantico de louvor de Habacuque, e muitos outros. Muitos desses canticos estao re- 50 1 Sm 18.7; 2 Sm 19.35; Am 6.5. 117 lacionados bern de perto com os Salmos. A transi<;:ao de urn para o outro e dificilmente perceptivel. Ha tambem urn estreito relaciona- mento entre a salm6dia e a profe- cia. Isso e aparente ate mesmo na forma. Ambas tiveram sua origem em uma inspira<;:ao poderosa do Espirito Santo, ambas incluiram em sua perspectiva todo o mun- do da natureza e da hist6ria, ambas puseram todas as coisas sob a luz da Palavra de Deus, ambas tinham como tema de sua proclama<;:ao o Reino do Messias, e ambas fizeram uso de lingua- gem e forma poetica. Quando o poeta dos Salmos e levado aos misterios da vontade e do conse- lho de Deus ele se torna urn vi- dente, e quando a alma do profe- ta e refrescada pelas promessas de Deus sua profecia e colocada no plano da poesia (1 Cr 25.1-3). Asafe e chamado de vidente (2 Cr 29.30)e Davie chamado de profe- ta (At 2.30). Mas e claro que ha diferen- <;:as entre os dois. A poesia dos salmos ja existia no cantico de Miriam, no cantico de Moises (Dt 32) e no salmo de Moises (Sl 90), mas alcan<;:ou seu apogeu depois do reavivamento do servi<;:o de Deus realizado por Samuet nos salmos de Davi, o suave cantor de Israel (2 Sm 23.1). A salm6dia davidica compreende as formas
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista fundamentais que a salm6dia posterior de Salomao, Jeosafa, Ezequias e que o periodo duran- te e depois do cativeiro colocou em uso. No final do salmo 72 os salmos de Davi sao chamados de ora<;:oes. Essa caracteristica e pe- culiar a todos os salmos. Eles sao muito diferentes uns dos outros. Alguns deles sao can<;:6es de lou- vor e de a<;:6es de gra<;:as, alguns sao lamentos e suplicas. Alguns sao hinos, outros sao poemas melanc6licos, e outros sao do tipo profetico-didatico. Ha salmos que celebram as obras de Deus na na- tureza e salmos que celebram as obras de Deus na hist6ria. Eles falam do passado, do presente e, em alguns casos, do futuro. Mas esta sempre presente neles a es- trutura basica de ora<;:ao. Essa e a caracteristica de todos eles. Se no caso da profecia o Espirito Santo se apodera do profeta, controlan- do-o e movendo-o, no caso da salm6dia Ele dirige o poeta as profundidades de sua vida espi- ritual. Urn estado pessoal espiri- tual e sempre a ocasiao para sua can<;:ao. Mas tal estado de alma tern sido sempre formado e mol- dado pelo Espirito do Senhor. Davi nao teria sido o suave cantor de Israel se nao tivesse sido o homem de carater firme e de ri- cas experiencias de vida que ele sempre foi. E esse era seu estado de mente, ou estado de alma, em todas as suas varia<;:oes de desgos- 118 toe ansiedade, tenta<;:ao e dire<;:ao, persegui<;:ao e resgate, e experien- cias semelhantes, que sao as cor- das sobre as quais sao tocadas as melodias das palavras e atos ob- jetivos de Deus na natureza e na hist6ria, nas instituicoes e na pre- ga<;:ao, no julgamento e na reden- <;:ao. E a harmonia da revela<;:ao objetiva de Deus e sua dire<;:ao subjetiva que e cantada no cantico, e que e cantada na presen<;:a de Deus, dedicada a Sua honra, que chama todas as criaturas para se alegrarem em Seu louvor, que continua cantando ate que os ceus e a terra se levantern em seus acor- des e que e, portanto, para todas as epocas e para todas as gera- <;;6es, a mais rica expressao das mais profundas experiencias que a alma humana pode sentir. Os Salmos nos ensinam a dizer o que acontece em nosso cora<;;ao em conexao com a revela<;:ao de Deus em Cristo atraves do Espirito. Por causa de sua importancia esses Salmos nao ficaram restritos so- mente aos salmistas, mas foram colocados nos labios da igreja de todas as epocas. * * * * * Aprofecia e a salm6dia de- vern ser acrescentados os chokma, isto e, OS proverbios OU a literatu- ra de sabedoria. Isso tambem tern origem nas dota<;:6es naturais, como se torna claro na fabula de
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    As SAGRADAS EscruTURAS Jotao(Jz 9.7 ss.), no enigma de Sansao (Jz 14.14t na parabola de Natan (2Sm 12), na conduta da rnulher de Tecoa (2 Srn 14), e ern outros casos. Mas essa literatura de sabedoria e dedicada especi- alrnente a Salornao51 e teve conti- nuidade nos proverbios do ho- rnern sabio (Pv 22.17 ss.) enos li- vros de J6, Eclesiastes e Canticos de Salornao, e continuou ate de- pois do cativeiro. A profecia re- vela a vontade de Deus para a his- t6ria de Israel e de outros povos; a salrn6dia da expressao ao que a vontade de Deus realiza na alma dos Seus santos; e os proverbios da literatura de sabedoria relatam a vontade de Deus para a vida pratica e para a conduta. Essa li- teratura de sabedoria tarnbem re- pousa sobre o fundarnento da re- vela<;:ao divina; seu ponto de par- tida e que o temor do Senhor e o principio da sabedoria (Pv 1.7). Esse tipo de literatura nao relata a revela<;:ao da hist6ria dos povos, nem a experiencia subjetiva da alma, porern, faz suas aplica<;:6es avida diaria, avida do homem e da rnulher, paise filhos, arnigos e sociedade, neg6cios e profissao. Ela nao age no plano elevado da profecia, e nern enxerga tao lon- ge. Ela nao explora a alma tao pro- fundarnente como a salm6dia, mas concentra sua aten<;:ao em to- das as vicissitudes da vida - ex- 51 1 Rc 4.29-34. 119 periencias sob as quais o povo tende a sucumbir - e levanta o povo novarnente ao nivel dessas experiencias. Ela faz isso atraves da fe na justi<;:a da providencia de Deus. Dessa forma a literatura de proverbios tern urn significado hurnano geral, e, sob a dire<;:ao do Espirito Santo, foi preservada por todas as epocas. A revela<;:ao, a lei, a vontade de Deus, principalmente a partir dos livros de Moises, completa- se nos dias do Velho Testamento na prega<;:ao dos profetas, nas can- <;:6es dos cantores, e nas maxirnas dos sabios. 0 profeta e a cabe<;:a, 0 cantor e 0 cora<;:ao, e 0 sabio e a mao. Os oficios profetico, sacer- dotal e real completararn dessa forma seu chamado na Velha Dispensa<;:ao. E em Cristo esse te- souro inavaliavel de literatura sagrada tornou-se propriedade comurn do mundo. * * * * * Assirn como a prornessa cul- mina ern seu curnprirnento, assirn tambern a Escritura do Velho Tes- tarnento culmina na Escritura do Novo Testamento. Urn e incom- pleto sern o outro. Esomente no Novo Testamento que o Velho e revelado, eo Novo esta em essen- cia! contido no Velho. A revela-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista c;ao entre os dois e como a do pe- destal e a estatua, entre a fecha- dura e a chave, a sombra eo obje- to. As designac;oes Velho Testa- mento e Novo Testamento faziam referencia as duas dispensac;oes do pacto da Grac;a que Deus deu ao Seu povo antes e depois de Cristd2 • Posteriormente os termos foram transferidos aos dois cor- pos de escritos que constituem a descric;ao e a interpretac;ao dessas duas dispensac;oes do pacto. Em Exodo 24.7, a lei, que era o pro- nunciamento ou declarac;ao do pacto de Deus com Israel, e cha- mada o livro do pacto (compare com 2 Rs 23.2), e em 2 Corintios 3.14 Paulo fala de uma leitura do Velho Testamento- uma referen- cia naturalmente aos livros que compoem esse Testamento. De acordo com esses exemplos a pa- lavra testamento foi gradualmente sendo usada para designar os li- vros ou escritos contidos na Bfulia e que dao uma interpretac;ao da velha e da nova dispensac;ao da Grac;a. Assim como o Velho, o Novo Testamento tambem e com- posto por varios livros. Ele com- preende cinco livros hist6ricos (os quatro Evangelhos e Atos dos ap6stolos), vinte e um livros dou- trinarios (as epistolas ou cartas dos ap6stolos) e urn livro profeti- co (Apocalipse). E apesar dos trin- 52 Jr 31.31 ss.; 2 Co 3.6 ss.; Hb 8.6 ss. 120 ta e nove livros do Velho Testa- mento terem sido compostos du- rante um periodo de mais de mil anos, os vinte e sete livros do Novo Testamento foram todos escritos na segunda metade do primeiro seculo da era crista. Os Evangelhos vern primei- ro no Novo Testamento. Nova- mente a ordem nao e cronol6gi- ca, mas material. Muito embora varias das cartas dos ap6stolos tenham sido escritas antes do Evangelhos, OS Evangelhos vern primeiro porque tratam da pessoa e obra de Cristo que constituem a base de todo o esforc;o apost6li- co. A palavra Evangelho tinha urn sentido geral de mensagem agra- davel, mensagem boa. Nos dias do Novo Testamento ela passou a designar as boas noticias procla- madas por Jesus Cristo (Me 1.1). S6 mais tarde os escritores eclesi- asticos como Inacio, Justino e ou- tros usaram-na para designar os livros ou registros escritos que contem a boa mensagem de Cris- to. Ha quatro Evangelhos no Novo Testamento. Eclaro que eles nao contem quatro Evangelhos diferentes, mas apenas urn Evan- gelho, o Evangelho do Senhor Je- sus Cristo (Me 1.1; Gl1.6-8). Mas urn Evangelho, uma boa nova de salvac;ao, e pregada de diferentes formas, por diferentes pessoas, de
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    As SAGRADAS ESCRITURAS quatrodiferentes pontos de vis- ta. Essa ideia e bern expressa nos quatro livros de nossas Bfblias: o Evangelho segundo Mateus, segun- do Marcos e assim por diante. 0 pensamento e que nos quatro Evangelhos o unico Evangelho, a unica imagem da pessoa e obra de Cristo, e apresentado de pon- tos de vista diferentes. Por isso na igreja antiga os quatro evan- gelistas foram comparados aos quatro querubins de Apocalipse 4.7: Mateus foi comparado ao homem, Marcos ao leao, Lucas ao novilho e Joao a aguia. Isso aconteceu porque o primeiro evangelista descreveu Cristo como Ele era em Sua manifesta- c;:ao humana, o segundo, como Ele era em Sua manifestac;:ao profeti- ca, o terceiro como Ele era em Sua manifestac;:ao sacerdotat e o quar- to como Ele era em Sua natureza divina. Mateus, que era o publicano chamado Levi, escolhido para o oficio de ap6stolo (Mt 9.9; Me 2.14; Lc 5.27), originalmente escre- veu seu Evangelho, segundo Irineu, em linguagem aramaica, na Palestina, por volta do ano 62, e especialmente para os judeus e cristaos judeus da Palestina para mostrar-lhes que Jesus realmente era o Cristo e que todas as profe- cias do Velho Testamento se cum- priram nEle (Mt 1.1). Marcos era o filho de Maria (At 12.12), que muito provavel- 121 mente tinha sua propria casa em Jerusalem (At 1.13; 2.2). Marcos primeiramente trabalhou com Paulo e depois com Pedro (1 Pe 5.13), e, de acordo com a tradic;:ao, foi convidado pelos cristaos de Roma para registrar o comec;:o do Evangelho de Jesus Cristo (Me 1.1). 0 convite foi feito porque, tendo estado em Jerusalem e sido disdpulo de Pedro, estava muito bern informado sobre o assunto. Ele respondeu ao convite dos ro- manos, presumivelmente, entre os anos 64 e 67. Lucas, o medico amado, como Paulo o chama (Cl 4.14), pode ter vindo de Antioquia. Ele pertenceu aigreja dessa localida- de por volta do ano 40. Ele era urn companheiro de viagem e colega de trabalho de Paulo, e manteve sua lealdade a ele ate o fim (2 Tm 4.11). Ele escreveu urn livro de hist6ria, nao somente da pessoa e obra de Cristo (em seu Evange- lho), mas tambem da expansao inicial do Evangelho na Palestina, Asia Menor, Grecia e Roma (em Atos dos ap6stolos). Ele escreveu o segundo desses livros aproxi- madamente entre os anos 70-75 e endere<;ou-o a urn certo Te6filo, uma pessoa de algum status, que tinha interesse no Evangelho. Esses tres Evangelhos estao intimamente relacionados urn ao outro. Eles estao baseados na tra- dic;:ao que havia a respeito dos ensinos e da vida de Jesus no cir-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista culo de Seus discipulos. 0 quar- to Evangelho e diferente dos de- mais. Joao, o disdpulo amado, permaneceu em Jerusalem depois da ascensao de Jesus e, juntamen- te com Tiago e Pedro, foi urn dos tres pilares da igreja (Gl2.9). Mais tarde ele saiu de Jerusalem e per- to do fim de sua vida foi para Efeso trabalhar como sucessor de Paulo. De Efeso, sob o dominio de Domiciano, ele foi banido para a ilha de Patmos por volta do ano 95 ou 96, e morreu no ano 100 como martir. Joao nao teve uma participa<;ao muito irnportante na expansao missionaria. Ele nao foi o fundador de novas igrejas, mas dedicou seus esfon;:os apreserva- <;:ao das igrejas que ja existiam, pregando o puro conhecimento da verdade. Uma situa<;:ao diferente foi se desenvolvendo gradati- vamente na Igreja no final do pri- meiro seculo. A luta entre a rela- <;:ao da Igreja Crista com Israel, a lei e a circuncisao, estava de vol- ta. A Igreja estava se tornando in- dependente em rela<;:ao aos ju- deus e estava penetrando cada vez mais no mundo greco-roma- no. Ela fez contato com outras cor- rentes espirituais, particularmen- te como gnosticisrno. E dessa for- mao prop6sito de Joao foi dirigir a Igreja seguramente por causa desses perigos do mundo anticristao e da tendencia de ne- gar a encarna<;:ao do Verbo (lJo 2.22; 4.3). Contra essa tendencia 122 anticrista, Joao, em seus escritos, todos datados entre os anos 80 e 95, afirma que Cristo e o Verbo feito carne. Em seu Evangelho Joao indica que Cristo e o Verbo encarnado. Em sua estada na ter- ra e em suas cartas ele indica que Cristo e o Verbo Encarnado da Igreja. E no Apocalipse ele indica que Cristo no futuro tambem sera o Verbo Encarnado. Todos os escritos do Novo Testamento aos quais nos referi- mos, sob a dire<;:ao do Espirito Santo, vieram aluz atraves de oca- sioes hist6ricas. Isso tambem e verdade com rela<;:ao aos escritos de Paulo e Pedro, de Tiago e Judas. Depois da ascensao de Je- sus e depois da persegui<;:ao da Igreja em Jerusalem os ap6stolos come<;:aram a pregar o Evangelho a judeus e gentios; eles tambem permaneceram nas congrega<;:6es que foram sendo fundadas, man- tendo a amizade e vivendo com elas. Eles receberam informa<;:6es orais ou escritas a respeito da con- di<;:ao espiritual dessas igrejas, interessaram-se pelo seu desen- volvimento, e preocuparam-se com elas (2Co 11.28). Por esse motivo eles foram chamados a, se possivel, visitar pessoalmente as igrejas e, se nao fosse possivel, por meio de epistolas ou cartas admoestar e consolar as igrejas de acordo com suas necessidades, preveni-las e encoraja-las, e por todos esses meios dirigi-las, mais
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    As SAGRADAS EscRITURAS profundamente,na verdade para a salva<;:ao. Assim como seu esfor<;:o apost6lico de forma geral, seu es- for<;o escrituristico, que constituiu uma parte hist6rica, organica e essencial do trabalho apost6lico, foi basico e fundamental para a Igreja crista. Os Evangelhos e as cartas dos ap6stolos sao, assim como os livros dos profetas, escri- tos originados em ocasioes espe- dficas. Mas ao mesmo tempo eles se estendem alem do tempo e do local das igrejas daqueles dias, sendo dirigidos as igrejas de to- das as epocas. Toda a Escritura, apesar de seu arrojo hist6rico, e, como dis- se Agostinho, uma carta de Deus dos ceus para Sua Igreja na terra. E, longe de pensar que a investi- ga<;ao hist6rica da origem dos li- vros da Biblia- evitando-se o abu- so que pode ser feito nesse estu- do - faz violencia ao carater divi- no da Escritura, n6s podemos ver que tal estudo e especialmente adequado para nos mostrar o modo maravilhoso pelo qual Deus trouxe Sua obra a existencia. * * * * * Esse relance da origem dos livros da Biblia certamente nao exaure o estudo da Biblia. Ele e apenas o seu inicio. Gradualmen- te urn complexo grupo de ciel'Ci- as tern se desenvoh·ido a p?.:-:::- _:::; 125 Biblia. 0 objetivo de todos eles e melhor entender o significado das Escrituras. Deve ser suficiente aqui dizer apenas umas poucas coisas sobre esses estudos. Em primeiro lugar n6s sabe- mos que cada livro, tendo tido uma origem individual, eventu- almente ocupou seu lugar no con- junto ou canon, isto e, uma lista ou grupo de escritos que consti- tuem uma regrade fee vida. Uma cole<;:ao semelhante ja tinha acon- tecido dentro dos limites de urn livro: os Salmos e os Proverbios foram escritos por varias pessoas e foram aos poucos sendo reuni- dos em urn corpo de escritos. Mais tarde OS varios livros foram reu- nidos em urn unico livro, que re- cebeu o nome de Biblia. Contudo n6s nao devemos supor que a Igreja tenha feito esse canon ou que tenha concedido autoridade can6nica aos escritos dos profetas e dos ap6stolos. Pelo contrario, esses escritos, desde o momento em que foram escritos foram autoritativos para a Igreja e foram usados como regra de fe e vida. A Palavra de Deus, nao escrita antes e escrita mais tarde, nao de- riva sua autoridade do homem, nem mesmo dos crentes, mas de Deus, que zela por ela e faz com que seja reconhecida. Quando 0 numero de livros profeticos e apost6licos cresceu e ~.~·J_ardo O'L:tros escritos come<;a- - - ::_ ..:: -2 : 2 ~ e=~ ";.-,~· _~.- ::<· :_"" .?.. :· ?.. _2 _.::.-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mente a eles, nao tendo sido es- critos por profetas e ap6stolos, mas que alegadamente tinham sido escritos por eles ou foram aceitos como tais, em alguns cir- culos, entao tornou-se necessario que a Igreja distinguisse os ver- dadeiros livros canonicos dos li- vros falsos, alegados, ap6crifos ou pseudo-epigrafos, e fizesse uma lista com os verdadeiros. Isso foi feito com os livros do Velho Testamento antes de Cristo, e com os livros do Novo Testamento no quarto seculo depois de Cristo. Ha uma ciencia que trabalha para in- vestigar essa questao e lan<;:ar luz sobre a canonicidade da Biblia. Em segundo lugar, deve ser mencionado o fato de que os ma- nuscritos originais escritos pelos profetas e pelos ap6stolos foram, sem exce<;:ao, perdidos. N6s te- mos apenas c6pias deles. A mais antiga dessas c6pias do Velho Testamento data do nono ou de- cimo seculo, e a mais antiga co- pia do Novo Testamento data do quinto seculo depois de Cristo53 • Em outras palavras, seculos sepa- ram os manuscritos originais das c6pias que possuimos. Durante esse periodo o texto foi submeti- do a maiores ou menores mudan- <;:as. Por exemplo - s6 para men- cionar urn aspecto dessa questao tao complexa - nao havia vogais nem pontua<;:ao nos manuscritos hebraicos originais, e tanto umas como outras foram introduzidas nas c6pias seculos mais tarde. A divisao em capitulos como a que conhecemos hoje, surgiu no come- <;:o do terceiro seculo, e a divisao em versiculos data do sexto secu- lo. Por isso uma ciencia especial era necessaria para, fazendo uso de todos os meios, estabelecer o texto original e apresenta-lo como base para a exegese. Em terceiro lugar, devemos observar que o Velho Testamen- to foi escrito em hebraico e o Novo Testamento foi escrito em grego. Portanto, no momento em que a Biblia foi distribuida entre todos os povos que nao entendi- am essas linguas, a tradu<;:ao tor- nou-se necessaria. No terceiro se- culo antes de Cristo foi dado o primeiro passo, com a tradu<;:ao do Velho Testamento para ogre- go. E depois a tradu<;:ao do Velho Testamento e do Novo em mui- tas linguas antigas e - ainda hoje - em muitas linguas modernas continua sendo feita. Depois do reavivamento de miss6es aos po- vos pagaos ocorrido no seculo dezenove esse trabalho de tradu- <;:ao foi mais energicamente im- pulsionado e hoje partes da Escri- tura ou a Escritura inteira sao en- contradas em mais de quatrocen- 53 Essas datas sao, logicamente, da cpoca em que o livrofoi escrito, nofinal do scculo XIX. Hoje sao conlzccidos manuscritos muito mais mztigos (N. doT.). 124
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    As SAGRADAS EscruTURAS tosidiomas. 0 estudo dessas tra- dw;:oes, especialmente as mais antigas, e muito importante para o entendimento adequado da Sa- grada Escritura, pois cada tradu- ao e urn tipo de interpretaaO. Em quarto lugar, finalmen- te, urn tremendo amontoado de cuidado e esforo tern sido dedi- cado a interpretaaO da Sagrada Escritura. Isso comeOU nos dias dos antigos judeus, e atravessou os seculos, e agora existem em 125 nosso tempo. E embora seja ver- dade que cada exegeta tern sua propria inclinaao, e que boa par- te da interpretaao tern sido par- ciat a historia da interpretaao da Escritura tern tido urn progresso; urn progresso que cada seculo tern contribuido para aumentar. Em uma analise final e o proprio Deus que, apesar do erro huma- no, mantern Sua Palavra e faz com que Seus pensamentos triunfem sobre a sabedoria do mundo.
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    CAPITULO ® A EscRITURA EA CoNFissAo N ao havia na epoca dos ap6stolos e logo depois dela, escassez de diferen- <;as sobre a essencia do Cristianis- mo e sobre o relacionamento do Cristianismo com judeus e genti- os. Todavia, e notavel a unanimi- dade com que a Escritura tern sido aceita como Palavra de Deus em toda a Igreja Crista. Isso e verdade em primeiro lugar com rela<;ao ao Velho Tes- tamento. No ensino de Jesus e dos ap6stolos isso e constantemente mencionado. 0 Velho Testamen- to foi mencionado varias vezes. De forma totalmente imperceptf- vel, e como a coisa mais natural do mundo, a autoridade do Ve- lho Testamento dos judeus foi inserida, atraves do ensino de Je- sus e dos ap6stolos, na Igreja Cris- ta. 0 Evangelho depende do Ve- lho Testamento e nao pode ser reconhecido sem ele. 0 Evange- 127 lho e 0 cumprimento das promes- sas do Velho Testamento. Semele o Evangelho fica suspenso no ar. 0 Velho Testamento e o pedestal sobre o qual o Evangelho repou- sa, e a raiz da qual ele brota. Onde quer que o Evangelho encontre guarida, as Escrituras do Velho Testamento ja tinham sido aceitas como Palavra de Deus. Em outra palavras, nao existe algo como uma igreja do Novo Testamento sem a Bfblia, pois desde o come- <;o a Igreja possuia a lei, os Salmos e os profetas. Os escritos apost6licos fo- ram adicionados ao Velho Testa- mento. Em parte esses escritos eram, assim como o Evangelho e as epistolas gerais, destinados a toda a Igreja. Em parte, algumas das epistolas foram endere<;adas a igrejas especificas - a de Roma, de Corinto, de Colossos e de ou- tros lugares.
  • 127.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Ebastante natural que todos esses escritos, tendo vindo dos ap6stolos e de pessoas a eles re- lacionadas, que gozavam de ele- vada reputa<;ao no inicio das igre- jas cristas, tenham sido lidos nas reunioes e que tenham ate sido enviados para outras igrejas para que fossem lidos. Dessa forma, por exemplo, o ap6stolo Paulo pediu que a carta que enviou a igreja de Colossos fosse lida na de Laodiceia, e que a de Laodiceia fosse lida em Colossos (Cl 4.16). E em 2Pedro 3. 15)6, Pedro faz men<;ao nao apenas de uma carta que seus leitores tinham recente- mente recebido de Paulo, mas tambem fala de outras cartas de Paulo que ensinavam a mesma doutrina que Pedro tambem en- sinava, mas que as vezes eram dificeis de entender e suscetiveis de serem distorcidas pelas pesso- as instaveis. N6s nao temos o di- reito de inferir que nessa epoca houvesse uma II cole<;:ao" das car- tas de Paulo. 0 que n6s podemos inferir eque OS escritos de Paulo eram conhecidos em urn drculo muito mais amplo do que o das igrejas locais as quais cada Carta foi destinada. Naturalmente o co- nhecimento do Evangelho da mai- or parte das igrejas do primeiro periodo, veio atraves dos ap6sto- los e de seus disdpulos. Mas quando eles morreram e sua prega<;:ao nao pode mais ser ouvida, os escritos dos ap6stolos 128 se tornaram, naturalmente, cada vez mais e mais valiosos. Do tes- temunho que chegou ate n6s de meados do segundo seculo n6s sabemos que os Evangelhos e posteriormente tambem as epis- tolas ou cartas eram regularmen- te lidos na assembleia dos cren- tes, eram usados como evidencia da verdade, e eram colocados na mesma linha de autenticidade dos livros do Velho Testamento. A partir do fim do segundo seculo os escritos do Novo Testamento junto com os do Velho Testamen- to eram considerados II toda a Es- critura", como "a funda<;ao e pi- lar da fe", como a Santa Escritura, e eram regularmente lidos nos servi<;:os religiosos (Irineu, Cle- mente de Alexandria e Tertu- liano). Everdade que com rela<;:ao a alguns escritos (Hebreus, Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 Joao, 3 Joao, Apocalipse e os livros posterior- mente julgados ap6crifos) perma- neceu, por longo tempo, uma di- feren<;a de opiniao sobre se eles deveriam ou nao ser aceitos como Sagrada Escritura. Mas essa ques- tao foi gradualmente ganhando unanimidade. Os escritos geral- mente reconhecidos eram reuni- dos e recebiam o nome de dinon (significando regra de verdade e fe), e foram registrados e estabe- lecidos como tais no Sinodo de Laodiceia no ano 360, em Hippo Regius na Numidia no ano 396 e em Cartago no ano 397.
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    A EscRITURA EA CoNFissAo Essas Escrituras do Velho e do Novo Testamento, constituem a funda<;ao dos profetas e dos ap6stolos sobre a qual todas as igrejas cristas, em comunhao umas com as outras, constroem sua estrutura. Em suas confiss5es oficiais todas as igrejas reconhe- cem a autoridade divina dessas Escrituras e se apropriam dela como regra de fe e vida. Nao tern havido diferen<;a ou conflito sobre esse ponto do dogma entre as igre- jas cristas. Formalmente o ataque contra a Escritura como Palavra de Deus vern pelo lado de fora, dos filosofos pagaos como Celso e Porfirio no segundo seculo; de dentro da cristandade nao apare- ce urn ataque desse tipo desde o seculo dezoito. ***** A Igreja nao recebeu essa Escritura de Deus para simples- mente repousar sobre ela, muito menos para enterrar esse tesouro na terra. Pelo contnirio, a Igreja e chamada para preservar essa Pa- lavra de Deus, explana-la, prega- la, aplica-la, traduzi-la, difundi-la no estrangeiro, recomenda-la e defende-la- em uma palavra, fa- zer com que os pensamentos de Deus, revelados na Escritura, tri- unfem em todos os lugares e em todas as epocas sobre OS pensa- mentos do homem. Toda a obra que a Igreja e chamada a fazer e a 129 de ministrar a Palavra de Deus. A Igreja ministra a Palavra de Deus quando ela e pregada na assem- bleia dos crentes, e interpretada e aplicada, quando e compartilha- da nos sinais do pacto e quando a disciplina e mantida. Em urn sen- tido mais amplo, o servi<;o da Pa- lavra e muito mais abrangente. Em nossos cora<;5es e vidas, em nossa profissao e negocios, em casa, no campo e no escritorio, na ciencia e na arte, no estado e na comunidade, em obras de mise- ricordia e miss5es, e em todas as esferas e caminhos da vida, essa Palavra deve ser aplicada, elabo- rada e aceita como regra. A Igreja deve ser o pilar e o terreno da ver- dade (1Tm 3.15), ou seja, deve ser urn pedestal e uma funda<;ao so- bre a qual a verdade seja apresen- tada, mantida e estabelecida con- tra o mundo. Quando a Igreja ne- gligencia e se esquece do seu cle- ver com rela<;ao aEscritura ela se torna remissa em seu clever e mina sua propria existencia. Logo que a Igreja se torna frouxa no cumprimento de seu clever ela desenvolve uma dife- ren<;a de opini5es a respeito da Palavra de Deus. Muito embora o Espfrito Santo tenha sido pro- metido aIgreja e tenha sido dado como Guia para conduzi-la a toda verdade, isso nao significa que a Igreja tenha sido, inteiramente, ou em suas partes, agraciada com o dom da infali~~ili8aie. _:e r:'e.-:-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii mo nas igrejas do periodo apos- t6lico surgiram varias heresias que tinham seu ponto de partida no paganismo ou no judaismo. Atraves da sucessao das eras es- ses sao dois recifes nos quais a Igreja continuamente amea<;a es- barrar, e eles devem, com muita vigiH1ncia e cuidado, ser evitados. Contra tais heresias, tanto pela direita quanto pela esquer- da, a Igreja e obrigada a £alar re- soluta e claramente afirmando qual e a verdade revelada por Deus em Sua Palavra. A Igreja faz isso nas menores e nas maiores assembleias (sinodos), nas quais estabelece, de acordo com suas convic<;oes, o que deve ser aceito como verdade divina e dessa for- ma urn ensino da Igreja sobre urn determinado ponto em particular, ou outro. Dessa forma a Igreja se coloca sob a dire<;ao das Escritu- ras por parte daqueles que creem e abra<;am uma confissiio, urn cre- do. A confissao e a obriga<;ao de todos OS crentes, e e tambem urn ditado deles aos seus pr6prios cora<;5es; a pessoa que realmente ere, com todo o seu cora<;ao e com toda a sua alma, nao pode fazer outra coisa senao confessar, isto e, dar testemunho da verdade que a libertou e da esperan<;a que foi plantada em seu cora<;ao por essa verdade54 . Dessa forma todo cren- te e toda igreja - se o testemunho do Espirito Santo tern estado pre- sente ali- confessa que a Palavra de Deus e a verdade. E como os erros e as heresias se desenvol- vem sutilmente, a Igreja e impelida a fazer urn cuidadoso registro da verdade que confessa e a estabelecer seu credo em ter- mos bern definidos e precisos. Naturalmente, a confissao oral, por for<;a das circunstancias, tor- na-se uma confissao escrita. N6s sabemos da existencia daqueles que se levantam contra a formula<;ao e manuten<;:ao de tais tipos de confissao eclesiasti- ca. Os Remonstrantes55 da Rolanda, por exemplo, diziam que a confissao violava a autori- dade exclusiva da Escritura, e a liberdade de consciencia, e que impedia o desenvolvimento do conhecimento. Todavia, essas ob- je<;:5es sao baseadas em equivo- cos. A fun<;ao das confissoes ou credos nao e puxar a Escritura para tras, mas mante-lae protege- la contra caprichos individuais. Longe de violar a liberdade da consciencia, elas dao suporte a essa liberdade contra todo tipo de espiritos hereticos que procuram fazer com que almas fracas e desinformadas se extraviem. E, 54 Mt 10.32; Rm 10.9,10; 2Co 4.13; 1Pe 3.15; 1Jo 4.2,3 55 Os Rcmonstmntcs cram arminianos oriundos da Igreja Reformada Holandesa. Recebemm esse nome por tcrem estado presentes aRemonstrance de 1610. Os Remonstmntesforam na Holanda (1619-25) eforam reconhecidos como igreja indepcndente em 1795 (N. doT.) 150
  • 130.
    A EscRITURA EA CoNFissAo finalmente, as confissoes nao im- pedem o desenvolvimento do co- nhecimento, mas conservam-no no curso correto do mesmo, e sao elas mesmas checadas e revisadas aluz das Sagradas Escrituras, que sao a unica regrade fe. Tal exame e revisao podem acontecer a qual- quer tempo, apesar de terem que ser feitos de forma segura e legi- tima. 0 Credo Apost6lico (os doze artigos) e 0 mais antigo dos credos. Ele nao foi formulado pe- los ap6stolos, mas veio aexisten- cia no comec;o do segundo secu- lo. Ele foi desenvolvido a partir do comando batismal de Mateus 28.19. Originalmente ele era urn pouco mais curta do que e agora, mas basicamente ele era o mesmo. Ele era urn curta resumo dos fa- tos sobre os quais o cristianismo repousa, e como tal ele continua sendo urn terreno comum e urn vinculo inquebravel da unidade de toda a cristandade. A esse Cre- do Apost6lico quatro confissoes tern sido acrescentadas, todas de carater ecumenico (isto e, geral), e todas elas sao aceitas por mui- tas igrejas. Sao elas: o credo do Condlio de Niceia em 325; o cre- do que no artigo IX da Confissiio de Fe Reformada e chamado de credo niceno, mas que apesar de ter absorvido o credo de Niceia, e na verdade, uma expansao desse credo e veio a existencia bern mais tarde; o credo do Condlio de 151 Calcedonia em 451; e, finalmente, o credo equivocadamente chama- do de credo de Atanasio. Em todas essas confissoes a doutrina concernente a Cristo e a Trindade e afirmada. Esses eram os pontos de litigio durante os primeiros seculos. 0 que voce pensa de Cristo?- essa era a ques- tao mais importante que, basea- da na Palavra de Deus, a Igreja ti- nha que responder para si mesma e sustentar contra o mundo todo. Para o lado judeu da ques- tao foram todos aqueles que re- conheciam Jesus como urn ho- mem, urn homem enviado por Deus, urn homem dotado com ha- bilidades especiais, animado pelo espirito profetico, poderoso em palavras e obras, mas apenas urn homem. E para o lado pagao fo- ram todos aqueles que reconhe- ciam Jesus como urn filho dos deuses, uma divindade que veio dos ceus e que, como os anjos do Velho Testamento, manifestou-se durante algum tempo sobre a ter- ra em urn corpo etereo. Esses fo- ram incapazes de confessa-lo como o Unigenito do Pai que se fez carne. Contra essas duas here- sias, a Igreja, seguindo a linha da Escritura, tern que manter, por urn lado, que Cristo eo unigenito Fi- lho de Deus, e por outro lado que ele veio em carne. E essa foi a con- fissao de fe que a Igreja fez em seus credos depois de urn longo debate. Ela rejeitou, juntamente
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    Fundamentos Teol6gicos daFC Crista como ap6stolo Joao, todos os en- sinos anticristaos que negavam que o Filho de Deus veio em car- ne (1Jo 2.18,22; 4.2,3). Dessa forma a Igreja crista, pela formula<;ao e afirma<;ao de tais credos, mante- ve a essencia, o cora<;ao e o cara- ter peculiar da religiao crista. E e por isso que os condlios e sinodos nos quais essas confissoes foram elaboradas sao de tao grande e fundamental importancia para toda a cristandade. Nos fatos do cristianismo, que a confissao apost6lica resume, e na doutrina da pessoa de Cristo e do triuno ser de Deus, ha urn acordo nas igrejas cristas que encaixa-as to- das juntas como uma unidade contra o judaismo e contra o pa- ganismo. Essa euma unidade que nao pode, por causa das divisoes que as separam, ser ignorada. Fora dessa base comum de- senvolveram-se todos os tipos de diferen<;:as e divisoes. 0 exercicio da disciplina levou a separa<;:ao dos Montanistas na segunda me- tade do segundo seculo, dos Novacianos na metade do tercei- ro seculo e dos Donatistas no quarto seculo. Muito mais serios foram os cismas que grada- tivamente se desenvolveram en- tre as Igrejas do Ocidente e do Oriente. Muitas causas contribui- ram para isso. Antes de mais nada foi a aversao entre gregos e lati- nos, a continua tensao entre Constantinopla e Roma, a luta 132 pela supremacia entre os patriar- cas e o papa. A essas foram sendo acrescentadas muitas diferen<;:as menores sobre a doutrina eo cui- to. A mais importante delas foi a confissao da Igreja grega de que no ser de Deus o Espirito Santo nao procedeu do Pai e do Filho, como a Igreja do Ocidente dizia, mas somente do Pai. A separa<;:ao, que tinha acontecido periodica- mente durante breves intervalos, tornou-se permanente em 1054. A Igreja do Oriente, que preferiu pensar de si mesma que era a Igre- ja Ortodoxa, pois supunha que tinha permanecido mais leal ao ensino da Igreja primitiva, sofreu grandes perdas com a forma<;ao de seitas (os Cristaos Armenios, Nestorianos na Siria, os Jacobitas na Siria, os Coptas no Egito, os Maronitas no Libano) e tambem por causa dos rrm<;ulmanos, que em 1453 conquistaram Constan- tinopla. Ao mesmo tempo, a Igre- ja do Oriente, deu urn passo im- portante com a conversao dos Eslavos e continua a existir como Igreja Ortodoxa na Grecia, Tur- quia, Russia, Bulgaria, Iugoslavia e Romenia. ***** A Igreja Cat6lica do Ociden- te, sob a lideran<;:a dos bispos de Roma, desdobrou-se cada vez mais no curso dos seculos. Urn periodo de descanso, privilegio e
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    A ESCRITURA EA CONFISSAO prestigio seguiu-se a conversao do Imperador Constantino, de- pois de urn longo periodo de per- seguic;:ao e 6dio. E apesar da se- cularizac;:ao ter tornado terreno, a Igreja desde o tempo da conver- sao de Constantino ate o tempo da Reforma realizou muito. Durante OS primeiros seculos a Igreja re- sistiu e conquistou o paganismo, trabalhou duro pela conversao das nac;:oes e pela civilizac;:ao da Europa, manteve as grandes ver- dades do Cristianismo e a inde- pendencia da Igreja com louvavel firmeza, e cooperou efetivamen- te para o desenvolvimento da arte e da ciencia crista. Todavia, a des- peito desses grandes meritos, nao pode ser negado que em sua ex- pansao e ascendencia ao poder a Igreja moveu-se na direc;:ao que nao era apontada pelo cristianis- mo apost6lico. Isso tornou-se cla- ro, especialmente, de tres formas. Em primeiro lugar a Igreja Cat6lica elevou cada vez mais a tradir;ao, dando-lhe o status de uma regra de fe independente, mantendo-a proxima e, algumas vezes, contra as Escrituras. Uma grande quantidade de doutrinas e usos da Igreja Cat6lica, tais como a missa, o celibato para os religiosos, a canonizac;:ao de san- tos, a concepc;:ao imaculada de Maria, e outros semelhantes nao podem ser provados por qual- quer texto da Escritura. Contudo tais doutrinas e praticas sao 155 mantidas sobre a base da tradic;:ao. Com relac;:ao a essa tradic;:ao, e ale- gado que ela pode compreender apenas aquilo que "tern sido cri- do sempre e em todos os lugares, e por todas as pessoas", mas na analise final e 0 papa que deter- mina se algo pertence ou nao a tradic;:ao. Dessa forma todo o relacio- namento entre a Escritura e a Igre- ja tern sido mudado por Roma. A Escritura nao e indispensavel, mas meramente util para a Igreja, mas a Igreja e indispensavel para a Escritura, pois a Escritura nao tern autoridade, a nao ser que a Igreja lhe de essa autoridade de- clarando-a merecedora de fe. Des- sa forma a Escritura eobscura e necessita da ac;:ao da Igreja para que seja esclarecida; ela nao pre- cede e nem constitui o fundamen- to da Igreja; a Igreja tern preceden- cia sobre ela e constitui a base so- bre a qual ela repousa. Embora os profetas e ap6stolos tenham rece- bido o dom da inspirac;:ao, o papa tambern, quando fala II ex cathedra" em seu oficio papal, recebe o suporte especial do Es- pirito e assim torna-se infalivel. A Igreja esuficiente em si mesma, e poderia, se assim o desejasse, existir sem a Escritura, e e a uni- ca, verdadeira e perfeita mediado- ra da salvac;:ao. A Igreja e tambem a possuidora e distribuidora dos beneficios da Grac;:a contida nos sacramentos. A Igreja eo meio de
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    Fundamentos Teol6gicos daFC Cristii Grac;:a, o estado e o reino de Deus na terra. Em segundo lugar, a Igreja Cat6lica, se nao perdeu o corac;:ao do Evangelho, isto e, a livre Gra- c;:a de Deus, a justificac;:ao dos pe- cadores somente pela fe, pelo menos misturou-a com compo- nentes impuros e assim confun- diu a distinc;:ao entre a lei eo Evan- gelho. Essa distorc;:ao do Evange- lho original aconteceu ja nos seu prim6rdios, mas depois desen- volveu-se livremente e ganhou aprovac;:ao oficial. Na luta entre Agostinho e Pelagio,luta que ain- da continua, a Igreja Romana, par- ticularmente depois da Reforma, tern se alinhado cada vez mais a Pelagio, dizendo que, de fato, Deus concedeu habilidade ao ho- mem que ouve o Evangelho de abandonar os seus pecados e vol- tar-se para Deus e perseverar em sua conversao. Mas a disposic;:ao e a perseveranc;:a sao contribuic;:6es do proprio homem. Por meio de boas obras, portanto, ele deve obter entrada no reino de Deus sobre a terra. Essas boas obras sao classi- ficadas de duas formas pela Igre- ja Cat6lica: as obras de obedien- cia aos mandamentos regulares como se aplicam a todas as pes- soas, e as obras destinadas a sa- tisfac;:ao dos conselhos que Cristo acrescentou a lei (celibato, mise- ria e obediencia). 0 primeiro ca- minho e urn born caminho, mas o 134 segundo e melhor e mais diffcit apesar de ser mais curto e mais seguro. 0 primeiro caminho e destinado as pessoas leigas, e 0 segundo aos religiosos - padres e freiras. Seja quem for que ande nesse caminho de boas obras re- cebeni da Igreja, atraves dos sa- cramentos, sempre muito mais Grac;:a do que tern merecido. Fi- nalmente, se perseverar ate o fim, chegara - nao ao tempo de sua conversao ou de sua morte, mas s6 depois de anos de sofrimento no purgat6rio- ao reino dos ceus. Em terceiro lugar, a Igreja Cat6lica comec;:ou a fazer distin- c;:ao entre o clero e o laicato. Nao sao os crentes em geral, mas os clerigos, que sao apropriadamen- te os sacerdotes. E nesse status clerical varias classificac;:6es tern sido feitas. No Novo Testamento os no- mes presbitero e bispo sao designa- c;:oes intercambiaveis para os mes- mos oficios. Mas logo no segun- do seculo essa unidade foi omiti- da: o bispo foi elevado a urn ni- vel superior ao dos diaconos e presbiteros e gradualmente come- c;:aram a ser considerados suces- sores dos ap6stolos e preser- vadores da tradic;:ao. Esses bispos tinham conegos, sacerdotes e capelaes como seus inferiores e arcebispos, patriarcas e finalmen- te o papa como seus superiores. Essa hierarquia culminava no papa, que no Condlio Vaticano
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    A ESCRITURA EA CONFISSAO de Roma, em 1870, foi oficialmen- te declarado infalivel. Ele e o "pai" (papa significa pai) de toda a Igreja, o sumo sacerdote", o su- cessor de Pedro, o vice-gerente de Cristo, a maior autoridade judici- al e legislativa e aquele que, com a ajuda de urn amplo colegiado de oficiais (cardeais, prelados, procuradores, notarios, e outros oficios semelhantes), governa toda a Igreja. Esses erros, que tern seu ponto de partida em fracos des- vias do curso correto, desenvol- veram-se mais e mais no decorrer dos anos. Eles se desenvolveram e continuam a se desenvolver numa dire<;ao em que a velha igreja cat6lica crista esta cada vez mais se tornando a Igreja Ultramontanista, Romana (isto e, inseparavelmente sujeita aigreja em Roma), e Papal, na qual Ma- ria, a mae de Jesus, eo papa como substituto de Cristo empurram a pessoa e obra de Cristo cada vez mais para tras. As tres heresias ou erros mencionadas acima representam uma redu<;ao dos ofkios profeti- co, sacerdotal e real de Cristo, e uma viola<;ao deles. * * * * * Essa corrup<;ao da Igreja nao se desenvolveu sem energicos e constantemente renovados esfor- <;os para conte-la. Especialmente 155 na Idade Media nao havia escas- sez de pessoas e tendencias que visassem introduzir melhoras. Mas todos esses movimentos ti- nham pouco sucesso nessa epo- ca. Alguns deles tinham muito pouco efeito pratico. Outros fo- ram suprimidos com sangue. Con- tra a Reforma do seculo dezesseis esses meios de repressao e ani- quilamento foram utilizados, mas nessa ocasiao eles nao tiveram sucesso. A epoca estava pronta para uma reforma. A Igreja che- gou a urn nfvel espiritual e etico tao baixo que nao conseguia mais ganhar a confian<;a nem mesmo de seu proprio povo. Havia urn sen- so comum em todos os lugares de que esse tipo de coisa nao podia continuar acontecendo, e havia tambem o desejo de se fazer al- guma coisa para mudar essa situ- a<;ao; e urn born numero de pes- soas, na Italia, por exemplo, caiu em zombaria e completa incredu- lidade. 0 que teria acontecido a Igreja sem a Reforma e diffcil de imaginar. Ela foi uma ben<;ao tam- bern para a Igreja Cat6lica, e con- tinua sendo ainda hoje. A Reforma nao foi apenas o unico tremendo rnovimento exi- gido pelos novos tempos. Ela foi precedida, acompanhada e segui- da por outros movimentos, e cada urn deles teve sua importancia na esfera da Reforma. A descoberta da arte da impressao e a desco- berta da p6lvora, a ascensao da
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista classe media, a descoberta da America, o renascimento da lite- ratura e da arte, a nova ciencia e filosofia natural- todos esses im- portantes movimentos e eventos do despertar da auto consciencia e da transic;ao da Idade Media para urn novo tempo. E a Reforma, apesar de ter procedido de seus pr6prios prin- cipios e ter se dirigido aos seus pr6prios objetivos, deu origem e serviu de suporte para todos es- ses movimentos. Alem disso - e essa nao e a considerac;ao menos importante- A Reforma em oposic;ao a Igreja Romana lanc;ou-se araiz do pro- blema. Ela nao se satisfazia com a melhoria das formas externas, mas insistia em que a causa da corrup<;:ao tinha que ser removi- da. Para isso ela precisava de urn firme ponto de partida, uma nor- ma ou criteria confiavel e urn principia positivo. Em contraste com a Igreja Romana, a Reforma encontrou essa norma nao na tra- di<;:ao, mas na Palavra de Cristo, necessaria para que a Reforma fosse merecedora de considera<;:ao e respeito, necessaria para a vida e bern estar da Igreja e tambem, totalmente suficiente e clara. A Reforma afirmou, contra as boas obras que a Igreja Romana tinha anexado asalva<;:ao do homem, a Palavra de Cristo, que e perfeita e que nao precisa de comple- menta<;:ao humana. E, finalmente, 136 a Reforma afirmou, contra o papa, que se apresentava como o infali- vel representante de Cristo, que o Espirito de Cristo purifica a Igre- ja e conduz os filhos de Deus a toda verdade. A Reforma nao encontrou seu principia positivo atraves de investigac;oes cientificas e refle- xao, mas atraves da experiencia do cora<;:ao culpado e oprimido, que encontrou reconcilia<;:ao e per- ciao somente na livre Gra<;:a de Deus. A Reforma nao foi urn mo- vimento filos6fico nem cientifico. Ela teve urn carater religioso e moral. Como sempre acontece em casos de cisma e separac;ao, mui- tos se identificaram com os cismciticos movidos por motivos impuros. Mas aqueles que esta- vam no corac;ao e no centro da Reforma eram os cansados e so- brecarregados que estavam enfra- quecidos sob o jugo da Igreja Ro- mana e que agora tinham encon- trado descanso para suas almas aos pes do Salvador. Essa experiencia de perdao de pecados foi suficiente para Lutero. Foi suficiente para ele ter encontrado "urn Deus gracioso". De fato, foi desse novo ponto de vista que ele comec;ou a olhar e considerar o mundo mais livre- mente do que tinha feito na Igreja Romana, que sempre da ao natu- ral a qualidade de profano. Des- cansando inteiramente na justifi- ca<;:ao, que ele tinha obtido so-
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    A EscRITURA EA CoNFISSAo mente pela fe, ele deixou que tudo que fosse secular - arte e ciencia, estado e sociedade- seguisse seu proprio curso. A Reforma Luterana limitou-se arestaura<;:ao do oficio da prega<;:ao. Quando ela encontrou na Escritura a res- pasta para a pergunta: "Como o homem e salvo?", ela desistiu de fazer esfor<;:o em qualquer outro sentido. Para Zwinglio e Calvina, que fizeram a Reforma na Sui<;:a, a obra come<;:ava no ponto em que tinha sido abandonada por Lutero. Eles tambem chegaram ao ponto da Reforma nao atraves de argumentos racionais, mas atra- ves da experiencia de pecado e Gra<;:a, culpa e reconcilia<;:ao. Essa experiencia foi seu ponto de par- tida, mas nao foi seu lugar de des- canso, nem o fim de sua jornada. Eles penetraram mais fundo, tan- to para a frente quanto para tras. Atras da Gra<;:a de Deus, que se expressa no perdao da culpa, esta a soberania de Deus, o infinito e glorioso ser de Deus em todas as Suas excelencias e perfei<;:6es. Eles viram que, assim como Deus era soberano na obra de salva<;:ao, Ele era soberano sempre em todos os lugares- tanto na cria<;:ao quanto na recria<;:ao. Se Ele tinha se tor- nado Rei no cora<;:ao do homem, Ele tinha se tornado Rei tambem em sua cabe<;:a e em sua mao, em sua casa, e em seu trabalho, no estado e na sociedade, na arte e 137 na ciencia. Responder aquestao: "Como o homem e salvo?" nao era suficiente. Ela remeteu-se a outra questao, maior, mais pro- funda, e mais abrangente: "Como Deus e glorificado?". Portanto, para Zwinglio e tambem para Calvina, a obra de Reforma tinha apenas come<;:ado quando eles encontraram paz de cora<;:ao no sangue derramado na cruz. Todo o mundo estava aberto diante de- les, nao para ser abandonado em seus pr6prios neg6cios, mas para ser penetrado e santificado pela Palavra de Deus e pela ora<;:ao. Eles come<;:aram seu envolvi- mento imediato dirigindo-se a igreja das cidades onde viviam. Eles restauraram nao apenas o oficio da prega<;:ao, mas tambem o culto e a disciplina da igreja; eles reformaram nao apenas a vida religiosa de domingo, mas tambem a vida social e civica dos dias da semana; eles reformaram nao apenas a vida privada do ci- dadao, mas tambem a vida publi- ca do estado. A partir desse pon- to sua Reforma se espalhou para outras terras e lugares. A Refor- ma Luterana limitou-se principal- mente a Alemanha, Dinamarca, Suecia e Noruega, mas a Reforma de Calvina alcan<;:ou a Italia e a Espanha, a Hungria e a Polonia, a Sui<;:a e a Fran<;:a, a Belgica e a Holanda, a Inglaterra e a Esc6cia, os Estados Unidos e o Canada. Se ela nao tivesse sido neutralizada
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista e destruida pela Contra-Reforma dos Jesuitas em muitos paises, ela teria colocado urn fim ao dominio Romano. * * * * * Tal conquista, contudo, nao seria permitida. A Reforma foi ata- cada pela Igreja Romana por to- dos os lados. No Concilio de Trento, Roma, deliberada e cons- cientemente, entrincheirou-se contra a Reforma e moveu-se na dire<;ao oposta a que a Reforma tinha tornado. Alem disso a Refor- ma enfraqueceu-se por causa de divisoes internas e disputas sem fim. Paralelamente a ela, ainda no seculo dezesseis, surgiram 0 anabatismo e o socianismo. Am- bos procediam da mesma ideia basica, a saber, o incompativel conflito entre a natureza e a Gra- <;a. Essa mesma oposi<;ao entre a cria<;ao e a recria<;ao, o humano e o divino, a razao e a revela<;ao, o ceu e a terra, a humanidade e a cristandade, continuou em ativi- dade muito depois disso, e conti- nua em atividade em nossos dias. As separa<;oes e cismas do seculo dezesseis nao foram OS unicos. A cada seculo esse numero aumen- ta. 0 seculo dezessete viu nascer o Remonstrantismo na Holanda, 138 o Independentismo na Inglaterra e o Pietismo na Alemanha. 0 se- culo dezoito deu origem ao Herrnhutismo, Metodismo e Swedenborgianismo, e no mesmo seculo todas as igrejas foram atin- gidas pelo Deismo. Depois da Re- volu<;ao Francesa ate o come<;o do seculo dezenove urn poderoso reavivamento religioso ocorreu tanto nas igrejas romanas quanta nas protestantes. Mas a separa<;ao continuou. 0 Darbyismo, o Irvingismo, o Mormonismo, o Es- piritismo e todos os outros tipos de seitas surgiram de muitos frag- mentos de igrejas que foram enfraquecidas e consumidas por urn espirito interno de duvida e indiferen<;a. E, do lado de fora das igrejas, o poder do monismo, seja de tipo materialista ou panteista, organizou suas for<;as para urn as- salta final e mortal contra toda a religiao crista. Parece, portanto, que toda a esperan<;a de unidade e universa- lidade da Igreja de Cristo esta perdida. Contudo, ha urn confor- to - Cristo reunira Sua propria Igreja de todas as na<;oes, povos, ra<;as e linguas. Ele trara todas as suas ovelhas e elas ouvirao Sua voz. E entao havera urn s6 reba- nho e urn s6 Pastor.
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    CAPITULO ® 0 SER DEDEUS A te aqui n6s discutimos a natureza da revela<;ao que Deus nos deu em Sua Gra<;a, fizemos algumas conside- ra<;oes sobre como a revela<;ao veio a existencia, e como, sob a normativa dire<;ao dos credos e das confissoes, n6s a temos conhe- cido. Tambem vimos o conteudo da revela<;ao e mostramos como essa revela<;ao age na mente e no cora<;ao, no entendimento e na vida. Se n6s estivemos olhando o edificio da revela<;ao pelo lado de fora e tivemos alguma no<;ao de sua arquitetura, n6s vamos agora entrar no santuario para contem- plar todo o tesouro de sabedoria e conhecimento contido nele e vamos deleitar nossos olhos nes- se banquete. Nao e necessaria afirmar que n6s podemos desenvolver o rico conteudo dessa revela<;ao de va- rias formas, e podemos colocar 159 diante de n6s seus varios mode- los. N6s nao vamos discutir cada uma dessas formas e modelos. N6s vamos limitar a discussao a dois metodos nos quais o conteu- do da doutrina crista pode ser tra- tado, e frequentemente e. Em primeiro lugar, n6s po- demos ir direto ao cristao que, com a verdadeira fe em seu cora- <;ao, que aceita o conteudo dare- vela<;ao, e entao perguntar a ele de que forma ele chegou ao co- nhecimento da verdade, de quais pontos esse conhecimento consis- te, e que fruto esse conhecimento tem produzido em seu pensamen- to e em sua vida. Esse eo ponto de vista assumido pelo nosso Ca- tecismo de Heidelberg. 0 narrador desse catecismo eo cristao. Ele da um abrangente e claro registro daquilo que na vida e na morte e seu unico conforto e dos varios pontos que e necessaria conhecer
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista se quiser viver e morrer aben<;:oa- damente nesse conforto. Esse e urn bonito metodo de tratamento. Ele relata a verdade imediatamente a toda a vida crista, resguarda-a contra todos os argumentos aca- demicos e especula<;:6es inuteis, e em sua aproxima<;:ao de toda dou- trina aponta diretamente para o que e de valor para a mente e para o cora<;:ao. Que beneficia e confor- to voce recebe por crer em tudo isso? Que eu sou justificado di- ante de Deus em Cristo e urn her- deiro da vida eterna. Mas ha tambem outra forma pela qual as verdades da fe po- dem ser consideradas. N6s nao estamos limitados ao metodo de voltar ao cristao e perguntar-lhe em que ele ere. N6s podemos tambem nos colocarmos na posi- <;:ao do cristao e assim tentar dar a n6s mesmos e aos outros urn re- gistro baseado na Escritura do conteudo de nossa fe. Dessa for- ma n6s nao vamos deixar que o desenvolvimento de nossa confis- sao seja determinado pelas ques- t6es que nos sao dirigidas sobre ela. De acordo com esse segun- do metodo n6s mesmos vamos expor positivamente o conteudo de nossa fe. Em vez disso n6s ten- tamos tra<;:ar que ordem esta ob- jetivamente presente nas verda- des da fe, como estao elas relaci- onadas umas as outras equal e 0 prindpio governante de todas 140 elas. Essa e a ordem seguida na Confissfio de Fe Reformada. Nessa Confissao o cristao tambem e o narrador, mas ele nao espera que as perguntas lhe sejam impostas. Em vez disso ele mesmo explica o conteudo de sua fe. Ele ere com seu cora<;:ao e confessa com sua boca que Deus fala as igrejas em Sua Palavra atraves de Seu Espi- rito. Esses dois metodos de tra- tamento, evidentemente, nao sao opostos urn ao outro. Eles se com- pletam entre si e sao ambos de grande valor. Para as igrejas Re- formadas e tambem para as Esco- las Cristas Reformadas, e urn pri- vilegio inavaliavel que n6s pos- suamos a Confissao de Fe parale- lamente ao Catecismo, e o Cate- cismo paralelamente a Confissao de Fe. 0 que os dois juntos nos dao e 0 objetivo e 0 subjetivo, 0 teol6gico e o antropol6gico. Eles estao mesclados e o cora<;:ao e a mente sao reconciliados atraves deles. Dessa forma a verdade de Deus se torna uma ben<;:ao tanto para a mente quanto para a vida. Que esses dois metodos de organiza<;:ao do conteudo da reve- la<;:ao nao sao opostos, mas com- plementares e se equilibram urn ao outro, e fartamente provado pelo fato de que, nao apenas no Catecismo, mas tambem na Con- fissao de Fe, e o cristao quem fala. Em ambos o cristao nao esta iso- lado, mas e urn companheiro de
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    0 SER DEDEUS todos os seus irmaos e irmas. Ea Igreja, o corpo dos crentes, que se expressa nele. Todos n6s cremos com o cora<;ao e confessamos com a boca - tais sao as palavras de abertura da Confissao e assim ela continua, e assim ela termina. E uma verdadeira confissao crista contendo o sumario da doutrina de Deus e da eterna salva<;ao das almas. A doutrina de Deus e a dou- trina da eterna salva<;ao das almas nao sao duas doutrinas indepen- dentes que nada tern a ver uma com a outra. Pelo contrario, elas estao inseparavelmente relaciona- das uma com a outra. A doutrina de Deus e ao mesmo tempo a doutrina da eterna salva<;ao das almas, e a segunda esta incluida na primeira. 0 conhecimento de Deus na face de Jesus Cristo, Seu Filho, essa e a vida eterna (Jo 17.3). Esse conhecimento de Deus e diferente em tipo, mas nao em grau daquele que n6s obtemos na vida diaria ou na escola. E urn tipo peculiar de conhecimento. Ele difere em principia, objeto e efeito de todo tipo de conheci- mento, como ja mostramos no ca- pitulo 2. Esse conhecimento esta ligado amente e tambem ao cora- <;ao. Ele nao nos torna mais "estu- dados", mas ele nos torna mais sabios, melhores e mais felizes. Ele nos torna aben<;oados enos da a vida eterna, no porvir e aqui e agora. As tres coisas que e neces- 141 sario que n6s conhe<;amos nao ter- m inam aqui. N 6s devemos ser aben<;oados tambem na morte. Esse eo nosso fim, e n6s devemos, tambem na vida, ser aben<;oados. Aquele que ere no Filho tern a vida (Jo 3.16). Aben<;oados sao os puros de cora<;ao, pois passu- em a promessa de que verao a Deus (Mt 5.8), pois foram salvos na esperan<;a (Rm 8.24). * * * * * Uma vez que tenhamos re- cebido o principia da vida eterna em nossos cora<;6es, n6s nao po- demos fazer outra coisa senao co- nhecer mais sobre Aquele que nos concede essa vida. Mais e mais n6s olhamos para Aquele que e a fonte de nossa salva<;ao. Do con- forto que n6s desfrutamos em nossos cora<;6es, e do beneficia e do fruto que o conhecimento de Deus produz em n6s mesmos e em nossas vidas, n6s sempre vol- tamos ao culto do Ser Eterno. E entao, n6s descobrimos que Deus nao existe para n6s, mas n6s exis- timos para Ele. N6s nao estamos ignorando nossa salva<;ao, estamos apenas afirmando que essa salva<;ao e urn meio para que Ele seja glorificado. 0 conheci- mento de Deus nos deu vida, e a vida que foi dada nos conduz de volta ao conhecimento de Deus. Em Deus n6s encontramos todo o nosso bern estar e toda a nossa
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista gloria. Ele se torna o objeto de nosso culto, o tema de nossa can- c;:ao, a forc;:a de nossa vida. De Deus, atraves de Deus e para Deus sao todas as coisas - essa se torna a escolha de nosso corac;:ao e o tema de nosso trabalho. N6s mes- mos e todas as criaturas ao nosso redor nos tornamos meios para que Ele seja glorificado. A verda- de e que n6s amamos primeira- mente porque Ele nos deu vida, e depois disso Ele se tornou cada vez mais e mais querido a n6s, por causa de Si mesmo, por causa do que Ele nos revela a respeito do Seu Ser Eterno. Toda a doutrina de fe, no todo ou em partes, tor- na-se uma proclamac;:ao de louvor a Deus, uma exibic;:ao de Suas ex- celencias, uma glorificac;:ao de Seu nome. 0 Catecismo nos conduz a Confissao de Fe. Quando n6s tentamos refle- tir sobre o significado do fato de n6s, criaturas pobres, fracas e pe- cadoras, termos conhecimento do Deus Infinito e Eterno, uma pro- funda reverencia e uma timidez santa apertam nossos sentimen- tos. Sera verdade que na mente escurecida de urn ser humano culpado, alguma luz pode cair daquele que nenhum homem pode ver, que mora em luz ina- cessivel (1Tm 6.16), que e pura luz e em quem nao ha escuridao (1Jo 1.5)? Ha muitas pessoas e ainda havera muitas outras, que dao 142 uma resposta negativa a essa questao. Mas a negac;:ao da cognoscibilidade de Deus pode ter sua origem em dois tipos de atitudes mentais. Hoje em dia esse temperamento cetico e 0 re- sultado de argumentos cientfficos puramente abstratos e racio- nalistas. Os ceticos dizem que o co- nhecimento que esta disponivel a mente humana e limitado aos fe- nomenos empiricamente obser- vaveis, eles argumentam que e uma contradic;:ao afirmar, por urn lado, que Deus tern personalida- de, mente e vontade, e, por outro lado, afirmar que Ele e infinito, eterno e absolutamente indepen- dente. A esses ceticos n6s pronta- mente replicamos que de fato nao pode haver conhecimento de Deus na mente do homem, a me- nos que Deus, de uma forma ge- ral na natureza e na hist6ria, ou de uma forma especial em Seu Filho, revele-se a Si mesmo. Par- tanto, se Deus revelou-se a Simes- mo, segue-se que Ele pode ser conhecido na medida em que se revelou. Mas se alguem afirmar que de nenhuma forma e por ne- nhum meio Ele se revelou, a im- plicac;:ao e que 0 mundo tern exis- tido eternamente paraleio a Deus e independente dele, e que Deus nao poderia revelar-se nele ou atraves dele. E essa implicac;:ao considerada em toda a sua pro-
  • 142.
    0 SER DEDEUS fundidade seria que n6s nunca poderiamos £alar sabre Deus, pois essa palavra seria apenas urn som vazio, que nao possui fundo ou base na realidade. 0 assim cha- mado agnosticismo (a doutrina da incognoscibilidade de Deus) tornar-se-ia, na pratica, identica ao ateismo (a nega<;ao da existencia de Deus). ~as essa nega<;ao da cognoscibilidade de Deus, tam- bern pode surgir de urn profun- da senso de pequenez e nulida- de combinado com a infinita gran- deza e a majestade esmagadora de Deus. Nesse sentido, o reconhe- cimento de que n6s nada sabemos e de que o conhecimento de Deus e maravilhoso demais para n6s, tern sido a confissao de todos os santos. Nos paise mestres da Igre- ja a afirma<;ao geralmente e que, refletindo sobre Deus, o homem poderia na analise final dizer me- lhor o que Deus nao e do que o que Deus e. Calvina em algum lugar admoesta seus leitores a nao tentar, por sua propria for<;a, des- cobrir os segredos de Deus, pois esses misterios transcendem nos- sa fragil capacidade de conheci- mento. Apesar dessa humilde con- fissao da sublime majestade de Deus e da pequenez do homem, poder, em urn certo sentido, ser chamada de nega<;ao da cognos- cibilidade de Deus, parece que, a fim de evitarmos urn entendimen- 145 to equivocado, e de acordo como ensino da Palavra de Deus, n6s devemos fazer distin<;ao entre a cognoscibilidade de Deus e a Sua insondabilidade. Certamente nao ha livro no mundo que, na mes- ma extensao e da mesma forma que a Sagrada Escritura, sustente a absoluta transcendencia de Deus sobre todas as criaturas e ao mes- mo tempo sustente o intima rela- cionamento entre a criatura e seu Criador. * * * * * Logo na primeira pagina da Biblia, a absoluta transcendencia de Deus sobre todas as Suas cria- turas chama nossa aten<;ao. Sem esfon;:o ou fadiga Ele chama o mundo aexistencia somente atra- ves de Sua palavra. Os ceus por Sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de Sua boca, o exercito de- les (Sl33.6). Pois Ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e tudo pas- sou a existir (Sl 33.9). Segundo a Sua vontade Ele opera com o exer- cito do ceu e OS moradores dater- ra; nao ha quem possa lhe deter a mao e dizer: Que fazes? (Dn 4.35). Eis que as na<;6es sao considera- das por Ele como urn pingo que cai de urn balde, e como urn grao de p6 na balan<;a; as ilhas sao como p6 fino que se levanta. Nem todo o Libano basta para queimar, nem todos os seus animais, para urn holocausto. Todas as na<;6es
  • 143.
    Fundamentos Teol6gicos daFii Crista sao perante Ele como coisa que nao e nada; Ele as considera me- nos do que nada, como urn vacuo. Com que comparareis a Deus? Ou que coisa semelhante confron- tareis com Ele? (Is 40.15-18). Pois quem nos ceus e comparavel ao Senhor? Entre os seres celestiais, quem e semelhante ao Senhor? (Sl 89.6). Nao ha nome pelo qual Ele verdadeiramente possa ser cha- mado: Seu nome e maravilhosd6 • Quando Deus fala a J6 de dentro de urn redemoinho e coloca a magnitude de Suas obras diante dele, J6 humildemente curva sua cabe<;:a e diz: Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mao na minha boca (J6 40.4). Deus e grande, e n6s nao podemos compreende-lo (J6 36.26). Tal co- nhecimento e maravilhoso de- mais para mim: e sobremodo ele- vado, nao o posso atingir (Sl 139.6). Contudo, esse mesmo Deus exaltado e sublime mantem urn intimo relacionamento com todas as Suas criaturas, ate mesmo com a menor e mais miseravel. 0 que as Escrituras nos dao nao e urn conceito abstrato de Deus, como o que os fil6sofos nos dao. A Es- critura coloca diante de n6s o Deus vivo e deixa que n6s o veja- mos pelas obras de Suas maos. N6s temos que levantar nossos olhos e ver que Ele fez todas as 56 Gn 32. 29; fz 13.18; Pv 30.4. 144 coisas. Todas as coisas foram fei- tas pela sua mao, criadas por Sua vontade e por Seu ato. E todas elas sao sustentadas pelo Seu po- der. Portanto todas as coisas apre- sentam o selo de Suas excelenci- as e a marca de Sua bondade, sa- bedoria, e poder. E dentre todas as criaturas somente o homem foi criado aSua imagem e semelhan- <;:a. Somente o homem e chamado de gerar;iio de Deus (At 17.28). Por causa desse relaciona- mento intimo, Deus pode ser chamado em termos de Suas cria- turas, e podemos falar dele antropomorficamente. A mesma Escritura que fala de modo mais exaltado da incomparavel grande- za e majestade de Deus, ao mes- mo tempo fala dele em figuras e imagens refulgentes. Ela fala de Seus olhos e ouvidos, de suas maos e pes, de Sua boca e de Seus labios, de Seu cora<;:ao e de Suas entranhas. Ela descreve todos os tipos de atributos de Deus - de sabedoria e conhecimento, vonta- de e poder, justi<;:a e misericordia, e descreve tambem Suas emo- <;:6es, tais como, alegria e pena, ira, zelo e ciume, arrependimento, 6dio e raiva. A Escritura fala de Deus pensando e observando, ou- vindo e vendo, lembrando-se e esquecendo-se, cheirando e pro- vando, sentando-se e levantando- se, visitando e abandonando,
  • 144.
    0 SER DEDEUS aben<;oando e castigando. A Escri- tura compara Deus com o sol e com a luz, com uma fonte e com uma nascente, com uma rocha e com urn refugio, com uma espa- da e com urn escudo, com urn leao e com urn juiz, com urn marido e com urn pastor, com urn homem e com urn pai. Em resumo, tudo o que pode ser encontrado em todo o mundo na forma de supor- te, e abrigo e socorro e original e abundantemente encontrado em Deus. De Deus toda a familia, tan- to no ceu como sobre a terra, toma o nome (Ef 3.15). Ele e o Sol e to- das as criaturas sao Seus raios. Eimportante, portantGl, na questao do conhecimento de Deus, manter esses dois tipos de afirma<;oes concernentes ao Ser divino e fazer justi<;a tanto a urn quanto ao outro, pois se n6s sa- crificamos a absoluta transcen- dencia de Deus sobre todas as Suas criaturas, n6s caimos no politeismo (a religiao paga de muitos deuses) ou no panteismo (a religiao na qual tudo e Deus)I duas religioes que, de acordo com a li<;ao da hist6ria, estao intima- mente relacionados urn com o outro e facilmente pode-se passar de urn para o outro. E se n6s sacrificamos o inti- mo relacionamento de Deus com Suas criaturas n6s caimos na es- teira do Deismo (cren<;a em Deus sem auxilio de uma revela<;ao) ou no ateismo (a nega<;ao da existen- 145 cia de Deus), duas religioes que, assim como as outras duas, pos- suem muitas caracteristicas em comum uma com a outra. A Escritura apega-se aos dois grupos de caracteristicas (transcendencia e relacionamen- to), e a teologia crista tern segui- do essa norma. Deus realmente nao tern urn nome de acordo com o qual n6s possamos conhece-lo verdadeiramente, e Ele se chama enos deixa chama-lo por muitos, muitos nomes. Ele e o infinita- mente exaltado, e ao mesmo tem- po e aquele que vive com todas as Suas criaturas. Em certo senti- do nenhum dos Seus atributos pode ser compartilhado, e em outro sentido eles podem ser com- partilhados. N 6s nao podemos sondar esses atributos com nossa mente. Nao existe algo como urn conceito adequado de Deus. Nin- guem pode dar uma defini<;ao, uma delimita<;ao de Deus que seja adequada ao Seu Ser. 0 nome que expresse plenamente o que Ele e nao pode ser encontrado. Mas urn grupo de caracteristicas como as que foram dadas acima nao entra em conflito com o que Ele e. Pre- cisamente porque Deus eo Alto e Exaltado, e vive na eternidade, Ele tambem mora com aqueles que sao contritos e abatidos de espirito (Is 57.15). N6s sabemos que Deus nao se revela para que n6s formulemos urn conceito filo- s6fico de Deus a partir de sua re-
  • 145.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vela<;:ao, mas para que n6s aceite- mos o Deus vivo e verdadeiro como nosso Deus, e que o reco- nhe<;:amos e o confessemos. Essas coisas sao escondidas dos sabios e entendidos, mas sao reveladas aos pequeninos (Mt 11.25). 0 conhecimento que n6s obtemos de Deus atraves de Sua revela<;:ao e, portanto, urn conhe- cimento de fe. Ele nao e adequa- do, no sentido de que nao e equi- valente ao Ser de Deus, pois Deus e infinitamente exaltado acima de todas as Suas criaturas. Tal conhe- cimento nao e puramente simb6- lico - ou seja, formulado em ex- press6es arbitrariamente forma- das e que nao correspondem a realidade; em vez disso esse co- nhecimento e ectipco (ectipco: uma impressao) ou anal6gico (analogia: correspondencia ou si- milaridade em forma) porque e baseado na semelhan<;:a e no rela- cionamento que, nao obstante a absoluta majestade de Deus, exis- te entre Deus e todas as obras de Suas maos. 0 conhecimento que Deus dade si mesmo na natureza e na Escritura e limitado, finito, fragmentario, mas e verdadeiro e puro. Assim e Deus, e Ele se re- velou em sua Palavra e especifi- camente em e atraves de Cristo; e s6 Ele preenche as necessidades de nosso cora<;:ao. * * * * * 146 0 esfor<;:o de se levar em conta todos os dados das Sagra- das Escrituras quanta sua doutri- na a Deus e manter tanto Sua transcendencia quanta Seu relaci- onamento com Suas criaturas, le- varam a Igreja Crista a fazer dis- tin<;:ao entre dois grupos de atri- butos do Ser divino. Esses dois grupos receberam varios nomes desde os tempos da Igreja primi- tiva. A Igreja Romana ainda pre- fere falar em atributos negativos e positivos, os luteranos falam em atributos inativos e operativos e a Igreja Reformada fala em atribu- tos incomunicaveis e atributos comunicaveis. Todavia, no fundo, essa divisao e equivalente em to- das essas igrejas. 0 objetivo de cada uma delas e insistir na transcendencia de Deus (Sua dis- tin<;:ao e Sua eleva<;:ao sobre todo o mundo) e em Sua imanencia (Seu contato e Sua habita<;:ao no mundo). Os nomes Reformados de atributos incomunicaveis e atributos comunicaveis fazem mais justi<;:a ao seu prop6sito do que os nomes dados pelos cat6li- cos e pelos luteranos. A insisten- cia sobre o primeiro grupo de atri- butos livra-os do politefsmo e do pantefsmo; e a insistencia sobre o segundo grupo protege-as contra o defsmo e o atefsmo. Apesar de todas as nossas designa<;:6es para esses atributos serem inadequadas, nao ha obje- <;:6es convincentes para que deixe-
  • 146.
    0 SER DEDEUS mos de usar os termos Reforma- dos. 0 que nos devemos fazer e nos lembrarmos que os dois gru- pos de atributos, incomunicaveis e comunicaveis, nao ficam urn ao lado do outro em total separac;ao. A forc;a da distinc;ao nao deve ser perdida, e a verdade dessa distin- c;ao e que Deus possui todos OS Seus atributos incomunicaveis em urn sentido absoluto e infinito e, portanto, incomunicavel grau. E verdade que o conhecimento de Deus, Sua sabedoria, Sua bonda- de, Sua justic;a e outros atributos do mesmo tipo, possuem certas caracteristicas em comum com aquelas mesmas virtudes que existem em suas criaturas, mas elas sao peculiares a Deus de uma forma independente, imutavel, eterna, onipresente, simples- ou, em uma palavra, em uma forma absolutamente divina. Nos, como seres humanos, podemos fazer distinc;ao entre o sere os atributos de pessoas. Urn ser humano pode perder seu bra- c;o ou sua perna, ou, em urn esta- do de sono ou doenc;a, perder a consciencia, sem deixar de ser hu- mano. Mas em Deus isso e impos- sivel. Seus atributos coincidem com Seu Ser. Todo atributo e Seu Ser. Ele e sabedoria, verdade, san- tidade, justic;a e misericordia. For- tanto Ele e, tambem, a fonte de todos os atributos do homem. Ele etudo o que Ele possui e e a fonte de tudo o que Suas criaturas pos- suem. Ele e a abundante fonte de todos os bens. ***** Os atributos incomunica- veis de Deus sao aquelas virtudes ou excelencias que demonstram que tudo o que existe em Deus, existe em uma forma absoluta- mente divina, e, portanto, nao pode ser compartilhada com Suas criaturas. Esse grupo de atributos afirma a absoluta exaltac;ao e incomparabilidade de Deus, e tern sua expressao maxima no nome Elohim, ou Deus. De fato o nome deus e tambem aplicado as criaturas na Biblia. As Escrituras mencionam nao apenas os idolos dos pagaos como deuses, como por exemplo quando nos proibe deter qualquer outro deus dian- te do Deus vivo (Ex 20.3). Elas tambem designam Moises como deus para Aarao (Ex 4.16) e para Farao (Ex 7.1), e falam dos juizes como deuses entre os homens (Sl 82.1,6); e Cristo apela a essa de- signac;ao dos Salmos em Sua pro- pria defesa (Jo 10.33-35). 147 Contudo esse uso da lin- guagem e derivado, imitativo. 0 nome de deus original e essenci- almente pertence somente a Deus. Ecom esse nome que nos sempre associamos a ideia de urn ser pes- soal, mas que tambem e podero- so acima de todas as Suas criatu- ras e de tipo eterno.
  • 147.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 0 mesmo acontece com os atributos incomunicaveis que Ele possui. Eles sao peculiares e pr6- prios somente dEle, nao sao en- contrados nas criaturas, e nao po- dem ser compartilhados com elas, pois todas as criaturas sao depen- dentes, mutaveis, compostas e sujeitas ao tempo e ao espac;o. Mas Deus e independente no senti- do de que Ele nao e determinado por nada e tudo e por Ele deter- minado (At 17.20; Rm 11.36). Ele e imutavel, pois Ele permanece 0 mesmo para sempre, enquanto que todos os tipos de variac;oes e mudanc;as sao pr6prios das cria- turas e do relacionamento que elas mantem com Deus (Tg 1.17). Ele e simples, nao composto, com- pletamente livre de toda compo- sic;ao de espirito e materia, pen- samento e extensao, sere propri- edades, razao e vontade, compo- nentes de qualquer especie e tudo o que Ele tem e pura verdade, vida e luz57. Ele e eterno, pois transcen- de o tempo e penetra todos os momentos do tempo com Sua eternidade (Sl 90.2). E Ele e onipresente, pois transcende todo o espac;o e ainda preenche todos os pontos do espac;o com Seu po- der e com Sua forc;a sempre pre- sente58. Nos tempos modernos ha poucos observadores que negam 57 5136.9; Jo 5.26; 1Jo 1.5. ss 51139.1; At 11.27,28. 59 Dt 6.4; Me 12.29; Jo 17.3. 148 todo 0 merito religioso desses atri- butos incomunicaveis e nada veem neles, alem de abstrac;oes metafisicas. Mas o oposto e pro- vado pelo fato de que qualquer sacrificio dessas distinc;oes, ime- diatamente abre a porta para o panteismo ou o politeismo. Se Deus nao e independen- te e imutavet eterno e onipresen- te, simples e livre de composic;ao, entao Ele e puxado para o nivel da criatura e identificado com o mundo em sua totalidade ou com uma de suas forc;as. 0 numero esta sempre aumentando daqueles que trocam o Deus da revelac;ao por uma imanente forc;a mundial ou daqueles que confessam o politeismo em vez de urn unico e verdadeiro Deus. Esta claro que a unidade e a indivisibilidade de Deus estao diretamente relaciona- das com os Seus atributos inco- municaveis59. Deus e o unico Deus somente se ninguem e nada puder ser o que Ele e paralela- mente a Ele ou sobre Ele. E so- mente se Ele for independente, imutavel, eterno e onipresente Ele pode ser o Deus de nossa fe in- condicionat de nossa absoluta confianc;a, e de nossa perfeita sal- vac;ao. *****
  • 148.
    0 SER DEDEUS Entretanto, n6s precisamos de algo mais do que esses atri- butos incomunicaveis. Que bern nos faria saber que Deus e inde- pendente e imutavel, eterno e onipresente, se n6s nao soubes- semos que Ele e compassivo, gra- cioso e muito misericordioso? E verdade que os atributos inco- municaveis nos falam da forma pela qual tudo o que esta em Deus existe nEle; mas eles nos deixam nas trevas a respeito do conteudo do Ser divino. Isso nao acontece com os atributos comu- nicaveis. Eles nos mostram que esse Deus que e tao infinitamen- te exaltado e sublime tambem mora com Suas criaturas, e pos- sui todas as virtudes que em uma forma derivada e limitada tam- bern sao pr6prias das Suas cria- turas. Ele nao e apenas urn Deus de longe, mas tambem de perto. Ele nao e apenas independente e imutavel, eterno e onipresente, mas tambem sabio e poderoso1 justo e santo, gracioso e miseri- cordioso. Ele e nao apenas Elohim, mas tambem Jeova. Assim como os atributos in- comunicaveis sao bern expressos no nome Elohim, assim tambem os atributos comunicaveis sao bern expressos no nome Jeova. A deriva<;:ao e o significado original desse nome nao sao do nosso co- nhecimento. Muito provavelmen- te ele existiu por algum tempo antes de Moises- como parece ser 149 sugerido pelo nome proprio Joquebede, mas nesse tempo Deus ainda nao tinha ainda se fei- to conhecido por esse nome ao Seu povo. Ele se revela a Abraao como El Shadai, o Deus todo po- deroso (Gn 17.1; Ex 6.2), que do- mina todas as for<;:as da natureza e faz com que elas sirvam a Sua Gra<;:a. Mas agora que centenas de anos se passaram e Deus parece ter se esquecido de Seu pacto com os patriarcas e Sua promessa a eles, entao Ele se faz conhecido a Moises como Jeova, ou seja, como o Deus que e o mesmo que apa- receu aos patriarcas, que e fiel ao Seu pacto, que cumpre Sua pro- messa, e que, atraves dos seculos, se mantem sempre ao lado de Seu povo. 0 significado de Jeova, en- tao, e: Eu sou o que sou (Eu serei o que serei) e esse nome revela a fidelidade imutavel de Deus em Seu relacionamento com Israel. Jeova e o Deus do pacto que, de acordo com Seu amor soberano, escolheu Seu povo e fez dele pro- priedade Sua. Dessa forma, en- quanta o nome Elohim, Deus, aponta para o Ser eterno, em Sua soberana eleva<;:ao sobre o mun- do, o nome Jeova, Senhor, afirma que esse mesmo Deus tern volun- tariamente se revelado ao Seu povo como urn Deus de santida- de, Gra<;:a e fidelidade. Toda a questao religiosa de Israel, desde os tempos antigos ate os nossos dias, esta relaciona-
  • 149.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista da, em sua essencia, com a ques- tao de quem e Deus. Os pagaos e rnuitos fil6sofos antigos e rnoder- nos dizern que Jeova e apenas 0 Deus de Israel- urn Deus, lirnita- do, nacional e pequeno. Mas Moises e Elias e todos os profe- tas, Cristo e todos os Seus disd- pulos, tornarn a posi<;ao oposta e dizern que s6 o Senhor, que fir- rnou urn pacto corn os patriarcas e corn o povo de Israel, eo unico, eterno e verdadeiro Deus, e que nao ha outro alem dEle (Is 43.10- 15; 44.6). Portanto Jeova de fato e o verdadeiro e caracterfstico nome de Deus (Is 42.8; 48.12). 0 Deus do pacto que de forma tao condescendente veio para o Seu povo e que mora corn aqueles que sao contritos e hurnildes de espf- rito e, ao rnesrno tempo, o Alto e Sublime (Is 57.15). Como podernos ver, esses dois tipos de atributos nao entrarn ern conflito urn corn o outro. N6s podernos dizer que cada atributo ilurnina e refor<;a os outros. Con- sidere, por exernplo, o amor de Deus. N6s nao poderiarnos £alar sobre ele se o atributo que o ho- mem chama de arnor nao fosse, ern urn certo sentido, urna irn- pressao, imagem, ou semelhan<;a do amor que existe em Deus. Ha urna certa correspondencia entre o arnor divino eo amor humano, ou entao tudo o que n6s estarnos falando sobre o arnor de Deus e urn sorn vazio. Contudo essa si- 150 rnilaridade nao significa identida- de. 0 mais puro e rnais forte amor entre OS homens e apenas Uffi fra- CO reflexo do arnor que existe em Deus. Podernos aplicar aqui o que aprendernos sobre os atributos incomunicaveis de Deus. Com eles n6s aprendemos que o amor de Deus transcende o amor de Suas criaturas, pois o amor de Deus e independente, irnutavel, simples, eterno e onipresente. Ele nao depende de n6s, nem e des- pertado por n6s, mas flui, livre e puro, das profundezas do Ser di- vino. Ele nao conhece varia<;ao, nao aumenta nem diminui, nao aparece nem desaparece, e nao ha nem mesrno sombra de mudan<;a nEle. Ele nao e meramente uma propriedade do Ser divino isola- cia de outras propriedades ou atributos, e nunca entra em con- flito com eles, mas coincide com o Ser divino. Deus e amor, com- pleta e perfeitamente, e com todo o Seu Ser, Deus e amor. Esse amor nao e sujeito ao tempo e ao espa- <;o, mas esta acima tanto de urn quanto de outro, e vern da eterni- dade para o cora<;ao dos filhos de Deus. Tal amor e absolutamente digno de confian<;a. Nossa alma pode descansar nele em qualquer necessidade, inclusive na morte, e se tal Deus de amor e por n6s, quem sera contra n6s? E o mes- rno pode ser dito de todos os atri- butos comunicaveis. Hanas cria- turas de Deus urna vaga serne-
  • 150.
    0 SER DEDEUS lhan<;a do conhecimento e da sa- bedoria, da bondade e da Gra<;a, da justi<;a e da santidade, da von- tade e do poder que sao pr6prios de Deus. Tudo o que e transit6rio e uma imagem. 0 visivel veio a existir das coisas que nao pare- cern (Hb 11.3). Todos esses atribu- tos estao presentes em Deus de forma original, independente, imutavel, simples e infinita. Sabei que o Senhor e Deus; foi Ele quem nos fez, e dEle somas; somas o Seu povo e rebanho do Seu pastoreio (51100.3). Os atributos comunicaveis sao tao numerosos que e impos- sivel enumera-los e descreve-los aqui. Se n6s quisessemos tratar deles adequadamente n6s teria- mos que fazer uso de todos os names, imagens e compara<;6es que as Sagradas Escrituras usam para nos dar uma ideia de quem e de que Deus e para Suas criatu- ras e, especificamente, para Seu povo. As Escrituras, como n6s in- dicamos de passagem, mencio- nam os 6rgaos do corpo de Deus, tais como olhos e ouvidos, maos e pes. Ela transfere para Deus ca- racteristicas humanas, tais como emo<;6es, paix6es, decis6es e a<;6es. Ela se refere a Ele com os names de oficios e voca<;6es como as que sao encontradas entre os seres humanos, chamando-o de rei, legislador e juiz, guerreiro e her6i, marido e pastor, homem e pai. A Escritura usa todo o mun- 151 do organico e inorganico para fa- zer com que Deus seja real para n6s, e compara-o com urn leao, urna aguia, urn sol, urn fogo, urna fonte, urn escudo, e assim por di- ante. E todas essas formas de ex- pressao constituem forma de aju- dar-nos a conhecer Deus e dar-nos uma profunda impressao da auto suficiencia de Seu Ser. N6s, seres humanos, precisamos de todo o mundo ao nosso redor para nos- sa existencia fisica e espiritual, pois n6s somas pobres e fracas em n6s mesmos e nada possuimos. Mas tudo isso de que n6s preci- samos, tanto para alma quanta para o corpo, tanto para o tempo quanta para a eternidade, esta, sem exce<;ao, disponivel para n6s -original, perfeito e infinito- em Deus. Ele e o mais alto bern e a fonte de todos os bens. A primeira coisa que a Sa- grada Escritura quer nos dar, ao fazer uso de todas aquelas descri- <;6es e names do Ser divino, e uma no<;ao inerradicavel do fato de que Jeova, o Deus que se revelou a Israel e em Cristo, eo Deus vivo e verdadeiro. Os idolos dos pa- gaos e os idolos dos fil6sofos (panteismo, politeismo, deismo e ateismo) sao obras das maos dos homens: eles nao podem falar, nem ver, nao podem ouvir nem provar, nem andar. Mas o Deus de Israel esta no ceu e faz tudo o que deseja. Ele e o unico Deus (Dt 6.4), o unico Deus verdadeiro
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista (Jo 17.3), o Deus vivd0 . As pesso- as querem tratar Deus como se Ele fosse um Deus morto, pois assim poderiam fazer com Ele o que bern quisessem. Mas a mensagem da Escritura revela que isso e er- rado. Deus existe. Ele e o verda- deiro Deus que esta vivo, agora e por toda a eternidade. E horrivel coisa e cair nas maos do Deus vivo (Hb 10.31). Sendo o Deus vivo, que e a pura vida e a fonte de toda vida (51 36.9; Jr 2.13)1 Ele e tambem Es- pirito (Jo 4.24), sem corpor muito embora todos os tipos de 6rgaos sejam atribuidos a Ele (Dt4.12)6). Portanto nenhuma imagemr seme- lhan~a ou similitude pode ser fei- ta dEle (Dt 4. 15-19). Ele e invis1- vel61. Como Espfrito Ele tern cons- ciencia, perfeito conhecimento de Si mesmo (Mt 11.27; 1Co 2.10), e em Si mesmo Ele tambem tern conhecimento de tudo o que exis- te e acontece no tempo, e nada pode ser escondido dEler por menor que seja62. Por ser Espfrito Ele tern vontade, e por meio dela Ele faz tudo o que lhe agrada (vontade secreta ou conselho)63 , e determina qual deve ser a norma que governara Sua conduta (von- tade revelada ou mandamento)64 . E, finalmenter como Esp{rito Ele tem poder, por meio do qual, ape- sar de toda e qualquer oposi~aor Ele executa o que tinha planeja- do e por isso nada e impossivel para Ele65 . Mas esse conhecimento ou consciencia, essa vontade e po- der, nao sao arbitrarios. Eles sao eticamente determinados em to- das as suas partes. Isso se expres- sa na sabedoria gue nas Sagradas Escrituras e atribuida a Deus66, e por meio da qual Ele organiza e dirige todas as coisas de acordo com o prop6sito que Ele determi- nou para elas na cria~ao e na re- cria~ao67. Essa realidade moral encontra sua maior expressao, por um lado, na bondade e na Gra~a, e, por outro lado, na santidade e na justi<;:a que sao atribuidas a Deus. Ele nao e apenas o todo sa- bio eo todo poderoso; Ele e tam- bern 0 todo born e 0 unico born (Mt 5.45), Ele eperfeito e a fonte de tudo o que eborn em Suas cri- aturas (51145.9). Essa bondade de Deus se espalha por todo o mun- do (Sl 145.9; Mt 5.45), mas varia 6 " Dt 5.26; Jo 3.1.0; Dn 6.27; At 14.15; 2Co 6.16; 1Tm3.15; 6.17. 61 Ex 33.20; fa 1.18; 6.46; 1Tm6.16. 61 Is 46.1.0; Jr 11.20; Mt 1.0.30; Hb 4.14. 63 S/115.3; Pv 21.1; Dn 4.35. "" Dt 29.29; Mt 7.21; 12.50. 65 Gn 18.14; Jr 22.37; ZC 8.6; Mt 19.26; 1Tm 6.15. 66 Pv 8.22-31; J6 28.20-28; Rm 16.27; 1Tm 1.17. 67 51104.24; Ef3.10; Rm 11.33. 152
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    0 SER DEDEUS de acordo com os objetos aos quais e dirigida, assumindo vari- as formas. Ela e chamada longanimidade ou paciencia quan- do e manifestada ao culpado (Rm 3.25), Grafa quando e manifesta- da aqueles que recebem 0 perdao de pecados (Ef 2.8) e amor quan- do Deus, movido por Sua Gra<;a em dire<;ao as Suas criaturas, da- se por elas (Jo 3.16; 1Jo 4.18). Ela e chamada misericordia quando essa bondade de Deus e manifesta aqueles que desfrutam de Seu fa- vor68, e agrado ou bem querer quan- do a enfase recai sobre o fato de que a bondade e todos os seus beneficios sao dadivas69 • * * * * * A santidade e a justi<;a de Deus caminham de maos dadas com a Sua bondade e com a Sua Gra<;a. Deus echamado o Santo nao apenas porque Ele e exalta- do sobre todas as Suas criaturas, mas especialmente porque Ele e separado de tudo 0 que e peca- minoso e impuro no mundo. For- tanto, Ele exige que Seu povo, que pela Sua livre Gra<;a Ele escolheu para que fosse Seu, seja santo70 , e Ele se santifica a Si mesmo nesse povo atraves de Cristo (Ef 5.26,27), pois apesar de Cristo ter "' Gn 39;21; Nm 14.19; Ts 54.10; Ef 2.7. " 9 Mt 11.26; Lc 2.14; 12.32; 2Ts 1.11. 70 Ex 19.5,6; Lv 11.44,45; 1Pe 2.9. santificado a Si mesmo por Seu povo e em lugar dele, esse povo pode ser santificado na verdade (Jo 17.19). E a retidiio e justi<;a de Deus estao intimamente relacio- nadas com a Sua santidade, pois, sendo o Santo, Ele nao pode ser amigo do pecado. Ele abomina o pecado (Sl45.7; J6 34.10), levanta- se contra ele (Rm 1.18), e zeloso de Sua honra (Ex 20.5) e, portan- to, nao pode inocentar o culpado (Ex 25.5,7). Sua natureza santa re- quer tambem que, fora de Simes- mo, no mundo de Suas criaturas, Ele mantenha a justi<;a e, de for- ma imparcial, retribua a cada urn segundo as Suas obras (Rm 2.2-11; 2Co 5.10). Hoje em dia ha aqueles que tentam fazer com que outras pessoas acreditem que Deus nao se importa com os pensamentos e atos pecaminosos do homem. Mas o Deus vivo e verdadeiro que as Escrituras nos apresentam pen- sa muito diferente sobre isso. Sua ira contra o pecado e terrivel, e Ele pune o pecador tanto temporal- mente quanto eternamente por meio de um justo julgamento (Dt 27.26; Gl3.10). Mas Ele nao apenas pune os incredulos de acordo com Sua jus- ti<;a. Eum ensino notavel das Es- crituras que de acordo com essa mesma justi<;a Ele conceda salva- 153
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista <;ao aos santos. De fato, esses san- tos sao pecadores tambem, e em nada sao melhores do que os ou- tros. Mas enquanto o incredulo oculta os seus pecados ou os en- cobre, os santos os reconhecem e confessam. Essa e a distin<;ao en- tre eles. Apesar de serem pessoal- mente culpados e impuros, eles estao do lado de Deus e contra o mundo. Eles podem, portanto, apelar a promessa do pacto da Gra<;a, a verdade da Palavra de Deus, ajusti<;a que Deus realizou em Cristo. Em termos dessa justi<;a n6s podemos dizer, corajosa e reve- rentemente, que Deus e obrigado a perdoar os pecados de Seu povo e dar-lhe vida eterna71 . E se Deus deixa que Seu povo espere por Ele e prova sua fe por urn longo tern- po, segue-se que em sua perfeita reden<;ao a integridade e a fideli- dade de Deus sao demonstradas mais gloriosamente72 . 0 Senhor aperfei<;oani aque- les que pertencem a Seu povo, pois Sua misericordia dura para sempre (Sl138.8). 0 Senhor e mi- sericordioso e gracioso, longa- nimo e abundante em bondade e verdade73 . Uns confiam em carros, ou- tros, em cavalos; n6s, porem, nos gloriaremos em o nome do Se- nhor, nosso Deus74 • Esse Deus eo nosso Deus para todo o sempre; Ele sera o nosso guia ate amorte (Sl 48.14). Ele e urn Deus abenr;oador e glorioso (1Tm 6.15; Ef 1.17). E feliz eo povo cujo Deus e o Senhor (Sl33.12). 71 S/4.2; 7.10; 31.2; 34.22; 35.24; 51.16; 103.17; 1Jo 1.9. 72 Gn 24.27; 32.10; Js 21.45; 2Sm 7.28; S/57.3; S/105.8. 73 Ex 34.6; S/86.15; 103.8; 145.8. 74 S! 20.7; Jr 9.23; 1Co 1.31; 2Co 10.17. 154
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    CAPITULO 11@ A DIVINA TRINDADE 0 SerEterno se revela em Sua existencia triuna ate mesmo de modo mais rico e indispensavel do que em Seus atributos. Enessa Trindade santa que cada atributo do Seu Ser al- can<;a, digamos, o seu conteudo pleno e o seu significado mais profunda. Somente quando n6s contemplamos essa Trindade e que n6s descobrimos quem e o que Deus e. S6 assim n6s pode- mos descobrir quem e o que Ele e para essa humanidade perdida. N6s s6 podemos descobrir isso quando n6s o conhecemos e con- fessamos como o Deus Triuno do Pacto, como o Pai, o Filho eo Es- pirito Santo. Ao considerarmos essa par- te da nossa confissao e particular- mente necessaria que urn tom de reverencia santa e urn temor inge- nuo caracterizem nossa aproxima- <;ao e atitude. Para Moises foi urn 155 momenta terrivel e inesquecivel aquele em que Deus lhe apareceu no deserto em uma sar<;a ardente. Quando Moises olhou para a sar- <;a ardente, que ardia e nao se con- sumia, a certa distancia, e quis aproximar-se, o Senhor o adver- tiu, dizendo: "Nao te chegues para ca; tira as sandalias dos pes, par- que 0 lugar onde estas e terra san- ta". Ao ouvir essas palavras Moises temeu muito e escondeu seu rosto, pois temia olhar para Deus (Ex 3.1-6). Tal respeito santo convem tambem a n6s como testemunhas da revela<;ao que Deus faz de si mesmo em Sua Palavra como o Deus Triuno, pois n6s devemos sempre nos lembrar que, quando n6s estudamos esse fato n6s nao estamos tratando de uma doutri- na sobre Deus, ou de urn concei- to abstrato, ou de uma proposi- <;ao cientifica a respeito da Divin-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista dade. N6s nao estamos lidando com uma constrw:;ao humana na qual n6s mesmos ou outras pes- soas tenham arrumado os fatos, e que n6s agora vamos tentar ana- lisar logicamente e desmembrar. N6s estamos tratando da Trinda- de, estamos lidando com o pro- prio Deus, com o unico e verda- deiro Deus, que revelou-se como tal em Sua Palavra. Isso foi o que Ele disse a Moises: "Eu sou o Deus de Abraao, de Isaque e de Jac6" (Ex 3.6). Assim tambem Ele se revela a n6s em Sua Palavra e se manifesta a n6s como o Pai, o Filho e o Espirito. E e assim que a Igreja Crista sempre tern confessado a revela- <:;ao de Deus como o Deus Triuno, e como tal o tern aceitado. N6s en- contramos essa confissao nos doze artigos do Credo apost6lico. 0 cristao nao esta nesse credo dizen- do o que ele pensa sobre Deus. Ele nao esta dando ao leitor uma no<:;ao de Deus, nem dizendo que Deus tern tais e tais atributos e que Ele existe dessa ou daquela for- ma. Ele simplesmente confessa: "Creio em Deus Pai, e em Jesus Cristo, seu unico filho, e no Espi- rito Santo, ou seja, eu creio no Deus Triuno". Ao fazer essa con- fissao o cristao expressa o fato de que Deus eo Deus vivo e verda- deiro, que e o Deus Pai, Filho e Espirito, o Deus de sua confian- <:;a, a quem ele tern se rendido in- teiramente, e em quem ele descan- 156 sa com todo o seu cora<:;ao. Deus eo Deus de sua vida e de sua sal- va<:;ao. Como Pai, Filho e Espiri- to, Deus o criou, redimiu-o, san- tificou-o e glorificou-o. 0 cristao deve tudo a Ele. Esua alegria e prazer que ele possa crer nesse Deus, confiar nEle e esperar tudo dEle. 0 que o cristao confessa so- bre Deus nao e resumido por ele em urn numero de termos abstra- tos, mas e descrito como uma se- rie de atos feitos por Deus no pas- sado, no presente e que serao fei- tos no futuro. Sao os atos, os mi- lagres de Deus que constituem a confissao do cristao. 0 que o cris- tao confessa em seu credo e uma longa, abrangente e elevada his- t6ria. Euma hist6ria que compre- ende todo o mundo em sua lar- gura e profundidade, em seu ini- cio, processo e fim, em sua ori- gem, desenvolvimento e destino, do ponto da cria<:;ao ate a plenitu- de dos tempos. A confissao da Igreja e a declara<:;ao dos podero- sos feitos de Deus. Esses feitos sao numerosos e sao caracterizados por uma grande diversidade. Mas eles tam- bern constituem uma rigorosa unidade. Eles estao relacionados uns aos outros, preparados uns para os outros e interdependen- tes. Ha ordem e padrao, desenvol- vimento e progresso nos feitos de Deus. Eles come<:;am na cria<:;ao e vao ate a reden<:;ao, santifica<:;ao e
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    A DIVINA TRINDADE glorifica<;ao.0 fim volta ao come- <;o e e ao mesmo tempo 0 apice que e exaltado acima de sua ori- gem. Os feitos de Deus formam urn circulo que se desenvolve na forma de urn espiral; eles repre- sentam a harmonia entre a linha horizontal e a vertical; eles se mo- vem ao mesmo tempo para frente e para tras. Deus eo arquiteto eo cons- trutor de todos os Seus feitos, a fonte eo final deles. Dele, atraves dEle e para Ele sao todas as coi- sas. Ele e o Fabricante, o Restau- rador e o Plenificador. A unidade e a diversidade das obras de Deus se originam da unidade e diver- sidade que existem no Ser divino. Esse Sere urn Ser, singular e sim- ples. Ao mesmo tempo Ele e tripartido em Sua pessoa, em Sua revela<;ao e em Sua inflw2ncia. Toda a obra de Deus e compacta e indivisivel, mas ao mesmo tem- po compreende a mais rica varie- dade. A confissao da Igreja com- preende toda a hist6ria do mun- do. Nessa confissao estao inclui- dos os momentos de cria<;ao e de queda, de reconcilia<;ao e perdao, de renova<;ao e restaura<;ao. E uma confissao que procede do Deus Triuno e que volta para Ele. 0 artigo sobre a santa Trin- dade e 0 cora<;ao e 0 nucleo de nossa confissao, a marca registra- da de nossa religiao, o prazer e o conforto de todos aqueles que ver- dadeiramente cn2em em Cristo. 157 Essa confissao foi a ancora na guerra de tendencias atraves dos seculos. A confissao da santa Trindade e a perola preciosa que foi confiada acustodia da Igreja Crista. * * * * * Se essa confissao da Trinda- de de Deus assume a posi<;ao cen- tral na fe crista, entao e importan- te conhecer sobre qual pano de fundo ela e projetada e de qual fonte ela tern fluido para a Igreja. Nao sao poucos os que em nos- sos dias afirmam que essa doutri- na e fruto do argumento humano e de estudo academico e que, por isso, essa doutrina nao tern qual- quer valor para a vida religiosa. Para essas pessoas o Evangelho original, como foi pregado por Je- sus, nada sabia sobre qualquer tipo de doutrina da Trindade de Deus- isto e, nada sobre o termo em si e nada sobre a realidade que o termo expressa. 0 argumen- to continua dizendo que o origi- nal e simples Evangelho de Jesus foi mesclado com a filosofia gre- ga e foi falsificado. Dessa forma a Igreja Crista absorveu a pessoa de Cristo na natureza divina e even- tualmente absorveu tambem o Espirito Santo no Ser divino. E foi assim que a Igreja come<;ou a con- fessar tres pessoas no Ser divino. Mas a Igreja crista sempre teve urn pensamento totalmente
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista diferente sobre isso. Ela nao viu na doutrina da Trindade uma des- coberta de te6logos sutis, nem urn produto da mistura do Evangelho com a filosofia grega, mas uma confissao que foi materialmente concluida no Evangelho e em toda a Palavra de Deus - em re- sumo, uma doutrina que a fe cris- ta extraiu da revela<;ao de Deus. Em resposta a questao: "Desde que ha apenas urn Ser divino, por que voce fala de Pai, Filho e Espi- rito Santo?", o Catecismo de Heidelberg da uma resposta cur- ta e conclusiva: "Porque Deus as- sim revelou em Sua Palavra" (per- gunta 25).A revela<;ao de Deus e o firme terreno sobre o qual essa confissao da Igreja repousa. A re- vela<;ao de Deus e a fonte da qual essa doutrina de uma Igreja Cris- ta unica, santa e universal tern se desenvolvido. Deus revelou-se dessa forma. E Ele se revelou des- sa forma, isto e, como urn Deus Triuno, porque Ele existe dessa forma; e Ele existe dessa forma porque Ele se revelou assim. A Trindade na revela<;ao de Deus aponta para a Trindade em sua existencia. Essa revela<;ao nao aconte- ceu em urn s6 momento. Ela nao foi apresentada e aperfei<;oada em urn s6 ponto no tempo. Pelo con- trario, essa revela<;:ao tern uma longa hist6ria, desenvolvida no decorrer dos seculos. Ela come- <;ou na cria<;ao, continuou depois 158 da queda, na promessa enos fei- tos da Gra<;a que foram feitos em Israel e alcan<;ou seu apice na pes- soa e obra de Cristo, na descida do Espirito Santo e no estabeleci- mento da Igreja. Ela se mantem agora atraves dos seculos, apesar de toda a oposi<;ao, baseada no testemunho da Escritura e na ro- cha firme da confissao da Igreja. Como a revela<;ao tern tido essa longa hist6ria, ha progresso e de- senvolvimento tambem na confis- sao da existencia triuna de Deus. Deus nao muda. Ele permanece sempre o mesmo. Mas no pro- gresso da revela<;ao Ele sempre se faz mais claro e mais glorioso as pessoas e aos anjos. N a medida em que Sua revela<;ao progride, nosso conhecimento se desenvol- ve. ***** Quando, nos dias do Velho Pacto, Deus come<;a a se revelar, o que permanece como pano de fundo dessa revela<;ao e a unida- de, a unicidade de Deus. Devido ao pecado do ho- mem o puro conhecimento de Deus tinha sido perdido; a verda- de, como Paulo profundamente afirma, foi transformada em injus- ti<;a. Ate mesmo o que de Deus pode ser conhecido atraves das Suas obras foi inutilizado pela imagina<;ao dos homens e foi obs- curecido pela vaidade de seus
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    A DIVINA TRINDADE cora<;6es.Em uma de suas maos a ra<;a humana carregava a idola- tria, e, em outra, o culto as ima- gens (Rm 1.18-23). Portanto, foi necessaria que a revela<;ao come<;asse com uma enfase sobre a unidade de Deus. A Escritura parece damar a ra<;a humana: "Os deuses diante dos quais voces se ajoelham nao sao deuses verdadeiros. Ha somente urn Deus verdadeiro, a saber, o Deus que no come<;o fez os ceus e a terra (Gn 1.1; 2.1), o Deus que se fez conhecido a Abraao como Deus Todo-Poderoso (Gn 17.1; Ex 6.3), o Deus que apareceu a Moises como Jeova, como o Eu sou o que Sou (Ex 3.14), eo Deus que, em Sua soberania, escolheu o povo de Israet e chamou-o e aceitou-o em Seu pacto (Ex 19.4 ss.)". Antes de tudo, portanto, a revela<;ao tinha como seu conteu- do a mensagem de que s6 Jeova e Elohim, s6 o Senhor e Deus, e nao ha outro Deus alem dEle75 • Tambem para o povo de Is- rael a revela~ao da unidade de Deus era desesperadamente ne- cessaria. Israel estava rodeado por todos os lados por pagaos que em todas as epocas tentaram leva-lo a aposta:sia e a incredulidade; alem disso, na epoca imediata- mente antes do cativeiro, uma grande parte do povo de Israel sentia-se atraida a idolatria paga e ao culto as imagens, e varias vezes adotaram essas praticas pagas apesar da proscri<;ao da lei e das advertencias dos profetas. Diante dessa situa<;ao o proprio Deus colocou enfase no fato de que Ele, o Senhor, que tinha apa- recido a Moises e que queria redimir Seu povo por intermedio de Moises, era o mesmo Deus que se fez conhecido a Abraao, Isaque e Jac6 como o Deus Todo- Poderoso (Ex 3.6)5). Quando Ele deu Sua lei a Israel ele escreveu em seu preambulo: "Eu sou o Se- nhor, teu Deus, que te tirei dater- ra do Egito". E nos dois primei- ros mandamentos Ele proibe toda idolatria e culto a imagens (Ex 20.2-5). Porque o Senhor, nosso Deus, e o unico Senhor, Israel deve ama-lo com todo o seu cora- ~ao, com toda a sua alma e com toda a sua for<;a (Dt 6.4,5). S6 o Senhor e o Deus de Israel e par- tanto, Israel deve servir somente a Ele. Contudo, apesar do fato da unidade de Deus ser tao enfa- tizada e de constituir o primeiro artigo da lei basica de Israet as distin<;6es dentro dessa unidade vieram a luz tambem nessa reve- la~ao, na medida em que ela pro- gredia. 0 nome que egeralmente usado para designar Deus, no hebraico original, tern urn certo significado aqui. Esse nome, 7 ·:; Dt 4.35,39; Js 22.22; 25Jn 7.22; 22.32; lRe 18.39; Is 45.5,18,21. 159
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Elohim, e uma forma plural e, portanto, apesar de nao designar as tres pessoas do Ser divino, em seu carater plural ele aponta para a plenitude de vida e de poder que existe em Deus. Isso, sem duvida, em conexao como fato de que Deus, as vezes, ao falar de Si mesmo, usa o plural, e dessa for- ma faz distin<;6es, dentro de Si mesmo, que apresentam urn cani- ter pessoal (Gn 1.26,27; 3.22; Is 6.8). De grande imporhlncia e o ensino do Velho Testamento de que Deus traz tudo a existencia em Sua cria<;ao e em sua providencia atraves de Sua Palavra e de Seu Espfrito. Ele nao e urn ser huma- no, que, a custo de grande dificul- dade e esforc;:o consegue fazer algo a partir do material que tern em suas maos. Ele simplesmen- te, pela Sua Palavra, do nada, cha- ma todas as coisas a existencia. No primeiro capitulo do Genesis n6s somos informados dessa verdade pelo modo mais sublime possfvel e nos Salmos essa verdade e expressa mais glo- riosamente em palavra e em can- <;ao. Ele falou, e tudo se fez; ele ordenou, e tudo passou a existir (Sl33.9). Ele manda a sua palavra e derrete o gelo (Sl147.18). A voz do Senhor esta sobre as aguas, a voz do Senhor faz tremer os de- sertos, a voz do Senhor faz com que os montes saltern como bois selvagens e desnuda os bosques (Sl29.3-10). 160 Duas verdades estao conti- das nesse registro exaltado das obras de Deus: A primeira eque Deus e Todo-Poderoso, que pela Sua palavra traz todas as coisas a existencia, cuja palavra e lei (Sl 33.9) e cuja voz e poder (Sl29.4); e a segunda e que Deus age deliberadamente, nao sem previ- dencia e executa todas as Suas obras com a mais elevada sabedo- ria. A palavra que Deus fala e po- der, mas tambem e urn vefculo de pensamento. Ele fez a terra pelo Seu poder, Ele estabeleceu o mun- do pela Sua sabedoria e com a Sua inteligencia estendeu OS ceus (Jr 10.12; 51.15). Ele fez todas as Suas obras com sabedoria; a terra esta cheia das Suas riquezas (Sl 104.24). Essa sabedoria de Deus nao teve sua origem fora dEle, mas estava nEle desde o prind- pio. 0 Senhor a possuia no prin- cipia de Suas obras, antes de Suas obras mais antigas. Quando Ele preparou OS ceus, quando tra<;a- Va o horizonte sobre a face do abismo, quando firmava as nu- vens de cima, quando estabelecia as fontes do abismo, a sabedoria ja estava com Ele, era sua arqui- teta, dia ap6s dia era as Suas delf- cias e alegrava-se diante dEle em todo o tempo (Pv 8.22-31; J6 20.20- 28). Deus se alegrava na sabedo- ria com a qual Ele criou o mun- do. Paralelamente a essa pala- vra e a essa sabedoria o Espfrito
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    A DIVINA TRINDADE deDeus surge como o Mediador da cria<_;:ao. Exatamente da mesma forma que Deus ao mesmo tem- po ee possui a sabedoria, e assim Ele pode dividi-la e exibi-la em Suas obras, dessa mesma forma Ele e Espirito em Seu Ser (Dt 4.12,15) e possui o Espirito, o Es- pirito pelo qual Ele mora no mun- do e esta sempre presente nele em todos os lugares (Sl 139.7). Sem que alguem tenha sido Seu con- selheiro, o Senhor, por Seu espi- rito, chamou todas as coisas aexis- tencia (Is 40. 13 ss.). No principia o Espirito se movia sobre a face das aguas (Gn 1.2), e Ele perma- neceu em atividade enquanto to- das as coisas eram criadas. For esse Espirito o Senhor enfeitou os ceus (Jo 26.13), renova a face da terra (Sl 104.30), da vida ao ho- mem (Jo 33.4), mantem o f6lego nas narinas dos homens (Jo 27.3), da-lhe entendimento e sabedoria (Jo 32.8), faz secar a erva e cair a flor (Is 40.7). Em resumo, os ceus por Sua palavra se fizeram, e, pelo sopro de Sua boca, o exercito de- les (Sl 33.6). * * * * * E essa diversidade encontra- da em Deus fica ainda mais clara nas obras de recria<_;:ao, pois nelas nao e Elohim, o Deus 11 geral"1 mas eJeoval 0 SenhorI 0 Deus do pac- to que se revela e que se faz co- nhecido em Suas maravilhas de reden<_;:ao e salva<_;:ao. Como Se- nhor Ele redime e conduz Seu povo nao apenas atraves de Sua palavra, mas tambem atraves do Anjo do pacto (o Anjo do Senhor). Esse Anjo aparece ja na historia dos patriarcas: a Hagar (Gn 16.6), a Abraao (Gn 18 ss.) e a Jaco (Gn 28.13 ss.). Esse Anjo revela Sua Gra<_;:a e poder especialmente na liberta<_;:ao de Israel de sua escra- vidao no Egito76 • Esse Anjo do Senhor nao possui o mesmo nivel de importancia dos anjos criados; Ele e uma revela<_;:ao e uma mani- festa<_;:ao especial de Deus. For urn lado, Ele e claramente distinto de Deus, que fala dele como Seu Anjo, e, por outro lado, Ele eurn com Deus em poder, em reden<_;:ao e ben<_;:ao, em gloria e honra. Ele e chamado Deus em Genesis 16.13, o Deus de Betel em Genesis 31.13, troca de lugar com Deus, o Senhor (Gn 18.30,32; Ex 3.4) eleva em si o nome de Deus (Ex 23.21). Ele re- dime de todo o mal (Gn 48.16), resgata Israel das maos dos egip- cios (Ex 3.8), abre as aguas do mar (Ex 14.19-21), preserva o povo de Deus em sua jornada, conduze-o em seguran<_;:a para Canaa e faz com que ele ven<_;:a os seus inimi- gos (Ex 3.8; 23.20) e deve ser obe- decido em tudo, como se fosse o proprio Deus (Ex 23.20), e sempre 76 Ex 3.2; 13.21; 14.19; 23.20~23; 32.34; 33.2; Nm 20.16. 161
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista acampa-se ao redor daqueles que temem ao Senhor (Sl34.7; 35.5). Assim como em sua obra de recria<;ao Jeova realiza Suas ativi- dades redentivas atraves do Anjo do pacto, da mesma forma Ele, pelo Seu Espirito, da ao Seu povo todos os tipos de energias e dadi- vas. No Velho Testamento o Es- pirito do Senhor e a fonte de toda a vida, bern estar e habilidade. Ele concede coragem e for<;a aos juizes, a Otniel (Jz 3.10), Gideao (Jz 6.34), Jefte (Jz 11.29) e Sansao (Jz 14.6; 15.14). Ele concede per- cep<;ao artistica aos construtores do tabernaculo e de seus utensi- lios, tambem aos construtores do templo77 e da sabedoria e enten- dimento aos juizes que foram es- colhidos para auxiliar Moises (Nm 11.17,25). Ele da o espirito de profecia aos profetas78 e renova, santifica e orienta todos os filhos de Deus (Sl51.12,13; 143.10). Em resumo, a palavra, a pro- messa, o pacto que o Senhor deu a Israel no exodo do Egito existiu atraves dos tempos e continuou de pe mesmo depois do cativei- ro, nos dias de Zorobabel, e por isso 0 povo nao precisava temer (Ag 2.4,5). Quando o Senhor tirou Israel do Egito Ele se tornou o Salvador de Israel. E essa simpa- tia de Deus em favor de Seu povo expressou-se no fato de que em 77 Ex 28.3; 31.3-5; 35.31-35; 1Cr 28.12. 78 Nm 11.25)9; 24.2,3; Mq 3.8. 162 toda a opressao do povo Ele foi oprimido (Ele considerou a afli- <;ao de Seu povo como Sua pro- pria afli<;ao) e portanto, enviou Seu Anjo para preservar Seu povo. Ele redimiu Israel por Seu amor e Gra<;a e aceitou-o como Sua pro- priedade especial durante todos os dias da antiguidade. Ele en- viou a Israel o Espirito de Sua san- tidade para conduzi-lo nos cami- nhos do Senhor (Is 63.9,12). Nos dias do Velho Pacto, o Senhor, atraves do sumo sacerdote, aben- <;oou Seu povo com Sua ben<;ao triplice: a ben<;ao da vigiL1ncia sobre o povo, a ben<;ao da Gra<;a e a ben<;ao da paz (Nm 6.24-26). Desse modo, gradualmente, mas de forma inequivoca, a triplice distin<;ao dentro do ser divino se expressa na hist6ria de Israel. Todavia o Velho Testamen- to inclui promessas de que no fu- turo haveria uma revela<;ao mais elevada e mais rica. Mas Israel repudiou a Palavra do Senhor e irritou Seu Espirito Santo (Is 63.10; Sl106). A revela<;ao de Deus atra- ves do Anjo do Pacto e do Espiri- to do Senhor provou ser inade- quada. Se Deus quisesse confir- mar Seu pacto e cumprir Sua pro- messa, outra revela<;ao, mais ele- vada, seria necessaria. Tal revela<;ao foi anunciada pelos profetas. No futuro, nos tll-
  • 162.
    A 0IVINA TRINDADE timosdias, o Senhor chamani do meio do povo de Israel urn profe- ta semelhante a Moises, eo Senhor colocara Suas palavras na boca desse profeta (Dt 18.18). Ele sera urn sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4); Ele sera urn rei da casa de Davi (2Sm 7.12-16), o renovo de Jesse (Is 11.1), urn rei que julga e busca o juizo (Is 16.5). Ele sera urn ser humano, urn homem, filho de uma mulher (Is 7.14), sem formosura e sem beleza (Is 53.2 ss.); Ele sera o Emanuel (Is 7.14), o Senhor de jus- tic;a (Jr 23.6), o Anjo do Facto (Ml 3.1), a aparic;ao do proprio Senhor ao Seu povo (Os 1.7; Ml 3.1). Eo Seu nome sera Maravilhoso, Con- selheiro, Deus Forte, Pai da Eter- nidade, Principe da Paz (Is 9.6). Essa manifestac;ao do Servo do Senhor sera seguida por uma rica dispensac;ao do Espirito San- to. Como o Espirito de sabedoria e entendimento, de conselho e de forc;a, de conhecimento e de temor do Senhor, esse Espirito estara sobre o Messias (Is 11.2; 42.1; 61.1). Ele sera derramado sobre toda a carne, sobre filhos e filhas, idosos e jovens, servos e senhores79 , e lhes clara urn novo corac;ao e urn novo espirito e Seu povo andara em Seus estatutos e obedecera os Seus mandamentos80. Dessa forma o Velho Testa- mento nos mostra que a comple- ta revelac;ao de Deus sera a reve- lac;ao de Seu Triuno Ser. * * * * * Essa promessa e o an(mcio de seu cumprimento no Velho Testamento sao muito satisfa- t6rios. Com relac;ao a isso a uni- dade ou unicidade de Deus e o ponto de partida de toda revela- c;ao81. Mas a diferenc;a dentro dessa unicidade se torna muito mais clara no Novo Testamento. Ela acontece primeiramente nos grandes eventos redentivos da encarnac;ao, satisfac;ao e derrama- mento do Espirito e acontece tam- bern na instruc;ao de Jesus aos Seus ap6stolos. A palavra de sal- vac;ao e urn todo, uma obra de Deus com comec;o e fim. Contu- do podemos ver nela tres grandes momentos, que sao a eleic;ao, o perdao e a renovac;ao e esses tres momentos apontam para uma causa triplice no Ser divino. Essa causa eo Pai, o Filho e o Espirito Santo. 0 envio de Cristo ja nos mostra a atividade triplice de Deus, pois enquanto o Pai da o Filho ao mundo (Jo 3.16), o Filho e gerado em Maria pelo Espirito 79 fl 2.28,29; Is 32.15; 44.3: Ez 36.26,27; Zc 12.10. so Ez 11.19,20; 36.26; Jr 31.31-34; 32.38-41. 51 Jo 17.3; JCo 8.4; 1Tm 2.5. 165
  • 163.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii Santo (Mt 1.20; Lc 1.35). Em Seu batismo Jesus e ungido pelo Es- pirito Santo e e publicamente de- clarado o Filho amado do Pai, o Filho no qual o Pai tern prazer (Mt 3.16,17). As obras que Jesus reali- zou foram mostradas pelo Pai (Jo 5.19; 8.38) e realizadas no poder do Espirito Santo (Mt 12.28). Em Sua morte Ele se ofereceu a Deus pelo Espirito Eterno (Hb 9.14). A ressurrei<;:ao foi urn ato do Pai (At 2.24) e ao mesmo tempo urn ato do proprio Jesus, pelo qual Ele prova ser o Filho de Deus segun- do o Espirito de Santidade (Rm 1.4). E depois de Sua ressurrei<;:ao, Ele, no quadragesimo dia, ascen- deu aos mais altos ceus e sujei- tou a Si mesmo os anjos, as auto- ridades e os poderes. 0 ensino de Jesus aos apos- tolos concorda plenamente com a li<;:ao desses eventos. Jesus veio aterra para pro- damar o Pai e fazer Seu nome co- nhecido entre os homens (Jo 1.18; 17.6). 0 nome de Pai aplicado a Deus como criador de todas as coisas tambem foi usado pelos pagaos. Esse sentido do termo recebe apoio das Escrituras em varios lugares82 . Alem disso, o Velho Testamento varias vezes usa a designa<;:ao de Pai para re- ferir-se ao relacionamento teocra- tico de Deus com Israel, porque 82 Lc 3.38; At 17.28; Ef 3.15; Hb 12.9. 83 Mt 11.27; Me 12.6; Jo 5.20. 164 em Sua maravilhosa habilidade Ele criou e mantem esse relacio- namento (Dt 32.6; Is 63.16). No Novo Testamento uma nova luz e gloriosamente lan<;:ada sobre esse nome de Pai, aplicado a Deus. Jesus sempre indica uma diferen<;:a essencial entre o relaci- onamento que Ele mesmo man- tern com Deus e o relacionamen- to que outras pessoas, tanto os judeus quanto os discipulos, man- tern com Ele. Quando, por exem- plo, Ele ensina aos discipulos a ora<;:ao dominical, Ele diz expres- samente: "Vos orareis assim: Pai nosso". E quando, depois da res- surrei<;:ao, Ele anuncia a Maria a Sua ascensao, Ele diz: "Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus" (Jo 20.17). Em outras palavras, Deus e Seu pro- prio Pai (Jo 5.18). 0 Pai conhece o Filho e o ama de tal forma que, reciprocamente, na mesma exten- sao, so o Filho pode conhecer e amar o Pai83 . Entre os apostolos, Deus e constantemente chamado de Pai de nosso Senhor Jesus Cris- to (Ef 1.3). Esse relacionamento entre o Pai eo Filho nao se desen- volveu no tempo, mas existe des- de a eternidade (Jo 1.1,14; 17.24). Portanto, Deus e Pai, em pri- meiro lugar, porque em urn sen- tido especial Ele e o Pai do Filho. Essa e Sua caracteristica original,
  • 164.
    A DIVINA TRINDADE especiale pessoal. Em urn sentido derivado Deus e chamado de Pai de todas as Suas criaturas porque Ele e seu criador e Sustentador (1Co 8.6). Ele e chamado Pai de Israel por- que Israel e Seu povo em virtude de elei<;ao e chamado (Dt 32.6; Is 64:.8), e o Pai da Igreja e de todos os crentes porque o amor do Pai pelo filho os alcan<;a (Jo 16.27; 17.24) e porque eles foram aceitos como Seus filhos e nasceram dEle atraves do Espfrito (Jo 1.12; Rm 8.15). Portanto, o Pai e sempre o Pai, a primeira pessoa, de quem, no Ser de Deus e no conselho de Deus, procede a iniciativa nas obras de cria<;ao e providencia, reden<;ao e santifica<;ao. Ele con- cedeu ao Filho ter a vida em Si mesmo (Jo 5.26) e enviou o Espf- rito (Jo 15.26). Sua e a elei<;ao e o beneplacito (Mt 11.26; Ef 1.4,9,11). Dele procedem a cria<;ao, a provi- dencia, a reden<;ao e a renova<;ao (Sl 33.6; Jo 3.16). A Ele, de forma especial, pertence o poder, o rei- no e a gloria (Mt 6.13). Ele parti- cularmente recebe o nome de Deus em distin<;ao ao Senhor Jesus Cristo e ao Espfrito Santo. Alem disso, Cristo, como Mediador, nao o chama apenas de Pai, mas tam- bern de Deus (Mt 27.46; Jo 20.17) " Lc 9.20; 1Co 3.23; Ap 12.10. :-.j J6 38.7. "' Dt 1.31; 8.5; 14.1; 32.6,18; Os 11.1. 25111 7.11-14; 512.7. 165 e o proprio Cristo e chamado de Cristo de Deus84. Em uma palavra, a primeira pessoa do Ser divino e o Pai porque "dEle sao todas as coisas" (1 Co 8.6). Se Deus eo Pai, logicamente ha tambem urn Filho que recebeu vida dEle e que compartilha de Seu amor. No Velho Testamento o nome de filho de Deus foi usa- do por anjos85, pelo povo de Isra- el86 e particularmente tambem para o rei teocratico desse povd7 • Mas, no Novo Testamento esse nome ganha urn significado mais profundo, pois Cristo eo Filho de Deus em urn sentido especial; Ele e exaltado sobre todos os anjos e profetas (Mt 13.32; 21.17; 22.2), e Ele mesmo diz que ninguem co- nhece o Pai senao o Filho, e nin- guem conhece o Filho senao o Pai (Mt 11.27). De forma distinta de homens e anjos, Deus e o Pai do Filho (Rm 8.32), o Filho amado em quem o Paise compraz (Mt 3.17), o Filho unigenito (Jo 1.18), a quem o Pai concedeu ter vida em Simes- mo (Jo 5.26). Esse relacionamento (mico e especial entre o Pai e o Filho nao se desenvolveu no tempo atraves de uma concep<;ao sobrenatural do Espfrito Santo ou da un<;ao no batismo, ou da ressurrei<;ao, ou da ascensao - apesar de muitos pen-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sarem assim - mas e urn relacio- namento que existe desde a eter- nidade. 0 Filho que em Cristo assumiu a natureza humana esta- va no principia com Deus como o Verbo (Jo 1.1) e subsistia em for- ma de Deus (Fp 2.6), era coberto de gloria (Jo 17.5,24t era o res- plendor da gloria e a expressao exata de Deus (Hb 1.3) e precisa- mente por isso Ele podia, na ple- nitude dos tempos, ser enviado, dado, trazido ao mundo88 . Portan- to, a cria<;ao (Jo 1.3; Cl1.16), a pro- videncia (Hb 1.3) e a realiza<;ao de toda a obra de salva<;ao (1Co 1.30) sao atribuidas a Ele. Ele nao e cri- ado, como o sao as Suas criaturas; Ele eo unigenito delas, ou seja, Ele e o Filho que tern a primazia e os direitos de filho mais velho sobre todas as criaturas (Cl 1.15). Dessa forma Ele e o primogenito dos mortos eo primogenito entre todos os irmaos e, portanto, entre todos e em todos Ele eo primeiro (Rm 8.29; Cl 1.18). E, muito em- bora, na plenitude dos tempos Ele tenha assumido a forma de servo, Ele subsistia na forma de Deus. Ele era em todas as coisas como Deus, o Pai (Fp 2.6): na vida (Jo 5.26), no conhecimento (Mt 11.27), na for<;a (Jo 1.3; 5.21,26t em honra (Jo 5.23). Ele e Deus e deve ser lou- vado por toda a eternidade89 . As- sim como todas as coisas perten- ss Jo 3.16; G/ 4.4; Hb 1.6. 89 Jo 1.1; 20.8; Rm 9.5; Hb 1.8,9. 166 cern ao Pai, elas pertencem tam- bern ao Filho (1Co 8.6). * * * * * Tanto o Pai quanta Filho, juntos e unidos no Espirito Santo e por meio do Espirito, moram em todas as criaturas. Deus, em Sua natureza, eEspirito (Jo 4.24) e Ele esanto (Is 9.3); mas o Espirito San- to e claramente distinto de Deus como Espirito. Para fazer uma compara<;ao podemos dizer gue o homem e urn espirito em sua natureza invisivet e tambem pas- sui urn espirito por meio do qual Ele e consciente de si mesmo. As- sim tambem Deus eurn Espirito por natureza e tambem possui urn Espirito, Espirito esse que sonda as profundezas do Ser de Deus (1Co 2.11). Como tal esse Espirito echamado de Espirito de Deus ou Espirito Santo (Sl 51.12; Is 63.10)1). Dessa forma e feita uma distin<;ao entre esse Espirito e o espirito de urn anjo ou o espirito de urn ser humano ou de gual- quer outra criatura. Mas apesar de ser distinto de Deus, do Pai e do Filho, Ele mantem o mais intima relacionamento com ambos. Ele e chamado de sopro do Todo-Po- deroso (Jo 33.4), o sopro da boca do Senhor (Sl33.6), e enviado pelo Pai e pelo Filho (Jo 14.26; 15.26) e
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    A 0IVINA TIUNDADE procedede ambos, nao somente do Pai (Jo 15.26), mas tambem do Filho, pois Ele e chamado tanto de Espirito de Cristo, quanto de Es- pirito do Pai (Rm 8.9). Embora o Espirito Santo seja dado, enviado ou derramado pelo Pai e pelo Filho, Ele geralmente aparece como urn poder ou urn dom que qualifica os homens para cumprir Seu chamado ou Seu oficio. Dessa forma, por exem- plo, o Espirito Santo e menciona- do em Atos em conexao como dom da profecia (At 8.15; 10.44; 11.15; 15.8; 19.2). Mas nao e corre- to inferir desse fato, como muitos fazem, que o Espirito Santo nada mais e que urn outro dom ou urn poder de Deus. Em outros textos Ele aparece como uma pessoa, como alguem que tern nomes pes- soais, caracteristicas pessoais e realiza obras pessoais. Em Joao 15.26 e 16.13)4 (apesar da pala- Yra grega usada para designar o Espirito ter o genero neutro), Cris- to usa o masculino: Ele clara teste- munho de mime me glorificara. Da mesma forma Cristo o chama de Consolador, usando o mesmo nome que e usado para Cristo em 1Joao 2.1, urn nome traduzido como Advogado em algumas ver- soes. Alem desses nomes pesso- ais, todos os tipos de caracteristi- cas pessoais sao atribuidas ao Es- pirito Santo: por exemplo, capa- ~idade de escolha (At 13.2), opi- niao propria (At 15.28), auto de- termina~ao ou vontade (1Co 12.11). Alem disso, todos os tipos de atividades pessoais sao atribu- fdos a Ele, tais como: conhecimen- to (1Co 2.11), audi~ao (Jo 16.13), fala (Ap 2.17), capacidade de en- sinar (Jo 14.26t de interceder (Rm 8.27), e assim por diante. E tudo isso mostra de forma clara e su- blime que Ele esta no mesmo ni- vel do Pai e do Filho (Mt 28.19; 2Co 13.14). 0 ultimo ponto e 0 mais importante e indica o fato de que o Espirito Santo nao e meramente uma pessoa, mas e Deus. As Es- crituras nos dao todos os dados de que necessitamos para fazer essa confissao. Nos temos apenas que observar, com respeito adis- tin~ao entre Deus e Seu Espirito mencionada acima, que os dois trocam de lugar frequentemente na Escritura, de forma que nao ha diferen~a see Deus ou Seu Espi- rito quem fala ou faz alguma coi- sa. Em Atos 5.3A a mentira ao Es- pirito Santo e chamada de uma mentira a Deus. Em 1Corintios 3.16 os crentes sao chamados tem- plo de Deus porque o Espirito mora neles. A esses fatos devemos acrescentar os varios atributos di- vinos do Espfrito, tais como: eter- nidade (Hb 9.14), onipresen~a (Sl 139. 7), onisciencia (1Co 2.11), oni- potencia (1Co 12. 4-6) e varias obras divinas, como a criac;:ao (Sl 33.6), a providencia (Sl104. 30), a 167
  • 167.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista reden<;:ao (Jo 3.3), sao atribuidas ao Espirito Santo, tanto quanto ao Pai e ao Filho. Consequentemente, Ele desfruta da mesma gloria que o Pai eo Filho. Ele tern Seu lugar junto ao Pai e ao Filho como cau- sa da salva<;:ao (2Co 13. 14; Ap 1.4). E foi tambem em Seu nome que n6s fomos batizados (Mt 28.19) e aben<;:oados (2Co 13.14). Alem dis- so, a blasfemia contra o Espirito Santo eo pecado imperdoavel (Mt 12.31,32). Em outras palavras, as- sim como todas as coisas sao do Pai e atraves do Filho, todas elas existem e repousam no Espirito Santo. Todos esses elementos da doutrina da Trindade espalhados pelas Escrituras foram reunidos por Jesus em Sua ordem batismal e pelos ap6stolos em suas ben- <;:aos. Depois de Sua ressurrei<;:ao e antes de Sua ascensao Cristo en- viou Seus ap6stolos para irem fa- zer discipulos de todas as na<;:6es, batizando-os em urn unico nome, no qual tres pessoas diferentes sao revelados. 0 Pai, o Filho e o Espirito Santo sao em Sua unicidade e em Suas distin<;:6es a plenitude da revela<;:ao de Deus. E de acordo com o ensino dos ap6stolos, todo o bern e a salva- <;:ao do homem estao contidos no amor do Pai, na Gra<;:a do Filho e na comunhao do Espirito Santo90 • 0 beneplacito, o conhecimento, o 90 lCo 13.14; lPe 1.2; lJo 5.4-6; Ap 1.4-6. 168 poder, o amor, o reino e a for<;:a sao do Pai. A Media<;:ao, a recon- cilia<;:ao, a Gra<;:a, e a reden<;:ao sao do Filho. A regenera<;:ao, a reno- va<;:ao, a santifica<;:ao e a reden<;:ao sao do Espirito. 0 relacionamen- to que Cristo mantem com o Pai corresponde exatamente ao rela- cionamento que o Espirito man- tern com Cristo. Assim como o Filho nada fala e nada faz alem daquilo que recebe do Pai (Jo 5.26; 16.15), assim tambem o Espirito tudo recebe de Cristo (Jo 16. 13,14). Assim como o Filho dates- temunho do Pai e glorifica o Pai (Jo 1.18), assim tambem o Espiri- to da testemunho do Filho e glo- rifica o Filho (Jo 15.26; 16.14). As- sim como ninguem vern ao Pai se nao for trazido pelo Filho (Jo 14.6), ninguem pode dizer que Jesus e o Senhor se nao for atraves doEs- pirito (1Co 12.3). Atraves do Es- pirito n6s temos comunhao com o Pai e com o Filho. Eno Espirito Santo que Deus, atraves de Cris- to, mora em nossos cora<;:6es. E se tudo isso e assim, entao o Espiri- to Santo e, juntamente com o Pai e o Filho, o unico e verdadeiro Deus, e deve ser eternamente ado- rado como tal. * * * * * A essa instru<;:ao do Espirito Santo a Igreja Crista tern dito sim
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    A DIVINA TRINDADE eamem. A Igreja nao chegou a essa rica e gloriosa confissao sem antes passar por uma dura e lon- ga luta de tendencias. Seculos da mais profunda experiencia de vida espiritual dos filhos de Deus e dos mais agudos intelectos dos pais e dos mestres da Igreja, fo- ram necessarios para que esse ponto da revelac;ao da Escritura fosse entendido e reproduzido com fidelidade na confissao da Igreja. Sem duvida, a Igreja nao teria obtido sucesso nesse esfor- c;o de firmar seus fundamentos se nao tivesse sido conduzida pelo Espirito a toda a verdade e se Tertuliano e Irineu, Atanasio e os tres santos da Capad6cia, Agosti- nho e Hilario e muitos outros alem desses, nao tivessem sido homens especialmente dotados e capacitados de sabedoria para nos mostrar o caminho correto. Nada menos que a essencia peculiar do Cristianismo estavam em jogo nessa luta de opinioes. Durante dois seculos a Igreja cor- reu o risco de ser arrastada de suas fundac;oes sobre as quais estava edificada e assim ser engolida pelo mundo. Por urn lado, havia a amea- ca do Arianismo, assim chamado por causa do presbitero Alexan- cirino chamado Ario, que morreu no ano 336. Ario afirmava que so- mente o Pai eo Deus eterno ever- dadeiro, visto que somente Ele, no sentido pleno da palavra, nao foi 169 gerado. A respeito do Filho, o Logos, que em Cristo se tornou carne, ele pensava que, por esse Cristo ter sido gerado, Ele nao podia ser Deus, tinha que ser uma criatura- uma criatura, e verda- de, que tinha sido criada antes das outras criaturas, mas que, como todas as outras, foi criada pela vontade de Deus. E, da mesma forma, Ario afirmava que o Espi- rito Santo era uma criatura, ou mais uma qualidade ou atributo de Deus. Por outro lado o partido do Sabelianismo, assim chamado por causa de urn certo Sabelio que vi- veu em Roma no comec;o do ter- ceiro seculo, estava em plena ati- vidade. Sabelio afirmava que o Pai, o Filho e o Espirito Santo eram tres nomes usados para de- signar o mesmo Deus - urn Deus que tinha se feito conhecido, a medida em que Sua revelac;ao progredia, por diversas formas e manifestac;oes. Na forma do Pai, Deus foi o Criador e o Legislador; na forma do Filho Ele foi o Reden- tor; e Ele agora age na forma do Espirito Santo na recriac;ao da Igreja. Enquanto o Arianismo ten- ta manter a unicidade de Deus colocando o Filho eo Espirito San- to do lado de fora do Ser divino e reduzindo-os ao nivel de criatu- ras, o Sabelianismo tenta chegar ao mesmo resultado roubando a independencia das tres pessoas
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista da Trindade. Ele faz isso transfor- mando as pessoas da Trindade em tres formas sucessivas de revela- <;:ao do mesmo Ser divino. No Arianismo o modo de pensar racionalista e deista dos judeus encontra sua expressao caracteris- tica, e no Sabelianismo esta a ideia paga de pantefsmo e misticismo. No momento em que a Igreja co- me<;:ou a criar urn claro registro da verdade que foi depois apresen- tado na confissao da Trindade de Deus, essas duas outras tenden- cias colocaram-se a sua esquerda e a sua direita e acompanharam a confissao da Igreja ate os nossos dias. A Igreja, e cada urn de seus membros, deve estar sempre em guarda para nao fazer injusti<;:a, por urn lado, a unicidade de Deus, e, por outro lado, as tres Pessoas que compoem esse Ser (mico. A unicidade nao pode ser sacrificada em beneffcio da diver- sidade, nem a diversidade em beneficio da unicidade. Manter as duas em sua inseparavel conexao e em seu puro relacionamento, nao apenas teoricamente, mas tambem na vida pratica, e 0 cha- mado de todos os crentes. Para satisfazer a essa exi- gencia a Igreja Cristae a teologia crista primitiva fizeram uso de varias palavras e expressoes que nao podem ser encontradas lite- ralmente nas Sagradas Escrituras. A Igreja come<;:ou a falar da essen- cia de Deus e de tres pessoas nessa 170 essencia do Ser divino. Ela falava de caracteristicas triunas e trinitfzrias, ou essenciais e pessoais, da eterna gerar;iio do Filho e da proce- dencia do Espfrito Santo do Pai e do Filho, e outros termos seme- lhantes. Nao ha razao pela qual a Igreja Cristae a teologia crista nao devam usar esses termos e expres- soes, pois as Sagradas Escrituras nao foram dadas por Deus a Igre- ja para serem desconsiderada- mente repetidas, mas para serem entendidas em toda a sua pleni- tude e riqueza e para serem rea- firmadas em sua propria lingua- gem para que dessa forma possam proclamar os poderosos feitos de Deus. Alem disso, tais termos e expressoes sao necessarios para manter a verdade da Escritura contra seus oponentes e coloca-la em seguran<;:a contra equivocos e erros humanos. E a hist6ria, tern mostrado atraves dos seculos, que a despreocupa<;:ao com esses no- mes e a rejei<;:ao deles conduz a varios afastamentos da confissao. Ao mesmo tempo n6s deve- mos, no uso desses termos, nos lembrar que eles sao de origem humana e, portanto, limitados, sujeitos a erro e faliveis. Os pais da Igreja sempre reconheceram isso. Por exemplo, eles afirmavam que o termo pessoas, que foi usa- do para designar as tres formas de existencia no Ser divino nao fazem justi<;:a a verdade, mas servem de
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    A DIVINA TRINDADE ajudapara manter a verdade e eli- minar o erro. A palavra foi esco- lhida1 nao porque fosse a mais precisa/ mas porque nenhuma outra melhor foi encontrada. Nes- se caso a palavra esta atras da ideia/ e a ideia esta atras da reali- dade. Apesar de nao poder pre- servar a realidade a nao ser dessa forma1 n6s nunca devemos nos esquecer de que e a realidade que conta/ e nao a palavra. Certamen- te/ na gloria/ outras e melhores palavras e express6es serao colo- cadas em nossos labios. * * * * * A realidade a que se refere a confissao da Santa Trindade e da maior importancia/ tanto para a mente/ quanto para o cora<;ao. :E atraves dessa confissao que a Igreja mantem1em primei- ro lugar1tanto a unicidade quan- to a diversidade do Ser divino. 0 Ser divino e urn. Ha apenas urn Ser que e Deus e pode ser chama- do de Deus. Na cria<;ao e na re- denc;:ao/ na natureza e na Grac;:a/ na Igreja e no mundo1no estado e na sociedade1sempre e em todo lu- gar n6s estamos relacionados a apenas urn Deus vivo e verdadei- c·o. A unidade do mundo/ da ra<;a :1umana/ da verdade/ da virtude/ da justic;:a/ e da beleza dependem da unidade de Deus. No momen- to em que a unidade de Deus e negada/ a porta e aberta ao 171 politefsmo. Mas essa unidade ou unicidade de Deus e/ de acordo com a Escritura e com a confissao da Igreja/ nao uma unidade vazia/ nem solitaria1mas cheia de vida e for<;a. Ela envolve diferen<;a1ou distinc;:ao/ ou diversidade. Eessa diversidade que se expressa nas tres pessoas do Ser de Deus. Es- sas tres pessoas nao sao meramen- te tres modos de revela<;ao. Elas sao modos de ser. Pail Filho e Es- pfrito Santo compartilham da mesma e unica natureza divina e de suas caracterfsticas. Eles sao urn Ser. Todavia cada urn tern Seu nome e Sua caracterfstica particu- lar/ pela qual e diferenciado dos outros. Somente o Pai tern a pa- ternidade/ somente o Filho tern a gerac;:ao e somente o Espfrito pos- sui a qualidade de proceder do Pai e do Filho. A essa ordem de existencia no Ser divino corresponde a or- dem das tres pessoas nas obras divinas. 0 Pai e de quem/ o Filho e atraves de quem eo Espfrito San- to e em quem todas as coisas exis- tem. Todas as coisas na cria<;ao1na reden<;ao e na recria<;ao procedem do Pai1atraves do Filho e do Es- pfrito. E no Espfrito e atraves do Filho elas voltam para o Pai. N6s devemos ao Pai o Seu amor/ ma- nifesto na elei<;ao; devemos ao Filho a Sua Gra<;a redentora; de- vemos ao Espfrito Sua a<;ao rege- neradora e renovadora.
  • 171.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Em segundo lugar, a Igreja, ao manter essa confissao, assume uma forte posi<;ao contra as here- sias do deismo (cren<;a em Deus sem uma revela<;ao) panteismo (politeismo), judaismo e paganis- mo. Sempre ha essa dupla tenden- cia no cora<;ao humano: a tenden- cia de pensar em Deus como es- tando distante e alheio ao mundo em si mesmo, como independen- te de Deus, e a tendencia de mes- clar Deus com o mundo, identifi- cando-o como mundo e assim deificar tanto a si mesmo, quanto o mundo ao seu redor. Quando a primeira tendencia prevalece nos chegamos ao ponto de pensar que podemos viver sem Deus na na- tureza, em nosso chamado, em nossos negocios, em nossa den- cia, em nossa arte e tambem na obra de nossa reden<;ao. Quando a segunda tendencia prevalece nos mudamos a gloria de Deus a imagem da criatura, deificamos o mundo, o sot a lua, as estrelas, a ciencia ou o estado, e, na criatura, geralmente concebida a nossa imagem, nos cultuamos nossa propria grandeza. No primeiro caso Deus esta apenas distante; no segundo caso Ele esta apenas per- to. No primeiro caso Ele esta fora do mundo, sobre o mundo e livre do mundo; no segundo caso ele esta dentro do mundo e confun- de-se com ele. Mas a Igreja confessa os dois lados da moeda: Deus esta acima 172 do mundo, e essencialmente di- ferente do mundo e ao mesmo tempo esta com todo o Seu Ser presente no mundo e nunca este- ve separado dele. Ele tanto esta distante, quanto esta perto. Ele tanto e exaltado acima de todas as criaturas, quanto profundamente condescendente com elas. Ele e nosso Criador, que nos trouxe a existencia por Sua vontade como criaturas distintas dEle em espe- cie. Ele e nosso Redentor que nos salva, nao por causa de nossas obras, mas pelas riquezas de Sua Gra<;a. Ele e nosso Santificador, que mora em nos como em Seu templo. Sendo o Deus Triuno, Ele e urn Deus e esta acima de nos e dentro de nos. Finalmente, em terceiro lu- gar, a confissao da Igreja e tam- bern da maior importancia para a vida espiritual. Muito injustifi- cadamente, algumas pessoas di- zem que a doutrina da Trindade e meramente urn dogma abstrato filosofico e que nao possui qual- quer valor para a religiao e para a vida. A Confissao de Fe Reforma- da tern urn ponto de vista total- mente diferente desse. No artigo IX dessa Confissao a Igreja afirma que Deus e urn em essencia e tres em pessoas. Isso nos sabemos pelo testemunho da Escritura e pelas atividades das tres pessoas, especialmente aquelas que senti- mos dentro de nos. De fato, nos nao baseamos nossa fe na Trinda-
  • 172.
    A DIVINA TRINDADE deem sentimentos e experienci- as, mas quando n6s cremos nela, n6s notamos que a doutrina man- tern intima relacionamento com a experiencia espiritual dos filhos de Deus. Os crentes conhecem as obras do Pai, o Criador de todas as coisas, que lhes deu vida, £ole- go e tudo o mais. Eles aprendem a conhece-lo como o Legislador que lhes deu Seus santos manda- mentos para que eles andassem em Seus caminhos. Eles apren- dem a conhece-lo como o Juiz que e provocado a uma terrfvel ira pelas injusti<;as dos homens e que em nenhum sentido inocenta o culpado. E eles aprendem a conhece-lo, finalmente, como o Pai que par causa de Cristo e seu Deus e Pai, em quem eles confi- am que suprira todas as suas ne- cessidades, do corpo e da alma e que converted_ em bern todo o mal que os amea<;a neste vale de lagrimas. Eles sabem que Ele pode fazer isso par ser o Deus Todo-Poderoso e que Ele quer fazer isso par ser o Pai Fiel. Par- tanto eles confessam: Eu creio em Deus, o Pai, o Todo-Poderoso, Criador dos ceus e da terra. Da mesma forma eles apren- dem a conhecer em si mesmos as obras do Filho, que e o unigenito do Pai, gerado em Maria pelo Es- pirito Santo. Eles aprendem a conhece-lo como seu maior Pro- feta e Mestre, que lhes revela per- 175 feitamente o secreta conselho e vontade de Deus com rela<;ao a Sua reden<;ao. Eles aprendem a conhece-lo como seu unico Sumo Sacerdote, que os redimiu pelo unico sacriffcio de Seu corpo e que constantemente ainda intercede par eles junto ao Pai. Eles apren- dem a conhece-lo como seu Rei eterno, que os governa com Sua Palavra e com Seu Espfrito e que os protege e preserva pela reali- za<;ao de Sua reden<;ao. Portanto eles confessam: Eu creio em Jesus Cristo, o Unigenito Filho de Deus, nosso Senhor. E eles tambem aprendem a reconhecer em si mesmos as abras do Espirito Santo, que os regene- ra e os conduz a verdade. Eles aprendem a conhece-lo como o operador de sua fe, que atraves da fe faz com que eles compartilhem em Cristo de todos os Seus bene- ffcios. Eles aprendem a conhece- lo como o Consolador, que inter- cede par eles com gemidos inexprimfveis e que da testemu- nho ao espfrito deles de que eles sao filhos de Deus. Eles aprendem a conhece-lo como o penhor de sua heran<;a eterna, que os preser- va ate o dia de sua reden<;ao. Par- tanto eles confessam: Eu creio no Espirito Santo. Dessa forma a confissao da Trindade e o resumo da religiao crista. Sem ela, nem a cria<;ao, nem a reden<;ao, nem a santifica<;ao podem ser sustentadas.
  • 173.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Todo afastamento dessa confissao conduz ao erro em ou- tros pontos doutrimirios, exata- mente como uma representa<;ao errada dos artigos de fe que tern sua origem em uma concep<;ao errada da doutrina da Trindade. N6s s6 podemos proclamar ver- dadeiramente as poderosas obras 174 de Deus quando as reconhece- mos e confessamos como uma grande obra do Pai, do Filho e do Espfrito. No amor do Pai, na Gra<;a do Filho e na comunhao do Espirito Santo esta contida toda a salva<;ao do homem.
  • 174.
    CAPITULO 11 11 A CRIA<;AOE A PROVIDENCIA 0 significado pratico da doutrina da Trindade para a vida do cristao se evidencia pelo fato de que as Sa- gracias Escrituras nao querem nos mostrar urn conceito abstrato da divindade, mas querem nos colo- car em contato pessoal com o Deus vivo e verdadeiro. A Escri- tura elimina nossas no<;oes e con- ceitos enos conduz de volta para Deus. Portanto, a Escritura nao argumenta sobre Deus, ela o apre- senta a n6s e revela-o em todas as obras de Suas maos. A Escritura parece nos dizer: "Levante seus olhos e contemple aquele que fez todas essas coisas". Os atributos invisfveis de Deus, assim o Seu eterno poder, como tambem a Sua propria divindade, claramente se reconhecem, desde o prindpio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram cria- das. N6s nao aprendemos a co- 175 nhecer e a glorificar Deus inde- pendente de Suas obras, mas atra- ves de Suas obras, na natureza e na Gra<;a. Epor isso que as Sagradas Escrituras nos apontam com tan- ta frequencia os poderosos feitos de Deus. A Escritura e ao mesmo tempo uma descri<;ao deles e urn cantico de louvor por eles. Exata- mente porque ela quer fazer-nos conhecer o Deus vivo e verdadei- ro, ela fala em todas as suas pagi- nas sobre os Seus poderosos fei- tos. Sendo o Deus vivo, Ele e tam- bern o Deus operativo. Ele nao pode fazer outra coisa alem de trabalhar. Ele trabalha sempre (Jo 5.17). Toda a eterna vida de Deus e poder, energia, atividade. Tal e o Criador, tal e Sua cria<;ao. Sen- do Deus o Realizador, o Criador de todas as coisas, Suas obras sao grandes e maravilhosas (Sl 92.5; 139.14), sao verdade e fidelidade
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista juntas (Sl 33.4; 111.7), e justic;a e misericordia (Sl 145.17; Dn 9.14). Incluidas nessas obras, certamen- te, estao a criac;ao e a manutenc;ao de todas as coisas, ceu e terra, a especie humana e miriades de pessoas, as maravilhas feitas em Israel e para Israel, e as obras que Ele realiza atraves de Seus ser- vos91. E todas essas obras o lou- vam (Sl 145.10). Ele e a Rocha cujas obras sao perfeitas (Dt 32.4). Alem disso, todas essas obras de Deus sao trazidas aexis- tencia nao com indiferenc;a, nem por obrigac;ao, mas deliberada e livremente. Esse fato torna evi- dente que Ele faz, sustenta e rege todas as coisas pela Sua palavra. Epela Sua palavra, pelo seu co- mando, que Ele chama todas as coisas aexistencia (Sl33.9). Sem a Palavra que no come<;o estava com Deus e que era Deus, nada do que foi feito se fez (Jo 1.3). Em J6 28.20 ss. A verdade e apresen- tada como se Deus, antes de criar o mundo, tivesse consultado a sabedoria, consultando e pes- quisando todas as coisas com ela (Sl 104.24; Jr 10.12). As Sagradas Escrituras tambem expressam essa questao de uma forma dife- 97 Gn 2.2); Ex 34.10; J6 34.19; Is 19.25; Jo 9.4. 92 5133.11; Is 46.10. 93 Gn 41.32; Sl 2.7; Is 10.23; 14.27. 9 .f Rm 8.28; 9.11; Efl.ll; 3.11. rente. Elas dizem que Deus traz todas as coisas a exisb?ncia de acordo com Sua vontade ou con- selho. Em outras palavras, todas as obras de Deus, tanto na criac;ao quanto na redenc;ao, sao produto nao apenas de Seu pensamento, mas tambem de Sua vontade. Hu- manamente falando n6s podemos dizer que toda obra de Deus e precedida por uma deliberac;ao da mente e uma decisao da von- tade. Em alguns lugares da Escri- tura a palavra usada e conselho92 , em outros lugares e estabeleci- mento, determinac;ao ou decre- to93, em outros lugares eprop6si- to94, em outros e ordenac;ao95 e em outros e 0 favor ou beneplacito de Deus96 • Paulo fala do prazer e do conselho da vontade de Deus (Ef 1.5)1). Com rela<;ao ao conselho de Deus, a Escritura ensina que ele e excelente e maravilhoso (Is 28.29; Jr 32.19), independente (Mt 11.26), imutavel (Hb 6.17), indestrutivel (Is 46.10) e que Deus esoberano sobre todas as coisas, inclusive sobre a transgressao dos injustos ao entregar Jesus acruz e amorte (At 2.23; 4.28). 0 fato de coisas e eventos, inclusive os pensamen- 9 ; At 13.48; 17.31; Rm 8.29)0; Ef 1.5, 11. A trndu~ao de Almeida traz a palavra predestina~ao c suns congeneres (N. do T.). 96 Is 49.8; 53.10; 60.10; 61.2; Mt 11.26; Ef1.5,9. 176
  • 176.
    A CRIA<;:Ao EA PROVIDENCIA tos e atos pecaminosos dos ho- mens, terem sido eternamente co- nhecidos e fixados nesse conselho de Deus, nao subtrai deles o seu proprio carater, mas estabelece e garante todos eles, cada urn com seu proprio tipo e natureza, em seu proprio contexto e circunsHin- cias. Incluidos nesse conselho de Deus estao o pecado e a puni<;ao, mas tambem a liberdade e a res- ponsabilidade, o sensa de culpa e a consciencia, a justi<;a e a lei. Nesse conselho de Deus tudo o que acontece esta exatamente no mesmo contexto que esta quando acontece diante dos nossos olhos. As condi<;6es sao definidas nele, assim como as consequencias, os meios e os fins, as formas e os re- sultados, as ora<;6es e as respos- tas as ora<;6es, a fee a justifica<;ao, a santifica<;ao, e a glorifica<;ao. De acordo com os termos do conse- lho, Deus deu Seu Filho unigenito para que todo aquele que nEle ere tenha vida eterna. Entendo que dessa forma, no sentido da Escritura, de acor- do com o Espirito, que a confis- sao do sabio conselho de Deus e uma fonte de rico conforto. Dessa forma nos aprendemos que nao e uma casualidade cega, nem urn destino obscuro, nem uma vonta- de irracional ou maligna, nem qualquer for<;a natural que gover- na a ra<;a humana e o mundo, e que o governo de todas as coisas esta nas maos do Deus Todo-Po- deroso e do Pai misericordioso. Certamente a fe e necessaria para que seentenda isso. Ea fe que nos mantem constantes na luta da vida, e por causa dela que nos avan<;amos para o futuro com es- peran<;a e confian<;a. 0 conselho do Senhor permanece para sem- pre. 0 come<;o da execw;ao des- se conselho do Senhor foi a cria- <;ao do mundo. Assim como so- mente as Sagradas Escrituras po- dem nos dar a conhecer o conse- lho de Deus, da mesma forma so elas podem nos mostrar a origem de todas as coisas, falando-nos da onipotencia criativa de Deus. A questao da origem do homem, dos animais, das plantas, e muito antiga, mas e sempre atual. A ci- encia nao pode fornecer resposta para ela. A propria ciencia e uma cria<;ao e urn produto do tempo. Ela assume sua posi<;ao na base das coisas que foram feitas e as- sume a existencia das coisas que investiga; portanto, pela sua pro- pria natureza, a ciencia nao pode voltar no tempo, antes que tudo viesse a existir. A ciencia nao pode penetrar no momenta em que tudo se tornou real. 177 Por isso a experiencia, a in- vestiga<;ao empirica, nada podem nos dizer sabre a origem das coi- sas. A reflexao da filosofia tam- bern tern, atraves dos seculos, pro- curado uma explica<;ao para o mundo. Cansados de pensar os fi-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 16sofos geralmente procuram des- canso dizendo que o mundo nao teve origem, que ele existiu eter- namente e que vai continuar exis- tindo. Essa e uma conclusao que diferentes fil6sofos desenvolve- ram em diferentes dire<;6es. Pou- cos deles fizeram a suposi<;ao cla- ra de que esse mundo como n6s 0 conhecemos e eterno, ou que continuaria existindo eternamen- te. Poucos disseram isso, mas essa afirma<;ao encontrou tantas difi- culdades que hoje em dia eles sao geralmente repudiados. Ao mes- mo tempo a ideia da evolu<;ao tern ganho terreno. De acordo com essa ideia, nada ee tudo se torna. 0 que o universo inteiro apresen- ta, portanto, e 0 espetkulo de algo que nunca come<;ou e que nunca cessara- urn processo continuo. A evolu<;ao e, sem duvida, algo maravilhoso, mas sempre se deve assumir que ha algo envol- vido no processo que carrega o germen do desenvolvimento. Na- turalmente a evolw;ao nao e e nao pode ser uma for<;a criativa, uma for<;a que traz todas as coisas a existencia; ela e uma expressao do processo atraves do qual algo se desenvolve quando ja existe. A teoria da evolu<;ao, consequente- mente, carece de potencial de ex- plica<;ao para a origem das coisas. Ela implicitamente procede da ideia de que essas coisas, em seu estado nao desenvolvido, existi- am eternamente. A teoria da evo- 178 lu<;ao come<;a com uma pressupo- si<;ao que e totalmente inde- monstravet e por isso ela tambern assume uma posi<;ao de fe. Nisso ela e semelhante ateoria da cria- <_;:ao de todas as coisas pela mao de Deus. Mas fazer essa pressuposi- <;ao implicita nao garante a teoria da evolu<_;:ao. Ela pode alegar que todas as coisas sempre existiram em urn estado nao desenvolvido. Sendo assim, ela deve dar algum tipo de registro da condi<_;:ao ori- ginal na qual essas coisas existi- ram e na qual o nosso mundo se formou. Quanto a isso, duas res- pastas podem ser dadas, depen- dendo de qual das duas corren- tes e a preferida. No mundo n6s geralmente temos noticia de dois tipos de fen6menos ou manifes- ta<;6es. N6s geralmente os chama- mos de espirito e materia, alma e corpo, coisas invisiveis e coisas visiveis, fen6menos psiquicos e fisicos. Mas esse dualismo nao e satisfat6rio. Hoje em dia as pes- soas querem reduzir tudo a urn prindpio. Epor isso que os te6ri- cos da evolu<;ao podem escolher urna das duas dire<_;:6es aprocura da natureza original das coisas. Em primeiro lugar eles po- dem dizer que a materia e prima- ria, eterna, e sempre teve energia potencial. Essa e a dire<_;:ao do materialismo. Ela sustenta que a materia e o constituinte eterno e originalmente imutavel do mun-
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    A CmA<;:Ao EAPRovrof:NcrA do, e a partir daf tentam explicar a energia em termos da materia, a alma em termos do corpo, o psi- quico em termos do fisico. Mas existe tambem a outra posi<;ao, a posi<;ao que diz que a energia e primaria, que ela e 0 pano de fun- do de tudo o que existe, que a materia e uma expressao ou ma- nifesta<;ao dessa energia e que o corpo nao cria a alma, mas a alma cria o corpo. Essa e a dire<;ao do panteismo. Ela sustenta que a energia eo principia basico e eter- no de todas as coisas, e tenta tra- <;ar a deriva<;ao do mundo a par- tir de uma energia elementar. Essa energia original penetrou atraves do mundo e criou todos os tipos de seres, seja espirito, mente, alma, ou seja lao que for. Ao usar esses nomes o panteismo tern algo mais em mente do que usualmen- te e denotado por esses termos. Ele nao esta pensando em urn Deus que tern razao e sabedoria, entendimento e vontade. Ele esta pensando em uma for<;a inconsci- ente, irracional e desprovida de vontade, uma for<;a que se torna consciente, racional e volitiva so- mente no homem, no curso do processo evolutivo. Essa energia eterna nao e urn espfrito, mas e chamada de espfrito porque em seu desenvolvimento ela se tor- nou urn. Em ambas as hip6teses, tan- to a do materialismo quanta a do pantefsmo, urn principia e assu- mido como o come<;o da evolu<;ao do mundo, urn prindpio que urn diz que e predominantemente material e 0 outro diz que e pre- dominantemente espiritual, e do qual nenhuma ideia clara pode ser formada. Ele ealgo mais ne- gativo do que positivo. Nada e definitivo; esse prindpio mera- mente tern o potencial de se tor- nar tudo. Euma potencialidade absoluta (uma possibilidade infi- nita), urn pensamento abstrato deificado. No fundo e a imagina- <;ao de algo, na ausencia do Deus verdadeiro, no qual o homem ci- entffico coloca sua esperan<;a de explicar 0 mundo, mas que nao e mais merecedor de confian<;a do que os deuses das na<;6es. As Sagradas Escrituras assu- mem uma posi<;ao diferente. 0 que elas nos dizem sobre a origem das coisas nao nos e oferecido como resultado de uma investiga- <;ao cientffica, nem de uma expli- ca<;ao filos6fica do mundo, mas para que, atraves do que ela tern a nos dizer, n6s conhe<;amos o unico e verdadeiro Deus e colo- quemos nEle toda a nossa confi- an<;a. Essa e uma explica<;ao que nao procede do mundo, mas de Deus. Ela nao diz que o mundo e eterno, mas que Deus e eterno. Antes que os montes nascessem e se formassem a terrae o mundo, de eternidade a eternidade, Ele e Deus (Sl 90.2). Ele e Jeova, o que era, 0 que e, e 0 que ha de vir, que 179
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista esta alem da riqueza de todas as palavras, urn Ser completamente imutavel. Diferentemente dEle, o mundo veio a existir e esta sem- pre em muta<;ao. A coisa contra a qual a Escritura primeiramente nos previne e a confusao de Deus com a Sua cria<;ao. A Escritura cor- ta pela raiz toda descren<;a, falsa cren<;a e supersti<;ao. Deus e o mundo sao essencialmente dife- rentes urn do outro. Eles se dife- renciam como Criador e criatura. Sendo uma criatura, todo o mundo tern sua origem em Deus. Nao ha algo como uma materia ou urn espirito existindo paralela- mente a Deus. 0 ceu, a terra e to- das as coisas foram criadas por Ele. Essa e a for<;a da palavra traduzida como criou na Biblia. Em urn sentido geral a Escritura usa essa palavra tambem para as obras de conserva<;ao da cria<;ao (Sl104.30; Is 45.7). Mas em urn sen- tido mais estrito a Escritura usa essa palavra para dizer que Deus criou todas as coisas do nada. De fato, a expressao de que Deus criou todas as coisas do nada nao ocorre nas Escrituras. Ela s6 ocor- re no segundo livro de Macabeus (7.28). Alem disso, esse termo, do nada, pode causar enganos. 0 que e nada nao existe e nao pode ser o prindpio ou origem a partir do qual alguma coisa passe a existir. Alem disso, nada pode vir do nada. 0 que a Escritura diz e que o mundo foi criado por Deus (Ap 180 4.11) e que as coisas que sao vis- tas foram feitas das coisas que nao aparecem (Hb 11.3). Da mesma forma a expressao do nada pode ser usada em urn sentido util e pode prestar excelente servi<;o contra todos os tipos de heresia, pois ela nega que o mundo possa ter sido feito a partir de alguma materia ou energia que coexistiu eternamente com Deus. De acor- do com a Escritura, Deus nao so- mente formou o mundo. Ele criou o mundo. Humanamente falando, n6s podemos dizer que Deus existia sozinho quando o mundo foi criado por Seu conselho e por Sua vontade. Urn absoluto nao-ser precedeu o ser do mundo, e nes- se sentido n6s podemos dizer que Deus fez o mundo do nada. Esse certamente e o ensino da Escritura: que Deus existe des- de a eternidade (Sl90.2), mas que omundo teve urn come<;o (Gn 1.1). Varias vezes n6s lemos que Deus fez uma coisa ou outra - predestinou, disse, ou amou - desde antes da funda<;ao do mun- do (Jo 17.24; Ef 1.4). Ele e tao po- deroso que, ao £alar, as coisas pas- sam a existir (Sl 33.9), e chama a existencia as coisas que nao exis- tem (Rm 4.17). Ele criou o mundo pela Sua propria vontade (Ap 4.11). Ele fez todas as coisas, o ceu, a terra e tudo o que neles ha (Ex 20.11; Ne 9.6). Dele e por Ele e para Ele sao todas as coisas (Rm 11.36). Portanto Ele e tambem o
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    A CRIA<;:Ao EA PRoVIDENCIA Todo-Poderoso Possuidor do ceu e da terra (Gn 14. 19,22), que faz todas as coisas como lhe agrada, e cujo poder nao conhece limites, de quem todas as criaturas pos- suem urn absoluto senso de de- pendencia (Sl 115.3; Dn 4.35). A Escritura nada sabe sobre uma materia eterna nao criada parale- la a Deus. Ele e a causa {mica e absoluta de tudo o que existe e acontece. 0 visivel nao foi feito pelo visivet mas pela palavra de Deus (Hb 11.3). * * * * * Se Deus, que eo Ser eterno, criou o mundo pela Sua vontade, naturalmente surge uma questao: Par que e para queJim Ele fez isso? Para encontrar uma resposta para essa questao, a ciencia e a filoso- fia tern tentado fazer do mundo uma necessidade e a partir dai deduzir a resposta do Ser de Deus. Novamente duas possibili- dades sao oferecidas. Alguns di- zem que Deus era tao pleno e tao rico que nao conseguiu controlar a situac;:ao, que Deus careceu de poder sobre Seu proprio Sere que o mundo conseqiientemente fluiu dele como urn riacho flui da fon- te, como a agua flui do vaso que esta transbordando. Outros assu- mem a posic;:ao oposta, dizendo que Deus em Si mesmo era pobre e vazio, que Ele possufa urn de- sejo famigerado, e que por isso 181 trouxe 0 mundo aexistencia, para encher-se e suprir Suas necessida- des. De acordo com esses dois pontos de vista, o mundo era uma necessidade de Deus, seja para alivia-lo de Sua superfluidez ou para compensar Sua necessidade. Ambas as interpretac;:oes sao incompativeis com a Escritura. A Escritura assume uma posic;:ao diametralmente oposta a essas duas interpretac;:oes. De acordo com essas duas posic;:oes, o cen- tro de gravidade foi transferido de Deus para o mundo, e Deus exis- te para o mundo. Deus e o ser menor eo mundo eo ser maior, pois o mundo serve para redimir e salvar Deus, que esta infeliz em razao de superabundancia ou de insuficiencia. Embora esse pensa- mento ainda esteja em moda en- tre os pensadores de nosso tem- po, ele e uma blasfemia. A Escri- tura, que e a Palavra de Deus, e que do inicio ao fim revela o pon- to de vista de Deus, declara ple- na, poderosa e sonoramente que Deus nao existe em func;:ao do mundo, mas o mundo existe em func;:ao de Deus, por causa dEle e para gloria dEle. Deus e em Si mesmo auto suficiente. Ele nao precisa do mundo, nem de qualquer cria- tura seja de que forma for, para sua propria perfeic;:ao. Pode, porventura, o homem ser de al- gum proveito para Deus? Tern o Todo-Poderoso interesse em que
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sejas justo ou algum lucro em que fac;:as perfeitos os teus caminhos (J6 22.2,3)? A justic;:a do homem nao e vantagem para Deus, e a transgressao do homem nao 0 empobrece. Ele nao e servido por maos humanas, como se de algu- ma coisa precisasse; pois Ele mes- mo e quem a todos da vida, res- pirac;:ao e tudo o mais (At 17.25). Por isso e que a Escritura enfatiza tao fortemente que Deus causou todas as coisas porum ato de Sua vontade. Nao havia algo como uma forc;:a ou uma necessidade no Ser de Deus que pudesse constrange-lo a criar o mundo. A criac;:ao e em sua totalidade um ato livre de Deus. Ela nao pode ser explicada como a conseqiien- cia inevitavel da justic;:a de Deus, apesar de Sua justic;:a tambem ser manifesta nela, pois a quem Deus poderia ficar devendo alguma coisa? A criac;:ao tambern nao pode ser deduzida de Sua bondade e amor, apesar de tanto uma quan- to o outro serem manifestos no mundo, pois a vida em amor do Deus Triuno nao exigia um obje- to de amor alem de si mesmo. A causa da criac;:ao esimples e so- mente o livre poder de Deus, Seu eterno beneplacito, Sua absoluta soberania (Ap 4.11). E claro que isso nao equivale a dizer que a criac;:ao do 97 Veja tambem Ef3.9; Cl1.16; Hb 1.2. 98 f6 26.13; 33.4; 1Co 2.10. 182 mundo foi urn ato irracional, algo feito arbitrariamente. Nisso, e em todas as outras coisas, n6s deve- mos descansar na soberania e no beneplacito de Deus como o fim de toda contradic;:ao, e n6s sere- mas exercitados nisso por uma total confianc;:a e obediencia. Da mesma forma Deus tern Suas ra- z6es santas e sabias para o ato de criac;:ao. A Escritura nos prova isso em primeiro lugar ao representar a criac;:ao como urn ato do Deus Triuno. Ao fazer o homem, Deus primeiro tomou conselho consigo mesmo e disse: "Fac;:amos o ho- mem a nossa imagem, conforme anossa semelhanc;:a" (Gn 1.26). Da mesma forma, todas as obras di- vinas repousam sobre uma deli- berac;:ao de Deus. Antes da criac;:ao Ele consultou a sabedoria (J6 28.20 ss.; Pv 8.22 ss.). E a Seu tempo Deus criou todas as coisas atraves do Verbo que estava com Deus e que era Deus (Jo 1.1-3)97 e criou- as no Espirito que perscruta todas as profundezas de Deus, da vida as Suas criaturas, e enfeita OS ceus98 • Por isso o salmista procla- ma: "Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia esta a terra das tuas riquezas" (51104.24). Alem disso, a Escritura nos ensina que Deus criou todas as
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    A CmA<;:Ao EA PRovmENCIA coisas, e sustenta-as, e rege-as para a Sua propria honra. 0 pro- posito pelo qual a criac;ao foi fei- ta nao esta na propria criac;ao, pois o estabelecimento do propo- sito precede o uso dos meios. A Escritura ensina que, assim como tudo e de Deus, tudo tambem e por Ele e para Ele (Rm 11.36). E a Escritura desenvolve esse ensino mais particularmente quando re- gistra que OS ceus proclamam a gloria de Deus (Sl19.1), que Deus se glorifica em Farao (Ex 14.17) e no cego de nascenc;a (Jo 9.3), que Ele concede todos os favores de Sua Grac;a em considerac;ao ao Seu proprio nome (Is 43.25; Ef 1.6), que Cristo veio para glorificar o Pai (Jo 17.4) e que chegara o dia em que todo joelho se dobrara e toda lingua confessara Sua gloria (Fp 2.10). Edo agrado de Deus fazer com que as excelencias de Seu Ser Triuno se manifestem em Suas criaturas, e assim preparar honra e gloria para Si mesmo nes- sas criaturas. Para essa glorifica- c;ao de Si mesmo Deus nao preci- sa do mundo, pois nao e a criatu- ra que independente e suficiente- mente exalta a honra de Deus; pelo contrario, e Ele que, por meio de Suas criaturas ou sem elas, glorifica Seu proprio nome e revela-se a Si mesmo. Deus, par- tanto, nunca procura a criatura para encontrar algo de que esteja precisando. Todo o mundo, em sua largura e profundidade, e 183 para Ele urn espelho, no qual Ele ve refletidas as Suas excelencias. Ele sempre repousa em Si mesmo como o mais elevado bern, e per- manece eternamente abenc;oado por Suas proprias benc;aos. * * * * * A Escritura nos diz nao so- mente que Deus chamou o mun- do aexistencia do nada, mas tam- bern nos diz algo sobre a forma pela qual a criac;ao foi feita. Ela comec;a com o registro de que no comer;o Deus criou os ceus e a terra (Gn 1.1). Esse comec;o aponta para o momenta no qual essas coisas comec;aram a existir. 0 proprio Deus nao tern infcio, nem pode ter. Nem o Verbo que estava com Deus e que era Deus, pois Ele tambem existe desde a eternidade. Esse comec;o marca o momenta em que as coisas cria- das vieram aexistencia. Portanto, o tempo e o espac;o tambem tive- ram seu inicio. De fato, nem urn nem outro sao criaturas indepen- dentes, chamados aexistencia por urn ato poderoso e especial de Deus. Nos nada lemos sobre isso no registro da criac;ao. Contudo, o tempo e o espac;o sao formas de existencia indispensaveis para seres criados. Somente Deus e eterno e onipresente. As criaturas, por serem criaturas, estao sujeitas ao tempo e ao espac;o. 0 tempo torna possivel que algo continue
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    Ftmdamentos Teol6gicos daFe Cristii existindo em uma sucessao de momentos, pois uma coisa existe depois da outra. 0 espa~o torna possivel que urn corpo se expan- da por todos os lados, pois urn corpo existe proximo ao outro. 0 tempo e o espa~o, portanto, co- me<;am a existir no mesmo tempo em que as demais criaturas, e como formas de existencia indis- pensaveis para elas. Elas nao exis- tiam antes como formas vazias para serem enchidas pelas criatu- ras, pois quando nada existe, nao existe tempo, nem espa~o. Eles nao foram feitos independente- mente, paralelamente as criaturas, como acompanhamentos, como anexos. Eles foram criados em e com as criaturas como formas nas quais essas criaturas devem ne- cessariamente existir como criatu- ras limitadas e finitas. Agostinho estava certo quando disse que Deus nao fez o mundo no tempo, como se ele tivesse sido criado em uma forma ou condi~ao previa- mente existente, mas foi criado como tempo, eo tempo foi criado como mundo. 0 primeiro versiculo de Genesis diz que no come~o Deus criou OS ceus e a terra. Como ceus e terra, a Escritura aqui quer di- zer tudo o mais (Gn 2.1,4; Ex 20.11), ou seja, todo o mundo, todo o universo, que de acordo com a vontade de Deus desde o 99 1 Re 8.27; Sl 2.4; 115.16; Mt 6.9. 184 inicio foi dividido em duas par- tes. Essas partes sao a terra, com tudo o que esta sobre e dentro dela, e OS ceus, que compreen- dem tudo o que esta fora e sobre a terra. Aos ceus, nesse sentido, pertencem o firmamento, eo ar, e as nuvens (Gn 1.8,20), as estrelas, que constituem o exercito dos ceus (Dt 4.19: Sl 8.3), e tambem o terceiro ceu, ou 0 ceu dos ceus, que e a morada de Deus e dos anjos99 • E quando o primeiro versiculo de Genesis registra que Deus criou os ceus e a terra no come~o, n6s nao entendemos, por urn lado, que isso seja apenas urn resumo de tudo que se seguiu, nem, por outro lado, que esteja indicando que o ato de Deus des- crito em Genesis 1.1 imediatamen- te chamou a existencia OS CeUS e a terra em sua completa condi~ao. A primeira interpreta~ao e refutada pelo fato de que o segun- do versiculo come~a com a con- jun~ao e: "E a terra era sem forma e vazia". Urn segundo fato e, par- tanto, acrescentado em uma serie continua ao fato registrado no versiculo urn. E a segunda inter- preta~ao nao pode ser aceita par- que 0 ceu como firmamento nao existiu ate Genesis 1.8, e porque 0 ceu e a terra s6 foram denomi- nados acabados, em Genesis 2.1. Apesar de n6s nao poder- mos falar sobre esse ponto com
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    A CmA<;:Ao EAPRovro.ENcrA absoluta certeza, n6s podemos considerar que os o~us dos ceus, a morada de Deus, foram criados pelo primeiro ato criativo de Deus registrado em Genesis 1.1 e que nessa ocasiao os anjos tambem foram criados. Repare que, em J6 38.4-7 o Senhor responde a J6 de dentro do redemoinho, que ne- nhum homem estava presente quando Ele lan<;;ou os fundamen- tos da terrae quando assentou sua pedra angular, mas que Ele com- pletou essa obra com o cantico das estrelas da alva eo jubilo dos filhos de Deus. Esses filhos de Deus sao os anjos. Os anjos, par- tanto, estavam presentes quando a cria<;;ao da terra e do homem foi concluida. Alem disso, pouco efalado sobre a cria<;;ao dos ceus dos ceus e dos anjos. Depois de menciona- los brevemente no primeiro versiculo, o registro de Genesis faz no segundo versiculo urn re- gistro mais amplo do acabamen- to da terra. Tal acabamento ou ar- ranjo foi necessario, pois, apesar da terra ja ter sido feita, ela exis- tia em urn estado selvagem e de- serto e estava coberta pelas trevas. :"6s nao lemos que a terra tornou- se selvagem, isto e, sem forma. Al- guns sustentam que foi isso o que aconteceu, e ao assumir essa po- si<;:ao eles mencionam urn julga- mento que teria acontecido de- 1 "" Cn 1.2; Ex 20.11; 31.17. pois da queda dos anjos, quando a terra ja estava pronta. Mas Genesis 1.2 menciona somente que a terra estava sem forma, isto e, que ela existia em urn estado sem forma definida, na qual a luz e as trevas, OS corpos e a agua, a terra seca eo mar, nao podiam ser diferenciados. Foram as obras de Deus, descritas em Genesis 1.3-10, que puseram fim afalta de forma da terra. Por isso eque esta regis- trado que a terra original era va- zia. Ela carecia dos enfeites de plantas e arvores e ainda nao era habitada por seres vivos. As obras de Deus, resumidas em Genesis 1.11 ss., colocam urn fim nessa vacuidade da terra, pois Deus nao criou a terra para que ela fosse vazia, mas para que o homem vi- vesse nela (Is 45.18). Claramente as obras de Deus no arranjo ou acabamento da terra sem forma e vazia sao divididas em dois gru- pos. 0 primeiro grupo de obras ou atos eintroduzido com a cria- c;:ao da luz. Ele traz aexistencia a diferencia<;;ao e a distin<;:ao de for- mas, tons e cores. 0 segundo gru- po come<;;a com a forma<;;ao dos luzeiros, o sot a lua e as estrelas e serve para encher a terra com os seus habitantes - passaros, pei- xes, animais eo homem. 185 Toda a obra da cria<;;ao, de acordo com os repetidos registros da Escritura100 , completou-se em
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista seis dias. Tern havido muitas di- ferenc;as de opiniao e liberdade de especulac;ao sobre esses seis dias. Ninguem menos que Agostinho julgou que Deus tinha feito tudo perfeito e completo e que os seis dias nao foram seis periodos su- cessivos de tempo, mas apenas alguns pontos dos quais a posi- c;ao e a ordem das criaturas de- vern ser observados. Por outro lado, ha muitos que sustentam que os dias da criac;ao devem ser considerados como perfodos de tempo muito mais longos do que unidades de vinte e quatro horas. A Escritura definitivamente fala de dias que sao reconhecidos pela sucessao de dias e noites e que formam a base da distribui- c;ao dos dias da semana em Israel e no calendario festivo. Contudo a Escritura contem dados que nos obrigam a pensar que esses dias de Genesis sao diferentes dos nos- sos dias ordinarios como determi- nados pela rotac;ao da terra. Em primeiro lugar n6s nao podemos ter certeza de que o que nose falado em Genesis 1.1,2 pre- cede o primeiro dia ou esta inclu- ido no primeiro dia. Em favor da primeira suposic;ao esta o fato que de acordo como versiculo 5o pri- meiro dia comec;a com o criac;ao da luz e que depois da tarde e da noite, segue-se a manha. Mas, apesar de poder-se reconhecer os eventos de Genesis 1.1,2 como o primeiro dia, pode-se levantar a 186 questao do dia atipico que consis- tiu de trevas e tambem o fato de que a durac;ao das trevas, que pre- cederam a criac;ao da luz, nao e mencionada. Em segundo lugar, os pri- meiros tres dias (Gn 1.3-13) devem ter sido muito diferentes dos que conhecemos, pois nossos dias de vinte e quatro horas sao causados pelas revoluc;oes da terra sobre seu eixo e pela correspondente diferenc;a referente ao sol que acompanha essas revolw;oes. Mas esses primeiros tres dias nao podem ter sido constituidos des- sa forma. Everdade que a distin- c;ao entre eles foi marcada pelo surgimento e desaparecimento da luz, mas o proprio livro de Genesis nos diz que o sol, a lua e as estrelas s6 foram formados no quarto dia. Em terceiro lugar, e certa- mente possivel que a segunda serie de tres dias tenha constitui- do a forma usual, mas se n6s le- varmos em conta que a queda dos anjos e dos homens e tambem o dih:ivio que ocorreu mais tarde causaram todo tipo de mudanc;as no cosmos, e se, alem disso, n6s observarmos que todas as esferas do periodo inicial diferem noto- riamente do desenvolvimento normal, entao nao parece impro- vavel que a segunda serie de tres dias, tambem seja diferente de nossos dias, em muitos aspectos. Finalmente, merece conside-
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    A CRIA<;:Ao EA PROVIDENCIA ra<;_:ao o fato de que tudo o que de acordo com Genesis 1 e 2 aconte- ceu no sexto dia, dificilmente pode ter acontecido nos limites de urn dia tal como n6s o conhece- mos, pois, de acordo com a Escri- tura, naquele dia ocorreu a cria- <;_:ao dos animais (Gn 1.24,25), a cri- a<;_:ao de Adao (Gn 1.26;2.7), o plantio do jardim (Gn 2.8-14), a proclama<;;ao da ordem proibitiva (Gn 2.18-20), o sono de Adao e a cria<;;ao de Eva (Gn 2.21-23). Apesar de tudo isso os seis dias continuam sendo a semana da cria<;_:aO, dentro da qual OS ceus e a terra e tudo o que neles ha fo- ram feitos. Esses dias indicam a ordem temporal na qual as cria- turas foram sucessivamente cria- das, mas ao mesmo tempo eles contem uma sugestao de urn re- lacionamento de categorias, no qual essas criaturas ficam umas sobre as outras. Nenhuma inves- tigac;ao cientffica pode derrubar esse relacionamento. Os sem for- ma precedem os formados em ca- tegoria e ordem, os inorganicos precedem os organicos, as plan- tas precedem os animais, e os ani- mais precedem o homem. 0 ho- mem e a coroa da criac;ao. A exe- cuc;ao e a prepara<;_:ao da terra cul- minam nele e convergem para ele. Repare que a Escritura nos fala pouco sobre a criac;ao dos ceus e dos anjos, limitando-se pri- 101 S/49.2; Lc 1.70; Ef1.21. 187 mariamente a terra. Em urn senti- do astronomico a terra pode ser pequena e insignificante. Emma- teria de massa e peso ela pode ser excedida por centenas de plane- tas, s6is e estrelas. Mas em urn sentido religioso e moral ela e o centro do universo. A terra e so- mente a terra foi escolhida para ser a morada do homem. Ela foi escolhida para ser a arena na qual a grande luta sera travada contra as fon;:as do mal. Ela foi escolhi- da para ser o lugar do estabeleci- mento do reino dos ceus. Tudo o que foi criado e re- sumido na Escritura sob o nome de ceus e terra e 0 seu exercito (Gn 2.1) ou sob o termo mundo. As palavras originais traduzidas sim- plesmente por mundo, em nossas Bfblias, algumas vezes designam o globo fisico da terra (1Sm 2.8; Pv 8.31), as vezes designam a terra como morada do homem e habi- tada pelo homem (Mt 24.14: Lc 2.1). Em outras ocasioes ela desig- na o mundo em sua natureza tem- poral, mutavel e transit6ria101 , e em outros casos ela significa a unificac;ao e a totalidade das cria- turas (Jo 1.10; At17.24). Esses dois ultimos significados possuem urn rico conteudo. Em outras pala- vras, n6s podemos sempre olhar para o mundo de dois pontos de vista diferentes: de sua largura e de seu comprimento.
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Em primeiro lugar, o mun- do e uma unidade, urn todo coe- rente, no qual sua unidade exibe uma inequivoca e rica diferencia- <;ao. Desde o come<;o, quando foi criado, o mundo compreende os ceus e a terra, o visivel e o invisi- vet anjos e homens, plantas e ani- mais, seres animados e inanima- dos, espirituais e nao espirituais. Todas essas criaturas sao de novo e infinitamente diferenciadas. En- tre os anjos ha os tronos e pode- res, principados e potestades. Entre a ra<;a humana existem ho- mens e mulheres, pais e filhos, soberanos e servos, povos e na- <;5es, idiomas e dialetos. E da mesma forma as plantas, os ani- mais e ate os minerais sao subdi- vididos em classes e grupos, fa- milias e especies, variedades e ti- pos. Dentro dos limites de todas essas criaturas ha uma natureza peculiar que elas receberam de Deus (Gn 1.11, 21 ss.), e dessa for- ma elas estao sujeitas as suas pr6- prias leis. Elas existem uma depois da outra nao somente no sentido em que foram criadas, mas tam- bern existem pr6ximas umas das outras e esse eo motivo pelo qual elas continuam existindo ate os nossos dias. 0 carater da cria<;ao nao e uniforme, mas multiforme, e contem, tanto em sua inteireza quanto em suas partes, as mais ricas e bonitas variedades. Ao mesmo tempo o mundo continua sua existencia no tempo. 188 0 fato de que tudo o que Deus fez era muito born (Gn 1.31), nao sig- nifica que tudo ja era como deve- ria ser. Assim como o homem, apesar de ter sido criado a ima- gem e semelhan<;a de Deus, ter recebido urn chamado e urn des- tino que ele tinha que alcan<;ar por meio de suas obras, da mesma forma o mundo, quando foi cria- do, estava em seu come<;o, nao em seu fim. Ele ainda teria uma lon- ga hist6ria pela frente, na qual manifestaria mais rica e claramen- te as excelencias de Deus. Portan- to, a cria<;ao eo desenvolvimento nao se excluem. Deus criou urn mundo de variadas e ricas dife- rencia<;oes, no qual os varios tipos de criaturas possuem suas pr6- prias naturezas, e no qual cada natureza tern suas propriedades e leis e somente por isso a evolu- <;ao e possivel. Toda essa evolu- <;ao tern seu ponto de partida e tambem sua dire<;ao e seu prop6- sito, na cria<;ao. Embora o pecado tenha provocado disturbios e des- trui<;ao nessa evolu<;ao ou desen- volvimento, Deus cumpriu Seu conselho, sustentou o mundo eo conduz ao seu destino. Quando a Escritura fala des- sa forma sobre o mundo, ela im- plicitamente pressupoe que ha apenas urn mundo. Na tese dos fi- 16sofos esse assunto e apresenta- do de forma bern diferente. Nao apenas havia muitos- e ainda ha -que afirmavam que varios mun-
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    A CRIA~Ao EA PRovmF:NCIA dos coexistiram paralelamente uns aos outros, e que nao apenas a ter- ra, mas tambem varios outros pla- netas eram habitados por criatu- ras vivase racionais, mas tambem afirmavam que varios mundos se sucederam no decorrer do tempo. Portanto, o nosso mundo nao eo unico, mas foi precedido por inu- meraveis mundos e sera sucedi- do por tantos outros. Alguns ane- xaram a essa afirma<;ao a ideias de que tudo o que existe ja exis- tiu em urn mundo antigo e volta- ra a existir em urn mundo futuro. Em resumo, existe urn processo continuo; tudo esta sujeito a lei eterna do aparecimento e desapa- recimento, emergencia e submer- gencia, eleva<;ao e rebaixamento. A Escritura ignora comple- tamente essas imagina<;oes. Ela nos diz que no come<:;o Deus criou esse mundo, que ele percorrera uma hist6ria com seculos de du- ra<;ao e que depois desse proces- so hist6rico, o eterno Sabbath tera inicio para o povo de Deus. A Es- critura nada sabe sobre a habitabilidade de outros plane- tas. De fato, ela nos ensina que o mundo e infinito em variedade, que existem nao apenas homens, mas anjos tambem e que alem da terra ha o ceu. Alem disso, ela afir- ma que somente o homem foi cri- ado aimagem de Deus, que o Fi- lho de Deus nao assumiu a natu- reza de anjos, mas de homens, e que o reino dos ceus se espalha 189 nessa terra. Dessa forma a Escritura nos diz que o mundo e finito. Isso sig- nifica, em primeiro lugar, que o mundo teve urn come<;o e que foi criado junto como tempo. A ques- tao de ha quanto tempo o mundo existe nada acrescenta e nada sub- trai asua finitude. Mesmo que o mundo exista ha milhares ou mi- lhoes de anos, isso nao faz com que ele seja eterno, no sentido em que Deus e eterno. 0 mundo con- tinua sendo limitado, temporal e coexistente com o tempo. E im- portante observar que a Escritu- ra, que nos ensina que o mundo teve urn come<;o, tambem nos en- sina que ele nao tera fim. Eclaro que ele tera urn fim em sua pre- sente forma, pois a forma desse mundo e passageira, mas nao sua substfmcia e essencia. Mas apesar do mundo, os homens e os anjos continuarem existindo no futuro, eles continuarao sendo criaturas e nunca compartilharao da eterni- dade que Deus possui. 0 mundo existe no tempo e continuara exis- tindo nele, embora em outra dispensa<;ao seja utilizado urn padrao de medidas inteiramente diferente desse que conhecemos. E da mesma forma que o m undo e limitado pelo tempo, ele tam- bern e limitado pelo espa<;o. De fato, a ciencia tern expandido seu raio de a<:;ao de forma fantastica; o mundo tern se tornado urn lu- gar imponentemente maior do
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista que foi para nossos avos; n6s fi- camos tontos ao ouvirmos o nu- mero e a magnitude das estrelas, cada uma das quais e urn mun- do, e a distancia que as separa do nosso mundo vai alem de qual- quer imagina<;:ao, mas apesar dis- so o mundo nao pode ser consi- derado eterno como Deus e eter- no. A diferen<;:a entre o eterno eo duradouro e de tipo, nao de grau. N6s nao podemos imaginar urn tempo e espa<;:o alem do mundo. N6s nao podemos imaginar que, algum dia, poderemos tocar a fronteira do universo e sermos ca- pazes de olhar fixamente para o vazio. 0 tempo e o espa<;:o passu- em a mesma extensao do mundo, indo tao longe quanto o mundo pode ir e estando cheios de coi- sas criadas. Mas todos juntos - espa<;:o, tempo e mundo - sao finitos. A associa<;:ao de partes finitas, nao importa quao grandes sejam essas partes, nunca resulta- ra algo infinito. S6 Deus e eterno, infinito e onipresente. Finalmente, as Escrituras nos ensinam que o mundo e bom. Epreciso muita coragem para di- zer isso em nossos dias. 0 tom do seculo dezoito foi muito otimis- ta; OS homens daquela epoca viam tudo por urn lado brilhante. Eles pensavam que Deus tinha criado o melhor de todos os mundos possiveis. Mas nos seculos dezenove e vinte a vida, o mun- do e a sociedade sao vistos de urn 190 ponto de vista diferente. Poetas, fil6sofos e artistas de nosso tem- po dizem que tudo e miseria no mundo, que o mundo e tao mal quanto pode ser, e que se ele des- cesse mais urn degrau ele deixa- ria de existir. Tudo o que existe, de acordo como pensamento des- sas pessoas, merece apenas a ani- quila<;:ao. E apesar de alguns ain- da terem vontade de se divertir e aproveitar toda migalha de pra- zer que o mundo possa oferecer (comamos e bebamos, que ama- nha morreremos), outros se ren- dem ao desencorajamento ou ao cansa<;:o ou a sonhos visionarios de esperan<;:a por urn futuro, uma utopia socialista, uma felicidade alem da sepultura, urn nirvana - algo que o presente nao possa dar. A Escritura tern urn ponto de vista diferente sobre esse assun- to. Ela nos diz que o mundo e born, muito born, na forma em que foi feito pelas maos de Deus (Gn 1.31). Ela nos diz tambem que, por causa do pecado, a terra foi amaldi<;:oada e o homem esta su- jeito acorrup<;:ao e amorte, e toda a cria<;:ao esta sujeita a vaidade. Em lugar nenhum a fragilidade e a transitoriedade da vida, a insig- nificancia e a pequenez de tudo o que existe, a profundidade e a dor do sofrimento sao mencionados tao forte e vivamente como nas Sagradas Escrituras. Mas elas nao param nesse ponto. Elas vao alem e explicam que apesar dessa que-
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    A CRIA<;:Ao EA PROVIDENCIA da, da culpa e da vaidade desse mundo, o benepLicito de Deus esta sendo cumprido. Elas ensi- nam que por causa desse destino ao qual o mundo esta sendo con- duzido, esse mundo pode nova- mente ser chamado born; e elas ensinam que, apesar do pecado, o mundo e e continuara sendo urn meio pelo qual Deus glorifica Seus atributos, e urn instrumento que Ele usa para honrar Seu nome. E, finalmente, as Escrituras concluem sua instruc;ao a respei- to do mundo dando a gloriosa promessa de que esse mundo, com todo o seu sofrimento e opressao, se tornara novamente born para n6s quando sujeitarmos nossa vontade ahonra de Deus e nos dedicarmos aSua gloria. To- das as coisas cooperam para o bern daqueles que amam a Deus (Rm 8.28). N6s aprendemos a gloriarmo-nos ate mesmo nas tri- bulac;oes (Rm 5.3). Nossa fee a vi- t6ria que vence o mundo (lJo 5.4). * * * * * Todas essas considerac;oes naturale diretamente, conduzem- nos da criac;ao para a providencia. Desde o momento em que o mun- do em seu todo ou cada urn de seus habitantes foi chamado a existencia pelo ato criativo de Deus, eles imediatamente ficaram sob a vigilancia da providencia de Deus. Aqui nao ha transic;ao gra- 191 dual, nem qualquer tipo de abis- mo ou brecha. Pois exatamente como as criaturas, por serem cria- turas, nao podem nascer de si mesmas, da mesma forma elas nao podem, por urn minuto se- quer, existir por si mesmas. A pro- videncia caminha de maos dadas com a criac;ao. Elas sao compa- nheiras. Portanto, uma intima cone- xao e urn relacionamento estreito existe entre elas. E e da maior im- portancia manter, contra toda ameac;a deista, essa inseparavel conexao entre a criac;ao e a provi- dencia. 0 deismo aceita a ideia de uma criac;ao originat mas ere que Deus, depois deter criado o mun- do, abandonou-a a sua propria sorte. Nesse caso a noc;ao de cria- c;ao serve apenas para dar ao mun- do sua existencia independente, e nesse sentido e uma ideia que foi aceita ate mesmo por Kant e Darwin. Mas a ideia e que, ao cri- ar o mundo, Deus dotou-o com total independencia e equipou-o com energias e dadivas suficien- tes para que pudesse por si mes- mo existir perfeitamente bern e pudesse tambem, sob todas as cir- cunstancias, salvar-se. 0 mundo, de acordo com uma figura famili- ar, e como urn relogio, que, de- pais de acionado, funciona por si mesmo. Naturalmente essa foi uma ideia que conduziu a urn pensamento posterior de que o mundo nao tern necessidade de
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista revela~ao, pois ele alcan~ara a verdade por suas pr6prias for~as e pelos recursos de que disp6e. Como podemos ver, o deismo traz o racionalismo em seu bojo - ou seja, o movimento que afirma que a razao pode chegar a toda verdade apenas pelo uso de seus pr6prios recursos. Da mesma forma o deismo da asas ao pelagianismo - ou seja, a doutri- na de acordo com a qual o desejo do homem pode fazer com que ele alcance sua salvac;ao. De acordo com o deismo, o desejo do ho- mem, assim como sua razao, foi criado para ser independente, e foi equipado com dons e energi- as permanentes, que fazem com que a obra de qualquer Mediador da salva~ao seja superflua. Enecessaria, entao, em vis- ta da alternativa deista, aderirmos arelac;ao existente entre a criac;ao e a providencia. A Escritura faz isso. Ela chama a obra da provi- dencia de dadiva da vida e ativi- dade preservadora (J6 33.4; Ne 9.6), renova~ao (Sl104.30), fala (Sl 33.9), vontade (Ap 4.11), trabalho (Jo 5.17), o sustento de todas as coisas pela palavra de Seu poder (Hb 1.3), cuidado (lPe 5.7) e tam- bern de cria~ao (Sl104.30; Is 45.7). 0 que esta implicado em todas essas express6es e que depois da cria~ao do mundo Deus nao o abandonou, nem desprezou-o . 10 ' Gn 22.8; 1Sm16.1; Ez 20.6; Hb 11.40. 192 Deus nao empurrou o mundo para o lado ou para tras depois de te-lo criado. A palavra provi- dencia significa que Deus supre o mundo em todas as suas neces- sidades102. Esse nao e urn ato s6 da mente de Deus, mas tambem de Sua vontade, em decorrencia de Seu conselho. Euma ativida- de pela qual, de momento em momento, Ele conserva o mundo em sua existencia. A manuten~ao, que e geral- mente vista como a primeira ati- vidade da providencia, nao e uma supervisao passiva. 0 ponto nao e que Ele leva o mundo a existir, mas que Ele faz com que o mun- do exista. Isso e manuten~ao no sentido verdadeiro da palavra. Muito lindamente o Catecismo de Heidelberg descreve essa provi- dencia como "o poder Todo Po- deroso e sempre presente de Deus, pelo qual Ele sustenta o ceu, a terrae todas as Suas criatu- ras". Virtude, for~a e poder pro- cedem de Deus, saem dele, fazen- do com que o mundo continue a existir, da mesma forma que fez com que ele fosse criado. Sem re- ceber essa for~a nenhuma criatu- ra pode existir nem sequer por urn momento. No momento em que Deus removesse Sua mao e suspendesse o envio de Sua for- ~a, a criatura seria reduzida a nada. Nada vern aexistencia, nem
  • 192.
    A CmA<;:Ao EA PROVIDENCIA permanece existindo sem que Deus envie Sua Palavra e Seu Es- pfrito (Sl104.30; 107.25). Somente Deus fala, age e quer por Si mes- mo. A for<;a de Deus nao vern de longe, mas de perto; ela e uma for<;a onipresente. Deus esta pre- sente com todas as Suas excelen- cias e com todo o Seu Ser em todo o mundo e em todas as Suas cria- turas. Nele n6s vivemos, nos mo- vemos e existimos (At 17.28). Ele nao esta longe de quem quer que seja (At 17.27). Ele e urn Deus pro- ximo, nao urn Deus distante. Nin- guem pode se esconder em luga- res tao secretos que Deus nao pos- sa encontra-lo. Ele enche os ceus e a terra (Jr 23.23,24). Quem po- deria fugir de Seu Espfrito, ou sair de Sua presen<;a? Ele esta no ceu e no reino dos mortos, nas partes mais profundas do mare nas mais densas trevas (Sl 139.7 ss.). Sua manuten<;ao, Seu poder susten- tador, estende-se a todas as cria- turas: aos lirios do campo (Mt 6.28), as aves no ceu (Mt 6.26), e ate aos fios de cabelo da cabe<;a (Mt 10.30). Toda criatura existe de acordo com sua natureza - como ela existe equal a dura<;ao de sua existencia - atraves do poder de Deus. Da mesma forma que tudo procede dEle, tudo procede atra- c'es dEle (Rm 11.36). 0 Filho, atra- Yes de quem Deus fez o mundo, continua a sustentar todas as coi- sas pela Palavra de Seu poder (Hb 193 1.2,3). Ele e antes de todas as coi- sas, e nEle tudo subsiste (Cl1.17) e todas as coisas sao criadas e renovadas pelo Seu Espfrito (Sl 104.30). * * * * * Por causa desse estreito re- lacionamento entre a cria<;ao e a providencia, a providencia e, as vezes, chamada de continua<;ao da cria<;ao ou cria<;ao progressiva. Essa designa<;ao pode ser enten- dida em urn sentido positivo; con- tudo, n6s devemos nos prevenir contra o erro. Com a mesma seri- edade com que n6s insistimos em manter a conexao e a rela<;ao en- tre a cria<;ao e a providencia n6s devemos tambem manter a distin- <;ao entre as duas. Se ao negar essa conexao n6s serfamos envolvidos em urn defsmo (cren<;a em Deus sem a revela<;ao), ao negar essa distin<;ao n6s seriamos envolvi- dos em uma especie de pan- teismo. 0 panteismo mantem a posi<;ao de que a diferen<;a em especie entre Deus eo mundo foi apagada e os dois sao considera- dos identicos urn ao outro, ou me- lhor, dois lados de urn mesmo ser. Dessa forma Deus e considerado a essencia do mundo eo mundo e considerado a manifesta<;ao de Deus. A rela<;ao entre Deus e o mundo e como a do oceano e as ondas, a realidade e as formas da realidade, os lados visivel e invi-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sivel do mesmo universo. A Escritura evita essa here- sia muito cuidadosamente, como faz com o deismo. Eevidente o fato de que Deus esta presente nao meramente como urn artesao no comec;o da criac;ao, mas tam- bern como urn lapidador da obra da criac;ao103 . Na criac;ao a obra e realizada e completa. Como foi demonstrado acima, o descanso de Deus nao e urn abandono de toda a obra, pois a providencia tambem e uma obra (Jo 5.17). Mas e 0 abandono de urn tipo esped- fico de obra destinada acriac;ao. E se a criac;ao e a providencia po- dem ser pensadas como estando pr6ximas uma da outra no relaci- onamento de trabalho e descanso, entao nao pode haver duvida de que, apesar de estarem intima- mente relacionadas, elas sao dis- tintas. A criac;ao e a chamada de algo aexistencia e a manutenc;ao e a causa pela qual o que foi cria- do permanece existindo. Portan- to, a criaao nao faz com que o mundo seja independente, pois uma criatura independente e uma contradic;ao de termos, mas faz com que o mundo seja uma essen- cia distinta da essencia de Deus. Nao e meramente em nome e em forma que Deus e o mundo sao distintos urn do outro, mas em essencia, em ser. Eles diferem como o tempo difere da eternida- 103 Cn 2.2; Ex 20.11; 31.17. 194 de, como o infinito difere do finito, como o Criador difere da criatu- ra. Eda mais alta importancia que nos apeguemos a essa dife- rena em essencia entre Deus eo mundo. Quem quer que deprecie ou negue essa distinc;:ao esta fal- sificando a religiao, puxando Deus para o nivel da criatura e em prindpio torna-se culpado do mesmo pecado que Paulo atribui aos pagaos quando diz que eles, tendo conhecimento de Deus, nao o glorificaram como Deus, nem lhe deram grac;as (Rm 1.21). Mas ha uma considerac;ao que faz com que essa distinc;ao seja necessaria. Se Deus for identico ao mun- do, e, portanto, tambem indistin- to da raa humana, entao todo pensamento e ato do homem te- ria que ser direta e imediatamen- te transferido para a responsabi- lidade de Deus. Dessa forma o pecado tambem seria da respon- sabilidade de Deus- em resumo, nao haveria algo como o pecado. Everdade que a Escritura, por urn lado, forc;osamente afirma que o homem, com todos os seus pen- samentos e atos e tambem com todos os seus pecados, esta sob o dominio de Deus. 0 homem nun- ca e independente de Deus. 0 Se- nhor olha dos ceus; ve todos OS filhos dos homens (Sl 33.13). Ele forma o corac;ao de todos eles e
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    A CRrA<;:Ao EAPRovroi'NcrA contempla todas as suas obras (Sl 33.15). Ele determina o lugar da sua morada (Dt 32.8; At 17.26). Ele pondera todas as veredas dos ho- mens (Pv 5.21; Jr 10.23). Ele age de acordo com a Sua vontade com os exercitos dos ceus e entre OSha- bitantes da terra (Dn 4.35). N6s estamos em Suas maos como urn vaso de barro, e Ele faz conosco o que quiser104 . Quando o homem se torna urn pecador ele nao se emancipa de Deus. Sua depen- dencia de Deus simplesmente muda de cara.ter. Ele perde sua natureza morale racional e se tor- na uma criatura cafda. 0 homem que se torna urn escravo do peca- do, se desvaloriza e se torna urn instrumento em suas maos. For- tanto, e possfvel que a Escritura diga que Deus endurece o cora- c;ao dos homens105 , que Ele poe urn espfrito de mentira na boca dos profetas (2 Sm 24.1; 1Cr 21.1), que Ele ruanda que Simei amal- dic;oe Davi (2 Sm 16.10), que Ele entrega OS homens a imundfcie de seus pecados (Rm 1.24), que Ele ruanda aos homens a opera- c;ao do erro, para que eles se en- treguem a mentira (2 Ts 2.11), e que Ele envia Cristo para a rufna de muitos (Lc 2.34). Contudo, independente do fato de que a providencia de Deus vigia tambem o pecado, a Escri- 104 Is 29.16; 45.9; Jr 18.4; Rm 9.20,21. 105 Ex 4.21 ss.; Dt 2.30; ]s 11.20; Rm 9.18. 195 tura tambem firme e resolutamen- te afirma que a causa dos pecados nao esta em Deus e que deve ser creditada nao a Deus, mas ao ho- mem. 0 Senhor e justo e santo e esta distante de toda iniquidade (Dt 32.4; J6 34.10). Ele e a luz que dissipa as trevas (1Jo 1.5). Ele nao tenta o homem (Tg 1.13). Ele e a fonte transbordante de todo o berne de toda a pureza (Sl36.10; Tg 1.17). Ele profue o pecado em Sua lei (Ex 20) e na consciencia do homem (Rm 2.14,15), aborrece os que andam na iniqtiidade (Sl 5.5) e se revela dos ceus contra toda a impiedade e perversao dos ho- mens (Rm 1.18) e aplica puni6es temporais e eternas (Rm 2.8). Essas duas linhas das Sagra- das Escrituras, de acordo com as quais o pecado, do comeo ao fim, esta debaixo do governo de Deus e ao mesmo tempo deve ser lan- ado na conta do homem, s6 po- dem ser conciliadas se Deus e o mundo, por urn lado, nao forem separados urn do outro e, por outro lado, forem essencialmente distintos urn do outro. A teologia se encarrega de fazer isso quan- do, com relaao aprovidencia de Deus, ela fala nao apenas de ma- nutenr;ao, mas tambem de coopera- r;ao. Com esse termo a teologia faz justic;a ao fato de que Deus e a pri- meira causa de tudo o que aconte-
  • 195.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ce, mas que sob Ele e atraves dEle as criaturas sao ativas como cau- sas secundarias, cooperando com a primeira. N6s podemos falar de tais causas secundarias ate mes- mo com referenda as criaturas inanimadas, pois apesar de ser verdade que Deus faz nascer o sol sobre maus e bons e faz vir a chu- va sobre justos e injustos (Mt 5.45), tambem e verdade que Ele faz uso do sol e das nuvens em certas ocasioes. Mas a distin<;ao feita aqui, diz muito mais respei- to as criaturas racionais, pois es- sas criaturas receberam das maos de Deus uma razao e uma vonta- de e devem usa-las para guiar-se e orientar-se. Everdade que nes- sas criaturas racionais toda a exis- tencia e toda a vida, todo o talen- to e toda a for<;a, sao derivados de Deus, e que, independente de como esses talentos e essa for<;a sao usados, eles permanecem sob o governo da providencia de Deus. Da mesma forma, ha uma distin<;ao a ser feita entre a primei- ra e a segunda causa, entre Deus e o homem. Exatamente como ao fazer o bern e Deus que, de acor- do com seu beneplacito, agee re- aliza Sua vontade, o homem tam- bern tern vontades e age. Deus concede a vida e a energia para isso tambem, mas e 0 homem, e somente o homem, que comete o pecado e que e culpado por ele. N6s, simplesmente nao podemos resolver o enigma que nose apre- 196 sentado na providencia de Deus nessa vida, mas a confissao de que Deus e o mundo nunca po- dem ser separados mas devem ser diferenciados, aponta a dire- <;ao na qual a solu<;ao deve ser procurada e evita que n6s nos desviemos para a esquerda ou para a direita em nossa pesquisa. ***** Entendida dessa forma, a doutrina da cria<;ao e da providen- cia e rica em encorajamento e con- forto. Ha muitas situa<;oes na vida que sao opressivas e que nos rou- bam a for<;a para pensar e agir. Ha as adversidades e os desaponta- mentos que n6s encontramos pe- los caminhos da vida. Ha aquelas terriveis calamidades e desastres que fazem com que centenas e milhares de vidas se percam em urn sofrimento anonimo. Mas a vida em seu curso ordinaria, tam- bern pode levantar duvidas em nossa mente sobre a providencia de Deus. Nao e urn misterio o quinhao de toda a humanidade? 0 verme da inquieta<;ao e do medo corr6i toda a existencia. Nao e verdade que Deus tern uma rixa com Suas criaturas e que n6s pe- recemos em Sua ira e somos ater- rorizados pela Sua c6lera? Nao, nao sao apenas os incredulos e os frivolos, mas tambem os filhos de Deus, e esses mais profundamen- te que os outros, que sofrem sob
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    A CRIA<;:AO EA PROVIDENCIA a terrivel seriedade da realidade. E em algumas ocasi6es a questao forc;a passagem do corac;ao para os labios: Pode ser verdade que Deus criou o homem e a terra para nada? Mas nesse ponto, o cristao desapontado pela fe na criac;ao e na providencia de Deus nova- mente levanta sua cabec;a. Nao o diabo, mas Deus, o Todo-Podero- so, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, criou o mundo. 0 mundo eem sua inteireza e em suas par- tes uma obra das maos de Deus e somente das maos de Deus. De- pais de criar o mundo, Deus nao o abandonou. Ele o sustenta com Seu poder infinito e onipresente. Ele governa e rege todas as coi- sas de tal forma que todas elas co- operam e convergem para o cum- primento do prop6sito que Ele mesrno estabeleceu. A providen- cia de Deus inclui, juntamente com a manutenc;ao e a cooperac;ao, urn terceiro aspecto, chamado go- ·cerno. Ele eo Rei dos reis e Senhor dos senhores (1 Tm 6.15; Ap 19.6) e Seu reino dura por toda a eter- nidade (1Tm 1.17). Nao e urn aci- dente, nem uma necessidade, nem uma arbitrariedade, nem uma forc;a, nem urn mero capri- cho, nem urn destino de ferro que controla o mundo e sua hist6ria e a Yida e toda a humanidade. Atras das causas secundarias esconde- se e age o desejo todo poderoso jo Deus Todo-Poderoso e do Pai. 197 Eclaro que ninguem pode crer realmente nisso com seu co- rac;ao e confessar com sua boca, a nao ser que a pessoa seja urn fi- lho de Deus. A fe na providencia tern urn relacionamento muito proximo e muito profunda com a fe, na redenc;ao. De fato, a providencia de Deus pertence aquelas verdades que em certa medida podem ser discernidas pela revelac;ao geral na natureza e na hist6ria. Alguns pagaos tern expressado e descri- to a providencia de urn modo muito bonito. Urn deles disse que os deuses veern e ouvem tudo, que eles sao onipresentes e que cuidam de todas as coisas. Urn outro disse que a ordem e o ar- ranjo do universo sao mantidos por Deus e em considerac;ao a Si mesmo. Mas nenhum deles sabia, a confissao do cristao, de que esse Deus que mantem e governa to- das as coisas eo seu Deus e seu Pai por causa da obra de Cristo. A fe na providencia de Deus foi consequentemente abalada pela duvida no mundo pagao e pro- vou ser inadequada em virtude das vicissitudes da vida. 0 secu- lo dezoito foi muito otimista e afirmou que Deus criou o melhor de todos os mundos possiveis. Mas quando no anode 1755 a ci- dade de Lisboa foi destruida por urn terrivel terrernoto, rnuitos co- mec;aram a blasfemar contra a existencia de Deus e a negar Sua
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista existencia. Mas o cristao, que ex- perimentou o amor de Deus no perdao de pecados e na redenc;ao de sua alma, esbi seguro e afirma com o apostolo Paulo que nem tribulac;ao, nem angustia, nem perseguic;ao, nem fome, nem nu- dez, nem perigo, nem espada pode separa-lo do amor de Cris- to (Rm 8.35). Se Deus epor nos, quem sera contra nos? (Rm 8.31). Ainda que a figueira nao flores- c;a, nem haja fruto na vide; o pro- 198 duto da oliveira minta, e os cam- pos nao produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais nao haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvac;ao (He 3.17)8). Com tal alegria de corac;ao, o cristao convida toda a terra a louvar o Senhor: Reina o Senhor. Regozije-se a terra, alegrem-se as muitas ilhas (Sl 97.1).
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    CAPITULO 11~ A ORIGEM, AEssE:NCIA E o PRoP6SITO no HoMEM 0 registro da origem do o2u e da terra no primeiro ca- pitulo de Genesis conver- ge para a cria<;:ao do homem. A cria<;:ao das outras criaturas1 do ceu e da terra/ do sot da lua e das estrelas/ das plantas e dos ani- mais/ e registrada em breves pa- lavras e nao se faz men<;:ao de toda a cria<;:ao dos anjos. Mas quando a Escritura menciona a cria<;:ao do homem ela o faz demoradamente/ descrevendo nao apenas 0 fato/ mas tambem a maneira pela qual ele foi criado e volta ao assunto para maiores considera<;:5es1 no segundo capitulo. Essa especial aten<;:ao dedi- cada a origem do homem serve como evidencia de que o homem e 0 prop6sito e 0 fim/ a cabe<;:a e a coroa de toda a obra de cria<;:ao. Ha varios detalhes materiais que 199 tambem iluminam a categoria su- perior e o valor do homem entre as demais criaturas. Em primeiro lugar ha o es- pecial conselho de Deus que pre- cede a cria<;:ao do homem. Ao cha- mar aexistencia as outras criatu- ras/ n6s lemos simplesmente que Deus falou e essa fala de Deus trouxe-as aexistencia. Mas quan- do Deus esta prestes a criar o ho- mem Ele primeiro conferencia consigo mesmo e decide fazer o homem a Sua imagem e seme- lhan<;:a. Isso indica que especial- mente a cria<;:ao do homem repou- sa sobre a delibera<;:ao/ sobre a sabedoria1 bondade e onipotencia de Deus. Nenhuma maldi<;:ao veio aexistencia por acaso. 0 conselho e a decisao de Deus sao mais cla- ramente manifestos na cria<;:ao do homem do que na cria<;:ao de to-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista das as outras criaturas. Alem disso, nesse conselho particular de Deus a enfase espe- cial ecolocada no fato de que 0 homem ecriado segundo a ima- gem e semelhan<;:a de Deus e, por- tanto, possui urn relacionamento com Deus totalmente diferente da- quele que as demais criaturas possuem. Sobre nenhuma outra criatura edito, nem sobre os an- jos, que eles foram criados a ima- gem de Deus e que exibem essa imagem. Eles podem possuir al- guns vestigios e indica<;:6es de urn ou de alguns atributos de Deus, mas somente sobre o homem se diz que foi criado a imagem e se- melhan<;:a de Deus. A Escritura enfatiza que Deus criou nao urn homem, mas OS homens, a Sua imagem e seme- lhan<;:a. Na conclusao de Genesis 1.27 eles sao designados como macho e femea. Nao foi apenas o homem, nem apenas a mulher, mas os dois, em sua interdepen- dencia, que foram criados a ima- gem de Deus. E, de acordo com a ben<;:ao que foi pronunciada sobre eles no verskulo 28, eles sao por- tadores dessa imagem nao so- mente em, e para si mesmos. Eles sao portadores dessa imagem tambem em sua posteridade. A ra<;:a humana, em cada uma de suas partes e em seu conjunto, e organicamente criada a imagem e semelhan<;:a de Deus. Finalmente, a Escritura ex- 200 pressamente menciona que essa cria<;:ao do homem a imagem de Deus deve expressar-se especial- mente em seu dominio sobre to- dos os seres vivos e na sujei<;:ao ao Senhor de toda a terra. 0 ho- mem e0 rei da terra porque ele e o filho ou a gera<;:ao de Deus. Ser filhos de Deus e herdeiros do mundo sao duas coisas estreita- mente relacionadas uma com a outra e inseparavelmente unidas na cria<;:ao. * * * * * 0 registro da cria<;:ao do ho- mem no primeiro capitulo de Genesis eelaborado e ampliado no segundo capitulo (Gn 2.4b-25). Esse segundo capitulo de Genesis e, as vezes, equivocadamente de- signado a segunda hist6ria da cri- a<;:ao. Isso e errado porque a cria- <;:ao do ceu e da terra e pressupos- ta nesse capitulo e e mencionada no versiculo 4b para introduzir a maneira pela qual Deus formou o homem do p6 da terra. Toda a enfase nesse segundo capitulo cai sobre a cria<;:ao do homem e so- bre a forma pela qual ela aconte- ceu. A grande diferen<;:a entre o primeiro e o segundo capitulo de Genesis esta nos detalhes menci- onados no segundo capitulo refe- rentes a forma<;:ao do homem. 0 primeiro capitulo fala da cria<;:ao do ceu e da terra e depois se dirige para a cria<;:ao do ho-
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    A ORIGEM, AEssf:NCIA Eo PRor6siTo Do HoMEM mem. Nesse capitulo o homem e a ultima criatura chamada aexis- tencia pela onipotencia de Deus. Ele esta no fim da serie de criatu- ras, como o senhor da natureza, o rei da terra. Mas o segundo capi- tulo, de Genesis 2.4b em diante, come<;a com o homem, procede dele como ponto de partida, co- loca-o como o centro da cria<;ao e entao relata o que aconteceu na cria<;ao do homem, como ele re- cebeu essa posi<;ao de destaque, qual morada foi designada para ele, que voca<;ao lhe foi confiada e qual era o seu destino e prop6- sito. 0 primeiro capitulo apresen- ta o homem como o fim ou pro- p6sito da cria<;ao; o segundo apre- senta-o como o come<;o da hist6- ria. 0 conteudo do primeiro ca- pitulo pode ser resumido na pa- lavra criac;iio, e o segundo capitu- lo pode ser resumido na palavra paraiso. Ha tres aspectos particula- res que sao mencionados nesse segundo capitulo referentes aori- gem do homem e que servem como elabora<;ao de tudo o que esta contido no capitulo urn. Em primeiro lugar ha urn tratamento consideravelmente longo sobre a primeira morada do homem. 0 primeiro capitulo sim- plesmente afirma em termos ge- rais que 0 homem foi criado a imagem de Deus e que foi nome- ado senhor de toda a terra, mas nao da pistas do lugar na face do 201 globo em que o homem viu a luz da vida e onde ele viveu. Mas n6s somos informados sobre isso no segundo capitulo. Quando Deus fez OS ceus e a terra e quando Ele criou o sol, a lua, as estrelas, as plantas e as aves, os animais da terrae OS animais das aguas, ne- nhum lugar especifico tinha sido separado para ser a morada do homem. Portanto Deus da urn in- tervalo antes de criar o homem e prepara para ele urn jardim ou paraiso no Eden, a leste da Pales- tina. Esse jardim e organizado de uma forma especial. Deus planta todos os tipos de arvores nesse jardim- arvores agradaveis avis- ta e de bons frutos. Duas dessas arvores sao chamadas pelo nome, a arvore da vida, plantada no meio do jardim e tambem a arvo- re do conhecimento do bern e do mal. 0 jardim foi preparado de tal forma que urn rio que tinha sua nascente no proprio jardim fluia atraves dele e dividia-se em qua- tro bra<;os, a saber, Pisom, Giom, Tigre e Eufrates. Urn grande esfon;o tern sido realizado atraves dos seculos para se tentar determinar a locali- za<;ao do jardim do Eden. varias representa<;5es tern sido apresen- tadas sobre o rio que nascia no Eden e fluia atraves do jardim, sobre os outros quatro rios que eram formados por ele, sobre o nome do territ6rio do Eden e so- bre o jardim dentro desse territ6-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista rio. Mas todas essas representa- <_;:6es sao apenas conjecturas. Nin- guem conseguiu apresentar uma prova concreta. Todavia, ha duas representa<_;:6es que parecem me- recer a nossa preferencia. A pri- meira e a representa<_;:ao segundo a qual o Eden estava localizado ao norte da Armenia. A segunda diz que a localiza<_;:ao correta do Eden e bern mais ao sul da Armenia, na Babilonia. E diflcil decidir entre essas duas. Os deta- lhes fornecidos pela Escritura nao sao suficientes para determinar exatamente onde ficava o Eden. Contudo, quando n6s observa- mos que o povo que descendeu de Adao e Eva, depois que eles foram banidos do paraiso, perma- neceu nas proximidades do Eden (Gn 4.16) e que a area de Noe, de- pois do diluvio, ficou encalhada no cume do monte Ararate (Gn 8.4) e que a humanidade depois do diluvio espalhou-se pela ter- ra, a partir de Babel (Gn 11.8,9), dificilmente pode haver duvida de que o ber<_;:o da humanidade ficava na area compreendida en- tre a Armenia, ao norte, e Sinear, ao sul. Nos tempos modernos os eruditos come<_;:aram a refor<_;:ar esse ensino da Escritura. No pas- sado a investiga<_;:ao hist6rica fez todo tipo de suposi<_;:6es sobre o lar original da humanidade, pro- curando-o por todas as partes da terra, mas sempre voltando pelas suas pr6prias pegadas. A 202 Etnologia, a hist6ria da civiliza- <_;:ao e a filologia apontam a Asia como o continente que serviu de ber<_;:o para a humanidade. Urn segundo fato que atrai nossa aten<_;:ao, em Genesis 2 e a ordem probat6ria dada ao ho- mem. Originariamente o primei- ro homem foi chamado simples- mente de o homem (ha-adam) por- que ele estava sozinho e ninguem havia que fosse semelhante a ele. E somente em Genesis 4.25 que o nome Adao aparece sem o artigo definido. 0 nome geral tinha se tornado urn nome pessoal. Isso indica claramente que o primeiro homem, que ate entao era o unico ser humano, foi a origem de toda a ra<_;:a humana. Como tal ele rece- beu uma tarefa dupla para reali- zar: primeiro, a de cultivar e pre- servar o jardim do Eden, e, segun- do, comer livremente de todas as arvores do jardim, exceto da ar- vore do conhecimento do bern e do mal. A primeira tarefa define seu relacionamento com a terra, en- quanto a segunda define seu re- lacionamento como ceu. Adao ti- nha que subjugar a terra e domina-la, e isso devia ser feito em urn sentido duplo: ele tinha que cultiva-la, e assim extrair dela todos os tesouros que Deus tinha reservado para o uso humano; e ele tinha que vigiar a terra, protege-la contra todo o mal que pudesse amea<_;:a-la, protege-la
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRoP6srro oo HoMEM contra toda a corrup<;ao em que a cria<;ao agora geme. Mas o homem s6 poderia cumprir sua missao com rela<;ao aterra se ele nao tivesse quebra- do a conexao que o unia ao CE:~u, ou seja, somente se ele continu- asse a obedecer a Deus. Essa tare- fa dupla, como podemos obser- var, e essencialmente uma s6 ta- refa. Adao deveria dominar toda a terra, nao ociosa e passivamen- te, mas atraves do trabalho de sua mente, de seu cora<;ao e de suas maos. E para que isso fosse possi- vel, ele deveria servir: Ele deve- ria servir a Deus, que e seu Cria- dor e Legislador. Trabalho e des- canso, dominio e servi<;o, voca<;ao terrena e celestiat civiliza<;ao e religiao, cultura e culto, esses pa- res caminham juntos desde o prindpio. Eles pertencem e estao contidos na voca<;ao do grande, santo e glorioso prop6sito do ho- mem. Toda cultura, isto e, todo trabalho que ele realiza para sub- jugar a terra, seja atraves da agri- cultura, da pecwiria, do comercio, da industria, da ciencia, ou de qualquer outra forma, e 0 cumpri- mento de urn mandato divino. Mas para que o homem realmen- te cumpra esse mandato divino ele tern que depender e obedecer aPalavra de Deus. A religiao deve ser o prindpio que anima toda a vida e que a santifica a servi<;o de Deus. Urn terceiro detalhe desse capitulo 2 de Genesis, e a entrega da mulher ao homem e a institui- <;ao do casamento. Adao tinha re- cebido muito. Apesar deter sido formado do p6 da terra, o homem e urn portador da imagem de Deus. Ele foi colocado no jardim amorosamente feito por Deus e que foi suprido com tudo o que era born para ser contemplado e comido. Ele foi incumbido de re- alizar a prazerosa tarefa de vestir o jardim e subjugar a terra, e para isso ele tinha apenas que obede- cer a ordem do Senhor, que era co- mer livremente de toda arvore do jardim, menos da arvore do co- nhecimento do bern e do mal. Mas apesar de ter sido grande- mente favorecido e estar muito agradecido por isso, o primeiro homem nao estava satisfeito, nao estava completo. A causa dessa insatisfa<;ao lhe e indicada pelo proprio Deus. Essa causa era a sua necessidade. Nao e born para o homem ficar s6. Ele nao foi cons- tituido para isso e nao foi criado dessa forma. Sua natureza e incli- nada para a sociabilidade - ele precisa de companhia. Ele deve ser capaz de expressar-se, revelar- se e dar-se. Ele deve ter oportuni- dade de despejar seu cora<;ao, dar forma aos seus sentimentos. Ele deve poder dividir sua experien- cia de vida com outro ser que pos- sa entende-lo e possa sentir e vi- ver ao seu lado. A solicitude e 205
  • 203.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista miseria, abandono, degradac;ao e perda. E aquele que criou o homem dessa forma, com esse tipo de ne- cessidade de expressao e exten- sao s6 pode decidir-se por suprir essa necessidade na grandeza e na Grac;a de Seu poder. 0 Criador s6 pode criar para ele uma auxi- liadora que lhe seja idonea, que se relacione com ele e que forme urn conjunto com ele, como sua companheira. 0 texto nos diz nos versiculos 19 a 21, que Deus fez todas as feras do campo e todas as aves dos ceus e trouxe-as a Adao para verse dentre todas es- sas criaturas haveria algum ser que pudesse servir como compa- nhia e auxllio para ele. 0 prop6- sito desses versiculos nao e indi- car a ordem cronol6gica na qual os animais e os homens foram fei- tos, mas indicar a ordem materi- at a categoria, os graus de relaci- onamento no qual os dois tipos de criaturas estao urn em relac;ao ao outro. Esse relacionamento entre as categorias e indicado claramen- te no fato de Adao ter dado nome aos animais. Adao, portanto, entendeu todas as criaturas, penetrou em sua natureza e assim p6de classifica-las e subdividi-las, e fi- xar para cada uma delas o lugar em todo o Eden que seria habita- do por elas. Se ele nao descobriu urn ser entre todas as criaturas que pudesse relacionar-se consi- 204 go isso nao foi conseqi.iencia de ignorancia, nem de arrogancia ou orgulho; isso se deve ao fato de que ha uma diferenc;a em especie entre Adao e todas as outras cria- turas, ou seja, uma diferenc;a nao meramente de grau, mas de es- sencia. De fato, existem varias cor- respondencias entre o animal e o homem: ambos sao seres fisicos, ambos possuem todos os tipos de necessidade e desejo de comida e bebida, ambos geram descen- dencia, ambos possuem os cinco sentidos (olfato, tato, paladar, vi- sao e audic;ao) e ambos comparti- lham das atividades de cognic;ao, experiencia, e percepc;ao. Todavia 0 homem e diferente do animal. 0 homem possui razao, entendi- mento e vontade, e conseqi.iente- mente possui religiao, morali- dade, linguagem, lei, ciencia e arte. Ele foi formado do p6 da terra, mas recebeu de Deus o £6- lego da vida. Ele e urn ser fisico, mas tambem e urn ser espiritual, racional, e moral. E foi por isso que Adao nao encontrou uma cri- atura sequer entre todas as cria- turas de Deus que pudesse rela- cionar-se consigo e fazer-lhe com- panhia. Ele deu nome a todas as criaturas, mas nenhuma delas me- receu o exaltado e real nome de ser humano. 0 homem nao encontrou o que procurava, e totalmente inde- pendente do engenho e do dese- jo de Adao e sem qualquer esfor-
  • 204.
    A ORIGEM, AEssf:NCIA E o PROP6sno oo HoMEM <;o contributivo por parte dele, Deus lhe deu o que por si mesmo ele nao pode obter. As melhores coisas que recebemos sao dadivas de Deus. Elas caem em nosso colo sem labor e sem pre<;o. N6s nao as conquistamos nem as alcan<;a- mos: n6s as obtemos do nada. A mais rica e mais preciosa dadiva que pode ser concedida ao ho- mem nessa terra, e a mulher. E essa dadiva ele recebe em urn sono profundo, quando esta in- consciente e sem qualquer esfor- <;o ou trabalho de suas maos. De fato, a procura eo senso de neces- sidade precederam essa dadiva, e isso levou-o a orar. Deus conce- deu-lhe essa dadiva de forma so- berana, sem a ajuda humana. Deus conduziu a mulher ate o homem pelas Suas pr6prias maos. A primeira emo<;ao, logo ap6s Adao abrir os olhos e ver a mulher a sua frente, foi de espan- to e gratidao. Ele nao se sentiu urn estranho diante dela, mas reco- nheceu-a imediatamente como urn ser que possui a mesma natu- reza que ele mesmo. Ele a reco- nheceu como aquilo de que tinha falta e necessidade, mas que ele mesmo nao podia suprir. E seu espanto se expressa no primeiro hino de casamento que foi canta- do sobre a face da terra: "Esta e osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-a varoa, porquanto do varao foi tomada". Adao continuou sendo a fonte e 205 cabe<;a da ra<;a humana. A mulher nao foi meramente criada ao lado de Adao, mas foi criada a partir do homem (lCo 11.8). Assim como o material utilizado para a cria<;ao de Adao foi tirado da terra, da mesma forma a costela de Adao foi a base para a vida de Eva. As- sim como do p6 da terra o primei- ro homem tornou-se urn ser vivo ao receber de Deus o folego da vida, da mesma forma, da costela de Adao a primeira mulher tor- nou-se urn ser vivo pela onipoten- cia criativa de Deus. Eva foi feita a partir de Adao e tornou-se urn ser vivo independente de Adao. Ela relacionava-se com ele e ao mesmo tempo era diferente dele. Ela pertence a mesma especie, mas dentro dessa especie ela ocu- pa o seu proprio lugar. Ela e de- pendente e ao mesmo tempo e li- vre. Ela veio depois de Adao e foi feita apartir de Adao, mas deve sua existencia exclusivamente a Deus. E dessa forma ela ajuda o homem a cumprir sua voca<;ao de sujeitar a terra. Ela euma ajudadora, nao uma amante ou muito menos uma escrava, mas urn ser livre, inde- pendente e individual, que rece- beu sua existencia nao do homem, mas de Deus, que deve prestar contas a Deus e que foi concedi- da ao homem como uma dadiva gratuita e imerecida. * * * * *
  • 205.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Assim a Escritura registra a origem do homem, tanto do ma- cho quanto da femea. Esse e seu ensino sobre a institui<;ao do ca- samento e o come<;o da ra<;a hu- mana. Em nossos dias uma forte rejei<;ao e feita a esse ensino, e essa rejei<;ao e feita em nome da cien- cia e alegadamente com a autori- dade da ciencia. E como essa re- jei<;ao tern penetrado cada vez mais na massa popular, e neces- saria que prestemos aten<;ao a ela por alguns momentos, como fim de destruir as bases sobre as quais ela repousa. Se uma pessoa repudia o registro biblico sobre a origem da ra<;a humana, e claro que torna-se necessaria que essa pessoa apre- sente algum outro registro para essa origem. 0 homem existe e ninguem pode deixar de dar sua resposta aquestao da sua propria origem. Se ele nao deve sua ori- gem a onipotencia criativa de Deus, ele deve essa existencia a alguma outra coisa. E entao nao resta outra op<;ao a nao ser dizer que o homem gradualmente se desenvolveu a partir de antigos seres inferiores e evoluiu ate a sua presente condi<;ao elevada entre os demais seres. A evolur;ao e, por- tanto, a palavra magica que em nossos dias deve de alguma for- ma resolver todos os problemas sobre a origem e a essencia de to- das as criaturas. Naturalmente, a partir do momento em que o en- 206 sino da cria<;ao e repudiadoI OS evolucionistas sao for<;ados a aceitar que alguma coisa existiu no come<;o de tudo, pois o nada s6 pode gerar o nada. Os evolucionistas, diante desse fato, elaboraram uma suposi<;ao com- pletamente arbitraria e impossfvel de que a materia, a energia e o movimento existiam eternamente. A isso eles acrescentam que, an- tes que o nosso sistema solar vi- esse aexistencia, o mundo consis- tia somente de uma ca6tica mas- sa gasosa. Esse foi o ponto de par- tida que gradualmente resultou em nosso presente mundo e em todas as suas criaturas. Foi atra- ves da evolu<;aO que 0 sistema solar eo mundo vieram aexisten- cia. Atraves da evolu<;ao os seres animados surgiram a partir de seres inanimados, em urn proces- so que durou series sem fim de anos. Pela evolw;ao, plantas, ani- mais e homens passaram a exis- tir. E dentro dos limites humanos, foi tambem atraves da evolu<;ao que a diferencia<;ao sexual, o ca- samento, a familia, a sociedade, o estado, a linguagem, a religiao, a moralidade, a lei, a ciencia, a arte e todos os outros valores da civi- liza<;ao passaram a existir. Se al- guem acredita nessa suposi<;ao de que a materia e a energia e o mo- vimento existiam eternamente, logicamente nao ha necessidade da existencia de Deus. 0 mundo torna-se auto explicativo. A cien-
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    A ORIGEM, AESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM cia, segundo se ere, faz com que Deus seja totalmente desnecessa- no. A teoria da evolw;ao desen- volveu essa ideia da origem do homem da seguinte forma: Quan- do a terra era gelada ela se tornou adequada para o surgimento de criaturas vivas, e a vida se desen- volveu sob circunstancias muito peculiares, possivelmente de tal forma que as primeiras combina- <;5es de proteinas albumin6ides se formaram e, afetadas por vari- as influencias, desenvolveram varias propriedades, e essas pro- teinas atraves da combina<;ao e mistura umas com as outras de- ram origem ao protoplasma, o primeiro germen da vida. A par- tir dai come<;ou o desenvolvimen- to biogenetico, o desenvolvimen- to dos seres vivos. Esse processo pode ter levado centenas de mi- lhoes de anos. Esse protoplasma formado pelo nucleo das proteinas albu- min6ides e agora reconhecido como o constituinte basico de to- dos os seres vivos, seja das plan- tas, dos animais ou do homem. Isso significa que os protozoarios unicelulares sao os mais antigos organismos vivos. Esses proto- zoarios, tanto OS m6veis quanto OS im6veis, desenvolveram-se em plantas ou em animais. Entre os animais, a infusoria permaneceu em baixa escala, mas fora deles desenvolveu-se gradualmente, 207 atraves de varios estagios inter- mediarios e transicionais, ate for- mar os mais elevados tipos de animais, conhecidos como ani- mais vertebrados, invertebrados e moluscos. Os animais vertebra- dos foram novamente divididos em quatro classes: peixes, anfibi- os, aves e mamiferos. Os mamife- ros foram divididos em outros tres subgrupos: os onitorrincos (mamiferos aquaticos e oviparos), os marsupialS, e os an1ma1s pro- vidos de placenta; e esses ultimos novamente foram subdivididos em roedores, quadrupedes, as fe- ras predadoras e os primatas. Os primatas sao classificados em semi-simios, simios e antro- p6ides. Quando n6s comparamos o organismo fisico do homem com 0 desses varios animais n6s des- cobrimos, de acordo com os evolucionistas, que o homem, por semelhan<;a1 esta mais proximo dos vertebrados, dos mamiferos, dos animais providos de placen- ta e dos primatas, e que, dentre os primatas, ele se assemelha mais aos antrop6ides, representa- dos pelo orangotango e o gibao na Asia e pelo gorila eo chimpan- ze na Africa. Portanto, esses ani- mais devem ser considerados os mais pr6ximos parentes do ho- mem. De fato, eles diferem do homem em tamanho1 em formato e coisas desse tipo, mas eles se pa- recem muito como homem em
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sua estrutura fisica basica. Ao mesmo tempo o homem nao veio de urn desses tipos de simios que agora existem, mas de antro- p6ides ha muito tempo extintos. De acordo com essa teoria da evo- lU<;ao, os sfmios e os homens sao parentes de sangue, pertencem a mesma ra<;a, mas apesar disso devem ser considerados sobri- nhos e sobrinhas e nao irmaos e irmas. Essa e a ideia da teoria da evolw;ao. De acordo com essa te- oria, esse foi o curso dos aconte- cimentos. Mas os evolucionistas tambem dizem algo sobre a for- ma como isso aconteceu. Ebas- tante facil dizer que plantas e ani- mais e homens formam uma con- tinua e ascendente serie de seres. Mas os evolucionistas sentiram ser necessario fazer algo para de- monstrar que esse desenvolvi- mento foi realmente possfvel, e que urn simio, por exemplo, foi gradualmente transformando-se em urn homem. Charles Darwin em 1859 tentou fazer essa de- monstrac;ao. Ele afirmou que plantas e animais- rosas e porn- bas, por exemplo- podiam ser ar- tificialmente ajudadas a, pela se- le<;ao natural, exibir significativas modifica<;oes. Dessa forma ele for- mulou a ideia de que, na nature- za, tal sele<;ao natural tambem deve ter estado em atividade, uma sele<;ao nao controlada pela inter- ven<;ao humana, mas inconscien- 208 te, arbitraria e natural. Com esse pensamento uma luz brilhou so- bre ele. Ao aceitar essa teoria da sele<;ao natural, ele julgou poder explicar, como plantas e animais, gradualmente foram sofrendo muta<;oes, como os seres vivos podem superar defeitos em sua organizac;ao e dessa forma alcan- <;ar vantagens, e que dessa forma os seres vivos constantemente se equipam cada vez melhor para a ininterrupta competi<;ao com ou- tros seres vivos na luta pela exis- tencia. De acordo com Darwin, a vida e sempre e em todo lugar apenas uma luta pela sobreviven- cia. Ao observarmos superficial- mente, pode parecer que ha paz na natureza, mas isso nao passa de uma aparencia. Ha uma luta constante pela vida, pois a terra e pequena demais e escassa demais para suprir e alimentar todos os seres. Portanto, milhoes de orga- nismos perecem por causa de ne- cessidade; apenas os mais fortes sobrevivem. Esses mais fortes, que sao superiores aos outros por causa de algumas propriedades que eles desenvolveram, gradu- almente transferem essas propri- edades vantajosas a sua posteri- dade. Portanto, sempre ha pro- gresso e desenvolvimento. A se- le<;ao natural, a luta pela sobrevi- vencia e a transferencia das velhas e novas caracterfsticas explicam, de acordo com Darwin, o surgi-
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRoP6sno DO HoMEM mento de novas especies e tam- bern a transi<;:ao do animal para o homem. * * * * * Ao avaliarmos essa teoria da evolu<;:ao, e necessario acima de tudo, fazer uma clara distin<;:ao entre os fatos aos quais ela recorre e a vistlo filos6fica que os leva em considera<;:ao. Os fatos sao: que o homem compartilha todos os ti- pos de caracteristicas com outros seres vivos, mais particularmen- te com os animais mais elevados, e, entre esses, especialmente com os simios. Naturalmente, esses fatos foram, em sua maior parte, conhecidos tambem por Darwin, pois a correspondencia na estru- tura flsica, nos varios 6rgaos do corpo e em suas atividades, nos cinco sentidos, nas percep<;:6es e na consciencia, e em coisas seme- lhantes, e algo que qualquer pes- soa pode ver e simplesmente nao pode ser negado. Mas as ciencias da anatomia, biologia, fisiologia e psicologia tern recentemente in- vestigado essas caracteristicas se- melhantes com muito mais dedi- ca<;ao do que no passado. As ca- racteristicas de semelhan<;:a tern crescido em mimero e em impor- tancia. Ha outras ciencias que dao sua contribui<;ao para confirmar e estender essas similaridades en- tre o homem e o animal. A ciencia da embriologia, por exemplo, in- 209 dicou que o ser humano em seu desenvolvimento uterino asseme- lha-se a urn peixe, a urn anflbio e a urn mamlfero inferior. A paleontologia, que se ocupa com o estudo das condic,;oes e das cir- cunstancias dos tempos antigos, descobriu indicios humanos - es- queletos, ossos, cranios, ferramen- tas, ornamentos - que apontam para 0 fato de que seculos atras alguns povos em algumas partes da terra viviam de uma forma bern simples. E a etnologia diz que havia tribos e povos que es- tavam muito distantes, tanto es- piritual quanto fisicamente, das na<;6es civilizadas. Quando esses fatos, trazidos de varias partes, tornam-se co- nhecidos, a filosofia logo se ocu- pa em combina-los em uma hip6- tese, a hip6tese da evolu<;:ao gra- dual de todas as coisas e especifi- camente, tambem do homem. Essa hip6tese nao surgiu depois que os fatos surgiram e nem por causa deles, mas ja existia ha muito tem- po atras, foi promovida por vari- os fil6sofos e foi agora aplicada aos fatos, alguns dos quais foram descobertos ha muito pouco tem- po. A velha hip6tese, a velha teo- na, agora repousa, como se su- p6e, firmemente sobre os fatos. Urn tipo de grito de alegria se le- vanta devido ao fato de que ago- ra todos os misterios do mundo, exceto aquela questao da materia e da energia, foram resolvidos e
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista todos os segredos foram descober- tos. Mas dificilmente esse vaido- so edificio da filosofia evolu- cionista teria sido construido quando o ataque sobre ela come- <;ou e ele come<;ou a desmoronar. 0 Darwinismo, diz urn distinto fil6sofo, surgiu em 1860, teve seu apice em 1870, foi questionado por alguns em 1890 e desde a vi- rada do seculo tern sido atacado por muitos. 0 primeiro e mais afiado ataque foi lan<;ado contra a mate- ria na qual, de acordo com Darwin, as varias especies vieram a existencia. A luta pela existen- cia e a sele<;ao natural nao sao su- ficientes para explica-las. De fato, ha uma luta feroz tanto no mun- do vegetal quanto no mundo ani- mal, e essa luta tern uma grande influencia sobre sua natureza e existencia. Mas nao se pode pro- var que essa luta pela sobreviven- cia fa<;a surgir novas especies. A luta pela sobrevivencia pode contribuir para o fortalecimento de tendencias e habilidades, de 6rgaos e de potencialidades, atra- ves de exerdcio e esfor<;o. Ela pode desenvolver o que ja existe, mas nao pode fazer existir o que nao existe. Alem disso, e urn exa- gero, como qualquer pessoa sabe por experiencia propria, dizer que sempre e em todo lugar nada exis- te senao luta. Ha mais do que 6dio e ani- mosidade no mundo. Ha tambem 210 amor, coopera<;ao e ajuda. A dou- trina que diz que nada ha em qualquer lugar alem de guerra de todos contra todos e apenas urn contraponto aparcial e idilica vi- sao do seculo dezoito, de que tudo na natureza vive em paz. Ha lugar para muitos na grande mesa da natureza, e a terra que Deus deu para ser a morada do homem e inesgotavelmente rica. Conseqiientemente, ha muitos fa- tos e manifesta<;6es que nada tern a ver com uma luta pela existen- cia. Ninguem, por exemplo, pode dizer o que as cores e figuras da pele do caramujo, a cor negra do ventre de varios animais vertebra- dos, o branqueamento dos cabe- los como aumento da idade, ou a queda das folhas no outono tern a ver com a luta pela existencia. Tambem nao e verdade que nes- sa luta os tipos mais fortes sem- pre e exclusivamente obtem a vi- t6ria, e que os mais fracos sao sempre derrotados. Uma assim chamada coincidencia, uma cir- cunsHincia fortunada ou afortuna- da, freqiientemente ridiculariza todos os nossos calculos. As ve- zes uma pessoa forte e diminui- da na for<;a de seus anos, enquan- to homens e mulheres fisicamen- te fracos alcan<;am uma idade bern avan<;:ada. Tais considera<;6es levaram urn erudito holandes a substituir a teoria da sele<;ao natural de Darwin pela teoria da muta<;ao, de
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    A ORIGEM, AESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM acordo com a qual a mudan<;;a das especies nao acontece regular e gradualmente, mas repentina- mente e atraves de saltos e sobres- saltos. Mas dessa, a forma a ques- tao e se essas mudan<;_:as realmen- te representam novas especies ou simplesmente modifica<;;oes nas especies que ja existem. E a res- posta a essa questao depende da- quilo que se entende por especi- es. Nao apenas a luta pela exis- tencia, a sele<;;ao naturale a sobre- vivencia dos mais capazes tern perdido status em nosso seculo, mas tambem a ideia de transferen- cia de caracteristicas adquiridas. A transferencia de caracteristicas naturais dos pais aos filhos de- pende daquilo que o Darwinismo entende por especies. Durante seculos e seculos OS homens sao homens e nada mais. A respeito da transferencia de caracteristicas distintas das que foram herdadas ha agora tanta diferen<;;a de opi- niao que nada pode ser dito so- bre isso com certeza absoluta. To- davia e certo que caracteristicas adquiridas nao sao transferidas dos pais aos filhos. A circuncisao, por exemplo, foi praticada por al- guns povos durante seculos e ate hoje nao surgiu uma crian<;;a se- quer que herdasse essa caracteris- tica adquirida. A transferencia por heran<;_:a s6 acontece dentro de cer- tos limites e nao causa qualquer mudan<;;a de tipo ou especie. Sea 211 modifica<;;ao for produzida por meios artificiais, ela deve ser tam- bern artificialmente mantida ou sera novamente perdida. 0 Darwinismo, em resumo, nao pode explicar a hereditariedade ou mudan<;_:a. Ambos sao fatos que existem e nao podem ser ne- gados, mas a conexao entre eles e o seu relacionamento estao alem das fronteiras do nosso conheci- mento. Cada vez mais o Darwi- nismo propriamente dito, isto e, o Darwinismo em seu sentido mais estrito, a saber, o esfor<;;o de se explicar a mudan<;;a das espe- cies em termos de luta pela exis- tencia, sele<;;ao natural e transfe- rencia de caracteristicas adquiri- das, tern sido abandonado pelos homens da ciencia. A predi<;;ao de urn dos primeiros e mais eminen- tes dos oponentes da teoria de Darwin esta sendo literalmente cumprida, a saber, que essa teo- ria para explicar os misterios da vida nao passaria do final do se- culo dezenove. Porem, mais im- portante do isso e 0 fato de que 0 criticismo nao tern sido dirigido somente contra a teoria de Darwin, mas tambem contra a te- oria da evolu<;_:ao. Naturalmente, fatos sao fatos e nao podem ser ignorados. Mas a teoria e algo mais que isso, e algo construido sobre os fatos, pelo pensamento. Eo que se torna cada vez mais evi- dente e que a teoria da evolu<;_:ao
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista nao se enquadra nos fatos, pelo contrario, esta sempre em confli- to com eles. A geologia, por exemplo, revelou que os tipos inferiores e superiores de animais nao se- guem uns aos outros em sequen- cia, mas existiram juntos por urn longo periodo. A paleontologia nao fornece uma unica pec;a se- quer de evidencia conclusiva da existencia de tipos transicionais entre os varios tipos de seres or- ga_nicos. E, ainda, de acordo com a teoria de Darwin da evoluc;ao extremamente gradual por meio de mudanc;as extremamente pe- quenas, esses tipos nao estariam presentes em quantidade. Apesar da pesquisa apaixonada e da persegui<;ao energica, urn tipo in- termedia_rio entre o homem e o rnacaco nao foi descoberto. A embriologia, de fato, aponta para certas semelhanc;as entre os vari- os estagios do desenvolvimento do embriao humano e do em- briao de outros animais. Mas essa similaridade eexterna pela sim- ples razao de que urn ser huma- no nunca nasceu do embriao de urn animal e urn animal nunca nasceu de urn embriao humano. Em outras palavras, o homem e o animal seguem caminhos diferen- tes a partir da concep<;ao, mesmo que nesse momento as diferen<;as internas nao possam ser percebi- das. A biologia, ate agora tern ofe- recido pouco suporte para a pres- 212 suposi<;ao de que a vida pode ser gerada por si mesma, a ponto de muitos, hoje, aceitarem a impos- sibilidade de que isso aconte<;a e retornarem aideia de uma forc;a viva especial ou energia. A flsica e a qufmica, na medida em que tern participado dessas investiga- <;5es, tern encontrado mais e mais segredos e maravilhas no mundo microsc6pico, o que tern feito com que muitos voltem ao pensamen- to de que os constituintes basicos do mundo material nao sao enti- dades materiais1 e sim for<;as. E- para nao mencionar mais eviden- cias - todos os esfor<;os que tern sido feitos para explicar a consci- encia, a liberdade da vontadel a razaoI a linguagem1 a religiaoI a moralidade, e outras manifesta- c;oes semelhantes, como sendo apenas o produto da evolu<;ao nao tern sido coroados de sucesso. A origem dessas manifesta<;6es e tambem de todas as outras coisas1 permanece perdida para a cien- Cla. Por isso eimportante notar finalmente que quando o hornem faz sua aparic;ao na hist6ria ele ja eurn homem com corpo e alma e ja possui1 em todos os lugares e em todas as epocasl todas essas caracteristicas e atividades huma- nas cujas origens a ciencia tenta descobrir. Em lugar nenhum po- dem ser encontrados seres huma- nos que nao possuam razao e von- tadel racionalidade e consciencia,
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRor6sno oo HoMEM pensamento e linguagem, religiao e moralidade, as institui<;6es do casamento e da familia e assim por diante. Se tais caracteristicas e manifesta<;6es se desenvolveram gradativamente, tal evolu<;ao deve ter acontecido em tempos pre hist6ricos106 , a respeito dos quais n6s nada sabemos direta- mente, e sobre os quais n6s con- jeturamos somente sobre a base de uns poucos fatos identificados em datas posteriores. Qualquer ciencia, portanto, que queira pe- netrar nesses tempos pre hist6ri- cos para descobrir as origens das coisas deve, pela natureza do caso, fazer uso de suposi<;6es, conjeduras e pressuposi<;6es. Nao ha possibilidade de evidencia ou prova no sentido estrito. A dou- trina da evolu<;ao, de forma geral e a doutrina de que o homem des- cende dos animais, em particular, nao recebem qualquer suporte pelos fatos que a hist6ria nos for- nece. De todos os elementos so- bre os quais tais teorias estao edificados, nada permanece alem de urn ponto de vista filos6fico que pretende explicar todas as coisas e manifesta<;6es em termos de si mesmas, deixando Deus de lado. Urn dos proponentes do ponto de vista evolucionista ad- mitiu cegamente: a escolha e en- tre a descendencia evolutiva ou o milagre; ja que 0 milagre e total- mente impossivel, n6s somos im- pelidos a assumir a primeira po- si<;ao. E tal admissao demonstra que a teoria da origem do homem a partir de formas animais inferi- ores nao repousa sobre uma in- vestiga<;ao cientffica cuidadosa, mas sobre o postulado de uma fi- losofia materialista ou panteista. ***** A ideia da origem do ho- mem esta relacionada muito de perto com a ideia da essencia do homem. Muitos em nossos dias dizem que o homem eo mundo, independente de qual tenha sido sua origem e seu desenvolvimen- to no passado1 sao o que sao e continuarao sendo sempre assim. Essa posi<;ao e inteiramente correta: a realidade permanece a mesma, independente se n6s for- mamas uma ideia verdadeira ou falsa sobre ela. E o mesmo pode ser dito sobre a origem de todas as coisas. Mesmo que n6s imagi- nemos que o mundo e a ra<;a hu- mana vieram aexistencia de algu- ma forma particular - gradual- mente, durante o curso dos secu- los, por meio de todos os tipos de infinitesimais mudan<;as, atraves da gera<;ao espontanea- tal supo- si<;ao, e claro, nao muda a origem 106 Os tempos pre hist6ricos siio epocas em que a escrita niio era conhecida e sabre as quais, portanto, niio lui registro escrito (N. do T.). 215
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    Fundamentos Teologicos daFe Crista real. 0 mundo surgiu da forma que surgiu, e nao da forma que n6s gostariamos que ele tivesse surgido ou da forma que n6s su- pomos que ele tenha surgido. E a ideia que n6s temos a respeito da origem de todas as coisas esta di- retamente relacionada com a ideia que n6s temos a respeito da es- sencia de todas as coisas. Se a primeira estiver errada, a segunda nao pode estar correta. Se n6s pensamos que a terra e to- dos os reinos da natureza, que todas as criaturas e particularmen- te OS Seres humanos, vieram a existencia sem Deus, somente atraves da evolw;ao de energias cujos residuos permanecem no mundo, tal ideia deve ter, neces- sariamente, a mais importante in- fluencia sobre nossa concepc;ao da essencia do mundo e do homem. De fato, o mundo eo homem permanecerao os mesmos inde- pendente de nossa interpretac;ao; mas para n6s tanto o mundo quan- ta o homem se tornam diferentes, aumentando ou diminuindo em valor e imporHincia de acordo com o que n6s pensamos sobre sua origem e como eles passaram a existir. Isso e tao evidente que nem requer iluminac;ao ou confirma- c;ao mais ampla. Mas por causa da noc;:ao de que n6s podemos pen- sar o que quisermos sobre a ori- gem de todas as coisas, visto que o que n6s pensamos sobre sua 214 essencia nao e afetado pelo que pensamos sobre a origem, e uma noc;:ao sempre presente - por exemplo, na doutrina da Escritu- ra, na religiao de Israel, na pessoa de Cristo, na religiao, na moralidade - pode ser util ou nao, dependendo daquilo que entendemos como sendo a essen- cia do homem, para indicar a fal- sidade dessa noc;:ao ainda mais. Nao e dificil fazer isso, pois se o homem tern se desenvolvido por si mesmo, sem Deus e somente atraves de forc;:as operativas ce- gas, entao segue-se que o homem nao pode diferir essencialmente dos animais, e que, mesmo em seu maior desenvolvimento, ele sempre continuara sendo urn ani- mal. Nesse caso nao ha lugar para uma alma distinta do corpo, nem para uma liberdade morale imor- talidade pessoal. E a religiao, a verdade, a moralidade, e a bele- za perdem seu carater proprio. Essas consequencias nao sao algo que n6s impomos sobre os proponentes da teoria da evolu- c;:ao, mas algo que eles mesmos deduzem dela. Darwin, por exem- plo, disse que nossas mulheres solteiras, se fossem educadas sob as mesmas condic;:oes que as abe- lhas, pensariam ser urn clever sa- grado matar seus irmaos como as abelhas fazem e as maes tentari- am assassinar suas filhas ferteis sem qualquer considerac;ao por elas. De acordo com Darwin, por-
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRor6sno oo HoMEM tanto, toda lei morale urn produ- to das circunstancias, e, portanto, muda quando as circunstancias mudam. 0 bern e o mal, embora sendo realidades antagonicas, sao termos relativos e seu significado e valor sao, como a moda, sujei- tos as mudan<;as de tempo e lu- gar. Da mesma forma, de acordo com os evolucionistas, a religiao e apenas uma ajuda temponiria, algo de que o homem, na sua luta contra a natureza, faz uso, e que agora pode servir como urn opio para o povo, mas algo que, como passar do tempo, acabara morren- do ou simplesmente desapare- cendo, na medida em que o ho- mem tomar consciencia de sua plena liberdade. 0 pecado e a transgressao, o crime e o assassi- nato, nao constituem culpa, mas sao efeitos de urn estado nao ci- vilizado no qual o homem origi- nariamente viveu e diminuirao na mesma propor<;ao em que ele se desenvolver e a sociedade progre- dir. De acordo com essa posi<;ao, os criminosos devem ser conside- rados como crian<;as, animais ou pessoas insanas e deveriam ser tratados de acordo com isso. As prisoes deveriam dar lugar aos reformatorios. Em resumo, se o homem nao tern uma origem di- vina, mas uma origem animal e gradualmente tern se desenvolvi- do, ele deve tudo a si mesmo, e seu proprio legislador, mestre e senhor. Todas essas inferencias da 215 teoria (materialista ou panteista) da evolu<;ao encontram expressao muito claramente na ciencia con- temporanea e tambem na literatu- ra, arte e pratica politica contem- poraneas. A realidade, todavia, tern nos ensinado algo totalmente di- ferente. 0 homem pode crer, se quiser, que tern feito tudo por si mesmo e que nao tern limites ao redor de si, mas em todos os sen- tidos ele continua sendo uma cri- atura dependente. Ele nao pode fazer o que quiser. Em sua exis- tencia fisica ele permanece limi- tado a leis como a respira<;ao, a circula<;ao do sangue, a digestao e a procria<;ao. E se ele tenta con- trariar essas leis e nao presta aten- <;ao a elas, ele prejudica sua sail- de e mina sua propria vida. 0 mesmo acontece com seu espiri- to. 0 homem nao pode pensar 0 que quiser, mas esta sujeito a leis que estao implicitas no ato de pensar e se expressam nele. Se ele nao segue essas leis do pensamen- to ele se precipita no erro. 0 ho- mem tambern nao pode desejar e agir como mais lhe agrada. Sua liberdade esta sob a disciplina da razao e da consciencia; se ele desconsidera essa disciplina ere- duz sua vontade ao nivel de arbi- trariedade e capricho, ele sera auto reprovado e se tornara obje- to de remorso, que e 0 cancer da consciencia. A vida da alma, portanto,
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii nao menos que a vida do corpo, esta edificada sobre algo diferen- te de capricho e acidente. Ela nao se origina de uma condic;ao anar- quica, mas se origina de todos os lados e em todas as suas ativida- des determinada por leis. Ela esta sujeita a leis de verdade e de bon- dade e de beleza e assim ela de- monstra que nao teve sua origem em si mesma. Em resumo, o ho- mem tern desde seu inicio sua propria natureza e sua propria es- sencia e nao pode viola-las. Ana- tureza dessa questao e tao forte que ate mesmo aqueles que ade- rem ateoria da evoluc;ao admitem a existencia de uma natureza hu- mana, de atributos humanos imu- taveis, de leis de pensamento e etica prescritos para 0 homem e de urn senso religioso nato. Des- sa forma a ideia da essencia do homem entra em conflito com a ideia de sua origem. Na Escritura, contudo, ha uma perfeita concordancia entre essas duas ideias. A essencia do homem corresponde a sua ori- gem. Apesar do homem ter sido formado do po da terra, ele rece- beu o sopro da vida, e foi criado pelo proprio Deus, portanto, ele e urn ser unico que possui sua propria natureza. A essencia de seu ser e a imagem e semelham;a de Deus. * * * * * 216 A imagem de Deus distin- gue o homem tanto dos animais quanto dos anjos. Ele possui tra- <;os em comum tanto com os ani- mais quanto com os anjos, mas ao mesmo tempo ele e diferente dos dois porque possui sua propria natureza. Eclaro que os animais tam- bern foram criados por Deus. Eles nao passaram a existir por si rues- mos. Eles foram chamados aexis- tencia por uma especifica palavra do poder de Deus. Alem disso eles foram criados em varias es- pecies, assim como as plantas. Todos OS homens sao descenden- tes de urn unico casal e por isso constituem uma rac;a. Isso nao acontece com os animais. Eles possuem varios ancestrais. For- tanto, nao e de se admirar que ate hoje a zoologia nao tenha tido sucesso ao tentar trac;ar a linha- gem de todos os animais ate urn so casal de ancestrais. Ela conse- gue apenas designar alguns gru- pos majoritarios ou tipos basicos de animais. Presumivelmente e verdade que a maioria dos tipos de ani- mais nao estao distribuidos sobre toda a terra, mas vivem em areas especificas. Os peixes vivem na agua, os passaros vivem no ar e os animais terrestres, em sua mai- or parte, vivem em territorios es- pecificos. 0 urso polar, por exem- plo, so e encontrado em regi6es muito frias e 0 ornitorrinco so e
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    A ORIGEM, AESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM encontrado na Australia. E no li- vro de Genesis e afirmado espe- cificamente que Deus criou as plantas (1.11) e tambem os ani- mais segundo a sua especie - isto e, de acordo com seus tipos. Na- turalmente isso nao significa que os tipos que foram originalmente criados eram os mesmos nos quais a ciencia hoje classifica to- dos os animais, pois nossas clas- sifica<;oes sao sempre sujeitas ao erro porque nossa zoologia tam- berne limitada e inclinada a con- siderar variantes como tipos e vice-versa. 0 conceito cientifico, artificial, de urn animal e muito dificil de se estabelecer, e e sem- pre muito diferente do conceito natural de tipo que n6s conside- ramos. No curso dos seculos urn grande numero de animais tern morrido ou sido destruido. Eevi- dente que varios tipos de animais, como o mamute, por exemplo, que deixou de existir ha muito tempo, existiram em grande quantidade. Alem disso deve ser levado em considera<;ao que como resultado de varias influen- cias, grandes modifica<;oes emu- dan<;as tern acontecido no mundo animal e essas modifica<;oes im- possibilitam, ou pelo menos tor- nam extremamente dificil que a zoologia trace a arvore geneal6- gica de todos os animais a urn s6 tipo original. Alem disso deve ser obser- ·ado que tanto na cria<;ao dos ani- 217 mais quanto na cria<;ao das plan- tas n6s somos informados de que eles foram criados por urn ato es- pedfico do poder de Deus, mas que nesse ato nao s6 os seres, mas tambem a natureza espedfica de cada urn deles foi criada. "Produ- za a terra relva...", n6s lemos em Genesis 1.11, "A terra pois produ- ziu relva, ervas que davam se- mente segundo a sua especie e arvores que davam fruto..." (ver- so 12). 0 registro e o mesmo em Genesis 1.20: "Povoem-se as aguas de enxames de seres viven- tes; e voem as aves sobre a terra, sob o firmamento dos ceus". E novamente no verso 24: "Produ- za a terra seres viventes, confor- me a sua especie: animais domes- ticos, repteis e animais selvaticos, segundo a sua especie". Em cada passo a natureza e usada como urn instrumento de Deus. Ea ter- ra que, naturalmente condiciona- da e equipada por Deus para isso, traz todas essas criaturas em suas mais diversas diferencia<;oes. Essa espedfica origem dos animais lan<;a alguma luz, tam- bern sobre sua natureza. Essa ori- gem nos mostra que os animais sao muito mais relacionados ater- rae anatureza do que 0 homem. De fato, os animais sao seres vi- vos, e como tais, eles sao diferen- tes dos seres inorganicos e das criaturas inanimadas. Por se tra- tar de seres viventes eles sao cha- mados de almas viventes (Gn
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 1.20,21,24)1°7 • No sentido geral de principia da vida os animais tam- bern possuem alma108 • Mas esse principia vivo da alma no animal e ainda tao estreitamente relacio- nado anatureza que nao pode al- canar qualquer independencia ou liberdade e nao pode existir sem o metabolismo natural dos animais. Portanto, quando os ani- mais morrem, sua alma morre tambem. Disso segue-se que os animais, pelo menos os animais mais elevados, possuem os mes- mos sensos organicos do homem e podem perceber a realidade (au- diao, olfato, visao, tato e pala- dar). Eles podem formar imagens ou quadros e relatar essas ima- gens uns aos outros. Mas os ani- mais nao possuem razao, nao po- dem separar a imagem da reali- dade particular, individual e con- creta. Eles nao podem transformar as imagens e nem criar conceitos. Nao podem relacionar esses con- ceitos entre si e dessa forma criar julgamentos, nao podem fazer inferencia dos julgamentos, nao podem tomar decis6es e nao po- dem realizar essas decis6es por urn ato da vontade. Os animais possuem sensa6es, imagens e combina6es de imagens; eles possuem instintos, desejos, pai- x6es. Mas eles nao possuem as mais elevadas formas de desejo e conhecimento que sao peculiares ao homem; eles nao possuem razao e nao possuem vontade. Essa realidade encontra expressao no fato de que os animais nao possuem linguagem, religiao, moralidade e noao de beleza; eles nao possuem ideias de Deus, nao possuem noao de realidades invisiveis, de verdade, de banda- de e de harmonia. Dessa forma, o homem se coloca acima do plano animal. Entre os dois nao ha uma transi- ao gradual, mas urn imenso abis- mo. Aquila que constitui a natu- reza do homem, sua essencia pe- culiar, sua razao e sua vontade, seu pensamento e sua linguagem, sua religiao e sua moralidade, e completamente ausente nos ani- mais. Portanto, o animal nao pode entender o homem, apesar do ho- mem poder entender o animal. Em nossos dias a psicologia tenta ex- plicar a alma do homem em ter- mos da alma dos animais, mas a ordem correta e o contrario. A alma do homem e a chave para a conquista da alma dos animais. Os animais nao possuem o que o homem possui, mas o homem possui tudo aquila que os ani- mais possuem. Naturalmente, isso nao sig- nifica que o homem conhea a natureza dos animais de forma 107 Algumas versoes trazem a expressiio seres viventes em Iugar de a/mas viventcs (N. do T.) 108 Gn 2.19; 9.4,10,12,16; Lv 11.10;17.11. 218
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRor6siTo oo HoMEM perfeita. Todo o mundo e para o homem urn problema por cuja solu<;ao ele procura, e os animais sao para o homem urn misterio vivo. A importancia do animal nao esta no fato dele ser util ao homem como fonte de alimenta- c;ao, meio de protec;ao, vestuario e ornamento. Muito mais esta con- tido no dominio que o homem, com cobic;a e egoismo, livremen- te exerce a seu favor. 0 mundo animal tern importancia tambem para nossa ciencia e arte, para nos- sa religiao e moralidade. Deus tern algo a nos dizer atraves do mundo animal. Seus pensamentos e obras nos sao comunicados em todo o mundo, inclusive atraves das plantas e dos animais. Quan- do a botanica e a zoologia desco- brem esses pensamentos, essas ciencias e as ciencias naturais de uma forma geral, exibem verda- des que nenhum homem, certa- mente nenhum cristao, pode des- prezar. Alem disso, como o mun- do animal e rico em importancia moral para 0 homem! 0 animal e a fronteira inferior, acima da qual o homem deve se levantar e o ni- vel ao qual ele nunca deve des- cer. 0 homem pode se tornar urn animal e ate menos que urn ani- mal se perder a luz da razao, per- der seu contato como ceu e ten- tar satisfazer todos os seus dese- jos sobre a terra. Os animais sao simbolos tanto de nossas virtudes quanto de nossos vicios: o cao e 219 urn simbolo da lealdade, a ser- pente simboliza a sagacidade, o leao simboliza a coragem, a ove- lha simboliza a inocencia, a pom- ba simboliza a integridade e a corsa e 0 simbolo da alma que suspira por Deus; da mesma forma a raposa simboliza a astu- cia, os vermes simbolizam a podridao, o tigre simboliza a crueldade, o porco simboliza a canalhice, a cobra simboliza a engenhosidade diab6lica e o go- rila, que e 0 animal que possui 0 formato que mais se parece com 0 corpo humano, e uma demons- trac;ao clara de uma impressio- nante forma fisica que carece de urn espirito, o espirito de cima. No gorila o homem ve sua pro- pria caricatura. * * * * * Assim como, devido aima- gem de Deus, o homem se dife- rencia dos animais, da mesma for- ma pela imagem de Deus ele e diferenciado dos anjos. A existen- cia de seres como os anjos nao pode, sem a Escritura, ser prova- da por argumentos cientificos. A ciencia nada sabe sobre eles, nao pode demonstrar que eles exis- tem e nao pode demonstrar que eles nao existem. Contudo, e no- tavel que a crenc;a na existencia de seres que estao acima do homem ocorre entre todos os povos e em todas as religioes e ate mesmo o
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista homem que rejeita o testemunho da Escritura referente aexistencia dos anjos, atraves de todos os ti- pos de formas supersticiosas vern a crer na existencia de seres sobre- naturais. Nossa presente gera<;ao e um rico testemunho disso. An- jos e demonios tern caido em des- credito e em seu lugar tern surgi- do em muitos drculos uma cren- <;a em for<;as latentes, poderes na- turais misteriosos, fantasmas, apa- ri<;6es, visita<;6es dos mortos, es- trelas vivas, planetas inabitados, marcianos, atomos vivos e coisas semelhantes. Em conexao com to- das essas antigas e novas manifes- ta<;6es esta a posi<;ao com a qual a Escritura tern confrontado todas elas. Sem levar em considera<;ao a falsidade ou a verdade contida nessas cren<;as, a Escritura proibe a adivinha<;ao109 , feiti<;aria110 , as- trologia111, necromancia112 , encan- tamento ou consulta a oraculos113 , magia114 e coisas semelhantes, fa- zenda com que a supersti<;ao seja semelhante a incredulidade. 0 Cristianismo e a supersti<;ao sao for<;as opostas. Nao ha ciencia, ilu- mina<;ao ou civiliza<;ao que pos- sa nos proteger da supersti<;ao. Somente a Palavra de Deus pode 109 Lu 19.31; 20.27; Dt 18.10-14 110 Dt 18.10; Jr 279,10; Ap 21.8 111 LD 19.26; Is 47.13; Mq 5.1 112 Dt18.11 111 Lv 19.26; Dt 18.10 114 Dt 18.11; Is 47.9 115 Mt18.10;24.36 116 51103.20; Cl1.16 220 fazer isso. A Escritura faz com que o homem seja mais profunda- mente dependente de Deus, e pre- cisamente dessa forma ela o dife- rencia das demais criaturas. Ela coloca o homem em urn correto relacionamento com a natureza e assim faz com que uma verdadei- ra ciencia natural seja possivel. A Escritura ensina a existen- cia de anjos, nao as cria<;6es mis- ticas da imagina<;ao humana, nem a personifica<;ao de for<;as miste- riosas, nem mortos que alcan<;a- ram um nivel superior, mas seres espirituais, criados por Deus, su- jeitos aSua vontade e chamados para o Seu servi<;o. Portanto, ha seres dos quais, aluz da Escritu- ra, n6s podemos ter uma ideia definida e eles nada tern em co- mum com os seres misticos das religioes pagas. Em conhecimen- to eles estao acima do homem115 , e tambem em poder116 , mas eles foram feitos pelo mesmo Deus e pelo mesmo Verbo (Jo 1.3; Cl1.16) e possuem a mesma razao e a mesma natureza moral, e por isso e dito sobre OS bons anjos que eles obedecem a voz de Deus e fazem o que lhe agrada (Sl 103.20,21) e sobre os maus anjos e dito que
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    · - -- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - · - - A ORIGEM, A ESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM eles nao permaneceram na verda- de (Jo 8.44) e que se extraviaram e cometeram pecado (2Pe 2.4). Mas apesar dessa grande correspondencia, existe uma gran- de diferen<;a entre os anjos e os homens. Essa diferen<;a consiste, em primeiro lugar, no fato dos anjos nao possuirem corpo nem alma, pois sao espiritos puros (Hb 1.14). De fato, no momento em que se revelavam ao homem, eles ge- ralmente apareciam em forma humana, mas as muitas formas nas quais eles apareciam117 apon- tam para o fato de que essa forma de manifesta<;ao era temporaria e que essas formas mudavam de acordo com a natureza da missao que eles deveriam cumprir. Os anjos nunca sao chamados de al- mas ou de seres viventes, como acontece com os animais e com o homem. A alma eo espirito dife- rem urn do outro pelo fato de que a alma, mesmo possuindo uma natureza espiritual, imaterial, in- visivel e sendo no homem uma entidade espiritualmente inde- pendente, esempre uma for<;a es- piritual ou uma entidade espiri- tual que eorientada a urn corpo, habita em urn corpo e sem urn corpo eincompleta e imperfeita. A alma e urn espirito destinado para uma vida fisica. A alma, par- tanto, e peculiar ao homem e aos 117 Gn 18.2; Jz 18.3; Ap 19.14 118 Dt 33.2; Dn 7.10; Ap 5.11 221 animais. Quando o homem per- de seu corpo na morte ele conti- nua a existir, mas em uma condi- <;ao empobrecida, e por isso a res- surrei<;ao do ultimo dia e uma res- taura<;ao que suprira todas as ca- rencias. Os anjos, porem, nao sao almas. Eles nunca ansiaram por uma vida fisica e a morada que lhes foi dada nao foi a terra, mas o ceu. Eles sao espiritos puros. Isso da a eles grandes vantagens sabre o homem, pois os anjos sao superiores aos homens em conhe- cimento e em poder e possuem uma rela<;ao muito mais livre de tempo e espa<;o do que o homem, podem mover-se mais livremen- te e sao excepcionalmente bern adaptados para cumprir as or- dens de Deus na terra. Mas- e essa e a segunda dis- tin<;ao entre os homens e os anjos - essas vantagens possuem seu lado oposto. Por serem espiritos puros, todos os anjos possuem urn relacionamento relativamen- te fraco com referenda uns aos Olltros. Todos eles foram origina- riamente criados juntos e todos eles continuam vivendo juntos uns com os outros. Porem, eles nao formam urn conjunto organi- co, urna ra<;a ou uma gera<;ao. De fato, ha uma ordem natural entre eles. De acordo com a Escritura, ha miriades de anjos118 e eles es-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tao divididos nas seguintes clas- ses: querubins (Gn 3.24), serafins (Is 6.), e tronos, dominios, potestades e poderes (Ef 1.21; Cl 1.16;2.10). E ha uma outra distin- c;:ao ou classificac;:ao dentro dos grupos: Miguel e Gabriel passu- em urn lugar especial entre eles119 . Contudo, eles nao consti- tuem uma rac;:a, nao sao parentes de sangue, nao estao ligados or- ganicamente uns aos outros. E possivel falarmos sobre uma rac;:a humana, mas nao e possivel falar- mos sobre uma rac;:a angelical. Quando Cristo assumiu a nature- za humana Ele foi imediatamen- te relacionado ao homem, ligado ao homem por lac;:os de sangue e tornou-se irmao dos homens de acordo com a carne. Mas os anjos vivem pr6ximos uns aos outros, cada urn presta contas de si mes- mo e por isso uma parte deles poderia cair, enquanto a outra permanecia fiel a Deus. A terceira distinc;:ao entre os homens e os anjos esta relaciona- da com a segunda. Por serem os anjos espiritos e nao estarem re- lacionados com a terra, por nao estarem eles relacionados uns com os outros por lac;:os de san- gue e nao conhecerem distinc;:6es como pai e mae, pais e filhos, ir- maos e irmas, ha urn mundo in- teiro de relacionamentos e cone- x6es, ideias e emoc;:oes, desejos e 119 Dn 8.16; 9.21; 10.13,21; Lc 1.19,26 222 preocupac;:6es sobre o qual os an- jos nada sabem. Eles podem ser mais poderosos que os homens, mas nao sao tao versateis. Eles possuem relacionamentos muito mais pobres e as riquezas e a pro- fundidade da vida emocional hu- mana e muito superior ados an- jos. De fato, Jesus diz em Mateus 22.30 que o casamento terminara nessa dispensac;:ao, mas as rela- c;:oes sexuais sobre a terra passu- em urn significado que se esten- de aos tesouros espirituais da rac;:a humana e esses tesouros nao serao perdidos, serao preserva- dos por toda a eternidade. Se a tudo isso n6s acrescen- tarmos o fato de que a mais rica revelac;:ao que Deus nos deu e dada atraves do nome do Pai e no nome do Filho - que se tornou como urn de n6s e e nosso profe- ta, sacerdote e rei - e no nome do Espirito Santo, que foi derrama- do sobre a Igreja e e o Deus que habita em n6s, n6s veremos com facilidade que os homens, e nao OS anjos, foram criados aimagem de Deus. Os anjos experimentam o poder, a sabedoria e a bondade de Deus, mas os homens desfru- tam de Suas benc;:aos eternas. Deus eo Senhor dos anjos, mas nao eo seu Pai; Cristo e o Cabec;:a dos an- jos, mas nao e seu Reconciliador e Salvador; o Espirito Santo e 0 0 0 quem env1a e gu1a os anJOS, mas
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRor6sno DO HoMEM nao testifica aos espirito deles de que eles sao filhos e herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. Portanto os olhos dos anjos estao sobre a terra porque nela as mais ricas gra<;as de Deus sao manifes- tas, nela a luta entre o ceu eater- ra e levada a efeito, nela a Igreja passa a fazer parte do Corpo do Filho e nela o golpe final algum dia sera dado e 0 triunfo final de Deus sera alcan<;ado. Portanto eles desejam conhecer os misteri- os da salva<;ao que sao revelados na terrae desejam aprender a co- nhecer, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus (Ef 3.10; 1Pe 1.12). Os anjos mantem numero- sos relacionamentos conosco, e nos mantemos urn relacionamen- to multifacetado com eles. Crer na existencia e na atividade dos an- jos nao e o mesmo que crer em Deus e ama-lo, teme-lo e honra- lo com todo o cora<;ao. Nos nao podemos colocar nossa confian<;a em uma criatura, mesmo que seja urn anjo; nos nao podemos cultuar os anjos, seja de que for- ma for e nao podemos dar-lhes honras religiosas120 • De fato, nao ha na Escritura uma palavra se- -=Iuer sobre urn anjo da guarda, de- signado para servir cada ser hu- mano em particular, nem sobre qualquer tipo de intercessao feita ::--,or um anjo em nosso favor. Mas :' Dt 6.13; Mt 4.10; Ap 22.9. 223 isso nao significa que crer nos an- jos seja algo indiferente ou urn esfor<;o imitil. Pelo contrario, quando a revela<;ao veio a existen- cia eles desempenharam urn pa- pel muito importante. Na vida de Cristo eles apareceram em todos os pontos importantes de sua car- reira, e chegara o dia em que eles serao manifestos com Cristo entre as nuvens do ceu. E eles sao espi- ritos enviados para rninistrar aqueles que herdarao a salva<;ao (Hb 1.14). Eles se regozijarn quan- do urn pecador se arrepende (Lc 15.10). Eles livram aqueles que sao tementes a Deus (Sl 34.7; 91.11), protegem os pequeninos (Mt 18.10), acompanham a Igreja em sua jornada atraves da histo- ria (Ef 3.10) e conduzern os filhos de Deus ate o seio de Abraao (Lc 16.22). Portanto, nos devernos considera-los com respeito e falar deles com honra. Devemos alegra-los como nosso arrependi- mento. Devernos seguir o exem- plo deles no servi<;o de Deus e na obediencia a Sua Palavra. Deve- rnos mostrar-lhes ern nosso cora- <;ao, em nossa vida e em toda a Igreja a multiforrne sabedoria de Deus. Devemos ser amigos deles e juntarnente com eles declarar os poderosos feitos de Deus. Dessa forma ha diferen<;as entre homens e anjos, mas nao ha conflito; ha di-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista feren<;as, mas tambem ha unida- de; ha distin<;ao, mas tambem ha amizade. Quando nos chegarmos ao Monte Siao, acidade do Deus vivo, a Jerusalem celestiat nos encontraremos miriades de anjos e reataremos o elo de unidade e amor que tinha sido quebrada pelo pecado (Hb 12.22). Tanto eles, quanta nos temos nosso pro- prio lugar e nossa propria fun<;ao na rica cria<;ao de Deus. Os anjos sao OS filhos, OS poderosos herois, o poderoso exercito de Deus. Os homens foram criados aimagem e semelhan<;a de Deus e sao gera- <;ao de Deus. Os anjos sao a ra<;a de Deus. * * * * * Se a imagem de Deus e o distintivo do homem, nos deve- mos obter uma ideia mais clara sobre ela. Nos lemos, em Genesis 1.26, que Deus criou o homem a Sua imagem e conforme a Sua seme- lhan<;a para que o homem tivesse dominio sobre todas as criaturas, particularmente sobre as criaturas vivas. Ires coisas merecem con- sidera<;ao aqui. Em primeiro lu- gar, a correspondencia entre Deus e 0 homem e expressa em duas palavras: imagem e semelhan~a. Es- sas duas palavras nao sao, como muitas pessoas sup6em, materi- almente diferentes, diferentes em conteudo, mas servem para am- 224 plificar e dar suporte uma aou- tra. Juntas elas servem para afir- mar que 0 homem nao e urn re- trato mal feito ou algo semelhan- te, mas corresponde perfeita e to- talmente a imagem de Deus. 0 homem e a miniatura e Deus e o Ser em tamanho reat infinitamen- te maior que o homem. 0 homem esta infinitamente abaixo de Deus e contudo mantem rela<;6es com Ele. Como criatura o homem e to- talmente dependente de Deus, e como homem ele e urn ser livre e independente. Limita<;ao e liber- dade, dependencia e indepen- dencia, imensuravel distancia e intima relacionamento com Deus, tudo isso tern sido combinado de uma forma incompreensivel no ser humano. Como uma criatura pode ser ao mesmo tempo a ima- gem de Deus. Isto e algo que vai alem de nossa compreensao. Em segundo lugar, nos so- mas informados em Genesis 1.26 que Deus criou homens (o termo original esta no plural) aSua ima- gem e conforme aSua semelhan- <;a. Desde o principia a inten<;ao de Deus nao foi criar urn homem apenas, mas homens, aSua ima- gem. Portanto, Ele imediatamen- te criou o homem como homem e mulher, nao separadamente, mas em rela<;ao e amizade urn com o outro (Gnl.27). Nao apenas no ho- mem, nem apenas na mulher, mas nos dois juntos e em cada urn de forma especiat a imagem de
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    A ORIGEM, AEsSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM Deus e expressa. 0 contrario e as vezes afir- mado com base no texto de 1Corintios 11.7, onde o apostolo Paulo diz que o homem e a ima- gem e a gloria de Deus e que a mulher e a gloria do homem. Esse texto e frequentemente usado de forma errada para que seja nega- da a mulher a imagem de Deus e assim ela seja colocada em urn nivel inferior ao do homem. Mas Paulo aqui nao fala do homem e da mulher considerados separa- damente, mas sobre seu relacio- namento no matrimonio. E entao ele diz que e 0 homem, e nao a mulher, o cabe<;a do lar. E ele de- duz isso do fato de que o homem nao teve sua origem na mulher, mas a mulher teve sua origem no homem. 0 homem foi criado pri- meiro, foi feito primeiro a ima- gem de Deus e a ele Deus primei- ro revelou Sua gloria. E sea mu- lher desfruta de tudo isso, ela o faz de forma mediata, atraves do homem. Ela recebeu a imagem de Deus, mas depois do homem e pela media<;:ao do homem. Portan- to1 0 homem e a imagem e a glo- ria de Deus direta e originaria- mente; a mulher e a imagem e a gloria de Deus de forma deriva- da, na qual ela ea gloria do ho- mem. 0 que nos lemos sobre esse assunto em Genesis 2 deve ser acrescentado ao que lemos em Genesis 1. A forma pela qual a mulher foi criada em Genesis 2 e 225 a forma pela qual ela recebeu a mesma imagem de Deus que o homem (Gn 1.27). Nisso esta con- tida a verdade de que a imagem de Deus repousa sobre urn m:ime- ro de pessoas, com diferencia<;:ao de ra<;:a, talentos e for<;:as - em re- sumo, na especie humana- e que essa humanidade alcan<;ara sua expressao maxima na nova huma- nidade, que ea Igreja de Cristo. Em terceiro lugar, Genesis 1.26 nos ensina que Deus tern urn proposito ao criar o homem a Sua imagem1 a saber, que o homem tenha dominio sobre todas as cri- aturas vivas e que ele se multipli- que e se espalhe por todo o mun- do, dominando-o. Se agora nos compreendemos a for<;a desse dominio sob o termo cultura, nos podemos dizer que a cultura, em urn sentido amplo, e o proposito para o qual Deus criou o homem conforme a sua imagem. E tao pequena a diferen<;:a entre culto e cultura, religiao e civiliza<;:ao, Cristianismo e humanidade, que seria verdadeiro dizer que a ima- gem de Deus foi dada ao homem para que, pelo seu dominio sobre toda a terra, ele pudesse trazer a existencia todas essas manifesta- <;:5es. E esse dominio sobre a terra inclui nao somente as mais anti- gas voca<;:oes do homem, tais como a ca<;:a e a pesca, a agricul- tura e a estocagem, mas tambem a industria eo comercio, as finan- c;:as e o credito, a explora<;:ao de
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista minas e montanhas, a ciencia e a arte. Tal cultura nao tern seu fim no homem, mas pela imagem de Deus, estampada e impressa no espirito humano e sobre tudo o que ele faz, ela retorna para Deus, que e 0 Primeiro e 0 Ultimo. ***** 0 conteudo ou significado da imagem de Deus foi desenvol- vido em revelac;ao posterior. For isso, depois da Queda, o homem continua sendo chamado de ima- gem de Deus. Em Genesis 5.1-3 n6s somos mais uma vez lembrados de que Deus criou o homem, homem e mulher juntos, a Sua imagem e que os abenc;oou e que Adao ge- rou urn filho asua imagem, con- forme a sua semelhan<;:a. Em Genesis 9.6 o derramamento do sangue do homem e proibido pela razao de que o homem foi feito aimagem de Deus. 0 poeta que escreveu o belo Salmo oito canta a gloria e a majestade do Senhor que se revela no ceu e so- bre a terra, e, de forma ainda mais esplendida, revela-se no homem, a quem o Senhor deu dominio sobre todas as obras das Suas maos. Quando Paulo fala aos atenienses no are6pago, ele cita urn de seus poetas, dizendo que n6s somos gera<;:ao de Deus (At 17.28). Em Tiago 3.9, o ap6stolo, para demonstrar o mal que a lin- gua pode provocar, usa o seguin- te contraste: "Com a lingua ben- dizemos ao Senhor e Pai; tam- bern, com ela, amaldi<;:oamos os homens, feitos a semelhan<;:a de Deus". E a Escritura nao apenas chama o homem caido de imagem de Deus, mas tambem diz que as caracteristicas dessa imagem fo- ram mantidas. Ela constantemen- te apresenta o homem como urn ser racional e morat que e respon- savel diante de Deus por todos OS seus pensamentos, palavras e obras e e obrigado a fazer o servi- c;o de Deus. Junto com essa representa- c;ao, contudo, n6s encontramos a ideia de que devido ao pecado o homem perdeu a imagem de Deus. De fato, n6s nao recebemos essa informa<;:ao diretamente, em algumas palavras. Porem, isso pode ser claramente deduzido de todo o ensino da Escritura concernente apecaminosidade do homem. Alem disso, o pecado - como n6s vamos considerar espe- cificamente mais adiante - rou- bou a inocencia, a justi<;:a e a san- tidade do homem, corrompeu seu cora<;:ao, obscureceu seu entendi- mento, inclinou sua vontade para o mat lanc;ou essas inclinac;oes em seu rosto, e colocou seu corpo e todos os seus membros a servic;o da injustic;a. For isso o homem deve ser mudado, regenerado, justificado, purificado e santifica- do. Ele pode desfrutar de todos 226
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PROP6sno no HoMEM esses beneficios somente atraves de Cristo, que e a perfeita Imagem de Deus (2Co 4.4; Cll.15) e acuja Imagem ele deve ser moldado (Rm 8.29). 0 novo homem, que e colocado em comunhao com Cris- to atraves da fe, e criado de acor- do com a vontade de Deus em verdadeira justi<;:a e santidade (Ef 4.24) e e constantemente renova- do em conhecimento conforme a Imagem daquele que o criou (Cl 3.10). 0 conhecimento, a justi<;:a e a santidade que o crente obtem atraves da comunhao com Cristo tern sua origem, exemplo e pro- p6sito final em Deus e faz com que o homem novamente compar- tilhe da natureza de Deus (2Pe 1.4). Esobre esse ensino da Escri- tura que se baseia a distin<_;:ao en- tre a imagem de Deus, em urn sen- tido amplo e em urn sentido es- treito, usualmente feita na Teolo- gia Reformada. Se, por urn lado, depois da queda e da desobedi- encia, o homem continua a ser chamado de imagem e gera<_;:ao de Deus, e, por outro lado, essas vir- tudes pelas quais ele especial- mente se parece com Deus foram perdidas por causa do pecado e s6 podem ser restauradas nova- mente atraves da comunhao com Cristo, entao essas duas posi<_;:6es sao compativeis uma com a outra somente se a imagem de Deus compreender algo mais que as virtudes de conhecimento, justi- 227 <_;:a e santidade. Os te6logos Refor- mados reconhecem isso, e susten- tam essa posi<_;:ao contra os te6lo- gos luteranos e cat6licos. Os luteranos nao fazem dis- tin<_;:ao entre a imagem de Deus, em urn sentido amplo e em urn sentido estrito. Ou, se eles fazem essa distin<_;:ao, eles nao atribuem a ela muita importancia e nao compreendem seu significado. Para eles, a imagem de Deus e nada mais nada menos que a jus- ti<;:a original, isto e, as virtudes de conhecimento, justi<;:a e santidade. Eles reconhecem a imagem de Deus somente em urn sentido es- trito e nao compreendem a neces- sidade de se relacionar essa ima- gem de Deus a toda a natureza humana. Dessa forma, a vida reli- giosa-moral do homem esta des- tinada a ser uma area especial e isolada de sua vida. Ela nao esta relacionada e nao exerce qualquer influencia sobre a obra a qual 0 homem e chamado no estado e na sociedade, na arte e na ciencia. 0 cristao luterano desfruta do per- ciao de pecados e da comunhao com Deus atraves da fe, e isso e tudo. Ele repousa sobre isso, ale- gra-se por isso, mas nao consegue relacionar sua vida espiritual, por urn lado, ao conselho e elei<_;:ao de Deus, e a todo o chamado terreno do homem, por outro. A partir dai, em outra dire- <_;:ao, segue-se que o homem, quan- do por causa do pecado perdeu a
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii justic;:a original, perdeu toda a imagem de Deus. Nenhum res- quicio dela permaneceu no ho- mem, nem mesmo urn cisco. E dessa forma a sua natureza moral e racionat que ainda permanece nele, e subestimada e vista com maus olhos. Os cat6licos romanos, pelo contrario, fazem uma distinc;:ao entre uma imagem de Deus em urn sentido amplo e em urn senti- do estrito, apesar de geralmente nao empregarem essas palavras. E eles tambem se dedicam a en- contrar uma relac;:ao entre essas distinc;:iSes. Mas para eles essa re- lac;:ao e externa, nao interna; e ar- tificial, nao real; e mecanica, nao organica. Os cat6licos apresentam o assunto como se o homem tives- se sido concebido sem as virtudes de conhecimento, justic;:a e santi- dade (a imagem de Deus em urn sentido estrito) e pudesse ter exis- tido dessa forma. Nessa condic;:ao o homem teria alguma vida reli- giosa e moral, mas somente de urn tipo e de urn grau que pudes- se ser advindo da religiao natu- rale da moralidade natural. Seria uma religiao e uma moralidade que permaneceria limitada a esta terra, e nunca poderia abrir cami- nho para as bem-aventuranc;:as do ceu e para a imediata visao de Deus. Ainda que seja possivel, falando de forma abstrata, que uma pessoa possa, sem possmr a imagem de Deus em urn sentido estrito, cumprir os deveres dare- ligiao naturale da lei moral natu- ral, isso e uma realidade impro- vavel, pois 0 homem e urn ser material, fisico e sensual121 • Ana- tureza sensual do homem e sem- pre caracterizada pelo desejo. Esse desejo, em si mesmo, pode nao ser pecado, mas certamente da ocasiao ao pecado. Isso acon- tece porque esse carater sensual da natureza humana, sendo fisi- co, e oposto ao espirito e sempre constitui uma tentac;:ao. 0 perigo e que essa razao e essa vontade superem o poder da carne. Por essas duas razoes, se- gundo o pensamento cat6lico, Deus, em Seu favor soberano, acrescentou a imagem de Deus em urn sentido estrito ao homem. Mas por ter previsto que o ho- mem cairia muito facilmente como escravo dos desejos da car- ne e tambem, porque Ele queria colocar o homem no mais eleva- do estado de bem-aventuranc;:a aqui sobre a terra, isto e, coloca- lo na gloria celestial e na imedia- ta presenc;:a de Deus, Deus acres- centou a justic;:a original ao ho- mem natural e assim tirou-o de seu estado natural e conduziu-o a urn estado mais elevado e so- 121 Aqui a pnlavm sensunlniio se refere avohlpin sexual, mas ao usa dos sentidos (pnladar, olfato, tnto, visiio eaudi~iio.) (N. doT.). 228
  • 228.
    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PRoP6sno DO HoMEM brenatural. Dessa forma urn du- plo prop6sito foi alcan<;,:ado. Ern prirneiro lugar, corn a ajuda des- se acrescirno sobrenatural, o ho- rnern passou a poder controlar facilrnente os desejos herdados da carne; e, ern segundo lugar, ao curnprir os deveres sobrenaturais prescritos para ele pela justi<;,:a original (a irnagern de Deus ern urn sentido estrito), o hornern pode agora alcan<;_:ar urna salva<;_:ao sobrenatural que corresponde ao seu desenvolvimento. Dessa for- rna o addendum sobrenatural da justi<;,:a original serve para dois prop6sitos, segundo a teologia cat6lica: serve para restringir a carne e para abrir carninho para o ceu atraves dos rneritos. Os te6logos Reforrnados possuem seu proprio ponto de vista entre as posi<;,:6es luterana e cat6lica. De acordo com a Escri- tura, a imagern de Deus e maior e mais inclusiva do que a justi<;,:a original, pois apesar da justi<;,:a original ter sido perdida por cau- sa do pecado, o hornem continua a ser chamado, na Escritura, de imagem de Deus e gera<;,:ao de Deus. Permanecem nele alguns poucos tra<;_:os da imagem de Deus de acordo com a qual ele foi cria- do. Essa justi<;,:a originat portan- to, nao poderia ser uma capacita<;,:ao isolada e indepen- dente e sern qualquer rela<;_:ao com a natureza humana. Nao e verda- Je que o homem primeiro existiu, 229 seja somente em pensarnento, seja em realidade concreta, como urn ser puramente naturat ao qual a justi<;,:a original foi posteri- ormente acrescentada. Em vez dis- so, tanto em pensamento quanto ern cria<;,:ao o hornem foi forrnado com essa justi<;,:a original. A ideia do hornern inclui a ideia dessa justi<;_:a. Sem ela o homern nao po- deria ser concebido e nao pode- ria existir. A imagem de Deus, em urn sentido estrito, esta integral- mente relacionada com a imagem de Deus em urn sentido arnplo. Nao e correto dizer que o homern simplesmente carrega a imagem de Deus; o homem ea irnagern de Deus. A imagem de Deus e iden- tica ao homem, faz parte da hu- rnanidade do homem. Ate certo ponto, mesmo no estado de peca- do, o homern continua sendo ho- mem, ate certo ponto ele conser- va resquicios da imagem de Deus; e na medida ern que ele perdeu a imagem de Deus, ele deixou de ser urn verdadeiro e perfeito ho- rnem. Alem disso, a imagem de Deus em urn sentido estrito e nada mais nada menos que a totalida- de espiritual do homem. Quando urn ser humano se torna doente no corpo ou na alma, mesmo que ele fique louco ele continua sen- do urn ser humano. Contudo, nes- se estado ele perde algo que per- tence aharmonia do homem e re- cebe algo que entra em conflito
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista corn essa harmonia. Da rnesrna forma, quando por causa do pe- cado o hornern perdeu a justi<;a original, ele continuou a ser urn ser hurnano, mas perdeu algo que e inseparavel da ideia de hornern e recebeu algo que nao pertence a essa ideia. Portanto, o hornern, quando perdeu a irnagern de Deus, nao se tornou algo diferen- te de urn ser hurnano, pois ele preservou sua natureza moral e racional. 0 que ele perdeu foi algo que pertencia asua nature- za, e o que ele recebeu foi algo que corrornpeu toda a sua natu- reza. Assirn como a justi<;a origi- nal era toda a vida e toda a saude espiritual do hornern, 0 pecado e a sua doen<;a e a sua rnorte. 0 pe- cado e corrup<;ao moral, rnorte espiritual, rnorte ern delitos e pe- cados, como a Escritura o descre- ve. Tal concep<;ao da irnagern de Deus abrange todo o ensino da Escritura sobre esse assunto. Essa concep<;ao rnantern o relaciona- rnento e tarnbern a distin<;ao en- tre a natureza e a Gra<;a, entre a cria<;ao e a reden<;ao. Graciosa e eloqtienternente essa concep<;ao reconhece a Gra<;a de Deus que, depois da queda, perrnitiu que o hornern conhnuasse sendo ho- rnern e continuasse sendo urn ser racional, moral e responsavel. E ao rnesrno tempo ela reconhece que o hornern, tendo perdido a irnagern de Deus, esta totalrnente 230 corrornpido e inclinado a fazer o mal. A vida e a hist6ria confirrnarn esse ensino. Apesar da mais bai- xa e rnais profunda queda, ana- tureza hurnana continua sendo a natureza humana. E nao importa o grau de desenvolvimento que o homem possa alcan<;ar, ele con- tinuara sendo pequeno, fraco, cul- pado e irnpuro. Somente a irna- gem de Deus faz corn que o ho- mern seja verdadeira e perfeita- rnente humano. * * * * * Se, agora, n6s tentarrnos bre- vemente dar urna olhada panora- mica no conteudo da imagern de Deus, a prirneira coisa que nos charnara a aten<;ao e a natureza espiritual do hornern. 0 hornern e Uffi ser fisico1 mas tambern e Uffi ser espiritual. Ele tern urna alma que, em essencia, e urn espirito. Isso se torna evidente pelo fato de que a Escritura nos fala a respeito da origem, da essencia e da dura- <;ao da alma hurnana. A respeito da origem, n6s lemos que Adao, de forma diferente dos anirnais, recebeu de Deus o folego da vida (Gn 2.7), e ern urn certo sentido iSSO e valido para todos OS ho- mens. E Deus quem da a cada homem o seu espirito (Ec 12.7), que forma o espirito do homem dentro dele (Zc 12.1), e que, por- tanto, em distin<;ao aos pais da carne, pode ser charnado de Pai
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PROP6srTo oo HoMEM dos espiritos (Hb 12.9). Essa ori- gem especial da alma humana de- termina tambem sua essencia. De fato, a Escritura algumas vezes atribui a alma tambem aos ani- mais (Gn 2.19; 9.4) mas nesses ca- sos a referencia, como algumas tradw;;oes indicam, e ao principia da vida em urn sentido geral. 0 homem possui uma alma diferen- te e mais elevada, uma alma que em sua essencia e espiritual. Isso se torna evidente pelo fato de que a Escritura atribui urn espirito particular ao homem, mas nao o atribui aos animais. Os animais possuem urn espirito no mesmo sentido em que o possuem as cri- aturas que sao criadas e sustenta- das pelo Espfrito de Deus (Sl 104.30), mas eles nao possuem seu proprio espirito independen- te. 0 homem, sim, possui urn es- pirito independente.122 . Devido a sua natureza espiritual, a alma humana e imortal. Ela nao e como a dos animais, que morre quando eles morrem, mas retorna a Deus, que e quem da o espirito (Ec 12.7). Ela nao e como o corpo, que pode ser morto pelo homem (Mt 10.28). Como espirito ela continua a exis- tir (Hb 12.9; 1Pe 3.19). Essa espiritualidade da alma coloca o homem em urn nf- vel superior ao do animal e da a ele urn ponto de semelhanc;a com os anjos. De fato, o homem per- tence ao mundo dos sentidos, e terreno, mas em virtude de seu espirito ele transcende a terra e caminha com liberdade real na re- alidade dos espfritos. Por sua na- tureza espiritual o homem pode se relacionar com Deus, que e Es- pfrito (Jo 4.24) e pode morar na eternidade (Is 57.15). Em segundo lugar, a ima- gem de Deus e revelada nas habi- lidades e poderes com os quais o espfrito humano foi dotado. E verdade que os animais mais ele- vados podem, atraves dos senti- dos, formar imagens e relatar es- sas imagens uns aos outros, mas eles nao podem fazer mais do que isso. 0 homem, pelo contrario, coloca-se acima do nivel das ima- gens e entra na realidade de con- ceitos e ideias. Atraves do pensa- mento, que nao pode ser entendi- do como urn movimento do ce- rebra, mas deve ser relacionado como uma atividade espiritual, o homem deduz o geral do particu- lar, levanta-se acima do que e vi- sivel e contempla 0 que e invisi- vel, forma ideias de verdade, de bondade, de beleza e aprende a conhecer o eterno poder de Deus e o dominio de Deus sobre todas as criaturas. Atraves de sua von- tade, que deve ser vista em dis- tinc;ao de seus desejos pecamino- sos, o homem se emancipa do mundo material e se enriquece 122 Dt 2.30; ]z 1.5.19; Ez 3.14; Lc 23.46; At 7.59; lCo 2.11; 5.3,4. 251
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista com realidades invisiveis e sobre- naturais. Suas emoc;oes nao de- vern ser apenas consideradas uteis e agradaveis manifestac;oes do mundo material, mas como re- alidades elevadas e estimuladas por ideais e bens espirituais, cujo calculo aritmetico e totalmente impossivel. Todas essas habilida- des e atividades possuem seu ponto de partida e seu centro na auto consciencia pela qual o ho- mem conhece a si mesmo e pela qual o homem carrega dentro de si uma inerradicavel noc;ao de sua propria existencia e da peculiari- dade de sua natureza racional e moral. Alem disso, todas essas habilidades particulares se ex- pressam atraves da linguagem e da religiao, da moralidade e da lei, da ciencia e da arte - todas elas, e claro e muitas outras, sao peculiares ao homem e nao sao encontradas no mundo animal. Todas essas habilidades e atividades sao caracteristicas da imagem de Deus. Deus, de acor- do com a Sua revelac;ao na natu- reza e na Escritura, nao e uma for- c;a inconsciente e cega, mas urn Ser pessoal, auto consciente, volitivo e ativo. Embora as emo- c;oes, disposic;oes e paixoes, tais como a ira, o ciume, a compaixao, a misericordia, o amor e coisas semelhantes, sejam inquestiona- velmente atribuidas a Deus nas Escrituras, elas nao sao emoc;oes sentidas de forma passiva, mas 232 atividades de Seu Todo-Podero- so, Santo e Amoroso Ser. A Escri- tura nao poderia falar dessa for- ma humana sobre Deus seem to- das as suas habilidades e ativida- des o homem nao tivesse sido cri- ado aimagem de Deus. 0 mesmo e verdade, em ter- ceiro lugar, sobre o corpo huma- no. Nem mesmo o corpo foi ex- cluido da imagem de Deus. De fato, a Escritura diz expressamen- te que Deus e Espirito (Jo 4.24) e nao atribui corpo a Deus. Contu- do, Deus eo Criador tambem do corpo e do mundo dos sentidos. Todas as coisas, inclusive as ma- teriais, possuem sua origem e sua existencia no Verbo que estava com Deus (Jo 1.3; Cll.l5). 0 cor- po, embora nao seja a causa das atividades espirituais, e 0 instru- mento pelo qual essas atividades sao realizadas. Nao e o ouvido que ouve, mas o espirito humano e que ouve atraves do ouvido. Portanto, todas as atividades que sao realizadas pelo corpo e ate mesmo os orgaos ffsicos que sao utilizados para realizar essas atividades podem ser atribuidos a Deus. A Escritura fala de Suas maos e pes, de Seus olhos e ouvi- dos e de varios outros orgaos e membros para indicar que tudo o que o homem pode alcanc;ar atra- ves do corpo e, de uma forma ori- ginal e perfeita, devido a Deus. "0 que fez o ouvido, acaso nao ouvira? Eo que formou os olhos
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    A ORIGEM, AEss:ENCIA E o PROP6sno oo HoMEM sera que nao enxerga?" (Sl 94.9). Portanto, na medida em que o corpo serve como urn instrumen- to do espirito, ele exibe uma cer- ta semelhan<_;:a e da uma certa no- <_;:ao da forma pela qual Deus age no mundo. * * * * * Tudo isso pertence a ima- gem de Deus em urn sentido am- plo. Mas a semelhan<_;:a de Deus no homem se torna muito mais forte na justi<_;:a original com a qual o primeiro homem foi dotado e que e chamada de imagem de Deus, em urn sentido estrito. Quando a Escritura enfatiza a justi<_;:a origi- nal, ela declara que o que mais nos interessa na imagem de Deus nao e propriamente 0 fato de que ela existe, mas o que ela e. 0 fato principal nao e que n6s pensamos, odiamos, amamos e desejamos. A semelhan<_;:a entre o homem e Deus recebe o seu significado da- quilo que pensamos e desejamos, daquilo que e 0 objeto de nosso amor ou 6dio. As for<_;:as da razao e da vontade, da inclina<_;:ao e da aversao, foram dadas ao homem precisamente para esse prop6si- to, para que sejam usadas da for- ma correta - ou seja, de acordo com a vontade de Deus e para Sua gloria. Os demonios tambem pos- suem capacidade de pensamento 2 de vontade, mas eles colocam 2ssa capacidade somente a servi- 253 <_;:o de seu 6dio e de sua inimiza- de contra Deus. Embora a cren<_;:a na pessoa de Deus, que eem si mesma uma coisa boa, ela nada concede aos demonios alem de temor e tremor de Seu julgamen- to (Tg 2.19). Com rela<_;:ao aos ju- deus, que foram chamados filhos de Abraao e chamaram Deus de seu Pai, Jesus disse que eles de- veriam fazer as mesmas obras que Abraao, e crer naquele que lhes foi enviado. Mas, como eles esta- vam fazendo precisamente o oposto e queriam matar Jesus, eles provaram que sao realmente filhos do diabo e que queriam fa- zer a vontade de seu pai (Jo 8.39- 44). Os desejos que os judeus ti- veram e as obras que eles realiza- ram foram usados pelo diabo. Dessa forma, podemos observar que a semelhan<_;:a do homem com Deus nao esta, precisamente, no fato do ser humano possuir razao e entendimento, corac;ao e vonta- de. Ela se expressa, principalmen- te, no puro conhecimento e na perfeita justi<_;:a e santidade, que juntas constituem a imagem de Deus em urn sentido estrito, e com a qual o homem foi privile- giado e adornado em sua criac;ao. 0 conhecimento que foi dado ao primeiro homem nao consistiu no fato de que ele conhe- cia tudo e nada mais tinha a apren- der sobre Deus, sobre si mesmo e sobre o mundo. Ate mesmo o co- nhecimento dos anjos e dos san-
  • 233.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii tos e suscetivel de desenvolvi- mento. Assim era o conhecimen- to de Cristo sobre a terra ate o fim de seus dias entre n6s. Esse co- nhecimento original do primeiro homem, implica que Adao rece- beu urn conhecimento adequado para as circunstancias de seu cha- mado e para o cumprimento de sua missao, e que esse conheci- mento era urn conhecimento puro. Ele amou a verdade com toda a sua alma. A mentira, com todas as calamitosas conseqi.ien- cias do erro1 da duvida, da incre- dulidade e da incerteza ainda nao tinham encontrado morada em seu cora<;ao. Enquanto permane- ceu na verdade ele viu e apreciou todas as coisas como realmente sao elas. 0 fruto desse conhecimento da verdade era justi<;a e santida- de. A santidade significa que o primeiro homem foi criado livre de toda e qualquer mancha cau- sada pelo pecado. Sua natureza era polida e brilhante. Nenhum pensamento, deliberac;ao ou dese- jo mal flufa de seu cora<;ao. Ele nao era o que podemos chamar de ingenuo ou bobo, mas ele conhe- cia Deus e ele sabia que a lei de Deus estava escrita em seu cora- c;ao e ele amou essa lei com toda a sua alma. Enquanto permane- ceu na verdade ele permaneceu tambem no amor. A justi<;a signi- fica que o homem, que conhecia a verdade em sua mente, e que era 254 santo em sua vontade e em seus desejos, tambem correspondia completamente alei de Deus, sa- tisfazia completamente as exigen- cias de sua justi<;a e permanecia diante de Sua face sem qualquer culpa. A verdade e o amor trou- xeram a paz em sua esteira, paz com Deus e consigo mesmo e com o mundo todo. 0 homem que per- manece no lugar correto, o lugar que lhe pertence, tambem perma- nece em urn correto relaciona- mento com Deus e com suas cria- turas. Desse estado e da circuns- tancia na qual o homem foi cria- do n6s nao podemos formar uma ideia muito precisa. A cabe<;a eo cora<;ao, a mente e a vontade, tudo puro e sem pecado - isso e algo que esta muito alem do ambito de nossas experiencias. Quando n6s paramos para refletir como o pe- cado tern se insinuado em nosso pensamento e em nossas pala- vras, em nossas escolhas e em nossas a<;6es, quando a duvida se levanta em nosso cora<;ao, ne- nhum estado de verdade, amor e paz e possivel ao homem. A Sa- grada Escritura, contudo, nos da a vit6ria e vence toda duvida. Em primeiro lugar ela nos mostra, nao apenas no come<;o, mas tambem no decorrer da hist6ria, que a fi- gura de urn homem que pudesse cumprir toda a justi<;a coloca a questao aos seus oponentes: "Quem de voces me convence de
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    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PROP6SITO DO HoMEM pecado?" (Jo 8.46). Cristo era ho- mem, urn homem perfeito. Ele nao pecou, nem dolo algum se achou em Sua boca (lPe 2.22). Em segundo lugar a Escritura nos en- sina que o primeiro casal huma- no foi criado aimagem de Deus em justic;:a e santidade e como re- sultado disso ele conheceu a ver- dade. Dessa forma a Escritura afir- ma que o pecado nao faz parte da natureza humana, e que, portan- to, ele pode ser removido e sepa- rado da natureza humana. Se o pecado fizesse parte da natureza humana desde sua ori- gem, entao pela natureza do caso nenhuma redenc;:ao seria possivel. A redenc;:ao do pecado seria, nes- se caso, uma aniquilac;:ao da na- tureza humana. Mas como o pe- cado nao faz parte da natureza humana, o ser humano nao ape- nas pode existir hipoteticamente sem o pecado, mas tal ser huma- no santo ja existiu na realidade. E quando ele pecou e tornou-se cul- pado e corrompido, outro ho- mem, o segundo Adao,levantou- se sem pecado, para fazer com que o homem caido ficasse livre de sua culpa e fosse limpo de toda e qualquer mancha. A cria- c;:ao do homem, segundo a ima- gem de Deus e a possibilidade da queda incluem a possibilidade da redenc;:ao e da recriac;:ao. Mas, aquele que nega o primeiro, nao pode concordar com o segundo; a negac;:ao da queda tern como 235 efeito colateral a desconfortavel prega<;ao da impossibilidade da reden<;ao do homem. Para que pudesse cair, o homem teve pri- meiro que permanecer de pe. Para que pudesse perder a imagem de Deus, ele teve primeiro que pos- sui-la. ***** A cria<;ao do homem, segun- do a imagem de Deus - conforme n6s lemos em Genesis 1.26 e 28 - teve o prop6sito imediato de ca- pacitar o homem a encher a terra e domina-la. Tal dominio nao e urn elemento constituinte da ima- gem de Deus. Tambem nao cons- titui todo o conteudo dessa ima- gem, como alguns tern afirmado. A imagem de Deus nao e urn adendo arbitrario e acidental. Pelo contrario, a enfase que e co- locada sobre o dominio esta rela- cionada bern de perto com a cria- <;ao a imagem de Deus e indica conclusivamente que a imagem se expressa no dominio e atraves dele, mas deve desenvolver-se cada vez mais. Alem disso, na descri<;ao desse dominioI e clara- mente afirmado que em uma cer- ta medida ele foi imediatamente dado ao homem como uma dota- <;ao, mas que em urn sentido mui- to mais elevado esse dominio se- ria alcanc;:ado no futuro. Deus nao apenas diz que fara "homens" a Sua imagem e semelhan<;a (Gn
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 1.26), mas quando fez o primeiro casal, o homem e a mulher, ele os abenc;oou e disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a;..." (Gn 1.28), e posteri- ormente Ele deu a Adao a missao de cultivar e guardar o jardim (Gn 2.15). Tudo isso nos mostra clara- mente que o homem nao foi cria- do para a ociosidade, mas para o trabalho. Ele nao foi autorizado a descansar sobre o trabalho alheio, mas tinha que empreender esfor- c;os para subjugar o mundo asua palavra e vontade. Ele recebeu essa grande, vasta e rica missao sobre a terra. Ele recebeu uma missao que lhe custaria seculos de esforc;o para que fosse cumprida. Ele foi colocado em uma direc;ao cujo caminho era incalculavel- mente longo, e a cujo fim ele teria que chegar. Em resumo, ha uma grande diferenc;a entre a condi~ao na qual o primeiro homem foi cri- ado e o destino ao qual ele foi cha- mado. De fato, essa destinac;ao esta intimamente relacionada com a sua natureza e tambem com sua origem, mas ao mesmo tempo e diferente tanto de uma quanto de outra. A natureza do homem, a essencia de seu ser - a imagem de Deus segundo a qual ele foi cria- do - deveria desdobrar-se constantantemente em formas mais ricas e mais completas de seu conteudo atraves de seu es- forc;o para cumpnr sua 236 destinac;ao. Podemos dizer que a imagem de Deus tinha que espa- lhar-se pelos confins da terra e ti- nha que ser impressa sobre todas as obras das maos do homem. 0 homem tinha que cultivar a terra e cada vez mais tornar-se uma re- velac;ao dos atributos de Deus. 0 dominio da terra, portan- to, era o mais proximo, mas nao era 0 unico prop6sito para 0 qual o homem foi chamado. A nature- za do caso nos aponta para esse fato. 0 trabalho que e realmente urn trabalho nao pode ter seu fim e seu prop6sito final em si mes- mo, mas sempre tern como seu objetivo primordial trazer algo a exisb2ncia. Ele cessa quando seu objetivo e alcanc;ado. Trabalhar, simplesmente trabalhar, sem de- liberac;ao, plano ou prop6sito e trabalhar sem esperanc;a e sem merito. Urn desenvolvimento que continua indefinidamente nao e urn desenvolvimento. 0 desen- volvimento implica intenc;ao, cur- so de ac;ao, prop6sito final, destinacao. Se, entao, o homem em sua criac;ao foi chamado para trabalhar, isso implica que ele e as pessoas que dele descenderi- am entrariam em urn descanso depois desse trabalho. A instituic;ao da semana de sete dias confirma e reforc;a essa convicc;ao. Em sua obra de criac;ao Deus descansou no setimo dia. 0 homem, feito aimagem de Deus, imediatamente em sua criac;ao
  • 236.
    A ORIGEM, AESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM ganha o direito e o privilegio de seguir o exemplo divino tambem com rela<;ao a esse descanso. A obra que lhe e confiada, a saber, dominar a terra, e uma fraca imi- ta<;ao da atividade criativa de Deus. 0 trabalho do homem e urn trabalho que esta inteiramente sujeito a deliberarao, segue urn definido curso de a<;ao, e procura atingir urn objetivo especifico. 0 homem nao e uma maquina que se move inconscientemente; em seu trabalho 0 homem e homem, a imagem de Deus, urn ser pensante, volitivo e ativo que pro- cura criar algo, e que, por fim, olha para o trabalho de suas maos com aprova<;:ao. Como faz o pro- prio Deus, o homem trabalha, ter- mina seu trabalho, descansa e ale- gra-se. A semana de seis dias co- roada pelo sabado dignifica 0 tra- balho do homem, coloca-o acima de movimentos mon6tonos de natureza mecanica e sela-o como selo da vocac;ao divina. No dia de sabado Deus entrou em Seu des- canso de acordo com Seu prop6- sito eo homem descansa de suas obras da mesma forma que Deus descansa das Suas (Hb 4.10). Isso everdade com rela<;ao ao indivi- duo e tambern com rela<;:ao aIgre- ia e de forma geral. 0 mundo tam- bern tern sua obra para realizar, ._una obra que e seguida e conclu- 1da pelo sabado. Cada dia de sa- bado eurn exemplo, uma prova, uma profecia e uma garantia do 257 descanso (Hb 4.9). Epor isso, que o Catecismo de Heidelberg, corretamente diz que Deus criou o homem born e segundo Sua propria imagem, para que ele pudesse corretamen- te conhecer Deus, seu Criador, ama-lo e viver com Ele em eterna bem-aventuran<;a para louva-lo e glorifica-lo. 0 prop6sito final do homem esta na eterna bem- aventuran<;a, na glorifica<;ao de Deus no ceu e na terra. Mas para que esse fim seja alcan<;ado e ne- cessaria que o homem cumpra sua missao. Para entrar no descan- so de Deus o homem deve primei- ro realizar o trabalho de Deus. 0 caminho para 0 ceu passa pela terra e sobre a terra. A entrada para 0 sabado e aberta por seis dias de trabalho. Esse ensino do prop6sito do homem repousa inteiramente so- bre pensamentos que foram ex- pressos em Genesis 1.26-3.3. Mas o segundo capitulo tern outro importante elemento constituinte que deve ser acrescentado. Quan- do Deus coloca o homem no pa- raiso, Ele lhe da o direito de co- mer livremente de todas as arvo- res do jardim, exceto de uma. A arvore do conhecimento do bern e do mal e colocada por Deus como uma exce<;ao. 0 homem e avisado de que ele nao pode co-
  • 237.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mer do fruto dessa arvore e que no dia em que ele comer certa- mente morrera (Gn 2.16)7). Esse mandamento e uma proibic;ao. Os mandamentos foram conhecidos por Adao parcialmente atraves de seu proprio corac;ao e a outra parte foi falada por Deus. Adao nao OS inventou. Deus criou-os nele e comunicou-os a ele. 0 homem nao e religiosa e moralmente au- tonomo. Ele nao e seu proprio le- gislador e nao pode fazer tudo como lhe agrada. Somente Deus e o Legislador e o Juiz do homem (Is 33.22). Todos os mandamentos que Adao recebeu foram dados para que, aquele que foi criado a imagem de Deus, em todos os seus pensamentos e obras, em sua vida e trabalho, continuasse sen- do a imagem de Deus. 0 homem tinha que manter sua personalida- de em sua propria vida, em seu matrimonio, em sua famflia, em seus seis dias semanais de traba- lho, em seu descanso no setimo dia, em seu cultivo da terrae em sua multiplicac;ao, em seu domi- nio sobre a terra e em sua guarda do jardim. Adao nao podia seguir seu proprio caminho, mas devia seguir o caminho que Deus tinha apontado para ele. Mas todos esses mandamen- tos, que davam a Adao ampla li- berdade de movimento e toda a terra como seu campo de opera- c;ao, sao limitados por uma proi- bic;ao. Essa proibic;ao, de comer o 238 fruto do conhecimento do berne do mal, nao pertence a imagem de Deus e nao e urn elemento constituinte dela, alias, pelo con- trario, essa proibi<;ao fixa o limite da imagem de Deus. Se Adao transgredisse essa proibic;ao ele perderia a imagem de Deus, per- deria a comunhao com Deus e morreria. Por essa proibic;ao a obediencia do homem foi testada. Esse mandamento provaria se o homem seguiria o caminho de Deus ou seu proprio caminho, provaria se ele se manteria na tri- lha correta ou se ele se desviaria, provaria se ele se manteria como urn filho na casa do Pai ou se pre- feriria tomar a porc;ao que lhe cabe e partir para urn pais distan- te. Por causa disso esse manda- mento geralmente e chamado de comando probativo. Ele possui, em urn certo sentido, urn conteu- do arbitrario. Adao e Eva nao po- deriam encontrar razao pela qual 0 fruto dessa arvore tinha sido proibido. Em outras palavras, eles tinham que obedecer oman- damento de Deus nao porque en- tendessem que esse era urn man- damento sensato, mas porque ti- nha sido dado por Deus, com base em Sua autoridade, para testar sua obediencia. Esse e o motivo pelo qual a arvore cujo fruto eles nao podiam comer e chamada de ar- vore do conhecimento do bern e do mal. Era essa arvore que de- monstraria tanto se o homem ar-
  • 238.
    A ORIGEM, AESSENCIA E 0 PROPOSITO DO HOMEM bitraria e auto suficientemente queria determinar o que era bern e o que era mat quanto se nesse assunto ele se permitiria ser total- mente guiado pelo mandamento que Deus tinha dado sobre o que ele deveria fazer. Ao primeiro homem, par- tanto, foi dado algo, ou melhor, foi dado muito o queJazer; e tam- bern havia algo que ele nao po- deria fazer. Geralmente a ultima exigencia e a mais dificil de ser cumprida. Ha muitas pessoas que estao tentando fazer muito, por exemplo, pela sua saude, mas nao querem deixar de Jazer algo por ela, mesmo que seja algo bern pequeno. Elas acham que a auto nega~ao e uma carga exage- radamente pesada. A proibi~ao cria uma nuvem de misterios. Ela levanta questoes tais como por que, o que e como. Ela semeia a duvida e incita a imagina~ao. 0 homem tinha que resistir atenta- ~ao que fluiu do mandamento proibitivo de Deus. Essa era a luta de fe que ele teria que veneer. Na imagem de Deus segundo a qual ele fora criado, ele recebeu tam- bern a for~a pela qual ele poderia ter permanecido firme e vencido. Contudo esse mandamento proibitivo tornou aparente, com mais clareza do que a institui~ao da semana de sete dias, que o fim e destino do homem e diferente do fim e destino de toda a cria- ~ao. Adao estava apenas no come- 239 ~o do que ele deveria ser e do que ele se tornaria quando alcan~asse o fim para o qual fora criado. Ele viveu no paraiso, mas nao vivia ainda no ceu. Ele ainda tinha urn longo caminho para percorrer an- tes de chegar ao seu proprio des- tino. Ele tinha que alcan~ar a vida eterna por sua "comissao" e "omissao". Em resumo, ha uma grande diferen~a entre o estado de inocencia no qual o primeiro homem foi criado e o estado de gloria ao qual ele estava destina- do. A natureza dessa diferen~a se torna clara para nos atraves do restante da revela~ao. Adao era dependente da mudan~a de noite e dia, sono e vigilia, mas nos somos informa- dos de que na Jerusalem Celestial nao havera noite (Ap 21.25; 22.5) e que os redimidos pelo sangue do Cordeiro estarao diante do tro- no de Deus e o servirao de dia e de noite (Ap 7.15). 0 primeiro homem foi limitado asemana de seis dias de trabalho e urn dia de descanso, mas para o povo de Deus havera urn descanso eterno, interminavel (Hb 4.9; Ap 14.13). No estado de inocencia o homem diariamente precisava comer e beber, mas no futuro Deus des- truira tanto o estOmago, quanto os alimentos (1Co 6.13). 0 primeiro casal humano consistiu de urn homem e de uma mulher e rece- beu a seguinte ben~ao: "Sede fe- cundos e multiplicai-vos". Mas na
  • 239.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ressurrei<;ao os homens nao se casam e nao se dao em casamen- to, mas sao como os anjos nos ceus (Mt 22.30). 0 primeiro homem, Adao, era da terra, terreno, tinha urn corpo natural e era uma alma vivente, mas os crentes na ressur- rei<;ao, receberao urn corpo espi- ritual e levarao a imagem do ho- mem celestiat a imagem de Cris- to, o Senhor do ceu (1Co 15.45-49). Adao foi criado de tal forma que ele podia se desviar, podia pecar, podia cair e podia morrer; mas os crentes, mesmo na terra, estao, em princfpio, acima dessa possibili- dade. Eles nao podem viver pe- cando, pois aquele que e nascido de Deus nao vive na pratica do pecado, pois o que permanece nele e a divina semente; ora, esse nao pode viver pecando, porque e nascido de Deus (1Jo 3.9). Eles nao podem cair definitivamente, porque sao guardados pelo poder de Deus, mediante a fe, para a sal- va<;ao preparada para revelar-se no ultimo tempo (1Pe 1.5). E eles nao podem morrer, pois aqueles que estao em Cristo possuem, ja nesta vida, a vida eterna incor- ruptivel; eles nao morrerao eter- namente, mesmo que morram nes- sa vida (Jo 11.25,26). Ao olharmos para o primei- ro homem, portanto, n6s devemos evitar os dois extremos. Por um lado n6s devemos, com base na Sagrada Escritura, afirmar que ele foi imediatamente criado a ima- 240 gem de Deus em verdadeiro co- nhecimento, justi<;a e santidade. Ele nao era uma crian<;a pequena e ingenua que deveria se desen- volver ate a maturidade, ele nao era urn ser que, embora maduro quanto ao corpo, era espiritual- mente vazio, assumindo uma po- si<;ao neutra entre a verdade e a falsidade, entre o bern e mal e muito menos era ele urn animal, gradualmente desenvolvido e que agora, ap6s grande empenho e esfor<;o, tornou-se urn homem. Tal representa<;ao esta em confli- to irreconciliavel com a Escritura e com a razao. Por outro lado, o estado do primeiro homem nao deve ser exageradamente glorificado como as vezes se faz na doutrina crista e na prega<;ao. Apesar do homem ter sido colocado por Deus em urn lugar de destaque, ele ainda nao tinha alcan<;ado o nfvel mais alto possivel. Ele era capaz de nao pecar, mas nao era incapaz de pecar. Ele ainda nao possuia a vida eterna que nao pode ser cor- rompida e nao pode morrer, mas recebeu uma imortalidade preli- minar cuja existencia e dura<;ao dependiam do cumprimento de uma condi<;ao. Ele foi imediata- mente criado aimagem de Deus, mas ele ainda podia perder essa imagem e toda a gloria nela con- tida. Ele viveu no paraiso, e ver- dade, mas 0 paraiso nao era 0 ceu. Uma coisa estava faltando em to-
  • 240.
    A ORIGEM, AEssENCIA Eo PROP6SITO DO HoMEM das as riquezas, tanto espirituais quanto fisicas, que Adao possuiu: certeza absoluta. Se nos nao possu- imos certeza absoluta nosso des- canso e nosso prazer nao sao per- feitos. De fato, o mundo contem- poraneo com seus muitos esfor- <;:os para segurar tudo o que o ho- mem possui e uma satisfatoria evidencia dessa verdade. Os cren- tes estao seguros nesta vida e na proxima, pois Cristo e quem OS guarda e nao permitira que eles sejam arrebatados de sua mao (Jo 10.28). 0 verdadeiro amor lan<;:a fora o medo (1Jo 4.18) enos per- suade de que nada nos separara do amor de Deus, que esta em 241 Cristo Jesus nosso Senhor (Rm 8.38-39). Mas essa certeza absolu- ta estava ausente no paraiso. Adao nao estava, apesar de sua cria<;:ao a imagem de Deus, per- manentemente estabilizado no bern. Independente de quanto ele possuia, ele podia perder tudo, nao somente ele mesmo, mas tam- bern sua posteridade. Sua origem era divina; sua natureza estava re- lacionada anatureza divina; seu destino era a eterna bem- aventuran<;:a na presen<;:a imedia- ta de Deus. Mas para alcan<;:ar seu destino ele foi feito dependente de sua propria escolha e de sua propria vontade.
  • 242.
    CAPITULO 11~ 0 PECADO EA MaRTE 0 terceiro capitulo de Genesis nos fala sobre a desobediencia e a queda do homem. Presumivelmente, nao foi muito tempo depois da sua cria<;:ao que o homem se fez culpado por transgredir o manda- mento divino. A cria<;:ao e a que- da nao sao coexistentes e nao de- vern ser confundidas uma com a outra. Elas diferem uma da outra em natureza e em essencia, mas cronologicamente elas sao muito pr6ximas. As circunstancias nas quais o homem vivia no parafso eram muito parecidas com as circuns- tancias dos anjos. A Sagrada Es- critura nao nos da urn registro de- talhado sobre a cria<;:ao e queda dos anjos; ela nos diz somente o que n6s precisamos saber para que tenhamos urn correto enten- dimento do homem e de sua que- da. Ela nao faz considera<;:oes pos- teriores e nao faz qualquer esfor- <;:o no sentido de satisfazer nossa curiosidade. Mas n6s sabemos que os al£jos existem, que urn grande numero deles caiu e que essa queda aconteceu no come<;:o do mundo. Everdade que alguns estudiosos situam o tempo da cri- a<;:ao dos anjos muito antes de Genesis 1.1, mas a Escritura nao nos da base para isso. 0 come<;:o de toda a obra de cria<;:ao esta registrado em Genesis 1.1 e em Genesis 1.31 e dito que toda a obra de cria<;:ao, e nao apenas a cria<;:ao da terra, foi vista por Deus e foi declarada como sendo muito boa. Isso me faz pensar que a rebeliao e a de- sobediencia dos anjos tenham acontecido depois do sexto dia da cria<;:ao. Por outro lado, a Escritura nos ensina que a queda dos anjos precedeu a queda do homem. 0 243
  • 243.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista pecado nao surgiu pela primeira vez na terra, mas no ceu, na pre- sen<;a imediata de Deus, junto ao Seu trono. 0 pensamento, o dese- jo, a vontade de resistir a Deus surgiu primeiramente no cora<;ao dos anjos. Eprovavel que o orgu- lho tenha sido o primeiro pecado e o principio da queda dos anjos. Em 1Tim6teo 3.6 Paulo exorta a igreja a nao escolher como bispo algw?m que tenha sido converti- do ha pouco tempo, para que ele nao sinta orgulho e caia na con- dena<;ao do diabo. Se esse julga- mento ou essa condena<;ao do di- abo significa o pecado no qual ele caiu depois de se exaltar contra Deus, entao n6s temos aqui urn indicio do fato de que o pecado do diabo come<;ou com a auto- exalta<;ao e orgulho. Mas pode ser que a queda dos anjos tenha precedido a do homem. Alem disso, o homem nao transgrediu a lei de Deus ex- clusivamente por si mesmo, mas foi movido por algo fora de si mesmo. A mulher, enganada e tentada pela serpente, cometeu a transgressao (2Co 11.3; 1Tm 2.14). Certamente n6s nao devemos ima- ginar que essa serpente seja uma representac;:ao simb6lica, mas uma serpente real, pois n6s somos in- formados de que a serpente era mais sagaz do que todos os ani- mais selvaticos que o Senhor Deus tinha feito (Gn 3.1; Mt 10.16). A revela<;ao posterior nos da a en- 244 tender que uma forc;:a demoniaca fez uso da serpente para encantar o homem e fazer com que ele se desviasse do caminho do Senhor. Em varios pontos do Velho Tes- tamento n6s lemos que Satanas e o acusador e o tentador do ho- mem (J6 1.1; Cr 21.1; Zc 3). 0 ter- rivel poder das trevas foi revela- do pela primeira vez quando a divina luz celestial brilhou sobre o mundo em Cristo. Entao, tor- nou-se manifesto que ha outro mundo ainda mais pecaminoso do que esse aqui na terra. Ha uma realidade espiritual do mal, na qual inumeraveis dem6nios, espi- ritos impuros e maus, cada urn mais infquo que o outro (Mt 12.45), sao os servos e no qual Sa- tanas eo chefe e o cabec;:a. Esse Satanas recebe varios nomes. Ele nao e chamado somente de Sata- nas, que significa Adversario, mas tambem de diabo, que significa blasfemador (Mt 13.39), de inimi- go (Mt 13.39; Lc 10.19), de mal ou maligno (Mt 6.13; 13.19), de acu- sador (Ap 12.10), de tentador (Mt 4.3), de Belial, que significa inutil (2Co 6.15), de Belzebu (Beelzebul ou Beelzebub), o nome pelo qual o deus voador de Ecrom era cha- mado 2Re 1.2; Mt 10.25), o princi- pe dos dem6nios (Mt 9.34), o prin- cipe da potestade do ar (Ef 2.2), o prfncipe deste mundo (Jo 12.31), o deus desta era ou o deus deste mundo (2Co 4.4t o grande dragao e a antiga serpente (Ap 12.9).
  • 244.
    0 PEcAoo EA MoRTE Essa realidade das trevas nao existe desde o come<;:o da cri- a<;:ao, ela passou a existir somen- te depois da queda de Satanas e de seus anjos. Pedro diz de for- ma generica que os anjos pecaram e foram punidos por Deus (2Pe 2.4), mas Judas, no sexto versiculo de sua carta, explica com mais precisao a natureza do pecado dos anjos, dizendo que eles nao guardaram seu estado original, isto e, 0 estado no qual foram cri- ados por Deus e abandonaram sua habita<;:ao no ceu. Eles nao estavam satisfeitos com o estado que Deus lhes tinha dado e dese- jaram algo mais. Essa rebeliao aconteceu no principia, pois o di- abo peca desde o principia (lJo 3.8) e desde o come<;:o ela foi dedicada acorrup<;:ao do homem. Jesus afirma expressamente que Satanas era assassino desde o co- me<;:o e que jamais se firmou na verdade porque ementiroso (Jo 8.44). Desse Satanas veio a tenta- <;:ao ao homem. Ela veio na forma de urn ataque ao mandamento que Deus tinha dado de nao co- mer da arvore do conhecimento do bern e do mal. 0 ap6stolo Tiago afirma que Deus esta acima da tenta<;:ao, e que Ele nao pode tentar o homem. Naturalmente o significado dessa afirma<;:ao nao e que Deus nao prove o homem ou nao coloque o homem aprova. A Escritura registra varios casos em 245 que Ele faz exatamente isso, seja com Abraao, Moises, J6, Cristo, ou imediatamente com o primeiro homem, Adao. Mas quando al- guem e reprovado nessa prova, essa pessoa eimediatamente in- clinada a colocar o peso da culpa pela sua queda sobre Deus, dizen- do que Deus queria fazer-lhe mal, ou que queria submete-lo a uma prova na qual essa pessoa certa- mente seria reprovada. N6s podemos observar que, depois da queda, Adao imediata- mente faz isso. Agir assim ease- creta inclina<;:ao de todo homem. Tiago reage a essa tendencia e afir- ma definitiva e firmemente que Deus esta acima do nivel da ten- ta<;:ao e que Ele mesmo a ninguem tenta. Ele nunca tenta uma pessoa com a inten<;:ao de faze-la cair e Ele nunca submete alguem a uma prova que essa pessoa nao tenha capacidade de suportar (lCo 10.13). 0 mandamento probativo dado a Adao tinha o objetivo de fazer com que a obediencia se tor- nasse manifesta e isso significa que ela nao estava alem de suas for<;:as. Humanamente falando, o homem poderia facilmente ter cumprido esse mandamento, pois, esse mandamento era luz, e o seu peso nao pode ser compa- rado com todos os outros manda- mentos que foram dados depois dele. Mas da mesma forma como Deus faz o bern, Satanas faz o mal.
  • 245.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Satancis exagerou o mandamento probativo e transformou-o em uma tenta<;ao, urn ataque secreto aobediencia do primeiro homem e atraves dessa tenta<;ao sua inten- <;ao era claramente fazer com que o homem pecasse. Primeiro, o mandamento que Deus tinha dado, e representado como urn fardo arbitrariamente colocado sobre o homem, como uma limi- ta<;ao infundada da liberdade hu- mana. Dessa forma Satanas lan<;a na alma de Eva a duvida sobre a justi<;a desse mandamento e sobre a sua origem divina. Depois, a duvida se desenvolve em incre- dulidade, por meio do pensamen- to de que Deus deu esse manda- mento para impedir que o homem se tornasse como Ele, conhecedor do berne do mal. Essa increduli- dade e colocada a servi<;o da ima- gina<;ao e faz com que a transgres- sao parec;a ser, nao urn caminho para a morte, mas urn caminho para a vida, para a igualdade com Deus. A imagina<;ao, dessa forma, faz sua obra na inclina<;ao e no esfor<;o do homem e a arvore proi- bida passa a ter outra aparencia. Ela se torna agradavel aos olhos e desejavel ao cora<;ao. 0 desejo, sendo concebido dessa forma, ex- pulsa a vontade e carrega consi- go o ato pecaminoso. Eva toma o fruto e come e o da tambem ao seu marido, e ele tambem come (Gn 3.1-6). 246 ***** Dessa forma simples, mas profundamente psicol6gica, a Es- critura relata a hist6ria da queda e a origem do pecado. Dessa mes- ma forma o pecado continua a ser praticado. Ele come<;a com o obscurecimento do entendimen- to, continua atraves da excita<;ao da imagina<;ao, estimula o desejo no cora<;ao e culmina em urn ato da vontade. Contudo, ha uma grande diferen<;a entre o primei- ro pecado e todos os pecados pos- teriores. Os pecados posteriores pressup6em uma natureza peca- minosa no homem e fazem dessa natureza seu ponto de contato. Tal natureza nao existia em Adao e Eva, pois eles foram criados a imagem de Deus. Mas n6s faze- mas bern em nos lembrarmos que mesmo em toda a sua perfei<;ao eles foram criados de tal forma que eles pudessem cair e em vir- tude dessa natureza seu pecado tem urn carater de insensatez. Quando uma pessoa peca ela sempre tenta se desculpar ou se justificar, mas nunca tern sucesso. Nunca ha uma base sensata para o pecado. Sua existencia e e con- tinuara sendo uma transgressao da lei. Ha algumas pessoas em nossos dias que tentam sustentar que 0 pecador e conduzido a urn ato pecaminoso pelas circunstan- cias ou pela sua disposic;ao, mas nem racionalmente, nem psicolo-
  • 246.
    0 PECADO EA MORTE gicamente o pecado pode ter sua origem em uma disposic_;:ao ou ac_;:ao que tenha qualquer razao para existir. Isso e particularmente ver- dade a respeito do primeiro pe- cado que foi cometido, o primei- ro pecado do homem no paraiso. Em nossos dias n6s vivemos em circunsHl.ncias diferentes. Essas circunstancias nao justificam 0 pe- cado, mas limitam a medida da culpa. Mas no pecado do primei- ro casal humano nao havia uma circunstancia sequer que pudes- se diminuir ou modificar o fator da culpa. De fato, tudo o que pode ser designado como contexto des- se evento - como a revelac_;:ao es- pecial que revelou-lhes o manda- mento probativo, o conteudo do mandamento probativo, que exi- gia apenas uma pequena auto ne- gac;:ao, a seriedade da ameac;:a de penalidade relacionada com a transgressao, o horror das conse- quencias, a santidade de sua na- tureza- tudo isso agrava a exten- sao da culpa. N6s podemos lanc;:ar alguma luz sobre a possibilidade da queda, mas a transic_;:ao da possibilidade para a realidade permanece oculta nas trevas. A Escritura nao faz qual- quer esforc;:o para fazer com que essa transic_;:ao seja inteligivel. For- tanto, a Escritura tambem susten- ta o pecado inalterado em seu ca- rater. 0 pecado existe, mas ele e ilegitimo. Ele esta e permanecera para sempre em conflito com a lei de Deus e com o testemunho de nossa consciencia. Ao relatar esses dois fatos, isto e, ao dar, por urn lado, urn registro psicol6gico do surgi- mento do pecado, urn relato do que cada urn sente em sua propria vida e ao deixar o pecado, por outro lado, nu ecru em sua natu- reza insensata e injustificavet o registro da queda em Genesis 3 coloca-se imensuravelmente aci- ma de tudo o que a sabedoria humana no curso dos seculos tern sido capaz de produzir sobre a questao da origem do pecado. Que existe 0 pecado e a miseria e algo que todos n6s sabemos, nao apenas por causa do registro da Escritura; isso e algo que nos e en- sinado diariamente e em todos os momentos por uma natureza que geme com gemidos inexprimi- veis. Todo o mundo esta marca- do pela queda. E se o mundo ao nosso redor nao nos proclamasse essa verdade, mesmo assim n6s seriamos a todo momento lembra- dos disso pela voz de nossa cons- ciencia, que continuamente nos acusa e pela miseria do corac;:ao, que da testemunho de uma tris- teza inominavel. Epor isso, que em todas as epocas e em todos OS lugares, a humanidade sempre perguntou: 247 Por que o mal? Por que o mal do pecado e o mal da miseria? Essa e a questao que, mais do que a
  • 247.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista questao da origem do homem, tern ocupado o pensamento do homem e tern pressionado seu co- ra<;ao e sua mente dia ap6s dia. Mas agora compare as solu<;6es que a sabedoria humana tern dado a essa questao com a sim- ples resposta das Escrituras. Naturalmente as solu<;6es humanas nao sao semelhantes. Contudo, elas exibem uma certa rela<;ao entre si e e com base nes- sa rela<;ao que elas podem ser classificadas. A solu<;ao mais comumente freqiiente e aquela segundo a qual o pecado nao esta dentro do homem, mas fora dele e ataca-o pelo lado de fora. Segun- do essa ideia, a natureza humana e boa e seu cora<;ao e limpo. 0 pecado esta nas circunstancias, no meio ambiente, na sociedade na qual o homem esta inserido. Eli- mine essas circunstancias e refor- me a sociedade - introduza, por exemplo, uma distribui<;ao igua- litaria de rendas e bens entre to- dos os homens- eo homem na- turalmente sera born. Ele nao tera mais raz6es para fazer o mal. Esse pensamento sobre a origem e a essencia do mal tern tido muitos adeptos porque o homem e sempre inclinado a transferir sua culpa para as cir- cunstancias. Mas esse ponto de vista foi especialmente favored- do quando, a partir do seculo de- zoito, os olhos foram abertos para a corrup<;ao politica e social e 248 uma mudan<;a radical do estado e da sociedade passou a ser vista como a solw;:ao para os nossos males. Mas sobre essa questao da bondade natural do homem 0 se- culo dezenove trouxe de volta uma certa desilusao. For causa disso outra expli- ca<;ao sobre a origem do pecado na natureza sensorial do homem entrou em moda. 0 homem tern uma alma, contudo ele tambem possui urn corpo; ele e espirito, mas ele tambem e corpo. A carne em si mesma sempre tern certas tendencias e inclina<;6es pecami- nosas, desejos mais ou menos impuros, paix6es e dessa forma ela naturalmente se op6e ao espi- rito com suas imagens, ideias e ideais. Visto como o homem, quando, nasce, continua por al- guns anos a viver urn tipo de vida botanica e animal e como crian<;a vive em termos de imagens con- cretas, torna-se evidente que a car- ne pode, por anos e anos, ser o elemento dominante, mantendo o espirito em sujei<;ao. De acordo com esse ponto de vista, apenas gradualmente o espirito se eman- cipa do poder da carne. Mas, mes- mo que seja gradualmente, ode- senvolvimento da carnalidade para a espiritualidade e continuo na ra<;a humana e no individuo. De alguma forma, pensado- res e fil6sofos tern repetidamente falado sobre a origem do pecado. Mas em tempos recentes, eles tern
  • 248.
    0 PECADo EA MoRTE recebido forte apoio da teoria que diz que 0 homem eurn descen- dente do animal, e em seu cora- ~ao ele ainda eurn animal. Alguns chegam a afirmar que o homem continuara sendo urn animal para sempre. Mas al- guns mantem a esperan<;a de que, visto como o homem tern se de- senvolvido tao gloriosamente em compara~ao com seus antepassa- dos, ele se desenvolvera ainda mais no futuro e talvez ate chegue a se tornar urn anjo. Portanto pode ser que a descendencia humana a partir dos animais possa nos for- necer uma solu~ao para o proble- ma do pecado. Se o homem tra~ar sua descendencia a partir da vida animal, entiio eperfeitamente na- turat e nao deve causar qualquer espanto que o velho animal con- tinue em a~ao dentro dele contra- lando suas a~oes. Portanto, de acordo comes- ses pensadores, o pecado nada mais e do que urn vestigio da an- tiga condi~ao animal do homem. Sensualidade, roubo/ assassinato e coisas semelhantes sao praticas que eram comuns entre os povos primitivos e essas praticas estao presentes, em nossos dias1 entre os assim chamados criminosos. Mas essas pessoas, que voltam a praticas primitivas e originais, nao devem ser consideradas pro- priamente como criminosos, mas como pessoas retr6gradas, fracas/ doentes e insanas e nao devem ser 249 punidas em prisoes, mas tratadas em hospitais. 0 que o ferimento e para Q corpo1 0 criminoso e para a sociedade. 0 pecado e uma do- en~a que o homem herdou de sua preexistencia animal e que aos poucos vai sendo subjugada. Se n6s levarmos essa linha de raciodnio asua conclusao 16- gica e procurarmos a origem do pecado nos sentidos1 na carne/ na origem animal, n6s chegaremos naturalmente a doutrina, geral- mente ensinada no passado, de que o pecado tern seu ponto de partida na materia, ou, para falar- mos de modo rnais preciso, na existencia finita de todas as cria- turas. Na antiguidade essa era a opiniao predominante sobre a ori- gem do pecado. De acordo com esse ponto de vista, o espfrito e a materia sao opostos urn ao outro, como a luz e as trevas. A oposi- ~ao e eterna1 e OS dois nunca po- dem chegar a uma verdadeira e completa comunhao urn com o outro. A materia, entao, nao seria algo que tivesse sido criada. 0 Deus de luz nao poderia criar a realidade das trevas. Ela deve ter existido eternamente paralela- mente a Deus, sem forma, escura/ sem qualquer tipo de vida ou de luz. Ate mesmo quando ela foi modelada por Deus e usada para fazer o mundo/ ela continuou sen- do incapaz de assumir a ideia es- piritual. As trevas absolutas nao admitiriam a luz.
  • 249.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Para alguns pensadores essa materia escura possui uma origem divina. Nesse caso have- ria dois deuses, que coexistiram desde a eternidade, urn deus de luz e urn deus das trevas, urn deus born e urn deus mau. Outros tentam trac;ar os dois eternos prin- cipios do bern e do mal a urn -Lmico deus e dessa forma fazem de deus urn ser duplo. Ha em Deus uma inconsciencia, uma es- curidao, uma base secreta fora da qual a consciencia, clareza e luminosidade se expressam. A primeira e a origem basica da es- curidao e do mal no mundo, e a segunda e a fonte de toda luz e vida. Se n6s dermos urn passo mais adiante, n6s chegaremos nos dias modernos a doutrina de al- guns fil6sofos segundo a qual Deus em si mesmo nada mais e do que uma natureza escura, uma forc;a cega, uma fome eterna, urn desejo arbitrario, que se torna consciente e se transforma em luz somente na rac;a humana. Esse, certamente, e 0 ponto de vista diametralmente oposto ao ensino das Escrituras. A Escritura nos diz que Deus e luz e que nEle nao ha trevas e que todas as coisas foram feitas pela Sua Palavra. Mas a fi- losofia de nossos dias nos diz que Deus e escuridao, abismo, e que a luz brilha para Ele somente no mundo e na rac;a humana. Portan- to1 nao e 0 homem que precisa ser 250 salvo por Deus, mas e Deus que carece de salvac;ao e deve procu- rar no homem a sua redenc;ao. Eclaro, que essa ultima con- clusao nao e totalmente, nem tao fortemente afirmada por aqueles que apreciam essa teoria, nem e apresentada de forma tao crua e sem rodeios, mas chega ao mes- mo lugar da rota seguida por aqueles que aderem as teorias sobre a origem do pecado apre- sentadas acima. Essas teorias po- dem diferir umas das outras, mas todas elas tern em comurn o fato de procurarem a origem do peca- do nao no desejo da criatura, mas na estrutura e na natureza das coi- sas, e, portanto, no Criador, que e a causa tanto da estrutura quanto da natureza de tudo o que existe. Se o pecado se esconde nas cir- cunsh1ncias, na sociedade, nos sentidos, na carne, na materia, entao a responsabilidade por isso deve ser colocada sobre o Criador e Sustentador de todas as coisas. E dessa forma o homem fica isen- to de culpa. Dessa forma o peca- do nao tern sua origem na queda, mas na criac;ao. Nesse caso a cria- c;ao e a queda sao identicas. En- tao a existencia, o ser em si mes- mo, e pecado. A imperfeic;ao mo- ral e o mesmo que a finitude e a redenc;ao e absolutamente impos- sivet ou culmina na aniquilac;ao do reat no nirvana. A sabedoria de Deus e exal- tada acima da especulac;ao huma-
  • 250.
    0 PECADO EA MORTE na. A especula<;ao humana colo- ca a responsabilidade pelo peca- do em Deus e inocenta o homem; a sabedoria de Deus justifica Deus e coloca o peso da culpa sobre o homem. A Escritura eo livro que do come<;o ao fim inocenta Deus e condena o homem. A Escritura e uma grande e poderosa teodiceia, uma justifica<;ao de Deus, de todos os Seus atributos e de todas as Suas obras e nisso ela eapoiada pelo testemunho da consciencia de todas as pessoas. De fato, o pecado nao e algo que esteja fora dos limites da provi- dencia de Deus; a queda nao aconteceu fora do escopo de Seu conhecimento, de Seu conselho e de Sua vontade. Todo o desenvol- vimento e toda a hist6ria do pe- cado e guiada por Ele e isso faz com que a dire<;ao do pecado seja sempre orientada. 0 pecado nao efalta de planejamento, nem fal- ta de poder de Deus; contra o pe- cado Deus continua sendo Deus, perfeito em sabedoria, bondade e poder. De fato, Deus e tao bondoso e tao poderoso que pode extrair o bern do mal e pode fazer o mal agir contra sua propria natureza e cooperar na glorifica<;ao de Seu nome e no estabelecimento de Seu reino. Mas o pecado continua pos- suindo seu carater pecaminoso. Se em urn sentido especffico n6s po- demos dizer que Deus quis o pe- cado, visto que sem Sua vontade 251 e fora dela nada pode vir aexis- tencia, deve ser sempre lembrado que foi como pecado que Ele o desejou, algo anormal e ilegitimo, portanto, algo que esta em confli- to com seu mandamento. Ao inocentar Deus, a Escri- tura mantem a natureza do peca- do. Se o pecado nao tern sua ori- gem no desejo do Criador, mas na essencia ou ser que precede a von- tade, ele imediatamente perde seu caniter moral, torna-se ffsico e na- tural, urn mal insepanivel da exis- tencia e da natureza das coisas. Dessa forma o pecado seria uma realidade independente, urn prin- dpio original, urn tipo de mal ma- terial como uma doen<;a. Mas a Escritura nos ensina que o peca- do nao ee nao pode ser issof pois Deus e o Criador de todas as coi- sas e tambem da materia, e quan- do a obra de cria<;ao foi termina- da Deus viu tudo o que tinha sido feito e disse que tudo era muito born. Portanto, o pecado nao per- tence anatureza das coisas. Ele e uma manifesta<;ao de caniter mo- ral que atua na esfera etica e con- siste de urn afastamento da nor- ma etica que Deus, por Sua von- tade, estabeleceu para o homem. 0 primeiro pecado consistiu na transgressao do mandamento probativo e, dessa forma, na trans- gressao de toda a lei moral, que, juntamente como mandamento probativo, possui autoridade di-
  • 251.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vina. Os muitos nomes que a Es- critura usa para designar o peca- do- transgressao, desobediencia, injusti<;a, impiedade, inimizade contra Deus e outros semelhantes, apontam para a mesma dire<;ao. Paulo diz que pela lei veio o co- nhecimento do pecado (Rm 3.20) e Joao declara que todo pecado1 tanto os menores quanto os mai- ores, sao injusti<;a e transgressao da lei (lJo 3.4). Se transgressao e o carater do pecado, entao esse carater nao pode estar presente na natureza ou essencia das coisas, pois tudo o que existe deve sua existencia e sua essencia somente a Deus, que e a fonte de todo 0 bern. 0 mal, portanto, s6 pode vir depois do bern, pode existir somente atraves do berne sobre o berne pode re- almente consistir da corrup<;ao do bern. Ate mesmo os anjos caidos, apesar do pecado ter corrompido sua natureza, como criaturas sao e permanecem bons. Alem disso, o bern, na medida em que perten- ce aessencia das coisas, nao e ani- quilado pelo pecado, embora seja desviado para outra dire<;ao. 0 homem nao perdeu seu ser, sua natureza humana, apesar do pe- cado. Ele ainda possui uma alma e urn corpo, razao e vontade, e todos os tipos de emo<;5es e inte- resses. De acordo com a ciencia con- temporanea, a doen<;a nao e uma substancia especifica da materia, 252 mas uma permanencia em cir- cunstancias transformadas, de for- ma que as leis da vida agem so- bre ela da mesma forma que agem sobre urn corpo saudavel, mas os 6rgaos e fun<;5es do corpo doen- te estao com suas fun<;5es nor- mais prejudicadas. Ate mesmo em urn corpo morto o funciona- mento continua em atividade, mas essa atividade se torna destrutiva e desintegradora. Da mesma forma, 0 pecado nao e uma substancia independente, mas urn disturbio de todas as cia- divas e energias dadas ao homem que faz com que elas funcionem em uma dire<;ao diferente, nao no sentido de conduzir a Deus, mas no sentido de afastar-se dele. A razao, a vontade, o interesse, as emo<;oes, as paixoes, as habilida- des psicol6gicas e fisicas - tudo isso sao armas da justi<;a, mas que foram, pela misteriosa a<;ao do pecado, convertidos em armas da injusti<;a. A imagem de Deus que o homem recebeu na cria<;:ao nao era uma substancia, mas era tao propriamente real em sua nature- za que, ao perde-la, o homem tor- nou-se completamente infeliz e deformado. Se alguem pudesse ver o homem como ele e, interna e ex- ternamente, essa pessoa descobri- ria tra<;os que se parecem mais com Satanas do que com Deus (Jo 8.44). A doen<;a e a morte espiri- tual tomaram 0 lugar da saude es-
  • 252.
    0 PEcAoo EA MaRTE piritual. Tanto a doenc;a e a morte quanto a saude, sao elementos constituintes de seu ser. Quando a Escritura insiste sobre a nature- za moral do pecado ela igualmen- te mantem a redentibilidade do homem. 0 pecado nao pertence aes- sencia do mundo, mas e algo que foi introduzido no mundo pelo ::tomem. Epor isso que ele pode ser novamente removido do mun- do pelo poder da Grac;a de Deus que e mais forte que qualquer cri- atura. * * * * * 0 primeiro pecado que o >omem cometeu nao ficou sozi- ~1ho por muito tempo. Ele nao era ·,1m tipo de ac;ao que, tendo sido ?raticada, poderia ser limpa no- ',·amente. Depois do pecado o ho- :nem nao podia mais pensar no ::ue tinha acontecido. No momen- ~o exato em que o homem come- ~eu o pecado em seu pensamento 2 imagina<;:ao, em seu desejo e em sua vontade, nesse momento uma ~remenda mudanc;a ocorreu nele. =sso se torna evidente pelo fato de -:'-1e, imediatamente depois dope- ~J.do, Adao e Eva tentaram escon- -~er-se de Deus e urn do outro. Os :·Jws de ambos se abriram e eles ::-~erceberam que estavam nus (Gn ?.:-1. Repentinamente, em urn ins- ~:mte, eles estavam mantendo urn :.-elacionamento diferente do que 253 vinham mantendo ate entao. Eles se viram como nunca tinham se visto antes. Eles nao se atreveram e nao puderam, sem reservas, olhar urn para o outro. Eles se sen- tiram culpados e impuros, e co- seram folhas de figueira para ocultarem-se urn ao outro. Eles compartilharam dessa situac;ao e sentiram medo e a necessidade de se esconderem da face de Deus no meio da arvores do jardim. As folhas de figueira servi- ram para esconder parcialmente sua vergonha e desgrac;a, mas eram inadequadas para a confron- tac;ao face a face com Deus, e por isso eles fugiram, fugiram para as densas profundezas da folhagem do jardim. A vergonha e o temor tinham se apoderado deles, pois eles tinham perdido a imagem de Deus e sentiam-se culpados e im- puros em Sua presenc;a. Essa e sempre a conseqiien- cia do pecado. Com relac;ao a Deus, com relac;ao a n6s mesmos e com relac;ao aos demais seres humanos e perdida a espontanei- dade espiritual e a liberdade in- terna, pois essas sao realidades que somente a consciencia isenta de culpa pode excitar em nosso corac;ao. Mas a gravidade do pri- meiro pecado e exibida com mais vivacidade no fato de que sua in- fluencia se espalha do primeiro casal para toda a humanidade. 0 primeiro passo na direc;ao errada foi tornado e todos os descenden-
  • 253.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tes de Adao e Eva seguiram suas pegadas. A universalidade do pecado e urn fato presente na consciencia de todas as pessoas. A universalidade do pecado e urn fato indisputadamente estabeleci- do tanto pelas evidencias da ex- periencia quanto pelas Sagradas Escrituras. Nao seria dificil obter teste- munhos da universalidade do pecado em todos os tempos e lu- gares. A pessoa mais simples e a mais culta concordam com isso. Ninguem, eles diriam, nasce sem pecado. Todos possuem suas fra- quezas e defeitos. 0 obscured- menta do entendimento toma seu lugar entre as doen<;as mortais do homem e atraves dele tomam seu lugar tambem, nao apenas a inevitabilidade do erro, mas tam- bern o amor ao erro. Ninguem e livre em sua consciencia. A cons- ciencia e a acusadora de todos n6s (Jo 8.9). A carga mais pesada da humanidade e a carga da culpa. Esses sao os sons que vern aos nossos ouvidos por todos os la- dos na hist6ria da humanidade. Embora o principia fundamental seguido pela nossa pessoa sim- ples e pela pessoa culta seja a bon- dade natural do homem, eles se- rao levados, ao fim de sua inves- tiga<;ao, a reconhecer que as se- mentes de todos os pecados e de- litos estao escondidas no cora<;ao de todos os homens. Os fil6sofos tern registrado a queixa de que 254 todos os homens sao maus por natureza. ***** As Sagradas Escrituras con- firmam o julgamento que a huma- nidade tern declarado contra si mesma. Quando no terceiro capi- tulo de Genesis e dado o registro da queda, a Escritura passa a tra- <;ar, nos capftulos seguintes, como o pecado se espalhou pela ra<;a humana e aumentou e como ele alcan<;ou urn climax tao elevado que o julgamento do diluvio tor- nou-se uma necessidade. Com rela<;ao agera<;ao que precedeu 0 diluvio, e dito que a maldade do homem cresceu muito, e que to- dos os pensamentos do cora<;ao do homem eram continuamente maus e que toda carne tinha cor- rompido seu caminho na terra e era corrupta diante de Deus (Gn6.5,11)2). Mas o grande dilu- vio nao trouxe mudan<;a ao cora- <;ao do homem. Depois do dilu- vio Deus diz que a nova humani- dade, representada em Noe e em sua familia, continuava tendo maus designios desde a sua mo- cidade (Gn 8.21). Todos os santos do Velho Testamento deram testemunho desse fato. Ninguem - esse e o lamento de J6 - da imundicie pode tirar coisa pura (J6 14.4). Salomao, em sua ora<;ao de dedi- ca<;ao do templo, confessa que nao
  • 254.
    0 PEcAoo EA MoRTE 'na homem que nao peque (1Re S.46). N6s lemos nos salmos 14 e 33 que quando o Senhor olha des- de 0 ceu para OS filhos dos ho- mens para ver se ha alguem que entenda e busque a Deus, Ele nada ve alem de sujeira e iniqiii- dade. Todos se desviaram e auma se fizeram inuteis. Nao ha quem busque a Deus, nem sequer urn. :Jinguem pode permanecer dian- te da face de Deus, pois aSua vis- ta nenhum ser vivente e justifica- do (Sl 143.2). Quem pode dizer: Purifiquei meu cora<;ao, limpo estou do meu pecado? (Pv 20.9). Em resumo, nao ha homem justo sobre a terra, que fa<;a o bern e nao peque (Ec 7.20). Todas essas afirma<;6es sao de ambito tao geral e tao univer- sal, que nao permitem qualquer exce<;ao. Elas nao procedem de labios de impios e malvados, que geralmente nao mencionam seus ?r6prios pecados nem os de ou- Tras pessoas, mas procedem do cora<;ao de pessoas piedosas que .:rprenderam a conhecer a si mes- mas como pecadores, na presen- ~a de Deus. E eles nao fazem jul- ,::amento sobre pessoas que vi- -em em pecado manifesto como pagaos que nao possuem conhe- cimento de Deus. Eles falam so- bre si mesmos e sobre seu proprio :'OVO. ;c; 51 6; 25; 32; 38; 51; 130; 143. A Escritura nao nos descre- ve os santos como pessoas que viveram sobre a terra em perfei- <;ao de santidade. Ela os apresen- ta como pecadores que se fizeram culpados de muitas e severas transgress6es. Sao precisamente os santos que, apesar de possui- rem consciencia da justi<;a, sen- tem-se profundamente culpados e comparecem diante de Deus com uma humilde confissao123 • Mesmo quando eles se levantam para testemunhar contra o povo e convence-lo de sua apostasia e de sua incredulidade elas acabam por incluir a si mesmas nesse povo como urn dos que deram voz a seguinte confissao: N6s permane- cemos em nossa vergonha e a des- gra<;a nos cobre. Pecamos, com nossos pais; cometemos pecado, procedemos mal124 • 0 Novo Testamento tam- bern nao permite a menor duvida sobre esse estado pecaminoso de toda a ra<;a humana. Toda a pre- ga<;ao do Evangelho e feita sobre essa pressuposi<;ao. Quando Joao prega a proximidade do reino dos ceus ele exige que os homens se arrependam e sejam batizados, pois a circuncisao, os sacrificios e a obediencia a lei nao sao capa- zes de obter justi<;a para o povo de Israel apesar dele precisar en- trar no reino de Deus. Por isso sa- 1 '• jr 3.15; Is 6.5; 53.4-6; 64.6; Dn 9.5 ss.; 51106.6. 255
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista :lam a ter com ele Jerusalem, toda a Judeia e toda a circunvizinhanc;a do Jordao; e eram por ele batizados no rio Jordao, confes- sando os seus pecados (Mt 3.5,6). Cristo pregou essa mesma men- sagem sobre o reino de Deus e Ele tambem testificou que somente a regenerac;ao, a fe e o arrependi- mento podem abrir caminho para o reino125 . E verdade que em Mateus 9.12 e 13, Jesus diz que nao sao todos que tern necessidade de medico e que Ele veio chamar pecadores, e nao justos, ao arre- pendimento. Mas o contexto indi- ca que Jesus eshi pensando nos fariseus ao falar sobre a justic;a, pois eles se recusavam a sentar- se com publicanos e pecadores, exaltavam-se acima deles, alarde- avam justic;:a, e nao necessidade de seguir o amor de Jesus. No verso 13, Jesus afirma expressamente que se os fariseus entenderam que Deus, em Sua lei, nao quer sacrificios externos, mas piedade espirituat eles teriam que chegar a conclusao de que, assim como os publicanos e pe- cadores, eram necessitados e im- puros e precisavam arrepender-se em nome de Jesus. Ele mesmo li- mita Seu labor dirigindo-se as ovelhas perdidas da casa de Isra- el (Mt 15.24), mas depois de Sua 125 !vic 1.15; 6.12; fo 3.3. 126 Jo 1.3; C/1.16; Hb 1.2. 256 ressurreic;ao Ele da aos Seus dis- dpulos a ordem de ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda eriatura, pois a salvac;ao e para todo aquele que ere em Seu nome (Me 16.15,16). De acordo com isso, o ap6s- tolo Paulo comec;a sua carta aos Romanos, com urn abrangente ar- gumento de que todo 0 mundo e culpado diante de Deus e que, portanto, ninguem pode ser jus- tificado pelas obras da lei (Rm 3.19,20). Nao somente os pagaos precisam conheeer e glorificar a Deus (Rm 1.18-32), mas tambem os judeus, que se orgulham em suas vantagens, mas que no fun- do se fazem culpados dos mes- mos pecados (Rm 2.1-3.20)- todos cometeram pecados (Rm 3.9; 11.32; Gl 3.22). E isso e para que toda boca se feche e somente a misericordia de Deus seja glorificada na salvac;:ao. Alem disso, a pecamino- sidade universal e tao fundamen- tal na pregac;ao do Evangelho, no Novo Testamento, que a palavra nnmdo toma uma conotac;ao nega- tiva, por causa dela. 0 mundo e tudo o que nele ha foi eriado por Deus126 , mas o pecado provoeou uma corrupc;:ao tao profunda nele que ele se tornou uma forc;a anta- goniea a Deus. Ele nao eonheee o Verbo ao qual deve sua existen-
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    0 PECADO EA MORTE cia (Jo 1.10). Todo o mundo re- pousa na maldade (1Jo 5.19) e esta sob o governo de Satanas, que eo principe deste mundo (Jo 14.30; 16.11) e falece em toda a sua lu- xuria e necessidade (Tg 4.4). Por isso quem ama o mundo prova que nao possui o amor do Pai (1Jo 2.15) e aquele que quer ser amigo do mundo torna-se urn inimigo de Deus (Tg 4.4). * * * * * Esse terrivel estado no qual a humanidade e o mundo exis- tem, naturalmente levanta a ques- tao de qual e a origem ou a causa disso. De onde veio nao somente o primeiro pecado, mas de onde veio a pecaminosidade universal, de onde veio a culpa e a corrup- ~ao de toda a ra~a humana aqual todos - exceto Cristo - estao su- jeitos desde o nascimento? Ha al- guma conexao entre o primeiro pecado cometido no paraiso e o diluvio de iniquidade que tern inundado o mundo? E, se houver, qual e a natureza dessa conexao? Ha aqueles que, juntamente com Pelagio, negam totalmente a existencia dessa conexao. De acor- do com essas pessoas cada ato pecaminoso e um ato que existe FOr si mesmo, que nao provoca ~1ualquer mudan~a na natureza humana e que por isso pode, no :11omento seguinte, ser sucedido por um ato excepcionalmente 257 born. Depois que Adao transgre- diu o mandamento do Senhor ele permaneceu, tanto em sua natu- reza interna quanto em sua dispo- si<;ao e vontade, exatamente o mesmo. Da mesma forma todos os filhos que descenderam desse primeiro casal nasceram totalmen- te isentos de culpa, assim como Adao foi originalmente criado. Nao ha- de acordo com esse argumento- algo como uma na- tureza pecaminosa, ou disposi<;ao ou habito pecaminoso, pois toda natureza foi criada por Deus e per- manece sendo boa. Ha somente atos pecaminosos e esses atos nao formam uma serie interminavel, mas sao tais que podem ser cons- tantemente intercalados com bons atos e podem ser praticados atra- ves de uma escolha perfeitamen- te livre da vontade. A unica influ- encia que passa dos atos ou a<;6es pecaminosas para a pessoa que os pratica ou para outras que estive- rem ao seu redor e o mal exem- plo. Quando n6s praticamos um ato pecaminoso n6s somos incen- tivados a pratica-lo novamente e nossos circunstantes sao incenti- vados a seguir nosso exemplo. A pecaminosidade universal da ra<;a humana pode ser explicada dessa forma, ou seja, em termos de imita<;ao. Nao ha algo como urna heran<;a pecaminosa. Todos nascem inocentes, mas o mal exemplo que as pessoas geral- mente dao tern uma influencia ne-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista gativa sobre os contemporaneos e seus descendentes. Incitados pelo costume e pelo habito, todos seguem o mesmo curso pecami- noso, embora nao seja impossivel nem improvavel que aqui e ali algumas pessoas se levantern con- tra a fon;a do costume e trilhem seu proprio caminho, vivendo de forma santa sobre a terra. Esse esfor<;o para explicar a pecaminosidade universal da hu- manidade esta, portanto, nao so- mente em conflito com a Sagrada Escritura em muitos pontos, mas tambem etao superficial e inade- quado que raramente, pelo menos na teoria, pode ser apoiado por alguem. Ele e refutado por fatos de nossa propria experiencia e de nossa propria vida. Todos nos sa- bemos, pela experiencia, que urn ato pecaminoso nao e algo exter- no a nos, como urna pec;:a de rou- pa suja que pode ser tirada. Pelo contrario, o ato pecaminoso esta intimamente ligado anossa natu- reza e provoca trac;:os inerradi- caveis nela. Depois de cada ato pecaminoso nos nao somos mais como erarnos antes dele. 0 peca- do nos faz culpados e impuros; ele rouba a paz de nossa mente e de nosso cora<;ao/ e seguido por pe- sar e remorso, confirma nossa in- clinac;:ao para o male deixa-nos em uma condic;:ao na qual, finalmen- te, nos nao podemos oferecer re- sistencia ao poder do pecado e su- cumbimos a leves tentac;:oes. 258 Ah~m disso, tambem contra- ria nossa experiencia a afirma<;ao de que 0 pecado e uma amea<;a que vern exclusivamente de fora. De fato maus exemplos podem exercer uma influencia poderosa. Podemos observar que as crian- c;:as que possuem pais maus cres- cem em urn meio ambiente moral inadequado. E, por outro lado, as crian<;as que possuem pais pi- edosos e sao inseridas em uma comunidade religiosa e moral re- cebem uma benc;:ao que nao pode ser suficientemente apreciada. Mas esse e apenas urn lado da questao. Esse meio ambiente mau poderia nao ter tido uma influen- cia tao negativa sobre a crian<;a se a propria crian<;a nao tivesse uma disposic;:ao para o mal em seu co- ra<;ao; da mesma forma, urn born meio ambiente nao teria tantas di- ficuldades para influenciar a cri- an<;a se essa crian<;a tivesse em seu nascimento recebido urn co- ra<;ao puro e suscetivel a todo o bern. 0 meio ambiente e simples- mente a ocasiao na qual o pecado se desenvolve em nos. As raizes do pecado sao profundas e se es- condem em nosso cora<;ao. Do cora<;ao do homem, disse Jesus, procedem os maus pensamentos, os adulterios, a fornicac;:ao, o as- sassinato, o roubo e todos os ti- pos de injusti<;a (Me 7.21). Essa afirma<;ao e confirmada pela ex- periencia de todos nos. Quase
  • 258.
    0 PECADO EA MaRTE sem o nosso desejo e conhecimen- to, pensamentos e imagens impu- ras vern anossa consciencia. Em algumas ocasi6es, quando n6s en- contramos adversidade e oposi- c;ao, a maldade que esta profun- damente oculta acaba por revelar- se. Algumas vezes n6s nos assus- tamos conosco mesmos e tenta- mos fugir de n6s mesmos. Enga- noso eo corac;ao mais do que to- das as coisas, e desesperadamen- te corrupto. Quem o conhecera? (Jr 17.9). Finalmente, sea imitac;ao de maus exemplos fosse a unica cau- sa de pecados da humanidade, a absoluta universalidade do peca- do nao poderia ser explicada. De acordo com o pensamento de Pelagio, ha aqui e ali pessoas que, presumivelmente, vivem sem pe- car. Mas essas excec;oes apenas lanc;am mais luz sobre a insustentabilidade da posic;ao de Pelagio, pois aexcec;ao de Cristo, nunca houve uma pessoa sobre a terra que estivesse livre de todo e qualquer pecado. Nao enecessaria que n6s conhec;amos todas as pessoas, uma a uma, para fazer nosso jul- gamento. A Escritura fala clara- mente sobre isso. Toda a hist6ria da humanidade pode provar isso. Alem disso, o nosso proprio co- rac;ao ea chave para 0 entendi- mento do corac;ao de outras pes- soas. N6s todos constituimos nao apenas uma unidade naturat mas 259 tambem uma unidade moral. Ha uma natureza humana que eco- mum a todos os homens e essa natureza eculpada e impura. A arvore rna nao veio de maus fru- tos, mas os maus frutos vern da arvore rna e devem ser conside- rados em func;ao dela. Ha aqueles que tern reco- nhecido a justic;a dessas conside- rac;oes e por isso introduzido cer- tas modificac;oes no pensamento de Pelagio. Essas pessoas admi- tem que a absoluta universalida- de do pecado nao pode resultar meramente da imitac;ao de maus exemplos, e que o mal moral nao vern ao homem simplesmente pelo lado de fora, e eles se veem impelidos a confessar que o pe- cado mora dentro do homem des- de o momento de sua concepc;ao e nascimento, e que a pessoa her- cia a natureza corrompida de seus pais. Mas eles continuam afirman- do que essa corrupc;ao moral, que esta no homem atraves de sua na- tureza enao propriamente por cau- sa do pecado, nao tern a qualida- de de culpa e portanto tambem nao merece ser punida. A cor- rupc;ao moral inata se torna peca- do, culpa e culpabilidade somen- te quando 0 homem chega ama- turidade, concorda com ela, aceita a responsabilidade por ela e atra- ves de sua livre vontade, transfor- ma-a em atos pecaminosos. * * * * *
  • 259.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Esse ponto de vista semi pelagiano faz uma importante concessao, mas, quando submeti- do a reflexao, mostra-se inadequa- do, pois, 0 pecado e sempre uma ilegalidade, uma ilegitimidade, uma transgressao e urn desvio da lei que Deus deu as Suas criatu- ras racionais e morais. Tal desvio da lei se manifesta nos atos reali- zados pelo homem, mas tambem encontra expressao em suas dis- posi<;6es e inclina<;6es, ou seja, em sua natureza, desde sua concep- <;ao e nascimento. 0 semi- pelagianismo reconhece esse fato e fala de uma corrup<;ao moral que antecede as escolhas e a<;6es do homem. Mas quem leva esse en- sino a serio nao pode escapar da conclusao de que a corrup<;ao mo- ral que agora faz parte da nature- za humana tambem e pecado e culpa, e, portanto, merece puni- <;ao. Ha somente essas duas pos- sibilidades. A natureza humana esta em harmonia com a lei de Deus e eo que deveria ser. Nesse caso ela nao e moralmente corrup- ta. Por outro lado, se a natureza humana e moralmente corrupta, ela nao corresponde a lei de Deus e, portanto, einjustificavel e con- seqiientemente faz com que o ho- mem seja culpado. Pouca coisa pode ser dita contra essa argumenta<;ao, mas ha muitos que tentam escapar dela descrevendo a corrup<;ao moral que o homem traz dentro de si 260 pelo termo ambfguo luxuria. Na- turalmente o uso dessa palavra nao e errado em si mesmo. A Es- critura tambem faz uso dela. Mas, sob a influencia da tendencia ascetica, que gradualmente se le- vanta na Igreja Crista, a teologia tern feito uso dessa palavra em urn sentido muito limitado. Ela tern pensado sobre esse termo somente com rela<;ao a paixao procriativa, que e propria do ho- mem, e desta forma tern levanta- do a ideia de que essa paixao, apesar deter sido dada ao homem na cria<;ao, e, portanto, nao ser pecaminosa em si mesma, consti- tui a ocasiao para o pecado. Foi Calvino quem combateu essa no<;:ao de luxuria. Ele nao le- vantou obje<;6es a que se chamas- se de luxuria a corrup<;ao moral com a qual o homem nasce, mas ele quis que a palavra fosse en- tendida propriamente. Uma dis- tin<;ao que ele achou necessaria foi a distin<;ao entre desejo e luxuria. Os desejos nao sao pecaminosos em si mesmos. Cada urn deles foi dado ao homem em sua cria<;ao. Por ser o homem uma criatura li- mitada, finita e dependente, ele tern inumeraveis necessidades e, consequentemente, tern inumera- veis desejos. Quando ele esta com fome, deseja comida; quando esta com sede, deseja agua; quando esta cansado, deseja descansar. 0 mesmo e verdade com rela<;ao ao seu espirito. A mente do homem
  • 260.
    0 PECADO EA MaRTE foi criada de tal forma que deseja a verdade, e a vontade do ho- mem, gra<;as asua natureza cria- da por Deus, deseja o bern. 0 de- sejo de justi<;a e sempre born, como n6s lemos em Proverbios 11.28. Quando Salomao nao dese- jou riquezas, mas sabedoria, isso foi born aos olhos do Senhor (1Re 3.5-14). E quando o poeta do sal- mo 42 suspirou pelas correntes das aguas, esse foi urn desejo pre- ClOSO. Portanto OS desejos nao sao pecaminosos em si mesmos, mas eles, assim como a mente e a von- tade, foram corrompidos pelo pecado e por isso entram em con- flito com a lei de Deus. Nao os desejos estritamente naturais, mas os desejos danificados pelo pecado e, portanto, desregulados, que sao pecaminosos. E a isso, em segundo lugar, deve ser acrescentado o fato de que os pecados nao sao restritos anatureza fisica e sensual dana- tureza humana. Eles pertencem tambem asua natureza espiritual pecaminosa. A paixao sexual nao e 0 unico desejo natural; ela e ape- nas urn dentre muitos. Essa pai- xao tambern nao e pecaminosa em si mesma, pois ela foi dada ao homem no momento de sua cria- c;:ao. E nao foi somente a paixao que foi corrompida pelo pecado, pois todos os desejos, naturais e espirituais, tornaram-se selva- gens e indisciplinados, por causa 261 do pecado. Os bons desejos do homem foram transformados em maus desejos. Se a corrupc;:ao moral do ho- mem e nesse sentido chamada de desejo ou luxuria, seu carater pe- caminoso e sua culpa estao clara- mente corretos. Essa luxuria foi especialmente proibida por Deus atraves de urn mandamento (Ex 20.17). E Paulo diz que ele nao teria conhecido o pecado se a lei nao tivesse dito que ele nao de- veria cobic;:ar (Rm 7.7).Quando Paulo tornou-se conhecedor de si mesmo e mediu nao apenas os seus atos, mas tambem as suas in- clinac;:oes pelo padrao da lei de Deus, tornou-se claro para ele que essas inclinac;:oes tambem eram corruptas e impuras, e que elas eram limitadas pela proibi<;ao. Para Paulo a lei de Deus e a unica fonte de conhecimento do pecado. Ninguem consegue descobrir o que e 0 pecado pela sua imagina- c;:ao, mas somente pela lei de Deus, que determina como e o que o homem deve ser diante de Deus em sua vida interna e em sua vida externa, no corpo e no espirito, em palavras e atos, em pensamen- tos e inclina<;6es. Medida pelo cri- terio da lei de Deus, nao ha duvi- da de que a natureza humana e corrupta e que sua cobi<;a e peca- minosa. Nao somente o que o ho- mem pensa e faz e pecaminoso: ele e pecaminoso desde 0 mo- mento de sua concep<;ao.
  • 261.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Alem disso, seria uma posi- c;ao psicologicamente insustenhi- vel dizer que 0 desejo em si nao e pecaminoso, mas que ele se torna pecaminoso atraves da vontade. Abrac;ar essa posic;ao seria aceitar o irrazoavel pensamento de que a vontade do homem permanece neutra e externa ao desejo, nao e corrompida pelo pecado e, par- tanto, pode decidir se concorda ou nao com o desejo. Everdade que, de acordo com a experiencia, e perfeitamente possfvel que em muitos casos uma pessoa, com base em todos os tipos de consi- derac;6es, como a moda, a respei- tabilidade social, e coisas seme- lhantes pode conter seus impul- sos pecaminosos atraves da razao e da vontade e evitar que esses impulsos se transformem em atos pecaminosos. No homem natural tambem ha uma luta entre o im- pulso e a realizac;ao, entre o dese- jo e a consciencia, entre a cobic;a e a razao. Mas essa luta, e diferente em prindpio, da luta que acontece no homem regenerado entre o corpo eo espfrito, entre o velho homem e o novo homem. Essa e uma luta externa contra a explosao da co- bic;a. Essa luta nao invade OS fnti- mos rec6nditos do corac;ao, nem ataca o mal em sua raiz. Esse e urn conflito que pode servir para res- tringir o male limita-lo, mas nao pode limpar internamente nem renovar o homem. 0 carater pe- 262 caminoso da cobic;a nao e muda- do por causa dessa luta. Embora atraves da vontade e da razao o homem possa em alguns casos suprimir o desejo e a cobic;a, tan- to a razao quanto a vontade sao frequentemente colocados a ser- vic;o da cobic;a. A razao e a vonta- de nao sao opostas a cobic;a em principio, e pela sua natureza elas se comprazem nisso: em alimen- ta-la e fomenta-la, em justifica-la e vinga-la. A razao e a vontade nao podem sequer impedir que a co- bic;a chegue ao ponto de roubar ao homem toda a sua indepen- dencia e torna-lo urn escravo de suas paix6es. Os rnaus pensamen- tos e os maus desejos entram no corac;ao, escurecem o entendimen- to e poluem a vontade. 0 corac;ao e de tal forma dominado que pode enganar ate mesmo a razao. ***** Todos os esforc;os para ex- plicar a pecaminosidade univer- sal do homem erram por procu- rar a sua causa na queda indivi- dual de cada pessoa. De acordo com o pelagianismo cada homem cai de forma independente dos demais. Essa queda acontece par- que ele livremente escolhe seguir os maus exemplos dos outros. De acordo com o semi-pelagianismo cada homem cai por si mesmo e sozinho por causa de sua propria escolha de aplicar seu inerente,
  • 262.
    0 PEcAoo EA MaRTE porem nao pecaminoso, desejo a sua vontade, transformando-o em urn ato pecaminoso. Tanto uma posi<;ao quanto a outra fazem in- justic;:a as realidades morais que estao presentes na consciencia de todas as pessoas, e nenhuma das duas posic;:6es consegue explicar como a absoluta universalidade do pecado da rac;:a humana pode originar-se milh6es de vezes em milh6es de decis6es da vontade humana. Contudo, esses esforc;:os, em tempos recentes, por uma nova e diferente forma, encontraram nu- merosos simpatizantes. Primeira- mente os simpatizantes dessas duas posic;:6es eram aqueles que criam na preexistencia do homem. Porem, a influencia budista tern dado nos ultimos anos urn gran- de animo a essa crenc;:a. A suposi- c;:ao de que os homens vivern eter- namente, ou pelo menos durante seculos antes de seu surgimento na terra, ou de uma outra forma- e essa e uma forma mais filos6fi- ca dessa teoria - sustentam que a vida sensual do homem sobre a terra deve ser diferenciada de sua forma de exisH~ncia que e total- mente conceptive!, embora nao possa ser vista. Aessa ultima ideia e entao acrescentado que a pessoa, em sua real ou imaginaria preexis- tencia, sente todos os seus dese- jos, cada urn deles individual- mente e que como punic;:ao por 265 eles deve viver aqui sobre a terra nesse corpo material e grosseiro e assim deve preparar-se para outra vida, na qual ele novamen- te recebera de acordo com as suas obras. Ha, assim, somente uma lei que governa toda a vida humana antes, durante e depois de sua vida sobre a terra e essa e a lei da recompensa: todos receberam, re- cebem e receberao o que suas obras merecem. Todos colhem o que plantam. Essa ideia filos6fica hindu e notavel por essa razao: ela tacita- mente procede da pressuposic;:ao de que nessa vida terrena a que- da de cada pessoa individual- mente e inconcebivel. Mas quan- to ao resto ela nao da uma expli- cac;:ao sobre a universalidade do pecado semelhante aque e dada pela teoria pelagiana. Ela sim- plesmente empurra a dificuldade para tras ao vincular essa vida sobre a terra a uma vida preexis- tente, vida essa da qual ninguem possui recordac;:ao e da qual nada existe, e que por isso e pura fan- tasia. Alem disso, o ensino de que todos serao recompensados de acordo com seu desempenho e uma doutrina dura para os po- bres e doentes, os miseraveis e destituidos. Nao ha compaixao nessa doutrina. Ela esta em claro contraste com os raios da Grac;:a divina dos quais a Escritura fala. Mas - e isso deve ser obser- vado especialmente na presente
  • 263.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista conexao - essa filosofia hindu concorda em muitos pontos com a doutrina pelagiana. Ambas pro- curam a origem da universalida- de do pecado na queda individu- al de cada pessoa. Ambos concor- dam em que a humanidade con- siste de uma arbitraria agregac;ao de almas que viveram eternamen- te ou pelo menos durante seculos proximas umas das outras, que nao possuem relac;ao umas com as outras, quanto a sua origem e essencia e que cada uma delas deve buscar seu proprio destino. Cada uma delas sente somente por si mesma, recebe seu proprio e justo salario e tenta salvar a si mesma. A unica coisa que une umas as outras ea miseria na qual todas elas existem, e, portanto, a piedade e a simpatia sao as mais elevadas virtudes. Mas essa teo- ria tern sua implicac;ao obvia, ou seja, que aqueles que vivem uma vida afortunada na terra podem apelar a lei da recompensa, glori- ar-se em suas virtudes e olhar com desdem para os desafortunados, que de acordo com essa lei tam- bern receberam o que lhes com- petia. * * * * * Nos teremos uma vista mais clara, dessas coisas, se apreciar- mos a Escritura e lanc;armos luz sobre o problema da universali- dade do pecado humano. A Escri- 264 tura nao nos contenta com fanta- sias ou imaginac;oes, mas reco- nhece e respeita os fatos estabele- cidos pela consciencia. A Escritu- ra nao projeta a fantasia de uma preexistencia de almas antes de sua entrada na terra e nada sabe de uma queda que acontece, seja antes ou durante a vida na terra, em cada pessoa individualmente. Em lugar da representac;ao indi- vidualista e atomista do budismo e do pelagianismo, a Escritura apresenta uma visao organica da humanidade. A humanidade nao consiste de uma agregac;ao de almas indi- viduais que incidentalmente se uniram de todos os lados, em urn dado lugar, e que, para melhor ou para pior, deve agora, de alguma forma, por causa de seus muitos contatos, viver juntos da melhor forma. A rac;a humana euma uni- dade, ou melhor, urn corpo, com muitos membros, uma arvore com muitos galhos, urn reino com muitos cidadaos. A humanidade nao se transformou nessa unida- de atraves de alguma combinac;ao externa. Ela euma unidade des- de o prindpio e continuara sen- do uma unidade1 a despeito de todas as separac;oes e cismas, pois ela euma em sua origem e em sua natureza. Fisicamente a humani- dade euma porque procede do mesmo sangue. Juridica e etica- mente a humanidade euma por- que, sobre a base da unidade na-
  • 264.
    0 PECADO EA MORTE tural, ela foi colocada sob uma e a mesma lei divina, a lei da Ali- an<;a das obras. De tudo isso a Sagrada Es- critura nos ensina que a humani- dade permanece sendo uma em sua queda. Eassim que a Escritu- ra apresenta a ra<;a humana des- de a primeira ate a ultima pagi- na. Se ha qualquer distin<;ao en- tre os homens, em categoria, status, oficio, honra, talentos e coisas semelhantes, ou se Israel, em distin<;ao as outras na<;5es, foi escolhido para receber a heran<;a do Senhor, entao isso se deve so- mente a Gra<;a de Deus. Esomen- te essa Gra<;a que faz distin<;5es entre os homens (1Co 4.17). Mas em si mesmos todos os homens sao semelhantes diante de Deus, pois todos eles sao pecadores, compartilham da mesma culpa, mancharam a mesma pureza, su- jeitam-se a mesma morte e care- cern da mesma reden<;ao. Deus incluiu-os todos sob a mesma de- sobediencia para que usasse de misericordia com todos (Rm 11.32). Ninguern tern o direito de ser arrogante e ninguem tern o direito de entregar-se ao desespe- ro. Que esse e 0 ponto de vista da Escritura sobre a ra<;a humana e urn fato que dispensa confirma- <;ao. Isso e evidente a partir de tudo o que foi dito acima sobre a universalidade do pecado. Mas essa unidade organica da ra<;a 265 humana com rela<;ao a lei e a moralidade recebe urn especial e profundo tratamento do ap6sto- lo Paulo. Quando em sua carta aos Romanos ele afirrna o fato de que todo 0 mundo econdenavel a vis- ta de Deus (Rrn 1.18-3.20) e quan- do ele explica como toda a justi<;a e perdao de pecados, toda recon- cilia<;ao e toda vida foram reali- zadas por Cristo e colocadas a dis- posi<;ao por Ele aos que creem (Rm 3.21-5.11), ele conclui no ca- pitulo 5, versos de 12-21 (antes de descrever, no capitulo 6, os frutos morais da justi<;a pela fe), suma- riando que n6s devemos todo o conteudo da salva<;ao a Cristo e contrasta essa salva<;ao em urn contexto da hist6ria do mundo com toda a culpae miseria que n6s devemos a Adao. For urn homem, ele diz, en- trou o pecado no mundo, e junto com o pecado, a morte sobreveio a todos os hornens. Pois esse pe- cado, que o primeiro homern co- meteu, foi totalmente diferente, em carater, de todos os outros pe- cados. Ele e charnado transgres- sao, e urn tipo diferente de todos os outros pecados que os hornens cometeram entre Adao e Moises (Rrn 5.14), e uma ofensa (Rm 5.15 ss.), uma desobediencia (Rm 5.19) e como tal ela firma urn notavel contraste com a absoluta obedien- cia de Cristo (Rm 5.19). Portanto, o pecado que
  • 265.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Adao cometeu nao ficou restrito somente asua pessoa. Ele conti- nuou a operar em e atraves de toda a ra<;a humana. N6s nao le- mos que por urn homem entrou o pecado em uma pessoa, mas no mundo (Rm 5.12), e tambem a morte sobreveio a todos os ho- mens por causa do pecado desse homem. Esse eo pensamento de Pau- lo, e isso pode ser provado pelo fato de que ele deriva da trans- gressao de Adao, conforme Ro- manos 5.12 e 1Corintios 15.22. Nesse texto n6s lemos que todos os homens morrem, nao em si mesmos, nem em seus pais, mas em Adao. Isso significa que os homens estao sujeitos amorte nao porque eles mesmos ou seus ancestrais tornaram-se pessoal- mente culpados, mas porque to- dos morreram em Adao. Foi de- terminado pelo pecado e pela morte de Adao que todos eles morreriam. 0 ponto nao e que em Adao todos os homens se torna- ram mortais, mas que em urn sen- tido objetivo todos os homens ja morreram em Adao. A senten<_;:a de morte ja foi pronunciada, em- bora sua execu<_;:ao tenha sido de- terminada para mais tarde. Paulo nao reconhece nenhuma outra morte alem daquela que e resul- tante do pecado (Rm 6.23). Se to- dos os homens morreram em Adao, entao todos os homens tambem pecaram nele. Pela trans- 266 gressao de Adao o pecado e a morte puderam entrar no mundo e atingir todos os homens porque essa transgressao teve urn carater especial. Essa foi a transgressao de uma lei especifka e foi realizada nao somente por Adao, mas por Adao como cabe<;a de toda a ra<;a humana. Somente se o ensino de Pau- lo em Romanos 5.12-14 for enten- dido dessa forma sera feita plena justi<;a ao que e dito nesses versiculos sobre as conseqiienci- as do pecado de Adao. Esse e todo o desenvolvimento de uma ideia simplesmente basica. Pela transgressao de urn homem (Adao) muitos (seus descenden- tes) morreram (v.15). A culpa, (isto e, 0 julgamento ou senten<_;:a que Deus pronuncia como Juiz), por esse homem que pecou, torna-se urn julgamento que abrange toda a ra<;a humana (v.l6). Pela ofensa desse homem a morte reinou no mundo sobre todos os homens (v.17). Pela ofensa de urn, o julga- mento veio sobre todos os ho- mens para condena<;ao (v.18). E, para urn resumo gerat pela deso- bediencia de urn, os muitos (os descendentes de Adao) tornaram- se pecadores. Por causa dessa de- sobediencia todos eles imediata- mente se tornaram, diante de Deus, pessoas pecadoras (v.19). 0 selo e colocado sobre a interpreta<;:ao de Paulo pela com- para<;ao que ele faz entre Adao e
  • 266.
    0 PEcAoo EA MaRTE Cristo. Em Romanos 5, Paulo nao trata da origem do pecado de Adao, mas da completa salva<;ao conquistada por Cristo. Para exi- bir essa salva<;ao em toda a sua gloria ele compara-a e contrasta- a com o pecado e a morte que se espalharam por toda a ra<;a huma- na a partir de Adao. Em outras palavras, Adao estci servindo nes- se contexto como exemplo e tipo daquele que haveria de vir (v.14). Em Adao e atraves de sua transgressao a ra<;a humana foi condenada, e em Jesus Cristo essa ra<;a, por urn veredicto judicial de Deus, foi declarada livre e justificada. Por urn homem o pe- cado entrou no mundo como a for<;a ou poder que subjugou to- dos os homens; da mesma forma por urn homem foi instaurado o governo da Gra<;a divina sobre a humanidade. Por urn homem a morte veio ao mundo como evi- dencia do domfnio do pecado; por urn homem, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor, a Gra<;a co- me<;ou a reinar atraves da justi<;a que conduz avida eterna. A com- para<;ao entre Adao e Cristo tern muitas aplica<;oes. Ha somente uma unica diferen<;a: 0 pecado e forte e poderoso, mas a Gra<;a e muito superior em riquezas e abundancia. A teologia crista compreen- de esses ensinos da Sagrada Es- critura na doutrina do pecado ori- ginal. Alguem pode argumentar 267 contra essa doutrina, ou nega-la, ou ridiculariza-la. Mas nao pode fazer parar o testemunho da Es- critura nem desconsiderar osfatos sobre os quais essa doutrina se baseia. Toda a hist6ria do mundo e uma prova do fato de que a ra<;a humana, tanto em seu conjunto, quanto em seus membros indivi- duais, e culpada diante da face de Deus, tern uma natureza moralmen- te corrompida, e esta sempre sujei- ta adecadencia e amorte. 0 pecado original inclui, antes de tudo, o fato da culpa original. No primeiro homem os muitos que descende- ram dele, atraves da desobedien- cia desse primeiro homem, por urn justo julgamento de Deus, fo- ram constituidos pecadores (Rm 5.18). Em segundo lugar, o peca- do original inclui poluic;ao original. Todos os homens sao concebidos em pecado e nascem em injusti<;a (Sl51.7,8) e sao maus desde a sua mocidade (Gn 6.5; Sl 25.7), pois ninguem da imundfcie pode tirar coisa pura (J6 14.4; Jo 3.6). Essa mancha ou polui<;ao nao somen- te se espalha sobre toda a ra<;a hu- mana, mas tambem satura todo o ser individual. Ela ataca o cora<;;ao, que e mais corrupto do que todas as coisas, doente ate a morte e as- tuto (Jr 17.9), e e tambem a fonte dos caminhos da vida (Pv 4.23) e a fonte de toda injusti<;a (Me 7.21,22). Tendo o cora<;ao como centro, a polui<;;ao obscurece o
  • 267.
    Fundamentos Teologicos daFe Crista entendimento (Rm 1.21), inclina a vontade para o mal e torna-a fra- ca para fazer o bern (Jo 8.34; Rm 8.7), mancha a consciencia (Tt 1.15) e transforma o corpo, com todos os seus membros, seus olhos e ouvidos, suas maos e pes, sua boca e lingua, em uma arma da injusti<;a (Rm 3.13-17; 6.13). Esse pecado e tal que todos, nao por seus pr6prios "pecados de comissao", mas desde o momen- to de sua concep<;ao, estao sujei- tos a morte e a corrup<;ao (Rm 5.14). Todos os homens ja morre- ram em Adao (1 Co 15.22). Duro como esse pecado ori- ginal pode agora parecer, ele re- pousa sobre a lei que governa toda a vida humana, cuja existen- cia ninguem sera bern sucedido ao negar, e sobre a qual ninguem registra qualquer obje<;ao contan- to que trabalhe a seu favor. Quando os pais adquirem propriedades em beneficio dos filhos, esses filhos nunca se recu- sam a se apropriar dessa proprie- dade deixada para eles depois da morte de seus pais. Eles nao se recusam a obter a heran<;a, mes- mo que eles nao a tenham mere- cido, mesmo que atraves de seu comportamento escandaloso eles tenham se mostrado indignos dela. Se nao ha filhos, OS familia- res mais remotos, tais como os fi- lhos dos sobrinhos e os primos de segundo grau surgem sem qual- quer escrupulo de consciencia 268 para compartilhar da heranc;a que desconhecidos e negligenciados membros da familia deixaram para tras. Isso diz respeito a bens materiais. Mas ha bens espiritu- ais, os valores de categoria e status, de honra e de born nome, de ciencia e de arte, que os filhos herdam de seus paise que nao ti- veram como merecer e dos quais eles, contudo, se apropriam sem protesto. Podemos dizer, portan- to, que a lei da heran<;a e geral- mente operativa em famflias, ge- ra<;6es, povos, no estado e na so- ciedade, na ciencia e na arte e em toda a ra<;a humana. A nova gera- c;ao vive sobre os bens que a ge- ra<;ao precedente ajuntou; a pos- teridade, usufrui em todas as es- feras da vida de trabalho que os seus ancestrais realizaram. E nin- guem ha que, se essa heranc;a lhe for rendosa, registre urn protesto contra esse gracioso arranjo de Deus. Entretanto tudo muda quan- do essa mesma lei de heran<;a tra- balha em desvantagem de al- guem. Quando os filhos sao re- quisitados para dar suporte aos pais pobres, eles imediatamente cortam as relac;6es com esses pais e apontam o caminho do fundo da igreja reservado para o atendi- mento a pessoas carentes. Quan- do parentes de sangue se sentem injuriados por algum dos mem- bros da familia que tenha se casa- do com alguem de uma categoria
  • 268.
    0 PECADO EA MORTE inferior, ou tenha feito alguma coisa vergonhosa, eles imediata- mente o deixam em apuros e mas- tram seu desfavor. Em alguma extensao, maior ou menor, essa tendencia esta presente em tudo que traz vantagens, mas e rejeita- da quando corresponde a obriga- <;5es. Essa tendencia e em si mes- ma uma poderosa prova de que entre as pessoas ha uma comuni- dade de privilegios e de encargos. Ha uma unidade, uma solidarie- dade, uma comunidade cuja exis- h~ncia e opera<;:ao ninguem pode negar. N6s, de fato, nao sabemos exatamente como essa solidarie- dade opera e exerce influencia sobre as pessoas. As leis de heran- <;:a, por exemplo, de acordo com as quais os bens materiais e espi- rituais dos pais sao transferidos para OS filhos, sao ainda desco- nhecidas por n6s. N6s nao enten- demos o misterio: como uma pes- soa, nascida em uma comunida- de e mantida por ela, chega a urn status de independencia e liber- dade e entao exerce sobre essa comunidade uma posi<;:ao pode- rosa e influente. N6s nao pode- mos apontar exatamente para o ponto em que a comunidade e a solidariedade cessam e a inde- pendencia pessoal e a responsa- bilidade pessoal come<;:am. Mas tudo isso nao nega a existencia da solidariedade e as pessoas, seja em pequenas ou em grandes co- 269 munidades de inter-relaciona- mento, estao unidas umas as ou- tras em rela<;:ao de solidariedade. Ha individuos, mas tambem ha uma fronteira invisivel que une familias, gera<;:5es e povos em uma poderosa unidade. Ha uma alma individual, mas ha tambem, mesmo que seja em urn sentido metaf6rico, uma "alma" popular ou nacional. Ha caracteristicas pessoais, mas ha tambem caracte- risticas sociais peculiares a urn dado drculo de pessoas. Ha pe- cados particulares, individuais, mas ha tambem pecados gerais e sociais. E dessa forma tambem ha culpa individual e culpa comum ou social. Essa solidariedade que se expressa em centenas de formas nos relacionamentos entre as pes- soas, carrega em si e de forma bas- tante natural, a ideia de represen- ta<;:ao de muitos por poucos. N6s nao podemos estar presentes em tudo, nem podemos fazer tudo pessoalmente. As pessoas estao espalhadas sobre toda a terra e vivem a grandes distancias umas das outras. Elas nao vivem todas ao mesmo tempo, mas sucedem- se umas as outras em sucessivas gera<;:oes. Alem disso, elas nao possuem as mesmas habilidades e a mesma sabedoria. Elas dife- rem infinitamente em talentos e habilidades. Portanto1 a cada mo- menta uns poucos sao chamados para pensar e falar, decidir e agir
  • 269.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista no nome e em lugar de muitos. De fato, nenhuma comunidade e possfvel sem que haja diferen<;as de dons e voca<;;oes, representa- <;;ao e substitui<;ao. Nao e possfvel haver corpo sem que haja nume- rosos membros diferenciados, e se todos esses membros nao forem governados por uma cabe<;a que pensa por eles todos e que toma decisoes em nome de todos eles. 0 pai tern esse mesmo tipo de re- gra para a familia, o gerente para sua organiza<;:ao, o conselho de diretores para sua sociedade, o general para o seu exercito, o con- gresso ou parlamento para o seu eleitorado e o rei para o seu rei- no. E os subordinados comparti- lham das consequencias que se seguem na esteira de suas a<;oes representativas. Tudo isso, contudo, refere- se somente a uma pequena e li- mitada parcela da ra<;:a humana. Em tal parcela urn homem pode, em alguma extensao, nao apenas aben<;:oar, mas tambem amaldi<;:o- ar muitos, mas a sua influencia e limitada a uma esfera restrita. Ate mesmo urn homem de poder como Napoleao, apesar de sua jurisdi<;:ao e influencia serem mui- tos amplas, assume apenas urn pequeno lugar na hist6ria do mundo. Mas a Escritura nos fala de duas pessoas que ocuparam uma posi<;;ao inteiramente pecu- liares, que foram a cabe<;;a de nada mais nada menos que da huma- 270 nidade inteira, cuja for<;:a ou influ- encia se estende nao apenas a uma na<;;ao ou familia de na<;;oes, nao apenas a urn pais ou a urn conti- nente, nao somente a urn seculo ou a uma combina<;ao de seculos, mas a toda a humanidade, aos confins da terrae a toda a eterni- dade. Essas duas pessoas sao Adao e Cristo. A primeira esta no come<;;o, a segunda, no centro da hist6ria. A primeira e a cabe<;;a da velha humanidade e a segunda e a cabe<;;a da nova humanidade. Urn ea origem do pecado e da morte no mundo eo outro e a fonte da justi<;;a e da vida. Em virtude das posi<;;oes absolutamente {micas que essas duas pessoas ocupam na cabe<;;a da humanidade, eles sao compa- rados urn ao outro. Existem ana- logias ou correspondencias de lugar, significado e influencia en- tre eles em todas as formas de so- lidariedade que sao manifestas entre os homens em familias, tri- bos e na<;;oes. E todas essas analo- gias podem e devem servir como exposi<;;ao iluminadora da influ- encia exercida por Adao e por Cristo sobre toda a ra<;;a humana. Eles podem, em uma certa exten- sao, nos reconciliar com a lei da heran<;;a, operando ate mesmo em nossa vida mais elevada, isto e, em nossa vida religiosa e moral, visto que essa lei nao se mantem isoladamente, mas e geralmente relevante e e parte da existencia
  • 270.
    0 PECADO EA MaRTE organica da humanidade. Ao mes- mo tempo Adao e Cristo ocupam urn lugar completamente unico. Eles possuem urn significado para a ra<;:a humana que ningw2m, nenhum conquistador mundial, nenhum genio de primeira cate- goria poderia ter alcan<;:ado. 0 le- gado pelo qual Adao nos envol- veu em sua transgressao torna possivel que n6s sejamos recon- ciliados com Deus em Cristo. Isto e, a mesma lei que nos condena no primeiro homem nos absolve no segundo. Se, sem o nosso conhecimento, n6s nao ti- vessemos recebido a condena<;:ao em Adao, nao teria sido possivel para n6s ter recebido a Gra<;:a em Cristo. Se n6s nao temos obje<;:ao ao receber vantagens que n6s nao merecemos mas que vern a n6s como uma dadiva ou como uma heran<;:a, n6s nao temos o direito de brigar por causa do legado que nos tras o mal. "...temos recebido o bern de Deus e nao receberia- mos tambem o mal?" (J6 2.10). N6s recebemos a culpa de Adao, mas damos gra<;:as a Cristo que nos amou tao excessivamente. Nao olhamos para tras, para o parai- so, mas para a £rente, para a cruz. Atras dessa cruz esta a coroa que nunca perdera o brilho. * * * * * 0 pecado original no qual o homem nasceu e foi concebido 271 nao e uma qualidade passiva e inativa, mas uma raiz da qual nas- cem todos os tipos de pecado, uma fonte profana da qual o pe- cado flui continuamente, uma for- <;:a que esta sempre impelindo o cora<;:ao do homem na dire<;:ao er- rada - para longe de Deus e da comunhao com ele e na dire<;:ao da corrup<;:ao e da decadencia. Deve- mos distinguir do pecado origi- nal os pecados chamados reais, que sao as transgressoes da lei divina que alguem comete pesso- almente, seja mais ou menos von- tade deliberada. Todos os peca- dos possuem uma origem co- mum: eles se originam do cora<;:ao do homem (Me 7.23). 0 cora<;:ao humano e o mesmo para todas as pessoas em todos os lugares e em todas as epocas- ele nao e troca- do pela regenera<;:ao ou renova- <;ao. Uma natureza humana e co- mum a todos os descendentes de Adao, e ela e, em todos OS ho- mens, culpada e manchada. Nao ha razao para que uma pessoa se separe das outras e diga: "Apar- te-se de mim; eu sou mais santo que voce". 0 orgulho da auto jus- tifica<;:ao, o orgulho da nobreza, a auto-exalta<;:ao do saber sao, do ponto de vista da natureza huma- na que todos compartilham, total- mente injustificaveis. Dos milha- res de pecados que existem, nin- guem ha que possa dizer que nao os conhece e que nada tern a ver com eles. As sementes de todas as
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii iniquidades, ate mesmo as mais abominaveis, estao no corac;ao que carregamos no peito. Os transgressores e criminosos nao sao uma rac;a especial, sao mem- bros da sociedade da qual todos nos fazemos parte. Eles simples- mente exibem o que esta em con- tinua agitac;ao e turbulencia no centro secreta de todo homem. Visto como todos os peca- dos surgem da mesma raiz, todos eles na vida de cada pessoa indi- vidualmente, e dessa forma tam- bern na vida de uma familia, ge- rac;ao, rac;a, povo, sociedade e de toda a humanidade, eles estao or- ganicamente relacionados uns aos outros. Os pecados sao inumera- veis em quantidade, e ha algumas tentativas de classifica-los em gru- pos. Alguns falam em sete peca- dos capitais ou primarios (orgu- lho, avareza, imoralidade, ira, intemperanc;a, luxuria, inveja e preguic;a). Outros os classificam de acordo com os instrumentos com os quais eles sao cometidos, como pecados de pensamento, palavra e ac;ao, ou como pecados veniais e espirituais. Algumas ve- zes eles sao agrupados de acordo com os mandamentos que violam, tais como pecados contra a pri- meira ou segunda tabua, contra Deus ou contra o proximo e nos mesmos. Alguns os classificam de acordo com a forma pela qual eles se expressam, como pecados de omissao ou de comissao. E ha 272 distinc;oes de grau, como pecados secretos e publicos, humanos e di- abolicos. Os pecados podem diferir uns dos outros, mas eles nunca sao entidades completamente ar- bitrarias, isoladas; eles estao sem- pre interrelacionados, urn sempre influencia o outro. Assim como na doenc;a os orgaos e membros do corpo continuam em opera<_;:ao, embora operem de uma forma inadequada, assim tambem o ca- tater organico da vida do homem se expressa no pecado. Ele se ex- pressa de tal forma que a vida se desenvolve em uma direc;ao diametralmente contraria aquela que deveria tomar. 0 pecado e urn terreno es- corregadio, e nos nao podemos atravessa-lo, e por isso, em urn ponto arbitrariamente escolhido, voltamos e revertemos nosso cur- so. Urn grande poeta falou profun- da e lindamente do curso das mas ac;6es ao dizer que ele continua- mente gera o mal. A Escritura lan- <;a luz sobre essa questao. Em Tiago 1.14,15 ela explica como os atos pecaminosos do homem as- sumem uma forma organica. Quando alguem e tentado ao mal, a causa dessa tentac;ao nao esta em Deus, mas em sua propria co- bic;a. Essa cobic;a e a mae do peca- do. Essa cobic;a, no entanto, nao e suficiente para levar o pecado adiante (isto e, 0 ato pecaminoso, seja em atos, palavras ou pensa-
  • 272.
    0 PECADO EA MORTE mentos). Ela deve primeiro con- ceber e gerar o pecado. Isso acon- tece quando a razao e a vontade estao unidas com a cobi<;a. S6 en- tao, quando a cobi<;a foi fecunda- da pela vontade, ela gera o ato pecaminoso. E quando esse peca- do se desenvolve e alcan<;a sua maturidade, ela traz a morte. Isso acontece em cada peca- do particular, mas edessa forma que os varios pecados estao rela- cionados uns aos outros. 0 mes- mo ap6stolo aponta para esse fato quando, no capitulo 2.10, ele diz que aquele que guarda toda a lei mas trope<;a em urn s6 ponto se torna culpado de todos. Isso acon- tece porque o mesmo Legislador que prescreveu o mandamento particular, prescreveu todos. Em urn mandamento particular o transgressor ataca o Legislador de todos os outros e dessa forma sub- trai toda autoridade e poder. Em virtude tanto de sua origem, quanto de sua natureza ou essen- cia a lei e unica. Ela e urn corpo organico que, violado em urn de seus membros, torna-se deforma- da por inteiro. Ela e uma Corrente que quando tern urn de seus elos partidos torna-se totalmente danificada. A pessoa que transgri- de urn dos mandamentos coloca todos OS outros mandamentos a parte, e assim vai de mal apior. Ela se torna, como Jesus disse, uma serva ou escrava do pecado (Jo 8.34), ou, como diz Paulo, urn 273 escravo vendido ao dominio do pecado, de tal forma que ela nao e mais independente do pecado, mas uma escrava dele (Rm 7.14). Essa vista organica e aplica- vel tambem aos pecados que se manifestam em areas particulares da vida humana. Ha pecados pes- soais e individuais, mas ha tam- bern pecados comuns ou sociais, que sao OS pecados de familias, na<;oes, e assim por diante. Toda classe e status na sociedade, toda voca<;ao e profissao, todo oficio e ocupa<;ao traz consigo seus pr6- prios perigos peculiares e seus pr6prios pecados peculiares. Os pecados dos habitantes da cida- de diferem dos pecados dos ha- bitantes do campo, os pecados dos fazendeiros sao diferentes dos pe- cados dos mercadores, os peca- dos dos estudantes sao diferentes dos pecados dos iletrados, os pe- cados dos ricos sao diferentes dos pecados dos pobres e os pecados das crian<;as sao diferentes dos pecados dos adultos. Isso nos mostra que todos os pecados em cada uma dessas esferas sao interdependentes uns dos outros. As estatisticas confirmam essa afirma<;ao quando nos mostram, que determinados erros sao mais comuns em determinados gru- pos, esta<;oes, gera<;oes, classes, e circulos, e ocorrem com uma re- gularidade ritmica. Como geral- mente acontece, n6s s6 temos co- nhecimento de uma pequena por-
  • 273.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista <_;:ao dos pecados cometidos em nosso limitado grupo, e mesmo esse conhecimento parcial e su- perficial. Mas se n6s pudessemos penetrar na essencia das aparen- cias e tra<_;:ar a raiz dos pecados no cora<_;:ao das pessoas, n6s muito provavelmente chegariamos a conclusao de que no pecado exis- te unidade, conjunto - em uma palavra, que no pecado existe urn sistema. A Escritura revela urn mis- terio quando relaciona o pecado, tanto em sua origem quanta em seu desenvolvimento, ao reino de Satamis. Desde que Satanas tentou o homem e ocasionou sua queda (Jo 8.44), em urn sentido moral ele se tornou o principe desse mun- do e 0 deus desse seculo (Jo 16.11; 2Co 4.4). Apesar deter sido con- denado e lan<_;:ado fora por Cristo (Jo 12.31; 16.11), e dessa forma operado principalmente no mun- do pagao (At 26.18; Ef 2.2), ele con- tinua a atacar a Igreja. Essa Igreja, portanto, deve com todo ardor engajar-se na luta contra ele (Ef 6.11). Enquanto isso ele organiza todas as suas for<_;:as para o seu fi- nale decisivo ataque contra Cris- to e Seu reino (Ap 12 ss.). Nao e quando n6s fixamos nossa aten- <;:ao sobre urn s6 pecado, ou sa- bre os pecados de uma s6 pessoa ou de urn s6 povo, mas quando n6s contemplamos todo o reino do pecado, na ra<;:a humana, par- tindo da luz lan<;:ada sobre esse 274 reino pela Escritura, que n6s po- demos realmente entender qual e a verdadeira natureza ou inten<;:ao do pecado. Em principia ou es- sencia, ele nada mais e do que ini- mizade contra Deus, e no mundo, ele possui nada menos que urn dominio soberano. E todo peca- do, ate mesmo o menor deles, sen- do uma transgressao da lei de Deus, serve ao seu grande objeti- vo em conexao com todo o seu sis- tema. A hist6ria do mundo nao e a opera<;:ao cega de urn processo evolucionario, mas urn terrivel drama, uma luta espiritual com seculos de dura<;ao entre Cristo e o anticristo, entre Deus e Satanas. ***** Todavia, apesar dessa visao do pecado merecer grande consi- dera<;ao, n6s nao devemos su- cumbir atenta<;:ao de manter uma vista unilateral nem obliterar a distin<;ao existente entre OS vari- OS pecados. Everdade que os pe- cados, assim como as virtudes, sao {micos e indivisiveis, e onde quer que se cometa urn deles, to- dos os outros foram cometidos em principia (Tg 2.10). Mas isso nao significa que todos os pecados sejam iguais em tipo e em grau. Ha diferen<;:a entre pecados de erro ou ignorancia e pecados de presun<;:ao (Nm 15.27,30), entre os pecados cometidos contra a pri- meira e contra a segunda tabua
  • 274.
    0 PECADO EA MORTE (Mt 22.37,38), entre os pecados sensuais e espirituais, humanos e diab61icos, e assim por diante. Devido ao fato de todos os man- damentos da lei diferirem uns dos outros, e as transgress6es desses mandamentos acontecerem em circunstancias muito diferentes e com mais ou menos aprova<;ao da vontade, nem todos os pecados sao igualmente graves e nem to- dos eles merecem a mesma puni- <;ao. Os pecados cometidos con- tra a lei moral sao mais graves do que aqueles cometidos contra a lei cerimonial, pois a obediencia e melhor que o sacrificio (lSm 15.22). A pessoa que rouba para saciar a fome e menos culpavel que a pessoa que rouba por cobi- <;a (Pv 6.30). Ha gradua<;6es de ira (Mt 5.22). E, embora lan<;ar olhar impuro sobre uma mulher casa- da ja seja adulterio, a pessoa que nao luta contra esse desejo, mas sucumbe a ele e comete adulterio atraves de atos, e mais culpavel. Se n6s fizermos injusti<;a a essa distin<;ao entre os pecados n6s estaremos entrando em con- flito tanto com a Escritura quanto com a realidade. Everdade que em urn sentido moral as pessoas nascem iguais. Desde o come<;o todas elas carregam a mesma cul- pa e estao sujas com a mesma mancha. Mas quando crescem elas passam a diferir umas das outras e essa diferen<;a e grande. Os crentes as vezes caem em gra- 275 ves pecados, mas eles estao cons- tantemente lutando contra o velho homem em sua natureza, e po- dern nessa terra alcan<;ar urn pe- queno come<;o da obediencia per- feita. E entre aqueles que nao co- nhecem Cristo ou nao creem nEle ha os que explodem em iniquida- des e que bebem pecados como agua. Mas tambem ha muitos en- tre eles que se destacam por uma vida dvica e eticarnente respeita- vel e que podem servir como mo- delo de virtude ate mesrno para os cristaos. De fato, as sementes do mal estao plantadas no cora- <;ao do hornern, e quanto rnais n6s nos conhecernos, mais n6s reco- nhecernos a verdade de que pela natureza n6s estamos prontos para odiar Deus e o nosso proxi- mo, somos incapazes de qualquer bern e sornos inclinados para o mal. Mas essa inclina<;ao rna nao esta presente em todas as pesso- as na mesma extensao. Nem todos os que caminham pelo caminho largo andam igualmente rapido ou fazem o mesmo progresso. A causa dessa diferen<;a nao esta no homem, mas na restritiva Gra<;a de Deus. 0 cora<;ao e o rnes- mo em todas as pessoas. Sempre e em todo lugar e em todas as pessoas os mesmos maus pensa- mento e maus desejos aparecem. Os pensarnentos do cora<;ao sao maus desde a mocidade. Se Deus abandonasse a humanidade ao sabor dos desejos de seu cora<;ao1
  • 275.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista a terra seria urn inferno e nenhu- ma sociedade humana ou hist6- ria humana seria possivel. Mas exatamente como o fogo dentro da terra e mantido sob controle pela dura crosta terrestre, e so- mente em certas ocasi5es e em certos lugares esse fogo explode em erup<;5es vulcanicas, assim tambem os maus pensamentos e a cobi<;a do homem sao suprimi- dos e restringidos por todos os lados pela vida da sociedade. Deus nao deu ao homem liberda- de total, mas colocou o animal que existe dentro dele em uma jaula para que Ele possa manter Seu conselho para a ra<;a humana e possa executa-lo. Ele mantem em opera<;ao no homem urn amor natural, uma carencia de compa- nhia, uma no<;ao de religiao e de moralidade, consciencia e no<;ao da lei, razao e vontade. E Ele in- sere o homem em uma familia, uma comunidade, urn estado, sen- do que todas essas institui<;5es sao usadas para dar-lhe opiniao publica, no<;5es de decencia, dis- posi<;ao para o trabalho, discipli- na, puni<;ao e coisas semelhantes, restringindo-o e educando-o para uma vida civicamente respeit<ivel. Atraves de todas essas vari- as e poderosas influencias o ho- mem continua sendo incapaz de alcam;:ar o bern. Quando o Cate- cismo de Heidelberg diz que o homem e totalmente incapaz de realizar qualquer bern e inclina- 276 do a todo o mal, por esse bem, como os Artigos contra os Remonstrantes claramente afir- mam, n6s devemos entender bem salvifico. De tal bern salvifico o ho- mem, por sua natureza, e total- mente incapaz. Ele nao pode pra- ticar 0 bern que e eterno, espiritu- al, perfeito e puro aos olhos de Deus, que sonda os cora<;5es, que esteja em total harmonia tanto com o sentido espiritual quanto com o sentido literal da lei e que, portanto, esteja em harmonia com a promessa dessa lei, de que aque- le que cumprisse a lei de forma perfeita seria merecedor da vida eterna. Mas isso nao significa que o homem nao esteja em posi<;ao de realizar o bern temporal pela Gra<;a comum de Deus. Em sua vida pessoal ele pode atraves de sua razao e vontade restringir os maus pensamentos e cobi<;a e aplicar-se avirtude. Em sua vida comunitaria e social ele pode ho- nestamente cumprir suas obriga- <;5es e promover a cultura, a den- cia e a arte. Em uma palavra, pelo uso de todos os meios que Deus coloca a disposi<;ao do homem natural ele e capaz de ter uma vida humana aqui na terra. Mas todas essas for~as, nao sao suficientes para renovar o ho- mem por dentro e geralmente sao inadequadas ate mesmo para manter a injusti<;a dentro de cer- tos limites. N6s aqui nao estamos
  • 276.
    0 PECADO EA MORTE falando somente do mundo cri- me, que e encontrado em toda a sociedade e que tern sua propria vida, mas tambem das conquistas, colonizac;6es, guerras religiosas e raciais, revoluc;6es populares, re- voltas nacionais e coisas seme- lhantes, que sao terriveis expres- s6es da injusti<;;a presente no co- rac;ao humano. 0 refinamento da cultura nao subjuga a injustic;a, apenas fomenta o acanhamento ao pratica-la. 0 aparentemente mais nobre dos atos prova, depois de urn minucioso exame, ter sido motivado por todos os tipos de motiva<;;6es pecaminosas de auto promoc;ao e ambic;ao. Quem quer que entenda algo da maldade e da sutileza do corac;ao humano nao ficara surpreso com o mal que existe no mundo. Pelo contrario, ficara maravilhado com o bern que ainda pode ser encontrado nele. "As miseric6rdias do Senhor sao a causa de nao sermos consu- midos, porque as Suas miseric6r- dias nao tern fim;..." (Lm 3.22). Ha uma luta continua entre o pecado do homem e a Grac;a de Deus, que faz com que os pensamentos e as ac;6es do homem sejam uteis ao Seu conselho e ao Seu plano. * * * * * Essa Grac;a de Deus pode humilhar o homem, como aconte- 127 Ex 4.21; 7.3; 9.12; 10.20,27. 277 ceu no caso de Acabe (lRe 21.29) e dos habitantes de Ninive (Jn 3.5 ss.). Mas o homem, pode par urn longo tempo, opor-se a essa Gra- <;;a. Nesse caso a iniqua manifesta- c;ao que na Escritura echamada de endurecimento do corac;ao esta pre- sente. Fara6 eo tipico exemplo disso. Ha outros casos registrados na Escritura, mas a natureza e o progresso do endurecimento sao mais claramente revelados em Fara6. Ele era urn principe pode- roso, o lider de urn grande reino, orgulhoso e relutante a curvar-se diante dos sinais do poder de Deus. Esses sinais seguiram-se uns aos outros, em uma ordem regu- lar e aumentavam cada vez mais em poder miraculoso e forc;a destrutiva. Mas, na medida em que os sinais iam se sucedendo, Fara6 ficava mais obstinado. Sua resistencia em ceder e curvar-se diante desse poder miraculoso perdia cada vez mais o carater de integridade. Finalmente, com seus olhos totalmente abertos para os fatos, caminhou a passos largos di- retamente para o seu destino. Euma tremenda batalha es- piritual que n6s, temos diante de nossos olhos, nesse drama de Fara6, urn drama que pode ser visto tanto do lado de Deus quan- ta do lado do homem. Edito que o Senhor endureceu o corac;ao de Fara6127 , e e dito tambem que
  • 277.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Fara6 endureceu seu corac;ao128 e que seu corac;ao estava endureci- do129. Ha, nesse fenomeno de en- durecimento, uma operac;ao divi- na e uma operac;ao humana. Ha uma operac;ao da Grac;a divina que cada vez mais vai se transfor- mando em julgamento, e uma operac;:ao da resistt?ncia humana que cada vez mais assume o cara- ter de consciente e determinada inimizade contra Deus. E a Escri- tura descreve esse endurecimen- to, da mesma forma, em outros textos. Em Deuteronomio 2.30, Josue 11.20 e Isaias 63.17 o Senhor endurece; em outros textos130 e 0 povo que endurece seu proprio corac;ao. Ha uma interac;:ao aqui, uma luta entre os dois que nao pode ser separada da revelac;:ao da Grac;:a de Deus. Essa interac;:ao esta relacionada com a Grac;:a ge- ral, mas e particularmente a Gra- c;a especial que tern a caracteristi- ca de trazer julgamento, e urn cis- rna e separac;ao entre as pessoas (Jo 1.5; 3.19; 9.39). Cristo esta des- tinado tanto para a ruina quanto para o levantamento de muitos (Lc 2.34). Ele e a rocha de salva- c;ao e e a rocha de escandalo e ofensa (Mt 21.44; Rm 9.32). 0 Evangelho e para a morte e para a vida (2 Co 2.16). Ele esta escon- dido para OS sabios e entendidos e revelado para os pequeninos 128 Ex 7.14; 9.7; 9.35. 129 Ex 8.15,19,32; 9.34. (Mt 11.25).E em tudo isso o Con- selho e o beneplacito de Deus e tambem a lei religiosa e moral sao evidentes. 0 pecado do endurecimen- to alcanc;:a sua expressao maxima na blasfemia contra o Espirito Santo. Jesus fala sobre isso em urn contexto de seria desavenc;:a com os fariseus. Quando Ele curou urn homem que era cego e mudo e que estava possufdo por urn de- monio, as multidoes ficaram tao maravilhadas que clamaram: "Esse nao e o Filho de Davi, o Messias, prometido por Deus aos nossos pais?". Mas essa honra dada a Cris- to levantou 6dio e inimizade en- tre os fariseus e eles declararam o contrario, disseram que Cristo expulsava demonios por Beelzebub, o principe dos demo- nios. Dessa forma eles assumiram uma posic;:ao diametralmente oposta a Cristo. Em vez de reconhece-lo como o Filho de Deus, o Messias, que expulsa os demonios pelo Espirito de Deus e que estabelece o reino de Deus na terra, eles disseram que Cristo eurn cumplice de Satanas e que Sua obra e diab6lica. Contra essa terrivel blasfemia Jesus preserva sua dignidade refutando a afirma- c;ao dos fariseus e mostrando sua insensatez e ao final de Sua repli- 130 15m 6.6; 2Cr 36.13; 5195.8; Mt 13.15; At 19.9; Rm 11.7,25. 278
  • 278.
    0 PECADO EA MORTE ca Ele acrescenta essa grave ad- moesta<_;:ao: "todo pecado e blas- femia serao perdoados aos ho- mens; mas a blasfemia contra o Espirito nao sera perdoada. Se al- guem proferir alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe- a isso perdoado; mas, se alguem falar contra o Espirito Santo, nao lhe sera isso perdoado, nem nes- te mundo nem no porvir" (Mt 12.31,32). As pr6prias palavras e o contexto no qual elas aparecem claramente indicam que a blasfe- mia contra o Espirito Santo nao acontece no come<;o nem no meio do caminho do pecado, mas no fim. Ela nao consiste de uma du- vida ou de incredulidade a res- peito do que Deus revelou, nem de uma resistencia ou de uma murmura<_;:ao contra o Espirito Santo, pois esses pecados podem ser cometidos tambem pelos cren- tes. Mas a blasfemia contra o Es- pirito Santo acontece somente quando Ele se apresenta aconsci- encia humana com uma rica reve- la<_;:ao de Deus e com uma pode- rosa ilumina<_;:ao espiritual que o homem fica completamente con- vencido em seu cora<_;:ao e em sua consciencia da verdade da divina revela<_;:ao131 • 0 pecado consiste em que essa pessoa, apesar de toda a re- vela<_;:ao objetiva e da ilumina<_;:ao 131 Hb 6.4-8; 10.25-29; 12.15-17. 279 subjetiva, a despeito do fato de que ela tern conhecido e provado a verdade como verdade, de for- ma consciente e com intento deli- berado diz que a verdade e men- tira e castiga Cristo como instru- mento de Satamis. Nesse pecado o humano se torna diab6lico. Nao, isso nao consiste de duvida e in- credulidade, mas de urn rompi- mento total da possibilidade de arrependimento (1Jo 5.16). Esse pecado vai muito alem da duvi- da, da incredulidade e do arre- pendimento. Apesar do fato de que o Espirito Santo e reconheci- do como sendo o Espirito do Pai e do Filho, Ele e, em urn testemu- nho diab6lico, blasfemado. Nes- se apice 0 pecado se torna tao des- caradamente demoniaco que lan- <;a fora todo vestigia de vergonha, desfaz-se de toda vestimenta e se apresenta nu e cru, despreza to- das as aparentes razoes, manifes- ta todo o seu prazer no mal e se levanta contra a vontade e a Gra- <_;:a de Deus. E, portanto, uma gra- ve admoesta<_;:ao essa que Jesus da em Seu ensino sabre a blasfemia contra o Espirito Santo. Mas n6s nao devemos nos esquecer do conforto que esta contido nesse ensino, pois se esse pecado e o unico pecado imperdoavel, ate mesmo os maiores e os mais se- veros podem ser perdoados. Eles podem ser perdoados nao atraves
  • 279.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista de exerdcios penitenciais huma- nos, mas pelas riquezas da Grac;a de Deus. * * * * * Se o pecado pode ser perdo- ado e lavado somente atraves da Grac;a, a implicac;ao e que em si e por si mesmo ele merece punic;ao. A Escritura procede desse pre-re- quisito quando ameac;a o pecado com a punic;ao da morte antes mesmo do pecado entrar no mun- do (Gn 2.17). Alem disso ela cons- tantemente proclama o julgamen- to de Deus contra o pecado, sen- do que esse julgamento pode ser executado ja nesta vida (Ex 20.5) ou no grande dia do julgamento (Rm 2.5-10). Deus e o Justo e o Santo, que odeia toda maldade132 , que nao inocenta 0 culpado133 e que visita a iniquidade (Rm 1.18), amaldic;oa o impio (Dt 27.26; Gl 3.10) e lhes revela Sua ira (Na 1.2; 1Ts 4.6), e que recompensara to- dos os homens conforme as suas obras134 . A consciencia da teste- munho dessa realidade a todas as pessoas quando ela julga o indi- viduo por causa de seus maus pensamentos, palavras e obras, e quando ela o persegue com urn senso de culpa e remorso e de medo do julgamento. Entre todos os povos a administrac;ao da jus- 132 J6 34.10; 515.5; 45.7. 133 Ex 34.7; Nm 14.18. tic;a e baseada sobre essa ideia de culpabilidade do pecado. 0 corac;ao humano entra em conflito com esse severo julga- mento porque se sente condena- do por ele. A ciencia e a psicolo- gia tern entrado a servic;o do co- rac;ao e tern tentado apresentar as mais atrativas razoes para se desvincular a obra e a recompen- sa, o male a punic;ao. Assim como a arte deve ser praticada em con- siderac;ao a si mesma, de acordo com essa representac;ao o bern deve ser praticado em considera- c;ao a si mesmo, e nao pela espe- ranc;a de recompensa; e, dames- ma forma, o mal deve ser evitado pelo que e, e nao por causa da pe- nalidade a ele vinculada. Nao ha algo como recompensa para a vir- tude e punic;ao para o pecado. A unica penalidade vinculada ao pecado eo resultado que sua pro- pria natureza, em virtude da lei natural, inevitavelmente traz con- sigo. Assim como o homem vir- tuoso tern paz de corac;ao, o peca- dor, com sua consciencia de cul- pa, ansiedade e temor e atormen- tado, ou, se seus pecados sao de bebedeira ou sensualidade, e vi- sitado pela deficiencia da saude. Em tempos modernos essa filosofia do corac;ao pecaminoso e errante tern encontrado suporte na teoria da evoluc;ao, de acordo 134 5162.12; J6 34.11; Pu 24.12; Jr 32.19; Ez 33.20; Mt 16.27; Rm 2.6; 2Co 5.10; 1Pe 1.17; Ap 22.12. 280
  • 280.
    0 PECADO EA MoRTE com a qual o homem descende do animal e que deve, inevit<ivel e determinadamente fazer e ser o que faz e e. 0 homem nao e urn ser livre, racional em moral; ele nao e responsavel pelos seus atos; seus atos nao podem ser apresen- tados contra ele para manifestar sua culpa; ele simplesmente e 0 que tern que ser. Assim como ha flares que exalam uma deliciosa fragrancia e ha flares que exalam mau cheiro, e assim como ha ani- mais domesticos e feras selva- gens, ha tambem pessoas que sao uteis a sociedade e pessoas que sao prejudiciais a ela. De fato, a sociedade, no interesse de sua auto preservac;:ao, tern o direito de isolar esses individuos ameac;:ado- res e ate de prende-los, mas isso nao e punic;:ao. Nenhum homem tern o direito de julgar outro ho- mem e condena-lo. Os criminosos nao sao tao malvados quanta insanos. Eles sofrem de uma fra- queza herdada ou de urn defeito realc;:ado pela sociedade. Tais pes- soas, de acordo com essa teoria, nao merecem a cadeia, mas urn hospital ou urn sanatoria e podem exigir urn tratamento humano, medico e educacional. Para fazer justic;:a aos fatos deve ser dito que essa nova teo- ria criminal e uma reac;:ao a outro extrema que existiu no passado. Em nossos dias os criminosos sao considerados como doentes men- tais, e todos os outros tipos de de- 281 safortunados sao considerados como criminosos, e as pessoas abrem seu entendimento para conceber danos que podem cau- sar as mais terriveis dares em pes- soas que sao consideradas culpa- das e merecedoras de punic;:ao. Mas ate mesmo isso de alguma forma motiva essa nova teoria, que e exatamente o contrario da antiga. Ela faz injustic;:a agravida- de do pecado, rouba ao homem sua liberdade moral, rebaixa-o ao nivel da maquina, audaciosamen- te desafia a natureza moral do homem com sua consciencia e sen- so de culpa, e em principia mina toda a base da autoridade, bern como a administrac;:ao da lei. A despeito de todos os esforc;:os que a ciencia pode em- preender para provar a inevi- tabilidade do pecado, qualquer pessoa cuja consciencia ainda nao tenha se tornado insensivel sen- te-se obrigada a fazer o berne res- ponsavel quando faz o mal. Cer- tamente a esperanc;:a de recom- pensa nao e a unica e nem 0 mais importante motivo para se fazer o bern, e certamente o ternor da punic;:ao pode nao sera unica coi- sa que obrigue o homem a refrear o mal. Mas, mesmo que seja atra- ves desses motivos secundarios, fazer o bern e refrear o mal, mes- mo que seja em urn sentido exter- no, e ainda uma situac;:ao melhor do que aquela em que, despre- zando essas motivac;:oes, a pessoa
  • 281.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vive de acordo com seus impul- sos. Alem disso, a virtude e a for- tuna e o pecado e a puni<;ao estao inseparavelmente conectados urn ao outro nao meramente em fun- <;ao de urn reconhecimento exter- no, mas estao presentes tambem na consciencia moral do indivi- duo. 0 verdadeiro e real amor ao bern, isto e, a plena comunhao com Deus, significa que o homem esta inteiramente, tanto externa quanto internamente, inserido nessa comunhao. Eo pecado, com a mesma amplitude, corrompe tanto a alma quanto o corpo do homem. * * * * * A puni<;ao que Deus impoe ao pecado ea morte (Gn 2.17), mas essa morte corporal e temporal nao ea unica puni<;ao do pecado. Ela e precedida e seguida por muitas outras penalidades. Logo que o homem pecou seus olhos foram abertos, ele se envergonhou de sua nudez e es- condeu-se com medo da face de Deus (Gn 3.7,8). No homem aver- gonha e o medo sao inseparaveis do pecado porque ele imediata- mente se sente culpado e amea- <;ado pelo seu pecado. A culpa, que esta relaciona- da com a puni<;ao, e a mancha, que ea corrup<;ao moral, sao as consequencias que se seguiram imediatamente a queda. Mas a 282 essas penalidades naturais Deus acrescenta puni<;6es mais defini- das. A mulher e punida como mulher e tambem como mae: Ela deve dar aluz com dores e 0 seu desejo deve ser sempre para o seu marido (Gn 3.16). E o homem e punido com urn chamado especi- fico para ele, a saber, o cultivo da terra com o trabalho de suas maos (Gn 3.17-19). A morte nao aconte- ce logo depois da transgressao; ela eadiada por centenas de anos, pois Deus nao abandona Seus in- tentos referentes ara<;a humana. Mas a vida que eagora concedi- da ao homem se torna uma vida de sofrimento, cheia de luta e fra- casso, uma prepara<;ao para a morte, uma morte continua. 0 ho- mem nao se tornou mortal por causa do pecado: ele come<;ou a morrer. Ele morre constantemen- te desde o ber<;o ate a cova. Sua vida eapenas uma curta e inutil batalha contra a morte. Esse fato se expressa nas muitas formas pelas quais sao apresentadas na Escritura a fragi- lidade, a transitoriedade e a vai- dade da vida humana. 0 homem era p6, mesmo antes da queda. 0 seu corpo foi feito do p6 da terra e assim, formado da terra, ele foi feito alma vivente (lCo 15.45A7). Mas a vida do primeiro homem foi planejada para ser espiri- tualizada e glorificada, governa- da pelo Espirito na forma de obe- diencia alei divina. Agora, toda-
  • 282.
    0 PEcAoo EA MaRTE via, como resultado da transgres- sao, a lei esta em ac;ao: do p6 fos- te formado, e ao p6 voltaras (Gn 3.19). Em vez de se tornar espiri- to, o homem se tornou carne atra- ves do pecado. Agora sua vida e sombra, urn sonho, urn intervalo, urn passo, urna onda do mar que se levanta, quebra-se e desapare- ce, urn raio de luz que brilha e se vai, uma flor que desabrocha e seca. Ela de fato nao merece o ple- no e glorioso nome de vida. Ela e morte constante no pecado (Jo 8.21,24), uma morte em delitos e pecados (Ef 2.1). Essa vida, vista pelo lado de dentro, e inteiramente corrup- ta, refugada e dissolvida pelo pecado. E pelo lado de fora ela e constantemente ameac;ada por todos os lados. Imediatamente depois da transgressao o homem foi expulso da paraiso. Ele nao teve o direito de voltar para la, pois ele foi fon;;ado a trabalhar para viver, e no paraiso o descan- so e a paz sao doces demais para o homem caido. Ele tinha que se esfon;ar para ganhar o seu pao como suor de seu rosto e dessa forma cumprir seu chamado. 0 homem antes da queda estava em casa, no paraiso, mas o ho- mem pecador, sujeito aredenc;ao, esta na terra como urn peregrina - numa terra que compartilha sua queda, que por sua causa foi amaldic;oada e que, juntamente 283 com ele, esta sujeita a vaidade (Rm 8.20). Dessa forma o interno e o externo concordam: ha harmonia entre o homem e seu meio ambi- ente. A terra na qual n6s vivemos nao e 0 ceu, mas tambem nao e 0 inferno. Ela esta entre os dois e possui algo das qualidades de cada urn. N6s nao podemos apon- tar exatamente qual e a relac;ao entre os pecados do homem e as calamidades da vida. 0 proprio Jesus nos previne para que nao fac;amos isso. Ele diz que os galileus, cujo sangue Pilatos mis- turou aos seus sacrificios nao eram mais culpados que os outros (Lc 13.1-3), eo filho que nasceu cego nao foi punido por causa do pecado de seus pais, mas foi afli- gido para que as obras de Deus se revelassem nele (Jo 9.3). N6s, portanto, nao podemos inferir do fato de que calamidades aconte- cem com uma pessoa, que sua culpa pessoal seja a causa disso. Os amigos de J6 argumentaram dessa forma e estavam errados. Contudo, nao ha duvida de que de acordo com o ensino de toda a Escritura existe uma cone- xao entre o homem caido, por urn lado, e a terra caida, por outro lado. Eles foram criados em har- monia urn como outro, e juntos foram condenados a vaidade, ambos serao em prindpio redi- midos por Cristo e algum dia se- rao exaltados e glorificados. 0
  • 283.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista presente mundo nao e 0 melhor possivet mas tambem nao e 0 pior, mas e urn born mundo para o homem caido. Por si mesmo ele produz cardos e espinhos e compele o homem a trabalhar, preserva-lo da decadencia e, no fundo de seu cora<;:ao, alimentar a esperanc;a inextinguivel de que havera algum dia urn bern dura- vel e uma felicidade eterna. Essa esperan<;:a faz com que ele viva, mesmo que seja uma vida de cur- ta dura<;:ao e cheia de tormentas. Toda vida humana, por na- tureza, esta sujeita a decadencia e amorte. Se uma pessoa for sufi- cientemente forte ela podera resis- tir a essa luta durante setenta ou oitenta anos, mas a vida geral- mente se esvai mais cedo, na for- <;:a dos anos, na flor da mocidade ou ate mesmo antes do nascimen- to. A Escritura diz que essa morte e urn julgamento de Deus, urn pagamento ou puni<;:ao pelo pe- cado, e essa verdade e sentida no cora<;:ao de todas as pessoas. Ate mesmo os assim chamados povos primitivos sabiam que em essen- cia 0 homem e mortal, e que nao e a imortalidade que deve ser pro- vada, mas a morte que deve ser explicada. Contudo ha muitos que em tempos antigos e em tempos mais recentes tern afirmado que a morte, nao como algo externo que vern violentamente de fora, mas internamente, como urn processo de dissolu<;:ao, e urn fenomeno 284 natural e inevitavel. Em si mes- ma, de acordo com esse ponto de vista, a morte nao e terrivel; ela simplesmente parece terrivel ao homem porque o instinto da vida luta contra ela. Na medida em que a ciencia progride a morte vai se tornando cada vez mais natural. Chegara o dia em que o homem morrera tao pacificamente e tao calmamente como uma planta que se seca ou como urn animal cujas for<;:as se exauriram. Mas, embora haja alguns que falem dessa forma, ha outros que assumem uma posic;ao total- mente diferente. Os homens da ciencia nao encontram meios para concordar sobre as causas e ana- tureza da morte. Contra esses que veem na morte urn fim naturale necessaria da vida ha muitos que encontram na morte urn enigma maior que a vida, e que declaram que nao ha uma s6 razao pela qual seres vivos devam morrer. Eles chegam a dizer que, originalmen- te, o universo era urn imensuravel ser vivo, que a morte surgiu pos- teriormente, e que ainda ha al- guns animais que nao morrem. E tallinguagem e facilmente absor- vida em nossos dias por aqueles que creem na preexistencia das almas e que se referem a morte como uma mudan<;:a de forma que o homem sofre para evoluir para uma vida mais elevada - como a lagarta que se transforma em uma borboleta.
  • 284.
    0 PECADO EA MaRTE Essa diferen<;a de pontos de vista e, em si mesma, uma eviden- cia de que a cH~ncia nao pode pe- netrar na causa mais profunda e final das coisas e nao pode expli- car a morte mais do que a vida. Tanto a morte quanto a vida con- tinuam sendo urn misb2rio para a ciencia. No momenta em que a ciencia se arrisca a dar uma expli- ca<;ao ela corre o perigo de come- ter injusti<;as tanto com rela<;ao a realidade da morte quanto com rela<;ao arealidade da vida. A ci- encia diz que a vida era, original- mente, eterna, mas nesse caso ela deve responder a questao de como a morte surgiu; a ciencia responde dizendo que a morte e apenas uma mudan<;a de forma, porem, por outro lado ela tenta entender a morte como sendo na- tural. Nesse caso a ciencia nao sabe 0 que fazer e a vida e for<;a- da a negar a imortalidade. Em ambos os casos e apagada a linha entre a vida e a morte e entre o pecado e a santidade. A confissao de que a morte e urn pagamento pelo pecado, apesar de nao ser provada pela ciencia, tambem nao e refutada por ela. Essa confissao simples- mente se mantem fora dos limi- tes da investiga<;ao cientifica e alem de seu alcance. Alem disso essa confissao nao necessita de confirma<;ao da ciencia. Ela esta baseada sobre o testemunho divi- no e e confirmada a todo instante pelo medo da morte acuja escra- vidao os homens estao sujeitos durante toda a sua vida (Hb 2.15). Outra coisa que pode ser dita como evidencia dessa necessida- de ou em defesa de sua legitimi- dade e que a morte nao e natural. Ela nao e natural porque nao se encaixa na essencia e no destino do homem, nem em sua cria<;ao a imagem de Deus, pois a comu- nhao com Deus e incompatfvel com a morte. Deus nao e urn Deus de mortos, mas de vivos (Mt 22.32). Por outro lado, a morte e natural ao homem caido, pois o pecado, quando consumado, gera a morte (Tg 1.15). Alem disso, de acordo com a Sagrada Escritura, a morte nao e uma aniquila<;ao. A vida e prazer, ben<;ao, superabun- dancia, e a morte e miseria, pobre- za, fome, sede de paz e falta de ben<;ao. A morte e dissolu<;ao, se- para<;ao daquilo que estava jun- to. 0 homem, criado aimagem de Deus, possui comunhao com Deus. Ele vive de forma plena, eterna e aben<;oada. Mas quando ele rompe essa comunhao ele morre. Sua vida passa a ser caren- te de prazer, paz e ben<;ao, e ele se torna morto em seus pecados. Essa morte espirituat essa sepa- ra<;ao entre Deus eo homem, con- tinua no corpo e culmina na mor- te eterna, pois a existencia huma- na nao chega ao fim depois da separa<;ao entre a alma e o corpo. Aos homens esta ordenado mor- 285
  • 285.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista rer uma s6 vez, vindo depois dis- too juizo (Hb 9.27). 286 E quem pode resistir a esse julgamento?
  • 286.
    CAPITULO 11~ 0 PACTO DAGRA<;A A A essa questao a humani- dade tern, em todos os tempos e lugares, dado a resposta de que o homem nao pode subsistir diante de Deus e nem morar em Sua presen<;a. Nin- guem ha que possa dizer: "Purifi- quei o meu cora<;ao, limpo estou do meu pecado?" (Pv 20.9). Todos sentem-se culpados e sujos, e to- dos reconhecem, se nao nos ou- tros, pelo menos em si mesmos, que nao sao como deveriam ser. 0 pecador endurecido tern mo- mentos nOS quaiS e dOffiH LetdO pela agita<;ao e pela falta de descanso, eo sentimento de auto justi<;a con- tinua, no mais fntimo de seu ser, esperando que Deus passe por alto sua carencia e aceite a inten- <;ao de boas obras. De fato ha muitos que ten- tam banir esses pensamentos de sua mente orientar sua vida pelo pensamento de que nao existe 287 Deus, nem mandamento. Eles en- ganam a si mesmos dizendo que nao ha Deus (5114.1), que Ele nao se importa com os pecados do homem e que ate mesmo o male born aos Seus olhos (Ml2.17), que Ele nao se lembra do mal e nem pode ve-lo (Sl10.11; 94.7), ou ain- da que, sendo Amor perfeito, Deus nao punira o erro (5110.14). Mas onde quer que haja a exigen- cia da lei moral e o ideal etico man- tenha sua nobreza, nao pode ha- ver duvidas de que Deus punira o mal. Deus e amor, mas essa glo- riosa confissao s6 e feita com a devida propriedade quando o amor divino e entendido como sendo urn amor santo e em per- feita harmonia com Sua justi<;a. 56 ha lugar para a Gra<;a de Deus onde Sua justi<;a estiver plena- mente estabelecida. Toda a hist6ria do mundo nos da urn irrefutavel testemunho
  • 287.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista dessa justi<;:a de Deus. N6s nao podemos especular fora do mun- do a revela<;:ao especial em Cristo que nos fala do amor de Deus, pois se n6s fizermos isso essa re- vela<;:ao especial estara perdida para n6s. E se n6s, mesmo que seja s6 por urn momento, deixarmos de lado a revela<;:ao de Deus em Cristo, nao restara muito apoio para a cren<;:a de urn Deus de amor. Sea hist6ria do mundo cla- ramente nos ensina algo, e que Deus tern uma desaven<;:a com Suas criaturas. Ha discordancia, separa<;:ao, conflito entre Deus eo mundo. Deus nao concorda com o homem e o homem nao concor- da com Deus. Cada urn segue seu proprio caminho e cada urn tern seus pr6prios pensamentos sobre as coisas. Os pensamentos de Deus nao sao os nossos pensa- mentos e os caminhos de Deus nao sao os nossos caminhos (Is 55.8). Portanto, a hist6ria do mun- do e tambem urn julgamento do mundo. Nao, nao e, como o poeta disse, o julgamento do mundo, pois esse julgamento s6 acontece- ra no ultimo dia, e 0 testemunho de que esse julgamento nao che- gou e que a terra ainda esta cheia das riquezas de Deus (Sl 104.24). Ao mesmo tempo a hist6ria do mundo e urn julgamento, uma his- t6ria cheia de julgamentos, cheia de lutas e guerras, de sangue e de lagrimas, calamidades e afli<;:6es. Sobre isso estao escritas as pala- 288 vras que Moises disse quando viu os israelitas sendo mortos diante de seus olhos: "Somos consumi- dos pela Tua ira, e pelo Teu furor, conturbados" (Sl 90.7). Esse testemunho que a his- t6ria da sobre a justi<;:a de Deus e confirmado pelo fato de que o homem tern sempre procurado por urn paraiso perdido, por urna felicidade perene, e por uma re- den<;:ao de todo o mal que o opri- me. Ha em todos os homens uma necessidade e uma procura pela reden<;:ao. Eexatamente essa ne- cessidade e essa busca que se ex- pressam na religiao. A palavra re- deru;ao pode ser usada em urn sen- tido tao amplo que inclua todo o labor do homem sobre a terra, pois quando o homem pelo trabalho de suas maos tenta suprir as necessi- dades de sua vida, quando ele ten- ta defender-se de todos os tipos de for<;:as antagonicas na natureza e entre os homens, e quando na ci- encia e na arte ele se esfor<;:a por dominar todo o mundo, tudo isso tern o prop6sito de livra-lo do mal e promover o bern. Contudo, o conceito de re- den<;:ao nunca e aplicado a esse tipo de labor humano. Nao impor- ta quanto esfor<;:o possa fazer com que a vida do homem seja mais prazerosa e mais rica, ha na hu- manidade urn senso de que todo esse progresso e civiliza<;:ao nao satisfazem as mais profundas ne- cessidades humanas e nem podem
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    0 p ACTODA GRA<;:A resgata-lo de suas piores angusti- as. A reden<;ao e urn conceito reli- gioso e so e aplicado corretamen- te na esfera religiosa. A religiao precedeu toda a cultura e civiliza- <;ao, e ate hoje a religiao continua a ocupar o seu proprio lugar ao lado da ciencia, da arte e da tecnologia. Ela nao pode ser su- plantada, nem compensada, nem mesmo pelos mais importantes resultados do esfor<;o humano. A religiao supre uma unica necessi- dade no homem, e sua tendencia depois da queda e sempre resgata- lo de suas angustias. Portanto, a ideia de reden<;ao esta presente em todas as reli- gioes. E verdade que as vezes as religioes sao classificadas como naturais, eticas e redentivas. Quando isso e feito a religiao redentiva e diferenciada das ou- tras duas como urn tipo especial de religiao. Mas tal classifica<;ao e objeto de muita disputa. Em urn sentido geral a no<;ao de reden<;ao e propria a todas as religioes. To- das as religioes de todos os povos pretendem ser religioes reden- tivas. Ha diferen<;as sobre a natu- reza do mal do qual a reden<;ao e almejada, sobre a forma pela qual ela pode ser obtida, e sobre o mais elevado bern que o homem pode esfor<;ar-se por alcan<;ar. Contudo, todas as religioes apontam para a reden<;ao do mal e para a obten- <;ao do mais elevado bern. Na reli- 289 giao a grande questao e sempre a seguinte: "0 que eu preciso fazer para ser salvo?". Precisamente o que nao pode ser obtido pela cul- tura, nem pela civiliza<;ao, nem mesmo pelo dominio sobre a ter- ra, precisamente esse eo objeto da religiao: felicidade perene, paz eterna, ben<;ao perfeita. Na reli- giao o homem esta sempre relaci- onado com Deus. De fato, em sua condi<;ao pecaminosa o homem representa Deus de forma errada, de forma diferente daquilo que Ele e, procura-o com uma motiva- <;ao errada e da forma errada e no lugar errado, mas procura por Deus como se, tateando, pudesse encontra-lo (At 17.27). Essa necessidade de reden- <;ao, que e comum a toda a huma- nidade e que procura satisfazer os adeptos das muitas auto denomi- nadas religioes dos povos e, em si mesma e para o Cristianismo, de grande importancia. Essa necessi- dade surge continuamente no co- ra<;ao das pessoas e e mantida ali por Deus. Ela ilustra o fato de que Deus nao abandonou a ra<;a huma- na aos seus proprios caminhos. Ela e uma esperan<;a inerradicavel e capacita o homem em sua longa e atribulada jornada pelo mundo a manter-se vivo e trabalhando. E ela serve como uma garantia e como uma profecia do fato de que essa reden<;ao existe, e que, enquanto os homens procuram em vao ela e graciosamente dada por Deus.
  • 289.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ***** Para entender corretamente e apreciar o melhor dessa grande reden<;ao que a Gra<;a de Deus preparou em Cristo, sera util pa- rar por urn momento ou dois, di- ante dos esfor<;os empreendidos pelo homem, alheios arevela<;ao especial, para livrar-se do mal e adquirir o mais elevado bern. N6s veremos a grande diferen<;a e, ao mesmo tempo, a grande uniformi- dade que caracteriza todos esses esfor<;os. A grande diferen<;a eo gran- de numero de religi6es que tern existido ao longo dos seculos. 0 numero de religi6es e maior do que o numero de na<;6es e de lin- guas. Assim como a terra produz cardos e espinhos, as religi6es se desenvolvem a partir da nature- za humana. Elas se desenvolvem. Elas sao tao numerosas e tao dife- rentes que dificilmente podem ser vistas de forma panoramica e nao sao suscetiveis e nao satisfazem a qualquer classifica<;ao. Visto como a religiao ocupa uma posi<;ao cen- tral, ela assume urn carater dife- rente de acordo com a maneira pela qual ela ve a rela<;ao entre Deus eo mundo, entre a natureza e o espirito, entre a liberdade e a necessidade, entre o destino e a culpa, entre a hist6ria e a cultura. De acordo com a forma pela qual 0 male visto, se ele e positivo ou negativo, uma identidade perma- 290 nente ou urn momento passagei- ro na hist6ria da civiliza<;ao, na- tural ou moral, sensitivo ou espi- ritual em seu carater, a ideia de reden<;ao muda, e muda tambem a forma pela qual o homem deve busca-la e obte-la. Quando n6s tentamos pers- crutar a essencia dessas religi6es, todas elas parecem possuir todos os tipos de tra<;os de similaridade e de relacionamento. Em primei- ro lugar toda religiao tenta com- preender todas as ideias sobre Deus e sobre o mundo, sobre os espiritos e sobre o homem, sobre a alma e sobre o corpo, e sobre a origem, a essencia e o prop6sito das coisas. Toda religiao traz con- sigo uma doutrina, uma visao do mundo e da vida, urn dogma. Em segundo lugar, nenhuma religiao se satisfaz com a mera apreensao racional dessas ideias, mas impe- le os homens, por meio dessas ideias e com sua assistencia, a pe- netrar atraves do mundo sobrena- tural de Deus e dos espiritos e a unir-se com eles. A religiao nun- ca e apenas urn dogma ou uma doutrina. Ela envolve tambem a afei<;ao dos sentimentos, a atitude do cora<;ao e a ben<;ao do favor divino. Mas os homens, em todos os tempos e em todos os lugares, sempre souberam que esse favor divino nao lhes pertencia por na- tureza. Por urn lado os homens tern uma no<;ao de que devem ter esse favor se quiserem obter a fe-
  • 290.
    0 p ACTODA GRA<;:A licidade eterna e a salva<;ao de suas almas; e, por outro lado, eles sentem o quanto necessitam des- se favor e que por causa de seus pecados eles nao possuem comu- nhao com Deus. Portanto, toda religiao possui urn terceiro ele- mento constituinte, ou seja, o es- for<;o para que, de uma forma ou outra o homem possa obter o fa- vor de Deus e ter comunhao com Ele para que, dessa forma, assegu- re sua existencia no futuro. Toda religiao possui urn grupo de idei- as relacionadas entre si, tenta fo- mentar afetos e sentimentos espe- dficos e prescreve uma serie de pniticas. Essas praticas religiosas sao divididas em dois tipos. Aprimei- ra categoria pertencem aquelas praticas que podem ser entendi- das sob o termo culto e que con- sistem principalmente de reuni6es religiosas, sacriflcios, ora<;6es e canticos. Mas a religiao nunca se limita a essas pniticas. For ocupar a posi<;ao central na vida huma- na, ela preenche toda a vida e ten- ta alinhar-se com a vida. Toda re- ligiao apresenta ideias eticas e proclama uma lei moral segundo a qual a pessoa, em sua vida do- mestica, pessoal, dvica e social deve conduzir-se. Em toda reli- giao ha ideias, sentimentos e a<;6es que sao em parte relevantes para o culto e em parte relevantes para a vida moral, e que podem, par- tanto, ser chamados de culticos e 291 eticos. Nao ha uma s6 religiao na qual qualquer desses elementos nao esteja presente. Mas ha uma grande diferen<;a quanto ao con- teudo presente em cada urn deles, sobre a rela<;ao que eles possuem uns com os outros e sobre a enfa- se que cada urn deles recebe. Pau- lo diz que a essencia do paganis- mo dos gentios e que eles muda- ram a gloria do Deus incorruptivel em semelhan<;a da imagem de homem corruptive!, bern como de aves, quadrupedes e repteis. De acordo com a extensao em que Deus e identificado como univer- so, com a natureza, como homem ou com os animais os conceitos religiosos vao mudando, e da mesma forma mudam as emo<;6es e a<;6es religiosas. Tres tipos principais devem ser distinguidos. Quando o divi- no e identificado com as misterio- sas for<;as da natureza a religiao se transforma numa grosseira su- persti<;ao e magia. Os feiticeiros e os magos servem para prover para o homem poder sobre as arbitra- riedades dos seres divinos invisi- veis. Se o divino for visto como urn ser humano, a religiao assume urn carater mais humano, mas ao mes- mo tempo cai em urn culto ritualista de formas ou em urn profundo moralismo. E quando o divino e concebido como a ideia, a alma ou a substancia do mun- do, a religiao retrata da aparencia
  • 291.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii das coisas ao misticismo do cora- ~ao, e tenta alcan~ar comunhao com Deus por meio do ascetismo (abstinencia) e extase (eleva~ao es- piritual). Nas varias religioes uma ou outra dessas tres formas prin- cipais e expressa, mas nunca ao ponto de mutuamente se exclui- rem. A reden~ao e sempre vista como urn entendimento ou conhe- cimento, como vontade e a~ao e como cora~ao e emo~oes. A filosofia da suporte a tudo isso. A filosofia tambem se ocupa com a ideia de reden~ao e busca uma cosmovisao que satisfa~a tan- to a mente quanto os sentimentos. A filosofia nasce fora da religiao, periodicamente insere elementos da religiao em seu sistema e para muitos serve como urn tipo de re- ligiao. A filosofia deduz urn prin- cipio para a conduta da vida a partir de sua propria cosmovisao, tenta abrir urn caminho para are- den~ao atraves do conhecimento, dos atos morais e da vontade, e da experiencia do cora~ao. Sem a re- vela~ao especial a religiao dos ho- mens e a filosofia dos pensadores nao possuem urn correto conhe- cimento de Deus e, portanto, nao possuem urn correto conhecimen- to do homem e do mundo, e do pecado e da reden~ao. Ambos procuram por Deus como se, tateando, pudessem encontra-lo, mas eles nao podem. * * * * * 292 Portanto a revela~ao especi- al e acrescentada a revela~ao ge- ral. Nela Deus, de Sua propria parte, expoe Seus segredos e se faz conhecido ao homem, e prepara para Si mesmo uma morada no homem. Entre as religioes auto concebidas e a religiao baseada na revela~ao especial dada a Israel e em Cristo ha, consequentemente, uma diferen~a de principio. Na primeira e sempre 0 homem que tenta encontrar Deus, mas que possui uma ideia falsa dEle e que, portanto, nunca consegue ter urn discernimento verdadeiro sobre a natureza do pecado e a forma de reden~ao; mas na segunda, na re- ligiao da Sagrada Escritura, e sem- pre Deus quem procura o homem, que se revela ao homem culpado e impuro, e que se faz conhecido como verdadeiramente e em Sua Gra~a e compmxao. Das profundezas do cora~ao humano nasce uma anseio: que Deus abra OS ceus e des~a. No cristianismo OS ceus se abrem e Deus desce a terra. Em outras religioes e o ho- mem que nos vemos agir, tentan- do, pelo aumento do conhecimen- to, cumprir todos os tipos de re- gras, ou pela abstinencia do mun- do e o sigilo de sua propria vida interior, obter a reden~ao de todo o male a comunhao com Deus. Na religiao crista a obra do homem e nada, e e o proprio Deus que age, que intervem na historia, abre o caminho da reden~ao em Cristo e
  • 292.
    0 PACTO DAGRA<;:A pela Sua Gra<;a traz o homem a reden<;ao e faz com que ele viva nela. A revela<;ao especial e a res- posta que Deus da em palavras e atos as questoes que, por Sua pro- pria dire<;ao, nascem no cora<;ao humano. Imediatamente depois da queda Deus veio ao homem. 0 homem tinha pecado e estava co- berto de vergonha e temor. Ele foge de seu Criador e se esconde por entre a densa folhagem do jar- dim. Mas Deus nao se esquece dele. Ele nao o abandona, mas tern misericordia dele, vai ao seu en- contra, fala com ele e chama-ode volta para ter comunhao com Ele (Gn 3.7-15). Eo que aconteceu imediata- mente depois da queda continua acontecendo na historia de gera- <;ao em gera<;ao. Nos vemos ames- ma coisa acontecendo sempre. Em toda a obra de reden<;ao e Deus e somente Deus que se manifesta como aquele que procura e cha- ma, como aquele que fala e age. E Ele quem coloca Sete no lugar de Abel (Gn 4.25), que concede Sua Gra<;a a Noe (Gn 6.8) e que o pre- serva do julgamento do dihivio (Gn 6.12 ss.), que chama Abraao e que estabelece uma Alian<;a com ele (Gn 12.1; 17.1), que, somente pela Sua Gra<;a, escolhe o povo de Israel como Seu herdeiro (Dt 4.20; 7.6-8), que na plenitude dos tem- pos envia Seu Filho unigenito ao mundo (Gl4.4) e que agora, nessa 293 dispensa<;ao de toda a ra<;a huma- na reline uma Igreja que Ele ele- geu para a vida eterna e que a pre- serva para a heran<;a celestial (Ef 1.10; 1Pe 1.5). Assim como na obra da cria<;ao e na obra da providen- cia, tambem na obra de reden<;ao, e recria<;ao, Deus e o Alta e o Omega, o prindpio eo fim (Is 44.6; Ap 22.13). Ele nao pode mesmo ser outra coisa, pois Ele e Deus. Dele, por Ele e para Ele sao todas as coisas (Rm 11.36). Que Deus e o primeiro na obra de salva<;ao e evidente pelo fato de que a revela<;ao especial procede completamente dEle, mas tambem pelo fato de que toda a obra redentora depende de Seu conselho eterno. Nos afirmamos previamente que toda a cria<;ao e providencia de Deus nasceram desse conselho. Mas na Escritura, nos somos informados em lingua- gem clara e em frases fortes que esse eterno e imutavel conselho tambem e a base de toda a obra de reden<;ao, de recria<;ao. Fala-se em varios pontos da Escritura sabre urn conselho que precedeu todas as coisas (Is 46.10), que faz todas as coisas (Ef 1.11), e cujo conteudo e especialmente a obra de reden<;ao (Lc 7.30; At 20.27). Esse conselho nao e urn conselho somente da mente de Deus, mas tambem de Seu poder e de Sua vontade (Ef 1.5,11), e irrevogavel (Is 14.27; 26.10), imu- tavel (Hb 6.17), e permanecera
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista para sernpre (Sl 33.11; Pv 19.21). Outros nornes tarnbern sao usados para designar esse conselho, elan- <;arn rnais luz sobre o assunto. Alem de conselho, nos lemos sobre urn beneplacito que Deus manifes- tou ao homem em Cristo (Lc 2.14t e que se agrada em aceita-los como Seus filhos (Ef 1.5,9). Nos lemos sobre urn prop6sito que e cumprido pela obra de elei<;ao (Rm 9.11; Ef 1.9), e que se mani- festa em Cristo Jesus (Ef 3.11), e que se realiza ao chamar aqueles que amam a Deus (Rm 8.28). Nos lemos sobre uma elei~tio e urn preconhecimento que nascem da Gra<;a (Rm 11.5) e que tern Cristo como centro (Ef 1.4), pessoas es- pecificas como seu objeto (Rm 8.29), e a salva<;ao dessas pessoas como seu proposito (Ef 1.4). E, fi- nalmente, nos lemos sobre urna ordena<;ao ou preordena<;ao que atraves da proclama<;ao da sabe- doria de Deus (1Co 2.7) culmina na ado<;ao de filhos por Jesus Cris- to para Deus e na vida eterna135 . Quando nos reunimos todos esses dados das Sagradas Escritu- ras torna-se claro que o conselho de Deus tern especialmente tres assuntos, como seu conteudo. 0 primeiro e a elei<;aoJ que cumpre o gracioso proposito de Deus segundo o qual Ele ordenou que aqueles que de antemao co- nheceu ern arnor fossem feitos a 135 At 13.48; Rm 8.29; Ef 1.5. 294 imagem de Cristo (Rrn 8.29). E possivel tambem falar de uma elei<;ao de povos ou na<;oes, pois nos dias do Velho Testamento so- mente Israel dentre todas as na- <;6es foi escolhido para receber a heran<;a do Senhor; e no Novo Testamento urn povo recebe o Evangelho antes dos outros. Mas essa aceita<;ao de na<;oes nao e todo o ensino da Biblia sobre a elei<;ao. Dentro da humanidade, a elei<;ao se estende a na<;oes, e, den- tro das na<;6es, ela se estende a in- dividuos. Urn Esau e rejeitado e umJaco e aceito (Rm 9.13). E aque- les a quem Deus conheceu, tam- bern chamou, e aos que chamou, tambem justificou, e aos que jus- tificou, tambem glorificou (Rm 8.30). Ernbora a elei<;ao tenha indi- viduos como seu objeto, esses in- dividuos nao sao a base da elei- <;ao. Essa base e somente a Gra<;a de Deus. 0 Senhor tern misericor- dia de quem lhe apraz ter miseri- cordia e se compadece de quem lhe apraz ter compaixao. Assim, pois, nao depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a Sua misericordia (Rm 9.15)6). A fe tambem nao e a base da elei<;ao, visto que ela eo resul- tado ou fruto da elei<;ao. A fe e dom de Deus (Ef 2.8). Os crentes sao eleitos em Cristo desde antes da funda<;ao do mundo para que,
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    0 PACTO DAGRA<;:A a seu tempo, cheguem afee pela fe sejam santos e inculpaveis di- ante de Deus (Ef 1.4). Conseqiien- temente todos OS que creem sao ordenados para a vida eterna (At 13.48). A vontade de Deus eo fir- me fundamento de tudo o que existe e acontece, e da mesma for- ma seu beneplacito e a mais pro- funda causa pela qual a distin<;ao no destino eterno do homem pode ser tra<;ada. Em segundo lugar esta con- tida no conselho de reden<;ao a realiza<;ao de toda a salva<;ao que Deus quer conceder aos Seus elei- tos. No plano de reden<;ao nao somente as pessoas que herdarao a salva<;ao eterna sao indicadas, mas o Mediador que preparara essa salva<;ao tambem e indicado. Nesse sentido Cristo pode ser cha- mado de objeto da elei<;ao de Deus. Naturalmente Ele pode ser chamado dessa forma nao no sen- tido de que Ele, como os membros de Sua Igreja, seja escolhido de uma condi<;ao de pecado e mise- ria para urn estado de reden<;ao e salva<;ao. Mas Ele pode ser chama- do dessa forma em outro sentido, no sentido de que Ele foi o Medi- ador da cria<;ao e tambem da re- cria<;ao e realizou Sua obra mediat6ria na elei<;ao atraves de Sua paixao e morte. Epor isso que Ele e chamado de Servo do Se- 136 Mt 26.42; fa 4.34; Fp 2.8; Hb 5.8. 137 Is 53.10; Ja 6.38-40; 10.18; 12.49; 17.4. 138 Sl 2.8; Is 53.10; fa 17.4,24; Fp 2.9. nhor, o eleito de Deus (Is 42 ss.; Mt 12.18). Como Mediador Ele subordinou-se ao Pai e prestou- lhe obediencia136 • Ele tern uma missao e uma obra para realizar que lhe foram dadas pelo Pai137 . E como recompensa pelo cumpri- mento de Sua obra Ele recebeu a gloria que tinha junto ao Pai an- tes da cria<;ao do mundo, a salva- <;ao de Seu povo e o mais elevado poder no ceu e na terra138 • 0 conselho da reden<;ao, portanto, nao vai a lugar algum sem o Filho. N6s lemos que o eter- no prop6sito de Deus foi estabe- lecido em Cristo (Ef 3.11), e que aqueles que chegam a fe foram escolhidos em Cristo antes da fun- da<;ao do mundo (Ef 1.4). Isso nao significa que Cristo seja a causa ou o fundamento da elei<;ao, pois Ele mesmo e o objeto da escolha do Pai no sentido ja indicado acima, e nao pode servir como o funda- mento e causa da salva<;ao mais do que serve como fundamento da cria<;ao e da providencia. Assim como a cria<;ao e a providencia, ambas consideradas como conse- lho e como realidade, procedem do Pai atraves do Filho, e dessa forma passam a existir, da mesma forma 0 plano de salva<;ao e feito pelo Pai e com o Filho. Em Seu conselho com o Pai o Filho se dis- poe a ser o Mediador da reden<;ao 295
  • 295.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii e o Cabe<;:a de Sua Igreja. E disso n6s podernos inferir que a elei<;:ao, ernbora tenha individuos como seu objeto, exclui toda a possibili- dade de escolha arbitraria ou aci- dental, pois o prop6sito da elei<;:ao nao e escolher algumas pessoas ao acaso, trazendo-as asalva<;:ao. Ern Sua elei<;:ao Deus visa nada rnenos do que Cristo como Mediador e Cabe<;:a de Sua Igreja, e rnolda a Igreja como Corpo de Cristo139 . Ern urn sentido organico a hurna- nidade e salva na Igreja, e no novo ceu e na nova terra o rnundo sera restaurado. Portanto, ern terceiro lugar, a obra e aplica<;:ao da salva<;:ao con- surnada por Cristo tarnbern esta incluida no conselho de Deus. 0 plano de reden<;:ao e estabelecido pelo Pai ern Cristo, mas tarnbern e estabelecido na cornunhao doEs- pfrito. Certarnente, assirn como a cria<;:ao e a providencia vierarn a existencia tendo sua origem no Pai e atraves do Filho e do Espfrito, assirn tarnbern a reden<;:ao ou re- cria<;:ao acontece sornente atraves da atividade aplicativa do Espfri- to Santo. Eo Espfrito, prornetido e enviado por Cristo (Jo 16.7; At 2.4,17), que da testernunho de Cristo e tudo recebe de Cristo (Jo 15.26; 16.13,14), e que agora apli- ca a regenera<;:ao aIgreja (Jo 3.3), que concede a fe (1 Co 12.3), a ado- <;:ao (Rrn 8.15), a renova<;:ao (Tt 3.5), 119 1Co 12.12,27; EJ1.22,23; 4.16. 296 e sela os crentes para o dia da re- den<;:ao (Ef 1.13; 4.30). E tudo isso o Espirito pode fazer e trazer a existencia porque, junto corn o Pai e corn 0 FilhoI Ele e 0 unico e ver- dadeiro Deus que vive e reina eternarnente. 0 arnor do Pai, a Gra<;:a do Filho e a cornunhao do Espfrito Santo sao o fundarnento do povo do Senhor no eterno e irnutavel conselho de Deus. * * * * * Esse conselho de Deus, consequenternente, e tarnbern rnaravilhosarnente rico ern con- forto. Ele geralrnente e apresen- tado de forma totalrnente dife- rente - isto e, como causa de desencorajarnento e desespero. E dito contra esse conselho que se tudo esta deterrninado desde a eternidade, 0 hornern e urn rnero brinquedo nas rnaos dos caprichos divinos. Que vantagern leva urna pessoa que se esfor<;:a para ter urna vida virtuosa? Se ela for re- provada, rejeitada, ela continuara perdida, de qualquer forma. E - o argurnento continua - qual e 0 prejufzo de urna pessoa que vive no pecado e cercada da rnais gros- seira irnoralidade? Se essa pessoa for escolhida ela sera salva, de qualquer rnaneira. Tal conselho de Deus nao deixa qualquer espa<;:o para a liberdade e para a respon-
  • 296.
    0 PACTO DAGRA<;:A sabilidade do homem. Ele pode viver de acordo com os ditames de seu cora<;ao e pode pecar para que a Gra<;a aumente cada vez mars. E verdade que a confissao do conselho de Deus tern sofrido muitos abusos, mas nao tern sido por Agostinho e Calvino que es- ses abusos estao sendo pratica- dos. Isso acontecia ja no tempo de Jesus e dos ap6stolos. Epor isso que a Escritura diz que os escribas e fariseus que rejeitaram o designio de Deus tornaram apa- rente essa rejei<;ao ao rejeitarem o batismo de Joao, e aquilo que seria o instrumento de sua salva- <;ao tornou-se o instrumento de sua condena<;ao (Lc 7.30). 0 ap6s- tolo Paulo chama de calunia (blasfemia) o ato de praticar o mal para receber o bern (Rm 3.8), e poe a mao na boca daqueles que pensam ter encontrado falta em Deus (Rm 9.19,20). 0 conselho de Deus nao somente determina os resultados, mas tambem governa os meios. Ele inclui nao apenas as conseqiiencias, mas tambem as causas. Portanto, o conselho de Deus nao aniquila a natureza ra- cional e moral do homem. 0 abuso que e feito dessa confissao e mais serio porque 0 conselho de Deus e revelado e proclamado na Sagrada Escritura, nao para que n6s neguemos a sua realidade enos endure<;amos con- tra ela, mas para que, sentindo 297 nossa culpa e nosso desespero, dependamos desse conselho de Deus com uma fe infantit e em toda angustia e necessidade colo- quemos toda a confian<;a de nos- so cora<;ao somente nele. Sea sal- va<;ao em uma maior ou menor medida dependesse do homem, de sua fe e de suas boas obras, a salva<;ao estaria eternamente per- dida para ele. Mas o conselho de Deus nos ensina que a obra de sal- va<;ao desde o come<;o ate o fim e uma obra de Deus, ou seja, que essa e uma obra exclusivamente divina. A reden<;ao, assim como a cria<;ao e a providencia, e uma obra exclusiva de Deus. Ninguem foi conselheiro de Deus e nem lhe deu algo para que depois lhe fos- se restituido (Rm 11.34,35). 0 Pai, o Filho e o Espirito Santo juntos planejaram e determinaram toda a obra de reden<;ao, e Eles sao os unicos que podem leva-la a efei- to. 0 homem nada faz em sua re- den<;ao. Tudo e de Deus, por Deus e para Deus. Portanto, nossa alma pode descansar tranquilamente no conselho de Deus. E da vonta- de de Deus, a vontade eterna, in- dependente e imutavel de Deus, que, representada na Igreja, a hu- manidade seja restaurada e salva. N6s ficamos ainda mais con- vencidos do conforto proporcio- nado pela elei<;ao quando nos lembramos que o conselho de Deus nao e uma obra apenas de sua mente, mas tambem de Sua
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vontade, e nao pertence somente ao reino da eternidade, mas a urn poder que se manifesta ja no pre- sente. Assim acontece com as ex- ceH~ncias e perfeic;:5es de Deus: elas nao sao atributos passivos, mas poderes infinitos, plenos de vida e de ac;:ao. Cada urn de Seus atributos e Seu Ser. Quando Deus e chamado de Justo e Santo, isso significa que Ele se revela como tal, e que Ele imprime essa justic;:a no mundo e na consciencia dos homens e faz com que ela perma- nec;:a ali. Quando Ele e chamado de amor, isso nao quer dizer sim- plesmente que Ele olha para nos em Cristo com aprovac;:ao, mas tambem que Ele manifesta esse amor e purifica nosso corac;:ao atraves do Espfrito Santo. Quan- do Ele se apresenta como nosso Pai Ele quer dizer que nos rege- nera, que nos adota como Filhos e pelo Seu Espfrito testifica com o nosso espfrito que somos Seus fi- lhos. Quando Ele se faz conheci- do como o Deus Gracioso e Mise- ricordioso, Ele nao apenas diz, mas tambem demonstra que de fato perdoa nossos pecados enos conforta em todas as nossas afli- c;:oes. Da mesma forma, quando a Escritura nos fala sobre o conse- lho de Deus, ela nos ensina que o proprio Deus executa e cumpre cabalmente esse conselho. 0 con- selho de redenc;:ao e uma obra de Deus na eternidade, e como tal ele e tambem 0 princfpio, a forc;:a 298 motora e a garantia de que a obra redentora sera realizada no tem- po. Portanto, independente do que pode acontecer com o mun- do, com a rac;:a humana ou mes- mo conosco, o infinitamente sabio conselho de Deus permanecera para sempre. Nada pode mudar o conselho de Deus: ele permane- cera de gerac;:ao a gerac;:ao. Nao ha motivo para desencorajamento ou desespero. Tudo certamente acon- tecera como Deus, em Sua sabe- doria e amor, determinou que acontec;:a. Sua vontade poderosa e graciosa e a garantia da redenc;:ao da rac;:a humana e do resgate do mundo. Portanto, mesmo nas mai- ores aflic;:oes, nosso corac;:ao encon- tra paz no Senhor. * * * * * Logo que o homem caiu o conselho de redenc;:ao comec;:ou a atuar. Por Sua propria e livre iniciativa Deus desceu, procurou pelo homem e chamou-o de vol- ta para Si. Everdade que nesse episodio houve urn interrogato- rio, uma declara<;ao de culpa e urn anuncio da penalidade, mas a punic;:ao pronunciada sobre a serpente, sobre a mulher e sobre o homem e ao mesmo tempo uma benc;:ao e urn meio de preserva- <;ao. Alem disso, na promessa- mae (Gn 3.14,15) o fato nao e so- mente que a serpente sera esmagada, e o poder do mal que
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    0 PACTO DAGRA<;:A fez uso dela e condenado, mas tambem que desde entao haveria inimizade entre a semente da mu- lher e a semente da serpente, e que e o proprio Deus quem colo- ca essa inimizade entre as duas sementes. 0 apice dessa inimiza- de acontecera quando a semente da serpente ferir o calcanhar da semente da mulher e a semente da mulher esmagar a cabea da semente da serpente. Nessa promessa-mae esta contido nada menos que o anun- cio e a instituiao da Aliana da Graa. De fato a palavra Aliana (ou Pacto) nao e mencionada nes- se texto. Essa palavra so foi usada bern mais tarde, em conexao com Noe, Abraao e outros, quando o homem, em suas varias relaoes com a natureza, com os animais e pela experiencia pratica da vida veio a conhecer a necessidade e a utilidade de contratos e alianas. Contudo, em principia e em es- sencia estao presentes na promes- sa-mae todos os elementos cons- tituintes da Aliana da Graa. Por sua transgressao- e esse eo senti- do- o homem foi afastado da obe- diencia a Deus, perdeu a comu- nhao com Ele, tornou-se urn alia- do de Satanas e firmou uma Ali- ana com ele. E agora Deus, em Sua Graa, vern quebrar essa rela- ao pactual entre o homem e Sa- tanas e colocar inimizade em vez de amizade entre urn e outro. Por urn ato todo poderoso de Sua von- tade graciosa Deus traz a semen- te da mulher, que a mesma tinha entregue a satanas, de volta para o Seu lado. A isso Ele acrescenta que a semente da mulher, apesar de sofrer muitos tipos de adversi- dade e opressao, obteria vitoria total sobre a semente da serpente. Nao ha qualquer tipo de condiao ou incerteza quanto a isso. 0 pro- prio Deus vern ao homem, Ele mesmo coloca a inimizade, Ele mesmo inicia a guerra, e Ele mes- mo promete a vitoria. 0 homem nao tern qualquer participaao em tudo isso, exceto ouvir e aceitar tudo em obediente fe. Promessa e fe formam o conteudo da Aliana da Graa que agorae firmada com o homem, que abre caminho da criatura caida ate a casa do Pai, que da acesso asalvaao eterna. Ha grande diferena entre a forma pela qual o homem antes da queda desfrutava de sua vida eter- na e a unica forma pela qual, de- pois da queda, ele pode obter a vida eterna. Antes da queda a re- gra era: "Obedea e sera salvo". Atraves de uma perfeita obedien- cia ao mandamento de Deus o homem receberia a vida eterna. 0 homem tinha urn born caminho para trilhar e, se permanecesse nesse caminho ate o fim de sua jornada receberia a salvaao celestial. E, de Sua parte, Deus nao descumpriu a regra. Se houvesse urn homem que pudesse cumprir perfeitamente a lei, ele receberia 299
  • 299.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista a vida eterna como recompensa140 • 0 homem, contudo, fez com que a salva<;ao se tornasse impos- sivel para ele. Ele nao pode cum- prir a lei porque quebrou sua co- munhao com Deus e nao mais ama, porem, odeia a lei do Senhor (Rm 8.7). E agora a Alian<;a da Gra<;a abre para ele urn caminho diferente e mais seguro. De acor- do com esse novo caminho o ho- mem nao precisa mais fazer algo para entrar na vida. Nesse novo caminho o homem imediatamen- te no come<;o recebe a vida eter- na, aceita-a pela fe, e com essa fe come<;a a realizar boas obras. A ordem e invertida. Antes da que- cia a regra era: "Atraves das obras, para a vida eterna". Agora, depois da queda, na Alian<;a da Gra<;a, a vida eterna vern primeiro, e as boas obras a acompanham, como fruto da fe. Antes o homem tinha que escalar a montanha ate Deus para ter comunhao com Ele; ago- ra, depois da queda, Deus desce ao homem e faz morada em seu cora<;ao. Antes da queda os dias de trabalho precediam o Sabbath; agora o Sabbath da inicio asema- na. Esse caminho para o santu- ario celestial para 0 homem caido, urn novo e vivo caminho, urn ca- minho absolutamente certo (Hb 10.20), e devido somente aGra<;a de Deus e ao Seu conselho de re- den<;ao. 0 conselho de reden<;ao, estabelecido na eternidade e a Ali- an<;a da Gra<;a, com a qual o ho- mem foi aben<;oado imediatamen- te depois da queda, estao intima- mente relacionados entre si. Estao intimamente tao relacionados que urn fica de pe ou cai com o outro. Everdade que ha muitos que pen- sam de forma diferente. Eles se fir- roam na Alian<;a da Gra<;a e dessa posi<;ao negam e atacam o conse- lho de reden<;ao. Em nome da pu- reza do Evangelho eles rejeitam a confissao da elei<;ao. Agindo as- sim eles destroem a Alian<;a da Gra<;a e convertem o Evangelho em lei. Alem disso, quando a Alian- <;:a da Gra<;:a e separada da elei<;:ao, ela deixa de ser uma Alian<;a da Gra<;a e se transforma novamente na Alian<;a das Obras. A elei<;ao significa que Deus concede ao ho- mem, graciosa e livremente, a sal- va<;ao a que o homem nao possui direito e que nunca podera alcan- <;ar por sua propria for<;a. Mas se essa salva<;ao nao for inteiramen- te uma dadiva da Gra<;a e de al- guma forma depender da condu- ta do homem, entao a Alian<;a da Gra<;a e convertida em uma alian- <;a das Obras, e o homem deve, entao, satisfazer alguma condi<;ao para herdar a vida eterna. Ora, a Gra<;a e as obras sao dois p6los opostos urn ao outro e sao mutu- 140 Lv 18.15; Ez 20.11,13; Mt 19.16; Rm 10.5; Gl 3.12. 300
  • 300.
    0 PACTO DAGRA<;:A amente excludentes. Sea salva<;ao e pela Gra<;a, ela nao pode ser pe- las obras, ou entao a Gra<;a nao e mais Gra<;a. E se a salva<;ao e pela obras, ela nao pode ser pela Gra- <;a, ou entao as obras nao sao obras (Rm 11.6). A religiao crista tern essa caracteristica exclusiva, pois ela e a religiao da reden<;ao e da Gra<;a. Mas ela pode ser reconhe- cida e mantida como tal somente se a Gra<;a for uma livre dadiva nascida exclusivamente no conse- lho de Deus. A elei<;ao e a base e a garantia, 0 cora<;ao e 0 micleo da Alian<;a da Gra<;a. A elei<;ao e tao indispensavelmente importante para urn intimo relacionamento com Deus que enfraquecer ou ne- gar esse ensino nao apenas rouba o verdadeiro discernimento do alcance e da aplica<;ao da salva<;ao, mas tambem rouba ao crente o seu unico e verdadeiro conforto na pratica de sua vida espiritual. Uma luz mais intensa e lan<;ada sobre esse relacionamen- to quando a Alian<;a da Gra<;a e vista nao apenas no contexto da elei<;ao, mas de todo o conselho de reden<;ao. A elei<;ao nao e todo o conselho de reden<;ao, ela e ape- nas uma parte dele, a parte prin- cipal. Tambem esta incluida nes- se conselho a forma pela qual a elei<;ao e realizada - isto e, todo 0 desenvolvimento e aplica<;ao da reden<;ao. Nos sabemos que a elei- <;ao foi planejada em Cristo, e que o conselho de Deus nao e uma 501 obra realizada apenas pelo Pai, mas tambern pelo Filho e pelo Es- pirito. 0 conselho de reden<;ao e uma obra divina realizada pela Trindade. Em outras palavras, o conselho de reden<;ao, em si mes- mo, e urna Alian<;a -urna Alian<;a na qual cada uma das tres Pesso- as da Trindade recebe Sua propria obra e Sua propria missao. A Ali- an<;a da Gra<;a que e realizada no tempo e perpetuada de gera<;ao a gera<;ao nada mais e que a execu- <;ao da alian<;a estabelecida desde a eternidade no Ser Eterno. Como no conselho de Deus, tambem na historia cada uma das Pessoas da Trindade aparece. 0 Pai e a fonte, o Filho eo Realizador eo Espirito Santo e o Aplicador de nossa sal- va<;ao. Portanto, todos imediata- mente e na mesma medida fazem injusti<;a aobra do Pai, do Filho e do Espirito quando removem o fundamento da Alian<;a da Gra<;a da eternidade para o tempo, fa- zenda com que a historia perca sua firmeza na vontade soberana e graciosa de Deus. * * * * * Ao mesmo tempo, apesar do tempo nao poder existir sem a eternidade, e apesar da historia conservar seu intimo relaciona- mento com o pensamento de Deus, os dois nao sao a mesma coisa. Ha essa grande diferen<;a entre eles, a saber, que na historia
  • 301.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista do tempo a ideia eterna de Deus e revelada e realizada. 0 conselho de redenc;:ao e a Alianc;:a da Grac;:a nao devem e nao podem ser sepa- rados, contudo eles diferem urn do outro nesse ponto: a Alian<;a da Grac;:a e a realizac;:ao do conselho de redenc;:ao. 0 plano de redenc;:ao nao e suficiente em si mesmo. Ele precisa ser executado. Como uma decisao, ele carrega toda a sua for- c;:a na sua realizac;:ao. Ele perderia seu carater de conselho e de deci- sao se nao fosse realizado e mani- festo. Imediatamente depois da queda a Alianc;:a da Grac;:a tornou- se conhecida ao homem e foi apli- cada a ele, e dessa forma ela con- tinua na hist6ria de gerac;:ao a ge- ra<;ao. Aquilo que foi decidido, foi tambem aplicado e desenvolvido no curso dos seculos. Quando n6s prestamos a devida atenc;:ao a esse desenvolvi- mento da Alianc;:a da Grac;:a n6s detectamos tres caracterfsticas marcantes dessa Alianc;:a. Em primeiro lugar, a Alian- c;:a da Grac;:a e, em todos OS tem- pos e em todos os lugares, essen- cialmente {mica, embora se mani- feste em diversas formas e em di- ferentes dispensac;:oes. Essencial e materialmente ela permanece sen- do uma, seja antes, sob ou depois da lei. Ela e sempre uma Alian<;a da Grac;:a. Ela recebe esse nome porque se origina na Grac;:a de Deus, tern a Grac;:a como seu con- teudo, e tern como seu prop6sito 302 a glorifica<;ao da Gra<;a de Deus. Assim como era ela no mo- mento de sua primeira proclama- c;:ao, que estabeleceu a inimizade, deu inicio aluta e prometeu a vi- t6ria, Deus fez com que ela fosse mantida desde a primeira ate a ultima das dispensac;:oes da Alian- c;:a da Grac;:a, seja na dispensac;:ao de Noe, de Abraao, de Israel ou da Igreja do Novo Testamento. A promessa, a dadiva e a Grac;:a con- tinuam sendo o conteudo da Ali- anc;:a da Grac;:a. No curso do tem- po s6 o que foi mudado foi a in- tensifica<;ao das suas manifesta- c;:oes. Contudo, em prindpio, a Alianc;:a ja estava contida na pro- messa-mae. A unica, promessa grandee abrangente da Alianc;:a e: "Eu serei vosso Deus, e v6s sereis meu povo". Essa promessa e abrangente e inclui tudo: toda a obra de execw;ao e aplicac;:ao da salvac;:ao, Cristo e Seus beneficios, o Espfrito Santo e todos os Seus dons. Uma linha de ouro sai de Gn 3.15 e vai ate a benc;:ao apost6lica de 2Corfntios 13.13. No amor do Pai, na Grac;:a do Filho e na comu- nhao do Espfrito Santo esta conti- da toda a salvac;:ao do pecador. Cumpre-nos observar que essa promessa nao e condicional, mas e positiva e certa. Deus nao diz que Ele sera o nosso Deus se n6s fizermos alguma coisa. Mas Ele diz que para inimizade, que sera o nosso Deus e que em Cristo Ele concedera todas as coisas. A
  • 302.
    0 PACTO DAGRA~A Alianc;a da Grac;a so pode perma- necer a mesma durante o curso dos seculos porque ela depende inteiramente de Deus e porque Deus e imutavel e fiel. A Alianc;a das Obras que foi firmada com o homem antes da queda era violavel e foi violada, pois ela de- pendia da obediencia de urn ho- mem mutavel. Mas a Alianc;a da Grac;a esta fixada e estabelecida somente na compaixao de Deus. As pessoas podem tornar-se incre- dulas, mas Deus nao esquece Sua promessa. Ele nao pode quebrar essa Alianc;a; Ele prometeu por si mesmo manter essa Alianc;a atra- ves de urn livre e gracioso jura- menta: Seu nome, Sua honra e Sua reputac;ao dependem disso. Eem considerac;ao a Si mesmo que Ele perdoa as transgressoes de Seu povo e nao se lembra mais de seus pecados141 . Portanto, as monta- nhas podem se retirar, os outeiros podem se remover, mas a miseri- cordia de Deus nao se apartara de nos (Is 54.10). Apesar de ser imutavel em sua essencia, a Alianc;a da Grac;a varia em suas formas nas varias dispensac;oes. No periodo anteri- or ao grande diluvio uma separa- c;ao tinha acontecido entre os des- cendentes de Sete e os descenden- tes de Cairn, mas a promessa nao ficou confinada a uma pessoa ou a uma rac;a. Ela foi difundida por 141 Is 43.25; 48.9; Jr 14.7-21. 303 todos os homens. Uma separac;ao formal ainda nao tinha aconteci- do; a revelac;ao geral e a revelac;ao especial ainda andavam de maos dadas. Mas quando sob essas cir- cunstancias a promessa correu o risco de se perder, o diluvio tor- nou-se necessaria e Noe levou a promessa consigo, na area. A pro- messa, por urn longo tempo, con- tinuou a ser geral. Mas quando, depois do diluvio, urn novo peri- go surgiu colocando em risco o progresso da Alianc;a da Grac;a, Deus decidiu nao mais extirpar o homem, mas fez com que os po- vos seguissem seu proprio cami- nho e separou Abraao para ser o portador da promessa. A Alianc;a da Grac;a, portanto, encontrou sua realizac;ao na familia dos patriar- cas. Essas familias foram separa- das das nac;oes pela circuncisao como urn selo de justic;a, e pela fe como urn sinal da circuncisao do corac;ao. No Sinai a Alianc;a da Grac;a foi estabelecida com Israel como a descendencia de Abraao. Mas, como Israel nessa epoca ja era uma nac;ao e devia viver diante de Deus como urna nac;ao, a Alianc;a da Grac;a assume urn carater nacio- nal. Ela passa a fazer uso da lei, nao somente da lei morat mas tambem da lei cerimonial e da lei civica, de forma que o povo, pela lei, fosse conduzido a Cristo. A
  • 303.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista promessa era mais antiga que a lei, e a lei nao veio para substituir a promessa, mas para desenvolve- la e prepani-la para o seu cumpri- mento na plenitude dos tempos. Em Cristo a promessa alcan<;ou seu cumprimento, a sombra alcan- <;ou seu objeto, a letra alcan<;ou o espirito, e a servidao alcan<;ou a liberdade. Dessa forma a promes- sa se libertou de todas as frontei- ras nacionais e externas, e, como no come<;o, espalhou-se por toda a ra<;a humana. Apesar dessa variedade de formas, a Alian<;a da Gra<;a sem- pre teve o mesmo conteudo. Ela e sempre o mesmo Evangelho (Rm 1.2; Gl 3.8), o mesmo Cristo (Jo 14.6; At 4.12), a mesma fe (At 15.11; Rm 4.11), e sempre confere os mesmos beneficios de perdao e vida eterna (At 10.43; Rm 4.3). A luz pela qual os crentes iluminam seu caminho e diferente, mas seu caminho e sempre o mesmo. A segunda peculiaridade da Alian<;a da Gra<;a e que em todas as suas dispensa<;5es ela possui urn carater organico. A elei<;ao fixa aten<;ao sobre individuos que foram de antemao conhecidos por Deus e no tempo foram chamados, justificados e glorificados, mas nao indica, por si mesma, a rela<;ao entre essas pessoas. Contudo a Escritura nos diz que a elei<;ao acontece em Cris- to (Ef 1.4; 3.11), e, portanto, foi exe- cutada de tal forma que Cristo 304 pudesse ser o Cabe<;a de Sua Igre- ja e a Igreja pudesse ser o Corpo de Cristo. Dessa forma os eleitos nao sao indivfduos isolados, eles sao urn em Cristo. Assim como nos dias do Velho Testamento o povo de Israel era o povo santo de Deus, assim tambem a Igreja do Novo Testamento e a gera<;ao es- colhida de Deus, urn sacerd6cio real, uma na<;ao santa, urn povo de propriedade exclusiva de Deus (1Pe 2.9). Cristo eo Noivo e a Igre- ja e a noiva; Ele e a videira, n6s somos os ramos; Ele e a pedra an- gular e n6s somos pedras vivas do edificio de Deus; Ele e o Rei e n6s somos OS suditos. Essa e a uniao que existe entre Cristo e Sua Igre- ja. Paulo diz: "Assim como o cor- poe urn e tern muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem urn s6 corpo, assim tambem com respeito a Cristo" (lCo 12.12). Ha uma comunhao, portanto, esforcem-se diligente- mente por preservar a unidade do Espirito no vinculo da paz; ha so- mente um corpo e um Espirito, como tambem fostes chamados em uma s6 esperan<;a da vossa voca<;ao; ha urn s6 Senhor, uma s6 fe, urn s6 batismo; urn s6 Deus e Pai de todos, o qual e sobre todos, age por meio de todos e esta em todos (Ef 4.3-6). Uma elei<;ao desse tipo nao pode ser urn ato acidental ou ar- bitrario. Se ela e governada pelo prop6sito de constituir Cristo
  • 304.
    0 PACTO DAGRA<;:A como Cabe<;a e a Igreja como cor- po, entao ela tern urn carater or- ganico e inclui a ideia de urna Ali- an<;a. Mas no testernunho de que a elei<;ao foi realizada ern Cristo, algo rnais e indicado. A unidade organica da ra<;a hurnana sob urna cabe<;a se torna aparente pela pri- rneira vez nao ern Cristo, mas ern Adao. Paulo expressarnente apon- ta Adao como exernplo daquele que haveria de vir (Rrn 5.14) e cha- ma Cristo de ultimo Adao (1Co 15.45). A Alian<;a da Gra<;a parece possuir as ideias e tra<;os basicos da Alian<;a das Obras; a Alian<;a da Gra<;a nao e a aniquila<;ao da Alian<;a das Obras, mas o seu curn- prirnento, assirn como a fe nao anula a lei, pelo contrario, confir- rna-a (Rrn 3.21). Por urn lado, como foi indicado acirna, a Alian- <;a das Obras e a alian<;a da Gra<;a possuern seu terreno rnuito bern dernarcado e devern ser diferen- ciadas urna da outra. Por outro lado elas estao intirnarnente rela- cionadas. A grande diferen<;a con- siste nisso: que Adao perdeu seu lugar como cabe<;a da ra<;a hurna- na e foi suplantado por Cristo. Cristo, contudo, curnpriu nao so- mente aquilo que o prirneiro ho- mem fez de errado, mas tambern aquilo que ele deveria ter feito e nao fez. Cristo satisfez por n6s as exigencias feitas na lei moral, e Ele agora reline ern urna unidade toda a Sua Igreja na forma de urna hu- 305 rnanidade renovada sujeita a Si rnesrno como Cabe<;a. N a dispensa<;ao da plenitude dos tempos Deus reline tudo nova- mente ern Cristo - todas as coisas no ceu e sobre a terra (Ef 1.10). Tal reuniao s6 pode aconte- cer de urna forma organica. Se a Alian<;a da Gra<;a e apresentada de forma organica ern Cristo, entao ela deve ser organicarnente estabelecida e executada. N6s ob- servarnos que na hist6ria a Alian- <;a nunca e feita de forma abstra- ta, mas sernpre de forma objetiva, corn urn hornern e corn sua fami- lia ou descendencia, corn Adao, Noe, Abraao, Israel, e corn a Igre- ja e sua sernente. A prornessa nun- ca se refere a urna s6 pessoa, mas a urna pessoa e a toda a sua fami- lia. Deus nao realiza a alian<;a da Gra<;a "pescando" algumas pesso- as dentre toda a hurnanidade e ao acaso, reunindo essas pessoas ern algurn tipo de quebra-cabe<;a. Ele leva sua Alian<;a para a hurnani- dade, faz corn que ela se torne urna parte do rnundo e cuida para que, no rnundo, ela seja preserva- da do mal. Como Redentor e Recriador, Deus segue a rnesrna linha seguida como Criador, Sustentador e Regente de todas as coisas. A Gra<;a e rnais elevada que a natureza, e nunca se junta ana- tureza nern a destr6i, mas restau- ra-a. A Gra<;a nao e urn legado transferido de pai para filho, mas corre pelo rnesrno leito que tern
  • 305.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sido cavado nos relacionarnentos naturais da ra<_;a hurnana. A Ali- an<_;a da Gra<_;a nao carninha ao acaso, mas se perpetua, hist6rica e organicarnente, ern farnilias, ge- ra<_;6es e na<_;6es. Urna terceira e ultima carac- teristica da Alian<_;a da Gra<_;a ca- rninha lado a lado corn a segun- da, isto e, realiza-se de tal forma que honre cornpletarnente a natu- reza moral e racional do hornern. Ela esta baseada no conselho de Deus e nada pode ser subtraido desse fato. Por tras da Alian<_;a da Gra<_;a esta a soberana e onipoten- te vontade de Deus, que e pene- trada pela energia divina e, par- tanto, garante o triunfo do reino de Deus sobre todo o poder do pecado. Mas essa vontade nao e urna necessidade, urn destino, que se irnp6e sobre o hornern, mas a von- tade do Criador do ceu e da terra, que nao pode repudiar Sua pro- pria obra de cria<_;ao e de provi- dencia e que nao pode arnea<_;ar o ser hurnano que Ele rnesrno criou. Alern disso, essa vontade e a von- tade rnisericordiosa do Pai, que nunca for<_;a as coisas de forma brutal, mas que sernpre vence nos- sa resistencia pelo poder espiritu- al do arnor. A vontade de Deus nao e urna for<_;a cega, irracional: e urna vontade sabia, graciosa, arno- rosa, e ao rnesrno tempo livre e onipotente. Portanto, Deus traba- lha ern conflito corn nosso enten- 306 dirnento obscurecido e nossa von- tade pecarninosa, de modo que Paulo pode dizer sobre o Evange- lho que ele nao e segundo 0 ho- rnern, nao corresponde aos tolos discernirnentos e ao desejo erran- te do hornern caido (Gll.ll). Mas sirn da forma que a vontade de Deus deve agir, precisamente par- que Ele quer nos livrar de todo erro e pecado e restaurar nossa na- tureza moral e racional. Isso acontece pelo fato de que a Alian<_;a da Gra<_;a, que real- mente nao faz exigencias e nao repousa sobre certas condi<_;6es, contudo, vern ate n6s na forma de urn rnandarnento, adrnoestando- nos afee ao arrependirnento (Me 1.15). Considerada ern si rnesrna, a Alian<_;a da Gra<_;a e pura Gra<_;a, e, portanto, exclui todas as obras. Ela da o que exige e preenche o que prescreve. 0 Evangelho e boas novas, nao exige, mas pro- mete, nao culpa, mas da. Mas para que, como prornessa e dadiva ele possa ser realizado ern n6s, ele assume o carater de adrnoesta<_;ao moral de acordo corn nossa natu- reza. Ele nao quer nos for<_;ar, mas quer que n6s, livrernente, aceite- rnos por fe, o que Deus quer nos dar. A vontade de Deus se realiza atraves de nossa razao e de nossa vontade. Epor isso que se diz que urna pessoa, recebida por Deus pela Gra<_;a, ere e se converte do pecado para Deus. Visto como a Alian<_;a da
  • 306.
    0 PACTO DAGRA<;:A Grac;a entra na rac;a humana de forma hist6rica e organica, ela nao pode se apresentar aqui, na terra, de forma que corresponda plena- mente asua essencia. Ha muitas pessoas que estao entre os verda- deiros crentes e se op6em diame- tralmente a uma vida harmonia- sa com a exigencia da Alianc;a: II Anda na minha presenc;a e se perfeito; Sede santos como eu sou santo". Tambem ha pessoas que ingressam na Alianc;a da Grac;a, como se manifesta ela diante dos nossos olhos e que, contudo, com relac;ao asua incredulidade e co- rac;ao duro, sao totalmente des- providos dos beneficios da Alian- c;a. Nos dias do Velho Testamen- to, nem todos os que eram de Is- rael eram, de fato, israelitas (Rm 9.6), pois nao sao os filhos da car- ne, mas os filhos da promessa que sao considerados como descen- dentes de Abraao (Rm 9.8; 2.29). E na igreja do Novo Testamento ha joio entre o trigo, videiras bra- vas na vinha e utensilios de barro e de ouro142 . Ha pessoas que apre- sentam forma de piedade, entre- tanto, negam a Deus o poder (2Tm 3.5). Na base desse conflito entre a essencia e a aparencia alguns tern tentado fazer uma distinc;ao e separac;ao entre uma Alianc;a in- terna, que foi feita exclusivamen- te com os verdadeiros crentes, e 142 Mt 3.12; 13.29; Jo 15.2; 2Tm 2.20. 307 uma Alianc;a externa, que compre- ende aqueles que fazem uma con- fissao apenas externa. Mas tal se- parac;ao e diferenc;a nao pode ser considerada aluz do ensino da Es- critura. 0 que Deus ajuntou, o homem nao pode separar. Nin- guem pode desviar-se da exigen- cia de que a essencia deve corresponder aaparencia, nem da exigencia de o que se confessa com a boca deve corresponder ao que se ere com o corac;ao (Rm 10.9) Mas apesar de nao haver duas Alianc;as, pode ser dito que ha dois lados de uma s6 Alianc;a da Gra- c;a. Urn desses lados e visivel a n6s; 0 outro e perfeitamente visivel a Deus, e somente a Ele. N6s temos que manter a regra de que nao podemos julgar o corac;ao, somen- te a conduta externa, e mesmo as- sim de forma imperfeita. Aqueles que, como os olhos humanos os veem, estao andando no caminho da Alianc;a devem, de acordo com o julgamento de amor, ser consi- derados e tratados como nossos irmaos na Grac;a. Mas, na analise finat nao e 0 nosso julgamento, mas o julgamento de Deus, que determina se eles sao ou nao nos- sos irmaos na Grac;a. Deus e o Conhecedor dos corac;oes. Com Ele nao ha acepc;ao de pessoas. 0 homem olha a aparencia, mas Deus olha o corac;ao (1Sm 16.7). "Examinai-vos a v6s mes-
  • 307.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mos se realmente estais na fe; provai-vos a v6s mesmos. Ou nao reconheceis que Jesus Cristo esta em v6s? Se nao eque ja estais re- provados" (2Co 13.5). 508
  • 308.
    CAPITULO 11~ 0 MEDIADOR DAALIAN<;;A 0 conselho de reden<;ao nao euma iniciativa humana cuja execu<;ao depende de todo tipo de circunstancias imprevisiveis e, portanto, alta- mente incerto. Ele eurn conselho que e cumprido com absoluta cer- teza porque e uma decisao da von- tade graciosa e toda poderosa de Deus. Ele foi estabelecido na eter- nidade e e cumprido no tempo. Tudo sobre o que a doutrina da fe tern que tratar, portanto, e a for- mana qual o imubivel conselho do Senhor referente a salva<;ao da ra<;a humana eexecutado e apli- cado. E como esse conselho se re- fere principalmente a tres grandes temas, isto e, o Mediador, por quem a salva<;ao foi obtida, o Es- pirito Santo, por quem a salva<;ao e aplicada e as pessoas as quais a salva<;ao e dada, nosso roteiro tambem seguini esses tres temas. Prirneiro n6s devemos tratar 509 da pessoa de Cristo, que, por Sua paixao e morte obteve a salva<;ao. Depois, na sequencia, n6s tratare- mos do Espfrito Santo, que faz com que os eleitos compartilhem dos beneffcios oriundos da mor- te de Cristo. E em terceiro lugar daremos algurna aten<;ao as pes- soas que desfrutam da salva<;ao obtida por Cristo, e devemos tra- tar tarnbem da Igreja como Corpo de Cristo. Finalmente, nosso roteiro naturalmente culrninara na pleni- tude da salva<;ao que esta reser- vada para os crentes. Todo o de- senvolvimento de nosso roteiro mostrara que o conselho de reden- <;ao em todas as suas partes e bern organizado e seguro. A inexpli- cavel Gra<;a, a sabedoria multifor- me e o poder infinito de Deus se manifestam nele. Na pessoa de Cristo todas essas excelencias e atributos se
  • 309.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tornam manifestos. Everdade que crer em urn Mediador nao e uma exclusividade da Cristandade. Todos os homens e todas as na- c;oes possuem urn senso nao so- mente do fato de que eles nao desfrutam da salvac;ao, mas eles tambem possuem a convicc;ao em seu corac;ao que essa salvac;ao deve ser indicada e dada a eles de alguma forma atraves de pessoas especificas. 0 pensamento geral- mente difundido e que 0 homem nao pode se aproximar de Deus, nem subsistir em Sua presenc;a; ele precisa de urn intermediario para abrir-lhe o caminho para a Divin- dade. Portanto, em todas as reli- gioes sao encontrados mediado- res que, por urn lado, fazem com que as revelac;oes divinas sejam conhecidas ao homem, e, por ou- tro, conduzem as ora<:_:oes e as oferendas dos homens a Divinda- de. Em alguns casos deuses in- feriores ou espiritos servem como mediadores, mas na maioria dos casos sao homens dotados com conhecimento e poder sobrenatu- ral, possuidores de uma aura es- pecial de santidade, que fazem a media<:_:ao entre os deuses e o ho- mem. Na vida religiosa das na- <;:6es eles assumem urn papel im- portante, e em todas as ocasioes importantes na vida publicae na vida privada, tais como calamida- des, guerras, pestes, e coisas se- melhantes, eles sao consultados. 310 Seja como adivinhos ou magicos, como santos ou sacerdotes, eles indicam o caminho que, como eles supoem, os homens devem tomar para desfrutar do favor da Divindade, mas eles mesmos nao sao esse caminho. As religioes das na<:_:oes sao independentes das pessoas dos mediadores. Isso e verdade ate mesmo com rela<:_:ao as religioes fundadas por pesso- as especificas. Buda e Confucio, Zarathustra e Maome, sao OS pio- neiros das religioes fundadas por eles, mas eles mesmos nao sao o conteudo dessas religioes. Sua conexao com elas e feita em urn sentido externo. As religioes fun- dadas por eles permanecera a mesma, mesmo que seus nomes sejam esquecidos ou suas pesso- as sejam suplantadas por outras. No Cristianismo, porem, tudo isso e muito diferente. De fato, as vezes tern sido expressa a ideia de que Cristo nunca quis ser o unico Mediador, e que Ele pron- tamente deixaria de lado Seu pro- prio nome se somente Seu princi- pia e Espfrito vivessem na Igreja. Mas outros, que romperam total- mente toda conexao que possui- am como Cristianismo, atacam e rejeitam totalmente a ideia de urn Mediador. 0 Cristianismo man- tern com a pessoa de Cristo urn relacionamento muito diferente daquele que as demais religioes mantem com as pessoas que as fundaram. Jesus nao foi 0 primei-
  • 310.
    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A ro confessor da religiao que pas- sou a levar o Seu nome. Ele nao foi o primeiro e mais importante cristao. Ele ocupa urn lugar com- pletamente unico no Cristianis- mo. Ele nao o foi fundador do Cristianismo em urn sentido usu- al, Ele e o Cristo, o que foi envia- do pelo Pai e que fundou Seu rei- no sobre a terra e agora expande- o e preserva-o ate o fim dos tem- pos. Cristo e o proprio Cristianis- mo. Ele nao esta fora, Ele esta den- tro do Cristianismo. Sem Seu nome, pessoa e obra, nao ha Cris- tianismo. Em outras palavras, Cristo nao e aquele que aponta o caminho para o Cristianismo, Ele mesmo eo caminho. Ele eo uni- co, verdadeiro e perfeito Media- dar entre Deus e os homens. 0 que as varias religioes em sua crenc;a em urn mediador tern con- jeturado e esperado, e real e per- feitamente cumprido em Cristo. * * * * * Para apreciar completamen- te esse sentido unico de Cristo, n6s devemos partir da ideia da Escritura de que Cristo comec;ou a existir, diferentemente de n6s, nao em sua concepc;ao e nascimen- to, mas seculos antes - de fato, desde a eternidade Ele e o unigenito Filho do Pai. No Velho Testamento o Messias e designa- 143 Jo 3.13; 6.38; 12.46; 18.37. 311 do como o Pai da Eternidade, que eo Pai eterno de Seu povo (Is 9.6), e como aquele cujas origens sao desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5.2). 0 Novo Testamento preserva essa ideia, mas da uma expressao mais exata da eternidade de Cristo. Ela esta presente em todas aquelas passagens nas quais a obra terrena de Cristo e apresentada como o cumprimento de uma obra que lhe foi confiada por Deus. De fato, e dito sobre Joao Batista, que ele tinha que vir e veio como o segun- do Elias (Me 9.11-13; Jo 1.7). Mas a enfase colocada no fato de que Cristo veio ao mundo para cum- prir Sua obra e, o numero de ve- zes em que isso e dito, aponta para o fato de que essa expressao e usada em urn sentido especial. N6s nao lemos, em urn sen- tido geral, que Ele apenas foi en- viado pelo Pai para pregar (Me 1.38), que Ele veio para chamar pecadores ao arrependimento e para dar Sua alma em resgate por muitos (Me 2.17; 10.45). Algo mais e dito sobre Ele. Edito tambem, que Ele foi enviado expressamen- te para a pregac;ao do Evangelho (Lc 4.43), que foi o Pai que o en- viou (Mt 10.40; Jo 5.24 ss.), que Ele procede do Pai e veio em Seu nome (Jo 5.43; 8.42), que Ele des- ceu do ceu e veio ao mundo143 • Dessa forma Jesus e o Filho
  • 311.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista unigenito que foi amado pelo Pai e que foi enviado avinha depois de todos os servos (Me 12.6). Ele e o filho de Davi e o Senhor de Davi (Me 12.37), existia antes de Abraao (Jo 8.58) e tinha gloria com o Pai antes que o mundo existis- se (Jo 17.5,24). Essa auto consciencia de Je- sus com rela<_;:ao a Sua existencia eterna e mais especificamente re- velada no testemunho apostolico. Em Cristo o Verbo eterno que es- tava com Deus e que era Deus tor- nou-se carne (Jo 1.1,14). Ele e o brilho da gloria do Pai, a imagem exata de Sua pessoa e que nao so- mente e mais elevado do que to- dos os anjos, mas pode inclusive exigir que eles 0 cultuem, e 0 Deus eterno eo Rei eterno, e sem- pre o mesmo e os seus anos nao podem ser contados (Hb 1.3-13). Ele e rico (2Co 8.9), subsistia em forma de Deus e era semelhante ao Pai nao somente em essencia, mas tambem em forma, status e gloria. Ele considerava essa igual- dade com Deus nao como algo que Ele devesse manter e usar por Si mesmo (Fp 2.6), colocou tudo isso de lado e assumiu a forma de homem, a forma de urn servo (Fp 2.7,8), e dessa forma foi exaltado ao Senhor, que era do ceu e que fez urn contraste com Adao, o ho- mem da terra (1Co 15.47). Em uma palavra, Cristo, assim como o Pai, e 0 Alfa e 0 Omega, 0 primeiro e o ultimo, o principio eo fim (Ap 312 1.11-17; 22.13). Portanto, a atividade desse Filho encarnado de Deus nao co- me<_;:ou somente com Seu surgimento sobre a terra, mas an- tecede a propria cria<_;:ao. Pelo Ver- bo, todas as coisas, sem exce<_;:ao, foram feitas (Jo 1.3; Hb 1.2,10). Ele e 0 primogenito, a cabe<_;:a, 0 co- me<_;:O de toda criatura (Cl1.15; Ap 3.14). Ele eantes de todas as coi- sas (Cll.17). As criaturas nao so- mente foram feitas atraves dEle, mas subsistem nEle (Cl 1.17) e a todo momento dependem da pa- lavra de Seu poder (Hb 1.3). E alem disso elas sao criadas par Ele (Cl 1.16), pois Deus o constituiu como o herdeiro de todas as coi- sas (Hb 1.2; Rm 8.17). Portanto, desde o come<_;:o ha uma estreita rela<_;:ao entre o Filho e o mundo, e uma rela<_;:ao ainda mais estreita entre o Filho e o homem, pois no Filho estava a vida, a plena, rica e inexaurivel vida, a fonte de toda a vida no mundo, e essa luz bri- lhou para os homens que foram criados a imagem de Deus, e OS homens, de posse de sua nature- za moral e racional, viram a fonte da divina verdade (Jo 1.14). Ever- dade que o homem, por causa do pecado, ficou em trevas, mas a luz do Verbo brilhou nessas trevas (Jo 1.5) e iluminou todo homem (Jo 1.9), pois o Verbo estava e perma- neceu no mundo, e continua agin- do no mundo, apesar do mundo nao o conhecer (Jo 1.10).
  • 312.
    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A 0 Cristo que aparece sobre a terra na plenitude dos tempos e, portanto, de acordo como rela- to que a Escritura faz sobre Ele, nao urn homem como outro qual- quer, nao o fundador de urna re- ligiao e o pregador de uma nova lei moral. Sua posi<;:ao e unica. Ele e desde a eternidade 0 unigenito do Pai. Ele e o Criador, o Sustentador e o Governador de todas as coisas. NEle esta a vida e a luz dos homens. Quando Ele aparece no mundo Ele nao e urn estranho, mas o Senhor. A reden- <;:ao ou recria<;:ao esta relacionada com a cria<;:ao, a Gra<;:a anatureza, a obra do Filho a obra do Pai. A reden<;:ao e urn edificio construido sobre as bases da cria<;:ao. * * * * * A importancia de Cristo se torna mais clara para n6s se n6s estudarmos o Seu relacionamen- to com Israel. Havia uma certa a<;:ao interna do Verbo (o Logos) em todo o mundo e em todos os homens. Mas embora a luz tenha brilhado nas trevas, as trevas nao a compreenderam, e apesar do Verbo estar no mundo, o mundo nao o conheceu (Jo 1.5,10). Mas o Verbo manteve uma estreita rela- <;:ao com Israel, pois de todas as na<;:6es, Israel e a que foi aceita como Sua heran<;:a, e, portanto, Is- rael pode, em Joao 1.11, ser cha- mada de propriedade do Verbo 313 que estava com Deus desde o co- me<;:o e que era Deus. Israel era Sua propriedade, e Ele estava en- tre Israel nao da mesma forma que estaria entre outros povos. Ele veio para Israel deliberadamente e de- pois de seculos de prepara<;:ao. Segundo a carne Cristo procede dos patriarcas (Rm 9.5). E e ver- dade que Ele foi rejeitado pelos que eram seus- sobre o mundo n6s lemos que nao o conheceu, mas sobre os judeus n6s lemos que nao o receberam, despreza- ram-no e rejeitaram-no- mas ape- sar disso Sua vinda nao foi em vao, pois a todos quantos o rece- beram, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo 1.12). Quando em Joao 1.11 n6s lemos que o Verbo veio para os que eram seus, a referenda e, sem duvida, aencarna<;:ao, avinda de Cristo em carne. Mas a afirma<;:ao implica que a rela<;:ao de proprie- dade existente entre o Verbo e Is- rael nao passou a existir no mo- mento da encarna<;:ao, mas ja exis- tia muito antes. Israel era Sua pro- priedade e, portanto, na plenitu- de dos tempos, Ele veio para os que eram seus. No mesmo mo- mento em que Jeova aceitou Isra- el como Sua propriedade esse povo entrou em urn relaciona- mento especial com o Verbo (o Logos). Ele era o Senhor que Isra- el esperava, o Anjo da Alian<;:a que inesperadamente viria ao Seu templo (Ml3.1), e que vivia e tra-
  • 313.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista balhava em Israel desde a antigiii- dade. Em muitos lugares doVe- lho Testamento nos lemos sobre o Anjo da Alian<;a ou Anjo do Se- nhor. Como foi destacado em co- nexao com a doutrina da Trinda- de, e atraves do Anjo que o Senhor se revela ao Seu povo, de uma forma especial. Apesar de ser dis- tinto do Senhor, esse Anjo e urn com Ele, e os mesmos nomes, ca- racteristicas, obras e honra podem ser dados a Ele como sao dados ao proprio Deus. Esse Anjo e o Deus de Betel (Gn 31.13), o Deus dos patriarcas (Gn 48.15,16), o Anjo que prometeu a Hagar mul- tiplicar sua descendencia (Gn 16.10; 21.18), que guiou os patri- arcas (Gn 48.15,16), que resgatou o povo de Israel do Egito e segu- ramente conduziu-os a Canaa144 • 0 Anjo da Alian<;a da a Israel a certeza de que o proprio Senhor esta no meio do povo como o Deus da reden<;ao e da salva<;ao (Is 63.9). A revela<;ao do Anjo da Alian<;a foi uma prepara<;ao para a perfeita auto revela<;ao de Deus que aconteceu na plenitude dos tempos atraves da encarna<;ao de Cristo. Toda a dispensa<;ao do Velho Testamento era uma apro- xima<;ao cada vez maior entre Deus e Seu povo. Essa dispen- sa<;ao termina na vinda de Cristo e em Sua habita<;ao eterna entre Seu povo (Ex 29.43-46). m Ex 3.8; 14.21; 23.20; 33.14. 314 Esse ensino da natureza e atividade do Verbo antes de Cris- to vir em carne e da mais alta im- portancia para uma correta inter- preta<;ao da historia da ra<;a huma- na e para urn verdadeiro entendi- mento do povo e da religiao de Israel. Dessa forma e possivel re- conhecer toda a verdade, todo o bern e toda a beleza que ainda pode ser encontrada no mundo pagao, e ao mesmo tempo reco- nhecer a revela<;ao especial que foi dada ao povo de Israel. Enquan- to o Verbo e a sabedoria de Deus estavam operando em todo o mundo, o Filho manifestou-se em Israel como o Anjo da Alian<;a, como a manifesta<;ao do nome do Senhor. No Velho e no Novo Tes- tamento a Alian<;a da Gra<;a e uni- ca. Os crentes do Velho Testamen- to sao salvos da mesma forma que nos. Ea mesma cren<;a na promes- sa, a mesma confian<;a na Gra<;a de Deus que garante a salva<;ao tan- to a eles quanto a nos. E os mes- mos beneficios de perdao e rege- nera<;ao, de renova<;ao e de vida eterna foram dados a eles e sao dados a nos. Todos trilham o mes- mo caminho, embora a luz que ilu- minou os crentes do Velho Testa- mento e a que nos ilumina hoje sejam diferentes em brilho. Outro importante detalhe caminha junto com esse. Paulo diz sobre os Efesios, quando eles ain-
  • 314.
    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A da eram pagaos, que eles estavam sem Cristo, alienados da promes- sa da Alian<;a, sem esperan<;a e sem Deus no mundo (Ef 2.11,12). Em outra palavras, eles viviam em uma condi<;ao muito diferente daquela que os judeus viviam antes da vinda de Cristo, pois eles nao tinham a promessa de Deus a qual pudessem agarrar-se. Eles viviam sem esperan<;a no mundo, e eles nao tinham Deus em seu cora<;ao para que pudessem conhece-lo e servi-lo. Natural- mente o apostolo nao quer dizer com isso que eles nao criam em seus deuses, pois ele diz em ou- tros lugares, aos atenienses, por exemplo, que eles eram extrema- mente religiosos, e ele fala da re- vela<;ao que Deus permitiu que eles tivessem (At 17.24 ss.; Rm 1.19 ss.). Mas, tendo conhecimento de Deus, OS pagaos nao 0 glorifica- ram como Deus, nem lhe deram gra<;as; antes tornaram-se nulos em seu proprio entendimento e em seu pensamento serviram a deuses que por natureza nao eram deuses (Rm 1.21 ss.; Gl4.8). E dessa forma o apostolo nao nega que os pagaos tenham todo tipo de expectativas referentes ao fu- turo, mas expressa o pensamento de que todas essas expectativas, tanto quanta os deuses aos quais eles serviam, sao nulos em razao da promessa de Deus em Cristo, nao ser a base deles. Isso era diferente em Israel. 315 A esse povo Deus confiou Seus oraculos (Rm 3.2). Ele OS adotou como filhos, viveu com Sua glo- ria entre eles, deu-lhes sucessivas dispensa<;6es da Alian<;a na forma de lei, de culto, e, particularmen- te, naquelas promessas que apon- tavam para a vinda do Messias e apontavam para Ele como proce- dendo de Israel segundo a carne (Rm 9.4,5). Mas embora Cristo, na medida em que a carne o permi- ta, tenha procedido dos patriarcas, Ele e mais que urn homem. Ele e Deus e Ele existia e agia tambem nos tempos do Velho Testamen- to. Os cristaos em Efeso, quando eram pagaos, viviam sem Cristo, mas os israelitas dos tempos an- tigos, por outro lado, estavam re- lacionados com Cristo, isto e, ao Cristo prometido, que como Me- diador existia e agia entre eles. Ele agia na dispensa<;ao de Seus be- neficios, mas agia tambem pela palavra, profecia e historia, pre- parando Sua propria vinda em carne e lan<;ando sua sombra sa- bre o povo de Israel. Ele mostra- va a Israel as ben<;aos espirituais que Ele mesmo alcan<;aria para o Seu povo na plenitude dos tem- pos. 0 apostolo Pedro, fala cla- ramente dessa mesma forma, no primeiro capitulo de sua primei- ra carta. Quando ele fala sobre a grande salva<;ao que em principia os crentes ja desfrutam e que al- can<;ara sua plenitude no futuro,
  • 315.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ele demonstra a gloria dessa sal- va<;ao ao frisar especificamente que os profetas do Velho Testa- mento fizeram dessa salva<;ao seu objeto de estudo e reflexao. Alem disso, todos os profetas tinham em comurn o fato de que eles pro- fetizavam sobre a Gra<;a que ago- ra nos dias do Novo Testamento esta sendo distribuida aos cren- tes. Eles recebiam conhecimento dessa Gra<;a pela revela<;ao, mas essa revela<;ao nao os tornava pas- sivos. Pelo contrario, ela os colo- cava para trabalhar. A revela<;ao os estimulava a estudar e investi- gar zelosamente, nao a maneira dos filosofos, que por sua propria razao tentavam entender os mis- terios da cria<;ao, mas como ho- mens santos de Deus, que fizeram da revela<;ao especial e da futura salva<;ao em Cristo o objeto de sua pesquisa. Em tal estudo eles eram guiados nao por seus proprios pensamentos, mas guiados pelo Espirito Santo. 0 assunto ao qual eles se dedicavam e sobre o qual eles fizeram suas pesquisas era sobre a ocasiao ou as circunstan- cias oportunas indicadas pelo Es- pirito de Cristo, que neles estava, ao dar de antemao testemunho sobre os sofrimentos referentes a Cristo e sobre as glorias que os se- guiriam (1Pe 1.10)1). Foi o pro- prio Cristo que, no Velho Testa- mento, deu Seu Espirito aos pro- fetas e assim anunciou, atraves desse Espirito, Sua vinda e obra. 516 0 testemunho de Jesus no cora- <;ao daqueles que lhe pertencem e evidente pelo fato de que eles possuem o Espirito de profecia (Ap 19.10). Pelo testemunho desse Es- pfrito, Israel alcan<;ou essas ricas e gloriosas esperan<;as que estao resumidas sob o nome de expec- tativas messianicas. ***** Essas esperan<;as ou expec- tativas messianicas sao geralmen- te classificadas em dois grupos. Ao primeiro grupo pertencem aquelas expectativas que, em ge- rat possuem uma indica<;ao sobre o futuro reino de Deus. Essas es- peran<;as sao de grande importan- cia e estao intimamente relaciona- das aAlian<;a da Gra<;a. Certamen- te essa promessa implica que Deus sera o Deus de Seu povo e de Sua semente. Ela erelevante, portanto, nao somente para o pas- sado e para o presente, mas tam- bern para o futuro. Everdade que essas pessoas repetidamente se fizeram culpadas de deslealdade, cairam e romperam a Alian<;a do Senhor. Mas precisamente porque essa e uma Alian<;a da Gnu;a, a des- lealdade e a infidelidade das pes- soas nao pode invalidar a fideli- dade de Deus. A Alian<;a da Gra- <;a e uma Alian<;a eterna que se reproduz de gera<;ao em gera<;ao. Portanto, quando as pessoas nao
  • 316.
    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A andam no caminho da Alian<;a, Deus pode por algum tempo abandona-las, sujeita-las a casti- gos, julgamento ou cativeiro, mas Ele nunca viola Sua Alian<;a, pois essa e uma Alian<;a da Gra<;a, que nao depende da conduta do ho- mem, mas repousa somente na compaixao de Deus. Ele nao pode destruir a Alian<;a, pois Seu nome, gloria e honra estao envolvidos nela. Depois da demonstra<;ao de ira, Sua bondade invariavelmen- te brilha, e depois do julgamento vern a misericordia, depois do so- frimento vern a gloria. Em tudo isso Israel no cur- so dos seculos foi instruido pela profecia. Atraves da profecia Isra- el obteve discernimento sobre a essencia e proposito da historia como nao se ve em qualquer ou- tro povo. 0 Velho Testamento tor- na claro para nos que Cristo, ao vir para os que eram seus reali- zando a vontade de Deus, aponta para o fato de que o reino de Deus e o conteudo, o curso e o fim da historia. ESeu conselho, Seu con- selho de favor e reden<;ao, que existe desde a eternidade e que vencera toda resistencia. Alem do sofrimento esta a gloria, alem da cruz esta a coroa. Deus triunfara sobre todos os Seus inimigos e fara com que Seu povo desfrute do cumprimento de todas as Suas promessas. Urn reino de justi<;a e paz e vindo, de espiritual e mate- rial bem-aventuran<;a. E Israel des- 517 frutara da gloria desse reino, mas as outras na<;i5es tambem desfru- tarao dele, pois a unidade de Deus preserva a unidade da ra<;a humana e da historia. Entao a ter- ra se enchera do conhecimento do Senhor e a promessa da Alian<;a alcan<;ara seu pleno cumprimen- to: Eu serei vosso Deus e vos sereis meus filhos e filhas. As profecias e os salmos es- tao cheios dessas esperan<;as. Mas isso nao e tudo. Eles vao alem e falam da forma pela qual o reino de Deus no futuro sera estabele- cido e cumprido. Entao, essas es- peran<;as se tornam expectativas messianicas propriamente ditas, e nos dizem como o dominio de Deus sobre a terra no futuro sera determinado por uma so pessoa, pelo Messias, e sera consumado por Ele. Everdade que algumas pessoas em nosso tempo tern ten- tado separar todas essas expecta- tivas messianicas da religiao ori- ginal de Israel e transferi-las para o tempo do cativeiro. Mas essa posi<;ao e satisfatoriamente ataca- da e refutada por outras pessoas. Todas as esperan<;as messianicas se moviam em torno de duas idei- as: o dia do Senhor, que seria urn dia de julgamento para os povos e para Israel; eo Messias que tra- ria a reden<;ao. E ambas essas idei- as nao sao ideias primeiramente acalentadas pelos profetas do oi- tavo seculo, mas existiam muito antes desse tempo e foram mais
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista especificamente trabalhadas pe- los profetas cujos livros foram preservados ate os nossos dias. A Escritura tra<;a as expecta- tivas do futuro aos tempos mais antigos. Naturalmente elas possu- iam urn carater geral, mas esse fato serve apenas para provar sua antiguidade, e o gradual desen- volvimento que se seguiu e que pode ser distinto nessas expecta- tivas serve como uma evidencia poderosa. Na promessa-mae de Genesis 3.15 a inimizade e colo- cada entre a semente da serpente e a semente da mulher, e e feita a promessa de que o descendente da mulher esmagara a cabe<;a da descendencia da serpente. Por essa semente da mulher n6s en- tendemos, assim como Calvino, toda a ra<;a humana, que, voltan- do para o lado de Deus atraves da Alian<;a da Gra<;a, deve esfor<;ar- se por atacar os poderes antago- nicos a Deus, e em Cristo recebe sua Cabe<;a e Senhor. A hist6ria demonstra que essa ra<;a humana que esta conduzindo uma guerra contra a semente da serpente de forma nenhuma compreende to- dos os povos, e esta se tornando cada vez mais e mais limitada. A promessa se mantem de pe so- mente para a linhagem de Sete. Quando a primeira ra<;a hu- mana foi destruida no diluvio, logo aconteceu uma separa<;ao familiar entre Cam e Jafe por urn lado e Sem do outro. E a promes- 518 sa e agora particularizada de tal forma que Jeova se torna o Deus de Sem, Jafe vira a habitar as ten- das de Sem, e Cam sera seu servo (Gn 9.26,27). Mais tarde, quando o verdadeiro conhecimento e cui- to a Deus mais uma vez correu o risco de se perder, Abraao foi es- colhido dentre a gera<;ao de Sem e a promessa foi dada a ele, a pro- messa de que ele seria aben<;oa- do pelo Senhor e seria uma ben- <;ao para todas as na<;oes, que to- das as na<;oes da terra desejariam grandemente e procurariam pela ben<;ao que foi dada a Abraao e a sua semente (Gn 12.2,3). Dentre os filhos de Jac6 e as tribos de Israel, Juda e designado como aquele que receberia status sobre todos os seus irmaos. De acordo com seu nome ele se tornou louvor ao Senhor (Gn 29.35) e poderoso en- tre seus irmaos (1Cr 5.2). Seus ir- maos o louvaram e sua mao su- jeitou todos os seus inimigos. 0 dominio de Juda permanecera ate que venha Sil6, e a ele obedece- rao todos os povos (Gn 49.8-10). 0 nome Sil6 no verso 10 de Genesis 49 e diffcil de se enten- der e de interpreta<;ao variada, mas a ideia de uma ben<;ao dada a Juda e bern clara. Juda tern 0 primeiro lugar entre as tribos de Israel; ele tern preeminencia sobre seus irmaos, e dele saira o futuro governante de todas as na<;oes. Essa promessa foi cumprida de forma incipiente em Davi e a
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    0 MEDIADOR DAALIANc;:A partir dele passou a urn novo es- tagio de desenvolvimento. Quan- do Davi descansou de todas as suas guerras, veio a sua mente a ideia de edificar uma casa ao 5e- nhor. Mas o 5enhor informou, atra- ves de Nata, que em vez de Davi fazer uma casa para Deus, Deus e que faria uma casa para Davi, atra- ves da qual manteria a linhagem real. Depois da morte de Davi o 5enhor elevou 5alomao ao trono e foi urn Pai para ele, e ele final- mente estabeleceu sua casa eo tro- no de Davi para sempre. 0 trono de Davi seria estabelecido para sempre (25m 7.9-16; 5118.38). Des- de esse tempo as santas esperan- <;as de Israel estao firmadas sobre a casa de Davi, e algumas profe- cias simplesmente param nesse ponto145. * * * * * Mas a hist6ria ensinou que urn rei na casa de Davi nao satis- faria todas essas expectativas. E em conexao com ess : hist6ria a profecia apontava mais claramen- te para o futuro, quando o verda- deiro filho de Davi apareceria e se sentaria para sempre no trono de 5eu Pai. Gradualmente esse fi- lho de Davi come<;ou a ser desig- 145 Am 9.11; Os 3.5; Jr 17.25; 22.4. 146 Sl 23.5; 2Cr 28.15; Le 7.46. 147 Me 6.13; Le 10.34; Tg 5.14. 148 Me 16.1; Le 23.56; Jo 19.40. 149 Ex 29.36; 30.23; 40.10. nado pelo nome de Messias. Ori- ginalmente e por urn longo tem- po o nome Messias tinha urn uso geral e designava todo aquele que em Israel era escolhido e un- gido para urn determinado oficio. A un<;ao com 6leo era uma prati- ca comum entre os povos orien- tais e servia para amaciar a pele queimada pelo sole restaurar ao corpo o seu frescor (51104.15; Mt 6.17). A un<;ao era urn sinal de ale- gria (Pv 27.9) e nao era concedida em tempo de luto (25m 14.2; Dn 10.3); a un<;ao servia para demons- trar hospitalidade e amizade146, era aplicada como urn remedio para alguns tipos de doen<;as147 e era urn sinal de respeito aos mor- tos148. A un<;ao tambem era usada no culto, e nesse caso recebia urn significado religioso. Jac6 ungiu a pedra sobre a qual ele repousou sua cabe<;a em Berseba para que ela servisse como urn monumen- to, e a un<;ao foi urn sinal de dedi- ca<;ao ao 5enhor que tinha apare- cido a ele149 • Posteriormente, de acordo com a lei dada a Moises, o tabernaculo, todo o seu equipa- mento e seu altar foram ungidos para santifica-los e consagra-los ao servi<;o do 5enhor. A mesma un- <;;ao era ministrada as pessoas que eram chamadas para urn servi<;o 319
  • 319.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista especial. Algumas vezes n6s lemos sobre a un<;ao de profetas. Elias ungiu Eliseu (1Re 19.16) e no Sal- mo 105.15 a palavra ungidos e usa- cia como sin6nimo de profetas. Alem disso, os sacerdotes, inclu- sive o sumo sacerdote, eram un- gidos (Lv 8.12,30; Sl 133.2). Por isso o sumo sacerdote era chama- do de sacerdote ungido (Lv 4.3,5; 6.22). E n6s lemos tambem sobre a un<;ao de reis: Saul (1Sm 10.1), Davi (1Sm 16.13; 2Sm 2.4), Salomao (1Re 1.34t e outros fo- ram ungidos. Isso acontecia por- que os reis eram chamados e un- gidos pelo Senhor (1Sm 26.11; Sl 2.2). Desse ponto em diante o uso da un<;ao serviu a muitos propo- sitos. Algumas vezes na Escritu- ra 0 termo ungido e usado para de- signar aquelas pessoas que foram escolhidas e capacitadas pelo Se- nhor para o Seu servi<;o, mesmo que uma un<;ao no sentido literal nao tenha ocorrido. No Salmo 105.15 OS patriarcas sao designa- dos pelas palavras ungidos e pro- fetas. Em outros lugares o povo de Israel ou o seu rei sao chamados de ungidos150 . Em Isaias 45.1 o ter- mo e aplicado a Ciro. Deve ser enfatizado que a un<;ao com 6leo e urn sinal que, por urn lado, in- dica a dedica<;ao ao servi<;o do Senhor e, por outro lado, a elei- <;ao, o chamado e a prepara<;ao 150 Sl 84.10; 89.39; He 3.13. 520 para o servi<;o do Senhor. Quan- do Davi foi ungido por Samuel o Espirito do Senhor veio sobre ele daquele dia em diante (1Sm 16.13). Nesse sentido o nome Mes- sias, isto e, ungido, tornou-se par- ticularmente apropriado para o futuro rei da casa de Davi. Ele e, de forma especiat o Ungido, pois Ele foi enviado pelo proprio Deus e foi ungido nao meramente com urn pouco de oleo, mas com o Espirito do Senhor (Sl 2.2,6; Is 61.1). Exatamente quando o nome Messias (Ungido) come<;ou a ser usado como urn nome sem o arti- go e algo que nao pode ser dito com certeza, mas em Daniel 9.25 o nome parece ja figurar nessa for- ma, e no tempo do ministerio ter- reno de Jesus o nome Messias era comumente usado dessa forma. Em Joao 4.25 a mulher samaritana diz a Jesus: "Eu sei que hade vir o Messias". Nessa £rase o artigo esta ausente. Apesar do termo ungido originalmente ter tido urn uso geral e ter podido designar varias pessoas, ele tornou-se gra- dualmente urn nome aplicado so- mente ao futuro rei que viria da casa de Davi. Esse Rei eo Messi- as, o Ungido. S6 Ele eo Messias. * * * * * A imagem do Messias foi
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A desenvolvida e trabalhada na pro- fecia do Velho Testamento de va- rias formas. De forma geral, o con- texto em que esse termo e desen- volvido sempre da a ideia do rei- nado do Messias. Ele echamado de Ungido porque foi ungido como Rei (Sl 2.2,6). Na base da promessa que lhe foi dada, o pro- prio Davi espera que de sua casa venha o Rei de justi<;:a. Deus esta- beleceu com Davi uma Alian<;:a eterna em tudo bern definida e se- gura (2Sm 23.3-5). E tale a expec- tativa de todos os profetas e salmistas. A salva<;:ao de Israel no futuro esta inseparavelmente liga- da acasa de Davi, e o futuro rei dessa casa e tambem o Rei do Reino de Deus. 0 Reino de Deus nao e uma figura poetica nem urn conceito filosofico. 0 Reino de Deus e uma realidade, urn ele- mento componente da historia. Ele vern de cima, eespiritual, ide- al, e vern aexistencia sob urn rei da casa de Davi. Esse eurn reino de Deus, embora seja profunda- mente humano, terreno e histori- co. Portanto o futuro reino de Deus e pintado para nos nas pro- fecias com tintas e cores extraidas das circunsHincias que nao podem ser tomadas em urn sentido lite- ral, mas que dao uma profunda impressao da realidade desse rei- no. Esse reino nao ea imagem de 151 Sl 2.1 ss.; 72.9 ss.; 110.2. 712 512.8; 45.7; 72.5,8, 17; 110.2,4. 153 25m 7.12 ss.; Is 7.14; 9.5; Mq 5.2; Dn 7.13. 321 urn sonho. Ele erealizado aqui na terra, na historia, sob urn Rei da casa de Davi. Mas embora esse reino do Messias sobre a terra seja uma re- alidade tangivel, ele difere muito dos reinos que nos conhecemos. Apesar do fato de que ele sempre vern aexistencia em uma Iuta con- tra os seus inimigos151 esse eurn reino de perfeita justi<;:a e paz152 , cuja justi<;:a consiste especialmen- te no fato de que os necessitados serao acudidos e os indigentes serao redimidos (72.12-14). Esse reino se lan<;:a sobre todos os seus inimigos ate as extremidades da terra e permanece para sempre. No dominio do reino ha urn principe que e urn homem mas que ao mesmo tempo transcende todos OS homens em meritos e honra. Ele e urn homem, nascido da linhagem de Davi, e urn filho de Davi, e e chamado de filho do homem153 . Mas ao mesmo tempo Ele e mais que urn homem. Ele esta sentado no lugar de honra a direita de Deus (Sl 110.1), e Se- nhor de Davi (51110.1), e eo Filho de Deus em urn sentido todo es- pecial (Sl 2.7). Ele eo Emanuel, o Deus conosco (Is 7.14), o Senhor de nossa justi<;:a (Jr 23.6; 33.16), em quem o proprio Senhor em Gra<;:a vern ao Seu povo e habita com ele. A profecia tanto diz que o Senhor
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista reina sobre Seu povo, quanto que o Messias reina sobre Seu povo. Algumas vezes se diz que o Se- nhor aparecera para julgar as na- <;:6es e Israel, e outras vezes e o Messias que fara isso. Assim, por exemplo, em Isaias 40.10, 11, n6s lemos que o Senhor Deus vira com poder e o Seu bra<;:o dominara e que como pastor Ele apascentara o Seu rebanho e entre os Seus bra- <;:os recolhera os carneirinhos. E em Ezequiel 34.23 n6s lemos que o Senhor designara urn pastor para Suas ovelhas e esse pastor sera o Seu servo Davi. Sobre a nova Je- rusalem o profeta Ezequiel diz que seu nome sera: 0 Senhor Esta Ali (Ez 48.35), e Isaias apresenta o mesmo fato ao dizer que atraves do Messias o Senhor estara conosco (Is 7.14). Ezequiel combi- na esses dois pensamentos ao di- zer: "Eu, o Senhor, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi sera principe no meio delas;..." (Ez 34.24), e Miqueias diz que o Mes- sias se mantera firme e apascen- tara o povo na for<;:a do Senhor, na majestade do Senhor, seu Deus (Mq 5.4). Essa e a razao pela qual no Novo Testamento essas duas series de textos podem ser inter- pretadas de modo messianico. Atraves do Messias o proprio Deus vern ao Seu povo; Ele e mais que homem, Ele e a perfeita reve- la<;:ao e por isso recebe os nomes divinos. Ele e chamado Maravi- lhoso, Conselheiro, Deus Forte, 322 Pai da Eternidade, Principe da Paz (Is 9.6). ***** A despeito de quao grandes OS meritos e 0 poder do Messias possam ser, a profecia apresenta urn tra<;:o que e marcante. Ele nas- cera, esta registrado, em urn tem- po muito perigoso e em circuns- tancias muito humildes. Pode ser que esse pensamento ja esteja implicado na afirma<;:ao de Isaias de que uma virgem concebera e tera urn filho, e que esse filho compartilhara da paixao de Seu povo, e que comera manteiga e mel, os produtos principais de urn pais que foi devastado e que nao consegue se reerguer (Is 7.14,15). Mas de qualquer forma sua humildade esta claramente ex- pressa em Isaias 11.1 (compare com Isaias 53.2). Ali o profeta diz que urn rebento saira do tronco de Jesse e que urn renovo saira de suas raizes. Em outras palavras, no tempo do nascimento do Mes- sias a casa real de Davi ainda exis- tira, mas sem urn trono, sera como urn tronco quebrado, mas que ain- da pode voltar a crescer. Miqut?ias da expressao ao mesmo pensamento em diferentes pala- vras quando diz que a casa de Efrata, que e a casa real de Davi, assim chamada porque Efrata era a area na qual Belem, a terra natal de Davi, estava localizada, seria
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A a menor entre as milhares de Juda, e dela sairia aquele que ha de rei- nar ate as extremidades da terra (Mq 5.2). Portanto, em Jeremias 23.5 e 33.15, em Zacarias 3.8 e 6.12, o Messias e tambem designado Renovo. Quando Israel estiver destruido e Juda estiver em esta- do de calamidade, quando virtu- almente toda a esperan<;a se fore toda a expectativa estiver extinta, entao o Senhor levantara urn Re- novo da casa real de Davi que edificara o templo do Senhor e estabelecera Seu reino na terra. Apesar de muitos esperarem que o Messias apare<;a em poder e glo- ria, Ele aparecera em humildade, montado nao em urn cavalo de guerra, mas, como urn sinal de paz, em urn jumento (Zc 9.9). Ele sera Rei mas tambem sera Sacer- dote. Ambos os offcios serao com- binadas nEle como em Melquisedeque, e havera perfei- ta uniao entre ambos os offcios (Sl 110.4; Zc 6.13). Essa ideia da humildade do Messias serve como uma ideia transacional aquela ideia segun- do a qual Isaias apresenta aquele que ha de vir como o Servo Sofre- dor do Senhor. 0 povo de Israel tinha que ser urn reino de sacer- dotes (Ex 19.6). Ele tinha que ser- vir a Deus como sacerdote e do- minar a terra, assim como o ho- mem originalmente foi criado a imagem de Deus e recebeu domf- nio sobre toda a terra. Repetida- mente nos lemos nas profecias e nos salmos que Deus fara justi<;a atraves de Seu povo e lhe clara vitoria sobre seus inimigos. Em alguns casos essa vitoria e descri- ta em termos muito fortes: Deus se levantara, Seus inimigos serao destruidos e aqueles que o odei- am fugirao de sua face; Ele os dis- sipara como fuma<;a; como cera derretida no fogo eles desapare- cerao de diante da face de Deus; Ele esmagara a cabe<;a de Seus inimigos; Ele trara Seu povo das profundezas do mar, para que ele pise o sangue de seus inimigos, e a lingua de Seus caes se farte com ele154 . Todas essas maldi<;5es nao sao uma expressao de vingan<;a pessoal, mas descri<;5es, na lin- guagem do Velho Testamento, da ira de Deus sobre os inimigos de Seu povo. Mas o mesmo Deus que de forma tao rigorosa pune os maus, clara justi<;a, paz e alegria a todo o Seu povo e esse povo o ser- vira em total unanimidade. Atra- ves da opressao e do sofrimento Seu povo alcan<;ara urn estado de gloria no qual o Senhor fara uma nova Alian<;a, escrevera Sua lei nele, lhe clara novo cora<;ao e novo espirito, para que ele ande em Seus estatutos e cumpra Seus de- signios (Ez 36.25). Essas duas caracterfsticas do 154 S/68.2,3, 21-24; Sl28.4; 31.18; 55.9; 69.23-29; 109.6-20; 137.8,9. 323
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista quadro futuro de Israel sao encon- tradas tambem no Messias. Ele sera urn Rei que quebrara Seus inimigos em peda<;os, com uma roda de ferro e os despeda<;ara como urn vaso de oleiro (Sl 2.9; 110.5,6). Nao ha uma descri<;ao mais realista da vitoria do Messi- as sobre Seus inimigos do que a que e apresentada em Isaias 63.1- 6. Ali nos lemos como o Senhor vern com vestes de vivas cores, glorioso em Sua vestidura, mar- chando na plenitude de Sua for- <;a, falando em justi<;a e poderoso para salvar. E em resposta aper- gunta do profeta: "Por que esta vermelho o traje, e as tuas vestes, como as daquele que pisa uvas no lagar?", o Senhor responde: "0 lagar, eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor, as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as ves- tes e me manchou o traje todo. Porque o dia da vingan<;a me es- tava no cora<;ao, eo ano dos meus redimidos e chegado". Em Apocalipse 9.13-15 certos tra<;os dessa descri<;ao sao aplicados a Cristo, quando nos ultimos dias Ele retornar e derrotar todos os Seus inimigos. E isso acontecera com toda certeza, pois Ele e Sal- vador e Juiz, Cordeiro e Leao ao mesmo tempo. 0 Messias e tambem o Re- dentor e o Salvador. Assim como o Senhor e justo e misericordia- 324 so, assim como Seu dia e urn dia de ira e de reden<;ao, assim como Israel dominara em autoridade real sobre seus inimigos e servira a Deus como urn sacerdote, assim tambem o Messias e simultanea- mente o Rei ungido de Deus e o Servo Sofredor de Deus. Em Isaias Ele se manifesta especialmente dessa ultima forma. Nessa cone- xao o profeta pensa primeiro no povo de Israel, que esta vivendo em urn estado de escravidao, e que precisamente por essa forma tem urn chamado a cumprir con- tra os pagaos. Como essa profe- cia se desenvolve em Isaias, essa figura sofredora assume gradual- mente o carater de uma pessoa, que, como urn sacerdote, propi- cia pelos pecados de Seu povo, que como urn profeta proclama essa salva<;ao ate os confins dater- ra e que como urn rei, com os po- derosos repartira o Seu despojo (Is 52.13-53.12). No Rei Ungido o Senhor re- vela Sua gloria, Sua for<;a, a ma- jestade e a santidade de Seu nome (Mq 5.3); no Servo Sofredor Ele revela Sua Gra<;a e as riquezas de Sua misericordia (Is 53.11). A pro- fecia em Israel contem essas duas figuras e essa profecia tern raizes historicas. Israel, como povo, e urn filho de Deus (Os 11.1), urn reino de sacerdotes (Ex 19.6), ves- tido com a gloria do Senhor (Ez 16.14), mas ao mesmo tempo tam- berne o servo do Senhor (Is 41.8,9),
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A recebe a ira que os inimigos do Senhor dedicam a Ele (Sl89.51,52), e por amor a Deus e entregue a morte continuamente, e conside- rado como ovelha para o mata- douro (Sl 44.22). Tanto a gloria quanto o sofrimento de Israel, de Israel de forma geral, como urn povo e de servos tais como Davi, Jo e outros em particular, passu- em urn carater profetico. A gloria e o sofrimento de Israel apontam para Cristo. Todo o Velho Testa- mento, com suas leis e institui- <;6es, seus offcios e ministra<;6es, seus fatos e suas promessas, e uma prefigura<;ao do sofrimento que viria sobre Cristo, e da gloria que o seguiria (1Pe 1.11). Assim como a Igreja nos dias do Novo Testamento tornou-se morta para o pecado e viva para Deus em Cristo Jesus (Rm 6.11), e assim como seu corpo preenche o que resta das afli<;6es de Cristo (Cl 1.24), e tambem aimagem de Cris- to e transformada de gloria em gloria (2Co 3.18), assim tambem a Igreja do Velho Testamento, em todo o seu sofrimento e gloria, era uma prepara<;ao e uma prefigu- ra<;ao da humilha<;ao e exalta<;ao do Sacerdote-Rei que, a Seu tem- po, fundaria o reino de Deus na terra. Nao pode haver duvidas de que o Novo Testamento olha para si mesmo aluz do Velho, e dessa forma mantem estreito relaciona- mento com ele. Jesus diz que as 525 Escrituras testificam a seu respei- to (Jo 5.39; Lc 24.27), e esse e urn pensamento que e encontrado na base de todo o Novo Testamento e e varias vezes afirmado com cla- reza. Os primeiros disdpulos de Jesus reconheceram-no como o Cristo porque encontraram nEle aqueles de quem Moises e os pro- fetas tinham falado (Jo 1.45). Pau- lo testifica que Cristo morreu, foi sepultado e ressuscitou conforme as Escrituras (1Co 15.3,4). Pedro escreve que o Espfrito de Cristo nos profetas, de antemao testemu- nhou sobre os sofrimentos refe- rentes a Cristo e sobre as glorias que o seguiriam (1Pe 1.11). E to- dos os livros do Novo Testamen- to indicam, seja diretamente, seja indiretamente, que todo o Velho Testamento encontrou sua pleni- tude em Cristo. A lei com suas prescri<;6es eticas, cerimoniais e dvicas, com seu templo e seu al- tar, com seu sacerdocio e seus sa- criffcios, e a profecia com sua pro- messa de urn Rei ungido da casa de Davie como Servo Sofredor, apontam para Cristo como seu cumprimento. Todo o reino de Deus, prenunciado no reino e na historia de Israel, delineado em formas nacionais pela lei e procla- mado na linguagem do Velho Testamento pelos profetas, apro- ximam-se de Cristo e nEle e em Sua Igreja descem dos ceus ater- ra. Essa intima rela<;ao entre o
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Velho eo Novo Testamento e da mais alta importancia para a vali- dade e legitimidade da fe crista, pois a confissao de que Jesus e o Cristo, o Messias prometido a Is- rael, forma o cora<;ao da religiao crista e diferencia-a de todas as outras religioes. Portanto, essa rela<;ao e seriamente atacada pe- los judeus, pelos mu<;ulmanos e por todos os outros povos pagaos e em nossos dias e atacada tam- bern por muitos daqueles que re- cebem o nome de cristaos. Esses grupos tentam provar que Jesus nunca pensou em Si mesmo como o Messias nem se apresentou como tal, ou, mais ainda, que Ele formulou Sua consciencia religi- osa interna e Sua elevada moral de forma circunstancial, e que dessa forma nao tern significado para n6s hoje. Mas o testemunho do Novo Testamento e tao nume- roso e tao forte que nao permite que essa afirma<;ao va muito lon- ge. Simplesmente nao pode ser negado que Jesus afirmou ser o Messias e demonstrou possuir todos os tipos de caracteristicas e habilidades sobrenaturais. Mas em vez de curvar-se a esse fato e aceitar Jesus como Ele mesmo dis- se que era, eles afirmam que Je- sus era um ser humano sujeito a ilusoes, excesso de entusiasmo e todos os tipos de aberra<;6es. De fato, o ataque vai tao longe que muitos chegam a atribuir a Jesus todos os tipos de doen<;as de alma 526 e de corpo, e assim explicam a exaltada concep<;ao que Ele tinha de Si mesmo. Essa disputa sobre a pessoa de Jesus, que nos dias atuais tern assumido um carater cada vez mais serio, prova que a questao "0 que voce pensa de Cristo?" como aconteceu em pe- riodos remotos da era crista, no- vamente ocupa e divide a mente dos homens. Assim como os ju- deus formaram varias ideias so- bre Jesus, e alguns chegaram a pensar que Ele fosse Joao Batista, outros Elias, outros Jeremias, ou algum dos profetas (Mt 16.13,14), e assim como alguns pensaram que Ele fosse alguem possuido pelos dem6nios (Me 3.21,22), as- sim tern sido atraves dos seculos e assim continuara sendo. Mesmo que n6s coloquemos de lado aqueles que dizem que Cristo era urn ilusionista e entusiasta, have- rei ainda milhares que, apesar de reconhece-lo como urn profeta, nao o confessam como o Cristo de Deus. E ainda que Cristo preencha os requisitos da designa<;ao de profeta, Ele nao se satisfaz somen- te com a confissao de que Ele e o Cristo. Ele e urn homem e e des- crito como tal em todas as pagi- nas do Novo Testamento. Ele, apesar de ser o Verbo eterno, nas- ceu no tempo (Jo 1.14 Fp 2.7). Ele compartilha de nossa carne e de nosso sangue, e em todas as coi- sas e semelhante aos irmaos (Hb
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    0 MEDIADOR DAAuAN<;:A 2.14,17). Segundo a carne Ele pro- cede dos patriarcas (Rm 9.5). Ele e urn descendente de Abraao (Gl 3.16), Ele procedeu de Juda (Hb 7.14; Ap 5.5), e descendente de Davi (Rm 1.3), e e nascido de uma mulher (Gl 4.4). Ele e urn ser hu- mano no sentido pleno e verda- deiro, possui urn corpo (Mt 26.26), uma alma (Mt 26.38), e urn espiri- to (Lc 23.46), uma mente humana (Lc 2.52), uma vontade humana (Lc 22.42), os sentimentos huma- nos de alegria e tristeza, ira e mi- sericordia (Lc 10.21; Me 3.5), e as necessidades humanas de descan- so e relaxamento, alimento e be- bida (Jo 4.6,7). Sempre, e em to- dos os lugares, Jesus se manifes- ta no Novo Testamento como urn ser humano a quem nada que e humano e estranho. Ele foi, como n6s somos, tentado em todas as coisas, mas nao cometeu pecado (Hb 4.15). Nos dias de Sua carne Ele elevou ora<_;oes e suplicas com forte clamor e aprendeu a obedi- encia pelas coisas que sofreu (Hb 5.7,8). Seus contemporfmeos, nem por urn s6 momenta duvidaram de sua real natureza humana. Usualmente ele e designado no Evangelho pelo nome simples de Jesus. De fato, esse nome lhe foi dado por uma ordem expressa do 155 No texto grcgo (N. doT.) anjo e esse nome significa que Ele e o Salvador de Seu povo (Mt 1.21). Mas esse nome era conheci- do em Israel ha muito tempo e muitas pessoas se chamavam as- sim. 0 nome Jesus e a forma gre- ga do nome hebraico Jehoshua ou Josue e e derivado de urn verbo que significa resgatar ou salvar. 0 sucessor de Moises se chamava Oseias, mas Moises passou a chama-lo Jehoshua ou Josue (Nm 13.16). Esse Josue e chamado de Jesus em Atos 7.45 e Hebreus 4.8155 . E n6s lemos no Novo Tes- tamento a respeito de outras pes- soas que receberam esse nome (Lc 3.29; Cl4.11)156 • Portanto, somen- te o nome nao era suficiente para que os judeus pensassem que o filho de Maria fosse o Cristo. Usualmente os judeus falam de Cristo como o homem chama- do Jesus (Jo 9.11), o filho de Jose, o carpinteiro, cujas irmas e irmaos eles conheciam (Mt 13.55; Jo 6.42), 0 filho de Jose de Nazare (J0 1.45)I Jesus, o nazareno157 , Jesus, o galileu (Mt 26.69), e o profeta de Nazare da Galileia (Mt 21.11). Eo titulo usual aplicado a Jesus e 0 de Rabi ou Raboni, que significa professor, mestre, ou meu mestre (Jo 1.38; 20.16), o nome que naque- le tempo os escribas e fariseus re- cebiam (Mt 23.8), e Ele nao ape- 156 0 tecto de Lucas s6 traz o nome Jesus grego, mas o texto de Colosscnscs traz o nome Jesus na tradur;ao de Almeida (N. doT.) 157 Mt 2.23; Me 10.47; Jo 18.5,7; 19.19; At 22.8. 327
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ----- ----------------------~---------------------------- nas se apropria desse titulo, mas tambem lhe da um sentido -Lmico (Mt 23.8-10). Essas designa<;:6es e titulos nao implicam, e claro, que as pessoas o reconheciam como o Cristo. Esse tambem nao era ne- cessariamente o caso quando elas o chamavam pelo termo geral Se- nhor (Me 7.28), pelo termo filho de Davi (Me 10.47), ou quando cha- mavam-no de profeta (Me 6.15; 8.28). * * * * * Mas apesar de ser verdadei- ro homem, Jesus estava conscien- te desde o come<;:o que Ele era mais que urn homem e Ele se apresentou como tat de forma gradativa, aos Seus disdpulos. E isso nao acontece somente, como geralmente se alega, no Evange- lho de Joao e nas cartas dos ap6s- tolos, mas acontece tambem com clareza nos Evangelhos de Mar- cos, Mateus e Lucas. Alem disso, o contraste que os homens estao tentando fazer nos tempos moder- nos, entre o Jesus hist6rico e o Cristo da Igreja e totalmente in- sustentavel. Eles afirmam que Je- sus nao era e nao queria ser mais do que urn israelita piedoso, urn genio religioso, urn exaltado mes- tre da juventude e urn profeta como os muitos que anteriormen- te tinham aparecido em Israel. E tudo 0 que e posteriormente con- fessado pela Igreja com rela<;:ao ao Jesus hist6rico - Seu nascimento sobrenatural, Seu offcio mes- sianico, Sua morte expiat6ria, Sua ressurrei<;:ao e Sua ascensao ao ceu- e urn produto da imagina- <;:ao humana e deve ter sido acres- centado ao quadro original do Mestre, pelos disdpulos. Mas contra essa obje<;:ao ha tantas e tao serias obje<;:6es que ela nao pode se manter de pe. Alem disso, se todos esses fatos menci- onados acima nao sao reais, mas foram criados e inseridos na len- cia de Jesus, deve haver algum tipo de explica<;:ao de como os dis- dpulos conseguiram fazer a dramatiza<;:ao de todos eles e de qual fonte eles extrairam o mate- rial dessas supostas fabulas. A impressao causada pela persona- lidade incomum de Jesus nao se prestaria a esse tipo de fantasia. Tal impressao, mesmo que seja a de uma pessoa altamente exalta- da, nao possuiria urn s6 elemen- to do Cristo que a Igreja confessa. E esses elementos componentes devem ser procurados entre as seitas judaicas daquele tempo, ou entre as religioes gregas, persas/ hindus, egipcias ou babilOnicas, e dessa forma o Cristianismo e roubado de sua independencia e de sua unicidade e e misturado as heresias pagas e judaicas. 328 Mas os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos por homens que tinham a firme convic<;:ao de que Jesus era
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    0 MED!ADOR DAALIAN<;:A o Cristo. Eles foram escritos quan- do a Igreja existia ja ha algum tempo, quando a pregac;ao dos ap6stolos ja tinha alcanc;ado todo o mundo conhecido e quando Paulo ja tinha escrito varias de suas cartas. Contudo esses Evan- gelhos foram geralmente aceitos e reconhecidos como tais. Nada se sabe sobre urn conflito entre os ap6stolos e seus auxiliares a res- peito da pessoa de Cristo. Todos eles criam que Jesus e o Cristo, que os judeus crucificaram, Se- nhor e Cristo e em Seu nome pre- garam o arrependimento e o per- dao de pecados (At 2.22-38). Essa fe existe desde o come- c;o da fundac;ao da Igreja crista. Paulo afirma no capitulo quinze de sua carta aos Corintios, que o Cristo das Escrituras, o Cristo que morreu, foi sepultado e ressusci- tou, era o conteudo da pregac;ao apost6lica e da fe cristae que sem esses dois fatos a pregac;ao e fe se tornariam vase a salvac;ao daque- les que morreram em Cristo seria uma ilusao. Nao ha outra escolha: ou os ap6stolos eram falsas teste- munhas de Deus ou eles testifi- caram e proclamaram aquilo que desde o comec;o eles viram e ou- viram, e que suas maos tocaram com respeito ao Verbo da vida. Da mesma forma, ou Jesus eurn hl- so profeta ou Ele e a testemunha fiet o primogenito dentre os mor- tos e o principe dos reis da terra, Aquele que nos ama, e nos lavou dos nossos pecados, enos consti- tuiu reino, sacerdotes para o Seu Deus e Pai (Ap 1.5,6). Nao ha con- flito entre o Jesus hist6rico e o Cristo da Igreja. 0 testemunho dos profetas e a revelac;ao e inter- pretac;ao, dada sob a direc;ao do Espirito Santo, do autoteste- munho de Cristo. A estrutura da Igreja repousa sobre os ap6stolos e profetas, dos quais Cristo e ape- dra angular (Ef 2.20). E ninguem pode lanc;ar outro fundamento alem do que foi posto/ 0 qual e Jesus Cristo (1Co 3.11). Por mais atrativa que seja, nao ha oportunidade agora para que seja dado urn completo regis- tro do testemunho que Cristo deu sobre Si mesmo e que os ap6sto- los deram sobre seu Mestre e Se-- nhor. Contudo dirigirernos nossa atenc;ao por alguns instantes, para certos detalhes. 329 Assim como Joao Batista, Je- sus tambem veio com a pregac;ao de que o reino de Deus estava proximo e a cidadania desse rei- no s6 podia ser obtida atraves de arrependirnento e fe (Me 1.15). Mas Jesus se coloca em urn rela- cionamento com esse reino mui- to diferente do que tinha Joao ou qualquer outro dos profetas. To- dos os profetas profetizaram so- bre esse reino (Mt 11.11-13), mas Jesus e o unico que o possui. De
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista fato, Ele o recebeu do Pai, que o confiou a Ele em Seu conselho eterno (Lc 22.29). Portanto, esse e precisamente o Seu reino, no qual Ele governa todas as coisas em favor de Seus disdpulos. Foi o Pai que celebrou as bodas de Seu Fi- lho (Mt 22.2), mas o Filho e que era o noivo (Me 2.19; Jo 3.29), que celebrara Seu proprio casamento (Mt 25.1). 0 Pai eo dono da vinha e o Filho e o herdeiro (Mt 21.33, 38). Dessa forma Jesus chama o reino de Deus de Seu proprio rei- no, e fala de Sua Igreja como es- tando edificada sobre a rocha da confissao, em Si mesmo (Mt 16.18). Ele e maior que Jonas e Salomao (Mt 12.39A2). Por Sua causa tudo, pai, mae, irmas, ir- maos, casas, campos e ate mesmo a propria vida devem ser renun- ciados e negados. Aquele que ama seu pai ou sua mae mais do que a Ele nao edigno dEle. Aque- le que o nega ou que o confessa diante dos homens sera corres- pondentemente negado ou con- fessado por Ele diante do Seu Pai que esta nos ceus. A esse elevado lugar que Jesus atribui a Si mesmo no reino dos ceus correspondem todas as Suas palavras e obras. Elas correspondem perfeitamente ao desejo de Seu Pai. Jesus e absolu- tamente isento de pecado. Ele e consciente de nunca ter transgre- dido a vontade do Pai e nunca confessa ter cometido urn so erro 550 ou pecado. Ele ate se permite ser batizado por Joao, mas nao como objetivo de receber perdao pelos pecados (Mt 3.6). 0 proprio Joao, tendo em vista que seu batismo era urn batismo de arrependimen- to e perdao de pecados, protestou ao ver que Jesus queria ser bati- zado. Jesus reconhece essa obje- <;ao e remove-a, dizendo que Ele nao esta se oferecendo para ser batizado para que receba o per- ciao de pecados, mas para que cumpra toda a justi<;a (Mt 3.14)5). Jesus declina o tratamento que lhe fora conferido pelo jovem rico, que chamou-o de born mestre (Me 10.18), mas ao fazer isso Ele nao nega Sua perfei<;ao moral. 0 jo- vem rico veio a Jesus da forma como naqueles dias uma pessoa deveria apresentar-se aos escribas e fariseus, com todos os tipos de sauda<;6es e tratamentos (Mt 23.7). Ele queria lisonjear Jesus e ganhar o Seu favor ao chama-lode born mestre. Jesus nao aceita esse tipo de lisonjas. Ele nao quer ser sau- dado e honrado da mesma forma que os escribas o sao. Born, no sentido absoluto de sera fonte de todos os beneficios e ben<;aos, so- mente Deus. Dessa forma Jesus nao nega Sua perfei<;ao morat mas as lisonjas do jovem rico. 0 mesmo aconteceu no Getsemani. Sua natureza humana viu o sofri- mento que o aguardava, tornar-se cada vez maior, e prova sua reali- dade ao orar pedindo que esse
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A calice seja passado, mas ao mes- mo tempo demonstra Sua perfei- ta submissao e obediencia ao acrescentar o pedido para que o Pai fa<;a a Sua propria vontade (Mt 11.27). Mas nem mesmo nesse mo- m ento, no Getsemani ou no Golgota, nem uma so confissao de pecados flui de Seus hibios. Pelo contrario, tudo 0 que Ele e, e diz, e faz, esta em perfeito acordo com a vontade santa de Deus. Todas as coisas que Ele revela em Suas palavras e atos com rela<;ao a Deus e Seu reino lhe sao dadas pelo Pai (Mt 11.27). Ele ensinava, nao como os escribas, de forma escolastica, mas como quem tern autoridade, como quem recebeu plena auto- ridade profetica do proprio Deus (Mt 7.29), e cuja autoridade se tor- nou manifesta em Seus atos. Ele expulsou os demonios pelo Espi- rito de Deus (Mt 12.28) e com o declo de Deus (Lc 11.20), tern po- derpara perdoarpecados (Mt9.6), e poder tambem para entregar Sua propria vida e para reave-la (Jo 10.18). Todo esse poder Ele re- cebeu do Pai. Jesus relaciona to- das as Suas palavras e obras aor- dem de Seu Pail58 . Fazer a vonta- de de Seu Pai e a Sua comida (Jo 4.34),de forma que, ao final de Sua vida Ele pode dizer que glorifi- cou Seu Pai, manifestou Seu 1 5 8 Jo 5.19,20,30; 8.26,28,38; 12.50; 17.8. 331 nome e cumpriu Sua missao (Jo 17.4,6). Essa rela<;ao existente en- tre Jesus, Sua pessoa, Suas pala- vras e Suas obras, por urn lado, e 0 reino, de outro lado, e expressa em Seu carater messianico. Ha, agora, e havera por muito tempo, uma seria investiga<;ao para defi- nir se Jesus se considerava o Mes- sias prometido e como Ele teria tornado consciencia disso. Com rela<;ao a primeira questao, nao pode haver duvida de que qualquer pessoa que fa<;a uma leitura imparcial dos Evan- gelhos - nao somente o Evange- lho de Joao, mas tambern os de Mateus, Marcos e Lucas- de que Jesus tinha plena consciencia de que era o Messias prometido. Para chegar a essa conclusao bas- ta que se observe uns poucos fa- tos: Na sinagoga de Nazare Cris- to declarou que a profecia de Isaias tinha se cumprido naquele dia (Lc 4.17 ss.). Diante da pergun- ta de Joao Batista sobre se Jesus era ou nao o Messias, Cristo res- ponde afirmativamente ao apon- tar Suas obras como evidencia (Mt 11.4 ss.). Ele aceita a declara<;ao de Pedro, que disse que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e afirma que Pedro pode compre- ender esse fato por causa de uma revela<;ao do Pai (Mt 16.16)7). A ora<;ao da esposa de Zebedeu e feita em urn contexto de cren<;a de
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii que Ele eo Messias, e Jesus a acei- tou assim (Mt 20.20). Sua explica- <;ao sobre o salmo 110 (Mt 22.42), Sua entrada triunfal em Jerusalem (Mt 21.2 ss.), Sua a<;ao no templo (Mt 21.12 ss.), Sua institui<;ao da Santa Ceia (Mt 26.26 ss.) - tudo isso repousa sobre a pressuposi- <;ao de que Ele eo Messias, filho e Senhor de Davi, e que Ele pode suplantar a velha Alian<;a por uma nova. Eo que eabsolutamen- te conclusivo e0 fato de que foi nada menos que a confissao de que Ele era o Cristo, o Filho de Deus, que fez com que Ele fosse condenado amorte (Me 14.62). A epigrafe da cruz: Jesus de Nazare, o Rei dos Judeus, eo selo de tudo o que foi dito ate aqui sobre a consciencia que Jesus tinha de que Ele era o Cristo prometido. Como ou de que forma Je- sus tomou consciencia de que Ele era o Messias prometido, eoutra questao. A ideia comum, geral- mente aceita sobre essa questao, ea de que, a principia, Jesus nada sabia sobre isso, e que somente depois de Seu batismo ou ate mesmo mais tarde, depois da con- fissao de Pedro, foi que Ele tomou consciencia de que era o Messias. A suposi<;ao, entao, ea de que Ele aceitou essa conscientiza<;ao sob pressao, ou pelo menos como urn modo menos apropriado, porem, inevitavet de Seu chamado reli- gioso. Todas essas pressuposi- <;5es, contudo, sao diametral- 552 mente opostas ao claro ensino da Escritura e aessencia da persona- lidade de Jesus. Nao ha duvida de que houve urn desenvolvimento da consciencia humana de Cristo, pois, n6s lemos na Escritura que Ele crescia em sabedoria, estatu- ra e Gra<;a, diante de Deus e dos homens (Lc 2.52). Seu discerni- mento humano sobre Sua propria pessoa, sobre a obra que o Pai lhe tinha dado e sobre a natureza do Reino que ele veio fundar foi gra- dualmente iluminada e aprofun- dada no seio de Sua familia em Nazare, sob a orienta<;ao de sua mae, com a ajuda das Escrituras do Velho Testamento. Essa ilumina<;ao e esse aprofundamento ocorreram de tal forma, que aos doze anos, quan- do visitava o templo, Jesus ja sa- bia que devia ocupar-se com os neg6cios do Pai (Lc 2.49). E antes de ser batizado por Joao Ele sa- bia que nao tinha necessidade de receber o batismo para remissao de pecados, mas que Ele tinha que submeter-se ao batismo que em todas as coisas fosse obediente a vontade de Deus. Esse batismo nao representou para Jesus a que- bra de urn passado pecaminoso, pois Ele nao possufa urn passado dessa natureza. Seu batismo foi, de Sua parte, uma total entrega e dedica<;ao aobra que o Pai lhe ti- nha dado e, da parte de Deus, foi uma total capacita<;ao para o de- sempenho dessa obra. Joao ime-
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A diatamente o reconheceu como Messias e, no dia seguinte, os dis- cipulos que Ele escolhera tam- bern o reconheceram como tal. * * * * * Mas podemos dizer que, de certa forma, essa confissao de que Jesus era o Messias prometido foi apenas uma confissao preliminar. Essa confissao estava emparelha- da com todos os tipos de erros referentes a natureza da obra messianica. Os disdpulos, embo- ra pensassem que Jesus fosse o Messias, eles pensavam que Ele fosse urn Messias tal como os ju- deus daquele tempo geralmente o pintavam: urn rei que se engajaria em uma batalha contra as na<;6es pagas e colocaria Israel como dominador de todas essas na<;6es. Quando, depois de Sua apari<;ao publica, Jesus nao corresponde a essa expectativa, ate mesmo Joao Batista fica em duvida (Mt 11.2 ss.). E os discipu- los tinham que ser constantemen- te corrigidos por Jesus e instrui- dos sobre essa questao. A expec- tativa messianica judaica estava tao arraigada na alma deles que ate mesmo depois da ressurrei<;ao de Jesus eles perguntaram se se- ria aquela a ocasiao propicia em que o Senhor restauraria o reino a Israel (At L6). Essas concep<;6es equivoca- das que eram geralmente aceitas, inclusive no circulo dos disdpu- los, fizeram com que fosse neces- saria que Jesus, em Sua prega<;ao, seguisse uma linha de interpreta- <;ao espedfica e pedag6gica. E bern sabido que Jesus, na primei- ra parte de Seu ministerio, nunca diz claramente que Ele eo Cristo. 0 conteudo de Sua prega<;ao e o reino dos ceus, e Ele explica ana- tureza, a origem, o processo e a plenitude do reino especialmen- te por meio de parabolas. E Suas obras sao obras de misericordia, atraves das quais Ele cura todo tipo de doen<;a entre o povo. Es- sas obras dao testemunho dele, e a partir delas Seus discipulos, in- clusive Joao Batista, vao elaboran- do em sua mente quem e o Mes- sias e qual e o seu carater. Isso pode ser apresentado de maneira mais forte: e mais ou menos como se a obra messianica de Jesus fos- se secreta e ainda nao pudesse tornar-se publica. Quanto mais Sua obra messianica vai se tornan- do evidente, mais Ele vai adver- tindo as pessoas que sejam discre- tas sobre isso159 • De fato, mesmo quando, ja perto do fim de Seu ministerio, os disdpulos passa- ram a conhece-lo melhor e, pela boca de Pedro, no caminho para Cesareia de Filipe, confessam que Ele e o Cristo, o Filho do Deus 159 Mt 8.4; 9.30; 12.16; Me 1.34-44; 3.12; 5.43; 7.36; 8.26; Lc 5.13. 353
  • 333.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista vivo, mesmo nessa ocasiao Ele ordena que os disdpulos nao di- vulguem essa notfcia (Mt 16.20; Me 8.30). Jesus era o Cristo, mas nao o Cristo esperado pelos ju- deus. Ele nao podia e nao queria ser visto como o Messias de acor- do com as expectativas popula- res. Quando o povo desconfiava que Ele era o Messias, os popula- res tentavam pega-lo afor<;a para faze-lo rei (Jo 6.14)5). Ele era o Messias e queria ser o Messias, mas em harmonia nao com a von- tade e o agrado do povo, mas com a vontade e o conselho do Pai, e com a profecia do Velho Testa- mento. Foi por isso que Ele esco- lheu, como urn nome para ser usa- do em rela<;ao a Si mesmo, ope- culiar nome de Filho do homem. Esse nome e mencionado por Ele repetidas vezes nos Evangelhos. Nao ha duvida de que esse nome e derivado de Daniel 7.13, onde os reinos do mundo sao apresen- tados como animais, mas o domi- nio de Deus e feito atraves do Fi- lho do Homem. Essa passagem, em alguns drculos judaicos, era construida em urn sentido messianico e esse nome era co- nhecido como uma designa<;ao do Messias (Jo 12.34). Ao mesmo tempo esse termo parece nao ter sido urn nome comum, e parece nao ter tido urn significado fixo. Nenhuma das expectativas judai- cas poderia ser conectada a esse 354 nome como eram conectadas aos nomes Filho de Davi e Rei de Israel. Portanto, esse nome era mais con- veniente para Jesus pois expres- sava, por urn lado, a ideia de que Ele era o Messias prometido na profecia, e, por outro, a ideia de que Ele nao era o Messias espera- do pelo povo. Isso pode ser provado pelo uso que Jesus faz desse nome. Ele usa esse titulo em referenda a Si mesmo em duas series de textos, a saber, na serie em que Ele fala de Sua miseria, sofrimento e hu- milha<;ao e na serie em que Ele fala de Seu poder, majestade e exalta<;ao. Ele diz, por exemplo, com rela<;ao a primeira serie: 11 ... o Filho do homem, que nao veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos" (Mt 20.28). Com rela<;ao asegunda serie Ele diz, por exem- plo: "... eu vos declaro que, des- de agora, vereis o Filho do ho- mem assentado adireita do Todo- poderoso e vindo sobre as nuvens do ceu" (Mt 26.64). 0 mesmo tipo de pensamentos e encontrado em Mateus 8.20; 11.19; 12.40; 17.12; 18.11; 20.18, com rela<;ao aprimei- ra serie e em Mateus 9.6; 10.23; 12.8; 13.41; 16.27; 17.9; 19.28; 24.27; 25.13. Jesus se caracteriza por esse nome em Seu pleno carater messianico, em Sua humilha<;ao, em Sua exalta<;ao, em Sua Gra<;a e em Seu poder, como Salvador e como Juiz.
  • 334.
    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A Nesse nome Ele engloba toda a profecia do Velho Testa- mento referente ao Messias. Como nos ja indicamos, a expec- tativa messianica se desenvolveu em duas dire<;oes, ou seja, na di- re<;ao do Rei ungido da casa de Davi e na dire<;ao do Servo Sofre- dor do Senhor. Essas duas linhas correm paralelamente atraves do Velho Testamento e se encontram em Daniel. 0 Reino de Deus sera, em urn sentido pleno, urn domi- nio, mas esse dominio sera urn dominio humano, o dominio do Filho do homem. E dessa forma Jesus e urn Rei, o Rei de Israel, 0 Rei prometido e ungido de Deus. Contudo Ele e urn Rei diferente daquele que os judeus espera- vam. Ele e urn Rei que cavalga sobre urn jumento, cria de urn animal de carga, urn Rei de justi- <;a e paz, urn Rei que tambem e Sacerdote, urn Rei que tambem e o Salvador. Poder e amor, justi<;a e Gra<;a, exalta<;ao e humildade, Deus e homem estao conjugados nEle. Ele e 0 perfeito cumprimen- to de toda a profecia e de toda a lei do Velho Testamento, de todo o sofrimento e de toda a gloria que serviram de prepara<;ao e pre- nuncio em Israel, Ele e a realida- de tipificada pelos reis e sacerdo- tes de Israel, a realidade tipificada 160 Ex 4.22; Dt 14.1; Is 63.8; Os 11.1. 161 25m 11.14; 512.7; 5189.27,28. 335 pelo proprio povo de Israel, que tinha que ser urn reino de sacer- dotes e urn sacerdocio real. Ele e o Rei-Sacerdote eo Sacerdote-Rei, o Emanuel, o Deus Conosco. For- tanto o Reino que Ele veio pregar e estabelecer e ao mesmo tempo interno e externo, invisivel e visi- vel, espiritual e fisico, presente e futuro, particular e universal, de cima e de baixo, vern do ceu e ja existe na terra. E Jesus voltara. Ele veio preservar o mundo, salva-lo. Ele vira para julga-lo. ***** Urn outro aspecto ainda deve ser acrescentado a esse qua- dro de Jesus que os Evangelhos nos apresentam. Esse aspecto e que Ele tern consciencia de ser o Filho de Deus em urn sentido es- pecial. No Velho Testamento, o nome Filho de Deus tambem e usado para designar os anjos (Jo 38.7), o povo de IsraeP60 , os juizes do povo (Sl 82.6) e os reis161 • No Novo Testamento Adao e chama- do de filho de Deus (Lc 3.38), os membros da Alian<;a tambem re- cebem esse nome (2Co 6.18), e esse nome e usado de forma es- pecial com rela<;ao a Cristo. De varios lados e por varias pessoas Ele e chamado por esse nome: por
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Joao Batista e Natanael (Jo 1.34, 49), por Satanas e pelos dem6ni- os162, pelo sumo sacerdote, pela multwao dos judeus, e pelo centuriao (Mt 26.63; 27.40,54), pe- los disdpulos (Mt 14.33; 16.16), e pelos evangelistas (Me 1.1; Jo 20.31). Everdade que Jesus nao atribui esse nome a Si mesmo com frequencia, mas Ele aceita essa confissao de Sua divina Filia<;ao sem qualquer protesto, e em algumas ocasi6es afirma ser o Filho de Deus163 • Nao pode haver duvida de que nem todas as varias pessoas que usaram esse nome para se referir a Jesus o fizeram em seu sentido mais profundo. Esse nome nao tern o mesmo significa- do nos labios do centuriao (Mt 27.54), do sumo sacerdote (Mt 26.63), e de Pedro (Mt 16.16). 0 centuriao era urn pagao e nao cha- mou Jesus de Filho de Deus, mas de filho de Deus. 0 sumo sacer- dote estava pensando especial- mente na identidade messianica, pois ele perguntou se Jesus era o Cristo, o Filho de Deus. Mas quan- do Pedro, que era urn companhei- ro de Jesus, enfaticamente confes- sa que Ele e o Cristo, o Filho do Deus vivo, que tern as palavras da vida eterna, sem duvida esse nome assume urn significado muito mais profundo que os ou- 7 6 2 Mt 4.3; 8.29; Me 3.11. 163 Mt 16.16,17; 26.63,64; 27.40,43. 336 tros, urn significado que os disci- pulos, mais tarde, depois da res- surrei<;ao, foram gradualmente entendendo mais plena e ricamen- te. De fato em urn sentido teocratico veterotestamentario Je- sus tambem pode ser designado por esse nome. Como Rei ungido de Deus Ele pode ser chamado de Filho de Deus. Ele e o Filho do Altissimo, a quem o Senhor Deus clara o trono de Seu pai Davi (Lc 1.32). Ele e a semente santa que nasceu de Maria (Lc 1.35t o Santo de Deus, como o dem6nio lhe cha- mou (Me 1.24). Ele e o Filho do Deus Bendito, como o sumo sa- cerdote perguntou para especifi- car mais claramente o Messias (Me 14.61). Mas essa significa<;ao teocratica tern em Jesus urn senti- do mais profundo que os outros, e nele ela expressa urn relaciona- mento espedfico entre Jesus e o Pai. Ele nao se tornou Deus por ter nascido de Maria (Lc 1.35), nem porque no batismo Ele recebeu o Espfrito Santo, sem medida (Mt 3.16). E tambem nao foi em virtu- de de Sua ressurrei<;ao que Ele foi feito Senhor e Cristo, por Deus (At 2.36). De fato, em todas essas oca- si6es Ele foi reconhecido pelo Pai como sendo o Filho, mas Seu me- rito messianico nao teve origem nessas ocasi6es. Ele teve origem
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    0 MEDIADOR DAALIAN<;:A muito antes. A Escritura nao nos ensina que Jesus e chamado de Filho de Deus porque Ele e o Rei ungido de Israel, o Messias, mas o contrario, que Ele foi feito Rei porque Ele e, em urn sentido in- teiramente unico, o Filho de Deus. 1 Esta alem de qualquer du- vida que, onde quer que a Escri- tura apresente esse assunto, ele e apresentado exatamente dessa forma. Em Miqueias 5.2 n6s lemos que as origens daquele que ha de reinar em Israel remontam aos tempos antigos, aeternidade. Em Hebreus 1.5; 5.5 e Salmo 2.7 e ex- plicado que desde a eternidade Cristo, o Filho, o brilho da gloria de Deus e a exata expressao de Seu Ser e gerado pelo Pai. E em Romanos 1.4 o ap6stolo declara que Cristo foi designado Filho de Deus em poder, pela ressurreic;ao dos mortos. Ele e o Filho de Deus em urn sentido especial desde a eternidade164 , mas em Sua concep- c;ao sobrenatural, em Seu batismo e em Sua ressurreic;ao, essa Filiac;ao se tornou mais evidente. Esse mesmo ensino n6s en- contramos nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Jesus tern plena consciencia de manter uma relac;ao com o Pai de forma essencialmente diferente de todas as outras pessoas. Desde cedo Ele sabia que tinha que se ocupar com os neg6cios de Seu Pai (Lc 2.49). 164 Rm 8.32; Gl 4.4; Fp 2.6. 337 Em Seu batismo e, posteriormen- te, no monte da transfigurac;ao, Deus declara abertamente, atra- ves de uma voz do ceu, que Ele e o Seu Filho amado, em quem Ele se compraz (Mt 3.17; 17.5). Ele fala de Si mesmo como o Filho que e exaltado acima de todos os anjos (Mt 24.36; Me 13.32). Outros homens que foram envia- dos por Deus sao servos, mas ele eo Filho, o Filho amado do Pai e Seu herdeiro (Me 12.6,7). 0 reino no qual Ele reina lhe foi confiado pelo Pai (Lc 22.29). Ele envia so- bre Seus discipulos a promessa de Seu Pai (Lc 24.49). E algum dia ele voltara na gloria de Seu Pai (Me 8.38). Ele nunca se refere a Deus como nosso Pai, mas sempre como Seu Pai, exceto quando en- sina os disdpulos a orar (Mt 6.9). Em uma palavra, Ele eo Filho (Me 13.32), enquanto todos os Seus disdpulos sao filhos de seu Pai (Mt 5.45). Tudo lhe foi entregue por Seu Pai e ninguem conhece o Filho senao o Pai e ninguem co- nhece o Pai senao o Filho e aque- le a quem o Filho o quiser revelar (Mt 11.27). E depois da ressurrei- c;ao Ele da aos Seus discipulos a ordem de ensinar todas as nac;6es, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo, ensina- do-os a observar tudo o que Ele lhes tinha ordenado (Mt 28.19). 0 Evangelho de Joao, no
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista qual nao e apenas 0 evangelista, mas tambem o ap6stolo que esta falando, nada acrescenta de essencialmente novo em tudo o que foi dito, mas trabalha com to- das essas informa<;6es de forma bern mais profundae mais ampla. Em seu Evangelho o nome Filho de Deus tambem possui, em al- guns casos, urn sentido teo- cratico165, mas geralmente esse nome e usado em urn sentido mais profunda. Nao somente Je- sus e chamado de Filho de Deus por outras pessoas (1.34,50; 6.69), mas Ele mesmo se apresenta des- sa forma166. E em algumas ocasi- 6es Ele fala sobre Si mesmo como o Filho, sem acrescentar qualquer outra designa<;ao. Dessa forma Ele atribui a Si mesmo o poder de re- alizar milagres (9.35; 11.4), de res- suscitar mortos, espiritualmente e fisicamente, trazendo-os a vida (5.20 ss.), e como os pr6prios ju- deus entenderam, se faz igual a Deus (5.18; 10.33 ss.). Ele fala do Pai e de Si mesmo como o Filho de uma forma tao intima, que s6 faz sentido se Deus for o Seu Pai (5.18). Tudo o que ele atribui ao Pai, atribui tambem a Si mesmo. 165 fa 1.34,50; 11.27; 20.31. 166 fa 5.25; 9.35; 10.36; 11.4. 167 fa 3.16,17,35; 5.20; 17.24. 168 fa 1.18; 3.16; lfa 4.9. 558 0 Pai lhe deu poder sobre toda carne (17.2), de forma que o desti- no de todos os homens depende do relacionamento que possuem com Ele (Jo 3.17; 6.40). Assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim tambem o Filho vi- vifica aqueles a quem quer (5.21), executa julgamento sobre todos (5.27t faz tudo de forma seme- lhante ao Seu Pai (5.19), e recebeu do Pai o poder de ter a vida em Si mesmo (5.26). Ele eo Pai sao urn (10.30). Ele esta no Pai eo Pai esta nEle (10.38), e ver o Pai e ver o Filho (14.9). De fato, o Pai e maior que ele porque o Pai o enviou, como Jesus repetidamente decla- ra (14.28; 5.24,30,37). Mas isso nao anula o fato de que Ele estava na gloria de Deus antes da encarna- <;ao e retornara para ela (17.5). Sua Filia<;ao nao esta baseada em sua missao, mas Sua missao esta ba- seada em sua filia<;ao167. Portanto ele eo Filho, o Filho unigenito168, o primogenito do Pai (1.14), o Verbo que no come<;o estava com Deus e que era Deus (1.1), o Sal- vador do mundo (4.42), que Tome confessou como seu Senhor e seu Deus (20.28).
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    CAPITULO 11® A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO 0 testemunho que, segun- do a Escritura, Cristo deu de si mesmo e desenvol- vido e confirmado pela prega<;ao dos ap6stolos. A confissao de que urn homem, chamado Jesus, e 0 Cristo, o Unigenito do Pai, esta em urn conflito tao direto com nossa experiencia e com nosso pensamento e em especial com todas as inclina<;6es de nosso co- ra<;:ao, que ninguem pode comple- tamente e com toda a sua alma crer nisso sem a atividade persu- asiva do Espirito Santo. Pela na- tureza tudo esta em inimizade com essa confissao, pois essa nao e uma confissao natural para o homem. Ninguem pode confessar que Jesus Cristo eo Senhor, a nao ser atraves do Espirito Santo, e ninguem que fala pelo Espirito de Deus pode dizer: "Anatema, Je- 339 sus!", mas deve reconhece-lo como seu Salvador e Rei (1Co 12.3). Portanto, quando Cristo apa- rece na terra e se apresenta como o Filho de Deus, ele nao permite que esse ensino se perca, mas tern o cuidado, e continua tendo o cui- dado, de fazer com que esse ensi- no entre no mundo e seja crido pela Igreja. Ele chamou Seus ap6s- tolos e os instruiu, e fez com que eles se tornassem testemunhas de Suas palavras e de Seus atos, de Sua morte e de Sua ressurrei<;ao. Ele lhes deu o Espirito Santo, que OS levou pessoalmente aconfissao de que Ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.16), e que mais tarde, desde o dia de Pentecostes, transformou-os em ministros e pregadores de tudo o que seus olhos viram e suas maos tocaram
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista com rela<;ao ao Verbo da vida (1Jo 1.1). Os ap6stolos nao eram as re- ais testemunhas. 0 Espirito da verdade, que procede do Pai, e a originat infalfvel e poderosa tes- temunha de Cristo, e os ap6sto- los sao testemunhas nEle e atra- ves dEle (Jo 15.26; At 5.32). E eo mesmo Espfrito da verdade que, atraves dos tempos, traz a Igreja a essa confissao e conserva-a nela: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e n6s temos crido e conhecido que tu es o Santo de Deus" (Jo 6.68,69). Quando os quatro evange- listas em ordem regular registram os eventos da vida de Jesus, eles geralmente se referem a Ele sim- plesmente pelo nome de Jesus, sem qualquer qualifica<;ao ou adendo particular. Eles nos dizem que Jesus nasceu em Belem, que Jesus foi levado ao deserto, que Jesus viu a multidao e subiu ao monte, e assim por diante. Jesus, a pessoa hist6rica que viveu e morreu na Palestina, eo objeto da cronica dos evangelistas. E da mesma forma n6s encontramos al- gumas vezes nas cartas dos ap6s- tolos, Jesus sendo designado sim- plesmente pelo Seu nome hist6- rico. Paulo diz, por exemplo, que ningw§m pode dizer que Jesus e 0 Senhor, a nao ser pelo Espfrito Santo (1Co 12.3). Joao da testemu- nho de que aquele que ere que Je- sus e o Cristo e nascido de Deus (1Jo 1.5; compare 2.22 com 4.20). 340 E no livro de Apocalipse n6s le- mos sobre a fe em Jesus eo teste- munho de Jesus. 0 uso desse nome sem qua- lifica<;ao nas cartas dos ap6stolos e raro. Usualmente o nome e cita- do em conexao com o Senhor, Cristo, o Filho de Deus, e desig- na<;6es semelhantes, e o nome completo citado com mais fre- qi.iencia e Jesus Cristo nosso Senhor. Mas, independente do fato do nome de Jesus ser citado sozinho ou ligado a outros nomes, a sua conexao com a pessoa hist6rica que nasceu em Belem e morreu na cruz esta sempre presente. Todo o Novo Testamento, tanto as cartas dos ap6stolos quanto os Evangelhos, repousa sobre o fundamento de fatos his- t6ricos. A figura de Cristo nao e uma ideia nem urn ideal criado pela mente humana, como muitos pensavam no passado, e como al- guns em nosso tempo ainda pen- sam, mas uma figura real que se manifestou em urn perfodo espe- cffico e em uma pessoa especffi- ca, urn homem chamado Jesus. De fato, OS varios eventos da vida de Jesus formam o pano de £undo das cartas. Essas cartas tern urn prop6sito diferente dos Evan- gelhos. Elas nao sao uma cronica da hist6ria da vida de Jesus, mas urn registro da importancia que essa vida tern para a reden<;ao do homem. Contudo todos os ap6s- tolos estao familiarizados com a
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    A NATUREZA DIVINAEANATUREZAHUMANA DE CRISTO vida de Jesus, conhecem muito bern Suas palavras e atos, e nos mostram que esse Jesus e o Cris- to, exaltado por Deus aSua mao direita, a fim de conceder o arre- pendimento e a remissao de pe- cados (At 2.36; 5.31). Portanto, e comurn as cartas dos ap6stolos mencionarem even- tos da vida de Jesus. Eles o pin- tam diante dos olhos de seus ou- vintes e leitores (Gl3.1). Eles dao enfase ao fato de que Joao Batista foi Seu arauto e precursor (At 13.25; 19.4), que Ele procede da familia de Jucla e do tronco de Davi (Rm 1.3; Ap 5.5; 22.16), que Ele nasceu de uma mulher (Gl4.4), foi circuncidado ao oitavo dia (Rm 15.8), que Ele veio de Nazare (At 2.22; 3.6), e que ele tinha irmaos (1 Co 9.5; Gll.19). Eles nos dizem que Ele era perfeitamente santo e sem pecado169 , que Ele se ofere- ceu para ser nosso exemplo (1Co 11.1; 1Pe 2.21), e que Ele falou palavras que tern autoridade para n6s (At 20.35; 1Co 7.10-12). Mas e especialmente Sua morte que e importante para n6s. A cruz esta no ponto central da prega<;ao apost6lica. Traido por urn dos doze ap6stolos que Ele tinha es- colhido (1Co 11.23; 1Co 15.5), e nao reconhecido pelos principes 169 2Co 5.21; Hb 7.26; 1Pe 1.11; 2.22; 1Jo 3.5. 170 G/3.13; C/2.14. 171 Fp 2.6; Hb 5.7,8; 12.2; 13.12. 172 Rm 3.25; 5.9; C/1.20. deste mundo como o Senhor da gloria (lCo 2.8)1 Ele foi entregue a morte pelos judeus (At 4.10; 5.30; 1Ts 2.15), e morreu sobre o maldito madeira da cruz170. Mas embora tenha sofrido muito no Getsemani e no G6lgota171 , pelo derramamento de Seu sangue Ele alcan<;ou a reconcilia<;ao e a justi- <;a eterna172 • E portanto Deus o ele- vou, exaltou-o aSua mao direita, e fez dEle Senhor e Cristo, Princi- pe e Salvador para todas as na- <;6es173. ***** Esses poucos dados sao su- ficientes para colocar em eviden- cia que os ap6stolos nao nega- vam, nao ignoravam e nao negli- genciavam os fatos do Cristianis- mo, pelo contrario, eles honraram plenamente esses fatos e apresen- taram seu sentido espiritual. Nao e encontrado nos ap6stolos urn tra<;o sequer de qualquer tipo de separa<;ao ou conflito entre o evento redentivo e a palavra redentiva, no entanto, muitos ho- mens do passado tentaram defen- der a existencia desse conflito. 0 evento redentivo e a realiza<;ao da palavra redentiva; no evento redentivo a palavra redentiva as- 173 At 2.32,33,36; 5.30,31; Rm 8.34; 1Co 15.20; Fp 2.9. 541
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sume sua real e verdadeira forma, bern como sua ilumina<;ao e inter- preta<;ao. Se ainda permanecer algu- ma duvida, ela sera totalmente eliminada pela batalha que os ap6stolos, ja em seus dias, tive- ram que travar. Nao foi somente no segundo, terceiro e quarto se- culos, mas tambem no periodo apost6lico certos homens surgi- ram que consideravam os fatos do Cristianismo como sendo de pou- ca ou de transit6ria importancia, e ate mesmo ignoravam esses fa- tos, afirmando que a ideia e a coi- sa principal, ou, pelo menos, e suficiente. Que diferen<;a faz, eles perguntavam, se Cristo ressusci- tou com corpo fisico ou nao? Se Ele vive, mesmo que seja somen- te em espirito, nossa salva<;ao esta suficientemente assegurada! Mas o ap6stolo Paulo pensa de forma muito diferente sobre isso e, em 1Corintios 15, apresenta a realida- de e a importancia da ressurrei- <;ao do modo mais claro possivel. Ele prega Cristo segundo as Escri- turas, o Cristo que, de acordo com o conselho do Pai, morreu, foi se- pultado, e ressuscitou, que depois de Sua ressurrei<;ao foi visto por muitos discipulos, e cuja ressur- rei<;ao e 0 fundamento e a garan- tia da salva<;ao. E, na medida do possivel, Joao coloca ainda mais 174 Jo 20.31; lfo 2.22; 4.15; 5.5. 175 Mt 1.1,18; 16.20; Me 1.1; Jo 1.17; 17.3. 342 enfase sobre esse fato ao declarar o que viu com seus olhos e apal- pou com suas maos com respeito ao Verbo da vida (1Jo 1.1-3). 0 principia do anticristo e que ele nega a encarna<;ao do Verbo; e a confissao crista, ao contrario, con- siste na cren<;a de que o Verbo se fez carne, que o Filho de Deus veio por meio de agua e sangue (Jo 1.14; 1Jo 3.2,3; 5.6). Toda a pre- ga<;ao apost6lica nas cartas e nos Evangelhos, portanto, todo o Novo Testamento prega que Jesus, nascido de Maria e crucificado, e o Cristo, o Filho de Deus174 • Agora merece aten<;ao o fato de que, em conexao com o con- teudo e o prop6sito da prega<;ao apost6lica, o uso do nome Jesus sem qualquer qualifica<;ao1 e raro nas cartas. Usualmente os ap6sto- los falam de Jesus Cristo ou de Cristo Jesus, ou ate mesmo o nos- so Senhor Jesus Cristo. Ate mes- mo os evangelistas, que em sua cronica usam frequentemente 0 nome Jesus! usam, seja no come<;o ou em algum ponto importante de seu Evangelho, o nome com- pleto Jesus Cristo. 175 • Eles fazem isso para indicar quem e a pessoa sobre a qual eles escrevem em seu Evangelho. Em Atos e nas car- tas esse uso se torna uma pratica regular. Os ap6stolos falam de urn ser humano cujo nome era Je-
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO sus, mas, ao acrescentar o termo Cristo ou Senhor eles expressam sua ideia sobre quem esse homem e. Eles foram pregadores do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus que apareceu sobre a ter- ra. Dessa forma eles gradual- mente, durante seu convfvio com Ele, aprenderam a conhece-lo. E especialmente depois desse im- portante momento em Cesareia de Filipe uma luz brilhou sobre eles a respeito da pessoa de Jesus, e todos eles, com Pedro, confessa- ram que Ele eo Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.16). Dessa for- ma Jesus se revelou a eles, mais ou menos oculto sob o nome Fi- lho do homem, mas de forma cada vez mais clara na medida em que o fim de Sua vida se aproximava. Em Sua ora<;ao sacerdotal Ele se apresenta como Jesus Cristo, en- viado pelo Pai (Jo 17.3). Precisa- mente porque Ele se dispos a ser o Cristo, o Filho de Deus, Ele foi condenado pelo Sinedrio por blasfemia e condenado a morte (Mt 26.63). E a epfgrafe sobre Sua cruz era: Jesus de Nazare, o Rei dos Judeus (Mt 27.37; Jo 19.19). Everdade que os disdpulos nao conseguiam conciliar essas reivindica<;6es messianicas de Je- sus com a aproxima<;ao de Sua paixao e morte. Mas atraves da ressurrei<;ao e depois dela, eles aprenderam a conhecer tambem a necessidade e o significado da 343 cruz. Depois da ressurrei<;ao eles aprenderam que Deus tinha feito esse Jesus, que os judeus destruf- ram, Senhor e Cristo, e que o ti- nha exaltado como Principe e Sal- vador (At 2.36; 5.31). Isso nao quer dizer que antes de Sua ressurrei- <;ao Cristo nao fosse Senhor e Cris- to, e que somente depois da res- surrei<;ao Ele se tornou Senhor e Cristo, pois Cristo tinha se apre- sentado como o Cristo antes dis- so, e tinha sido reconhecido e con- fessado como tal pelos Seus dis- dpulos (Mt 16.16). Mas antes da ressurrei<;ao Ele era o Messias na forma de servo, em uma forma que Sua dignidade como Filho de Deus estava escondida aos olhos dos homens. Na ressurrei<;ao e de- pois dela, Ele colocou de lado a forma de servo. Ele reassumiu a gloria que tinha com o Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5), e foi designado Filho de Deus em poder, segundo o Espfrito de san- tidade pela ressurrei<;ao dos mor- tos (Rm 1.4). Epor isso que Paulo pode dizer, depois que Deus se agra- dou em revelar Seu Filho a ele, que nao conhecia Cristo segundo a carne (2Co 5.16). Antes de seu arrependimento ele conhecia Cris- to somente segundo a carne, jul- gava-o somente por Sua aparen- cia externa, segundo a forma de servo de acordo com a qual Ele andava sobre a terra. Nessa epo- ca ele nao podia crer que esse Je-
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    _______Fu_n_d_amentos Teol6gicos _daFe Crista sus, que nao possuia qualquer gloria, que foi pregado numa cruz para que morresse, fosse o Cris- to. Mas atraves de sua conversao tudo isso mudou. Agora ele co- nhece e julga Cristo nao de acor- do com a aparencia, nao segundo formas servis, temporais e exter- nas, mas segundo o Espirito que estava em Cristo, de acordo com o que Ele era realmente interna- mente, e na ressurrei<;ao externa- mente provou ser. E o mesmo pode ser dito sobre todos os ap6stolos. E ver- dade que antes da paixao e morte de Cristo eles tinham sido trazi- dos a confissao de Sua realidade messianica, mas em sua mente essa realidade continuava sendo irreconciliavel com Sua paixao e morte. S6 a ressurrei<;ao reconci- liou esses dois lados da questao. Ele era agora para eles o mesmo Cristo que desceu as partes infe- riores da terra e ascendeu acima de todos OS ceus, para que pudes- se cumprir todas as coisas (Ef 4.9). Ao falar sobre Cristo os ap6stolos pensavam naquele Cristo que fora humilhado e exaltado, no Cristo crucificado e glorificado. Eles conectaram seu Evangelho nao somente com o Jesus hist6rico, que viveu alguns anos na Palesti- na e morreu ali, mas tambem ao Jesus que e exaltado e esta assen- tado a direita de Deus em poder. 176 Mt 8.2,6,21; 15.22; 17.15. 344 Eles estao no ponto em que se encontra a linha horizontal, que esta vinculada ao passado, a his-· t6ria, e a linha vertical, que faz a conexao entre eles e o Senhor que vive no ceu. Portanto, o Cristia- nismo e uma religiao hist6rica, mas ao mesmo tempo euma reli- giao que vive na eternidade. Os disdpulos de Cristo nao sao, se- gundo seu nome hist6rico, jesui- tas, mas, segundo o nome de Seu oficio, cristaos. * * * * * Essa posi<;ao especifica que os ap6stolos assumiram em sua prega<;ao depois da ressurrei<;ao ea razao pela qual eles nao se re- feriam a Jesus somente pelo Seu nome hist6rico, mas virtualmen- te falavam dele como Jesus Cris- to, Cristo Jesus, ou Senhor Jesus Cristo, e outras formas semelhan- tes. 0 nome de Cristo logo per- deu seu significado oficial no cir- culo dos discipulos e eles come- <;aram a usar urn outro nome. A convic<;ao de que Jesus era o Cristo era tao forte que Ele podia simplesmente ser chamado Cristo, mesmo sem o artigo que o precede. Isso ocorre ate mesmo nos Evangelhos176 • Mas com os ap6stolos, especialmente corrl Paulo, essa se torna a regra. Os dois nomes, Jesus Cristo, chegam
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    A NATUREZA 0IVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO --------------------- a ser invertidos, especialmente por Paulo, para que a realidade messianica de Cristo ficasse ain- da mais acentuada, eo nome pas- sou a ser Cristo Jesus. Essa desig- nac;ao, Jesus Cristo ou Cristo Je- sus, era o nome mais destacado nas igrejas apostolicas. 0 uso e significado do nome Messias no Velho Testamento e transferido para o nome Cristo no Novo Tes- tamento. 0 Nome do Senhor, ou somente o Nome era, no Velho Testamento, a denominac;:ao dada a gloria revelada de Deus. Nos dias do Novo Testamento essa gloria foi revelada em Cristo, e por isso agora a forc;a da Igreja esta em Seu nome. Nesse nome os apostolos batizam (At 2.38), falam e ensinam (At 4.18), curam o coxo (At 3.6), e perdoam pecados (At 10.43). Ha muita resistencia e muitos ataques a esse nome (At 26.9). A confissao desse nome traz sofrimento (At 5.41). Esse nome e temido (At 22.8) e engrandecido (At 19.17). Nesse sentido o nome de Jesus Cristo e urn tipo de com- pendio da confissao da Igreja, e a forc;a de sua fe e a ancora de sua esperanc;a. Assim como Israel nos tempos do Velho Testamento glo- rificava o nome de Jeova, assim a Igreja do Novo Testamento en- contra sua forc;a no nome de Jesus Cristo. Nesse nome o nome de 177 Mt 14.28,30; 26.22; 11.3; 21.15-17,21. Jeova encontra sua plena revela- c;ao. 0 nome Senhor, que no Novo Testamento e constante- mente conectado ao nome Jesus Cristo, aponta na mesma direc;ao. Nos Evangelhos Jesus e chamado de Senhor varias vezes e por vari- as pessoas alem de Seus disdpu- los, que vao ate Ele pedindo so- corro. Em tais casos o nome nao carrega sobre si mais forc;a do que Rabi ou Mestre. Mas esse nome tambem e mencionado varias ve- zes pelos disdpulos177 . Nos Evan- gelhos de Joao e de Lucas o nome Jesus Cristo efrequentemente tro- cado pelo nome Senhor178 • E, final- mente, o proprio Jesus faz uso desse nome e se apresenta como Senhor179 • Na boca do proprio Jesus e na de Seus disdpulos esse nome de Senhor recebe urn significado mais profundo do que aquele con- tido no nome Rabi ou Mestre. Nao podemos dizer exatamente o que todos aqueles que vao aprocura de Jesus para lhe pedir socorro tern em mente quando pronunci- am esse nome, mas Jesus era em Sua propria consciencia o Mestre, o Senhor preeminente, e Ele atri- bui uma autoridade a Si mesmo que vai muito alem da autorida- de dos escribas. Eevidente que em passagens como Mateus 23.1- 178 Lc 1.43; 2.11,38; 7.13,31; 10.1; 11.39; 17.6; Jo 4.1; 6.23; 11.2; 20.2,13,18,25,28. 179 Mt 7.21;12.8; 21.3; 22.43-45; Me 5.19; Jo 13.14. 545
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 11 e Marcos 1.22,27 Jesus se colo- ca como unico Mestre, acima de todos OS outros. Mas isso e desta- cado e colocado acima de qual- quer duvida quando Ele afirma ser o Senhor do sabado (MT 12.8) eo Filho de Davie Senhor de Davi (Mt 22.43-45). A implica<;ao des- sas afirma<;oes e que Ele e o Mes- sias, que esta assentado adireita do Pai, compartilha de Seu poder e julga os vivos e os mortos180 . Esse profunda significado que esta ligado ao nome Senhor e, em parte, devido ao fato de que os nomes de Jeova e Adonai do Velho Testamento foram traduzi- dos pelo termo grego Kurios, que significa Senhor, isto e, pela mes- ma palavra que era aplicada a Cristo. Como Cristo vai se reve- lando cada vez mais e os disdpu- los vao entendendo cada vez me- lhor a revela<;ao de Deus em Cris- to, o nome Senhor ganhou urn sig- nificado cada vez mais rico. Tex- tos do Velho Testamento nos quais Deus falou sao aplicados a Cristo no Novo Testamento sem hesita<;ao. Dessa forma em Mar- cos 1.3 os texto de Isaias: "Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas", e aplicado a pre- para<;ao feita por Joao Batista. Em Cristo o proprio Deus, o Senhor, veio ao Seu povo. E os disdpu- los, ao confessarem Jesus como 180 Mt 21.4,5; 13.35; 24.42 ss.; 25.34. 346 Senhor, expressam cada vez mais e mais claramente que Deus se revelou e se deu a eles na pessoa de Cristo. Tome atinge o climax dessa confissao durante a jorna- da de Jesus na terra quando se joga aos pes do Cristo ressuscita- do e lhe diz: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20.28). Depois da ressurrei<;ao o nome Senhor se torna o nome comumente usado para designar Jesus no drculo de Seus discfpu- los. N6s encontramos esse nome sendo continuamente usado em Atos e nas cartas, especialmente nas cartas de Paulo. Algumas ve- zes o nome Senhor e usado sozi- nho, mas usualmente ele e com- binado com outras designa<;6es: 0 Senhor Jesus, ou o Senhor Jesus Cristo, ou nosso Senhor Jesus Cristo, ou nosso Senhor e Salva- dor Jesus Cristo, e assim por di- ante. Ao usar esse nome os cren- tes expressam o fato de que Aque- le que foi humilhado ao ponto de morrer na cruz, foi, em razao de Sua perfeita obedH~ncia, elevado a Senhor e Principe (At 2.35; 5.31), esta assentado a mao direita de Deus (At 2.34), e Senhor sobre to- dos (At 10.36), primeiro sobre a Igreja que Ele comprou com Seu sangue (At 20.28), e tambem de toda a cria<;ao, que Ele urn dia jul- gara como Juiz de vivos e mortos (At 10.42; 17.31).
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO Portanto, todo aquele que invocar o nome de Jesus como Cristo e Senhor sera salvo (At 2.21; 1Co 1.2). Ser cristao e confessar com a boca e crer com o cora<;ao que Deus o ressuscitou dos mor- tos181. 0 conteudo da prega<;ao e: Cristo Jesus, o Senhor (2Co 4.5). A essencia do Cristianismo esta tao concentrada nessa confissao que nos escritos de Paulo e usado o nome de Senhor como urn nome aplicado a Cristo em distin<;ao ao Pai e ao Espirito. Como cristaos n6s temos urn Deus, o Pai, de quem sao todas as coisas, e urn Senhor Jesus Cristo, por quem sao todas as coisas, e urn Espirito, que distribui a cada urn conforme a Sua vontade (1Co 8.6; 12.11). As- sim como o nome de Deus nos escritos de Paulo se torna o nome domestico do Pai, da mesma for- ma o nome Senhor se torna o nome domestico de Cristo. A ben<;ao apost6lica diz que a Igreja deve ter a Gra<;a do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhao do Espirito Santo (2Co 13.13). 0 unico Deus se interpre- ta em tres pessoas: o Pai, o Filho e o Espirito (Mt 28.19). Se Cristo, de acordo com o 181 Rm 10.9; 1Co 12.3; Fp 2.11. 182 Mt 4.2; fo 11.35; 19.28. 183 Gl 4.4; Fp 2.8; Hb 5.8; 10.7,9. 547 testemunho dos ap6stolos, ocupa urn lugar tao elevado, nao e de se maravilhar que todos os tipos de atributos e obras divinas sejam atribuidos a Ele, e que ate mes- mo a natureza divina seja reco- nhecida nEle. A figura que n6s encontra- mos na pessoa de Cristo atraves das paginas das Escrituras e uma figura unica. Por urn lado Ele e homem. Ele se tornou carne e veio em carne (Jo 1.14; 1Jo 4.2,3). Ele nasceu em semelhan<;a de carne pecaminosa (Rm 8.3). Ele descen- de dos patriarcas, segundo a car- ne (Rm 9.5), da descendencia de Abraao (Gl3.16), da linhagem de Juda (Hb 7.14), e da gera<;ao de Davi (Rm 1.3). Ele nasceu de uma mulher (Gl 4.4), compartilha de nossa carne e sangue (Hb 2.14), possui urn espirito (Mt 27.50), uma alma (Mt 26.38), e urn corpo (1Pe 2.24), e era humano no senti- do mais plena. Como uma crian- <;a Ele cresceu, desenvolveu urn forte espirito, e aumentou em es- tatura, sabedoria e Gra<;a, diante de Deus e dos homens (Lc 2.52). Ele teve fome e sede, tristeza e alegria, foi movido por emo<;i5es e tornado de raiva182 . Ele se sub- meteu alei e foi obediente ate a morte183 • Ele sofreu, morreu na cruz e foi sepultado em urn jar-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista dim. Ele nao tinha aparencia nem formosura; olhamo-lo, mas ne- nhuma beleza havia que nos agra- dasse. Era desprezado eo mais re- jeitado entre todos os homens; homem de dores e que sabe o que e padecer (Is 53.2,3). Contudo esse mesmo ho- mem foi distinto de todos os ho- mens e elevou-se acima deles. Ele nao foi concebido pelo Espirito somente no que se refere a Sua natureza humana; Ele nao apenas foi isento, em toda a Sua vida, do pecado; e Ele, nao somente foi res- suscitado e elevado ao ceu. A mesma pessoa, o mesmo Eu que se humilhou tao profundamente, que assumiu a forma de servo e foi obediente ate a morte na cruz, ja existia em uma forma diferente de existencia, antes mesmo de Sua encarna<;ao e humilha<;ao. Ele existia na forma de Deus, e ape- sar disso nao teve por usurpa<;ao o ser igual a Deus (Fp 2.6). Em Sua ressurrei<;ao e ascensao Ele sim- plesmente recebeu novamente a gloria que tinha com o Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5). Ele e eterno como o proprio Deus, e estava com Ele no come<;o (Jo 1.1; 1Jo 1.1). Ele e o Alfa e o Omega, o primeiro eo ultimo, o prindpio eo fim (Ap 22.13). Ele e onipresente, apesar de ter anda- 184 Mt 28.20; Ef1.23; 4.10. 185 At 1.24; 7.59; 16.13; Rm10.13. 186 Mt 28.18; 1Co 15.27; Ef1.22; Ap 1.4; 19.16. 187 Is 43.3,11; 45.15; Jr 14.8; Os 13.4. 548 do sobre a face da terra (Jo 1.18; 3.13); e depois de Sua glorifica<;ao Ele permanece com a Igreja e cum- pre tudo em todos184 ; Ele e imu- tavel e fiel e e o mesmo ontem, hoje e o sera para sempre (Hb 13.8); Ele e onisciente e ouve nos- sas ora<;5es185 . Ele e aquele que conhece o cora<;ao do homem (At 1.24); Ele e onipotente, e todas as coisas estao sujeitas a Ele e todo poder lhe foi dado no ceu186 e na terra, e Ele e 0 chefe de todos OS re1s. Na medida em que possui os atributos divinos Cristo parti- cipa da realiza<;ao das obras divi- nas. Juntamente como Pai e com o Espirito Ele e o Criador de to- das as coisas (Jo 1.3; Cl 1.5). Ele e o Unigenito, o come<;o, eo Cabe- <;a de todas as criaturas (Cl 1.15; Ap 3.14). Ele sustenta todas as coisas pela palavra de Seu poder, de forma que elas nao sao apenas dEle, mas tambem nEle e atraves dEle (Hb 1.3; Cll.17). E, acima de tudo, Ele preserva, reconcilia e restaura todas as coisas e as reu- ne abaixo de Si mesmo, sendo- lhes por Cabe<;a. Como tal Ele re- cebe especialmente o nome de Salvador do mundo. No Velho Testamento o nome de Salvador ou Redentor era dado a Deus187 , mas no Novo Testamento tanto o
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO Filho quanto o Pai recebem esse nome. Em alguns lugares esse nome e dado a Deus188 , e em al- guns lugares ele e atribufdo a Cristo189 . Em alguns casos nao fica muito claro se esse nome se refe- re a Deus ou a Cristo (Tt 2.13; 2Pe 1.1), mas e em Cristo e atraves dEle que toda a obra salvadora e executada. Tudo isso aponta para uma unidade entre o Pai eo Filho, en- tre Deus e Cristo, tal como existe entre o Criador e Sua criatura. Embora Cristo tenha assumido uma natureza humana finita eli- mitada e que comec;ou a existir no tempo como pessoa, Cristo nao e apresentado na Escritura como estando do lado da criatura, mas do lado de Deus. Ele compartilha das virtudes e das obras de Deus; Ele possui a mesma natureza de Deus. Esse ultimo ponto e escla- recido especialmente atraves de tres nomes que sao dados a Cris- to: Imagem de Deus, Verbo e Fi- lho de Deus. Cristo e a Imagem de Deus, o brilho da gloria de Deus e a ex- pressao exata de Sua pessoa190 • Em Cristo o Deus invisfvel se tor- na visivel. Quem ve Cristo ve o Pai (Jo 14.9). Quem quiser saber quem e o que Deus e, deve con- templar Cristo. Como Cristo e, 188 1Tm 1.11; 2.3; Tt 1.3; 2.10. assim e o Pai. Cristo e o Verbo de Deus (Jo 1.1; Ap 19.13). Em Cristo o Pai expressa perfeitamente: Sua sabedoria, Sua vontade, Suas ex- celencias, enfim, todo o Seu Ser. 0 Pai concedeu a Cristo ter vida em Si mesmo (Jo 5.26). Quem qui- ser conhecer o pensamento de Deus, o conselho de Deus e a von- tade de Deus para o homem e para o mundo deve ouvir o que Cristo tern a dizer (Mt 17.5). Final- mente, Cristo e o Filho de Deus, o Filho, como diz Joao, geralmente sem qualquer qualificac;ao (1Jo 2.22; Hb 1.1,8), o Unigenito, o Fi- lho amado, em quem o Pai se compraz191 . Quem quer que seja urn filho de Deus, deve aceita-lo, pois todo aquele que o aceita re- cebe o poder de ser feito filho de Deus (Jo 1.12). Tome confessou-o como Se- nhor e Deus pouco tempo antes de Sua ascensao (Jo 20.28). Joao da testemunho de que Cristo era o Verbo que estava com Deus no principia e que era Deus. Paulo declara que Cristo descende dos patriarcas, segundo a carne, mas segundo Sua essencia Ele e Deus, o qual e sobre todos, Deus bendi- to para sempre (Rm 9.5). A carta aos Hebreus afirma que ele e exal- tado acima dos anjos e e pelo pro- prio Deus chamado de Deus (Hb 189 2Tm 1.10; Tt 1.4; 2.13; 3.6; 2Pe 1.11; 2.20; 3.18. 190 2Co 4.4; C/1.15; Hb 1.3. 191 Mt 3.17; 17.5; Jo 1.14; Rm 8.32; Ef1.6; C/1..13. 349
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 1.8,9). Paulo fala de Jesus como nosso Deus e Salvador Jesus Cris- to (2Pe 1.1). No mandata batismal de Jesus como registrado em Mateus 28.19 e nas ben<;aos dos ap6stolos192 , Cristo esti em pe de igualdade com o Pai e com o Es- pirito. 0 nome e a essencia, os atri- butos e as obras de Deus sao re- conhecidos no Filho (e no Espiri- to) tanto quanto no Pai. Jesus, o Cristo, o Filho do Deus vivo - sobre essa pedra a Igreja esta edificada. Desde o principia o completo significado de Cristo estava claro para os crentes. Ele era confessado por todos eles como o Senhor que por Seu ensino e por Sua vida con- quistou a salva<;ao, o perdao de pecados e a imortalidade, que foi elevado amao direita do Pai e que logo retornara como Juiz para jul- gar os vivos e os mortos. Os mes- mos nomes que lhe sao dados nas cartas dos ap6stolos, sao encon- trados tambem nos mais antigos escritos cristaos. Por esses mes- mos nomes Ele e identificado nas antigas ora<;6es e canticos. Todos estavam convencidos de que ha urn Deus, de que eles sao Seus fi- lhos, urn Senhor, que lhes assegu- rou o amor do Pai e urn Espirito, que faz com que todos eles andem em novidade de vida. 0 manda- ta batismal de Mateus 28.19, que se tornou comum no final dope- 192 2Co 13.13; 1Pe 1.2; Ap 1.4-6. 550 riodo apost6lico, e a evidencia dessa unanimidade de convio;ao. Mas no momenta em que os cristaos come<;am a refletir sobre o conteudo dessa confissao, todos os tipos de diferen<;a de opiniao come<;am a surgir. Os membros da igreja que foram previamente instruidos no judaismo ou no pa- ganismo e que passaram a maior parte de suas vidas entre os indoutos do pais nao estavam em uma posi<;ao adequada para rece- ber o ensino apost6lico. Eles vi- viam em uma sociedade na qual todos os tipos de ideias e corren- tes de pensamento estavam entrela<;adas, e por isso eles esta- vam constantemente sujeitos a tenta<;ao e ao erro. Ate mesmo durante a vida dos ap6stolos va- rios mestres hereticos for<;aram caminho rumo aIgreja e tentaram abalar sua cren<;a. Em Colossos, por exemplo, havia membros que faziam injusti<;a apessoa e obra de Cristo e transformavam o Evangelho em lei (Cl 2.3 ss., 16 ss.). Em Corinto havia certos libertinos que, abusando da li- berdade crista, queriam viver sem qualquer tipo de regra (1Co 6.12; 8.1). 0 ap6stolo Joao, em sua pri- meira carta, argumenta contra certos falsos profetas que nega- vam a vinda de Cristo em carne e assim faziam violencia contra a genuinidade de Sua natureza hu-
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    A NATUREZA DrvrNAE A NATUREZA HuMANA DE CmsTo mana (1Jo 2.18 ss.; 4.1 ss.; 5.5 ss.). 0 mesmo aconteceu no pe- rfodo p6s-apost6lico. Os erros e as heresias cresceram em varieda- de, forc;a, e distribuic;ao a partir do segundo seculo. Havia aqueles que criam na real natureza huma- na de Cristo, em Seu nascimento sobrenatural, em Sua ressurreic;ao e ascensao, mas nada reconheci- am de divino nEle, a nao ser uma dose extremamente grande de dons e poderes do Espfrito, que teriam sido dados a Ele por oca- siao de Seu batismo para equipa- lo para o total cumprimento de Sua missao religiosa e moral. Os seguidores desse movimento vi- viam sob a influencia da ideia ju- daica e defsta sobre o relaciona- mento entre Deus eo mundo. Eles simplesmente nao podiam conce- ber urn relacionamento mais fnti- mo entre Deus e o homem do que aquele que consiste de uma dis- tribuic;ao de dons e habilidades. Eles criam que Jesus era uma pes- soa que tinha recebido maravilho- sos dons espirituais, ,;_::-[ genio religioso, mas que continuava sen- do somente urn homem. Mas outros, de origem paga, foram atrafdos pela ideia politefsta. Eles pensavam que Cristo, de acordo com sua natu- reza interna, deveria ser apenas urn dentre muitos, ou talvez ate fosse o mais elevado de todos os seres divinos. Contudo, eles nao conseguiam crer que urn Ser pu- 551 ramente divino pudesse ter assu- mido uma natureza material e car- nal. E dessa forma eles sacrifica- vam a real natureza humana de Cristo e diziam que Ele viveu so- bre a terra apenas temporaria e aparentemente, como aconteceu com os anjos no Velho Testamen- to. Essas duas correntes de pen- samento, esses dois movimentos, continuam vivos em nossos dias. Em urn momento a divindade de Cristo e sacrificada em beneficia de Sua humanidade; em outro momento a Sua humanidade que e sacrificada em beneficia de Sua divindade. Sempre ha extremos que sacrificam a ideia em favor do fato, e o fato em favor da ideia. Eles nao compreendem a unida- de e a harmonia dos dois. * * * * * Mas a Igreja crista, desde o prindpio, se firmou em bases di- ferentes das que foram apresen- tadas pelos falsos mestres e na pessoa de Cristo confessou a mais intima, mais profunda e, portan- to, a unica comunhao entre Deus e o homem. Suas representac;oes no primeiro periodo as vezes se expressavam de forma urn tanto desajeitada. Eles tinham que lu- tar, primeiro para formar uma no- c;ao clara da realidade, e depois para dar expressao a essa ideia em uma linguagem clara. A Igreja evitou os extremos e aderiu ao en-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista sino dos apostolos com respeito apessoa de Cristo. Contudo, quando uma so pessoa possui a natureza huma- na e a natureza divina, segue-se que urn esfon;;o deve ser feito para que se possa entender como essa pessoa est<i relacionada ao mes- mo tempo com Deus e com o mundo, e quando esse esforc;o foi feito, uma linha de erro e de here- sia se definiu tanto para a esquer- da quanto para a direita. Em outras palavras, quando a unidade de Deus - que e a ver- dade fundamental do Cristianis- mo - foi entendida de tal forma que o Ser de Deus foi perfeita- mente coincidente com a pessoa do Pai, nao houve mais lugar para a divindade de Cristo. Cris- to entao foi empurrado para fora da divindade e colocado lado a lado com o homem, pois entre Criador e criatura nao ha transi- c;ao gradual. Nesse caso podia-se dizer, com Ario, que no tempo Cristo transcendeu todo o mundo, que Ele foi a primeira de todas as criaturas, e que Ele era superior a todas elas em posic;ao e em hon- ra. Mas Cristo continuaria sendo uma criatura. Houve urn tempo em que Ele nao existiu e houve urn tempo em que Ele, assim como qualquer outra criatura, foi trazido aexistencia por Deus. Na tentativa de manter a unidade de Deus e ao mesmo tempo manter a pessoa de Cristo 552 no lugar de honra que lhe e pro- prio, e facil cair em outro erro, o erro que passou a ser chamado pelo nome de seu proponente, a saber, Sabelio. Enquanto Ario identificou o Ser de Deus com a pessoa do Pai, Sabelio sacrificou todas as tres pessoas da Divinda- de. De acordo com seu ensino, as tres pessoas, Pai, Filho e Espirito, nao sao realidades eternas conti- das no Ser de Deus, mas sao for- mas e manifestac;oes nas quais o unico Ser divino se manifesta su- cessivamente no curso dos secu- los, ou seja, no Velho Testamen- to, no ministerio terreno de Cris- to e depois do Pentecostes. Ambas as heresias atravessaram os seculos e encontraram muitos adeptos. Os assim chamados teo- logos de Groningen, por exemplo, renovaram essencialmente a dou- trina de Ario, e a Moderna Teolo- gia anda nos passos de Sabelio. Enecessaria muita orac;ao e muita luta para que a Igreja tome o caminho certo entre todas essas heresias, principalmente porque cada uma delas foi modificada e mesclada com todos os tipos de variac;oes. Mas sob a lideranc;a de grandes homens, eminentes por sua razao, por sua piedade e por sua forc;a de pensamento, e, por- tanto, justamente chamados de pais da igreja, a Igreja continuou fiel ao ensino dos apostolos. No Sinodo de Niceia, em 325, a Igreja confessou sua fe no unico Deus,
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO o Pai, o Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas visiveis e invi- siveis e no unico Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado pelo Pai como Seu Filho Unigenito, isto e, gerado, e nao feito, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, sendo de urna s6 substan- cia corn o Pai, por quem todas as coisas no ceu e na terra forarn fei- tas, e no Espirito Santo. Por rnais irnportante que essa confissao de Niceia tenha sido, ela nao colocou urn ponto final nas disputas teol6gicas. Pelo contrario, a confissao de Niceia deu oportunidade para o surgirnento de novas questoes e de diferentes respostas. Apesar do relacionarnento de Cristo corn o Ser de Deus e corn o rnundo dos hornens ter sido deterrninado no sentido de que ern Sua pessoa Ele cornpartilha tanto de urn quanto de outro, e que Ele e ern urna s6 pessoa tanto Deus quanto ho- rnern, ainda nao tinha sido expli- cado como e a natureza do relaci- onarnento entre essas duas natu- rezas ern urna s6 pessoa. Nares- posta a essa questao varios carni- nhos forarn tornados. Nest6rio concluiu que, se ha duas naturezas ern Cristo, tern que haver tarnbern duas pessoas, dois seres, que possarn ser unidos ern urn s6 ser por algurn tipo de vinculo moral, como o que se ob- tern no casarnento de urn hornern 353 e de urna rnulher. E Eutico, par- tindo de urna identifica<;ao entre a pessoa e a natureza, chegou a conclusao de que, se ern Cristo ha sornente urna pessoa, entao as duas naturezas devern estar de tal forma entrela<;adas que urna s6 natureza divino-hurnana ernergi- ria dessa uniao. Ern Nest6rio, a distin<;ao das naturezas foi rnantida ern detrirnento da unida- de da pessoa; ern Eutico, a unida- de da pessoa foi rnantida ern de- trirnento da dualidade das natu- rezas. Depois de urna longa e acir- rada disputa, contudo, a Igreja superou esses conflitos. No Con- cilio de Calcedonia, ern 451, foi afirrnado que a pessoa unica de Cristo consistia de duas nature- zas, que nao podern ser alteradas nern rnisturadas (contra Eutico), e nern separadas ou divididas (contra Nest6rio) e que essas na- turezas existern urna ao lado da outra, sendo unidas ern urna s6 pessoa. Corn essa decisao que, rnais tarde, no Sinodo de Cons- tantinopla ern 680, foi arnpliada e cornpletada sobre urn unico pon- to, urna disputa secular sobre a pessoa de Cristo chegou ao firn. Nessas disputas a Igreja preser- vou a essencia do CristianisrnoI 0 carater absoluto da religiao crista e sua propria independencia. *****
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Logicamente essas decisoes de Niceia e Calcedonia nao sao infaliveis. Os termos de que a Igreja e a teologia fazem uso, tais como pessoa, natureza, unidade e substancia e outros semelhantes nao sao encontrados na Escritura, sao produto da reflexao que o Cristianismo gradualmente tern dedicado ao misterio da salva<;ao. A Igreja foi impelida a essa refle- xao pelas heresias que surgiam de todos os lados, tanto dentro da Igreja quanto fora dela. Todas es- sas expressoes e afirma<;oes que sao empregadas na confissao da Igreja e na linguagem da teologia nao sao designadas para explicar o misterio que se propoem a en- frentar, mas para manter pura e invioliivel a confissao crista con- tra todos aqueles que procuram enfraquece-la ou nega-la. A encarna<;ao do Verbo nao e urn problema que n6s devamos resol- ver1 mas urn fato maravilhoso que n6s agradecidamente confessa- mos, exatamente da forma que Deus no-lo apresenta em Sua Pa- lavra. Entendida dessa forma a confissao que a Igreja estabeleceu em Niceia e Calcedonia e de gran- de valor. Tern havido muitos, e havera muitos outros, que despre- zam a doutrina das duas nature- zas e tentam substitui-la por ou- tras palavras e frases. Que diferen- <;a faz, dizem eles, se n6s concor- damos ou nao com essa doutrina? 554 0 que importa e que n6s possuf- mos a pessoa de Cristo e Ele e exaltado acima dessa confissao desajeitada. Mas logo essas pes- soas come<;am a introduzir pala- vras e termos para descrever a pessoa de Cristo que elas aceitam. Ninguem pode escapar dessa si- tua<;ao, pois n6s nao podemos afirmar possuir aquilo que nao conhecemos. Se n6s cremos que temos o Cristo, que temos comu- nhao com Ele, que somos propri- edade dEle, tal cren<;a deve ser confessada com a boca e expressa em palavras, termos, expressoes e descri<;oes de urn tipo ou outro. E a hist6ria tern nos mostrado que os termos usados por aqueles que depreciam a doutrina das duas naturezas sao bern mais pobres em merito e em for<;a, e que, alem disso, geralmente deixam de fa- zer justi<;a a encarna<;ao como a Escritura nos ensina. Nos tempos modernosr por exemplo, ha muitos que pensam na doutrina das duas naturezas como sendo absolutamente des- provida de racionalidade er em sua mente, formulam urn quadro muito diferente da pessoa de Cris- to. Eles nao podem negar que ha algo em Cristo que o diferencia de todos os outros homens e coloca- o acima de todos eles. Mas esse elemento divino que eles reconhe- cem em Cristo nao e visto como uma participa<;ao na natureza di- vina, mas como uma capacita<;ao
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO ou uma for<;a concedida a Cristo em urn grau particularmente alto. Eles dizem que ha dois lados em Cristo1 a saber1 um lado divino e urn lado humano; ou que Ele pode ser visto de dois pontos de vista diferentes; ou que Ele viveu em dois estados sucessivos, o de humilha<;ao e o de exalta<;ao; ou que Ele, apesar de ser humano, por Sua prega<;ao da Palavra de Deus e pelo estabelecimento de Seu reino, foi o extraordinario e perfeito veiculo da revela<;ao de Deus e assim Ele obteve para n6s o favor de Deus. Mas qualquer leitor imparcial percebera que es- sas representa<;6es nao sao sim- plesmente algumas modifica<;6es na linguagem da Igreja, mas uma mudan<;a da confissao que a Igre- ja em todos os tempos tern feito com base no testemunho dos ap6stolos. Alem disso, dons e poderes divinos sao, em certa medida, dados a todas as pessoas, pois todo bern e toda dadiva perfeita vem do Pai das luzes. E ate mes- mo os dons menos comuns, como os que foram concedidos aos pro- fetas, por exemplo, nao colocam esses profetas acima do plano dos seres humanos. Os profetas e os ap6stolos foram homens sujeitos as mesmas paixoes que n6s. Se Cristo simplesmente recebeu dons e poderes extraordinarios, Ele continua sendo urn ser huma- no, e, portanto, nao pode ser algo 355 como uma encarna<;ao do Verbo. Dessa forma Ele nao pode, em vir- tude de Sua ressurrei<;ao e ascen- sao1 ser elevado ao mesmo nivel de Deus, nem pode obter o meri- to de Deus por n6s. A separa<;ao entre Deus e o homem nao e uma diferen<;a gradual, mas urn pro- funda abismo. Euma rela<;ao en- tre Criador e criatura, e a criatura, pela natureza de seu ser, nunca se tornara o Criador, nem tera para n6s, seres humanos, merito do Criador, de quem somos total- mente dependentes. Enotavel que nos tempos modernos, depois deter compa- rado todas essas novas represen- ta<;6es referentes a pessoa de Cris- to com o ensino da Igreja e da Es- critura, muitas pessoas honestas tern chegado a conclusao de que, em ultima analise, a doutrina da Igreja faz muito mais justi<;a a doutrina da Escritura. 0 ensino de que Cristo e Deus e homem em uma s6 pessoa nao e urn produto da filosofia paga, mas urn ensino baseado no testemunho apost6li- co. Esse certamente e o misterio da salva<;ao, que Aquele que es- tava no principia com Deus e que era Deus (Jo 1.1), que subsistia em forma de Deus mas nao teve por usurpa<;ao o ser igual a Deus (Fp 2.6), que era o brilho da gloria de Deus e a expressao exata de Seu Ser (Hb 1.3), na plenitude do tem- po se fez carne (Jo 1,14), nasceu de
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista uma mulher (Gl4.4), esvaziou-se, assumindo a forma de servo, e se tornou em semelhan<;a de homem (Fp 2.7). * * * * * Cristo era Deus, e Deus e para sempre continuara sendo Deus. Ele nao era o Pai nem o Es- pirito, mas era o Filho, o unigenito e amado Filho do Pai. E nao foi o Ser divino, nem o Pai, nem o Espirito que se tornou ho- mem na plenitude do tempo, mas o Filho. E quando Ele se tornou homem e como homem viveu na terra, ate mesmo quando agoniza- va no Getsemani e era pregado na cruz Ele continuava sendo o Filho Unigenito de Deus, em quem o Pai se compraz. Everdade que, como diz o ap6stolo Paulo, Cris- to, subsistindo em forma de Deus, nao teve por usurpa<;ao o ser igual a Deus (Fp 2.6,7), mas e urn erro pensar que Cristo, em Sua encarna<;ao, no estado de humi- lha<;ao, tenha sido privado com- pleta ou parcialmente de Sua di- vindade, tenha colocado de lado Seus atributos divinos e, em Seu estado de exalta<;ao, tenha reassumido gradualmente tanto Sua divindade quanto Seus atri- butos divinos. Como isso pode- ria ter acontecido se Deus nao pode negar a Si mesmo (2Tm 2.13)? E como o Imutavel muda- ria Seu Ser? Ate mesmo quando 556 Ele se tornou o que nao era, Ele continuou sendo o que era, a sa- ber, o Filho Unigenito do Pai. N6s podemos expressar a encarna<;ao de Cristo humana e simplesmen- te da seguinte forma: antes de Sua encarna<;ao Cristo era igual ao Pai nao somente em essencia e atribu- tos, mas tambem em Sua forma. Ele era semelhante a Deus, era o brilho de Sua gloria e a expressao exata de Sua pessoa. Qualquer pessoa que tivesse sido capaz de ve-lo, imediatamente reconhece- ria Deus. Mas isso mudou na encarna<;ao. Em Sua encarna<;ao Cristo assumiu a forma de urn ser humano, a forma de servo. Qual- quer pessoa que olhasse para ele nao poderia reconhecer o unigenito Filho de Deus, a nao ser pela fe. Ele abriu mao de Sua for- mae brilho divinos. Ele escondeu Sua natureza divina atras de Sua forma de servo. Na terra Ele era urn de n6s e se parecia conosco. A encarna<;ao implica, em segundo lugar, que Aquele que continuou sendo o que era pas- sou a ser o que nao era. Ele se tor- nou o que nao era no momento exato da hist6ria em que o Espiri- to Santo veio sobre Maria eo po- der do Altfssimo a envolveu (Lc 1.35). Mas ao mesmo tempo essa encarna<;ao foi preparada duran- te seculos. Se n6s quisermos entender corretamente a encarna<;ao, n6s podemos dizer que a gera<;ao do
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    A NATUREZA DIVINAEANATUREZAHUMANA DE CRISTO Filho e a cria<;ao do mundo foram uma prepara<;ao para a encarna- <;ao do Verbo. Nao e suficiente dizer que a gera<;ao e a cria<;ao ja continham a encarna<;ao, pois a Escritura sempre relaciona a encarna<;ao do Filho areden<;ao do pecado e ao cumprimento da sal- va<;ao193. Mas a gera<;ao e a cria- <;ao, especialmente a cria<;ao do homem a imagem de Deus, nos ensinam que Deus e comunicavel, tanto em urn sentido absoluto en- tre as pessoas da Trindade, quan- to em urn sentido relativo, fora do Ser de Deus. Se esse nao fosse o caso nao haveria qualquer possi- bilidade de uma encarna<;ao de Deus. Quem quer que pense que a encarna<;ao seja impossivel, em principio, tambem nega a cri- a<;ao do mundo e a gera<;ao do Filho. E quem quer que aceite a cria<;ao e a gera<;ao nao pode ter qualquer obje<;ao, em principio, a encarna<;ao de Deus na natureza humana. Mais diretamente a encar- na<;ao do Verbo foi preparada pela revelac;ao que comec;ou logo depois da queda, continuou na historia de Israel e alcan<;ou seu climax na ben<;ao de Maria. 0 Ve- lho Testamento e uma constante aproximac;ao de Deus ao homem com vistas a, na plenitude do tempo, fazer nele uma morada perpetua. 193 Mt 1.21; Jo 3.16; Rm 8.3; Gl4.4,5. 357 Como o Filho de Deus, que atraves de Maria assumiu a natu- reza humana, existia antes do tem- po e desde a eternidade, Sua con- cep<;ao no ventre de Maria nao aconteceu atraves da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas pelo envolvimento do Espi- rito Santo. E verdade que a encarna<;ao esta relacionada com toda a revela<;ao anterior e e o seu complemento, mas ela nao e urn produto da natureza, nem da hu- manidade. Ela e uma obra de Deus, uma revela<;ao, a mais ele- vada revela<;ao. Assim como foi o Pai que enviou o Filho ao mundo e o Espirito Santo envolveu Ma- ria, o Filho voluntariamente assu- miu nossa carne e sangue (Hb 2.14). A encarna<;ao foi uma obra do Filho. Ele nao foi passivo nela. Pelo contrario, Ele se fez carne por Sua propria vontade e por Seu proprio ato. Dessa forma Ele eli- mina a vontade da carne e a von- tade do homem e prepara uma natureza humana para Si, no ven- tre de Maria, atraves do envolvimento do Espirito Santo. Essa natureza humana nao existia. Ela nao foi trazida do ceu e colocada em Maria de fora para dentro. Os anabatistas ensinam isso para defender a natureza nao pecaminosa de Cristo, mas agin- do assim eles estao seguindo o antigo gnosticismo, ao partir da
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ideia de que a carne e a materia sao pecaminosas em si mesmas. Mas tambern na encarna<;ao a Es- critura sustenta a bondade da cri- a<;ao e a origem divina da mate- na. Cristo assumiu Sua nature- za humana em Maria194 • Com rela- <;ao a carne, Cristo descende de Davi e dos patriarcas195 • Portanto Sua natureza e uma natureza ver- dadeira e perfeitamente humana, semelhante anossa natureza em todas as coisas, exceto no que diz respeito ao pecado196 • Nada que fosse humano era estranho a Cris- to. A nega<;ao de que Cristo veio em carne e 0 principia do anticristo (1Jo 2.22). Assim como a natureza hu- mana de Cristo nao existia antes de Sua concep<;ao em Maria, as- sim tambem ela nao existiu sepa- rada de Cristo depois de Seu nas- cimento. Maria concebeu e deu a luz urn filho, mas esse filho nao cresceu como urn homem para que posteriormente fosse assumi- do por Cristo e unido a Ele. Essa heresia tambem foi elaborada ha muito tempo, mas a Escritura nada sabe sobre ela. 0 filho santo que foi gerado em Maria era, des- de o principia, o Filho de Deus, e desde o principia recebeu esse nome (Lc 1.35). 0 Verbo nao se uniu a urn ser humano. 0 Verbo 194 Mt 1.20; Lc 2.7; Gl 4.4. 195 At 2.30; Rm 1.3; 9.5. 196 Hb 2.14,17; 4.15. 358 sefez carne (Jo 1.14). E, portanto, a Igreja crista em sua confissao nao diz que o Filho assumiu uma pes- soa humana, mas uma natureza humana. Somente dessa forma a dualidade das naturezas e a uni- dade da pessoa pode ser mantida. Pois- esse eo terceiro pon- to que merece nossa aten<;ao so- bre esse assunto - embora a Es- critura afirme que seja possivel que Cristo fosse o Verbo e tenha se tornado carne, que segundo a carne Ele descende dos patriarcas e segundo Sua essencia Ele e Deus acima de todos, bendito para sem- pre, esse Cristo e sempre uma pes- soa. Esempre o mesmo ser que fala e age em Cristo. 0 menino que nasceu recebeu o nome de Deus Forte e Pai da Eternidade (Is 9.6). 0 filho de Davi e ao mesmo tem- po o Senhor de Davi. Aquele que desceu e o mesmo que subiu aci- ma de todos OS ceus (Ef 4.10). Aquele que segundo a carne des- cende dos patriarcas e o mesmo que, segundo Sua essencia, e Deus sobre todos, bendito para sempre (Rm 9.5). Apesar de ter vivido na terra Ele continuava no ceu, no seio do Pai (Jo 1.18; 3.13). Embora tenha nascido e vivido no tempo, Ele existia antes de Abraao (Jo 8.58). A plenitude da divinda- de habita corporalmente nEle (Cl 2.9).
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO Em resumo, na mesma pes- soa ha atributos e obras divinos e humanos, eternidade e tempo, onipresenc;a e limitac;ao, onipoten- cia criadora e fraqueza propria da criatura. No entanto a uniao des- sas duas naturezas em Cristo nao corresponde auniao de duas pes- soas. Duas pessoas podem, pelo amor, ficar muito intimamente li- gadas uma a outra, mas nunca poderao tornar-se uma so pessoa, urn so ser. 0 amor une duas pes- soas somente em urn sentido mis- tico e etico. Se a uniao do Filho de Deus com a natureza humana tivesse esse carater ela poderia ser distinta em grau, mas nao em qualidade, daquela que existe entre Deus e todas as Suas criatu- ras, especificamente com Seus fi- lhos. Mas Cristo ocupa uma posi- c;ao unica. Ele nao se uniu ao ho- mem em urn sentido moral e nao absorveu a vida de urn ser huma- no, mas preparou uma natureza humana para si mesmo no ventre de Maria e se tornou urn ser huma- no e urn servo. Assim como urn ser humano pode ir de urn esta- do de vida para outro e pode vi- ver ao mesmo tempo ou sucessi- vamente em duas esferas de vida, assim, por analogia, Cristo, que existia na forma de Deus, veio a terra e assumiu a forma de servo. A uniao que foi realizada em Sua encarnac;ao nao foi uma uniao moral entre duas pessoas, mas a uniao de duas naturezas em uma 359 so pessoa. Nao importa o quanto homem e mulher possam unir-se atraves do amor, eles continuam sendo duas pessoas distintas. Deus e o homem, embora unidos pelo mais intimo amor, continu- am sendo essencialmente diferen- tes. Mas em Cristo o homem e urn so com o Verbo que estava no prindpio com Deus e que era Deus. Essa e uma unica, incom- panivel e incompreensivel uniao de Deus como homem. E o come- c;o e o fim de toda sabedoria e esse: "E o Verbo se fez carne e habitou entre nos, cheio de Grac;a e de ver- dade, e vimos a Sua gloria, gloria como do unigenito do Pai" (Jo 1.14). Nessa uniao Cristo controla todos os atributos e poderes que sao proprios de ambas as nature- zas. Alguns tern tentado demons- trar uma uniao ainda mais forte e mais proxima das duas naturezas ensinando que essas naturezas, no momento exato da encarnac;ao, foram soldadas, formando uma natureza divino-humana, ou que a natureza divina se privou de suas caracteristicas e condescen- deu a limitac;ao da natureza humana, ou que a natureza hu-- mana perdeu suas propriedades e recebeu as propriedades da na- tureza divina (seja todas elas ou somente algumas delas, como onipresenc;a, onipotencia e onis- ciencia). Mas a confissao Reforma- da sempre repudiou e atacou esse
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tipo de uniao das duas naturezas de que esta em Cristo. Essa fusao e a comunicac;ao das proprieda- diminui tanto a natureza divina des de uma aoutra. 0 resultado quanto a natureza humana, enfra- desse ensino e a mesclagem e a quecendo a palavra da Escritura confusao das duas naturezas e que diz que nEle, isto e, em Cris- uma conseqiiente negac;ao to, habita corporalmente a pleni- panteista da diferenc;a em essen- tude da divindade (Cl 2.9; 1.9). cias entre Deus eo homem, entre Essa plenitude s6 e mantida se o Criador e a criatura. ambas as naturezas conservarem De fato, ha urn intimo rela- suas propriedades, mantendo-se cionamento entre essas duas na- distintas uma da outra, nao comu- turezas e entre suas propriedades nicando suas propriedades e atri- e poderes. Mas esse relaciona- butos uma aoutra, mas colocan- mento vern aexistencia na unida- do-as a servic;o de uma pessoa. de da pessoa. Uma uniao mais Dessa forma e sempre o mesmo forte, mais profunda e mais inti- Cristo que em Sua humilhac;ao e rna e inconcebivel. Assim como- em Sua exaltac;ao comanda as pro- fazendo uma comparac;ao, e nao priedades e poderes de ambas as igualando as duas- alma e corpo naturezas e que precisamente por estao unidos em uma pessoa e isso pode realizar as obras do permanecem sendo distintos urn Mediador, que por urn lado sao do outro em essencia e em pro- diferentes das obras de Deus e, priedades, assim tambem em por outro lado, sao diferentes das Cristo a mesma pessoa eo sujeito obras do homem e que assumem de ambas as naturezas. A diferen- urn lugar unico na hist6ria do c;a entre alma e corpo e a condi- mundo. c;ao de interna uniao dos dois em Nessa doutrina das duas urn s6 ser humano, e da mesma naturezas tudo o que a Escritura forma a diferenc;a entre a nature- diz sobre a pessoa de Cristo e tudo za divina e a natureza humana e o que ela atribui a Ele esta em a condic;ao e a base de sua uniao perfeita harmonia. Por urn lado com Cristo. A mesclagem das Ele eo eterno Filho de Deus, que duas naturezas em uma e a cornu- com o Pai e o Espirito fez todas nicac;ao das propriedades de uma as coisas, sustenta-as e governa- aoutra nao estabelecem urn rela- as197 e que, portanto, e 0 objeto de cionamento mais intimo, mas fa- nosso culto. Ele ja era o objeto de zem uma fusao dessas duas na- culto no tempo dos ap6stolos198 , turezas, empobrecendo a plenitu- e tanto naquela epoca quanto ago- --------------------------------------~---- 197 jo 1.3; C/1.15,16; Hb 1.2. 198 Jo 14.13; At 7.59; 9.13; 22.16; Rm 10.12)3. Fp 2.9; Hb 1.6. 560
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    A NATUREZA DIVINAE A NATUREZA HUMANA DE CRISTO ra, Ele e o objeto de fe e de confi- anc;a de todos os Seus disdpu- los199. Mas Ele nao pode ser ambas essas coisas a menos que seja ver- dadeiro Deus, pois esta escrito: "Ao Senhor, teu Deus, adoraras, e s6 a Ele daras culto" (Mt 4.10). A base para o culto religioso de Cristo s6 pode ser Sua natureza divina, e quem quer que negue essa natureza e mantenha o culto a Ele torna-se culpado de deificac;ao da criatura e de idola- tria. A divindade de Cristo nao e uma doutrina abstrata, mas uma doutrina da mais alta importan- cia para a vida da Igreja. Por outro lado Cristo tor- nou-se homem e verdadeiramen- te homem, semelhante a n6s em todas as coisas, exceto no pecado. Ele foi urn bebe, uma crianc;a, urn jovem e urn adulto, e cresceu em sabedoria e Grac;a diante de Deus e dos homens (Lc 2.52). Tudo isso nao foi apenas uma ilusao ou uma aparencia, como dizem aqueles que afirmam que as propriedades divinas pertencem anatureza hu- mana, mas foi perfeitamente real. Houve em Cristo urn desenvolvi- mento gradual, urn progressivo desenvolvimento no corpo, na alma e em Grac;a diante de Deus e dos homens. Os dons do Espfri- to nao lhe foram dados de uma s6 vez, mas de forma sucessiva e em medida cada vez maior. Houve coisas que Ele teve que aprender, e que Ele nao sabia (Me 13.32; At 1.7). Embora Ele nao fosse capaz de pecar, estava presente nEle, devido afraqueza da natureza hu- mana, a possibilidade de ser ten- tado, sofrer e morrer. Durante todo o tempo em que esteve na terra Ele nao estava segundo sua natureza humana no ceu, e par- tanto Ele nao viveu pelo que via, mas por fe. Ele lutou e sofreu, e em tudo isso Ele apegou-se fir- memente aPalavra e apromessa de Deus. Dessa forma Ele apren- deu a obediencia em todas as coi- sas que sofreu, continuamente fir- mou-se na obediencia e se santi- ficou200. E ao mesmo tempo Ele nos deixou o exemplo e tornou- se o autor da salvac;ao eterna para todos os que lhe obedecem (Hb 5.9). 199 jo 14.1; 17.3; Rm 14.9; 2Co 5.15; Ef3.12; 5.23; C/1.27. 200 Jo 17.19; Hb 5.8,9 361
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    CAPITULO )]{( A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<:=AO A encarna<;ao e o come<;o e a introdu<;ao da obra de Cristo na terra, mas esse nao e todo o seu significado, nem o mais importante significado des- sa obra. E born tentar urn verda- deiro entendimento e uma ideia correta sobre isso, pois ha aqueles que pensam que, ao assumir ana- tureza humana, Cristo completou Sua obra de reconcilia<;ao e uniao de Deus com o homem. Partindo da ideia de que a religiao e urn tipo de comunhao entre Deus eo ho- mem, e que ambos precisam urn do outro e se completam, eles afir- mam que essa comunhao, corrom- pida pelo pecado, ou nao acessi- vel ao homem em urn nivel car- nal, foi expressa e realizada na his- toria por Cristo. Dessa forma a sin- gularidade do Cristianismo con- siste no fato de que a ideia de reli- 363 giao que esta plantada na nature- za humana alcan<;a seu cumpri- mento na pessoa de Cristo. Nao ha duvida de que foi uma grande honra para a huma- nidade que o Filho unigenito de Deus, que subsistia na forma de Deus no seio do Pai, tenha assu- mido a forma humana. Ao assu- mir a forma humana Cristo rela- cionou-se com todos os homens. Ele se tornou participante da car- nee do sangue do homem, e tam- bern de sua alma e corpo, cabe<;a e cora<;ao, mente e vontade, idei- as e sentimentos. Cristo, nesse sen- tido naturat e irmao de todos n6s, carne de nossa carne e osso dos nossos ossos. Mas essa semelhan- <;a naturale fisica, embora seja im- portante, nao pode ser confundi- da nem identificada com a comu- nhao moral e espiritual. Entre as
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista pessoas, nos devemos nos lem- brar, e possfvel que membros da mesma famflia e parentes de san- gue estejam, em urn sentido espi- ritual, separados urn dos outros por urn longo caminho, ou ate mesmo diametralmente opostos urn ao outro. 0 proprio Jesus dis- se que veio aterra para trazer di- visao entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mae, e entre a nora e a sogra, de forma que os inimigos do homem sejam os de sua propria casa (Mt 10.35,36). Portanto a descendencia natural nada tern a ver com o relaciona- mento espiritual. A comunica<;ao do sangue e a comunhao espiritu- al geralmente sao polos distintos. Portanto, se Jesus nao tives- se feito mais do que assumir ana- tureza humana e assim expressar a unidade de Deus e homem, esta alem de toda compreensao como nos poderfamos entrar em relaci- onamento com Ele e sermos recon- ciliados com Deus. Assim Ele te- ria, ao assumir uma natureza hu- mana sem pecado e ao viver em uma imperturbavel comunhao com Deus, introduzido mais clivi- sao entre nose nos lan<;ado em urn senso ainda mais profundo de nossa desesperan<;a, visto que nos, criaturas fracas e pecaminosas, nunca poderfamos segui-lo em Seu elevado exemplo. A encarna<;ao do Filho de Deus, por- tanto, sem uma obra que a complemente, nao pode ser urn ato reconciliador e redentivo. Ela e 0 come<;o desse ato, a prepara- <;ao para ele e a introdu<;ao dele, mas nao e o ato em si mesmo. Se a encarna<;ao tivesse rea- lizado a reconcilia<;ao entre Deus e 0 homem, nao haveria lugar para uma vida, nem especialmente para urna morte do Senhor Jesus. Teria sido suficiente para Ele, seja atraves da concep<;ao e do nasci- mento, seja atraves de qualquer outra forma, ter assumido uma natureza humana, ter vindo sobre a terra por algum tempo e ter retornado ao ceu. Nao teria havi- do necessidade de uma total e pro- funda humilha<;ao de Cristo. 564 Mas a Escritura nos ensina algo muito diferente. Ela nos diz que o Filho de Deus nao somente se tornou homem, semelhante a nos em todas as coisas exceto no pecado, mas tambem que Ele as- sumiu a forma de servo, humi- lhou-se e tornou-se obediente ate a morte, e morte de cruz (Fp 2.7,8). Ele cumpriu toda a justi<;a (Mt 3.15) e santificou-se pelo sofrimen- to (Hb 2.10). Estava escrito que o Cristo deveria padecer e ressusci- tar ao terceiro dia (Lc 24.46; 1Co 15.3-5). 0 Pai o enviou para que Ele realizasse toda a Sua obra so- bre a terra (Jo 4.34), e lhe deu urn mandato para entregar a Sua vida e tambem para reave-la (J0 10.18).Tudo o que Cristo fez, par- tanto, foi o cumprimento daquilo que a mao e o conselho de Deus
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao tinham determinado que fosse fei- to (At 2.23; 4.28). Na cruz, pela prirneira vez, Cristo pode dizer que tudo estava consurnado e que Ele tinha realizado toda a obra que o Pai lhe tinha confiado (Jo 17.4; 19.30). Apesar do registro da vida de Cristo nos Evangelhos ser rnui- to resumido, Sua paixao e rnorte e abundantemente registrada. Da mesrna forma a prega<;ao apost6- lica rararnente menciona a concep- c;ao eo nascimento de Jesus, mas coloca toda a enfase sobre a cruz, a morte eo sangue de Cristo. Nao foi pelo nascimento, mas pela Sua rnorte que n6s fornos reconcilia- dos com Deus (Rm 5.10). Da forma como e apresenta- da na Escritura, toda a vida de Cristo assume urn significado uni- co para n6s, um significado extre- mamente valioso. Ela ea obra per- feita que o Pai lhe incumbiu de realizar. Ela pode ser considera- da de varios pontos de vista e abordada por muitos lados, e n6s devemos considera-la e aborda-la de forma que tenhamos urna vi- sao panoramica de seu conteudo. N6s nunca devemos nos esquecer que trata-se de uma obra. Ela com- preende e ocupa toda a vida de Cristo, desde Sua concepc;ao ate Sua rnorte na cruz. Assim como a pessoa de Cristo e uma em distin- c;ao de Suas naturezas, assim Sua obra tambem eunica. Ela e, pre- menternente, a obra de Deus sa- bre a terra. Essa e urna obra cuja 365 origem esta relacionada ao conse- lho e ao pre-conhecimento com sua revelac;ao em Israel e sua ori- entac;ao para as nac;oes, e tern con- tinuidade, de forma modificada, na obra que Cristo agora realiza em Seu estado de exaltac;ao. Essa obra tern seu ponto central no tempo sobre essa terra, mas que tern sua origem na eternidade, esta arraigada na eternidade e se estende ate a eternidade. * * * * * Desde tempos antigos essa obra de Cristo tern sido cornpre- endida na doutrina dos tres ofici- os, e egrac;as a Calvina que esse metodo de abordagem da obra de Cristo encontrou aceitac;ao na doutrina da salvac;ao. Contudo, varias objec;oes tern sido levanta- das contra isso, e especialmente quanta a doutrina dos tres oficios tern sido dito que esses oficios na vida de Cristo nao devem ser di- ferenciados, e que suas atividades fluem de urn para outro. Essa ob- jec;ao pode ser levantada contra um entendimento errado a respei- to dos tres oficios, mas nao contra a classificac;ao ern si rnesrna. Se a ideia for a de que Jesus executou os offcios de profeta, sa- cerdote e rei de forma indepen- dente urn do outro ou que Ele cumpriu cada oficio separada e sucessivamente, essa classificac;ao da obra de Cristo estara errada,
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista pois apesar de todos esses oficios serem bern definidos, Jesus em todos os momentos e em todos os lugares ocupou-se simultanea- mente do exerdcio desses tres ofi- cios. Quando falava Ele proclama- va a Palavra de Deus como urn profeta, mas ao £alar Ele exercia tambem Sua misericordia sacer- dotal e Seu poder real, pois atra- ves de Sua palavra Ele curava os enfermos, perdoava pecados e acalmava a tempestade. Ele era o Rei da verdade. Seus milagres eram sinais de Sua missao divina e da verdade de Sua palavra, mas eram ao mesmo tempo uma reve- la<;:ao de Sua compaixao sabre to- dos os aflitos, de seu dominio sa- bre a doen<;:a e a morte e sabre o poder de Satanas. Em resumo, toda a Sua manifesta<;:ao, palavra e obra tern urn carater simultaneamente profetico, sacerdotal e real. Mas colocando essa verdade como pano de £undo, nos deve- mos continuar olhando para a fi- gura de Jesus Cristo do ponto de vista de Seus oficios. Ha vanta- gens nesse metoda que serao per- didas se nos adotarmos outro. Em primeiro lugar essa abor- dagem deixa clara que a vinda, e tambem toda a vida de Cristo sa- bre a terra, e o exerdcio de urn oficio que lhe foi dado pelo Pai. Com rela<;:ao a Jesus nos nao po- demos £alar de urn negocio, de urn empreendimento e nem mesmo de uma voca<;:ao moral que Ele mesmo tenha escolhido. De acor- do com a Sagrada Escritura foi-lhe confiado urn oficio. Essa e a dife- ren<;:a entre urn oficio e uma pro- fissao: nao se pode escolher o ofi- cio, pode-se apenas recebe-lo por indica<;:ao de uma autoridade que esta acima de nos. Everdade que Cristo e distinto de Moises pelo fato de que ele, nao como urn ser- vo, mas como o Filho de Sua pro- pria casa, foi fiel ao Pai em todas as coisas (Hb 3.5,6), mas ao mes- mo tempo Ele foi fiel ao Pai, que o constituiu Apostolo e Sumo Sacer- dote de nossa confissao (Hb 3.1). Nao foi Ele mesmo que tomou a honra de ser Sumo Sacerdote, mas o glorificou Aquele que lhe disse: "Tu es meu Filho, eu hoje te ge- rei" (Hb 5.5). Por isso Jesus cons- tantemente coloca toda a enfase no fato de que o Pai o enviou, que e Sua comida fazer a vontade do Pai, que Ele recebeu do Pai urn mandata sabre o que ele deveria fazer e dizer, que Ele cumpriu a ordem do Pai e outras afirma<;:6es semelhantes201 • Essa designa<;:ao para o ofi- cio obviamente aconteceu antes do tempo em que Cristo se tornou homem, pois a Escritura nos ensi- na nao somente que Cristo estava no principia com Deus e que Ele era Deus, mas tambem afirma ex- 201 Jo 4.34; 5.20,30; 6.38; 7.16; 8.28; 10.18; 12.49,50; 14.10,24; 17.4. 566
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO pressamente em Hebreus 10.5-7 que Ele, vindo ao mundo, disse: "Sacrificio e oferta nao quiseste; antes, urn corpo me formaste; nao te deleitaste com holocaustos e ofertas pelo pecado. Entao, eu dis- se: Eis aqui estou (no rolo do livro esta escrito a meu respeito), para fazer, 6 Deus, a tua vontade". Por- tanto, a vinda ao mundo, a encarna<;ao, ja fazia parte da obra que o Pai lhe tinha confiado. 0 comissionamento precedeu a encarna<;ao, e ele nao aconteceu no tempo, mas na eternidade. Por isso se diz que Cristo foi conhecido antes da funda<;ao do mundo (1Pe 1.20), que a elei<;ao foi feita e a Gra<;a nos foi dada em Cristo antes que o mundo existis- se (Ef 1.4; 2Tm 1.9), e que o livro da vida que esta aberto diante de Deus desde a funda<;ao do mun- do pertence ao Cordeiro que foi morto (Ap 13.8; 17.8). Entender a obra de Cristo como o exerdcio de urn oficio e o mesmo que relacio- nar essa obra ao eterno conselho de Deus. Cristo recebe o nome de Messias, Cristo, o Ungido, porque foi designado desde a eternidade e no tempo foi ungido por Deus com o Espirito Santo. Em segundo lugar, os tres oficios com os quais Cristo foi comissionado sao uma referencia ao chamado e ao prop6sito origi- nal do homem. Nao foi por acaso ou por uma arbitrariedade que Cristo foi designado precisamen- 367 te para cumprir os offcios de pro- feta, sacerdote e rei, e nenhum outro oficio alem desses. Isso esta baseado no prop6sito de Deus para a ra<;a humana. Adao foi cri- ado aimagem de Deus, em ver- dadeiro conhecimento, justi<;a e santidade, para que, como profe- ta, proclamasse as palavras de Deus, como rei dominasse de for- ma justa sobre todas as outras cri- aturas, e como sacerdote dedicas- se a si mesmo e tudo quanta pos- suia a Deus como urn sacrificio de louvor. Ele recebeu uma mente para conhecer, a mao para domi- nar e urn cora<;ao para amar. 0 prop6sito e o destino do homem estao no desdobramento da ima- gem de Deus, no desenvolvimen- to harmonioso de todos os seus dons e poderes, no exerdcio dos oficios de profeta, sacerdote e rei. Mas o homem violou essa voca- <;ao, e o motivo pelo qual Cristo veio aterra e mostrar novamente a verdadeira imagem ao homem e trazer seu destino aperfeita rea- liza<;ao. A doutrina dos tres ofici- os esta edificada sobre uma firme conexao entre a natureza e a Gra- <;a, entre a cria<;ao e a reden<;ao, entre Adao e Cristo. 0 primeiro Adao e urn tipo, urn arauto e uma profecia do segundo Adao, e o segundo Adao e a contraparte e o cumprimento do primeiro. Em terceiro lugar a doutri- na dos tres oficios esta vinculada diretamente com a revela<;ao do
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Velho Testamento. Quando a ra<_;a humana, caida em Adao, tornou- se cada vez mais corrupta, Deus escolheu urn povo especifico para que fosse Sua propriedade. Em conexao com esse chamado Israel recebeu tambern, como urn povo, uma missao profetica, sacerdotal e real. Israel seria urn reino de sa- cerdotes e uma na<_;ao santa ao Se- nhor (Ex 19.6). Mas em urn senti- do especial essa missao foi confi- ada aos homens que foram chama- dos por Deus para servir em Isra- el como profetas, sacerdotes e reis. Embora em sua totalidade, como na<_;ao, Israel possa ser chamado de Ungido do Senhor, esse nome era especialmente usado para de- signar os profetas, sacerdotes e reis. Mas todos esses homens eram pecadores, e, portanto, nao podiam cumprir verdadeiramen- te seus oficios. Assim como o povo como urn todo, eles apontavam para outro, que seria profeta, sa- cerdote e rei ao mesmo tempo, e que seria chamado de Ungido do Senhor em urn sentido unico (Is 6.1). Cristo e o cumprimento de toda a revela<_;ao do Velho Testa- mento. Ele e a contraparte de todo o povo de Israel e de todos os Seus profetas, sacerdotes e reis. De fato, e Cristo que atraves do testemunho dos profetas, sacerdotes e reis de Israel da testemunho de si mesmo e prepara a Sua vinda (1Pe 1.11). Finalmente, a obra de Cristo s6 se revela em termos dos tres 368 oficios. Sempre tern havido ten- dencias parciais na Igreja crista que veem em Cristo somente o profeta, como os racionalistas, ou que se ocupam somente com Sua paixao sacerdotal, como os misti- cos, ou que s6 o aceitam como urn rei, como os quiliastas. Mas n6s precisamos de urn Cristo que seja os tres ao mesmo tempo. N6s pre- cisamos de urn profeta que nos pregue a Palavra de Deus, de urn sacerdote que nos reconcilie com Deus e de urn rei que, em nome de Deus, nos governe e proteja. Toda a imagem de Deus deve ser restaurada no homem - conheci- mento, justi<_;a e santidade. 0 ho- mem por inteiro deve ser salvo, alma e corpo, cabe<_;a, mao e cora- <;ao. N6s precisamos de urn Salva- dor que nos redima perfeita e completamente e que realize ple- namente em n6s Seu prop6sito original. Cristo faz isso. Sendo Ele mesmo profeta, sacerdote e rei, Ele faz com que n6s tambem sejamos profetas, sacerdotes e reis para Seu Deus e Pai (Ap 1.6). * * * * * Apesar de ter sido ungido desde a eternidade, e apesar deja estar em atividade de forma pre- parat6ria nos tempos do Velho Testamento como Mediador da Alian<_;a da Gra<_;a, Cristo realizou plenamente os oficios de profeta, sacerdote e rei quando veio ao
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO mundo e disse: "Eis aqui estou, 6 Deus, para fazer a tua vontade". Ele tinha que ser homem para re- velar o nome de Deus aos homens, para ser capaz de sofrer e morrer na cruz, e para, como rei da verda- de, dar testemunho da verdade. Seu Ser concebido pelo Espi- rito Santo foi uma preparaao pre- liminar da natureza humana de Cristo para a obra que Ele deve- ria realizar. Todos os tipos de ob- je6es tern sido levantados nos tempos modernos contra a confis- sao de que Cristo foi concebido pelo Espirito Santo e nasceu da virgem Maria, e muitos esforos tern sido feitos para explicar os registros de Mateus e Lucas como uma interpolaao judaica ou paga nos Evangelhos originais. Mas o resultado tern sido que a verdade dessa hist6ria tern sido confirma- da e estabelecida melhor do que era antes. 0 registro do nascimen- to de Cristo nao pode ter deriva- do dos judeus, nem dos pagaos. Essa hist6ria repousa, como fica evidente a partir da linguagem usada, sobre o testemunho dos pr6prios Jose e Maria. Natural- mente houve urn tempo em que essa concepao miraculosa era co- nhecida somente por Jose e Maria e talvez por alguns confidentes. Pela natureza do caso, e natural que esse fato nao fosse de conhe- cimento publico. Somente mais tarde, quando as obras e as palavras e especial- mente a ressurreiao de Cristo tor- naram claro quem e o que Ele era, Maria ousou revelar ao pequeno circulo dos discipulos a secreta concepao de Jesus. Nem mesmo a partir desse momenta essa con- cepao de Jesus pelo Espirito es- teve presente na pregaao dos ap6stolos. Essa concepaO e pro- vavelmente pressuposta em al- guns lugares202 , mas somente em Mateus e Lucas ela e expressa- mente afirmada. Ao mesmo tem- po ela e urn componente essenci- al do Evangelho e esta plenamen- te de acordo com a doutrina da pessoa de Cristo ensinada nas Es- crituras. Cristo e, como ja foi dito, o Filho unigenito, que estava ati- vo em Sua propria concepao, e atraves da atividade do Espirito preparou para si uma natureza humana no ventre de Maria (Fp 2.6,7). Na profecia de Isaias 7.14 e 9.6; comparada com Mt 1.25, e a virgem conceberia e daria a luz urn filho cujo nome seria Emanuel, e que tambem seria chamado de Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Princi- pe da Paz foi cumprida no nasci- mento de Jesus. Pela Sua concepao atraves da aao do Espirito Santo essa na- tureza humana de Cristo foi des- de o principia isenta de todo pe- 202 Me 6.3; Jo 1.13; 7.41; Rm 1.3,4; 9.5; Fp 2.7; Gl 4.4. 369
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista cado humano. Como o Filho de Deus como pessoa ja existia antes mesmo de Sua concep<;:ao, e como essa pessoa nao se uniu a urn ser humano que ja existia, mas atra- ves da a<;:ao do Espirito Santo pre- parou para Si uma natureza hu- mana no ventre de Maria, Ele nao estava incluido na Alian<;:a das obras, nao estava sujeito aculpa original, e nao podia ser contami- nado pelo pecado. 0 ensino de Roma de que Maria era pura em sua concep<;:ao e que viveu de for- ma santificada nao tern funda- mento e entra em conflito com aquilo que a Escritura diz a res- peito de Maria203 • Maria foi agra- ciada com uma grande honra, uma honra mais elevada ate mes- mo que a dos profetas e ap6sto- los. Ela e a aben<;:oada, a favorecida entre as mulheres, a mae do Senhor (Lc 1.42,43). Mas ela era como todas as outras pes- soas, como todos os homens, eo filho santo que por ela foi conce- bido (Lc 1.35) nada tern a ver com a pureza de sua natureza, mas com a criativa a santificadora a<;:ao do Espirito Santo em seu ventre. Embora a natureza humana que Cristo recebeu de Maria fosse santa, ela era fraca, como qualquer natureza humana. Isso e expresso na Escritura pela afirma<;:ao de que Ele se tornou nao somente homem, mas carne (Jo 1.14), que Ele foi en- 203 Jo 2.4; Me 3.31; Lc 11.28. 570 viado em semelhan<;:a de carne pe- caminosa (Rm 8.3), que Ele assu- miu a forma de servo (Fp 2.7), e que Ele se tornou semelhante a n6s em todas as coisas, exceto no pecado (Hb 2.17; 4.15). Cristo teve que as- sumir essa natureza humana sujei- ta a fraquezas para que fosse ten- tado, para aprender a obediencia atraves do sofrimento, para ser ca- paz de esfor<;:ar-se para santificar- se, para compartilhar conosco de nossa fraqueza e ser urn sumo sa- cerdote compassivo. Em resumo, Cristo assumiu essa natureza hu- mana sujeita a fraquezas para que fosse capaz de sofrer e morrer. Apesar de ser semelhante a Adao antes da queda no que diz respei- to ao pecado, Ele estava em urn caminho muito diferente daquele que foi trilhado por Adao, pois Adao foi criado adulto, mas Cristo foi concebido no ventre de Maria e nasceu como urn bebe. Quando Adao foi criado tudo estava pron- to para ele, mas quando Cristo nas- ceu ninguem contava com Sua vin- da, nao havia lugar para Elena hos- pedaria. Adao veio para dominar e sujeitar toda a terra ao seu domi- nio. Cristo nao veio para ser servi- do, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos. A encarna<;:ao do Filho de Deus, portanto, nao foi apenas urn ato de bondade condescendente, tal como e em Seu estado de
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO exalta<;:ao, mas foi tambem urn ato de profunda humilha<;:ao. A humi- lha<;:ao teve inicio com a propria concep<;:ao, e continuou atraves de Sua vida ate Sua morte e sepulta- mento. Cristo nao e urn her6i hu- mano cujo lema e Excelso, que supera todos os obstaculos e final- mente alcan<;:a o pinaculo da fama. Pelo contrario, Ele desceu sempre mais baixo e mais profundo e mais intimamente. 0 caminho para dentro dessas profundezas foi marcado por passos: concep<;:ao, nascimento, a vida humilde em Nazare, batismo e tenta<;:ao, opo- si<;:ao, desprezo e persegui<;:ao, agonia no Getsemani, condena<;:ao diante de Caifas e Pilatos, crucifi- ca<;:ao, morte e sepultamento. 0 caminho por Ele percorrido come- <;:a em Sua casa, com o Pai, e vai se aproximando cada vez mais de n6s em nosso pecado e morte, ate que, no mais profundo de Seu sofrimen- to Ele expressa Sua angU.stia porter sido desamparado pelo Pai. Depois disso Ele finalmente expressa Sua vit6ria: "Esta consumado". A essa humilha<;:ao perten- cem, em adi<;:ao aSua concep<;:ao e nascimento, as pr6prias circuns- tincias em que Cristo nasceu no estabulo de Belem, a persegui<;:ao imposta por Herodes, a fuga para o Egito e tambem a humilde vida de Jesus em Sua inHincia, em Nazare. Muito pouco e registrado sobre isso nos Evangelhos, pois os Evangelhos nao foram escritos 371 com o objetivo de dar urn relato completo sobre a vida de Jesus, mas para que n6s saibamos que Cristo e o Filho de Deus, o Salva- dor do mundo, eo Filho unigenito do Pai. Em conexao com esse pro- p6sito, o pouco que sabemos so- bre a infancia e juventude de Je- sus e suficiente. Mateus nos diz que Jesus, depois de retornar do Egito, viveu com Seus pais em Nazare da Galileia (Mt 2.23). Sua mae vivia nessa cidade antes de Seu nasci- mento (Lc 1.26), e nessa cidade Je- sus viveu ate o come<;:o de Seu mi- nisterio publico em Israel (Lc 2.39,51; Me 1.9). Somente depois de ser expulso da sinagoga e re- jeitado pelos Seus conterraneos foi que Ele se dirigiu para Cafar- naum, onde fixou residencia (Lc 4.28 ss.; Mt 4.13). Mas Ele sempre continuou sendo urn nazareno. Mateus viu nesse fato o cumpri- mento de uma profecia do Velho Testamento (Mt 2.23), nao de uma afirma<;:ao especifica, pois os ter- mos Nazare e nazareno nao sao mencionados no Velho Testamen- to, mas a profecia como urn todo e encontrada em todos OS profe- tas, e diz que Cristo teria uma ori- gem modesta (Is 11.1), e que a luz brilharia sobre as trevas da Galileia dos gentios (Is 8.22; 9.2). N6s sabemos que Jesus, na vida retirada que levou por vari- os anos em Nazare foi uma crian- <;:a obediente aos Seus pais (Lc
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista 2.51). Como crian<;a Ele cresceu fisicamente e se desenvolveu es- piritualmente, alem de crescer em Gra<;a diante de Deus e dos ho- mens (Lc 2.40,52). Aos doze anos de idade Ele foi com Seus pais, nao se sabe ao certo se pela primeira vez, a Jerusalem para celebrar a Pascoa (Lc 2.41 ss.), e la Ele exibiu Sua sabedoria por meio de per- guntas e respostas aos escribas ju- daicos, e revelou aos Seus pais que possuia consciencia de Sua mis- sao: como Filho Ele devia ocupar- se com as coisas da casa de Seu Pai (Lc 2.49). No dia de sabado Ele foi, como era Seu costume, asinago- ga (Lc 4.16), e durante os dias da semana Ele, presumivelmente, auxiliava Seu pai em seu exerci- cio profissional. Ele chega ate mes- mo a ser chamado de carpinteiro (Me 6.3). Sua vida adulta lan<;a muita luz sobre os anos de Sua juventude: N6s sabemos que Ele sabia ler e escrever, tinha muita fa- miliaridade com o Velho Testa- mento, conhecia o partido dos fariseus e dos saduceus, conhecia a vida moral de Seu povo, era bern informado sobre a vida civica e politica de sua epoca, e amava a natureza e frequentemente sere- tirava para ter comunhao com Deus. Esses dados sao escassos, mas todos eles apontam para o fato de que Jesus, durante Sua ju- ventude, estava se preparando para a missao que o esperava. Fi- cava cada vez mais clara para Ele, 372 como homem, o que Ele era o e o que tinha que fazer. Sua Filia<;ao e Seu Messianismo, com tudo que estava conectado a eles e procedia deles, se tornavam cada vez mais claros aos olhos de Sua mente. E, finalmente, aos trinta anos, che- gou o tempo em que Ele tinha que manifestar-se a Israel (Jo 1.31). A ocasiao para essa manifes- ta<;ao foi a prega<;ao que Joao Ba- tista tinha come<;ado a fazer no sul, no deserto da Judeia. Envia- do para falar a Israel que, apesar de ser descendente de Abraao, apesar de sua circuncisao e de seu senso de justi<;a propria, o povo era culpado e corrompido e, par- tanto, necessitava do batismo de arrependimento para remissao de pecados, esse mensageiro de Deus atraves de seu apelo apenitencia causou urn grande movimento entre os judeus e preparou o ca- minho para a vinda do Messias. Muitos iam ate Ele, vindos de Je- rusalem e da Judeia, como tam- bern de toda a circunvizinhan<;a do Jordao, para que foss em batizados por Ele, confessando seus pecados. Apesar de Joao Ba- tista ter protestado ao batizar Je- sus, por ter reconhecido ser Ele o Messias, aquele que batizaria com o Espirito Santo e com fogo, e que pessoalmente nao necessita- va do batismo, Jesus insistiu em ser batizado e disse que tinha que submeter-se ao batismo par- que Ele veio para cumprir toda a
  • 372.
    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO justi<;a (Mt 3.15). Jesus nao disse que tinha que ser batizado porque precisava de arrependimento e perdao. Ao con- tnirio dos outros que procuravam Joao Batista, Ele nao confessou Seus pecados. Mas Ele viu emJoao urn profeta, e muito mais do que profeta, Seu proprio arauto (Mt 11.7-14) e viu em Seu batismo nao uma cerimonia arbitniria criada pelo proprio Joao, mas urn encar- go, uma missao, que Ele tinha re- cebido do Pai (Me 11.30). Portan- to o batismo de Joao repousava sobre a vontade de Deus e era uma parte da justic;a que Jesus tinha que cumprir. Quando Jesus se submete ao batismo Ele se sujeita, por urn lado, avontade do Pai e, por outro, coloca-se no mais inti- ma dos relacionamentos com o povo que nesse batismo recebia arrependimento e perdao de pe- cados. 0 batismo de Joao e para Jesus a majestosa rendic;ao a toda a vontade de Deus, a publica en- trada em comunhao com todo o Seu povo, a entrada real na arena Messianica. Portanto o batismo tinha para Jesus urn significado diferen- te do que tinha para as outras pes- soas. Ele nao recebeu pessoalmen- te o sinal eo selo de Seu arrepen- dimento e perdao, mas foi batiza- do com o Espirito Santo e com fogo, como so o Espirito pode ba- tizar. Posteriormente algumas sei- tas pensaram que no, momenta de 375 Seu batismo, pela primeira vez a natureza divina ou o poder de Cristo se uniram com o homem Jesus. Esse pensamento e uma he- resia, pois faz violencia a encar- na<;ao do Verbo na concep<;ao. Mas uma coisa e certa: 0 batismo de Jesus foi Sua plena prepara<;ao para o cumprimento de Seu oficio, pois quando Ele saiu das aguas OS ceus se abriram e o Espirito de Deus desceu sobre Ele e do ceu se ouviu uma voz que dizia: "Este e o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.16)7). Apesar desse fato ser entendido por pou- cos, o dia do batismo de Jesus foi o dia de Sua revelac;ao a Israel e o dia do comec;o de Seu ministerio como o Messias. Antes de dar inicio ao Seu ministerio Ele passou alguns dias sozinho no deserto. Ele nao encon- trou urn ser humano sequer, esta- va rodeado somente pela nature- za e por animais selvagens, dedi- cado ao jejum, ameditac;ao e aora- c;ao. Qual era a natureza dessa medita<;ao e algo que logo fica cla- ra para nos atraves do registro da tentac;ao. A tenta<;ao de satanas, que aconteceu ao fim de quarenta dias, e da qual urn registro deta- lhado nos e apresentado por Mateus, formou urn climax na ba- talha que Jesus travou, mas essa nao foi a unica. Lucas afirma que durante esses quarenta dias Ele foi tentado pelo diabo (4.2), e que o diabo, depois de ter terminado
  • 373.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista todas as suas tentac;oes, apartou- se dEle ate o momento oportuno (4.13). Jesus foi tentado em tudo, assim como n6s, mas sem pecado (Hb 4.15). Mas a tentac;ao no deserto estava de acordo com o plano de Seu ministerio. Depois do batismo Ele ficou cheio do Espirito Santo (Lc 4.1), e foi o Espirito que ole- vou ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt 4.1). Jesus estava agora completa e claramente cons- ciente do fato de que Ele era o Fi- lho de Deus, o Messias, e que es- tava no comando dos poderes di- vinos. Mas que tipo de uso Ele agora faria desses poderes? Sera que Ele os utilizaria para satisfa- zer Suas pr6prias necessidades, ou dobraria Seus joelhos diante de urn poder terreno para adquirir urn reino terreno ou tentaria con- veneer as pessoas atraves de uma demonstrac;ao dramatica de sinais e maravilhas? 0 tentador tenta-o nesses tres pontos. Mas Jesus per- manece firme. Ele se apega forte- mente a Palavra de Deus e pela Palavra Ele vence todas as tenta- c;oes. Ele se sujeita avontade e ao caminho do Pai, se estabelece na obediencia e se santifica como urn sacrificio a Deus. Portanto, Ele sabe por experiencia propria o que eser tentado, e tambem pode ter compaixao de n6s em nossas fra- quezas, e por nao ter sucumbido a tentac;ao Ele pode tambem so- correr aqueles que sao tentados (Hb 2.18; 4.15). * * * * * Dessa forma Jesus foi prepa- rado para o publico ministerio de Seus oficios e deu inicio ao seu exerdcio. Desses tres, no primei- ro periodo o oficio profetico foi o mais enfatizado. De fato, logo que comec;ou a exercer Seu ministerio publico Ele foi reconhecido pelo povo nao somente como urn pro- fessor isto e, urn mestre, urn rabi, mas tambem como urn profeta. Depois deter ressuscitado o jovem em Nairn a multidao clamou: "Grande profeta se levantou en- tre n6s, e Deus visitou o Seu povo" (Lc 7.16). E isso aconteceu ate o fim de Sua vida, porque Suas palavras e Suas obras projetavam-no como urn profeta, mesmo nos casos em que o povo nao tinha conhecimen- to de Seus oficios sacerdotal e real, ou ate mesmo quando o povo re- jeitava esses dois oficios. Alem disso, como urn profeta, isto e, como uma pessoa mais habilitada que as outras para transmitir en- sinos sobre Deus e as realidades divinas, Ele ehonrado ate OS nos- sos dias por todos aqueles que res- peitam qualquer valor de qual- quer religiao. Mas esse mesmo povo rejeita a ideia de que Cristo eurn sacerdote e urn rei. Ecomo urn profeta que Ele eexaltado. Ate mesmo Mohamed no Corao lhe confere essa dignidade. 574
  • 374.
    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao Mas Jesus queria ser profeta em urn sentido diferente do usu- al. Quando, depois deter sido ba- tizado por Joao e tentado no de- serto, Jesus voltou aGalih~ia, Ele logo se dirigiu a sinagoga de Nazare e aplicou a profecia de Isaias 11.1 a Si mesmo. 0 Espfrito do Senhor estava sobre Ele para evangelizar os pobres e por em li- berdade os oprimidos (Lc 4.18). Ele nao se apresenta como urn profeta semelhante aos demais, mas como urn profeta que esta acima de todos os outros. Os pro- fetas que vieram antes dEle ti- nham sido servos, mas Ele era o Filho (Mt 21.37). Ele e o unico Mestre (Mt 23.8,10; Jo 13.13,14). E verdade que Ele tinha em comurn com os outros profetas os dons da voca<;ao e un<;ao, de revela<;ao e de prega<;ao da Palavra de Deus, de predi<;ao e poderes miraculosos. No entanto Ele transcende todos os outros e eexaltado sobre todos eles. Seu chamado e Sua un<;ao datam da eternidade; Sua separa- <;ao e prepara<;ao come<;aram logo que Ele foi concebido pelo Espfri- to Santo; em Seu batismo Ele re- cebe o Espfrito Santo sem medida e uma voz do ceu anuncia que Ele e0 Filho amadoI em quem 0 Pai se compraz; Ele nao recebe reve- la<;5es de tempos em tempos, Ele ea revela<;ao, a plena revela<;ao de Deus, o Verbo que estava com Deus, era Deus e tornou-se carne; Ele estava e estara para sempre no 375 seio do Pai, e em toda a Sua vida Ele falou e fez somente o que o Pai queria que Ele falasse e fizesse; conseqiientemente, Ele nao nos deu uma revela<;ao parcial que poderia ser ampliada posterior- mente por outras pessoas, pois Ele ea perfeita revela<;ao de Deus, que cumpre e conclui todas as outras profecias. Deus, de muitas vezes e de muitas maneiras falou aos nossos pais pelos profetas, mas nestes ultimos dias nos falou pelo Filho (Hb 1.1). Alem disso, a pro- fecia que no Velho Testamento nos foi dada pelos pais falava so- bre Cristo. Foi o Espfrito de Cris- to que deu testemunho aos profe- tas (1Pe 1.11), eo conteudo desse testemunho era Cristo (Ap 19.10). A prega<;ao de Cristo foi, portanto, no sentido mais profun- da, uma revela<;ao de Si mesmo. Ela foi uma proclama<;ao de Sua propria pessoa e de Sua obra. Quando Ele se manifestou publi- camente, Ele tomou Joao Batista e os profetas do Velho Testamento como ponto de partida: "Arrepen- dei-vos, porque esta proximo o reino dos ceus" (Mt 3.2; 4.17). Os profetas anteriores e Joao Batista eram arautos e viram o reino de Deus no futuro (Mt 11.10,11). To- davia agora o tempo se cumpriu e na pessoa de Cristo o Reino de Deus veio aterra. Deus eo Rei e o Pai desse Reino (Mt 5.16,35,45), mas o Pai se agradou em que Cristo desse esse Reino aos Seus
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista discipulos204 • Em Sua pregac;ao Cristo fala sobre a origem e a natureza desse reino, a forma pela qual se tern acesso a ele, os beneficios que ele oferece, seu desenvolvimento gra- dual e sua plenitude final. Ele nao faz isso atraves de argumentac;oes filosoficas ou de discursos teolo- gicos, mas atraves de proverbios e parabolas. Ele retira Suas figu- ras de linguagem dos fenomenos naturais ou dos eventos diarios, da vida pratica, e fala as multid6es sempre usando uma linguagem viva e clara, de forma que aqueles que o ouviam pudessem entende- lo (Me 4.33). Contudo, quando Seus ouvintes nao entendiam Suas palavras, isso era uma evidencia da dureza de seus corac;oes e, tam- bern, do prazer do Pai em escon- der essas coisas aos sabios e en- tendidos e revela-las aos peque- ninos (Mt 11.25; 13.13-15). Mas em si mesmas essas palavras sempre eram compreensiveis, ate mesmo quando elas se referiam aos mis- terios mais profundos do Reino de Deus, pois na pessoa de Seu Filho e herdeiroI 0 proprio Deus e 0 revelador e interprete dessas pa- lavras. Em Seu nascimento, em Sua mensagem e em Seus atos Je- sus nos apresentou o Pai (Jo 1.18). Quem quer que veja o Filho, ve tambem o Pai (Jo 14.9). A mensagem anunciada por ' 04 Mt 11.27; Lc 12.32: 22.29. 376 Jesus era essencialmente a mesma que fora anunciada nos tempos do Velho Testamento. Ela incluia tan- to a lei quanto o Evangelho, mas Jesus nao veio para ser urn novo legislador como intuito de ampli- ar a lei do Velho Testamento. Eo Evangelho anunciado por Cristo e o mesmo que Deus vinha reve- lando desde 0 paraiso. Jesus nao veio para destruir a lei ou os pro- fetas, mas para cumpri-la (Mt 5.17). Ele cumpriu a lei ao purifica- la de todas as interpretac;6es fal- sas e de todas as adic;6es huma- nas, e ao traze-la a sua plena rea- lizac;ao em Sua propria pessoa e em Seu ministerio. Portanto, Cris- to tern uma relac;ao com a lei dife- rente da que tinha Moises, e uma relac;ao como Evangelho diferen- te da que tinham os profetas. E verdade que a lei foi dada por Moises eo Evangelho foi anunci- ado pelos profetas, mas a Gra<;:a e a verdade se encontram somente em Jesus Cristo (Jo 1.17). Moises carregou a lei em suas maos na for- ma de duas tabuas de pedra, e em sua obra ele podia ser superado por outros. Da mesma forma os profetas anunciaram o Evangelho, mas eles mesmos nao eram o Evan- gelho. Mas Cristo cumpriu a lei em seu sentido mais pleno e mais pro- fundo, realizando perfeitamente a vontade do Pai, e foi nao apenas o pregador do Evangelho, mas tam-
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao bern seu conteudo, o mais sublime dom que Deus deu ao mundo. A Gra<;a e a verdade se encontraram nEle e estao ligadas de forma inseparcivel em Sua pessoa. * * * * * As palavras de Jesus foram acompanhadas e confirmadas por Seus atos. Esses atos tambem per- tenciam ao Seu oficio, ao cumpri- mento da vontade do Pai (Jo 4.34). Esses atos nao foram realizados por Sua propria iniciativa, mas o Pai deu todas as coisas em Suas maos (Mt 11.27); Jo 3.35), eo Filho nada fez de Si mesmo, senao so- mente aquilo que viu o Pai fazen- do (Jo 5.19). Foi o proprio Pai, que permanecia no Filho, que realizou essas obras (Jo 14.10). Assim como essas obras tinham uma origem divina, elas possuiam tambem urn carater divino, nao somente por serem milagres e estarem separa- das do curso ordinaria da nature- za, mas tambem porque elas nao podiam ser realizadas por outras pessoas, pois enquanto as pesso- as seguiam sua propria vontade, Jesus nunca procurou Seus propri- os interesses ou Seu prazer (Rm 15.3). Em vez disso Ele negou a Si mesmo e cumpriu a vontade do Pai. Entre as obras realizadas por Jesus, os milagres ocupam urn lu- 205 fa 2.11; 3.2; 4.54; 7.31; 9.16; 10.37; 11.4. 206 Mt 12.38; 16.1; Jo 4.48. 577 gar especial. Por urn lado eles eram sinais e evidencias da missao e do poder divino de Cristo205 , e por outro lado eles eram atos de Jesus que tinham a finalidade de suprir as necessidades fisicas e espiritu- ais das pessoas. Todos os milagres de Jesus sao milagres de reden<;ao e cura, e como tais eles pertencem ao Seu oficio sacerdotal. Isso se torna evidente a par- tir das limita<;6es que Jesus impoe arealiza<;ao de Seus milagres. No deserto Ele resistiu atenta<;ao de satanas para que aplicasse Seu poder divino em beneficia pro- prio. 0 que Ele disse no jardim do Getsemani, isto e, que Ele pode- ria orar ao Pai e o Pai lhe manda- ria mais de doze legioes de anjos (Mt 26.53) e aplicavel a todo o Seu ministerio. Em varias ocasioes Ele se recusou a realizar Seus milagres para satisfazer a curiosidade do povo206 , e nao raramente Ele limi- tava Sua revela<;ao aincredulida- de que encontrava (Mt 13.58). Em varias ocasioes as pessoas que re- cebiam milagres eram exortadas a nao falar sobre isso a outras pes- soas (Me 1.34A4; 3.12). Jesus nao queria alimentar ideias erradas a respeito do Messias atraves de Suas obras. As obras realizadas por Je- sus pertenciam ao Seu oficio sa- cerdotal, e por isso elas tambem
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista eram manifestac;6es de Sua com- paixao. N6s lemos sobre Sua com- paixao em varios lugares207 , e 0 evangelista Mateus ve nas curas realizadas por Jesus urn cumpri- mento da profecia de Isaias que diz que Ele tomou sobre Si as nos- sas enfermidades e as nossas do- res levou sobre Si (Mt 8.17). Em outro lugar essa profecia e aplica- da amorte de CristoI na qual Ele levou sobre Si os nossos pecados (Jo 1.29; 1Pe 2.24). Mas o pecado e a enfermidade caminham juntos. Como nosso compassivo Sumo Sacerdote, Cristo nao somente re- moveu nosso pecado, mas tam- bern a causa de nossa miseria. E nos varios milagres por Ele reali- zados, na expulsao de demonios, na cura de cegos e surdos, aleija- dos e mutilados, na ressurrei<;ao de mortos e no controle das for- <;as da natureza, Ele da evidenci- as conclusivas de que pode nos redimir de toda a nossa miseria e sofrimento. Nao ha culpa tao grande, nem pecado tao profun- da que nao possam ser removidos por essa compaixao sacerdotal e por esse poder real de Cristo. Naturalmente Sua atividade sacerdotal se expressa especial- mente em Sua paixao e morte, na entrega de Sua alma em resgate por muitos e no cumprimento da obra que ele veio realizar, e que Ele realizou ao longo de toda a Sua 207 Mt 9.36; 14.14; 15.32. 578 vida (Mt 20.28). Como Cordeiro de Deus Ele constantemente tira o pecado do mundo. Sua humilha- c;ao comec;ou em Sua encarnac;ao, continuou atraves de Sua vida de obediencia pelo sofrimento, e ter- minou na morte na cruz (Fp 2.8; Hb 5.8). Foi o Pai que designou Cristo como sacerdote e como pro- feta. E assim como Cristo cumpriu Seu oficio profetico, da mesma forma Ele cumpriu cabalmente Seu oficio sacerdotal. Enotavel que no Novo Tes- tamento, Cristo s6 receba o nome de sacerdote, na carta aos Hebreus. Everdade que Sua vida e morte sao apresentadas como sacrificio, mas o termo profeta s6 e usado em Hebreus. Ha uma boa razao para isso. Certamente Cris- to e urn sacerdote, mas Ele e urn sacerdote muito diferente dos que existiam no tempo do Velho Tes- tamento sob a lei de Moises. Ossa- cerdotes do Velho Testamento eram da linhagem de Aarao e da tribo de Levi. Eles eram apenas sa- cerdotes, eles nao eram profetas e reis. Eles viviam e serviam por al- gum tempo e eram substituidos por outros. Eles faziam sacrificios de bodes e novilhos, que nao po- diam perdoar pecados. Mas nada disso acontece com Cristo. Ele procedeu da tribo de Juda e por isso nao podia reivindicar o sacer- d6cio (Hb 7.14).
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO De acordo com a carta aos Hebreus, Cristo nao era urn sacer- dote segundo a linhagem de Aarao, mas segundo a linhagem de Melquisedeque. Ja tinha sido isso anunciado no Salmo 110: o Messias sera urn sacerdote que combinara a dignidade real com o oficio sacerdotal. A carta aos Hebreus desenvolve esse pensa- mento e afirma que Cristo e urn sacerdote nao segundo a ordem de Aarao, mas segundo a ordem de Melquisedeque, porque Ele e ao mesmo tempo urn rei perfeita- mente justo e sem pecado- urn rei de justi<;a, que sera sacerdote para sempre, que nunca sera substituf- do porque traz uma oferta de Seu proprio corpo e de Seu proprio sangue, e nao de bodes e novilhos, e que por intermedio de Seu sa- crificio alcan<;a perfeita salva<;ao para Seu povo e lhe da paz eter- na, poise 0 rei da paz (Hb 7.20 ss.). A admoesta<;ao pratica que os ju- deus cristaos - que estavam ame- a<;ados de apostasia- deduziram de tudo isso e que eles nao tinham uma razao sequer para voltar atras, mas para seguir adiante (6.1). Os sacerdotes do Velho Tes- tamento, suas ora<;6es interces- soras e seus sacrificios serviram como tipos e sfmbolos para que o povo tivesse acesso a Deus, e o sacerdocio deles foi perfeita e eter- namente cumprido em Cristo. Ele abriu urn novo e vivo caminho para a vida eterna, e por esse ca- 379 minho os cristaos podem, com confian<;a e certeza de fe, compa- recer diante do trono da Gra<;a (4.16; 10.19 ss.). * * * * * Assim como o offcio sacer- dotal esta relacionado ao oficio profetico, o offcio real de Cristo tambem esta relacionado ao Seu oficio sacerdotal de uma forma ainda mais intima. Uma das pe- culiaridades do oficio sacerdotal de Cristo e sua conexao com Sua dignidade real (51110.4; Hb 7.17). Alem disso, Israel foi chamado para ser urn reino de sacerdotes (Ex 19.6). E, embora os offcios em Israel sejam distintos, ha a profe- cia de que o Messias, o renovo que brotaria em Seu proprio lugar e edificaria o templo do Senhor, se- ria revestido de gloria (a majesta- de real) e se assentaria sobre Seu trono e exerceria domfnio e seria sacerdote sobre Seu trono. 0 Mes- sias, que uniria as fun<;6es reais e sacerdotais, atraves dessa uniao traria a perfeita paz de que Seu povo necessita (Zc 6.12,13). Essa conexao com o oficio sacerdotal da ao reinado de Cris- to urn carater muito especial. Ele procede da casa de Davi (25m 7.16), mas em tempo no qual a casa de Davi tinha entrado em decadencia (Mq 5.1). Ele seria urn rei justo e equipado com a salva- <;ao de Deus, mas tambem seria
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista humilde, e em Sua humildade ca- valgaria em urn jumento- urn jumentinho, uma cria de jumenta (Zc 9.9). E assim como o Messias nao exibiria gloria e poder terre- nos, da mesma forma Seu reino nao seria estabelecido atraves de armas e violencia. De fato, nesse dia Ele destruiria os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalem, eo arco de guerra seria destruido, eo Messias anunciaria paz as na- c;oes e Seus dominios se estende- riam de mar a mar e desde o Eufrates ate as extremidades da terra (Zc 9.10. Compare com Sl72). Essa profecia referente a vin- da do Messias foi perfeitamente cumprida em Cristo. 0 Novo Tes- tamento constante e enfaticamen- te afirma que Ele pertence a casa de Davi e que em virtude das leis do reino de Israel Ele tern direito ao trono. As d uas listas geneal6gicas (Mt 1 e Lc 3) apre- sentam-no como filho de Davi. 0 anjo anuncia a Maria que o Senhor lhe clara urn filho, que sera cha- mado de Filho do Altissimo, que Deus lhe clara o trono de Davi, seu pai, e que Ele reinara para sem- pre sobre a casa de Jac6, e o Seu reinado nao terci fim (Lc 1.32,33). Ele e geralmente reconhecido como Filho de Davi208 • A essa des- cendencia de Davi esta ligado o fato de que Ele e urn rei e tern di- reito ao reino (Lc 23.42). 208 Mt 9.27; 12.23; 15.22; 20.30; 21.9; Rm 1.3. 380 Todavia Ele e rei em urn sen- tido diferente daquele que os ju- deus esperavam como o Messias. Ele nunca fez uso de Seu direito real ao trono de Davi, nem diante dos governadores do povo judeu, nem diante do rei Herodes, nem diante do Cesar Romano. Ele re- sistiu a tentac;ao de dominar 0 mundo atraves de poderes mun- diais (Mt 4.8-10). Quando a mul- tidao, depois de ser alimentada milagrosamente quis faze-lo rei Ele se esquivou e foi orar no mon- te (Jo 6.15; Mt 14.23). De fato, Ele frequentemente mostrava Seu po- der real, mas nao dando demons- trac;oes vazias de autoridade, como faziam os governadores das nac;oes, e sim servindo e entregan- do sua alma em resgate por mui- tos (Mt 20.25-28). Seu oficio real encontra expressao na fon;a com a qual Ele falava, com a qual Ele proclamava Suas leis para o reino dos ceus, sujeitava a Si mesmo as forc;as da natureza, subjugava as doenc;as e a morte, e ate mesmo na cruz, onde Ele entregou Sua vida para reave-la novamente, e Ele urn dia, como rei e como juiz julgara os vivos e os mortos. Mas esse significado espiri- tual que Cristo, em harmonia com a profecia do Velho Testamento, da ao Seu reinado, nao deve nos fazer pensar que Ele nao seja ver- dadeiramente urn rei e que so-
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HuMILHA<;:Ao mente em urn sentido figurado Ele receba essa designa<_;ao. Ele e sa- cerdote segundo a linhagem de Melquisedeque, e nao segundo a linhagem de Aarao, e por essa ra- zao Ele e urn sacerdote melhor que os sacerdotes do Velho Testamen- to, e, da mesma forma, por ser urn rei diferente daqueles que gover- nam as na<_;oes, Ele e urn rei me- lhor do que eles. Ele eo verdadei- ro rei, e os reis da terra sao reis somente aSua imagem e seme- lhan<_;a. Ele eo Rei dos reis, o prin- cipe dos reis da terra, o rei que go- verna, interna e externamente, es- piritual e fisicamente, no ceu e na terra, ate as extremidades da ter- ra e por toda a eternidade. Ele nunca, nem por Deus nem pelo homem, abre mao de Seus legitimos direitos a esse rei- nado eterno e perfeito. Durante Sua jornada pela terra Ele nunca abriu mao de qualquer urn de Seus direitos divinos ou humanos. Ele nao tentou obter esses direi- tos pela violencia, mas alcan<_;ou- OS unica e exclusivamente atraves de Sua obediencia a Deus. Em Sua humilha<_;ao Ele provou ser o Fi- lho de Deus e o herdeiro de todas as coisas. Para demonstrar que real- mente era urn rei, Ele faz Sua en- trada triunfal em Jerusalem no domingo que abre a semana da paixao. Nao havia qualquer peri- go de que a natureza de Seu rei- nado nao fosse bern compreendi- 381 da. Toda uma vida marcada pela obediencia, que por palavras e atos tinha rejeitado todo poder terreno, agora estava atras dEle. A inimizade entre Cristo e o povo tinha alcan<_;ado seu ponto mais elevado, e ainda no decorrer des- sa semana Ele seria entregue a morte. Apesar de ter evitado to- dos os esfor<_;os populares no sen- tido de coroa-lo rei, Ele agora toma a iniciativa de fazer Sua en- trada triunfal em Jerusalem (Mt 22.1). Antes de Sua morte Ele deve se fazer conhecido de forma clara e inequivoca como o Messias, en- viado por Deus, da linhagem de Davi. Ele faz essa revela<_;ao em harmonia com a profecia de urn futuro rei que seria humilde e ca- valgaria sobre urn jumento. Foi por ser o Messias, o Filho de Deus, o Rei da casa de Davi, que Ele foi condenado pelo Sinedrio e por Pilatos (Mt 27.11). A inscri<_;ao no alto da cruz, colocada contra a vontade dos judeus, mais uma vez da testemunho desse fato (Jo 19.19-22). * * * * * Toda a vida de Cristo com Suas atividades profeticas, sacer- dotais e reais, culminou em Sua morte. A morte eo cumprimento da vida. Jesus veio para morrer. Ele mesmo estava claramente consciente disso. Logo em Sua pri- meira apari<_;ao publica, na sinago-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ga de Nazare, Ele aplicou a profe- cia referente ao Servo Sofredor a Si mesmo (Lc 4.16 ss.), e, portan- to, estava perfeitamente conscien- te de que seria levado como urn cordeiro para o matadouro. Ele era o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). 0 tem- plo de Seu corpo seria destruido, mas depois de tres dias seria no- vamente edificado (Jo 2.19). Assim como Moises levantou a serpente no deserto, assim tambem, segun- do o conselho de Deus, o Filho do homem seria levantado na cruz (Jo 3.14. Compare com 12.32,33). Ele era o grao de trigo, que tinha que morrer para que desse muito fru- to (Jo 12.24). Dessa forma Jesus, desde o come<;o de Seu ministerio, descre- ve atraves de imagens e parabo- las que tipo de morte Ele recebe- ria. Na medida em que o fim se aproximava, Ele clava expressao a esse fato de maneira mais clara e mais objetiva. Especialmente de- pois que Pedro, em nome de to- dos os ap6stolos, no momento decisivo em Cesareia de Filipos, confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo, Ele come- <;ou a mostrar-lhes que Ele tinha que ira Jerusalem e sofrer muitas coisas nas maos dos anciaos, do sumo sacerdote e dos escribas, morrer, e ressuscitar ao terceiro dia (Mt 16.21). Os discipulos nao entendiam isso e nao queriam aceitar esse fato. Pedro foi tao Ion- 382 ge que chegou a chama-lo confi- dencialmente e dizer-lhe: "Tern compaixao de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecera". Mas nessas palavras Jesus viu uma ten- ta<;ao e prontamente retrucou: II Arreda, Satanas! Tu es para mim pedra de trope<;o, porque nao co- gitas das coisas de Deus, mas das dos homens" (Mt 16.22,23). Essa firmeza de Cristo em entregar-se a morte obteve a aprova<;ao de Deus poucos dias depois, no mon- te da transfigura<;ao. Ele foi a Je- rusalem em harmonia com o sig- nificado da lei e dos profetas (Moises e Elias) e com a vontade do Pai. Ele continuou sendo o Fi- lho amado, em quem o Pai se compraz, e os discipulos nao de- viam censura-lo, mas submeter-se a Ele e ouvi-lo (Mt 17.1-8). Apesar de nao perder de vis- ta Sua propria morte, Jesus nao desafia os fariseus e os escribas a que o prendessem. Apesar de sa- ber que Sua hora se aproximava (Jo 12.23; 17.1), e Judas quem vo- luntariamente o vende e o trai, e sao os servos do sumo sacerdote e dos fariseus que o levam cativo, e sao os membros do Sinedrio e Poncio Pilatos que o condenam a morte. 0 conselho de Deus nao exclui as circunstancias hist6ricas e nao passa por alto a culpa do homem. Pelo contrario, atraves do determinado conselho de Deus Ele foi condenado, mas de tal for- ma que os judeus injustamente o
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO aprisionassem e 0 condenassem a morte (At 2.23; 4.28). A morte de Cristo desde o come<;o e o ponto central da pre- ga<;ao apostolica209 , e nao esta pre- sente apenas no testemunho de Paulo, mas no testemunho de to- dos os apostolos. Foi somente de- pois da ressurrei<;ao de Cristo que, sob a instru<;ao do Espirito santo, a necessidade e a importancia do sofrimento de Cristo foi compre- endida. Nessa ocasiao ficou claro para os apostolos que a paixao e a morte de Cristo tambem eram urn cumprimento de Sua atividade profetica, uma prova da verdade de Seu ensino e urn selo de toda Sua vida. Sob Poncio Pilatos Ele fez a boa confissao (1Tm 6.13) e em Seu paciente sofrimento Ele nos deu o exemplo, para que nos pu- dessemos seguir Seus passos (1Pe 2.21). Ele e a testemunha fiel (Ap 1.5; 3.14), que como apostolo e sumo sacerdote e o conteudo de nossa confissao (Hb 3.1) e que eo Autor e Consumador da nossa fe (Hb 12.2). Assim a morte de Cris- to e uma revela<;ao de Seu poder reaC pois Sua morte nao foi urn ato do destino, mas uma realiza<;ao que Ele mesmo, por Sua propria vontade, executou (Jo 10.17)8). Sua morte na cruz foi Sua exalta- <;ao sobre toda a terrae Sua vito- ria sobre todos os Seus inimigos210 , 209 At 2.23; 3.14; 4.10 55. 210 Jo 3.14; 8.28; 12.32,34. 585 pois foi a mais perfeita obedien- cia ao mandato do Pai (Jo 14.31). Contudo, de acordo com o ensino apostolico, nos nao descan- samos sobre a morte de Cristo. Em Sua morte Jesus foi nao somente uma testemunha e urn guia, urn martir e urn heroi, urn profeta e urn rei. Acima de tudo isso Ele foi urn sacerdote. ESua fun<;ao sacer- dotal que ganha preeminencia em Sua morte. De acordo como ensi- no de toda a Escritura Sua morte foi urn sacrificio, que Ele livremen- te ofereceu ao Pai. Quando o Novo Testamen- to nos apresenta a morte de Cris- to sob esse nome, ele a vincula di- retamente ao Velho Testamento. Os sacrificios existiam desde os tempos mais remotos. Nos lemos que Cairn e Abel ja ofereciam seus sacrificios, que Noe e os patriar- cas tambem os ofereciam, enos os encontramos entre todas as na<;5es e em todas as religioes. Geralmen- te pode ser dito que o proposito do sacrificio e fazer uma oferta material, consistindo de animais vivos ou mortos que sao destrui- dos de uma forma espedfica se- gundo uma cerimonia definida, com o objetivo de obter o favor e o agrado da divindade ou para readquiri-lo. Deus incluiu na lei esses sacrificios para o povo de Israel. Mas em Israel eles seguiam
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista uma regra diferente e tinham urn firme em Israel. significado diferente. Assim como todo o povo de Em primeiro lugar, em Isra- Israel, em virtude de seu chama- el os sacrificios foram limitados a do e de sua elei<;ao, era urn reino oferta de animais (bois, ovelhas, de sacerdotes (Ex 19.6), eo sacer- cordeiros, bodes, novilhos e porn- docio era uma institui<;ao subor- bos) e aos produtos da terra (flo- dinada e temporaria, assim tam- res, oleo, vinho e aromas) e so po- bern os sacrifkios (especificamen- diam ser oferecidos a Jeova, o te as ofertas queimadas, as ofer- Deus de Israel. 0 oferecimento de tas pelo pecado e as ofertas pela seres humanos, o sorvimento do culpa) eram a forma pela qual os sangue e a mutila<;ao do corpo pecados que os israelitas cometi- eram proibidos211 . Alem disso, to- am no ambito da Alian<;a podiam das as ofertas aos idolos, aos mor- ser perdoados214 • Os pecados mais tos ou aos animais "santos" eram graves, que quebravam a Alian<;a viola<;oes da vontade de Deus212 . e provocavam a ira de Deus, ape- Em segundo lugar, os sacrificios sar de serem geralmente punidos em Israel eram muito menos im- civicamente, eram submetidos a portantes que a lei moral. A obe- misericordia de Deus, que os per- diencia e melhor que sacrificios, e doava, apesar de algumas vezes o ouvir e melhor do que a gordu- ser necessaria a intervenc;ao de ra de carneiros. 0 Senhor quer pessoas como Abraao (Gn 18.23- misericordia, e nao sacrificios, eo 33), Moises215 , Fineias (Nm 25.11), conhecimento de Deus vale mais ou Amos (Am 7.4-6; Compare com do que ofertas queimadas213 . Em Jr 15.1)216 . terceiro lugar, os sacrificios em Atraves de todo esse servi<;o Israel assim como o sacerdocio, o cerimonial Deus instruiu Seu templo, o altar, e toda a regula- povo, em primeiro lugar, no sen- menta<;ao cerimonial estavam a tido de que toda a Alian<;a da Gra- servic;o da promessa. Eles nao le- <;a, com todos os seus beneficios, vavam a efeito a Alian<;a da Gra- deve-se somente amisericordia de <;a, pois essa Alian<;a repousa so- Deus. Ela tern sua origem e sua mente sobre a graciosa eleic;ao de base na ilimitada compaixao de Deus. Eles serviram apenas para Deus: "Terei misericordia de estabelecer a Alian<;a e mante-la quem me aprouver ter misericor- ------------------------------~--------~-- 211 Gn 22.11; Dt 12.23; 14.1; 18.10. 212 Ex 32.4ss.; Nm 25.2ss.; Os 11.2; Jr 11.12; Ez 8.10; 51106.28. 213 15m 15.22; Os 6.6; 14.2; 5140.7; 50.7-14; 51.18,19; Pv 21.3. m Lv 4.22; 5.15,18; Nm 15.25 ss.; 35.11; Js 20.3,9. 21 ' Ex 32.11-14; Nm 14.15-20. 216 Ex 33.19; 34.6; 51 78.38; 79.8,9; Is 43.25; Mq 7.18. 384
  • 384.
    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:AO dia e me compadecerei de quem me aprouver ter compaixao" (Ex 33.19). Tambem por meio dessas instiui<;6es cerimoniais o Senhor fez com que Israel compreendes- se que Ele s6 concederia o perdao de pecados mediante expia<;ao. 0 pecado, em outras palavras, sem- pre provoca a ira de Deus e faz com que o homem se torne culpa- do e corrompido. Portanto, urn sacrificio e necessaria para que a ira de Deus seja satisfeita, para que o homem seja limpo de sua culpa e de sua impureza, e para que ele alcance mais uma vez o favor e a comunhao com Deus. Havia pe- cados para os quais a lei nao es- pecificava urn sacrificio particular para que houvesse expia<;ao. Po- demas dizer que a expia<;ao era deixada por conta de Deus. Eo proprio Deus quem, nesses casos, expia o pecado e o perdoa. 0 per- ciao pressupoe a expia<;ao217 • Ate mesmo com rela<;ao aos pecados cometidos por ignorancia, e para os quais urn sacrificio espedfico era prescrito na lei, em ultima ana- lise era Deus que, por meio da oferta, do sacerdote, do altar, co- bria os pecados e os removia (Lv 17.11; Nm 8.19). Todo o servi<;o expiat6rio procede de Deus e foi prescrito por Ele. 0 meio pelo qual a expia<;ao ou reconcilia<;ao era obtida era o derramamento do sangue do ani- mal sacrificado. 0 sangue e a sede da alma, a sede do principia da vida, e foi por isso que Deus o co- locou sobre o altar como o elemen- to expiat6rio da alma (Lv 17.11). Mas para que servisse como agen- te expiat6rio esse sangue - que o pecador trazia ao templo e sobre o qual ele impunha suas maos- tinha que ser purificado pela mor- te e depois tinha que ser aspergi- do pelo sacerdote sobre o altar (Ex 29.15 ss.). A imposi<;ao de maos, a morte da vftima e a aspersao do sangue sobre o altar indicavam o fato de que o sangue como sede da alma se tornava o elemento da expia<;ao. E quando dessa forma o sangue expiava os pecados, co- bria-os e removia-os, a culpa era perdoada, a corrup<;ao era extir- pada, e a comunhao da Alian<;a com Deus era restaurada. 0 sacer- d6cio eo povo, o templo eo altar, e todos os utensilios eram consa- grados pelo sangue ao Senhor; to- dos eram santificados para que Deus pudesse morar no meio dos filhos de Israel e ser o seu Deus (Ex 29.43-46). Mas todo esse servi<;o sacrifi- cial foi preliminar e possuia so- mente a sombra dos bens vindou- ros (Hb 10.1). 0 tabernaculo no deserto era apenas uma imagem do verdadeiro santuario (Hb 8.5). Os sacerdotes eram pecadores, e tinham que fazer expia<;ao nao 217 Sl 65.4; 78.38; 79.9; Pv 16.6; Is 27.9; Jr 18.23; Ez 16.63. 385
  • 385.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii somente pelos pecados do povo, mas tambem pelos seus pr6prios pecados (Hb 7.27; 9.7), e pela mor- te eram impedidos de dar conti- nuidade ao seu sacerd6cio (Hb 7.23). 0 sangue de bodes e de tou- ros nao podia remover pecados nem purificar a consciencia (Hb 9.9,13; 10.4). Portanto, esses ani- mais tinham que ser trazidos con- tinuamente (10.1). Em uma pala- vra, tudo isso era externo, fraco inutile defeituoso (Hb 7.18; 8.7), e apontava para urn futuro melhor. Os israelitas piedosos aprenderam a conhecer esse futuro melhor no decorrer dos seculos, aguardando o dia em que o Senhor estabelece- ria uma nova Alianc;a, na qual Ele mesmo faria a verdadeira expia- c;ao, e faria com que Seu povo des- frutasse das benc;aos de perdao e renovac;ao218 • Particularmente em Isaias essa expectativa alcanc;a sua mais bela expressao. Seu livro de conforto comec;a com o anuncio a Jerusalem de que ja e findo 0 tem- po da sua milicia, que a sua ini- quidade esta perdoada e que ja recebeu em dobro das maos do Senhorportodososseuspecados (Is 40.2). Depois disso ele desenvol- ve a profecia do Servo do Senhor, que toma sobre si as nossas enfer- midades e as nossas dores, nossas transgressoes e nossa punic;ao, e nos da cura e paz (Is 53.2 ss.). ciS Jr 31.33 ss.; 33.8; Ez 11.20; 36.25 ss. * * * * * Em total harmonia com o Velho Testamento, o Novo Testa- mento ve na morte de Cristo urn sacrificio pelos nossos pecados. Jesus nao disse somente que ele veio para cumprir a lei e os profe- tas e toda a justic;a (Mt 3.15; 5.17), mas que tambem veio aplicar a Si mesmo a profecia de Isaias a res- peito do Servo do Senhor, que foi ungido pelo Espirito do Senhor e que tinha que pregar o Evangelho aos pobres (Lc 4.17 ss.). Ele veio para que, em harmonia com o mandato do Pai, pudesse entregar Sua vida e reave-la, para que des- se sua vida pelas Suas ovelhas, e pudesse dar Sua carne e Seu san- gue como comida e bebida que permanecesse para a vida eter- na219. Sua morte eo verdadeiro sa- crificio e o cumprimento de todos os sacrificios que nos dias do Ve- lho Testamento foram oferecidos de acordo com as prescric;oes da lei. Alem disso, a morte de Cris- to e a mais perfeita das rendic;oes avontade do Pai, uma evidencia de que Cristo nao veio para ser servido, mas para servir. Dessa forma Sua morte e urn resgate pago para a libertac;ao de muitos do poder do pecado ao qual eles estavam presos (Mt 20.28). A mor- te de Cristo eo cumprimento da cJ<J fa 2.19; 3.14; 6.51; 10.11,15,18; 12.24; 15.13. 386
  • 386.
    A 0BRA DECRISTO EM SUA HUMILHA<;:Ao oferta pactual feita no preambulo do Velho Testamento (Ex 24.7), e e a base da nova Alian<;a (Mt 26.28; Hb 9.15-22). Ela e chamada de sa- crificio e oferta (Ef 5.2; Hb 9.14,26), e realiza a ideia do sacrificio pascaF20 , das ofertas pelo pecado e das ofertas pela culpa221 , e do sacrificio feito no grande dia da expia<;ao222 • Nao somente os sacrificios do Velho Testamento foram cum- pridos em Cristo, mas tambem todas as suas exigencias e as a<;5es que os acompanhavam. 0 sacer- dote que fazia a oferta tinha que ser urn homem sem qualquer de- feito (Lv 21.17 ss.), e esse sacerdo- te e Cristo, santo, inculpavel, sem macula, separado dos pecadores (Hb 7.26). 0 animal que era sacri- ficado tinha que ser totalmente sem defeito (Lv 22.20 ss.), e Cristo e o Cordeiro sem macula e sem mancha (1Pe 1.19). Assim como o animal do sacrificio tinha que ser morto pelas maos do sacerdote (Ex 29.11), Cristo foi morto como urn cordeiro e com Seu sangue Ele nos comprou para Deus (Ap 5.6- 9). Nenhum osso do cordeiro pascal podia ser quebrada (Ex 12.46), e Cristo morreu sem que sequer urn de Seus ossos fosse quebrada (Jo 19.36). No caso de uma oferta pelo pecado, o sacer- 220 Jo 1.29; 1Co 5.7; 1Pe 1.19; Ap 5.6. 221 Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 13.11; 1Pe 3.18. 222 Hb 2.17; 9.12. dote, depois de imolar o animal, aspergia o seu sangue no lugar santo (Lv 16.15; Nm 19.4) e, no caso de uma oferta da Alian<;a, o sangue do animal era aspergido sobre o povo (Ex 24.8); e exata- mente dessa forma Cristo, pelo Seu sangue, entrou no santo lugar (Hb 9.12) e aspergiu Seu sangue sobre Seu povo (1Pe 1.2; Hb 12.24). Quando a oferta pelo pecado era feita, o sangue do animal era tra- zido ate o lugar santo, mas o cor- po era queimado fora do arraial (Lv 16.27). Da mesma forma Cris- to, para que pudesse santificar Seu povo com o Seu sangue, sofreu fora da porta (Hb 13.12). Assim como no culto do Velho Testa- mento o sangue, como sede da vida, atraves de sua purifica<;ao na morte e de sua aspersao sobre o altar se tornava o elemento pro- prio para a expia<;ao, assim tam- bern na nova Alian<;a o sangue de Cristo e a causa efetiva da expia- <;ao, perdao e elimina<;ao do nos- so pecado223 . Portanto, quando o Novo Testamento fala que Cristo sofreu e morreu como urn sacrificio, ele faz uso de uma figura de lingua- gem, e empresta seus termos do culto sacrificial do Velho Testa- mento. Mas n6s nao devemos in- ferir desse fato que essa represen- 223 Mt 26.28; At 20.28; Rm 3.25; 5.9; 1Co 11.25; Ef 1.7; C/1.20; Hb 9.12,14; 12.24; 1Pe 1.2,19; 1Jo 1.7; 5.6; Ap 1.5; 5.9. 587
  • 387.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ta<;ao seja acidental, irreal, e arbi- amor de Deus. Mas esse amor de tniria. Pelo contrario, a Escritura Deus nao coloca a justi<;a de lado. parte precisamente do fato de que Pelo contrario, a justi<;a esta inclu- os sacrificios dos dias do Velho ida no amor, pois o amor de Deus Testamento eram a imagem e a nao rouba ao pecado o seu cara- sombra, e que receberam seu cum- ter pecaminoso, ele simplesmen- primento no sacrificio de Cristo. te o perdoa atraves da expia<;ao. Assim como Cristo era verdadei- Foi de acordo com o mandato do ramente profeta, sacerdote e rei, e Pai que Cristo teve que morrer224 , nao somente uma compara<;ao, da e atraves de Sua morte Ele satis- mesma forma Sua entrega na mor- fez a justi<;a de Deus225 • Na morte te nao foi urn sacrificio no sentido de Cristo Deus, perdoando os pe- figurativo, mas no mais essencial cados de Seu povo, perfeitamente e verdadeiro sentido da palavra. manteve Sua justi<;a e ao mesmo N6s nao podemos negar que a tempo abriu o caminho pelo qual, morte de Cristo tenha sido urn sa- enquanto preserva Sua justi<;a, crificio. Negar a palavra e negar tambem justifica todos aqueles tambern a realidade que ela repre- que, pela fe, pertencem a Jesus. senta. E essa realidade e a mais im- Em segundo lugar, o sacrifi- portante de todas as realidades para cio de Cristo e uma demonstra<;ao n6s: e a fonte de nossa salva<;ao. tanto de Sua obediencia "passiva" Alem disso, quando a morte quanto de Sua obediencia "ativa". de Cristo e chamada de sacrificio, Em tempos antigos a obediencia a implica<;ao e que Ele se entregou passiva era colocada em urn ter- para ser uma oferta e urn sacriff- reno tao distante da obediencia cio a Deus em aroma suave (Ef ativa que virtualmente desapare- 5.2). De fato, Cristo foi uma dadi- cia atras dela. Mas posteriormen- va e uma evidencia do amor de te tanta enfase foi colocada sobre Deus (Jo 3.16). Deus provou Seu a obediencia ativa que a primeira amor por n6s pelo fato deter Cris- teve seu justo valor obscurecido . to morrido por n6s, sendo n6s ain- Contudo, de acordo com a Escri- da pecadores (Rm 5.8). Aquele que tura, ambas caminham juntas, e nao poupou Seu proprio Filho devem ser vistas como os dois la- tambem nos clara graciosamente dos da mesma questao. Cristo, em com Ele todas as coisas (Rm 8.32). todos os tempos, de Sua concep- 0 nascimento, a vida, e tambem <;ao e nascimento em diante, obe- o sofrimento e a morte de Cristo deceu ao Pai. Toda a Sua vida demonstram e nos asseguram o deve ser vista como urn cumpri- --------------------~---------------------- ,. Mt 26.54; Lc 24.25; At 2.23; 4.28. "·' Mt 3.15; 5.17; fa 10.17,18; Rm 3.25,26. 588
  • 388.
    A 0BRA DECRISTO EM suA HuMILHA<;:Ao mento da justi<;a de Deus, de Sua justi<;a e de Seu mandata. Ao vir ao mundo Ele disse: "Eis aqui es- tou para fazer 6 Deus, a tua von- tade" (Hb 10.5-9). Essa obediencia foi perfeitamente demonstrada em Sua morte, mais especifica- mente em Sua morte na cruz (Fp 2.8). 0 Novo Testamento afirma abundantemente que atraves do sofrimento e da morte de Cristo, pela primeira vez o pecado foi expiado, perdoado e removido. Nao somente o cumprimento da lei, mas tambem a retirada da cul- pa pertence avontade de Deus que Cristo realizou de forma plena. Portanto, em terceiro lugar, o sacriffcio de Cristo esta relacio- nado aos nossos pecados. Ja no Velho Testamento n6s lemos que Abraao ofereceu uma oferta quei- mada em lugar de seu filho (Gn 22.13L que pela imposi<;ao de maos o israelita fazia com que urn animal sacrificial tomasse seu lu- gar (Lv 16.1), e que o Servo doSe- nhor foi ferido por nossas trans- gressoes e moido pelas nossas iniquidades (Is 53.5). Da mesma forma o Novo Testamento estabe- lece uma intima rela<;ao entre o sa- crificio de Cristo e nossos pecados. 0 Filho do homem veio ao mun- do para dar a Sua vida em resgate por muitos (Mt 20.27; 1Tm 2.6). Ele foi entregue por, ou em conside- 226 Rm 8.3; Hb 10.6,18; 1Pe 3.18; 1Jo 2.2; 4.10. ra<;ao aos nossos pecados (Rm 4.25), Sua morte estava relaciona- da com os nossos pecados226 , ou, como geralmente se diz, Ele mor- reu pelos nossos pecados227 • A comunhao que Cristo, se- gundo as Escrituras, passou a ter conosco e tao intimae tao profun- da que n6s nao podemos sequer formar uma ideia sobre ela. 0 ter- mo sofrimento substitutivo expres- sa apenas de uma forma fraca e defectiva o que essa comunhao significa, pois a realidade trans- cende nossa imagina<;ao e nosso pensamento. Everdade que algu- mas analogias podem ser feitas para explicar essa comunhao. N6s sabemos da existencia de pais que sofreram em e com seus filhos, de her6is que deram sua propria vida em beneficia de seu pais, de ho- mens e mulheres nobres que se- mearam o que outros posterior- mente colheram. Em todos os lu- gares, n6s vemos em opera<;ao, a lei de que poucos trabalham e se esfor<;am para que outros desfru- tem de seu labor e dos beneficios que ele traz. A morte de urn ho- mem e a sobrevivencia de outro. 0 grao de trigo deve morrer para que de fruto. Em dores a mae da a luz o seu filho. Mas nenhuma des- sas compara<;6es e adequada para expressar a comunhao que Cristo passou a ter conosco. "Dificilmen- 227 Lc 22.19,20; Jo 10.15; Rm 5.8; 8.32; 1Co 15.3; 2Co 5.14,15,21; G/3.13; 1Ts 5.10; Hb 2.9; 1Pe 2.21. 389
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista te, alguem morreria por urn justo; pois podera ser que pelo born al- guem se anime a morrer. Mas Deus prova o Seu proprio amor para conosco pelo fato deter Cris- to morrido por nos, sendo nos ain- da pecadores" (Rm 5.7,8). Nao havia comunhao entre nos e Cristo, havia apenas sepa- ra<_:ao e oposi<_:ao, pois Ele era o Filho unigenito do Pai, em que o Pai se compraz, e nos eramos como filhos perdidos. Ele era jus- to, santo e nao tinha qualquer pe- cado, enos eramos pecadores, cul- pados diante de Deus, e impuros da cabe<;a aos pes. Contudo Cris- to colocou-se em comunhao conosco, nao meramente em urn sentido fisico (natural), ao assumir nossa natureza, nossa carne enos- so sangue, mas tambem em urn sentido judicial (legal), e em urn sentido etico (moral), ao entrar em contato com nosso pecado e com nossa morte. Ele esta em nosso lugar; Ele se coloca no mesmo re- lacionamento com a lei de Deus que nos tambem mantemos; Ele assume nossa culpa, nossa enfer- midade, nossa puni<_:ao sobre Si mesmo; Aquele que nao conheceu pecado foi feito pecado por nos, para que, nEle, fossemos feitos jus- ti<;a de Deus (2Co 5.21). Ele se tor- nou maldi<_:ao em nosso lugar, para que pudesse nos redimir da maldi<_:ao da lei (Gl3.13). Ele mor- reu por todos, para que os que vi- vern nao vivam mais para si mes- 390 mos, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou (2Co 5.15). Esse e o misterio da salva- <;ao, o misterio do amor divino. Nos nao entendemos o sofrimen- to substitutivo de Cristo, porque nos, sendo hostis a Deus e uns aos outros, nao podemos imaginar o que 0 amor e capaz de fazer, e 0 que o amor eterno e infinito de Deus pode realizar. Mas nos nao temos que entender esse misterio. Nos precisamos apenas crer agra- deci-damente nEle, descansar nEle, e nos gloriarmos e nos ale- grarmos nEle. "Ele foi traspassa- do pelas nossas transgress6es e moido pelas nossas iniqiiidades. 0 castigo que nos traz a paz esta- va sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados. Todos nos andavamos desgarrados como ovelhas; cada urn de nos se desviava pelo caminho, mas o Se- nhor fez cair sobre Ele a iniqiiida- de de nos todos" (Is 53.5,6). "Que diremos, pois, avista destas cousas? Se Deus e por nos, quem sera contra nos? Aquele que nao poupou Seu proprio Filho, antes, por nos o entregou, porventura, nao nos clara gracio- samente com Ele todas as cousas? Quem intentara acusa<_:ao contra os eleitos de Deus? EDeus quem os justifica. Quem os condenara? ECristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual esta adireita de Deus e tambem intercede por nos" (Rm 8.31-34).
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    CAPITULO 11® A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA~Ao 0 s beneficios que Cristo nos concedeu por Seu grande amor sao tao ricos que seu valor simplesmente nao pode ser calculado nem estimado. Eles compreendem nada menos que toda a perfeita obra de salva- <;ao. Eles consistem na reden<;ao do maior de todos os males, a sa- ber, o pecado com todas as suas consequencias de miseria e mor- te, e a obten<;ao do maior de to- dos os bens, a saber, a comunhao com Deus e todas as ben<;aos dela decorrentes. Mais adiante tere- mos oportunidade de discutir to- dos esses beneficios de forma de- talhada, mas eles devem ser men- passagem, aqm para que possamos entender a obra de Cristo em seu mais pro- funda significado. Dentre todos os beneficios o principal. Ela e expressa no Novo Testamento por duas pala- vras do original grego que foram traduzidas em portugues como propicia<;ao, reconcilia<;ao ou ex- pia<;ao. A primeira dessas pala- vras - ou, para ser mais preciso, varias palavras como mesmo sen- tido - e encontrada em Romanos 3.25, Hebreus 2.17, lJo 2.2; 4.10, e originalmente significa cobrir e serve para designar a expia<;ao efetuada pelo sacrificio. A ideia e que o sacrificio, ou melhor, o san- gue do sacriffcio - pois o sangue e a sede da vida, e quando ele e derramado e aspergido ele se tor- na o elemento proprio da expia- <;ao - cobre o p (culpa; pessoa que traz a oferta diante de Deus e, em con- sequencia disso, ele remove a pro- voca<;ao ira de Deus. Devido que n6s devemos aprofunda hu- ao milha<;ao de CristoI a expia<;ao e e aaspersao do a vida, a alma de 591
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista --------------------· urn animal inocente e sem macu- lae utilizada, Deus coloca de lado Sua ira, muda Sua atitude com rela<;ao ao pecador, perdoa sua transgressao, e admite-o nova- mente aSua presen<;a e aSua co- munhao. 0 perdao que se segue aexpia<;:ao etao perfeito que po- demos dizer que os pecados fo- ram apagados ou desfeitos (Is 43.25; 44.22), foram lan<;ados para tras (Is 38.17), ou lan<;:ados no fun- do do mar (Mq 7.19). A expia<;ao perdoa tao completamente ope- cado que e como se ele nao tives- se sido cometido. Ela desfaz a ira de Deus e faz com que Sua face brilhe sobre Seu povo em aprova- <;:ao paternal e boa vontade. No Velho Testamento tudo isso apontava para o sacrificio de Cristo no futuro. Ele eo sumo sa- cerdote que por Seu sangue sacrificial cobre nossos pecados da face de Deus, desvia Sua ira e faz com que n6s desfrutemos de Sua Gra<;:a e de Sua aprova<;:ao. 0 sacrificio do Velho Testamento era o meio de expia<;:ao (Rm 3.25). Cristo en expia<;:ao (1Jo 2.2; 4.10). Como sumo sacerdote Cristo e ativo em nossa reconcilia<;:ao com Deus, expiando os pecados do povo (Hb 2.17). Ha muitos que rejeitam essa reconcilia<;ao entre n6s e Deus atraves de Cristo. Es- sas pessoas dizem que Deus e amor, que Ele nao exige reconci- lia<;:ao, e que a ideia de uma expi- a<;:ao e propria somente da ideia legalista e primitiva de Deus apresentada no Velho Testamen- to, e que essa ideia e colocada de lado e combatida no Novo Testa- mento. Mas essas pessoas se es- quecem que o pecado, devido ao seu carater profano e culpado pro- voca a ira de Deus e merece puni- <;:ao nao somente sob a lei de Moises, mas tambem fora dela e acima dela, no Novo Testamen- to228. Eles se esquecem que Cristo e nao apenas uma dadiva e uma revela<;:ao do amor de Deus, mas tambem de Sua justi<;:a (At 4.28; Rm 3.25), e que o perdao ammo- so de Deus nao exclui a expia<;:ao, mas pressup6e a expia<;:ao e con- firma-a. 0 perdao e sempre urn ato perfeitamente voluntario e gracioso de Deus. Ele pressup6e que Deus tern o direito de punir, e consiste, dessa forma, em urn tipo de absolvi<;:ao que e compa- tivel com a manuten<;:ao da justi- <;a de Deus. Aquele que nega a Deus o direito de punir nao so- mente faz injusti<;:a ao carater pro- fano e culpado do pecado, mas tambem recusa o gracioso e perdoador amor de Deus. Nesse caso a expia<;:ao deixa de ser urn ato gracioso, voluntario e pesso- al para tornar-se urn processo na- tural. A Escritura, contudo, nos ensina que Siao e redimida pela 228 Gn 2.17; 3.14 ss.; Rm1.18; 5.12; 6.23; Gl3.10; Ef2.3. 592
  • 392.
    A 0BRA DECRisTo EM SuA ExALTA<;:Ao justic;a, e que Cristo, atraves de Seu sacrificio, satisfez essa justi- c;a, e desviou a ira de Deus, que tinha sido provocada pelo peca- dozz9. Essa expiac;ao ou reconcili- ac;ao que Cristo alcanc;ou para n6s com Deus tern outro significado, motivo pelo qual outra palavra e usada para distingui-lo. Essa pa- lavra eusada em Romanos 5.10)1 e 2Cor1ntios 20, e tern o sentido original de troca, compensac;ao. Ela aponta para a nova disposi- c;ao da Grac;a que Deus dirige ao mundo devido ao sacrificio reali- zado por Cristo. Tendo Cristo, atraves de Sua morte, coberto nos- sos pecados e desviado a ira de Deus, Deus muda Sua atitude com relac;ao ao mundo para uma atitude de reconciliac;ao, e nos fala em Seu Evangelho, que e cha- mado de palavra de reconciliac;:ao. Essa reconciliac;:ao tambem e objetiva. Ela nao vern aexistencia em virtude de nossa fe e arrepen- dimento, mas repousa sobre a ex- piac;ao (satisfac;ao) realizada por Cristo, e consiste de uma reconci- liac;ao do gracioso relacionamen- to de Deus conosco, e n6s a rece- bemos e aceitamos pela fe (Rm 5.11). Devido ao fato de Deus ter colocado de lado Sua disposic;ao hostil em relac;ao a n6s por causa da morte de Cristo, n6s somos orientados a, de nossa parte, aban- 229 Is 1.27; Rm 5.9,10; 2Co 5.18; G/3.13. 393 donar nossa hostilidade em rela- c;:ao a Deus e nos deixarmos ser re- conciliados com Deus, entrando, assim, em urn novo relaciona- mento com Ele, urn relacionamen- to reconciliado, no qual Deus vern ate n6s. Tudo esta consumado. Nada foi deixado para que n6s fi- zessemos. N 6s podemos com toda a nossa alma e em todo o tempo descansar na perfeita obra de redenc;:ao que Cristo realizou. N6s podemos aceitar pela fe o fato de que Deus colocou de lado sua ira e que em Cristo n6s fomos re- conciliados com Deus, que tern uma atitude de Pai em relac;:ao a pecadores culpados e maculados. Quem quer que sinceramen- te creia nesse Evangelho de recon- ciliac;ao recebe imediatamente to- dos os outros beneficios que fo- ram alcanc;ados por Cristo, pois na atitude de paz que Deus assume para com o mundo atraves de Cristo estao incluidos todos os outros beneficios da Alianc;a da Grac;a. Cristo e urn, e nao pode ser dividido nem aceito em partes. A corrente de salvac;:ao nao pode ser quebrada. E aqueles a quem Deus predestinou, a esses tambem cha- mou, e aos que chamou, a esses tambem justificou, e aos que jus- tificou, a esses tambem glorificou (Rm 8.30). Portanto todos aqueles que sao reconciliados com Deus atraves da morte de Cristo rece-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista bern o perdao de pecados, a ado- <_;:ao de filhos, a paz com Deus, o direito a vida eterna e a heran<_;:a celestiaF30 . Eles permanecem em urn status de comunhao com Cris- to, sao crucificados, sepultados e ressuscitados com Ele, e estabe- lecidos no ceu, e cada vez mais e mais sao moldados a Sua ima- gem231. Eles recebem o Espirito, que os renova, conduze-os aver- dade, da testemunho de sua ado- <_;:ao como filhos, e os acompanha ate o dia da reden<_;:ao232 • Nessa comunhao com o Pai, o Filho e o Espirito Santo, os crentes sao li- vres da lei233 , sao elevados acima de todo poder do mundo e da morte, do inferno e de Satanas234 . Deus e por eles; quem sera contra eles? (Rm 8.31). * * * * * 0 perfeito sacrificio que Cristo realizou na cruz e de infi- nito poder e merito, e plenamen- te suficiente para a expia<_;:ao dos pecados de todo o mundo. A Sa- grada Escritura sempre relaciona a todo o mundo a obra de reden- <_;:ao e recria<_;:ao. 0 mundo e o ob- jeto do amor de Deus (Jo 3.16). Cristo nao veio ao mundo para 230 Rm 5.1; 8.17; G/4.5 231 Rm 6.3 ss.; 8.29; Gl 2.20; EJ4.22-24. 232 Jo 3.6; 16.3; Rm 8.15; EJ4.30. 233 Rm 7.1ss.; Gl 2.19; 3.13; 4.5; 5.1. condena-lo, mas para salva-lo235 . Em Cristo Deus reconciliou o mundo, todas as coisas, no ceu e na terra, a Si mesmo. Cristo e uma propicia<_;:ao nao apenas para aqueles que em urn dado mo- mento creem nEle, mas tambem para todo o mundo (1Jo 2.2). As- sim como o mundo foi criado pelo Filho, assim tambem o mundo esta destinado a pertencer a Ele como o Filho e herdeiro (Jo 1.29; 2Co 5.9; Cl1.20). Eo beneplacito do Pai na dispensa<_;:ao da pleni- tude dos tempos que reuniu to- dos em urn, cujo Cabe<_;:a e Cristo, tudo, isto e, no ceu e na terra (Ef 1.10). Aproxima-se o tempo dares- taura<_;:ao de todas as coisas. Pela promessa de Deus n6s esperamos por urn novo ceu e por uma nova terra, na qual habitara a justi<_;:a (At 3.21; Ap 21.1). Devido a plena suficiencia do sacrificio de Cristo para todo o mundo, o Evangelho da recon- cilia<_;:ao deve ser pregado a todas as criaturas. A promessa do Evan- gelho e que quem quer que creia no Cristo crucificado nao perece- ra, mas tera vida eterna, e esse Evangelho deve ser proclamado e apresentado sem distin<_;:ao a to- das as na<_;:6es e povos aos quais 2 ·H Jo 16.33; Rm 8.38; lCo 15.55; 1Jo 3.8; Ap 12.10. 235 fa 3.17; 4.42; 6.33,51; 12.47. 394
  • 394.
    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao Deus, segundo o Seu beneplaci- to, envia o Seu Evangelho. Ele deve ser acompanhado pelo im- perativo arrependimento e pela fe. A Escritura nao nos deixa a me- nor duvida sobre isso. No Velho Testamento ja foi dito que o Se- nhor nao tern prazer na morte do impio, mas no seu arrependimen- to e na sua vida (Ez 18.23; 33.11). Tambem e dito que todas as na- <;6es algum dia desfrutariam da benc;ao de Israel236 • A ideia missionaria ja esta presente na promessa da Alianc;a da Grac;a apresentada no Velho Testamen- to, mas ela e expressa com total clareza quando Cristo vern ao mundo e realiza Sua obra. Ele e a luz do mundo, o Salvador que da a Sua vida pelo mundo237 , que tern outras ovelhas que nao per- tencem ao aprisco de Israel e que devem ser conduzidas ate Ele (Jo 10.16), e por isso Ele prediz e or- dena que o Evangelho seja prega- do em todo o mundo238 • Quando, depois do Pen.te- costes, os ap6stolos levaram esse Evangelho aos judeus e aos gen- tios e fundaram igrejas em todos os lugares, quase pode ser dito que sua mensagem se espalhou por todo o mundo, e suas pala- vras foram ouvidas ate nos con- fins da terra (Rm 10.18), e que a Grac;a salvadora de Deus se rna- 136 Gn 9.27; 12.3; Dt 32.21; Is 42.1,6. ' 37 Jo 3.19; 4.42; 6.33; 8.12. 138 Mt 24.14; 26.13; 28.19; Me 16.15. 395 nifestou a todos os homens (Tt 2.11). De fato, a intercessao por todos os homens e particularmen- te pelos reis e por todos aqueles que estao em posic;ao de autori- dade e uma atitude boa e agrada- vel a Deus, pois Ele quer que to- dos os homens sejam salvos e che- guem ao conhecimento da verda- de (1Tm 2.4). A demora do retor- no de Cristo e a evidencia da longanimidade de Deus, pois Sua vontade e que nenhum se perca, mas que todos cheguem ao arre- pendimento (2Pe 3.9). A universalidade da prega- c;ao do Evangelho tern suas van- tagens para o mundo em sua in- teireza, ate mesmo para aqueles que nunca crerao em Cristo como seu Salvador. Em Sua encarnac;ao Cristo honrou toda a rac;a huma- na, e tornou-se irmao de todos os homens segundo a carne. A luz brilha nas trevas e, pela Sua vin- da ao mundo, ilumina todo ho- mem. 0 mundo foi feito por Ele, apesar do mundo nao o conhecer (Jo 1.3-5). Pelo chamamento afee ao arrependimento que Cristo da a todo aquele que vive sob o Evangelho, Ele da muitas benc;aos externas no lar e na sociedade, na Igreja e no Estado, e isso alegra tambem aqueles que em seu co- rac;ao nao ouvem o Evangelho. Eles se encontram sob o dominio
  • 395.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista do Verbo, sao protegidos de ter- riveis pecados, e, em distin<;ao das na<;6es pagas, desfrutam de mui- tos privilegios. Alem disso, n6s nao podemos nos esquecer que Cristo, por Sua paixao e morte, promoveu a liberta<;ao da criatu- ra dos poderes da maldade, a re- nova<;ao do ceu e da terra, a res- taura<;ao e a reconcilia<;ao de to- das as coisas, tanto de anjos quan- to de homens. Em Cristo, o orga- nismo da ra<;a humana e o mun- do como cria<;ao de Deus, sao res- taurados (Ef 1.10; Cll.20). Todavia, n6s nao devemos deduzir dessa absoluta universa- lidade da prega<;ao do Evangelho e da oferta da Gra<;a que os bene- ficios de Cristo sejam destinados a todas as pessoas individualmen- te. Isso e negado de forma conclu- siva pelo fato de que nos dias do Velho Testamento Deus deixou que os pagaos seguissem seus pr6prios caminhos e escolheu so- mente o povo de Israel como Sua propriedade. Isso e negado tam- bern pelo fato de que, na plenitu- de dos tempos, nao obstante a universalidade da prega<;ao do Evangelho, Ele limitou as pro- messas de Sua Gra<;a atraves dos seculos a uma pequena parcela da humanidade. As afirma<;6es gerais que sao encontradas aqui e ali na Escritu- ra nao podem ser tomadas em urn sentido absoluto por quem quer que seja, mas devem ser conside- radas em urn sentido relativo. Todas elas foram escritas sob a profunda impressao da distin<;ao entre a dispensa<;ao do Velho e do Novo Testamento. Dificilmente n6s podemos perceber isso, mas os ap6stolos, que cresceram no particularissimo do judaismo, sentiram profundamente a tre- menda mudan<;a que Cristo intro- duziu no relacionamento das na- <;6es. Eles constantemente se refe- rem a isso como urn grande mis- terio que tern se mantido atraves dos seculos, mas que foi revela- do aos ap6stolos e profetas pelo Espirito. Eles viam urn grande misterio no fato de que os pagaos seriam co-herdeiros do mesmo corpo e que compartilhariam da promessa de Cristo. 0 muro de separa<;ao fora quebrado. 0 san- gue da cruz promoveu a paz. Em Cristo nao ha judeu nem grego, nem barbaro nem cita. Todas as limita<;6es de na<;ao e lingua, de descendencia e de cor, de idade e de familia, de tempo e de lugar foram eliminadas. Todos os que estao em Cristo sao novas criatu- ras. A Igreja e constituida de to- das as ra<;as e linguas, povos e na<;6es239 • Mas no momento em que a Escritura entra na questao de para quem Cristo alcan<;ou Seus bene- 239 Rm 16.25,26; Ef1.10; 3.3-9; C/1.26,27; 2Tm 1.10,11; Ap 5.9. 396
  • 396.
    A OBRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao ficios, a quem Ele os garantiu e aplicou, e quem de fato desfruta- ra deles, ela sempre relaciona Sua obra aIgreja. Assim como no Ve- lho Testamento havia urn povo especial escolhido por Deus para ser Seu herdeiro, assim tambem, o Novo Testamento, menciona urn povo especial escolhido par Deus. 0 povo escolhido apresen- tado no Novo Testamento nao e limitado aos descendentes de Abraao segundo a carne. Pelo con- tnirio, ele e constitufdo tanto por judeus quanta par gentios, e par todas as nac;oes e grupos de pes- soas. Mas essa Igreja do Novo Testamento e exatamente a reu- niao do povo de Deus (Mt 16.18; 18.20), ela eo Israel do Novo Tes- tamento (2Co 6.16; Gl6.16t aver- dadeira descendencia de Abraao (Rm 9.8; Gl 4.29). Por esse povo Cristo derramou Seu sangue e obteve a salvac;ao. Ele veio para salvar esse povo (Mt 1.21), para dar Sua vida por Suas ovelhas (Jo 10.11), para reunir todos os filhos de Deus em urn corpo (Jo 11.52), e garantir vida a todos aqueles que lhe foram dados pelo Pai e ressuscita-los no ultimo dia (Jo 6.39; 17.2), para comprar a Igreja de Deus com o Seu sangue e santifica-la e purifica-la com ala- vagem de agua pela palavra (At 20.28; Ef 5.25,26). Como sumo sa- cerdote Cristo ora nao pelo mun- do, mas par aqueles que o Pai lhe deu e que pela palavra dos ap6s- tolos crerao nEle (Jo 17.9,20). Ha, portanto, a mais perfei- ta harmonia entre a obra do Pai, do Filho e do Espfrito santo. To- dos aqueles que sao escolhidos pelo Pai sao comprados pelo Fi- lho e, atraves da obra do Espfrito, sao regenerados e renovados. As Escrituras nos falam que muitos foram comprados240 • A Escritura nao nos ensina isso para que nos sintamos desanimados diante de uma norma arbitraria e de urn numero definido, mas para que, em meio aluta e aapostasia n6s fiquemos perfeitamente seguros de que a salvac;ao do comec;o ao fim e uma obra de Deus, e que, portanto, essa obra ira adiante in- dependente de qualquer oposi- c;ao. A vontade do Senhor prospe- rara nas maos do Servo Sofredor (Is 53.10). Como a obra de salvac;ao e uma obra de Deus e somente de Deus, os beneffcios de Cristo nun- ca nos alcanc;ariam se n6s nao ti- vessemos sido levantados da morte e firmados em exaltac;ao a mao direita de Deus. Urn Jesus morto seria o suficiente para n6s se o Cristianismo fosse apenas uma doutrina abstrata ou uma prescric;ao moral e urn exemplo a ser seguido, e nada mais. Mas a religiao crista e alga muito dife- ' 40 Is 53.11,12; Mt 20.28; 26.28; Rm 5.15,19; J-Ib 2.10; 928. 397
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista rente e muito mais que isso. Ea perfeita reden<_;:ao do homem como urn todo, de todo o organis- mo da humanidade e de todo o mundo. Cristo veio aterra para, nesse sentido pleno, salvar o mun- do. Ele nao veio para abrir a pos- sibilidade de salva<_;:ao para todos, e a partir dai deixar ao nosso li- vre arbitrio a aceita<_;:ao ou a rejei- <_;:ao dessa possibilidade. Em vez disso Ele se humilhou e se tornou obediente ate amorte na cruz para que realmente, perfeitamente e eternamente pudesse nos salvar. Portanto Sua obra nao termi- nou em Sua morte e em Seu se- pultamento. De fato, em Sua ora- <_;:ao sacerdotal Ele disse que tinha consumado a obra que o Pai lhe tinha confiado (Jo 17.4) e, cravado na cruz, Ele disse que tudo esta- va consumado (Jo 19.30). Mas es- sas afirma<_;:oes se referiam aobra de Jesus aqui na terra. Elas se re- feriam aSua obra de humilha<;:ao, a realiza<_;:ao de nossa salva<;:ao. Essa obra de fato ja foi realizada. Ela esta completa e e perfeita. Atraves de Sua vida e de Sua mor- te a salva<_;:ao foi realizada de for- ma tao perfeita que nenhuma cri- atura precisa fazer qualquer tipo de acrescimo a ela, e nem seria capaz de faze-lo. Mas a realiza<_;:ao da salva<_;:ao deve ser diferencia- da de sua aplica<_;:ao ou distribui- <_;:ao. A aplica<_;:ao da salva<_;:ao e tao necessaria quanto a sua realiza- 241 At 2.36; 5.31; 1Co 15.25. 398 <_;:ao. Que beneficios esses tesou- ros nos trariam se permanecessem sempre alem de nosso alcance e n6s nunca pudessemos possui- los? Que bern Cristo nos faria se tivesse morrido pelos nossos pe- cados mas nunca tivesse ressus- citado para a nossa justifica<_;:ao? Qual seria a vantagem de urn Se- nhor morto, que nao tivesse sido exaltado adestra de Deus? Como cristaos, todavia, n6s confessamos e nos alegramos em urn Senhor crucificado que e, ao mesmo tempo, o Senhor ressur- reto, em urn Salvador humilhado, mas tambem exaltado, em urn rei que e 0 primeiro, mas tambem e o ultimo, que morreu, mas vive eternamente, e que tern as chaves do inferno e da morte (Ap 1.18). Depois de Sua morte Cristo res- surgiu, para que pudesse domi- nar sobre os vivos e os mortos (Rm 14.9). Em Sua exalta<_;:ao Ele com- pleta a constru<_;:ao cujos alicerces Ele tinha lan<_;:ado por ocasiao de Sua morte. Ele ressuscitou acima de todo principado, e poder, e potestade, e dominio, para ser o Cabe<;:a da Igreja, que e plenitude daquele que tudo enche em todas as coisas (Ef 1.20-23). Em virtude de Sua ressurrei<_;:ao Ele foi feito Senhor e Cristo, Principe e Salva- dor, para que Ele possa dar a Is- rael arrependimento e perdao de pecados, e colocar todos os Seus inimigos sob Seus pes241 • Deus o
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    A 0BRA DECrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao exaltou e lhe deu urn nome aci- ma de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joe- lho, tanto no ceu quanto na terra, e toda lingua confesse que Jesus Cristo eo Senhor, para gloria de Deus Pai (Fp 2.9-11). A exalta<;ao de Cristo, par- tanto, nao e urn apendice aciden- tal nem urn adendo arbitrario que Ele sofreu nos dias de Sua carne. Mas, assim como a humilha<;ao, esse e urn componente indispen- savel da obra de reden<;ao que Cristo realizou. Na exalta<;ao de Cristo Sua humilha<;ao recebe Seu selo e coroa. 0 mesmo Cristo que desceu as partes inferiores da ter- ra ascendeu acima de todos os ceus (Ef4.9,10). Assimcomo a obra de humilha<;ao lhe foi confiada, a obra de exalta<;ao tambem o foi. Ele tinha que realiza-la. Ela era Sua obra, ninguem mais poderia realiza-la. 0 Pai o exaltou preci- samente porque Cristo se humi- lhou tao profundamente (Fp 1.9). 0 Pai a ninguem julga, mas ao Filho confiou todo julgamento (Jo 5.22). 0 Filho foi exaltado, e em Seu estado de exalta<;ao Ele con- tinua Sua obra para provar que Ele e 0 verdadeiro, perfeito e po- deroso Salvador. Ele nao descan- sara ate que tenha entregue o rei- no, perfeito e completo, ao Pai, e possa apresentar Sua noiva, a Igreja, ao Pai, sem mancha nem macula (1Co 15.24; Ef 5.25). Ahon- ra de Cristo depende do cumpri- 399 mento total de sua obra de salva- <;ao. Ele exalta aqueles que lhe pertencem e os traz para que fi- quem onde Ele esta e vejam a Sua gloria (Jo 17.24). E no fim dos tem- pos Ele retornara para ser glorifi- cado em Seus santos e ser admi- rado em todos os que creram (2Ts 1.10). ***** De acordo com a confissao Reformada, a exalta<;ao de Cristo come<;a em Sua ressurrei<;ao, mas de acordo com muitas outras con- fiss6es ela come<;a bern antes, isto e, em Sua descida ao inferno. Essa descida e interpretada de forma muito variada. A igreja grega en- tende que o significado dessa des- cida e que Cristo, com Sua natu- reza divina e com Sua alma hu- mana foi ao mundo inferior para libertar as almas dos santos ante- passados e conduzi-las, juntamen- te com a alma do ladrao da cruz, ao paraiso. De acordo com a igreja Ca- tolica romana Cristo realmente desceu ao mundo inferior com Sua alma e permaneceu la por al- gum tempo para libertar as almas dos santos, que permaneceram la sem qualquer sofrimento ate que a salva<;ao tivesse sido alcan<;ada. Do estado de morte Cristo condu- ziu-os ao ceu, e fez com que eles desfrutassem da aben<;oada con- templa<;ao de Deus. A igreja
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Luterana faz uma distin<;ao entre a real ressurrei<;ao de Cristo e Sua ressurrei<;_:ao ou manifesta<;_:ao fisi- ca depms de sepultado, e ensina que no curto intervalo entre esses dois acontecimentos Cristo, com Sua alma e com Seu corpo, des- ceu ao inferno para anundar Sua vit6ria aos demonios e aos conde- nados. E muitos te6logos, especi- almente nos tempos modernos, afirmam que Cristo, antes de Sua ressurrei<;_:ao, seja em corpo seja em alma, foi ao mundo inferior para pregar o Evangelho aqueles que morreram em seus pecados, e dar-lhes oportunidade de arre- pendimento e fe. A grande diferen<;_:a de opi- nioes sobre esse assunto prova que o sentido original da expres- sao desceu ao inferno foi perdido. N6s nao sabemos de onde veio essa clausula do credo, nem o que ela queria dizer. A Escritura nada diz sobre uma descida reat lite- ral e espacial de Cristo ao infer- no. Em Atos 2.27 Pedro aplica as palavras do Salmo 16 a Cristo: "Nao deixaras a minha alma na morte, nem permitiras que o teu santo veja corrup<;ao". Mas e evi- dente que nesse caso a palavra morte deve ser entendida como sepultura242 . Apesar de em Sua alma Cristo estar no paraiso, Seu corpo estava na sepultura, e des- sa forma no intervalo entre Sua morte e Sua ressurrei<;_:ao Ele esta- va na morte. Em Efesios 4.9 Pau- lo diz que aquele que subiu tam- bern desceu as regioes inferiores da terra, mas isso nao e uma refe- renda a uma desdda ao inferno, mas uma referenda a encarna<;ao, na qual Cristo desceu a terra ou a morte, na qual Ele desceu a sepul- tura. E em 1Pedro 3.19-21 Pedro nao esta falando sobre o que Cris- to fez entre sua morte e Sua res- surrei<;_:ao, ele esta falando do que Cristo fez antes de Sua encarna- <;_:ao, atraves do Espfrito Santo, nos dias de Noe, ou do que Ele fez depois de Sua ressurrei<;_:ao quan- do Ele ja estava novamente vivo. Nao ha na Escritura o menor si- nal de uma descida espacial de Cristo ao inferno. A igreja Reformada abando- nou essa interpreta<;_:ao do credo apost6lico e interpretou-a em re- ferenda as afli<;_:oes infernais e as agonias que Cristo sofreu antes de Sua morte, tanto no G6lgota quan- ta no Getsemani, ou relaciona-a ao estado de morte no qual Cris- to esteve enquanto Seu corpo es- tava na sepultura. Ambas as inter- preta<;_:oes se encaixam na ideia da Escritura de que a hora em que Jesus se entregou a morte foi a hora e o poder das trevas (Lc 22.53). Cristo sabia que essa hora tinha chegado, e Ele voluntaria- mente se entregou a ela243 . Nessa --------------------------------------------- ' 42 A versiio utilizada pelo autor diz: "Niio deixarcis a minha alma no inferno, nem permitirtis que a tw santo veja corrupr;iio" (N. do T.). 243 fa 8.20; 12.23,27; 13.1; 17.1. 400
  • 400.
    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao hora na qual Ele expos o mais ele- vado poder de Seu amor e obedi- encia (Jo 10.17)8) Ele parecia es- tar inteiramente desesperado. Os inimigos estavam fazendo com Ele o que bern queriam. As trevas triunfavam sobre Ele. De fato, nao em urn sentido espacial, mas em urn sentido espiritual, Ele desceu ao inferno. Mas o poder das trevas nao era proprio das trevas. Ele foi dado pelo Pai (Jo 19.11). Os ini- migos de Jesus nao entendiam que eles eram apenas meramente agentes ou instrumentos, e que sem Seu conhecimento e sem Sua vontade eles estavam cumprindo o conselho que o Senhor tinha es- tabelecido (At 2.23; 4.28). Em Sua humilha<;ao Cristo era o podero- so, que entregava Sua vida e clava Sua alma em resgate por muitos (Jo 7.30; 8.20). Em Sua morte Ele venceu a morte pelo poder de Seu amor, pela Sua perfeita negac;ao de Si mesmo, pela Sua absoluta obediencia avontade do Pai. For- tanto, era impossivel que Ele, o santo, pudesse ser retido ou do- minado pela morte ou fosse aban- donado por Deus e entregue a corrup<;ao (At 2.25-27). Pelo con- trario, o Pai o exaltou244 e Cristo ressurgiu por Sua propria for<;a245 • Os grilh6es da morte eram os so- frimentos que deram origem a uma nova vida (At 2.24). Cristo e o primogenito dos mortos (Cl 1.18). Essa ressurrei<;ao consistiu no retorno de Seu corpo morto, a vida e em Seu levantamento do sepulcro. Os oponentes da res- surreic;ao encontram serias difi- culdades nesse fato. Primeiro eles tentaram explicar que Jesus mor- reu somente em aparencia, ou que Seu corpo foi roubado pelos dis- dpulos, ou que os disdpulos ti- veram uma ilusao e simplesmen- te imaginaram te-lo visto. Mas to- das essas explicac;6es foram aban- donadas, uma ap6s a outra. Atu- almente muitos recorrem ao espi- ritismo e encontram nele uma ex- plica<;ao para a ressurreic;ao de Jesus. Eles dizem que algo muito objetivo aconteceu ali. Os discipu- los viram algo. Eles viram uma manifestac;ao do Cristo que tinha morrido no corpo, mas continua- va vivo em espirito. 0 espirito de Cristo apareceu a eles e se reve- lou a eles. Alguns ate mesmo dao urn toque de piedade a tudo isso e dizem que foi o proprio Deus que fez com que o espirito de Cristo aparecesse aos discipulos para aliviar a dor que eles esta- vam sentindo e para confirmar- lhes a vitoria sobre a morte e a indestrutibilidade da vida. Em outras palavras, as apari<;6es do 244 At 2.24; 3.26; 5.30; 13.37; Rm 4.25; 1Co 15.14. 245 Jo 11.25; At 2.31; Rm1.4; 14.9; 1.Co 15.21; 1Ts 4.14. 401
  • 401.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Cristo ressurreto foram "telegra- mas do ceu", que traziam uma mensagem divina sobre o poder espiritual de Cristo. Mas todo esse relata espi- ritualista e estranho a Biblia e diametralmente oposto ao teste- munho que ela da a respeito da ressurrei<;ao de Cristo. De acordo com todos os escritores dos Evan- gelhos, o sepulcro ficou vazio no terceiro dia246 • Sem apresentar uma ordem regular e sem dar urn sumario completo dos fatos ocor- ridos, Paulo e os evangelistas nos dizem que Jesus apareceu as mu- lheres, particularmente a Maria Madalena, a Pedro, aos discipu- los quando Tome estava ausente e aos disdpulos quando Tome estava presente, e a muitos outros, inclusive a mais de quinhentos irmaos de uma s6 vez. As primei- ras manifesta<;6es aconteceram nas proximidades de Jerusalem, e as ultimas aconteceram na Galileia, para onde Ele, como nos diz Marcos, foi adiante dos disci- pulos (Me 16.7). E tudo indica que Cristo ressurgiu com o mesmo corpo que tinha sido sepultado. Era urn corpo de carne e ossos, e nao urn ser etereo (Lc 24.39). Esse corpo podia ser tocado (Jo 20.27), e podia alimentar-se (Lc 24.41; Jo 21.10). Cristo deixou sobre o povo, depois de Sua ressurrei<;ao, uma impressao muito diferente da que tinha deixado antes dela. Aqueles que o viram ficaram assustados e temerosos, e lan<;avam-se aos Seus pes eo adoravam (Mt 28.9; Lc 24.37). Ele apareceu em uma forma diferente daquela em que Ele tinha aparecido antes (Me 16.12), e houve casos em que Ele nao foi reconhecido imediata- mente (Lc 24.16,31). Ha uma grande diferen<;a entre a ressurrei- <;ao de Lazaro e a de Jesus. Lazaro retornou da morte para reassumir sua primeira e terrena esfera de vida, mas Jesus nao voltou. Ele foi para frente, seguindo o caminho da ascensao. Quando Maria pen- sa ter recebido novamente Seu Mestre e Senhor e se alegra na Sua presen<;a, Ele a adverte com as seguintes palavras: "Nao me de- tenhas; porque ainda nao subi para meu Pai, mas vai ter com os meus irmaos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus" (Jo 20.17). Depois da ressurrei<;ao Cristo nao pertencia mais a terra, mas ao ceu. Essa e a razao pela qual Sua forma foi mudada, em- bora Ele continuasse com o mes- mo corpo que fora colocado no sepulcro. Paulo apresenta a ques- tao dizendo que, ao morrer, urn corpo naturale semeado, mas que na ressurrei<;ao (tanto na de Cris- to quanta na dos crentes) urn cor- 2 " 6 Mt 28.6; Me 16.6; Lc 24.3; Jo 20.2; lCo 15.4,5. 402
  • 402.
    A OBRA DECrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao po espiritual e ressuscitado (1Co 15.44). Em ambos os casos o cor- poe o mesmo, pois aqui o espin- tual nao e oposto ao fisico, mas ao natural. Isso acontece porque no corpo fisico ha uma grande parte de vida que se encontra no ambito do espirito e existe mais ou menos de forma independen- te. E no corpo espiritual tanto"os alimentos quanto o estomago" serao destruidos (1Co 6.13) e o que e material ficara em sujeic;ao ao espirito. * * * * * A ressurreic;ao fisica de Cris- to nao e urn fato hist6rico isola- do. Ela e inexaurivelmente rica em significado para Cristo, para a Igreja e para todo o mundo. Em geral ela significa a vit6ria de Cristo sobre a morte. Por urn ho- mem a morte veio ao mundo. A transgressao da lei de Deus abriu o caminho da morte para a huma- nidade, pois a morte e o salario do pecado247 . Portanto a conquis- ta da morte havia que ser feita por urn homem. Urn homem tinha que ressuscitar da morte. Mesmo que urn anjo, mesmo que o proprio Filho de Deus tivesse descido ao reino dos mortos e retornado ao ceu, isso de nada nos aproveita- ria. Mas Cristo era nao somente o Unigenito do Pai, mas tambem 247 Rm 5.12; 6.23; 1Co 15.21. 405 era perfeito e verdadeiro homem. Ele era Deus e era tambem o Fi- lho do homem. Como homem Ele sofreu, morreu e foi sepultado e como homem Ele ressurgiu do reino dos mortos. Na ressurreic;ao de Cristo foi provado que houve urn homem que nao pode ser con- tido pela morte, nao pode ser do- minado por Satanas, pelo poder da corrupc;ao, urn homem que foi mais forte que o sepulcro, rnais forte que a morte e mais forte que o inferno. Portanto, em principia, Satanas nao tern mais poder sobre a morte. Cristo, atraves de Sua morte, venceu a morte (Hb 2.14). Embora somente Cristo tenha res- suscitado e embora ninguem mais possa levantar-se do sepulcro, a ressurreic;ao de Cristo demonstra que ha urn homem mais forte do que ele. As portas do reino da morte que tinham se fechado so- bre Ele tiveram que abrir-se no- vamente ao Seu comando. 0 prin- cipe deste mundo nada tern em Cristo (Jo 14.30). Se isso realmente e assim, entao e evidente que o que acon- teceu na ressurreic;ao de Cristo foi precisamente a ressurreic;ao fisi- ca. Uma ressurreic;ao espiritual nao seria o suficiente e seria ape- nas uma vit6ria parcial. Nesse caso o homem como urn todo, o homem como homem, como ele e em seu corpo e em sua alma, nao
  • 403.
    Fundarnentos Teol6gicos daFe Crista teria sido removido do domfnio da morte, e satanas ainda teria o controle de uma grande area. De qualquer modo uma ressurreic;ao espirituat isto e, regenerac;ao e renovac;ao, poderia ter acontecido em Cristo, pois Ele e santo, livre de toda culpa, e isento de peca- do. Para demonstrar Seu poder sobre o pecado Ele teria que retornar fisicamente do reino dos mortos, e assim revelar Seu poder espiritual sobre a morte. Atraves de Sua ressurreic;ao fisica ficou estabelecido que por meio de Sua obediencia ate a cruz e ao sepul- cro Ele perfeitamente venceu o pecado e todas as conseqi.iencias que ele traz, inclusive a morte que, podemos dizer, foi expulsa e substituida por uma nova vida de incorruptibilidade. Portanto, a morte pode ter entrado no mun- do atraves de urn homem, mas a ressurreic;ao dos mortos tambem veio atraves de urn homem (1Co 15.21). Cristo e a ressurreic;ao e a vida (Jo 11.25). 0 que ate aqui foi visto e 0 suficiente para demonstrar a im- portancia da ressurreic;ao de Cris- to, mas essa importancia tambem pode ser apresentada em maiores detalhes- inclusive sua importan- cia para Cristo. Sea morte na cruz tivesse sido o fim da vida de Je- sus e nao tivesse sido seguida por uma ressurreic;ao, os judeus teri- am sido vingados ao condena-lo. Em Deuteron6mio 21.23 n6s le- 404 mos que aquele que e pendura- do no madeira e maldito de Deus. 0 argumento aqui e que 0 corpo de urn criminoso, depois da mor- te, nao deve ser mantido sobre o madeiro durante a noite, mas deve ser removido e sepultado no mesmo dia. Se esse corpo perma- necesse sobre o madeiro ele pro- fanaria a terra que o Senhor tinha dado ao Seu povo. A lei mosaica nao previa a crucificac;ao, mas quando Jesus foi enviado aos gen- tios (Mt 20.19) e por suas maos foi crucificado (At 2.23), Ele foi, nao somente depois de Sua morte, mas tambem antes dela, urn exemplo da severidade proibida pela lei e foi amaldic;oado por Deus. Para os judeus, que conhe- ciam a lei, a morte nao era apenas uma punic;ao dolorosa e desgra- c;ada, mas tambem uma evidencia de que o crucificado estava com- pletamente cheio da ira e da mal- dic;ao de Deus. Jesus, pregado sobre a cruz, foi aos olhos dos ju- deus uma ofensa e uma maldic;ao (1Co 1.23; 12.3). Contudo, a ressurreic;ao re- verteu todo esse julgamento. Aquele que se tornou maldito por nossa causae Aquele que foi aben- c;oado pelo Pai. Aquele que foi pregado na cruz e o Filho no qual o Pai se compraz. 0 rejeitado da terra e o coroado do ceu. A res- surreic;ao e uma evidencia da Filiac;ao de Cristo. Aquele que, segundo a carne, era urn descen-
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    A 0BRA DECrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao dente de Davi, na ressurreic;ao e apresentado como Filho de Deus em poder, segundo o Espirito de santidade que nEle esta (Rm 1.3,4). Cristo falou a verdade e fez a boa confissao diante de Caifas e de Poncio Pilatos quando deu teste- m unho de que era o Filho de Deus. Nao foram os judeus e os romanos que em Seu julgamento provaram estar certos, mas Cris- to. Ele e o justo que foi pregado na cruz e entregue amorte. A res- surreic;ao e a inversao divina da sentenc;a que o mundo impos a Jesus. Essa evidencia da Filiac;ao e do Messianismo de Cristo expres- sa na ressurreic;ao nao exaure seu significado para Cristo. Ela tam- bern foi para Ele o ingresso em urn estado de vida totalmente novo, o inicio de uma exaltac;ao progressiva. Nao apenas na eter- nidade (Hb 1.5), nao apenas para se tornar sumo sacerdote (Hb 5.5), mas tambem em Sua ressurreic;ao (At 13.33), Deus lhe disse: "Tu es o meu Filho amado, eu hoje te gerei". A ressurreic;ao e o dia da coroac;ao de Cristo. Antes de Sua encarnac;ao Ele era o Filho e o Messias. Ele continuou sendo o filho eo Messias em Sua humilha- c;ao. Mas nessa ocasiao Seu Seres- tava escondido sob a forma de servo. Todavia Deus agora pro- 248 At 2.36; 5.31; Fp 2.9. 249 At 3.15; 4.12; 10.42. clama eo declara Senhor e Cristo, Principe e Salvador248 . Agora Cris- to reassume a gloria que possuia como Pai antes que o mundo exis- tisse (Jo 17.5). Depois disso Ele as- sume "outra forma", outra figu- ra, uma forma diferente de exis- tencia. Aquele que estava morto reviveu, vive eternamente e tern as chaves do ceu e do inferno (Ap 1.18). Ele e o Principe da vida, a fonte da salvac;ao, Aquele que foi designado por Deus para julgar os vivos e os mortos249 . Ah~m disso, a ressurreic;ao de Cristo e uma fonte de beneffci- os para Sua Igreja e para todo o mundo. Ela e o amem do Pai so- bre a obra do Filho. Cristo foi en- tregue peJos nossos pecados e ressuscitou para nossa justifica- c;ao (Rm 4.25). Assim como os nos- sos pecados e a morte de Cristo estao estreitamente relacionados, assim tambem ha uma intima re- lac;ao entre a Sua ressurreic;ao e a nossa justificac;ao. Ele nao alcan- c;ou nossa justificac;ao pela Sua ressurreic;ao, mas pela Sua morte (5.9)9), pois essa morte foi o sa- crificio que expiou completamen- te os pecados e que nos trouxe completa justic;a. Mas por ter al- canc;ado a perfeita reconciliac;ao e o perdao para todos os nossos pecados, atraves de Sua paixao e morte, Ele ressuscitou e tinha que 405
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista ressuscitar. Na ressurreic;:ao Ele, e n6s juntamente com Ele, somos justificados. Sua ressurreic;:ao foi uma declara<;ao publica de nossa absolvic;:ao. E isso nao e tudo. Cris- to ressuscitou para nossa justifi- ca<;ao no sentido de que, atraves dela, Ele se apropriou pessoal- mente de nossa absolvic;:ao. Mas para que Ele ressuscitasse, a re- conciliac;:ao forjada atraves de Sua morte nao poderia ter surtido efeito e sido aplicada. Mas agora, Cristo e exaltado aposic;:ao de Se- nhor, Principe e Salvador, e Ele pode, atraves da fe, fazer com que n6s desfrutemos dessa reconcili- ac;:ao por Ele obtida. Sua ressur- reic;:ao e a evidencia e a fonte de nossa justificac;:ao. Mas quando Cristo nos im- puta pessoalmente a reconcilia- c;:ao e o perdao que Ele conquis- tou, n6s passamos a desfrutar dos beneficios de Sua obra. Assim como nao ha perdao sem uma re- conciliac;:ao que o preceda, da mesma forma nao ha perdao sem uma santificac;:ao e uma glorifica- c;:ao que o suceda. 0 fundamento objetivo para essa conexao inseparavel entre a justificac;:ao e a santificac;:ao e o proprio Cristo. Ele nao somente morreu, mas tam- bern ressuscitou. Quanta a ter morrido, uma vez para sempre morreu pelo pecado (isto e, para fazer propiciac;:ao pelo pecado e efetuar a sua extirpac;:ao), mas, quanto a viver, vive para Deus 406 (Rm 6.10). Sua vida nao mais lhe pertence, agora que Ele morreu e rompeu definitivamente os gri- lhoes do pecado, ela pertence so- mente a Deus. Portanto, agora, quando Cristo imputa a uma pes- soa, atraves da fe, os frutos de Sua morte, a saber, arrependimento e perdao de pecados, Ele, ao mes- mo tempo, tambem da a essa pes- soa uma nova vida. Ele nao pode se dividir e tambem nao pode se- parar Sua morte, de Sua ressurrei- .:;ao. De fato, Ele s6 pode aplicar os frutos de Sua morte porque Ele ressuscitou. Sendo o Principe da vida, s6 Ele tern controle sobre os beneffcios oriundos de Sua mor- te. Assim, como Ele mesmo mor- reu para o pecado e vive somente para Deus, da mesma forma, Ele morreu por todos em Sua morte para que todos vivam (em virtu- de de terem morrido e ressuscita- do com Cristo) nao para si mes- mos, mas para Aquele que mor- reu e ressuscitou por eles (2Co 5.15; Gl 2.20). Da mesma forma, ha urn vin- culo inseparavel entre o perdao de pecados e a renovac;:ao da vida, vista, agora, pelo lado subjetivo, pois quem quer que aceite o per- dao de pecados com urn corac;:ao sincero, nesse mesmo momento, rompe todos os vinculos com o pecado. Ele diz adeus ao pecado, pois 0 pecado eperdoado e 0 per- dao e aceito pela fe, e diante des- sa situac;:ao, o pecado s6 pode ser
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    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao rejeitado. Uma pessoa nessa situ- a<;ao, como Paulo coloca, esta morta para o pecado (Rm 6.2) e, portanto, nao pode mais viver nele. Pela fe, e pelo batismo como sinal e selo da fe, ela entrou em comunhao com Cristo, foi crucificada, morta e sepultada com Ele para que, desse momen- ta em diante, possa andar em no- vidade de vida (Rm 6.3). A glorifica<;ao esta conec- tada a essa santifica<;ao. Pela res- surrei<;ao os crentes sao regenera- dos em uma viva esperan<;a (1Pe 1.3). Atraves dela, eles obtem a imperturbavel convic<;ao de que a obra de salva<;ao, nao apenas foi iniciada e continuada, mas tam- bern foi plenamente acabada. No ceu, 0 incorruptivel e inefavelle- gado esta preservado para eles, e na terra eles sao preservados pelo poder de Deus, em fe, para a sal- va<;ao que no ultimo dia lhes sera revelada. Como poderia ser de outra maneira? Deus provou Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por n6s, sendo n6s ainda pecadores. Sendo justi- ficados pelo sangue de Cristo n6s seremos preservados por Deus de Sua ira, especialmente da ira que sera manifesta no julgamento fi- nal. Para aqueles que estao em Cristo nao ha ira nem condena<;ao, ha somente paz com Deus e a es- 25 " At 4.2; Rm 6.5; 8.11; 1Co 15.12 ss. 407 peran<;a de Sua gloria. Anterior- mente, quando n6s ainda eramos inimigos de Deus e sujeitos aSua ira, Ele reconciliou-se conosco, atraves da morte de Seu Filho. Agora que Deus colocou de lado Sua ira com rela<;ao a n6s, deu-nos paz e amor, Ele nos preservara atraves da vida que Cristo tern, em virtude de Sua ressurrei<;ao e na qual, como nosso intercessor, intercede por n6s junto ao Pai (Rm 6.8-10). Dessa forma a ressurrei<;ao de Cristo se estende por toda a eternidade. A Seu tempo, Ele res- suscitara os crentes e efetuara ne- les a completa regenera<;ao, dan- do-lhes vit6ria sobre 0 ceu eater- razso. Somente quando n6s enten- demos esse significado rico e eter- no da ressurrei<;ao de Cristo e que n6s podemos apreciar o motivo pelo qual os ap6stolos, de forma especial Paulo, coloca tanta enfa- se sobre o carater hist6rico da res- surrei<;ao. Todos os ap6stolos sao testemunhas da ressurrei<;ao (At 1.21; 2.32). Paulo afirma que, sem a ressurrei<;ao, a prega<;ao dos ap6stolos e inutil e falsa. 0 per- ciao dos pecados, que repousa sobre a reconcilia<;ao e e aceito pela fe, nao aconteceria, e nao ha- veria qualquer fundamento para a ressurrei<;ao dos crentes. A di- vina Filia<;:ao e a identidade Messianica de Cristo nao existiria,
  • 407.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista e Ele seria nada rnais que urn grande rnestre. sea ressurrei- c:;:ao de fato aconteceu: entao Cris- to foi declarado e coroado o Reconciliador e o Principe da vida, e o Salvador do rnundo. * * * * * A ressurreic:;:ao e o cornec:;:o da exaltac:;:ao de Jesus, e ela foi segui- da, depois de quarenta dias, pela ascensao. Esse evento e registra- do rnuito brevernente251 . Esse evento foi predito por Cristo252 . Ele e urn componente da prega- c:;:ao dos apostolos253 • Os aposto- los partem do ponto de que Cris- to, com Sua natureza hurnana, com corpo e alma, esta no ceu. Alem disso, os quarenta dias que Cristo passou na terra depois de Sua ressurreic:;:ao, foram uma pre- parac:;:ao para a ascensao e uma transic:;:ao para ela. Tudo o que Ele fez, nesses quarenta dias, foi mos- trar que Ele nao pertencia mais a terra. Sua forma era diferente da- quela que Ele possuia antes de Sua morte. Ele aparecia e desapa- recia de maneira misteriosa. Os discipulos, sentiram que a relac:;:ao que eles passaram a manter com Cristo, era diferente daquela que eles mantinham antes de Sua mor- te. Sua vida nao pertencia mais a 251 Me 16.19; Lc 24.51; At 1.1-12. terra, mas ao ceu. Na ascensao, Ele se tornou invisivel, nao por urn processo de espiritualizac:;:ao ou de uma ade- quac:;:ao adeidade. 0 que aconte- ceu foi uma mudanc:;:a de lugaL Ele estava na terrae foi para o ceu. Sua ascensao ocorreu em urn lu- gar espedfico, o monte das Oli- veiras, que fica a rnenos de uma rnilha de distancia de Jerusalem, em direc;ao a Betania (Lc 24.50; At 1.12). Ele se separou de Seus dis- dpulos e os abenc:;:oou. Em uma atitude de benc;ao Ele saiu dater- ra e foi para o ceu. Da forma pela qual Ele veio, assim Ele viveu e assim Ele se foi. Ele e o conteudo de todas as benc;aos de Deus, o realizador, o possuidor eo distri- buidor de todas elas (Ef 1.3). A ascensao foi um ato do proprio Cristo. Ele tinha direito a ela e, tinha o poder de realiza-la. Ele subiu aos ceus por Sua pro- pria fon;a254 . Sua ascensao e urn triunfo, em urn sentido mais for- te, que a ressurreic:;:ao. Em Sua as- censao ele triunfa sobre toda a ter- ra, sobre as leis da natureza, so- bre a propria lei da gravidade. E mais ainda, Sua ascensao e urn tri- unfo sobre toda a hostilidade di- abolica e sobre as forc:;:as humanas, que foram despojadas de sua ar- madura na cruz de Cristo e foram 252 Mt 26.64; Jo 6.62; 13.3,33; 14.28; 16.5,10,17,28. '.i3 At 2.23; 3.21; 5.31; 7.55; Ef4.10; Fp 2.9; 3.20; lTs 1.10. ' 5 " Jo 3.13; 20.17; Ef4.8-10; 1Pe 3.22. 408
  • 408.
    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao publieamente expostas ao des- prezo e submetidas a vit6ria de Cristo (Cl 2.15). Quando Ele su- biu as alturas, levou cativo 0 cati- veiro (Ef 4.8). 0 mesrno pensa- rnento e expresso por Pedro, de urna forma diferente. Ele diz que Cristo, tendo sido conduzido pelo Espirito ate o ceu (pois as pala- vras "foi" de 1Pe 3.19 e "ir" de 1Pe 3.22 sao a mesma palavra no texto grego original, de forma que o complemento "para o ceu", en- contrado no verso 22, simples- mente diz para onde Ele foi, e esta ligado as duas palavras), e que em Sua ascensao Ele pregou, aos espiritos em prisao, a Sua vit6ria, e assumiu Seu lugar a destra de Deus e os anjos, os principados e as potestades se sujeitaram a Ele. A ascensao, que e urn ato de Cristo, etambem urn ato do pro- prio Deus255. Tendo Cristo curn- prido cabalmente a missao que lhe fora confiada pelo Pai, Ele nao apenas foi assunto ao ceu pelo Pai, mas tambem foi admitido, imediatamente a Sua presen~a. Os CeUS foram abertos para Ele, OS anjos foram ao Seu encontro e con- duziram-no para la (At 1.10). Ele, contudo, foi alem do ceu, foi para OS ceus dos ceus (Hb 4.14; Ef4.10), para assentar-se adireita de Deus, no trono de Sua Majestade. 0 lu- gar principal pertence a Cristo. Assim como a ressurrei~ao foi uma prepara~ao para a ascensao, a ascensao foi uma prepara~ao para a ocupa~ao de Seu lugar, a direita de Deus. No Velho Testa- mento esse lugar ja tinha sido pro- metido ao Messias (Sl 110. 1). Je- sus disse mais de uma vez que Ele se assentaria no trono de Sua Ma- jestade256, e depois de sua ascen- sao Ele fez o que tinha dito (Me 16.19). E na prega~ao apost6liea essa posi~ao que Ele oeupa, adi- reita de Deus, egeralmente men- eionada em urn contexto de auto- ridade e poder257. Nas express6es que a Escri- tura usa para registrar esse passo da exalta~ao uma eerta varia~ao pode ser detectada. Algumas ve- zes, e dito que Cristo assentou-se ou esta assentado (Hb 1.3; 8.1). E n6s lemos tambem, que o Pai lhe disse: II Assenta-te aminha direi- ta" (At 2.34; Hb 1.13), ou que o Pai o fez sentar-se a Sua direita (Ef 1.20). Algumas vezes, a enfase eai sobre o ato de sentar-se (Me 16.19), em outras ocasi6es, ela eai sobre a condi~ao ou o estado de estar sentado (Mt 26.64; Cl 3.1). 0 lu- gar em que Cristo esta assentado edesignado pelas palavras: adi- reita do Todo-Poderoso (Mt 26.64t adireita do Todo-Podero- so Deus (Lc 22.69), a direita da Majestade, nas alturas (Hb 1.3), a 255 Me 16.19; Lc 24.51; At 1.2,9,11,22; 1Tm3.16. 256 Mt 19.28; 25.31; 26.64. 257 At 2.34; Rm 8.34; 2Co 5.10; Ef1.20; C/3.1; Hb 1.3; 8.1; 10.12; lPe 3.22; Ap 3.21. 409
  • 409.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista destra do trono da Majestade nos ceus (:Hb 8.1), ou adestra do tro- no de Deus (:Hb 12.2). Geralmen- te a Escritura diz que Cristo esta assentado, mas algumas vezes a expressao e que Jesus esta la (Rm 8.34), ou que Ele esta de pea direi- ta de Deus (At 7.55,56), ou que Ele anda por entre os sete casti<;ais de ouro (Ap 2.1). Mas, o pensamen- to e sempre o mesmo: depois de Sua ressurrei<;ao e ascensao, Cris- to tern o mais elevado lugar em todo o universo, ao lado de Deus. Esse pensamento e expres- so na forma de uma figura deri- vada dos relacionamentos huma- nos. Nos so podemos falar sobre as realidades celestiais empregan- do a linguagem humana, atraves de compara<;oes. Assim como Salomao honrou sua mae, ao coloca-la em uma cadeira ao lado direito de seu trono258 , assim tam- bern o Pai glorifica o Filho, com- partilhando Seu trono com Ele (Ap 3.21). 0 significado e que Cristo, por causa de Sua perfeita obediencia, foi exaltado a mais elevada soberania, majestade, dignidade, honra e gloria. Ele nao apenas recebeu de volta a gloria que possuia com o Pai, antes que o mundo existisse (Jo 17.5), mas tambem foi coroado com honra e gloria segundo Sua natureza hu- mana (Hb 2.9; Fp 2.9-11). Ele su- jeitou todas as coisas debaixo de "' 1Re .2. 19; compare com Sl 45.9; Mt 20.21. 410 Seus pes. E, quando diz que to- das as coisas lhe estao sujeitas, certamente, exclui Aquele que tudo lhe subordinou (lCo 15.27). E ernbora nos agora, nao vejamos que todas as coisas lhe estao su- bordinadas, nos sabernos que Ele reinara como Rei, ate que todos os Seus inirnigos sejam colocados debaixo dos Seus pes (:Hb 2.8; lCo 15.25). Isso acontecera em Seu re- torno, quando Ele vier como Juiz, para julgar os vivos e os mortos. Sua exalta<;ao alcan<;ara seu pon- to rnais alto, quando Ele retornar para realizar Seu julgarnento (Mt 25.31,32). * * * * * Nesse estado de exalta<;ao, Cristo continua a obra que Ele co- rne<;ou na terra. De fato, ha urna grande diferen<;a entre a obra que Cristo realizou em Sua humilha- <;:ao e, a que Ele realizou ern Sua exalta<;:ao. Da mesma forma como Ele, em Sua exaltac;ao, aparece em uma forma diferente, Sua obra, tambem assume uma forma dife- rente. Depois de Sua ressurrei<;ao Ele nao emais urn servo, mas urn Senhor e Principe. Desse modo/ Sua obra agora emais urn sa- crificio de obedienc:a/ tal como foi em Sua morte na cruz. A obra mediatoria de Cristo se realiza agora, de outra forma. Em Sua
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    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao ascensao Ele nao entrou em urn descanso improdutivo - o Filho trabalha sempre, assim como o Pai (Jo 5.17) - em vez disso, Ele agora esta aplicando a plenitude da obra de salva<;ao que Ele ja re- alizou em Sua Igreja. Assim como Cristo, atraves de Sua paixao e morte foi, na ressurrei<;ao e na as- censao, exaltado como Cabe<;a da Igreja, tambem essa Igreja, agora, deve ser moldada como corpo de Cristo e estar cheia, da plenitude de Deus. A obra do Mediador e a grande e poderosa obra divina, que teve inicio na eternidade e sera realizada eternamente. Con- tudo, no momento da ressurrei- <;ao, essa obra foi dividida em duas partes. Ate a ressurrei<;ao Cristo era humilhado; depois da ressurrei<;ao Ele passa a ser exal- tado. Tanto a humilha<;ao quanto a exalta<;ao de Cristo sao indispen- saveis para nossa salva<;ao. Cristo continua agindo no estado de exalta<;ao como profe- ta, sacerdote e rei. Ele foi ungido desde a eternidade para exercer todos esses offcios. Ele exerceu esses oficios em Seu estado de humilha~ao e continua exercen- do-os em Seu estado de exalta<;ao. Seu exerdcio profetico de- pais da ressurrei<;ao se torna evi- dente pela Sua prega<;ao. Ele con- tinuou pregando aos Seus disci- pulos ate o momento de Sua as- censao. Os quarenta dias que Je- sus passou na terra depois de Sua 411 ressurrei<;ao, constituem uma par- te importante de Sua vida e ensi- no. N6s, geralmente nao damos a esse fato a aten<;ao devida, mas quando observamos atentamente o que Jesus disse e fez durante esses quarenta dias, percebemos que eles lan<;am uma luz totalmen- te nova sobre Sua pessoa e Sua obra. Naturalmente, n6s nao po- demos compreender o sentido daquilo que Jesus fez e ensinou nesses quarenta dias, com ames- ma profundidade que os ap6sto- los entenderam, pois n6s vivemos depois deles e temos a ben<;ao de ter acesso ao Seu ensino, mas os disdpulos que tinham convivido com Jesus e tinham perdido a es- peran<;a, no momento de Sua mor- te, tornaram-se pessoas muito di- ferentes nesses quarenta dias e aprenderam a conhecer a pessoa e a obra de Jesus como eles nunca tinham sido capazes de entender antes. A ressurrei<;ao lan<;a uma luz surpreendente sobre a morte de Jesus e sobre toda a Sua vida. Mas, esse evento redentivo nao permanece isolado. Assim como ele tinha sido precedido por urn ato redentivo (a morte de Jesus), ele e tambem sucedido por urn ato redentivo. Os anjos que esta- vam no sepulcro, anunciaram as mulheres que foram a procura de Jesus, que nao estava mais ali, como havia 28.5,6). Eo pr6- aos disdpu-
  • 411.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista los que iam para Emaus, que o Cristo tinha que padecer e entrar na Sua gloria e mostrou-lhes tudo o que tinha sido dito nas Escritu- ras a Seu respeito (Lc 24.26,27; compare com Lc 24.44-47). Os disdpulos, aprenderam a conhece-lo de uma forma dife- rente daquela, na qual Ele primei- ramente se revelou. Ele nao era mais o humilde Filho do homem que veio para servir e nao para ser servido e para dar a Sua alma em resgate de muitos. Ele colocou de lado a Sua forma de Servo e ago- ra se revelou em Sua gloria. Ele agora pertence a outro mundo. Ele vai para Seu pai e, os Seus dis- dpulos permanecerao na terra, porque eles tern uma missao a cumprir. 0 antigo companheiris- mo confidencial nao mais existe. Everdade que haveni urn relaci- onamento diferente e muito mais fntimo entre Jesus e Seus discfpu- los, assim que eles compreende- rem que e para 0 proprio bern que Jesus tem que ir. Esse relaciona- mento sera uma comunhao espi- ritual, muito diferente daquela que eles tinham tido, ate entao. Agora, depois da ressurrei<;:ao, Jesus se revela em tal gloria, em tal sabedoria aos Seus disdpulos, que Torne chega a fazer a confis- sao que nenhum deles tinha feito ate aquele momento: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20.28). Durante esses quarenta dias Jesus lan<;:ou mais luz sobre Sua 412 pessoa e obra, mas Ele tambem deu uma explica<;:ao mais clara sobre a missao que Seus disdpu- los deveriam cumprir. Quando Jesus foi sepultado e tudo pare- cia ter se acabado, os disdpulos poderiam muito bern ter formu- lado urn plano secreto para vol- tar a Galileia. Contudo, no tercei- ro dia, eles ouviram sobre as ma- nifesta<;:6es que tinham ocorrido com Maria Madalena e com a ou- tra Maria (Mt 28.1,9; Jo 20.14 ss.), com Pedro (Lc 24.34; 1Co 15.5), com os disdpulos que iam para Emaus (Lc 24.13 ss.), e resolveram permanecer em Jerusalem. Ao cair da tarde, daquele mesmo dia os disdpulos, com exce<;:ao de Tome, receberam a visita de Jesus; oito dias depois Ele apareceu nova- mente, e dessa vez Tome estava presente. Entao seguiram Jesus, que foi adiante deles para a Galileia (Mt 28.10) e varias apari- <;:6es ocorreram ali (Lc 24.44 ss.; Jo 21). Ao mesmo tempo, Ele lhes deu a tarefa de retornarem a Jeru- salem para que fossem testemu- nhas de Sua ascensao. Em cada uma de Suas apa- ri<;:6es, Jesus falou aos disdpulos sobre a rnissao que deveriam cumprir. Eles nao deveriam retornar as fun<;:6es que desempe- nhavam antes de serem chamados para o apostolado, mas como Suas testemunhas tinham que pre- gar o arrependimento e o perdao de pecados a todas as na<;:6es, co-
  • 412.
    A 0BRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao me<_;ando em Jerusalem259 • Os ap6stolos receberam todos os ti- pos de instru<_;6es (At 1.2). Eles foram ensinados a respeito de to- das as coisas concernentes ao rei- no de Deus (At 1.3). Seu poder foi definido e a prega<_;ao do Evange- lho a todas as criaturas foi coloca- da sobre seus cora<_;6es. Agora eles sabiam o que deviam fazer. Eles tinham que permanecer em Jeru- salem ate que recebessem poder do ceu (Lc 24.49; At 1.4,5,8). Quan- do recebessem esse poder, eles deveriam ser testemunhas tanto em Jerusalem, quanto em toda a Judeia e Samaria e ate os confins da terra (At 1.8). Todo o conteudo de Seu en- sino durante esses quarenta dias, foi resumido nas palavras finais que Ele disse aos Seus discipulos (Mt 28.18-20). Primeiro Ele disse que todo o poder lhe foi dado no ceu e na terra. Ele ja tinha recebi- do esse poder (Mt 11.27), mas ago- ra Ele o possuia com base em Seus meritos, e passou a usa-lo com 0 objetivo de garantir aIgreja OS be- neficios que alcan<_;ou corn o der- ramamento de Seu sangue. Em nome dessa perfei<_;ao de poder Ele deu aos Seus discipulos o mandata de fazer discipulos em todas as na<_;6es, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espi- rito Santo e ensinando-os a guar- dar todas as coisas que Ele lhes 259 Mt 28.19; Me 16.15; Lc 24.47,48; At 1.8. 413 tinha ordenado. Por ter recebido todo o poder no ceu e na terra, Jesus ordena que seja feito o discipulado em todas as na<_;6es. Ele ordena tambem a Seus disd- pulos, que pelo batismo, passem a ter comunhao com Deus, que se revelou de forma perfeita como Pai, Filho e Espirito Santo, e que continuem a observar Suas or- dens. E a fim de encoraja-los, Je- sus finalmente diz que estaria com eles para sempre, ate a consuma- <_;ao dos seculos. Fisicamente Ele os deixou, mas espiritualmente Ele permanece com eles, de for- ma que nao sao eles, mas Cristo, que reline Sua Igreja, governa-a e protege-a. Mesmo depois de Sua as- censao, Cristo continua a exercer o offcio profetico. A prega<_;ao dos ap6stolos, seja oralmente seja atraves das cartas que eles escre- veram, esta vinculada aos ensinos de Jesus, nao somente aos que eles receberam antes de Sua mor- te, mas tambem aos que eles re- ceberam durante os quarenta dias, entre Sua ressurrei<_;ao e Sua ascensao. N6s nao devemos omitir esse ultimo fato. S6 isso pode ex- plicar o motivo pelo qual os ap6s- tolos estavam convictos, desde o come<_;o, que Cristo tinha nao ape- nas morrido, mas tambem tinha ressuscitado e estava assentado a
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mao direita de Deus como Senhor e Cristo, Principe e Salvador, que a salva<;:ao dos pecadores estava contida no amor do Pai, na Gra<;:a do Filho e na comunhao do Espi- rito Santo. A prega<;:ao dos ap6stolos estava vinculada nao apenas a prega<;:ao de Jesus. Ela era a expli- ca<;:ao e a elabora<;:ao da prega<;:ao de Jesus. Jesus, atraves do Espiri- to santo, continuou a exercer Seu oficio profetico no cora<;:ao de Seus disdpulos. Pelo Espirito da verdade Ele os guiou a toda ver- dade, pois esse Espirito nao da testemunho de Si mesmo, mas de Cristo, fazendo com que os ap6s- tolos se lembrem e reflitam sobre o que Jesus lhes tinha dito e anun- ciem as coisas que hao de aconte- cer (Jo 14.26; 15.26; 16.13). Dessa forma, os ap6stolos foram capa- citados a trazer aexistencia a Es- critura do Novo Testamento, que, juntamente com a Escritura do Velho Testamento, e uma luz que ilumina o caminho da Igreja. Foi o proprio Cristo quem deu essa Palavra a Sua Igreja e que, por meio dela, progressivamente de- senvolve Seu offcio profetico. Ele preserva e distribui, explica e in- terpreta Sua Palavra. Ela e o ins- trumento pelo qual Ele faz disci- pulos de todas as na<_;:6es, os quais Ele insere na comunhao com o Deus triuno e faz com que eles obede<;:am Seus mandamentos. Atraves de Sua Palavra e de Seu 414 Espirito Cristo esta sempre conosco, ate a consuma<;:ao dos seculos. ***** 0 que e valido para 0 oficio profetico de Cristo e valido tam- bern com rela<;:ao ao Seu oficio sa- cerdotal. Esse nao e urn oficio tem- porario. Ele e exercido durante toda a eternidade. No Velho Tes- tamento, o carater eterno do sacer- d6cio foi prenunciado na separa- <;:ao da casa de Aarao e da tribo de Levi, para o servi<;:o do tabernaculo. E verdade que as pessoas que ministraram nesse servi<;:o morreram, mas foram imediatamente substituidas por outras. 0 sacerd6cio permaneceu. Todavia, o Messias vindouro nao seria urn sacerdote ordinario, que exerceria Seu sacerd6cio por urn certo tempo e depois seria subs- tituido por outro, pois Ele nao seria urn sacerdote segundo a or- dem de Aarao, mas segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4). Em distin<;:ao dos descen- dentes de Aarao e Levi, que foram impedidos pela morte, de exercer seu sacerd6cio continuamente (Hb 7.14), Melquisedeque em sua figura misteriosa nos deu uma imagem da dura<;:ao eterna do sa- cerd6cio de Cristo. Ele e urn rei de justi<;:a e paz e, ao mesmo tem- po, e 0 unico, em toda a hist6ria da revela<;:ao, sobre o qual nao se
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    A OsRA DECrusTa EM SuA EXALTA<;:Ao menciona sua linhagem, seu nas- cimento e sua morte. Em urn sen- tido tipico ele foi dessa forma se- melhante ao Filho de Deus e per- manece sacerdote para sempre (Hb 7.3). Mas, aquilo que Melquise- deque foi somente como exem- plo, Cristo foi em realidade. Cris- to podia em urn sentido pleno ser o eterno sumo sacerdote porque Ele era o Filho de Deus que exis- te desde a eternidade (Hb 1.2,3). Ele se ofereceu como sacrificio na terra e no tempo, mas Ele veio de cima, em Sua essencia pertencia a eternidade, e, portanto, podia ofe- recer-se a Si mesmo no tempo, atraves do Espirito Santo (Hb 9.14). Assim como Cristo foi pre- parado desde a eternidade para vir ao mundo e cumprir cabal- mente a vontade de Deus (Hb 10.5-9), Ele e tambem sacerdote desde a eternidade. Com uma vi- sao do cumprimento dessa von- tade de Deus nos dias da Sua car- ne, pode-se dizer que o sacerd6- cio de Cristo come<;ou na terra260 • E esse sacerd6cio terreno foi urn meio para que Cristo, atraves de sua ressurrei<;ao e ascensao, se tornasse sumo sacerdote no reino celestial e permanecesse como tal durante to-da a eternidade. Euma ideia interessante, desenvolvida na carta aos Hebreus, a de que a 260 Hb 2.17; 5.10; 6.20; 7.26-28. 261 Hb 7.27; 9.12,26,28; 10.10-14. 415 vida e a obra de Cristo na terra, nao devem ser consideradas como final, mas como uma prepara<;ao para Seu eterno servi<;o sacerdo- tal, no ceu. Alguns deduziram disso que, segundo a carta aos Hebreus, Cristo nao exerceu Seu oficio sa- cerdotal na terra mas, que passou a exerce-lo quando ascendeu ao ceu e entrou no Santo dos Santos. Eles fundamentam essa ideia es- pecialmente no fato de que os sa- cerdotes da terra procedem da tri- bo de Levi, e que Jesus nao pro- cedeu de Levi, mas de Jucla e que Ele nunca fez ofertas no templo de Jerusalem, como os sacerdotes fa- ziam (Hb 7.14; 8.4). Dessa forma, se Cristo era urn sacerdote, Ele deveria ter exercido Seu sacerd6- cio no ceu e teria que ter algo para oferecer (Hb 8.3). E dessa forma, eles afirmam que o que Jesus ofe- receu foi Seu proprio sangue com o qual Ele entrou no celestial San- to dos Santos (Hb 9.11,12). Mas essa conclusao e clara- mente incorreta. Assim como to- dos os outros escritos apost6licos, a carta aos Hebreus coloca forte enfase no fato de que Cristo de umrz vez par todas, isto e, na cruz, ofereceu-se como sacrificio e nos trouxe eterna salva<;ao261 . 0 per- ciao de pecados - esse grande be- neficia do Novo testamento- foi
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista plenamente alcan~ado por esse unico sacrificio e o Novo Testa- mento, que foi estabelecido com Seu sangue, poe urn fim no Ve- lho Testamento262 . 0 pecado, a morte e o diabo foram destruidos Seu sacrificio263 e pelo Seu sangue Ele santificou e aperfei- <;oou todos aqueles que foram obedientes a Ele (Hb 10.10,14; 13.12). Precisamente pelo fato de Cristo ter realizado esse perfeito sacrificio na cruz Ele pode, como sumo sacerdote, tomar Seu lugar a mao direita de Deus (Hb 8.1). Ele nao sofre e nao morre mais, mas Ele est} assentado em Seu trono como urn conquistador264. E a en- fase apost6lica e que n6s temos urn Sumo Sacerdote que esta as- sentado a direita da Majestade nas alturas (Hb 8.1). Nao ha qual- quer possibilidade de que acon- tec;a no ceu urn sacriffcio de Cris- to como o que aconteceu na terra. Cristo e e continua sendo sumo sacerdote no ceu. Como tal Ele esta assentado a direita de Deus. Sim, em urn certo sentido pode ser dito que ao longo da car- ta aos Hebreus, no ceu Ele se tor- na sumo sacerdote segundo a or- dem de Melquisedeque e assume Seu sacerd6cio eterno265. Toda a "" Hb 4.16; 8.6-13; 9.14-22. 263 Hb 2.14; 7.27; 9.26,28. ''" Hb 1.3,13; 2.8,9; 10.12. 265 Hb 2.17; 5.10; 6.20. 266 Hb 1.3; 3.6; 5.5. 267 J-Ib 2.10 ss.; 4.15; 5.7-10; 7.28. Sua vida sobre a terra foi uma pre- parac;aoI para que agora, 110 ceu, como sumo sacerdote Ele possa ocupar-se em nosso favor. Ele eo Filho, e Ele tinha que ser capaz de se tornar o nosso sumo sacerdo- te266, mas isso nao era o suficien- te. Embora Ele fosse o Filho, Ele tinha que aprender a obediencia, pelo sofrimento (Hb 5.8). A obe- diencia que Ele possufa como Fi- lho (Hb 10.5-7), Ele tinha que exi- bir como ser humano em Seu so- frimento, para tornar-se nosso sumo sacerdote267. Todo o sofri- mento que sobreveio a Cristo, to- das as tentac;oes as quais Ele foi exposto, a morte a qual Ele se su- jeitou- tudo isso serviu como urn instrumento nas maos de Deus para aperfeic;oar e santificar Cris- to para o servic;o sacerdotal que, Ele deve agora completar no ceu, diante da face de Deus. Natural- mente essa santificac;ao e esse aperfeic;oamento de Cristo nao devem ser entendidos em urn sen- tido morat como se Ele tivesse se tornado obediente gradualmente e com muita dificuldade. 0 ap6s- tolo esta pensando na santificac;ao em urn sentido positivo e ofici- aF68. Cristo, tinha que manter Sua obediencia como Filho, contra e 268 Oficial aqui significa "referente ao Seu oficio" (N. doT.) 416
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    A 0BRA DECRISTO EM SUA EXALTA(:AO sobre todas as tenta<_;:oes e assim preparar-se para ser o sumo sa- cerdote eterno. Atraves de Sua obediencia, Cristo obteve esse offcio de sumo sacerdote, amao direita de Deus, em Seu trono de Majestade. Com fundamento em Seu sofrimento e morte, com fundamento em Seu sacriffcio perfeito, Ele esta agora assentado amao direita da Majes- tade nos altos ceus. Foi atraves de Seu sangue e nao com ele, que Cristo entrou de uma vez por to- das no Santo dos Santos (Hb 9.12) e esta lei agora, no verdadeiro tabernaculo, construido pelo pro- prio Deus. Ele e o ministro desse tabernaculo (Hb 8.2). Agora, pela primeira vez, Ele e plena e eter- namente o sumo sacerdote segun- do a ordem de Melquisedeque (Hb 5.10; 6.20). Assim como no Velho Testamento, no grande dia da expia<_;:ao, o sumo sacerdote entrava uma vez por ano no San- to dos Santos com o sangue do bode morto por ele mesmo e pelo povo, para aspergi-lo por cima e ao redor do altar, assim tambem Cristo, pelo sangue de Seu sacri- ficio na cruz, abriu carninho para santuario nos ceus . Ele nao faz uso do san- gue derramado no G6lgota em um sentido literal, e nao oferece nem asperge esse sangue em urn sentido literal, mas atraves de Seu proprio sangue Ele entra no tabernaculo. Ele retornou ao ceu como o Cristo que morreu e res- suscitou, que foi morto mas que agora vive eternamente (Ap 1.18). Ele esta no meio do trono como o Cordeiro que foi morto (Ap 5.6). Em Sua pessoa Ele e o meio de expia<_;:ao. Ele ea propicia<_;:ao pe- los nossos pecados e pelos do mundo todo (1Jo 2.2). Seu servi<_;:o sacerdotal no ceu consiste em Sua intercessao diante de Deus a nosso favor (Hb 9.12). Ao fazer tudo o que e ne- cessaria para a propicia<_;:ao dos pecados de Seu povo Ele se torna o misericordioso e fiel sumo sa- cerdote (Hb 2.17). Ele vern em so- corro daqueles que sao tentados (Hb 2.18; 4.15), e conduz muitos filhos agloria (Hb 2.10). Atraves de Sua obediencia Ele se tornou urn Capitao para todos aqueles que vao ate Deus atraves dEle. Ele e o Capitao e o Guia, em fe, pois Ele mesmo exerceu fe, e por isso pode trazer outros afee preserva- los nela ate o fim (Hb 12.2). Ele e o Autor da vida porque Ele me- receu essa vida pela Sua morte e pode, portanto, agora, da-la a ou- tros. Ele eo autor da salva<_;:ao (Hb 2.10) porque Ele mesmo abriu o a e andou por ele e pode, portanto, outros atraves dele e traze-los ao santuario (Hb 10.20). Sempre, e em todas as coi- sas, Cristo e o nosso intercessor diante do Pai. Assim como na ter- ra Ele orou por Seus discipulos e 417
  • 417.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tambem por Seus inimigos (Lc 23.34), e na ora<;ao sacerdotal Ele recomendou toda a Igreja ao Pai (Jo 17), assim tambem no ceu Ele continua a interceder por nos. Nos nao devemos entender isso como se Cristo estivesse prostrado di- ante do Pai, suplicando-lhe e im- plorando-lhe que conceda Sua mi- sericordia, pois o proprio Pai nos ama enos da Seu Filho como uma evidencia de Seu amor. A inter- cessao de Cristo significa que esse amor do Pai nunca e concedido a nos a nao ser atraves do Filho, que se tornou obediente ate a morte na cruz. A intercessao de Cristo nao e, portanto, uma suplica pela Gra<;:a, mas a expressao de Sua poderosa vontade (Jo 17.24), a so- licita<;:ao do Filho de que os pa- gaos lhe sejam dados como Sua heran<;:a e as extremidades da ter- ra como Sua possessao (Sl 2.8). E o Cristo crucificado e glorificado, e o proprio Filho do Pai, que foi obediente, mas que tambem foi exaltado no trono de Sua Majes- tade. Foi o misericordioso e fiel Sumo Sacerdote que santificou e aperfei<;:oou esse servi<;:o nos ceus, e que agora intercede por nos di- ante do Pai. Contra todos os obstaculos que a lei, Satanas e nossos propri- os cora<;:6es levantam contra nos, Ele sai em nossa defesa (Hb 7.25; 1Jo 2.2). Ele vern em nosso auxi- 269 fa 14.16,26; 15.26; 16.7. 418 lio em todas as tenta<;:6es. Ele tern compaixao de todas as nossas fra- quezas. Ele purifica nossa consci- encia. Ele perfeitamente santifica e salva todos aqueles que, atraves dele, vao a Deus. Ele nos prepara urn lugar na casa do Pai, na qual ha muitas moradas (Jo 14.2,3) e nos reserva uma heran<;:a incor- ruptivel e sem macula (1Pe 1.4). Portanto, os crentes nao tern o que temer. Eles podem achegar-se confiadamente ao trono da Gra<;a (Hb 4.16; 10.22) e receber de Cris- to o Espirito de ado<;:ao, atraves do qual eles clamam: "Aba, Pai", e pelo qual o amor de Deus e der- ramado em seus cora<;:6es (Rm 5.5; 8.15). Assim como Cristo e o intercessor dos crentes diante do Pai, no ceu, o Espirito e o inter- cessor do Pai nos cora<;:oes dos crentes269 • Portanto, um importan- te prindpio de nossa Confissao crista e que nos temos um Sumo Sacerdote que esta assentado a direita do Pai, nos ceus (Hb 8.1). Portanto, nos nao precisamos de sacerdote, nem de sacrificio, nem de altar, nem de templo terreno, onde quer que seja. * * * * * Cristo continua a exercer Seu oficio real tambem depois de Sua ressurrei<;:ao. Com rela<;:ao a isto tern havido menos diferen<;:a
  • 418.
    A OsRA DECRisTo EM SuA EXALTA<;:Ao de opiniao pelo fato de que atra- ves de Sua ressurrei<;ao e ascen- sao, Cristo foi exaltado pelo Pai como Senhor e Cristo, Principe e Salvador, e esta assentado adirei- ta do trono, e recebeu urn nome acima de todo nome270 • 0 reina- do de Cristo aparece com mais destaque em Sua exalta<;ao do que em Sua humilha<;ao. Dentro do ambito desse rei- nado a Escritura faz uma distin- <;ao. Ha urn reinado de Cristo so- bre Siao, sobre Seu povo, sobre a Igreja271 e ha tambem o reinado que Ele exerce sobre Seus inimi- gos272. 0 primeiro e urn reinado de Gra<;a eo segundo e urn reina- do de poder. Em rela<;ao aIgreja, o nome de Rei, geralmente e usado no Novo Testamento como sin6nimo de Cabe<;a. Cristo mantem urn re- lacionamento tao intimo com a Igreja, que Ele comprou com Seu sangue, que urn s6 nome nao e suficiente para dar uma ideia de seu conteudo. E por isso que a Escritura apresenta todos os tipos de figuras de linguagem, a fim de tornar claro o que Cristo significa para sua Igreja. Ele eo que o noi- vo e para a noiva (Jo 3.29; Ap 21.2), 0 que 0 homem e para a mulher (Ef 5.25; Ap 21.9), o que o primogenito e para OS seus irmaos (Rm 8.29; Hb 2.1lt o que a pedra 270 At 2.36; 5.31; Fp 2.9-11; Hb 1.3,4. angular e para o edificio (Mt 21.42; At 4.11; 1Pe 2.4-8), o que a videira e para OS ramos (Jo 15.1,2) e 0 que a cabe<;a e para 0 corpo. Cristo e para a Igreja tudo isso e muito mais. Essa ultima figura e especi- almente mencionada varias vezes. 0 proprio Jesus diz em Mateus 21.42, que a afirma<;ao do salmo 118.22 foi cumprida nEle: a pedra que os construtores recusaram veio a ser a pedra de esquina. As- sim como a pedra angular serve para unir e firmar as paredes de urn edificio, da mesma forma Cristo, apesar de ter sido rejeita- do pelos judeus, foi escolhido por Deus para servir como uma pedra de esquina para que a teocracia, o reino de Deus sobre Seu povo, alcan<;asse Sua realiza<;ao nEle. 0 ap6stolo Pedro menciona essa ideia em Atos 4.11 e desenvolve- a mais especificamente, em sua primeira carta. Ele se refere nao somente ao Salmo 118.22, mas tambem a Isaias 28.16. Ele apre- senta Cristo como a pedra viva, colocada por Deus em Siao e a qual os crentes, como pedras vi- vas, sao unidos (1Pe 2.4-6). E Pau- lo, desenvolve a ideia de que a Igreja e edificada sobre a funda- <;ao colocada pelos ap6stolos e pelos profetas, em sua prega<;ao do Evangelho, e que Cristo e a 271 51 2.6; 72.2-7; Is 9.6; 11.1-5; Lc 1.33; Jo 18.33. 272 512.8,9; 72.8; 110.1,2; Mt 28.18; 1Co 15.25-27; Ap 1.5; 17.14. 419
  • 419.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii pedra angular do edificio da Igre- ja, sobre a qual foi colocado o fun- damento dos ap6stolos e profetas (Ef 2.20). Cristo e chamado de fun- damento da Igreja (1Co 3.10). As- sim como o edificio, tern firmeza em sua pedra angular, assim tam- bern a Igreja tern sua existencia somente na pedra viva, que e Cristo. Mas a figura do edificio, apesar de apresentar Cristo como pedra de esquina, ainda nao e adeguada para apresentar o inti- mo relacionamento que Cristo mantem com a Igreja. A conexao existente entre a pedra angular e o edificio e uma rela<;ao artificial, mas a unidade de Cristo com sua Igreja e uma rela<;ao vital. Jesus falou de Si mesmo nao apenas como uma pedra escolhida por Deus para ser a pedra angular, mas tambem como a videira que alimenta seus ramos (Jo 15.1,2). Pedro falou de pedras vivas e Paulo, falou nao apenas sobre urn edifkio que e construfdo e de urn corpo que e edificado (Ef 2.21; 4.12), mas tambem apresenta Cris- to como a Cabe<;a cujo corpo ea Igreja. Toda igreja local eurn cor- po de Cristo e membro do gran- de corpo de Cristo. Toda igreja local eurn cor- po de Cristo, e os membros da igreja estao relacionados a outros 273 Ef1.22,23; 4.15,16; 5.23; C/1.18; 2.19. 274 C/1.19; 2.9; Jo 1.14)6. 420 membros, do mesmo corpo, que precisam e servem uns aos outros (Rm 12.4,5; 1Co 12.12-27). Mas tambem, toda a Igreja de Cristo e Seu corpo. Em virtude de Sua res- surrei<;ao e ascensao Ele foi feito Cabe<;a da Igreja273 • Como tal, Ele eo prindpio de vida da Igreja. Ele concede vida aIgreja, e tambem a alimenta, cuida dela, preserva-a e protege-a. Ele faz com que a Igre- ja viceje e prospere, faz com que seus membros alcancem plena maturidade e tambem unifica-a e faz com que todos trabalhem em beneficio uns dos outros. Em ou- tras palavras, Cristo enche a Igre- ja com a plenitude de Deus. Nos dias do ap6stolo Pau- lo, havia mestres hereticos, que diziam que das profundezas do Ser divino todos os tipos de seres emanavam em uma escala des- cendente, e que todos esses seres juntos formavam a plenitude de Deus. Contra essa heresia Paulo apresenta o fato de que toda a ple- nitude de Deus reside exclusiva- mente em Cristo, e que essa ple- nitude reside nEle corporalmen- te274 e que Cristo faz com que essa plenitude esteja presente na Igre- ja, que eo Seu corpo e que em tudo e preenchida por Ele (Ef 1.23). Na Igreja nada ha., nem dom, nem poder, nem offcio, nem mi- nisterio, nem fe, nem esperan<;a,
  • 420.
    A OBRA DECRISTO EM SuA EXALTA<;:Ao nem amor, nem salva<;ao que nao proceda de Cristo. E Cristo aper- fei<;oani a Igreja ate que ela, no todo e em partes, esteja cheia da plenitude de Deus275 • Quando isso acontecer, Deus sera tudo em todos (1Co 15.28). Mas Cristo, tambem recebe o nome de Cabe<;a em outro sen- tido. Em 1Co 11.3 Paulo diz que Cristo e o cabe<;a de todo homem. Em Colossenses 2.10 Paulo diz que ele e 0 cabe<;a de todo princi- pado e potestade, isto e, dos an- jos, porque Ele e o primogenito de toda a cria<;ao (Cl 1.15). E em Efesios 1.10 ele fala do prop6sito de Deus, na plenitude dos tem- pos, de fazer convergir em Cris- to, todas as coisas (a palavra gre- ga significa reunir todas as coisas sob uma cabe<;a), tanto no ceu quanto na terra. Todavia, e claro que o nome cabec;a tern urn signi- ficado diferente nesses textos e naqueles em que Ele e chamado de Cabe<;a da Igreja. Quando Pau- lo diz que Cristo e o Cabe<;a da Igreja, ele esta pensando em uma rela<;ao organica entre Cristo e sua Igreja. Mas quando Cristo e cha- mado de cabe<;a do homem, dos • 1 .1 j• anJOS, ou ao munao, a ngura apre- sentada e a de Sua soberania so- bre todas as coisas. Todas as cria- turas, sem exce<;ao, estao subor- dinadas a Cristo, embora Ele mes- 275 Jo 1.16; Ef3.19; 4.13. 276 1Co 15.25; 1Tm6.15; Ap 1.5; 17.14; 19.16. 421 mo, como Mediador, esteja sujei- to ao Pai (1Co 11.3). Enquanto Ele exerce urn governo da Gra<;a so- bre a Igreja e, e constantemente chamado de Cabe<;a da Igreja, Ele e tambem, 0 soberano sobre todas as criaturas. E nesse sentido Ele e chamado de Cabe<;a, Rei e Senhor. Ele e o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, o Principe dos reis de toda a terrae como Rei reinara, ate que todos os Seus inimigos sejam colocados debaixo dos Seus pes276. Esse reinado de poder nao pode ser identificado com a abso- luta soberania que Cristo, segun- do Sua natureza divina, tern em comum como Pai e como Espiri- to. A onipotencia que pertence ao Filho desde a eternidade, deve ser diferenciada do poder que Cristo menciona em Mateus 28.18 e que lhe e dado especificamente como Mediador em ambas as Suas na- turezas. Como Mediador Cristo tern Sua Igreja para reunir, gover- nar e proteger e para fazer com que ela seja mais poderosa do que todos os Seus inimigos e do que os 1mm1gos Igreja. Mas essa, certamente, n2i_o e a unica o de der foi concedido a Cristo. Ha ain- da outra razao, a saber, que conw Mediador Ele deve triunfnr sobre todos OS Seus inimigos. Ele nao
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    Fundamentos Teol6gicos daFC Crista os encontrara em urn campo de batalha para derrota-los com sua onipotencia, mas lhes mostrara o poder que, como Mediador, rece- beu atraves de Seu sofrimento e morte. 0 conflito entre Deus e Suas criaturas e urn conflito de jus- ti<;a e retidao. Assim como a Igre- ja e redimida atraves de Sua jus- ti<_;:a, assim tambem, os inimigos de Deus urn dia serao condena- dos por meio dessa mesma justi- <_;:a. Contra eles Deus nao fara uso de Sua onipotencia, pois ja triun- fou definitivamente sobre eles na cruz (Cl 2.15). Se Deus fosse pu- nir Seus inimigos com Sua onipo- tencia, nem por urn momento se- quer eles poderiam existir. Mas Ele permite que eles nas<_;:am e vi- vam, gera<_;:ao apos gera<_;:ao, secu- lo apos seculo e concede-lhes to- das as ben<_;:aos que possuem no corpo e na alma, e que eles, por 422 sua parte, utilizam contra Deus. Deus pode fazer isso e de fato o faz, porque Cristo e o Mediador. Embora, agora, nem todas as coi- sas lhe estejam sujeitas, Ele e co- roado com honra e gloria, e reina- ra como Rei ate que todos os Seus inimigos lhe sejam totalmente sujeitos. Finalmente, no fim dos tempos, quando toda a historia do mundo e toda a historia de cada indivfduo chegar ao fim, queren- do ou nao, todo joelho se dobrara e toda lingua confessara que Cris- to e o Senhor, para a gloria de Deus Pai (Fp 2.10,11). E nesse dia, como o Filho do homem, Cristo pronunciara o julgamento final sobre toda criatura. E Ele conde- nara todos aqueles que, em sua propria consciencia, convencidos pelo Espfrito, ja foram condena- dos (Jo 3.18; 16.8-11).
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    CAPITULO 11® 0 DaM ooEsPfRITO SANTO A primeira obra que Cristo realizou depois de Sua exalta<;ao, a mao direita do Pai, foi o envio do Espirito Santo. Em Sua exalta<;ao, Ele mes- mo recebeu do Pai o Espirito San- to prometido no Velho Testamen- to e, portanto, Ele pode agora, como tinha prometido, concede- lo aos Seus disdpulos (At 2.33). 0 Espirito que Ele concede pro- cede do Pai foi concedido a Cris- to pelo Pai, e e concedido por Cristo aIgreja (Lc 24.49; Jo 14.26). 0 envio do Espirito Santo, ocorrido no dia de Pentecostes, e urn evento unico na hist6ria da Igreja de Cristo. Assim como a cri- a<;ao e a encarna<;ao, o envio do Espirito Santo, tambem aconteceu uma vez por todas. Ele nao foi precedido por qualquer conces- sao do Espirito, em igual impor- Hl.ncia e jamais sera seguido por uma concessao semelhante. Assim 423 como Cristo em Sua concep<;ao assumiu a natureza humana e nunca colocou-a de lado, assim tambem o Espirito Santo, no dia de Pentecostes, passou a usar a Igreja como Sua morada, como Seu santwirio e nunca se separa- ra dela. A Escritura claramente indica o significado impar desse evento, ocorrido no dia de Pente- costes, ao referir-se a ele como des- cida ou derramamento do Espirito Santo. Logicamente isso nao signi- fica que nao houve men<;ao da ati- vidade do Espirito Santo antes do dia de Pentecostes. N6s ja vimos que o Espirito, juntamente com o Pai e o Filho eo criador de todas as coisas, e que na esfera de re- den<;ao Ele eo Aplicador da vida e da salva<;ao, de todo dome ha- bilidade. Ha uma diferen<;a entre a atividade do Espirito Santo nos dias do Velho Testamento e Sua
  • 423.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Cristii atividade nos dias do Novo Tes- tamento. A diferen<;a e nohivel e essencial. Essa diferen<;a se torna aparente, em primeiro lugar, pelo fato de que a Velha Dispensa<;ao sempre olhava para a £rente, para o dia em que surgiria o Servo do Senhor, sobre quem o Espirito re- pousaria em toda a Sua plenitu- de como o Espirito de sabedoria e de entendimento, o Espirito de conselho e de fortaleza, o Espfri- to de conhecimento e de temor do Senhor (Is 11.2). Em segundo lu- gar, o Velho Testamento prediz que, embora houvesse ja naquele tempo uma certa opera<;ao do Es- · pirito Santo, que esse Espirito se- ria derramado sobre toda a carne, sobre filhos e filhas, sobre velhos e jovens, sobre servos e senhores, ate 0 ultimo dia277 • Essas duas promessas foram cumpridas nos dias do Novo Tes- tamento. Jesus eo Cristo, o Ungi- do de Deus. Ele nao apenas foi concebido pelo Espfrito, no ven- tre de Maria e nao somente foi ungido sem medida, pelo Espiri- to, por ocasiao de Seu batismo, mas Ele continuamente viveu e agiu atraves do Espirito. Pelo Es- Dfrito1 E1e foi enviado ao deserto 4.1) e pelo Espfrito Ele retornou aGalileia (Lc 4.14), pre- gou o Evangelho, curou os enfer- mos, expulsou demonios278 , ofe- 277 Is 44.3; Ez 39.29; Jl 2.28 ss. "' Mt 12.28; Lc 4.18,19. 279 At 1.2; Jo 20.21)2. 424 receu-se sem macula para que fos- se morto (Hb 9.14), ressuscitou e foi revelado em poder (Rm 1.4). No periodo de quarenta dias, en- tre Sua ressurrei<;ao e Sua ascen- sao, Ele deu mandamentos aos Seus discipulos atraves do Espi- rito279. E em Sua ascensao, atraves da qual Ele sujeitou todos os Seus inimigos e subordinou os anjos, principados e potestades a Simes- mo (Ef 4.8; 1Pe 3.22), Ele plena- mente recebeu o Espirito Santo e todos os Seus poderes. Quando Ele subiu as alturas, levou cativo o cativeiro, concedeu dons aos homens, e foi exaltado acima de todos OS ceus, para encher todas as coisas (Ef 4.8)0). Jesus recebeu o Espirito de tal maneira e em tal medida que o ap6stolo Paulo pode dizer, em 2Corintios 3.17, que o Senhor (isto e, Cristo, como o Senhor exalta- dot e o Espirito. Naturalmente, atraves dessa afirma<;ao Paulo nao quer obliterar a distin<;ao que existe entre os dois, pois no verso seguinte ele imediatamente fala sobre o Espirito do Senhor. 0 que Paulo quer dizer e que o Espirito se tornou uma propriedade de Cristo, e 1Jodemos dizer que Ele foi absorvido por Cristo ou assi- milado por Ele. Atraves da ressur- rei<;ao, Cristo foi feito Espirito vivificante (1Co 15.45). Cristo ago-
  • 424.
    0 DoM ooEsPiRITO SANTO ra possui OS sete Espfritos (isto e, o Espirito em sua plenitude), as- sim como possui as sete estrelas (Ap 3.1). 0 Espfrito do Paise tor- nou o Espirito do Filho, o Espiri- to de Cristo, o Espirito que, nao somente no divino Ser, mas tam- bern em harmonia com Ele, pro- cede do Pai e do Filho, e e envia- do pelo Filho, assim como e envi- ado pelo Pai (Jo 14.26; 16.7). Com base em sua perfeita obediencia, Cristo obteve o pleno e livre comando sobre o Espirito Santo e sobre todos os dons e po- deres desse Espirito. Ele agora pode compartilhar esse Espirito com quem Ele quiser, na medida em que Ele quiser, em harmonia com a vontade do Pai e do pro- prio Espfrito, pois o Filho envia o Espfrito da parte do Pai (Jo 15.26) e o Pai envia o Espirito no nome do Filho (Jo 14.26). E o Espfrito nao fala de si mesmo, mas diz tudo o que ouviu. Assim como Cristo em Seu ministerio terreno sempre glorificou o Pat dames- ma forma o Espirito, por Sua vez, glorifica Cristo, recebe tudo de Cristo e anuncia Cristo aos Seus discipulos (Jo 16.13)4). Dessa for- mao Espfrito, livremente, coloca- se a servi<;o de Cristo, e no Espiri- to e atraves do Espirito, Cristo da a Si mesmo e os Seus beneficios, aIgreja. Nao e por for<;a nem por vi- olencia, que Cristo reina no reino que lhe foi dado pelo Pai. Ele nao agiu assim em sua humilha<;ao e nao agira assim em Sua exalta<;ao. Ele continua a exercer Seus ofici- os profetico, sacerdotal e real de forma espirituat em Seu trono celestial. Ele luta somente com armas espirituais. Ele e o Rei de Gra<;a e de poder, e comanda Seu exercito atraves do Espirito, que faz uso da Palavra como meio de Gra<;a. Atraves do Espfrito Cristo instrui, conforta e governa Sua Igreja, e mora nela. E atraves do mesmo Espirito Ele convence o mundo do pecado, da justi<;a e do juizo (Jo 16.8-11). A vit6ria total que Cristo impora sobre Seus ini- migos, sera uma vit6ria do Espf- rito Santo. ***** 425 Depois que Cristo foi exal- tado amao direita do Pai, a segun- da promessa do Velho Testamen- to foi cumprida. Ela fala sobre o derramamento do Espirito sobre toda carne. Primeiro Ele tinha que merecer e se apropriar desse Es- pirito para que depois pudesse da-lo a Sua Igreja. Antes disso, isto e, antes de Sua ascensao, o Espirito ainda nao tinha sido der- ramado, porque Cristo ainda nao tinha sido glorificado (Jo 7.39). Naturalmente, isso nao quer dizer que antes da glorificac;:ao de Cris- to o Espirito nao existisse, pois, nao apenas o Velho Testamento faz referenda ao Espirito, mas
  • 425.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista tambem os Evangelhos registram que Joao Batista era cheio doEs- pirito Santo (Lc 1.15), que Simeao recebeu uma revela<;ao do Espi- rito Santo (Lc 2.26,27), que Jesus foi concebido por Ele, ungido por Ele e assim por diante. 0 sentido tambem nao pode ser de que os disdpulos nao soubessem que o Espirito Santo existia, pois eles tinham sido instruidos no Velho Testamento, pelo proprio Cristo. Nem mesmo os discipulos de Joao que disseram a Paulo, em Efeso, que nao tinham recebido o Espirito Santo e que nunca sequer tinham ouvido falar na existencia desse Espirito (At 19.2), ignora- vam a existencia do Espirito. 0 que eles disseram foi que nao ti- nham conhecimento de uma ope- ra<;_:ao nao usual do Espirito San- to, isto e, do Pentecostes, afinal, eles sabiam que Joao Batista era urn profeta enviado por Deus e capacitado pelo Espirito. A gran- de questao e que eles tinham per- manecido como discipulos de Joao, nao tinham se juntado a Je- sus e aos Seus disdpulos e por isso viviam fora do ambito da Igreja, que no dia de Pentecostes, recebeu o Espirito Santo. Ate aquele dia nunca tinha ocorrido urn derramamento do Espirito, como o de Pentecostes. 0 Velho Testamento ja tinha 280 Mt 3.11; fo 3.11. 281 Jo 14.16; 15.26; 16.7. 426 registrado essa promessa, e Jesus tambem a mencionou repetida- mente em Seu ensino. Joao Batis- ta ja tinha anunciado que depois dele viria o Messias, que nao ba- tizaria com agua, mas com o Es- pirito Santo e com fogo (isto e, como derramamento e com o fogo consumidor do Espirito santo)280 . E em harmonia com essa promes- sa Jesus afirmou aos Seus disci- pulos que depois de Sua exalta<;_:ao Ele enviaria, da parte do Pai, o Espirito Santo, que os conduziria a toda verdade. Dessa forma, Cris- to claramente fez uma distin<;_:ao entre as duas atividades do Espi- rito Santo. Atraves do primeiro tipo de atividades o Espirito San- to, tendo sido derramado sobre o cora<;ao dos discipulos, conforta- os, conduze-os a verdade e per- manece com eles eternamente281 . Mas esse Espirito de conforto e orienta<;_:ao e dado somente aos discipulos de Jesus. 0 mundo nao pode receber esse Espirito, pois nao 0 ve nem 0 conhece (J0 14.17). Por outro lado, no mundo o Espi- rito realiza uma atividade muito diferente daquela que realiza na Igreja. Vivendo na Igreja e, por- tanto, exercendo Sua influencia no mundo, o Espirito convence o mundo do pecado, da justi<;;a e do juizo e condena-o nesses tres que- sitos (Jo 16.8-11).
  • 426.
    0 DaM ooEsPiRITO SANTO Jesus cumpre Sua promessa aos Seus disdpulos em seu senti- do estrito, isto e antes de Sua as- censao. Quando, na tarde do dia da ressurrei<;ao, Ele apareceu aos Seus discipulos pela primeira vez, Ele os inseriu de forma dig- na em sua missao apost6lica, so- prou o Espirito sobre eles e disse que se de alguem eles perdoas- sem os pecados, os pecados des- sa pessoa seriam perdoados e que se eles retivessem os pecados de alguem, esses pecados seriam de fato retidos (Jo 20.22,23). Isso aconteceu porque o exercicio do offcio apost6lico que eles tinham acabado de receber, exigia urn dom e urn poder espedfico do Espirito. Esse dom e esse poder lhes foram dados por Cristo, an- tes de Sua ascensao, pois eram dis- tintos do dom e do poder que no dia de Pentecostes, todos os cren- tes receberiam. 0 derramamento do Espiri- to aconteceu quarenta dias de- pois da ressurrei<;ao. Nessa oca- siao os judeus estavam celebran- do sua festa de Pentecostes, na qual eles se regozijavam pela co- lheita e pela entrega da lei, no Sinai. Os discipulos estavam em Jerusalem, aguardando o cumpri- mento da promessa de Jesus, e es- tavam constantemente no templo, orando e bendizendo ao Senhor (Lc 24.49,53). Agora eles nao esta- vam sozinhos. Eles perseveravam unanimes em ora<;5es e suplicas, 427 com Maria, mae de Jesus, os ir- maos dEle e muitos outros. E o seu numero chegava a cento e vin- te pessoas (At 1.14,15; 2.1). E, es- tando eles reunidos, repentina- mente veio urn som do ceu, como de urn vento impetuoso, e encheu todo o lugar onde os discipulos estavam reunidos. E apareceram entre eles linguas, como de fogo, que foram distribuidas entre to- dos os que estavam ali reunidos, e permaneceu sobre eles. Acom- panhando por esses sinais, que significavam a descida e a ativi- dade iluminadora do Espirito San- to, ocorreu o derramamento. To- dos os presentes ficaram cheios do Espirito Santo (At 2.4). Essa mesma expressao ja ti- nha ocorrido antes (Ex 31.3; Mq 3.8; Lc 1.41). Mas, a diferen<;a esta na superffcie. Antes do Pentecos- tes, o Espirito Santo vinha sobre umas poucas pessoas e permane- cia sobre elas durante o tempo ne- cessaria para a realiza<;ao de uma obra espedfica. No Pentecostes Ele desceu sobre toda a Igreja e sobre todos os Seus membros, e permanecera morando e traba- lhando permanentemente nela. Assim como o Filho de Deus apa- receu varias vezes nos tempos do Velho Testamento mas, s6 assu- miu uma natureza humana como Sua morada permanente na con- cep<;ao, no ventre de Maria, da mesma forma, nos tempos do Ve- lho Testamento havia todas as for-
  • 427.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista mas de atividades do Espirito Santo, mas somente no dia de Pen- tecostes Ele passou a habitar na Igreja, como Seu templo, que Ele constantemente santifica, edifica e da qual Ele nunca se esquece. A morada que o Espirito Santo faz na Igreja da, a Igreja de Cristo, uma existencia independente. Essa Igreja nao e mais restrita a na<;ao de Israel, nem as fronteiras da Palestina, mas vive agora de forma independente, atraves do Espirito que nela habita e se es- palha por toda a terra. Fora do templo de Siao Deus passa a mo- rar no corpo da Igreja de Cristo, e assim, no dia de Pentecostes nas- ce uma Igreja missionaria e mun- dial. A ascensao de Cristo teve sua conseqi.iencia necessaria e a prova de sua realidade, na desci- da do Espirito Santo. Assim como o Espirito santificou Cristo atra- ves do sofrimento, aperfei<;oou e conduziu-o a mais elevada exalta<;ao, assim tambem Ele age para formar o corpo de Cristo ate que esse corpo alcance a maturi- dade e sua plenitude, o ph~roma, daquele que e tudo em todos. * * * * * Esse derramamento do Es- pirito Santo foi acompanhado, no primeiro perfodo, pela realiza<;ao de todos os tipos de sinais, pelos discipulos de Cristo. Logo que eles foram cheios do Espirito San- 428 to, no dia de Pentecostes, eles co- me<;aram a falar em outras lin- guas, na medida em que o Espiri- to concedia que falassem (At 2.4). De acordo com a descri<;ao de Lucas, esse milagre consistia na fala ou na linguagem e nao na for- ma pela qual os discipulos ouvi- am. Lucas era urn amigo e urn auxiliar de Paulo e conhecia mui- to bern o fenomeno de linguas es- tranhas, como por exemplo o que acontecia em Corinto. Ele fala de si mesmo, em Atos 10.46,47 e 19.6, falando em linguas. Nao ha duvi- da de que o fenomeno de Pente- costes estava relacionado as lin- guas. As linguas servem de parametro para Pedro dizer que, Cornelio e aqueles que com ele estavam tinham recebido o Espi- rito Santo, assim como Pedro e os outros ap6stolos tinham recebido (At 10.46,47; 11.17; 15.8). Contudo, ha uma diferen<;a. Em 1Corintios 14, Atos 10.46 e 19.6 a fala em lin- guas nao e modificada pelo adje- tivo estranhas. Mas, Atos 2.4 men- dona expressamente outras lfn- guas. Quando os membros da igreja de Corinto falavam em lfn- guas, eles nao eram compreendi- dos menos que houvesse urn in- terprete (1Co 14.2 ss.). Mas, em Jerusalem, falaram em outras lin- guas e foram entendidos pela multidao. Urn milagre na audi<;ao eshi, portanto, totalmente fora de questao (At 2.4). Quando a multi- ciao ouvia os disdpulos, entendia
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    0 DoM noEsrfRrTo SANTO perfeitamente, pois ela os ouvia em sua propria lingua e modo de falar (At 2.6,8). As outras linguas das quais o verso 4 fala sao, sem sombra de duvida, as mesmas lin- guas que o verso 6 chama de lin- gua dos ouvintes, e que no verso 8, sao mais especificamente de- signadas como a lingua materna de cada urn dos presentes. Essas lfnguas, portanto, nao eram sons incompreensiveis, mas outras lin- guas, novas linguas, como Marcos diz no capitulo 16.17 de seu Evan- gelho e que nao se esperava en- contrar nos labios de urn galileu (At 2.7). Em todas essas linguas eles proclamaram os maravi- lhosos feitos de Deus, particular- mente aqueles que tinham acon- tecido recentemente, a saber, a ressurrei<;ao e a exalta<;ao de Cris- to (At 2.4,14 ss.). Nao devemos pensar, devi- do ao registro feito por Lucas, que os discipulos de Cristo soubes- sem falar todas as linguas de to- dos os povos da terra. 0 registro tambem nao diz, que todos OS dis- dpulos falaram em todas as ou- tras linguas. 0 proposito desse milagre nao foi para que os disci- pulos pregassem o Evangelho aos estrangeiros em sua propria lingua, pela razao de que, de ou- tra forma nao seriam entendidos. Os quinze nomes relacionados nos versos 9-11, nao representam o mesmo numero de linguas di- ferentes. Esses nomes sao desig- 429 na<;ao dos paises dos quais os es- trangeiros vieram a Jerusalem por ocasiao do Pentecostes. Porem, todos esses estrangeiros entendi- am o aramaico ou o grego, de for- ma que a capacita<;ao sobrenatu- ral para que os discipulos falas- sem em outras linguas, nao seria necessaria para que a mensagem fosse entendida. Nos nao encon- tramos qualquer men<;ao posteri- or no Novo Testamento, desse dom de linguas estranhas. Paulo, o apostolo dos gentios, que certa- mente teria recebido esse dom, nunca falou sobre ele. Ele podia comunicar-se muito bern em aramaico e grego, no mundo de sua epoca. 0 fenomeno da fala em lfn- guas estranhas, no dia de Pente- costes, foi urn evento unico. De fato ele esta relacionado ao fen6- meno de linguas geralmente co- nhecido e referido em outros lu- gares, mas ele foi urn fenomeno particular e mais elevado. Paulo considerou o fenomeno comum e conhecido de linguas como sen- do de valor menor que a profecia. Mas, o que ocorreu em Jerusalem foi uma combina<;ao de dom de linguas e de profecia. A opera<;ao do Espirito Santo, que tinha aca- bado de ser derramado, foi tao poderosa que dominou toda a conscH~ncia dos presentes e se manifestou na pronuncia de sons articulados, que foram reconheci- dos pelos ouvintes como sua lin-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista gua materna. Oproposito, portan- to, desse milagre, nao foi equipar os disdpulos para que conheces- sem linguas estranhas, mas cau- sar em todos os presentes uma forte impressao do grande even- to que tinha acabado de ocorrer. E como isso poderia ter sido fei- to, de forma melhor do que fazen- do com que a pequena e recente- mente estabelecida Igreja mundi- al, proclamasse, em muitas Hn- guas, os poderosos feitos de Deus? Na cria<;ao, as estrelas can- taram juntas e todos os filhos de Deus se alegraram. No nascimen- to de Cristo, a multidao de hastes celestiais exultou de jubilo. No aniversario da Igreja, essa Igreja canta as maravilhosas obra de Deus em varias linguas. * * * * * Embora as linguas ocupem urn lugar irnportante no Pentecos- tes, devernos nos lernbrar que o derrarnarnento do Espirito nesse prirneiro periodo, tornou-se ma- nifesto atraves de rnuitos fenorne- nos nao usuais. 0 dorn do Espiri- to era geralrnente dado depois que urna pessoa rnanifestava sua fe, geralrnente no momenta do ba- tisrno (At 2.28), ou na irnposi<;ao das rnaos antes do batismo (At 8.17; 9.17; 19.6). Usualrnente, o dom do Espirito consistia de urn poder nao usual. Dessa forma, nos lemos que atraves do Espiri- to os disdpulos receberarn auto- ridade para pregar a Palavra (At 4.8,31), urna fe particularrnente forte (At 6.5; 11.24), conforto e ale- gria (At9.31; 13.52), sabedoria (At 6.3,10L linguas (At 10.46; 15.8; 19.6), profecia (At 11.28; 20.23; 21.11), manifesta<;oes e revela- <;6es282, opera<;oes de rnilagres283 e coisas sernelhantes. Assirn como as obras que Jesus realizou, esses poderes incornuns tarnbern causa- ram grande perturba<;ao e te- rnor284. Por urn lado eles provo- cararn oposi<;ao, levaram o cora- <;ao dos inimigos ao odio e aper- segui<;ao; mas, por outro lado, eles tambern preparararn o terre- no para a semente do Evangelho. Nesse prirneiro periodo eles fo- rarn necessarios para introduzir a confissao crista no rnundo. Esses dons incornuns doEs- pirito continuararn sendo exerci- dos durante todo o periodo apos- tolico. Nos ternos acesso a esses dons, especialmente atraves dos escritos do apostolo Paulo. Ele rnesrno, ern sua propria pessoa, recebeu abundanternente esses dons especiais do Espirito. De uma forma incornum, a saber, atraves de urna revela<;ao do pro- prio Cristo, ele se converteu no 252 At 7.55; 8.39; 10.19; 13.2; 15.28; 16.6; 20.22. 253 At 3.6; 5.5,12,15,16; 8.7,13. 254 At 2.7,37,43; 3.10; 4.13; 5.5,11,13,24. 450
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    0 DaM ooEsrfRITO SANTO caminho de Damasco, foi chama- do para ser ap6stolo (At 9.3 ss.) e, mais tarde, ele passou a receber revela<;6es periodicamente285 • Ele sabia que possuia os dons de co- nhecimento, de profecia, de dou- trina e de linguas (1Co 14.6,18). Ele realizava sinais, maravilhas e obras que evidenciavam o seu apostolado (2Co 12.12). 0 proprio Cristo quis trazer OS gentios aobe- dH~ncia, por palavras e por obras, por for<;a de sinais e prodigios, pelo poder do Espirito Santo (Rm 15.18,19). Apesar de Paulo estar ple- namente consciente de seu oficio apost6lico e de sua dignidade e de afirma-las sempre que possi- vel, ele sabia que os dons do Es- pirito nao tinham sido dados so- mente a ele, mas a todos os cren- tes. Em 1Corintios 12.8-10 (com- pare com Romanos 6.8) Paulo cita alguns desses dons, e diz que eles foram distribuidos pelo Espirito em propor<;oes variadas, de acor- do com a vontade do Espirito. 0 ap6stolo tern todos esses dons em estima muito elevada. Eles nao pertencem aos pr6prios crentes, pois eles nada possuem que nao tenham recebido e, portanto, nao tern motivo algum para se exalta- rem, colocando-se acima uns dos outros (1Co 4.6,7). Todos esses dons e poderes sao concedidos 285 At 16.6,7,9; 2Co 12.1-7; Gl 2.2. 286 Rm 8.23; 2Co 1.22; 5.5; Ef1.14; 4.30. 451 pelo mesmo Espirito. Eles sao urn cumprimento da profecia feita no Velho Testamento (Gl 3.14) e de- vern ser considerados como primicias e como penhor de nos- sa futura heran<;a celestiaF86 . Contudo, Paulo faz uma ava- lia<;ao de todos esses dons e esta difere significativamente da que foi feita por muitos dos membros da Igreja. Havia pessoas em Corinto, que se exaltavam por causa dos dons que tinham rece- bido do Espirito e que olhavam com desdem para aqueles que ti- nham recebido menos dons ou ate mesmo nenhum. Essas pessoas nao aplicavam seus dons em be- neficia dos demais, mas ostenta- vam-nos. E elas davam uma im- portancia a mais para o dom de Iinguas. Paulo aponta o erro des- sas pessoas (1Co 12-14). Em pri- meiro lugar ele aponta para a nor- ma, segundo a qual todos os dons devem ser medidos. Essa norma ea confissao de que Jesus eo Se- nhor. Quem quer que fale da par- te do Espirito do Senhor nao pode amaldi<;oar Jesus. Somente aque- le que confessa Jesus como Se- nhor demonstra que fala da parte do Espirito. A marca registrada do Espirito e de todos os Seus dons e opera<;oes ea obriga<;ao de confessar Jesus como Senhor (1Co 12.3).
  • 431.
    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista Em segundo lugar Paulo aponta para o fato de que os dons do Espirito, apesar de correspon- derem a essa norma, sao muito variados, e que eles sao distribu- idos nao segundo 0 merito ou 0 esfon;:o de cada urn, mas segun- do a vontade soberana do Espfri- to (1Co 12.4-11). Portanto, eles nao podem servir de ocasiao ou de motivo para a auto-exalta~ao nem para o desprezo ou a des- considera~ao dos outros. Em vez disso, todos eles devem ser apli- cados em beneficia do proximo, pois todos os crentes sao mem- bros de urn s6 corpo e precisam uns dos outros (1Co 12.12-30). Mas, se os dons sao usados para esse fim, se eles sao aplicados a aquila que e proveitoso (1Co 12.7), isto e, benefico aos outros, a edifica<;:ao da Igreja, para o que foram designados (1Co 14.12), entao, as gradua<;:6es entre os dons passam a ficar evidentes, pois, urn e mais benefico a edifica<;:ao da Igreja que outro, e por isso n6s podemos falar em dons, melhores dons eo melhor dom. Epor isso que Paulo exorta os crentes, em 1 Corintios 12.31, a procurar com zelo os melhores dons. Nessa energica aspira~ao aos melhores dons, o amor e o caminho por excelencia. Sem ele o maior dos dons e vazio e sem vida (1Co 13.1-3). 0 amor trans- cende todos os outros dons em 432 virtude (1Co 13.4-7). 0 amor trans- cende todos os outros dons em dura<;:ao, pois todos os dons urn dia cessarao, mas o amor eeter- no. Entre as virtudes de fe, espe- ran<;:a e amor, o amor e a de maior merito (1Co 13.8-13). Por tudo isso o amor deve ser seguido com zelo em todas as coisas (lCo 14.1). Mas nessa busca a aten<;:ao deve se con- centrar naqueles dons que servem para edificar a Igreja e, dessa for- ma, exercitar o amor. Visto por esse angulo, 0 dom de profecia e muito superior ao de linguas, pois aqueles que falam em lin- guas nao sao entendidos, falam em misterios que sao incompre- ensiveis aos seus ouvintes, falam ao ar, nao trazem pessoas a cren- <;:a ou a fe, mas deixam a impres- sao de ser doentes mentais. Se ha membros da igreja que possuem esse dom, eles devem fazer uso restrito dele e, preferivelmente, devem ser acompanhados pelo dom de interpreta<;:ao. Se nenhu- ma interpreta<;:ao puder ser dada, aqueles que possuem esse dom devem calar-se na igreja. Por ou- tro lado ha aqueles que profeti- zam, que atraves da revela<;:ao do Espirito proclamam a Palavra de Deus, promovem a edifica<;:ao, a admoesta<;:ao e a consola<;:ao dos homens. Eles edificam a Igreja e conquistam os incn§dulos. Portan- to, independente do dom que a pessoa tenha recebido, o padrao que afere sua genuinidade ea con-
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    0 DaM ooEsrfRITO SANTO fissao de que Jesus Cristo e o Se- nhor, eo seu uso como prop6si- to de edificar a Igreja. Deus nao e Deus de confusao, mas de paz. Essa bonita abordagem so- bre os dons espirituais deu fruto nao somente na igreja de Corinto, mas tern frutificado em toda a Igreja e em todas as epocas, pois sempre ha pessoas que se ape- gam mais as manifestac;oes mara- vilhosas, as revelac;oes e milagres do que a opera<;:ao do Espirito na regenera<;:ao, na conversao e na renovac;ao da vida. 0 anormal e o incomum sempre atrai atenc;ao, e o normal e usual passam desper- cebidos. Muitas pessoas possuem revelac;oes, aparic;oes, arrebata- mentos e extrtavagancias teatrais, e ao mesmo tempo possuem os olhos fechados para o gradual amadurecimento do reino de Deus. Paulo pensava diferente dessas pessoas, e por isso ele ad- moestou os irmaos de Corinto: "Irmaos, nao sejais meninos no juizo; na malicia, sim, sede crian- c;as; quanto ao juizo, sede homens amadurecidos" (lCo 14.20). Dessa forma, o ap6stolo muda o centro de gravidade das revelac;oes temporais e transit6ri- as do Espirito, para a obra religi- osa e moral que ele continuamen- te realiza na Igreja. Essa ideia so- bre a- obra do Espirito ja estava presente no Velho Testamento. 287 5151.12,13; Is 32.15; Ez 36.27. 455 No Velho Testamento todos os ti- pos de dons e poderes extraordi- narios sao atribuidos ao Espirito, mas como os profetas e os salmistas entraram na profundi- dade da apostasia do povo de Is- rael e na miseria e corrupc;ao do corac;ao humano, eles declaram com maior clareza e maior forc;a que somente uma renovac;ao rea- lizada pelo Espirito Santo pode- ria transformar o povo de Israel em povo de Deus em urn sentido verdadeiro. "Pode, acaso, o etiope mudar sua pele ou o leopardo as suas manchas? Entao, poderieis fazer o bern, estando acostuma- dos a fazer o mal" (Jr 13.23). Deus, por Seu Espirito, pode mudar o corac;ao das pessoas, se elas anda- rem em Seus caminhos e observa- rem Suas ordenanc;as e Seus esta- tutos. Somente o Espirito do Se- nhor pode implantar a verdadei- ra vida moral e espirituaF87 • A pregac;ao de Jesus no Evangelho de Joao, confirma tudo isso. Em Sua conversa com Nicodemos Jesus explica que nao ha acesso ao reino de Deus, nem qualquer forma de se desfrutar dele, a nao ser atraves da regene- rac;ao, e que essa regenerac;ao s6 pode acontecer atraves do espiri- to santo (Jo 3.3-5). E em sua des- pedida Ele desenvolve a ideia de que o Espirito que Ele enviaria da parte do Pai depois de sua glori-
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista fica<;ao, tomaria Seu lugar entre os discipulos. Portanto, a partida de Jesus foi benefica para os discipu- los. De outra forma o Consolador nao teria vindo para eles. Mas, quando Ele foi para o Pai Ele pode e de fato enviou o Espirito. A ida de Jesus para o Pai e a evi- dencia de que Ele realizou na ter- ra tudo aquilo que deveria ter re- alizado. No ceu Ele pode tomar Seu lugar amao direita de Deus Pai e pode assumir Suas fun<;5es sacerdotais, intercedendo pela Igreja na terra. Em outras pala- vras, ao ir para o Pai, Jesus pode orar a Ele pelo Espirito Santo em toda a Sua plenitude e pode en- viar Seu Espirito aos Seus disci- pulos. E nesse Espirito Jesus con- tinua entre Seus discipulos. 0 Espirito e o Consolador, Guia, Intercessor e Advogado dos dis- cipulos. Nesse sentido os discipulos nao sentiram a perda de Jesus. Quando Jesus estava com os dis- cipulos Ele entrava e saia com eles, mas mesmo assim havia en- tre eles muitas duvidas e muitos equivocos. Mas, o Espirito que viria nao permaneceria fora deles, nem junto a eles, mas habitaria dentro deles. Cristo permaneceu com eles na terra durante algum tempo, mas o Espirito que Ele enviou nunca os deixaria, mas permaneceria com eles ate a eter- nidade. Alem disso, o proprio Cristo voltaria novamente napes- 434 soa do Espirito. Ele nao deixaria 6rfaos os Seus disdpulos, mas voltaria para eles e se alegraria com eles no Espirito, de uma for- ma, que antes nunca tinha sido possivel. Eles o veriam novamen- te. Eles viveriam como Ele vive. Eles reconheceriam que Cristo estaria no Pai e que eles estao em Cristo e que Cristo estaria neles. Em Cristo, o Pai viria ate os disci- pulos. Atraves do Espirito, o Pai e o Filho viriam aos discipulos. 0 Pai e o Filho viriam ate os disci- pulos e fariam morada neles, atra- ves do Espirito. Isso, entao, era o que o Espirito desejava, em pri- meiro lugar, realizar: uma comu- nhao entre o Pai e o filho, por urn lado, e entre os disdpulos, por outro. Essa era uma comunhao como nunca tinha existido antes. E quando os discipulos des- frutam dessa comunhao e vivem por ela, quando eles sao unidos a Cristo como os ramos sao unidos a videira, quando eles nao sao servos, mas amigos, entao o mes- mo Espirito que fez com que eles desfrutassem dessa comunhao, sendo o Espirito da verdade, os conduzini a toda verdade. Ele nao os abandonara para que reflitam por si mesmos sobre o que Cristo pessoalmente falou e ensinou, mas continuamente lhes clara tes- temunho de Cristo. Ele dira o que ouviu de Cristo e o que recebeu dEle, e tambem lhes declarara o que ha de acontecer. Os discipu-
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    0 DaM ooEsrfRrTo SANTo los nao somente terao comunhao como Pai e com Cristo, mas tam- bern terao conscU~ncia dessa co- munhao. 0 Espirito Santo os ilu- minara com rela<;;ao a Cristo, Sua unidade com o Pai e com rela<;;ao ao relacionamento dos disdpulos com o Pai e com o Filho. 0 pro- p6sito final e que todos OS cren- tes sejam um - assim Cristo diz em suas pr6prias palavras - como tu, 6 Pai, es em mim e eu em ti, que eles sejam um em n6s, para que o mundo creia que tu me enviaste (Jo 17.21). Quando no dia de Pentecos- tes o espirito foi derramado, as ex- traordinarias manifesta<;;oes pelas quais esse derramamento foi re- velado atrairam a aten<;:ao. Mas, nem por isso n6s podemos fechar nossos olhos para um fato muito mais importante, a saber, o fato de que os disdpulos foram unidos de maneira mais intima a uma Igreja santa e independente. Cris- to e o Senhor e Salvador dessa Igreja, e todos os crentes perseve- ram na doutrina dos ap6stolos, na comunhao, no partir do pao e nas ora<;;oes (At 2.42). A unidade so- bre a qual Cristo tinha falado foi realizada na igreja de Jerusalem. Quando o entusiasmo do primei- ro amor deu lugar aquietude do cora<;;ao e da mente, quando as igrejas foram estabelecidas em outros lugares e entre outros po- 288 Rm 12.5; Ef1.23; C/1.24. 455 vos, quando, mais tarde, todos os tipos de cisma e de separa<;;ao co- me<;:aram a ocorrer na Igreja cris- ta, a unidade que une todos os crentes assumiu uma forma dife- rente, tornou-se menos vital e menos profunda, e algumas vezes e tao fraca que nem mesmo pode ser sentida por todos. Mas n6s nao podemos nos esquecer que no meio de tantas diferen<;:as a Igreja permanece unida ate os nossos dias. No futuro, essa unidade se tornara ainda mais claramente manifesta do que na igreja de Je- rusalem. ***** De todos OS ap6stolos e o, ap6stolo Paulo quem mais defen- de a unidade da Igreja diante de todas as divisoes que ele, ja em seu tempo, pode testemunhar. A Igreja eum corpo, e todos os seus membros precisam uns dos ou- tros e devem servir uns aos ou- tros (Rm 12.4; 1Co 12.12 ss.). Tal unidade se deve ao fato da Igreja ser o corpo de Cristo288 . A unida- de da Igreja esta fundamentada na comunhao com Cristo e ederi- vada dela. Cristo ea Cabe<;;a de todo crente, de toda congrega<;;ao local e tambem da Igreja como um todo. Todos os crentes sao novas criaturas, que Deus criou em Cristo para as boas obras, as
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista quais Deus de antemao preparou para que os crentes andassem ne- las (2Co 5.17; Ef 2.10). Cristo vive e mora nos crentes, e os crentes vivem, movem-se e existem em Cristo: Cristo e a vida deles. A combina<;ao em Cristo (no Senhor), ocorre mais de cento e cinqi.ienta vezes no Novo Testamento. Ela indica que Cristo e a fonte cons- tante nao apenas da vida espiri- tuat mas que tambem como tal Ele imediata e diretamente mora nos crentes. A unidade entre Cris- to es os crentes e como a da pedra angular e o templo, entre o ho- mem e a mulher, entre a cabe<;a e o corpo, entre a videira e os ramos. Os crentes estao em Cristo da mesma forma que todas as coisas, em virtude da cria<;ao e da provi- dencia, estao em Deus. Eles vi- vern em Cristo como os peixes vi- vern na agua, os passaros vivem nos ares, o homem em sua voca- <;ao, o erudito em seu estudo. Jun- tamente com Cristo os crentes fo- ram crucificados, mortos e sepul- tados, e juntamente com Ele, eles ressuscitaram e estao assentados amao direita de Deus e glorifica- dos289. Os crentes assumem a for- ma de Cristo e mostram em seu corpo tanto o sofrimento quanto a vida de Cristo e sao aperfei<;oa- dos (completados) nEle. Em resu- mo, Cristo e tudo em todos290 • Essa intima rela<;ao entre Cristo e OS crentes e possfvet por- que Cristo e compartilhado com os crentes atraves do Espirito. Em virtude de Sua paixao e morte Cristo recebeu tao perfeitamente o Espirito e todos os Seus dons e poderes que Ele pode ser chama- do de Espfrito (2Co 3.17t e Cristo recebeu tambem o direito de con- ceder o Espfrito a quem Ele qui- ser. 0 Espirito de Deus e tambem o Espirito de Cristo, o Espirito do Filho, o Espirito do Senhor291 • Di- zer que alguem recebeu o Espfri- to e o mesmo que dizer que essa pessoa recebeu Cristo, pois, quem quer que nao possua o Espirito de Cristo, tambem nao possui Cristo e nao pertence a Ele (Rm 8.9)0). Assim como Deus da o Filho ao mundo, assim tambem o Filho se da aIgreja atraves do Espirito. Os crentes sao urn s6 espfrito com Cristo (1Co 6.17). Eles sao templos do Espirito Santo, atraves dos quais Deus mora neles (1Co 3.16)7; 6.19). Eles existem, an- dam, confessam, oram e se rego- zijam no Espfrito292 .Eles sao seres espirituais, que entendem e jul- gam as coisas do Espirito (Rm 8.2; 1Co 2.14). Eles sao continuamen- te conduzidos pelo Espirito e sao acompanhados por Ele ate, o dia 289 Rnz 6.4 ss.; Gl 2.20; 6.14; Ef 2.6; Cl 2.12)0; 3.3. 290 Rm 13.14; 2Co 4.11; G/4.19; C/1.24; 2.10; 3.11. 291 Rm 8.9; 1Co 2.16; 2Co 3.18; G/4.6; Fp 1.19. 292 Rm 8.4,9,15; 14.17; 1Co 12.3. 456
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    0 DoM ooEsPiRno SANTO da redenao293 . Atraves do Espi- rito eles tern acesso ao Pai e sao juntamente edificados sobre o fundamento dos apostolos e dos profetas para a habitaao de Deus (Ef 2.18,22). Em termos como esses, que foram aqui utilizados, a Escritura registra a maravilhosa unidade que existe entre Cristo e Sua Igre- ja e que veio a ser chamada de uniao mistica. Nos nao podemos compreender essa uniao em toda a sua profundidade. Ela vai mui- to alem de nosso entendimento. Ela deve ser diferenciada, em na- tureza e em especie, da unidade que existe entre as tres pessoas da Trindade, pois todas essas tres pessoas sao urn e o mesmo Ser divino, e e precisamente em es- sencia que Cristo e os crentes con- tinuam sendo distintos entre si. De fato, a unidade existente entre Cristo e a Igreja e mais de uma vez comparada com a uniao que exis- te entre Cristo e o Pai294 • Mas quando diz isso, Cristo nao esta falando de Si mesmo como o Fi- lho, o Unigenito, mas como o Mediador, que seria exaltado a mao direita de Deus e atraves de quem o Pai realizaria Seu propo- sito. Assim como o Pai escolheu Seu proprio Filho, antes da fun- daao do mundo (Ef 1.4) para lou- vor da gloria de Sua Graa ,que 293 Rm 8.15,16; 2Co 1.22; Ef1.13; 4.30. 291 Jo 10.38; 14.11,20; 17.21-23. Ele nos concedeu gratuitamente no Amado (Ef 1.6,7; At 20.28), as- sim tambem Ele reline todos os crentes em Cristo (Ef 1.10). 0 Pai mora em Cristo como o Mediador e assim da Suas benaos e a Si mesmo, aIgreja. 0 relacionamento entre Cristo e OS crentes e tao intimo e inseparavel quanto o relaciona- mento entre o Pai e o Mediador. Esse relacionamento supera toda uniao que possa existir entre as criaturas e ate mesmo a uniao que existe entre Deus e o mundo por Ele criado. Essa uniao e diferen- te, por urn lado, de uma mescla panteista e, por outro lado, de toda justaposiao deista e de todo relacionamento contratual. A Es- critura nos ensina algo sobre ana- tureza dessa uniao ao compara-la com a uniao que existe entre a vi- deira e os ramos, entre a cabea de urn corpo e seus membros, entre urn homem e uma mulher. Esse e urn relacionamento que completa e eternamente une Cris- to a Sua Igreja na profundidade do ser e na essencia da personali- dade dos crentes. Esse relaciona- mento teve inicio na eternidade, quando o Filho de Deus se decla- rou pronto para fazer a mediaao entre Deus e o homem. Esse rela- cionamento alcanou sua existen- cia objetiva na plenitude dos tern- 457
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    Fundamentos Teol6gicos daFe Crista pos, quando Cristo assumiu ana- tureza humana, entrou em comu- nhao com Seu povo e entregou- se amorte em favor dos que sao Seus. Esse relacionamento e rea- lizado pessoalmente quando o Espirito Santo entra nele, incorpo- ra-o a Cristo e quando o crente, por sua vez, reconhece e exerce essa unidade com Cristo. Essa comunhao com a pes- soa de Cristo traz consigo todas as ben<;aos e beneficios. Uma pes- soa nao pode desfrutar das ben- <;aos e dos