O documento conta a história de um velho chamado Ti Manuel Laurentino que vive sozinho numa pequena aldeia remota. Ele sempre viveu ali e gosta da tranquilidade do local. Também gosta de esculpir figuras de madeira e cuidar de pássaros feridos.
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I
Percorria-seum longo caminho estreito, onde mal se cruzava
um carro de bois com uma pessoa a pé, que se estendia por entre
vários montes repletos de pinheiros e vales verdejantes.
Depois de percorrida a poeirenta passagem ziguezagueante
desenhada pelo tempo e pela força resistente do homem,
contornadas as diversas pedras que por lá se encontravam
semeadas, chegava-se a uma pequena aldeia no meio de
campos castanhos viçosos onde eram guardadas, por árvores de
fruto e trémulas cearas, umas quantas pequenas casas rústicas e
humildes.
Poucas pessoas escolhiam aquele irregular caminho para
passar de carro e mesmo a pé não era fácil percorrê-lo e superá-lo.
Só quem soubesse da existência da pequena povoação se
arriscava a levar a viagem atribulada até ao fim.
Não se via vivalma até poucos metros antes de se entrar no
aglomerado de casas plantadas irregularmente naquele sítio de
ninguém.
O que se via primeiro, logo depois da térrea passagem e
antes de chegar ao largo da igreja que encimava a aldeia, era um
velho castanheiro pejado de folhas que escondiam ouriços verdes
e castanhos. Um castanheiro que todos recordavam ser já muito
alto na altura em que nasceram e do qual ouviram falar nas
histórias contadas, à noite em frente ao fogo do lar, pelos pais e
pelos avós antes daqueles em literários encontros familiares.
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Haviaum amontoado enorme de ouriços que se estendiam
copiosamente pelo chão de terra e pelos terrenos próximos que
rodeavam o tronco impossível de abraçar por dois homens. Eram
em tanta quantidade que cobriam, na sua totalidade, a terra
circundante, não deixando as ervas, que tentavam crescer por
baixo, espreitar o sol para dele se alimentarem e crescerem.
Numa dessas histórias antigas, contadas com a intenção de
despertar sentimentos de tristeza e paixão nos ouvintes, falava-se
de um cavaleiro em armadura reluzente que teria chegado
àquelas bandas montado no seu cavalo preto como a noite que
viria a dominar o seu coração empedernido pela vida.
Dizia-se que viera em busca de uma bela princesa que fugira
do castelo do Rei, seu pai, e com quem teria sonhado durante
uma batalha.
Partira o cavaleiro a meio da contenda, em que estava a
comandar as tropas, deixando os seus companheiros sozinhos e
entregues à morte certa em glorioso e sanguinário combate.
Esse elegante cavaleiro teria escrito o nome da sua princesa
de sonho naquele castanheiro e ali ficara registado ao longo dos
tempos como sinal do seu sofrimento e da sua desgraça amorosa.
O cavaleiro procurara a sua amada por entre montes e
vales, mas acabara por não a encontrar até parar para repousar à
sombra dos ramos daquele castanheiro onde gravara, com a sua
espada ensanguentada, o seu nome sonhado.
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Aprincesa teria sido já levada por uns nobres, enviados pelo
Rei, que cavalgavam furiosamente para apoiar na batalha de
onde o cavaleiro se teria retirado numa manhã de nevoeiro denso
e terra vermelha.
Falavam os mais velhos que aquele cavaleiro, logo que
voltara ao campo de batalha, vira a sua princesa estendida no
chão, no meio dos corpos destruídos dos seus companheiros de
luta e dos nobres, sem vida e com uma mensagem escrita em
sangue, ao lado de um punhal cravejado de pedras preciosas e
que lhe era dirigida.
"Procurei Vossa Mercê por todas as partes do reino,
sabendo que o encontraria em um qualquer canto.
Neste campo de batalha, perguntei onde estaria o meu
Senhor e um bravo soldado disse-me que tinha sido morto
e que se encontrava inumado neste campo de extinção.
Não vos encontrei.
A minha vida não faz sentido sem o Vosso amor e por isso
aqui fico."
O cavaleiro, destroçado com a perda da sua amada de
sonho desconhecida, partira no seu cavalo negro para lugar
incerto, nunca mais tendo sido visto por ninguém naquelas
paragens ou em outras do reino de sua majestade. Foi procurado
pelo soberano para aplicação de castigo por traição ao seu povo,
mas perdoado por amor à sua amada.
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Comoé costume e adequado nestas histórias contadas na
companhia do fogo da lareira, havia quem dissesse que o
cavaleiro encontrara a princesa naquelas terras de Castanheiro e
que ambos teriam partido, para o reino prometido, após escrever o
seu nome no castanheiro montados na negra besta.
Viriam a casar nas cortes do Rei, seu pai, que depois da
morte deste, deixara um longo e próspero reinado para o jovem
casal.
Esta visão fazia com que as crianças se sentissem felizes e
mostrassem os seus olhos brilhantes logo que terminava o encontro
ficcional.
Se à frente do contador estivessem acocorados meninos ou
meninas mais calmos e imaginativos, então acrescentava-se um
final feliz.
E o que aconteceu depois?
Depois de casarem, viveram sempre felizes para sempre.
E depois?
Tiveram dois lindos filhos. O rapaz, que era o mais velho,
continuou a reinar e afilha manteve-se sempre junto a ele.
Uau! Que linda história.
Agora vamos lá todos dormir, meus meninos.
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Ascasas em pedra eram cobertas por telhados em colmo e
apresentavam, quase todas, uma pequena horta nas traseiras
onde se cultivavam os produtos mais necessários à sobrevivência
diária.
Nos pequenos espaços, colhiam as couves, o feijão, as
batatas, as cenouras ou mesmo as cebolas que consumiam até
que terminassem; algumas vezes, partilhavam com outros vizinhos
mais necessitados, na certeza que se um dia fosse necessário
sabiam a que porta bater.
O colmo estava já acastanhado pelo fumo das chaminés
que fumegavam simultaneamente; no inverno, o fumegar
dominava os céus durante todo o dia; no verão, sentia-se aquele
cheiro a madeira queimada após a hora de os homens recolherem
a casa para comer o caldo, já os últimos raios de sol tocavam
aquelas terras, enquanto o astro se escondia atrás dos montes.
Na altura da matança do porco, alguns homens dirigiam-se
à vila mais próxima, no dia de feira, com os seus produtos agrícolas
às costas ou em cestos de vime; tentavam lá fazer a troca por
pedaços de carne de porco, de lardo ou chouriça fresca.
O fumeiro era, depois, construído na casa de um dos vizinhos
da aldeia; a salmoura ficava entregue a outro dos residentes.
Cada ano a casa escolhida para o tratamento das carnes era
diferente, assim como o responsável pelo precioso bem.
Naquele calmo amontoado de casas viviam pouco mais de
duas dúzias de velhos homens e mulheres fieis às suas origens e
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resistentesà necessidade a que outros tinham cedido de partir em
busca de vida melhor em terras distantes.
Enfrentando as dificuldades da existência naquele local
ermo, estes homens e estas mulheres sentiam que aquela era a sua
terra e que não encontrariam melhor vida em qualquer outro local
do mundo.
Antigamente, aquele lugar tinha sido povoado por largas
dezenas de homens e mulheres que trabalhavam as terras,
retirando delas o sustento para si e para as suas famílias; no
entanto, as dificuldades dos pais, para encontrarem trabalho
remunerado, tinham feito com que a maior parte fosse saindo para
a cidade ou para o estrangeiro.
Depois desse afastamento inicial, os jovens da aldeia
continuaram a seguir os passos dos pioneiros e o pequeno lugarejo
só pôde contar com os mais velhos para continuar a sentir-se útil e
com vida.
Não se via uma única antena em cima das casas.
Só o fumo que saia das chaminés ao longo de todo o ano se
elevava acima dos telhados, criando um ambiente mais
amarelado ainda do que o causado pelo colmo; em tempo de
calor, viam-se as flores em vasos coloridos pendurados nas janelas
abertas pintadas de azul desbotado pelo tempo. Eram
acompanhados por toalhas de todas as cores que secavam,
pingando a água para o terreno verde.
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Aaparência descorada das janelas estendia-se aos próprios
habitantes que vestiam, na sua maioria, de negro enlutado. Esse
aspeto enegrecido das gentes honrava os que tinham partido para
outras terras mais ou menos distantes ou os que tinham já morrido e
repousavam eternamente nos terrenos da Igreja.
A única comodidade de que beneficiavam os moradores e
que lhes facilitava um pouco mais a vida, era um pequeno café
com telefone público que usavam quando acontecia alguma
emergência ou precisavam chamar o carro para os levar à vila. Ali
bebiam uma cerveja em dia de festa de aniversário do Ramiro ou
às vezes no da Albertina, quando o marido o permitia.
Tinham ainda o ar puro, contaminado pelos odores fortes a
erva verde, a cereais castanhos, a flores perfumadas e a frutos
silvestres que pululavam nos silvedos que circundavam alguns dos
campos cultivados.
Para além do café, onde podiam também arranjar, de vez
em quando, uns ovos, uma galinha, um coelho, ou das trocas na
vila, tudo o resto era retirado da terra à força de braços com o
custo do suor de cada um.
Os animais da terra eram umas quantas cabras que se
reuniam em rebanho sazonal, umas poucas galinhas e uns raros
coelhos que a Albertina criava no seu terreno, nas traseiras do
café, para consumo próprio, troca ou venda aos vizinhos; havia,
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ainda,dois cães que davam sinal de alerta sempre que se
chegava um perigo ao povoado. Ladravam sonoramente quando
cheiravam o lobo, quando alguém caminhava pela aldeia depois
de se esconder o sol, quando havia trovoada ou quando a sede
apertava.
Um desses cães era de um dos habitantes que vivia numa
das pontas da aldeia e que todos conheciam por ser, ou parecer
ser, conhecedor das coisas da vida. Quele animal era o seu único
amigo e companheiro diário.
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II
Numadas casas da aldeia vivia o velho Manuel Laurentino.
Ti Manuel Laurentino, ou Laurentino da Teresa como era
chamado por alguns vizinhos mais velhos, era um homem
respeitado e sempre tinha sido um ser feliz.
Nasceu naquele pequeno povoado de vinte e cinco casas
em pedra, telhado de colmo fumegante e cultivo à porta.
Mais ao longe, da sua janela descorada, via os campos bem
tratados e cheios de cereais dourados, montes verdejantes
cortados por um caminho em terra pedrado.
Árvores de fruto ponteavam a paisagem como um tecido
irregular tingido de manchas irregulares vermelhas, verdes e
castanhas.
Manuel Laurentino criara-se naquela mesma aldeia e nunca
tinha dali saído a não ser para ir à vila em dia de feira semanal ou ir
ao Doutor para ver o que era aquela dor que por vezes sentia na
perna e que se recusava a aceitar que fosse da idade ou do
trabalho contínuo. Sempre que tinha de ir ao pequeno burgo,
voltava logo que os negócios estavam concluídos. Reconhecia
que não gostava de estar muito tempo fora da sua terra, afastado
da sua gente, longe da sua casa e principalmente sem a
companhia da sua Teresa.
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Laurinho,como era conhecido na sua infância, fora um
rapaz que cedo decidira ficar para sempre ali na sua terra,
ajudando o pai Joaquim e a mãe Maria de Lurdes a tomar conta
dos campos e das colheitas.
Assistira à partida de muitos dos seus amigos de infância
para o estrangeiro, em busca da aventura e da riqueza
prometidas.
Tinha muito jeito para a madeira. Trabalhava pequenos
pedaços, que encontrava ao longo do caminho que percorria
incessantemente ao longo dos dias e outros que cortava do velho
castanheiro, que recebia os raros estranhos que por vezes se
dirigiam à aldeia ou os filhos da terra que voltavam em tempo de
celebração do padroeiro.
Dando uso à navalha que seu pai lhe oferecera quando
sentira que o filho já tinha juízo e idade suficientes para tomar
conta de si próprio, dos pequenos pedaços de madeira que usava
nasciam utensílios domésticos, estatuetas de figuras imaginárias e
outras criações que muita gente não conseguia perceber muito
bem o que eram, mas que para ele eram obras de arte. A sua mais
preciosa criação tinha sido uma imagem de princesa que talhara
num cavaco de madeira do velho castanheiro e que dizia ser a tal
princesa do cavaleiro em cavalo negro.
Percorria campos e montes em busca de ninhos
secretamente escondidos, montava as armadilhas que ele próprio
construía e apanhava uma ou outra ave que depois adotava e da
qual tratava com todo o carinho.
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Houvemesmo uma altura em que apanhou um jovem melro
meio depenado que caíra do ninho onde nascera; alimentou-o à
boca com pedaços de pão que retirava ao que lhe poderia
diminuir a fome. Com muito empenho e paciência, ensinou-o a
falar algumas palavras e durante alguns anos foi a sua companhia
de conversa, de brincadeira e de desabafos. Acabou por perder
aquele amigo à imagem dos que, ao longo do tempo, tinham
voado para fora da terra.
Como a maior parte das pessoas da aldeia, aproveitava os
frutos que a terra lhe oferecia para matar a fome que o
acompanhava todos os dias e que disfarçava com a sua original
arte de criação de amigos imaginários em madeira.
Em casa não havia muita abundância de alimentos; os pais
cultivavam os campos e uma vez por mês, na ida à vila, tentavam
trocar alguns produtos por galinhas, ovos ou, com alguma sorte,
peixe que era alimento raro ou para os mais abastados. De resto
havia batatas, couves, feijão, o pão de centeio que era cozido, de
quinze em quinze dias, para toda a aldeia, no forno comunitário;
consumiam, ainda, algum queijo que resultava da ordenha das
cabras do rebanho comunitário.
O que Laurinho mais gostava era do queijo que
pontualmente chegava à mesa e que lhe sabia a flores e a ar
puro. Não sabia quem fazia aquela delícia e também não se
importava com isso. Importante era poder saborear um bom
pedaço daquele raro e único manjar que partilhava com o seu
amigo de penas quando este ainda estava na bela gaiola de
pequenos pedaços de galhos de árvore entrançados.
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Quandoo seu companheiro partir, corria com a sua roda de
madeira empurrada por um arame dobrado na ponta que
encontrara, desprotegido, numa vedação de um vizinho, sentava-
-se no meio de um campo de flores, tirava aquele pedaço de
queijo do bolso roto das calças e degustava-o como se fosse o
supremo e derradeiro alimento à face da terra.
Casara-se com Teresa Violante.
Fizera-o não por falta de escolha, mas por um dia ter sido
tocado pela sua alegria, pelo seu olhar brilhante e pelo sorriso que
lhe oferecia reconfortante.
Viviam, depois de se casarem na igreja da aldeia, em casa
dos pais de Laurentino que tinham morrido naturalmente alguns
anos antes e depois de uma sexagenária vida de trabalho na terra.
Dizia-se, na povoação, que tinha sido a festa de casamento
mais bonita de sempre, registada no eterno castanheiro onde
foram colocados os seus nomes ao lado daquele outro da princesa
imaginária. Fizeram uma festa para todos os vizinhos da terra e ter-
se-ia, até, sacrificado uma das ovelhas para alimentar tantas
bocas.
Teresa Violante era uma das poucas jovens que ficara
naquele paraíso perdido entre montanhas depois de ter atingido a
idade de casar.
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Enquantoas outras jovens procuravam encontrar
casamento, logo que os pais o permitiam, para poderem ir para
fora e procurar uma vida melhor, Teresa Violante decidira manter-
-se ali, tomando conta das cabras da povoação e cuidando da
mãe Maria do Carmo e do pai António.
O pai António não podia ajudar muito em casa por causa
de um acidente que tivera e que o fizera regressar de Espanha
(para grande alegria de Teresa, que sentia a sua falta e tinha de
realizar as tarefas que cabiam ao progenitor, e desgraça de Maria
do Carmo, que teve de se acomodar à pouca ajuda do marido e
ao seu péssimo humor).
António, um dos homens mais ativos que se conhecera por
aquelas bandas, lá dava umas voltas pelos campos, cortava umas
couves tenras e umas frutas das árvores mais baixas, mas para
trabalhos mais duros ou que exigissem mais das suas costas, já não
podiam contar com ele.
O homem, para tentar esquecer a incapacidade que o
fizera abandonar Espanha, perdia-se pelos campos e evitava
encontrar-se com alguém.
Quando chegava a casa, fechava-se no quarto e já
ninguém podia contar mais com ele para fazer companhia ou ter
uma conversa. Levantava-se, silenciosamente, para comer
qualquer resto do jantar, que a mulher conscientemente lhe
deixava na mesa, quando já todos dormiam.
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Apequena Teresa acordava de manhã bem cedo e
alegrava-se por ver aquele prato vazio em cima da mesa; era sinal
que seu pai ainda estava por ali. Partia com o seu rebanho para
mais um dia entre montes e campos, só voltando ao cair do dia.
Alimentava-se do pouco que levava consigo, do que
conseguia recolher na natureza e do leite que retirava dos animais
com as próprias mãos, colocando a boca por baixo deles.
Era também ela quem fabricava o queijo para todos os
vizinhos e que tanto agradava, em segredo, a Laurinho; fazia-o
ainda da mesma forma que sua mãe, sua avó e sua visavó o
tinham feito durante gerações e se tinham ensinado umas às outras
ao longo de anos de aprendizagem e dedicação.
Era uma rapariga pequena e elegante, de faces rosadas e
cabelos sempre presos encaracolados. Descalça e de roupas
coloridas, chamava a atenção pela sua alegria e dedicação aos
outros. Essa alegria continuou a mantê-la mesmo depois de o seu
pai ter morrido por força da vergonha de não poder cuidar da sua
família como queria e exigiam os vizinhos (ou, pensava ele que
exigiam).
Na sua natal aldeia, Laurentino era conhecido pela sua
barba branca comprida, pelo seu andar calmo e molengão, pelo
seu cigarro sem filtro no canto da boca que se movia
constantemente ao ritmo do seu assobio e o obrigava a cuspir os
pedaços de tabaco que se iam colando à língua. Vestia sempre
de preto em memória da sua Teresa que o abandonara há já
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quasetrinta anos; tinha sido o dia mais triste da sua vida quando,
ao chegar a casa, viu o Doutor a sair.
Alguém tinha ouvido um grito, tinha ido a casa que se
mantinha, como de costume, de porta aberta e vira a Ti Teresa
estendida imóvel no chão. Havia um banco partido ao seu lado e
junto da pequena janela alta que dava para os campos de
cereais onde o marido normalmente parava para cavar, regar ou
verificar da sua maturação.
Tinham corrido a casa do Doutor Pereira que, com a sua
mala debaixo do braço, se tinha apressado a ver o que se
passava, correndo tão rapidamente quando o fato negro o
permitia.
Naquele dia, Laurentino acordara, como sempre, quando o
sol batia na sua janela e projetava a sua luz na imagem da
Senhora de Fátima que se sobrepunha à cabeceira da cama.
Teresa estava já acordada e preparava na cozinha as hortaliças
colhidas na pequena horta para o caldo que comeriam à noite.
Olhara para trás e vira o marido levantar-se, sacudir a roupa,
pentear os seus cabelos negros com os dedos e passar pela
cozinha. Olhara para a sua Teresa, recebera o seu calmo sorriso e
saíra de casa para o seu habitual trabalho nos campos.
Apanhara duas maçãs ao sair de casa, que começara logo
a rilhar e dirigira-se à fonte de água fresca de nascente. Bebera a
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suapinga de água, lavara a cara da noite de sono e passara a
mão molhada pela cabeça, endireitando o cabelo.
Cavara umas videiras onde nascia já alguma erva daninha,
abrira a água da poça para regar as videiras, pois era a sua
manhã de humedecer as terras que as acolhiam; encaminhara a
água para os regos que fora criando ao lado das fartas ramadas.
Fora dar uma volta até às cearas para verificar se estavam a
maturar em condições e sem pragas. Tocadas meia dúzia de
espigas, concluíra que estaria tudo em condições ajudado pelo
experiente olhar e apurado olfato.
Voltara a fechar a água de rega para que a poça enchesse
de novo antes da próxima poçada e sentira o sol que se colocara
por cima da sua cabeça e lhe aquecia o miolo descoberto.
Com este calor viera o cheiro da comida da sua Teresa e por
ele fora conduzido até casa.
Fora recebido por um olhar calmo e reconfortante. Sentara-
-se à mesa e deliciara-se com o caldo aquecido do dia anterior e
com um punhado de batatas cozidas a acompanhar um pedaço
de carne de porco gorda que tinha trazido na sua última ida à vila.
Falaram sobre a qualidade dos cereais e de como teriam
muito e bom pão durante todo o ano.
Este ano parece que não vai haver fome!
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QueiraDeus que não venha nenhum mal que nos estrague
a vida!
Claro que não, homem. Vai correr tudo bem.
Saíra depois do almoço e fora até ao adro da igreja. Tinha
prometido ao Senhor Padre que limparia o mato que começava a
crescer à volta do cemitério e que dificultava o trabalho das
senhoras quando iam colocar as flores nas campas.
A meio da tarde, enquanto recolhia as silvas num monte
para deixar secar e depois queimar, sentira um aperto no peito e
tivera de se sentar no chão de terra para recuperar o fôlego. Assim
se mantivera durante uns minutos. Não percebera o que se tinha
passado, pois fora a primeira vez que tal lhe acontecera. Sempre
tinha sido homem de saúde e nem uma constipação se tinha
atrevido a chegar-se perto de si. Pensou que seria melhor ir ao
Doutor Pereira se aquilo continuasse a acontecer.
Retomara o trabalho, sempre com aquele aperto cravado
no peito, e deixara tudo no mesmo monte que viria a queimar dois
ou três dias depois. Limpara, ainda, algumas ervas que nasciam
nas paredes da igreja e voltara para abrir novamente a poça de
água de rega das suas videiras.
Terminado o dia de trabalho, voltara para casa com o
sentido, ainda, naquele mal-estar que sentira aquando da limpeza
do terreno da igreja.
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Tenhomuita pena Manuel, mas a Ti Teresa não caiu bem e
eu não pude fazer mais nada por ela.
Foram as palavras que dissera o Doutor Pereira que saia a
porta de casa quando Manuel Laurentino chegava.
Entrou o Laurentino, dirigiu-se ao seu quarto e viu aquela
imagem da beleza da sua Teresa estendida na cama, de pele
branca e fria. Já não olhava para ele da cozinha, nem lhe oferecia
o sorriso quando entrava em casa.
O cansaço do Ti Manel passava logo que entrava aquela
porta e sentia o sorriso brilhante dos olhos da sua Teresa, agarrada
ao fogão a preparar a refeição que ele mais gostava: aquela que
ela ajeitava com amor e com que se alimentava na sua
companhia.
Após um dia de trabalho árduo nos campos, Laurentino
voltava a casa, com a roupa da cor da pele castanha de terra
com pontuadas manchas de suor. Olhava para a sua mulher,
absorvia o seu sorriso, tirava as botas de trabalho e depois de lavar
as mãos e arranjar os seus cabelos negros, sentava-se à mesa da
cozinha. Sempre assim fora desde que formara família.
Naquele dia não.
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Nãotirou as botas, não lavou as mãos e manteve os cabelos
negros emaranhados. Pior do que tudo aquilo foi não merecer o
calmante sorrir da Teresa.
Sentiu o coração arrefecer, o chão fugir-lhe por baixo dos
pés e o ar rarear. Não conseguiu deitar nem uma lágrima, não
soltou nem uma palavra.
Sentou-se ali mesmo, ao lado daquele corpo caiado imóvel.
Viu o sol entrar pela janela após o luar que se tinha toda a
noite refletido nos seus olhos e que, segundo se dizia na terra, lhe
teriam, naquela mesma noite, pintado os cabelos de branco
dorido.
O Doutor voltou de manhã cedo para tratar dos papéis
necessários, consolar o transformado Laurentino e dizer-lhe o que
se tinha passado naquela tarde.
Desses dias recorda o adeus à sua branca e quieta Teresa, as
lágrimas que não lhe caíram da cara, as palmadas dos vizinhos nas
suas costas, a bênção do Senhor Padre e o regresso a uma casa
vazia.
Olhou para a cozinha e não sentiu o calor daquele sorriso
que sempre o recebera.
Recorda, ainda, a falta que lhe fizeram os filhos, a dor de
não poder dizer-lhes o que tinha acontecido com a sua mãe e
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recebero seu conforto e apoio. Os filhos só viriam a saber daquela
desgraça uns meses depois quando voltaram de férias.
Albertino continuava, de vez em quando, a falar com a sua
Teresa.
Mantinham longas conversas sobre o que faria para "o
comer" naquela noite, o que a Maria do Albino lhe tinha dito de
manhã sobre a água que naquele dia era do Pereira, apesar de no
dia anterior, o dela, não ter havido muita para regar os seus
campos e matar a sede às colheitas. Falavam sobre os filhos que
tinham partido e sobre os netos que deveriam ser tão queridos e
tão parecidos com os filhos e com eles próprios. Olhavam para as
fotografias que se empoeiravam em cima do armário do quarto e
comparavam imaginárias feições.
Os filhos, Lurdes e Justino, tinham partido para França já há
alguns anos.
Laurentino e Teresa falavam do dia em que se tinham
conhecido no meio daqueles campos que agora tinham recolhido
o seu corpo, enquanto Laurentino ouvia a radionovela que já não
lhe fazia muito sentido.
Agora não tinha com quem comentar os amores relatados e
como aquilo não tinha jeito nenhum porque só podia acontecer
nas histórias da radio; já não podia olhar envergonhado para a sua
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Teresae ver-lhe a cor marcar-se mais por baixo dos olhos, quando
ouviam o som de um beijo trocado entre o Justino Rafael e a
Cristiana Sofia.
Um dia essas conversas desapareceram da mesma forma
fria que a sua mulher tinha partido: de um momento para o outro,
sem ele estar lá e sem aviso.
Manuel Laurentino passara, então, a andar de um lado para
o outro, sem destino, sem objetivo, sem saber realmente o que
fazer ou porque andava ainda em cima das suas velhas e
cansadas pernas.
Os filhos continuavam em França e só voltavam no mês de
agosto para a festa do padroeiro.
Que bonitos estão!
Estás cada vez mais parecida com a tua mãe, que Deus a
tenha.
Quando puderdes, passai lá em casa para beber uma pinga
e provar de um bolo que acabei de fazer.
Isto diziam as vizinhas à chegada dos filhos de Laurentino.
Durante esse mês de férias, o Manuel parecia outro.
Andava sempre limpinho, de roupa engomada e com um
sorriso que acompanhava o seu cigarro no canto da boca.
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Brincavacom o neto e falava-lhe da avó Teresa e de como
ela gostaria de o conhecer e de lhe fazer o bolo de nozes que era
a sua especialidade.
Passeava pelas suas terras, bebia a sua água fresca de
nascente na bica da fonte, dava uma cavadela aqui e outra ali
para que o neto visse como se fazia e para que, talvez um dia,
voltasse e cuidasse do que tanto trabalho lhe dera a manter limpo
e cultivável. Mostrava-lhe os sítios secretos, que só ele conhecia,
onde havia ninhos de pássaros, aproveitando para lhe contar as
suas juvenis aventuras de caçador de aves.
Sabia, no seu íntimo, que esse dia em que o neto teria
vontade de voltar à terra nunca chegaria e que nem mesmo os
filhos voltariam de novo, pelo menos enquanto fosse vivo; no
entanto gostava de acreditar que um dia, talvez, pudesse vir a
acontecer e que o visitassem a ele e à Teresa no cemitério da
aldeia.
No final das férias os filhos, o neto, a alegria e a vida feliz
partiam.
A casa enchia-se de ainda mais memórias que se juntavam
às da sua Teresa. Ficavam os retratos das férias, com o Laurentino e
o neto, dos filhos com os vizinhos e de todos juntos na procissão do
padroeiro a pegar o andor da Santa Teresa; ficava o vazio de uma
casa cheia de histórias alegres agora frias.
Ti Manel retornava, então, à sua triste e perdida vida de
antes de agosto.
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Acordavade manhã quando a primeira luz do sol batia na
janela do seu quarto frio e vazio.
Levantava-se e sacudia a roupa do dia anterior para poder
vestir sem o pó que acumulara.
Saia de casa depois de olhar para a fotografia da sua Teresa
e dava a sua volta costumeira pelas terras. Apanhava uma ou
duas maças da árvore da porta da casa, bebia uma pinga de
água fresca da bica de nascente, fumava os seus cigarros
dançantes e dava uma ou outra cavadela na terra.
Voltava ao final de mais um dia no campo, depois de ter
comido qualquer coisa que fizera no dia anterior.
Entrava a porta, olhava para a cozinha e não via já aquele
sorriso que tanto o aliviava do cansaço quando a Ti Teresa
cozinhava para o jantar dos dois.
Deitava-se na cama vazia de um quarto agora escuro, sem
sequer ligar o rádio. Já não conseguia manter a mesma vontade
de trabalhar e cuidar da terra que tinha quando era mais novo e
tinha mais energia. Já lhe faltava o desejo de ouvir a história que
passava no rádio.
O seu objetivo, desde que tinha ficado só e os filhos tinham
partido, era chegar ao fim do dia e acordar no dia seguinte "se
Deus quiser".
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III
OJustino, nome que lhe tinha sido dado a partir de uma
personagem de radionovela a que a mãe Teresa e o pai
Laurentino assistiam todas as noites depois da refeição.
Foi ele o primeiro a partir.
Tinha quinze anos e foi levado por um vizinho dos pais que
voltara à aldeia para passar as férias de agosto e lançar uns
foguetes na festa do padroeiro.
O vizinho Carmindo tinha-o visto naquela pobreza de vida;
falara com o Laurentino e dissera-lhe que o rapaz tinha trabalho
com ele em França e que sempre podia ganhar algum dinheiro
para ajudar a melhorar a sua vida e a da família.
Garantira-lhe que tomaria conta dele como se fosse seu
filho.
O Laurentino falara com a Teresa que se agarrou ao peito e
acedeu dando-lhe um oscilar choroso de cabeça. Não queria
perder a companhia do filho e não sabia se iria aguentar vê-lo
partir; no entanto, sabia que naquela pequena aldeia o filho não
teria o futuro que merecia.
Partiu, no penúltimo dia de agosto, despedindo-se
carinhosamente da sua triste mãe; abraçaram-se longamente.
34.
- 32 -
QueDeus vá contigo, meu filho!
Vai, com certeza, minha mãe.
O pai, esse, apesar de querer parecer mais duro, não
conseguiu conter aquela lágrima que o filho limpou, dando-lhe um
encolhido aperto de mão.
Não chore, meu pai.
Que a sorte te acompanhe, meu filho.
Fez aquela longa e cansativa viagem mantendo aquela
imagem triste da mãe que se despedia enquanto o carro se
afastava lentamente pela estrada térrea. O pai, esse, já tinha
virado costas e partira para os seus campos choroso. Não
conseguiu, também ele, travar as lágrimas acumuladas até ao
momento em que começou a sentir a aldeia afastar-se.
Ficou a morar na casa do vizinho, que o desencaminhara,
durante os primeiros tempos e enquanto não se acomodava ao
país e às estranhas pessoas.
Foi-lhe arranjado trabalho numa empresa de construção
civil; começou de imediato a sua nova ocupação.
35.
- 33 -
Apesarde sentir na pele a dureza do que era obrigado a
fazer, nunca desistiu; tinha prometido ao seu pai, em conversa de
despedida, que iria conseguir vingar. Estava determinado a
cumprir a sua promessa e a fazer tudo o que lhe fosse mandado
para que pudesse regressar a casa com a capacidade de orgulhar
os pais.
Sempre demonstrara vontade de, como bom filho, oferecer
aos pais um fim de vida melhor. Queria que não tivessem mais
necessidade de trabalhar e de passar pelas necessidades sentidas
para criar os seus filhos.
Chegara mesmo a ocupar-se, na sua distante aldeia, no
apoio à realização de trabalhos nos campos dos vizinhos, trocando
essa ajuda por bens que lhes eram necessários à existência diária.
Para além desse comprometimento com os habitantes de
Castanheiro, estudara até ao sexto ano, aprendera a ler e a
escrever e sempre se tinha apresentado como um aluno inteligente
e dedicado.
No final daquele primeiro ano emigrado, não conseguiu
juntar condições para voltar em agosto a casa. Tinha determinado
o objetivo de voltar unicamente quando pudesse legar alguma
coisa que facilitasse a vivência dos pais.
36.
- 34 -
Conheceu,já em França e durante aquele mês de agosto,
uma rapariga portuguesa que trabalhava na limpeza de algumas
casas, em Champigny-sur-Marne.
Ficou encantado com aquela moça. Veio a saber que era
de uma terra muito perto da sua aldeia e que, se calhar, até já se
teriam cruzado na vila em dia de feira.
Cansado de trabalhar nas obras e de ser mal compensado,
trocou para um comércio de materiais de construção que
pertencia a um grego que o vira na obra e gostara do seu esmero
profissional.
Este novo patrão tinha uma série de casas que alugava aos
seus empregados mais necessitados. Ofereceu-lhe uma dessas
habitações e Justino aceitou de imediato.
Aquela casa e o novo trabalho dar-lhe-iam uma nova
perspetiva de vida e a possibilidade de constituir família com quem
começara a namorar pouco tempo depois de a ter conhecido, a
Conceição.
Casaram e foram morar para aquela pequena casa,
remodelada com a ajuda do Carmindo, na Rue de la Mézy.
Todos os dias saia de casa bem cedo e ia para o trabalho na
loja de materiais de construção civil, na Rue Benoît Frachon.
Levava a sua motoreta Scooter que comprara, em segunda mão,
com o ordenado dos dois primeiros meses de trabalho. A mesma
Scooter que tinha chamado a atenção da sua mulher quando o
37.
- 35 -
viupassar, pelo Parc du Plateau, num fim de tarde soalheiro de
abril.
Vira-a a varrer o passeio em frente a uma das casas das
várias madames para quem trabalhava, ganhara coragem e
oferecera-se para a levar a casa.
Ela recusara a oferta com medo que o pai não achasse
muita graça uma moça solteira andar por ali com um estranho que
nem sequer se tinha apresentado ou pedido autorização para sair
com a filha.
Justino, à imagem de seu pai, não desistira de conquistar
aquela rapariga e continuara a insistir com o convite que a
Conceição viera a aceitar com a condição que pedisse
autorização ao pai e à mãe.
Ter-se-ia reunido, num jantar, com os pais para lhes pedir
respeitosa autorização de namoro.
Quais são as suas intenções?
Eu quero namorar com a sua filha, mas o que quero mesmo
é casar com ela em breve.
E acha que pode dar uma boa vida à rapariga.
Tenho um emprego e ganho bem. Estou habituado a não
ter medo do trabalho; nunca tive lá em Portugal e agora que
a conheci tenho ainda menos. Tenho uma casa para nós.
38.
- 36 -
Jásabe que esta é a nossa única filha e que estaremos
atentos para ver se cumpre a sua palavra.
Gosto muito da Conceição e vou tratá-la sempre bem.
Pelo que me contou, conheci o seu pai e sempre o tive
como homem de palavra. Espero que saia a ele e cumpra a
sua.
Nunca mais se separaram desde que recebera permissão
para namorar a rapariga.
Naquele primeiro mês de agosto de Justino em França, a
Lurdes foi fazer-lhe companhia, levada pelo mesmo Carmindo.
Carmindo, à semelhança do que tinha acontecido com
Justino, tinha retornado, de novo, à sua pátria na companhia da
sua mulher.
Viu que aqueles pais ainda sentiam muitas dificuldades para
dar à filha a vida que ela merecia e que ele via que poderia ter em
França.
Era uma jovem mulher trabalhadora, apoiava os pais em
tudo aquilo que podia, ia à escola para aprender a ler e a
escrever, mas sabia que não poderia continuar para além do sexto
ano, pois não havia possibilidades económicas para isso.
39.
- 37 -
Tinhaa Lurdes catorze anos e o Carmindo, agora dono de
um supermercado, arranjar-lhe-ia trabalho nesse estabelecimento
que ficava na Rue Serpente, muito perto da pequena casa de
família do irmão e onde este morava já com a sua mulher, grávida
do primeiro filho.
A Lurdes recebera o nome da sua avó paterna que tinha
sido batizada em honra da Nossa Senhora de Lourdes. Tinha sido o
Padre que, na missa de uma manhã de domingo pouco antes de
a menina nascer, falara de um milagre daquela santa, fazendo
chorar as mulheres da aldeia e soluçar os homens que se
recusavam a ser vistos chorar.
No final daquele agosto de férias, lá partiram os três
deixando para trás os pais que, novamente, sentiram a saída de
mais um filho. A despedida, agora, era ainda mais penosa porque
se tratava da sua "menina", como dizia o pai Laurentino.
A Lurdes ainda pensou em ficar, desistindo da viagem; não
queria deixar ficar a mãe sozinha sem ajuda e sem a sua
confidente de sempre.
Minha filha, tens de ir, porque mereces mais do que o que
te podemos dar aqui!
Mas, minha mãe, quem vai tomar conta de ti? Quem vai
fazer-te companhia? Quem te vai ajudar?
40.
- 38 -
Nãote preocupes. Tenho o teu pai.
Quem vai falar comigo quando eu precisar de conselhos?
Tens o teu irmão.
Mas vou ter muitas saudades, minha mãe!
Também eu, mas daqui a pouco já vamos estar juntas de
novo. Vai e cuida bem de ti.
A mãe, recorrendo às suas últimas forças, resistiu às lágrimas
e acompanhou-a ao transporte que levaria a sua filha para longe
de si.
Fizeram a longa viagem, sempre com o coração preso
àquela imagem da mãe abraçada pelo pai; aquele foi um
momento raro de manifestação pública de carinho entre ambos.
Chegados a França, instalou-se em casa do irmão que
alegremente a recebeu.
Começou a trabalhar no supermercado. Primeiro como
repositora de produtos nas prateleiras, mas rapidamente foi
promovida à caixa de pagamento. Os patrões gostaram muito do
seu trabalho e da sua seriedade confiando-lhe o manejo dos
dinheiros da casa.
Ao sábado frequentava uma escola para aprender a língua
e poder crescer no trabalho.
41.
- 39 -
Tambémela, dois anos e poucos meses depois de ter
chegado a França, conheceu um rapaz daquela cidade,
empregado numa oficina de motos. Lá tinha o irmão comprado a
sua Scooter e mantivera contacto para possíveis negócios futuros.
Apresentou-lhe a sua irmã num dia em que tinham ido substituir um
cabo de travão que se tinha rebentado surpreendentemente.
O empregado reconhecera-a de imediato.
Este tinha, um dia, ido ao supermercado de Lurdes e vira-a a
colocar os produtos nas prateleiras, ficando encantado com a sua
determinação e perfeição. Não se atrevera a falar com ela, mas
não a tinha mais conseguido tirar da sua cabeça.
A Lurdes e o namorado nunca chegaram a casar o que não
era do agrado do revoltado irmão; dizia-lhe que se um dia os pais
soubessem que não estava casada, não iriam aceitar a situação e
se iriam sentir envergonhados perante os vizinhos da aldeia.
Nunca contaram nada aos pais para evitar o desgosto e
combinaram mesmo dizer que tinham casado numa pequena
igreja de Champigny-sur-Marne. Não teriam tirado, no entanto,
fotografias porque o dinheiro ainda não era muito e "os retratos
saíam caritos".
Aquele rapaz tinha já a sua casa montada e Lurdes mudou-
-se com ele para lá, deixando o irmão com a sua família.
42.
- 40 -
Nuncase afastaram os irmãos; encontravam-se todos os dias
ou para almoçar após a paragem no trabalho ou para jantar no
final da labuta diária.
Nos domingos reuniam as duas famílias na casa de um ou de
outro e trocavam memórias do passado, tentando diminuir as
saudades que tinham dos pais.
Voltariam todos a casa e à terra natal naquele verão que se
aproximava.
Viajaram naquele início de férias, Justino, a mulher e os dois
filhos, no seu Simca 1100 e num Renault 4L, vinham Lurdes, o
companheiro e a filha, dois anos depois de Lurdes ter saído da sua
pequena aldeia.
Voltavam à pequena aldeia no mês das festas do padroeiro.
Traziam os carros cheios de roupas e de objetos diferentes que,
diziam eles, toda a gente da cidade tinha e precisava.
Disse o seu pai Laurentino, olhando admirado para aqueles
equipamentos, que eram objetos modernos onde se ouviam vozes
como acontecia com o seu rádio ou com o telefone do café do
Ramiro.
Eram máquinas que tiravam os retratos às pessoas e de
imediato se via sair, pela frente da dita máquina, um pedaço
quadrado de papel; depois abanavam aquilo e começava a
aparecer a figura da pessoa retratada.
43.
- 41 -
Istoé um milagre!
Traziam sempre, também, uns chocolates e uns rebuçados
que eram a alegria dos filhos e dos vizinhos que se juntavam perto
da casa do Laurentino sempre que corria a voz que o Justino e a
Lurdes tinham chegado com os meninos.
Naquelas férias de verão não tiveram a companhia da sua
mãe que falecera surpreendentemente.
Choraram a sua falta e tentaram convencer o pai a viajar de
volta com eles.
Laurentino nem sequer considerou aquela possibilidade. Não
conseguiria afastar-se da sua Teresa; todos os dias se dirigia ao
cemitério e ali passavam algum tempo a conversar.
Para além dessa necessidade que sentia, considerava já não
ter nem idade nem saúde para sair da sua Castanheiro natal.
Partiram, juntamente com os filhos e restante família, logo
que terminava a pausa anual no trabalho; deixavam o pai para
trás sabendo que até ao ano seguinte não mais teriam notícias
dele.
Desconheciam, ainda, se aquela seria a última vez que
estariam todos juntos, lembrando a partida da mãe na sua
ausência.
Mal sabiam que assim aconteceria.
- 45 -
IV
Joselitoera um rapazinho muito distraído que gostava de
jogar ao botão ou ao pião com os colegas.
Para jogarem ao botão, faziam um pequeno buraco no
chão junto a uma qualquer parede e começavam a lançar os
botões retirados da caixa de costura das mães; o botão tinha de
bater primeiro na parede e depois entrar no buraco. Aquele que
conseguisse depositar o seu na cova ganhava os dos restantes que
ficavam fora. Quando mais do que um menino atingia o objetivo,
dividiam o espólio revertendo o sobrante para o mais velho.
No pião, cada um trazia os seus melhores carrapetas para
abrir as hostilidades; depois era vê-los rodar, rodar e rodar até que
um deles parasse e caísse. O jogador cujo pião parasse primeiro
tinha de lançar o batatinha para receber as maçarocadas dos
outros enquanto aguentasse. Muitas das vezes alguém saia a
choramingar com os pedaços do batatinha na mão, mas era assim
mesmo.
Na Escola, o Professor Armandino Sá via-o como um dos
melhores alunos, mas nada que se comparasse com ele próprio
quando era aluno.
48.
- 46 -
Quandoo Professor Sá andava na escola, sabia tudo na
ponta da língua, desde os reis, até aos rios e afluentes e mesmo as
tabuadas; tinha uma caligrafia perfeita que treinara no caderno
pautado de cinco linhas durante largos anos.
Agora ninguém quer saber nada. Acham sempre que sabem
tudo e que não é preciso trabalho! Até parece que alguma
coisa cai do céu!
O menino José estava sentado ao lado do seu melhor
amigo, o Nabo; assim lhe chamavam, na brincadeira, por ter
muitas dificuldades nas contas de dividir e multiplicar e não pela
forma esquisita que apresentava o seu nariz (assim lhe diziam para
que não ficasse triste).
A culpa era da tabuada que "não tinha jeito nenhum".
Também não percebia muito bem para que lhe iria servir saber os
reis das dinastias e os rios de Portugal; uns já tinham morrido há
muito tempo e nem os tinha conhecido de lado nenhum, os outros
corriam longe dali e nunca lhe fariam diferença.
Queria, como o seu pai, ser eletricista e nem os reis o iriam
ajudar a juntar os fios, nem a água daqueles rios poderia chegar-se
perto dos condutores elétricos para não dar choque e queimar
tudo. Para além disso não era muito amigo da água que evitava a
todo custo que se aproximasse do seu corpo.
49.
- 47 -
Quantoà tabuada já nem tentava; não conseguia
perceber, por muito que se esforçasse, como é que o cinco vezes
o oito poderia dar quarenta.
O José, pacientemente, juntava cinco pedras em oito linhas
diferentes e depois pedia ao Nabo que as contasse; ele lá
contava, mas dizia que assim era mais fácil porque só tinha de
somar as pedras e não multiplicar como nas tabuadas.
Somar eu consigo. Pego nos dedos e já está.
O Nabo era mesmo assim e o José gostava do seu amigo
assim como ele era.
Quando havia que explicar como se substituía uma lâmpada
fundida na sala, o Nabo brilhava. Enchia ainda mais o seu peito de
ar e dava uma longa explicação técnica sobre o assunto,
passando depois a cometer o heroico ato de dar à luz na sala de
aula.
Recebia o aplauso entusiástico por parte dos colegas, mas
imediatamente interrompido pelo Professor Sá que não admitia
aquele ruído na sua sala de aula, apesar do reconhecimento ao
trabalho desenvolvido pelo rapaz.
50.
- 48 -
OProfessor Armandino Sá era um homem muito sério,
exigente com os meninos e por vezes violento. Castigava
duramente qualquer um deles, com umas boas reguadas, ou
bofetadas (quando a régua não estava à mão) sempre que não
respondiam às suas ameaçadoras perguntas, constantemente
acompanhadas por um "Vê lá o que dizes!" e um dedo bem
apontado ao menino que trémulo transpirava.
Exigia que soubessem, sem abrir o caderno, o nome e
localização geográfica exata dos rios de Portugal, onde nasciam,
que terras banhavam e onde desaguavam; já não exigia os
afluentes mas premiava com um raro "Muito bem, menino!" aquele
que os soubesse corretamente. Ele era o Mondego, o Guadiana, o
Minho, o Tejo, o Sado, o Vouga e muitos outros; havia até um que
se chamava "Nabo" como respondeu o Nabo ao querer dizer
"Nabão". Sabia que todos se iriam rir dele pela associação ao seu
nome.
No dia seguinte o pobre rapaz apresentava uma grande
bolha na palma da mão direita, resultado das dez reguadas que
lhe valeram o rio "Nabo".
Mostrava-se, no entanto, orgulhoso por ser o prémio da sua
resistência ao riso dos colegas e por não poder justificadamente,
devido à lesão, escrever o que o Professor mandasse naquele dia.
51.
- 49 -
Nãoadmitia que ninguém desconhecesse os reis de todas as
dinastias portuguesas e os respetivos cognomes.
Os pequenos lá balbuciavam os da primeira, de Borgonha:
D. Afonso I, o Conquistador, o Fundador, o Grande; D.
Sancho I, o Povoador; D. Afonso II, o Gordo, o Crasso, o Gafo,
o Legislador; D. Sancho II, o Capelo, o Piedoso, o Pio; D.
Afonso III, o Bolonhês; D. Dinis I, o Lavrador, o Rei-Trovador, o
Rei-Poeta, o Rei-Agricultor; D. Afonso IV, o Bravo; D. Pedro I, o
Justiceiro, o Cruel, o Cru, o Vingativo, o Tartamudo, o Até-ao-
-Fim-do-Mundo-Apaixonado; D. Fernando I, o Formoso, o Belo,
o Inconstante, o Inconsciente.
Seguiam-se os da segunda, de Avis; aumentava o
arrastamento na língua dos meninos e um ou outro abria
disfarçadamente a boca:
D. João I, o de Boa Memória; D. Duarte I, o Eloquente, o Rei-
-Filósofo; D. Afonso V, o Africano; D. João II, o Príncipe Perfeito,
o Tirano; D. Manuel I" e parava toda a gente com o catarrear
do professor que fazia com que despertassem em alerta, "D.
Afonso V no segundo reinado; D. João II no segundo reinado;
D. Manuel I, o Venturoso, o Bem-Aventurado, o Pomposo; D.
João III, o Piedoso, o Pio; D. Sebastião I, o Príncipe Desejado; D.
Henrique I, o Casto, o Cardeal-Rei, o Eborense.
52.
- 50 -
Depoisera fácil e cantarolavam automaticamente um
pouco mais alto os da terceira, a Filipina; até o Nabo elevava a sua
voz acima da dos colegas de classe:
Filipe I, o Prudente; Filipe II, o Pio, o Piedoso; Filipe III, o Grande
…
e nesta altura o professor Armandino fazia notar a sua voz dando
expressão à sua maior admiração pelo "o Grande".
A voz baixava e ouvia-se
Na terceira, a de Bragança, eram D. João IV, o Restaurador,
o Afortunado; D. Afonso VI, o Vitorioso, o Prisioneiro; D. Pedro II,
o Pacífico; D. João V, o Magnânimo, o Magnífico, o Rei-Sol
Português, o Freirático; D. José I, o Reformador; D. Maria I, a
Piedosa, a Louca; D. Pedro III, o Capacidónio, o Sacristão, o
Edificador; D. João VI, o Clemente; D. Pedro IV, o Rei-Soldado,
o Rei-Imperador, o Libertador; D. Maria II, a Educadora, a Boa-
-Mãe; D. Miguel I, o Rei Absoluto, o Absolutista, o
Tradicionalista, o Usurpador; D. Maria II no segundo reinado;
e aqui ninguém se enganava porque o professor se tinha colocado
no estrado e lhes tinha mostrado o indicador,
53.
- 51 -
D.Fernando, o Rei-Artista; D. Pedro V, o Esperançoso, o Bem-
-Amado; D. Luís I, o Popular, o Bom, o Rei-Marinheiro; D. Carlos
I, o Diplomata, o Martirizado, o Mártir, o Oceanógrafo, o Rei-
-Pintor; D. Manuel II, o Patriota, o Desventurado, o Estudioso, o
Bibliófilo, o Rei-Saudade.
Nesta última tirada, o Nabo só mexia os lábios ao som dos
colegas para não dizer nenhuma asneira.
No final, o professor Sá, numa das vezes das dinastias:
Estão todos de castigo!
Olhavam todos para o Nabo.
Ele tapava a boca e abanava negativamente com a
cabeça querendo dizer que nem tinha falado.
Ficavam de boca aberta, mas silenciosos, questionando-se
sobre o que teria falhado ou o que teria o Nabo dito.
O castigo é escrever cinco vezes os reis e a dinastia a que
pertenceu cada um. Vamos lá meus meninos ou tenho de vos
aguçar as mãos? levantando a régua costumeira.
54.
- 52 -
Ninguémse atrevia a responder ou mesmo questionar.
Ninguém exceto o Rufino que lá ao fundo levantara o braço e,
tendo a devida autorização, perguntara o que tinham falhado.
Senhor professor, qual foi a nossa asneira?
O Muito Amado. D. Fernando, o Muito Amado. Esqueceram-
-se deste dado muito importante.
O Nabo recostava-se, de novo, na sua cadeira e respirava
profundamente mostrando um sorriso aos colegas.
Depois chegam ao exame, reprovam todos por não saber o
Muito Amado e a culpa vai ser do Professor que não ensinou
os meninos. Toca a trabalhar, seus caloteiros!
E todos baixavam a cabeça, espetavam o lápis juntamente
com o nariz no caderno liso e esticavam as dinastias e os reis sem
deixar que nada falhasse para não terem de repetir novamente
mais cinco vezes, ou levar tantas reguadas quantos reis a nação
teve.
A tabuada tinha de ser sabida na ponta da língua, da frente
para trás e de trás para a frente.
55.
- 53 -
Nanoite anterior aos dias de tabuada ninguém repousava
muito bem; muitos adormeciam mesmo com a lengalenga na
ponta da língua em vez do Padre-Nosso ou da Salvé Rainha.
A caminho da escola, nesses dias de questionário
matemático, em vez das brincadeiras do costume, ouvia-se, daqui
e dali, as vozes que se cruzavam entre o oito vezes quatro e o seis
vezes sete, ou mesmo o nove vezes nove. O Nabo ficava-se pela
do um, porque era só repetir os números. Depois, na sala, era rezar
para não lhes calhar o dedo do Professor ou para lhes sair uma
tabuada decorada. Mantinham, no entanto, a cabeça sempre
baixa para se tornarem invisíveis.
O Professor Sá vestia as suas roupas escuras com sapatos
pretos sempre bem lustrados, que contrastavam com a sua cor
pálida. Mostrava uma cabeça tão lustrosa quanto os sapatos onde
pontuava um peleiro branco que penteava para o lado na
tentativa de cobrir a desértico crânio.
Não conseguia encontrar espaço suficiente na cadeira de
braços para se sentar, devido à largura corporal que apresentava,
o que o obrigava a circular pesadamente entre as carteiras dos
meninos, aproveitando para distribuir um ou outro açoite quando
reparava numa caligrafia menos legível ou num número menos
bem-desenhado.
Aquele homem frequentara o Seminário até ao momento
em que decidira sair para cumprir o serviço militar, trocando
unicamente de farda.
56.
- 54 -
Logoque voltara da satisfação da obrigação pátria, porque
era aí que se fazia "um homem a sério", começara a ensinar
meninos na escola primária da sua freguesia, por indicação de um
Major que conhecera. Mantinha a sua postura militarista que
aprendera no Seminário e aperfeiçoara nas fileiras militares.
Tinha mantido o celibato que trouxera do Seminário e
morava sozinho numa velha casa que pertencera à família.
Ao domingo, o José ajudava o Senhor Padre na missa, por
vontade da mãe e a descontento do pai que preferia vê-lo a
trabalhar a seu lado "como um homem"; no final da missa podia
comer o que tinha sobrado das hóstias não benzidas pelo Padre.
Um dia, depois da missa, foi à sacristia buscar a paga pelo
seu apoio concentrado na celebração; guardou umas quantas
hóstias no bolso que depois deu aos colegas de brincadeira
fazendo de conta que era ele o Padre.
A mãe viu aquela brincadeira e achou que o rapaz até tinha
algum jeitinho, pois fazia tudo exatamente como acontecia na
missa.
Ainda me vai dar um belo Padre, este meu rapaz.
Aquele sinal na ponta do nariz e o cabelo cortado à tesoura
pela mãe davam-lhe um ar de adulto; esse aspeto só era
contrariado pelas brincadeiras típicas dos seus seis anos, pelos
57.
- 55 -
beijosdiários à mãe ao deitar-se e pelo "A sua bênção" ao pai
sempre que se levantava.
Certa manhã, correu de casa com pressa para ir ganhar uns
botões ao Nabo e aos outros amigos que aparecessem para a
brincadeira. Levantou-se de um pulo, molhou a ponta dos dedos
na torneira gotejante da cozinha, passou-os pelos olhos, penteou o
cabelo tesourado e correu porta fora.
Quando voltou, umas horas depois por chamado da fome,
com o bolso cheio de botões, colocou o pé direito dentro da porta
de casa, mas já não conseguiu completar a intensão de entrar,
colocando o outro pé; só se recorda de ver uma grande mão de
dedos grossos vindo ao encontro da sua cara e de bater com a
cabeça na parede que separava o interior do exterior da sua
casa.
Abanou a cabeça para colocar as imagens na ordem
normal, olhou para cima e viu o seu pai olhando fixamente para
ele.
Onde foste?
Só fui …
Não te esqueceste de nada hoje de manhã?
Eu …
É a brincadeira!
58.
- 56 -
Recuperou,na sua cabecinha dorida, os momentos da
manhã e lembrou-se do "A sua bênção" que não dissera.
Percebeu, de imediato, o pecado cometido; corrigiu-o
acrescentando um pedido de desculpa e nada mais disse,
retirando-se para lavar as mãos e sentar-se à mesa. Nunca mais
deu motivos ao pai para que tivesse de repetir aquela lição.
Na sua vizinhança viviam duas meninas da mesma idade
com quem ia para a escola todos os dias.
A Madalena e a Mariana completavam o trio que saltitava
pelo passeio risonho até à porta da primária da cidade. Quando lá
davam entrada, o José seguia o seu caminho para a dos rapazes e
as duas amigas sentavam-se, lado a lado, numa das salas da ala
feminina.
A Senhora Professora Francisca Ferreira era uma senhora
brincalhona que tratava as suas meninas por "lindas" e lhes passava
carinhosamente a mão pelo cabelo todos os dias ao entrarem na
sala. Este comportamento poderia ser resultado do facto de ter
unicamente um filho rapaz, apesar de sempre ter desejado ter mais
e principalmente uma rapariga.
Era muito exigente com as crianças, mas ajudava as que
apresentassem mais dificuldades em qualquer assunto, recebendo-
-as, fora de horas, em sua casa.
59.
- 57 -
Ensinavaos reis e as princesas contando histórias
maravilhosas que encantavam as alunas e as mantinham vítreas
com os olhitos brilhantes pregados nela.
Aprenderam a história de Pedro e Inês, suspirando por
aquele amor inenarrável que levara à morte da mulher que fora
Rainha depois de sepultada; soltaram um "Pobre Pedro" quando
souberam do seu regresso a casa e da descoberta da orfandade
dos seus filhos. Disseram mesmo que um dia gostariam de visitar os
dois onde estivessem para rezar por eles.
No Mosteiro de Alcobaça, meninas. Um ao lado do outro.
Cantava umas músicas animadas com as quais as alunas
aprendiam todas as tabuadas. Quando era dia de prova de
matemática ouviam-se aquelas boquitas cantarolar umas músicas
e escrever logo de seguida as tabuadas na folha.
Cinco vezes zero,
Quente de febre,
É igual a zero,
Delirou a lebre.
Cinco vezes um,
Afiada como lixa,
São cinco,
60.
- 58 -
Disseentão a lagartixa.
Cinco vezes dois,
Gritou da toca,
São dez,
A comprida minhoca.
E assim continuavam durante toda a tabuada até ao momento de
terminarem com o …
Cinco vezes dez,
Pensou o dia inteiro,
Só pode ser cinquenta,
O triste pavão faceiro.
Quem não gostava daquelas cantilenas era o Professor
Armandino Sá que, na sala ao lado separada por um muro fino
desenhado, abanava a cabeça e estalava os dedos.
Como vai aquela canalha aprender alguma coisa de jeito se
passam o dia a cantar!!! Vai ser lindo quando chegarem ao
exame e fizerem asneira. Vamos ver depois quem canta!
61.
- 59 -
ASenhora Professora usava as suas roupas coloridas que só
acabavam nas golas dos seus sapatos a condizer. Sinalizava o
peso da sua longa experiência com o cabelo branco que lhe batia
nos ombros e enquadrava perfeitamente a face rosada fina.
Era uma mulher baixinha, um pouco mais alta do que as
meninas que ensinava, redonda.
Na sua infância e juventude tinha estado ao cuidado de
uma família de professores devido às muitas dificuldades
económicas dos pais; não conseguiam fazer entrar em casa
comida que chegasse para alimentar as bocas dos seus seis filhos,
nem mandá-los para a escola. Preferiram, então, distribuir alguns
por famílias que deles cuidassem bem e lhes dessem comida,
roupa e educação.
Nunca fora, no entanto, esquecida pelos progenitores que
frequentemente a visitavam com consentimento do casal
adotante. Esses eram momentos felizes; mostrava os seus
brinquedos aos pais, contava-lhes o que se passara na escola e às
escondidas, pensava ela, ainda dava qualquer coisa para
entregar aos irmãos que se mantinham em casa.
Acompanhara a mãe adotiva enquanto ensinava as suas
classes e começara a ajudá-la logo que tivera idade para parecer
adulta; demonstrara muito jeito para crianças o que a levou a tirar
o curso no Magistério Primário uns anos mais tarde.
Conhecera um rapaz quando tirava o curso, com o qual
viera a casar. Tiveram o Rafael Monteiro, filho que foi o único por
problemas de saúde que o marido viera a revelar.
62.
- 60 -
Nosdias de muito calor de verão, os seus calções listados na
horizontal, a sua camisinha bem engomada e as sandálias de
cordão eram sinal distante de que vinha ali o José.
No inverno resguardava-se melhor; mantinha as riscas
horizontais nas suas calças, continuava com a camisinha
engomada agora de manga comprida, à qual se sobrepunha um
casaco grosso de fazenda. Nos pés usava o seu calçado preferido,
umas botas de cabedal que o pai lhe tinha comprado na feira por
serem iguais às suas e que lhe davam um ar de gente grande.
Durante a sua infância, para além daquela surpresa
castigadora do pai por culpa dos botões, nada de muito relevante
e diferente dos outros meninos lhe aconteceu.
Recebeu um relógio de ponteiros e corda quando passou o
seu exame da quarta classe. Aqueles ponteiros dourados brilhantes
que se moviam religiosamente no fundo negro foram o seu orgulho
e o sinal de que, a partir daquele dia, tinha de se comportar como
um homem. Desde logo ganhou a responsabilidade de cuidar do
seu presente, de o alimentar diariamente rodando a coroa e
mantendo-o vivo.
Aquelas férias de verão, que o levaram da infância à
juventude adulta, foram marcantes. Passou todo o tempo que
arranjou, entre o "A sua bênção" e o beijo de boa-noite, com a sua
amiga Madalena.
63.
- 61 -
AMadalena era uma rapariga muito serena e senhora do
seu nariz. Destacava-se na escola por ser muito organizada, atenta,
participativa e por apoiar as colegas que tinham mais dúvidas a
perceber as contas, o nome dos rios ou dos reis de Portugal; tinha
aprendido aquele comportamento com a sua professora. Nos
intervalos gostava de brincar às mães e às professoras. Era sempre
ela a mãe ou a professora.
Vivia com o pai Custódio Silva e com a mãe Laurentina de
Fátima; o irmão mais velho, o Gustinho, saíra de casa para
trabalhar em França quando a Madalena tinha completado o seu
segundo aniversário.
Brincava, quando não ajudava a mãe nas tarefas
domésticas, com as suas bonecas. Alimentava e tratava das suas
filhas com todo o carinho que estava acostumada a receber da
mãe.
Tinha cabelo comprido e claro que se estendia em cachos
até meio das costas; prendia uma parte da sua vasta cabeleira
com um laçarote no cimo da nuca. Aquele cabelo estendia a sua
beleza pela pele clara rosada que orgulhava os pais e espantava
os vizinhos.
O seu aspeto físico era enriquecido pelas suas roupas bem
tratadas; a sua saia de godé pelo joelho, as meias que cresciam
até à altura da bainha da saia, a blusa de folhos colocados à volta
do fino pescoço e os seus sapatos em pele clara eram o regalo dos
olhos dos moços que a viam passar para a escola na companhia
do José e da Mariana. O José, esse, saltitava atentamente a seu
64.
- 62 -
lado,não tirando o olho dos mirones e mostrando o seu
descontentamento, mostrando os punhos em riste, sempre que
algum se atrevia a assobiar à sua colega de viagem.
Nos dias mais frios, a sua graça não diminuía. Substituía a
saia em godé por uma com pregas que lhe cobria as pernas até
ao tornozelo, colocava a sua camisola de gola alta coberta por
um lindo casaco de fazenda igual à do casaco do José e que o
deixava muito orgulhoso; completava a imagem com uns sapatos
rasos de couro tratado e claro.
Fez o exame de quarta classe no mesmo dia do José e foi
premiada com uma bolsa de tecido colorido e malha, no fundo,
que correu a mostrar ao amigo; este retribuiu a animada simpatia
com a visão, "mas não toques", do seu relógio de ponteiros
dourados e corda.
Para além daqueles momentos de viagem para a escola, o
José, sempre que podia, escapava-se para um dos cantos do
recreio masculino e dava uma espreitadela por cima do muro que
o separava do feminino.
Observava, em silêncio, a Madalena sentada num banco a
perguntar às colegas a tabuada do nove e voltava para os seus
botões.
Um dia foi apanhado pelo professor Sá a cometer a
arriscada e proibida façanha; valeu-lhe um longo puxão da orelha
65.
- 63 -
esquerdaestendido desde o recreio até à sala de aula. Aí passou o
intervalo a escrever as tabuadas do um até à do dez sem parar
até que os colegas voltassem. Mas valeu a pena o castigo, pensou
ele com um sorriso maroto.
As férias de verão passou-as em brincadeiras com o José;
disfarçava a sua vontade com o convite à Mariana e ao Nabo
para se juntarem a eles; queria ter a certeza que o pai Custódio
não se chateava por estar sempre na companhia do rapaz.
Olha que não fica bem a uma menina como tu estar sempre
com aquele moço!
Mas ele é o meu amigo, pai!
Vai brincar com as tuas amigas a coisas de menina,
Madalena!
Está bem.
A Madalena queria era estar com o José e sempre que
podia contrariava o pai.
Entraram ambos para o quinto ano, mas em escolas
diferentes.
66.
- 64 -
AMadalena rumou à escola feminina que estava a uns bons
quinze minutos de caminhada de sua casa, podendo fazer esse
caminho diariamente com as amigas.
O José, para desespero seu e grande tristeza da Madalena,
foi para uma escola que se situava junto a um pequeno monte a
sul da sua casa.
O pai, proprietário de uma pequena loja de comércio de
utilidades domésticas, achou que o rapaz iria crescer mais se
estivesse naquele ambiente presbítero onde podia ser controlado e
orientado para um futuro de sucesso. A mãe anuiu lacrimejante à
opinião do pai, até porque não poderia ser de outra forma após o
marido ter falado.
Revelou-se, o José, um bom aluno no colégio de padres.
Não podendo sair, regularmente, durante a semana para ir a
casa, ocupava-se na escrita de histórias imaginárias e na leitura
dos muitos volumes que forravam a enorme biblioteca escolar.
Todos os dias ajudava à missa da manhã e à do final do dia.
No silêncio da noite, aproveitava, sempre que lhe era
possível, para dar um salto por cima do muro que aprisionava os
alunos do colégio.
Levantava-se silenciosamente, sem acordar os colegas de
dormitório, pegava na roupa e pé ante pé lá se dirigia à casa de
banho onde se vestia.
67.
- 65 -
Desciaa longa escadaria e saia por uma janela do refeitório
que se mantinha sempre aberta devido aos vapores que se
acumulavam.
Esgueirava-se por entre os pinheiros e corria pela estrada
empedrada até à frente da casa da Madalena, onde chegava, a
correr, uma boa hora depois da arrojada fuga.
Atirava uma pequena pedra à janela. Ganhava vida nova
ao receber aquele olhar entorpecido da amiga, tapado pelo
reflexo da lua no vidro do quarto.
Trocavam uns quantos gestos que só eles entendiam,
durante alguns minutos e depois voltava, da mesma forma, ao
colégio onde se deitava para dormir as poucas horas que faltavam
até à missa da manhã.
A Madalena, depois de ver o seu amigo João e trocar uma
quantidade de sinais com ele, via a sua silhueta diminuir
lentamente no escuro da noite e dormia angelicalmente até de
madrugada.
No dia seguinte, e apesar do sono da noite mal dormida, lá
estava o José, com o seu cabelinho cortado à tesourada pelo
interno do colégio, a sua farda de calças escuras e camisa branca,
pronto para vestir os paramentos e apoiar o Senhor Padre. Algumas
vezes fechava por momentos os olhos cansados, deixava cair a
cabeça, mas acordava rapidamente com o ruído das pessoas que
se levantavam ao "Oremos" do Senhor Padre.
68.
- 66 -
Assimpassava os seus dias calmamente sagrados.
No final do primeiro ano de colégio, terminados os estudos,
voltara a casa para dois meses de férias.
A primeira visita feita fora a casa da Madalena. Aquele rosto
divinamente alegre estava marcado por reluzentes lágrimas de
dor. A sua mãe tinha ficado doente e não saia da cama; nada
tinha dito a José nas suas noturnas visitas para não o preocupar.
Aquela criança recatada, que se dedicava à criação
artística nos seus desenhos de flores e campos verdejantes, tinha
agora de ser mulher; precisava cuidar da casa e do pai.
Iria abandonar a escola ainda com o seu belo cabelo
comprido encaracolado, preso no cimo da nuca com um laçarote
colorido.
No meio da sua lida caseira ia encontrando tempo para se
encontrar, às escondidas do pai e com a concordância enferma
da mãe, com o José que vivia os seus dias de férias à espera
daquele momento; recebia o sinal combinado e saia do meio das
árvores que limitavam a casa da Madalena e onde se escondia da
reprovação do pai da amiga.
Viviam, ali, os momentos mais felizes e cúmplices do dia de
ambos. Falavam muito, riam-se, brincavam e em muitos momentos
limitavam-se a ficar a olhar um para o outro.
Chegaram mesmo, num dia de sol, a dar as mãos; o José
consagrou um beijo envergonhado na face rosada de Madalena
69.
- 67 -
queencolheu os ombros, corou e soltou um acanhado sorriso
silencioso.
Mantiveram os seus enamoradamente inocentes hábitos
durante o tempo de colégio interno de José e de necessário
enclausurado apoio caseiro de Madalena.
Terminados os estudos colegiais, José voltaria a casa homem
feito e com a possibilidade de decidir a sua própria vida. Tinha
decidido, no silencioso recato da capela do colégio, falar com o
pai de Madalena e pedir para namorar com ela.
Madalena esperava-o.
Madalena esperou José no dia marcado para a sua
chegada por informação alegre do Nabo que o soubera no café
do Pisco.
Madalena esperou todo esse dia e dois mais a seguir
naquela janela que os separara nos seus encontros noturnos, sem
que os seus olhos brilhassem com a imagem reconfortante do José.
Soube, no final dessa semana, que o filho do Manuel Paulino
tinha seguido para o seminário. Correra a voz lá na obra onde o
pai da moça trabalhava, que o rapaz, na companhia da mãe,
tinha saído do colégio e sem desfazer as malas, seguira para o
Seminário de onde sairia ordenado Padre.
70.
- 68 -
Estateria sido a informação que o Nabo deveria ter
comunicado à Madalena se não tivesse saído a correr de alegria,
a meio da conversa, para ir contar a novidade.
A tristeza de Madalena não se conseguia medir porque
decidira escondê-la da sua mãe que tinha piorado e precisava de
tudo menos de ver a sua filha desgostosa.
No entanto, o seu coração esmorecera e definhara com
aquela ausência inesperada, recordando os sentimentos que
deveriam ter invadido Pedro ao descobrir o corpo frio da sua Inês.
Percebeu que não mais poderia ver o seu João nem pensar
em construir com ele a família que sempre desejara
simuladamente nas suas brincadeiras com bonecas.
O definhar do seu coração foi acompanhado por sua mãe
que veio a falecer alguns meses após o fenecimento do coração
de Madalena.
A triste moça ficou por ali perdida em casa, atormentada
entre a falta do José e a má-vida pela qual seu pai começara a
encarreirar, por saudade da sua Laurentina e por se ver com uma
filha para criar sozinho.
O pai, vendo-se sozinho com uma casa para governar e
uma filha para criar, percebeu que não iria ser capaz de cumprir o
seu dever. Saia de manhã para o trabalho e voltava sempre já o
sol se escondia atrás do monte que acompanhava a escola que o
71.
- 69 -
Joséfrequentara. Entrava em casa, já ébrio, e recolhia-se no seu
quarto vazio sem sequer notar a presença da criança.
Da solidão acumulada resultou a entrada de uma estranha
em casa como companheira do pai. O mau relacionamento que
mantinha com aquela mulher, os maus-tratos resultantes da
ignorância a que era sujeita diariamente, obrigaram a menina a
decidir dar um novo rumo à sua vida desesperada.
Partiu, um dia, para trabalhar nas limpezas; encontrou uma
casa onde vivia uma família de cinco pessoas que a acolheu
como empregada doméstica e ama dos dois filhos mais novos.
Mantinha semanal contacto escrito com o José. Não desistia
da sua intenção, apesar de nunca receber resposta.
José sempre estranhara a falta de resposta às cartas que
pedia ao Reitor para enviar para casa, mas que na realidade eram
para a sua Madalena. Desconhecia também o motivo para não
receber notícias da Leninha. Pensava que se calhar se poderia ter
esquecido dele; até nem era de admirar devido a tudo o que tinha
acontecido e ao tempo que tinha passado.
No seu segundo ano, chegou ao Seminário uma carta.
Avisado pelo Padre Justino da chegada da missiva, correu de
alegria ao gabinete do Reitor, na esperança de ser da Madalena.
Entrou naquele espaço lúgubre e viu a postura esfíngica do
velho homem. Escondeu o sorriso que trazia nos lábios e recebeu a
72.
- 70 -
cartaaberta com uma palmada nas costas e um "Força, meu
rapaz!".
Era de sua casa e tinha escrito, com a letra da sua mãe, que
o seu pai morrera num acidente na loja.
Seu pai, à falta de ajuda e por peso da idade cansada de
muito trabalho, começara a arrumar umas estantes onde
guardava produtos que vendia. Uma das estantes tombara e ele
teria ficado preso por baixo dela, vindo a falecer ali no momento.
Fora descoberto no final do dia, quando a loja de comércio ficara
aberta após a costumeira hora de fecho.
Partiu, no dia seguinte, com a bênção do Senhor Reitor para
voltar dali a dois dias.
Entre a tristeza que lhe invadia o coração pela perda do seu
pai, encontrou um pequeno espaço onde reluzia uma leve luz de
esperança. Seria a sua oportunidade de rever a Madalena, falar
com ela e saber de tudo o que se passara.
Aquela pequena luz desapareceu quando procurou, com o
olhar, a Madalena entre as pessoas que assistiam aos serviços
fúnebres e não a encontrou em lado nenhum.
Depois do funeral do pai, soube que a Madalena tinha
partido dali, há já algum tempo. Não conseguiu, no entanto, saber
73.
- 71 -
paraonde tinha ido nem o que fora fazer, pois o Nabo não
obtivera nenhuma informação relevante.
Regressou ao seu cárcere sem ter satisfeito o desejo
escondido de rever a sua amiga. Regressou com uma terrível
certeza de que não mais veria a sua Madalena, aquela que tinha
conseguido manter o seu coração vivo apesar do negrume do
ambiente em que passava os seus dias.
O Senhor Padre José de Deus Oliveira terminou a sua
formação clerical e depois de ordenado, foi enviado para uma
pequena aldeia situada entre montes e vales e servida por um
estreito caminho serpenteante de terra poeirento.
Era um jovem forte, bem-arranjado, eloquente e que
despertou, desde a primeira missa celebrada na pequena igreja, a
admiração respeitosa das mulheres e o apreço dos homens
daquela sua nova paróquia.
Alojou-se na casa da Igreja e assim se manteve durante
vários anos.
Como fazia algumas vezes durante o ano, um dia foi à
cidade comprar um novo cálice para as suas celebrações na
igreja e um fato preto para si.
Conduzia, já na metrópole, o seu automóvel por uma rua de
comércio e muito espaço verde, quando viu uma figura feminina
que lhe trouxe à memória velhos tempos.
74.
- 72 -
Estacionouo seu velho Volkswagen carocha que herdara do
seu antecessor e este do anterior, numa praça junto à casa de
paramentaria. Satisfez a necessidade do cálice ali mesmo,
escolhendo um com a imagem do coração de Cristo e uma cruz
na tampa; a sua cor dourada luzia da mesma forma que os
ponteiros do relógio que trazia no pulso e que se moviam
religiosamente desde a conclusão da sua quarta classe.
Percorreu, a pé, uma outra rua que o levava à alfaiataria e,
num parque próximo onde brincavam crianças, sentiu um calor
estranho no peito. Parou.
Bebeu um pouco de água numa bica ali instalada para
satisfazer a sede dos mais pequenos, sentou-se num banco de
madeira à sombra.
Levantou os olhos e viu aquela imagem de mulher que o
levara ao passado por momentos quando passava com o seu
Volkswagen.
Ficou ali sentado a observá-la e a tentar perceber de onde a
conheceria. Poderia até parecer mal um homem de Deus estar
assim estacado a olhar para uma mulher ali no meio de um
parque, o que o fez disfarçar olhando para as crianças que
brincavam.
Seria alguém que vira na sua nova paróquia?
Seria confusão sua com alguém muito parecido que
conhecera?
Naquela incerteza, uma ideia assaltou-lhe o pensamento.
75.
- 73 -
Éa Madalena! Só pode ser a Madalena!
Não se rendeu ao desejo incontrolável de se aproximar dela
com receio de errar nas suas suposições. Continuou ali sentado
naquele mesmo banco, sem conseguir tirar os olhos daquela
mulher.
Lena! Lena!
Chamava uma das crianças que oscilava num dos baloiços
guinchantes do parque. O pedido de ajuda levou aquela mulher a
dirigir-se apressadamente para a auxiliar.
Vestia uma saia com pregas e uma camisa com folhos que
eram tocados pelo cabelo comprido encaracolado e claro. Mas
foi o laçarote colorido no cimo da nuca que fez o Senhor Padre
dar um salto do banco e dirigir-se a ela.
Chegado junto da criança suspensa no baloiço, olhou para
aquela mulher que se baixara para parar o trémulo baloiço; ela
olhou para ele sem nada dizer e ali ficaram até serem acordados
daquela letargia pelo puxão na saia da menina que salvara.
Recolheu a pequena no colo e voltou a fixar o olhar naquele
homem vestido de preto, raro cabelo na cabeça achatada, e que
deixava correr uma lágrima pela cara que circundava um nariz
com sinal na ponta.
76.
- 74 -
Tués a Madalena!
Sou. E tu… és o José!
Pousou a criança que se impacientava para viajar no
escorrega.
Uniram-se num abraço saudoso preso desde o dia em que se
tinham visto pela última vez naquela fugida de casa.
Demoraram o abraço discretamente durante longos minutos.
Sentaram-se ambos num outro banco de madeira e falaram
demoradamente sobre as suas vidas ao longo daqueles eternos
anos de separação forçada.
Tens uma filha muito bonita!
Não é minha filha. Só tomo conta dela e daquele outro
menino que é seu irmão.
O José suspirou profundamente.
A Madalena sorriu.
Não esgotaram naquelas horas os anos que os tinham
separado; marcaram o mesmo local para se encontrarem no dia
seguinte e terminarem aquele reencontro, já sem a necessidade
77.
- 75 -
deatender constantemente aos pequenos que continuavam a
brincar.
Madalena recolheu as duas crianças e partiu, não sem antes
voltar a olhar para aquele milagre inesperado.
José continuou sentado naquele parque vendo-a partir;
olhava para o céu e agradecia aquele dia.
Voltou ao seu herdado transporte e percorreu os
intermináveis quilómetros que o separavam do seu novo lar.
Ainda o sol não tinha refletido os seus raios nas espigas de
cereais dos longos campos que rodeavam a sua morada
paroquial, já o Senhor Padre estava a pé e preparado para se
reunir com o passado. Vestira o seu velho fato negro que sacudiu
do pó.
Percorreu aquela distância que o separava da cidade sem
reparar nem na paisagem, nem naquele acidente que tinha
ocorrido ao passar pela velha ponte sobre o seco ribeiro, nem
mesmo no viajante que circulava arrastadamente e pedia,
estendendo o polegar, que o levassem.
Chegou à cidade, ao parque de crianças e ao banco de
madeira; sentou-se e olhou em volta sem ver vivalma.
Bebeu, novamente, um pouco de água da bica das
crianças e olhou novamente para o céu azul-quente daquele dia
cor de milagre.
78.
- 76 -
Osol brilhava e o calor obrigava a que enrugasse a testa
húmida ao olhar para cima de olhos semicerrados.
O que iria fazer da sua vida. Era um homem de Deus e aquilo
que estava a acontecer era um pecado. Mas Deus não o poderia
castigar por voltar a sentir amor, algo que sabia estar na base de
todos os ensinamentos que absorvera ao longo da sua formação
sacerdotal.
Mastigava estes pensamentos na sua cabeça quando foi
interrompido por uma voz doce que o fez esquecer todas aquelas
dúvidas que lhe tinham preenchido os breves momentos de solidão
perdida.
Falaram longamente das suas vidas.
Trocaram silêncios cúmplices sempre que a escola primária
era tema de recordação ou quando lembravam as noites fugidas
ao colégio em que cruzavam mensagens surdas por breves
momentos.
Repetiram cantilenas da infância e partilharam gargalhadas
quando se referiam às histórias do Nabo ou às do Professor Sá a
discutir com a Professora Francisca sobre as suas aulas ruidosas que
não o deixavam ensinar condignamente os meninos.
Madalena contou o que se passou quando teve de sair de
casa para trabalhar naquela família que a acolhera; falou do seu
sofrimento às mãos daquela mulher que o pai decidira colocar em
casa para não se sentir só e o acompanhar na bebida. Recordou o
sofrimento sentido no dia em que percebera que não mais iria ver
79.
- 77 -
oJosé. Mostrou todas as cartas guardadas não-respondidas ao
longo dos anos de afastamento.
O José recordou o seu sofrimento profundo ao saber que
saíra do Colégio diretamente para o Seminário sem ter a
possibilidade de a rever. Enumerou os momentos passados em
frente ao papel branco de carta que dirigia para casa na
esperança de receber resposta. Contou o momento em que,
naquele dia de despedida paterna, a procurara entre a multidão
sem a ver.
Falaram, riram, suspiraram; viveram anos num dia.
No final daquela jejuada jornada consentida, tinham
decidido que nunca mais se separariam independentemente das
promessas realizadas no passado.
O José falaria com o Arcebispo para o deixar sair do
sacerdócio. Comunicaria a sua decisão aos seus fiéis e
abandonaria a paróquia para viver com a Madalena.
A Madalena sairia de casa dos patrões para viver ao lado
do seu José. Agradeceria o apoio e dedicação dos que a tinham
recebido e, apesar de não querer imaginar a dor da separação
das crianças, partiria com aquele homem.
Assim decidiram e juraram cumprir trocando um beijo
inquieto na face.
Alguns dias após este reencontro, o Senhor Padre dirigiu-se,
no seu usado carocha, à cidade com o objetivo de voltar
80.
- 78 -
acompanhadopara a sua pequena aldeia. Ficariam na sua
residência até que arranjassem morada própria para os dois.
Estacionou junto à casa onde Madalena trabalhava e
acolheu-a chorosa da despedida da família que a recolhera.
Abandonou as lacrimosas crianças que tinha ajudado a criar,
abraçando-as e beijando-as na testa.
Colocaram os poucos haveres que acumulara na pequena
mala frontal do carro e seguiram caminho.
Percorreram estradas pavimentadas, serpentearam por
aquele caminho poeirento desviando-se, quando possível, das
pedras que iam pontuando o chão, passaram um velho e alto
castanheiro e estacionaram no terreiro da sua residência
paroquial.
Foram, naquele momento, vistos pela Ti Josefina; a
descoberta levou o Padre José a inventar uma narrativa. Confiá-la-
-ia aos seus paroquianos de forma a evitar os "diz-que-disse" e os
comentários abafados que sabia serem comuns por aquelas
bandas.
Foi Madalena apresentada a todos os fiéis como
empregada que vinha tomar conta das lides caseiras do Senhor
Padre. Seria ela a tratar da lavagem da sua roupa, da limpeza da
casa e da preparação das suas refeições.
81.
- 79 -
Unshabitantes torceram um pouco o nariz à explicação,
arrastados pela beleza da rapariga e pela gaguez momentânea
original do Senhor Prior.
Chegaram mesmo a comentar pecaminosamente entre si
que aquilo ainda ia dar chamusco.
Isto não me cheira nada bem!
Pois é, vamos ver no que isto vai dar.
Um homem novo e jeitoso com uma moça bonita, sozinhos
em casa!? Vai ser lindo.
Ali retomaram as suas vidas tentando manter as aparências
perante os vizinhos da aldeia, não conseguindo evitar que alguns
deles continuassem a achar tudo aquilo um pouco estranho.
O Senhor Padre continuava, no início, a parecer o mesmo
homem e todos os habitantes da aldeia agradeciam por ter um
enviado de Deus que desse a missa todos os domingos, que os
ouvisse em confissão, que batizasse as poucas crianças que iam
nascendo e perdoasse os defuntos; não queriam muito saber
daquilo que o Senhor Padre fazia dentro de portas.
Madalena mantinha-se fechada em casa à espera do seu
José para o almoço, para o jantar e para o carinhoso repouso
noturno.
82.
- 80 -
OSenhor Padre dava a missa de domingo, dava os restos de
hóstia não sacramentada ao seu ajudante e partia a correr para
casa sem sequer se despedir dos paroquianos.
Quando era chamado para algum serviço, fosse batizado ou
funeral, fazia-o com a competência que lhe era conhecida, mas
sem perder muito tempo para voltar para junto da Madalena.
Esta alteração no comportamento do Senhor Prior fazia com
que o grupo daqueles que tinham torcido o nariz fosse crescendo
em número e em certezas.
Daquela relação carnal resultou, alguns tempos passados, a
gravidez de Madalena.
Não querendo que o José acabasse com a sua vida
paroquial, ela sempre lhe pedia para a levar à cidade onde
poderia visitá-la quando lhe aprouvesse.
O José respondia-lhe constantemente que não se separaria
mais dela e que iria cumprir o seu pensamento original de pedir ao
Arcebispo para o libertar do seu juramento, contando-lhe tudo o
que tinha acontecido.
Madalena continuava a insistir que convivia bem com
aquela situação. Não queria que ele abandonasse a sua fé e
sugeriu que montasse casa para ela e para o filho numa outra vila
distante daquela sua aldeia onde ninguém os conhecesse.
83.
- 81 -
Como jeito que lhe era característico, convenceu o José a
aceitar a sua sugestão e assim ficou marcado acontecer a partir
do momento em que se começasse a notar que a pequena
barriga se destacava.
Viveram tempos felizes de homem e mulher durante os
poucos meses em que conseguiram esconder o segredo dos fiéis
da aldeia.
Um dia, o José chegou a casa e comunicou que tinha
cumprido o desejo de Madalena.
A gravidez começara a ser visível e ele montara casa numa
pequena vila a alguns quilómetros dali; a distância não era
demasiada para evitar que a visitasse amiúde e podiam criar o
filho sem que ninguém desconfiasse. Para além disso, teria melhor
acompanhamento médico durante aquele período na vila.
Partiram para a nova morada ímpia e instalou-se a
Madalena no conforto que lhe tinha sido preparado por José.
Todos os dias lá voltava à socapa, depois de retirados,
durante a viagem, os símbolos roupais da sua devoção, para que
ninguém desconfiasse ou criasse reais imagens daquele amor
proibido.
Madalena ia justificando as ausências e constantes partidas
de seu "marido" com uma ocupação de comerciante que o
obrigava a longas e diárias viagens.
84.
- 82 -
Mantiveramesta relação familiar até ao momento em que a
grande hora chegou. O filho tinha marcado o seu momento de
surpreender os pais.
Madalena foi assistida por uma parteira reservada da vila,
previamente avisada, que era costume trazer ao mundo as
crianças das vizinhas; nascera o "fruto do pecado", como diziam na
época sempre que um filho nascia de uma relação entre um
homem e uma mulher não casados.
Quando José chegou, uma vez mais, a casa, assistiu àquele
quadro natalício de seu filho no colo de Madalena deitados na
cama; Madalena sorriu e entregou-lhe o fruto do seu longo e
demorado amor.
José olhou para aquele seu filho longamente e abençoou-o
como fizera sempre com as crianças dos outros na altura do
batismo.
Deu-lhe um beijo na testa rosada e ainda húmida. Sentiu-lhe
o cheiro característico.
Acariciou a cara de Madalena e beijou-a na face.
Recebeu o último suspiro sorridente daquela que tinha
reencontrado após uma separação prolongada.
O parto tinha decorrido conforme previsto pela parteira.
85.
- 83 -
Jáa criança tinha recebido a primeira luz do dia e
Madalena sentira uma forte dor abdominal. A parteira teria ido
cuidar da criança, mas ao ouvir os queixumes da mãe, teria
pousado o recém-nascido e verificara que a mãe sofrera uma
hemorragia interna muito grave. Aconselhara que fosse levada
para o Hospital, sugestão que Madalena recusara de imediato por
não poder contar a verdade sobre aquela criança fruto do
pecado.
A parteira tentara resolver a situação com o que tinha à sua
disposição, mas a condição afigurara-se irreversível. Madalena
pedira unicamente que a mantivesse acordada o tempo suficiente
para, pela primeira vez na sua vida, cumprir o desejo de estar em
família com o seu filho e o seu grande amor.
José amaldiçoou, com lágrimas que corriam do seu rosto
para o do pequeno e se confundiam com a humidade daquele
novo ser, aquele Deus que lhe tinha retirado a mãe do seu filho
após a ter encontrado ao fim de tantos anos.
Acatou aquela que lhe parecera uma decisão vingativa do
Deus a quem tinha devotado grande parte da sua vida, aceitando
aquela criança como uma espécie de compensação pela perda
sofrida.
Partiu daquela casa deixando para trás tempos de feliz
convivência velada e de inúmeras lembranças de um curto tempo
conjugal.
86.
- 84 -
Numanoite de sábado chegou à sua pequena aldeia com
o filho ao colo.
Comunicou aos discípulos daquele Deus que tão mal lhe
fizera, que aquela criança teria sido abandonada à porta da
sacristia da Igreja. Não sabia quem eram os pais, mas como bom-
-pastor acolhia aquele elemento novo do seu rebanho; trataria
dele com todo o amor fraterno que qualquer cristão deve
demostrar pelos seus irmãos em Cristo.
As mulheres ouviram aquelas palavras santas e deixaram
correr uma lágrima emocionada pelas faces, apertando a mão à
vizinha que se sentava a seu lado.
Os homens, quase todos os homens, sentiram aquele apego
cristão do Senhor Padre como um gesto digno de um santo. Outros
voltaram a torcer o nariz e a abanar afirmativamente com a
cabeça, pensando no seu íntimo "eu bem sabia" ou "disse logo que
isto cheirava a chamusco desde o princípio". Nada disseram
naquele momento, mas a dúvida ficou instalada.
Cuidou daquele seu filho como de um filho se deve tratar,
mantendo sempre o segredo partilhado com a entidade por si
amaldiçoada; sentia que ao dar o seu amor, o seu carinho e o seu
cuidado àquela criança mostrava a sua vingança contra a
maldade divina sofrida; ao mesmo tempo agradecia a Madalena
os momentos felizes passados e aquele fruto do seu amor.
87.
- 85 -
Acriança cresceu ali no ceio daquela comunidade e
quando atingiu a juventude foi enviado para a cidade.
Estudaria lá, cursaria medicina e só voltaria quando
merecesse ser chamado Doutor.
O Senhor Padre veio a falecer com a sua longa idade
naquela terra que lhe tinha sido atribuída e à qual tinha dedicado
a sua fé.
- 89 -
V
OZé Amado era um homem solteiro que, como dizia,
conhecia mundo.
Não tinha encontrado ninguém com vontade de aturar o
seu constante mau-humor, pelo que se mantivera sozinho ao longo
da vida.
Tinha, uns anos antes, partido para a Suíça, mas voltara
rapidamente por não se adaptar nem ao tempo, nem às palavras
que as pessoas deixavam sair da boca. No entanto, esta breve
saída para o estrangeiro tinha-lhe dado um estatuto, entre os
vizinhos, de conhecedor das coisas da vida e das realidades das
pessoas lá de fora.
Era a ele que os mais velhos recorriam quando havia um
campo para lavrar. Metia lá o trator que comprara logo depois da
chegada da Suíça com o dinheiro que tinha trazido, e num piscar
de olhos punha tudo pronto para a sementeira.
Era ele o moço da terra que ajudava os mais velhos nas
tarefas mais pesadas, recebendo o almoço ou o jantar e uma
pinga, dependendo da hora a que terminasse as suas tarefas.
Era assim que gostava de viver e de se manter, até porque
não sabia cozinhar e tanto o pai como a mãe estavam já junto à
igreja, debaixo daquela mesma terra, fazendo companhia à
Teresa e aos restantes habitantes que tinham já partido, e não
tinha ninguém que lhe fizesse um prato de comida de jeito.
92.
- 90 -
Dizia-se,na aldeia, que ele tinha voltado da Suíça cheio de
fome e que o não saber cozinhar fora a sua perdição lá fora.
Sabiam que tinha morado, durante aquele tempo em que estivera
emigrado, juntamente com mais seis homens, num quarto
minúsculo com camas amontoadas. Tinham de lavar a roupa
numa pequena bacia, fazer as compras e cozinhar.
Sabiam, ainda, que quando chegava a vez de ele cozinhar,
os colegas se queixavam daquilo que ele dizia ser um prato típico
da sua aldeia e que mastigava alegremente sem mostrar os dentes
em nenhum momento. Os colegas chegaram mesmo a dispensá-lo
da cozinha e a encaminhá-lo para a lavagem da roupa e da
louça, algo que ele não fazia com muito agrado por serem "coisas
de mulher".
Quando não havia trabalho a realizar para os vizinhos, lá
tinha de pegar em duas ou três batatas, umas couves e um pouco
de água, pô-las ao lume e tentar matar a fome com o tal "prato
típico" da sua aldeia, que na verdade era só tipicamente seu: um
caldo malfeito
Dia 15 de novembro de um ano já distante, nascia, naquela
pequena aldeia perdida entre montes e vales, um menino pálido
que não chorou no momento em que era esperado pelo Doutor
que se tinha ali deslocado da vila para atender aquela modesta
mulher.
93.
- 91 -
Mariade Fátima Pereira era uma senhora com uma
experiência de vida justificada pelos seus quase cinquenta anos de
existência.
Pequena e de tez clara, tratava bem do seu cabelo negro
que combinava com as suas pestanas longas e sobrancelhas bem
desenhadas.
As mãos pequenas e calejadas apresentavam sempre umas
unhas bem tratadas. A pele macia contrastava com a solitária vida
dura que lhe tinha sido destinada.
Nascera naquela aldeia de Castanheiro da Princesa, onde
vivera toda a sua vida; só de lá se tinha temporariamente afastado
nas raras e pontuais idas à vila em dias de feira, à imagem da
quase totalidade dos vizinhos.
Aí, para além dos bens necessários à sobrevivência,
procurava algum produto para manter a sua beleza natural que
conseguisse contrariar a passagem do tempo.
Conhecera um homem que se tinha deslocado a
Castanheiro para, dissera ele na sua qualidade de comerciante,
comprar umas ovelhas que esperava serem criadas por ali.
Batera à porta de Maria de Fátima aquela estampa de
homem com os seus trinta e muitos anos, que fora recebido com
muito entusiasmo.
Aquele jovem ter-se-ia apercebido da fragilidade da mulher
e conseguira convencê-la a deixar que ficasse em sua casa. Como
94.
- 92 -
moravanuma das pontas da aldeia, ninguém se apercebeu que
um estranho se tinha instalado com a vizinha.
Uma mulher que vivia sozinha no meio de nada, foi o alvo
perfeito para aquele indivíduo que queria unicamente aproveitar-
-se de situações não acompanhadas por vizinhos cautelosos, como
aquela.
Dando cumprimento ao desejo de ser mãe, Maria de Fátima
engravidou algumas semanas depois, tendo descoberto o
desaparecimento do homem dois dias após euforicamente lhe ter
comunicado que supunha estar naquele estado que os levaria a
ser pais em breve.
Nesse dia, acordara de manhã bem cedo e sentira a falta
do jovem companheiro a seu lado.
Levantara-se e procurara-o por toda a casa. Espreitou no
exterior e também nada descobriu.
Concluiu, tristemente, que teria fugido; reparou que uma
pequena cruz em ouro, que herdara da sua mãe, e uma pulseira
dourada, que lhe tinha sido colocada no pulso pela sua madrinha
no dia de batismo, tinham desaparecido da gaveta aberta da
cómoda do quarto onde guardava aquele seu único tesouro.
Chorou durante alguns dias sem conseguir sair de casa, mais
pela perda dos seus bens do que pela do companheiro; esta
ausência temporária da Maria de Fátima causou estranheza na
vizinhança.
95.
- 93 -
ATi Teresa Violante, com o objetivo de descobrir os motivos
do misterioso desaparecimento da vizinha, deslocou-se a sua casa
numa tarde sombria e ouviu a mulher em confissão.
Confessado o pecado da carne vivido e os motivos para tal
ilusão, Teresa ofereceu-se, desde logo, para a ajudar em tudo o
que fosse necessário, inclusive a levar a bom-termo aquele
nascimento tão desejado.
Todos os habitantes da aldeia acabaram por saber daquela
sua história; nunca a julgaram, no entanto, compreendendo que
aquele malfeitor tinha enganado a pobre mulher, aproveitando-se
da sua fragilidade.
Quem me dera apanhar o malandro!
Diziam alguns homens.
Se o visse cortava-lho, para não fazer mal a mais ninguém!
Diziam outros que eram aprovados nas suas intensões pelas
respetivas mulheres.
Maria de Fátima Pereira dera ao mundo aquele rapazito que
não se revoltou gritando à terra naquele momento natal. A seu
96.
- 94 -
lado,para além do Doutor, tinha Teresa que lhe segurava a mão
tentando acalmá-la com a sua experiência.
José Manuel Pereira Amado era um menino muito calado e
mal-humorado na maior parte das horas do dia. Tinha recebido o
Pereira da mãe, o Amado do pai que não conhecera (apesar de a
mãe sempre lhe dizer que aquele nome vinha do facto de sempre
o ter amado muito, mesmo antes de ter nascido); José Manuel era
homenagem ao avô.
Aquele menino sempre triste brincava pouco com as outras
crianças da povoação. Iam ter com ele a casa, convidavam-no
tentadoramente para brincar, mas este preferia quase sempre ficar
em casa a tratar das suas construções imaginárias.
Quando, raramente, aceitava o convite, aguentava pouco
tempo na companhia dos amigos; depressa começavam a jogar
aos pais e às mães o que lhe era estranho por nunca ter vivido em
ambiente parecido.
Quando o dia era dedicado aos ninhos, depressa desistia
por não gostar de aprisionar aqueles passarinhos que eram
retirados às progenitoras.
Cresceu no seu pequeno mundo limitado à sua pequena
aldeia. Para admiração da mãe, nunca sentiu necessidade de
perguntar ou saber quem era o seu pai. Aceitava a sua situação e
satisfazia-se com a sua família de dois.
97.
- 95 -
Ficousó quando a sua mãe faleceu prematuramente com
sessenta e cinco longos anos de experiências de vida; tinha ele
quase atingido a idade adulta de dezassete anos e via-se naquela
casa vazia, isolado.
Vendo-se sem trabalho que o mantivesse alimentado,
apesar das ajudas que recebia dos vizinhos e especialmente da Ti
Teresa, que mantivera a sua promessa durante todos aqueles anos,
decidiu partir.
Aproveitou a oferta de um tio que teria mantido contactos
na Suíça; estivera emigrado nesse país distante durante muitos
anos e decidiu ajudar aquele sobrinho a dar rumo à vida.
Foi apresentado a um grupo de viajantes que, como ele,
estavam determinados a partir para não terem de continuar a
sobreviver com o pouco que a terra lhes dava. Era gente de
aldeias dedicadas à terra, umas mais próximas e algumas que se
situavam a maior distância. Estavam unidos por esse desejo de
sorte e determinados a tudo fazer para que ela aparecesse.
Ensacou uma pouca de roupa, à qual juntou os pedaços de
pão que lhe restavam da cozedura comunitária e o queijo que
recebera das ovelhas do rebanho dos habitantes locais.
Juntou-se aos outros seis homens, numa manhã de junho,
numa aldeia onde nunca tinha estado, mas à qual seu tio o
acompanhou para a despedida.
98.
- 96 -
Partiram.
Àfalta de transporte que os levasse naquela viagem,
avançaram a pé até ao momento em que fossem recolhidos por
uma velha camionete que os deixaria no destino.
Partiram em direção a Espanha, à cidade de Salamanca,
onde esperavam ter transporte motorizado para a restante
viagem, como estava combinado.
Esta primeira etapa da viagem demorou-lhes uns penosos
doze dias por territórios desconhecidos para a maior parte deles. Só
um dos homens fizera já o caminho e confiavam todos nos seus
conhecimentos geográficos e na sua capacidade de orientação.
Caminhavam doze horas diárias, tinham de arranjar o que
comer e beber em pequenas atividades temporárias que iam
arranjando ao longo do caminho.
Descansavam quando havia tempo, mas sempre com o
pretendido destino em mente.
Passou por muitas terras, por montes e rios que nunca tinha
percorrido. Nunca viu, no entanto, nenhuma que fosse tão bela
quanto a sua, mesmo não tendo nenhum curso de água; tinha, no
entanto, uma bica de água de nascente fresca que dava saúde a
todos os que dela bebessem.
Por onde passavam, eram ajudados pelos locais que
estavam já acostumados àqueles grupos de pessoas que
99.
- 97 -
infelizmentetinham de partir de suas casas para encontrar uma
vida melhor para eles e para as suas famílias.
Ofereciam-lhes dormida nos palheiros que acolhiam os
produtos recolhidos da terra; alimentavam-nos com uma sopa e
algo mais que houvesse para terem força para a longa viagem.
Que seja por Deus!
Muito obrigado.
Abordada a cidade de Salamanca, um local que lhe
pareceu outro mundo pela diferença de movimento e gente que
por ali vivia, apanhou transporte para a restante viagem.
Chegou a Santander dois dias depois da conclusão da
longa caminhada. Demoraram mais três dias a chegar às portas do
seu destino suíço. Após atravessarem a difícil fronteira, atingiram
Bordeaux, depois Lyon antes que mais uma fronteira a ultrapassar
se aproximasse.
Em tempo de emigrantes, a vigilância era muita nos postos
de controlo e a limitação à passagem maior ainda do que a vigia.
Era comum alguns emigrantes serem impedidos de passar os
postos fronteiriços, ou por não terem os documentos necessários,
ou por terem aspeto de quem iria sem objetivo de vida previsto
para o estrangeiro.
100.
- 98 -
Ogrupo do José Amado foi parado na fronteira de França
que lhes dava acesso ao país de destino. Um dos elementos do
grupo pareceu suspeito a um dos polícias de fronteira que ali se
encontravam. Foi revistado, foram-lhe pedidos os documentos e
apesar do susto sofrido, lá seguiram caminho, de novo juntos.
Cruzou mais esta etapa da viagem e depois de Genève, lá
chegaram ao esperado destino.
Aquela cidade suíça pareceu-lhe ainda mais assustadora do
que a espanhola que achara tão grande e movimentada. Não
percebia nada do que as pessoas diziam e sempre que
interpelado por alguém, sorria e seguia em frente abanando a
cabeça e encolhendo os ombros.
Os olhos brilharam de admiração quando viu, ao longe, o rio
Ródano que lhe pareceu não ter fim. Apreciou aquele mundo
aquático como quem nunca vira tanta água acumulada num só
local.
Com muita fome, muito cansaço e muita esperança, ao fim
daquele terrível tempo de viagem pioneira, enfrentou a longa
escadaria que conduzia à pequena vila de Gruyères.
Esperava-os um pequeno quarto de camas sobrepostas em
madeira, com um pequeno fogão e uma bacia para lavagem da
roupa e do corpo.
101.
- 99 -
Tinham,no entanto, uma janela por onde olhar para uma
bela paisagem natural e rústica.
Do quarto de Zé Amado via-se a larga praça empedrada a
que tinha acesso depois de descer umas escadas construídas com
o mesmo material natural que se prolongava da praça.
Aquela praça era dominada por uma pequena igreja muito
parecida com a que estava acostumado a frequentar na sua
aldeia natal.
A Chapelle à Calvaire tinha um pequeno telhado em
madeira à sua entrada. Os fiéis eram acolhidos por duas imagens
colocadas por cima da porta que escoltavam uma cruz de Cristo
cruxificado.
As largas portas em madeira eram um convite à entrada e à
oração dos que por ali passavam.
Bancos corridos em madeira estendiam-se ao longo do
espaço semiobscurecido; estes assentos viriam a ser um dos
poucos locais que se tornariam costumeiros para o Zé na sua
aventura.
Ao longe via-se um grande castelo de torres altas
amareladas pelo tempo; rivalizavam mesmo, em altura e
grandiosidade, com os altos picos dos Alpes que se apreciavam à
distância.
102.
- 100 -
Ojovem emigrante foi colocado a trabalhar numa fábrica
de queijo. Outros receberam ocupação na construção civil e um
outro foi até chamado para limpeza de um pequeno café e
restaurante que existia muito perto da sua residência.
Viria a revelar-se, este restaurante, um elemento
fundamental à sobrevivência do grupo no tempo em que por ali
ficou. Depois de servidos todos os que se dirigiam ao espaço com
vontade de almoçar ou jantar, era possível recolher, em folhas de
jornal, os restos das refeições. Quase todos os dias era possível
presentear os colegas de quarto com os restos de petiscos que o
empregado levava para o quarto.
Levantavam-se sempre com os primeiros raios de luz que
entravam pela janela. Repartiam a bacia existente para a sua
limpeza corporal, seguindo um horário rígido estabelecido em
concordância com a idade de cada um.
O Zé Amado, por ser o mais jovem, era o último na lavagem
corporal; este facto até lhe agradava por não ter de ser assistido
naquele momento íntimo pelos outros companheiros.
Comiam alguma pouca comida que o empregado do
restaurante trouxera no dia anterior e partiam para um dia de
trabalho.
103.
- 101 -
OZé Amado, antes da labuta diária, passava sempre pela
pequena capela do largo em frente a casa. Entrava e falava sobre
a sua vida, recordando a sua mãe e os poucos amigos com quem
pontualmente brincava enquanto criança. Agradecia a sorte que
tivera ao encontrar um trabalho que lhe daria, com toda a
certeza, um futuro melhor.
Seguia, depois, a Rue de la Cité que percorria durante
quinze minutos entre campos verdejantes cultivados, mas sem os
cereais a que estava usado na sua aldeia; virava, em seguida,
para a Rue du Bourg que o levava ao seu trabalho na Place de la
Gare. Uma fábrica de queijo em tijolo vermelho rodeada de
verdura era o que lhe dava a esperança de sobreviver naquela
terra tão distante.
A fábrica de Gruyère era um espaço com história.
Dentro de portas, era composto por várias salas. Surgiam
divididas por paredes em madeira onde eram pendurados alguns
dos utensílios necessários ao fabrico do queijo.
Na sala onde trabalharia o jovem português havia,
dependurados nas paredes, alguns jarros em metal, umas cordas,
umas pás em madeira muito compridas e umas peneiras com
fundo em tecido.
Acedia-se a esse espaço descendo uma estreita escada em
madeira dividida ao meio para distinguir os que subiam e os que
desciam.
104.
- 102 -
Nomeio daquele espaço fora colocado um enorme
caldeirão metálico ligado ao teto por um grosso gancho de ferro.
Por baixo havia uma pequena fogueira.
Um homem de farto bigode enrolado na ponta, calças de
suspensórios que se sobrepunham a uma camisa de manga
recolhida até ao cotovelo, acolheu o novo funcionário com um
"Bonjour."
José Amado esboçou um sorriso e inclinou a cabeça para a
frente, cumprimentando aquele que lhe tinha dito alguma coisa
que não percebera.
O homem repetiu o gesto de José Amado e dirigiu-lhe mais
uma palavra acompanhada pelo encostar da mão ao próprio
peito.
François.
Zé Amado.
Respondeu o jovem aprendiz com a alegria de quem
percebera o significado daquele gesto.
François era um velho empregado da casa, especialista no
fabrico do queijo. Era ele o responsável por mexer o leite naquele
grande caldeirão, com a enorme colher em madeira. Mantinha
105.
- 103 -
aquelegesto circular automático até ao momento em que o
líquido branco se transformava numa pasta uniforme a que
chamava "fromage en grains".
Devido à sua avançada idade, pedira um aprendiz a quem
transmitisse os seus conhecimentos e desse continuidade ao saber
que tinha recebido do seu mestre e este do anterior, durante
tempos imemoriais.
Era um trabalho fundamental, de responsabilidade e de
precisão; era necessário manter sempre o mesmo ritmo no
movimento circular, misturar os ingredientes corretos que se
encontravam nos jarros de metal que decoravam as paredes,
medindo perfeitamente as quantidades. No momento certo tinha
de ser levantado o enorme caldeirão suspenso, puxando uma
corda, de forma a reduzir a quantidade de calor e obter o produto
final de forma correta.
Sentia, o jovem aprendiz, as dificuldades da língua; não
percebia nem o que lhe diziam os colegas de trabalho nem o que
o alto mestre lhe dava como tarefa. Aprendeu, por gestos e
observação atenta, tudo o que levava o leite àquele queijo que
repousaria, depois, em altas prateleiras de madeira durante anos.
Depois de recolhido o "or" que com orgulho o velho François
criara, era o mesmo transportado para uma sala acima daquela,
onde um grupo de mulheres acomodava em peneiras de fundo
106.
- 104 -
emtecido que resultava, depois de bem espremido, numa forma
circular achatada.
Repousavam, depois, aquelas formas numa velha sala
escura onde dominavam as prateleiras em madeira que se
estendiam da terra até ao teto lenhoso.
Aquela falta de diálogo não o incomodava muito, já que
sempre estivera habituado a esconder-se no seu próprio espaço e
nunca tinha sido pessoa de muita conversa.
Sempre foi considerado um bom funcionário, replicando
facilmente a realização de todas as atividades que lhe eram
atribuídas. Foi muito apreciado pelos colegas e pelo seu mestre
que constantemente lhe dirigia um "Très bien!"; aceitava-o sem o
perceber, mas julgava ser algo de bom pelo sorriso daquele velho
homem alto e da palmada nas costas.
Muitas vezes, sendo do conhecimento de todos as
dificuldades sentidas pelo jovem emigrante, recebia um pouco de
leite ou mesmo um queijo que tinha saído menos composto das
mãos mecânicas das mulheres.
Chegava a casa, no final do dia, sem antes deixar de voltar
à capela para agradecer a superação de mais um dia de trabalho
e de vida. Sabia que mais um dia passado correspondia a menos
um para voltar à aldeia.
107.
- 105 -
Apresentavam,aqueles homens, o que tinham conseguido
recolher ao longo do dia e juntavam o pouco que tinham
comprado para a sobrevivência diária. Seguindo um novo
calendário similar ao do das lavagens matinais, cozinhavam à vez
e lavavam, na mesma bacia da higiene corporal, a louça utilizada;
resumia-se a lavagem a um copo de cada um, um prato da sopa
que era o mesmo da comida, quando havia, assim como um garfo
e uma colher pessoais. Facas, por só haver três, eram partilhadas
entre eles quando a refeição se enfeitava com um pedaço de
carne ou peixe que milagrosamente saboreavam.
Ao fim de algum tempo, os colegas começaram a ter
possibilidades para melhorar as iniciais refeições; no entanto, no dia
em que o jovem se transformava em cozinheiro, o apetite dos
convivas não era igual à dos outros dias. Acabaram por alocar o
Zé à lavagem da loiça, permitindo, para bem de todos, que não
dedicasse a sua atenção ao fogão. Os pratos típicos que dizia
preparar eram unicamente apreciados pelo jovem Amado,
ficando todos os outros com o estômago vazio por dificuldades em
engolir o petisco preparado.
Aguentou aquela vida em terras distantes durante algum
tempo, mas a fraca alimentação e as dificuldades em entender o
que diziam as pessoas com quem convivia ao longo do dia,
começavam a fazer com que pensasse em regressar à terra antes
do tempo previsto.
108.
- 106 -
Juntava,todos os meses, a maior parte do dinheiro que
recebia pelo trabalho realizado.
Conseguia, ainda, um pouco mais de rendimento com a
venda de alguns dos queijos malformados que recebia
pontualmente pelo seu excelente trabalho (conforme dizia aos
seus colegas de residência).
Um dia, sabendo da partida de um grupo de portugueses
em direção a Espanha, decidiu que tinha chegado a hora de
regressar a casa. Atingira o limite das suas forças e sentia que afinal
não era homem para aquilo. Para além disso, já tinha algum
dinheiro junto que lhe permitiria começar uma vida mais
desanuviada.
Com muita pena dos amigos que deixava e que o tinham
apoiado todo aquele tempo, do seu mestre que tanto lhe ensinara
na fábrica, partiu, numa manhã de muita chuva, com o grupo de
regressados à terra.
Percorreu o caminho de regresso até Valladolid com os
novos parceiros de viagem. Aí abandonaram a parte do trajeto
feita sentados e palmilharam, durante quinze dias, o longo
caminho até à pátria.
Na última parte da longa viagem seguiu, sozinho, para a sua
aldeia onde chegou após cinco dias de longa caminhada.
Deparou-se com o velho castanheiro que surgia após um
caminho em terra poeirento e ziguezagueante entre montes e
vales.
109.
- 107 -
Respirouprofundamente aquele ar que tanto desejara.
Absorveu aquele odor característico a castanhas, madeira,
cereal e terra.
Encostou a sua mão à enrugada madeira do tronco daquele
velho amigo, encostou-se e deixou o corpo ir escorregando até
que se sentou sobre as castanhas e os ouriços que revestiam o
chão. Nem sentiu a picada dos ouriços de tão alegremente
cansado que se sentia.
Tinha aprendido tanto em tão pouco tempo que se sentiu
sábio. Conhecera mundos diferentes, pessoas estranhas, amigos
novos e principalmente uma profissão paga que nunca tivera.
Sentira-se um homem importante e útil pela primeira vez na vida.
Acima de tudo, tinha sobrevivido e conseguido voltar a
casa, apesar de fraco.
Adormeceu, de cansado, ali encostado ao nome de uma
princesa estranha que conhecera na sua infância, em frente ao
fogo, nas histórias contadas pela mãe.
Foi acordado do seu sono cansado e reconfortante por uma
massagem húmida na sua face óssea marcada pelo cansaço
alegre do regresso a casa.
Abriu os olhos e viu aquele focinho negro e peludo de cão.
Assustou-se admiradamente com aquela presença canina que se
110.
- 108 -
posicionaraà sua frente, de língua húmida a sair entre os dentes
afiados brancos.
Era um animal magro, como o homem que se encontrava à
sua frente, de pelo comprido castanho maltratado e que ali se
tinha sentado a guardar aquele sujeito cansado, não deixando
que ninguém lhe fizesse qualquer mal ou o acordasse do seu
descanso merecido.
Os seus olhos brilhantes e escuros da cor da noite mostravam
a necessidade suplicante que tinha de encontrar alguém com
quem estar. Acompanhava o olhar com o abanar de cauda
frenético e com o arfar constante.
Aquele homem sempre habituado a estar na sua solidão,
mesmo quando estava no meio de alguns companheiros,
encontrara um companheiro para o resto da sua vida, um amigo
que o acompanharia para sempre. Pedia em troca a única coisa
que, apesar de desconhecida, era fácil Zé Amado dar: cuidado e
carinho.
Acompanhado do seu novo fiel amigo, caminhou até à sua
velha casa que se situava numa das pontas da aldeia.
Procurou a chave que normalmente a mãe colocava por
baixo do vaso de cravos vermelhos do último degrau antes da
porta de entrada.
111.
- 109 -
Àimagem de sua mãe, também ele a tinha deixado nesse
mesmo local secreto, conhecido dos vizinhos, quando partira à
procura da sua nova vida em terras distantes; aí a encontrou
coberta pelo vaso esverdeado que não era agora mais do que o
depósito de um ser morto rodeado de ervas compridas.
Abriu a porta rangente e entraram.
O primeiro que sentiu foi o cheiro de sua mãe misturado com
o mofo que não conseguia, apesar de tudo, abafar o perfume
corporal a flores que se habituara a reconhecer desde o
nascimento.
A luz entrava pela janela aracniana por cima da velha pia,
em pedra, de água de nascente que ali chegava depois de
percorrer muitos quilómetros desde o monte; aquela claridade
natural transformava a atmosfera num mundo repleto de
pequenas partículas de pó que se elevaram com a sua chegada e
se moviam irregularmente pelo ar em fios de luminosidade.
As teias de aranha da janela repetiam-se por todo o espaço
da casa como um lençol tecido no mais fino tear e com os mais
raros fios; enfeitavam as lâmpadas nos tetos e, em zonas mais
húmidas, tinha nascido algum musgo.
O pouco mobiliário da casa estava agora coberto de um
branco irrespirável que pairava logo que as janelas ou a porta
deixavam a aragem passar.
112.
- 110 -
Ospotes de tripé continuavam colocadas junto aos restos de
madeira queimada da última fogueira acesa por si, para a
preparação do costumeiro caldo.
Da parede do seu quarto pendia, ainda, a imagem da
"Última Ceia" debotada pelo tempo e pela pouca luz que lá
entrava. O velho crucifixo mantinha a sua posição sobre a mesa da
cozinha onde eram tomadas as refeições na companhia da sua
mãe.
Apesar de toda aquela sujidade desarrumada, Zé Amaro
sentia-se confortável, sentia-se acolhido, sentia-se alimentado
porque estava de volta à terra.
Passou alguns dias a recuperar dos tempos passados em
caminhos de Portugal, Espanha, França e Suíça; recuperou da
fraqueza acumulada e foi restituindo alguma organização àquele
espaço agora só seu.
Reordenou os poucos bens que herdara da sua mãe e
instalou os seus bens pessoais, que o tinham acompanhado na
recém-terminada aventura, nos sítios que lhe pareciam mais
adequados.
Com o dinheiro que tinha amealhado com o seu trabalho na
fábrica do queijo e com o negócio de venda dos prémios que
recebera pelo bom desempenho da sua aprendizagem, dirigiu-se
à vila, uns tempos depois, e comprou um velho trator com máquina
de arar.
113.
- 111 -
Restaurouo visual daquela máquina, já que a nível
mecânico se preocupou em adquirir o que estivesse perfeitamente
funcional.
Pintou-o, à mão, de uma cor entre o verde das ervas e o
castanho do cereal pronto a ser colhido.
Que bela máquina! Nunca vi coisa tão bonita.
Aquele trator deixava o terreno como se, geometricamente,
um pente tivesse passado naquele chão castanho.
Ficava sempre orgulhoso pelo trabalho realizado e reservava
os últimos minutos da sua jorna para, do cimo do campo, apreciar
a sua obra-prima riscada em castanho.
Respirava fundo do alto da sua máquina e ganhava vida
nova, esquecendo todo o cansaço da atividade agrícola.
Recebia essencialmente um prato de comida, normalmente
sopa, que o afastava da fome resultante da falta de jeito que
demonstrava para cuidar da sua alimentação. Comia aquela sopa
e bebia a sua pinga com a certeza de que aquele campo por si
trabalhado seria o que melhor cereal produziria naquele ano.
Certo é que assim acontecia sempre.
É do carinho especial que dou à terra.
114.
- 112 -
Elasente a minha dedicação e retribui com cereais
dourados.
O cereal de alta qualidade que recebia após a colheita
como paga, era utilizado, após a sua venda na vila, para
aquisição de combustível que alimentasse a atividade do seu
trator.
Quando não havia que fazer, lá tinha de recolher uns
quantos vegetais, juntá-los à água e cozinhar um caldo que lhe
matava a fome momentaneamente.
O seu novo amigo acompanhava-o em todas as atividades
agrícolas e comia, receosamente quando o cozinheiro era o
amigo, o pouco que com ele era carinhosamente partilhado. À
noite era quem dava o alarme, juntamente com o outro cão da
aldeia, quando sentia o cheiro a lobo, quando ouvia alguém que
passasse após o pôr-do-sol, quando havia trovoada, quando a
sede lhe secava o focinho ou quando ouvia o seu único
companheiro de quatro patas ladrar ao longe.
Nunca encontrara companheira que estivesse à altura dos
conhecimentos que tinha do mundo; na realidade nunca ninguém
se tinha apresentado com vontade de aturar o seu constante mau-
-humor.
115.
- 113 -
Contentava-secom a sua vida solitária ao lado do seu novo
e amistoso companheiro. Desconhecendo a totalidade da história
da sua mãe, pensava que se ela tinha vivido sempre sem
necessidade de nenhum companheiro que a apoiasse, também
ele conseguiria ser feliz. Asseverava a si mesmo que, por vezes, era
melhor estar sozinho do que com alguém que não tratasse bem
dele. Era, claro, uma desculpa que arranjara para justificar a sua
falta de jeito e apetência para conquistar a simpatia de qualquer
uma das poucas moças que por ali morava ou que via
admiradamente passar na feira.
O Zé Amado continuou com a sua vida na companhia do
seu cão e dos seus vizinhos naquela aldeia perdida no meio de
montes e vales.
Aproveitou, uns anos depois, a chegada de novos
moradores a Castanheiro da Princesa para criar o seu próprio
negócio.
Apoiou na recuperação da casa do Ti Laurentino onde viria
a morar o seu filho emigrado em França. Este filho juntar-se-ia aos
netos de Teresa que voltariam, uns anos antes deste, para cumprir
o secreto desejo do falecido avô.
Tinha ajudado na construção das casas destes novos
residentes, conseguindo ir sobrevivendo com algum dinheiro que
recebia, mas principalmente com a melhor alimentação que tanto
ele como o seu companheiro recebiam pelo trabalho realizado.
116.
- 114 -
Transformouo seu velho trator, que já não servia para o
trabalho da terra, num meio de transporte turístico com atrelado
de bancos em madeira, para os muitos viajantes que se
deslocavam à pequena aldeia.
Contava-lhes a história daquele casal, o Ti Laurentino e a Ti
Teresa, que se juntaram de mãos dadas e seguiram para o céu,
num cavalo negro, numa reunião esperada por ambos há muito
tempo.
Embelezava a sua história com uma ida ao cemitério onde
mostrava, de forma solene, a campa dos dois unidos de mãos
dadas numa imagem que os vizinhos lá tinham colocado em honra
de ambos e agradecimento ao ato heroico de Laurentino.
À imagem do Senhor Padre José de Deus Oliveira que se
devotara a Deus, também ele se tinha consagrado à sua terra, aos
seus vizinhos e agora ao seu companheiro canino de caminhada.
Veio, o Zé Amado, a falecer com os seus respeitáveis oitenta
e cinco anos.
Foi sepultado ao lado de sua mãe no cemitério junto à
pequena Igreja da aldeia.
- 117 -
VI
ORamiro sempre tinha sido um homem de muito calor e que
se fazia acompanhar constantemente da sua mini Sagres para não
ter de beber água que lhe fazia mal ao estômago fraco que dizia
ter. Tinha um aspeto doentio e um físico atarracado.
O Doutor Pereira já o tinha mandado beber mais água e
menos cerveja, por causa do fígado que começava a estar em
muito mau estado; bastava olhar para a sua cor para saber que
alguma coisa não estava bem.
O Ramiro abanava a cabeça, dizia que sim e que não
beberia mais cerveja, só água. A mulher Albertina repetia o gesto
do marido com a cabeça e o Doutor virava costas.
Depois não digas que não te avisei; continuas assim e não
chegas aos setenta.
Sim, Senhor Doutor.
Ó Albertina! Cuida do homem antes que fiques viúva.
Ele não me dá ouvidos. Eu bem lhe digo.
O homem passava a mão pela cabeça, esfregava o nariz e
levantava as fartas sobrancelhas que marcavam a alta testa
enrugada.
120.
- 118 -
Ashoras seguintes passava-as a dizer que ia beber um golo
na bica de água fresca de nascente, mas depois, esquecido o
recado do Doutor e o olhar complacente da mulher, retomava a
sua mini Sagres.
Manuel Ramiro era um filho da terra que sempre ali tinha
estado e o pouco do mundo que conhecia era a vila onde tinha
de ir resolver questões de negócios relacionados com o café.
Preocupava-o, especialmente, não haver falta daquela bebida no
seu estabelecimento.
Conhecera a França pelas histórias que os pais lhe
contavam tentando convencê-lo da sorte que tinha em poder
fazer a sua vida naquela paz de mundo, longe da confusão dos
grandes centros no estrangeiro.
Os pais tinham sempre tido muito cuidado com aquele filho
único que, devido aos seus constantes problemas de garganta e
ouvidos, nunca se desenvolvera convenientemente.
Tinha sido objeto de atenção exagerada; veio a revelar-se
determinante, o excessivo cuidado, para a sua débil formação
física e pobre resistência psicológica aos hábitos e problemas.
Limitava-se a ter, como objetivo de vida, beber
constantemente para abafar o calor que sempre sentia e manter
vivo o seu herdado negócio.
121.
- 119 -
Nãoentendia nada de agricultura e os únicos produtos
retirados da terra que havia em casa eram aqueles que os vizinhos
traziam para trocar por outros que tinha disponíveis no seu café.
Tinha nascido na pequena aldeia numa família de
comerciantes que, depois de terem estado vários anos emigrados,
tinham voltado para se estabelecerem em Castanheiro.
Haviam instalado aquele pequeno negócio de café onde
vendiam ou trocavam alguns produtos de necessidade para os
vizinhos.
Deixaram, pelo trabalho realizado em França, uma pequena
pensão ao filho que lhe permitia viver confortavelmente sem se
preocupar muito com o lucro que podia ter com o negócio
caseiro.
Casou com uma moça da terra, a Albertina.
Aquela rapariga calada habituara-se a obedecer às ordens
do pai que sempre a educara à base de umas bofetadas e de
muito trabalho na terra. Desse tratamento do pai resultara uma
mulher fraca e acanhada que obedecia cegamente à vontade
do homem sem questionar o que quer que fosse. Só se atrevia a
dizer alguma coisa que o contrariasse estando na presença de
outras pessoas.
122.
- 120 -
Ramiroe Albertina eram primos afastados que viviam
sozinhos e mantinham o seu café aberto todos os dias.
Não tinham filhos, apesar de Albertina ter engravidado
quatro vezes, mas perdendo sempre os filhos antes do nascimento.
Ou porque tinha batido num qualquer móvel, ou porque tinha feito
muita força a levantar alguma carga, ou ainda por causa de ter
sido picada por uma abelha que entrara em casa; assim justificava
a perda da barriga de um dia para o outro, o choro durante uns
dias e o excesso anormal de minis por parte do marido.
Os vizinhos achavam aquelas explicações muito estranhas,
mas nunca as questionaram, pelo menos em frente à mulher.
Quando estavam sozinhas, as mulheres falavam daquelas
situações, mas a conversa terminava sempre da mesma forma.
Não és médica, por isso não sabes o que se passa.
Foram sempre tentando ter um herdeiro, mas desistiram
quando, na última vez que fora assistida, o Doutor Pereira lhes disse
que não eram compatíveis e que os filhos nunca nasceriam ou se
nascessem teriam problemas de saúde muito graves.
Ramiro, com a idade, transformou-se num homem triste e
muito calado. Continuava a beber para esquecer as desgraças
que a vida lhe tinha trazido, o olhar acusador da mulher que lhe
123.
- 121 -
faziasentir que a culpa de não terem filhos era dele e da sua falta
de força e a ideia de ser um homem incompatível (apesar de
nunca ter percebido muito bem o que era isso de ser
"incompatível").
Se calhar o problema é beberes tanta cerveja.
Cala-te mulher, a cerveja nunca fez mal a ninguém.
Então porque não consigo ter filhos?
Pode ser por teres sangue fraco.
Assim tentavam empurrar as responsabilidades um para o
outro, apesar de terem ouvido o Doutor dizer aquela palavra
complicada que, também a mulher, à imagem do marido, não
tinha entendido corretamente.
Toda aquela situação o fazia sentir menos homem do que os
outros e achava sempre que olhavam para ele com desprezo; no
entanto, e apesar de nada disso ser verdade, servia de justificação
para o seu vício.
Os únicos momentos que faziam com que se sentisse um
homem era quando, dominado o seu fraco espírito pelo álcool do
dia, descarregava a sua frustração e desgosto na mulher. Esta
calava-se no seu silêncio imposto, sentindo o medo, que achava
natural, de perder o Ramiro que fora o único que lhe dera
companhia ao longo dos anos.
124.
- 122 -
Convencia-sea si própria, no silêncio sofrido da noite, que
mais valia estar assim do que sozinha. Pior do que tudo aquilo que
sofria seria a reprovação, que pensava vir a receber por parte dos
vizinhos, se o marido a deixasse
As pessoas da aldeia respeitavam o homem que ele era, ou
pelo menos sentiam pena de ambos. Só não percebiam a
necessidade que tinha de beber a toda a hora e a complacência
da mulher relativamente àquele hábito do Ramiro.
Aquela situação fazia com que se lembrassem de um vizinho
que também bebia muito e que acabara por morrer devido ao
excesso de álcool. Tinham receio que viesse a acontecer o mesmo
com aquele homem.
Tentavam, sempre, convencê-lo de que era muito melhor
dedicar-se à água.
Sabes que é bem mais fresca do que a tua cerveja e que te
faz bem melhor.
Mas eu não consigo. Quando bebo a água fico logo com
dores de estômago e só me apetece ir a correr para a
sanita.
Isso são ideias que tu meteste na cabeça para te
enganares a ti mesmo. O Doutor já te disse que vai dar mau
resultado.
125.
- 123 -
Tambémse der, que mal faz. Não tenho ninguém para
cuidar e a vida está feita.
Mas deixas a mulher sozinha, homem.
A mulher sabe viver bem sem mim. Ela não precisa da
minha ajuda.
Não digas isso. Ela preocupa-se contigo e nós também.
De mim ninguém precisa!
Claro que precisamos. Deixa-te lá disso e vira para a água.
Não consigo.
Claro que consegues.
Vamos ver como corre a vida.
Quem tem de correr és tu. Se não te despachas, a vida
passa por ti sem que a vivas.
Vamos ver.
Aquele "vamos ver" era a resposta que sempre arranjava,
mas que significava que dali a poucos minutos já estaria, de novo,
agarrado à sua companheira engarrafada de sempre.
Pronto, lá voltou ele ao mesmo. Não há mesmo como
mudar a figura. O rapaz vai acabar por morrer com a
cerveja ao lado.
126.
- 124 -
Assimveio a acontecer uns anos mais tarde, deixando a sua
mulher sozinha.
Esta solidão não se prolongou por muito tempo. A Albertina
não conseguia fazer tudo o que dependia dela e decidiu que
estava na hora, depois de já não ter o marido, de ter alguém para
cuidar a seu lado. Precisava de uma pessoa que a ajudasse a
tomar conta do negócio, que o desenvolvesse e que a apoiasse
quando ficasse mais velha.
Não sabia muito bem onde arranjar essa pessoa, mas
decidiu não ficar à espera que acontecesse. Iria pensar melhor no
assunto e decidiria o que fazer da vida.
As próprias amigas lhe diziam insistentemente para mudar de
vida e começar a pensar nela.
Agora que estás só e ainda és uma mulher bonita, tens de
pensar na tua vida.
Já tinha pensado nisso e vou resolver.
Fazes bem. Se precisares da nossa ajuda basta dizer.
Obrigado vizinha.
Trata bem de ti e vamos lá a seguir em frente. Já sofreste
tanto com o teu Ramiro que agora chegou a hora de
pensares na tua felicidade.
127.
- 125 -
Voudecidir. Que Deus o tenha ao seu cuidado, que era tão
bom-homem e sempre cuidou de mim.
Cuidou de ti, mas não te deu uma vida fácil.
Pois …
- 129 -
VII
AntónioPereira tinha sido criado ali na terra depois de ser
trazido pelo Senhor Padre que dissera tê-lo encontrado junto da
sacristia da Igreja.
Foi educado em casa pelo clérigo, sem que lhe fosse
permitido contacto com as outras crianças da aldeia ou mesmo
com os adultos.
Não ia para a escola como os outros meninos da aldeia
faziam todos os dias.
O Padre tratou de o ensinar, de o preparar para os exames e
de o dotar de todos os conhecimentos que achou necessários
para um futuro de sucesso.
Aquela criança, das poucas vezes que fora vista pelos
vizinhos, mostrava características muito próximas das de uma
moça que estivera a servir em casa do Senhor Prior, o que levava o
povo a comentar a possibilidade de os homens, que torciam o
nariz à explicação comunicada pelo Padre José naquela manhã
em que trouxera a criança, terem razão.
Após dez anos afastado de sua casa, voltou homem feito.
Depois de ter sido enviado para a cidade para tirar o seu curso, o
Senhor Doutor, regressava para junto do seu velho pai orgulhoso,
com a sua pequena mala debaixo do braço.
132.
- 130 -
Instalou-se,como tinha sido previsto, num anexo ao lado da
residência paroquial onde montou consultório para acompanhar
todos os seus doentes.
Todas as desconfianças passadas tinham sido esquecidas;
para além do Padre José, já ninguém se recordava (ou se queria
recordar) sequer da tal empregada que o Prior trouxera um dia
para sua casa e que de lá tinha desaparecido tão misteriosamente
como viera.
Tratava não só dos grandes como dos pequenos problemas
que os de Castanheiro lhe apresentavam.
Arranjava, para os que não podiam comprar, os
medicamentos necessários para o seu bom tratamento e
recuperação.
O Senhor Padre viria a falecer uns anos após o regresso do
Doutor à terra.
No dia de partida daquele que o tinha adotado, o Senhor
Doutor acompanhara-o, na cabeceira da cama, até que libertou
o último suspiro. Foi ele quem, choroso, lhe cerrara os olhos e o
cobrira com um lençol branco imaculado.
Acompanhara o corpo até ao cemitério, onde viera a ser
sepultado junto de Laurentino e Teresa.
133.
- 131 -
OLocal fora escolhido pelo próprio Doutor por reconhecer,
aqueles companheiros de morada eterna, como um casal sereno
e unido que daria um descanso em paz ao seu benfeitor.
O Padre José tinha-lhe deixado bastantes bens. Aceitara-os
por saber que sempre tinha sido considerado como um filho para
aquele homem que vivera sozinho.
Essa herança recebida permitia que não tivesse de se
preocupar em receber dinheiros sempre que cuidava dos mais
necessitados. Sentia aquele gesto como uma forma de compensar
os habitantes da aldeia pelo carinho que sempre lhe tinham
dispensado a ele e pelo cuidado que tinham demonstrado com o
homem que o recebera e criara.
Por ali continuara para além da morte do Padre José de
Deus Oliveira, acompanhando as moléstias dos habitantes da
aldeia e ajudando as mulheres a ter os poucos filhos que por ali
iam nascendo.
Por vezes tinha de se deslocar a uma aldeia vizinha que não
podia contar com os mesmos cuidados próximos que os de
Castanheiro tinham.
Sempre recordou, como o momento mais duro da sua vida
profissional, aquele dia em que não conseguira salvar uma das
suas doentes; tinha sofrido uma queda de um banco de cozinha,
quando espreitava o marido que trabalhava no campo.
134.
- 132 -
Tivera,naquele fatídico dia, dado a terrível notícia a um
homem já marcado pelo trabalho e pela idade, mas sempre
dedicado àquela mulher que, para além dos filhos emigrados, era
a sua razão de viver.
Recordava, especialmente, a aparência do marido ao
chegar a casa e ver a sua companheira de uma vida estendida,
branca e quieta, na cama.
Recordava como o cabelo negro daquele homem era
totalmente branco no dia em que foi devolvida à terra a sua
mulher.
Num belo dia de outono pintado de castanho e amarelo,
aproximou-se de um velho castanheiro que cobria algum do
terreno circundante com os seus muitos frutos e ouriços.
As folhas projetavam as suas sombras sobre umas palavras
escritas irregularmente no grosso tronco daquela árvore; estes
registos foram um chamamento para que se aproximasse.
Leu os quatro nomes registados: Teresa, Laurentino,
Felicidade e Madalena. Associou os de Teresa e Laurentino àquele
trágico acidente a que assistira.
Questionou um dos seus vizinhos com mais idade sobre quem
seriam a Felicidade e a Madalena.
Respondeu-lhe, contando uma longa história.
135.
- 133 -
ÓSenhor Doutor, Felicidade foi uma princesa amada por
um cavaleiro que aqui escreveu o seu nome com a espada.
O homem nunca chegou a conhecer aquela dama com
vida. Só recebeu um bilhete escrito, mas depois de ela estar
morta.
Em relação à Madalena, é o nome de uma moça que veio
para a aldeia servir na casa do Senhor Padre. Ele, que Deus o
tenha, disse-nos que era uma moça que tinha encontrado
numa outra vila e que, como precisava de alguém que lhe
lavasse a roupa, arrumasse a casa e cuidasse da comida, a
tinha contratado.
O Doutor Pereira não se lembrava de nenhuma mulher em
sua casa. Para além de se não lembrar, não encontrava nenhuma
memória dessa existência entre os vários bens que o Senhor Padre
tinha deixado aquando do seu falecimento. Marcou essa
admiração com um franzir de testa.
O Senhor Doutor não se lembra dela, porque se foi embora
antes de vossemecê ter vindo para a casa do Senhor Padre.
Mas o Padre José nunca me falou de nenhuma mulher que
tivesse estado lá em casa!
Não sei Senhor Doutor, mas a Dona Madalena tratou da
casa do Senhor Padre durante uns tempos e depois nunca
mais ninguém a viu aqui no lugar. Lembro-me, como se fosse
hoje, do dia em que o Senhor Prior disse que recolhera
136.
- 134 -
Vossemecêali à porta da sacristia da Igreja. Foi mais ou
menos nessa altura, alguns meses antes talvez, que se deixou
de ver a Dona Madalena por estas bandas. Aqui na terra
todos acharam muito estranho aquele desaparecimento tão
rápido. A minha senhora até chegou a dizer-me que lhe
parecia que a moça tinha uma barriguinha grande antes de
ter desaparecido.
Cala-te, mulher! Não levantes falsos testemunhos que
vais pro rabudo!
Não me digas isso, homem! Não é por mal!
Mas lembra-se de mais alguma coisa relativa a essa senhora
que diz ter vivido lá em casa?
Não Senhor Doutor, não me lembro de muito mais. Foi já há
muitos anos e a minha cabeça não é como era.
Sabe de alguém que conheça mais sobre esse assunto e que
me possa contar melhor essa história?
A única pessoa que lhe poderia falar desse assunto era o
defunto Senhor Padre, que Deus o tenha. Para além dele, mais
ninguém se deve lembrar disso.
Que pena. Acho tudo isso muito estranho.
Pois é, Senhor Doutor. Mas pergunte por ai.
137.
- 135 -
Aliserviu o dedicado Doutor Pereira, naquela pequena
aldeia, onde acabou por falecer sozinho como estivera grande
parte da sua vida, com aquele mistério registado na sua memória.
Foi colocado junto ao Padre José, ao lado de Teresa
Violante e Manuel Laurentino.
- 139 -
VIII
Umdia acordou Laurentino com uma gritaria no largo da
igreja perto de onde estava plantada a sua casa.
Deu um salto da cama e ouviu, no escuro do quarto, que
havia gente a tentar tocar o sino da torre e a gritar por socorro
com toda a força que tinha.
Sacudiu o pó da roupa, vestiu-se e foi ver o que se passava
sem sequer arranjar os cabelos brancos.
Olha o fogo lá em cima!
Está tudo a arder!
Vai chamar toda a gente, ou arde tudo!
Vamos ficar aqui todos queimados!
Rapidamente Ti Manel percebeu de onde vinha aquele
fumo negro, aquele calor alaranjado e aquele ruído
medonhamente crepitante das silvas e das árvores.
No cimo da alta Cumieira estava tudo a arder intensamente
e o vento empurrava, com fortes rajadas, aquele inferno com a
genica de uma praga mortal que ameaçava colheitas, madeiras e
vidas.
142.
- 140 -
Começaramos homens a organizar a defesa da igreja e do
cemitério onde estavam os seus, onde estava a Teresa do Manuel
e todos os que tinham partido ao longo dos anos. Seria, também,
aquele o primeiro terreno a ser atingido pelo fogo se continuasse a
andar com tanta vida.
Um dos mais novos da aldeia, o Zé Amado, com os seus trinta
e cinco anos de experiência, decidiu que seria melhor chamar os
bombeiros para lhes dar uma mão, porque sozinhos não
conseguiriam fazer nada daquele fogo.
Lá foi a correr para ligar do café do Ramiro que acordara
atordoado com o fumo que lhe entrava pela janela do quarto que
mantinha aberta por causa do calor natural que sempre tinha.
O Ramiro já tinha ligado aos bombeiros da vila e recebera
resposta.
Segue já para aí a nossa força toda.
O comandante tinha tocado a sirene que se ouvira até no
café do Ramiro, ecoando entre os montes, e poucos minutos
depois, seis homens estavam prontos a cumprir a missão e
entravam no carro de luzes coloridas ligadas e sirenes gritantes.
Na aldeia, os homens começaram a pegar em baldes e em
enxadas; gritavam para as mulheres irem buscar água à fonte para
143.
- 141 -
começarema tratar do lume e evitar que chegasse perto das
colheitas e das casas. A Igreja estaria salva, tanto pelo trabalho
desenvolvido, como pela direção que o fogo começara a tomar.
Começaram a atalhar ao fogo, mas pouco tempo depois
viram que não conseguiam salvar os campos e decidiram deixar
que ardessem por não ser o mais importante.
Reuniram-se perto das casas e das hortas que tinham atrás
das casas para defenderem aquilo que lhes era mais vital e que
deviam defender a todo o custo.
Molharam copiosamente a vegetação à volta das casas,
das quinze casas habitadas que se amontoavam num curto
espaço no centro da aldeia, mantendo um olho no fogo e outro
na água que nunca mais chegava.
Raio das mulheres; onde foram buscar a água?
Assim não vamos conseguir vencer este fogo!
Mulher, ó mulher! Vamos lá com isso.
As mulheres corriam o mais que podiam da fonte para as
casas e das casas para a fonte, tentando que a água estivesse
sempre pronta para os homens não se queixarem e para o fogo
não lhes acabar com tudo o que tinham construído ao longo das
suas vidas.
144.
- 142 -
Ofogo chegava-se cada vez mais para junto da povoação,
trazido velozmente pelo vento que, ora o ajudava com toda a sua
força, ora o mandava para a esquerda ou para a direita, deixando
os homens indecisos nas áreas a molhar.
Os homens despejavam os baldes ao ritmo das viagens das
mulheres.
As mulheres corriam de um lado para o outro ao ritmo das
suas cansadas pernas e do caudal da bica de água de nascente
da fonte.
Naquelas horas de aperto, parecia-lhes que a água iria
acabar em breve; enchia os baldes sem respeitar nem o desejo
das mulheres, nem a necessidade dos homens, nem mesmo a
rapidez de avanço do terrível incêndio.
Isto vai arder-nos tudo!
Não vamos conseguir atalhar a tudo.
A água não chega para tudo.
Nesse momento Ti Manel parou.
Olhou à sua volta. Algo de estranho o invadiu.
Um sentimento de vazio ocupou o seu espírito trazendo-lhe
uma calma inesperada.
145.
- 143 -
Debatidocom aquela realidade, seria melhor tentar
defender a sua e as outras casas ou não valeria a pena e deveria
desistir? Seria melhor deixar arder tudo e partir para junto da sua
Teresa que lhe ocupava a cabeça e o coração todos os dias?
Por breves momentos manteve-se naquela indecisão, até
que o Zé Amado lhe deu um grito e o acordou daquele sono
acomodado.
Oh homem! Acorda e pega ai no balde!
Temos de ajudar todos e ainda assim somos poucos.
Vamos lá, vamos.
Tinha de defender o que ainda podia e ajudar os vizinhos a
salvar os seus haveres.
Voltou a usar a agitada enxada como costumava
antigamente.
Limpou o silvado que ocupava o terreno junto de algumas
das casas.
Outros seguiram o seu exemplo ao som faiscante do fogo
que cada vez se aproximava mais e lhes tirava as forças a cada
balde entornado e a cada bramir de enxada que se enterrava na
terra.
146.
- 144 -
Osbombeiros chegaram num carro algumas horas depois,
percorrido o longo caminho estreito de terra perdido entre montes.
As mulheres não tinham pernas que aguentassem ir de novo
à fonte.
Os homens molhavam o chão mais com o suor do seu corpo
do que com a água que as mulheres iam trazendo.
O fogo cercava a povoação por duas das frentes e
começavam a sentir que aquele seria o seu fim; viram-se a ser
apanhados pelo fogo e a partir junto com as suas casas e os seus
campos.
Correu-lhes o corpo a angústia de ninguém ficar para contar
aquilo que se tinha passado e como tinham lutado até ao fim.
Invadiu-os a imagem das lágrimas, do sofrimento dos filhos, dos
netos, dos familiares chegando à aldeia negra e vendo as suas
vidas queimadas sem explicação.
Os bombeiros ligaram as mangueiras ao depósito do carro e
começaram a distribuir água por tudo o que era fogo ou que
poderia vir a ser consumido em breve.
Decidiram salvar as casas habitadas e depois, se fosse
possível e ainda houvesse forças nos seus corpos, ir para os campos
tentar salvar o que ainda não estivesse queimado.
Por pouco tempo se apegaram àquele desejo, pois viram
que aquilo não ia ser fácil.
147.
- 145 -
Certosde que seriam poucos para fazer frente àquele
inferno de chamas, mandaram o Ramiro ir chamar mais gente dos
bombeiros e mais carros com água.
Os bombeiros eram homens como aqueles da aldeia; como
o Ramiro, como o Amado e mesmo como o Manuel, que se
dedicavam ao cultivo das terras, ao comércio na vila ou ao serviço
municipal e que largavam tudo o que estivessem a fazer quando a
sirene do posto tocava.
Vestiam as suas roupas vermelhas, calçavam as suas botas
gastas, colocavam os seus capacetes de viseira e lá seguiam para
o combate, cumprindo o serviço de defender a vida dos outros,
colocando, muitas vezes, as suas próprias em risco.
Recebiam, no final do dia, uma "bucha" de pão, às vezes
com queijo, outras seco, e um copo de leite que ajudava a limpar
a garganta e evitava que o pão de centeio se amassasse na
boca.
No fim do mês, se houvesse muitas saídas para o fogo, ainda
ganhavam um pouco de dinheiro que os mantinha com uma vida
de carne duas vezes por mês e arroz em vez das diárias batatas.
Como diziam os vizinhos, eram uns "lordes".
Quando havia a festa do padroeiro em qualquer uma das
aldeias, eram estes bombeiros que levavam ao ombro o andor
principal, o do Santo da terra, e acompanhavam a procissão com
música.
148.
- 146 -
Nofim recebiam uma percentagem do dinheiro que era
colocado nos andores dos outros santos, como esmola ou como
pagamento de promessas. O do Santo da terra ficava para o
Senhor Padre sobreviver e fazer as obras, sempre necessárias, da
igreja.
O Ramiro volta esbaforido.
Disseram-lhe que não tinham mais ninguém e que se
conseguissem chamar mais gente ainda ia demorar algum tempo
para poderem apoiá-los.
Vamos ter de ser só nós a defender o que é nosso.
Os outros bombeiros disponíveis tinham sido chamados para
outra aldeia, do outro lado da Cumieira, que padecia do mesmo
mal daquela e em que as casas e as pessoas estavam também em
risco.
Tinham de ser eles a atalhar àquele incêndio porque não
havia mais ninguém para os apoiar.
As forças eram já poucas.
O desespero instalava-se entre os bombeiros.
149.
- 147 -
TiManel olhou à sua volta.
Viu choro, lágrimas e desespero.
Viu homens de mãos na cabeça, mulheres de olhos no chão
e bombeiros desesperados.
Parou de novo.
Virou as costas à sua casa e deu de cavar mais perto das
casas dos vizinhos.
A água concentrou-se junto das zonas cavadas por ele à
volta do terreno das casas dos vizinhos e lá foram desviando a
vontade que aquele fogo trazia de transformar em cinza toda a
vida daqueles homens e daquelas mulheres.
Lutaram todo o dia e toda a noite. Nem deram por isso.
Só viram que o dia tinha passado quando o fogo se apagou
e de repente tudo ficou escuro.
O fogo, entretanto, seguia o seu caminho de morte mas já
para longe deles, deixando um rasto de cinza e de pequenos
pedaços de madeira acesos.
Os bombeiros desligaram a água. Desapertaram os casacos
agora negros. Tiraram os capacetes. Entraram no seu carro e
voltaram para a vila sem mesmo ter vontade de comer ou beber o
que quer que fosse.
Os homens, cansados, olhavam para as mulheres exaustas e
benziam-se.
150.
- 148 -
Unsabraçavam-se com lágrimas tristes de alegria.
Outros sentavam-se no chão de mãos na cabeça.
O Ti Manel acendeu o seu cigarro, atirou-o para o canto da
boca, cuspiu um pedaço de tabaco que se lhe prendera na
língua, virou-se e viu, um pouco mais adiante, a sua casa negra e
fumegante.
Tinha conseguido ajudar todos os seus vizinhos a defender as
suas casas e os seus terrenos próximos como queria; não
conseguiu, no entanto, guardar o que era seu.
No meio de tantas lágrimas e de tanta alegria, os vizinhos
nem sequer tinham reparado naquele homem que sacrificara,
também ele, a sua vida para defender as dos outros. Aquele
homem que no momento em que todos estavam a caminho da
rendição, não os deixou serem levados pelo cansaço animando-os
com o seu exemplo.
Naquela madrugada ninguém foi para casa com medo que
o fogo voltasse para levar o que sobrara e mantiveram-se por ali
com os baldes cheios de água e as enxadas chamuscadas prontas
para o hipotético ataque.
Olhavam para tudo o que tinha sido queimado ali à volta
das casas e para lá nos campos de cultivo dos cereais, agora
anormalmente nus.
151.
- 149 -
Nessedia o Ramiro não viu o sol entrar pela janela do seu
quarto, nem sentiu o mesmo calor que de costume o afligia. Foi, no
entanto, buscar uma mini Sagres para ele e para todos os seus
vizinhos.
O Zé Amado pegou num naco de pão de centeio que ainda
lhe restava do que tinha recebido e ali se prepararam para tomar
o mata-bicho.
Com a primeira bocada de pão, os olhos centraram-se
numa figura curva, fumegante e quieta que se plantara ao seu
lado.
Ti Manel não tirara os olhos da sua casa queimada e só
naquele momento os vizinhos davam por aquela desgraça que
paralisara o homem.
Saciada a sede com aquela visão, satisfeita a fome com
aquela imagem, todos se dirigiram cabisbaixos para junto daquela
sombra de homem.
As mulheres, que se mantinham em pé, sentaram-se frias no
chão ainda quente e húmido.
Os homens estenderam a mão ao amigo que os tinha
ajudado sacrificando o que era seu.
Ti Manel sorriu e abanou a cabeça em sinal de afirmação
agradecida.
Afastou-se de todos e entrou no que fora um dia a sua casa,
a casa que seu pai construíra, onde vivera com a sua mulher
152.
- 150 -
Teresa,onde criara os seus dois filhos e recebera o neto em
momento de festividade.
Olhou em volta o negro das suas paredes caiadas; atendeu
ao céu que se via através do que fora já o seu telhado de colmo;
atirou os olhos ao chão e baixou-se.
Pegou num pedaço de madeira negra que tinha trabalhado
na sua juventude e que guardava o único retrato da sua Teresa
queimado numa das pontas.
Encostou-o ao peito e saiu pelo local onde um dia o pai
tinha colocado, com as suas próprias mãos, uma porta que agora
jazia naquele chão de cinzas; uma porta onde a escultura em
madeira de uma mão fechada que ele próprio fizera de um galho
do castanheiro, com a navalha que recebera pela sua passagem
a adulto, já não estava pendurada e desaparecera no meio da
favila.
Pôs a sua enxada escurecida ao ombro, acendeu mais um
cigarro que encaminhou com a língua até ao canto da boca,
afinou o seu assobio e seguiu para a bica de água fresca de
nascente.
Os vizinhos observaram aquele afastar arrastado do
Laurentino até ao momento em que desapareceu ao longe no
caminho cinzento fumado.
Não conseguiu recolher nem uma, nem duas maças, porque
tudo estava queimado, até a sua árvore da porta de casa, aquela
que o alimentara todas as manhãs desde há muito tempo.
153.
- 151 -
Bebeuda água quente da bica de água fresca depois de
afastar com as mãos algumas faúlhas queimadas, caídas dos
pinheiros, que lá boiavam. Passou um pouco daquela mesma
água pela cara negra e estendeu-a da testa até à nuca, sentindo
a sua humidade reconfortante correndo pelas costas.
Andou pelo meio daquele deserto negro e quente sem
conseguir dar uma cavadela em terra castanha.
Sentou-se no mesmo sítio onde pela primeira vez vira a sua
Teresa que tomava conta do rebanho de cabras da aldeia.
Nesse dia, vira-a a cuidar do seu pequeno rebanho, tinha-lhe
atirado uma pequena pedra maldosa e tinha fugido para se
esconder atrás duma meda de cereal seco.
A Teresa, sentada num grande penedo, vira-o pelo canto do
olho a esconder-se, mas olhara para o lado, encobrindo um sorriso
nos lábios rosados. A face tinha ficado da cor do fogo e
percebera, naquele momento, que aquele era o rapaz com quem
queria ficar e viver, até porque já andava de olho nele há algum
tempo.
O pai António não queria que ela falasse para aquele moço
que não tinha onde cair, mas ela não conseguia resistir a espreitar
de relance sempre que pressentia que passava por perto. Muitas
vezes até fazia de propósito para passar à porta dele, gritava ao
rebanho de forma a ser ouvida pelo rapaz, sem ligar à direção das
cabras.
154.
- 152 -
Amãe Maria encolhia os ombros e dizia-lhe, em segredo,
que o pai só queria que ela se portasse bem e escolhesse o rapaz
que a fizesse feliz e cuidasse dela.
Faz como eu fiz quando conheci o teu pai. O teu avô
também não queria, mas teve de ser como Deus
determinou.
Os vizinhos encontraram, um dia depois, a enxada do Ti
Laurentino, encostada a um grande penedo gasto pelo tempo e
escurecido pelo fogo.
A desgraça infernal tinha passado ao lado do velho
castanheiro onde estavam inscritos três nomes e não lhe tinha
tocado, como que por milagre.
Ao lado da enxada permanecia, também, um pedaço de
cigarro sem filtro apagado.
Do Laurentino nunca ninguém soube mais nada.
Dizia-se que tinha seguido a Teresa que o viera buscar para
perto de si, ali junto ao castanheiro da princesa e do cavaleiro.
Comentou-se mesmo que Laurentino teria partido naquele
cavalo negro em companhia do ilustre ginete; este tê-lo-ia levado
de volta para junto da tranquila Teresa, aia da sua princesa desde
155.
- 153 -
quecaíra daquele banco de cozinha quando a ele subira para ver
o seu amor a trabalhar no campo através da pequena janela alta
da cozinha.
O Senhor Padre elogiou aquele homem e a vida que tinha
levado. Registou a luta que tinha dado na defesa da sua terra, da
vida dos seus vizinhos e garantiu que naquele momento estaria ao
lado da mulher que sempre tinha sido a sua vida. Garantiu que
estaria já ao lado de Deus a gozar das bênçãos de uma vida pura
dedicada à terra e aos outros.
O Senhor Doutor falou do amor daquele homem por aquela
que tinha sido a única companheira de uma vida. Lembrou o dia
em que tinha dado aquela notícia tão triste ao Laurentino e a dor
que, por instantes, sentira no seu olhar antes de o ter centrado num
corpo apagado.
Os filhos, quando regressaram, não conseguiram dizer nada
e choraram a partida do pai. Confortaram-se com a imagem
daquele homem de mão dada com a sua mulher.
Os netos prometeram, naquele mesmo dia em que lhes foi
comunicada a triste notícia, que voltariam àquela terra que era a
sua e que talhariam, com a navalha do avô, os seus nomes no
castanheiro da aldeia.
156.
- 154 -
TiManel olhara para a Teresa, para a sua companheira de
todos os dias de uma longa vida e que se aproximava dele numa
brancura radiante que lhe feria os olhos depois de um dia e uma
noite de fumo quente e pesado.
Olhara para cima e estendera-lhe a mão que começara a
sentir cada vez mais confortavelmente apertada. Sentiu a
segurança de quem parte para o desconhecido na companhia de
uma confiança experimentada por anos de convivência.
Sorrira para ela pela primeira vez e sentira de novo o terno
sorrir da sua Teresa que tanto o acalmava e lhe dava força nos
dias cansados do campo e da procura da sobrevivência diária da
família.
Experimentara, de novo, aquele aperto no peito que sentira
aquando da limpeza do cemitério da igreja e que nunca o tinha
levado a visitar o Doutor Pereira. Tinha, na realidade, sabido o
motivo daquilo que sentira no momento em que depositara o seu
olhar na nívea Teresa.
Partira pelo azul do chão queimado daquela sua terra.
Voltara a ser aquele homem feliz que sempre tinha sido na
companhia da mulher com quem tinha casado e partilhado os
seus anos de cabelo negro.
Voltara a ser aquele homem completo que renascera com a
visita dos seus filhos e neto.
- 157 -
IX
Hojeem dia, Maria de Lurdes, Maria do Carmo e António
Joaquim estão em Castanheiro da Princesa.
Reconstruíram a casa de família. Terminaram a recuperação,
ao longo do tempo nas férias de agosto, de três das casas
abandonadas pelos que tinham partido e que se emparelhavam
com aquela dos avós.
Mantiveram os pequenos terrenos cultiváveis nas traseiras
das residências, copiando os seus antepassados na produção dos
produtos consumidos no quotidiano.
Trouxeram a restante família consigo e estabeleceram-se na
aldeia onde já chega a estrada pavimentada e com ela os vários
visitantes vindos de todos os lados.
Maria de Lurdes chegou acompanhada por um amigo; era
um belga que conhecera na sua cidade natal. Este rapaz tinha
visto a reportagem televisiva sobre aquela pequena aldeia e
colocara, nas redes sociais, um pedido para que quem fosse
daquela região de Portugal o contactasse. Manifestara o seu
interesse em ir àquele local na companhia de um residente que
tivesse conhecimento da história.
Maria de Lurdes vira aquela solicitação no seu perfil e
respondera oferecendo-se para falarem e decidirem da melhor
forma de cumprir aquele desejo de ambos.
160.
- 158 -
Apósterem falado, o belga teve conhecimento da intensão
de Lurdes regressar às origens e ficar a residir numa casa que
começara a recuperar.
O belga oferecera-se para a acompanhar, se lhe fosse
permitido; queria sentir, no próprio local, tudo a que tinha assistido
através dos meios de comunicação. Não pensara em ficar a residir
permanentemente no povoado, mas, com o tempo e o apego às
pessoas, mudou de ideias e intenções.
Maria do Carmo e António Joaquim voltaram juntos.
O irmão mais velho, com a memória que guardara das
histórias da aldeia contadas em casa pelo seu pai, convencera a
irmã a acompanhá-lo e recomeçarem a vida naquele local
familiar de origem.
António deixou o seu emprego e Carmo, como estudante-
-trabalhadora, recolheu os documentos necessários para concluir o
seu último ano de formação em Portugal e despediu-se do seu
emprego temporário.
O mais velho trouxe consigo a noiva; era uma moça de
segunda geração de emigrantes espanhóis que se identificara
com a imagem da gente de Castanheiro que lhe fora transmitida
pelo António e que se aproximava em muito daquela de onde
eram originários os seus avós.
Estas cinco pessoas chegaram à pequena aldeia perdida no
meio de montes e vales e sentiram, de imediato, todo aquele
161.
- 159 -
ambientenatural dominado pelo velho castanheiro que os
acolheu na sua chegada.
Traziam, consigo, a esperança e a vontade de recuperar a
mística e os costumes dos homens e mulheres que tinham
construído aquele povoado e nele se tinham mantido enquanto
fora possível devido à idade ou à necessidade de procurar vida
diferente.
Terminaram o restauro das casas onde viveriam;
aproveitando as estruturas existentes abandonadas por antigos
moradores entretanto falecidos, tinham mantido os materiais e as
formas originais das moradas.
Mantiveram a ausência de modernização que era
característica dos naturais, pretendendo que a terra fosse o
principal meio de sobrevivência diária.
A Maria de Lurdes, aproveitando a sua formação escolar
concluída na cidade, dedica-se ao ensino dos meninos e das
meninas que vão chegando com as suas famílias. Ensina num velho
palheiro transformado em escola, evitando que tenham, os alunos,
de ser transportados para fora da aldeia para estudarem.
Pessoas que conheceram a história de Laurentino e Teresa
Violante, depois de passar nas televisões e de dar origem a um
162.
- 160 -
documentáriosobre a vida das pessoas nas aldeias do interior,
começaram a dirigir-se para lá.
Ficara, após essa publicitação, conhecido e desejado por
muitos aquele lugar.
Alguns dos que viviam nas grandes cidades rumaram ao
interior para começarem uma nova vida e fugirem ao bulício da
metrópole.
O café do Ramiro e da Albertina tem agora, ao lado, um
pequeno mercado que fornece todas os habitantes do lugar.
A Albertina tinha tratado dos negócios, com a ajuda de um
moço que perfilhara, até ao seu falecimento devido à sua farta
idade.
O Ramiro, como dissera inúmeras vezes o Doutor, acabara
por ser vítima das suas mini Sagres, que o escondiam da realidade,
uns anos antes de Albertina.
O Senhor Doutor alargou o seu consultório com a
autorização do novo Senhor Padre, que veio para Castanheiro da
Princesa, depois da partida do seu antecessor que se juntou aos
fiéis nos terrenos da Igreja.
Casara com uma moça da vila que trouxera para sua casa
com a desculpa de tratar da marcação das consultas e da
organização da economia do Doutor Pereira.
163.
- 161 -
Continuaa tratar dos seus doentes. Agora, com mais
atenção à idade, limita-se aos velhos residentes sobreviventes à
passagem do tempo e à necessidade de sair daquele mundo rural.
Conhece as doenças e queixas desses resistentes como as
suas próprias e muitas vezes já nem precisa de os observar para
saber o que se passa de errado.
Recusa-se a tratar dos mais recentes residentes por
apresentarem doenças e males "modernos" a que ele não se
habituou. Esses residentes deslocam-se à vila para serem
observados no Centro Médico ai instalado.
O Zé Amado é agora um velho solteirão, ainda muito mal-
-humorado, mas que gosta de mostrar aos novos habitantes,
transportando-os no seu velho trator, os montes e os campos da
região. Conta-lhes a história daquele casal, o Ti Laurentino e a Ti
Teresa, que se juntaram de mãos dadas e seguiram para o céu.
Caminha com o auxílio de uma bengala talhada de um
ramo do velho castanheiro. A dificuldade de locomoção resultara
de um acidente que sofrera com o seu trator quando arava
orgulhosamente a terra de um vizinho. No entanto, essa limitação
física desaparece totalmente quando se instala no seu velho trator
turístico e circula pela aldeia guiando os visitantes. Nesses
momentos continua a manter o grande orgulho que demonstrava
quando, antigamente, terminava o seu pentear da terra.
164.
- 162 -
Mantémem funcionamento a pequena fábrica de queijos
que montou com os conhecimentos adquiridos na sua aventura no
estrangeiro; a esses conhecimentos adicionou a experiência da
terra na criação das ovelhas que lhe davam aquele leite com
sabor a flores e a pureza.
Na fábrica trabalham duas mulheres e um rapaz que um dia
chegaram a Castanheiro e que apreciaram aquela atividade
ancestral. Fabricam o queijo que é distribuído à comunidade como
pagamento pelo leite que é recolhido das ovelhas que, em
rebanho comunitário, continuam a viajar para o pasto em montes
e vales sob vigilância de um pastor e dos seus dois cães.
O filho Justino e a filha Lurdes terminaram antecipadamente
a sua vida ativa no estrangeiro e voltaram também para junto dos
filhos, vivendo na mesma casa que era dos pais.
Restauraram todas as memórias que foi possível e que tinham
sido levadas pelo fogo e foram acrescentando as suas próprias. À
falta de retratos dos pais juntos, colocaram a enxada do
Laurentino perto da fotografia de canto queimado colada ao
pedaço de madeira trabalhada. Juntaram as imagens
instantâneas tiradas naquele último agosto em que tiveram a
companhia do desgostoso pai Laurentino.
O Justino dedica-se à conservação do espaço envolvente,
orientando os novos residentes na recuperação das antigas
residências. Transmite-lhes o sentimento da gente da terra e conta-
165.
- 163 -
-lhesas tradições recebidas dos mais antigos e da sua própria curta
experiência como morador.
Criou um pequeno museu com objetos recolhidos dos
espaços queimados pelo trágico fogo; organiza e mantem esse
espaço como testemunho de um povo e das suas tradições.
A Lurdes, na companhia do seu companheiro, instalou uma
pequena empresa de venda de sementes e outros produtos
agrícolas, pequenas máquinas necessárias ao trabalho da terra e
apoiam os vizinhos na preparação dos espaços para cultivo.
Quem chega à aldeia, continua a ver o velho castanheiro
dominar a paisagem, as casas em pedra com telhado de colmo e
os campos cultivados a pintar a paisagem.
Continua a não haver antenas nos telhados e o fumo cobre
ainda as casas durante todo o dia, no inverno, e no final da tarde,
nos dias de verão.
Quem hoje se dirigir a esta pequeno renovado povoado do
interior do país, pode ainda ver as marcas de um povo,
testemunhadas no peito da milenar árvore que domina toda a
região.
166.
- 164 -
Recorremà fresca água que brota da velha bica de
nascente, transformada agora em local simbólico da originalidade
da terra e da vivência em comunhão com a natureza.
Continuam a juntar-se, em comunidade, uma vez por
semana, para contar, aos mais novos residentes, as histórias do
passado à volta da fogueira.