Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto                               A MBOITATÁI                                        ...
Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas; ascobrasse enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas do...
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquelegrandecorpo de serpente, transparente — tatá, de fogo — quemedia m...
fechados apertados e sem respirar, até ir-seela embora, ou, se anda a cavalo,desenrodilhar o laço, fazer umaarmada grande ...
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A m'boitatá

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de João Simões Lopes Neto

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A m'boitatá

  1. 1. Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto A MBOITATÁI Foi assim:num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão compridaque pareceu quenunca mais haveria luz do dia. Noite escura como breu, sem lume no céu, sem vento, semserenada esem rumores, sem cheiro dos pastos maduros nem dasflores da mataria. Os homens viveram abichornados, na tristeza dura; e porquechurrasconão havia, não mais sopravam labaredas nos fogões epassavam comendocanjica insossa; os borralhosestavam seapagando e era preciso poupar ostições... Os olhos andavam tão enfarados da noite, que ficavam parados,horas ehoras, olhando, sem ver as brasas vermelhas donhanduvai... as brasassomente, porque as faíscas, que alegram,não saltavam, por falta do sopro fortede bocas contentes. Naquela escuridão fechada nenhum tapejara seria capaz de cruzarpelostrilhos do campo, nenhum flete crioulo teria faro nemouvido nem vista parabaterna querência; até nem sorro daria noseu próprio rastro! E a noite velha ia andando... ia andando...II Minto:no meio do escuro e do silêncio morto, de vez em quando, oraduma banda oradoutra, de vez em quando uma cantiga forte, debicho vivente, furava o ar; era otéu-téu ativo, que não dormiadesde o entrar do último sol e que vigiava sempre,esperando avolta do sol novo, que devia vir e que tardavatanto já… Só o téu-téu de vez em quando cantava; o seu — quero-quero! —tãoclaro, vindo de lá do fundo da escuridão, ia agüentando aesperançadoshomens, amontoados no redor avermelhado dasbrasas. Fora disto, tudo o mais era silêncio; e de movimento, então, nemnada.III Minto:na última tarde em que houve sol, quando o sol ia descambandopara o outrolado das coxilhas, rumo do minuano, e de onde sobea estrela-d’alva,nessaúltima tarde também desabou umachuvarada tremenda; foi uma mangad’águaque levou um tempãoa cair, e durou… e durou... Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram emfitascoleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram,todos, num; ospassoscresceram e todo aquele peso d’água correupara as sangas e dassangaspara os arroios, que ficaram bufando,campo fora, campo fora, afogandoas canhadas, batendo no lombodas coxilhas. E nessas coroas e que ficousendoo paradouro daanimalada, tudo misturado, no assombro. E era terneirosepumas,tourada e potrilhos, perdizes e guaraxains, tudo amigo, de puro medo.E então!...
  2. 2. Nas copas dos butiás vinham encostar-se bolos de formigas; ascobrasse enroscavam na enrediça dos aguapés; e nas estivas dosanta-fé e dasiriricas, boiavam os ratões e outros miúdos. E, como a água encheu todas as tocas, entrou também na dacobra-grande, a — boiguaçu — que, havia já muitas mãos de luas,dormia quieta,entanguida. Ela então acordou-se e saiu, rabeando. Começou depois a mortandade dos bichos e a boiguaçu pegou acomer as carniças. Mas só comia os olhos e nada, nada mais. A água foi baixando, a carniça foi cada vez engrossando, e a cadahoramais olhos a cobra-grande comia.IV Cada bicho guarda no corpo o sumo do que comeu. A tambeira que só come trevo maduro dá no leite o cheiro domilhoverde; o cerdo que come carne de bagual nem alqueires demandioca o limpambem; e o socó tristonho o biguá matreiro aténo sangue têm cheiro de pescado.Assim também, nos homens,que até sem comer nada, dão nos olhos a cor deseus arrancos. Ohomem de olhos limpos guapo e mão-aberta; cuidado comosvermelhos; mais cuidados comos amarelos; e, toma tendênciadoble com osraiados e baços!… Assim foi também, mas doutro jeito, com a boiguaçu, que tantosolhos comeu.V Todos — tantos, tantos! que a cobra-grande comeu —,lavam,entranhado e luzindo, um rastilho da última luz eles viram doúltimo sol,antes da noite grande que caiu... E os olhos — tantos, tantos! — com um pingo de luz cada um,foramsendo devorados; no principio um punhado, ao depois umaporção, depois umbocadão, depois, como uma braçada…VI E vai,como a boiguaçu não tinha pêlos como o boi, nem escamas odourado, nempenas como o avestruz, nem casca como o tatu,nem couro grosso como aanta, vai, o seu corpo foi ficandotransparente, transparente, clareado pelosmiles de luzezinhas, dostantos olhos que foram esmagados dentro dele,deixando cadaqual sua pequena réstia de luz. E vai, afinal, a boiguaçu toda jáera uma luzerna, um clarão sem chamas, já era um fogaréuazulado, de luzamarela e triste e fria, saída dos olhos, que foraguardada neles, quando aindaestavam vivos…VII Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela vez primeiraviram aboiguaçu tão demudada, não a conheceram mais. Nãoconheceram e julgandoque era outra, muito outra, chamam-nadesde então, de boitatá, cobra de fogo,boitatá, a boitatá! E muitas vezes a boitatá rondou as rancherias, faminta, sempreque nemchimarrão. Era então que o téu-téu cantava, comobombeiro.
  3. 3. E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquelegrandecorpo de serpente, transparente — tatá, de fogo — quemedia mais braças quetrês laços de conta e ia alumiandobaçamente as carquejas... E depois,choravam. Choravam,desatinados do perigo, pois as suas lágrimas tambémguardavamtanta ou mais luz que só os olhos e a boitatá ainda cobiçava osolhos vivos dos homens, que já os das carniças a enfartavam...VIII Mas, como dizia:na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boitatá, e erapor ela que otéu-téu cantava de vigia, em todos os flancos danoite. Passado uni tempo, a boitatá morreu; de pura fraqueza morreu,porqueos olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhederam sustância, pois quesustância não tem a luz que os olhos emsi entranhada tiveram quando vivos… Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobreos courospelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamassoltas, sobre asossamentasdesparramadas, o corpo deladesmanchou-se, também como cousada terra, que se estraga devez. E foi então, que a luz que estava presa se desatou por aí. E atépareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!IX Minto:apareceu sim, mas não veio de supetão. Primeiro foi-seadelgaçando onegrume, foram despontando as estrelas; e estas seforam sumindo nocobreado do céu; depois foi sendo mais claro,mais claro, e logo, na lonjura,começou a subir uma lista de luz…depois a metade de uma cambota de fogo…e já foi o sol quesubiu, subiu, subiu, até vir a pino e descambar, como dantes,edesta feita, para igualar o dia e a noite, em metades, para sempre.X Tudo o que morre no mundo se junta à semente de onde nasceu,paranascer de novo: só a luz da boitatá ficou sozinha, nunca maisse juntou com aoutra luz de que saiu. Anda sempre arisca e só, nos lugares onde quanta mais carniçahouve,mais se infesta. E no inverno, de entanguida, não aparece edorme, talvezentocada. Mas de verão, depois da quentura dos mormaços, começa então oseufadário. A boitatá, toda enroscada, como uma bola — tatá, de fogo! —empeça acorrer o campo, coxilha abaixo, lomba acima, até quehoras da noite!... É um fogo amarelo azulado, que não queima a macega secanemaquenta a água dos manantiais; e rola, gira, corre, corcoveia e sedespencae arrebenta-se, apagando... e quando um menos espera,aparece, outra vez, domesmo jeito! Maldito! Tesconjuro!XI Quem encontra a boitatá pode até ficar cego... Quando alguémtopa comela só tem dois meios de se livrar: ou ficar parado,muito quieto, de olhos
  4. 4. fechados apertados e sem respirar, até ir-seela embora, ou, se anda a cavalo,desenrodilhar o laço, fazer umaarmada grande e atirar-lha em cima, e tocar agalope, trazendo olaço de arrasto, todo solto, até a ilhapa! A boitatá vem acompanhando o ferro da argola... mas derepente,batendo numa macega, toda se desmancha, e vai esfarinhando aluz,para emulitar-se de novo, com vagar, na aragem que ajuda.XII Campeiro precatado! reponte o seu gado da querência da boitatá:opastiçal, aí, faz peste... Tenho visto!Fonte:LOPES NETO, J. Simões. Contos gauchescos e lendas do sul. 3 ed. PortoAlegre : Globo, 1965.

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