III Conferência de Políticas para as Mulheres
         Propostas e questões para o debate
III Conferência de Políticas para as Mulheres
         Propostas e questões para o debate




       Brasília, dezembro de 2011
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
Índice
Apresentação _______________________________________ 7

ContextuALIzAção
Discussão 1
É tão mais complexo o que a gente está vivendo hoje _______ 11
Discussão 2
Conjunturas internacional e nacional e as mulheres_________ 15


PoPostAs De PoLítICAs

Enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia __________ 25

Autonomia Econômica e Social ________________________ 26

Educação, Cultura e Comunicação _____________________ 28

Saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos ___ 30

Enfrentamento a todas as formas de violência
contra as mulheres __________________________________ 31

Autonomia política, institucionalização e financiamento
de políticas públicas para as mulheres ___________________ 33


DoCuMentos De PosIção

Carta à presidenta __________________________________ 37

Contribuições ao Plano Plurianual do governo federal
para o período 2012-2015 ___________________________ 41

Carta Política do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências
entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania
Alimentar, Economia Solidária e Feminismo ______________ 43
ContrIbuIções Ao DebAte

Saúde pública em mãos privadas:
para onde vai o SUS no governo Dilma? __________________ 55

Política Nacional de Atenção Integral à
Saúde da Mulher – PNAISM ________________________ 57

Mulheres e poder: ampliar a participação
para garantir direitos ______________________________ 59

Lutas feministas antipatriarcais, antirracistas
e anticapitalistas – A luta feminista da AMB_____________ 63
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                             Apresentação

     O espaço das Conferências de            Conferências e publica esta revista para
Políticas é para nós da Articulação de       a Conferência Nacional. Este número
Mulheres Brasileiras (AMB) não ape-          traz uma inovação em relação aos
nas o lugar de construção e negociação       outros, mas mantém a linha editorial
de políticas públicas entre governos e       de apresentar na forma de textos as
sociedade, mas também um espaço              discussões que viemos acumulando no
legítimo de interlocução crítica entre       processo de preparação da Conferência
mulheres feministas e destas com os          e em nossos próprios fóruns de debate
governos sobre as políticas realmente        feminista e nos movimentos sociais.
existentes, seus efeitos e impactos posi-         A revista apresenta inicialmente
tivos e negativos na vida das mulheres.      dois textos de Contextualização desta
     Para nós, as Conferências são tam-      Conferência. Na segunda parte conso-
bém um processo político por meio do         lida e apresenta as Propostas de Políti-
qual organizamos e negociamos com            cas para vários eixos do Plano Nacional
outras mulheres, de diversas organiza-       de Políticas para as Mulheres – PNPM.
ções sociais e movimentos de mulheres,       Na terceira parte apresenta Documen-
nossas demandas e prioridades frente         tos de Posição dos quais somos autoras
à responsabilidade dos governos para         e signatárias e que foram produzidos ao
com a redução das desigualdades.             longo deste primeiro ano do governo
     Dada a importância que con-             Dilma. E por fim traz alguns textos de
ferimos às Conferências para a luta          Contribuição aos Debates, também
feminista nas políticas públicas, reco-      produzidos por integrantes e militantes
nhecemos que precisamos refletir mais        da AMB, como contribuição ao debate
sobre os limites destes espaços, os riscos   de temas relevantes para a conjuntura
de burocratização do movimento e de          em que se realiza esta III CNPM. Entre
perda de sentido de ação contra hege-        estes textos estão alguns dos indicativos
mônica. Contudo, frente o cotidiano          do II Encontro Nacional da AMB, uma
de desigualdades, de raça, gênero, clas-     contribuição de quase 900 mulheres
se, que se concretizam em cada uma das       que ali estavam presentes.
vidas das mulheres, insistimos, mais              Esperamos que esta revista seja
uma vez, e ainda esta vez, em atuar em       um instrumento útil nos trabalhos de
defesa das mulheres na Conferência           grupos e plenárias, na negociação e in-
Nacional de Políticas para as Mulheres.      terlocução da AMB com as delegadas
     Desde 2004, quando aconteceu            de organizações de mulheres e dele-
a I CNPM, a AMB edita documen-               gadas governamentais da III CNPM.
tos de debate e orientação para ação              Contamos que a leitura contribuirá
nas etapas municipais e estaduais das        com nossa formação política feminista.

                                                                                         7
ContextuAlizAção
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
DiSCuSSão
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             É tão mais complexo o que a
                gente está vivendo hoje
                                   Silvia Camurça




     Não faz muito tempo estávamos          prevaleceu no plenário, e estávamos
todas nós inaugurando uma nova ex-          num contexto favorável.
periência de participação com a I Con-           Conseguimos, aprovar uma con-
ferência de Políticas para as Mulheres.     cepção do que são políticas para as
Éramos muitas dos movimentos de             mulheres, fixando a ideia de que são as
mulheres, algumas mulheres feminis-         políticas orientadas à promoção da au-
tas em espaços de gestão nos estados e      tonomia. Aprovamos princípios e dire-
muitas mulheres chegando ao debate          trizes importantes, como a laicidade do
sem entender direito do que se tratava.     Estado, a universalização das políticas
     Naquele ano de 2004, não sabía-        com políticas afirmativas. E afirmamos
mos com segurança por onde seguir.          a relevância de ter orçamento e meca-
Algumas de nós já tinha experiência e       nismos executivos de políticas para as
atuação em Conferências de Saúde e          mulheres, Conferências e Conselhos
de Assistência Social, mas “nunca antes     nos três níveis de governo.
da história deste país”, nós ou os gover-        Ali, em 2004, estávamos sob
nos, havíamos feito algo parecido com       efeito positivo da criação da Secretaria
aquela Conferência: juntar, no Plano        de Políticas para as Mulheres – SPM
Nacional, as mais diversas expressões       com status de Ministério, orçamento
políticas de governos e movimentos          próprio e com vinculação direta à Pre-
sociais para construir diretrizes de uma    sidência da República. Conquistamos
Política Nacional para as Mulheres.         a almejada reformulação do CNDM,
     Na primeira Conferência, nosso         que passou a ter representantes de mo-
objetivo principal foi aprovar uma          vimentos sociais eleitos por seus pares,
orientação feminista para as dire-          ao invés de escolhidos pela presidência.
trizes da Política Nacional para as              Hoje, a conjuntura em que acon-
Mulheres no que fomos relativamente         tece esta III CNPM é outra. Estamos
bem sucedidas. Houve aliança entre          em meio ao agravamento da crise in-
movimentos de mulheres de orien-            ternacional do sistema capitalista, crise
tação feminista, força política que         em nome da qual cortam-se direitos


                                                                                        11
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           sociais ameaçando ao sistemas uni-          recolocam ênfase na maternidade e
                                                           versais de seguridade social dos países     não nas mulheres, com uma força na
                                                           europeus, enquanto nós estamos aqui         abordagem materno-infantil que não
                                                           querendo universalizar e expandir o         víamos há muitos anos.
                                                           acesso a direitos.                               A proposta de políticas para as
                                                                Estamos às vésperas da anuncia-        mulheres era uma novidade em 2004
                                                           da primeira reforma ministerial do          para a maior parte dos municípios e
                                                           Governo Dilma, com propostas e              estados, enquanto hoje o potencial
                                                           “senões” sendo colocado no debate           eleitoreiro da massa de mulheres
                                                           para justificar propostas de rebai-         que as Conferências convocam já
                                                           xamento do status das secretarias           foi percebido e é agora explorado
                                                           especiais, inclusive do Ministério da       por muito setores da política. A
                                                           Mulher/SPM. Além do mais, os cortes         orientação feminista para as políticas
                                                           de gastos deste ano, a possibilidade de     para as mulheres já está abertamente
                                                           reedição da Desvinculação das Recei-        questionada por estes e outros seto-
                                                           tas da União – DRU e a redução de           res, e a domesticação da população
                                                           orçamento para 2012 das secretarias         nos espaços de participação, como as
                                                           especiais, em debate no Congresso           Conferências, cresce.
                                                           Nacional, estão fragilizando as políti-          Somos parte e assistimos a um fe-
                                                           cas para a igualdade e de justiça social.   nômeno ainda por ser compreendido
                                                                No mesmo período da III CNPM           em suas implicações: a participação
                                                           o Congresso estará votando e o governo      política das mulheres nas lutas sociais
                                                           sancionando o PPA para 2012-2015,           vai sendo substituída, para muitos se-
                                                           no qual as políticas para as mulheres       tores populares, pela participação das
                                                           têm apenas um programa, ao contrário        mulheres nos espaços institucionais
                                                           do que propôs a SPM – três progra-          organizados a partir e sob hegemonia
                                                           mas – e muito aquém do que propôs           dos governos.
                                                           a AMB, que defendeu sete programas               Se a I CNPM se constituiu num
                                                           para enfrentar as desigualdades de gê-      campo bastante heterogêneo de dis-
                                                           nero e raça vivida pelas mulheres, que      putas de proposições entre delegados/
                                                           representam um pouco mais da metade         as governamentais e da sociedade civil,
                                                           da população brasileira.                    a III CNPM parece anunciar que a
                                                                Agrava esta situação, o fato já        diferença maior de posições não será
                                                           reconhecido de que, apesar de estar-        entre governos e sociedade civil, mas
                                                           mos vivendo sob o governo Dilma,            entre a diversas perspectivas feminis-
                                                           primeira mulher presidenta do Brasil,       tas sobre Estado e políticas públicas
                                                           não temos garantido uma orientação          e as perspectivas antidireitos das mu-
                                                           feminista e libertária nas políticas para   lheres e antifeminista.
                                                           as mulheres. Ao contrário, iniciativas           A direita conservadora, racis-
                                                           diversas de políticas deste governo         ta, lesbofóbica e antifeminista, que

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Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
perdeu as eleições de 2010, saiu dela        Assim, mesmo tendo crescido o
fortalecida e está minando e amea-      número de mecanismos de políticas
çando as conquistas que alcançamos      para as mulheres nos estados e mu-
em 2004. O fez ao longo de todo o       nicípios, mesmo tendo-se alcançado
governo Lula e o faz agora no governo   avanços na concretização de direitos
Dilma, com muito mais força. Se, no     das mulheres e novas políticas para as
momento de sua campanha eleitoral       mulheres estejam em curso, será pre-
de 2002, Lula recuou e cedeu espaço     ciso, nesta III CNPM, estarmos mais
para propostas liberais na Carta ao     uma vez atentas e fortes na luta para
Povo Brasileiro, Dilma, também na       garantir uma perspectiva feminista na
campanha eleitoral, recuou e cedeu      orientação da política para mulheres e
espaço aos fundamentalistas e anti-     defender a institucionalização e forta-
feministas com a Carta ao Povo de       lecimento dos atuais mecanismos de
Deus.                                   políticas para as mulheres.




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Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
DiSCuSSão
             2
              Conjunturas internacional e
                nacional e as mulheres
                               Gilsa Helena Barcellos


     Compreender a realidade das            com a visão liberal do século XIX. As
mulheres brasileiras implica compre-        políticas de proteção social passam
ender os aspectos sociais, econômicos,      a constituir a agenda principal do
políticos, ambientais, culturais que        Estado. Entre as décadas de 1940 e
determinam a realidade mais geral.          1970, diversas políticas públicas, em
Ou seja, não é possível analisar a situa-   especial aquelas relacionadas à seguri-
ção das mulheres, resguardadas as suas      dade social, possibilitaram a melhoria
especificidades, desconectada dos fa-       das condições de vida de uma parcela
tores que estruturam a realidade mais       expressiva tanto da população euro-
geral do Brasil e do mundo. Por isso,       péia quanto da norte-americana. Esta
parece-nos fundamental que, antes           última, em razão do forte investimen-
de introduzirmos a discussão acerca         to dos Estados Unidos na indústria
da realidade das mulheres brasileiras,      bélica, contou com políticas sociais
abordemos os eventos que marcaram           mais tímidas.
o século XX e que influenciam tanto              Nos países latino-americanos,
a vida das mulheres quanto à vida do        o Estado de Bem-Estar Social não
conjunto da sociedade no século XXI.        se consolidou, prevalecendo à ideia
Entre os muitos acontecimentos que          liberal de Estado, onde as políticas
marcaram o século passado estiveram         sociais foram destinadas àqueles que
tanto à ascensão quanto o declínio do       estavam fora do mundo do trabalho:
Estado de Bem-Estar Social nos países       indigentes, inválidos, entre outros.
de economia central.                             Nos anos de 1970, iniciou a maior
     O Estado de Bem-Estar Social,          crise vivenciada pelo capitalismo des-
iniciado como resposta à crise de           de a sua existência, o que Ernest Men-
1929 e às sequelas deixadas pelas duas      del denominou de “crise estrutural
grandes guerras mundiais, teve a sua        do capitalismo”. Este acontecimento
conformação mais nítida, particular-        determinou o declínio do Estado de
mente a partir do final dos anos 40,        Bem-Estar Social e irá afetar tanto
em países europeus, quando se rede-         a Europa quanto os Estado Unidos,
finiu o papel do Estado, rompendo           comprometendo as políticas públicas/

                                                                                      15
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           sociais até então conquistadas. Apesar     Federal de 1988. Na década de 1990,
                                                           de a América Latina não ter vivido o       brasileiras e brasileiros presenciaram a
                                                           Estado de Bem-Estar Social, ela sentiu     entrega do patrimônio público à ini-
                                                           os baques da crise de 1973, levando        ciativa privada e o aprofundamento da
                                                           os seus governos a reduzir aquilo que      privatização da educação, reduzindo a
                                                           já era quase inexistente no campo das      presença do Estado nessa área, dando
                                                           políticas públicas. Como resposta à        lugar ao aparecimento de grandes
                                                           crise do capitalismo ganha força à         grupos empresariais. A educação foi
                                                           ideia de um Estado com contornos           transformada em um negócio bastante
                                                           liberais. No entanto, por ser um con-      rentável. Também pudemos presen-
                                                           texto diferente daquele que antecedeu      ciar a precarização da saúde pública
                                                           a Segunda Guerra Mundial, novos            brasileira, levando a um processo de
                                                           elementos são incorporados a essa          revitimização de uma grande parcela
                                                           noção de Estado, que foi denominado        da população dependente dos serviços
                                                           de Estado neoliberal.                      de saúde, particularmente as mulheres.
                                                                O Estado neoliberal é uma reedi-           É nesse contexto que ocorre a
                                                           ção do Estado liberal adequada à rea-      eleição do governo Lula. Lula se elege
                                                           lidade contemporânea. Nele, prevalece      com uma proposta de enfrentamento
                                                           o propósito de que a relação capital       ao Estado Neoliberal, no entanto,
                                                           x trabalho se autorregula pela lei da      com o passar dos anos, particular-
                                                           oferta e demanda, prescindindo-se,         mente no seu segundo mandato, o
                                                           portanto, da participação estatal na       seu programa de governo incorporou
                                                           economia e nos serviços estatais (Esta-    elementos neoliberais, resultando
                                                           do mínimo), aplicando-se políticas de      num governo permeado por fortes
                                                           privatização de empresas estatais e de     contradições, embora seja consenso
                                                           livre circulação de capitais internacio-   entre as mulheres brasileiras que foi
                                                           nais com ênfase na globalização e na       no governo Lula que mais se avançou
                                                           abertura da economia para a entrada        na elaboração e na implementação de
                                                           de multinacionais, onde a base da eco-     políticas públicas para mulheres.
                                                           nomia deve ser formada por empresas             A eleição de Dilma representou,
                                                           privadas, com desburocratização das        sem dúvida, um avanço do ponto de
                                                           leis e regras econômicas e redução do      vista político-cultural da sociedade
                                                           tamanho do Estado. Dessa forma, hou-       brasileira, por compreender a pos-
                                                           ve um refluxo da presença do Estado na     sibilidade de mulheres assumirem
                                                           economia e na produção de políticas        espaços de poder. Mesmo que muitos
                                                           públicas voltadas ao interesse daqueles    atribuam a Lula a eleição de Dilma,
                                                           que compõem a maioria da população.        não se pode desconsiderar que o fato
                                                                No Brasil, no final dos anos 80,      de ser mulher poderia ter impedido a
                                                           o neoliberalismo chegou atropelando        sua eleição caso prevalecessem às ideias
                                                           conquistas expressas na Constituição       machistas. É fato que as tentativas de

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desmoralização da candidata orien-          agrária, defendida, incansavelmente,
tadas por posicionamentos lesbofó-          pelo MST, tem dado lugar ao agrone-
bicos, conservadores acerca do papel        gócio, que cada vez mais se apropria
da mulher foram ecoadas pela grande         de terras para garantir a produção em
mídia e por parcelas das igrejas, setores   grande escala para exportação.
esses aliados explícitos dos candidatos          À violência urbana, expressão da
adversários. Felizmente, prevaleceu a       questão social cada vez mais aprofun-
noção de que a hipocrisia moral deve        dada no Brasil, o Estado tem respondi-
ser combatida e é maléfica aos direitos     do com a repressão, ignorando as suas
humanos e à equidade de gênero.             causas reais. Cada vez mais, o narco-
     No entanto, o fato de termos           tráfico, a bala perdida e a dependência
uma presidente eleita pela maioria da       química tornam-se acontecimentos
população, inclusive pelas mulheres,        do cotidiano da maioria da população
não significa que seja intrínseco ao seu    que vive nos grandes centros urba-
governo compromissos com os traba-          nos. Cada vez mais a configuração
lhadores e trabalhadoras brasileiras.       urbana é forjada pela desigualdade
Observamos contradições ainda mais          social, aprofundando as demarcações
acentuadas que no governo Lula, a           das fronteiras entre ricos e pobres. O
exemplo da questão ambiental, que           mundo do trabalho, cada vez mais
tem sido objeto de conflito entre os        automatizado, reduz o valor do traba-
movimentos sociais e o governo Dilma,       lho levando à redução de salários e à
que, em nome do desenvolvimento,            instabilidade frequente daqueles que
tem negligenciado, de forma explícita,      trabalham. O trabalho temporário, a
direitos socioambientais de inúme-          terceirização e a quarteirização da mão
ras populações locais que vivem nas         de obra atualizam relações existentes
regiões onde estão sendo construídas        no período colonial: trabalhadores e
grandes obras de infraestrutura, tais       trabalhadoras precisam trabalhar cada
como as diversas barragens das usinas       vez mais para conseguir um salário
hidrelétricas. No mais, presenciamos o      que lhes dê condições mínimas de
Banco Nacional de Desenvolvimento           autosustentação e de suas famílias. O
Econômico e Social – BNDES inves-           mundo nunca esteve tão competitivo
tindo privilegiadamente no econômico        e as pessoas nunca trabalharam tanto
(grandes empresas multinacionais têm        com tão baixos salários e muitos sem
sido beneficiadas pelos financiamentos      direitos sociais e trabalhistas garanti-
do BNDES) em detrimento do social.          dos. As pessoas têm menos tempo de
São baixos os investimentos públicos na     convivência familiar. Vivemos em um
educação, na saúde e nas políticas pú-      tempo traduzido pelo ditado popular
blicas de forma geral, ganhando força       “se correr o bicho pega. Se ficar o bi-
programas de “proteção social” como         cho come”. A desigualdade social no
é o caso do Bolsa Família. A reforma        Brasil se aprofunda a cada dia e cada

                                                                                       17
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                                                           vez mais a população demanda por         obra menos valorizada, as mulheres
                                                           políticas públicas que, ou inexistem     submetem-se à extensa e a várias
                                                           ou estão precarizadas.                   jornadas de trabalho. Precisamos tra-
                                                                A resposta do Estado brasileiro     balhar mais para ganhar o mínimo
                                                           à resistência ao aprofundamento do       necessário à nossa subsistência. Nesse
                                                           projeto neoliberal e à exploração        mundo marcado por variadas formas
                                                           capitalista tem sido dada de diversas    de subordinação, destaca-se a situação
                                                           formas: além da repressão, observa-      das mulheres negras, pois estas traba-
                                                           mos o processo de criminalização dos     lham mais e ganham menos, ocupan-
                                                           movimentos sociais no Brasil. Parcelas   do assim a base da pirâmide salarial
                                                           do Poder Judiciário e Legislativo têm    brasileira. Elas possuem uma renda
                                                           cumprido um papel estratégico na         mensal de R$ 558,00, enquanto ho-
                                                           luta de classes, quando condenam         mens brancos tem uma renda mensal
                                                           movimentos, lideranças e trabalhado-     de R$1.534 (DIEESE, 2011), ou seja
                                                           res e trabalhadoras ao pagamento de      a renda mensal média masculina não-
                                                           multas, à prisão, à CPIs, entre outras   -negra é três vezes maior do da mulher
                                                           medidas que visam retirar esses sujei-   negra. Neste interregno, estão às mu-
                                                           tos da luta política.                    lheres brancas, que ganham em média
                                                                E como estão as mulheres brasi-     R$1.035,00, e os homens negros, que
                                                           leiras dentro dessa realidade?           ganham em média R$ 839,00. Esses
                                                                As mulheres são especialmente       dados revelam que a subordinação de
                                                           atingidas pelas consequências do         raça pode ser ainda mais perversa que
                                                           processo de globalização econômica       a subordinação sexual.
                                                           e do neoliberalismo. Somos hoje               Repercutindo o que foi constata-
                                                           a maioria da população brasileira:       do já na Conferência Mundial de Mu-
                                                           segundo dados do Dieese (2011),          lheres de Beijing (1995), devido ao
                                                           somos 98.439 milhões, sendo 49.162       processo da globalização econômica,
                                                           milhões negras, 49.037 não-negras        à destruição ambiental e à baixa valo-
                                                           e 213 mil indígenas. Somos 20.322        rização da força de trabalho feminina,
                                                           milhões na faixa etária entre 30 e 49    está em curso no mundo, a femini-
                                                           anos, ou seja, mulheres que compõem      zação da pobreza, sendo as mulheres
                                                           a População Economicamente Ativa         negras a maioria entre os pobres no
                                                           – PEA brasileira.                        mundo. Mesmo integrando o mundo
                                                                O mundo do trabalho visto por       da produção (mundo do trabalho)
                                                           alguns autores como a possibilidade      não nos desvencilhamos do trabalho
                                                           de construção da emancipação da          doméstico, ou seja, da responsabiliza-
                                                           mulher, subordina cada vez mais mu-      ção pela criação e educação dos nossos
                                                           lheres a um nível de exploração que      filhos, pela casa, entre outros afazeres
                                                           nos faz lembrar a Revolução Industrial   domésticos. Os homens, definitiva-
                                                           na Europa. Por terem sua mão de          mente, recusam-se a dividir o trabalho

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Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
doméstico, e as mulheres continuam         comprometido substancialmente a
tomando para si a responsabilidade         sua eficácia. Por isso, presenciamos
pelo mundo da reprodução. Somos,           cotidianamente na imprensa falada e
na atualidade, provedoras principais       escrita mulheres sendo assassinadas,
de 35,2% dos lares brasileiras, ou seja,   mutiladas ou humilhadas, sob o olhar
temos 10.641.456 mulheres chefes de        de muitos governantes e gestores que
família, sendo que, quando analisa-        assistem a situação sem tomar iniciati-
mos as regiões metropolitanas brasilei-    vas que poderiam reduzir a produção
ras, esse percentual sobe: as mulheres     de um fenômeno tão perverso à vida
chegam a chefiar 40,6% das famílias        das mulheres.
ali residentes (DIEESE, 2011).                  Presenciamos iniciativas governa-
     Também somos aquelas mais             mentais de uma suposta “valorização
presentes nos bancos escolares, do         do papel da mulher” dentro da famí-
primeiro ao terceiro grau. No entanto,     lia, a exemplo das mulheres respon-
mesmo com escolaridade superior a          sáveis pelo Programa Bolsa Família
do homem, continuamos ganhando             e por outras políticas de proteção
menos do que ele pelo mesmo tra-           social. Todavia, desconsidera-se que
balho realizado. Segundo dados do          essa valorização produz uma sobre-
Dieese (2011), 52,5% dos homens            carga ainda maior para as mulheres,
com 15 ou mais anos de estudo rece-        reforçando assim, a desobrigação dos
bem cinco salários-mínimos ou mais,        homens com o cuidado da família
enquanto apenas 27,7% das mulheres         e com as funções domésticas. Nesse
na mesma faixa de escolaridade atin-       contexto de sobrecargas, as mulheres
gem essa faixa salarial, revelando que     adoecem cada vez mais jovens. No
o aumento do nível de escolaridade         Brasil, as principais causas de morte
facilita o acesso das mulheres ao mer-     da população feminina foram iden-
cado de trabalho, mas não lhes garante     tificadas pelo Ministério da Saúde
equidade salarial com os homens.           (BRASIL, 2004).
     Mesmo quando adquirimos                    As principais causas de morte da
autonomia financeira, continuamos          população feminina no Brasil são as
vitimadas pela violência: as mulheres      doenças cardiovasculares, destacando-
permanecem vítimas de violência            -se o infarto agudo do miocárdio e o
doméstica e sexual. A Lei Maria da         acidente vascular cerebral; as neoplasias,
Penha, promulgada em 2006, repre-          principalmente o câncer de mama, de
sentou um grande avanço no campo           pulmão e o de colo do útero; as doenças
das políticas públicas e tem sido uma      do aparelho respiratório, marcadamen-
forte aliada no combate à violência        te as pneumonias; e as doenças endó-
contra mulheres. No entanto, há            crinas, nutricionais e metabólicas, em
uma carência de serviços necessários       especial a diabetes, e as causas externas
à implementação da Lei, o que tem          (BRASIL, 2004, p. 16-17).

                                                                                        19
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                                Segundo Milena Piccolin (2008),     pelo INCA, que revela que o câncer
                                                           o padrão de morbimortalidade en-         de pulmão é o segundo tipo de do-
                                                           contrado entre as mulheres brasi-        ença que mais mata as mulheres no
                                                           leiras revela uma realidade na qual      país, perdendo apenas para o câncer
                                                           convivem doenças típicas dos países      de mama (GONCALVES citado por
                                                           desenvolvidos (cardiovasculares e        OLIVEIRA, TONONI, 2011, p. 18)
                                                           crônico-degenerativas) com aquelas            Verifica-se também um proces-
                                                           do mundo subdesenvolvido (morta-         so de feminização da AIDS no país.
                                                           lidade materna e desnutrição). “Essa     Em 1986, a razão era de 15 casos de
                                                           mistura de doenças segue as diferenças   AIDS em homens para cada caso em
                                                           de desenvolvimento regional e de clas-   mulheres. A partir de 2003, a cada 15
                                                           se social”. (PICCOLIN, 2008, p.30).      casos em homens passaram a existir 10
                                                                Entre os problemas de saúde estão   em mulheres (BRASIL, 2009). Entre
                                                           o alcoolismo e o tabagismo. Há 20        homens, a taxa de incidência em 2007
                                                           anos, a proporção era uma mulher         foi de 22 notificações por 100 mil ha-
                                                           alcoolista para cada dez homens.         bitantes, e nas mulheres, de 13,9. Em
                                                           Hoje a proporção é de uma para três.     ambos os sexos, as maiores taxas de
                                                           No Brasil, o número de mulheres          incidência se encontram na faixa etária
                                                           dependentes do álcool aumentou nas       de 25 a 49 anos. Segundo o Ministério
                                                           últimas décadas, conforme indica o       da Saúde (BRASIL, 2009), essa taxa
                                                           “I Levantamento Nacional sobre os        apresenta tendência de crescimento a
                                                           Padrões de Consumo de Álcool na Po-      partir dos 40 anos em homens e dos
                                                           pulação Brasileira”. A pesquisa inves-   30 em mulheres, quando comparado o
                                                           tigou em detalhes como o brasileiro      ano de 1997 com 2007 (OLIVEIRA;
                                                           bebe e mostrou que, em duas décadas,     TONINI, 2011).
                                                           a proporção de mulheres entre a po-           Com relação ao aborto: “Anu-
                                                           pulação alcoólica passou de 10% para     almente 515 mil mulheres morrem
                                                           30% (OLIVEIRA, TONONI, 2011).            por complicações da gravidez, aborto,
                                                                Apesar do registro de redução       parto e puerpério. 99% das mortes
                                                           entre os números de fumantes de          maternas ocorrem em países em
                                                           uma forma geral no Brasil, segun-        desenvolvimento”. Estes são dados
                                                           do o Instituto Nacional do Câncer        divulgados pelo Dossiê de Mortali-
                                                           (INCA), a redução de fumantes en-        dade Materna (REDE NACIONAL
                                                           tre as mulheres no país é menor em       FEMINISTA DE SAÚDE E DI-
                                                           relação aos homens. A OMS afirma         REITOS REPRODUTIVOS, s/d, p.
                                                           que a indústria do cigarro tem in-       5). Sabemos que no Brasil mulheres
                                                           vestido de forma significativa para      de todas as classes sociais praticam
                                                           atrair o público feminino e jovem e,     o aborto, no entanto, das mulheres
                                                           lamentavelmente, o resultado aparece     que morrem ou ficam com sequelas
                                                           em levantamentos como o destacado        a maioria é pobre e não pode pagar

                                                      20
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
pelos serviços oferecidos nas clínicas     homofobia e a lesbofobia. Quantos e
clandestinas.                              quantas, no Brasil, continuam vítimas
     No mais, o alto índice de câncer      de violência por intolerância à sua
de mama e de colo de útero revela que      orientação sexual?
fatores alimentares articulados ao es-          Não podemos subestimar a capa-
tresse cotidiano têm levado mulheres à     cidade do capitalismo em transformar
morte. Também estamos mais propen-         tudo em mercadoria: transformou
sas à hipertensão arterial, às diabetes,   a água, o ar, a terra e nossos corpos
à obesidade, doenças que têm como          em mercadoria. Mulheres são repro-
uma das principais causas o estresse.      duzidas como objeto de venda e de
Mulheres pobres dos grandes centros        consumo. E nessa onda, impõem-se
urbanos têm disputado os seus filhos       e reafirmam-se padrões de beleza às
com o tráfico de drogas. Muitas, por       mulheres, o que tem contribuído para
não poderem cuidar da prole porque         aumentar a discriminação étnica e
têm que sair para trabalhar, são culpa-    racial contra mulheres que fogem ao
bilizadas e culpabilizam-se pela depen-    ideário veiculado e vendido na mídia.
dência ou morte de suas/seus filhas/os.         Diante de tantas violências as
Presenciamos na atualidade estratégias     mulheres lutam, marcham, gritam,
discursivas vindas de entes do Estado      aliam-se e organizam-se em diversas
e da sociedade civil responsabilizando     frentes: movimentos específicos e
mulheres pela desestruturação familiar.    mistos. Na atualidade, mulheres ne-
No entanto, tais sujeitos não explicam     gras, indígenas, quilombolas, jovens,
porque mulheres que têm que trabalhar      idosas, urbanas, camponesas e sem
para sustentar suas famílias não dispõe    terra, trabalhadoras e trabalhadeiras,
de políticas públicas, como creches, por   lésbicas, com deficiência, com HIV,
exemplo, ou escola de tempo integral       entre muitas outras, ocupam as ruas
para deixar as/os suas/seus filhas/os.     para gritar por seus direitos, pela
Afinal, de quem é a verdadeira respon-     garantia de políticas públicas que vi-
sabilidade pela negligência aí posta? O    sam à equidade de gênero e à defesa
discurso dominante diria: “a culpa é       dos direitos humanos das mulheres.
sempre das mulheres”.                      Transformamos o mundo diuturna-
     Neste movimento complexo em           mente nas pequenas e grandes coisas
que se revelam as diversas facetas da      que fazemos; com nossas poesias,
opressão sexual, mulheres lésbicas         músicas e discursos inflamados; cho-
continuam sendo vítimas de violência       ramos e sorrimos como expressão de
e discriminação. Mesmo com alguns          dor e de alegria e alimentamos não
avanços jurídicos no reconhecimento        só o mundo, mas a nossa utopia de
da união civil entre homossexuais,         um dia sermos consideradas não mais
setores de igrejas e parlamentares con-    como cidadãs de segunda classe, mas
servadores continuam disseminando a        como sujeitos imprescindíveis.

                                                                                    21
propoStAS De polÍtiCAS
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                     propostas de políticas
    O conjunto de propostas a se-            primeiros meses do governo Dilma.
guir apresentadas são resultados de               São propostas que na AMB al-
um escolha entre as muitas propo-            cançam um forte consenso embora
sições que nós integrantes da AMB            estejam longe de ser unanimidade no
viemos debatendo e construindo               feminismo brasileiro. Todas as pro-
coletivamente e, muitas vezes, em            postas guardam uma forte identidade
colaboração com companheiras de              política com o feminismo da AMB
outras organizações e movimentos de          por conta da formulação adotada
mulheres no Brasil, em especial nos          para traduzir demandas coletivas das
espaços das Conferências de Políticas        mulheres em propostas de políticas
ao longo do governo Lula e nestes            públicas com perspectiva feminista.


EnfrEntamEnto Do raCismo, sExismo E lEsbofobia

      Na II CNPM aprovamos, com um           às políticas de enfrentamento ao ra-
esforço redobrado de negociação, um          cismo, sexismo e lesbofobia reconhe-
novo eixo para o Plano Nacional de Po-       cendo-as como políticas de Estado
líticas para as Mulheres, que veio a ser o   que concretizam as responsabilidades
eixo 9. Com esta deliberação aprovada a      de governos democráticos na con-
II CNPM afirmou que cabe às políticas        solidação de valores igualitários e
para as mulheres não apenas atender as       uma cultura de direitos na sociedade
mulheres e promover sua autonomia            brasileira.
como também enfrentar o racismo, o
sexismo e a lesbofobia que imperam nas       Propostas e prioridades
práticas sociais e promovem a desigual-
dade também entre as mulheres.               •	 Fortalecer as estruturas do Minis-
      O enfrentamento do racismo,               tério da Mulher/SPM e SEPPIR
do sexismo e da lesbofobia na vida              efetivando seu caráter e poder de
das mulheres, impõe ao Estado um                ministérios do governo federal;
duplo desafio: reconhecer demandas           •	 Incorporar o princípio da ação
específicas das mulheres negras, ín-            afirmativa em todos os órgãos
dias e lésbicas, e, ao mesmo tempo              da administração pública e nas
enfrentar a articulação de múltiplas            organizações a eles vinculadas;
dimensões da desigualdade na vida            •	 Incluir as desigualdades de gênero
de todas as mulheres.                           e raça e o combate à lesbofobia
      Prioridade para o governo Dil-            entre os conteúdos dos programas
ma: conferir prioridade estratégica             de formação de gestores/as.

                                                                                     25
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                                          autonomia EConômiCa E soCial
                                                           igualdade no mundo do trabalho e desafios do desenvolvimento sustentável
                                                                            Grupo de trabalho 1 da iii CnPm

                                                                A conquista da autonomia econô-          as mulheres negras e brancas e
                                                           mica é importante para nós mulheres           promoção do reconhecimento do
                                                           porque nos permite sair da situação de        valor social do trabalho doméstico;
                                                           dependência e privação em que mui-         •	 Implantar a Política Nacional de
                                                           tas de nós se encontram. É importante         Economia Solidária, com suas
                                                           para nos dar condições objetivas para         diretrizes, princípios e objetivos
                                                           romper ciclos de violência doméstica,         aprovados nas I e II CONAES,
                                                           para conquistar a liberdade de decidir        tomando esta política como uma
                                                           sobre os rumos que queremos dar a             política de desenvolvimento sus-
                                                           nossas vidas, para crescer em autocon-        tentável, de caráter perene, com
                                                           fiança e em autoridade no contexto            participação democrática comu-
                                                           das nossas famílias.                          nitária e popular, não relegada às
                                                                Contudo, nos dias presentes, mes-        políticas de corte assistencial ou
                                                           mo com o crescimento da participação          compensatório.
                                                           das mulheres no mercado de trabalho
                                                           e com o dinamismo do crescimento da
                                                           economia capitalista alcançado nos anos        ProPostas de Políticas
                                                           recentes em nosso país, a autonomia            Prioritárias Para o
                                                           econômica das mulheres está longe do           eixo 1 do PNPM
                                                           horizonte de muitas de nós e a desigual-
                                                           dade entre as mulheres no mundo do             autonomia econômica e
                                                           trabalho cresce em função do racismo.          igualdade no mundo do
                                                                                                          trabalho com inclusão social
                                                           apontamos como prioridades
                                                           para o governo Dilma:                      •	 Permanência e consolidação
                                                                                                         da política de valorização do
                                                           •	 Avançar na direção da igualdade            salário-mínimo;
                                                              de oportunidades para todas as          •	 Estabelecimento de política de
                                                              mulheres no mundo do trabalho,             cota mínima para emprego fe-
                                                              com redução da dupla jornada               minino como contrapartida das
                                                              de trabalho, ampliação do acesso           empresas aos benefícios fiscais
                                                              das mulheres à proteção social,            concedidos pelos organismos
                                                              redução das desigualdades salariais        governamentais de fomento ao
                                                              entre homens e mulheres e entre            desenvolvimento econômico;

                                                      26
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
•	 Garantia de acesso à seguridade            no marco da economia solidária;
   social (saúde, assistência e previ-   •	   Atuar para o fortalecimento da
   dência social) como direito uni-           estrutura do MDA e do INCRA
   versal que precisa ser garantido           garantindo mais investimentos
   também à população trabalhado-             nas políticas de apoio à agri-
   ra dos empreendimentos econô-              cultura agroecológica familiar e
   micos solidários, na condição de           camponesa;
   segurado especial, contemplando       •	   Adotar e promover medidas de
   as especificidades do público do           garantia do direito de livre acesso
   cooperativismo social;                     das mulheres aos bens comuns
•	 Novas medidas de inclusão previ-           da natureza – rios, marés, matas
   denciária que avancem na direção           e florestas – fonte de trabalho
   da universalização do acesso das           para o autosustento de milhões
   mulheres ao benefícios da previ-           de mulheres;
   dência social.                        •	   Garantir o reconhecimento e
                                              desintrusão de territórios quilom-
                                              bolas especialmente aqueles terri-
    ProPostas de Políticas                    tórios onde trabalham mulheres
    Prioritárias Para o                       quebradeiras de coco babaçu;
    eixo 6 do ii PNPM                    •	   Assegurar uma política de fomen-
                                              to ao uso de defensivos agrícolas
    Desenvolvimento sustentável               naturais, em substituição ao uso
    no meio rural, na cidade e                de agrotóxicos, com apoio à estu-
    na floresta, com garantia de              dos e pesquisas.
    justiça ambiental, soberania e
    segurança alimentar
                                              ProPostas Para o eixo 7
•	 Conferir prioridade a políticas que        do ii PNPM
   promovam e garantam o direito à
   formas de organização econômica            Direito a terra, moradia
   baseadas no trabalho associado, na         digna e infraestrutura social
   propriedade coletiva, na coopera-          nos meios rural e urbano,
   ção, na autogestão, na sustentabi-         considerando as comunidades
   lidade e na solidariedade, como            tradicionais
   modelo de desenvolvimento;
•	 Fortalecimento e mais investi-        •	 Conferir prioridade à reforma
   mentos públicos nas políticas            agrária como estratégia de desen-
   e ações de governo em favor da           volvimento democrático, justo
   organização produtiva das mu-            e sustentável, difundido infor-
   lheres, no campo e na cidade,            mações e efetivando o direito de

                                                                                    27
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                              acesso a terra e aos bens comuns       integral e por todo o ano;
                                                              da natureza para as mulheres;       •	 Fim dos despejos forçados em ter-
                                                           •	 Efetivar uma política nacional         ritórios de grandes obras do PAC
                                                              de creches com gestão pública,         e política de moradia, no campo
                                                              implementada em parceria entre         e nas grandes e pequenas cidades,
                                                              os três níveis de governo – fede-      com aceso universal à saneamento
                                                              ral, estadual e municipal – al-        e infraestrutura social (creches,
                                                              cançando o campo e a cidade,           centros de convivência de idosos,
                                                              com funcionamento em horário           restaurantes populares).




                                                                      EDuCação, Cultura E ComuniCação
                                                                            Democráticas e não discriminatórias
                                                                   Grupo de trabalho 2 na iii CnPm: autonomia Cultural

                                                               O sistema de comunicação de        apontamos como prioridade para
                                                           massa no Brasil está sob controle      o governo Dilma:
                                                           de nove famílias que decidem, em
                                                           consonância com a ideologia do         •	 Adoção de medidas de regulação
                                                           poder econômico, toda a grade de          democrática pelo Estado sobre a
                                                           programação cultural e de geração de      estrutura do sistema de comuni-
                                                           consumo que dominam o espectro.           cações, a propriedade dos meios
                                                           Considerando que rádio e TV são           e os conteúdos veiculados, de
                                                           concessões públicas reconhecemos,         forma que estes observem estri-
                                                           portanto, que o Estado é responsável      tamente os princípios constitu-
                                                           pelo que é veiculado através destes       cionais do respeito aos direitos
                                                           meios.                                    humanos;
                                                               O sistema de educação no país      •	 Organização e institucionali-
                                                           ainda é fragmentado apresentando          zação de um Sistema Nacional
                                                           inúmeros problemas da educação            de Educação, que promova, de
                                                           básica ao ensino superior e em rela-      forma articulada, em todo o país,
                                                           ção à educação infantil. No presente      o regime de colaboração entre os
                                                           sofre ataques ao princípio da laici-      entes federados, o financiamento,
                                                           dade e avança muito timidamente           acompanhamento e o controle
                                                           no enfrentamento das discrimi-            social da educação; bem como
                                                           nações e preconceitos no processo         assegure qualidade e a função so-
                                                           pedagógico.                               cial da educação e das instituições


                                                      28
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
   educativas, ou seja, a educação            das políticas para as mulheres a
   pública, gratuita, laica, demo-            formação, o desenvolvimento
   crática, inclusiva e de qualidade;         profissional e a valorização social
•	 Universalização do acesso, a               e salarial das/os trabalhadores/as
   ampliação da jornada escolar e             da educação, categoria formada
   a garantia da permanência bem-             majoritariamente por mulheres;
   -sucedida para crianças, adoles-        •	 Implantar o tema das relações
   centes, jovens e adultos/as, em            entre homens e mulheres e os
   todas as etapas e modalidades.             direitos sexuais e reprodutivos
                                              na política de formação de pro-
                                              fessoras/es e profissionais da rede
    ProPostas Para o eixo 2                   pública de educação.
    do ii PNPM


    Educação inclusiva,                        ProPostas de Políticas
    não-sexista, não-racista                   Para o eixo 8 do ii PNPM
    e não-homofóbica
                                               Cultura, comunicação
•	 Incluir conteúdos relativos às              e mídia, igualitárias,
   desigualdades sociais e relações de         democráticas e
   gênero, racismo e direitos sexuais          não-discriminatórias
   na educação formal e articular
   com as experiências de educação         •	 Garantir o direito de antena e de
   popular e cidadã realizadas pelas          espaço para as organizações de
   mulheres, incorporando-as como             mulheres na grade da programa-
   políticas públicas;                        ção das empresas públicas de co-
•	 Implementar a Lei 10.639/2003              municação: TV, rádio e imprensa;
   (que institui o ensino de História e    •	 Garantir celeridade ao Plano Na-
   Cultura da África e dos Afro-Brasi-        cional de Banda Larga em todos
   leiros/as nas escolas da rede pública      os bairros das cidades e no campo
   e privada) e a Lei 11.645/2008             de todos os municípios brasileiros,
   (que trata da educação indígena)           para garantir acesso das mulheres
   revendo os materiais didáticos e           à Internet, aos serviços e informa-
   promovendo a devida formação               ções disponibilizados pela Internet;
   das/os professores/as, bem como         •	 Assegurar a não exibição e veicu-
   dos demais técnicos/as da rede             lação de mensagens que desquali-
   pública, promovendo sua imple-             fiquem as mulheres nas empresas
   mentação também na rede privada;           públicas de comunicação, seja
•	 Assegurar que esteja presente na           na forma de imagens, músicas,
   agenda de discussão e iniciativas          textos, propagandas ou notícias;

                                                                                     29
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           •	 Criação e instalação do Conse-             observando as resoluções da I Con-
                                                              lho Nacional de Comunicação,               ferência Nacional de Comunicação.



                                                                     saúDE Das mulhErEs, DirEitos sExuais
                                                                           E DirEitos rEProDutivos

                                                                As históricas condições de de-
                                                           sigualdades e opressão a que nós
                                                                                                         ProPostas de Prioridades
                                                           mulheres estamos submetidas são
                                                                                                         de Políticas Para o eixo 3
                                                           determinantes sociais das formas de
                                                                                                         do ii PNPM
                                                           adoecer e morrer das mulheres e por
                                                           isso exigem uma atenção especial das
                                                                                                         saúde das mulheres, direitos
                                                           políticas públicas de saúde.
                                                                                                         sexuais e direitos reprodutivos
                                                                Os direitos sexuais e os direitos
                                                           reprodutivos são direitos determinan-
                                                                                                     •	 Revisão da legislação punitiva do
                                                           tes para a autonomia das mulheres,
                                                                                                        aborto no Brasil, assegurando que
                                                           pois estão relacionados ao exercício
                                                                                                        nenhuma mulher seja punida,
                                                           e possibilidade de tomada de decisão
                                                                                                        maltratada ou humilhada por ter
                                                           livre e soberana sobre ter ou não ter
                                                                                                        feito um aborto e não corra riscos
                                                           filhos e quando ter filhos, decidir so-
                                                                                                        de morte, garantindo o atendi-
                                                           bre nossa sexualidade, não fazer sexo
                                                                                                        mento humanizado ao aborta-
                                                           forçado e decidir quando e com quem
                                                                                                        mento na rede SUS;
                                                           desejamos o sexo.
                                                                                                     •	 Ampliar e qualificar a atenção
                                                                                                        clínico-ginecológica na rede SUS,
                                                           apontamos como prioridade para               inclusive para as portadoras da
                                                           o governo Dilma:                             infecção pelo HIV e outras DSTs,
                                                                                                        com garantia de realização de
                                                           •	 Consolidar o SUS como sistema             todos os exames ginecológicos
                                                              com gestão pública;                       e de pré-natal, em todos os mu-
                                                           •	 Assegurar o livre exercício da au-        nicípios do país, com resultados
                                                              todeterminação reprodutiva pelas          entregues no máximo em 15 dias
                                                              mulheres;                                 e a certeza da consulta de retorno;
                                                           •	 Combater a lesbofobia, promover        •	 Assegurar atendimento quali-
                                                              os direitos sexuais das mulheres          ficado e não-discriminatório a
                                                              e efetivar a Política Nacional de         mulheres lésbicas e bissexuais;
                                                              Atenção Integral à Saúde da Mu-        •	 Qualificar a atenção ao planeja-
                                                              lher, rompendo com o modelo de            mento reprodutivo, incluindo a as-
                                                              assistência materno-infantil.             sistência à infertilidade, garantindo

                                                      30
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
   a oferta de métodos anticoncepcio-     •	 Prevenir e conter a tendência de
   nais para a população em idade re-        expansão das DSTs e a infecção
   produtiva, ampliando o acesso das         pelo HIV/AIDS entre mulheres
   mulheres às informações sobre as          e ampliar e qualificar a atenção à
   opções de métodos anticoncepcio-          saúde das mulheres vivendo com
   nais e estimulando a participação         HIV e AIDS;
   de homens e adolescentes nas ações     •	 Promover a atenção integral à
   de planejamento reprodutivo;              saúde das mulheres negras: me-
•	 Ampliação e melhoria das condi-           lhorar o registro e produção de
   ções de funcionamento das mater-          dados; capacitar profissionais de
   nidades em todos os municípios            saúde; implantar o Programa de
   com equipe capacitada de profis-          Anemia Falciforme (PAF/MS),
   sionais, garantindo partos huma-          dando ênfase às especificidades
   nizados evitando a ocorrência de          das mulheres em idade fértil e no
   parto cirúrgico desnecessário;            ciclo gravídico-puerperal;
•	 Expandir a cobertura e qualificar      •	 Valorização do serviço e da servi-
   os serviços de atenção às mulheres        dora pública da saúde: concurso,
   em situação de abortamento e ser-         carreira, salário, atualização pro-
   viços de aborto legal nos hospitais       fissional, condições adequadas
   regionais estaduais, com o cumpri-        de trabalho e de vida, paridade
   mento da Norma Técnica do Mi-             na aposentadoria. Contra toda
   nistério da Saúde relativa à Atenção      forma de precarização e a gestão
   Humanizada ao Abortamento;                privada do SUS.


          EnfrEntamEnto a toDas as formas DE
             violênCia Contra as mulhErEs
         Grupo de trabalho 2 na iii CnPm – autonomia pessoal

     A violência contra as mulheres é     violência sexual, dentro e fora de casa e
um dos instrumentos da dominação          nas famílias, lutamos cotidianamente.
masculina no patriarcado. Ela acontece    Contudo, crescem os crimes sexuais
através de humilhações ou violência       contra as mulheres, em especial em
física e sexual, chegando ao extremo      contexto de pobreza, exploração e
do assassinato. Para coibir a violência   omissão do Estado. Crescem os crimes
doméstica e familiar e garantir prote-    violentos marcados por ódio e misogi-
ção e atenção às mulheres, conquista-     nia como no caso do chamado “estu-
mos a Lei Maria da Penha, ainda não       pro corretivo” praticado por homens,
implantada mas já muito questionada       individualmente ou em grupo, contra
pelos poderes instituídos. Contra a       mulheres lésbicas.

                                                                                      31
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           apontamos como prioridade para              especializadas (DEAMs), casas-
                                                           o governo Dilma:                            -abrigo e casa de abrigamento
                                                                                                       provisório (casas de passagem),
                                                           •	 Instituir no PPA 2012-2015               núcleos de violência contra as
                                                              a manutenção, consolidação e             mulheres nas defensorias públicas
                                                              ampliação do Programa de En-             e promotorias, juizados especiali-
                                                              frentamento à Violência contra as        zados, além de serviços de infor-
                                                              Mulheres, garantindo recuperação         mação nos CRAs e CREAS;
                                                              e ampliação significativa de seu      •	 Apoiar, assessorar e estimular a
                                                              orçamento de modo, o não conti-          construção de redes regionaliza-
                                                              gencimento dos recursos e promo-         das nos estados (intermunicipais)
                                                              ver a ação integrada e colaborativa      para garantir a serviços de atenção
                                                              entre os três níveis de governos na      às mulheres em todas as micror-
                                                              implementação do Programa.               regiões dos estados de nosso país;
                                                                                                    •	 Garantir o cumprimento das
                                                                                                       Normas Técnicas do Ministério da
                                                               ProPostas de Prioridades                Mulher/SPM sobre: o funciona-
                                                               Nas Políticas do eixo 4                 mento das DEAMs e dos CAMs;
                                                               do ii PNPM                           •	 Garantir o cumprimento pelo
                                                                                                       governo da Norma Técnica do
                                                               Enfrentamento de todas                  Ministério da Saúde sobre atenção
                                                               as formas de violência                  à saúde das mulheres vítimas de
                                                               contra as mulheres                      violência, garantindo nas unidades
                                                                                                       de atenção básica e serviços espe-
                                                           •	 Apoiar a implantação de toda a           cializados: a pílula da prevenção
                                                              rede de serviços de atendimento às       de gravidez indesejada (pílula do
                                                              mulheres em situação de violência        dia seguinte), a profilaxia contra
                                                              conforme a Lei Maria da Penha            hepatite C e outras doenças sexual-
                                                              determina: centro de acolhimento         mente transmissíveis e contra vírus
                                                              às mulheres (CAMs), Delegacias           HIV/AIDS.



                                                                 autonomia PolítiCa, instituCionalização
                                                                  E finanCiamEnto DE PolítiCas PúbliCas
                                                                            Para as mulhErEs
                                                                               Grupo de trabalho 4 da iii CnPm

                                                               O Estado brasileiro tem demons-      a desigualdade entre homens e mulhe-
                                                           trado avanços no processo de assumir     res como um problema público. Prova

                                                      32
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
disso é a instituição das políticas para      iniciativas governamentais, par-
as mulheres e a criação de um órgão           lamentares e da sociedade civil
público, a Secretaria de Política para        pela reforma dos sistema políti-
Mulheres, transformando-a poste-              co que estejam em consonância
riormente em Ministério. Neste mo-            com as conclusões da Comissão
mento há rumores de que o governo             Tripartite de 2010/Ministério da
federal tende para uma proposta de            Mulher/SPM;
unificação das várias secretarias espe-    •	 Apoiar a auto-organização das
ciais em um Ministério dos Direitos           mulheres, seus projetos sociais
Humanos. Isto é inaceitável para o            e atuação nas lutas sociais, pro-
movimento feminista. Seria um retro-          movendo a instalação de fundos
cesso em uma conquista histórica das          nacionais de financiamento e co-
mulheres brasileiras, assim como da           operação com tais organizações.
população negra, no caso da SEPPIR
ser incorporada a esta ideia.
      O Ministério da Mulher/SPM é             ProPostas Para o eixo11
um instrumento que fortalece a auto-
nomia política das mulheres, contribui         Gestão e monitoramento
para a democratização do Estado bra-           do Plano
sileiro e para a construção de uma so-
ciedade igualitária e socialmente justa.   •	 Institucionalizar a Política Na-
                                              cional para Mulheres, com suas
apontamos como prioridade para                diretrizes, princípios, objetivos
o governo Dilma:                              e organismos, mecanismos de
                                              monitoramento e avaliação, ela-
•	 Consolidar as políticas de promo-          borada e aprovada na I CNPM
   ção da igualdade e direitos huma-          mas nunca formalizada pelo
   nos, através do fortalecimento das         Poder Executivo;
   secretarias especiais e do aumento      •	 Garantir que as resoluções III
   de financiamento a estas políticas.        CNPM redundem no fortaleci-
                                              mento da Política Nacional para
                                              as Mulheres que se consolidem
    ProPostas Para o eixo 5                   em diretrizes, estratégias, planos,
    do ii PNPM                                programas, projetos, ações, nor-
                                              mas técnicas e que estas sejam
    Participação das mulheres nos             observadas pelos diferentes níveis
    espaços de poder e decisão                de governos fazendo avançar a
                                              implementação da Política Na-
•	 Fortalecer a luta das mulheres             cional para as Mulheres na pers-
   por paridade na política e as              pectiva da igualdade.

                                                                                    33
DoCumentoS De poSição
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                       Carta à presidenta
    Documento endereçado à presi-          apresentando a posição coletiva das
denta eleita Dilma Rousseff, entregue      seguintes redes e articulações nacio-
ao presidente do Partido dos Traba-        nais feministas acerca do processo de
lhadores, Eduardo Dutra, coordena-         escolha da nova ministra e a política
dor da transição do governo, em au-        para mulheres a ser implementada
diência em Brasília, em 14/12/2010,        pelo novo governo.




    À exceleNtíssiMa                       requerem a reiteração do compromis-
    PresideNta eleita seNhora              so político para alcançar a cidadania
    dilMa rousseff                         plena das brasileiras.
                                                Neste sentido, dirigimo-nos à
    aos cuidados da equiPe                 presidenta eleita, Dilma Roussef, aos
    de traNsição de GoverNo                cuidados da equipe de Transição de
                                           Governo, apresentando propostas e
      Pela primeira vez em nossa histó-    reivindicações para a estruturação e
ria, elegemos uma mulher para presi-       gestão do novo governo federal.
dir o Brasil. Tal fato político, eviden-
cia as mudanças que a luta feminista       Propomos:
das mulheres, ao longo de décadas,
produziu na sociedade brasileira e em      1. Fortalecer a Secretaria de Políticas
sua cultura política ao mesmo tempo           para as Mulheres como organis-
que institui um desafio para o novo           mo de primeiro escalão, articu-
governo: de avançar na promoção da            lador e coordenador da política
igualdade social e política com base no       de Estado orientada ao enfrenta-
respeito e valorização da diversidade,        mento das desigualdades vividas
da democracia, da cidadania e dos             pelas mulheres, o que concretiza-
direitos humanos.                             -se na prática com novos recursos
     Reafirmamos a importância que a          humanos e financeiros;
Secretaria de Políticas para as Mulhe-
res teve nos últimos oito anos para a      2. Escolha de gestora com trajetó-
implementação das políticas públicas          ria ética, competência técnica e
com vistas a enfrentar as desigualda-         política e comprometida com a
des de gênero, raça e classe. Persistem,      agenda de direitos humanos das
entretanto, obstáculos estruturais que        mulheres consubstanciados no

                                                                                     37
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                               Plano Nacional de Política para           abstratas ou genéricas identificadas
                                                               as Mulheres, fruto de processos           com conceitos estritos e conserva-
                                                               participativos; que reconheça             dores que têm sido utilizadas por
                                                               os movimentos de mulheres e               praticamente todas as políticas
                                                               feministas como sujeito político          sociais, salvo raras exceções, como
                                                               de interlocução para a formulação         comunidade, pobres, família, que
                                                               de políticas para as mulheres; que        não permitem o reconhecimento
                                                               respeite a diversidade das mulhe-         das desigualdades vividas pelas
                                                               res e a pluralidade dos movimen-          mulheres;
                                                               tos sociais;
                                                                                                     6. Eliminação dos programas e ações
                                                           3. Avanços significativos na direção         governamentais que legitimam a
                                                              da paridade entre mulheres e ho-          divisão sexual do trabalho, entre
                                                              mens na ocupação dos espaços de           outras estratégias que mantêm e
                                                              poder e decisão do novo governo           atualizam os papéis tradicionais
                                                              federal, nos diferentes escalões          de subordinação e exploração das
                                                              da gestão pública, consideradas           mulheres, inclusive mediante a
                                                              inclusive as dimensões racial e           transferência de responsabilidades
                                                              étnica como critério;                     da esfera do Poder Público para a
                                                                                                        esfera doméstica e comunitária; a
                                                           4. Que o planejamento governamen-            pretensa eficiência econômica de
                                                              tal das políticas públicas (econô-        algumas políticas que reduzem os
                                                              micas, sociais e de desenvolvimen-        gastos públicos vêm tendo custos
                                                              to) responda, de modo estrutural,         muito altos para as mulheres, em
                                                              ao enfrentamento das múltiplas            especial para as que estamos nos
                                                              formas de desigualdade vividas pe-        segmentos mais empobrecidos da
                                                              las mulheres e que, portanto, seja        população;
                                                              garantido espaço de participação
                                                              na elaboração do PPA;                  7. A garantia do sistema público,
                                                                                                        universal, solidário, redistributivo
                                                           5. Que o novo ciclo de políticas             da Seguridade Social; com a incor-
                                                              públicas, com início em 2011, ga-         poração ao sistema das/os trabalha-
                                                              ranta que as metas e os indicadores       doras/es sem cobertura previden-
                                                              estejam orientados a reconhecer,          ciária; universalização do acesso à
                                                              visibilizar e superar as desigualda-      saúde e reafirmação da assistência
                                                              des vividas pelas mulheres. Reivin-       como direito de cidadania;
                                                              dicamos a utilização das categorias
                                                              de gênero, raça, etnia, diversidade    8. O fortalecimento das políticas de
                                                              sexual, geracional, e outras, em          saúde das mulheres e a garantia
                                                              substituição ao uso de categorias         dos direitos sexuais e direitos

                                                      38
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
    reprodutivos, com base na laici-      14. Que o processo preparatório e
    dade, acesso e qualidade, confor-         de realização da III Conferência
    me os compromissos assumidos              Nacional de Políticas para as Mu-
    pelo governo brasileiro;                  lheres, que se inicia em 2011, seja
                                              o espaço privilegiado de discussão,
9. Revisão da legislação restritiva e         negociação e efetiva pactuação de-
   punitiva do direito ao aborto no           mocrática dessa nova construção,
   Brasil;                                    em estreita conexão com o proces-
                                              so de elaboração do Planejamento
10. Ações nos diversos ministérios            Plurianual para 2012-2015;
    que contribuam para a elimi-
    nação de todas as formas de           15. Que no debate sobre a reforma
    violência contra as mulheres e o          tributária a situação de pobreza das
    enfrentamento ao racismo, sexis-          mulheres seja tratada como pro-
    mo e lesbo/transfobia;                    blema de alta relevância, ao qual
                                              a proposta a ser construída deva
11. Propomos fortalecer os espaços            responder para enfrentar a enorme
    de participação e controle social         injustiça fiscal que ainda persiste
    sobre as políticas públicas, como         no sistema tributário brasileiro;
    os Conselhos e Conferências de
    Políticas Públicas;                   16. A severa observância ao princípio
                                              laico que rege o Estado brasileiro,
12. As deliberações das Conferências          condição sine qua non para que
    e Planos que delas emergem se-            as mulheres possam exercer livre-
    jam reconhecidos pelo governo             mente os seus direitos, assim como
    como pactos assumidos com a               sua liberdade sexual e de crença;
    sociedade civil que, portanto,
    devem orientar a gestão, inclusive    17. Que na reforma política, cujo de-
    no nível das finanças públicas. Há        bate deve se iniciar em 2011, a sub-
    que se desfazer a ideia de que os         -representação das mulheres nos
    Planos são meras cartas de inten-         espaços de poder seja eliminada;
    ções, dotando-os de mecanismos
    efetivos de implementação;            18. Que o processo político de cons-
                                              trução da proposta governamen-
13. Que se assegure caráter deliberati-       tal para a reforma política inclua a
    vo aos Conselhos, de modo a for-          abertura de canais de interlocução
    talecer o seu caráter de controle         e negociação com o movimento
    social sobre as políticas públicas,       de mulheres e feminista, assim
    evitando que fiquem reduzidos à           como com as instâncias de mu-
    função de assessoramento;                 lheres em partidos políticos;

                                                                                     39
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                                                           19. Insistimos na importância de se       Articulação de Mulheres Brasileiras
                                                               eliminar todas e quaisquer parce-
                                                                                                     Articulação de Organizações
                                                               rias, ou outras formas colaboração,   de Mulheres Negras Brasileiras
                                                               inclusive em termos econômicos
                                                               do Estado brasileiro com institui-    Comitê Latinoamericano do
                                                                                                     Caribe para a Defesa do Direito
                                                               ções religiosas, confessionais e/ou   da Mulher (CLADEM)
                                                               privadas que violem os direitos das
                                                               mulheres, inclusive pela negação      Jornadas Brasileiras pelo
                                                                                                     Aborto Legal e Seguro
                                                               da prestação de serviços públicos
                                                               responsivos aos direitos conquis-     Liga Brasileira de Lésbicas (LBL)
                                                               tados pelas mulheres.
                                                                                                     Rede Nacional Feminista
                                                                                                     de Saúde, Direitos Sexuais e
                                                           Brasília, 14 de dezembro de 2010.         Direitos Reprodutivos




                                                      40
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
          Contribuições ao plano plurianual
             do governo federal para o
                período 2012-2015

     Documento de orientação da                Consideramos que sobre a ideia
AMB elaborado para o seminário            de igualdade de direitos se apoiam as
‘Diálogos sociais’ reunindo conselhei-    políticas de Estado que se propõem a
ros/as nacionais e entidades convida-     superar as desigualdades de gênero.
das, seminário promovido pela Secreta-    A promoção da igualdade requer o
ria Geral da Presidência da República.    respeito e atenção à diversidade cul-
                                          tural, étnica, racial, inserção social,
visão de futuro                           de situação econômica e regional,
                                          assim como aos diferentes momen-
     À proposta do governo federal de     tos da vida. Demanda o combate
que o Brasil será num país conhecido      às desigualdades de toda sorte, por
por seu modelo de desenvolvimento         meio de políticas de ação afirmativa
sustentável, bem distribuído regio-       e considerando as experiências das
nalmente, que busca igualdade social      mulheres na formulação, implemen-
com educação de qualidade, produção       tação, monitoramento e avaliação
de conhecimento, inovação tecnológi-      das políticas públicas.
ca, acrescentamos que queremos um              Quanto a laicidade, sabemos que
desenvolvimento democrático e com         nunca foi inteiramente implantada no
justiça socioambiental, e queremos o      Brasil, mas afirmamos que as políticas
fim das desigualdades de classe, raça/    públicas de Estado devem ser formu-
etnia e gênero.                           ladas e implementadas de maneira
                                          independente de princípios religiosos,
valores                                   de forma a assegurar efetivamente os
                                          direitos consagrados na Constituição
     Aos valores indicados pelo governo   Federal e em diversos instrumentos
federal para orientação do PPA, tais      internacionais assinados e ratificados
como: Soberania, Democracia, Justiça      pelo Estado brasileiro, como medida
Social, Sustentabilidade, Diversidade     de proteção aos direitos humanos das
Cultural e Identidade Nacional, acres-    mulheres e meninas. (Pressupostos,
centamos que sejam observados os valo-    princípios e diretrizes da Política Na-
res da igualdade e laicidade do Estado.   cional para as Mulheres)


                                                                                    41
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           macrodesafios                              responsabilidade pública para com a
                                                                                                      garantia de exercício pleno dos direitos
                                                                Para o macrodesafio de construir      sexuais e reprodutivos pelas mulheres.
                                                           um Projeto nacional de Desenvolvi-              Nos programas de infraestrutu-
                                                           mento – afirmamos que para nós este        ra, além de infraestrutura produtiva é
                                                           projeto deve associar avanços científico   preciso conferir prioridade estratégica
                                                           e tecnológico, mas também reconhe-         da infraestrutura reprodutiva, enfren-
                                                           cimento e valorização dos saberes          tando a divisão sexual do trabalho e
                                                           tradicionais e populares, redução das      a superexploração das mulheres pela
                                                           desigualdades regionais e entre o rural    dupla jornada de trabalho, garantindo
                                                           e o urbano, transformação produtiva        investimento significativos nos pro-
                                                           predatória da economia empresarial         gramas de infraestrutura social para
                                                           capitalista para formas ambiental-         economia do cuidado (construção de
                                                           mente sustentáveis, assegurando a          creches, restaurantes populares, casa
                                                           diversidade de formas produtivas entre     de repousos, hospitais-dia)
                                                           elas a produção para o autoconsumo,             No âmbito da ação governamen-
                                                           com redistribuição social da riqueza,      tal na Democracia e Participação
                                                           com reconhecimento do trabalho re-         social – é preciso além de fortalecer
                                                           produtivo e garantia dos direitos dos      a democracia, democratizar o poder,
                                                           povos indígenas e comunidades tradi-       estimular a participação da sociedade,
                                                           cionais. Além disso o projeto nacional     efetivando um gestão participativa e
                                                           deve estar comprometido com o fim          ampliando a transparência da ação
                                                           da pobreza e prosseguir reduzindo as       pública. É preciso construir um sis-
                                                           desigualdades sociais, garantindo as       tema de participação através da arti-
                                                           condições objetivas para que as pessoas    culação entre conselhos, conferência,
                                                           possam prover seu próprio sustento         audiências públicas, ouvidorias e deste
                                                           através do acesso aos bens da natureza     com o planejamento governamental.
                                                           e meios de produção.                            No macrodesafio da segurança
                                                                No âmbito da Promoção da Ci-          Pública – Promover a segurança e
                                                           dadania é preciso assegurar políticas      a integridade dos cidadãos, através
                                                           de igualdade de gênero e étnico-racial,    do combate a todas as formas de
                                                           respeitando a diversidade sexual,          discriminação e violência, inclusive
                                                           democratizando as relações sociais,        no âmbito doméstico e institucional.
                                                           garantindo direitos e promovendo a         Aos programas é preciso incluir e
                                                           universalização do acesso e elevação       ampliar o programa de Prevenção e
                                                           da qualidade dos serviços públicos de      Enfrentamento da violência contra
                                                           saúde e educação. É preciso atenção e      as mulheres.




                                                      42
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
   Carta política do encontro nacional
    de Diálogos e Convergências entre
  Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental,
      Soberania Alimentar, economia
          Solidária e Feminismo


     Somos 300 cidadãos e cidadãs       que expressam as variadas formas de
brasileiras integrados à Articulação    resistência das camadas populares
Nacional de Agroecologia – ANA, à       em suas diferentes expressões socio-
Associação Brasileira de Agroecologia   culturais e sua capacidade de gerar
– ABA-Agroecologia, à Associação        propostas alternativas ao modelo de
Brasileira de Pós-Graduação em Saúde    desenvolvimento hegemônico em
Coletiva – Abrasco, ao Fórum Brasi-     nosso país. Vindos de todas as regiões
leiro de Economia Solidária – FBES,     do país, esses casos iluminaram nossos
ao Fórum Brasileiro de Soberania e      debates durante esses três dias e funda-
Segurança Alimentar e Nutricional –     mentam a manifestação política que
FBSSAN, à Rede Brasileira de Justiça    apresentamos nesta carta.
Ambiental – RBJA, à Rede Alerta              Ao alimentar esse padrão de
contra o Deserto Verde – RADV, à        desenvolvimento, o governo Dilma
Marcha Mundial de Mulheres e à          inviabiliza a justa prioridade que atri-
Articulação de Mulheres Brasilei-       buiu ao combate à miséria em nosso
ras – AMB, em reunião na cidade         país. Tendo como eixo estruturante
de Salvador (BA), entre os dias 26      o crescimento econômico pela via
a 29 de setembro de 2011, durante       da exportação de commodities, esse
o Encontro Nacional de Diálogos e       padrão gera efeitos perversos que se
Convergências entre Agroecologia,       alastram em cadeia sobre a nossa so-
Saúde e Justiça Ambiental, Sobera-      ciedade. No mundo rural, a expressão
nia Alimentar, Economia Solidária e     mais visível da implantação dessa
Feminismo.                              lógica econômica é a expropriação
     Nosso encontro resulta de um       das populações de seus meios e mo-
longo e fecundo processo de prepa-      dos de vida, acentuando os níveis de
ração motivado pela identificação e     degradação ambiental, da pobreza
sistematização de casos emblemáticos    e da dependência desse importante

                                                                                   43
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           segmento da sociedade a políticas            desnutrição. Constatamos também
                                                           sociais compensatórias. Esse modelo          que esse modelo se estrutura e acentua
                                                           que se faz presente desde o início de        as desigualdades de gênero, de gera-
                                                           nossa formação histórica ganhou forte        ção, de raça e etnia.
                                                           impulso nas últimas décadas com o                 Nossas análises convergiram
                                                           alinhamento dos seguidos governos            para a constatação de que os maiores
                                                           aos projetos expansivos do capital           beneficiários e principais induto-
                                                           internacional. Materialmente, ele se         res desse modelo são corporações
                                                           ancora na expansão do agronegócio e          transnacionais do grande capital
                                                           em grandes projetos de infraestrutura        agroindustrial e financeiro. Apesar
                                                           implantados para favorecer a extração        de seus crescentes investimentos em
                                                           e o escoamento de riquezas naturais          marqueting social e verde, essas cor-
                                                           para os mercados globais.                    porações já não conseguem ocultar
                                                                Os casos emblemáticos que sub-          suas responsabilidades na produção
                                                           sidiaram nossos diálogos demonstram          de uma crise de sustentabilidade pla-
                                                           a essência violenta desse modelo que         netária que atinge inclusive os países
                                                           viola o “direito de ficar”, desterritoria-   mais desenvolvidos e que se manifesta
                                                           lizando as populações, o que significa       em desequilíbrios sistêmicos expres-
                                                           subtrair delas a terra de trabalho, o        sos no crescimento do desemprego
                                                           livre acesso aos recursos naturais, suas     estrutural, na acentuação da pobreza
                                                           formas de organização econômica e            e da fome, nas mudanças climáticas,
                                                           suas identidades socioculturais. Os          na crise energética e na degradação
                                                           movimentos massivos de migração              acelerada dos recursos do ambiente.
                                                           compulsória daí decorrentes estão            As experiências mobilizadas pelas
                                                           na raiz de um padrão de distribuição         redes aqui em diálogo denunciam
                                                           demográfica insustentável e que cada         as raízes perversas desse modelo ao
                                                           vez mais converte as cidades em pólos        mesmo tempo em que contestam
                                                           de concentração da pobreza, ao passo         radicalmente as falsas soluções à crise
                                                           que o mundo rural vai se desenhando          planetária que vêm sendo apregoa-
                                                           como um cenário de ocupação do               das pelos seus agentes promotores e
                                                           capital e de seu projeto de uma agri-        principais beneficiários. Ao se consti-
                                                           cultura sem agricultoras e agricultores.     tuírem como expressões locais de re-
                                                                A progressiva deterioração da           sistência, essas experiências apontam
                                                           saúde coletiva é o indicador mais            também caminhos para a construção
                                                           significativo das contradições de            de uma sociedade justa, democrática
                                                           um modelo que alça o Brasil a uma            e sustentável.
                                                           das principais economias mundiais                 A multiplicação dessas iniciativas
                                                           ao mesmo tempo em que depende                de defesa de territórios, promoção da
                                                           da manutenção e seguida expansão             justiça ambiental e de denúncia dos
                                                           de políticas de combate à fome e à           conflitos socioambientais estão na

                                                      44
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
raiz do recrudescimento da violência        contribuição que povos e populações
no campo que assistimos nos últimos         tradicionais oferecem à conservação
anos. O assassinato de nossos compa-        dos ecossistemas; do reconhecimento
nheiros e companheiras nessas frentes       dos recursos ambientais como bens
de luta é o mais cruel e doloroso tribu-    coletivos para o presente e o futuro; e
to que o agronegócio e outras expres-       os direitos das populações do campo
sões do capital impõem aos militantes       e da cidade a uma proteção ambien-
do povo e ao conjunto da sociedade          tal equânime. Convergimos ainda na
com suas práticas criminosas.               afirmação de que o direito a terra e os
     Nossos diálogos procuraram             direitos à água, à soberania alimentar
construir convergências em torno de         e à saúde estão fortemente associados.
temas que mobilizam as práticas de               Reconhecemos a importância da
resistência e de afirmação de alterna-      mobilização em apoio ao Movimento
tivas para a sociedade.                     Xingu para sempre – em defesa da
     Os diálogos sobre reforma agrária,     vida e do Rio Xingu, considerado
direitos territoriais e justiça ambien-     como um exemplo emblemático de
tal responsabilizaram o Estado face ao      luta de resistência ao atual modelo
quadro de violência com assassinatos,       de desenvolvimento. Defendemos
expulsão e deslocamentos compulsórios       o fortalecimento da articulação dos
de populações pela ação dos grandes         atingidos pela empresa Vale e as
projetos como as hidrelétricas, expan-      propostas que combinem a gestão
são das monoculturas e o crescimento        ambiental com a produção agroeco-
da mineração; a incorporação de áreas       lógica, a exemplos de experiências
de produção de agrocombustíveis,            inovadoras dos movimentos sociais
reduzindo a produção de alimentos;          em assentamentos da reforma agrária.
a pressão sobre as populações que           No debate sobre mudanças climá-
ocupam tradicionalmente áreas de            ticas, seus impactos, mecanismos
florestas, ribeirinhas e litorâneas, como   de mercado e a agroecologia como
os mangues, os territórios da pesca ar-     alternativa, recusamos que a proposta
tesanal, com a desestruturação de seus      agroecológica seja apropriada como
meios de vida e ameaça ao acesso à água     mecanismo de compensação, seja ele
e à soberania alimentar.                    no invisível e inseguro mercado de
     As convergências se voltaram           carbono, seja em REDD, REDD +,
para a reafirmação da centralidade da       REDD++ (redução das emissões por
luta pela terra, pela reforma agrária e     desmatamento e degradação) ou ainda
pela garantia dos direitos territoriais     dentro do pagamento de serviços am-
das populações. O direito a terra           bientais. A Rio +20 engendra e con-
está indissociado da valorização das        solida a chamada “economia verde”,
diferentes formas de viver e produ-         que pode significar uma apropriação,
zir nos territórios, reconhecendo a         pelo capitalismo, das alternativas

                                                                                      45
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                                                           construídas pela agricultura familiar e   qual ocorre nas áreas de geração de
                                                           camponesa e pela economia solidária,      energia elétrica, segurança alimentar,
                                                           reduzindo a crise socioambiental a um     ciência e tecnologia ou mesmo da
                                                           problema de mercado.                      economia solidaria.
                                                                A Agroecologia não é uma sim-             Nas políticas para os agrocom-
                                                           ples prestadora de serviços, contratu-    bustíveis, a agricultura familiar é
                                                           alizada com setor privado. Ela reúne      inserida como mera fornecedora de
                                                           nossas convergências no campo e na        matérias primas e o modelo de in-
                                                           cidade, trabalhando com gente com         tegração é dominante, mascarando
                                                           fundamento. É possível financiar a        o arrendamento e assalariamento do
                                                           Agroecologia a partir da contamina-       campesinato e embutindo o pacote
                                                           ção, escravidão, racismo e acumulação     tecnológico da revolução verde através
                                                           cada vez maior do capital? É possível     das políticas de crédito, assistência
                                                           fazer um enfrentamento a partir do        técnica e extensão rural. O diálogo do
                                                           pagamento de serviços ambientais          governo com os movimentos sociais se
                                                           por contratos privados, Parcerias         precariza pela setorização e atomiza-
                                                           Público-Privadas?                         ção das relações, enquanto a mistura
                                                                Ao debater os impactos da ex-        de interesses e operações entre MDA
                                                           pansão dos monocultivos para agro-        e Petrobrás acaba por legitimar o canal
                                                           combustíveis e padrões alternativos       de negociação empresarial no marco
                                                           de produção e uso de energia no           de uma política pública.
                                                           mundo rural, os diálogos aponta-               As experiências de produção des-
                                                           ram que a energia é estratégica como      centralizada de energia e alimentos
                                                           elemento de poder e autonomia dos         apontam como soluções reais aquelas
                                                           povos, mas está diretamente ligada        articuladas por organizações e movi-
                                                           ao modelo (hegemônico e falido) de        mentos sociais que integram as pers-
                                                           consumo, produção e distribuição. A       pectivas da agroecologia, da soberania
                                                           produção de agrocombustíveis, base-       alimentar e energética, da economia
                                                           ada na monocultura, na destruição         solidária, do feminismo e da justiça
                                                           do ambiente, na violação dos direi-       social e ambiental, e são baseadas na
                                                           tos e injustiças sociais e ambientais,    forte identidade territorial e prévia
                                                           associa-se ao agronegócio e ameaça a      organização das comunidades.
                                                           soberania alimentar.                           Estas iniciativas têm em comum
                                                                As políticas públicas sistema-       a diversificação da produção e dos
                                                           ticamente desvirtuam as propostas         mercados e a prioridade no uso dos
                                                           calcadas nas experiências populares,      recursos, dos saberes e dos espaços de
                                                           colocando as cooperativas e iniciativas   comercialização locais. Estão sob o
                                                           da agricultura familiar na lógica da      controle dos agricultores e têm auto-
                                                           competição de mercado e em patamar        nomia frente às empresas e ao Estado.
                                                           desigual em relação às corporações, tal   Articulam-se a programas e políticas

                                                      46
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
públicas diversas como o Programa         seus impactos expressas nas dificul-
Nacional de Alimentação Escolar –         dades de acesso aos dados oficiais de
PNAE e o Programa de Aquisição            consumo de agrotóxicos e de laudos
de Alimentos –PAA, não apenas ao          técnicos sobre casos de contaminação;
Programa Nacional de Produção e           na liberação de Organismos Geneti-
Uso de Biodiesel – PNPB. Os pro-          camente Modificados – OGMs sem
cessos de transformação estão sob o       debate democrático com a sociedade
domínio das organizações em toda a        e sem atender ao princípio da precau-
cadeia produtiva, e há diversificação     ção; na frágil vigilância e fiscalização
da produção de alimentos e de matriz      trabalhista, ambiental e sanitária; na
energética e co-produtos, para além e     dificuldade do acesso aos laboratórios
como consequência da produção de          públicos para análise de amostras de
combustível. As formas de produção        contaminação por transgênicos e por
estão em rede e têm capacidade de se      agrotóxicos no ar, água, alimentos e
contrapor aos sistemas convencionais      sangue; terminando por promover um
como premissa de sua permanência          modelo de desenvolvimento para o
no território.                            campo que concentra terra, riqueza e
     Com base nestes princípios e         renda, com impactos diretos nas po-
lições, as políticas públicas para a      pulações mais vulneráveis em termos
promoção da produção de energia           socioambientais.
e alimentos devem ter: um marco                Há um chamamento para que o
legal diferenciado para a agricultura     Estado se comprometa com a apura-
familiar; promover a produção e uso       ção das denúncias e investigação dos
diversificado de óleos, seus co-pro-      crimes, a exemplo do assassinato do
dutos e outras culturas, adequadas à      líder comunitário José Maria da Cha-
diversidade cultural e biológica regio-   pada do Apodi, no Ceará; com a de-
nal; atender à demanda de adequação       fesa de pesquisadores criminalizados
e desenvolvimento de tecnologia e         por visibilizar os impactos dos agro-
equipamentos apropriados, acompa-         tóxicos e por produzir conhecimentos
nhada de processos de formação e de       compartilhados com os movimentos
redes de inovação nas universidades;      sociais; com políticas públicas que
além de proporcionar autonomia na         potencializem a transição agroecoló-
distribuição e consumo local de óleos     gica – facilitando o acesso ao crédito,
vegetais, biodiesel e álcool.             à assistência técnica adequada e que
     Os diálogos sobre os agrotóxi-       reconheça os conhecimentos e práti-
cos e transgênicos, articulando as        cas agroecológicas das comunidades
visões da justiça ambiental, saúde        camponesas.
ambiental e promoção da agroe-                 Não há possibilidade de convi-
cologia, responsabilizaram o Estado       vência entre o modelo do agronegócio
pelas políticas de ocultamento de         e o modelo da agroecologia no mesmo

                                                                                     47
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                                                           território, porque o desmatamento e         curso, nos territórios, um processo
                                                           as pulverizações de agrotóxicos ge-         de privatização da terra e da biodi-
                                                           ram desequilíbrios nos ecossistemas         versidade manejada pela produção
                                                           afetando diretamente as unidades            familiar e camponesa, povos e comu-
                                                           agroecológicas. As políticas públicas       nidades tradicionais. Tal privatização
                                                           devem estar atentas aos impactos dos        é aprofundada pela flexibilização do
                                                           agrotóxicos sobre as mulheres (abor-        Código Florestal, que é uma grande
                                                           tos, leite materno etc.) pois estas estão   ameaça e abre caminhos para um pro-
                                                           expostas de diferentes formas, que          cesso brutal de destruição ambiental e
                                                           vão desde o trabalho nas lavouras até       apropriação de terra e territórios pelo
                                                           o momento da lavagem da roupa dos           agronegócio.
                                                           que utilizam os agrotóxicos. O uso se-           A privatização das sementes e
                                                           guro dos agrotóxicos e transgênicos é       mudas, dos conhecimentos tradicio-
                                                           um mito e um paradigma que precisa          nais e dos diversos componentes da
                                                           ser desconstruído.                          biodiversidade vem se dando de forma
                                                                É fundamental a convergência           acelerada, com o Estado cumprindo
                                                           de nossas ações com a Campanha              um papel decisivo na mediação (regu-
                                                           Nacional Permanente Contra os               lamentação e políticas públicas) dos
                                                           Agrotóxicos e pela Vida, ampliando          contratos estabelecidos entre empresas
                                                           os diálogos e convergências com os          e comunidades, representando sérios
                                                           movimentos sociais do campo e da ci-        riscos aos direitos ao livre uso da
                                                           dade, agregando novas redes que não         biodiversidade.
                                                           estiveram presentes nesse Encontro de            Causa grande preocupação que as
                                                           Diálogos e Convergências. Temos que         questões nacionais sobre conservação
                                                           denunciar esse modelo do agronegó-          e uso da biodiversidade estejam sen-
                                                           cio para o mundo e buscar superá-lo         do discutidas e encaminhadas sem a
                                                           por meio de políticas públicas que          participação efetiva das populações
                                                           possam inibir o uso de agrotóxicos          diretamente atingidas, estando sujei-
                                                           e transgênicos, a exemplo da proibi-        tas a agendas internacionais como a
                                                           ção da pulverização aérea, ou ainda         Rio +20. Consideramos uma viola-
                                                           direcionando os recursos oriundos           ção a atual forma de “consulta” sobre
                                                           dos impostos dos agrotóxicos, cuja          importantes instrumentos legais e de
                                                           produção e comercialização é vergo-         política concentrada em poucos atores
                                                           nhosamente subsidiada pelo Estado.          e de questionável representatividade.
                                                           O fim dos subsídios contribuiria para            Experiências presentes neste en-
                                                           financiar o SUS e a agroecologia.           contro demonstram avanços e se
                                                                Com relação aos direitos dos           fortalecem a partir da legitimidade de
                                                           agricultores, povos e comunidades           suas práticas e aproveitando as brechas
                                                           tradicionais ao livre uso da biodi-         existentes na legislação. Este é o caso,
                                                           versidade, constatamos que está em          por exemplo, dos bancos comunitários

                                                      48
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
de sementes no semiárido; da produção    as mulheres, a promoção da saúde
de sementes agroecológicas a partir      pública e a preservação ambiental.
de variedades de domínio público; da     Constatou-se que estas iniciativas
autorregulação dos conhecimentos         contribuem com a construção con-
tradicionais sobre as plantas medici-    creta e material de propostas diferen-
nais do Cerrado; da constituição de      ciadas de desenvolvimento, calcadas
um fundo público das quebradeiras        nas realidades, cultura e autonomia
de coco babaçu através da repartição     dos sujeitos dos territórios e orienta-
de benefícios que reconhece o conhe-     das para a justiça socioambiental, a
cimento tradicional associado.           democracia econômica e o direito à
     É necessário aprofundar a or-       alimentação adequada.
ganização das agricultoras e dos              Estes acúmulos se expressam atra-
agricultores, extrativistas, povos e     vés da existência e resistência de deze-
comunidades tradicionais em seus         nas de milhares de empreendimentos
territórios, de forma a fortalecer os    e iniciativas de Economia Solidária e
princípios e ações de cooperativismo     Agroecologia, especialmente quando
e suas interlocuções com as redes re-    articuladas e organizadas em redes
gionais, estaduais e nacionais como      e circuitos de produção, comercia-
estratégia de resistência e construção   lização e consumo, que aproximam
de alternativas. A geração de alter-     produtores e consumidores e fortale-
nativas econômicas é crucial neste       cem a economia e cultura locais, num
contexto. A apropriação do debate        enfrentamento à desterritorialização
em torno dos direitos pode facilitar     e desigualdades de gênero, raça e
e fortalecer o diálogo de nossas redes   etnia inerentes ao atual padrão hege-
e movimentos com a sociedade civil       mônico de produção e distribuição
de modo geral, de modo a visibilizar     agroalimentar.
a importância dos modos de vida               Constatou-se que os Programas
destas comunidades para a garantia       de Alimentação Escolar – PNAE e
de direitos humanos, como o direito      de Aquisição de Alimentos – PAA,
à alimentação adequada e saudável.       assim como o reconhecimento cons-
     Nos diálogos sobre soberania        titucional do direito à alimentação e
alimentar e nutricional, Economia        a implantação do Sistema e Política
solidária e agroecologia, as experi-     de Segurança Alimentar e Nutricio-
ências apontaram o grande acúmulo        nal, são conquistas importantes para
na construção de alternativas ao atual   a agricultura familiar e camponesa.
modelo agroalimentar, que garantam,      Por outro lado, de forma paradoxal,
de forma articulada, a soberania ali-    o Estado tem apoiado fortemente o
mentar e nutricional, a emancipação      agronegócio, através da subordinação
econômica dos trabalhadores e traba-     de sua ação a interesses do capital, e
lhadoras nos territórios, em especial    da falta de um horizonte e estratégia

                                                                                    49
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                                                           definidos de expansão do orçamento          o que exige a regulação da publicidade
                                                           do PAA e do PNAE.                           de alimentos, quanto anunciando as al-
                                                                As vivências e experiências denun-     ternativas disponíveis na Agroecologia
                                                           ciam também a grande quantidade de          e na Economia Solidária.
                                                           barreiras ao acesso das iniciativas e em-    
                                                           preendimentos de Economia Solidária         Em busca de novos caminhos
                                                           e Agroecologia a políticas públicas e ao
                                                           mercado. Tais barreiras se expressam             Os exercícios de diálogos que
                                                           em uma legislação e inspeção sanitárias     estamos realizando há dois anos e os
                                                           e tributárias incompatíveis às realida-     excelentes resultados a que chegamos
                                                           des das/dos produtoras/es e trabalha-       em nosso encontro reiteram a necessi-
                                                           doras/es associadas/os, em especial no      dade de fortalecermos nossas alianças
                                                           processamento e agroindustrialização        estratégicas e renovarmos nossos mé-
                                                           de polpas, doces e alimentos de origem      todos de ação convergente. As experi-
                                                           animal. Estas barreiras, somadas à          ências que ancoraram nossas reflexões
                                                           burocratização na aquisição da Decla-       deixam claro que os temas que iden-
                                                           ração de Aptidão ao PRONAF – DAP            tificam as bandeiras de nossas redes
                                                           e a uma ofensiva de setores empresa-        e movimentos integram-se nas lutas
                                                           riais que têm denunciado à ANVISA           do cotidiano que se desenvolvem nos
                                                           empreendimentos produtivos assim            campos e nas cidades contra os meca-
                                                           que estes começam a se fortalecer, têm      nismos de expropriação impostos pelo
                                                           impedido o escoamento da produção           capital e em defesa dos territórios.
                                                           dentro e fora do município e o acesso       Evidenciam, assim, a necessidade de
                                                           ao PAA e ao PNAE. O direito à or-           intensificarmos e multiplicarmos as
                                                           ganização do trabalho e da produção         práticas de diálogos e convergências
                                                           de forma associada só existirá com a        desde o âmbito local, onde as disputas
                                                           conquista de garantias e condições          territoriais materializam-se na forma
                                                           legislativas, tributárias e de financia-    de conflitos socioambientais, com
                                                           mento que sejam justas.                     impacto na saúde das populações,
                                                                Os diálogos apontaram também           até níveis regionais, nacionais e in-
                                                           a luta pelo consumo responsável, so-        ternacionais, fundamentais para que
                                                           lidário e consciente como um campo          as causas estruturais do atual modelo
                                                           importante de convergência entre as         hegemônico sejam transformadas.
                                                           redes e movimentos e como um des-                A natureza local e diversificada de
                                                           dobramento concreto deste Encontro,         nossas lutas vem até hoje facilitando
                                                           através da construção conjunta de um        as estratégias de sua invisibilização
                                                           diálogo pedagógico com a sociedade,         pelos setores hegemônicos e benefici-
                                                           tanto denunciando os impactos e da-         ários do modelo. Esse fato nos indica
                                                           nos dos alimentos vindos do agronegó-       a necessidade de atuarmos de forma
                                                           cio e contaminados com agrotóxicos,         articulada, incorporando formas

                                                      50
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
criativas de denúncia, promovendo a         O Estado deve se comprometer a fi-
visibilidade dos conflitos e das propo-     nanciar nossas mídias, inclusive para
sições que emergem das experiências         que possamos ampliar projetos de for-
populares.                                  mação de comunicadores e de estru-
     Uma das linhas estratégicas para a     turação dos nossos próprios veículos
promoção dos diálogos e convergên-          de comunicação. As mídias públicas
cias é a produção e disseminação de         devem ser veículos para comunicar
conhecimento sobre as trajetórias his-      aprendizados de nossas experiências,
tóricas de disputas territoriais e suas     proposições e campanhas. Por uma
atuais manifestações. Nesse sentido,        comunicação livre, democrática,
as alianças com o mundo acadêmico           comunitária, igualitária, plural e que
devem ser reforçadas também como            defenda a vida acima do lucro.
parte de uma estratégia de reorien-              Nossos diálogos convergem tam-
tação das instituições do Estado, no        bém para a necessidade do reco-
sentido destas reforçarem as lutas pela     nhecimento das mulheres como
justiça social e ambiental. Estimula-       sujeito político, a importância de sua
mos a elaboração e uso de mapas que         auto-organização e a centralidade do
expressem as diferentes dimensões das       questionamento da divisão sexual
lutas territoriais pelos seus protagonis-   do trabalho que desvaloriza e separa
tas como uma estratégia de visibiliza-      trabalho das mulheres em relação
ção e articulação entre nossas redes e      ao dos homens, assim negando a
movimentos. O Intermapas já é uma           contribuição econômica da atividade
expressão material das convergências.       doméstica de cuidados e a produção
     Outra linha estratégica funda-         para o autoconsumo. Convergimos
menta-se em nossa afirmação de que a        na compreensão do sentido crítico
comunicação é um direito das pessoas        do pensamento e ação feministas
e dos povos. Reafirmamos a impor-           para ressignificar e ampliar o sentido
tância, a necessidade e a obrigação de      do trabalho e sua centralidade para a
nos comunicarmos para tornar visíveis       produção do viver.
nossas realidades, nossas pautas e nos-          A apropriação do feminismo
so projeto de desenvolvimento para o        como ferramenta política contribuirá
país. A mudança do marco regulatório        para recuperar e visibilizar as experi-
da mídia é condição para a democra-         ências, os conhecimentos e as práticas
tização dos meios de comunicação.           das mulheres na construção da agro-
Repudiamos as posturas de criminali-        ecologia, da economia solidária, da
zação e as formas de representação que      justiça ambiental e para garantir sua
a mídia hegemônica adota ao abordar         autonomia econômica.
os territórios, modos de vida e lutas.           Mas a história também mostra
Contestamos a produção da invisibi-         que o permanente exercício da violên-
lidade nesses meios de comunicação.         cia dos homens contra as mulheres é

                                                                                      51
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           um poderoso instrumento de domi-         estabelecer com ela relações que per-
                                                           nação e controle patriarcal que fere     mitam à sociedade reconhecer nas ins-
                                                           a dignidade das mulheres e impede        tituições a expressão do compromisso
                                                           a conquista de sua autonomia, e as       com o público e com a sustentabilida-
                                                           exclui dos espaços de poder e decisão.   de. Esse princípio é contraditório com
                                                           A violência contra as mulheres não       qualquer prática de criminalização
                                                           é agroecológica, não é solidaria, não    dos movimentos e organizações que
                                                           é sustentável, não é justa. Por isso é   lutam por direitos civis de acesso so-
                                                           fundamental que as redes que estão       berano aos territórios e seus recursos.
                                                           organizando o Encontro Nacional de            As redes e movimentos promoto-
                                                           Diálogos e Convergências assumam         res deste Encontro saem fortalecidos
                                                           a erradicação da violência contra as     e têm ampliadas suas capacidades
                                                           mulheres como parte de um novo           de expressão pública e ação política.
                                                           modelo de produção e consumo, que        Estamos apenas no início de um pro-
                                                           deve ter como um eixo fundamental a      cesso que se desdobrará em ambientes
                                                           construção de novas relações humanas     de diálogos e convergências que se
                                                           baseadas na igualdade.                   organizarão a partir dos territórios,
                                                               O papel do Estado democrático        o lugar onde nossas lutas se integram
                                                           é o de construir um país de cidadãos     na prática.
                                                           e cidadãs, promover e defender a
                                                           organização da sociedade civil e de          Salvador, 29 de setembro de 2011.




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ContriBuiçõeS Ao DeBAte
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
    Saúde pública em mãos privadas: para
     onde vai o SuS no governo Dilma?
                                 Verônica Ferreira




     O anúncio dos dois novos progra-           Nós dos movimentos de mulheres
mas de saúde – SOS Emergências e           sabemos e vivemos os problemas no
Melhor em Casa – feito pela presiden-      atendimento que roubam vidas todos
ta Dilma Roussef, estarreceu a todas/      os dias nas grandes emergências dos
os aquelas/es que lutam pelo SUS. O        hospitais públicos. Uma situação de
governo federal lança mão da parceria      barbárie que precisa ser enfrentada.
com o setor privado, por meio dos          Para isso, defendemos em nossas
grandes hospitais, para resolver os        mobilizações e nos espaços de parti-
problemas de gestão e qualidade do         cipação (Conselhos e Conferências)
atendimento das grandes emergên-           o investimento pesado de recursos
cias públicas. Em quase dez minutos        nos hospitais públicos, a contratação
de seu pronunciamento em rede na-          de mais profissionais com condições
cional, Dilma falou com entusiasmo         de trabalho e possibilidades de rea-
da parceria com o setor privado. A         lizar uma carreira pública plena no
palavra SUS não foi pronunciada em         SUS, a ampliação de unidades de
nenhum momento.                            alta complexidade, a qualificação no
     O anúncio acontece após semanas       atendimento.
de campanha de desqualificação e ata-           Isto é possível e pode ser feito
que ao SUS pela mídia conservadora         pelo Estado, com investimento e
e a menos de 20 dias da Conferência        gestão pública, pelos sujeitos que vêm
Nacional de Saúde, onde representantes     construindo, há duas décadas, um dos
da sociedade civil, movimentos sociais,    maiores sistemas públicos e universais
trabalhadoras/es e gestoras/es, apresen-   de saúde do mundo. O SUS é a prova
tarão suas propostas para a consolidação   de que isto é possível. Para isso, há que
do SUS. O governo escolheu a quem          se optar por qual modelo de Estado e
responder. Capitulou frente à pressão      porque projeto para a saúde construir.
da imprensa conservadora e privatista e         Para consolidar o SUS, eviden-
retirou da disputa na Conferência uma      temente, é preciso recursos. E recur-
de suas pautas mais importantes e ten-     sos não caem do céu, como disse a
sas: a adoção do modelo das fundações      presidenta em seus discurso. Isto já
privadas na gestão do SUS.                 estava claro no processo constituinte

                                                                                       55
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           que teve como uma de suas princi-          dívida. Em 2012, o desfalque será de
                                                           pais conquistas a definição de um          62 milhões! Enquanto Dilma fazia seu
                                                           orçamento próprio para a seguridade        pronunciamento, o Congresso Nacio-
                                                           social, estabelecendo uma diversida-       nal aprovava a prorrogação da DRU
                                                           de de fontes de financiamento. Os          até 2015, sob pressão do governo.
                                                           fundos públicos são disputados pelos            Para pressionar pela aprovação da
                                                           interesses econômicos, razão pela qual     DRU, o governo lança mão em seu
                                                           a Constituição estabeleceu e protegeu      discurso do enfrentamento à pobre-
                                                           o orçamento para os direitos sociais.      za. A pobreza tem sido acionada em
                                                           O orçamento da seguridade, tal como        muitos momentos para legitimar as
                                                           estabelecido na Constituição, nunca        ações do governo, mesmo aquelas que
                                                           se realizou. Por exemplo, a partir da      claramente favorecem a concentração
                                                           taxação das grandes fortunas, do ca-       de riqueza. Como o volume de recur-
                                                           pital financeiro.                          sos retirado dos direitos sociais para o
                                                                O que ocorre hoje é o contrário.      capital financeiro é um escândalo, o
                                                           Os recursos da seguridade são levados      governo sustenta que os recursos irão
                                                           para o céu do capital financeiro, para o   também para a construção de mora-
                                                           pagamento infindo de juros da dívida       dias, para o PAC e para o Programa
                                                           que não se paga nunca, para sustentar a    Brasil sem Miséria. Ocorre que, para
                                                           política econômica de superávit primá-     garantir os recursos do Brasil sem Mi-
                                                           rio, para assegurar a credibilidade do     séria, não precisamos de DRU. Basta
                                                           país frente aos credores e investidores,   deixar as receitas onde elas já estão:
                                                           digo, aos especuladores, do capitalismo    no orçamento da seguridade social,
                                                           financeiro internacional que hoje do-      que inclui os recursos para a política
                                                           minam o mundo e subordinam estados         de assistência.
                                                           nacionais a seus interesses.                    Não queremos gestão privada do
                                                                O orçamento da seguridade social      SUS. Não aceitamos a prorrogação da
                                                           tem sido drenado, desde 1994, por          DRU. Seguimos acreditando que um
                                                           meio da Desvinculação de Receitas          sistema de saúde público, universal,
                                                           da União – DRU, para o pagamento           de qualidade, é possível. Que preci-
                                                           de juros da dívida pública e sustentar     samos seguir realizando a revolução
                                                           a credibilidade internacional do país      na saúde que o SUS representa, ainda
                                                           junto ao grande capital financeiro. Os     inacabada. E que, para isso, é melhor
                                                           45 bilhões de que o SUS precisa para       fazê-lo em casa, com recursos públi-
                                                           garantir melhor qualidade, conforme        cos, sob a gestão pública e a partir da
                                                           o próprio Ministério da Saúde já es-       experiência enorme e revolucionária
                                                           tipulou, são desfalcados anualmente        que a implementação do SUS nas
                                                           para pagar os impagáveis juros da          duas últimas décadas construiu.




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Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
      política nacional de Atenção integral
          à Saúde da mulher – pnAiSm
  entre as diretrizes e a realidade das mulheres brasileiras
                               Conceição de maria Amorim



     A construção de políticas públicas          – Princípios e Diretrizes, construída a
dirigidas à saúde da mulher no Brasil            partir da proposição do SUS, respeitan-
são recentes e fazem parte das profun-           do as características da nova política de
das mudanças societárias das últimas             saúde. (MS 2008).
três décadas, através das lutas do mo-
vimento feminista, aliadas às lutas dos                     A Política de Atenção à Saúde
profissionais da saúde do movimento                    da Mulher deverá atingir as mulheres
sanitarista, comprometidas com a                       em todos os ciclos de vida, resguar-
filosofia de saúde enquanto direito                    dadas as especificidades das diferentes
e preocupadas em garantir à mulher                     faixas etárias e dos distintos grupos
assistência integral, enfatizando a                    populacionais (mulheres negras, in-
preocupação com seu corpo e mente                      dígenas, residentes em áreas urbanas
de forma integral.                                     e rurais, residentes em locais de difícil
     Este debate tem início em 1983 e                  acesso, em situação de risco, presi-
resultou na implantação do Programa                    diárias, de orientação homossexual,
de Atenção Integral à Saúde da Mulher                  com deficiência, dentre outras). As
– PAISM que tinha como principal                       políticas de saúde da mulher deverão
perspectiva a superação da abordagem                   ser compreendidas em sua dimensão
materno-infantil, retrógrada e conser-                 mais ampla, objetivando a criação e
vadora, nas ações de saúde da mulher.                  ampliação das condições necessárias
     O PAISM funcionou como Pro-                       ao exercício dos direitos da mulher,
grama de Atenção à Saúde da Mulher,                    seja no âmbito do SUS, seja na atu-
desde sua implantação, até 2004,                       ação em parceria do setor saúde com
quando, em 28 de maio de 2004, o                       outros setores governamentais, com
ministro da Saúde, Humberto Costa,                     destaque para a segurança, a justiça,
lançou a Política Nacional de Atenção                  trabalho, previdência social e edu-
Integral à Saúde da Mulher – PNAISM                    cação. (BRASIL, 2004)1.


1        BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações
Programáticas Estratégicas. Política Nacional de Atenção integral á Saúde da Mulher: Princípios
e diretrizes. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2004.

                                                                                                   57
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                                A integralidade da política pres-          As investigações constatam, cla-
                                                           supõe ações construídas a partir da        ramente, a falta de correspondência
                                                           concepção de intersetorialidade,           entre os direitos assegurados nos
                                                           comunhão de saberes e fazeres coleti-      discursos oficiais e a realidade con-
                                                           vos, que perpassem o espaço físico do      creta a que se referem. Observa-se, na
                                                           atendimento, em que se veja a usuá-        realidade dos serviços públicos, que a
                                                           ria como um todo e se garanta uma          garantia do direito à saúde está muito
                                                           atuação permanente na prevenção e          distante do que se tem no papel.
                                                           promoção da saúde, considerando as
                                                           especificidades e as relações de gênero    •	 Falta trabalhar a interdisciplina-
                                                           na sociedade patriarcal, capitalista          ridade, estimulando a discussão
                                                           comprometida com as políticas do              coletiva acerca das ações desenvol-
                                                           neoliberalismo.                               vidas e por toda a equipe;
                                                                No presente verifica-se que as        •	 Falta capacitação da prática
                                                           políticas públicas resultam de uma            interdisciplinar;
                                                           permanente luta de classes e que,          •	 Falta capacitação da equipe na
                                                           apesar de se conseguirem avanços e            perspectiva de gênero;
                                                           conquistas sociais, nem sempre se          •	 Falta conhecimento e preparação
                                                           garante, na prática, a eficácia do seu        da equipe para o atendimento à
                                                           conteúdo teórico. A implantação do            mulher vítima de violência do-
                                                           PAISM e da PNAISM aparenta ter                méstica e sexual;
                                                           sido bastante diferenciada em todo         •	 Falta articulação entre os outros
                                                           o país, refletindo os distintos graus         Programas da Saúde, inclusive
                                                           de compreensão e compromisso po-              o PSF. O atendimento médico
                                                           lítico dos governantes com a ques-            está voltado, unicamente, para
                                                           tão da mulher e a disparidade nas             “doença” da usuária.
                                                           estratégias adotadas na organização
                                                           do sistema de saúde.                            Se faz imprescindível a melhoria
                                                                Observamos que, a partir de uma       gerencial dos serviços e a qualificação
                                                           proposta norteada por diretrizes e         permanente dos profissionais de saú-
                                                           princípios, não se conseguiu, em 26        de, a fim de que possam prestar uma
                                                           anos, efetivar a integralidade e equida-   assistência integral e humana, evitando
                                                           de, nem mesmo fazer estas diretrizes       a excessiva utilização de tecnologias
                                                           conhecidas pelos profissionais de saú-     médicas, utilizando recursos de “escu-
                                                           de que atuam na Política de Atenção        ta” de “acolhimento”, contribuindo,
                                                           Integral a Saúde da Mulher , muito         efetivamente, para a transformação do
                                                           menos, as usuárias.                        atual modelo de assistência.




                                                      58
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
          mulheres e poder: ampliar a
       participação para garantir direitos
                                 Carmen Silva



     O poder e a relação entre espaço    do próprio movimento de mulheres.
público e privado são, há muito tem-          Para nós, do movimento de mu-
po, uma questão central para o femi-     lheres, é fundamental garantir a parti-
nismo. Daí a importância de refletir-    cipação social ampliando as condições
mos criticamente sobre o exercício       de participação das mulheres. As
de participação política das mulheres    mulheres têm forte expressão nos mo-
no espaço público, para formularmos      vimentos populares que reivindicam
propostas para a sociedade e o Estado    políticas sociais e cresce a participação
no sentido da promoção de condições      em torno dos processos econômicos e
de igualdade entre os sexos.             das decisões sobre finanças públicas.
     Para o feminismo a presença de      Todavia, a situação de desigualdade
mulheres nos espaços de poder é um       entre os sexos inviabiliza que esta
indicador de mudanças no quadro de       participação se dê em igualdade de
desigualdade entre os sexos no âmbito    condições.
da política, mas para produzir trans-         Todas nós sabemos que, além
formação social é fundamental que        da vida pública, assumimos a ampla
estas mulheres articulem-se a partir     maioria dos encargos da vida priva-
de um ideário capaz de impulsionar       da com o trabalho doméstico, e os
a luta pelas condições de igualdade na   encargos com o cuidado a pessoas
sociedade, o que inclui o combate à      da família, além do que, quando
opressão e exploração das mulheres,      mulheres assumem lugares de poder
isto é, o enfrentamento do patriarca-    são vistas como “seres fora do lugar”,
do, do racismo e do capitalismo.         tratadas como inadequadas à tomadas
     Apesar da normatização jurídica,    de graves decisões sobre os rumos da
no âmbito internacional e no Brasil,     República.
afirmarem a igualdade entre os sexos,         É desta República, para que possa
não há medidas suficientes por parte     dizer-se democrática, que exigimos
dos governos para gerar as condições     ações afirmativas capazes de potencia-
que possibilitem esta igualdade. A       lizar a participação política feminina.
pressão social para que isso aconteça    A I CNPM estabeleceu como diretriz
vinda dos movimentos sociais organi-     da Política Nacional para as Mulhe-
zados também é reduzida, à exceção       res “promover o equilíbrio de poder

                                                                                     59
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                           entre homens e mulheres em termos         autônomos de participação próprios
                                                           de recursos econômicos, direitos le-      do movimento de mulheres como
                                                           gais, participação política e relações    formuladores e responsáveis pelo con-
                                                           interpessoais”.                           trole social sobra as políticas públicas
                                                                 Com a II CNPM a questão da          sociais e econômicas.
                                                           democratização do poder firmou-se              No que diz respeito aos processos
                                                           como um eixo do Plano Nacional            eleitorais, sabemos que para ampliar a
                                                           de Políticas para as Mulheres, o que      participação das mulheres é necessário
                                                           gerou, por parte da SPM – Secretaria      que seja adotado no Brasil o sistema
                                                           de Políticas para as Mulheres, a cam-     de “voto em lista fechada com alter-
                                                           panha “Mais Mulheres no Poder”            nância de sexo” para apresentação
                                                           realizada nos anos eleitorais. Na ava-    das candidaturas ao legislativo, com
                                                           liação corrente, contudo, esta diretriz   a garantia de igualdade de recursos
                                                           não se efetivou a contento, e e nem       financeiros e de tempo de propaganda
                                                           é assumida como um política do go-        eleitoral.
                                                           verno como um todo, razão pela qual            Esta proposta, todavia, para
                                                           formulamos algumas propostas para         se viabilizar, precisa ser associada
                                                           aprofundar a democracia. São pro-         à fidelidade partidária, a limitação
                                                           postas defendidas por várias organiza-    do número de mandatos, além do
                                                           ções dos Movimentos de Mulheres e         financiamento público exclusivo de
                                                           muitas delas assumidas também pela        campanha. Estas medidas podem
                                                           Plataforma dos Movimentos Sociais         favorecer o crescimento da presença
                                                           pela Reforma do Sistema Político.         das mulheres nas estruturas do poder
                                                                No âmbito da democracia direta       e, com elas, podemos seguir avançan-
                                                           propomos a regulamentação do ple-         do na construção da paridade entre
                                                           biscito e referendo de forma que eles     os sexos, desde que a nova legislação
                                                           tenham que ocorrer a partir da socie-     construa instrumentos de punição
                                                           dade, semelhante aos projetos de lei de   para os partidos que não cumprirem
                                                           iniciativa popular que são propostos a    estas regras.
                                                           partir de lista de assinaturas.                No âmbito da reforma do sistema
                                                                Exigimos também que os mo-           político também está em debate se te-
                                                           vimentos sociais não sejam crimi-         remos voto proporcional, distrital ou
                                                           nalizados, mas ao contrário, sejam        misto. Como assinala um documento
                                                           reconhecidos como expressões da so-       da AMB “é consenso entre as feministas
                                                           ciedade que constroem a democracia        e muitos setores do campo de esquerda
                                                           a partir da participação popular e da     que voto distrital é um grande risco
                                                           ação direta. Não basta ter instâncias     para a democracia e um verdadeiro
                                                           de governo voltadas para Políticas        obstáculo ao acesso das mulheres ao
                                                           para as Mulheres, é fundamental           poder. Sendo um voto vinculado aos
                                                           que sejam reconhecidos os espaços         poderes locais, o regime de voto distrital

                                                      60
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
tende a perpetuar as oligarquias e chefes   que este relatório seja apresentado em
políticos nos espaços de poder que já       plenário, para que não haja o retroces-
ocupam, como demonstram muitas              so no debate com a criação de nova
experiências no mundo”.                     comissão parlamentar, mas também
     Neste debate, o movimento de           porque ele pode criar a possibilida-
mulheres precisa ter muita firmeza          de de debate público que favoreça a
pois vai enfrentar argumentos fala-         apresentação de nossas posições para a
ciosos que afirmam que voto distrital       sociedade e para o próprio Congresso.
favorece uma maior aproximação                   Afirmar o movimento de mulhe-
entre os eleitos e os eleitores, quando     res, e dentro dele o feminismo, como
sabemos que ele, na verdade, favore-        sujeito político, nesta conjuntura, é
ce o controle sobre regiões e o voto        também enfrentar o desafio de exigir
personalizado, ameaçando todas as           do Estado e da sociedade a geração de
articulações que relacionam o local ao      condições de igualdade entre os sexos
global e defendem direitos universais       que possibilitem a presença das mu-
e o respeito à diversidade.                 lheres na esfera pública e a conquista
     Estas propostas que estamos de-        de direitos.
batendo no processo da Conferência               Como diz texto da agenda polí-
de Política para Mulheres fazem parte       tica da AMB, “pensar a participação
de um debate mais amplo, envolven-          das mulheres apenas considerando
do várias organizações, que há dois         os espaços de poder tal qual existem
anos vem construindo a Plataforma           hoje restringe o alcance da mudança
dos Movimentos Sociais por uma Re-          que desejamos. As mulheres, sempre
forma Política Ampla, Democrática e         que estiveram nas lutas sociais, e há
Participativa.                              mulheres nas lutas sociais de todos os
     Esta Plataforma já foi apresentada     tempos e lugares, nem sempre foram
ao Congresso Nacional e, naquele            visíveis politicamente. Muitas vezes
âmbito, foi criado uma frente parla-        lutaram e superaram interdições à sua
mentar, com participação da socieda-        participação. Sabe-se por isso que para
de, para atuar nas casas legislativas.      ampliar e fortalecer a participação
Entretanto, a proposta que está em          das mulheres nos espaços de poder
discussão no Congresso restringe a          é necessário a democratização dos
reforma do sistema político à reforma       mecanismos de representação tanto
eleitoral, para a qual já existe, inclu-    quanto o aprofundamento da partici-
sive, um relatório pronto para ir à         pação popular no Estado. Queremos
plenário. Para os movimentos é bom          o espaço de poder transformado!”




                                                                                      61
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
           lutas feministas antipatriarcais,
            antirracistas e anticapitalistas
                        A luta feminista da AmB



     Para a AMB o racismo é o sistema       geração de lucro, negação e dizimação
de poder que cria, justifica e legitima     das diversidades culturais. O Estado
a dominação e opressão das pessoas          brasileiro é um espaço contraditório,
brancas sobre as negras e que, para         mas tende a favorecer a acumulação
se manter, renova-se continuamente,         e concentração de riquezas e apenas
ordenando todas as dimensões da             compensar os efeitos negativos que ela
vida em sociedade e se expandindo           produz. Muitas políticas e projetos go-
por todo o corpo social – econômico,        vernamentais se voltam para isso, é o
político, jurídico, cultural e religioso.   caso dos benefícios fiscais para empre-
     O patriarcalismo é o sistema de        endimentos empresariais; projetos de
dominação dos homens sobre as mu-           desenvolvimento que causam danos
lheres em todos os âmbitos da vida,         sociais e ambientais; e a arrecadação
instituindo normas, valores e bases         de impostos que favorece aos ricos.
materiais da dominação e exploração
das mulheres. A divisão sexual do           lutas antirracistas
trabalho, o uso da violência como ins-
trumento de dominação, o controle                O debate chamou a atenção para
do corpo e da sexualidade feminina, a       a importância de se divulgar a história
heteronormatividade e os obstáculos à       do povo negro, porque muitas pessoas
participação política das mulheres são      negras ainda não conseguem se ver
alguns dos seus instrumentos.               como tal. As mulheres negras, por sua
     O capitalismo é o sistema que          vez, são guardiãs de valores civilizató-
se organiza através da exploração da        rios, embora ainda careçam do devido
força de trabalho e da apropriação,         reconhecimento. Do nosso ponto
por uma minoria, das riquezas pro-          de vista, a democracia só acontecerá
duzidas pelo trabalho da maioria.           se incluir na sua pauta a luta contra
Uma das principais características do       o racismo, compreendendo que as
capitalismo é seu caráter expansionista     mulheres negras não são “público para
marcado pela apropriação privada            atividades”, e sim sujeitos políticos,
dos bens naturais para exploração,          e precisam ser tratadas como iguais.

                                                                                       63
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




                                                                A luta contra o racismo é uma               Para viabilizar essas lutas é preciso
                                                           pauta que vem ganhando força dentro         dar visibilidade às desvantagens que
                                                           da AMB, fruto de uma                        as mulheres negras sofrem (número
                                                                disposição política e da ação das      de mulheres assassinadas; as que não
                                                           mulheres negras no interior do movi-        têm acesso às políticas etc); fortalecer
                                                           mento, sendo necessário enfrentá-lo         as organizações de mulheres negras;
                                                           na sua articulação com o capitalismo        realizar ações públicas, como por
                                                           e com o patriarcalismo.                     exemplo, ação de constrangimento
                                                                Esse debate, necessariamente,          nos shoppings (“dar vexame”) para
                                                           passa pelas políticas públicas, por isso    repudiar as violências sofridas pela
                                                           é importante incidir nos processos de       população negra naqueles espaços;
                                                           PPA – Plano plurianual, pois a igual-       enfrentar o debate do racismo institu-
                                                           dade depende muito do investimento          cional e denunciá-lo, principalmente
                                                           nas políticas públicas. Além disso, foi     nas relações de trabalho no mercado
                                                           discutida a necessidade de se realizar o    privado. Precisamos criar espaços, no
                                                           debate sobre a história do feminismo,       âmbito da AMB, para as militantes
                                                           sem datá-lo a partir dos anos 70 (30        fortalecerem sua identidade racial,
                                                           anos), pois isso ajuda a ver o feminis-     discutindo a experiência do racis-
                                                           mo só a partir das mulheres brancas de      mo; buscando formação para resistir
                                                           classe média. O feminismo na América        ao racismo individualmente e para
                                                           Latina é de muito antes, e as lutas das     saber lidar coletivamente com esse
                                                           mulheres negras é dos 500 anos do           problema; desenvolver estratégias
                                                           Brasil. Também foi ressaltada a impor-      pedagógicas sobre como abordar a
                                                           tância desse debate para as mulheres        questão da negritude na política de
                                                           indígenas. As lutas a serem assumidas,      formação; discutir o poder no âmbito
                                                           são: a defesa da liberdade e do direito     organizacional, para saber onde estão
                                                           ao culto e da crença religiosa; garantia    as mulheres negras e qual a estratégia
                                                           dos territórios quilombolas; cotas para     de ampliação deste poder nas orga-
                                                           a população negra; implementação            nizações e movimentos; aprofundar
                                                           da Lei 10.639/03; republicação da lei       o diálogo com as organizações de
                                                           que criminaliza o racismo; luta contra      mulheres negras; favorecer encontros
                                                           o crack, que dizima os núcleos fami-        entre mulheres indígenas e negras etc.
                                                           liares das mulheres negras; por uma         Muitos desafios foram apontados ten-
                                                           educação não sexista e antirracista; pela   do como ponto de partida enxergar
                                                           implementação das políticas públicas        como o racismo gera desigualdade, in-
                                                           de saúde, com ênfase nas doenças            justiça e pobreza, e articular a batalha
                                                           que acometem a população negra;             contra o racismo dentro das frentes de
                                                           valorização do trabalho doméstico;          luta da AMB, para inserir a questão
                                                           aprofundamento da luta pela reforma         nas políticas públicas, com ênfase para
                                                           da previdência; entre outras.               o acompanhamento.

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Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas




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                                                      Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                                                      i Conferência nacional de Políticas para as mulheres
                                                      Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2004

                                                      Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                                                      os Direitos das mulheres são Direitos humanos
                                                      Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2004

                                                      Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                                                      xiii Conferência nacional de saúde
                                                      Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2007

                                                      Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                                                      ii Conferência nacional de Políticas para as mulheres
                                                      Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2007

                                                      Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
                                                      Desafios para a ação do movimento na implementação das políticas
                                                      Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Brasília, 2009
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas
III Conferência de Políticas para as Mulheres – Propostas e questões para o debate
Registro e sistematização dos debates: Silvia Camurça (SOS Corpo)
Redação: Silvia Camurça
Edição: Silvia Camurça , Analba Brazão, Cristina Lima, Paula Andrade, Joluzia Batista
Revisão: Daniela Lima
Projeto gráfico: Marta Braga
Diagramação: Ars Ventura Imagem & Comunicação
Tiragem: 5 mil exemplares
Apoio: ONU Mulheres




                                           Sobre a AmB
A AMB é uma articulação política não partidária, que potencializa a luta feminista das mulheres brasileiras
nos planos nacional e internacional. A AMB tem sua ação orientada para a transformação social e a constru-
ção de uma sociedade democrática, tendo como referência a Plataforma Política Feminista (construída pelo
movimento de mulheres do Brasil, em 2002). No presente contexto, a AMB se orienta por cinco prioridades:
a mobilização pelo direito ao aborto legal e seguro, a ação pelo fim da violência contra as mulheres, o enfren-
tamento da política neoliberal, a organização do movimento e a luta contra o racismo.

Compõem a AMB:
Articulação de Mulheres do Acre
Fórum de Entidades Autônomas de Mulheres de Alagoas
Articulação de Mulheres do Amapá
Articulação de Mulheres do Amazonas
Fórum de Mulheres de Salvador
Fórum Cearense de Mulheres
Fórum de Mulheres do Distrito Federal
Fórum de Mulheres do Espírito Santo
Fórum Goiano de Mulheres
Fórum Estadual de Mulheres Maranhenses
Articulação de Mulheres Brasileiras - RJ
Fórum de Mulheres de Mato Grosso
Articulação de Mulheres do Mato Grosso do Sul
Fórum de Mulheres da Grande Belo Horizonte
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense
Rede de Mulheres em Articulação da Paraíba
Fórum de Mulheres da Paraíba
Fórum de Mulheres do Paraná
Fórum de Mulheres de Pernambuco
Fórum Estadual de Mulheres do Rio Grande do Norte
Fórum Municipal da Mulher de Porto Alegre
Articulação de Mulheres de Rondônia
Núcleo de Mulheres de Roraima
Fórum de Mulheres de Santa Catarina
Articulação de Mulheres de São Paulo
Fórum de Mulheres de Sergipe
Articulação de Mulheres Tocantinenses
Fórum de Mulheres Piauienses

Na América Latina, a AMB integra a Articulação Feminista Marcosur e o Comitê de Mulheres da Aliança
Social Continental.
Esta publicação impressa só foi possível devido ao apoio do Projeto Mais Direi-
tos e Mais Poder, financiado pelo Fundo de Igualdade de Gênero, e executado
pelas seguintes organizações: Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM;
SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia; Centro Feminista de
Estudos e Assessoria – CFEMEA; Coletivo Leila Diniz; Cunhã Coletivo Femi-
nista; Geledés Instituto da Mulher Negra; Redeh – Rede de Desenvolvimento
Humano e o Instituto Patrícia Galvão – IPG.

Articulando a Luta Feminista - AMB 2011

  • 1.
    III Conferência dePolíticas para as Mulheres Propostas e questões para o debate
  • 3.
    III Conferência dePolíticas para as Mulheres Propostas e questões para o debate Brasília, dezembro de 2011
  • 5.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Índice Apresentação _______________________________________ 7 ContextuALIzAção Discussão 1 É tão mais complexo o que a gente está vivendo hoje _______ 11 Discussão 2 Conjunturas internacional e nacional e as mulheres_________ 15 PoPostAs De PoLítICAs Enfrentamento do racismo, sexismo e lesbofobia __________ 25 Autonomia Econômica e Social ________________________ 26 Educação, Cultura e Comunicação _____________________ 28 Saúde das mulheres, direitos sexuais e direitos reprodutivos ___ 30 Enfrentamento a todas as formas de violência contra as mulheres __________________________________ 31 Autonomia política, institucionalização e financiamento de políticas públicas para as mulheres ___________________ 33 DoCuMentos De PosIção Carta à presidenta __________________________________ 37 Contribuições ao Plano Plurianual do governo federal para o período 2012-2015 ___________________________ 41 Carta Política do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar, Economia Solidária e Feminismo ______________ 43
  • 6.
    ContrIbuIções Ao DebAte Saúdepública em mãos privadas: para onde vai o SUS no governo Dilma? __________________ 55 Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher – PNAISM ________________________ 57 Mulheres e poder: ampliar a participação para garantir direitos ______________________________ 59 Lutas feministas antipatriarcais, antirracistas e anticapitalistas – A luta feminista da AMB_____________ 63
  • 7.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Apresentação O espaço das Conferências de Conferências e publica esta revista para Políticas é para nós da Articulação de a Conferência Nacional. Este número Mulheres Brasileiras (AMB) não ape- traz uma inovação em relação aos nas o lugar de construção e negociação outros, mas mantém a linha editorial de políticas públicas entre governos e de apresentar na forma de textos as sociedade, mas também um espaço discussões que viemos acumulando no legítimo de interlocução crítica entre processo de preparação da Conferência mulheres feministas e destas com os e em nossos próprios fóruns de debate governos sobre as políticas realmente feminista e nos movimentos sociais. existentes, seus efeitos e impactos posi- A revista apresenta inicialmente tivos e negativos na vida das mulheres. dois textos de Contextualização desta Para nós, as Conferências são tam- Conferência. Na segunda parte conso- bém um processo político por meio do lida e apresenta as Propostas de Políti- qual organizamos e negociamos com cas para vários eixos do Plano Nacional outras mulheres, de diversas organiza- de Políticas para as Mulheres – PNPM. ções sociais e movimentos de mulheres, Na terceira parte apresenta Documen- nossas demandas e prioridades frente tos de Posição dos quais somos autoras à responsabilidade dos governos para e signatárias e que foram produzidos ao com a redução das desigualdades. longo deste primeiro ano do governo Dada a importância que con- Dilma. E por fim traz alguns textos de ferimos às Conferências para a luta Contribuição aos Debates, também feminista nas políticas públicas, reco- produzidos por integrantes e militantes nhecemos que precisamos refletir mais da AMB, como contribuição ao debate sobre os limites destes espaços, os riscos de temas relevantes para a conjuntura de burocratização do movimento e de em que se realiza esta III CNPM. Entre perda de sentido de ação contra hege- estes textos estão alguns dos indicativos mônica. Contudo, frente o cotidiano do II Encontro Nacional da AMB, uma de desigualdades, de raça, gênero, clas- contribuição de quase 900 mulheres se, que se concretizam em cada uma das que ali estavam presentes. vidas das mulheres, insistimos, mais Esperamos que esta revista seja uma vez, e ainda esta vez, em atuar em um instrumento útil nos trabalhos de defesa das mulheres na Conferência grupos e plenárias, na negociação e in- Nacional de Políticas para as Mulheres. terlocução da AMB com as delegadas Desde 2004, quando aconteceu de organizações de mulheres e dele- a I CNPM, a AMB edita documen- gadas governamentais da III CNPM. tos de debate e orientação para ação Contamos que a leitura contribuirá nas etapas municipais e estaduais das com nossa formação política feminista. 7
  • 9.
  • 11.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas DiSCuSSão 1 É tão mais complexo o que a gente está vivendo hoje Silvia Camurça Não faz muito tempo estávamos prevaleceu no plenário, e estávamos todas nós inaugurando uma nova ex- num contexto favorável. periência de participação com a I Con- Conseguimos, aprovar uma con- ferência de Políticas para as Mulheres. cepção do que são políticas para as Éramos muitas dos movimentos de mulheres, fixando a ideia de que são as mulheres, algumas mulheres feminis- políticas orientadas à promoção da au- tas em espaços de gestão nos estados e tonomia. Aprovamos princípios e dire- muitas mulheres chegando ao debate trizes importantes, como a laicidade do sem entender direito do que se tratava. Estado, a universalização das políticas Naquele ano de 2004, não sabía- com políticas afirmativas. E afirmamos mos com segurança por onde seguir. a relevância de ter orçamento e meca- Algumas de nós já tinha experiência e nismos executivos de políticas para as atuação em Conferências de Saúde e mulheres, Conferências e Conselhos de Assistência Social, mas “nunca antes nos três níveis de governo. da história deste país”, nós ou os gover- Ali, em 2004, estávamos sob nos, havíamos feito algo parecido com efeito positivo da criação da Secretaria aquela Conferência: juntar, no Plano de Políticas para as Mulheres – SPM Nacional, as mais diversas expressões com status de Ministério, orçamento políticas de governos e movimentos próprio e com vinculação direta à Pre- sociais para construir diretrizes de uma sidência da República. Conquistamos Política Nacional para as Mulheres. a almejada reformulação do CNDM, Na primeira Conferência, nosso que passou a ter representantes de mo- objetivo principal foi aprovar uma vimentos sociais eleitos por seus pares, orientação feminista para as dire- ao invés de escolhidos pela presidência. trizes da Política Nacional para as Hoje, a conjuntura em que acon- Mulheres no que fomos relativamente tece esta III CNPM é outra. Estamos bem sucedidas. Houve aliança entre em meio ao agravamento da crise in- movimentos de mulheres de orien- ternacional do sistema capitalista, crise tação feminista, força política que em nome da qual cortam-se direitos 11
  • 12.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas sociais ameaçando ao sistemas uni- recolocam ênfase na maternidade e versais de seguridade social dos países não nas mulheres, com uma força na europeus, enquanto nós estamos aqui abordagem materno-infantil que não querendo universalizar e expandir o víamos há muitos anos. acesso a direitos. A proposta de políticas para as Estamos às vésperas da anuncia- mulheres era uma novidade em 2004 da primeira reforma ministerial do para a maior parte dos municípios e Governo Dilma, com propostas e estados, enquanto hoje o potencial “senões” sendo colocado no debate eleitoreiro da massa de mulheres para justificar propostas de rebai- que as Conferências convocam já xamento do status das secretarias foi percebido e é agora explorado especiais, inclusive do Ministério da por muito setores da política. A Mulher/SPM. Além do mais, os cortes orientação feminista para as políticas de gastos deste ano, a possibilidade de para as mulheres já está abertamente reedição da Desvinculação das Recei- questionada por estes e outros seto- tas da União – DRU e a redução de res, e a domesticação da população orçamento para 2012 das secretarias nos espaços de participação, como as especiais, em debate no Congresso Conferências, cresce. Nacional, estão fragilizando as políti- Somos parte e assistimos a um fe- cas para a igualdade e de justiça social. nômeno ainda por ser compreendido No mesmo período da III CNPM em suas implicações: a participação o Congresso estará votando e o governo política das mulheres nas lutas sociais sancionando o PPA para 2012-2015, vai sendo substituída, para muitos se- no qual as políticas para as mulheres tores populares, pela participação das têm apenas um programa, ao contrário mulheres nos espaços institucionais do que propôs a SPM – três progra- organizados a partir e sob hegemonia mas – e muito aquém do que propôs dos governos. a AMB, que defendeu sete programas Se a I CNPM se constituiu num para enfrentar as desigualdades de gê- campo bastante heterogêneo de dis- nero e raça vivida pelas mulheres, que putas de proposições entre delegados/ representam um pouco mais da metade as governamentais e da sociedade civil, da população brasileira. a III CNPM parece anunciar que a Agrava esta situação, o fato já diferença maior de posições não será reconhecido de que, apesar de estar- entre governos e sociedade civil, mas mos vivendo sob o governo Dilma, entre a diversas perspectivas feminis- primeira mulher presidenta do Brasil, tas sobre Estado e políticas públicas não temos garantido uma orientação e as perspectivas antidireitos das mu- feminista e libertária nas políticas para lheres e antifeminista. as mulheres. Ao contrário, iniciativas A direita conservadora, racis- diversas de políticas deste governo ta, lesbofóbica e antifeminista, que 12
  • 13.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas perdeu as eleições de 2010, saiu dela Assim, mesmo tendo crescido o fortalecida e está minando e amea- número de mecanismos de políticas çando as conquistas que alcançamos para as mulheres nos estados e mu- em 2004. O fez ao longo de todo o nicípios, mesmo tendo-se alcançado governo Lula e o faz agora no governo avanços na concretização de direitos Dilma, com muito mais força. Se, no das mulheres e novas políticas para as momento de sua campanha eleitoral mulheres estejam em curso, será pre- de 2002, Lula recuou e cedeu espaço ciso, nesta III CNPM, estarmos mais para propostas liberais na Carta ao uma vez atentas e fortes na luta para Povo Brasileiro, Dilma, também na garantir uma perspectiva feminista na campanha eleitoral, recuou e cedeu orientação da política para mulheres e espaço aos fundamentalistas e anti- defender a institucionalização e forta- feministas com a Carta ao Povo de lecimento dos atuais mecanismos de Deus. políticas para as mulheres. 13
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas DiSCuSSão 2 Conjunturas internacional e nacional e as mulheres Gilsa Helena Barcellos Compreender a realidade das com a visão liberal do século XIX. As mulheres brasileiras implica compre- políticas de proteção social passam ender os aspectos sociais, econômicos, a constituir a agenda principal do políticos, ambientais, culturais que Estado. Entre as décadas de 1940 e determinam a realidade mais geral. 1970, diversas políticas públicas, em Ou seja, não é possível analisar a situa- especial aquelas relacionadas à seguri- ção das mulheres, resguardadas as suas dade social, possibilitaram a melhoria especificidades, desconectada dos fa- das condições de vida de uma parcela tores que estruturam a realidade mais expressiva tanto da população euro- geral do Brasil e do mundo. Por isso, péia quanto da norte-americana. Esta parece-nos fundamental que, antes última, em razão do forte investimen- de introduzirmos a discussão acerca to dos Estados Unidos na indústria da realidade das mulheres brasileiras, bélica, contou com políticas sociais abordemos os eventos que marcaram mais tímidas. o século XX e que influenciam tanto Nos países latino-americanos, a vida das mulheres quanto à vida do o Estado de Bem-Estar Social não conjunto da sociedade no século XXI. se consolidou, prevalecendo à ideia Entre os muitos acontecimentos que liberal de Estado, onde as políticas marcaram o século passado estiveram sociais foram destinadas àqueles que tanto à ascensão quanto o declínio do estavam fora do mundo do trabalho: Estado de Bem-Estar Social nos países indigentes, inválidos, entre outros. de economia central. Nos anos de 1970, iniciou a maior O Estado de Bem-Estar Social, crise vivenciada pelo capitalismo des- iniciado como resposta à crise de de a sua existência, o que Ernest Men- 1929 e às sequelas deixadas pelas duas del denominou de “crise estrutural grandes guerras mundiais, teve a sua do capitalismo”. Este acontecimento conformação mais nítida, particular- determinou o declínio do Estado de mente a partir do final dos anos 40, Bem-Estar Social e irá afetar tanto em países europeus, quando se rede- a Europa quanto os Estado Unidos, finiu o papel do Estado, rompendo comprometendo as políticas públicas/ 15
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas sociais até então conquistadas. Apesar Federal de 1988. Na década de 1990, de a América Latina não ter vivido o brasileiras e brasileiros presenciaram a Estado de Bem-Estar Social, ela sentiu entrega do patrimônio público à ini- os baques da crise de 1973, levando ciativa privada e o aprofundamento da os seus governos a reduzir aquilo que privatização da educação, reduzindo a já era quase inexistente no campo das presença do Estado nessa área, dando políticas públicas. Como resposta à lugar ao aparecimento de grandes crise do capitalismo ganha força à grupos empresariais. A educação foi ideia de um Estado com contornos transformada em um negócio bastante liberais. No entanto, por ser um con- rentável. Também pudemos presen- texto diferente daquele que antecedeu ciar a precarização da saúde pública a Segunda Guerra Mundial, novos brasileira, levando a um processo de elementos são incorporados a essa revitimização de uma grande parcela noção de Estado, que foi denominado da população dependente dos serviços de Estado neoliberal. de saúde, particularmente as mulheres. O Estado neoliberal é uma reedi- É nesse contexto que ocorre a ção do Estado liberal adequada à rea- eleição do governo Lula. Lula se elege lidade contemporânea. Nele, prevalece com uma proposta de enfrentamento o propósito de que a relação capital ao Estado Neoliberal, no entanto, x trabalho se autorregula pela lei da com o passar dos anos, particular- oferta e demanda, prescindindo-se, mente no seu segundo mandato, o portanto, da participação estatal na seu programa de governo incorporou economia e nos serviços estatais (Esta- elementos neoliberais, resultando do mínimo), aplicando-se políticas de num governo permeado por fortes privatização de empresas estatais e de contradições, embora seja consenso livre circulação de capitais internacio- entre as mulheres brasileiras que foi nais com ênfase na globalização e na no governo Lula que mais se avançou abertura da economia para a entrada na elaboração e na implementação de de multinacionais, onde a base da eco- políticas públicas para mulheres. nomia deve ser formada por empresas A eleição de Dilma representou, privadas, com desburocratização das sem dúvida, um avanço do ponto de leis e regras econômicas e redução do vista político-cultural da sociedade tamanho do Estado. Dessa forma, hou- brasileira, por compreender a pos- ve um refluxo da presença do Estado na sibilidade de mulheres assumirem economia e na produção de políticas espaços de poder. Mesmo que muitos públicas voltadas ao interesse daqueles atribuam a Lula a eleição de Dilma, que compõem a maioria da população. não se pode desconsiderar que o fato No Brasil, no final dos anos 80, de ser mulher poderia ter impedido a o neoliberalismo chegou atropelando sua eleição caso prevalecessem às ideias conquistas expressas na Constituição machistas. É fato que as tentativas de 16
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas desmoralização da candidata orien- agrária, defendida, incansavelmente, tadas por posicionamentos lesbofó- pelo MST, tem dado lugar ao agrone- bicos, conservadores acerca do papel gócio, que cada vez mais se apropria da mulher foram ecoadas pela grande de terras para garantir a produção em mídia e por parcelas das igrejas, setores grande escala para exportação. esses aliados explícitos dos candidatos À violência urbana, expressão da adversários. Felizmente, prevaleceu a questão social cada vez mais aprofun- noção de que a hipocrisia moral deve dada no Brasil, o Estado tem respondi- ser combatida e é maléfica aos direitos do com a repressão, ignorando as suas humanos e à equidade de gênero. causas reais. Cada vez mais, o narco- No entanto, o fato de termos tráfico, a bala perdida e a dependência uma presidente eleita pela maioria da química tornam-se acontecimentos população, inclusive pelas mulheres, do cotidiano da maioria da população não significa que seja intrínseco ao seu que vive nos grandes centros urba- governo compromissos com os traba- nos. Cada vez mais a configuração lhadores e trabalhadoras brasileiras. urbana é forjada pela desigualdade Observamos contradições ainda mais social, aprofundando as demarcações acentuadas que no governo Lula, a das fronteiras entre ricos e pobres. O exemplo da questão ambiental, que mundo do trabalho, cada vez mais tem sido objeto de conflito entre os automatizado, reduz o valor do traba- movimentos sociais e o governo Dilma, lho levando à redução de salários e à que, em nome do desenvolvimento, instabilidade frequente daqueles que tem negligenciado, de forma explícita, trabalham. O trabalho temporário, a direitos socioambientais de inúme- terceirização e a quarteirização da mão ras populações locais que vivem nas de obra atualizam relações existentes regiões onde estão sendo construídas no período colonial: trabalhadores e grandes obras de infraestrutura, tais trabalhadoras precisam trabalhar cada como as diversas barragens das usinas vez mais para conseguir um salário hidrelétricas. No mais, presenciamos o que lhes dê condições mínimas de Banco Nacional de Desenvolvimento autosustentação e de suas famílias. O Econômico e Social – BNDES inves- mundo nunca esteve tão competitivo tindo privilegiadamente no econômico e as pessoas nunca trabalharam tanto (grandes empresas multinacionais têm com tão baixos salários e muitos sem sido beneficiadas pelos financiamentos direitos sociais e trabalhistas garanti- do BNDES) em detrimento do social. dos. As pessoas têm menos tempo de São baixos os investimentos públicos na convivência familiar. Vivemos em um educação, na saúde e nas políticas pú- tempo traduzido pelo ditado popular blicas de forma geral, ganhando força “se correr o bicho pega. Se ficar o bi- programas de “proteção social” como cho come”. A desigualdade social no é o caso do Bolsa Família. A reforma Brasil se aprofunda a cada dia e cada 17
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas vez mais a população demanda por obra menos valorizada, as mulheres políticas públicas que, ou inexistem submetem-se à extensa e a várias ou estão precarizadas. jornadas de trabalho. Precisamos tra- A resposta do Estado brasileiro balhar mais para ganhar o mínimo à resistência ao aprofundamento do necessário à nossa subsistência. Nesse projeto neoliberal e à exploração mundo marcado por variadas formas capitalista tem sido dada de diversas de subordinação, destaca-se a situação formas: além da repressão, observa- das mulheres negras, pois estas traba- mos o processo de criminalização dos lham mais e ganham menos, ocupan- movimentos sociais no Brasil. Parcelas do assim a base da pirâmide salarial do Poder Judiciário e Legislativo têm brasileira. Elas possuem uma renda cumprido um papel estratégico na mensal de R$ 558,00, enquanto ho- luta de classes, quando condenam mens brancos tem uma renda mensal movimentos, lideranças e trabalhado- de R$1.534 (DIEESE, 2011), ou seja res e trabalhadoras ao pagamento de a renda mensal média masculina não- multas, à prisão, à CPIs, entre outras -negra é três vezes maior do da mulher medidas que visam retirar esses sujei- negra. Neste interregno, estão às mu- tos da luta política. lheres brancas, que ganham em média E como estão as mulheres brasi- R$1.035,00, e os homens negros, que leiras dentro dessa realidade? ganham em média R$ 839,00. Esses As mulheres são especialmente dados revelam que a subordinação de atingidas pelas consequências do raça pode ser ainda mais perversa que processo de globalização econômica a subordinação sexual. e do neoliberalismo. Somos hoje Repercutindo o que foi constata- a maioria da população brasileira: do já na Conferência Mundial de Mu- segundo dados do Dieese (2011), lheres de Beijing (1995), devido ao somos 98.439 milhões, sendo 49.162 processo da globalização econômica, milhões negras, 49.037 não-negras à destruição ambiental e à baixa valo- e 213 mil indígenas. Somos 20.322 rização da força de trabalho feminina, milhões na faixa etária entre 30 e 49 está em curso no mundo, a femini- anos, ou seja, mulheres que compõem zação da pobreza, sendo as mulheres a População Economicamente Ativa negras a maioria entre os pobres no – PEA brasileira. mundo. Mesmo integrando o mundo O mundo do trabalho visto por da produção (mundo do trabalho) alguns autores como a possibilidade não nos desvencilhamos do trabalho de construção da emancipação da doméstico, ou seja, da responsabiliza- mulher, subordina cada vez mais mu- ção pela criação e educação dos nossos lheres a um nível de exploração que filhos, pela casa, entre outros afazeres nos faz lembrar a Revolução Industrial domésticos. Os homens, definitiva- na Europa. Por terem sua mão de mente, recusam-se a dividir o trabalho 18
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas doméstico, e as mulheres continuam comprometido substancialmente a tomando para si a responsabilidade sua eficácia. Por isso, presenciamos pelo mundo da reprodução. Somos, cotidianamente na imprensa falada e na atualidade, provedoras principais escrita mulheres sendo assassinadas, de 35,2% dos lares brasileiras, ou seja, mutiladas ou humilhadas, sob o olhar temos 10.641.456 mulheres chefes de de muitos governantes e gestores que família, sendo que, quando analisa- assistem a situação sem tomar iniciati- mos as regiões metropolitanas brasilei- vas que poderiam reduzir a produção ras, esse percentual sobe: as mulheres de um fenômeno tão perverso à vida chegam a chefiar 40,6% das famílias das mulheres. ali residentes (DIEESE, 2011). Presenciamos iniciativas governa- Também somos aquelas mais mentais de uma suposta “valorização presentes nos bancos escolares, do do papel da mulher” dentro da famí- primeiro ao terceiro grau. No entanto, lia, a exemplo das mulheres respon- mesmo com escolaridade superior a sáveis pelo Programa Bolsa Família do homem, continuamos ganhando e por outras políticas de proteção menos do que ele pelo mesmo tra- social. Todavia, desconsidera-se que balho realizado. Segundo dados do essa valorização produz uma sobre- Dieese (2011), 52,5% dos homens carga ainda maior para as mulheres, com 15 ou mais anos de estudo rece- reforçando assim, a desobrigação dos bem cinco salários-mínimos ou mais, homens com o cuidado da família enquanto apenas 27,7% das mulheres e com as funções domésticas. Nesse na mesma faixa de escolaridade atin- contexto de sobrecargas, as mulheres gem essa faixa salarial, revelando que adoecem cada vez mais jovens. No o aumento do nível de escolaridade Brasil, as principais causas de morte facilita o acesso das mulheres ao mer- da população feminina foram iden- cado de trabalho, mas não lhes garante tificadas pelo Ministério da Saúde equidade salarial com os homens. (BRASIL, 2004). Mesmo quando adquirimos As principais causas de morte da autonomia financeira, continuamos população feminina no Brasil são as vitimadas pela violência: as mulheres doenças cardiovasculares, destacando- permanecem vítimas de violência -se o infarto agudo do miocárdio e o doméstica e sexual. A Lei Maria da acidente vascular cerebral; as neoplasias, Penha, promulgada em 2006, repre- principalmente o câncer de mama, de sentou um grande avanço no campo pulmão e o de colo do útero; as doenças das políticas públicas e tem sido uma do aparelho respiratório, marcadamen- forte aliada no combate à violência te as pneumonias; e as doenças endó- contra mulheres. No entanto, há crinas, nutricionais e metabólicas, em uma carência de serviços necessários especial a diabetes, e as causas externas à implementação da Lei, o que tem (BRASIL, 2004, p. 16-17). 19
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Segundo Milena Piccolin (2008), pelo INCA, que revela que o câncer o padrão de morbimortalidade en- de pulmão é o segundo tipo de do- contrado entre as mulheres brasi- ença que mais mata as mulheres no leiras revela uma realidade na qual país, perdendo apenas para o câncer convivem doenças típicas dos países de mama (GONCALVES citado por desenvolvidos (cardiovasculares e OLIVEIRA, TONONI, 2011, p. 18) crônico-degenerativas) com aquelas Verifica-se também um proces- do mundo subdesenvolvido (morta- so de feminização da AIDS no país. lidade materna e desnutrição). “Essa Em 1986, a razão era de 15 casos de mistura de doenças segue as diferenças AIDS em homens para cada caso em de desenvolvimento regional e de clas- mulheres. A partir de 2003, a cada 15 se social”. (PICCOLIN, 2008, p.30). casos em homens passaram a existir 10 Entre os problemas de saúde estão em mulheres (BRASIL, 2009). Entre o alcoolismo e o tabagismo. Há 20 homens, a taxa de incidência em 2007 anos, a proporção era uma mulher foi de 22 notificações por 100 mil ha- alcoolista para cada dez homens. bitantes, e nas mulheres, de 13,9. Em Hoje a proporção é de uma para três. ambos os sexos, as maiores taxas de No Brasil, o número de mulheres incidência se encontram na faixa etária dependentes do álcool aumentou nas de 25 a 49 anos. Segundo o Ministério últimas décadas, conforme indica o da Saúde (BRASIL, 2009), essa taxa “I Levantamento Nacional sobre os apresenta tendência de crescimento a Padrões de Consumo de Álcool na Po- partir dos 40 anos em homens e dos pulação Brasileira”. A pesquisa inves- 30 em mulheres, quando comparado o tigou em detalhes como o brasileiro ano de 1997 com 2007 (OLIVEIRA; bebe e mostrou que, em duas décadas, TONINI, 2011). a proporção de mulheres entre a po- Com relação ao aborto: “Anu- pulação alcoólica passou de 10% para almente 515 mil mulheres morrem 30% (OLIVEIRA, TONONI, 2011). por complicações da gravidez, aborto, Apesar do registro de redução parto e puerpério. 99% das mortes entre os números de fumantes de maternas ocorrem em países em uma forma geral no Brasil, segun- desenvolvimento”. Estes são dados do o Instituto Nacional do Câncer divulgados pelo Dossiê de Mortali- (INCA), a redução de fumantes en- dade Materna (REDE NACIONAL tre as mulheres no país é menor em FEMINISTA DE SAÚDE E DI- relação aos homens. A OMS afirma REITOS REPRODUTIVOS, s/d, p. que a indústria do cigarro tem in- 5). Sabemos que no Brasil mulheres vestido de forma significativa para de todas as classes sociais praticam atrair o público feminino e jovem e, o aborto, no entanto, das mulheres lamentavelmente, o resultado aparece que morrem ou ficam com sequelas em levantamentos como o destacado a maioria é pobre e não pode pagar 20
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas pelos serviços oferecidos nas clínicas homofobia e a lesbofobia. Quantos e clandestinas. quantas, no Brasil, continuam vítimas No mais, o alto índice de câncer de violência por intolerância à sua de mama e de colo de útero revela que orientação sexual? fatores alimentares articulados ao es- Não podemos subestimar a capa- tresse cotidiano têm levado mulheres à cidade do capitalismo em transformar morte. Também estamos mais propen- tudo em mercadoria: transformou sas à hipertensão arterial, às diabetes, a água, o ar, a terra e nossos corpos à obesidade, doenças que têm como em mercadoria. Mulheres são repro- uma das principais causas o estresse. duzidas como objeto de venda e de Mulheres pobres dos grandes centros consumo. E nessa onda, impõem-se urbanos têm disputado os seus filhos e reafirmam-se padrões de beleza às com o tráfico de drogas. Muitas, por mulheres, o que tem contribuído para não poderem cuidar da prole porque aumentar a discriminação étnica e têm que sair para trabalhar, são culpa- racial contra mulheres que fogem ao bilizadas e culpabilizam-se pela depen- ideário veiculado e vendido na mídia. dência ou morte de suas/seus filhas/os. Diante de tantas violências as Presenciamos na atualidade estratégias mulheres lutam, marcham, gritam, discursivas vindas de entes do Estado aliam-se e organizam-se em diversas e da sociedade civil responsabilizando frentes: movimentos específicos e mulheres pela desestruturação familiar. mistos. Na atualidade, mulheres ne- No entanto, tais sujeitos não explicam gras, indígenas, quilombolas, jovens, porque mulheres que têm que trabalhar idosas, urbanas, camponesas e sem para sustentar suas famílias não dispõe terra, trabalhadoras e trabalhadeiras, de políticas públicas, como creches, por lésbicas, com deficiência, com HIV, exemplo, ou escola de tempo integral entre muitas outras, ocupam as ruas para deixar as/os suas/seus filhas/os. para gritar por seus direitos, pela Afinal, de quem é a verdadeira respon- garantia de políticas públicas que vi- sabilidade pela negligência aí posta? O sam à equidade de gênero e à defesa discurso dominante diria: “a culpa é dos direitos humanos das mulheres. sempre das mulheres”. Transformamos o mundo diuturna- Neste movimento complexo em mente nas pequenas e grandes coisas que se revelam as diversas facetas da que fazemos; com nossas poesias, opressão sexual, mulheres lésbicas músicas e discursos inflamados; cho- continuam sendo vítimas de violência ramos e sorrimos como expressão de e discriminação. Mesmo com alguns dor e de alegria e alimentamos não avanços jurídicos no reconhecimento só o mundo, mas a nossa utopia de da união civil entre homossexuais, um dia sermos consideradas não mais setores de igrejas e parlamentares con- como cidadãs de segunda classe, mas servadores continuam disseminando a como sujeitos imprescindíveis. 21
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas propostas de políticas O conjunto de propostas a se- primeiros meses do governo Dilma. guir apresentadas são resultados de São propostas que na AMB al- um escolha entre as muitas propo- cançam um forte consenso embora sições que nós integrantes da AMB estejam longe de ser unanimidade no viemos debatendo e construindo feminismo brasileiro. Todas as pro- coletivamente e, muitas vezes, em postas guardam uma forte identidade colaboração com companheiras de política com o feminismo da AMB outras organizações e movimentos de por conta da formulação adotada mulheres no Brasil, em especial nos para traduzir demandas coletivas das espaços das Conferências de Políticas mulheres em propostas de políticas ao longo do governo Lula e nestes públicas com perspectiva feminista. EnfrEntamEnto Do raCismo, sExismo E lEsbofobia Na II CNPM aprovamos, com um às políticas de enfrentamento ao ra- esforço redobrado de negociação, um cismo, sexismo e lesbofobia reconhe- novo eixo para o Plano Nacional de Po- cendo-as como políticas de Estado líticas para as Mulheres, que veio a ser o que concretizam as responsabilidades eixo 9. Com esta deliberação aprovada a de governos democráticos na con- II CNPM afirmou que cabe às políticas solidação de valores igualitários e para as mulheres não apenas atender as uma cultura de direitos na sociedade mulheres e promover sua autonomia brasileira. como também enfrentar o racismo, o sexismo e a lesbofobia que imperam nas Propostas e prioridades práticas sociais e promovem a desigual- dade também entre as mulheres. • Fortalecer as estruturas do Minis- O enfrentamento do racismo, tério da Mulher/SPM e SEPPIR do sexismo e da lesbofobia na vida efetivando seu caráter e poder de das mulheres, impõe ao Estado um ministérios do governo federal; duplo desafio: reconhecer demandas • Incorporar o princípio da ação específicas das mulheres negras, ín- afirmativa em todos os órgãos dias e lésbicas, e, ao mesmo tempo da administração pública e nas enfrentar a articulação de múltiplas organizações a eles vinculadas; dimensões da desigualdade na vida • Incluir as desigualdades de gênero de todas as mulheres. e raça e o combate à lesbofobia Prioridade para o governo Dil- entre os conteúdos dos programas ma: conferir prioridade estratégica de formação de gestores/as. 25
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas autonomia EConômiCa E soCial igualdade no mundo do trabalho e desafios do desenvolvimento sustentável Grupo de trabalho 1 da iii CnPm A conquista da autonomia econô- as mulheres negras e brancas e mica é importante para nós mulheres promoção do reconhecimento do porque nos permite sair da situação de valor social do trabalho doméstico; dependência e privação em que mui- • Implantar a Política Nacional de tas de nós se encontram. É importante Economia Solidária, com suas para nos dar condições objetivas para diretrizes, princípios e objetivos romper ciclos de violência doméstica, aprovados nas I e II CONAES, para conquistar a liberdade de decidir tomando esta política como uma sobre os rumos que queremos dar a política de desenvolvimento sus- nossas vidas, para crescer em autocon- tentável, de caráter perene, com fiança e em autoridade no contexto participação democrática comu- das nossas famílias. nitária e popular, não relegada às Contudo, nos dias presentes, mes- políticas de corte assistencial ou mo com o crescimento da participação compensatório. das mulheres no mercado de trabalho e com o dinamismo do crescimento da economia capitalista alcançado nos anos ProPostas de Políticas recentes em nosso país, a autonomia Prioritárias Para o econômica das mulheres está longe do eixo 1 do PNPM horizonte de muitas de nós e a desigual- dade entre as mulheres no mundo do autonomia econômica e trabalho cresce em função do racismo. igualdade no mundo do trabalho com inclusão social apontamos como prioridades para o governo Dilma: • Permanência e consolidação da política de valorização do • Avançar na direção da igualdade salário-mínimo; de oportunidades para todas as • Estabelecimento de política de mulheres no mundo do trabalho, cota mínima para emprego fe- com redução da dupla jornada minino como contrapartida das de trabalho, ampliação do acesso empresas aos benefícios fiscais das mulheres à proteção social, concedidos pelos organismos redução das desigualdades salariais governamentais de fomento ao entre homens e mulheres e entre desenvolvimento econômico; 26
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas • Garantia de acesso à seguridade no marco da economia solidária; social (saúde, assistência e previ- • Atuar para o fortalecimento da dência social) como direito uni- estrutura do MDA e do INCRA versal que precisa ser garantido garantindo mais investimentos também à população trabalhado- nas políticas de apoio à agri- ra dos empreendimentos econô- cultura agroecológica familiar e micos solidários, na condição de camponesa; segurado especial, contemplando • Adotar e promover medidas de as especificidades do público do garantia do direito de livre acesso cooperativismo social; das mulheres aos bens comuns • Novas medidas de inclusão previ- da natureza – rios, marés, matas denciária que avancem na direção e florestas – fonte de trabalho da universalização do acesso das para o autosustento de milhões mulheres ao benefícios da previ- de mulheres; dência social. • Garantir o reconhecimento e desintrusão de territórios quilom- bolas especialmente aqueles terri- ProPostas de Políticas tórios onde trabalham mulheres Prioritárias Para o quebradeiras de coco babaçu; eixo 6 do ii PNPM • Assegurar uma política de fomen- to ao uso de defensivos agrícolas Desenvolvimento sustentável naturais, em substituição ao uso no meio rural, na cidade e de agrotóxicos, com apoio à estu- na floresta, com garantia de dos e pesquisas. justiça ambiental, soberania e segurança alimentar ProPostas Para o eixo 7 • Conferir prioridade a políticas que do ii PNPM promovam e garantam o direito à formas de organização econômica Direito a terra, moradia baseadas no trabalho associado, na digna e infraestrutura social propriedade coletiva, na coopera- nos meios rural e urbano, ção, na autogestão, na sustentabi- considerando as comunidades lidade e na solidariedade, como tradicionais modelo de desenvolvimento; • Fortalecimento e mais investi- • Conferir prioridade à reforma mentos públicos nas políticas agrária como estratégia de desen- e ações de governo em favor da volvimento democrático, justo organização produtiva das mu- e sustentável, difundido infor- lheres, no campo e na cidade, mações e efetivando o direito de 27
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas acesso a terra e aos bens comuns integral e por todo o ano; da natureza para as mulheres; • Fim dos despejos forçados em ter- • Efetivar uma política nacional ritórios de grandes obras do PAC de creches com gestão pública, e política de moradia, no campo implementada em parceria entre e nas grandes e pequenas cidades, os três níveis de governo – fede- com aceso universal à saneamento ral, estadual e municipal – al- e infraestrutura social (creches, cançando o campo e a cidade, centros de convivência de idosos, com funcionamento em horário restaurantes populares). EDuCação, Cultura E ComuniCação Democráticas e não discriminatórias Grupo de trabalho 2 na iii CnPm: autonomia Cultural O sistema de comunicação de apontamos como prioridade para massa no Brasil está sob controle o governo Dilma: de nove famílias que decidem, em consonância com a ideologia do • Adoção de medidas de regulação poder econômico, toda a grade de democrática pelo Estado sobre a programação cultural e de geração de estrutura do sistema de comuni- consumo que dominam o espectro. cações, a propriedade dos meios Considerando que rádio e TV são e os conteúdos veiculados, de concessões públicas reconhecemos, forma que estes observem estri- portanto, que o Estado é responsável tamente os princípios constitu- pelo que é veiculado através destes cionais do respeito aos direitos meios. humanos; O sistema de educação no país • Organização e institucionali- ainda é fragmentado apresentando zação de um Sistema Nacional inúmeros problemas da educação de Educação, que promova, de básica ao ensino superior e em rela- forma articulada, em todo o país, ção à educação infantil. No presente o regime de colaboração entre os sofre ataques ao princípio da laici- entes federados, o financiamento, dade e avança muito timidamente acompanhamento e o controle no enfrentamento das discrimi- social da educação; bem como nações e preconceitos no processo assegure qualidade e a função so- pedagógico. cial da educação e das instituições 28
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas educativas, ou seja, a educação das políticas para as mulheres a pública, gratuita, laica, demo- formação, o desenvolvimento crática, inclusiva e de qualidade; profissional e a valorização social • Universalização do acesso, a e salarial das/os trabalhadores/as ampliação da jornada escolar e da educação, categoria formada a garantia da permanência bem- majoritariamente por mulheres; -sucedida para crianças, adoles- • Implantar o tema das relações centes, jovens e adultos/as, em entre homens e mulheres e os todas as etapas e modalidades. direitos sexuais e reprodutivos na política de formação de pro- fessoras/es e profissionais da rede ProPostas Para o eixo 2 pública de educação. do ii PNPM Educação inclusiva, ProPostas de Políticas não-sexista, não-racista Para o eixo 8 do ii PNPM e não-homofóbica Cultura, comunicação • Incluir conteúdos relativos às e mídia, igualitárias, desigualdades sociais e relações de democráticas e gênero, racismo e direitos sexuais não-discriminatórias na educação formal e articular com as experiências de educação • Garantir o direito de antena e de popular e cidadã realizadas pelas espaço para as organizações de mulheres, incorporando-as como mulheres na grade da programa- políticas públicas; ção das empresas públicas de co- • Implementar a Lei 10.639/2003 municação: TV, rádio e imprensa; (que institui o ensino de História e • Garantir celeridade ao Plano Na- Cultura da África e dos Afro-Brasi- cional de Banda Larga em todos leiros/as nas escolas da rede pública os bairros das cidades e no campo e privada) e a Lei 11.645/2008 de todos os municípios brasileiros, (que trata da educação indígena) para garantir acesso das mulheres revendo os materiais didáticos e à Internet, aos serviços e informa- promovendo a devida formação ções disponibilizados pela Internet; das/os professores/as, bem como • Assegurar a não exibição e veicu- dos demais técnicos/as da rede lação de mensagens que desquali- pública, promovendo sua imple- fiquem as mulheres nas empresas mentação também na rede privada; públicas de comunicação, seja • Assegurar que esteja presente na na forma de imagens, músicas, agenda de discussão e iniciativas textos, propagandas ou notícias; 29
  • 30.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas • Criação e instalação do Conse- observando as resoluções da I Con- lho Nacional de Comunicação, ferência Nacional de Comunicação. saúDE Das mulhErEs, DirEitos sExuais E DirEitos rEProDutivos As históricas condições de de- sigualdades e opressão a que nós ProPostas de Prioridades mulheres estamos submetidas são de Políticas Para o eixo 3 determinantes sociais das formas de do ii PNPM adoecer e morrer das mulheres e por isso exigem uma atenção especial das saúde das mulheres, direitos políticas públicas de saúde. sexuais e direitos reprodutivos Os direitos sexuais e os direitos reprodutivos são direitos determinan- • Revisão da legislação punitiva do tes para a autonomia das mulheres, aborto no Brasil, assegurando que pois estão relacionados ao exercício nenhuma mulher seja punida, e possibilidade de tomada de decisão maltratada ou humilhada por ter livre e soberana sobre ter ou não ter feito um aborto e não corra riscos filhos e quando ter filhos, decidir so- de morte, garantindo o atendi- bre nossa sexualidade, não fazer sexo mento humanizado ao aborta- forçado e decidir quando e com quem mento na rede SUS; desejamos o sexo. • Ampliar e qualificar a atenção clínico-ginecológica na rede SUS, apontamos como prioridade para inclusive para as portadoras da o governo Dilma: infecção pelo HIV e outras DSTs, com garantia de realização de • Consolidar o SUS como sistema todos os exames ginecológicos com gestão pública; e de pré-natal, em todos os mu- • Assegurar o livre exercício da au- nicípios do país, com resultados todeterminação reprodutiva pelas entregues no máximo em 15 dias mulheres; e a certeza da consulta de retorno; • Combater a lesbofobia, promover • Assegurar atendimento quali- os direitos sexuais das mulheres ficado e não-discriminatório a e efetivar a Política Nacional de mulheres lésbicas e bissexuais; Atenção Integral à Saúde da Mu- • Qualificar a atenção ao planeja- lher, rompendo com o modelo de mento reprodutivo, incluindo a as- assistência materno-infantil. sistência à infertilidade, garantindo 30
  • 31.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas a oferta de métodos anticoncepcio- • Prevenir e conter a tendência de nais para a população em idade re- expansão das DSTs e a infecção produtiva, ampliando o acesso das pelo HIV/AIDS entre mulheres mulheres às informações sobre as e ampliar e qualificar a atenção à opções de métodos anticoncepcio- saúde das mulheres vivendo com nais e estimulando a participação HIV e AIDS; de homens e adolescentes nas ações • Promover a atenção integral à de planejamento reprodutivo; saúde das mulheres negras: me- • Ampliação e melhoria das condi- lhorar o registro e produção de ções de funcionamento das mater- dados; capacitar profissionais de nidades em todos os municípios saúde; implantar o Programa de com equipe capacitada de profis- Anemia Falciforme (PAF/MS), sionais, garantindo partos huma- dando ênfase às especificidades nizados evitando a ocorrência de das mulheres em idade fértil e no parto cirúrgico desnecessário; ciclo gravídico-puerperal; • Expandir a cobertura e qualificar • Valorização do serviço e da servi- os serviços de atenção às mulheres dora pública da saúde: concurso, em situação de abortamento e ser- carreira, salário, atualização pro- viços de aborto legal nos hospitais fissional, condições adequadas regionais estaduais, com o cumpri- de trabalho e de vida, paridade mento da Norma Técnica do Mi- na aposentadoria. Contra toda nistério da Saúde relativa à Atenção forma de precarização e a gestão Humanizada ao Abortamento; privada do SUS. EnfrEntamEnto a toDas as formas DE violênCia Contra as mulhErEs Grupo de trabalho 2 na iii CnPm – autonomia pessoal A violência contra as mulheres é violência sexual, dentro e fora de casa e um dos instrumentos da dominação nas famílias, lutamos cotidianamente. masculina no patriarcado. Ela acontece Contudo, crescem os crimes sexuais através de humilhações ou violência contra as mulheres, em especial em física e sexual, chegando ao extremo contexto de pobreza, exploração e do assassinato. Para coibir a violência omissão do Estado. Crescem os crimes doméstica e familiar e garantir prote- violentos marcados por ódio e misogi- ção e atenção às mulheres, conquista- nia como no caso do chamado “estu- mos a Lei Maria da Penha, ainda não pro corretivo” praticado por homens, implantada mas já muito questionada individualmente ou em grupo, contra pelos poderes instituídos. Contra a mulheres lésbicas. 31
  • 32.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas apontamos como prioridade para especializadas (DEAMs), casas- o governo Dilma: -abrigo e casa de abrigamento provisório (casas de passagem), • Instituir no PPA 2012-2015 núcleos de violência contra as a manutenção, consolidação e mulheres nas defensorias públicas ampliação do Programa de En- e promotorias, juizados especiali- frentamento à Violência contra as zados, além de serviços de infor- Mulheres, garantindo recuperação mação nos CRAs e CREAS; e ampliação significativa de seu • Apoiar, assessorar e estimular a orçamento de modo, o não conti- construção de redes regionaliza- gencimento dos recursos e promo- das nos estados (intermunicipais) ver a ação integrada e colaborativa para garantir a serviços de atenção entre os três níveis de governos na às mulheres em todas as micror- implementação do Programa. regiões dos estados de nosso país; • Garantir o cumprimento das Normas Técnicas do Ministério da ProPostas de Prioridades Mulher/SPM sobre: o funciona- Nas Políticas do eixo 4 mento das DEAMs e dos CAMs; do ii PNPM • Garantir o cumprimento pelo governo da Norma Técnica do Enfrentamento de todas Ministério da Saúde sobre atenção as formas de violência à saúde das mulheres vítimas de contra as mulheres violência, garantindo nas unidades de atenção básica e serviços espe- • Apoiar a implantação de toda a cializados: a pílula da prevenção rede de serviços de atendimento às de gravidez indesejada (pílula do mulheres em situação de violência dia seguinte), a profilaxia contra conforme a Lei Maria da Penha hepatite C e outras doenças sexual- determina: centro de acolhimento mente transmissíveis e contra vírus às mulheres (CAMs), Delegacias HIV/AIDS. autonomia PolítiCa, instituCionalização E finanCiamEnto DE PolítiCas PúbliCas Para as mulhErEs Grupo de trabalho 4 da iii CnPm O Estado brasileiro tem demons- a desigualdade entre homens e mulhe- trado avanços no processo de assumir res como um problema público. Prova 32
  • 33.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas disso é a instituição das políticas para iniciativas governamentais, par- as mulheres e a criação de um órgão lamentares e da sociedade civil público, a Secretaria de Política para pela reforma dos sistema políti- Mulheres, transformando-a poste- co que estejam em consonância riormente em Ministério. Neste mo- com as conclusões da Comissão mento há rumores de que o governo Tripartite de 2010/Ministério da federal tende para uma proposta de Mulher/SPM; unificação das várias secretarias espe- • Apoiar a auto-organização das ciais em um Ministério dos Direitos mulheres, seus projetos sociais Humanos. Isto é inaceitável para o e atuação nas lutas sociais, pro- movimento feminista. Seria um retro- movendo a instalação de fundos cesso em uma conquista histórica das nacionais de financiamento e co- mulheres brasileiras, assim como da operação com tais organizações. população negra, no caso da SEPPIR ser incorporada a esta ideia. O Ministério da Mulher/SPM é ProPostas Para o eixo11 um instrumento que fortalece a auto- nomia política das mulheres, contribui Gestão e monitoramento para a democratização do Estado bra- do Plano sileiro e para a construção de uma so- ciedade igualitária e socialmente justa. • Institucionalizar a Política Na- cional para Mulheres, com suas apontamos como prioridade para diretrizes, princípios, objetivos o governo Dilma: e organismos, mecanismos de monitoramento e avaliação, ela- • Consolidar as políticas de promo- borada e aprovada na I CNPM ção da igualdade e direitos huma- mas nunca formalizada pelo nos, através do fortalecimento das Poder Executivo; secretarias especiais e do aumento • Garantir que as resoluções III de financiamento a estas políticas. CNPM redundem no fortaleci- mento da Política Nacional para as Mulheres que se consolidem ProPostas Para o eixo 5 em diretrizes, estratégias, planos, do ii PNPM programas, projetos, ações, nor- mas técnicas e que estas sejam Participação das mulheres nos observadas pelos diferentes níveis espaços de poder e decisão de governos fazendo avançar a implementação da Política Na- • Fortalecer a luta das mulheres cional para as Mulheres na pers- por paridade na política e as pectiva da igualdade. 33
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  • 37.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Carta à presidenta Documento endereçado à presi- apresentando a posição coletiva das denta eleita Dilma Rousseff, entregue seguintes redes e articulações nacio- ao presidente do Partido dos Traba- nais feministas acerca do processo de lhadores, Eduardo Dutra, coordena- escolha da nova ministra e a política dor da transição do governo, em au- para mulheres a ser implementada diência em Brasília, em 14/12/2010, pelo novo governo. À exceleNtíssiMa requerem a reiteração do compromis- PresideNta eleita seNhora so político para alcançar a cidadania dilMa rousseff plena das brasileiras. Neste sentido, dirigimo-nos à aos cuidados da equiPe presidenta eleita, Dilma Roussef, aos de traNsição de GoverNo cuidados da equipe de Transição de Governo, apresentando propostas e Pela primeira vez em nossa histó- reivindicações para a estruturação e ria, elegemos uma mulher para presi- gestão do novo governo federal. dir o Brasil. Tal fato político, eviden- cia as mudanças que a luta feminista Propomos: das mulheres, ao longo de décadas, produziu na sociedade brasileira e em 1. Fortalecer a Secretaria de Políticas sua cultura política ao mesmo tempo para as Mulheres como organis- que institui um desafio para o novo mo de primeiro escalão, articu- governo: de avançar na promoção da lador e coordenador da política igualdade social e política com base no de Estado orientada ao enfrenta- respeito e valorização da diversidade, mento das desigualdades vividas da democracia, da cidadania e dos pelas mulheres, o que concretiza- direitos humanos. -se na prática com novos recursos Reafirmamos a importância que a humanos e financeiros; Secretaria de Políticas para as Mulhe- res teve nos últimos oito anos para a 2. Escolha de gestora com trajetó- implementação das políticas públicas ria ética, competência técnica e com vistas a enfrentar as desigualda- política e comprometida com a des de gênero, raça e classe. Persistem, agenda de direitos humanos das entretanto, obstáculos estruturais que mulheres consubstanciados no 37
  • 38.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Plano Nacional de Política para abstratas ou genéricas identificadas as Mulheres, fruto de processos com conceitos estritos e conserva- participativos; que reconheça dores que têm sido utilizadas por os movimentos de mulheres e praticamente todas as políticas feministas como sujeito político sociais, salvo raras exceções, como de interlocução para a formulação comunidade, pobres, família, que de políticas para as mulheres; que não permitem o reconhecimento respeite a diversidade das mulhe- das desigualdades vividas pelas res e a pluralidade dos movimen- mulheres; tos sociais; 6. Eliminação dos programas e ações 3. Avanços significativos na direção governamentais que legitimam a da paridade entre mulheres e ho- divisão sexual do trabalho, entre mens na ocupação dos espaços de outras estratégias que mantêm e poder e decisão do novo governo atualizam os papéis tradicionais federal, nos diferentes escalões de subordinação e exploração das da gestão pública, consideradas mulheres, inclusive mediante a inclusive as dimensões racial e transferência de responsabilidades étnica como critério; da esfera do Poder Público para a esfera doméstica e comunitária; a 4. Que o planejamento governamen- pretensa eficiência econômica de tal das políticas públicas (econô- algumas políticas que reduzem os micas, sociais e de desenvolvimen- gastos públicos vêm tendo custos to) responda, de modo estrutural, muito altos para as mulheres, em ao enfrentamento das múltiplas especial para as que estamos nos formas de desigualdade vividas pe- segmentos mais empobrecidos da las mulheres e que, portanto, seja população; garantido espaço de participação na elaboração do PPA; 7. A garantia do sistema público, universal, solidário, redistributivo 5. Que o novo ciclo de políticas da Seguridade Social; com a incor- públicas, com início em 2011, ga- poração ao sistema das/os trabalha- ranta que as metas e os indicadores doras/es sem cobertura previden- estejam orientados a reconhecer, ciária; universalização do acesso à visibilizar e superar as desigualda- saúde e reafirmação da assistência des vividas pelas mulheres. Reivin- como direito de cidadania; dicamos a utilização das categorias de gênero, raça, etnia, diversidade 8. O fortalecimento das políticas de sexual, geracional, e outras, em saúde das mulheres e a garantia substituição ao uso de categorias dos direitos sexuais e direitos 38
  • 39.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas reprodutivos, com base na laici- 14. Que o processo preparatório e dade, acesso e qualidade, confor- de realização da III Conferência me os compromissos assumidos Nacional de Políticas para as Mu- pelo governo brasileiro; lheres, que se inicia em 2011, seja o espaço privilegiado de discussão, 9. Revisão da legislação restritiva e negociação e efetiva pactuação de- punitiva do direito ao aborto no mocrática dessa nova construção, Brasil; em estreita conexão com o proces- so de elaboração do Planejamento 10. Ações nos diversos ministérios Plurianual para 2012-2015; que contribuam para a elimi- nação de todas as formas de 15. Que no debate sobre a reforma violência contra as mulheres e o tributária a situação de pobreza das enfrentamento ao racismo, sexis- mulheres seja tratada como pro- mo e lesbo/transfobia; blema de alta relevância, ao qual a proposta a ser construída deva 11. Propomos fortalecer os espaços responder para enfrentar a enorme de participação e controle social injustiça fiscal que ainda persiste sobre as políticas públicas, como no sistema tributário brasileiro; os Conselhos e Conferências de Políticas Públicas; 16. A severa observância ao princípio laico que rege o Estado brasileiro, 12. As deliberações das Conferências condição sine qua non para que e Planos que delas emergem se- as mulheres possam exercer livre- jam reconhecidos pelo governo mente os seus direitos, assim como como pactos assumidos com a sua liberdade sexual e de crença; sociedade civil que, portanto, devem orientar a gestão, inclusive 17. Que na reforma política, cujo de- no nível das finanças públicas. Há bate deve se iniciar em 2011, a sub- que se desfazer a ideia de que os -representação das mulheres nos Planos são meras cartas de inten- espaços de poder seja eliminada; ções, dotando-os de mecanismos efetivos de implementação; 18. Que o processo político de cons- trução da proposta governamen- 13. Que se assegure caráter deliberati- tal para a reforma política inclua a vo aos Conselhos, de modo a for- abertura de canais de interlocução talecer o seu caráter de controle e negociação com o movimento social sobre as políticas públicas, de mulheres e feminista, assim evitando que fiquem reduzidos à como com as instâncias de mu- função de assessoramento; lheres em partidos políticos; 39
  • 40.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas 19. Insistimos na importância de se Articulação de Mulheres Brasileiras eliminar todas e quaisquer parce- Articulação de Organizações rias, ou outras formas colaboração, de Mulheres Negras Brasileiras inclusive em termos econômicos do Estado brasileiro com institui- Comitê Latinoamericano do Caribe para a Defesa do Direito ções religiosas, confessionais e/ou da Mulher (CLADEM) privadas que violem os direitos das mulheres, inclusive pela negação Jornadas Brasileiras pelo Aborto Legal e Seguro da prestação de serviços públicos responsivos aos direitos conquis- Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) tados pelas mulheres. Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Brasília, 14 de dezembro de 2010. Direitos Reprodutivos 40
  • 41.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Contribuições ao plano plurianual do governo federal para o período 2012-2015 Documento de orientação da Consideramos que sobre a ideia AMB elaborado para o seminário de igualdade de direitos se apoiam as ‘Diálogos sociais’ reunindo conselhei- políticas de Estado que se propõem a ros/as nacionais e entidades convida- superar as desigualdades de gênero. das, seminário promovido pela Secreta- A promoção da igualdade requer o ria Geral da Presidência da República. respeito e atenção à diversidade cul- tural, étnica, racial, inserção social, visão de futuro de situação econômica e regional, assim como aos diferentes momen- À proposta do governo federal de tos da vida. Demanda o combate que o Brasil será num país conhecido às desigualdades de toda sorte, por por seu modelo de desenvolvimento meio de políticas de ação afirmativa sustentável, bem distribuído regio- e considerando as experiências das nalmente, que busca igualdade social mulheres na formulação, implemen- com educação de qualidade, produção tação, monitoramento e avaliação de conhecimento, inovação tecnológi- das políticas públicas. ca, acrescentamos que queremos um Quanto a laicidade, sabemos que desenvolvimento democrático e com nunca foi inteiramente implantada no justiça socioambiental, e queremos o Brasil, mas afirmamos que as políticas fim das desigualdades de classe, raça/ públicas de Estado devem ser formu- etnia e gênero. ladas e implementadas de maneira independente de princípios religiosos, valores de forma a assegurar efetivamente os direitos consagrados na Constituição Aos valores indicados pelo governo Federal e em diversos instrumentos federal para orientação do PPA, tais internacionais assinados e ratificados como: Soberania, Democracia, Justiça pelo Estado brasileiro, como medida Social, Sustentabilidade, Diversidade de proteção aos direitos humanos das Cultural e Identidade Nacional, acres- mulheres e meninas. (Pressupostos, centamos que sejam observados os valo- princípios e diretrizes da Política Na- res da igualdade e laicidade do Estado. cional para as Mulheres) 41
  • 42.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas macrodesafios responsabilidade pública para com a garantia de exercício pleno dos direitos Para o macrodesafio de construir sexuais e reprodutivos pelas mulheres. um Projeto nacional de Desenvolvi- Nos programas de infraestrutu- mento – afirmamos que para nós este ra, além de infraestrutura produtiva é projeto deve associar avanços científico preciso conferir prioridade estratégica e tecnológico, mas também reconhe- da infraestrutura reprodutiva, enfren- cimento e valorização dos saberes tando a divisão sexual do trabalho e tradicionais e populares, redução das a superexploração das mulheres pela desigualdades regionais e entre o rural dupla jornada de trabalho, garantindo e o urbano, transformação produtiva investimento significativos nos pro- predatória da economia empresarial gramas de infraestrutura social para capitalista para formas ambiental- economia do cuidado (construção de mente sustentáveis, assegurando a creches, restaurantes populares, casa diversidade de formas produtivas entre de repousos, hospitais-dia) elas a produção para o autoconsumo, No âmbito da ação governamen- com redistribuição social da riqueza, tal na Democracia e Participação com reconhecimento do trabalho re- social – é preciso além de fortalecer produtivo e garantia dos direitos dos a democracia, democratizar o poder, povos indígenas e comunidades tradi- estimular a participação da sociedade, cionais. Além disso o projeto nacional efetivando um gestão participativa e deve estar comprometido com o fim ampliando a transparência da ação da pobreza e prosseguir reduzindo as pública. É preciso construir um sis- desigualdades sociais, garantindo as tema de participação através da arti- condições objetivas para que as pessoas culação entre conselhos, conferência, possam prover seu próprio sustento audiências públicas, ouvidorias e deste através do acesso aos bens da natureza com o planejamento governamental. e meios de produção. No macrodesafio da segurança No âmbito da Promoção da Ci- Pública – Promover a segurança e dadania é preciso assegurar políticas a integridade dos cidadãos, através de igualdade de gênero e étnico-racial, do combate a todas as formas de respeitando a diversidade sexual, discriminação e violência, inclusive democratizando as relações sociais, no âmbito doméstico e institucional. garantindo direitos e promovendo a Aos programas é preciso incluir e universalização do acesso e elevação ampliar o programa de Prevenção e da qualidade dos serviços públicos de Enfrentamento da violência contra saúde e educação. É preciso atenção e as mulheres. 42
  • 43.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Carta política do encontro nacional de Diálogos e Convergências entre Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar, economia Solidária e Feminismo Somos 300 cidadãos e cidadãs que expressam as variadas formas de brasileiras integrados à Articulação resistência das camadas populares Nacional de Agroecologia – ANA, à em suas diferentes expressões socio- Associação Brasileira de Agroecologia culturais e sua capacidade de gerar – ABA-Agroecologia, à Associação propostas alternativas ao modelo de Brasileira de Pós-Graduação em Saúde desenvolvimento hegemônico em Coletiva – Abrasco, ao Fórum Brasi- nosso país. Vindos de todas as regiões leiro de Economia Solidária – FBES, do país, esses casos iluminaram nossos ao Fórum Brasileiro de Soberania e debates durante esses três dias e funda- Segurança Alimentar e Nutricional – mentam a manifestação política que FBSSAN, à Rede Brasileira de Justiça apresentamos nesta carta. Ambiental – RBJA, à Rede Alerta Ao alimentar esse padrão de contra o Deserto Verde – RADV, à desenvolvimento, o governo Dilma Marcha Mundial de Mulheres e à inviabiliza a justa prioridade que atri- Articulação de Mulheres Brasilei- buiu ao combate à miséria em nosso ras – AMB, em reunião na cidade país. Tendo como eixo estruturante de Salvador (BA), entre os dias 26 o crescimento econômico pela via a 29 de setembro de 2011, durante da exportação de commodities, esse o Encontro Nacional de Diálogos e padrão gera efeitos perversos que se Convergências entre Agroecologia, alastram em cadeia sobre a nossa so- Saúde e Justiça Ambiental, Sobera- ciedade. No mundo rural, a expressão nia Alimentar, Economia Solidária e mais visível da implantação dessa Feminismo. lógica econômica é a expropriação Nosso encontro resulta de um das populações de seus meios e mo- longo e fecundo processo de prepa- dos de vida, acentuando os níveis de ração motivado pela identificação e degradação ambiental, da pobreza sistematização de casos emblemáticos e da dependência desse importante 43
  • 44.
    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas segmento da sociedade a políticas desnutrição. Constatamos também sociais compensatórias. Esse modelo que esse modelo se estrutura e acentua que se faz presente desde o início de as desigualdades de gênero, de gera- nossa formação histórica ganhou forte ção, de raça e etnia. impulso nas últimas décadas com o Nossas análises convergiram alinhamento dos seguidos governos para a constatação de que os maiores aos projetos expansivos do capital beneficiários e principais induto- internacional. Materialmente, ele se res desse modelo são corporações ancora na expansão do agronegócio e transnacionais do grande capital em grandes projetos de infraestrutura agroindustrial e financeiro. Apesar implantados para favorecer a extração de seus crescentes investimentos em e o escoamento de riquezas naturais marqueting social e verde, essas cor- para os mercados globais. porações já não conseguem ocultar Os casos emblemáticos que sub- suas responsabilidades na produção sidiaram nossos diálogos demonstram de uma crise de sustentabilidade pla- a essência violenta desse modelo que netária que atinge inclusive os países viola o “direito de ficar”, desterritoria- mais desenvolvidos e que se manifesta lizando as populações, o que significa em desequilíbrios sistêmicos expres- subtrair delas a terra de trabalho, o sos no crescimento do desemprego livre acesso aos recursos naturais, suas estrutural, na acentuação da pobreza formas de organização econômica e e da fome, nas mudanças climáticas, suas identidades socioculturais. Os na crise energética e na degradação movimentos massivos de migração acelerada dos recursos do ambiente. compulsória daí decorrentes estão As experiências mobilizadas pelas na raiz de um padrão de distribuição redes aqui em diálogo denunciam demográfica insustentável e que cada as raízes perversas desse modelo ao vez mais converte as cidades em pólos mesmo tempo em que contestam de concentração da pobreza, ao passo radicalmente as falsas soluções à crise que o mundo rural vai se desenhando planetária que vêm sendo apregoa- como um cenário de ocupação do das pelos seus agentes promotores e capital e de seu projeto de uma agri- principais beneficiários. Ao se consti- cultura sem agricultoras e agricultores. tuírem como expressões locais de re- A progressiva deterioração da sistência, essas experiências apontam saúde coletiva é o indicador mais também caminhos para a construção significativo das contradições de de uma sociedade justa, democrática um modelo que alça o Brasil a uma e sustentável. das principais economias mundiais A multiplicação dessas iniciativas ao mesmo tempo em que depende de defesa de territórios, promoção da da manutenção e seguida expansão justiça ambiental e de denúncia dos de políticas de combate à fome e à conflitos socioambientais estão na 44
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas raiz do recrudescimento da violência contribuição que povos e populações no campo que assistimos nos últimos tradicionais oferecem à conservação anos. O assassinato de nossos compa- dos ecossistemas; do reconhecimento nheiros e companheiras nessas frentes dos recursos ambientais como bens de luta é o mais cruel e doloroso tribu- coletivos para o presente e o futuro; e to que o agronegócio e outras expres- os direitos das populações do campo sões do capital impõem aos militantes e da cidade a uma proteção ambien- do povo e ao conjunto da sociedade tal equânime. Convergimos ainda na com suas práticas criminosas. afirmação de que o direito a terra e os Nossos diálogos procuraram direitos à água, à soberania alimentar construir convergências em torno de e à saúde estão fortemente associados. temas que mobilizam as práticas de Reconhecemos a importância da resistência e de afirmação de alterna- mobilização em apoio ao Movimento tivas para a sociedade. Xingu para sempre – em defesa da Os diálogos sobre reforma agrária, vida e do Rio Xingu, considerado direitos territoriais e justiça ambien- como um exemplo emblemático de tal responsabilizaram o Estado face ao luta de resistência ao atual modelo quadro de violência com assassinatos, de desenvolvimento. Defendemos expulsão e deslocamentos compulsórios o fortalecimento da articulação dos de populações pela ação dos grandes atingidos pela empresa Vale e as projetos como as hidrelétricas, expan- propostas que combinem a gestão são das monoculturas e o crescimento ambiental com a produção agroeco- da mineração; a incorporação de áreas lógica, a exemplos de experiências de produção de agrocombustíveis, inovadoras dos movimentos sociais reduzindo a produção de alimentos; em assentamentos da reforma agrária. a pressão sobre as populações que No debate sobre mudanças climá- ocupam tradicionalmente áreas de ticas, seus impactos, mecanismos florestas, ribeirinhas e litorâneas, como de mercado e a agroecologia como os mangues, os territórios da pesca ar- alternativa, recusamos que a proposta tesanal, com a desestruturação de seus agroecológica seja apropriada como meios de vida e ameaça ao acesso à água mecanismo de compensação, seja ele e à soberania alimentar. no invisível e inseguro mercado de As convergências se voltaram carbono, seja em REDD, REDD +, para a reafirmação da centralidade da REDD++ (redução das emissões por luta pela terra, pela reforma agrária e desmatamento e degradação) ou ainda pela garantia dos direitos territoriais dentro do pagamento de serviços am- das populações. O direito a terra bientais. A Rio +20 engendra e con- está indissociado da valorização das solida a chamada “economia verde”, diferentes formas de viver e produ- que pode significar uma apropriação, zir nos territórios, reconhecendo a pelo capitalismo, das alternativas 45
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas construídas pela agricultura familiar e qual ocorre nas áreas de geração de camponesa e pela economia solidária, energia elétrica, segurança alimentar, reduzindo a crise socioambiental a um ciência e tecnologia ou mesmo da problema de mercado. economia solidaria. A Agroecologia não é uma sim- Nas políticas para os agrocom- ples prestadora de serviços, contratu- bustíveis, a agricultura familiar é alizada com setor privado. Ela reúne inserida como mera fornecedora de nossas convergências no campo e na matérias primas e o modelo de in- cidade, trabalhando com gente com tegração é dominante, mascarando fundamento. É possível financiar a o arrendamento e assalariamento do Agroecologia a partir da contamina- campesinato e embutindo o pacote ção, escravidão, racismo e acumulação tecnológico da revolução verde através cada vez maior do capital? É possível das políticas de crédito, assistência fazer um enfrentamento a partir do técnica e extensão rural. O diálogo do pagamento de serviços ambientais governo com os movimentos sociais se por contratos privados, Parcerias precariza pela setorização e atomiza- Público-Privadas? ção das relações, enquanto a mistura Ao debater os impactos da ex- de interesses e operações entre MDA pansão dos monocultivos para agro- e Petrobrás acaba por legitimar o canal combustíveis e padrões alternativos de negociação empresarial no marco de produção e uso de energia no de uma política pública. mundo rural, os diálogos aponta- As experiências de produção des- ram que a energia é estratégica como centralizada de energia e alimentos elemento de poder e autonomia dos apontam como soluções reais aquelas povos, mas está diretamente ligada articuladas por organizações e movi- ao modelo (hegemônico e falido) de mentos sociais que integram as pers- consumo, produção e distribuição. A pectivas da agroecologia, da soberania produção de agrocombustíveis, base- alimentar e energética, da economia ada na monocultura, na destruição solidária, do feminismo e da justiça do ambiente, na violação dos direi- social e ambiental, e são baseadas na tos e injustiças sociais e ambientais, forte identidade territorial e prévia associa-se ao agronegócio e ameaça a organização das comunidades. soberania alimentar. Estas iniciativas têm em comum As políticas públicas sistema- a diversificação da produção e dos ticamente desvirtuam as propostas mercados e a prioridade no uso dos calcadas nas experiências populares, recursos, dos saberes e dos espaços de colocando as cooperativas e iniciativas comercialização locais. Estão sob o da agricultura familiar na lógica da controle dos agricultores e têm auto- competição de mercado e em patamar nomia frente às empresas e ao Estado. desigual em relação às corporações, tal Articulam-se a programas e políticas 46
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas públicas diversas como o Programa seus impactos expressas nas dificul- Nacional de Alimentação Escolar – dades de acesso aos dados oficiais de PNAE e o Programa de Aquisição consumo de agrotóxicos e de laudos de Alimentos –PAA, não apenas ao técnicos sobre casos de contaminação; Programa Nacional de Produção e na liberação de Organismos Geneti- Uso de Biodiesel – PNPB. Os pro- camente Modificados – OGMs sem cessos de transformação estão sob o debate democrático com a sociedade domínio das organizações em toda a e sem atender ao princípio da precau- cadeia produtiva, e há diversificação ção; na frágil vigilância e fiscalização da produção de alimentos e de matriz trabalhista, ambiental e sanitária; na energética e co-produtos, para além e dificuldade do acesso aos laboratórios como consequência da produção de públicos para análise de amostras de combustível. As formas de produção contaminação por transgênicos e por estão em rede e têm capacidade de se agrotóxicos no ar, água, alimentos e contrapor aos sistemas convencionais sangue; terminando por promover um como premissa de sua permanência modelo de desenvolvimento para o no território. campo que concentra terra, riqueza e Com base nestes princípios e renda, com impactos diretos nas po- lições, as políticas públicas para a pulações mais vulneráveis em termos promoção da produção de energia socioambientais. e alimentos devem ter: um marco Há um chamamento para que o legal diferenciado para a agricultura Estado se comprometa com a apura- familiar; promover a produção e uso ção das denúncias e investigação dos diversificado de óleos, seus co-pro- crimes, a exemplo do assassinato do dutos e outras culturas, adequadas à líder comunitário José Maria da Cha- diversidade cultural e biológica regio- pada do Apodi, no Ceará; com a de- nal; atender à demanda de adequação fesa de pesquisadores criminalizados e desenvolvimento de tecnologia e por visibilizar os impactos dos agro- equipamentos apropriados, acompa- tóxicos e por produzir conhecimentos nhada de processos de formação e de compartilhados com os movimentos redes de inovação nas universidades; sociais; com políticas públicas que além de proporcionar autonomia na potencializem a transição agroecoló- distribuição e consumo local de óleos gica – facilitando o acesso ao crédito, vegetais, biodiesel e álcool. à assistência técnica adequada e que Os diálogos sobre os agrotóxi- reconheça os conhecimentos e práti- cos e transgênicos, articulando as cas agroecológicas das comunidades visões da justiça ambiental, saúde camponesas. ambiental e promoção da agroe- Não há possibilidade de convi- cologia, responsabilizaram o Estado vência entre o modelo do agronegócio pelas políticas de ocultamento de e o modelo da agroecologia no mesmo 47
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas território, porque o desmatamento e curso, nos territórios, um processo as pulverizações de agrotóxicos ge- de privatização da terra e da biodi- ram desequilíbrios nos ecossistemas versidade manejada pela produção afetando diretamente as unidades familiar e camponesa, povos e comu- agroecológicas. As políticas públicas nidades tradicionais. Tal privatização devem estar atentas aos impactos dos é aprofundada pela flexibilização do agrotóxicos sobre as mulheres (abor- Código Florestal, que é uma grande tos, leite materno etc.) pois estas estão ameaça e abre caminhos para um pro- expostas de diferentes formas, que cesso brutal de destruição ambiental e vão desde o trabalho nas lavouras até apropriação de terra e territórios pelo o momento da lavagem da roupa dos agronegócio. que utilizam os agrotóxicos. O uso se- A privatização das sementes e guro dos agrotóxicos e transgênicos é mudas, dos conhecimentos tradicio- um mito e um paradigma que precisa nais e dos diversos componentes da ser desconstruído. biodiversidade vem se dando de forma É fundamental a convergência acelerada, com o Estado cumprindo de nossas ações com a Campanha um papel decisivo na mediação (regu- Nacional Permanente Contra os lamentação e políticas públicas) dos Agrotóxicos e pela Vida, ampliando contratos estabelecidos entre empresas os diálogos e convergências com os e comunidades, representando sérios movimentos sociais do campo e da ci- riscos aos direitos ao livre uso da dade, agregando novas redes que não biodiversidade. estiveram presentes nesse Encontro de Causa grande preocupação que as Diálogos e Convergências. Temos que questões nacionais sobre conservação denunciar esse modelo do agronegó- e uso da biodiversidade estejam sen- cio para o mundo e buscar superá-lo do discutidas e encaminhadas sem a por meio de políticas públicas que participação efetiva das populações possam inibir o uso de agrotóxicos diretamente atingidas, estando sujei- e transgênicos, a exemplo da proibi- tas a agendas internacionais como a ção da pulverização aérea, ou ainda Rio +20. Consideramos uma viola- direcionando os recursos oriundos ção a atual forma de “consulta” sobre dos impostos dos agrotóxicos, cuja importantes instrumentos legais e de produção e comercialização é vergo- política concentrada em poucos atores nhosamente subsidiada pelo Estado. e de questionável representatividade. O fim dos subsídios contribuiria para Experiências presentes neste en- financiar o SUS e a agroecologia. contro demonstram avanços e se Com relação aos direitos dos fortalecem a partir da legitimidade de agricultores, povos e comunidades suas práticas e aproveitando as brechas tradicionais ao livre uso da biodi- existentes na legislação. Este é o caso, versidade, constatamos que está em por exemplo, dos bancos comunitários 48
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas de sementes no semiárido; da produção as mulheres, a promoção da saúde de sementes agroecológicas a partir pública e a preservação ambiental. de variedades de domínio público; da Constatou-se que estas iniciativas autorregulação dos conhecimentos contribuem com a construção con- tradicionais sobre as plantas medici- creta e material de propostas diferen- nais do Cerrado; da constituição de ciadas de desenvolvimento, calcadas um fundo público das quebradeiras nas realidades, cultura e autonomia de coco babaçu através da repartição dos sujeitos dos territórios e orienta- de benefícios que reconhece o conhe- das para a justiça socioambiental, a cimento tradicional associado. democracia econômica e o direito à É necessário aprofundar a or- alimentação adequada. ganização das agricultoras e dos Estes acúmulos se expressam atra- agricultores, extrativistas, povos e vés da existência e resistência de deze- comunidades tradicionais em seus nas de milhares de empreendimentos territórios, de forma a fortalecer os e iniciativas de Economia Solidária e princípios e ações de cooperativismo Agroecologia, especialmente quando e suas interlocuções com as redes re- articuladas e organizadas em redes gionais, estaduais e nacionais como e circuitos de produção, comercia- estratégia de resistência e construção lização e consumo, que aproximam de alternativas. A geração de alter- produtores e consumidores e fortale- nativas econômicas é crucial neste cem a economia e cultura locais, num contexto. A apropriação do debate enfrentamento à desterritorialização em torno dos direitos pode facilitar e desigualdades de gênero, raça e e fortalecer o diálogo de nossas redes etnia inerentes ao atual padrão hege- e movimentos com a sociedade civil mônico de produção e distribuição de modo geral, de modo a visibilizar agroalimentar. a importância dos modos de vida Constatou-se que os Programas destas comunidades para a garantia de Alimentação Escolar – PNAE e de direitos humanos, como o direito de Aquisição de Alimentos – PAA, à alimentação adequada e saudável. assim como o reconhecimento cons- Nos diálogos sobre soberania titucional do direito à alimentação e alimentar e nutricional, Economia a implantação do Sistema e Política solidária e agroecologia, as experi- de Segurança Alimentar e Nutricio- ências apontaram o grande acúmulo nal, são conquistas importantes para na construção de alternativas ao atual a agricultura familiar e camponesa. modelo agroalimentar, que garantam, Por outro lado, de forma paradoxal, de forma articulada, a soberania ali- o Estado tem apoiado fortemente o mentar e nutricional, a emancipação agronegócio, através da subordinação econômica dos trabalhadores e traba- de sua ação a interesses do capital, e lhadoras nos territórios, em especial da falta de um horizonte e estratégia 49
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas definidos de expansão do orçamento o que exige a regulação da publicidade do PAA e do PNAE. de alimentos, quanto anunciando as al- As vivências e experiências denun- ternativas disponíveis na Agroecologia ciam também a grande quantidade de e na Economia Solidária. barreiras ao acesso das iniciativas e em-   preendimentos de Economia Solidária Em busca de novos caminhos e Agroecologia a políticas públicas e ao mercado. Tais barreiras se expressam Os exercícios de diálogos que em uma legislação e inspeção sanitárias estamos realizando há dois anos e os e tributárias incompatíveis às realida- excelentes resultados a que chegamos des das/dos produtoras/es e trabalha- em nosso encontro reiteram a necessi- doras/es associadas/os, em especial no dade de fortalecermos nossas alianças processamento e agroindustrialização estratégicas e renovarmos nossos mé- de polpas, doces e alimentos de origem todos de ação convergente. As experi- animal. Estas barreiras, somadas à ências que ancoraram nossas reflexões burocratização na aquisição da Decla- deixam claro que os temas que iden- ração de Aptidão ao PRONAF – DAP tificam as bandeiras de nossas redes e a uma ofensiva de setores empresa- e movimentos integram-se nas lutas riais que têm denunciado à ANVISA do cotidiano que se desenvolvem nos empreendimentos produtivos assim campos e nas cidades contra os meca- que estes começam a se fortalecer, têm nismos de expropriação impostos pelo impedido o escoamento da produção capital e em defesa dos territórios. dentro e fora do município e o acesso Evidenciam, assim, a necessidade de ao PAA e ao PNAE. O direito à or- intensificarmos e multiplicarmos as ganização do trabalho e da produção práticas de diálogos e convergências de forma associada só existirá com a desde o âmbito local, onde as disputas conquista de garantias e condições territoriais materializam-se na forma legislativas, tributárias e de financia- de conflitos socioambientais, com mento que sejam justas. impacto na saúde das populações, Os diálogos apontaram também até níveis regionais, nacionais e in- a luta pelo consumo responsável, so- ternacionais, fundamentais para que lidário e consciente como um campo as causas estruturais do atual modelo importante de convergência entre as hegemônico sejam transformadas. redes e movimentos e como um des- A natureza local e diversificada de dobramento concreto deste Encontro, nossas lutas vem até hoje facilitando através da construção conjunta de um as estratégias de sua invisibilização diálogo pedagógico com a sociedade, pelos setores hegemônicos e benefici- tanto denunciando os impactos e da- ários do modelo. Esse fato nos indica nos dos alimentos vindos do agronegó- a necessidade de atuarmos de forma cio e contaminados com agrotóxicos, articulada, incorporando formas 50
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas criativas de denúncia, promovendo a O Estado deve se comprometer a fi- visibilidade dos conflitos e das propo- nanciar nossas mídias, inclusive para sições que emergem das experiências que possamos ampliar projetos de for- populares. mação de comunicadores e de estru- Uma das linhas estratégicas para a turação dos nossos próprios veículos promoção dos diálogos e convergên- de comunicação. As mídias públicas cias é a produção e disseminação de devem ser veículos para comunicar conhecimento sobre as trajetórias his- aprendizados de nossas experiências, tóricas de disputas territoriais e suas proposições e campanhas. Por uma atuais manifestações. Nesse sentido, comunicação livre, democrática, as alianças com o mundo acadêmico comunitária, igualitária, plural e que devem ser reforçadas também como defenda a vida acima do lucro. parte de uma estratégia de reorien- Nossos diálogos convergem tam- tação das instituições do Estado, no bém para a necessidade do reco- sentido destas reforçarem as lutas pela nhecimento das mulheres como justiça social e ambiental. Estimula- sujeito político, a importância de sua mos a elaboração e uso de mapas que auto-organização e a centralidade do expressem as diferentes dimensões das questionamento da divisão sexual lutas territoriais pelos seus protagonis- do trabalho que desvaloriza e separa tas como uma estratégia de visibiliza- trabalho das mulheres em relação ção e articulação entre nossas redes e ao dos homens, assim negando a movimentos. O Intermapas já é uma contribuição econômica da atividade expressão material das convergências. doméstica de cuidados e a produção Outra linha estratégica funda- para o autoconsumo. Convergimos menta-se em nossa afirmação de que a na compreensão do sentido crítico comunicação é um direito das pessoas do pensamento e ação feministas e dos povos. Reafirmamos a impor- para ressignificar e ampliar o sentido tância, a necessidade e a obrigação de do trabalho e sua centralidade para a nos comunicarmos para tornar visíveis produção do viver. nossas realidades, nossas pautas e nos- A apropriação do feminismo so projeto de desenvolvimento para o como ferramenta política contribuirá país. A mudança do marco regulatório para recuperar e visibilizar as experi- da mídia é condição para a democra- ências, os conhecimentos e as práticas tização dos meios de comunicação. das mulheres na construção da agro- Repudiamos as posturas de criminali- ecologia, da economia solidária, da zação e as formas de representação que justiça ambiental e para garantir sua a mídia hegemônica adota ao abordar autonomia econômica. os territórios, modos de vida e lutas. Mas a história também mostra Contestamos a produção da invisibi- que o permanente exercício da violên- lidade nesses meios de comunicação. cia dos homens contra as mulheres é 51
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas um poderoso instrumento de domi- estabelecer com ela relações que per- nação e controle patriarcal que fere mitam à sociedade reconhecer nas ins- a dignidade das mulheres e impede tituições a expressão do compromisso a conquista de sua autonomia, e as com o público e com a sustentabilida- exclui dos espaços de poder e decisão. de. Esse princípio é contraditório com A violência contra as mulheres não qualquer prática de criminalização é agroecológica, não é solidaria, não dos movimentos e organizações que é sustentável, não é justa. Por isso é lutam por direitos civis de acesso so- fundamental que as redes que estão berano aos territórios e seus recursos. organizando o Encontro Nacional de As redes e movimentos promoto- Diálogos e Convergências assumam res deste Encontro saem fortalecidos a erradicação da violência contra as e têm ampliadas suas capacidades mulheres como parte de um novo de expressão pública e ação política. modelo de produção e consumo, que Estamos apenas no início de um pro- deve ter como um eixo fundamental a cesso que se desdobrará em ambientes construção de novas relações humanas de diálogos e convergências que se baseadas na igualdade. organizarão a partir dos territórios, O papel do Estado democrático o lugar onde nossas lutas se integram é o de construir um país de cidadãos na prática. e cidadãs, promover e defender a organização da sociedade civil e de Salvador, 29 de setembro de 2011. 52
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Saúde pública em mãos privadas: para onde vai o SuS no governo Dilma? Verônica Ferreira O anúncio dos dois novos progra- Nós dos movimentos de mulheres mas de saúde – SOS Emergências e sabemos e vivemos os problemas no Melhor em Casa – feito pela presiden- atendimento que roubam vidas todos ta Dilma Roussef, estarreceu a todas/ os dias nas grandes emergências dos os aquelas/es que lutam pelo SUS. O hospitais públicos. Uma situação de governo federal lança mão da parceria barbárie que precisa ser enfrentada. com o setor privado, por meio dos Para isso, defendemos em nossas grandes hospitais, para resolver os mobilizações e nos espaços de parti- problemas de gestão e qualidade do cipação (Conselhos e Conferências) atendimento das grandes emergên- o investimento pesado de recursos cias públicas. Em quase dez minutos nos hospitais públicos, a contratação de seu pronunciamento em rede na- de mais profissionais com condições cional, Dilma falou com entusiasmo de trabalho e possibilidades de rea- da parceria com o setor privado. A lizar uma carreira pública plena no palavra SUS não foi pronunciada em SUS, a ampliação de unidades de nenhum momento. alta complexidade, a qualificação no O anúncio acontece após semanas atendimento. de campanha de desqualificação e ata- Isto é possível e pode ser feito que ao SUS pela mídia conservadora pelo Estado, com investimento e e a menos de 20 dias da Conferência gestão pública, pelos sujeitos que vêm Nacional de Saúde, onde representantes construindo, há duas décadas, um dos da sociedade civil, movimentos sociais, maiores sistemas públicos e universais trabalhadoras/es e gestoras/es, apresen- de saúde do mundo. O SUS é a prova tarão suas propostas para a consolidação de que isto é possível. Para isso, há que do SUS. O governo escolheu a quem se optar por qual modelo de Estado e responder. Capitulou frente à pressão porque projeto para a saúde construir. da imprensa conservadora e privatista e Para consolidar o SUS, eviden- retirou da disputa na Conferência uma temente, é preciso recursos. E recur- de suas pautas mais importantes e ten- sos não caem do céu, como disse a sas: a adoção do modelo das fundações presidenta em seus discurso. Isto já privadas na gestão do SUS. estava claro no processo constituinte 55
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas que teve como uma de suas princi- dívida. Em 2012, o desfalque será de pais conquistas a definição de um 62 milhões! Enquanto Dilma fazia seu orçamento próprio para a seguridade pronunciamento, o Congresso Nacio- social, estabelecendo uma diversida- nal aprovava a prorrogação da DRU de de fontes de financiamento. Os até 2015, sob pressão do governo. fundos públicos são disputados pelos Para pressionar pela aprovação da interesses econômicos, razão pela qual DRU, o governo lança mão em seu a Constituição estabeleceu e protegeu discurso do enfrentamento à pobre- o orçamento para os direitos sociais. za. A pobreza tem sido acionada em O orçamento da seguridade, tal como muitos momentos para legitimar as estabelecido na Constituição, nunca ações do governo, mesmo aquelas que se realizou. Por exemplo, a partir da claramente favorecem a concentração taxação das grandes fortunas, do ca- de riqueza. Como o volume de recur- pital financeiro. sos retirado dos direitos sociais para o O que ocorre hoje é o contrário. capital financeiro é um escândalo, o Os recursos da seguridade são levados governo sustenta que os recursos irão para o céu do capital financeiro, para o também para a construção de mora- pagamento infindo de juros da dívida dias, para o PAC e para o Programa que não se paga nunca, para sustentar a Brasil sem Miséria. Ocorre que, para política econômica de superávit primá- garantir os recursos do Brasil sem Mi- rio, para assegurar a credibilidade do séria, não precisamos de DRU. Basta país frente aos credores e investidores, deixar as receitas onde elas já estão: digo, aos especuladores, do capitalismo no orçamento da seguridade social, financeiro internacional que hoje do- que inclui os recursos para a política minam o mundo e subordinam estados de assistência. nacionais a seus interesses. Não queremos gestão privada do O orçamento da seguridade social SUS. Não aceitamos a prorrogação da tem sido drenado, desde 1994, por DRU. Seguimos acreditando que um meio da Desvinculação de Receitas sistema de saúde público, universal, da União – DRU, para o pagamento de qualidade, é possível. Que preci- de juros da dívida pública e sustentar samos seguir realizando a revolução a credibilidade internacional do país na saúde que o SUS representa, ainda junto ao grande capital financeiro. Os inacabada. E que, para isso, é melhor 45 bilhões de que o SUS precisa para fazê-lo em casa, com recursos públi- garantir melhor qualidade, conforme cos, sob a gestão pública e a partir da o próprio Ministério da Saúde já es- experiência enorme e revolucionária tipulou, são desfalcados anualmente que a implementação do SUS nas para pagar os impagáveis juros da duas últimas décadas construiu. 56
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas política nacional de Atenção integral à Saúde da mulher – pnAiSm entre as diretrizes e a realidade das mulheres brasileiras Conceição de maria Amorim A construção de políticas públicas – Princípios e Diretrizes, construída a dirigidas à saúde da mulher no Brasil partir da proposição do SUS, respeitan- são recentes e fazem parte das profun- do as características da nova política de das mudanças societárias das últimas saúde. (MS 2008). três décadas, através das lutas do mo- vimento feminista, aliadas às lutas dos A Política de Atenção à Saúde profissionais da saúde do movimento da Mulher deverá atingir as mulheres sanitarista, comprometidas com a em todos os ciclos de vida, resguar- filosofia de saúde enquanto direito dadas as especificidades das diferentes e preocupadas em garantir à mulher faixas etárias e dos distintos grupos assistência integral, enfatizando a populacionais (mulheres negras, in- preocupação com seu corpo e mente dígenas, residentes em áreas urbanas de forma integral. e rurais, residentes em locais de difícil Este debate tem início em 1983 e acesso, em situação de risco, presi- resultou na implantação do Programa diárias, de orientação homossexual, de Atenção Integral à Saúde da Mulher com deficiência, dentre outras). As – PAISM que tinha como principal políticas de saúde da mulher deverão perspectiva a superação da abordagem ser compreendidas em sua dimensão materno-infantil, retrógrada e conser- mais ampla, objetivando a criação e vadora, nas ações de saúde da mulher. ampliação das condições necessárias O PAISM funcionou como Pro- ao exercício dos direitos da mulher, grama de Atenção à Saúde da Mulher, seja no âmbito do SUS, seja na atu- desde sua implantação, até 2004, ação em parceria do setor saúde com quando, em 28 de maio de 2004, o outros setores governamentais, com ministro da Saúde, Humberto Costa, destaque para a segurança, a justiça, lançou a Política Nacional de Atenção trabalho, previdência social e edu- Integral à Saúde da Mulher – PNAISM cação. (BRASIL, 2004)1. 1 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Política Nacional de Atenção integral á Saúde da Mulher: Princípios e diretrizes. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2004. 57
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas A integralidade da política pres- As investigações constatam, cla- supõe ações construídas a partir da ramente, a falta de correspondência concepção de intersetorialidade, entre os direitos assegurados nos comunhão de saberes e fazeres coleti- discursos oficiais e a realidade con- vos, que perpassem o espaço físico do creta a que se referem. Observa-se, na atendimento, em que se veja a usuá- realidade dos serviços públicos, que a ria como um todo e se garanta uma garantia do direito à saúde está muito atuação permanente na prevenção e distante do que se tem no papel. promoção da saúde, considerando as especificidades e as relações de gênero • Falta trabalhar a interdisciplina- na sociedade patriarcal, capitalista ridade, estimulando a discussão comprometida com as políticas do coletiva acerca das ações desenvol- neoliberalismo. vidas e por toda a equipe; No presente verifica-se que as • Falta capacitação da prática políticas públicas resultam de uma interdisciplinar; permanente luta de classes e que, • Falta capacitação da equipe na apesar de se conseguirem avanços e perspectiva de gênero; conquistas sociais, nem sempre se • Falta conhecimento e preparação garante, na prática, a eficácia do seu da equipe para o atendimento à conteúdo teórico. A implantação do mulher vítima de violência do- PAISM e da PNAISM aparenta ter méstica e sexual; sido bastante diferenciada em todo • Falta articulação entre os outros o país, refletindo os distintos graus Programas da Saúde, inclusive de compreensão e compromisso po- o PSF. O atendimento médico lítico dos governantes com a ques- está voltado, unicamente, para tão da mulher e a disparidade nas “doença” da usuária. estratégias adotadas na organização do sistema de saúde. Se faz imprescindível a melhoria Observamos que, a partir de uma gerencial dos serviços e a qualificação proposta norteada por diretrizes e permanente dos profissionais de saú- princípios, não se conseguiu, em 26 de, a fim de que possam prestar uma anos, efetivar a integralidade e equida- assistência integral e humana, evitando de, nem mesmo fazer estas diretrizes a excessiva utilização de tecnologias conhecidas pelos profissionais de saú- médicas, utilizando recursos de “escu- de que atuam na Política de Atenção ta” de “acolhimento”, contribuindo, Integral a Saúde da Mulher , muito efetivamente, para a transformação do menos, as usuárias. atual modelo de assistência. 58
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas mulheres e poder: ampliar a participação para garantir direitos Carmen Silva O poder e a relação entre espaço do próprio movimento de mulheres. público e privado são, há muito tem- Para nós, do movimento de mu- po, uma questão central para o femi- lheres, é fundamental garantir a parti- nismo. Daí a importância de refletir- cipação social ampliando as condições mos criticamente sobre o exercício de participação das mulheres. As de participação política das mulheres mulheres têm forte expressão nos mo- no espaço público, para formularmos vimentos populares que reivindicam propostas para a sociedade e o Estado políticas sociais e cresce a participação no sentido da promoção de condições em torno dos processos econômicos e de igualdade entre os sexos. das decisões sobre finanças públicas. Para o feminismo a presença de Todavia, a situação de desigualdade mulheres nos espaços de poder é um entre os sexos inviabiliza que esta indicador de mudanças no quadro de participação se dê em igualdade de desigualdade entre os sexos no âmbito condições. da política, mas para produzir trans- Todas nós sabemos que, além formação social é fundamental que da vida pública, assumimos a ampla estas mulheres articulem-se a partir maioria dos encargos da vida priva- de um ideário capaz de impulsionar da com o trabalho doméstico, e os a luta pelas condições de igualdade na encargos com o cuidado a pessoas sociedade, o que inclui o combate à da família, além do que, quando opressão e exploração das mulheres, mulheres assumem lugares de poder isto é, o enfrentamento do patriarca- são vistas como “seres fora do lugar”, do, do racismo e do capitalismo. tratadas como inadequadas à tomadas Apesar da normatização jurídica, de graves decisões sobre os rumos da no âmbito internacional e no Brasil, República. afirmarem a igualdade entre os sexos, É desta República, para que possa não há medidas suficientes por parte dizer-se democrática, que exigimos dos governos para gerar as condições ações afirmativas capazes de potencia- que possibilitem esta igualdade. A lizar a participação política feminina. pressão social para que isso aconteça A I CNPM estabeleceu como diretriz vinda dos movimentos sociais organi- da Política Nacional para as Mulhe- zados também é reduzida, à exceção res “promover o equilíbrio de poder 59
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas entre homens e mulheres em termos autônomos de participação próprios de recursos econômicos, direitos le- do movimento de mulheres como gais, participação política e relações formuladores e responsáveis pelo con- interpessoais”. trole social sobra as políticas públicas Com a II CNPM a questão da sociais e econômicas. democratização do poder firmou-se No que diz respeito aos processos como um eixo do Plano Nacional eleitorais, sabemos que para ampliar a de Políticas para as Mulheres, o que participação das mulheres é necessário gerou, por parte da SPM – Secretaria que seja adotado no Brasil o sistema de Políticas para as Mulheres, a cam- de “voto em lista fechada com alter- panha “Mais Mulheres no Poder” nância de sexo” para apresentação realizada nos anos eleitorais. Na ava- das candidaturas ao legislativo, com liação corrente, contudo, esta diretriz a garantia de igualdade de recursos não se efetivou a contento, e e nem financeiros e de tempo de propaganda é assumida como um política do go- eleitoral. verno como um todo, razão pela qual Esta proposta, todavia, para formulamos algumas propostas para se viabilizar, precisa ser associada aprofundar a democracia. São pro- à fidelidade partidária, a limitação postas defendidas por várias organiza- do número de mandatos, além do ções dos Movimentos de Mulheres e financiamento público exclusivo de muitas delas assumidas também pela campanha. Estas medidas podem Plataforma dos Movimentos Sociais favorecer o crescimento da presença pela Reforma do Sistema Político. das mulheres nas estruturas do poder No âmbito da democracia direta e, com elas, podemos seguir avançan- propomos a regulamentação do ple- do na construção da paridade entre biscito e referendo de forma que eles os sexos, desde que a nova legislação tenham que ocorrer a partir da socie- construa instrumentos de punição dade, semelhante aos projetos de lei de para os partidos que não cumprirem iniciativa popular que são propostos a estas regras. partir de lista de assinaturas. No âmbito da reforma do sistema Exigimos também que os mo- político também está em debate se te- vimentos sociais não sejam crimi- remos voto proporcional, distrital ou nalizados, mas ao contrário, sejam misto. Como assinala um documento reconhecidos como expressões da so- da AMB “é consenso entre as feministas ciedade que constroem a democracia e muitos setores do campo de esquerda a partir da participação popular e da que voto distrital é um grande risco ação direta. Não basta ter instâncias para a democracia e um verdadeiro de governo voltadas para Políticas obstáculo ao acesso das mulheres ao para as Mulheres, é fundamental poder. Sendo um voto vinculado aos que sejam reconhecidos os espaços poderes locais, o regime de voto distrital 60
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas tende a perpetuar as oligarquias e chefes que este relatório seja apresentado em políticos nos espaços de poder que já plenário, para que não haja o retroces- ocupam, como demonstram muitas so no debate com a criação de nova experiências no mundo”. comissão parlamentar, mas também Neste debate, o movimento de porque ele pode criar a possibilida- mulheres precisa ter muita firmeza de de debate público que favoreça a pois vai enfrentar argumentos fala- apresentação de nossas posições para a ciosos que afirmam que voto distrital sociedade e para o próprio Congresso. favorece uma maior aproximação Afirmar o movimento de mulhe- entre os eleitos e os eleitores, quando res, e dentro dele o feminismo, como sabemos que ele, na verdade, favore- sujeito político, nesta conjuntura, é ce o controle sobre regiões e o voto também enfrentar o desafio de exigir personalizado, ameaçando todas as do Estado e da sociedade a geração de articulações que relacionam o local ao condições de igualdade entre os sexos global e defendem direitos universais que possibilitem a presença das mu- e o respeito à diversidade. lheres na esfera pública e a conquista Estas propostas que estamos de- de direitos. batendo no processo da Conferência Como diz texto da agenda polí- de Política para Mulheres fazem parte tica da AMB, “pensar a participação de um debate mais amplo, envolven- das mulheres apenas considerando do várias organizações, que há dois os espaços de poder tal qual existem anos vem construindo a Plataforma hoje restringe o alcance da mudança dos Movimentos Sociais por uma Re- que desejamos. As mulheres, sempre forma Política Ampla, Democrática e que estiveram nas lutas sociais, e há Participativa. mulheres nas lutas sociais de todos os Esta Plataforma já foi apresentada tempos e lugares, nem sempre foram ao Congresso Nacional e, naquele visíveis politicamente. Muitas vezes âmbito, foi criado uma frente parla- lutaram e superaram interdições à sua mentar, com participação da socieda- participação. Sabe-se por isso que para de, para atuar nas casas legislativas. ampliar e fortalecer a participação Entretanto, a proposta que está em das mulheres nos espaços de poder discussão no Congresso restringe a é necessário a democratização dos reforma do sistema político à reforma mecanismos de representação tanto eleitoral, para a qual já existe, inclu- quanto o aprofundamento da partici- sive, um relatório pronto para ir à pação popular no Estado. Queremos plenário. Para os movimentos é bom o espaço de poder transformado!” 61
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas lutas feministas antipatriarcais, antirracistas e anticapitalistas A luta feminista da AmB Para a AMB o racismo é o sistema geração de lucro, negação e dizimação de poder que cria, justifica e legitima das diversidades culturais. O Estado a dominação e opressão das pessoas brasileiro é um espaço contraditório, brancas sobre as negras e que, para mas tende a favorecer a acumulação se manter, renova-se continuamente, e concentração de riquezas e apenas ordenando todas as dimensões da compensar os efeitos negativos que ela vida em sociedade e se expandindo produz. Muitas políticas e projetos go- por todo o corpo social – econômico, vernamentais se voltam para isso, é o político, jurídico, cultural e religioso. caso dos benefícios fiscais para empre- O patriarcalismo é o sistema de endimentos empresariais; projetos de dominação dos homens sobre as mu- desenvolvimento que causam danos lheres em todos os âmbitos da vida, sociais e ambientais; e a arrecadação instituindo normas, valores e bases de impostos que favorece aos ricos. materiais da dominação e exploração das mulheres. A divisão sexual do lutas antirracistas trabalho, o uso da violência como ins- trumento de dominação, o controle O debate chamou a atenção para do corpo e da sexualidade feminina, a a importância de se divulgar a história heteronormatividade e os obstáculos à do povo negro, porque muitas pessoas participação política das mulheres são negras ainda não conseguem se ver alguns dos seus instrumentos. como tal. As mulheres negras, por sua O capitalismo é o sistema que vez, são guardiãs de valores civilizató- se organiza através da exploração da rios, embora ainda careçam do devido força de trabalho e da apropriação, reconhecimento. Do nosso ponto por uma minoria, das riquezas pro- de vista, a democracia só acontecerá duzidas pelo trabalho da maioria. se incluir na sua pauta a luta contra Uma das principais características do o racismo, compreendendo que as capitalismo é seu caráter expansionista mulheres negras não são “público para marcado pela apropriação privada atividades”, e sim sujeitos políticos, dos bens naturais para exploração, e precisam ser tratadas como iguais. 63
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas A luta contra o racismo é uma Para viabilizar essas lutas é preciso pauta que vem ganhando força dentro dar visibilidade às desvantagens que da AMB, fruto de uma as mulheres negras sofrem (número disposição política e da ação das de mulheres assassinadas; as que não mulheres negras no interior do movi- têm acesso às políticas etc); fortalecer mento, sendo necessário enfrentá-lo as organizações de mulheres negras; na sua articulação com o capitalismo realizar ações públicas, como por e com o patriarcalismo. exemplo, ação de constrangimento Esse debate, necessariamente, nos shoppings (“dar vexame”) para passa pelas políticas públicas, por isso repudiar as violências sofridas pela é importante incidir nos processos de população negra naqueles espaços; PPA – Plano plurianual, pois a igual- enfrentar o debate do racismo institu- dade depende muito do investimento cional e denunciá-lo, principalmente nas políticas públicas. Além disso, foi nas relações de trabalho no mercado discutida a necessidade de se realizar o privado. Precisamos criar espaços, no debate sobre a história do feminismo, âmbito da AMB, para as militantes sem datá-lo a partir dos anos 70 (30 fortalecerem sua identidade racial, anos), pois isso ajuda a ver o feminis- discutindo a experiência do racis- mo só a partir das mulheres brancas de mo; buscando formação para resistir classe média. O feminismo na América ao racismo individualmente e para Latina é de muito antes, e as lutas das saber lidar coletivamente com esse mulheres negras é dos 500 anos do problema; desenvolver estratégias Brasil. Também foi ressaltada a impor- pedagógicas sobre como abordar a tância desse debate para as mulheres questão da negritude na política de indígenas. As lutas a serem assumidas, formação; discutir o poder no âmbito são: a defesa da liberdade e do direito organizacional, para saber onde estão ao culto e da crença religiosa; garantia as mulheres negras e qual a estratégia dos territórios quilombolas; cotas para de ampliação deste poder nas orga- a população negra; implementação nizações e movimentos; aprofundar da Lei 10.639/03; republicação da lei o diálogo com as organizações de que criminaliza o racismo; luta contra mulheres negras; favorecer encontros o crack, que dizima os núcleos fami- entre mulheres indígenas e negras etc. liares das mulheres negras; por uma Muitos desafios foram apontados ten- educação não sexista e antirracista; pela do como ponto de partida enxergar implementação das políticas públicas como o racismo gera desigualdade, in- de saúde, com ênfase nas doenças justiça e pobreza, e articular a batalha que acometem a população negra; contra o racismo dentro das frentes de valorização do trabalho doméstico; luta da AMB, para inserir a questão aprofundamento da luta pela reforma nas políticas públicas, com ênfase para da previdência; entre outras. o acompanhamento. 64
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas números anteriores Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas i Conferência nacional de Políticas para as mulheres Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2004 Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas os Direitos das mulheres são Direitos humanos Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2004 Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas xiii Conferência nacional de saúde Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2007 Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas ii Conferência nacional de Políticas para as mulheres Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Recife, 2007 Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas Desafios para a ação do movimento na implementação das políticas Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Brasília, 2009
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    Articulando a LutaFeminista nas Políticas Públicas Articulando a Luta Feminista nas Políticas Públicas III Conferência de Políticas para as Mulheres – Propostas e questões para o debate Registro e sistematização dos debates: Silvia Camurça (SOS Corpo) Redação: Silvia Camurça Edição: Silvia Camurça , Analba Brazão, Cristina Lima, Paula Andrade, Joluzia Batista Revisão: Daniela Lima Projeto gráfico: Marta Braga Diagramação: Ars Ventura Imagem & Comunicação Tiragem: 5 mil exemplares Apoio: ONU Mulheres Sobre a AmB A AMB é uma articulação política não partidária, que potencializa a luta feminista das mulheres brasileiras nos planos nacional e internacional. A AMB tem sua ação orientada para a transformação social e a constru- ção de uma sociedade democrática, tendo como referência a Plataforma Política Feminista (construída pelo movimento de mulheres do Brasil, em 2002). No presente contexto, a AMB se orienta por cinco prioridades: a mobilização pelo direito ao aborto legal e seguro, a ação pelo fim da violência contra as mulheres, o enfren- tamento da política neoliberal, a organização do movimento e a luta contra o racismo. Compõem a AMB: Articulação de Mulheres do Acre Fórum de Entidades Autônomas de Mulheres de Alagoas Articulação de Mulheres do Amapá Articulação de Mulheres do Amazonas Fórum de Mulheres de Salvador Fórum Cearense de Mulheres Fórum de Mulheres do Distrito Federal Fórum de Mulheres do Espírito Santo Fórum Goiano de Mulheres Fórum Estadual de Mulheres Maranhenses Articulação de Mulheres Brasileiras - RJ Fórum de Mulheres de Mato Grosso Articulação de Mulheres do Mato Grosso do Sul Fórum de Mulheres da Grande Belo Horizonte Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense Rede de Mulheres em Articulação da Paraíba Fórum de Mulheres da Paraíba Fórum de Mulheres do Paraná Fórum de Mulheres de Pernambuco Fórum Estadual de Mulheres do Rio Grande do Norte Fórum Municipal da Mulher de Porto Alegre Articulação de Mulheres de Rondônia Núcleo de Mulheres de Roraima Fórum de Mulheres de Santa Catarina Articulação de Mulheres de São Paulo Fórum de Mulheres de Sergipe Articulação de Mulheres Tocantinenses Fórum de Mulheres Piauienses Na América Latina, a AMB integra a Articulação Feminista Marcosur e o Comitê de Mulheres da Aliança Social Continental.
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    Esta publicação impressasó foi possível devido ao apoio do Projeto Mais Direi- tos e Mais Poder, financiado pelo Fundo de Igualdade de Gênero, e executado pelas seguintes organizações: Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM; SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia; Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA; Coletivo Leila Diniz; Cunhã Coletivo Femi- nista; Geledés Instituto da Mulher Negra; Redeh – Rede de Desenvolvimento Humano e o Instituto Patrícia Galvão – IPG.