O PROGRAMA DE JESUS: LIBERTAR OS POBRES
                                     Pe. José Bortolini – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades – Paulus, 2007
                                                      * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL *
                                           ANO: C – TEMPO LITÚRGICO: 3° DOMINGO TEMPO COMUM – COR: VERDE


I. INTRODUÇÃO GERAL                                                                  V. A Palavra de Deus suscita partilha dos bens. A reação do povo é
                                                                                     estranha: todos começam a chorar (v. 9). O que provocou tamanha
1.    A comunidade cristã, nascida da Palavra de Deus, se reúne para
                                                                                     tristeza na comunidade? Talvez a distância entre o que foi lido e a
partilhar a mesma fé e partir o pão da Eucaristia. Ao lado do pão
                                                                                     realidade vivida pelo povo, ou a constatação de que tudo está por
consagrado, a Palavra ocupa o centro de nossas atenções, ensinando-
                                                                                     fazer. Mas a Palavra de Deus não cria comunidade com o objetivo
nos a construir o mundo novo que nasce da partilha dos bens da
                                                                                     de decepcionar o povo que busca a própria identidade e quer re-
criação, da mesma forma como Jesus partilha seu corpo entre os
                                                                                     construir o país. Pelo contrário, quer ser força, esperança e luz. Co-
membros da comunidade cristã (1ª leitura, Ne 8,2-4a.5-6.8-10).
                                                                                     mo, portanto, reconstruir a nação, recuperar a memória do passado e
2.    Celebrar a Eucaristia é fazer memória da prática libertadora de                conservar a identidade de povo livre?
Jesus. O que ele anunciou na sinagoga de Nazaré realiza-se no hoje
                                                                      6.   A resposta que o texto dá é só uma: a partilha. Os levitas dizem
de nossa caminhada eclesial. A Eucaristia é o lugar para o qual
                                                                      ao povo: "Comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções
convergem e se fundem o programa de Jesus e a caminhada das
                                                                      aos que não têm nada preparado para si, porque este dia é consagrado
comunidades cristãs. Hoje, em nossas celebrações, se realiza a
                                                                      ao nosso Senhor" (v. 10). A partilha dos bens, sugerida pela interpreta-
Escritura que ouviremos (evangelho, Lc 1,1-4; 4,14-21).
                                                                      ção da Palavra de Deus, leva a comunidade à criação da nova socieda-
3.    A Eucaristia é celebração de irmãos, membros do corpo de de. No dia consagrado ao Senhor, quem nada tinha não passou neces-
Cristo. Gestos e sentimentos de solidariedade para com os pobres e sidade; quem tinha em abundância não acumulou para si, mas parti-
marginalizados, com os que não têm voz ou vez, acolhendo-os lhou. É o primeiro fruto maduro do mundo novo que está nascendo.
fraternalmente, fazem com que o corpo de Cristo seja íntegro, sem Isso gera "a alegria do Senhor", que é segurança para a comunidade!
rupturas ou mutilações (2ª leitura, 1Cor 12,12-30).
                                                                      Evangelho (Lc 1,1-4; 4,14-21): O programa de Jesus: libertar os
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS                                    pobres
1ª leitura (Ne 8,2-4a.5-6.8-10): A Palavra de Deus gera comuni- 7. O evangelho deste domingo reúne o prólogo de Lucas (1,1-4) e o
dade e provoca partilha                                         programa de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21).
4.   Os acontecimentos narrados na primeira leitura deste domingo               a. O evangelho merece credibilidade (1,1-4)
situam-se no primeiro dia do sétimo mês do ano 444 a.C. Este é um
                                                                                8.   Lucas dedicou seu evangelho ao "excelentíssimo Teófilo" (nome
tempo de dificuldades para os que retornaram do exílio na Babilô-
                                                                                que significa "amigo de Deus"). O que ele vai contar ao longo do texto
nia. Liderados pelo sacerdote Esdras e o governador Neemias, os
                                                                                (que se prolonga nos Atos dos Apóstolos) não é fruto de especulação.
repatriados tentam reconstruir o país, recuperar a memória do passa-
                                                                                À semelhança dos autores gregos daquele tempo, ele quer demonstrar a
do e conservar a própria identidade de povo livre. Para isso é neces-
                                                                                solidez e credibilidade do que está para apresentar: fez um estudo
sário ter em mãos instrumentos capazes de unir o povo em torno de
                                                                                cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, a fim de escrever
objetivos comuns.
                                                                                uma narração bem ordenada (v. 3).
5.   O instrumento encontrado pelo sacerdote Esdras é a Palavra de
                                                                             Lucas pesquisou as tradições existentes (v. 1), transmitidas por
                                                                                9.
Deus, guardada não só na memória, mas também por escrito. Trata-
                                                                        aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros
se do núcleo central do Deuteronômio, a lei de Estado para Israel.
                                                                        da palavra (v. 2). Em base a isso, podemos afirmar que o evangelho é a
Os versículos de hoje descrevem em detalhes a celebração da Pala-
                                                                        síntese do ensino da Igreja primitiva. Para o evangelista, o surgimento
vra e suas conseqüências para a comunidade. Procuremos destacar
                                                                        de Jesus é um fato histórico que pode ser constatado a partir de teste-
alguns itens importantes:
                                                                        munhas oculares que transmitiram essa experiência e a partir do pri-
     I. A Palavra de Deus gera comunidade. Em torno do palanque - meiro ensino sobre Jesus. Ter fé no evangelho é crer e aderir à irrupção
     sobre o qual Esdras lê o livro da Lei de Deus - estão reunidas to- de Deus na história da humanidade. Nesse sentido, todos nós somos
     das as pessoas, indistintamente. O texto de hoje salienta, por du- "Teófilo", destinatários dessa mensagem.
     as vezes, que a proclamação da Palavra é feita "na presença dos
                                                                        b. Jesus caminha no meio do povo (4,14-15)
     homens, mulheres e de todos os que eram capazes de entender"
     (8,2.3). A Palavra congrega.                                       10. Os vv. 14-15 do capítulo 4 são uma síntese da atividade de Jesus.
                                                                        Lucas o situa na Galiléia, terra dos excluídos. Jesus se movimenta no
     II. A Palavra de Deus torna-se o centro de atenção da comuni-
                                                                        meio do povo, participando da vida dessa gente empobrecida, suscitan-
     dade. O texto mostra a comunidade toda prestando atenção ao
                                                                        do esperança e vida nova: "Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogi-
     que está sendo lido (v. 3). Para a ocasião, haviam construído um
                                                                        avam" (v. 15).
     palanque (v. 4), no qual é feita a proclamação da Palavra. Toda a
     comunidade pode ver o livro sendo aberto (v. 5). A Palavra é ou- 11. A força do Espírito conduziu Jesus para o meio do povo margina-
     vida.                                                              lizado. Esse detalhe é importante no evangelho de Lucas. De fato, nos
                                                                        primeiros quatro capítulos desse evangelho detecta-se intensa presença
     III. A Palavra de Deus suscita reações iguais em toda a comuni-
                                                                        e ação do Espírito, culminando em Jesus, que se sente investido e
     dade. É interessante notar as expressões corporais da assembléia:
                                                                        ungido por ele (cf. 4,18).
     Todos ficam de pé (v. 5), todos erguem as mãos e proclamam
     "Amém, amém!", todos se ajoelham e se inclinam até o chão di- 12. O Espírito Santo, no evangelho de Lucas, toma posse de João
     ante do Senhor (v. 6). A Palavra é aclamada e Deus é adorado.      Batista quando este está ainda no seio de sua mãe (cf. 1,15); toma
                                                                        posse de Maria, que engravida e se torna mãe de Jesus (cf. 1,35); toma
     IV. A Palavra de Deus ilumina a vida do povo. Esdras lê o livro
                                                                        posse de Isabel (1,41), que proclama Maria bem-aventurada por ter
     da Lei de Deus, traduzindo, explicando e atualizando o sentido
                                                                        acreditado na palavra do Senhor; toma posse de Zacarias, pai de João
     para a comunidade (v. 8). Para que se torne vida do povo, alicer-
                                                                        Batista (1,67), que anuncia a chegada da libertação; toma posse de
     ce na construção do país, a Palavra necessita de mediações her-
                                                                        Simeão (2,25-27), que experimenta a salvação ao receber Jesus em
     menêuticas (interpretação) que a atualizem para a caminhada no
                                                                        seus braços. É ele quem move a profetisa Ana (2,36). João Batista, em
     hoje da comunidade. Esdras explica e interpreta o sentido do
                                                                        sua pregação, anuncia que Jesus irá batizar com o Espírito Santo
     Deuteronômio, "para que todos compreendessem bem a leitura"
                                                                        (3,16). Ao ser batizado no Jordão, Jesus é investido da plenitude do
     (v. 8). A mediação não depende de uma só pessoa. Esdras se ser-
                                                                        Espírito (3,22); por ele deixa-se conduzir pelo deserto (4,1), onde
     ve também dos levitas que instruíam o povo (v. 9). É a explica-
                                                                        vence as tentações e, finalmente, é conduzido à Galiléia. Há, portanto,
     ção da Palavra que ilumina a vida. “A explicação das tuas pala-
                                                                        um verdadeiro pentecostes no início do evangelho de Lucas (intensa
     vras ilumina e dá discernimento aos inexperientes.” (Sl 119.130)
                                                                        ação do Espírito), culminando no programa de Jesus, na sinagoga de
Nazaré. – Depois disso, o evangelista quase não fala mais do Espíri- os que faziam revelações extraordinárias julgavam-se superiores, des-
to, pois este age em Jesus.                                             prezando os demais. Os dons extraordinários geraram clima de compe-
                                                                        tição e marginalização ao mesmo tempo.
c. O programa de Jesus: libertar os pobres (vv. 16-21)
                                                                        18. No trecho escolhido para a liturgia deste domingo, Paulo mostra
13. Participando da vida de seu povo, Jesus se encontrou na sina-
                                                                        quem é quem na comunidade, usando a metáfora do corpo. Muitos
goga. Abrindo o livro de Isaías (o rolo de Isaías deveria ter de quatro
                                                                        membros, cada qual com sua função, formam um único corpo (12,12).
a cinco metros de comprimento), buscou um trecho que sintetiza seu
                                                                        Paulo não fala só do corpo em sentido físico; ao mesmo tempo fala
programa: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu
                                                                        também do corpo social. Por corpo social entende-se a comunidade
para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos
                                                                        como um todo, cada qual com seu jeito, valores e capacidades. Medi-
cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os
                                                                        ante a diversidade dos membros chega-se à unidade em Cristo. Foi ele
oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor." (vv. 18-19; cf. Is
                                                                        quem, pelo Espírito, uniu em Corinto pagãos e judeus, escravos e
61,1-2).
                                                                        livres, homens e mulheres, ricos e pobres, gente mais culta e gente
14. O programa de Jesus beneficia diretamente os pobres. Quem menos culta. Todos, em Cristo e no Espírito, formam o corpo social, a
são eles? São os 'anawîm, isto é, os que vivem à margem da socie- comunidade cristã.
dade e à mercê dos poderosos, sem forças ou condições de resistir- 19. Paulo desenvolve o tema do corpo, tendo um olho na imagem do
lhes, sem protetor e presa fácil das mentiras e violência dos grandes. corpo físico e outro na imagem do corpo social. De fato, os vv. 15-16
Jesus é o aliado dos pobres, é seu libertador. Nisto consiste a Boa apresentam o monólogo fictício do pé ("eu não sou mão, logo não
Nova por ele anunciada. De fato, ao longo do evangelho de Lucas pertenço ao corpo") e do ouvido ("eu não sou olho, logo não pertenço
vemos que Jesus se posiciona sempre a favor dos empobrecidos e ao corpo"). Por trás da imagem do corpo físico está a do corpo social: o
marginalizados (cf. 14,13.21), mostrando onde está a raiz da discri- pé representa aquelas pessoas na comunidade que fazem as tarefas
minação, marginalização e depauperamento crescente (cf. 16,20). mais pesadas e menos vistosas, são "pau pra toda obra"; o ouvido são
Encontrando os ricos, exige-lhes um programa de vida que se pareça as pessoas que, nas celebrações, nada dizem, só têm o dom de escutar;
com o dele (cf. 18,22; 19,8), pois para Deus as riquezas não contam a mão são os membros mais ativos da comunidade, os mais capazes; o
(cf. 21,3).                                                             olho representa as pessoas de visão, de intuições profundas e inspira-
15. A Boa Notícia consiste na libertação dos marginalizados: pre- das. Sabendo-se capazes só de ouvir ou de fazer tarefas humildes,
sos soltos, cegos enxergando, oprimidos libertados. Jesus veio certos membros da comunidade se automarginalizavam ou eram mar-
proclamar o "ano aceitável do Senhor" (v. 19). Em Israel, ao ser ginalizados pelos que possuíam dons vistosos: "O olho não pode dizer
proclamado o "ano aceitável", ano de graça, todos os que tinham à mão: 'Não preciso de você'. E nem a cabeça (os líderes) pode dizer
dívidas recebiam o indulto; as terras hipotecadas ou roubadas pela aos pés: 'Não preciso de vocês'" (v. 21).
ganância dos latifundiários eram devolvidas, e todo o povo recome-      20. Nos vv. 22-23 Paulo afirma que "os membros do corpo que nos
çava vida nova, porque a partilha dos bens voltava a regular as         parecem mais fracos são os mais necessários. E aqueles membros que
relações sociais. O programa de Jesus prevê não só a libertação dos     nos parecem menos dignos de honra são os que vestimos com mais
marginalizados, mas sua plena reintegração na sociedade, com a          respeito. E os membros menos apresentáveis, nós os tratamos com
recuperação plena de tudo aquilo do qual foram defraudados. Essa é      maior cuidado". Também aqui o pensamento de Paulo oscila entre o
a evangelização (Boa Nova) de Jesus: não consiste em palavras,          corpo físico e o corpo social. A carta já falara da opção pelos fracos
doutrinação, conceitos, dogmas, documentos etc., mas numa prática       (cap. 8). Por isso Paulo afirma: "Deus distribuiu os membros do corpo
que leve as pessoas marginalizadas à posse da vida plena. Então, por    dando maior honra ao que é menos digno, para não haver divisão no
que ainda há tantos marginalizados no Brasil e na América Latina?       corpo, e para todas as partes se preocuparem igualmente umas com as
O que as Igrejas tem feito?                                             outras" (vv. 24b-25). Em outras palavras, Paulo afirma que a comuni-
16.  Jesus achou a passagem de Isaías que inspirou seu programa (v.     dade precisa pôr em primeiro lugar os pobres. O mesmo pensamento
17). E depois de lê-la, proclamou: "Hoje se cumpriu esta passagem       está presente no v. 26, que fala do sofrimento de um membro, partilha-
da Escritura que vocês acabam de ouvir" (v. 21). Ele atualiza para      do pelos demais: trata-se do ideal de comunhão comunitária: solidarie-
nós o sentido das Escrituras ou, se quisermos, com sua prática liber-   dade no sofrimento e na alegria.
tadora, é o ponto de referência para todos os que se aproximam da       21.  Está definido, pois, quem é importante na comunidade: todos são
Palavra de Deus. – Com que olhos lemos a Bíblia? Com qual objeti-       igualmente importantes, cada qual com seu dom. Os dons não confe-
vo usamos a Palavra de Deus? – A Bíblia é um grande programa de         rem valor às pessoas, nem as colocam acima dos outros. O outro,
libertação que se concretiza no hoje de nossa história. Ela nos reme-   assim como é, é o grande dom de Deus para a comunidade. Se houver
te ao hoje do nosso povo marginalizado, iluminando nossa caminha-       necessidade de privilegiar alguém, o pequeno, o pobre, o marginaliza-
da de libertação, pois o – programa de Jesus é também o nosso – .       do é que devem ocupar o primeiro lugar. Isso porque a comunidade é
Todavia, não conseguiremos tornar nosso esse programa se abrirmos       uma coisa só: forma um todo com todos os membros e com Cristo (cf.
mão das utopias.                                                        v. 27).
2ª leitura (1Cor 12,12-30): Quem é importante na comunidade?            22.  Os vv. 28-30 apresentam novo elenco de funções (cf. II leitura do
17.  Os caps. 12-14 de Primeira Carta aos Coríntios tratam da ques-     domingo passado). Aí, novamente, o falar em línguas ocupa o último
tão dos carismas (cf. II leitura do domingo passado). Paulo mostra      lugar, associado à interpretação das mesmas. No pensamento de Paulo,
aos coríntios que cada membro da comunidade tem seu dom e que           a tarefa mais importante e árdua é a da evangelização (apóstolos), do
os carismas nascem todos da Trindade, que é comunhão. Essa co-          discernimento (profecia) e do ensino (mestres), pois foi assim que a
munhão não acontecia em Corinto, pois os que falavam em línguas e       comunidade nasceu e se consolidou.


                                                     III. PISTAS PARA REFLEXÃO
          23.  A Palavra de Deus gera comunidade e provoca partilha (1ª leitura, . Ne 8,2-4a.5-6.8-10). Descobrir quais
          gestos concretos de fraternidade, justiça e solidariedade a comunidade realizou por impulso da Palavra de Deus. O
          texto inspira também encenações com a Bíblia.
          24.  O programa de Jesus: libertar os pobres (evangelho, Lc 1,1-4; 4,14-21). O programa de Jesus é também o da
          comunidade cristã. Quais os gestos de libertação que acontecem no hoje de nossa caminhada? Nossa comunidade já
          está realizando o "ano de graça do Senhor"? Ainda temos e alimentamos utopias ou pensamos que isso seja coisa de
          sonhador?
          25. Quem é importante na comunidade? (2ª leitura, 1Cor 12,12-30). Quais são os membros da comunidade que
          nos parecem menos dignos de honra e que deveríamos "vestir" com mais respeito? E os membros menos apresentá-
          veis que deveríamos tratar com maior cuidado?

3° domingo tempo comum - Ano C

  • 1.
    O PROGRAMA DEJESUS: LIBERTAR OS POBRES Pe. José Bortolini – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades – Paulus, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: C – TEMPO LITÚRGICO: 3° DOMINGO TEMPO COMUM – COR: VERDE I. INTRODUÇÃO GERAL V. A Palavra de Deus suscita partilha dos bens. A reação do povo é estranha: todos começam a chorar (v. 9). O que provocou tamanha 1. A comunidade cristã, nascida da Palavra de Deus, se reúne para tristeza na comunidade? Talvez a distância entre o que foi lido e a partilhar a mesma fé e partir o pão da Eucaristia. Ao lado do pão realidade vivida pelo povo, ou a constatação de que tudo está por consagrado, a Palavra ocupa o centro de nossas atenções, ensinando- fazer. Mas a Palavra de Deus não cria comunidade com o objetivo nos a construir o mundo novo que nasce da partilha dos bens da de decepcionar o povo que busca a própria identidade e quer re- criação, da mesma forma como Jesus partilha seu corpo entre os construir o país. Pelo contrário, quer ser força, esperança e luz. Co- membros da comunidade cristã (1ª leitura, Ne 8,2-4a.5-6.8-10). mo, portanto, reconstruir a nação, recuperar a memória do passado e 2. Celebrar a Eucaristia é fazer memória da prática libertadora de conservar a identidade de povo livre? Jesus. O que ele anunciou na sinagoga de Nazaré realiza-se no hoje 6. A resposta que o texto dá é só uma: a partilha. Os levitas dizem de nossa caminhada eclesial. A Eucaristia é o lugar para o qual ao povo: "Comei carnes gordas, tomai bebidas doces e enviai porções convergem e se fundem o programa de Jesus e a caminhada das aos que não têm nada preparado para si, porque este dia é consagrado comunidades cristãs. Hoje, em nossas celebrações, se realiza a ao nosso Senhor" (v. 10). A partilha dos bens, sugerida pela interpreta- Escritura que ouviremos (evangelho, Lc 1,1-4; 4,14-21). ção da Palavra de Deus, leva a comunidade à criação da nova socieda- 3. A Eucaristia é celebração de irmãos, membros do corpo de de. No dia consagrado ao Senhor, quem nada tinha não passou neces- Cristo. Gestos e sentimentos de solidariedade para com os pobres e sidade; quem tinha em abundância não acumulou para si, mas parti- marginalizados, com os que não têm voz ou vez, acolhendo-os lhou. É o primeiro fruto maduro do mundo novo que está nascendo. fraternalmente, fazem com que o corpo de Cristo seja íntegro, sem Isso gera "a alegria do Senhor", que é segurança para a comunidade! rupturas ou mutilações (2ª leitura, 1Cor 12,12-30). Evangelho (Lc 1,1-4; 4,14-21): O programa de Jesus: libertar os II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS pobres 1ª leitura (Ne 8,2-4a.5-6.8-10): A Palavra de Deus gera comuni- 7. O evangelho deste domingo reúne o prólogo de Lucas (1,1-4) e o dade e provoca partilha programa de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,14-21). 4. Os acontecimentos narrados na primeira leitura deste domingo a. O evangelho merece credibilidade (1,1-4) situam-se no primeiro dia do sétimo mês do ano 444 a.C. Este é um 8. Lucas dedicou seu evangelho ao "excelentíssimo Teófilo" (nome tempo de dificuldades para os que retornaram do exílio na Babilô- que significa "amigo de Deus"). O que ele vai contar ao longo do texto nia. Liderados pelo sacerdote Esdras e o governador Neemias, os (que se prolonga nos Atos dos Apóstolos) não é fruto de especulação. repatriados tentam reconstruir o país, recuperar a memória do passa- À semelhança dos autores gregos daquele tempo, ele quer demonstrar a do e conservar a própria identidade de povo livre. Para isso é neces- solidez e credibilidade do que está para apresentar: fez um estudo sário ter em mãos instrumentos capazes de unir o povo em torno de cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, a fim de escrever objetivos comuns. uma narração bem ordenada (v. 3). 5. O instrumento encontrado pelo sacerdote Esdras é a Palavra de Lucas pesquisou as tradições existentes (v. 1), transmitidas por 9. Deus, guardada não só na memória, mas também por escrito. Trata- aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros se do núcleo central do Deuteronômio, a lei de Estado para Israel. da palavra (v. 2). Em base a isso, podemos afirmar que o evangelho é a Os versículos de hoje descrevem em detalhes a celebração da Pala- síntese do ensino da Igreja primitiva. Para o evangelista, o surgimento vra e suas conseqüências para a comunidade. Procuremos destacar de Jesus é um fato histórico que pode ser constatado a partir de teste- alguns itens importantes: munhas oculares que transmitiram essa experiência e a partir do pri- I. A Palavra de Deus gera comunidade. Em torno do palanque - meiro ensino sobre Jesus. Ter fé no evangelho é crer e aderir à irrupção sobre o qual Esdras lê o livro da Lei de Deus - estão reunidas to- de Deus na história da humanidade. Nesse sentido, todos nós somos das as pessoas, indistintamente. O texto de hoje salienta, por du- "Teófilo", destinatários dessa mensagem. as vezes, que a proclamação da Palavra é feita "na presença dos b. Jesus caminha no meio do povo (4,14-15) homens, mulheres e de todos os que eram capazes de entender" (8,2.3). A Palavra congrega. 10. Os vv. 14-15 do capítulo 4 são uma síntese da atividade de Jesus. Lucas o situa na Galiléia, terra dos excluídos. Jesus se movimenta no II. A Palavra de Deus torna-se o centro de atenção da comuni- meio do povo, participando da vida dessa gente empobrecida, suscitan- dade. O texto mostra a comunidade toda prestando atenção ao do esperança e vida nova: "Ele ensinava nas sinagogas e todos o elogi- que está sendo lido (v. 3). Para a ocasião, haviam construído um avam" (v. 15). palanque (v. 4), no qual é feita a proclamação da Palavra. Toda a comunidade pode ver o livro sendo aberto (v. 5). A Palavra é ou- 11. A força do Espírito conduziu Jesus para o meio do povo margina- vida. lizado. Esse detalhe é importante no evangelho de Lucas. De fato, nos primeiros quatro capítulos desse evangelho detecta-se intensa presença III. A Palavra de Deus suscita reações iguais em toda a comuni- e ação do Espírito, culminando em Jesus, que se sente investido e dade. É interessante notar as expressões corporais da assembléia: ungido por ele (cf. 4,18). Todos ficam de pé (v. 5), todos erguem as mãos e proclamam "Amém, amém!", todos se ajoelham e se inclinam até o chão di- 12. O Espírito Santo, no evangelho de Lucas, toma posse de João ante do Senhor (v. 6). A Palavra é aclamada e Deus é adorado. Batista quando este está ainda no seio de sua mãe (cf. 1,15); toma posse de Maria, que engravida e se torna mãe de Jesus (cf. 1,35); toma IV. A Palavra de Deus ilumina a vida do povo. Esdras lê o livro posse de Isabel (1,41), que proclama Maria bem-aventurada por ter da Lei de Deus, traduzindo, explicando e atualizando o sentido acreditado na palavra do Senhor; toma posse de Zacarias, pai de João para a comunidade (v. 8). Para que se torne vida do povo, alicer- Batista (1,67), que anuncia a chegada da libertação; toma posse de ce na construção do país, a Palavra necessita de mediações her- Simeão (2,25-27), que experimenta a salvação ao receber Jesus em menêuticas (interpretação) que a atualizem para a caminhada no seus braços. É ele quem move a profetisa Ana (2,36). João Batista, em hoje da comunidade. Esdras explica e interpreta o sentido do sua pregação, anuncia que Jesus irá batizar com o Espírito Santo Deuteronômio, "para que todos compreendessem bem a leitura" (3,16). Ao ser batizado no Jordão, Jesus é investido da plenitude do (v. 8). A mediação não depende de uma só pessoa. Esdras se ser- Espírito (3,22); por ele deixa-se conduzir pelo deserto (4,1), onde ve também dos levitas que instruíam o povo (v. 9). É a explica- vence as tentações e, finalmente, é conduzido à Galiléia. Há, portanto, ção da Palavra que ilumina a vida. “A explicação das tuas pala- um verdadeiro pentecostes no início do evangelho de Lucas (intensa vras ilumina e dá discernimento aos inexperientes.” (Sl 119.130) ação do Espírito), culminando no programa de Jesus, na sinagoga de
  • 2.
    Nazaré. – Depoisdisso, o evangelista quase não fala mais do Espíri- os que faziam revelações extraordinárias julgavam-se superiores, des- to, pois este age em Jesus. prezando os demais. Os dons extraordinários geraram clima de compe- tição e marginalização ao mesmo tempo. c. O programa de Jesus: libertar os pobres (vv. 16-21) 18. No trecho escolhido para a liturgia deste domingo, Paulo mostra 13. Participando da vida de seu povo, Jesus se encontrou na sina- quem é quem na comunidade, usando a metáfora do corpo. Muitos goga. Abrindo o livro de Isaías (o rolo de Isaías deveria ter de quatro membros, cada qual com sua função, formam um único corpo (12,12). a cinco metros de comprimento), buscou um trecho que sintetiza seu Paulo não fala só do corpo em sentido físico; ao mesmo tempo fala programa: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu também do corpo social. Por corpo social entende-se a comunidade para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos como um todo, cada qual com seu jeito, valores e capacidades. Medi- cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os ante a diversidade dos membros chega-se à unidade em Cristo. Foi ele oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor." (vv. 18-19; cf. Is quem, pelo Espírito, uniu em Corinto pagãos e judeus, escravos e 61,1-2). livres, homens e mulheres, ricos e pobres, gente mais culta e gente 14. O programa de Jesus beneficia diretamente os pobres. Quem menos culta. Todos, em Cristo e no Espírito, formam o corpo social, a são eles? São os 'anawîm, isto é, os que vivem à margem da socie- comunidade cristã. dade e à mercê dos poderosos, sem forças ou condições de resistir- 19. Paulo desenvolve o tema do corpo, tendo um olho na imagem do lhes, sem protetor e presa fácil das mentiras e violência dos grandes. corpo físico e outro na imagem do corpo social. De fato, os vv. 15-16 Jesus é o aliado dos pobres, é seu libertador. Nisto consiste a Boa apresentam o monólogo fictício do pé ("eu não sou mão, logo não Nova por ele anunciada. De fato, ao longo do evangelho de Lucas pertenço ao corpo") e do ouvido ("eu não sou olho, logo não pertenço vemos que Jesus se posiciona sempre a favor dos empobrecidos e ao corpo"). Por trás da imagem do corpo físico está a do corpo social: o marginalizados (cf. 14,13.21), mostrando onde está a raiz da discri- pé representa aquelas pessoas na comunidade que fazem as tarefas minação, marginalização e depauperamento crescente (cf. 16,20). mais pesadas e menos vistosas, são "pau pra toda obra"; o ouvido são Encontrando os ricos, exige-lhes um programa de vida que se pareça as pessoas que, nas celebrações, nada dizem, só têm o dom de escutar; com o dele (cf. 18,22; 19,8), pois para Deus as riquezas não contam a mão são os membros mais ativos da comunidade, os mais capazes; o (cf. 21,3). olho representa as pessoas de visão, de intuições profundas e inspira- 15. A Boa Notícia consiste na libertação dos marginalizados: pre- das. Sabendo-se capazes só de ouvir ou de fazer tarefas humildes, sos soltos, cegos enxergando, oprimidos libertados. Jesus veio certos membros da comunidade se automarginalizavam ou eram mar- proclamar o "ano aceitável do Senhor" (v. 19). Em Israel, ao ser ginalizados pelos que possuíam dons vistosos: "O olho não pode dizer proclamado o "ano aceitável", ano de graça, todos os que tinham à mão: 'Não preciso de você'. E nem a cabeça (os líderes) pode dizer dívidas recebiam o indulto; as terras hipotecadas ou roubadas pela aos pés: 'Não preciso de vocês'" (v. 21). ganância dos latifundiários eram devolvidas, e todo o povo recome- 20. Nos vv. 22-23 Paulo afirma que "os membros do corpo que nos çava vida nova, porque a partilha dos bens voltava a regular as parecem mais fracos são os mais necessários. E aqueles membros que relações sociais. O programa de Jesus prevê não só a libertação dos nos parecem menos dignos de honra são os que vestimos com mais marginalizados, mas sua plena reintegração na sociedade, com a respeito. E os membros menos apresentáveis, nós os tratamos com recuperação plena de tudo aquilo do qual foram defraudados. Essa é maior cuidado". Também aqui o pensamento de Paulo oscila entre o a evangelização (Boa Nova) de Jesus: não consiste em palavras, corpo físico e o corpo social. A carta já falara da opção pelos fracos doutrinação, conceitos, dogmas, documentos etc., mas numa prática (cap. 8). Por isso Paulo afirma: "Deus distribuiu os membros do corpo que leve as pessoas marginalizadas à posse da vida plena. Então, por dando maior honra ao que é menos digno, para não haver divisão no que ainda há tantos marginalizados no Brasil e na América Latina? corpo, e para todas as partes se preocuparem igualmente umas com as O que as Igrejas tem feito? outras" (vv. 24b-25). Em outras palavras, Paulo afirma que a comuni- 16. Jesus achou a passagem de Isaías que inspirou seu programa (v. dade precisa pôr em primeiro lugar os pobres. O mesmo pensamento 17). E depois de lê-la, proclamou: "Hoje se cumpriu esta passagem está presente no v. 26, que fala do sofrimento de um membro, partilha- da Escritura que vocês acabam de ouvir" (v. 21). Ele atualiza para do pelos demais: trata-se do ideal de comunhão comunitária: solidarie- nós o sentido das Escrituras ou, se quisermos, com sua prática liber- dade no sofrimento e na alegria. tadora, é o ponto de referência para todos os que se aproximam da 21. Está definido, pois, quem é importante na comunidade: todos são Palavra de Deus. – Com que olhos lemos a Bíblia? Com qual objeti- igualmente importantes, cada qual com seu dom. Os dons não confe- vo usamos a Palavra de Deus? – A Bíblia é um grande programa de rem valor às pessoas, nem as colocam acima dos outros. O outro, libertação que se concretiza no hoje de nossa história. Ela nos reme- assim como é, é o grande dom de Deus para a comunidade. Se houver te ao hoje do nosso povo marginalizado, iluminando nossa caminha- necessidade de privilegiar alguém, o pequeno, o pobre, o marginaliza- da de libertação, pois o – programa de Jesus é também o nosso – . do é que devem ocupar o primeiro lugar. Isso porque a comunidade é Todavia, não conseguiremos tornar nosso esse programa se abrirmos uma coisa só: forma um todo com todos os membros e com Cristo (cf. mão das utopias. v. 27). 2ª leitura (1Cor 12,12-30): Quem é importante na comunidade? 22. Os vv. 28-30 apresentam novo elenco de funções (cf. II leitura do 17. Os caps. 12-14 de Primeira Carta aos Coríntios tratam da ques- domingo passado). Aí, novamente, o falar em línguas ocupa o último tão dos carismas (cf. II leitura do domingo passado). Paulo mostra lugar, associado à interpretação das mesmas. No pensamento de Paulo, aos coríntios que cada membro da comunidade tem seu dom e que a tarefa mais importante e árdua é a da evangelização (apóstolos), do os carismas nascem todos da Trindade, que é comunhão. Essa co- discernimento (profecia) e do ensino (mestres), pois foi assim que a munhão não acontecia em Corinto, pois os que falavam em línguas e comunidade nasceu e se consolidou. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 23. A Palavra de Deus gera comunidade e provoca partilha (1ª leitura, . Ne 8,2-4a.5-6.8-10). Descobrir quais gestos concretos de fraternidade, justiça e solidariedade a comunidade realizou por impulso da Palavra de Deus. O texto inspira também encenações com a Bíblia. 24. O programa de Jesus: libertar os pobres (evangelho, Lc 1,1-4; 4,14-21). O programa de Jesus é também o da comunidade cristã. Quais os gestos de libertação que acontecem no hoje de nossa caminhada? Nossa comunidade já está realizando o "ano de graça do Senhor"? Ainda temos e alimentamos utopias ou pensamos que isso seja coisa de sonhador? 25. Quem é importante na comunidade? (2ª leitura, 1Cor 12,12-30). Quais são os membros da comunidade que nos parecem menos dignos de honra e que deveríamos "vestir" com mais respeito? E os membros menos apresentá- veis que deveríamos tratar com maior cuidado?