Para entender a cocriação interativa

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Excertos de um texto de Augusto de Franco (2012) intitulado "Cocriação: reinventando o conceito"

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Para entender a cocriação interativa

  1. 1. PARA ENTENDER A COCRIAÇÃO INTERATIVA AUGUSTO DE FRANCOCocriação (co-creation) é o processo pelo qual várias pessoascriam (ou desenvolvem) ideias conjuntamente. A cocriação diz-seinterativa (ou em rede) quando tem entrada e tema abertos,desfecho aberto, processo livre (sem metodologiapredeterminada), estrutura distribuída e, obviamente, dinâmicainterativa.Acontece assim. As pessoas vão para um determinado lugar(físico ou virtual) e lá começam a conversar umas com as outras 1
  2. 2. sobre suas ideias. William Irwin Thompson dizia que “as ideias,como as uvas, dão em cacho”. Uma ideia puxa outra, cada ideianamora outras (no plural, hehe), várias ideias são polinizadas poroutras formando cachos de ideias congruentes. Se der liga, daípodem sair projetos que serão desenhados e implementadoscoletivamente. Pronto. Acabou (ou melhor: começou!).Simples demais. É difícil acreditar que isso possa funcionar.Algumas pessoas, por mais que tentem, não conseguem ver osentido da cocriação interativa. Elas pensam assim:“Para quê marcar reuniões sem pauta, sem metodologia, semprogramação, onde nada é oferecido? Isso não tem nenhumaobjetividade e logo as pessoas se cansarão de ir a um lugardesses, sem atrativos, onde as coisas só acontecem se elasmesmas tomarem a iniciativa de produzi-las. Por outro lado,como conseguiremos manter uma atividade assim, semapresentar resultados (quer dizer, aqueles resultados que jáesperamos)?”A questão é essa mesmo. Ou um processo acontece de maneiramais centralizada do que distribuída (sob uma hierarquia) ou eleacontece de maneira mais distribuída do que centralizada (emrede). Para entender a cocriação em rede penso ser necessáriorefletir sobre o seguinte. 2
  3. 3. Em geral vivemos em Campos de Reprodução, ou seja,ambientes configurados por caminhos feitos para aprisionar edirecionar fluxos, como se fossem sulcos para fazer escorrer poreles as coisas que ainda virão. Nesses campos, dificilmente surgeo novo porque as estradas para o futuro já foram pavimentadaspor alguém (por algum centro constituído) antes da interação.Em geral quando percorremos essas trilhas repetimos passado.Nossas instituições de todos os “setores” (empresariais,governamentais e sociais) foram estruturadas para a reprodução,não para a inovação. Elas foram desenhadas como campos narede social para condicionar fluxos, obrigando-os a passar pelosmesmos caminhos. Dentro de tais ambientes instalam-secircularidades inerentes às conversações recorrentes e é isso queconvencionamos chamar de “cultura organizacional”. Quandoestamos imersos em um desses campos sociais deformados pelahierarquia temos a impressão de que as ideias ali não serenovam, parecendo ser sempre as mesmas.Foi por causa disso que a ideia de inovação ganhou tantanotoriedade, sobretudo nos meios corporativos, que sãoambientes de aprisionamento e condicionamento de fluxos. Asideias novas têm mesmo dificuldade de surgir ou de seridentificadas como tais nesses meios, não porque lá não existampessoas criativas (todas as pessoas são criativas) e sim porque 3
  4. 4. essas pessoas estão imersas em ambientes que não são criativos(posto que foram desenhados para a reprodução e não para acriação). Reprodução é resultado de condicionamento de fluxo,como naquela máquina infernal de Modern Times, o magníficofilme de Chaplin (1936).É por isso que os administradores de organizações ficam tãoangustiados com o baixo nível de inovatividade de seusfuncionários. Como o modelo de gestão foi desenhado paracomando-e-controle, ela dá conta de viabilizar a reprodução,mas é incapaz de ensejar a criação. E é por isso que os gestorescorporativos aderem, pressurosos, à velha idéia de co-creationque surgiu no mundo dos negócios: pressionados pelo mercado ainovar para sobreviver, eles querem inovar de qualquer jeito e seisso não está sendo fácil de realizar com o público “interno”, porque não tentar o público “externo”?Eles pensam na base daquela Joy’s Law: os caras mais criativosdevem estar em outro lugar e eu tenho que lançar meustentáculos para capturá-los ou, pelo menos, para ter acesso aeles (com baixo custo, para não inviabilizar meu negócio). Issotambém explica o sucesso do crowdsourcing (apreendido pelosadministradores como uma espécie de outsourcing). 4
  5. 5. O impulso de se abrir ao ecossistema é basicamente correto, maso caminho que escolheram, tomado por motivos errados, éerrado (pois enquanto permanecer a separação rígida ou afronteira opaca entre stakeholders “internos” e “externos” nãopoderá ocorrer a tão desejada open innovation). Um caminhoerrado levará a um resultado também errado: o índice deinovatividade de corporações que tomaram tal caminho, usandotodas as modas mais updated de gestão disponíveis na prateleirade novidades da alta consultoria empresarial (open innovation,crowdsourcing, co-creation e o que mais for inventado), nãocresceu significativamente. A despeito da intensaautopropaganda dos consultores de inovação, qualquer pessoainteligente sabe que inovador é quem inova e não quem falasobre inovação.Mais recentemente estão surgindo práticas de interactive co-creation como open distributed innovation. Ela é open, ou seja, aentrada e os temas são abertos (qualquer pessoa pode entrarpara cocriar e para propor temas inesperados). Seu desfechotambém é aberto (não há um resultado esperado a sernecessariamente alcançado). Seu processo é free (não há umametodologia ou um conjunto de passos que as pessoas devamseguir para atingir um objetivo prefixado: somente livre-conversação). Sua estrutura é distribuída (em um campo de 5
  6. 6. cocriação todos interagem em igualdade de condições; não hádirigentes, professores, palestrantes, coordenadores oufacilitadores: todos os cocriadores são netweavers). E suadinâmica é interativa (a cocriação não tem procedimentosparticipativos, como a reunião coordenada, a votação e aconstrução administrada de consenso. Ninguém precisa acatardecisões. Todos são livres para interagir como quiserem).Mas qual é o objetivo de tudo isso? Ora, o nome já está dizendo.Tal esforço visa a conformar um Campo de Criação. Na verdadetrata-se de criar um abrigo, um refúgio para que as pessoaspossam – ainda que durante breves intervalos de tempo –escapar dos Campos de Reprodução (da Matrix, hehe).Para ensaiar a interactive co-creation devemos gerar um campode co-creation – um ambiente. Como percebeu McLuhan (1974),a inovação tem a ver com ambiente, não com tecnologia; e,poderíamos acrescentar, nem com metodologia (que também éuma tecnologia). Esse ambiente pode ser um lugar físico ouvirtual. Ambos parecem ser necessários.Resumindo. Cocriação (co-creation) é o processo pelo qual váriaspessoas criam (ou desenvolvem) ideias conjuntamente. Todacriação é uma cocriação na medida em que nenhuma ideia nascedo nada. Nenhuma pessoa concebe uma idéia a partir do zero. 6
  7. 7. Uma ideia é sempre um clone de outras ideias (um clone semprediferente porque sujeito a um processo variacional). Segundo oconceito de cocriação interativa (ou i-based co-creation comoopen distributed innovation) todas as ideias são frutos dainteração (envolvendo cloning, uma fenomenologia dainteração). A cocriação interativa (ou em rede) é imprevisível,intermitente, aberta, distribuída e, obviamente, interativa (querdizer – o que já não é tão óbvio – não-participativa). O sentidomais profundo dessa elaboração talvez possa ser resumido nafrase seguinte: Em uma espécie de invocação de entidades ainda desconhecidas e que não controlamos, ensaiamos na i- based co-creation um novo modo de convivência capaz de dar vida ao simbionte social que prefiguramos quando nos abrimos à interação com o outro-imprevisível.Se ambientes hierárquicos são Campos de Reprodução (nomelhor dos casos, de criação dirigida), então só a livre criaçãocoletiva pode constituir ambientes distribuídos dando à luz aoutros mundos.Para ler tudo clique no link abaixo:http://www.slideshare.net/augustodefranco/cocriao-reinventando-o-conceito-14554143 7

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