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CIBERGÊNEROS: A FUNÇÃO DO ETHOS E DO MITO NAS
                       NARRATIVAS VIRTUAIS


                                                              Fabiana Móes Miranda
                                               (Universidade Federal de Pernambuco)


RESUMO: Os cibergêneros permitem a investigação de gêneros literários que surgem na
internet. O ciberespaço é construído por diversas formas de interação, que se organizam e
interagem a partir de interesses comuns. Assim, pretendo discutir a função do ethos nas
narrativas virtuais e como isso possibilita a atualização dos mitos literários.

PALAVRAS-CHAVE: cibergêneros; ethos; literatura; mito




INTRODUÇÃO


      Os cibergêneros (cybergenres) são todos aqueles gêneros que surgiram
ou se renovaram no espaço virtual (ciberespaço). Desta forma, são gêneros
que sofreram modificações no novo suporte eletrônico – através das interfaces
do computador e da internet – ou, aqueles que só tiveram sua origem neste
meio. Como definem os autores Michael Shepherd e Carolyn Watters,

                        In some cases, the changes to an existing genre are so extensive that
                        they lead to the emergence of a new genre. One of the triggers for the
                        emergence of variants of existing genres or of new genres is the
                        introduction of a new communications medium.
                        The combination of the computer and the Internet has been such a
                        powerful trigger that it has resulted in the emergence of a new class of
                                                                                       1
                        genre, which we call cybergenre, existing in this new medium.



        O novo meio/medium (computador) é uma ferramenta de comunicação
que permite o surgimento de diversos gêneros no ciberespaço (espaço virtual).
        Há uma grande quantidade de cibergêneros estudados no ciberespaço,
como o e-mail, os chats, dicionários eletrônicos, entre outros. Neste artigo,
entretanto, tratarei dos cibergêneros literários e em como se dá a sua relação
com o ethos e o mito. São algumas formas literárias de cibergêneros: os blogs
literários, as hiperficções (ficções em hipertexto em que os leitores interferem
parcialmente no texto, explorando a leitura através dos links ou cooperando
com o autor na escrita), as fanficções (ficções escritas por fãs de livros que


1
 “Em alguns casos, as mudanças num gênero existente são tão grandes que conduzem ao
aparecimento de um novo gênero. Umas das alavancas para a emergência de variantes em
gêneros existentes, ou para novos gêneros, é a introdução de novos meios de comunicação. A
combinação do computador e da internet tem sido uma poderosa alavanca, que tem resultado
a emergência de uma nova classe de gêneros, que nós chamamos de cibergêneros existentes
neste novo meio.“

                                                  1
tomam o texto original como ponto de partida para a criação de suas próprias
histórias). Além disso, há várias experimentações em poesia virtual.


1.CIBERGÊNEROS E NARRATIVAS


        Ainda, como na época de Aristóteles, estamos nos ocupando das
estruturas textuais e em como a estrutura ou forma auxilia no entendimento do
leitor/ouvinte. Entendemos, mesmo antes de ver o seu conteúdo, o que é um e-
mail. Entretanto, se a estrutura pré-escreve uma função, não podemos
entender isso como uma funcionalidade rígida. Os gêneros também estão
identificados com as estruturas sócio-culturais, desta forma, não é possível
entender os cibergêneros sem também imergir na narrativa que é o próprio
ciberespaço.
        Podemos acrescentar que, na “era da informação”, pensamos os termos
de gêneros híbridos, ou gêneros fronteiriços, como gêneros que firmam os pés
sobre concepções opostas, mediando formas convencionais através das
possibilidades tecnológicas. Mas, não é apenas a estrutura interna – neste
caso, a fusão de gêneros. O que nos permite entender as narrativas do
ciberespaço, como veremos mais adiante, são as criações de comunidade (ou,
grupos de relacionamento), que correspondem a uma estruturação externa
para que os perfis dos usuários sejam criados.
        Bakhtin concebia a forma de interpretação dialética para a produção da
“voz viva do homem integral.” Só através desta “voz viva” podemos entender a
produção dos gêneros textuais, literários ou não. O gênero ainda corresponde
ao universo social em que “os planos não são etapas, mas estâncias e as
relações contraditórias entre eles não são um caminho ascendente ou
descendente do indivíduo, mas um estado da sociedade”.2
        Essa dinâmica social prevista por Bakhtin na concepção dos gêneros
direciona a reflexão para o nível do conteúdo, ocorrendo aí curtos-circuitos na
mensagem. Este é o caso das adaptações de livros em filmes, novelas e, na
atualidade, de todos os gêneros, um assumindo o lugar do outro. Os gêneros
agora negociam as suas identidades e sempre que isso ocorre há pequenos
conflitos que nascem justamente pela vertente da técnica.
        Na visão de Bakhtin, a idéia era o médium que possibilitaria o
pronunciamento de uma “essência humana”. Vamos admitir que a idéia
concretizada seja a “essência da técnica” para chegarmos ao conceito crítico
da época de Bakhtin e a necessidade da compreensão das relações sociais na
construção de uma percepção/interpretação da produção.
        No caso dos cibergêneros, o suporte se torna um meio (médium)
importantíssimo na confecção e compreensão do texto, principalmente por
suas características de interatividade e construção. Isto ocorre, pois
diferentemente da literatura impressa em livro, os cibergêneros só são
possíveis como diálogo constante entre o autor e o leitor.
        Se num livro a interação do leitor não pode modificar a estrutura do
texto, num texto virtual existe a possibilidade de modificação e ampliação do
texto. O leitor pode tanto fazer comentários, quanto escolher seu próprio
2
 BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2002, p. 27.

                                          2
caminho de leitura, apenas clicando em links. A estrutura de hipertexto
possibilita esta “comunicação” entre o leitor e o texto. Há uma razão para que
esta interferência ocorra e que está nas explicações de muitos estudiosos do
hipertexto: é a possibilidade de num texto virtual, a forma e o conteúdo estarem
separadas. Em outras palavras, a estrutura permite modificações e são os
internautas que produzem estas transformações, “jogando” com as estruturas
formais dos cibergêneros.
        Quanto ao conteúdo, se o texto não responde plenamente ao desejo do
leitor, ele poderá recriar para si a resposta, reescrevendo o mesmo texto e
adaptando até que este se insira em sua interpretação. Transportar os
personagens para os tempos atuais é uma das maneiras utilizadas, assim com
cruzar personagens de vários livros num único e novo texto. Este processo é
muito comum nas fanficções, em que os autores “misturam” personagens de
livros distintos e até de outros meios, como série de TV, desenhos animados,
filmes. Podemos perceber que, desta forma, misturam mídias diferentes e
várias sobreposições multisemióticas.
        O processo já não é apenas atualizar uma forma, pois se configura mais
pelo “gesto verbal” que modifica por suas perguntas e respostas aleatórias a
interiorização da história pelo leitor. A individualidade do questionamento,
porém, não resiste ao consenso mediado pela internet, onde o texto só será
válido se re-questionado (aprovado ou não), isto é, o texto deverá fazer parte
de uma “aceitação” pelas comunidades da internet, em que a pessoa que
escreveu o novo texto está inserida.
        Nestas comunidades interativas se formam núcleos que funcionam com
questionadores, comentadores, criadores – os fóruns, por exemplo -:, além
disso, recomendam leituras, criticam ou apenas buscam opiniões que se
aproximem de seus próprios questionamentos. Um dos temas mais discutidos
são os personagens literários. Existe toda uma repercussão que quer ir além
do que foi escrito nas obras lidas: como se através dos personagens em suas
ações, pudessem haver respostas.
        O personagem poderia responder a pergunta do leitor, refletindo o que o
leitor apela para uma resposta satisfatória – individual – sobre a questão
apresentada. Este interesse pelos personagens nas ficções tem como sentido
do jogo e a ficcionalização dos perfis dos usuários. A única maneira de “entrar”
num texto é sendo um personagem e é esta forma de inclusão que muitos
leitores desejam no ciberespaço.
        Esta prática narrativa (de auto-inserção) se tornou um entretenimento no
“mundo virtual”, como no mundo real continuamos a responder e questionar.
Pierre Lèvy não utiliza o termo virtual para o ciberespaço e seus componentes,
mas emprega o termo atual. Para o filósofo, esse ambiente só é possível a
cada atualização por meio da interação daqueles que vivenciam tal espaço.
Uma história publicada nestas condições – de muitos para muitos, já que a
quantidade de textos com base em um único texto (lido ou não) supera
qualquer “legítima” atualidade literária de um mito.
        O suporte da internet configura-se – diferentemente de um livro – como
uma biblioteca de textos. Desta maneira há toda uma correlação entre os
textos, e também entre som e imagem, que cria uma espécie de cosmogonia
virtual. O que vale neste espaço/tempo é que os usuários destes recursos
compreendem e compartilham uma idéia comum (uma própria mitologia


                                          3
técnica, se assim posso chamar). O que existe são os textos sendo produzidos,
é a criação voltada para o presente


2.ETHOS E CIBERNARRATIVAS


       Mas, como vimos, as questões sociais e cognitivas fazem parte do
entendimento das construções dialógicas e isto se reflete nas questões de
gêneros discursivos. Desta forma, só podemos entender o cibergêneros se
também estivermos atentos ao seu tipo de construção e representação.
Aqueles que se utilizam dos recursos hipermidiáticos se colocam em posturas,
muitas vezes, diferentes daquelas que possuem no “mundo real”.
       Esta construção de uma imagem na ação discursiva corresponde à
construção do ethos. Ruth Amossy, no texto Da noção de retórica de ethos à
análise do discurso, define que

                        Os antigos designavam pelo termo ethos a construção de uma
                        imagem de si destinada a garantir o sucesso do empreendimento
                        oratório. Lembrando os componentes da antiga retórica, Roland
                        Barthes define o ethos como “os traços de caráter que o orador deve
                        mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar
                                                            3
                        boa impressão: é o seu jeito [...].


        Este “jeito” que define o papel que o orador decide assumir diante de um
público pode ser encontrado nas construções discursivas. De forma geral e
muito simplificadora, podemos encontrar esta construção nos jargões da fala
especializada (o ethos do médico, o ethos do professor, o ethos do político).
Assim, existe um geral ethos no ciberespaço (dos que estão familiarizados com
a linguagem interativa) e existem diversos ethos de comunidades virtuais.
        O ethos e o gênero surgem unidos e, mesmo em gêneros tão
específicos quanto os literários, podemos observar está comunhão. Um
exemplo vem da própria crítica literária, o crítico Emil Staiger, em Conceitos
Fundamentais da Poética, sugere que os três gêneros mais reconhecidos na
literatura (o épico, o lírico e o dramático) não são meramente estruturas e
formas prescritivas de escrita, mas a criação de uma essência lírica, dramática
e épica que pode estar presente em vários outros gêneros. Assim, o que o
autor chama de essência, podemos entender como a construção de um “jeito”
que representaria a imagem destas formas e do efeito que querem causar no
leitor. E a respeito dos efeitos negativos de uma poética, que se limitasse a
descrever os gêneros e a fixá-los através de normas, o autor afirma
                        Ao contrário, só podemos declarar que o caráter de uma determinada
                        composição apresenta diferentes nuances, a partir destas
                        significações simples e rígidas, assim como só posso aperceber-me e
                        medir um movimento, quando me comporto frente a ele com atitude
                        serena. Quem não percebe este fato, não sabe também o que é falar


3
 AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. Disponível em:
<http://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/Livro_trecho.pdf>. Acessado em março/2008.


                                                4
nem pensar. Pois tudo que tem vida é dinâmico, e uma coisa
                                                     4
                      transforma-se sempre em outra.


        Com isso se constrói o ethos do escritor no ciberespaço (mistura de
biografia e auto-ficção), além de se tornar comprometido com esta essência
dos gêneros literários, uma vez que não pode permanecer “parado” num
espaço sócio-discursivo tão diverso quanto o espaço virtual. Este autor percebe
as possibilidades de confrontar e criar novos cibergêneros e manter/renovar a
“essência” presente nos gêneros literários tradicionais.
        O ethos do leitor é a auto-interpretação (como o leitor/autor quer se
representar em determinada comunidade). Em outras palavras, o leitor cria seu
próprio mecanismo de recepção, dado também pelo gênero, o interpreta em
consonância com o seu ethos e o “arquiva” para a interpretação do próximo
texto. O leitor/autor também pode criar vários perfis em diferentes comunidades
e responder aos cibergêneros de acordo com cada perfil.
        Desta forma, o ethos se apresenta também como a estetização do
comportamento de quem o usa, refletindo a sua visão de mundo. O ethos é
menos interpretativo que performático, pois sua ação tem necessidade de criar
um efeito de convencimento em quem se dirige. É bom lembrar que um gênero,
literário ou não, se torna “ativo” por sua performatização, ou seja, por ter
fincado as bases de sua reprodução no discurso sócio-cultural.
        A idéia do ethos como construção de uma representação do leitor no
ciberespaço se une a representação mítica que domina o espaço virtual. Foi do
mito da morte do autor, de Roland Barthes, que todos os mitos puderam
convergir na escrita do leitor/autor, deixando também de ser mito latente para
se atualizar no novo suporte.


3.MITO E ETHOS: CORAÇÃO DO AVATAR


      Como compreender a individualização do mito literário na concretização
de uma identidade que negocia com os mitos? Não corresponde este público
aquele que menciona João Alexandre Barbosa, no texto Ilusões da
Modernidade, referindo-se as reflexões benjaminianas?

                      O público de que trata Walter Benjamin com relação à poesia
                      moderna é aquele que se introjeta na própria concepção de lírica: a
                      transformação do gênero, marcando o grau de especialização que
                                            5
                      agora se configura...
   Como uma forma de gênero, o mito possui uma estrutura narrativa e social.
Para aqueles que ainda vivenciam o mito, ele é atemporal e sua atualização
pela comunidade é uma forma de contar a sua própria história em
funcionamento. A estrutura mítica permite originar vários outros gêneros,

4
  STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Trad. Celeste Aída Galeão. Rio de
Janeiro: Edições Tempo Brasileiro LTDA, 1975. p., 186.
5
  BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986.p.,
21.


                                              5
principalmente os literários, pois é permitido sempre uma atualização. Isto
ocorre porque o mito produz o discurso mítico que pode se tornar
individualizado, pois este discurso se estrutura em determinados períodos e
com determinados objetivos. A ênfase do discurso mítico é a objetivação de
certos valores, por isso, Barthes consegue ver a comunicação como uma
produtora de mitos, alguns que podem ser feitos para o consumo e o
imediatismo.
        E se o mito é cultural, suas correspondências e coincidências estariam
mais nas nossas perspectivas comparatistas e analógicas do que na fruição de
seu sentido. Desta forma, sempre que nos deparamos com o mito, o
traduzimos para o nosso campo de observação. Em alguns momentos isto se
torna negativo e em outros, criativo e produtivo. Só uma forma dinâmica pode
aceitar a inferência de tantos novos conteúdos.
     Esta abertura narrativa é devida a estrutura e a apropriação temática
oferece uma montagem. Na literatura, esta variação de temas também desloca
o mito para o plano dos significantes, isto equivale dizer que o intertexto é
percebido pela inferência do leitor ao texto, a subjetividade transfigura o
conteúdo, libertando, dos temas percebidos, mitos pessoais.
     Nestes estados móbiles, o mito sem-centro servirá de encaixe numa obra e
poderá atuar, entre a localidade e a tradução global, numa estrutura possível
para a combinatória de conteúdos. Esta montagem transtextual, que moldura
os discursos míticos e que transfere uma cosmogonia para um texto literário,
pode transferir um texto literário para outro espaço – o ciberespaço – e a forma
literária converte-se em textos que mantêm o discurso literário numa nova
forma.
        Uma das formas de conjunção do ethos e do mito no ciberespaço, que
pode oferecer um exemplo de como estas duas categorias são integradas, é o
avatar. O avatar não representa um gênero, mas uma construção de identidade
que se faz mito e ethos ao mesmo tempo.
        Neste contexto, o avatar será manipulado para a criação de uma
narrativa, conjugando aos leitores os papéis de jogadores e escritores. Em toda
etapa nestes mundos, é preciso ter domínio de elementos narrativos, e tanto a
descrição quanto a representação possuem grande força para a constituição
física e atraente do espaço em que estes textos estão inseridos
        De certa forma, o avatar seria o mito da pós-modernidade e no
ciberespaço figuraria como o ethos que converge leitor/jogador/escritor: o
avatar é um mito particular que precisa ser aceito pelo grupo em que o
leitor/jogador está inserido. Um grupo que compartilha da mesma necessidade
de representação numa realidade fictícia. Desta maneira, não é possível se
referir a um mundo virtual em que a complexa feição do avatar não seja
mencionada.
        O avatar aparece como uma proposta de interação e desdobra-se como
uma personalidade do jogador, além de torna-se um personagem virtual. A
relação entre o “eu real” e o “eu virtual” é uma das principais questões
colocadas quando se mencionam ambientes interativos como o SecondLife ou
The Sims.
        Ethos, pois é uma criação inspirada no tipo de imagem que o leitor/autor
quer construir e com a qual quer ser identificado nas comunidades virtuais.
Neste caso mais simples, o avatar se passa como um pseudônimo que
esconde a identidade real numa identidade virtual. Mas, além de ser virtual, é

                                          6
uma criação ficcional que pode ser representada por um mito carregado de
subjetividade.
        O avatar nos meios virtuais é cada vez mais utilizado como prerrogativa
de se criar uma nova identidade na forma de um mito. Basta a criação de um
personagem virtualizado que contenha as características desejadas pelo autor
ou jogador (em casos específicos). O lugar aonde o avatar atuará pode tanto
ser um texto previsto num determinado ambiente (uma narrativa imaginária,
que se aproxima ou não da realidade) ou para se interiorizar numa obra
literária. Já não é necessário acompanhar o personagem na narrativa, pode se
deslocar para a ação narrada como outro personagem.
        O avatar é de certa forma um mito particular que precisa ser aceito pelo
grupo em que o indivíduo está inserido. Um grupo que compartilha a mesma
necessidade de representação numa realidade fictícia, mas pode até mesmo
desconhecer a personagem criada: a atuação torna-se uma resposta a estas
narrativas virtuais.
        O avatar é dotado de seu poder narrativo e deve contar sua história – a
verossimilhança apresenta-se sempre como possibilidade. O que torna sua
história labiríntica é entrar em contato com outros avatares, todos conscientes
de sua própria história. São vozes diferentes, mas que seguem regras e
padrões preexistentes aos seus textos. A leitura destes mundos virtuais
também segue regras de cooperação para avançar e chegar a um final.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


        Discutir a questões dos cibergêneros não é simplesmente tomar cada
um como uma forma independente de estrutura que pode ser estudado sem a
compreensão de toda construção narrativa do ciberespaço.
        Os cibergêneros adotam a prerrogativa de que não fazem parte do
espaço “real”, para forjar realidades possíveis e relacionamentos que não estão
previstos nas possibilidades sociais. Podemos compreender isso, na medida
em que entendermos a criação do ethos pelos usuários em seus perfis em sites
de relacionamentos ou em comunidades.
        Alguém que cria na virtualidade condições que podem suprir suas
carências na realidade estará não apenas construindo um ethos, mas está
ficcionalizando uma identidade. Esta nova identidade, em contato com os
cibergêneros literários (uma vez que muitos escritores no ciberespaço não
precisam de um “eu” real como autor), coloca em funcionamento vários
mecanismos ficcionais e intertextuais, como a atualização de mitos.
        O avatar foi o exemplo escolhido, pois constitui o coração destas
identidades fictícias. Ele permite que se criem identidades que se situam na
fronteira entre a pessoa e o personagem. Nesta fronteira se encontra o leitor, o
autor e o jogador. Se encontra a pessoa “real” por fora dos limites do
computador – assumindo o seu ethos na sociedade – e a pessoa “virtual” –
assumindo um ethos nas comunidades virtuais ou um avatar nas ficções
interativas.
        As possibilidades dialógicas se desdobram: é preciso também conhecer
a “voz viva” da máquina.


                                          7
REFERÊNCIAS


      AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso.
Disponível em: <http://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/Livro_trecho.pdf>.
Acessado em março/2008.
      BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. trad. Maria Eumatina 2ª
ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
__________. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. Trad.
Aurora Fornoni Bernardini e outros. São Paulo: HUCITEC, 1998.
__________. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2002.
       BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo:
Perspectiva, 1986.
       BARTHES, Roland. Mitologias. trad. Rita Buongermino e Pedro de
Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003.
       BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Magia e técnica, arte e política.
trad. Sergio Paul Rouanet. 7.ed. Sao Paulo : Brasiliense, 1994
       CALVINO, I & outros. Atualidade do Mito. trad. Carlos Arthur R. do
Nascimento. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
       DE GRÈVE, Claude. Thèmes et Mythes. In: Élements de Littérature
Comparée. Paris: Hachette, 1995.
       JOLLES, André. Formas Simples: legenda, saga, mito, advinha, ditado,
caso, memorável, conto, chiste. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Ed. Cultrix,
1976.
       LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Lisboa: Editorial
Presença, 1989.
       LÉVY, Pierre. As Tecnologias da inteligência o futuro do
pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1998.
       MIRANDA, Fabiana Móes. O Fenômeno Harry Potter: Repaginando o
Sistema Literário. 2008. Monografia (Especialização em Literatura Infanto-
Juvenil). FAFIRE, Recife.
       ____________________, “Quem conta um conto, aumenta um ponto”:
fanfic – a recriação do texto literário. 2004. Monografia. UFPE, Recife.
       STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Trad. Celeste
Aída Galeão. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro LTDA, 1975.
       SHEPHERD, Michael; WATTERS, Carolyn. The Evolution of
cybergenres, Disponível em:
<http://www2.computer.org/portal/web/csdl/abs/proceedings/hicss/1998/8236/0
2/82360097.pdf>, acessado em setembro/2008.




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  • 1. CIBERGÊNEROS: A FUNÇÃO DO ETHOS E DO MITO NAS NARRATIVAS VIRTUAIS Fabiana Móes Miranda (Universidade Federal de Pernambuco) RESUMO: Os cibergêneros permitem a investigação de gêneros literários que surgem na internet. O ciberespaço é construído por diversas formas de interação, que se organizam e interagem a partir de interesses comuns. Assim, pretendo discutir a função do ethos nas narrativas virtuais e como isso possibilita a atualização dos mitos literários. PALAVRAS-CHAVE: cibergêneros; ethos; literatura; mito INTRODUÇÃO Os cibergêneros (cybergenres) são todos aqueles gêneros que surgiram ou se renovaram no espaço virtual (ciberespaço). Desta forma, são gêneros que sofreram modificações no novo suporte eletrônico – através das interfaces do computador e da internet – ou, aqueles que só tiveram sua origem neste meio. Como definem os autores Michael Shepherd e Carolyn Watters, In some cases, the changes to an existing genre are so extensive that they lead to the emergence of a new genre. One of the triggers for the emergence of variants of existing genres or of new genres is the introduction of a new communications medium. The combination of the computer and the Internet has been such a powerful trigger that it has resulted in the emergence of a new class of 1 genre, which we call cybergenre, existing in this new medium. O novo meio/medium (computador) é uma ferramenta de comunicação que permite o surgimento de diversos gêneros no ciberespaço (espaço virtual). Há uma grande quantidade de cibergêneros estudados no ciberespaço, como o e-mail, os chats, dicionários eletrônicos, entre outros. Neste artigo, entretanto, tratarei dos cibergêneros literários e em como se dá a sua relação com o ethos e o mito. São algumas formas literárias de cibergêneros: os blogs literários, as hiperficções (ficções em hipertexto em que os leitores interferem parcialmente no texto, explorando a leitura através dos links ou cooperando com o autor na escrita), as fanficções (ficções escritas por fãs de livros que 1 “Em alguns casos, as mudanças num gênero existente são tão grandes que conduzem ao aparecimento de um novo gênero. Umas das alavancas para a emergência de variantes em gêneros existentes, ou para novos gêneros, é a introdução de novos meios de comunicação. A combinação do computador e da internet tem sido uma poderosa alavanca, que tem resultado a emergência de uma nova classe de gêneros, que nós chamamos de cibergêneros existentes neste novo meio.“ 1
  • 2. tomam o texto original como ponto de partida para a criação de suas próprias histórias). Além disso, há várias experimentações em poesia virtual. 1.CIBERGÊNEROS E NARRATIVAS Ainda, como na época de Aristóteles, estamos nos ocupando das estruturas textuais e em como a estrutura ou forma auxilia no entendimento do leitor/ouvinte. Entendemos, mesmo antes de ver o seu conteúdo, o que é um e- mail. Entretanto, se a estrutura pré-escreve uma função, não podemos entender isso como uma funcionalidade rígida. Os gêneros também estão identificados com as estruturas sócio-culturais, desta forma, não é possível entender os cibergêneros sem também imergir na narrativa que é o próprio ciberespaço. Podemos acrescentar que, na “era da informação”, pensamos os termos de gêneros híbridos, ou gêneros fronteiriços, como gêneros que firmam os pés sobre concepções opostas, mediando formas convencionais através das possibilidades tecnológicas. Mas, não é apenas a estrutura interna – neste caso, a fusão de gêneros. O que nos permite entender as narrativas do ciberespaço, como veremos mais adiante, são as criações de comunidade (ou, grupos de relacionamento), que correspondem a uma estruturação externa para que os perfis dos usuários sejam criados. Bakhtin concebia a forma de interpretação dialética para a produção da “voz viva do homem integral.” Só através desta “voz viva” podemos entender a produção dos gêneros textuais, literários ou não. O gênero ainda corresponde ao universo social em que “os planos não são etapas, mas estâncias e as relações contraditórias entre eles não são um caminho ascendente ou descendente do indivíduo, mas um estado da sociedade”.2 Essa dinâmica social prevista por Bakhtin na concepção dos gêneros direciona a reflexão para o nível do conteúdo, ocorrendo aí curtos-circuitos na mensagem. Este é o caso das adaptações de livros em filmes, novelas e, na atualidade, de todos os gêneros, um assumindo o lugar do outro. Os gêneros agora negociam as suas identidades e sempre que isso ocorre há pequenos conflitos que nascem justamente pela vertente da técnica. Na visão de Bakhtin, a idéia era o médium que possibilitaria o pronunciamento de uma “essência humana”. Vamos admitir que a idéia concretizada seja a “essência da técnica” para chegarmos ao conceito crítico da época de Bakhtin e a necessidade da compreensão das relações sociais na construção de uma percepção/interpretação da produção. No caso dos cibergêneros, o suporte se torna um meio (médium) importantíssimo na confecção e compreensão do texto, principalmente por suas características de interatividade e construção. Isto ocorre, pois diferentemente da literatura impressa em livro, os cibergêneros só são possíveis como diálogo constante entre o autor e o leitor. Se num livro a interação do leitor não pode modificar a estrutura do texto, num texto virtual existe a possibilidade de modificação e ampliação do texto. O leitor pode tanto fazer comentários, quanto escolher seu próprio 2 BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 27. 2
  • 3. caminho de leitura, apenas clicando em links. A estrutura de hipertexto possibilita esta “comunicação” entre o leitor e o texto. Há uma razão para que esta interferência ocorra e que está nas explicações de muitos estudiosos do hipertexto: é a possibilidade de num texto virtual, a forma e o conteúdo estarem separadas. Em outras palavras, a estrutura permite modificações e são os internautas que produzem estas transformações, “jogando” com as estruturas formais dos cibergêneros. Quanto ao conteúdo, se o texto não responde plenamente ao desejo do leitor, ele poderá recriar para si a resposta, reescrevendo o mesmo texto e adaptando até que este se insira em sua interpretação. Transportar os personagens para os tempos atuais é uma das maneiras utilizadas, assim com cruzar personagens de vários livros num único e novo texto. Este processo é muito comum nas fanficções, em que os autores “misturam” personagens de livros distintos e até de outros meios, como série de TV, desenhos animados, filmes. Podemos perceber que, desta forma, misturam mídias diferentes e várias sobreposições multisemióticas. O processo já não é apenas atualizar uma forma, pois se configura mais pelo “gesto verbal” que modifica por suas perguntas e respostas aleatórias a interiorização da história pelo leitor. A individualidade do questionamento, porém, não resiste ao consenso mediado pela internet, onde o texto só será válido se re-questionado (aprovado ou não), isto é, o texto deverá fazer parte de uma “aceitação” pelas comunidades da internet, em que a pessoa que escreveu o novo texto está inserida. Nestas comunidades interativas se formam núcleos que funcionam com questionadores, comentadores, criadores – os fóruns, por exemplo -:, além disso, recomendam leituras, criticam ou apenas buscam opiniões que se aproximem de seus próprios questionamentos. Um dos temas mais discutidos são os personagens literários. Existe toda uma repercussão que quer ir além do que foi escrito nas obras lidas: como se através dos personagens em suas ações, pudessem haver respostas. O personagem poderia responder a pergunta do leitor, refletindo o que o leitor apela para uma resposta satisfatória – individual – sobre a questão apresentada. Este interesse pelos personagens nas ficções tem como sentido do jogo e a ficcionalização dos perfis dos usuários. A única maneira de “entrar” num texto é sendo um personagem e é esta forma de inclusão que muitos leitores desejam no ciberespaço. Esta prática narrativa (de auto-inserção) se tornou um entretenimento no “mundo virtual”, como no mundo real continuamos a responder e questionar. Pierre Lèvy não utiliza o termo virtual para o ciberespaço e seus componentes, mas emprega o termo atual. Para o filósofo, esse ambiente só é possível a cada atualização por meio da interação daqueles que vivenciam tal espaço. Uma história publicada nestas condições – de muitos para muitos, já que a quantidade de textos com base em um único texto (lido ou não) supera qualquer “legítima” atualidade literária de um mito. O suporte da internet configura-se – diferentemente de um livro – como uma biblioteca de textos. Desta maneira há toda uma correlação entre os textos, e também entre som e imagem, que cria uma espécie de cosmogonia virtual. O que vale neste espaço/tempo é que os usuários destes recursos compreendem e compartilham uma idéia comum (uma própria mitologia 3
  • 4. técnica, se assim posso chamar). O que existe são os textos sendo produzidos, é a criação voltada para o presente 2.ETHOS E CIBERNARRATIVAS Mas, como vimos, as questões sociais e cognitivas fazem parte do entendimento das construções dialógicas e isto se reflete nas questões de gêneros discursivos. Desta forma, só podemos entender o cibergêneros se também estivermos atentos ao seu tipo de construção e representação. Aqueles que se utilizam dos recursos hipermidiáticos se colocam em posturas, muitas vezes, diferentes daquelas que possuem no “mundo real”. Esta construção de uma imagem na ação discursiva corresponde à construção do ethos. Ruth Amossy, no texto Da noção de retórica de ethos à análise do discurso, define que Os antigos designavam pelo termo ethos a construção de uma imagem de si destinada a garantir o sucesso do empreendimento oratório. Lembrando os componentes da antiga retórica, Roland Barthes define o ethos como “os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importando sua sinceridade) para causar 3 boa impressão: é o seu jeito [...]. Este “jeito” que define o papel que o orador decide assumir diante de um público pode ser encontrado nas construções discursivas. De forma geral e muito simplificadora, podemos encontrar esta construção nos jargões da fala especializada (o ethos do médico, o ethos do professor, o ethos do político). Assim, existe um geral ethos no ciberespaço (dos que estão familiarizados com a linguagem interativa) e existem diversos ethos de comunidades virtuais. O ethos e o gênero surgem unidos e, mesmo em gêneros tão específicos quanto os literários, podemos observar está comunhão. Um exemplo vem da própria crítica literária, o crítico Emil Staiger, em Conceitos Fundamentais da Poética, sugere que os três gêneros mais reconhecidos na literatura (o épico, o lírico e o dramático) não são meramente estruturas e formas prescritivas de escrita, mas a criação de uma essência lírica, dramática e épica que pode estar presente em vários outros gêneros. Assim, o que o autor chama de essência, podemos entender como a construção de um “jeito” que representaria a imagem destas formas e do efeito que querem causar no leitor. E a respeito dos efeitos negativos de uma poética, que se limitasse a descrever os gêneros e a fixá-los através de normas, o autor afirma Ao contrário, só podemos declarar que o caráter de uma determinada composição apresenta diferentes nuances, a partir destas significações simples e rígidas, assim como só posso aperceber-me e medir um movimento, quando me comporto frente a ele com atitude serena. Quem não percebe este fato, não sabe também o que é falar 3 AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. Disponível em: <http://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/Livro_trecho.pdf>. Acessado em março/2008. 4
  • 5. nem pensar. Pois tudo que tem vida é dinâmico, e uma coisa 4 transforma-se sempre em outra. Com isso se constrói o ethos do escritor no ciberespaço (mistura de biografia e auto-ficção), além de se tornar comprometido com esta essência dos gêneros literários, uma vez que não pode permanecer “parado” num espaço sócio-discursivo tão diverso quanto o espaço virtual. Este autor percebe as possibilidades de confrontar e criar novos cibergêneros e manter/renovar a “essência” presente nos gêneros literários tradicionais. O ethos do leitor é a auto-interpretação (como o leitor/autor quer se representar em determinada comunidade). Em outras palavras, o leitor cria seu próprio mecanismo de recepção, dado também pelo gênero, o interpreta em consonância com o seu ethos e o “arquiva” para a interpretação do próximo texto. O leitor/autor também pode criar vários perfis em diferentes comunidades e responder aos cibergêneros de acordo com cada perfil. Desta forma, o ethos se apresenta também como a estetização do comportamento de quem o usa, refletindo a sua visão de mundo. O ethos é menos interpretativo que performático, pois sua ação tem necessidade de criar um efeito de convencimento em quem se dirige. É bom lembrar que um gênero, literário ou não, se torna “ativo” por sua performatização, ou seja, por ter fincado as bases de sua reprodução no discurso sócio-cultural. A idéia do ethos como construção de uma representação do leitor no ciberespaço se une a representação mítica que domina o espaço virtual. Foi do mito da morte do autor, de Roland Barthes, que todos os mitos puderam convergir na escrita do leitor/autor, deixando também de ser mito latente para se atualizar no novo suporte. 3.MITO E ETHOS: CORAÇÃO DO AVATAR Como compreender a individualização do mito literário na concretização de uma identidade que negocia com os mitos? Não corresponde este público aquele que menciona João Alexandre Barbosa, no texto Ilusões da Modernidade, referindo-se as reflexões benjaminianas? O público de que trata Walter Benjamin com relação à poesia moderna é aquele que se introjeta na própria concepção de lírica: a transformação do gênero, marcando o grau de especialização que 5 agora se configura... Como uma forma de gênero, o mito possui uma estrutura narrativa e social. Para aqueles que ainda vivenciam o mito, ele é atemporal e sua atualização pela comunidade é uma forma de contar a sua própria história em funcionamento. A estrutura mítica permite originar vários outros gêneros, 4 STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Trad. Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro LTDA, 1975. p., 186. 5 BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986.p., 21. 5
  • 6. principalmente os literários, pois é permitido sempre uma atualização. Isto ocorre porque o mito produz o discurso mítico que pode se tornar individualizado, pois este discurso se estrutura em determinados períodos e com determinados objetivos. A ênfase do discurso mítico é a objetivação de certos valores, por isso, Barthes consegue ver a comunicação como uma produtora de mitos, alguns que podem ser feitos para o consumo e o imediatismo. E se o mito é cultural, suas correspondências e coincidências estariam mais nas nossas perspectivas comparatistas e analógicas do que na fruição de seu sentido. Desta forma, sempre que nos deparamos com o mito, o traduzimos para o nosso campo de observação. Em alguns momentos isto se torna negativo e em outros, criativo e produtivo. Só uma forma dinâmica pode aceitar a inferência de tantos novos conteúdos. Esta abertura narrativa é devida a estrutura e a apropriação temática oferece uma montagem. Na literatura, esta variação de temas também desloca o mito para o plano dos significantes, isto equivale dizer que o intertexto é percebido pela inferência do leitor ao texto, a subjetividade transfigura o conteúdo, libertando, dos temas percebidos, mitos pessoais. Nestes estados móbiles, o mito sem-centro servirá de encaixe numa obra e poderá atuar, entre a localidade e a tradução global, numa estrutura possível para a combinatória de conteúdos. Esta montagem transtextual, que moldura os discursos míticos e que transfere uma cosmogonia para um texto literário, pode transferir um texto literário para outro espaço – o ciberespaço – e a forma literária converte-se em textos que mantêm o discurso literário numa nova forma. Uma das formas de conjunção do ethos e do mito no ciberespaço, que pode oferecer um exemplo de como estas duas categorias são integradas, é o avatar. O avatar não representa um gênero, mas uma construção de identidade que se faz mito e ethos ao mesmo tempo. Neste contexto, o avatar será manipulado para a criação de uma narrativa, conjugando aos leitores os papéis de jogadores e escritores. Em toda etapa nestes mundos, é preciso ter domínio de elementos narrativos, e tanto a descrição quanto a representação possuem grande força para a constituição física e atraente do espaço em que estes textos estão inseridos De certa forma, o avatar seria o mito da pós-modernidade e no ciberespaço figuraria como o ethos que converge leitor/jogador/escritor: o avatar é um mito particular que precisa ser aceito pelo grupo em que o leitor/jogador está inserido. Um grupo que compartilha da mesma necessidade de representação numa realidade fictícia. Desta maneira, não é possível se referir a um mundo virtual em que a complexa feição do avatar não seja mencionada. O avatar aparece como uma proposta de interação e desdobra-se como uma personalidade do jogador, além de torna-se um personagem virtual. A relação entre o “eu real” e o “eu virtual” é uma das principais questões colocadas quando se mencionam ambientes interativos como o SecondLife ou The Sims. Ethos, pois é uma criação inspirada no tipo de imagem que o leitor/autor quer construir e com a qual quer ser identificado nas comunidades virtuais. Neste caso mais simples, o avatar se passa como um pseudônimo que esconde a identidade real numa identidade virtual. Mas, além de ser virtual, é 6
  • 7. uma criação ficcional que pode ser representada por um mito carregado de subjetividade. O avatar nos meios virtuais é cada vez mais utilizado como prerrogativa de se criar uma nova identidade na forma de um mito. Basta a criação de um personagem virtualizado que contenha as características desejadas pelo autor ou jogador (em casos específicos). O lugar aonde o avatar atuará pode tanto ser um texto previsto num determinado ambiente (uma narrativa imaginária, que se aproxima ou não da realidade) ou para se interiorizar numa obra literária. Já não é necessário acompanhar o personagem na narrativa, pode se deslocar para a ação narrada como outro personagem. O avatar é de certa forma um mito particular que precisa ser aceito pelo grupo em que o indivíduo está inserido. Um grupo que compartilha a mesma necessidade de representação numa realidade fictícia, mas pode até mesmo desconhecer a personagem criada: a atuação torna-se uma resposta a estas narrativas virtuais. O avatar é dotado de seu poder narrativo e deve contar sua história – a verossimilhança apresenta-se sempre como possibilidade. O que torna sua história labiríntica é entrar em contato com outros avatares, todos conscientes de sua própria história. São vozes diferentes, mas que seguem regras e padrões preexistentes aos seus textos. A leitura destes mundos virtuais também segue regras de cooperação para avançar e chegar a um final. CONSIDERAÇÕES FINAIS Discutir a questões dos cibergêneros não é simplesmente tomar cada um como uma forma independente de estrutura que pode ser estudado sem a compreensão de toda construção narrativa do ciberespaço. Os cibergêneros adotam a prerrogativa de que não fazem parte do espaço “real”, para forjar realidades possíveis e relacionamentos que não estão previstos nas possibilidades sociais. Podemos compreender isso, na medida em que entendermos a criação do ethos pelos usuários em seus perfis em sites de relacionamentos ou em comunidades. Alguém que cria na virtualidade condições que podem suprir suas carências na realidade estará não apenas construindo um ethos, mas está ficcionalizando uma identidade. Esta nova identidade, em contato com os cibergêneros literários (uma vez que muitos escritores no ciberespaço não precisam de um “eu” real como autor), coloca em funcionamento vários mecanismos ficcionais e intertextuais, como a atualização de mitos. O avatar foi o exemplo escolhido, pois constitui o coração destas identidades fictícias. Ele permite que se criem identidades que se situam na fronteira entre a pessoa e o personagem. Nesta fronteira se encontra o leitor, o autor e o jogador. Se encontra a pessoa “real” por fora dos limites do computador – assumindo o seu ethos na sociedade – e a pessoa “virtual” – assumindo um ethos nas comunidades virtuais ou um avatar nas ficções interativas. As possibilidades dialógicas se desdobram: é preciso também conhecer a “voz viva” da máquina. 7
  • 8. REFERÊNCIAS AMOSSY, Ruth. Da noção retórica de ethos à análise do discurso. Disponível em: <http://www.ufmg.br/online/arquivos/anexos/Livro_trecho.pdf>. Acessado em março/2008. BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. trad. Maria Eumatina 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. __________. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e outros. São Paulo: HUCITEC, 1998. __________. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. BARBOSA, João Alexandre. As Ilusões da Modernidade. São Paulo: Perspectiva, 1986. BARTHES, Roland. Mitologias. trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: DIFEL, 2003. BENJAMIN, Walter. O Narrador. In: Magia e técnica, arte e política. trad. Sergio Paul Rouanet. 7.ed. Sao Paulo : Brasiliense, 1994 CALVINO, I & outros. Atualidade do Mito. trad. Carlos Arthur R. do Nascimento. São Paulo: Duas Cidades, 1977. DE GRÈVE, Claude. Thèmes et Mythes. In: Élements de Littérature Comparée. Paris: Hachette, 1995. JOLLES, André. Formas Simples: legenda, saga, mito, advinha, ditado, caso, memorável, conto, chiste. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo: Ed. Cultrix, 1976. LÉVI-STRAUSS, Claude. Mito e Significado. Lisboa: Editorial Presença, 1989. LÉVY, Pierre. As Tecnologias da inteligência o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1998. MIRANDA, Fabiana Móes. O Fenômeno Harry Potter: Repaginando o Sistema Literário. 2008. Monografia (Especialização em Literatura Infanto- Juvenil). FAFIRE, Recife. ____________________, “Quem conta um conto, aumenta um ponto”: fanfic – a recriação do texto literário. 2004. Monografia. UFPE, Recife. STAIGER, Emil. Conceitos Fundamentais da Poética. Trad. Celeste Aída Galeão. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro LTDA, 1975. SHEPHERD, Michael; WATTERS, Carolyn. The Evolution of cybergenres, Disponível em: <http://www2.computer.org/portal/web/csdl/abs/proceedings/hicss/1998/8236/0 2/82360097.pdf>, acessado em setembro/2008. 8