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CURSO DE PSICANÁLISE
TEORIA PSICANALÍTICA
_______________________________________________________________
MÓDULO: SEMIOLOGIA PSICANALÍTICA
Profa.: Rejane Rodrigues de Campos1
São José dos Campos
2017
1
Psicanalista e Didata; Professora; Supervisora; Orientadora; Pedagoga; Licenciada em Psicologia da Educação;
Sociologia; Administração Escolar. Especialista em: Educação; Supervisão e Psicanálise; Psicologia e Saúde Mental;
Transtornos da Infância e Adolescência. Membro das Associações Psicanalíticas: APVP/SP; EPPICO/SP e
APICE/SC/BR..
2
S U M Á R I O
INTRODUÇÃO ............................................................................................. 03
1. Os signos através da história ............................................................... 05
2. O que vem a ser Semiologia ................................................................ 09
3. A Semiologia, os Mitos e as relações humanas .................................. 15
4. Por que Semiologia e Psicanálise ........................................................ 19
5. A Psicanálise, a cultura e os mitos ...................................................... 22
6. Semiologia psicanalítica, fundamentos para a clínica ........................ 25
7. Comunicação, Semiologia e Psicanálise ............................................. 30
8. Entendendo a Semiologia .................................................................... 34
9. Semiologia Médica ................................................................................ 36
10. Semiologia Psiquiátrica ....................................................................... 38
11. Psiquiatria Dinâmica ............................................................................ 42
12. A Psicanálise e o modelo semiológico ................................................ 45
13. Os significados dos afetos e os traços mnésicos ............................... 48
14. Os mecanismos inconscientes e as defesas do ego ........................... 51
15. Evolução psicoemocional ..................................................................... 54
16. O Complexo de Édipo e o olhar semiológico ....................................... 59
17. O superego e os efeitos semiológicos .................................................. 62
18. A semiologia e a interpretação .............................................................. 64
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 68
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ............................................................... 70
LEITURAS SUPLEMENTARES ..................................................................... 71
Trabalho de avaliação e orientações .......................................................... 73
3
INTRODUÇÃO
“Os poetas e os filósofos descobriram o inconsciente antes
de mim. O que eu descobri foi o método cientifico
que nos permite estudar o inconsciente”.
Sigmund Freud
O ser humano faz parte de uma espécie bem sucedida em termos de sobrevivência
biológica, que povoa todas as regiões do universo terrestre. Entretanto a grande
adaptabilidade está na sua capacidade psíquica. É essa ferramenta que o torna capaz de
modificar decisivamente o ambiente a favor de sua sobrevivência e para uma qualidade de
vida, a qual proporciona a ele uma “estadia” maior no planeta terra. Esse processo de
adaptação se dá por meio da construção do conhecimento que o homem vai adquirindo
durante toda a sua existência, como também pela transmissão que vai ocorrendo ao longo
das gerações.
Há saberes que são vivenciados no cotidiano que convivem com diferentes fontes,
tornando-se muitas vezes contraditórios em determinadas ocasiões. Os vários
conhecimentos adquiridos pela humanidade podem ser socializados pelo uso de um código
ou sistema de símbolos que permitem a representação de uma informação. Os detentores
de um conhecimento utilizam códigos como terminologia, a fim de tornar esse
conhecimento socializado, assim, um fomenta o outro. É justamente através da vivência
que surge a dúvida e leva o individuo à experimentação para então o conhecimento tornar-
se ou não cientifico. Exemplificando, pode ser caracterizado e citado o “exossomatismo”
que consiste em uma forma de adaptação inconsciente ou consciente do ser humano às
condições ambientais. Constitui o processo pelo qual os indivíduos e mesmo as espécies,
passam a desenvolver ou viver uma adaptação evolutiva que culminará em um quadro de
seleção natural.
O desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cognitivas,
sociais e biológicas em todo o ciclo da vida, fazendo interface com a biologia, antropologia,
sociologia, educação, medicina entre outras. O enfoque tradicionalmente ficava voltado
para o interesse pelos anos iniciais de vida dos indivíduos, cuja origem está na história do
estudo cientifico do desenvolvimento humano. Entretanto, hoje há um consenso de que a
4
psicologia do desenvolvimento deve ter como foco o desenvolvimento do indivíduo ao
longo de todo o ciclo vital.
Há povos que sobreviveram por séculos sem desenvolver a escrita. Entretanto,
comunicaram-se e se expressaram cada um a seu modo. Muitas pessoas durante sua vida
se quer conhecem as regras gramaticais ou se expressam bem, o que constitui um sinal de
que a linguagem é algo mais complexo que a mera organização gramatical e a busca do
étimo das palavras. O fenômeno da comunicação é visto com uma visão mais ampla por
Ferdinand Saussure, que cria um novo paradigma para o estudo do mesmo. A função
primordial da linguagem é a comunicação e o uso da norma culta, no entanto, nem sempre
é adequada a um ambiente social descontraído.
O saber é constituído por uma dupla face, a “epistemológica” que se refere ao
significado das palavras e a “semiológica” ou “semiótica” que se refere ao significante que
encerra o significado. Pode ser dito que a semiótica teve sua origem na mesma época em
que a filosofia, sendo proposta para indicar a doutrina dos signos correspondente à lógica
tradicional. Surgiu também de forma a entender como uma ciência dos “sintomas” em
medicina junto com outras disciplinas afetas a esta.
No inicio do primeiro milênio da era cristã, Galeno de Pérgamo já tinham afirmado
que a diagnose é a parte semiótica da medicina. Isto deu origem à semiologia médica. Os
processos de significação como os sinais do corpo oferecem à interpretação e
compreensão das significações no campo das prevenções ou compreensão das semioses.
A semiologia e a teoria da comunicação podem ser sistematizadas e integradas de
uma maneira metódica e ao mesmo tempo prática no cotidiano da psicanálise. Este irá
fundamentar a operacionalidade da psicanálise, com contribuições da semiologia e da
teoria da comunicação, considerando uma estratégia terapêutica que possibilite cobrir os
níveis da ação analítica. Possibilita criar modelos que permitam reorientações pragmáticas
no sentido de facilitar ao analista, uma visão mais abrangente da problemática que lhe é
exposta pelo paciente. A compulsão à repetição, localizada a partir das estruturas
narrativas, possíveis de serem detectadas e traduzidas operacionalmente através do
material fornecido pelo paciente ao analista, em um sistema de signos passível de
codificação e consequente sistematização.
O homem vive no século da comunicação. Para alguns, o mundo constituiria uma
autêntica "aldeia global", habitada por “tribos planetárias”, possibilitadas uma e outra, pelas
novas tecnologias de informação e comunicação. Para outros tantos, a sobrecarga de
"informação" e "comunicação" não se traduz, necessariamente, em maior aproximação e
solidariedade entre os indivíduos, conduzindo antes a novas formas de individualismo e
5
etnocentrismo. "Comunicar" significa, etimologicamente, "pôr em comum". No processo de
comunicação, que simplificadamente pode ser entendido como a troca de uma mensagem
entre um Emissor e um Receptor, os Signos desempenham um papel fundamental. Sem
Signos, não há mensagem, nada pode ser posto em comum. Os Signos formam um campo
de grande amplitude e variedade, que constitui uma ciência que estuda a teoria e a
produção destes.
1. Os signos através da história
O estudo dos signos nasceu na Grécia antiga. Os primeiros a perceber a relações
e a diferença entre a natureza (semeion) e cultura (symbolon) foram os gregos. Deram
origem a duas linguagens: de nome objeto – “onomasiológica”; e de palavra conceito –
“semasiológica”. Desde então vem sendo objeto de investigação constante em vários
ramos do conhecimento, focalizado em diversas áreas como a filosofia, teologia, mitologia,
sociologia. Engloba a lógica, a retórica, a poética e a hermenêutica. Na civilização
ocidental, desde essa época até nossos dias, é marcado o desenvolvimento continuado
destas questões relativas aos signos e sinais.
O espirito capta os sinais relacionais existentes na natureza (semiologia), reunindo
significantes e significados, como também, constrói relações abstratas de significação
(semiótica), acrescentando características e aspectos, construtos apenas imaginários pelo
cérebro: o mundo cultural dos símbolos.
A partir de Platão (427-347 a. C.), filósofo das ideias que viveu no limiar de uma
época, entre valores antigos e um novo mundo, encontra-se a discussão sobre a natureza
dos signos e do significado. Em seus diálogos com Crátilos, ao falar da linguagem e do
conhecimento, faz a constatação de que os nomes não seriam capazes de dizer da
essência das coisas, bem como, o desenvolvimento de uma teoria sobre a iconicidade das
imagens mentais.
Aristóteles (384 – 322 a. C.) foi um sujeito devotado à cultura e dedicado à prática
literária. A partir da linguagem baseava sua definição de signo em uma teoria da
significação e da referência. Ele reconhece que as palavras “não são significantes por elas
mesmas, enquanto que os estados de alma são semelhantes às coisas que lhes
correspondem”. A palavra, em Aristóteles, é dita “símbolo de um estado psíquico”, isto
equivale a dizer que a relação da linguagem com o ser não é imediata. O que o autor tenta
mostrar é conservar uma relação mediata entre linguagem e realidade, evitando um abismo
entre “palavra” e “coisa”. Para o filósofo, o signo contém as bases de uma teoria da
6
significação e da referência. As palavras são convencionais em sua forma oral e escrita e
não naturais. Esse fato é observável por qualquer indivíduo e as regras mudam de uma
comunidade a outra. A palavra é, pois o símbolo de um estado psíquico. O estado psíquico
é uma imagem das coisas reais, e linguagem não tem qualquer relação de semelhança
com as coisas.
A Escola Estóica (300 a. C e 200 d. C.) apresentava sua filosofia como um modo
de vida. O individuo não era o que a pessoa diz, mas como se comporta (universo corpóreo
governado por um Logos divino). Fundada por Zenão de Cítio, cuja crença é de que o
conhecimento é atingido pela razão, pois tudo está enraizado na natureza. O estoicismo se
desenvolveu como um sistema integrado pela lógica, pela física e pela ética, articulados
por princípios comuns. Para viver uma boa vida era preciso entender as regras da
natureza. Assim, encontrada uma teoria em que o signo “reúne” três componentes: o
significante, o significado (ou sentido) e o objeto externo. Nessa proposta o significante e o
objeto externo eram definidos por uma natureza material, e o significado ou o sentido,
denominado de “Lekton”, que quer dizer “aquilo que é significado” era considerado
incorpóreo.
Epicuro de Samos (Século I), um filósofo grego do período helenístico, viveu uma
vida foi marcada pelo ascetismo, a serenidade e a doçura. Sua proposta é atingir a
felicidade, caracterizada pela “aponia” - ausência de dor física, e “ataraxia” -
impertubalidade da alma. As dores da alma estavam associadas às frustrações. Entretanto,
junto a seus seguidores, sugere a crença de que a linguagem verbal humana tal como o
comportamento animal e os gestos de uma criança, origina-se de uma convenção natural e
não de uma determinação de origem intelectual. Percebeu a superstição das pessoas, em
sua grande maioria, o que as afastavam da verdadeira função das religiões e dos deuses.
Segundo ele, os deuses viviam em perfeita harmonia, desfrutando da bem-aventurança, - a
felicidade divina. Piores e mais difíceis de lidar são as dores da alma. Estas estão
associadas às frustrações, segundo ele, e em geral oriundas de um desejo não satisfeito.
O filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, historiador e sociólogo foi um dos intelectuais
mais reconhecidos do mundo. Estudioso de Filosofia da Linguagem, pesquisador de
linguística, teoria da linguagem e crítico literário, situa as origens da Semiótica ocidental
nas "tradições particulares" da semântica, da lógica, da retórica e da hermenêutica antigas.
Este autor considera Santo Agostinho o primeiro dos semióticos por ter sido ele Padre da
Igreja, por ser o primeiro a satisfazer os dois requisitos fundamentais implicados na noção
de semiótica: ter como objetivo o conhecimento, a teoria; ter como objeto de estudo signos
de espécies diferentes e não exclusivamente os linguísticos.
7
Santo Agostinho desenvolveu sua inteligência dentro de conceitos filosóficos e
científicos distantes dos ensinamentos religiosos e de infância. Vivenciou várias formas de
vida contemplativa, estudou retórica e contribuiu para a promoção da proliferação de
sentidos. Ele fez referência à mente do interprete como um terceiro componente da
semiose, retomando o caráter triádico: “Um signo é alguma coisa, que além e acima da
impressão que causa nos sentidos, traz à mente alguma coisa como consequência”.
Encontram-se os mesmos elementos: signo, significante e significado, afirmando Santo
Agostinho que “um signo é uma coisa que, além da espécie ingerida pelos sentidos, faz vir
ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa”.
A descoberta do funcionamento dos organismos vivos é que inicialmente vem ser
chamada de semiótica, devido à elaboração intelectual de alguns estudiosos e autores.
Partem do princípio de que todo o animal, principalmente aqueles dotados de percepção
devem aprender que determinada matéria tem para suas vidas um significado fundamental.
As denominações “semiótica” e “semiologia” são nomes que passaram a existir por uma
questão de origem devido aos seus precursores do estudo nessa área.
As contribuições do filósofo Ferdinad du Saussure, um linguista de origem suíça,
marcou a história da linguística. Afirmou que “a língua é o palco de fenômenos relevantes”,
através do que é possível compreender a importância da constatação quanto à inexistência
de sociedade sem linguagem para interagir como o outro e com todos os elementos que a
rodeiam. Os conceitos como “langue e parole”, “sintagma e paradigma”, e “significante e
significado” fizeram com que ele fosse considerado o “pai da linguística moderna”.
Defendeu que a linguagem seria um fenômeno psicossocial constituindo a língua e a fala.
Afirmou que a “língua é o sistema, é aquilo que nenhum falante pode mudar”. O autor
buscou definir um objeto de estudo e objetivo de outro estudioso, ocasionando, assim, a
fundação de uma ciência autônoma e independente de outros estudos. Embora, conforme
o mestre “a linguística tem relações bastante estreitas com outras ciências, que tanto lhe
pegam emprestados como lhe fornecem dados, cujos limites que a separam de outras
ciências não aparecem sempre nitidamente”,
Saussure trabalhou com a fala e a oralidade, preocupando-se em “ver” como é que
as línguas se cruzam umas com as outras. Com a inquietação proveniente dessa ideia veio
chamar de “semiologia” os seus estudos sobre os signos. Ele trabalhou com a língua
francesa, o latim e o italiano, conhecendo bem o grego. Procurava saber como é que estas
línguas, no fundo se suportam, indo atrás de respostas para suas inquietações. O autor,
através da linguística, salientou que existia um lugar nas ciências sociais para uma ciência
8
que estudasse os signos. Isto fez com que montasse uma teoria, entretanto, não chegou a
escrevê-la.
Portanto, “Semiologia é uma ciência que estuda os signos”, segundo Saussure. O
núcleo de significação de linguagem é o signo. Para o autor o signo é composto de:
“significante” (Se), constituído pela “matéria acústica” ou a “imagem acústica”, nada mais
do que o som, algo que pode ser dividido e que tem contorno sonoro definido2
; e
“significado” (So) que é o “conceito da coisa”, constitui um conceito de âmbito da memória,
cuja junção destas duas faces resultará no “signo”. Portanto, o “signo” é sempre “mental”,
ele é a “representação” daquilo que a nossa mente percebe. Quando alguém que não
domina uma língua estrangeira ouve uma palavra, ele capta o “significante”, ou seja, o
“som”, mas não consegue apreender o “significado”3
, o conteúdo do que foi dito, por não
conhecer a língua. Saussure não considera a matéria externa, só acredita na existência da
palavra que é percebida pela mente. Portanto, a representação dessa materialidade é feita
pelo autor, através da equação “significante (Se) + significado (So) = signo”. Mais tarde
Adair Peruzzolo e Elizeu Verón e Martini, estudiosos que precederam Saussure,
classificam a “representação” como sendo “matéria significante”.
As formas como o individuo dá significado a tudo que o cerca, refere-se a um
conhecimento que existe há um longo tempo. Da raiz grega “semeion”, provém a semiótica
que constitui a “arte dos sinais”. Portanto, é a ciência que estuda os signos e todas as
linguagens e acontecimentos culturais como se fossem fenômenos produtores de
significado. O “ponto de vista semiótico” se refere ao significante, enquanto o “ponto de
vista epistemológico” esta conectado ao sentido dos objetos. A Semiótica na sua origem
remonta à Grécia Antiga. Portanto, ela é contemporânea do nascimento da Filosofia. Mais
recentemente é que se expressaram os mestres conhecidos como pais desta disciplina. No
início do século XX, ao lado das pesquisas de Ferdinand ddu Saussure surge Peirce com a
“Ciência da Significação”.
Charles Sander Peirce, um lógico e matemático americano, surge com um estudo,
onde propõe a “ciência da significação” como um “processo de produção do signo”. A este
sistema chama de “semiose”, e não apenas a ciência que estuda o signo. Em relação à
semiose, o autor propõe o estudo da relação triádica entre o “signo” (representâmen),
“objeto” (mental) e o “interpretante” que se formam a partir do “representâmen” (sinal,
2
A escuta da língua estrangeira é como se fosse uma sonoridade continua, por não conhecer a língua;
quando escuta a própria língua sabe onde termina e onde começa a palavra.
3
O sentido e acepção do vocábulo; correspondência que um vocábulo de uma língua tem em outra.
9
matéria externa, matéria significante). Peicer vai buscar na filosofia política, através de
John Locke (1690) a palavra Semiotikês para designar a “semiótica”.
O termo “semiótica” vem do grego “semiothiké” que significa a “arte dos sinais”. A
semiótica, portanto é a ciência geral que estuda todos os fenômenos culturais como se
fossem “sistemas sígnicos”, ou dizendo de outra maneira, “sistemas de significação”
envolvendo os signos e a semiose. Abrange um ocupar-se do estudo do processo de
significação ou representação, na natureza e na cultura, do conceito ou da ideia. Na cultura
e na sociedade as marcas como sistema de significação remontam desde a antiguidade, na
mitologia, na música, nas artes visuais, fotografia, cinema, moda, religião, gestos e em
todas as formas de manifestações sígneas em todos os tempos.
Com referência ao signo, pode ser dito que este é constituído por qualquer objeto,
som ou palavra capaz de representar uma outra coisa. Na modernidade, todos os
indivíduos dependem do “signo” para viver e interagir com o meio onde estão inseridos.
Para o homem comum, a noção de signo e suas relações, do ponto de vista teórico, não
são tão importantes, porém estão presentes em seu cotidiano entendidos de maneira
prática e precisa. Os signos são úteis, existem ou sucedem o momento, são
compreendidos e vão além do que se pode imaginar. Pode ser exemplificado com o ato de
dirigir um carro: lemos os discursos contidos nas placas de sinalização, sinais de trânsito,
nas luzes dos semáforos, pelas reações do veiculo ao meio ambiente, entre outros.
O homem intelectualizado não vive sem o signo, precisa dele para entender o
mundo, a si mesmo, as representações de seu mundo interno e as pessoas com as quais
se relaciona. Estão nas relações humanas. Portanto no cerne de tudo – semiologia ou
semiótica – o signo que é o tema central de um discurso, como um outro discurso, constitui
o produtor complexo da semiose. “A semiótica é um saber muito antigo que estuda os
modos como o homem significa o que o rodeia”.
2. O que vem a ser Semiologia
A semiologia é uma área do conhecimento que se dedica a compreender os
sistemas de significação desenvolvidos pela sociedade. O objeto da mesma são os
conjuntos de signos, sejam eles linguísticos, visuais, ou ainda ritos e costumes. A palavra
Semiologia vem da união das palavras gregas “semeion” que significa “sinal”, e “logos” que
quer dizer “estudo”. A Semiotica e a Semiologia, portanto, representam o memo campo de
estudos. Entretanto a partir de 1969, a Semiotica foi determinada como o nome da
“Ciência Geral dos Signos”.
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A Semiologia, também chamada de Semiótica e definida como a "teoria geral dos
sinais” se ocupa não apenas de Linguística, pois aquela possui uma maior abrangência do
que esta. A Linguística é o estudo científico da linguagem humana, e a Semiologia
preocupa-se não apenas com a linguagem humana e verbal, mas também com a dos
animais e de todo e qualquer sistema de comunicação, seja ele natural ou convencional.
Assim, pode ser dito que a Linguística se insere como parte da Semiologia.
Semiologia e Semiótica são termos permutáveis. Enquanto a Semiologia surgiu na
Europa, com o filósofo e linguista suíço Ferdinand du Saussure, o qual entendeu que a
língua é um sistema de signos que exprime ideias no seio da vida social, a Semiótica
desponta nos Estados Unidos, com o filósofo Charles Sanders Peirce, cujo projeto consistia
na definição dos quadros lógicos de representação da experiência e das categorias do
pensamento. O primeiro autor acentuou a “função social” do signo, enquanto o segundo
destacou a sua “função lógica” do mesmo.
As elaborações teóricas de Saussure propiciaram o desenvolvimento da linguística
como ciência autônoma. Seu pensamento exerceu grande influência sobre o campo da
literatura e dos estudos culturais. Os conceitos propostos ganharam notabilidade: de
fundação, ou seja, estrutural para inúmeros estudos e teorias contemporâneas; e
notabilidade de indução, ou seja, estruturante em outros tantos estudos não linguísticos –
da antropologia de Lévi-Strauss à psicanálise de Lacan, em especial.
Para Saussure o signo é a união do sentido e da imagem acústica. O que o autor
chama de “sentido” é a mesma coisa que “conceito” ou “ideia”, isto é, a “representação
mental de um objeto” (ideia), ou da “realidade social” em que nos situamos. Essa
representação é condicionada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço, ou
seja, no núcleo familiar e na cultura, inicialmente da própria família. Este autor, em outras
palavras propõe um conceito que é sinônimo de significado (plano das ideias), algo como o
lado espiritual da palavra, sua contraparte inteligível, em oposição ao significante (plano da
expressão), que é sua parte sensível. Por outro lado, a imagem acústica “não é o som
material, coisa puramente física, mas a impressão psíquica desse som”. Melhor dizendo, a
imagem acústica é o significante. Com isso, temos que o signo linguístico é “uma entidade
psíquica de duas faces”, semelhante a uma moeda.
Considerando o estudo de algumas teorias do signo e suas significações, cabe
uma reflexão sobre os fundamentos da Semântica e da Semiótica, bem como, as relações
destas com o signo. Reputando ao homem biopsicossocial e sua subjetividade, a
semiologia é necessária para a compreensão e entendimento da Psicanálise. A Psicanálise
acaba confundindo–se com a linguística. Entretanto, a “escuta” de um linguista e de um
11
psicanalista é diferente. A razão de existir da língua é o sujeito, e traz consigo uma ideia
inseparável de intersubjetividade. O dizer de um ser falante é sempre constituído de uma
alteridade. Tentar entender essa inclusão do outro no dizer do eu por circunstâncias que
consideram o dialogo, a interação, trazem à cena um Outro elemento subjetivo: o sujeito
do inconsciente, cuja atuação na linguagem é silenciosa e constante. O primeiro elemento
do método semiótico é o “significante”, caracterizado pela imagem acústica. A impressão
psíquica do som é o “significado” que pode desencadear outro fenômeno psico-semiológico
e constitui o segundo elemento do signo.
Saussure estipula duas características primordiais do Signo:
a) O Signo é arbitrário: Isso quer dizer que não há um laço natural entre o significante e o
significado. Por exemplo, lua em Inglês é ‘moon’, enquanto em é italiano é ‘luna’, em
francês ‘lune’. Com essa inferência Saussure distingue um signo de um símbolo; um
símbolo teria uma relação com o objeto representado. Como exemplo, pode-se dizer que
a cruz evoca muita coisa para um cristão, enquanto a suástica a um nazista ou a um
judeu. O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser substituído por um objeto
qualquer, um carro, por exemplo.
b) Caráter Linear do Significante: O significante é de natureza auditiva, desenvolve-se no
tempo, unicamente, e tem as características que toma do tempo em determinada
cultura. Com a constituição da linguagem verbal, existiriam relações sintagmáticas e
relações associativas. As relações sintagmáticas estariam baseadas no caráter linear da
língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo. Estes
se aliam um após o outro na cadeia da fala e tais combinações podem ser chamadas de
sintagmas. Por exemplo, “re-ler”, “contra-todos”, “a vida humana”, etc.
Saussure fazia frequentemente comentários sobre o conjunto dos fatos
semiológicos sem, contudo, apresentar qualquer detalhamento da maioria desses sistemas
de signos. O pesquisador tinha a língua como o principal dos sistemas sígnicos,
mencionando outros sistemas como o “Braille”, o “código de bandeiras marítimo”, “sinais
militares de corneta”, “códigos cifrados” (ex. música), etc. Somente no campo da literatura
Saussure empreendeu estudos mais extensos de sistemas sígnicos não-verbais. Por
exemplo, um estudo mitológico sobre a lenda germânica Niberlungen, que é descrita como
um sistema de símbolos que estão inconscientemente sujeitos às mesmas variações que
qualquer outra série de símbolos, bem como as palavras da língua.
Nos anagramas da poesia latina, Saussure se destacou no âmbito da semiologia.
Em determinado ponto das discussões teóricas, a semiologia saussureana ficou inscrita no
12
âmbito da sociologia e da psicologia (1901). O que mais ressaltou este enquadramento foi
a menção feita pelo linguista à aplicação da semiologia ao estudo das instituições jurídicas.
Ainda que o próprio Saussure tivesse a linguística como parte da semiótica, estudos
posteriores conseguiram provocar sérios equívocos que se tornaram polêmicas até hoje,
não sanados no que tange à posição dessas duas ciências: a semiótica contém a
semiologia ou a semiologia contem a semiótica? Convém, no entanto, buscar entender as
contribuições fundamentais do patrono da linguística na formulação de uma teoria geral dos
signos:
a) A arbitrariedade do signo linguístico em relação a sua constituição fonológica, do que
decorre o princípio suplementar da convencionalidade.
b) A não-arbitrariedade, a posterior, uma vez que ao falante não é facultado eleger signo
diferente do convencionado quando estabelece a comunicação com outrem, disto
decorre o princípio suplementar da imutabilidade do signo.
c) A imotivação dos signos quanto ao seu significado.
O princípio do binarismo: significado & significante indicam a associação psíquica
entre a imagem acústica e o conceito, sendo os três termos do modelo diádico de
Saussure: signo = significante + significado. O autor aponta a língua como o mais
importante dos sistemas de signos. Ele considera este o mais complexo e o mais utilizado
dentre os chamados sistemas de expressões sígnicas, mesmo considerando a língua como
apenas uma parte do universo semiológico. Ainda para Saussure, existe uma ciência geral
dos signos (Semiologia), da qual a Linguística poderia ser tão somente uma subdivisão.
Enquanto a semiologia de Saussure afirmava que a teoria do sentido deveria ser
estudada pela semiologia sem “contaminação” de outras áreas como a Filosofia e a
Sociologia, a semiótica proposta por Charles Sanders Peirce abraça as demais áreas do
conhecimento. Afirma que a teoria do sentido só pode ser recebida num corpo filosófico
maior. Este autor que estudou particularmente linguística, filologia e história, além de todos
os tipos de ciências, dominava dez idiomas. A semiótica peirciana pode ser considerada
uma filosofia cientifica da linguagem. A fenomenologia é a ciência que permeia a semiótica
de Peirce, devendo ser entendida no seu contexto. Para ele a fenomenologia é a descrição
e análise das experiências do homem, em todos os momentos da vida. Nesse sentido, o
fenômeno é tudo aquilo que é percebido pelo homem, seja real ou não.
Peirce acreditava que a semiose era uma manifestação da tendência humana de
buscar a verdade. O autor afirmava que a “verdade” é uma atividade dirigida para um
objetivo capaz de permitir a passagem de um estado de insatisfação para um estado de
satisfação, sendo este o motor do comportamento. Conceituou de forma indissociável de
13
sua investigação semiótica. Propõe o conceito de psique, mente, e consequentemente
analisou as atividades humanas. Psique para o autor remete à palavra grega “psyche”,
termo usado e que representa o princípio da vida nos seres viventes. Portanto, a “psíquica”
seria a ciência preocupada com os fenômenos mentais ou com as leis, manifestações e
produtos da mente. A mente por sua vez, nada mais é do que semiose, ou processo de
formação das significações.
A semiótica para Charles Sanders Peirce (2000) é constituída em três níveis: o
sintático – que revela a relação que o signo tem com o seu interpretante; o semântico – que
diz respeito a relação existente entre o signo e o seu referente (objeto); o pragmático – que
se importa com a relação do signo com ele mesmo e com outros signos. Para este autor, o
universo é semiótico e o homem interage com os sinais, lendo os que o antecedem e
formulando novos sinais em suprimento das necessidades emergentes.
Um signo, ou “representamen”, para Peirce é aquilo que em certo aspecto,
representa alguma coisa para alguém. Dirigindo-se a essa pessoa, esse primeiro signo
criará na mente ou “semiose” dessa pessoa, um signo equivalente a si mesmo ou,
eventualmente, um signo mais desenvolvido. O signo criado na mente do receptor recebe a
designação de “interpretante”, ou seja, que não é o interprete, e a coisa representada
recebe o nome o nome de “objeto”. Signo, Interpretante e Objeto constitui o que é chamado
de “representação triádica do signo”. O Interpretante comporta uma divisão tripartite: o
Interpretante Imediato corresponde ao Sentido (palavra à qual Peirce continuou preferindo
o termo antigo Acepção), o Interpretante Dinâmico equivale ao Significado e o Interpretante
Final, referido à Significação.
A visão pansemiótica de Pierce sobre o universo resultara no entendimento das
cognições, das ideias e até do homem como entidades semióticas. Como tal, um signo se
refere a outras ideias, a outros objetos do mundo e se reflete num passado. Suas ideias
projetam uma dimensão muito mais ampla. O homem denota qualquer objeto de sua
atenção num momento dado. Conota o que conhece ou sente sobre o objeto e é também a
encarnação desta forma ou espécie inteligível; o seu interpretante é a memória futura
dessa cognição, o seu eu futuro, ou uma outra pessoa à qual se dirige, ou uma frase que
escreve, ou um filho que tem.
Pierce retomou a teoria estóica do significado, em termos que lhe deram direito de
cidadania na lógica moderna. As concepções semióticas do autor demonstraram ser
fecundas na lógica e na semiótica contemporâneas, do mesmo modo que se tornaram
fecundas as múltiplas distinções e classificações de signos que ele forneceu nos seus
escritos. Para ele, Lógica e Semiótica identificam-se. Em seu sentido geral, Peirce afirma
14
que a lógica é apenas um outro nome para semiótica, a quase-necessária, ou formal,
doutrina dos signos. A Semiótica é quase necessária ou formal no sentido em que,
segundo o autor, procede por observações abstrativas, partindo dos signos particulares e
de que os signos "são", para as afirmações gerais, o que os signos devem ser. Segundo
Peirce a Semiótica tem três ramos:
a) Gramática Pura - a sua tarefa é determinar o que deve ser verdadeiro quanto a
representação utilizada por toda a inteligência científica a fim de que possa incorporar
um significado qualquer. É a teoria geral da relação de representação e dos vários tipos
de signos.
b) Lógica Pura ou Crítica - ciência do que é quase necessariamente verdadeiro em
relação aos “representâments” de toda a inteligência científica a fim de que possam
aplicar-se a qualquer objeto, isto é, a fim de que possam ser verdadeiros. Ciência formal
da verdade das representações, compreendendo a teoria unificada da dedução, da
indução e da retodução - inferência hipotética ou abdução.
c) Retórica Pura ou Especulativa - o seu objetivo é o de determinar as leis pelas quais,
em toda a inteligência científica, um signo dá origem a outro signo e, especialmente, um
signo acarreta outro. Refere-se à eficácia da semiose.
Esta tripartição da Semiótica viria a ser retomada por Charles Morris em 1938 que
substitui as designações de Pierce pelas de Sintaxe, a qual trata da relação formal dos
signos uns com os outros; Semântica, que trata da relação entre os signos e os objetos a
que se aplicam, e Pragmática, a qual procede da relação entre os signos e os intérpretes.
Como sabemos, Sintaxe, Semântica e Pragmática constituem, hoje em dia, os três grandes
domínios da Semiótica.
Pierce distingue, ainda, entre Semiótica geral e "ciências psíquicas" que mais
propriamente pode ser chamada de "ciências semióticas", as quais incluem as ciências
psicológicas e sociais, a linguística, a história, a estética, etc.. Para o autor, a Lógica e a
Semiótica se identificam, pois afirma que "em seu sentido geral, a lógica é, como acredito
ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica, a quase-necessária, ou formal,
doutrina dos signos". A Semiótica é "quase-necessária" ou "formal" no sentido em que,
segundo Peirce, procede por "observação abstrativa", partindo dos signos particulares
(signos - como "são"), para as afirmações gerais (signos - "devem ser"). Isto se observa
através de uma carta que escreve a Lady Welby, dizendo que "desde o dia em que, com
doze ou treze anos, apanhei no quarto do meu irmão um exemplar da Lógica de Whately
nunca mais fui capaz de estudar o que quer que fosse - matemática, moral, metafísica,
15
gravitação, termodinâmica, fonética, economia, história das ciências, homens e mulheres,
vinho, metrologia - senão como estudo de semiótica".
É perfeitamente perceptível que a sociedade atual organiza-se em torno de um
grande e poderoso universo de signos, e bastante complexo. De igual modo, é também
perceptível o estado absoluto em que se portam a linguagem humana e seus signos de
valor incondicional. Conforme Barthes (1991), nenhum outro sistema com a mesma
complexidade e grandeza foi observado em nosso espaço e tempo.
No cerne de tudo – semiologia ou semiótica –, o signo, tema central para também
um outro discurso: o signo, produtor complexo da semiose. Ora, como faz notar Umberto
Eco: “A semiose é o fenômeno, típico dos seres humanos (e, segundo alguns, também dos
anjos e dos animais), pelo qual – como diz Peirce – entram em jogo um signo, seu objeto
(ou conteúdo) e sua interpretação. A semiótica é a reflexão teórica sobre o que seja a
semiose. Em consequência o semiótico é aquele que nunca sabe o que seja semiose, mas
está disposto a apostar a própria vida no fato de que ela exista”.
3. A Semiologia, os Mitos e a Cultura
A semiologia estuda todo o sistema de signos da vida social e se debruça sobre a
significação de toda e qualquer linguagem. Constitui a ciência das formas, considerando
que estuda as significações, independente do seu conteúdo. O tema é complexo e
subordinado a múltiplas intepretações segundo o ângulo que é tomado para descrever
fenômenos tanto da mitologia como de outras ciências. Constitui num assunto que se
insere na perspectiva histórica da humanidade, como também, um aspecto vital da
civilização humana.
O mito é um sistema semiológico que aglutina o significado e o significante, a
própria relação entre os dois, o “signo”, na forma de entidade concreta. A comunicação
pode fazer do mito, a marca, “um signo linguístico perfeito”. Os mitos servem de modelo
para a sociedade desde épocas remotas, por conseguinte, possuem uma importante
função (des)organizadora para a humanidade, eles constituem um sistema de
comunicação, uma “mensagem”. Formam parte essencial de uma marca, é um sistema de
significação que tem uma massa ilimitada de significantes. A alteração comportamental nas
sociedades faz com que o mito seja “re-apresentado” inúmeras vezes, funcionando como
uma verdade profunda da mente mergulhada no inconsciente. Ele faz compreender e
acima de tudo impõe-se na mente das pessoas. A linguagem da mitologia constitui num
repertório de narrativas transmitidas oralmente de geração a geração através de um
16
conjunto de mitos narrados ou cantados. Muitas são as formas de abordagem e definição
dos mitos.
O mito vem do grego “mythós” que significa “mensagem”, “discurso”. Constitui uma
forma de comunicação de cunho simbólico. Procura explicar a origem e o significado do
mundo. Representa um sistema de pensamento de uma cultura, uma maneira de
sistematização das questões de âmbito das angústias do ser humano em busca de
conhecimento, tais como: origem do universo e do homem; o nascimento; o divino; a morte,
entre outros. Múltiplas são as funções das histórias míticas que se baseiam em tradições e
lendas em uma perspectiva temporal indefinida e que envolve muitas vezes a força divina.
O “Mito cumpre na cultura primitiva”, de acordo com Grimal (2005), “uma função
indispensável; expressa, acentua e codifica a crença, protege e reforça a moral; vigia a
eficiência do ritual e de certas regras práticas para a orientação do homem (...) não é uma
fabula vã, mas uma força criadora. Um ingrediente vital para a civilização humana”.
Os mitos, como histórias sagradas, são muitas vezes endossados pelos
governantes e sacerdotes, intimamente ligados à religião. O mito, na sociedade em que é
divulgado, geralmente é considerado um relato verdadeiro, narrativa de um passado
remoto, dos antepassados em suas conquistas, peripécias e suas relações no âmbito dos
deuses e dos humanos. A condição humana, na Grécia antiga estava vinculada à
existência dos deuses do Olimpo, representações de força e níveis de realidade
transcendente. O Mundo era povoado por deuses que atuavam sobre a vida humana. Ao
homem cabia viver da melhor maneira possível de acordo com os desígnios divinos. Não
havia separação clara entre o sagrado e o profano. A vida humana era regida por uma
divindade e que para uma vida harmoniosa era preciso conhecer seus genitores, condições
de seu nascimento, seu lugar na genealogia divina, para assim agir de forma piedosa a
este Deus.
Na origem mitológica e religiosa da criação e queda do homem transcende seu
tempo e sua própria origem através da narrativa da sua aporia do “pecado original”. Nesta
se esconde e desvelam a um só tempo a incompatibilidade lógica entre o objetivo divino da
“obediência” e o objetivo humano da “liberdade” e da “igualdade”, segundo Fiori (1973). A
criação do homem está posta no “poder da palavra” de Deus capaz de criar os céus, a
terra, os animais e o homem a partir do nada, através de uma simples designação.
Adão e Eva no paraíso não resistiram em provar do fruto da árvore do conhecimento
sem a sarcástica intervenção da serpente tentadora. O primeiro delito humano seria então
a busca em se apropriar do que é do Pai criador. Porém, “antes do pecado original, o
homem conhecia o bem e o mal: o bem por experiência (per experientian), o mal por
17
ciência (per scientiam). Mas após o pecado, o homem conhece o mal por experiência e o
bem somente por ciência”, afirma Autun (apud AGMBEN, 2005). Eva foi quem caiu primeiro
em tentação. O mito do paraíso trouxe uma duplicidade ao signo feminino entre outras
narrativas. A debilidade implícita de Eva cede ao chamado do diabo. Ao profanar o paraíso
conduz a humanidade ao ciclo de vida e morte, de procriação e realização da vida humana,
para além do paraíso exclusivo de Deus. O mito de Eva representa vida e mundo. A
transgressão dela é criadora. É a palavra iluminadora da dualidade humana, que, fora a
posse da semente do bem e do mal em sua essência, emana a capacidade reprodutiva e
de reprodução do mundo, o poder criador que remete ao divino, afirma Gea (2007). Noé e
a esposa, depois do Dilúvio, receberam a ordem dada a Adão e Eva: “sejam fecundos e
multipliquem-se pela terra”. Mas logo Noé é obrigado a amaldiçoar seu próprio filho pela
primeira desobediência.
Os mitos, a partir da escrita, obtiveram a condição de representatividade na
literatura, sobretudo através dos trageógrafos gregos, como Ésquilo, Sófocles e Euripedes,
entre outros. São autores de textos mitológicos enriquecidos pela arte da fantasia e
imaginação criativa do artista. A tragédia é uma forma transformada do mito, segundo
Azevedo (2015), cujas alterações são feitas para que o relato se encaixe na escrita. O mito
é na verdade o conjunto de suas variantes, transmitido em diferentes versões. A obra
literária pode ser entendida como “recorte” de uma ou mais variantes que se adapta à
leitura que o autor faz de um determinado mito. Como exemplo pode ser citado a versão
literária de Sófocles na peça de Édipo Rei, entre outras tantas do mito edípico. Portanto, há
uma clara diferença entre mito e tragédia. A tragédia é uma variante recortada e
transformada formal e esteticamente para a arte. Ela compreende o relato de situações de
acontecimentos terríveis que inspiram comoção. Constitui em uma forma dramática cuja
finalidade é despertar o terror e a piedade, baseada no percurso do herói que termina
quase sempre num acontecimento que enuncia ou precede a morte.
Na modernidade os mitos continuam existindo, porém mais adequados à realidade
atual, segundo Müller que afirma: “com a diferença apenas de que atualmente não
reparamos nela, porque vivemos sua própria sombra e porque, nós todos, retrocedemos
ante a luz meridiana da verdade”. Entretanto, nem por isso deixam de serem naturalmente
mitos e de inspirarem as pessoas, seja por meio das religiões ou da ciência.
O mundo moderno procura satisfazer todas as necessidades do homem através do
consumo. Entretanto, esse mesmo consumo o escraviza. Torna-se seu único objetivo,
destrói sua individualidade. O homem comum, preocupado em obter todos os bens ou
produtos de massa, torna-se um mero componente na máquina de consumo, um operário
18
que quer ser um consumidor. Incapaz de obter satisfação vê-se impotente e diminuído. O
mundo moderno procura suprimir a religião, os mitos e os heróis, pois é nestes que o
homem procura forças para superar o sentimento derrotista em que mergulhou. As religiões
aparecem como fonte de conforto, esperança de sucesso que o mundo material não lhe
pode oferecer.
O herói é uma das manifestações mais fortes do mito, presente em todas as áreas
da cultura. Seja no cinema, na literatura, na televisão ou nas histórias em quadrinhos, o
herói surge na vida dos povos como guardião de seus valores mais nobres e justos. É
responsável não só pela defesa dos homens, mas pela transmissão de ensinamentos para
as gerações futuras, através de suas narrativas. Entre os ídolos na atualidade, os do
futebol estão mais próximos do herói clássico, como também os da música. Segundo o
sociólogo Ronaldo Helal (1999), a trajetória do herói do futebol, ligada à luta, à disputa e ao
sucesso em virtude da derrota do oponente, é semelhante às batalhas dos mitos da
antiguidade. O autor afirma que essa característica do “ídolo-herói acaba por transformar o
universo do futebol em um terreno extremamente fértil para a produção de mitos e ritos
relevantes para a comunidade”.
O herói atual tem sua narrativa construída segundo um padrão midiático para
corresponder aos anseios do público. Se por um lado o homem contemporâneo des-
sacraliza os deuses e heróis de antes, de outro, reforça e fetichiza os mitos da pós-
modernidade. O consumo e o estilo de vida de um mundo cujos rituais já não giram mais
em torno de figuras sagradas, mas sim de desejos mundanos, ao invés de libertar o
homem dos limites da religião, apenas a substituem, aprisionando o espirito humano e
submergindo-o em suas próprias ambições. É importante perceber que não se pode retirar
do mito o seu poder emocional, tão pouco seu efeito metafisico sobre os homens. O
simbolismo que está atrelado aos mitos lhes dá legitimidade, mesmo que para isso tenham
mudado de forma e de apresentação.
Na verdade não há uma oposição entre mito e realidade, verdade, modernidade,
mesmo que de fato na consciência e no senso comum, “o apelo ao moderno evoca um
tempo percorrido e denominado vitorioso desmantelamento a antigas mitificações
sedimentadas e enraizadas no costume” de acordo com Grossi (2007). Segundo o autor,
devido às conquistas do progresso humano através da secularização e a consequente
posse de verdades cientificas. No consciente coletivo, o mito não significa somente coisa
fantasiosa, irreal, de acordo com Costa Neto (1999), mas quer dizer, em primeiro lugar,
uma narrativa de significação simbólica e, como tal, pode auxiliar a ciência a expor suas
teorias de forma viva e imaginativa.
19
4. Porque Semiologia e Psicanálise
O estatuto epistemológico é fundamentalmente diferente entre linguística e
psicanálise. A primeira é a ciência da linguagem, a segunda é mais complexa, é a ciência
do inconsciente. Enquanto um “lapso” se torna a “escória involuntária”, que mal se nota
para um linguista, para o psicanalista é a brusca irrupção do “inconsciente no discurso”.
Freud (1923) define a Psicanálise como o nome de um método “de investigação de
processos anímicos que são dificilmente acessíveis de outra maneira; de tratamento dos
distúrbios neuróticos, que se funda sobre essa investigação”, assim como propõe como o
nome de “uma série de princípios psicológicos adquiridos por esse meio, que crescem
progressivamente para reunir-se em uma disciplina cientifica nova”.
A psicanálise aparece como que clivada, terapêutica de um lado e cientifica de outro.
Amplamente discutido por Lacan (Seminário 11), ele manifesta a assimetria fundamental
entre a “ciência da linguagem” de um lado e a “ciência do inconsciente” de outro, embora
interrogativo e parcial quanto a esta última. Contemporâneos e pertencentes à mesma
geração, Freud (1856-1939) e Saussure (1857- 1913) não se conheceram. Embora a
linguística já existisse no universo da cultura, Ferdinand não escreveu sobre o que teorizou
e por outro lado não entrou em contato com os escritos freudianos, no entanto, o filho de
Saussure, Raymond de Saussure, foi analisando de Freud.
Lévi-Strauss (1958) com sua antropologia estrutural contribuiu para a construção da
semiologia psicanalítica, justificando o autor, sua proposição dos mitos como sendo
universais linguísticos, reveladores do inconsciente humano apoiando-se em Freud e na
Psicanálise. O antropologista, pensa sobre a noção de mito e também de inconsciente,
admitindo que “as constelações psíquicas que reaparecem à consciência do doente
possam constituir um mito”, e ainda, “o objeto próprio dos mitos é oferecer uma derivação a
sentimentos reais mais recalcados” (Lévi-Strauss, 2003). Diretamente Freud não propõe
nenhuma “Semiologia Psicanalítica”, porém a ciência que estuda a vida dos signos no seio
da vida social ensina as leis que regem os signos, e como tal vinculada a um domínio dos
fatos humanos.
Na biografia de Freud, Ernest Jones sublinha o pai da psicanálise em toda a sua
vida, “provavelmente foi mais absorvido pelo grande problema de como o homem veio a
ser homem do que por qualquer outra questão". Impulsionado em direção a longínquas
navegações, Freud intui que o vento da história do processo de humanização - do devir
homem -, sopra do passado. O cerne do mito é a origem das coisas, seus primórdios
segundo Eliade. O mito narra a origem do mundo, do homem, do animal, do fogo, da
20
guerra, e assim outros tantos, e por tanto, giram em torno não do fim em si mesmo, mas de
um novo começo. Um leque de aberturas se descortina no estabelecimento de uma
comunhão entre mito e psicanálise.
O efeito do mito é desvelar as contradições, pois apresenta a recorrência de certas
questões conflitantes da humanidade: vida e morte; o mesmo e o outro; a diferença sexual;
o perene e o transitório; etc.. O homem indaga muitas vezes: por que os mitos? A literatura
oral de modo geral, utiliza com tanta frequência a duplicação, a triplificação de uma mesma
sequência. Lévi-Strauss responde que a “repetição possui uma função própria, que é a de
tornar manifesta a estrutura do mito”.
O inconsciente, a espinha dorsal da descoberta freudiana - a psicanálise e sua
clínica - também se funda na figura do paradoxo, na coabitação de opostos, no conflito e na
repetição - tendência de retorno ao mesmo ponto de origem, em geral, ao ponto de
encontro com uma satisfação originária e absoluta, e, portanto, mortífera. Mas, o eterno
retorno não significa sempre o retorno do idêntico. Ao contrário, voltar é ser, mas apenas o
ser do devir, pois supõe um mundo em que as identificações prévias são abolidas,
dissolvidas e metamorfoseadas.
O deus da medicina, Asclépio que é filho de Apolo, no seu santuário transmite seus
oráculos por meio dos sonhos. No ritual de cura por incubação, o doente é recebido para
passar a noite com o objetivo de ingressar no sono e incubar o sonho curativo. A palavra
clínica origina-se, etimologicamente, do grego “Klinico”, “Kline” e do verbo “Klino” que
significa tratamento, leito ou repouso, e deitar reclinar, debruçar, inclinar. Na clínica, não
por acaso, coube a Freud a invenção do artifício do “divã”, representante emblemático da
posição privilegiada para as experiências de nascimento, doença, sexo, morte, sonho ...
dos pacientes. Deitar-se para relembrar, retomar o que não pode ser esquecido, segundo
Pastori, é o convite de trabalho psíquico a ser realizado pelo analisando. Aquilo que não
pode apagar – não esquecimento -, traduzido também por desvelamento da verdade.
Lévi-Staruss esclarece que há muita psicanálise no mito, a partir do par analítico,
mas dialético, e de verdade-esquecimento. No mito há verdade velada em seu interior,
esta intimamente ligado à noção de verdade. Este é o anúncio de um dos princípios
fundamentais da psicanalise, o princípio da dualidade como estruturante da vida psíquica.
Freud salienta que o psiquismo não se restringe ao individuo e que a vida humana é tecida
entre o coletivo e o individual. Ele recomenda aos psicanalistas, não só a inclusão de um
curso de mitologia na formação psicanalítica, como também a relevância em conhecermos
o desenvolvimento da linguagem – a etimologia – ao trabalhar na tradução da linguagem
do sonho.
21
Desde os primórdios da psicanálise com a obra fundante do método psicanalítico
(1900), “A interpretação dos sonhos”, o mito figura como objeto de fascínio, fonte de
inspiração e reflexão para Freud construir suas teorias acerca do funcionamento psíquico.
O mito aparece como via de compreensão para os processos inconscientes. A linguagem
dos sonhos é uma aproximação da linguagem dos oráculos que indica os desígnios, uma
linguagem ambígua, entretanto fica a cargo do homem a sua interpretação. À semelhança
do mito, o sonho abarca a projeção de desejos inconscientes de um sonhador particular. O
mito expressa o sonho da humanidade, enquanto que o sonho de um sujeito designa seu
mito singular, ou, o mito individual do neurótico, segundo Jacques Lacan. O mito é um
saber que nos atravessa sem que o saibamos, assim como o inconsciente é um saber que
não se sabe que se sabe.
Em psicanálise, os mitos são compreendidos como modelos de subjetivação. Eles é
que moldam a mente do individuo. Constituem produções coletivas cujo uso que homem
faz das mesmas pode ser distinguido em duas vertentes: na primeira o mito é criado, serve
ao sujeito e este o vive, numa “ênfase biológica”; na segunda o mito cria o individuo, é
servido e ele vive o homem, numa “ênfase cultural”. Usando a metáfora de um carro com
passageiros, na primeira vertente, é como se o sujeito dirigisse seu carro e levasse os
mitos como passageiros, e na segunda vertente, é como se os mitos dirigissem o carro e
os indivíduos fossem os passageiros.
Os mitos, na contemporaneidade, sem serem dialéticos e lógicos ou produtores de
verdade, educam, subjetivam e operam como marcadores de lugares sociais, institucionais
e familiares. Esta binocularidade de compreensão dos mitos é imprescindível para definir
lugares de emergência do humano – bio-psico-social -, tanto como expressão da biologia,
como produção cultural intersubjetiva, família e instituições. Transubjetiva grandes grupos e
etnias, assim como é subjetivadora de indivíduo, sujeito e pessoa. A psicanálise, ao tratar
da análise da realidade psíquica institui, na travessia em direção ao processo de
subjetivação, o caminho da construção de uma linguagem mito-poética. Caminho se origina
do grego “Hódos”, de onde deriva “métodos”, que significa a busca de algo, especialmente
de saber, de conhecimento que se refere, também, ao modo como essa busca é
conduzida.
Para a construção do método de uma “semiologia psicanalítica”, Bento (1996) e se
inspirou no linguista de Saussure e em Lévi-Straus e sua antropologia estrutural. Este autor
propõe a hipótese de que os mitos são reveladores do inconsciente humano. Apoiado em
Freud e na psicanálise, justificará sua hipótese quando escreve que “pensamos
particularmente na noção de mito e na noção de inconsciente”, e segue afirmando que
22
“inúmeros psicanalistas se recusarão a admitir que as constelações psíquicas que
reaparecem na consciência do doente possam constituir um mito”. Afirma ainda que “o
objeto próprio dos mitos é de oferecer uma derivação a sentimentos reais, mas recalcados”
(Lévi-Straus, 2013).
O aparecimento do humano e sua compreensão ocorreram por funções peculiares,
como obras de arte, míticas criadas em espaços intersubjetivos e em presença de pessoas.
Estas figurações são específicas a cada individuo e aos vínculos específicos que são
gerados, exatamente como a história pessoal vivida e como o próprio nome que carrega a
cada um e o qual este carrega. Embora os mitos, como a arte, não sejam produtores de
verdade como a ciência, eles residem, com sua geratividade, na fenda entre o pensamento
(individual) e a linguagem (coletiva). Eles obrigam o pensamento à busca de denotação no
mundo e produzem o imaginário que, caso seja inundado pela experiência religiosa,
mágica como ocorre com a criança, fazem a mente pensar pensamentos que só existem,
de fato, na linguagem, mas parecem estar no mundo.
O relevante, para a psicanálise em cada história, é a expressão anímica, mágica,
vital – catexia libidinal. O conceito de mito aqui usado está ampliado para a produção
coletiva expressiva – contida em material verbal e para-verbal – possuidora de vida, de
partes de subjetividade, comprometida e sentida como histórias verdadeiras, abarcando as
lendas urbanas, as histórias de grupos vários e pessoais além de expressão da arte.
Interessa menos o envelope onde está contido – linguagem, artes cênicas, plásticas – e
mais a impregnação mágica associada à força de convicção, como se dá com o que é
sentido como verdadeiro e real.
Freud não propõe diretamente uma “semiologia psicanalítica”. Cabe ao psicanalista
determinar o lugar exato da semiologia como instrumental de seu trabalho. Em seu artigo
“Totem e Tabu”, Freud (1913) particularmente explicita e de forma clara sua primeira
“semiologia psicanalítica”. Sem a utilização e o conhecimento semiológico ele efetivamente,
fez ali o que se entendeu como uma prática da semiologia psicanalítica dos signos: "totem”
e “tabu”.
5. A Psicanálise, a cultura e os mitos
Mitologia e Psicanalise são duas áreas que se entrelaçam no caminho das
palavras, no discurso que envolve questões da angústia e da tragédia da condição
humana. Ambas se movimentam e se deslocam pela vereda das representações dos
aspectos inconscientes da mente. Em todo o lugar onde se façam frases, onde se contem
23
histórias, em todos os sentidos das expressões, o mítico esta presente. Freud aponta o
conceito mítico como uma repetição histórica. Este conceito do mítico conduz a um
conhecer, um olhar semiológico sobre uma compreensão de um sistema particular
construído a partir de uma cadeia semiológica existente e anterior a ele.
Nos processos de desenvolvimento de seu pensamento é necessário lidar com a
origem e o proposito da cultura humana como tal, afirma Freud. Para o autor, cultura
significa todos os aspectos em que a vida humana tem se levantado acima da condição
animal e que difere da vida de uma fera. A cultura inclui todo o conhecimento e poder que
os homens acumulam, a fim de dominar as forças da natureza, de um lado, e de outro,
todas as providências necessárias para que as relações dos homens uns com os outros
possam ser reguladas. Condições estas inseparáveis porque os recursos existentes e à
medida que satisfazem os desejos dos instintos estão profundamente entrelaçados. E
escreve Freud: ”Parece mais provável que cada cultura deve ser construída em cima de
(...) coerção e renuncia ao Instinto”. O homem forma a cultura, entretanto, “ele é, ao mesmo
tempo sujeito a ela, pois ela doma seus instintos selvagens e faz com que o homem se
comporte de forma socialmente aceita”.
A essência da cultura, segundo Freud, não esta na conquista da natureza pelo
homem como maneira de dar suporte à vida, mas na esfera psicológica, em que cada
homem possa conter seus instintos predatórios. A religião é um dos refreadores do instinto
que o homem criou para perpetuar sua cultura. O aspecto particular da religião como
reflexo da consciência moral é reconhecido por Freud. Escreve que uma de suas funções é
tentar “corrigir as tão dolorosamente sentidas imperfeições da cultura”. Argumenta o autor
“que sofremos de neuroses da infância que são naturais e derivam das condições
exteriores e da falta de carinho”. Afirma que a religião elimina a maioria daquelas neuroses
a custo de desenvolvimento da neurose que ele considerava como “a neurose universal”, a
neurose mais comum, da qual “era difícil de se libertar, em oposição às neuroses tratáveis
da infância”, que ele considerava curáveis.
A psicanálise, a semiologia e a teoria da comunicação podem ser sistematizadas e
integradas de uma maneira metódica e ao mesmo tempo prática no cotidiano da clínica
psicanalítica. Em princípio tudo parece se opor à linguística e à psicanálise, o linguista ao
psicanalista, e parece que ambos não nasceram para se encontrarem ou mesmo para se
entenderem. O psicanalista visa uma ação terapêutica por definição diferente e estranha ao
linguista, porém ambos escutam, embora cada um tenha a “escuta” a seu modo. O linguista
se preocupa em escutar de forma objetiva entre as variantes das ligações ou a diversidade
dos modos de formação neológica, enquanto o psicanalista deve ter uma escuta
24
diferenciada, praticando a fórmula proposta por Freud, a “Atenção Flutuante”, com seu
“terceiro ouvido” (Reik). Sua escuta deve ser sensível àquilo que “não é dito”, ou que se
“diz mal”, ou reconhecendo nos “atos falhos” os verdadeiros atos bem sucedidos, aquilo
que provém do inconsciente.
Nas teorizações iniciais de Freud, ao criar a psicanálise, assim como Karl Abraham,
os mitos são usados para demonstrar a existência de desejos, pulsões, e instintos. Eles
são criados como ressonadores de desejos que precisam permanecer escondidos na
mente humana e produtora, pelo mesmo processo de sonhos devaneios, fantasias
(inconscientes) e da arte. Todos eles são considerados “formação de compromisso” e
“formações substitutivas”, cuja função é dissimular as verdadeiras motivações das pulsões,
buscando algum modo de descarrega-las. Num segundo momento da obra de Freud, os
mitos são compreendidos como modelos de subjetivação.
Freud foi um grande admirador e estudioso das fontes mais primitivas da evolução
do homem: a mitologia, a filosofia e a literatura antiga. Ao iniciar a psicanalise, ele
começou descobrindo o “poder mágico” simbólico da palavra. A clínica freudiana verifica
em que medida os afetos e as representações estão ligadas a complexos laços simbólicos,
bem como, a expressão verbal opera nesse emaranhado de coisas. A linguagem é a
condição do inconsciente na estruturação da subjetividade humana. O sujeito se constrói a
partir da fala dirigida ao Outro, organizando seu corpo, seu desejo e seus vínculos.
As mensagens inconscientes, por exemplo, seriam essas auto-mensagens que o
sujeito codifica por si mesmo e que depois não sabe mais decodificar. Dentro dessa
perspectiva, o psicanalista trabalha a título de intérprete entre o inconsciente, emissor que
transmite em cifra, e o pré-consciente, receptor que não pode decriptar essa cifra sob pena
de experimentar desprazer. Na patologia da comunicação do paciente psicanalítico, vemos
fenômenos de codificação ou de decodificação patológicas ligadas a uma delimitação
incorreta de classes significantes e de classes significadas; o que tem como consequência
uma pragmática incorreta da comunicação.
O paciente psicanalítico se põe em comunicação patológica, de um ponto de vista
pragmático, com seus objetos - na transferência, com seu analista -, na medida em que as
classes significantes de seu código informativo, equivalentes às “representações de
palavras”, segundo Freud, e as classes significadas desse mesmo código ou
“representações das coisas”.
Foi através dos trabalhos de Melanie Klein, Hanna Segal, Wilfred R. Bion e outros
autores da escola inglesa, bem como, através dos escritos de Jacques Lacan, André
Green, Jean Laplanche e outros autores da escola francesa, que progressivamente surgiu
25
a consciência da importância de que se revestem os símbolos e os signos na teoria e na
prática psicanalíticas. E isto a tal ponto, que acabaram surgindo como domínio específico
das pesquisas e modificações constitutivas do trabalho do psicanalista.
6. Semiologia psicanalítica, fundamentos para a clínica
Freud valorizou os mitos, as lendas, os contos de fadas e as narrativas do homem
primitivo supondo que poderia revelar uma verdade humana imutável, atemporal, pois “num
certo sentido, ele (o homem pré-histórico) ainda é nosso contemporâneo”, assegura o
autor. Nesse sentido, sua obra “Totem e Tabu" (1913) constitui uma psicologia social vista
segundo uma ótica psicanalítica, que se assemelha a uma "semiologia psicanalítica",
lembrando a semiologia saussuriana, aparentemente sem possuir suas raízes no
pensamento de Saussure (1916). Nesta obra, Freud considerou-a como uma de suas
pesquisas favoritas. Pergunta-se, o que é um totem? Freud caracteriza o “totem” como
sendo o “antepassado comum do clã”, como uma “significação mitológica”. Ao mesmo
tempo afirma ser “um espirito guardião e auxiliar, que lhe envia oráculos e, embora
perigoso para outros, reconhece e poupa seus próprios filhos”.
Os mitos remeterão às religiões, eles se situarão na origem das instituições
religiosas. Uma lei mitológica de transformação faria dos “totens” (mitos) originários de um
primeiro tempo, os “tabus” (sagrado) de um segundo tempo. Quando ocorrer a ausência da
transformação, permanece a conservação do mito. Freud (1913) proporá também uma
psicologia dos povos primitivos a partir de uma comparação entre esta, "como é vista pela
antropologia social, e a psicologia dos neuróticos, como foi revelada pela psicanálise".
Essa ideia de uma psicologia dos povos primitivos revelaria uma aproximação da
semiologia de Saussure (1916), concebida como sendo "uma parte da Psicologia social".
Wundt e Jung serviram de ponto de partida, entretanto, eles também serviram de referência
para se diferençar e marcar a identidade dessa obra. Freud (1913) afirma que fará: "uma
comparação entre a psicologia dos povos primitivos, como é vista pela antropologia social,
e a psicologia dos neuróticos, como foi revelada pela psicanálise"; ao contrário do que fará
Jung, que valorizará a psicologia individual explicada pela psicologia coletiva.
Freud interrogou-se a partir do domínio da psicologia social e da psicanálise sobre
o sentido do signo "mito": " Você imagina o que podem ser os 'mitos endopsíquicos'?" Os
"mitos endopsíquicos", a "psico-mitologia", serão assim valorizados como linguagem
humana, "popular", atemporal, remetendo a um duplo fenômeno: social, por um lado, e o
inconsciente, por outro, posto que os mitos são "vestígios deformados de fantasmas
26
(inconscientes) dos desejos comuns a nações inteiras", e "eles representam os sonhos
seculares da jovem humanidade". Os mitos são destacados ao lado das religiões, situando-
se na origem das instituições religiosas.
Essa amostra de estudo é assim definida por Freud: "as tribos que foram descritas
pelos antropólogos como sendo dos selvagens mais atrasados e miseráveis, os aborígenes
da Austrália (...) considerados uma raça distinta, sem apresentar relação física nem
linguística com seus vizinhos mais próximos, os povos melanésio, polinésio e malaio".
Nessa sociedade primitiva, aparentemente sem vínculo com as sociedades atuais, o autor
sublinha a inexistência de instituições religiosas e o papel do sistema de totemismo que as
substitui. Ele escreve a esse propósito: "É altamente duvidoso que se lhes possa atribuir
qualquer religião moldada na adoração de seres superiores (....). Entre os australianos, o
lugar das instituições religiosas e sociais que eles não têm é ocupado pelo sistema do
'totemismo'" (FREUD, 1913).
O "totem", enquanto "mito", será regido pelas leis da mitologia e, assim, terminará
por se transformar em "tabu". O conjunto desses dois aspectos remete aparentemente a
uma contradição. Freud afirma que, por um lado, os totens são mitos originários, objetos de
veneração que, apesar das aparências, não cessam nunca de existir. Permanecem vivos
ainda que escondidos "no que foi considerado como uma forma inferior e finalmente
desprezível" (o tabu) parece que, por outro lado, os totens, como "objetos de (...)
veneração, se transmudam em objetos de horror" (os tabus). Portanto, os tabus que
caracterizam o pensamento religioso se fundam nas transformações dos mitos, que são os
totens.
As religiões como cultos rendidos a Seres superiores e às suas restrições morais e
em oposição aos mitos, ao animismo, nos quais se observa o culto livre do homem aos
seus pares, surgem num segundo momento da história da raça humana. As religiões como
os tabus, tem sua origem, no tempo dos “totens-mitos” que se tornaram “inconscientes”
após recalcados ao longo de um segundo tempo religiosos. Os tabus caracterizam o
pensamento religioso e se fundam nas transformações dos mitos que são os totens. Freud
aborda a questão do surgimento das religiões, posterior aos mitos, no contexto de uma
psicologia do desenvolvimento dos sistemas intelectuais, das concepções do mundo, na
história do homem. Afirma que “a raça humana (...) desenvolveu, no decurso das eras, três
desses sistemas de pensamento - três grandes representações do universo: animista (ou
mitológica), religiosa e científica”.
Em “Totem e Tabu” (1913) e em “O Futuro de uma Ilusão” (1927) Freud escreve
sobre o fenômeno religioso e enfatiza a imagem paterna que esta por trás da figura de
27
Deus. O sentimento de desamparo, experiência na infância que é inerente a todo ser
humano, é o que o move a procurar a religião. O pai de “Totem e Tabu” era o pai todo-
poderoso, não castrado que tinha todas as mulheres para si. Ele foi alvo da hostilidade dos
filhos que o mataram. Para se apropriarem das marcas de sua onipotência e assumirem
seu lugar, o comem num banquete canibalesco. Posteriormente, os filhos descobrem que
amavam o pai. Esse amor se transformou em sentimento de culpa e a palavra do pai se
converteu em lei simbólica. Com o arrependimento e a culpa eles realizaram um culto
através do qual a dívida seria honrada pela rendição à instituição simbólica da proibição do
incesto. E Freud (1912) assim escreve “este crime esta destinado a dar origem a toda a
civilização futura, foi o ato criminoso memorável com o qual começaram a organização
social, as restrições morais e religiosas”.
Em o “Futuro de uma Ilusão”, Freud defendia que o homem é um “ser de desejo”,
antes de ser um “ser da razão”. O ser humano é uma instância pulsional marcado e dividido
pelo conflito. A cultura fundamenta-se sobre as bases da renuncia pulsional. Os indivíduos
possuem atitudes hostis a ameaçarem a cultura. Apesar das frustrações das interdições,
estas são necessárias. O valor universal da crença marca as religiões. Elas se organizam e
exercem certo controle social sobre seus ambientes e fora deles. Criam sanções e
proibições a serem seguidas por todos.
A psicologia das neuroses e as grandes produções sociais, considerando a
semelhança entre religião e tabu é comparada por Freud. Ele aproxima as neuroses
obsessivas das religiões e dos tabus. Os tabus constituem uma característica comum das
neuroses obsessivas e das religiões, afirmando que “o tabu assemelha-se muito
estreitamente ao medo de contato do neurótico, com sua fobia de contato”. Através dessa
comparação, o autor pressupõe a compreensão da natureza da relação entre as diferentes
formas de neuroses e instituições culturais, assim como o estudo da psicologia das
neuroses é importante para a compreensão do desenvolvimento da civilização.
As neuroses “apresentam pontos de concordância notáveis e de longo alcance com
as grandes instituições sociais, a arte, a religião e a filosofia” afirma Freud (1913).
Entretanto, segue o autor, estas “parecem como se fossem distorções delas”. Ele
compara o caso da histeria, afirmando que esta “é uma caricatura de uma obra de arte”;
uma neurose obsessiva “é uma caricatura de uma religião”; e um delírio paranoico “é a
caricatura de um sistema filosófico”. O psiquismo é uma formação intermediária entre o
corpo biológico e o campo social, e o inconsciente, objeto de estudo da psicanálise, não
existe no vazio.
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Freud, nesse mesmo artigo, baseado em hipóteses cientificas dos etnólogos de sua
época, reconstrói o mito da morte do “Pai primitivo” e vê nele as origens da mais antiga
forma de religião, o “totemismo”, bem como a moral e a vida social. Ele retoma a questão
do incesto, enunciada anteriormente como experiência estruturante do individuo e das
neuroses. O autor demonstra que o “desejo do incesto” esta presente em todas as
sociedades e que o mesmo é fundador da exogamia, colocando-o no centro organizador da
cultura. Freud lança a ideia da necessidade de haver uma força repressora, uma interdição,
ditada e mantida por uma instância capaz de manter essa lei e que funciona como um
obstáculo para a descarga pulsional, assevera Bento (2007).
Inspirado no mito de Édipo, Freud descreveu a “função paterna” como estruturante
do psiquismo através do Complexo de Édipo. A lei foi atribuída ao pai, um pai potente que
intervém na relação mãe/filho, privando a mãe de seu objeto e colocando limite no gozo
desmedido. O pai está inscrito no psiquismo da mãe, em sua experiência edípica com seu
próprio pai, e em sua vivência amorosa com seu parceiro. O pai é um operador simbólico,
ele ordena uma função estruturante do ponto de vista do inconsciente. O pai da realidade é
o representante do “pai simbólico” e depositário de uma lei que vem de outro lugar. Freud
atribui ao pai de alteridade, um “modelo para todos”, um pai soberano, ideal, um grande
Outro da linguagem, que Lacan denominou de “Nome-do-Pai”.
O sujeito, em especial o neurótico, faz uma tentativa de manter o pai no lugar do
sagrado, na esperança de recuperar sua autoridade que é posta em questão nas
configurações familiares atuais. As famílias tem experienciado mudanças radicais: valores,
identidades e comportamentos, ao logo do tempo. Modificações nas formas de procriação,
o ato sexual deixou de ser a única forma de fertilização; mudanças na maneira de criação
dos filhos, bem como, crescente demanda de modificações da identidade sexual.
As consequências decorrentes dessas modificações não produzem problemas mais
sérios do que os que já existiam em relação à subjetivação do individuo pela falta de um
pai de família. Não é a presença do pai que faz a diferença, mas sim que o sujeito seja
reconhecido pela “palavra do outro”. Portanto, não importa que haja carência paterna por
esse pai ser enfraquecido demais ou faltar. “O essencial é que o sujeito, seja por que lado
for, tenha adquirido a dimensão do Nome-do-Pai”, afirma Lacan (1957).
O ponto de apoio por excelência para a construção de uma “Semiologia
Psicanalítica” a partir de Lacan foi à linguística saussuriana e o retorno a Freud, devido à
analise do inconsciente freudiano segundo o método estruturalista. A célebre hipótese
marcadamente da essência de seu pensamento foi a de que o “inconsciente é estruturado
como linguagem”. Essa célebre hipótese marcou a essência do pensamento lacaniano e
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encontra-se, especialmente colocada em evidência no seu trabalho intitulado “A instância
da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, (LACAN, 1966ª). O autor assim escreve
“Nosso título deixa claro que, para-além dessa fala, é toda a estrutura da linguagem que a
experiência psicanalítica descobre no inconsciente.”
O fundamento teórico dessa hipótese lacaniana tem seu primeiro fundamento em
Saussure, particularmente na linguística que esse autor propõe e não na semiologia. Lacan
afirma que a linguística é “o estudo das línguas existentes em sua estrutura e nas leis que
nela revelam”, e segue em seu posicionamento dizendo que “o que deia fora (...) qualquer
semiologia mais ou menos hipoteticamente generalizada”. O autor valoriza a linguística em
sua “posição-piloto” no que concerne o estudo da linguagem, porque “a linguagem (...)
efetivamente (conquistou), na experiência, seu status de objeto cientifico”, em oposição a
“qualquer semiologia mais ou menos hipoteticamente generalizada.”
A noção de “signo” é essencial para Lacan, porque separa entre o significante e o
significado representada por uma barra que simboliza “uma barreira resistente à
significação”, evocará a ideia de um significado oculto inconsciente. O signo, tal como se
apresenta em Saussure, tornaria então possível “um estudo exato das ligações próprias do
significante e da amplitude da função destas na gênese do significado”, isto é, uma
abordagem psicanalítica tendo como ideal último encontrar a significação inconsciente
original, a qual se situa “muito além do debate relativo (ao arbitrário) do signo”.
No Seminário, “Escritos”, Lacan expressa que o inconsciente a partir de Freud “é
uma cadeia de significantes que em algum lugar, numa outra cena”, escreve ele, “se repete
e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e a cogitação a que
ele dá forma”, enquanto Carvalho (2009) afirma que “a realidade para qualquer ser é um
conhecimento absoluto que abrange com o formato de uma coerência harmoniosa toda a
multiplicidade dispersa e contraditória de uma aparência sensível.” E segue apontando que
“isso acontece a partir dos processos ditos semiológicos e neles o signo, isto é, aquele
fator em que se juntam significantes e significados, sendo o significante a representação
psíquica do como os nossos sentidos percebem e o significado, o conceito que lhe seja
atribuído.”
Neste estudo há uma tentativa de fundamentar uma operacionalidade da
psicanálise, com contribuições da semiologia e da teoria da comunicação, com vistas a
uma estratégia terapêutica que possibilite cobrir os níveis da ação analítica. Cria modelos
que permitam re-orientações pragmáticas no sentido de facilitar, ao analista, uma visão
mais abrangente da problemática que lhe é exposta pelo paciente. A compulsão à
repetição, localizada a partir das estruturas narrativas, é possível de ser detectada e
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traduzida operacionalmente através do material fornecido pelo paciente ao analista, isto em
um sistema de signos passível de codificação e consequente sistematização.
7. Comunicação, Semiologia e Psicanálise
Na pós-modernidade, o século da comunicação está sendo vivido. O mundo para
alguns, se constitui numa autêntica "aldeia global", onde habitam “tribos planetárias”,
possibilitadas uma e outra, pelas novas tecnologias de informação e comunicação. As
novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias, reconstituindo uma tradição
oral na forma de comunicação do ser humano. Outros tantos sentem uma sobrecarga de
"informação" e "comunicação" que não se traduz, necessariamente, em maior aproximação
e solidariedade entre os homens, mas sim conduzindo antes a novas formas de
individualismo e etnocentrismo.
O termo "Comunicar" significa "pôr em comum", em seu sentido etimológico.
Simplificando o processo de comunicação, pode-se entender o mesmo como a troca de
uma mensagem entre um “Emissor” e um “Receptor”, cujos “Signos” desempenham um
papel fundamental. Sem Signos, não há mensagem, nada pode ser posto em comum. Os
Signos são tão importantes que permitem (e costuma) ser definida a Semiótica de forma
essencial, como a "ciência dos signos".
Semiótica é a ciência, ou teoria geral da produção dos signos. Teve sua origem na
Rússia, na Europa Ocidental e na América. A semiótica, atualmente, é um campo de
grande amplitude e variedade teórica. O autor Charles Peirce foi o fundador da semiótica.
Saussure, no Curso de Linguística Geral, falava de uma semiologia, que pode ser
comparada ou diferenciada da semiótica propriamente dita. Atualmente, Umberto Eco é
um especialista em semiótica.
Ferdinand Saussure estabeleceu a distinção entre “língua” e “fala” para que o
indivíduo possa reconhecer um signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente.
É necessário que previamente possa apoiar-se, por um lado, nas representações
psíquicas, ou seja, os significantes, dos “sons” concretos e, por outro, nas representações
psíquicas, ou significados, dos referentes também concretos com os quais se relacionam
esses sons.
No sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos pela união dos
“significantes”, ou seja, a imagem acústica dos sons, e dos “significados”, portanto os
conceitos do referente. A estrutura ou o código é determinado pela oposição de dois signos
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complementares. O autor denomina “valor”, o estudo específico da relação lateral que se
estabelece entre os significantes ou entre os significados.
O usuário na comunicação poderá estabelecer relações semiológicas corretas
entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes
significantes e significadas correspondentes. Quando o usuário funciona como emissor e
transmite uma mensagem por meio de um sinal, faz um “incoding”, uma codificação.
Quando funciona como receptor, recebe um sinal e dele deduz uma mensagem, faz um
“decoding”, ou seja, uma decodificação. No caso das mensagens inconscientes, por
exemplo, seria estas auto mensagem que o sujeito codifica por si mesmo através das
representações, e depois não sabe mais decodificar. Dentro dessa perspectiva, o
psicanalista trabalha a título de intérprete entre o inconsciente, emissor que transmite
codificado, e o pré-consciente, receptor que não pode decodificar esse código, sob a pena
de experimentar desprazer.
Na patologia da comunicação do paciente psicanalítico, são percebidos fenômenos
de codificação ou de decodificação patológicas ligadas a uma delimitação incorreta de
classes significantes e de classes significadas; isso tem como consequência uma
pragmática incorreta da comunicação. O paciente psicanalítico se põe em comunicação
patológica, de um ponto de vista pragmático, com seus objetos - na transferência, com seu
analista -, na medida em que as classes significantes de seu código informativo
(equivalentes, às representações de palavras, segundo Freud) e as classes significadas
desse mesmo código (ou representações das coisas).
Na clínica o que está em vigência, enquanto comunicação e linguagem, seja
formal ou informal, é a questão do “sentimento oculto” crucial na compreensão do “conflito
psíquico”, o qual pode ser latente, ou se manifestar por seus derivados, onde o paciente
pode:
a) adotar mecanismos de defesa para neutralizar impulsos motivacionais inaceitáveis
pelo superego por serem conflitantes com tabus morais;
b) temer, consciente ou inconscientemente, a instalação de consequências
insuportáveis, função da exteriorização dos assim chamados sentimentos ocultos;
c) exprimir e/ou sugerir sintomas subjetivos formulados com o formato de queixas sobre
si mesmo.
O analista deve estar preparado para a “escuta” diante do “dito”, a fim de que se
houver um sintoma, em cada palavra escutada, possa ser o interprete. Exige a suspensão
do juízo – epoché – ou seja, uma atitude como a dos antigos céticos, o que constitui em
não aceitar, nem refutar, em não afirmar ou negar. Constitui a imperturbabilidade ante o
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sensível exposto no verbal e no não-verbal do paciente, algo difícil de conseguir, mas que
se impõe sem alternativa e que implica na “neutralidade” sem a qual não há psicanálise.
Todo o ser humano, em função da própria natureza, a todo o momento sente, pensa, julga
e principalmente interpreta, pois vive a inferir a partir do significante e do significado que é
ouvido, do tocado, do gosto sentido, do olhar lançado sobre algo, ou do perfume aspirado.
Assim, em cada palavra o analista se depara inevitavelmente com o signo, e este composto
de significante e de significado, implicando denotações verbais e não-verbais.
O signo apresenta características de um estojo, pois além do dito, há palavras, atos
e produções imaginárias que o compõem. Sempre trazem dentro de si, algo muito
importante, valioso para ser compreendido, a partir do que o paciente produza consciente
ou inconscientemente. Justifica-se a abertura desse estojo, pois no signo há também o
estilo, ou seja, o “como diz” e que se junta à situação. Assim a par disso, mecanismos de
defesa são instalados devido aos preconceitos e o temor da rejeição do ser humano. Este
já nasce para desfrutar prazeres, o que justifica a situação cautelar de cada um no
momento da produção de palavras mesmo que de uma maneira informal.
As defesas são usadas para neutralizar as dores mentais, ou para controlar as
pulsões inaceitáveis pelo superego. Por isso, a cada representação de toda a ordem e
afetos dolorosos que surgem, o ego faz adaptações. Os mecanismos de defesas podem
tomar formatos de comportamentos mal adaptados o que provoca o surgimento de
sintomas neuróticos, e por vezes referidos às funções defensivas relacionadas com
sentimentos, pulsões e afetos que insurgem de maneira disfarçada, em meio aos
discursos, os verbais e os não-verbais. De alguma forma isto reforça a importância de um
“olhar semiológico psicanalítico” especialmente quando tudo que se tenha do paciente seja
um bocejo, um pigarro, um muxoxo (estalar de língua), um suspiro, uma olhada no relógio,
não esquecendo que as cinco posturas citadas são nada mais nada menos do que
“discursos” altamente importantes.
Na clínica, a prática mostra que a demanda do paciente provem de seu
inconsciente. Devido a isso, ele tem dificuldade em responder por que vem buscar o
terapeuta. O analista deve ter a preocupação com a coerência na formação das frases,
enquanto semântica, e através de sintaxe, buscar a relação coerente entre os símbolos
adotados no campo analítico. Ao inferir, seja ao pontuar ou ao interpretar (quando seja
possível),considerar: a fonte da angústia; as defesas e seus graus de importância e eficácia
contra a angústia; e a natureza da pulsão que busca descarga.
O paciente deve dizer ao analista tudo o que este precisa saber sobre ele em seus
discursos verbais, como também informar tudo o que não pensa dizer sobre “si mesmo”.
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Entretanto, o analista precisa ter a percepção, através das manifestações e linguagem não
verbais, sobre o que significa não perguntar, e “aguardar e decodificar as mensagens e
comunicações” transmitidas por aquele. No discurso que o paciente traz, feitas as
interpretações, o analista deve perceber se estas foram adequadas quando: a angústia
diminuir e houver melhora na sintomatologia. Quando isto não acontece, é importante
pesquisar o sentimento de culpa que pode se encontrar no nível inconsciente a exigir
análise das formações de compromisso que pode surgir nos sonhos, se os apresentar, nas
parapraxias, nos chistes, nas fantasias, nas lembranças, nas associações livres, sobretudo,
de forma aprofundada. O analista deve trabalhar focado nas “falas”, ações e os estados
afetivos, especialmente aqueles que influenciam os sentimentos.
Para ampliar o campo de visão e escuta da fala proferida pelo paciente, o
terapeuta pode observar uma divisão no discurso, segundo a sugestão de alguns autores.
Estes discursos terapêuticos se entremearão nas comunicações que venha fazer ao
paciente, tais como:
a) Descritivo - reconhecer os seus próprios padrões de comportamento patológico;
b) Reconstrutivo – apontar o padrão seguido por ele, quando externalizar afetos,
discursos de toda ordem, bem como atitudes postas nos termos de suas relações
objetais no lar;
c) Interpretativo – promover a produção do insight, possibilitando que o analista
interprete os mecanismos de defesa, a importância do superego, os traços de
angústia, de inibição e de raiva;
d) Requalificação ou ressignificação - corrigir as desqualificações do “self” e de outros
elementos nos discursos deste com o analista, levando o indivíduo a compreender
sua tendência para denegrir a si mesmo e/ou os outros;
e) Prospectivos - o analista tenta produzir futuros “out sights” no paciente e/ou também
o reconhecimento de novas possibilidades comportamentais e cognitivas em si
mesmo ou em outros;
f) Diretivo - analista tenta provocar o paciente para que compreenda como pode
cooperar ativamente no processo terapêutico com o fim de torná-lo mais efetivo;
g) Convencional – usar e direcionar a conversa para o tema da análise, quando o
paciente encontra com o analista no elevador, ou mesmo numa festa; o analista não
pode assumir uma postura paternalista, mas manter as regras vigentes do “setting
analítico”, visto que este não constitui o espaço, mas as regras, quando foram
acordadas.
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8. Entendendo a Semiologia
A semiótica se funda na lógica em sentido geral, no dizer de Peirce, quando assim
denomina a doutrina dos signos. O autor descreve a doutrina como “quase necessária” ou
formal ao observar os signos e dizer de seus caracteres. O processo de observação
abstrativa envolve uma cientificidade na relação lógica proposta pela semiologia, ou seja,
uma inteligência capaz de apreender através da experiência e que é possível ocorrer em
pessoas comuns. É uma experiência familiar a todo o ser humano desejar algo que está
totalmente longe de seus recursos presentes e complementares ao seu desejo, se
perguntar: “meu desejo dessa coisa seria o mesmo se eu dispusesse de meios de realizá-
lo?” Respondendo à pergunta que se faz, o indivíduo examina seu interior, e é a isso que
Peirce denomina de observação abstrativa. A pessoa faz na imaginação, uma espécie de
esboço, considerando modificações, estado de coisas, o que deverá se exigir e observar o
que examinou, a fim de saber se seu desejo é possível, mesmo que não imediatamente.
Através desse processo, que se assemelha a um raciocínio matemático, pode-se chegar a
conclusões sobre o que seria verdadeiro a respeito dos signos de todos os casos,
conquanto a inteligência que dele se serviu.
Um signo, ou “representâmen”, é aquilo que de certa maneira representa algo para
alguém. Dirige-se a alguém, ou seja, cria na mente da pessoa, um signo equivalente, ou
talvez mais desenvolvido. O signo representa alguma coisa, representa o seu objeto,
representa um tipo de ideia no sentido de ter um similar, é a mesma ideia e não a cada
intervalo uma nova ideia.
A palavra é um signo e será usada para denotar um objeto perceptível ou imaginável
num certo sentido. A palavra estrela, por exemplo, é um signo, não é imaginável, pois é a
mesma palavra quando escrita e quando pronunciada. A palavra significa “astro com luz
própria”, possui outro significado diferente quando empregada para dizer de um “artista
célebre”, ou em dado momento para dizer de que alguém tem “sorte”. Assim esse algo
serve para significar outra coisa, que é chamada de “objeto”. O signo deve ser algo distinto
de seu objeto, ele irá representar alguma outra coisa.
Saussure, por ser um linguista, considerava como signo a palavra, principalmente a
palavra oral. Na concepção deste autor, o signo é bifacial onde são correlacionados apenas
dois elementos, sendo um a unidade entre o som verbal e uma ideia, chamado de:
“significante”, entendido como o som verbal, ou seja, a imagem acústica; e “significado”,
esta ideia ou a imagem conceptual, que é o objeto. Então temos que: signo = significante
(som) + significado (objeto).
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Cada palavra é um signo ou uma unidade para Saussure. Um discurso é uma
sequência de signos. O signo linguístico une o conceito com a imagem acústica, pois estes
dois elementos requerem-se um ao outro. Afirma o autor que o “caráter psíquico das
nossas imagens acústicas surge bem claro quando observamos a nossa própria
linguagem. Sem mover os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar
mentalmente um poema”. Segue dizendo que “é porque as palavras da língua são para nós
imagens acústicas que ao devemos falar dos “fonemas” que as compõem”, (SAUSSERE,
1916). O “conceito” pode ser substituido por “significado” e a “imagem acústica” por
“significante”, sendo que o “signo” é o resultado dos dois juntos. O signo é arbitrário quando
associado um significante a um significado.
A prova da arbitrariedade esta entre as línguas e a existência de várias línguas,
como também a arbitrariedade envolve a cultural, o simbólico e o convencional. Saussure
(1916) afirma que nenhuma sociedade conheceu e conhece a língua senão como produto
herdado das gerações anteriores que se deve receber e manter intacto, pois o único objeto
real da linguística é a vida normal e regular de um idioma já constituído. A imagem acústica
não é a palavra falada, ou o som material, mas a impressão psíquica desse som. A
distinção entre “língua” e “fala” foi estabelecida pelo autor, para que o paciente possa
reconhecer o signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente. Torna-se
necessário que possa previamente apoiar-se, por um lado, nas representações psíquicas,
ou significantes dos sons concretos, e por outro lado, nas representações psíquicas ou
significados dos referentes também concretos com os quais se relacionam esses sons.
Peirce considerou o “signo”, qualquer coisa que represente outra coisa para
alguém, não importa a espécie. Para este autor, o signo é um elemento triádico, onde se
correlacionam três elementos, aos quais chamou de representâmen, objeto e interpretante.
Esta relação o autor veio denominar de “semiose”. O “representâmen” é a coisa que
representa; o “objeto” é a coisa que é representada; e o “interpretante” é a terceira coisa
que surge na mente do intérprete no momento em que ele percebe aquela primeira coisa.
Os três elementos possuem correlação entre si: uma coisa só aparece como signo
de uma outra coisa se surgir uma terceira coisa; esta terceira coisa provem de experiências
anteriores a partir da qual a interpretação da primeira coisa possa ser realizada na mente
de quem percebe. Nas relações triádicas envolvem: a “comparação” que faz parte da
natureza das possibilidades lógicas; o “desempenho” que faz parte da natureza dos fatos
reais; o “pensamento”, que faz parte da natureza das leis.
O significado é a palavra equivalente no mesmo ou em outro idioma. Ele se
constitui na representação, ou na linguagem do significante. O significado corresponde ao
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conceito ou à noção do objeto. É dito de todo o objeto, forma ou fenômeno que representa
algo distinto de si mesmo, tal como: a “cruz” é o significado do “cristianismo”; a cor
vermelha é o significado de “pare” no código de transito; a bandeira pode ser o significado
do “país”, do “time de futebol”, do “clube náutico”, entre outros tantos.
A partir da teoria no sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos,
portanto, pela união dos “significantes” (imagem acústica dos sons) e dos “significados”
(conceitos do referente). O usuário poderá estabelecer relações semiológicas corretas
entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes
significantes e significadas correspondentes. O significante tem um código afetivo, como
por exemplo, a angústia, relacionado a um fato psíquico no inconsciente, não sabido e
ligado a um objeto referido. Exemplo: a angústia que pode ser aniquiladora, ligada ao
desprazer, à dor, ou a angústia diante de um prazer. O outro elemento do signo é
constituído pelo significante, que é a parte fônica, ou a imagem acústica de um fonema
provido de significação. O significante apresenta um código informativo, como: o som, os
sintomas, as relações objetais.
9. Semiologia Médica
A Semiologia que trata da parte da medicina é chamada de Propedêutica. Está
relacionada ao estudo dos “sinais” e “sintomas” das doenças no ser humano e nos animais.
Surge através do termo grego “Semeion”, que quer dizer “sinal” + “Logus” que quer
significa “tratado” (estudo). A Semiologia Médica é muito importante para o diagnóstico da
maioria das enfermidades que acometem o homem.
O “Sintoma” constitui-se em toda a informação subjetiva, relatos ou queixas
descritas pelo paciente, ou seja, é tudo aquilo que o paciente sente, mas que não pode ser
mostrado ou manifestado diretamente. O examinador não consegue perceber ou confirmar,
já que é uma sensação sentida pelo paciente como uma dor de cabeça, por exemplo. É
algo que se refere unicamente à percepção de uma alteração por parte do próprio doente.
O “sinal” é uma manifestação objetiva diretamente observável e passível de ser
percebido pelo examinador no examinado, mesmo que o paciente não perceba ou relate
sua ocorrência. Estes sinais podem ser, por exemplo, a febre, a sudorese, a tosse entre
outros. A anamnese é a parte da semiologia que visa revelar, investigar e analisar os
sintomas. É realizada através de uma entrevista com o paciente, objetivando estabelecer
uma relação de confiança e apoio com ele. Ela possibilita a coleta de informações acerca
do que o paciente esta sentindo, bem como, facilitará o esclarecimeneto sobre o
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  • 1. 1 CURSO DE PSICANÁLISE TEORIA PSICANALÍTICA _______________________________________________________________ MÓDULO: SEMIOLOGIA PSICANALÍTICA Profa.: Rejane Rodrigues de Campos1 São José dos Campos 2017 1 Psicanalista e Didata; Professora; Supervisora; Orientadora; Pedagoga; Licenciada em Psicologia da Educação; Sociologia; Administração Escolar. Especialista em: Educação; Supervisão e Psicanálise; Psicologia e Saúde Mental; Transtornos da Infância e Adolescência. Membro das Associações Psicanalíticas: APVP/SP; EPPICO/SP e APICE/SC/BR..
  • 2. 2 S U M Á R I O INTRODUÇÃO ............................................................................................. 03 1. Os signos através da história ............................................................... 05 2. O que vem a ser Semiologia ................................................................ 09 3. A Semiologia, os Mitos e as relações humanas .................................. 15 4. Por que Semiologia e Psicanálise ........................................................ 19 5. A Psicanálise, a cultura e os mitos ...................................................... 22 6. Semiologia psicanalítica, fundamentos para a clínica ........................ 25 7. Comunicação, Semiologia e Psicanálise ............................................. 30 8. Entendendo a Semiologia .................................................................... 34 9. Semiologia Médica ................................................................................ 36 10. Semiologia Psiquiátrica ....................................................................... 38 11. Psiquiatria Dinâmica ............................................................................ 42 12. A Psicanálise e o modelo semiológico ................................................ 45 13. Os significados dos afetos e os traços mnésicos ............................... 48 14. Os mecanismos inconscientes e as defesas do ego ........................... 51 15. Evolução psicoemocional ..................................................................... 54 16. O Complexo de Édipo e o olhar semiológico ....................................... 59 17. O superego e os efeitos semiológicos .................................................. 62 18. A semiologia e a interpretação .............................................................. 64 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 68 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS ............................................................... 70 LEITURAS SUPLEMENTARES ..................................................................... 71 Trabalho de avaliação e orientações .......................................................... 73
  • 3. 3 INTRODUÇÃO “Os poetas e os filósofos descobriram o inconsciente antes de mim. O que eu descobri foi o método cientifico que nos permite estudar o inconsciente”. Sigmund Freud O ser humano faz parte de uma espécie bem sucedida em termos de sobrevivência biológica, que povoa todas as regiões do universo terrestre. Entretanto a grande adaptabilidade está na sua capacidade psíquica. É essa ferramenta que o torna capaz de modificar decisivamente o ambiente a favor de sua sobrevivência e para uma qualidade de vida, a qual proporciona a ele uma “estadia” maior no planeta terra. Esse processo de adaptação se dá por meio da construção do conhecimento que o homem vai adquirindo durante toda a sua existência, como também pela transmissão que vai ocorrendo ao longo das gerações. Há saberes que são vivenciados no cotidiano que convivem com diferentes fontes, tornando-se muitas vezes contraditórios em determinadas ocasiões. Os vários conhecimentos adquiridos pela humanidade podem ser socializados pelo uso de um código ou sistema de símbolos que permitem a representação de uma informação. Os detentores de um conhecimento utilizam códigos como terminologia, a fim de tornar esse conhecimento socializado, assim, um fomenta o outro. É justamente através da vivência que surge a dúvida e leva o individuo à experimentação para então o conhecimento tornar- se ou não cientifico. Exemplificando, pode ser caracterizado e citado o “exossomatismo” que consiste em uma forma de adaptação inconsciente ou consciente do ser humano às condições ambientais. Constitui o processo pelo qual os indivíduos e mesmo as espécies, passam a desenvolver ou viver uma adaptação evolutiva que culminará em um quadro de seleção natural. O desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cognitivas, sociais e biológicas em todo o ciclo da vida, fazendo interface com a biologia, antropologia, sociologia, educação, medicina entre outras. O enfoque tradicionalmente ficava voltado para o interesse pelos anos iniciais de vida dos indivíduos, cuja origem está na história do estudo cientifico do desenvolvimento humano. Entretanto, hoje há um consenso de que a
  • 4. 4 psicologia do desenvolvimento deve ter como foco o desenvolvimento do indivíduo ao longo de todo o ciclo vital. Há povos que sobreviveram por séculos sem desenvolver a escrita. Entretanto, comunicaram-se e se expressaram cada um a seu modo. Muitas pessoas durante sua vida se quer conhecem as regras gramaticais ou se expressam bem, o que constitui um sinal de que a linguagem é algo mais complexo que a mera organização gramatical e a busca do étimo das palavras. O fenômeno da comunicação é visto com uma visão mais ampla por Ferdinand Saussure, que cria um novo paradigma para o estudo do mesmo. A função primordial da linguagem é a comunicação e o uso da norma culta, no entanto, nem sempre é adequada a um ambiente social descontraído. O saber é constituído por uma dupla face, a “epistemológica” que se refere ao significado das palavras e a “semiológica” ou “semiótica” que se refere ao significante que encerra o significado. Pode ser dito que a semiótica teve sua origem na mesma época em que a filosofia, sendo proposta para indicar a doutrina dos signos correspondente à lógica tradicional. Surgiu também de forma a entender como uma ciência dos “sintomas” em medicina junto com outras disciplinas afetas a esta. No inicio do primeiro milênio da era cristã, Galeno de Pérgamo já tinham afirmado que a diagnose é a parte semiótica da medicina. Isto deu origem à semiologia médica. Os processos de significação como os sinais do corpo oferecem à interpretação e compreensão das significações no campo das prevenções ou compreensão das semioses. A semiologia e a teoria da comunicação podem ser sistematizadas e integradas de uma maneira metódica e ao mesmo tempo prática no cotidiano da psicanálise. Este irá fundamentar a operacionalidade da psicanálise, com contribuições da semiologia e da teoria da comunicação, considerando uma estratégia terapêutica que possibilite cobrir os níveis da ação analítica. Possibilita criar modelos que permitam reorientações pragmáticas no sentido de facilitar ao analista, uma visão mais abrangente da problemática que lhe é exposta pelo paciente. A compulsão à repetição, localizada a partir das estruturas narrativas, possíveis de serem detectadas e traduzidas operacionalmente através do material fornecido pelo paciente ao analista, em um sistema de signos passível de codificação e consequente sistematização. O homem vive no século da comunicação. Para alguns, o mundo constituiria uma autêntica "aldeia global", habitada por “tribos planetárias”, possibilitadas uma e outra, pelas novas tecnologias de informação e comunicação. Para outros tantos, a sobrecarga de "informação" e "comunicação" não se traduz, necessariamente, em maior aproximação e solidariedade entre os indivíduos, conduzindo antes a novas formas de individualismo e
  • 5. 5 etnocentrismo. "Comunicar" significa, etimologicamente, "pôr em comum". No processo de comunicação, que simplificadamente pode ser entendido como a troca de uma mensagem entre um Emissor e um Receptor, os Signos desempenham um papel fundamental. Sem Signos, não há mensagem, nada pode ser posto em comum. Os Signos formam um campo de grande amplitude e variedade, que constitui uma ciência que estuda a teoria e a produção destes. 1. Os signos através da história O estudo dos signos nasceu na Grécia antiga. Os primeiros a perceber a relações e a diferença entre a natureza (semeion) e cultura (symbolon) foram os gregos. Deram origem a duas linguagens: de nome objeto – “onomasiológica”; e de palavra conceito – “semasiológica”. Desde então vem sendo objeto de investigação constante em vários ramos do conhecimento, focalizado em diversas áreas como a filosofia, teologia, mitologia, sociologia. Engloba a lógica, a retórica, a poética e a hermenêutica. Na civilização ocidental, desde essa época até nossos dias, é marcado o desenvolvimento continuado destas questões relativas aos signos e sinais. O espirito capta os sinais relacionais existentes na natureza (semiologia), reunindo significantes e significados, como também, constrói relações abstratas de significação (semiótica), acrescentando características e aspectos, construtos apenas imaginários pelo cérebro: o mundo cultural dos símbolos. A partir de Platão (427-347 a. C.), filósofo das ideias que viveu no limiar de uma época, entre valores antigos e um novo mundo, encontra-se a discussão sobre a natureza dos signos e do significado. Em seus diálogos com Crátilos, ao falar da linguagem e do conhecimento, faz a constatação de que os nomes não seriam capazes de dizer da essência das coisas, bem como, o desenvolvimento de uma teoria sobre a iconicidade das imagens mentais. Aristóteles (384 – 322 a. C.) foi um sujeito devotado à cultura e dedicado à prática literária. A partir da linguagem baseava sua definição de signo em uma teoria da significação e da referência. Ele reconhece que as palavras “não são significantes por elas mesmas, enquanto que os estados de alma são semelhantes às coisas que lhes correspondem”. A palavra, em Aristóteles, é dita “símbolo de um estado psíquico”, isto equivale a dizer que a relação da linguagem com o ser não é imediata. O que o autor tenta mostrar é conservar uma relação mediata entre linguagem e realidade, evitando um abismo entre “palavra” e “coisa”. Para o filósofo, o signo contém as bases de uma teoria da
  • 6. 6 significação e da referência. As palavras são convencionais em sua forma oral e escrita e não naturais. Esse fato é observável por qualquer indivíduo e as regras mudam de uma comunidade a outra. A palavra é, pois o símbolo de um estado psíquico. O estado psíquico é uma imagem das coisas reais, e linguagem não tem qualquer relação de semelhança com as coisas. A Escola Estóica (300 a. C e 200 d. C.) apresentava sua filosofia como um modo de vida. O individuo não era o que a pessoa diz, mas como se comporta (universo corpóreo governado por um Logos divino). Fundada por Zenão de Cítio, cuja crença é de que o conhecimento é atingido pela razão, pois tudo está enraizado na natureza. O estoicismo se desenvolveu como um sistema integrado pela lógica, pela física e pela ética, articulados por princípios comuns. Para viver uma boa vida era preciso entender as regras da natureza. Assim, encontrada uma teoria em que o signo “reúne” três componentes: o significante, o significado (ou sentido) e o objeto externo. Nessa proposta o significante e o objeto externo eram definidos por uma natureza material, e o significado ou o sentido, denominado de “Lekton”, que quer dizer “aquilo que é significado” era considerado incorpóreo. Epicuro de Samos (Século I), um filósofo grego do período helenístico, viveu uma vida foi marcada pelo ascetismo, a serenidade e a doçura. Sua proposta é atingir a felicidade, caracterizada pela “aponia” - ausência de dor física, e “ataraxia” - impertubalidade da alma. As dores da alma estavam associadas às frustrações. Entretanto, junto a seus seguidores, sugere a crença de que a linguagem verbal humana tal como o comportamento animal e os gestos de uma criança, origina-se de uma convenção natural e não de uma determinação de origem intelectual. Percebeu a superstição das pessoas, em sua grande maioria, o que as afastavam da verdadeira função das religiões e dos deuses. Segundo ele, os deuses viviam em perfeita harmonia, desfrutando da bem-aventurança, - a felicidade divina. Piores e mais difíceis de lidar são as dores da alma. Estas estão associadas às frustrações, segundo ele, e em geral oriundas de um desejo não satisfeito. O filósofo búlgaro Tzvetan Todorov, historiador e sociólogo foi um dos intelectuais mais reconhecidos do mundo. Estudioso de Filosofia da Linguagem, pesquisador de linguística, teoria da linguagem e crítico literário, situa as origens da Semiótica ocidental nas "tradições particulares" da semântica, da lógica, da retórica e da hermenêutica antigas. Este autor considera Santo Agostinho o primeiro dos semióticos por ter sido ele Padre da Igreja, por ser o primeiro a satisfazer os dois requisitos fundamentais implicados na noção de semiótica: ter como objetivo o conhecimento, a teoria; ter como objeto de estudo signos de espécies diferentes e não exclusivamente os linguísticos.
  • 7. 7 Santo Agostinho desenvolveu sua inteligência dentro de conceitos filosóficos e científicos distantes dos ensinamentos religiosos e de infância. Vivenciou várias formas de vida contemplativa, estudou retórica e contribuiu para a promoção da proliferação de sentidos. Ele fez referência à mente do interprete como um terceiro componente da semiose, retomando o caráter triádico: “Um signo é alguma coisa, que além e acima da impressão que causa nos sentidos, traz à mente alguma coisa como consequência”. Encontram-se os mesmos elementos: signo, significante e significado, afirmando Santo Agostinho que “um signo é uma coisa que, além da espécie ingerida pelos sentidos, faz vir ao pensamento, por si mesma, qualquer outra coisa”. A descoberta do funcionamento dos organismos vivos é que inicialmente vem ser chamada de semiótica, devido à elaboração intelectual de alguns estudiosos e autores. Partem do princípio de que todo o animal, principalmente aqueles dotados de percepção devem aprender que determinada matéria tem para suas vidas um significado fundamental. As denominações “semiótica” e “semiologia” são nomes que passaram a existir por uma questão de origem devido aos seus precursores do estudo nessa área. As contribuições do filósofo Ferdinad du Saussure, um linguista de origem suíça, marcou a história da linguística. Afirmou que “a língua é o palco de fenômenos relevantes”, através do que é possível compreender a importância da constatação quanto à inexistência de sociedade sem linguagem para interagir como o outro e com todos os elementos que a rodeiam. Os conceitos como “langue e parole”, “sintagma e paradigma”, e “significante e significado” fizeram com que ele fosse considerado o “pai da linguística moderna”. Defendeu que a linguagem seria um fenômeno psicossocial constituindo a língua e a fala. Afirmou que a “língua é o sistema, é aquilo que nenhum falante pode mudar”. O autor buscou definir um objeto de estudo e objetivo de outro estudioso, ocasionando, assim, a fundação de uma ciência autônoma e independente de outros estudos. Embora, conforme o mestre “a linguística tem relações bastante estreitas com outras ciências, que tanto lhe pegam emprestados como lhe fornecem dados, cujos limites que a separam de outras ciências não aparecem sempre nitidamente”, Saussure trabalhou com a fala e a oralidade, preocupando-se em “ver” como é que as línguas se cruzam umas com as outras. Com a inquietação proveniente dessa ideia veio chamar de “semiologia” os seus estudos sobre os signos. Ele trabalhou com a língua francesa, o latim e o italiano, conhecendo bem o grego. Procurava saber como é que estas línguas, no fundo se suportam, indo atrás de respostas para suas inquietações. O autor, através da linguística, salientou que existia um lugar nas ciências sociais para uma ciência
  • 8. 8 que estudasse os signos. Isto fez com que montasse uma teoria, entretanto, não chegou a escrevê-la. Portanto, “Semiologia é uma ciência que estuda os signos”, segundo Saussure. O núcleo de significação de linguagem é o signo. Para o autor o signo é composto de: “significante” (Se), constituído pela “matéria acústica” ou a “imagem acústica”, nada mais do que o som, algo que pode ser dividido e que tem contorno sonoro definido2 ; e “significado” (So) que é o “conceito da coisa”, constitui um conceito de âmbito da memória, cuja junção destas duas faces resultará no “signo”. Portanto, o “signo” é sempre “mental”, ele é a “representação” daquilo que a nossa mente percebe. Quando alguém que não domina uma língua estrangeira ouve uma palavra, ele capta o “significante”, ou seja, o “som”, mas não consegue apreender o “significado”3 , o conteúdo do que foi dito, por não conhecer a língua. Saussure não considera a matéria externa, só acredita na existência da palavra que é percebida pela mente. Portanto, a representação dessa materialidade é feita pelo autor, através da equação “significante (Se) + significado (So) = signo”. Mais tarde Adair Peruzzolo e Elizeu Verón e Martini, estudiosos que precederam Saussure, classificam a “representação” como sendo “matéria significante”. As formas como o individuo dá significado a tudo que o cerca, refere-se a um conhecimento que existe há um longo tempo. Da raiz grega “semeion”, provém a semiótica que constitui a “arte dos sinais”. Portanto, é a ciência que estuda os signos e todas as linguagens e acontecimentos culturais como se fossem fenômenos produtores de significado. O “ponto de vista semiótico” se refere ao significante, enquanto o “ponto de vista epistemológico” esta conectado ao sentido dos objetos. A Semiótica na sua origem remonta à Grécia Antiga. Portanto, ela é contemporânea do nascimento da Filosofia. Mais recentemente é que se expressaram os mestres conhecidos como pais desta disciplina. No início do século XX, ao lado das pesquisas de Ferdinand ddu Saussure surge Peirce com a “Ciência da Significação”. Charles Sander Peirce, um lógico e matemático americano, surge com um estudo, onde propõe a “ciência da significação” como um “processo de produção do signo”. A este sistema chama de “semiose”, e não apenas a ciência que estuda o signo. Em relação à semiose, o autor propõe o estudo da relação triádica entre o “signo” (representâmen), “objeto” (mental) e o “interpretante” que se formam a partir do “representâmen” (sinal, 2 A escuta da língua estrangeira é como se fosse uma sonoridade continua, por não conhecer a língua; quando escuta a própria língua sabe onde termina e onde começa a palavra. 3 O sentido e acepção do vocábulo; correspondência que um vocábulo de uma língua tem em outra.
  • 9. 9 matéria externa, matéria significante). Peicer vai buscar na filosofia política, através de John Locke (1690) a palavra Semiotikês para designar a “semiótica”. O termo “semiótica” vem do grego “semiothiké” que significa a “arte dos sinais”. A semiótica, portanto é a ciência geral que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem “sistemas sígnicos”, ou dizendo de outra maneira, “sistemas de significação” envolvendo os signos e a semiose. Abrange um ocupar-se do estudo do processo de significação ou representação, na natureza e na cultura, do conceito ou da ideia. Na cultura e na sociedade as marcas como sistema de significação remontam desde a antiguidade, na mitologia, na música, nas artes visuais, fotografia, cinema, moda, religião, gestos e em todas as formas de manifestações sígneas em todos os tempos. Com referência ao signo, pode ser dito que este é constituído por qualquer objeto, som ou palavra capaz de representar uma outra coisa. Na modernidade, todos os indivíduos dependem do “signo” para viver e interagir com o meio onde estão inseridos. Para o homem comum, a noção de signo e suas relações, do ponto de vista teórico, não são tão importantes, porém estão presentes em seu cotidiano entendidos de maneira prática e precisa. Os signos são úteis, existem ou sucedem o momento, são compreendidos e vão além do que se pode imaginar. Pode ser exemplificado com o ato de dirigir um carro: lemos os discursos contidos nas placas de sinalização, sinais de trânsito, nas luzes dos semáforos, pelas reações do veiculo ao meio ambiente, entre outros. O homem intelectualizado não vive sem o signo, precisa dele para entender o mundo, a si mesmo, as representações de seu mundo interno e as pessoas com as quais se relaciona. Estão nas relações humanas. Portanto no cerne de tudo – semiologia ou semiótica – o signo que é o tema central de um discurso, como um outro discurso, constitui o produtor complexo da semiose. “A semiótica é um saber muito antigo que estuda os modos como o homem significa o que o rodeia”. 2. O que vem a ser Semiologia A semiologia é uma área do conhecimento que se dedica a compreender os sistemas de significação desenvolvidos pela sociedade. O objeto da mesma são os conjuntos de signos, sejam eles linguísticos, visuais, ou ainda ritos e costumes. A palavra Semiologia vem da união das palavras gregas “semeion” que significa “sinal”, e “logos” que quer dizer “estudo”. A Semiotica e a Semiologia, portanto, representam o memo campo de estudos. Entretanto a partir de 1969, a Semiotica foi determinada como o nome da “Ciência Geral dos Signos”.
  • 10. 10 A Semiologia, também chamada de Semiótica e definida como a "teoria geral dos sinais” se ocupa não apenas de Linguística, pois aquela possui uma maior abrangência do que esta. A Linguística é o estudo científico da linguagem humana, e a Semiologia preocupa-se não apenas com a linguagem humana e verbal, mas também com a dos animais e de todo e qualquer sistema de comunicação, seja ele natural ou convencional. Assim, pode ser dito que a Linguística se insere como parte da Semiologia. Semiologia e Semiótica são termos permutáveis. Enquanto a Semiologia surgiu na Europa, com o filósofo e linguista suíço Ferdinand du Saussure, o qual entendeu que a língua é um sistema de signos que exprime ideias no seio da vida social, a Semiótica desponta nos Estados Unidos, com o filósofo Charles Sanders Peirce, cujo projeto consistia na definição dos quadros lógicos de representação da experiência e das categorias do pensamento. O primeiro autor acentuou a “função social” do signo, enquanto o segundo destacou a sua “função lógica” do mesmo. As elaborações teóricas de Saussure propiciaram o desenvolvimento da linguística como ciência autônoma. Seu pensamento exerceu grande influência sobre o campo da literatura e dos estudos culturais. Os conceitos propostos ganharam notabilidade: de fundação, ou seja, estrutural para inúmeros estudos e teorias contemporâneas; e notabilidade de indução, ou seja, estruturante em outros tantos estudos não linguísticos – da antropologia de Lévi-Strauss à psicanálise de Lacan, em especial. Para Saussure o signo é a união do sentido e da imagem acústica. O que o autor chama de “sentido” é a mesma coisa que “conceito” ou “ideia”, isto é, a “representação mental de um objeto” (ideia), ou da “realidade social” em que nos situamos. Essa representação é condicionada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço, ou seja, no núcleo familiar e na cultura, inicialmente da própria família. Este autor, em outras palavras propõe um conceito que é sinônimo de significado (plano das ideias), algo como o lado espiritual da palavra, sua contraparte inteligível, em oposição ao significante (plano da expressão), que é sua parte sensível. Por outro lado, a imagem acústica “não é o som material, coisa puramente física, mas a impressão psíquica desse som”. Melhor dizendo, a imagem acústica é o significante. Com isso, temos que o signo linguístico é “uma entidade psíquica de duas faces”, semelhante a uma moeda. Considerando o estudo de algumas teorias do signo e suas significações, cabe uma reflexão sobre os fundamentos da Semântica e da Semiótica, bem como, as relações destas com o signo. Reputando ao homem biopsicossocial e sua subjetividade, a semiologia é necessária para a compreensão e entendimento da Psicanálise. A Psicanálise acaba confundindo–se com a linguística. Entretanto, a “escuta” de um linguista e de um
  • 11. 11 psicanalista é diferente. A razão de existir da língua é o sujeito, e traz consigo uma ideia inseparável de intersubjetividade. O dizer de um ser falante é sempre constituído de uma alteridade. Tentar entender essa inclusão do outro no dizer do eu por circunstâncias que consideram o dialogo, a interação, trazem à cena um Outro elemento subjetivo: o sujeito do inconsciente, cuja atuação na linguagem é silenciosa e constante. O primeiro elemento do método semiótico é o “significante”, caracterizado pela imagem acústica. A impressão psíquica do som é o “significado” que pode desencadear outro fenômeno psico-semiológico e constitui o segundo elemento do signo. Saussure estipula duas características primordiais do Signo: a) O Signo é arbitrário: Isso quer dizer que não há um laço natural entre o significante e o significado. Por exemplo, lua em Inglês é ‘moon’, enquanto em é italiano é ‘luna’, em francês ‘lune’. Com essa inferência Saussure distingue um signo de um símbolo; um símbolo teria uma relação com o objeto representado. Como exemplo, pode-se dizer que a cruz evoca muita coisa para um cristão, enquanto a suástica a um nazista ou a um judeu. O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser substituído por um objeto qualquer, um carro, por exemplo. b) Caráter Linear do Significante: O significante é de natureza auditiva, desenvolve-se no tempo, unicamente, e tem as características que toma do tempo em determinada cultura. Com a constituição da linguagem verbal, existiriam relações sintagmáticas e relações associativas. As relações sintagmáticas estariam baseadas no caráter linear da língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo. Estes se aliam um após o outro na cadeia da fala e tais combinações podem ser chamadas de sintagmas. Por exemplo, “re-ler”, “contra-todos”, “a vida humana”, etc. Saussure fazia frequentemente comentários sobre o conjunto dos fatos semiológicos sem, contudo, apresentar qualquer detalhamento da maioria desses sistemas de signos. O pesquisador tinha a língua como o principal dos sistemas sígnicos, mencionando outros sistemas como o “Braille”, o “código de bandeiras marítimo”, “sinais militares de corneta”, “códigos cifrados” (ex. música), etc. Somente no campo da literatura Saussure empreendeu estudos mais extensos de sistemas sígnicos não-verbais. Por exemplo, um estudo mitológico sobre a lenda germânica Niberlungen, que é descrita como um sistema de símbolos que estão inconscientemente sujeitos às mesmas variações que qualquer outra série de símbolos, bem como as palavras da língua. Nos anagramas da poesia latina, Saussure se destacou no âmbito da semiologia. Em determinado ponto das discussões teóricas, a semiologia saussureana ficou inscrita no
  • 12. 12 âmbito da sociologia e da psicologia (1901). O que mais ressaltou este enquadramento foi a menção feita pelo linguista à aplicação da semiologia ao estudo das instituições jurídicas. Ainda que o próprio Saussure tivesse a linguística como parte da semiótica, estudos posteriores conseguiram provocar sérios equívocos que se tornaram polêmicas até hoje, não sanados no que tange à posição dessas duas ciências: a semiótica contém a semiologia ou a semiologia contem a semiótica? Convém, no entanto, buscar entender as contribuições fundamentais do patrono da linguística na formulação de uma teoria geral dos signos: a) A arbitrariedade do signo linguístico em relação a sua constituição fonológica, do que decorre o princípio suplementar da convencionalidade. b) A não-arbitrariedade, a posterior, uma vez que ao falante não é facultado eleger signo diferente do convencionado quando estabelece a comunicação com outrem, disto decorre o princípio suplementar da imutabilidade do signo. c) A imotivação dos signos quanto ao seu significado. O princípio do binarismo: significado & significante indicam a associação psíquica entre a imagem acústica e o conceito, sendo os três termos do modelo diádico de Saussure: signo = significante + significado. O autor aponta a língua como o mais importante dos sistemas de signos. Ele considera este o mais complexo e o mais utilizado dentre os chamados sistemas de expressões sígnicas, mesmo considerando a língua como apenas uma parte do universo semiológico. Ainda para Saussure, existe uma ciência geral dos signos (Semiologia), da qual a Linguística poderia ser tão somente uma subdivisão. Enquanto a semiologia de Saussure afirmava que a teoria do sentido deveria ser estudada pela semiologia sem “contaminação” de outras áreas como a Filosofia e a Sociologia, a semiótica proposta por Charles Sanders Peirce abraça as demais áreas do conhecimento. Afirma que a teoria do sentido só pode ser recebida num corpo filosófico maior. Este autor que estudou particularmente linguística, filologia e história, além de todos os tipos de ciências, dominava dez idiomas. A semiótica peirciana pode ser considerada uma filosofia cientifica da linguagem. A fenomenologia é a ciência que permeia a semiótica de Peirce, devendo ser entendida no seu contexto. Para ele a fenomenologia é a descrição e análise das experiências do homem, em todos os momentos da vida. Nesse sentido, o fenômeno é tudo aquilo que é percebido pelo homem, seja real ou não. Peirce acreditava que a semiose era uma manifestação da tendência humana de buscar a verdade. O autor afirmava que a “verdade” é uma atividade dirigida para um objetivo capaz de permitir a passagem de um estado de insatisfação para um estado de satisfação, sendo este o motor do comportamento. Conceituou de forma indissociável de
  • 13. 13 sua investigação semiótica. Propõe o conceito de psique, mente, e consequentemente analisou as atividades humanas. Psique para o autor remete à palavra grega “psyche”, termo usado e que representa o princípio da vida nos seres viventes. Portanto, a “psíquica” seria a ciência preocupada com os fenômenos mentais ou com as leis, manifestações e produtos da mente. A mente por sua vez, nada mais é do que semiose, ou processo de formação das significações. A semiótica para Charles Sanders Peirce (2000) é constituída em três níveis: o sintático – que revela a relação que o signo tem com o seu interpretante; o semântico – que diz respeito a relação existente entre o signo e o seu referente (objeto); o pragmático – que se importa com a relação do signo com ele mesmo e com outros signos. Para este autor, o universo é semiótico e o homem interage com os sinais, lendo os que o antecedem e formulando novos sinais em suprimento das necessidades emergentes. Um signo, ou “representamen”, para Peirce é aquilo que em certo aspecto, representa alguma coisa para alguém. Dirigindo-se a essa pessoa, esse primeiro signo criará na mente ou “semiose” dessa pessoa, um signo equivalente a si mesmo ou, eventualmente, um signo mais desenvolvido. O signo criado na mente do receptor recebe a designação de “interpretante”, ou seja, que não é o interprete, e a coisa representada recebe o nome o nome de “objeto”. Signo, Interpretante e Objeto constitui o que é chamado de “representação triádica do signo”. O Interpretante comporta uma divisão tripartite: o Interpretante Imediato corresponde ao Sentido (palavra à qual Peirce continuou preferindo o termo antigo Acepção), o Interpretante Dinâmico equivale ao Significado e o Interpretante Final, referido à Significação. A visão pansemiótica de Pierce sobre o universo resultara no entendimento das cognições, das ideias e até do homem como entidades semióticas. Como tal, um signo se refere a outras ideias, a outros objetos do mundo e se reflete num passado. Suas ideias projetam uma dimensão muito mais ampla. O homem denota qualquer objeto de sua atenção num momento dado. Conota o que conhece ou sente sobre o objeto e é também a encarnação desta forma ou espécie inteligível; o seu interpretante é a memória futura dessa cognição, o seu eu futuro, ou uma outra pessoa à qual se dirige, ou uma frase que escreve, ou um filho que tem. Pierce retomou a teoria estóica do significado, em termos que lhe deram direito de cidadania na lógica moderna. As concepções semióticas do autor demonstraram ser fecundas na lógica e na semiótica contemporâneas, do mesmo modo que se tornaram fecundas as múltiplas distinções e classificações de signos que ele forneceu nos seus escritos. Para ele, Lógica e Semiótica identificam-se. Em seu sentido geral, Peirce afirma
  • 14. 14 que a lógica é apenas um outro nome para semiótica, a quase-necessária, ou formal, doutrina dos signos. A Semiótica é quase necessária ou formal no sentido em que, segundo o autor, procede por observações abstrativas, partindo dos signos particulares e de que os signos "são", para as afirmações gerais, o que os signos devem ser. Segundo Peirce a Semiótica tem três ramos: a) Gramática Pura - a sua tarefa é determinar o que deve ser verdadeiro quanto a representação utilizada por toda a inteligência científica a fim de que possa incorporar um significado qualquer. É a teoria geral da relação de representação e dos vários tipos de signos. b) Lógica Pura ou Crítica - ciência do que é quase necessariamente verdadeiro em relação aos “representâments” de toda a inteligência científica a fim de que possam aplicar-se a qualquer objeto, isto é, a fim de que possam ser verdadeiros. Ciência formal da verdade das representações, compreendendo a teoria unificada da dedução, da indução e da retodução - inferência hipotética ou abdução. c) Retórica Pura ou Especulativa - o seu objetivo é o de determinar as leis pelas quais, em toda a inteligência científica, um signo dá origem a outro signo e, especialmente, um signo acarreta outro. Refere-se à eficácia da semiose. Esta tripartição da Semiótica viria a ser retomada por Charles Morris em 1938 que substitui as designações de Pierce pelas de Sintaxe, a qual trata da relação formal dos signos uns com os outros; Semântica, que trata da relação entre os signos e os objetos a que se aplicam, e Pragmática, a qual procede da relação entre os signos e os intérpretes. Como sabemos, Sintaxe, Semântica e Pragmática constituem, hoje em dia, os três grandes domínios da Semiótica. Pierce distingue, ainda, entre Semiótica geral e "ciências psíquicas" que mais propriamente pode ser chamada de "ciências semióticas", as quais incluem as ciências psicológicas e sociais, a linguística, a história, a estética, etc.. Para o autor, a Lógica e a Semiótica se identificam, pois afirma que "em seu sentido geral, a lógica é, como acredito ter mostrado, apenas um outro nome para semiótica, a quase-necessária, ou formal, doutrina dos signos". A Semiótica é "quase-necessária" ou "formal" no sentido em que, segundo Peirce, procede por "observação abstrativa", partindo dos signos particulares (signos - como "são"), para as afirmações gerais (signos - "devem ser"). Isto se observa através de uma carta que escreve a Lady Welby, dizendo que "desde o dia em que, com doze ou treze anos, apanhei no quarto do meu irmão um exemplar da Lógica de Whately nunca mais fui capaz de estudar o que quer que fosse - matemática, moral, metafísica,
  • 15. 15 gravitação, termodinâmica, fonética, economia, história das ciências, homens e mulheres, vinho, metrologia - senão como estudo de semiótica". É perfeitamente perceptível que a sociedade atual organiza-se em torno de um grande e poderoso universo de signos, e bastante complexo. De igual modo, é também perceptível o estado absoluto em que se portam a linguagem humana e seus signos de valor incondicional. Conforme Barthes (1991), nenhum outro sistema com a mesma complexidade e grandeza foi observado em nosso espaço e tempo. No cerne de tudo – semiologia ou semiótica –, o signo, tema central para também um outro discurso: o signo, produtor complexo da semiose. Ora, como faz notar Umberto Eco: “A semiose é o fenômeno, típico dos seres humanos (e, segundo alguns, também dos anjos e dos animais), pelo qual – como diz Peirce – entram em jogo um signo, seu objeto (ou conteúdo) e sua interpretação. A semiótica é a reflexão teórica sobre o que seja a semiose. Em consequência o semiótico é aquele que nunca sabe o que seja semiose, mas está disposto a apostar a própria vida no fato de que ela exista”. 3. A Semiologia, os Mitos e a Cultura A semiologia estuda todo o sistema de signos da vida social e se debruça sobre a significação de toda e qualquer linguagem. Constitui a ciência das formas, considerando que estuda as significações, independente do seu conteúdo. O tema é complexo e subordinado a múltiplas intepretações segundo o ângulo que é tomado para descrever fenômenos tanto da mitologia como de outras ciências. Constitui num assunto que se insere na perspectiva histórica da humanidade, como também, um aspecto vital da civilização humana. O mito é um sistema semiológico que aglutina o significado e o significante, a própria relação entre os dois, o “signo”, na forma de entidade concreta. A comunicação pode fazer do mito, a marca, “um signo linguístico perfeito”. Os mitos servem de modelo para a sociedade desde épocas remotas, por conseguinte, possuem uma importante função (des)organizadora para a humanidade, eles constituem um sistema de comunicação, uma “mensagem”. Formam parte essencial de uma marca, é um sistema de significação que tem uma massa ilimitada de significantes. A alteração comportamental nas sociedades faz com que o mito seja “re-apresentado” inúmeras vezes, funcionando como uma verdade profunda da mente mergulhada no inconsciente. Ele faz compreender e acima de tudo impõe-se na mente das pessoas. A linguagem da mitologia constitui num repertório de narrativas transmitidas oralmente de geração a geração através de um
  • 16. 16 conjunto de mitos narrados ou cantados. Muitas são as formas de abordagem e definição dos mitos. O mito vem do grego “mythós” que significa “mensagem”, “discurso”. Constitui uma forma de comunicação de cunho simbólico. Procura explicar a origem e o significado do mundo. Representa um sistema de pensamento de uma cultura, uma maneira de sistematização das questões de âmbito das angústias do ser humano em busca de conhecimento, tais como: origem do universo e do homem; o nascimento; o divino; a morte, entre outros. Múltiplas são as funções das histórias míticas que se baseiam em tradições e lendas em uma perspectiva temporal indefinida e que envolve muitas vezes a força divina. O “Mito cumpre na cultura primitiva”, de acordo com Grimal (2005), “uma função indispensável; expressa, acentua e codifica a crença, protege e reforça a moral; vigia a eficiência do ritual e de certas regras práticas para a orientação do homem (...) não é uma fabula vã, mas uma força criadora. Um ingrediente vital para a civilização humana”. Os mitos, como histórias sagradas, são muitas vezes endossados pelos governantes e sacerdotes, intimamente ligados à religião. O mito, na sociedade em que é divulgado, geralmente é considerado um relato verdadeiro, narrativa de um passado remoto, dos antepassados em suas conquistas, peripécias e suas relações no âmbito dos deuses e dos humanos. A condição humana, na Grécia antiga estava vinculada à existência dos deuses do Olimpo, representações de força e níveis de realidade transcendente. O Mundo era povoado por deuses que atuavam sobre a vida humana. Ao homem cabia viver da melhor maneira possível de acordo com os desígnios divinos. Não havia separação clara entre o sagrado e o profano. A vida humana era regida por uma divindade e que para uma vida harmoniosa era preciso conhecer seus genitores, condições de seu nascimento, seu lugar na genealogia divina, para assim agir de forma piedosa a este Deus. Na origem mitológica e religiosa da criação e queda do homem transcende seu tempo e sua própria origem através da narrativa da sua aporia do “pecado original”. Nesta se esconde e desvelam a um só tempo a incompatibilidade lógica entre o objetivo divino da “obediência” e o objetivo humano da “liberdade” e da “igualdade”, segundo Fiori (1973). A criação do homem está posta no “poder da palavra” de Deus capaz de criar os céus, a terra, os animais e o homem a partir do nada, através de uma simples designação. Adão e Eva no paraíso não resistiram em provar do fruto da árvore do conhecimento sem a sarcástica intervenção da serpente tentadora. O primeiro delito humano seria então a busca em se apropriar do que é do Pai criador. Porém, “antes do pecado original, o homem conhecia o bem e o mal: o bem por experiência (per experientian), o mal por
  • 17. 17 ciência (per scientiam). Mas após o pecado, o homem conhece o mal por experiência e o bem somente por ciência”, afirma Autun (apud AGMBEN, 2005). Eva foi quem caiu primeiro em tentação. O mito do paraíso trouxe uma duplicidade ao signo feminino entre outras narrativas. A debilidade implícita de Eva cede ao chamado do diabo. Ao profanar o paraíso conduz a humanidade ao ciclo de vida e morte, de procriação e realização da vida humana, para além do paraíso exclusivo de Deus. O mito de Eva representa vida e mundo. A transgressão dela é criadora. É a palavra iluminadora da dualidade humana, que, fora a posse da semente do bem e do mal em sua essência, emana a capacidade reprodutiva e de reprodução do mundo, o poder criador que remete ao divino, afirma Gea (2007). Noé e a esposa, depois do Dilúvio, receberam a ordem dada a Adão e Eva: “sejam fecundos e multipliquem-se pela terra”. Mas logo Noé é obrigado a amaldiçoar seu próprio filho pela primeira desobediência. Os mitos, a partir da escrita, obtiveram a condição de representatividade na literatura, sobretudo através dos trageógrafos gregos, como Ésquilo, Sófocles e Euripedes, entre outros. São autores de textos mitológicos enriquecidos pela arte da fantasia e imaginação criativa do artista. A tragédia é uma forma transformada do mito, segundo Azevedo (2015), cujas alterações são feitas para que o relato se encaixe na escrita. O mito é na verdade o conjunto de suas variantes, transmitido em diferentes versões. A obra literária pode ser entendida como “recorte” de uma ou mais variantes que se adapta à leitura que o autor faz de um determinado mito. Como exemplo pode ser citado a versão literária de Sófocles na peça de Édipo Rei, entre outras tantas do mito edípico. Portanto, há uma clara diferença entre mito e tragédia. A tragédia é uma variante recortada e transformada formal e esteticamente para a arte. Ela compreende o relato de situações de acontecimentos terríveis que inspiram comoção. Constitui em uma forma dramática cuja finalidade é despertar o terror e a piedade, baseada no percurso do herói que termina quase sempre num acontecimento que enuncia ou precede a morte. Na modernidade os mitos continuam existindo, porém mais adequados à realidade atual, segundo Müller que afirma: “com a diferença apenas de que atualmente não reparamos nela, porque vivemos sua própria sombra e porque, nós todos, retrocedemos ante a luz meridiana da verdade”. Entretanto, nem por isso deixam de serem naturalmente mitos e de inspirarem as pessoas, seja por meio das religiões ou da ciência. O mundo moderno procura satisfazer todas as necessidades do homem através do consumo. Entretanto, esse mesmo consumo o escraviza. Torna-se seu único objetivo, destrói sua individualidade. O homem comum, preocupado em obter todos os bens ou produtos de massa, torna-se um mero componente na máquina de consumo, um operário
  • 18. 18 que quer ser um consumidor. Incapaz de obter satisfação vê-se impotente e diminuído. O mundo moderno procura suprimir a religião, os mitos e os heróis, pois é nestes que o homem procura forças para superar o sentimento derrotista em que mergulhou. As religiões aparecem como fonte de conforto, esperança de sucesso que o mundo material não lhe pode oferecer. O herói é uma das manifestações mais fortes do mito, presente em todas as áreas da cultura. Seja no cinema, na literatura, na televisão ou nas histórias em quadrinhos, o herói surge na vida dos povos como guardião de seus valores mais nobres e justos. É responsável não só pela defesa dos homens, mas pela transmissão de ensinamentos para as gerações futuras, através de suas narrativas. Entre os ídolos na atualidade, os do futebol estão mais próximos do herói clássico, como também os da música. Segundo o sociólogo Ronaldo Helal (1999), a trajetória do herói do futebol, ligada à luta, à disputa e ao sucesso em virtude da derrota do oponente, é semelhante às batalhas dos mitos da antiguidade. O autor afirma que essa característica do “ídolo-herói acaba por transformar o universo do futebol em um terreno extremamente fértil para a produção de mitos e ritos relevantes para a comunidade”. O herói atual tem sua narrativa construída segundo um padrão midiático para corresponder aos anseios do público. Se por um lado o homem contemporâneo des- sacraliza os deuses e heróis de antes, de outro, reforça e fetichiza os mitos da pós- modernidade. O consumo e o estilo de vida de um mundo cujos rituais já não giram mais em torno de figuras sagradas, mas sim de desejos mundanos, ao invés de libertar o homem dos limites da religião, apenas a substituem, aprisionando o espirito humano e submergindo-o em suas próprias ambições. É importante perceber que não se pode retirar do mito o seu poder emocional, tão pouco seu efeito metafisico sobre os homens. O simbolismo que está atrelado aos mitos lhes dá legitimidade, mesmo que para isso tenham mudado de forma e de apresentação. Na verdade não há uma oposição entre mito e realidade, verdade, modernidade, mesmo que de fato na consciência e no senso comum, “o apelo ao moderno evoca um tempo percorrido e denominado vitorioso desmantelamento a antigas mitificações sedimentadas e enraizadas no costume” de acordo com Grossi (2007). Segundo o autor, devido às conquistas do progresso humano através da secularização e a consequente posse de verdades cientificas. No consciente coletivo, o mito não significa somente coisa fantasiosa, irreal, de acordo com Costa Neto (1999), mas quer dizer, em primeiro lugar, uma narrativa de significação simbólica e, como tal, pode auxiliar a ciência a expor suas teorias de forma viva e imaginativa.
  • 19. 19 4. Porque Semiologia e Psicanálise O estatuto epistemológico é fundamentalmente diferente entre linguística e psicanálise. A primeira é a ciência da linguagem, a segunda é mais complexa, é a ciência do inconsciente. Enquanto um “lapso” se torna a “escória involuntária”, que mal se nota para um linguista, para o psicanalista é a brusca irrupção do “inconsciente no discurso”. Freud (1923) define a Psicanálise como o nome de um método “de investigação de processos anímicos que são dificilmente acessíveis de outra maneira; de tratamento dos distúrbios neuróticos, que se funda sobre essa investigação”, assim como propõe como o nome de “uma série de princípios psicológicos adquiridos por esse meio, que crescem progressivamente para reunir-se em uma disciplina cientifica nova”. A psicanálise aparece como que clivada, terapêutica de um lado e cientifica de outro. Amplamente discutido por Lacan (Seminário 11), ele manifesta a assimetria fundamental entre a “ciência da linguagem” de um lado e a “ciência do inconsciente” de outro, embora interrogativo e parcial quanto a esta última. Contemporâneos e pertencentes à mesma geração, Freud (1856-1939) e Saussure (1857- 1913) não se conheceram. Embora a linguística já existisse no universo da cultura, Ferdinand não escreveu sobre o que teorizou e por outro lado não entrou em contato com os escritos freudianos, no entanto, o filho de Saussure, Raymond de Saussure, foi analisando de Freud. Lévi-Strauss (1958) com sua antropologia estrutural contribuiu para a construção da semiologia psicanalítica, justificando o autor, sua proposição dos mitos como sendo universais linguísticos, reveladores do inconsciente humano apoiando-se em Freud e na Psicanálise. O antropologista, pensa sobre a noção de mito e também de inconsciente, admitindo que “as constelações psíquicas que reaparecem à consciência do doente possam constituir um mito”, e ainda, “o objeto próprio dos mitos é oferecer uma derivação a sentimentos reais mais recalcados” (Lévi-Strauss, 2003). Diretamente Freud não propõe nenhuma “Semiologia Psicanalítica”, porém a ciência que estuda a vida dos signos no seio da vida social ensina as leis que regem os signos, e como tal vinculada a um domínio dos fatos humanos. Na biografia de Freud, Ernest Jones sublinha o pai da psicanálise em toda a sua vida, “provavelmente foi mais absorvido pelo grande problema de como o homem veio a ser homem do que por qualquer outra questão". Impulsionado em direção a longínquas navegações, Freud intui que o vento da história do processo de humanização - do devir homem -, sopra do passado. O cerne do mito é a origem das coisas, seus primórdios segundo Eliade. O mito narra a origem do mundo, do homem, do animal, do fogo, da
  • 20. 20 guerra, e assim outros tantos, e por tanto, giram em torno não do fim em si mesmo, mas de um novo começo. Um leque de aberturas se descortina no estabelecimento de uma comunhão entre mito e psicanálise. O efeito do mito é desvelar as contradições, pois apresenta a recorrência de certas questões conflitantes da humanidade: vida e morte; o mesmo e o outro; a diferença sexual; o perene e o transitório; etc.. O homem indaga muitas vezes: por que os mitos? A literatura oral de modo geral, utiliza com tanta frequência a duplicação, a triplificação de uma mesma sequência. Lévi-Strauss responde que a “repetição possui uma função própria, que é a de tornar manifesta a estrutura do mito”. O inconsciente, a espinha dorsal da descoberta freudiana - a psicanálise e sua clínica - também se funda na figura do paradoxo, na coabitação de opostos, no conflito e na repetição - tendência de retorno ao mesmo ponto de origem, em geral, ao ponto de encontro com uma satisfação originária e absoluta, e, portanto, mortífera. Mas, o eterno retorno não significa sempre o retorno do idêntico. Ao contrário, voltar é ser, mas apenas o ser do devir, pois supõe um mundo em que as identificações prévias são abolidas, dissolvidas e metamorfoseadas. O deus da medicina, Asclépio que é filho de Apolo, no seu santuário transmite seus oráculos por meio dos sonhos. No ritual de cura por incubação, o doente é recebido para passar a noite com o objetivo de ingressar no sono e incubar o sonho curativo. A palavra clínica origina-se, etimologicamente, do grego “Klinico”, “Kline” e do verbo “Klino” que significa tratamento, leito ou repouso, e deitar reclinar, debruçar, inclinar. Na clínica, não por acaso, coube a Freud a invenção do artifício do “divã”, representante emblemático da posição privilegiada para as experiências de nascimento, doença, sexo, morte, sonho ... dos pacientes. Deitar-se para relembrar, retomar o que não pode ser esquecido, segundo Pastori, é o convite de trabalho psíquico a ser realizado pelo analisando. Aquilo que não pode apagar – não esquecimento -, traduzido também por desvelamento da verdade. Lévi-Staruss esclarece que há muita psicanálise no mito, a partir do par analítico, mas dialético, e de verdade-esquecimento. No mito há verdade velada em seu interior, esta intimamente ligado à noção de verdade. Este é o anúncio de um dos princípios fundamentais da psicanalise, o princípio da dualidade como estruturante da vida psíquica. Freud salienta que o psiquismo não se restringe ao individuo e que a vida humana é tecida entre o coletivo e o individual. Ele recomenda aos psicanalistas, não só a inclusão de um curso de mitologia na formação psicanalítica, como também a relevância em conhecermos o desenvolvimento da linguagem – a etimologia – ao trabalhar na tradução da linguagem do sonho.
  • 21. 21 Desde os primórdios da psicanálise com a obra fundante do método psicanalítico (1900), “A interpretação dos sonhos”, o mito figura como objeto de fascínio, fonte de inspiração e reflexão para Freud construir suas teorias acerca do funcionamento psíquico. O mito aparece como via de compreensão para os processos inconscientes. A linguagem dos sonhos é uma aproximação da linguagem dos oráculos que indica os desígnios, uma linguagem ambígua, entretanto fica a cargo do homem a sua interpretação. À semelhança do mito, o sonho abarca a projeção de desejos inconscientes de um sonhador particular. O mito expressa o sonho da humanidade, enquanto que o sonho de um sujeito designa seu mito singular, ou, o mito individual do neurótico, segundo Jacques Lacan. O mito é um saber que nos atravessa sem que o saibamos, assim como o inconsciente é um saber que não se sabe que se sabe. Em psicanálise, os mitos são compreendidos como modelos de subjetivação. Eles é que moldam a mente do individuo. Constituem produções coletivas cujo uso que homem faz das mesmas pode ser distinguido em duas vertentes: na primeira o mito é criado, serve ao sujeito e este o vive, numa “ênfase biológica”; na segunda o mito cria o individuo, é servido e ele vive o homem, numa “ênfase cultural”. Usando a metáfora de um carro com passageiros, na primeira vertente, é como se o sujeito dirigisse seu carro e levasse os mitos como passageiros, e na segunda vertente, é como se os mitos dirigissem o carro e os indivíduos fossem os passageiros. Os mitos, na contemporaneidade, sem serem dialéticos e lógicos ou produtores de verdade, educam, subjetivam e operam como marcadores de lugares sociais, institucionais e familiares. Esta binocularidade de compreensão dos mitos é imprescindível para definir lugares de emergência do humano – bio-psico-social -, tanto como expressão da biologia, como produção cultural intersubjetiva, família e instituições. Transubjetiva grandes grupos e etnias, assim como é subjetivadora de indivíduo, sujeito e pessoa. A psicanálise, ao tratar da análise da realidade psíquica institui, na travessia em direção ao processo de subjetivação, o caminho da construção de uma linguagem mito-poética. Caminho se origina do grego “Hódos”, de onde deriva “métodos”, que significa a busca de algo, especialmente de saber, de conhecimento que se refere, também, ao modo como essa busca é conduzida. Para a construção do método de uma “semiologia psicanalítica”, Bento (1996) e se inspirou no linguista de Saussure e em Lévi-Straus e sua antropologia estrutural. Este autor propõe a hipótese de que os mitos são reveladores do inconsciente humano. Apoiado em Freud e na psicanálise, justificará sua hipótese quando escreve que “pensamos particularmente na noção de mito e na noção de inconsciente”, e segue afirmando que
  • 22. 22 “inúmeros psicanalistas se recusarão a admitir que as constelações psíquicas que reaparecem na consciência do doente possam constituir um mito”. Afirma ainda que “o objeto próprio dos mitos é de oferecer uma derivação a sentimentos reais, mas recalcados” (Lévi-Straus, 2013). O aparecimento do humano e sua compreensão ocorreram por funções peculiares, como obras de arte, míticas criadas em espaços intersubjetivos e em presença de pessoas. Estas figurações são específicas a cada individuo e aos vínculos específicos que são gerados, exatamente como a história pessoal vivida e como o próprio nome que carrega a cada um e o qual este carrega. Embora os mitos, como a arte, não sejam produtores de verdade como a ciência, eles residem, com sua geratividade, na fenda entre o pensamento (individual) e a linguagem (coletiva). Eles obrigam o pensamento à busca de denotação no mundo e produzem o imaginário que, caso seja inundado pela experiência religiosa, mágica como ocorre com a criança, fazem a mente pensar pensamentos que só existem, de fato, na linguagem, mas parecem estar no mundo. O relevante, para a psicanálise em cada história, é a expressão anímica, mágica, vital – catexia libidinal. O conceito de mito aqui usado está ampliado para a produção coletiva expressiva – contida em material verbal e para-verbal – possuidora de vida, de partes de subjetividade, comprometida e sentida como histórias verdadeiras, abarcando as lendas urbanas, as histórias de grupos vários e pessoais além de expressão da arte. Interessa menos o envelope onde está contido – linguagem, artes cênicas, plásticas – e mais a impregnação mágica associada à força de convicção, como se dá com o que é sentido como verdadeiro e real. Freud não propõe diretamente uma “semiologia psicanalítica”. Cabe ao psicanalista determinar o lugar exato da semiologia como instrumental de seu trabalho. Em seu artigo “Totem e Tabu”, Freud (1913) particularmente explicita e de forma clara sua primeira “semiologia psicanalítica”. Sem a utilização e o conhecimento semiológico ele efetivamente, fez ali o que se entendeu como uma prática da semiologia psicanalítica dos signos: "totem” e “tabu”. 5. A Psicanálise, a cultura e os mitos Mitologia e Psicanalise são duas áreas que se entrelaçam no caminho das palavras, no discurso que envolve questões da angústia e da tragédia da condição humana. Ambas se movimentam e se deslocam pela vereda das representações dos aspectos inconscientes da mente. Em todo o lugar onde se façam frases, onde se contem
  • 23. 23 histórias, em todos os sentidos das expressões, o mítico esta presente. Freud aponta o conceito mítico como uma repetição histórica. Este conceito do mítico conduz a um conhecer, um olhar semiológico sobre uma compreensão de um sistema particular construído a partir de uma cadeia semiológica existente e anterior a ele. Nos processos de desenvolvimento de seu pensamento é necessário lidar com a origem e o proposito da cultura humana como tal, afirma Freud. Para o autor, cultura significa todos os aspectos em que a vida humana tem se levantado acima da condição animal e que difere da vida de uma fera. A cultura inclui todo o conhecimento e poder que os homens acumulam, a fim de dominar as forças da natureza, de um lado, e de outro, todas as providências necessárias para que as relações dos homens uns com os outros possam ser reguladas. Condições estas inseparáveis porque os recursos existentes e à medida que satisfazem os desejos dos instintos estão profundamente entrelaçados. E escreve Freud: ”Parece mais provável que cada cultura deve ser construída em cima de (...) coerção e renuncia ao Instinto”. O homem forma a cultura, entretanto, “ele é, ao mesmo tempo sujeito a ela, pois ela doma seus instintos selvagens e faz com que o homem se comporte de forma socialmente aceita”. A essência da cultura, segundo Freud, não esta na conquista da natureza pelo homem como maneira de dar suporte à vida, mas na esfera psicológica, em que cada homem possa conter seus instintos predatórios. A religião é um dos refreadores do instinto que o homem criou para perpetuar sua cultura. O aspecto particular da religião como reflexo da consciência moral é reconhecido por Freud. Escreve que uma de suas funções é tentar “corrigir as tão dolorosamente sentidas imperfeições da cultura”. Argumenta o autor “que sofremos de neuroses da infância que são naturais e derivam das condições exteriores e da falta de carinho”. Afirma que a religião elimina a maioria daquelas neuroses a custo de desenvolvimento da neurose que ele considerava como “a neurose universal”, a neurose mais comum, da qual “era difícil de se libertar, em oposição às neuroses tratáveis da infância”, que ele considerava curáveis. A psicanálise, a semiologia e a teoria da comunicação podem ser sistematizadas e integradas de uma maneira metódica e ao mesmo tempo prática no cotidiano da clínica psicanalítica. Em princípio tudo parece se opor à linguística e à psicanálise, o linguista ao psicanalista, e parece que ambos não nasceram para se encontrarem ou mesmo para se entenderem. O psicanalista visa uma ação terapêutica por definição diferente e estranha ao linguista, porém ambos escutam, embora cada um tenha a “escuta” a seu modo. O linguista se preocupa em escutar de forma objetiva entre as variantes das ligações ou a diversidade dos modos de formação neológica, enquanto o psicanalista deve ter uma escuta
  • 24. 24 diferenciada, praticando a fórmula proposta por Freud, a “Atenção Flutuante”, com seu “terceiro ouvido” (Reik). Sua escuta deve ser sensível àquilo que “não é dito”, ou que se “diz mal”, ou reconhecendo nos “atos falhos” os verdadeiros atos bem sucedidos, aquilo que provém do inconsciente. Nas teorizações iniciais de Freud, ao criar a psicanálise, assim como Karl Abraham, os mitos são usados para demonstrar a existência de desejos, pulsões, e instintos. Eles são criados como ressonadores de desejos que precisam permanecer escondidos na mente humana e produtora, pelo mesmo processo de sonhos devaneios, fantasias (inconscientes) e da arte. Todos eles são considerados “formação de compromisso” e “formações substitutivas”, cuja função é dissimular as verdadeiras motivações das pulsões, buscando algum modo de descarrega-las. Num segundo momento da obra de Freud, os mitos são compreendidos como modelos de subjetivação. Freud foi um grande admirador e estudioso das fontes mais primitivas da evolução do homem: a mitologia, a filosofia e a literatura antiga. Ao iniciar a psicanalise, ele começou descobrindo o “poder mágico” simbólico da palavra. A clínica freudiana verifica em que medida os afetos e as representações estão ligadas a complexos laços simbólicos, bem como, a expressão verbal opera nesse emaranhado de coisas. A linguagem é a condição do inconsciente na estruturação da subjetividade humana. O sujeito se constrói a partir da fala dirigida ao Outro, organizando seu corpo, seu desejo e seus vínculos. As mensagens inconscientes, por exemplo, seriam essas auto-mensagens que o sujeito codifica por si mesmo e que depois não sabe mais decodificar. Dentro dessa perspectiva, o psicanalista trabalha a título de intérprete entre o inconsciente, emissor que transmite em cifra, e o pré-consciente, receptor que não pode decriptar essa cifra sob pena de experimentar desprazer. Na patologia da comunicação do paciente psicanalítico, vemos fenômenos de codificação ou de decodificação patológicas ligadas a uma delimitação incorreta de classes significantes e de classes significadas; o que tem como consequência uma pragmática incorreta da comunicação. O paciente psicanalítico se põe em comunicação patológica, de um ponto de vista pragmático, com seus objetos - na transferência, com seu analista -, na medida em que as classes significantes de seu código informativo, equivalentes às “representações de palavras”, segundo Freud, e as classes significadas desse mesmo código ou “representações das coisas”. Foi através dos trabalhos de Melanie Klein, Hanna Segal, Wilfred R. Bion e outros autores da escola inglesa, bem como, através dos escritos de Jacques Lacan, André Green, Jean Laplanche e outros autores da escola francesa, que progressivamente surgiu
  • 25. 25 a consciência da importância de que se revestem os símbolos e os signos na teoria e na prática psicanalíticas. E isto a tal ponto, que acabaram surgindo como domínio específico das pesquisas e modificações constitutivas do trabalho do psicanalista. 6. Semiologia psicanalítica, fundamentos para a clínica Freud valorizou os mitos, as lendas, os contos de fadas e as narrativas do homem primitivo supondo que poderia revelar uma verdade humana imutável, atemporal, pois “num certo sentido, ele (o homem pré-histórico) ainda é nosso contemporâneo”, assegura o autor. Nesse sentido, sua obra “Totem e Tabu" (1913) constitui uma psicologia social vista segundo uma ótica psicanalítica, que se assemelha a uma "semiologia psicanalítica", lembrando a semiologia saussuriana, aparentemente sem possuir suas raízes no pensamento de Saussure (1916). Nesta obra, Freud considerou-a como uma de suas pesquisas favoritas. Pergunta-se, o que é um totem? Freud caracteriza o “totem” como sendo o “antepassado comum do clã”, como uma “significação mitológica”. Ao mesmo tempo afirma ser “um espirito guardião e auxiliar, que lhe envia oráculos e, embora perigoso para outros, reconhece e poupa seus próprios filhos”. Os mitos remeterão às religiões, eles se situarão na origem das instituições religiosas. Uma lei mitológica de transformação faria dos “totens” (mitos) originários de um primeiro tempo, os “tabus” (sagrado) de um segundo tempo. Quando ocorrer a ausência da transformação, permanece a conservação do mito. Freud (1913) proporá também uma psicologia dos povos primitivos a partir de uma comparação entre esta, "como é vista pela antropologia social, e a psicologia dos neuróticos, como foi revelada pela psicanálise". Essa ideia de uma psicologia dos povos primitivos revelaria uma aproximação da semiologia de Saussure (1916), concebida como sendo "uma parte da Psicologia social". Wundt e Jung serviram de ponto de partida, entretanto, eles também serviram de referência para se diferençar e marcar a identidade dessa obra. Freud (1913) afirma que fará: "uma comparação entre a psicologia dos povos primitivos, como é vista pela antropologia social, e a psicologia dos neuróticos, como foi revelada pela psicanálise"; ao contrário do que fará Jung, que valorizará a psicologia individual explicada pela psicologia coletiva. Freud interrogou-se a partir do domínio da psicologia social e da psicanálise sobre o sentido do signo "mito": " Você imagina o que podem ser os 'mitos endopsíquicos'?" Os "mitos endopsíquicos", a "psico-mitologia", serão assim valorizados como linguagem humana, "popular", atemporal, remetendo a um duplo fenômeno: social, por um lado, e o inconsciente, por outro, posto que os mitos são "vestígios deformados de fantasmas
  • 26. 26 (inconscientes) dos desejos comuns a nações inteiras", e "eles representam os sonhos seculares da jovem humanidade". Os mitos são destacados ao lado das religiões, situando- se na origem das instituições religiosas. Essa amostra de estudo é assim definida por Freud: "as tribos que foram descritas pelos antropólogos como sendo dos selvagens mais atrasados e miseráveis, os aborígenes da Austrália (...) considerados uma raça distinta, sem apresentar relação física nem linguística com seus vizinhos mais próximos, os povos melanésio, polinésio e malaio". Nessa sociedade primitiva, aparentemente sem vínculo com as sociedades atuais, o autor sublinha a inexistência de instituições religiosas e o papel do sistema de totemismo que as substitui. Ele escreve a esse propósito: "É altamente duvidoso que se lhes possa atribuir qualquer religião moldada na adoração de seres superiores (....). Entre os australianos, o lugar das instituições religiosas e sociais que eles não têm é ocupado pelo sistema do 'totemismo'" (FREUD, 1913). O "totem", enquanto "mito", será regido pelas leis da mitologia e, assim, terminará por se transformar em "tabu". O conjunto desses dois aspectos remete aparentemente a uma contradição. Freud afirma que, por um lado, os totens são mitos originários, objetos de veneração que, apesar das aparências, não cessam nunca de existir. Permanecem vivos ainda que escondidos "no que foi considerado como uma forma inferior e finalmente desprezível" (o tabu) parece que, por outro lado, os totens, como "objetos de (...) veneração, se transmudam em objetos de horror" (os tabus). Portanto, os tabus que caracterizam o pensamento religioso se fundam nas transformações dos mitos, que são os totens. As religiões como cultos rendidos a Seres superiores e às suas restrições morais e em oposição aos mitos, ao animismo, nos quais se observa o culto livre do homem aos seus pares, surgem num segundo momento da história da raça humana. As religiões como os tabus, tem sua origem, no tempo dos “totens-mitos” que se tornaram “inconscientes” após recalcados ao longo de um segundo tempo religiosos. Os tabus caracterizam o pensamento religioso e se fundam nas transformações dos mitos que são os totens. Freud aborda a questão do surgimento das religiões, posterior aos mitos, no contexto de uma psicologia do desenvolvimento dos sistemas intelectuais, das concepções do mundo, na história do homem. Afirma que “a raça humana (...) desenvolveu, no decurso das eras, três desses sistemas de pensamento - três grandes representações do universo: animista (ou mitológica), religiosa e científica”. Em “Totem e Tabu” (1913) e em “O Futuro de uma Ilusão” (1927) Freud escreve sobre o fenômeno religioso e enfatiza a imagem paterna que esta por trás da figura de
  • 27. 27 Deus. O sentimento de desamparo, experiência na infância que é inerente a todo ser humano, é o que o move a procurar a religião. O pai de “Totem e Tabu” era o pai todo- poderoso, não castrado que tinha todas as mulheres para si. Ele foi alvo da hostilidade dos filhos que o mataram. Para se apropriarem das marcas de sua onipotência e assumirem seu lugar, o comem num banquete canibalesco. Posteriormente, os filhos descobrem que amavam o pai. Esse amor se transformou em sentimento de culpa e a palavra do pai se converteu em lei simbólica. Com o arrependimento e a culpa eles realizaram um culto através do qual a dívida seria honrada pela rendição à instituição simbólica da proibição do incesto. E Freud (1912) assim escreve “este crime esta destinado a dar origem a toda a civilização futura, foi o ato criminoso memorável com o qual começaram a organização social, as restrições morais e religiosas”. Em o “Futuro de uma Ilusão”, Freud defendia que o homem é um “ser de desejo”, antes de ser um “ser da razão”. O ser humano é uma instância pulsional marcado e dividido pelo conflito. A cultura fundamenta-se sobre as bases da renuncia pulsional. Os indivíduos possuem atitudes hostis a ameaçarem a cultura. Apesar das frustrações das interdições, estas são necessárias. O valor universal da crença marca as religiões. Elas se organizam e exercem certo controle social sobre seus ambientes e fora deles. Criam sanções e proibições a serem seguidas por todos. A psicologia das neuroses e as grandes produções sociais, considerando a semelhança entre religião e tabu é comparada por Freud. Ele aproxima as neuroses obsessivas das religiões e dos tabus. Os tabus constituem uma característica comum das neuroses obsessivas e das religiões, afirmando que “o tabu assemelha-se muito estreitamente ao medo de contato do neurótico, com sua fobia de contato”. Através dessa comparação, o autor pressupõe a compreensão da natureza da relação entre as diferentes formas de neuroses e instituições culturais, assim como o estudo da psicologia das neuroses é importante para a compreensão do desenvolvimento da civilização. As neuroses “apresentam pontos de concordância notáveis e de longo alcance com as grandes instituições sociais, a arte, a religião e a filosofia” afirma Freud (1913). Entretanto, segue o autor, estas “parecem como se fossem distorções delas”. Ele compara o caso da histeria, afirmando que esta “é uma caricatura de uma obra de arte”; uma neurose obsessiva “é uma caricatura de uma religião”; e um delírio paranoico “é a caricatura de um sistema filosófico”. O psiquismo é uma formação intermediária entre o corpo biológico e o campo social, e o inconsciente, objeto de estudo da psicanálise, não existe no vazio.
  • 28. 28 Freud, nesse mesmo artigo, baseado em hipóteses cientificas dos etnólogos de sua época, reconstrói o mito da morte do “Pai primitivo” e vê nele as origens da mais antiga forma de religião, o “totemismo”, bem como a moral e a vida social. Ele retoma a questão do incesto, enunciada anteriormente como experiência estruturante do individuo e das neuroses. O autor demonstra que o “desejo do incesto” esta presente em todas as sociedades e que o mesmo é fundador da exogamia, colocando-o no centro organizador da cultura. Freud lança a ideia da necessidade de haver uma força repressora, uma interdição, ditada e mantida por uma instância capaz de manter essa lei e que funciona como um obstáculo para a descarga pulsional, assevera Bento (2007). Inspirado no mito de Édipo, Freud descreveu a “função paterna” como estruturante do psiquismo através do Complexo de Édipo. A lei foi atribuída ao pai, um pai potente que intervém na relação mãe/filho, privando a mãe de seu objeto e colocando limite no gozo desmedido. O pai está inscrito no psiquismo da mãe, em sua experiência edípica com seu próprio pai, e em sua vivência amorosa com seu parceiro. O pai é um operador simbólico, ele ordena uma função estruturante do ponto de vista do inconsciente. O pai da realidade é o representante do “pai simbólico” e depositário de uma lei que vem de outro lugar. Freud atribui ao pai de alteridade, um “modelo para todos”, um pai soberano, ideal, um grande Outro da linguagem, que Lacan denominou de “Nome-do-Pai”. O sujeito, em especial o neurótico, faz uma tentativa de manter o pai no lugar do sagrado, na esperança de recuperar sua autoridade que é posta em questão nas configurações familiares atuais. As famílias tem experienciado mudanças radicais: valores, identidades e comportamentos, ao logo do tempo. Modificações nas formas de procriação, o ato sexual deixou de ser a única forma de fertilização; mudanças na maneira de criação dos filhos, bem como, crescente demanda de modificações da identidade sexual. As consequências decorrentes dessas modificações não produzem problemas mais sérios do que os que já existiam em relação à subjetivação do individuo pela falta de um pai de família. Não é a presença do pai que faz a diferença, mas sim que o sujeito seja reconhecido pela “palavra do outro”. Portanto, não importa que haja carência paterna por esse pai ser enfraquecido demais ou faltar. “O essencial é que o sujeito, seja por que lado for, tenha adquirido a dimensão do Nome-do-Pai”, afirma Lacan (1957). O ponto de apoio por excelência para a construção de uma “Semiologia Psicanalítica” a partir de Lacan foi à linguística saussuriana e o retorno a Freud, devido à analise do inconsciente freudiano segundo o método estruturalista. A célebre hipótese marcadamente da essência de seu pensamento foi a de que o “inconsciente é estruturado como linguagem”. Essa célebre hipótese marcou a essência do pensamento lacaniano e
  • 29. 29 encontra-se, especialmente colocada em evidência no seu trabalho intitulado “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, (LACAN, 1966ª). O autor assim escreve “Nosso título deixa claro que, para-além dessa fala, é toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente.” O fundamento teórico dessa hipótese lacaniana tem seu primeiro fundamento em Saussure, particularmente na linguística que esse autor propõe e não na semiologia. Lacan afirma que a linguística é “o estudo das línguas existentes em sua estrutura e nas leis que nela revelam”, e segue em seu posicionamento dizendo que “o que deia fora (...) qualquer semiologia mais ou menos hipoteticamente generalizada”. O autor valoriza a linguística em sua “posição-piloto” no que concerne o estudo da linguagem, porque “a linguagem (...) efetivamente (conquistou), na experiência, seu status de objeto cientifico”, em oposição a “qualquer semiologia mais ou menos hipoteticamente generalizada.” A noção de “signo” é essencial para Lacan, porque separa entre o significante e o significado representada por uma barra que simboliza “uma barreira resistente à significação”, evocará a ideia de um significado oculto inconsciente. O signo, tal como se apresenta em Saussure, tornaria então possível “um estudo exato das ligações próprias do significante e da amplitude da função destas na gênese do significado”, isto é, uma abordagem psicanalítica tendo como ideal último encontrar a significação inconsciente original, a qual se situa “muito além do debate relativo (ao arbitrário) do signo”. No Seminário, “Escritos”, Lacan expressa que o inconsciente a partir de Freud “é uma cadeia de significantes que em algum lugar, numa outra cena”, escreve ele, “se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e a cogitação a que ele dá forma”, enquanto Carvalho (2009) afirma que “a realidade para qualquer ser é um conhecimento absoluto que abrange com o formato de uma coerência harmoniosa toda a multiplicidade dispersa e contraditória de uma aparência sensível.” E segue apontando que “isso acontece a partir dos processos ditos semiológicos e neles o signo, isto é, aquele fator em que se juntam significantes e significados, sendo o significante a representação psíquica do como os nossos sentidos percebem e o significado, o conceito que lhe seja atribuído.” Neste estudo há uma tentativa de fundamentar uma operacionalidade da psicanálise, com contribuições da semiologia e da teoria da comunicação, com vistas a uma estratégia terapêutica que possibilite cobrir os níveis da ação analítica. Cria modelos que permitam re-orientações pragmáticas no sentido de facilitar, ao analista, uma visão mais abrangente da problemática que lhe é exposta pelo paciente. A compulsão à repetição, localizada a partir das estruturas narrativas, é possível de ser detectada e
  • 30. 30 traduzida operacionalmente através do material fornecido pelo paciente ao analista, isto em um sistema de signos passível de codificação e consequente sistematização. 7. Comunicação, Semiologia e Psicanálise Na pós-modernidade, o século da comunicação está sendo vivido. O mundo para alguns, se constitui numa autêntica "aldeia global", onde habitam “tribos planetárias”, possibilitadas uma e outra, pelas novas tecnologias de informação e comunicação. As novas tecnologias eletrônicas tendem a encurtar distâncias, reconstituindo uma tradição oral na forma de comunicação do ser humano. Outros tantos sentem uma sobrecarga de "informação" e "comunicação" que não se traduz, necessariamente, em maior aproximação e solidariedade entre os homens, mas sim conduzindo antes a novas formas de individualismo e etnocentrismo. O termo "Comunicar" significa "pôr em comum", em seu sentido etimológico. Simplificando o processo de comunicação, pode-se entender o mesmo como a troca de uma mensagem entre um “Emissor” e um “Receptor”, cujos “Signos” desempenham um papel fundamental. Sem Signos, não há mensagem, nada pode ser posto em comum. Os Signos são tão importantes que permitem (e costuma) ser definida a Semiótica de forma essencial, como a "ciência dos signos". Semiótica é a ciência, ou teoria geral da produção dos signos. Teve sua origem na Rússia, na Europa Ocidental e na América. A semiótica, atualmente, é um campo de grande amplitude e variedade teórica. O autor Charles Peirce foi o fundador da semiótica. Saussure, no Curso de Linguística Geral, falava de uma semiologia, que pode ser comparada ou diferenciada da semiótica propriamente dita. Atualmente, Umberto Eco é um especialista em semiótica. Ferdinand Saussure estabeleceu a distinção entre “língua” e “fala” para que o indivíduo possa reconhecer um signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente. É necessário que previamente possa apoiar-se, por um lado, nas representações psíquicas, ou seja, os significantes, dos “sons” concretos e, por outro, nas representações psíquicas, ou significados, dos referentes também concretos com os quais se relacionam esses sons. No sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos pela união dos “significantes”, ou seja, a imagem acústica dos sons, e dos “significados”, portanto os conceitos do referente. A estrutura ou o código é determinado pela oposição de dois signos
  • 31. 31 complementares. O autor denomina “valor”, o estudo específico da relação lateral que se estabelece entre os significantes ou entre os significados. O usuário na comunicação poderá estabelecer relações semiológicas corretas entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes significantes e significadas correspondentes. Quando o usuário funciona como emissor e transmite uma mensagem por meio de um sinal, faz um “incoding”, uma codificação. Quando funciona como receptor, recebe um sinal e dele deduz uma mensagem, faz um “decoding”, ou seja, uma decodificação. No caso das mensagens inconscientes, por exemplo, seria estas auto mensagem que o sujeito codifica por si mesmo através das representações, e depois não sabe mais decodificar. Dentro dessa perspectiva, o psicanalista trabalha a título de intérprete entre o inconsciente, emissor que transmite codificado, e o pré-consciente, receptor que não pode decodificar esse código, sob a pena de experimentar desprazer. Na patologia da comunicação do paciente psicanalítico, são percebidos fenômenos de codificação ou de decodificação patológicas ligadas a uma delimitação incorreta de classes significantes e de classes significadas; isso tem como consequência uma pragmática incorreta da comunicação. O paciente psicanalítico se põe em comunicação patológica, de um ponto de vista pragmático, com seus objetos - na transferência, com seu analista -, na medida em que as classes significantes de seu código informativo (equivalentes, às representações de palavras, segundo Freud) e as classes significadas desse mesmo código (ou representações das coisas). Na clínica o que está em vigência, enquanto comunicação e linguagem, seja formal ou informal, é a questão do “sentimento oculto” crucial na compreensão do “conflito psíquico”, o qual pode ser latente, ou se manifestar por seus derivados, onde o paciente pode: a) adotar mecanismos de defesa para neutralizar impulsos motivacionais inaceitáveis pelo superego por serem conflitantes com tabus morais; b) temer, consciente ou inconscientemente, a instalação de consequências insuportáveis, função da exteriorização dos assim chamados sentimentos ocultos; c) exprimir e/ou sugerir sintomas subjetivos formulados com o formato de queixas sobre si mesmo. O analista deve estar preparado para a “escuta” diante do “dito”, a fim de que se houver um sintoma, em cada palavra escutada, possa ser o interprete. Exige a suspensão do juízo – epoché – ou seja, uma atitude como a dos antigos céticos, o que constitui em não aceitar, nem refutar, em não afirmar ou negar. Constitui a imperturbabilidade ante o
  • 32. 32 sensível exposto no verbal e no não-verbal do paciente, algo difícil de conseguir, mas que se impõe sem alternativa e que implica na “neutralidade” sem a qual não há psicanálise. Todo o ser humano, em função da própria natureza, a todo o momento sente, pensa, julga e principalmente interpreta, pois vive a inferir a partir do significante e do significado que é ouvido, do tocado, do gosto sentido, do olhar lançado sobre algo, ou do perfume aspirado. Assim, em cada palavra o analista se depara inevitavelmente com o signo, e este composto de significante e de significado, implicando denotações verbais e não-verbais. O signo apresenta características de um estojo, pois além do dito, há palavras, atos e produções imaginárias que o compõem. Sempre trazem dentro de si, algo muito importante, valioso para ser compreendido, a partir do que o paciente produza consciente ou inconscientemente. Justifica-se a abertura desse estojo, pois no signo há também o estilo, ou seja, o “como diz” e que se junta à situação. Assim a par disso, mecanismos de defesa são instalados devido aos preconceitos e o temor da rejeição do ser humano. Este já nasce para desfrutar prazeres, o que justifica a situação cautelar de cada um no momento da produção de palavras mesmo que de uma maneira informal. As defesas são usadas para neutralizar as dores mentais, ou para controlar as pulsões inaceitáveis pelo superego. Por isso, a cada representação de toda a ordem e afetos dolorosos que surgem, o ego faz adaptações. Os mecanismos de defesas podem tomar formatos de comportamentos mal adaptados o que provoca o surgimento de sintomas neuróticos, e por vezes referidos às funções defensivas relacionadas com sentimentos, pulsões e afetos que insurgem de maneira disfarçada, em meio aos discursos, os verbais e os não-verbais. De alguma forma isto reforça a importância de um “olhar semiológico psicanalítico” especialmente quando tudo que se tenha do paciente seja um bocejo, um pigarro, um muxoxo (estalar de língua), um suspiro, uma olhada no relógio, não esquecendo que as cinco posturas citadas são nada mais nada menos do que “discursos” altamente importantes. Na clínica, a prática mostra que a demanda do paciente provem de seu inconsciente. Devido a isso, ele tem dificuldade em responder por que vem buscar o terapeuta. O analista deve ter a preocupação com a coerência na formação das frases, enquanto semântica, e através de sintaxe, buscar a relação coerente entre os símbolos adotados no campo analítico. Ao inferir, seja ao pontuar ou ao interpretar (quando seja possível),considerar: a fonte da angústia; as defesas e seus graus de importância e eficácia contra a angústia; e a natureza da pulsão que busca descarga. O paciente deve dizer ao analista tudo o que este precisa saber sobre ele em seus discursos verbais, como também informar tudo o que não pensa dizer sobre “si mesmo”.
  • 33. 33 Entretanto, o analista precisa ter a percepção, através das manifestações e linguagem não verbais, sobre o que significa não perguntar, e “aguardar e decodificar as mensagens e comunicações” transmitidas por aquele. No discurso que o paciente traz, feitas as interpretações, o analista deve perceber se estas foram adequadas quando: a angústia diminuir e houver melhora na sintomatologia. Quando isto não acontece, é importante pesquisar o sentimento de culpa que pode se encontrar no nível inconsciente a exigir análise das formações de compromisso que pode surgir nos sonhos, se os apresentar, nas parapraxias, nos chistes, nas fantasias, nas lembranças, nas associações livres, sobretudo, de forma aprofundada. O analista deve trabalhar focado nas “falas”, ações e os estados afetivos, especialmente aqueles que influenciam os sentimentos. Para ampliar o campo de visão e escuta da fala proferida pelo paciente, o terapeuta pode observar uma divisão no discurso, segundo a sugestão de alguns autores. Estes discursos terapêuticos se entremearão nas comunicações que venha fazer ao paciente, tais como: a) Descritivo - reconhecer os seus próprios padrões de comportamento patológico; b) Reconstrutivo – apontar o padrão seguido por ele, quando externalizar afetos, discursos de toda ordem, bem como atitudes postas nos termos de suas relações objetais no lar; c) Interpretativo – promover a produção do insight, possibilitando que o analista interprete os mecanismos de defesa, a importância do superego, os traços de angústia, de inibição e de raiva; d) Requalificação ou ressignificação - corrigir as desqualificações do “self” e de outros elementos nos discursos deste com o analista, levando o indivíduo a compreender sua tendência para denegrir a si mesmo e/ou os outros; e) Prospectivos - o analista tenta produzir futuros “out sights” no paciente e/ou também o reconhecimento de novas possibilidades comportamentais e cognitivas em si mesmo ou em outros; f) Diretivo - analista tenta provocar o paciente para que compreenda como pode cooperar ativamente no processo terapêutico com o fim de torná-lo mais efetivo; g) Convencional – usar e direcionar a conversa para o tema da análise, quando o paciente encontra com o analista no elevador, ou mesmo numa festa; o analista não pode assumir uma postura paternalista, mas manter as regras vigentes do “setting analítico”, visto que este não constitui o espaço, mas as regras, quando foram acordadas.
  • 34. 34 8. Entendendo a Semiologia A semiótica se funda na lógica em sentido geral, no dizer de Peirce, quando assim denomina a doutrina dos signos. O autor descreve a doutrina como “quase necessária” ou formal ao observar os signos e dizer de seus caracteres. O processo de observação abstrativa envolve uma cientificidade na relação lógica proposta pela semiologia, ou seja, uma inteligência capaz de apreender através da experiência e que é possível ocorrer em pessoas comuns. É uma experiência familiar a todo o ser humano desejar algo que está totalmente longe de seus recursos presentes e complementares ao seu desejo, se perguntar: “meu desejo dessa coisa seria o mesmo se eu dispusesse de meios de realizá- lo?” Respondendo à pergunta que se faz, o indivíduo examina seu interior, e é a isso que Peirce denomina de observação abstrativa. A pessoa faz na imaginação, uma espécie de esboço, considerando modificações, estado de coisas, o que deverá se exigir e observar o que examinou, a fim de saber se seu desejo é possível, mesmo que não imediatamente. Através desse processo, que se assemelha a um raciocínio matemático, pode-se chegar a conclusões sobre o que seria verdadeiro a respeito dos signos de todos os casos, conquanto a inteligência que dele se serviu. Um signo, ou “representâmen”, é aquilo que de certa maneira representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, ou seja, cria na mente da pessoa, um signo equivalente, ou talvez mais desenvolvido. O signo representa alguma coisa, representa o seu objeto, representa um tipo de ideia no sentido de ter um similar, é a mesma ideia e não a cada intervalo uma nova ideia. A palavra é um signo e será usada para denotar um objeto perceptível ou imaginável num certo sentido. A palavra estrela, por exemplo, é um signo, não é imaginável, pois é a mesma palavra quando escrita e quando pronunciada. A palavra significa “astro com luz própria”, possui outro significado diferente quando empregada para dizer de um “artista célebre”, ou em dado momento para dizer de que alguém tem “sorte”. Assim esse algo serve para significar outra coisa, que é chamada de “objeto”. O signo deve ser algo distinto de seu objeto, ele irá representar alguma outra coisa. Saussure, por ser um linguista, considerava como signo a palavra, principalmente a palavra oral. Na concepção deste autor, o signo é bifacial onde são correlacionados apenas dois elementos, sendo um a unidade entre o som verbal e uma ideia, chamado de: “significante”, entendido como o som verbal, ou seja, a imagem acústica; e “significado”, esta ideia ou a imagem conceptual, que é o objeto. Então temos que: signo = significante (som) + significado (objeto).
  • 35. 35 Cada palavra é um signo ou uma unidade para Saussure. Um discurso é uma sequência de signos. O signo linguístico une o conceito com a imagem acústica, pois estes dois elementos requerem-se um ao outro. Afirma o autor que o “caráter psíquico das nossas imagens acústicas surge bem claro quando observamos a nossa própria linguagem. Sem mover os lábios nem a língua, podemos falar conosco ou recitar mentalmente um poema”. Segue dizendo que “é porque as palavras da língua são para nós imagens acústicas que ao devemos falar dos “fonemas” que as compõem”, (SAUSSERE, 1916). O “conceito” pode ser substituido por “significado” e a “imagem acústica” por “significante”, sendo que o “signo” é o resultado dos dois juntos. O signo é arbitrário quando associado um significante a um significado. A prova da arbitrariedade esta entre as línguas e a existência de várias línguas, como também a arbitrariedade envolve a cultural, o simbólico e o convencional. Saussure (1916) afirma que nenhuma sociedade conheceu e conhece a língua senão como produto herdado das gerações anteriores que se deve receber e manter intacto, pois o único objeto real da linguística é a vida normal e regular de um idioma já constituído. A imagem acústica não é a palavra falada, ou o som material, mas a impressão psíquica desse som. A distinção entre “língua” e “fala” foi estabelecida pelo autor, para que o paciente possa reconhecer o signo como tal e atribuir-lhe seu designado correspondente. Torna-se necessário que possa previamente apoiar-se, por um lado, nas representações psíquicas, ou significantes dos sons concretos, e por outro lado, nas representações psíquicas ou significados dos referentes também concretos com os quais se relacionam esses sons. Peirce considerou o “signo”, qualquer coisa que represente outra coisa para alguém, não importa a espécie. Para este autor, o signo é um elemento triádico, onde se correlacionam três elementos, aos quais chamou de representâmen, objeto e interpretante. Esta relação o autor veio denominar de “semiose”. O “representâmen” é a coisa que representa; o “objeto” é a coisa que é representada; e o “interpretante” é a terceira coisa que surge na mente do intérprete no momento em que ele percebe aquela primeira coisa. Os três elementos possuem correlação entre si: uma coisa só aparece como signo de uma outra coisa se surgir uma terceira coisa; esta terceira coisa provem de experiências anteriores a partir da qual a interpretação da primeira coisa possa ser realizada na mente de quem percebe. Nas relações triádicas envolvem: a “comparação” que faz parte da natureza das possibilidades lógicas; o “desempenho” que faz parte da natureza dos fatos reais; o “pensamento”, que faz parte da natureza das leis. O significado é a palavra equivalente no mesmo ou em outro idioma. Ele se constitui na representação, ou na linguagem do significante. O significado corresponde ao
  • 36. 36 conceito ou à noção do objeto. É dito de todo o objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo, tal como: a “cruz” é o significado do “cristianismo”; a cor vermelha é o significado de “pare” no código de transito; a bandeira pode ser o significado do “país”, do “time de futebol”, do “clube náutico”, entre outros tantos. A partir da teoria no sentido saussuriano, os “signos” psíquicos serão constituídos, portanto, pela união dos “significantes” (imagem acústica dos sons) e dos “significados” (conceitos do referente). O usuário poderá estabelecer relações semiológicas corretas entre “sinais” e “mensagens” se tiver previamente formado de maneira correta as classes significantes e significadas correspondentes. O significante tem um código afetivo, como por exemplo, a angústia, relacionado a um fato psíquico no inconsciente, não sabido e ligado a um objeto referido. Exemplo: a angústia que pode ser aniquiladora, ligada ao desprazer, à dor, ou a angústia diante de um prazer. O outro elemento do signo é constituído pelo significante, que é a parte fônica, ou a imagem acústica de um fonema provido de significação. O significante apresenta um código informativo, como: o som, os sintomas, as relações objetais. 9. Semiologia Médica A Semiologia que trata da parte da medicina é chamada de Propedêutica. Está relacionada ao estudo dos “sinais” e “sintomas” das doenças no ser humano e nos animais. Surge através do termo grego “Semeion”, que quer dizer “sinal” + “Logus” que quer significa “tratado” (estudo). A Semiologia Médica é muito importante para o diagnóstico da maioria das enfermidades que acometem o homem. O “Sintoma” constitui-se em toda a informação subjetiva, relatos ou queixas descritas pelo paciente, ou seja, é tudo aquilo que o paciente sente, mas que não pode ser mostrado ou manifestado diretamente. O examinador não consegue perceber ou confirmar, já que é uma sensação sentida pelo paciente como uma dor de cabeça, por exemplo. É algo que se refere unicamente à percepção de uma alteração por parte do próprio doente. O “sinal” é uma manifestação objetiva diretamente observável e passível de ser percebido pelo examinador no examinado, mesmo que o paciente não perceba ou relate sua ocorrência. Estes sinais podem ser, por exemplo, a febre, a sudorese, a tosse entre outros. A anamnese é a parte da semiologia que visa revelar, investigar e analisar os sintomas. É realizada através de uma entrevista com o paciente, objetivando estabelecer uma relação de confiança e apoio com ele. Ela possibilita a coleta de informações acerca do que o paciente esta sentindo, bem como, facilitará o esclarecimeneto sobre o