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Exposição Temporária

 UM CORAÇÃO, UM CÚPIDO E
 UM BEIJO POR UM POEMA DE
   AMOR EM PORTUGUÊS
   O Amor, Meu Amor Nosso        minha pele te veste
    amor é impuro                 e ficas ainda mais despida.
    como impura é a luz e a
    água                          Pudesse eu ser tu
    e tudo quanto nasce           E em tua saudade ser a
    e vive além do tempo.         minha própria espera.
    Minhas pernas são água,       Mas eu deito-me em teu
    as tuas são luz               leito
    e dão a volta ao universo     Quando apenas queria
    quando se enlaçam             dormir em ti.
    até se tornarem deserto e
    escuro.                       E sonho-te
    E eu sofro de te abraçar      Quando ansiava ser um
    depois de te abraçar para     sonho teu.
    não sofrer.
                                  E levito, voo de semente,
    E toco-te                     para em mim mesmo te
    para deixares de ter corpo    plantar
    e o meu corpo nasce           menos que flor: simples
    quando se extingue no teu.    perfume,
                                  lembrança de pétala sem
    E respiro em ti               chão onde tombar.
    para me sufocar
    e espreito em tua claridade   Teus olhos inundando os
    para me cegar,                meus
    meu Sol vertido em Lua,       e a minha vida, já sem leito,
    minha noite alvorecida.       vai galgando margens
                                  até tudo ser mar.
    Tu me bebes                   Esse mar que só há depois
    e eu me converto na tua       do mar.
    sede.
    Meus lábios mordem,           Mia Couto, in "idades
    meus dentes beijam,           cidades divindades"
   Se é Doce Se é doce no recente,
    ameno Estio
    Ver toucar-se a manhã de etéreas
    flores,
    E, lambendo as areias e os verdores,
    Mole e queixoso deslizar-se o rio;
    Se é doce no inocente desafio
    Ouvirem-se os voláteis amadores,
    Seus versos modulando e seus ardores
    Dentre os aromas de pomar sombrio;
    Se é doce mares, céus ver anilados
    Pela quadra gentil, de Amor querida,
    Que esperta os corações, floreia os
    prados,
    Mais doce é ver-te de meus ais vencida,
    Dar-me em teus brandos olhos
    desmaiados.
    Morte, morte de amor, melhor que a
    vida.
    Bocage, in 'Sonetos'
   Adeus Já gastámos as palavras pela       era no tempo em que os meus olhos
    rua, meu amor,                           eram realmente peixes verdes.
    e o que nos ficou não chega              Hoje são apenas os meus olhos.
    para afastar o frio de quatro paredes.   É pouco, mas é verdade,
    Gastámos tudo menos o silêncio.          uns olhos como todos os outros.
    Gastámos os olhos com o sal das
    lágrimas,                                Já gastámos as palavras.
    gastámos as mãos à força de as           Quando agora digo: meu amor,
    apertarmos,                              já se não passa absolutamente nada.
    gastámos o relógio e as pedras das       E no entanto, antes das palavras gastas,
    esquinas                                 tenho a certeza
    em esperas inúteis.                      que todas as coisas estremeciam
                                             só de murmurar o teu nome
    Meto as mãos nas algibeiras e não        no silêncio do meu coração.
    encontro nada.
    Antigamente tínhamos tanto para dar um   Não temos já nada para dar.
    ao outro;                                Dentro de ti
    era como se todas as coisas fossem       não há nada que me peça água.
    minhas:                                  O passado é inútil como um trapo.
    quanto mais te dava mais tinha para te   E já te disse: as palavras estão gastas.
    dar.
                                             Adeus.
    Às vezes tu dizias: os teus olhos são
    peixes verdes.                           Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa”
    E eu acreditava.
    Acreditava,
    porque ao teu lado
    todas as coisas eram possíveis.
    Mas isso era no tempo dos segredos,
    era no tempo em que o teu corpo era um
    aquário,
   O Espírito Nada a fazer amor, eu sou do
    bando
    Impermanente das aves friorentas;
    E nos galhos dos anos desbotando
    Já as folhas me ofuscam macilentas;
    E vou com as andorinhas. Até quando?
    À vida breve não perguntes: cruentas
    Rugas me humilham. Não mais em
    estilo brando
    Ave estroina serei em mãos sedentas.
    Pensa-me eterna que o eterno gera
    Quem na amada o conjura. Além, mais
    alto,
    Em ileso beiral, aí espera:
    Andorinha indemne ao sobressalto
    Do tempo, núncia de perene primavera.
    Confia. Eu sou romântica. Não falto.
    Natália Correia, in “Poesia Completa”
   Assim o Amor Assim o amor
    Espantado meu olhar com teus cabelos
    Espantado meu olhar com teus cavalos
    E grandes praias fluidas avenidas
    Tardes que oscilam demoradas
    E um confuso rumor de obscuras vidas
    E o tempo sentado no limiar dos campos
    Com seu fuso sua faca e seus novelos
    Em vão busquei eterna luz precisa
    Sophia de Mello Breyner Andresen, in
    ―Obra Poética‖
   Soneto Não pode Amor por mais que
    as falas mude
    exprimir quanto pesa ou quanto mede.
    Se acaso a comoção falar concede
    é tão mesquinho o tom que o desilude.
    Busca no rosto a cor que mais o ajude,
    magoado parecer aos olhos pede,
    pois quando a fala a tudo o mais
    excede
    não pode ser Amor com tal virtude.
    Também eu das palavras me arreceio,
    também sofro do mal sem saber onde
    busque a expressão maior do meu
    anseio.
    E acaso perde, o Amor que a fala
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    Olha bem os meus olhos, e responde.
    António Gedeão, in ―Poesias
    Completas‖
   Amor o teu rosto à minha espera, o teu
    rosto
    a sorrir para os meus olhos, existe um
    trovão de céu sobre a montanha.
    as tuas mãos são finas e claras, vês-me
    sorrir, brisas incendeiam o mundo,
    respiro a luz sobre as folhas da olaia.
    entro nos corredores de outubro para
    encontrar um abraço nos teus olhos,
    este dia será sempre hoje na memória.
    hoje compreendo os rios. a idade das
    rochas diz-me palavras profundas,
    hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
    José Luís Peixoto, in "A Casa, A
    Escuridão"
   O Beijo Mata o Desejo       Sabendo que deves ter
                                Milhões deles p'ra me dar,
                                Teria que enlouquecer
   MOTE                        Para um beijo te roubar.
    «Não te beijo e tenho       E como em teus lábios
    ensejo                      puros,
    Para um beijo te roubar;    Guardas tudo quanto
    O beijo mata o desejo       almejo,
    E eu quero-te desejar.»     Doutros desejos futuros
                                O beijo mata o desejo.
    GLOSAS
    Porque te amo de verdade,   Roubando um, mil te daria;
    'stou louco por dar-te um   O que não posso é jurar
    beijo,                      Que não te aborreceria,
    Mas contra a tua vontade    E eu quero-te desejar!
    Não te beijo e tenho
    ensejo.                     António Aleixo, in "Este
                                Livro que Vos Deixo..."
   Visão (A J. M. Eça de Queiroz)
    Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços
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    Morava agora ali um pensamento
    De dor sem trégua e de íntimos cansaços.
    Pairava, como espectro, nos espaços,
    Todo envolto n'um nimbo pardacento...
    Na atitude convulsa do tormento,
    Torcia e retorcia os magros braços...
    E arrancava das asas destroçadas
    A uma e uma as penas maculadas,
    Soltando a espaços um soluço fundo,
    Soluço de ódio e raiva impenitentes...
    E do fantasma as lágrimas ardentes
    Caíam lentamente sobre o mundo!
    Antero de Quental, in "Sonetos"
   Seus Olhos Seus olhos - que eu
    sei pintar
    O que os meus olhos cegou –
    Não tinham luz de brilhar,
    Era chama de queimar;
    E o fogo que a ateou
    Vivaz, eterno, divino,
    Como facho do Destino.
    Divino, eterno! - e suave
    Ao mesmo tempo: mas grave
    E de tão fatal poder,
    Que, um só momento que a vi,
    Queimar toda a alma senti...
    Nem ficou mais de meu ser,
    Senão a cinza em que ardi.
    Almeida Garrett, in 'Folhas
    Caídas'
   Cinismos

   Eu hei de lhe falar lugubremente
    Do meu amor enorme e massacrado,
    Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
    Hei de expor-lhe o meu peito descarnado,
    Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
    E ser menos que um Judas empalhado.
    Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
    E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
    Como um velho filósofo lendário.
    Hei de mostrar, tão triste e tenebroso,
    Os pegos abismais da minha vida,
    E hei de olhá-la dum modo tão nervoso,
    Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida,
    Cheia de dor, tremente, alucinada,
    E há de chorar, chorar enternecida!
    E eu hei de, então, soltar uma risada.
    Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde
   O Amor É uma Companhia

   O amor é uma companhia.
    Já não sei andar só pelos caminhos,
    Porque já não posso andar só.
    Um pensamento visível faz-me andar mais
    depressa
    E ver menos, e ao mesmo tempo gostar
    bem de ir vendo tudo.
    Mesmo a ausência dela é uma coisa que
    está comigo.
    E eu gosto tanto dela que não sei como a
    desejar.
    Se a não vejo, imagino-a e sou forte como
    as árvores altas.
    Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito
    do que sinto na ausência dela.
    Todo eu sou qualquer força que me
    abandona.
    Toda a realidade olha para mim como um
    girassol com a cara dela no meio.
    Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso"
    Heterónimo de Fernando Pessoa
   Não Sei se é Amor que Tens, ou Amor que
    Finges
   Não sei se é amor que tens, ou amor que
    finges,
    O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
            Já que o não sou por tempo,
            Seja eu jovem por erro.
    Pouco os deuses nos dão, e o pouco é
    falso.
    Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
            É verdadeira. Aceito,
            Cerro olhos: é bastante.
            Que mais quero?

    Ricardo Reis, in "Odes"
    Heterónimo de Fernando Pessoa
   Esperança Tantas formas revestes, e
    nenhuma
    Me satisfaz!
    Vens às vezes no amor, e quase te
    acredito.
    Mas todo o amor é um grito
    Desesperado
    Que apenas ouve o eco...
    Peco
    Por absurdo humano:
    Quero não sei que cálice profano
    Cheio de um vinho herético e
    sagrado.

    Miguel Torga, in 'Penas do
    Purgatório'
   Poeta Pede a Seu Amor que lhe
    Escreva

   Meu entranhado amor, morte que é
    vida,
    tua palavra escrita em vão espero
    e penso, com a flor que se emurchece
    que se vivo sem mim quero perder-te.
    O ar é imortal. A pedra inerte
    nem a sombra conhece nem a evita.
    Coração interior não necessita
    do mel gelado que a lua derrama.
    Porém eu te suportei. Rasguei-me as
    veias,
    sobre a tua cintura, tigre e pomba,
    em duelo de mordidas e açucenas.
    Enche minha loucura de palavras
    ou deixa-me viver na minha calma
    e para sempre escura noite d'alma.
    Federico García Lorca, in 'Poemas
 Em Todas as Ruas te Encontro
 Em todas as ruas te encontro
  em todas as ruas te perco
  conheço tão bem o teu corpo
  sonhei tanto a tua figura
  que é de olhos fechados que eu
  ando
  a limitar a tua altura
  e bebo a água e sorvo o ar
  que te atravessou a cintura
  tanto tão perto tão real
  que o meu corpo se transfigura
  e toca o seu próprio elemento
  num corpo que já não é seu
  num rio que desapareceu
  onde um braço teu me procura
    Em todas as ruas te encontro
    em todas as ruas te perco
    Mário Cesariny, in "Pena Capital"
 Soneto de Mal Amar
 Invento-te recordo-te distorço
  a tua imagem mal e bem amada
  sou apenas a forja em que me forço
  a fazer das palavras tudo ou nada.
    A palavra desejo incendiada
    lambendo a trave mestra do teu corpo
    a palavra ciúme atormentada
    a provar-me que ainda não estou morto.
    E as coisas que eu não disse? Que não
    digo:
    Meu terraço de ausência meu castigo
    meu pântano de rosas afogadas.
    Por ti me reconheço e contradigo
    chão das palavras mágoa joio e trigo
    apenas por ternura levedadas.
    Ary dos Santos, in 'O Sangue das
    Palavras'
   Crepuscular Há no ambiente um
    murmúrio de queixume,
    De desejos de amor, d'ais comprimidos...
    Uma ternura esparsa de balidos,
    Sente-se esmorecer como um perfume.
    As madressilvas murcham nos silvados
    E o aroma que exalam pelo espaço,
    Tem delíquios de gozo e de cansaço,
    Nervosos, femininos, delicados,
    Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
    Inapreensíveis, mínimas, serenas...
    _ Tenho entre as mãos as tuas mãos
    pequenas,
    O meu olhar no teu olhar suave.
    As tuas mãos tão brancas d'anemia...
    Os teus olhos tão meigos de tristeza...
    _ É este enlanguescer da natureza,
    Este vago sofrer do fim do dia.
    Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
   A Voz do Amor Nessa pupila rútila e
    molhada,
    Refúgio arcano e sacro da Ternura,
    A ampla noite do gozo e da loucura
    Se desenrola, quente e embalsamada.
    E quando a ansiosa vista desvairada
    Embebo às vezes nessa noite escura,
    Dela rompe uma voz, que, entrecortada
    De soluços e cânticos, murmura...
    É a voz do Amor, que, em teu olhar
    falando,
    Num concerto de súplicas e gritos
    Conta a história de todos os amores;
    E vêm por ela, rindo e blasfemando,
    Almas serenas, corações aflitos,
    Tempestades de lágrimas e flores...
    Olavo Bilac, in "Poesias"
   Os Meus Versos Rasga esses versos que
    eu te fiz, amor!
    Deita-os ao nada, ao pó, ao
    esquecimento,
    Que a cinza os cubra, que os arraste o
    vento,
    Que a tempestade os leve aonde for!
    Rasga-os na mente, se os souberes de
    cor,
    Que volte ao nada o nada de um
    momento!
    Julguei-me grande pelo sentimento,
    E pelo orgulho ainda sou maior!...
    Tanto verso já disse o que eu sonhei!
    Tantos penaram já o que eu penei!
    Asas que passam, todo o mundo as
    sente...
    Rasgas os meus versos... Pobre
    endoidecida!
    Como se um grande amor cá nesta vida
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http://www.citador.pt/poemas/os-meus-versos-florbela-de-alma-conceicao-
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Um coração, um cúpido e um beijo por um poema de amor em português

  • 1. Exposição Temporária UM CORAÇÃO, UM CÚPIDO E UM BEIJO POR UM POEMA DE AMOR EM PORTUGUÊS
  • 2. O Amor, Meu Amor Nosso minha pele te veste amor é impuro e ficas ainda mais despida. como impura é a luz e a água Pudesse eu ser tu e tudo quanto nasce E em tua saudade ser a e vive além do tempo. minha própria espera. Minhas pernas são água, Mas eu deito-me em teu as tuas são luz leito e dão a volta ao universo Quando apenas queria quando se enlaçam dormir em ti. até se tornarem deserto e escuro. E sonho-te E eu sofro de te abraçar Quando ansiava ser um depois de te abraçar para sonho teu. não sofrer. E levito, voo de semente, E toco-te para em mim mesmo te para deixares de ter corpo plantar e o meu corpo nasce menos que flor: simples quando se extingue no teu. perfume, lembrança de pétala sem E respiro em ti chão onde tombar. para me sufocar e espreito em tua claridade Teus olhos inundando os para me cegar, meus meu Sol vertido em Lua, e a minha vida, já sem leito, minha noite alvorecida. vai galgando margens até tudo ser mar. Tu me bebes Esse mar que só há depois e eu me converto na tua do mar. sede. Meus lábios mordem, Mia Couto, in "idades meus dentes beijam, cidades divindades"
  • 3. Se é Doce Se é doce no recente, ameno Estio Ver toucar-se a manhã de etéreas flores, E, lambendo as areias e os verdores, Mole e queixoso deslizar-se o rio; Se é doce no inocente desafio Ouvirem-se os voláteis amadores, Seus versos modulando e seus ardores Dentre os aromas de pomar sombrio; Se é doce mares, céus ver anilados Pela quadra gentil, de Amor querida, Que esperta os corações, floreia os prados, Mais doce é ver-te de meus ais vencida, Dar-me em teus brandos olhos desmaiados. Morte, morte de amor, melhor que a vida. Bocage, in 'Sonetos'
  • 4. Adeus Já gastámos as palavras pela era no tempo em que os meus olhos rua, meu amor, eram realmente peixes verdes. e o que nos ficou não chega Hoje são apenas os meus olhos. para afastar o frio de quatro paredes. É pouco, mas é verdade, Gastámos tudo menos o silêncio. uns olhos como todos os outros. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, Já gastámos as palavras. gastámos as mãos à força de as Quando agora digo: meu amor, apertarmos, já se não passa absolutamente nada. gastámos o relógio e as pedras das E no entanto, antes das palavras gastas, esquinas tenho a certeza em esperas inúteis. que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome Meto as mãos nas algibeiras e não no silêncio do meu coração. encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um Não temos já nada para dar. ao outro; Dentro de ti era como se todas as coisas fossem não há nada que me peça água. minhas: O passado é inútil como um trapo. quanto mais te dava mais tinha para te E já te disse: as palavras estão gastas. dar. Adeus. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. Eugénio de Andrade, in “Poesia e Prosa” E eu acreditava. Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
  • 5. O Espírito Nada a fazer amor, eu sou do bando Impermanente das aves friorentas; E nos galhos dos anos desbotando Já as folhas me ofuscam macilentas; E vou com as andorinhas. Até quando? À vida breve não perguntes: cruentas Rugas me humilham. Não mais em estilo brando Ave estroina serei em mãos sedentas. Pensa-me eterna que o eterno gera Quem na amada o conjura. Além, mais alto, Em ileso beiral, aí espera: Andorinha indemne ao sobressalto Do tempo, núncia de perene primavera. Confia. Eu sou romântica. Não falto. Natália Correia, in “Poesia Completa”
  • 6. Assim o Amor Assim o amor Espantado meu olhar com teus cabelos Espantado meu olhar com teus cavalos E grandes praias fluidas avenidas Tardes que oscilam demoradas E um confuso rumor de obscuras vidas E o tempo sentado no limiar dos campos Com seu fuso sua faca e seus novelos Em vão busquei eterna luz precisa Sophia de Mello Breyner Andresen, in ―Obra Poética‖
  • 7. Soneto Não pode Amor por mais que as falas mude exprimir quanto pesa ou quanto mede. Se acaso a comoção falar concede é tão mesquinho o tom que o desilude. Busca no rosto a cor que mais o ajude, magoado parecer aos olhos pede, pois quando a fala a tudo o mais excede não pode ser Amor com tal virtude. Também eu das palavras me arreceio, também sofro do mal sem saber onde busque a expressão maior do meu anseio. E acaso perde, o Amor que a fala esconde, em verdade, em beleza, em doce enleio? Olha bem os meus olhos, e responde. António Gedeão, in ―Poesias Completas‖
  • 8. Amor o teu rosto à minha espera, o teu rosto a sorrir para os meus olhos, existe um trovão de céu sobre a montanha. as tuas mãos são finas e claras, vês-me sorrir, brisas incendeiam o mundo, respiro a luz sobre as folhas da olaia. entro nos corredores de outubro para encontrar um abraço nos teus olhos, este dia será sempre hoje na memória. hoje compreendo os rios. a idade das rochas diz-me palavras profundas, hoje tenho o teu rosto dentro de mim. José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"
  • 9. O Beijo Mata o Desejo Sabendo que deves ter Milhões deles p'ra me dar, Teria que enlouquecer  MOTE Para um beijo te roubar. «Não te beijo e tenho E como em teus lábios ensejo puros, Para um beijo te roubar; Guardas tudo quanto O beijo mata o desejo almejo, E eu quero-te desejar.» Doutros desejos futuros O beijo mata o desejo. GLOSAS Porque te amo de verdade, Roubando um, mil te daria; 'stou louco por dar-te um O que não posso é jurar beijo, Que não te aborreceria, Mas contra a tua vontade E eu quero-te desejar! Não te beijo e tenho ensejo. António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
  • 10. Visão (A J. M. Eça de Queiroz) Eu vi o Amor — mas nos seus olhos baços Nada sorria já: só fixo e lento Morava agora ali um pensamento De dor sem trégua e de íntimos cansaços. Pairava, como espectro, nos espaços, Todo envolto n'um nimbo pardacento... Na atitude convulsa do tormento, Torcia e retorcia os magros braços... E arrancava das asas destroçadas A uma e uma as penas maculadas, Soltando a espaços um soluço fundo, Soluço de ódio e raiva impenitentes... E do fantasma as lágrimas ardentes Caíam lentamente sobre o mundo! Antero de Quental, in "Sonetos"
  • 11. Seus Olhos Seus olhos - que eu sei pintar O que os meus olhos cegou – Não tinham luz de brilhar, Era chama de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como facho do Destino. Divino, eterno! - e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tão fatal poder, Que, um só momento que a vi, Queimar toda a alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi. Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
  • 12. Cinismos  Eu hei de lhe falar lugubremente Do meu amor enorme e massacrado, Falar-lhe com a luz e a fé dum crente. Hei de expor-lhe o meu peito descarnado, Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário, E ser menos que um Judas empalhado. Hei de abrir-lhe o meu íntimo sacrário E desvendar a vida, o mundo, o gozo, Como um velho filósofo lendário. Hei de mostrar, tão triste e tenebroso, Os pegos abismais da minha vida, E hei de olhá-la dum modo tão nervoso, Que ela há de, enfim, sentir-se constrangida, Cheia de dor, tremente, alucinada, E há de chorar, chorar enternecida! E eu hei de, então, soltar uma risada. Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde
  • 13. O Amor É uma Companhia  O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, Porque já não posso andar só. Um pensamento visível faz-me andar mais depressa E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo. Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo. E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar. Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas. Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela. Todo eu sou qualquer força que me abandona. Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. Alberto Caeiro, in "O Pastor Amoroso" Heterónimo de Fernando Pessoa
  • 14. Não Sei se é Amor que Tens, ou Amor que Finges  Não sei se é amor que tens, ou amor que finges, O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta. Já que o não sou por tempo, Seja eu jovem por erro. Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso. Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva É verdadeira. Aceito, Cerro olhos: é bastante. Que mais quero? Ricardo Reis, in "Odes" Heterónimo de Fernando Pessoa
  • 15. Esperança Tantas formas revestes, e nenhuma Me satisfaz! Vens às vezes no amor, e quase te acredito. Mas todo o amor é um grito Desesperado Que apenas ouve o eco... Peco Por absurdo humano: Quero não sei que cálice profano Cheio de um vinho herético e sagrado. Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório'
  • 16. Poeta Pede a Seu Amor que lhe Escreva  Meu entranhado amor, morte que é vida, tua palavra escrita em vão espero e penso, com a flor que se emurchece que se vivo sem mim quero perder-te. O ar é imortal. A pedra inerte nem a sombra conhece nem a evita. Coração interior não necessita do mel gelado que a lua derrama. Porém eu te suportei. Rasguei-me as veias, sobre a tua cintura, tigre e pomba, em duelo de mordidas e açucenas. Enche minha loucura de palavras ou deixa-me viver na minha calma e para sempre escura noite d'alma. Federico García Lorca, in 'Poemas
  • 17.  Em Todas as Ruas te Encontro  Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que o meu corpo se transfigura e toca o seu próprio elemento num corpo que já não é seu num rio que desapareceu onde um braço teu me procura Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco Mário Cesariny, in "Pena Capital"
  • 18.  Soneto de Mal Amar  Invento-te recordo-te distorço a tua imagem mal e bem amada sou apenas a forja em que me forço a fazer das palavras tudo ou nada. A palavra desejo incendiada lambendo a trave mestra do teu corpo a palavra ciúme atormentada a provar-me que ainda não estou morto. E as coisas que eu não disse? Que não digo: Meu terraço de ausência meu castigo meu pântano de rosas afogadas. Por ti me reconheço e contradigo chão das palavras mágoa joio e trigo apenas por ternura levedadas. Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'
  • 19. Crepuscular Há no ambiente um murmúrio de queixume, De desejos de amor, d'ais comprimidos... Uma ternura esparsa de balidos, Sente-se esmorecer como um perfume. As madressilvas murcham nos silvados E o aroma que exalam pelo espaço, Tem delíquios de gozo e de cansaço, Nervosos, femininos, delicados, Sentem-se espasmos, agonias d'ave, Inapreensíveis, mínimas, serenas... _ Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas, O meu olhar no teu olhar suave. As tuas mãos tão brancas d'anemia... Os teus olhos tão meigos de tristeza... _ É este enlanguescer da natureza, Este vago sofrer do fim do dia. Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
  • 20. A Voz do Amor Nessa pupila rútila e molhada, Refúgio arcano e sacro da Ternura, A ampla noite do gozo e da loucura Se desenrola, quente e embalsamada. E quando a ansiosa vista desvairada Embebo às vezes nessa noite escura, Dela rompe uma voz, que, entrecortada De soluços e cânticos, murmura... É a voz do Amor, que, em teu olhar falando, Num concerto de súplicas e gritos Conta a história de todos os amores; E vêm por ela, rindo e blasfemando, Almas serenas, corações aflitos, Tempestades de lágrimas e flores... Olavo Bilac, in "Poesias"
  • 21. Os Meus Versos Rasga esses versos que eu te fiz, amor! Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento, Que a cinza os cubra, que os arraste o vento, Que a tempestade os leve aonde for! Rasga-os na mente, se os souberes de cor, Que volte ao nada o nada de um momento! Julguei-me grande pelo sentimento, E pelo orgulho ainda sou maior!... Tanto verso já disse o que eu sonhei! Tantos penaram já o que eu penei! Asas que passam, todo o mundo as sente... Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida! Como se um grande amor cá nesta vida