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Rio de JaneiroPrieto Produções Artísticas20111ª ediçãoorganizaçãoBenita Prieto
© 2011 Organizadora Benita Prieto© Direitos de publicaçãoprieto produções artísticas	www.benitaprieto.com.brCoordenação ed...
Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios.Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o prové...
prosas	 ....................................................................prosa de abertura13	 Contação de estória: vida...
85	 Cinema: um griot cuja argila é o tempo e a estátua são os atores na fogueira dasala escura	 Paulo Siqueira95	 Blog, um...
163	 Nos caminhos da Maré	 Lene Nunes169	 Entre hospitais gerais e psiquiátricos: histórias humanas e literárias como um r...
:prosa de abertura
oContação de estória:vida e realidade
o13Vou arriscar uma definição.Mais uma.Já tentaram de várias maneiras dizer o que é que define essencialmente o ser humano...
14ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesPortanto,falemosdepessoasedeindivíduosincluindoaínecessariamenteasmulher...
15tecnológica, em que o cinema, a TV, a internet e os novos suportes ocupam espaçosimensos no nosso cotidiano. Isto sucede...
16ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesAnteriormente à modernidade, foram os românticos os responsáveis pela re...
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oContar histórias é alimentar ahumanidade da humanidade))))))))))))
o19Se o ato de sonhar não é uma exclusividade dos humanos, contar histórias éuma arte milenar exclusiva das sociedades hum...
20ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozespelos avôs e pais, no calor da família. Séculos depois, a invenção da im...
21alguns valores. A segunda é que as histórias mantêm sempre aceso o farol da imagina-ção, da criatividade, da curiosidade...
22ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesafetos literários emanados dos sábios contadores, que dedicaram parte de...
oContos indígenas:uma experiência com narrativasdos primeiros povos brasileiros
o25Ninguém respeita aquilo que não conhece.1Wabuá XavanteNo ano de 1500 os europeus chegaram ao território que hoje chamam...
26ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesDivido com você “que me escuta” algumas reflexões após 11 anos de trabal...
27ormente, traduzidos – o que costuma apresentar melhores resultados.A importância de encontrar várias versões de uma mesm...
28ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesúnica, que permeasse todo o espetáculo. No começo da construção do espet...
29fazer com que encontremos modos de convívio mais harmônicos com outras pessoase culturas na grande aldeia global em que ...
oNegras histórias(a valorização da culturaoral afro-brasileira)
o31Eu me lembro muito bem... Tanto o meu pai quanto a minha mãe me contavamhistórias antes de eu dormir. As narrativas de ...
32ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesSou índio, sou branco, sou negro.Eu sou brasileiro.Portanto, as diferenç...
33... Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela devesaber.... – As negras velhas – ...
34ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesE não se esqueçam: as histórias foram feitas para serem contadas e recon...
oDeusNumDé:dom da visão
o37Eis que a cadência da roda, no compasso da ciranda, dava o tom de todas as vozes,que em coro cantavam: “Até pro ano, se...
38ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesdo caminho dei com Outra Praça, e dá-lhe gente em volta de uma figura qu...
39Por meio do inconsciente – ciente do encanto ali vivido – me vi inteiro tomado pelozumbir sem fronteira da Tradição Oral...
40ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesarena, onde se viam de gente antiga a modernosa... Ambiente de Encontro ...
41um caboclo. Vi logo que era cria do lugar: um pescador de palavras. Sua voz estava napraça, mas apenas sussurrava uma hi...
42ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesMeu Avô também não vi.Não quis ele aparecerem Angra, mas eu ouvi,– caro ...
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oVozes, corpos e textosnos vãos da cidade((((((((((((
o45Aliberdade, segundo o senso comum, é um direito inalienável de todo serhumano. Mas a luta para que ela seja valor impre...
46ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesconceitos, violência, espanto, desejo e dor são tratados em liberdade po...
oMuitas vidas,muitas vozes,muitas históriasc
o49Júlio Diniz – A palavra Morandubetá, o que significa?Morandubetá – É uma palavra Tupi que significa “muitas histórias”....
50ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesque nome interessante, Morandubetá! Uma palavra diferente. Que remete ao...
51Júlio Diniz – Como era ser um contador de histórias no início dos anos 90? Haviajá essa importância? Esse lugar? Esse re...
52ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesJúlio Diniz – De onde vem essa palavra, “contação”?Morandubetá – Essa pa...
53desse aspecto. O Rio de Janeiro estava irreconhecivelmente inteligente naquelemomento. É isso?Morandubetá – É isso mesmo...
54ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozessemanais para ensaiar. Toda essa pesquisa nos deu segurança para trabalh...
55Júlio Diniz – A última pergunta para cada um de vocês. Quais são as expectativas dacontação de histórias?Benita Prieto –...
56ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesporque a oralidade dá a possibilidade de ter um sentido para a compreens...
Esta conversa com os participantes do grupo Morandubetá ocorreu na CátedraUNESCO de Leitura da PUC-Rio. Era uma segunda-fe...
oImpressões de umacontadora de histórias– meu encontro coma arte narrativa
o59Embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem...”Assim a autora Clarissa Pinkola Estés encerra seu ...
60ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesDe fato, se recorrermos à memória de nossa infância, verificamos que tal...
61na minha meninice e, mesmo antes de aprender a escrever, lembro-me de meus paisregistrando poemas e músicas que eu criav...
62ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozeshistória possam ser semelhantes... E seguimos na esteira do conceito de ...
63difícil tarefa de viver e conviver. A narrativa é dirigida ao olhar do outro, é frontal. Ocontador entrega, oferece um t...
64ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesfos, teóricos e artistas populares me ajudam a pensar o valor desta anti...
65u 	 O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Clarissa Pinkola Estés.Rocco, 1998.u 	 A renovação do conto....
oA terceira margem da cena
o67Hoje, o interesse do teatro contemporâneo pela encenação de textos literáriossem transposição de gênero é crescente. A ...
68ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesinteragindo com o público. Apesar de se alimentar da linguagem do seu an...
69história de leituras oferece, textos autorais, poesias, crônicas e também as históriasda tradição oral que reencontramos...
70ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesver o ator apontando com o indicador para o céu, com elegância, todos ad...
oA voz quente docoração do rádio
o73Com a novela de rádio aprendemos a ansiar pela continuação de uma história:para muitas gerações de brasileiros, a radio...
74ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesAnos depois, já quase mocinha, ganhei um rádio de pilha de aniversário. ...
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  4. 4. Rio de JaneiroPrieto Produções Artísticas20111ª ediçãoorganizaçãoBenita Prieto
  5. 5. © 2011 Organizadora Benita Prieto© Direitos de publicaçãoprieto produções artísticas www.benitaprieto.com.brCoordenação editorial: Benita PrietoAssistente editorial: Priscila da Cruz VieiraRevisão: Ana Letícia LealDesign de capa e projeto gráfico: Marcos CorrêaCIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTEBIBLIOTECÁRIA RESPONSÁVEL-LÚCIA FIDALGO-CRB7/4439C759 Contadores de Histórias: um exercício para muitas vozes/ Organização Benita Prieto. - Rio de Janeiro: s. ed, 2011. 240p. ISBN 978-85-65126-00-7 1. A arte de Contar Histórias. 2. Contadores de Histórias. I. Prieto, Benita, org. II. Título CDD: 808.068543 22. ed.
  6. 6. Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os sábios.Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provér-bio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer aoacervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas aprópria experiência, mas em grande parte a experiência alheia.O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo quesabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dig-nidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poderiadeixar a luz tênue de sua narração consumir completamente amecha de sua vida.O Narrador. Walter Benjamin.“”
  7. 7. prosas ....................................................................prosa de abertura13 Contação de estória: vida e realidade Affonso Romano de Sant’Anna ............................................................................................)19 Contar histórias é alimentar a humanidade da humanidade Carlos Aldemir Farias25 Contos indígenas: uma experiência com narrativas dos primeiros povos brasileiros Daniele Ramalho31 Negras histórias (a valorização da cultura oral afro-brasileira) Rogério Andrade Barbosa37 DeusNumDé: dom da visão Edmilson Santini ............................................................................................(45 Vozes, corpos e textos nos vãos da cidade Júlio Diniz49 Muitas vidas, muitas vozes, muitas histórias Júlio Diniz & Morandubetá59 Impressões de uma contadora de histórias – meu encontro com a arte narrativa Bia Bedran67 A terceira margem da cena José Mauro Brant73 A voz quente do coração do rádio Gilka Girardello79 Contando na telinha Augusto Pessôa
  8. 8. 85 Cinema: um griot cuja argila é o tempo e a estátua são os atores na fogueira dasala escura Paulo Siqueira95 Blog, uma janela para o mundo Marcio Allemand101 Paiquerê Piquiri Fiietó, um experimento com as linguagens Cléo Busatto105 Duas histórias contadas nos múltiplos caminhos dos Role-Playing Games (RPG) Carlos Eduardo Klimick Pereira & Eliane Bettocchi Godinho115 Como as histórias foram entrando na minha vida... Ana Luísa Lacombe121 Da boca da noite para a acolhida na escola Almir Mota127 Bibliotecas: vozes silenciadas? Nanci Gonçalves da Nóbrega137 A contação de histórias vivenciada no chão da universidade: um quase relatode experiência Edvânia Braz Teixeira Rodrigues143 Por onde passo, levo comigo os contadores de histórias Maria Helena Ribeiro151 Narrativas na empresa Fernando Goldman157 Fagulhas habitam multidões Célia Linhares
  9. 9. 163 Nos caminhos da Maré Lene Nunes169 Entre hospitais gerais e psiquiátricos: histórias humanas e literárias como um rio decaudaloso fio, tecendo redes de encontros na diversidade de afluências do viver saudável Kika Freyre177 Contos na prisão: um espaço chamado liberdade Rosana Mont’Alverne185 Histórias em sinais Lodenir Karnopp191 Palavras táteis AnaLu Palma ............................................................................................*196 E eles foram felizes para sempre. Regina Machado203 O ofício de viver contando histórias Cristiano Mota Mendes209 O paciente como contador de sua própria história: o olhar de um médico homeopata Conrado Mariano ...............................................................................prosa final215 As águas da memória e os guardadores da corrente de histórias Maria de Lourdes Soares ............................................................................................&225 De quem são essas vozes
  10. 10. :prosa de abertura
  11. 11. oContação de estória:vida e realidade
  12. 12. o13Vou arriscar uma definição.Mais uma.Já tentaram de várias maneiras dizer o que é que define essencialmente o ser humano.Uns dizem, “homo faber”, porque ele sabe produzir instrumentos industriais detrabalho ou de guerra;outros dizem – “homo economicus”, porque conseguimos estabelecer uma socie-dade baseada na economia, na qual viramos objeto de consumo;outros dizem – “homo ludens”, como Huizinga, e assim estudam o “jogo” pre-sente na guerra, na poesia, no direito, etc.E assim continuam as intermináveis classificações que vêm desde o “homo sapi-ens” até aquilo que levou Cassirer a dizer que o homem é “animal simbólico” (“homosimbolicus”), ou seja, nossa habilidade em forjar símbolos exprime nossas perplexi-dades e faz nossa história.Outro dia li um texto que falava do “homo academicus”, referindo-se a esses indi-víduos com a cabeça ilhada dentro das universidades, falando um “trobar clus” moderno.Todas essas características são verdadeiras. E cada uma é uma maneira de entrarno mistério da natureza humana. Penso se nessa sequência se poderia introduzir umoutro traço que nos caracteriza e que não é desprezível. Não vou mais usar a seródiapalavra “homo”, isto já prescreveu depois que o feminismo botou por terra muitospreconceitos. Não dá para repetir aquela frase que, dizem, é de Monteiro Lobato: “umpaís se faz com homens e livros”. Bota mulher nisto.[Affonso Romano de Sant’Anna]V
  13. 13. 14ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesPortanto,falemosdepessoasedeindivíduosincluindoaínecessariamenteasmulheres.Então, digo: somos seres que contam e ouvem histórias. E nisto as mulheres, até mais queos homens, são as grandes contadoras de história: mães, babás, tias, avós, madrinhas...Podemos avançar um pouco mais e dizer: o ser humano é não apenas um ser queconta histórias e ouve histórias, mas sobretudo é um ser que faz história. Fazer históriaé a suprema audácia dos humanos. Os romancistas, os cineastas e os líderes sociais,por exemplo, operam isto mais claramente. Não se contentam em ser atores, queremtambém ser autores, protagonistas de seu tempo.Portanto, somos seres irremediavelmente históricos.Digo isto e penso: eis uma observação banal. Qualquer pessoa sabe disto, não énecessário ser um erudito para chegar a essa conclusão. Aliás, até os analfabetos, quealimentam seu imaginário de contações de estórias, sabem disto. Então, por que fazeressa observação?Primeiro por uma razão, digamos pleonasticamente, “histórica”. Ou seja, a contaçãode estórias passou a ser revalorizada de maneira notável nas últimas décadas, sobretudoa partir dos anos 1980. Uma diversificada bibliografia que permeia diversos ramos doconhecimento nos dá conta de uma verdadeira redescoberta da arte de contar histórias.Isto está até mesmo nos consultórios psicanalíticos, que utilizam a “narratividade” dosclientes como estratégia de tratamento, aperfeiçoando o que Freud há uns cem anosjá praticara quando adotou “a cura pela palavra”, revalorizando assim a palavra faladacapaz de destravar neuroses e traumas.E isto se tornou tão visível e notável que as universidades se voltaram para este fenô-meno estudando o renascimento da contação de estórias em nossa cultura. Cursos decontadores de história se espalham por todas as partes, ao mesmo tempo em que, parale-lamente, cursos sobre leitura, casas de leitura, secretarias de leitura e até mesmo Cátedrasde Leitura (a exemplo da PUC–Rio) começam a ser criados nas universidades.Quer dizer, a leitura e a contação de estórias não apenas estão na moda, mas estãoirremediavelmente geminadas.E isto, surpreendentemente, ocorre dentro de uma sociedade televisiva altamente
  14. 14. 15tecnológica, em que o cinema, a TV, a internet e os novos suportes ocupam espaçosimensos no nosso cotidiano. Isto sucede numa sociedade que, segundo alguns, reju-bilando-se de cultuar a imagem, desprezaria a oralidade como se ela fosse um suporteprimitivo e ultrapassado. Nesse sentido, assim como nos últimos cem anos alardearamtantas mortes em nossa cultura – morte do autor, morte da arte, morte do homem, etc.– seria de se esperar que tivesse ocorrido a “morte” da arte de contar estórias.Não ocorreu. Ocorreu o contrário.Anotemos que uma das falácias de nosso tempo, seduzido pela visualidade, foidizer que uma imagem vale mais que mil palavras. Será? Ou se poderia dizer o con-trário: uma metáfora, um hai-kai, uma estória valem mais que mil imagens? De qual-quer forma, são afirmativas radicais que não ajudam muito a entender a riqueza donosso contexto cultural.Penso, para efeito de raciocínio, nuns exemplos concretos, dentro da própria arte davisualidade: o cinema, por exemplo. Poderia citar o caso de um filme nacional, Narra-dores de Javé, de Eliane Caffé: aí toda uma comunidade recorre à narração para salvar-sedo naufrágio no tempo e espaço, quando uma projetada represa expandisse suas águassobre as casas da comunidade. A estória, a narratividade e a memória passaram a sera barragem imaginária contra a destruição, a ilha de salvação do imaginário humano.A filmografia sobre o valor das estórias orais tornou-se mais rica nos últimos tem-pos. E isto é sintomático do que estou dizendo. Penso num outro filme: Balzac e a cos-tureirinha chinesa, tirado do romance homônimo de Dai Sigie. De novo estão o cinemae o romance nos dizendo da importância da narrativa oral. Mais do que isto, dentrodeste filme/romance há algo fascinante: uma personagem confessa gostar mais da nar-rativa de um determinado filme do que do filme propriamente dito. Eis o cinema pres-tando homenagem à contação de estórias como uma predecessora da arte de narrar. Eassim poderíamos lembrar mais um filme, A camareira do Titanic, película que repousasobre a inventiva capacidade de um personagem de ir incrementando sua estória falsa& verdadeira e assim aumentando cada vez mais sua plateia até transformar a suaestória num espetáculo à parte.AffonsoRomanodeSant’Anna
  15. 15. 16ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesAnteriormente à modernidade, foram os românticos os responsáveis pela revalori-zação da memória oral das comunidades. Os romances foram uma recriação das nar-rativas orais. Por outro lado, os irmãos Grimm na Alemanha, o dinamarquês HansChristian Andersen e os romancistas, como Alexandre Dumas, Walter Scott e José deAlencar, foram buscar nas lendas, na história, no folclore, o imaginário coletivo.E, na modernidade, ocorrem insólitas revalorizações da palavra. A arte contem-porânea, depois de ter chegado ao abstracionismo, deu uma meia-volta em direção àpalavra e institucionalizou a “arte conceitual” como uma das mais nítidas tendênciasdo século XX. E isto se deu de tal forma que o “discurso” sobre os quadros ou obraspassou a ser mais relevante que as próprias obras e a terem em relação a elas certaindependência. (Tratei disto no livro O enigma vazio, editado pela Rocco).A indústria das novelas de televisão, o cinema, o teatro, as estórias em quadrinho eos romances continuam mais fortes que nunca. A publicidade tornou-se uma forma denarrar e de seduzir. Uma cidade é um livro, cheia de letras, como para o índio é a floresta.Disto tudo sobressai a palavra – narratividade. Narramos sem saber que narramose somos lidos até sem nos darmos conta de que nos estão lendo. Mais do que nuncatorna-se urgente que as pessoas tenham consciência de que ler o mundo é uma tarefacontínua, desafiadora e propiciadora do sucesso pessoal e social.Somos estórias em movimento. Parábolas vivas. E quem conta estórias vive váriasvidas numa só.
  16. 16. ))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))
  17. 17. oContar histórias é alimentar ahumanidade da humanidade))))))))))))
  18. 18. o19Se o ato de sonhar não é uma exclusividade dos humanos, contar histórias éuma arte milenar exclusiva das sociedades humanas. Foi graças à tradição oral quemuitas histórias se perpetuaram, sendo transmitidas de uma geração para outra. Tudocomeçou em uma caverna, quando os primeiros caçadores e coletores se reuniram emvolta das chamas da fogueira para contar histórias uns aos outros, sobre suas aventu-ras na luta pela sobrevivência, para dar voz à percepção fenomenológica dos eventosnaturais e sobrenaturais, e, assim, entrar em conformidade com a ordem social ecósmica. Algumas dessas histórias ficaram registradas nas paredes das cavernas e aindaresistem às intempéries acontecidas durante os milhares de anos.As conquistas de uns povos por outros, a passagem da caça à agricultura, as migra-ções e as guerras foram difundindo e transformando as histórias das diferentes tradiçõesculturais em elementos reconhecidos pelo corpo social, no qual o contador de históriasexercia o papel de guardião da memória e as narrativas formavam a enciclopédia dosaber coletivo das sociedades.Até hoje, em diferentes grupos sociais espalhados pelo planeta, por exemplo, indí-genas, comunidades rurais, ribeirinhas e remanescentes de quilombos, predominamas formas orais de comunicação; a cultura é transmitida por meio da oralidade. Essassociedades têm um conhecimento espetacular, pois desenvolveram um tipo de dis-curso argumentativo por meio das narrativas.No decurso do processo histórico, as histórias ancestrais, somadas a tantas outras,foram recriadas em função das circunstâncias e passaram a ser contadas pelas amas,[Carlos Aldemir Farias]S
  19. 19. 20ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozespelos avôs e pais, no calor da família. Séculos depois, a invenção da imprensa salvoudo esquecimento muitas dessas histórias tradicionais que continuam sendo reconta-das em diferentes espaços sociais, como escolas, universidades, teatros e encontros decontadores. Outras se perderam, talvez para sempre ou, quem sabe, as carreguemosadormecidas dentro de nós sem saber.Narrar uma história é um modo de estruturar o mundo em função das nossasações individuais. Implica um trabalho de organização da memória individual, feito apartir da acumulação e organização de dados de uma experiência não necessariamentevivida, visto que a memória é uma reorganização de ideias, impressões, subjetividades,afetos e conhecimentos adquiridos no vivido, na leitura, no imaginado.O ato de narrar requer um domínio do tempo narrativo, que corresponde auma enunciação verbal do passado. Todos os contadores mantêm, por meio de suashistórias, um elo entre passado e presente, real e sobrenatural, possível e impossível,razão e imaginação.Por que é importante contar e ouvir histórias? Porque quando fazemos isso alimenta-mos duas das mais importantes características dos seres humanos: a imaginação criativae a oratória. Somente os humanos dizem era uma vez... Somente nós fazemos isso: con-tamos a nossa história, a dos outros, escrevemos histórias, acrescentamos detalhes, cria-mos situações que não aconteceram de fato, imaginamos outros mundos, outros seres,outras paisagens, outras formas de ver e viver neste e em outros mundos imaginados.Os outros animais vivem e experimentam alegrias e dores, mas não sabem contaro que sentem. Não criam nem imaginam situações, não contam para os outros o seupassado. O mais fascinante é que usamos o recurso do antropomorfismo, ou seja,atribuímos formas e características humanas aos entes naturais e sobrenaturais. Nessemundo mágico, as plantas, os animais e os humanos dialogam; as fábulas são bonsexemplos disso.Mas há, também, outras razões para ouvir e contar histórias. A primeira é que,quando as ouvimos, despertamos para situações que não tínhamos pensado antes.Dessa forma, ampliamos nossos conhecimentos, o que nos permite rever e reelaborar
  20. 20. 21alguns valores. A segunda é que as histórias mantêm sempre aceso o farol da imagina-ção, da criatividade, da curiosidade, da ludicidade. Elas despertam o espírito juvenilque existe em qualquer pessoa, seja criança ou adulto. Quem sabe muitas histórias,certamente é porque ouviu, leu ou contou. Assim, dispõe de mais conhecimentospara enfrentar situações novas durante o seu percurso de vida, uma vez que, ao con-trário da maioria das formulações científicas, as histórias rejeitam verdades unívocase permitem soluções múltiplas.É bom lembrar que, embora nenhum de nós vá viver para sempre, as históriasconseguem, pois enquanto restar uma única pessoa que saiba contá-las, elas não mor-rerão. Na condição de animais gregários, atualizamos dia após dia o ato de narrar.Talvez para entender quem somos ou para tomar consciência de que existimos. ParaClarissa Pinkola Estés, “as histórias que as pessoas contam entre si criam um tecidoforte que pode aquecer as noites espirituais e emocionais mais frias”1. Somente elasrevelam a aptidão peculiar e preciosa que os humanos possuem em obter êxito nastarefas mais árduas. Fornecem, também, as instruções essenciais que precisamos parater uma vida útil, necessária, irrestrita, significativa.Segundo Joseph Campbell, contamos histórias para entrar em acordo com o mun-do, para harmonizar nossas vidas com a realidade2. Sempre que me perguntam porquegosto tanto de histórias, costumo afirmar que o meu interesse por essas narrativasancestrais nasceu na infância, pois cresci à sombra dessa tradição dos meus antepas-sados no litoral sul do estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil. Desde cedofui marcado na alma por uma heráldica narrativa que permanece até hoje. As históriassempre estiveram presentes na minha vida, seja por meio dos contos narrados peloscontadores tradicionais do lugar onde nasci ou pelos vários livros de literatura lidos erelidos por mim ao longo dos anos.Hoje, nos momentos em que olho para trás, relembro o quanto as históriaspermaneceram na minha memória, alimentaram a minha imaginação de emoçõesextraordinárias e tiveram uma ressonância na minha formação pessoal e profissional.Na minha tenra idade nunca achei necessário dizer obrigado por aquelas porções de1.  O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 38-39.2. O poder do mito. Palas Athena, 1998 CarlosAldemirFarias
  21. 21. 22ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesafetos literários emanados dos sábios contadores, que dedicaram parte de seu precio-so tempo às crianças. Considero um privilégio ouvir histórias, essa sensação de mara-vilhamento diante do espetáculo da imaginação humana. Para mim não existe umafeto poético maior. Se pudesse voltar no tempo não teria palavras para agradecer poraqueles momentos mágicos. Sou grato a todos os contadores que, com suas legiões depersonagens, iluminaram a minha vida.
  22. 22. oContos indígenas:uma experiência com narrativasdos primeiros povos brasileiros
  23. 23. o25Ninguém respeita aquilo que não conhece.1Wabuá XavanteNo ano de 1500 os europeus chegaram ao território que hoje chamamos deBrasil. Havia aqui cerca de mil povos indígenas cuja população foi drasticamentereduzida e que hoje se concentra em cerca de 280 etnias, que falam 160 línguas – umBrasil que certamente precisamos conhecer.No ano de 2000 comecei a contar histórias indígenas. Havia alguns anos da pri-meira visita ao Museu do Índio do Rio de Janeiro. Ficava admirada com a riquezada cultura daqueles que foram os primeiros habitantes de nossa terra e perplexa comnosso desconhecimento sobre sua realidade – apesar de terem se passado mais dequinhentos anos do primeiro contato.Yawanawá, Xavante, Enawenê-Nawê, Fulni-ô, Apurinã, Kuikuro, Mehinaku.Pesquisei diversas histórias e escolhi para estarem em “Contos indígenas” – aqueleque seria meu primeiro espetáculo com este tema – narrativas das etnias bororo(“Subida para o céu”), kaxinawá (“A lenda da lua cheia”) e nambikwara (“O meninoe a flauta”). A primeira conta a origem dos animais e das estrelas, a segunda mostra aorigem da lua e da menstruação das mulheres e a terceira narra a origem dos alimen-tos e da flauta sagrada Wairu, que só pode ser vista pelos homens.As perguntas eram muitas: – Por que contar histórias indígenas em nossa socie-dade? Como colaborar para difundir a tradição destes povos? Como utilizar versõesdos mitos tradicionais e fazer com que alguns de seus símbolos possam ser apreendi-dos por pessoas de outra formação cultural? Como abordar temas como sexualidade emorte, que para nossa sociedade são tabus, e que nas histórias indígenas são tratadascom naturalidade? De que modo eu deveria contá-las?1. Frase que norteia o trabalho do Instituto das Tradições Indígenas, para o qual trabalhei no projeto Rito de Passagem.[Daniele Ramalho]N
  24. 24. 26ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesDivido com você “que me escuta” algumas reflexões após 11 anos de trabalho coma cultura indígena brasileira.Meu primeiro passo foi perceber que não há uma cultura indígena no Brasil, masmuitas, já que há grandes diferenças entre o modo de vida das etnias encontradasem nosso território. Como sugeriu Lévi-Strauss, para que haja uma compreensão dosmitos indígenas o melhor é entendê-los em seus próprios termos, ou seja, compreen-dendo o pensamento de quem os produz2.Fui buscar então maiores informações sobre as etnias e mitos que escolhi. Procu-rei referências que indicassem a que rituais se referiam, a que se destinavam e comque finalidade. Dois deles preparavam os jovens para a iniciação ritual que marcavasua passagem para a vida adulta. Esta pesquisa foi fundamental para guiar algumasescolhas na construção do trabalho.Citarei um exemplo. No mito kaxinawá “O menino e a flauta” conto a origem daflauta wairu, que apenas aos homens é permitido ver. Como na historia o menino eseu pai escutam o som da flauta, poderia ter sido o meu primeiro impulso usar umaflauta durante a narração. Com a pesquisa compreendi que, se a história trata exata-mente da flauta wairu como um tabu para as mulheres, nada mais coerente do que eu,como mulher, não usar o instrumento na contação. Resolvi a questão reproduzindoo som da música ritual com minha voz. Mais que preciosismo, para mim este é umexemplo claro de como a pesquisa é importante no respeito às tradições do povo cujahistória desejamos apresentar.Durante o longo período em que coletei versões dos mitos, encontrei muitas dife-renças nas adaptações. Achei preciosidades como a coleção Morená, da escritora eilustradora Ciça Fittipaldi, cujas versões uso no espetáculo.As narrativas dos mitos nos chegam normalmente em livros de antropólogos, escri-tores e pesquisadores que conviveram com povos indígenas. Há casos em que são nar-radas em português pelos indígenas – onde costumam se perder detalhes importantesem função das histórias não serem recolhidas na língua de origem do narrador. Hácasos também em que os mitos são gravados ou escritos na língua indígena, e, posteri-2. Claude Lévi-Strauss revolucionou a antropologia através do estruturalismo, com importantes estudos sobre a análisede ritos e mitos
  25. 25. 27ormente, traduzidos – o que costuma apresentar melhores resultados.A importância de encontrar várias versões de uma mesma história é a possibili-dade de perceber o quanto foi preservado da essência daquela narrativa e o quantohá de adaptação do autor, que muitas vezes “adultera” ou “corrige” o conteúdo domito para que o seu teor “primitivo” não entre em atrito com as normas sociais deconduta de nossa cultura.Após o contato de nossa sociedade com os povos indígenas, foram criados proje-tos que visam registrar sua história mítica como, por exemplo, nas publicações utiliza-das nas escolas indígenas ou em livros publicados por escritores indígenas – que, emdiversos estilos literários, revelam a tradição ancestral. É a palavra dos antigos – quefala do tempo em que o mundo foi criado – apresentada pela nova geração, quemesmo após incorporar à sua cultura inovações como o uso da internet, luta paramanter vivo o pensamento e o modo de vida harmônico de seu povo. Assim, apesarde terem sofrido mudanças significativas em seu imaginário, eles encontram meios demanter a sua identidade e reverenciar a sabedoria ancestral.Voltando a “Contos indígenas”: optei por trabalhar no espetáculo com a corpo-ralidade como um meio de contar as histórias. Sempre me saltava aos olhos a maneiracomo os indígenas narram seus mitos. Um exemplo: na época em que trabalhei noprojeto Rito de Passagem, do Instituto das Tradições Indígenas /IDETI, durante umaconversa com “Seu” Joaquim Yawanawá, ouvi-o narrando em pano (sua língua deorigem) o trecho de uma história. Eu não entendia o significado do que ele dizia,mas era impressionante o vigor e intensidade com que me contava os fatos; os gestosque fazia. Era como se revivesse na frente de sua ouvinte cada personagem e acon-tecimento. Sei que há outras possibilidades, mas neste trabalho optei por uma fortepresença da corporalidade para, de algum modo, trazer ao imaginário do público umencantamento e uma espécie de sentido ritual que considero bastante adequados parauma narração mítica.Como abordava três etnias diferentes, acabei optando por uma pesquisa maisgenérica sobre referências corporais dos povos, encontrando uma corporalidadeDanieleRamalho
  26. 26. 28ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesúnica, que permeasse todo o espetáculo. No começo da construção do espetáculo“Contos indígenas”, eu e André Masseno, diretor do trabalho, utilizamos fotogra-fias de pessoas dos povos abordados em ações físicas cotidianas. Reproduzimos estasações num treinamento corporal, codificadas em partituras físicas, que depois foramdevidamente esquecidas. Posteriormente, na composição das narrativas propriamenteditas, os gestos e movimentos foram reaparecendo. E o corpo encontrado se refletiutambém na sonoridade. Aprendi palavras e cantos das etnias cujas histórias escolhiem sua língua original, aprendi sons que os indígenas fazem em seu cotidiano – e, aospoucos, codifiquei um modo diferenciado de abordar o som nas narrativas.E qual é a importância de contar mitos indígenas hoje? Sabemos que as narrativasmíticas ajudam a compreender uma sociedade, trazendo sua visão sobre a ordem domundo, suas regras de convívio – o que não só fortalece seu sentido de grupo, comocarrega a sua memória. As histórias também preparam os indígenas para rituais depassagem. Trazem a conexão entre mundo material e espiritual e falam de um encan-tamento que pode nos conectar novamente com a magia da vida gerando uma novacompreensão de nossa existência através de uma ancestralidade viva. Gosto muito deJoseph Campbell quando ele diz que os mitos “...ensinam a se voltar para dentro...” e“...nos permitem uma leitura das mensagens que o mundo nos emite”. As narrativasindígenas podem, portanto, nos conectar para “além da internet” e gerar uma realligação com o outro e com a sociedade.Sabemos que os mitos se referem a questões arquetípicas, tratando de símbolosque acessam emoções e imagens simbólicas que constituem a condição humana – oque nos leva a pensar que somos todos iguais! O africano Amadou Hampátê Bâ disse– referindo-se à tradição dos mitos de iniciação peuls – que “Um conto é um espelhoonde qualquer um pode descobrir a sua própria imagem.”3Por outro lado, o mito traz um caráter específico da cultura a que pertence – ouseja, trata da identidade de um povo; aquilo que o faz único – o que sugere que somostodos diferentes! Acredito que esta dicotomia presente nas narrativas míticas é quepode gerar reflexões que nos levem a ter maior tolerância com a diversidade cultural e3. Amadou Hampátê Ba foi escritor, historiador, poeta e contador de histórias nascido no Mali; um grande defensor datradição oral africana.
  27. 27. 29fazer com que encontremos modos de convívio mais harmônicos com outras pessoase culturas na grande aldeia global em que nos encontramos. É preciso, então, ver aoralidade como uma atitude diante da realidade, ligada a uma visão de mundo e àvontade de comunicação com o outro.Espero, de verdade, que possamos dar voz à tradição indígena de nosso país;que as histórias destes povos possam gerar respeito à riqueza da diversidade culturalbrasileira e que elas sejam, cada vez mais, contadas e escutadas por todos e para todos,gerando mais compreensão e interação entre os povos.Leituras Inspiradorasu O poder do mito. Joseph Campbell. Pallas Athena, 1990.u Subida pro céu. Ciça Fittipaldi. Melhoramentos, 1986.u O menino e a flauta. Ciça Fittipaldi. Melhoramentos, 1986.u Memória e construção de identidades. Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos e NilsonAlves de Moraes (Orgs.). 7 Letras, 2000.u Mito e significado. Lévi-Strauss. Edições 70, 1985.DanieleRamalho
  28. 28. oNegras histórias(a valorização da culturaoral afro-brasileira)
  29. 29. o31Eu me lembro muito bem... Tanto o meu pai quanto a minha mãe me contavamhistórias antes de eu dormir. As narrativas de meu pai, que era escritor, tinhamum sabor especial, pois eram em capítulos inventados por ele mesmo, recheados deaventuras mirabolantes, que se sucediam a cada noite. Foi assim que iniciei meusprimeiros passos pelo fantástico mundo da contação de histórias.Depois vieram os livros que despertaram em mim, desde cedo, a vontade de via-jar. Mais tarde, trabalhei durante dois anos como professor-voluntário a serviço dasNações Unidas na Guiné-Bissau, África. Ali, me encantei com as apresentações dosgriots e com a diversidade dos contos tradicionais africanos, tema de inspiração paramuitos de meus livros.Essa experiência foi também importante para minha atuação como contador dehistórias e pesquisador da cultura oral afro-brasileira e africana.Nos últimos anos, graças aos movimentos organizados e, sobretudo, depois dalei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura africanas eafro-brasileiras nas escolas de ensino fundamental e médio, público e particular, aliteratura de raízes negras, nem sempre valorizada anteriormente, tem sido destaqueem nosso panorama editorial.Também, pudera! Nós, brasileiros, somos frutos da união entre diversos povos ecrescemos convivendo com uma rica pluralidade de culturas.Os versos da canção de um violeiro das barrancas do Rio São Francisco, em MinasGerais, resumem a questão:[Rogério Andrade Barbosa]E
  30. 30. 32ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesSou índio, sou branco, sou negro.Eu sou brasileiro.Portanto, as diferenças culturais devem ser reconhecidas e, não, ignoradas, oualvo de discriminação.O negro brasileiro, cujos ancestrais foram trazidos a ferro e fogo do continenteafricano, amontoados nos porões dos navios tumbeiros, trouxeram com eles um deseus bens mais preciosos, que ninguém lhes tiraria: as suas histórias.E nesse “baú fabuloso” vieram os contos, lendas e fábulas transmitidas de paispara filhos, há várias gerações.Um dos aspectos mais relevantes da cultura oral africana talvez seja a maneiracomo os contadores interpretam as histórias usando apenas o corpo, os gestos e a vozpara cativar os ouvintes. Esses mestres da palavra, verdadeiras “bibliotecas vivas”, quemantêm um elo entre o presente e o passado, persistem até hoje.A presença de personagens negras contadoras de histórias é marcante na obrade vários escritores brasileiros. José Lins do Rego em Menino de engenho, descreve emdetalhes uma delas, que nunca se apagou de sua memória:A velha Totonha de quando em vez batia no engenho. E era um acontecimento para a meni-nada. Ela vivia de contar histórias... Que talento ela possuía para contar suas histórias, comum jeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Sem nem um dente na boca, ecom uma voz que dava todos os tons às palavras.... A velha Totonha era uma grande artistapara dramatizar.... Tinha uma memória de prodígio”Já Viriato Corrêa, em Cazuza, evoca outra dessas contadoras geniais:Vovó Candinha é outra figura que nunca se apagou de minha recordação.... É que ninguémno mundo contava melhor histórias de fadas do que ela. Devia ter seus setenta anos: rija,gorda, preta, bem preta e a cabeça branca como algodão em pasta... Não sei se é impressãode meninice, mas a verdade é que, até hoje, não encontrei ninguém que tivesse mais jeitopara contar histórias infantis...Monteiro Lobato, em Histórias de Tia Nastácia, emprega a voz de Pedrinho paraexaltar uma de suas personagens mais conhecidas e que tem sido alvo de tantaspolêmicas e releituras:
  31. 31. 33... Tia Nastácia é o povo. Tudo que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela devesaber.... – As negras velhas – disse Pedrinho – são sempre muito sabidas. Mamãe conta deuma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas... Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias. Quem sabe se Tia Nastácia não é umasegunda tia Esmeréria?Já em O Saci, Tio Barnabé, outra das inúmeras criações de Monteiro Lobato, é otípico Pai João: “Negro de mais de 80 anos, descalço...”Embora estereotipado, ele é o grande conhecedor dos segredos da mata queenvolve o sítio do Picapau Amarelo. A sua longevidade, no melhor estilo africano, éa fonte de sua sabedoria. É a ele que Pedrinho vai recorrer quando quer saber se Saciexiste mesmo: “– Como não hei de saber tudo, menino, se já tenho mais de 80 anos? Quem muitoveve, muito sabe...”Contadores e contadoras de histórias tradicionais ainda são encontrados, prin-cipalmente em comunidades afastadas dos grandes centros urbanos. Em 2008, emminhas andanças pelo Brasil, tive a oportunidade de entrevistar uma senhora negrade 93 anos na ilha de Itaparica, Bahia, dona de memória invejável, que me contouhistórias do seu tempo de criança, cantando e imitando as vozes de diferentes perso-nagens de uma forma emocionante.Nossas histórias, danças, canções e saberes tradicionais têm uma grande influên-cia da Mãe-África. Nesse aspecto, os livros destinados aos mais jovens têm um papelfundamental: o de contribuir para que a criança sinta-se orgulhosa de pertencer auma cultura, seja ela qual for, e de aprender a respeitar às diferenças, contribuições evalores de sua própria comunidade e também de outros povos.A valorização passa pelo reconhecimento. As palavras e as ilustrações de um livrosão como um espelho. E se a pessoa não vê a sua imagem refletida, pode se sentirdesinteressada e desmotivada. A sua autoestima é afetada.Aos autores de livros para crianças e jovens, aos contadores de histórias e aoseducadores cabe preservar, valorizar e divulgar as tradições orais. As histórias sãoimportante fator de enriquecimento e afirmação de identidade social, especialmenteem um país plural como o nosso.RogérioAndradeBarbosa
  32. 32. 34ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesE não se esqueçam: as histórias foram feitas para serem contadas e recontadas.Leituras Inspiradorasu Cazuza. Viriato Corrêa. Companhia Editora Nacional, 1976.u Histórias de Tia Nastácia. Monteiro Lobato. Brasiliense, 1947.u Viagem ao céu e O Saci. Monteiro Lobato. Brasiliense, 1960.u Menino de engenho. José Lins do Rego. José Olympio, 1960.
  33. 33. oDeusNumDé:dom da visão
  34. 34. o37Eis que a cadência da roda, no compasso da ciranda, dava o tom de todas as vozes,que em coro cantavam: “Até pro ano, se eu vivo for”. Era o encerramento do Circui-to Estadual das Artes, realizado numa das praças da cidade de Caxias-RJ. Fazendo jus àtradição que, desde séculos aos dias atuais, acompanha a trajetória de artistas populares,em praças, ruas... o chapéu logo é mostrado... Feito pedra de anel, de mão em mão épassado, quando vê, está enriquecido em notas e moedas. O que não significa que aliestá a paga pela função apresentada ao respeitável público. No andar das contações dehistórias – vozes das praças – rodar o chapéu, no desfecho de cada função, é hábito quese mantém mais como um complemento brincante, eu diria. Dito isso, a presença deespírito, em carne, osso e voz, do contador de história, perante a sociedade atual (lou-camente urbanizada, até certo ponto) se dá como proposta de lazer, educação, cultura...aos ouvidos de um público volante (sempre passando), personagem carente de um pou-co de poesia nos fins-de-tarde-cair-da-noite de seus dias, em grande parte estressantes.Caía de vez a noite sobre o viaduto, quando os participantes do recém-encerra-do espetáculo foram deixando a Praça, cada qual pegando seus adereços de cena erumando em destino ao Lar, Doce Lar. Eu, apesar de já ter tomado parte em inúmerasapresentações de rua, com semelhante dimensão humana povoando a roda, vi ali umdos mais iluminados Pontos de Encontro Marcado com a Poética do Circo, por meiodos Pernas-de-Pau, que encenavam Ditos Populares, do Homem que fazia fogo jorrarpor sua Boca de Palhaço... Enfim, tantas foram as provas do Poder Poético nas Vozese Voos daquela Praça que, ao sair de lá, no intento de ir também pra casa, no meio[Edmilson Santini]E
  35. 35. 38ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesdo caminho dei com Outra Praça, e dá-lhe gente em volta de uma figura que cantava,ao meu ver, de forma encantadora. Eu poderia muito bem fazer “ouvidos-de-tô-com-pressa”, passar, literalmente, ao largo da dita praça, mas, em vez disso, me vi atraídode tal maneira pelo entoo da Cantiga (era uma Cantiga de Roda em tom de peditório,acreditem), que pra lá fui levado a correr.Quando me dei conta, estava de cabeça, juízo e tudo, enfiado no meio daquelaplateia que, mesmo compacta, me parecia uma imensidão humana, tamanha a simbo-logia do acontecido no meio daquele círculo de expressões atentas: Um Cego-Trova-dor. No impulso de quem tem a vivência de “rodar o chapéu, a cada função, perante orespeitável público (no meu caso, rodo sempre o Folheto de Literatura de Cordel), fizzunir uma moeda no ar, que tilintou no miolo de um chapéu, que figurava no Centroda Roda. No boca a boca de todos ali presentes, ouvi um “Viva! Viva a moeda dasorte, que de longe acertou a boca do ganha-pão...”. Num gesto-meio-passe-de-mágica,o cego fez calar o vozerio e suspendeu a cantoria. Cada um ali em volta fazia vez dequem tinha uma história pra contar. Vendo no Cego uma História Viva em Pessoa,não hesitei em dimensionar a importância do que ali chamei – lá entre meus botõese pensamento – Teatro de Circunstância: aconteceu, virou diálogo. E um diálogocomecei – meio prosa, meio verso –, perguntando como o Cego se chamava:“Deusnumdé”! Respondeu ele. “Deus num quê”!? Saiu a exclamação, num corode muitas vozes. “Deus num deu olhos pra ver, mas deu o dom da visão”. O Cegoassim respondeu, em tom de improvisação. Em torno ouviu-se o estalar de mãos,como se a praça inteira o aplaudisse de pé. No Centro da Roda – boca para o céu vira-da – o chapéu num instante havia multiplicado os valores. Levado por certo encanta-mento, no Cego quase me encostei. Olhando em seus olhos, vi que o Cego “me viapor dentro”. Situação de um sonho enriquecedor, da qual eu dou testemunho: ele eraeu, eu era ele e a Roda já era Outra. Um Mar de Encantaria fez vulto em meu pensa-mento. E na Cadência do Verso de DeusNumDé tive a prova: o danado do Cego emseu Universo Popular, nos abre os olhos para o lugar que ocupa, muitas vezes invisível,nesta Ciranda de Histórias, no dia a dia a rodar...
  36. 36. 39Por meio do inconsciente – ciente do encanto ali vivido – me vi inteiro tomado pelozumbir sem fronteira da Tradição Oral. Logo, em vez de servir de guia, me vi guiado pelavoz de DeusNumDé, numa Viagem, eu diria, de Retorno ao Mundo do Maravilhoso.Bem, na real, mesmo, àquela hora, encerrado o espetáculo acima citado, eu meencaminhei foi direto pra casa, como o mais comum dos mortais. Foi assim queme vi na Concreta Travessia da Avenida Brasil, à mercê de um trânsito emperrado,repleto de arruídos, que meu pensamento voou, ligando o itinerário da Via Expressaao imaginário poético-viajante do Cego DeusNumDé. Estou ciente de que meu teste-munho, a essa altura, vai tomando ares de metáfora errante, mas foi por meio dessaerrância que eu pude ver, em tempo real, por irreal que pareça, a entrada de Deus-NumDé, agora, na Praça do Reino Encantado: Lugar dos Contos Populares. Lá viDeusNumDé ser recebido ao som do Canto e Dança do Pastoril, Boi da Ressurreição,Maracatu do Baque Virado, com baque solto na festa. Isso me abriu uma TerceiraVisão nos Sentidos, pois logo vi Meu Avô; que era ali um Velho Guardião de MuitasVozes, mantendo em constante renovação (narrador de bom guardado), entre outras,as Histórias de Exemplos e Trancoso. Com DeusNumDé bem à vista, vi Meu Avôtrancando e abrindo as feições, lá de seu rosto – sorrindo ou enfezado – conformepedia o clima da história que estava contando, à beira do fogo, na Praça do Reino.Velho narrador de ontem, como hoje, desempenhando seu papel sagrado.A essa altura da viagem (concreta e imaginária) me ocorre dizer que, nos dias dehoje, o contador de histórias, seja sua atuação por meio do verso ou da prosa, é um seressencial a uma sociedade que se vê necessitada em “dar um tempo ao tempo da poesia”.Cruzando, enfim, um Terceiro Sinal Verde, antes de chegar em casa, vi Deus-NumDé já transitando entre a Praça do Reino e a Praça da Pedra Medieval.Assim que entrei em casa, liguei a televisão, direto no programa Narradores doTempo – Canal da Voz do Futuro. Quem eu vejo aparecer? DeusNumDé, lá desafi-ando Homero. Não estando eu maluco – assim espero –, juro que isso eu vi suceder.Coisa do mundo da tevê.Partindo de um plano que se fechava nos dois, a tevê foi revelando uma grandeEdmilsonSantini
  37. 37. 40ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesarena, onde se viam de gente antiga a modernosa... Ambiente de Encontro Celebrativo.De repente, em plano médio, eu vi e reconheci: um Médium, ao seu lado umaAlma Viva do Teatro. Se não me falha a imagem, o Espírito Dionísius também vi. Vium Poeta mais atrás, só pela rima do olhar. Olha quantos entes da Criação Humana...Logo ao lado vi um senhor que tinha pinta de palhaço. Era uma Praça povoada dePorta-Vozes dos Saberes Populares. Vi a tevê fechar o plano de novo em Homero eDeusNumDé. A peleja entre ambos alcançava seu clímax. Desenrolando o desfecho,Homero desfiava lá um fuminho de rolo. A figura de seu rosto agora, do meu pontode vista, era, escrito, a de meu Avô.Tevê voltou ao plano médio, e o poeta – reconhecido por mim – emendou contan-do um Conto dos Dias de Hoje. Aí eu tive a certeza: espaço de contador de história éespaço de precisão: vai onde é preciso ir. Nesse preciso momento, o cansaço se insinu-ando, me dominou as pestanas, meus olhos foram deixando os Narradores no Ar...Dia seguinte, as tantas vozes de um homem davam vez ao Teatro De Bonecos:Era o início do Festival Nacional de Teatro, nas Ruas de Angra dos Reis, onde a Cia.Chegança, do Maranhão foi chegando, já cantou pra guarnicê; e em pé sobre seuBanquinho, entre ruas e sinais, vestido só de jornais, Dalmo Saraiva fazia vez de “OHomem De Papel: Coberto de Notícia, sem Ler um Terço da Missa”. Num rito deitinerância, prossegui ouvindo e vendo, entre tantas semelhanças de fala, as diferen-ças na prosódia, nos sotaques... Seguindo minha abordagem, dei com a performanceda “Mulher Que Roda e Cai”. Entre a Mulher e o Cais, outras histórias ouvi. À Beirado Mar de Angra, portanto a Praça do Porto, foi bonito de se ver: a Poética de Cordel(Teatro de Precisão, Indo Onde é Preciso Ir, como eu já disse) fez a Ponte entre o Nar-rado, o Vivido e o Cantado.No rastro desse convívio da arte de contar-encenar com outras artes afins, deiuma espichada de pernas, fui a becos e recantos, – que pareciam invisíveis aos olhosprogramação oficial –, até me achar num picadeiro, bem na frente da igreja. Pen-sei: Profano e Sagrado, numa alegre interação: Circo inteiro e ativo, compartilhandoacrobacias com as preces do sacristão. Mal pensei, fui avistando, lá noutra esquina
  38. 38. 41um caboclo. Vi logo que era cria do lugar: um pescador de palavras. Sua voz estava napraça, mas apenas sussurrava uma história-para-dois. “Quem cochicha, o rabo espi-cha”. Pensando assim, espichei o meu pescoço, meti o nariz entre os três (narrador eseu público de dois): “Sou Seu Cochicha-Língua-Espicha!“ Ele a mim se apresentou.E continuou contando sua história agora pra três. Pensei nessa modalidade: Público-micro em meio à macro-visão de gente. Ideia só dele ou não, foi um jeito encontradode ser ouvido com atenção, valorizando, de verdade, cada palavra então falada. É nes-sas pequenas grandes nuances, por entre ouvidos e praças, que se percebe: espaço docontador de histórias nos dias atuais não se mede apenas pelo volume de público àsua volta, mas também pelo conteúdo e boa qualidade que se imprime em seu contar.Já em pleno pôr do sol, um céu de plasticidade: Azul, vermelho, amarelo, suave-mente mandou a estrela-guia alumiar a cidade, pro Cortejo das Linguagens. Assimsendo: Do Homem de Papel ao Mímico, passando pelo Narrador-Para-Três, Mamu-lengos, Cirandeiros... Até Mestre Vitalino, com Bonecos de Lampião e Maria Bonita,acrescentaram pontos diversos na interação de contadores com outras artes. Desseponto de partida, ao som de tambores, cantos, danças, contos, etc. – por ruas, praçase beira-mar o Cortejo circulou. Sendo o Ponto-de-Chegança o mesmo de onde par-tira: Frente à igreja: lugar do Circo Armado. Cortejo chegou, fez-se a Roda, rodou-se,então, o chapéu. Era o mesmo chapéu do começo dessa Jornada de Palavras.Sem mais o que dizer, peço licença a Guimarães Rosa pra indagar: “Aqui, ahistória acabada?”. Acaba é nada! A história é dada a se verter, virar outras, conformemuda de voz ou de lugar. Toda história que se preza ser contada, guarda em si outrasversões. Falando nisso...Lá Não vi foi DeusNumDé,mas ele segue no ar,contando, pra quem quiserem seu mundo navegare contar, como puder,a história que imaginar.EdmilsonSantini
  39. 39. 42ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesMeu Avô também não vi.Não quis ele aparecerem Angra, mas eu ouvi,– caro leitor pode ver, –suas palavras, dizendo:“Estou escutando, estou vendo,em Angra a Ema Gemer”.Este artigo foi pedido,pra ser em prosa, eu sei,mas me vi tão dividido,que um jeito no fim eu dei.Assim, versejado eu deixo,registrado este desfechoda história que contei.Leituras Inspiradorasu Grande sertão: veredas. João Guimarães Rosa. Nova Fronteira.u Cantadores. Leonardo Mota. Itatiaia.u Zé Limeira, poeta  do absurdo. Orlando Tejo. A União.u Patativa do Assaré, a trajetória  de um canto. Luiz Tadeu Feitosa. Escrituras.
  40. 40. ((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((((
  41. 41. oVozes, corpos e textosnos vãos da cidade((((((((((((
  42. 42. o45Aliberdade, segundo o senso comum, é um direito inalienável de todo serhumano. Mas a luta para que ela seja valor imprescindível nas relações sociais,políticas e econômicas é um exercício que se perpetua na contemporaneidade. Éimpossível para o (e)leitor de nosso momento histórico conceber a arte submetidaa regimes estéticos, mercadológicos e ideológicos autoritários. A liberdade, além deser um segredo, como diz Clarice Lispector, tem uma densidade uma oitava acima dequalquer tom.Contar uma história, para mim, é sempre um exercício em liberdade. Não consigoentender como, diante dos impasses do presente, as narrativas individuais e coletivaspossam ser controladas e/ou orientadas por forças externas a sua fundação como dis-curso. Estar diante do outro e falar para o outro do outro que habita em si é o grandegesto político, artístico e ético que um contador de histórias pode fazer num mundode descasos e banalizações.Há quem ainda acredite e perpetue a ideia de que o autor morreu. Parece quealguns proto-pós-modernos de plantão não leram bem ou passaram apressadamente osolhos pelos textos de Foucault e Barthes que discutem essa questão. Como falar demorte do autor num momento de histeria coletiva diante do conceito de intimidadee da proliferação das narrativas do eu, das autobiografias e das autoficções?As narrativas urbanas que moldam o corpo textual e sonoro do contador formamum contínuo e caudaloso rio que contempla margens e penetra territórios que vão dafamília à rua, da solidão ao encantamento, da loucura à memória. Infância, paixões, pre-[Júlio Diniz]A
  43. 43. 46ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesconceitos, violência, espanto, desejo e dor são tratados em liberdade por vozes que nar-ram vozes em trânsito, corpos em suspensão, discursos entortados pela potência da vida.Toda essa discussão nos remete a uma luta contra a liberdade aprisionante doespaço branco do papel, da imobilidade do corpo como máquina desejante, do silên-cio imposto à voz. Potentes em suas articulações e no diálogo com o contemporâneo,os contadores de história, diluídos na polifonia urbana, irmanam forças que resultamnum delicado jogo de tensões.Se o contador se dispuser a embaralhar a ordem de performatização dos textos econstruir a sua própria escolha, encontrará no vão do sentido a possibilidade de exer-citar seus dons de bricoleur. Esse convite à trapaça, à invenção de um outro, tem umforte aliado nos cenários imagéticos da cidade de nosso tempo. Imagens, textos e vozesem dialogia e em rotação contínua. A liberdade, antes de tudo, é um jogo de seduções.Acredito muito na potência da figura e da ação dos contadores diante da amnésiaimposta pelo capitalismo cognitivo para vender a memória como mercadoria. Há noscontadores que erram pelas cidades um desejo de trazer do subsolo das reminiscên-cias das ruas, bairros e espaços públicos a força erótica da invenção. São griots e griotesque resistem na contemporaneidade ao descaso com a história dos afetos e das nar-rativas que a liberdade nos provoca.Como tentar revelar as múltiplas faces da liberdade até agora? Como a contaçãode histórias pode se transformar no lugar da resistência e de afirmação da precarie-dade humana? Como os (e)leitores de nosso tempo lidam com a vontade que poten-cializa o sim diante do controle e da vigia que os tempos pós-utópícos nos reservam?Muito mais que certezas, estas questões estão impregnadas de desejos e dúvidas. Lerem liberdade é o dispositivo possível de sua apreensão e entendimento.
  44. 44. oMuitas vidas,muitas vozes,muitas históriasc
  45. 45. o49Júlio Diniz – A palavra Morandubetá, o que significa?Morandubetá – É uma palavra Tupi que significa “muitas histórias”.Júlio Diniz – Como o grupo surgiu? Qual é a formação original? Houve pessoas queentraram, ficaram um tempo e saíram?Morandubetá – Em 1989 aconteceu no Rio de Janeiro um curso de contadoresde histórias com o grupo da Venezuela “En Cuentos y Encantos”, formado pelavenezuelana Isabel de los Ríos e o brasileiro Luiz Carlos Neves. Foram convida-dos por Eliana Yunes que era Diretora da FNLIJ – Fundação Nacional do LivroInfantil e Juvenil, onde trabalhavam também Lúcia Fidalgo, Maraney Freire e InêsRocha. As quatro fizeram o curso e foram a semente do futuro grupo, mas aindanão era o Morandubetá. Nesse meio tempo o Celso Sisto entrou para a FNLIJ,como especialista da área de literatura, e se juntou ao grupo. Começamos a nosreunir e contar histórias no Instituto Nazareth, um colégio dirigido por ReginaYolanda que ficava na Rua Pereira da Silva, em Laranjeiras. Eliana participava daequipe pedagógica e nos levou para lá. Ali nasceu o Morandubetá. Pouco depoisa Inês foi viver na França. E o grupo ficou composto por Eliana Yunes, CelsoSisto, Maraney Freire e Lúcia Fidalgo. Então a Maraney saiu e chegou a Benita.A formação que existe até hoje – Benita Prieto, Celso Sisto, Eliana Yunes e LúciaFidalgo – começou em 1991. E o nome do grupo foi escolhido por causa do livroMorandubetá, de Heitor Luiz Murat, da Editora Lê, uma colheita de diversas fábu-las indígenas. Quando vimos o nome, falamos quase que ao mesmo tempo: mas[Júlio Diniz & Morandubetá]
  46. 46. 50ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesque nome interessante, Morandubetá! Uma palavra diferente. Que remete ao quea gente quer... Homenagear os povos indígenas.Júlio Diniz – Iluminar o Brasil pouco iluminado, deixá-lo vazar e brilhar, não é?Morandubetá – Isso! É, tudo nasceu daí e assim! Foi muito... Bonito e mágico!Júlio Diniz – E aí vocês começaram a fazer o quê em 91/92?Morandubetá – Contávamos no projeto “Meu livro, meu companheiro”, da FNLIJ,que acontecia no INCA – Instituto Nacional de Câncer, onde foi montada umasala com uma biblioteca chamada Bibliolândia, nome escolhido pelos frequen-tadores. Nesse momento começamos também a viajar pelo Brasil para formarcontadores pelo Proler.Júlio Diniz – Qual era o repertório? Era só para pacientes, para adultos e crianças?Morandubetá – A sala e o repertório eram voltados para a literatura infantil ejuvenil, mas acabou virando um espaço de convivência de todos, porque nessemomento também nascia no INCA um grupo de voluntários que estava sendoformado para trabalhar com as crianças. Daí surgiu a ideia de que, além de contar,poderíamos ministrar um curso de contador de histórias para esse grupo que teriaa possibilidade de difundir essa ação nas suas atividades. Nós também íamos àsenfermarias para contar, quando o paciente não podia se deslocar.Júlio Diniz – Podemos dizer que antes dos doutores da alegria chegarem ao Rio deJaneiro vocês já estavam lá e faziam esse trabalho?Morandubetá – Sim! Com certeza! Nessa época inclusive começamos a pensar emfazer essa ação num trabalho voluntário, a ideia de contar histórias para os enfer-mos. Em 1995 fomos convidados para participar do projeto da Secretaria Muni-cipal de Cultura Teatro é Vida, que era só com atores. Quando eles perceberamque já havíamos feito isso no INCA, resolveram nos chamar. Então tivemos aideia de criar o projeto voluntário Cesta de Histórias que foi feito com o nossodinheiro em seis hospitais da rede pública. Compramos as cestas de vime, doa-mos os livros, demos formação de contadores de histórias. Acabamos ganhandouma Moção de apoio da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro por essa ação.Foi uma bela surpresa!
  47. 47. 51Júlio Diniz – Como era ser um contador de histórias no início dos anos 90? Haviajá essa importância? Esse lugar? Esse reconhecimento? Vocês tiveram que respirarfundo e desbravar essa floresta selvagem?Morandubetá – A narração de histórias é algo milenar, ninguém inaugurou nada.O que aconteceu refere-se ao surgimento e crescimento da narração urbana, queefetivamente se reintroduziu na prática social do brasileiro. Começamos muitotimidamente, com muitos cuidados. Nós não saíamos dando oficina por aí,não. Assumimos que contar histórias fazia parte de um programa de formaçãode leitores, que ouvir narrativas organizava a cabeça das pessoas. Então quandosurgiu o Proler – Programa Nacional de Incentivo à Leitura, da Fundação Biblio-teca Nacional, fomos pelo Brasil. O Proler é que disseminou o nosso trabalho,mas nós somos os pioneiros na contação de histórias numa perspectiva contem-porânea. Fomos também os precursores nessa história de grupos de contadoresde histórias e de uma série de outras coisas: começamos as oficinas de contadoresde histórias, começamos a organizar as sessões de contos como se fosse um espetá-culo, demos os primeiros passos para o aparecimento de encontros de contadoresde histórias, transferimos nossas experiências da prática para livros. E tudo issocomeçou numa época em que as pessoas não sabiam direito o que faziam os con-tadores de histórias. Em muitos lugares as pessoas achavam que os contadores dehistórias liam histórias para crianças. Também creditamos ao Morandubetá essaampliação de público, uma vez que também fomos nós que começamos a gestarapresentações para um público adulto, exatamente para fugirmos dessa ideiade que contar história é só para crianças. E podemos dizer, seguramente, que aexperiência com o teatro do Celso e da Benita também abriu as portas para queoutros atores descobrissem a “contação de histórias” como caminho. Abrimos,inclusive, a possibilidade dos contadores de histórias trabalharem em feiras delivros (via Bienal do Rio), que depois se espalhou para todo o país. Outra coisa: oMorandubetá sempre investiu em apresentações de histórias literárias, sendo pre-cursor dessa prática de levar para a oralidade os textos escritos de vários autores,quando o comum era as pessoas contarem contos populares!JúlioDiniz&Morandubetá
  48. 48. 52ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesJúlio Diniz – De onde vem essa palavra, “contação”?Morandubetá – Essa palavra é do grande contador Gregório Filho. Primeiro ficá-vamos cheios de receios de usar, pois a palavra não existia. Mas Gregório nosconvenceu. É melhor falar de um jeito que todo mundo entenda. A língua portu-guesa aguenta tudo isso. Ele define assim contação, ação de contar.Júlio Diniz – Quando é que vocês deram um salto, ou seja, modificaram um poucoo trajeto, se profissionalizaram e foram para o teatro? Já tive oportunidade de vero trabalho de vocês em vários esquemas diferentes. Até no palco do CCBB – Cen-tro Cultural Banco do Brasil – aqui no RioMorandubetá – Fomos evoluindo sem perceber. A gente não tinha um plano.Ocupávamos os espaços. Houve um fato importante que marcou o início de nossatrajetória – o trabalho no Museu Histórico Nacional. A revista Veja fez uma maté-ria e aí despertamos o interesse do público, da imprensa e dos gestores de cultura.Passamos a ser chamados para projetos em várias instituições, nós fazíamos tudoao mesmo tempo.Júlio Diniz – A partir daí, o que aconteceu?Morandubetá – Naquele momento veio uma vontade de profissionalização. Decidi-mos ter um logotipo, assessoria de imprensa, pensar em ter produtos, virar umamicroempresa. E decidimos sair da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil,para não parecer que pertencíamos à FNLIJ. Despedimo-nos com uma linda cartaque está lá nos arquivos da Fundação.Júlio Diniz – A partir das vivências no Proler e no Leia Brasil, vocês formaram conta-dores de história, é isso? Eu queria que vocês falassem um pouco sobre esse assunto.Morandubetá – Percebemos que não daríamos conta de tudo, já que o Proler e oLeia Brasil estavam crescendo por todos os cantos do país. Nessa época tambémsurge a Casa da Leitura em Laranjeiras que abre espaço para os contadores. ACasa começa com a gente contando histórias porque ainda não havia a formaçãocontinuada de grupos. Ministramos também cursos na PUC-Rio, Ler UERJ, uni-versidades, SESC, SESI. Era tanto lugar, uma loucura saudável.Júlio Diniz – Vou adaptar a frase do Millôr Fernandes que é muito boa para falar
  49. 49. 53desse aspecto. O Rio de Janeiro estava irreconhecivelmente inteligente naquelemomento. É isso?Morandubetá – É isso mesmo! No início não havia muito público. Tudo acontecianuma salinha. Levávamos nossos parentes e amigos para encher a sala. Depois opúblico foi crescendo, tinha disputa... Tinha senha. Às vezes fazíamos duas ses-sões no mesmo espaço. Todo o processo foi muito lindo. Tanto no CCBB quantona Casa da Leitura.Júlio Diniz – Vocês se tornaram multiplicadores e formadores de novos contadoresde história e de grupos, não é mesmo?Morandubetá – Há vários grupos e contadores que são importantes no Brasil hojeque foram formados por nós. Praticamente deixamos um grupo em cada cidadepor onde passamos. O Morandubetá possibilitou, junto com essas andanças,junto a esses projetos de que estamos falando, não só formar contadores comodescobrir contadores, porque essa é a nossa missão também.Júlio Diniz – Agora falem um pouco do repertório.Morandubetá – A história de repertório é a seguinte. Como as nossas sessões tinhamsempre um tema, precisávamos pesquisar muito. Começamos com literatura infan-til, depois passamos para literatura adulta, dentro da Biblioteca Nacional. A ideiafoi sumamente rejeitada. As críticas eram pesadas. Alguns achavam um absurdofuncionários ouvindo histórias, fazendo círculo de leitura. Achavam que era lou-cura contar histórias para gente que não sabia ler.Júlio Diniz – O pessoal da limpeza?Morandubetá – É, porque só sobrou o pessoal da limpeza, porque ninguém, fun-cionário nenhum queria efetivamente participar. Quando passamos a fazer para opúblico em geral, escolhíamos histórias de acordo com a época, segundo o calen-dário. Tivemos que literalmente caçar nossas leituras, consultar outras pessoase mergulhávamos na biblioteca para ver os acervos. Foi aí que a Lúcia e o Celsoviraram escritores. Na medida em que não encontrávamos um repertório do quequeríamos, tínhamos que criar. Chegamos a ter um repertório de cem contoscada um de nós. E também nos encontrávamos para estudar. Fazíamos reuniõesJúlioDiniz&Morandubetá
  50. 50. 54ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozessemanais para ensaiar. Toda essa pesquisa nos deu segurança para trabalhar coma literatura oral e a autoral.Júlio Diniz – Vocês começaram localmente, depois ganharam uma importânciaregional, projeção nacional e agora o desafio é dialogar com grupos no exterior.Eu gostaria que vocês falassem sobre isso.Morandubetá – Na verdade já temos um ótimo diálogo com os contadores dospaíses de fala hispânica e portuguesa principalmente. Através dos encontros queparticipamos desde 1996 com a viagem da Benita para fora do Brasil e dos queproduzimos por aqui desde 1999 construímos uma rede poderosa de ação.Júlio Diniz – Como é que vocês explicam o fato de estarem há mais de vinte anosjuntos, sem se separarem, sem rachas, discordâncias maiores, essas coisas? O queune essas quatro pessoas de uma forma tão forte, além da amizade?Morandubetá – O compromisso que temos com a promoção da leitura. Isso é umcompromisso de vida. Não contamos por contar.Júlio Diniz – E o plano de vocês daqui pra frente? Tem alguma coisa mais imediata?Fazer um livro, fazer outro espetáculo?Morandubetá – O grupo teve que aprender a trabalhar de forma dividida. Os pro-jetos individuais foram ganhando espaço também, junto com as atividades dogrupo. E fomos investir na nossa formação profissional, qualificando-nos maisainda. Mas o nome do Morandubetá sempre acompanha nossos trabalhos, mes-mo os individuais. Temos muitas coisas a fazer, como divulgar a coleção Históriasdas terras daqui e de lá, da Editora Zeus. A Lúcia fez a coordenação editorial e cadaum de nós escreveu um livro em parceria com um contador estrangeiro. Tentarque o grupo se reúna duas vezes por ano para contar junto, porque a gente estámuito disperso. Ter o nosso repertório registrado em CDs, pois gravávamos todasas nossas sessões de histórias, na Casa da Leitura, no início desse trajeto. Temosum livro pronto com contos indígenas, mas ainda sem editora. E também o Nocoração da palavra, que é um livro todo teórico e sobre nossas experiências. Que-remos fazer um livro de contos autorais. Depois de tantos anos na estrada temosimportantes contribuições a dar.
  51. 51. 55Júlio Diniz – A última pergunta para cada um de vocês. Quais são as expectativas dacontação de histórias?Benita Prieto – Estamos construindo uma bela história. Mas precisamos mapear oBrasil para ampliar as nossas bases nacionais. E solidificar as relações que mante-mos com outros contadores no mundo construindo uma rede de cooperação quepossibilite cada vez mais a troca de experiências e os intercâmbios. E algo que meaflige é a renovação. Há extrema necessidade de jovens contadores de histórias,para que todo esse trabalho não desapareça. Afinal e infelizmente eternas sãosomente as histórias.Celso Sisto – A contação de histórias no Brasil de hoje está bem difundida. Masfalta mais, falta muito mais. Primeiro é preciso investir enormemente na forma-ção de grupos. Eu acredito nisso. Contar histórias coletivamente tem uma forçaincalculável, e o que a gente vê com mais frequência é o surgimento de contadoresindividuais (é mais fácil contar sozinho! ser dono de tudo!). Mas sou a favor dosgrupos, dessa experiência coletiva e socializante, inclusive como maneira de “bar-rar” os estrelismos. O que importa é a literatura, o compromisso com as obras dequalidade. O que assistimos hoje é o que chamo de “pasteurização” da arte decontar histórias. Explico: o contador de histórias tem que se adequar à históriaque ele conta, e não o contrário. A história é quem deve determinar a forma, amaneira, o estilo requerido por ela, para ser contada, e não o contrário. O quese vê são contadores de histórias usando as histórias para ressaltarem suas quali-dades artísticas e não “iluminarem” as histórias que contam. Toda e qualquerhabilidade individual deve estar a serviço da história, para engrandecimento dahistória que se conta, e não do contador.Eliana Yunes – A contação de história sempre foi uma fórmula de abertura paraler o mundo. Pensando assim, como o mundo chega organizado às cabeças daspessoas, elas não sabem mais quais são as relações com as coisas. Que o mundoé o mundo da cultura, não é? As histórias fizeram esse papel. A oralidade sobre-vive porque ela dá para organizar as sociedades, mesmo quando essas formas sãomuito sofisticadas como o caso das formas gregas. Elas prevalecem, permanecemJúlioDiniz&Morandubetá
  52. 52. 56ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesporque a oralidade dá a possibilidade de ter um sentido para a compreensão domundo e das coisas. Eu acho que a gente pode ter um caminho todo da escritadigital, da escrita eletrônica, mas ouvir uma história de viva voz, com a respiraçãodo contador, com o olhar do contador, é algo imbatível porque aproxima as pes-soas. E as pessoas estão na verdade carentes de aproximação, de trocas pessoais.Penso que precisamos investir não como uma forma de institucionalizar ou decriar certas cerquinhas, em aspectos como a performática do contador de história,a questão da voz, do corpo, que não tem que se confundir com o palco, com oteatro. Como é que a gente transborda, transpira uma história? Isso merece umestudo mais sistemático.Lúcia Fidalgo – Há um problema hoje com a questão do repertório. A escolha dostextos tem que ser ampliada porque os contadores infelizmente começaram nessaonda de cópia, cópia, cópia, usando sempre as mesmas histórias. Devemos nospreocupar bastante com isso. Estamos numa sociedade da informação. A gentenão tem que ter somente competência informacional para trabalhar com ela.Eu acho que temos que ter competência informacional e emocional. Creio queo papel do contador nisso funciona muito bem. Me preocupo muito com essaquestão do repertório, de formar repertórios novos pra gente não ficar repetidor,como um papagaio. Então, só sendo leitor, não é?
  53. 53. Esta conversa com os participantes do grupo Morandubetá ocorreu na CátedraUNESCO de Leitura da PUC-Rio. Era uma segunda-feira ensolarada, e a vontadede compartilhar experiências, relatos, sentimentos e lembranças nos aproximounaquela manhã de céu azul e luz na alma. Eu desempenhei o difícil e ao mesmotempo prazeroso papel de mediador da conversa que contou com a presença deBenita Prieto, Lúcia Fidalgo e Eliana Yunes. Como o Celso Sisto estava no sul doBrasil, enviei por e-mail as questões para ele comentar. Suas observações foramincorporadas a este bate-papo.
  54. 54. oImpressões de umacontadora de histórias– meu encontro coma arte narrativa
  55. 55. o59Embora nenhum de nós vá viver para sempre, as histórias conseguem...”Assim a autora Clarissa Pinkola Estés encerra seu livro escrito no início dos anos1990, O dom da história. Nesta obra ela pretende desvelar a amplitude do alcance dasnarrativas orais através dos tempos e seu efeito de longa duração. Os componentes domundo mítico associados ao “feitiço libertador dos contos de fadas”, que se destinaa provocar uma sensação de felicidade, e ao acolhimento do conselho, têm a capaci-dade de perdurar e coexistir num mundo técnico que corre cada dia mais em buscado sentido para a vida. E do mesmo modo Walter Benjamin cita os elementos consti-tutivos dos contos de fadas: “E se não morreram, vivem até hoje...”.O estudo acerca do valor de longa duração dos contos oriundos das tradiçõesorais é tema recorrente na obra de Câmara Cascudo (1898-1986) desde a década de1930. Especialmente em Literatura oral no Brasil, escrito entre 1945 e 1949, o autor nosfornece dados relevantes sobre a atmosfera sagrada que envolve a prosa do narradore suas situações simbólicas apresentadas. Segundo ele, alguns segredos constituem astécnicas da narrativa popular:Os velhos irlandeses têm repugnância de contar estórias de dia porque traz infelicidade.Os Bassutos africanos crêem que lhes cairá uma cabaça ao nariz ou a mãe do narradortransformar-se-á numa zebra selvagem. Os Sulcas da Nova Guiné acreditam que seriamfulminados por um raio. Os Tenas, do Alasca, contam histórias de dia, mas o local deveestar na mais profunda obscuridade. Essa interdição é a mesma em Portugal e Espanha,decorrentemente para o continente americano. Quem conta estórias de dia cria rabo decotia. (CASCUDO, 1984, p. 228).[Bia Bedran]“E
  56. 56. 60ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesDe fato, se recorrermos à memória de nossa infância, verificamos que talvez tenhasido dentro da noite, na penumbra de um quarto, na proximidade aconchegante dapresença de um narrador primeiro, que grande parte das situações simbólicas emnossas vidas puderam se apresentar. Assim foi o meu encontro com a arte narrativa eo canto, entremeando o enredo dos contos. Aconteceu muito cedo, na infância aindanão alfabetizada, quando a forma de ler o mundo se apresentava através das históriascontadas e cantadas por minha mãe. A exemplo do que Câmara Cascudo mostra sero que acontecia no Brasil-Colônia, com as amas contando histórias e acalentandoas suas crianças e as das sinhás, o material que me era passado por minha mãe foi omeu primeiro “leite intelectual” recebido. O pesquisador trabalha com o conceito deliteratura oral no Brasil e o estudo por ele realizado é uma eterna fonte de inspiraçãopara meu próprio trabalho criativo. A partir do vasto material de sua pesquisa escrevilivros infantis com adaptações de temas de contos tradicionais, compus centenas decanções também para crianças e gravei boa parte desta obra em CDs, por acreditarque, na ausência de um narrador tradicional, seja possível reinstalar aqueles momen-tos mágicos e encantadores por intermédio de suportes contemporâneos.Penso o quanto aquele rico e descompromissado momento proporcionado porminha mãe, era recheado de uma memória cultural de sua infância nos anos 1920,e o quanto esta memória transferiu-se para o meu imaginário, contribuindo para aconstrução do potencial imaginativo e criador que tenho hoje comigo. Logo em 1960,eu então com cinco anos, tive a chance e o privilégio de escutar as maravilhosas nar-rativas da Coleção Disquinho criadas por Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinhapara os amigos, e o João de Barro, para o mundo artístico. Aquelas encantadorasnarrações de contos populares do Brasil e também clássicos da literatura infanto-juvenil do mundo, eram entremeadas por músicas igualmente belas que pontuavamos momentos das histórias e as traziam mais oníricas e lúdicas para dentro do coração.A partir daí, não somente minha infância se enriqueceu e se encantou com a artede cantar e contar histórias, como também esta arte sinalizou o caminho profissionalque eu seguiria posteriormente. Prossegui ouvindo e inventando histórias e canções
  57. 57. 61na minha meninice e, mesmo antes de aprender a escrever, lembro-me de meus paisregistrando poemas e músicas que eu criava e não sabia ainda colocar no papel...Costumo dizer como se fosse um lema do meu trabalho artístico enquanto criadoramusical e contadora de histórias para crianças, que o ato de ler e escrever histórias é fazerum bem; ouvi-las e contá-las, também. Assim como repito sempre: Era uma vez, era umaoutra vez, era sempre uma vez. Ou quando canto: É bom cantar, é bom ouvir, é bom pensar, ébom sentir, procuro demonstrar o quão perto habitam a palavra que se canta e a palavraque se fala, pois elas desvelam sentidos múltiplos para cada pessoa que as recebe.Considero o contador de histórias o detentor de uma arte não exclusiva ao mun-do dos artistas profissionais. As narrativas orais sempre estiveram ao lado do homeme de suas conquistas dentro da arte de viver, então concordaremos que a arte denarrar faz parte de sua própria história no mundo e traz imbricados os conceitos deancestralidade e contemporaneidade. Portanto sempre haverá encantamento quandoalguém conta ou canta uma história, seja esta pessoa letrada ou não. A arte narrativase manifesta tanto no contador tradicional, cujas histórias foram criadas e recriadasao longo do tempo através da narração de sua experiência e de sua memória, quantono contador contemporâneo, que se instrumentaliza através da pesquisa, da leiturae a insere na prática pedagógica. O professor contador de histórias promove em seucotidiano o fazer artístico das crianças, que passam a construir obras criativas a partirda repercussão que as imagens poéticas das narrativas promovem dentro delas.Um simples desenho ou uma pintura que transpõe através de formas, cores outexturas o que foi percebido de um momento específico narrado do conto, pode tor-nar-se uma experiência significativa de aprendizagem, pois ali estão expressas a leituraparticular de cada indivíduo do mesmo fato objetivo da narrativa. A forma plásticaescolhida, pela criança ou pelo adulto, ao desenhar uma narrativa é uma apropriaçãosua do significado objetivo do conto e sua consequente tradução subjetiva.Esta leitura singular de cada um, expressa em desenhos tão diferentes entre si,nos comprova a existência daquele “cinema mental” proposto por Ítalo Calvino,que afirma ser impossível que os cenários imaginados pelos ouvintes de uma mesmaBiaBedran
  58. 58. 62ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozeshistória possam ser semelhantes... E seguimos na esteira do conceito de Bachelardacerca da relação íntima da imagem poética com o devaneio, pois o ouvinte de umahistória entra no estado de devaneio ao escutá-la e engendra em sua imaginação cria-dora um mundo sonhado, que dialoga com a função do real, ao mesmo tempo que oliberta dela. A imaginação modifica certos aspectos da narrativa e é capaz de ampliá-losenquanto os assimila, portanto talvez possamos alçar que o conto ajuda a memória alembrar e a imaginação a imaginar...Quando uma vez me perguntaram numa entrevista porque seria importante paraas crianças entrarem em contato com qualquer forma de expressão da arte, respondique preferia inverter a questão e dizer que é a arte que nos proporciona entradas nomundo. A arte nos dá um olhar diferenciado ao que se nos apresenta em bombardeiodiário pelos meios de comunicação. Ela nos propicia um olhar crítico para esse mun-do moderno impregnado das necessidades fabricadas pela sociedade de consumo edistantes das necessidades essenciais do indivíduo.Eu diria que a arte de contar histórias se faz hoje mais do que nunca necessáriaexatamente porque quando ela se dá, seja num contexto pedagógico, numa rodainformal de contos ou mesmo no contexto do que chamamos de indústria do espetá-culo, o maravilhoso se instala. O maravilhoso contém elementos e valores ancestraisque vêm caminhando ao lado da existência humana em suas mais diversas culturas equando um conto é narrado, as imagens saltam diretamente para a imaginação cria-dora do ouvinte, seja ele criança ou adulto. É nesse momento que o indivíduo realizasua mais importante operação: a de significar sua relação com o mundo.Diz Herbert Read que a arte é um contágio, e se transmite como fogo, de espíritopara espírito. Permito-me apropriar de sua colocação e dizer que a arte de contarhistórias é uma transmissão que contagia por ser imanente à capacidade do homemde intercambiar experiências e produzir sentido para a vida. Quando a criança per-cebe que a história contada pelo professor pode continuar nela habitando, reper-cutindo, produzindo sentidos, cores, formas, texturas, e até “recriando memória”,expressão cunhada por Clarissa Pinkola Esthés, ela adquire poder para enfrentar a
  59. 59. 63difícil tarefa de viver e conviver. A narrativa é dirigida ao olhar do outro, é frontal. Ocontador entrega, oferece um texto oral, uma ideia, uma imagem poética, e as pessoasa recebem como se fosse uma bola que é devolvida com reflexão, expressão e criação.Os contos da tradição oral vieram através dos tempos instigando os sonhos, colo-cando à prova seus personagens diante da vida e da morte, revelando e derrubandovalores, descobrindo mistérios, sortilégios, desventuras, alegrias e esperanças, e nosfalam desta grande experiência compartilhada por todos nós, que é a aventura de viver.É também compartilhada por Walter Benjamin e Ítalo Calvino a afirmação de que acaracterística principal das melhores narrativas é a de evitar explicações psicológicaspara as situações contidas na história. A presença do maravilhoso e o elemento capazde surpreender estão incrustados na natureza dos contos tradicionais e são eles queprovocam encantamento e suscitam novas criações. O extraordinário e o miraculososão narrados sem que o contexto psicológico seja imposto ao leitor ou ouvinte.A imagem mais contundente que traduz a força ancestral que têm as narrativasorais é cunhada por Benjamin:Uma história do antigo Egito ainda é capaz, depois de milênios, de suscitar espanto ereflexão. Ela se assemelha a essas sementes de trigo que durante milhares de anos ficaramfechadas hermeticamente nas câmaras das pirâmides e que conservam até hoje suas forçasgerminativas”. (BENJAMIN, 1994, p. 204).Há meio século minha própria história está imbricada com a arte narrativa: numprimeiro e definitivo momento, como ouvinte de uma contadora, cantadeira e encan-tadora mãe, e num período seguinte e até hoje, como uma amante das palavras conta-das e cantadas propagadas pela estrada afora. Braguinha criou, na década de 1950, aoadaptar a história de Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault em música e versos:“Pela estrada afora eu vou bem sozinha levar esses doces para a vovozinha...”. E desdeentão eu sigo cantando e contando.Mas eu não estou sozinha nesta estrada, onde as histórias são vaga-lumes quesina-lizam com poesia, mistério e sabedoria os caminhos de todas as gentes e contam,desde sempre, a história de nossa história no mundo. Muitos escritores, poetas, filóso-BiaBedran
  60. 60. 64ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesfos, teóricos e artistas populares me ajudam a pensar o valor desta antiga arte milenar,onde a palavra é indicadora de rumos passados, presentes e futuros, são unânimes emrelacionar a arte narrativa com a arte de viver. E todos eles precisam dos contadores dehistórias e dos cantadores para que a palavra se dirija alma adentro e possa repercutirprofundamente na forma de imagem poética. Letrados e não letrados leem o mundo econtam suas histórias. É preciso contá-las para que o mundo possa ouvi-las. Onde desa-parece a arte de narrar, também desaparece o dom de ouvir, já dizia Benjamin:A narrativa mergulha a coisa na vida no narrador para em seguida retirá-la dele. Assimse imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do barro.(BENJAMIN, 1994, p. 205)Aí está a relevância das narrativas orais que se mantiveram vivas e germinativasantes mesmo dos suportes que as pudessem registrar: a narrativa é uma forma arte-sanal de comunicação que se prolonga e repercute, ao contrário da informação quese esgota rapidamente. As narrativas estão imbricadas com a arte de viver. Portanto aarte de narrar e o dom de ouvir se entrelaçam para que a maior aventura do homempossa acontecer.Leituras Inspiradorasu A poética do devaneio. Gastón Bachelard. Martins Fontes, 2006.u Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura.Walter Benjamin. Brasiliense, 1994. (obras escolhidas I)u Memória e sociedade – Lembrança de velhos. Ecléa Bosi. Cia. Das Letras, 1994.u A arte de contar histórias no século XXI: tradição e ciberespaço. Cléo Busatto.Vozes, 2007.u Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Ítalo Calvino. Compan-hia das Letras, 1990.u Literatura oral no Brasil. Luis da Câmara Cascudo. Universidade de São Paulo, 1984.
  61. 61. 65u O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Clarissa Pinkola Estés.Rocco, 1998.u A renovação do conto. Emergência de uma prática oral. Maria de LourdesPatrini. Cortez, 2005.u A redenção do robô: meu encontro com a educação através da arte. HerbertRead. Summus, 1986.BiaBedran
  62. 62. oA terceira margem da cena
  63. 63. o67Hoje, o interesse do teatro contemporâneo pela encenação de textos literáriossem transposição de gênero é crescente. A ideia de fazer viver no palco o texto nar-rativo sem adaptações teatrais fez ressurgir na cena contemporânea a presença do ator-narrador, O Ator Rapsodo. O titulo aqui alude à própria gênese do ator, a figura dospoetas rapsodos, contadores de histórias da Grécia antiga, detentores da poesia oral queestiveram em cena em vários momentos históricos do teatro. Neste teatro “narrativo”o Ator Rapsodo preserva a voz autoral, sendo o responsável direto pela comunicação.Ele quebra a quarta parede e se projeta do espaço dramático; se distanciando da obrae encontrando o público e, desse espaço de cumplicidade, ele pode narrar, comentar,descrever e até viver os personagens da obra que está encenando.O diretor Aderbal Freire filho, um dos grandes praticantes desse gênero e criadordo Romance em cena define: “(...) o ator rapsodo é títere e titeriteiro. Ele representa emprimeira pessoa mas narra em terceira. Se no cinema o ator faz e a câmera mostra, no‘romance em cena’ o ator faz e mostra.” O trânsito livre entre o narrado e o vividocria um jogo franco com o público, sem ilusões, resultando numa teatralidade viva einstigante na qual o espectador é convocado como leitor, embarcando num exercíciocriativo de imaginação onde ele completa as imagens e os sentidos do texto.Mesmo dispondo das mesmas ferramentas e oferecendo ao público um mesmoexercício de recepção, o ator rapsodo parece distante do que hoje chamamos de Con-tador de Histórias – na realidade, os pontos de partida de ambos são diferentes. OAtor Rapsodo tem os pés fincados no palco e, da cena, abre uma janela pra vida real,[José Mauro Brant]A voz é querer dizer e vontade de existência.Zumthor.H
  64. 64. 68ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesinteragindo com o público. Apesar de se alimentar da linguagem do seu ancestral emcomum, o ator rapsodo hoje costuma ser apenas uma importante peça de uma engre-nagem na qual o grande contador de histórias é o próprio encenador. O Contador deHistórias, por sua vez, tem os pés na vida, e dali, do mesmo lugar que o público, abreuma janela pra fantasia.A faculdade de contar histórias é um dom de todos os seres humanos e os atoreshoje são minoria no mundo dos narradores. Os contadores de histórias contemporâ-neos são escritores, educadores, leitores, pesquisadores, promotores de leitura e tam-bém atores, são indivíduos que possuem em comum um “impulso rapsódico”. Maisdo que intérprete de um texto narrativo, o contador é também uma autoridade sobreo que está contando. Seu repertório é resultado de uma experiência individual com aliteratura, com o seu universo mais íntimo de significações, com sua história de amorcom a linguagem; ele tem o dom de trazer para a voz a palavra autoral por meio deum processo de apropriação que faz seu texto se transformar em oralidade. A questãoque se coloca, a partir daí, é: seria essa prática, que é de todos, uma linguagem cênica?Polêmico narrador e teórico das artes cênicas, o cubano, radicado na Espanha,Francisco Garzon Céspedes, cunhou o termo: narração oral cênica para designar aprática dos contadores de histórias do nosso tempo. No seu livro El arte escénico decontar cuentos [A arte cênica da contação de histórias] ele afirma: a arte de contar oral ecenicamente é uma arte cênica. Mas para Céspedes dizer cena não é dizer teatro, e é naoposição: teatro versus narração de histórias, que ele busca os paradigmas que vãoapontar as direções dessa nova linguagem. “O teatro é ação. A narração oral cênica ésugestão. (...) O teatro é representação. A narração oral cênica é apresentação.”Meu mestre Fernando Lébeis dizia: “O ator bota máscaras, o contador de históriastira as máscaras.” Diga-me o que contas e te direi quem és! Despido de personagens,descolado de qualquer “encenação”, o contador de histórias está pronto para, emqualquer espaço sob as condições mais adversas, fazer acontecer o seu “teatro”.Oriundo de uma sociedade em que a oralidade tem papel secundário, o conta-dor de histórias urbano elege seu acervo a partir das muitas possibilidades que sua
  65. 65. 69história de leituras oferece, textos autorais, poesias, crônicas e também as históriasda tradição oral que reencontramos nos livros. Afinal ler é sempre escutar uma voz.Ao escolher um texto para contar o narrador vira dono desta voz. Ele tem o dom desaber escutar e sentir os movimentos subjacentes ao texto. As leis da cena ajudamno processo artístico, administrando essas reverberações e as transformando em algoexpressivo. A memória (e não só a memorização) age como cocriadora do texto queé incorporado pelo narrador. Assim o conto vira carne, sangue, gesto, olhar, escuta,suor, respiração; ou seja, corpo; e especialmente, voz, sua principal emanação.Essa conquista se deve à sua capacidade de ver e ouvir a sua audiência e se entregarpara um jogo onde o público não é mero espectador e sim interlocutor, tudo isso semperder o fio da história. Sua autoridade cênica é absoluta e vem do seu compromissoquase sagrado com o texto e com a sua transmissão.Um dos maiores encenadores e pensadores do teatro contemporâneo, PeterBrook, conta no livro A Porta Aberta suas experiências observando a prática dos con-tadores de histórias tradicionais da Índia, Irã e Afeganistão, que mantém vivos osmitos ancestrais. Com um misto de alegria e gravidade os velhos narradores não per-dem nunca a relação com seus ouvintes, não para agradá-los, mas para partilhar comeles as qualidades sagradas do texto. Os grandes narradores nunca perdem o contatocom a grandeza do mito que estão fazendo viver: “Tem um ouvido voltado para o seuinterior e outro para fora.” Assim Brook sintetiza a maior lição dos velhos narradores:estar em dois mundos ao mesmo tempo.O narrador artístico sabe transitar por esses dois mundos e sabe também queele é responsável por criar um terceiro mundo, imaginário. O espaço de construçãoconjunta da história, espaço de comunhão com os indivíduos da plateia onde de fatotoda ação do conto acontece. A terceira margem da cena.Um dos mais frequentes colaboradores de Peter Brook, o ator japonês Yoshi Oida(que traz na sua história a prática do gidaiyu, tradicional estilo de narração que temseu lugar nas encenações do teatro Kabuqui), conta em um de seus livros que certa vezum talentoso ator interpretou um gesto que no Kabuqui indica “Olhar para Lua”. AoJoséMauroBrant
  66. 66. 70ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesver o ator apontando com o indicador para o céu, com elegância, todos admirarama beleza do seu movimento e o virtuosismo técnico com que ele realizava a tarefa.Outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se eletinha realizado ou não um movimento elegante; simplesmente viu a lua. O nome dolivro? O ator invisível. Sonho contar uma história em que eu, ao final, desapareça e sóreste, para o público, as imagens do conto.Foi a paixão por essa generosa arte de fazer visível o invisível e meu amor pela pala-vra dita, cantada, escrita que me fez ser contador de histórias. Contar histórias liber-tou a minha voz das armadilhas do teatro e hoje ela está por aí, em bibliotecas, salasde aula, hospitais, livros, CDs, e, é claro, e sempre, no meu lugar de origem, o palco.Sonho com um teatro que volte a nascer de um impulso rapsódico. Do desejo de contar.Contar histórias, pra mim, é sentir na pele a verdadeira função do oficio do ator.É tocar a essência do próprio teatro.Leituras Inspiradorasu A porta aberta. Peter Brook. Civilização Brasileira, 2008.u Contadores de Histórias: Oralidade, Narração Oral e Narração oral cênica. FranciscoGarzón Céspedes. In: O teatro dito infantil. Maria Helena Kühner (Org.). Culturaem Movimento, 2003.u O ator invisível. Yoshi Oida. Via Lettera, 2007.u Introdução à poesia oral. Paul Zumthor. UFMG, 2010.u Performance, recepção, leitura. Paul Zumthor. Cosac Naify, 2007.u Do livro para o palco: formas de interação entre o épico literário e o teatral. Luiz ArthurNunes. In: O Percevejo – Revista de teatro, crítica e estética. Ano 8, Número 9.u O lugar das histórias(vídeo) In: Coleção Teatro. Volume 1. Fundação Joaquim Nabuco,2010.
  67. 67. oA voz quente docoração do rádio
  68. 68. o73Com a novela de rádio aprendemos a ansiar pela continuação de uma história:para muitas gerações de brasileiros, a radionovela foi a primeira Scherazade.Na minha vida, por exemplo, o primeiro rádio foi um Telefunken grandão,encaixado num móvel de madeira de um estilo que naqueles anos 1960 chamávamosde moderno. Esse móvel era o centro da sala do nosso apartamento em Porto Alegre:tinha toca-discos, um nicho espelhado para guardar bebidas… e o rádio.Depois do almoço, lavada a louça, minha mãe sentava conosco no tapete junto aorádio – éramos quatro crianças – e amontoados escutávamos os acordes de aberturada novela. O rádio era quente, e quentes eram as vozes da mocinha, do galã, da vilã.Choros, soluços, suspiros, sussurros, batidas de portas, passos pelo chão, acordes deviolino e sustos de tambor: como era quente tudo o que ouvíamos com o ouvidocolado numa novela de rádio!De onde vinha aquele calor todo? – fico pensando. Um pouco vinha das válvulasaquecidas do corpo físico do radião, claro. Outro pouco do aconchego das famíliasque se embolavam em colo, café e cafuné na moleza das tardes daquele tempo maislento. Mas muito vinha mesmo de uma linguagem íntima, de vozes que falavam cola-das no microfone, a ouvidos que as escutavam colados na tela palpitante do rádio.Essa intimidade tinha a ver também com o espaço doméstico: não havia cenasexternas nas radionovelas daquele tempo. O vento e os ruídos da cidade certamenteatrapalhariam gravações de rua, e além disso os enredos em si eram intimistas: segre-dos atrás da porta, confissões no leito de morte, cartas encontradas em gavetas, promes-sas e maldições ao pé do ouvido.[Gilka Girardello]C
  69. 69. 74ContadoresdeHistórias:umexercícioparamuitasvozesAnos depois, já quase mocinha, ganhei um rádio de pilha de aniversário. Iadormir com ele grudado no ouvido, o volume no mínimo e ainda por cima abafadopelo cobertor, pra não incomodar as irmãs nas camas ao lado. Caçava as vozes doslocutores dos primeiros programas de rock, ainda marginais naqueles tempos, pres-sentindo as emoções que a cultura dos jovens guardava pra quem a fosse descobrindo.Era revigorante a possibilidade de buscar e encontrar sozinha aqueles mundos, aosabor das excursões pelo dial. Intuir que milhares de outras meninas e meninos daminha idade estavam ao mesmo tempo sozinhos em seus quartos, de ouvido nosradinhos, escutando a mesma coisa, dava um arrepio na espinha, como o prenúnciode uma revolução.O rádio permite uma intimidade, uma presença tátil, um tipo de conspiraçãonarrativa entre quem fala e quem ouve. Ele envia pra longe a palavra encarnada e aomesmo tempo preserva a proximidade que a voz humana instaura, em sua condiçãode corpo vivo. Afinal, “toda voz emana de um corpo, que permanece visível e palpávelenquanto ela é audível”, como diz Paul Zumthor. Por isso, o rádio faz com que cadaum dos milhares de ouvintes se sinta único, capaz de criar um rio de imagens mentaispara acompanhar o fluxo da fala do parceiro, aquele locutor que está no estúdio.Que o rádio tem grande poder de animar a imaginação, é coisa já dita e redita. Emuma pesquisa feita há alguns anos com centenas de crianças, por exemplo, pediram queelas fizessem desenhos a partir de histórias ouvidas no rádio e na televisão. A versãoem rádio estimulou desenhos mais imaginativos: as crianças escolheram uma variedademaior de conteúdos da história para representar graficamente, e incorporaram maisconteúdos exteriores à história em seus desenhos1.O apreço pelo rádio fez parte também da vida de um dos pensadores modernosmais apaixonados pela imaginação e pela narrativa oral, Walter Benjamin. Entre 1929e 1933, o grande teórico cultural escreveu e apresentou programas semanais de rádiopara crianças, em Berlim e Frankfurt. Nesses programas de vinte minutos, ele con-tava, como se estivesse conversando ao pé da lareira, casos como o da destruição de1. Pesquisa relatada em Patricia Marx Greenfield, Mind and Media: The effects of television, video games, and computers.Harvard University Press, Cambridge, MA, 1984. 

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