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CAPA
Na trilha do samba
Diogo Nogueira, jovem cantor e compositor filho do
mestre João Nogueira, mantém a tradição de sua
linhagem e se consolida como uma das grandes
promessas da música brasileira
ão deve ser nada fácil ser filho de um
mestre e ter de ouvir, nas mais diversas ocasiões, variações sobre o tema “filho de
peixe, peixinho é”. Que o diga o jovem Diogo, que tem João Nogueira (1941-2000)
como pai. Logo João, o sambista com mais suingue em todos os lados do Atlântico.
Mas Diogo Nogueira não se afobou, não sofreu com as comparações e fez com
muita calma seu caminho pela música. “Nunca me preocupei com isso porque
sabia que ia acontecer. Queria mostrar meu trabalho e deixar claro que João é João
e Diogo é Diogo”, ressalta. Até porque cantar e compor sambas não estavam entre
suas prioridades. Apaixonado por futebol – seu pai era flamenguista fanático –, o
carioca de 29 anos queria era bater uma bolinha profissionalmente. Sonhava com
a seleção,jogou no São Cristóvão e participou de peneiras nos grandes times do Rio
de Janeiro, mas enquanto jogava no Cruzeiro de Porto Alegre, o destino interveio.
“Acabei me lesionando feio e surgiram os primeiros convites para canjas em
shows, o dinheiro começou a entrar”, conta. Isso aconteceu em 2004 e como Diogo
já se sentia o mais velho da turma viu que o futebol não dava mesmo para ele.Não
foram poucos os que disseram que era um recado do pai, um aviso para não
esquecer que a música corre nas veias da família (o avô, João Batista Nogueira, era
violonista de mão cheia, amigo de Pixinguinha e Jacob do Bandolim; a avó Neuza
cantava nos saraus da família; e a tia, Gisa Nogueira, é compositora e cantora).
Sempre foi assim: sambas e choros o ninavam e, mais velho, já acompanha-
va o pai em shows. A princípio,apenas nos bastidores,e depois em tímidos duetos.
Mas era tudo uma brincadeira, coisa do pai maluco, e só veio tomar ares sérios
após a morte de João e a frustração com o futebol.
N
Texto DAFNE SAMPAIO Fotos CALÉ
00março de 2010
CAPA
00 março de 2010
Aí sim Diogo começou a bater cartão em rodas de samba espalhadas
pelo Rio de Janeiro e a conviver mais intimamente com a ala de composito-
res e com a Velha Guarda da Portela (que também era a escola do coração
de João).Seu primeiro registro aconteceu logo em 2001 no disco-tributo Um
Sonho Através do Espelho (JAM Music), no qual ficou responsável por cantar
nada menos que “Espelho”, um dos hinos do pai e célebre parceria com
Paulo César Pinheiro.
O respeito nas rodas se estendeu ainda mais em 2005, quando parti-
cipou de um show comemorativo dos 40 anos de carreira de Beth Carvalho.
No palco do centenário Theatro Municipal, na capital fluminense, Diogo
emocionou a todos ao cantar “Poder da Criação”, outro clássico do repertó-
rio paterno e também parceria com Paulo César Pinheiro. “Meu pai é uma
grande referência na minha vida e na minha carreira. Aprendi com ele a ser
correto, ter humildade, a estar sempre de bem com a vida. São ensinamen-
tos que procuro pôr em prática em tudo o que faço.”
O microfone é dele
Não tinha mais volta. Foi o chamado do sangue, digamos assim. Entre
sua estreia adolescente ao lado do pai e a gravação do primeiro disco, em
2007, passaram-se cerca de 14 anos, e durante todo esse período Diogo foi se
vendo cada vez mais confortável no palco.“De lá pra cá,fiz muitos shows,por
todo o Brasil.A estrada tem sido fundamental para o meu crescimento como
artista, como cantor”, afirma. Por essas e outras, não foi espanto para nin-
guém quando registrou um show no Teatro João Caetano – onde o pai João
fez misérias na década de 1970,época do lendário Projeto Seis e Meia – e lan-
çou, em parceria com uma grande gravadora, o CD e DVD Ao Vivo (EMI).
Pode acreditar, as muitas faces do sambista Diogo Nogueira já estão
nesse trabalho: o respeito à tradição, o amor pelo pai, suas próprias compo-
sições e a vontade de alargar os limites do gênero (chamou ao palco o rap-
per Marcelo D2, o bamba Xande de Pilares e o violão jovem e sofisticado de
Marcel Powell, filho do mestre Baden Powell). Sem nunca forçar a barra.
“Ouço de tudo um pouco. Gosto, fundamentalmente, de música boa. Mas o
universo do samba e da música brasileira é muito grande e rico;então,sem-
pre que pintarem projetos bacanas em “praias” diferentes da minha, estou
dentro. Tem muita gente boa que curto muito”, diz.
"A estrada tem sido fundamental para o meu crescimento como artista, como cantor”
"Quando componho os meus sambas-enredo, por mais que tenha um mote,
sempre posso tomar outros rumos, tenho total liberdade para criar”
Já 2008 foi o ano de colher frutos da boa receptividade de seu trabalho
de estreia.Foi indicado como Artista Revelação no Grammy Latino e no Prêmio
Multishow de Música Brasileira. Emplacou os primeiros shows internacionais
e participações em projetos como Samba Social Clube e Uma Noite...Noel Rosa,
e nas trilhas das novelas globais Ciranda de Pedra (“Tiro ao Álvaro”do paulista
Adoniran Barbosa) e Três Irmãs (“Marancagalha” do baiano Dorival Caymmi).
Para coroar um ano movimentado, dividiu o palco do Estúdio Coca Cola com a
roqueira Pitty. Ninguém poderia acusá-lo de acomodado ou conservador.
Mais música
Em 2009, junto com os preparativos para o lançamento do segundo
disco (o primeiro de estúdio), Diogo comemorou a escolha, pela quarta vez,
de um samba-enredo de sua autoria para o Carnaval da Portela.“No samba-
enredo, você tem uma sinopse para servir de guia, não dá para fugir muito
do assunto proposto pelo enredo. Quando componho os meus sambas, por
mais que tenha um mote, que parta de uma ideia, sempre posso tomar
outros rumos, outros caminhos, tenho total liberdade para criar”, explica.
Mesmo com esses limites do formato, Diogo tem um prazer todo especial
em cantar para sua escola, feito que o pai nunca realizou.
Então veio junho e o público pôde apreciar seu novo disco. Tô Fazendo
Minha Parte (EMI) já começa como uma carta de intenções desde seu título.
“Tive a oportunidade de fazer tudo com mais calma e o resultado me deixou
muito feliz, pois conseguimos reunir muita gente boa, de diferentes gera-
ções. O disco traz músicas de compositores consagrados como Arlindo Cruz
e Almir Guineto,mas também de jovens talentos como o Ciraninho,Flavinho
Silva, Rodrigo Leite e Ignácio Rios”, conta. Isso sem falar de“Sou Eu”, uma par-
ceria inédita de Chico Buarque e Ivan Lins que chegou especialmente para
Diogo quando o disco já estava indo para a fábrica,e da inspirada regravação
de “Malandro é Malandro, Mané é Mané” (Neguinho da Beija Flor), que aca-
bou entrando na trilha de outra novela da Rede Globo (Caminho das Índias).
Com esse e outros trabalhos – também em 2009 ele estreou como
apresentador no programa de músicas e entrevistas Samba na Gamboa (TV
Brasil) –, Diogo Nogueira, casado e pai do garoto David, afirma que, se
depender dele, o samba estará muito bem, obrigado.“Viajo bastante e vejo
que a juventude está cada vez mais envolvida e curtindo o samba. Isso é
muito bom, porque tem muita coisa para cantar.”
CAPA
00 março de 2010

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  • 1. CAPA Na trilha do samba Diogo Nogueira, jovem cantor e compositor filho do mestre João Nogueira, mantém a tradição de sua linhagem e se consolida como uma das grandes promessas da música brasileira ão deve ser nada fácil ser filho de um mestre e ter de ouvir, nas mais diversas ocasiões, variações sobre o tema “filho de peixe, peixinho é”. Que o diga o jovem Diogo, que tem João Nogueira (1941-2000) como pai. Logo João, o sambista com mais suingue em todos os lados do Atlântico. Mas Diogo Nogueira não se afobou, não sofreu com as comparações e fez com muita calma seu caminho pela música. “Nunca me preocupei com isso porque sabia que ia acontecer. Queria mostrar meu trabalho e deixar claro que João é João e Diogo é Diogo”, ressalta. Até porque cantar e compor sambas não estavam entre suas prioridades. Apaixonado por futebol – seu pai era flamenguista fanático –, o carioca de 29 anos queria era bater uma bolinha profissionalmente. Sonhava com a seleção,jogou no São Cristóvão e participou de peneiras nos grandes times do Rio de Janeiro, mas enquanto jogava no Cruzeiro de Porto Alegre, o destino interveio. “Acabei me lesionando feio e surgiram os primeiros convites para canjas em shows, o dinheiro começou a entrar”, conta. Isso aconteceu em 2004 e como Diogo já se sentia o mais velho da turma viu que o futebol não dava mesmo para ele.Não foram poucos os que disseram que era um recado do pai, um aviso para não esquecer que a música corre nas veias da família (o avô, João Batista Nogueira, era violonista de mão cheia, amigo de Pixinguinha e Jacob do Bandolim; a avó Neuza cantava nos saraus da família; e a tia, Gisa Nogueira, é compositora e cantora). Sempre foi assim: sambas e choros o ninavam e, mais velho, já acompanha- va o pai em shows. A princípio,apenas nos bastidores,e depois em tímidos duetos. Mas era tudo uma brincadeira, coisa do pai maluco, e só veio tomar ares sérios após a morte de João e a frustração com o futebol. N Texto DAFNE SAMPAIO Fotos CALÉ
  • 2. 00março de 2010 CAPA 00 março de 2010 Aí sim Diogo começou a bater cartão em rodas de samba espalhadas pelo Rio de Janeiro e a conviver mais intimamente com a ala de composito- res e com a Velha Guarda da Portela (que também era a escola do coração de João).Seu primeiro registro aconteceu logo em 2001 no disco-tributo Um Sonho Através do Espelho (JAM Music), no qual ficou responsável por cantar nada menos que “Espelho”, um dos hinos do pai e célebre parceria com Paulo César Pinheiro. O respeito nas rodas se estendeu ainda mais em 2005, quando parti- cipou de um show comemorativo dos 40 anos de carreira de Beth Carvalho. No palco do centenário Theatro Municipal, na capital fluminense, Diogo emocionou a todos ao cantar “Poder da Criação”, outro clássico do repertó- rio paterno e também parceria com Paulo César Pinheiro. “Meu pai é uma grande referência na minha vida e na minha carreira. Aprendi com ele a ser correto, ter humildade, a estar sempre de bem com a vida. São ensinamen- tos que procuro pôr em prática em tudo o que faço.” O microfone é dele Não tinha mais volta. Foi o chamado do sangue, digamos assim. Entre sua estreia adolescente ao lado do pai e a gravação do primeiro disco, em 2007, passaram-se cerca de 14 anos, e durante todo esse período Diogo foi se vendo cada vez mais confortável no palco.“De lá pra cá,fiz muitos shows,por todo o Brasil.A estrada tem sido fundamental para o meu crescimento como artista, como cantor”, afirma. Por essas e outras, não foi espanto para nin- guém quando registrou um show no Teatro João Caetano – onde o pai João fez misérias na década de 1970,época do lendário Projeto Seis e Meia – e lan- çou, em parceria com uma grande gravadora, o CD e DVD Ao Vivo (EMI). Pode acreditar, as muitas faces do sambista Diogo Nogueira já estão nesse trabalho: o respeito à tradição, o amor pelo pai, suas próprias compo- sições e a vontade de alargar os limites do gênero (chamou ao palco o rap- per Marcelo D2, o bamba Xande de Pilares e o violão jovem e sofisticado de Marcel Powell, filho do mestre Baden Powell). Sem nunca forçar a barra. “Ouço de tudo um pouco. Gosto, fundamentalmente, de música boa. Mas o universo do samba e da música brasileira é muito grande e rico;então,sem- pre que pintarem projetos bacanas em “praias” diferentes da minha, estou dentro. Tem muita gente boa que curto muito”, diz. "A estrada tem sido fundamental para o meu crescimento como artista, como cantor”
  • 3. "Quando componho os meus sambas-enredo, por mais que tenha um mote, sempre posso tomar outros rumos, tenho total liberdade para criar” Já 2008 foi o ano de colher frutos da boa receptividade de seu trabalho de estreia.Foi indicado como Artista Revelação no Grammy Latino e no Prêmio Multishow de Música Brasileira. Emplacou os primeiros shows internacionais e participações em projetos como Samba Social Clube e Uma Noite...Noel Rosa, e nas trilhas das novelas globais Ciranda de Pedra (“Tiro ao Álvaro”do paulista Adoniran Barbosa) e Três Irmãs (“Marancagalha” do baiano Dorival Caymmi). Para coroar um ano movimentado, dividiu o palco do Estúdio Coca Cola com a roqueira Pitty. Ninguém poderia acusá-lo de acomodado ou conservador. Mais música Em 2009, junto com os preparativos para o lançamento do segundo disco (o primeiro de estúdio), Diogo comemorou a escolha, pela quarta vez, de um samba-enredo de sua autoria para o Carnaval da Portela.“No samba- enredo, você tem uma sinopse para servir de guia, não dá para fugir muito do assunto proposto pelo enredo. Quando componho os meus sambas, por mais que tenha um mote, que parta de uma ideia, sempre posso tomar outros rumos, outros caminhos, tenho total liberdade para criar”, explica. Mesmo com esses limites do formato, Diogo tem um prazer todo especial em cantar para sua escola, feito que o pai nunca realizou. Então veio junho e o público pôde apreciar seu novo disco. Tô Fazendo Minha Parte (EMI) já começa como uma carta de intenções desde seu título. “Tive a oportunidade de fazer tudo com mais calma e o resultado me deixou muito feliz, pois conseguimos reunir muita gente boa, de diferentes gera- ções. O disco traz músicas de compositores consagrados como Arlindo Cruz e Almir Guineto,mas também de jovens talentos como o Ciraninho,Flavinho Silva, Rodrigo Leite e Ignácio Rios”, conta. Isso sem falar de“Sou Eu”, uma par- ceria inédita de Chico Buarque e Ivan Lins que chegou especialmente para Diogo quando o disco já estava indo para a fábrica,e da inspirada regravação de “Malandro é Malandro, Mané é Mané” (Neguinho da Beija Flor), que aca- bou entrando na trilha de outra novela da Rede Globo (Caminho das Índias). Com esse e outros trabalhos – também em 2009 ele estreou como apresentador no programa de músicas e entrevistas Samba na Gamboa (TV Brasil) –, Diogo Nogueira, casado e pai do garoto David, afirma que, se depender dele, o samba estará muito bem, obrigado.“Viajo bastante e vejo que a juventude está cada vez mais envolvida e curtindo o samba. Isso é muito bom, porque tem muita coisa para cantar.” CAPA 00 março de 2010