Desenvolvimento Insustentável                                                     Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 6




      Senzala indígena do etanol



     Mais de mil e seiscentos trabalhadores escravos foram libertados em 2007 em Mato Grosso do Sul.
  Muitos eram índios. Todos trabalhavam em usinas de cana-de-açúcar. Essas usinas, mesmo “sujas”, conti-
  nuam recebendo incentivos fiscais. E o Estado, que apóia essas implantações, é palco de cenas de explora-
  ção e ocupa o sexto lugar no ranking de libertações de trabalhadores escravos no Brasil.

Marcelle Souza e                            tos, superlotados, estavam em situação    menta Maucir Pauletti, coordenador da      da para qualquer tipo de trabalho”.
Nathaly Feitosa                             precária. O lixo espalhado pelo chão      Comissão Permanente de Investigação             Com a falta de terra, de emprego
                                            se misturava a moscas e outros insetos.   e Fiscalização das Condições de Tra-       e a miséria nas aldeias, os índios que
                                            Os sanitários exalavam mau cheiro e       balho do Estado de Mato Grosso do          ainda não trabalham para uma das oito
     No dia 13 de novembro de 2007,         não tinham condições mínimas de uso.      Sul, que acompanhou a interdição da        usinas em funcionamento, provavel-
fiscais do Grupo Especial de Fiscaliza-     O esgoto corria a céu aberto e faltava    Debrasa.                                   mente vão cortar cana para outras 43
ção Móvel do Ministério Público do          água para o banho.                             Mato Grosso do Sul possui a se-       empresas que vão se instalar no estado
Trabalho (MPT) resgataram 1.011 ín-               “A situação era absurdamente        gunda maior população indígena do          até 2012.
dios em trabalho degradante na Usina        dantesca, em relação às condições de      Brasil. Esses índios formam o que               Além do aumento da quantidade
Debrasa, empresa da Cia. Brasileira de      trabalho e de submissão dos trabalha-     Pauletti denomina “favelas rurais”,        de usinas, MS subiu em outra estatísti-
Açúcar e Álcool (CBAA), em Brasi-           dores nestes alojamentos após uma jor-    “grandes estoques de mão-de-obra ba-       ca. É agora o sexto no ranking de li-
lândia. Quando chegaram, os alojamen-       nada exaustiva no corte de cana”, la-     rata e desqualificada que está prepara-    bertações de trabalhadores escravos no



  “Tudo não passou de uma grande palhaçada”                                           José – Em 1991 e 1996, você tem esses      dio, que a Funai tinha exigido para não
       Em entrevista ao Projétil, José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente          mesmos problemas em todas as usi-          misturar índio e branco. A de 2005 foi
  da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool em Brasilândia e do Sindalcool           nas do Estado. A relação entre o índio     quando destruímos o alojamento dos
  (Sindicato dos Produtores de Álcool do MS) se defende e fala sobre as               e a empresa vem se alterando, e a últi-    índios e passamos a trazer para o dos
  libertações na Debrasa, criticando a fiscalização.                                  ma mudança foi em 1997.                            brancos.

   Projétil – Por que foi encontrado tra-   tar à mesa, ele põe o prato no colo e     Projétil – E em 2005?           “Alguns dos que Projétil – Por que contratar
   balho degradante na Debrasa?             prefere sentar no chão. Não podemos       José – 2005? Não conheço          estavam na       mão-de-obra indígena?
   José Pessoa - É muito simples, há 20     aculturá-los. Tudo não passou de uma      essa...                           fiscalização     José – Em 1997, depois do últi-
   anos a empresa emprega índio e ín-       grande palhaçada de alguns que esta-                                         queriam se      mo conflito, resolvemos que
   dio é muito visado em MS. Fomos          vam lá para se auto-promoverem.           Projétil – A vistoria desse ano auto-promover” não íamos mais contratar.
   fiscalizados três vezes em 2007, se                                                relatou condições degra-                           Compramos colheitadeiras
   os alojamentos não são condizentes,      Projétil – O Sr. disse que é novidade     dantes e instalações precári-                      mecânicas. Em 1999 paramos
   como que há 20 anos eles servem?         classificar os alojamentos como degra-    as. A empresa disse que iria demolir os     de contratar índios e a colheita passou
   Disseram que os índios pareciam          dantes. Mas desde 1991 há relatórios      alojamentos e construir novos.              a ser mecânica. Em 2000, o governa-
   animais comendo no chão. Só que          com as mesmas características. Em         José – Nós demolimos. Eram três alo-        dor José Orcírio Miranda, do PT, nos
   na hora do almoço em vez de sen-         1991, 1996, 2005...                       jamentos. Um só para trabalhador ín-        procurou, fez um apelo para voltar a
7 - Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS                                         Desenvolvimento Insustentável

Brasil, segundo relatório da Comissão      lhorar as condições da população, só         rismo (Seprotur), “as 8 usinas em fun-      desde 1991.
Pastoral da Terra. Em 2006, foram 29       que ele não pode vir com o aumento           cionamento em MS e as 16 já em im-                Nos relatórios são apresentadas
trabalhadores libertados. Em 2007, o       da exploração do trabalhador e com           plantação receberam benefícios fiscais,     deficiências na segurança e saúde do
número saltou para 1.634, resultado da     a degradação do meio ambiente”.              com exceção das de Quebra-Coco e            trabalhador, nos refeitórios e aloja-
soma das libertações na Debrasa e na           Empresa “suja”                           Sonora”.                                    mentos. Em vários deles há observa-
Destilaria Centro Oeste Iguatemi Ltda          Mas a exploração é fato e o que               Diante do incentivo estadual, o        ções que enfatizam que “essa é a úni-
(Dcoil), em Iguatemi. O estado só fica     impressiona é que muitas indústrias          procurador do trabalho Jonas Ratier         ca destilaria que não tem realizado ne-
atrás de Tocantins, Bahia, Maranhão,       mesmo “sujas” e reincidentes conti-          Moreno enfatiza que “é legítimo e           nhum esforço para melhorar as con-
Mato Grosso e Pará.                        nuam recebendo incentivos fiscais do         engrandecedor que um empreendi-             dições de trabalho e vida dos traba-
     Todos os empregados da                governo. Segundo a Organização não-          mento se instale em uma região e tra-       lhadores, especialmente as de mora-
Debrasa e um terço dos funcionários        governamental Repórter Brasil, o             ga progresso, mas não basta ter o           dia dos indígenas”.
da Dcoil eram indígenas. “A popula-                                                                                                       Como meio de tentar barrar que
ção daqui do estado não se sujeita a                                                                                                desenvolvimento sucro-alcooleiro ve-
este tipo de trabalho, que por si só já                                                                                             nha junto com exploração, o deputa-
é insalubre”, declara Egon Heck, co-                                                                                                do Pedro Kemp (PT) apresentou em
ordenador do Conselho Indigenista                                                                                                   fevereiro deste ano, na Assembléia
Missionário (CIMI) em MS. “Isso faz                                                                                                 Legislativa, um projeto de lei que can-
com que as usinas contratem índios e                                                                                                cela a concessão de serviços e incenti-
muita gente do Nordeste. Essas pes-                                                                                                 vos fiscais para empresas com traba-
soas ficam mais vulneráveis porque es-                                                                                              lho análogo à escravidão. “Nesse mo-
tão longe de casa e acabam se subme-                                                                                                mento, eu acho que entra a obrigação
tendo ao trabalho escravo”.                                                                                                         do Estado de suspender os incenti-
     Diante da expansão das usinas, o                                                                                               vos fiscais e cobrar dessas empresas
advogado Maucir Pauletti teme a re-                                                                                                 o cumprimento das obrigações traba-
lação entre avanço da cana e trabalho                                                                                               lhistas”.
escravo. “Se hoje já temos problemas                                                                                                      “Explorar a de mão-de-obra in-
aos montes, com as usinas que virão                                                                                                 dígena de maneira discriminatória não
isso vai se tornar um caos. Ou colo-                                                                                                garantindo a devida remuneração e os
cam quatro vezes mais fiscais do tra-                                                                                               demais direitos trabalhistas”. Esta é
balho, procuradores, juízes e varas do                                                                                              uma das definições de trabalho escra-
trabalho, ou isso aqui se torna terra de                                                                                            vo presentes no projeto, que destaca
ninguém”.                                                                                                                           a especificidade do trabalho indígena.
     Pelo levantamento da Compa-                                                                                                          Só que a aprovação do projeto está
nhia Nacional de Abastecimento                                                                                                      ameaçada. Uma estranha coincidência
(Conab), Mato Grosso do Sul será o              Trabalhadores aglomerados em instalações precárias                                  revela que parte do dinheiro arrecado
7º estado com maior produção de                                                                                                     nas campanhas de alguns deputados es-
cana-de-açúcar do país na safra 2007/      orçamento estadual prevê a renúncia          posto de trabalho, porque se ele for        taduais foi financiado por empresas do
2008 com 15,8 milhões de toneladas.        de R$ 48,5 milhões na arrecadação de         indigno é melhor não tê-lo”. Ele foi        setor sucro-alco-oleiro. Das 16 presta-
“Esse crescimento me assusta”, reve-       impostos que incidiriam sobre as em-         o coordenador da operação do MPT            ções de conta do Tribunal Regional Elei-
la Luís Antônio Camargo de Melo,           presas de álcool combustível em 2008.        na Debrasa. E não foi a primeira vez        toral de MS analisadas pelo Projétil, de
subprocu-rador-geral do Ministério             Conforme a assessoria de im-             que a CBAA-Brasilândia foi pega             24 deputados, a metade apresentou ar-
Público do Trabalho. “Sou amplamen-        prensa da Secretaria de Estado de De-        com trabalho escravo e condições            recadação de dinheiro de empresas de
te favorável ao desenvolvimento do         senvolvimento Agrário, da Produção,          degradantes. O histórico de inspeção        açúcar e álcool totalizando mais de meio
setor, porque gera divisas e vai me-       da Indústria, do Comércio e do Tu-           na indústria aponta irregularidades         milhão de reais.
                                                                                                                                                                Continua




contratá-los porque era um problema        Projétil - Mas e os salários atrasados?       gurança do trabalho, nem eram condi-       José - Ainda participamos do pacto por-
tantos índios na miséria. Então, em        José - Não sei disso não. Podia ser que       ções precárias. A única coisa que eles     que acreditamos nele. Esse episódio na
2001, redistribuímos as máquinas e         estivessem uns dias, mas não foi só a         viram de fato foi sujeira, cano rasgado,   Debrasa nós não achamos que seja tra-
voltamos a contratar. Para nós era         gente. Isso não tem nada a ver com            colchão rasgado. Isso acontece porque      balho nem escravo, nem degradante.
muito melhor colher com as máqui-          trabalho escravo e degradan-                               as vezes o cara rasga com     É um benefício social empregá-los. O
nas. Mas depois desse episódio de 2007,    te. O rapaz tá trabalhando,                                o facão. Em maio você         Ministério Público deve ir às aldeias e
estamos repensando. Se não contratar-      pelo menos não está desem-            “Não existia         pinta, fica tudo limpinho,    fazer o mesmo escândalo com a Funai,
mos mais, ninguém vai poder dizer que      pregado.                               privação de         mas até novembro o cara       reclamar das condições degradantes
somos escravagistas de índio. Acho que                                         liberdade, nem         vai usando e às vezes ras-    para ver que lá as coisas são muito pi-
quem perde nisso é o índio. Os caras       Projétil - Então por que os ín-        vigilância”         ga. Ainda mais sendo ín-      ores do que em qualquer usina de Mato
que fizeram essa palhaçada toda, que       dios foram libertados e os                                 dio. É a única diferença.     Grosso do Sul.
bem fizeram aos índios? Eles se            demais não? A Comissão
intitulam libertadores dos índios, eu      aponta condições precárias                                 Projétil - Em 2005, a em-     Projétil – O que o Sr. tem a dizer sobre a
acho até um absurdo usar esse termo        nos alojamentos dos indígenas e para          presa era signatária do Pacto Nacional     declaração: “Perto da Debrasa, qualquer
‘libertar’. Libertar de quê? Não tinha     os outros só faltavam algumas ferra-          de Erradicação do Trabalho Escravo,        usina é o céu”.
vale, não existia privação de liberdade,   mentas de segurança.                          mas foi retirada após a fiscalização de    José - Manda eles irem nas outras usinas,
nem vigilância.                            José - Nem faltavam ferramentas de se-        2007.                                      porque eu acho que não estão indo não.
Desenvolvimento Insustentável                                                                Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 8




                                                                                                 Do Quilombo


                                                                             Foto: MPT/ MS
                                                                                                 A luta pela terra entre comunidades quilombolas
                                                                                                                    e fazendeiros

                                                                                                 Adriane Mascaro                           nião fraterna e livre, solidariedade,
                                                                                                                                           convivência, comunhão existencial”.
                                                                                                      Em 1740, reportando-se ao rei              A relação harmônica com a na-
                                                                                                 de Portugal, o Conselho Ultramari-        tureza é outro fator inerente à histó-
                                                                                                 no valeu-se da seguinte definição de      ria das comunidades quilombolas,
                                                                                                 quilombo: “toda habitação de negros       pois suas ações cotidianas estão liga-
                                                                                                 fugidos, que passem de cinco, em          das ao meio ambiente. A questão do
                                                                                                 parte despovoada, ainda que não te-       território é, portanto, a base para a
                                                                                                 nham ranchos levantados e nem se          concepção de suas relações e mani-
No corte de cana, a                                                                              achem pilões nele”. Mas não é assim       festações culturais, capaz de resgatar
mão-de-obra indígena é                                                                           que as mais de 2.000 comunidades          sua história e manter suas tradições.
                                                                                                 quilombolas brasileiras se identificam,   Mas, como terra é sinônimo de poder,
considerada de alta                                                                              ou seja, com um passado de rebelião       a garantia de posse desses territórios é
produtividade e pouca                                                                            e isolamento ou simplesmente pela         motivo de discórdias entre comunida-
exigência de alimentação                                                                         cor da pele. O poeta negro Abdias         des quilombolas e fazendeiros no Bra-
e hospedagem                                                                                     do Nascimento define bem este con-        sil, inclusive no Mato Grosso do Sul,
                                                                                                 ceito: “Quilombo não significa escra-     principalmente depois da aprovação do
                                                                                                 vo fugido. Quilombo quer dizer reu-       Decreto 4.887 em novembro de 2003.
Direito de ser diferente
      Recebendo pouco e com
um trabalho insalubre, o indí-
gena é, para as usinas, uma
mão-de-obra com boa lucra-
tividade. “Eles usam a mão-
de-obra indígena porque tem
alta produtividade, pouca exi-
gência de alimentação e hos-
pedagem, e com eles o
usineiro tem mais controle”,
revela o coordenador do CIMI/MS,
Egon Heck. “Quem faz a intermedia-
ção entre a usina e os indígenas geral-   balho são baseados na Convenção
mente é um índio que se destaca na al-    169 da Organização Internacional do
deia, chamado cabeçante. Ele é respon-    Trabalho (OIT) que garante aos po-
sável por reunir e coordenar um gru-      vos indígenas o direito de conservar
po de 40, 50 índios que vai trabalhar     seus costumes diante das relações de
na usina. O que facilita e faz com que    trabalho.
haja um tipo de controle”, explica             Mesmo assim, os impactos desse
Egon.                                     tipo de trabalho são sentidos nas aldei-
      O líder da comunidade indígena      as. “Está dando muitos problemas de
de Dourados, Anastácio Peralta, con-      saúde, gripe, diarréia e câimbra. O tra-
firma a existência desses cabeçantes.     balho é forçado é o homem chega em
Mas, segundo ele, “essa relação entre     casa sem disposição para nada, nem
usinas e a mão-de-obra indígena é uma     mesmo para a família”, diz Peralta.
faca de dois gumes: como na aldeia fal-        Enquanto isso, diante deste qua-
ta trabalho e não temos terra, a solu-    dro de vulnera-bilidades e violações, o
ção é ir para a cana”, declara.           procurador Cícero Rufino afirma:
      Para evitar que o trabalho pre-     “perto da Debrasa, qualquer usina é o
judique a relação do indígena com         céu”. E ainda ameaça, “se voltarmos
sua comunidade, o Ministério Públi-       naquele alojamento, naquela senzala,
co do Trabalho adota procedimen-          com possibilidade de trabalho escra-
tos específicos na garantia de seus di-   vo, vamos pedir para que fechem a em-
reitos. Os acordos e contratos de tra-    presa, seja o que for”.

Senzala Indígena do Etanol

  • 1.
    Desenvolvimento Insustentável Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 6 Senzala indígena do etanol Mais de mil e seiscentos trabalhadores escravos foram libertados em 2007 em Mato Grosso do Sul. Muitos eram índios. Todos trabalhavam em usinas de cana-de-açúcar. Essas usinas, mesmo “sujas”, conti- nuam recebendo incentivos fiscais. E o Estado, que apóia essas implantações, é palco de cenas de explora- ção e ocupa o sexto lugar no ranking de libertações de trabalhadores escravos no Brasil. Marcelle Souza e tos, superlotados, estavam em situação menta Maucir Pauletti, coordenador da da para qualquer tipo de trabalho”. Nathaly Feitosa precária. O lixo espalhado pelo chão Comissão Permanente de Investigação Com a falta de terra, de emprego se misturava a moscas e outros insetos. e Fiscalização das Condições de Tra- e a miséria nas aldeias, os índios que Os sanitários exalavam mau cheiro e balho do Estado de Mato Grosso do ainda não trabalham para uma das oito No dia 13 de novembro de 2007, não tinham condições mínimas de uso. Sul, que acompanhou a interdição da usinas em funcionamento, provavel- fiscais do Grupo Especial de Fiscaliza- O esgoto corria a céu aberto e faltava Debrasa. mente vão cortar cana para outras 43 ção Móvel do Ministério Público do água para o banho. Mato Grosso do Sul possui a se- empresas que vão se instalar no estado Trabalho (MPT) resgataram 1.011 ín- “A situação era absurdamente gunda maior população indígena do até 2012. dios em trabalho degradante na Usina dantesca, em relação às condições de Brasil. Esses índios formam o que Além do aumento da quantidade Debrasa, empresa da Cia. Brasileira de trabalho e de submissão dos trabalha- Pauletti denomina “favelas rurais”, de usinas, MS subiu em outra estatísti- Açúcar e Álcool (CBAA), em Brasi- dores nestes alojamentos após uma jor- “grandes estoques de mão-de-obra ba- ca. É agora o sexto no ranking de li- lândia. Quando chegaram, os alojamen- nada exaustiva no corte de cana”, la- rata e desqualificada que está prepara- bertações de trabalhadores escravos no “Tudo não passou de uma grande palhaçada” José – Em 1991 e 1996, você tem esses dio, que a Funai tinha exigido para não Em entrevista ao Projétil, José Pessoa de Queiroz Bisneto, presidente mesmos problemas em todas as usi- misturar índio e branco. A de 2005 foi da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool em Brasilândia e do Sindalcool nas do Estado. A relação entre o índio quando destruímos o alojamento dos (Sindicato dos Produtores de Álcool do MS) se defende e fala sobre as e a empresa vem se alterando, e a últi- índios e passamos a trazer para o dos libertações na Debrasa, criticando a fiscalização. ma mudança foi em 1997. brancos. Projétil – Por que foi encontrado tra- tar à mesa, ele põe o prato no colo e Projétil – E em 2005? “Alguns dos que Projétil – Por que contratar balho degradante na Debrasa? prefere sentar no chão. Não podemos José – 2005? Não conheço estavam na mão-de-obra indígena? José Pessoa - É muito simples, há 20 aculturá-los. Tudo não passou de uma essa... fiscalização José – Em 1997, depois do últi- anos a empresa emprega índio e ín- grande palhaçada de alguns que esta- queriam se mo conflito, resolvemos que dio é muito visado em MS. Fomos vam lá para se auto-promoverem. Projétil – A vistoria desse ano auto-promover” não íamos mais contratar. fiscalizados três vezes em 2007, se relatou condições degra- Compramos colheitadeiras os alojamentos não são condizentes, Projétil – O Sr. disse que é novidade dantes e instalações precári- mecânicas. Em 1999 paramos como que há 20 anos eles servem? classificar os alojamentos como degra- as. A empresa disse que iria demolir os de contratar índios e a colheita passou Disseram que os índios pareciam dantes. Mas desde 1991 há relatórios alojamentos e construir novos. a ser mecânica. Em 2000, o governa- animais comendo no chão. Só que com as mesmas características. Em José – Nós demolimos. Eram três alo- dor José Orcírio Miranda, do PT, nos na hora do almoço em vez de sen- 1991, 1996, 2005... jamentos. Um só para trabalhador ín- procurou, fez um apelo para voltar a
  • 2.
    7 - JornalLaboratório do Curso de Jornalismo da UFMS Desenvolvimento Insustentável Brasil, segundo relatório da Comissão lhorar as condições da população, só rismo (Seprotur), “as 8 usinas em fun- desde 1991. Pastoral da Terra. Em 2006, foram 29 que ele não pode vir com o aumento cionamento em MS e as 16 já em im- Nos relatórios são apresentadas trabalhadores libertados. Em 2007, o da exploração do trabalhador e com plantação receberam benefícios fiscais, deficiências na segurança e saúde do número saltou para 1.634, resultado da a degradação do meio ambiente”. com exceção das de Quebra-Coco e trabalhador, nos refeitórios e aloja- soma das libertações na Debrasa e na Empresa “suja” Sonora”. mentos. Em vários deles há observa- Destilaria Centro Oeste Iguatemi Ltda Mas a exploração é fato e o que Diante do incentivo estadual, o ções que enfatizam que “essa é a úni- (Dcoil), em Iguatemi. O estado só fica impressiona é que muitas indústrias procurador do trabalho Jonas Ratier ca destilaria que não tem realizado ne- atrás de Tocantins, Bahia, Maranhão, mesmo “sujas” e reincidentes conti- Moreno enfatiza que “é legítimo e nhum esforço para melhorar as con- Mato Grosso e Pará. nuam recebendo incentivos fiscais do engrandecedor que um empreendi- dições de trabalho e vida dos traba- Todos os empregados da governo. Segundo a Organização não- mento se instale em uma região e tra- lhadores, especialmente as de mora- Debrasa e um terço dos funcionários governamental Repórter Brasil, o ga progresso, mas não basta ter o dia dos indígenas”. da Dcoil eram indígenas. “A popula- Como meio de tentar barrar que ção daqui do estado não se sujeita a desenvolvimento sucro-alcooleiro ve- este tipo de trabalho, que por si só já nha junto com exploração, o deputa- é insalubre”, declara Egon Heck, co- do Pedro Kemp (PT) apresentou em ordenador do Conselho Indigenista fevereiro deste ano, na Assembléia Missionário (CIMI) em MS. “Isso faz Legislativa, um projeto de lei que can- com que as usinas contratem índios e cela a concessão de serviços e incenti- muita gente do Nordeste. Essas pes- vos fiscais para empresas com traba- soas ficam mais vulneráveis porque es- lho análogo à escravidão. “Nesse mo- tão longe de casa e acabam se subme- mento, eu acho que entra a obrigação tendo ao trabalho escravo”. do Estado de suspender os incenti- Diante da expansão das usinas, o vos fiscais e cobrar dessas empresas advogado Maucir Pauletti teme a re- o cumprimento das obrigações traba- lação entre avanço da cana e trabalho lhistas”. escravo. “Se hoje já temos problemas “Explorar a de mão-de-obra in- aos montes, com as usinas que virão dígena de maneira discriminatória não isso vai se tornar um caos. Ou colo- garantindo a devida remuneração e os cam quatro vezes mais fiscais do tra- demais direitos trabalhistas”. Esta é balho, procuradores, juízes e varas do uma das definições de trabalho escra- trabalho, ou isso aqui se torna terra de vo presentes no projeto, que destaca ninguém”. a especificidade do trabalho indígena. Pelo levantamento da Compa- Só que a aprovação do projeto está nhia Nacional de Abastecimento ameaçada. Uma estranha coincidência (Conab), Mato Grosso do Sul será o Trabalhadores aglomerados em instalações precárias revela que parte do dinheiro arrecado 7º estado com maior produção de nas campanhas de alguns deputados es- cana-de-açúcar do país na safra 2007/ orçamento estadual prevê a renúncia posto de trabalho, porque se ele for taduais foi financiado por empresas do 2008 com 15,8 milhões de toneladas. de R$ 48,5 milhões na arrecadação de indigno é melhor não tê-lo”. Ele foi setor sucro-alco-oleiro. Das 16 presta- “Esse crescimento me assusta”, reve- impostos que incidiriam sobre as em- o coordenador da operação do MPT ções de conta do Tribunal Regional Elei- la Luís Antônio Camargo de Melo, presas de álcool combustível em 2008. na Debrasa. E não foi a primeira vez toral de MS analisadas pelo Projétil, de subprocu-rador-geral do Ministério Conforme a assessoria de im- que a CBAA-Brasilândia foi pega 24 deputados, a metade apresentou ar- Público do Trabalho. “Sou amplamen- prensa da Secretaria de Estado de De- com trabalho escravo e condições recadação de dinheiro de empresas de te favorável ao desenvolvimento do senvolvimento Agrário, da Produção, degradantes. O histórico de inspeção açúcar e álcool totalizando mais de meio setor, porque gera divisas e vai me- da Indústria, do Comércio e do Tu- na indústria aponta irregularidades milhão de reais. Continua contratá-los porque era um problema Projétil - Mas e os salários atrasados? gurança do trabalho, nem eram condi- José - Ainda participamos do pacto por- tantos índios na miséria. Então, em José - Não sei disso não. Podia ser que ções precárias. A única coisa que eles que acreditamos nele. Esse episódio na 2001, redistribuímos as máquinas e estivessem uns dias, mas não foi só a viram de fato foi sujeira, cano rasgado, Debrasa nós não achamos que seja tra- voltamos a contratar. Para nós era gente. Isso não tem nada a ver com colchão rasgado. Isso acontece porque balho nem escravo, nem degradante. muito melhor colher com as máqui- trabalho escravo e degradan- as vezes o cara rasga com É um benefício social empregá-los. O nas. Mas depois desse episódio de 2007, te. O rapaz tá trabalhando, o facão. Em maio você Ministério Público deve ir às aldeias e estamos repensando. Se não contratar- pelo menos não está desem- “Não existia pinta, fica tudo limpinho, fazer o mesmo escândalo com a Funai, mos mais, ninguém vai poder dizer que pregado. privação de mas até novembro o cara reclamar das condições degradantes somos escravagistas de índio. Acho que liberdade, nem vai usando e às vezes ras- para ver que lá as coisas são muito pi- quem perde nisso é o índio. Os caras Projétil - Então por que os ín- vigilância” ga. Ainda mais sendo ín- ores do que em qualquer usina de Mato que fizeram essa palhaçada toda, que dios foram libertados e os dio. É a única diferença. Grosso do Sul. bem fizeram aos índios? Eles se demais não? A Comissão intitulam libertadores dos índios, eu aponta condições precárias Projétil - Em 2005, a em- Projétil – O que o Sr. tem a dizer sobre a acho até um absurdo usar esse termo nos alojamentos dos indígenas e para presa era signatária do Pacto Nacional declaração: “Perto da Debrasa, qualquer ‘libertar’. Libertar de quê? Não tinha os outros só faltavam algumas ferra- de Erradicação do Trabalho Escravo, usina é o céu”. vale, não existia privação de liberdade, mentas de segurança. mas foi retirada após a fiscalização de José - Manda eles irem nas outras usinas, nem vigilância. José - Nem faltavam ferramentas de se- 2007. porque eu acho que não estão indo não.
  • 3.
    Desenvolvimento Insustentável Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo da UFMS - 8 Do Quilombo Foto: MPT/ MS A luta pela terra entre comunidades quilombolas e fazendeiros Adriane Mascaro nião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial”. Em 1740, reportando-se ao rei A relação harmônica com a na- de Portugal, o Conselho Ultramari- tureza é outro fator inerente à histó- no valeu-se da seguinte definição de ria das comunidades quilombolas, quilombo: “toda habitação de negros pois suas ações cotidianas estão liga- fugidos, que passem de cinco, em das ao meio ambiente. A questão do parte despovoada, ainda que não te- território é, portanto, a base para a nham ranchos levantados e nem se concepção de suas relações e mani- No corte de cana, a achem pilões nele”. Mas não é assim festações culturais, capaz de resgatar mão-de-obra indígena é que as mais de 2.000 comunidades sua história e manter suas tradições. quilombolas brasileiras se identificam, Mas, como terra é sinônimo de poder, considerada de alta ou seja, com um passado de rebelião a garantia de posse desses territórios é produtividade e pouca e isolamento ou simplesmente pela motivo de discórdias entre comunida- exigência de alimentação cor da pele. O poeta negro Abdias des quilombolas e fazendeiros no Bra- e hospedagem do Nascimento define bem este con- sil, inclusive no Mato Grosso do Sul, ceito: “Quilombo não significa escra- principalmente depois da aprovação do vo fugido. Quilombo quer dizer reu- Decreto 4.887 em novembro de 2003. Direito de ser diferente Recebendo pouco e com um trabalho insalubre, o indí- gena é, para as usinas, uma mão-de-obra com boa lucra- tividade. “Eles usam a mão- de-obra indígena porque tem alta produtividade, pouca exi- gência de alimentação e hos- pedagem, e com eles o usineiro tem mais controle”, revela o coordenador do CIMI/MS, Egon Heck. “Quem faz a intermedia- ção entre a usina e os indígenas geral- balho são baseados na Convenção mente é um índio que se destaca na al- 169 da Organização Internacional do deia, chamado cabeçante. Ele é respon- Trabalho (OIT) que garante aos po- sável por reunir e coordenar um gru- vos indígenas o direito de conservar po de 40, 50 índios que vai trabalhar seus costumes diante das relações de na usina. O que facilita e faz com que trabalho. haja um tipo de controle”, explica Mesmo assim, os impactos desse Egon. tipo de trabalho são sentidos nas aldei- O líder da comunidade indígena as. “Está dando muitos problemas de de Dourados, Anastácio Peralta, con- saúde, gripe, diarréia e câimbra. O tra- firma a existência desses cabeçantes. balho é forçado é o homem chega em Mas, segundo ele, “essa relação entre casa sem disposição para nada, nem usinas e a mão-de-obra indígena é uma mesmo para a família”, diz Peralta. faca de dois gumes: como na aldeia fal- Enquanto isso, diante deste qua- ta trabalho e não temos terra, a solu- dro de vulnera-bilidades e violações, o ção é ir para a cana”, declara. procurador Cícero Rufino afirma: Para evitar que o trabalho pre- “perto da Debrasa, qualquer usina é o judique a relação do indígena com céu”. E ainda ameaça, “se voltarmos sua comunidade, o Ministério Públi- naquele alojamento, naquela senzala, co do Trabalho adota procedimen- com possibilidade de trabalho escra- tos específicos na garantia de seus di- vo, vamos pedir para que fechem a em- reitos. Os acordos e contratos de tra- presa, seja o que for”.