Livro experimentanea 10_2012

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Livro experimentanea 10_2012

  1. 1. 10Wanilda Borghi, Marianice Paupitz Nucera, Elaine Alencar, Hamilton Brito (org.s) Grupo Experimental Academia Araçatubense de Letras Araçatuba 2012
  2. 2. Capa: Wanilda Borghi “Xis traço” Grafite, lápis de cor e aquarela sobre papelRevisão: Marilurdes Martins CampeziPresidente da Academia Araçatubense de Letras (AAL) Maria Apparecida de Godoy BaracatCoordenadora do Grupo Experimental - GE Marianice Paupitz NuceraCriação da Logomarca GE: Wanilda Maria Meira Costa Borghi - 2009 Representante do GE no CMPCAProjeto e Editoração Gráfica: Celso NicoleteCTP e Impressão: Editora Somos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Grupo Experimental. Academia Araçatubense de Letras Experimentânea 10 / Wanilda Borghi, Marianice Paupitz Nucera, Elaine Alencar, Hamilton Brito (orgs.). -- Araçatuba, SP : Editora Somos, 2012. ISBN: 978-85-60886-53-1 1. Literatura brasileira - Coletâneas I. Borghi, Wanilda. II. Nucera, Marianice Paupitz. III. Alencar, Elaine. IV. Brito, Hamilton. 12-10845 CDD-869.908 Índices para catálogo sistemático: 1. Antologia : Literatura brasileira 869.908
  3. 3. ÍndicePrefácio .......................................................................................................07Ana de Almeida dos Santos Zaher ...............................................................09Anizio Canola...............................................................................................16Antenor Rosalino .........................................................................................25Aristheu Alves..............................................................................................31Carmem Silvia da Costa ..............................................................................35Elaine Cristina de Alencar ............................................................................41Emília Goulart dos Santos............................................................................52Isabel Moura ...............................................................................................67José Hamilton da Costa Brito ......................................................................73Manuela Sant’Ana Trujilio ............................................................................86Maria José da Silva .....................................................................................95Marianice Paupitiz Nucera .........................................................................103Pedro César Salves ...................................................................................114Vicente Marcolino Rosa .............................................................................124Wanilda Maria Meira Costa Borghi ............................................................130Wanda Edith Meira Costa ..........................................................................146Logomarca do GE ......................................................................................149
  4. 4. PREFÁCIO Q uando recebi o convite para apresentar este livro, senti uma doce e grata emoção. Foi como anunciar que está brotando uma fon- te de água cristalina renovando a vida. Como uma luz mansaque escapa pela fresta de uma porta entreaberta, chamando atenção. Curiosos vão se aproximando meio tímidos, espiando o lugar e sur-presos descobrem que é ali a fonte. Fonte de ideias, onde podemos dar asaspara a imaginação e luz para os pensamentos. Como o pensamento é alado,voa,viaja, vai aonde quer, transforma em palavras o que vê e sente, vai me-xendo com as emoções, cutucando a inspiração e faz nascer o poeta que emverso ou prosa vai cantando seus amores e dores. E nasce o escritor. Bendita luz mansa que tem revelado a alma poeta, observadora, crítica,suave, objetiva ao expressar sentimentos. Gente sensível que brinca com as palavras e as tornam adocicadasquando falam de amor, que gritam protestos quando seus direitos não sãorespeitados, gente que chora dores de amores desencontrados, enquanto ou-tras lamentam por aqueles que foram para nunca mais. Amor e ódio, saudade, lamento, esperas, sonhos e pesadelos, chegada,partida, risos e lágrimas, sempre servirão de inspiração e se dermos asas, aspalavras darão formas, e as ideias brotarão e deslizarão compondo poemas,versos, prosas e romances com a serenidade das águas da fonte. Parabéns ao Grupo Experimental, fresta de luz que atraiu poetas e gerouescritores dando oportunidade a tantas pessoas que sonham um dia ter seusescritos publicados. Quando suas ideias e pensamentos se transformarem empalavras grafadas nas páginas deste livro, ficarão para a posteridade. Esta coletânea reúne trabalhos de vários participantes, com o objetivode expor sentimentos e dar oportunidade. As pessoas que gostam de escreveraqui se encontram acolhidas. Não há competição, há harmonia. A luz da frestaé apenas a timidez. Hilda Dias de Oliveira 7
  5. 5. VOAM SEM ASAS Ana Almeida dos Santos Zaher A felicidade existe, mas na maioria das vezes a deixamos escor- regar feito areia nos vãos dos dedos. Voam sem asas coisas boas e más, e estamos vulneráveis e livres. Apesar dos direitose deveres, existem muitos valores que a sociedade coloca em primeiro plano,ainda somos donos de nossas escolhas. m algumas situações o mundo sevira contra você que depois se vê obrigado a voltar, porque nem tudo é regra,e existem inúmeros fatores que perdem o controle das mãos humanas. Exigirperfeição é algo fora do alcance, mas trabalhar para o bem de todo é um caminho árduo, embora gratificante. É claro que seria bem melhor amar tudo e todos, mas há quem afirmeque poderia não ter graça se fosse assim. É impossível estar de acordo comtudo, mas é possível conviver em paz com as diferenças. Não é mais fácil,porque temos orgulho e muitas vezes não valorizamos as coisas e pessoasque estão sempre por perto. Voam sem asas, o amor e ódio, e o universo traz e mostra que somenteser livre não basta; a inteligência, para definir bem seu próprio caminho, éfundamental. O medo de abraçar e acolher a semente do bem faz defasar a colheita.Para muitos é mais fácil acomodar-se e resmungar a vida toda, do que enca-rar e tentar. Sei que é fácil pedir coragem aos outros, e eu não peço, e nem digoque temer é errado. Acredito que o certo é dosar os sentimentos e adquirirequilíbrio. Vale a pena se esforçar e tornar seu sonho realidade, pois mais do quequerer, é preciso lutar e não desanimar na primeira queda. Tudo serve de aprendizado, o que não deve ocorrer é perder as opor-tunidades, o ânimo e a vontade de chegar, mesmo que não seja ou aconteça 9
  6. 6. exatamente do jeito que se planejou. O que importa é sentir-se feliz e satis-feito. Na maioria dos casos, as pessoas se decepcionam com o rumo quesuas vidas tomaram, e nem sempre admitem e aceitam um recomeço. Nãoentendem que temos o direito de mudar de opinião e a rota. Voam sem asas: a natureza, os homens, todo o planeta, misturadosfilhos e agregados em busca do mesmo objetivo: a realização de seus anseios,cada um com sua particularidade. Seguem sua viagem, voando sem asas e sem data marcada, em umavelocidade não controlada, porque cada piloto conduz sua nave dentro dotempo não determinado. É evidente, o percurso é o mesmo, os sonhos e desejos são incontá-veis, mas cada um é responsável pelo que quer e a que almeja. Voam sem asas, uns inocentes, outros com muita sede, e o mais im-portante: dentro do contexto todos vão conquistando seus méritos. 10
  7. 7. RETARDADA FELIZ Ana Almeida dos Santos Zaher C aro leitor, afirmo sempre que viver é bom demais e ser feliz é minha obrigação. Contudo, ainda choro por seres que não conseguem chegarnesta máxima da vida. Atingi uma fase maravilhosa aos quarenta anos e liber-tei-me da cruz que pesava em meus ombros: o medo terrível das más línguas,dos olhares maliciosos que corriam sobre meu corpo e meu ser, sempre bus-cando em mim um erro ou atitude, que os covardes não tomariam nunca. Sempre convivi com pessoas maduras, nunca desprezei seus conse-lhos e exemplos. Sempre dei valor ao quesito experiência. Caro leitor, o sábio de fato repassa o que aprende, eu ainda não seitudo e acredito que ainda faltam respostas para muitas coisas. Mas quantoao saber, diante de tantos relatos e exemplos vivos, decidi buscar a felicidade,descobri uma mina de ouro, e me banhei nas águas com o melhor tesouro. Sem planos, despida de orgulho, adormeci e acordei, pensei ser sonhoe me belisquei. Tudo era real. Caminhando em delírio, externando o estadode graça, incomodando os infelizes, ouço vozes fazendo da minha vida umanovela, e desenhando meu triste fim e prevendo meu futuro. Ouvi uma bocamaldita gritar: “Ela é uma retardada, retardada!” É,meus caros, os retardados também são gente e muitas vezes maishumanos do que os bons de cabeça. Agem com autenticidade, sem fingimen-to, falam e reagem de acordo com o momento. Ao contrário dos consideradosem juízo perfeito que, às vezes, jogam a perfeição no vaso e dão descarga evomitam asneiras nos ambientes, acham-se no direito de sentar sobre seuspróprios erros e defeitos, com rosto coberto de máscaras. E saem por aí desti-lando o veneno, já que fizeram suas escolhas, caíram no abismo e não houveresgate; como almas penadas se deliciam em maldizer a vida alheia. Não julguem um livro pela capa nem uma mulher pelo sorriso, dizeresantigos que se encaixam nos dias atuais. Enquanto perdem tempo cuidando 11
  8. 8. do jardim alheio, o próprio abriga apenas insetos indesejáveis. Eu sem flores não respiro, para veneno de cobras há muito tempotenho antídoto. Às vezes sinto-me perdida no espaço, ainda abala minha es-trutura quando carunchos tentam penetrar a qualquer custo meu paraíso. Então, mergulhada em um desespero mudo, tenho fé e sinto que Deusme ama incondicionalmente. Então dou uma ‘banana’ para os invejosos edigo: “Já sofri, venha o que vier, não sofro mais.” Lembro, então, de tantas vidas que se suicidaram por não ter tido acoragem de mudar sua rota; lembro-me também das moças que morriamvirgens e solitárias com medo do sexo e da fama. E lembro-me ainda demuitas outras pessoas que escolheram a morte, de tamanho sofrimento queo preconceito causou. Prefiro ser uma retardada feliz que ter sonhos e desejos sufocados. Ou,ainda, desistir sem ter lutado; uma retardada feliz que segue sempre tentandonovos caminhos, mesmo sabendo que alguns, possivelmente, não trarão osresultados esperados. 12
  9. 9. BAILARINA Ana de Almeida dos Santos ZaherB ailarina Bailarina... Menina Muito belaUm anjo bailandoAlgodão doceEm torno da multidãoDistribuindo pazAlma terna mostrava a existência do amorTraz luz e graçaBailarina...Espírito de criançaQue não morre jamaisEsperança que insisteBailarina...Dona das estrelasUniverso compartilha tanta belezaPoucos herdam o domínioCorajosos seguem em busca do equilíbrio. 13
  10. 10. CARTA AOS ADOLESCENTES Ana de Almeida dos Santos Zaher A mãe carrega em seu ventre o filho por nove meses. Meses de alegria e expectativas. A criança, o filho, a benção! Há mãe que já carregou mais de vinte filhos em seu ventre,sempre os defendendo com unhas e dentes. Mas nem sempre esses vinteforam por essa mãe. Nos dias atuais os pais estão preferindo ter poucos filhos, para darmais amor e conforto. E dão de tudo, até mais que o necessário. Ainda épossível encontrar filhos que dão valor e cuidam da própria mãe; é raro, masexistem. Neste exato momento o que mais está sendo assustador, um pesadeloreal, ver que tantas vidas geradas e criadas com tanto amor, estão matando,batendo, torturando aquela mulher que deixou de viver sua vida em prol dafelicidade e realização de trazer ao mundo uma vida, um filho. Uma mãe, após dar à luz, não tem mais sossego. Não dorme direito etambém não se alimenta, e o pouco que come não a satisfaz. E muitas vezessão chamadas de tolas por isso. Mas é por natureza que as mudanças ocor-rem. Ouço desde criança que filho é um pedaço do coração da mãe que batefora do peito. E isso é verídico. Esta ‘carta aos adolescentes’ é necessária; ela também servirá aosfilhos adultos e ingratos. Todo ser humano passa por uma transição, fase de revoltas e insatis-fações, mas a maioria, ao invés de olhar para si e aprender a se conhecer, afazer os reparos, não o fazem! A primeira culpada, condenada sem ir a júri, éa mãe. Será por quê? As meninas vão saber o que é ser mãe quando derem à luz, e as quepor um motivo ou outro for estéril, vão saber do mesmo jeito. A dor da ausên-cia falará por si só. 14
  11. 11. Os meninos, imagino sentirem uma emoção única ao desmaiarem nasala de espera e logo pegarem ao colo o fruto e constatarem o poder que têmnas mãos de perpetuar sua espécie. Aos adolescentes que têm coragem de sujar as mãos com o sangue daprópria mãe e os filhos barbados que fazem tanto mal e chegam ao extremoda maldade interrompendo a vida do portal que os trouxe ao mundo com tantoamor, não sabem o que é ser mãe, pois não existe escola para ensinar a sermãe, então vão morrer mesmo sem saber onde está o erro. Uma mãe, por mais defeito que tenha perante os olhos da sociedade,não merece a punição de ser assassinada pelo ser que ela gerou e recebeucom tanto amor. Uma mãe jamais esquece um filho, muitas vezes até abremão de criá-lo devido às suas condições financeiras. A maioria amamenta osfilhos, variando de meses até anos. Sempre doando seu tempo. Ultimamente, com tantas tragédias, fico a pensar que realmente hácoisas que não valem o sacrifício. As mães estão entre a cruz e a espada,amam demais e são incorrigíveis. E os filhos, o que mais querem? Carregar naconsciência o peso e na mão as marcas do sangue que corre em suas veias?Assassinam o corpo, mas não rompem o cordão umbilical. Nada fica impune. Sinto muita pena. 15
  12. 12. COINCIDÊNCIA FATAL Anizio Canola U m ligeiro giro no volante. Então, o possante carro, cor da moda, entra suavemente no curto aclive, de acesso ao motel. Por um instante dá para ver o luminoso feérico. Em destaque, o nomedo ninho de amor, Eros. Um pouco acima, a enorme lua cheia, que parece tãopróxima. Na verdade, confunde-se com a fachada, como se fora uma estampasó. O feitiço do luar espalha-se carro a dentro, envolvendo ele e a amada queestá tímida, ao lado, ocultando o rosto com um xale tricotado. Receio natural.Afinal é um encontro proibido. Mas só porque a vida quis assim. Nasceramalmas gêmeas, todavia, nas voltas que a vida dá, casaram-se com outros.Neste momento, seus corações estão revoltados. Acham que deveria importarapenas o amor, puro e sincero, para ficarem juntos. Pena, as convenções têmoutras regras, exigem muito mais. Por isso estão no Eros Motel. Arriscando-se, para terem um marcantedia na vida, a que têm direito, por se amarem de verdade. Não ignoram, entre-tanto, que essa noite mágica, após 30 anos distantes um do outro, provavel-mente será o epílogo de uma história maravilhosa. O pequeno trajeto, até chegar à recepção, é suficiente para fazer eclo-dir o passado nas mentes de ambos, como num filme dos anos 60. Não serecordam o porquê de haverem tomado rumos diferentes, posto que se ama-vam tanto. Distantes no tempo e no espaço! Recentemente, por puro acaso,seus caminhos se cruzaram de novo. A velha chama reacendeu, embora sejaevidente que só noutra vida poderão ficar juntos de novo. Durante vários dias,combinaram por telefone de se encontrarem, se verem, se amarem, e... dize-rem adeus... Eros, ponto de encontro furtivo. E da despedida, pois jamais terão pazdoutra maneira. O marido dela o conhece bem, desde os tempos da juventudequando os três, solteiros, moravam longe daqui. A areia da ampulheta marcouo espantoso sucesso na vida daquele casal. Quanto a ele, continuou com 16
  13. 13. uma conta bancária modesta. Mas feliz. Apesar da vida regalada, ela sentiuque errara na escolha desesperada. Contrariada, continuou fiel ao amor deoutrora, embora na distância. Quem consegue controlar o coração insensato,perdidamente apaixonado? Em consequência, o marido passou a nutrir senti-mentos de ciúme e crueldade. Aí, o risco: se soubesse quem chegou, de longe,para tê-la... O carro parou na portaria. Com um movimento ágil, erguendo o braçoesquerdo, ele pegou a chave de um apartamento. Em seguida, rumou por umaalameda ornada de lâmpadas coloridas de cortesia. Acolhedora, a calma doambiente. Dá para ouvir os pneus escorregando no pedrisco. Ela puxa o xale,descobrindo um pouco o rosto. No cenho, a marca da preocupação. Ele admi-ra a face dela, iluminada pelo luar. Pronto. Aí está a suíte 18. Automaticamentea porta da garagem se abre. Tempo suficiente para o carro entrar. Fechada,garante a privacidade do casal. A salvo de olhares ocasionais curiosos. Ele veio de longe. Ninguém o conhece nesta cidade dela. A não ser omarido da sua amada. Arriscam muito. Quis tê-la de novo nos braços. Lamen-tavelmente, na mocidade não a reconhecera. A mulher da sua vida estivera aoseu alcance, mas... Agora, não tem mais jeito. Resta apenas curtir esta noitee sumir no mundo. Ele pensa: Eros, o Deus do Amor. Muito apropriado. Quantas históriasacontecem aqui, amiúde. Porém a vida amorosa não são só rosas. Eles mes-mos são, na verdade, protagonistas de um enredo mal traçado. Corpos ardentes. Envolvidos pela paixão. E simultaneamente pelo amor.As revelações. As angústias. Os temores, os desalentos. Um turbilhão de sen-timentos no ambiente sofisticado da suíte. Tudo acabou. Resta agora ir embo-ra dali, para nunca mais. Talvez seja difícil convencer os corações, mas... Um último beijo. Demorado. Saboroso. Doce mel. Ele gosta do meca-nismo na parede, que facilita acertar a conta. Passa um cheque, em paga-mento. Ela arrepia: - “Você deve estar louco. Vai se identificar”. Ele não liga: ninguém o conhece na região. Que perigo pode haver? Buscam a porta de saída, abraçados. Um olhar derradeiro para a camaredonda, desarrumada. Ah, foi tão bom! – repetem. A banheira de espuma, 17
  14. 14. transbordando... A suave cor rosa do aposento. Um verdadeiro cenário deamor. Para marcar a despedida de suas vidas. Separadas pelo ingrato des-tino. O interfone toca. A moça da portaria pergunta-lhe se ele é mesmo deAraguari. Ele confirma. E se queda intrigado. Como ela descobriu? Ah, simplescoincidência... Ele vai girar a chave, quando o interfone toca novamente. A moça plan-tonista pede-lhe um favor. Um amigo da casa está em dificuldade. Necessitacom urgência de carona até determinado ponto da estrada, não muito longedali. Ele invoca a privacidade. A moça é persuasiva. A pessoa irá no bancode trás. Basta deixar a porta traseira destrancada, que entrará, sem fazerperguntas. Não falará com eles. E quando chegar ao local pretendido indicarácom o braço. Ela, ouvindo aquilo, arregala os olhos. Sua intuição não admitetal absurdo. Ele argumenta que já concordou, não dá para voltar. Ela morde oslábios. Discorda, mas resolve não dizer mais nada. Aberta a porta da garagem, o carro sai de ré. Ao passar pelo escritório,para um pouco. O luar agora é discreto, vencido paulatinamente pelas som-bras da noite. Um vulto passa pela porta de vidro. Rápido, entra no carro, atrás.Ele tenta distinguir a pessoa, espiando no retrovisor interno. Na penumbra,percebe que o homem tem o rosto coberto por um lenço enorme, talvez colo-rido. E usa chapéu atolado de peão. O carro escorrega no pedrisco. Eis a saída.Ele tem vontade de gritar: adeus, Eros Motel. Valeu o momento de felicidade.Ali, juntinhos. Dessa forma, resgatamos um dia na vida! Ela sai do motel protegida pelo xale. Suavemente, inclina o rosto noombro dele. No interior do carro, ninguém diz nada. A estrada está escura.Até a lua se escondeu. Uma inquietação começa a atormentá-lo. Quem seráesse cara? Seus pensamentos ficam agitados. Devia estar louco, como eladisse, quando aceitou. Expor-se, e a ela, a um risco desnecessário. Para servira quem? Atender um pedido da gerência do motel? Só um idiota, mesmo. Elalogo adormece, feliz. Em dez minutos estarão na cidade. Ele procura ordenaros pensamentos. Como fará para se livrar do sujeito? Afinal não foi definidoonde desceria... O camarada tosse de vez em quando. E pigarreia. Que sufoco.Ele olha seguidamente no retrovisor. Querendo detectar qualquer movimento 18
  15. 15. suspeito. O carro roda por aproximadamente dois quilômetros. Estrada deserta.Firmando a vista, ele percebe ao longe uma Van, parada no acostamento. Doisvultos acenam na pista... Devem precisar de ajuda. Que sorte. É a chance dedescartar o carona inconveniente. Ele diminui a marcha. Ela se mexe, quan-do ele a afasta carinhosamente do seu ombro. Nisso, surge um braço juntoao rosto dele. O dedo indicador aponta que o cara quer ficar ali. Que ótimo.Facilitou. Estaciona bem atrás da Van. Um moço alto se aproxima do carro. Pe-de-lhe um pouco de combustível. Ele concorda. O carona desce. E acendeuma lanterna à pilha. Aí foca o rosto dele, ostensivamente. Que reclama, poisa luz fere seus olhos. Perturbada, ela acorda. Sem querer, deixou o rosto des-coberto. O cara da lanterna assobia para o outro homem, gorducho, que vemdevagar. Ela tenta reconhecer a silhueta do homem que está chegando, comalgo nas mãos. - “Meu Deus, parece que é...”. No momento confuso, o carona, lanterna em punho, diz: - “Eis os pombinhos, patrão!”. Ele fica aturdido. Se dá conta da gravidade da situação. O gorducho, alquebrado pelos anos, chega bem perto e esbraveja: - “Procurei tanto... e a caçada acaba assim”. A palavra “caçada” o estupora. Ela puxa o xale, instintivamente que-rendo se proteger. Dois estampidos ecoam na noite medonha... 19
  16. 16. FLORES E AMORES Anizio CanolaO h, Musa. Tu gostas, percebe-se, de margaridas. Eu também gosto de floresIdentifico-me mais, com rosas vermelhas!São a minha cara.Mas, na realidade da vida, sou um cravo vermelho.Perfumado, de cor nítida, mas menor.Sem a terna suavidade de rosas e margaridas.Quedo-me em dúvida, ó Musa.Algum dia tua margarida gostará de ser envolvida pelo carinho do meu cravo?Felicidade que nem orquídeas ou gerânios saberão proporcionar igual. 20
  17. 17. TIO (A) É A... Anizio Canola A rede social Facebook traz, vez ou outra, mensagens de gran- de valia. Outro dia compartilhei uma que achei oportuna. Dizia: “Moro em um país onde treinador de futebol é chamado de pro-fessor e professor é chamado de tio!”. Entendo como ignomínia tratar mestresdessa maneira. Pior que grande parte deles aceita passivamente tal desaforo.Mormente nas escolas de educação infantil. Aí, como diria um mineiro, “viraum queijo!”. Eu, quando criança, morava num recanto caipira do Estado, emCerqueira César, e falava “fêssora”, mas jamais, “tia”. A professora Maria Tereza Marçal Cardoso, minha querida amiga mi-neira da gema, em razão do providencial texto, encetou campanha no próprioFace. Escreveu, a poetisa: “Cabe a todos nós, educadores, profissionais deeducação e toda a comunidade escolar e sociedade cultural organizada, aca-bar com essa inversão de papéis e valores: professor não é parente, é autori-dade competente (ou pelo menos deveria lutar para ser)”. Quem primeiro barrou essa forma desrespeitosa de tratamento foiRuth Cardoso, conforme manchete de primeira página do Estadão. O entãoPresidente Fernando Henrique Cardoso e ela estiveram em um teatro, em SãoPaulo, para verem uma encenação famosa. Na saída, um grupo de estudantesinterpelou o casal sobre o espetáculo. Uma adolescente perguntou à Ruth:“Tia, o que você achou da peça?”. A ex-ativista, que se transformara numamulher culta e admirável, demonstrou espírito empedernido, respondendo nalata: “NÃO SOU SUA TIA!”. Na escolinha onde minha neta está matriculada percebi, com muitasatisfação, que ali só se fala “professora”, nunca “tia”. Bom, senão como ospetizes irão aprender essa noção de respeito? Mas é difícil. Na porta algunspais dão recados aos seus baixinhos assim: “Fala pra tia...”. Esse modo de tratar, porém, não está circunscrito ao âmbito escolar; já 21
  18. 18. contaminou a sociedade. Muita gente fala “tio” ou “tia” sem critério. Por acharbonito, ou estar na moda, ou .. sei lá! Quando um flanelinha aproxima-se domeu carro e fala “Tio, posso tomar conta?”, já fica queimado comigo. Digo-lhe,nunca lhe ensinaram a falar senhor ou senhora? Certo dia, no Fórum estadual, eu controlava o acesso à sala de audi-ência, quando apareceu um vereador famoso para depor. Logo depois surgiuo assessor dele. Jeitão estabanado, perguntou-me: “Tio, vai demorar muito?”Pensei. A gente rala na faculdade, bacharela-se em Direito, recebe um di-ploma da conceituada Toledo, em cuja capa está escrito “Doutor”. Passa noexame da Ordem. Aí aparece um desrespeitoso desses, que não tem noçãonenhuma de sociabilidade, e me chama de “tio”? Ninguém merece! Imaginei o cara acompanhando o vereador no palácio do Governo. Écapaz de chamar o governador de “tio”. Será o caos da educação? Senhoresedis, selecionem melhor seus auxiliares de gabinete. Poucos meses depoissoube que aquele assessor bronco fora remanejado. Passou a ser zelador deum cemitério. Como diria meu grande amigo Brito, do Grupo Experimental, que temmaneira peculiar e objetiva de dizer as coisas: - Vai, tonto. Vai chamar algumfinado de “tio”. Arriscar-se-á a ver com quantos ossos se faz um esqueleto... 22
  19. 19. UM DIA LINDO DEMAIS Anizio Canola T enho algo muito importante para lhe contar, meu bem. Ontem foi um dia extraordinário. Você precisava estar aqui para admirá-lo comigo. Nossos amigos sentiram o mesmo. Tudo nos conformes. Direitinho.Satisfação total. Manhã ensolarada de céu azul, do jeitinho que você aprecia (ideal paraconseguir aquele bronzeado). Como se a natureza houvesse renovado a pintu-ra da paisagem, tornando-a mais atraente, colorida, deslumbrante... O ar estava impregnado de felicidade. Nesse dia incomum, a todo ins-tante você surgia no meu pensamento. Cada gesto, cada detalhe, cada lugar,tudo enfim lembrava você. Naquela praça sombreada pelo imenso arvoredo, onde você adoravanamorar-me, quase pedi a um casal apaixonado para desocupar o nosso ban-co predileto. Mas a tempo lembrei-me de que você não estava mais na cidade.De que adiantaria? Contemplei embevecido o idílio digno do nosso amor deoutrora. Ah, que saudade... Um dia imperdível. Só coisas boas acontecendo. O nosso número desorte, 36, foi premiado. E eu aqui sozinho, sem ter você para compartilhartamanha emoção. Achei que nem valeu a pena. No vaivém agitado do calçadão, suas palavras – “Já compomos umacidade grande!” – se confirmavam. Mas por ironia do destino, faltava umapessoa muito especial na multidão. Você. À noite, na avenida, recordei nossos passeios de mãos dadas, aprecian-do o movimento. Ninguém quis ficar em casa. O pessoal todo estava ali, empeso. Curtindo o burburinho, na suave ladeira iluminada pelo luar maravilhoso.Nossa turminha, na mesma lanchonete, esbanjava alegria na maior animação.Porquanto ontem tudo era convidativo, romântico, barulhento, festivo, ao agra- 23
  20. 20. do de todos os sentimentos. Rebatia-se o forte calor com as cervejas espertasde costume. Olha, tiravam o chope exatamente como você gosta. Senti suapresença ao meu lado, sorrindo. Pura ilusão. O loirinho levou o violão e aMeire cantou coisas lindíssimas. Aliás, gostaria de ouvir você de novo cantarmúsicas da Elba. Seu modo de ser, sua voz, seu porte elegante em qualquertraje sempre nos trinques... Transbordava entusiasmo e você distante, Não meconformo. Eles nem me viram. Fiquei alongado e logo retornei para casa. Por isso quero lhe contar desse dia certinho, repleto de passagensgostosas. Um dia como poucos, lindo demais, arrebatador... para os outros!Porque para mim, longe de você, estava desbotado, sem graça, profundamen-te melancólico. Hesito ao teclar seu telefone para lhe dizer que, com seu brilho pessoal,tudo isso, tão lindo para os demais, seria mais radiante ainda para nós. Basta-ria você estar comigo, numa boa, entende? Nem sei se você continua no mesmo endereço ou se vai me atender.É difícil crer que tudo terminou, se havia tanto amor. Não percebi que nossofilme estava acabando, quando você dizia que ia sair da minha vida. Meu bem,essa impressão incontida de perda que restou, tem me magoado muito. Comabsoluta certeza, eu nunca mais vou esquecê-la. Mas, que culpa tenho eu de pensar assim? Se os dias lindos continuamacontecendo e tornam mais fortes as recordações daqueles nossos momen-tos felizes, aumentando a amargura que me consome a alma? 24
  21. 21. FASCINAÇÃO Antenor RosalinoB orboleta amarela, tão bela! Repousa quieta no meu pensar. Crisálida dos meus sonhos etéreosFetiche do meu olhar!Não se vá antes da aurora,Não lhe toca o meu penar?Sob um céu de noite clara,Não deixe o vento a levar...Sedutora beleza que fascinaEsses meus olhos que orvalhamFormando cisalhas de prataAlucinados com seu voejar!Deixe o alvor do dia chegarCom olores de carmimE só então, abra suas asas laminadasE deixe o nada que se fez em mim. 25
  22. 22. AMOR ETERNO Antenor Rosalino R evivo em sublimes sonhos, A trajetória da nossa união, Feita de espinhos e flores, Num misto de alegrias E lágrimas de solidão! As muralhas invisíveis, adversas Do tempo veloz e incerto Não conseguiram ceifar A chama azul da esperança Presente em nosso olhar! Sonho lindo que supera Soturnas realidades No alvor de cada dia E sob a luz de estrelas rútilas Mais aumenta essa verdade. Surpreende-me a intensidade Translúcida e serena Desse amor eterno que emana Nas noites onde os candelabros Fagulham orquídeas que encantam! Como andarilho dos sonhos seus, Esboço lágrimas ardentes, Peroladas pelo amor e a saudade Num tempo infinito onde a espera Tem sabor de noites estreladas. 3º lugar – poesia - I Concurso do GE – 08/05/2012.26
  23. 23. SÓCRATES DE ATENAS Antenor RosalinoC om o pensamento envolto pela bruma da ética e da filosofia moral, fundamentou sua existênciano memorável lema:“conhece-te a ti mesmo”.A pureza de sua alma liberta,desconhecia preconceitos ignóbeis;dialogava com pobres, ricos, mulheres,escravos... Daí a razão de ser taxadopelos detentores do poder“perversor da juventude”, custando-lhe isso,o holocausto da própria vida.Buscava ao raiar de cada dia,o aprimoramento da virtude...Viveu com humildade,notadamente reconhecidaem sua imorredoura frase:“Tudo o que sei é que nada sei”.Nada deixou escrito...Talvez, em sua sapiência,desejasse trazer à luz que,mais do que as letras,os atos e os exemplos ficam!Perece assim, o grande sábio,serenamente, sem recusar a taçado amargo e cruel veneno; mas o seuexemplo de vida e sua doutrina ficarãocomo obra imortal na galeria dos eternosque o tempo jamais ruirá. 27
  24. 24. O SERESTEIRO (Homenagem ao “Grupo Amigos da Seresta” de Araçatuba) Antenor Rosalino C om o olhar complacente Em miríades de estrelas, O seresteiro se entranha Na poesia plena presente Do plenilúnio que abriga As suas canções dolentes! Predestinado por mãos divinas, Encanta multidões... Energiza-se a luz do prado Nas serestas que arrebatam Corações esmaecidos De saudades incrustadas! Sob o prisma do luar afável, O seu coração nostálgico Busca revelar o belo E os acordes acontecem Nas canções que fazem eco No altar dos campanários E nas montanhas em prece!28
  25. 25. LAÇOS AFETIVOS Antenor Rosalino L á pelas bandas do sul mato-grossense, onde as grandes e visto- sas fazendas se descortinavam num carrossel encantador, duas fazendas não muito próximas sobressaíam das demais pela vas-tidão de suas terras verdejantes e incontáveis cabeças de gado. Eram elas: aFazenda Camarinhas pertencente ao senhor Anastácio e a Fazenda Santa Te-reza, de propriedade do senhor Virgílio, um coronel de exército, aposentado. Os fazendeiros eram amigos de infância, conhecidos pelo progressosempre crescente de seus negócios e pela invejável extensão territorial desuas terras. Ambos possuíam habilidades extraordinárias para os negócios,razão pela qual, sempre se sobressaiam sobre os demais fazendeiros, e pos-suíam, sobretudo, um grau de escolaridade superior aos outros. Tanto o senhor Anastácio, quanto o coronel amigo, embora fossempessoas de boa índole, e bom caráter, eram muito vaidosos, e gostavam de sevangloriar sempre que concretizavam suas negociatas, comumente regadasa muita lucratividade, mas não havia rivalidade pessoal entre ambos, afinalforam criados juntos e a amizade que os unia era de verdadeiros irmãos. Os negócios atinentes à compra e venda de gados eram constantesentre os latifundiários. Assim, o senhor Anastácio que possuía uma vaca dife-renciada pelo seu porte extremamente belo, da qual, o leite parecia jorrar commais abundância, acabou despertando a atenção do coronel Virgílio que resol-veu fazer uma proposta de compra pela vaca Indiana. Sim, era este o nomedela, cuja proposta depois de longamente analisada, foi finalmente aceita pelosenhor Anastácio. Tendo sido definida a negociação, no dia seguinte, quando o canto dosgalos e as estrelas matutinas davam adeus à madrugada, o coronel Virgílioencarregou o seu filho, Gervásio, de buscá-la. Com muito custo – pois Indianaaparentemente não desejava deixar a sua fazenda de origem -, o rapaz a levoupara a nova moradia. 29
  26. 26. Entretanto, o animal estava muito habituado com a fazenda onde nas-cera, o apego era forte demais pelo local amplo e aconchegante, pelo carinhocomo era por todos tratado e também pela companhia dos outros animais.Sendo assim, todos os dias a ladainha se repetia: Indiana sempre fugia para asua antiga fazenda e lá ia Gervásio buscá-la com enormes dificuldades. Num certo dia, porém, ao sair à procura da famosa vaca que maisuma vez havia fugido, Gervásio a avistou atolando-se num pântano e, pararesgatá-la, o filho do fazendeiro teria que fazer a travessia de um rio pequeno,porém, profundo. Ao fazer o trajeto, inesperada e inexplicavelmente – pois setratava de um exímio nadador-, o rapaz veio a falecer, vitimado que fora porum mal súbito. Assim, com a lamentável e triste morte do rapaz, a vaca In-diana também morreu tristemente, atolada no pântano nefasto que agora, talcomo o caudaloso rio, guarda essa história que ficará tristemente na memóriade todos, como mais uma lição dos laços afetivos que transcendem entre aspessoas, mas também entre os animais. 30
  27. 27. UM HOMEM DE OUTRO MUNDO Aristheu Alves S empre tive curiosidade de conhecer as pessoas consideradas fenômeno devido possuírem um avançado índice de inteligên- cia. Meus parentes, que conheceram Mateus na sua infância,afirmavam que o menino com apenas cinco anos de idade era uma verdadeiraatração considerando que o garoto era filho de pai e mãe caipiras, semianal-fabetos e viviam numa fazenda de café no Estado de Minas Gerais. Não eranormal uma criança, naquela idade, saber tanta coisa sem nunca ter ido àescola. O menino falava com tal desenvoltura como se fosse um adulto. Elese divertia tocando um cavaquinho que ganhara de seu padrinho no Natal. A noticia sobre a sua sabedoria já havia se espalhado por toda a regiãodo Triângulo Mineiro. Seus pais por várias vezes ficaram assustados com osprocedimentos do filho. Dona Leonilda ao atender os curiosos não se cansavade repetir: - Meu filho já nasceu sabendo! Quando finalmente tive a sorte de conhecer Mateus, ele já era um ho-mem de trinta anos de idade, sua fama corria o mundo e eu pude constatar oseu sucesso ao verificar que o rapaz falava corretamente mais de dez idiomas,tocava vários instrumentos dos mais complicados a começar pela viola, harpae até acordeão. Morando sozinho, a sua casa era um ponto de atração. Ali, aos domin-gos, reuniam-se os vizinhos, os amigos e seus admiradores em gera, quandotrocavam idéias, contavam piadas, cantavam modas de viola e tomavam ca-chaça. Eu não tinha capacidade mental para compreender como poderia umhomem ser tão inteligente, ter tanta evolução a ponto de inventar e fabricarvariados tipos de máquinas agrícolas de que os colonos usufruíam com an-siedade. Ele sentia prazer em consertar veículos, rádios, relógios, televisores, 31
  28. 28. computadores e tantos outros aparelhos. Fiquei surpreso quando alguns ca-boclos me confessaram que muitos de seus animais de estimação entre osquais, cachorros, cavalos e vacas, foram por ele salvos da morte com remé-dios que ele preparava com sucos de plantas extraídas da mata. Soube quealguns trabalhadores atacados por cobras venenosas, tais como cascavel eurutu-cruzeiro, foram socorridos por ele e assim conseguiram sobreviver. Po-rém, um dos casos que mais me comoveu foi contado por uma senhora idosacujo neto de doze anos de idade sofreu câimbras nas pernas enquanto nadavanuma lagoa. Foi retirado das águas pelos colegas que o consideraram mortopor afogamento, quando recebeu o socorro milagroso de Mateus que o salvouda morte. Tantas coisas aconteceram e quantas intervenções foram feitas poraquele homem misterioso. As notícias chegaram aos ouvidos das autoridades religiosas e o Con-selho de Medicina já investigava suas façanhas procurando saber se ele exer-cia ilegalmente a medicina para então processá-lo. Constantemente a fazendaera visitada por repórteres que queriam entrevistá-lo, mas, nada conseguiamporque Mateus, não gostando de dar entrevistas ou de ser fotografado, seescondia no meio do cafezal até que os profissionais da notícia desistissem efossem embora. Na verdade ele era sem dúvida um homem de outro mun-do. Tinha perfeito raciocínio e fazia complicados cálculos matemáticos empoucos segundos; além de ser apaixonado por ufologia, conhecia tudo sobreastronomia, meteorologia e tinha facilidade para fazer projetos arquitetônicose de engenharia. Ainda, com seu canivete, produzia esculturas e brinquedosde madeira. As paredes da sua sala de estudos eram cobertas por telas comdesenhos de estranhas máquinas que despertavam a curiosidade de todos, epor uma estante repleta de livros técnicos e biográficos de Leonardo da Vincie Michelangelo Buonarroti. Certa vez eu e Mateus seguíamos em direção ao córrego que atraves-sava a fazenda, local costumeiro de nossas pescarias, quando caiu na nossafrente um bem-te-vi, vítima de uma pedra que um menino atirou com seu es-tilingue. O passarinho se debatia no chão, sangrando porque uma das pernasestava quebrada. Mateus tomando-o nas mãos, curou a sua perna e soltou-o 32
  29. 29. para o voo da liberdade. Fiquei deslumbrado com aquela demonstração depoder. Seria ele um ser superior ou um homem santo? Não era possível! Eleera um homem comum, pois namorava, gostava de dançar, bebia cerveja eaté cachaça. Não me contive e perguntei-lhe: - Como você consegue curar em poucos minutos, a perna quebradade um pequeno pássaro? - É muito simples, basta usar o pensamento positivo, o desejo de que-rer ajudar e o milagre acontece. Então eu me lembrei de que em certo domingo, quando Mateus estavafazendo ilustrações nas paredes internas da escola da fazenda, notei que aochegar de manhã para trabalhar, havia esquecido em sua casa as chavesda escola. Ele não se perturbou. Fixou os olhos na fechadura e em seguidaempurrou a porta e ela abriu normalmente. Percebi que Mateus lia a mente das pessoas e meu próprio pensa-mento foi por ele devassado por várias vezes e, assim, alguns de meus se-gredos foram descobertos. Ele costumava dizer que no futuro os aviões nãomais usariam a gasolina como combustível porque uma nova energia seriadescoberta e captada no espaço, assim, terminaria o perigo da fumaça, dasexplosões e do excesso de peso. Alguns colonos de pouca leitura, ao ouvi-rem as suas previsões, acreditavam que Mateus fosse simplesmente um débilmental. E assim foi até que, numa noite de verão, alguns moradores da fazendaavistaram um enorme clarão formado por luzes de diversas cores, sobre anova plantação de café. No dia seguinte descobriram que algo de estranhohavia acontecido ali, porquanto ficara no cafezal um grande círculo mostrandoas plantas amassadas dentro daquela circunferência. Isso ninguém soube ex-plicar porque era assombrosa a extensão daquele circulo maravilhosamenteperfeito. As noticias se espalharam rapidamente. Em poucas horas a fazendafoi invadida por curiosos. A imprensa escrita, falada e televisionada lá estavapresente e dentro de três dias chegaram cientistas e ufólogos de várias partesdo mundo, inclusive da Ucrânia, que desejavam pesquisar o fato. A fazenda tornou-se um verdadeiro formigueiro humano. Era gente 33
  30. 30. que chegava, era gente que saía e, com aquela confusão, a ausência de Ma-teus passou despercebida; mas depois de uma semana, quando o pesadelopassou e tudo já voltava para a normalidade, percebi que Mateus realmentenão estava na fazenda. Procurei-o por todos os lugares possíveis e nada; ohomem tinha desaparecido como por encanto. Todos ficaram assombrados com aquela situação de mistério. Comopoderia um homem de tanto poder e sabedoria desaparecer assim sem deixarvestígios?1º lugar – prosa – I Concurso do GE – 08/05/2012. 34
  31. 31. A ROÇA Carmem Silvia da Costa É a roça. Moço da roça mudou de prosa, não fala mais uai. Vai para a cidade estudar, volta e não quer capinar. Moço da roça mudou de roupa, calo nas mãos nem pensar.Óculos escuros, celulares e até a Chiquinha e os amigos quer influenciar. Os pais começam a parolar: - Daqui a vinte anos, quem é que vai plantar? Moço da roça, com jeito meigo tenta explicar: - Pai, mãe, mais máquinas vão inventar. O pai confuso indaga: - Quem é que vai o milho rarear? Até você virar doutor, quem é que vai bancar? É a roça! 35
  32. 32. ALÍVIO Carmem Silvia da Costa Q uero correr livremente Pelos campos sem receio Do que possa estar oculto Perder as ataduras e nem perceber E tampouco alguém a dizer: - Moça, dona, ei! você perdeu! Quero colher as flores do campo Estar entre borboletas e colibris Ir ao encontro da brisa E de braços abertos Desvendar na natureza O que há de mais secreto. Quero olhar para o céu E ver uma janela feita de nuvens E nelas querubins e serafins A jorrarem o bálsamo que cura. Quero colher a última lágrima Emocionada, Jogar pro alto, respirar Enfim aliviada.36
  33. 33. SUGAR DA VIDA Carmem Silvia da CostaE nigmática vida À qual viemos a nado E no verbo ser ou estarSugo-a como ser alucinado.Pelo hoje e o amanhãRespiro o puro arO que alimenta a fome e sacia a sedeDela faz parte esse ciclo inesgotável.Há! Suguei a vidaComo um cantar de um fadoNo delírio da paixãoDebati pela razão e dei um tempo ao coraçãoA exemplo do poeta que fumou a vida na incertezaTambém na vida fumei tapeação. 37
  34. 34. CONTO DE NATAL Carmem Silvia da Costa O s efeitos de luzes detalhavam as nuanças contidas nas orna- mentações natalinas. E quem quando criança não sentiu o en- volvimento descrito da época? As cores vibrantes das vestes dovelhinho Papai Noel de barbas longas e brancas parecendo se envolver maisno papel de Vovô Noel, carregando o saco de presentes, oscilando o brilhodos olhares infantis. E quem por ventura não fora o anjo natalino, ao menosuma vez na vida de alguém? Tudo isso faz presente o menino Jesus em cada coração,num renovarde esperança e paz. E foi nesse clima que uma senhora sentou-se na soleira da porta semdisfarçar a tristeza,desejando não dar importância a nada, pensando numamaneira de desviar a atenção da filha no que diz respeito ao presente quepedira ao papai Noel. Pinta, então, a figura do velhinho como personagem deriso que assusta as crianças, e que seu trenó passa velozmente e não per-cebe todas as casas. Achou melhor dizer que papai Noel não existe e que naverdade não tem dinheiro. Com os olhos lacrimejando, ficou surpresa quandoa menina entrou muito feliz dizendo que papai Noel lhe trouxe de presente umlindo gatinho e o deixara no portão. 38
  35. 35. ENCONTRO CASUAL Carmem Silvia da Costa A s conversas ou fofocas estavam sendo “colocadas em dia”, como nós, mulheres, ás vezes usamos dizer. Enquan- to elas apreendiam a coser vários tipos de roupas, a tagare-lice era geral. Os traçados de mangas, golas e ornamentos espalhadossobre a mesa deveriam atingir um objetivo específico: a montagem daroupa que surgia basicamente sob as medidas do desenho de um retângulo. Revistas de moda eram analisadas página por página e os comentáriossobre os artistas eram indispensáveis, sem contar os atributos da culinária. Esob a coordenação da professora, o tempo ia passando entre um assunto eoutro. Após uma pequena pausa: - Mudando de pato para ganso, souberam da última? Sabe quem vaise casar? Frase por frase até descobrirem o pretérito e o presente de um de côn-juges. Nesse associar de assuntos, por motivo de fidelidade, uma das alunasnos contou que ao estar em São Paulo, dentro de um ônibus, e antes de che-gar ao lugar destinado, conhecera um senhor alto, de cabelos grisalhos, quelhe fez algumas indagações sobre sua vida e acabaram por trocar algumasconfidências. Ele, tomando um pedaço de papel, passou-lhe o endereço paraum enlace de amizade. Despediram- se, e o referido papel fora parar em umcanto da bolsa da tal senhora. Após alguns meses, ao remexê-la, encontrou-oe pensou sobre a importância que aquele encontro teria, sendo ela casada ecom suas atenções e sentimentos voltados para o esposo. Refletiu, concluindoque aquele momento representou apenas um encontro casual. Ah! Se houvesse aparecido uma fada madrinha com sua varinha má-gica e tocasse em suas mãos e dissesse “não jogue esse papel”, teria sidoa esperança em nova fase de sua vida. O seu esposo falecera e a tristeza ea solidão tomara conta de seus momentos. No entanto, o lamento de não tersequer decorado o endereço e então chamado a pessoa do encontro casual,significou algo especial para aquela senhora que terá recordações enquantoestiver numa cadeira, talvez fazendo crochê ou a descascar batatas, à esperado carinho dos netos. 39
  36. 36. PARA ILUDIR A VIDA Carmem Silvia da Costa P ara iludir a vida, fingi cantar. Cantei o canto dos que gemem Cantei o canto dos que choram Cantei o canto dos que sonham Cantei o canto dos que amam. Para iludir a vida, fingi poetizar. Poetizei o poema dos que são realistas Poetizei o poema dos que têm remida esperança Poetizei o poema dos que propagam a paz. Para iludir a vida, fingi pintar. Pintei a pintura dos que expressam nos muros a sua ira Pintei a pintura dos que põem sua alma Na janela de um sorriso Pintei a pintura dos que vão além do marco de um limite Pintei a pintura dos que respeitam ao criador da vida. Para iludir a vida, sonhei: Cantar, poetizar, pintar. Cantei o poema, Poetizei o pintar, Pintei o cantar.40
  37. 37. SINTONIA Elaine Cristina de AlencarN a noite calada, surge ora um eco, ora um tinir de alguma coisa. Penso numa leitura, porém nada me agrada. Procuro o sono para livrar dos pensamentos, e tudo revela ser uma sintonia.Constante, o pensamento requer a ação, sinto um combate entre o sim e o não.Creio no mais íntimo que há de bom no ser,e até mesmo em que uma inocente criança um dia possa ser:um adulto atrás das grades ou um fabricante do vício, para sobreviver.Um policial atrás do culpado e, quem sabe, uma vítima em silêncio.Todos estão em sintonia, contra ou a favor de duas forças que se impulsionam.E distante, a criança inocente, se pudesse, sussurraria:“sou eu em você, que brincava de bola ou de amarelinha,que jogava pedra para ver até onde ia, e da maldade esquecia.Ficar de cara virada, nem pensar!Lembro que minha mãe dizia: Criança não tem vergonha...Desta criança sentimos saudadelibertada num sonho oculto adormecido. 41
  38. 38. A ORIGEM Elaine AlencarE u nasci!!! Ah! Quanta coisa a se ver, tocar, sentir... Me diga em sua essência:A pigmentação dá o toque no cotidiano?Então ...O seu sorriso foi tingido?O amanhã está desbotando?O verde está morrendo?O negro está cobrindo o céu?O vermelho corre pela sarjeta?Então existe mesmo um colorido no caminho?Eu vejo meu crescer, na essência de meu semelhante,Que tinge sua vida em tons sombrios, muito próximos da noite.E no momento em que o sol nasce, prefere estar no leito da preguiça,Sonhando com seus fatos reais de crescimento,Não se importando se com seu pincel tenha sombreado as nuvens, para aqueletemporal,Ou amarelado o verde das plantas para que amanhã ela padeça.É... acho que a visão, o toque, o sentimento estejam sendo esquecidos...Quem sabe amanhã “eles” acordem...E permita Deus que não seja tarde! 42
  39. 39. ELE Elaine AlencarU ma grande mansidão, Alinhado em seu terno branco, Parado como sempre, ali na esquina...Com seu pé esquerdo apoiado na parede,Dava as baforadas em forma de anéis que iam se dissipando no ar...Tinha um semblante enigmático...Aquela imagem se formava todas as tardes,Nos deixando inebriados...Primeiro eram as baforadas de um autêntico cubano. Depois...Vinha a surpresa, a qual todos aguardavam ansiosamente...Sacava de seu estojo o saxofone...e preenchia o ar com suas notas musicais.Melodias inteiras destiladas em um alinho sublime...Eram horas a fio dedilhando o instrumento com leveza,Até parecia que seus dedos brincavam nos acordes...Os transeuntes, paravam para ouvir tão belas notas sendo esculpidas por aqueleser brando; muitos deles esperavam ansiosamente o show vespertino...Sumertime, New York New York, Hotel Califórnia ...,Um vasto repertório o acompanhava.Sua feição traduzia um sentimento contido...Pudemos notar que seus dias eram de puro prazerE observamos que seu show recônditobrotava d’alma, enfim!. 43
  40. 40. ETÉREO Elaine AlencarE m momentos dispersos, Me vejo despontar no décimo andar de uma “atração fatal”. Ganho a lua de presente!E percebo que em tempos de transformação,O cálice alheio supre o desinteresse e comanda momentos de prazer,Sem se pensar, o que importa é sentir.As cores opacas,Em instantes se tornam reluzentes em um carinho eterno,Em toques macios e sensações supraemocionais.O pensar vai na constância do bemQue solicita espaço e acaba se perdendo no vácuo dos acontecimentosE caminha...Que sistema mais impassível vivemos,De certo, algum dia alcançaremos a estrela patente de nossa caminhada,Na terra descalça...Simplesmente nos resta imaginar e crer,Que o adeus é uma metáfora ,Do conhecimento inesgotável e irreversível! 44
  41. 41. MEU ERRO... Elaine AlencarE u sinto meu corpo bailar, parado. O som da música adentra minha lembrança e logo os poros de meu corpo eclodem em euforia...“Não me abandone jamais...”O som ecoa alto nas minhas entranhas...Vejo erigir a pele como um vulcão em plena erupção...Uma sensação algoz...Um misto de saudade e arrependimento...Ah! o arrependimento pela indigestão da saudade,De querer estar lá e não poder,Uma quimera de sensações pitorescas do que poderia ter sido e ...Lai’vem a realidade com seu balde de água fria...Existe algo indecifrável neste momentoque açambarca meu espírito e me remete a um termo de colisão com o trans-posto...Tento rasgá-lo da mente, mas ao contrário a sensação é mais forte a cadamomento do notar...Me embriago nas histórias e me sinto emudecer...O som alto na vitrola, a dança incontida e uma verdade sendo dita no LP...De repente, meu corpo para no espaço e não ouve mais a música,E então, daquela emoção emoldurada no passado,Fica somente um resquício no pensarDa saudade cravada no peito e o lamentar! 45
  42. 42. O PROIBIDO EM AURORA Elaine Alencar E ste amor, contato impossível, Não sabe mais por onde se enveredar... Por mais que os corpos se juntem... A mente alarde a voracidade da situação! Até que ponto sermos proibidos, é um limite? Não nos demos conta que o mundo conspira contra nós. E esta cegueira soturna não nos aturde, Até o momento da rebelião, Invade certeiramente a razão de quem não quer ver. A vida insiste em nos pregar peças... Em contrapartida nós desprezamos o habitual, contextual... E partimos para o que é imoral (às vistas grossas). Até que ponto poderemos digladiar? Suponho que nem iremos ao “front”! Pelo descuido da ideia ter mesmo certo fim. Estaremos sim, eternamente ligados, Por uma memória incansável dos belos dias De outrora, ou seria de uma Aurora?46
  43. 43. VOCÊ Elaine AlencarH oje acordei pensando em você... Minha mente fez uma trajetória bem remota, para tentar reconhecer sua face...Vejo nitidamente o delinear do seu rosto sendo esculpido na minha mente,Viajo nos momentos de pura euforia que juntos vivemose me vejo em crescimento contínuo...Percebo seu semblante ir se modificando com o tempo,mas não tenho o reconhecimento de seu movimento...Como será que os dias foram marcados em sua face e quais serão suasbalizas?Tenho em memória as preciosidades do som da sua voz,me fazendo sorrir das coisas mais banais da vida...O jeito gostoso de me afagar e me iludir...Hoje, na saudade, a expressão do seu rosto continua a mesma.O sabor da sua saliva me embriaga só de pensar...E eu não tenho mais o que pensar...O meu sentir reflete a ausência e sua face faz agradecer pelo conhecer...Deus soube deixá-lo como presente na minha memória.Indescritível! 47
  44. 44. VIDA Elaine AlencarN o meu cotidiano camaleônico, Já tentei traduzir os sentimentos alheios e muito me perdi no caminho, Pela aleatoriedade de cada um,Pela saudade que deixam nessa via,Pelo instinto banal com o qual cada ser pensa ser o certo.Me encontro em pedaços, tentando construir algo que seja sólido, natural.Mas pergunto: - O que é natural, o que é sensível, o que é? o que é? ...E me perco!...Em propostas nos concluímos, sempre em situações de decisão.Tudo nos parece tão tentador,Mas quantas armadilhas estarão prontas no pomar do conhecimento,Para nos prenderem e nos torturarem em horas de solidão?Bah! Como é triste, ser ou sentir-se triste.Me reparto em sinopses dos acontecimentos:Cada instante (de alegria) agradável, não cobre por mais que somem dez,Um único momento de dor, angústia, pesar...Colho na estrada a cada dia um pouco de conhecimento,Um pouco do saudável e dos confrontos que se esboçam ao menor impactoDe se abrir os olhos numa nova manhã.Ah! Como é tardia a esperança de conhecer e sentir o humanoComo algo comum, sensível e sem retoques. E ... (mas...)Todos se pintam de amarelo, azul, Lee, Kalvin Klein, StaroupE saem após terem escovado os seus dentes com Close-up.Como é ridículo, Mas não posso fugir deste óbvio,pois ele é presente e faz parte do merchandising,Do puro marketing que invade nossos olhosEm cada segundo que permaneça aberto e atento. 48
  45. 45. A primazia é distante e a cobiça realça os olhos,E com feitiço próprio lá vai o ente em busca do maior. E vai em disputa.Quando menos percebe leva um tropeção e rala o joelho.Aí dói! E sua dor se estanca em ter de se reerguer e seguir a luta.Tudo se move na sensação da criação, de querer saber qual é o destino.Mas o contexto se esboça no querer e é muito simples,Temos todo o tempo para reconhecer que a estrada é de passagem,Que a história é verídicaE que não há muita explicação a se dar.Só nos resta sentir e guardar,compondo assim o grande quebra-cabeças.A Vida! 49
  46. 46. BRIGA Elaine AlencarU m momento, O nosso tempo é tão escasso, A gente briga com a gente, a cada toque de carinho errado...E sonha com um caminho retilíneo, sensato e agradável.E por vezes, nos vemos em “encruzilhadas, acendendo vela e rogando praga”.Passa-se um tempo e a gente esquece e recomeça a busca.Às vezes o caminho se torna hipercolorido, iluminado e parecendo autêntico.Numa sequência de acontecimentos saudáveis e que criam saudades, mas...Creio que a monotonia é tão dispersiva na nossa mente,Que a gente se sente como marionete em tempo de estreia,E na sensação da atrocidade, o corpo atropela a mente e cria sua própriasensação.Ah!!! A saudade se revolta em momentos contínuos,Os sonhos vagueiam na solidão e se sentem autótrofos, na carência do dia.A gente se pinta, dá um toque no visual e sai para a batalhaE o momento é proeminente em cada ensaio de palavra.Ah!!! Aqueles tons agudos de uma gama ardente em desejosE aqueles tons graves dos goles a mais da Brahma Solicitada.Pois sim, a gente se embriaga e sonha, percebe o tempo se esvairE se consumir a cada noite quando se fecham os olhos...No outro dia a briga continua...A sensação de perda se consuma.E por mais que se queira, o passado se torna eterno e não retorna. 50
  47. 47. AMOR Elaine AlencarA noite passa... E meu pensamento é um só, A natureza infinita que nos rodeia...As estrelas que brilham no céu,ConstantementeMe dando forças para poder sobreviver,Em meio a tantas controvérsias existentes...E você também faz presença,Em meu pensamento...Você que me faz feliz,Você que me eleva o astral...E que me faz ser “eu”!Sim, é você que me acompanha,A cada passo,Me dando conforto e paz...Obrigado a você:Óh! sentimento profundo e louco:Obrigado, AMOR!!! 51
  48. 48. A ESCADA Emília Goulart A escada estava ali, na minha frente, contei mentalmente os de- graus que se afunilavam em direção ao vazio lugar nenhum. Minhas pernas bambeavam, me aproximei, olhei para um lado,para o outro, à minha volta se espraiava um campo, planície seca com peque-nas áreas verdejantes. Um vento forte anunciando tempestade. Nas laterais da imensa escada surgiu um corrimão, de arame farpado.Iniciei a difícil escalada ao lugar nenhum, não fui movida pela curiosidade, não.Em mim também se estabeleceu o mesmo vazio, árido, seco da paisagem. Lá em cima não tinha nada, mas por algum motivo uma escada estavaali, e eu senti uma necessidade de chegar ao topo. Topo de quê? Não sei. Livrando-me das pontas agudas do arame, ia eu em busca do nada.Um furinho aqui, outro ali, coisas sem importância até o sangue começar afluir e esbanjar um pouco de cor pelo corrimão cinzento. As pernas começavam a dar sinais de estafa, dobravam, os pés come-çavam a se arrastar, mas soberbamente chegavam ao próximo degrau. O corrimão de arame farpado deixado para trás indicava que mais dametade da escada eu já havia alcançado. Não era mais possível voltar e ape-nas olhar para trás provocava vertigens. A escada quanto mais escalada, maior se apresentava. Não tinha fim.Os braços também já davam sinais de esgotamento. Ao deitar-me em um dosdegraus para descansar da árdua subida, senti minha roupa se romper e umvento frio percorrer meu corpo. O esgotamento tomou posse dos meus sentidos e o cérebro começoua debochar de mim espalhando um odor nauseabundo. Braços enormes surgiam e ora lá em cima, ora lá embaixo, acenavamme convidando-me a descer ou a subir. 52
  49. 49. Seminua, exausta e ferida. Fica difícil escolher um caminho seguro.Descer é sempre mais fácil, não fosse o orgulho a me impulsionar eu despen-caria da escada. Coloquei-me de pé, agarrei-me ao arame farpado, corrimão da minhaescada me fazendo sangrar, pensei em Jesus no calvário, me ajoelhei e re-zei. A escada que hoje subo não é a mesma pela qual desci. Contudo aconheço bem, cada degrau é igual, tem a mesma altura, as mesmas dificul-dades que encontrei, estão ali em cada centímetro registradas. Mas, não é mais um sonho, é a doce realidade que é viver, embora àsvezes a vida nos faça sangrar. 53
  50. 50. RUA TREZE Emília Goulart A inda há muito da rua Treze de Maio, não basta mudar o nome. Para apagar da memória a alegre triste vida desta rua, levará muito tempo. As histórias passam de geração a geração. Pe-daços daquela rua se espalharam pela cidade e as meninas debruçadas nasjanelas da vida, deslumbradas, acreditam que a vida mudou. O falso brilho damais velha das profissões continua fazendo vítimas. Ninguém aboliu da escra-vidão as garotas de programa e fingir prazer fica bem distante da felicidade. Aquela rua ainda guarda seus fantasmas, e ao se passar por ela, ve-em-se os becos onde a vida era mais sórdida. O grito de socorro era abafado,os carinhos vendidos, a proteção subornada. Quem tem curiosidade e um diase interessar por ouvir sua história, vai ouvir os lamentos que escapam pelasrachaduras das paredes da rua dos prazeres poucos e sofrimentos múltiplosrevelados vendidos. O som das guarânias, boleros e tangos que ainda machucam o cotove-lo da Rua Quinze de Novembro abrem o arquivo morto da Rua Treze de Maio. Assim como a rua, nada mudou da vida suada, misturada a CashimireBouquet, perfume Tabu e muito álcool,: a danada vida expulsa da Rua Treze seespalhou pela cidade distribuindo seus ais. O nome realmente pouco importa, e suas casas são velhas lembrançasque Araçatuba não quer apagar. O apogeu da agropecuária foi registrado alisobre os sujos lençóis da poeira que a boiada levantava. O preço combinado do prazer poderia ser por minutos, mas quasesempre a prostituta pagava. Com a vida. Ainda há os saudosos que olham pelos buracos das fechaduras à pro-cura dos prazeres ali envelhecidos. Outros reviram o lixo, na busca do DNA dospais. Boiadeiros, era a bola da vez, hoje são os jogadores de futebol. Uma revelação importante sobre a prostituição eu ouvi certa vez de um 54
  51. 51. delegado já falecido. Havia uma carteirinha e caso a mulher fosse encontradaduas vezes se prostituindo ela era fichada. Indignada contestei: - Então poderia ocorrer de transformarem uma mulher em prostitutaindependentemente da vontade dela. Era lei, acreditavam, com esta medida, diminuir a propagação da sífilis. Hoje está tudo muito livre ao ponto de experiência de vida ser confun-dida com experiência da vida. Mudaram o nome da Rua Treze de Maio para 15 de Novembro. A pros-tituta está sem rua, sem rumo e sem destino. O salário é a droga, e assimcomo a saudosa Rua Treze, ela continua na mesma, perambulando por todaa cidade. 55
  52. 52. DEVOLVA O CONTROLE Emília Goulart S e alguém encontrar o controle remoto deste planeta, por favor, devolva com urgência ao seu legítimo dono. Está mais do que provado que perdemos o controle. Por favor, atendam ao meupedido, antes que Ele descubra como somos indignos de um planeta tãobelo. Cheguei até aqui e foram me ensinando coisas novas. Andar com mi-nhas pernas foi uma. Alguém me queria aqui, mas não estava disposto a mecarregar a vida inteira. Até ai, tudo bem! Fui bem cuidada não me queixo.Recebi boa educação, ensino religioso e muito amor. Depois acreditei que, as-sim como os pássaros, eu poderia voar. Triste engano, que me deixou muitascicatrizes. Depois de algumas quedas aprendi a cair em pé, mas não desistide voar. Andei por vários caminhos. Em alguns, encontrei pessoas desiludidasque voltavam procurando saída, pois os belos caminhos escolhidos ocultavamarmadilhas e as saídas fechadas pelas drogas não tinham a sinalização depare. Outros, sem a mesma sensibilidade, simplesmente não voltaram. Galileu disse que a Terra é redonda, que caminhando em linha retachegaremos ao ponto de partida. Não quero esse! Eu quero é encontrar umasaída para uma sociedade mal resolvida, origem principal de crimes e decep-ções. Mas cadê a saída? Há certas situações que não têm saída. Qual cami-nho, então, Senhor? Se voltarmos no tempo encontramos Abel e Caim, tristeexemplo para a humanidade. Se continuo Te encontro pregado na cruz. Oque prova que o homem, realmente, não sabe o que faz. Caminhar ou ficarparada? Vem até mim, Senhor, e guia-me! Não me sinto um habitante na Terra,me sinto posse. Estou perdida no meio do nada. Meu planeta é redondo... nãotem fim, nem começo. Esta terra é movediça, suga o meu âmago com a sua 56
  53. 53. gravidade. Sei que deve haver um caminho. Será que o escondeu sob a geleirae que iremos encontrá-lo quando ela se desfizer totalmente? Nasce um novo ano e nele adentro sem saber o caminho. Além da li-nha do horizonte há um abismo. Uma força estranha me conduz e eu sigo commeus disfarces para escapar das armadilhas preparadas pelo ser humano.Pelos caminhos onde piso o perigo me espreita. Então Senhor, uma metamor-fose acontece e me torno permissiva e tolerante com a sociedade. Todas asminhas certezas são dúvidas. Afinal, para quê livre arbítrio se não sou donadas minhas vontades, circunstâncias me levam, eu apenas me engano? Sou tua serva, Senhor! Faça em mim segundo a Tua vontade! Não douum passo sem que Tu queiras, então não me soltes, pois não me seguro. SemTi cometo muitos erros, pois não encontro o caminho. A bússola que me deste enlouqueceu ou este planeta saiu do eixo? Já não me queixo, apenas questiono. Será que Tu perdeste a autorida-de? O controle da gravidade te caiu das mãos? Senhor, encontra-me, pois diante de tantos caminhos, me perdi de Ti. 57
  54. 54. A ROSA Emília Goulart 1 Rosa, poderia ser diferente esta amizade entre a gente. Mas que nome triste, o seu. Uma flor tão delicada, Mas foi uma mulher malvada, que teu nome recebeu. 2 Rosa partiu, que maldade. E para matar a saudade, nem seu perfume ficou. Deixou foi triste lembrança. Gravada na minha infância. Rosa, maldita vilã. Eu ouvi desde criança 3 Não consigo ver uma rosa Tão somente como flor. Pois a rosa desta história, Foi pimenta malagueta Personagem de um drama Que causou enorme dor. 4 Num lindo frasco de amor A rosa escondia espinhos. Reclamava todo dia, Que a vida andava sem graça E uma mudança pedia. A Rosa fazia pirraça.58
  55. 55. 5Logo depois exigia:— Se você não for eu vou.Nem mais comida fazia.O marido concordou,vendendo tudo que tinham.Fazenda e todos os bois,6Dinheiro foi pro colchão,E só a Rosa que sabia.A Rosa estava contenteMatou galinha, fez farofa.Tudo estava preparadoPra mudança inesperada.7Não se sabe certo a hora,em que a Rosa foi embora,deixando o marido pra trás,Montados no alazão,foi-se a Rosa o peão,E o dinheiro do colchão.8No berço, duas criançasSem nenhuma esperançaDe que como iriam viver.Foram pra casa dos parentesQue não ficaram contentesMas que se há de fazer9Não gosto de rosa não,Nelas nunca boto a mão.Tenho sempre a impressãoDe que posso sair ferida.Rosas são muito bonitas?Ou é pura pretensão. 59
  56. 56. 10 Esta história é verdadeira. Não saiu assim, de bobeira. Desde o berço eu a ouvia, contada por um peão. O filho desta rameira, Meu querido tio irmão.60
  57. 57. O CASO DO PADRE Emília Goulart O caso que o padre nos contou foi de arrepiar, hoje sei que ele queria apenas nos fazer acreditar que o inferno e purgatório de fato existem. Mas o que nos passou foi a ideia de que espíritosvoltavam e isto fugia do que acabávamos de aprender. È triste quando o caso contado foge da lógica pré-determinada. Crian-ças viajam, o melhor é que as informações sejam bem claras. O sobrenatural povoa suas mentes sem nenhum esforço. Depois o quefica na memória não desaparece tão facilmente. O que nos foi ensinado comocerto, já não nos parece tão certo. O padre era um bom padre, mas, nos aterrorizava com seus casos.Seus discursos eram longos e ricos em detalhes. Éramos apenas crianças se preparando para a vida religiosa. Os dez mandamentos estavam na ponta da língua, já sabíamos todosos atos que nos preparam da confissão a comunhão. Restava algum tempoaté o dia da Primeira Comunhão e ele se empenhava para nos manter longedos pecados que rodeiam os jovens, ilustrando o paraíso, o inferno e o purga-tório. Dante Alighieri perdia para o padre em requinte e ousadia. Certo dia ele contou-nos um caso. “Dois estudantes muito amigos vieram do interior para a capital a fimde estudarem e trabalharem. Inseparáveis, mas cada qual tinha seu modo devida. Um religioso demais e o outro farrista: gostava de aproveitar a vida e er-rava nas doses, mentia para os pais, pois seu dinheiro nunca era suficiente. O jovem religioso observava os ensinamentos cristãos que o exaltadopadre repetia com ênfase: — Segue os ensinamentos cristãos! Enquanto um estudava fazendo jus a confiança dos pais, o outro, bem,farreava e escarnecia do colega dizendo que ele não passava de um tolo;quando o primeiro mencionava o inferno ou purgatório, ele se consumia em 61
  58. 58. gargalhadas. Até que uma noite, ao voltar para o quarto que dividiam, ele nãochegou. As horas se passaram, o seu companheiro acordava rezava e voltava adormir. Estava inquieto e angustiado, o amigo deveria ter voltado, e apesar dasdiferenças, ele queria bem ao amigo e estava preocupado. De repente o vento escancarou a janela e para dentro salta o amigoem chamas. Desesperado ele joga sobre o outro um cobertor para apagar o foga-réu, o cobertor caiu no vazio e ele ouviu a voz do amigo a implorar: — O inferno existe, reze para que eu vá para o purgatório, você disseque lá ainda se tem uma chance. Por estar embriagado o rapaz acabara atropelado e morto.” O padre era maluco, mas até hoje eu tenho comigo que o inferno e opurgatório existem. 62
  59. 59. UMA GAROTA ESPECIAL Emília Goulart E la apareceu e, no começo, era apenas um vulto que vinha em minha direção parecendo flutuar pelo sombrio corredor. Sua sala era a última, mas ela se atrasava na arrumação do seu materiale como sempre naquela noite não foi diferente. Como foi a última a deixar asala, depois de serem dispensados, apagou a luz. Era miúda, tinha o cabelopreso em rabo de cavalo, seu sorriso desafiava o mundo, e seus olhos... esses,era um convite ao escândalo. Ainda trazia no corpo a candura e a inocência dainfância. Ela era a síntese do devaneio que tirava o sono daquele rapazinho. Paulo estava chegando como sempre atrasado, e alheio à suspensãodas aulas, caminhava em sentido oposto, trazendo no canto da boca um cigar-ro que insultava a direção da escola. O mocinho de pose cinematográfica caiuno ridículo quando o cigarro, diante daquela aparição, escapou-lhe da boca ecaiu transformando-o em um cômico atorzinho de quinta categoria. Felizmen-te só os dois estavam naquele corredor solitário, para assistirem ao triste finaldo mocinho que tropeçava em busca do seu único cigarro que a corrente de arinsistia em roubar, ou talvez a um castigo ao rebelde que sempre transgrediaregulamentos disciplinares da escola. Ela ria... ria muito da cena, quando ele se pôs de pé pressionando-acontra a parede. Seu sorriso foi ficando sério, o medo foi se espalhando pelorosto corado e ingênuo. —Assustou-se gatinha? Por que não continua com sua risadinha irri-tante? Não me diga agora que vai gritar.— continuava ele forçando-a contra aparede.—não vai mesmo gritar?—ele a provocava com ares de bandido. —Não, ninguém me ouviria, todos foram embora. —Quer dizer que estamos sozinhos...o colégio é todo nosso. A informação que ela passara sem querer, a assusta mais e ela pede: —Por favor deixe-me ir. As luzes do corredor se apagaram, e ele ainda segurava entre as suas, 63
  60. 60. aquelas delicadas mãos. Ela saiu correndo, e ao chegar à porta de saída, asúltimas luzes foram desligadas. O prédio todo mergulhou na escuridão. Todaagressividade também foi desligada, havia desaparecido e o moço rebelde,sem saber o que dizer, ficou ali parado sentindo a delicadeza daquelas mãosse soltando das suas num suave deslizar. —Perdi meu único cigarro por culpa sua. – estaria ele delirando?Tratando-a assim ou sonhando um lindo sonho, se fosse sonho ele não queriaacordar. Ouviu os passos rápidos que desciam a escada, um passo, outro,mais outro que iam pisoteando o coração do pobre rapaz, enquanto ele seconsumia em ardentes desejos. —Ei, você não vai ao velório?–perguntou ela. —Que velório? —Você não sabe por que fomos dispensados? —Não faço a menor ideia. Fomos dispensados? —Onde você anda cara? No mundo da lua? —Sim, chegava da lua quando perdi meu único cigarro. Foi assim, aovê-la meu queixo caiu e meu cigarro também. —Vou recompensá-lo, representou bem o papel de bandido. Chegueia ter medo. —Não tenha medo doçura, sou terno e carinhoso, —Escolha um cigarro, ou um beijo?—Enquanto ele se preparava parareceber o beijo, ela apertou o fecho de uma caixinha mágica: — Demoroumuito para responder, mocinho inseguro, não vai ganhar, nem um, nem ou-tro. Sentindo que perdera o beijo, adiantou-se para o estojo, mas com umarapidez espantosa, dessas que só acontecem em sonhos ou filmes, ela já ohavia fechado. —Não, não faça isso eu imploro, não negue um cigarro a um idiota,deixe ele se matar, não transgrida meu destino de morrer canceroso, tubercu-loso ou sei lá. Me d logo um cigarro antes que eu o tome à força. Ela ria, ria muito, e o sorriso dela tinha o brilho e a brancura de anún-cios de creme dental. Se o cigarro já estivesse em sua boca novamente cairia, 64
  61. 61. era a visão mais linda do mundo. —Sirva-se. —disse, estendendo-lhe o maço de cigarros. Serviu-se logo de três: acendeu um e guardou dois no bolso. Na se-quência, tomado pelo cavalheirismo, retira um e oferece outro para ela, queo recusa. —Obrigada não fumo, apenas faço pose e ajudo alguns suicidas. — Quer ser minha namorada? Antes que ela respondesse, um senhor, jovem ainda, aproximou-se docasal. —Papai, que bom ter passado por aqui, assim não terei que levar meumaterial escolar ao velório. A cidade não era grande, e o acidente com o professor já chegara aoconhecimento de todos. Isto é, de quase todos. —Vá filha, porém não chegue muito tarde. Quer que eu vá buscá-la? —Não se preocupe, voltarei com minhas amigas. —Você está com sarna?—perguntou ela assim que seu pai se afas-tou. —Sarna? Que sarna ,eu apenas tentava te lembrar dos cigarros, masagora já era, com certeza levará a maior bronca quando voltar. —Vou tentar alcançar a turma, tchau. Ah, caso queira agradecer oscigarros, meu nome é... Ele não queria saber o nome dela, passou a mão pelo queixo aindaimberbe e fez pose. Ela ainda esperou que ele dissesse o nome, e como nada ouviu, dis-se: —Tchau Dean.—referia-se ao ator do filme “Juventude Transviada”James Dean, e acertou, pois ele adorava essa comparação. Apressou o passopara alcançá-la. —Espere, vou com você. —Aonde?—perguntou ela sorrindo. —Ao inferno, ao velório, aonde você quiser? —Velório ? De quem? —Não, chega de brincadeira, morte é assunto sério, você não disse 65
  62. 62. que o professor morreu? Como era bom estar com ela, dizer e ouvir um monte de bobagens.Apressaram o passo, ele antegozava a expectativa de que os vissem chegan-do juntos. —Você ainda não me disse seu nome. —Para quê? Adorei o apelido. —Para não te decepcionar, direi que há sim, uma leve semelhança.Uma leve. Flávio, amigo dele, passa por eles, assobia, segue adiante, e a umacerta distância vira-se e grita: —Depois a gente se encontra no bilhar. —Pronto, agora você já sabe: além do cigarro tem também o bilhar.—de repente ele parou, estavam em frente à capela funerária. —Olha, agora, acabou mesmo, porque não vou entrar aí. —Tem medo? —Não.— disse ele detestando ver de novo aquele sorriso. Para eleera como se ela falasse com o sorriso, e neste momento ela criticava seumedo. —Sabe, eu também tenho, não é medo do morto , mas da morte. Ela desapareceu se misturando às outras pessoas que entravam. Ál-varo ficou em silêncio, mas se fosse sincero diria que também tinha medo domorto. Ficou ali remoendo sua covardia, torcendo para que ninguém o con-vidasse para entrar. Quase todos estavam fora da capela, cada qual exibindocoragem, e apenas ele se sentia como um idiota. Alguém toca lhe o ombro: —Chegou cedo hoje ou dormiu aí? Ninguém te viu no velório ontem. —É... parece que morreu um professor, quem foi? —Que professor, cara, foi aquela menina linda da oitava série, a Nely. — Nossa, ontem quando cheguei a mina estava aqui, depois a luzapagou...Espera aí, quando que ela morreu? — Iiii...se situa bicho! Sai do pesadelo. 66
  63. 63. MENINA SORRISO Isabel Moura N aquela noite que te conheci, foi uma noite especial para min. Foi numa terça-feira dia treze de maio de dois mil e oito. Era reunião do Grupo Experimental, vim pela primeira vez e te vi.Você estava tão cheia de sorrisos. Me cativou, começou nossa amizade. Foi tão bom te conhecer. Como o sorriso traz felicidade... Parece quesomos amigas de longo tempo. Com você aprendi muitas coisas boas. Meiga carinhosa no seu jeito de ser, de falar, espalha encanto. Ondevocê está, está presente a alegria, o calor que deslumbra a alma. Menina sorriso, você sabe sorrir. Sorrisos que vêm de dentro do coração, sorriso perfeito colorido deafeição. Sorriso que faz sorrir. Menina sorriso WANILDA BORGHI. 67
  64. 64. MEU NOME Isabel Moura I nteressada procurei Saber de você, se Ache por Bem seu nome ser Escrito em meu coração, com Letras de saudade Mas optei pelo Ouro que brilha como sol Ultrapassando as Regiões e fronteiras A descambar no arrebol.68
  65. 65. PORTAIS DE OURO Isabel MouraN a oração eu pedi ao senhor Para ver a cidade no céu A bíblia diz que é muito lindaE de refulgente esplendorNuma noite sem luarEstava indo para a igrejaQuando de repente no céuUma luz vi a brilhar.Era o céu que ali se abriaComo um relâmpago no espaçoOs portais de ouro se abriramA linda cidade eu via.A JESUS, no momento, clamei:SENHOR, meus olhos contemplamA gloria do teu poderMeu JESUS, meu eterno REIVi as ruas de ouro luzenteOs muros de jaspe e cristalO rio da água da vidaCristalina e transparenteOuvindo o coral eu choreiDo trono vinha o louvorQue encheu minha alma.Do sonho, feliz acordei 69
  66. 66. ROSA DE CROCHÊ Isabel Moura O sono era demais. Olhos pesados como vagão de pensamento. Lá vai a locomotiva deslizando pelos trilhos na curva da soli- dão. No sobe e desce na montanha da imaginação, soluço embargado, cho-ro, Ah, minha rosa de crochê. Me fere. Me machuca sem espinhos. Tão longe.Mas perto seu perfume, como nada. Sem vida. Mãos delicadas na agulha trabalharam. No vai e vem das correntinhas, amarrou meu coração. Até formar pé-tala por pétala. Tão formosa me traz inquietação. Teus olhos, ligeiros colibris a furtar aseiva das flores, desaparecem no espaço anil. O tempo de repente passou. Sóresta a saudade afogada na taça de um passado que ficou tão distante. Ah, minha rosa de crochê. 70
  67. 67. SERRANA Isabel Moura E m barra bocarra do Arroio, marralheiros de farra amarraram o burrinho marrom no barraco do Marreco. Marreco arrufadiço morreu irresistível no morro Corrido no bairrodo Parreira em meio a uma borrasca. Parreira, arruaçado, com a guitarra de Parra Ferrara surrou-a no ter-raço numa tarraga. Farrapo carrasco e sorrateiro subiu a serra no serrado. Achou nas ser-ralhas Serrana carraça a derramar, correu ao barraco e aferrolhou. Serrana,estarrecida, agarrou o burrinho marrom que zurrava amarrado no barraco,arretado. Arreminado, esbarrou na jarra de barro de Serrazina, correu ao ar-rais de uma marroaz. Derruído à terra torrada de Terríola Serril. Num terrosoescorregou. As tarrachas desamarraram na corredeira. Farrapo irredento éarrastado pela correnteza a arrúgia do horror. Urro de terror o arruinou. Naquela guerra do morre não morre, arrochado numa arrancada aobarranco, sentiu um arrojão a terra. Arrepiado deu na carreira. Arribou a Marroco. E todo bizarro, agarradinho com Serrana na carruagem arruivada, es-banja arrogantes sorrisos. Irradiante percorre o arruado em meio aos carros-séis, arrualhando. Derretendo-se no sabor de uma tarraçada de jinjibirra com arrivismo.De repente ferroadas na barriga vêm horrorizar. Irreconciliavelmente interrom-pe. Irreal encerra. Irreclamável. Arregalou. Cirroteiro e hemorraidoso. Soterra-do por carrapichos e carrapatos a ferruar. Horropila. Erros aterrorizam como carrego a atarracar o arrependimento. Mirradomorria um farroupa esfarrapado. Derrotado numa vida arrasada pela misériaterrorida.3º lugar – prosa – I Concurso do GE – 08/05/2012. 71
  68. 68. VOZ DOS ANJOS Isabel Moura S ão lindas as vozes Ouço bem as vozes Vozes vozes vozes vozes Infinidade de vozes Num coro as vozes Trazem aos ouvidos meus Os louvores no céu Dos anjos de DEUS.72
  69. 69. PÁGINA EM BRANCO Hamilton Brito E stou recebendo do Senhor uma página em branco onde deverei escrever uma história. Nela colocarei aquilo que produzir, com os acertos e erros que a constituirão. Estou acordando para um novo dia. Deverei vivê-lo e ao seu final algoestará escrito; bom ou ruim, serei eu o responsável, o autor. Meu propósito é preencher a página com palavras nobres, sentimentospuros, conclamando à paz. Creio que durante a minha vida desenvolvi o sentimento de humilda-de, de tolerância e compreensão para com os meus semelhantes e quantasvezes, nas páginas anteriores, ao fechar a história, algo aconteceu e a poesiaque eu consegui manter até o momento, foi nas asas do vento ou na garupado capeta. Não faço com a frequência que deveria um exercício simples que po-deria ajudar na estruturação da minha história diária: fazer a mim mesmo arecomendação “descubra o que há de melhor em você e potencialize a vivên-cia diária do seu melhor para que possa crescer um pouco a cada dia.” Outro dia vi na tevê um programa ensinando a conseguir harmonizaçãoentre pessoas e ambientes, pregando que problemas existenciais podem estarligados à sua casa, aos seus ambientes. Pode ser que sim. Mas se não houver a arrumação do seu ambienteanterior até onde irão os resultados conseguidos com o novo design da suasala ou quarto? A gente não lava o rosto todos os dias ao levantar? Lavemos também aalma. Aqueles sentimentos nobres que temos a cada final de ano, sentimentomaior de solidariedade, de amor ao próximo podemos tê-los a cada início dedia. Estimular o otimismo, a confiança em Deus e em nós mesmos, de que va-mos escrever uma bela história. Que aquela página diária enriquecerá aqueleque será o livro da nossa vida. 73
  70. 70. Assim como para escrever bem é preciso conhecer toda a estruturanecessária, ou seja, aprender o papel do artigo, do verbo, da preposição, dosujeito, do complemento, da pontuação, o que é crônica, conto, poesia oupoema e demais, para viver bem é preciso conhecer os meios para fazê-lo. O ser humano precisa estar em harmonia consigo e com o universo epara tanto precisará alimentar os melhores sentimentos que conseguir. Para conseguir melhorar um pouquinho mais hoje, eu preciso lutar. Inicialmente pode ser difícil, mas cada conquista, por pequena queseja, vai nos empurrar para um novo desafio. É preciso ter em mente que a natureza canta e que não seremos nósque ficaremos chorando sobre possíveis leites derramados, e que a mudançado mundo passa pela nossa e tem que ser para melhor. Mas só podemos ser melhores se a nossa mudança nos aproximar deDeus. Os filósofos costumam dizer que a primeira pergunta que devemosfazer é: quem sou eu? Quem sou eu... uai! Eu sei quem eu sou, o Estado sabe quem sou eu,no computador da prefeitura está quem sou eu, onde moro. Não falta enxeridopara saber quem sou eu. A primeira pergunta que devemos fazer ao acordar é: como tem sido aminha relação com Deus? Para nós que não somos políticos, ministros, secretários, fica mais fácilresponder à pergunta... Concorda? Voltando à filosofia, ela prega que somos um ser substantivo, um serúnico, fonte de tudo, ser infinito, eterno. Então, tome cuidado para não ir para o além sendo um serde...”merde”. A cada página em branco recebida de presente todos os dias, comclareza e uma boa caligrafia escreva a sua história. Ela poderá não receber umPulitzer, mas quando Deus ler o que estiver escrito, certamente dirá: -Pedro, estenda um novo tapete vermelho. Está chegando um diletofilho. 74
  71. 71. DUAS LÁGRIMAS Hamilton Brito M arcos já beirava os quarenta anos e ainda não tinha suspira- do por ninguém. Quantas “conheceu” nem sabe responder. Exigente? Até que não. Sua profissão fazia dele um andarilho. Quer dizer,.andarilho...era mais“ carrilho” ou “ aviaõzilho”. Ora um contato em Porto Alegre na terça-feira, ora um em Belém , noPará., na quarta. A permanência nestes lugares era sempre pequena e assim não davatempo de conhecer alguém mais profundamente. E olha que tinha encontradouns “ alguéns “ de tirar pica pau do oco. De certa feita conheceu uma morena muito bonita em Itaúna, Minasgerais e ficou encantado. Sentado em um restaurante, notou-a mais à frentecom uma colega. Percebeu que ela comia, olhando maliciosamente para ele,uma coxa de galinha de um modo estranho, como se a chupasse...esquisi-to! Como não houve o fechamento do negócio naquele dia, não deu baixano hotel e voltou ao mesmo restaurante para o jantar. Olha a morena lá e desta feita, sozinha. Pediu licença e sentou. _ Oi, você pede o que comer e eu escolho o vinho. - Está certo, mas antes vamos combinar o meu preço. Meu nome éMaria. Assim, na lata, na cara dura. Uma das mulheres mais lindas que játinha visto na vida. -Ave! Esta Maria.... Santa Maria, pensou. -Olha, vou ao meu carro, pois esqueci a carteira e volto já. Enquantoespera, aproveite e faça a encomenda para mim. Peça um Gravas Del Maipo,da Concha y Toros Já volto. 75

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