AS MENINAS De Lígia Fagundes Teles. Por Nilza Carolina Suzin Cercato
EPÍGRAFE Ana Clara, não envesga! – disse a irmã Clotilde na hora de bater a foto. Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. E não faça careta, Lorena, você  está fazendo careta! A pirâmide.
A AUTORA   “ Meu nome é Ligia Fagundes Teles . Nasci em São Paulo a 19  de abril de 1923, e faço parte do Modernismo.  Meu pai chamava-se Dr. Durval de Azevedo Fagundes. Era delegado e promotor e por esse motivo posso dizer vivi minha infância em várias cidades, já que, quando pequena, viajei para muitos lugares do interior de São Paulo. Minha mãe  chamava-se Dona Maria do Rosário de Azevedo Fagundes – Zazita , e ela era pianista.  Fiz faculdade de Direito e de Educação Física, mas a carreira que segui foi de prosadora. Desde pequena escrevo vários contos. Minha estréia, na literatura, deu-se em 1944, com o volume de contos  Praia viva , e foi com esta obra que me tornei conhecida.  Minhas principais obras são  Venha ver o pôr-do-sol ,  Praia Viva  e  As Meninas.   Em 1981, quando tinha 58 anos, fui eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e em 24 de outubro de 1985 fui eleita para a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga de Pedro Calmon. Em 1991 aposentei-me como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo."  Lígia Fagundes Teles foi laureada com o prêmio Camões, em 2005.  
AS MENINAS Romance complexo, em doze capítulos  Enredo marcado por vários narradores A trama psicológica se desdobra em ação e subjetividade Romance escrito em 1973, está contextualizado no Brasil da ditadura militar, do presidente Médici Tempo do silêncio e da censura.
ENREDO A trama gira em torno de três moças, universitárias que, para poder estudar, estão morando num pensionato de religiosas, no Rio de Janeiro.  Com a finalidade de proteger as moças, esse pensionato pretende defendê-las do mundo que as cerca. No entanto, ele não é um casulo intocável, pois está exposto aos dramas do período: medo, política, sexo e drogas. As três são amigas, mas principalmente, são pessoas que vivem no mesmo tempo e lugar. A trama conta a história das três moças: Lia, Ana Clara e Lorena.
LIA (LIÃO) MELO SCHULTZ Baiana, filha de uma baiana e um alemão, ex-nazista. É a guerrilheira do grupo. Envolve-se em lutas contra a ditadura, tem seu namorado preso (Miguel).  Por ele, não receia em se expor, mas sempre que há riscos corre para Lorena. A amiga de todas as horas.  Através do monólogo interior, num fluxo de consciência vertiginoso, ela reproduz a tortura e as prisões ocorridas com seus amigos. Tem medo de ser presa, mas não esconde de seus pais, que estão na Bahia, a situação que vive. No final do romance, quando o namorado vai ser libertado, ela se prepara para ir para a Argélia, a fim de escapar da prisão. Quem ajuda na compra da passagem e com roupas é Lorena e a “mãezinha”.
LIA (LIÃO) Pelas amigas e por ela mesma ficamos sabendo que ela é alta, forte, cabeleria farta, que precisava ser contida, segundo Lorena, padrão afro  . É estudante universitária, mas no momento trancou o semestre, além do mais a faculdade está em greve. Inteligente, brilhante mesmo, lê Marx, Sartre, Simone de Bouvoir, Lacan sabe citar frases significativas em latim. Fuma muito, troca pouco de roupas, aliás tem poucas roupas, parece que só come quando visita Lorena. É capaz de analisar a personalidade das pessoas, e conhece os segredos das amigas. Não conta onde se encontram seus amigos revolucionários que se escondem em lugares fétidos, deprimentes. Seu codinome é Rosa. Decidida em todos os atos, é ela quem escolheu quem seria o homem de “sua primeira vez”, sem sentimentalismo, mas inteligentemente, o que merece crítica de Lorena
ANA CLARA É mais frágil das três. Lorena a acha linda, perfeita.  Drogada, prostituída, foi violentada pelo dentista (Dr Algodãozinho), maltratada pelos amantes da mãe. É amante de Max, um traficante e drogado como ela, mas está noiva de um homem rico, industrial a quem chama de “escamoso”. Vive sonhando com um mundo imaginário, no qual é rica, tem muitos vestidos, roupas sofisticadas, e é tratada como uma princesa pelo marido rico.  Não consegue esconder as marcas do vício, tem os braços picados e quando sai do pensionato se encontra com Max, vive momentos de alucinação. Costuma inventar uma família, não sabe quem é o pai, pensa em comprar uma certidão nova, com nome de pai, mãe nobres, quer ter muito dinheiro, pensa que com dinheiro tudo se resolve. É estudante de psicologia e abandonou o semestre.
ANA CLARA CONCEIÇÃO  (ANA TURVA) A mãe se suicidou, depois de ter sido maltratada pelo amante, quando lhe diz que está grávida.  Subentende-se que o “escamoso” é quem paga  o pensionato.  Ela fica grávida de Max, quer fazer o aborto e depois uma vaginoplastia, uma vez que, para o noivo, ela é virgem, pura, sem nunca ter conhecido homem algum. Em determinados momentos da narrativa, parece que esse noivo só existe na imaginação, pois nunca, ninguém o viu. Quando fala, costuma não terminar as frases, por exemplo: “Mas se é agora que eu.” “Não fico sentimental só porque ela.” Recebe apoio da Madre Alix, psicanalista com que ela se trata, depois de ter passado por outros, que se aproveitaram dela. Numa noite, chega ao quarto de Lorena, suja de barro e sangue, cheia de hematomas no peito, nos braços, meio inconsciente. Lorena prepara a banheira com sais, dá um banho nela, coloca seu robe vermelho e a deixa deitada descansando.
ANA TURVA Lorena sai para conversar com Lia, quando volta constata que Aninha está morta. Lorena veste Aninha com um lindo vestido preto, faz a maquiagem que costumava fazer quando Ana estava muito trêmula, devido às drogas.  Lorena chama por Lia e decide que Ana não pode aparecer morta no pensionato Nossa Senhora de Fátima. Isso seria uma injustiça com a Madre Alix que tratara Ana com todo carinho. Ana, drogada, morta no pensionato, seria um escândalo e uma humilhação para as freiras tão bondosas com ela. Decidem, então, levar Ana para a praça, e deixá-la com identidade, e carteirinha de estudante para ser logo identificada.
MAX Namorado de Ana Clara, vive drogado e vendendo drogas até para crianças. Vem de uma família abastada que perdeu os bens A irmã “Duchinha” está num sanatório Ana dá valor a ele por ser loiro, bonito Acha que Ana será sempre dele, mesmo se casando com “escamoso” Quando Ana lhe diz que está grávida, ele diz que deseja ter o filho.
LORENA VAZ LEME Personagem que centraliza a narrativa Filha de uma família riquíssima. O pai morreu e a mãe está vivendo com um homem mais jovem, cujo apelido é Mieux (en faute de mieux) No pensionato, o quarto dela era o apartamento do antigo motorista. A mãe reforma tudo para que a filha se sinta confortável. Faz isso porque tem remorso pelo fato de a filha não morar na casa luxuosa em que vive com Mieux
LORENA Das três é virgem. Sonha com Marcus Nemesius (MN) que ela chama pelas iniciais somente.  Vive à espera de um telefonema dele Apóia as amigas com dinheiro, com alimentação, oferece segurança a elas a qualquer hora. Há um drama em sua vida. Tinha dois irmãos: Rômulo e Remo. Por acidente, numa brincadeira, Remo atira com espingarda em Rômulo e o mata. Remo é diplomata em Tunis e sempre manda presentes caros e especiais para Lorena. Tem uma Gata e um gato chamado Astronauta, este vive saindo à noite até o dia que não volta. Mas Lorena espera por ele
LORENA Convive com as freiras, a quem coloca apelidos conforme as manias delas. Tem a superstição de que se deve falar as palavras ao contrário para dar sorte. Oriehnid. Raza. Usa a expressão: Ai meu pai! seguidamente. Lê tudo sobre Che Guevara que é seu ídolo. Ouve música clássica e gosta de Jazz. Sempre que pode coloca o disco de Jimi Hendrix. As amigas sabem que podem contar com ela, e ela é generosa oferecendo a banheira cor-de-rosa, a geladeira repleta, roupas que sirvam nas amigas. Gosta de vestir blusas largas, calças de malha justas. Muito magra, miúda, Lia diz que ela parece um inseto.
LORENA No dia em que Ana Turva a procurou, suja de sangue e lama, drogada, Lorena dá um banho, coloca na cama. Ao vê-la morta, faz um ritual de entregar a alma de Ana e toma todas as providências para que a imprensa não envolva o pensionato em escândalo. Até o final do romance, MN não a procurou mais.  Ela cursa a faculdade de Direito. Na véspera da morte de Ana a greve acabou e ela terá prova no dia seguinte. Mesmo assim, as amigas vêm em primeiro lugar.
MARCUS NEMESIUS Pretenso namorado de Lorena. Tem esse nome porque o pai era latinista É casado e tem cinco filhos Há um encantamento entre Lorena e ele, mas num bilhete ele lhe diz para não procurá-lo, porque jamais deixará a família  Não deseja se envolver com Lorena, no bilhete escreve que vai telefonar Não aparece. Lorena não se envolve com outros, mesmo jovens como Fabrizio que tenta ter uma relação com ela.
A MÃEZINHA Assim é chamada a mãe de Lorena. Depois da morte do pai, vende a fazenda em que viviam e vai para a cidade Vive com Mieux, que gasta sua fortuna Faz inúmeras plásticas para esconder a idade Apagou da mente o modo como se deu a morte do filho Rômulo.  Conta a todos que, quando bebê, Rômulo teve uma febre muito forte, uma doença que os médicos não diagnosticaram e ele faleceu poucos meses depois de nascido. Ao afastar a filha de seu convívio, tenta compensar dando-lhe de tudo.
A MÃEZINHA Lorena tem carro, mas ela empresta um dos dela. Com esse carro, Lia ajuda os revolucionários. Dá roupas para Lia fugir com Miguel para Argélia. No final, Mieux a abandona e ela vai pedir à filha que volte para casa. O quarto de Lorena ficará para uma nova pensionista que vem do Pará.
AS FREIRAS – Madre Alix Madre Alix: psicanalista é vista como uma santa por Lorena; Ana desejava ter uma avó como ela; Lia confia nela, espera que não a denuncie. É uma personagem que é mais falada do que fala. Tem a admiração de todos os envolvidos na narrativa Nos depoimentos das meninas, ela merece o maior respeito
AS FREIRAS – Irmã Bula Tem esse nome porque vive com os bolsos cheio de bulas de remédio, ervas medicinais É idosa, as meninas riem dela, em especial pelos comentários que faz sobre sexo. Escreve cartas anônimas denunciando pessoas. Lorena teme que ela denuncie Lia.
AS FREIRAS – Irmã Clotilde Gosta das meninas. Procura um meio de ajudá-las, leva frutas... É ela quem tira a foto das três quando reunidas. Lorena acha que ela tem uma história no passado. Deseja ser santa, na infância queria ser como Santa Teresinha do Menino Jesus, mais tarde queria ser como Santa Teresa d’Avila. Reconhece que não tem a inocência da primeira nem a inteligência da segunda.
OS NARRADORES Há um narrador onisciente que se imiscui na narrativa das meninas Cada uma das três é narradora também.  O fluxo da consciência é constante Cada capítulo se inicia com uma das meninas sendo narradora. No meio da narração o narrador onisciente se manifesta. Os fatos da vida de cada uma delas vêm do fluxo da consciência. O narrador onisciente interfere quando há diálogo entre as meninas.
TRECHOS – TEXTO 01 Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das putas, o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei agüentar sofrimento dos outros, entende. O seu sofrimento, Miguel. O meu agüentaria bem.[...] Estamos morrendo. Nunca  o povo esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva. O povo tem medo, ah! Como o povo tem medo. A burguesia fica aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com maçanetas de ouro[...] Não sei explicar, mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara. Ô Miguel, Precisava de você, mas não choro. Não tenho lenço, Lorena não acharia fino limpar meu nariz na fralda da camisa. (p. 15)
TEXTO 02 Bossa escapamento aberto. Nesse ponto os bichos são tão mais bacanas, nunca vi Astronauta se assoar em público. Buracos demais, secreções demais. Ai meu Pai.[...] “Mais vinho, Lião?” O vinho ela aceita. Também aceita lagosta, fala lagostim. Mas precisa lembrar a estatística das criancinhas morrendo de fome no Nordeste, esse assunto de Nordeste ás vezes exorbita. Não sei até quando a gente vai ter que carregar esse povo nas costas, horrível pensar isso agora, mas já pensei e estou pensando ainda que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
TEXTO 3 Fico olhando Max. Dormiu feliz segurando o pinto. E tem coisa melhor pra segurar? Muito lindo o meu amor. Não fico sentimental porque ela. Não quero botar a culpa em ninguém não vou ficar o resto da vida acusando mas. Os tipos nojentos que ela levava pra cama. Uma sorte não levar negro. Devia ter alguma coisa contra negro. Vi de tudo menos negro. O Jorge tinha aquele cabelo duro, usava touca de meia. Mas era branco lá à moda dele. Como os outros.  “Seu tipo é de italiano, você descende de italianos? Perguntou Lorena”. O escamoso perguntou igual. De italiano não, de francês. Podre de chique descender de francês. Meu pai era francês. Jean Pierre Lariboisière. Sei lá, na hora decido, meto o nome que entender.

As Maninas

  • 1.
    AS MENINAS DeLígia Fagundes Teles. Por Nilza Carolina Suzin Cercato
  • 2.
    EPÍGRAFE Ana Clara,não envesga! – disse a irmã Clotilde na hora de bater a foto. Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. E não faça careta, Lorena, você está fazendo careta! A pirâmide.
  • 3.
    A AUTORA  “ Meu nome é Ligia Fagundes Teles . Nasci em São Paulo a 19 de abril de 1923, e faço parte do Modernismo.  Meu pai chamava-se Dr. Durval de Azevedo Fagundes. Era delegado e promotor e por esse motivo posso dizer vivi minha infância em várias cidades, já que, quando pequena, viajei para muitos lugares do interior de São Paulo. Minha mãe chamava-se Dona Maria do Rosário de Azevedo Fagundes – Zazita , e ela era pianista.  Fiz faculdade de Direito e de Educação Física, mas a carreira que segui foi de prosadora. Desde pequena escrevo vários contos. Minha estréia, na literatura, deu-se em 1944, com o volume de contos Praia viva , e foi com esta obra que me tornei conhecida. Minhas principais obras são Venha ver o pôr-do-sol , Praia Viva e As Meninas.   Em 1981, quando tinha 58 anos, fui eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e em 24 de outubro de 1985 fui eleita para a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga de Pedro Calmon. Em 1991 aposentei-me como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo."  Lígia Fagundes Teles foi laureada com o prêmio Camões, em 2005.  
  • 4.
    AS MENINAS Romancecomplexo, em doze capítulos Enredo marcado por vários narradores A trama psicológica se desdobra em ação e subjetividade Romance escrito em 1973, está contextualizado no Brasil da ditadura militar, do presidente Médici Tempo do silêncio e da censura.
  • 5.
    ENREDO A tramagira em torno de três moças, universitárias que, para poder estudar, estão morando num pensionato de religiosas, no Rio de Janeiro. Com a finalidade de proteger as moças, esse pensionato pretende defendê-las do mundo que as cerca. No entanto, ele não é um casulo intocável, pois está exposto aos dramas do período: medo, política, sexo e drogas. As três são amigas, mas principalmente, são pessoas que vivem no mesmo tempo e lugar. A trama conta a história das três moças: Lia, Ana Clara e Lorena.
  • 6.
    LIA (LIÃO) MELOSCHULTZ Baiana, filha de uma baiana e um alemão, ex-nazista. É a guerrilheira do grupo. Envolve-se em lutas contra a ditadura, tem seu namorado preso (Miguel). Por ele, não receia em se expor, mas sempre que há riscos corre para Lorena. A amiga de todas as horas. Através do monólogo interior, num fluxo de consciência vertiginoso, ela reproduz a tortura e as prisões ocorridas com seus amigos. Tem medo de ser presa, mas não esconde de seus pais, que estão na Bahia, a situação que vive. No final do romance, quando o namorado vai ser libertado, ela se prepara para ir para a Argélia, a fim de escapar da prisão. Quem ajuda na compra da passagem e com roupas é Lorena e a “mãezinha”.
  • 7.
    LIA (LIÃO) Pelasamigas e por ela mesma ficamos sabendo que ela é alta, forte, cabeleria farta, que precisava ser contida, segundo Lorena, padrão afro . É estudante universitária, mas no momento trancou o semestre, além do mais a faculdade está em greve. Inteligente, brilhante mesmo, lê Marx, Sartre, Simone de Bouvoir, Lacan sabe citar frases significativas em latim. Fuma muito, troca pouco de roupas, aliás tem poucas roupas, parece que só come quando visita Lorena. É capaz de analisar a personalidade das pessoas, e conhece os segredos das amigas. Não conta onde se encontram seus amigos revolucionários que se escondem em lugares fétidos, deprimentes. Seu codinome é Rosa. Decidida em todos os atos, é ela quem escolheu quem seria o homem de “sua primeira vez”, sem sentimentalismo, mas inteligentemente, o que merece crítica de Lorena
  • 8.
    ANA CLARA Émais frágil das três. Lorena a acha linda, perfeita. Drogada, prostituída, foi violentada pelo dentista (Dr Algodãozinho), maltratada pelos amantes da mãe. É amante de Max, um traficante e drogado como ela, mas está noiva de um homem rico, industrial a quem chama de “escamoso”. Vive sonhando com um mundo imaginário, no qual é rica, tem muitos vestidos, roupas sofisticadas, e é tratada como uma princesa pelo marido rico. Não consegue esconder as marcas do vício, tem os braços picados e quando sai do pensionato se encontra com Max, vive momentos de alucinação. Costuma inventar uma família, não sabe quem é o pai, pensa em comprar uma certidão nova, com nome de pai, mãe nobres, quer ter muito dinheiro, pensa que com dinheiro tudo se resolve. É estudante de psicologia e abandonou o semestre.
  • 9.
    ANA CLARA CONCEIÇÃO (ANA TURVA) A mãe se suicidou, depois de ter sido maltratada pelo amante, quando lhe diz que está grávida. Subentende-se que o “escamoso” é quem paga o pensionato. Ela fica grávida de Max, quer fazer o aborto e depois uma vaginoplastia, uma vez que, para o noivo, ela é virgem, pura, sem nunca ter conhecido homem algum. Em determinados momentos da narrativa, parece que esse noivo só existe na imaginação, pois nunca, ninguém o viu. Quando fala, costuma não terminar as frases, por exemplo: “Mas se é agora que eu.” “Não fico sentimental só porque ela.” Recebe apoio da Madre Alix, psicanalista com que ela se trata, depois de ter passado por outros, que se aproveitaram dela. Numa noite, chega ao quarto de Lorena, suja de barro e sangue, cheia de hematomas no peito, nos braços, meio inconsciente. Lorena prepara a banheira com sais, dá um banho nela, coloca seu robe vermelho e a deixa deitada descansando.
  • 10.
    ANA TURVA Lorenasai para conversar com Lia, quando volta constata que Aninha está morta. Lorena veste Aninha com um lindo vestido preto, faz a maquiagem que costumava fazer quando Ana estava muito trêmula, devido às drogas. Lorena chama por Lia e decide que Ana não pode aparecer morta no pensionato Nossa Senhora de Fátima. Isso seria uma injustiça com a Madre Alix que tratara Ana com todo carinho. Ana, drogada, morta no pensionato, seria um escândalo e uma humilhação para as freiras tão bondosas com ela. Decidem, então, levar Ana para a praça, e deixá-la com identidade, e carteirinha de estudante para ser logo identificada.
  • 11.
    MAX Namorado deAna Clara, vive drogado e vendendo drogas até para crianças. Vem de uma família abastada que perdeu os bens A irmã “Duchinha” está num sanatório Ana dá valor a ele por ser loiro, bonito Acha que Ana será sempre dele, mesmo se casando com “escamoso” Quando Ana lhe diz que está grávida, ele diz que deseja ter o filho.
  • 12.
    LORENA VAZ LEMEPersonagem que centraliza a narrativa Filha de uma família riquíssima. O pai morreu e a mãe está vivendo com um homem mais jovem, cujo apelido é Mieux (en faute de mieux) No pensionato, o quarto dela era o apartamento do antigo motorista. A mãe reforma tudo para que a filha se sinta confortável. Faz isso porque tem remorso pelo fato de a filha não morar na casa luxuosa em que vive com Mieux
  • 13.
    LORENA Das trêsé virgem. Sonha com Marcus Nemesius (MN) que ela chama pelas iniciais somente. Vive à espera de um telefonema dele Apóia as amigas com dinheiro, com alimentação, oferece segurança a elas a qualquer hora. Há um drama em sua vida. Tinha dois irmãos: Rômulo e Remo. Por acidente, numa brincadeira, Remo atira com espingarda em Rômulo e o mata. Remo é diplomata em Tunis e sempre manda presentes caros e especiais para Lorena. Tem uma Gata e um gato chamado Astronauta, este vive saindo à noite até o dia que não volta. Mas Lorena espera por ele
  • 14.
    LORENA Convive comas freiras, a quem coloca apelidos conforme as manias delas. Tem a superstição de que se deve falar as palavras ao contrário para dar sorte. Oriehnid. Raza. Usa a expressão: Ai meu pai! seguidamente. Lê tudo sobre Che Guevara que é seu ídolo. Ouve música clássica e gosta de Jazz. Sempre que pode coloca o disco de Jimi Hendrix. As amigas sabem que podem contar com ela, e ela é generosa oferecendo a banheira cor-de-rosa, a geladeira repleta, roupas que sirvam nas amigas. Gosta de vestir blusas largas, calças de malha justas. Muito magra, miúda, Lia diz que ela parece um inseto.
  • 15.
    LORENA No diaem que Ana Turva a procurou, suja de sangue e lama, drogada, Lorena dá um banho, coloca na cama. Ao vê-la morta, faz um ritual de entregar a alma de Ana e toma todas as providências para que a imprensa não envolva o pensionato em escândalo. Até o final do romance, MN não a procurou mais. Ela cursa a faculdade de Direito. Na véspera da morte de Ana a greve acabou e ela terá prova no dia seguinte. Mesmo assim, as amigas vêm em primeiro lugar.
  • 16.
    MARCUS NEMESIUS Pretensonamorado de Lorena. Tem esse nome porque o pai era latinista É casado e tem cinco filhos Há um encantamento entre Lorena e ele, mas num bilhete ele lhe diz para não procurá-lo, porque jamais deixará a família Não deseja se envolver com Lorena, no bilhete escreve que vai telefonar Não aparece. Lorena não se envolve com outros, mesmo jovens como Fabrizio que tenta ter uma relação com ela.
  • 17.
    A MÃEZINHA Assimé chamada a mãe de Lorena. Depois da morte do pai, vende a fazenda em que viviam e vai para a cidade Vive com Mieux, que gasta sua fortuna Faz inúmeras plásticas para esconder a idade Apagou da mente o modo como se deu a morte do filho Rômulo. Conta a todos que, quando bebê, Rômulo teve uma febre muito forte, uma doença que os médicos não diagnosticaram e ele faleceu poucos meses depois de nascido. Ao afastar a filha de seu convívio, tenta compensar dando-lhe de tudo.
  • 18.
    A MÃEZINHA Lorenatem carro, mas ela empresta um dos dela. Com esse carro, Lia ajuda os revolucionários. Dá roupas para Lia fugir com Miguel para Argélia. No final, Mieux a abandona e ela vai pedir à filha que volte para casa. O quarto de Lorena ficará para uma nova pensionista que vem do Pará.
  • 19.
    AS FREIRAS –Madre Alix Madre Alix: psicanalista é vista como uma santa por Lorena; Ana desejava ter uma avó como ela; Lia confia nela, espera que não a denuncie. É uma personagem que é mais falada do que fala. Tem a admiração de todos os envolvidos na narrativa Nos depoimentos das meninas, ela merece o maior respeito
  • 20.
    AS FREIRAS –Irmã Bula Tem esse nome porque vive com os bolsos cheio de bulas de remédio, ervas medicinais É idosa, as meninas riem dela, em especial pelos comentários que faz sobre sexo. Escreve cartas anônimas denunciando pessoas. Lorena teme que ela denuncie Lia.
  • 21.
    AS FREIRAS –Irmã Clotilde Gosta das meninas. Procura um meio de ajudá-las, leva frutas... É ela quem tira a foto das três quando reunidas. Lorena acha que ela tem uma história no passado. Deseja ser santa, na infância queria ser como Santa Teresinha do Menino Jesus, mais tarde queria ser como Santa Teresa d’Avila. Reconhece que não tem a inocência da primeira nem a inteligência da segunda.
  • 22.
    OS NARRADORES Háum narrador onisciente que se imiscui na narrativa das meninas Cada uma das três é narradora também. O fluxo da consciência é constante Cada capítulo se inicia com uma das meninas sendo narradora. No meio da narração o narrador onisciente se manifesta. Os fatos da vida de cada uma delas vêm do fluxo da consciência. O narrador onisciente interfere quando há diálogo entre as meninas.
  • 23.
    TRECHOS – TEXTO01 Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das putas, o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei agüentar sofrimento dos outros, entende. O seu sofrimento, Miguel. O meu agüentaria bem.[...] Estamos morrendo. Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva. O povo tem medo, ah! Como o povo tem medo. A burguesia fica aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com maçanetas de ouro[...] Não sei explicar, mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara. Ô Miguel, Precisava de você, mas não choro. Não tenho lenço, Lorena não acharia fino limpar meu nariz na fralda da camisa. (p. 15)
  • 24.
    TEXTO 02 Bossaescapamento aberto. Nesse ponto os bichos são tão mais bacanas, nunca vi Astronauta se assoar em público. Buracos demais, secreções demais. Ai meu Pai.[...] “Mais vinho, Lião?” O vinho ela aceita. Também aceita lagosta, fala lagostim. Mas precisa lembrar a estatística das criancinhas morrendo de fome no Nordeste, esse assunto de Nordeste ás vezes exorbita. Não sei até quando a gente vai ter que carregar esse povo nas costas, horrível pensar isso agora, mas já pensei e estou pensando ainda que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
  • 25.
    TEXTO 3 Ficoolhando Max. Dormiu feliz segurando o pinto. E tem coisa melhor pra segurar? Muito lindo o meu amor. Não fico sentimental porque ela. Não quero botar a culpa em ninguém não vou ficar o resto da vida acusando mas. Os tipos nojentos que ela levava pra cama. Uma sorte não levar negro. Devia ter alguma coisa contra negro. Vi de tudo menos negro. O Jorge tinha aquele cabelo duro, usava touca de meia. Mas era branco lá à moda dele. Como os outros. “Seu tipo é de italiano, você descende de italianos? Perguntou Lorena”. O escamoso perguntou igual. De italiano não, de francês. Podre de chique descender de francês. Meu pai era francês. Jean Pierre Lariboisière. Sei lá, na hora decido, meto o nome que entender.