CAPA



                   O pulso
                 ainda pulsa
            Para comemorar 30 anos de estrada,
            os quatro cavaleiros do Titãs lançam
                uma versão luxuosa do clássico
        Cabeça Dinossauro, fazem um balanço de
         seu passado e se preparam para o futuro

                   Texto DAFNE SAMPAIO Fotos KIKO FERRITE




                                     N          o começo, eram nove. Fica-
         ram famosos como oito. Mas agora, 30 anos após seu nasci-
         mento, os Titãs são quatro. Não é pouca coisa no eternamente
         jovem mundo do rock, principalmente se for levado em conta
         que o grupo segue produzindo material novo e lotando shows.
         Por essas e outras, os titânicos Paulo Miklos, Sérgio Britto, Bran-
         co Mello e Tony Bellotto estão comemorando a data redonda
         em grande estilo com a reedição, e consequentes apresenta-
         ções, de Cabeça Dinossauro (1986), o terceiro e mais célebre de
         todos os trabalhos dos paulistanos.
              “Começamos a turnê do Cabeça Dinossauro no primeiro
         semestre deste ano e, no segundo, faremos seis shows com os
         ex-Titãs Arnaldo Antunes e Charles Gavin. O Nando Reis não
         tem disponibilidade de datas. Para 2013, estamos preparando
         um disco de inéditas, rápido e pesado, mas com uma certa bra-
         silidade. Um cruzamento entre Cabeça e Õ Blésq Blom. Vamos
         ver no que vai dar”, explica Britto.
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00 julho de 2012                                                               julho de 2012   00
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                        Passado, presente e futuro vivem se encontrando na trajetória do gru-
                   po, mas a oportunidade de reviver e compartilhar a glória criativa e cheia de
                   energia do então octeto tem sido uma fonte de surpresas. É que agora os no-
                   vos e velhos fãs podem ouvir o disco original remasterizado e, pela primeira
                   vez, a demo tape com as versões cruas de clássicos como “Família”, “Homem
                   Primata”, “Igreja” e “Polícia”, além da inédita “Vai pra Rua” (“Porrada” entrou
                   em seu lugar no disco). “Nessa demo, que gravamos em dois dias, o que cha-
                   mou atenção foi a sonoridade crua, com arranjos diretos e contundentes
                   que já havíamos concebido antes da gravação e que foram potencializados
                   na produção do disco [a cargo de Liminha]”, relembra Mello.
                        “No ano em que lançamos o Cabeça, os Paralamas lançaram Selvagem?
                   e o Legião Urbana, o Dois. São três discos antológicos, cheios de qualidades,
                   mas completamente diferentes entre si. O Cabeça é a ponta mais ácida e
                   virulenta dessa tríade e talvez por isso mesmo seja um fenômeno mais raro
                   ainda no panorama geral da música popular brasileira. Acho que um disco
                   assim, barulhento, com palavrões, cheio de atitude e contestação ainda é
                   coisa muito rara no mainstream”, diz Britto.
                        E todo esse barulho, toda a crítica social das 13 faixas do disco, caiu
                   como uma luva naquele momento de redemocratização brasileira. Para
                   se ter uma ideia, nem as multas pela veiculação dos palavrões de “Bichos
                   Escrotos” impediram as rádios de tocar (muito) a música, e o disco acabou
                   vendendo mais de 250 mil cópias. “Tenho a lembrança de que éramos muito
                   jovens, fazendo a nossa música, descobrindo o Brasil e já com a certeza de
                   que era isso que queríamos para nossas vidas. Deu para perceber o quanto
                   estávamos sintonizados e afiados para realizar esse disco”, diz Mello.
                        Cabeça Dinossauro é o primeiro disco titânico a sair nesse formato luxu-
                   oso. Outros álbuns que o grupo lançou pela Warner terão o mesmo destino,
                   sendo que os mais esperados são Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas
                   (1987) e Õ Blésq Blom (1989). “Temos muito material extra. Fitas demo ou ca-
                   seiras, feitas antes de cada disco com o material ainda recém-arranjado, em
                   estado bruto, e muita coisa gravada em ensaios. Pretendemos escolher com
                   cuidado entre estes arquivos o que pode ser lançado em futuras edições espe-
                   ciais”, diz Miklos, preocupado com a qualidade e a relevância do material a ser
                   lançado, mas acima de tudo, animado.
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                                                                                               manescentes acabam revivendo as saídas de Arnaldo Antunes (1992), Nan-
                                                                                               do Reis (2002) e Charles Gavin (2010), além da morte de Marcelo Fromer
                                                                                               (2001). Com a palavra, o guitarrista Tony Bellotto: “A saída de um ou mais
                                                                                               integrantes muda muita coisa em uma banda. Quando algumas pessoas
                                                                                               decidem formar um grupo e tocar é porque elas têm química. Não é à toa
                                                                                               que a maioria das bandas acaba ou se desconfigura quando alguém decide
                                                                                               sair. No caso dos Titãs, cada saída foi triste, mas a morte do Marcelo foi, sem
                                                            Foto: Divulgação


                                                                                               dúvida, o momento mais doloroso que enfrentamos. É sempre difícil superar
                                                                                               perdas, ainda mais neste caso.”
                                                                                                    E eles superaram, seguiram em frente, porque o show não pode parar
                                                                                               e ainda tem muita química para rolar. “Somos  um grupo sui generis, com
                                                                                               compositores e cantores. Essa característica nos favorece musicalmente.
                                                                                               Sempre soubemos ocupar o vazio deixado, nunca ficou um buraco na ques-
                                                                                               tão da sonoridade. Mas é claro que as amizades sempre fazem muita falta”,
                                                                                               completa Bellotto.
                                                            Foto: Charles Gavin/ Divulgação




                                                                                                    Um bando de garotos
                                                                                                    O fato de todos os integrantes conseguirem tocar seus projetos pes-
                                                                                               soais ajudou a manter acesa a chama dos encontros titânicos: Bellotto se
                                                                                               mostrou um hábil escritor de livros policiais; Miklos ganhou fama como ator
No alto, foto tirada no camarim do grupo, em 1988. Acima, Branco                               (O Invasor, É Proibido Fumar e até uma novela, Bang Bang); Mello assinou
Mello e sua câmera, em 1987, no mar de Genipabu, no Rio Grande                                 projetos infantis como Eu e Meu Guarda-Chuva; e Britto encampou novas
do Norte. Abaixo, em 2011, a formação mais recente do grupo
                                                                                               sonoridades em seus discos solo no decorrer dos anos 2000.
                                                            Foto: Marcelo Tinoco/ Divulgação




                                                                                                    Envelhecer dentro do rock também não é um problema para nenhum dos
                                                                                               quatro, que já estão na altura de seus 50 e poucos anos. “O que muda com o
                                                                                               passar do tempo são outros aspectos da vida, o lado pessoal e as atitudes. Claro
                                                                                               que fazer rock estará sempre ligado a uma ideia de juventude, mas quando es-
                                                                                               tamos juntos parece que somos ainda aquele bando de garotos que se reuniu
                                                                                               pela primeira vez para tocar. O espírito continua o mesmo”, reflete Bellotto.
                                                                                                    Miklos concorda com o amigo dos tempos de colégio, mas vai mais fundo
                                                                                               na diversão e se define como um Titã revigorado, positivo e operante. “Atingi-
                                                                                               mos outro patamar depois de mais uma mutação na formação da banda. Esta-
                                                                                               mos nos divertindo como nunca, e isso está muito evidente para o público. Esta
                                                                                               excursão comemorativa do Cabeça Dinossauro está nos trazendo muitas ale-
                                                                                                                                                                                  “Estamos nos divertindo como nunca, e isso está muito evidente para o público”, diz Miklos
                                                                                               grias. Casas cheias e o encontro carinhoso com os fãs. É muito bom comemorar
                                                                                               com rock’n’roll e encontrar as pessoas em meio a toda essa energia”, resume
                                                                                               Miklos, de corpo presente e com os olhos apontados para o futuro.


                                                                                                                                                                                                                                                                julho de 2012   00

Matéria de Capa Titãs

  • 1.
    CAPA O pulso ainda pulsa Para comemorar 30 anos de estrada, os quatro cavaleiros do Titãs lançam uma versão luxuosa do clássico Cabeça Dinossauro, fazem um balanço de seu passado e se preparam para o futuro Texto DAFNE SAMPAIO Fotos KIKO FERRITE N o começo, eram nove. Fica- ram famosos como oito. Mas agora, 30 anos após seu nasci- mento, os Titãs são quatro. Não é pouca coisa no eternamente jovem mundo do rock, principalmente se for levado em conta que o grupo segue produzindo material novo e lotando shows. Por essas e outras, os titânicos Paulo Miklos, Sérgio Britto, Bran- co Mello e Tony Bellotto estão comemorando a data redonda em grande estilo com a reedição, e consequentes apresenta- ções, de Cabeça Dinossauro (1986), o terceiro e mais célebre de todos os trabalhos dos paulistanos. “Começamos a turnê do Cabeça Dinossauro no primeiro semestre deste ano e, no segundo, faremos seis shows com os ex-Titãs Arnaldo Antunes e Charles Gavin. O Nando Reis não tem disponibilidade de datas. Para 2013, estamos preparando um disco de inéditas, rápido e pesado, mas com uma certa bra- silidade. Um cruzamento entre Cabeça e Õ Blésq Blom. Vamos ver no que vai dar”, explica Britto. s 00 julho de 2012 julho de 2012 00
  • 2.
    CAPA Passado, presente e futuro vivem se encontrando na trajetória do gru- po, mas a oportunidade de reviver e compartilhar a glória criativa e cheia de energia do então octeto tem sido uma fonte de surpresas. É que agora os no- vos e velhos fãs podem ouvir o disco original remasterizado e, pela primeira vez, a demo tape com as versões cruas de clássicos como “Família”, “Homem Primata”, “Igreja” e “Polícia”, além da inédita “Vai pra Rua” (“Porrada” entrou em seu lugar no disco). “Nessa demo, que gravamos em dois dias, o que cha- mou atenção foi a sonoridade crua, com arranjos diretos e contundentes que já havíamos concebido antes da gravação e que foram potencializados na produção do disco [a cargo de Liminha]”, relembra Mello. “No ano em que lançamos o Cabeça, os Paralamas lançaram Selvagem? e o Legião Urbana, o Dois. São três discos antológicos, cheios de qualidades, mas completamente diferentes entre si. O Cabeça é a ponta mais ácida e virulenta dessa tríade e talvez por isso mesmo seja um fenômeno mais raro ainda no panorama geral da música popular brasileira. Acho que um disco assim, barulhento, com palavrões, cheio de atitude e contestação ainda é coisa muito rara no mainstream”, diz Britto. E todo esse barulho, toda a crítica social das 13 faixas do disco, caiu como uma luva naquele momento de redemocratização brasileira. Para se ter uma ideia, nem as multas pela veiculação dos palavrões de “Bichos Escrotos” impediram as rádios de tocar (muito) a música, e o disco acabou vendendo mais de 250 mil cópias. “Tenho a lembrança de que éramos muito jovens, fazendo a nossa música, descobrindo o Brasil e já com a certeza de que era isso que queríamos para nossas vidas. Deu para perceber o quanto estávamos sintonizados e afiados para realizar esse disco”, diz Mello. Cabeça Dinossauro é o primeiro disco titânico a sair nesse formato luxu- oso. Outros álbuns que o grupo lançou pela Warner terão o mesmo destino, sendo que os mais esperados são Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987) e Õ Blésq Blom (1989). “Temos muito material extra. Fitas demo ou ca- seiras, feitas antes de cada disco com o material ainda recém-arranjado, em estado bruto, e muita coisa gravada em ensaios. Pretendemos escolher com cuidado entre estes arquivos o que pode ser lançado em futuras edições espe- ciais”, diz Miklos, preocupado com a qualidade e a relevância do material a ser lançado, mas acima de tudo, animado. s 00 julho de 2012
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    CAPA Por outro lado, essas olhadelas no passado protagonizadas pelos re- manescentes acabam revivendo as saídas de Arnaldo Antunes (1992), Nan- do Reis (2002) e Charles Gavin (2010), além da morte de Marcelo Fromer (2001). Com a palavra, o guitarrista Tony Bellotto: “A saída de um ou mais integrantes muda muita coisa em uma banda. Quando algumas pessoas decidem formar um grupo e tocar é porque elas têm química. Não é à toa que a maioria das bandas acaba ou se desconfigura quando alguém decide sair. No caso dos Titãs, cada saída foi triste, mas a morte do Marcelo foi, sem Foto: Divulgação dúvida, o momento mais doloroso que enfrentamos. É sempre difícil superar perdas, ainda mais neste caso.” E eles superaram, seguiram em frente, porque o show não pode parar e ainda tem muita química para rolar. “Somos  um grupo sui generis, com compositores e cantores. Essa característica nos favorece musicalmente. Sempre soubemos ocupar o vazio deixado, nunca ficou um buraco na ques- tão da sonoridade. Mas é claro que as amizades sempre fazem muita falta”, completa Bellotto. Foto: Charles Gavin/ Divulgação Um bando de garotos O fato de todos os integrantes conseguirem tocar seus projetos pes- soais ajudou a manter acesa a chama dos encontros titânicos: Bellotto se mostrou um hábil escritor de livros policiais; Miklos ganhou fama como ator No alto, foto tirada no camarim do grupo, em 1988. Acima, Branco (O Invasor, É Proibido Fumar e até uma novela, Bang Bang); Mello assinou Mello e sua câmera, em 1987, no mar de Genipabu, no Rio Grande projetos infantis como Eu e Meu Guarda-Chuva; e Britto encampou novas do Norte. Abaixo, em 2011, a formação mais recente do grupo sonoridades em seus discos solo no decorrer dos anos 2000. Foto: Marcelo Tinoco/ Divulgação Envelhecer dentro do rock também não é um problema para nenhum dos quatro, que já estão na altura de seus 50 e poucos anos. “O que muda com o passar do tempo são outros aspectos da vida, o lado pessoal e as atitudes. Claro que fazer rock estará sempre ligado a uma ideia de juventude, mas quando es- tamos juntos parece que somos ainda aquele bando de garotos que se reuniu pela primeira vez para tocar. O espírito continua o mesmo”, reflete Bellotto. Miklos concorda com o amigo dos tempos de colégio, mas vai mais fundo na diversão e se define como um Titã revigorado, positivo e operante. “Atingi- mos outro patamar depois de mais uma mutação na formação da banda. Esta- mos nos divertindo como nunca, e isso está muito evidente para o público. Esta excursão comemorativa do Cabeça Dinossauro está nos trazendo muitas ale- “Estamos nos divertindo como nunca, e isso está muito evidente para o público”, diz Miklos grias. Casas cheias e o encontro carinhoso com os fãs. É muito bom comemorar com rock’n’roll e encontrar as pessoas em meio a toda essa energia”, resume Miklos, de corpo presente e com os olhos apontados para o futuro. julho de 2012 00