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ADÉLIA NICOLETE
PONTO CORRENTE
Texto desenvolvido graças à
Bolsa de Incentivo à Criação Literária
no Estado de São Paulo
Texto de Dramaturgia
Programa de Ação Cultural – 40/2014
Ribeirão Pires
Outubro / 2017
Esta peça estreou em 2016, encenada pelo Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras
com direção de Jé Oliveira.
Elenco:
Camila Shunyata: Atriz anfitriã
Fernanda Henrique: Atriz, Maria da Fé
Roberta Marcolin Garcia: Atriz, Maria da Graça
Vivian Darini: Atriz, Maria das Dores
* * *
Personagens:
Atriz Anfitriã – 35 anos
Maria da Fé – pouco mais de 60 anos
Maria da Graça – pouco mais de 60 anos
Maria das Dores / Maria Auxiliadora / Dora – pouco mais de 60 anos
Território da ação: convés de um navio de cruzeiro, sobre a costa latino-americana e tantos corpos de
desaparecidos políticos.
Em alguns momentos, as atrizes permanecerão visíveis fora do espaço de representação, onde poderão
ficar à mostra os instrumentos e demais objetos a serem utilizados na cena.
Nossa principal referência estética é o teatro nô japonês.
ABERTURA
Enquanto público entra, atrizes, instrumentos e adereços de cena estão em suas posições fora do espaço cênico.
Elas observam discretamente os espectadores, sorriem em cumprimento.
Depois de certo tempo, dão o primeiro sinal. Mais um tempo e dão dois sinais. Quando o público tiver entrado e a
encenação estiver para começar, dão três toques e as atrizes assumem posição para o canto inicial, quando adentram o
espaço cênico.
CANÇÃO DO GRUPO
(autoria: Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras)
No emaranhado desta cidade tecido crescente
no meio fio desta rua urgente (clemente)
Caminhando no buraco da calçada, vendo muita máquina, pouca gente
poderia me confundir e parar de tecer, parar de tecer, parar de tecer...parar de torcer.
Entre tantas teias de relações, fiando no mundo como orações.
Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim.
Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo.
Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim.
Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo.
Atriz anfitriã, toma a palavra de modo confiante e sedutor, a convidar cada um dos espectadores à viagem que terá início.
ATRIZ ANFITRIÃ – Benvindas! Benvindos!
Nós somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras
E convidamos vocês para uma grande viagem!
ATRIZ 1 – Uma viagem pela História
que não está nos livros de História
por ser uma história de mulheres!
TODAS, ALTERNADAMENTE
Mulheres
Militantes
ABC paulista
Anos de chumbo.
Fios de dor
Fios de sofrimento
Fios de luta.
No enredo do tempo,
com os fios da memória
tecemos histórias –
nós e vocês.
TODAS - Porque somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras!
ATRIZ ANFITRIÃ
Neste momento, falo como uma espécie de guia –
o que serei a maior parte do tempo.
Mas poderei,
conforme as circunstâncias,
interpretar outros papeis.
(Refere-se às demais atrizes) E assim todas nós:
disfarce.
O teatro tem disso.
Faz de conta!
Faz de conta que esse lugar é um navio!
Que estamos todos sobre o mar!
(Respira fundo, de olhos fechados).
O verde-azul das águas
A brancura das nuvens.
Horizonte só
por onde se olhar!
ATRIZ 2
Sem horários pra cumprir
senão o da preguiça, o do sono
e o de não fazer nada.
ATRIZ 3
Que é quando o pensamento, distraído, fisga
das águas profundas do tempo
uma lembrança dourada
que se debate, quer fugir,
mas a língua apanha e traz à tona
e exibe
e compartilha.
ATRIZ 1
Porque no dia a dia não há tempo para o re-cordar –
trazer de volta ao coração.
Bobagens – diz a lógica da pressa e da produção.
ATRIZ ANFITRIÃ
E assim seguimos, barco sem rumo,
à deriva,
indo e vindo ao sabor das marés e seus horrores.
Quem não se re-corda
conclama os ditadores.
ATRIZ 3
E é por isso que o nosso navio tem rumo!
Conhecemos o cais de onde partiu –
há nomes inscritos em seus muros.
Sabemos pra onde aponta o mapa
que nos foi deixado
e qual tesouro nos espera no futuro.
Um toque de tambor. Atrizes 1, 2 e 3 tomam suas posições fora da área de representação.
ATRIZ ANFITRIÃ
Lá vêm as donas da história!
Viajantes do tempo
E da memória!
Tambores tocam num andamento alegre. Enquanto Anfitriã anuncia, cada uma entra a seu tempo e se manifesta de
acordo com seu temperamento. As demais auxiliam a paramentação
ATRIZ ANFITRIÃ - Maria da Graça!
GRAÇA - Graça, por favor. Que Maria é sofrimento. Maria é padecer e eu não padeço: prefiro
esquecer, deixar pra lá. Tocar o barco! Ganhei essa viagem de presente dos meus filhos. Não é assim o
cruzeiro do Roberto Carlos, mas pra uma capiau de São Bernardo como eu, é um bom começo!
ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada.
Graça volta ao seu lugar.
ATRIZ ANFITRIÃ - Maria da Fé.
FÉ – Maria de verdade foi a mãe de Jesus! Podem me chamar de Fé. Ganhei essa viagem numa rifa da
igreja. Quem iria imaginar! Nascida e crescida no Jardim Zaíra, em Mauá, minha vida sempre foi de luta.
Eu nem direito o que estou fazendo aqui!
ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada.
Fé volta ao seu lugar.
ATRIZ ANFITRIÃ – Maria das Dores.
Nenhuma reação de Dora. Fé e Graça se entreolham, olham para Dora.
GRAÇA – É Maria Auxiliadora.
Nenhuma reação de Dora.
FÉ – Não seria Dora?
ATRIZ ANFITRIÃ – Dora?!
Dora parece acordar de um devaneio. Levanta-se e vai até a frente, como fizeram as demais. Enquanto é vestida, olha
para o público e o entorno, alheia a tudo. Quando terminam, Fé e Dora voltam a seus lugares.
DORA – (para o público) Acho que eu não quero falar.
ATRIZ ANFITRIÃ – Não se preocupe. Fale quando quiser. (Às três) Prontas? (Elas se levantam) Então
vamos!
CENA 1 – PALAVRAS CRUZADAS
Enquanto Anfitriã fala, as demais montam a cena.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Agora são três horas da tarde. Peço que imaginem o sol no seu
momento mais quente. Crianças mergulham na piscina, adultos desfilam as mais variadas cores e
formas físicas, enquanto nossas as amigas procuram relaxar às voltas com seus pensamentos.
A ideia é que as personagens estejam à beira da piscina, sentadas, a tomar sol e a refletir.
ATRIZ ANFITRIÃ enuncia ao microfone o pensamento das personagens. Elas podem ter uma discreta reação quando
o seu pensamento é dito. É importante que Atriz Anfitriã dê um tempo entre cada fala para que o público perceba qual
das personagens está pensando tal frase. A maioria das falas de Atriz Anfitriã nessa cena serão ao microfone, quando
isso não ocorrer, será anotado em rubrica. Ela também traz uma revista de palavras cruzadas na mão.
ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada, Senhor, pelo sol que aquece meu corpo e minh’alma! Eu aceito e
bendigo o que vem em Seu nome. (Suspira)
ATRIZ ANFITRIÃ – Ah!... Se eu soubesse que era tão bom assim, tinha vindo antes! (Pequena pausa) Já
pensou morar em navio? Daqui a pouco vou pedir uma caipirinha. Num quero nem saber!
ATRIZ ANFITRIÃ – Tanta gente... Será que se divertem mesmo? Ou divertir-se passou a ser uma
obrigação?
ATRIZ ANFITRIÃ – Isso tá que nem a Colônia de Férias na Praia Grande! Como as crianças se
divertiam! O Tião se enfiava no baralho e eu não tinha de fazer comida!... Benzadeus!
ATRIZ ANFITRIÃ – Chico... Se ele me visse nesse lugar... Acharia tudo isso tão... fútil. Na verdade é...
(Suspira)
ATRIZ ANFITRIÃ – Esse lugar me incomoda... um pouco. Não sei direito... não sei o jeito certo de
me comportar. Devia era ter trazido alguma coisa pra ler...
Graça pega uma Recreativa - revista de palavras cruzadas – e um lápis na sacola. Folheia a revista até encontrar uma
cruzada vazia. Dora permanece quieta. Fé observa Graça, discretamente. Ela parece ter um pouco de dificuldade na
tarefa.
ATRIZ ANFITRIÃ – Alvo, pontaria. Quatro letras. (Graça escreve enquanto Atriz Anfitriã responde) Mira.
ATRIZ ANFITRIÃ – O fluido que respiramos. Duas letras.
GRAÇA – (Enquanto escreve) Ar! (Fala para si, sem lembrar que será ouvida) Animal bravio. Quatro letras...
(Pensa)
FÉ – Fera.
GRAÇA – Fera! Obrigada. Fera.
ATRIZ ANFITRIÃ – “Noite dos mascarados”, autor. (Enquanto Graça conta) Dois, quatro, oito, dez.
Doze letras...
GRAÇA – “Noite dos mascarados” é de quem mesmo?
FÉ – (Distraída, meio sem refletir) Ney Matogrosso?
DORA – (Determinada) Chico! Chico Buarque!
GRAÇA – Bingo! (Escreve) “Aquela que perdeu o uso da razão”, cinco letras?
DORA – LOUCA.
GRAÇA - (Soletra) L – O – U – C - A. Louca. Obrigada!
FÉ – (Tímida) Mas pode ser doida.
GRAÇA – O que você falou?
FÉ – Doida. Cinco letras. Pode ser doida.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Enquanto Graça apaga o que escreveu com a borracha acoplada ao lápis) É por isso que
eu faço a lápis. (Beija a borrachinha, volta a pensar)
DORA – Pode ser AUDAZ. Pode ser JOVEM!
FÉ – Sim. Jovem – aquela que perde o uso da razão!
DORA – Jovem... Põe aí! Vamos subverter!
TODAS – Vamos subverter!
(Graça resolve obedecer. Escreve. Riem.)
FÉ – (Ao público) Essa era a palavra de ordem na minha casa. “Precisamos subverter a ordem, Maria da
Fé! Você mais do que ninguém, minha filha: você é jovem!”
MÃE – (Coloca um adereço feminino e torna-se a mãe de Fé) Cuidado, Feliciano! Essa menina é da pá virada!
(Ri)
FÉ – (Sorrindo, animada) O que o senhor está tramando dessa vez, pai?
PAI – Já conseguimos o posto de saúde, não conseguimos? Não sossego enquanto todo mundo aqui
do Zaíra não tiver escola!
FÉ – (Ao público) O posto tinha sido até fácil. Vereador ajudou em troca de voto. Agora escola... era
outra coisa. Mexia com governo...
PAI – Não interessa com quem vai mexer. Pode demorar um ano, dois, dez. O importante é conseguir!
FÉ – Eu ajudo pai!
PAI – E eu não sei?!
GRAÇA - Meio de transporte. Seis letras.
PAI e FÉ – Ônibus!
PAI – Ônibus, claro! É muito longe até a estação. Pai de família acordando no escuro ainda, pra ir
tomar o trem!
FÉ – Puts grila! Ônibus ia ser uma mão na roda mesmo. (Ao público) A meta da Sociedade Amigos de
Bairro era conseguir uma linha até o meio do ano. Já tínhamos pegado assinatura na vizinhança e
faltava pegar na igreja e na escola. (Para a mãe) Tem mais panfleto pra reunião de sábado, mãe?
MÃE – Tão escondidos na sacola de pão, atrás porta. E se avistar um policial já sabe: jogue tudo fora!
FÉ – (Suspira de cansaço) Pode deixar, mãe. Eu sei.
MÃE – ‘Cê tá cansada, né, filha? (Fé aquiesce) Ir trabalhar a pé, depois ir direto pra escola. E esses dias
de chuva, então!
PAI – A menina é forte! Puxou a você! Já colocou tudo na bolsa? Galocha, sombrinha, marmita, livro,
uniforme?
FÉ – Conseguimos abolir o uniforme, não contei? O Movimento Estudantil está uma brasa! A diretora
teve de aceitar!
MÃE – Graças a Deus! Os alunos do noturno são sacrificados demais.
DORA / PAI – Parabéns! Você é mesmo batuta! Mas cuidado! Diz que a polícia está de olho!
FÉ – (Ao público) Eu pensava que era exagero. O golpe militar tinha seis anos e não sabíamos de
ninguém que fora preso! “Eles nem sabem que a gente existe!”, eu pensava. Mas o padre estava sendo
vigiado. A associação.
PAI – O Zaíra é lugar esquecido do mundo pra quem mora aqui. Pra quem precisa brigar dia após dia
pela condição de viver feito gente. Mas pra quem vê de fora, pra polícia, Mauá é movimento. O ABC é
vida pulsante. E há de ser mais!
GRAÇA - Previsão. Augúrio. Nove letras.
FÉ – Presságio. (Ao público) Cinco dias depois, pertinho da hora do almoço, dois soldados entraram no
escritório em que eu trabalhava. “Maria da Fé dos Santos, é você?” Eu disse que “Sim, por que?”.
“Você tá detida. Pegue suas coisas e venha pra delegacia com a gente.”
(Atriz Anfitriã executa tensão no tambor)
FÉ – (Ao público) E não é que meu pai apareceu justinho naquela hora? Ele nunca me visitava no
trabalho! “Dá licença”, ele disse. “Ei, filha? Não vai almoçar em casa hoje?” Eu não almoçava em casa!
“Vai embora, pai, xispa daqui!!” - pensei, mas não disse.
“Tá acontecendo alguma coisa, filha?”. Os soldados responderam por mim: “O senhor é o Feliciano
dos Santos?” Meu pai confirmou. E também foi detido.
GRAÇA – Dificuldade, situação crítica. Quatro letras. Fri-a.
FÉ – (Ao público) Chegamos à delegacia para prestar depoimento e quem eu encontro? Colegas de
escola! Gente que eu via circulando feito sombra nas assembleias. Eram investigadores! Baixaram os
olhos e saíram da sala, arrastando a vergonha atrás de si. “ Você se reconhece nessas fotos?”
Era eu, claro! Liderando o movimento, distribuindo abaixo-assinados e panfletos. Era eu. Uma jovem
de 17 anos querendo a mochila um pouco mais leve.
PAI – (Ao público) “E o senhor, hein, seu Feliciano? Na sua idade? Que mutreta! Devia estar de pijama,
vendo Silvio Santos e não se metendo a comunista!”
Eu sei que essa lembrança é da minha filha, mas vamos fazer de conta que é minha também.
Naquela hora, tive vontade de dizer que graças a comunistas como eu, tinha gente vivendo em
condições um pouco mais dignas, coisas que capitalistas como eles não eram capazes de fazer. Graças
aos esquerdinhas, como eles chamavam, os moradores do Zaíra lutavam por saúde, educação,
transporte, saneamento básico.
Mas fiquei calado. Sabia que se respondesse ia ser muito pior. Pra mim e pra ela.
MÃE – Não adiantou, porque eles nem voltaram pra casa. Da delegacia foram direto pro DOPS, na
capital.
TORTURADOR – (Atriz coloca um adereço e torna-se o torturador que gosta de palavras cruzadas) Submissão.
Rebaixamento moral. Dez letras.
FÉ – A tortura começou logo na entrada.
TORTURADOR – Chegou a ralé de Mauá! A festa vai ser boa!
FÉ – Aí foi que soubemos: não estávamos sós, muitos militantes de Mauá haviam caído.
TORTURADOR – Povinho sujo, encardido e metido a besta.
Lugar de preto e pobre é no batente e não fazendo política, seus merdas!
Isso aqui tá lotado de jornalista, escritor. Intelectual! Aqui tem estudante e burguês, entende?
Olhem pra vocês! Periferia aqui... não orna... Não orna!
FÉ – (Ao público) Me perguntaram se eu estava envolvida em atos subversivos. Respondi que não.
TORTURADOR – Vou ser mais claro: a negrinha distribuiu abaixo-assinados contra as autoridades de
sua cidade?
FÉ – Não!
TORTURADOR – Como não!? O que são essas fotos? O que são essas listas, porra?!
FÉ – São assinaturas de cidadão de um loteamento chamado Jardim Zaíra, reivindicando seus direitos a
serviço de água e esgoto, esses daqui assinaram pra posto de saúde, e esses pra linha de ônibus. São
todos trabalhadores. (Pega o microfone de Atriz Anfitriã) Levantam de madrugada, primeiro que o sol, e
vão trabalhar nas fábricas de porcelana, na indústria de São Bernardo, em São Paulo. Voltam pra casa
quando sol já foi embora. Eles não vêm seus filhos crescerem, não amam suas mulheres da forma que
elas merecem e o carinho que delas recebem é medido pelo cansaço do dia. São parados pela polícia
por causa da sua cor, muitos apanham. Mas continuam lá. Sem armas, sem outra defesa senão listas de
abaixo-assinado como essas. E se o senhor olhar bem, tem alguns que nem sabem escrever direito o
próprio nome! (Um tempo. Devolve o microfone. Fala ao público) Na hora, disse apenas que eram abaixo-
assinados pra melhorias do bairro.
TORTURADOR – A vagabunda confessa que foi uma das líderes do movimento estudantil? Que fez
panfletagem de assembleias e paralisações? Que participou de reuniões de comunistas? Diga! Por que
não abre a boca? (Pega a revista de palavras cruzadas) Afligir. Castigar. Oito letras. Grito de agonia! Três
letras.
FÉ – (Ao público) Sofri todo tipo de violência e a tudo respondi com o silêncio. Mandavam-me de volta
para a cela, onde as companheiras aguardavam com um misto de curiosidade e compaixão. “O que te
perguntaram?”, “O que você disse?”. Tudo e nada. “Cê tá numa arapuca, Maria da Fé. Acabaram de
confessar: você aliciava os jovens lá naquela sua terra de índio. A sua ficha, ó. Tá ficando grande... Mas
se você der os nomes que eu ‘tô pedindo...” Não dei. Eu não sabia do que ele estava falando. Às vezes
sonhava que tinha dedurado alguém. Acordava sufocada, o coração disparando. Respirava fundo e
rezava.
TORTURADOR –Testemunhar. Assistir. Três letras. Sabe o que é? Não sabe?!
Chama o pai da donzela aqui.
MÃE – De todas as torturas possíveis, aquela foi a pior. Ter o pai à sua frente, sofrendo as mesmas
humilhações que você, te machuca mais que tudo. E a ele também. Mil anos envelheceu ao ver a filha
alquebrada. Perguntavam quem ele havia recolhido em nossa casa. Queriam que delatasse os amigos,
denunciasse os planos do Partido. O silêncio foi igualmente sua resposta. Os pontapés, o açoite e os
choques foram a resposta da polícia.
TORTURADOR – Chame pelo seu Deus agora!
Onde ele está que não aparece aqui para salvar vocês?
FÉ – (Cansada) Podemos parar?...
ATRIZ ANFITRIÃ – (Tira os óculos ou o lenço) Você é quem sabe.
GRAÇA – (Tira o adereço. Compreensiva:) Não sei por que você começou. Era só um jogo de palavras
cruzadas!
DORA – (Que já tirou o chapéu) Está sentindo alguma coisa? (Fé acena que não)
FÉ – Não sei por que vim! O meu lugar não é aqui! (Dora e Graça se acercam de Fé)
GRAÇA – (Levanta o braço) Para tudo! Pode parar! (Levanta o braço, ao público) Acho que é hora de pedir
uma caipirinha!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Vai fugir ou vai ficar, Maria da Fé? O que você faria se
encontrasse o seu torturador aqui, nesse navio, gozando férias?
FÉ – (Confusa) O que?!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Não com a rifa da igreja, mas com o dinheiro do contribuinte. Ele
virou juiz, se aposentou. Recebe uma nota preta e está aqui, nesse paraíso que só não é melhor que o
cruzeiro “Emoções” – que ele já foi duas vezes: uma com a esposa e outra com a amante.
FÉ – (Pressionada) Eu não sei!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Isso é teatro, Maria da Fé! Vamos!
O que você faria se com ele se encontrasse?!
Tambores marcam o tom forte de tensão e suspense. Fé vira-se para o público, na expectativa. Foi para isso que ela
embarcou: para o seu confronto.
Enquanto isso, Atriz coloca ritualisticamente em si o adereço do demônio. Trata-se de uma marcação agressiva, violenta.
Há forças em jogo. O Mal se aproxima novamente de Fé e ela terá de enfrentá-lo.
Torturador pega o microfone de Atriz Anfitriã, modifica a postura e avança sobre Fé.
TORTURADOR - Enfim nos reencontramos, Maria da Fé dos Santos!
Atriz Anfitriã e Dora se afastam. Torturador evolui ao redor de Fé, que parece não compreender totalmente o que
acontece. Música continua. Torturador usa de um deboche cada vez mais agressivo - tortura moral.
Continua morando no Zaíra?!
Ah, mas que pergunta! É claro que sim.
Então o que faz aqui?
Isso não é uma lotação! Não é um trem apinhado!
Maria da Fé, cuidado! Todos olham pra você...
O tempo passou e continua ralé.
Lutou, sofreu e a indenização não saiu?
O governo não cumpriu o combinado?
E a aposentadoria? Dá pros remédios ou precisa pedir emprestado?
Tola, ignorante. Seis letras.
Idiota!
Tem nego que levou só um tapinha
E já recebeu uma nota!
Continua lutando por creche?! Por asfalto e UBS?! (Ri)
(Feroz. Tambores se intensificam) Maria da Fé! Você rezou pro Deus errado!
Tambores cessam. Torturador estaca em posição de ataque ao lado de Maria da Fé, que se impressionou com toda aquela
representação.
Fé toma coragem, respira. Vira-se e encara o torturador. Toca nele, examina-o de perto – coisa que nunca fez –, já que
ele está imóvel. Tudo ao som de tamboril e flauta, numa atmosfera de mistério. De frente para a figura, tira-lhe o
microfone. Música cessa.
FÉ – (Ao microfone, tranquila, vira-se para o público) Isso é teatro.
Atrizes tomam seus instrumentos para a evolução de Fé em forma de jongo.
CANÇÃO DO ENFRENTAMENTO
Eu lembro do seu rosto.
Como esquecer?
Sua voz está presente em meus ouvidos.
Seu gesto violento
Sem sentido
Ainda agride.
Saber que ele está vivo,
que respira o mesmo ar,
que embora provado seu crime
ele não foi punido,
ah!
o terror me invade.
Porque a impunidade
Multiplica a violência
E ela está presente em cada esquina
É só virarmos a cabeça.
Ali um negro, um pobre,
ali um índio, um mendigo,
uma mulher,
alguém que escolheu ser o que quer
independente da norma.
Seja lá quem for
a arma está apontada pra todos
de qualquer forma.
Porque eles estão livres –
sempre estiveram:
os donos da lei e do poder.
Eu lembro do seu nome.
Como esquecer?
Seu riso está presente em meus ouvidos.
Seu gesto violento
Sem sentido
Ainda agride.
Mas meu coração resiste!
O que fazer?
Ele está vivo!
Bate forte
cada vez que uma injustiça
é revelada.
E é por isso
que embora frágil e cansada,
embora triste, pequena e desarmada,
permaneço na linha de frente do conflito!
Ao terminar a canção, Fé pega o adereço de modo a vê-lo de frente. Posiciona-se de frente para o público, no centro da
cena. Olha para o adereço. Atrizes com seus instrumentos ocupam a área de representação. Fé continua com o microfone: agora
ela comanda a cena.
FÉ – (Ao microfone) Não é você que está aqui, mas a imagem que tenho de você.
E como é teatro eu também não sou Eu.
Sou muitas que padeceram nas suas mãos. Nas mãos deles.
Portanto, não falo só em Meu nome, mas em nome de todas que sobrevivemos, que respiramos o
mesmo ar de nossos torturadores, ainda hoje, no metrô, nas ruas e delegacias, no assédio do chefe, na
violência do namorado ou do marido, no caminho de volta à noite, nos pesadelos em que gritamos
NÃO! e que não somos ouvidas.
Não falo só em meu nome,
mas em nome de todas:
Sou eu que determino onde é o meu lugar.
O Jardim Zaíra, onde nasci, cresci e me fiz gente
ou esse navio, que me foi dado de presente.
A praça, a rua, a cidade. A escola
de samba, a universidade.
Sou eu que determino onde quero chegar.
Não é você nem ninguém
que vai dizer quem eu sou
e onde eu posso
ou não posso
estar.
Agora falo em meu nome e só no meu.
Eu venci.
Você perdeu:
eu sobrevivi!
Amei. Fui amada. Pari.
De mim nasceu a vida!
De você a morte foi nascida!
Porque o seu deus
é o deus do inferno
pra quem a sua alma foi vendida!
Desliga o microfone, caminha, coloca-o em seu lugar, deposita solenemente o adereço em algum ponto da cena e volta.
FÉ – (Ao público) Agora eu sei por que estou aqui. Isso é teatro!
Atrizes retomam marcação mais intensa dos tambores. Fé integra-se à banda, anunciando-se com um grito de guerra ou
exorcismo.
FÉ – Eyá!
As quatro atrizes tocam. Vez ou outra emitem sons vocais. A música é o seu exorcismo.
Dura um certo período e, com a mesma intensidade do início, cessa.
CENA 2 – NOITE DOS MASCARADOS
Terminada a música da cena anterior, instaura-se uma atmosfera mais leve. Apenas Dora parece cansada ou meditativa.
Ao som da flauta de Atriz Anfitriã, que observa a movimentação das demais, Graça leva para fora de cena o adereço. A
ideia agora é que seja noite e estejam próximo à proa. A composição deve ficar apontada para “o mar”, ou seja, em outra
direção que não o público, que supostamente está no navio. Fé sai da área de representação. Dora posta-se à proa como a
olhar o mar. Um tempo nisso. Atriz Anfitriã toca um pouco ainda, antes de falar.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Sempre que me pego a lembrar de Dora é noite.
Ou faz-se noite quando dela me recordo?
Não importa...
Em tantos anos sobre o mar
nunca soube de história como essa.
E se lhes conto agora
é pra que me façam a promessa de
contá-la a outros mais,
para que algo assim não se repita.
Para que a memória grave em tinta
permanente
o que se quer enterrado, esquecido,
mas que somente quando revelado
poderá, enfim,
ter o descanso merecido.
(Muda para um tom narrativo) Até onde consigo me lembrar, faltava bem pouco para a meia noite. Todos
haviam se dirigido ao salão de festas para o tradicional baile a fantasia – famoso em todos os cruzeiros!
Podiam-se ouvir as músicas. A alegria.
Vez ou outra um casal saía até os cantinhos mais escuros.
Um pirata e uma bailarina,
dois super-homens,
duas colombinas...
Dora escala a proa, tencionando jogar-se ao mar.
ATRIZ ANFITRIÃ – Ninguém percebeu nossa amiga Dora
prestes a aceitar o chamado de amor
que as ondas lhe faziam.
À noite esse chamado é mais vivo
e não há música capaz de encobri-lo.
Mas voltemos no tempo
para sabermos quem das ondas chama Dora
E por que
ela atenderá ao seu chamado.
Dora e Graça – agora militantes amigas de juventude de Dora – entram com máscaras e algum adereço de fantasia.
Atriz Anfitriã e elas tocam e cantam um trecho de “Noite dos mascarados”:
- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo...
DORA – (Sem descer ainda) Shhhh! Vocês ‘tão lelé da cuca?! Tá cheio de milico no pedaço, eles podem
ouvir!
FATIMINHA – É só uma música de carnaval, Maria das Dores! Desce da vigia!
DORA – (Descendo depressa) E desde quando esse lugar é salão de baile?
FATIMINHA – Ah! Você é muito caxias! Corta o barato da gente legal!
DORA – Fatiminha, você é nova na organização, mas já devia ter lido o livro de segurança.
FATIMINHA – (Faz cara de enfado e recita) “O militante não deve chamar a atenção para si”. Eu li! E
obedeço! (Tenta ser convincente) Mas é carnaval!
RUTE– A gente veio te chamar pra festa, Maria das Dores.
DORA – Não sei como conseguem pensar em festa com tudo isso acontecendo, Rute!
FATIMINHA – Sabe quem vai tá lá? O Chico... Perguntou se você iria...
DORA – O Chico?! Impossível! Ele é o mais CDF de todos, Rute! (Ao público) Chico era o galã da
organização. “Um pão”, como se dizia. (Rute e Fatiminha suspiram ao mesmo tempo.) E era uma das
lideranças. Vinha de fora e como eu começara a luta no movimento estudantil. (Nostálgica) Nunca soube
seu nome verdadeiro, será que um dia ele soube o meu?...
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Chico nunca soube o nome de Dora. Eram da militância clandestina
e saber o nome verdadeiro uns dos outros era condená-los à morte.
RUTE – (Ao público) Primeira reunião do grupo de Santo André! Eu estava lá e vi quando o amor
nasceu!
Atrizes fazem burburinho de reunião.
CHICO – Questão de ordem! Por favor! (Ao público) Agora eu sou o Chico. (Silêncio aos poucos se instala)
Gostaria de saber se todos compreenderam as orientações. A maioria de vocês é estudante, como eu já
fui, mas é preciso deixar claro: isso aqui não é movimento estudantil. As reformas precisam começar na
base e quem está na base?
RUTE – (Levanta a mão) Na base está quem trabalha, quem carrega o país nas costas, como nós aqui no
ABC.
CHICO – Muito bem, Rute! É a eles que devemos nos juntar. Deixar nossos pensamentos e hábitos
burgueses e viver a realidade proletária, operária, camponesa, compreendem?
DORA – (Levanta a mão) Eu venho de seis meses na frente camponesa. Atuei como professora. Foi um
bom trabalho, mas o principal foi a certeza de que a revolução pode começar por lá, desde que haja
formação e informação.
CHICO – Obrigado pelo testemunho...
DORA – Maria das Dores.
CHICO – Maria das Dores.
RUTE – Um olhar mais demorado entre os dois. Assim. (Dora e Chico se olham) E pronto. Quem disse
que a revolução é movida tão somente pelo ódio?
Fé e Graça postam-se para a música e começam a tocar e cantar. Dora e Chico dançam abraçados e mascarados de Pierrô
e Colombina.
TODAS - Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Chico e Maria das Dores, Pierrô e Colombina, decidiram ficar juntos.
Na militância não há tempo a perder: agarra-se a vida o mais forte possível porque não se sabe até
quando... Amaram-se o mais que puderam enquanto lhes foi permitido.
DORA – (Ao público) Em todos os lugares por onde passamos, fomos acolhidos por simpatizantes da
causa revolucionária como Dona Gertrudes e seu Adamastor...
GERTRUDES – (Ao público, cautelosa, como se falasse algo arriscado) Simpatizantes também correm riscos.
Eu e meu marido, por exemplo, não é, Adamastor? (Fé chega perto, como marido)
ADAMASTOR – Pra vizinho curioso, a gente diz que eles são parentes.
GERTRUDES – Pra parente curioso, diz que eles são amigos. E assim por diante... Ah! E não fazemos
perguntas!
ADAMASTOR – (Ao público, mais destemido, impaciente) A gente não concorda com o jeito que as coisas
estão! Intervenção militar, vigilância por todo lado, censura. Primeiro prende, espanca e depois
pergunta! Onde isso vai parar? E se o sujeito é pobre, então! Aí tá num mato sem cachorro! Periga nem
voltar pra casa. Puf! Dão sumiço! Aconteceu com vizinho nosso. Um rapaz honesto, trabalhador...
GERTRUDES – (Cortando a fala do marido, que se empolgara. Pede silêncio e cuidado) Shhh! (faz sinal de que
podem estar ouvindo) Cuidado, homem! (Continua ao público, cuidadosa) Como não temos mais idade nem
saúde pra lutar, damos abrigo a esses jovens como se filhos fossem. É preciso dar-lhes apoio: eles lutam
por nós! (Marido concorda, fazendo positivo com o dedo, em silêncio)
DORA – (Ao público) Em Mauá, moramos num quartinho úmido e gelado. Chico se infiltrou como
operário numa fábrica de porcelana e eu, em outra. Mudei de nome de novo, por causa da segurança.
Virei Maria Auxiliadora. Novos documentos, novo corte do cabelo. Comecei até a usar vestido, coisa
que não combinava comigo, mas o personagem pedia. Quem era eu naquele espelho? Às vezes
demorava um pouco pra lembrar quem é que estava ali, sabe? Era uma fantasia, um papel que precisava
convencer aos outros e a mim mesma. (Suspira)
CHICO – (Ao público) Depois, nova mudança, dessa vez para Ribeirão Pires. Outro nome, outra
profissão, um novo disfarce. Mas à noite! A revolução era de outra ordem. Nunca o ser humano faz
tanto amor quanto nos tempos de guerra.
DORA – Chico.
ATRIZ ANFITRIÃ / CHICO – O que foi?
DORA – Promete não ficar bravo? (Ao público) “Não posso prometer antes de saber”, ele disse.
(Chateada) Eu tô grávida. (Pausa) Não vai dizer nada?! “Não. Você já sabe o que eu penso.” (Depois de
pausa.) Mas eu não concordo com o que você pensa. Não agora. (Ao público) Eu já tinha feito dois
abortos. No tipo de vida que a gente levava não cabia filho, não cabia criança.
CHICO – Não tem espaço pra isso. Filho segura a gente e o nosso compasso é fugir. Não pode saber
nosso nome, que é perigoso pra ele. O que a gente faz também não deve saber. Como viver assim?
DORA – (Ao público) Eu sabia de tudo aquilo. E concordava. Mas não era a razão que falava. Não sei.
Eu nunca pensei que diria isso um dia: (A Chico) Chico, é a natureza. Não ria! Não brigue! É você,
dentro de mim. É a vida que insiste. E dessa vez eu direi que sim. (Sobe novamente na proa, como se fosse
atirar-se)
GRAÇA – (Traz uma máscara no rosto e outra, a mesma do passado, de Colombina, na mão. Sua intenção é chamar
Dora para a festa, mas a vê prestes a jogar-se) Dora! O navio está em festa! Vem! O que você está fazendo,
mulher? Dora! (Dora sai de uma espécie de transe e desce novamente, voltando-se para Graça, que já tirou a própria
máscara) O que aconteceu? (Abraça a colega)
DORA – O chamado. De novo.
GRAÇA – Ah! Esquece! O que passou, passou! Lembrar pra que? Há uma festa no salão! Olhe! (Oferece
a máscara) Eu trouxe pra você.
Dora pega a máscara e a observa. Fica confusa. Olha para o público. Olha para o ambiente. Onde está? No navio ou no
passado?
GRAÇA – Venha pra festa à fantasia! O que passou é como o rastro de espuma deixado pelo navio
conforme avança. Aos poucos se dissolve, incorpora-se ao mar. É passado! E é para a frente que se
deve olhar!
DORA – (Devolve a máscara) É porque eu olho para a frente que essa máscara não me serve mais. É a
verdade que eu procuro!
Graça abaixa a cabeça, desiste. Vira-se ritualmente e retorna para fora de cena ao mesmo tempo em que Dora se dirige
novamente à proa, vigilante, e Fé / Miguel avança para junto dela, com uma mochila nas costas.
MIGUEL – Mãe! Vamos!
DORA – Miguel! Meu querido! (Ao público, um pouco confusa) É o meu filho! Aos cinco anos! Como
pode? (Para o filho) Você está pronto? Pronto mesmo? (Menino faz que sim com a cabeça. Ela ajoelha-se para
conversar com ele, movendo Fé/Miguel a também se ajoelhar, olhando em seus olhos e segurando suas mãos) Colocou
na mochila tudo que eu pedi? (Fé/Miguel aquiesce)
MIGUEL – A gente vai encontrar o meu pai hoje?
DORA – Não. Seu pai ainda está viajando. Nós vamos fazer igualzinho a gente sempre faz. Lembra?
Vai ficar dentro da igreja do Carmo e não vai sair até eu voltar. Não demoro mais que meia hora.
MIGUEL – Eu já sei ver as horas.
DORA – Você é um menino muito esperto. Tome aqui o meu relógio. Conte meia hora e se eu não
tiver voltado, mostre o bilhete pro padre. Ele te leva até a casa do vovô. Entendeu? (Miguel concorda)
Agora me dê um abraço bem gostoso. (Abraçam-se demorado. Levantam-se. Dora toma a direção do fundo da
cena para sair) Vamos. (Começa a andar)
MIGUEL – (Atrás) Mãe!
DORA – (Volta-se) O que?
MIGUEL – Depois a gente pode ir no Bazar Augusto? Eu queria uma caixa de canetinha sylvapen de
doze cores!
DORA – (Pegando-o pela mão e saindo) A gente compra.
MIGUEL – Oba!
Dora dá um beijo na testa do filho e deixa o menino fora da área de representação. Dá meia volta e olha para os lados,
como que procurando alguém. Anda em direção à proa. Está nervosa, embora procure controlar-se. Pergunta as horas a
alguém imaginário que passa. Espera.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Depois que Miguel nasceu, Dora e Chico tiveram de se separar: a
presença de mulher e filho colocaria em risco a segurança de todos. Ela permaneceu em Ribeirão,
escondida, e ele foi para São Paulo. Pouco via a criança. Os encontros com a companheira eram
marcados com muita antecedência e sempre cercados de cuidados.
DORA – (Ao público) Naquele dia marcamos na estação de Santo André. Lugar de movimento, pra que
a gente passasse despercebido. Deu quinze minutos e ele não apareceu. Era um sinal: fora preso e eu
seria a próxima. Voltei correndo pra igreja. A boca seca, o peito apertado, uma vontade de chorar
sufocada na garganta. Mas nada foi pior... (Retoma a coragem) Nada foi pior do que não encontrar Miguel
no lugar combinado. Meu corpo pedia um desmaio, mas ainda tive tempo de perguntar a uns e outros
se tinham visto o menino de calção azul e bonezinho vermelho. (Corre até a proa, sobe e procura)
TORTURADOR – Com licença. É a senhora que procura um guri que trazia esse bilhete no bolso?
(Assim que Dora se vira, Graça/Torturador coloca a máscara no rosto) Pode me acompanhar, por favor? (Pausa)
Já já a senhora vai saber onde o menino está.
Dora desce da proa e desfalece. Torturador continua presente.
RUTE – (Enquanto Dora ainda está no chão, agora da cela, Fé/Rute fala ao público, pausadamente, sem drama)
Dessa vez eu, que já fui Maria da Fé e agora sou Rute, não estava junto, mas sei perfeitamente o que
aconteceu com ela e com todas as outras. Os torturadores, sem exceção, eram homens. A violência
contra a mulher ia além da punição política. Atingia o feminino: mulheres grávidas foram
desrespeitadas, outras foram torturadas na frente dos filhos pequenos. Crianças foram torturadas na
frente de suas mães. Muitas morreram. Eu sei. (Afasta-se)
TORTURADOR – (Vira-se para o público, com o adereço na mão. É como se fosse o porta-voz do adereço) Agora
eu pergunto: por que elas precisam se meter com política? Alguém sabe me dizer? Então que aguentem
o traço, ora bolas! Escolheram sair de casa, escolheram a agitação, não escolheram? A vida bandida não
escolheram? Minha esposa, por exemplo, está em casa. Minhas filhas eu sei onde estão. Essas outras
abriram mão de sua condição de mulher: ser protegida, amparada, cumpridora dos deveres do lar.
Prostitutas, portanto. Vacas! Assumam o matadouro! Se eu me arrependo? Eu estou cumprindo ordens!
Esse é o meu papel. (Dirige-se a Dora) Não aguentou, né? Levanta daí, oh, monte de merda, que você vai
ser transferida pro hospital! (Sai)
Um tempo enquanto Dora levanta-se e vai até a proa. Flauta ao fundo.
DORA – (Ao público) Não esperem de mim detalhes. Do que o meu corpo se lembra, minha língua é
incapaz de traduzir. Estou aqui. É só o que sei. As companheiras Rute e Fatiminha não resistiram.
(Fé/Rute dá meia volta e encaminha-se para fora da cena) Partiram antes de viver um grande amor, de terem
filhos. Chico, soube que morreu no Rio de Janeiro. Desapareceu, alguém disse. Foi jogado ao mar!
(Vira-se, olha o mar por um tempo, à procura. Chama) Chico!
Fé e Graça entram cantando e tocando, suavemente. Dora escuta e vira-se. Vê Chico se aproximar.
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Chico posta-se frente a frente com Dora, com certa distância.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Chico estende o braço para Dora, que se aproxima. Os dois se abraçam. Música recomeça em bocca chiusa ou na flauta
por alguns instantes enquanto atrizes saem da área de representação.
DORA – Chico!
CHICO – Você me chamou. Eu vim.
DORA – Você aqui?! E agora eu não sei o que dizer!
CHICO – Não é preciso.
DORA – Há anos viajo nesse navio à sua procura. Há anos repito a mesma história. Quem sabe alguém
me fala de você. (Chico a encara e não responde) O que foi? Não acredita?
Chico olha à volta, sem jeito. Disfarça. Volta. Sorri para ela.
DORA – O que aconteceu?!
CHICO – Você não sabe? (Dora nega. Um tempo) Do que se lembra antes de embarcar?
DORA – Não sei. Faz tanto tempo!
CHICO – Vamos ver. Miguel, nosso filho. Onde ele está?
DORA – Miguel? Está com os avós. Eu o deixei na igreja do Carmo, ele foi... levado para a delegacia...
(Começa a ficar confusa) ficou na minha frente, assistindo e... Eu não podia fazer nada, Chico! Ele viu
tudo, coitadinho! (Afirmativa) Está com meus pais. Preciso buscá-lo! As canetinhas. Eu comprei. E um
caderno de desenho. Vamos entregar a ele, agora que eu te encontrei! (Tenciona sair. Chico a segura e olha
para ela) Vamos! Não vai dizer nada?
CHICO – Dora... Nós estamos mortos.
DORA – (Depois de pausa consistente, vai ao microfone para falar) Não! Você está morto! Foi jogado ao mar
como tantos companheiros!
Mas porque isso é teatro eu consigo estar frente a frente com você, te abraçar e dizer: vamos encontrar
o Miguel e começar tudo de novo.
Eu poderei saber seu nome verdadeiro e revelar o meu! (Chico silencia)
Eu não estou morta, Chico! Meus pais ainda me esperam com a mesa posta! Há um lugar para mim nas
festas, minhas roupas ainda repousam no armário porque meu corpo não foi sepultado! (Chico a abraça.
Ela repousa a cabeça em seu ombro, cansada. Desvencilha-se e tenta mais uma vez:) Eu estou viva!
CHICO – (Depois de pausa, sereno) Você morreu na transferência para o hospital. Hemorragia, por isso
não se lembra. Deram sumiço no corpo, como fizeram comigo.
Agora você já sabe. Não precisa mais me procurar.
DORA – (Ao microfone) Meus pais?...
CHICO – Já partiram, sem saber de você. E Miguel já é um homem! Tenta provar que seus pais
existiram um dia. Que um dia se amaram e que ele é fruto desse amor e não do ódio que matou tanta
gente. Está difícil! Mas o importante é que ele está vivo!
DORA – (Vitoriosa, ao microfone) Miguel está vivo! Então nós também estamos!
CHICO – (Vai também ao microfone) Nós estamos vivos porque isso é teatro! Agora podemos ir. Vamos?
Fé e Graça retornam à cena. Observam Dora, que olha para Chico e para elas, cúmplice. Amigas a abraçam. Os dois
caminham em direção à proa, como noivos. Dora vira-se, acena o braço para as amigas. fé e Graça acenam em resposta.
Todos cantam à capela, enquanto a cena se desfaz, como se tudo aquilo fosse teatro.
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Todas cantam e, a partir do Laraiá final, Chico, encaminha Dora para fora de cena. Fé também sai.
Graça fica parada no meio da cena, de frente para o público. Cantoria termina.
Atriz Anfitriã coloca-se ao lado de Graça, em silêncio, a olhar o horizonte.
CENA 3 – VIDA NOVA
Madrugada. Graça e Atriz Anfitriã fitam o horizonte/público. Não há aflição nem romantismo. Respiram
profundamente.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Fala olhando para o público, mas dirigindo-se também a Graça na intenção, como a puxar
conversa) Essa é a hora de que mais gosto. (Pausa) Madrugada. Silêncio. (Respira) A agitação do navio
ficou para trás. À nossa frente o mistério do dia que vai nascer. (Graça não esboça reação. Dirige-se a ela)
Não é bom? É como voltar ao palco depois do espetáculo terminado e constatar que o público se foi,
mas seu espírito permanece. (Respira. Para Graça, com cautela) Em quê você está pensando?...
GRAÇA – No cruzeiro do Roberto Carlos.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Com humor) Não acredito!
GRAÇA – E na caipirinha, que eu tô pedindo desde o começo e ainda não veio!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Entra no jogo) Não seja por isso! (Chama um garçom imaginário, pega um copo
imaginário e entrega a Graça) Aqui está!
GRAÇA – (pega o copo, dá uma chacoalhada e bebe pelo canudinho. Estala a língua) Oh! Delícia! (Provocando
Atriz Anfitriã) Agora me traz o Roberto. (Encontra algum rapaz na plateia e brinca) Você não quer ser o
Roberto Carlos e cantar só pra mim, aqui? Qualquer música! Vem! Canta o calhambeque! (Ri, beberica de
novo) Brincadeira. Só pra descontrair. Que agora chegou a minha vez de falar e eu tô fugindo da raia.
ATRIZ ANFITRIÃ – A caipirinha vai ajudar.
GRAÇA – Nada! Ajudaria se eu tivesse alguma coisa que presta pra dizer. (Bebe) Quem vai querer saber
de uma dona de casa?! Vocês já viram alguma “do lar” nos livros?! A nossa vida se faz no pequeno, em
tudo que não se nota. É costura de bainha, que fica escondida. É remendo pra disfarçar o que se
rasgou: ninguém percebe. A nossa história é no miúdo que se faz, e a História importante, aquela que
interessa, precisa é de grandezas! (Sorve o último gole, fazendo barulho. Devolve o copo) Obrigada. Tava uma
delícia. Agora me deixa quieta.
ATRIZ ANFITRIÃ - (Chama novamente o garçom e devolve-lhe o copo. Ao público) Não foi fácil convencê-la a
mergulhar no passado. E se uma hora isso aconteceu, foi porque a neblina era tanta, que ela não
percebeu e pulou.
GRAÇA – (Ao público) Ah... essa serração...
ATRIZ ANFITRIÃ – O que tem? Te lembra alguma coisa?
GRAÇA – Se lembra? Ela me leva de volta à São Bernardo do Campo dos anos 60. (Fecha os olhos e
visualiza) Uma névoa branquinha de manhã e no começo da noite. Aquele cheiro de mato. Era assim.
(Abre os olhos) E a italianada?! Festa do vinho novo. Sardinha assada na brasa! (Sente o cheiro) Agora eu
lembro! A serração trouxe de volta meu pai, calabrês, dono de olaria em São Bernardo e em Ribeirão
Pires! Trouxe também minha mãe.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) A mãe de Graça, dona Antonieta, tinha uma cabeça diferente das
outras mães.
GRAÇA – (Pegando o ritmo do jogo) Me colocou na escola! É! Fiz até o quarto ano num tempo em que
menina não estudava! Eu ajudava ela em casa, me ensinou a cozinhar, a costurar – esse vestido fui eu
que fiz! –, mas ela me deixava ler! Achava bonito! E eu lia tudo que me caía nas mãos, a Coleção Saraiva
todinha! “Canta pra mim” ela pedia. (Cantarola) La festa è appena cominciata / È già finita / Il cielo
non è piú con noi... (Emoção) Eu cantava... Minha mãe...
ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Mocinha, Maria da Graça estudou na Escola João Ramalho!
GRAÇA – Ainda está lá, na rua José Bonifácio! Ah! Eu também ia ao teatro, sabia? É! Meu irmão me
levava pra assistir o Grupo Regina Pacis, o Teatro de Alumínio, em Santo André! Olha só do que me
faz lembrar!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Tambores indicam certa tensão) E o casamento, Graça?
GRAÇA – (Desce do tablado, fala ao público) Ah! Pra quê estragar a brincadeira? Tava tão bom!
ATRIZ ANFITRIÃ – (Pede nova caipirinha ao garçom e estende para Graça) Nem com outra caipirinha?
GRAÇA – (Sem pegar o copo, entra no jogo) Vocês tão vendo, né? Dessa vez não fui eu que pedi! (Ri. Pega o
copo e triangula com o público) O duro é fingir que tem caipirinha, que tá uma delícia! (Bebe) Humm...
ATRIZ ANFITRIÃ – Essa é de kiwi.
GRAÇA – (Ri) Tô vendo... Mas tá com pouco gelo. (Oferece para alguém) Quer dar uma bicadinha? (Ri.
Emenda a história, mais descontraída por causa da bebida) Vamo lá, vai! Daí que eu conheci o Tião, motorista
da olaria e... na falta de coisa melhor, peguei gostar dele! Mentira! Era moço bom naquele tempo:
congregado mariano, trabalhador. Um primo arranjou emprego pra ele na Volks: linha de produção. E
assim foi... Casamos e eu esqueci dos meus sonhos de moça.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Tambores dão continuidade ao jogo de perguntas e respostas) Filhos!
GRAÇA – (Bebe) Dois. Eu segui direitinho a cartilha, viu? Fui uma esposa fiel, dedicada, que acordava
cedinho pra fazer a marmita, pra vestir os meninos pra escola. Economizei cada centavo pra gente sair
do aluguel. Lavei roupa pra fora - água de poço, que naquela época era poço. Na feira, pegava as folhas
de repolho que estavam jogadas e dizia que era pros coelhos. Que coelhos? Eram pra nós! Estive do
lado dele na doença, na pobreza e quando a riqueza chegou... Ele ó!... (Bebe mais um gole, desce do tablado.
Vai para perto do público. Fala como num desabafo para o público e para colega) Falar verdade? O Tião não era
muito amigo do batente, não. Ele trabalhava, mas sabe quando a pessoa tá sempre precisando de um
empurrão? De vez em quando queria faltar no serviço. Quando tinha greve, queria ficar em casa vendo
televisão – a gente tinha comprado uma na Eletrorradiobrás. Queria ver luta livre, Bonanza, sabe como
é? Queria ir pro bar. Era eu que falava: “Tião, se o camarada tá em greve, tem que ir pra assembleia,
tem que fazer presença!”. Aí Tião ia, de burro amarrado. Eu mesma fui pra rua conseguir mantimento
pro fundo de greve. (Ao microfone) “Oh, dona Maria, vamos colaborar! Amanhã é o seu filho que tá na
fábrica!”. (Fora do microfone) Todo mundo queria ter o filho na Volks, na Mercedes. (Ao microfone) “Oh,
dona Rosa, tem moço perdendo a juventude na fornalha! Vamos garantir a paralisação!”
Graça está cansada, desanimada. Para de falar. Dá mais um gole e entrega o copo para a colega, que devolve ao garçom.
GRAÇA – Teve caminhada das mulheres na greve? Eu tava lá! Aquela assembleia na matriz de São
Bernardo? Fugi do tanque de guerra! Acho que eu fui em mais assembleia que ele, sabia? (Muda o tom)
Era minha obrigação: apoiar. Se ele fosse demitido, contava comigo também! (Anunciando futura decepção)
E eu esperava dele a mesma consideração, né?... É isso. E esse dia que não amanhece, hein?!
ATRIZ ANFITRIÃ – Não vai amanhecer enquanto você não concluir essa história...
GRAÇA – Já passou! Vamo olhar pra frente!
ATRIZ ANFITRIÃ – O futuro não traz nada, Maria da Graça. A gente é que dá tudo a ele, até a nossa
vida. (Pausa) Mas pra dar, é preciso ter; e nós não temos outra vida, outro sangue, outra história além da
que herdamos do passado. Então... é preciso lembrar. (As duas se olham, cúmplices, por um tempo) Vamos!
GRAÇA - (Ela compreende. Suspira) O Tião progrediu. Eu não. Porque eu tava sempre por trás: pra
estudar no Projeto Minerva, depois o supletivo; ferramentaria no Senai. (Sobe no tablado) Começamos a
engrenar. Construímos. Ele tirou um fusca e a gente ia pra Praia Grande nas férias! Quis ir pro
sindicato, apoiei. Quando se aposentou e quis se candidatar a vereador, falei: “Vai. Se você acha que
pode contribuir, vai!” “Você segura as pontas?” “Seguro! Num sempre segurei?!” Ajudei na campanha,
o bicho foi eleito! E de repente a casa começa a encher de coisa: máquina de fazer pão, de fazer arroz,
aparelho de som, uísque no lugar da cachaça... E eu só olhando. Até que um belo dia nosso compadre
Jesuíno vem e fala: “o Tião tá recebendo dinheiro por fora na prefeitura, pra facilitar uns negócios”.
“Verdade isso, Tião?”, perguntei. “Sei nada, não!”. “Mas se foi o compadre Jesuíno que falou!”.
“Jesuíno tem inveja de mim”, Tião respondeu. E escuta só isso. (Fala com mais vagar pra deixar bem claro)
“Tem inveja porque eu construí tudo isso sozinho e ele não tem um gato pra puxar pelo rabo”. (Pausa.
Para a colega e o público) Você escutou? (Ao microfone, devagar) “Eu construí tudo isso sozinho!”. E agora?
Que é que eu tô fazendo nessa história toda? Papel de boba! Eu nunca tive isso aqui de importância pra
ele, como ele teve pra mim... História besta, né? Mas ó, tá cheio por aí. (Deixa o microfone)
ATRIZ ANFITRIÃ – ‘tão separados?
GRAÇA – ‘tamo. (à colega e ao público) Mas depois de quarenta anos juntos você não sabe mais quem
você é. Eu só me conheço mãe, dona de casa. Quais os são os meus sonhos? Não sei! Eu sonhava
junto. E agora? Preciso saber quem eu sou.
ATRIZ ANFITRIÃ – Acho que precisa saber quem você era. Antes. (olha para Graça e sorri, enigmática.)
Eu acho que nós podemos te ajudar! (Noutro tom, mais animada) Vamos lá! Se você morresse agora e só
pudesse levar uma lembrança de sua juventude pra toda a eternidade. Qual seria?
GRAÇA – Só uma?
ATRIZ ANFITRIÃ – Feche os olhos e pense. (Faz sinal para que as atrizes entrem)
Atriz carrega um vestido, figurino idêntico ao da atriz Sônia Guedes em Jorge Dandin, no Teatro de Alumínio, e o
instala no meio da cena. Senta-se elegantemente perto dele. Outra atriz se aproxima. Veste um figurino igual ao de
Graça, traz uma flor no cabelo. Ambas ficam paradas.
GRAÇA – E agora?! (Tempo) Já sei! Já lembrei! Posso abrir os olhos?
ATRIZ ANFITRIÃ – Pode. (Convida Graça a olhar para o tablado)
GRAÇA – (Maravilhada) Como você conseguiu?!
ATRIZ ANFITRIÃ – Isso é teatro!
GRAÇA – (Deslumbrada) Sou eu! (Olha para Atriz Anfitriã, que incentiva-a a se aproximar. Graça toma coragem
e vai) Sou eu! (Faz carinho em Fé/Graça, arruma a flor de seu cabelo) Aos 18 anos! (Coloca as mãos no próprio
rosto como a conter o choro. Respira fundo.) Minha querida! (Abraça-a. Volta-se para o cenário) É o camarim. Do
teatro de Alumínio! 1968. A sessão tinha terminado, eu tomei coragem e bati na porta. Meu coração
queria sair pela boca. (Observa Dora, quieta em postura impecável de grande atriz. ATRIZ ANFITRIÃ convida
Graça a se afastar. Ela obedece, encantada e as duas se postam para ver a cena.)
GRAÇA JOVEM – Dona Sônia Guedes? Licença?...
SONIA GUEDES – Pois não. Entre, menina! (Fé/Graça se aproxima um pouco, tímida) Não precisa ter
vergonha. (Diante da timidez, provoca) Você gostou do nosso espetáculo?
GRAÇA JOVEM– Muito...
SÔNIA GUEDES – Que bom! A estreia é sempre mais difícil! Mas acho que conseguimos, não é? (Fé
/ Graça confirma) De quê você mais gostou?
GRAÇA JOVEM – Não sei! É muito bonito! Movimentado!
GRAÇA – (A Atriz Anfitriã) Era mesmo diferente de tudo que eu já tinha visto! Coisa acontecendo
numa porção de lugares, gente jovem. Contagiava a gente, sabe? Aquilo era a vida viva no palco!
GRAÇA JOVEM – (Sorri) É uma peça francesa, mas que fala daqui, de agora.
SÔNIA GUEDES – Foi a Heleny Guariba, nossa diretora, quem fez isso. Trouxe Jorge Dandin de
Molière para o Brasil de hoje! Escute o que eu digo: esse espetáculo vai ficar pra história – e nós
também, que fizemos e que assistimos! (Riem de contentamento. Graça Jovem aprecia o vestido) Gostou do
figurino? Pode olhar!
GRAÇA JOVEM – (Examina-o) É uma beleza! Gosto muito de costurar: esse vestido fui eu que fiz!
SÔNIA GUEDES – (Examina o vestido de Fé / Graça, faz com que ela dê uma rodadinha para observar melhor)
Está perfeito! Parabéns! Que mãos talentosas você tem...
GRAÇA JOVEM – Maria da Graça.
SÔNIA GUEDES –E que belo nome! Posso te dar um presente, Maria da Graça? Fiquei tão feliz com
a sua visita! (Pega um livro em suas coisas) Você gosta de ler?
GRAÇA JOVEM – Muito!
SÔNIA GUEDES – Eu também. E gosto de oferecer livros. Leio e ofereço. Aqui está: “Vida nova”,
de Ivan Turgueniev.
GRAÇA JOVEM – É da Coleção Saraiva!
GRAÇA – (Exultante) Eu ainda tenho!
SÔNIA GUEDES – E vai com uma dedicatória. (Pega uma caneta tinteiro e enuncia enquanto escreve) “Para a
jovem Maria da Graça uma vida nova a partir da estreia de Jorge Dandin. Santo André, 7 de dezembro
de 1968. Com o abraço da atriz Sônia Guedes”. Pronto. Aqui está. (Entrega o livro. Pega em suas mãos) E
preste muita atenção: todos nós temos um talento, no mínimo! E é uma bênção quando conseguimos
identificá-lo e tomar posse dele para toda a vida! (Pausa de timidez de Fé/Graça) O meu é a interpretação.
Não consigo viver longe do palco. E o seu talento qual é? Algo me diz que ele está em suas mãos.
GRAÇA JOVEM – Obrigada...
Graça Jovem, Sonia Guedes e Atriz Anfitriã viram-se ritualmente para Graça. Sorriem. Pausa.
Graça aproxima-se e abraça Sônia Guedes. Beija-lhe as mãos. Abraça Graça Jovem, ajeita-lhe o vestido e dá-lhe o braço.
Descem as duas.
GRAÇA – (Às amigas e ao público) Não vou esquecer! O futuro não existe por si mesmo, não é isso?
Somos nós que o construímos com a nossa memória. Pois agora eu sei. É com essas mãos de
costureira, com a herança da minha mãe e das fiandeiras que vieram antes dela que o meu futuro vai se
dar! Que seja na bainha, no remendo ou na costura do dia a dia, não importa! Agora eu sei quem eu vou
descer pela escadaria desse navio. Porque isso é teatro e porque acaba de amanhecer!
As três, ao mesmo tempo, olham para o leste e sorriem.
ATRIZ ANFITRIÃ – (Anuncia) O navio vai ancorar!
Tambor anuncia a aproximação do porto, como fogos de artifício anunciam o ano novo. Atrizes acenam em direção ao
público, felizes, saem ligeiras da área de representação. Levam os objetos da cena anterior. Atriz Anfitriã aproxima-se do
público.
CENA FINAL – CONFIO NOS FIOS QUE FIO NO MUNDO
ATRIZ ANFITRIÃ -
Senhoras e senhores,
nosso destino é chegado!
Faz de conta que esse lugar foi um navio
e que estivemos todos sobre o mar!
Juntos,
no aqui e agora de um trajeto
provisório.
Mas que tenha sido intenso
e nos habite
que nos transforme e,
no limite,
fique para sempre
na memória.
Adentram à cena com seus instrumentos, as demais atrizes, enunciando já o seu texto.
Mulheres
Militantes
ABC paulista
Anos de chumbo.
Fios de dor
Fios de sofrimento
Fios de luta.
No enredo do tempo,
com os fios da memória
tecemos histórias –
nós e vocês.
TODAS - Porque somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras!
(Aqui sugiro um final mais condizente com a pesquisa musical do espetáculo, com os tambores e pandeiro, por exemplo,
no lugar da canção do grupo OU a canção adaptada a esses instrumentos.)
CANÇÃO DO GRUPO
(autoria: Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras)
No emaranhado desta cidade tecido crescente
no meio fio desta rua urgente (clemente)
Caminhando no buraco da calçada, vendo muita máquina, pouca gente
poderia me confundir e parar de tecer, parar de tecer, parar de tecer...parar de torcer.
Entre tantas teias de relações, fiando no mundo como orações.
Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim.
Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo.
Fios e pontos e teias, desatando nó por nó
Pontos de Fiandeiras não dão ponto sem nó
Com fio me comprometo
sem fio, me perco, me esqueço, quase desfaleço
O fio me liga
Fiando me alinho
Pontos sozinhos vamos juntar, linha enroscada para desenroscar
Aumentando a linha do encanto
os fios da nossa história ligando para não se perder a memória.
Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim.
Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo.
FIM

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  • 1. ADÉLIA NICOLETE PONTO CORRENTE Texto desenvolvido graças à Bolsa de Incentivo à Criação Literária no Estado de São Paulo Texto de Dramaturgia Programa de Ação Cultural – 40/2014 Ribeirão Pires Outubro / 2017
  • 2. Esta peça estreou em 2016, encenada pelo Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras com direção de Jé Oliveira. Elenco: Camila Shunyata: Atriz anfitriã Fernanda Henrique: Atriz, Maria da Fé Roberta Marcolin Garcia: Atriz, Maria da Graça Vivian Darini: Atriz, Maria das Dores * * * Personagens: Atriz Anfitriã – 35 anos Maria da Fé – pouco mais de 60 anos Maria da Graça – pouco mais de 60 anos Maria das Dores / Maria Auxiliadora / Dora – pouco mais de 60 anos Território da ação: convés de um navio de cruzeiro, sobre a costa latino-americana e tantos corpos de desaparecidos políticos. Em alguns momentos, as atrizes permanecerão visíveis fora do espaço de representação, onde poderão ficar à mostra os instrumentos e demais objetos a serem utilizados na cena. Nossa principal referência estética é o teatro nô japonês.
  • 3. ABERTURA Enquanto público entra, atrizes, instrumentos e adereços de cena estão em suas posições fora do espaço cênico. Elas observam discretamente os espectadores, sorriem em cumprimento. Depois de certo tempo, dão o primeiro sinal. Mais um tempo e dão dois sinais. Quando o público tiver entrado e a encenação estiver para começar, dão três toques e as atrizes assumem posição para o canto inicial, quando adentram o espaço cênico. CANÇÃO DO GRUPO (autoria: Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras) No emaranhado desta cidade tecido crescente no meio fio desta rua urgente (clemente) Caminhando no buraco da calçada, vendo muita máquina, pouca gente poderia me confundir e parar de tecer, parar de tecer, parar de tecer...parar de torcer. Entre tantas teias de relações, fiando no mundo como orações. Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim. Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo. Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim. Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo. Atriz anfitriã, toma a palavra de modo confiante e sedutor, a convidar cada um dos espectadores à viagem que terá início. ATRIZ ANFITRIÃ – Benvindas! Benvindos! Nós somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras E convidamos vocês para uma grande viagem! ATRIZ 1 – Uma viagem pela História que não está nos livros de História por ser uma história de mulheres! TODAS, ALTERNADAMENTE Mulheres Militantes ABC paulista Anos de chumbo. Fios de dor Fios de sofrimento Fios de luta. No enredo do tempo, com os fios da memória tecemos histórias – nós e vocês.
  • 4. TODAS - Porque somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras! ATRIZ ANFITRIÃ Neste momento, falo como uma espécie de guia – o que serei a maior parte do tempo. Mas poderei, conforme as circunstâncias, interpretar outros papeis. (Refere-se às demais atrizes) E assim todas nós: disfarce. O teatro tem disso. Faz de conta! Faz de conta que esse lugar é um navio! Que estamos todos sobre o mar! (Respira fundo, de olhos fechados). O verde-azul das águas A brancura das nuvens. Horizonte só por onde se olhar! ATRIZ 2 Sem horários pra cumprir senão o da preguiça, o do sono e o de não fazer nada. ATRIZ 3 Que é quando o pensamento, distraído, fisga das águas profundas do tempo uma lembrança dourada que se debate, quer fugir, mas a língua apanha e traz à tona e exibe e compartilha. ATRIZ 1 Porque no dia a dia não há tempo para o re-cordar – trazer de volta ao coração. Bobagens – diz a lógica da pressa e da produção. ATRIZ ANFITRIÃ E assim seguimos, barco sem rumo, à deriva, indo e vindo ao sabor das marés e seus horrores. Quem não se re-corda conclama os ditadores.
  • 5. ATRIZ 3 E é por isso que o nosso navio tem rumo! Conhecemos o cais de onde partiu – há nomes inscritos em seus muros. Sabemos pra onde aponta o mapa que nos foi deixado e qual tesouro nos espera no futuro. Um toque de tambor. Atrizes 1, 2 e 3 tomam suas posições fora da área de representação. ATRIZ ANFITRIÃ Lá vêm as donas da história! Viajantes do tempo E da memória! Tambores tocam num andamento alegre. Enquanto Anfitriã anuncia, cada uma entra a seu tempo e se manifesta de acordo com seu temperamento. As demais auxiliam a paramentação ATRIZ ANFITRIÃ - Maria da Graça! GRAÇA - Graça, por favor. Que Maria é sofrimento. Maria é padecer e eu não padeço: prefiro esquecer, deixar pra lá. Tocar o barco! Ganhei essa viagem de presente dos meus filhos. Não é assim o cruzeiro do Roberto Carlos, mas pra uma capiau de São Bernardo como eu, é um bom começo! ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada. Graça volta ao seu lugar. ATRIZ ANFITRIÃ - Maria da Fé. FÉ – Maria de verdade foi a mãe de Jesus! Podem me chamar de Fé. Ganhei essa viagem numa rifa da igreja. Quem iria imaginar! Nascida e crescida no Jardim Zaíra, em Mauá, minha vida sempre foi de luta. Eu nem direito o que estou fazendo aqui! ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada. Fé volta ao seu lugar. ATRIZ ANFITRIÃ – Maria das Dores. Nenhuma reação de Dora. Fé e Graça se entreolham, olham para Dora. GRAÇA – É Maria Auxiliadora. Nenhuma reação de Dora. FÉ – Não seria Dora? ATRIZ ANFITRIÃ – Dora?!
  • 6. Dora parece acordar de um devaneio. Levanta-se e vai até a frente, como fizeram as demais. Enquanto é vestida, olha para o público e o entorno, alheia a tudo. Quando terminam, Fé e Dora voltam a seus lugares. DORA – (para o público) Acho que eu não quero falar. ATRIZ ANFITRIÃ – Não se preocupe. Fale quando quiser. (Às três) Prontas? (Elas se levantam) Então vamos! CENA 1 – PALAVRAS CRUZADAS Enquanto Anfitriã fala, as demais montam a cena. ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Agora são três horas da tarde. Peço que imaginem o sol no seu momento mais quente. Crianças mergulham na piscina, adultos desfilam as mais variadas cores e formas físicas, enquanto nossas as amigas procuram relaxar às voltas com seus pensamentos. A ideia é que as personagens estejam à beira da piscina, sentadas, a tomar sol e a refletir. ATRIZ ANFITRIÃ enuncia ao microfone o pensamento das personagens. Elas podem ter uma discreta reação quando o seu pensamento é dito. É importante que Atriz Anfitriã dê um tempo entre cada fala para que o público perceba qual das personagens está pensando tal frase. A maioria das falas de Atriz Anfitriã nessa cena serão ao microfone, quando isso não ocorrer, será anotado em rubrica. Ela também traz uma revista de palavras cruzadas na mão. ATRIZ ANFITRIÃ – Obrigada, Senhor, pelo sol que aquece meu corpo e minh’alma! Eu aceito e bendigo o que vem em Seu nome. (Suspira) ATRIZ ANFITRIÃ – Ah!... Se eu soubesse que era tão bom assim, tinha vindo antes! (Pequena pausa) Já pensou morar em navio? Daqui a pouco vou pedir uma caipirinha. Num quero nem saber! ATRIZ ANFITRIÃ – Tanta gente... Será que se divertem mesmo? Ou divertir-se passou a ser uma obrigação? ATRIZ ANFITRIÃ – Isso tá que nem a Colônia de Férias na Praia Grande! Como as crianças se divertiam! O Tião se enfiava no baralho e eu não tinha de fazer comida!... Benzadeus! ATRIZ ANFITRIÃ – Chico... Se ele me visse nesse lugar... Acharia tudo isso tão... fútil. Na verdade é... (Suspira) ATRIZ ANFITRIÃ – Esse lugar me incomoda... um pouco. Não sei direito... não sei o jeito certo de me comportar. Devia era ter trazido alguma coisa pra ler... Graça pega uma Recreativa - revista de palavras cruzadas – e um lápis na sacola. Folheia a revista até encontrar uma cruzada vazia. Dora permanece quieta. Fé observa Graça, discretamente. Ela parece ter um pouco de dificuldade na tarefa. ATRIZ ANFITRIÃ – Alvo, pontaria. Quatro letras. (Graça escreve enquanto Atriz Anfitriã responde) Mira. ATRIZ ANFITRIÃ – O fluido que respiramos. Duas letras. GRAÇA – (Enquanto escreve) Ar! (Fala para si, sem lembrar que será ouvida) Animal bravio. Quatro letras... (Pensa) FÉ – Fera. GRAÇA – Fera! Obrigada. Fera.
  • 7. ATRIZ ANFITRIÃ – “Noite dos mascarados”, autor. (Enquanto Graça conta) Dois, quatro, oito, dez. Doze letras... GRAÇA – “Noite dos mascarados” é de quem mesmo? FÉ – (Distraída, meio sem refletir) Ney Matogrosso? DORA – (Determinada) Chico! Chico Buarque! GRAÇA – Bingo! (Escreve) “Aquela que perdeu o uso da razão”, cinco letras? DORA – LOUCA. GRAÇA - (Soletra) L – O – U – C - A. Louca. Obrigada! FÉ – (Tímida) Mas pode ser doida. GRAÇA – O que você falou? FÉ – Doida. Cinco letras. Pode ser doida. ATRIZ ANFITRIÃ – (Enquanto Graça apaga o que escreveu com a borracha acoplada ao lápis) É por isso que eu faço a lápis. (Beija a borrachinha, volta a pensar) DORA – Pode ser AUDAZ. Pode ser JOVEM! FÉ – Sim. Jovem – aquela que perde o uso da razão! DORA – Jovem... Põe aí! Vamos subverter! TODAS – Vamos subverter! (Graça resolve obedecer. Escreve. Riem.) FÉ – (Ao público) Essa era a palavra de ordem na minha casa. “Precisamos subverter a ordem, Maria da Fé! Você mais do que ninguém, minha filha: você é jovem!” MÃE – (Coloca um adereço feminino e torna-se a mãe de Fé) Cuidado, Feliciano! Essa menina é da pá virada! (Ri) FÉ – (Sorrindo, animada) O que o senhor está tramando dessa vez, pai? PAI – Já conseguimos o posto de saúde, não conseguimos? Não sossego enquanto todo mundo aqui do Zaíra não tiver escola! FÉ – (Ao público) O posto tinha sido até fácil. Vereador ajudou em troca de voto. Agora escola... era outra coisa. Mexia com governo... PAI – Não interessa com quem vai mexer. Pode demorar um ano, dois, dez. O importante é conseguir! FÉ – Eu ajudo pai! PAI – E eu não sei?! GRAÇA - Meio de transporte. Seis letras. PAI e FÉ – Ônibus! PAI – Ônibus, claro! É muito longe até a estação. Pai de família acordando no escuro ainda, pra ir tomar o trem! FÉ – Puts grila! Ônibus ia ser uma mão na roda mesmo. (Ao público) A meta da Sociedade Amigos de Bairro era conseguir uma linha até o meio do ano. Já tínhamos pegado assinatura na vizinhança e faltava pegar na igreja e na escola. (Para a mãe) Tem mais panfleto pra reunião de sábado, mãe? MÃE – Tão escondidos na sacola de pão, atrás porta. E se avistar um policial já sabe: jogue tudo fora! FÉ – (Suspira de cansaço) Pode deixar, mãe. Eu sei. MÃE – ‘Cê tá cansada, né, filha? (Fé aquiesce) Ir trabalhar a pé, depois ir direto pra escola. E esses dias de chuva, então! PAI – A menina é forte! Puxou a você! Já colocou tudo na bolsa? Galocha, sombrinha, marmita, livro, uniforme?
  • 8. FÉ – Conseguimos abolir o uniforme, não contei? O Movimento Estudantil está uma brasa! A diretora teve de aceitar! MÃE – Graças a Deus! Os alunos do noturno são sacrificados demais. DORA / PAI – Parabéns! Você é mesmo batuta! Mas cuidado! Diz que a polícia está de olho! FÉ – (Ao público) Eu pensava que era exagero. O golpe militar tinha seis anos e não sabíamos de ninguém que fora preso! “Eles nem sabem que a gente existe!”, eu pensava. Mas o padre estava sendo vigiado. A associação. PAI – O Zaíra é lugar esquecido do mundo pra quem mora aqui. Pra quem precisa brigar dia após dia pela condição de viver feito gente. Mas pra quem vê de fora, pra polícia, Mauá é movimento. O ABC é vida pulsante. E há de ser mais! GRAÇA - Previsão. Augúrio. Nove letras. FÉ – Presságio. (Ao público) Cinco dias depois, pertinho da hora do almoço, dois soldados entraram no escritório em que eu trabalhava. “Maria da Fé dos Santos, é você?” Eu disse que “Sim, por que?”. “Você tá detida. Pegue suas coisas e venha pra delegacia com a gente.” (Atriz Anfitriã executa tensão no tambor) FÉ – (Ao público) E não é que meu pai apareceu justinho naquela hora? Ele nunca me visitava no trabalho! “Dá licença”, ele disse. “Ei, filha? Não vai almoçar em casa hoje?” Eu não almoçava em casa! “Vai embora, pai, xispa daqui!!” - pensei, mas não disse. “Tá acontecendo alguma coisa, filha?”. Os soldados responderam por mim: “O senhor é o Feliciano dos Santos?” Meu pai confirmou. E também foi detido. GRAÇA – Dificuldade, situação crítica. Quatro letras. Fri-a. FÉ – (Ao público) Chegamos à delegacia para prestar depoimento e quem eu encontro? Colegas de escola! Gente que eu via circulando feito sombra nas assembleias. Eram investigadores! Baixaram os olhos e saíram da sala, arrastando a vergonha atrás de si. “ Você se reconhece nessas fotos?” Era eu, claro! Liderando o movimento, distribuindo abaixo-assinados e panfletos. Era eu. Uma jovem de 17 anos querendo a mochila um pouco mais leve. PAI – (Ao público) “E o senhor, hein, seu Feliciano? Na sua idade? Que mutreta! Devia estar de pijama, vendo Silvio Santos e não se metendo a comunista!” Eu sei que essa lembrança é da minha filha, mas vamos fazer de conta que é minha também. Naquela hora, tive vontade de dizer que graças a comunistas como eu, tinha gente vivendo em condições um pouco mais dignas, coisas que capitalistas como eles não eram capazes de fazer. Graças aos esquerdinhas, como eles chamavam, os moradores do Zaíra lutavam por saúde, educação, transporte, saneamento básico. Mas fiquei calado. Sabia que se respondesse ia ser muito pior. Pra mim e pra ela. MÃE – Não adiantou, porque eles nem voltaram pra casa. Da delegacia foram direto pro DOPS, na capital. TORTURADOR – (Atriz coloca um adereço e torna-se o torturador que gosta de palavras cruzadas) Submissão. Rebaixamento moral. Dez letras. FÉ – A tortura começou logo na entrada. TORTURADOR – Chegou a ralé de Mauá! A festa vai ser boa! FÉ – Aí foi que soubemos: não estávamos sós, muitos militantes de Mauá haviam caído. TORTURADOR – Povinho sujo, encardido e metido a besta. Lugar de preto e pobre é no batente e não fazendo política, seus merdas! Isso aqui tá lotado de jornalista, escritor. Intelectual! Aqui tem estudante e burguês, entende?
  • 9. Olhem pra vocês! Periferia aqui... não orna... Não orna! FÉ – (Ao público) Me perguntaram se eu estava envolvida em atos subversivos. Respondi que não. TORTURADOR – Vou ser mais claro: a negrinha distribuiu abaixo-assinados contra as autoridades de sua cidade? FÉ – Não! TORTURADOR – Como não!? O que são essas fotos? O que são essas listas, porra?! FÉ – São assinaturas de cidadão de um loteamento chamado Jardim Zaíra, reivindicando seus direitos a serviço de água e esgoto, esses daqui assinaram pra posto de saúde, e esses pra linha de ônibus. São todos trabalhadores. (Pega o microfone de Atriz Anfitriã) Levantam de madrugada, primeiro que o sol, e vão trabalhar nas fábricas de porcelana, na indústria de São Bernardo, em São Paulo. Voltam pra casa quando sol já foi embora. Eles não vêm seus filhos crescerem, não amam suas mulheres da forma que elas merecem e o carinho que delas recebem é medido pelo cansaço do dia. São parados pela polícia por causa da sua cor, muitos apanham. Mas continuam lá. Sem armas, sem outra defesa senão listas de abaixo-assinado como essas. E se o senhor olhar bem, tem alguns que nem sabem escrever direito o próprio nome! (Um tempo. Devolve o microfone. Fala ao público) Na hora, disse apenas que eram abaixo- assinados pra melhorias do bairro. TORTURADOR – A vagabunda confessa que foi uma das líderes do movimento estudantil? Que fez panfletagem de assembleias e paralisações? Que participou de reuniões de comunistas? Diga! Por que não abre a boca? (Pega a revista de palavras cruzadas) Afligir. Castigar. Oito letras. Grito de agonia! Três letras. FÉ – (Ao público) Sofri todo tipo de violência e a tudo respondi com o silêncio. Mandavam-me de volta para a cela, onde as companheiras aguardavam com um misto de curiosidade e compaixão. “O que te perguntaram?”, “O que você disse?”. Tudo e nada. “Cê tá numa arapuca, Maria da Fé. Acabaram de confessar: você aliciava os jovens lá naquela sua terra de índio. A sua ficha, ó. Tá ficando grande... Mas se você der os nomes que eu ‘tô pedindo...” Não dei. Eu não sabia do que ele estava falando. Às vezes sonhava que tinha dedurado alguém. Acordava sufocada, o coração disparando. Respirava fundo e rezava. TORTURADOR –Testemunhar. Assistir. Três letras. Sabe o que é? Não sabe?! Chama o pai da donzela aqui. MÃE – De todas as torturas possíveis, aquela foi a pior. Ter o pai à sua frente, sofrendo as mesmas humilhações que você, te machuca mais que tudo. E a ele também. Mil anos envelheceu ao ver a filha alquebrada. Perguntavam quem ele havia recolhido em nossa casa. Queriam que delatasse os amigos, denunciasse os planos do Partido. O silêncio foi igualmente sua resposta. Os pontapés, o açoite e os choques foram a resposta da polícia. TORTURADOR – Chame pelo seu Deus agora! Onde ele está que não aparece aqui para salvar vocês? FÉ – (Cansada) Podemos parar?... ATRIZ ANFITRIÃ – (Tira os óculos ou o lenço) Você é quem sabe. GRAÇA – (Tira o adereço. Compreensiva:) Não sei por que você começou. Era só um jogo de palavras cruzadas! DORA – (Que já tirou o chapéu) Está sentindo alguma coisa? (Fé acena que não) FÉ – Não sei por que vim! O meu lugar não é aqui! (Dora e Graça se acercam de Fé) GRAÇA – (Levanta o braço) Para tudo! Pode parar! (Levanta o braço, ao público) Acho que é hora de pedir uma caipirinha!
  • 10. ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Vai fugir ou vai ficar, Maria da Fé? O que você faria se encontrasse o seu torturador aqui, nesse navio, gozando férias? FÉ – (Confusa) O que?! ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Não com a rifa da igreja, mas com o dinheiro do contribuinte. Ele virou juiz, se aposentou. Recebe uma nota preta e está aqui, nesse paraíso que só não é melhor que o cruzeiro “Emoções” – que ele já foi duas vezes: uma com a esposa e outra com a amante. FÉ – (Pressionada) Eu não sei! ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao microfone) Isso é teatro, Maria da Fé! Vamos! O que você faria se com ele se encontrasse?! Tambores marcam o tom forte de tensão e suspense. Fé vira-se para o público, na expectativa. Foi para isso que ela embarcou: para o seu confronto. Enquanto isso, Atriz coloca ritualisticamente em si o adereço do demônio. Trata-se de uma marcação agressiva, violenta. Há forças em jogo. O Mal se aproxima novamente de Fé e ela terá de enfrentá-lo. Torturador pega o microfone de Atriz Anfitriã, modifica a postura e avança sobre Fé. TORTURADOR - Enfim nos reencontramos, Maria da Fé dos Santos! Atriz Anfitriã e Dora se afastam. Torturador evolui ao redor de Fé, que parece não compreender totalmente o que acontece. Música continua. Torturador usa de um deboche cada vez mais agressivo - tortura moral. Continua morando no Zaíra?! Ah, mas que pergunta! É claro que sim. Então o que faz aqui? Isso não é uma lotação! Não é um trem apinhado! Maria da Fé, cuidado! Todos olham pra você... O tempo passou e continua ralé. Lutou, sofreu e a indenização não saiu? O governo não cumpriu o combinado? E a aposentadoria? Dá pros remédios ou precisa pedir emprestado? Tola, ignorante. Seis letras. Idiota! Tem nego que levou só um tapinha E já recebeu uma nota! Continua lutando por creche?! Por asfalto e UBS?! (Ri) (Feroz. Tambores se intensificam) Maria da Fé! Você rezou pro Deus errado! Tambores cessam. Torturador estaca em posição de ataque ao lado de Maria da Fé, que se impressionou com toda aquela representação. Fé toma coragem, respira. Vira-se e encara o torturador. Toca nele, examina-o de perto – coisa que nunca fez –, já que ele está imóvel. Tudo ao som de tamboril e flauta, numa atmosfera de mistério. De frente para a figura, tira-lhe o microfone. Música cessa. FÉ – (Ao microfone, tranquila, vira-se para o público) Isso é teatro.
  • 11. Atrizes tomam seus instrumentos para a evolução de Fé em forma de jongo. CANÇÃO DO ENFRENTAMENTO Eu lembro do seu rosto. Como esquecer? Sua voz está presente em meus ouvidos. Seu gesto violento Sem sentido Ainda agride. Saber que ele está vivo, que respira o mesmo ar, que embora provado seu crime ele não foi punido, ah! o terror me invade. Porque a impunidade Multiplica a violência E ela está presente em cada esquina É só virarmos a cabeça. Ali um negro, um pobre, ali um índio, um mendigo, uma mulher, alguém que escolheu ser o que quer independente da norma. Seja lá quem for a arma está apontada pra todos de qualquer forma. Porque eles estão livres – sempre estiveram: os donos da lei e do poder. Eu lembro do seu nome. Como esquecer? Seu riso está presente em meus ouvidos. Seu gesto violento Sem sentido Ainda agride. Mas meu coração resiste! O que fazer? Ele está vivo! Bate forte
  • 12. cada vez que uma injustiça é revelada. E é por isso que embora frágil e cansada, embora triste, pequena e desarmada, permaneço na linha de frente do conflito! Ao terminar a canção, Fé pega o adereço de modo a vê-lo de frente. Posiciona-se de frente para o público, no centro da cena. Olha para o adereço. Atrizes com seus instrumentos ocupam a área de representação. Fé continua com o microfone: agora ela comanda a cena. FÉ – (Ao microfone) Não é você que está aqui, mas a imagem que tenho de você. E como é teatro eu também não sou Eu. Sou muitas que padeceram nas suas mãos. Nas mãos deles. Portanto, não falo só em Meu nome, mas em nome de todas que sobrevivemos, que respiramos o mesmo ar de nossos torturadores, ainda hoje, no metrô, nas ruas e delegacias, no assédio do chefe, na violência do namorado ou do marido, no caminho de volta à noite, nos pesadelos em que gritamos NÃO! e que não somos ouvidas. Não falo só em meu nome, mas em nome de todas: Sou eu que determino onde é o meu lugar. O Jardim Zaíra, onde nasci, cresci e me fiz gente ou esse navio, que me foi dado de presente. A praça, a rua, a cidade. A escola de samba, a universidade. Sou eu que determino onde quero chegar. Não é você nem ninguém que vai dizer quem eu sou e onde eu posso ou não posso estar. Agora falo em meu nome e só no meu. Eu venci. Você perdeu: eu sobrevivi! Amei. Fui amada. Pari. De mim nasceu a vida! De você a morte foi nascida! Porque o seu deus é o deus do inferno
  • 13. pra quem a sua alma foi vendida! Desliga o microfone, caminha, coloca-o em seu lugar, deposita solenemente o adereço em algum ponto da cena e volta. FÉ – (Ao público) Agora eu sei por que estou aqui. Isso é teatro! Atrizes retomam marcação mais intensa dos tambores. Fé integra-se à banda, anunciando-se com um grito de guerra ou exorcismo. FÉ – Eyá! As quatro atrizes tocam. Vez ou outra emitem sons vocais. A música é o seu exorcismo. Dura um certo período e, com a mesma intensidade do início, cessa. CENA 2 – NOITE DOS MASCARADOS Terminada a música da cena anterior, instaura-se uma atmosfera mais leve. Apenas Dora parece cansada ou meditativa. Ao som da flauta de Atriz Anfitriã, que observa a movimentação das demais, Graça leva para fora de cena o adereço. A ideia agora é que seja noite e estejam próximo à proa. A composição deve ficar apontada para “o mar”, ou seja, em outra direção que não o público, que supostamente está no navio. Fé sai da área de representação. Dora posta-se à proa como a olhar o mar. Um tempo nisso. Atriz Anfitriã toca um pouco ainda, antes de falar. ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Sempre que me pego a lembrar de Dora é noite. Ou faz-se noite quando dela me recordo? Não importa... Em tantos anos sobre o mar nunca soube de história como essa. E se lhes conto agora é pra que me façam a promessa de contá-la a outros mais, para que algo assim não se repita. Para que a memória grave em tinta permanente o que se quer enterrado, esquecido, mas que somente quando revelado poderá, enfim, ter o descanso merecido. (Muda para um tom narrativo) Até onde consigo me lembrar, faltava bem pouco para a meia noite. Todos haviam se dirigido ao salão de festas para o tradicional baile a fantasia – famoso em todos os cruzeiros! Podiam-se ouvir as músicas. A alegria.
  • 14. Vez ou outra um casal saía até os cantinhos mais escuros. Um pirata e uma bailarina, dois super-homens, duas colombinas... Dora escala a proa, tencionando jogar-se ao mar. ATRIZ ANFITRIÃ – Ninguém percebeu nossa amiga Dora prestes a aceitar o chamado de amor que as ondas lhe faziam. À noite esse chamado é mais vivo e não há música capaz de encobri-lo. Mas voltemos no tempo para sabermos quem das ondas chama Dora E por que ela atenderá ao seu chamado. Dora e Graça – agora militantes amigas de juventude de Dora – entram com máscaras e algum adereço de fantasia. Atriz Anfitriã e elas tocam e cantam um trecho de “Noite dos mascarados”: - Quem é você? - Adivinha, se gosta de mim! Hoje os dois mascarados Procuram os seus namorados Perguntando assim: - Quem é você, diga logo... - Que eu quero saber o seu jogo... - Que eu quero morrer no seu bloco... - Que eu quero me arder no seu fogo... DORA – (Sem descer ainda) Shhhh! Vocês ‘tão lelé da cuca?! Tá cheio de milico no pedaço, eles podem ouvir! FATIMINHA – É só uma música de carnaval, Maria das Dores! Desce da vigia! DORA – (Descendo depressa) E desde quando esse lugar é salão de baile? FATIMINHA – Ah! Você é muito caxias! Corta o barato da gente legal! DORA – Fatiminha, você é nova na organização, mas já devia ter lido o livro de segurança. FATIMINHA – (Faz cara de enfado e recita) “O militante não deve chamar a atenção para si”. Eu li! E obedeço! (Tenta ser convincente) Mas é carnaval! RUTE– A gente veio te chamar pra festa, Maria das Dores. DORA – Não sei como conseguem pensar em festa com tudo isso acontecendo, Rute! FATIMINHA – Sabe quem vai tá lá? O Chico... Perguntou se você iria... DORA – O Chico?! Impossível! Ele é o mais CDF de todos, Rute! (Ao público) Chico era o galã da organização. “Um pão”, como se dizia. (Rute e Fatiminha suspiram ao mesmo tempo.) E era uma das
  • 15. lideranças. Vinha de fora e como eu começara a luta no movimento estudantil. (Nostálgica) Nunca soube seu nome verdadeiro, será que um dia ele soube o meu?... ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Chico nunca soube o nome de Dora. Eram da militância clandestina e saber o nome verdadeiro uns dos outros era condená-los à morte. RUTE – (Ao público) Primeira reunião do grupo de Santo André! Eu estava lá e vi quando o amor nasceu! Atrizes fazem burburinho de reunião. CHICO – Questão de ordem! Por favor! (Ao público) Agora eu sou o Chico. (Silêncio aos poucos se instala) Gostaria de saber se todos compreenderam as orientações. A maioria de vocês é estudante, como eu já fui, mas é preciso deixar claro: isso aqui não é movimento estudantil. As reformas precisam começar na base e quem está na base? RUTE – (Levanta a mão) Na base está quem trabalha, quem carrega o país nas costas, como nós aqui no ABC. CHICO – Muito bem, Rute! É a eles que devemos nos juntar. Deixar nossos pensamentos e hábitos burgueses e viver a realidade proletária, operária, camponesa, compreendem? DORA – (Levanta a mão) Eu venho de seis meses na frente camponesa. Atuei como professora. Foi um bom trabalho, mas o principal foi a certeza de que a revolução pode começar por lá, desde que haja formação e informação. CHICO – Obrigado pelo testemunho... DORA – Maria das Dores. CHICO – Maria das Dores. RUTE – Um olhar mais demorado entre os dois. Assim. (Dora e Chico se olham) E pronto. Quem disse que a revolução é movida tão somente pelo ódio? Fé e Graça postam-se para a música e começam a tocar e cantar. Dora e Chico dançam abraçados e mascarados de Pierrô e Colombina. TODAS - Fui porta-estandarte, Não sei mais dançar. - Eu, modéstia à parte, Nasci pra sambar. - Eu sou tão menina... - Meu tempo passou... - Eu sou Colombina! - Eu sou Pierrô! ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Chico e Maria das Dores, Pierrô e Colombina, decidiram ficar juntos. Na militância não há tempo a perder: agarra-se a vida o mais forte possível porque não se sabe até quando... Amaram-se o mais que puderam enquanto lhes foi permitido. DORA – (Ao público) Em todos os lugares por onde passamos, fomos acolhidos por simpatizantes da causa revolucionária como Dona Gertrudes e seu Adamastor...
  • 16. GERTRUDES – (Ao público, cautelosa, como se falasse algo arriscado) Simpatizantes também correm riscos. Eu e meu marido, por exemplo, não é, Adamastor? (Fé chega perto, como marido) ADAMASTOR – Pra vizinho curioso, a gente diz que eles são parentes. GERTRUDES – Pra parente curioso, diz que eles são amigos. E assim por diante... Ah! E não fazemos perguntas! ADAMASTOR – (Ao público, mais destemido, impaciente) A gente não concorda com o jeito que as coisas estão! Intervenção militar, vigilância por todo lado, censura. Primeiro prende, espanca e depois pergunta! Onde isso vai parar? E se o sujeito é pobre, então! Aí tá num mato sem cachorro! Periga nem voltar pra casa. Puf! Dão sumiço! Aconteceu com vizinho nosso. Um rapaz honesto, trabalhador... GERTRUDES – (Cortando a fala do marido, que se empolgara. Pede silêncio e cuidado) Shhh! (faz sinal de que podem estar ouvindo) Cuidado, homem! (Continua ao público, cuidadosa) Como não temos mais idade nem saúde pra lutar, damos abrigo a esses jovens como se filhos fossem. É preciso dar-lhes apoio: eles lutam por nós! (Marido concorda, fazendo positivo com o dedo, em silêncio) DORA – (Ao público) Em Mauá, moramos num quartinho úmido e gelado. Chico se infiltrou como operário numa fábrica de porcelana e eu, em outra. Mudei de nome de novo, por causa da segurança. Virei Maria Auxiliadora. Novos documentos, novo corte do cabelo. Comecei até a usar vestido, coisa que não combinava comigo, mas o personagem pedia. Quem era eu naquele espelho? Às vezes demorava um pouco pra lembrar quem é que estava ali, sabe? Era uma fantasia, um papel que precisava convencer aos outros e a mim mesma. (Suspira) CHICO – (Ao público) Depois, nova mudança, dessa vez para Ribeirão Pires. Outro nome, outra profissão, um novo disfarce. Mas à noite! A revolução era de outra ordem. Nunca o ser humano faz tanto amor quanto nos tempos de guerra. DORA – Chico. ATRIZ ANFITRIÃ / CHICO – O que foi? DORA – Promete não ficar bravo? (Ao público) “Não posso prometer antes de saber”, ele disse. (Chateada) Eu tô grávida. (Pausa) Não vai dizer nada?! “Não. Você já sabe o que eu penso.” (Depois de pausa.) Mas eu não concordo com o que você pensa. Não agora. (Ao público) Eu já tinha feito dois abortos. No tipo de vida que a gente levava não cabia filho, não cabia criança. CHICO – Não tem espaço pra isso. Filho segura a gente e o nosso compasso é fugir. Não pode saber nosso nome, que é perigoso pra ele. O que a gente faz também não deve saber. Como viver assim? DORA – (Ao público) Eu sabia de tudo aquilo. E concordava. Mas não era a razão que falava. Não sei. Eu nunca pensei que diria isso um dia: (A Chico) Chico, é a natureza. Não ria! Não brigue! É você, dentro de mim. É a vida que insiste. E dessa vez eu direi que sim. (Sobe novamente na proa, como se fosse atirar-se) GRAÇA – (Traz uma máscara no rosto e outra, a mesma do passado, de Colombina, na mão. Sua intenção é chamar Dora para a festa, mas a vê prestes a jogar-se) Dora! O navio está em festa! Vem! O que você está fazendo, mulher? Dora! (Dora sai de uma espécie de transe e desce novamente, voltando-se para Graça, que já tirou a própria máscara) O que aconteceu? (Abraça a colega) DORA – O chamado. De novo. GRAÇA – Ah! Esquece! O que passou, passou! Lembrar pra que? Há uma festa no salão! Olhe! (Oferece a máscara) Eu trouxe pra você. Dora pega a máscara e a observa. Fica confusa. Olha para o público. Olha para o ambiente. Onde está? No navio ou no passado?
  • 17. GRAÇA – Venha pra festa à fantasia! O que passou é como o rastro de espuma deixado pelo navio conforme avança. Aos poucos se dissolve, incorpora-se ao mar. É passado! E é para a frente que se deve olhar! DORA – (Devolve a máscara) É porque eu olho para a frente que essa máscara não me serve mais. É a verdade que eu procuro! Graça abaixa a cabeça, desiste. Vira-se ritualmente e retorna para fora de cena ao mesmo tempo em que Dora se dirige novamente à proa, vigilante, e Fé / Miguel avança para junto dela, com uma mochila nas costas. MIGUEL – Mãe! Vamos! DORA – Miguel! Meu querido! (Ao público, um pouco confusa) É o meu filho! Aos cinco anos! Como pode? (Para o filho) Você está pronto? Pronto mesmo? (Menino faz que sim com a cabeça. Ela ajoelha-se para conversar com ele, movendo Fé/Miguel a também se ajoelhar, olhando em seus olhos e segurando suas mãos) Colocou na mochila tudo que eu pedi? (Fé/Miguel aquiesce) MIGUEL – A gente vai encontrar o meu pai hoje? DORA – Não. Seu pai ainda está viajando. Nós vamos fazer igualzinho a gente sempre faz. Lembra? Vai ficar dentro da igreja do Carmo e não vai sair até eu voltar. Não demoro mais que meia hora. MIGUEL – Eu já sei ver as horas. DORA – Você é um menino muito esperto. Tome aqui o meu relógio. Conte meia hora e se eu não tiver voltado, mostre o bilhete pro padre. Ele te leva até a casa do vovô. Entendeu? (Miguel concorda) Agora me dê um abraço bem gostoso. (Abraçam-se demorado. Levantam-se. Dora toma a direção do fundo da cena para sair) Vamos. (Começa a andar) MIGUEL – (Atrás) Mãe! DORA – (Volta-se) O que? MIGUEL – Depois a gente pode ir no Bazar Augusto? Eu queria uma caixa de canetinha sylvapen de doze cores! DORA – (Pegando-o pela mão e saindo) A gente compra. MIGUEL – Oba! Dora dá um beijo na testa do filho e deixa o menino fora da área de representação. Dá meia volta e olha para os lados, como que procurando alguém. Anda em direção à proa. Está nervosa, embora procure controlar-se. Pergunta as horas a alguém imaginário que passa. Espera. ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Depois que Miguel nasceu, Dora e Chico tiveram de se separar: a presença de mulher e filho colocaria em risco a segurança de todos. Ela permaneceu em Ribeirão, escondida, e ele foi para São Paulo. Pouco via a criança. Os encontros com a companheira eram marcados com muita antecedência e sempre cercados de cuidados. DORA – (Ao público) Naquele dia marcamos na estação de Santo André. Lugar de movimento, pra que a gente passasse despercebido. Deu quinze minutos e ele não apareceu. Era um sinal: fora preso e eu seria a próxima. Voltei correndo pra igreja. A boca seca, o peito apertado, uma vontade de chorar sufocada na garganta. Mas nada foi pior... (Retoma a coragem) Nada foi pior do que não encontrar Miguel no lugar combinado. Meu corpo pedia um desmaio, mas ainda tive tempo de perguntar a uns e outros se tinham visto o menino de calção azul e bonezinho vermelho. (Corre até a proa, sobe e procura)
  • 18. TORTURADOR – Com licença. É a senhora que procura um guri que trazia esse bilhete no bolso? (Assim que Dora se vira, Graça/Torturador coloca a máscara no rosto) Pode me acompanhar, por favor? (Pausa) Já já a senhora vai saber onde o menino está. Dora desce da proa e desfalece. Torturador continua presente. RUTE – (Enquanto Dora ainda está no chão, agora da cela, Fé/Rute fala ao público, pausadamente, sem drama) Dessa vez eu, que já fui Maria da Fé e agora sou Rute, não estava junto, mas sei perfeitamente o que aconteceu com ela e com todas as outras. Os torturadores, sem exceção, eram homens. A violência contra a mulher ia além da punição política. Atingia o feminino: mulheres grávidas foram desrespeitadas, outras foram torturadas na frente dos filhos pequenos. Crianças foram torturadas na frente de suas mães. Muitas morreram. Eu sei. (Afasta-se) TORTURADOR – (Vira-se para o público, com o adereço na mão. É como se fosse o porta-voz do adereço) Agora eu pergunto: por que elas precisam se meter com política? Alguém sabe me dizer? Então que aguentem o traço, ora bolas! Escolheram sair de casa, escolheram a agitação, não escolheram? A vida bandida não escolheram? Minha esposa, por exemplo, está em casa. Minhas filhas eu sei onde estão. Essas outras abriram mão de sua condição de mulher: ser protegida, amparada, cumpridora dos deveres do lar. Prostitutas, portanto. Vacas! Assumam o matadouro! Se eu me arrependo? Eu estou cumprindo ordens! Esse é o meu papel. (Dirige-se a Dora) Não aguentou, né? Levanta daí, oh, monte de merda, que você vai ser transferida pro hospital! (Sai) Um tempo enquanto Dora levanta-se e vai até a proa. Flauta ao fundo. DORA – (Ao público) Não esperem de mim detalhes. Do que o meu corpo se lembra, minha língua é incapaz de traduzir. Estou aqui. É só o que sei. As companheiras Rute e Fatiminha não resistiram. (Fé/Rute dá meia volta e encaminha-se para fora da cena) Partiram antes de viver um grande amor, de terem filhos. Chico, soube que morreu no Rio de Janeiro. Desapareceu, alguém disse. Foi jogado ao mar! (Vira-se, olha o mar por um tempo, à procura. Chama) Chico! Fé e Graça entram cantando e tocando, suavemente. Dora escuta e vira-se. Vê Chico se aproximar. Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você! Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar, Deixa o barco correr. Chico posta-se frente a frente com Dora, com certa distância. Deixa o dia raiar, que hoje eu sou Da maneira que você me quer. O que você pedir eu lhe dou, Seja você quem for, Seja o que Deus quiser! Seja você quem for,
  • 19. Seja o que Deus quiser! Chico estende o braço para Dora, que se aproxima. Os dois se abraçam. Música recomeça em bocca chiusa ou na flauta por alguns instantes enquanto atrizes saem da área de representação. DORA – Chico! CHICO – Você me chamou. Eu vim. DORA – Você aqui?! E agora eu não sei o que dizer! CHICO – Não é preciso. DORA – Há anos viajo nesse navio à sua procura. Há anos repito a mesma história. Quem sabe alguém me fala de você. (Chico a encara e não responde) O que foi? Não acredita? Chico olha à volta, sem jeito. Disfarça. Volta. Sorri para ela. DORA – O que aconteceu?! CHICO – Você não sabe? (Dora nega. Um tempo) Do que se lembra antes de embarcar? DORA – Não sei. Faz tanto tempo! CHICO – Vamos ver. Miguel, nosso filho. Onde ele está? DORA – Miguel? Está com os avós. Eu o deixei na igreja do Carmo, ele foi... levado para a delegacia... (Começa a ficar confusa) ficou na minha frente, assistindo e... Eu não podia fazer nada, Chico! Ele viu tudo, coitadinho! (Afirmativa) Está com meus pais. Preciso buscá-lo! As canetinhas. Eu comprei. E um caderno de desenho. Vamos entregar a ele, agora que eu te encontrei! (Tenciona sair. Chico a segura e olha para ela) Vamos! Não vai dizer nada? CHICO – Dora... Nós estamos mortos. DORA – (Depois de pausa consistente, vai ao microfone para falar) Não! Você está morto! Foi jogado ao mar como tantos companheiros! Mas porque isso é teatro eu consigo estar frente a frente com você, te abraçar e dizer: vamos encontrar o Miguel e começar tudo de novo. Eu poderei saber seu nome verdadeiro e revelar o meu! (Chico silencia) Eu não estou morta, Chico! Meus pais ainda me esperam com a mesa posta! Há um lugar para mim nas festas, minhas roupas ainda repousam no armário porque meu corpo não foi sepultado! (Chico a abraça. Ela repousa a cabeça em seu ombro, cansada. Desvencilha-se e tenta mais uma vez:) Eu estou viva! CHICO – (Depois de pausa, sereno) Você morreu na transferência para o hospital. Hemorragia, por isso não se lembra. Deram sumiço no corpo, como fizeram comigo. Agora você já sabe. Não precisa mais me procurar. DORA – (Ao microfone) Meus pais?... CHICO – Já partiram, sem saber de você. E Miguel já é um homem! Tenta provar que seus pais existiram um dia. Que um dia se amaram e que ele é fruto desse amor e não do ódio que matou tanta gente. Está difícil! Mas o importante é que ele está vivo! DORA – (Vitoriosa, ao microfone) Miguel está vivo! Então nós também estamos! CHICO – (Vai também ao microfone) Nós estamos vivos porque isso é teatro! Agora podemos ir. Vamos?
  • 20. Fé e Graça retornam à cena. Observam Dora, que olha para Chico e para elas, cúmplice. Amigas a abraçam. Os dois caminham em direção à proa, como noivos. Dora vira-se, acena o braço para as amigas. fé e Graça acenam em resposta. Todos cantam à capela, enquanto a cena se desfaz, como se tudo aquilo fosse teatro. Mas é Carnaval! Não me diga mais quem é você! Amanhã tudo volta ao normal. Deixa a festa acabar, Deixa o barco correr. Deixa o dia raiar, que hoje eu sou Da maneira que você me quer. O que você pedir eu lhe dou, Seja você quem for, Seja o que Deus quiser! Seja você quem for, Seja o que Deus quiser! Todas cantam e, a partir do Laraiá final, Chico, encaminha Dora para fora de cena. Fé também sai. Graça fica parada no meio da cena, de frente para o público. Cantoria termina. Atriz Anfitriã coloca-se ao lado de Graça, em silêncio, a olhar o horizonte. CENA 3 – VIDA NOVA Madrugada. Graça e Atriz Anfitriã fitam o horizonte/público. Não há aflição nem romantismo. Respiram profundamente. ATRIZ ANFITRIÃ – (Fala olhando para o público, mas dirigindo-se também a Graça na intenção, como a puxar conversa) Essa é a hora de que mais gosto. (Pausa) Madrugada. Silêncio. (Respira) A agitação do navio ficou para trás. À nossa frente o mistério do dia que vai nascer. (Graça não esboça reação. Dirige-se a ela) Não é bom? É como voltar ao palco depois do espetáculo terminado e constatar que o público se foi, mas seu espírito permanece. (Respira. Para Graça, com cautela) Em quê você está pensando?... GRAÇA – No cruzeiro do Roberto Carlos. ATRIZ ANFITRIÃ – (Com humor) Não acredito! GRAÇA – E na caipirinha, que eu tô pedindo desde o começo e ainda não veio! ATRIZ ANFITRIÃ – (Entra no jogo) Não seja por isso! (Chama um garçom imaginário, pega um copo imaginário e entrega a Graça) Aqui está! GRAÇA – (pega o copo, dá uma chacoalhada e bebe pelo canudinho. Estala a língua) Oh! Delícia! (Provocando Atriz Anfitriã) Agora me traz o Roberto. (Encontra algum rapaz na plateia e brinca) Você não quer ser o Roberto Carlos e cantar só pra mim, aqui? Qualquer música! Vem! Canta o calhambeque! (Ri, beberica de novo) Brincadeira. Só pra descontrair. Que agora chegou a minha vez de falar e eu tô fugindo da raia. ATRIZ ANFITRIÃ – A caipirinha vai ajudar. GRAÇA – Nada! Ajudaria se eu tivesse alguma coisa que presta pra dizer. (Bebe) Quem vai querer saber de uma dona de casa?! Vocês já viram alguma “do lar” nos livros?! A nossa vida se faz no pequeno, em
  • 21. tudo que não se nota. É costura de bainha, que fica escondida. É remendo pra disfarçar o que se rasgou: ninguém percebe. A nossa história é no miúdo que se faz, e a História importante, aquela que interessa, precisa é de grandezas! (Sorve o último gole, fazendo barulho. Devolve o copo) Obrigada. Tava uma delícia. Agora me deixa quieta. ATRIZ ANFITRIÃ - (Chama novamente o garçom e devolve-lhe o copo. Ao público) Não foi fácil convencê-la a mergulhar no passado. E se uma hora isso aconteceu, foi porque a neblina era tanta, que ela não percebeu e pulou. GRAÇA – (Ao público) Ah... essa serração... ATRIZ ANFITRIÃ – O que tem? Te lembra alguma coisa? GRAÇA – Se lembra? Ela me leva de volta à São Bernardo do Campo dos anos 60. (Fecha os olhos e visualiza) Uma névoa branquinha de manhã e no começo da noite. Aquele cheiro de mato. Era assim. (Abre os olhos) E a italianada?! Festa do vinho novo. Sardinha assada na brasa! (Sente o cheiro) Agora eu lembro! A serração trouxe de volta meu pai, calabrês, dono de olaria em São Bernardo e em Ribeirão Pires! Trouxe também minha mãe. ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) A mãe de Graça, dona Antonieta, tinha uma cabeça diferente das outras mães. GRAÇA – (Pegando o ritmo do jogo) Me colocou na escola! É! Fiz até o quarto ano num tempo em que menina não estudava! Eu ajudava ela em casa, me ensinou a cozinhar, a costurar – esse vestido fui eu que fiz! –, mas ela me deixava ler! Achava bonito! E eu lia tudo que me caía nas mãos, a Coleção Saraiva todinha! “Canta pra mim” ela pedia. (Cantarola) La festa è appena cominciata / È già finita / Il cielo non è piú con noi... (Emoção) Eu cantava... Minha mãe... ATRIZ ANFITRIÃ – (Ao público) Mocinha, Maria da Graça estudou na Escola João Ramalho! GRAÇA – Ainda está lá, na rua José Bonifácio! Ah! Eu também ia ao teatro, sabia? É! Meu irmão me levava pra assistir o Grupo Regina Pacis, o Teatro de Alumínio, em Santo André! Olha só do que me faz lembrar! ATRIZ ANFITRIÃ – (Tambores indicam certa tensão) E o casamento, Graça? GRAÇA – (Desce do tablado, fala ao público) Ah! Pra quê estragar a brincadeira? Tava tão bom! ATRIZ ANFITRIÃ – (Pede nova caipirinha ao garçom e estende para Graça) Nem com outra caipirinha? GRAÇA – (Sem pegar o copo, entra no jogo) Vocês tão vendo, né? Dessa vez não fui eu que pedi! (Ri. Pega o copo e triangula com o público) O duro é fingir que tem caipirinha, que tá uma delícia! (Bebe) Humm... ATRIZ ANFITRIÃ – Essa é de kiwi. GRAÇA – (Ri) Tô vendo... Mas tá com pouco gelo. (Oferece para alguém) Quer dar uma bicadinha? (Ri. Emenda a história, mais descontraída por causa da bebida) Vamo lá, vai! Daí que eu conheci o Tião, motorista da olaria e... na falta de coisa melhor, peguei gostar dele! Mentira! Era moço bom naquele tempo: congregado mariano, trabalhador. Um primo arranjou emprego pra ele na Volks: linha de produção. E assim foi... Casamos e eu esqueci dos meus sonhos de moça. ATRIZ ANFITRIÃ – (Tambores dão continuidade ao jogo de perguntas e respostas) Filhos! GRAÇA – (Bebe) Dois. Eu segui direitinho a cartilha, viu? Fui uma esposa fiel, dedicada, que acordava cedinho pra fazer a marmita, pra vestir os meninos pra escola. Economizei cada centavo pra gente sair do aluguel. Lavei roupa pra fora - água de poço, que naquela época era poço. Na feira, pegava as folhas de repolho que estavam jogadas e dizia que era pros coelhos. Que coelhos? Eram pra nós! Estive do lado dele na doença, na pobreza e quando a riqueza chegou... Ele ó!... (Bebe mais um gole, desce do tablado. Vai para perto do público. Fala como num desabafo para o público e para colega) Falar verdade? O Tião não era muito amigo do batente, não. Ele trabalhava, mas sabe quando a pessoa tá sempre precisando de um empurrão? De vez em quando queria faltar no serviço. Quando tinha greve, queria ficar em casa vendo televisão – a gente tinha comprado uma na Eletrorradiobrás. Queria ver luta livre, Bonanza, sabe como
  • 22. é? Queria ir pro bar. Era eu que falava: “Tião, se o camarada tá em greve, tem que ir pra assembleia, tem que fazer presença!”. Aí Tião ia, de burro amarrado. Eu mesma fui pra rua conseguir mantimento pro fundo de greve. (Ao microfone) “Oh, dona Maria, vamos colaborar! Amanhã é o seu filho que tá na fábrica!”. (Fora do microfone) Todo mundo queria ter o filho na Volks, na Mercedes. (Ao microfone) “Oh, dona Rosa, tem moço perdendo a juventude na fornalha! Vamos garantir a paralisação!” Graça está cansada, desanimada. Para de falar. Dá mais um gole e entrega o copo para a colega, que devolve ao garçom. GRAÇA – Teve caminhada das mulheres na greve? Eu tava lá! Aquela assembleia na matriz de São Bernardo? Fugi do tanque de guerra! Acho que eu fui em mais assembleia que ele, sabia? (Muda o tom) Era minha obrigação: apoiar. Se ele fosse demitido, contava comigo também! (Anunciando futura decepção) E eu esperava dele a mesma consideração, né?... É isso. E esse dia que não amanhece, hein?! ATRIZ ANFITRIÃ – Não vai amanhecer enquanto você não concluir essa história... GRAÇA – Já passou! Vamo olhar pra frente! ATRIZ ANFITRIÃ – O futuro não traz nada, Maria da Graça. A gente é que dá tudo a ele, até a nossa vida. (Pausa) Mas pra dar, é preciso ter; e nós não temos outra vida, outro sangue, outra história além da que herdamos do passado. Então... é preciso lembrar. (As duas se olham, cúmplices, por um tempo) Vamos! GRAÇA - (Ela compreende. Suspira) O Tião progrediu. Eu não. Porque eu tava sempre por trás: pra estudar no Projeto Minerva, depois o supletivo; ferramentaria no Senai. (Sobe no tablado) Começamos a engrenar. Construímos. Ele tirou um fusca e a gente ia pra Praia Grande nas férias! Quis ir pro sindicato, apoiei. Quando se aposentou e quis se candidatar a vereador, falei: “Vai. Se você acha que pode contribuir, vai!” “Você segura as pontas?” “Seguro! Num sempre segurei?!” Ajudei na campanha, o bicho foi eleito! E de repente a casa começa a encher de coisa: máquina de fazer pão, de fazer arroz, aparelho de som, uísque no lugar da cachaça... E eu só olhando. Até que um belo dia nosso compadre Jesuíno vem e fala: “o Tião tá recebendo dinheiro por fora na prefeitura, pra facilitar uns negócios”. “Verdade isso, Tião?”, perguntei. “Sei nada, não!”. “Mas se foi o compadre Jesuíno que falou!”. “Jesuíno tem inveja de mim”, Tião respondeu. E escuta só isso. (Fala com mais vagar pra deixar bem claro) “Tem inveja porque eu construí tudo isso sozinho e ele não tem um gato pra puxar pelo rabo”. (Pausa. Para a colega e o público) Você escutou? (Ao microfone, devagar) “Eu construí tudo isso sozinho!”. E agora? Que é que eu tô fazendo nessa história toda? Papel de boba! Eu nunca tive isso aqui de importância pra ele, como ele teve pra mim... História besta, né? Mas ó, tá cheio por aí. (Deixa o microfone) ATRIZ ANFITRIÃ – ‘tão separados? GRAÇA – ‘tamo. (à colega e ao público) Mas depois de quarenta anos juntos você não sabe mais quem você é. Eu só me conheço mãe, dona de casa. Quais os são os meus sonhos? Não sei! Eu sonhava junto. E agora? Preciso saber quem eu sou. ATRIZ ANFITRIÃ – Acho que precisa saber quem você era. Antes. (olha para Graça e sorri, enigmática.) Eu acho que nós podemos te ajudar! (Noutro tom, mais animada) Vamos lá! Se você morresse agora e só pudesse levar uma lembrança de sua juventude pra toda a eternidade. Qual seria? GRAÇA – Só uma? ATRIZ ANFITRIÃ – Feche os olhos e pense. (Faz sinal para que as atrizes entrem) Atriz carrega um vestido, figurino idêntico ao da atriz Sônia Guedes em Jorge Dandin, no Teatro de Alumínio, e o instala no meio da cena. Senta-se elegantemente perto dele. Outra atriz se aproxima. Veste um figurino igual ao de Graça, traz uma flor no cabelo. Ambas ficam paradas. GRAÇA – E agora?! (Tempo) Já sei! Já lembrei! Posso abrir os olhos?
  • 23. ATRIZ ANFITRIÃ – Pode. (Convida Graça a olhar para o tablado) GRAÇA – (Maravilhada) Como você conseguiu?! ATRIZ ANFITRIÃ – Isso é teatro! GRAÇA – (Deslumbrada) Sou eu! (Olha para Atriz Anfitriã, que incentiva-a a se aproximar. Graça toma coragem e vai) Sou eu! (Faz carinho em Fé/Graça, arruma a flor de seu cabelo) Aos 18 anos! (Coloca as mãos no próprio rosto como a conter o choro. Respira fundo.) Minha querida! (Abraça-a. Volta-se para o cenário) É o camarim. Do teatro de Alumínio! 1968. A sessão tinha terminado, eu tomei coragem e bati na porta. Meu coração queria sair pela boca. (Observa Dora, quieta em postura impecável de grande atriz. ATRIZ ANFITRIÃ convida Graça a se afastar. Ela obedece, encantada e as duas se postam para ver a cena.) GRAÇA JOVEM – Dona Sônia Guedes? Licença?... SONIA GUEDES – Pois não. Entre, menina! (Fé/Graça se aproxima um pouco, tímida) Não precisa ter vergonha. (Diante da timidez, provoca) Você gostou do nosso espetáculo? GRAÇA JOVEM– Muito... SÔNIA GUEDES – Que bom! A estreia é sempre mais difícil! Mas acho que conseguimos, não é? (Fé / Graça confirma) De quê você mais gostou? GRAÇA JOVEM – Não sei! É muito bonito! Movimentado! GRAÇA – (A Atriz Anfitriã) Era mesmo diferente de tudo que eu já tinha visto! Coisa acontecendo numa porção de lugares, gente jovem. Contagiava a gente, sabe? Aquilo era a vida viva no palco! GRAÇA JOVEM – (Sorri) É uma peça francesa, mas que fala daqui, de agora. SÔNIA GUEDES – Foi a Heleny Guariba, nossa diretora, quem fez isso. Trouxe Jorge Dandin de Molière para o Brasil de hoje! Escute o que eu digo: esse espetáculo vai ficar pra história – e nós também, que fizemos e que assistimos! (Riem de contentamento. Graça Jovem aprecia o vestido) Gostou do figurino? Pode olhar! GRAÇA JOVEM – (Examina-o) É uma beleza! Gosto muito de costurar: esse vestido fui eu que fiz! SÔNIA GUEDES – (Examina o vestido de Fé / Graça, faz com que ela dê uma rodadinha para observar melhor) Está perfeito! Parabéns! Que mãos talentosas você tem... GRAÇA JOVEM – Maria da Graça. SÔNIA GUEDES –E que belo nome! Posso te dar um presente, Maria da Graça? Fiquei tão feliz com a sua visita! (Pega um livro em suas coisas) Você gosta de ler? GRAÇA JOVEM – Muito! SÔNIA GUEDES – Eu também. E gosto de oferecer livros. Leio e ofereço. Aqui está: “Vida nova”, de Ivan Turgueniev. GRAÇA JOVEM – É da Coleção Saraiva! GRAÇA – (Exultante) Eu ainda tenho! SÔNIA GUEDES – E vai com uma dedicatória. (Pega uma caneta tinteiro e enuncia enquanto escreve) “Para a jovem Maria da Graça uma vida nova a partir da estreia de Jorge Dandin. Santo André, 7 de dezembro de 1968. Com o abraço da atriz Sônia Guedes”. Pronto. Aqui está. (Entrega o livro. Pega em suas mãos) E preste muita atenção: todos nós temos um talento, no mínimo! E é uma bênção quando conseguimos identificá-lo e tomar posse dele para toda a vida! (Pausa de timidez de Fé/Graça) O meu é a interpretação. Não consigo viver longe do palco. E o seu talento qual é? Algo me diz que ele está em suas mãos. GRAÇA JOVEM – Obrigada... Graça Jovem, Sonia Guedes e Atriz Anfitriã viram-se ritualmente para Graça. Sorriem. Pausa. Graça aproxima-se e abraça Sônia Guedes. Beija-lhe as mãos. Abraça Graça Jovem, ajeita-lhe o vestido e dá-lhe o braço. Descem as duas.
  • 24. GRAÇA – (Às amigas e ao público) Não vou esquecer! O futuro não existe por si mesmo, não é isso? Somos nós que o construímos com a nossa memória. Pois agora eu sei. É com essas mãos de costureira, com a herança da minha mãe e das fiandeiras que vieram antes dela que o meu futuro vai se dar! Que seja na bainha, no remendo ou na costura do dia a dia, não importa! Agora eu sei quem eu vou descer pela escadaria desse navio. Porque isso é teatro e porque acaba de amanhecer! As três, ao mesmo tempo, olham para o leste e sorriem. ATRIZ ANFITRIÃ – (Anuncia) O navio vai ancorar! Tambor anuncia a aproximação do porto, como fogos de artifício anunciam o ano novo. Atrizes acenam em direção ao público, felizes, saem ligeiras da área de representação. Levam os objetos da cena anterior. Atriz Anfitriã aproxima-se do público. CENA FINAL – CONFIO NOS FIOS QUE FIO NO MUNDO ATRIZ ANFITRIÃ - Senhoras e senhores, nosso destino é chegado! Faz de conta que esse lugar foi um navio e que estivemos todos sobre o mar! Juntos, no aqui e agora de um trajeto provisório. Mas que tenha sido intenso e nos habite que nos transforme e, no limite, fique para sempre na memória. Adentram à cena com seus instrumentos, as demais atrizes, enunciando já o seu texto. Mulheres Militantes ABC paulista Anos de chumbo. Fios de dor Fios de sofrimento Fios de luta. No enredo do tempo, com os fios da memória tecemos histórias –
  • 25. nós e vocês. TODAS - Porque somos o Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras! (Aqui sugiro um final mais condizente com a pesquisa musical do espetáculo, com os tambores e pandeiro, por exemplo, no lugar da canção do grupo OU a canção adaptada a esses instrumentos.) CANÇÃO DO GRUPO (autoria: Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras) No emaranhado desta cidade tecido crescente no meio fio desta rua urgente (clemente) Caminhando no buraco da calçada, vendo muita máquina, pouca gente poderia me confundir e parar de tecer, parar de tecer, parar de tecer...parar de torcer. Entre tantas teias de relações, fiando no mundo como orações. Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim. Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo. Fios e pontos e teias, desatando nó por nó Pontos de Fiandeiras não dão ponto sem nó Com fio me comprometo sem fio, me perco, me esqueço, quase desfaleço O fio me liga Fiando me alinho Pontos sozinhos vamos juntar, linha enroscada para desenroscar Aumentando a linha do encanto os fios da nossa história ligando para não se perder a memória. Venho fiando no mundo, fiando tanto fio sem fim. Fio o mundo enfim, confio nos fios que fio no mundo. FIM