A Sangue Frio
O Bem-Estar Social
Quando em 1950, Truman Capote publica o romance “A Sangue Frio”, ele revolucionou a
literatura Norte-Americana, relatando passo a passo o horripilante caso do massacre de uma
famíliadointeriormaisprofundodosEstadosUnidosporparte de delinquentespararoubarem
míseros 50 dólares.
Seymour Hoffman bem representou a agonia de Capote, ao escrever esse livro, no filme de
BennettMillerde 2005.O carácter inventivo,criativoe investigadordoautorde “A Sangue frio”
exerce até hoje umafascinaçãopelacoragemcomque narraamorte de inocentese acompanha
os assassinos até o calabouço.
Mais do que isso, Capote fezuma minuciosa investigação nesse caso devastador,para no final
descobrir, pasmado, que os cruéis assassinos eram pessoas comuns, não indicavam nenhum
carácter especialmente maligno. Eram comuns e ordinários nos dois sentidos da palavra.
“A Sangue Frio” introduz uma nova narrativa para o romance norte-americano, incluindo o
realismo,aanálise e ocontraste social.Essanarrativalentae gradualmente envolve,despertae
captura a imaginação do leitor até trazê-lo à realidade nua e crua sem negociação, chocante,
inquisitiva, perturbadora...
Capote fezquestãode investigaracrueldade humanaparadescobrirque elaé maiscomum do
que pensávamos. Afinal, na América de 1950 da estabilidade e ascensão da classe média por
que alguém haveria de trucidar uma família inteira, totalmente desprotegida, para roubar
ínfimos 50 dólares. Ele se envolve tanto com as vítimas quanto com os assassinos, tentando
estabelecerumparâmetroentre a estabilidade e acrueldade social para no final descobrirque
sim, a crueldade pode ser produto da estabilidade social.
“A Sangue Frio”revelaoconjuntodecrençase valoresde umasociedadequeconstruíaoEstado
do Bem-Estarsocial da década de 1950, mostrando a todosque bem-estarsocial empersi não
cria valores éticos e morais. É preciso mais do que bem-estar social para se criar estabilidade
social com valores éticos e morais.
Entre a morte do Inocente e o Bem-Estar Social
A partirda narrativade Capote,a questãose deslocadobem-estarsocial paraos valoreséticos
e morais do Estado laico, patrocinador da estabilidade social, a partir dos valores do racional-
legal como fundamentos para o tão desejado bem-estar social.
Depoisdisso,vários outros casosforamsendorevelados portodoomundo, nassociedadesmais
estáveise desenvolvidas,sobreatrocidadescrescenteseperturbadorassobre ocomportamento
social daqueles que teriam tudo para gozar de uma boa vida, mas insistiam em praticar
barbaridades. Sociedades que praticavam atrocidades sociais contra inocentes sem o menor
pudor ou senso de ética ou, ainda, moral.
Aqui mesmonoBrasil,ficoufamosoemcertoscírculosocaso dofigurãoda ReceitaFederal,em
São Paulo,que rejeitouofilhonumadasmelhoresmaternidadesdacidade e propôsaomédico
chefe da maternidade que desse ao infante um “remedinho” para eliminar o estorvo de uma
criança que tinhaescapado,por assimdizer,de um aborto.A mãe foi maismagnânima,propôs
ao médico que se doasse a criança, afinal havia tanto casal sem filho querendo adotar um.
Num Brasil pobre da década de 1950, ser da Receita Federal dava a esse pai benefícios sociais
muito acima de qualquer cidadão comum da época e um filho a mais jamais teria causado
problemaseconômicosaesse casal.Éclaroque ocaso revoltouomédicochefe damaternidade
e causou uma celeuma que ecoou por altos círculos do poder da época. A criança sobreviveu
por que o médicomoveumundose fundosparasalvaro infante dacrueldade dospaístão bem
posicionados socialmente e sustentáculo do incipiente Estado de Bem-Estar social do Brasil da
época. É de se perguntar, que fim levou essa criança nas mãos de pais tão bem colocados
socialmente, mas tão inescrupulosos ética e moralmente?
A Falência do Estado Laico
Ficabemclaroque tantono caso americano,mencionadoporCapote,quanto nocasobrasileiro
de São Paulo o que estava em jogo era decidir entre a morte de um inocente e a estabilidade
social e essa era, e continua sendo, a grave crise moral do Estado Laico na atualidade, abrindo
um dilemamoral insuperávelumachagaque não se cura espalhandoculpa,perturbação e todo
tipo de doenças sociais.
No final, ficou provado que o Estado racional-legal não é suficiente para gerar valores ético e
morais, acobertando crime através da promulgação de leis.O Estado deve satisfaçõeséticas e
morais que vão além da legalização do crime contra o infante, nesse caso o Estado deve
satisfações quanto as infinitas possibilidades de uma vida que não foi vivida.
Mas, a questãomaisperturbadoraé essa:se a estabilidade socialpode estarassentadasobre a
morte do inocente, justificadapelanormatizaçãoracional-legal e amparadapelas ideologias.É
claroque essaquestãoabre umachaga difícil de sercuradapoisque revelaaimpossibilidadede
se justificaro crime semcastigo,o assassinatosemculpa,a delinquênciajustificada.Oproduto
final é esse que estamos vivemosna atualidade, falência do Estado laico e a vitória do espírito
humano, provando que a luta contra o espírito humano é uma batalha perdida através dos
tempos.
Amém,
Prof. Ricardo Gomes Rodrigues
São Carlos, 7 de dezembro de 2016

A Sangue Frio

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    A Sangue Frio OBem-Estar Social Quando em 1950, Truman Capote publica o romance “A Sangue Frio”, ele revolucionou a literatura Norte-Americana, relatando passo a passo o horripilante caso do massacre de uma famíliadointeriormaisprofundodosEstadosUnidosporparte de delinquentespararoubarem míseros 50 dólares. Seymour Hoffman bem representou a agonia de Capote, ao escrever esse livro, no filme de BennettMillerde 2005.O carácter inventivo,criativoe investigadordoautorde “A Sangue frio” exerce até hoje umafascinaçãopelacoragemcomque narraamorte de inocentese acompanha os assassinos até o calabouço. Mais do que isso, Capote fezuma minuciosa investigação nesse caso devastador,para no final descobrir, pasmado, que os cruéis assassinos eram pessoas comuns, não indicavam nenhum carácter especialmente maligno. Eram comuns e ordinários nos dois sentidos da palavra. “A Sangue Frio” introduz uma nova narrativa para o romance norte-americano, incluindo o realismo,aanálise e ocontraste social.Essanarrativalentae gradualmente envolve,despertae captura a imaginação do leitor até trazê-lo à realidade nua e crua sem negociação, chocante, inquisitiva, perturbadora... Capote fezquestãode investigaracrueldade humanaparadescobrirque elaé maiscomum do que pensávamos. Afinal, na América de 1950 da estabilidade e ascensão da classe média por que alguém haveria de trucidar uma família inteira, totalmente desprotegida, para roubar ínfimos 50 dólares. Ele se envolve tanto com as vítimas quanto com os assassinos, tentando estabelecerumparâmetroentre a estabilidade e acrueldade social para no final descobrirque sim, a crueldade pode ser produto da estabilidade social. “A Sangue Frio”revelaoconjuntodecrençase valoresde umasociedadequeconstruíaoEstado do Bem-Estarsocial da década de 1950, mostrando a todosque bem-estarsocial empersi não
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    cria valores éticose morais. É preciso mais do que bem-estar social para se criar estabilidade social com valores éticos e morais. Entre a morte do Inocente e o Bem-Estar Social A partirda narrativade Capote,a questãose deslocadobem-estarsocial paraos valoreséticos e morais do Estado laico, patrocinador da estabilidade social, a partir dos valores do racional- legal como fundamentos para o tão desejado bem-estar social. Depoisdisso,vários outros casosforamsendorevelados portodoomundo, nassociedadesmais estáveise desenvolvidas,sobreatrocidadescrescenteseperturbadorassobre ocomportamento social daqueles que teriam tudo para gozar de uma boa vida, mas insistiam em praticar barbaridades. Sociedades que praticavam atrocidades sociais contra inocentes sem o menor pudor ou senso de ética ou, ainda, moral. Aqui mesmonoBrasil,ficoufamosoemcertoscírculosocaso dofigurãoda ReceitaFederal,em São Paulo,que rejeitouofilhonumadasmelhoresmaternidadesdacidade e propôsaomédico chefe da maternidade que desse ao infante um “remedinho” para eliminar o estorvo de uma criança que tinhaescapado,por assimdizer,de um aborto.A mãe foi maismagnânima,propôs ao médico que se doasse a criança, afinal havia tanto casal sem filho querendo adotar um. Num Brasil pobre da década de 1950, ser da Receita Federal dava a esse pai benefícios sociais muito acima de qualquer cidadão comum da época e um filho a mais jamais teria causado problemaseconômicosaesse casal.Éclaroque ocaso revoltouomédicochefe damaternidade e causou uma celeuma que ecoou por altos círculos do poder da época. A criança sobreviveu por que o médicomoveumundose fundosparasalvaro infante dacrueldade dospaístão bem posicionados socialmente e sustentáculo do incipiente Estado de Bem-Estar social do Brasil da época. É de se perguntar, que fim levou essa criança nas mãos de pais tão bem colocados socialmente, mas tão inescrupulosos ética e moralmente? A Falência do Estado Laico Ficabemclaroque tantono caso americano,mencionadoporCapote,quanto nocasobrasileiro de São Paulo o que estava em jogo era decidir entre a morte de um inocente e a estabilidade social e essa era, e continua sendo, a grave crise moral do Estado Laico na atualidade, abrindo um dilemamoral insuperávelumachagaque não se cura espalhandoculpa,perturbação e todo tipo de doenças sociais. No final, ficou provado que o Estado racional-legal não é suficiente para gerar valores ético e morais, acobertando crime através da promulgação de leis.O Estado deve satisfaçõeséticas e morais que vão além da legalização do crime contra o infante, nesse caso o Estado deve satisfações quanto as infinitas possibilidades de uma vida que não foi vivida. Mas, a questãomaisperturbadoraé essa:se a estabilidade socialpode estarassentadasobre a morte do inocente, justificadapelanormatizaçãoracional-legal e amparadapelas ideologias.É claroque essaquestãoabre umachaga difícil de sercuradapoisque revelaaimpossibilidadede se justificaro crime semcastigo,o assassinatosemculpa,a delinquênciajustificada.Oproduto final é esse que estamos vivemosna atualidade, falência do Estado laico e a vitória do espírito humano, provando que a luta contra o espírito humano é uma batalha perdida através dos tempos. Amém,
  • 3.
    Prof. Ricardo GomesRodrigues São Carlos, 7 de dezembro de 2016