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24Este trabalho tem por finalidade oportunizar aos leitores o reconhecimento da contação dehistórias como um instrumento d...
25Em sua obra “A hora do conto: da fantasia ao prazer de ler”, Barcellos e Neves demonstramcoerência com os pensamentos de...
26comunicação entre os seres humanos, portanto, é essencial que se crie e se oportunize àspessoas situações em que possam ...
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29aquele que vai contar uma história, pois para que aconteça aprendizagem por parte dascrianças, é fundamental que a histó...
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Artigo christiane jarosky

  1. 1. 23CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS DOS ANOS INICIAISChristiane Jaroski Barbosa1Luciane Rodrigues da Silva Santos2Resumo: As formas tradicionais de leitura e escrita parecem não estar dando conta daaprendizagem das crianças. Por isto, se pensou na contação de histórias como uma formaalternativa e, talvez, mais interessante de se aprender. Portanto, o presente artigo tem porpropósito analisar e avaliar como os contadores de histórias associam sua prática com aaprendizagem de crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental; quais as concepçõessobre o ato de contar histórias de algumas professoras pertencentes a uma instituição deensino particular e como alguns pais relacionam o uso dessa atividade com a formação de seusfilhos. Portanto, fica claro que essa prática, quando bem trabalhada, contribui de formasignificativa e produtiva para a construção da aprendizagem das crianças dos anos iniciais.Palavras-chave: Contação de histórias; Aprendizagem significativa; Anos iniciais.IntroduçãoGeralmente se vê professores descontentes por perceberem que seus alunos não gostam de lere, por conta disso, apresentam dificuldades no momento de realizarem as tarefas propostas emaula. Por ter a informação de que uma das maiores causas do fracasso escolar, apresentada porum elevado número de estudante é a dificuldade de realizar as atividades de leitura e escritacom autonomia, é que se decidiu investigar outras formas que possam contribuir para que osalunos, ao invés de se intimidarem com essas propostas, possam realizá-las de formaprazerosa. Assim, o objeto de estudo foi a contação de histórias, pois, como diz Bruner (apudPRADO; SOLIGO, 2007, p. 48) “é possível que as formas mais usuais e instantâneas que o serhumano utiliza para estruturar suas vivências e informações seja a forma narrativa”.Com a intenção de investigar a contação de histórias como sendo uma possível “ferramenta” aser utilizada para a melhoria da construção de aprendizagem das crianças dos anos iniciais, éque se foi em busca das concepções de educadoras que há muito tempo dedicam-se a contarhistórias e também a ensinar a arte de contá-las, e de pareceres de alguns pais dessas criançascom intuito de perceber quais seus entendimentos sobre esse assunto em relação àaprendizagem de seus filhos.1 Mestre em Linguística Aplicada. Professora da Faculdade Cenecista de Osório - RS. Email:christianejb@gmail.com2 Graduada em Pedagogia pela Faculdade Cenecista de Osório - RS. Email: lucianers_santos@hotmail.comRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  2. 2. 24Este trabalho tem por finalidade oportunizar aos leitores o reconhecimento da contação dehistórias como um instrumento de ensino que pode desencadear no aluno o gosto pela leitura econtribuir para sua formação cognitiva, afetiva, social e cultural, fazendo com que se torne umsujeito crítico e atuante na sociedade, com capacidade de transformá-la em um lugar melhor deviver.Compreendendo a contação de históriasTendo em vista a contação de histórias como uma possível forma de contribuição para aaprendizagem das crianças e, por conta disso, talvez algo significativo de ser utilizado peloprofessor no momento do processo educativo, é importante que se conheça a opinião de algunspesquisadores que apreciam esse assunto e que primam por formas mais adequadas de educar.Conforme Prado e Soligo,A palavra narrar vem do verbo latino narrare, que significa expor, contar, relatar. E seaproxima do que os gregos antigos clamavam de épikos – poema longo que contauma história e serve para ser recitado. Narrar tem, portanto essa característicaintrínseca: pressupõe o outro. Ser contada ou ser lida: é esse o destino de todahistória. E se as coisas estão prenhes da palavra, como preferia Bakhtin (1997), aonarrar falamos de coisas ordinárias e extraordinárias e até repletas de mistérios, quevão sendo reveladas ou remodeladas no ato da escuta ou na suposta solidão daleitura. (2007, p. 48)Ao se notar tal importância que a narrativa estabelece entre aquele que narra e aquele que ouve,parece interessante que seja feito um maior aprofundamento desse assunto. Portanto, assimcomo esses autores, Coelho, em seus estudos sobre literatura infantil e juvenil, também contribuicom um conceito de narrativa:A matéria narrativa resulta, pois, de uma voz que narra uma estória, a partir de umângulo de visão (ou foco narrativo) e vai encadeando as sequências de umaefabulação; cuja ação é vivida por personagens; está situada em determinadoespaço; dura determinado tempo e se comunica através de determinada linguagemou discurso, pretendendo ser lida ou ouvida por determinado leitor / ouvinte. (1993, p.86)Desde que a escrita passou a fazer parte de nossa vida, ler tornou-se tarefa fundamental paraque se possa interagir com os fatos e situações apresentados pela sociedade. Hoje, por estarvivendo em uma época em que o avanço da tecnologia tem proporcionado as mais diversas evariadas informações, tornou-se imprescindível que as pessoas sejam preparadas para seremleitoras, porque assim serão capazes de fazer a seleção de informações que lhes possibilitem asolução de problemas de suas realidades. Para contribuir com a ideia de formar cidadãosleitores, Abramovich ressalta:Ah, como é importante para a formação de qualquer criança ouvir muitas, muitashistórias... Escutá-las é o início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é terum caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo. (1997,p. 16)Revista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  3. 3. 25Em sua obra “A hora do conto: da fantasia ao prazer de ler”, Barcellos e Neves demonstramcoerência com os pensamentos de Abramovich (1997) e ressaltam outras habilidades que acriança desenvolve e amplia ao ouvir histórias. Dentre essas destacam que:Além disso, a criança que ouve histórias com frequência educa sua atenção,desenvolve a linguagem oral e escrita, amplia seu vocabulário e principalmenteaprende a procurar, nos livros, novas histórias para o seu entretenimento. (1995, p.18)Na medida em que se percebe, nas palavras dessas estudiosas, a preocupação de que ascrianças desenvolvam e ampliem suas habilidades e que conheçam e compreendam melhor omundo, fica claro que as mesmas são defensoras de um ensino que prepare o aluno para odesempenho de papéis e tarefas sociais com autonomia. Em sintonia com esse pensamento,Morin, que denomina isso como “ensino educativo”, observa que: “A missão desse ensino étransmitir não o mero saber, mas uma cultura que permita compreender nossa condição e nosajude a viver, e que favoreça ao mesmo tempo, um modo de pensar aberto e livre” (2001, p. 11).Prosseguindo nessa ordem de ideias, acredita-se que seja válido mencionar aqui as concepçõesde Filho, pois o mesmo chama a atenção para o fato de que é essencial e favorável para aaprendizagem dos alunos que o professor, durante sua prática educativa, conte e leia histórias.É importante que o professor das quatro séries iniciais do 1º grau conte histórias paraos seus alunos e também lhes leia em voz alta. No início do primeiro segmento doensino fundamental, os alunos começam a se apropriar do processo de leitura [...].Eis aqui, ao nosso ver, um bom caminho para promover a leitura na sua ampla e ricadimensão: a descoberta e atribuição de sentidos, carregando a leitura designificações. O leitor, entendendo o texto, procura se entender e busca também oentendimento do próprio mundo em que se situa. (1995, p. 87-88)No sentido de contribuir com aquele educador, que não desenvolve a prática de contar histórias,porque não se sente apto e seguro para fazê-lo, mas considera válido o que esse último autorrelata, é que cabe mencionar o que Coelho afirma sobre essa questão:Como toda arte, a de contar histórias também possui segredos e técnicas. Sendouma arte que lida com matéria – prima especialíssima, a palavra, prerrogativa dascriaturas humanas, depende, naturalmente, de certa tendência inata, mas que podeser desenvolvida, cultivada, desde que se goste de crianças e se reconheça aimportância da história para elas. (1995, p. 9)Amarilha, com intuito de incentivar a contação de histórias nas escolas, para que a criança,através da voz que narra, torne-se um ouvinte pensante, revela:Quando colocamos a narrativa na escola através do contador/leitor de histórias,mudamos a história da escola. Mudamos a relação da criança com a cultura escolar,porque a fazemos experimentar textos significativos do ponto de vista psicológico,social, linguístico, afetivo, pressupondo que todo professor seleciona,adequadamente, os textos que lê para seus alunos. (2006, p. 29)Do mesmo modo que o saber ler, o ato de escrever é um meio que possibilita e facilita aRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  4. 4. 26comunicação entre os seres humanos, portanto, é essencial que se crie e se oportunize àspessoas situações em que possam ir desenvolvendo cada vez mais essa habilidade. Kuhlthaudemonstra os benefícios que a contação de histórias oferece para que os estudantes se tornemleitores e, por conta disso, melhores escritores.Antes que possam ler sozinhas as crianças devem escutar histórias, a fim dedesenvolver o interesse pelos livros e conscientizar-se da variedade de livrosdisponíveis. Quando estão aprendendo a ler, a escuta de histórias funciona comouma influência modelizadora para a leitura. Essa atividade possibilita a experiênciacom o fluxo das palavras para formar os significados. As crianças vivenciam o prazere os sentimentos criados pela leitura. Por outro lado, a leitura tem como finalidade aformação de escritores, não no sentido de profissionais da escrita, mas de pessoascapazes de escrever adequadamente. Assim, ela fornece a matéria – prima para aescrita (o que escrever), além de contribuir para a constituição de modelos (comoescrever). (2002, p. 50)Analisando os conceitos aqui mencionados, percebe-se que de uma forma singular todos essespesquisadores demonstram um posicionamento semelhante quanto à contação de histórias paracrianças.Caminhos percorridos para a elaboração deste estudoUm dos motivos que causou o desejo e a decisão de nortear este trabalho por meio do estudo decaso, foi o fato de conhecer educadoras que utilizam a contação de histórias como “ferramenta”de auxílio durante o processo de ensino-aprendizagem, e de outras, que, além disso, já há umbom tempo dedicam-se a ensinar a arte de contá-las. A outra razão se deu em decorrência deacreditar-se que suas experiências práticas contribuiriam, de forma significativa, para respondera questões fundamentais do tema de investigação que está sendo proposto nesse artigo.No sentido de esclarecer melhor esse estudo, vale ressaltar que a coleta de dados ocorreu apartir de entrevistas estruturadas, ou seja, em regime fechado. Para tanto, foi elaboradoantecipadamente questionários contendo perguntas voltadas ao interesse de investigação, emque as participantes relataram suas atitudes e opiniões sobre a contação de histórias paracrianças dos anos iniciais.Questionário utilizado para entrevistar os professores1. Comenta o que considera importante no contador de histórias, ao escolher um livro infantilpara alunos dos anos iniciais?2. Em sua opinião, quais são as habilidades e compromissos que o contador deve ter aotrabalhar uma história com crianças na faixa etária de 5 a 10 anos? Por quê?3. Quais são os recursos mais importantes de serem utilizados durante a contação de histórias?Revista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  5. 5. 274. Sabemos que a literatura infantil, em função do vasto cenário de informações tecnológicas,está perdendo espaço na vida das crianças. O que pensa disso e qual deve ser o compromissodos professores sobre esse assunto?5. Quais as relações mais significativas que se estabelecem entre quem conta e quem ouve umahistória? Quais são as atribuições que essas relações podem provocar na vida de ambos?6. Como o livro infantil (contar histórias) contribui para a formação da criança, quanto aosaspectos: social; afetivo; cognitivo e cultural?7. Ler e escrever são tarefas fundamentais para que se possa participar ativamente dosassuntos ligados à sociedade em geral. No que “ouvir histórias” contribui para que as criançasdesenvolvam essas habilidades?Questionário utilizado para entrevistar os pais1. Seu filho/filha demonstra interesse em ouvir histórias? A partir das atitudes apresentadas porele/ela, exemplifique e explique o que a leva a pensar dessa forma?2. Com que frequência costuma contar histórias para seu/sua filho/filha? Por quê?3. De acordo com sua opinião, a partir de que idade a criança deve começar a ouvir histórias?Justifique.4. Considera importante para a aprendizagem de seu/sua filho/filha, que o professor/professoratrabalhe com atividades de contação de histórias durante as aulas? Por quê?Ampliando um pouco mais este estudoQuando se fala em leitores, se pensa logo nos locais que são utilizados para a prática de leitura,tais como: escola, biblioteca, em casa, na rua, entre outros. Questiona-se de que formas esseslocais estão ensinando e incentivando pessoas a prática e a utilização da leitura, especialmentea escola.Muitas vezes se ouve dizer que na escola a tarefa de ensinar a ler e a escrever cabe, única eexclusivamente, ao professor de Língua Portuguesa e àquele que é responsável pela biblioteca.Isso até poderia ser possível, mas sabe-se que os professores de outras áreas do conhecimentonão ensinam seus conteúdos aos alunos sem utilizarem os recursos de leitura e escrita. “Ler eescrever são tarefas da escola, questões para todas as áreas, uma vez que são habilidadesindispensáveis para a formação de um estudante, que é responsabilidade da escola” (NEVES,1999, p. 13).Uma das questões que chama a atenção é que somente os professores da disciplina de LínguaRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  6. 6. 28Portuguesa têm acesso, quase que obrigatório, de frequentar a biblioteca com seus alunos.Talvez se outros professores, de outras disciplinas tivessem acesso a esse local, seria possível aampliação das aprendizagens dos alunos. Visto que a biblioteca é um espaço que proporcionamateriais possíveis de investigação e logicamente de leitura, ela se apresenta como um dosrecursos pedagógicos, válidos e significativos durante a prática de ensino do professor que vier ase valer dela.Não restam dúvidas de que deve ser objetivo de todo educador, independentemente dadisciplina e do ano escolar que é responsável, que dê atenção e que tenha o compromisso detrabalhar com seriedade questões referentes ao uso da língua, e que faça isso em sua sala deaula e na biblioteca da escola. Na medida em que ele leva para a sala de aula informações paraseus alunos, precisa motivá-los para que as usem de forma autônoma e crítica.Dentre os fatores que podem ser apontados como causadores das deficiências que os indivíduosapresentam quanto ao ato de ler e de escrever, acredita-se que um deles seja a formamecanicista que a grande maioria dos professores utiliza durante sua prática educativa. Convémlembrar que, geralmente as atividades de leitura e de escrita, são propostas aos alunos de umamaneira em que eles são obrigados a manter um comportamento passivo (cópia, memorização erepetição) e, em função disso, perdem a oportunidade de fazer relações, comparações,associações, reflexões, etc. Atitudes estas fundamentais para que o sujeito, através destaparticipação, sinta-se interessado e capaz de atribuir sentido ao que está lendo ou escrevendo,além de compreender o significado da realização de tais tarefas.Considerando o livro de literatura infantil como um veículo favorável, promotor e propagador dasatividades de leitura e de escrita para crianças em processo de alfabetização, Bragatto Filho falaque:Ora, a ter que ler e escrever frases sem consistência semântica, não estariam osalunos das primeiras séries escolares internalizando a ideia de que o ler e o escrevernão os conduzem para algo significativo e atraente, então, para que ler, para queescrever? É justamente aqui que se impõe o outro lado da medalha: o livro deliteratura infantil, disponível nas salas de aula de alfabetização, estando ao livreacesso das crianças para ser manuseado e lido, ouvido também, e muito, através daleitura oral do professor, discutido e comentado pela classe toda [...]. (1995, p. 81)Com base nas ideias dos autores trabalhados e a partir das respostas obtidas durante asentrevistas, segue uma discussão na qual foram analisadas e avaliadas as atitudes e as opiniõesdas professoras e dos pais, sobre o ato de contar histórias em relação à aprendizagem dascrianças.Reconhecendo o significado da contação de histórias para criançasNa verdade, o educador, durante sua prática de ensino, ao propor uma atividade, seja ela qualfor, precisa certificar-se se essa está de acordo com os interesses e desejos do aluno, pois sóassim ocorrerá aprendizagem. Esta é, sem dúvida, uma questão que precisa ser valorizada porRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  7. 7. 29aquele que vai contar uma história, pois para que aconteça aprendizagem por parte dascrianças, é fundamental que a história esteja de acordo com o interesse delas.Para dar alguns exemplos do que é necessário ser levado em conta ao escolher um livro paraser trabalhado com os alunos, cabe mencionar que foram considerados pelas pessoasentrevistadas a ilustração, o tamanho da história e da letra, a temática, a linguagemcompreensível e adequada à faixa etária, o nível intelectual que a criança se encontra, entreoutras. Expostas estas ideias, compreende-se o que Abramovich (1997, p. 18) quer deixarevidente ao dizer: ”Daí que quando se vai ler uma história – seja qual for – para crianças, não sepode fazer isso de qualquer jeito, pegando o primeiro volume que se vê na estante”.Coelho (1995) destaca como essenciais de serem reconhecidos e respeitados, os contextossociais e financeiros aos quais os ouvintes pertencem. Quanto aos interesses, ela institui relaçãoentre a história e a faixa etária das crianças, não esquecendo das experiências de vida dosindivíduos.Pré-escolares até três anos: fase mágica – histórias de bichinhos, brinquedos,objetos, seres da natureza (humanizados) – histórias de crianças; de três a seisanos: fase mágica – histórias de repetição e acumulativas (Dona Baratinha, Aformiguinha e a neve etc.) – histórias de fadas. Escolares sete anos – histórias decrianças, animais e encantamento, aventuras no ambiente próximo: família,comunidade, histórias de fadas; oito anos – histórias de fadas com enredo maiselaborado, histórias humorísticas; nove anos – histórias de fadas, históriasvinculadas à realidade; dez anos – aventuras, narrativas de viagens, explorações,invenções, fábulas, mitos e lendas. (COELHO, 1995, p. 15)Com a investigação, notou-se que são muitas as habilidades e compromissos que o contadordeve ter ao trabalhar uma história, dentre estes, um dos fatores que se destacou, foi o tom devoz que para as professoras precisa ser claro e seguro. Quanto a isso, Sisto (2005, p. 107)entende que: “O contador de histórias tem um poderoso instrumento para contar histórias: suaprópria voz. Mas precisa estar atento, acostumar-se a ouvir-se, a apreciar os timbres e nuancesda sua e das vozes que o cercam”. Segundo este autor, também é necessário que o tom de vozesteja adequado ao ambiente de escuta da história.Outras aptidões que foram descritas como preciosas, no momento de se contar histórias, e quevalem a pena serem ressaltadas, são: ter capacidade de incorporar os personagens, conhecerde fato o que está contando, gostar e ter respeito pelas crianças, atitudes que desenvolvam ogosto pela leitura, narrar a história com um propósito e não por mera obrigação e que,principalmente, o contador seja um leitor assíduo para a partir de todos esses elementos saber eser capaz de despertar e de estimular a imaginação dos pequenos.Na opinião das professoras, os recursos materiais possíveis de serem utilizados pelo contadorde histórias são inúmeros e variados e podem ser escolhidos e ou confeccionados de acordocom a história a ser contada e com a criatividade e desejo do contador. Este deve ter em mente,na hora de fazer a seleção do que vai contar, o objetivo e o comprometimento de atingir seupúblico alvo. Colaborando a esse respeito, Coelho (1995, p. 31) esclarece que: “Estudar ahistória é ainda escolher a melhor forma ou o recurso mais adequado de apresentá-la”.Revista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  8. 8. 30Dentre as respostas das educadoras, constatou-se que elas percebem o corpo do contadorcomo o recurso mais importante de ser utilizado para fascinar e envolver as crianças durante anarrativa. E também sugerem que, por meio das expressões e sons emitidos, é possível entreoutras coisas, proporcionar as crianças diferentes formas de interpretação do texto narrado comautonomia.Na pesquisa em foco, ficou explícito que os profissionais da educação não fechem os olhos paraos avanços tecnológicos, pois a cada dia que passa estão fazendo mais parte do cotidiano daspessoas, por isso precisam ser considerados durante o processo de ensino. O mundo estásempre em constante mudança e os indivíduos precisam adaptar-se a elas ou então seusconhecimentos, por conta da falta de informações e também da falta de preparação para usá-las,ficarão restritos. Kuhlthau, em seus estudos sobre tecnologia da informação, faz a seguinteargumentação:A tecnologia da informação, representada pelos computadores e redes eletrônicas(vale dizer a Internet), teve profundo impacto na disponibilização e no uso dainformação, e tem se tornado cada vez mais presente na vida das pessoas. Énecessário, portanto, preparar as crianças e jovens para conviver com a tecnologia,capacitando-as a lidar com a quantidade crescente de informações em meioseletrônicos e preparando-as para enfrentar os desafios de um mercado de trabalhoinstável e mutante. (2002, p. 22)Partindo do indício que a TV tem sido reconhecida atualmente como um dos meios tecnológicosde comunicação mais comum na vida das crianças e apontada por algumas pessoas comosubstituta do livro e, por conta disso, causadora do desinteresse pela leitura, é conveniente quese veja a associação que é feita entre a leitura de livros e a televisão:A televisão pode estimular a leitura de livros e a leitura pode levar a criança a seinteressar por um programa de televisão. Quando algum livro é adaptado para atelevisão, as crianças que o leram geralmente mostram-se ansiosas para ver oprograma. Depois que o programa vai ao ar, há sempre uma demanda pelo livro porparte de crianças cujo interesse é despertado. (KUHLTHAU, 2002, p. 151)Uma outra questão importante, comunicada pelas colaboradoras deste trabalho, foram asrelações que se estabelecem entre quem conta e aqueles que ouvem a história. Afirmam que, notranscorrer da narração, constitui-se uma união em que todos participam de forma ativa e crítica,envolvendo-se emotivamente e, chegando a transportarem-se do mundo real para o mundoimaginário que está sendo narrado. Disseram, ainda, que isso fica evidente através das falas,dos gestos e dos olhares expressivos que são manifestados pelo conjunto de pessoas presentesno momento da narrativa.Referindo-se a essa integração que, como se pôde ver no parágrafo anterior, configura-se entreo contador, o grupo de ouvintes e personagens da narração, é interpretada pelas professorascontadoras como possibilidade da criança reconhecer-se e, em função disso, lidar de forma maisadequada com seus conflitos, podendo obter, como resultado dessa situação, o aumento de suacapacidade de relacionamentos e de resolução de desafios e até tornar-se mais feliz. Quanto àescuta de histórias pelas crianças, Abramovich (1997) declara com firmeza: “É também suscitarRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  9. 9. 31o imaginário, é ter a curiosidade respondida em relação a tantas perguntas, é encontrar outrasideias para solucionar questões (como os personagens fizeram...)”. Pensam também que essaaproximação com as crianças permite que o professor, através das manifestações apresentadaspor elas, enquanto ouvem uma história, possa seguramente conhecê-las e compreendê-lasmelhor e, em razão disso, ajudá-las a resolverem seus problemas Caso isso não seja possível,pelo menos amenizá-los para que seus rendimentos escolares não sejam prejudicados.Por ter conhecimento de que, quando os estudantes chegam à escola, não deixam suas alegriase tristezas do lado de fora do portão, é que se consideram louváveis as atitudes de preocupaçãodas educadoras de quererem fornecer melhores condições emocionais para as crianças. É certoque, criando espaços e momentos para que elas expressem o que pensam e sentem, oprofessor conseguirá conhecê-las e, consequentemente, ajudá-las, agindo assim, como umfacilitador da construção de suas aprendizagens.Segundo as entrevistadas, uma história, quando bem escolhida e, é claro, bem contada podecontribuir para o desenvolvimento integral do aluno, fazendo com que se torne um sujeitoportador de senso crítico e democrático, com capacidade de atuar na sociedade de seu tempo edo futuro.É importante registrar que, nas concepções das contadoras, ler livros para crianças é umapossibilidade de conduzi-las para o hábito da leitura, pois quando se conta para elas históriasque as interessam, é certo que, após a escuta, devido ao prazer e ao encantamento quesentiram, não só desejarão lê-las, como também sentirão vontade de irem a busca de outrassemelhantes. Sandroni e Machado observam que, ao ouvirem histórias:As crianças, além de devotarem uma enorme atenção à história (e o professor sabeo quanto isso significa em termos de audição reflexiva, estímulo à imaginação eorganização do pensamento!), sentem-se estimuladas a ler os livros por si mesmasou a buscar outros sobre o mesmo assunto. (1986, p. 25)Assim como esses autores, as participantes deste estudo também fizeram menção à atençãoque as crianças depositam à história enquanto essa está sendo contada. E caracterizam essaatitude de estar atenta, como propícia a realização das tarefas de escrita, porque oportuniza odesenvolvimento de habilidades (como ex: desenvoltura na oralidade, vocabulário amplo,criatividade, e etc.), que proporcionam à criança a produção de textos com mais conceitos equalidade.Conscientes da importância de se formar indivíduos leitores e por terem conhecimento que sãopoucas as crianças que têm, em seus lares e em outros lugares de convívio, o privilégio de ouvirhistórias e de conviver com materiais de leitura de forma agradável, e que por isso apresentamdificuldades na escola durante o processo de alfabetização,as pessoas investigadas aconselhamque os professores, na hora de alfabetizarem as crianças, utilizem-se da prática de contarhistórias, a fim de que os alunos se relacionem de maneira significativa, compreensiva eprodutiva com os bens culturais que os materiais escritos oferecem.Os pais, participantes deste estudo, demonstraram em suas respostas opiniões semelhantes àsRevista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  10. 10. 32das professoras contadoras, ou seja, assim como elas, reconhecem o ato de ouvir históriascomo uma atividade que possibilita a criança o desenvolvimento de habilidades fundamentaispara sua formação, em relação aos aspectos sociais, afetivos, cognitivos e culturais.Motivados pela ideia de que hoje estudos comprovam que os bebês, após o nascimento,reconhecem de imediato a voz daqueles que costumam conversar com ele durante o período degestação, os pais acreditam que a contação de histórias pode ser iniciada nessa época. Pensamque o ato de contar histórias deve ser conservado depois que a criança nasce e intensificado noperíodo escolar. Do ponto de vista dos mesmos, contando histórias com o auxílio de livros, ospais oportunizam a seus filhos o reconhecimento do mundo e despertem neles o gosto pelaleitura.Na opinião dos pais, é importante que os professores, durante suas aulas, contem histórias paraos alunos, porque, a partir da escuta de histórias, eles ampliam sua capacidade de imaginação ede construção de conhecimentos com prazer. Outra observação feita por eles, é que se oprofessor, no momento da contação, mantiver uma postura comprometida com a leitura, isto é,demonstrar através de seu olhar, de sua voz e de seus gestos, interesse pela história que estácontando, servirá como um agente estimulador e formador de alunos leitores.Considerações finaisCertamente, o professor que tem por objetivo oferecer a seus alunos uma educação que ospreparem para a vida, precisa fazer com que sua sala de aula seja um espaço promotor deaprendizagens significativas.A contação de histórias, quando trabalhada de forma adequada, contribui para que as criançasdesenvolvam e ampliem habilidades essenciais para sua vida pessoal e estudantil, pensa-se queesta é indiscutivelmente uma prática digna de ser utilizada pelos professores dos anos iniciais.Valorizando a ideia que a criança, ao escutar histórias de seu interesse, é levada a fazerassociações e relações desta com fatos e situações do cotidiano, percebe-se que o ato de contarhistórias possibilita que a mesma tenha uma maior e melhor compreensão do mundo. Istofacilitará e proporcionará a ela o desempenho de papéis sociais de forma autônoma e crítica.Considerando que o contador, através da leitura expressiva, estimula na criança, comespontaneidade e encantamento, o gosto pela leitura, nota-se que o professor contandohistórias, durante sua prática educativa, atua como um agente formador de alunos leitores,proporcionando e permitindo que eles se tornem sujeitos ativos e responsáveis pela construçãode seus conhecimentos.Com tal análise, foi possível ver, através das teorias dos autores estudados e das concepçõesdas pessoas que colaboraram para esta investigação, que o ato de contar histórias é, semdúvida, uma atividade que oportuniza ao aluno a realização das tarefas de leitura e escrita commais qualidade.Revista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33
  11. 11. 33Referências:ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1997.AMARILHA, Marly. Alice que não foi ao país das maravilhas: a leitura crítica na sala de aula.Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.BARCELLOS, Gládis Maria Ferrão; NEVES, Iara Conceição. A hora do conto: da fantasia aoprazer de ler. Porto Alegre: Sagra - DC Luzzatto, 1995.BRAGATTO FILHO, Paulo. Pela leitura literária na escola de 1º Grau. São Paulo: Ática, 1995.COELHO, Betty. Contar histórias uma arte sem idade. São Paulo: Ática, 1995.COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria - análise - didática. São Paulo: Ática, 1993.KUHLTHAU, Carol. Como usar a biblioteca na escola: um programa de atividades para a pré-escola e ensino fundamental. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 2001.NEVES, Iara C. Bitencourt; SOUZA, Jusamara Vieira et al. Ler e escrever: compromisso detodas as áreas. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1999.PRADO, Guilherme do Val Toledo; SOLIGO, Rosaura (Org.). Porque escrever é fazer histórias:revelações, subversões e superações. Campinas: Alínea, 2007.SANDRONI, Laura C; MACHADO, Luiz Raul. A criança e o livro: guia prático de estímulo aleitura. São Paulo: Ática, 1986.SISTO, Celso. Textos e pretextos sobre a arte de contar histórias. Curitiba: Positivo, 2005.Revista FACEVV | Vila Velha | Número 3 | Jul./Dez. 2009 | p. 23-33

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