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Design Gráfico: texto-base para o quarto encontro de cibercultura. Velloso: Ciberespaço como ágora eletrônica.

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  1. 1. O ciberespaço como ágora eletrônica na sociedade contemporâneaRicardo Viana Velloso INTRODUÇÃOMestrando em educação, cultura e organizações sociais, pelaUniversidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. Este artigo tem por objetivo examinar o ciberespaço comoE-mail: ricardo@ufmg.br ambiente que compõe a ágora eletrônica na cena contemporânea, sob a égide de novas interfaces e da cibercultura, comprometidas por outras temporalidades e territorialidades.Resumo Perceber o ciberespaço como ágora virtual enseja eAs interações humanas no ciberespaço revelam-no como demanda revisitar conceitos atinentes às esferas públicaambiente constitutivo de uma ágora contemporânea, em que os e privada, com lastro nos estudos de Arendt (2008), quegrandes debates públicos, ou as trocas simbólicas, resgata tais categorias nas suas origens na Grécia, bemprocessam-se, na era da informação, de formasignificativamente transformada. As múltiplas realizações no como sua ressignificação na modernidade, quando suaambiente virtual dão-se sob a égide de valores (e afinidades) distinção secular se torna tênue, favorecendo aculturais, com outras interfaces, compondo redes de emergência da esfera social.mobilização e troca que se sustentam pela sua diversidadeintrínseca e por seu dinamismo. Resultam, assim, asrealizações humanas em movimentos sociais tão antigos, na Requer ainda, à guisa de contextualização da cenasua essência, quanto a própria humanidade, mas inovadores contemporânea, a apropriação das considerações dena forma e na dinâmica que assumem, na instauração dacibercultura como marca da contemporaneidade. Hobsbawm (2006) acerca do “Breve século XX” e das incertezas que advêm da insuficiência da ciência e daPalavras-chave técnica para fazer frente aos desafios hodiernos, dentre os quais se destacam o demográfico e o ambiental.Ciberespaço. Contemporaneidade. Interações humanas.Movimentos sociais. Cibercultura. Para subsidiar o presente estudo, é também relevante retomar com Lévy (1993) categorias como espaço virtual,The cyberspace as an electronic agora in the cibercultura, tecnologias da inteligência e ecologiascontemporaneous society cognitivas, que emergem no ambiente descentrado, atópico e desterritorializado da rede mundial deAbstract inter(ações) instaurada pelas tecnologias da informaçãoThe cyberspace is the contemporaneous agora for the human e da comunicação. Vale igualmente revisitar asinteractions, where great public debates or symbolic considerações de Johnson (2001) sobre a cultura daexchanges are significantly processed in the era of interface, que conferem mais amplas conotações àsinformation. The multiple achievements in the virtualenvironment are carried out under the aegis of cultural values tecnologias na atualidade, em um contexto de interaçãotogether with other interfaces making up nets of mobilization entre tecnologia, cultura e arte, assim como os estudosand exchange which are supported by their intrinsic diversity de Castells (2003) e Moraes (2001) acerca da Internetand dynamism. The human achievements take place in socialmovements, ancient in their essence as humankind itself, but na sociedade hodierna.innovating in the form and dynamics they are brought out inthe establishment of cyberculture as a mark of Há de se ressaltar que o presente artigo cuidará de abordarcontemporaneousness. o ciberespaço como ambiente das ações e interações dosKeywords sujeitos sociais organizados, sob a percepção de que as redes que se compõem na sociedade não reinventam,Cyberspace. Contemporaneity. Human interactions. Social na sua essência, os movimentos sociais, mas certamentemovements. Cyberculture. lhes conferem outras dimensões culturais, sustentadas pela diversidade e amplitude das conexões ensejadas pelas tecnologias da informação e da comunicação, determinantes para a instauração da (ciber)cultura contemporânea.Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008 103
  2. 2. Ricardo Viana VellosoDIMENSÕES PÚBLICA E PRIVADA DAS O fato de que a manutenção individual fosse a tarefaINTERAÇÕES HUMANAS: ORIGENS E do homem e a sobrevivência da espécie fosse a tarefaRESSIGNIFICAÇÃO da mulher era tido como óbvio; e ambas estas funções naturais, o labor do homem no suprimento deRetomando as origens da vida humana em sociedade, é alimentos e o labor da mulher no parto, eram sujeitasimperativo reconhecer, inicialmente, duas esferas de à mesma premência de vida.interações: a esfera privada, em cujo âmbito as realizaçõesse identificam com o atendimento a necessidades Já a esfera pública, reconhecida como o lugar do comum,biológicas, quais sejam a sobrevivência e a perpetuação revela-se como o palco das interações e possível âmbitoda vida; e a esfera pública, lugar de interações que do exercício da liberdade, levada a efeito na ágora grega,extrapolam essa condição natural mais imediata em a praça dos debates e das manifestações públicas;busca da liberdade no próprio mundo, comum aos liberdade que, na esfera privada, não se dá em virtudehomens que buscam, nessa seara, efetiva visibilidade. das relações desiguais e do reino da necessidade e dasTais instâncias, marcadas por flagrante antinomia, carências biológicas, já referidas. Nesse diapasão, a esferaremetem à consideração das categorias labor, trabalho e pública constitui o lugar dos cidadãos livres e iguais, noação, tratadas por Arendt em A condição humana1. exercício da ação, para além do labor e do trabalho. Destaca Arendt (2008) que, na esfera do público,A autora situa o labor como atividade inerente à natureza diferentemente do que se dá na esfera privada com ohumana identificada com a necessidade de preservação recurso à força, o que se tem é a hegemonia do discurso,da vida. Assim é que, na divisão clássica da atividade da persuasão.humana, ao homem é reservado o mister de prover oalimento e a segurança, enquanto à mulher se reserva a A busca pela visibilidade (e pela liberdade) na cenareprodução. O trabalho, por sua vez, extrapolando a pública, que redimensiona a existência humana, balizadacircunscrição do natural, coloca o homem no exercício na ação, faz emergir, no curso da história, outra dimensãoda criação de coisas artificiais, revelando o homo faber. das interações, qual seja, a esfera social. Esse fenômenoPor fim, tem-se a ação, que é apresentada pela autora se processa em um movimento de complexidade,como outra atividade humana, cuja realização demanda trazendo a público temas até então adstritos ao ambiente(e enseja) um ambiente de interações com outros privado. O divisor de águas entre o público e o privado,homens, de forma contínua. Por seu caráter instâncias até então circunscritas à antinomia de suaseminentemente interacional, a ação pode então ser relações, vai se fazendo tênue, o que promove odistinguida das categorias labor e trabalho em virtude recrudescimento dessa esfera emergente, de cunho social.de a primeira se comprometer com a esfera pública, Trata-se de uma instância que, surgida no início da eraenquanto as demais se situam originariamente, conforme moderna, não equivale ao público nem ao privado.esposado por Arendt (2008), na esfera privada. O cenário que se desenha com a emergência da esferaContrapondo características e funções, em virtude das social reflete-se concomitantemente ao surgimento dointerações perpetradas em seu âmbito e dos seus estado nacional, revelando o setor público-estatal, o setordiferentes componentes motivadores, as esferas pública privado e, de forma cada vez mais pronunciada, o terceiroe privada definem ambientes dicotômicos das realizações setor2, com caráter também público, mas não-estatal,humanas. envolvendo a participação de voluntários em busca de processos e resultados identificados com o bem-estarAssim é que a esfera da casa (oikos) corresponde ao lugar social.da vida privada, comprometida com as demandas naturaisda existência humana. E, como observa Arendt (2008, CONTEMPORANEIDADE E INCERTEZASp.40), A par da instauração das instâncias de realizações humanas, movidas ora pela necessidade, ora pelo desejo1 ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. de liberdade, sob a égide do labor, do trabalho e ou daRio de Janeiro: Forense universitária, 2008. Publicada em 1958, aobra suscita muitas questões acerca das realizações humanas ao longoda história, sendo relevantes na presente abordagem as considerações 2 Por decorrer da associação do caráter público (não estatal) aliado àda autora sobre o público e o privado, bem como sua ressignificação iniciativa privada (sem fins lucrativos), esse setor ganha projeção ena modernidade, esferas cuja apreciação demanda a apreensão das relevo progressivo por se inserir nos espaços ou lacunas gerados pelacategorias labor, trabalho e ação, constitutivas da existência humana. ineficiência ou ausência do Estado.104 Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008
  3. 3. O ciberespaço como ágora eletrônica na sociedade contemporâneaação, a sociedade se conduz e se redesenha Ademais, é o momento histórico que experimenta emhistoricamente, compondo, na modernidade, um cenário mais larga escala, no bojo do progresso tecnológicode encantamento com a razão. A aventura humana, atinente aos transportes e às telecomunicações, ocontudo, revela-se marcada por conquistas que se processo de globalizaçãoalternam com percalços, traduzindo-se em um flagranteparadoxo, cujo exercício de compreensão remete aos cada vez mais acelerado e a incapacidade conjuntaestudos de Hobsbawm (2006) acerca do “Breve século de as instituições públicas e de o comportamentoXX”, ou a Era dos Extremos um lapso de tempo entre coletivo dos seres humanos se acomodarem a ele1914 e 1991, inter valo histórico que abriga (HOBSBAWM, 2006, p. 24).concomitantemente avanços científicos e tecnológicose guerras, destruição e desigualdade. A aldeia global 3 que se configura no contexto da modernidade não constitui, como se poderia supor, aHobsbawm (2006) identifica como “Era da Catástrofe” quebra de fronteiras seguida de progressiva conquistao período de 1914 até depois da Segunda Guerra Mundial. da igualdade. Diferentemente disso, o que se tem, com aEssa fase é sucedida por “cerca de 25 ou 30 anos de acentuação das desigualdades, é,extraordinário crescimento econômico e transformaçãosocial, anos que provavelmente mudaram de maneira num mundo cada vez mais globalizado, o fato mesmomais profunda a sociedade humana que qualquer outro de as ciências naturais falarem uma única línguaperíodo de brevidade comparável” (HOBSBAWM, 2006, universal e operarem sob uma única metodologiap.15), constituindo-se na “Era do Ouro”. Sucedendo esse (HOBSBAWM, 2006, p.506)recorte temporal, a humanidade experimenta, segundoo autor, uma era de incertezas e crises. Sobre o presente cenário, em que se dão movimentos de mudialização sobretudo de cunho econômico, é AntônioO século XX, além de seus paradoxos, revela uma nova (2002, p.100) quem observa quetemporalidade, traduzida na ausência de nexosarticuladores com o passado e na falta de um sentido a globalização não tem sentido verdadeiramenteprospectivo, instaurando-se, então, uma espécie de cosmopolita nem universalista: um vasto e poderoso“presente contínuo”, que traz no bojo desse fenômeno a domínio de capitais e mercados e de tecnologias demudança (ou perda) de paradigmas de relacionamento informação e comunicação faz com que se beba osocial e humano. A hipertrofia do sentido da razão mesmo refrigerante e se coma o mesmo sanduíche eencontra, com relevo cada vez mais expressivo, uma se assista aos mesmos filmes e aos mesmos programasinsuficiência como resposta às angústias e às indagações televisivos e aos mesmos esquemas de marketing nosde seu tempo, em grande parte porque divorciadas da quatro cantos do mundo.percepção sensorial e do senso comum, com os quaisestabelece relação eminentemente dicotômica. O fato é que os paradoxos e as incertezas presentes na cena contemporânea marcam-na com outrasPronuncia-se aí um novo desencantamento, a exemplo temporalidades e territorialidades, potencializadas pelodo que se deu com relação à fé, quando da transcendência advento das tecnologias da informação e dapara a modernidade. comunicação, alavancadas pelo desenvolvimento da informática, que enseja (e impõe) novas concepções e O Breve Século XX acabou em problemas para os referências à dinâmica do tempo e do espaço. quais ninguém tinha, nem dizia ter, soluções. Enquanto tateavam o caminho para o terceiro Relativamente ao redesenho do espaço das interações milênio em meio ao nevoeiro global que os cercava, humanas, emergem teses identificadas com o fim dos os cidadãos do fin-de-siècle só sabiam ao certo que territórios, que, diferentemente de se confirmarem, acabara uma era da história. E muito pouco mais revelam, antes, outras territorializações, as quais, segundo (HOBSBAWM, 2006, p. 537). Haesbaert (2004), traduzem-se na redefinição dosO século XX deixa, então, nessa perspectiva, o legado da 3 O termo é cunhado por Marshall Mc Luhan, sociólogo canadense, para se referir às novas configurações assumidas pelas interaçõesincerteza. entre os diversos países (e culturas), superando a linearidade e os limites territoriais e temporais clássicos, situação que, na tese do autor, colocaria o mundo no patamar de uma aldeia, no âmbito da qual perseveram as desigualdades.Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008 105
  4. 4. Ricardo Viana Vellosoespaços, que passam a incorporar dimensões materiais e processo social que comporta relações de poder e trocasou simbólicas. Desse movimento, resultam territórios simbólicas de amplo espectro, insertas no cenáriofísicos, virtuais, políticos e culturais, dentre outros, constitutivo de uma cibercultura.possibilitando a vivência de multiterritorialidades, emum contexto em que se permite Nesse contexto, novas territorialidades também se revelam, na medida em que os contornos têm seu foco (...) pela comunicação instantânea, contatar e mesmo descolado da materialidade, trazendo como marcas agir sobre territórios completamente distintos do preponderantes as dimensões simbólicas. Tem-se, então, nosso, sem a necessidade de mobilidade física. Trata- outros territórios em que se processam novas experiências, se de uma multiterritorialidade envolvida nos imbricadas com múltiplas interfaces. Nesses territórios, diferentes graus daquilo que poderíamos denominar as fronteiras se diluem, instaurando uma nova geografia. como sendo a conectividade e/ou vulnerabilidade A ausência de marcos espaço-temporais rígidos, informacional (ou virtual) dos territórios. substituída por nós de conhecimento e de aglutinação (HAESBAERT, 2004, p.345) motivacional, ensejam contínua mobilidade ou nomadismo, sobre o qual considera Lévy:As condutas e relações sociais e humanas que se dão nacircunscrição desses territórios emergentes, em particular O espaço do novo nomadismo não é o territóriodo território virtual, convidam ao exame de seu geográfico nem o das instituições ou dos Estados,significado e do caráter que assumem, bem como das mas um espaço invisível dos conhecimentos, dosvariáveis com que estão imbricadas, para sua melhor saberes, das forças de pensamento no seio da qual secompreensão e, por extensão, para que se possa tratar a manifestam e se alteram as qualidades do ser, ossua ressituação no ciberespaço. Essa categoria, por sua modos de fazer sociedade. Não os organismos dovez, reclama exame mais detido, de forma a favorecer a poder, nem as fronteiras disciplinares, nem ascompreensão das interações humanas em seu âmbito, estatísticas dos mercados, mas sim o espaçosob múltiplas configurações. qualitativo, dinâmico, vivo, da humanidade que se inventa ao mesmo tempo que produz o seu mundoCIBERESPAÇO: OUTRO AMBIENTE DAS (LÉVY, 1997, p.17).REALIZAÇÕES HUMANAS Desse movimento emergem territórios cognitivosO espaço virtual, imbricado com outras temporalidades coletivizados, em que se inserem autores e leitorese outras territorialidades, destaca-se pela celeridade das investidos da condição de co-autores que produzeminformações hipertextuais, dispostas em rede, as quais permanentemente sentidos na interação com as malhaspossibilitam leituras mais imediatistas pela associação textuais, compostas a partir dos hipertextos4, constitutivosda expressão verbal a imagens e sons entre outros; mas das ecologias cognitivas.ensejam também leituras extensivas, caminhosalternativos para o leitor que, valendo-se dos nós na rede É fato que, de um lado, territórios se podem conceberhipertextual não-linear, vê-se co-autor, em um exercício com certo grau de anonimato, como se dá, por exemplo,autônomo de produção de sentido da malha textual. Em nas diversas salas de bate-papo em que os interlocutoresmuitas situações, as temporalidades são também usam apelidos, os nicks, que ora os revelam (e as suasredimensionadas por atualizações contínuas e quase intenções comunicativas), ora os ocultam. De outro,simultâneas aos fatos, às notícias, aos múltiplos registros todavia, concebem-se ambientes de cooperação, comona Internet. as listas de discussão, os fóruns temáticos virtuais e outros, em que os interlocutores podem se inserir, em muitosE, como observa Marcuschi (2005, p.13), dos casos, devidamente identificados, empreendendo a interação e a colaboração. em certo sentido, pode-se dizer que, na atual sociedade da informação, a Internet é uma espécie de protótipo 4 Os hipertextos invocam uma concepção textual aberta, não-linear, de novas formas de comportamento comunicativo. que reclama novos comportamentos na sua produção de sentido, na relação com a autoria, portanto novos agenciamentos em redeEmbora o autor se atenha às situações comunicativas, é relacional com outras configurações. Afinal, como esclarece Coscarelli, “o hipertexto é, grosso modo, um texto que traz conexões, chamadaspossível estender o olhar às situações mais amplas de links, com outros textos que, por sua vez, se conectam a outros, erelações sociais, já que a comunicação constitui ato e assim por diante, formando uma grande rede de textos” (COSCARELLI, 2003, p.73).106 Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008
  5. 5. O ciberespaço como ágora eletrônica na sociedade contemporâneaNessas territorialidades em que se sobrepõem as ante os sujeitos e a sociedade propriamente dita, já quedimensões simbólicas às materiais, situações antagônicas “a relação governada pela interface é uma relaçãotendem a se definir em territorializações que se processam semântica, caracterizada por significado e expressão, nãosob a égide do relativo anonimato, ou da deliberada por força física.” (JOHNSON, 2001, p.17).identificação dos sujeitos sociais que vivenciam acoletivização de seu pensar (e fazer) em cenários de Apresentam-se as interfaces tão intrigantes quantointeração e ou cooperação, constituindo outras ecologias sedutoras, possibilitando até a aproximação entrecognitivas. Trata-se de ambientes de relações que, para categorias aparentemente antinômicas, como tecnologiaalém da seara cognitiva, envolvem variáveis conceituais, e arte e, ainda com Johnson (2001, p. 174), é possívelaxiológicas, estéticas e afetivas, dentre outras. Afinal, asseverar quecomo observa Lévy, Nossas interfaces são histórias que contamos para A informática não intervém apenas na ecologia nós mesmos para afastar a falta de sentido, palácios cognitiva, mas também nos processos de subjetivação de memória construídos de silício e luz. Elas vão individuais e coletivos. Algumas pessoas ou grupos continuar a transformar o modo como imaginamos construíram uma parte de suas vidas ao redor de a informação, e ao fazê-lo irão nos transformar sistemas de troca de mensagens (BBS), de certos também – para melhor e para pior. programas de ajuda à criação musical ou gráfica, da Envolvidos nesse contexto de múltiplas interações programação ou da pirataria nas redes. Mesmo sem comprometidas com dimensões simbólicas, marcadas ser pirata ou hacker, é possível que alguém se deixe pela instantaneidade e transitoriedade, pelo seduzir pelos dispositivos de informática. Há toda descentramento e pela atopia, os sujeitos sociais se vêem uma dimensão estética ou artística na concepção das constituindo e vivenciando a cibercultura, cujo universo máquinas ou dos programas, aquela que suscita o envolvimento emocional, estimula o desejo de não possui nem centro nem linha diretriz. É vazio, explorar novos territórios existenciais e cognitivos, sem conteúdo particular. Ou antes, ele os aceita todos, conecta o computador a movimentos culturais, pois se contenta em colocar em contato um ponto revoltas, sonhos (LÉVY, 1993, p. 56). qualquer com qualquer outro, seja qual for a carga semântica das entidades relacionadas. (LÉVY, 2005,Nesse contexto, pronunciam-se, no bojo de uma nova p. 11).cultura, ou da cibercultura, processos de interação e deinterlocução os quais compõem espaços (ou territórios) O ambiente instaurado enseja a retomada de antigasvirtuais que trazem à cena conexões mais amplas e maior interações e mobilizações de atores e grupos sociais agoradinamismo, presentes nos movimentos sociais em rede, com novos contornos temporais e territoriais, à medidaque se identificam, constituem-se e alimentam-se, dentre que as informações (e as trocas) se dão com maior volumeoutros, por valores culturais, revelando-se, inclusive, e celeridade, além de prescindirem de contornoscomo registra Castells (2003 p.115), em militâncias territoriais físicos. Desse processo, emerge, de formaambientais, feministas, pelos direitos humanos e dos alternada, a sucessão de ações locais e globais, compondo,ativistas ligados a um sem-número de projetos culturais dentre outros, o movimento contemporâneo dae causas políticas. Nessa perspectiva, cibermilitância, que se dá no bojo das organizações em rede. Segundo Castells, o ciberespaço tornou-se uma ágora eletrônica global em que a diversidade da divergência humana explode os movimentos sociais do século XXI, ações coletivas em uma cacofonia de sotaques. deliberadas que visam a transformação de valores e instituições da sociedade, manifestam-se na e pelaCIBERCULTURA E OUTRAS INTERFACES Internet. O mesmo pode ser dito do movimento ambiental, o movimento das mulheres, váriosA relação entre o usuário e o computador implica movimentos pelos direitos humanos, movimentos deinterfaces que se dão através de softwares que medeiam identidade étnica, movimentos religiosos,as interações entre ambos. Nesse exercício interativo, movimentos nacionalistas e dos defensores/segundo Johnson (2001), instauram-se novos olhares, proponentes de uma lista infindável de projetosnovas percepções e novas concepções para com o mundo, culturais e causas políticas. (CASTELLS, 2003, p. 114).o que redunda em outras posturas e condutas humanasCi. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008 107
  6. 6. Ricardo Viana VellosoÀ guisa de exemplo, podem-se registrar com Moraes persuasão; mas de caráter simbólico em uma acepção(2001) alguns segmentos da sociedade civil que, mais ampla, uma vez que as interações se dão emmobilizados por mais diversos temas e interesses, ambiente diverso do que historicamente se teve. Eminvestem no ciberespaço como forma de ampliar suas contrapartida, as interações em outra cena, com novasarticulações e interlocuções e de dar visibilidade às suas interfaces e com carga simbólica redimensionada,causas, dentre eles, o Movimento dos Trabalhadores colocam as realizações humanas diante de novos desafiosRurais Sem-Terra (MST), a Central Única dos e possibilidades.Trabalhadores (CUT), a Conferência Nacional dosBispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do CONSIDERAÇÕES FINAISBrasil (OAB), o Instituto Brasileiro de Defesa doConsumidor (IDEC) e o Médico Sem Fronteiras. É fato que as interações humanas, que se deram historicamente nas esferas do público e do privado,Nesse diapasão, as interações humanas e suas realizações, ganham novos contornos temporais e territoriaisinicialmente movidas pelo labor, sob a ótica de Arendt, possibilitados pelas tecnologias da informação e dae em seguida pelo trabalho e finalmente pela ação, comunicação, que interconectam atores e segmentosganham novos contornos e uma dinâmica diferenciada. sociais de todos os cantos, na era da informação. Tais interações envolvem, para além das referências materiaisO cenário virtual, ou o ciberespaço, passa a se constituir clássicas, dimensões simbólicas, as quais são suscitadasem importante território da esfera social, a ágora 5 tanto pelas interfaces entre o homem e o computadoreletrônica contemporânea, que possibilita dar visibilidade quanto pelas trocas virtuais entre as culturas geradorasaos fatos da vida privada, tratar fatos e fenômenos da de diferentes perspectivas, anseios e valores.esfera pública e sobretudo redimensionar a esfera social.Por seu descentramento e atopia, como já referido, enseja Como lembra Johnson (2003, p.24),diluir as concentrações de poder e ampliar a participaçãodos atores sociais e a projeção dos diversos segmentos. a interface já alterou o modo como usamosTodavia, como adverte Castells, computadores e vai continuar a alterá-lo nos anos vindouros. Mas está fadada a mudar outros domínios na co-evolução da Internet e da sociedade, a dimensão da experiência contemporânea de maneiras mais política de nossas vidas está sendo profundamente improváveis, mais imprevisíveis. transformada. O poder é exercido antes de tudo em torno da produção e difusão de nós culturais e As interações multiculturais, por sua vez, compondo a conteúdos de informação. O controle sobre redes de cibercultura pelas trocas simbólicas no ciberespaço, comunicação torna-se a alavanca pela qual interesses resultam nos contornos da ágora eletrônica em que se e valores são transformados em normas condutoras processam as manifestações do público e do privado e de comportamento humano. Esse movimento se múltiplos exercícios de expressão que dão visibilidade processa, como em contextos históricos anteriores, aos sujeitos e segmentos sociais. Em um contexto de de maneira contraditória. A Internet não é um descentramento, de atopia, flexibilidade e dinamismo, instrumento de liberdade, nem tampouco a arma de emergem múltiplas vozes, compondo a “cacofonia” dominação unilateral (CASTELLS, 2003, p. 135). referida por Castells (2003), como expressão do exercício interacionista na esfera social da contemporaneidade.Em síntese, o ciberespaço não se constitui, por si mesmo,em garantia de conquista de democracia, igualdade e ou O cenário das interações ciberespaciais, ou a ágoraliberdade. É inconteste que, não obstantes os novos eletrônica, embora constituindo-se com novos contornosparâmetros temporais e territoriais, persistem as desiguais temporais e territoriais em que se processam as trocascorrelações de força; não apenas de caráter físico, como simbólicas, não tem o condão de, por si só, instaurarse viu na esfera privada na Grécia Antiga, nem tampouco uma nova correlação de forças. Afinal, o que há de definirde caráter retórico, como se assistiu na esfera pública na ágora virtual, assim como se deu na ágora grega, asem que a palavra assumia o papel de se pôr a serviço da interações humanas e seus rumos, é a correlação de forças, que, hodiernamente, para além do embate5 Sendo, na Antigüidade Clássica, a praça principal da polis grega, a retórico referido por Arendt (2008), haverá de envolverágora é tomada aqui como o espaço das interações (virtuais) na esfera as novas interfaces e as trocas simbólicas.pública, dos debates políticos, da convivência e da visibilidade, sendo,assim, o espaço da cidadania.108 Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008
  7. 7. O ciberespaço como ágora eletrônica na sociedade contemporâneaPor fim, ainda que repelindo a percepção ingênua de HANNAH, Arendt. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2008.que a ágora eletrônica poderia reorientar as relações depoder e troca, é possível asseverar que o novo ambiente HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX: 1914 -1991.instaurado suscita novos desafios e outras possibilidades Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.para as interações humanas e, em última análise, para JOHNSON, Steven. Cultura da interface: como o computador transformaos sujeitos sociais. nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.Artigo submetido em 25/10/2008 e aceito em 22/12/2008. LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.REFERÊNCIAS _______. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço.ANTÔNIO, Severino. Educação e transdisciplinaridade: crise e 3. ed. São Paulo: Loyola, 1997.reencantamento da aprendizagem. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. _______. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo:CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet: reflexões sobre a internet, Editora 34, 2005.os negócios e a sociedade. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges;revisão Paulo Vaz. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: ______; XAVIER, Antônio Carlos (Org.).COSCARELLI, Carla Viana. Entre textos e hipertextos. In: Hipertextos e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido.COSCARELLI, Carla Viana (Org.). Novas tecnologias, novos textos, novas Rio de Janeiro: Lucerna, 2005.formas de pensar. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. MORAES, Denis de. O concreto e o virtual: mídia, cultura e tecnologia.HAESBAERT, R. O mito da desterritorialização: do “fim dos territórios” Rio de Janeiro: DP&A, 2001.à multi-territorialidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.Ci. Inf., Brasília, v. 37, n. 2, p. 103-109, maio/ago. 2008 109

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