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respirado em escolas da zona rural e até mesmo urbana, de municípios queplantam soja. Está em xeque nossa possibilidade de...
“Temos uma preocupação muito grande com esta questão dos inseticidas.Quando aparece uma praga o pessoal nem respeita o tem...
Com isto, os produtores ficam reféns destas empresas. Um exemplo está naregião do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul,...
“Eles têm a patente dos seus produtos, dos princípios ativos que, depois, sãocombinados para gerar substâncias comerciais....
Maia denuncia que, com a falta de monitoramento, vigilância e fiscalização, osresíduos já chegaram ao subsolo.“Na região d...
A pressão das empresas passa por diversas instituições. Em 2010, asempresas Shell e Basf conseguiram reverter uma condenaç...
O uso dos agrotóxicos está ligado também ao comércio dos transgênicos.Dados do primeiro semestre de 2010 do Ministério da ...
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Foi constatado que os agrotóxicos estão até mesmo no sangue e na urina daspessoas. O levantamento monitorou a água dos poç...
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uma série de estados do Brasil, por meio da articulação internacional comentidades contrárias ao uso deste material.“Começ...
O resultado dos novos maus hábitos foi comprovado em agosto de 2010. OInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBG...
Estados Unidos e se tornou o líder mundial no uso de veneno agrícola. Foramconsumidos 1 bilhão de litros por ano no país. ...
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Os danos dos agrotóxicos ao meio ambiente

  1. 1. Os danos dos agrotóxicos ao meio ambiente- Na última safra, as lavouras brasileiras bateram o recorde de uso deagrotóxicos. De acordo com informações do Sindicato Nacional da Indústria deProdutos para a Defesa Agrícola (Sindage), mais de um bilhão de litros deveneno foram usados na agricultura. Se confirmado o volume de vendasestimado em 2010 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim),esse recorde pode ser superado. A entidade estima um crescimento de até 8%,em relação ao período anterior.O uso excessivo destas substâncias químicas está relacionado com o modeloagrícola brasileiro, que se sustenta no latifúndio, na monocultura, na produçãoaltamente mecanizada para a produção em larga escala. Para sustentar essalógica, empresas e produtores precisam usar sem qualquer controle osagrotóxicos.Mas para onde vai este veneno? Grande parte dele vai parar nos alimentos àvenda nos supermercados, nas feiras. Ou seja, vai parar na mesa dapopulação e, depois, no estômago.Um estudo realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)detectou no pimentão mais comum, vendido nos supermercados, substânciastóxicas no patamar de 64% além da quantidade permitida. Na cenoura e naalface, foram encontrados 30% e 19% de agrotóxicos acima do recomendávelpelo órgão do governo. Vale lembrar que a quantidade limite de agrotóxicos eprodutos proibidos são diferentes para cada cultura, mas é certo afirmar queestamos comento produtos envenenados.Além da contaminação dos alimentos, os agrotóxicos estão se dispersando nomeio ambiente, seja na terra, água e até mesmo o ar. Muitos dessesagrotóxicos comercializados no Brasil, inclusive, formam banidos da UniãoEuropeia (UE).Uma operação da Anvisa, que durou aproximadamente dez meses e visitousete fábricas de agrotóxicos instaladas no Brasil, concluiu que seis delasdesrespeitavam as regras sanitárias e tiveram as linhas de produções fechadastemporariamente. Entre as irregularidades encontradas, estão o uso dematéria-prima vencida e adulteração da fórmula.Para a gerente de normatização da Anvisa, Letícia Silva, as irregularidadesencontradas se tornam mais preocupantes, pois esses agentes químicos sãocomercializados e estão se espalhando pelo meio ambiente.“É bastante assustador. Principalmente quando pensamos que a água quebebemos está contaminada. Há estudos que mostram que há resíduos deagrotóxico na água da chuva e no ar. Um estudo feito pela UniversidadeFederal do Mato Grosso constatou que há resíduos de agrotóxicos no ar
  2. 2. respirado em escolas da zona rural e até mesmo urbana, de municípios queplantam soja. Está em xeque nossa possibilidade de decidir. Começa aparecerindícios que toda uma cadeia alimentar está contaminada, desde a água, osolo, até o ar.Letícia Silva se refere ao estudo da Fundação Oswaldo Cruz e da UniversidadeFederal de Mato Grosso (UFMT). Foram medidos os efeitos do uso deagrotóxicos em moradores de dois municípios produtores de grãos: CampoVerde e Lucas do Rio Verde.Foi constatado que os agrotóxicos estão até mesmo no sangue e na urina daspessoas. O levantamento monitorou a água dos poços artesianos e identificoua existência de resíduos de agrotóxicos em 32% das amostras analisadas.Em 40% dos testes com a água da chuva, também foi identificada a presençade venenos agrícolas. Nos testes com o ar, 11% das amostras continhamsubstâncias tóxicas, como o endossulfam, proibido pelo potencial cancerígeno.O médico e professor da UFMT, Wanderlei Pignatti, relata a situação.“Não existe uso seguro de agrotóxicos. Uso de agrotóxico deve serconsiderado como uma poluição intencional, por quê? As pragas das lavourasque são as ervas daninhas, fungos e insetos, estão crescendo no meio daplantação. Se eles estão crescendo, o fazendeiro poluiu aquele ambiente demaneira intencional para tentar atingir as pragas. Com esta prática, ele polui oambiente de trabalho, todo o meio ambiente e inclusive polui o alimento queestá produzindo. Por isso o fazendeiro sabe que todo agrotóxico que elecompra é nocivo.”Contaminação parecida foi constada no município de Limoeiro do Norte (CE).Agrotóxicos pulverizados por avião sobre as monoculturas estão contaminandoa água da região. De acordo com resultados parciais de pesquisa daUniversidade Federal do Ceará (UFC), pelo menos sete tipos de venenos jáforam encontrados nas amostras de caixas d‟águas que abastecemdiretamente as torneiras da população. O morador do município e integrante daCáritas Diocesana, Diego Gradelha, afirma que o agrotóxico já estácontaminando até mesmo um aquífero.“Já sabemos que há pelo menos setes princípios ativos de agrotóxico na águaque bebemos. O Aquífero Jandaíra, com águas a 100 metros de profundidade,já está contaminado. O agrotóxico contamina o homem e a água. Mas existeuma cegueira na administração pública em não fiscalizar e nem cobrar dasempresas provas que eles não contaminam.”De acordo com o integrante dos Movimentos do Atingidos por Barragens (MAB)do estado de Pernambuco, Celso Rodrigues dos Santos, a lógica de produçãodas grandes empresas para a monocultura acabou sendo adotada pelospequenos agricultores, que usam excessivamente agrotóxicos para matarqualquer praga que aparece nas plantações.
  3. 3. “Temos uma preocupação muito grande com esta questão dos inseticidas.Quando aparece uma praga o pessoal nem respeita o tempo certo da colheita,e para cultivar o produto "limpo", sem praga, já sai jogando muito agrotóxico.”O solo está constituído por uma mistura variável de minerais, matéria orgânicae água, capaz de sustentar a vida das plantas na superfície da terra. Aprofessora da Universidade Federal do Ceará, Raquel Rigotto, explica que nãoé possível separar os agrotóxicos da destruição do ambiente.“As empresas chegam e já promovem o desmatamento, reduzindo abiodiversidade que é fundamental para manter o equilíbrio do ecossistema, fatoque protege as lavouras contras as pragas. Em seguida entram com amonocultura que nada mais é que a afirmação do oposto da biodiversidade.Depois aplicam uma série de pratica de fertilização. E critérios de produtividadepor hectare são impostos à terra para estressar as plantas e produzirrapidamente o fruto. Este modo de produzir é indutor da necessidade do uso deagrotóxico. Com isto a terra está respondendo de forma muito dolorosa. NoCeará, há três fazendas que interromperam a produção porque a terra nãoproduz mais.”A preservação do meio ambiente, como da água, do solo, do ar e das chuvas,deixa para todos os brasileiros a tarefa de discutir quem são os grandesbeneficiados e prejudicados pelo uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras denosso país.Reportagem: Danilo Augusto.Março 2011.O papel das grandes empresas no mercado dos agrotóxicos) - Embora o Brasil ocupe a terceira posição no ranking dos maiores produtoresagrícolas do mundo, já é líder no consumo de agrotóxicos. Somente em 2009,foram comercializados um bilhão de litros destes produtos. Dependendo dovolume de vendas estimado em 2010 pela Associação Brasileira da IndústriaQuímica (Abiquim), esse recorde pode ser superado. A entidade estima umcrescimento de até 8%, em relação ao período anterior.Ainda de acordo com dados da Abiquim as empresas do ramo tiveramfaturamento líquido de US$18,2 bilhões com a produção de defensoresagrícolas, adubos e fertilizantes em 2010.Para manter o nível de consumo, os fabricantes e fornecedores estãofinanciando a produção agrícola. Este incentivo consiste em fornecer, aosprodutores insumos, as sementes, adubos, fertilizantes e pesticidas, além deassistência técnica. O pagamento é efetuado após a colheita, que recebe parteda produção.
  4. 4. Com isto, os produtores ficam reféns destas empresas. Um exemplo está naregião do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, conhecida pela fortepresença da indústria fumageira. A integrante do Movimento dos PequenosAgricultores (MPA), Rosiele Cristiane, denuncia a exploração dos produtoresde fumo, que, por meio de contratos, tiram o controle do agricultor sobre a suaprodução.“Antes de iniciar a safra, o orientador agrícola da empresa que presta aassistência técnica, que vai à casa das pessoas, faz o contrato com as famílias.Vê quantos pés de fumo eles querem plantar. Os agricultores assinam essecontrato sem ler: há várias promissórias, em branco também. E este contratoestá dizendo que o agricultor não é dono do produto. Ele é o fiel depositário.Isto dá à empresa o direito de buscar o fumo, se o agricultor não entregar. Nosúltimos anos, os agricultores estão esperando o melhor preço. Então, no inícioda comercialização, eles não estão entregando o fumo. Eles esperam até maio,junho, que é a melhor época para vender. Quando o fumo não é entregadopara a empresa, e ela tem contratos a honrar no exterior, eles usam dessasartimanhas para buscar o fumo em casa”A partir deste modelo de financiamento, a venda de defensivos agrícolas, noBrasil, pode crescer de US$ 6,6 bilhões para US$ 8,5 bilhões em cinco anos.No entanto, Rosiele alerta que a pressão das empresas já levou agricultores aosuicídio.“Eu sempre falo do caso da Dona Eva, que foi uma agricultora. A indústriafumageira chegou à casa dela com o oficial de Justiça e a Polícia. Ela alegouque não tinha nenhuma dívida vencida. Era mês de fevereiro, e a dívida dela sóvenceria em maio. A empresa alegou ao juiz que ela estava desviando oproduto. Ela se sentiu tão humilhada que, no mesmo instante em que elescarregavam o fumo do galpão, ela foi na varanda e se enforcou.”O mercado mundial de agrotóxicos é dominado por seis empresas: Syngenta,Bayer, Monsanto, Basf, Dow, DuPont e Nufarm. Este negócio mais de US$ 20bilhões por ano. O lucro cresce com a comercialização dos organismosgeneticamente modificados: os transgênicos. As pesquisas na área dabiotecnologia permitiram, pela primeira vez na História, o patenteamento de umser vivo. Segundo o engenheiro agrônomo Horácio Martins, as plantasdeixaram de ser espécies vegetais para se tornarem unidades de produção demoléculas.“A maior parte das moléculas, que são desenvolvidas, não está na natureza.Elas são criadas em laboratórios, e o custo de uma nova molécula, hoje, giraem torno de US$ 250 milhões. Aquele novo germoplasma, o material genéticoda semente, traz características e propriedades que outras sementes não têm.Ele é inovador e permite, então, ser patenteado.”A biotecnologia está nas mãos de empresas que controlam quatro áreas:sementes, agroquímicos, farmacêutica e veterinária. Existem cerca de milprincípios ativos de agrotóxicos, que, combinados, criam mais de dez milformulações. Cada uma dessas formulações gera lucro para as empresas.Horácio Martins explica que as empresas exercem forte pressão sobre o poderpúblico para viabilizar suas atuações na cadeia produtiva.
  5. 5. “Eles têm a patente dos seus produtos, dos princípios ativos que, depois, sãocombinados para gerar substâncias comerciais. A partir daí, pressionam osgovernos para que façam legislação, normas internas e um marco regulatórioque vai controlar o uso daquela patente, daquele princípio ativo que ela mesmafabricou. Enfim, fabrica o produto e cria regulamentação para controlar o seuuso.”A Monsanto controla 25% do mercado brasileiro de sementes de hortaliças,que é estimado em 200 milhões de dólares anuais. O domínio dastransnacionais sobre a agricultura brasileira conta com apoio do Poder Público.Isto se dá a partir dos investimentos públicos em infraestrutura, isençõestributárias e legislações flexíveis para beneficiar as empresas.No estado do Ceará, por exemplo, desde 1997, os agrotóxicos estão isentos dopagamento de diversos tributos. A medida foi adotada depois de um decreto doentão governador Tasso Jereissati (PSDB).A isenção é concedida até mesmo para produtos que foram proibidos em seuspaíses de origem. A integrante do Núcleo Tramas, da Universidade Federal doCeará (UFC), Maiana Maia, avalia que a política de incentivos gera impactosnegativos.“Num contexto em que estas substâncias provocam danos ao meio ambiente,danos à saúde da população, o Estado barateia o custo destes produtos,incentivando o uso de modo que os custos sociais são externados pelosistema público de saúde e pelo sistema público da previdência. Por exemplo,quando o Estado aplica uma política de taxação do cigarro, do álcool, parainibir o uso destas substâncias – porque são consideradas agressivas – e parapoder adquirir recursos para financiar o sistema público, uma vez que vaicuidar dos danos, esta lógica ele não aplica para os agrotóxicos”.Maiana considera que a sobrevivência dos pequenos agricultores depende deum enfrentamento do modelo sustentado na produção em latifúndios paraexportação do agronegócio.“As populações do entorno destes empreendimentos acabam ficando muitovulneráveis, porque elas encontram um Estado que não tem capacidade defiscalizar. A partir disto, a gente percebe que o embate não é só com asempresas. Existe também um embate que precisa ser feito com estas políticaspúblicas que beneficiam este tipo de modelo de desenvolvimento.”Há mais de uma década, a região do Baixo Jaguaribe, no Ceará, está marcadapela produção de frutas em latifúndios por meio da irrigação. Destaque para osmonocultivos de banana, melão, abacaxi e mamão.A expansão das áreas cultivadas representou um aumento de quase 1.000%do uso de agrotóxicos, na região, em quatro anos. Apenas em 2009, foramutilizadas quase 6,5 mil toneladas de produtos químicos.O impacto na saúde e no meio ambiente foi instantâneo. A UniversidadeFederal do Ceará detectou, no último ano, a presença de 22 princípios ativosde agrotóxicos na água fornecida para as comunidades que vivem na região.
  6. 6. Maia denuncia que, com a falta de monitoramento, vigilância e fiscalização, osresíduos já chegaram ao subsolo.“Na região do Alto Jaguaribe, fizemos uma coleta ambiental que detectou acontaminação por agrotóxicos no Aquífero Jandaíra. Quando a gente foiesmiuçando esta questão, a gente se deparou com uma legislação do Estado,em que se permite a poluição. Existe uma portaria, nº 518, do Ministério daSaúde, que estabelece valores máximos permitidos de venenos em águasconsideradas próprias para consumo humano. Então, a água que as pessoasbebem pode ter veneno. O Estado estabelece isto”.O Baixo Jaguaribe recebeu, em dez anos, uma chuva de mais de quatrobilhões de litros de calda tóxica. Todo dia uma área de quase três mil hectaresé banhada com agrotóxicos. A pulverização é feita por meio de aviões. Apopulação teme os efeitos crônicos para a saúde. Os animais domésticos nãoestão resistindo, ficam doentes e morrem.Reportagem: Jorge Américo.Março de 2011.Mercado dos agrotóxicos, legislação e irregularidades- O Brasil é o principal destino de agrotóxicos proibidos no exterior, segundodados da Organização das Nações Unidas (ONU). Pelo menos dez variedadesvendidas livremente aos agricultores, no Brasil, não circulam na UniãoEuropeia e Estados Unidos. Para fabricantes e fornecedores, os riscos deprejuízo são mínimos. Desde 2002, apenas quatro produtos foram barradospela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).Um exemplo é o endossulfam, uma substância considerada altamente tóxica eassociada a problemas reprodutivos. Por isso é vetado em 45 países. Noentanto, a comissão formada pela Anvisa, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente(Ibama) e Ministério da Agricultura decidiu que o produto será banido somenteem 2013. Em 2009, o Brasil importou mais de duas mil toneladas doendossulfam, de acordo com a Secretaria de Comércio Exterior. Para a gerentede normatização da Avisa, Letícia Silva, isso é resultado da pressão dasempresas.“A pressão sempre é no sentido de avaliar mais rápido determinado produto,para que ele possa chegar ao mercado mais depressa e passar à frente deoutras empresas. No caso de reavaliação, existe pressão para o produto nãoser reavaliado. Isto significa poder tirá-lo do mercado. Isso ocorreu tanto noâmbito político, com tentativas de sustar a reavaliação toxicológica iniciada pelaAnvisa, como também no âmbito judicial. As empresas ingressaram com trêsações diferentes para impedir a reavaliação daqueles 14 produtos agrotóxicosque Anvisa colocou em avaliação em 2008.”
  7. 7. A pressão das empresas passa por diversas instituições. Em 2010, asempresas Shell e Basf conseguiram reverter uma condenação bilionária, queindenizava ex-funcionários de uma fábrica de agrotóxicos de Paulínia, queficaram doentes por conta do contato com os produtos químicos. A presidentedo Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável do Rio Grandedo Sul, Regina Miranda, avalia que a legislação está sofrendo modificações apartir dos interesses das empresas.“A regulamentação não é clara. E ela vem mudando progressivamente, numapostura de criar essa confusão dos legisladores para judiciar o uso irregular.Numa hora, o agrotóxico é proibido, mas liberam o genérico dele, que recebeoutro nome científico e é liberado, mas o nome comercial é proibido. Existeuma confusão em tudo isso. Pouca capacidade do Estado de acompanhar,regular e capacitar agricultores para o uso. Então, ele contamina o trabalhadorda indústria que fabrica, contamina o agricultor que o utiliza, no solo, e aspessoas que bebem água contaminada e comem os alimentos comagrotóxicos.”Um total de 2.195 marcas de agrotóxicos estão registradas no Brasil. Segundoo sindicato do setor, 400 toneladas de produtos sem registro já foramapreendidas desde 2001. O comércio ilegal movimenta R$ 500 milhões porano.Letícia Silva, da Anvisa, explica como é o processo de adulteração, a partir doexemplo da empresa israelense Milenia, autuada, em 2009, por fabricaragrotóxicos com formulação diferente da permitida.“Ela buscou o registro com uma formulação. Aquela formulação colocava oproduto como extremamente tóxico. Ela apresentou uma nova formulação eobteve o registro do produto como „classe 3‟, que é medianamente tóxico. Eraum produto utilizado na cultura do fumo, um antibrotante, inibidor decrescimento. Nós tínhamos coletado o produto no mercado e o submetido auma análise. O INC, da Polícia Federal, constatou que a formulação do produtonão era a mesma que havia sido registrado. Quando chegamos [na linha deprodução], constatamos que ela tinha adulterado a fórmula e estava produzindouma fórmula sem registro, que é um produto „classe 1‟, extremamente tóxico”.O monocultivo é o principal destino dos agrotóxicos. O integrante doMovimento dos Pequenos Agricultores (MPA) Frei Sérgio Görgen afirma que apolítica de crédito beneficia a monocultura e impõe dificuldades para aprodução diversificada.“Uma única cultura agrícola em uma enorme extensão é induzida pelo crédito,pelos insumos, pela rede de compra e pela indústria. Você quase nãoconsegue sair disso. E quando é soja, é só transgênica, não tem sementeconvencional. Não tem insumo para manejo de cultivo convencional. Então, oagricultor é obrigado a fazer. E se um assentamento estiver numa regiãodessas, a maioria ou produzirá soja ou estará fora do mercado. Há umaindução forçada, uma pressão do modelo econômico e político do país paraque o monocultivo tome conta de algumas regiões.”
  8. 8. O uso dos agrotóxicos está ligado também ao comércio dos transgênicos.Dados do primeiro semestre de 2010 do Ministério da Agricultura apontam que,de cada quatro variedades de milho lançadas no mercado, três sãotransgênicas.As novas variedades de sementes transgênicas surgiram com a promessa dereduzir o consumo de agrotóxicos. Para o coordenador do Greenpeace IranMagno, o processo foi inverso.“A promessa era a de que as sementes transgênicas trariam benefícios aomeio ambiente, porque diminuiriam o uso de agrotóxicos. Mas o que estásurgindo - e é um fenômeno que já acontece no Brasil- o uso intensivo deglifosato estimulou o desenvolvimento de algumas ervas daninhas resistentes aeste produto, as superervas; e os produtores estão utilizando agrotóxicos cadavez mais agressivos ao ambiente e à saúde. Na região Sul, por exemplo, háagricultores utilizando o 24-D, que é um dos ingredientes do „Agente Laranja‟.Então, o surgimento destas superervas já enterrou as promessas de que ostransgênicos iam trazer benefícios ao meio ambiente e à economia do produtor.Eles estão comprando mais agrotóxicos e utilizando os mais agressivos.”Para a pesquisadora da Universidade Federal do Ceará (UFC) Raquel Rigotto,nem mesmo os grandes produtores suportam o alto custo dos agrotóxicos.“O preço dos venenos tem sido um custo importante para as empresas. Hoje,elas já começam a se interessar por tecnologias de agricultura orgânica, nãopor princípio ético de respeito à natureza, mas por causa do custo dosagrotóxicos nos processos de produção dela. Na produção de abacaxi, estecusto é de 45%. A reversão desse quadro depende da imposição de limitespara esse modelo produtivo. E estes limites devem ser colocados pelo Estado.”Pesquisas apontam que a disponibilidade de nutrientes fundamentais para asaúde é menor em alimentos produzidos com agrotóxicos. Além disso, oorganismo humano não é capaz de eliminar os resíduos ingeridos. A atrizPriscila Camargo considera que o problema não pode ser encarado comnaturalidade.“Nós estamos consumindo, segundo pesquisadores importantes – gente damaior seriedade –, cinco litros de agrotóxicos por ano, cada pessoa. Já pensouem você ficar tomando um lixo químico? A situação é muito grave. Eu fiqueimuito impressionada com as informações. A população não tem acesso a isto,porque a grande imprensa não divulga. Nós temos direito a um alimento dequalidade, temos direito a um alimento natural, a uma água natural, como Deusfez.”Reportagem: Jorge Américo.Março de 2011.Os danos dos agrotóxicos ao meio ambiente- Na última safra, as lavouras brasileiras bateram o recorde de uso deagrotóxicos. De acordo com informações do Sindicato Nacional da Indústria deProdutos para a Defesa Agrícola (Sindage), mais de um bilhão de litros de
  9. 9. veneno foram usados na agricultura. Se confirmado o volume de vendasestimado em 2010 pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim),esse recorde pode ser superado. A entidade estima um crescimento de até 8%,em relação ao período anterior.O uso excessivo destas substâncias químicas está relacionado com o modeloagrícola brasileiro, que se sustenta no latifúndio, na monocultura, na produçãoaltamente mecanizada para a produção em larga escala. Para sustentar essalógica, empresas e produtores precisam usar sem qualquer controle osagrotóxicos.Mas para onde vai este veneno? Grande parte dele vai parar nos alimentos àvenda nos supermercados, nas feiras. Ou seja, vai parar na mesa dapopulação e, depois, no estômago.Um estudo realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)detectou no pimentão mais comum, vendido nos supermercados, substânciastóxicas no patamar de 64% além da quantidade permitida. Na cenoura e naalface, foram encontrados 30% e 19% de agrotóxicos acima do recomendávelpelo órgão do governo. Vale lembrar que a quantidade limite de agrotóxicos eprodutos proibidos são diferentes para cada cultura, mas é certo afirmar queestamos comento produtos envenenados.Além da contaminação dos alimentos, os agrotóxicos estão se dispersando nomeio ambiente, seja na terra, água e até mesmo o ar. Muitos dessesagrotóxicos comercializados no Brasil, inclusive, formam banidos da UniãoEuropeia (UE).Uma operação da Anvisa, que durou aproximadamente dez meses e visitousete fábricas de agrotóxicos instaladas no Brasil, concluiu que seis delasdesrespeitavam as regras sanitárias e tiveram as linhas de produções fechadastemporariamente. Entre as irregularidades encontradas, estão o uso dematéria-prima vencida e adulteração da fórmula.Para a gerente de normatização da Anvisa, Letícia Silva, as irregularidadesencontradas se tornam mais preocupantes, pois esses agentes químicos sãocomercializados e estão se espalhando pelo meio ambiente.“É bastante assustador. Principalmente quando pensamos que a água quebebemos está contaminada. Há estudos que mostram que há resíduos deagrotóxico na água da chuva e no ar. Um estudo feito pela UniversidadeFederal do Mato Grosso constatou que há resíduos de agrotóxicos no arrespirado em escolas da zona rural e até mesmo urbana, de municípios queplantam soja. Está em xeque nossa possibilidade de decidir. Começa aparecerindícios que toda uma cadeia alimentar está contaminada, desde a água, osolo, até o ar.Letícia Silva se refere ao estudo da Fundação Oswaldo Cruz e da UniversidadeFederal de Mato Grosso (UFMT). Foram medidos os efeitos do uso deagrotóxicos em moradores de dois municípios produtores de grãos: CampoVerde e Lucas do Rio Verde.
  10. 10. Foi constatado que os agrotóxicos estão até mesmo no sangue e na urina daspessoas. O levantamento monitorou a água dos poços artesianos e identificoua existência de resíduos de agrotóxicos em 32% das amostras analisadas.Em 40% dos testes com a água da chuva, também foi identificada a presençade venenos agrícolas. Nos testes com o ar, 11% das amostras continhamsubstâncias tóxicas, como o endossulfam, proibido pelo potencial cancerígeno.O médico e professor da UFMT, Wanderlei Pignatti, relata a situação.“Não existe uso seguro de agrotóxicos. Uso de agrotóxico deve serconsiderado como uma poluição intencional, por quê? As pragas das lavourasque são as ervas daninhas, fungos e insetos, estão crescendo no meio daplantação. Se eles estão crescendo, o fazendeiro poluiu aquele ambiente demaneira intencional para tentar atingir as pragas. Com esta prática, ele polui oambiente de trabalho, todo o meio ambiente e inclusive polui o alimento queestá produzindo. Por isso o fazendeiro sabe que todo agrotóxico que elecompra é nocivo.”Contaminação parecida foi constada no município de Limoeiro do Norte (CE).Agrotóxicos pulverizados por avião sobre as monoculturas estão contaminandoa água da região. De acordo com resultados parciais de pesquisa daUniversidade Federal do Ceará (UFC), pelo menos sete tipos de venenos jáforam encontrados nas amostras de caixas d‟águas que abastecemdiretamente as torneiras da população. O morador do município e integrante daCáritas Diocesana, Diego Gradelha, afirma que o agrotóxico já estácontaminando até mesmo um aquífero.“Já sabemos que há pelo menos setes princípios ativos de agrotóxico na águaque bebemos. O Aquífero Jandaíra, com águas a 100 metros de profundidade,já está contaminado. O agrotóxico contamina o homem e a água. Mas existeuma cegueira na administração pública em não fiscalizar e nem cobrar dasempresas provas que eles não contaminam.”De acordo com o integrante dos Movimentos do Atingidos por Barragens (MAB)do estado de Pernambuco, Celso Rodrigues dos Santos, a lógica de produçãodas grandes empresas para a monocultura acabou sendo adotada pelospequenos agricultores, que usam excessivamente agrotóxicos para matarqualquer praga que aparece nas plantações.“Temos uma preocupação muito grande com esta questão dos inseticidas.Quando aparece uma praga o pessoal nem respeita o tempo certo da colheita,e para cultivar o produto "limpo", sem praga, já sai jogando muito agrotóxico.”O solo está constituído por uma mistura variável de minerais, matéria orgânicae água, capaz de sustentar a vida das plantas na superfície da terra. Aprofessora da Universidade Federal do Ceará, Raquel Rigotto, explica que nãoé possível separar os agrotóxicos da destruição do ambiente.“As empresas chegam e já promovem o desmatamento, reduzindo abiodiversidade que é fundamental para manter o equilíbrio do ecossistema, fatoque protege as lavouras contras as pragas. Em seguida entram com a
  11. 11. monocultura que nada mais é que a afirmação do oposto da biodiversidade.Depois aplicam uma série de pratica de fertilização. E critérios de produtividadepor hectare são impostos à terra para estressar as plantas e produzirrapidamente o fruto. Este modo de produzir é indutor da necessidade do uso deagrotóxico. Com isto a terra está respondendo de forma muito dolorosa. NoCeará, há três fazendas que interromperam a produção porque a terra nãoproduz mais.”A preservação do meio ambiente, como da água, do solo, do ar e das chuvas,deixa para todos os brasileiros a tarefa de discutir quem são os grandesbeneficiados e prejudicados pelo uso excessivo de agrotóxicos nas lavouras denosso país.Reportagem: Danilo Augusto.Março 2011.Impactos dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores do campo- Pesquisas médicas apontam que os agrotóxicos prejudicam a saúde daspessoas que trabalham com essas substâncias químicas. Os agrotóxicos estãoentre os principais agentes tóxicos no país, com índices abaixo apenas demedicamentos, animais peçonhentos e produtos sanitários. Esse impacto podeser definido de forma mais evidente a partir dos chamados efeitos agudos nostrabalhadores, mas há também os efeitos crônicos.De acordo com dados de 2007, do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), 28% dos mais de 8 mil casos de contaminação estãorelacionados a circunstâncias profissionais. São Paulo e Rio Grande do Sulestão nas primeiras posições. Os índices são elevados também na Bahia e emSanta Catarina. A Sinitox também apontou que foram registrados, no país,mais de 19 mil casos de intoxicação por agrotóxico.O médico e professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT),Wanderlei Antonio Pignati, enumera as doenças causadas pelos agrotóxicosnos trabalhadores.“São agravos, na saúde, agudos e crônicos. Intoxicações agudas e crônicas,má formação fetal de mulheres gestantes, neoplasia (que causa câncer),distúrbios endócrinos (na tiroide, suprarrenal, e alguns mimetizam diabetes),distúrbios neurológicos, distúrbios respiratórias (vários são irritantespulmonares)”A juventude está entre os principais afetados. O produto Adicarbe, maisconhecido no campo como “chumbinho”, é desviado para os centros urbanospara ser usado como raticida. O produto glifosato, aplicado no cultivo de sojatransgênica, apresenta Classe 1 de contaminação, o que significa um índiceelevado de intoxicação, sendo que a cultura da soja, onde o glifosato éaplicado, é responsável por 51% do uso de agrotóxicos no país.Há, no Brasil, cerca de 451 produtos ativos e 1,4 mil produtos no mercado,cada um com nocividade específica. Os especialista admitem que é difícildesvendar o nexo entre a doença e o produto que a causou. Um dos
  12. 12. problemas é a chamada subnotificação das ocorrências, que acontece porqueos empresários não reconhecem o vínculo entre a doença do trabalhador e asua causa. Por isso, os dados de intoxicação são ainda maiores.No Mato Grosso, o médico Pignati realiza estudos comparando dadosepidemiológicos das regiões do estado com diferentes níveis de utilização deagrotóxicos. Nas três regiões do agronegócio da soja, milho e algodão, há umaincidência três vezes maior de intoxicação aguda.“Analisando por regiões o sistema de notificação de intoxicação aguda dasecretaria municipal, estadual e do Ministério da Saúde, percebemos que ondea produção é maior, há mais casos de intoxicação aguda, como diarreia,vômitos, desmaios, mortes, distúrbios cardíacos e pulmonares, além dedoenças subcrônicas que aparecem um mês ou dois meses depois daexposição, de tipo neurológico e psiquiátrico, como a depressão. Háagrotóxicos que causam irritação ocular e auditiva. Outros dão lesãoneurológica, com hemiplegia, neurite da coluna neurológica cervical”.De acordo com Gilberto Salviano da Silva, assessor da Secretaria de Saúde doTrabalhador da Central Única dos Trabalhadores (CUT), há uma política desaúde do trabalhador mais consistente entre os trabalhadores urbanos. Mas oscasos de acidentes e doenças na zona rural ainda têm menor notificação.“O que notamos é que todas as normas em saúde do trabalhador têm sidofocadas no trabalhador da cidade, então existem normas mais presentes eavançadas no setor da metalurgia, no setor financeiro, químico, da construçãocivil, e nem por isso, com estas normas, se conseguiu diminuir o número deacidentes de trabalho no Brasil; temos que entender que sempre foramsubnotificados. Temos o problema dos empresários que negam as doenças enão comunicam.”Salviano entende que o índice de notificações é insuficiente. Desde abril de2007, começou a aumentar devido ao novo modelo de concessão debenefícios do INSS, denominado como Nexo Técnico Epidemiológico daPrevidência Social (Netep).Dessa forma, tem aumentado o número de registros de acidentes e doenças noBrasil. De acordo com o assessor da CUT, em 2006 foram registrados 510 milacidentes. Em 2008, as estatísticas apontavam para quase 750 mil acidentesde trabalho.“Essa subnotificação de doenças dificulta a visibilidade sobre o que aconteceno local de trabalho. E o setor rural, isso é muito evidente, a ausência dasinformações, doenças e mortes por consequência do agrotóxico dificulta asações de políticas públicas; esta subnotificação, no campo, é parecida com ada cidade. Os empresários negam que os trabalhadores fiquem doentes nocampo. O serviço médico não está preparado para o diagnóstico; às vezes, ostrabalhadores se contaminam ou morrem, e aparecem outras doenças. Então,as dificuldades, no campo, têm sido maiores”Para a prevenção dos acidentes, Salviano compara as ações realizadas contrao uso do material amianto na construção civil. Hoje o amianto está proibido em
  13. 13. uma série de estados do Brasil, por meio da articulação internacional comentidades contrárias ao uso deste material.“Começar a chamar a atenção civil e criminal daqueles que fabricam produtosque provocam impacto no meio-ambiente, morte e doença dos trabalhadores,caminho possível para fazer valer a justiça social”O uso de agrotóxicos provoca efeitos graves na saúde humana, como odesequilíbrio do sistema endócrino, infertilidade masculina, más formações eabortos, efeitos nas crianças e doenças nos sistema nervoso.Nas terras da Chapada do Apodi e do Tabuleiro das Russas, no baixo vale doJaguaribe, no Ceará, as pessoas vivem sob o regime de trabalho de empresasprodutoras de abacaxi. Os cultivos são ao redor dos locais de moradia. Se umaárea recebe oito pulverizações por ano, mais de 4,5 milhões de litros de caldastóxicas foram lançadas sobre as comunidades nos últimos dez anos.Todas as noites, 82 mil litros de agrotóxicos são jogados sobre 1,3 mil hectaresde cultivo de abacaxi. Do total de trabalhadores pesquisados na região, 53% játêm marcas da exposição diária a agrotóxicos.Os impactos para a saúde dos trabalhadores do campo, pelo uso dosagrotóxicos, evidenciam a necessidade de um debate sobre o tema no amploconjunto da sociedade. O integrante do setor de Saúde do Movimento dosTrabalhadores Rurais Sem Terra (MST), André Rocha, propõe um modelo deprodução baseado na saúde ambiental.“Saúde ambiental é uma área da saúde [que analisa] as interferências dohomem no meio ambiente... como o meio influi na saúde humana, [como se dá]essa relação entre saúde e meio ambiente. Nós, do MST, nos dividimos emdois eixos: produção saudável e do saneamento ecológico/habitação saudável.Nossos locais de vivência e centros de formação. Construir espaços saudáveis,produção saudável. Cada bioma é uma realidade específica, um trabalhoespecífico, mas o da produção saudável, produzir a soberania alimentar econsequentemente ter saúde questão contra os transgênicos, agrotóxicos”.Reportagem: Pedro Carrano.Março de 2011.Contaminação dos alimentos e a saúde pública- Um ditado indiano diz que a gente é aquilo que come. A alimentação sempreocupou lugar de destaque desde as sociedades milenares. As pessoascomiam para satisfazer as necessidades do corpo, mas também da mente. Acomida também se encarregou de perpetuar culturas de povos, passandoreceitas e costumes de geração para geração, até os dias de hoje.No entanto, se a gente é o que come, não temos muito o que comemorar. Emnome da correria do dia-a-dia, a alimentação variada de antigamente, comlegumes, verduras e frutas, tudo cozido e até mesmo plantado em casa, deulugar a pães, bolachas, comidas instantâneas e enlatados.
  14. 14. O resultado dos novos maus hábitos foi comprovado em agosto de 2010. OInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou pesquisa em quemostra que a obesidade já é uma epidemia no país. Desde a década de 70, odéficit de alimentação diminuiu, mas o excesso e a obesidade estouraram.Tanto que o IBGE estima que, se for mantido o ritmo de crescimento depessoas acima do peso, em apenas 10 anos o Brasil terá se igualado aosEstados Unidos.Ou seja, o brasileiro está comendo mais, no entanto, com menos qualidade,como explica a nutricionista Regina Miranda, presidente do Conselho deSegurança Alimentar e Nutricional Sustentável do Rio Grande do Sul (Consea).“Há exemplo do trigo, batata, derivados de trigo como pão e macarrão, sãodominante numa dieta diária. Isso, sem sombra de dúvida, empobreceu aalimentação”.A má alimentação não se restringe apenas a ter uma dieta empobrecida e compouca variedade por causa da dita falta de tempo. Também é consequência deum novo padrão alimentar que vem sendo imposto com a industrialização dosalimentos. As pessoas têm comida barata à disposição, mas com pouco valornutritivo, carregado de açúcar, sal, conservantes e gordura hidrogenada. Amudança na alimentação, embora atinja toda a sociedade, é mais perversaentre os mais pobres, analisa Regina.“O que faz com que as pessoas muito pobres, que têm uma renda baixa,acabam mais destes alimentos porque são mais baratos. Alimentam maiornúmero de pessoas durante o mês. O resultado disso tudo uma humanidadeobesa. É um sistema que obesifica as pessoas, que adoecem muito dedoenças relacionadas a maus hábitos alimentares como diabetes, pressão alta,cardiopatia”Neste novo padrão, a comida deixou de ser um alimento e passou a ser tratadacomo uma mercadoria, vendida aos consumidores, à população. Quem nuncaescolheu, no supermercado, a laranja maior, mais lustrosa, a mais bonita? Sãoessas as características que definem o valor nutricional dos alimentos? Háprateiras específicas até mesmo para as crianças, com bolachas e salgadinhoscom carinhas e diversos sabores.Para a nutricionista Regina Miranda, não é a aparência o que deve contar nahora de optarmos por uma alimentação mais saudável, e sim a sua essência.“Não comemos mais alimentos, comemos mercadoria. Aquilo que vou comerestão embutidos outros valores em troca que não são necessariamenteimportantes para a minha saúde. Tem valor como uma mercadoria que tem quegerar lucro, tem que ter tempo de prateleira, estar maquiada”.Muitas vezes, a comida mais bonita e que pode parecer mais apetitosa aosolhos não é necessariamente a melhor para a nossa saúde. Isso porque paradeixarem o alimento com essa “boa” aparência, os agricultores usaramagrotóxicos na hora de plantar e produzir. Em 2009, o Brasil ultrapassou os
  15. 15. Estados Unidos e se tornou o líder mundial no uso de veneno agrícola. Foramconsumidos 1 bilhão de litros por ano no país. É como se cada brasileiroconsumisse, em média, 5 litros de veneno por ano.A pesquisadora Rosany Bochner coordena o Sistema Nacional de InformaçõesTóxico-Farmacológicas (SINITOX). Ligado à Fundação Oswaldo Cruz, osistema centraliza e divulga os casos de envenenamento e intoxicaçãoregistrados na rede nacional. Os casos mais registrados pelo sistema são deefeito agudo, que ocorre quando a pessoa apresenta reações logo após aintoxicação.No entanto, os casos crônicos, em que os efeitos aparecem após a exposiçãopor um longo período aos agrotóxicos, são em grande maioria e não serestringem mais aos agricultores, que lidam diretamente com o veneno. Deacordo com Rosany, atinge toda a população, apesar das dificuldades paracomprovar que doenças que hoje afetam a população, como câncer, estãorelacionadas aos venenos agrícolas.“Há 10 anos, com certeza não tinha o consumo que se tem hoje. E se vocêolhar em termos de câncer e tudo mais, essas doenças aumentaram bastante.Se olhar o mapa das doenças hoje, vê que algumas diminuíram comsaneamento, vacinas e com algumas coisas que foram feitas. E outras quevêm aumentando. Até porque a vida média aumentou. Mas a questão docâncer chama muito a atenção. Não sei se é uma coincidência, mas se ouvemuito”.Ainda há os problemas ambientais, como lembra o integrante da coordenaçãonacional da Via Campesina, João Pedro Stedile.“Afetam o meio ambiente porque destroem os micronutrientes do solo,contaminam a água do lençol freático, evaporam e voltam com as chuvas. Efinalmente, se incorporam com os alimentos e as pessoas que consomemestes alimentos acabam ingerindo pequenas doses permanentes de venenoque vão se acumulando no seu organismo e que afeta, em primeiro lugar, osistema neurológico e, em segundo lugar pode degenerar as células e setransformar em câncer”Em 2009, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) constatou quemais de 64% das amostras de pimentão analisadas pelo Programa de Análisede Resíduos de Agrotóxicos apontam quantidade de resíduo tóxico acima dopermitido. A Anvisa também encontrou , em todos os alimentos analisados,resíduos de agrotóxicos que não são permitidos no Brasil justamente por seremaltamente prejudiciais.A pesquisadora Rosany Bochner, da Fundação Oswaldo Cruz, desmistifica aideia de que a quantidade de agrotóxicos utilizada é proporcional à escala degrãos produzidos no país. “Em várias coisas ele [Brasil] não é o maior produtor. É uma ilusão achar que oBrasil é o maior produtor de grãos e que precisaria ser o maior consumidor [deagrotóxicos]. E o Brasil passou de segundo para primeiro, não se iluda, foi
  16. 16. exatamente quando os outros países proibiram o uso de alguns produtos e nósnão. Logicamente que se tinha uma oferta muito grande de produtos quevieram para cá. Com certeza vieram com preço menor, que se começou aconsumir mais”João Pedro Stedile responsabiliza o agronegócio e as grandes empresas porimpor esse modo de produção, baseado no uso de venenos químicos. Elesugere, por exemplo, a indenização das pessoas que sofreram com os efeitosdos agrotóxicos.“Espero que algum dia, inclusive, tenhamos leis suficientes não só para proibiro uso do veneno, mas para exigir que estas empresas indenizem as famíliasque tenham pacientes com enfermidades decorrentes dos venenos agrícolas”Reportagem: Raquel Casiraghi.Março de 2011.A campanha nacional contra o uso de agrotóxicos- Mais de 20 entidades da sociedade civil brasileira, movimentos sociais,entidades ambientalistas e grupos de pesquisadores lançaram uma campanhanacional, de caráter permanente, contra o uso dos agrotóxicos no Brasil.A campanha pretende abrir um debate com a população sobre a falta defiscalização, uso, consumo e venda de agrotóxicos, a contaminação dos solose das águas e denunciar os impactos dos venenos na saúde dostrabalhadores, das comunidades rurais e dos consumidores nas cidades.O secretário-executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), DenisMonteiro, apresenta os objetivos da campanha.“A primeira questão é que nós precisamos estabelecer uma coalizão, umaconvergência ampla dos movimentos da área da saúde, da agricultura,comunicação e direito, para fazer a denúncia permanente desse modelobaseado no uso de agrotóxicos e transgênicos que tornou o Brasil campeãomundial do uso de agrotóxicos; e os impactos são gravíssimos na saúde dostrabalhadores, no meio ambiente, na contaminação das águas. ‟‟Segundo Monteiro, além do caráter de denúncia, a campanha pretendetambém apresentar à sociedade o modelo proposto pelas entidades, maissaudável, baseado na pequena agricultura.“Outro campo de articulação é mostrar para a sociedade e avançar naconstrução de outro modelo de agricultura, baseado na agricultura familiar,camponesa, em toda sua diversidade, dos povos e comunidades tradicionais,assentamentos de reforma agrária, e que este modelo sim pode produziralimentos com fartura, alimentos de qualidade, com diversidade e sem uso deagrotóxicos. Temos estudos que mostram que a agroecologia é viável, produzem quantidade e em qualidade, e o local para a agroecologia acontecer são asáreas da agricultura familiar. Então outro campo de articulação importante éavançar na construção destas experiências em agroecologia que a gente jávem construindo, multiplicá-las pelo país, mostrando que este é o futuro da
  17. 17. agricultura, e não vai ter futuro para o planeta se a gente não construir estemodelo alternativo ao modelo que está aí‟‟Monteiro aponta ainda que a atuação no âmbito das políticas públicas tambémse constituirá em um eixo importante da campanha.“A Anvisa tem um trabalho de análise de resíduos de agrotóxicos e alimentos,que precisa ser ampliado para mais culturas, ter aumentada sua abrangência;está também fazendo reavaliações de agrotóxicos que têm um impacto terrívelna saúde, propondo restrição ao uso e banimento de produtos. Por outro lado,precisamos avançar nas políticas direcionadas à agricultura familiar, para queelas possam fomentar o resgate da biodiversidade, o resgate das sementescrioulas, possam fortalecer as experiências de comercialização direta dosagricultores familiares com os agricultores. O Programa Nacional deAlimentação Escolar precisa ser efetivado, uma alimentação de melhorqualidade nas escolas, que o dinheiro público usado para alimentação escolarseja destinado à compra da agricultura familiar – a lei aprovada ano passadoobriga que no mínimo 30% seja destinado para a compra da agriculturafamiliar; temos que lutar para que esta conquista seja efetivada.‟‟Para o integrante da Via Campesina Brasil e da coordenação do Movimentodos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stedile, a campanhapretende propor projetos de lei, portarias e iniciativas legais e jurídicas paraimpedir a expansão dos agrotóxicos.“Seria uma boa iniciativa que os municípios começassem a legislar, porque épossível que as câmaras proíbam o uso de determinado veneno no seumunicípio, e que a própria população fiscalize. Mas isso não basta ser iniciativado vereador, é preciso que toda a sociedade se mobilize para garantir,inclusive, que o comércio não venda, que os fazendeiros não usem e que,afinal, nós vamos criando territórios livres de agrotóxicos, e vocês vão vercomo a qualidade de vida vai melhorar muito nesses municípios.”Stedile ainda avalia a natureza do uso dos agrotóxicos no Brasil e suas gravesconsequências.“Nós estamos aplicando um bilhão de litros por ano, e isso representa, emmédia, cinco litros de veneno por pessoa. Não há parâmetro similar emqualquer outra sociedade do planeta, nem sequer nos Estados Unidos, que sãoa matriz indutora de toda a utilização de venenos na agricultura a partir daSegunda Guerra Mundial.”Para Stedile, a redução e a eventual erradicação do uso de agrotóxicosdependem, fundamentalmente, da conscientização da população.“Então nós esperamos que, daqui para diante, possamos congregar esteconjunto de forças sociais, desde os movimentos sociais, dos trabalhadores,dos pesquisadores, dos médicos, das universidades, dos institutos de ciência,para fazermos uma grande articulação nacional e, de fato, conseguirmospaulatinamente ir diminuindo o consumo de venenos, até chegarmos, quiçá,em médio prazo, à eliminação total do uso de agrotóxicos na agriculturabrasileira – o que seria uma grande conquista para toda a sociedade. Para que
  18. 18. se tenha uma idéia, eu acho que a campanha contra os agrotóxicos é muitoparecida com a campanha contra o fumo, porque no fundo o tabaco tambémusa muito agrotóxico, o tabaco é um veneno, causa gravíssimos problemas desaúde para a população, e somente de uns dez anos pra cá é que a sociedadebrasileira começou a se conscientizar e fazer uma campanha contra o cigarro.E nós conseguimos reduzir: 30% da população eram fumantes e, hoje, só 12%são fumantes‟‟De acordo com Letícia Silva, da Anvisa, é preciso que a campanha consigapromover uma grande consulta junto à sociedade brasileira sobre o tema.“Não sei o tempo: quando colocamos a possibilidade de retirada de um produtoagrotóxico do mercado, muitas vezes a gente recebe poucas manifestaçõesfavoráveis à retirada daquele produto no mercado, e muitas manifestações pelamanutenção do produto no mercado. Então acho que a primeira coisa, a maissimples – e que independe até de uma grande mobilização – são asorganizações da sociedade mostrarem o que estão pensando a respeito,mostrar o seu desejo com relação aos produtos agrotóxicos. Querem realmenteque sejam controlados? Que produtos precisariam ser banidos, quais estãocausando intoxicação? “A campanha nacional contra o uso de agrotóxicos também promoveráiniciativas ligadas à educação – com a produção de cartilhas para as escolas –e realizará seminários regionais e audiências públicas.Reportagem: Maria Mello.Março de 2011.Acesse a versão em texto das reportagens e baixe o arquivo em MP3 dasério especial " Os perigos dos agrotóxicos no Brasil."http://www.radioagencianp.com.br/9576-A-campanha-nacional-contra-o-uso-de-agrotoxicos

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