Da fala para escrita Atividades de retextualização Luiz Antônio Marcuschi
CAPÍTULO I:  Oralidade e Letramento Defende-se a posição de que não se pode tratar as relações entre oralidade e letramento / entre fala e escrita de maneira dicotômica ou estanque. Essas relações devem ser vistas dentro de um quadro mais amplo no contexto: Práticas comunicativas Gêneros textuais Proposta:
Oralidade e Letramento. Impossível investigar essas questões sem uma referência ao papel dessas práticas na civilização contemporânea.
Não é possível observar as diferenças e semelhanças sem considerar a distribuição de seus usos na vida cotidiana. Fala e Escrita Fica difícil o tratamento das relações entre fala/ escrita centradas exclusivamente no código.
Mais que uma simples mudança de perspectiva esses fatores representam um novo objeto de análise e uma concepção nova de língua e de texto vistos como Conjunto de Práticas Sociais.
Três décadas anteriores: Pode-se conceber oralidade e letramento como atividades interativas e complementares no contexto das práticas sociais e culturais. Uma vez adotada essa posição de lidarmos com práticas de letramento e oralidade, será fundamental considerar que as línguas se moldam em uso e não ao contrário Oralidade e escritas eram examinadas como opostas. Predominância da noção da “supremacia cognitiva” da escrita chamada por Street de “Paradigma da autonomia”. A Partir de 80:
Metodologia científica aplicável ao estudo do texto literário a partir de princípios universais que governam o uso da linguagem, isto é, a partir de todos os elementos que o constituem e que estão relacionados entre si Não será primeiramente o uso das regras da língua nem sua morfologia que merecerão atenção, mas o uso da língua, o que fazemos com esta capacidade. Ponto central da investigação no momento: Trata-se de uma análise de usos e práticas sociais.
Escrita: Mais que uma tecnologia; Tornou-se um bem social indispensável para enfrentar o dia a dia; Não é derivada da fala; Não consegue reproduzir muitos fenômenos da oralidade; Apresenta elementos próprios ausentes na fala. Letramento:  Prática social formalmente ligada a escrita Fala: Sob um ponto de vista mais próximo da realidade humana: Homem: ser que fala e não ser que escreve São práticas com características próprias; Não são dois sistemas opostos; Não se limitam a som e grafia.
A eficácia comunicativa e o potencial cognitivo não são vetores significativos para distinguir oralidade de escrita. Tese da “grande virada”:  foi superada Dava uma grande importância à escrita. Para eles, nosso grau de desenvolvimento tecnológico e a nossa capacidade de raciocínio formal seriam impensáveis sem a escrita. Oralidade tem uma  “primazia cronológica”  sobre a escrita e isso não a torna mais importante ou prestigiosa que  a  escrita. Quando “arraigados numa sociedade, a escrita impõe-se com uma violência inusitada e adquire um valor social superior à oralidade.
Mais relevante do que: observar oralidade e letramento como simples modo da língua;  identificar primazias ou supremacias entre oralidade e letramento, é... Esclarecer a natureza das práticas sociais que envolvem o uso da língua (escrita e falada) de modo geral. Essas práticas determinam: O lugar O papel Grau de relevância Relação entre ambos deve ser posta no eixo de um contínuo sócio-histórico de práticas.
Mudança mais notável não diz respeito às formas textuais em si, mas a nossa relação com a escrita Bate-papos: é uma nova forma de nos relacionarmos com a escrita, mas não uma nova forma de escrita .
Presença da oralidade e da escrita na sociedade
Até os analfabetos estão sob a influência do que se convencionou chamar de Práticas de Letramento. Cuidado: escolarização do letramento. Letramentos sociais: surgem e desenvolvem-se à margem da escola. Não é equivalente à aquisição da escrita. Escrita é usada em contextos sociais básicos e em  cada contexto os objetivos do uso dela são variados e diversos. Relações entre escrita e contexto: surgimento de gêneros textuais e formas comunicativas, terminologias e expressões típicas.
Distinção entre apropriação/ distribuição da Escrita - Leitura (padrões) e Uso/papéis da Escrita – Leitura ( Processos de letramento). Letramento: É um conjunto de práticas. Distribui-se em graus de domínio que vão de um patamar mínimo a um máximo. Processo de aprendizagem social e histórica da leitura e da escrita em contextos informais e para usos utilitários. Alfabetização: Escolarização: Pode se dar na escola ou à sua margem; É sempre um aprendizado mediante ensino; Compreende o domínio ativo e sistemático das habilidades de ler e escrever. Prática Formal e institucional de ensino; Visa a formação integral do indivíduo. Tem projetos educacionais amplos Alfabetização é apenas uma das atribuições da escola
Para que fins? Em que contextos e condições são usadas a oralidade e a escrita, isto é, quais são os usos da oralidade e da escrita em nossa sociedade? Quais são as demandas? Em que condições? Para que fins? Como se comportam os manuais escolares? Que habilidades são ensinadas e com que tipo de visão? Parece que a escrita tem uma perspectiva na escola e outra fora dela
Eric Havelock Comenta a tardia entrada da escrita na humanidade e sua repentina supervalorização Milhões  de  anos
3.000 a.c Há 5.000 anos No ocidente: 600 a.c  ( pouco mais de 2.500 anos hoje) Imprensa surgiu em 1450 (pouco mais de 500 anos)
Alfabetização enquanto fenômeno cultural de massa pode ser quase ignorada nos primeiros 2000 anos de sua história ocidental. Análise de Graff sobre as relação entre a alfabetização e os processos de industrialização: Revolução Industrial da Inglaterra: mostrou índices regressivos de alfabetização. Planos da UNESCO : Progresso vinculado à alfabetização Pobreza, progresso vinculados ao analfabetismo Hoje, a escrita tem outro papel, muito diferente daquela época
A escrita hoje não tem o mesmo objetivo e efeito que em outros tempos e culturas. Não é linear. No passado: sugere um modelo simplista, linear, tipo “teoria da modernização”. Alfabetização tem alguns aspectos contraditórios:  Sob controle do Estado- orienta o ensino para  seus  objetivos
Graff (1995:37) “ A partir do advento da imprensa tipográfica móvel, houve uma queda na difusão da cultura oral, mas continua igualmente possível situar o poder persistente de modos orais de comunicação.” Redescobrimos que somos seres eminentemente orais, mesmo em culturas tidas como amplamente alfabetizadas (Suécia) Necessita-se refletir melhor sobre o lugar da oralidade hoje.
Oralidade versus Letramento ou  Fala versus Escrita? Distinguir entre duas dimensões de relações no tratamento da língua falada e língua escrita: Oralidade e Letramento Fala e escrita Trata de uma distinção entre práticas sociais. Seria uma distinção entre modalidades de uso da língua.
A Oralidade Prática Social interativa para fins comunicativos; Se apresenta sob várias formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; Vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso; Sociedade pode ser totalmente oral ou de oralidade secundária. O Letramento Envolve as mais diversas formas escritas; Pode vir desde uma apropriação mínima de escrita (analfabeto, mas letrado) até uma apropriação mais profunda (escrever romances, tratados...); Letrado é quem participa de forma significativa de eventos de letramento e não somente quem faz uso formal da escrita.
Fala Escrita Forma de produção textual discursiva para fins comunicativos; Na modalidade para fins comunicativos não necessitando de uma tecnologia; Caracteriza-se pelo uso da língua na sua forma de sons sistematicamente articulados e significativos, envolvendo recursos expressivos: gestualidade, mímicas, movimentos do corpo. Modo de produção textual discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracterizaria por sua constituição gráfica; Pode manifestar-se por ordem alfabética, ideogramas ou unidades icnográficas; Essa distinção contempla aspectos formais, estruturais e semiológicos, modos de representação da língua em sua condição de código. São aspectos sonoros e gráficos  abrangendo todos os tipos de escrita).
Ampliar esta primeira visão para englobar  na fala todas as manifestações textuais-discursivas da modalidade oral  e  na escrita, todas as manifestações textuais-discursivas da modalidade escrita Fala e escrita, neste sentido passam a ser utilizados para designar formas e atividades comunicativas não se restringindo ao plano do código. Trata-se muito mais de processos e eventos  do que de produtos.
“ Várias tendências de tratamento desta questão para identificar problemas e sugerir uma linha de tratamento que pode ser mais frutífera, menos comprometida com o preconceito e a desvalorização da oralidade de uma maneira.” A Perspectiva das dicotomias: É a primeira das tendências, de maior tradição entre os lingüistas Dedica-se à análise das relações entre as duas modalidades da língua (fala/escrita) e percebe as diferenças na perspectiva da dicotomia; Esta perspectiva tem matrizes diferenciadas Dicotomias mais polarizadas e visão restrita; Percebem as relações entre fala/escrita dentro de um contínuo, seja tipológico ou da realidade cognitiva e social.
Dicotomias estritas Trata-se de uma análise que se volta para o código e permanece  na imanência do fato lingüístico. Forma mais rigorosa e restritiva deu origem ao prescritivismo de uma única norma lingüística tida como padrão: norma culta. Dela que conhecemos as dicotomias que dividem a língua falada e a língua escrita em dois blocos distintos, conforme visto nas gramáticas (visão imanentista). Não há preocupação com o uso discursivo nem com produção textual. Toma a língua como um sistema de regras, conduzindo o ensino de língua ao ensino de regras gramaticais.
Tendência fenomenológica de caráter culturalista Faz análise sobretudo de cunho cognitivo, antropológico ou social e desenvolve uma fenomenologia da escrita na forma de organização e produção do conhecimento. Observa mais a natureza das práticas da oralidade  versus  escrita. Trata-se de uma perspectiva epistemológica desenvolvida por antropólogos, psicólogos e sociólogos interessados em identificar as mudanças operadas na sociedade em que se introduziu o sistema de escrita. Para os representantes dessa tendência, a escrita representa um avanço na capacidade cognitiva dos indivíduos e, nos processos relativos ao pensamento em geral que medeiam entre a fala e escrita.
Biber (1988)  Critica essa tendência dizendo:  Foi a escrita que permitiu tornar a língua um objeto de estudo mais sistemático. Com ela criaram-se novas formas de expressão / surgimento das formas literárias. Ela que trouxe vantagens e avanços para sociedade que a adotaram mas admite que  não possui valor intrínseco absoluto. Crítica à perspectiva culturalista Etnocentrismo; Supervalorização da escrita; Tratamento globalizante.
Etnocentrismo Supervalorização da escrita Diz respeito à forma de ver as culturas a partir da própria cultura. Leva a uma posição de supremacia das culturas com escrita. Separa as culturas civilizadas das primitivas. Forma globalizante Não existem “sociedades letradas”, mas “grupos letrados”, elites que detêm o poder social.
Perspectiva variacionista Intermediária entre as duas anteriores, mas isenta da maioria dos problemas de ambas. Trata  do papel da escrita e da fala sob o ponto de vista dos processos educacionais. Faz propostas específicas a respeito do tratamento da variação na relação entre padrão e não-padrão lingüístico nos contextos de ensino formal.
Estudos que se dedicam a detectar as variações de usos da língua sob sua forma dialetal e socioletal. Não se faz distinções dicotômicas ou caracterizações estanques: verifica-se a preocupação com regularidade e variações. A Língua é observada com rigor metodológico mais adequado que em ambos casos anteriores. Não se faz uma distinção entre fala e escrita e sim uma observação de variedades lingüísticas distintas. Interessante nessa perspectiva é que a variação se daria tanto na fala quanto na escrita, o que evitaria o equivoco de identificar a língua escrita como padronização da língua
Fala e Escrita, segundo o autor não são dois dialetos, mas duas modalidades de uso da língua, de maneira que o aluno, ao dominar a escrita, se torna bimodal.
A perspectiva sóciointeracionista Assim, fala e escrita apresentam: dialogicidade; usos estratégicos; funções interacionais; envolvimento; negociação; situacionalidade; coerência; dinamicidade. Embora não forme um conjunto teórico sistemático, esta perspectiva trata das relações entre fala e escrita de  modo dialógico .
Visão variacionista + Análise da Conversação Etnográfica + Lingüística de Texto = maior adequação empírica e teórica A vantagem desta perspectiva é perceber a língua  como fenômeno interativo e dinâmico . A desvantagem é que ela detém baixo potencial explicativo e descritivo dos fenômenos sintáticos e fonológicos da língua. O autor sugere este caminho à medida que trata das  correlações entre formas lingüísticas, contextualidade (dimensão funcional), interação (dimensão interpessoal) e cognição  no tratamento das semelhanças e diferenças entre fala e escrita.
Isto possibilita “... tratar os fenômenos de compreensão na interação face a face e na interação entre leitor e texto escrito, de maneira a detectar especificidades na própria atividade de construção dos sentidos” (cfe. Marcuschi, 2001). Trata-se, então, de uma perspectiva orientada numa  linha discursiva e interpretativa .
Perspectiva sociointeracionista “ A perspectiva interacionista preocupa-se com os  processos de produção de sentido  tomando-os sempre como situados em  contextos sócio-historicamente marcados  por atividades de negociação ou por processos inferenciais. Não toma as categorias lingüísticas como dadas  a priori,  mas como  construídas interativamente e sensíveis aos fatos culturais . Preocupa-se com a análise dos gêneros textuais e seus usos em sociedade” (Marcuschi, p.34).
Aspectos relevantes para a observação da relação fala e escrita a fala não apresenta propriedades intrínsecas negativas, tampouco a escrita tem propriedades intrínsecas privilegiadas. Postular  supremacia ou superioridade  de uma das modalidades é um  equívoco .  É importante observar que... “ A língua, seja na sua modalidade falada ou escrita, reflete, em boa medida, a organização da sociedade. Isso porque a própria língua mantém complexas relações com as representações e as formações sociais” (Marcuschi, 2001, p. 35).
Fala... Precedência cronológica Escrita... Prestígio social... ideologia Quanto à fala/oralidade: é inerente ao ser humano e não será substituída; tem caráter identificador (é possível supor que a identidade  seja um tipo de desvio da norma-padrão); somos povos orais; é a nossa “porta de iniciação” à racionalidade e fator de identidade social, pois a língua é socialmente moldada, não obstante seu caráter filogeneticamente universal;
os textos orais têm uma realização multissistêmica (palavras, gestos, mímica, etc.).  as dicotomias estritas entre fala e escrita são fruto da utilização do paradigma teórico da análise imanente ao código;  nossa consciência espontânea em relação à fala dá conta de sua variedade e não nos vem à  mente em primeira mão a fala padrão;
Quanto à escrita... foi tomada por muitos como estruturalmente elaborada, complexa, formal e abstrata  em oposição  à fala, tida como concreta, contextual e estruturalmente simples;  ao contemplarmos a escrita temos a impressão de algo naturalmente claro e definido. A escrita parece um fenômeno se não homogêneo, bastante estável e com pouca variação; os textos escritos não se circunscrevem ao alfabeto, pois envolvem fotos, ideogramas, grafismos de todo tipo;  como é pautada pelo padrão, não é estigmatizadora e não serve como fator de identidade grupal;
Exemplo quanto à questão estigmatizadora É útil observar que há práticas sociais mediadas preferencialmente pela escrita e outras pela tradição oral (na área jurídica o uso da escrita é rígido, mas é intenso o uso de práticas orais nos tribunais). Assim,  oralidade e escrita são duas práticas sociais e não duas propriedades de sociedades diversas. Indivíduos letrados escrevem um texto sobre “a inflação na vida do brasileiro”. Na leitura de seus textos constataremos que suas opiniões podem ser objeto de discussão, mas eles não serão estigmatizados pela linguagem como tal. Se eles falarem sobre o assunto, teremos avaliações não apenas referentes ao conteúdo, mas também à forma de falar do indivíduo.
Variações em um continuum... A hipótese defendida por Marcuschi é que as  diferenças  entre fala e escrita se dão dentro do  continuum tipológico das práticas sociais de produção textual  e não na relação dicotômica de dois pólos opostos. Daí surge um  conjunto de variações , não uma simples variação linear. (...) As diferenças entre fala e escrita são frutiferamente vistas e analisadas na  perspectiva do uso e não do sistema , não considerando o código, mas os usos do código.  Disso decorre a  impossibilidade  de situar a oralidade e a escrita em sistemas lingüísticos diversos (ambas fazem parte do mesmo sistema da língua). São realizações de uma gramática única e não há uma simetria de representação!  (Vide gráficos)
A concepção de língua como sistema heterogêneo (múltiplas formas de manifestação); Há uma estrutura virtual, mas a língua se realiza essencialmente como heterogeneidade e variação.  Para Marcuschi (2001), a língua pressupõe um  fenômeno...
... e que se manifesta em situações de uso concretas como texto e discurso indeterminado sob o ponto de vista semântico e sintático (submetido às condições de produção);  histórico e social (fruto destas práticas);  variável (dinâmico e suscetível a mudanças);
Referência MARCUSCHI, Luiz Antônio.  Da fala para a escrita: atividades de retextualização . São Paulo, Cortez: 2001.

AlfabetizaçãO E Letramento

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    Da fala paraescrita Atividades de retextualização Luiz Antônio Marcuschi
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    CAPÍTULO I: Oralidade e Letramento Defende-se a posição de que não se pode tratar as relações entre oralidade e letramento / entre fala e escrita de maneira dicotômica ou estanque. Essas relações devem ser vistas dentro de um quadro mais amplo no contexto: Práticas comunicativas Gêneros textuais Proposta:
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    Oralidade e Letramento.Impossível investigar essas questões sem uma referência ao papel dessas práticas na civilização contemporânea.
  • 4.
    Não é possívelobservar as diferenças e semelhanças sem considerar a distribuição de seus usos na vida cotidiana. Fala e Escrita Fica difícil o tratamento das relações entre fala/ escrita centradas exclusivamente no código.
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    Mais que umasimples mudança de perspectiva esses fatores representam um novo objeto de análise e uma concepção nova de língua e de texto vistos como Conjunto de Práticas Sociais.
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    Três décadas anteriores:Pode-se conceber oralidade e letramento como atividades interativas e complementares no contexto das práticas sociais e culturais. Uma vez adotada essa posição de lidarmos com práticas de letramento e oralidade, será fundamental considerar que as línguas se moldam em uso e não ao contrário Oralidade e escritas eram examinadas como opostas. Predominância da noção da “supremacia cognitiva” da escrita chamada por Street de “Paradigma da autonomia”. A Partir de 80:
  • 7.
    Metodologia científica aplicávelao estudo do texto literário a partir de princípios universais que governam o uso da linguagem, isto é, a partir de todos os elementos que o constituem e que estão relacionados entre si Não será primeiramente o uso das regras da língua nem sua morfologia que merecerão atenção, mas o uso da língua, o que fazemos com esta capacidade. Ponto central da investigação no momento: Trata-se de uma análise de usos e práticas sociais.
  • 8.
    Escrita: Mais queuma tecnologia; Tornou-se um bem social indispensável para enfrentar o dia a dia; Não é derivada da fala; Não consegue reproduzir muitos fenômenos da oralidade; Apresenta elementos próprios ausentes na fala. Letramento: Prática social formalmente ligada a escrita Fala: Sob um ponto de vista mais próximo da realidade humana: Homem: ser que fala e não ser que escreve São práticas com características próprias; Não são dois sistemas opostos; Não se limitam a som e grafia.
  • 9.
    A eficácia comunicativae o potencial cognitivo não são vetores significativos para distinguir oralidade de escrita. Tese da “grande virada”: foi superada Dava uma grande importância à escrita. Para eles, nosso grau de desenvolvimento tecnológico e a nossa capacidade de raciocínio formal seriam impensáveis sem a escrita. Oralidade tem uma “primazia cronológica” sobre a escrita e isso não a torna mais importante ou prestigiosa que a escrita. Quando “arraigados numa sociedade, a escrita impõe-se com uma violência inusitada e adquire um valor social superior à oralidade.
  • 10.
    Mais relevante doque: observar oralidade e letramento como simples modo da língua; identificar primazias ou supremacias entre oralidade e letramento, é... Esclarecer a natureza das práticas sociais que envolvem o uso da língua (escrita e falada) de modo geral. Essas práticas determinam: O lugar O papel Grau de relevância Relação entre ambos deve ser posta no eixo de um contínuo sócio-histórico de práticas.
  • 11.
    Mudança mais notávelnão diz respeito às formas textuais em si, mas a nossa relação com a escrita Bate-papos: é uma nova forma de nos relacionarmos com a escrita, mas não uma nova forma de escrita .
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    Presença da oralidadee da escrita na sociedade
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    Até os analfabetosestão sob a influência do que se convencionou chamar de Práticas de Letramento. Cuidado: escolarização do letramento. Letramentos sociais: surgem e desenvolvem-se à margem da escola. Não é equivalente à aquisição da escrita. Escrita é usada em contextos sociais básicos e em cada contexto os objetivos do uso dela são variados e diversos. Relações entre escrita e contexto: surgimento de gêneros textuais e formas comunicativas, terminologias e expressões típicas.
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    Distinção entre apropriação/distribuição da Escrita - Leitura (padrões) e Uso/papéis da Escrita – Leitura ( Processos de letramento). Letramento: É um conjunto de práticas. Distribui-se em graus de domínio que vão de um patamar mínimo a um máximo. Processo de aprendizagem social e histórica da leitura e da escrita em contextos informais e para usos utilitários. Alfabetização: Escolarização: Pode se dar na escola ou à sua margem; É sempre um aprendizado mediante ensino; Compreende o domínio ativo e sistemático das habilidades de ler e escrever. Prática Formal e institucional de ensino; Visa a formação integral do indivíduo. Tem projetos educacionais amplos Alfabetização é apenas uma das atribuições da escola
  • 15.
    Para que fins?Em que contextos e condições são usadas a oralidade e a escrita, isto é, quais são os usos da oralidade e da escrita em nossa sociedade? Quais são as demandas? Em que condições? Para que fins? Como se comportam os manuais escolares? Que habilidades são ensinadas e com que tipo de visão? Parece que a escrita tem uma perspectiva na escola e outra fora dela
  • 16.
    Eric Havelock Comentaa tardia entrada da escrita na humanidade e sua repentina supervalorização Milhões de anos
  • 17.
    3.000 a.c Há5.000 anos No ocidente: 600 a.c ( pouco mais de 2.500 anos hoje) Imprensa surgiu em 1450 (pouco mais de 500 anos)
  • 18.
    Alfabetização enquanto fenômenocultural de massa pode ser quase ignorada nos primeiros 2000 anos de sua história ocidental. Análise de Graff sobre as relação entre a alfabetização e os processos de industrialização: Revolução Industrial da Inglaterra: mostrou índices regressivos de alfabetização. Planos da UNESCO : Progresso vinculado à alfabetização Pobreza, progresso vinculados ao analfabetismo Hoje, a escrita tem outro papel, muito diferente daquela época
  • 19.
    A escrita hojenão tem o mesmo objetivo e efeito que em outros tempos e culturas. Não é linear. No passado: sugere um modelo simplista, linear, tipo “teoria da modernização”. Alfabetização tem alguns aspectos contraditórios: Sob controle do Estado- orienta o ensino para seus objetivos
  • 20.
    Graff (1995:37) “A partir do advento da imprensa tipográfica móvel, houve uma queda na difusão da cultura oral, mas continua igualmente possível situar o poder persistente de modos orais de comunicação.” Redescobrimos que somos seres eminentemente orais, mesmo em culturas tidas como amplamente alfabetizadas (Suécia) Necessita-se refletir melhor sobre o lugar da oralidade hoje.
  • 21.
    Oralidade versus Letramentoou Fala versus Escrita? Distinguir entre duas dimensões de relações no tratamento da língua falada e língua escrita: Oralidade e Letramento Fala e escrita Trata de uma distinção entre práticas sociais. Seria uma distinção entre modalidades de uso da língua.
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    A Oralidade PráticaSocial interativa para fins comunicativos; Se apresenta sob várias formas ou gêneros textuais fundados na realidade sonora; Vai desde uma realização mais informal à mais formal nos mais variados contextos de uso; Sociedade pode ser totalmente oral ou de oralidade secundária. O Letramento Envolve as mais diversas formas escritas; Pode vir desde uma apropriação mínima de escrita (analfabeto, mas letrado) até uma apropriação mais profunda (escrever romances, tratados...); Letrado é quem participa de forma significativa de eventos de letramento e não somente quem faz uso formal da escrita.
  • 23.
    Fala Escrita Formade produção textual discursiva para fins comunicativos; Na modalidade para fins comunicativos não necessitando de uma tecnologia; Caracteriza-se pelo uso da língua na sua forma de sons sistematicamente articulados e significativos, envolvendo recursos expressivos: gestualidade, mímicas, movimentos do corpo. Modo de produção textual discursiva para fins comunicativos com certas especificidades materiais e se caracterizaria por sua constituição gráfica; Pode manifestar-se por ordem alfabética, ideogramas ou unidades icnográficas; Essa distinção contempla aspectos formais, estruturais e semiológicos, modos de representação da língua em sua condição de código. São aspectos sonoros e gráficos abrangendo todos os tipos de escrita).
  • 24.
    Ampliar esta primeiravisão para englobar na fala todas as manifestações textuais-discursivas da modalidade oral e na escrita, todas as manifestações textuais-discursivas da modalidade escrita Fala e escrita, neste sentido passam a ser utilizados para designar formas e atividades comunicativas não se restringindo ao plano do código. Trata-se muito mais de processos e eventos do que de produtos.
  • 25.
    “ Várias tendênciasde tratamento desta questão para identificar problemas e sugerir uma linha de tratamento que pode ser mais frutífera, menos comprometida com o preconceito e a desvalorização da oralidade de uma maneira.” A Perspectiva das dicotomias: É a primeira das tendências, de maior tradição entre os lingüistas Dedica-se à análise das relações entre as duas modalidades da língua (fala/escrita) e percebe as diferenças na perspectiva da dicotomia; Esta perspectiva tem matrizes diferenciadas Dicotomias mais polarizadas e visão restrita; Percebem as relações entre fala/escrita dentro de um contínuo, seja tipológico ou da realidade cognitiva e social.
  • 26.
    Dicotomias estritas Trata-sede uma análise que se volta para o código e permanece na imanência do fato lingüístico. Forma mais rigorosa e restritiva deu origem ao prescritivismo de uma única norma lingüística tida como padrão: norma culta. Dela que conhecemos as dicotomias que dividem a língua falada e a língua escrita em dois blocos distintos, conforme visto nas gramáticas (visão imanentista). Não há preocupação com o uso discursivo nem com produção textual. Toma a língua como um sistema de regras, conduzindo o ensino de língua ao ensino de regras gramaticais.
  • 27.
    Tendência fenomenológica decaráter culturalista Faz análise sobretudo de cunho cognitivo, antropológico ou social e desenvolve uma fenomenologia da escrita na forma de organização e produção do conhecimento. Observa mais a natureza das práticas da oralidade versus escrita. Trata-se de uma perspectiva epistemológica desenvolvida por antropólogos, psicólogos e sociólogos interessados em identificar as mudanças operadas na sociedade em que se introduziu o sistema de escrita. Para os representantes dessa tendência, a escrita representa um avanço na capacidade cognitiva dos indivíduos e, nos processos relativos ao pensamento em geral que medeiam entre a fala e escrita.
  • 28.
    Biber (1988) Critica essa tendência dizendo: Foi a escrita que permitiu tornar a língua um objeto de estudo mais sistemático. Com ela criaram-se novas formas de expressão / surgimento das formas literárias. Ela que trouxe vantagens e avanços para sociedade que a adotaram mas admite que não possui valor intrínseco absoluto. Crítica à perspectiva culturalista Etnocentrismo; Supervalorização da escrita; Tratamento globalizante.
  • 29.
    Etnocentrismo Supervalorização daescrita Diz respeito à forma de ver as culturas a partir da própria cultura. Leva a uma posição de supremacia das culturas com escrita. Separa as culturas civilizadas das primitivas. Forma globalizante Não existem “sociedades letradas”, mas “grupos letrados”, elites que detêm o poder social.
  • 30.
    Perspectiva variacionista Intermediáriaentre as duas anteriores, mas isenta da maioria dos problemas de ambas. Trata do papel da escrita e da fala sob o ponto de vista dos processos educacionais. Faz propostas específicas a respeito do tratamento da variação na relação entre padrão e não-padrão lingüístico nos contextos de ensino formal.
  • 31.
    Estudos que sededicam a detectar as variações de usos da língua sob sua forma dialetal e socioletal. Não se faz distinções dicotômicas ou caracterizações estanques: verifica-se a preocupação com regularidade e variações. A Língua é observada com rigor metodológico mais adequado que em ambos casos anteriores. Não se faz uma distinção entre fala e escrita e sim uma observação de variedades lingüísticas distintas. Interessante nessa perspectiva é que a variação se daria tanto na fala quanto na escrita, o que evitaria o equivoco de identificar a língua escrita como padronização da língua
  • 32.
    Fala e Escrita,segundo o autor não são dois dialetos, mas duas modalidades de uso da língua, de maneira que o aluno, ao dominar a escrita, se torna bimodal.
  • 33.
    A perspectiva sóciointeracionistaAssim, fala e escrita apresentam: dialogicidade; usos estratégicos; funções interacionais; envolvimento; negociação; situacionalidade; coerência; dinamicidade. Embora não forme um conjunto teórico sistemático, esta perspectiva trata das relações entre fala e escrita de modo dialógico .
  • 34.
    Visão variacionista +Análise da Conversação Etnográfica + Lingüística de Texto = maior adequação empírica e teórica A vantagem desta perspectiva é perceber a língua como fenômeno interativo e dinâmico . A desvantagem é que ela detém baixo potencial explicativo e descritivo dos fenômenos sintáticos e fonológicos da língua. O autor sugere este caminho à medida que trata das correlações entre formas lingüísticas, contextualidade (dimensão funcional), interação (dimensão interpessoal) e cognição no tratamento das semelhanças e diferenças entre fala e escrita.
  • 35.
    Isto possibilita “...tratar os fenômenos de compreensão na interação face a face e na interação entre leitor e texto escrito, de maneira a detectar especificidades na própria atividade de construção dos sentidos” (cfe. Marcuschi, 2001). Trata-se, então, de uma perspectiva orientada numa linha discursiva e interpretativa .
  • 36.
    Perspectiva sociointeracionista “A perspectiva interacionista preocupa-se com os processos de produção de sentido tomando-os sempre como situados em contextos sócio-historicamente marcados por atividades de negociação ou por processos inferenciais. Não toma as categorias lingüísticas como dadas a priori, mas como construídas interativamente e sensíveis aos fatos culturais . Preocupa-se com a análise dos gêneros textuais e seus usos em sociedade” (Marcuschi, p.34).
  • 37.
    Aspectos relevantes paraa observação da relação fala e escrita a fala não apresenta propriedades intrínsecas negativas, tampouco a escrita tem propriedades intrínsecas privilegiadas. Postular supremacia ou superioridade de uma das modalidades é um equívoco . É importante observar que... “ A língua, seja na sua modalidade falada ou escrita, reflete, em boa medida, a organização da sociedade. Isso porque a própria língua mantém complexas relações com as representações e as formações sociais” (Marcuschi, 2001, p. 35).
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    Fala... Precedência cronológicaEscrita... Prestígio social... ideologia Quanto à fala/oralidade: é inerente ao ser humano e não será substituída; tem caráter identificador (é possível supor que a identidade seja um tipo de desvio da norma-padrão); somos povos orais; é a nossa “porta de iniciação” à racionalidade e fator de identidade social, pois a língua é socialmente moldada, não obstante seu caráter filogeneticamente universal;
  • 39.
    os textos oraistêm uma realização multissistêmica (palavras, gestos, mímica, etc.). as dicotomias estritas entre fala e escrita são fruto da utilização do paradigma teórico da análise imanente ao código; nossa consciência espontânea em relação à fala dá conta de sua variedade e não nos vem à mente em primeira mão a fala padrão;
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    Quanto à escrita...foi tomada por muitos como estruturalmente elaborada, complexa, formal e abstrata em oposição à fala, tida como concreta, contextual e estruturalmente simples; ao contemplarmos a escrita temos a impressão de algo naturalmente claro e definido. A escrita parece um fenômeno se não homogêneo, bastante estável e com pouca variação; os textos escritos não se circunscrevem ao alfabeto, pois envolvem fotos, ideogramas, grafismos de todo tipo; como é pautada pelo padrão, não é estigmatizadora e não serve como fator de identidade grupal;
  • 41.
    Exemplo quanto àquestão estigmatizadora É útil observar que há práticas sociais mediadas preferencialmente pela escrita e outras pela tradição oral (na área jurídica o uso da escrita é rígido, mas é intenso o uso de práticas orais nos tribunais). Assim, oralidade e escrita são duas práticas sociais e não duas propriedades de sociedades diversas. Indivíduos letrados escrevem um texto sobre “a inflação na vida do brasileiro”. Na leitura de seus textos constataremos que suas opiniões podem ser objeto de discussão, mas eles não serão estigmatizados pela linguagem como tal. Se eles falarem sobre o assunto, teremos avaliações não apenas referentes ao conteúdo, mas também à forma de falar do indivíduo.
  • 42.
    Variações em umcontinuum... A hipótese defendida por Marcuschi é que as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação dicotômica de dois pólos opostos. Daí surge um conjunto de variações , não uma simples variação linear. (...) As diferenças entre fala e escrita são frutiferamente vistas e analisadas na perspectiva do uso e não do sistema , não considerando o código, mas os usos do código. Disso decorre a impossibilidade de situar a oralidade e a escrita em sistemas lingüísticos diversos (ambas fazem parte do mesmo sistema da língua). São realizações de uma gramática única e não há uma simetria de representação! (Vide gráficos)
  • 43.
    A concepção delíngua como sistema heterogêneo (múltiplas formas de manifestação); Há uma estrutura virtual, mas a língua se realiza essencialmente como heterogeneidade e variação. Para Marcuschi (2001), a língua pressupõe um fenômeno...
  • 44.
    ... e quese manifesta em situações de uso concretas como texto e discurso indeterminado sob o ponto de vista semântico e sintático (submetido às condições de produção); histórico e social (fruto destas práticas); variável (dinâmico e suscetível a mudanças);
  • 45.
    Referência MARCUSCHI, LuizAntônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização . São Paulo, Cortez: 2001.