Livro Contos Selecionados 2012

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Coletânea dos contos vencedores do Concurso de contos Cidade de Araçatuba - 2012

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Livro Contos Selecionados 2012

  1. 1. 1
  2. 2. Copyright © vários autores Edição e revisão: Hélio Consolaro Capa: Simone Leite Gava Editoração gráfica: Arlen Pontes CTP e Impressão: Editora Somos - (18) 3636.7790 Secretaria Municipal da Cultura Rua Anita Garibaldi, 75 - CEP 16010-280 Araçatuba - SP www.secretariacult@gmail.com - (18) 3636.1270Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Contos selecionados 2012. -- 1. ed. -- Araçatuba, SP : Editora Somos, 2012. Vários autores. “25º Concurso de Contos Cidade de Araçatuba”. ISBN: 978-85-60886-55-5 1. Contos brasileiros - Coletâneas. 12-10979 CDD-869.9308Índices para catálogo sistemático: 1. Contos : Coletâneas : Literatura brasileira 869.9308
  3. 3. Vários autores Contosselecionados 2012 Araçatuba, 2012
  4. 4. PrefácioO tradicional Concurso de Contos Cidade de Araçatuba, mais uma vez nos presenteou com histórias surpreendentes e com a satisfa- ção de ler textos de abrangência territorial: desde 2011, além doscontos regionais e de nível nacional, o concurso estendeu-se para as terrasestrangeiras que têm como sua língua, a portuguesa. Em meio aos mais deseiscentos contos recebidos, entramos em contato com belas produções lite-rárias, pois desse concurso participaram excelentes escritores, o que maiseleva o evento araçatubense. O trabalho de leitura e seleção de textos é árduo. Porém, para os quefazem da leitura um ato prazeroso, o contato com a diversidade regional,nacional e internacional passa a ser mais um processo de enriquecimentocultural. Pela amplitude de vocabulário e abundância de construções parase escrever os pensamentos, a Língua Portuguesa é um rico instrumento detrabalho. Assim, dentro de seu universo vocabular, seu estilo, seu conheci-mento sobre as técnicas de se escrever um conto e o domínio da língua pá-tria, suas vivências, suas leituras de mundo e sua criatividade, cada autorcolaborou com o sucesso deste concurso de 2012. Os contos apresentados enfocaram ângulos diferenciados da expe-riência humana, sintetizando costumes, mitos, sentimentos; também di-versificando linguagens, lugares, tempo, situações, e, às vezes, até mesmomexendo com as máscaras das tragédias, das comédias, dos dramas, oraapresentando-os como realmente são, ora manipulando-os ao bel-prazerdo autor. Os contos nacionais e estrangeiros apresentaram-se como o espera-do: uns surpreenderam pelo enredo, outros pela construção literária, outrospela simplicidade e infinitos fatores de fundo e forma. Destacaram-se, porém, os contos regionais interioranos, mesclados4
  5. 5. de coisas da nossa terra, da nossa história. Concluímos que a nossa lite-ratura, antes chamada interiorana, caminha a extensos passos para umaprodução que merece reconhecimento nacional. E assim, entregamos a você, que aprecia a boa leitura, este livro quetraz os contos premiados e outros selecionados entre os melhores. Espera-mos que esse ler seja um incentivo para que nossa cultura se expanda e sefaça com a alegria de viver no mundo dos contos aqui apresentados. Marilurdes Martins Campezi Membro da comissão julgadora Vencedora da 1.ª edição do concurso Escritora da Academia Araçatubense de Letras 5
  6. 6. Índice Categoria internacional1.º lugar - IntermezzoLiliana S. Ribeiro - Leça da Palmeira – Portugal............................................... 102.º lugar - HamelinMiguel Cruz Fernandes - Lisboa - Portugal...................................................... 133.º lugar - Morder-me os sonhosValentina Silva Ferreira - Ilha da Madeira – Portugal......................................... 22a) Menção honrosa - A bola LolaAna Rita Santos Brandão – S. João da Madeira – Portugal............................... 29b) Menção honrosa - O peixe encantadoVictor Manuel Capela Batista - Barreiro – Portugal........................................... 30c) Menção honrosa - O saberDinis Reis Subtil Muacho - Avis – Portugal....................................................... 35d) Menção honrosa - O vale dos sentimentosUmoi Melo de Souza - Parede – Portugal....................................................... 39e) Menção honrosa - Uma dependência invulgarAntônio Carloto - Lousã – Portugal.................................................................. 466
  7. 7. Categoria nacional1.º lugar - A sestaSuzana Maggioni Bertuol - Farroupilha – RS................................................... 542.º lugar - O amor no tempo da solidãoCláudia Albers Avóglio - Pirassununga – SP..................................................... 573.º lugar - O ovoSara Meinard Begname - Mariana – MG......................................................... 60a) Menção honrosa - A árvoreRafael Vieira da Cal - Cachambi – RJ............................................................. 63b) Menção honrosa - Duas cruzesCândido Brasil - Cachoeirinha – RS................................................................ 66c) Menção honrosa - Em braileÉder Rodrigues - Belo Horizonte – MG............................................................ 68d) Menção honrosa - O lamento de IngridAlex Sens Fuziy - Delfim Moreira – MG........................................................... 72e) Menção honrosa - Passa azeite, se não racha!Arnaldo Devianna - Sete Lagoas – MG............................................................ 77 7
  8. 8. Categoria regional1.º lugar - LussanviraFrancisco Carlos Pereira - Araçatuba-SP......................................................... 832.º lugar - O beijo da serpenteRita Lavoyer – Araçatuba-SP......................................................................... 873.º lugar - O loiro e o “Ouro Negro”Larissa Firmo Alves Marzinek - Araçatuba – SP.............................................. 94a) Menção honrosa – IluminadosJúnior Viana – Araçatuba- SP...................................................................... 101b) Menção honrosa – IncondicionalLaís Simone Sandrigo - Birigui-SP................................................................ 104c) Menção honrosa – O milagrePaulo Coelho - Araçatuba-SP........................................................................ 111d) Menção honrosa – Uma história de grilagemAdemar Bispo da Silva - Araçatuba-SP........................................................ 116e) Menção honrosa - Vidas MortasMarcelo Otávio de Souza - Birigui-SP.......................................................... 121 Contos da comissão julgadoraTio LucasMário César Rodrigues – Araçatuba - SP....................................................... 126Um urso à minha mesaEmília Goulart – Araçatua - SP...................................................................... 1288
  9. 9. Categoriainternacional 9
  10. 10. IntermezzoLiliana S. Ribeiro* - 1.º lugar – categoria internacionalLeça da Palmeira - PortugalA vó? A neta entrou no quarto. Passos lentos e bicudos. Pousou a mão na pa- rede. Certificou-se de que o seu peso era mínimo. A janela entreabertadeixava passar a luz do fim de tarde. A janela paralela à cama, ao lado, a mesa decabeceira, um copo de água, um relógio. A cômoda em linha reta dispondo assi-metricamente os guarda-joias, um retrato e um candeeiro. A toda a volta, o papelde parede cinzento. Cheirava a naftalina e aquele cheiro trazia movimento como seavó andasse pelo corredor, de rosário no bolso a cumprir uma prece. Avó? A neta chamou baixo. Mais uma vez pensou que ela tinha morrido. O corpo quieto, as pernasestopadas por não se conseguirem mexer já. Avó? Estás a ouvir-me? Os braços da avó saíam da dobra vincada do lençol amarelo. A neta sentou--se na beira da cama. Começou a entreter os dedos no casaco, fazendo crer aquem passava que estava ciente das mãos, ciente de que não queria assomar àssuas as mãos da avó. Mas queria, queria muito. Conteve-se no gesto. A neta observou aquele corpo ali despojado. Um movimento, uma respiraçãolenta e quase rala. A avó declinou a cabeça em direção à neta, foi um acento muito bre-ve. Uns espasmos de olhos que se mantiveram fechados. Não era quase nada já. Poucose manifestava, não denunciava a dor. Era uma ideia que balouçava em si. Um pêndulo. Os cabelos da avó surgiam brancos, de uma cor só. Era a velhice e o can-saço do pelo. A avó mantinha-se viva naquela cama há muito tempo e entretanto aneta já tinha dobrado a esquina para adolescência. O corpo crescia como uma plan-ta em busca do seu ar. O corpo maior que ela própria. Tratavam-na como mais velha10
  11. 11. e isso era coisa boa. Enganava os olhares de quem a via. Crescia como se corresse. Avó, hoje comi peixe ao almoço. Um peixe gordo e com um olho caído parafora do prato. A mãe disse que se chamava dourada. Comi peixe dourado com umolho preto caído para fora do prato. Um olho preto e vivo. Como aquelas mulheresda televisão que olham acertadamente para o ecrã. A mãe diz que é maquilhagem.Um traço preto que rasga a visão e torna os olhos maiores do que o que são.Mulheres-peixes-douradas. Um dia vou ser como elas e ver de olhos grandes. A avó respirava rasteira. As pálpebras pousadas. A neta encostou o ouvidoao seu peito. Ouviu-lhe o coração, deixou-se ficar. Sentiu o seu corpo aquecer,havia calor entre elas. Deixou-se ficar e roubar aquele afeto para si. O rio Tâmegaentrava escuro no quarto, algum lodo. As duas, corpo contra corpo, protegendo-separa não se afundarem. À volta, as tardes quentes à beira-rio. Os trilhos repassa-dos. O sol alto, a casa no giestal muda e fechada. O terreiro, a cadeira vazia domarido onde a morte o apanhou sentado. Os filhos deixados à vida como se da vidafossem. Deus enorme cantando-lhe e fazendo as uvas amadurecer. Um outro abraço, corpo contra corpo, passando a memória para não se afundarem. Deixa a tua avó. Fazes peso. Disse a mãe passando no corredor. A mãe circunspeta, doméstica e confor-mada. A mãe filha avisando a filha. A mãe sem maquilhagem. A filha sentiu algum embaraço por ter sido apanhada desprevenida e cedidano peito da avó. O rio Tâmega esvaziou, algumas ervas definhavam juntamentecom o pasto. A avó recolhia as cabras de volta à corte. O sol ao longe. O regresso àcasa fria, sem mãe e sem pai. A casa sem comida. A avó pequena e criança de pésatados à cama para contrariar a fome e a morder os braços para calar os gritos. Aavó saltando da janela, a correr pelos sobreiros, a avó do tamanho do grito a gritara fome calada. A neta deixou-se ficar. Peso vivo sobre peso morto. Avó… ouço passos de noite. És tu pela casa? Eram passos breves e arrastados. Por vezes, assustavam-na. Mantinha-seatenta para saber onde iam. Não gostava de ser surpreendida no escuro. Sentava-se 11
  12. 12. na cama à escuta. Deveria ser a morte. A morte com avó ao colo, ou ao contrário.Se não fosse tão nova, talvez não se deixasse vencer com estes truques onomato-peicos. Havia algum medo e sobretudo respeito por esses passos serem a delicadaanunciação de que a sua avó partiria. Queria ver a procissão passar. Estar preparadaera o que melhor fazia. Horas sem conta de olhos pretos abertos no escuro. As tias dizem que temos as mãos parecidas. Saíste à avó, estão sempre adizer. Saíste à avó. Nem pai, nem mãe. De onde saí, avó? E como se volta ao lugarde onde se saiu se o lugar deixar de existir? Será que vou ser uma mulher-peixe--dourada sem olhos, avó? Um declínio de cabeça como início da juventude. Nenhuma resposta. Acama oblíqua ao encontro delas. A neta com a vida por fazer. Vai lá para fora. A mãe chegou à porta. Panelas suspensas na mão, pano da loiça em busto,dedos torcidos ao detergente e à lixívia. Mãe sem maquilhagem, olho azul fora doprato. Talvez as coisas precisem de estar quietas para morrer. As três, sucessivas, imóveis por breves momentos. A rapariga entre elascomo um trecho menor desafinado. A filha recolhia o gesto do peito, o coração trazido às mãos. Olhava aspálpebras pousadas, descobria-lhe os olhos por baixo. Olhos como berlindes parajogarem a infância. Ali, aquela mulher pausada e paciente era uma falsa trajetória.Um falso afeto, uma falsa salvação. Um avô velho na infância é uma aproximação precoce à morte. A mãe repassando no corredor. A neta apertou a mão desenformada da avó. Um beijo à face e saiu pé antepé com medo de chamar a morte. Sentia-se quieta por dentro, muito quieta.*Liliana S. Ribeiro, Portugal , Leça da Palmeia, 33 anos, psicóloga, trabalha na SociedadePortuguesa de Psicodrama. Dinamiza o blog: www.ascoisasimperfeitas.com. Já participou devárias antologias e participa de concursos literários. E-mail: liliana.silva.ribeiro@gmail.com12
  13. 13. HamelinMiguel Cruz Fernandes* – 2.º lugar – categoria internacionalLisboa, Portugal «Anno 1284 am dage Johannis et Pauli war der 26. Junii Dorch einen pi-per mit allerlei farve bekledet gewesen CXXX kinder verledet binnen Hamelengebo[re]n to calvarie bi den koppen verloren»1 1 «No ano de 1284, no dia de São João e São Paulo, a 26 de junho, 130crianças nascidas em Hamelin foram seduzidas por um flautista, vestido de todosos tipos de cor, e perderam-se no lugar da execução, perto de koppen.» Manuscrito de Lüneburg, c. 1440-50O comboio começou a abrandar. Um jovem de vinte anos ia sentado, numa das últimas carruagens, a ler um livro com aspeto notavelmente velho. À sua direita encontrava-se um senhor com o cabelo muito branco e os olhosde um azul impressionantemente claro. Lia o jornal. À sua frente uma senhora demeia-idade, muito loira, que ia a dormir. O jovem destoava um pouco do ambiente,bem germânico, que o rodeava. Chamava-se Afonso. Era moreno, magro e alto. Estava com um cachecole dois ou três casacos vestidos. O livro que trazia era um volume dos contos dosirmãos Grimm, e durante a viagem já lera várias vezes o mesmo conto. Por vezesinterrompia e contemplava a vista. Passava-se por paisagens deslumbrantes, na-quele comboio. Ouviu-se o apito, e o comboio parou. Tinham chegado a Hamelin. Ao sair daestação, inseriu a mão direita no bolso e após remexer bastante, retirou um papelalgo amachucado com uma morada escrita. Depois de ter perguntado a um políciaqual seria o melhor caminho para lá, seguiu as suas indicações. Daí as uns minutos encontrava-se perante uma livraria com aspeto pito-resco. Uma porta de madeira velha, vidraças incrivelmente sujas, e um letreiroamarelado que dizia: “Antiquariat Peters”. Entrou, fazendo soar a campaínha delatão. A livraria, ou alfarrabista, não era muito grande, mas as paredes estavamcobertas de livros de alto a baixo, muitos deles visivelmente antigos. Havia também 13
  14. 14. várias estantes altas e bem recheadas. Dentro da loja, estavam só três pessoas: umsujeito alto e macilento, encostado a uma estante a folhear um livro de História, umsenhor baixinho, completamente calvo claramente à procura de algo nas prateleiras do fundo, e o próprio alfarrabista, por detrás do balcão,com os seus óculos grossos na ponta do nariz a ler atentamente um volume detamanho considerável com capa dura. Afonso dirigiu-se precisamente a este último, o Sr. Peters. – Sr. Peters, como está? – disse Afonso – sabe quem sou eu? – O rapaz português que ligou há dias? – Ora nem mais. O Sr. Peters esboçou um sorriso bem grande, e estendeu o braço dando umaperto de mão forte a Afonso. E Afonso, que nem conhecia bem o Sr. Peters, sentiuimediatamente uma grande simpatia pelo homem. Que cortesia, que amabilidade...O Sr. Peters devia ser com certeza uma pessoa fascinante. Devia saber muito:afinal, passava a vida a ler e a aconselhar livros, devia ser também muito paciente,e agora notava-se que era uma pessoa alegre, simpática, afável, bem ao contráriodo que Afonso esperava. Ele preparava-se para enfrentar um homem sábio, semdúvida, mas carrancudo, amargo. A verdade é que esta não era uma expectativabem fundamentada, mas antes um preconceito errado sobre o povo alemão. – Venha comigo. – disse Peters, e abriu uma portinhola que havia por detrásdo balcão. Entraram para uma sala pequena, escassamente mobilada, muitas pilhasde livros no chão, duas poltronas, e uma mesinha redonda. – Esteja à vontade. – disse o alfarrabista – Quer tomar alguma coisa? – Ah, não se preocupe, Sr. Peters. Estou ótimo. – Muito bem... vamos já direitos ao assunto? Terei todo o gosto em ajudá-lo. – Oh muito obrigado, Sr. Peters – após uns breves instantes de silêncio,para saber por onde começaria, Afonso iniciou a explicação do motivo da sua visita– Ahh... eu... o meu nome é Afonso, tenho uma paixão pela Literatura, e já conseguipublicar alguns poemas em jornais, mas o que é fato, é que não sou ainda... enfim... propriamentefamoso no meu país. Recentemente, enquanto procurava inspiração, resolvi leruns contos dos irmãos Grimm, e parei no famoso conto do flautista de Hamelin.Encantou-me a história. Achei-a muito curiosa... A versão que ouvira quando erapequeno era bastante mais inocente, e a original parece ser... Cruel, não é? Uma14
  15. 15. praga de ratazanas ataca a cidade de Hamelin, e surge um homem misterioso quepromete salvar a cidade da praga por troca de uma certa quantia. Mas quandoacaba de matar todas as ratazanas, graças àquela flauta mágica, os homens nãopagam o prometido. Então, como vingança, leva todas as crianças para a montanhae nunca ninguém mais as vê. Bem.. exceto uma criança coxa que ficou para trás.O que também é terrível. É deixado um para trás. – Não só um. Na história verdadeira, ficaram três crianças para trás, umcoxo, um cego e um surdo-mudo. É impressionante. Mas não acha justo? – Como? De modo nenhum. Como não lhe pagam uns quantos xelins, leva--lhes todas as crianças? Ainda por cima, com certeza, não precisava do dinheiro,já que era mágico... – Ora, precisamente, não precisava do dinheiro! E por isso quis dar umalição aos cidadãos. Uma lição que eles precisavam de receber. – Mas as crianças! Que culpa tinham? – perguntou Afonso. – As crianças? Não se lembra do que lhes aconteceu? Ao chegarem à mon-tanha, conduzidas pelo flautista e pelo som mágico da sua flauta, abriu-se umarocha, e dentro da caverna surgiu uma paisagem maravilhosa, com prados verde-jantes, rios transparentes, um sol esplêndido. Fosse o que fosse aquilo, acho queaí ficaram melhor do que numa cidade habitada por hipócritas. – comentou o Sr.Peters – enfim... Mas com isto desviamo-nos do assunto. Interessou-se pelo conto,e depois? – Depois... ora, esse interesse levou-me a querer reescrever o conto. Equando comecei a investigar sobre Hamelin e as raízes históricas do conto, tive aideia, uma estupenda ideia, de fazer uma viagem até cá, o cenário real aonde se teria passado o enredooriginal, para tentar imaginar melhor a cena toda. – Muito interessante, a sua ideia. Mas... porque veio ter comigo? – Bem, como alfarrabista, pensei que talvez fosse a pessoa indicada parame ajudar a conhecer a cidade – disse Afonso – e sobretudo, a montanha. Devesaber imenso... Mas Peters não ligou ao elogio de Afonso: – A montanha... A montanha... Sabe, não sou a pessoa ideal para o ajudar.Posso apenas dizer que em primeiro lugar, a história do flautista de Hamelin podeter sido mais real do que pensa. Em segundo lugar, a montanha é um lugar temidonesta terra: terá dificuldade em arranjar guia. Finalmente, tenho a dizer-lhe que a 15
  16. 16. cidade está muito diferente do que era no século treze. Para o que pretende, basta--lhe visitar a igreja. Não há muito mais da época. E a igreja é muito bonita. – Muito obrigado. – Ah. Tenho um amigo que o poderá ajudar. Ele gosta muito de ler, comoeu, e sabe muito sobre as histórias e lendas da região. Com certeza saberá maisdo que eu sobre o flautista. Chama-se Clemens Schulz. A morada... tem algumpapel? – levantou-se e retirou um pedaço papel de dentro de um daqueles livrosque enchiam a sala. – Aqui tem. – disse, escrevendo a morada no papel com umacaneta de tinta permanente, e entregando-o a Afonso. – Muito obrigado. – agradeceu Afonso, levantando-se. – Ora essa – disse Peters, abrindo a porta – tenha cuidado, rapaz. Quandotiver escrito o seu conto, envie para cá. Terei todo o gosto em lê-lo! – Muito agradecido, Sr. Peters. E com um aperto de mão, Afonso saiu da loja. Visitou de seguida a igreja. Era grande e bonita, mas simples. Um grandeórgão de tubos que impunha respeito. Tentou imaginar-se naquela igreja séculosatrás. Dia 26 de junho de 1284. Os adultos de Hamelin estariam assistindo ali àmissa de S. Pedro e S. João, que seria, com certeza, um belíssima celebração, comincenso e canto gregoriano. Ainda se parecia sentir o ecoar do canto e do órgãonaquelas paredes pétreas. Mas ao mesmo tempo que os adultos aí estavam, entra-va na cidade um sujeito alto e magro, com um sorriso no rosto, e vestido de umamaneira invulgar. Traria nas mãos uma pequena flauta. Talvez algumas criançasque estivessem a brincar na rua o tenham reconhecido imediatamente como sendoo flautista que os tinha libertado dos ratos... É então que ele eleva a flauta à bocae começa a soprar. Primeiro baixinho, e depois, gradualmente, cada vez mais alto.E tocaria uma música alegre, e ritmada. As crianças sentem-se irresistivelmenteatraídas por aquele som poderoso e começam a correr e a saltitar atrás do flautista.Mas o encantamento era ainda superior ao dos ratos. Porque desta vez, nenhumadulto pôde ouvir o som mágico da flauta. Um desfile com cento e trinta crianças, atranspirar alegria, e a afastarem-se da cidade, em direção à montanha... E Afonsoimaginou o que teriam sentido as pessoas ao saírem da igreja. O que teriam cho-rado amargamente as famílias. Que desgraça esta. Quanto tempo terá demoradoa ganhar alguma alegria aquela cidade? Durante quanto tempo esteve de luto? Erauma história triste, mas não deixava de fascinar Afonso. Seguidamente deu uma volta pela cidade, mas não se quis demorar muito.16
  17. 17. De alguns pontos via-se a montanha, não era demasiado alta, mas ostentava umacerta majestade, e parecia atraí-lo com alguma força. Dirigiu-se para a casa doamigo do alfarrabista, o Sr. Clemens Schulz. Esta era uma pequena moradia, já um pouco isolada, e perto da floresta queantecedia a montanha. Daqui a montanha parecia mais grandiosa. Já começava aentardecer, e Afonso tinha dúvidas se partia para a montanha ainda naquela tarde,ou se esperava pelo dia seguinte. Mas ele queria explorá-la. E esse desejo parecia estar a ganharcada vez mais força. Parecia que havia um ímã a puxá-lo para lá, sentia uma ânsiade aventura crescente. Bateu à porta e abriu-a um velhote francamente baixo, e gordo, meio-care-ca. Afonso imediatamente, com um sorriso, disse: – Boa noite. Estive há pouco na livraria do seu amigo, o Sr. Peters, e elefalou-me de si. Disse-me que saberia com certeza de coisas sobre o famoso contoO Flautista de Hamelin. – Disse? – perguntou Clemens, e soltou uma gargalhada – entre. Sei, sim. Sem dúvida, que este senhor era também uma pessoa encantadora, à se-melhança do amigo Peters. Que terra extraordinária que era Hamelin. Afonso esta-va estupefato. Trazia mesmo uma ideia errada em relação aos alemães... – Muito obrigado – disse Afonso. Clemens conduziu Afonso para uma pequena sala de estar muito acolhedo-ra. Um sofá e uma poltrona voltados para uma lareira acesa. A sala estava escura,iluminada apenas pela luz quente do fogo. O crepitar da madeira era para Afonso,muito agradável. – Sente-se, homem! – exclamou o velho Clemens – Tenho chá. Vai querer? – Pode ser, muito obrigado. – respondeu Afonso. – Temos a casa por nossa conta, por isso esteja à vontade! – disse Cle-mens, entregando uma chávena de chá a Afonso – Quer açúcar? – Não muito obrigado, Sr. Clemens. – respondeu Afonso, um pouco surpre-endido com toda aquela hospitalidade. – A minha mulher está fora, foi internada anteontem, imagine. – disse Cle-mens, sentando-se – Mas o médico diz que não é grave, e que em princípio depoisde amanhã estará cá em casa. – Que chatice – comentou Afonso, sem saber bem o que haveria de repon-der. 17
  18. 18. – Enfim, pergunte lá o que tem a perguntar! Então, Afonso contou todas as circunstâncias que o haviam levado até ali,de forma semelhante à de como tinha contado a Peters. Chegando ao fim, Clemenscomentou: – Aquela flauta, rapaz, aquela flauta... o som que produzia devia ser ter-rivelmente... terrível! É inimaginável. Todos os ratos que o ouviram morreram. Etodas as crianças que o ouviram ficaram profundamente afetadas. Só sobreviveuum cego, um coxo... – E um surdo-mudo. – interrompeu Afonso. – Sabe o que lhes aconteceu? – Não. – Os três regressaram à cidade. O surdo-mudo cresceu e tornou-se o sa-cristão da igreja. Foi sacristão até morrer, e morreu velho. Tinha seguido os outrospor curiosidade, mas não tinha ouvido a flauta, de modo que continuou a sua vida,para a frente. – E os outros dois? – perguntou Afonso. – Passado poucos meses desde o acontecimento, numa noite, o cego e ocoxo fugiram juntos das suas casas e dirigiram-se à montanha. O coxo conduziu ocego. Diz-se que a dada altura se separaram, e o cego perdeu-se, e nunca mais foivisto. – Clemens fez uma pausa e suspirou – Já o coxo, continuou a procurar a gru-ta e os companheiros durante anos e anos. Diz-se que viveu na montanha duranteséculos, que a sua vontade inflexível e a sua esperança inestinguível o mantinhamvivo. E há quem diga que ele ainda vive. – Ninguém os foi lá procurar? Não houve buscas? – Não... Para as pessoas, a montanha tornou-se um local amaldiçoado.Toda a espécie de lendas foram surgindo. Havia quem dissesse que se ouviam osrisos e o canto das crianças, havia quem jurasse ter visto um velho coxo a vaguearpor entre as rochas. Não. Uma sombra de morte cobriu esta montanha. Poucagente se aventura a sair da estrada. – Ainda hoje? * Miguel José da Fontoura da Cruz Fernandes – A montanha deixou uma ferida demasiado profunda em Hamelin. E estasferidas não se saram nem com séculos. Fez-se uma pausa. Afonso olhava pela janela, e via a montanha alta e bela.18
  19. 19. Tinha, de fato, algo de sinistro. E nesse momento, de forma singular, apoderou-sedele um desejo irreprimível de aventura, mais forte do que todos os anteriores. Foicomo que instantâneo. E impelido por esse impulso, levantou-se e disse: – Pois eu vou para lá. – Quando? – Agora. – afirmou resolutamente Afonso. – Mas já é tarde. – Eu sei. Mas quero mesmo ir. Ela chama-me. – disse, olhando mais umavez pela janela. – Não faça isso. – Clemens levantou-se, olhando à volta – Se quiser podedormir aqui. A casa é pequena, mas tenho espaço para si. – Agradeço-lhe muito, mas a minha decisão é final. Vou para lá já. – Não tem medo? – Não. Eu vim a Hamelin para isto. Só sairei de Hamelin depois de conhecera montanha. – Agasalhe-se bem, então. – fez uma pausa – admiro a sua coragem. – Boa noite, e muitíssimo obrigado. – Boa sorte. – disse o velho Clemens, olhando fixamente para Afonso efranzindo a testa – que os santos o acompanhem. Afonso saiu da casa, deixando a chávena a meio, e iniciou a caminhada.Rapidamente a estrada começou a subir, e a expedição a tornar-se cansativa. Maso desejo que o guiava era mais forte que a sede, o cansaço e o frio. A noite estavafria, e havia pouco luar. As estrelas não se viam por causa das nuvens. À medidaque ia ganhando cota, havia cada vez mais vento, e a estrada tornava-se maisinclinada. A estrada estava rodeada de árvores, que rangiam sempre que surgia umarajada mais forte. Mas Afonso não sentia medo e prosseguia. Não lhe parecia loucoaquilo que estava a fazer. Ele era um aventureiro. Era um artista. Sabia apreciar asolidão e a escuridão. Passaram horas de caminhada. Abriram-se um pouco as nuvens, deixandoa lua espreitar. Era um espetáculo digno de se ver. Agora, já havia muito poucasárvores, e cada vez mais rochas salpicadas com arbustos e vegetação rasteira. Começava também a notar-se que a aparência era um pouco enganadoraquando vista da cidade: a montanha parecia mais alta do que era na realidade. Pornão ser assim tão alta, talvez nem se devesse chamar montanha. Era, na opinião 19
  20. 20. de Afonso antes um monte, um monte alto, mas a terminologia pouco importava. Oque lhe importava mais era a beleza e a grandiosidade. Começou a trepar rochas e a abrir caminho entre os arbustos. E cerca deuma hora depois, abrandou e pôs-se à procura de um local alto, onde se podessesentar a contemplar a vista. Na quietude do monte, completamente só, Afonso sentiu-se insignificante,dada a sua pequenez perante a imponência das rochas que se erguiam para o céuescuro. Ao fundo, no meio da escuridão, distinguiam-se as luzes da cidade de Ha-melin. Ali em cima, enfrentando o vento, Afonso quis subir ainda mais, e sentou-sesobre uma pedra muito elevada como que sobre o vazio. Sentou-se e contemplou.Nenhum pensamento inoportuno conseguiu interromper aqueles momentos depura experiência estética. Não havia palavra para descrever tudo aquilo. Um vento frio e cortante soprava fortemente, tentando derrubar Afonso, masele não sentiu nem um pouco a baixa temperatura. Repentinamente, o vento ces-sou. E caiu sobre a montanha um profundo silêncio. E Afonso quis ouvir o silêncio. Podem ter passado minutos, talvez horas. Para Afonso, o tempo que passoufoi algo indescritível. Por um lado pareceu-lhe um instante, por outro, pareceu-lheter passado a eternidade inteira à frente. Muito lentamente, de forma gradual, a quietudefoi-se diluindo, mas o sabor de perpetuidade manteve-se. Afonso demorou muito aaperceber-se. Um zumbido distante e contínuo, um som quase inaudível começouemergir do silêncio, e foi ganhando força, até envolver Afonso completamente. Eraum som estranho. Agudo, semelhante a uma voz cristalina, mas ao mesmo tempomuito pouco humano. Entranhava-se na pedra e na vegetação, e fazia tudo vibrarvagarosamente. Trazia consigo uma poderosa nostalgia, transpirava amargura, masparadoxalmente parecia ao mesmo tempo produzir uma alegria louca. Um miste-rioso gozo começou a apoderar-se de Afonso, à medida que o som se tornava maispercetível. Quase sem notar, levantou-se e pôs-se de pé sobre a pedra. O seu olharfixou o infinito. Agora ia além do horizonte, ultrapassava as nuvens e as estrelas,percorria o Universo inteiro, e prolongava-se indefinidamente. E o som continuou acrescer e a crescer. Era o som de uma flauta. Mas que flauta... Desceu a rocha edeixou-se conduzir por ele. Parecia estar a ser puxado cada vez com mais força, edocilmente correspondia. Desceu mais, e seguiu por entre as pedras e os arbustos.Começou a correr. Não sabia para onde se dirigia, mas não tinha dúvidas de que20
  21. 21. estava a ir para o destino certo. Foi então que, quando aquele singular ruído atingiuum auge de esplendor, Afonso estacou. O som desvaneceu-se instantaneamente.À sua frente erguia-se um fissura profunda na rocha. Dentro dela era tudo trevas. Sem qualquer espécie de medo, Afonso mergulhou na escuridão. Encontra-ra aquilo que procurava. Fez-se silêncio no monte. Lá em baixo, no limiar da cidade, Clemens olhava pela janela e via a mon-tanha. Estava a sorrir, e notavam-se lágrimas nas bochechas. Virou-se de costas e coxeando, ele era coxo, foi-se deitar.* Miguel José da Fontoura da Cruz Fernandes nasceu em Lisboa, Portugal, 19 anos. Des-de pequeno estuda música, e também pinta e desenha. Há três ou quatro anos descobriua escrita, e atualmente escreve contos. E-mail: miguelcruzf@gmail.com 21
  22. 22. Morder-me os sonhosValentina Silva Ferreira* - 3.º lugar – categoria internacionalFunchal, Ilha da Madeira – PortugalM aio de 2003 Todos me olham por debaixo de um ponto de interrogação. Como se fosse errado estar aqui, no funeral do meu marido. As pessoas dispõem-se àvolta do buraco. O padre soletra o que já sabe de cor, de outros funerais. Escondo--me por detrás dos óculos de sol. É a necessidade selvagem que sinto em fugirda verdade que se desenrola diante de mim. Por fim, ele desce pelas tábuas demadeira que dois homens controlam com a ajuda de cordas grossas. Jogam-lheflores e, em pouco tempo, aquilo que era uma caixa da morte transforma-se numjardim colorido. Espero todos irem embora e permaneço, estática, diante da terraremexida que o guarda. Com cerimónia, dispo o meu dedo da aliança. Admiro-a,deixando os raios mornos de sol trespassarem a circunferência e dourarem o ouro.Num suspirar mais profundo jogo o anel e ele aterra, sem som, sem me doer ocoração. Viro as costas e dirijo-me ao carro. Maio de 1986 Viro as costas e dirijo-me ao carro. A meio do caminho paro e engulo oar doce da Primavera. Arrisco um rodar dos calcanhares e alcanço o olhar dele,despedindo-me, apressadamente, com um olhar tímido, um gosto muito de ti joga-do ao vento. O menino de olhos verdes e coração na boca: a minha alma gémea. Metade de mim chega a casa. O meu corpo desce do assento e corre esca-das acima. O coração e a cabeça ficam lá, com ele, com os reflexos pretos que osseus cabelos castanhos escondem, com as sardas que salpicam a sua pele branca,com a pulseira que eu roubei da loja e ofereci, cheia de emoção. Deito-me na camae inspiro fundo. Estou apaixonada, irremediavelmente apaixonada. Encosto a cabe-ça à almofada e respiro o silêncio.22
  23. 23. Maio de 2003 Encosto a cabeça à almofada e respiro o silêncio. As paredes são de umcinzento desmaiado. A cama é coberta por um trapo castanho e a almofada nãopreenche a elevação do meu pescoço. Do teto pende uma lâmpada. A janela édemasiado alta para que eu possa entreter a vista com uma paisagem. Não tarda,o céu vestirá o seu vestido negro e, se não me engano, hoje a lua será redondacomo um queijo. O corredor encontra-se mergulhado num sossego deprimente,uma calma que, de vez em quando, é engolida por um gemido que foge da bocade alguém. Ao terceiro suspiro encaro a minha parceira de cela e ela responde--me com um sorriso malicioso. São as Torres, diz. Franzo o sobrolho e ela, logo,tira a minha dúvida. As Torres são casadas. Sinto-me emudecer. Ajeito-me melhorà cama e encosto o ouvido ao cimento frio. Parece que a cena se desenrola nomeu pescoço. Consigo desvendar todo o percurso das mãos de uma e a melodiaprazerosa da boca da outra. Podia não conseguir ver e, muito menos, sentir, masaprendia, agora, a ouvir e a separar cada sonância e a colocá-las ao lado de umaimagem. Mesmo encarcerada podia continuar a ver o mundo. Fecho os olhos edeixo a lágrima cair: a primeira vez é sempre emocionante. Janeiro de 1995 Fecho os olhos e deixo a lágrima cair: a primeira vez é sempre emocionan-te. Ele posiciona os lábios no meu ombro, já despido, e provoca uma ebulição naminha pele. Encosto-me a ele, ao meu namorado de há nove anos, o meu meninode olhos verdes e sardas castanhas que é agora um jovem atraente. Ficamos abra-çados durante a eternidade de um minuto; eu engolindo a vergonha do próximopasso, ele controlando o vulcão que o seu baixo-ventre suporta. A minha pele nãotoca em mais nada a não ser o corpo dele. Os nossos pelos enlaçam-se; as nossasbocas colam-se; os nossos corações aninham-se, conhecedores antigos um dooutro. Estamos nus e envolvidos numa seda de encantamento. Sem avisos, eleaperta o meu pequeno corpo e deslizamos, os dois, em direção a um lugar sagrado.Do lado de fora é possível ouvir os murmúrios de outras crianças: sons de purezae ingenuidade. Aqui dentro, ecoam, embora quase surdos, os latidos da paixão. Eleforça um caminho que será só seu daqui por diante. O céu ribomba luzes. Faz-senoite; uma noite permitida pelas nuvens quase pretas que cobrem o sol envergo-nhado de Inverno. As crianças, lá fora, gritam assustadas. Eu gemo sofridamente. Achuva derrama-se furiosamente. Finalmente, recebo um abraço meigo e mergulho 23
  24. 24. a cabeça naquele peito que me conforta. Maio de 2003 Finalmente, recebo um abraço meigo e mergulho a cabeça naquele peitoque me conforta. Como estás, querida?, pergunta-me. Estou bem, mãe. Ela deixa--me encaixada no seu abraço por mais uns momentos e, depois, afasta o corpopara olhar no interior dos meus olhos. Tu não fizeste aquilo, diz-me serenamente.Empurro a cadeira velha e sento-me. Estou aqui, digo e aponto em volta. Elaencara-me com os dois olhos escuros. Coitada, envelheceu em tão pouco tempo.Afundo-me na cadeira e recebo um beijo na testa. Vai correr tudo bem, sussurra--me perto do ouvido. Abril de 1995 Vai correr tudo bem, sussurra-me perto do ouvido. Como podes ter tantacerteza?, pergunto. Uma gravidez não é o fim do mundo, responde-me, com osemblante pouco carregado, o que significa que não diz aquilo só para me sosse-gar. Eu suspiro: um filho. Sinto-me demasiado pequena para suportar uma criançano meu ventre. E depois? As noites mal dormidas, o ser mãe, namorada, filha, es-tudante: o crescente número de papéis e funções. Serei capaz disso? Terei de ser.Sempre me ensinaram a assumir as responsabilidades pelos meus atos. Maio de 2003 Sempre me ensinaram a assumir as responsabilidades pelos meus atos.Sabe, Dr., não me resta muita coisa na vida. Sei que sou nova e que poderiarefazer o meu futuro mas a verdade é que o destino traiu-me. Julguei que todaa minha vida tinha sido feita para acompanhar a vida do meu marido. Acheique o fato de nos termos conhecido muito novos e de termos namorado todaa nossa juventude só poderia querer dizer que éramos almas gémeas. Engulouma saliva que sabe a vidro cortado. Depois engravidei e, mais uma vez, encareiisso como um sinal de que nada nos poderia separar. Fecho os olhos e serenodiante do escuro que me preenche a visão. E depois?, pergunta-me o advogado.Liberto-me do negro e respondo-lhe secamente. Depois aprendi que não existemalmas gémeas. E, por isso, o matou?, questiona-me antes de eu levantar-mepara ser levada pelo guarda até à minha cela. Sim, Dr., por isso o matei. Saio. Umhomem bonito acompanha-me.24
  25. 25. Maio de 1995 Um homem bonito acompanha-me. O meu querido pai, vestido de cinzentoe com os olhos molhados de alegria, leva-me até ao altar, onde ele me espera. Nãofoi uma decisão fácil mas, depois do resultado da gravidez dar positivo, nada maiscerto que casar. A igreja não está cheia: apenas a família e poucos amigos. Nãoestou nervosa pois sei, há muito tempo, que este seria o caminho a ser tomado,mais cedo ou mais tarde. O padre começa a missa. Eu entrego, discretamente, aminha mão à dele e ficamos assim durante toda a cerimónia. No momento exato,ele diz que sim, eu digo que sim e pedem que nos beijemos. Está um lindo dia desol - o dia perfeito para receber a minha nova vida. Junho de 2003 Está um lindo dia de sol - o dia perfeito para receber a minha nova vida. Asala de audiências quase vazia não me mete medo. Sento-me, ao lado do advoga-do, e espero pelo juiz que, entretanto, chega. Fazem-me perguntas para as quaiso advogado preparou-me. A acusação aponta-me o dedo com náusea e, diantede mim, desenrola-se uma cena dolorosa: os meus pais abraçados, amparando atristeza um do outro; os meus sogros lambendo as lágrimas um do outro; os paisda outra soluçando no ombro um do outro. Sinto uma angústia escalar as minhastripas e uma dor aguda instala-se no meu ventre. Junho de 1995 Sinto uma angústia escalar as minhas tripas e uma dor aguda instala-seno meu ventre. Leva-me ao hospital, suplico. Que tens?, pergunta-me ele. Umador, uma dor muito forte. Aqui, digo, apontando para a minha barriga. O rostodele transforma-se em sufoco. Chegamos às urgênciase colocam-me numa ca-deira de rodas. A médica pede-me que abra as pernas. Sinto-me escorregar parafora do mundo. Fique connosco, oiço. Mas a voz é demasiado distante e só meapetece deixar-me levar por esta magia sonolenta que me embala os cabelos. Osmeus olhos cedem. Deixo de ver pessoas estranhas e luzes fortes. Vejo a escuridãomesclada com sons de bebés. O meu filho está a nascer. Mas, depois, aquilo quesurge no meio do manto negro que me cobre os olhos, deixa-me assustada: umbebé ainda em formação, quase sem pele, coberto por vasos sanguíneos, pequeno,tão pequeno que me cabe na ponta do dedo. Não quero!, grito. Não quero essemonstro. Ele desaparece ao mesmo tempo que o desprezo. O meu coração abran- 25
  26. 26. da. Oiço, novamente, vozes que me trazem de volta à realidade. Junho de 2003 Oiço, novamente, vozes que me trazem de volta à realidade. Matou o seumarido? Responda! O advogado de acusação grita na minha cara e eu desperto dainércia. Sim, matei. Uma sinfonia de choro preenche a sala. E matou a senhoritaSusi? Engulo em seco. Matei. As pessoas exaltam-se, chamam-me de assassina.O juiz pede meia hora de intervalo e, quando regressa, coloco-me em pé para ouvira minha sentença: pena de morte. Sinto um sopro agitar os meus pelos. É a morteque me abraça uma vez mais. No entanto, respiro fundo e sorrio. Há muito tempoque não me sinto tão leve; leve e livre. Junho de 1995 Há muito tempo que não me sinto tão leve; leve e livre. Que sono restau-rador. Ajeito o corpo à cama, suspiro e levo as mãos à barriga. O ambiente gelaà minha volta. O meu filho. Aperto a barriga e tudo o que sinto é pele e carne ear. Da minha garganta saem gritos de dor. Duas enfermeiras entram no quarto eseguram-me nos braços que tentam arrancar os tubos que se filtram nas minhasveias. A minha mãe entra logo em seguida, acompanhada pelo meu marido. Évisível a tristeza nas suas caras. O meu filho?, pergunto. Ninguém responde e eusei, instintivamente, o que aconteceu. Mergulho a cara na almofada e choro. Aquelesonho, aquele sonho do bebé-monstro que eu recusei. Ele morreu por minha causa.Sou uma assassina. Junho de 2003 Sou uma assassina. Assassina da minha própria vida porque acreditei emfalsos contos de fada e em juras de amor eterno. Deito-me na cama e deslizo osolhos pelo teto. Acabou a dor misturada com a fúria, e a pena de mim própria e dosoutros que vivem o mesmo. Acabou. Agora sou só eu. Sou eu que decido a minhavida. Decidi o caminho a partir do momento que eles tombaram, ensanguentados,aos meus pés. Acabou. Estou sozinha. Setembro de 2000 Estou sozinha. Deixei a depressão vencer o casamento e roubar-me o ho-mem. Perder um filho, seja em que idade for, é a maior dor que se pode sustentar26
  27. 27. no coração. E mesmo sem conhecê-lo, sem experimentar o seu cheiro, tenho sau-dades. Saudades de tê-lo na minha barriga, saudades do que não tive depois disso,saudades do meu marido. A morte do meu filho trouxe a separação dos nossossentimentos enquanto homem e mulher, como se ele tivesse levado todo o amorque guardávamos dentro de nós. Estou vazia. Junho de 2003 Estou vazia, diz-me a minha mãe. Estamos abraçadas há mais de cincominutos. A cadeira engole o meu pai. Mãe, eu amo-te. Ela aperta-me com toda asua dor. As lágrimas sufocam-me. Apesar de querer a liberdade da morte, corrói--me fazê-los sofrer. Pai, vem cá, peço. Ele levanta-se com dificuldade. O desgostotoldara-lhe os movimentos. Abraça-me, pai. Repito as palavras que disse à minhamãe e permanecemos em silêncio. O guarda chama-os. A minha mãe mostra-meum rosto deformado pelo tormento; o meu pai definha-se à medida que caminhapara a porta. Lançam-me beijos no ar que eu recolho com as minhas mãos eguardo nos bolsos para mais tarde. A porta fecha-se atrás de mim e, finalmente,encaro a verdade. Abril de 2003 A porta fecha-se atrás de mim e, finalmente, encaro a verdade. O rabobranco do meu homem balança diante dos meus olhos e uma loira esbraceja pordebaixo dele: ele, de meias, e com gorduras que eu nunca vira antes; ela, nemmelhor nem pior que eu, talvez mais nova. O som da minha respiração moída pelasurpresa desagradável desperta-os para a presença de mais alguém no quarto. Eleretira-se do aconchego dela e embrulha-se no lençol. Como se isso fosse cobrir atraição. Ela abre a boca e encolhe-se na cama. Eu não digo nada. Fecho os olhos edeixo o destino que sempre me enganara seguir o seu caminho. Junho de 2003 Fecho os olhos e deixo o destino que sempre me enganara seguir o seucaminho. Os homens apertam-me os pulsos e os tornozelos na cadeira forte damorte. Um médico coloca-me a seringa na veia mais saliente. O veneno penetra omeu sangue e eu sinto a respiração dizer que está na hora de ir descansar. O corpopesa-me. Nos meus bolsos estão os beijos dos meus pais: vão comigo. No meucoração levo o meu filho. Na minha alma levo o peso de um destino: um destino 27
  28. 28. que fez castelos de areia com a minha vida e, depois, destruiu-os com os pés.Eramgrutas de medo que eu guardava no coração. Foi assim depois da morte dele. Naverdade, foi assim depois de o conhecer: um destino que me mordeu os sonhos. Abril de 2003 Jonas corre, embrulhado no lençol até onde Bea permanece de olhos fecha-dos. Desculpa, querida, desculpa. Ela abre as pestanas longas e encara o maridoque se ajoelha diante de si. Querida, vamos voltar a ser felizes; vamos esquecera morte do nosso filho; vamos começar de novo. Susi sente o peso das palavrasesmagarem-na contra a cama. Ferida, levanta-se. Abre a sua mala e retira a armaque a sua profissão a obrigava a transportar. Vocês não vão ficar juntos!, grita,completamente nua - de roupa e de juízo. Susi, tem calma, diz Jonas. Calma?,tu prometeste que íamos ficar juntos. O dedo prime o gatilho e o chumbo voa nadireção do peito de Jonas. Ele tomba instantaneamente. Bea leva as mãos à boca.Susi, envergando a cara de uma demente, encosta a arma ao coração e mata-se.Bea desliza para perto do marido e chora no seu ombro. Depois, com a frieza ca-raterística de quem está habituado a dores profundas, levanta-se, pega na arma,guarda-a na sua bolsa e sai. Em breve, a polícia chegará e encontrará as suas impressões digitais portodo o quarto.Valentina Silva Ferreira, Funchal, Ilha da Madeira, Portugal.Licenciou-se em Direito e tem mestrado em Ciências Jurídico-Criminais. Autora de Distúr-bio e A Morte é uma Serial Killer (Ed. Estronho). Começou na Revista Magazon. Participaem mais de vinte antologias portuguesas e brasileiras. E-mail: vpsf88@hotmail.com28
  29. 29. A bola LolaAna Brandão* - menção honrosa – categoria internacionalSão João da Madeira- PortugalE ra uma vez uma bola, que sonhava ser um quadrado, pois passava a vida a rolar, e nunca tombava de lado. Era uma vez uma bola, que queria ser triângulo, porque passava a vida aprocurar, e nunca encontrava um canto. Era uma vez uma bola, que gostava de ser rectângulo, para em comprimen-to crescer, e nunca ter de se encolher. Pobre bola Lola, não conseguia parar de sonhar, andava com a cabeça àroda, sempre a imaginar, em que figuras especiais, se podia transformar. Certo dia, Lola teve de ir à padaria, e pela estrada fora, girava tanto que atécorria. Mas que grande alegria. Afinal ser bola, também tem o que se lhe diga. Outro dia também, foi para a relva saltar, encontrou uma formiguinha, quea pós a rebolar. Que maravilha é poder brincar todo o dia. E numa bela noite, em que voltara a sonhar, olhou para o céu estrelado eviu algo redondo a brilhar. - Lola, para que queres tu mudar, se és linda como o Luar?* Ana Brandão, economista e técnica oficial de contas, gosta de trocar os números pelasletras nas horas vagas. E é nas pequenas histórias que descobriu como escrever o cami-nho da felicidade. E-mail: b_ana@hotmail.com 29
  30. 30. O Peixe EncantadoVitor Batista* - menção honrosa – categoria internacionalBarreiro, PortugalA prole descendente dos meus pais, além de mim, tem mais duas pessoas. Significa dizer, sem que para tal fosse necessário fazer qualquer referência, que somos três os filhos do antiquado casal Valadares, que sendo pessoascuja idade está na parte final dos setenta, têm a sua pouco pensante cabecinhasituada na década de quarenta, do século passado. Claro está que a vida que nós os três filhos fazemos, é uma enorme pre-ocupação para os pais, porque o nosso “modus vivendi” está totalmente fora dospadrões pelos quais balizam a sua sebastianista maneira de pensar. Não percebem como, nem porque razão a minha irmã, por acaso a maisvelha do grupo, vive com o pai dos seus três filhos sem serem casados. Tambémlhes custa imenso aceitar que sou casado, já em segundas núpcias, sem que emalguma das vezes eu tenha passado, mesmo que por perto, pela porta da igreja. Quanto ao mais novo, que ainda está no princípio dos trinta, nem vale porfalar nele ou do seu modo de vida com os pais, que o apelidam de sem-vergonha,de desmiolado, de perdido da noite e por aí fora. Ele vive com os nossos pais,porque ainda é um rapaz novo, naturalmente solteiro. De qualquer maneira, osvelhos Valadares só o aceitam, ainda que com alguma frieza, porque é filho, pelocurso tirado e pelo seu bom emprego, o que quer dizer, de acordo com os arcaicosvalores defendidos pela parentela Valadares. A maldade e o vício chegam depois, quando entra em casa fora de horase, pior um um pouco, quando ele sem aparente razão troca de namorada com amesma facilida-de como uma outra qualquer pessoa troca de camisa, segundo ospais Valadares. Aqui é que a porca torce o rabo! Contudo e sendo ele um rapaz novo, faz muito bem se agarrar todas as boasoportunidades que lhe vão surgindo, pois, como é natural, para a bela idade queatravessa tem que aproveitar os prazeres que a vida lhe concede no dia a dia. Por30
  31. 31. essa razão e em geral, à conversa dos pais diz nada. Nunca discorda dos bolorentos e gastos conselhos que o velho Valadaresteima em emitir, mas são palavras que já não o incomodam. De qualquer modonós até já conversamos sobre o assunto, na medida em que ele precisa ser maiscuidadoso em determinadas situações que se lhe deparam. Tem que retirar delaso proveito possível, mas deve ser bem mais comedido. Pode correr riscos, que nãosendo bem medidos, acabam por dar razão à litania do pai Valadares, a quem amãe, muito naturalamente, dá sempre o seu amém. Tudo isto vem a propósito do miúdo, como eu muitas vezes me refiro aomeu irmão, ter ido à menos de um mês visitar o norte de África. E então, fez-seacompanhar de uma nova candidata a minha cunhada, que ele julgava já conhecerbem, por ser a empregada da loja de modas onde costuma comprar a roupa daexcelente e conhecida marca que veste. Contudo e pelo que me contou, quase tudo lhe correu mal durante a se-mana que por lá andou. A origem da maioria dos percalços e das desagradáveisocorrências que marcaram a viagem, ficou a dever-se à sua acompanhante, nestemomento já ex-candidata a cunhada da minha irmã. A madame, é um adequadoapodo, entendeu ser ela a escolher o que deviam visitar durante o período da es-tadia no local. O miúdo acedeu e só depois deu pelo tremendo erro que cometeu. Foram visitar a parte velha da cidade, lugar labiríntico e demasiado con-fuso, onde é aconselhável entrar na companhia dum guia experimentado e bomconhecedor da zo-na, para evitar que as pessoas se percam naquele emaranhadode ruelas escuras e sujas. A decisão que ela tomou foi de tal maneira fortuita einopinada, que além de se terem perdido no interior da medina, foram assaltados edespojados de todos os valores que tinham em posse. Também foram ver os encantadores de serpentes, mas aqui por imposição domeu irmão, que desde criança sempre se deixou fascinar por aquele espetáculo. Eleansiava por ver ao vivo as serpentes, os tocadores de flauta, ouvir a música encanta-da, enfim, queria ter o supremo gozo de ver as cobras a sairem das cestas, enfeitiça-das pela música tocada pelos seus hábeis encantadores. Só a determinada injunçãodo miúdo permi-tiu que pudesse assistir a um brilhante show. Aqui correu quase tudobem. Só que ela conseguiu de tal maneira endrominar o meu irmão, que o convenceua trazer uma serpente, bem como tudo o resto que seria necessário para encantar oanimal, não podendo aqui confirmar-se qual, se o humano se o réptil. 31
  32. 32. Por sorte, ao passarem na alfândega e quando lhes pediram para abrirema cesta, esta estava vazia. A serpente tinha fugido. Foi o que lhes valeu, pois, porcerto, teriam eles ficado encantados com o que aquilo que os esperava. O miúdo está de novo sózinho. Mas, pelo que me apercebi, não lhe sai da ideiao divertimento que teve, a agradável sensação que sentiu ao ouvir a música do feitiçoe ver as cobras a soerguerem-se vagarosamente, bailando. Era um sonho de criança! Realizado! E de tal maneira assim foi que neste momento o miúdo, usando o mesmotipo de música, mas não sendo possuidor de serpentes, está tentando encantardois peixes vermelhos de água fria, que tem num aquário lá em casa. Gasta váriashoras ao dia tocando uma flauta igual à dos encantadores do norte de África, a talque não ficou apreendida na alfândega, numa tentativa de os fazer saltar da água.Ele anda muito entusiasmado e já me disse que as coisas até nem estão a corrernada mal. Apenas precisa de dar um pouco mais de tempo, ao tempo. Os pais Valadares é que não estão a gostar nada do que ele está a fazer e até jádizem que o preferiam ter como sempre foi, um sem vergonha e um perdido da noite. Têm receio que possa vir a desmiolar! Entretanto, estão passados mais de dois anos desde quando o miúdo dei-tou mãos à obra e começou o difícil trabalho de enfeitiçar os peixes, que ele bemviu fazer no norte de África, mas apenas com serpentes. Estive à conversa com omeu encantador irmão, para com ele trocar algumas impressões sobre o modocomo estava a decorrer a sua já longa e bem avançada experiência. Queria sabercomo se estavam a comportar os peixes face à música que ele lhes dava todos osdias. De assarapantado, com o que comecei por escutar, a admirado, espantado eboquiaberto com as explicações que ele me fornecia com o passar dos dias, origi-naram as principais sensacões recolhidas durante a cavaqueira com o miúdo. Mase acima de tudo, fiquei convencido que o mano caçu-la ainda vai ter pela frente,imenso, direi mesmo um enorme trabalho, para atingir os seus propósitos, porqueé bem diferente o trabalho que é preciso desenvolver para as duas diferentes es-pécies animais. Muito mais difícil para os peixes. Disse-me ainda o meu irmão, que os peixes já saltavam e voltavam a mer-gulhar com alguma facilidade, havendo até um deles que já ficava fora da água umrazoável pedaço de tempo. Gostaria de adiantar aqui, e faço-o em nome do miúdo,que um dos peixes morreu, dado não ter suportado o tempo que era “obrigado” apassar fora de água, por força da música encantada que lhe era dada a ouvir. Na-32
  33. 33. turalmente, o miúdo sentiu um grande desgosto pela perda deste peixe. O outro peixe é um caso invulgar, direi mesmo raro, raríssimo. Basta-lheouvir o soar das primeiras notas de música vindas da flauta encantada, para deimediato saltar do aquário para a mesa e aqui se bambolear a seu belprazer. Posso entretanto acrescentar que passaram mais dois anos de intenso tra-balho do meu mágico irmão e que o tal peixe, o invulgar, já fica bastante maistempo fora de água. E que, por uma ou duas vezes, até já foi com ele ao café, seguindo-o sempreao som da música de encantar serpentes africanas, entretanto adaptada para ospeixes vermelhos de àgua fria. O acesso ao café é fácil, por ficar mesmo ao lado da porta da casa dos pais,mas nem por isso deixa de ser relevante ver um peixe vermelho deslocar-se fora doseu habitat natural, visto ser grande e quase impensável o que a novidade encerra. Mas o casal Valadares tinha razão quando não gostava de ver o filho maisnovo sempre à volta, sempre agarrado aos peixes. Foi das poucas vezes que acer-taram sobre o que pensavam a respeito do filho. Com efeito, os nossos velhos paistemeram o que esteve para acontecer; o meu irmão quase amalucou. É a realidade! Contudo, convém realçar que não era para menos. Ele gastou anos de tra-balho, anos de intensa labuta para enfeitiçar os peixes. Atingiu o objectivo queperseguia, conseguindo que o peixe que ficou vivo, o raro peixe, ao ouvir a músicade encantar, logo saltasse do aquário para a mesa, saracoteando-se e bailandopronto para o acompanhar, para irem os dois fazer mais uma passeata, para sairde casa. Por isso não admira que ele, o miúdo, andasse sempre emproado e comrazão, pois o peixe até já passava mais tempo fora do aquário que dentro de água. Mas, quando menos se espera, aparecem as ocasiões propícias a determi-nados e inesperados sucessos. Foi o caso, o imprevisível aconteceu. O peixe que o meu irmão tanto estimava e adorava, o seu fiel companheiro,o que restava do par inicial, também se passou. Morreu! A situação, que parecia estar por ele, aparentemente, bem controlada, afinalapanhou-o de surpresa. O miúdo ficou arrasado com o acontecido. Nesta ocasião,pior coisa não havia que pudesse ocorrer. Ele ficou, sei lá, como que sem forças esem ânimo ao ponto de estar de fato, um tudo nada passado de ideias. Acima de tudo, porque o peixe teve uma morte inesperada e insólita. Foi para ele uma grande surpresa! Naquele dia, bem no pino do verão, o miúdo mais o seu companheiro peixe 33
  34. 34. foram ao café, depois do almoço. O sol parecia queimar. Abrasava. Na volta, ao fazer o pequeno percurso que separava o café da casa do paiValadares, o peixe vermelho encontrou algumas dificuldades, por estar com imensocalor. Ele queria, precisava a todo o custo de se refrescar. E então, ao entrar emcasa deu de caras com o seu velho aquário, que continuava no mesmo lugar echeiinho de água. De imediato o vermelhusco se apercebeu e sentiu ter ali mesmoà mão de semear um bom lugar, talvez mesmo, o lugar ideal para suavizar o bemforte escaldão que apanhara. Se nisso pensou melhor o fez! Então, já muito aflito, o peixe saltou para o interior daquele que sempre forao seu habitat, na ocasião um verdadeiro chamariz aquífero. Foi então que aconte-ceu o inopinado. O imprevisto! O peixe vermelho, por andar constantemente na ramboia atrás do dono,sempre ao sabor da música enfeitiçada que o miúdo não se cansava de tocar, jáestava pouco habituado ao meio aquático onde sempre vivera. O meu irmão sentia um grande orgulho por todo aquele seu trabalho teratingido o fim a que se propusera. Contudo e apesar de se mostrar bem feliz como que fizera, o miúdo sempre considerou que era inevitável continuar, visto que umtrabalho deste calibre, nunca está terminado. Palavras certas e justas, para uma re-alidade diferente.De fato, se por um lado o miúdo deu a tão falada continuidade aoseu trabalho, pelo outro deixou aliviar um pouco a segurança do seu dançarino, demaneira que algumas vezes ele próprio se esquecia dos incómodos que uma ondade calor podia provocar ao seu vermelhusco peixe. Uma verdade que se confirmou! Com efeito, com a intenção única de arranjar um local bem mais fresco, demodo a que pudesse ficar bem melhor, o peixe raro e vermelho, deu um pinchopara o interior do seu velho aquário, que lhe foi funesto. Inelutável mesmo. Certo certo, é que o peixe encantado não resistiu a tanta água, acabandomesmo por morrer afogado. Foi uma tristeza! Foi uma pena! Talvez porque um dia tal teria que acontecer. Talvez! Acontece, é a vida!* Vitor Manuel Capela Batista, 62 anos, português de Barreiro, Portugal.Engenheiro químico, já foi radialista, possui atividades holísticas, participou de váriosconcursos literários, gosta de participar de coletâneas, foi premiado em 2011 por esteconcurso na mesma categoria, 2.º lugar. E-mail: vitorbatista@netvisao.pt34
  35. 35. O Saber…Dinis Muacho*- menção honrosa – categoria internacionalAvis - PortugalU ma tasca como tantas outras. A venda da família Saboeiros é ao mesmo tempo tasca e venda. É um local rústico único. É único como todas as tas- cas e como todas as vendas existentes nas fortes planícies Transtaganas.Pintada de um azulão forte da cor do céu limpo na pele exterior e de neve caiada napele interior é assim a sua essência mais objectiva. O telhado é de telhas cerâmicasde canudo dos barros vermelhos do Redondo, de uma cor de fogo que se entranhana alma das gentes. Por baixo das telhas existe um ripado de madeira de pinheiramansa, que serve de teto falso, e abriga a casa do muito frio e do muito calor, meio--termo térmico não existe por estas bandas. Portas pequenas, uma para a venda,outra para a tasca e ainda outra para a habitação da família. Um portão grande deferro com espigões rendilhados dá as boas-vindas a quem se assoma à torre detijolo burro, altaneira, do forno da padaria, que fica nos fundos do quintal. Móveispintados de amarelo muito clarinho servem de colo aos mais variados produtosque tanta falta fazem ao povo das redondezas. O pão acabado de cozer – a pedirtiborna de azête – em forno de lenha de sobro vende-se ali. Vende-se por senhas,as mulheres chegam a estar um dia à espera na bicha para apanharem um quartode pão para alimentar oito bocas durante sete longos dias. O açúcar é igualmenteracionado, apenas uma quarta de açúcar para uma casa inteira prenhe de gente. A tasca é pois o local de eleição e socialização dos homens. Ali não faltamtodo o tipo de pseudoeruditos, malteses, fadistas e até bêbados! Fica na parte baixada velha aldeia, centro nevrálgico de conversas e ajuntamentos populares. Popu-lares sim, que os senhores da terra não se misturam com a arraia e criadagem,preferem ir até à vila beber chá ao Grémio ou ir a casa de parentes mais ou menosafastados. Na venda dos Saboeiros é um corrupio de homens, uns a bater o ás dacartada em cima das mesas com tampo de pedra, outros em amena cavaqueira,ouros encostados à ombreira para que a parede não caia! Venha de lá mais umcopo de vinho e um bagaço, que o vinho é que instrói e o fado é que induca! É já 35
  36. 36. um dizer antigo, logo fado e fadistas, bêbados e vinho, é algo que nunca falta. Pipassempre cheias para os fregueses mais sequiosos. É um local em que as grossasparedes são confidentes dos segredos mais infames, dos boatos do amante desta edaquela, do filho que não é filho de fulano mas sim de sicrano… Elas é que sabemtudo, mas em seu claustro de fidelidade ouvem e calam. Os indivíduos cantam unscom os outros certas modas da região, ou então cantam à desgarrada, sempre àcapela, muitas vezes ao som da concertina do Zé da Enxara ou do Joaquim Barto-lomeu. Desta maneira matam por momentos as agruras da vida difícil levada de sola sol nos campos arroteados à força de braços e animais. Todas as sextas-feiras e domingos é dia certo de o Ti Manel Maravilhasaparecer ali pela tasca para beber o seu copinho e por vezes ser chacota das más--línguas do costume. O velho Maravilhas desde novo que não era como os demaisda sua geração. Já em cachopo gostava de falar com os velhos e de aprender assuas sábias lições de vida. Com eles aprendeu tudo: a afiar navalhas e machadasna pedra grossa de amolar, a fazer cestas e cadeiras de junca – que o junco nãopresta para isso – bem entrançadas, a fazer enxertias na altura das luas, e o regalodos olhos de toda a gente eram os seus batatais semeados à manta, que davam asmelhores batatas da aldeia. “Que maravilha”, diziam todos a respeito do cachopofeito homem desde muito novo, que tudo aprendera com primor. E por isso ficou oManel “Maravilhas”. Aprendeu a ler com um velho que vivia num monte ali perto,que o ensinou também a escrever no pequeno quadrinho de xisto. Era como um paipara si, ensinara-lhe tudo, e o resto aprendeu sozinho. Aos sete anos já era zagal,depois foi ajuda de porqueiro, onde aprendeu também com os animais o valor ea noção de família. Quando as marrãs pariam era a sua maior alegria, batizavatodos os quichos um a um, com nomes de tudo e mais alguma coisa. Os pais do TiMaravilhas morreram novos, pelo que ficara órfão de mãe e pai com três e quatroanos respectivamente. Mas seguiu em frente, sempre quis saber mais e mais, nãovirou a cara à luta e ao saber. Como lhe dizia o mestre Chico da Pedreira “Rapaz,saber não ocupa lugar!” e esse era o seu lema, seguido à risca por influência dessevelho que lhe ensinara a ler e a escrever, tantas vezes já a plenos pulmões da luzda candeia de azeite. Era pobre, comia uma pobre açorda de pão duro regada comum fio do néctar puro das oliveiras e alhos, e assim enganava a fome, sabe Deus!Quando era no tempo das boletas lá andava ao rabisco e metia mais alguma coisitano bucho, para além de couves e batatas! Cresceu e fez-se homem de barba feita!A melhor horta das redondezas era a do Maravilhas, que sempre humilde dizia que36
  37. 37. o seu saber era pouco, tudo o que sabia era por graça de Deus Nosso Senhor. Pornão ser um homem alto, sempre que o arreliavam com isso na mangação respon-dia com uma espécie de verso que continha o nome de uma serra, que aprenderacom o velho Chico da Pedreira. De serras sabia o nome de todas de cor e salteado,mas da que gostava mais era da serra de Maltim – que era perto da sua aldeia –e da serra do Marão… soava-lhe bem o nome! Dizia então aos galfarrões que oapoquentavam o adágio: “Olha lá, grande é o Marão e não dá palha nem dá pão!”.Com esta é que calava logo toda a maledicência. Cantava mal o fado mas eraum exímio repentista de prosas de quarenta pontos. Um dos motes que mais lheouviam dizia: “Eu cá quero saber mais / Quero a todos e a ninguém / Lá por mor-rerem meus pais / Não deixo de ser alguém”. Levou uma vida pacata, casou como seu único amor, de quem teve três filhos e duas filhas e ainda criou mais umacriança de berço que lhe deixaram aos portados do Monte da Figueira Negra numanoite de invernia, andava a sua Adelaide prenha da sua da última cachopita. Nãopestanejou, “No prato onde comem cinco, hadem comer seis, sabem tanto de amorao próximo como eu sei cantar o fado” arrematava muitas vezes, sobre os ricaçosque haviam feito aquele belo serviço, qual roda dos enjeitados das gentes finas,talvez de uma filha que se envolvera com algum jovem ganhão que servia o pai! Jáhomem velho, depois dos filhos todos criados, sem nunca ter deixado de trabalharnos trabalhos do campo, já que as oportunidades eram nulas para os pobres doseu país rico mas oprimido por ditadores, lá ia todas as sextas-Feiras e somingosreligiosamente à tasca dos Saboeiros para umas desgarradas de poesia. Ao TiMaravilhas até havia quem lhe chamasse o Borda D’Água das poesias, já que emmestria não ficava atrás do primor dos grandes bailarinos de fandango ribatejanos.Qualquer assunto era tema para longa conversa, servindo de conselheiro a muitosdos seus camaradas de confraternização, e aos novos até escrevia cartas por elesa alguma cachopa de que eles gostassem. Toda a gente se admirava de o homemtoda a vida ter sabido e ainda saber de tanta coisa, e coisas tão distintas, mas altolá que em política não se tocava! Só de pensar já doía, o país não deixava! “Ahfilho duma real puta, que é mesmo um homem que sabe a valer”, dizia o JaquimMorcela, que ouvira dizer mais ou menos o mesmo na telefonia acerca do Eusébio.Mas o que disseram ao Eusébio não era por malcriadagem, era sim o maior louvorem palavras que se podia dizer a alguém, dito por quem não sabia ler nem escrever.Só quem sabia fazer coisas fora do normal, quase como que fenômenos do Entron-camento, é que era merecedor de tal elogio (para alguns doutos era mera falta de 37
  38. 38. educação). Num outro aforismo, o do amigo que não empata amigo, lá na tasca lan-çava o mote: “Ora quem vai, vai / Ora quem está, está / Morreu-me mãe e pai / Nãochoro por eles já!”. Os Homens não choram e o Ti Manel Maravilhas já não tinhavida nem idade pra chorar, mas ao mesmo tempo que assacudia aqueles que nãolhe interessavam, jamais esquecia a sua mãe e o seu pai que tão precocementetinham partido deste mundo. Ele sabia que a família era o pilar da sociedade, erapois um homem muito à frente no seu tempo, e soube bem passar essa mensa-gem aos filhos e netos. Quem sabe, sabe e o Ti Maravilhas sabia, o que era o beme o mal, a verdade, a honra, a seriedade, o valor da palavra dada. E para saber ediscutir isto tudo e muito mais nunca precisou de se encharcar em vinho nem embagaço. Bebia os seus tintinhos em púcaro de lata carcomida e quando se sentia jábem, mais não bebia. O saboeiro, dono da tasca e da venda é que ficava a perdercom o negócio, era menos um bocado da pipa que esvaziava e menos uns tostõesamealhados ao fim da noite. Mas era menos um bêbado que aturava, e o Ti Maravi-lhas era sempre pessoa que dava gosto ter na sua pequena taberna. Para bêbadosjá lhe bastavam o Finfas e o Tonel que dia sim, dia sim, eram clientes habituais daembriaguez. Depois de bem pingados estes dois armavam de tourada com uns eoutros e o resultado era sempre o mesmo: o jogo do pouco tino! Morreu velhinho o Ti Manel Maravilhas, mas ainda hoje nas estreitas etortuosas ruas empedradas da velha aldeia, dizem que o saber da sua alma estáperpetuado em cada esquina, em cada pedra, em cada parede. O saber de umhomem que resistiu à guerra civil do país vizinho, à ditadura do seu próprio país, eviveu alguns dos anos de liberdade que se seguiram, prova de que quem sabe comhumildade, e não guarda o saber só para si, faz crescer a humanidade, nem queseja a de uma pequena aldeia, que hoje chora de saudade este ser humano tãosábio e maravilhoso…*Dinis Reis Subtil Muacho, 32 anos, mora em Avis-Portugal, tem um livro de poesiaeditado, é escritor premiado nacional e internacionalmente (poesia e prosa), alia a facetaliterária à sua profissao de engenheiro mecatrônico. E-mail: dinismuacho@hotmail.com38
  39. 39. O Vale dos SentimentosUmoi Souza* - menção honrosa - categoria internacionalParede, PortugalJ anaína era nova, bela e sensível. Nascera numa família de pessoas nobres pela bondade dos seus corações. Morava num vale - uma vaidade da natu- reza que resolvera criar aquele local, longe de tudo o que pudesse ser feioe desprezível, enchendo-o de uma beleza luxuriante com suas montanhas de umverde capaz de humilhar a mais bela das esmeraldas e de um sol sempre atentoàs necessidades da vegetação, igualmente, rica em alimentos para os moradorese pasto para o gado. Janaína era feliz. Não conhecia o sentimento da tristeza ou do sofrimento,pois tudo o que a cercava fazia sentido, era belo e puro. Mesmo nos dias em quealguém seguia em viagem sem volta para o vale eterno. Corria solta por esse pequeno paraíso e conhecia cada árvore, cada rocha ecada nascente de águas claras e doces. Às vezes tinha a nítida impressão de quepodia falar com as árvores, com os pássaros e com toda espécie de criatura viva aoseu redor, tamanha era sua cumplicidade natural com o que a cercava. De vez em quando, atravessava todo o vale para ir à cabana do velho Man-du. Ele era como um avô, um professor de uma ciência simples chamada vida. Mas,acima de tudo, ele era seu amigo. Junto a Mandu, passava horas ouvindo o velho sábio divagar sobre coisasde um mundo, tão distante quanto sua imaginação pudesse alcançar. Mandu se divertia ao ver a expressão “cabulosa” , como ele chamava, es-tampada no rosto de Janaína, sempre que ele falava do mundo dos sonhos, o reinode Morfeu e os mundos além da nossa imaginação. 39
  40. 40. Mandu falava a ela, com certa autoridade, que durante os sonhos, nossosespíritos eram libertos da cela da realidade e viajavam livres como cavalos naspradarias e velozes como a luz ou o pensamento para mundos desconhecidose podiam brincar com outros espíritos em estrelas de outras dimensões, cortaros mares que cobriam a terra e vislumbrar toda a divindade existente em cadacentímetro quadrado do imensurável universo. Mas, acima de tudo, podiam, naliberdade dos sonhos, enfrentar seus medos e seus temores, quer fossem de umremoto passado, do presente ou do inexorável futuro. Certa vez Janaína perguntou a Mandu de onde vinha a chuva. Era frequenteo vale ser lavado por uma chuva fina e, de vez em quando, salgada como água domar. Mandu olhou para os vivos olhos negros da pequena Janaína e, emborapudesse achar a pergunta ingênua, coçou a grisalha cabeça lhe perguntando semrodeios: - Quer mesmo saber a origem da chuva salgada, Janaína? A que ela,prontamente, respondeu que sim. - Ouça com atenção. Disse Mandu, estranhamente sério. Do lado norte no nosso vale fica nossa maior montanha. Também cha-mada de Guardiã. Por trás dela existe um mar tão bravio e selvagem em suaondulação que nem mesmo as grandes criaturas marinhas se atrevem a explo-rar aquelas águas. A chuva salgada que temos de vez em quando é o resultado da lutaentre o mar e nossa Guardiã. A constante tentativa do mar em atravessá-la faz com que o embateentre suas rochas e as águas produza uma verdadeira explosão de água que éatirada tão alto que se torna capaz de ultrapassar os picos mais altos da nossamontanha protetora. Mas o que poucos não sabem é que todo aquele que se banha nessa40
  41. 41. chuva experimenta o mesmo sentimento que no momento é trazido pela chu-va. Já vi grupos inteiros de pessoas começarem a chorar, inexplicavelmente,quando, juntos, resolveram se “lavar” nas águas da chuva. Não entenderam oporquê e apenas concordaram que todos sentiram exatamente a mesma coisae resolveram não mais falar no assunto. Outros já relataram que o banho da chuva os fez experimentar outrossentimentos: de alegria, tristeza, nostalgia entre outros. Mas, não é sempre que a luta da Guardiã com o mar produz a chuva. Épreciso que o mar liberte sua onda maior. Ela é gigante, desafiadora e esfome-ada. Sua fome é de sentimentos. Ela se fortalece ao se alimentar dos sentimentos de quem é pego por ela.Ao se alimentar dos sentimentos de alguém a onda multiplica seu poder e issofaz com que ela use essa força adquirida para tentar ultrapassar a guardiã.Não conseguindo, explode e ultrapassa a muralha, caindo no vale em formade chuva salgada. Os sentimentos experimentados por todos são o mesmo, rou-bado pela onda a alguém que partiu para a grande viagem em suas águas,dando, a onda, força e sentimento em mais um combate com a guardiã que,como uma mãe, tem nos protegido da fúria da grande onda. Apenas a chuvaconsegue, de vez em quando, passar e cair no vale. - Mas porque as pessoas resolvem ir para perto desse mar tão bravio?Perguntou Janaína, num misto de curiosidade e certa ansiedade pela resposta. - Janaína – continuou Mandu – mesmo o mais belo dos paraísos pode, emdado momento, representar uma prisão para quem tem o desejo de uma liberdadedesconhecida. Pense comigo, pequena Janaína. O que é a liberdade? – é fazer oque se tem vontade. – Respondeu a menina. - De certa forma sim – Atalhou Mandu. - E como uma pessoa sabe mesmo o que realmente deseja? PerguntouJanaína. - Essa, minha cara, é a pergunta correta! Podemos perguntar a todo 41
  42. 42. habitante do nosso vale o que é liberdade que teremos uma resposta diferentede cada um. Todavia, a essência do significado estará presente nas diferentesrespostas. Janaína coçou a cabeça fazendo uma careta que mostrava sua incapaci-dade em entender a filosofia de Mandú. Sabia que seu amigo estava filosofando etalvez, até, sabendo a verdade. E estava apenas provocando nela o despertar damente para uma visão mais clara. Pegando ingredientes para fazer pão, Mandu continuou, mas sorrindo aosentir a euforia de Janaína ao vê-lo se preparar para fazer pão. Janaína adoravaaqueles momentos de conversa com Mandu, que invariavelmente, terminavam empiquenique improvisado e comendo algum bolo, doce ou pão, feitos pelas mãoshábeis e dóceis de seu amigo. Mas mesmo com os olhos brilhando pela promessa de pão, quis saber mais,ao mesmo tempo em que preparava lenha para o forno. Já sabia toda a “missa”do pão e já conhecia o seu “trabalho”. Não demorou muito para que toda a cabanafosse invadida pelo característico, quente e delicioso cheiro de pão no forno. - Fala mais sobre a onda, Mandu – pediu Janaína, ao por, sobre a mesa,manteiga, doce e leite, imaginando o sabor conhecido daquele pão. Mandu olhava com carinho a pequena Janaína. Comparava-a a uma peque-na raposa órfã descobrindo, pela experiência, sua natureza experta. - A onda, Janaína, nada mais é do que uma das formas de expressãodo imenso mar. Seu poder destrutivo não é necessariamente a vontade do mar.Ela é apenas água em movimento com forças naturais que a impelem contra arocha. A onda não quer vencer a rocha e a rocha não quer defender nada. Elesapenas existem e cumprem seu papel na ordem das coisas e “sabem” dessa for-ma porque “nasceram” onda e rocha. Exercem apenas seu direito a existência,atuando como deve ser. - Mas se a montanha não existisse poderíamos ser mortos pela onda.Então ela nos guarda. E a onda faria uma coisa má ao inundar o vale. Disse42
  43. 43. Janaína, mexendo no fogo com um tição. - Sim, você tem razão, mas não devemos nos esquecer de que o únicodesejo da onda é seguir seu caminho que tem, na guardiã, um obstáculo. Damesma forma não é desejo da guardiã nos proteger de nada. Ela apenas vêna onda algo que a recorda da própria existência ao lhe trazer a consciênciada sua força e majestade. Legitimam-se mutuamente pela própria naturezade existência. Para nós, que vivemos aqui, a montanha é um anjo protetor emconstante sentinela. Uma atalaia que mira fundo o horizonte a espera que ela,a onda, volte em mais uma batalha. Entre conversas sobre ondas, montanhas e mistérios, passaram o dia emmais um piquenique improvisado reforçando a amizade. Longe do vale, bem longe dos olhos e da compreensão humana, um outrodiálogo se realizava numa linguagem impossível à compreensão dos homens. A onda falava com a montanha... - Montanha, porque não me deixa passar? Tenho em minhas águas,sentimentos retirados de quem me alimentou e tenho que levá-los por essecaminho. - Onda, minha amiga, se te deixo passar significa que não sou maismontanha, o vale não será mais vale e aquelas pequenas criaturas deixarãode me cultuar como protetora. - Mas, ao não me deixar passar, montanha, meu destino de onda sealtera e volto a ser apenas água ordinária e sem poder. Aí tenho que voltara me fortalecer através de outras criaturas humanas que sempre tenho queprocurar, roubar-lhes os sentimentos, me tornar onda gigante e tentar, comosempre, seguir o caminho que me foi destinado e onde você se encontra, tam-bém cumprindo seu destino de montanha. - Seu destino, onda, é passar e o meu é não permitir. Seja sensata econtinue a tentar para continuar a existir, pois tentando, estarei também de-fendendo com minha existência e legitimando minha razão de ser montanha.Nossa luta, amiga, é o que nos fortalece e nos faz existir. Talvez estejamos, com 43
  44. 44. essa conversa, descobrindo nossa verdadeira sina. A de se opor uma para aoutra. Você não nasceu para atravessar o vale e eu não nasci para protegê-lo.Nós nascemos para nos complementar e garantir a existência pela perpétuabatalha de luta que não pedimos para ter, mas que existe. - Eu compreendo montanha. Volto agora para me fortalecer. Viajareipor continentes, ceifarei vidas e me alimentarei dos seus sentimentos. Tornar--me-ei onda gigante mais uma vez e meu poder será tão grande que até emsonhos alguém há de me temer. Continue aí montanha, mas saiba que voltarei. - Vá, em paz, onda. Atravesse os continentes e se alimente de outrasvidas. Ficarei de prontidão à espera da sua volta, pois assim o destino meconfiou o poder de ser montanha. Totalmente alheios a esse diálogo, Mandu e Janaína comiam pão fresco,filosofavam sobre chuvas salgadas e sentimentos. A eufórica Janaína, debruçada na janela, olhava para a imponente monta-nha e imaginava-se escalando-a, de mãos nuas, chegando até o seu topo, mirandoo mar e gritando: - Venha onda! Estou aqui e não temo você. Sou Janaína. Ela veria a onda se aproximar e antes que essa batesse na montanha, Ja-naina, sorrindo, saltaria em suas águas revoltas, se fundindo à existência das águasrevoltas e a conduzindo para longe dali, na tentativa de uma salvação permanentepara o vale e, principalmente, para seu amigo Mandú. Com seu poder, Janaína se tornaria a própria onda, mas não amedrontarianinguém. Nem mesmo em sonho. Não mais ceifaria vidas e daria nova realidade àsua existência. A montanha choraria. Não pela perda de Janaína, mas pelo fim do combateeterno. Diminuiria e se nivelaria ao solo fértil do vale, se tornando, também, solo fér-til e abrindo uma janela por onde se poderia vislumbrar o mais azul e belo dos ma-44
  45. 45. res e sem ondas ameaçadoras. Apenas dando a todos os moradores o espetáculodiário do mais belo e sereno pôr do sol... A chuva salgada não voltaria a cair, jamais.*Umoi Melo de Souza, 48 anos, brasileiro naturalizado português.Nasceu em Goiânia e se criou em Brasília. Hoje com dupla nacionalidade: brasileira e por-tuguesa. É licenciado em Animação Sociocultural pela Escola Superior de Educação JeanPiaget - Almada - Portugal e tem verdadeira paixão pela escrita de contos.E-mail: umoisouza@hotmail.com 45
  46. 46. Uma dependência invulgarAntônio Carloto* - menção honrosa – categoria internacionalLousã, Portugal-D iga-me lá então doutor, qual é o diagnóstico? O médico coçou a têmpora, ajustou os óculos de armação metálica, fo- lheou as análises e fixou os seus olhos cinzentos no paciente sentadoà sua frente. - Sr. Joel, seja sincero, quando me disse que gostava de beber o seu copitode Vinho do Porto, estava a falar de que quantidades? Joel assumiu uma posição mais ereta na cadeira e entrelaçou as mãos nocolo para disfarçar as arreliadoras tremuras que o começavam a afligir logo pelamanhã. - Bem, como sabe doutor, o Vinho do Porto tem propriedades tônicas enutritivas que combatem as astenias e as depressões e como me tenho sentido embaixo, pela manhã... - Pela manhã... - Tomo dois ou três cálices. - Normais? - Hã...duplos. O médico coçou a testa. - E depois? - Ao almoço, claro está, como aperitivo, vai outro, bem fresquinho. Note quedurante a refeição acompanho com água, não gosto de outros vinhos e muito me-nos de cerveja. Tomo é depois um Branco seco com a sobremesa e se a conversaestá boa mais um ou outro Tawny como digestivo. E ao jantar... - Já percebi, Sr. Joel, e já agora, ao lanche, com um queijinho picante... - Nem sempre doutor, nem sempre... - Sr. Joel, os seus sintomas de desnutrição, dores abdominais, anemia,46
  47. 47. tremura nas mãos - Joel apertou mais firmemente as mãos entrelaçadas - sãoreforçados pelas análises: o senhor está com uma hepatite alcoólica com sériosriscos de descambar para uma cirrose. Vou-lhe receitar uns medicamentos mas oprincipal é o Senhor... - Moderar o consumo? - alvitrou, esperançoso, Joel. - Não, cortar completamente. Para si, Sr. Joel Alfaiate, acabou-se o Vinhodo Porto. Para sempre. Quando voltou ao escritório, depois da consulta, vinha ainda abalado pelasentença. Sentou-se à secretária ainda em transe – “Meu Deus, meu Deus, não vouconseguir, estou perdido!” Foi com grande esforço que abriu a pasta do relatório decontas em que estava a trabalhar. Dentro, alguém tinha colocado um cartão, dessesoferecidos pelas beatas. De um lado estava a figura de São Onofre, padroeiro dosalcoólicos, com o corpo esquelético de eremita vestido apenas com os seus longoscabelos e barbas e uma tanga de ervas entrançadas. Do outro lado, uma oração: Ó Santo Onofre, que pela fé, penitência e força de vontade vencestes o vício do álcool, concedei-me a força e a graça de resistir à tentação da bebida do Vinho do Porto. Livrai do vício, que é uma verdadeira doença, também os meus familiares e os meus amigos. Virgem Maria, mãe compassiva dos pecadores, socorrei-nos! Santo Onofre, rogai por nós! Joel olhou desconfiado para os colegas nas secretárias vizinhas, tentandoidentificar o engraçadinho ou engraçadinhos. Pareciam, sem exceção, dedicar-seao trabalho com mais concentração e zelo do que o habitual, prova segura de queestavam todos envolvidos. Ostensivamente, rasgou a oração para o balde do lixomas não pôde impedir-se de a recitar mentalmente enquanto o fazia. Quando chegou à hora do almoço avisou os colegas de que não se jun-taria a eles como habitualmente, pois tinha de ir tratar uns assuntos ao banco.Precisava de estar só para pensar como ia abdicar do Vinho do Porto, seu fielcompanheiro desde os quinze anos e, por ironia, o seu ganha-pão, visto que traba-lhava numa empresa de exportação do Divino Néctar, sediada perto das suas caves 47
  48. 48. de armazenamento e por essa via no local com maior concentração de álcool pormetro quadrado do Mundo: Vila Nova de Gaia. Escolheu para almoçar uma casa de petiscos na Baixa de Gaia que sa-bia não ser frequentada por ninguém conhecido. Sentou-se ao balcão e logo aoconsultar a ementa veio-lhe a necessidade do aperitivo. Não resistiu - "É para adespedida", racionalizou - e pediu um Ruby fresquinho. - O cavalheiro emprestar seu vinho para eu provar? O autor deste pedido descabido estava sentado à esquerda de Joel. Eracorpulento, trajava um fato completo algo fora de moda. mas o que o destacava,para além do sotaque britânico, era o seu penteado: um risco de lado a partir doqual se lançavam em sentido contrário dois volumosos cachos de cabelo negroencrespado. - Era o que faltava! Peça um para si! Parecendo não ter ouvido a negativa de Joel, o "bife" deitou a manápula aocálice e bebeu-o de um trago. Não gostou pois cuspiu-o de imediato, bradando: - Mas este vinho ser fortificado! Toda minha vida lutar contra Vinho do Dourofortificado. Que porcaria! Privado da sua dose, transido de cólera, Joel cometeu o erro de insultá-lo: - Que a filoxera e o oídio te consumam até à raiz, meu animal! Levou de imediato uma chapada monumental que o projetou do banco atéuma mesa onde duas empregadas da retrosaria da esquina tomavam tranquila-mente a sua bica. A confusão que se seguiu foi grande. Alguns clientes e empre-gados tentaram imobilizar o agressor mas este, ao mesmo tempo que batia emretirada, sacou do seu cinto e fê-lo voltear por cima da cabeça. O cinto pareciainvulgarmente pesado e abriu-se imediatamente uma clareira. Escapou sem deixarrasto. Quando voltou ao escritório, Joel vinha ainda mais alterado do que demanhã, depois da consulta: tinha o estômago vazio, pois como era natural, tinhaperdido todo o apetite depois da agressão; a cabeça ainda lhe retinia com o estaloque tinha levado; mas sobretudo, todo o surrealismo da cena o atormentava. Noentanto, o indivíduo era-lhe vagamente familiar...A figura, o sotaque britânico, orejeitar a adição de aguardente vínica durante o processo de fermentação do Vinhodo Porto, ou seja, a sua fortificação... - O BARÃO DE FORRESTER! ERA O BARÃO DE FORRESTER! TENHO A CER-48
  49. 49. TEZA! SÓ PODIA SER ELE! E largou um violento murro no tampo da secretária. Os colegas tentaram acalmá-lo: - Epá, põe-te manso, olha o Borges! Mas tarde demais. O Patrão Borges emergiu do seu cubículo e, numa vozautoritária, chamou-o: - Sr. Joel Alfaiate, chegue-se imediatamente ao meu gabinete que eu pre-ciso de falar consigo! O Patrão Borges era um indivíduo com toda uma vida dedicada ao comérciodo Vinho do Porto. Com muitos poucos estudos, tinha começado por baixo, naestiva das pipas. À custa duma vontade férrea e de muita esperteza tinha subidoaté ao cargo de dirigente intermédio. Bem nutrido, de aspecto e feitio bonacheirão,sabia, no entanto, quando "pôr os pontos nos Is": - Sr. Joel Alfaiate, não gosto de me meter na vida particular dos meus fun-cionários. Como sabe, eu também não sou nenhum "bebe água" mas tudo tem osseus limites. Não posso admitir que Vossa Excelência se encharque ao ponto dese meter à pancada na hora do almoço - não me contradiga porque ainda tem asmarcas na cara - e de desatar aos berros e aos murros à secretária durante ashoras de expediente. Mas ainda pior, é que tenha começado a ter alucinações e aimaginar encontros com senhores falecidos em meados do século XIX! O senhor éum contabilista, carago! Por definição deveria ser um ser desprovido de qualquerimaginação, quanto mais deste tipo! Ou se organiza ou vou ter de tomar medidasradicais. Como sabe, a legislação laboral tem vindo a flexibilizar-se...Estamos en-tendidos? - Perfeitamente, pa… Sr. Borges. - Então vá para casa descansar, siga os conselhos do seu médico e amanhãquero vê-lo em forma para trabalhar, fresco como uma alface. - Cá estarei, Sr. Borges. Enquanto caminhava até ao seu modesto apartamento - tinha decididoprescindir do autocarro e ir a pé para desanuviar a cabeça - Joel começou a pôrem causa a sua sanidade mental. Não se sentia louco, mas só podia estar. Era aúnica explicação. De resto, os loucos não se tomam como loucos, funcionam coma sua própria lógica interna, distinta das outras pessoas. Por outro lado, ao admitira hipótese de loucura, demonstrava a sua racionalidade…Arre! 49

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