O RESSUSCITADO: VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ
                                BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007
                                                   * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL *
                                     ANO: A, B e C – TEMPO LITÚRGICO: 2° DOMINGO DA PÁSCOA – COR: BRANCO


INTRODUÇÃO GERAL                                                           que quem se fechou ao projeto de Deus permanece em seus peca-
1.   Jesus ressuscitado está presente na comunidade, dando início          dos (cf. 9,41: “O pecado de vocês permanece”).
à nova criação. Os cristãos sentem sua presença na ação do Espí-           9.   Jesus sopra sobre os discípulos e lhes comunica sua própria
rito que os move à implantação do projeto de Deus na história. A           missão. O sopro recorda Gn 2,7, o sopro vital do Deus que comu-
comunidade precisa ter fé madura, que não exige sinais extraor-            nica a vida. Recordando o Gênesis, João quer dizer que aqui, no
dinários para perceber Jesus presente nela (evangelho, Jo 20,19-           dia da ressurreição, nasce a comunidade dos seguidores de Jesus,
31).                                                                       aos quais ele confia sua própria missão.
2.    O caminho da comunidade – na união, sintonia de ideais e 10. “Os discípulos continuam a ação de Jesus, pois ele lhes
solidariedade com os marginalizados – segue os passos de Jesus, confere a sua missão (20,21). Pelo Espírito que recebem dele, são
com todas as implicações que esse compromisso encerra: prisões, suas testemunhas perante o mundo (15,26s). Sua atividade, como
ultrajes, julgamento e morte (1ª leitura, At 5,12-16).             a de Jesus, é a manifestação por atos e obras do amor gratuito e
3.    Diante das dificuldades, o risco de abandonar a fé é grande. generoso do Pai (9,4). Diante deste testemunho, sucederá o mes-
Mas a comunidade, celebrando o memorial de Cristo, sente-o mo que sucedeu a Jesus: haverá os que o aceitarão e darão sua
presente, no meio dela, como aquele que é o Senhor da história e adesão a Jesus e os que se endurecerão em sua atitude hostil ao
juiz universal. Por isso não teme ao dar testemunho, mesmo que homem, rejeitarão o amor e se voltarão contra ele, chegando
tenha de atravessar as mais duras perseguições e enfrentar o exí- inclusive a dar a morte aos discípulos em nome de Deus (15,18-
lio e a morte (2ª leitura, Ap 1,9-11.12-13.17-19).                 21; 16,1-4). Não é missão da comunidade, como também não o
                                                                   era a de Jesus, julgar os homens (3,17; 12,47). O seu julgamento,
COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS                                     como o de Jesus, não faz senão constatar e confirmar o julgamen-
Evangelho (Jo 20,19-31): A nova criação                            to que o homem dá sobre si mesmo” diante do projeto de Deus (J.
                                                                   Mateos-J. Barreto, O Evangelho de São João, Paulus, São Paulo,
4.    O texto de Jo 20,19-31 pode ser dividido em duas cenas
                                                                   p. 836s).
distintas: vv. 19-23 e vv. 24-29. Segue-se um epílogo (vv. 30-31)
que, originariamente, era a conclusão do 4º Evangelho. Na pri- b. A fé amadurecida (vv. 24-19)
meira cena enfatiza-se a criação da comunidade messiânica que, a 11. Muito provavelmente o episódio de Tomé foi lembrado pelo
mandato de Cristo ressuscitado, dá seqüência ao projeto de Deus. autor do 4º Evangelho para eliminar mal-entendidos na comuni-
A segunda cena reflete, por contraste com a atitude de Tomé, o dade, segundo os quais as testemunhas oculares estariam num
amadurecimento na fé dos que, apesar de não terem visto Jesus, plano superior em relação aos que não viram pessoalmente o
aderiram a ele plenamente. O epílogo sintetiza a finalidade pela Senhor ressuscitado. Esse era um conflito presente nas comuni-
qual o 4º Evangelho foi escrito.                                   dades do fim do 1º século.
a. A criação da comunidade messiânica (vv. 19-23)                  12. Tomé era um dos Doze (v. 24) que estivera com Jesus antes
5.    O texto inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domin- da Paixão. O evangelista quer salientar que o importante não é ter
go da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para estado com Jesus antes de sua morte, e sim viver a vida que nasce
João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugura- da ressurreição, assumindo o projeto de Deus como opção pesso-
da pela vitória de Jesus sobre a morte. A referência à tarde do al. De fato, não obstante a boa vontade de Tomé (cf. 11,16: “Va-
domingo reflete a práxis cristã de celebrar a Santa Ceia no Dia do mos também nós, para morrermos com ele”), ele não fizera a
Senhor, à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico. experiência do Cristo vivo, nem recebera o Espírito (cf. v. 24).
As portas fechadas denotam um aspecto negativo (o medo dos Contrariamente a quanto faziam os convertidos, ele não aceita o
discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressus- testemunho dos discípulos. Sua fé ainda é fraca: não nasce da
citado, para o qual não há barreiras).                             experiência de amor da comunidade, mas depende de sinais ex-
                                                                   traordinários.
6.    Jesus apresenta-se no meio da comunidade (mais uma refe-
rência ao contexto eucarístico) e saúda os discípulos com a sau- 13. A referência ao oitavo dia denota mais uma vez o contexto
dação da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom, Mlv) eucarístico do texto. É o dia da nova criação, da plenitude, “oita-
esteja com vocês”. É a mesma saudação da despedida (cf. 14,27). vo dia por sua plenitude e primeiro por sua novidade”. Para o 4º
Por sua morte e ressurreição ele se tornou aquele que venceu o Evangelho, a ressurreição de Jesus se prolonga por todos os dias
“mundo” e a morte. É a saudação do Cordeiro vencedor que ainda da história.
traz em si os sinais de vitória, as marcas nas mãos e no lado (v. 14. Digna de nota é a resposta de Tomé: “Meu Senhor e meu
20a). Dele a comunidade se alimentará.                             Deus”. É a maior profissão de fé do 4º Evangelho. Ele reconhece
7.    A reação da comunidade é a alegria (cf. 16,20) que ninguém, em Jesus o servo glorificado (Senhor), em pé de igualdade com o
de agora em diante, poderá suprimir (cf. 16,22).                   Pai (Deus). Descobre em Jesus o projeto acabado de Deus e o
                                                                   toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus). É a primei-
8.    Assim fortalecida, a comunidade está pronta para a missão
                                                                   ra vez, fora o prólogo, em que Jesus é chamado de Deus. Note-se
que o próprio Jesus recebeu: “Como o Pai me enviou, assim
                                                                   que, para os judeus, a prova cabal de que Jesus devia morrer foi o
também eu envio vocês” (v. 21b). Quem garante a missão da
                                                                   fato de se ter proclamado igual a Deus (5,18), ou de fazer-se Deus
comunidade será o Espírito Santo. Para João, o Pentecostes acon-
                                                                   (10,33).
tece aqui, na tarde do dia da ressurreição. De agora em diante,
batizados no Espírito Santo (cf. 1,33), os cristãos têm o encargo 15. A cena se conclui com a única bem-aventurança explícita no
de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado assim: Evangelho de João (cf. 13,17). Ela privilegia os que irão crer sem
“Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os ter visto. O evangelho é desafio e abertura para o futuro: aceitá-lo
pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoa- ou não, aí se joga a sorte do ser humano e do ser cristão.
dos” (vv. 22b-23). O que é pecado para João? Consiste essenci- c. Epílogo (vv. 30-31)
almente em aderir à ordem injusta que levou Jesus à morte. Os
                                                                   16. A maioria dos estudiosos admite que aqui se encerrava o
pecados são atos concretos decorrentes dessa opção. Fundamen-
                                                                   Evangelho de João. O cap. 21, que se segue, foi acrescentado
talmente, a tarefa da comunidade é mostrar, em palavras e ações,
                                                                   mais tarde. O epílogo sintetiza a atividade de Jesus, marcada por
sinais, cuja função é o próprio objetivo do evangelho: suscitar a to para perceber que, embora tudo pareça confirmar o contrário,
fé e adesão ao projeto de Jesus, o Cristo, levado a cabo em sua Deus é o Senhor da história.
morte e ressurreição. Esse projeto é o mesmo do Pai, do qual o 22. O nosso texto pertence à primeira parte do livro (1,4-3,22) e
Filho é a expressão fiel. Aderindo a ele, as pessoas têm a vida.  pode trazer como título a experiência do Cristo ressuscitado.
1ª leitura (At 5,12-16): O projeto de Deus se prolonga na co- 23. O autor sente-se profundamente solidário com os cristãos aos
munidade                                                          quais se dirige. Identifica-se como irmão deles – isto é, participa
17. Lucas insere, no texto dos Atos, alguns sumários que sinteti-   da mesma fé – e companheiro na tribulação, no reino e na perse-
zam a vida da comunidade primitiva. O texto em questão é o          verança em Jesus (v. 9a). Tribulação é o sofrimento que o teste-
terceiro sumário (cf. 2,43; 4,33). Com isso o autor quer deixar     munho provoca (perseguição, exílio, morte). Reino é a pertença a
bem claro que a ação de Jesus encontra seu prolongamento no         Jesus. Perseverança é a capacidade de suportar ativamente os
modo de ser e agir dos cristãos.                                    momentos dramáticos da vida, por causa do testemunho.
18. At 5,12-16 não pode ser compreendido isoladamente, mas          24. O testemunho do autor do Apocalipse o leva ao exílio em
deve ser lido à luz do que antecede (vv. 1-11) e do que vem de-     Patmos (v. 9). Ele passa, a seguir, a relatar a experiência que fez,
pois (vv. 17-33). Antes desse sumário, Lucas nos apresenta o        por meio do Espírito, de Cristo ressuscitado. Essa experiência se
episódio de Ananias e Safira. Estes, imbuídos de mentira e ambi-    dá no dia do Senhor, exatamente no dia em que as comunidades
ção, tentam corromper a comunidade com sua vida ambígua,            se reúnem. Há aí um pedido velado para que as próprias comuni-
evitando a partilha e a comunhão. Para Pedro, isso significa men-   dades, que ouvem a leitura do livro (o Apocalipse é um texto para
tir a Deus e tentar o Espírito. O que vem após o sumário relata a   ser lido comunitariamente, em clima de oração e discernimento),
Paixão de Cristo revivida na prisão e julgamento dos discípulos.    façam a mesma experiência. Ou, em outras palavras, as comuni-
19. O sumário inicia com uma alusão ao que os discípulos fa-
                                                                    dades precisam tomar consciência do que celebram no dia do
zem: sinais e prodígios no meio do povo. É o eco da prática de Senhor.
Jesus. Esse é o aspecto externo, o ser para os outros. O aspecto 25. A primeira etapa da experiência consiste em ouvir, pelas
interno, o ser comunidade cristã, é caracterizado pela união (estar costas, “uma voz forte, como de trombeta” que ordena escrever o
juntos) e pela comunhão de ideais. Eles se reúnem em pleno que vê e enviá-lo às sete Igrejas. A trombeta evoca um anúncio
Templo (Pórtico de Salomão) e se tornam modelo de comunidade divino. A segunda etapa consiste em voltar-se para ver, ou seja, é
alternativa que, com palavras e ações, contesta e desmascara a sinal de disponibilidade e adesão plena ao que fala e à ordem
comunidade hipócrita, opressora e assassina que se reúne no emitida. Ao voltar-se, vê sete candelabros de ouro: são os Anjos
Templo. Essa comunidade alternativa dá um testemunho público, das sete igrejas: comunidades que celebram a ressurreição de
e seu testemunho irá desencadear reações diferentes por parte das Jesus (o candelabro recorda liturgia, celebração). O autor salienta
pessoas. A reação do povo é a de contágio diante da novidade. A que as comunidades-candelabros são de ouro, o metal que perten-
nova experiência religiosa o leva a abraçar a fé, aderindo ao Se- ce à divindade (as comunidades são “preciosas” para Deus). No
nhor. A reação dos chefes judeus, só esboçada em 13a, torna-se meio dos candelabros está alguém semelhante a um Filho de
evidente no texto que se segue: armam-se de ódio, prendem e Homem (cf. Dn 7,13): É Cristo ressuscitado, centro comum de
julgam os discípulos.                                               todas as comunidades cristãs, juiz e messias. Segue-se a descrição
20. O sumário continua nos vv. 15-16 e mostra Pedro fazendo as
                                                                    dos detalhes da personagem: veste-se com uma túnica longa (=
mesmas coisas que Jesus fazia: curar toda sorte de doentes e Cristo é sacerdote), cingido à altura do peito com um cinto de
atormentados por espíritos impuros. Na comunidade cristã prati- ouro (é o único Rei e juiz universal).
ca-se o mandato de Jesus (cf. Mc 6,56; Lc 6,17-19). Lucas salien-    26. A reação de João, que cai no chão como morto (v. 17a), é
ta que bastava o contato com a sombra de Pedro para ser curado       própria das teofanias do Antigo Testamento. Mas Jesus, investido
(v. 15). É uma referência ao poder salvífico de Deus, manifestado    do poder de Deus (a mão direita), o conforta. A expressão “não
já no êxodo e no deserto, onde Deus, com sua sombra, cobria o        tenha medo” (v. 17b) sintetiza todas as etapas da história em que
povo e o protegia. A comunidade cristã é, pois, segundo esse         as pessoas se sentiram fracas e ameaçadas de morte: em todas
sumário, o lugar onde se experimenta a novidade salvadora de         essas etapas Deus esteve presente, confortando e fortalecendo.
Deus, concretizada na comunhão, partilha e união de sentimentos.     Essa mensagem de confiança é dirigida a João e, por extensão, a
Essa comunidade é capaz de atrair a si os necessitados e margina-    todas as comunidades que vivem situações semelhantes. O moti-
lizados da vida, libertando-os da alienação causada pelo sistema     vo de confiança é expresso na autoapresentação de Jesus: ele é o
opressor.                                                            Senhor da história (O Primeiro e o Último), aquele que, por sua
2ª leitura (Ap 1,9-11.12-13.17-19): Jesus anima e sustenta a ressurreição, possui a plenitude da vida (o que está vivo para todo
comunidade                                                           o sempre). A morte não tem mais poder sobre ele (ele tem a cha-
                                                                     ve da morte), podendo, da morte, tirar a vida.
21. O Apocalipse é o livro da esperança para as comunidades
tentadas de desânimo diante das pressões, sofrimentos e mortes, 27. Após essa descrição minuciosa do Cristo, verdadeira síntese
conseqüências com as quais se tem que arcar ao assumir o projeto da cristologia do Apocalipse, a ordem dirigida a João se torna
de Deus. De fato, ele foi escrito sob a perseguição de Domiciano, mais explícita: ele deve escrever aquilo que está acontecendo
no final do 1º século. Era um tempo de crise para as comunidades (caps. 2-3) e aquilo que vai acontecer depois disto (caps. 4-22),
cristãs: ameaçadas de desaparecimento, são convidadas pelo autor para que as comunidades possam se sentir fortalecidas, animadas
do Apocalipse a levantar a cabeça e ler a história a partir de Cris- e capazes de resistir profeticamente, transformando a sociedade
                                                                     corrupta em Nova Jerusalém, esposa do Cordeiro.

                                                  III. PISTAS PARA REFLEXÃO
28. A comunidade cristã se reúne no dia do Senhor para celebrar a Eucaristia. Quais os projetos de vida que nascem dela? É, de fato,
uma comunidade que se compromete com o projeto de Deus? (evangelho, Jo 20,19-31).
29. As características da comunidade dos Atos (1ª leitura, At 5,12-16) são a união de sentimentos e a solidariedade com os margina-
lizados. Assim ela prolonga a ação de Jesus. Somos assim? Somos uma comunidade alternativa para um mundo justo e fraterno?
30. Como reagem as pessoas diante das perseguições por causa do Evangelho? Agimos em sintonia com Jesus, o Senhor da história?
Somos irmãos na tribulação, no reino e na perseverança? Qual experiência de Jesus fazemos a cada domingo? (2ª leitura, Ap 1,9-
11.12-13.17-19).

Comentário: 2° domingo de pascoa

  • 1.
    O RESSUSCITADO: VIDADA COMUNIDADE CRISTÃ BORTOLINE, José - Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: A, B e C – TEMPO LITÚRGICO: 2° DOMINGO DA PÁSCOA – COR: BRANCO INTRODUÇÃO GERAL que quem se fechou ao projeto de Deus permanece em seus peca- 1. Jesus ressuscitado está presente na comunidade, dando início dos (cf. 9,41: “O pecado de vocês permanece”). à nova criação. Os cristãos sentem sua presença na ação do Espí- 9. Jesus sopra sobre os discípulos e lhes comunica sua própria rito que os move à implantação do projeto de Deus na história. A missão. O sopro recorda Gn 2,7, o sopro vital do Deus que comu- comunidade precisa ter fé madura, que não exige sinais extraor- nica a vida. Recordando o Gênesis, João quer dizer que aqui, no dinários para perceber Jesus presente nela (evangelho, Jo 20,19- dia da ressurreição, nasce a comunidade dos seguidores de Jesus, 31). aos quais ele confia sua própria missão. 2. O caminho da comunidade – na união, sintonia de ideais e 10. “Os discípulos continuam a ação de Jesus, pois ele lhes solidariedade com os marginalizados – segue os passos de Jesus, confere a sua missão (20,21). Pelo Espírito que recebem dele, são com todas as implicações que esse compromisso encerra: prisões, suas testemunhas perante o mundo (15,26s). Sua atividade, como ultrajes, julgamento e morte (1ª leitura, At 5,12-16). a de Jesus, é a manifestação por atos e obras do amor gratuito e 3. Diante das dificuldades, o risco de abandonar a fé é grande. generoso do Pai (9,4). Diante deste testemunho, sucederá o mes- Mas a comunidade, celebrando o memorial de Cristo, sente-o mo que sucedeu a Jesus: haverá os que o aceitarão e darão sua presente, no meio dela, como aquele que é o Senhor da história e adesão a Jesus e os que se endurecerão em sua atitude hostil ao juiz universal. Por isso não teme ao dar testemunho, mesmo que homem, rejeitarão o amor e se voltarão contra ele, chegando tenha de atravessar as mais duras perseguições e enfrentar o exí- inclusive a dar a morte aos discípulos em nome de Deus (15,18- lio e a morte (2ª leitura, Ap 1,9-11.12-13.17-19). 21; 16,1-4). Não é missão da comunidade, como também não o era a de Jesus, julgar os homens (3,17; 12,47). O seu julgamento, COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS como o de Jesus, não faz senão constatar e confirmar o julgamen- Evangelho (Jo 20,19-31): A nova criação to que o homem dá sobre si mesmo” diante do projeto de Deus (J. Mateos-J. Barreto, O Evangelho de São João, Paulus, São Paulo, 4. O texto de Jo 20,19-31 pode ser dividido em duas cenas p. 836s). distintas: vv. 19-23 e vv. 24-29. Segue-se um epílogo (vv. 30-31) que, originariamente, era a conclusão do 4º Evangelho. Na pri- b. A fé amadurecida (vv. 24-19) meira cena enfatiza-se a criação da comunidade messiânica que, a 11. Muito provavelmente o episódio de Tomé foi lembrado pelo mandato de Cristo ressuscitado, dá seqüência ao projeto de Deus. autor do 4º Evangelho para eliminar mal-entendidos na comuni- A segunda cena reflete, por contraste com a atitude de Tomé, o dade, segundo os quais as testemunhas oculares estariam num amadurecimento na fé dos que, apesar de não terem visto Jesus, plano superior em relação aos que não viram pessoalmente o aderiram a ele plenamente. O epílogo sintetiza a finalidade pela Senhor ressuscitado. Esse era um conflito presente nas comuni- qual o 4º Evangelho foi escrito. dades do fim do 1º século. a. A criação da comunidade messiânica (vv. 19-23) 12. Tomé era um dos Doze (v. 24) que estivera com Jesus antes 5. O texto inicia situando a cena no tempo. É a tarde do domin- da Paixão. O evangelista quer salientar que o importante não é ter go da Páscoa. Para os judeus, já havia iniciado um novo dia. Para estado com Jesus antes de sua morte, e sim viver a vida que nasce João, contudo, é ainda o dia da ressurreição, a nova era inaugura- da ressurreição, assumindo o projeto de Deus como opção pesso- da pela vitória de Jesus sobre a morte. A referência à tarde do al. De fato, não obstante a boa vontade de Tomé (cf. 11,16: “Va- domingo reflete a práxis cristã de celebrar a Santa Ceia no Dia do mos também nós, para morrermos com ele”), ele não fizera a Senhor, à tardinha. Estamos, portanto, num contexto eucarístico. experiência do Cristo vivo, nem recebera o Espírito (cf. v. 24). As portas fechadas denotam um aspecto negativo (o medo dos Contrariamente a quanto faziam os convertidos, ele não aceita o discípulos) e um aspecto positivo (o novo estado de Jesus ressus- testemunho dos discípulos. Sua fé ainda é fraca: não nasce da citado, para o qual não há barreiras). experiência de amor da comunidade, mas depende de sinais ex- traordinários. 6. Jesus apresenta-se no meio da comunidade (mais uma refe- rência ao contexto eucarístico) e saúda os discípulos com a sau- 13. A referência ao oitavo dia denota mais uma vez o contexto dação da plenitude dos bens messiânicos: “A paz (shalom, Mlv) eucarístico do texto. É o dia da nova criação, da plenitude, “oita- esteja com vocês”. É a mesma saudação da despedida (cf. 14,27). vo dia por sua plenitude e primeiro por sua novidade”. Para o 4º Por sua morte e ressurreição ele se tornou aquele que venceu o Evangelho, a ressurreição de Jesus se prolonga por todos os dias “mundo” e a morte. É a saudação do Cordeiro vencedor que ainda da história. traz em si os sinais de vitória, as marcas nas mãos e no lado (v. 14. Digna de nota é a resposta de Tomé: “Meu Senhor e meu 20a). Dele a comunidade se alimentará. Deus”. É a maior profissão de fé do 4º Evangelho. Ele reconhece 7. A reação da comunidade é a alegria (cf. 16,20) que ninguém, em Jesus o servo glorificado (Senhor), em pé de igualdade com o de agora em diante, poderá suprimir (cf. 16,22). Pai (Deus). Descobre em Jesus o projeto acabado de Deus e o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus). É a primei- 8. Assim fortalecida, a comunidade está pronta para a missão ra vez, fora o prólogo, em que Jesus é chamado de Deus. Note-se que o próprio Jesus recebeu: “Como o Pai me enviou, assim que, para os judeus, a prova cabal de que Jesus devia morrer foi o também eu envio vocês” (v. 21b). Quem garante a missão da fato de se ter proclamado igual a Deus (5,18), ou de fazer-se Deus comunidade será o Espírito Santo. Para João, o Pentecostes acon- (10,33). tece aqui, na tarde do dia da ressurreição. De agora em diante, batizados no Espírito Santo (cf. 1,33), os cristãos têm o encargo 15. A cena se conclui com a única bem-aventurança explícita no de continuar o projeto de Deus. Esse projeto é sintetizado assim: Evangelho de João (cf. 13,17). Ela privilegia os que irão crer sem “Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados; os ter visto. O evangelho é desafio e abertura para o futuro: aceitá-lo pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoa- ou não, aí se joga a sorte do ser humano e do ser cristão. dos” (vv. 22b-23). O que é pecado para João? Consiste essenci- c. Epílogo (vv. 30-31) almente em aderir à ordem injusta que levou Jesus à morte. Os 16. A maioria dos estudiosos admite que aqui se encerrava o pecados são atos concretos decorrentes dessa opção. Fundamen- Evangelho de João. O cap. 21, que se segue, foi acrescentado talmente, a tarefa da comunidade é mostrar, em palavras e ações, mais tarde. O epílogo sintetiza a atividade de Jesus, marcada por
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    sinais, cuja funçãoé o próprio objetivo do evangelho: suscitar a to para perceber que, embora tudo pareça confirmar o contrário, fé e adesão ao projeto de Jesus, o Cristo, levado a cabo em sua Deus é o Senhor da história. morte e ressurreição. Esse projeto é o mesmo do Pai, do qual o 22. O nosso texto pertence à primeira parte do livro (1,4-3,22) e Filho é a expressão fiel. Aderindo a ele, as pessoas têm a vida. pode trazer como título a experiência do Cristo ressuscitado. 1ª leitura (At 5,12-16): O projeto de Deus se prolonga na co- 23. O autor sente-se profundamente solidário com os cristãos aos munidade quais se dirige. Identifica-se como irmão deles – isto é, participa 17. Lucas insere, no texto dos Atos, alguns sumários que sinteti- da mesma fé – e companheiro na tribulação, no reino e na perse- zam a vida da comunidade primitiva. O texto em questão é o verança em Jesus (v. 9a). Tribulação é o sofrimento que o teste- terceiro sumário (cf. 2,43; 4,33). Com isso o autor quer deixar munho provoca (perseguição, exílio, morte). Reino é a pertença a bem claro que a ação de Jesus encontra seu prolongamento no Jesus. Perseverança é a capacidade de suportar ativamente os modo de ser e agir dos cristãos. momentos dramáticos da vida, por causa do testemunho. 18. At 5,12-16 não pode ser compreendido isoladamente, mas 24. O testemunho do autor do Apocalipse o leva ao exílio em deve ser lido à luz do que antecede (vv. 1-11) e do que vem de- Patmos (v. 9). Ele passa, a seguir, a relatar a experiência que fez, pois (vv. 17-33). Antes desse sumário, Lucas nos apresenta o por meio do Espírito, de Cristo ressuscitado. Essa experiência se episódio de Ananias e Safira. Estes, imbuídos de mentira e ambi- dá no dia do Senhor, exatamente no dia em que as comunidades ção, tentam corromper a comunidade com sua vida ambígua, se reúnem. Há aí um pedido velado para que as próprias comuni- evitando a partilha e a comunhão. Para Pedro, isso significa men- dades, que ouvem a leitura do livro (o Apocalipse é um texto para tir a Deus e tentar o Espírito. O que vem após o sumário relata a ser lido comunitariamente, em clima de oração e discernimento), Paixão de Cristo revivida na prisão e julgamento dos discípulos. façam a mesma experiência. Ou, em outras palavras, as comuni- 19. O sumário inicia com uma alusão ao que os discípulos fa- dades precisam tomar consciência do que celebram no dia do zem: sinais e prodígios no meio do povo. É o eco da prática de Senhor. Jesus. Esse é o aspecto externo, o ser para os outros. O aspecto 25. A primeira etapa da experiência consiste em ouvir, pelas interno, o ser comunidade cristã, é caracterizado pela união (estar costas, “uma voz forte, como de trombeta” que ordena escrever o juntos) e pela comunhão de ideais. Eles se reúnem em pleno que vê e enviá-lo às sete Igrejas. A trombeta evoca um anúncio Templo (Pórtico de Salomão) e se tornam modelo de comunidade divino. A segunda etapa consiste em voltar-se para ver, ou seja, é alternativa que, com palavras e ações, contesta e desmascara a sinal de disponibilidade e adesão plena ao que fala e à ordem comunidade hipócrita, opressora e assassina que se reúne no emitida. Ao voltar-se, vê sete candelabros de ouro: são os Anjos Templo. Essa comunidade alternativa dá um testemunho público, das sete igrejas: comunidades que celebram a ressurreição de e seu testemunho irá desencadear reações diferentes por parte das Jesus (o candelabro recorda liturgia, celebração). O autor salienta pessoas. A reação do povo é a de contágio diante da novidade. A que as comunidades-candelabros são de ouro, o metal que perten- nova experiência religiosa o leva a abraçar a fé, aderindo ao Se- ce à divindade (as comunidades são “preciosas” para Deus). No nhor. A reação dos chefes judeus, só esboçada em 13a, torna-se meio dos candelabros está alguém semelhante a um Filho de evidente no texto que se segue: armam-se de ódio, prendem e Homem (cf. Dn 7,13): É Cristo ressuscitado, centro comum de julgam os discípulos. todas as comunidades cristãs, juiz e messias. Segue-se a descrição 20. O sumário continua nos vv. 15-16 e mostra Pedro fazendo as dos detalhes da personagem: veste-se com uma túnica longa (= mesmas coisas que Jesus fazia: curar toda sorte de doentes e Cristo é sacerdote), cingido à altura do peito com um cinto de atormentados por espíritos impuros. Na comunidade cristã prati- ouro (é o único Rei e juiz universal). ca-se o mandato de Jesus (cf. Mc 6,56; Lc 6,17-19). Lucas salien- 26. A reação de João, que cai no chão como morto (v. 17a), é ta que bastava o contato com a sombra de Pedro para ser curado própria das teofanias do Antigo Testamento. Mas Jesus, investido (v. 15). É uma referência ao poder salvífico de Deus, manifestado do poder de Deus (a mão direita), o conforta. A expressão “não já no êxodo e no deserto, onde Deus, com sua sombra, cobria o tenha medo” (v. 17b) sintetiza todas as etapas da história em que povo e o protegia. A comunidade cristã é, pois, segundo esse as pessoas se sentiram fracas e ameaçadas de morte: em todas sumário, o lugar onde se experimenta a novidade salvadora de essas etapas Deus esteve presente, confortando e fortalecendo. Deus, concretizada na comunhão, partilha e união de sentimentos. Essa mensagem de confiança é dirigida a João e, por extensão, a Essa comunidade é capaz de atrair a si os necessitados e margina- todas as comunidades que vivem situações semelhantes. O moti- lizados da vida, libertando-os da alienação causada pelo sistema vo de confiança é expresso na autoapresentação de Jesus: ele é o opressor. Senhor da história (O Primeiro e o Último), aquele que, por sua 2ª leitura (Ap 1,9-11.12-13.17-19): Jesus anima e sustenta a ressurreição, possui a plenitude da vida (o que está vivo para todo comunidade o sempre). A morte não tem mais poder sobre ele (ele tem a cha- ve da morte), podendo, da morte, tirar a vida. 21. O Apocalipse é o livro da esperança para as comunidades tentadas de desânimo diante das pressões, sofrimentos e mortes, 27. Após essa descrição minuciosa do Cristo, verdadeira síntese conseqüências com as quais se tem que arcar ao assumir o projeto da cristologia do Apocalipse, a ordem dirigida a João se torna de Deus. De fato, ele foi escrito sob a perseguição de Domiciano, mais explícita: ele deve escrever aquilo que está acontecendo no final do 1º século. Era um tempo de crise para as comunidades (caps. 2-3) e aquilo que vai acontecer depois disto (caps. 4-22), cristãs: ameaçadas de desaparecimento, são convidadas pelo autor para que as comunidades possam se sentir fortalecidas, animadas do Apocalipse a levantar a cabeça e ler a história a partir de Cris- e capazes de resistir profeticamente, transformando a sociedade corrupta em Nova Jerusalém, esposa do Cordeiro. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 28. A comunidade cristã se reúne no dia do Senhor para celebrar a Eucaristia. Quais os projetos de vida que nascem dela? É, de fato, uma comunidade que se compromete com o projeto de Deus? (evangelho, Jo 20,19-31). 29. As características da comunidade dos Atos (1ª leitura, At 5,12-16) são a união de sentimentos e a solidariedade com os margina- lizados. Assim ela prolonga a ação de Jesus. Somos assim? Somos uma comunidade alternativa para um mundo justo e fraterno? 30. Como reagem as pessoas diante das perseguições por causa do Evangelho? Agimos em sintonia com Jesus, o Senhor da história? Somos irmãos na tribulação, no reino e na perseverança? Qual experiência de Jesus fazemos a cada domingo? (2ª leitura, Ap 1,9- 11.12-13.17-19).