ARTE




    Equivalências fotográficas
    Maureen Bisilliat lança livro que faz o diálogo
    entre imagens de sua produção de 50 anos de
    carreira e obras de grandes autores brasileiros

    Texto MARCELLE SOUZA




                                                                                                                                                                                                                                        Acima, “Menino-anjo”,
                                                                                                                                                                                                                                             fotografia da série
                                                                                                                                                                                                                                            Pele Preta, de 1963.
                                                                                                                                                                                                                                         À esquerda, fotos que
                                                                                                                                                                                                                                               fazem parte dos


                                                                                                                                                                           O       sotaque estrangeiro e os traços europeus es-
                                                                                                                            condem, em um primeiro momento, a proximidade com a cultura brasileira. Mas foi com um olhar
                                                                                                                                                                                                                                        ensaios Cortejo Luminoso
                                                                                                                                                                                                                                            e Sertões Luz e Trevas



                                                                                                                            estrangeiro, atento e curioso, que a fotógrafa Maureen Bisilliat conseguiu retratar de forma peculiar
                                                      Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação




                                                                                                                            a diversidade não só do Brasil, mas também do Japão, da China e da Bolívia, entre outros países que
                                                                                                                            visitou. Em 50 anos de carreira, ela construiu uma obra com cerca de 16 mil imagens, hoje sob os cui-
                                                                                                                            dados do Instituto Moreira Salles (IMS). No livro Fotografias: Maureen Bisilliat (IMS, 304 págs.), lança-
                                                                                                                            do recentemente, 200 fotos desse acervo foram reunidas. A publicação é um passeio pelo sertão bra-
                                                                                                                            sileiro, pela cultura indígena, pela beleza negra e por um Japão incomum, entre outros registros.
                                                                                                                                 Maureen nasceu em 1931 na Inglaterra e sempre se interessou por arte. Estudou pintura com
                                                                                                                            o renomado André Lhote, em Paris, e no Art Students League, em Nova York. Mas foi no Brasil, onde
                                                                                                                            chegou em 1952, que tomou gosto pela fotografia. Filha de uma pintora inglesa e de um diploma-
                                                                                                                            ta argentino, Maureen fez seus primeiros registros fotográficos em São Paulo, retratando a vida de
                                                                                                                            imigrantes japoneses que trabalhavam em plantações de algodão.


00 julho de 2010                                                                                                                                                                                                                         julho de 2010               00
ARTE



                                                                                                                                                                                                          A transição das artes plásticas para a fotografia, segundo ela, foi um
                                                                                                                                                                                                     passo natural, incentivado pelo primeiro marido, o também fotógrafo José
                                                                                                                                                                                                     Antônio Carbonell. “Chegou um momento em que eu me questionava so-
                                                                                                                                                                                                     bre o que pintaria. Eu achava que a pintura tinha uma cabeça muito seden-
                                                                                                                                                                                                     tária. Já a fotografia me permitia outra postura frente às realidades que eu
                                                                                                                                                                                                     encontrava”, explica.
                                                                                                                                                                                                          Descoberta a afinidade com a câmera, Maureen começou a publicar
                                                                                                                                                                                                     suas séries em livros, sempre inspirados em obras de grandes escritores
                                                                                                                                                                                                     brasileiros. Entre esses trabalhos estão A João Guimarães Rosa, de 1966;
                                                                                                                                                                                                     Sertões – Luz e Trevas, de 1983, baseado no clássico de Euclides da Cunha;
                                                                                                                                                                                                     O Cão sem Plumas, de 1984, referenciado no poema de mesmo título de
                                                                                                                                                                                                     João Cabral de Melo Neto; e Bahia Amada Amado, de 1996, com seleção
                                                                                                                                                                                                     de textos de Jorge Amado.


                                                                                                                                                                                                          Imagens escritas
                                                                                                                                                                                                          O livro Fotografias: Maureen Bisilliat foi dividido em 12 capítulos, que a
             A obra de Maureen Bisiallit é formada por cerca de 16 mil fotografias                                                                                                                   autora prefere chamar de equivalências fotográficas. Cada ensaio reúne uma
                         produzidas ao longo de 50 anos de carreira                                                                                                                                  série de registros que dialoga com a obra de autores escolhidos pela fotó-
                                                                                                                                                                                                     grafa. “Eu acredito muito em uma frase que diz ‘escrever com a imagem e
                                                                                                                                                                                                     ver com as palavras’. Para mim, a foto sozinha fica incompleta, ela precisa
                                                                                                                                                                                                     fazer parte de uma sequência e de um diálogo com o texto”, diz Maureen.
                                                                                                                                                                                                          Na série O Cortejo Luminoso, por exemplo, as fotos sobre manifes-
                                                                                                                                                                                                     tações populares, guerreiros e maracatus “conversam” com citações de
                                                                                                                                                                                                     Ariano Suassuna. Pele Preta, de 1963, sua primeira série, apresenta uma
                                                                                                                                                                                                     Maureen ainda em transição entre a pintura e a fotografia. As fotos em
                                                                                                                                                                                                     preto e branco mostram um olhar atento à anatomia, à movimentação



                                                                                                                               Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação
                                                                                                                                                                                                     do corpo e à iluminação. São retratos de homens, mulheres e crianças




                                                                                                                                                                                                                                                                                       Foto: Juan Esteves/Divulgação
                                                                                                                                                                                                     que parecem se unir com perfeição às palavras de Mário de Andrade, Luís
                                                                                                                                                                                                     Câmara Cascudo e Jorge Amado.
                                                                                                                                                                                                          Já o capítulo “Sertões Luz e Trevas”, inspirado por trechos de obras de
                                                                                                                                                                                                     Euclides da Cunha, traz o registro de vaqueiros. “Essa série mostra um dos
                                                                                                                                                                                                     momentos de privilégio que a foto proporciona de vez em quando. São sete
                                                                                                                                                                                                     homens que estavam descansando de uma vaquejada no Ceará. Essas são               Nesta página, foto tirada
                                                                                                                                                                                                     fotografias totalmente autênticas, porque eles estavam juntos em um               no sertão de Minas
                                                         No alto, foto da série As Caranguejeiras, inspirada na obra de João                                                                                                                                                           Gerais, inspirada em João
                                                          Cabral de Melo Neto. Acima, imagens dos capítulos Boi-bumbá                                                                                lugar só. Nem sempre contamos com essa sorte”, comenta a fotógrafa, que
                                                                                                                                                                                                                                                                                       Guimarães Rosa, e retra-
                                                           (esquerda) e China de 1982, do novo livro de Maureen Bisilliat                                                                            também fez a edição do livro.                                                     to de Maureen Bisilliat


00 julho de 2010                                                                                                                                                                                                                                                                                                       julho de 2010   00
ARTE




Abaixo, sequência de imagens do ensaio Xingu/Terra,
produzidas no Parque Indígena do Xingu. Na página
ao lado, registros das viagens de Maureen ao exterior:
Japão, em 1987, e Bolívia, na década de 1970


                                                              A maior parte dos trabalhos que estão na publicação são das décadas
                                                         de 1960 e 1970, resultado de viagens realizadas quando ela trabalhava
                                                         como fotojornalista nas revistas Quatro Rodas e Realidade, mas também
                                                         são fruto de bolsas e convites que recebeu dos países visitados. Entre as
                                                         séries feitas no exterior, três ganharam capítulos especiais no novo livro de
                                                         Maureen: “Kollasuyo: Altiplano Boliviano”, “China de 1982” e “Instantâneos
                                                         de um Japão Incomum”.
                                                              O livro ainda traz uma biografia da fotógrafa escrita pela jornalista
                                                         Marta Góes, artigos e críticas, além de uma bibliografia e de uma compila-
                                                         ção dos comentários da própria Maureen sobre seus ensaios. Sobre o pro-                                                                                 Cada ensaio do livro Fotografias: Maureen Bisilliat foi inspirado
                                                         cesso de edição, ela diz que foi uma oportunidade de voltar a seu próprio
                                                                                                                                                                                                                          na obra de um autor da literatura brasileira
                                                         passado e ao Brasil que ela conheceu há 40 anos. “Eu edito melhor do que
                                                         fotografo, porque o que eu gosto mesmo de fazer é sequenciar imagens e
                                                         textos”, diz. Segundo Maureen, retomar o contato com produções impor-
                                                         tantes, como “Pele Preta” e “As Caranguejeiras”, possibilitou ver seu trabalho
                                                         com outros olhos e redescobrir fotos das quais ela nem se lembrava.


                                                              Pelo mundo
                                                              Na exposição, também realizada em parceria com o IMS e que passou
                                                         pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, o curador Sergio Burgi dedicou um espa-
                                                         ço especial ao ensaio Xingu/Terra. Além das fotos do livro, ele reuniu ainda
                                                                                                                                           Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação


                                                         objetos que representam a cultura indígena e a projeção do documentário
                                                         feito na década de 1980 por Maureen e Lúcio Kodato, rodado na aldeia
                                                         mehinaku, no Alto do Xingu.
                                                              Há ainda um espaço dedicado ao processo gráfico e de concepção
                                                         intelectual de Maureen, reunindo suas publicações e também grande parte
                                                         do material que serviu de base para sua criação: a correspondência com
                                                         Jorge Amado, conversas com Guimarães Rosa, recortes de jornais, provas de
                                                         gráficas e fotografias. Até 2011, a mostra deve passar por Brasília e Curitiba;
                                                         há ainda negociações para que a exposição também vá para outros países,
                                                         como o México e a Bélgica.


                                                                                                                                                                                                                                                                                     julho de 2010   00

Voe25 fotografia

  • 1.
    ARTE Equivalências fotográficas Maureen Bisilliat lança livro que faz o diálogo entre imagens de sua produção de 50 anos de carreira e obras de grandes autores brasileiros Texto MARCELLE SOUZA Acima, “Menino-anjo”, fotografia da série Pele Preta, de 1963. À esquerda, fotos que fazem parte dos O sotaque estrangeiro e os traços europeus es- condem, em um primeiro momento, a proximidade com a cultura brasileira. Mas foi com um olhar ensaios Cortejo Luminoso e Sertões Luz e Trevas estrangeiro, atento e curioso, que a fotógrafa Maureen Bisilliat conseguiu retratar de forma peculiar Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação a diversidade não só do Brasil, mas também do Japão, da China e da Bolívia, entre outros países que visitou. Em 50 anos de carreira, ela construiu uma obra com cerca de 16 mil imagens, hoje sob os cui- dados do Instituto Moreira Salles (IMS). No livro Fotografias: Maureen Bisilliat (IMS, 304 págs.), lança- do recentemente, 200 fotos desse acervo foram reunidas. A publicação é um passeio pelo sertão bra- sileiro, pela cultura indígena, pela beleza negra e por um Japão incomum, entre outros registros. Maureen nasceu em 1931 na Inglaterra e sempre se interessou por arte. Estudou pintura com o renomado André Lhote, em Paris, e no Art Students League, em Nova York. Mas foi no Brasil, onde chegou em 1952, que tomou gosto pela fotografia. Filha de uma pintora inglesa e de um diploma- ta argentino, Maureen fez seus primeiros registros fotográficos em São Paulo, retratando a vida de imigrantes japoneses que trabalhavam em plantações de algodão. 00 julho de 2010 julho de 2010 00
  • 2.
    ARTE A transição das artes plásticas para a fotografia, segundo ela, foi um passo natural, incentivado pelo primeiro marido, o também fotógrafo José Antônio Carbonell. “Chegou um momento em que eu me questionava so- bre o que pintaria. Eu achava que a pintura tinha uma cabeça muito seden- tária. Já a fotografia me permitia outra postura frente às realidades que eu encontrava”, explica. Descoberta a afinidade com a câmera, Maureen começou a publicar suas séries em livros, sempre inspirados em obras de grandes escritores brasileiros. Entre esses trabalhos estão A João Guimarães Rosa, de 1966; Sertões – Luz e Trevas, de 1983, baseado no clássico de Euclides da Cunha; O Cão sem Plumas, de 1984, referenciado no poema de mesmo título de João Cabral de Melo Neto; e Bahia Amada Amado, de 1996, com seleção de textos de Jorge Amado. Imagens escritas O livro Fotografias: Maureen Bisilliat foi dividido em 12 capítulos, que a A obra de Maureen Bisiallit é formada por cerca de 16 mil fotografias autora prefere chamar de equivalências fotográficas. Cada ensaio reúne uma produzidas ao longo de 50 anos de carreira série de registros que dialoga com a obra de autores escolhidos pela fotó- grafa. “Eu acredito muito em uma frase que diz ‘escrever com a imagem e ver com as palavras’. Para mim, a foto sozinha fica incompleta, ela precisa fazer parte de uma sequência e de um diálogo com o texto”, diz Maureen. Na série O Cortejo Luminoso, por exemplo, as fotos sobre manifes- tações populares, guerreiros e maracatus “conversam” com citações de Ariano Suassuna. Pele Preta, de 1963, sua primeira série, apresenta uma Maureen ainda em transição entre a pintura e a fotografia. As fotos em preto e branco mostram um olhar atento à anatomia, à movimentação Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação do corpo e à iluminação. São retratos de homens, mulheres e crianças Foto: Juan Esteves/Divulgação que parecem se unir com perfeição às palavras de Mário de Andrade, Luís Câmara Cascudo e Jorge Amado. Já o capítulo “Sertões Luz e Trevas”, inspirado por trechos de obras de Euclides da Cunha, traz o registro de vaqueiros. “Essa série mostra um dos momentos de privilégio que a foto proporciona de vez em quando. São sete homens que estavam descansando de uma vaquejada no Ceará. Essas são Nesta página, foto tirada fotografias totalmente autênticas, porque eles estavam juntos em um no sertão de Minas No alto, foto da série As Caranguejeiras, inspirada na obra de João Gerais, inspirada em João Cabral de Melo Neto. Acima, imagens dos capítulos Boi-bumbá lugar só. Nem sempre contamos com essa sorte”, comenta a fotógrafa, que Guimarães Rosa, e retra- (esquerda) e China de 1982, do novo livro de Maureen Bisilliat também fez a edição do livro. to de Maureen Bisilliat 00 julho de 2010 julho de 2010 00
  • 3.
    ARTE Abaixo, sequência deimagens do ensaio Xingu/Terra, produzidas no Parque Indígena do Xingu. Na página ao lado, registros das viagens de Maureen ao exterior: Japão, em 1987, e Bolívia, na década de 1970 A maior parte dos trabalhos que estão na publicação são das décadas de 1960 e 1970, resultado de viagens realizadas quando ela trabalhava como fotojornalista nas revistas Quatro Rodas e Realidade, mas também são fruto de bolsas e convites que recebeu dos países visitados. Entre as séries feitas no exterior, três ganharam capítulos especiais no novo livro de Maureen: “Kollasuyo: Altiplano Boliviano”, “China de 1982” e “Instantâneos de um Japão Incomum”. O livro ainda traz uma biografia da fotógrafa escrita pela jornalista Marta Góes, artigos e críticas, além de uma bibliografia e de uma compila- ção dos comentários da própria Maureen sobre seus ensaios. Sobre o pro- Cada ensaio do livro Fotografias: Maureen Bisilliat foi inspirado cesso de edição, ela diz que foi uma oportunidade de voltar a seu próprio na obra de um autor da literatura brasileira passado e ao Brasil que ela conheceu há 40 anos. “Eu edito melhor do que fotografo, porque o que eu gosto mesmo de fazer é sequenciar imagens e textos”, diz. Segundo Maureen, retomar o contato com produções impor- tantes, como “Pele Preta” e “As Caranguejeiras”, possibilitou ver seu trabalho com outros olhos e redescobrir fotos das quais ela nem se lembrava. Pelo mundo Na exposição, também realizada em parceria com o IMS e que passou pelo Rio de Janeiro e por São Paulo, o curador Sergio Burgi dedicou um espa- ço especial ao ensaio Xingu/Terra. Além das fotos do livro, ele reuniu ainda Fotos: Maureen Bisilliat/Acervo Instituto Moreira Salles/Divulgação objetos que representam a cultura indígena e a projeção do documentário feito na década de 1980 por Maureen e Lúcio Kodato, rodado na aldeia mehinaku, no Alto do Xingu. Há ainda um espaço dedicado ao processo gráfico e de concepção intelectual de Maureen, reunindo suas publicações e também grande parte do material que serviu de base para sua criação: a correspondência com Jorge Amado, conversas com Guimarães Rosa, recortes de jornais, provas de gráficas e fotografias. Até 2011, a mostra deve passar por Brasília e Curitiba; há ainda negociações para que a exposição também vá para outros países, como o México e a Bélgica. julho de 2010 00