Walter Benjamin e a Imaginação Cibernética
    Experiência e Comunicabilidade na Era do Virtual
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as vivências e narrativas ...
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   No ensaio quot;A obra de a...
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  1. 1. Walter Benjamin e a Imaginação Cibernética Experiência e Comunicabilidade na Era do Virtual Cláudio Cardoso de Paiva Universidade Federal de Paraíba Índice filósofo que pensa o século XIX com as an- tenas ligadas na modernidade do século XX. 1 Introdução 1 Sua percepção aguçada fornece elementos 2 O singular de Benjamin: a percepção para uma discussão crítica e recepção das de uma cultura no plural 3 questões emergentes sobre arte, sociedade e 3 As imagens virtuais têm aura? 4 tecnologias do século XXI. 4 Emanações barrocas na era do virtual 5 Partimos do pressuposto que na passagem 5 Figuras da sorte , figuras do azar: os do fim do século passado há imagens e fi- clichês na Internet 6 guras que podem ajudar a entender o nosso 6 Amor e ódio ao vivo e on line 8 fim de século. A figura do quot;flanadorquot;, so- 7 Das redes de dormir às redes da ima- litário que passeia fascinado pelos objetos ginação criadora 9 da grande cidade (mas esquivo ao espírito 8 Indústria cultural, contracultura e cul- capitalista), redescoberto por Benjamin, na turas excêntricas 11 obra poética de Baudelaire, possui afinidades 9 Tecnologias da comunicação e expe- com a figura do internauta. O primeiro é um riências multissensoriais 12 viajante atento e transeunte desconfiado que 10 Fim de partida 14 apreende o sentido dos objetos além da sua 11 Bibliografia 15 dimensão mercadológica; o segundo é um navegador curioso, cúmplice da agilidade, 1 Introdução pesquisador interativo que busca nos objetos virtuais, algo além da sua condição efêmera Propomos um exercício de sondagem sobre e transitória. a cibercultura, colocando em perspectiva a A descrição feita por Benjamin, dos in- experiência de agregação dos indivíduos na teriores, praças e passagens na obra quot;Pa- época das auto-estradas da informação. Para ris, Capital do Século XIXquot;, por exemplo, isso, um recuo na história da cultura se faz pode estimular, um olhar sobre as quot;pági- necessário. Encontramos as bases interpre- nas eletrônicasquot;como passagens virtuais para tativas para decifrar a realidade virtual nos uma atualidade exuberante, na Terra-Pátria livros de Walter Benjamin (1892-1940), um cibernética do século XX. Para Benjamin,
  2. 2. 2 Cláudio Cardoso de Paiva as vivências e narrativas dos indivíduos na geradores de experiências interativas e de no- modernidade, se norteiam por uma busca de vas formas de sociabilidade. As noções de sentido inscrito nas imagens, através de uma quot;experiência e comunicaçãoquot;, para Benjamin memória coletiva que desperta para um estilo possuem um sentido convergente, isto é, tra- de vida mais pleno; é isto que o filósofo tra- duzem a idéia de transmissão e partilha de duz por experiência. Ele acredita no retorno uma mensagem; esta é uma das linhas me- das imagens do passado como um despertar, stras que norteiam a nossa argumentação. atualização e partilha do presente, livrando A Internet, como dispositivo de infor- os homens de uma experiência empobrecida. mação, traz novos desafios para o debate A Internet pode ser um meio de desper- sobre educação, ética e sociabilidade, por- tar, de atualização e partilha, mas que impõe que o seu aparecimento coincide com a dis- desafios. Perguntamos, por exemplo, em que seminação da violência, de uma forma ge- medida a Internet, como uma quot;árvore de con- neralizada. As redes de informação leva- hecimentoquot;pode revigorar a experiência de ram a uma retomada da discussão sobre in- sociabilidade e inteligência coletiva? Como tegração e exclusão social, não somente por- a imaginação cibernética pode politizar o co- que a tribo dos quot;sem microquot;remete à tribo tidiano? Como esta máquina do virtual pode dos quot;sem terraquot;, mas porque a Internet acena atualizar e fecundar a experiência das cultu- para a possibilidade de integrar os excluí- ras locais no contexto da velocidade global? dos numa experiência de partilha coletiva. Estas questões serão formuladas, em diver- Os quot;paraísos artificiaisquot;da Internet relem- sos registros, ao longo do texto que tem vista bram a utopia de uma quot;felicidade do jardim observar as formas de Experiência e Comu- públicoquot;, forjada por Voltaire. Hoje, uma nicabilidade na sociedade contemporânea. estratégia de comunicação social orientada Considerando a realidade dos países em por um projeto de quot;cultivo do jardim pú- desenvolvimento, constatamos que as redes blicoquot;precisa enfrentar a nova desordem das permitiram, favoravelmente, o acesso à in- relações entre o Estado, a sociedade, o mer- formação global e a ligação entre os países, cado e as novas tecnologias. A discussão é numa escala planetária. Contudo, o que as inadiável e remete efetivamente a um debate novas tecnologias trazem de inovador é um sobre a nova ordem internacional da infor- despertar através da pesquisa, que lhe per- mação, e num plano mais complexo, diz res- mite participar ativamente de uma produção peito às relações entre economia e política de sentido. no contexto atual da mundialização. Um ar- Pensar o coletivo e a Internet no contexto tigo, sob a forma de ensaio, evidentemente dos países em desenvolvimento, remete à não poderia esgotar uma discussão do pro- história mal resolvida entre a esfera pública e blema. A nossa proposta, no momento, con- a esfera privada. Hoje, quando há um visível siste em mapear alguns elementos que esti- declínio das formas de socialização (famí- mulem uma reflexão sobre o imaginário so- lia, escola, sociedade civil etc.), os meios de cial formado pelo conjunto de figuras e sím- comunicação, particularmente a Internet, en- bolos que estruturam a percepção dos indi- quanto instâncias de diálogo entre a quot;intimi- víduos. Assim, caminhamos contra o vento dade e a publicidadequot;, constituem veículos num terreno considerado propício à evolução www.bocc.ubi.pt
  3. 3. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 3 de tendências individualizantes e narcisistas, com a reaparição das representações reli- que é o espaço da realidade virtual. Con- giosas, no fim de milênio, justo quando a tudo, ali encontramos formas de agregação e racionalidade técnica parece reger a nova sociabilidade, atração coletiva, novos meios des-ordem do mundo. A reemergência do de territorialização e subjetividade ligados místico-religioso configura aquilo que al- pelo sentimento dos indivíduos de pertencer guns autores definem provisoriamente como a uma comunidade. um retorno do barroco, onde a razão e a fé, a ciência e a mitologia, o sagrado e o profano se reencontram. Isto permite compreender 2 O singular de Benjamin: a o computador de modo mais abrangente, ou percepção de uma cultura no seja, como instrumento técnico que calcula, plural quantifica e performatiza as estruturas do mundo pragmático, mas também como um Retomamos as contribuições de Walter Ben- novo tótem em torno do qual os indivíduos jamin, cujo repertório de estudos, particular- (e tribos) prestam reverência, cultivando-o mente, quot;A obra de arte na época de sua re- como objeto sagrado, e que expressa a idéia produtibilidade técnicaquot;(1936) tem sido re- de quot;religaçãoquot;, comunhão e êxtase face à epi- corrente na pesquisa sobre arte e sociedade, fania das imagens geradas pelas redes. e recentemente tem iluminado as ciências - Depois porque a propagada quot;crise dos da informação e da comunicação, numa per- paradigmasquot;referenciais para pensarmos as spectiva humanística. Tendo sido quot;catalo- questões da sociedade e cultura pode ser dis- gadoquot;como membro da controvertida quot;Es- cutida à luz dos textos sobre a quot;modernidade cola de Frankfurtquot;, juntamente com Adorno, e os modernosquot;, em que o filósofo focaliza as Horkheimer, Marcuse e Habermas, seus experiências de passagem do século XIX ao textos constituem uma ferramenta teórico- século XX. O singular na obra de Benjamin metodológica importante para uma quot;antro- é despertar para a percepção da quot;cultura no pologia da comunicaçãoquot;, na perspectiva de pluralquot;(sua parte material, mística, psicoló- uma Teoria Crítica. Todavia, Benjamin per- gica e social) mas sempre dirigida pela idéia manece enquanto um marco referencial por- de agregação coletiva. que os seus ensaios se distinguem daque- - E, finalmente, porque Benjamin sempre les dos seus quot;companheiros de escolaquot;, pelo buscou transcender as limitações de um pen- seu potencial de atualização das formas cul- samento ressentido e pessimista com prejuí- turais emergentes, assim como, pelo caráter zos para a percepção. O seu conceito de de prognóstico das suas análises. Julgamos quot;auraquot;e quot;reprodução mecânicaquot;, as alegorias pertinente remontar a Benjamin para um en- do anjo e da História, assim como as figuras foque da chamada cibercultura, colocando do quot;flanadorquot;, do quot;colecionadorquot;ou da quot;pro- em perspectiva as formas de quot;experiência e stitutaquot;, ao seu ver, não traduzem as formas pobrezaquot;na época da realidade virtual por de mercantilização, são antes expressões que vários motivos: condensam, simultaneamente, a dinâmica da - Em primeiro lugar porque a expansão vida material e emanação do espírito cole- das novas quot;máquinas de comunicarquot;coincide tivo, a parte obscura e brilhante da vida. www.bocc.ubi.pt
  4. 4. 4 Cláudio Cardoso de Paiva No ensaio quot;A obra de arte na época da tecnologias audiovisuais. O cinema contri- sua reprodutibilidade técnicaquot;, encontramos bui para a perda da quot;auraquot;dos objetos estéti- a figura de Benjamin como filósofo marxista, cos, mas consiste numa tecnologia revolu- mas também um iniciado na cabala e astro- cionária, que desperta uma nova percepção logia, que soube enxergar na imanência dos dos indivíduos, podendo transformá-los em acontecimentos mais banais, uma quot;auraquot;, a espectadores ativos. sua parte de transcendência. Mirando os objetos de consumo, Benjamin descobre a 3 As imagens virtuais têm aura? sua face oculta, que extrapola sua mera con- dição utilitária; ali o autor pode contem- Escolher Walter Benjamin como fio condu- plar o seu lado simultaneamente mágico e tor para um ensaio sobre a cibercultura me memorial, que desperta reminiscências do parece uma estratégia feliz porque as ilu- passado. Sem saudosismo, descobre ali a minações do autor, de saída, já desmon- oportunidade de resgatar uma experiência, tam a perspectiva dividida dos quot;apocalípti- os vestígios de uma tradição de comunicabi- cos e integradosquot;que vêm as novas tecno- lidade. Neste mesmo contexto, no ensaio quot;O logias da informação e comunicação, re- narradorquot;(1936), nas figuras quot;do marinheiro spectivamente, como prenúncios do quot;fim do mercantequot;e do quot;artesão sedentárioquot;, Benja- mundoquot;ou como uma quot;terra prometidaquot;. min encontra os sujeitos que transmitem uma Orientado por uma concepção que ab- experiência de tradição, refazendo os laços range o arcaico e o ultra-moderno, Benja- com a comunidade. min exerce uma imaginação criadora apreen- As noções de quot;auraquot;e quot;tradiçãoquot;, (ecos da dendo quot;o vivo do sujeitoquot;, sem se limitar influência mística), e o conceito de quot;supe- aos dogmas da teleologia, nem reduções do restruturaquot;(de influência marxista) para tra- marxismo; o filósofo se agiliza transversal- tar dos produtos culturais, não limitam o seu mente atento para o devir das sociedades e percurso filosófico: Benjamin não acredita culturas. Sua percepção e experiência do em sínteses. Ele percebe que a modernidade mundo compreende as inovações tecnológi- cultural (produto do capitalismo) constrói e cas do seu tempo (a fotografia, o rádio, o ci- destrói coisas belas, isto é, promove expe- nema) de forma dialética. Isto é, impõe uma riência e pobreza: os seus estudos sobre a visão crítica, reconhecendo os efeitos de uma paisagem urbana da cidade no século XIX, estratégia mercadológica que favorece a re- podem demonstrá-lo. Ali abrem-se janelas produção mecânica, cópia e falseamento das para pensarmos o estatuto da experiência, obras culturais, ou seja, como sintomas de num estágio em que a dinâmica das trocas decadência, mas ao mesmo tempo as percebe materiais e simbólicas se tornou mais com- como vetores de experiências estéticas enri- plexa. quecedoras, alavancas que abrem as portas Pensamos no simbolismo do cinema, tele- da percepção para uma nova contemplação visão e Internet como campo possível para da realidade. A sua técnica de descrever o o gozo da experiência de que Benjamin fala. cotidiano sob a forma de quot;mosaicosquot;, nos Ainda no ensaio sobre quot;A obra de arte...quot;, estudos sobre Baudelaire ou no quot;Trabalho o filósofo descobre o caráter fecundo das das Passagensquot;(1927-1939) antecipam de al- www.bocc.ubi.pt
  5. 5. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 5 gum modo o estilo das narrativas do jorna- mais concreto que sua versão oficial ou ins- lismo atual marcado pelo grafismo, a estética tituída, consiste numa estratégia de comuni- ligeira dos videoclipes e as inscrições pós- cação que permite flagrar o real em perma- modernas nas páginas da Internet. O autor nente transformação. apreende nos objetos e tecnologias modernas São os rastros, pistas e sinais deixados a fulguração do instante em que o espírito se pelos ancestrais no longo texto do mundo ilumina, no encontro com as imagens antigas que atualizam e transformam em quot;comu- que atualizam o presente. Benjamin sinaliza nidade afetivaquot;os indivíduos anônimos por para a percepção do quot;hic et nuncquot;(o aqui e trás do vidro dos computadores. Os tex- agora) da experiência cultural e comunica- tos de Jung, Bachelard, Gilbert Durand e tiva. Neste sentido, compreendemos que o mais recentemente, Michel Maffesoli, têm acesso aos sites de astrologia, sexo, jogos, contribuído, para a sustentação de um argu- revistas de moda, jornais do cotidiano, em mento que busca focalizar, respectivamente, sua aparente trivialidade, realiza a felicidade quot;o homem e seus símbolosquot;, a quot;poética instantânea dos internautas. Mesmo que pas- da naturezaquot;inscrita na vida cotidiana, a sageiras, as sensações de bem estar dos indi- quot;imaginação criadoraquot;e a quot;contemplação do víduos plugados na rede, entram em sinto- mundoquot;imaginal na perspectiva de uma so- nia com uma camada de significação, cujo ciabilidade. Estas contribuições têm insti- simbolismo se estrutura promovendo um êx- gado trabalhos férteis que procuram se orien- tase semelhante aquele experimentado pelos tar metodologicamente nos domínios de uma rituais antigos. O internauta, consumidor de quot;antropologia da informação e da comuni- imagens, através de uma quot;iluminação pro- cacãoquot;. Contudo, é o entusiasmo das ge- fanaquot;, reencontra-se ali com quot;entidades ima- rações mais recentes, que utilizam os com- gináriasquot;que animam o seu cotidiano. Sob putadores e a Internet de modo criativo, as palavras, imagens figurativas ou discur- realizando pesquisas conseqüentes, que nos sos verbais que o encantam; as vozes ances- estimulam a considerarmos pertinente a re- trais são ressuscitadas agora pela paraferná- cepção destas novas tecnologias. lia cibernética a que está conectado. Benja- min, dedica especial atenção às imagens au- 4 Emanações barrocas na era do ditivas; anteriores à sua forma visível, que para o filósofo, carregam consigo uma men- virtual sagem cuja origem é remota, mas que fa- Na sua quot;Pequena História da Fotogra- vorece uma conexão imediata com as formas fiaquot;(1931) Benjamin denuncia as formas do dinâmicas do presente. Sob o seu significado falso na fotografia que substitui a pintura fi- visível, há imagens significantes que criam gurativa, limitada pela função medíocre de laços e conferem um certo espírito de comu- apenas retratar os personagens ilustres, mas nicabilidade aos objetos de consumo. Benja- não se furta ao elogio da fotografia como min despreza o que os objetos simbolizam e descoberta de novas formas de visibilidade propõe um método quot;alegóricoquot;para decifrar e imaginação criadora. O ensaio é fascinante o seu verdadeiro sentido; a alegoria, para o porque desperta a faculdade de julgar o ob- filósofo traduz a realidade histórica de modo www.bocc.ubi.pt
  6. 6. 6 Cláudio Cardoso de Paiva jeto estético além da sua mera roupagem tribal projeta a matéria orgânica no contexto tecnológica. Com a evolução das técnicas inorgânico dos suportes materiais; solicita as fotográficas, o artista (como produtor) e o di- expressões do vivo, mas se mantém curiosa letante da fotografia (enquanto consumidor) pela natureza morta que relembra a condição perceberão que o flash da câmara fotográfica de finitude dos homens. Do quot;alto celestialquot;ao tem o poder de resgatar imagens belas, ainda quot;baixo infernalquot;e vice e versa, as imagens re- não congeladas pela estética convencional. spondem às aparências de necessidade e às As tecnologias audiovisuais evoluíram ba- leis do desejo. As imagens barrocas pare- stante e, hoje, uma poética tecnológica tra- cem sempre prontas a se reciclar e retornar duz a estética do feio, do irregular e insólito ao quot;mundo visívelquot;, como nas telas de Ca- com traços bonitos e ângulos sensíveis cri- ravaggio, no cinema de Greenaway, nos vi- ando novos laços com a percepção coletiva. deoclipes da MTV ou nas páginas coloridas Encontramos já no texto quot;As origens do da Internet. Atendendo às vicissitudes do es- drama barroco alemãoquot;, sua tese recusada pírito e às quot;dobras da almaquot;, sempre voltam pela Universidade de Frankfurt (1928), algu- sob as diversas modulações da quot;mana coti- mas sugestões para tratar a convivência do dianaquot;. antigo e o novo, gerando formas de experiên- cia e comunicabilidade em Benjamin. 5 Figuras da sorte , figuras do As novas imagens produzidas pelas quot;má- quinas de visãoquot;(câmara fotográfica, tele- azar: os clichês na Internet visão, computador) com suas técnicas arro- Os personagens recuperados por Benjamin jadas, procedimentos de multimídia, hiper- na poesia de Baudelaire, como o jogador, o textos etc, promovem um certo efeito que colecionador e o flanador, em sua aparente alguns autores, como Umberto Eco ou Mi- efemeridade, incarnam arquétipos que rea- chel Maffesoli, compreendem como quot;barro- parecem na crônica da cidade como o quot;za- quizaçãoquot;. É uma forma de compreensão pistaquot;, o internauta ou o ciberpunk. São im- que serve de parâmetro para repensarmos a portantes como referência para os indivíduos ética e estética numa época em que as tecno- que recusam a quot;via de mão únicaquot;e a nor- logias da informação e comunicação estão matização das mídias, buscando outros ca- por toda parte. Estas imagens atendem a minhos, novas formas de alteridade e exer- um apelo coletivo de vozes distantes. O pú- cício da subjetividade. Entretanto, em nossa blico solicita a aparição do belo, mas de- época, quando se fala em declínio da razão seja contemplar a quot;feiúraquot;explícita no vídeo. e retorno das formas místico-religiosas, é a As tribos urbanas refazem uma crença per- figura do quot;corcundinhaquot;, reminiscência dos dida no tempo, onde os simulacros de Deus e contos de fada alemães, presente nos textos do diabo reaparecem como projeção da falta de Benjamin, que nos parece pertinente para de referências na passagem do milênio; mas uma reflexão das figuras da sorte e figuras do ao mesmo tempo se comprazem na felici- azar que perseguem o imaginário coletivo. dade imediata e rotineira dos objetos de con- O filósofo, apresenta o quot;corcundinhaquot;como sumo. Tais imagens fornecem ilusionismo alegoria dos revezes do destino e vários estu- e impressões de mobilidade. A imaginação www.bocc.ubi.pt
  7. 7. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 7 dos biográficos são plenos de referências so- ternet, produz os instantes de fama quot;on linequot;, bre esta imagem que o teriam acompanhado ou seja, possibilita a sensação de presença, desde a infância. Significando a má sorte, o participação e pertencimento nos tempos do desajeitado, o corcundinha é um personagem efêmero e do provisório. que durante muito tempo perseguiu a imagi- No que respeita ainda à sorte e ao acaso, nação do filósofo, conforme podemos ler em em seu texto sobre quot;Roberto Walserquot;(1929), seus textos para crianças: o filósofo lembra que para aquele escritor quot;... quot;Vou à minha adega/ beber meu vinho/ caminhar sem destino constituía o ponto cen- Lá está um corcundinha/ Pegou minha garra- tral de sua vida de exclusão e de seus livros finha/ Vou à minha cozinha/ cozinhar minha maravilhososquot;. Ocorre-nos lembrar a figura sopinha/ Lá está um corcundinha/ Quebrou do surfista da Internet, o que se reafirma no minha panelinhaquot;. trecho a seguir: quot;Não encontrar o caminho É conhecido o percurso de Benjamin mar- numa cidade não é muito importante, mas cado pelas surpresas desagradáveis e tra- perder-se numa cidade, como as pessoas se paças da sorte (a recusa pela academia, os perdem numa floresta, exige prática...quot; Não desencontros no amor, o suicídio sob pressão é difícil encontrar nas entrelinhas, espécies dos nazistas). Benjamin parece incarnar o arquetípicas da cibercidade: os usuários, em personagem de má-sorte. Como lembram meio ao labirinto dos sites, nas malhas da alguns textos mais recentes, a trajetória do rede são leitores dos mapas da cibercidade, filósofo leva a pensar em quot;como se tornar fa- que sabem como se perder. Os mapas, as car- moso cometendo tantos errosquot;. A questão da tografias, as passagens... descritas nos textos fama póstuma de Benjamin, relembra que o de Benjamin, hoje se configuram sob a forma mesmo já gozava de prestígio entre os seus das redes. pares, como demonstra Hanna Arendt em Na quot;novaquot;episteme há lugar para uma quot;sa- seu estudo sobre o filósofo: quot;A fama pós- bedoria encantadaquot;, sob a orientação de uma tuma, não comercial, não lucrativa é prece- quot;razão sensívelquot;? É possível o resgate de dida pelo mais alto reconhecimento entre os uma percepção que foge às limitações da seus paresquot;. Como no exemplo de Kafka mera funcionalidade técnica? Teria chegado ou do próprio Benjamin reconhecido por a vez de uma quot;sensibilidade técnicaquot;atenta à Adorno e Scholem, assim como por Brecht. aura e espectro das imagens e sons promovi- A questão da fama oscila, como escreve dos pelos novos meios de comunicação? Hanna Arendt, entre quot;uma semana de capa Um mapeamento dos objetos do cotidiano de revista ou o esplendor de um nome du- reencontra no desenho dos objetos de comu- radouroquot;. O assunto relembra a afirmação nicação, ao mesmo tempo, objetos técnicos e de Michel Foucault: quot;A gente escreve para objetos estéticos, objetos de consumo e tam- ser amadoquot;, e por outro lado, faz remontar bém de culto. A nova quot;manaquot;ou emanação à idéia dos quot;15 minutos de famaquot;, formulada cotidiana, com seus bons e maus presságios, pelo artista Andy Warhol. Hoje, a questão da se realiza através dos sistemas da telefonia e fama, da projeção e do reconhecimento, na antenas parabólicas, performatizando os no- perspectiva das redes adquirem novos con- vos estilos da vida material e mística na ci- tornos; a interatividade propiciada pela In- bersociedade. Nos jornais e revistas, no tele- www.bocc.ubi.pt
  8. 8. 8 Cláudio Cardoso de Paiva jornal e na ficção das telenovelas, nas estru- rença e o ódio, como diz Edgar Morin, são turas da vida vivida, inscrevem-se as formas dados empíricos evidentes nos dias atuais de experiência e pobreza do cotidiano. O (ontem Auschwitz e Sibéria; mais recente- simpático Tamagoshi, o bicho virtual, as es- mente, Bósnia, Iraque, África e, enfim Ko- teiras ergométricas, os controle-remotos, en- sovo). O ódio, a violência, o descaso social fim, os objetos tecnológicos, recorrendo a são ingredientes permanentes na crônica do Mc Luhan, são extensões do homem pós- Brasil: Goianobyl, Carandiru, Candelária, moderno. Relembrando Muniz Sodré, per- queimada dos índios e mendigos na cidades, tencem ao circuito das quot;máquinas de nar- massacre dos sem-terra no norte, indústria cisoquot;e, ao mesmo tempo, constituem vetores da fome no Nordeste são índices regressivos do quot;social irradiadoquot;na cidade. da Terra-Pátria em desmoronamento. São Benjamin nos desperta para contemplar o imagens do mundo em decomposição, cujos novo naquilo que contém de antigo, e trans- clichês inscritos na exibição midiática reapa- versalmente, instiga à contemplação do an- recem como projeção dos arquétipos do quot;fim tigo, como algo que atualiza a compreensão do mundoquot;. do novo. Daí, todo estereótipo consiste na O sintoma destas inquietações se expressa emanação de um arquétipo. Esta perspec- através das quot;máquinas de comunicarquot;: do tiva pode inovar e ultrapassar preconceitos: outro lado do vidro, os indivíduos ligados o clichê, o banal, o provisório têm algo a nas redes, buscam o sentido da vida num uni- nos dizer sobre a cultura emergente em re- verso que parece em declínio. A idéia de lação à sua história pregressa, assim, como felicidade na sociedade do espetáculo é efê- os objetos antigos já trazem consigo, poten- mera, as religações entre os indivíduos são cialmente, a expressão do êxtase nos objetos transitórias. Contudo, as imagens grotescas da atualidade. ou sublimes não cessam de refazer os laços sociais, aproximando indivíduos distantes no tempo e espaço; na época da Internet a feli- 6 Amor e ódio ao vivo e on line cidade está por um fio. O simbolismo e a Uma das motivações deste ensaio é repensar materialidade das relações atuais entre os in- o estilo de vida dos indivíduos nas cida- divíduos revelam estilos de experiência e co- des durante a passagem do milênio, consi- municabilidade que não podem ser ignora- derando os níveis da experiência e comu- dos. nicabilidade. Assim, encontramos trancado A ligação entre o espírito e a manifestação a sete chaves na intimidade dos condomí- material, isto interessava bastante a Walter nios fechados, o homem pós-moderno que Benjamin. Ele tinha interesse na quot;correlação se comunica com o mundo à distância; mas entre uma cena de rua, uma especulação para ele tudo está, ao mesmo tempo, longe da bolsa de valores, um poema, um pensa- e perto. A quot;condição pós-modernaquot;impõe mento... a linha oculta que reune e permite a necessidade das tecnologias de vigilân- ao historiador reconhecer que pertencem ao cia, controle e prevenção. Aids, violência, mesmo período históricoquot;. Adorno criticava vírus cibernético são aspectos do novo mal a apresentação aberta de atualidades como estar da civilização. A intolerância, a indife- Benjamin fazia; mas o autor estava inter- www.bocc.ubi.pt
  9. 9. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 9 essado em quot;capturar o retrato da História nas curso histórico. São personagens que, re- representações mais insignificantes da rea- fazendo as palavras do filósofo, quot;remon- lidadequot;. Tinha paixão pelo pequeno, pelo tam os cacos da Históriaquot;. Nas suas famo- minúsculo, paixão pelo micro. sas teses sobre filosofia da História (1940), onde se inscreve a figura do anjo, lemos que quot;a verdadeira imagem do passado per- 7 Das redes de dormir às redes passa velozquot;. Em contraste com a ativi- da imaginação criadora dade apressada nos tempos do capitalismo Como expõe Sérgio Paulo Rouanet, no en- (quando tempo é dinheiro), o quot;flanadorquot;e saio quot;As galerias do sonhoquot;, Benjamin tinha o quot;colecionadorquot;percorrem caminhos opo- afinidades eletivas com Proust, Kafka e Goe- stos ao ritmo da mercadoria, resgatando nas the. Em Proust encontra a noção de quot;remi- imagens cotidianas, as expressões de uma niscênciaquot;e quot;memória involuntáriaquot;para con- experiência de comunicabilidade. Não é difí- struir as suas alegorias do cotidiano. Em cil encontramos uma analogia entre aque- Kafka, particularmente, Benjamin espreita les personagens descritos em Paris do século as imagens dos campos em ruínas, áreas XIX e as figuras contemporâneas do quot;shop- de desastre, montes de escombros. O seu pistaquot;(o andarilho curioso dos shopping cen- interesse se volta para a realidade mani- ters), o quot;zapistaquot;(ágil manipulador do con- festa nas expressões idiomáticas da lingua- trole remoto da televisão) ou do internauta gem cotidiana. As influências que sofreu de (que quot;viajaquot;durante horas a fio na rede da In- Goethe refletem simpatia pela poética sem ternet). desprezar a filosofia (seja ela metafísica ou Benjamin se interessa pela aparência, pela dialética). Benjamin sofreu ainda influên- aparição, pelo visível, numa palavra, o que cias de Brecht e sua idéia do quot;pensamento se mostra à percepção. Isto tem conexão cruquot;, e assimilou muitas sugestões da sua com o seu conceito de quot;auraquot;: algo essencial- amada russa, Asja Lacis. A estas influên- mente religioso. Podemos apreender o seu cias irão se opor Adorno, que lhe susten- eco hoje, no contexto das mitologias con- tava em Paris com os recursos da quot;Escola de temporâneas: as imagens da publicidade, no Frankfurtquot;(transferida para Nova Iorque) e shopping center, na televisão. Pensamos a Gershom Scholem, companheiro das leituras propósito, na quot;auréolaquot;mítica que envolve teológicas; o primeiro era esquivo à estética as estrelas do cinema e da televisão. As do quot;realismo socialquot;e reprovava a sua falta imagens sublimes ou trágicas na dramatur- de quot;trabalho do conceitoquot;, o segundo, recu- gia cotidiana da televisão emanam um tipo sava as explicações materialistas. Benjamin, de visibilidade que provoca a quot;experiência entretanto, como filósofo que era, permane- de choquequot;, promovendo uma catarse junto à ceu atento a uma razão perceptiva, auditiva, percepção do telespectador. Os ídolos e per- algo próximo do que hoje Michel Maffesoli sonagens famosos nas salas de quot;bate papoquot;da chama de quot;razão sensívelquot;. Tanto o quot;fla- rede, sempre causam rebuliço. A visão, a nadorquot;, como o quot;anjo da Históriaquot;chamam aparência, a epifania das imagens do compu- atenção para uma outra percepção do per- tador criando a conexão em rede, refazendo os laços entre as tribos e sensibilidades con- www.bocc.ubi.pt
  10. 10. 10 Cláudio Cardoso de Paiva vergentes possuem algo dessa natureza es- a quot;prostitutaquot;e o quot;apachequot;são tipos sociais sencialmente mítica ou encantada. que o poeta encontra na ruas de Paris, e me Parece um paradoxo escrever sobre Ben- parecem arquétipos do quot;homem que não vi- jamin sob o signo de uma sabedoria encan- rou sucoquot;em meio às engrenagens do sis- tada (Adorno certamente não gostaria desta tema capitalista. Caminham, segundo Ben- imagem). Benjamin era dialético, e não po- jamin, num ritmo próprio. Reencontra- demos esquecer a influência exercida por mos, uma analogia da figura do quot;flanadorquot;no Gershom Scholem (e da mística judáica) so- estilo do internauta, que surfa na Inter- bre sua mentalidade; sempre fora funda- net, quot;zipandoquot;(comprimindo as informações mentalmente norteado por uma perspectiva num disquete e lhes conferindo nova signi- poética. Benjamin se orienta menos por uma ficação). Os objetos de consumo para o co- epistemologia (isto é, pela lógica científica lecionador do século XIX como hoje, para limitada por uma quot;razão abstrataquot;) e mais por o shoppista no século XX (em seu pass- uma direção estética: as percepções é que lhe eio pelas livrarias virtuais e fazendo com- são caras. Numa ligeira digressão, ocorre- pras quot;on linequot;), não indicam apenas o sin- nos pensar que para o filósofo a imagem toma de uma reificação, alienação, mer- (imago) ou melhor, a imagem acústica tem cantilização. São antes objetos de fruição um significado de alcance mais duradouro do estética, objetos de comunicação. Distinta- que a letra. No que respeita à potência das mente da lógica do burguês, os objetos para quot;imagensquot;, Walter Benjamin e o filósofo Gil- o colecionador, como para o internauta e o les Deleuze (embora em registros diferentes) shoppista, são antes elementos de paixão, possuem quot;geografias de pensamentoquot;que se emoção, devoção, do que simples instrumen- nivelam em vários pontos: não é de se estran- tos utilitários (tomemos como exemplo os har o fascínio que ambos tinham pela litera- CDs, vídeos-cassetes e games interativos que tura de Proust. se revelam como objetos de paixão dos shop- Espreitamos as possibilidades de um pro- pistas); ali, o valor diletante supera o valor de jeto estético (e ético-político) que sem re- uso. O quot;dândiquot;do século passado encontra cair nas teias de uma razão dualista, pu- a sua versão hoje, na expressão dos sujeitos desse apreender as novas tecnologias como que desprezam a televisão, mas se deleitam dispositivos que vieram para ficar e exigem numa viagem virtual pelos sites dos museus o agenciamento de novos hábitos de pensar, excêntricos e das obras raras. Encontramos falar e agir, tendo em vista as novas formas ainda os traços da quot;prostituiçãoquot;nas salas de experiência dos indivíduos e tribos urba- eróticas, que constituem experiências de sen- nas nos tempos da globalização, e de modo sualidade num contexto mercadológico, mas particular, no contexto da realidade virtual que proporcionam o usufruto das interações ou da cibercultura. prazeirosas do quot;sexo virtualquot;. Percorrendo o cenário urbano no século XIX, Benjamin, encontra em Baudelaire e seus personagens alegóricos, as pistas para pensar aquele período de passagem. Além do quot;flanadorquot;, o quot;colecionadorquot;, o quot;dândiquot;, www.bocc.ubi.pt
  11. 11. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 11 8 Indústria cultural, forma autêntica e renovada: o acesso aos si- contracultura e culturas tes consiste numa experiência do presente. O internauta coleciona amigos virtuais, como excêntricas o colecionador de Benjamin o fazia com os Hoje as salas de bate-papo da Internet diante livros e objetos de arte do passado: é uma do internauta emanam algo da ordem do mis- experiência atual que realizada com assidui- terioso, do excêntrico, vetores de uma expe- dade revela um tipo de culto; o internauta riência única e autêntica para os usuários. É tem traços do místico diante dos ídolos e certo que a quot;indústria culturalquot;mantém em imagens sagradas, o computador representa perpétuo estado de alerta as suas estratégias uma espécie de tótem contemporâneo. O de absorção, cooptação e inversão (como sentido da Internet só pode ser compreen- diagnosticara Adorno); mas o que está em dido com clareza pelos homens que encaram jogo aqui é a maneira como os usuários ade- o presente com firmeza e sem ressentimento. quam e se apropriam dos objetos, mensa- O bate-papo na Internet, o que chamam de gens, propostas, realizando experiências que quot;namoro virtualquot;, (agora, quando ainda não lhes conferem prazer. Uma viagem pela In- temos o videofone) chama a atenção pelo re- ternet oferece ao usuário sites excêntricos torno da quot;imagem acústicaquot;(imago), como que, se não surpreendem, definem os níveis no tempo forte da literatura quando a ima- de distinção das tribos que possuem alguns ginação criadora se incumbia de quot;realizarquot;os traços das experiências contraculturais dos personagens, os indivíduos, as figuras e tipos seus pais e avós dos anos 60/70. Os sites sociais. Benjamin dizia que quot;a verdade é um quot;PQPquot;, quot;Banana locaquot;ou quot;Embromation So- fenômeno acústicoquot;. Para ele quot;a verdade do cietyquot;se não têm mais o poder de chocar, objeto está em sua riqueza e estranhezaquot;em numa sociedade que já absorveu todos os gê- relação ao circuito mercadológico. Afirma neros de transgressão e demonstra simpatia ainda que quot;a verdade é um desafio às épo- face aos discursos dos jovens, apresentam in- cas em que as referências são esponjosas e tervalos de humor no circuito do consumo. flutuantesquot;, o que se aplica perfeitamente à Empiricamente, é possível catalogar tendên- nossa época de fim do século e passagem do cias de estilos e gostos distintos dos usuários milênio. da rede: salas de ecologia, esoterismo, gays, Em sua visão crítica da passagem do sé- astrologia, darks, medicina alternativa entre culo XIX, pelo viés da poesia de Baudelaire, outros compõem o repertório múltiplo e di- Benjamin realiza o seu mapeamento da ci- versificado dos internautas. Contra o típico, dade de Paris, o centro da vida cosmopolita o usual, o classificável existe doravante a e encontra nos jornais, na publicidade e nos oportunidade de escolha, fora dos padrões folhetins a matéria viva para contemplar a ci- convencionais; reside ali o lugar de exer- dade, o homem e o espírito do tempo. Ali se cício da subjetividade e de uma virtual ci- depara com a informação curta e brusca que dadania: o internauta é um cidadão virtual. concorre (e ultrapassa) o relato minucioso, A idéia pode ser antiga, mas a escolha é comedido. Seria exagero enxergar ali a pre- atualizada todos os dias, distintamente e de visão dos sites na rede de informações atual? Prestando atenção ao fluxo urbano, sem- www.bocc.ubi.pt
  12. 12. 12 Cláudio Cardoso de Paiva pre por intermédio da poética de Baudelaire, animal urbano podem ser observados no ci- Benjamin descreve os tipos humanos e so- nema e na televisão, assim como na vida quot;on ciais, meticulosamente, quot;desde o vendedor linequot;. As imagens eletrônicas e cibernéti- ambulante até o amante da óperaquot;. O passeio cas podem ser vistas como janelas para com- do quot;flanadorquot;como o do surfista da Internet, preendermos a conjunção entre o afetual e em nossos dias, funciona quot;como um remé- o emocional coletivo (ou seja, a parte de ri- dio infalível contra o tédioquot;. As galerias on- queza do ser humano), mas as quot;máquinas de tem (e hoje as salas virtuais de leitura, assim comunicarquot;também viciam: sem rádio, sem como as salas de quot;Bate Papoquot;) significam um televisão ou imagens do computador o indi- meio termo entre a casa e a rua. Como o quot;fla- víduo sofre porque então, a sua solidão res- nadorquot;, o internauta também sofre na pele o surge ampliada. A vida retorna ao estado preconceito. Uma análise dos discursos dos normal, em preto e branco (a sua parcela de internautas encontraria ali circunstâncias de pobreza). pobreza moral e intolerância , o que revela Sob outro prisma, curiosamente, como na traços de uma mentalidade excludente, cu- paisagem urbana da modernidade descrita jos efeitos podemos pressentir na rua, na mí- por Benjamin, as tribos urbanas atuais não dia eletrônica e também na comunicação quot;on se misturam na floresta da rede cibernética, linequot;. agrupam-se por afinidade, como na quot;vida realquot;. Nas redes existem sociabilidade, pre- ferências e cumplicidades como na rua vista 9 Tecnologias da comunicação e por Baudelaire e comentada por Benjamin. experiências multissensoriais Muitas falas dos internautas equivalem às Retomando o tema da quot;experiência e po- matérias noticiosas. A diferença é que, como brezaquot;concernente aos sentidos, Benjamin na literatura contemporânea, ali no ciberes- cita o filósofo alemão Georg Simmel: quot;As paço, a noção de tempo e espaço é abolida. relações humanas nas grandes cidades se dis- E se assemelha, em quase tudo à vida vi- tinguem pela preponderância da atividade vi- vida, assim como às cenas da crônica poli- sual sobre a auditiva devido aos meios de cial. Através do noticiário da rede, os indi- transporte. Antes do desenvolvimento destes víduos se ligam aos fatos como nos roman- meios não havia o confronto dos olhares no ces de Alan Poe: o quot;maníaco do parquequot;ou ônibus, no bonde, no tremquot;(e no metrô, acre- quot;o vírus Melissaquot;... tudo aparece aqui como scentaríamos). quot;Segundo Goethe, todos car- uma experiência diferente, quando a reali- regam consigo um segredoquot;. O homem con- dade, a ficção, a vida real e virtual se mi- tinua sendo uma ameaça: a idéia de encon- sturam formando aquilo que Umberto Eco trar um amigo virtual pode ser excitante, mas chama de quot;irrealidade cotidianaquot;. Não po- inspira, muitas vezes, receio. O homem vir- demos esquecer que o jornal, o rádio, a te- tual se assusta diante do homem real: a parte levisão são contemporâneos do micro: es- orgânica, a parte animal do quot;cyborgquot;o leva a tes veículos não desaparecerem da cena da se manter em estado de alerta, e por vezes, a cidade, ainda que pouco a pouco venham atacar. Os signos de fragilidade e pobreza do sendo absorvidos pelo novo veículo. Mc Luhan mostrou que cada meio de comuni- www.bocc.ubi.pt
  13. 13. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 13 cação contém potencialmente o seu meio e Meiaquot;e o quot;Sem Censuraquot;(exibido pela TV subsequente, no que respeita à sua inscrição Educativa), além do quot;Barraco MTVquot;. no percurso histórico da cultura. Na época da quot;realidade virtualquot;, encontra- Há um modo próprio de ver as coisas da mos todo um arsenal de dispositivos que em- parte do homem de vida pública domiciliado piricamente podem se prestar para um regis- na cidade. A mídia produz ou amplia uma tro de época. Como sugere Arlindo Machado quot;cultura de eventosquot;(o que implica no ín- as quot;tecnologias de vigilânciaquot;são dispositi- dice regressivo que destitui o sujeito do ato vos disciplinares forjados enquanto tecnolo- de usufruir sua própria experiência). Por gias da segurança que asseguram a ordem so- outro lado, a Internet, inegavelmente abre cial, política e econômica. São equipamen- a possibilidade do espectador intervir, par- tos que asseguram a ordem e segurança pú- ticipar do acontecimento midiático. Talvez blica; contudo, é no espaço privado que apa- o caso dos programas de debates e entrevi- recem de modo mais eficiente e são vias de stas na televisão, que mantém quot;abertoquot;um mão dupla. São inumeráveis: outrora tínha- sistema de comunicação com o público não mos a assinatura, a fotografia, a impressão seja um bom exemplo de interação porque digital na carteira de identidade; doravante, ali ainda existe uma certa diretividade so- tais dispositivos se sofisticaram: cartões de bre o diálogo. Mas, também não podemos crédito, códigos e senhas se multiplicam re- deixar de ali observar, um dispositivo po- gistrando e seguindo as pistas do quot;homem tencial de interatividade. Neste sentido, é na multidãoquot;. Uma experiência que significa exemplar o caso do telespectador que inva- segurança para aqueles que estão inseridos diu o espaço da Rede Globo, durante o pro- no mercado e um quot;alertaquot;para os excluídos grama infanto-juvenil quot;Malhaçãoquot;(exibido do processo de produção e consumo. O inter- pela Rede Globo) e quebrando o protocolo nauta (como o flanador) não se sente seguro do quot;padrão global de qualidadequot;, acusou o em seu tempo. A vida real quot;off linequot;assusta. presidente da empresa, Sr. Roberto Marinho, Os homens reais não inspiram confiança. Os de quot;traficantequot;. O esquema de proposta inte- avisos de segurança, assim como os riscos rativa permitiu um agenciamento surpreen- proliferam. Violência e insegurança são ín- dente que fugiu ao controle da emissora. O dices regressivos que atestam a pobreza da exemplo não é muito elegante, mas serve experiência dos homens do nosso tempo. O para mostrar as brechas num sistema fechado medo impera. Medo do blecaute, do bug mi- que, como explica Luiz Beltran, se marca lenar, dos vírus. Existe o luxo do correio pelo caráter de uma quot;comunicação verticalquot;, sentimental quot;on linequot;para todas as idades, onde a participação do telespectador é mí- cores, gêneros e preferências; em contrapo- nima. Em todo o caso, guardadas as reservas, sição existe o congestionamento das linhas, podemos entrever algumas formas de quot;inte- lentidão dos serviços telefônicos e alto custo ratividadequot;, ainda que de modo incipiente, na das operações. programação da TV aberta que começa a se O passeio do usuário pela Internet, como modificar depois da Internet . Relembramos a caminhada do transeunte no século XIX, a propósito, os programas quot;Jô Soares, Onze contém um efeito enebriante. Benjamin falava sobre os efeitos inebriantes do haxixe, www.bocc.ubi.pt
  14. 14. 14 Cláudio Cardoso de Paiva no sentido de experimentar outras formas não podemos ignorar o efeito performativo de percepção. Uma multidão de internau- das novas tecnologias. É chegado o mo- tas (são milhares em circulação todos os dias mento de enfrentar os novos quot;jogos de lin- pelas auto-estradas da informação) experi- guagemquot;do nosso tempo marcado pela vir- menta um tipo de ebriedade religiosa, como tualidade. É o Fim de Partida para uma o flanador ou o shoppista na grande cidade. concepção de mundo definida pela onipre- Os encontros do flanador com outros sujei- sença do mesmo. O desafio que se apre- tos, (como os encontros do internauta) são senta doravante é estabelecer um tipo uni- efêmeros, no entanto, sempre fundam um cidade (nos termos barrocos da estética de tipo de arborescência, cujas ramificações se Benjamin) que agrupe as aparentes disper- prolongam. Benjamin lembra a grande ci- sões da quot;cultura globalquot;. Arte, ciência, téc- dade como uma floresta, o que serve como nica ou política, qualquer que seja o campo metáfora para a ecologia da cibercultura. A da ação pragmática que se define como ob- propósito, Pierre Lévy fala em quot;árvores do jeto de contemplação, deve se definir em conhecimentoquot;, André Lemos, recorrendo a torno do homem em conexão com suas ex- Deleuze, fala em quot;rizomaquot;. A rede apa- tensões e vetores de sociabilidade. rece como uma imensa floresta à disposição Dentre as inúmeras imagens no plural de dos usuários, com toda a sua dimensão de Benjamin, encontramos o jovem orientado risco e fascínio. No repertório de Benja- pela idéia de iluminação mística e o Benja- min/Baudelaire, encontramos ainda o perso- min maduro, face à tirania do fascismo, que nagem do quot;apachequot;, que tem uma certa si- se norteia pelo materialismo histórico como gnificação do homem selvagem (Benjamin claridade para os tempos sombrios. As afini- tinha fascínio pela figura do índio). Este per- dades eletivas de Walter Benjamin são con- sonagem mantém um tipo de provocação e trovertidas, contudo as leituras de seus intér- rebeldia. Mas o quot;outsiderquot;na versão infor- pretes, na diversidade de suas posições fi- mática é a figura do cyberpunk, o assustador losóficas ou políticas, revelam um tipo de quot;hackerquot;: perigo em potencial, porque tem pensamento nômade (no sentido empregado o poder de disseminar o vírus no computa- por Deleuze). Atenta à concretude da expe- dor e desestabilizar todo o sistema. O bug riência na fulguração de um momento pas- do milênio e os quot;rackersquot;são as figuras terrí- sageiro, sua percepção estética atualiza o veis da realidade virtual. As intempéries do passado, lançando luzes para o futuro que se mundo natural se refazem hoje nas redes. tornou presente: Hoje, às vesperas de um novo milênio, quando o tempo é transformado pela velo- 10 Fim de partida cidade, reencontramos o Benjamin pensador O que há de sólido no debate intelectual con- do instante. A sua idéia de tratar o antigo temporâneo é a constatação de que as novas como se fosse novo e o novo como expressão quot;máquinas de comunicarquot;modificaram com- do antigo é algo estimulante e animador: pletamente as estruturas da vida cotidiana; Primeiro porque instiga a pensar a outra para além da ciberfilia ou ciberfobia dos con- face, a diferença, naquilo que parece apenas temporâneos todos parecem de acordo que clonagem e repetição; depois porque a pas- www.bocc.ubi.pt
  15. 15. Walter Benjamin e a imaginação cibernética 15 sagem recíproca entre o antigo e o novo re- contemporâneas. Rio de Janeiro: Ed. vela um espírito comunitário que agrega in- Forense Universitária, 1988. divíduos isolados no tempo e espaço e, final- mente, porque encontra naquilo que parecia MAFFESOLI, M. O fundo das aparências, morte e melancolia, expressões da experiên- Por uma ética da estética, Petrópolis, cia e comunicabilidade, sinais do vitalismo e Vozes, 1996. instantes de felicidade. MAFFESOLI, M. Elogio da razão sensível. Petrópolis, Vozes, 1999. 11 Bibliografia MERQUIOR, J.G. Arte e sociedade em ARENDT, H. quot;Benjamin (1892-1940)quot;in Adorno, Benjamin e Marcuse. Rio de ___ Homens em tempos sombrios. S. Janeiro: Tempo Brasileiro, 1965. Paulo, Companhia das Letras, 1987. PARENTE, A. (Org.) Imagem-Máquina. S. BENJAMIN, HABERMAS, HORKHEI- Paulo, Editora 34, 1991. MER, ADORNO. Col. Os Pensadores. S. Paulo: Abril Cultural, 1983. ROUANET, S.P. quot;Benjamin, o falso irracio- nalistaquot;e quot;As galerias do sonhoquot;in ___ GAGNEBIN, J.M. Walter Benjamin. S. As razões do iluminismo. S. Paulo: Paulo: Brasiliense, 1982. Companhia das Letras, 1987. KOTHE, F. (Org.) Walter Benjamin. Socio- ROUANET, S.P. O édipo e o anjo, Inti- logia. S.Paulo: Editora Ática, 1985. nerários freudianos em Walter Benja- min. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, LEMOS, A. As estruturas antropológi- 1981. cas da cibercultura. Texto quot;On linequot;www.facom.ufba.br/pesq/cyber/le SCHOLEM, G. Benjamin et son ange. Paris: mos/artigos Rivages Poche, 1995. LÉVY, P. As tecnologias da inteligência. S. SONTAG, S. Sob o signo de saturno. Porto Paulo: Ed. 34, 1993. Alegre: Editora L&PM, 1987. LÉVY, P. O que é o virtual. S.Paulo: Editora WALTER BENJAMIN. Obras Escolhidas, 34, 1995. Vol. I Arte, técnica, Ciência e Política. S. Paulo, Brasiliense, 1985; Vol. III LÉVY, P. Inteligência coletiva. S. Paulo: Charles Baudelaire, Um lírico no auge Nobel, 1998. do capitalismo S. Paulo: Brasiliense, LÉVY, P. A Cibercultura. S. Paulo: Ed. 34, 1989. 1999. ZAIDAN, M. Razão e História. Brasília: MAFFESOLI, M. O tempo das tribos, O de- Editora Pindorama/UnB, 1988. clínio do individualismo na sociedades www.bocc.ubi.pt

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