Geada maria-teresa-corpos-ligados

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Geada maria-teresa-corpos-ligados

  1. 1. Corpos ligados: mobilização e neutralização do desejo∗ Maria Teresa GeadaÍndice de outros como na sua, motivando o ser hu- mano a querer conhecer cada vez mais. A1 Ligações técnicas 2 ideia de Eros deriva pois de um sentimento2 O lugar do corpo 3 de insuficiência, sendo o desejo do que não3 Mobilização do desejo 7 se possui, é um desejo de extensão, de liga-4 Addiction 8 ção. Buscamos estender e aumentar a inten- sidade das nossas vidas em geral através de Eros. Desde os gregos que se pensa a ligação. Podemos dizer que a erótica moderna trataA concepção platónica de Eros1 envolve a do estabelecimento das ligações, que estão aideia de extensão, significando para os mor- ser criadas pelas tecnologias digitais. São es-tais o desejo de imortalidade: o prolonga- tas ligações que actualmente é preciso pen-mento do nosso ser físico para além da exis- sar, e de que forma elas vieram a pôr emtência terrena. Mas Eros não se fica pela ex- causa as formas históricas de ligação. Atensão física, implica também a perpetuação ideia de que foram as redes informatizadasda mente, através das ideias e do conheci- que criaram a ligação é ilusória, pois a expe-mento que ela concebe e nutre, nas mentes riência histórica está trespassada de séries de ∗ Comunicação apresentada em 2001 na Con- ligações mais ou menos articuladas.ferência Internacional sobre a Cultura das Redes As ligações históricas, fortemente hierar-(www.cecl.com.pt/icnc2001) com o titulo: “Cor- quizadas, eram de ordem política, econó-pos Ligados: Mobilização e Neutralização do De- mica ou teológica2 , a sua dissolução quesejo”, posteriormente publicada na Revista de Comu-nicação e Linguagens - A Cultura das Redes, Lis- ocorreu no século XVI, deu lugar às liga-boa, Ed. Relógio d’Água, Maio 2002, pp.459-469. 2 Se recuarmos até à Idade Média encontramos as(http://www.cecl.com.pt/rcl/icnc/rcl_icnc-36.html) 1 mais antigas relações de soberania nos séculos depois Na teoria Platónica, Eros como nos é dado no das migrações, sendo o poder dos senhores feudaisdiálogo entre Sócrates e Diotima é o desejo da beleza sobre os seus servos simultaneamente de propriedade,transcendental. Através de todas as formas do belo de arbitragem e por vezes de sacerdócio. No decursoarrasta e impele para a verdadeira beleza que existe do mais tardio período medieval esses elementos deno mundo das formas ou ideias. Por detrás do Eros autoridade foram diferenciados e por vezes divididos,por corpos existe pois o Eros por verdade e beleza. assistindo-se na Europa Ocidental ao rompimento dasA moderna noção de Eros é no entanto redutora, pois relações de regulação por parte dos senhores feudais,tem sido assimilada ao desejo sexual, que é apenas no século XVI, se bem que as suas outras funções seuma das formas deste desejo universal. Cf. Platão, tenham mantido.“O Banquete”, Lisboa, Edições 70, 1998, pp. 68-85
  2. 2. 2 Maria Teresa Geadações de tipo burocrático-racional da era mo- remonta pelo menos aos princípios da meta-derna, também elas agora postas em causa fisica. A ideia de instrumentalidade foi nopelas tecnologias digitais. Tais tecnologias, entanto abalada, primeiro por Heidegger eestão a criar uma rede crescentemente com- depois por MacLuhan, ao recusarem o ca-plexa de ligações, que abarca já todo o pla- rácter instrumental da técnica, ambos fun-neta, criando nos indivíduos uma verdadeira dando a sua crítica da instrumentalidade nacompulsão à conexão. recusa da ideia de instrumento. Se bem que os dois tivessem reconhecido a cibernética e a ‘idade da informação’ como o estádio fi-1 Ligações técnicas nal da evolução da técnica, não anteciparamA técnica estende actualmente o seu domí- a forma como os computadores viriam a pôrnio sobre toda a experiência. O pressuposto em causa tão radicalmente a ideia de ‘instru-de que a sua natureza é essencialmente ins- mento’4 .trumental, está presentemente a ser posto em Com efeito o advento das tecnologias di-causa pela proliferação das tecnologias di- gitais aprofundou a crise da mediação comogitais. que constituem um novo desenvolvi- instrumentalidade. A instrumentalidade, quemento do dispositivo técnico. reconhecia a existência das noções de su- As novas ligações são actualmente indis- porte, objecto e meio, entrou em crise comsociáveis da técnica. A sua análise torna-se o digital, dado o computador não ser já re-por isso inseparável da análise das categorias conhecidamente um instrumento (um meiotécnicas que as descrevem como a mediação, para fins) mas aglutinar em si todos os meios.interactividade, conectividade, links, on line, Esta crise está ligada a uma crise da relaçãoemergência, interfaces, virtual, tempo real, meios-fins: na concepção clássica os fins sãoinstantaneidade, etc. determinados pelos meios, sendo os instru- A questão que se coloca actualmente, é de mentos vistos como meios para fins, o digitalque forma a teoria da mediação é ainda útil veio alterar esta ideia, na medida em que ospara descrever o que se passa quando a liga- meios passam a ser determinados pelos fins.ção é imediata ou directa, e se terá ou não O digital veio mesmo pôr em causa a pró-chegado ao fim uma certa visão da mediação pria mediação. Com efeito para haver me-como instrumentalidade. diação é preciso admitir uma separação en- A categoria da mediação, que assumiu no tre o analógico e o digital: actualmente mui-decurso dos séculos diversas faces: a te- tos discursos sobre o ciberespaço anunciamológica, a filosófica a simbólica, a tecno- o fim da mediação visto tudo ser passível decientífica3 , está agora a adquirir uma nova ser imaterializado através da digitalização.faceta com o digital. Mas é preciso não esquecer que se conti- A teoria da mediação clássica, fundava-se nua num regime de separação do analógico ena noção de instrumentalidade, cuja origem do digital, o qual exige ainda uma mediação, 3 4 Cf. José António Domingues, “Em torno da Cf. Paulo Serra, “O Problema da Téc-Mediação e da Constituição da Experiência”, 1999. nica e o Ciberespaço”, 1995/96. URL:URL: http://bocc.ubi.pt/pag/domingues-jose-antonio- http://www.ubi.pt/∼comum/jpserra_problema.htmlmediacao.html www.bocc.ubi.pt
  3. 3. Corpos ligados 3que está dependente das interfaces, consti- 2 O lugar do corpotuindo assim uma forma de manter a antiga As tecnologias desde sempre exerceram osestrutura de mediação5 . seus efeitos sobre o corpo do homem, influ- Bragança de Miranda propõe substituir o enciando a sua psicologia e formas de socia-conceito da mediação vista como instrumen- bilização. Mas agora, mais do que nunca, otalidade, pelo de “Razão Medial”6 . Re- corpo ligado está a ser investido pela técnica,fere que associada ao fim da mediação está sendo atravessado pelos intermináveis fluxosuma euforia ou ‘desejo’ de imediaticidade de informação que circulam no espaço da in-assistida tecnicamente, dominante no pen- foesfera em todas as direcções instantânea esamento actual da cibercultura, que se re- simultaneamente.flecte nas categorias de ‘instantaneidade’ e É pois importante interrogar a posição dode ‘tempo real’. Esta ilusão de imediatici- sujeito neste espaço, e analisar a forma comodade é criada pela compressão que está a as teorias contemporâneas vêem os efeitosocorrer no tempo e no espaço, operada pelo da ligação do corpo aos sistemas informáti-aumento de velocidade, através da arquiva- cos.ção/desarquivação efectuada pelos sistemas Muito do debate que rodeia o ciberespaçoinformáticos. actualmente, centra-se na questão da desin- Esta ilusão de imediaticidade está a afectar corporação, ou de saber, se é possível trans-a erótica moderna ou seja o estado das liga- cender as limitações da carne, questão queções actuais presididas pela técnica. Como está depende de admitir uma separação entreafirma Bragança de Miranda: “Na sua forma a mente e do corpo.actual a rede de ligações que está a ser cri- A tese de desincorporação total propostaada pelo digital é acima de tudo uma ilusão pelo cientista da robótica Hans Moravec; ode imediaticidade, que se fortalece pela ‘ins- discurso ‘cyborg’ acerca da fusão dos cor-tantaneidade’ de uma mediação ‘pura’, i.e., pos e das máquinas; ou a possibilidade daperformativa”.7 mente abandonar o corpo promovida pela 5 Interface é um termo que designa aquilo que se- ficção ‘cyberpunk’; se bem que divergindopara uma coisa da outra. A palavra interface denota no grau e tipo de interfaces propostos filiam-simultaneamente uma separação e uma conexão, de se nesta concepção.maneira geral separa e conecta o “Um” do “Outro”.Cf. Siegfried Zielinski, “Arts and apparatus: Plea for Hans Moravec defende que num futuroa Dramatics of Difference in Interface”, 1998. URL: próximo será possível o total abandono dohttp://www.tao.ca/fire/nettime/old/6/0075.html corpo pelos humanos para passarem a existir 6 Cf. Bragança de Miranda, J.A., “Fim da Media- apenas em sistemas electrónicos, através dação?” in Bragança de Miranda, J.A., (org.), Revistade Comunicação e Linguagens - Real vs. Virtual, no tranferência das suas mentes para um com-25-26, Lisboa, Edições Cosmos, 1999, p. 294. putador. Moravec partilha com muitos dos 7 Bragança de Miranda, op. cit., p. 310. entusiastas da Inteligência Artificial a con- vicção de que a evolução paralela e inter- relacionada do homem e das máquinas inte- ligentes nos estará a levar a um mundo pós- biológico no qual emergirão novas formas dewww.bocc.ubi.pt
  4. 4. 4 Maria Teresa Geadavida que, segundo este autor evoluirão para continuidade entre este desejo tecnologica-entidades tão complexas como os seres hu- mente aumentado e o antigo desejo cartesi-manos8 . ano e teológico de transcender a carne. Es- A tese da desincorporação é também cen- tas críticas dizem que se está a operar umatral nas novelas de William Gibson, au- radicalização do dualismo cartesiano e teo-tor da definição do ciberespaço como uma lógico que admitia a separação entre o corpo"consensual alucinação". O protagonista de e a alma, devido ao contexto fornecido pela“Neuromancer”, Case personifica a tendên- expansão dos media de comunicação interac-cia ao repúdio da carne do corpo, a favor tivos.de uma existência livre do constrangimento Claudia Springer assinala que a extracçãocorporal9 , recorrente na ficção cyberpunk. da mente humana do cérebro, antevista porEste discurso enfatiza o potencial que o com- Moravec, literaliza a metáfora da separaçãoputador oferece aos humanos para transcen- mente/corpo enunciada por Descartes11 , en-der/escapar do corpo, associando as tecnolo- quanto que a figura do Cyborg se bem quegias digitais à oportunidade para a mente de aparentemente representando o culminar doimergir no fluxo de dados. dualismo cartesiano, suprime essa dicoto- Também Donna Haraway no influente mia, por representar uma nova visão de fusão“Manifesto Cyborg”10 defende que o corpo e simbiose com a tecnologia electrónica.12está obsoleto, e que a mente pode libertar-se Outra crítica é a de Rosanne Stone, quedas constrições da carne. A condição corpo- não aceita a ideia de o corpo esteja obsoleto,ral é vista como um impedimento para uma e que a mente possa ser transmitida ou de-relação pura com a tecnologia. O Cyborg se- legada pelas redes informatizadas. Rosanneria a representação mais próxima deste ideal: refere que este esquecimento do corpo pro-um humanóide híbrido conjugando tecnolo- vém também ele da persistência do dualismogia informática com carne. cartesiano.13 Estes desejos de incorporeidade, atraíram Com efeito os sonhos tecno-metafísicosmuitas críticas contemporâneas, principal- de desinvestir a alma do seu envelope cor-mente de feministas, que apontam para a poral, estão imbuídos da concepção dualista 8 ocidental de que corpo e alma são esferas Cf. Hans Moravec, “Homens e Robots: O Futuroda Inteligência Humana e Robótica”, Lisboa, Gra- distintas. A dualidade clássica, segundo adiva, 1992. qual o homem é visto como bi-polar, consti- 9 Gibson depois de relatar a forma como Case foi 11exilado do ciberespaço comenta: “For Case, who’d li- Cf. Claudia Springer, “Electronic Eros: Bodiesved in the bodiless exultation of cyberspace, it was the and Desire in the Postindustrial Age”, Austin, Uni-Fall. . . The body was meat. Case fell into the prison of versity of Texas Press, 1996, p. 29. 12his own flesh”. Cf. William Gibson, “Neuromancer”, Cf. Claudia Springer, op. cit., p. 19. 13Nova Iorque, Ace Books, 1984, p. 6. Cf. Allucquère Rosanne Stone, “Will the 10 Cf. Donna Haraway, “A Cyborg Manifesto: Sci- Real Body Please Stand Up? - Boundary Sto-ence, Technology and Socialist-Feminism in the Late ries About Virtual Cultures” in David Bell e Bar-Twentieth Century” in David Bell e Barbara M. Ken- bara M. Kennedy (org.), “The Cybercultures Rea-nedy (org.), “The Cybercultures Reader”, Nova Ior- der”, Nova Iorque, Routledge, 2000, p. 525. URL:que, Routledge, 2000, pp. 291-324. http://www.rochester.edu/College/FS/Publications/St oneBody.html www.bocc.ubi.pt
  5. 5. Corpos ligados 5tuído por um corpo material e por uma essên- dade da informação, que considera o corpocia imaterial, descende directamente do es- como uma estrutura imaterial e informacio-quema neoplatónico corpo-mente, em que o nal.14corpo é representado como irracional, fraco e Segundo Hayles a pressão contempo-passivo em contraste com a mente que é con- rânea para a desmaterialização está asiderada espiritual, racional e activa e ten- efectuar a deslocação de uma dialécticatando constantemente ultrapassar as limita- presença/ausência para uma dialética pa-ções da carne. As heranças grega e cristã da drão/acaso15 , facto que tem diversas impli-cultura ocidental sempre associaram de resto cações culturais, sendo a mais importante aimaterialidade com espiritualidade. sistemática desvalorização da materialidade Estes discursos constituem pois uma in- e da corporalidade.terpretação radical do dualismo cartesiano, Esta deslocação implica que a questão daporque mantendo a distinção entre corpo e presença ou ausência do sujeito e da suamente, defendem que a consciência já não representação - o Avatar, é substituída porestá contida no corpo podendo de alguma questões relacionadas com padrão e acaso:forma escapar. Enquanto o dualismo carte- que transformações governam as conexõessiano considerava corpo e mente como es- entre sujeito e Avatar, que padrões pode oferas distintas, constituindo o corpo o limite sujeito encontrar através da interacção comespacial da mente onde se situaria o autên- o sistema, em que ponto é que esses padrõestico Eu, estes discursos defendem não ape- se transformam em acaso.16nas a ideia de que a mente ou consciência é Como refere Hayles a constante buscauma entidade diferente do corpo, como tam- dos corpos para habitarem o ciberespaçobém já não se encontra limitada por este. actua como uma pressão dos corpos a Por outro lado o desejo de transcender as transcreverem-se em código, levando a quelimitações do corpo tem sido, nos últimos as subjectividades que operam no ciberes-anos, alimentados por uma mudança filosó- paço, se tornam tal como este, padrões defica. A concepção de que o homem não é de- informação em vez de entidades físicas, pa-finido pelos átomos do seu corpo mas por có- drões esses que tendem a subjugar a pre-digo de informação parece dar razão à ideia sença, criando uma nova imaterialidade quede que a essência do ser humano, reside não já não depende da consciência mas da infor-na matéria mas num padrão de dados ima- mação.17teriais. Enquanto os átomos apenas podem Catherine Waldby, salienta também a ins-construir o corpo físico, os dados podem re- tabilidade da localização corporal na ocupa-criar corpo e mente. ção do ciberespaço. Esta ocupação está li- Katherine Hayles refere precisamente que 14 Cf. N. Katherine Hayles, “How We Becameas teorias sobre o desaparecimento do corpo Posthuman - Virtual Bodies in Cybernetics, Literaturedevem ser tomadas como uma evidência não and Informatics”, Chicago, The University of Chi-de que o corpo desapareceu mas de que cago Press, 1999, p. 193. 15um certo tipo de subjectividade pós-moderna Cf. N. Katherine Hayles, op. cit., p. 29. 16 Cf. N. Katherine Hayles, op. cit., p. 27.emergiu, constituída pelo cruzamento da ma- 17 Cf. N. Katherine Hayles, op. cit., pp. 35-36.terialidade da informática com a imateriali-www.bocc.ubi.pt
  6. 6. 6 Maria Teresa Geadagada a novas formas de corporeidade e in- Este é em suma para McHoul, um espaçotersubjectividade que se estão a desenvol- técnico corporizado, que só pode existir de-ver com as novas tecnologias digitais.18 Se- vido à mediação do corpo, o qual se projectagundo Walbdy a comunicação electrónica in- no ciberespaço como interface entre o espaçotroduziu distúrbios nos conceitos clássicos fisico e o virtual.de presença e ausência e na deslocalização As qualidades de interacção e de imediati-da experiência sensorial que define a condi- cidade do ciberespaço abrem-no pois a novosção corpórea. Os novos tipos de corporei- tipos de práticas que dependem da ocupaçãodade não se poderiam descrever em termos imaginária deste espaço tecnológico.puramente de presença e ausência, proximi- O que está em causa, na ocupação do cibe-dade ou distância, precisamente por se estar respaço, é o delinear de novas formas de cor-a dar uma redistribuição destas qualidades. poreidade e de intersubjectividade, que exi-Tal redistribuição é particularmente evidente gem o repensar do modelo cartesiano, numaem sistemas de Realidade Virtual, devido à era em que a possibilidade de telepresen-capacidade desses sistemas de duplicarem a ças de vários tipos, veio deslocar as clássi-localização do sujeito e mascararem simulta- cas distinções presença/ausência e proximi-neamente a sua localização no espaço físico, dade/distância, criando modos de existênciaatravés do uso de capacetes de RV e outros (Avatares) que co-habitam e interagem numequipamentos. espaço imaginário, contíguos com represen- Para Alec McHoul a indeterminação da tações de outros individuos.materialidade e novas formas de agencia- A nossa experiência do corpo e da mentemento são as qualidades ontológicas que dis- do material e do imaterial nunca são separa-tinguem o ciberespaço de outros espaços dos definem-se sempre um ao outro. Estesproduzidos tecnicamente. novos modos de corporeidade estão ligados O ciberespaço não existe como um espaço à forma como entendemos a espacialidade:pré-determinado, produzido tecnicamente ao a nossa condição corporal tem uma influên-qual os corpos, espacialmente localizados, cia decisiva na forma como percebemos otêm acesso apenas como estados de consci- espaço - incluindo o ciberespaço. A noçãoência, mas os corpos habitam esse espaço de corpo não é fixa, mas muda com as tec-imaginariamente. As entidades que habi- nologias que o investem e com os discursostam o ciberespaço não são reais nem virtu- que sobre ele se produzem. Assim o ciberes-ais, mas antes residem em espaços intermé- paço não pode ser visto como uma realidadedios que não estão presentes nem ausentes, desincorporada, mas como um meio em quenão são materiais nem imateriais.19 terial nor immaterial, ‘as’ nor ‘as if’ ”. O ciberes- 18 Cf. Catherine Waldby, “Circuits of Desire: In- paço exige pois para McHoul a intervenção de umternet Erotics and the Problem of Bodily Location”, agente corporizado que possa mediar entre o ‘as’ e1998. URL: http://wwwmcc.murdoch.edu.au/Readin o ‘as if’ e estabelecer relações entre eles. Cf. AlecgRoom/VID/Circuits3.html McHoul, “Cyberbeing and ∼Space”, 1997. URL: 19 “The cyber is neither actual nor virtual alone; http://wwwmcc.murdoch.edu.au/ReadingRoom/VID/rather it resides in the ranges of space between-spaces cybersein.htmlthat are neither here nor there, present nor absent, ma- www.bocc.ubi.pt
  7. 7. Corpos ligados 7experenciamos um diferente tipo de corpo- sentando uma ontologia erótica (Michaelreidade. Heim) ou promovendo um Eros Tecnológico (Claudia Springer). De acordo com Michael Heim a intensi-3 Mobilização do desejo dade das ligações no ciberespaço deriva daA satisfação do desejo e a busca do prazer via ontológica que vem de Platão. Heim re-desde sempre participaram na construção da fere que o nosso fascínio com os computa-subjectividade. O estabelecimento das actu- dores mais que utilitário ou estético é eró-ais ligações, presididas pela técnica, assenta tico: “Our affair with information machinesem grande parte na mobilização do desejo do announces a symbiotic relationship and ulti-sujeito. mately a mental marriage to technology. (...) Adriano Duarte Rodrigues, refere que o The world rendered as pure information notdesejo resulta da ausência do objecto para only fascinates our eyes and minds, but alsoque tendem, no homem, os dispositivos na- captures our hearts. We feel augmented andturais de percepção. “Os dispositivos mediá- empowered. Our hearts beat in the machines.ticos artificiais, embora complementam os This is Eros”.22dispositivos naturais, estabelecem com eles Segundo Heim existe uma continuidaderelações de descontinuidade. É a este hiato ontológica entre o desejo de conhecimentoou a este fosso entre os dispositivos natu- platónico de formas ideais, e a rede de liga-rais e os dispositivos artificiais que damos o ções no ciberespaço. Em ambos o conhe-nome de pulsão, processo gerador ou desen- cimento começa por se apoiar na corpora-cadeador de um domínio específico da expe- lidade para depois renunciar a ela, em am-riência do homem a que damos o nome de bos ‘Eros’ inspira os humanos a ultrapassa-desejo”.20 rem as solicitações da carne e a fixaram-se Para Bragança de Miranda a extensão no que atrai a mente. A ligação ao cibe-da técnica a toda a experiência, efectua-se respaço dependendo inicialmente do espaçoapoiando-se nos corpos, nos desejos e nas físico do corpo para se efectuar, destrói-opaixões, sendo a convergência destes que em seguida ao transformá-lo em informação.cria a “Razão Medial” contemporânea, de ‘Eros’ guia-nos para o ‘Logos’.natureza essencialmente afeccional, pois as- De acordo com esta visão, os computado-senta na mobilização do desejo dos sujeitos, res forneceram a possibilidade de levar aomobilização esta que constitui o “bloco alu- extremo o conceito platónico da busca eró-cinatorio” da nossa época.21 tica desincorporada, tornando possível aos O desejo crescente de ligação, causado humanos abandonarem o corpo para passa-pelo actual desenvolvimento da técnica, tem rem a existir no domínio mais abstracto dassido referido por alguns autores, como apre- ideias. 20 Claudia Springer, no seu estudo da tecno- Adriano Duarte Rodrigues, “ Experiência,Modernidade e Campo dos Media”, 1999. URL: 22 Michael Heim, “The Metaphysics of Virtual Rea-http://bocc.ubi.pt/pag/_texto.php3?html2=rodrigues- lity”, Nova Iorque, Oxford University Press, 1993, p.adriano-expcampmedia.html 85. 21 Cf. Bragança de Miranda, op. cit., p. 309.www.bocc.ubi.pt
  8. 8. 8 Maria Teresa Geadaerótica contemporânea “Electronic Eros” este discurso como estratégia de sedução,analisa a tendência contemporânea para atri- visando chamar a atenção dos consumido-buir uma dimensão erótica à relação dos se- res para os benefícios da relação homem-res humanos com a tecnologias digitais. máquina, de forma a promover uma maior A fusão dos corpos e das máquinas (perso- interacção entre humanos e computadoresnificada na figura imaginária do Cyborg), ao em seu próprio proveito.permitir ultrapassar as limitações do corpo, e Ao identificá-la com a gratificação doseliminar a fronteira que separava o orgânico sentidos e com a experiência do prazer, odo inorgânico, atribui uma dimensão erótica discurso Cyborg fornece uma dimensão es-à relação do humano com as tecnologias di- tética à relação homem-máquina. O prazergitais.23 Springer salienta que a intersecção assim promovido, deixou de ser apenas umada erótica com a tecnologia, cria um discurso experiência subjectiva, para se tornar numcontraditório que parece prometer a satisfa- objecto que pode ser comercializado e ex-ção erótica, e ao mesmo tempo trazer a ame- perenciado imediatamente, remetendo a es-aça da obsolescência do corpo. tética para a esfera do consumo e do lazer, e Também o discurso Cyborg, apela ao de- separando os aspectos sensuais da experiên-sejo humano de obtenção de prazer como cia estética dos do conhecimento e entendi-elemento de sedução, para veicular as suas mento.visões utópicas da relação homem-máquina,prometendo aos humanos uma existência se- 4 Addictiondutora, ligada a um tipo particular de conhe-cimento não experimentado com as anterio- Existe actualmente uma verdadeira compul-res tecnologias, e impossível de obter sem as são à conexão, os termos ‘link’, ‘on-line’,máquinas cibernéticas. ‘connected’, fazem já parte do nosso vocabu- O discurso Cyborg na sua versão utópica24 lário diário. Com efeito as ligações presidi-refere Jamison, é ditado pelo instrumenta- das pela técnica estando dependentes da mo-lismo tecnológico, (i.e. a aplicação do co- bilização do desejo para se efectivarem, têmnhecimento e da tecnologia com vista à ob- sido referidas como uma forma de addiction.tenção de prazer). As empresas que de- Como escreve Bragança de Miranda:senvolvem tecnologias cibernéticas, utilizam “É a técnica que preside às fomas de liga- 23 ção actuais, que passaram de uma ‘guerra de Cf. Claudia Springer, op. cit., p. 58. 24 A este discurso utópico contrapõe-se um outro, distracção’, com ligações fracas, para umadistópico, em que a inevitável simbiose entre o ho- performatividade da addiction”25 .mem e as máquinas não traz qualquer prazer e afecta Avital Ronell tem vindo a analisar o in-negativamente as relações individuais e sociais. Ja- vestimento addictivo que toda a cultura im-mison assinala que existe uma polarização utopia- plica. Neste sentido tudo pode funcionardistopia no discurso sobre a relação homem-máquina,que situa o Cyborg num espaço contraditório. Cf. como uma droga, devido à existência de umaP. K. Jamison, “Contradictory Spaces: Pleasure and ‘estrutura’ prévia à produção da materiali-the Seduction of the Cyborg Discourse”, 1994. URL: dade, a que chamamos drogas, condição re-http://www.bradley.edu/las/soc/syl/391/papers/contra 25_spaces.html Bragança de Miranda, op. cit., p. 297. www.bocc.ubi.pt
  9. 9. Corpos ligados 9ferida por Avital como “Being-on-drugs”,26 cuja natureza simultâneamente gratificadoraque inclui a Realidade Virtual ou as projec- e destrutiva leva a uma radical alteração deções no ciberespaço. valores, forçando o ser humano a confrontar- O caso da Realidade Virtual, visto induzir se com os seus limites.estados de subjectividade que não podem ser O ciberespaço nas suas várias formas - dereduzidos às oposições binárias mente/corpo espaço interactivo e instantâneo - é um es-ou eu/outro, é muitas vezes referido como paço de circulação de informação, simulta-proporcionando estados alterados de consci- neamente e em todas a direcções. Nas li-ência tais como os provocados por narcóti- gações ao ciberespaço o corpo arrisca-se acos ou drogas alucinogénicas. Avital assi- submergir no fluxo de informação, a não sernala que tanto o desejo das próteses tecnoló- que seleccione, organize e reenvie de novo ogicas, da Realidade Virtual, como o das pró- fluxo da informação transformada, mas parateses quimicas das drogas, não constituem o fazer tem de defender-se da imersão to-tanto uma procura de uma dimensão trans- tal. É correntemente aceite que este papel écendental exterior, mas exploram ‘interiori- desempenhado pela interface sendo-lhe ge-dades fractais’27 . ralmente atribuída a possibilidade de forne- Os estados de consciência induzidos pela cer controle. A sua função seria assim a deRV, não são assim a busca de uma exterio- filtrar o bombardeamento da informação, aridade halucinatória - pertencente a um dua- que o desprotegido corpo humano será cadalismo interior/exterior ou corpo/mente - mas vez sujeito, sendo através dela que a acçãouma experiência em que a distinção entre in- humana, ordenadora, se dissemina na infos-terioridade e exterioridade está radicalmente fera.30suspensa28 . Brian Massumi mostra que esta ideia de A noção de Avital de uma "destructive um sujeito com um corpo problemático, quejouissance"29 que é mobilizada massiva- tenta ultrapassar com ajuda da tecnologia, di-mente pelas drogas, é util para descrever a rigindo a matéria e o espaço através da in-dupla natureza do prazer ou desejo humano, terface, é ainda uma forma de cartesianismo, 26 em que o controle não é mais do que com- Avital refere que esta condição resulta da inter-secção entre liberdade, drogas e condição de depen- pulsão à conexão.dência. Cf. Avitall Ronell, “Crack Wars – Literature, Massumi assinala os perigos que um feti-Addiction, Mania”, Lincoln, University of Nebraska che de conexão ligado a um fetiche de cir-Press, 1993, p. 33. culação, trás para a posição do sujeito no es- 27 Avitall Ronell, “Our Narcotic Modernity”, in paço da infosfera. A actividade do corpo aoRethinking technologies, p. 61, citada por Diana Gro-mala, “Pain and Subjectivity in Virtual Reality” in exteriorizar-se na materialidade da interfaceDavid Bell e Barbara M. Kennedy (org.), “The Cy- faz com que o corpo desapareça por detrásbercultures Reader”, Nova Iorque, Routledge, 2000, desta, tornando-se desejo organizador (ex-p. 601. presso como desejo de domínio e organiza- 28 Cf. Avitall Ronell, “Crack Wars – Literature,Addiction, Mania”, Lincoln, University of Nebraska 30 Nicholas Negroponte é um dos que depositam es-Press, 1993, p. 72. peranças no papel da interface para filtrar o bombar- 29 Cf. Avitall Ronell, op.cit., p. 59. deamento. Cf. Nicholas Negroponte, “Ser Digital”, Lisboa, Caminho, 1996.www.bocc.ubi.pt
  10. 10. 10 Maria Teresa Geadação), entrando num ciclo vicioso, de infor-mação pela informação, em que o domíniodo próprio espaço é feito como que por pi-loto automático, e o controle se converte emcompulsão. Massumi defende que o que estáem causa é que: quando o desejo humano hu-mano se investe na conexão e circulação semrenunciar ao controle ele cai num ‘double-bind’. Um corpo que consegue controlar aconexão e a circulação externalizando-se ne-las, perde controle na exacta medida em queo ganha. Quanto mais controlado é o pro-cesso, mais o processo controla. A materia-lidade do corpo e a sua capacidade organiza-dora - o desejo, são assim neutralizados31 . William Burroughs, fornece-nos uma po-derosa metáfora do poder destrutivo do de-sejo sobre o corpo. Em “Naked Lunch”32 ,sob a pressão do sexo e da addiction, os cor-pos estabelecem ligações simbióticas com asmáquinas, explodem ou sofrem mutações. 31 Cf. Brian Massumi, “Interface and ActiveSpace: Human-Machine Design”, 1995. URL:http://www.anu.edu.au/HRC/first_and_last/works/interface.htm 32 Cf. William Burroughs, “Refeição Nua”, Lisboa,Livros do Brasil, 2000. www.bocc.ubi.pt

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