O documento descreve o resumo do 3° Simpósio Paranaense de Design Sustentável, incluindo informações sobre local, data, organização e artigos apresentados sobre moda e design sustentável.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 2
2.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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Data:
Comissão Organizadora:
Site:
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Organização e Edição:
Projeto Gráfico:
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Universidade Estadual de Londrina - UEL
Auditório do CESA - Centro de Estudos Sociais Aplicados.
Rodovia Celso Garcia Cid/PR 445, KM 380 - Campus
Universitário, Londrina - PR,
15/09/2011, das 8:00h às 12:00 e das 13:30 às 18h.
Prof. MsC. Claudio Pereira Sampaio
Profa. Dra. Suzana Barreto Martins
www.sites.google.com/site/progsuel/eventos/3ospds
(43) 3371-4479
Prof. MsC. Claudio Pereira Sampaio
Fernando Cacciolari Menezes
2176-4093
*O CONTEÚDO DOS ARTIGOS É DE INTEIRA E
EXCLUSIVA RESPONSABILIDADE DOS AUTORES.
Anais do 3° Simpósio Paranaense de Design Sustentável
3.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 2
Moda e Sustentabilidade
Design de produto, gráfico,
inovação e sustentabilidade
6
14
20
31
37
46
62
67
73
83
Moda e artesanato parceria possível para inovação
Profa. Dra. Ana Mery Sehbe De Carli
Transformando resíduo em benefício social - Banco de Vestuário
Profa. Gilda Eluísa De Ross
Modelo produtivo sustentável: aproveitamento de retraços têxteis
na região de Londrina
Lílian Lago, Profa. MsC. Ana Luisa Boavista Lustosa Cavalcante
Sustentabilidade no campo de estágio: a utilização de retalhos de renda
e o “novo luxo”
Larissa Avanço de Souza, Profa. MsC. Lucimar de Fátima Bilmaia Emidio
O Jeans e o Design para o Meio Ambiente: alguns caminhos para a
sustentabilidade na moda
Mariana Dias de Almeida, Profa. Dra. Mônica Moura
Design Brasileiro Contemporâneo e a Sustentabilidade: algumas
vertentes
Profa. Dra. Mônica Moura, Profa. Dra. Cyntia Malaguti
Mesa de centro em bambu laminado colado e fibra de coco
Bruno Perazelli Farias Ramos, Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira,
Ivaldo D. Valarelli
Design Sustentável com o Bambu
Camila Kiyomi Gondo, Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira
Desenvolvimento de mobiliários de bambu laminado colado sob
conceitos de Ecodesign
Hugo Hissashi Hayashi Hisamatsu, Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira
Desenvolvimento de mobiliário em bambu laminado sob os conceitos
de ecodesign
Mariana Lourenço, Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira
Sumário
Anais do 3° Simpósio Paranaense de Design Sustentável
4.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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94
101
106
112
117
125
137
143
Design solidário, extensão e geração de renda
Sabrina Antunes Saboya, Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira
Vinicultura sustentável: Desenvolvendo objetos com resíduos de
videira
Desiree Fernanda Nascimento Rodrigues, Profa. Dra. Cleuza Bittencourt
Ribas Fornasier
Aspectos de sustentabilidade em embalagens de exportação
Prof. MsC. Claudio Pereira Sampaio, Esp. Aline Horie, Esp. Andressa Lohr
Lavanderia Ecotêxtil: proposta de sistema produto-serviço para
cuidado com as roupas em um campus universitário
Flora Moura Chaves, Timeni Andrade Gonçalves Pontes, Prof. MsC.
Claudio Pereira Sampaio, Profa. Dra. Suzana Barreto Martins
Energia gerada pelo próprio usuário: possível aplicação baseada no
FESS
Fabiano Burgo, Prof. Dr. Dalton Razera
As possíveis contribuições da antropologia para o desenvolvimento
de bens e serviços para a sustentabilidade
Esp. Mariana França Ordacowski, Prof. MsC. Claudio Pereira Sampaio
A colaboração no design de abrigos de emergência: relato de uma
pesquisa-ação
Carolina Daros, Ivana Marques da Rosa, Prof. Dr. Aguinaldo dos Santos,
Prof. Dr. Adriano Heemann
Uma experiência no ensino de design de sistemas orientados à
sustentabilidade
Profa. MsC. Jucelia S. Giacomini da Silva
Sumário
Anais do 3° Simpósio Paranaense de Design Sustentável
Design de produto, gráfico,
inovação e sustentabilidade
Novos caminhos do design
para a sustentabilidade
5.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 2
Moda e Sustentabilidade
http://www.centerfabril.com.br/index.php/algodao-cru-2.html
6.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
6
Moda e artesanato parceria possível para inovação
Profa. Dra. Ana Mery Sehbe De Carli
Universidade de Caxias do Sul - UCS
sdecarli@terra.com.br
7.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 7
Introdução
O design de moda atual apresenta diversas parcerias
entre designers, artesãos e indústria, que têm apontado para
soluções inovadoras. Dentre elas podem ser citadas:
- Myrian Melo e Redley: a designer e artesã Myrian
Melo, de Minas Gerais, desenvolve criações de patchwork, quilt
e bordados para a moda; dá aulas e pesquisa sobre o tema,
desenvolvendo um trabalho autoral, que lhe abriu as portas
para a prestação de serviço de consultoria a vários segmentos.
A marca Redley, por sua vez, surgiu em 1985 com a primeira
coleção masculina e com o lançamento do clássico tênis-iate. Em
pouco mais de 5 anos, a Redley firmou seu estilo representando,
de forma autêntica e inovadora, o desejo de jovens na década
de 90. Hoje, a cultura de praia, as paisagens naturais, os esportes,
a praticidade e o conforto são elementos que inspiram a marca.
Em uma parceria acertada há algumas estações, Mello elabora
tecidos aplicando a técnica de patchwork e quilt, e a marca Redley
faz a modelagem, corta e monta as peças no tecido trabalhado,
com excelente resultado no quesito inovação.
- Helen Rödel e 2nd Floor: a designer e artesã Helen
Rödel destaca-se entre os designers de moda de sua geração,
pela utilização de técnicas manuais, como o crochê e o tricô.
Na semana de moda islandesa (2009), a estilista apresentou
uma coleção com a marca Rödel, iniciando sua caminhada com
moda autoral. Além de produzir suas próprias peças, Rödel tem
parceria com a 2nd Floor, marca jovem da Ellus. Na coleção
de inverno 2010 da 2nd Floor, para a São Paulo Fashion Week,
Rödel foi chamada para desenvolver um acessório de cabeça
em crochê, daí surgiram cabeças esculturais de animais como
coruja, raposa, morcego. Todas as peças foram feitas com lãs
nobres, como alpaca, ovelha e fios suaves de mohair e angorá.
As peças foram estruturadas com maleáveis armações metálicas,
que deram forma e permitiram a construção tridimensional.
Da própria Rödel ouvimos a importância da interação entre o
artesanato e o design de moda para a criação de peças originais:
Penso que as técnicas manuais são o passado, e agora são
o futuro. São artes tradicionais e de infinitas possibilidades
para qual eu oferto a minha visão. Essa fantástica
combinação de uma agulha, fios, mãos e mente presente
me encanta sobremaneira e meu esforço em renovar a
técnica é, além de realização pessoal e crença, uma vontade
sincera de que a técnica se mantenha viva carregando
consigo a mudança dos tempos. (RÖDEL, 2010)
Hoje Rödel faz parte do rol de designers que trabalham
os novos valores para a moda e, no ínicio de 2011, fez sua estreia
no Dragão Fashion Brasil. (USEFASHION, 2011).
- Coopa-Roca: é um projeto que busca integrar técnicas
artesanais valiosas, das artesãs da Favela da Rocinha (RJ), aos
processos industriais. Tetê Leal (2007), coordenadora executiva
da Coopa-Roca, diz que o impulso para a criação da cooperativa
foi identificar que grande parte das mulheres da Rocinha eram
provenientes do Nordeste e dominavam preciosas técnicas
artesanais; a seguir foi reconhecer que na moda existe um
campo enorme de oportunidades para ampliar o impacto do
artesanato associado aos produtos industriais. A Coopa-Roca
tem, aproximadamente, cem cooperativadas e desenvolve
projetos em moda, design e arte, com parceiros como: Osklen,
M. Officer, Irmãos Campana e outros. (DE CARLI, 2009, p.77).
8.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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A produção artesanal da região da Serra gaúcha tem um
saber-fazer especializado e de conhecimento ancestral
valioso, porém é apegada ao costume, à repetição. Os
produtos que estão à venda nas feiras normalmente estão
ligados às atividades domésticas e, apesar do primoroso
trabalho, não recebem a devida valorização no preço de
venda. As carências importantes para o artesanato da
região são: atualização, atenção às tendências da moda,
parcerias com a indústria e informações que atendam às
necessidades do mercado. (2010a)
A Universidade pode ser a mediadora de encontros
entre a potencialidade do fazer artesanal e os valores afetivos e
emocionais desejados pelo consumidor dos produtos de moda
atuais. Os empresários também precisam ser sensibilizados.
Em Caxias do Sul, segundo dados da Prefeitura Municipal,
existem 2000 artesãos e mais de 15 associações que promovem
o artesanato e outros serviços manuais, e 85 clubes de mães
cadastrados na Associação de Clubes de Mães de Caxias do
Sul (ACMCS), conforme informação da presidente Marlene
Panassolo, em 23 de agosto de 2011. Os dados referentes ao
artesanato reforçam aqueles em relação às indústrias do setor
têxtil e do vestuário, pois ambos são significativos. Os municípios
que compõem o Polo de Moda da Serra Gaúcha: Caxias do Sul,
Farroupilha, Flores da Cunha, Guaporé, Nova Petrópolis e Carlos
Barbosa, são economicamente importantes na região; dados
contabilizam 879 empresas atuantes no setor, oportunizando 5.761
postos de trabalho; na sua maioria, são fabricantes de artigos de
vestuário. (MINISTERIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2008).
Os números acima e as interações possíveis entre
artesanato e empresas de moda representam um potencial a
ser explorado. Na agenda da sustentabilidade, que ultrapassa
fronteiras, a moda, a política e a sociedade constituem juntas
O potencial do contexto geográfico e social
Com base na constatação de parcerias bem-sucedidas,
entre designers, artesãos e indústria, e sabendo que a região
da Serra gaúcha tem um artesanato muito rico, graças à sua
colonização, na maior parte italiana e alemã, iniciou-se, em 2010,
um projeto de pesquisa na Universidade de Caxias do Sul, que
visa à aproximação entre as vertentes criativas do artesanato,
delineando inovações para a moda, agora mais à vontade para
explorar sua identidade e suas raízes.
Depois de um vasto período de supervalorização daquilo
que é estrangeiro, daquilo que é internacional no campo da
moda, o segmento têxtil da região da Serra gaúcha também volta
os olhos para o “seu quintal”, promovendo hibridizações entre
tramas manuais trazidas pelos imigrantes europeus e cultivadas
por seus descendentes e novidades e tecnologias globais da
moda. Na atual globalização é importante que as empresas
adquiram o hábito da autorreflexão, buscando a compreensão
da sua presença no mercado onde atuam, aprofundando e
entendendo sua identidade geográfica afim de explicitá-la. A
empresas precisam expressar o espírito do lugar, isto é o genius
loci, um caráter ou uma personalidade (MORACE, 2007,p.17). O
momento é propício para projetos inovadores contando com
a abertura das empresas e a atualização da cultura das tramas,
que permaneceu na maior parte inalterada em suas aplicações.
Em casa poderemos aproveitar a lição da “estratégia do colibri”,
metáfora que Morace (2007,p.19) usa para falar da polinização
criativa entre as culturas, que tem sido uma constante nas
dinâmicas sociais contemporâneas.
De Carli, argumenta a favor de ações conjuntas entre o
curso de Design de Moda e os artesãos, apontando para soluções
criativas para o artesanato e para a moda:
9.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 9
um berçário para a economia solidária, que, segundo França
Filho (2001), traduz-se por uma florescência de práticas
socioeconômicas, visando propor, a partir de iniciativas locais,
serviços de um novo tipo, designados sob o termo de “serviços
solidários”. Outrora, esses serviços eram produzidos no seio
da esfera doméstica e, mais recentemente, envolvem a questão
da mediação social nos bairros, e estão vinculados à ideia de
melhoria da qualidade de vida e do meio ambiente local. Da
descrição dessas práticas e experiências surge o conceito de
economia solidária:
São iniciativas locais portadoras de um caráter novo
relativo ao mesmo tempo, ao seu modo de funcionamento
e a sua finalidade. Estas experiências reúnem usuários,
profissionais e voluntários, preocupados em articular
criação de emprego e reforço da coesão social, ou
geração de atividades econômicas com fins de produção
do chamado liame social (ou dos laços sociais), ou
simplesmente geração de atividades econômicas com
finalidades sociais. (FRANÇA FILHO, 2001)
Economia solidária e sustentabilidade social andam lado
a lado, e alguns trabalhos realizados no Brasil, em diferentes
regiões, mostram como essas parcerias podem dar certo.
A designer Heloisa Crocco (2010, p.75-79) relata objetivos,
princípios e metodologia do Projeto Piracema, que busca
a aproximação entre o design e o artesanato, por meio de
um conjunto de ações, como: seminários teóricos, trabalhos
práticos e vivências criativas, que envolvem designers, artesãos
e estudantes. O objetivo é instrumentalizá-los para uma troca
de saberes, trazendo para o design o conhecimento da tradição
e, para o artesanato, sua ampliação como atividade sustentável.
Crocco diz que as principais preocupações do projeto incluem
o aperfeiçoamento da qualidade da produção artesanal, a
permanência da tradição e a melhoria das condições sociais dos
artesãos, promovendo a inserção competitiva do artesanato no
mercado, proporcionando o desenvolvimento sustentável da
atividade artesanal, pelo fortalecimento dos pequenos negócios.
Oficina de protótipos: moda vestuário e moda casa
ReconhecendoapotencialidadedaregiãodaSerragaúcha,
em desenvolver um trabalho conjunto com a Universidade de
Caxias do Sul, empresas privadas, Poder Público (municipal e
estadual) e elencando experiências de sucesso no Brasil e no
mundo dos projetos de economia solidária, surgiu a Oficina de
Protótipos: Moda Vestuário e Moda Casa, em 2010. A intenção
do Pró-Moda, sigla que identifica o projeto, é promover oficinas
integrando artesãos, designers, professores e acadêmicos do
curso de Design de Moda da UCS, para a criação de produtos de
moda casa e moda vestuário com valor agregado do artesanato.
O bom andamento do projeto deve-se à união de vários
segmentos da sociedade, na execução das metas propostas.
O primeiro apoiador foi a Secretaria da Ciência, Inovação e
Desenvolvimento Tecnológico (SCT) - RS, que aprovou o projeto
e integralizou apoio financeiro significativo para a compra dos
equipamentos necessários à confecção dos produtos. Outros
apoiadores são: o Polo de Moda da Serra Gaúcha, que, além
de facilitar o contato direto com as empresas, permite o acesso
aos resíduos têxteis do Banco do Vestuário. A Fundação de
Assistência Social (FAS), a Coordenadoria da Mulher e a Secretaria
do Desenvolvimento Econômico do Trabalho e Ação Social
colaboram na divulgação do projeto, na seleção dos artesãos,
10.
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bem como no primeiro encontro dos artesãos para a sensibilização
da proposta e para o trabalho em equipe. O Serviço Brasileiro
de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), por sua vez,
disponibiliza um consultor para palestras sobre o empreendedor
individual e sobre a formação de associações e cooperativas, que
fortificam e representam a especialidade de grupos. As empresas
privadas fornecem a matéria-prima para os protótipos e ainda
participam do encontro de teor prático entre artesãos e designers.
A meta é desenvolver de oito a quinze peças de moda vestuário
e, a mesma quantidade de protótipos de moda casa no final de
cada oficina.
O objetivo geral da oficina é testar novas práticas para a
produção de moda, as quais priorizem a sustentabilidade social
e a inclusão, com vistas ao desenvolvimento de metodologias
para projetos de economia solidária. Apresenta ainda objetivos
específicos que são: a) implantar oficinas experimentais que
agreguem artesanato a produtos industriais de moda; b) reutilizar
resíduos têxteis em produtos reciclados criativos, integrando
artesãos e costureiras ao mercado de trabalho; c) proporcionar
aos alunos possibilidades de criação e desenvolvimento de
produtos de moda frente aos novos valores de sustentabilidade
econômica, ambiental e social; d) registrar o desenvolvimento
das oficinas, formando bases de dados e informações para
publicação de artigos sobre economia criativa.
Em atenção aos objetivos, foram desenvolvidas, até a
presente data três oficinas, duas em 2010 e uma no primeiro
semestre de 2011. A metodologia de desenvolvimento
utilizada e testada em três oportunidades tem demonstrado ser
compatível com os objetivos a serem alcançados. São quatorze
encontros, de três a quatro horas cada um, que acontecem
duas vezes por semana, quando são trabalhados os assuntos de
caráter teórico como: identidade cultural da região, composição
e aprimoramento estético, empreendedorismo, trabalho em
equipe, associativismo e cooperativismo. Para as atividades
práticas de desenvolvimento de protótipos utilizam-se as
referências do capítulo Gestão do design, de Treptow (2003, p.
91 a 201) e as do capítulo Projeto de moda de Jones (2005,
p.166 a 182). As etapas são: pesquisa de tendência, estado
da arte do artesanato na moda, visita para reconhecimento
das técnicas artesanais dos imigrantes (museus e mostras),
pesquisa e escolha do tema de coleção, materiais, cores, estudo
das especialidades artesanais dos oficineiros e sua utilização
nas propostas de produto, quadro de coleção, execução e
apresentação dos resultados em mostra ou desfile.
É necessário lembrar que a relação com o artesão em
oficinas e cursos não comporta imposições. O clima de troca
e respeito mútuo, reconhecendo os valores de cada um, é
condição básica para a interação. Algumas melhorias foram
realizadas da primeira para a segunda oficina, e da segunda para
a terceira, como a limitação na linha de produtos, diminuição no
número de modelos, de tecidos e cores serem trabalhados por
coleção. Considerando que o aprendizado da modelagem não
é o foco da oficina, a dedicação se volta para as características
estético-formais advindas da possibilidade de misturar as
tramas artesanais, os bordados e as aplicações aos tecidos ou
às malhas da produção industrial.
O cronograma das oficinas está descrito no quadro 1. A
sequência planejada das aulas teóricas busca dar informações
e conhecimentos básicos para o desenvolvimento de coleção,
valorizar as técnicas milenares do artesanato, compartilhar
saberes, incentivar o trabalho em equipe e, a partir do oitavo
encontro, a equipe e os oficineiros trabalham concentrados na
execução dos os protótipos.
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Encontro Atividade
1°
Seminário: Dinâmica de integração e motivação
da equipe, apresentações e expectativas. Mostra
dos trabalhos individuais. Ministrante: psicóloga e
assistente social da FAS.
2°
Seminário: História e novos rumos do artesanato:
crochê, macramé, tricô, aplicações decorativas.
Ministrantes: bolsistas
4°
Seminário: Cultura e identidade da região.
Ministrante: pesquisadora do curso de Design de
Moda
Visita ao Museu Municipal ou ao acervo Documenta
com foco nos artesanatos dos imigrantes.
Monitoria: guia do museu.
5°
Palestra–Associativismo,cooperativismo.Empreendedor
individual. Ministrante: consultor do SEBRAE
6°
Oficina de aprimoramento estético: cor, forma,
textura, relevo, composição, harmonia. Tema de
coleção. Ministrante: professora de Artes Visuais
7°
Estudo e definição: tema de coleção, grupos de trabalho,
artesanatos, propostas de criação individual, cartela de
cores, combinações, padronagens. Equipe: designer,
professoradocursodemoda, bolsistas,técnicadecostura.
8°
Estudo e definição: tipo de produto e moldelagem,
materiais, cores, mix de produtos. Exercício:
desenho de croquis, e definição do quadro de
coleção. Equipe identificada no 7º encontro.
9°
Modelagem e corte de protótipos: moda casa.
Análise das propostas individuais. Elaboração da
ficha técnica. Equipe identificada no 7º encontro.
10°
Fabricação de protótipos: Moda casa. Avaliação dos
modelos em desenvolvimento. Equipe identificada
no 7º encontro.
11°
Modelagem e corte de protótipos: Moda vestuário.
Análise das propostas individuais. Elaboração da
ficha técnica. Equipe identificada no 7º encontro.
12°
Fabricação de protótipos. Moda Vestuário. Ficha
técnica.Avaliaçãodosmodelosemdesenvolvimento.
Equipe identificada no 7º encontro.
13°
Reunião interna de feedback; Apresentação interna
da coleção moda vestuário e moda casa. Avaliação.
Equipe identificada no 7º encontro.
14°
Reunião de planejamento e organização da
apresentação das coleções de moda casa e moda
vestuário e definição da entrega dos certificados.
Equipe identificada no 7º encontro.
Análise de resultados
Terminada a oficina, é importante reunir os artesãos para
avaliação. Do ponto de vista dos oficineiros, as manifestações
foram positivas em quase todos os aspectos. As vantagens
ressaltadas foram a experiência do trabalho em equipe e a troca
de conhecimento entre os colegas, os professores e as bolsistas.
Os artesãos foram unânimes a respeito da importância das aulas
teóricas e apontaram que alguns encontros, como identidade
regional, aprimoramento estético e processo criativo, poderiam
ser prolongados. Reclamaram da falta de tempo para a aula de
custo e formação de preço.
É importante também a avaliação dos professores
envolvidos e das bolsistas, que salientaram questões que
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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precisamserequacionadascomo:anecessidadede umacostureira
pilotista, que domine todas as operações de montagem dos
protótipos; presença dos professores envolvidos na parte prática
da oficina no primeiro dia de aula para as apresentações. Os
professores concordam com as sugestões dos oficineiros quanto
à necessidade de mais tempo para criação, assim como para
aula de custo e formação de preços. Quanto ao planejamento
da coleção, será necessário diminuir tipos de matérias-primas,
número de cores, reduzindo consequentemente os aviamentos,
e privilegiando o artesanato agregado ao protótipo. O tema
de coleção deverá ser mais específico, para que a unidade da
coleção seja visível. Quanto aos instrumentos de especificação,
será necessário elaborar uma ficha técnica simplificada e de fácil
entendimento para o artesão.
Um problema que preocupou, na oficina desenvolvida
de outubro a dezembro de 2010 foi a evasão: iniciaram quinze
artesãos e concluíram sete. Creditamos a desistência, em primeiro
lugar, à época próxima do Natal, que é um período de trabalho
intenso para o artesão; em segundo lugar à dificuldade do
artesão para o trabalho em equipe, reafirmando seu hábito para o
trabalho individual. Por esse motivo, acreditamos que o encontro
com a psicóloga e assistente social possa ser dividido em dois
momentos: no início da oficina e depois de transcorridos cinco
encontros, quando podem aflorar dificuldades de relacionamento.
Para solucionar a questão da evasão, foram realizadas entrevistas
individuais no momento da inscrição dos artesãos para a
terceira oficina (maio, 2011), buscando o comprometimento dos
candidatos em iniciar e terminar o curso. O empenho da equipe
do projeto em aprimorar a gestão da Oficina de protótipos é
visível tanto nas reuniões sistemáticas de avaliação, como nas
medidas corretivas que são prontamente adotadas.
A apresentação para o público da coleção, em desfile
ou mostra, que ocorre após o encerramento da oficina, é um
momento muito importante, pois eleva a autoestima dos
artesãos. Os produtos são o resultado do esforço individual e
coletivo. Na primeira oficina o desfile foi realizado no Zarabatana
Café no Centro de Cultura Municipal Dr. Henrique Ordovás; o
segundo desfile aconteceu na Feria de Natal do Artesão Caxiense,
no Largo da Estação, junto a Secretaria de Cultura, e o terceiro
deverá acontecer no final de setembro. A entrega de certificados
também ocorre em evento especial no termino das oficinas.
Os resultados que atendem aos objetivos acima citados
foram parcialmente atingidos. O artesanato foi devidamente
valorizado como detalhe nos produtos de moda; resíduos
têxteis foram utilizados em alguns protótipos; os bolsistas
tiveram a oportunidade de crescimento acadêmico, profissional
e pessoal na participação em congressos, no desenvolvimento
das oficinas e na compreensão das relações de trabalho; relatos
de caso foram apresentados em eventos de moda como no
Colóquio de Moda de 2009 e 2010, e no IV Simpósio Nacional
de Moda e Tecnologia de 2011, e na revista eletrônica Redige,
do Senai Cetiqt/RJ, dando publicidade à Oficina de protótipos
de moda, como iniciativa de economia criativa.
As principais lições aprendidas foram: troca de
habilidades artesanais, troca de conhecimento e experiência,
enriquecimento pessoal e vivência do trabalho em equipe.
Pretende-se, até o encerramento do projeto em junho
de 2012, realizar mais duas oficinas.
13.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 13
Referências
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USEFASHION. Novo Hamburgo, 15 abr. 2011. Disponível
em: <www.usefahion.com.br>. categoria noticias nº 95744.
Entrevista: Helen Rödel, estilista. Acesso em: 18 abr. 2011.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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Transformando resíduo em benefício social
Banco de Vestuário
Profa. Gilda Eluísa De Ross
Universidade de Caixias do Sul - UCS
gerrossi@ucs.br / gercriacoes@yahoo.com.br
Resumo:
O Banco de Vestuário é parte integrante do Projeto dos Bancos
Sociais, instituído e coordenado pelo Conselho de Cidadania
da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul
(Fiergs). Com o propósito de TRANSFORMAR DESPERDÍCIO
EM BENEFÍCIO SOCIAL, o Banco de Vestuário foi criado com a
missão de identificar e recolher excedentes industriais: retalhos,
malhas e resíduos em geral e repassá-los principalmente a
Clubes de Mães, Grupos de Terceira Idade, Associações de
Bairros, Igrejas, Centros Comunitários, que já mantenham
serviços de corte e costura para suas comunidades. A sobra
de produção poderá então suprir a falta de agasalhos, roupas
de cama, colchas, cobertores, artesanatos e outros. A realidade
social que teremos daqui a algum tempo depende apenas do
que estamos fazendo hoje. Por isso, o Banco de Vestuário não
é uma ação isolada, mas uma estrutura organizada e preparada
para durar e fazer parte do nosso dia a dia.
Palavras-chave: Design sustentável, Ambiente social,
Concepção de artefatos.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 15
Introdução
A indústria têxtil e de confecções do Rio Grande do Sul é
formada por um conjunto de 9.384 empresas que geram 31.963
mil empregos no estado, segundo dados da Rais/Caged do MTE
para o ano de 2007 e faturam cerca de R$ 1,2 bilhão anualmente.
A cidade de Caxias do Sul, em termos de produção têxtil,
possui uma história que atravessa muitas décadas. Iniciando com
os imigrantes italianos que aqui começaram a vida ainda no final do
séc. XIX, tornando-se ainda mais expressiva no séc. XX. A indústria
de confecção, da produção artesanal, passou para a industrial,
organizando processos e respeitando os conceitos de qualidade
e exigência de produtos que pudessem ter o reconhecimento
nacional, seguindo assim a evolução de mercado.
Nas últimas décadas, o processo de industrialização e o
avanço tecnológico produziram, além de benefícios à sociedade,
efeitos colaterais, tais como: concentração de riquezas, desemprego,
alto nível de consumo de recursos naturais, grande produção de
resíduos, geralmente com destinação inadequada. Esses resíduos
constituem fonte de poluição e grande risco à saúde da população.
Qualentãoamelhorformadepreservaranaturezaeaomesmo
tempo aproveitar os resíduos aproveitáveis da indústria do vestuário?
Como consequência, foi criado o Banco de Vestuário, que
atuará como forma de preservação do meio ambiente e geração
de emprego e renda.
Desenvolvimento
A história da imigração é normalmente contada pelo viés da
agricultura, especialmente pelos parreirais, pela uva e pelo vinho, ou
da metalurgia, pela lamparina, pela caneca, pela enxada, enfim, pela
transformação do ferro em utensílios domésticos em ferramentas
para o trabalho. Se nossos imigrantes precisavam cultivar a terra
para produzir alimentos, necessitavam tanto quanto vestir-se.
Para resgatar um pouco nossa história, faz-se necessário
lembrar, mesmo que rapidamente, a fundação do primeiro
empreendimento fabril em1898, em nosso, hoje, Bairro
Galópolis a Cooperativa Tevere quando um grupo de operários
italianos, da região de Schio, em represália por uma greve teve
que escolher entre a prisão ou a partida para o Brasil. A escolha
recaiu no Brasil e aqui iniciaram a “Cooperativa Tevere”, anos
mais tarde adquirida por Hércules Galo, quando foram edificadas
construções nos moldes das vilas operárias da Inglaterra.
Hoje, após ser adquirida em épocas diferentes, por mais duas
empresas, em junho de 1999 retornou a forma jurídica inicial,
isto é, voltou a pertencer a um grupo de operários com o nome
de Cooperativa Textil Galópolis Ltda (Cootegal).
Matteo Gianella veio para Caxias do Sul por convite de
Hércules Galó e, aqui, após casar com Ermelinda Viero, realizou
seu sonho e fundou o Lanifício Gianella (1920). Era auxiliado
pela esposa que tingia e bordava as peças (carona e bacheiros)
comercializadas no armazém de Abramo Eberle.
A partir do desenvolvimento da cidade e região, cada
vez mais se torna presente a necessidade de gerenciar resíduos
gerados pela indústria. Nesse sentido, não é outro o objetivo do
projeto do que coletar resíduos da indústria têxtil e de confecção,
dando um encaminhamento adequado e de reaproveitamento
do mesmo e, como consequência, processar e produzir
produtos de alto valor agregado, contribuindo sobremaneira
para a inclusão social de classes menos favorecidas e na difusão
de conhecimentos capazes de contribuir para a capacitação de
mão de obra qualificada para o setor têxtil.
Aideiadequesepodeviverbemconsumindomenosrecursos,
e gerando um sentido de comunidade, se opõe completamente
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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ao modelo que até agora tinha prevalecido na sociedade industrial.
Atualmente, sabe-se que nossos recursos são finitos e que devemos
prestar maior atenção ao tratamento de nossos resíduos.
Ante a crescente evidência dos problemas que gera nossa
forma de vida e produção atuais, a sociedade precisa repensar
seu modo de viver, redefinindo a arte de reinventar.
A roupa que foi moda em outra época é o meio perfeito
para criar uma nova peça. A gestão integrada de design pode
organizar uma confecção artesanal para levá-la à autogestão, em
comunidades carentes e, muitas vezes, sem instrução.
Os resíduos têxteis fazem parte do material que pode ser
reutilizado de diversas formas, como meio de gerar renda e, ao
mesmo tempo, preservar o meio ambiente.
ÉcomessefocoquesurgeoBancodeVestuário,omaisnovo
desafio social do município, que está em fase de desenvolvimento.
A ideia é transformar desperdícios gerados pelos setores
industriais, comerciais e de serviços em benefício social, promover
a sustentabilidade social e a conscientização ambiental, mediante
da correta separação de resíduos, apoiar o desenvolvimento de
recursos humanos com qualificações específicas adequadas à
cadeia têxtil, reaproveitar os resíduos (retalhos de peças, sobras de
peças, peças prontas, rebarbas de máquinas), diminuir o resíduo
têxtil, promover inclusão social pela capacitação da mão de obra,
proporcionar geração de emprego e renda pela capacitação,
atribuir valor agregado pela criação, recriação, transformação e
reutilização dos produtos, promover a sustentabilidade social
e conscientização ambiental mediante correta separação de
resíduos, identificar mercados potenciais de maior valor agregado,
para os produtos elaborados, a partir do Banco de Vestuário, apoiar
o design, a engenharia e o desenvolvimento de novos produtos,
apoiar a elaboração de um projeto de marketing regional para a
correta separação do resíduo e a destinação dos produtos têxteis e
identificar fornecedores de matéria-prima já existentes na cadeia.
Conforme interpretação dada em dicionários da língua
portuguesa, resíduos sólidos, gerados em qualquer ambiente,
são as sobras de algum processo qualquer e que ocupam
um determinado espaço, pelas suas características físicas de
possuírem forma rígida. Analisando melhor o conceito de
resíduo, há duas definições: a primeira, que resulta em sobras
sem proveito, e a segunda, que dá a noção de subproduto.
Segundo Leite (1997), gerenciar os resíduos de forma
integradaéarticularaçõesnormativas,operacionais,financeirase
de planejamento, que uma administração municipal desenvolve,
apoiada em critérios sanitários, ambientais e econômicos, para
coletar, tratar e dispor o lixo de uma cidade.
Para Tchobanoglous et al. (1993), o gerenciamento
integrado de resíduos é a expressão utilizada para todas as
atividades associadas ao manejo dos resíduos da sociedade.
A geração de resíduos sólidos industriais causa preocupações
mundiais.Otratamentoeadestinaçãodemodoaevitaranoseimpactos
ambientais é o objetivo de muitos estudos. O reaproveitamento
dos resíduos sólidos industriais é uma das alternativas utilizadas
para a diminuição e eliminação dos impactos ambientais negativos,
provocados pela destinação inadequada dos mesmos.
A garantia de promoções continuadas no setor dos
resíduos sólidos só ocorrerá com a existência de uma política de
gestão e com o compromisso de instituições sociais solidamente
firmadas para mantê-la. A participação da sociedade civil é
componente indispensável para isso.
Como transformar resíduos em renda
A questão da destinação correta dos resíduos gerados
pelas cidades trouxe à tona a necessidade de se promoverem
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 17
ações,emespecialnaáreaderesíduossólidos,peloreconhecimento
de seu potencial de geração de trabalho e renda, sob a ótica da
preservação ambiental, reciclagem e inclusão social.
Este projeto se justifica primeiramente por tornar possível
a geração de renda às classes menos favorecidas; segundo,
porque capacita, e isso é uma maneira de inclusão social; terceiro,
porque, por meio da correta separação do resíduo, poder-se-
ão aproveitar os resíduos têxteis da região, evitando que sejam
colocados no lixo seletivo ou mesmo no orgânico.
OBancodeVestuárioéumórgãocentralizadordosresíduos
das indústrias têxteis com possibilidade de aproveitamento.
A ação já conta com parceiros, como a prefeitura de
Caxias do Sul, por meio do gabinete de sua Primeira Dama e da
Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SDE), da Fundação
Caxias, da Fundação de Assistência Social (FAS), da Companhia
de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca), da UCS /Curso
Design de Moda/, do Senai e do Polo de Moda da Serra gaúcha.
Ao ser criado o Banco de Vestuário se está projetando
a realização dos sonhos de muitas pessoas, que esperam
transformar resíduos de forma criativa, mas que também sonham
com a oportunidade de gerar mais renda para si ou para suas
famílias. A partir da reutilização e do reaproveitado de resíduos
têxteis e de retalhos, podem-se fazer novos produtos com
novas características. Os requisitos para que os produtos sejam
sustentáveis é que eles sejam cíclicos, solares, seguros, eficazes e
socialmente responsáveis.
A primeira meta do Banco do Vestuário é utilizar a rede
existente, em Caxias do Sul, de Clubes de Mães; para isso, conta-
se com a parceria da Associação de Clubes de Mães de Caxias do
Sul (ACMCS).
A ACMCS, fundada em 8 de maio de 1975, é uma entidade
assistencial sem fins lucrativos e sem renda fixa. Atende a
aproximadamente 90 Clubes de Mães, localizados em bairros e
distritos de nossa cidade. Considerando que, aproximadamente,
3.000 mulheres donas de casa são associadas desses Clubes
de Mães e, sabendo de sua importância na orientação de
seus filhos, da influência exercida na família e da contribuição
financeira dada para o sustento da mesma, é preocupação
constante da ACMCS uma melhor qualificação pessoal e
funcional de suas associadas. A maior parte dos clubes é carente
e necessita de apoio para a execução de suas atividades. A
ACMCS está sempre atenta a novas oportunidades surgidas,
aos movimentos sociais, procurando integrar-se aos mesmos
quando são significativos e podem proporcionar aos Clubes
de Mães e às suas associadas orientação, instrução, formação
de mentalidade, que proporcione mudanças na difícil situação
econômica em que muitos (as) se encontram.
As parcerias com o Serviço Nacional de Aprendizagem
Industrial (Senai) e com a Universidade de Caxias do Sul (UCS),
especialmente o curso de Tecnólogo em Design de Moda
vão capacitar associadas dos clubes, e também mulheres em
situação de vulnerabilidade social, dando a elas oportunidades
de maior inserção social. Por meio do Estúdio de Criação, que é
um espaço criado no Campus 8, voltado exclusivamente para as
áreas de design, arte, arquitetura e moda, essas criações devem
permitir que empresários da indústria tomem conhecimento
das pesquisas desenvolvidas. Tais contatos possibilitam que as
criações desenvolvidas no projeto sirvam de inspiração ou mesmo
protótipos para os produtos industriais. Além do mais deverá servir
como uma incubadora do Banco do Vestuário, criando protótipos
de produtos com alto valor agregado que serão elaborados pelos
Clubes de Mães e camadas menos favorecidas a sociedade.
Por meio da Coordenadoria da Mulher, da Secretaria
Municipal de Segurança e Proteção Social, se está buscando
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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recursos para a criação, dentro do Banco de Vestuário, de cursos de costura industrial. O projeto tem como enfoque maior a capacitação
de mulheres que se encontram em estado de extrema pobreza, mulheres que trabalham em pequenas associações e, principalmente,
mulheres vítimas de violência, a fim de qualificá-las para atuarem em indústrias de confecção de Caxias do Sul e da região. A geração de
renda e o crescimento profissional poderão reforçar a importância das mulheres no cenário econômico, permitindo o aprofundamento
da sua autoestima. Além disso, buscar-se-á gerar ocupações produtivas, por intermédio de cooperativas ou micro empresas, com
orientações da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico.
O Conselho Gestor do Banco de Vestuário deverá ter um responsável em cada entidade parceira. O objetivo é definir políticas e
diretrizes do Banco de Vestuário e avaliar sua aplicação.
Segue abaixo o posicionamento estratégico de cada agente dentro do contexto estratégico de design e sustentabilidade:
Cada parceiro terá seu papel maior em sua espertise:
1. FUNDAÇÃO CAXIAS:
• Gestor administrativa e operacionalmente;
• Administrar toda a parte legal e fiscal;
• Responsabilizar-se pela movimentação e pelo acompanhamento
da entidade beneficiada.
2. FITEMASUL E SINDIVEST:
• Sensibilizar o meio empresarial para que haja participação
responsável no Banco de Vestuário;
• Incentivar as empresas para que ocorra a contratação de
pessoas capacitadas pelo Banco de Vestuário;
• Buscar máquinas e equipamentos;
• Indicar o gestor;
• Organizar a gestão técnica.
3. FAS, PREFEITURA E CODECA:
• Elaborar projetos para a alocação de recursos;
• Indicar pessoas e grupos sociais para capacitação e
fortalecimento dos grupos e das associações de bairros;
• Envidar esforços para a viabilização do espaço para o
funcionamento do Banco de Vestuário.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 19
4. UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL - UCS
No projeto será responsável por:
• Criar novos produtos;
• Desenvolver atividades de capacitação específica;
• Orientar a triagem.
5. SENAI:
No projeto será responsável por:
• Capacitar mão de obra: responsável pelo treinamento.
6. POLO DE MODA:
• Elaborar e viabilizar projetos para alocar recursos.
O Banco do Vestuário tem como estrutura o quadro a seguir:
Figura 1: Fluxograma do Banco de Vestuário
E, como conseqüência e resultado, pode-se concluir, que este
projeto busca soluções e alternativas que minimizem as implicações
ambientais que os resíduos fabris provocam ao meio ambiente.
Bem como, vai aliar o design, por meio de um projeto sustentável
ao ambiente social, com o ambiente de concepção de artefatos e
geração de emprego e renda nas comunidades carentes.
Referências
LEITE, W.C.A. Estudo da gestão de resíduos sólidos: uma proposta
de modelo tomando a unidade de gerenciamento de recursos
hídricos (UGRHI – 5) como referência. Tese (Doutorado), Escola
de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Carlos, 1997.
TCHOBANOGLOUS, G. THEISEN, H.; VIGIL, S.A. Integrated solid
waste management. Mc Graw Hill, 1993.
DAGNINO, RENATO PEIXOTO. Tecnologia social: ferramenta para
construir outra sociedade / Renato Dagnino; colaboradores
Bagattolli, Carolina ...(et al.). Campinas, SP.: IG/UNICAMP, 2009.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
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Modelo produtivo sustentável: aproveitamento de
retraços têxteis na região de Londrina
Lílian Lago - Graduada em Design Gráfico
Universidade Estadual de Londrina - UEL
lago.lilian@gmail.com
Profa. MsC. Ana Luisa Boavista Lustosa Cavalcante
Universidade Estadual de Londrina - UEL
anaboavista@uel.br
Resumo:
Este trabalho tem a intenção de apresentar um modelo
produtivo que interligue as empresas confeccionistas e os
grupos artesanais de geração de renda para que os retraços
têxteis sejam insumos produtivos do trabalho artesanal. Para
tal, foi utilizado o método de pesquisa-ação, que contempla
o levantamento bibliográfico e a pesquisa social. O modelo
contempla a descrição das ações de dentro de cada ciclo de vida
e suas interconexões para que estes sejam mais sustentáveis
e interligados como engrenagens de uma mesma máquina. A
aplicação deste modelo pode integrar indústria, artesanato e
design por meio da sustentabilidade.
Palavras-chave: modelo produtivo, ciclo de vida do produto,
artesanato conceitual, retraços têxteis.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 21
Introdução
Os problemas sociais e econômicos do Brasil refletem
diretamente nas condições de vida dos brasileiros próximos
à linha da pobreza ou abaixo dela. Muitos destes buscam no
artesanato uma fonte de geração de renda. Todavia, este não
atende às exigências de qualidade impostas pelo mercado e sofre
com a concorrência dos produtos manufaturados e importados,
em grande parte, vindos de países asiáticos.
Segundo Krucken (2009) e Ullmann (2007), o design surge
nestecontextocomoferramentaparadesenvolveraspotencialidades
de uma região e a comunidade que a habita, propondo estratégias
para a inserção da produção desta no mercado, favorecendo o
desenvolvimento sustentável do local e sua população.
Logo, o intuito deste projeto é apresentar um modelo
produtivo para geração de renda na região metropolitana de
Londrina a partir dos resíduos têxteis do setor do vestuário.
Revisão de Literatura
O Empoderamento:
SegundoCosta(2007)eHorochvskieMeirelles(2007),otermo
empoderamento tem origem no inglês, empowerment. Nasceu nos
anos60,comosmovimentosdedireitoscivisemproldopodernegro,
como busca pela valoração racial e a cidadania para os negros.
Costa (2007) traz como definição para empoderamento a
estrutura formal através da qual as pessoas e comunidades detêm
controle de suas próprias questões e alcançam o conhecimento
de suas capacidades de produção, criação e gestão. O
desenvolvimento do conceito de empoderamento tem como
participantes os desempoderados, que são os protagonistas do
processo, e os agentes externos, os coadjuvantes, tais como
ONGs, instituições e academias.
Assim, ressalta-se o trabalho de sensibilização necessário
tanto aos agentes externos, os empoderados, quanto aos
excluídos, os desempoderados, para alcançar a convergência e
desencadear o processo de empoderamento.
Figura 1: Os níveis de igualdade para o empoderamento
Fonte: STROMQUIST apud COSTA, 2007.
O Desenvolvimento sustentável
Cavalcanti (1994) em seu capítulo “Breve Introdução à
Economia da Sustentabilidade” define o termo “economia da
sustentabilidade” como
É uma forma de exprimir a noção de desenvolvimento
econômico como fenômeno cercado por certas limitações
físicas que ao homem não é dado elidir. [...] A economia
da sustentabilidade, assim, implica consideração do
requisito de que os conceitos e métodos usados na
ciência econômica devem levar em conta as restrições
que a dimensão ambiental impõe à sociedade. Do mesmo
modo, a sociedade deve estar de tal modo organizada
que sua troca de matéria e energia com a natureza não
viole certos postulados.(CAVALCANTI, 1994, p.7-8).
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
22
Entende-se então, que o uso dos recursos naturais deve
respeitar o limite de sustentação do ecossistema, assim, o
crescimento da economia depende diretamente do compromisso
com o meio ambiente.
Logo, um modelo econômico sustentável “tem que se basear
em fluxos que sejam fechados dentro da sociedade ou ajustados aos
ciclos naturais”. (ERIKSSON apud CAVALCANTI, 1994, p.8).
Panayotou (1994) afirma estarmos numa transição de
economias: saindo de uma economia baseada na ilusão de
recursos infindáveis, de aproveitamento máximo dos recursos
para uma “economia de uma futura nave espacial chamada Terra”.
(Boulding apud Panayotou, p.10).
Kazazian (2005) menciona a atual exigência de que todos,
igualmente, tenham suas necessidades sanadas por meio das
atividades e processos desempenhados pelo homem. Isto implica
de criatividade para projetar produtos e serviços que satisfaçam as
necessidades humanas com o menor uso de recursos e trabalho.
O design para sustentabilidade
Papanek (1984) afirma que o designer deve ser instruído,
já nas escolas, das consequências de seus projetos e produtos,
prospectando os cenários futuros partindo reflexão sobre a sua
ação no presente. Pois ele pode ser um grande poluidor pela
quantidade de lixo que consegue espalhar pelo mundo com
projetos mal pensados e desnecessários à sociedade.
Manzini e Vezzoli (2008) também apresentando o design
para sustentabilidade como alternativa para interferir no modelo
produtivo atual
Propor o desenvolvimento do design para a sustentabilidade
significa, portanto, promover a capacidade do sistema produtivo
de responder à procura social de bem-estar utilizando uma
quantidade de recursos ambientais drasticamente inferior aos
níveis atualmente praticados. […] Em definitivo, o design para
sustentabilidade pode ser reconhecido como uma espécie de
design estratégico, ou seja, o projeto de estratégias aplicadas
pelas empresas que se impuseram seriamente a prospectiva da
sustentabilidade ambiental. (p.23).
Para auxiliar neste processo, surge a ecologia industrial,
“umsistemadeproduçãoedeconsumo,organizadodemaneiraa
aproximar-se do funcionamento do sistema natural combinando
os tecnociclos e os biociclos entre si”. (Ibidem, p.54).
Na prática, intenciona-se proporcionar sistemas que reduzam a
zero os seus inputs e outputs, sem criar acúmulos.
Para o design para sustentabilidade abordar todas as
implicações ambientais, econômicas e sociais da concepção de
produtos e serviços em todo o seu ciclo de vida, Manzini e Vezzoli
(2008) desenvolveram a metodologia do Lyfe Cycle Design.
Figura 2: Ciclo de Vida do Produto
Segundo a obra, as fases do ciclo de vida do produto de
caracterizam como:
• Pré-produção: aquisição de recursos, o transporte deles até o
Fonte: adaptado
de Manzini e
Vezzoli, 2008.
23.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 23
local da produção e sua transformação em materiais e energia.
•Produção:atransformaçãodosmateriaisemproduto,montagem
e acabamento.
•Distribuição:embalagem,transporteearmazenamentodoproduto.
• Uso: o uso/consumo ou o serviço prestado.
• Descarte: três opções - reutilização, por meio da recuperação
da funcionalidade do produto (na mesma função ou numa
diferente); reciclagem (compostagem ou incineração) em anel
fechado (os materiais são utilizados na confecção dos mesmos
produtos) e anel aberto (os materiais são utilizados em produtos
diferentes da sua origem); ou o descarte em lixos urbanos ou no
meio ambiente, uma alternativa incorreta.
Kazazian (2005) disserta sobre a roda de ecoconcepção, um
modelo de concepção orientada idealizado a partir do Life Cycle
Design de Manzini e Vezzoli (2008). A partir da implantação da
roda da ecoconcepção, as empresas podem visualizar, por exemplo,
pontos de intercâmbios de matérias-primas, que podem servir a elas
mesmas, ou a outras organizações parceiras em novos ciclos.
Figura 3: Roda de Ecoconcepção
Flusser (2007) discursa sobre o círculo que o homem
forma com a natureza – o homem se apropria da natureza,
transformando-a em cultura, que um dia irá se tornar lixo e
retornará a natureza. Este círculo prova o não-desaparecimento
da matéria e a sua transformação em algo novo, mesmo que
seja em lixo. Entende-se então, que
[...] as matérias-primas são extraídas da natureza, depois
transformadas em produtos acabados para abastecer
o mercado, produzindo resíduos que representam
sua única devolução para a biosfera. Daí um duplo
desequilíbrio: de um lado, o esgotamento dos recursos
naturais, de outro, um aumento crescente dos resíduos
provenientes do consumo, que são fontes de poluição.
(KAZAZIAN, 2005, p.51).
Para desmanchar este ciclo, que está prejudicando os
ecossistemas, a ecologia industrial busca soluções no conceito
de metabolismo industrial das organizações, para estabelecer
uma troca de fluxos, chegando próximo a um sistema fechado.
Figura 4: Solução de reutilização e de valorização do produto
Fonte: MANUAL
PROMISE DO PNUMA
1996 e O2 FRANCE
apud KAZAZIAN,
2005, p.37.
Fonte: O2 FRANCE
apud KAZAZIAN,
2005, p.54.
24.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
24
Estes conceitos de ciclo de vida do produto, ecologia
industrial e metabolismo industrial no âmbito do design e
desenvolvimento sustentável que irão nortear o desenvolvimento
do modelo produtivo sustentável, objetivo deste trabalho.
O Capital Territorial e os Produtos Locais
Segundo Krucken (2009), o capital territorial contempla
características, nos níveis material e imaterial, que façam
referência a este território, e levando em conta sua história.
O capital proporciona recursos para que a comunidade local
produza a partir destes, interligando o produto, o território e a
sua forma de produção.
No contexto da globalização, principalmente a intensa
entrada de produtos importados da Ásia no Brasil também vem
a por empecilhos no desenvolvimento de produtos locais.
O APL do Vestuário de Londrina e região
O Sebrae (apud EMÍDIO, 2006, p.79) estima que existam 435
indústrias do vestuário de moda em Londrina e região. Londrina e
região produzem cerca de 11 milhões de peças por ano, gerando
em média 12 mil empregos e aproximadamente 70% das empresas
têm marca própria. (SIVEPAR apud EMÍDIO, 2006, p.80).
Entretanto, de acordo com Vezozzo, Correia e Leite (2004)
e Emídio (2006), o setor sofre carência de sistemas de gestão
(administrativa e de design de moda) para: desenvolver produtos,
definir estratégias, orientar o processo, regular o controle de
qualidade em todas as etapas, aumentar a produtividade e
a sua competitividade no mercado nacional. Reconhecer a
importância da gestão responsável do processo, da pesquisa e
do desenvolvimento, e da gestão do design de moda, são pontos
fundamentais para o início da mudança e da inserção destes
pontos no dia-a-dia da empresa.
Materiais e métodos
O método da pesquisa
A metodologia norteadora deste trabalho é a pesquisa-
ação. (THIOLLENT, 2004), considerada dinâmica por contemplar o
âmbito da pesquisa científica, com a investigação bibliográfica e a
pesquisa social, com o levantamento de dados e a transformação
da realidade dos participantes. Seus objetivos são práticos e
imediatos, buscando soluções correspondentes ou, ao menos,
“fazer progredir a consciência dos participantes no que diz
respeito à existência de soluções e de obstáculos.” (Ibidem, p.20).
EstavisãodeThiollent(2004)vaideencontroaopensamento
do “design para o mundo real”, de Victor Papanek (1984). Assim,
este trabalho será guiado por esta vertente de pensamento dos
pesquisadores social e ambientalmente engajados.
Pesquisas qualitativas
Pesquisa qualitativa com Pesquisadoras do
Departamento de Design da UEL
Esta amostra intencional de entrevistados conta com as
pesquisadoras prof.ª M.ª Lucimar de Fátima Bilmaia Emídio e prof.ª
M.ª Maria Celeste de Fátima Sanchez, do projeto de pesquisa da
UEL “Gestão Integrada e Cultura Organizacional do Design de
Moda” e participantes da governança do APL do Vestuário de
Londrina. O intuito destas entrevistas foi conhecer a dinâmica de
trabalho das empresas do arranjo produtivo local diante do tema
sustentabilidade e escoamento dos resíduos têxteis.
25.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 25
Pesquisa com empresas do APL do Vestuário de Londrina
O APL do Vestuário de Londrina e região, hoje, conta com
31 empresas cadastradas na região de Londrina e atuantes em
suas ações junto às ações do APL. Destas 31 empresas, cinco
responderam sobre o destino de seus resíduos têxteis por e-mail
e oito por telefone, totalizando 13 empresas entrevistadas, 42%
das empresas. O objetivo destas entrevistas foi saber sobre a
destinação dos retraços têxteis da produção.
Considerações sobre as pesquisas qualitativas
Percebe-se, tanto pela fala das pesquisadoras participantes
do APL do Vestuário, quanto pelas próprias empresas, que as
doações não são acompanhadas ou sistematizadas, elas possuem
cunho filantrópico. Elas são uma forma de escoamento deste
lixo, para as empresas, mas, que pode servir de insumo produtivo
para outros. Os destinos citados são reaproveitamento na própria
produção e doação para pessoas informais, instituições e projetos
sociais. Os empresários não se utilizam destas ações como fonte
de dedução de impostos, marketing sobre responsabilidade
socioambiental, ou postura de responsabilidade sócio-ambiental.
Estas ações não surtem um retorno na imagem empresa, pois
não são ações vistas pelo seu público, estão no anonimato.
Pesquisas quantitativas
Pesquisa quantitativa secundária com grupos
de geração de trabalho e renda
O projeto de pesquisa IDDS (Indicadores de design para
o desenvolvimento sustentável - formação de rede interativa de
reciclagem e reaproveitamento na produção artesanal de grupos
de geração de trabalho e renda) realizou uma pesquisa de campo
com o intuito de conhecer e mapear a produção artesanal local.
Neste trabalho, utilizou-se dos resultados parciais da pesquisa,
obtendo dados de 18 artesãos e grupos artesanais.
Considerações sobre as pesquisas quantitativas
Os resultados mostraram as dificuldades do trabalho
artesanal – divulgação, comercialização e aquisição de matéria-
prima questões que poderiam ser amenizadas com o auxílio do
design. Para melhorar este quadro, seria útil trazer aos artesãos
conhecimentos sobre plano de negócios, controle de qualidade,
gestão sustentável, inovação, novos materiais, novos processos
e tendências. E trabalhar, junto a eles, comunicação (identidade
visual, embalagem, veículos de comunicação), estratégias de
marketing e o desenvolvimento de novos produtos.
A questão ambiental abordada nas perguntas
mostrou o diminuto conhecimento sobre o assunto, sendo
o desenvolvimento sustentável um tópico a ser trabalhado
com empenho junto aos artesãos. É necessário integrar à
realidade do artesão conhecimentos sobre matérias-primas
(natural, renovável e biodegradável), processos de baixo
impacto ambiental, análise do ciclo de vida do produto,
consumo responsável, uso racional dos recursos naturais e
responsabilidade socioambiental.
As vantagens da doação para o empresariado
A doação responsável, além de vantajosa para o artesão
que está recebendo insumos para o seu trabalho, também pode
ser vantajosa para as empresas confeccionistas, a saber:
• Dedução de impostos: auxiliadas por um contador, as
empresas podem repassar seu retraços têxteis para instituições
26.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
26
organizadas que emitam uma declaração comprovante, e
concretizarem a dedução de impostos (CHIMENTI; 2008);
• Responsabilidade socioambiental, marketing responsável e
comunicação verde: manter uma postura ética, ambiental e
socialmente, e divulgar a comunidade ações responsáveis agrega
valor à imagem da empresa e consequentemente, ao seu produto
(SOUZA, DREHER E AMAL, 2007);
• Destino viável dos resíduos: diante da nova Lei Nacional de
Resíduos Sólidos, a confecção pode dar um destino coerente
para seus retraços doando-os para um grupo de geração de
renda (BRASIL, CONGRESS0 NACIONAL, 2010).
O Projeto Piloto
Para por em prática o modelo produtivo de aproveitamento
dos retraços têxteis, foi realizado um projeto piloto previsto no
projeto de pesquisa IDDS que desenvolveu uma linha de produtos
junto aos participantes do projeto Empreender do Instituto Milenia.
O projeto seguiu as etapas de: sensibilização: design e
mercado; caracterização dos resíduos de tecido e processos;
geração de ideias; implementação dos produtos e resultados.
O modelo produtivo
Partindo dos conhecimentos provenientes do ciclo de vida
do produto (MANZINI E VEZZOLI, 2008), da solução de reutilização
e de valorização do produto (O2 FRANCE apud KAZAZIAN, 2005,
p.54) e da roda de ecoconcepção (MANUAL PROMISE DO PNUMA,
1996 e O2 FRANCE apud KAZAZIAN, 2005, p.37), foi representado
o ciclo de vida ideal, dos produtos do vestuário (as confecções)
e dos produtos artesanais (os empreendimentos artesanais),
levando em conta os princípios da sustentabilidade para ambos.
Ciclo de vida dos produtos do vestuário
Pré-produção - Na compra de matéria-prima:
• Escolher tecidos, malhas e aviamentos de baixo impacto
ambiental e que exijam pouca lavagem. Tecidos e malhas que
não amassam tanto também são uma boa pedida.
• Buscar fornecedores na sua região evita o transporte por
longas distâncias.
• Pesquisar fornecedores sócio e ambientalmente responsáveis.
• Realizar compras maiores de matéria-prima num espaço
de tempo mais longo, ao invés de compras pequenas com
frequência. Irá baratear os custos com o transporte e conseguir
melhores condições de pagamento.
• Encaminhar as embalagens descartadas das matérias-primas
(caixasdepapelão,sacosplásticosetc)àscooperativasdereciclagem.
Produção - Na confecção das peças:
• Reduzir o desperdício de material e energia gastos no processo.
• Buscar processos de baixo impacto ambiental.
• Optar pela produção de peças versáteis, multiuso.
• Utilizar softwares especializados para o aproveitamento
inteligente do tecido.
• Dar um destino adequado aos resíduos da produção. Uma
alternativa é repassá-los a grupos artesanais que possam
aproveitar este material.
•Outramenoscomuméareciclagemdoretraçotêxtil-otecidopassará
pelas etapas de desmanche, limpeza, transformação em polímero,
fiação e tecimento, voltando a ser um tecido comum, porém reciclado.
• Proporcionar condições de saúde e bem-estar às costureiras,
como a ginástica laboral.
• Trabalhar com qualidade para ampliar a vida útil da peça.
27.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 27
Distribuição - No projeto da embalagem,
na comercialização e no transporte:
• Reduzir os materiais necessários à embalagem (caixas, sacos plásticos).
• Escolher embalagens de papel proveniente de madeira
certificada ou biopolímeros.
•Realizar compras de embalagens maiores num espaço de tempo
mais longo, ao invés de compras pequenas com frequência.
Irá baratear os custos com o transporte e conseguir melhores
condições de pagamento.
• Informatizar o sistema de transporte para otimizar seu
funcionamento e reduzir custos.
Uso - No uso das peças:
• Optar por lavagens com produtos de limpeza de baixo impacto
ambiental.
• Juntar uma quantidade razoável de roupas para lavá-las.
• Secar as peças ao ar livre, evitando o uso de secadoras elétricas.
• Juntar uma quantidade razoável de roupas passá-las a ferro.
• Seguir as instruções de uso para conservar o produto e manter
suas características e funções.
Descarte - O que fazer com a peça?
• Customização para dar uma cara nova a sua peça antiga.
• Upcycling, transformar sua peça em algo novo.
• Vender num brechó.
• Trocar em bazares.
• Doar para quem precisa.
Ciclo de vida dos produtos artesanais
Pré-produção - Na aquisição da matéria-prima:
•Optar por materiais de baixo impacto ambiental e de preferência,
provenientes da sua região.
• Buscar por doações de resíduos para utilizá-los como matéria-prima.
• Associar-se a outros artesãos para facilitar a negociação de
compra de materiais ou recebimento de doações.
• Encaminhar as embalagens descartadas das matérias-primas
(caixasdepapelão,sacosplásticosetc)àscooperativasdereciclagem.
Produção - Na confecção dos produtos:
•Reduzir o desperdício de material e energia gastos no processo.
• Buscar processos de baixo impacto ambiental.
• Optar pela produção de peças versáteis, multiuso.
• Dar um destino adequado aos resíduos da produção. Uma
alternativa é repassá-los a outros artesãos que possam
aproveitar este material.
• Respeitar a forma de trabalho de cada artesão, pois o trabalho
artesanal não é produção em série.
• Trabalhar com qualidade para ampliar a vida útil do produto.
Distribuição - No projeto da embalagem, na
comercialização e no transporte:
•Reduzirosmateriaisnecessáriosàembalagem(caixas,sacosplásticos).
• Escolher embalagens de papel proveniente de madeira
certificada ou biopolímeros.
• Tentar produzir suas próprias embalagens. Uma embalagem
de papel reciclado artesanalmente irá agregar valor ao seu
produto artesanal.
• Pensar estrategicamente os pontos de venda para facilitar o
transporte da sua produção até lá.
Uso - No uso das peças:
• Optar por lavagens com produtos de limpeza de baixo impacto
ambiental.
28.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
28
• Produtos artesanais costumam ter um alto valor emocional
associado pelo seu modo de fazer e o seu caráter de produto
único, por isso, é interessante seguir as instruções de uso para
conservar o produto e manter suas características e funções.
Descarte - O que fazer com o produto?
• Customização para dar uma cara nova ao seu produto antigo.
• Upcycling, transformar seu produto em algo novo.
• Vender num brechó.
• Trocar em bazares.
• Doar para quem precisa.
A etapa de pré-produção, tanto do ciclo de vida dos
produtos de moda quanto dos artesanais, produz resíduos, as
embalagens da matéria-prima, que devem ser encaminhados
às cooperativas de reciclagem para a reciclagem do papel e do
plástico. Esta ação sai destes ciclos de vida para dar origem a
outros ciclos, os ciclos de vida do papel e do plástico.
A etapa de produção dos produtos de moda também
produz resíduos, os retraços têxteis, que podem seguir para
dar origem a um novo ciclo, o ciclo do produto artesanal. Se a
empresa precisar de orientações para encaminhar estes retraços,
ela pode contar com instituições como prefeituras, lares, casas de
amparo, ONGs, institutos, e até, projetos de pesquisa e extensão
das universidades. A doação pode render à empresa, por meio da
emissão de nota comprovante da doação, dedução de impostos,
meios de trabalho com marketing responsável e comunicação
verdeparadivulgarsuaposturasocioambientalmenteresponsável,
e também, destinar de forma mais inteligente seus resíduos,
visando, além da obediência a nova Lei dos resíduos sólidos, a
consciência do não desperdício de matéria-prima de qualidade.
A produção artesanal também gera seus resíduos que
devem ser cuidados tanto quanto os resíduos da produção
industrial. Podem ser doados para servir de insumo a outras
formas de produção, evitando assim o descarte de um insumo
em potencial.
O design pode ser um aditivo ao ciclo de vida do
artesanato, assim como foi proposto na hipótese deste trabalho.
Na fase de pré-produção, ele auxilia com a pesquisa de mercado
e tendências, o desenvolvimento de novos produtos e a difusão
dos conhecimentos sobre sustentabilidade, mercado, gestão
e metodologias de desenvolvimento de novos produtos. E na
fase de distribuição, contribui com os projetos de identidade
visual, embalagem, ponto de venda e material de divulgação.
5 Discussão e Conclusão
A indústria do vestuário, o design (representado pela
universidade) e os grupos de geração de renda conseguem
formar um círculo produtivo, baseado no metabolismo
industrial, transformando o resíduo de um em insumo de outro.
O produto artesanal urbano de hoje, o “industrianato”, não
possui um alto valor agregado e tem baixa competitividade no
mercado. O design entra nesta cadeia produtiva e propõe novos
parâmetros: novos públicos, métodos de criação, formas de
comunicação e estratégias de mercado, trazendo para os artesãos
uma alternativa ao industrianato, o artesanato conceitual.
A indústria precisa se mostrar mais engajada diante da
sua comunidade. Iniciativas como as das confecções vistas neste
trabalho, devem ser propagadas, e não mais encaradas como
filantropia esporádica. Devem ser vistas como estratégias, tanto
de comunicação sobre a responsabilidade socioambiental e
formação de rede de relacionamentos, como uma destinação
correta, e acima de tudo, consciente e limpa, dos seus resíduos.
29.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 29
O artesão, apesar da sua herança cultural de trabalhar muitas
vezes sozinho, estando nos centros urbanos, precisa se articular em
grupos para obter representatividade e alcançar vantagens. Um
artesão teria mais dificuldades em obter contato com uma confecção
para receber seus retraços do que uma associação, cooperativa ou
grupo, como o Empreender, auxiliado pelo Instituto Milenia, o que
lhes proporciona ainda melhores condições, como o suporte para a
produção, vendas em feiras e divulgação.
Entretanto, o artesão não pode depender desta doação
de insumos, pois não há contrato que a regulamente e a intenção
é gerar renda e trazer a independência financeira ao artesão. A
primeira doação deve ser encarada como talvez a última, e o
artesão precisa organizar seus lucros para investir em matéria-
prima, caso a doação não se repita.
Por fim, este trabalho mostra que é possível se utilizar
dos conhecimentos do design e do desenvolvimento sustentável
para, ao mesmo tempo, destinar corretamente os retraços têxteis
das indústrias do vestuário de Londrina e reaproveitar estes
insumos na produção artesanal para a geração de renda.
Referências
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ferramenta estratégica para MPEs do vestuário de moda: um
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31.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 31
Sustentabilidade no campo de estágio: a utilização
de retalhos de renda e o ‘novo luxo’
Larissa Avanço de Souza - Graduada em Design de Moda
Universidade Estadual de Londrina - UEL
larissaavanco@gmail.com
Profa. MsC. Lucimar de Fátima Bilmaia Emidio
Universidade Estadual de Londrina - UEL
lucimar@uel.br
Resumo
Este artigo ressalta a importância da conscientização ecológica
e de ações sustentáveis por parte das empresas de confecção
do vestuário de moda. Apresenta as considerações do novo
consumidor em relação ao luxo, aqui relacionado aos produtos
do segmento de moda festa. Mostra um estudo de caso,
realizado em uma empresa de confecção do referido segmento
que tem buscado propor a criação de valores guiados pela
sustentabilidade, a partir da customização de retalhos de renda.
Busca no uso de retalhos um diferencial sustentável para os
processos de criação de vestidos de festa.
Palavras-chave: sustentabilidade, novo luxo, customização.
32.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
32
Introdução
As considerações sobre a definição de moda convergem
para um mesmo limiar conceitual. Envolver o corpo, protegê-lo e,
principalmente, fazer com que o usuário se comunique por meio
de seu vestuário são as principais funções de uma roupa e, ainda
que existam diferentes funções para tal produto, a comunicação
é a síntese do produto de moda. Assim sendo, segundo Silva
(2001) a moda transpõe para o mundo uma mensagem de seu
interlocutor, ela exprime pensamentos e consolida-se como signo.
Segundo Schulte e Lopes (2008), a roupa expressa
características do indivíduo e do contexto social, portanto,
considerando também os pensamentos de Melo e Valença (2009)
pode-se entender que, na sociedade contemporânea, as escolhas
de consumo dos indivíduos se apresentam como símbolo de
status e, no caso da moda festa, a função estética se torna ainda
mais relevante e o consumo se faz pelo desejo de exclusividade
nas comemorações e nas apresentações públicas.
A necessidade psicológica do consumidor torna a compra
de uma roupa de festa, geralmente uma vestimenta de pouco
uso, ainda mais significativa. A importância da ocasião em que
será utilizado o produto proporciona memórias e sentimentos
únicos aos clientes, que buscarão peças também únicas e
exclusivas para seus momentos festivos. Características estas que
segundo Passini, Schemes e Araujo (2009), na roupa de festa,
são simbolizadas pela estética do produto, que se diferencia da
roupa casual pela utilização de tecidos de alta qualidade e alto
valor, por diferença de comprimento (grande parte dos modelos
são longos), por maior utilização de mão de obra qualificada e
maior número de processos de construção, levando em conta o
fino acabamento e a sofisticação do produto.
Como diz Valente (2008), no decorrer das mudanças
sócio-contemporâneas o conceito de moda atrelou-se mais
fortemente à individualidade do consumidor. Analisando
outra vertente da sociedade atual, onde a industrialização e a
tecnologia imperam, há indivíduos que almejam algo que os
diferencie do massificado. Apoiados em valores e modos de
vida pessoais tais indivíduos buscam atingir esse diferencial,
levando em consideração a valorização do trabalho humano e
de questões sustentáveis.
No contexto de uso de roupas de festa, onde tal produto
será utilizado para uma comemoração especial e significativa,
Valente (2008) enfatiza que a escolha adequada envolve, além
da funcionalidade, questões emocionais nas quais a busca por
exclusividade passa a ser fator decisivo na compra. Ainda de
acordocomaautora,aculturacontemporâneadoluxoreordenou
novos conceitos, como a individualização, a emocionalização, a
democratização e a preocupação social, que fazem com que o
produto consumido passe a ser sinônimo de identidade.
Esse novo conceito proposto retoma o pensamento
do filosofo francês Lipovetsky (2007) sobre a Sociedade do
Hiperconsumo: ‘Quando as pessoas compram objetos para
viver melhor, mais que para exibir; quando os objetos ao invés
de funcionarem necessariamente como símbolos de status,
funcionam mais como um serviço à pessoa. Naturalmente, as
satisfações sociais de diferenciação permanecem, mas são uma
das motivações dentre muitas outras. ’
Reitera-se assim o pensamento analisado por Valente (2008)
no qual as “transformações e valorizações do que é raro alteraram as
percepções da população e a noção de pertencimento dos cidadãos.”.
Este novo cenário das concepções de moda e,
principalmente, de consumo compõe o que atualmente é
denominado por diversos autores como “luxo plural”, em que
cada consumidor tem sua própria definição ou interpretação
33.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 33
do que pode ser considerado luxo. Definição esta que agrega
valores mais pessoais e íntimos, buscando produtos que, além
de satisfazerem necessidades de consumo propriamente ditas,
alcancem valores emocionais que se interligam diretamente às
concepções ideológicas individuais e estejam em concordância
com questões sócio-ambientais.
Para Manzini e Vezzoli (2008) as questões sociais e
ambientais são constituídas a partir de cenários específicos e
formam o alicerce para o desenvolvimento sustentável. Assim,
o objetivo deste trabalho é apresentar uma reflexão sobre
a sustentabilidade a partir de um estudo de caso que mostra
no uso de retalhos de renda um diferencial sustentável para os
processos de criação de vestidos de festa.
Produtos de luxo e sustentabilidade
No decorrer das mudanças sócio-contemporâneas o
conceito de moda atrelou-se mais fortemente à individualidade
do consumidor. Apoiados em valores e modos de vida pessoais,
tais indivíduos consideram importante a valorização do trabalho
humano e as questões de sustentabilidade.
A cultura contemporânea do luxo reordenou novos
conceitos e sua comunicação não se dá mais apenas pelo caro,
mas também pela criatividade e originalidade das peças. Tendo
em vista essa nova postura do consumidor, a empresa abordada
no item 3, (citada neste trabalho) busca se adequar ao novo
paradigma estabelecido, propondo a criação de valores guiados
também pela sustentabilidade.
O contexto da produção da empresa analisada está
inserido no conceito em que Zanella, Balbinot e Pereira (2000)
definem como Hand Made ou ‘feito à mão’, que caracteriza o
vestuário se não da alta costura, do artesanato do novo luxo.
Busca, no uso de retalhos, um diferencial sustentável para os
processos de criação de vestidos de festa.
Levando em consideração que o consumidor atual
direciona suas necessidades para além da estética, atrelando
valores mais subjetivos às suas noções de luxo, é indispensável
considerar inúmeras questões, acreditando, como diz Melo e
Valença (2010), que a comunicação do luxo não se dá apenas
pelo caro e raro, mas também pela criatividade e originalidade.
É visível uma nova perspectiva sobre o consumo,
desligando-se das idéias de exacerbação e ostentação e
voltando-se cada vez mais para valores relacionados às
questões intrínsecas ao consumidor. “O cenário descrito até
aqui propôs sublinhar a complexidade dos sentidos do luxo
contemporâneo, quando se sofistica o cruzamento de diversos
aspectos na configuração de novos valores, dentre eles o sócio-
ambiental.” (VALENTE, 2008).
Tendo em vista essa nova postura do consumidor, as
empresas buscam se adequar ao novo paradigma estabelecido,
propondo a criação de um novo mercado baseado em tal
postura. Pensa-se então a importância de estratégias de
venda que busquem agregar não apenas valores materiais aos
produtos, mas também uma concepção de estilo de vida.
Visando estreitar as relações com seus consumidores, as
marcas se adequam às mudanças de abordagem, principalmente
às questões de consciência sócio-ambientais. É estabelecido então
uma nova diretriz para as empresas do setor: desenvolver produtos
guiados pela sustentabilidade que se relacionem com seus
consumidores diretamente, sem desvincular seu referencial de luxo.
Nesse contexto, o referencial simbólico é consolidado
como valor subjetivo e enaltecido pelo pensamento previsto
no comportamento de consumo preocupado com as questões
ambientais. Percebendo então uma mudança na cultura e no
34.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
34
comportamento dos consumidores, visualiza-se uma aceitação
dessa nova vertente de produtos sustentáveis.
Dentrodessecontexto,o“novoluxo”encontra-seestruturado
em novos valores, o que faz com que as marcas se adéquem a isso,
direcionando corretamente sua produção e se comprometendo
com as questões ambientais em seu processo produtivo.
Soluções sustentáveis a partir do uso de retalhos de
renda: um estudo de caso
O setor de vestuário e confecção apresenta grandes
desafios à sustentabilidade, pois produz uma série de impactos
ao meio ambiente. Entendendo este fato como um desafio, a
empresa Esperanza Moda Feminina percebeu, no uso de retalhos
de renda, uma alternativa para estimular a conscientização por
meio de seu carro-chefe: a moda festa.
A empresa Esperanza Moda Feminina está instalada na
cidade de Londrina, estado do Paraná, reconhecido pólo de
confecção. Trata-se de uma empresa que trabalha principalmente
com o segmento moda festa, atendendo a duas linhas de público:
feminino teen e feminino adulto. A empresa possui atendimento
direto ao público através de vendas prêt-à-porter e sob medida.
Sua estrutura na forma de ateliê conta com 21 funcionários
nos seguintes departamentos: criação de produto, modelagem,
corte, costura, customização, arremate, passadoria e vendas.
Trata-se de um tipo de confecção que, por conta de sua
flexibilidade no ritmo de produção, busca soluções sustentáveis
no modo de produzir: o uso de retalhos tornou-se um desafio e
um fator de extrema importância para os processos de criação
de vestidos de festa.
A empresa se preocupa em sempre oferecer produtos exclusivos,
com bordados, tingimentos e customizações únicas. A
sofisticação no acabamento dos produtos e a utilização de
retalhos dos mais variados tipos de materiais, em especial a
renda, agregam valor ao produto.
A utilização de retalhos é vista como uma estratégia
de novo luxo, voltada para questões de sustentabilidade e
diminuição de custos, sendo esta uma variável competitiva no
mercado do segmento de roupas de festa. Trata-se, além de
uma solução, de uma manifestação criativa na customização,
que ao ser executada apropria-se não somente do sentido
de adaptação e personalização, mas também de questões
sustentáveis de valorização simbólica do produto, propiciando
um produto singular e exclusivo.
Nota-se na empresa uma valorização de determinados
materiais, sendo a renda o principal deles, por ser um tecido
versátil e pouco efêmero ao considerar sua utilização no
segmento moda festa. Ainda que em outros contextos não seja
bem aplicada, neste, ela determina grande valor agregado.
O significado da palavra renda aparece como ‘... tecido
de malhas abertas e contextura geral delicada, cujos fios (de
linho, algodão, seda, entre outros) trabalhados à mão ou à
máquina, entrelaçam-se formando desenhos e que é usado para
guarnecer ou confeccionar peças de vestuário, alfaias, roupas,
roupa de cama e mesa, etc.’ (ZANELLA, BALBINOT e PEREIRA,
apud FERREIRA, 1986).
Devido a sua utilização quase que constante nos produtos
da empresa, determinou-se de forma empírica sua aplicação de
diversas maneiras. Além de utilizá-la no produto como um todo, o
uso parcial da renda recortada em seus desenhos pode ser aplicada
como fino acabamento ao produto, conforme mostra a Figura 1:
Figura 1: processo artesanal de aplicação da renda
35.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 35
Fonte: Empresa Esperanza Moda Feminina (2011).
Detectou-se, portanto, que o processo artesanal de
aplicação da renda insere-se facilmente ao processo de design
do produto, com o intuito de atribuir processo à atividade,
buscando atingir resultados mais singulares e diferenciados.
Sua aplicação parcial envolve a execução de recortes em
partes específicas da renda, criando retalhos constituídos de
arabescos que ampliam o valor agregado no tecido. Essa nova
modalidade propõe imprimir novos desenhos e sentidos para o
corte nas rendas, elegendo signos que definem o que é proposto
no contexto atual de criação. Partindo deste pensamento, é
possível atribuir diversos resultados de desenhos, de uma mesma
padronagem de renda, como mostrado anteriormente na Figura 1.
Essa utilização parcial da renda vislumbra um trabalho
criativo com retalhos, que resulta em um produto final com caráter
exclusivo, que além de sustentável gera uma nova metodologia
para a criação na customização de vestidos moda festa. As
mais variadas maneiras de cortar a mesma renda mostram a
atemporalidade desse tecido, que dentro de uma confecção
pode ser usado em coleções das mais variadas referências.
Considerações finais
Os danos ambientais decorrentes das atuais atividades
industriais produtivas exigem um repensar urgente dos métodos
de produção e de consumo, a fim de garantir um meio ambiente
propício às futuras gerações. Para alcançar a sustentabilidade
é necessário, segundo Vezzoli (2008), uma nova maneira de
conceber produtos e serviços: o design sustentável é o ato de
produzir produtos, serviços e sistemas com um baixo impacto
ambiental e uma alta qualidade social, também buscando
soluções mais viáveis economicamente.
Difundir os conceitos da sustentabilidade, bem como
incentivar a prática de ações com enfoque sustentável, não é
uma tarefa fácil à nova geração de profissionais ingressantes no
mercado de trabalho. No entanto, salienta-se que a atividade
de estágio, que viabilizou a realização deste estudo na empresa
Esperanza Moda Feminina, possibilitou também evidenciar que
a empresa de moda pode, através de seu produto e de seu
processo, promover novas soluções sustentáveis para produção
e para o consumo. Além disso, salienta-se que a importância do
estágio não se resume à integração do aluno ao mercado de
trabalho ou ao aprimoramento de suas habilidades no âmbito
profissional. Trata-se também de um aspecto relevante na
formação da pessoa. Segundo Buriolla (1995), “é o lócus onde a
identidade profissional do aluno é gerada, construída e referida;
volta-se para o desenvolvimento de uma ação vivenciada,
reflexiva e crítica e, por isso, deve ser planejado gradativamente
e sistematicamente.”
E válido salientar que considerando o envolvimento
afetivo do consumidor contemporâneo com os produtos e os
novos olhares sobre práticas exercidas na empresa abordada foi
36.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
36
possível perceber, a partir do estudo de caso apresentado, uma
saída para atender questões de sustentabilidade e personalização
no desenvolvimento de produtos de luxo. A intenção de atribuir
processo à customização de retalhos de renda almeja agregar
valor real e simbólico aos produtos, buscando aproximar ainda
mais o novo consumidor e o novo luxo, resultando assim, em
uma estratégia competitiva de mercado que agrega atributos de
consciência sócio-ambiental.
Referências
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Educação & Sociedade, 71, 7.
37.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 37
O Jeans e o Design para o Meio Ambiente: alguns
caminhos para a sustentabilidade na moda.
Mariana Dias de Almeida - Mestranda em Design - UNESP Bauru
mari.ddalmeida@gmail.com
Profa. Dra. Mônica Moura - UNESP Bauru
monicamoura.design@gmail.com
Resumo:
O presente trabalho se propõe a averiguar o ciclo de vida do
jeans no desenvolvimento de produtos de moda, observando
quais são os processos e propostas empregadas que visam o
desenvolvimento sustentável. Por sua vez, o design de moda é
avaliado a partir das problemáticas provenientes do caráter de
efemeridade, da rapidez e agilidade, presentes na indústria e no
mercado da moda e são analisados como esses geram e quais
são os resultados nos impactos ambientais e sociais. Nesse
percurso, toma-se o jeans desde sua gênese até o descarte sob a
ótica do design para o meio ambiente (Design for Environment),
associado a análise de alguns casos exemplares que buscam
soluções sustentáveis para o emprego do jeans. Dessa forma,
esse artigo pretende colaborar com os profissionais envolvidos,
tanto na área de design quanto no mercado de moda, na busca
de soluções viáveis e sustentáveis no emprego do jeans.
Palavras-chave: Design de moda, Design para o meio ambiente,
sustentabilidade
38.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
38
Introdução
O produto de moda passou por grandes alterações
nas últimas décadas. A começar pela inserção do design, o
emprego da fase projetual à moda trouxe novas discussões
sobre o desenvolvimento do produto e sua relação com os
indivíduos e o meio em que está inserido, porém algumas
implicações têm caracterizado a moda por suas problemáticas,
como a efemeridade, rapidez da produção e a obsolescência
perceptiva. Assim, uma questão que se tornou pertinente nos
últimos anos, vem propondo uma alteração dos paradigmas, que
é a sustentabilidade, a qual tem sido discutida amplamente no
campo do design, encontrando fortes ecos no design de moda,
porém, ainda existem muitos problemas e dialéticas a serem
discutidos e resolvidos.
O conceito de Design para meio ambiente (Design for
environment), propõe novos meios de reflexão nos processos do
projeto e suas observações no produto. Um dos pontos desse
conceito é o ciclo de vida do produto empregado na moda. No
caso deste trabalho, tenderemos para o jeanswear, produto de
moda amplamente utilizado por vários indivíduos, e que também
tem apresentado sua inclinação para a sustentabilidade.
Moda e sustentabilidade
O design de moda contemporâneo vem ofertando
novas proposições de produto em decorrência de algumas
novas realidades e valores. Uma dessas novas propostas é a
sustentabilidade, que foi assimilada à moda através dos produtos
ecologicamente corretos, com os quais nos deparamos através
dos mais diversos tipos de apelos conscientizadores.
A adoção pela moda do termo sustentável implica
alterar paradigmas que, por tempos, têm-na caracterizado.
Efemeridade, rapidez e agilidade são parâmetros que permeiam
o processo de desenvolvimento do produto, norteando os
designers, que, por vezes, procuram responder aos anseios
do seu público alvo, desenvolvendo produtos que atendam
aos desejos mais implícitos de seu consumidor, instigando-o a
consumir a cada lançamento uma nova peça de vestuário.
Outra problemática dos produtos de moda é a
obsolescência perceptiva, sobre a qual Martins afirma: ‘O sistema
moda impõem um ritmo de obsolescência programada muito
rápido em que os produtos de moda são descartados muito
antes do fim da sua vida potencial’ (2010, p. 81). A minimização
de utilização do produto acarreta em impactos ao ambiente.
Diante dessa perspectiva, a sustentabilidade, inserida
na moda, surge como uma nova postura de se desenvolver
produtos, alguns pesquisadores como Proctor e Dougherty
tratam este tema como algo que perdurará e evoluirá ao longo
do tempo introduzidas em nossas vidas e na transformação da
indústria.
E como se tornou tendência abordá-la se acredita que esse
conceito fique descrente A compilação moda e sustentabilidade
ainda tem o crédito da dúvida, pois crê-se em propósitos
envolvidos pelo apelo no marketing como afirma Carli:
Assim, as empresas têm dado a visibilidade possível ao
seu engajamento com os valores da sustentabilidade,
buscando a simpatia dos seus consumidores. Ações
marqueteiras, promessas que não podem ser cumpridas
e verniz de fachada podem vingar por um tempo, mas
não se sustentam no longo prazo. (2010, p.45)
39.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 39
Para que então a orientação para a eficiência dos produtos
de moda seja fidedigna à sustentabilidade, há de se promover
as pesquisas acadêmicas e a conscientização das empresas, do
qual para Parode, Remus e Visoná (2010), surge agora um novo
padrão em que para se estar inserido, deve-se ter uma mudança
de postura e adotar a preocupação com o ambiente e com a
sociedade, postura que a moda uniu a si, os autores completam:
A moda, pode-se dizer, é um dos principais agentes de
criação desse novo padrão, que hoje é seguido por
empresas de todos os setores da economia, porém essa
faz surgir um grande contrassenso. Como já discutido
anteriormente, a moda é estimuladora da efemeridade, da
significação dos objetos e da troca rápida desses signos
para se manter atualizada na sociedade etc. Por outro
lado, a moda está buscando soluções mais sustentáveis
e ecorresponsáveis para produzir seus produtos, o que,
na prática, significa uma espécie de economia de signos
(PARODE; REMUS; VISONÁ, 2010, p.72)
Assim, surge uma forma de desenvolver produtos de
moda, que começarão a ser cada vez mais medidos pelas ações
que interferem nos sistemas naturais, cujo foco é o impacto que
as roupas provocam, seja pelo seu processo fabril , seja pelo
simples uso diário. A mudança de paradigmas na moda deve
acontecer no todo, ou seja, pequenas mudanças como alteração
de matéria-prima do qual é feito o produto não é suficiente para
afirmá-lo como sustentável, há a necessidade de mudanças na
fase projetual, no processo de fabricação, no tempo de vida do
produto e no designer, pois, dele sairá o pensamento do projeto.
Sustentabilidade
A sustentabilidade, no campo do design e na área do
design de moda, levou a uma série de reflexões e mudanças,
entre elas, a modificação de parâmetros para a criação de novos
produtos. Parafraseando Medeiros et. al:
“Foi com o surgimento do conceito de Desenvolvimento
Sustentável, nos anos 80, que uma nova base aparece para
quebrar os valores radicais ambientais em voga desde
então, propondo um novo modo de produção e consumo
onde o desenvolvimento industrial pode e deve conviver
pacificamente com a natureza.” (2010, p.456)
Segundo Manzini e Vezzoli (2008), o design sustentável
compreende atividades que relacionam o tecnicamente possível
com o ecologicamente necessário, a partir do desenvolvimento
de novas propostas favoráveis às questões sociais e culturais,
fato que se configura como objetivo-alvo, isto é, a serem
atingidos por meio do desenvolvimento dos mesmos e não
apenas e simplesmente um caminho a ser seguido.
Para que um projeto seja sustentável, algumas
considerações devem ser levadas em consideração, tais como:
• Uso de recursos renováveis;
• Otimização dos recursos não renováveis;
• O não acumulo de lixo que o ecossistema não reutilize;
• Possibilidade de que todo indivíduo possa usufruir do espaço
ambiental.
Reconhecer os impactos gerados no ambiente é mais
um ponto favorável, pois, saber que o planeta é finito indica
que devemos nos conscientizar sobre os atos nocivos causados
por nós. E, sobretudo, ter consciência de que o consumo
40.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
40
desenfreado é insustentável e só pode culminar em grandes
danos para a sociedade e para o ambiente.
Design para meio ambiente no jeanswear
O jeans é o produto de moda que se socializa com os
mais diversos indivíduos, transcende as classes sociais, biotipos
e gêneros. O jeans, como menciona Catoira (2006), é exemplo
de produto que possui design desde seu projeto têxtil, assim,
a abordagem a respeito da sustentabilidade não se isentaria
de lhe incluir em proposições a fim de viabilizar esse produto
amplamente genérico.
O Design for Environment (DfE), definido por Fiksel (2009),
consiste em um sistema que considera o relacionamento entre
o design e o meio, buscando um equilíbrio em que os objetivos
sustentáveis otimizam e auxiliam a delimitar o projeto de acordo
com ciclo de vida do produto, determinando as etapas pelas quais
deve percorrer o produto com o objetivo final de que o desperdício
e o impacto nocivo no ambiente sejam minimizados ou anulados.
Assim, o DfE podeviabilizar o projeto de um produto jeans
que cause menos danos ao meio ambiente, produzindo de modo
seguro e sustentável. Pois de acordo com Manzini e Vezzoli,
‘o produto é interpretado em relação aos fluxos - de matéria,
energia e emissão – das atividades que o acompanham durante
toda a sua vida’ (2008, p.91).
Sendo o propósito de novos processos e propostas que
estabeleçamastrocascomoambiente,devefundamentar-senociclo
de vida (Life Cycle Design) e que proponha estar presente em todas
as fases do produto, atuando como suporte para a fase projetual,
auxiliando o designer nas escolhas e nas tomadas de decisões.
Sendo o ciclo de vida esquematizado nas seguintes etapas:
pré-produção, produção, distribuição, uso e descarte, para um
melhor enquadramento do conceito será analisado cada etapa
ao jeanswear.
A pré-produção é dada pela extração de matérias-primas
que fornecerão subsídios para a concepção do produto. O uso de
algodão orgânico pelas empresas têxteis tem sido cada vez mais
recorrente, bem como pela construção do denim (jeans) , porém
é nessa etapa que muitos designers de moda fundamentam o
produto como sustentável, como afirma Fletcher: ‘os estilistas
acreditam que a responsabilidade ambiental é alcançada pela
especificação de fibras naturais (especialmente algodão),
fazendo produtos mais duráveis’ (apud Lee, 2009, p. 82). Em
face desse panorama, Ismael Rocha argumenta em entrevista:
‘Você tem uma grife de jeanswear que lança uma linha feita
a partir de algodão orgânico e já se posiciona como “verde”.
Ou seja, ela lançou 1% de produtos sustentáveis, enquanto os
outros 99% não o são.’ (Estadão, 2009).
Na indústria da confecção a etapa de produção possui
fatores que podem acarretar em desperdício que vão desde
o gasto de energia ao lixo acumulado resultante de restos
de tecido e papéis. Os processos de beneficiamento que, no
produto agregam valor de venda, também podem contribuir
com aspectos negativos à carga ambiental. Como no caso da
lavagem de peças jeans são gastos números elevados de água, e
após a sua utilização, é geralmente despejada em rios, córregos
ou, pior, próximo a nascentes, o que gera graves problemas
ambientais e sociais. Há que se destacar que esses descartes de
água,provenientesdotratamentodeprodutosjeans,geralmente,
não são tratados visando à diminuição dos efluentes.
A etapa de distribuição configura-se a partir do
deslocamento da manufatura de produtos para entregas em
lugares distantes ou, pode também ocorrer quando as fases
produtivas se dividem em diferentes lugares de produção. A
41.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 41
distribuição implica, também, o uso de transportes para conclusão
do produto. Kazazian (2005) expõe sobre a implicância de um par
de calças jeans que percorre até 65 mil km para concretização
da fabricação, em situação onde as origens e os processos são
efetuados em locais distantes e Thorpe acrescenta:
Por exemplo, um par de calça jeans, reúne materiais de todo
o mundo. Índigo sintético vindo da Alemanha, pedra-pomes
para stone washing vindo da Turquia. Algodão para tecido
vem de Benjin [...]. Fibra de poliéster para segmento vem
do Japão e o cobre para os prendedores vem da Namíbia
e Austrália. Unidos em um par de jeans, estes materiais são
depositados em diversas lojas da Europa. O jeans representa
ao longo processo no qual matérias-primas [algodão, cobre,
poliéster,] perdem sua estrutura original e concentração, o
seu potencial, e se espalhou em formas menos úteis ao redor
do globo. Nossos atuais sistemas não oferecem nenhuma
forma prática de estruturar e concentrar os materiais de
bilhões de par de jeans. (2007, p.41, tradução nossa)
A logística, nesses casos, torna-se primordial para evitar
o desperdício ou uso excessivo de transporte. A embalagem
do produto destinado ao consumidor final, também exige a
necessidade de observação, com relação ao tipo de material
da embalagem, pois geralmente ela é descartada, gerando lixo
desnecessário e várias complicações ambientais.
A etapa de uso compreende no cuidado, ao verificar e
indicar para o consumidor as instruções de uso da forma mais
adequada à manipulação daquele produto. Isso deve ocorrer não
só com o produto em si, como também com a embalagem do
mesmo, e implica na adoção da inter-relação entre as questões do
design gráfico, do design de produto, do design de informação e
da conscientização dos preceitos da sustentabilidade. A empresa
e o designer que projetam o produto, sem dúvida, devem ser
responsáveis por esse processo, mas devemos lembrar que
a educação e o esclarecimento ao consumidor são aspectos
essencias, afinal, como indica Martins (2010), o consumidor
também é responsável pelo ciclo de vida do produto, apesar de
o jeans, ser um produto de uso prolongado, sua manutenção
como a lavagem caseira consome um volume de água, que
Kazazian exprime por aproximadamente 18 litros de água.
A etapa considerada como a final no processo do ciclo
de vida diz respeito ao descarte, resultado de uma cena muito
comum nos dias de hoje, que é o grande acúmulo de lixo. Fato
que pode ser gerado no processo de produção, mas também
ocorre junto ao consumidor final. Ainda, outro problema
gerado é o descarte da indústria de vestuário. Este pode ser
reaproveitado e reutilizado a partir de processos de doação,
mesmo perante a possibilidade de um destino equivocado. Por
outrolado,odescartedosprodutosdemodaocorremematerros
e lixões, causando danos ambientais. Porém, problema maior
ocorre quando as fábricas de produtos de moda descartam os
resíduos do processo produtivo em aterros sem os cuidados
ambientais necessários. O denim bem como outros produtos
têxteis já podem de ser reutilizados através da reciclagem, uma
alternativa eficaz para prosseguir com o ciclo do produto de
moda. Conforme apontam Goya e Botelho (2009) se faz cada
vez mais necessário a mudança de paradigmas, mediante a
proposta de prolongamento da vida útil do produto de moda.
Para a mudança desse cenário, faz-se necessário
uma mudança radical, para que ocorra um desenvolvimento
realmente sustentável (VEZZOLI, 2008), no qual o produto de
moda, em todos seus parâmetros, tenha uma produção que não
interfira de modo negativo no meio ambiente, conscientizando
de que é a sustentabilidade a variável que irá redefinir as etapas
42.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
42
do processo produtivo (MARTINS, 2010), desenvolvendo novos
paradigmas para os produtos de moda.
Estudo de casos.
Alguns casos de produtos de jeans ganharam um maior
destaque por suas atitudes inovadoras em face de outras, que
pela tendência de abordagem da sustentabilidade, adotam o
termo, porém não o conceito.
As empresas que trabalham com jeanswear têm como
preocupação as contaminações advindas das lavanderias, que
podem vir a comprometer afluentes, a proveniência da fibra que
originará o tecido. Assim, a primeira empresa a ser retratada
é a Éden, que segundo a Folha de São Paulo (2011) baixa seu
impacto no ambiente através do processo produtivo beneficiado
de elementos naturais e matérias prima orgânicas, mas somente
esses parâmetros não garantem a sustentabilidade. Assim, todo
o envolvimento bem próximo de todas as etapas confiam ao
produto e as práticas sustentáveis.
Há um empenho de algumas empresas em desenvolver
produtos que respondam à preocupação com o ambiente, de
forma que influenciem os indivíduos a se conscientizarem, e
estabeleçam uma contribuição positiva do design de moda com a
sustentabilidade. A esse respeito os produtos da empresa carioca
Tristar são um exemplo que ocorre a partir do desenvolvimento
de coleções de peças jeans, a partir da introdução de um tecido
orgânico, (oriundo da Alemanha) no Brasil, que não necessita
de lavagem. O produto desenvolvido é acondicionado em
sacos plásticos que são levados ao freezer, eliminando sujeiras e
bactérias, descartando a lavagem convencional. Logo, diminuindo
o consumo de água, um dos recursos naturais em estado mais
agravante de desperdício e poluição (SHOR, 2011).
Para o desenvolvimento de produtos apoiados nos
conceitos sustentáveis, algumas determinações e inovações
contribuem para que se consiga atingir o objetivo com êxito,
nesse caso, ofertar um produto sustentável que processe todo
o ciclo de vida fidedignamente.
A empresa norte-americana Levis, posteriormente ao
estudo do levantamento do ciclo de vida de alguns de seus
produtos, chegou a conclusão de que, além da necessidade
de esforços na produção para um produto sustentável, havia
etapas do ciclo de vida na produção que eram desconhecidos,
tais como: a procedência do algodão utilizado na confecção do
tecido, como é o caso dos orgânicos; o tingimento vegetal e a
maneira como o consumidor fazia uso da peça adquirida. Para
resolver essa questão, buscaram projetos que sanassem essas
deficiências. O resultado deu-se em um produto que utiliza
menos água em sua lavagem e incita os usuários a terem um
maior cuidado com a água e com o produto, como apresenta a
jornalista Alana Rany: ‘O jeans padrão utiliza cerca de 42 litros
de água no processo de acabamento e, na coleção Water Less,
a redução de água chega a 96% em alguns produtos’ (Revista
Sustentabilidade, 2011). Para tal feito as mudanças ocorridas na
lavanderia é que garantem a inovação. Porém, a proposta deste
trabalho é procurar conhecer o grau de impacto da produção,
verificando-se realmente todo o processo que gera a redução
do volume de água utilizado na produção da peça jeans.
Considerações finais
O produto de moda contemporâneo, em seu segmento
jeanswear, bem como em suas prospecções de um futuro
próximo, indicam a preocupação com a sustentabilidade. Porém,
há uma falta de compreensão do real significado que esse
43.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 43
aspecto apresenta, bem como a consciência de sua amplitude
no desenvolvimento e na produção dos produtos. A inserção de
apenas uma parte do processo não verifica como solução dos
problemas, ao contrário, essa incompletude confunde ainda mais
o mercado consumidor, que é formado por pessoas que devem
ser e fazer parte desse processo, e não simplesmente atuarem
como receptores de uma demanda.
É importante a adoção de um método para
desenvolvimento de produtos que não gerem problemas aos
seres e ao ambiente, onde o produto e sua produção não se
apresentarem como problemas, mas sim como soluções. Cabe
ao designer estudar e diagnosticar a melhor forma de minimizar
os impactos ambientais, e, que, apoiados no conceito de ciclo de
vida, favoreça uma aproximação dos embates na sustentabilidade
que demandem no decorrer da vida do produto.
Asempresasdevestuárionecessitamdemaisinvestigações
sobre o ciclo de vida de seus produtos, como atuam e interferem
no meio ambiente, a exemplo da empresa Levi’s que além da
pesquisa soube de maneira simples desenvolver métodos de
utilização de menos água, necessitamos de propostas inovadoras,
simples ou não, a fim de que produzamos de maneira diferente.
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Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 2
Design de produto, gráfico,
inovação e sustentabilidade
http://www.flickr.com/photos/wheatfields/591188814/lightbox/
46.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
46
Design Brasileiro Contemporâneo e a
Sustentabilidade: algumas vertentes
Profa. Dra. Mônica Moura. UNESP - Bauru
monicamoura.design@gmail.com
Profa. Dra. Cyntia Malaguti. SENAC-SP / Centro Universitário de Belas Artes
cyntiamalaguti@uol.com.br
Resumo:
Esse artigo tem como proposta apresentar e analisar a relação
do design contemporâneo brasileiro e a sustentabilidade a partir
dos resultados de seleção dos produtos, sistemas e objetos
presentes na exposição “Design, Inovação e Sustentabilidade”.
Essa exposição foi desenvolvida sob a curadoria geral de Adélia
Borges e foi a principal mostra da Bienal Brasileira de Design
2010, realizada em Curitiba, Paraná. O critério principal e
norteador da seleção dos produtos foi o conceito “do berço ao
berço” de William McDonough e Michael Braungart e também
as relações existentes entre materiais, processos e atitude
projetual. Os produtos selecionados para essa exposição
possibilitam a obtenção de vários mapeamentos e leituras
a respeito do desenvolvimento do design brasileiro e suas
relações com a sustentabilidade. Alguns mapeamentos são
aqui analisados sob o aspecto dos enfoques conceituais, do
desenvolvimento dos produtos, de sua relação com o entorno
e com a comunidade e das soluções encontradas.
Palavras-chave: Design Brasileiro, Sustentabilidade,
Contemporaneidade
47.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 47
Exposições, mostras, bienais: alguns aspectos
conceituais
A utilização de objetos e do ambiente ao seu redor
empregado como recurso para expor, salientar, celebrar,
reverenciar, vender e interpretar aspectos da experiência da
interação homem-objeto faz parte de nossa cultura. Esses
ambientes que comunicam se constituem em uma tipologia de
experiência humana e do espaço multidimensional como uma
área da prática criativa e projetual crescentemente reconhecida
como “design de exposições” ou “design expográfico”, que
combina espaço, movimento e memória para facilitar e estimular
a comunicação em vários níveis. Seja qual for o tipo de exposição,
é inegável seu potencial na transmissão e interpretação de
informações, abrangendo audiências e influenciando na
compreensão dos temas tratados. Para tanto, o grupo envolvido
neste tipo de trabalho procura moldar esta experiência, de
modo a garantir que as mensagens e narrativas propostas sejam
transmitidas da forma mais convincente e significativa possível
(Lorenc, Skolnick e Berger, 2007).
As grandes exposições, em especial as de produtos e
tecnologia, começaram a ser realizadas a partir de meados do
século XIX, destacando, sobretudo, a força direcional, a fascinante
diversidade e o surpreendente espetáculo do progresso humano,
não apenas para as elites, mas para a população em geral (Lorenc,
Skolnick e Berger, 2007). Em alguns casos, inclusive, existem
espaços e pavilhões patrocinados pelo governo ou indústrias.
Outros destacam, no entanto, o papel das exposições de arte
como o espaço de ligação entre novas proposições visuais,
concepções de arte e a sociedade; ressaltam assim, seu caráter
questionador, construtor de interpretações e, ao mesmo tempo,
intencionalmente propositivo.
Uma exposição é uma mostra, uma apresentação
geralmente constituída em torno de um assunto, uma proposta,
uma temática ou um questionamento. Este direcionamento
auxilia a contornar ou a estabelecer um determinado enfoque
ou recorte para a seleção, reunião e organização de obras, peças,
textos ou objetos de diferentes naturezas. Desse modo, quando
expostos à visitação pública, despertam sensações, reflexões,
pensamentos, ideias a respeito da temática tratada, explorando
manifestações e auxiliando a esclarecer ou a ampliar relações,
para a construção de novas questões. Uma exposição de design
atende a essas questões, porém diferencia-se pelo fato de
reunir e expor objetos presentes em nosso cotidiano quer sejam
industrializados, serializados, manufaturados ou conceituais.
O que de um lado estabelece um diálogo mais facilitador
entre objetos expostos e o público, mas, por outro lado essa
proximidade pode criar distanciamentos na medida em que a
vivencia cotidiana com esses objetos muitas vezes impossibilita
maior apreensão, observação e reflexão a respeito dos mesmos.
As exposições de design articulam e comunicam a
informação no desenvolvimento de produtos e são fenômenos
de complexa visualidade, produto da cultura visual que
desvela o produto e onde o usuário assume outro papel, de
tomada de consciência a partir dos significados que elabora
ao experimentar a exposição. A exposição é considerada como
meio de comunicação e um espaço de educação informal
(Cossio,Cattani e Curtis, 2011).
Nessecontexto,éfundamentalidentificar-se,inicialmente,
quem são os organizadores, o público alvo, o perfil (dimensão,
duração) e o objetivo de determinada exposição. Velarde (1989)
destaca que uma exposição, de maneira geral, procura atender
aos objetivos de: “vender”, persuadir, expor, exibir, informar,
agradar e esclarecer ou elucidar determinado assunto. No caso
48.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
48
de uma exposição de design, o Icograda (on-line) especifica os
objetivos de: fornecer um panorama geral da produção dentro
de um setor do design, ilustrar e identificar atuais destaques na
área, ressaltar as tendências principais do ponto de vista social,
cultural e econômico que podem influenciar futuros projetos de
design, ou ainda abordar um tema específico escolhido por um
Curador ou Comitê Curatorial.
Outro aspecto característico do setor é a dinâmica do
processo de definição das temáticas abordadas, seja em espaços
expositivos convencionais ou não. É comum os detentores de
espaços expositivos ou organizadores de exposições temporárias
definiremapenastemasouobjetivosgerais,delegandoaconcepção
da exposição em si a um curador ou equipe curatorial, seja para se
preservarem de críticas em relação ao enfoque, seleção, disposição
ou apresentação do material exposto (procurando evidenciar
a diferença entre estes e as feiras, onde os espaços expositivos
são comercializados, e aproximar os primeiros do caráter mais
cultural), seja para favorecer a construção de narrativas diferentes
e, a princípio, autônomas, sobretudo em situações de eventos
que se repetem regularmente. Mas evidentemente, tal autonomia
tem suas limitações ou condicionantes, pré-estabelecidas pelos
organizadores ou patrocinadores da exposição, em seu termo de
referência, ou “briefing”.
No cenário brasileiro as mostras, exposições e bienais de
design, ao lado de prêmios e concursos, têm tido papel muito
significativo, uma vez que ajudaram e continuam colaborando no
sentido de consolidar e disseminar o campo do design, bem como
a indicar, representar e documentar o que vem sendo produzido
no país. Em muitos casos, são os resultados dessas mostras e os
documentos gerados por elas, sejam visuais, textuais ou sonoros
que constituem o registro histórico do design brasileiro.
Por sua vez, uma bienal, reúne, a cada dois anos, o que é
considerado como excelência, representativo, significativo e
norteador no campo ao qual se destina. Uma bienal geralmente
é constituída de mostras, exposições, seminários, debates e
outras expressões e manifestações culturais que envolvem
a participação do público no sentido de verificar e ajudar a
mapear as produções que são desenvolvidas em determinado
campo ou área.
As bienais de design, em todas as suas edições, foram
responsáveis por divulgar designers, produtos, empresas, tanto
nacionais quanto internacionais, refletindo a dinâmica do
mercado, tendências diferenciadas e novas propostas, sejam elas
conceituais, tecnológicas, metodológicas, materiais ou imateriais.
Tanto as mostras quanto as exposições e bienais, atuam
comcuradoresouequipescuratoriais.Eoquefazocuradorouuma
equipe curadora em uma exposição? O folheto promocional do
mestrado em “Curating Contemporary Design” da Universidade
de Kingston (on-line), na Inglaterra, define de forma sintética
que “curadoria diz respeito a contar estórias onde o conceito
curatorial forte conforma a narrativa e explica uma idéia para
diferentes clientes em museus, lojas ou na prática do design”. A
abordagem de Francielle Filipino dos Santos, entretanto, articula
mais claramente as atribuições de uma curadoria.
“É válido dizer que, a atividade da curadoria hoje,
compreende desde a seleção de obras dentro de um
recorte proposto, de se ter ou não um tema delimitador, a
articulação das obras com o espaço da Mostra, o diálogo
entre as próprias obras, a problematização de conceitos
presentes nos trabalhos, até a montagem da exposição,
a manutenção das obras, a elaboração de textos de
apresentação e divulgação, a fim de proporcionar
49.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 49
maior proximidade obras-público. O curador antes de
estabelecer um discurso fechado em si mesmo, deve
levantar dúvidas, pontuando algumas questões e sugerir
outras tantas.” (Santos, 2010, p.2825)
Santos (2010) ressalta que o curador é quem assina a
exposição sendo, em última instância, o seu autor. No processo
de problematização deve buscar uma (des) conjunção de olhares
na seleção e disposição das peças a serem expostas, de modo a
apontar questões que gerem “prazer ou dor”. Deve apresentar
um pensamento teórico, propiciando uma leitura pedagógica e/
ou crítica da mostra, ou diferentes leituras (sempre a sua própria
leitura), entendendo o público não como consumidor, mas como
receptor de informação. Nessa situação a exposição torna-se
um espaço de reflexão e diálogo com o público. No processo
os objetos expostos são transformados em documentos, ou
seja, suportes para a informação. Deslocados de seu contexto e
justapostos de modo singular evocam lembranças, exemplificam
e inspiram comportamentos, propiciam estudos e narrativas.
Segundo Adélia Borges, atuar com curadoria é “ é escolher,
é tomar conta de uma coisa e escolher, editar dentro de um
universo X, é fazer um recorte que resulte numa coisa coerente,
numa coisa que tenha um pensamento por trás e que desperte
outros pensamentos nas pessoas que entram em contato com
a proposta desenvolvida, e isso é diferente de coordenar ou
organizar” (Moura: 2010)
“As coisas assim selecionadas, reunidas e expostas ao
olhar (no sentido metafórico do termo) adquiriram novos
significados e funções, anteriormente não previstos.
Essa inflexão é uma das características marcantes do
denominado processo de musealização que, grosso modo,
é dispositivo de caráter seletivo e político, impregnado
de subjetividades, vinculado a uma intencionalidade
representacional e a um jogo de atribuição de valores
socioculturais.” (Chagas, 2003. p. 18).
BienalBrasileiradeDesign:contextohistóricoepolítico
Àluzdessasbrevesconsiderações,pode-semelhorcompreender
as implicações do contexto de realização da Bienal Brasileira de
Design de 2010, na configuração da exposição central ‘Design,
inovação e sustentabilidade’.
Emprimeirolugar,apropostadeuseqüênciaaumainiciativa
governamental, oriunda do Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, no âmbito do Programa Brasileiro
do Design, iniciada em 2005, tendo sido precedida por duas
Bienais, realizadas respectivamente em 2006, em São Paulo, e
em Brasília, em 2008. Embora a iniciativa de se organizar uma
Bienal de Design no país não fosse nova, após quase 40 anos
da instalação da primeira escola de nível superior em design
no país, mais de 15 anos de internacionalização da economia
nacional, e 10 de funcionamento do próprio Programa Brasileiro
do Design, a situação do país era bem diferente. A começar pelo
discurso do então Ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando
Furlan, por ocasião da Bienal de 2006, que associava o design
diretamente à dinâmica de mercado, atribuindo a ele papel
chave no posicionamento do país no cenário internacional,
associado à promoção da Marca Brasil:
“O design tornou-se uma das ferramentas fundamentais
na concorrência de mercado. Esse diferencial possibilita
agregar valor aos produtos, tornando-os mais atrativos e
interessantes comercialmente. O Ministério, conhecedor
desse potencial, tem estimulado o desenvolvimento de
50.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
50
ações para inserção do design nos processos produtivos
de empresas brasileiras, elevando o Brasil à condição de
centro de excelência na produção de bens e serviços.”
(Furlan, in: Bienal Brasileira de Design, catálogo. 2006 p.19)
A parceria com a organização Movimento Brasil Competitivo, da
qual participavam algumas das mais importantes empresas do
país, e que tinha à frente o presidente da empresa gaúcha Gerdau,
transferiu ao MBC a liderança na organização do evento. Esta
opção por uma instituição “âncora” ao mesmo tempo viabilizou a
realização da iniciativa em dimensões inéditas no país, e marcou
o direcionamento proposto, destacando a ligação entre design,
inovação e competitividade.
“A grande motivação deste evento fundamenta-se na
oportunidade de que a sociedade brasileira possa evoluir,
de forma objetiva e intensa, em curto tempo, no resgate
e na avaliação de sua capacidade de inovação a partir da
estética... A proposta desta I Bienal Brasileira de Design, ao
fortalecer o vínculo entre estética e inovação, nos leva a
uma reflexão sobre os desafios que esse vínculo estabelece
para a competitividade de nosso país.” (Gerdau, in: Bienal
Brasileira de Design, catálogo. 2006 p. 10)
Assim, a vinculação do design à inovação, ao
desenvolvimento do setor produtivo e à competitividade do
país, constituiu-se no fio condutor da organização desta série de
Bienais, ainda que no ano de 2010 o tema da sustentabilidade
fosse o mote principal. A fala do presidente Lula na apresentação
do catálogo da exposição demonstra claramente o propósito de
se divulgar o papel do design, junto da indústria, na ‘conquista’
do desenvolvimento sustentável.
“A realização desta Bienal Brasileira de Design 2010
Curitiba – que elegeu a sustentabilidade como seu tema
principal – reafirma algumas das características mais
promissoras do Brasil que vivemos hoje. Por um lado,
ela mostra a criatividade e a grande qualificação técnica
dos profissionais e da indústria do nosso país. Por outro,
reafirma que a Nação Brasileira não apenas detém um dos
mais importantes patrimônios ambientais do planeta,
como também é o berço de algumas das soluções mais
significativas para a conquista do desenvolvimento
sustentável no século XXI.” (Luiz Inácio Lula da Silva, In:
Bienal Brasileira de Design, catálogo. 2010 p.9)
A escolha da sede da Federação das Indústrias do Estado do
Paraná como área expositiva principal, assim como a fala do então
presidente do Conselho Superior do MBC, que continuava a liderar
a organização da Bienal em 2010, comprovam este direcionamento:
“Pesquisas têm comprovado resultados excelentes
pela utilização do design por pequenas empresas que
agregaram valor aos produtos e serviços nos aspectos
visual, funcional e ecológico. Com essa prática, abriram
novos mercados, aumentaram as vendas, lucros e
até mesmo reduziram custo de produção... O design
brasileiro tem contribuído para reforçar a marca Brasil.”
(Elcio Aníbal de Lucca, In: Bienal Brasileira de Design,
catálogo. 2010 p.15)
Assim, o “briefing” recebido pela curadoria da Bienal
de 2010, além colocar a sustentabilidade como tema central
do evento, pretendia evidenciar a vinculação do design
com a inovação, a competitividade do setor produtivo, o
desenvolvimento e a promoção da imagem do país. E o fato de
eleger a sustentabilidade, em sua vertente política, econômica
e social e, também em sua proposta de atuação, traz questões
51.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 51
implícitas à inovação, afinal deve-se buscar novas formas e
maneiras de pensar projetualmente e de produzir nessa nova
realidade.
O processo de pesquisa e seleção de produtos
A curadoria geral da Bienal foi da jornalista, escritora e crítica
de design, Adélia Borges, que também assinou a curadoria da
exposição principal Design, Inovação e Sustentabilidade e da mostra
Reinvenção da Matéria. O evento contou também com outras
exposições que tiveram curadorias de personagens significativos
do design brasileiro. E, ainda abriu espaço para o diálogo com as
questões internacionais a respeito do design com o Seminário
Internacional Innovation Labs e a exposição de design dinamarquês.
A equipe de seleção da exposição principal foi constituída
porpesquisadoreseprofissionaisdetodasasregiõesdopaís,como
forma de se evitar um foco que privilegiasse o eixo sulsudeste,
buscando um conjunto mais rico e que melhor espelhasse a
situação, assim como diferentes vocações e potencialidades do
design nacional. A opção por uma equipe de pesquisa, afinada
com o tema da exposição, também foi uma forma de filtrar e ao
mesmo tempo acolher projetos cujos autores não percebessem,
a priori, a ligação com o assunto.
Alémdisso,acuradoriatambémcontoucomacolaboração
de consultores em sustentabilidade que auxiliaram na definição
das informações a serem fornecidas pelos projetos indicados e
dos critérios de seleção, além de participarem do processo de
avaliação dos mesmos.
Para subsidiar o processo de inscrição de objetos de
interesse identificados pelos pesquisadores, foi elaborado
um formulário a ser preenchido pelos autores onde, além
de um memorial descritivo, deveria ser acrescentada uma
fundamentação capaz de vincular o objeto ao tema do evento,
combasenoconceitodeciclodevidadoproduto,enasdiretrizes
principais de sua concepção. Três aspectos principais foram
considerados: materiais (matéria-prima, fontes renováveis de
recursos, manejo sustentável); processos (técnicas produtivas,
redução das sobras, economia de energias naturais, transporte,
armazenamento, logística reversa); e atitude projetual (tempo de
uso do produto, sistemas de uso compartilhado ou temporário,
indução a atitudes ecológicas, relação humana, novos padrões
de consumo, novos valores de vida).
O conceito de “ciclo de vida” associa-se à ideia de um
ciclo físico, que pode ser entendido como a consideração de
todos os aspectos ambientais pertinentes, no conjunto de
etapas necessárias para que um produto, processo, serviço,
instalação ou sistema cumpra sua função de uso, abrangendo
todos os estágios sucessivos e encadeados para produção,
distribuição, consumo e descarte, desde a extração de recursos
naturais ou aquisição de matéria-prima ou até a sua disposição
final (Silva, s.d.; Fiksel,1997).
O conceito também é conhecido pela expressão “do
berço ao túmulo” (cradle to grave), onde o berço é o meio
ambiente de onde são extraídos os recursos naturais que serão
transformados e o túmulo é o próprio meio ambiente enquanto
destino final dos resíduos de produção e consumo que não
foram reusados ou reciclados pelos sistemas produtivos.
A proposta de utilização de um formulário baseado
no conceito de ciclo de vida tinha um duplo propósito: evitar
uma concentração de propostas focadas num único e mesmo
aspecto, que não integrassem uma abordagem de ciclo de
vida, e auxiliar o autor do projeto indicado, a fundamentar suas
características mais relevantes do ponto de vida dos aspectos
ambientais considerados e impactos minimizados. Oferecia-se a
52.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
52
ele, assim, uma oportunidade de auto-reflexão e amadurecimento
na articulação e aplicação de requisitos de sustentabilidade.
Além disso, o formulário subsidiaria o processo de seleção dos
projetos que efetivamente participariam da exposição.
Ocorreu, no entanto, que os autores dos projetos, mesmo
quando orientados pelos pesquisadores, tiveram dificuldade no
preenchimentodoformulário,deixandomuitositenssemresposta
ou com justificativa confusa, dificultando um pouco o processo
final, que exigiu, em alguns casos, pesquisa complementar dos
consultores. Esse fato também indicou o quanto o assunto
sustentabilidade é novo na prática, uma vez que embora o tema
pertença às raízes do próprio conceito de design, a inclusão e
atuação com esse tema na contemporaneidade traz um série
de dúvidas e questionamentos para os profissionais da área.
Além disso, o processo de interação dinâmico da equipe levou
a alguns ciclos de arregimentação, buscando-se um conjunto
diverso também quanto aos segmentos de design representados
(observou-se,porexemplo,quenoprimeiroconjuntodeprodutos
analisado, não havia nenhuma embalagem), e aspectos
atendidos, assim como a identificação de iniciativas que
apontassem soluções para questões ambientais emergentes
como a mobilidade, o consumo de água e energia, a utilização de
recursos da biodiversidade brasileira de forma inovadora, entre
outros. Fazia parte do briefing ainda, evitar os produtos de caráter
mais artesanal, de tal modo que se propiciasse uma reflexão, com
o conjunto apresentado, sobre o design em si, e sua articulação
com o setor produtivo, e não como uma prática dele descolada,
“alternativa”, “à margem”, evitando-se privilegiar as discussões
relativas à relação design-artesanato. Sabia-se, no entanto, que
a prática, de fato, vem tendo expressiva repercussão, sobretudo
nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do país e, portanto,
os exemplos mais evidentes deveriam ser selecionados, desde
que tivessem produção seriada, e atendessem à temática e
abordagem propostas.
O conjunto exposto
A equipe multidisciplinar que atuou no levantamento,
pesquisa e seleção dos produtos partiu do princípio que os
objetos, peças e sistemas selecionados deveriam apresentar
excelência em design, com o quesito inovação como referência
nas novas soluções, propostas e novos olhares, tendo a
sustentabilidade como a questão basilar, de grande importância
e preocupação. Nesse sentido, se buscou exemplos norteadores
onde as soluções encontradas na esfera do design pudessem
contribuir de forma significativa e inspiradora para a vida das
pessoas em sua relação com o ambiente. Porém é importante
ressaltar que nenhum dos produtos expostos era 100%
sustentável, mas apontavam soluções e traziam propostas que
atendiam a quesitos da sustentabilidade, bem como suscitavam
reflexões e a conscientização sobre a sustentabilidade nos
nossos dias, indicando caminhos para a ação projetual no
presente e em um futuro mais sustentável.
Entre as mais de 1000 inscrições recebidas, a exposição
finalreuniucercade280produtosvindosde22estadosbrasileiros
e do Distrito Federal. Os produtos selecionados foram agrupados
não por segmentos produtivos, mas por “núcleos temáticos...
explicitando conexões entre díspares que compartilhem o mesmo
propósito projetual.” (Borges, 2010. p. 53).
Os núcleos foram organizados segundo as seguintes
temáticas:
• Menos: projetos marcados pela redução
53.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 53
• Dize-me de onde vens: a questão da certificação da origem
• Prata da casa: uso de matérias-primas naturais locais
• A que será que se destina: uso de resíduos e do lixo
• Liga-desliga: projetos relacionados ao consumo de energia
• Gota a gota: projetos relacionados ao consumo de água
•Direitodeirevir:acontribuiçãododesignàquestãodamobilidade
• Vitrine: a comunicação da sustentabilidade
• Novas/velhas atitudes: como o design pode instigar e favorecer
novos comportamentos
• Originalidade: pesquisas e projetos calcados na inovação
• Para uma vida melhor: design para o convívio, a saúde, a
segurança, a alegria
•Pertencimento:projetosrelacionadosàquestãodaidentidadecultural
O núcleo temático Menos foi constituído por projetos e
produtos marcados pela redução do uso da matéria prima ou
pelo uso integral do material e dos processos empregados. A
denominação Menos foi empregada não como um reducionismo
e sim no sentido de indicar a utilização de menor quantidade de
material, redução de processos, menor consumo, estímulo ao
menos na busca do melhor. Produtos com maior durabilidade,
compactação, com possibilidades multifuncionais, utilização
de menos espaço e menos combustível no transporte. Como
exemplo, podemos citar o mancebo-estante desenvolvido por
Pedro Useche intitulado Árvore Generosa. Nele a sustentabilidade
se faz presente na economia de materiais e processos, pois em um
único painel de Pinus certificado FSC é desenvolvido o cabideiro,
que também pode ser uma estante e um cachorro de brinquedo
ou peça decorativa, resultando na redução do uso de material e na
redução de matéria prima, bem como em poucas sobras. O nome
da peça faz referência à literatura infantil (“A Árvore Generosa” de
Shel Silverstein, editora Cosacnaify, 12ª edição).
Exemplo de Produto do
Núcleo Menos, BBD, 2010.
Cartaz informativo do
produto Árvore Generosa.
Designer: Pedro Useche, SP.
Fabricante: Taeda, 2010.
Outro exemplo
do núcleo Menos são
ospainéisdetecidode
Renata Meirelles, cuja
concepção plástica e
gráfica diferenciada, é
realizada por meio do
emprego da técnica
de corte a laser e da
costura termoadesiva.
Os tecidos são
elaborados em
diversaspossibilidades
de composição de
camadas, resultando
em diferentes texturas e níveis de transparência ou opacidade,
além do que, geram movimento devido à leveza do material.
Os resultados são destinados a painéis, divisórias, cortinas,
xales. Não há sobras nem descarte, uma vez que o negativo dos
recortes é utilizado para a confecção de colares, flores, cintos.
Essa designer afirma que integra o artístico e o sustentável,
valoriza e desafia os limites da técnica, altera o suporte, trabalha
com diferentes dimensões onde os tecidos podem sair do corpo
e ir para o espaço, ou vice-e-versa.
54.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
54
Exemplo de Produto do Núcleo Menos, BBD, 2010.
Produtos: painel, colar, xales, tecidos, pulseiras| Designer: Renata Meirelles|
Produção: Performa| Fotos: Marie Ange Unbekandt
Dize-me de Onde Vens foi o núcleo destinado a reunir os
produtos com certificação de origem, indicando a procedência e a
origem das coisas, de como são feitas e atestadas por instituições
com selos que informam sobre os materiais e processos
empregados, propiciando uma religação com a origem daquilo
que se utiliza e se consome. Dessa forma, auxiliam e possibilitam
a atitude da conscientização ambiental. Como exemplo, temos o selo
verdeFSCquecertificaosprodutosdeorigemmadeireiraetambém
papéis que utilizam essa madeira e presentes em embalagens.
O núcleo Prata da Casa destaca o Brasil como o país da
biodiversidade e aponta a forma de lidar com os materiais de
origem brasileira, tais como a diversidade dos tipos e cores das
madeiras, a utilização das fibras vegetais, das pedras e do bambu.
Exemplos de Produtos do Núcleo Prata da Casa, BBD, 2010. Banheira de Pedra
Sabão. Mesas em Madeira com marchetaria. Poltrona em Fibra de Bananeira.
Fotos de Diego Pisante | Agência Clix.
Exemplos de Produtos do Núcleo
Dize-me de Onde Vens, BBD,
2010. Selo de Certificação FSC.
Caderias em madeira certificada.
Embalagens com papel
proveniente de
madeira certificada. Fotos de
Diego Pisante| Agência Clix.
55.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 55
A Que Será Que Se Destina discute e apresenta o lixo e
o descarte como um grande recurso de expansão a partir da
reutilização. O poder da transformação aqui torna-se presente a
partir de soluções de design. Sacolas plásticas de lixo e madeiras
oriundas de demolição viram móveis, objetos e jóias. Sacos
de papel utilizados para embalar cimento transformam-se em
tijolos destinados a construção civil. Fios de PET geram tapetes e
sobras de matérias primas provenientes de confecções assumem
nova proposta em tecidos e peças obtidas da colagem de fios
e resíduos. Materiais de papelaria, cartões, folders, calendários
também são obtidos a partir da reutilização de embalagens e
de outros produtos gráficos e de papel.
Exemplos de Produtos
do Núcleo Prata da
Casa, BBD, 2010.
Luminárias de Palha
de Trigo. Cadeira em
Bambu. Bolsa em Fibra
Licuri. Fotos de Diego
Pisante| Agência Clix.
Exemplos de Produtos
do Núcleo Prata da
Casa, BBD, 2010. Bolsa
de Couro de Peixe.
Sandálias de Junco.
Pulseira em Capim
Dourado. Fotos de Diego
Pisante | Agência Clix.
Exemplos de Produtos
do Núcleo A Que Será
Que Se Destina, BBD,
2010. Poltrona de
Sacolas Plásticas de
Lixo. Bancos de Madeira
de Demolição. Tijolos de
Embalagens de
Cimento. Fotos de Diego
Pisante| Agência Clix.
56.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
56
Exemplos de Produtos do Núcleo A Que Será Que Se Destina, BBD, 2010. Produtos
provenientes de PETs: TaPET Broinha e Favo| Design: Claudia Araujo|Produção:
Alves Araujo Têxtil| Fotos: Roberto Setton
Exemplos de Produtos do Núcleo A Que Será Que Se Destina, BBD, 2010.
Cartões de Visita obtidos a partir da reciclagem de embalagens. Folders,
catálogos, calendários e pastas obtidos a partir da reutilização de materiais e
produtos gráficos. Fotos de Mônica Moura.
Exemplos de Produtos do Núcleo A Que Será Que Se
Destina, BBD, 2010. Produtos provenientes do descarte
das indústrias têxteis e de confecção: tecido, roupas,
carteiras| Design e Produção: Studio Surface (Anne e
Evelise Anicet)|Fotos: Denise Andrade e Juan Guerra
O núcleo Liga-Desliga trata da economia de energia em
suas diversas possibilidades: redução do consumo, formas
alternativas de energia, tais como a energia solar e eólica, o
uso de equipamentos que auxiliam no menor consumo e maior
desempenho, o uso de objetos a corda e formas alternativas
como a luz de velas associada à eletricidade.
Exemplos de Produtos do Núcleo Liga
Desliga, BBD, 2010. LED. Brinquedos a
corda. Luminárias que mesclam energia
elétrica e luz e velas. Fotos de Diego
Pisante | Agência Clix.
57.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 57
Gota a Gota é o núcleo que apresenta soluções para economia
e redução do uso de água, tais como torneiras com reguladores e
fechamentosautomáticosparausoresidencialoucoletivo,equipamentos
que propiciam formas de lavagem mais eficientes, máquinas de lavar
que reutilizam água no processo de lavagem.
Exemplos de Produtos do Núcleo Liga Desliga, BBD, 2010. Torneira com fechamento
automático. Lavadora de alta pressão. Lavadora de roupas com processo de reutilização
de água. Fotos de Diego Pisante| Agência Clix.
O Direito de Ir e Vir é o núcleo que tratou as questões da
mobilidade, do transporte apresentando veículos e sistemas
em soluções conceituais ou reais aplicadas para a melhoria dos
deslocamentos e a sustentabilidade presente nesses aspectos.
Veículos que utilizam em seu desenvolvimento materiais e tecnologias
recicladas, projetos conceituais de carros compartilhados, táxi-
bicicleta, patinetes, bicicletas elétricas destinadas a serviços de
socorro automobilístico que geram economia de combustível e de
tempo e facilitam os deslocamentos e a mobilidade.
Exemplos de Produtos do Núcleo O direito de Ir e Vir, BBD, 2010. Fiat Uno Concept. Patinete
Motorizado. Bicicleta Elétrica para Socorro a Automóveis. Fotos de Diego Pisante| Agência Clix.
Vitrineéonúcleoquetrataacomunicaçãodasustentabilidade.
O design gráfico aqui é fundamental para a transmissão de valores
e o incentivo para a mudança de atitudes e a conscientização
sobre os sistemas empregados. Embalagens, superfícies em geral,
sistemas produto-usuário, tabelas ambientais atestam a origem
dos produtos, catálogos destacam-se com suas proposições que
valorizam, incentivam e esclarecem as questões da sustentabilidade.
Exemplos de Produtos do Núcleo Vitrine, BBD, 2010. Catálogo MTV que emprega
materiais reciclados provenientes de descarte e lixo na tipografia e ilustrações. Fotos
de Diego Pisante| Agência Clix.
58.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
58
Exemplos de Produtos do Núcleo Vitrine, BBD, 2010. Produto que utiliza a
fotografia da natureza para o desenvolvimento de padronagens e estampas:
Bermuda | Design: Fazenda de Imagens e Eco-Lógica Artes, Carlos Simas
|Produção: Azulay e Cia Blue Man
Novas Velhas/ Atitudes é o núcleo que propõe a discussão
e a reflexão sobre o que está além dos processos limpos e
renováveis, pois explora os aspectos basilares referentes a
mudanças de comportamento e de atitudes com relação ao
mundo que nos rodeia e ao ambiente no qual vivemos. Nesse
sentido, esse núcleo atua no resgate e na preservação dos
comportamentos e ações que já desenvolvemos, mesmo antes
da conscientização ambiental, tal como a reciclagem. A questão
primordial é, por meio do design, gerar novos tipos de relações
entre as pessoas, as pessoas e os objetos, os objetos e o meio.
São novas atitudes promulgadas em grande parte do mundo,
mas que já desenvolvíamos e não dávamos a devida importância,
por esse motivo aqui chamadas de velhas atitudes. Nesse núcleo
são enfocadas e exemplificadas práticas e soluções para os
problemas que enfrentamos no cotidiano, tais como substitutos
para as sacolas plásticas de supermercados, suportes para
jardins verticais a partir de fibras de côco, pisos permeáveis que
colaboram com o micro-clima das regiões, embalagens únicas
de consumo/transporte.
Exemplos de Produtos do Núcleo Novas/Velhas Atitudes, BBD, 2010. Cesta para
transporte de compras de supermercado. Embalagem com pega para facilitação
do transporte. Pisos permeáveis. Fotos de Diego Pisante| Agência Clix.
O núcleo Originalidade apresenta soluções e produtos
de design onde a inovação e a diferenciação são os aspectos
de maior importância. Há que se destacar que não é inovação
no sentido da novidade e sim no processo de transformação de
Exemplos de
Produtos do
Núcleo Novas/
Velhas Atitudes,
BBD, 2010.
Casulos de fibra
de côco para
jardins verticais.
Foto de Mônica
Moura.
59.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 59
recursos em soluções adequadas e simples que envolvem desde
o uso dos materiais e matérias primas. Matérias como espuma
de soja, plástico de amido de batata biodegradável.
Exemplos de Produtos do Núcleo Originalidade, BBD, 2010. Sofá com espuma
de soja. Cestas com plástico de batata. Fotos de Diego Pisante| Agência Clix.
Para uma Vida Melhor é um núcleo que apresenta o emprego
das questões sociais no e do design. Aqui enfoca-se o sentido
da colaboração para a ecologia humana, onde objetos, produtos,
serviços devem promover uma melhor relação entre as pessoas,
com trocas positivas, a promoção de cooperativas, mais saúde,
maior conforto, a aplicação do design universal e o destaque
aos produtos que ajudam a usufruir melhor a vida. São exemplos
produtos como: berço portátil desmontável, tampas de frascos e
garrafas que evitam acidentes domésticos, mobiliário escolar para
crianças com paralisia cerebral, entre outros.
Exemplos de Produtos do Núcleo Para uma Vida Melhor, BBD, 2010. Tampas de garrafa
e frascos com sistema de proteção. Fotos de Diego Pisante| Agência Clix.
O núcleo Pertencimento atua nas questões da
sustentabilidade sob as esferas ambiental, econômica, social e de
identidade. Aqui o local, a história, as ações relacionadas ao lugar
e aos objetos da cultura material aludem às questões do design
e território, ao global, ao local e à identidade. Exemplos são os
azulejos com aspectos e referências às cidades e locais onde são
desenvolvidos, calçados, produtos para casa, colares que remetem,
por meio desuas formas, cores e padrões às questões do resgate
da memória e auxiliam a constituir a identidade cultural.
Exemplos de Produtos do Núcleo Para
uma Vida Melhor, BBD, 2010. Berço
Desmontável. Mobiliário Escolar para
crianças com paralisia cerebral. Fotos
de Diego Pisante| Agência Clix.
Exemplos de Produtos do Núcleo
Pertencimento, BBD, 2010. Azulejos
que remetem a cultura local de
Minas Gerais. Alpercatas/Alpargatas.
Sandálias Artesanais de Pernambuco
em couro de bode releitura das
sandálias sertanejas. Fotos de Diego
Pisante| Agência Clix.
60.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
60
Exemplos de Produtos do Núcleo Pertencimento, BBD, 2010. Colares que
remetem às colchas de retalho. Foto de Diego Pisante| Agência Clix. Painéis,
Jogo Americano, Trilho de Mesa| Design e Produção: Claudia Azeredo
Considerações Finais
A Bienal Brasileira de Design na edição de 2010 ficará
marcada de forma muito positiva e significativa, especialmente
pela proposta central focada na temática da sustentabilidade.
Foi a primeira bienal de design no país a eleger esse tema
e, dessa forma, colaborou para o mapeamento da produção
nacional no aspecto da sustentabilidade, questão central na
esfera do design, mas que no decorrer do tempo e perante
a dinâmica da industrialização e da sociedade capitalista de
consumo foi, aos poucos, esquecida. Agora é retomada em toda
a sua força, porém o assunto é rico, intenso e complexo o que
gera a necessidade de pensar, refletir e analisar os aspectos, as
peculiaridades, as propostas que são desenvolvidas no presente
formando bases fundamentais para pensar e produzir no futuro.
Esses motivos nos levam a acreditar e inferir que essa
edição da bienal constitui-se em referência fundamental para
todos os que convivem com o campo do design. Reuniu a história,
a produção contemporânea e propôs reflexões sobre o ser
humano e suas relações com os objetos, a cidade e o ambiente.
Referências fundamentais para todos os que convivem com o
campo do design brasileiro e preocupam-se com o ser humano
e o meio ambiente. Dessa forma, essa edição da bienal de design
contribuiu com todos aqueles que pesquisam, produzem e,
também, para com aqueles que se preparam para assumir uma
profissão de forma consciente e sustentável.
Exemplos de Produtos do Núcleo Pertencimento, BBD, 2010. Produtos: Tecidos
e almofadas que remetem a capital de São Paulo | Design, Produção e Fotos:
Julia Fraia
61.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 61
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organização Movimento Brasil Competitivo. São Paulo: Arte3, 2006.
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VERLADE, Giles. Designing exhibitions: the principles and
process of contemporary show space design. New York: Whitney
Library of Design, 1989.
62.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
62
Mesa de centro em bambu laminado colado e fibra
de coco
Bruno Perazelli Farias Ramos - UNESP - Faculdade de Arquitetura, Artes
e Comunicação
bperazzelli@hotmail.com
Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira - UNESP - Bauru
pereira@feb.unesp.br
Ivaldo D. Valarelli - UNESP - Bauru
ivaldo@feb.unesp.br
Resumo:
A fabricação de produtos sustentáveis exige a busca e pesquisa
por novas matérias-primas que venham a contribuir com o ideal
de um planeta sustentável aliado a um design belo e funcional,
e nesta busca por novos materiais, encontramos no bambu uma
ótima alternativa ao consumo de madeira nativa e a devastação
das florestas brasileiras. Com o intuito de demonstrar a viabilidade
da utilização do bambu como matéria-prima para a construção
de mobiliário, foi desenvolvido e confeccionado um protótipo
de mesa de centro feito com Bambu Laminado Colado (espécie
DendrocalamusgiganteuscultivadanocampusdaUNESPdeBauru)
e placas de aglomerado compostas de fibra de coco e resíduos do
processamento do próprio bambu laminado. Com desenho simples
e minimalista, a mesa ressalta a textura natural dos materiais
utilizados e comprova a possibilidade de desenvolvimento de
móveis resistentes e sustentáveis com materiais “ecologicamente
corretos”, porém pouco utilizados comercialmente no Brasil.
Palavras-chave: design, bambu laminado colado, fibra de
coco, mobiliário, sustentabilidade
63.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 63
Introdução
O ideal de um planeta sustentável tem sido o foco de
muitas pessoas e empresas por todo o mundo, que buscam
trabalhar com sistemas produtivos mais limpos e desenvolver
produtos sustentáveis, cujo ciclo de vida não prejudique o meio
ambiente ou gere demasiados resíduos que não possam ser
reaproveitados. Segundo PAPANEK (1995), o designer preocupa-
se com o desenvolvimento de produtos e esta atividade exerce
uma influência profunda e direta sobre a ecologia. E exatamente
por isso foi criado o Ecodesign, pois este permite desenvolver
um produto tendo em vista não somente sua forma e função,
mas também, renovar os processos de produção e os hábitos
comportamentais, visando uma maior sustentabilidade ambiental
(BARBERO & COZZO, 2009).
O estilo de produção ecologicamente correta, e
consequentemente de produtos gerados, demanda a constante
busca por novas matérias-primas que venham a satisfazer
os critérios do design sustentável. Com esse intuito, foram
utilizadas duas matérias-primas distintas e relativamente
pouco utilizadas comercialmente no Brasil, com o objetivo de
desenvolver um protótipo de mesa de centro que aliasse a
beleza de seus materiais a formas simples e lineares, criando
um conjunto harmônico e de poucos elementos.
Um dos materiais utilizados foi o bambu, na forma de
Bambu Laminado Colado (BLaC). Uma planta pouco explorada
comercialmente no Brasil, o bambu, é considerado um recurso
sustentável e renovável, graças à alta capacidade de geração
anual de novos brotos, promoção de ciclagem de nutrientes e
rápido crescimento dos colmos (GRECO, 2011).
Existem cerca de 1300 espécies de bambu espalhadas
pelo planeta. Segundo o International Network of Bamboo
and Rattan (INBAR, 1994), a espécie de bambu Dendrocalamus
giganteus é uma das 19 espécies recomendadas para introdução e
experimentação, pois esta espécie apresenta grande potencial de
utilização na indústria de laminado colado, graças a características
como o diâmetro de seus colmos e a espessura de sua parede.
Conforme JANSSEN (1988), as propriedades estruturais
do bambu, tomadas pelas relações resistência/massa específica
e rigidez/massa específica, superam as da madeira e do
concreto, podendo ser comparada às do aço, além disso, por se
tratar de uma planta tropical, perene, renovável e que produz
colmos anualmente sem a necessidade de replantio, o bambu
mostra grande potencial agrícola (PEREIRA & BERALDO, 2008).
O segundo material utilizado foi o coco, mais especificamente
suas fibras extraídas de sua casca fibrosa, formada pelo
endocarpo e o epicarpo do fruto. Assim como o bambu, o
coqueiro apresenta-se como planta extremamente útil e
versátil, da qual pode-se aproveitar todas as suas partes: raiz,
caule, folha, inflorescência e fruto, que são utilizadas como
alimento, em artesanato, para fins agroindustriais, medicinais,
biotecnológicos e ornamentais (SURIANI, 2007).
De acordo com SURIANI (2007), da casca retirada do
coco se extraem fibras de diversos comprimentos e diâmetros,
que apresentam coloração natural marrom-claro a escuro ou
marrom avermelhado, e sua superfície permite boa tingibilidade,
contudo, com cores que ofereçam boa cobertura. Comparada a
outras fibras vegetais, a fibra de coco, apresenta teor mediano de
celulose, responsável pela estabilidade e resistência das fibras,
entretanto contêm grandes quantidades de lignina, responsável
pela flexibilidade, assim como ela apresenta ótima resistência a
ação da água e a degradação por microorganismos.
Por todos esses fatores, a fibra de coco exibe grande
aproveitamento em diversas áreas, como na produção de
cordas, esteiras, escovas e vassouras, assim como para
combustível de caldeiras, substrato agrícola e matéria-prima
para móveis e estofados, entre inúmeros outros. Sendo reciclável,
biodegradável e oriundo de fontes renováveis, a fibra de coco
certamente é mais uma aliada rumo a sustentabilidade.
64.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
64
Objetivo
Desenvolver e confeccionar um protótipo de mesa de centro em
bambu laminado colado e fibra de coco.
Metodologia
Espécie de bambu
Foram utilizados colmos de bambu maduros (4 anos), secos
e imunizados, da espécie Dendrocalamus giganteus provenientes
da coleção existente no campus da UNESP de Bauru.
A Figura 1 mostra moitas desta espécie no campus da Unesp.
Figura 1. Moita de bambu gigante (Dendrocalamus giganteus).
Fibra de coco
A Figura 2 mostra o material fibra de coco utilizado.
Figura 2. Material fibra de coco.
Desenvolvimento do produto
Criação do protótipo
Será desenvolvido um protótipo de mesa de centro
aliando as texturas dos materiais utilizados, com um desenho
simples de linhas retas e formas minimalistas, como mostra a
Figura 3 com a modelagem virtual do protótipo a ser produzido.
Processamento do bambu
Para a obtenção das laminas de bambu, que
posteriormente serão coladas para se formar o BLaC, uma
série de processos são necessários, como: colheita dos colmos
adultos; corte transversal; corte longitudinal; imunização e
secagem; separação das ripas manualmente; retirada dos nós
e diafragmas e esquadrejamento das ripas, como mostrado em
PEREIRA & BERALDO (2008).
Confecção do BLaC
Após o processamento do bambu in-natura para a obtenção das
laminas, foi iniciado a confecção das peças de BLaC, de acordo
Figura 3.
Modelagem
virtual da
mesa.
65.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 65
com as necessidades do protótipo. Para o produto desenvolvido,
dois tipos diferentes de colagens foram necessários: a colagem
de topo e a face-face. Cada um dos dois tipos de colagem foi
escolhido dependendo de onde a peça gerada seria utilizada, da
quantidade de força que seria aplicada sobre a mesma, o peso final
do produto e também se pensando no menor desperdício possível
de matéria-prima. A Figura 4 mostra as colagens efetuadas.
Placas de aglomerado
Serão confeccionadas placas de aglomerado com fibra de coco e
resíduos de bambu provenientes do processamento dos colmos,
para utilização na confecção do protótipo.
Resultados
Placas de aglomerado
A Figura 6 mostra as chapas aglomeradas de fibra de
coco e resíduos de processamento do bambu confeccionadas
e que serão utilizadas no protótipo.
Tendo todas as peças de BLaC e as placas de aglomerado de fibra de
coconecessáriasparaaconstruçãodamesadecentro,opróximopasso
foi a utilização de técnicas de marcenaria para o desenvolvimento
das peças que compõe a mesa e dos vários encaixes usados para sua
montagem (Figura 7).
Figura 7. Encaixes realizados nas peças.
Após o acabamento, um vidro foi disposto sobre a parte central
do tampo, sobre as placas de fibra de coco, deixando uma
superfície lisa, de toque mais agradável e mais fácil limpeza,
ao mesmo tempo em que protege o aglomerado e fornece
um produto mais refinado. Na Figura 8, temos o protótipo
finalizado, com acabamento e adição do vidro.
Figura 4.
Colagens
das ripas.
AFigura5mostraas
peças de BLaC que
foram produzidas
para a confecção
da mesa.
Figura 5. Peças
necessárias para a
confecção do protótipo.
Figura 6.
Placa de
aglomerado
de fibra de
coco com
bambu
finalizadas.
66.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
66
Figura 8. Protótipo finalizado.
Conclusões
Com o desenvolvimento do presente trabalho, foi possível
verificar que para o desenvolvimento de um produto sustentável,
neste caso um móvel, é necessário o esforço de pesquisa e
experimentação que abrange todo o ciclo de vida do produto, para
que desta maneira, seja desenvolvida uma cadeia produtiva que não
agrida o meio ambiente e que gere produtos duráveis e de qualidade.
O uso do BLaC no desenvolvimento do protótipo foi bem
sucedido, comprovando sua viabilidade como material renovável
para construção de móveis, e gerando uma nova alternativa
ao consumo e destruição de nossas florestas nativas. Também
podemos destacar a beleza diferenciada que o bambu apresenta,
e sua utilização na forma de bambu laminado como uma novidade
que só tem a agregar valor ao produto final.
Assim como o BLaC, as placas de aglomerado de fibra de
coco com bambu também responderam de forma positiva a todas
as expectativas, criando peças resistentes, de fácil produção e com
baixíssima geração resíduos, além de resultar em peças com belas
texturas, que podem variar somente modificando-se a porcentagem
dos materiais utilizados em sua fabricação, além da possibilidade de
se usar tintas de diversas cores em seu acabamento.
A combinação do aglomerado de fibra de coco com as
placas de BLaC criou um móvel de beleza diferenciada e de uso
promissor em movelaria, já que os dois materiais tiveram suas
texturas e cores ressaltadas graças ao contraste formado entre
elas. As formas retas e minimalistas da mesa permitem sua fácil
execução, sem necessidade de cortes por demais complexos
ou encaixes muito refinados, garantindo rápida produção e
facilitando o acabamento.
Referências
BARBERO, S.; COZZO B. 2009. Ecodesign. Königswinter: H. F.
Ullman.
GRECO, T. M.; CROMBERG, M. 2011. Bambu: cultivo e manejo.
Florianópolis: Editora Insular.
INBAR 1994. Priority species of bamboo and rattan. New Delhi,
India: INBAR – IDRC.
JANSSEN, Jules J. A. 1988. Building with bamboo. London:
Intermediate Technology Publications.
PAPANEK, Victor. 1995. Arquitetura e design: ecologia e ética.
Lisboa: Edições 70.
PEREIRA, M. A. dos R. & BERALDO, A. L. 2008. Bambu de corpo
e alma. Bauru: Canal 6.
SURIANI, L. 2007. Aplicação de fibra de coco na confecção de
móveis. Dissertação de graduação, Departamento Acadêmico
de Desenho Industrial. Universidade Tecnológica Federal do
Paraná - Curitiba.
67.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 67
Design Sustentável com o Bambu
Camila Kiyomi Gondo - UNESP- Bauru
camilagondo@gmail.com
Prof. Dr. Marco Antonio dos Reis Pereira - UNESP - Bauru
pereira@feb.unesp.br
Resumo:
Perene, renovável, com rápido crescimento, produção anual
de colmos sem a necessidade de replantio e com milhares de
aplicações, o bambu é considerado um excelente seqüestrador
de carbono atmosférico podendo se tornar uma alternativa ao
consumo de madeira nativa e a devastação das nossas florestas.
Este trabalho visa a confecção de produtos em bambu para a
geração de renda junto a comunidade do assentamento rural
Horto de Aimorés em continuidade a projeto de extensão em
desenvolvimento na <OMITIDO PARA REVISÃO CEGA> desde
o ano 2008. O projeto prevê a confecção de produtos in
natura e em bambu laminado colado (BLaC) e a transferência
de informações e da tecnologia desenvolvida com bambu
para a geração de renda solidaria junto a comunidade. Foram
desenvolvidas placas de BLaC com texturas diversas, envolvendo
o tingimento, a carbonização e o estudo de formas. As placas
confeccionadas têm utilização em revestimentos, componentes
de mobiliário e utensílios domésticos.
Palavras-chave: Ecodesign, bambu, desenvolvimento de
produtos, geração de renda, sustentabilidade
68.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
68
Introdução
O desenvolvimento sustentável entende-se como o melhor
equilíbrio entre a preservação ambiental, desenvolvimento
econômico e social com a intenção de promover a melhoria
no padrão de vida como um todo e ao mesmo tempo garantir
condições necessárias para gerações futuras. Porém, atualmente o
ambiente e a população sofrem problemas devido ao crescimento
econômico vigente. Assim, a busca por materiais e fontes
energéticas renováveis tem se tornado uma prioridade mundial.
Segundo Holmberg (1995, apud MANZINI e VEZZOLI,
2008) a sustentabilidade ambiental é um objetivo a ser atingido,
ou seja, nem tudo que apresentar algumas melhorias em temas
ambientais pode ser considerado realmente sustentável. Para ser
sustentável cada nova proposta apresentada deve responder aos
seguintes requisitos gerais:
• Basear-se fundamentalmente em recursos renováveis
(garantindo ao mesmo tempo a renovação)
• Otimizar o emprego dos recursos renováveis (garantindo ao
mesmo tempo a renovação)
• Não acumular lixo que o ecossistema não seja capaz de
renaturalizar (isto é, fazer retornar as substancias minerais originais
e, não menos importante, as suas concentrações originais);
Agir de modo com que cada indivíduo e cada comunidade
das sociedades mais favorecidas permaneçam nos limites de
seu espaço ambiental e, que cada indivíduo e comunidade das
sociedades menos favorecidas possam efetivamente aproveitar
o espaço ambiental ao qual potencialmente têm direito.
As pesquisas desenvolvidas atualmente podem ser
divididas em dois grandes grupos: o “grupo tecnicista”o qual
acredita que a ciência e a tecnologia levarão a sociedade as
soluções dos problemas ambientais e, por outro lado, o “grupo
social”, o qual acredita que somente uma radical mudança no
modo de vida da sociedade, levara as reais soluções.
Dentro deste contexto, o design sustentável, surge como
uma proposta conciliadora para ambos, buscando tanto um
equilíbrio entre as tecnologias como nas crenças da sociedade
contemporânea. Objetivando uma alternativa de fixação de uma
nova ética projetual, com a possibilidade de desenvolver outro
sistema de significação que objetive o real desenvolvimento e
bem estar do cidadão do futuro e não apenas como mais um
instrumento de persuasão ao consumo excessivo. (AMARAL, 2004)
Racionalidades sociais e ecológicas estão profundamente
relacionadas ao design, pois sendo este elo entre os princípios
técnico-cientificos e artísticos (HAMAD, 2002) e sendo o
homem o principal trans formador do meio ambiente, torna
assim impossível o discurso sobre o processo produtivo e seus
impactos ambientais, sem discutir também o design. Alem
disso, design não esta ligado exclusivamente a relação estético/
formal dos objetos, mas atua tambem com as potencialidades
da pratica de vida e de uma comunidade, ou seja, seus hábitos e
formas de relações com o ambienta em que vive. Enfim, design
como processo de criação de novas realidades, que interferem
diretamente no modo de vida cotidiana criando assim, segundo
a teoria de Peirce (1939-1914 apud SILVEIRA, 2005) uma semiose
de novas estéticas, éticas e lógicas, ou seja, novos hábitos e
crenças coletivas.
Contudo, a inclusão da variável ambiental no design de
produtos, obriga o setor produtivo adotar novas metodologias,
ferramentas e materiais que colaborem com a inserção
ambiental em suas atividades. (BITTENCOURT,2001)
Considerando os crescimentos demográficos previstos
e tendo como hipótese que é normal a população dos países
hoje em desenvolvimento procurar um aumento do bem-estar,
69.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 69
a necessidade pela eco eficiência das tecnologias aplicadas ao
meio de produção se sobressai, e neste item temos um resultado
interessante, a condição de sustentabilidade a ser atingida só
seria possível se aumentada em pelo menos dez vezes. Em outras
palavras, podemos considerar sustentáveis somente aqueles
sistemas produtivos e de consumo cujo emprego de recursos
ambientais por unidade de serviço prestado seja, pelo menos, 90%
inferior ao atualmente aplicado nas sociedades industrialmente
mais avançadas. (1993 e 1995, apud MANZINI e VEZZOLI, 2008).
Comocrescentedesmatamentodasflorestastropicais,bem
como sobre as áreas de reflorestamento, torna-se cada vez mais
necessária a busca por materiais renováveis e soluções alternativas
capazes de atenuar este processo. A cultura do bambu, embora
seja milenar em nosso planeta, tem sua utilização e pesquisa, em
sua maioria, restritos aos países orientais, sendo que ultimamente
no ocidente, uma maior atenção vem sendo dedicada a esta
cultura. O bambu é uma cultura predominantemente tropical,
renovável, perene, de produção anual, de rápido crescimento,
com centenas de espécies espalhadas por todo o planeta e
com milhares de aplicações além de ser considerado um rápido
seqüestrador de carbono atmosférico.
De acordo com Manzini e Vezzoli (2008) o efeito estufa é
constituído 50% pelo gás carbônico e o restante determinado por
outros gases. O tempo de absorção da atmosfera para estes gases
superam o século. Do gás carbônico, 80% provêm dos processos de
obtenção de energia (petróleo e carvão), 17% através das produções
das indústrias e os 3% restantes de desmatamentos florestais.
Analisando estes dados entende-se a significativa
contribuição que o cultivo do bambu pode exercer na atual
realidade. Além de seu caráter ecológico o bambu possui,
ainda, características físicas e mecânicas que o tornam apto a
ser utilizado no desenvolvimento de produtos normalmente
produzidos com madeira nativa ou de reflorestamento.
Embora não se pense no bambu como uma solução exclusiva para
os problemas relacionados ao meio ambiente e/ou a diminuição
acentuada de nossos recursos florestais, ele pode ser considerado
e estudado como uma alternativa ou um material alternativo e
de baixo custo a ser explorado. A produção de colmos é rápida,
sem a necessidade de replantio, podendo ser imediatamente
implementada sua cultura e exploração no campo.
O bambu como matéria-prima possui inúmeras
vantagens ambientais e é amplamente utilizado para confecção
dos mais variados produtos como forma alternativa na geração
de trabalho e renda, justamente pela facilidade de aquisição,
manejo e processamento. Destaca-se ainda por apresentar uma
alternativa aos problemas enfrentados pelos setores florestais
nacionais com o déficit de madeira de reflorestamento.
Tropical, perene, renovável, o bambu é o recurso natural
que menos tempo leva para ser renovado, não havendo
nenhuma espécie florestal que possa competir em velocidade
de crescimento e aproveitamento por área. (JARAMILLO,
1992) Possui grande potencial agrícola por ser uma cultura
tropical, perene, renovável e produzir colmos anualmente sem
a necessidade de replantio, é um excelente seqüestrador de
carbono, podendo ser utilizado em reflorestamentos, mata
ciliar e como protetor e regenerador ambiental, além de poder
ser empregado como matéria-prima em diversas aplicações.
(PEREIRA e BERALDO, 2008)
Os aumentos da escassez e da valorização dos produtos
florestais madeireiros contribuem para que sejam direcionadas
pesquisas visando o uso do bambu em diversas aplicações
visto que respeita vários quesitos de sustentabilidade.
70.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
70
Objetivos
•Promover o desenvolvimento sustentável através de ações
de ecodesign.
• Desenvolver e confeccionar placas de revestimento com bambu
laminado colado (BLaC)
Metodologia
Espécie de bambu
Aespécieaserutilizadaéobambugigante(Dendrocalamus
Giganteus) existente em plantio experimental na <OMITIDO
PARA REVISÃO CEGA>. A Figura 1 mostra uma moita de bambu
gigante existente na <OMITIDO PARA REVISÃO CEGA>.
seguintes etapas são necessárias para a confecção de placas em
BLaC ( Pereira & Beraldo. 2008):
• Colheita: Os bambus são retirados da Área agrícola existente
na <OMITIDO PARA REVISÃO CEGA>. São colhidos apenas
bambus com acima de 5 anos de idade por possuir características
mecânicas e físicas ideais para a produção de BLaC.
• Transporte
• Desdobro em serra circular destopadeira: Corte em sentido
transversal dos colmos em 90 centímetros.
• Desdobro em serra circular refilandeira dupla: Corte em
sentido longitudinal para obtenção de ripas ainda com casca.
• Tratamento: Os colmos são mergulhados durante 15 minutos
em solução de Octaborato.
• Secagem: Após o tratamento são depositados no túnel de
vento ate atingirem a tava de umidade de 20%.
• Remoção dos nós internos e externos das ripas na serra circular.
• Beneficiamento final em Plaina de 2 faces para a obtenção das ripas
• Colagem lateral: A cola utilizada neste projeto é uma cola
de madeira com catalisador (Casco-rez 2590 / Catalisador CL).
O tempo de cura da cola é de quatro horas, porém este valor
pode variar de acordo com o clima.
• Prensagem: Esta é a etapa final e tem como objetivo conter
as ripas em suas devidas posições durante a cura da cola. Neste
projeto utilizou-se a prensa manual.
Placas de Revestimento
As placas em BLaC tem a função de base das placas de
revestimentos finais a serem obtidas.
Figura 1. Moita
de bambu
da espécie
Dendrocalamus
Giganteus
Confecção de placas em BLaC
De acordo com a experiência
préviaexistenteno<OMITIDO
PARA REVISÃO CEGA>, as
O revestimento será feito
através do corte de ripas em
seções de 25 x25 mm como
mostra a Figura 2.
Figura 2. Peças de bambu após corte
na serra de fita.
71.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 71
Serão confeccionadas três placas de revestimento, todas
utilizando uma placa de BLaC como base e quadrados de bambu.
1. Peças de bambu natural, dispostos intercaladamente na
placa de base formando textura.
2.Peçastingidascomtingidorvinhodispostasintercaladamente
formando textura.
3. Peças carbonizadas e peças de bambu natural e dispostas
intercaladamente.
Primeiro serão cortados os bambus em quadrados de
25mm X 25mm na serra de fita obtendo assim um padrão. Após
o corte, as peças serão lixadas utilizando se três gradações
diferentes lixa numero 80, 200 e 400, e em seguida são coladas na
placa de BLaC . Uma vez seca, será passada a massa de madeira
para cobrir o espaço entre os quadrados de bambu.
Resultados
Após a realização do corte das ripas de bambu e o
lixamento, as peças foram dispostas intercaladamente de forma
que as fibras ficassem no sentido horizontal e vertical e coladas
na base de BLaC, como mostra a figura 3.
Figura 3: Disposição e colagem das peças na base
Após a espera da secagem da cola, foi realizada o rejunte entre as
peças para obter a face lisa e uniforme, como mostra a figura 4.
Figura 4: Rejunte com massa de madeira
Com a massa seca, a placa passou pela desempenadeira,
obtendo-se uma superfície lisa e homogênea. Em todas as placas
foram passadas uma camada de seladora e uma de verniz.
Para o acabamento da placa 2, utilizou-se tingidor vinho , como
mostra a figura 5.
Figura 5: Rejunte com massa de madeira
72.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
72
Peças finais
Nas figuras 7, 8 e 9, observa-se as peças finais.
Figura 7: Placa 1 Figura 8: Placa 2
texturas, agregando valor nos produtos produzidos em bambu.
A confecção das placas provou que diante dos processos
necessários para transformação, das possibilidades de forma
e caráter estético, o bambu laminado colado (BLaC) é uma
possibilidade tecnicamente viável , podendo se tornar uma
alternativa de substituição da madeira na produção artefatos.
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Na placa 3, metade das
peças de bambu foram
carbonizadas durante duas
horas a 140ºC. Pode-se notar
a diferença de tonalidade
pela figura 6.
Figura 6: Peças carbonizadas
Figura 9: Placa 3
Conclusões
As placas de revestimento
produzidas demonstram que é
possível criar produtos não só
com o bambu in natura, mas
também com placas de diversas
73.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 73
Desenvolvimento de mobiliários de bambu
laminado colado sob conceitos de Ecodesign
Hugo Hissashi Hayashi Hisamatsu - UNESP - Bauru
hugohissashi@gmail.com
Prof. Dr Marco Antonio dos Reis Pereira - UNESP - Bauru
pereira@feb.unesp.br
Resumo:
Encontra-se o bambu laminado colado como proposta de
material empregado em favor do desenvolvimento sustentável,
agregando aos produtos valores econômicos, sociais e
ecológicos, sendo o bambu uma planta de rápido crescimento,
ótimo sequestrador de carbono, além de ser uma fonte de
material alternativo renovável, podendo substituir, em alguns
casos, o metal e a madeira. O presente trabalho demonstrará
a viabilidade do emprego do material e seus processos de
produção através da execução de protótipos representados
por um sistema modular de mobiliário, seguindo-se, durante
o projeto, conceitos de Ecodesign, na tentativa de se reduzir
o impacto ambiental dos produtos, considerando-se, assim,
além da matéria-prima utilizada, parte do seu ciclo de vida
e conceitos de Desmaterialização, empregando-se a menor
quantidade possível de material, Design for Assembly (Design
para a montagem) e Do-it-yourself (Faça você mesmo), em que
o próprio usuário é responsável pela montagem do produto.
Assim, têm-se como resultado produtos leves e compactos,
com menor volume, e com reduzido emprego de recursos
energéticos durante sua logística, distribuição e armazenagem.
Palavras-chave: ecodesign, bambu laminado colado, mobiliário
74.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
74
Introdução
Recentemente, a humanidade tem se preocupado cada
vez mais com questões ambientais decorrentes da maneira
como o ser humano interage com o planeta. Dessa forma, o
modo como a sociedade lida com temas como a extração da
matéria-prima, a emissão de gases nocivos, a geração de refugos
industriais e os descartes inadequados de material é repensado.
De acordo com Kazazian (2005), a crise do petróleo foi o primeiro
sinal econômico do esgotamento dos recursos naturais do
planeta, o que já havia sido alertado através da publicação do
livro Limits of the Growth (Limites do Crescimento) pelo Clube
de Roma, que conclui que no caso de uma generalização dos
padrões de consumo dos Estados Unidos em todos os países,
chegar-se-ia a uma multiplicação por sete do consumo de
recursos naturais disponíveis no planeta. Já de acordo com o
WWF (2008), a demanda pelos recursos naturais já excede em
30% da capacidade de regeneração do planeta.
Nesse sentido, o Design deve tomar o desenvolvimento
de produtos sustentáveis como intrínseco uma vez que, para
Manzini e Vezzoli (2005), a função do design industrial liga o
tecnicamente possível ao ecologicamente necessário, mantendo
e considerando os aspectos sociais e culturais da sociedade.
Nesse âmbito, o Design também colabora para o
desenvolvimento de produtos mais ecologicamente corretos,
como, por exemplo, a aplicação de novos materiais, metodologias
e conceitos aplicados em projetos como é o caso do presente
trabalho, no qual se demonstra o desenvolvimento de um
produto mobiliário sob conceitos de Ecodesign e a aplicação de
material alternativo renovável – o bambu laminado colado.
Objetivos
Através de revisão sobre aspectos ligados ao Ecodesign, à
sustentabilidade e ao desenvolvimento e história do mobiliário,
teve-se como objetivo o projeto de um produto modular e
multifuncional, de baixo custo, destinado principalmente a
moradores de pequenos espaços como casas populares em
que a demanda por tal tipo de produto é maior, empregando-
se a tecnologia do bambu laminado colado.
Revisão bibliográfica
Para o desenvolvimento de produtos sustentáveis
deve-se considerar que o consumo também sustentável será
possível apenas se marcas populares, e não apenas marcas
de nicho, se tornarem social e ambientalmente responsáveis,
focando-se também na aplicação dessas responsabilidades nos
produtos populares e de maior circulação e promovendo uma
forma de democratização da sustentabilidade (Kleanthous &
Peck 2007; Underwood 2008). Essa generalização de produtos
responsáveis deve vir acompanhada de produtos consolidados
e de qualidade para incentivar ainda mais o consumo de tais
produtos (Gordon 2002; North Venture Partners 2007).
Ao falar sobre produtos acessíveis, é importante
citar Prahalad (2005), que defende a produção de produtos
destinados à baixa-renda. O autor faz importantes observações
para que empresas engajem-se para incluir a parcela da
população de base de pirâmide como mercado consumidor
em potencial, fornecendo os benefícios da globalização com
o acesso a produtos e serviços de qualidade de nível global a
esses consumidores.
75.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 75
Dessa forma, esta pesquisa buscou o desenvolvimento
de um produto confiável, simples e que fosse potencialmente
acessível economicamente na forma de produto popular
destinado a moradias de pequenos espaços.
Mobiliário
De acordo com Santos (1995), a história do móvel
moderno no Brasil pode ser dividida na fase antes de 1930,
na qual se seguia o estilo colonial, cópia e mistura de velhos
estilos e a fase após 1930, na qual, impulsionado pela arquitetura
moderna, o mobiliário sofreu forte modernização, coincidente
com a consolidação da indústria brasileira, o que possibilitou a
produção desses produtos em série.
Além disso, a influência das manifestações culturais e sociais
juntamente com os meios de produção (técnicas e materiais) pode
ser observada na habitação. O racionalismo, por exemplo, que no
Brasil se consolidou na década de 1950, trouxe consigo mudança
na sociedade e na forma de morar, influenciado principalmente
pelo cinema (Mendes de Carvalho & Cavalcanti 2009).
Santos (1995) cita o início da racionalização do desenho
e da produção do móvel no país com a Cama Patente de Celso
Martinez Carrera. A simplicidade que caracterizava a cama,
entretanto, não era de ordem estética, mas sim relacionada
a questões econômicas, valorizando-se a funcionalidade e
tornando-a viável industrialmente a um custo acessível, o que
foi justamente a causa de seu sucesso. Tal cama foi um ponto
marcante do mobiliário brasileiro, já que trouxe mudanças no
projeto, execução, construção, comercialização, consumo e do
gosto desse tipo de produto.
Nesse contexto, pode-se observar a função do design
em mobiliário. Segundo Folz (2002), o design é tido como um
campo restrito onde somente os aspectos estéticos do produto
são considerados. A falta de conhecimento do que significa o
design e a área que ele abrange faz com que as indústrias o
considerem fator irrelevante, o que é mais grave nos mobiliários
para o consumidor de menor poder aquisitivo.
Torna-se necessário, assim, iniciativas do design
aplicado em mobiliários populares, uns dos objetivos deste
trabalho, inclusive o que Martucci (1990, apud Folz 2002)
definiu como alguns princípios básicos para o móvel como
respeito às características regionais, à capacidade tecnológica,
aos requisitos ambientais e funcionais e à racionalização do
produto durante a produção. Quanto ao último princípio, a
racionalização, de acordo com o autor, os seguintes princípios
devem ser seguidos: modulação, padronização, precisão,
normalização, permutabilidade, mecanização, repetitividade,
divisibilidade, transportabilidade e flexibilidade.
Setaisprincípiosforemseguidoscorretamente,coincidem
com os requisitos para o projeto de produtos sustentáveis sem
que isso implique em um custo elevado, atingindo, inclusive,
o público de baixa renda. Para tanto, é necessário, de acordo
com Folz (2002), considerar a acessibilidade econômica e
as dimensões da moradia dessa parcela da população, de
espaço cada vez mais reduzido, tornando esses produtos mais
compactos, versáteis e com características multifuncionais.
Ecodesign e sustentabilidade
O termo “sustentabilidade”, de acordo com International
Institute for Sustainable Development (2007), foi definido pelo
relatório “Nosso futuro comum” ou relatório Brundtland, de
1987, englobando juntos os aspectos ambientais, culturais,
sociais e econômicas. Kazazian (2005) afirma que o documento
envolve alternativas econômicas realistas, integrando, pela
primeira vez, esses quatro elementos.
76.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
76
Assim, surge o conceito de ecoeficiência que, segundo
World Business Council for Sustainable Development (2000),
se dá através de produtos e serviços com preços competitivos
que satisfaçam as necessidades humanas e a qualidade de vida,
reduzindo-se os impactos decorrentes da produção. Para tanto,
pode-se, ainda de acordo com o autor, utilizar os seguintes
elementos para melhorar a Ecoeficiência:
• Redução do uso material;
• Redução do uso de energia;
• Redução da emissão de substâncias tóxicas;
• Aumentar a reciclagem;
• Aumentar o uso de material renovável;
• Estender a durabilidade;
• Aumentar a prestação de serviços.
Já o Ecodesign, tenta reduzir o impacto ambiental do
produto e do processo produtivo através de diversos recursos
dentre os quais o Life Cycle Design, que para Manzini e Vezzoli
(2008), tem como objetivo a redução de inputs de matéria
e energia e outputs de refugos e emissões nas fases de pré-
produção, produção, distribuição, uso e descarte, avaliando-se
as conseqüências ambientais, econômicas e sociais decorrentes
dos processos envolvidos.
Além disso, existem técnicas para o desenvolvimento de
produtos econômica e ambientalmente sustentáveis que não
estão limitados ao material e aos processos mais limpos.
Manzini e Vezzoli (2008), apontam, como exemplo, os produtos
concentrados, compactos com alta densidade durante o
transporte e armazenamento, montáveis no local de uso e mais
leves, possuindo a distribuição e armazenamento otimizados.
Outro fator que deve ser considerado durante o desenvolvimento
é a obsolescência, profundamente relacionada ao descarte,
mesmo quando os objetos ainda apresentam boas condições
de uso. Segundo Cooper (1999), a crença de que a duração
dos produtos possui um impacto negativo na economia
hoje é inconcebível, estando o fator econômico superado
pelo oferecimento de serviços de pós-venda como reparo,
recondicionamento e atualização deles.
Manzini e Vezzoli (2008) afirmam que os bens duráveis,
principalmente aqueles sujeitos a obsolescência cultural, devem
ser de consumo reduzido, possuir menor impacto durante
produção e distribuição e ser constituídos de materiais que
possuam vida útil prolongada.
Assim, deve-se considerar durante o projeto de um
objeto, o impacto ambiental do material, da produção, do uso e
do descarte. Para minimizar tais problemas, deve-se considerar
a extração da matéria-prima, os benefícios dessa matéria-prima,
o meio de produção limpo, a obsolescência do produto, entre
outros critérios. Para isso, durante a etapa projetual, podem-se
citar conceitos que auxiliem no desenvolvimento de produtos
de impacto ambiental reduzido, entre os quais o Design for
Assembly, o Do-it-yourself, a Customização, o Design for
Upgrade, que serão descritos a seguir.
Design for Assembly e Do-it-yourself
Produtosvendidosdesmontadospodempossuirvantagens
ambientais, já que segundo Manzini e Vezzoli (2008) e Kazazian
(2005), além de possuir preço menor, ocupam espaço diminuído
durante armazenamento e transporte, otimizando tais processos
e resultando em um menor impacto ambiental nessas etapas.
Para o desenvolvimento de produtos montáveis surge
o conceito de Design for Assembly (Design para a montagem),
que de acordo com Appleton e Garside (2000, apud Costa et al.,
2005), procura obter o menor número de peças possível, fácil
77.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 77
manuseamentoe montagem,eliminando-sepeçasdesnecessárias.
Tal montagem pode ser realizada pelo próprio usuário,
tendo-se o nome de “Do-it-yourself” (DIY) ou “Faça você mesmo”.
De acordo com Gorini (1998), o conceito DIY surgiu nos Estados
Unidosnosanosde1950,quandoseidentificouopúblicofeminino
como um nicho de mercado para materiais de construção,
adaptando-se esses produtos a tal público; com isso, perceberam-
se as possibilidades do “Faça você mesmo”. Na Europa, o conceito
popularizou-se na década de 70, consolidando-se na França
com o nome de bricolage. Atualmente, ainda de acordo com a
autora, é crescente a quantidade de mobiliários “Do it yourself”
e “Ready to Assemble” (pronto para montar) e que não necessita
de montador, o que barateia o custo do produto e aumenta a sua
competitividade.
Além do fator econômico e ecológico, Kazazian (2005)
defende que através do “Do-it-youself” o usuário pode explorar
sua criatividade sobre as possibilidades que o objeto fornece.
A criatividade e a interação usuário-produto, conforme citou
o autor, são fatores importantes a serem considerados e abordados
no produto a ser apresentado neste trabalho, valorizando-
se também o aspecto emocional, o que evita o seu descarte
precoce, sendo interessante abordar o tema da customização e
da modularidade, ferramentas que podem ser utilizadas de forma
eficiente no Ecodesign e que serão descritos a seguir.
Modularidade e customização
Segundo Godinho e Fernandes (2006), o termo Customização
em Massa teve origem com Stanley David com o seu livro “Future
Perfect”, onde o fornecimento de produtos customizados não
implica em produtos disponibilizados a preços elevados. Os
autores descrevem sobre a customabilidade, que representa
a capacidade de se gerar alternativas dentro de um mix de
produtos estabelecidos previamente. De acordo com Pelegrini
(2005), a demanda de produtos e serviços customizados é
crescente, já que os consumidores procuram cada vez mais
soluções que atendam às suas necessidades individuais. As
empresas, para responder a tal demanda, otimizam os recursos
e custos, com grande flexibilidade e agilidade sem perder
capacidade e eficiência.
Para Lampel e Mintzberg (1996, apud Royer & Fogliatto
2004), a customização é atingida por meio de produção feita
sob medida, havendo a entrega de produtos individualizados
configurados de acordo com a solicitação dos clientes.
Com um produto customizado, que se adeque melhor às
necessidades do consumidor, evita-se o descarte precoce dele.
Dessa forma, até mesmo a obsolescência e suas consequências
ambientais podem ser reduzidas.
Outra característica que pode facilitar a substituição
de partes dos objetos avariados é a modularização, que
também permite uma flexibilização e a melhor adequação
às necessidades do usuário, possibilitando, além disso, uma
aquisição pelo consumidor aos poucos do produto almejado.
Pelegrini(2005)citaWalterGropius,fundadordaBauhaus,escola
alemã de design, que uniu a padronização com o funcionalismo
e sistematização da produção industrial, nascendo desse
conhecimento, a aplicação dos módulos construtivos Baukasten
em construção de edifícios.
Para Mikkola (2000, apud Cardozo 2005), a modularização
intensifica o aproveitamento dos componentes entre as famílias
de produto através de um melhoramento das interfaces das peças.
Dessa forma, tratar de produtos em forma de módulos
também favorece a customização deles, já que para suportar
a customização, desenvolve-se uma plataforma de produto
78.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
78
que atenda às necessidades e permita uma rápida configuração e
alteraçãodoscomponentesemódulos,atendendoasespecificidades
do consumidor, sendo a modularização a prática mais empregada
(Salvador et al. 2002, apud Fetterman & Echevest 2010).
Além de se poder configurar o produto, o usuário também
pode atualizá-lo, substituindo-se apenas as partes envelhecidas.
Tal assunto é tratado pelo Design for Upgrade, descrito a seguir.
Design for Upgrade
Como solução para o suprimento das necessidades
dos consumidores sem que seja necessária a aquisição de
novos produtos e o descarte dos antigos, propõe-se apenas
a atualização deles. Assim, Manzini e Vezzoli (2008) afirmam
que a atualização ou upgrade deve considerar que quantidade
significativa de peças permaneça inalterada, substituindo-se
apenas as partes gastas ou envelhecidas.
Ainda de acordo com os autores, a atualização dos produtos
contribuiparaoprolongamentodavidaútildeles.Produtossujeitos
ao envelhecimento tecnológico, por exemplo, podem permitir a
substituição das peças envelhecidas. Para isso, são interessantes
produtos intercambiáveis modulares e reconfiguráveis.
Barbosa e Roos (2010) definem a diferença, na indústria
automobilística, entre Facelift e Design for Upgrade no
desenvolvimento de veículos. O Facelift tem por objetivo o interesse
de um lançamento de um produto novo e diferenciado, o que
possui um caráter negativo no aspecto ambiental já que emprega e
explora recursos durante sua produção (inputs), além de gerar maior
quantidadedeemissões(outputs). JáoDesignforUpgradetambém
pode gerar um interesse dos consumidores de forma semelhante,
entretanto com reduzido impacto ambiental, já que promove
apenas a atualização do produto sem lançar um novo automóvel
por inteiro, aproveitando a maior parte do veículo como base para
tais alterações estéticas ou funcionais. Dessa forma, o Design for
Upgrade busca a extensão da vida dos produtos, incentivando o
reuso e projetando uma atualização no pós-venda.
Os autores citam como exemplo, sem encontrar
similar de produto sob o Design for Upgrade na indústria
automobilística, o tanque M1 Abrams, que foi desenvolvido em
forma de plataforma para comportar atualizações periódicas
como sistemas de armamentos, equipamentos e eletrônica.
Seus componentes são atualizados, reparados ou substituídos,
aumentando o ciclo de vida do produto, sendo também mais
viável economicamente do que a aquisição de novos veículos.
Embora citem a indústria automobilística, a mesma situação
pode ser observada em móveis sujeitos à obsolescência por
estilo e o lançamento de novos modelos, promovendo o
descarte precoce de produtos em ótimas condições de uso, ou
com pequenas avarias ao longo do tempo, o que também pode
ser solucionado com o Design for Upgrade.
Kazazian (2005) também acredita que um meio possível
é favorecer o reparo do produto, manutenção ou atualização,
criando-se uma relação afetiva entre usuário e objeto.
Segundo o autor, os móveis raramente são consertados, sendo
descartados e rapidamente substituídos por novos produtos.
Para um produto durável, conceito para a economia leve,
outras abordagens podem ser realizadas como a utilização de
aparências menos influenciadas por modas passageiras e o uso
de materiais resistentes.
Quanto aos danos no produto, de acordo com Manzini
e Vezzoli (2008), o custo do conserto do é determinante.
Atualmente, na maioria dos casos, apenas os produtos de
maior valor são reparados, sendo importante padronizar as
peças – nesse caso, o tema da modularidade também parece
79.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 79
ser interessante –, para que a substituição delas seja facilitada.
Tal substituição de peças também pode ser aplicada e facilitada
durante o Design for Assembly e ao upgrade do produto.
Demais conceitos e material empregado
Outro conceito empregado é a desmaterialização, na qual
se reduz significativamente a quantidade material empregada na
produção do produto, utilizando-se apenas o que seja realmente
necessário para o bom funcionamento dele.
Também ligada à desmaterialização, a multifuncionalidade
faz com que um produto possa exercer funções de dois ou mais
produtos juntos o que, segundo Manzini e Vezzoli (2008) é uma
forma de se reduzir a quantidade de material empregado. No
caso de móveis, tal conceito já é utilizado, tendo, segundo Folz
(2002), sua origem nos pequenos espaços dos trens e navios a
vapor, onde o mobiliário devia possuir diferentes funções durante
o dia e durante a noite.
Quanto ao material empregado, de acordo com Janssen
(2000, apud Barelli 2009), o bambu, além de excelente sequestrador
de carbono, pode ser utilizado em reflorestamentos e matas ciliares
e como regenerador ambiental. Além disso, as propriedades
estruturais do bambu superam, em alguns casos, as da madeira
e do concreto, podendo ser considerado sustentável por possuir
grande potencial agrícola, sendo uma cultura renovável que
produz colmos anualmente sem necessidade de replantio.
Assim, o bambu apresenta diversas vantagens ecológicas
e econômicos, sendo utilizado neste trabalho na forma de Bambu
Laminado Colado, cuja técnica será descrita a seguir.
Materiais e métodos
Projeto do móvel
Realizado o levantamento bibliográfico, baseando-
se nos conceitos apresentados, elaborou-se uma análise de
sistemas análogos aos conceitos apresentados e que foram
aplicados no projeto do móvel em bambu a ser apresentado. O
mobiliário projetado deveria ser de desenho simples, a exemplo
da Cama Patente citada por Santos (1995), e deveria atender
bem aos conceitos de Multifuncionalidade, Desmaterialização,
Design fo Assembly, Modularização, Customização e Do-it-
Yourself, conforme os conceitos de Ecodesign de Kazazian
(2005) e Manzini e Vezzoli (2008). Deu-se início ao projeto do
mobiliário, seguida da preparação do material, confecção do
Bambu Laminado Colado (BLaC) e execução do protótipo.
O produto foi devidamente dimensionado e modelado
em software de modelagem 3d. Em seguida, o material foi
processado para a obtenção do Bambu Laminado Colado e a
execução de um protótipo do móvel.
Obtenção do Bambu Laminado Colado (BLaC)
O bambu da espécie Dendrocalamus Giganteus, após
colhido e seco, foi seccionado em partes, através de uma serra
circular, os quais foram divididos em sentido longitudinal para
a obtenção de segmentos como mostrado na Figura 1. Após a
secção longitudinal, o diafragma de cada nó que mantêm os
segmentos unidos foi rompido, obtendo-se a separação das
ripas, retirando-se, em seguida, as irregularidades das peças
para a obtenção de ripas planas como mostra a Figura 2. A
Figura 3 exibe a obtenção do BLaC obtido através da colagem
de ripas sobrepostas e prensadas.
80.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
80
Figura 1: Secções de bambu e a obtenção de secções para ripas
Figura 2: Obtenção de ripas
Figura 3: Prensagem e obtenção do BLaC
Assim, nas figuras seguintes, demonstra-se o resultado
do trabalho, podendo ele ser usado como cavalete, suporte ou
local onde se pode guardar e organizar pertences, conforme
figura 4. Dobrável, o módulo é bastante versátil e leve, ocupando
espaço reduzido quando guardado.
Na figura 5, apresenta-se a aplicação do módulo na forma
de cavalete para mesa, outra função que o produto pode possuir.
Resultados e discussões
Mobiliário projetado
O mobiliário deveria
partir de uma plataforma sobre
a qual o usuário pudesse realizar
sua própria customização e
melhorusodoprodutoconforme
seu gosto e necessidade.
Deveria ainda ser multifuncional
e modular conforme a revisão
bibliográfica acima.
Figura 4:
Módulos do
mobiliário
Figura 5: Cavalete
para mesa
Nas figuras 6,7
e 8 observa-
se o protótipo
confeccionado
em BLaC e as
propostas de
diversos usos.
81.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 81
Figura 6: Protótipo Figura 7: Proposta de uso como suporte
Figura 8: Proposta de uso como cavalete
Conclusões
Ao mobiliário obtido deve-se ainda desenvolver acessórios
e mecanismos para serem empregados sobre ele como bolsos
que sirvam de recipientes para se guardar objetos e travas para
servir de cavalete. Outros protótipos serão executados para
estabelecer modularidade entre peças.
Assim, o projeto, ainda em desenvolvimento, foi um
exemplo da aplicação da tecnologia do bambu laminado colado
(BLaC) e dos conceitos de Customização, Design for Assembly,
Modularidade, entre outros conceitos que podem contribuir
para o Ecodesign através de um produto simples na forma de
plataforma com diversas aplicações e uso, demonstrando as
possibilidades de produtos inovadores e viáveis de reduzido
impacto ambiental.
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83.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 83
Desenvolvimento de mobiliário em bambu
laminado sob os conceitos de ecodesign
Mariana Lourenço - Graduanda em Desenho Industrial - UNESP - Bauru
mare.lourenco@hotmail.com
Prof. Dr Marco Antonio dos Reis Pereira - UNESP - Bauru
pereira@feb.unesp.br
Resumo
É grande a necessidade por contínuos estudos de alternativas
aos problemas que tangem o sistema produtivo atual. O Bambu
como matéria-prima se tornou um assunto de grande relevância,
visto que ele respeita a sustentabilidade nos quesitos ambiental,
cultural, social e econômico. Para demonstrar a viabilidade do
material e aperfeiçoamento sob um viés diferente, foi projetado
e confeccionado um protótipo de uma cadeira de Lâminas
de Bambu, espécie Dendrocalamus giganteus, cultivada no
campus de Unesp. Ao contrário do modo de projeto mais
comum, foi utilizada uma estratégia de design para que não
houvesse a geração desnecessária de resíduos do material.
Este fato costuma acontecer durante o corte de peças, devido
ao não aproveitamento total das chapas de bambu laminado
colado (BLC) previamente produzidas. Foram utilizadas técnicas
como lâminas trançadas e confecção de moldes a quente para
as colagens e curvamentos, sem a necessidade da produção
das chapas.
Palavras-Chave: Design, bambu laminado, curvamento,
mobiliário, sustentabilidade
84.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
84
Introdução
Um dos temas que mais se discute na atualidade é a
adequação de nossos sistemas de produção para que possamos
viver em harmonia com o planeta. Todas as áreas do saber estão
na corrida contra o tempo, buscando novos conhecimentos para
amenizar o prejuízo já existente e evitar que sejam causados novos.
O profissional designer possui um importante papel neste
equilíbrio, pois muito da produção de coisas que nos auxiliam a
viver melhor, mas que em contrapartida também podem fazer
mal ao meio ambiente, são projetadas por ele. O pensamento
sustentável virou uma máxima dentro de um projeto de design,
por isso é muito importante a pesquisa e desenvolvimento de
novos materiais, projetos e sistemas.
Nesse cenário, o bambu entra com um grande colaborador.
Qualidades como regenerar o solo, seqüestrar carbono, ter o
crescimento rápido e ser muito versátil fazem dele um ótimo
substituto da madeira, a qual tem sua extração como um grande
problema ambiental.
Tendo em vista estas questões, o presente trabalho teve
como objetivo desenvolver um estudo de um modo diferenciado
de confecção do Bambu Laminado Colado (BLC), o qual utiliza
lâminas paralelamente prensadas e curvadas à quente. Para isso,
foi confeccionado um protótipo de uma cadeira de lâminas de
bambu, procurando aproveitar as qualidades oferecidas pelo
material, dentre elas a flexibilidade, bem como potencializar
as características sustentáveis no projeto, pensando-o desde a
extração da matéria-prima até seu descarte.
Revisão bibliográfica
Design sustentável
Há 2,7 milhões de anos o homem pré-histórico projetou
sua primeira ferramenta. Este fato se tornou tão importante
para a história, que virou o marco inicial para idade da Pedra.
As invenções de artefatos que facilitem de alguma
maneira relacionamento do ser humano com seu entorno
caminharam junto durante sua evolução, mas foi apenas com a
Revolução Industrial no século XVIII que a produção de maneira
organizada em larga escala começou a tomar forma.
À partir de então, o ser humano se viu na Idade
Contemporânea, no entanto, o que parecia o auge de
seu desenvolvimento através do sucesso de produção de
conhecimento sobre instrumentos, métodos e processos
empregados nos diversos ramos industriais, acabou também se
tornando motivo de preocupação.
Muitos dos atuais esforços para manter o progresso
humano, para atender às necessidades humanas e
para realizar as ambições humanas são simplesmente
insustentáveis - tanto nas nações ricas quanto nas pobres.
Elas retiram demais, e a um ritmo acelerado demais, de
uma conta de recursos ambientais já a descoberto, e
no futuro não poderão esperar outra coisa que não a
insolvência dessa conta. Podem apresentar lucros nos
balancetes da geração atual, mas nossos filhos herdarão
os prejuízos. Tomamos um capital ambiental emprestado
às gerações futuras, sem qualquer intenção ou perspectiva
de devolvê-lo. (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, 1991, p:8).
Nesta subtração onde a diferença é negativa em termos
de recursos naturais, pode-se dizer que um dos responsáveis
pela maneira como o desenvolvimento do processo industrial
85.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 85
se dá atualmente é o designer. Ele ‘tem um papel fundamental
na transformação da sociedade, porque trata de novidades que
afetam o modo de vida dos consumidores e lida com mudanças
previsíveis, seja de produtos e aplicações ou até de serviços’
(Macedo, Fachinetto & Nascimento, 2006).
Nota-se que seu trabalho não influência apenas a venda
de produtos. O design sustentável pode vir a ser um agente
transformador da própria demanda do consumo, e deste modo
pode causar mutações na sociedade nos âmbitos social, cultural
e econômico. Através do caráter de conscientização acaba
influenciando as opiniões e relações entre as pessoas, mudando
paradigmas e produzindo sua própria estética.
A preocupação deste profissional deve-se estender além do
material utilizado ou seu descarte, mas também à responsabilidade
social,pois‘sabemosqueocontroledoimpactoprovocadonoambiente
pelas atividades humanas depende de três variáveis fundamentais:
A população, a procura do bem-estar humano e a ecoeficiência das
tecnologias aplicadas.’ (Manzini & Vezzoli, 2008, p:29).
A responsabilidade muitas vezes mal interpretada pelo
profissionalécomentadanesteensaio,noqualaautoradizinquietar-
se com o modo como a profissão de designer tem formado suas
noções de responsabilidade social. Segundo ela, freqüentemente
definido por atos de generosidade ou ambientalismo, a profissão
de design, em muitos casos, limita a responsabilidade social em
atos de benevolência ou boa vontade. Segue o trecho:
I have always felt a certain unease with the general ways
in which the design profession as framed notions of social
responsibility. Frequently defined by acts of generosity
(i.e., pro bono designs for not-for-profit-agencies) or
environmentalism (i.e., the use recycled paper and soy-
based inks), the design profession, in many cases, limits
social responsibility to acts of benevolent or good will.
(Bush A. apud Heller & Verónique, 2003, p:25)
A discussão sobre responsabilidade também pode ser
notada no termo Ecodesign. A definição de Fiksel (1996) para o
termo diz que ‘projeto para o meio ambiente é a consideração
sistemática do desempenho do projeto, com respeito aos objetivos
ambientais, de saúde e segurança, ao longo de todo ciclo de
vida de um produto ou processo, tornando-os ecoeficientes’.
Muitos ainda consideram Ecodesign como uma dentre as várias
abordagensqueodesignerpodefazeremseutrabalho.Entretanto,
a preocupação da sustentabilidade refletida no termo deveria
torná-lo praticamente um pleonasmo da palavra Design.
Neste contexto, é fácil ser induzido ao pensamento de
que a produção industrial é a grande causadora dos problemas
enfrentados atualmente. Todavia, este tipo de funcionamento
produtivo é também observado na natureza, porém de maneira
mais eficaz. É o que mostra esta analogia inusitada na qual
constataram que ‘as formigas superam, juntas, a biomassa de
humanos no planeta e vêm agindo de modo industrial por milhões
de anos, sendo extremamente produtivas sem, no entanto,
perturbar e colocar em declínio quase todos os ecossistemas da
Terra’ Os autores arrematam seu pensamento afirmando que
‘a Natureza não tem um problema de design, as pessoas têm.’
(McDonough & Braungart, 2002, apud Rodrigues & Castillo, 2010)
Deve-se adicionar que:
‘O conceito de desenvolvimento sustentável tem, é claro,
limites - não limites absolutos, mas limitações impostas
pelo estágio atual da tecnologia e da organização social,
no tocante aos recursos ambientais, e pela capacidade
da biosfera de absorver os efeitos da atividade humana.
Mas tanto a tecnologia quanto a organização social
podem ser geridas e aprimoradas a fim de proporcionar
uma nova era de crescimento econômico. (Comissão
86.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
86
Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, p.9)
Por acreditar nesta visão, este estudo pautou-se em torno
do tema sustentabilidade, prevendo discutir a utilização do
bambu como material pelo designer. Durante o projeto, partiu-se
da estratégia de design no qual todo o ciclo de vida do produto
é levado em conta, pois ‘o impacto ambiental não é determinado
por um produto e menos ainda por um material que o compõe,
mas pelo conjunto de processos que o acompanham durante
todo o seu ciclo de vida.’ (Manzini & Vezzoli, 2008, p:289). Deste
modo, a estratégia consistiu em projetar-se desde a colheita do
material, até seu descarte.
Bambu e sustentabilidade: considerações gerais
‘O bambu se ajusta à idéia de “para todas as pessoas” [...],
é uma possível norma planetária no sentido de sua vitalidade
unida ao querer humano, pois pode-se facilmente produzi-lo
suficientemente para todos e para qualquer das mil coisas que se
queira fazer.’ (Farrely, 1984, apud Pereira & Beraldo, 2007, p.154)
‘Historicamente, o bambu tem acompanhado o ser
humano fornecendo alimento, abrigo, ferramentas,
utensílios e uma infinidade de outros itens. Atualmente,
estima-se que contribua para a subsistência de mais de
um bilhão de pessoas. Igualmente importante ao lado dos
usos tradicionais, tem sido o desenvolvimento de usos
industriais do bambu.’ (Sastry, 1999).
‘Sua admirável vitalidade, grande versatilidade, leveza,
resistência, facilidade em ser trabalhada com ferramentas
simples, sua formidável beleza ao natural ou processado, são
qualidades que tem proporcionado ao bambu o mais longo e
variado papel na evolução da cultura humana do que qualquer
outra planta’ (Farrely, 1984, apud Pereira & Beraldo, 2007)
Apesar de já muito infiltrada na cultura de países
orientais, sua inserção cultural no ocidente ainda está em
andamento. ‘É inegável o paradoxo de que o Brasil, detentor
da maior reserva natural de bambu do mundo (só nos estados
do Acre e Amazonas temos aproximadamente 70 mil Km² e 20
mil Km² respectivamente), seja um dos países que menos utiliza
este recurso natural.’ (Fialho; Tonholo; Silva, 2005, p. 3)
A insuficiência dos recursos naturais é um dado real, ‘em
2004 o déficit de madeira de reflorestamento foi de 11.3 milhões de
m3 no Brasil’ (Aguiar, 2004). Tal dado só confirma a realidade atual:
‘poucos duvidam que os problemas ecológicos
condicionarão cada vez mais o desenvolvimento, os
processos industriais e os assentamentos humanos,
sendo já considerado o século XXI como o século do
meio ambiente. Assim, a busca por materiais renováveis e
fontes energéticas não convencionais tem-se convertido
em uma prioridade mundial neste início de século’
(Salame & Viruel, 1995).
Durante esta busca por materiais alternativos que
permitissem à natureza um respiro, o bambu acabou recebendo
uma enorme atenção. ‘Este material possui características
intrínsecas ao desenvolvimento sustentável, constituindo-se
por um modelo de produção limpa, localizada e barata, tais
características atendem às questões econômicas, ecológicas e
sociais hoje emergentes no Brasil’ (Fialho; Tonholo; Silva, 2005).
Ao analisar o fator econômico de maneira isolada, pode
se afirmar que:
‘é possível a redução de custos dos produtos que
utilizam o bambu como matéria-prima, especialmente
87.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 87
nos casos em que o processamento do bambu represente
utilização de energia, considerando que seu processo
consome menos energia em relação a outros produtos
com a mesma finalidade’ (Fialho; Tonholo; Silva, 2005).
Um outro ponto importante é e a possibilidade da criação
denegóciosegeraçãodeempregos,vistoqueestematerialpossui
exploração de baixo custo já que a produção de colmos é rápida
e sem a necessidade de replantio, podendo ser implementada de
imediato sua cultura e exploração no campo.
Além do baixo custo de produção, esta gramínea
predominantemente tropical possui características físicas ótimas.
‘Pode chegar a até 30m de altura em determinadas
espécies, e no entanto, o alcança com mais velocidade
que qualquer outra planta, levando um broto a média
de 3 a 6 meses. Possui também ótimas características
físicas, químicas e mecânicas; flexibilidade; além de ser
considerado o “aço vegetal” devido à sua relação dureza-
massa específica aparente ser superior ao aço.’ (Pereira &
Beraldo, 2007)
Em suma, podemos listar os fatores sustentáveis do bambu
nos seguintes pontos:
• Capacidade de regeneração do solo, além de evitar erosão
•Espécie florestal de melhor aproveitamento por área e renovação
por tempo, além de sua velocidade de crescimento permitir a
colheita de colmos e brotos a partir do terceiro ou quarto ano,
muito antes que qualquer outra árvore
• É considerado um ótimo seqüestrador de carbono
• Possui facilidade para estabelecimento do plantio, já que não
exige tecnologias complexas
• Transporte, e conseqüentemente seus gastos energéticos, são
minimizados devido ao peso leve se comparado às madeiras.
• Versatilidade no uso, principalmente como matéria-prima
agregadora de valor econômico. Compreendem suas aplicações
desde moradias, acabamentos, paisagismo, utensílios, fibras
para tecidos, alimento, combustível, papel; até aplicações na
medicina, farmácia e química.
• É um material alternativo à madeira, possibilitando assim
evitar a cadeia de problemas que sua extração acarreta -
devastação de florestas pela extração, agravamento do efeito
estufa causado pela liberação de CO2 das queimas, etc.
Material e Métodos
Espécie de bambu utilizada
Foi utilizado o bambu gigante – Dendrocalamus giganteus, o
qual é de uso mais freqüente neste tipo de processo devido as suas
adequadas dimensões de altura, diâmetro e espessura de parede.
Ele é relativamente comum em nosso meio rural e de fácil
reprodução e cultivo. Foram plantadas um total de 25 moitas
desta espécie no ano de 1995 no Laboratório de Experimentação
com Bambu, e desde 2001, obtém-se uma produção média de
225 colmos anualmente, os quais estiveram disponíveis para o
projeto. A Figura 1 mostra uma moita de bambu desta espécie.
Figura 1. Moita de
bambu gigante
(Dendrocalamus
giganteus)
88.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
88
Adesivo PVA
Na produção da cadeira foi utilizado o adesivo de Cascorez
2590. Ele é composto de acetato de polivinila, conhecido como
PVA a base de água e não poluente.
Brainstorming
Existem algumas idéias desenvolvidas por estudiosos que
facilitam a fluidez da criatividade. Uma delas, desenvolvida por
Osborn (1987), é conhecida como o brainstorming ou “tempestade
de idéias”. Algumas de suas etapas serviram como estruturação da
fase de criação do objeto. São elas a pesquisa sobre o problema,
reunião e análise dos dados, incubação das idéias, fluidez das
idéias em sketches, para futuramente haver a verificação das idéias
obtidas de maneira mais racional e escolha da idéia final.
Durante o processo, foram levados em conta os conceitos
de sustentabilidade pesquisados, entre eles o cultivo e manejo
adequado do material, o mínimo de desperdício, não utilização
de outros materiais poluentes ou que dificultem o descarte,
ergonomia e funcionalidade adequada para garantir sua vida-
útil longa sem o descarte prematuro.
Processamento para confecção de Lâminas
Para produção da cadeira de lâminas é necessário
processamento do bambu, o qual ocorre do modo descrito a
seguir (Pereira & Beraldo, 2007).
Desdobro em Serra Circular
Este processo se dá na máquina conhecida como destopadeira
ou serra circular. Ela é utilizada para cortar o bambu em partes
menores facilitando os processos seguintes.
Desdobro em Serra Circular Dupla
Para o colmo virar ripas é necessário passar pela serra circular
dupla. Nela, o bambu é passado no sentido longitudinal por
duas serras separadas na distância que terá a lâmina, também
chamada de ripa. É possível tirar, em média, sete ripas, variando
de acordo com a distância entre as serras.
Retirada dos Nós
Mesmo após o desdobro duplo, o colmo deve ser atirado
com força contra o chão para que o impacto rompa a ligação
que ainda havia nos nós, liberando as ripas. Na retirada dos
resquícios de nós que ficaram nas ripas, bem como a região
saliente externa à ele, utiliza-se uma serra circular.
Desengrosso nas Quatro Faces
Para que a casca e curvatura externa e interna das ripas sejam
retiradas, elas passam por uma desengrossadeira composta
de duas tupias para cortes laterais, uma para corte interior e
uma para corte superior, as quais podem ser reguladas para a
obtenção de medidas específicas de largura e espessura.
Confecção do protótipo
Após a definição do produto a ser confeccionado e com
as lâminas prontas, um protótipo foi executado em laboratório,
buscando estudar e resolver aspectos ligados a confecção dos
componentes do objeto bem como do desenvolvimento e
utilização de moldes curvos.
Resultados
O resultado do braistorming foi a primeira modelagem
3D, vista na Figura 2. A cadeira possui dois perfis curvados
idênticos para o acento, e dois perfis curvados idênticos para
os pés. Eles são unidos e suportados por barras. (Figura 2)
89.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 89
Figura 2. Modelagem 3D e região das barras de união.
Um ponto a se destacar é que o acento possui um trançado
delâminas,aproveitandodestamaneiraacaracterísticainteressante
de flexibilidade que elas possuem. As horizontais individuais e as
verticais duplas, prensadas e curvadas a quente.
Alguns ajustes foram feitos, dentre eles a barra de apoio traseira, a
espessura dos perfis e barras – que passarem de 2,5cm para 2cm
- e o tamanho do acento trançado, o resultado está na Figura 3.
Confecção do protótipo da cadeira
Trançado do assento
A Figura 4 mostra uma simulação para que fosse testada a
resistência do assento. O teste foi conduzido com algumas
pessoas de pesos diferente, e ele demonstrou suportar as forças
aplicadas.
Figura 4. Simulador do acento
Confecção de peças e moldes curvos
Durante o primeiro teste a idéia era curvar as ripas uma por
uma a quente, e depois colá-las a frio com a ajuda de um
molde de madeira. Foram utilizados tiras de ferro curvadas no
ângulo e medidas necessárias aos perfis projetados. Elas eram
superaquecidas com um maçarico a gás por aproximadamente
dezminutosparaquealâminafossecurvadaaaltastemperaturas.
Figura 3.
Modelagem final
e desenho técnico
90.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
90
O processo apresentou problemas, dentre eles o gasto de
energia à gás, o tempo de trabalho gastos em todo o processo e
a falta de controle sobre o calor, que acarretou na imprecisão nas
curvaturas e em eventuais regiões escurecidas.
Uma nova experiência para prensagem e curvamento de
lâminas à quente foi adaptada de RAMOS (2010) utilizando-se
dois moldes macho e fêmea feitos de madeira, o qual teria tiras
de alumínio em altas temperaturas - esquentado por resistências
de chuveiro enroladas numa tira de duratree e ligadas à energia
elétrica - na superfície de contato com as lâminas, curvando ao
mesmo tempo várias ripas ao invés de uma a uma.
Foram feitos quatro moldes até que fossem
completamente aperfeiçoados. Optou-se por utilizar esta
prensagem apenas para as regiões curvas como pode ser visto
na Figura 7. As peças retas foram confeccionadas no processo
tradicional de BLaC (Pereira & Beraldo, 2007) e unidas nas peças
curvas com encaixe finger joint, como pode ser visto na Figura
8. A Figura 9 mostra as curvas finais obtidas e a Figura 10 à
confecção do assento.
Figura 8. BLaC prensado à maneira tradicional e unidos com finger joint
Figura 6.
Lâminas
com pouca
uniformidade
nas curvaturas.
Figura 5.
Curvamento
com maçarico
Figura 7. Ripas retas sendo prensadas e curvadas a quente
91.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 91
Figura 9. Peças curvas finais
As lâminas únicas horizontais e as duplas verticais do acento
e encosto foram prensadas no meio dos perfis. Além disso, antes da
última prensagem que corresponde à união do perfil lateral com a
extremidade das lâminas horizontais, elas foram umedecidas para
permitir que fossem trançadas com mais flexibilidade. A Figura 11
mostra o protótipo final da cadeira.
Conclusão
Primeiramente, pode-se observar várias características
positivas com respeito a aspectos ligados a sustentabilidade,
principalmente quando comparadas aos métodos e materiais
convencionais normalmente utilizados.
Outro fator importante diz respeito ao desenvolvimento
e pesquisa do processo de confecção artefatos com bambu
laminado colado, que pode contribuir para sua futura utilização
tanto em mobiliário como em outros objetos.
Foi possível constatar resultados referentes à estratégia
de design sustentável adotada com a diminuição de impactos
Figura 10. Lâminas
horizontais, verticais do
assento
Figura 11.
Protótipo final
92.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
92
ambientais na produção. Em contra partida aos métodos
tradicionais de produção do BLaC, o qual passam pela fase de
confecção de chapas retangulares antes da sua utilização final,
foi possível diminuir significativamente o gasto de material
pulando essa etapa. Ao optar por um objeto composto apenas
por lâminas prensadas somente por uma face a partir de moldes,
foi possível utilizar apenas a quantidade desejada do material,
diminuindo a quantidade de resíduos.
Pode-se notar também que prensagem do acento
juntamente aos perfis, além de evitar o uso de parafusos, se
apresentou tecnicamente simples e uma ótima solução para
união dos conjuntos de peças. O trançado de lâminas demonstrou
ser uma estrutura eficaz, visto que não é somente interessante
estéticamente, mas também resistente ao peso de uma pessoa
de percentil médio.
Além disso, o objeto foi projetado sem a utilização de
materiais secundários, no qual a produção pode estar ligada a
poluição ambiental. Neste caso, seu descarte também é facilitado
por ser mono material. A baixa quantidade de emprego de
material faz com que o impacto do transporte e logística seja
minimizado, já que é um objeto leve.
Ademais, por ser similar à madeira, o BLaC permite certa
abertura com relação à criação do desenho, além de possibilitar a
exploraçãodeumacaracterísticainteressantedobambu:aflexibilidade,
a qual pôde ser vista nas curvaturas e no trançado das lâminas.
Odesenhosimplespermiteumaversatilidadedeambientes
a ser utilizada, dentre eles sala de jantar, cozinha, quarto, lojas,
entre outros. O refinamento possibilitado pelo design e pelos
processos envolvidos ajuda-no a eliminar a idéia de rusticidade
que o material costuma carregar. Estes fatores fazem com que o
objeto seja mais atraente para que sua utilização seja estendida
por mais tempo, evitando assim o consumo de um novo objeto,
e conseqüentemente todos os impactos poderiam proporcionar.
Pode-se perceber até o presente momento que são muito as
possibilidades de exploração do bambu para o design, e com
o aprofundamento dos estudos nos seus diversos usos como
esse, se afirma um material alternativo muito conveniente.
Agradecimento
Ao orientador Prof. Dr. Marco A. R. Pereira, ao Grupo Taquara e
à Mariana S. Basso.
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94.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
94
Design solidário, extensão e geração de renda
Sabrina Antunes Saboya - Graduanda em Desenho Industrial - UNESP-
Bauru
sabrina.s.antunes@gmail.com
Prof. Dr Marco Antonio dos Reis Pereira - UNESP - Bauru
pereira@feb.unesp.br
Resumo:
O bambu constitui uma fonte de matéria prima altamente
renovável e sustentável. Planta tropical, perene e com produção
anual de colmos sem necessidade de replantio, possui ainda
excelentes características físicas e mecânicas que o habilitam
a substituir a madeira de floresta em muitas aplicações. Como
parte de um projeto de extensão em desenvolvimento na
UNESP de Bauru este trabalho propõe a confecção de produtos
em bambu e utiliza o design sustentável como estratégia para
a transferência de tecnologia, a capacitação e geração de renda
solidária junto a comunidade do assentamento rural Horto de
Aimorés. Para tanto se propõe o desenvolvimento de protótipos
para uma linha de relógios de mesa ou parede utilizando placas
de bambu laminado colado (BLaC) ou bambu in natura, além
de outros materiais naturais de modo a agregar valor e gerar
produtos e renda através do ecodesign.
Palavras- chave: ecodesign, bambu, geração de renda, extensão
universitária.
95.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 95
Introdução
Nas últimas décadas, a disseminação do conceito de
sustentabilidade, não apenas em seus aspectos ambientais, mas
também no tocante as suas implicações sociais, juntamente à
crescente conscientização acerca do problema ambiental tão
latente nos dias correntes têm levado à discussão e à reorientação
de novos comportamentos sociais, isto é, à procura por produtos
e serviços que motivem a existência de processo produtivos e
produtos considerados ambiental e socialmente amigáveis
(MANZINI & VEZZOLI, 2008).
Segundo Papanek (1992), tal transformação
inevitavelmente passa a ser mediada pelas mãos do design, o
qual em tempos de produção em massa, nos quais tudo deve
ser desenhado e planejado, este se tornou a mais poderosa arma
com a qual os homens configuram suas ferramentas, ambientes
e por extensão sua própria sociedade e a si mesmos, tanto para
o mal quanto para o bem.
Nesse sentido, o ecodesign, que vem a fim contribuir para
a construção de uma visão de mundo mais aceitável, solidária e de
racionalidade não predadora e que busca produzir sem destruir,
conceber um objeto do cotidiano, do mais elementar ao mais
sutil, tornando seu uso durável e seu fim assimilável, desempenha
seu papel guiando-nos rumo ao desenvolvimento sustentável das
relações humanas e de uma economia baseada na solidariedade
(KAZAZIAN, 2005). Tal premissa do ecodesign é reforçada pelo
entendimento de que os problemas ambientais estão intimamente
ligados às condições econômicas e sociais e à necessidade de
integração desses elementos(MOUSINHO, 2003, apud BARELLI,
2009).
Em tal cenário de crescente busca por modos de produção
e matérias-primas mais sustentáveis, bem como de escassez de
recursos naturais, a pressão sobre os recursos florestais nativos
e de reflorestamento é evidente. Segundo dados do documento
The Global Forest Resources Assessment 2010 – Main Report
(FAO, 2010), a taxa global de desflorestamento vem mantendo-
se alta apesar de sua lenta diminuição. Ao mesmo tempo, a FAO
estima que 13 milhões de hectares de florestas do mundo são
perdidos a cada ano, principalmente devido ao desmatamento
para conversão de florestas em outros usos (ONU, 2011). No
cenário nacional a área afetada anualmente pela atividade
madeireira na Amazônia, catalisando o desmatamento, é de
10 mil a 20 mil quilômetros quadrados, ademais, graças ao
aumento da demanda por madeira nos últimos anos, somando
à falta de incentivos financeiros, atualmente fala-se do apagão
florestal, que seria a falta de madeira em quantidade suficiente
para atender a demanda do mercado em determinado período
de tempo (SNIF).
Nessa via, aliado ao uso de novas tecnologias, tem-se
estimulado o desenvolvimento de materiais alternativos para
substituir a madeira, tendo como objetivo a sustentabilidade
socioambiental (RIVERO, 2003 apud BERALDO& SZUCS 2010).
O bambu, essa planta de uso milenar, ganha, dessa forma, cada
vez mais destaque devido suas inúmeras vantagens ambientais,
econômicas e sociais, além de versatilidade de uso e aplicação
e por seu intrínseco caráter gerador de renda e trabalho.
Isso se dá, primeiramente, por se tratar de uma cultura
tropical, perene, renovável, com produção anual de colmos
sem necessidade de replantio, fato que lhe confere um
grande potencial agrícola, além do fato de ser um excelente
seqüestrador de carbono. Ademais, o bambu ainda possui
ótimas características físicas, mecânicas e químicas que também
contribuem para sua extensa gama de aplicações como matéria
– prima (PEREIRA & BERALDO, 2007).
96.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
96
Outro aspecto é o de que sua aplicação em relação ao conceito
de ciclo de vida de um produto possuir aspectos positivos não
só nas fases de pré- produção, por se tratar de uma matéria-
prima de todo renovável, como também na de descarte por ser
biodegradável. (BARBERO & COZZO, 2009).
Além de tais virtudes ambientais, o bambu pode ser
considerado como instrumento de desenvolvimento econômico
e social, pois quando sua tecnologia é apropriada por pequenos
agricultores rurais, esta pode contribuir para a geração de
trabalho e renda, devido ao seu simples manejo e facilidade
de transformação e trabalho da matéria- prima através de
ferramentas básicas, podendo ser cultivado em pequenas áreas
ou naquelas que não se destinem à agricultura convencional
(BARELLI, 2009).
No que toca o campo do design, principalmente do
design sustentável, sua maior contribuição está, portanto, não só
na sua versatilidade física e estética, bem como em seu caráter
renovável, os quais permitem sua utilização na mais variada série
de produtos de acordo com os critérios de sustentabilidade.
Nessa área, uma de suas aplicações mais promissoras é na forma
de bambu laminado colado (BLaC), pois esta alia a possibilidade
de agregação de valor a um grande número de produtos que
podem ser confeccionados com esse material , substituindo assim
, em muitos casos, a utilização de madeiras convencionais, sendo
hoje utilizado desde a produção de chapas, painéis, compensados
e móveis, até na construção civil (PEREIRA & BERALDO, 2007).
Outro fato importante é o fato de que os resíduos resultantes
da fabricação do BLaC são passiveis de serem reutilizados na
confecção de chapas de aglomerado.
Em tal contexto, dentro do Projeto Bambu existente
campus de Bauru da UNESP, surgiu o Projeto de extensão Taquara,
formado por alunos de Design e Arquitetura e Urbanismo, o qual
além de promover pesquisas e investigações sobre confecção
e aplicação do bambu laminado, ainda soma e promove
práticas de geração de renda solidária junto a um grupo já
organizado dentro do Assentamento Rural Horto de Aimorés,
o Grupo Agroecológico Viverde, através da capacitação de seus
membros na cadeia produtiva do bambu e na confecção de
produtos artesanais em bambu com valor agregado por meio
do emprego de noções estéticas e de design nos produtos,
os quais são comercializados em feiras locais e por meio de
encomendas pelos próprios assentados.
Dessa forma, fazendo uso de todas as potencialidades
ambientais, sociais e econômicas do bambu, bem como de seu
derivado, o BLaC, o foco do presente projeto é a elaboração
de uma proposta de linha de relógios de parede e de mesa em
bambu laminado colado em conjunto com outros materiais
naturais de custo acessível,no caso, o tecido de chita, como
forma de promover a geração de renda solidária para esses
membros da comunidade, através de sua futura confecção e
comercialização. Para tanto, previu-se a confecção de dois
protótipos de relógios em bambu laminado colado e tecido de
chita, como forma de se antever a viabilidade de produção e a
aceitação comercial de tais produtos.
Metodologia
Etapas de processamento
Primeiramente, foi iniciada a produção das placas de
bambu laminado necessárias para a confecção dos protótipos. Para
tanto, foram colhidos colmos maduros (quatro anos) da espécie
Dendrocalamus giganteus, mais conhecido como bambu gigante,
existente em plantio experimental no campus local da UNESP.
97.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 97
Após a colheita, o colmo segue por uma série de fases
de processamento que permitem sua transformação em ripas
e posteriormente em placas de bambu laminado colado, de
acordo com experiência prévia já desenvolvida pelo Laboratório
de Experimentação com Bambu da UNESP de Bauru (PEREIRA &
BERALDO, 2007).
Resumidamente, os colmos colhidos são cortados
transversalmente em serra circular, longitudinalmente em serra circular
refiladeira dupla para a obtenção de ripas e finalmente as ripas são
laminadas em plaina duas faces, como mostrado na Figura 1.
As ripas obtidas são coladas manualmente com o adesivo
Cascorez 2590 / Catalisador CL e prensadas por cerca de quatro
horas em prensa manual para obtenção das placas em BLaC
como mostra a Figura 2.
As placas em BLaC podem ser processadas e/ou acabadas
em equipamentos e processos normais de marcenaria como
mostrado nas Figuras 3 e 4.
Figura 3. Uso de desengrossadeira e desempenadeira em placas de BLaC.
Figura 1. Corte
transversal, corte
longitudinal e
laminação das ripas
Figura 2. Colagem,
prensagem da ripas e
placas em BLaC.
98.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
98
Figura 4. Corte e lixamento das placas.
Confecção dos Protótipos
Para a confecção dos protótipos, elaborou-se o projeto de
cada peça (sketch e desenhos técnicos), seguido do planejamento
sobre os tipos de moldes e colagens apropriados para cada
produto, como pode ser verificado nas Figuras 5 e 6 nas quais
se pode observar as etapas de projeto de cada um dos dois
protótipos de relógios de parede.
Figura 5. Rascunho, modelagem em 3D e desenho técnico do protótipo 1.
Figura 6. Rascunho, modelagem em 3D e desenho técnico do protótipo 2.
Resultados
Protótipos
A Figura 7 mostra os protótipos de relógio de parede
confeccionados em chapa de BLaC e tecido de chita.
Figura7. Protótipos de relógios de parede em BLaC e tecido de chita finalizados.
Da confecção dos protótipos observou-se que as placas
de BLaC podem ser trabalhadas normalmente com ferramentas
99.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 99
e máquinas comuns de marcenaria, demonstrando a viabilidade
técnica de sua utilização na confecção de uma linha de relógios.
A aplicação do tecido de chita em composição com o bambu
se mostrou interessante,uma vez que além de agregar valor ao
produto de forma não dispendiosa, ainda possibilita a variação de
padrões obtendo-se, dessa forma, relógios diferentes por meio da
mudança de estampa.
Os protótipos finalizados receberam boa aceitação pelo
público consumidor e revelaram- se tecnicamente viáveis e
potenciais geradores de renda para o projeto de extensão, uma vez
que ambos foram vendidos em uma mostra do projeto ocorrida na
UNESP, assim como encomendas para novos relógios dos mesmos
modelos foram recebidas.
Projeto de uma linha de relógios
Utilizando a técnica de modelagem em 3D são propostos
algunsmodelosderelógiosdemesaeparedeparafuturaconfecção
pelo projeto para geração de renda desde que os protótipos se
mostraram tecnicamente viáveis. As Figuras 8 e 9 propõe uma linha
de relógios de mesa e parede a qual poderá ser confeccionada e
comercializada gerando renda para a comunidade participante do
projeto de Extensão em desenvolvimento.
Figura 9. Relógios de parede.
Conclusão
Os protótipos confeccionados e comercializados
mostraram a boa aceitação deste tipo de produto para a
geração de renda, mostrando a potencialidade da matéria-
prima bambu.
A sustentabilidade deve ser pensada não apenas em seus
aspectos ambientais, mas também nos sociais. Nesse sentido,
buscou-se a conjunção de ações tanto ecológicas, como
também socialmente amigáveis representadas, por um lado,
pelas características sustentáveis da matéria- prima bambu, e,
por outro, por sua aplicabilidade, na forma de bambu laminado
colado, em geração de renda solidária.
Figura 8. Relógios de mesa.
100.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
100
Referências
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Comunicação, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita
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101.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 101
Vinicultura sustentável: Desenvolvendo objetos
com resíduos de videira
Desiree Fernanda Nascimento Rodrigues
Graduada em Design de Moda - Universidade Estadual de Londrina - UEL
desiree.fernanda@hotmail.com
Profa. Dra. Cleuza Bittencourt Ribas Fornasier
Universidade Estadual de Londrina - UEL
cleuzafornasier@gmail.com
Resumo
Após a vindima, a colheita da uva, a videira entra em estado de
hibernação, na qual é realizada a poda e nesta é produzida uma
grande quantidade de resíduos, como troncos, galhos e folhas.
Na tentativa de diminuir esses resíduos e desenvolver algo que
agregue valor ao vinho, este projeto tem como objetivo, além
de pesquisar a cultura vinícola, desenvolver produtos a partir
dos resíduos coletados implantando ações sustentáveis com
oportunidade de gerar renda e integração entre empresas e
comunidade.
Palavras-chave: sustentabilidade, artesanato, vitivinicultura.
102.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
102
Introdução
A produção de vinhos no Brasil desenvolveu- se a partir do
século XIX, quando os imigrantes italianos iniciaram a fabricação
da bebida para consumo próprio, principalmente nos estados do
Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Tem-se como base de pesquisa a produção vinícola,
sendo que a empresa Dal’ Pizzol de Bento Gonçalves, foi uma
das empresas que se dispôs a participar de entrevistas sobre a
gestão dos processos realizados na empresa.
Por meio da análise operacional foi possível averiguar
que durante a poda de inverno há uma grande quantidade de
resíduos provenientes das videiras e que normalmente não são
aproveitados, tornando-se apenas matéria inutilizada dentro
do processo. Baseando-se nos conceitos de sustentabilidade e
ampliação do valor emocional dos produtos, o artigo a seguir
promove a utilização desses resíduos na confecção de objetos
que agreguem valor aos produtos comercializados (vinhos) na
empresa em questão.
Os resíduos resultantes da poda da vitivinicultura
podem ser utilizados na fabricação de papelaria, viabilizando
sua aplicação de modo similar à cortiça promovendo assim o
desenvolvimento de novos produtos como embalagens, saca-
rolhas, chaveiros, entre outros.
Fundamentados na gestão/valorização destes resíduos, este
projeto tem como intenção fomentar a assimilação de conceitos
pertinentes ao design e à sustentabilidade, que visam projetar e
produzir objetos, que utilizem o material em questão, de modo
artesanal. Para tanto será realizada a capacitação de mão de obra
vinda da comunidade do entorno da empresa, promovendo a
integração entre os produtores e a os moradores da região.
Valor agregado em produto
Os produtos a serem realizados devem considerar
primordialmente o cliente em detrimento de outros componentes
relacionados à empresa, suas necessidades e desejos são o
elemento norteador de todo o comportamento empresarial.
Tem-se então o valor, aqui denominado de preço,
dos bens de consumo confeccionados a partir do esforço
distendido para produzi-los adicionando os cálculos de lucro.
Porém, deve-se considerar que esse não é o único valor levado
em consideração pelo consumidor. Ancorado pelas noções
de percepção e repertório, a característica de valor agregado
sobressai de modo progressivo, principalmente por fazer com
que o produto não seja massificado pela concorrência, pela
média de preço, e/ou pelas características básicas formais ou
funcionais, mas seja reconhecido por algum diferencial, esse
diferencial será baseado no design emocional.
Este é outro tipo de valor a ser percebido pelo cliente é
promovidopormeiodadisponibilizaçãodeinteressessecundários,
estes compõe um conjunto de fatores que concretizam-se
como um atributo de qualidade intangível que somam-se ao
comparativo benefício versos preço. KOTLER (1998) aponta uma
relação simples de satisfação das expectativas: se o desempenho
do produto atender (ou exceder) às expectativas, o cliente ficará
satisfeito (ou altamente satisfeito) e se demonstrar-se abaixo das
expectativas, resultará na insatisfação do consumidor. Tem-se
então o diferencial do produto como algo que, na percepção do
consumidor, direciona, impulsiona e justifica a escolha dentre os
bens ofertados por divergentes marcas.
Para perceber qual tipo de valor agregado deve ser
aplicado aos produtos é de extrema importância que se faça
103.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 103
um reconhecimento detalhado da atuação da empresa, a fim de
propor uma estratégia válida a ser aplicada à organização que
seja suficientemente válida para atrair o público-alvo consumidor
ou comprador.
Metodologias utilizadas no projeto
Foram realizadas pesquisas de campo (entrevistas e
relatórios) para verificar as principais características, necessidades
e problemas, deste setor produtivo e das empresas visitadas,
além do conhecimento de possíveis produtos pertinentes ao
contexto vinícola.
Com isto, foram apontados possíveis objetos, como
embalagens, produtos promocionais (saca-rolhas, chaveiros), ou
seja, produtos rentáveis e sustentáveis passíveis de reprodução.
Logo, passou a ser realizada a prototipagem a fim de definir a
forma/ aplicação e material das embalagens e posteriormente a
definição dos modelos finais.
Experimentação e conclusão
Como forma de agregar valor aos produtos propõe-se
utilizar os resíduos da poda da videira e unir a comunidade e
as empresas nesta produção artesanal, no desenvolvimento de
embalagens para os vinhos.
Inicialmente foram realizados desenhos das embalagens,
com o intuito de formalizar uma base na qual seriam trabalhados
os resíduos. Dentre os desenhos selecionaram-se três modelos
para serem utilizados: dois em formato de paralelepípedo e um
com formato cilíndrico.
Tais suportes seriam desenvolvidos em papelão ou
madeira, pois verificou-se a inviabilidade de utilizar os resíduos
da videira como única matéria-prima, dado sua instabilidade.
Desenvolvidos os protótipos, o trabalho seguinte relaciona-
se a aplicação dos resíduos (galhos das videiras) de modo
artesanal utilizando-se da mão de obra da comunidade local
que trabalharia em parceria com as empresas.
Foi analisado dentro da pesquisa que as embalagens
em formato de paralelepípedo são viáveis e de fácil aplicação
dentro do processo produtivo, porém as embalagens cilíndricas
demonstraram maior dificuldade de produção, sendo então
descartadas do processo.
Fig. 1 – Modelo de embalagem em
paralelepípedo horizontal
Fig. 2 – Modelo de embalagem em
paralelepípedo vertical
104.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
104
Descreve-se abaixo a maneira de se realizar o
desenvolvimento da embalagem:
1. Primordialmente através do desenvolvimento de um
molde para corte das bases essenciais que podem ser de papelão
ou madeira, formando-se assim as laterais, o fundo e a tampa.
Fig. 4 – Moldes utilizados para embalagem confeccionada em madeira
Fig. 5 – Moldes utilizados para embalagem confeccionada em papelão
2. Tendo essa estrutura desenvolvida, parte-se então para a
parte de inserção dos resíduos da videira com a utilização de cola
específica, que através de experimentações indicou a cola quente
de pistola, logo aplica-se esses retraços da cultura da uva de modo
a preencher toda superfície escolhida e anteriormente elaborada
finalizando a embalagem com a aplicação de de tingidor e verniz.
Fig. 3 –Modelo
de embalagem
cilíndrica
Fig. 6 –
Fotografia
do produto
finalizado.
105.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 105
Com isto deu-se a finalização do projeto e subseqüente
apresentação em eventos de design e sustentabilidade.
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106.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
106
Aspectos de sustentabilidade em embalagens
de exportação
Prof. MsC. Cláudio Pereira Sampaio -Universidade Estadual de Londrina - UEL
qddesign@hotmail.com
Aline Horie - Especialista - Universidade Positivo - UP
aline.eh@gmail.com
Andressa Lohr - Especialista - Universidade Positivo - UP
andi_lohr@hotmail.com
Resumo:
Este artigo analisa, a partir dos conceitos de design para
sustentabilidade e life cycle design, os aspectos ambientais
relativos a embalagens de eletrodomésticos importados da
China, tendo como estudo de caso a embalagem de uma panela
elétrica, a qual é vendida em um hipermercado do Paraná. Tais
conceitospropõemamelhorutilizaçãodosrecursosempregados
no design de embalagens, tendo em consideração todo seu
ciclo de vida e visando contemplar as questões ambientais.
Com o uso de ferramentas qualitativas de avaliação, verificou-
se que o objeto de análise apresentou várias deficiências
quanto aos aspectos ambientais, e em seguida foram propostas
melhorias tanto com foco na embalagem em si quanto no
sistema logístico no qual ela se insere. O trabalho é resultado
das atividades de pesquisa em design e sustentabilidade
desenvolvidos em parceria entre duas instituições brasileiras,
a Universidade Estadual de Londrina, que tem um grupo de
pesquisa neste tema, e a Universidade Positivo, por meio do
curso de Especialização em Ecodesign, que ocorreu no biênio
2009-2010.
Palavras-Chave: design; design de embalagens; embalagens
de importação
107.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 107
Introdução
Aglobalização,aoincrementaraquantidadedemercadorias
movimentadas entre os países, tem induzido ao exacerbado
consumo de produtos importados, provenientes principalmente
da China. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento
(2010), o Brasil representa uma parcela muito pequena da receita
de exportação da China, que, em contrapartida, é o segundo
país que mais exporta produtos para o Brasil. Neste cenário,
uma questão ambientalmente crítica é a da embalagem – cujas
funções consistem em facilitar o transporte, conservar o produto,
identificar, expor, comunicar e atrair o consumidor (MESTRINER,
2001, p. 3) – mas que despende uma grande quantidade de
recursos naturais e energéticos. Nesse contexto, o presente artigo
propõe sugestões que abrangem as estratégias do design para
a sustentabilidade, aplicadas em embalagens de produtos não-
perecíveis provenientes da China, tendo como estudo de caso a
embalagem de uma panela elétrica, importada e comercializada
por uma rede varejista brasileira. O produto é destinado a classes
B e C, portanto, a embalagem analisada encaixa-se na categoria
B2C (business to consumer), ou seja, embalagem destinada ao
consumidor final.
Life cycle: etapas e estratégias
O conceito de Design do Ciclo de Vida ou Life Cycle
Design apresentado por Manzini e Vezzoli (2002), propõe que
o produto seja analisado a partir de todo seu ciclo de vida e os
requisitos ambientais sejam integrados desde a primeira fase de
desenvolvimento ou projeto de um determinado produto, em
contraposição a soluções paliativas que visam apenas gerir os
impactos causados por determinada etapa. O processo de Ciclo
de Vida é identificado em cinco fases que o compõem: pré-
produção; produção; distribuição; uso; e descarte (MANZINI
& VEZZOLI, p. 91). Destas etapas, a fase de pré-produção se
destaca na idéia de mudança proposta pelo conceito de Life
Cycle Design, pois é na pré-produção que são definidas todas as
estratégias de design que serão utilizadas na etapa da produção.
Portanto, as decisões tomadas nessa fase têm implicação sobre
todas as demais. Para atingir os objetivos propostos, os autores
apresentam cinco estratégias passiveis de serem adotadas:
minimização dos recursos, escolha de recursos e processos de
baixo impacto ambiental, otimização da vida dos produtos,
extensão da vida dos materiais, e facilidade de desmontagem.
Resultados do estudo
Logística
Devido ao fato de ser um produto importado, é necessária
uma complexa cadeia logística que o produto percorre, desde
seu momento de fabricação até a chegada a seu destino, o
hipermercado. Essa logística inicia com a fabricação da embalagem
e seu transporte até o fabricante de eletrodomésticos, por cerca
de 100 quilômetros. Após sair das fábricas chinesas, o produto
já embalado percorre cerca de 100 quilômetros até o porto de
Ningbo, onde embarca de navio e segue uma rota marítima por
mais de 22.000 quilômetros, até chegar ao Brasil, onde desembarca
no porto de Paranaguá/Paraná, vários dias depois. De Paranaguá,
segueporrodoviasemcaminhões,porcercade500quilômetros,até
o centro de distribuição. De lá, segue novamente por via rodoviária
até as lojas da rede varejista, percorrendo, em média, mais 20
quilômetros, onde finalmente encontra seu destino nas prateleiras
na cidade de Londrina/Paraná. Caso os produtos sejam destinados
108.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
108
a outras cidades, haverá ainda um trajeto rodoviário extra. Com isso,
o produto e, consequentemente, a embalagem, percorrem cerca de
23.000 quilômetros num período de cerca de quinze dias, desde a
fabricação da embalagem até o descarte da mesma pelo consumidor.
Embalagem
A composição da embalagem primária do produto é
formada, externamente, por papel cartão com uma face revestida
e impressa (face externa da embalagem) e uma face Kraft (interna),
cortado e dobrado pelo processo de corte e vinco. A impressão é
feita em cores, pelo processo offset. As embalagens primárias são
transportadasemembalagenssecundárias(oudeexpedição),feitas
em papelão ondulado e seladas com fita adesiva plástica. Estas
caixas de papelão medem 90x90x34cm, e em cada caixa cabem
10 produtos embalados. Internamente, a embalagem primária
utiliza poliestireno expandido, ou EPS expandido como calço para
proteção e acondicionamento do produto. Acompanham ainda
um manual impresso em papel sulfite 75g, em duas cores, com as
instruções de uso, e o termo de garantia.
Procedimentos metodológicos
Os procedimentos metodológicos incluíram a revisão de
literatura, seguida de estudo de caso, no qual foram utilizadas
ferramentas qualitativas de avaliação, mais especificamente, a
metodologia de listagens, ou Checklist. Esta é uma ferramenta da
metodologia MEPSS (Methodology for Product Service Systems),
que foi traduzida, juntamente com outras, por Sampaio (2008),
para uso por pesquisadores e designers brasileiros. A partir da
aplicação do checklist, foi verificado se a embalagem analisada
atendiaounãoaoscritériosambientais.Osproblemasencontrados
foram divididos em dois grupos, segundo abordagem proposta
por Sampaio (2009): com foco na embalagem (requerem
soluções de ecodesign) e com foco no sistema logístico-PDV-
descarte (requerem soluções sistêmicas).
Problemas com foco da embalagem:
• Dimensões do design da embalagem: As dimensões da caixa
excedem ao necessário para acondicionar o produto, o que gera
desperdício de material (papel cartão e tinta para impressão).
Além disso, menos produtos podem ser transportados no
contêiner, o que gera mais emissões e gastos de energia.
• Uso dos materiais na embalagem: O uso do EPS expandido
(isopor) representa um problema ambiental, visto que este é
um polímero de difícil degradação que causa grandes impactos
ambientais, e não existe coleta seletiva adequada para o EPS
expandido. Embora exista a reciclagem para este material, o
processo ainda é inviável financeiramente para alguns dos atores
da cadeia de reciclagem, como os chamados “carrinheiros”.
• Extensão da vida útil da embalagem: A embalagem não foi
projetada para ter a sua vida útil estendida, sendo desenhada para
o mero acondicionamento do produto no seu transporte e depois
ser descartada. Não há a preocupação com o seu pós-uso.
• Extensão da vida útil dos materiais: Uma das preocupações
básicas na seleção de materiais para embalagens deve ser a
adequação do tempo de vida do material ao tempo de uso
da embalagem, o que evidentemente não ocorre ao se utilizar
um polímero (isopor), em uma embalagem de vida tão curta.
Além disso, não há instruções ao consumidor que o ensine a
descartar corretamente os componentes da embalagem ou a
reutilizar esses materiais.
• Facilidade de desmontagem: O uso excessivo de tintas e
109.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 109
acabamentos representa uma dificuldade para a desmontagem
em se tratando da separação dos materiais, pois dificulta
a reciclagem do papel, que fica contaminado. O fato de se
ter dois materiais com ciclos de vida tão diferentes é outro
agravante, pois exige sistemas de separação diferentes. Não
basta apenas a separação em si dos materiais ser fácil, é preciso
também adequar os sistemas de separação, coleta, transporte
e reciclagem.
Problemas com foco no sistema:
• Limitações econômicas para o design estratégico: Devido
às características de baixo custo produtivo na China, existe uma
limitação referente ao design estratégico do produto.
• Falta de informações para analisar o ciclo de vida do
produto: Faltam dados acerca de diversos aspectos do processo,
que dificulta uma análise mais aprofundada.
• Longas distâncias percorridas pela embalagem: As
longas distâncias percorridas afetam as questões ambientais.
Os navios mercantes comerciais de grande porte, em que
são transportados os produtos, utilizam como combustível o
denominado “óleo combustível” ou ainda “óleo pesado”. Trata-se
do poluente de mais alto grau, dentre os derivados do petróleo.
Isso tem como conseqüência emissões de CO2 na atmosfera
além de outros gases poluentes. Outro aspecto diz respeito à
possibilidade de interferências indevidas no meio ambiente,
como o possível transporte de espécies de peixes exógenas ao
local, entre outros fatores.
Soluções propostas:
• Redesenhar e redimensionar a embalagem: Uma
embalagem com dimensões menores atenderia à otimização
do transporte, e a fácil identificação do produto na embalagem
também pode facilitar a estocagem. Entre as soluções, deve-se
desenvolverumaembalagemcomumamenoráreadeimpressão
e incluir informações educativas a respeito do descarte correto
de embalagens.
• Eliminar o isopor: A embalagem corretamente desenhada
para o produto, em conjunto com o uso do papel ondulado,
poderia acomodá-lo e protegê-lo sem a necessidade do isopor.
Esta ação se faz fundamental tendo em vista os graves impactos
ambientais, já mencionados, que são trazidos por este produto.
• Utilização de dobras: Essa proposição visa eliminar a
necessidadedecola,priorizandoumaembalagemmonomaterial,
para facilitar a montagem e desmontagem das embalagens, e
evitaria o uso da cola, facilitando a reciclagem do material.
• Ampliar o ciclo de vida da embalagem ou dos materiais:
A embalagem poderia ser projetada para ter um uso posterior,
ou, no caso da reciclagem, o próprio hipermercado poderia
implantar um sistema de recolhimento das embalagens. É
importante que adotem uma postura de incentivo à entrega de
embalagens, o que poderia ocorrer através de programas que
oferecessem descontos a quem tomasse essa atitude.
Discussão
Uma das principais limitantes encontradas nesse estudo foi a
impossibilidadedeinterferirnodesignemseuâmbitoestratégico.
Não é possível alterar a forma do produto, a maneira como
ele é embalado, o material utilizado, dentre outras limitações,
o que limita o potencial de sustentabilidade do projeto. Essas
decisões só são possíveis se a empresa realmente considerar a
questão do design e da sustentabilidade como estratégica para
a empresa, o que demanda uma profunda mudança na cultura
110.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
110
interna e nos valores que direcionam o negócio. Outro ponto
crítico foi a impossibilidade de se realizar, devido a questões de
tempo e recursos, uma analise quantitativa de impacto, como a
Análise do Ciclo de Vida – ACV, importante para identificar com
mais exatidão os pontos críticos do sistema, o que limita bastante
os resultados do estudo.
Referências
Agenda China: Comércio Bilateral Brasil-China. Ministério do
Desenvolvimento. Dezembro de 2010. Disponível em http://
desenvolvimento.gov.br/agendachina/arquivos/agenda_China_
Parte_II.pdf. Acesso em: 14 jan 2011.
MANZINI, E, VEZZOLI, C. O desenvolvimento de produtos
sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais.
São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2008.
MEPSS - Methodology for Product Service System. Novembro de
2010. Disponível em http://www.mepss.nl/. Acesso em: 14 jan 2011.
SAMPAIO, C P. ECCO!designtools - ferramentas de análise,
comparação, e redesign de produtos, com base nas metodologias
D4seMepss.CláudioPereiradeSampaio(traduçãoeorganização).
Curitiba, UFPR, 2008.
SAMPAIO, C P. Design de embalagens em papelão ondulado
movimentadas entre empresas com base em sistemas produto-
serviço. Anais do 1º Simpósio Paranaense de Design Sustentável.
Curitiba: UFPR, 2009. p 33-41.
111.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 2
http://static.panoramio.com/photos/original/5546330.jpg
112.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
112
Lavanderia Ecotêxtil: proposta de sistema produto-
serviço para cuidado com as roupas em um campus
universitário
Flora Moura Chaves - Graduanda em Design de Moda pela
Universidade Estadual de Londrina - UEL
flora_mchaves@hotmail.com
Timeni Andrade Gonçalves Pontes - Graduanda em Design de Moda pela
Universidade Estadual de Londrina - UEL
timeni_ag@hotmail.com
Prof. MsC. Claudio Pereira de Sampaio
Universidade Estadual de Londrina - UEL
qddesign@hotmail.com
Profa. Dra. Suzana Barreto Martins
Universidade Estadual de Londrina - UEL
suzanabarreto@onda.com.br
Resumo:
O presente artigo apresenta os resultados iniciais de um estudo
para aplicação dos conceitos de sistema produto-serviço (PSS) para
o cuidado com as roupas em campus universitários, tendo como
objeto de estudo o campus de uma universidade brasileira e seu
entorno.Paratal,realizou-seumapesquisadecampopreliminarpor
meio de observação direta com registro fotográfico, questionários
e anotação dos problemas encontrados em lavanderias autônomas
pré-existentes que atuam nas proximidades da universidade. Em
seguida, a partir da revisão bibliográfica sobre PSS e de uma
metodologia específica para esta abordagem, além do estudo de
casos propostos em outros estudos, foi elaborada uma proposta
conceitual de um sistema, denominado Lavanderia Ecotêxtil.
Palavras-chave: Sistema produto-serviço, Design de ciclo de vida,
lavanderia e sustentabilidade.
113.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 113
Introdução
Conforme Lahaise (2010) o uso do campus universitário
pode ser promovido como um laboratório experimental e como
modelo de desenvolvimento sustentável para as comunidades
exteriores a ele, servindo assim de exemplo de boas práticas e
comportamentos ambientais, conforme aponta uma pesquisa
conduzida por Dea Jr, Rosa e Sampaio (2010). Além disso,
é possível idealizar e realizar um espaço adequado para a
construção do conhecimento, para o fortalecimento das relações
interpessoais, tornando-se um centro de referência para uma
nova relação da sociedade com o meio ambiente. O campus
universitário apresenta, ainda, uma gama ampla de necessidades
a serem atendidas, e o cuidado com as roupas dos estudantes,
professores, servidores e outros é uma das principais, e cuja
demanda é diária, e nem sempre atendida com qualidade. Este
tipo de serviço, embora apresente grande potencial de inovação
social, ambiental e econômica, é ainda sub-explorado, e constitui-
se um objeto de estudo bastante interessante sob o ponto de
vista da sustentabilidade.
Nesse contexto, o design pode assumir um papel bastante
relevante, pois, conforme International Council of Societies of
Industrial Design – ICSID (2008), “o design tem a missão de tomar
conhecimentoeavaliarasinterconexõesestruturais,organizacionais,
funcionais, expressivas e econômicas com o objetivo de reforçar a
sustentabilidade global e a proteção ambiental”. Assim, o design
pode se tornar parte da solução dos problemas ambientais, sócio-
éticos e econômicos hoje enfrentados pela sociedade e contribuir
na transição para estilos de vida mais sustentáveis, não apenas
pelo redesenho de produtos existentes, mas para a promoção
de novos estilos de vida intrinsecamente sustentáveis (MANZINI,
1994). A ampliação deste escopo inclui a adoção do pensamento
sistêmico, por meio de abordagens como os sistemas produto-
serviço – PSS (product-service system), cujo foco principal é a
desmaterialização do consumo de produtos tangíveis, agregando
ainda benefícios econômicos. Conforme afirma Brezet (2001),
“Serviços eco-eficientes são sistemas de produtos e serviços que
são desenvolvidos para causar o mínimo de impacto ambiental
com o máximo de valor agregado”.
Metodologia
A partir de um estudo acadêmico desenvolvido por
discentes do curso de Design de Moda da Universidade
Estadual de Londrina no ano de 2011, sob a orientação da
professora <OMITIDO PARA REVISÃO CEGA > e de <OMITIDO
PARA REVISÃO CEGA >, foi detectada a oportunidade de
desenvolvimento de uma proposta de PSS para lavanderia
universitária. Este estudo integra o projeto de pesquisa Ecotêxtil
(2011) como estudo de caso. Primeiramente, foram identificadas
lavanderias autônomas próximas ao campus e, através de
questionários realizados com os prestadores deste tipo de
serviço, coletaram-se dados cuja análise qualitativa possibilitou
a proposição de melhorias do sistema, buscando eliminar as
falhas encontradas.
Paralelamente, foram avaliadas as necessidades reais
de implementação: falta de espaço nas lavanderias dos
apartamentos, que apresentam espaço bastante reduzido, e
que são habitados por apenas um ou dois estudantes; falta
de tempo por parte dos mesmos para lavar as roupas; falta de
experiência e praticidade; e o custo implicado na compra da
máquina de lavar e dos insumos para realizar a lavagem, como
sabão, amaciante, água sanitária e outros.
A fim de prover embasamento teórico e metodológico
114.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
114
à proposta, foi realizada a revisão bibliográfica sobre sistemas
produto-serviço, seus conceitos, princípios, metodologias e
ferramentas, apoiando-se em dados coletados na literatura
científica (artigos, teses e dissertações, relatórios), tanto em
meio impresso quanto eletrônico. Para o desenvolvimento do
novo conceito de PSS, foram utilizadas ferramentas de design
integrantes da metodologia Methodology for Product Service
Systems – MEPSS (2010), proposta por Vezzoli (2007).
Resultados
Para solucionar os problemas mapeados, a proposta
de Lavanderia Universitária se estruturou da seguinte forma:
Idealizou-se o desenvolvimento de uma cooperativa, visando ao
aproveitamento e a organização dos trabalhadores autônomos
que já atuam em serviços de limpeza de roupas. Foi definido
um foco na qualificação do serviço e na gestão sustentável dos
processos e recursos que permeiam todo o sistema, desde a
coleta das roupas, transporte, cadastro dos clientes, consumo
dos insumos e energia e a devolução das roupas limpas aos
proprietários das mesmas.
Estabeleceu-se uma base serviço próximo ou mesmo
dentro da universidade para que a coleta possa ser feita através de
bicicletas planejadas em pontos estratégicos, dividindo o campus da
universidade em cinco áreas. As bicicletas seriam adaptadas para
triciclos, inspirada no modelo indiano, onde o eixo traseiro seriam
alongado com o fim de acoplar uma caixa de fibra de vidro para
armazenar as roupas sujas. As vantagens do uso da bicicleta seria
a eliminação do impacto ambiental gerado pelo transporte. Além
das bicicletas, o estabelecimento também se encontraria disponível
para coleta e entrega das roupas durante o horário comercial. O
sistema é apresentado de forma simplificada na Figura 1.
Figura 1: esquema simplificado do sistema proposto
Outra solução pensada para o transporte das roupas,
eliminando o uso de embalagens descartáveis e fidelização
do cliente, é a proposta de um sistema de malas individuais,
planejadas para a funcionalidade do armazenamento,
disponibilizada através do pagamento de um aluguel-seguro.
Ao final do serviço, o cliente poderia devolvê-la, e o valor
pago seria retirado desde que a mala estivesse em condição
de ser reutilizada. O design da bolsa seria planejado de forma
retangular, para melhor encaixe no transporte, confeccionadas
em lona publicitária, pensado em planos articulados que dobrem
para guardar quando sem uso, havendo ainda uma etiqueta de
identificação do cliente feita no momento do cadastro.
Para produção das bolsas, seria implantado um projeto
de extensão voltado à geração de renda para os integrantes
de uma comunidade a ser definida na própria cidade onde
a universidade está localizada (Londrina, Paraná). Inspirado
115.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 115
na cooperativa Cardumes de Mães, coordenada pela rede de
desenvolvimento Design Possível (2011), no Estado de São Paulo.
Oprocessoderecebimentodasroupasnoestabelecimento
aconteceria na seguinte ordem:
1. Pesagem e registro de entrada na fixa do cliente;
2. Padastramento de clientes com nome completo, endereço,
telefone e principal ponto de recolhimento e devolução
escolhido pelo próprio cliente;
3. Separação das roupas em peças coloridas e brancas;
4. Destinação aos sacos de nylon numerados, os quais seriam
projetados de forma a permitir suficiente movimentação da
roupa e bom escoamento da água para uma lavagem eficiente,
e que não descorem ou rasguem facilmente. Uma vantagem
do uso dos sacos de nylon seria a agilidade e eficiência no
processo de separação, possibilitando a lavagem de roupas de
vários clientes ao mesmo tempo na mesma máquina.
Para a lavagem das roupas foi proposto o uso de ecobols,
produtos que substituem o detergente nas lavagens em máquina.
Depois de lavadas e secas, as roupas seriam direcionadas
para a passadoria, dobradas e pesadas novamente para que se
pudesseefetuaracobrançadoserviço,assimsendore-armazenadas
nas malas e entregues pelo mesmo sistema de coleta.
O espaço físico deverá ser planejado como uma linha de
produção para redução do tempo gasto com trabalho humano.
Seriam aplicados sistemas de energia solar e reaproveitamento
da água. O cálculo de máquinas e funcionários utilizados pela
lavanderia deverá levar em conta os dados quantitativos de
clientes atingidos pela disponibilização do serviço.
Um PSS bem sucedido necessita de uma nova infra-
estrutura social e humana, bem como uma outra forma de
organização voltada para o gerenciamento sustentável. A
cooperativa aqui apresentada foi planejada em sua totalidade
desde a identificação da necessidade, aproveitamento de
mão-de-obra já existente, os meios de transporte, os meio
produtivos, os insumos e o maquinário utilizado, eliminando
perda e reduzindo custo de produção, e propondo uma solução
eficiente sustentável para limpeza das roupas dos universitários.
Discussão
Apesar da preocupação dos autores em se ater aos
princípios de sustentabilidade em todas as decisões relativas
ao conceito de sistema proposto, é importante ressaltar que
se trata ainda de uma proposta conceitual. O estudo carece
de um levantamento quantitativo mais aprofundado, tanto
da demanda para este tipo de serviço quanto de dados como
consumo de água, energia, resíduos e outros tipos de emissões.
Deste modo, uma das ferramentas mais importantes para este
tipo de estudo é a Avaliação do Ciclo de Vida – ACV, uma
ferramenta de avaliação quantitativa de impactos ambientais
de produtos e sistemas. A ACV integra os Sistemas de Gestão
Ambiental – SGA’s utilizados por empresas que buscam a
certificação ambiental de seus produtos e processos. Ao indicar
de forma mais precisa quais as etapas do ciclo de vida do sistema
estudado, a ACV permite uma maior precisão nas escolhas das
estratégias ambientais mais adequadas ao projeto.
116.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
116
Referências
Breezer, H. Promise Manual. Delft University of Technology.
Rathenau Istitut. Holanda: 1996.
Dea Jr, J G, Rosa, I M, Sampaio, C P. Diretrizes Ambientais
Avaliadas pela ótica do Design para um Campus sustentável.
Revista Projética. Universidade Estadual de Londrina. Londrina:
2010. E-ISSN 2236-2207.
Manzini, E, Vezzoli, C. O desenvolvimento de produtos
sustentáveis: os requisitos ambientais dos produtos industriais.
São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 2008.
Popcorn, F; Marigold, L. Click: 16 Tendências que irão transformar
sua vida, seu trabalho e seus negócios no futuro. Rio de Janeiro:
Campus, 1997.
Vezzoli, C. System design for sustainability: theory, methods and
tools for a sustainable “satisfaction system” design. Maggioli
Editore. Milano, Italy: 2007.
Design Possível. Maio de 2011. http://www.designpossivel.org/
possíveis/navegacao/home.php
MEPSS - Methodology for Product Service System. Novembro de
2010. http://www.mepss.nl/
Projeto Ecotêxtil. Maio de 2011. https://sites.google.com/site/
progsuel/projetos/ecotextil
117.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 117
Energia gerada pelo próprio usuário: possível
aplicação baseada no FESS
Fabiano Burgo. Mestrando, Universidade Estadual de Maringá - UEM
fburgo@uem.br
Dr. Dalton Razera. Universidade Federal do Paraná - UFPR
daltonrazera@ufpr.br
Resumo:
O foco deste artigo é realizar um breve levantamento de um
possível caminho a ser adotado para que os usuários gerem a
própria eletricidade a ser utilizada em seus aparelhos eletrônicos,
ou ainda para que a mesma possa ser distribuída para outros
produtos elétricos ao seu redor. Para tanto é introduzido um
conceito diferente de armazenagem e produção de energia
que começa a ser adotado em esportes que envolvem alta
tecnologia: os discos volantes (flywheel). Traçando um panorama
da sociedade atual, no que se refere ao comportamento de seus
indivíduos, busca-se listar possíveis soluções para a quebra do
paradigma de consumo de energia vinda de uma única fonte - a
energia elétrica proveniente das tomadas convencionais. Além
disto, busca-se também aliar a idéia de geração de energia a
atividades que dependem de movimentos dos usuários
Palavras-chave: disco volante; fontes de energia; energia
cinética; reaproveitamento de energia; movimento dos usuários.
118.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
118
Introdução
A sociedade atual vem vivendo um momento crucial de
mudanças para que continue se desenvolvendo como o tem
feito nos últimos anos.
A evolução que a tecnologia proporcionou ultimamente
tem revolucionado a forma como os seres humanos se
relacionam com o ambiente e também uns com os outros. Se
os olhares forem focados no uso de aparelhos eletrônicos, por
exemplo, seria impossível imaginar as pessoas hoje sem acesso a
simples comodidades, como aparelhos celulares, smartphones e
computadores pessoais.
No entanto, esta disponibilidade em larga escala de
aparatos que auxiliem nas tarefas do cotidiano também
apresenta um lado preocupante: nunca a sociedade apresentou
tantos indivíduos com problemas relacionados à simples falta de
exercícios físicos regulares.
Para utilizar exemplos bem simples, pode-se ver o nível
de comodidade que a evolução tecnológica trouxe juntamente
com a queda da necessidade do desempenho de atividades
físicas também simples: elevadores nos edifícios, vidros elétricos
e mecanismos de direção assistida nos veículos, a proliferação de
controles à distância para quase todos os aparelhos eletrônicos.
Todasestascomodidadesfazemcomquesimplesatividades
como levantar-se para trocar o canal na televisão sejam evitadas,
e substituídas pelo simples clicar de um botão. E nos dias atuais,
esta comodidade tem ficado ainda maior, pois o simples toque
em uma tela sensível já é o suficiente para desempenhar uma
infinidade de tarefas em casas totalmente automatizadas.
Noentanto,oserhumanonãotemsuascaracterísticasnaturais
desenvolvidas para ficar sem praticar atividades físicas, ele necessita
que algumas delas sejam desempenhadas para manter todo seu
sistema cardiovascular, circulatório e muscular em funcionamento.
Assim as pessoas, que tanto utilizam as comodidades
proporcionadas pela tecnologia no dia a dia, têm que criar
situações onde possam praticar atividades físicas e manter
seu corpo saudável, podendo estas serem atividades como
caminhar, correr, freqüentar academias de ginástica e etc.
Surge aí uma oportunidade que pode ser explorada
numa tentativa de vincular a necessidade física e biológica
dos seres humanos em compensarem a baixa quantidade de
atividade física em seu dia a dia e a necessidade cada vez maior
de consumo de energia para a manutenção dos aparelhos tidos
como indispensáveis por quase todos.
Método e objetivos
Este artigo tem por objetivo fazer uma breve análise de duas
situações contíguas que vem acontecendo na sociedade atual:
o aumento no consumo (e conseqüentemente demanda) de
energia elétrica e a necessidade cada vez maior da busca por
modalidades de atividade física que propiciem uma maior
qualidade de vida às pessoas.
Verificando-seestesdoispontos,busca-seproporalgumtipo
de proposta que, ao ser mais profundamente analisada e estudada,
possa proporcionar um envolvimento entre os mesmos aliando a
atividade física a alguma forma de geração e/ou armazenamento
de energia que possa vir a ser prontamente utilizada.
Malhotra (2001) cita que ‘Quando pouco se sabe a
respeito da situação-problema, é desejável começar com a
pesquisa exploratória.’ O autor ainda define que um assunto
deve ser previamente estudado e analisado para que a partir
daí seja possível elaborar uma hipótese, ou ainda classificar e
isolar possíveis variáveis.
No caso deste artigo, o mesmo propõe uma investigação
prévia sobre a viabilidade da oportunidade em unir as duas
119.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 119
situações expressas anteriormente, objetivando não dar um
parecer final sobre a mesma, mas sim indicar possíveis caminhos
interessantes de serem seguidos e devidamente estudados.
Propõe então uma análise de uma tecnologia de geração/
armazenamento de energia com características interessantes
já em uso em algumas práticas esportivas, o FESS - Flywheel
Energy Storage Systems.
Para tanto, é feita uma breve descrição do sistema
acompanhado de uma exemplificação de seu emprego. Em
seguida é traçado um paralelo com as práticas de atividade física
mais comum e, por meio das considerações finais, é proposto
um possível encaminhamento para unir ambos.
Demanda por energia e estabelecimentos de
atividade física no Brasil
Um paradigma interessante da sociedade atual é que a
cada lançamento de novos aparatos eletrônicos que antes não
existiam (como tocadores digitais de música, porta retratos
digitais e etc.) aumenta a necessidade por consumo de energia
elétrica per capita. A Figura 1 ilustra a evolução do consumo de
energia nos últimos anos no Brasil.
Figura 1: População e consumo final de energia, total e per capita (IBGE)
Pode-se perceber que nacionalmente o consumo de
energia vem crescendo exponencialmente nas últimas décadas,
chegando facilmente ao dobro do valor obtido há cerca de 20
anosatrás.Poroutrolado,acompanhandooritmodecrescimento
nacional, outro número que vem crescendo bruscamente no
Brasil é a quantidade de academias de ginástica.
Segundo Gonçalves (2010) ‘[...] de 2007 para cá, o
número de academias no Brasil dobrou para 15.551, deixando
o País atrás apenas dos Estados Unidos’. O autor cita ainda
que grande parcela das inscrições de alunos neste período
foi feita por pessoas que nunca haviam freqüentado este tipo
de estabelecimento, deixando assim evidente a ampliação da
abrangência de tal tipo de prestação de serviços.
A estrutura deste tipo de estabelecimento costuma ser
bem simples, sendo que, além dos aparelhos próprios para
atividade física, geralmente também contam com uma série
de aparelhos eletrônicos visando proporcionar um ambiente
mais amigável e interessante para professores e usuários,
como televisores, aparelhos de som. Além disso, pelo fato de
trabalharem além do período convencional, avançando noite
afora, devem contar com um sistema de iluminação compatível
com as atividades ali desempenhadas.
Gonçalves (2010) ainda comenta sobre o aumento de
integrantes da Classe C em tais estabelecimentos, assim como
o surgimento de empresas e serviços especializados para
suprir as exigências e disponibilidade financeira de tal fatia da
sociedade. Sobre o assunto, o autor ainda comenta:
Uma combinação entre aumento da renda da população
e disseminação de um estilo de vida saudável, aliada à
120.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
120
definição do Brasil como sede dos dois mais importantes
eventos esportivos do mundo está aquecendo negócios
ligados a atividades físicas no País.
Cruzandoestasduassituaçõesparalelaschega-seàseguinte
situação: um aumento no consumo de energia elétrica, oriundo
do maior número de aparelhos eletrônicos, e uma busca cada vez
maior por academias de ginástica que propiciem atividade física
para uma parcela progressivamente maior da população.
Dada esta situação, cabe, então, uma colocação
interessante: será que a atividade física desempenhada por este
número cada vez maior de indivíduos não poderia ser revertida
em geração de energia para seu próprio consumo, ou ainda
consumo dos vários aparelhos eletrônicos existentes numa
academia de ginástica?
Não existe atualmente uma iniciativa como esta sendo
praticada, tão pouco podem ser encontrados equipamentos que
unam a característica de proporcionar exercício físico e gerar/
armazenar energia no circuito comercial. No entanto, algumas
formasdeaproveitamento,armazenamentoeconversãodeenergia
cinética em elétrica vem sendo utilizada em algumas modalidades
esportivas com sucesso, como é o caso do automobilismo.
No tópico a seguir é apresentada uma tecnologia que
começa a ser empregada com relativo sucesso: o FESS - Flywheel
Energy Storage Systems.
FESS - Flywheel Energy Storage Systems
O disco volante, mais conhecido como flywheel, é uma tecnologia
nada nova. Possui uma larga utilização no segmento aeronáutico,
onde equipamentos como o giroscópio (Figura 2), que se utiliza
de uma massa em rotação montada de forma que seu eixo de
rotação possa mudar (UNIVERSITY OF CAMBRIDGE, 2007), são
utilizados para prover informações sobre a inclinação das
aeronaves há muitos e muitos anos.
Flywheel energy storage systems (FESS) works by
accelerating flywheel to high speed rotation and
maintaining the energy in the system as kinetic energy.
The energy is converted back by slowing down the
flywheel. A typical system consists of a rotor suspended
by bearings inside a vaccum chamber to reduce friction,
connected to a combined electric motor/generator.
(RACHMANTO et al., 2009)
Ghedamsi et al. (___) citam que este sistema de
armazenamento de energia apresenta vantagens com relação
ao sistema convencional de baterias devido ao fato de possuir
uma vida útil muito mais extensa, além de ótima eficiência, além
de representarem uma ótima alternativa para o armazenamento
de energia em curtos períodos de tempo.
O desenvolvimento de tal tecnologia teve um grande
crescimento devido a uma contribuição um pouco incomum
para as atividades de armazenamento e geração de energia
elétrica: o automobilismo.
A inserção do KERS - Kinetic Energy Recovery Systems na
temporada de 2009 da Fórmula 1, que permitia que a energia
Existe uma série de brinquedos, como
os piões, que se utilizam deste princípio,
além de aparelhos eletrônicos recentes com
sensores de inclinação que se baseiam em
tal sistema para funcionarem. No entanto,
uma nova abordagem de tal sistema surgiu
nos últimos anos: sua aplicação como
mecanismo de armazenamento de energia.
Figura 2 - Giroscópio
121.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 121
da desaceleração dos carros pudesse ser armazenada para
depois ser utilizada aumentando a desempenho do mesmo, fez
com que vários times dessem início ao seu desenvolvimento
seguindo linhas diferentes.
Conforme Formula 1 (2011), foram desenvolvidos
sistemas que se utilizavam de armazenamento de energia
elétrica, outros energia hidráulica ou ainda energia cinética (por
meio da flywheel). No entanto, um dos sistemas mais eficientes
desenvolvidos foi justamente um sistema híbrido, que se
utilizava de uma mistura de energia elétrica e cinética em um
mesmo aparelho, caracterizando assim um FESS.
O regulamento atual da Fórmula 1 não mais permite o uso
deste tipo de equipamento, porém a busca pelo aproveitamento
de energia nos veículos somente tem crescido desde então. A
energia proveniente da frenagem dos carros tem sido uma das
formas de reaproveitamento mais utilizadas, principalmente
pelos novos projetos de veículos elétricos e hidráulicos.
Mas é na competição automobilística que o FESS
encontra seu expoente melhor sucedido atualmente. O Porsche
911 GT3 Hybrid (Figura 3) possui incorporado no seu projeto
um sistema FESS baseado no sistema desenvolvido e utilizado
anteriormente pela equipe Williams de Fórmula 1.
Conforme Formula 1 Journal (2010), o sistema se utiliza
das rodas frontais para funcionar. No eixo dianteiro é disposto
um motor/gerador elétrico responsável por duas funções:
no momento das freadas e reduções de marcha, quando a
potência do motor não se faz necessária ele trabalha como um
gerador, enviando energia elétrica para o FESS, fazendo com
que o flywheel atinja até 40.000 RPM; no momento em que o
piloto aciona o controle na direção do veículo, o FESS passa a
transformar a energia cinética acumulada em energia elétrica,
que é direcionada novamente para o motor/gerador no eixo
dianteiro convertendo-se em um ganho extra de potência para
o carro. O esquema de funcionamento é ilustrado na Figura 4.
Figura 4: Sistema FESS do Porsche 911 GT3 Hybrid
Todo o sistema não consome mais espaço do que as
baterias convencionais ocupariam, e proporciona um ganho em
eficiência e durabilidade para todo o conjunto. As baterias, por
sua vez, ficam acondicionadas no assoalho condizente com o
espaço originalmente ocupado pelo passageiro na versão de
rua do automóvel, como pode ser visto na figura 5.
Figura 3:
Porsche
911 GT3
Hybrid
Figura 5: Localização do
sistema FESS do Porsche
911 GT3 Hybrid
122.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
122
O FESS trata-se de um sistema que representa uma
alternativa ao mecanismo químico de armazenamento de energia
elétrica convencional, podendo substituí-lo em vários casos
apresentando uma grande vantagem em eficiência. (Figura 6)
A médio e a longo prazos sua eficácia fica ainda mais
evidente, pois como boa parte do sistema depende de aspectos
Academias de Ginástica - uma possível aplicação
para o FESS
Como dito na introdução, a sociedade atual encontra-se num
paradigma que envolve o consumo cada vez maior de energia
e a busca dos indivíduos por atividades físicas que venham a
contribuir com a manutenção de sua saúde.
Visto o exemplo do FESS como mecanismo de
armazenamento de energia, pode-se pensar numa leve mudança
de foco no processo de acumulação de energia utilizado com
sucesso pelo Porsche 911 GT3 Hybrid: por que não utilizar-se
dos equipamentos das academias de ginástica que dependem
exclusivamente de força humana para gerar e armazenar energia
a ser utilizada nos aparelhos eletrônicos e outros tipos de
equipamentos da própria academia (ou dos próprios usuários)
que necessitem de energia elétrica para que funcionem?
Para se ter uma academia com nível intermediário, o
SEBRAE (2010) recomenda que esta conte com cerca de 100
equipamentos considerando desde halteres, esteiras até
equipamentos de som e informática.
No entanto, dentre todos estes aparelhos, somente
uma pequena parcela necessita de energia elétrica para que
funcionem: o sistema de som, equipamentos de informática,
bebedouros com resfriamento, telefone (se este for um modelo
sem fio) e as esteiras. O restante dos equipamentos funciona
movido à energia humana.
Se forem analisadas a quantidade de energia gasta para
movimentar todos estes aparelhos e a energia elétrica necessária
para movimentar os que a necessitam, pode-se concluir, em um
primeiro momento, que há um grande desperdício de energia
gerada internamente; já num segundo momento, é possível
constatar que além de haver o desperdício interno de energia
há um ‘importe’ de energia externa para movimentar estes
aparelhos movidos a eletricidade.
Somente para ilustrar toda esta situação, Kazazian (2005)
cita que ‘pedalando 10 minutos à velocidade de 25 km/h, gera-
se uma energia equivalente a uma hora de luz’.
Um sistema FESS que se utilize da energia cinética obtida
pelos movimentos de uma série de bicicletas ergométricas
em uma academia poderia fornecer energia elétrica para a
movimentação das esteiras, por exemplo. E a vantagem é que
a energia não precisaria ser imediatamente consumida quando
gerada, ela ficaria armazenada no sistema até que fosse
necessário utilizá-la.
mecânicos e não químicos
paraoseufuncionamento,sua
durabilidade e os processos
e custos de manutenção
podem se mostrar muito
mais vantajosos do que as
baterias químicas comuns.
Figura 6: Descrição da estrutura
interna do flywheel do Porsche
911 GT3
123.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 123
Um outro aspecto a ser levado em consideração seria
a própria estrutura e instalação elétrica da academia - seria
necessário um estudo mais aprofundado sobre a integração
do sistema de reaproveitamento de energia com a rede elétrica
convencional, fazendo com que os aparelhos possam vir a
utilizar a energia proveniente da mesma sempre que a oriunda
do reaproveitamento não esteja disponível.
Por último, o envolvimento do usuário com a geração de
energiaécrucial,sendoquepormeiododesenvolvimentodeuma
interface amigável este pode se tornar até um fator motivacional
para o mesmo utilizar o aparelho com tal tecnologia.
Considerações finais e possíveis encaminhamentos
Percebe-se que existem paradigmas a serem quebrados muito
evidentes no que se refere ao consumo e geração de energia
na sociedade atual. No entanto, começa a surgir uma série de
iniciativas que abordam esta questão energética de uma forma
diferente, levando em consideração várias outras fontes e
formas de energia que não as convencionais.
No caso específico deste artigo, é possível ver como
uma energia antes desperdiçada, a proveniente da frenagem
dos carros de corrida, pôde ser revertida numa vantagem
competitiva para o mesmo automóvel. Ou seja, ao invés de
ser jogada fora ela é reaproveitada. Além disso, a proposta
de substituir um sistema essencialmente químico, como é o
caso das baterias convencionais, por um mecanismo como o
flywheel demonstra que muito ainda pode ser desenvolvido se
pesquisadores e pessoas envolvidas com tais projetos puderem
olhar e explorar caminhos diferentes.
A aplicação proposta aparentemente mostra-se viável,
porém um estudo mais aprofundado e que resulte num teste
físico real seria o melhor caminho a ser seguido para explorar a
idéia. Além disso, todo um trabalho que forneça subsídios para
convencer as pessoas envolvidas da eficácia do sistema deveria
ser realizado paralelamente, focando-se também no aspecto da
economia financeira que tal sistema poderia vir a proporcionar.
O ideal seria que houvesse um levantamento do
A incorporação
de tal sistema em alguns
aparelhos, como as
bicicletas ergométricas
(Figura 7), seria
extremamente simples,
visto que alguns modelos já
se utilizam do mecanismo
deflywheelparaoferecerem
a resistência necessária ao
movimento do usuário.
Figura 7: Bicicleta ergométrica
Já em outros tipos
de equipamentos, como o
exemplificado pela Figura 8,
a inserção de tal aparato seria
mais complexa, devendo levar
em consideração até uma
mudança nos mecanismos
de resistência aos exercícios
para incorporar o FESS como
um elemento chave para seu
funcionamento.
Figura 8: Equipamentos diversos de
academia/leg press
124.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
124
consumo energético dos equipamentos e aparelhos eletro-
eletrônicos presentes nas academias, acompanhado da medição
teórica da quantidade de energia necessária a ser gerada pelos
equipamentos providos do FESS. Assim uma meta técnica de
geração e reaproveitamento de energia poderia ser traçada e
servir de guia para o desenvolvimento de possíveis aplicações.
Recomenda-se, no entanto, que tais análises e
desenvolvimentos sejam feitos por equipes multidisciplinares,
envolvendo especialmente profissionais da área de engenharia
mecânica, eletrônica e elétrica de forma a dar o devido
embasamento técnico para qualquer proposta.
Estudos mais aprofundados que sigam estas diretrizes
poderiam revelar se a melhor saída seria toda uma geração de
novos aparelhos de ginástica, ou se simplesmente algum aparato
desenvolvidoseparadamentepoderiaseraplicadocomumresultado
satisfatório. A primeira opção, contudo, parece ser não só a mais
viável quanto a mais interessante para promover uma mudança de
comportamento tanto em usuários quanto nos empresários.
Com a evolução da discussão sobre o desenvolvimento
sustentável e o impacto que as atividades humanas acarretam
ao meio ambiente, talvez a busca por tornar novamente cíclica
a geração e consumo de energia por nós mesmos seja um dos
caminhos para um futuro mais sustentável. Resgatar (e aplicar)
a Lei de Lavoisier deveria, então, ser uma meta para todos: ‘Na
natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma’.
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125.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 125
As possíveis contribuições da antropologia para o
desenvolvimento de bens e serviços para a
sustentabilidade
Mariana França Ordacowski
Especialista em Ecodesign, pela Universidade Positivo - UP
mari.ana@me.com
MsC. Claudio Pereira Sampaio.
Universidade estadual de Londrina - UEL
qddesign@hotmail.com
Resumo:
Através da apresentação de diferentes casos de aproximação
entre as disciplinas de Antropologia, Marketing e Design, o
objetivo deste artigo é contribuir para a discussão sobre as
potencialidades do trabalho colaborativo entre estas disciplinas
no desenvolvimento de novas soluções para a sustentabilidade.
Uma pergunta servirá de guia para as reflexões apresentadas:
qual é a relevância da abordagem antropológica para o
desenvolvimento de bens e serviços sustentáveis?
Palavras-chave: antropologia, etnografia, design, marketing,
PSS, D4S
126.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
126
A crise ambiental
Vivemos um momento de transformações profundas e
velozes. Entre estas, a chamada crise ambiental merece atenção
especial, pois nos últimos vinte cinco anos vem incitando debates
e norteando intervenções que afetam os mais diversos campos
da atividade humana: ciência, política, economia, cultura, indústria
– em âmbitos locais e globais. Esta crise eclode a partir da
constatação dequefenômenosambientaiscomooefeitoestufaeo
aquecimento global são causados em parte pela atividade humana.
Oschamadosfatoresantropogênicosincluemasemissõesdegases
de efeito estufa pela queima de combustível fóssil, desmatamento
decorrente da indústria extrativista e agrícola, além da atividade
pecuária, também responsável por grande parte das emissões
de gás metano. Alem da crise ambiental, merecem atenção as
guerras, o agravamento das desigualdades sociais, aumento
da pobreza e as epidemias, entre os fenômenos denominados
“sociais”. Fatos importantes acompanham estes fenômenos, os
mecanismos de mitigação desses malefícios sociais, como a
Declaração dos Direitos Humanos, institucionalizado após o fim
da II Guerra Mundial. A Conferência de Estocolmo, realizada em
1972, representa um marco importante como chamado para ação,
por introduzir a crise ambiental como uma questão de alcance e
responsabilidade global.
“As crises sócio-ambientais modernas trazem a marca das
sociedades de risco, contestando uma série de valores
até então pouco questionados: o progresso, a utilização
desenfreadadosrecursosnaturais,ocrescimentoeconômico
continuado, o aumento progressivo do consumo material
de algumas sociedades afluentes, em detrimento da maioria
do planeta, o agravamento de situações de epidemia, de
fome, de guerras, de escassez de água, de desmatamento
irrefreável, de mudanças climáticas dramáticas, de violência
urbana, de drogadicção e consequente anomia social ...”
(Floriani;Knechtel, 2003,p.1)
A conferência abriu o caminho para o surgimento de
diversasoutras,entreasquaisaEco92,realizadanoRiodeJaneiro
em 1992 e na qual o conceito de desenvolvimento sustentável
elaborado pela Comissão Brundtland em 1987 foi apresentado
como um novo padrão de utilização de recursos, necessário para
garantir o suprimento das necessidades das gerações atuais e
futuras. Desde então, a noção de desenvolvimento sustentável
tem servido como modelo para a elaboração de políticas sócio-
ambientais internacionais, com efeitos também nas políticas
públicas em nível nacional.
Sustentabilidade
O consenso científico sobre os fatores antropogênicos
é apenas recente, e não há um conceito de sustentabilidade
universalmente aceito. Em 2005, o modelo interdependente
das dimensões sociais, econômicas e ambientais para o
desenvolvimento foi introduzido durante o World Summit.
Tanto este modelo quanto a definição da Comissão Brundtland
são utilizados com maior frequência. Este artigo não pretende
discutir os perfis dos posicionamentos políticos e filosóficos
perante a sustentabilidade, mas destacar a relevância da
abordagem antropológica para o desenvolvimento de bens e
serviços orientados para a sustentabilidade na sua definição
mais geral, no contexto atual.
Notas sobre o método etnográfico
A Antropologia é uma ciência que ‘construiu-se, historicamente,
como o estudo do outro, entendido como outra sociedade,
outra cultura, outro grupo social, enfim, aquele que se comporta
de forma diferente de mim’(Jaime Jr., 2001, p.69). É uma
disciplina que tem como foco o ser humano em suas dimensões
biológicas, sociais e culturais, portanto possui um campo
127.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 127
investigativo bastante abrangente, tradicionalmente dividido
em sub-campos: Arqueologia, Antropologia Física ou Biológica,
Antropologia Social e Antropologia Cultural. Estas últimas muitas
vezes são tomadas como sinônimos, no entanto em grosso
modo é possível dizer que a Antropologia Social tem como foco
as organizações sociais e políticas, enquanto a Cultural investiga
o comportamento humano, os sistemas simbólicos e a religião. O
objetivo deste trabalho não será discutir as divergências internas
à disciplina, e sim destacar alguns casos de aproximação entre
esta área e o universo da produção de bens e serviços.
A Antropologia foi instituída como ciência apenas no fim
do século XIX, com o surgimento das primeiras sistematizações
sobre os rituais, a linguagem e mitos dos povos na época
referidos como primitivos. Restritos aos seus gabinetes, os
principais autores tinham os relatos de missionários, cronistas,
viajantes e relatórios coloniais oficiais como principal fonte de
suas pesquisas. No início do século XX as principais críticas que
seguiram se referiam as características evolucionistas desses
trabalhos, onde a sociedade européia figurava como cronotopo
da civilização. Essa perspectiva etnocêntrica serviu aos interesses
colonialistas, contribuindo para a justificativa dos seus projetos
civilizatórios. No início do século XX o surgimento da etnografia
como metodologia investigativa marcou o surgimento da
Antropologia moderna. Sob forte influência do pensamento
positivista, o trabalho de campo emergiu como uma etapa
fundamental da produção do conhecimento antropológico, pois:
Seria indispensável o recurso ao “olhar antropológico”,
aquele supostamente desprovido de preconceito, capaz
de relativizar, escapando da postura etnocêntrica, isto é,
capaz de entender a outra sociedade a partir das razões
que seus próprios membros constroem para justificar seus
comportamentos. (Jaime Jr., 2001, p.69)
As primeiras etnografias surgiram como resultado
do trabalho de campo, também chamado de observação
participante, onde o pesquisador vivia durante um determinado
período, tradicionalmente meses e anos, entre os nativos de uma
determinada localidade, produzindo relatórios etnográficos
sobre diferentes aspectos de seus modos de pensar e viver:
seus rituais, línguas, normas, hábitos. Os longos períodos em
campo seriam necessários para superar a visão etnocêntrica,
permitindo ao pesquisador o exercício da relativização. Assim,
uma etnografia tradicional deveria compreender e descrever
as práticas de uma determinada sociedade em sua totalidade,
e a partir de um ponto de vista desprovido de preconceitos.
Para tanto, os etnógrafos frequentemente contavam com
equipes formadas por assistentes e informantes, estes últimos,
usualmente nativos. No entanto seria um erro afirmar que
todos os Antropólogos eram etnógrafos. Muitos se dedicaram
ao trabalho teórico, para qual as etnografias realizadas por
outros pesquisadores serviram como fonte. Outro momento
importante no desenvolvimento do método foi a introdução da
fotografia como instrumento de pesquisa de campo por alguns
pesquisadores, entre eles Margaret Mead e Gregory Bateson
(1942) autores da obra The Balinese Character: A photographic
Analysis, pioneira da Antropologia Visual. Com o passar dos
anos e o desenvolvimento da disciplina, divergências teóricas e
epistemológicas se multiplicaram, porém o valor interpretativo
da etnografia para Antropologia perdura.
Se Inicialmente o foco das pesquisas etnográficas foram
as sociedades não-industriais, a partir da segunda metade do
século XX, essa situação mudou. O método foi amplamente
utilizado nos estudos da Escola de Chicago, desta vez no
contexto da sociedade industrial.
128.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
128
Uma vez aberta a trilha para o estudo de grupos urbanos
e seus respectivos sistemas culturais, a etnografia abriu,
irreversivelmente, seu espaço de prática. Na cidade, um sem-
fim de grupos e uma multiplicidade de temas para serem
explorados. Entre eles, o consumo. (Rocha; Barros, 2006, p.39)
As implicações do deslocamento da prática etnográfica
para o contexto urbano foram meramente geográficas. Como
nota Barros (2006), o caminho foi aberto e o método etnográfico
não permaneceu apenas no domínio da Antropologia, ganhando
espaço entre as outras Ciências Sociais. O consumo também
tornou-se um foco investigativo da Antropologia, desde autores
como Edward T. Hall (1966), Marcel Mauss (1974), Mary Douglas
e Baron Isherwood (1978), Marshall Sahlins (1979), para citar
alguns. No entanto é importante lembrar que nas Ciências Sociais,
o consumo, assim como qualquer outro fenômeno pode ser
enquadrado, conceitualmente, a partir de diversas perspectivas,
muitas vezes divergentes.
Nos campos do Design, Marketing e Gestão, o a etnografia
se popularizou na medida em que permitiu aos profissionais desses
campos acessarem informações por muito tempo ignoradas a
respeito do comportamento dos consumidores, das dimensões não
declaradas de desejos, sobre as práticas culturais envolvendo bens
de consumo. No âmbito da produção acadêmica brasileira sobre
a utilização da etnografia no campo do marketing, se destaca o
trabalhodeCarlaBarros(2002),eEverardoRocha(1985).CarlaBarros
realizou uma revisão de trabalhos etnográficos em publicações da
marketing nos anos 80 e 90. Sua pesquisa reúne diversos exemplos
de estudos pertinentes para aqueles com interesse em aprofundar
seus conhecimentos a respeito do tema. Já Everardo Rocha focou a
dimensão da produção publicitária, analisando os códigos culturais
que constroem o sentido na esfera da produção, viabilizando o
fenômeno do consumo e as suas práticas (Rocha, 2000, p.18).
A abordagem Antropológica nos campos do Design
e Marketing
Atualmente a etnografia goza de uma popularidade de
dimensões globais no campo da pesquisa e desenvolvimento
de bens e serviços. No Brasil esse fenômeno é mais recente do
que na Europa e Estados Unidos.
Ethnography is the current industry buzzword, and it is
being used by software developers, mobile-phone makers,
store planners and home appliance manufacturers. Called
‘commercial ethnography’, its practitioners aim to create
an understanding of a specific market, and then suggest
actions or designs based on what they’ve observed and
learned. (Whitemeyer, 2006, p.10)
A afirmação é de David Whitemeyer (2006), em seu
artigo An old science makes a new impact on interior design,
uma publicação da IIDA (Associação Internacional de Design de
Interiores),noqualoautorapresentacasosdeaproximaçãoentre
os campos do design e da antropologia. O primeiro caso que o
autor descreve é o trabalho realizado por Eric Laurier (2001), um
pesquisador que estudou o comportamento humano em cafés
e lanchonetes. Em suas pesquisas, ele acumulou informações
detalhadas sobre o comportamento das pessoas ao se sentarem,
1. Tradução livre: A etnografia é a buzzword (buzz, em Inglês, pode ser
traduzido formalmente como ‘zumbido’, e informalmente denota um
estado ‘alterado’ ou de ‘excitação’. O termo é usado para definir o alarido
criado em torno de uma palavra, um conceito, um termo, designando sua
popularidade, geralmente efêmera) atual da indústria e está sendo utilizada
por desenvolvedores de software, fabricantes de celulares, planejadores de
ambientes de varejo e fabricantes de eletrodomésticos. Chamada ‘etnografia
comercial’, seus praticantes se empenham em compreender um mercado, para
depois sugerir ações ou designs baseados no que observaram e aprenderam.
129.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 129
beberem, andarem e conversarem em pequenas lanchonetes de
bairro. Whitemeyer ressalta como essas informações poderiam
ajudar um designer de interiores a realizarem projetos mais
amigáveis, dada a importância de conhecer como as pessoas se
relacionam com seu ambiente.
Durante a década de 60 e 70 a etnografia se popularizou
como ferramenta de pesquisa no campo do Design. O urbanista
William H. White teria sido um dos responsáveis por essa projeção
com seu projeto Street Life. Junto com sua equipe, ele fotografou
e filmou o comportamento das pessoas nas ruas de Nova York,
em 1969, com a intenção de compreender as dinâmicas e relações
das pessoas no ambiente urbano. Suas pesquisas culminaram
com a publicação de livros sobre planejamento urbano, City:
Rediscovering the Center (1988), e The Social Life of Small Urban
Spaces(1980),esteúltimosendotransformadoeumdocumentário
homônimo. É importante ressaltar a orientação pragmática do
urbanista. Além de trabalhar na Comissão de Planejamento de
Nova Iorque durante a pesquisa, ele seguiu uma fecunda carreira
como consultor de planejamento para diversas outras cidades
nos EUA. Para ele, a prática da observação o permitiu ir além do
senso comum, atingindo um grau de honestidade maior do que
meras respostas a simples questionários.
No campo do design de produtos, Stephen Wilcox,
fundador da consultoria Design Science, pioneira no emprego
da etnografia como metodologia de pesquisa para o
desenvolvimento de produtos, assim como na contratação
de pós-doutores em Antropologia Cultural para a análise de
usabilidade. A posição de Wilcox (2008) a respeito da etnografia
é firme - é uma ciência, e como tal deve ser sustentada por
hipóteses e sujeita a comprovação. A Design Science ainda figura
entre as principais consultorias em design, e seus clientes são na
sua maioria grandes corporações, das mais diversas indústrias
como: saúde, telecomunicações, eletrodomésticos entre outros.
Pioneira na área, a Design Science hoje conta com pelo menos
meia dúzia de consultorias competidoras. A Entre estas, a IDEO,
que em 2006 esteve entre as 15 empresas mais inovadoras em
2006, de acordo com a publicação da Businessweek .
Diferente da Design Science, a IDEO não possui a mesma
orientação cientificista, apostou na multidisciplinaridade, fugiu
do academicismo e atualmente conta com metodologias
próprias de trabalho. A IDEO destaca sua orientação ao human-
centered design, e declara a busca por ferramentas de pesquisa
que contribuam para o mesmo, sem necessariamente favorecer
um campo do conhecimento em detrimento de outro. Ainda
assim, a empresa atribui um valor significativo aos métodos de
observação e testes de usabilidade, os quais incluem muitas
características do método etnográfico. A empresa nasceu da
confluência de diversas outras empresas especializadas em
design, com muitos casos de sucesso no desenvolvimento de
produtos na área tecnológica. A IDEO se autodenomina uma
empresa de pesquisa e inovação, e seguindo essa orientação
atravessou as barreiras disciplinares acadêmicas.
As pesquisas de marketing, durante muitos anos, foram
baseadas apenas em métodos estatisticamente quantificáveis,
dividindo grupos de consumidores em segmentos baseados em
critérios demográficos, geográficos e psicográficos. A respeito
do comportamento do consumidor, prevaleceram abordagens
comportamentais individualistas. O emprego de técnicas
como focus groups e pesquisas survey para o compreender o
comportamento do consumidor tiveram seus ápices, mas não
demorou para que o recurso a metodologias mais empáticas
- neste caso, a etnografia - se tornasse uma importante
ferramenta para a pesquisa mercadológica.
130.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
130
“À medida que as dimensões culturais e simbólicas foram
ganhando importância cada vez maior na explicação do
comportamento do consumidor, os departamentos de
marketing das empresas, os institutos de pesquisa de
mercado e as agências de publicidade passaram a recorrer ao
aporte antropológico, recrutando muitas vezes profissionais
com formação em Antropologia – disciplina voltada à análise
dos fenômenos socioculturais.” (JÚNIOR,2001,p.68).
Na década de 80 nos Estados Unidos e na Europa, o
comportamento do consumidor foi consolidada como disciplina
de orientação multidisciplinar nas universidades, fato que
contribuiuparaaaproximaçãodasáreas.NoBrasil,aintensificação
do diálogo entre os campos da Antropologia e do Marketing é
bem mais recente, e tem se intensificado nos últimos anos.
Comportamento do consumidor
Em seu artigo de título Etnomarketing o Antropólogo
Pedro Jaime Júnior (2006) apresenta alguns casos que citados
em publicações da área de negócios, que evidenciam essa
aproximação no Brasil desde 1999, por parte de algumas
empresas. O primeiro destes sobre a Gatorade do Brasil, que
estimulou os funcionários da empresa a irem a campo para
observar o comportamento dos consumidores da bebida, que
na época era comercializada em garrafas de vidro.
Descobriu-se que os consumidores só tomavam a bebida
depois que retornavam para casa, uma vez que não a
levavam para a academia com medo que a garrafa de
vidro se quebrasse nem consumiam na cantina por causa
do preço elevado. Essa informação, obtida no trabalho
de campo, foi a gênese do lançamento do Gatorade em
garrafa plástica. (Jaime Jr.,2006,p.72)
A Revista Exame de 25 de Janeiro de 2006, no artigo
entitulado No supermercado, na favela, no bar , usa o termo
marketing etnográfico para descrever a prática de observação
dos hábitos dos consumidores in loco realizado por executivos
de grandes empresas. O artigo traz diversos casos de empresas
que apostaram no método para compreender melhor o
comportamento de consumidores de baixa renda. Entre estes
está o da Procter & Gamble, que em 2003, com a necessidade
de atingir metas de vendas globais, reuniu profissionais de
diferentes áreas da empresa para conviverem com famílias
de renda entre R$400 e R$1200 durante uma semana. Uma
das descobertas foi que a área de lavar roupa da maioria
das moradias eram descobertas e úmidas, o que orientou a
mudança da tradicional embalagem do sabão em pó de papel,
para a plástica. Ou o da Kimberly-Klark, que ao observar que
consumidores de baixa renda utilizavam predominantemente
fraldas de pano, ao passo que as descartáveis eram utilizadas
apenas em ocasiões especiais. A empresa lançou então um
mini-pacote com duas fraldas, comercializado em algumas
regiões específicas do país.
No Brasil o surgimento de consultorias especializadas
em inovação, comportamento do consumidor e mapeamento
de tendências também tem crescido nos últimos anos,
dois exemplos são a box1824 e Mandalah. Contando com
equipes multidisciplinares, realizam projetos para grandes
empresas de diversos setores, em diversos países, a exemplo
de algumas consultorias já citadas. Mais do que pesquisas
para o desenvolvimento de produtos ou de comportamento
do consumidor, essas consultorias estão envolvidas com o
incessante trabalho de mapeamento de tendências globais
e locais, contando com uma rede de contatos que incluem
131.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 131
desde especialistas, pesquisadores, até pessoas consideradas
disseminadoras ou influenciadoras. A primeira categoria é auto-
explicativa, já os pesquisadores não possuem um perfil pré-
determinado, geralmente são selecionadas pessoas com boa
capacidade de observação e que se assemelham ao público
ou universo a ser analisado, sendo os últimos escolhidos com
base no capital simbólico e redes relacionais. Trabalhando com
essas três categorias de colaboradores ad hoc, essas empresas
realizam projetos milionários completamente customizados às
necessidades dos seus clientes.
Comportamento do consumidor e sustentabilidade
A crise atual apresenta desafios para todas as esferas
da atividade humana. Essa crise eclode da constatação da
insustentabilidade do sistema moderno de produção e consumo.
Para compreender um pouco melhor a questão do consumo
e sustentabilidade, é importante notar a ambivalência do
fenômeno, como nota Fábio Feldmann (2003):
De um lado, o consumo abre enormes oportunidades
para o atendimento de necessidades individuais, de
alimentação, habitação, saneamento, instrução, energia,
de bem-estar material, objetivando que as pessoas possa
gozar de dignidade, auto-estima, respeito e outros valores
fundamentais” (Feldmann, 2003, p.148)
Por outro lado, o sistema produtivo e os padrões de
consumo se desenvolveram de forma desigual, em escala global,
colocando em risco os recursos naturais do planeta. É justamente
esse desenvolvimento desenfreado que culminou com a crise
atual. Essa ambivalência revela a complexidade do papel do
consumo na vida contemporânea, e reforça a necessidade
de se compreender mais profundamente o as dinâmicas do
fenômeno. Essa necessidade é declarada no capítulo 4 da
Agenda 21. No documento, constam os seguintes objetivos:
(a) Promover padrões de consumo e produção que reduzam
as pressões ambientais e atendam às necessidades básicas da
humanidade; (b) Desenvolver uma melhor compreensão do
papel do consumo e da forma de se implementar padrões de
consumo mais sustentáveis (Agenda 21, 1997).
A crise ambiental, embora seja um dos assuntos mais
prementes do momento, não é universalmente reconhecida.
Tampouco o modelo de desenvolvimento sustentável é o
dominante. Por um lado assistimos à crescente visibilidade do
tema nos últimos anos, o que pode ser interpretado como um
sinal positivo de mudança para os ambientalistas . Por outro,
acessar a essas informações não é garantia de engajamento
da população com a questão. Sendo assim, a possibilidade
de acessar informações não necessariamente se traduz em
práticas efetivas. Surgem então questões que afligem muitos
ambientalistas: porque, mesmo tendo acesso a tanta informação,
as pessoas não mudam seus hábitos? O deslocamento do foco da
dimensão da produção para a do consumo, no que diz respeito ao
desenvolvimento sustentável, é recente, pois a clareza a respeito
da interdependência entre os hábitos cotidianos de consumo e
impactos ambientais e sociais ainda é um privilégio de poucos.
É certo que considerar as dinâmicas geradas pelo consumo na
vida contemporânea, o significado individual da circulação de
bens, as percepções dos consumidores a respeito das empresas,
as construções culturais a respeito da natureza, as construções
de identidade a partir do consumo, os contextos políticos globais
e locais, as identidades culturais pós-modernas são questões
especialmente relevantes para aqueles diretamente envolvidos
com o desenvolvimento de bens e serviços sustentáveis, como
132.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
132
os profissionais de marketing, gestores e designers.
No campo da prática, as soluções ainda estão em fase
de construção, e a primeira grande dificuldade que temos é
compreender que as transformações necessárias se dão em campos,
esferas e tempos diferentes (Feldmann, 2003). Alguns atores sociais
detem, no entanto, lugares privilegiados nos sistemas de produção
e consumo, como as empresas e governos, e como consequência a
possibilidade de agir em direção a sustentabilidade em uma escala
muito grande. Outros atores importantes nesse cenários são as
organizações internacionais, como o Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente, fundado em 1972. O PNUMA (UNEP, em
Inglês) é uma instituição global que apóia diversas iniciativas no
contexto do desenvolvimento sustentável, entre eles projetos que
engajam governos, o terceiro setor, organizações civis e instituições
privadas. O consumo e a produção sustentáveis estão entre as
principaisáreasdeatuaçãodoPrograma.Aseguirserãoapresentadas
três iniciativas que se inscrevem nessa área de atividades.
O D4S tem como ponto de partida a necessidade de
crescimento econômico e competitividade por parte dos países
menos desenvolvidos no cenário econômico global. O D4S oferece
uma metodologia destinada ao desenvolvimento de inovação para
pequenas e médias empresas, como foco em produtos. A proposta
do D4S vai além da produção de produtos ecoeficientes, baseadas
nosprincípiosdoEcodesign.Partindodeumaabordagemsistêmica
(os três Ps: People, Planet e Profit), que abrange a dimensão social
e contempla a satisfação das necessidades dos consumidores
como processos relevantes a produção de produtos (D4S, 2008).
No capítulo 3 do manual de D4S, onde são apresentados os
conceitos sobre inovação de produtos, é reiterada a importância
da avaliação da perspectiva do consumidor, entre outras, para o
planejamento de design e marketing:
Focar as necessidades e desejos do consumidor é
essencial para comercializar um novo produto. Portanto
informações sobre análise de mercado, comportamento
do consumidor, tendências e cenários futuros, políticas
governamentais, interesses ambientais, novas tecnologias
e materiais podem ser úteis (D4S, 2008).
Na prática, as principais estratégias do D4S são: o
redesign e o benchmarking. Cada uma dessas é apresentada
a partir de 10 etapas, nas quais as necessidades e motivações
dos consumidores são retomadas em diferentes momentos: na
primeira etapa do Redesign, momento de criação da equipe e
do planejamento do projeto, para a avaliação das necessidades
dos consumidores, e na última, a de implementação e
acompanhamento, que envolve a prototipagem e testes de
mercado, onde a reação dos consumidores aos produtos é
avaliada.Quantoaobenchmarking,aperspectivadoconsumidor
surge novamente na definição das áreas a serem focadas.
Uma segunda iniciativa, como um foco diferente, a
inovação social, é o CCSL (Comunidades Criativas para Estilos de
vida Sustentáveis). Com o intuito de explorar a inovação social
como vetor para o desenvolvimento de inovação tecnológica
e produtiva, o projeto de pesquisa possui duas publicações,
Creative Communities. People inventing sustainable ways of
living (2006), Collaborative Services. Social Innovation and
Design for Sustainabilty (2006), sob a coordenação de François
Jégou e Ezio Manzini. A primeira é dedicada a exposição casos
de soluções criativas, oriundas de comunidades locais européias.
Para a pesquisa, foi utilizado o que os pesquisadores chamaram
de método quasi etnográfico. Estudantes de design de oito
diferentes instituições de ensino foram a campo munidos
de câmeras fotográficas e cadernos, realizando entrevistas,
testando os serviços e coletando dados para o projeto.
133.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 133
As características das Comunidades Criativas, como
definidas pelo CCSL, são as seguintes: representam rupturas
em relação ao seus contextos, são inovações radicais; são fruto
da atividade de pessoas excepcionalmente empreendedoras e
criativas, com claros objetivos e que buscaram as ferramentas
necessárias para atingi-los; são iniciativas firmemente enraizadas
em um lugar, otimizam a utilização de recursos, e direta ou
indiretamente promovem novas formas de transformação social;
por último, fazem parte de redes com comunidades de diferentes
localidades que compartilham experiências similares, portanto
são ao mesmo tempo locais e cosmopolitas (Manzini, 2006).
A partir do conceito de comunidades criativas e serviços
colaborativos desenvolvidos, a iniciativa do CCLS advoga por
uma re-significação do papel do designer enquanto mediador
e facilitador material e principalmente processual. O projeto
foi estendido para outras regiões, constituindo uma rede de
pesquisadores em instituições de outras regiões como a África
e Oriente Médio, e países como Estados Unidos Brasil, Colômbia
e China. A perspectiva do trabalho é bastante interessante por
desconstruir a ideia de que apenas empresas ou estúdios de
design detem o poder material e criativo para solucionar os
problemas da humanidade. Ao descentralizar o papel do design,
o livro evidencia o potencial de mobilização e criatividade coletivo
das pessoas. Os casos contemplados pelo CCLS nas diferentes
regiões onde estão presentes revelam as particularidades locais
das iniciativas, aumentam a visibilidade de iniciativas locais ao
evidenciarem o poder das micro-escolhas de atores externos ao
circuito oficial de produção e circulação de produtos, reafirmando
assim relevância dessas iniciativas para a construção de novas
formas produção e consumo.
Outra estratégia recomendada pela UNEP é a dos Sistemas
de Produto-Serviço, uma iniciativa que se inscreve na lógica da
desmaterialização, partindo do princípio da mitigação dos
impactos ambientais com a redução dos fluxos materiais no
sistema de produção e consumo, ao redefinir o conceito de
produto. Um Sistema Produto-Serviço pode ser definido como
o resultado de uma inovação estratégica, que desloca o foco
empresarial da atividade de projetar e vender apenas produtos
físicos para oferecer um sistema de produtos e serviços, que em
conjunto são capazes de satisfazer as demandas específicas dos
clientes (UNEP). Desta forma, a satisfação das necessidades do
consumidor é um elemento central para as estratégias de design
e negócios, na medida em que o PSS propõe a venda de um
conjunto de soluções mutuamente dependentes que satisfaçam
plenamente os clientes, em contraposição a bens materiais.
Segue uma breve definição das três principais categorias de
PSS: (a) serviços que agregam valor ao produto: a empresa
oferece serviços complementares a um produto vendido,
garantindo sua funcionalidade e manutenção, mediante um
contrato com tempo determinado de vigência, ao fim do qual
o fornecedor pode se responsabilizar pelo destino do produto;
(b) serviços que provêem resultados finais aos consumidores: a
compra de um produto é substituída por um mix de serviços
orientados a um resultado final, no qual o consumidor não tem
o ônus financeiro de aquisição e manutenção do produto ou
equipamento, pelo qual a empresa é inteiramente responsável,
como proprietária; (c) serviços que provêem plataformas
capacitadoras aos consumidores: a empresa oferece o acesso a
produtos, ferramentas, oportunidades e outras capacidades, e
consumidor paga pelo tempo de uso efetivo do produto, por
tempo determinado em contrato. Cada uma dessas categorias
possui uma configuração diferente de benefícios para os
diferentes stakeholders, e contexto mais ou menos propícios para
aplicação. Em todas essas configurações o interesse econômico
134.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
134
do produtor será o de reduzir a quantidade de recursos utilizados,
e de reciclar ou reutilizar os materiais descartados, posto que
sua margem de lucro depende diretamente do pagamento por
unidade de utilização, e não por um produto. Como proprietário
dos equipamentos e produtos referidos, a extensão do ciclo de vida
dos produtos se torna também, uma questão de lucro. É justamente
a partir dessa convergência de interesses que a otimização do
sistema pode ocorrer, potencializando a sua ecoeficiência.
Como nota Mont (2002), o crescimento do setor de
serviços nos países mais industrializados evidencia a transição
para uma economia de serviços, uma mudança motivada
principalmente pela busca da diferenciação e competitividade no
mercado. A discussão atual é a respeito das potencialidades do
PSS também nos países menos industrializados. Os defensores
dessa abordagem argumentam que per se o PSS não pode ser
classificado como uma solução sustentável, sendo necessária a
análisedoscasosespecíficosaúnicaformadeavaliaressaquestão.
Por outro lado, esses defensores também afirmam que nos países
menos industrializados, essa abordagem pode ampliar e facilitar
o acesso das pessoas a certas utilidades as quais poderiam não
alcançar em uma economia orientada unicamente a manufatura
em massa - com o benefício de evitarem seus malefícios.
A abordagem do PSS é muito bem resolvida teoricamente,
e uma iniciativa que contempla a ambivalência do consumo,
mencionada anteriormente. Porém existem desafios e barreiras
para sua implementação, entre os maiores, a aceitação cultural
do deslocamento de valores do possuir, para a satisfação das
necessidades de forma sustentável.
Conclusão
Os casos apresentados ao longo deste artigo evidenciam
diferentes aproximações entre os campos Antropologia,
Design e Marketing. Há quinze anos, Sherry (1995) discutiu as
oportunidades colaborativas entre as disciplinas de Marketing
e Antropologia, reconhecendo a contribuição da perspectiva
antropológica para o pensamento mercadológico, por um lado,
e o empenho de antropólogos mais orientados a aplicação
prática. Porém ele também ressaltou a escassez de colaboração
teórica e prática entre as disciplinas.
Entre os primeiros cases apresentados, a primeira
diferença diz respeito a natureza institucional das iniciativas
- algumas se situam no campo acadêmico, enquanto outras
no setor privado. Outro fator que os diferencia é a finalidade:
alguns são trabalhos realizados por consultorias e empresas,
outras geradas na academia. Enquanto umas são guiadas pela
lógica da maximização de lucros dentro de empresas, outras são
mais orientadas a contribuição teórica. Essas aproximações ora
são mediadas por pessoas (profissionais da Antropologia) que
transitam pelo universo da produção industrial e de mercado,
ora pelo instrumento de pesquisa (profissionais de diferentes
áreas que declaram realizar pesquisas etnográficas). Já do
ponto de vista mercadológico, os cases das empresas Gatorade
do Brasil, da Procter & Gamble e Kimberly-Klark descritos
apresentam resultados positivos em termos de lucratividade.
No capítulo sobre o comportamento do consumidor e
sustentabilidade, foram apresentadas algumas propostas oriundas
do campo do Design. Em todas elas foi explicitada a necessidade
de um conhecimento mais profundo sobre estilos de vida, padrões
de consumo, motivações e expectativas a respeito da natureza
dos processos decisivos dos consumidores. Estas são questões
centrais para o desenvolvimento de produtos e serviços para a
135.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 135
sustentabilidade, que é um amplo e fértil campo para Antropólogos.
Este artigo não fornece respostas a nenhum dos pontos
mencionados. Seu objetivo maior é chamar a atenção para
um campo específico de investigação, o do comportamento
do consumidor, no qual a abordagem Antropológica tem sido
privilegiada, e como essa abordagem tem sido utilizada. A este
respeito, Pedro Jaime Jr. faz algumas observações importantes:
Oantropólogoqueatuanocampodomarketingtorna-seum
auxiliar da ordem estabelecida? Estariam esses profissionais
transformando-se, eles mesmos, naquilo que Sahlins
(1979) denominou de “mercenários do símbolo”? Quais
as conseqüências de tal transformação? O conhecimento
antropológico passa a ser uma sofisticada arma para a
dominação simbólica do consumidor? Ao construírem
estratégias de marketing lastreadas em interpretações
antropológicas cada vez mais refinadas, não estariam as
empresas ludibriando os indivíduos? (Jaime Jr.,2001,p.76)
As questões de limites éticos colocadas pelo autor é um
bom exemplo da reflexividade característica da disciplina, e são
relevantes não apenas para os antropólogos, mas para quaisquer
atores envolvidos no circuito de desenvolvimento, produção e
circulação de produtos. A partir dessas questões, Jaime Jr. (2001)
enfatiza a importância de se conhecer melhor outras facetas do
fenômeno do consumo: como o não-consumo.
Já as iniciativas para o desenvolvimento de soluções
sustentáveis para a produção e consumo apresentadas,
declaradamente chamam por uma abordagem interpretativa
para as dimensões simbólicas do consumo, uma tarefa para a
qual o antropólogo certamente está preparado. Outras questões
surgem ao serem considerados todos os atores sociais, ou
stakeholders, envolvidos nessas empreitadas, assim como
os aspectos epistemológicos e metodológicos do trabalho
interdisciplinar, importantes para a garantia não apenas da
aplicação, mas da produção e reprodução do conhecimento,
que aqui, infelizmente, não puderam ser contempladas.
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137.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 137
A colaboração no design de abrigos de
emergência: relato de uma pesquisa-ação
Carolina Daros - Mestranda em Design - Universidade Federal do Paraná -
UFPR
carolinadaros@gmail.com
Ivana Marques da Rosa - Mestranda em Design - Universidade Federal do
Paraná - UFPR
ivanamarques8@hotmail.com
Prof. Dr. Aguinaldo dos Santos
Universidade Federal do Paraná - UFPR
asantos@ufpr.br
Prof. Dr. Adriano Heemann
Universidade Federal do Paraná - UFPR
adriano.heemann@ufpr.br
Resumo:
O presente artigo enfoca o fenômeno da colaboração entre
instituições de design no âmbito internacional em temas
de relevância global. O artigo reporta um projeto de curta
duração que tratou do desenvolvimento de um conceito para
abrigo destinado a situação de emergências, desenvolvido
entre duas universidades, em projeto demandado por
uma ONG. O estudo utilizou o método da pesquisa ação.
No artigo, os autores procuram relacionar os problemas
e soluções do processo de colaboração, apontando as
dificuldades encontradas e os caminhos de solução para o
trabalho colaborativo. Os autores apontam diretrizes para
a utilização de projetos de curto prazo como estratégia de
implementação de programas de colaboraçãona área de Design.
Palavras-chave: Colaboração, Design, Abrigos de emergência,
Desastres Naturais
138.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
138
Introdução:
A medida que o planeta se torna mais populoso,
gradualmente os eventos antes percebidos como naturais passam
a ser considerados desastres, causando danos ou diminuindo, de
algum modo, o bem estar das pessoas. Conforme UN Habitat
(2010), em 2009 foram registrados no mundo 335 desastres
naturais significativos, que ocasionaram a morte de mais de
10.000 mil pessoas e afetaram a vida de outras 119 milhões.
Diante desse contexto mundial, emerge a importância da
criação de habitações instantâneas que possam ser utilizadas em
caráter de emergência pelas vítimas desses desastres. A criação
de algo novo nesse sentido é o objeto do presente artigo. O
desenvolvimento colaborativo de uma habitação instantânea
ocorreu no âmbito de um projeto aplicado do núcleo de pesquisa
de uma universidade paranaense em parceria com umaa ONG
paranaense (FLAMING, 2011).
A partir disso, foi estabelecida a equipe de trabalho que
contoucomdiferenteshabilidadesvindasdaarquitetura,engenharia
civil, engenharia madeireira e o design de produto e gráfico.
Em seguida, foi elaborado um cronograma que definiu os
objetivos e as tarefas a serem realizadas. Dessa forma, iniciaram-
se as pesquisas e, semanalmente, foram realizadas reuniões
informais com parte da equipe para discutir os resultados parciais.
Além das reuniões, durante esse período também foram feitos
workshops, brainstormings e reuniões agendadas com todos os
integrantes da equipe.
O resultado alcançado foi a otimização da primeira ideia
trazida pelos representantes da ONG, porém sem ser ainda uma
solução definitiva, em função do curto prazo e da necessidade
de testes de viabilidade.
Já nesse primeiro momento percebeu-se uma colaboração
espontânea informal. Desta maneira, foram identificados
aspectos positivos e negativos no desenvolvimento do projeto,
o que em alguns momentos resultaram da falta de um plano
estruturado de colaboração.
Aqui, serão relatados a pesquisa ação que norteou o
presente artigo e os resultados mais relevantes elencados
durante o desenvolvimento do projeto. Além disso, os resultados
foram discutidos e as conclusões apresentadas.
Para contextualizar a presente pesquisa, aborda-se,
brevemente, o conceito de colaboração. Esta pode ser entendida
como o trabalho em conjunto por meio de um esforço comum,
dependente da relação das pessoas envolvidas, confiança entre
elas e dedicação de cada parte para o alcance dos resultados
(HEEMANN et al. 2009). Esses autores observam que o
fenômeno da colaboração muitas vezes não é compreendido
e estabelecido em equipes de projeto, muito embora seja um
objeto de amplo interesse em diversas áreas do conhecimento.
Nesse sentido, apresentam definições de trabalho
colaborativo e premissas para o seu alcance no âmbito do Design.
Tendo em vista o crescente interesse das diversas áreas do
conhecimento na colaboração, os autores, realizaram um estudo
que resultou na proposição de premissas para linhas colaborativas
e para técnicas de auxílio ao trabalho colaborativo, considerando
as etapas de estabelecimento, manutenção e dissolução. Desse
modo, oferecem fundamentos teóricos sobre a colaboração
em equipes de projeto. Ações que valorizam e aperfeiçoam
as relações das equipes nos estágios de estabelecimento,
manutenção e dissolução, constituem as técnicas para o alcance
do trabalho colaborativo, conforme segue:
Estabelecimento da Colaboração: o estabelecimento é o
processo inicial, onde se formará uma equipe conforme os
interesses, a integração, a confiança e o comprometimento que
envolvem seus integrantes.
139.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 139
Manutenção da colaboração: cuidar da manutenção das
relações de colaboração em equipe é essencial, independente
da duração do projeto, já que pequenas falhas poderão causar
grandes conseqüências para a equipe. Para tanto, deve-se
levar em conta a motivação, a comunicação, a coordenação e
a cooperação, de forma que a equipe não perca o espírito de
cooperação durante o projeto.
Dissolução da colaboração: há que se considerar, no momento
da dissolução formal de uma equipe de projeto, uma possível
necessidade futura de reestabelecimento da colaboração.
Portanto, cada integrante deve permanecer apto a continuar a
trabalhar individualmente; deve confiar na equipe que está sendo
dissolvida e deve manter contato com os demais por meio de um
compartilhamento acessível de informações.
A relevância desses três estágios é ressaltada por Heemann
et al. (2009) por viabilizar uma configuração cíclica em um
contexto de desenvolvimento continuado de projetos, onde uma
nova colaboração poderá ser mais facilmente compreendida e
alcançada,jáqueaanteriornãochegaráasertotalmentedissolvida.
Pesquisa Ação
A pesquisa ação aqui relatada é baseada, inicialmente,
em um conjunto de aspectos de natureza empírica, relativas
ao trabalho colaborativo, observados durante uma pesquisa
aplicada no âmbito do projeto aqui apresentado no núcleo
de pesquisa da universidade. Cumpre ressaltar que, apesar do
referido projeto ter ocorrido em grupo, não buscou-se nele
seguir qualquer modelo teórico ou procedimento metodológico
explícito sobre colaboração. Portanto, a experiência colaborativa
ocorreu de uma maneira espontânea.
Resultados
Como na maioria dos casos de pesquisa aplicada, é possível
elencar uma ampla gama de descobertas resultantes de uma
abordagem empírica. No caso do projeto Bossa Nova, os
resultados relevantes obtidos foram classificados em três
âmbitos: pessoal, profissional e no que se refere especificamente
ao projeto.
No âmbito pessoal, houve a possibilidade de conhecer culturas
diferentes e novos pontos de vista, considerando que os
participantes são oriundos de diferentes países e com diferentes
habilidades. Em se tratando do grupo, cumpre observar que as
principais dificuldades encontradas durante o projeto referiram-
se a dificuldade de expressão dos profissionais em virtude dos
diferentespontosdevistaepelalimitaçãonafluênciadeidiomas,
tendo em vista que o trabalho envolveu os idiomas inglês,
alemão e português. Já, no aspecto profissional, foi possível
vivenciar o desenvolvimento de pesquisa em novas áreas do
conhecimento ainda não exploradas. Para o projeto Bossa
Nova, os resultados possibilitaram uma visão mais abrangente
sobre as possíveis soluções, a partir da interdisciplinaridade dos
profissionais envolvidos. Nesse sentido, uma dificuldade geral
foi a divergência de interesses em relação aos objetivos do
projeto, realçada ainda mais pelo curto espaço de tempo (60
dias) para o seu desenvolvimento.
No que se refere ao projeto, uma das dificuldades foi o
desconhecimento de conceitos básicos necessários para o
desenvolvimento do projeto interdisciplinar. Isso ocasionou
interrupções do raciocínio lógico durante as reuniões, que
acarretou em perda de foco nas discussões. Sentiu-se falta,
ainda, de planos de trabalho articulados uns com os outros, que
140.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
140
pontuassem as tarefas e as respectivas metas a serem alcançados
com cada uma delas.
Contudo, essas mesmas barreiras foram superadas por
meio de ações reativas, realizadas a medida que as dificuldades
surgiam.Foramrealizadasreuniõesformaiseinformais,workshops,
desenvolvidos brainstormings; utilizados GoogleDocs, Skype
e tradutores on-line. Além disso, a elaboração do relatório do
projeto contribuiu para uma visão geral da abordagem do projeto
e resultados obtidos. A formalização do cronograma auxiliou
para a visualização objetiva das etapas do projeto. Cabe ainda
mencionar o papel importante das pessoas que atuaram como
mediadores de opiniões divergentes; o esforço para explicações
ilustradas e gestuais; a elaboração de maquetes; as apresentações
em multi-mídia; as discussões informais; a divisão de tarefas e a
insistência em explicações sobre o projeto e seus objetivos.
Possibilidades de resolução de problemas no trabalho
colaborativo em design
O presente item relaciona, de modo sintético, as lições
aprendidas sobre colaboração durante a experiência empírica.
Como pode ser observado no QUADRO 1, a maior parcela dos
problemas de colaboração enfrentados pela equipe de projeto
foram solucionadas pelos próprios integrantes, de modo intuitivo
ou com base na experiência de vivências anteriores. Contudo,
as soluções propostas pela equipe de trabalho poderiam ter
sido melhor aproveitadas, caso um modelo de colaboração
padronizado, baseado em contribuições teóricas já existentes,
tivesse sido adotado desde o início do projeto.
QUADRO 1: Comparação de problemas e soluções para o trabalho
colaborativo em design
PROBLEMA SOLUÇÃO
CORRELAÇÃO
COM AS
PREMISSAS
Dificuldade de
expressão e
comunicação
Tradutor on-line/
dicionário
Aulas de inglês/
português
Explicações
ilustradas
Explicações
ilustrativas
Explicações
gestuais
Mediadores de
opinião
Manutenção
Manutenção
Manutenção
Manutenção
Manutenção
Estabelecimento,
Manutenção e
Dissolução
Divergências de
interesse
Mediadores de
opinião
Brainstorming
Estabelecimento,
Manutenção e
Dissolução
Manutenção
Atraso na
definição dos
objetivos
Cronograma
Divisão de tarefas
Estabelecimento,
Manutenção e
Dissolução
Interrupções
durante o
projeto pelo
desconhecimento
dos conceitos
básicos
E-mail
Skype
Reuniões
GoogleDocs
Multi-mídia
Estabelecimento,
Manutenção e
Dissolução
Interrupções de
raciocínio
Mediadores de
opinião
Estabelecimento,
Manutenção e
Dissolução
141.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 141
Falta de plano
de trabalho
articulado
Workshops
Discussões
informais
Relatório
Explicações sobre
o projeto
Maquete
Estabelecimento
e Manutenção
Estabelecimento
e Manutenção
Dissolução
Estabelecimento
e Manutenção
Dissolução
Fonte: Os autores
Tomando como exemplo as soluções referentes à
dificuldade de expressão e comunicação, estas podem ser
associadas à premissa da manutenção da colaboração. No tocante
às divergências de interesse, o brainstorming configura-se como
uma solução de manutenção. É possível perceber que a atuação
de mediadores de opinião apresenta-se relevante, uma vez que
relaciona-se às três premissas. Da mesma forma, as soluções
de cronograma, E-mail, Skype e GoogleDocs também podem
ser identificadas nas três premissas de colaboração. Contudo, a
divisão de tarefas, reuniões, discussões informais, workshops e
explicações sobre o projeto caracterizam-se como premissas de
estabelecimento e/ou manutenção. Ao passo que, a elaboração
de maquete e relatório se restringem a premissa de dissolução.
Discussão
Neste tópico serão relacionados os problemas elencados neste
artigo com as soluções tomadas pela equipe de projeto. A
dificuldade de expressão foi um dos problemas mais relevantes
encontrados. Quando um interlocutor pretendia informar, muitas
vezes a mensagem foi interpretada pelo receptor de forma
equivocada. Além disso, a falta do domínio da língua estrangeira
dificultou a comunicação. Isto aconteceu, tanto na comunicação
oral, quanto na escrita.
Como ferramentas de solução, foram utilizados o tradutor
on-line; dicionário; aulas de inglês e português; explicações
ilustradas e explicações gestuais. Nesse contexto, um melhor
entendimento poderia ter ocorrido mais facilmente se houvesse
uma preocupação anterior em planejar as atividades realizadas
conforme premissas colaborativas.
Em muitas ocasiões a solução encontrada foi a
interferência de mediadores. Em um caso, a mesma informação
assumiu significados diferentes em função do ponto de vista,
da formação do profissional ou das interpretações pessoais. Em
outro caso, ocorreu a divergência de interesses e dos objetivos
em relação ao projeto.
As dificuldades diversas acarretaram em atrasos para
a definição dos objetivos e tarefas do projeto. O cronograma,
que deveria ser uma ferramenta facilitadora do processo, sofreu
inúmeras alterações até a definição final dos objetivos do projeto.
Outra dificuldade foram as interrupções devido a
interrupções do raciocínio lógico durante as reuniões. Isso
ocorreu porcausada falta deconhecimentodosconceitosbásicos
necessários para o desenvolvimento do projeto e sua correta
interpretação. Nesse caso, os esclarecimentos ocorreram por
E-mails, comunicações por Skype e conversas formais e informais
após as reuniões. Os E-mails, em grande parte, continham
documentos e links importantes para a maior compreensão das
questões do projeto. Nesse sentido, a colaboração foi pautada
no o compartilhamento constante de informações.
Conclusão
O presente artigo tratou da colaboração como um fenômeno
estabelecido entre pessoas durante o desenvolvimento de um
142.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
142
projeto de abrigos voltados a pessoas em situação de emergência.
Relatou uma pesquisa ação no campo do design, apresentando
a relação entre problemas e soluções iniciais fundamentado
em uma experiência prática. Essa experiência obtida com este
projeto pode ser replicada em pesquisas de design no sentido
de potencializar benefícios do trabalho em grupo e minimizar
barreiras que podem surgir do desconhecimento sobre aspectos
fundamentais da colaboração.
Percebe-se que as barreiras encontradas ao longo do
projeto decorreram da falta de uma visão inicial e compartilhada
doproblemadeprojetoedorespectivoobjetivo.Essasduastarefas
básicas, que estão diretamente relacionadas ao estabelecimento
da colaboração, influenciam diretamente todas as outras tarefas.
Foi a dificuldade para o alcance de um entendimento
compartilhado que prejudicou a compreensão do projeto como
um todo. O projeto se tornou um processo mais lento e trabalhoso
do que o esperado inicialmente pelos membros da equipe.
Tendo em vista os diferentes atores, idiomas e a
interdisciplinaridade envolvidos no projeto, identificou-se a
necessidade de uma maior ênfase na comunicação formal
(relatórios, textos explicativos, apresentações sobre o projeto,
etc), bem como o compartilhamento dessas informações de
forma rápida, para minimizar interpretações equivocadas. Nesse
sentido, seria grande valia o uso aprimorado de ferramentas
computacionais.
Para projetos futuros, recomenda-se a identificação
inicial das habilidades e competências de cada integrante e o
direcionamento à tarefas compatíveis com as mesmas. Outro fator
importante para o estabelecimento de uma equipe colaborativa
seria o estabelecimento de uma liderança clara e ativa diante das
atividades do projeto.
Finalmente, há que se considerar, de um modo geral, as
diferenças de visão de mundo das pessoas que formam uma
equipe de projeto. Os resultados do presente artigo apontam,
sobretudo, que não existe um roteiro definido a ser seguidor.
Existem sim premissas que devem ser consideradas e adaptadas
a cada caso em particular.
Referências
FLAMING, F. et al. Bossa Nova Report. Curitiba: Núcleo de
Design e Sustenatbilidade da Universidade Federal do Paraná,
2011. Relatório Técnico. NDS-UFPR
HEEMANN, Adriano; LIMA, Patrícia Jorge Vieira de. Premissas
para o Alcance do Trabalho Colaborativo em Design. Artigo
apresentado no 5. Congresso Internacional de Pesquisa em
Design, Bauru, 2009.
UN Habitat. Shelter Projects 2009. Published in 2010. Disponível
em: www.disasterassessment.org. Acesso em: 03/05/2011.
143.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 143
Uma experiência no ensino de design de sistemas
orientados à sustentabilidade
Jucelia S. Giacomini Silva - Candidata a Ph.D pela PUC-Rio
jucelia.giacomini@gmail.com
Resumo:
Tendo em vista a necessidade de formação profissional qualificada,
crítica e comprometida com o desenvolvimento de novos cenários
que busquem redefinir e articular os requisitos sociais, econômicos
e ambientais, este artigo busca introduzir reflexões a partir da
experiência em sala de aula, relativa ao ensino de sistemas de design
orientados à sustentabilidade, em turmas do 7º período do curso
de Bacharelado em Design da Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR). Deste modo, o presente artigo busca efetuar uma
análise da necessidade de articulação entre a pesquisa e o ensino em
Design, pois a inserção dos conceitos socioambientais na prática do
Design ainda é vista com cautela pela maioria dos discentes, soando
muitas vezes como uma mera reconfiguração mercadológica. Outro
importante aspecto observado se caracteriza pelo desconhecimento
de diretrizes e ferramentas que viabilizem a inserção desses
conceitos no projeto em design, o que acarreta uma visão pouco
definida dos resultados passíveis de serem atingidos no projeto
e, conseqüentemente, uma indefinição do escopo de atuação do
designer. A metodologia da disciplina consistiu no desenvolvimento
da solução de um problema (identificado na UTFPR pelos alunos) e
o desenvolvimento da solução foi baseado nos requisitos do design
de sistemas orientados sustentabilidade. Os conceitos teóricos
sobre design e sustentabilidade foram agrupados por tema e
tratados em sala de aula a partir da leitura de textos e do diálogo
entre os participantes. Após o estudo de cada tema, os requisitos e
ferramentas foram aplicados ao problema identificado, tendo em vista
o desenvolvimento de uma solução sistêmica. A partir dos resultados
obtidos foram identificadas lacunas e oportunidades relevantes para
a integração entre o ensino de Design e a sustentabilidade.
Palavra-chave: Ensino, design de sistemas, sustentabilidade, lacunas,
oportunidades
144.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
144
Introdução
Este estudo parte do pressuposto defendido por Jacobi
(2006, p.9), que o direcionamento para uma sociedade social e
ambientalmente equilibrada é fortalecido na medida em que são
desenvolvidas “práticas educativas que pautadas pelo paradigma
da complexidade, aportem para a escola e os ambientes
pedagógicos, uma atitude reflexiva em torno da problemática
ambiental” objetivando assim, formar novas mentalidades que
traduzam a nossa relação com o ambiente. Desta forma, um dos
passos iniciais para a inserção dos requisitos socioambientais
na praxis do Design consiste na disseminação em sala de aula,
das teorias que fundamentam as bases do conhecimento da
sustentabilidade, de modo crítico e participativo, para que se
torne possível obter uma reconstrução da própria teoria.
Verifica-se que os temas relativos à sustentabilidade ainda
são incipientes nas grades curriculares dos cursos de Design no
Brasil, pois sua inclusão como assunto relevante nas disciplinas do
conhecimentoaindaémuitorecentee,devidoaestesfatores,seufoco
ainda se encontra restrito ao ecodesign e à minimização do impacto
ambiental dos processos produtivos (FONTOURA; SAMPAIO, 2007).
Deste modo, o caminho a percorrer para a consolidação de uma
concepção multidimensional de sustentabilidade ainda é longo e
passa por diversas lacunas e dificuldades.
Observando-se a realidade em sala de aula é possível
verificar que estas dificuldades são encontradas tanto por parte dos
discentes,naassimilação,entendimentoeelaboraçãodaspropostas;
quanto por parte dos docentes, que buscam caminhos (nem
sempre claros e muitas vezes cambiantes) para o estabelecimento
de relações complementares entre o ambiente, a sociedade e o
Design. Portanto, a construção de um corpo de conhecimento
voltado aos requisitos sociais e ambientais torna-se de fundamental
importância, pois objetiva fortalecer as visões integradoras
necessárias, bem como a construção das bases adequadas para o
estabelecimento de relações entre ambiente e desenvolvimento.
Entretanto, é importante salientar o pensamento de Sauvé (2005,
p.320), pois a autora defende que o desenvolvimento sustentável
não se caracteriza como um “fim claramente definido”, mas
consiste em um caminho a ser percorrido, “cabendo a cada um
traçá-lo de acordo com sua conveniência”.
Estas ideias servem como um alerta para a educação “a
respeito da, para a, na, pela ou em prol da” sustentabilidade
(SAUVÉ, 2005, p.317), pois apesar das boas intenções, corre-
se o risco de replicar a concepção utilitarista da educação e a
representação “recursista” do meio ambiente, adotada pela
“educação para o desenvolvimento sustentável” (SAUVÉ, 2005,
p.320). Neste caso, trazendo como exemplo as práticas em
Design, torna-se necessário evitar as visões reducionistas e
hegemônicas que transformam o Design em um gestor de
recursos, no qual as atividades humanas são colocadas a serviço
de um “desenvolvimento”, que por sua vez utiliza exageradamente
e desnecessariamente a linguagem da sustentabilidade.
Por outro lado, essa profunda carência de práticas
educativas que apontem para propostas pedagógicas centradas
na conscientização, na mudança de comportamento, no
desenvolvimento de competências, na capacidade de avaliação
e participação dos educandos, representa uma grande
oportunidade para as instituições de ensino superior em Design,
no sentido de investir na formação de sujeitos sintonizados com
as necessidades ambientais, econômicas e sócio-éticas, além
de apoiar e consolidar o desenvolvimento de metodologias e
material didático para um ensino crítico e participativo do Design
e dos requisitos sustentáveis (FONTOURA; SAMPAIO, 2007).
A partir destas conjecturas, o método de pesquisa
145.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 145
utilizado no presente artigo constitui-se na revisão crítica
da literatura, que foi realizado um estudo teórico-analítico
objetivandoefetuaracorrespondênciaentreosprincipaisaspectos
do Design e da Educação com os requisitos da sustentabilidade.
Na sequência são apresentadas as etapas de trabalho utilizadas
em sala para ao desenvolvimento da disciplina do curso de
Design da UTFPR, as quais foram posteriormente analisadas com
os alunos e submetidas a uma reflexão crítica, tendo em vista a
busca de novas possibilidades de inclusão de práticas educativas
integradoras, voltadas a uma “educação para um futuro viável”
conforme defende Sauvé (2005, p.321).
Educação e sustentabilidade
A proposta de “educação para a sustentabilidade” ou
“para o desenvolvimento sustentável” faz parte da renovação
do discurso abordado em debates internacionais e pode ser
observada nas conferências e documentos da United Nations
Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO) e na
Agenda 21 proposta na Rio-92, assim busca ampliar a efetividade
da “educação ambiental”, a qual não apresentou os resultados
esperados nas últimas décadas, pois não se mostrou capaz de
atender à crescente complexidade da crise contemporânea (LIMA,
2003). Segundo o autor, essa abordagem educativa possui como
objetivo integralizar as dimensões social, ambiental, econômica
e cultural, visto que diversos estudiosos argumentam que a
educação ambiental assumiu expressões reducionistas, pois não
conseguiu colocar em prática as ações reconhecidas em seu
discurso (Vide: Sterling, 2001; Tilbury, 1996; Sauvé, 1997).
Noentanto,Sauvé(2005)defendequeasustentabilidadediz
respeito a uma dimensão essencial da educação que fundamenta
o desenvolvimento pessoal e social e não deve ser determinada
apenas como uma “educação para...” ou como uma “ferramenta”
para a resolução de problemas do meio ambiente. Entretanto, a
autora defende que, mesmo considerando o desenvolvimento
sustentável como um importante fenômeno sócio-histórico, é
possível ter em vista uma educação que não seja reduzida a
esse fator somente, visto que a relação dos indivíduos com o
ambiente ainda está longe de ser um consenso em nível global.
Similarmente,Jickling(1994,p.2)afirmaque“educarpara”sugere
a formação ou a preparação para a realização de algum objetivo
instrumental, ou seja, indica um modo pré-determinado de
pensar que o aluno deverá prescrever. Portanto, o autor defende
que a educação deve permitir que as pessoas efetuem uma
análise crítica do contexto, questionando inclusive o conceito
de “desenvolvimento sustentável” e “sustentabilidade” e, para
tanto, Jickling (1994, p.6) propõe o termo “educar sobre...”, pois
este permite capacitar os alunos a discutir, avaliar e julgar por si
próprios, participando inteligente e ativamente da construção
do debate direcionado aos princípios da sustentabilidade.
Neste sentido, Jacobi (2003) declara que o tema da
sustentabilidade envolve um conjunto de atores do universo
educativo, o que intensifica o engajamento dos diversos
sistemas de conhecimento, a capacitação de profissionais e a
comunidade universitária em uma perspectiva interdisciplinar.
Desta forma, se o pensar e o fazer sobre o ambiente forem
estimulados e vinculados aos valores éticos e ao diálogo entre
as diversas áreas do conhecimento, torna-se possível superar
o reducionismo e fortalecer a complexa interação entre a
sociedade e a natureza (JACOBI, 2003). Para que se torne
possível impulsionar as transformações de uma educação
que assume um compromisso com a formação de valores
de sustentabilidade como parte de um processo coletivo,
faz-se necessário repensar as práticas sociais e o papel dos
146.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
146
professores como mediadores e transmissores do conhecimento.
Este reposicionamento é importante para a construção das bases
adequadas da compreensão do meio ambiente global e da
responsabilidade de cada um, tendo como finalidade construir uma
sociedade igualitária e ambientalmente sustentável (JACOBI, 2003).
Deste modo, a necessidade da internalização da
problemática ambiental e da construção crítica do saber requer o
fortalecimento de visões integradoras que estimulem a reflexão
em torno das relações indivíduos-natureza, dos riscos ambientais
globais e locais e das relações ambiente-desenvolvimento
(JACOBI, 2003). Lima (2003, p.116) reafirma esta questão e
defende que a construção de uma educação ambiental complexa,
capaz de responder a problemas igualmente complexos, implica
em ir além de uma “sustentabilidade de mercado” reprodutivista,
fragmentária e reducionista. Neste sentido, a aprendizagem, a
criação e o exercício de novas concepções e práticas de vida,
de educação e de convivência – individual, social e ambiental
– se tornarão capazes de concretizar a tão esperada, melhora
das relações de cada indivíduo com o mundo, como um
novo paradigma de desenvolvimento construído a partir das
características de cada contexto.
Sustentabilidade no ensino do Design
Desde que as necessidades sociais e ambientais emergiram
nos debates internacionais tem se observado o surgimento
de conceitos e teorias associadas ao Design e à necessidade
de reconhecer os limites ambientais no projeto de produtos e
serviços, tendo em vista uma maior contribuição para o meio
ambiente e para a sociedade (SHERWIN, 2004). No entanto
ainda existem diversas lacunas na teoria e na prática do Design,
pois este tem passado por transformações aleatórias reagindo a
mudanças circunstanciais ou ideológicas, em vez transformar
seus fundamentos por meio de uma reavaliação radical de
prioridades e necessidades (WHITELEY, 1998).
No entanto, em suas origens o Design é a ferramenta por
meiodaqualoserhumanomoldaseusambienteseobjetose,por
extensão, a sociedade e a si mesmo (WHITELEY, 1998). Todavia,
para desempenhar um papel fundamental na construção de
cenários inovadores direcionados para a construção de uma
sociedade sustentável o Design necessita de uma revisão de
seus conceitos fundamentais e, conforme defende Buchanan
(1995), também necessita de contextualização histórica, teórica,
pesquisa e crítica, pois na ausência dessas condições as escolas
acabam por formar profissionais inabilitados para desenvolver
atividades projetuais que incluam os requisitos ambientais,
sociais ou culturais da sustentabilidade.
Observa-se que desde seu surgimento, as escolas de
Design têm sofrido influências das forças sociais dominantes
representadas tanto pelas tendências político-didáticas quanto
pelo sistema produtivo e, devido a essas interferências externas,
muitas vezes as escolas acabam assumindo uma atitude
conformista em relação ao processo de formação de uma nova
consciência baseada na crítica, na análise e na ação responsável
quanto ao futuro (SELLE, 1973).
Segundo Santos (2009) o Design como é comumente
conhecido originou-se para dar suporte à produção industrial e,
sob vários pontos de vista, é um dos fatores centrais no estímulo
aos altos níveis de consumo de recursos naturais observados na
sociedade atual. A Bauhaus, primeira escola de Design do mundo,
foi criada em 1919 para atender as necessidades práticas da nova
produção industrial (MARGOLIN, 2005). O primeiro conceito de
Design presumia como resultado “(...) um produto industrial
passível de produção em série (...) para a (...) satisfação de
147.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 147
determinadas necessidades de um indivíduo ou grupo” (LÖBACH,
2001 p.16-17), através do binômio forma-função.
No modelo formalizado originado na Bauhaus, o Design
é visto basicamente como uma questão de funcionalidade
utilitária, de materiais, métodos, forma e proporção (WHITELEY,
2008). O autor também afirma que, desde então tem surgido
diversos modelos que influenciam o ensino e a prática do Design,
no entanto os caracteriza como incoerentes e insuficientes, pois
necessitam de uma maior uniformização entre seus conceitos,
a fim de permitir que as diversas qualidades e aptidões se
complementem ou se confrontem de forma construtiva.
O modelo teorizado caracteriza-se como um dos modelos
identificados por Whiteley (1998) e representa o produto de um
alinhamento com a posição pós-moderna mais extrema que
decreta a “fusão” total entre teoria e prática. O modelo politizado
é marcado por um pensamento binário e oposicionista e deu
origem aos designers radicais dos anos 60, que por sua vez deu
lugar aos designers responsáveis dos anos 70, aos “verdes” dos
anos 80 e aos designers éticos dos anos 90. Este modelo, embora
simplista, redutivo e não muito difundido possui uma grande
proporção de consciência social e política.
Atualmente o modelo mais comum no ensino do Design
é respaldado pelas exigências “profissionais” e realidades de
“mercado”, buscando equipar o estudante com aptidões e
técnicas que lhe serão úteis no desenvolvimento de trabalhos
para empresas e para a indústria. A partir deste modelo originam-
se os designers consumistas que tem por objetivo impulsionar
a economia por meio do redesign e do styling e neste caso,
raramente são verificados questionamentos sobre a necessidade
de determinados tipos de produtos ou mesmo sobre seus efeitos
ambientais, sociais, morais ou pessoais. O modelo tecnológico
presume que as soluções em tecnologia apresentam-se como
as mais apropriadas para as questões relativas ao Design e
observa-se uma tendência a esquivar-se de debates ou reflexões
críticas das teorias deste modelo de ensino (WHITELEY, 1998).
O modelo do “designer valorizado” proposto por
Whiteley (1998) apresenta a necessidade de desenvolver um
modelo para uma nova categoria de designers, baseado em uma
compreensão bem mais aprofundada e bem mais complexa dos
valores relativos às responsabilidades sociais, culturais, políticas
e ambientais. Este modelo preconiza o potencial de contribuir
para uma qualidade de vida melhor e mais sustentável,
buscando defender ideais sociais e culturais mais elevados
do que o consumismo em curto prazo, com a sua bagagem
obrigatória de degradação ambiental. Segundo Lima (2003) esta
renovação da educação já está em movimento nos meandros
de nossa sociedade por meio de diversas iniciativas alternativas,
fragmentada em diversos campos de conhecimento e atividade
(incluindo o Design), embora ainda não se categorize em um
plano predominante dentro do sistema global.
Princípios pedagógicos do Curso de Bacharelado
em Design da UTFPR
Os princípios pedagógicos do curso Bacharelado
em Design da UTFPR inserem claramente as os princípios
sustentabilidade, conforme apresentado a seguir:
Quadro 1: Missão, Visão e Valores do Curso de Bacharelado em Design da
UTFPR
Fonte: DADIN (2011)
148.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
148
Missão:
Promover a educação
em Design, por meio do
ensino, da pesquisa e da
extensão, atuando em prol do
desenvolvimento de projetos
que visem à sustentabilidade
(social, cultural, ambiental e
econômica).
Visão:
Ser agente de inserção
do Design na sociedade
como uma atividade
fomentadora da ética e do
desenvolvimento cultural,
social e tecnológico.
Valores:
Entende-se o Design como
uma atividade criativa,
cujo objetivo é estabelecer
qualidades multifacetadas de
artefatos, processos, serviços
e sistemas, integrados aos
ciclos de vida. Além disso,
como um mediador na
relação entre artefatos e
pessoas, e entre estas, um
dos agentes promotores
do desenvolvimento social,
cultural, econômico e
tecnológico. Sob este prisma,
com base numa abordagem
sistêmica, apresentam-se
como valores: Cidadania, Ética,
Respeito e Solidariedade.
As informações foram coletadas no site do Departamento
Acadêmico de Desenho Industrial (DADIN) (2011) e verifica-se
que está claramente explicitado nos princípios pedagógicos
do curso, que o Design (como área do conhecimento) torna-
se o fator central da humanização inovadora das tecnologias,
tendo em vista promover o desenvolvimento social, cultural,
econômico e tecnológico. Verifica-se que as competências do
Design estabelecidas pela UTFPR baseiam-se nas definições do
ICSID (2011). Deste modo, o curso assume que o Design é uma
atividade envolvendo uma ampla gama de atuações que vai além
do desenvolvimento de produtos, podendo atuar em processos,
serviços e sistemas. Portanto, o termo “designer” refere-se a
um indivíduo que pratica uma profissão intelectual, não se
caracterizando apenas como um mero executor de projetos.
A abordagem da sustentabilidade na grade curricular do
Curso de Design da UTFPR
De acordo com os princípios pedagógicos assumidos
pelo Curso de Design foi observada a Matriz Crricular e a ementa
das disciplinas ofertadas, buscando analisar como são efetuadas
as abordagens relativas à sustentabilidade. O quadro 2 a seguir,
apresenta as disciplinas que compõem a Matriz Curricular do
curso de Design da UTFPR, no qual foram sinalizadas na cor
verde as disciplinas que, em seu plano de ensino, buscam
abranger alguns dos requisitos da sustentabilidade e sua
aplicação no processo de design.
Em uma análise preliminar é possível verificar que os
requisitos da sustentabilidade se encontram inseridos como
item de destaque na missão e nos valores do curso, entretanto
quando se analisa as disciplinas ofertadas, constata-se que o
tema da sustentabilidade começa a ser abordado de modo
149.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 149
mais específico, a partir do 5º período nas disciplinas de Teoria
do Design 2, 3 e 4 que abordam respectivamente, os aspectos
culturais, sociais e ambientais. Embora não seja o foco principal
das disciplinas de Gestão do Design, Projeto de Sistema de
Produto, Projeto de Sistema de Design, estas também abordam
o tema em suas respectivas ementas.
1º Período 2º Período 3º Período 4º Período
Comunicação
Oral e Escrita
Tecnologia e
Sociedade
História da
Técnica e da
Tecnologia
História da Arte
1
História da Arte
2
Teoria do
Design 1
Psicologia 1 Psicologia 2
Teoria da Cor Ilustração 1 Ilustração 2 Semiótica
Materiais e
Processos de
Fabricação 1
Materiais e
Processos de
Fabricação 2
Materiais e
Processos de
Fabricação 3
Materiais
Expressivos 1
Metodologia
da Pesquisa
Processo e
Produção
Gráfica 1
Processo e
Produção
Gráfica 2
Processo e
Produção
Gráfica 3
Computação
Gráfica 1
Computação
Gráfica 2
Fotografia
Desenho 1 Desenho 2
Geometria
Descritiva 1
Geometria
Descritiva 2
Perspectiva 1 Perspectiva 2
Composição 1 Composição 2 Metodologia
de Projeto de
Design
Projeto de
Sistema Visual
Representação 1 Representação 2 Ergonomia 1 Ergonomia 2
Atividades Complementares
5º Período 6º Período 7º Período 8º Período
Fundamentos
da Ética
Teoria do
Design 2
Teoria do
Design 3
Teoria do
Design 4
Fundamentos
de Estatística
Gestão da
Produção
Gestão
Mercadológica
Materiais
Expressivos 2
Modelos e
Maquetes 1
Modelos e
Maquetes 2
Gestão do
Design
Modelo Digital 1 Modelo Digital 2 Animação Audiovisual
Fundamentos de
Interação
180h de disciplinas optativas disponíveis
Projeto de
Sistema de
Produto
Projeto de
Sistema de
Design
Ergonomia 3 Metodologia
Aplicada ao TC
Trabalho de
conclusão de
Curso 1
Trabalho de
conclusão de
Curso 2
Estágio Supervisionado
Atividades Complementares
Quadro 2: Matriz Curricular do Curso de Bacharelado em Design da UTFPR.
Fonte: DADIN (2011)
150.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
150
Observando-se os princípios pedagógicos assumidos
pelo Departamento de Design da UTFPR e a Matriz Curricular
do curso de Bacharelado em Design, pode-se considerar que a
inserção de uma maior interdisciplinaridade e integração dos
requisitos da sustentabilidade no ensino em Design, resultaria
em uma maior unificação entre as proposições do curso e a
prática, integrando esses valores de modo mais coeso. Deste
modo, torna-se importante efetuar uma revisão e alinhamento
constante dos princípios e práticas pedagógicas, no sentido da
ampliar a articulação destes requisitos nos princípios propostos
pelo curso. Deste modo, presume-se a construção estratégica de
uma educação crítica e integradora com qualidade acadêmica
e pertinência socioambiental. Para identificar a percepção e
assimilação do tema pelos alunos, será apresentada a seguir a
experiência obtida em sala de aula no que se refere ao ensino do
tema sustentabilidade na disciplina Teoria do Design 4, na turma
do 7º período de Bacharelado em Design.
Procedimentos pedagógicos utilizados na disciplina
Teoria do Design 4
Esta disciplina aborda de modo bastante específico a
questão da sustentabilidade ambiental aplicada ao Design. A
partir desta constatação, verifica-se que a Instituição atribui uma
grande importância ao tema, pois este já se encontra inserido na
Matriz Curricular do curso. A seguir é apresentada a ementa da
disciplina:
Quadro3: Ementa da disciplina Teoria do Design 4 do Curso de Bacharelado
em Design da UTFPR
Fonte: DADIN (2011)
ITEM EMENTA CONTEÚDO
1
Teorias e conceitos
de design e
sustentabilidade
• Sustentabilidade,
Desenvolvimento sustentável e
Ecodesenvolvimento: histórico,
conceitos, princípios.
2
O desenvolvimento
e a sustentabilidade
de culturas materiais
diversa
• Sustentabilidade ambiental,
econômica e social: perfis e
recursos;
• A sociedade sustentável:
cenários;
• Produção e consumo
sustentáveis: eficiência e
desmaterialização;
• Design para a sustentabilidade:
conceitos, princípios,
metodologias e ferramentas.
3
Implicações de
aspectos culturais e
sociais no ciclo de
vida dos produtos
• Design do ciclo de vida e
estratégias;
• Sustentabilidade no Design
Gráfico;
• Design sustentável e inovação;
• Design sustentável e gestão
ambiental;
• Design de sistemas produto-
serviço e a promoção de estilos
de vida sustentáveis.
A partir da ementa da disciplina foi elaborado um plano
de ensino que compreendeu a participação intensiva dos
alunos na construção do conhecimento, buscando trazer para
151.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 151
discussão em cada aula, um texto relativo ao tema previsto no
conteúdo. Como as aulas desta disciplina são semanais, os textos
foram divididos em equipes e cada uma delas ficou responsável
pelo direcionamento de um diálogo sobre o tema, entretanto a
leitura deveria ser efetuada por toda a turma. Os procedimentos
pedagógicos utilizados são apresentados no Quadro 4, a seguir.
Aula 1 • Introdução ao conceito de desenvolvimento
sustentável e sua aplicação no Design
Aula 2 • Discussão dialógica de texto sobre o tema: Níveis de
maturidade do design sustentável na dimensão ambiental
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas: Dimensão
ambiental do Design Sustentável. Níveis de atuação
Aula 3 • Discussão dialógica de texto sobre o tema:
Estratégias do Ciclo de Vida
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas:
Conceito de Life Cycle Design e as principais
estratégias para a sustentabilidade
Aula 4 • Discussão dialógica de texto sobre o tema: O
conceito de sistemas produto-serviço
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas:
Sistemas produto-serviço (PSS)
Aula 5 • Proposta de trabalho: Identificar um problema
na UTFPR em que o Design possa contribuir para a
melhoria da sustentabilidade
• Fichas de trabalho: Análise do problema identificado
a partir das ferramentas expostas nas aulas 1, 2, 3 e 4.
Aula 6 • Fichas de trabalho: Orientação em sala para o
desenvolvimento das ferramentas de análise do
problema identificado
Aula 7 Seminários: Apresentação do problema identificado
Aula 8 Seminários: Apresentação do problema identificado
Aula 9 • Discussão dialógica de texto sobre o tema: Critérios
de Design e diretrizes para a equidade e a coesão social
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas:
Dimensão social do Design Sustentável
Aula
10
• Discussão dialógica do texto: Design de serviços e
sustentabilidade
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas:
Design de serviços
Aula
11
• Discussão dialógica de texto sobre o tema: Cultura,
consumo e identidade e estilos de vida sustentáveis
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas: Cultura,
consumo e identidade
Aula
12
• Discussão dialógica de texto sobre o tema: Design e
Inovação Social
• Aula expositiva sobre conceitos e ferramentas para
Inovação Social por meio do Design
Aula
13
• Discussão dialógica de texto sobre o tema: Gestão
socioambiental, inovação e inserção do design e da
sustentabilidade na estratégia de negócio
•Aulaexpositivasobreconceitoseferramentasparainserção
do Design e da sustentabilidade na estratégia de negócio
Aula
14
• Proposta de trabalho: Desenvolver a solução do
problema identificado na UTFPR por meio do Design
de sistemas de produtos e serviços
• Fichas de trabalho: desenvolvimento da solução do
problema identificado a partir das ferramentas expostas
nas aulas 9, 10, 11, 12 e 13
152.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
152
Aula
15
• Fichas de trabalho: Orientação em sala para o
desenvolvimento das ferramentas voltadas para a
solução do problema identificado
Aula
16
Seminários: Apresentação da solução do problema e
discussão
Aula
17
Seminários: Apresentação da solução do problema e
discussão
Quadro 4: Plano de Ensino para a disciplina Teoria do Design 4 – 1º semestre de
2011. Fonte: Autoria Própria
A proposta para a discussão em sala baseou-se nas ideias do
livro “O Diálogo” de David Bohm (1998), visto que o autor apresenta
uma sistematização para a realização do processo de diálogo,
que busca a melhoria da comunicação entre os interlocutores;
a observação compartilhada da experiência e produção de
percepções e idéias novas. Neste sentido, o diálogo ampliaria a
percepção do real, propiciando um compartilhamento de ideias
e um fecundo crescimento mútuo, entretanto este processo não
busca a síntese ou a tomada de decisões, pois estas necessitam ser
construídas pelos indivíduos participantes, de modo pessoal.
Em nossa cultura o termo “diálogo” é entendido como
uma interação verbal, na qual ocorrem discussões e debates e
os participantes defendem posições, argumentam, negociam e,
eventualmente, chegam a conclusões ou acordos (MARIOTTI,
2011). Entretanto o método dialógico proposto por Bohm (1998)
não compreende esse processo, pois se fundamenta em uma
atividade cooperativa de reflexão e observação da experiência
vivida. No diálogo proposto por Bohm (1998) os indivíduos
participantes não estão tentando “vencer” ou fazer com que cada
opinião individual prevaleça, pois cada um vence se qualquer
um vencer, assim quando um erro é descoberto da parte de
qualquer um, todos ganham, pois a participação é construída
“com” o outro e não “contra” o outro, assim em um diálogo todos
vencem. Bohm (1998) propõe que o diálogo seja realizado com
os participantes dispostos em círculos, minimizando ao máximo
a hierarquia e a moderação, deste modo nas aulas, antes da
discussão de cada texto a turma se posicionava em círculo e
apresentava suas ideias e opiniões a respeito da leitura realizada.
Foi proposto que as equipes responsáveis pelo direcionamento
do diálogo trouxessem exemplos de casos reais, para ilustrar
os benefícios ou as dificuldades de implantação das teorias
estudadas. Outra proposição efetuada para as equipes foi que
trouxessem questionamentos para que todos pudessem pensar
e expor seus interesses e dificuldades.
A partir da leitura dos textos e dos conceitos abordados,
foramefetuadasaulasexpositivasparaummelhorentendimento
do conteúdo e dos principais requisitos e ferramentas
encontrados na literatura. Paralelamente foi lançada uma
proposta de trabalho para os alunos desenvolverem durante o
semestre letivo, esta proposta foi dividida em duas etapas. Na
primeira etapa as equipes deveriam buscar um problema na
UTFPR que pudesse ser resolvido a partir da ótica do Design
sistêmico e, posteriormente, a solução deveria compreender
um sistema de produtos e de serviços baseado em melhorias
sociais e ambientais, considerando as relações entre os atores
envolvidos em todo o ciclo de vida do sistema. Esta etapa teve
a duração de dois meses, pois além de buscar um problema de
Design que pudesse ser resolvido, os alunos necessitavam ter a
compreensãodos conceitos de sustentabilidade socioambiental,
LifeCycleDesign(LCD),desenvolvimentodesistemasdeprodutos
e serviços e efetuar uma análise estratégica e um mapeamento
do problema com as ferramentas requeridas para efetuar um
153.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 153
projeto de sistema. Estes conceitos foram discutidos a partir
dos textos e também das aulas expositivas. Em uma tentativa de
dimensionar de modo mais real o escopo de atuação do Design,
nas aulas expositivas foram apresentadas ferramentas práticas
para a inserção dos requisitos socioambientais em cada etapa do
projeto. Para tanto foram selecionadas ferramentas apresentadas
na Methodology for Product Service System – MEPSS) (HALEN et
al, 2005) e no compêndio Design for Sustainability – D4S (UNEP,
2007). As ferramentas foram compiladas em fichas de trabalho,
que foram utilizadas pelos alunos na identificação e resolução
dos diferentes problemas identificados na UTFPR, conforme
exemplo apresentado na Figura 1, a seguir.
Figura 1: Exemplo de ferramenta compilada em ficha de trabalho para a análise
do problema
Fonte: Baseado em Halen et al (2005) e UNEP (2007)
Após a compreensão dos conceitos iniciais da
sustentabilidade aplicada ao Design, as equipes buscaram definir o
problema.ParatantofoirealizadaumainvestigaçãonaUniversidade
para verificar o que poderia ser passível de melhoria por meio do
Designe,nasequência,asequipesutilizaramasferramentasMEPSS
e D4S para mapear e analisar o problema que, posteriormente foi
apresentado para a turma. Durante a apresentação, cada aluno
poderia contribuir com sua opinião enfatizando um ponto positivo
do projeto e um ponto passível de melhoria.
A segunda etapa de trabalho também teve a duração de
dois meses e se consistiu no desenvolvimento da solução do
problema apresentado. Para o desenvolvimento de uma solução
sistêmica, os alunos necessitavam compreender os conceitos
de equidade e coesão social e o modo de aplicação no projeto
de Design, bem como os conceitos de Design de serviços e
sustentabilidade; cultura, consumo e identidade; gestão sócio-
ambiental, inovação e inserção do design e da sustentabilidade
na estratégia de negócio e por fim, os conceitos de Design para
a inovação social. Estes conceitos também foram divididos em
equipes, que apresentaram um tema por aula e, na seqüência
os assuntos foram reforçados em aulas expositivas.
Conforme o assunto era apresentado, a cada semana
os alunos recebiam uma ficha com uma ferramenta referente
ao tema para ser aplicada ao projeto, de modo que ao fim da
segunda etapa, a construção do sistema de produtos e serviços
estivesse concluída. Após a definição conceitual da solução,
as equipes efetuaram a apresentação para toda a turma e
novamente receberam contribuições enfatizando um ponto
positivo do projeto e um ponto passível de melhoria.
Considerações sobre a experiência no ensino de Design e
Sustentabilidade na disciplina Teoria do Design 4 – UTFPR
154.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
154
É importante salientar que esta disciplina foi ministrada
de forma consecutiva por três semestres, sendo que os
procedimentos pedagógicos foram alterados no decorrer do
tempo, a partir das avaliações realizadas pelos alunos em cada
semestre. Deste modo, o processo pedagógico utilizado no 1º
semestre de 2011 é o resultado das solicitações e necessidades
identificadas nos dois semestres anteriores.
Verificou-se que a utilização de textos para discussão em
sala em um processo de diálogo, em que todos podem expor seus
pensamentos, abre espaço para a composição de novas ideias
sobre a inserção do conceito de sustentabilidade no Design. Nas
aulas iniciais os alunos relataram várias dificuldades e restrições
em relação ao tema, entre os principais aspectos citados pela
maioria está o fato de que o termo “sustentabilidade” soa de
modo superficial e utilitarista, beirando a descrença. Para os
alunos de modo geral, a rápida evolução de uma infinidade de
produtos e empresas pautadas na “estética da sustentabilidade”
gerou uma situação paradoxal, pois a produção denominada
“ecologicamente correta” tem gerado um consumismo verde,
se contrapondo à sua própria crítica e servindo à reprodução
das estruturas sociais e econômicas vigentes. Neste sentido, foi
constatado que a percepção inicial da maioria dos alunos em
relação ao tema da sustentabilidade era bastante pessimista,
pois em vez de benefícios socioambientais observavam um
mercantilismo da sustentabilidade, que serve apenas como
cosmética para mascarar os impactos que continuam existindo.
No decorrer do semestre, a partir da leitura dos textos e
exposição das ideias, sempre realizadas com os alunos dispostos
em círculo, a turma foi construindo uma percepção de que o termo
“sustentabilidade” se refere a algo que pode ser “sustentado”.
Assim, no que se refere aos processos de Design ainda temos um
longo caminho a percorrer em direção a uma meta a ser atingida,
visto que estamos em um processo de construção de novos
modos de vida direcionados a um equilíbrio, que vai muito
além das fronteiras do campo do Design, atingindo todas as
instâncias sociais, ambientais e econômicas.
Deste modo, durante as discussões surgiu o seguinte
questionamento: como o design pode efetivamente promover
melhorias sociais, ambientais e econômicas se o profissional de
Design não é autônomo e, na dimensão real do atual mercado,
é um coadjuvante na materialização dos interesses arbitrados
no âmbito social? A partir do diálogo estabelecido (que não
pretendia chegar a um ponto conclusivo, mas sim levantar
ideias) os alunos expuseram opiniões que se referiam ao
desenvolvimento de uma consciência crítica e de um perfil ético
na profissão, mesmo que as ações orientadas à sustentabilidade
ainda estejam longe de ser um movimento de massas, visto
que diversos movimentos costumam tender aos extremos,
como por exemplo, o idealismo radical ou o mercantilismo
exorbitante. As aulas realizadas para o desenvolvimento das
ferramentas e para o esclarecimento de dúvidas foram bastante
produtivas, pois os alunos puderam visualizar de modo prático,
formas de inserção dos requisitos socioambientais no projeto.
Nesta etapa, os alunos relataram que em algumas disciplinas
anteriores já se enfatizava a importância de incorporar esses
requisitos ao projeto, mas as informações eram um tanto
quanto vagas e imprecisas e, portanto, os mesmos não tinham
uma ideia clara dos passos a serem seguidos para desenvolver
um projeto baseado nestes requisitos.
Uma das dificuldades encontradas, para a realização
dos procedimentos metodológicos descritos, foi a falta de
comprometimento da turma com relação à leitura dos textos,
pois verificou-se a partir desta experiência de ensino, que em
geral os alunos não tem o hábito de praticar a leitura. Por outro
155.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável 155
lado, observa-se que um agravante desta situação é a falta de
tempo em conseqüência da dedicação dos alunos a diversas
outras disciplinas, estágio, trabalho, etc., portanto, torna-se
necessário incentivar a leitura desde as séries iniciais, enfatizando
ainda mais essa prática nos cursos de graduação. Devido a esta
situação, de maneira geral observou-se que os textos foram lidos
principalmente pelas equipes responsáveis pela apresentação e
pela condução dos diálogos que, embora ricos em ideias, foram
baseados mais nas experiências pessoais do que nos conceitos
apresentados nos textos. Assim, este é um item a ser repensado
em uma próxima experiência de ensino do referido tema.
Outra importante questão se refere à dificuldade
apresentada pelos alunos para compreender os conceitos e
ferramentas utilizados em um processo de Design, voltado
ao desenvolvimento de um sistema de produtos e serviços,
com ênfase nos requisitos socioambientais. Visto que os
procedimentos de projeto foram considerados por demais
complexos, principalmente por diferir bastante do tradicional
processo de desenvolvimento de produto e de material gráfico,
preponderante nas fases iniciais do curso de Design da UTFPR.
Os temas como Design de Serviços, Design de Sistemas produto-
Serviço e Equidade e Coesão Social geraram diversas dúvidas a
respeito da aplicação, da atuação do profissional de Design, do
uso das ferramentas e das possibilidades reais de implementação.
Estes temas possuem como característica principal a gestão
dos atores envolvidos em todas as etapas do ciclo de vida do
produto/serviço e, este fator acarretou muitas dificuldades no
desenvolvimento do projeto, pois tradicionalmente os projetos
de Design são geridos por uma empresa que centraliza os
processos de produção e distribuição. Assim, houve muitas
dúvidas e dificuldades durante o desenvolvimento do sistema,
visto que os alunos necessitaram planejar a cooperação entre
os atores, envolvendo também os usuários e a comunidade
local nas etapas da vida do produto/serviço.
Figura 2: Exemplo de uso da ferramenta de mapeamento do sistema existente.
Fonte: Trabalho realizado pelos alunos da disciplina Teoria do Design 4 (1º
semestre de 2011)
Mesmo com as dificuldades encontradas, os resultados
obtidos pelos alunos no desenvolvimento de soluções para os
problemas encontrados foram bastante positivos, visto que a
maioria conseguiu atingir os objetivos propostos no início da
disciplina, conforme é possível visualizar no exemplo exposto
na Figura 2. A maioria das equipes chegou a uma proposição
de sistema de produtos e serviços que apresentavam melhorias
socioambientaiseinseriamacomunidade,osusuários,produtores
e fornecedores a partir de análise do problema existente.
156.
Anais do 3°Simpósio Paranaense de Design Sustentável
156
Considerações finais
No ensino superior em Design, observa-se que o sistema
de ensino fragmentado em disciplinas se constitui em um
empecilho para a implementação de modelos interdisciplinares
de educação orientada à sustentabilidade. Outra importante
questão diz respeito à insuficiência de recursos humanos
capacitados para preencher as especialidades requeridas, bem
como de material didático fundamentado nos temas sociais,
ambientais, econômicos e culturais da sustentabilidade. Por
outro lado, além dos esforços pedagógicos do corpo docente,
torna-se necessário que esses resultados sejam conquistados
por meio do esforço e interesse do próprio aluno, de modo que
este se conscientize que uma atuação mais ativa e politizada
permite a construção de uma consciência crítica, fundamentada
na teoria e na prática do Design, formando um designer cidadão,
capacitado para compreender o amplo sistema de valores, bem
como justificar os seus próprios valores, compromissos e crenças.
De acordo com a experiência no ensino relatada neste
artigo foi possível perceber que a inserção de uma atitude reflexiva
em torno da problemática ambiental e do Design, a partir de
uma prática dialógica, possibilita uma construção horizontalizada
de conhecimento, que permite a cada indivíduo participar da
formação do conhecimento individual e coletivo. No entanto,
ainda são constatadas grandes dificuldades no que tange ao
desenvolvimento de um pensamento sistêmico em projeto, que
vá além do tradicional foco do produto e seja orientado para a
integração de atores, produtos e serviços. A grande quantidade
de informação que envolve um projeto de sistemas, associada à
limitação de tempo e à utilização de novas ferramentas (de Design
de serviços e de gestão de atores, por exemplo), também dificultam
a proposição de conceitos específicos para o sistema. Assim,
verificou-se que, embora os esforços empreendidos pelos alunos
fossem direcionados a uma solução sistêmica, por muitas vezes a
melhoria recaía no projeto de produto ou no design gráfico.
Levando em consideração os resultados atingidos, este
esforço em construir valores socioambientais de forma mais
democrática e integralizada, pode ser considerado como uma
oportunidade para a construção conjunta de princípios como
a autonomia, a democracia e a cooperação entre educadores e
alunos. Desta forma, como proposição futura para a construção
de referências conceituais, pedagógicas e políticas necessárias
ao desenvolvimento de uma educação integradora voltada
aos princípios da sustentabilidade, faz-se necessário alinhar a
pesquisa em Design com o ensino em Design, para formar um
profissional que tenha em vista a concretização de um projeto
de melhora da relação de cada um com o mundo em função das
características de cada contexto em que intervém. Para tanto, é
importante desenvolver conjuntamente com o aluno desde os
primeiros períodos do curso de graduação, uma reflexão crítica
a respeito da inserção de valores e princípios socioambientais
no Design, baseada no desenvolvimento de soluções sistêmicas
que vão além das atuações comumente estabelecidas.
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