Rita Ribeiro de Almeida 11K

Sintra
De pensamentos profundos, histórias sem sentido, momentos irreais, terras
distantes e “mares nunca dantes navegados”, volto ao presente, ao que é
concreto e real. Sem força ou vontade, dirigi-me às escadas da cama que me
pareciam longínquas como uma ilha, arrastando um peso que mais parecia
morto do que vivo. Assim terminado o martírio, por entre fecha não fecha o olho
e passos desmaiados, um som nostálgico e amargo assolava a minha cabeça.
Óptimo! Já não bastava o latejar bruto, ainda tinha de atender o telemóvel.
 Era a minha mãe. Não percebia bem o que queria. Enquanto falava, eu
apenas sentia o latejar e ouvia um som abafado e estridente que calculo que
fosse ela a falar.
 Queria avisar-me da visita a Sintra, iamos ver o teatro “Os Maias”. É claro que,
como de costume, a minha cabeça começou logo a entrar em acção: Sintra,
sítio belo, de árvores verde húmido, de alturas extremas, de amores
impossíveis e águas puras e sorridentes…
 Dei por mim, é claro, com o ouvido direito agoniado da gritaria estridente,
impaciente, para não dizer insuportável que invadia o meu pobre pavilhão
auditivo.
 “Já há comboios!”- dizia a minha mãe – “Compra um bilhete e vai para lá
agora!”
 Ainda a digerir aquela informação, agarrei no telefone sem pensar duas vezes
e comecei a avisar toda a gente da novidade. De entre elas, uma mandou-me
esperar por ela em Lisboa: Era a Marta Moreno, uma rapariga bem-disposta,
dotada de uma grande incontinência verbal, um tanto ao quanto inconveniente
com a mesma, dominadora do seu british e sempre entusiasta com as suas
novidades musicais. Vinha de Loures, lugar onde vive e pedia-me que
esperasse para não ir sozinha.
 Vendo bem as coisas, eu também não queria ir sozinha, pois lisboeta que vive
e convive em Lisboa, não vai a terra de outrem, mas devido às circunstâncias,
Lisboa iria deslocar-se até Sintra e presenciar esse tão esperado espectáculo.
 Passada uma hora desde então, encontrei-me debaixo da estação Roma-
Areeiro com a Marta. Esta não conhecia a estação, era como se estivesse no
meio de um monte de arroz à procura de uma lentilha; não conhecia, não
percebia, não entendia.
 Após termos tentado solicitar o auxílio de um aparente funcionário conhecedor
do sistema ferroviário, encontrámos um segurança que nos indicou uma
simpática máquina quadrangular, que nos iria dar com todas as facilidades o
que queríamos. Mas, após alguns desentendimentos com a senhora,
percebemos que a simpática máquina se havia transformado numa impostora.
Sim, uma impostora! Parecia que fazia pouco de nós, com aquele riso insolente
que transmitia de cada vez que voltava ao menu inicial sem que clicássemos
em nada.
 Mas não nos deixámos vencer, não…! Perdemos sensivelmente aí um quarto
de hora, vinte minutos, mas a ida a Sintra estava garantida! E não foi tudo.
Essa impostora mostrou alguma culpa e peso na consciência e deu um troco
tão chorudo à Marta que nos fez tê-la bastante em conta.
Era agora, agora íamos finalmente a essa terra onde cinza é inexistente e
cheira a verde encharcado em água cristalina…
 Ora! Já estávamos demasiado alto em pensamento, quando se apoderou de
mim aos poucos um sentimento de impaciência e de desespero. As bochechas
da Marta pareciam inchar como balões e desinchar num rápido e brusco
suspiro, e eu, que diferente não estava, sentei-me no chão e aguardei debaixo
da sombra de um reclamo luminoso. A Marta ali ficava, de pé, com os seus
óculos de sol, debaixo da soalheira, abafada e sufocante da calma, ouvindo a
sua música, e, como é característico desta personagem, mudava de posição
como uma criança à espera à mesa para ir brincar.
 Este momento deu-se após uma eufórica procura da linha correcta, que nos foi
indicada por um senhor que nos explicou que tínhamos de apanhar o comboio
“qualquer coisa” Melessas e sair em Monte Abraão. Ora eu não percebo nem
nunca percebi de comboios. Excelente, óptimo, genial até!... Eu estava mesmo
com a pessoa certa… Ana Marta Henriques Moreno jamais entendeu rien de
rien de linhas férreas, e Rita Ribeiro de Almeida também não , e como era de
prever, não entenderam como era possível um comboio ter um nome distinto
do destino. Após uma pequena discussão um tanto engraçada, lá chegámos à
conclusão de que se o senhor tinha dito, o senhor sabia do que falava.
 Tinha chegado o comboio e finalmente tinha acabado aquele suor quente e os
olhos franzidos da espera ao sol.
 Dentro da carruagem, dominávamos as atenções dos espectadores que não
resistiam a dar numa rápida nesga um olhar de coscuvilhice e indiferença à
nossa conversa. Comentávamos acontecimentos do passado e do presente,
ideais e pessoas. Chegámos às pessoas como chegámos a Monte Abraão, e
ali ficámos à espera do segundo comboio, que nos iria finalmente levar a
Sintra.
 O tema “pessoas” predominou todo o tempo que estivemos naquela estação
calma, quase desértica, com vista para um muro amarelo-torrado e comido
pelo sol, onde pousava uma osga que o atravessava por cima de uma mancha
negra feia e homogénea que ali estava colada.
 Enquanto a paciência das ervas que cresciam por entre as ripas grandes e
grossas, baloiçando, conforme uma rara brisa abafada passava nelas, a
conversa ia descendo hierarquicamente no tipo de sub-tema. E quando não
podia descer mais do que a podridão velha, gasta e fétida, o comboio para
Sintra chegou.
 Entrámos, já fazendo contas ao tempo. Não íamos chegar a tempo. Era
impossível! Então lembrei-me de um possível plano: iríamos chegar a tempo do
intervalo, e aí entrávamos na sala e veríamos a segunda parte. Não podia
falhar! Afinal sempre valia a pena, pelo menos pela segunda parte.

 Chegadas à estação final, saímos da carruagem, prontas a ir para o Centro
Cultural Olga Cadaval, ou não… As informações sobre o caminho que o meu
pai me tinha dado, não condiziam com o espectáculo que tinha à frente.
 Falara-me de descampados, caminhos com prédios e estradas de alcatrão.
Não! Definitivamente nada a ver com o que se passava à nossa frente. Casas
que montavam o monte, árvores altíssimas dominadas por uma brisa
transparente e leve que as abanava calmamente, um autêntico cenário de
Verão ideal. Mas continuávamos com o mesmo problema, não fazíamos a
mínima ideia de onde estaríamos. Felizmente encontrávamo-nos mesmo ao
lado da estação da GNR. Aproximámo-nos de um carro que estava
estacionado à frente da esquadra com dois GNR lá dentro e um cá fora a falar
com aqueles que pareciam ser os seus colegas. De lá de dentro falavam cá
para fora com um tom alegre para o senhor de lá de fora. Aproximei-me para
lhe pedir a informação sobre o caminho a seguir para o teatro. Mas o
cavalheiro sentado no banco do acompanhante não me passou qualquer
cartão, olhou para nós e limitou-se a seguir a sua conversa e a desembrulhar o
que parecia ser uma nova aquisição importantíssima, que o limitava como um
asno está limitado pelas suas palas.
 Já um pouco aborrecidas com a situação, resolvemos ir até ao balcão de
informação da GNR, visto que dali nenhuma informação ia ser arrancada.
 Depois de, finalmente, nos terem indicado o caminho, fomos pelas ruas de
Sintra até ao teatro.
 Assim que chegámos, enganámo-nos logo na porta e indicaram-nos a porta
das traseiras. Como já se previa enganámo-nos, ou não, pois a suposta porta
das traseiras, afinal era do lado esquerdo do Centro Cultural. Entrámos e,
sinceramente, foi um grande alívio. De um calor abrasador e pegajoso,
passámos a um fresco, fino, leve com um ligeiro cheiro a mármore branco.
Estávamos finalmente no teatro!
 Fomos até à recepção onde se encontrava uma senhora ao telefone que nos
olhava de baixo com um ar frio e de desdém. Pousou o telefone e deslocou a
cabeça para cima, como quem perguntava o que queríamos. A Marta, em
resposta, disse-lhe que gostaria de saber se o intervalo já tinha decorrido. A
senhora perguntou-nos logo se éramos da escola António Arroio, afirmando
também que não havia intervalo. Em seguida, chamou uma sua colega: mulher
de passo bem marcado, de estatura média, cabelos soltos e negros como a
sua expressão assustadora e bruta, dirigia-se a nós com peso e sombra. Assim
que chegou e soube que nos havíamos atrasado, soltou logo um rugido longo,
que nos fez perceber que não podíamos entrar, uma vez que só faltava meia
hora para o fim do espectáculo. Então, agradecendo rapidamente àquela fera e
tomando alguns passos receosos atrás, em direcção à porta, saímos dali
rapidamente, em direcção à paz e calma do “lá fora”.
 Olhei para a Marta, vi nela uma vontade de ir conhecer Sintra, e assim foi.
Fizemo-nos ao caminho. Seguimos pelo meio de caminhos escuros da sombra
das árvores juntas em cima formando um túnel belíssimo de um verde molhado
e estridente, que reflectia nas caras tons suaves de azuis naturais e uma
sensação de humidade intensa que percorria as extremidades suadas dos
corpos arrasados pelo calor abafado e solarengo.
 Pelo caminho observávamos propriedades no meio da serra que pareciam
saídas dos contos “Hansel e Gretel”, entre outros: dois andares com sótão,
jardins verdes sem flores, decorações simples e belas. Um autêntico sonho de
criança, a perfeita casa de bonecas de porcelana.
 No final do túnel, já se avistavam as duas chaminés majestosas que
sobressaíam na paisagem como marca de uma terra de histórias e contos
eternos num país de história. Mas, quando nos demos conta, havia uma
enorme vala entre nós e o nosso destino, por isso só nos restou dar a volta. A
meio reparámos numa espécie de jardim com umas esculturas em pasta de
papel de animais disformes e bizarros, onde não hesitámos em entrar.
 Girafas de pescoço pequeno, elefantes cor-de-rosa com manchas azuis e
rinocerontes azuis e roxos assentavam naquela que poderá ser a mais bela
das paisagens. Caminhos de pedra e areia, onde permanecem pequenos
bancos de jardim que compõem todo um cenário verde jade, água, lima,
escuro, claro, perfumado, que nos leva à fantasia dos sonhos de criança.
 E pensar que duas das pessoas que mais admiro perdiam um cenário tão
incrivelmente puro, virgem e ingénuo, como o que se deparava perante os
nossos olhos. Então, ali ficou dito que quando me reformasse haveria de viver
na serra de Sintra onde reina a paz e o verde.
 Entretanto, já tínhamos enviado algumas mensagens para a Marta Vieira que
estava no teatro, pedindo que nos dissesse se havia possibilidade de nos levar
de carro de volta para Lisboa. Nem sinal de um sim ou um não, também não
sabíamos se havia visto a mensagem. Como não obtínhamos resposta,
resolvemos ir andando para o teatro, pelo mesmo caminho, em prol de um
possível encontro com os fragmentos da turma.
 Ao chegar, recebemos uma notícia deveras excelente: o espectáculo já havia
acabado e os alunos regressado a Lisboa.
 Dito isto, assolou-me uma fome profunda que me corroía as paredes do
estômago, como se me alimentasse já apenas do suco gástrico que preenchia
esse saquinho em vácuo. Não fiz por esconder e a Marta que me havia já
ouvido falar dos famosos travesseiros de Sintra quando chegámos, não hesitou
em propor uma visita a uma casa de bolos ali no centro. Travesseiros, iguaria
de interior suave, cremoso, amarelo pálido de gila, coberto por finas camadas
de uma massa de segredo impenetrável, que, uma vez trincadas, como que por
magia, se transformam em infinitos lençóis de sabor doce e levitativo…
 Este pensamento foi interrompido por uma pequena voz que me chamava à
razão. Afinal de contas, era dia de greve e não nos era garantido transporte
para o resto do dia. Com algum desgosto por não poder pôr em prática nas
minhas papilas gustativas tal divindade, disse que seria melhor irmos para
Lisboa sem mais demoras.
 E assim foi, despedindo-nos da bela Sintra dirigimo-nos para a estação,
olhando para uma grande casa cor-de-rosa a meio da serra que para mim era a
idealização perfeita de onde Euzébiozinho havia estado hospedado com as
suas acompanhantes.

 Já no comboio, mas à saída de Sintra, olhava pela janela e fazia-lhe a
promessa de voltar e com ela ficar para sempre nos seus longos, frescos e
verdejantes braços.

Sintra

  • 1.
    Rita Ribeiro deAlmeida 11K Sintra De pensamentos profundos, histórias sem sentido, momentos irreais, terras distantes e “mares nunca dantes navegados”, volto ao presente, ao que é concreto e real. Sem força ou vontade, dirigi-me às escadas da cama que me pareciam longínquas como uma ilha, arrastando um peso que mais parecia morto do que vivo. Assim terminado o martírio, por entre fecha não fecha o olho e passos desmaiados, um som nostálgico e amargo assolava a minha cabeça. Óptimo! Já não bastava o latejar bruto, ainda tinha de atender o telemóvel. Era a minha mãe. Não percebia bem o que queria. Enquanto falava, eu apenas sentia o latejar e ouvia um som abafado e estridente que calculo que fosse ela a falar. Queria avisar-me da visita a Sintra, iamos ver o teatro “Os Maias”. É claro que, como de costume, a minha cabeça começou logo a entrar em acção: Sintra, sítio belo, de árvores verde húmido, de alturas extremas, de amores impossíveis e águas puras e sorridentes… Dei por mim, é claro, com o ouvido direito agoniado da gritaria estridente, impaciente, para não dizer insuportável que invadia o meu pobre pavilhão auditivo. “Já há comboios!”- dizia a minha mãe – “Compra um bilhete e vai para lá agora!” Ainda a digerir aquela informação, agarrei no telefone sem pensar duas vezes e comecei a avisar toda a gente da novidade. De entre elas, uma mandou-me esperar por ela em Lisboa: Era a Marta Moreno, uma rapariga bem-disposta, dotada de uma grande incontinência verbal, um tanto ao quanto inconveniente com a mesma, dominadora do seu british e sempre entusiasta com as suas novidades musicais. Vinha de Loures, lugar onde vive e pedia-me que esperasse para não ir sozinha. Vendo bem as coisas, eu também não queria ir sozinha, pois lisboeta que vive e convive em Lisboa, não vai a terra de outrem, mas devido às circunstâncias, Lisboa iria deslocar-se até Sintra e presenciar esse tão esperado espectáculo. Passada uma hora desde então, encontrei-me debaixo da estação Roma- Areeiro com a Marta. Esta não conhecia a estação, era como se estivesse no meio de um monte de arroz à procura de uma lentilha; não conhecia, não percebia, não entendia. Após termos tentado solicitar o auxílio de um aparente funcionário conhecedor do sistema ferroviário, encontrámos um segurança que nos indicou uma simpática máquina quadrangular, que nos iria dar com todas as facilidades o que queríamos. Mas, após alguns desentendimentos com a senhora, percebemos que a simpática máquina se havia transformado numa impostora. Sim, uma impostora! Parecia que fazia pouco de nós, com aquele riso insolente que transmitia de cada vez que voltava ao menu inicial sem que clicássemos em nada. Mas não nos deixámos vencer, não…! Perdemos sensivelmente aí um quarto de hora, vinte minutos, mas a ida a Sintra estava garantida! E não foi tudo. Essa impostora mostrou alguma culpa e peso na consciência e deu um troco tão chorudo à Marta que nos fez tê-la bastante em conta.
  • 2.
    Era agora, agoraíamos finalmente a essa terra onde cinza é inexistente e cheira a verde encharcado em água cristalina… Ora! Já estávamos demasiado alto em pensamento, quando se apoderou de mim aos poucos um sentimento de impaciência e de desespero. As bochechas da Marta pareciam inchar como balões e desinchar num rápido e brusco suspiro, e eu, que diferente não estava, sentei-me no chão e aguardei debaixo da sombra de um reclamo luminoso. A Marta ali ficava, de pé, com os seus óculos de sol, debaixo da soalheira, abafada e sufocante da calma, ouvindo a sua música, e, como é característico desta personagem, mudava de posição como uma criança à espera à mesa para ir brincar. Este momento deu-se após uma eufórica procura da linha correcta, que nos foi indicada por um senhor que nos explicou que tínhamos de apanhar o comboio “qualquer coisa” Melessas e sair em Monte Abraão. Ora eu não percebo nem nunca percebi de comboios. Excelente, óptimo, genial até!... Eu estava mesmo com a pessoa certa… Ana Marta Henriques Moreno jamais entendeu rien de rien de linhas férreas, e Rita Ribeiro de Almeida também não , e como era de prever, não entenderam como era possível um comboio ter um nome distinto do destino. Após uma pequena discussão um tanto engraçada, lá chegámos à conclusão de que se o senhor tinha dito, o senhor sabia do que falava. Tinha chegado o comboio e finalmente tinha acabado aquele suor quente e os olhos franzidos da espera ao sol. Dentro da carruagem, dominávamos as atenções dos espectadores que não resistiam a dar numa rápida nesga um olhar de coscuvilhice e indiferença à nossa conversa. Comentávamos acontecimentos do passado e do presente, ideais e pessoas. Chegámos às pessoas como chegámos a Monte Abraão, e ali ficámos à espera do segundo comboio, que nos iria finalmente levar a Sintra. O tema “pessoas” predominou todo o tempo que estivemos naquela estação calma, quase desértica, com vista para um muro amarelo-torrado e comido pelo sol, onde pousava uma osga que o atravessava por cima de uma mancha negra feia e homogénea que ali estava colada. Enquanto a paciência das ervas que cresciam por entre as ripas grandes e grossas, baloiçando, conforme uma rara brisa abafada passava nelas, a conversa ia descendo hierarquicamente no tipo de sub-tema. E quando não podia descer mais do que a podridão velha, gasta e fétida, o comboio para Sintra chegou. Entrámos, já fazendo contas ao tempo. Não íamos chegar a tempo. Era impossível! Então lembrei-me de um possível plano: iríamos chegar a tempo do intervalo, e aí entrávamos na sala e veríamos a segunda parte. Não podia falhar! Afinal sempre valia a pena, pelo menos pela segunda parte. Chegadas à estação final, saímos da carruagem, prontas a ir para o Centro Cultural Olga Cadaval, ou não… As informações sobre o caminho que o meu pai me tinha dado, não condiziam com o espectáculo que tinha à frente. Falara-me de descampados, caminhos com prédios e estradas de alcatrão. Não! Definitivamente nada a ver com o que se passava à nossa frente. Casas que montavam o monte, árvores altíssimas dominadas por uma brisa transparente e leve que as abanava calmamente, um autêntico cenário de Verão ideal. Mas continuávamos com o mesmo problema, não fazíamos a mínima ideia de onde estaríamos. Felizmente encontrávamo-nos mesmo ao
  • 3.
    lado da estaçãoda GNR. Aproximámo-nos de um carro que estava estacionado à frente da esquadra com dois GNR lá dentro e um cá fora a falar com aqueles que pareciam ser os seus colegas. De lá de dentro falavam cá para fora com um tom alegre para o senhor de lá de fora. Aproximei-me para lhe pedir a informação sobre o caminho a seguir para o teatro. Mas o cavalheiro sentado no banco do acompanhante não me passou qualquer cartão, olhou para nós e limitou-se a seguir a sua conversa e a desembrulhar o que parecia ser uma nova aquisição importantíssima, que o limitava como um asno está limitado pelas suas palas. Já um pouco aborrecidas com a situação, resolvemos ir até ao balcão de informação da GNR, visto que dali nenhuma informação ia ser arrancada. Depois de, finalmente, nos terem indicado o caminho, fomos pelas ruas de Sintra até ao teatro. Assim que chegámos, enganámo-nos logo na porta e indicaram-nos a porta das traseiras. Como já se previa enganámo-nos, ou não, pois a suposta porta das traseiras, afinal era do lado esquerdo do Centro Cultural. Entrámos e, sinceramente, foi um grande alívio. De um calor abrasador e pegajoso, passámos a um fresco, fino, leve com um ligeiro cheiro a mármore branco. Estávamos finalmente no teatro! Fomos até à recepção onde se encontrava uma senhora ao telefone que nos olhava de baixo com um ar frio e de desdém. Pousou o telefone e deslocou a cabeça para cima, como quem perguntava o que queríamos. A Marta, em resposta, disse-lhe que gostaria de saber se o intervalo já tinha decorrido. A senhora perguntou-nos logo se éramos da escola António Arroio, afirmando também que não havia intervalo. Em seguida, chamou uma sua colega: mulher de passo bem marcado, de estatura média, cabelos soltos e negros como a sua expressão assustadora e bruta, dirigia-se a nós com peso e sombra. Assim que chegou e soube que nos havíamos atrasado, soltou logo um rugido longo, que nos fez perceber que não podíamos entrar, uma vez que só faltava meia hora para o fim do espectáculo. Então, agradecendo rapidamente àquela fera e tomando alguns passos receosos atrás, em direcção à porta, saímos dali rapidamente, em direcção à paz e calma do “lá fora”. Olhei para a Marta, vi nela uma vontade de ir conhecer Sintra, e assim foi. Fizemo-nos ao caminho. Seguimos pelo meio de caminhos escuros da sombra das árvores juntas em cima formando um túnel belíssimo de um verde molhado e estridente, que reflectia nas caras tons suaves de azuis naturais e uma sensação de humidade intensa que percorria as extremidades suadas dos corpos arrasados pelo calor abafado e solarengo. Pelo caminho observávamos propriedades no meio da serra que pareciam saídas dos contos “Hansel e Gretel”, entre outros: dois andares com sótão, jardins verdes sem flores, decorações simples e belas. Um autêntico sonho de criança, a perfeita casa de bonecas de porcelana. No final do túnel, já se avistavam as duas chaminés majestosas que sobressaíam na paisagem como marca de uma terra de histórias e contos eternos num país de história. Mas, quando nos demos conta, havia uma enorme vala entre nós e o nosso destino, por isso só nos restou dar a volta. A meio reparámos numa espécie de jardim com umas esculturas em pasta de papel de animais disformes e bizarros, onde não hesitámos em entrar. Girafas de pescoço pequeno, elefantes cor-de-rosa com manchas azuis e rinocerontes azuis e roxos assentavam naquela que poderá ser a mais bela
  • 4.
    das paisagens. Caminhosde pedra e areia, onde permanecem pequenos bancos de jardim que compõem todo um cenário verde jade, água, lima, escuro, claro, perfumado, que nos leva à fantasia dos sonhos de criança. E pensar que duas das pessoas que mais admiro perdiam um cenário tão incrivelmente puro, virgem e ingénuo, como o que se deparava perante os nossos olhos. Então, ali ficou dito que quando me reformasse haveria de viver na serra de Sintra onde reina a paz e o verde. Entretanto, já tínhamos enviado algumas mensagens para a Marta Vieira que estava no teatro, pedindo que nos dissesse se havia possibilidade de nos levar de carro de volta para Lisboa. Nem sinal de um sim ou um não, também não sabíamos se havia visto a mensagem. Como não obtínhamos resposta, resolvemos ir andando para o teatro, pelo mesmo caminho, em prol de um possível encontro com os fragmentos da turma. Ao chegar, recebemos uma notícia deveras excelente: o espectáculo já havia acabado e os alunos regressado a Lisboa. Dito isto, assolou-me uma fome profunda que me corroía as paredes do estômago, como se me alimentasse já apenas do suco gástrico que preenchia esse saquinho em vácuo. Não fiz por esconder e a Marta que me havia já ouvido falar dos famosos travesseiros de Sintra quando chegámos, não hesitou em propor uma visita a uma casa de bolos ali no centro. Travesseiros, iguaria de interior suave, cremoso, amarelo pálido de gila, coberto por finas camadas de uma massa de segredo impenetrável, que, uma vez trincadas, como que por magia, se transformam em infinitos lençóis de sabor doce e levitativo… Este pensamento foi interrompido por uma pequena voz que me chamava à razão. Afinal de contas, era dia de greve e não nos era garantido transporte para o resto do dia. Com algum desgosto por não poder pôr em prática nas minhas papilas gustativas tal divindade, disse que seria melhor irmos para Lisboa sem mais demoras. E assim foi, despedindo-nos da bela Sintra dirigimo-nos para a estação, olhando para uma grande casa cor-de-rosa a meio da serra que para mim era a idealização perfeita de onde Euzébiozinho havia estado hospedado com as suas acompanhantes. Já no comboio, mas à saída de Sintra, olhava pela janela e fazia-lhe a promessa de voltar e com ela ficar para sempre nos seus longos, frescos e verdejantes braços.