Administrar a própria vida
O evangelho de São Lucas nos oferece (cf. 12, 32-48) qualidades que os discípulos de Jesus
devem ter para segui-lo no seu caminho para Jerusalém, onde sabemos que acontecerá o
desfecho final de sua obra e missão. Através de uma série de elementos que estão também
presentes no famoso sermão da montanha em Mateus, Lucas nos apresenta um conjunto de ditos
e parábolas sobre a vigilância e a fidelidade ao Senhor.
Lucas, vivendo no ambiente mercantilista do Império Romano, escrevendo em uma cidade,
Éfeso ou Corinto, vê constantemente o mal causado pelas falsas ilusões da riqueza e bem estar,
além do escândalo da fome (cf.16,19-31). Ele é um evangelista que cuida, mais que nenhum
outro, deste aspecto tão determinante da vida social e econômica e como os cristãos deviam
tomar uma postura frente à injustiça e a divisão de classes. Se escrevesse hoje, não precisaria
mudar muito. Nesta realidade em que vivemos de uma sociedade consumista, diz-nos Jesus, que
a primeira coisa que temos que fazer é desapegar nosso coração do afeto imoderado ao dinheiro:
“Vendei vossos bens e daí esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável
nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará
também o vosso coração.” (Lc 12,33-34) Se para nós o mais importante na vida é o dinheiro, se
temos posto nosso coração no dinheiro, dificilmente poderemos entender a mensagem
evangélica. Cristo nos diz que devemos por o coração nos valores do Reino de Deus, nos valores
evangélicos. Isto não é nada fácil, porque o dinheiro e os prazeres deste mundo nos tentam
continuamente. Por isso, devemos estar sempre vigilantes, para que não se introduza em nosso
coração o apego ao dinheiro e aos bens deste mundo. Cristo viveu totalmente desapegado do
afeto ao dinheiro, preocupado unicamente dos valores do Reino. Como cristãos, devemos fazer
nós o mesmo.
“Precisamos possuir alguns bens para viver, é certo; mas não são a fonte da vida nem está neles a
chave e o segredo para ser pessoa. Porque somente quem ama e vive em solidariedade e abertura
aos outros, dando-se a Deus e ao próximo, tem uma vida autêntica e, em última análise, é feliz
porque entende a vida com sabedoria. O sem-sentido da vida aparece quando o homem se fecha a
Deus e aos irmãos, pois sem relação com os valores perenes que Deus, Cristo e o próximo
representam, as coisas e os bens carecem de referência que lhes dê um valor que em si mesmos
não possuem para a felicidade humana, como demonstra a experiência.” (Caballero, B. 2000.)
Na teoria sabemos tudo isso! Que o mais importante não é o dinheiro e sim Deus e as coisas de
Deus, mas não é bem assim que se passa em nossa vida, quando nos decuidamos e não vigiamo o
dinheiro acaba se convertendo no mais importante. Talvez o problema real está em discernir qual
é o maior bem para nós e que meios usamos para consegui-lo. E por isso Jesus pergunta onde
está o teu tesouro?
Que tesouro tenho eu e que posso compartilhar com os outros? Essa é a força transformadora do
amor, que nos transforma a nós e transforma nossa relação com os outros. Quem descobriu este
tesouro do amor desprendido e o compartilha põe nele todo seu coração e se mantém
administrador vigilante e fiel.
“Qual é, então, o administrador fiel e prudente que o senhor constituirá sobre o seu pessoal para
dar em tempo oportuno a ração de trigo? (Lc 12,42) “Ao fazer uso da imagem do administrador,
procura Ele (Jesus) representar aqueles que têm alguma autoridade ou poder sobre outros. A
aplicação incidia diretamente sobre Pedro e os Apóstolos, que receberiam em suas mãos a
instituição da Igreja e também abrangeria os pais, tutores, etc. A primeiríssima obrigação do
administrador é a de não se apropriar de nenhum dos bens que o Senhor lhe confiou e por isso
não procurar seu prazer, sua glória e sua vontade, mas sim o puro interesse de seu senhor. Em
segundo lugar, deve ser prudente, discernindo com senso de hierarquia como distribuir os
trabalhos em proporção aos talentos e às forças de cada um. Ademais, deverá prover às
necessidades de todos, oferecendo-lhes os meios e instruções, sustento, etc., para o desempenho
das respectivas funções. Procedendo com esse amor à perfeição, a autoridade, ao encontrar-se
como seu senhor, além da bem-aventurança, receberá a administração de toda as suas
posses.”(Clá, 2012.)
Todos sabemos como é difícil administrar fiel e diligentemente uma empresa e administrar bem,
em geral, a vida dos outros. Que se pergunte a nossos políticos e governantes. Mas, eu creio que
governar bem nossa própria vida é ainda mais difícil que administrar bem a vida dos outros.
Porque o egoísmo, a ambição, os aparentes interesses, a falta de sinceridade, nos cegam
tremendamente e nos impedem de ver-nos a nós mesmos com imparcialidade e realismo. Muitas
vezes nem reconhecemos nossa incompetência para administrar nem a nossa vida, quanto mais a
dos outros.
A parábola do evangelho de hoje não é dirigida apenas aos governantes e administradores em
geral, mas também vai diretamente a seus discípulos, a “seu pequeno rebanho”. A eles lhes diz
Jesus, que devem estar sempre preparados para que quando chegar o Senhor lhes encontre
vigilantes, dispostos a abrir-lhe a porta, porque, “na hora em que menos pensais, virá o Filho do
Homem.” (Lc 12,40)
“O Senhor virá. É absolutamente certa sua vinda... Poderá ser, portanto, num dia inesperado;
numa idade na qual nada havia para temer, quando os grandes planos se multiplicavam, e, quiçá,
as inclinações já se lançavam nos prazeres, realizações, negócios...” (Ibid. Clá.) Um cristão, um
discípulo de Cristo, deve entender sempre sua vida como uma preparação para a vida eterna. Este
mundo é caminho para o outro, e cumpre ter bom tino administrativo para andar neste caminho
sem “errar”. O negócio mais importante de nossa vida é nossa vida mesma e nossa vida aqui na
terra, falando em cristão, deve conduzir-nos diretamente à vida eterna. Porque, se administramos
bem nossa vida, quando chegar o Senhor “nos fará sentar a sua mesa e nos irá servir”.
Administrar bem a nossa própria vida é viver de tal modo que sejamos dignos de receber a vida
eterna. O mais importante dessa mensagem é que cada um, assumindo o que Deus lhe confiou, a
sua responsabilidade de cuidar do mundo, de cuidar do bem de todos os que estão em casa,
conhecendo a vontade do Pai no dia-a-dia, está preparando sua eterna e alegre companhia junto a
Cristo.
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
Dias, Mons. João Scognamiglio Clá. O inédito sobre os Evangelhos, comentários aos Evangelhos dominicais Ano C – Domingos do Tempo Comum. Vol VI. São
Paulo, Instituto Lumen Sapientiae, 2012.
Caballero, B. A Palavra de Cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000.
Dar um sentido a vida
A Liturgia deste domingo faz-nos percorrer um itinerário de fé muito interessante e questionador.
A Palavra de Deus nos interroga: Que sentido tem a nossa vida? Qual é o centro da vida humana?
A vida se limita ao tempo presente? A vida consiste ou se realiza no desfrutar dos bens materiais?
Estes questionamentos, respondemos com nosso estilo de vida.
“Que sentido tem a nossa vida? Esta interrogação ocupa as mentes e as reflexões de muitas
pessoas. De fato muitos, embora tendo uma vida social e economicamente satisfatória, não
conseguem sentirem-se felizes; outros, perante as dificuldades, são tentados a entrar numa
espécie de amargo cinismo e a entregar-se à procura de prazeres. O ‘vazio’ pode ser a origem de
varias tristezas e depressões. Cria-se então a ilusão de que para sair deste estado de coisas é
suficiente uma espécie de ‘filosofia’ de vida: coerência; desinteresse; agressividade ou
fundamentalismo; ou então, simplesmente uma superficialidade e um espírito bonacheirão, que
dá a cada um o ‘seu’ e também a Deus, desde que seja salvaguardado o seu espaço pessoal.
Em nossa sociedade existe a convicção de que o importante para viver bem é ganhar, gastar,
desfrutar e satisfazer nossos desejos, muitas vezes disfarçados de necessidades. A Palavra de
Deus desmascara esta ilusão... O autor do Eclesiastes, (cf. Ecl 1,2;2.21-23) um sábio de Israel
comparado na sabedoria a Salomão, interroga-se para que afadigar-se na vida, agitar-se e
inquietar-se. A sua sentença irônica e lapidar, ‘tudo é vaidade’ (1,2), (em hebraico, ‘vaidade’ =
vazio) coloca a descoberto o fato de que nenhuma coisa, vista em si mesma, está em condições
de dar um sentido à vida, mesmo as coisas mais sagradas como o trabalho feito
conscienciosamente, a cultura mais profunda ou o sucesso merecido. O homem está como ‘nu’
perante a vida que o persegue de todos os lados com suas lógicas férreas, com a fragilidade, a
velhice e a morte. E o grotesco é que, quando uma pessoa constrói alguma coisa com esforço e
consciência, esta pode ser usufruída por um preguiçoso que o herda.” (1,21) (Casarin, 2010.)
Esta conduta do sábio a vemos, por exemplo, encarnada na pessoa de Jó, herói dos tempos
antigos, considerado o grande justo, que permaneceu fiel a Deus na provação e que exclama com
serenidade: “Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá, o Senhor o deu, o Senhor o
tirou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jo 1,21)
“Jesus no evangelho (cf. Lc 12,13-21) retoma o discurso das riquezas, mas numa chave bem
diferente. A ocasião lhe é oferecida por um fulano que, intrigado com o próprio irmão, se dirigiu
a ele para uma espécie de arbitragem; trata-se, talvez, de um irmão menor que quer convencer o
irmão mais velho a repartir com ele a herança paterna, em vez de mantê-la indivisa obrigando-o a
conviver na mesma família. Jesus não só recusa esta função de ‘juiz mediador’, mas denuncia a
raiz de todas essas discórdias entre irmãos: ‘Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez,
pois, mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens’(12,15) e
acrescenta a parábola do rico tolo, para fazer entender quão errados são aqueles que põem todas
suas esperanças nos bens materiais.“ (Cantalamessa, 2012.)
A parábola (cf. Lc 12, 16-21) abriga esta mentalidade das pessoas que trabalham acumulando
bens e pensando que logo terão a vida toda pela frente para desfrutar de suas riquezas. Não se
quer censurar a preocupação por dispor dos bens necessários para a vida, mas sim, o que o
evangelho reprova é a acumulação, e a despreocupação com os outros. O desejo de açambarcar,
fruto da mais feroz falta de solidariedade, do mais selvagem egoísmo. É o “viver para si mesmo”
cujo ponto de referência de tudo é o ”eu”.
O “viver para si mesmo” é um modo de estar no mundo, de realizar a existência no arco de anos
entre o nascimento e a morte. É um modo de pensar, de atuar, de relacionar-se com as pessoas e
com as coisas, cujo ponto de referência de tudo é o “eu”. O saber, o trabalho, o esforço com seus
bons resultados aparecem, ante o velho eu.
Ora, se o ser humano é um ser destinado a morrer, para que serve seu saber, seu trabalho, se não
pode vencer o seu destino mortal? Desculpe-me o pessimismo! Por outro lado, há algo mais
efêmero que essa realidade? Como se pode fundar uma existência, que é breve, sobre algo que
hoje é e amanhã desaparece? Como se pode olhar de frente a morte, quando os grandes valores
que têm regido a vida têm sido os bens materiais e as aparências, a quem está proibido de passar
o umbral do mais além?
“Tudo é vaidade” quando o “eu” é o centro da vida, aí temos o chamado “homem velho”, incapaz
de por si mesmo sair do seu fechamento, cada vez mais submergindo no fundo do pecado, com o
olhar cada vez mais posto nas coisas da terra, sem possibilidade de alcançar as alturas. Então
você há de convir que com razão se possa aplicar a quem vive para si, as palavras de Jesus na
parábola do texto evangélico: "Insensato! Nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as
coisas que acumulaste, de quem serão?” (Lc 12,20)
Podemos entender esta palavra, “insensato”, ouvi-la como uma condenação. Mas, há outra
maneira de entendê-la. Podemos ouvir como se Jesus estivesse libertando este homem, ou o ser
humano, de seu pequeno, irreal e falso sonho. O homem ou a mulher estão presos no diminuto
mundo de si mesmos. Está totalmente só. Este é um mundo onde não se pode ser feliz. E quando
Jesus lhe chamou de “insensato”, o está libertando dessa pequena prisão que foi construindo.
Liberta-nos de nosso egoísmo, do vazio e da visão materialista da vida. É ao mesmo tempo um
convite a guardar-nos de toda forma de ambição, porque nossa vida não depende de nossos bens.
Esta libertação possibilita a realização do “homem novo”; a pessoa humana em sua plenitude;
que desenvolve uma nova vida em Cristo. Nós não podemos com as nossas forças dar um sentido
à nossa vida, este sentido vem-nos de Deus, através de Jesus Cristo.
Nas palavras de São Paulo (cf. Col 3,1-5.9-11) o cristão é um “homem novo”: “Se ressuscitastes
com Cristo, procurai as coisas do alto... pensai nas coisas do alto, e não nas da terra... Vós vos
desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para
o conhecimento segundo a imagem do seu Criador”. Isto é situar-nos em outro horizonte para
construir um novo ser humano, libertado de toda forma de cobiça, da injustiça, do egoísmo e
edificado sobre o mistério Pascal. É construir em Cristo o valor da fraternidade e da
solidariedade com os mais pobres, é também abrir os olhos ante a ambiguidade que se esconde
em um desenvolvimento econômico mundial e em uma técnica que desconhece a dignidade da
pessoa humana e a miséria na qual vive a maioria da humanidade.
Segundo dados atuais “as 300 maiores fortunas do mundo acumulam mais riqueza que os mais
de 3.000 milhões de pobres... ‘Citamos estes números porque nos oferece uma comparação clara
e impressionante: as 200 pessoas mais ricas possuem aproximadamente 2,7 trilhões de dólares e
isso é muito mais que o que possui as 3.500 milhões de pessoas, que possuem um total de 2,2
trilhões”, explica o economista Jason Hickel, citando um estudo recente da ONG Oxfam, que
salienta que o 1% dos mais ricos aumentou seus ingressos em 60% nos últimos 20 anos com a
radicalização das políticas imperialistas. De acordo com o economista, o crescimento da brecha
se deve em parte às políticas econômicas neoliberais que instituições internacionais como o
Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio
(OMC) impuseram aos países em desenvolvimento durante as últimas
décadas.” (http://www.adital.com.br/?n=cl74)
Egoísmo, ganância e injustiça sempre andam juntos. Por exemplo, a ganância está na origem da
corrupção das pessoas públicas, que não se conformam com o que lhes corresponde, mas sim que
intentam aproveitar-se do cargo privilegiado que ocupam. Tá na boca do povo: “a ambição do ter
é insaciável”. Converte os que deveriam ser servidores da sociedade em corruptos
aproveitadores. Inclusive leva-os a apropriar-se do que pertence aos excluídos de nossa
sociedade.
É necessário que todos compreendamos, que crer em Jesus Cristo nos leva a um comportamento
ético, a uma ética cristã. É urgente a regeneração ética de nossa sociedade. Talvez Gandhi tenha
razão quando dizia que com a mensagem evangélica ocorreu o que com uma pedra depositada no
fundo do lago. A água não impregnou seu interior.
Necessitamos mudar, converter-nos, transformar nossa vida, ser homens e mulheres novos,
encontrar o novo sentido da vida. Talvez, em nossa evangelização temos insistido
demasiadamente em alguns sacramentos e nos temos esquecido do principal, que é a prática do
amor e da justiça. Por exemplo, a Doutrina Social é uma grande desconhecida e ignorada por
grande parte dos cristãos. É necessário inverter nossa vida nos valores do Reino de Deus. Esta
vida nova que irrompe em nós quando, como diz o Apóstolo Paulo Cristo mesmo é “vossa
vida” (Col 3,4).
Que sejamos homens e mulheres novos com os pés firmados nesta realidade do mundo e na
desafiante tarefa de criar um mundo novo, mas tendo o olhar e o coração postos acima, no céu,
para onde caminhamos com confiança e esperança. Os bens do alto começam nesta vida. As
“coisas do alto” indicam os valores da vida nova em Cristo; que nos fazem ser ricos diante de
Deus, por entregar nossa vida, nossas capacidades ou dons na luta para alcançarmos a libertação
e a felicidade de todos.
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
Casarin, Giuseppe. (org.) Leccionário Comentado, Tempo Comum, semanas XVIII-XXXIV,
Lisboa (Portugal), Paulus, 2010.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus – Anos A,B,C.
São Paulo, Ave Maria, 2012.
A única coisa necessária
O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 10,38-42) nos apresenta neste domingo Jesus em Betânia, na
casa de Marta e Maria; uma casa de mulheres o que não podia ser bem visto naquela sociedade
judia. Mas, o evangelista Lucas é o evangelista da mulher e quer ressaltar o sentido do
discipulado cristão das mulheres no ambiente das comunidades primitivas.
Sintamo-nos na casa de Marta e Maria. A cena se dá num ambiente muito familiar, entre amigos,
em casa. Tudo pode ter acontecido mais ou menos assim: Enquanto algumas pessoas conversam,
outras preparam a comida. As duas coisas são importantes e necessárias, as duas se completam,
sobretudo quando se trata de acolher um hóspede querido. Marta, como anfitriã, segundo o
costume da época, está fazendo os trabalhos próprios de sua condição de mulher: a limpeza da
casa, a cozinha, a mesa, a acolhida e atenção aos hóspedes. Maria, sua irmã ao contrário, salta
seu papel de mulher e se atreve a realizar o que só correspondia aos homens: Maria se sente
autêntica discípula de Jesus e se agacha aos seus pés pondo-se a escutá-lo.
É obvio que Marta se chocou com aquela atitude “revolucionária” para uma mulher, e reprovou o
fato de sua irmã querer ser discípula. Pede então a Jesus que intervenha: “Senhor, a ti não
importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o trabalho? Dize-lhe, pois que me
ajude”. (Lc 10,40-41)
Marta reclama porque se considera uma servidora e pensa que o seu serviço (diaconia) de acolher
os hóspedes, preparar a comida e servir à mesa é mais importante que o de sua irmã que escuta e
conversa com Jesus. Para Marta, o que faz Maria não é serviço.
Mas, Marta deve entender que ela não é a única “serva”. Também Jesus assume o papel de servo
e o profeta Isaías fala que o serviço principal do “servo” é o de estar diante de Deus à escuta, em
oração para poder descobrir uma palavra de conforto para aqueles que estão cansados. (cf. Is
50,4) Então, surge a pergunta: quem realiza melhor o serviço de serva: Marta ou Maria?
Marta se preocupa em servir, queria ser ajudada por Maria no serviço da mesa. Mas qual é o
serviço que Deus deseja? Esta é a questão. O comportamento de Maria está mais de acordo com
o comportamento do “Servo de Deus”, porque, como ele, ela se encontra numa atitude de oração
e escuta diante de Jesus e não pode abandonar esta postura porque se o fizesse, não descobriria a
“palavra de conforto” para levar aos cansados e desanimados.
Através da imagem de Maria sentada a escutar o Mestre, isto é, uma vez formada, não irá ela
fazer que os outros se beneficiem de seu conhecimento
da boa nova? Não evoca esta postura de Maria o “ministério da Palavra”? Não quer fazer Lucas
uma alusão aos ministérios das mulheres: Marta (diaconia) Maria (anúncio da Palavra)? Ainda
que não o diga expressamente, Lucas se revela favorável aos ministérios desempenhados pelas
mulheres, concedendo-as um lugar importante na comunidade, como era o ministério da Palavra,
algo que poucas religiões antigas ofereciam. Como não nos perguntarmos hoje sobre o ministério
exercido pelas mulheres na Igreja?
Sem dúvida existiu o chamado de Jesus a Maria para o discipulado, pois do contrário Lucas não
teria contado algo que então não era bem visto: que um mestre tivesse discípulas. Os evangelhos
falam de umas mulheres que viajavam com Jesus, lhe ajudavam até economicamente com seus
próprios meios e que estiveram ao seu lado durante a crucifixão, quando a maioria dos discípulos
homens, lhe abandonaram por medo do perigo e da hostilidade. Não há a menor dúvida de que as
seguidoras de Jesus desempenharam um papel similar ao dos discípulos e reuniram as condições
para exercer o discipulado.
Jesus rompeu os moldes de seu tempo e de sua sociedade para mostrar-nos que no Reino de Deus
já não há distinções entre o homem e a mulher. Para Ele o que Maria está fazendo, ser discípula,
está bem e é correto para uma mulher, não só para os homens. Jesus dá assim o respaldo a Maria.
Assim não só é absolutamente revolucionária a atitude de Maria, mas também a de Jesus, que
admite uma mulher como discípula, evangelizadora. Por que Maria estava escutando o Senhor se
não fosse para transmiti-lo depois como anunciadora do evangelho?
Assim, pois, um dos aspectos da novidade do Evangelho consiste em acabar com a
marginalização da mulher dentro e fora da igreja, porque, diante de Deus, mulher e homem têm a
mesma dignidade. Jesus, no entanto, não está pondo em segundo lugar a atividade diária de
Marta e de tantas mulheres donas de casa, que com grande sacrifício e pouca valorização têm
levado o peso das famílias. O evangelho não quer dizer que o serviço de Maria é melhor que o de
Marta ou vice e versa. O que não pode acontecer é que o serviço da Palavra de Deus, da
evangelização, fique prejudicado pelas exigências imprevistas do serviço das mesas, da partilha,
da caridade. Assim Lucas reflete nos Atos dos Apóstolos a realidade das primeiras comunidades
cristãs (cf. At 6,1-5). A comunidade tinha a obrigação de enfrentar o problema preocupando-se de
ter gente suficiente em todos os serviços, para poder conservar, assim, o serviço da Palavra e da
evangelização em sua integridade.
Não se trata de uma opção entre os dois serviços: palavra e mesa. Os dois são necessários e
importantes para a vida da comunidade. Para os dois é necessário ter gente disponível. Além
disso, o serviço da evangelização é a raiz, a fonte. O serviço da mesa é o resultado, o fruto, é sua
revelação.
Jesus respondeu: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no entanto, pouca
coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe
será tirada”. (Lc 10,41-42) Uma bela e muito humana resposta. Para Lucas e para os primeiros
cristãos, a “parte melhor” que Jesus fala a Marta é o serviço da evangelização, fonte de todo o
resto.
Para Jesus uma boa conversa com pessoas amigas é importante até mais que o comer (cf. Jo
4,32). Jesus não quer que o serviço da mesa interrompa a conversa, como se dissesse: Marta, não
há necessidade de preparar tantas coisas. Basta uma coisa. E logo vem participar da conversa.
Este é o significado das palavras de Jesus. A Jesus lhe agrada uma boa conversa, pois esta produz
conversão. Mas, no contexto do evangelho de Lucas, estas palavras decisivas de Jesus tomam um
significado simbólico mais profundo: Como Marta, também os discípulos na missão se
preocupavam com muita coisa, mas Jesus deixa claro que os muitos serviços devem ser
realizados a partir deste único serviço verdadeiramente necessário que é a escuta e oração diante
de Deus e a atenção e escuta amorosa das pessoas. Esta é a melhor parte que Maria escolheu e
que não lhe será tirada.
“A melhor parte” é uma expressão de contraste para dar importância ao discipulado e ao
ministério feminino, podemos até afirmar que no evangelho de Lucas se mostra que Jesus quer
que as mulheres desempenhem o discipulado e o ministério da Palavra e tudo o que isso implica
e mais com a promessa de que nunca isso lhes seria tirado. A história, por desgraça, parece nos
dizer outra coisa muito diferente, infelizmente!
Agora, “é preciso que nós esqueçamos a casa de Marta e Maria e nos transportemos com a mente
ao momento presente: nós somos neste instante a família que hospeda Jesus; esta Igreja e esta
nossa assembleia é a casa de Betânia na qual o Mestre fala; nós somos Marta e Maria!... Ele diz:
Amigo, tu te preocupas e te agitas com muitas coisas e descuidas a única realmente importante!
Como são verdadeiras estas palavras de Jesus! Ele tem razão: nossa vida é uma corrida
desenfreada atrás de mil coisas: sonhos, projetos, negócios, ocupações; somos Martas atarefadas
que pensam fazer as coisas mais importantes do mundo e ao invés perdemos tempo, fazemos
coisas inúteis, nos agitamos por coisas que são somente urgentes e não importantes, por coisas
que muitas vezes não acontecerão nunca.” (Cantalamessa, 2012.)
“Um só coisa é necessária”, Jesus nos convida a sair da dispersão e apresenta-nos o “único
necessário” que ninguém poderá tirar. “Qual é esta coisa realmente importante, esta ‘parte
melhor’ que não será nunca tirada de quem a escolheu? O evangelho no-la faz entender
claramente: é aquela escolhida por Maria. Mas o que escolheu Maria? Escolheu ouvir Jesus!
Escolheu Jesus! Com Jesus escolheu tudo: seu Reino, sua vontade, escolheu o que fica para
sempre... Maria escolheu a melhor parte: e nós? Temos nós realmente escolhido a parte melhor?
Ou somos tantas pobres Martas atarefadas em coisas que não servem e que irão acabar conosco?
Maria ouvia! Não só com os ouvidos, mas com o coração e com todo o seu ser ela prestava
atenção a Jesus. Também nós devemos aprender esta escuta profunda, de modo que a Palavra de
Jesus que escutamos na igreja, ou que lemos, nos volte à mente no momento oportuno, quando
estamos diante de uma escolha, de uma tentação a vencer.
Do episódio de Marta e Maria aprendemos, finalmente, também esta lição: que o melhor modo
de ser Marta é ser Maria! A escuta atenta da Palavra de Deus, manter o olho fixo em Jesus, o
hábito de rezar e refletir purificam a ação, impedem de procurar a si mesmo também quando se
pratica a caridade para com os irmãos; permitem perceber e respeitar as prioridades, executar
tudo com calma, o que afinal, é o melhor jeito para fazer bem as coisas e fazer mais.” (Ibid.
Cantalamessa.)
Senhor, dai-nos um coração de servos para escutarmos a Palavra do vosso Filho que hoje ressoa
ainda em tua Igreja e servi-lo como hóspede na pessoa dos nossos irmãos e irmãs.
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A,B,C.
São Paulo, Ave Maria, 2012.
A provocação de Jesus: “Um Deus-samaritano”
O Evangelho de São Lucas que escutamos neste domingo, “a parábola do bom samaritano” (cf.
Lc 10, 25-37) é uma das narrações mais majestosas do Novo Testamento e em particular deste
evangelho; um caminho de conduta para os seguidores de Cristo. Uma narração que só podia ter
saído dos lábios de Jesus, ainda que Lucas a situe junto a um diálogo com o escriba que quer
uma resposta “jurídica”, que pretende algo impossível quer uma garantia da vida eterna, da
salvação e quer que Jesus lhe aponte exatamente o que deve fazer para isso.
A pedagogia de Jesus mais uma vez se revela através da narração de uma parábola. O evangelista
Lucas diz que um escriba dirigiu a seguinte pergunta a Jesus: “Mestre, que farei para herdar a
vida eterna?” (v.25) para provocar Jesus e para testá-lo. Sabendo a resposta que a escritura dá a
esta pergunta, ele quer saber o que este jovem mestre e profeta da Galileia, sem estudo, dirá a
este respeito.
Quem lê ou escuta esta parábola inevitavelmente se sente provocado, interpelado: e eu, com que
personagem me identifico? Mas, o próprio conteúdo da parábola também é provocador pelos
próprios personagens que Jesus escolheu: um sacerdote, um levita e um samaritano. O
samaritano é como um estrangeiro para o judeu daquela época. O sacerdote e o levita, mestre da
Lei, que interroga Jesus justificam sua conduta com vários pretextos e põe à prova Jesus. Vai ser
o samaritano quem mostrará ao vivo o rosto do amor misericordioso de Deus.
Tudo é muito provocador e para os judeus devotos daquele tempo “um escândalo!” Comparar um
sacerdote, um levita, ou um letrado, com um samaritano era fortemente pejorativo. Os
samaritanos eram considerados como hereges e alijados do culto a Deus que se centrava no
templo de Jerusalém. Sem duvida, o interlocutor que iniciou o diálogo com Jesus sentiu-se
ofendido pela comparação.
A tradição cristã nos revelou que Jesus havia definido que a Lei se resumia em amar a Deus e ao
próximo em uma mesma experiência de amor. Não é distinto o amor a Deus do amor ao próximo,
mesmo que, Deus seja Deus e nós criaturas. Mas o escriba, que tinha uma concepção da Lei
demasiado legalista, quer precisar o que não se pode precisar: Quem é meu próximo, a quem
devo amar em concreto? Aqui é onde a parábola começa a converter-se em contradição com uma
mentalidade absurda e puritana.
Voltemos à pergunta do letrado: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” “O Senhor
remete-o simplesmente para a Escritura, que ele conhece, e deixa que o próprio escriba dê a
resposta. O escriba o faz de um modo muito preciso, numa ligação do Deuteronômio 6,5, com o
Levítico, 19,18: ‘Tu deves amar o Senhor teu Deus com todo o coração, com todas as tuas forças
e com todos os teus pensamentos, e: deves amar o teu próximo como a ti mesmo’. ‘Quem é,
então, o próximo’? A esta pergunta tão concreta, Jesus responde então com a parábola do homem
que caiu nas mãos dos ladrões no caminho que vai de Jerusalém para Jericó e que foi
abandonado saqueado e quase morto ao lado da estrada. Esta era uma história absolutamente
real, visto que ao longo daquele caminho aconteciam regularmente assaltos como este. Um
sacerdote e um levita – conhecedores da Lei, que conheciam a questão da salvação e que a
serviam por profissão – passam por ali e não prestam atenção no ocorrido. Eles não deviam
necessariamente ser pessoas duras de coração; talvez tivessem medo e por isso procuravam o
mais depressa possível chegar à cidade, talvez fossem pessoas sem habilidade e soubessem como
fazer para ajudar – além do que parecia que já nada mais havia que se pudesse fazer. Então
aparece no caminho o samaritano – provavelmente um comerciante, que tinha de passar por esta
estrada muitas vezes e que era conhecido do proprietário da estalagem mais próxima; um
samaritano – portanto, alguém que não pertence à comunidade solidária de Israel e não
precisava, consequentemente, olhar para o assaltado como seu ‘próximo’ [...] Aqui entra em ação
o samaritano. O que vai fazer? Não pergunta a respeito do raio de extensão dos seus deveres de
solidariedade nem sequer sobre merecimentos para a vida eterna. Acontece algo completamente
diferente: o seu coração como que se rasga; o Evangelho usa a palavra que originariamente em
hebraico se referia ao corpo materno e à relação maternal. Ele é atingido nas suas ‘entranhas’, na
sua alma, ao ver este homem assim. ‘Foi tomado de compaixão’, traduzimos hoje, atenuando
assim a originária vitalidade do texto. Por meio da luz fulminante da misericórdia que alcança a
sua alma, torna-se ele mesmo ‘próximo’, para além das perguntas e dos perigos. Neste ponto, a
questão vai em outra direção: já não se trata de saber quem é o meu próximo ou não. Trata-se de
mim mesmo. Eu tenho de me tornar próximo porque o outro conta comigo ‘como eu mesmo’.
(Bento XVI, 2007.)
Santo Agostinho interpreta de modo particular esta parábola, considerando todo o simbolismo.
No “homem que desce de Jerusalém para Jericó” vê a figura de Adão que representa toda a
humanidade expulsa do paraíso, por causa do pecado. “Nos assaltantes” vê o tentador que se
despoja da amizade com Deus e fere com suas trapaças e mantém na escravidão a humanidade
ferida pelo pecado. Na figura do “sacerdote e do levita” vê a insuficiência da lei antiga para
nossa salvação que será levada a cumprimento pelo “bom samaritano”, que é Jesus Cristo, nosso
Senhor e Salvador; que saindo também Ele da Jerusalém celeste vem ao encontro de nossa
condição de pecadores e nos cura com o “azeite” da graça e o “vinho” do Espírito. Na
“hospedaria” Agostinho vê a imagem da Igreja e na figura do “hospedeiro” os pastores, nas mãos
dos quais Jesus confia o cuidado de seu povo. A “partida do samaritano da hospedaria” a
interpreta como a ressurreição e ascensão de Jesus, a promessa de voltar para dar a cada um o
merecido. À Igreja deixa para nossa salvação os “dois denários”, ou seja, a Sagrada Escritura e
os Sacramentos que nos ajudam no caminho até a santidade.
A parábola de Jesus termina com uma pergunta provocadora: quem se fez próximo daquele
homem caído na estrada? Deste modo, Jesus dá a volta sutilmente à questão do escriba: não se
trata de se o outro é ou não meu próximo, mas sim se do outro eu me faço ou não próximo.
Enquanto o mestre da Lei quer indagar acerca do outro, acerca de quem devo ser considerado
próximo e quem não, Jesus muda a perspectiva pedindo-lhe que ponha o foco em si mesmo em
vez do outro. E assim converte o que lhe formulavam como uma questão eminentemente
especulativa, em um chamado a uma mudança de vida.
Quem é meu próximo? Todas as pessoas ajudam ao próximo, mas todos se perguntam quem é
meu próximo? Em que medida se considera esta proximidade? Nas sociedades primitivas,
sobretudo, segundo o parentesco de sangue: a família. Também as nações se consideravam como
uma extensão dos laços familiares. Quanto mais a sociedade evolui, tanto mais se manifesta a
tendência a superar os laços de sangue e estabelecer relações novas, baseadas na proximidade de
ideias, de planos e de projetos comuns. Trata-se de vínculos superiores. Mas, ainda hoje, há uma
tendência muito grande em favor dos antigos laços de sangue. Sem duvida, também esta
tendência pode deteriorar-se em nacionalismos e racismos de todo tipo.
Então, devemos nos perguntar sobre que fundamento se constrói nossas relações com o próximo?
Quem é meu próximo segundo o espírito do evangelho? Com que medida devo julgar minha
proximidade com ele? Não podemos esquecer que o parentesco de sangue, do povo, da raça era o
vínculo principal do povo de Deus no Antigo Testamento. Jesus não veio abolir a lei antiga, mas
sim cumpri-la. Jesus não vem destruir os laços de sangue, mas deu um novo espírito às antigas
uniões, o que antes eram as família e as nações segundo o sangue, agora devem ser também
segundo o espírito, do mesmo modo que o povo de Israel se transformou em povo de Deus, em
Igreja universal. Os profetas usam a imagem das núpcias, do amor esponsal para explicar a
relação das pessoas com Deus. Por meio do amor, a pessoa entra na família divina, mas esta é
uma família imensa. Seus membros são todos aqueles que fazem a vontade de Deus na terra. O
fariseu sabia que um dos primeiros mandamentos é o amor ao próximo. Porém não tinha claro de
quem se tratava o próximo.
O cristão jamais deveria fazer esta pergunta: Quem é o meu próximo? O próximo é quem é
amado. Deveria ser mais difícil mostrar quem não é meu próximo, dado que o amor verdadeiro é
universal, quer dizer, católica é a Igreja. Uma vez mais, o Evangelho insiste que o amor a Deus e
o amor ao ser humano não pode conceber-se de maneira separada ou independente. Mas, sim,
que de tanto repeti-lo não se nos esqueçamos de vivê-lo. Uma religião que deixa o homem em
sua morte, não é uma religião verdadeira; a religião verdadeira é aquela que dá vida, como faz o
Deus-samaritano. “É óbvia a atualidade da parábola... não encontramos também por acaso à
nossa volta pessoas saqueadas e destroçadas? As vítimas das drogas, do comércio de seres
humanos, do turismo sexual, homens interiormente destruídos, que estão vazios no meio de uma
riqueza material. Tudo isso nos diz respeito e nos chama para termos olhar e coração para o
próximo e também a coragem para o amor fraterno. Pois, como foi dito, o sacerdote e o levita
seguiram adiante talvez mais por temor do que por indiferença. De novo e a partir do interior é
que havemos de aprender o risco da bondade; só havemos de poder fazer isso se nós mesmos
formos ‘bons’ a começar de dentro, se a começar de dentro formos próximo e então estivermos
atentos ao modo do serviço que nos é exigido no nosso ambiente e no raio maior da nossa vida e
que a nós possivelmente, e a partir daí, nos é confiado como tarefa”. (Ibid. Bento XVI.)
Portanto, como nos ensinou alguns santos Padres esta parábola, quer falar de Deus, nosso Deus é
um Deus-samaritano “herege” que não lhe importa ser alguém que rompa as leis de pureza ou de
culto religiosas para mostrar amor a quem o necessita. “Vai, e também tu, faze o mesmo.” (v.37)
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo, Editora Planeta, 2007.
O olhar da Igreja sobre a Cidade
“O Senhor designou outros setenta e dois, e os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade e
lugar aonde ele próprio devia ir.” Assim São Lucas inicia um discurso e ensinamento de Jesus
sobre a missão, (cf. Lc 10,1-12.17-20) não dos Doze, mas dos setenta e dois discípulos, isto é,
quase todos aqueles que o seguiam naquele momento, pois a evangelização não foi um privilégio
exclusivo dos Doze.
Jesus dá instruções aos discípulos a partir da realidade concreta de uma plantação pronta para a
colheita. Provocado pela urgência da missão nos “campos do Reino”, como o dono de um campo
agrícola que vê o trigo maduro em risco de se perder, caso não seja logo colhido; e preocupado
em encontrar braços para o urgentíssimo trabalho: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são
poucos.” (v. 2)
Nos campos, durante a colheita são as pessoas que recolhem as coisas. Na colheita para o Reino
de Deus, é necessário cuidar de pessoas. Cada uma delas tem um valor infinitamente maior que
tudo. Os autores espirituais afirmam que, se existisse no mundo um só homem, também por ele,
o Filho de Deus desceria e morreria para salvá-lo. Não podemos, portanto, imaginar que nos
campos confiados à Igreja fique nem sequer uma só espiga sem ser colhida, quer dizer, nem
sequer uma pessoa pela qual Deus não haveria de dar tudo para salvá-la. Por isso Jesus lamenta
que “os operários são poucos” para a colheita e que se deve pedir ao dono, o próprio Deus que
mande trabalhadores (cf. v.2) para que ninguém se perca.
Todos nós sabemos que as dificuldades são inerentes à missão de evangelizar. Nunca foi fácil
evangelizar nem antes nem nos dias atuais. Jesus é consciente disso e envia os seus
evangelizadores “como cordeiros para o meio de lobos.” (v. 3) O êxito da missão não está
assegurado porque é possível a rejeição da mensagem e do mensageiro; fato que o próprio Jesus
e a Igreja experimentou e experimenta em todos tempos.
Vendo o assustador panorama internacional onde a cada ano morrem no mundo cerca de 20.000
pessoas pelo fato de ser cristãs, mártires por causa da fé ou vítimas de leis que legislam contra a
vida etc. Constatamos que a pregação do evangelho foi e sempre será uma experiência tensa,
acompanhada de perseguições mas, ao mesmo tempo feliz, de uma alegria cheia de esperança
que acompanhou e sempre acompanhará a Igreja de todos os tempos. “Os setenta e dois voltaram
com alegria, dizendo: Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (v.17) Esta
expressão quer dizer simplesmente que o mal do mundo se vence com a bondade do evangelho.
A outra imagem do evangelho de hoje é a da cidade como espaço de evangelização: Jesus envia
os setenta e dois “a toda cidade” (v. 1), povoados e aldeias para anunciar o evangelho. “A Igreja
em seu início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para se
propagar.” (DA n. 513) O cristianismo nasce e cresce no ambiente urbano.
São Lucas no seu evangelho quis com a imagem da “viagem à cidade de Jerusalém”, colocar o
marco adequado para a iniciação de alguns seguidores de Jesus nesta tarefa que Ele não poderá
levar a cabo quando chegar em Jerusalém assim, quis adiantar o que será a missão da Igreja. Na
linguagem daquele tempo esta missão se expressava com a imagem da “nova Jerusalém”. Jesus
quis que toda a terra se convertesse em nova Jerusalém, cidade de paz e consolo, da
hospitalidade e presença de Deus.
O profeta Isaías (VIII a.C.) também queria animar a comunidade do pós exílio da Babilônia para
criar uma Jerusalém nova. A profecia (cf. Is 66,10-14) nos fala de uma restauração de Jerusalém,
depois do luto. Deus mesmo, em Jerusalém, cuidará dos seus filhos como uma mãe,
amamentando-os e saciando-os, consolando-os.
Jerusalém, capital do antigo reino de Israel é uma cidade condicionada por sua história e por sua
longa tradição religiosa. É uma cidade disputada ainda hoje por árabes, judeus e cristãos. No
Novo Testamento a Jerusalém, portanto fica constituída, como símbolo da Igreja de Cristo,
protótipo da cidade de Deus. “O projeto de Deus é a Cidade Santa, a nova Jerusalém, ‘vestida
como noiva que se adorna para seu esposo, a tenda que Deus instalou entre os homens.
Acampará com eles, eles serão seu povo e o próprio Deus estará com eles. Enxugará as lágrimas
de seus olhos, e não haverá morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo o que é antigo
terá desaparecido’ (Ap 21,2-4). Esse projeto em sua plenitude é futuro, mas já está se realizando
em Jesus Cristo.” (DA n. 515)
“A Igreja está a serviço da realização dessa Cidade Santa, mediante a proclamação e a vivência
da palavra, a celebração da Liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos mais
pobres e aos que mais sofrem, e dessa forma vai transformando em Cristo, como fermento do
Reino, a cidade atual.” (DA n. 516)
Mas essa Jerusalém não existe, tem que ser criada em toda parte, alí onde cada comunidade for
capaz de sentir a ação libertadora de Deus. A realidade urbana é muito complexa. Na mesma
cidade os contrastes são gritantes: bairros residenciais de alto padrão de conforto, condomínios
fechados, grandes e ricos edifícios, ao lado de bairros da periferia sem as mínimas condições de
infraestrutura, onde a população se amontoa vivendo em sub-habitações, favelas, becos, cortiços
ou ocupações, correndo riscos constantes de desabamentos e inundações.
Contudo não basta para nós cristãos, o olhar somente sobre o tecido urbano, sobre a geografia da
cidade. É preciso aprofundar nosso olhar e perceber a diversidade de “culturas” isto é, os
diversos estilos de vida que convivem numa mesma cidade. Tudo isto se traduz no que se come,
como se veste, no transporte que se usa, no lazer que se tem (ou não se tem), até mesmo na
religião e no modo como se vive a fé, inclusive na Igreja Católica. Alguns cristãos da cidade
fazem da Igreja um bem de consumo ou espaço social do qual são meros usuários: o batizado, o
casamento etc. Para outros a participação na comunidade, a Igreja dá sentido profundo às suas
vidas. Para estes não existe a dicotomia, mas sim a unidade Fé-Vida.
Na verdade, a cidade é um espaço de culturas que convivem, mas também que se conflitam; se
fundem ou se fragmentam até à extinção. Esta realidade da cidade desafia a Pastoral da Igreja, o
seu modo de ser e de agir no mundo urbano. Com certeza a figura romântica da Igreja-Matriz no
meio da praça da cidade ou do bairro, não é mais o principal referencial dos cidadãos.
O Documento de Aparecida, da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do
Caribe na parte referente à “Pastoral Urbana” é um bom exemplo do esforço que fizeram os
nossos bispos para encontrar um tom evangélico e até otimista para olhar a desafiadora realidade
da evangelização da cidade. Um olhar de fé sobre a cidade. Diante da complexidade desta
realidade: a cultura plural, as novas linguagens, as complexas transformações socioeconômicas,
culturais, políticas e religiosas, as diferenças sociais, as tensões desafiantes da tradição e da
modernidade… etc. (cf. DA ns. 509-512) Acontece algo curioso, se valoriza o passado, a origem
da Igreja ligada às cidades e se assinalam experiências de renovação. Mas, também se percebem
atitudes de medo em relação à pastoral urbana; muitos pastores manifestam seu desejo de
trabalhar na zona rural ou nas pequenas cidades e isso revela a tendência a se fechar nos métodos
antigos e a tomar atitude de defesa diante da nova cultura, com sentimentos de impotência diante
das grandes dificuldades das cidades. (cf. DA n. 513)
Aí os bispos fazem uma bela revelação, a missão evangelizadora da cidade não se opõe a ter que
aprender com ela: “A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio a suas alegrias, desejos e
esperanças, e como também em meio a suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o
cotidiano das cidades, como exemplo a violência, pobreza, individualismo e exclusão, não nos
podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos.
As cidades são lugares de liberdade e oportunidade. Nelas, as pessoas têm a possibilidade de
conhecer mais pessoas, interagir e conviver com elas. Nas cidades é possível experimentar
vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente
chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser
aceito por ele.” (DA n. 515)
O então Cardeal Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, (Argentina) hoje Papa Francisco disse na
abertura de um congresso de pastoral urbana em seu país: “O Papa Bento XVI no seu discurso
inaugural da assembleia de Aparecida perguntava: ‘Que é a realidade sem Deus?’ Nós podemos
fazer a mesma pergunta com respeito à cidade: ‘O que é a cidade sem Deus?’ Sem um ponto de
referência fundante e absoluto, a realidade da cidade se fragmenta e se dilui em mil
particularidades sem história e sem identidade... Em que termina um olhar sobre a cidade se não
se centra em uma fé aberta ao transcendente? Para ver a realidade faz falta um olhar de fé, um
olhar crente. Se não, a realidade se fragmenta.
Nosso Deus vive na cidade e Se mistura na sua vida quotidiana, não discrimina nem relativiza
porque é misericordioso e a misericórdia cria maior proximidade... Deus já vive na nossa cidade
e urge – enquanto refletimos – sair ao seu encontro, para O descobrir, para construir relações de
proximidade, para o acompanhar no seu crescimento e encarnar o fermento de sua palavra em
obras concretas. O olhar de fé cresce sempre que pomos a Palavra em prática.
A contemplação melhora no meio da ação. Agir como bons cidadãos – em qualquer cidade –
melhora a fé. Poder-se-á dizer que o olhar de fé nos leva a sair todos os dias e cada vez mais ao
encontro do próximo que habita a cidade. Leva-nos a sair ao encontro porque este olhar se
alimenta na proximidade. Não tolera a distância...”(Bergoglio, 2011.)
O olhar e a atitude de proximidade do cristão-missionário não pode ser o olhar parado ou de
espectador passivo, a atitude de ficar em casa; “a messe” está sempre fora, “o campo do Reino”
hoje é a cidade. Temos que sair para buscar a messe e estabelecer com ela uma relação mais
humana; humanizar a “cidade dos homens” tornando-a mais “cidade de Deus”, aí está uma
grande missão para os cristãos hoje e as palavras de Jesus estão cheias de urgência, põe-nos a
caminho, ligeiros “pois o Reino de Deus está próximo de vós.”(v. 9)
Bibliografia
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
CELAM. Documento de Aparecida, Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado
latino Americano e do Caribe. São Paulo, CNBB/Paulus/Paulinas, 2007.
Bergoglio, Card. Jorge sJ. Palavra de Abertura no I Congresso de Pastoral Urbana de Buenos
Aires, (Argentina): “Deus vive na cidade”. 2011. www.vanthuanobservatory.org
São Pedro e são Paulo, origem e meta da Igreja
Como todos sabem, Jesus escolheu alguns discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos. Num
só dia celebramos o martírio de dois destes apóstolos: Pedro e Paulo. Na realidade, os dois eram
como um só. Embora tenham sido martirizados na perseguição de Nero, em datas diferentes
entre os anos 64 e 67, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu.
A Liturgia reúne em uma única celebração estes dois grandes apóstolos: Pedro, o escolhido para
conduzir a Igreja e confirmar seus irmãos na fé e Paulo, o eleito por Deus, para ser o
evangelizador, aquele que com suas cartas e suas pregações ensinou de modo profundo as
palavras do Mestre.
Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue desses dois apóstolos. Amemos sua
fé, vida, trabalhos, sofrimentos, testemunhos e as pregações. “São Pedro e São Paulo são os
últimos dois aneis de uma corrente que nos une ao próprio Cristo. Em certo sentido, nossa
comunhão com Jesus passa através deles. Nós celebramos, por isso, a festa dos ‘fundadores’ de
nossa fé, dos antepassados do povo cristão.” (Cantalamessa, 2012.)
Pedro é o primeiro a quem Jesus chamou. Nasceu em Betsaida, junto ao lago de Tiberíades e se
mudou para Cafarnaum, onde junto ao seu irmão André, seu pai Jonas, aos filhos de Zebedeu,
montou uma pequena empresa familiar de pesca. Escolhidos os três por Jesus, Pedro Tiago e
João se converteram nos discípulos mais íntimos e foram testemunhas dos maiores
acontecimentos de sua vida, como a Transfiguração no Tabor e a agonia do Getsemani. Pedro
seguiu a Jesus da Galileia à Judeia e depois da morte de Jesus transferiu-se para Antioquia e
enfim chegou a Roma.
Dentre os apóstolos, somente Pedro mereceu ouvir estas palavras de Jesus: “Tu és Pedro, e sobre
esta pedra edificarei minha Igreja." (Mt 16,18) A ele e seus sucessores lhes concede Jesus uma
missão única na Igreja, missão apresentada através da imagem da construção de um edifício,
“quem edifica a Igreja é Cristo. É ele que escolhe livremente um homem e o põe na base do
edifício. Pedro é apenas um instrumento, a primeira pedra do edifício, enquanto Cristo é aquele
que põe a primeira pedra. Todavia, doravante, não se poderá estar verdadeira e plenamente na
Igreja, como pedra viva, se não se está em comunhão com a fé de Pedro e sua autoridade ou, ao
menos, se não se procura estar.” (Ibid. Cantalamessa.) "Ninguém pode por outro fundamento do que o
que foi posto: Jesus Cristo." (1Cor 3,10). Se o fundamento invisível é Cristo Ressuscitado, o visível é
a chamada “cátedra de Pedro”, os que o sucederam até o atual sucessor o papa Francisco. Neles,
Pedro continua a ser a “rocha”, garantindo misteriosamente a indefectibilidade da Igreja no
tempo e nas tormentas que tem que superar essa “barca”, outra alegoria apropriada ao pescador
de Galileia, acostumado a enfrentar as tempestades e ressacas do mar.
Outra metáfora expressa o poder especial de Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o
que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt
16,19) “Ligar e desligar” é símbolo do poder de permitir e proibir, o que significa o governo da
Igreja como sociedade. Mas, como no mundo o poder corrompe, Jesus quer que "o maior dentre
vós seja aquele que serve a todos." (Mt 23,11) Poder exercido a partir do amor: por isso o
Ressuscitado pergunta a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” (Jo 21,15)
Esta é a segunda vocação de Pedro, que teve que experimentar visível e publicamente, sua
debilidade: negou três vezes seu Mestre. Quando se arrependeu e chorou amargamente, Jesus
converteu sua volta ao amor em cura de amor, com suas três promessas de amor, com o qual o
purificou para ser o pastor dos cordeiros e das ovelhas.
Quando Jesus lhe pergunta pela terceira vez se o ama mais que os outros, Pedro não responde
como antes, mas sim com um: “Senhor, tu sabes tudo: tu sabes que te amo." (Jo 21,17) Pedro, um
pecador arrependido, foi escolhido por Jesus para ser o guia de sua Igreja, santa.
É que aquele que haveria de ser pastor de pecadores é necessário que experimente a prova
humilhante de ser ele mesmo pecador. Se não como poderia compreender as experiências de uma
comunidade de pecadores? Só depois da Ressurreição, aquele que havia recebido a promessa de
que a Igreja seria construída sobre sua Pedra, agora um Pedro humanizado pela derrota do
pecado, é confirmado em sua missão de apascentar o rebanho, o constitui Pastor Universal.
São Paulo foi um homem fascinado pela pessoa de Cristo. “Ele se encontrava em Jerusalém nos
dias em que Jesus foi morto. Filho de um judeu de Tarso, Saulo estava na Cidade santa
aperfeiçoando-se em estudos bíblicos. Em seu zelo ardente pela lei, pensava dar glória a Deus
perseguindo a jovem Igreja. Mas Jesus o esperava no caminho de Damasco: Saulo, ‘Saulo, por
que me persegues?’ (At 9,4) Teve apenas a força de balbuciar: ‘Quem és, Senhor?’ Mas tarde
repensando aquela experiência, teve a sensação que naquele dia Cristo o tinha agarrado na alma e
no corpo (Fl 3,12). Cristo tornou-se sua chama interior, sua paixão... percorreu o mundo conhecido
de então pregando Cristo aos judeus e aos pagãos. Suas viagens formam uma teia sobre o mapa
daquele do tempo.” (Ibid. Cantalamessa.)
Encontrar-se com Jesus Ressuscitado foi sua experiência maior, mais profunda, comprometida e
decisiva de sua vida. Experiência de amor e de liberdade. Cristo rompeu a pedra do sepulcro de
seu orgulho e autossuficiência, que era própria dos fariseus, e lhe ressuscitou por dentro. Daí em
diante sentirá a necessidade de evangelizar: "Anunciar o evangelho não é título de glória para
mim; é, antes uma necessidade que se me impõe. A¡ de mim, se eu não anunciar o
evangelho!" (1Cor 9,16)
Prega a verdade desnudada de todo ornato humano, “e proclama a palavra, insiste, no tempo
oportuno e inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina.”(2Tm 4,2) Seus
sofrimentos, sabe que são valiosíssimos, pois são principalmente as portas que abrem as portas
ao Evangelho por toda a parte: "Eu não me apresentei com adulações, como sabeis; nem com
secreta ganância, Deus é testemunha! Tampouco procuramos o elogio dos homens... Pelo
contrário, apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como uma mãe que acaricia os
filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus,
mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos. Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos
nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos de noite e de dia, para não sermos pesados à nenhum de
vós. Foi assim que pregamos o Evangelho de Deus." (1Ts 2,5-9)
Sofreu torturas espirituais, abandono de seus companheiros de missão e evangelizados,
perseguições, solidão. E apesar de tudo, é alegre, “transbordo de alegria em toda a nossa
tribulação.” (2Cor 7,4)
Chegando a Roma, foi encarcerado e como cidadão romano, decapitado: Assim o escreve nas
vésperas de seu martírio: "quanto a mim, já fui oferecido em libação e chegou o tempo de minha
partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé." (2Tm 4,6-7)
Façamos hoje nossa profissão de fé nesta Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja e também
nosso exame de consciência. Quem é a Igreja? Para os católicos, a Igreja é nosso “eu” plural, o
Corpo Místico de Jesus do qual eu sou membro. Na Igreja, portanto, devemos ao invés de criticá-
la examinar nosso amor para com ela.
Nascido pelo Batismo na Igreja, espaço onde atua o Espírito Santo, para viver filialmente com
Deus; cresci e cresço na Igreja para servi-la; recebi na Igreja o melhor que tenho em mim; realizo
na Igreja, o mais valioso que posso fazer por seu ministério; sou enamorado da Igreja, dei a ela o
melhor dos meus anos, a minha juventude e dou dia a dia a minha vida por ela; sofri muito pela
Igreja, por seus erros; e sigo sofrendo, desejo e luto por uma Igreja mais pura, mais unida e
humilde, mais interior e evangélica, mais samaritana e materna, mais simples, mais servidora.
Quem só vê na Igreja uma organização meramente humana e pecadora e não sabe ver sua
qualidade de santa porque é vivificada pelo Espírito de Cristo, sempre com ela, logo se
escandaliza e deixa de crer nela. Quem a vê como um povo maravilhoso que caminha nestes
vinte séculos, vindo de todos os lugares, atraindo a si todos os povos, assimilando todas as
civilizações, traduzindo-se em todas as culturas, falando em todas as línguas, sempre fazendo o
bem, ainda que não o tenha feito sempre bem, a amará e a respeitará, como a uma mãe anciã, que
apesar das rugas que assimilou na luta, sempre se renova e rejuvenesce para o seu Divino
Esposo.
A Igreja sempre me ofereceu um acervo riquíssimo de sabedoria, de santos, místicos e gênios
atuais, que forjaram a formação da minha personalidade. Os erros que detectei na Igreja sempre
os vi retificados por outros homens mais lúcidos e provectos e comprovo que os obstáculos
exerceram o papel de adubo, pois como já disse alguém: as coisas crescem pelo que nascem, e o
que nasce da cruz cresce pela mesma cruz, ainda que ao ritmo peculiar da vida.
Que seria do mundo sem a cultura e sem a arte criada e conservada na e pela Igreja? Que seria da
educação; das escolas e universidades nascidas nos claustros dos mosteiros? Que seria dos
órfãos, dos abandonados, pobres e excluídos da sociedade, sem a Igreja?
Como posso esquecer o sacerdote que me fascinou quando ainda criança e adolescente até o
ponto de querer ser como ele, padre? E tantas santas mulheres, religiosas anônimas e
verdadeiramente pobres, trabalhando e orando por toda a humanidade no silêncio dos seus
claustros?
Gostaria de como santa Teresa de Jesus dizer: Minha glória e minha vida será servir sempre à
Igreja, e morrer como filho da Igreja.
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Ano A.B,C. São
Paulo, Ave Maria, 2012.
Duas virtudes evangélicas: a fé e a humildade
Ao longo do Ano Litúrgico não celebramos temas, celebramos o mistério de Cristo, o Filho de
Deus feito homem, morto e ressuscitado para nossa salvação, segundo a nossa profissão de fé.
Para nós cristãos católicos a celebração litúrgica é fonte de vida cristã e "na liturgia Deus fala ao
seu povo; Cristo continua a anunciar o Evangelho e o povo responde a Deus com o canto e a
oração." (Sacrosanctum Concilium n.33) Por isso acrescenta o Concílio Vaticano II: "Para
realizar uma obra tão grande (a salvação), Cristo está presente na sua Igreja, sobretudo na ação
litúrgica..., nos sacramentos..., e na Palavra, pois quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é ele
quem fala". (SC 7) Daqui se conclui uma presença de Cristo no mesmo nível, embora diversa, na
Palavra e nas espécies eucarísticas.
Por essa razão, "a Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do
Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada liturgia, de tomar e distribuir aos fieis o pão
da vida, quer da mesa da Palavra de Deus, quer da do Corpo de Cristo”. (Dei Verbum 21)
É muito estreita a ligação entre a Palavra de Deus (leituras bíblicas e homilia) e o mistério
eucarístico, que constitui assim as duas partes da Missa; liturgia da Palavra e liturgia Eucarística,
unidas “num só ato de culto” (SC 56). Tanto a celebração litúrgica como a Palavra de Deus
atualizam o mistério de Cristo.
Passado o Tempo Pascal, retornamos ao Tempo Comum. Na leitura evangélica seguimos este ano
o terceiro evangelho, que segundo uma tradição eclesial seu autor juntamente com o livro dos
Atos dos Apóstolos seria Lucas, mas, segundo os especialistas, isso não é totalmente seguro.
Escrito por volta do ano 80 da era apostólica o evangelho de Lucas tem um estilo literário melhor
e mais rico dos três sinóticos. Para alguns é o mais atual e humano de todos os livros do Novo
Testamento. É considerado o evangelho da misericórdia, do acolhimento e do perdão e é também
o evangelho dos pobres e da pobreza proclamada como uma das bem-aventuranças e o próprio
Jesus alerta para o perigo das riquezas à medida que caminha da Galiléia para Jerusalém, onde o
espera o fracasso aparente da morte e a vitória da ressurreição.
“O capitulo sétimo de Lucas apresenta uma serie de encontros que acontecem fora do povo de
Israel: um soldado estrangeiro; uma viúva; uma delegação enviada por João Batista; uma mulher
julgada pecadora na cidade. A cada uma destas pessoas Jesus manifesta-se como Messias de
misericórdia.” (Casarin, 2010.) Segundo o texto deste Domingo (cf. Lc 7,1-10), um pagão,
centurião romano (oficial que comandava cem soldados, pertencentes às tropas de ocupação da
Palestina) que tinha um criado a quem gostava muito e que estava doente, ao ouvir falar de Jesus,
enviou-lhe alguns anciãos amigos, pois era amigo dos judeus de Cafarnaum, tendo construído
para eles uma sinagoga pedindo-lhe, que viesse curar o seu criado.
“Os centuriões romanos deixaram uma boa reputação no Novo Testamento; recordam-se três e
todos eles muito piedosos. Um é aquele do evangelho de hoje, outro aquele que ao pé da cruz
exclamou: Este homem era realmente o Filho de Deus (Mc 15,39), e o último, de nome Cornélio
foi o primeiro pagão a entrar na Igreja (cf. At 10,1ss). No evangelho, porém, as coisas não
seguem o ritmo do mundo: no mundo uma alta patente do exército é admirada e distinguida com
honrarias pelo seu valor militar, pelo seu orgulho e pelas vitórias sobre seus inimigos; aqui, ao
contrário, estes são louvados pela humildade, pela fé, pela esmola e pela oração... são os
paradoxos do Reino, a exemplificação dos valores novos proclamados pelas bem-aventuranças;
ninguém está excluído do Reino – nem sequer um general do exército de ocupação – uma vez
que aceite entrar pela porta certa, que é a ‘porta estreita’.” (Cantalamessa, 2012.)
Quando Jesus já estava perto da casa, o centurião lhe mandou dizer por uns amigos: “Senhor não
te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa; nem mesmo me achei digno
de ir ao seu encontro. Dize, porém uma palavra, para que o meu criado seja curado. Pois também
eu estou sob uma autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e a um digo ‘Vai!’ E ele vai; e a
outro ‘Vem!’ E ele vem; e a meu servo ‘Faze isto!’ e ele o faz.” (v.6-8)
A fé supera a distância, nem o centurião nem Jesus se conhece um ao outro, porém há um
diálogo muito próximo, porque a fé humilde do suplicante encurta esta distância. Se fosse
qualquer um de nós, pediríamos a Jesus para vir à nossa casa, tocar-nos, abençoar-nos porque
essa presença física nos daria a garantia da cura. Mas, o oficial romano dispensa este contato
físico, pois com fé no poder de Jesus confia na “Palavra” de ordem de Jesus. “A fé é a certeza do
que se espera e a prova do que não se vê.” (Hb 11,1)
“Jesus ficou admirado e, voltando-se para a multidão que o seguia disse: ‘Eu vos digo que nem
mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. (v.9) A fé deste homem é uma fé humilde, sua
humildade é surpreendente e transparece, sobretudo nas palavras: “Senhor, Eu não sou digno”.
Essas palavras ficaram na tradição cristã como límpida expressão de humildade cristã e por isso
as repetimos antes da comunhão eucarística. É uma estranha coincidência! As pronunciou um
não cristão e revelam uma virtude que os não cristãos não conheciam e que consideravam como
uma atitude falsa que impede a coragem de viver.
A palavra “humildade”, do latim “humilitas”, proveniente de “humus”, terra, barro conduz o
significado da palavra humildade para algo terreno. Alguém que se coloca abaixo, que se
humilha, em uma posição de submissão. Para os cristãos, humilde seria a pessoa que tem a
consciência de suas capacidades e de suas debilidades. Quais são nossas medidas diante de
Deus? No Antigo Testamento se repete que diante de Deus o homem não é nada, “disse Abraão:
‘eu me atrevo a falar do meu Senhor, eu que sou poeira e cinza.” (Gn 18,27)
Pensar em não temer a Deus é soberba imperdoável. Como não ter necessidade de Deus?
Geralmente, aqui caem os ricos e os poderosos que só confiam em sua riqueza e em seus grandes
conhecimentos. Totalmente o contrário daqueles que a Bíblia chama de “anawin”, os pobres.
Eles não têm nada e a nada em que poder apoiar-se, senão em Deus. Por isso o Senhor cuida
deles. Jesus no sermão da montanha disse que os pobres são “bem-aventurados” porque o Reino
de Deus lhes pertence. O mesmo motivo o encontramos no Magnificat da Virgem Maria, (cf. Lc
1,46-56) que agradece ao Senhor que “olhou para a humilde condição de sua serva” e o próprio
Jesus é modelo de humildade: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.” (Mt
11,29) Ele manifesta esta humildade em sua vida, pois se apresenta como alguém que provém da
classe dos pobres. Mas, sobretudo na atitude de obediência ao Pai, disposto a seguir sua vontade
até a morte. (cf. Fl 2)
Diante do exemplo de fé e humildade do centurião romano às vezes exclama-se: “Se eu tivesse
essa fé... Por que é que não alcançamos esse nível, nós que conhecemos muito melhor que o
soldado romano o amor e o poder de Deus? Que cada um dê a si próprio a resposta... Precisamos
de uma margem de confiança em Deus, em Jesus Cristo, sua imagem pessoal, e aceitar o claro-
escuro da fé sem ceder à psicose de segurança palpável que gera mecanismos de magia. Porque
se torna tão difícil para o homem acreditar, confiando em Deus e entregando-se a Ele? Não pode
haver fé verdadeira sem uma profunda humildade.
O centurião de Cafarnaum é modelo de ambas as virtudes. Todos os grandes crentes da história
foram humildes diante de Deus e dos outros, mesmo sendo grandes personalidades, grandes
sábios ou grandes santos. Para crer em Deus é, pois, necessária a humildade, embora não seja
essa uma virtude muito cotada no nosso mundo. A humildade parece não casar com a psicologia
agressiva e de triunfador que o homem de hoje necessita para fazer-se valer e subir na vida.
Contudo, somente o que é humilde pode acreditar em profundidade e realizar-se plenamente
como pessoa, individual e comunitariamente”. (Caballero, 2000.)
Que neste ano da fé, mantenhamos nosso olhar fixo sobre Jesus Cristo, “autor e consumador da
fé” (Hb 12,2): nele encontra plena realização toda a ânsia e aspiração do coração humana.
Aprendamos com o centurião romano a procurar e a professar a fé e peçamos a Jesus que a
aumente sempre mais e que sejamos capazes de a testemunharmos não só com palavras, mas,
sobretudo com obras, pois a fé sem obras está completamente morta (cf. Tg 2,14ss). “A fé sem a
caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da
dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar
seu caminho... É a fé que permite reconhecer Cristo, é o seu próprio amor que impele a socorrê-
lo sempre que se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com
esperança nosso serviço no mundo, aguardando ‘novos céus e uma nova terra, onde habite a
justiça.’” (Pd 3,13; cf. Ap 21,1) (Bento XVI, 2012.)
Bibliografia
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Ano A.B,C. São
Paulo, Ave Maria, 2012.
Casarin, Giuseppe (org.). Leccionário Comentado, Tempo Comum, semanas I-XVII. Lisboa
(Portugal), Paulus, 2010.
Caballero, B. A Palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000.
Bento XVI. Porta Fidei. Brasilia, Edições CNBB, 2012.
Como é Deus?
Terminado o tempo pascal, concluído no domingo passado com a festa de Pentecostes, voltamos
ao Tempo Comum. Voltamos pela Liturgia a esse caminho habitual de Jesus em seus anos de
ensinamento pelas terras da Judéia e Galiléia e caminho espiritual de todo cristão.
Depois da grandeza da Páscoa e Pentecostes a Igreja quer recordar-nos o Mistério da Santíssima
Trindade não com o objetivo de decifrá-lo, como um complicado teorema. Nossa fé nos convida
a aceitá-lo e reconhecê-lo nas múltiplas manifestações que Deus mesmo nos dá ao longo da
história da humanidade.
Este domingo, num certo sentido recapitula a revelação de Deus que aconteceu nos mistérios
pascais: morte e ressurreição, ascensão e efusão do Espírito Santo. Com esta celebração a
Liturgia, elo entre o tempo pascal e o tempo ordinário, a Igreja nos propõe chaves para descobrir
a impressionante riqueza deste grande mistério que é sem duvida a luz, a força e o alimento que
necessitamos em nossa caminhada para Deus.
Quem é Deus ou como é Deus? Na Liturgia da Palavra, “as três leituras bíblicas que ouvimos são
como três janelas; através de cada uma lançamos um olhar sobre uma etapa da história da
salvação, observando a ação ora de uma, ora de outra das três Pessoas divinas (embora todas três
operem contemporaneamente).” (Cantalamessa, 2012.) O autor do Livro dos Provérbios, (cf. Pr
8,22-31) acertou em suas imagens literárias. “A Sabedoria de Deus” chega a se personificar no
Filho, gerado desde o princípio, dialoga com o Pai e é seu colaborador e conselheiro em todas as
suas obras. "Eu estava junto com ele como mestre-de-obra, eu era o seu encanto todos os
dias.” (v. 30)
O texto nos propõe um ambiente de total familiaridade, inocência, quase infantil. “Todo o tempo
brincava na superfície da terra, encontrava minhas delicias entre os homens.” (vv. 30-
31) “Brincava em sua presença”, jogava com a bola da terra, um modo de expressar
poeticamente a ausência total de maldade, conflito ou divisão no seio da Trindade. Tudo é beleza,
paz, harmonia e ordem. Deus não é um solitário. A criação é expressão dessa divina
comunicação. Desde a eternidade, Deus já pensa em nós e nos ama.
“Nós proclamamos a vossa grandeza, Pai Santo, a sabedoria e o amor com que fizestes todas as
coisas: criastes o homem e a mulher à vossa imagem e lhes confiastes todo o universo..” (Oração
Eucarística IV)
O Apóstolo Paulo (cf. Rm 5,1-5) “nos introduz numa atmosfera diferente: o homem, criado à
imagem de Deus, perdeu sua amizade por causa do pecado, sendo destinado à perdição; porém,
Deus não o abandona ao poder da morte, mas empreende um grande plano de salvação – o da
encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo –, e foi na execução desse plano que se
revelou plenamente ao homem o Filho de Deus... O Filho unigênito de Deus, escondido desde a
eternidade no seio do Pai e que estava com ele quando criava os céus, manifestou-se, portanto,
como Pessoa em Jesus Cristo e nos introduziu no conhecimento do mistério de Deus Uno e
Trino.” (Ibid. Cantalamessa.)
“Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus
Cristo.” (v. 1) O ser humano, criado para a comunhão com Deus e com os outros, a perdeu pelo
pecado. Deus restaura a unidade perdida pela encarnação de Jesus Cristo. E como prova da
“esperança, que não decepciona… o Espírito Santo foi derramado em nossos corações.” (v. 5)
O Evangelho nos abre uma janela sobre a última fase da história da salvação: o tempo da Igreja,
o tempo em que se irá revelar a presença do Espírito Santo. (cf. Jo 16,12-15) Na cena da última
ceia, Jesus fala aos discípulos com palavras de despedida, carregadas de ternura, quase
“nostalgia” do Pai e do Espírito, desejando “voltar” e de algum modo desejando que os
discípulos cheguem à verdade plena: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as
podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade
plena.”(vv. 12-13)
A mente e a linguagem humanas são inapropriadas para explicar a relação existente entre o Pai, o
Filho e o Espírito Santo. Pouco a pouco, paulatinamente, ao longo da vida terrena, Deus se nos
vai aproximando, se adaptando à nossa capacidade limitada, para sermos capazes de descobrir
sua grandeza sem limites. O Espírito Santo guiou os discípulos e a nós para a Verdade plena. Ao
dizer que “tudo o que o Pai tem é meu” (v.15), Jesus nos revela sua igualdade de natureza e
dignidade com o Pai Criador do Universo e também anuncia o Espírito Santo, que também com
Ele é um, igual a Ele. Estamos assim nos umbrais da revelação do mistério da Santíssima
Trindade, mistério insondável e incompreensível, diante do qual só cabe a humilde aceitação. “E
a fim de não mais vivermos para nós, mas para ele que por nós morreu e ressuscitou, enviou de
vós, ó Pai, o Espírito Santo, como primeiro dom aos vossos fieis para santificar toas as coisas,
levando à plenitude a sua obra.” (Oração Eucarística IV)
Em algum momento de nossa vida já nos perguntamos quem é Deus? Como pode ser Deus? Vã
ilusão seria pretender conhecê-lo, compreendê-lo, abarcar ao “Deus vivo e verdadeiro que
(existe) antes de todo o tempo e (permanece) para sempre, habitando em luz
inacessível.” (Oração Eucarística IV) A grandeza divina é tão imensa que a mais penetrante
inteligência humana se sente embotada e lenta para compreender. A verdade plena do mistério da
Trindade está além de nossa capacidade humana de entender. Os mistérios não se podem
entender, nem explicar racionalmente; os que temos fé os adoramos, guiados pela fé e pelo amor
a Deus que nos revelou.
Deus é um mistério que nos ultrapassa. Já o disse Santo Agostinho: “Se o entendes, não é Deus”.
Deus se foi revelando não como uma “ideia” ou “conceito filosófico”. Mas, sim como um Deus-
Amor que se dá até o fim da Encarnação do Verbo e o envio do Espírito Santo.
Como é Deus? Ante esta pergunta, vêm mil respostas: Deus é assim, mas... É muito mais que
isso. A festa da Santíssima Trindade nos põe frente a uma realidade: Alguns se conformam em
pensar em Deus sem se dar conta de que Ele se encarnou, assumiu a nossa condição humana,
“verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a
condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade,
aos tristes, a alegria. E para realizar o plano de amor (do Pai), entregou-se à morte e,
ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou a vida”. (Oração Eucarística IV) Que pena!
Certamente desejavam um Deus perdido entre as nuvens. Talvez lhes incomode pensar num Deus
tão humano e tão próximo, como um Deus encarnado.
Outros, por outro lado, se esqueceram do Deus do céu e se têm aferrado a Jesus de Nazaré. A um
Senhor sem referência ao divino. Querem um Jesus sem a transcendência que acompanhou a sua
história: homem comprometido com os pobres, defensor dos oprimidos e contra o sistema
estabelecido. Talvez porque, o Senhor Divino, lhes incomoda ante um mundo que pretende só
um discurso humanizante, só terreno e pagão.
E finalmente, há aqueles que ficam no sentimentalismo da fé. Uma fé sem mais referência que
aquilo que o momento exige. Os sentimentos são bons quando vão acompanhado da fé. Um
Espírito, sem referência a Aquele que o envia, se converte em seita, em sentimentalismo, emoção
ou lágrimas que brotam mais de um coração fingido, forçado que das entranhas comprometidas
com a conversão; comovidas pela Palavra de um Deus que falou por Cristo e atua pelo Espírito
Santo.
Como é Deus? Quando perguntaram João, o discípulo testemunha ocular do mistério da Cruz do
Senhor: Diga-nos algo sobre Deus? Ele, respondeu: “Deus é Amor!” (1Jo 4,16) Neste sentido
devemos dizer, com João, que Deus é o mesmo Amor quando é Pai e quando é Filho e quando é
Espírito Santo. Deus, o Deus de Jesus Cristo, nosso Deus, sempre é Amor. Mas o mundo prefere
reger-se por outros deuses que se propagam como uma peste e confunde o amor em prazer, a
unidade com a imposição de ideologias ou a caridade com gestos inconsistentes.
Nosso Deus não é isolado, frio e distante. Primordialmente é comunhão, é “comunidade”. È um
ser relacional em suas três pessoas, na Unidade e na Diversidade. Frente ao individualismo do
nosso tempo, a Trindade, nos apresenta um impressionante ícone da família: São três em um!
Cada um com sua personalidade, mas cada um, com sua própria cor. Cada um diferente, mas os
três, olhando na mesma direção.
“Teremos que nos perguntar hoje com sinceridade o que significa o mistério trinitário na nossa
vida de batizados. Deixamo-nos guiar pelo Espírito da Verdade? Realizamos, pela fé, o encontro
pessoal com o Deus uno e trino que mora em nós, em cada um e na comunidade eclesial da qual
fazemos parte?... Somos guiados pelo espírito de Jesus sempre que servimos a verdade da vida,
das relações e direitos humanos, o amor e a fraternidade, a dignidade e a libertação integral do
homem; numa palavra, sempre que servimos o Reino de Deus... Em qualquer campo da atividade
humana, é o Espírito de Deus quem nos guia, que nos faz filhos e dando-nos consciência de o ser.
Este será o sinal visível de que Deus mora em nós como no seu templo, e nos acompanha Cristo
com o Espírito de filiação, liberdade, comunhão e abertura aos irmãos.” (Caballero, 2000.)
Em um mundo tão dividido, desagregador, com rupturas interiores, com individualismos e
diferenças tão marcantes. Deus Uno e Trino nos chama a ser novamente Uno, a voltar por sua
graça, à “imagem e semelhança” perdida. E isto começando pelos espaços que temos mais ao
nosso alcance: a família, a paróquia, a comunidade, a pastoral, o movimento eclesial etc. Se
somos unidade no pequeno e acessível espaço, ao final o seremos também em grande escala.
Com a Bem-Aventurada Isabel da Trindade, (França 1880-1906) suplicamos: “Ó meu Deus,
Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós,
imóvel e pacifica, como se já a minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a
minha paz, nem fazer-me sair de Vós, ó meu imutável, mas que cada minuto me leve mais longe
na profundeza do vosso Mistério... Ó meu Três, meu Tudo... Intensidade em que me perco,
entrego-me a Vós.” (Ibid. Casarin.)
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A,B,C.
São Paulo, Ave Maria, 2012.
Casarin, Giuseppe (Org.) Lecionário Comentado, Tempo Comum Semanas I-XVII. Lisboa
(Portugal) Paulus, 2010.
Caballero, B. A Palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000.
Pentecostes, nasce a Igreja.
Chegamos ao ponto culminante da Páscoa, o Domingo de Pentecostes. Com esta festa litúrgica
encerra-se o tempo pascal, centrado no mistério de Cristo Ressuscitado e glorioso.
Os textos litúrgicos da festa de Pentecostes sublinham a importância fundamental da presença do
Espírito Santo na vida da Igreja. Na Sagrada Escritura, frequentemente se fala do Espírito do
Senhor, do Espírito de Cristo, do Espírito da Verdade etc. Os teólogos interpretam todas estas
expressões fundamentalmente em um único sentido: se trata do Espírito Santo.
A cena de Pentecostes, descrita nos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,1-11), é muito rica em símbolos
com grande significado religioso. “Lucas situa a efusão do Espírito Santo sobre o grupo dos
discípulos de Jesus reunidos em oração durante a festa hebraica do Pentecostes (v. 1). O dom do
Espírito é acompanhado por fenômenos extraordinários (‘forte rajada de vento’, ‘uma espécie de
línguas de fogo’: cf. vv.2-3) e por um efeito carismático (‘falar outras línguas’: v. 4). O
acontecimento adquire imediatamente ressonância universal, devido à presença, em Jerusalém,
de judeus provenientes de varias partes do mundo, cada um deles capaz de compreender na sua
língua o que O Espírito Santo faz dizer aos Apóstolos (vv. 5-11)”. (Casarin, 2009.)
Lucas narra a chegada do Espírito como se narram no Antigo Testamento as manifestações de
Deus. Em especial, nos textos em que Deus faz Aliança com seu povo no Sinai. A festa judaica
de Pentecostes fazia memória deste acontecimento, se fala também de fenômenos parecidos:
ruídos, ventos, estrondos, trovões… é o momento fundacional de Israel como povo de Deus. O
mesmo acontece no Novo Testamento. Já reunidos por Jesus, se constitui agora a comunidade
plenamente em Igreja, em comunidade que ora, prega e convive: sem medo e com alegria. Esta
Igreja no dia de Pentecostes recebe o dom do Espírito Santo. É a Nova Lei, que faz possível a
criação de uma humanidade nova, uma vida nova que é participação antecipada da vida divina.
Uma vida ideal, de liberdade, de paz, de alegria, de perdão e de comunidade.
Na criação de uma humanidade nova, de um grande corpo do qual cada um de nós faz parte, o
Espírito torna possível a unidade graças à diversidade e não a unidade apesar da diversidade:
sendo diferentes, tendo cada um características pessoais e gozando de dons distintos, todos temos
que estar implicados na
construção da comunidade humana. É o Espírito que suscita a pluralidade: a variedade e a
diferença são os dons gratuitos do mesmo Deus. “Todas as manifestações da vida cristã são
consequência direta do Espírito Santo. São Paulo os chama carismas e enumera muitos: ‘Assim o
Espírito a um concede falar com sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, falar com
conhecimento profundo; a um lhe concede o dom da fé; a outro, o poder de curar os enfermos; a
outro, o dom de fazer milagres; a outro, o de dizer profecias; a outro, o saber discernir entre os
espíritos falsos e o Espírito verdadeiro; a outro, falar línguas estranhas e saber interpretá-las; a
outro, dom de interpretá-las. Tudo isto o leva a cabo o único e mesmo Espírito, repartindo a cada
um seus dons como quer.” (cf. 1Cor 12,8-11) Somos homicidas de nós mesmos se pretendermos
uniformizar o que Deus fez diferente. Anulando as diferenças suscitadas pelo mesmo Espírito
mutilamos o corpo de Cristo.
Por isso o “primeiro efeito do dom do Espírito, significativamente, é o falar em línguas: os
discípulos são habilitados a fazer-se entender por uma multidão internacional nas diversas
línguas (vv. 6-11). Desde o início, portanto, o Espírito abre a Igreja nascente à missão universal:
o Evangelho está destinado a ser compreendido em todas as línguas e culturas, e proclamado em
todas as nações.” (Ibid. Casarin.)
Apesar de manter cada um suas diferenças pessoais, culturais e linguísticas, a todos chega a Boa
Nova. O dom de línguas nos fala desta universalidade intrínseca ao Evangelho e à catolicidade
da Igreja. Sua proposta de salvação é para todos os homens e mulheres do mundo. Não porque
devam uniformizar-se, mas sim porque devem perdoar-se e trabalhar na construção do bem
comum respeitando as diferenças, conjugando as diversidades de línguas em uma gramática
humana universal.
Cabe aqui uma nota, “depois do Concílio Vaticano II se assiste a um sinal grandioso em toda a
Igreja Católica: o reaparecimento dos carismas; não se trata somente do assim chamado
“movimento carismático”; quase todos os movimentos de renovação que florescem cá e lá na
Igreja Católica e em outras confissões cristãs mostram esta surpreendente nota comum. Através
deles o povo cristão recupera sua espontaneidade, sua criatividade, sua força de testemunho que
são o sinal típico da ação do Espírito de Deus.” (Cantalamessa, 2012.)
O Evangelho de João (cf. Jo 20,19-23), escolhido para esta festa por nele se falar também de uma
comunicação do Espírito Santo, nos diz que desde o dia mesmo em que Jesus ressuscitou dentre
os mortos sua comunicação com os discípulos se realizou por meio do Espírito. O Espírito que o
Ressuscitado “insuflou” neles lhes dava o discernimento, a alegria e o poder para perdoar os
pecados: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão
perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos.” (v. 23)
Pentecostes é como a representação decisiva e programática de como a Igreja, nascida da Páscoa,
tem que abrir-se a toda humanidade, sua universalidade. Para o autor do quarto evangelho a
verdade é que o Espírito do Senhor esteve presente em toda a Páscoa e foi o autêntico artífice da
igreja primitiva desde o primeiro dia em que Jesus já não estava mais historicamente com eles.
Mas, estava com eles, por meio do Espírito que como Ressuscitado lhes dava.
Pentecostes é a festa do Espírito, da Igreja e da comunidade. É a culminância da Páscoa. A vida
nova que Jesus conseguiu é também nossa vida. Muitas vezes não somos suficientemente
convencidos da atuação do Espírito em nós. Talvez seja porque não lhe deixamos atuar... Dá a
sensação de que estamos como os discípulos antes de Pentecostes: dizemos que cremos em Jesus,
nos confessamos cristãos, mas vivemos medrosos, apáticos, desestimulados, sem garra. Então
nos refugiamos em nossa fortaleza por medo de sair ao mundo. Mas, a imagem que define
melhor a Igreja não é a da fortaleza e sim a da “tenda” que se arma no meio do mundo.
Também os discípulos estavam dentro de casa, com portas e janelas fechadas por medo dos
judeus. Compartilham medos, ilusões e recordações de Jesus. O Espírito se apresentou como
vento e chamas de fogo. O vento e o fogo purificam e transformam. E então... saíram a anunciar
e testemunhar o Evangelho sem medo, sem utilizar a força, sustentados em sua debilidade pelo
Espírito. Quando a Igreja se fecha em si mesma por medo de se contaminar com o mundo, a
imagem que dá é a de uma fortaleza firme, mas infelizmente não convence, por vezes até se
converte em pedra de escândalo para muitos.
Disse Bento XVI que “a Igreja vive constantemente da efusão do Espírito Santo, sem o qual ela
esgotaria as próprias forças, como uma barca a vela à qual faltasse o vento. O Pentecostes
renova-se de modo particular em alguns momentos fortes, tanto a nível local como universal, em
pequenas assembleias ou em grandes convocações... Mas a Igreja conhece numerosos
“pentecostes” que vivificam em comunidades locais: pensemos nas liturgias, em particular nas
que foram vividas em momentos especiais para a vida da comunidade, nas quais a força de Deus
se sentiu de modo evidente, infundido alegria e entusiasmo nos corações. Pensemos em tantos
encontros de oração, nos quais os jovens sentem claramente a o chamado de Deus a enraizar a
sua vida no seu amor, também consagrando-se inteiramente a Ele. Portanto, não há Igreja sem
Pentecostes...” (Bento XVI, Regina Caeli, 23.05.2010)
“Espírito de Deus, enviai dos céus, um raio de luz! Vinde, Pai dos pobres daí aos corações vossos
sete dons. Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alivio, vinde!... Dai à vossa Igreja, que espera e
deseja, vossos sete dons.” Esta “sequência” que cantamos na liturgia desta festa, antes da proclamação
do evangelho, é um dos hinos e orações mais fervorosamente rezados pelos cristãos. É uma
oração que, rezada com devoção e amor, nos dá paz interior, consolo e descanso na difícil
caminhada por este mundo. O Espírito Santo, quando se apodera de uma alma cristã, a ilumina e
vivifica. A vida da alma cristã é o Espírito Santo, porque nos fortalece quando estamos fracos,
nos enche quando nos sentimos pobres e vazios, nos dá luz e calor quando estamos apagados e
frios, nos orienta e cura sempre nosso coração enfermo e desorientado, muitas vezes perdido e
abandonado.
O ser humano é por natureza, um ser demasiado egoísta e frágil. Se nos deixamos arrastar por
nossos instintos mais primários caímos facilmente em atitudes e comportamentos mais animais
que espirituais. Necessitamos a força do espírito, a graça e a força do alto, para nos sobrepor às
tentações do mal. Para conseguir isto necessitamos que o Espírito Santo nos encha por dentro,
seja o “doce hóspede da alma”, brisa nas horas de fogo, alegria que enxugue as lágrimas, dom,
em seus dons esplêndidos.
Peçamos nesta festa de Pentecostes, que o Espírito Santo seja a água viva que regue nossos
corações tantas vezes áridos e secos; Que com seu amor, guie e encha nossos corações quase
sempre inquietos e insatisfeitos.”Vinde Espírito Santo!”
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 200.2
Casarin, Giuseppe (Org.) Lecionário Comentado, Quaresma – Páscoa. Lisboa (Portugal) Paulus,
2009.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz Carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – A,B.C. São
Paulo, Ave Maria, 2012.
Amor marca indelével do cristão
Estamos neste V Domingo da Páscoa no evangelho de João (cf. Jo 13, 31-35) na última ceia de
Jesus e seu discurso de despedida, seu testamento aos seus discípulos: “Dou-vos um
mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos
outros.” (v. 34) A eucaristia celebrada hoje à luz deste mandamento novo adquire uma força toda
especial: é o encontro com a fonte daquele amor novo e a manifestação daquela nova
comunidade que Jesus imaginou.
A última ceia de Jesus com seus discípulos ficaria gravada em suas mentes e em seus corações. O
redator do evangelho de João sabe que aquela noite foi especialmente significativa para Jesus,
não tanto para os discípulos, que somente a puderam recordar e recriar a partir da ressurreição,
como a contemplamos neste tempo pascal.
João é o evangelista que mais profundamente tratou esse momento, mesmo não descrevendo nele
a instituição da eucaristia, preferindo outros sinais e outras palavras, certo que já se conheciam as
palavras eucarísticas dadas pelos outros evangelistas.
Sabe-se que para João a hora da morte de Jesus é a hora da sua “glorificação”, por isso não estão
presentes os indícios de tragédia. A saída de Judas do cenáculo (v.30) desencadeia a
“glorificação”, não a tragédia, mas sim o prodígio do amor consumado: “Tendo amado os seus
que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (v.1)
Jesus veio para amar e este amor se faz mais intenso frente ao poder deste mundo e ao poder do
mal. Na realidade esta não pode ser mais que uma leitura “glorificada” da paixão e entrega de
Jesus, que a páscoa da ressurreição que celebramos nos permite fazer. E não se pode fazer outro
tipo de leitura da que fez o próprio Jesus e das razões pelas quais a fez. Por isso, falar apenar da
paixão e crueldade do seu sofrimento não leva lugar nenhum. O evangelista entende que isto
experimentou Jesus, por amor. Ele deu a sua vida e assim deve ser vivido por seus discípulos. Ou
alguém duvida que o que fez Jesus na cruz foi uma prova de obediência de amor ao Pai por todos
nós? O amor foi o “culpado” do que se passou no Gólgota.
Com a morte de Jesus aparecerá a glória de Deus comprometido com Ele e com sua causa. Por
outro lado, Ele já nos está preparando, como aos discípulos, para o momento de passar da Páscoa
a Pentecostes; do tempo de Jesus ao tempo da Igreja. É lógico pensar que naquela noite em que
Jesus sabia o que poderia passar tinha que preparar os seus para quando não estivesse mais
presente. Não os havia chamado para uma guerra e uma conquista militar, nem contra o Império
de Roma. Os havia chamado para a guerra do amor sem medida, do amor consumado. Por isso, a
pergunta que devemos fazer é: Como podem identificar-se no mundo hostil aqueles que lhe
seguiram e os que lhe seguirão? “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos.” (v. 35)
Ser cristão, discípulo ou discípula de Jesus, é “amar uns aos outros”. Esse é o catecismo que
devemos viver. Tudo o mais encontra sua razão de ser nesta lei suprema da comunidade que
Jesus imaginou para seus discípulos, Igreja casa do amor fraterno. Tudo o que não seja isso é
trair, é abandonar como Judas, a comunhão com o Senhor ressuscitado e desistir da verdadeira
causa do evangelho, desistir e assassinar o amor.
Sempre nos ronda a tentação de confundir o sinal de identidade dos discípulos de Jesus. Temos
posto demasiadas normas, algumas muito pesadas e outras um tanto discriminatórias, onde só
devia estar o amor. Cumprir mandamentos não resulta de todo difícil; ficar no exterior, na
superficialidade é muito cômodo. A raiz e o centro, a razão de nossa fé é exclusivamente o amor:
o que experimentamos de Deus, Ele nos amou primeiro o que vivemos com paixão e exigência.
Frequentemente confundimos o amor com a sensação de “estar bem”, “estar gostando”, uma
experiência meramente sensível, afetiva, superficial. Essa que quando aparecem as dificuldades
surpreendentemente desaparece. Não é o amor o antídoto que tira a dor. A vida humana corre
paralela a essas duras realidades, que a vão marcando. Deus, a adesão a Ele, não evita o
sofrimento: o Reino não se accede sem ser curtido humanamente na dor ou na dificuldade.
O amor não é uma ideia, nem se reduz a um sentimento, mas se traduz em atitudes, em ações,
neste caso em testemunho. O testemunho da experiência de amor que foi a entrega de Jesus na
cruz e sua ressurreição há de traduzir-se no amor entre os discípulos desse Cristo. E é dessa nova
forma de amar que Ele nos fala hoje.
“O amor não pode ser mandado; é em definitivo, um sentimento que pode existir ou não, mas
não pode ser criado pela vontade... (Deus) amou-nos primeiro e continua a ser o primeiro a amar-
nos; por isso, também nós podemos responder com amor. Deus não nos ordena um sentimento
que não possamos suscitar em nós mesmos. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar seu amor, e
desta ‘antecipação’ de Deus pode, como resposta, despontar também em nós o seu amor. No
desenrolar desse encontro, revela-se com clareza que o amor não é apenas um sentimento. Os
sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a
totalidade do amor... É próprio da maturidade do amor abranger todas as potencialidades do
homem e incluir, por assim dizer, o homem em sua totalidade.” (Bento XVI, 2006.)
Esse “mandamento novo” é duro de entender e mais duro de testemunhar, ou seja, praticar,
porque só olhando Jesus saberemos como Ele nos amou. Sabemos que quando se está
apaixonado se se nota no olhar. Pois entre nós, os cristãos, se deveria notar que nos amamos,
porque somos discípulos de um Deus que é amor até as últimas consequências e que nos amou
desde sempre e nos amará para sempre. Quando amarmos assim, então daremos ao mundo que
nos rodeia, o verdadeiro testemunho de que somos discípulos e discípulas de Jesus.
Seremos examinados ao final no amor, mas na matéria amor a maioria dos cristãos somos
reprovados no exame. Nem se quer amamos aos nossos familiares e nem tampouco aos vizinhos.
No mundo moderno se tem instalado um egoísmo solitário e duríssimo. Uma situação de
fechamento tal que leva as pessoas a um isolamento que não só é produzido pela vergonha de
expor sua crise, mas também porque as poucas aproximações que tenham experimentado para
contar seu problema são recebidas com frieza ou hostilidade... e muitos até saem da comunidade
cristã por não se sentirem acolhidas, amadas...
O amor não reina na terra e só uns poucos praticam realmente o mandamento principal de Cristo.
Jesus nos disse que se saberá que somos seus discípulos ao ver-se que nos amamos uns aos
outros. Mas não é assim agora, nem tem sido antes. E não só não há amor, mas até em muitos
casos o que circula entre nós é uma coisa muito próxima do ódio. “Depois de quase dois mil anos
que Cristo proclamou o mandamento novo. Em nossa cidade daqui debaixo não se ouve ainda o
canto novo do amor, mas se ouve o canto antigo das armas que disparam, das sirenes que gritam
depois de ter recolhido nas estradas as vitimas do ódio e da violência. Há ainda tanto lamento,
tanta angustia, tanto luto e tanta morte sobre nossa terra; há ainda muitas lágrimas nos olhos das
pessoas e quase todas causadas pela falta de amor ou pela traição do amor... Mas não devemos
vacilar na fé e na esperança, como se tudo tivesse sido uma ilusão, um sonho efêmero da
humanidade, como se Cristo tivesse se enganado em considerar possível a tal coisa nova que é o
amor.” (Cantalamessa, 2012.)
Se fossemos capazes de amar a todos, o mundo viveria em paz. E na busca do amor talvez nos
falte a capacidade para fazê-lo. Não amamos porque não buscamos os caminhos que nos levam a
isso. A mensagem de Cristo fica na maioria dos casos como um adorno. E, sem duvida a fé sem
obras não é fé, porque, de certo modo, se está negando a principal característica de Cristo, o
amor.
Há muitas instâncias da Igreja Católica e de seus fieis que lutam contra esse mundo atroz. E, por
certo, muitos caminhos para exercitar, com obras nosso amor aos outros. Mas temos de ser
perseverante e ter aberto o coração ao que nos manda Cristo no respeito aos nossos irmãos. O
problema emerge porque muitas vezes esse coração está fechado às palavras de Jesus.
Temos que trabalhar duro para que não haja violência, egoísmo, falta de solidariedade e que tudo
isso saia dos setores da sociedade que se diz cristã, aliás, esta sociedade está sendo honesta em
não mais se dizer cristã, “o Estado é laico!” Certamente temos de trabalhar para que essa falta de
amor, que produz violência, egoísmo e falta de solidariedade, não frutifique em parte alguma.
Mas o cristão deve ser exigente também consigo mesmo, quanto a uma possível cumplicidade
com os violentos, perversos e opressores; com os que matam inocentes e os culpados; com os
assassinos do amor.
“Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos.” (v.35) Onde quer que haja uma pessoa que
ame aos outros, por Cristo; que viva, testemunhe e pratique o mandamento do amor, aí está um
cristão. Não podemos inventar outro sinal diferente daquele que nos marcou Jesus: amar como
Ele nos amou está aí a nossa marca indelével. Só nos diferenciamos dos outros se amarmos
gratuitamente, servindo, perdoando, dedicando aos outros nossa atenção, nosso tempo,
compreendendo-os nas suas tristezas e alegrias, limpando do nosso estilo de ser e agir todo
egoísmo, desprezo, prepotência e o esquecimento. É preciso que deixemos marcar em nós o amor
de Deus e amemos, não somente por palavras, mas com ações e de verdade.
Talvez não sejam momentos fáceis os que vivemos. Mas são tempos nos quais amar ao estilo de
Jesus é um desafio. Porque cremos que o amor dá sentido ao humano seguimos anunciando o
Evangelho na certeza de que o ressuscitado nos anima e acompanha!
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
Bento XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est. São Paulo, Paulus, Edições Loyola, 2006.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus – Ano A,B.C. São
Paulo, Ave Maria, 2012.
PASTORES COM O CHEIRO DAS OVELHAS
Neste 4º domingo da Páscoa sempre lemos um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João,
(cf. Jo 10,27-30) que é o capítulo do Bom Pastor, e aproveitamos este texto, que tem tons
vocacionais, para ilustrar o convite que a Igreja nos faz neste dia a rezar pelas vocações.
No rescaldo da Páscoa voltam a ressoar as palavras que Jesus pronunciou antes de morrer.
Depois da sua ressurreição tudo aquilo que Ele disse adquire uma profundidade nova, uma
luminosidade distinta. Descobre-se então, todo o valor que sua mensagem tem. O Senhor disse
que depois da sua partida, o Espírito recordaria aos seus discípulos suas palavras e os conduziria
à Verdade. Num primeiro momento eles não compreenderam perfeitamente o que o Mestre lhes
ensinava, mas logo penetrariam extasiados nas palavras que conduzem à vida eterna, que nos
transmitem essa felicidade sem fim.
De todos os apóstolos, o que mais tardou em escrever suas recordações foi João. Antes de redigir
seu evangelho, ele o pregou umas mil vezes, e, sobretudo, o meditou. Quantas horas de intensa
oração do “discípulo amado”, quantos momentos de intimidade com o Mestre no silêncio da
contemplação! O espírito de João se elevaria com frequência até o cimo da mais alta mística. A
ele, como sabemos, se lhe simboliza com a águia, essa ave gigante que como dizem, alça seu voo
majestoso sobre as mais altas nuvens, que penetra com seu olhar as distâncias mais remotas, que
olha fixamente o sol.
Por tudo isso, quando João escreve, suas palavras adquirem uma luminosidade nova e
maravilhosa. O mesmo Espírito que inspirou aos outros evangelistas estava por trás de sua pena.
Mas Deus, o Autor principal, aceitou sempre o modo de ser de cada um dos autores secundários,
respeitou ao máximo sua liberdade. João foi sempre um apaixonado, um homem que sabia querer
com ternura e fortaleza a um tempo, que intuía mais que discorria. Talvez por tudo isso Jesus o
preferisse aos outros. Além do mais era o mais jovem e tinha o coração limpo.
João recordava com emoção como Jesus falava de seu rebanho, pelo qual daria sua vida: “As
minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida
eterna; elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão...” (vv. 27-28) João havia
escutado o Mestre de quem bebia suas palavras e agora nos convida a escutar da mesma forma, e
que façamos de nossa vida o ensinamento divino de Jesus Cristo. Nesta pericope tão curta, mas
tão densa em conteúdo, o evangelista fala que a fé é uma relação pessoal entre aquele que crê e
Jesus. “Eu as conheço”, na linguagem bíblica a palavra “conhecer” tem conotações mais
profundas do que no nosso uso comum, significa não tanto um saber intelectual. O “conhecer”,
implica uma relação intima e profunda: o amar, o desejar o bem da pessoa, o sentir afeto por ela.
É dizer, só se pode chegar a conhecer uma pessoa no âmbito da relação íntima e pessoal. Quanto
mais uma pessoa é conhecida dessa maneira por Jesus, em virtude do caráter recíproco de toda
relação pessoal, entra também no mundo da sua intimidade, lhe escuta com atenção e lhe segue
com fidelidade e alegria. No evangelho de João, o “conhecer” quase se identifica com o crer.
Jesus tem confiança em suas ovelhas, porque as ama e sente-se amado por elas. E, sobretudo, as
ovelhas confiam nele.
“O pastor conhece as ovelhas, porque elas lhe pertencem, e elas o conhecem precisamente
porque elas são as suas ovelhas. O conhecer e o pertencer são propriamente uma e a mesma
coisa. O verdadeiro pastor não ‘possui’ as ovelhas como uma coisa qualquer, que se pode usar e
gastar; elas ‘lhe pertencem’ precisamente no se conhecerem, e este ‘conhecer’ é um acolhimento
interior. Significa um pertencer interior, que vai muito mais além do que a posse de coisas.
Procuremos tornar isto claro com um exemplo da nossa vida. Nenhum homem ‘pertence’ a outro
como uma coisa lhe pertence... “Eu e o Pai somos um.” (Jo 10,30) O recíproco conhecer-se entre
o Pai e o Filho é entretecido com o conhecimento recíproco do pastor e das ovelhas. O
conhecimento que liga Jesus com os seus está no campo interior da sua comunhão de
conhecimento com o Pai... Para transferirmos tudo isto para o mundo da nossa vida, podemos
dizer: só em Deus e só a partir de Deus é que o homem conhece verdadeiramente o homem. Um
conhecer-se que confina o homem ao que é empírico e inteligível não encontra de modo algum a
profundidade própria do homem. O homem só se conhece a si mesmo se aprende a compreender-
se a partir de Deus e só conhece o outro se vir nele o mistério de Deus. Para o pastor a serviço de
Jesus, isto quer dizer que não deve prender os homens em si, no seu próprio e pequeno eu. O
conhecer-se que o liga com as ovelhas que lhe foram confiadas deve ter como objetivo
conduzirem-se reciprocamente a Deus, levá-las a Ele; deve então ser um encontrar-se na
comunhão do conhecimento e do amor de Deus. O pastor a serviço de Jesus deve conduzir-se
sempre mais para além de si mesmo, de modo que o outro possa encontrar a sua total liberdade; e
por isso mesmo ele deve também transcender-se a si mesmo rumo à unidade com Jesus e com o
Deus trinitário.” (Bento XVI, 2007.)
“As minhas ovelhas escutam a minha voz e eu as conheço”. (v. 27). O Papa Francisco, na Missa
da Quinta-Feira Santa, 28 de Março p.p. em sua homilia (L’Osservatore Romano,2013.) disse aos
1600 sacerdotes presentes na basílica de São Pedro, que deviam ser “pastores com cheiro de
ovelhas”. Esta frase, fora de seu contexto, pode ser interpretada com sentidos diferentes, mas, no
contexto em que o Papa a disse, o significado da frase só pode ser o que o Papa lhe deu. O Papa
disse exatamente que os sacerdotes devem ser “pastores com o cheiro das ovelhas, isto vo-lo
peço: sede pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens”. O Papa crê que os
sacerdotes não podem estar só atentos às pessoas que lhes buscam a eles, mas sim que têm que
sair eles a buscar as pessoas. “O poder da graça, que se ativa e cresce na medida em que, com fé,
saímos para nos dar a nós mesmos oferecendo o Evangelho aos outros, para dar a pouca unção
que temos àqueles que não têm nada de nada”. E segue dizendo: “Quem não sai de si mesmo, em
vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem
conhecida de todos: o intermediário e o gestor 'já receberam a sua recompensa'. É que, não
colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que
nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver
tristes, padres tristes transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de
novidades, em vez de serem pastores com o 'cheiro das velhas'."
Hoje celebramos o domingo do Bom Pastor, segundo o evangelho de são João. Cristo nos disse
que Ele conhece as suas ovelhas e elas escutam sua voz e lhe seguem, quer dizer que ele vive em
contato direto com suas ovelhas, guiando-as e defendendo-as, e que nada poderá arrebatá-las de
sua mão. Definitivamente no que insistiu o Papa Francisco na homilia da Missa Crismal e o que
nos quer dizer Cristo no Evangelho de hoje é que o bom pastor vive no meio das ovelhas, por
isso tem o cheiro das ovelhas. Esforça-se em ser companheiro e irmão dos outros, não para
dominá-los ou dirigi-los como a ovelhas cegas e tontas, mas sim para acompanhá-las com a
palavra e com o exemplo no verdadeiro caminho que nos leva todos ao Pai.
“O exercício pastoral só se justifica se é ‘sacramento’ da missão do Filho de Deus. Se tiver os
traços do bom pastoreio do Senhor: ‘as ovelhas me conhecem, eu as conheço...’ Entre ovelhas e
pastor há uma relação de sedução e intimidade. Batizados e batizadas que colaboramos na ação
pastoral da Igreja temos a responsabilidade de expor nosso Pai-Mãe-Deus, nosso Senhor Jesus,
através de nossa ação e paixão ao único pastor-pastora de seu povo.
O pior que nos pode acontecer – tanto na ação pastoral da Igreja como nas lideranças de nosso
mundo – é que aqueles que exercem essa função pouco a pouco suplantam o Bom Pastor, o único
pastor; perdem identidade representativa e ganham identidade usurpadora ou suplantadora. Isso
sucede quando depois das declarações iniciais de boa vontade vão se separando do povo, da
comunidade, fecham-se em seu mundo e decidem mais com base em suas ideias e interesses que
na atenção real às necessidades e problemas do povo; quando ao afastar-se do povo e da
comunidade, se afastam do Bom Pastor, que sempre está com suas ovelhas. A ‘burocratização’
excessiva do ministério pastoral conduz a isto. Quando não temos fácil acesso ao pastor, que está
sobrecarregado com milhares de tarefas burocráticas ou atos oficiais, que passa mais tempo em
viagens do que em casa, que tem de delegar muitas funções porque não dá cabo de tudo... a que
fica reduzido o serviço pastoral?”(Pardes, 2011.)
Sejamos pastores com o cheiro das ovelhas, não porque renunciamos a nossa condição de
pastores, mas sim porque vivemos entre as ovelhas, compartilhamos as mesmas alegrias,
angustias, esperanças... e as conhecemos e as guiamos para Deus o único e verdadeiro “Bom
Pastor”. E que ninguém nem nada nos arrebate de suas mãos.
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
Ratzinger, Joseph. (Bento XVI). Jesus de Nazaré. São Paulo: Editora Planeta, 2007.
L’Osservatore Romano, Ano XLIV, n. 13 (2.257), Edição Semanal em Português. Cidade do Vaticano, Domingo 31 de Março de 2013.
Paredes, José Cristo Rey Garcia. A Liturgia da Palavra Comentada, Anos A,B,C. São Paulo, Ave
Maria, 2011.
Como nosso “hosana” se converteu em “crucifica-o”
Todos os anos os livros litúrgicos assinalam este dia como “Domingo de Ramos e da Paixão do
Senhor”. Com esta expressão a liturgia da Igreja nos introduzno mistério da Paixão e Morte de
Jesus,dando-nos a chave para compreender, em sua autêntica dimensão, os acontecimentos que
fazemos presentenas celebrações dos próximos dias da semana santa.Sim, porque nas
celebrações litúrgicas a comunidade cristã não apenas recorda ou dramatiza fatos que ocorreram
no passado; mas, “faz memória”, Istoé, atualizaos acontecimentos (”Kairós”) da história da
salvação.
A liturgia do Domingo de Ramos associa dois momentos radicalmente contrapostos, separados
tão somentepor poucos dias: a acolhida gloriosa de Jesus em Jerusalém e sua crucifixão no
Calvário, o “hosana” transbordante de fervor e o impiedoso “crucifica-o!” Portanto, há dois
aspectos nesta celebração que se fazem presente em dois momentos distintos. Umcelebrar,
bendizer e acompanhar Jesus o que “vem em nome do Senhor”neste triunfo passageiro de
suaentradaem Jerusalém. Noutro momento, ressaltar o valor que temacompanhar Jesuse sentir-se
acompanhado por Eleno caminho de cada dia como o servo justo e humilde que agrada o Pai e
cumpre sua vontade. Inicia assim um caminho de justiçae humildade que só é acreditado pelo
povo simples que o acompanha.
Este é o único Domingo em que na liturgia lemos o relato da Paixão de Jesus. É necessário que o
povo cristão escute o “anuncio” da Paixão como o faziam os primeiros cristãos, que escreveram
estes relatos nos primeiros anos do cristianismo para serem lidos e meditados emsuas
celebrações.
A narração da Paixão do “profeta da Galiléia” de São Lucas (Cf. Lc 22,14-23,56) segue uma
tradição mais antiga que as de São Marcos e São Mateus. É uma narração que veio precedida
pela importância que Jesus comunicou aos seus discípulos de ir a Jerusalém, porque um profeta
não pode morrer fora de Jerusalém (cf. Lc 13,33). Como profeta Ele foi à morte, por sua vida e
por suas palavras, à cidade santa onde se decidiam todas as coisas importantes da religião
judaica.
Com os relatos da paixão, não somente se pretende explicar as causas da morte de Jesus, quem o
matou, ou por que o mataram; mas o sentido que o próprio Jesus deu a sua morte, como acontece
no relato da última ceia com seus discípulos(Cf. Lc 22, 14-20). Lucas nos apresenta as palavras
de Jesus sobre o serviço, que considera que sua morte “énecessária” para que o Reino de Deus
seja uma realidade mais real e efetiva.
Comeste relato Lucas conseguia explicar, numa catequese muito apropriada a sua comunidade,
que a Paixão do Senhor não é uma tragédia, mas que Jesus deu à sua morte um sentido de
entrega e de fidelidade a Deus-Pai.Nela se suaviza tudo o que seja violência e dramaticidade.O
evangelista não quer insistir nos sofrimentos, por isso não narra os açoites, nem a coroação de
espinhos. E a crucifixãoé relatada muito brevemente.
Lucas ressalta o senhorio de Jesus, que se deixa prender, sem resistência e responde com
autoridade aos sumos sacerdotes(Cf. Lc 22,47-54). E,sobretudo, resplandece a infinita
misericórdia do Senhor em tais momentos, chamando o traidor por seu nome, curando a orelha
doempregado do sumo sacerdote, perdoando aos que o crucificam, e prometendo o paraíso ao
ladrão arrependido. Jesus se manifesta assim como reflexo do amor e da misericórdia do Paipara
conosco.
Na cena da crucificação sobressai especialmente o diálogo de Jesus com o bom ladrão(Cf. Lc
23,39-43). Esta narração dos dois “malfeitores crucificados”ao lado de Jesus é um dos momentos
culminantes da paixão do nosso evangelista que reflete muito bem sua teologia: Jesus está
sempre aberto a comunicar a misericórdia divina Por isso é considerado o evangelista da
misericórdia e da salvação: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso.” Isto é determinante, a partir
da morte de Cristo e não só no fim do mundo, estaremos nas mãos salvadoras de Deus.
Alguém já escreveu que “um ‘Deus crucificado’ constitui uma revoluçãoe umescândalo… o
Crucificado não tem o rosto nem os traços que as religiões atribuem ao Ser Supremo“. Este Deus
não permite uma féfútile egoísta em um Deus onipotente a serviço de nossos caprichos e
pretensões. Com Ele nos encontramos quando nos aproximamos do sofrimento,em nós mesmos e
de qualquer crucificado atual pelo sofrimento das injustiças e maldades que existem emnosso
mundo.
Por isso nestes dias, talvez e mais uma vez, teríamos que nos perguntar quemé esse Homem que
a dois mil anos atrás fez uma contundente pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?”(Lc 9,20)
Nós homens e mulheres que vivemos neste século XXI, somos muito ilustrados eminformações e
saberes, mas, com frequência, somos muito ignorantes nas coisas da fé. Temos uma cultura de
“tradições ou costumes” religiosos e litúrgicos, mas que não nos ajudam a ter uma vivência
profunda de nossa fé. Queresposta podemos darà pergunta feita por Jesus? Seremos capazes de
reconhecer em Jesus esse homem que mudou a imagem que os judeus e muitos de nós hoje ainda
têm de Deus?
Ele é quem nos revelou que Deus é um Pai, cheio de ternura e de misericórdia. O relato da
Paixão do Evangelista Lucas ressalta a confiança no Paie o pedido de misericórdia para os “que
não sabem o que fazem”(Lc 23,34) ou para o bom ladrão “hoje estarás comigo” (Lc 23,43).
Esta celebraçãoe nossa confissão de féteria que nos levar a dar uma verdadeira resposta à
pergunta de Jesus como Pedro, ainda que depois o neguemos: “Tués oCristo de Deus” (Lc 9,20).
Ou como ocenturião: “De fato! Este homem era justo!”(Lc 23,47)
São João de Ávila (1499-1569) deixou escrito que era necessário que a lança do centurião
romano abrisse o coração de Cristo para que através dessa ferida pudéssemos vislumbrar o amor
infinito do Pai que entrega seu Filho por nós, e doFilho, Jesus Cristo, que se entrega à morte por
nós.O Papa emérito Bento XVI disse: “Olhemos para Cristo transpassado na Cruz! É Ele a
revelação mais perturbadora do amor de Deus. Na Cruz é o próprio Deus que mendiga o amor da
sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós.”
Por isso devo insistir que ante a Paixão de Jesus não podemos ser meros espectadores ou como
auditório passivo. Cada um de nós estava ali, entre aqueles judeus ou aqueles discípulos, porque
Jesus oferecia sua vida também por cada um de nós.
Mas, voltemos ao duplo aspecto desta celebração e também nos perguntamos: Como é possível
que os gritos eufóricos de “hosana” e “bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!”(Lc
19,38) com que a multidão reconhecia e acolhia o Messias-Filho de Davi se trocassemlogo
porinsultos e aversão: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!... Crucifica-o, crucifica-o!”?(Lc 23,
18.21)O que aconteceu em tão breve espaço de tempo? Por que esta mudança tão radical de
atitude?
Uma explicação sem duvida é a manipulação a que é submetida a multidão. Como acontece
também em nossos dias, quem carece de sentido crítico tende a submeter-se à “opinião pública”,
a “o que dizem os outros”, deixando-se arrastar facilmente por suas opiniões eações,pelo que “a
maioria” pensa, disse oufez. Não fazem o mesmo hoje,muitos inimigos da Igreja que fazendo eco
nos poderosos meios de comunicação social apresentam “a verdade sobre Jesus” para que muitos
gritem novamente: “crucifica-o!” e “crucifiquem a Igreja”? Como naquele tempo, também hoje a
“opinião pública” é manipulada habilmente por um pequeno grupo de poder que quer tirar Cristo
e a Igreja do meio, da sociedade, dizendo que a Igreja deve ficar restrita ao interior dos seus
templos, pois o estado é laico, religião e vida são coisas distintas.
Porém a assombrosa facilidade para mudar de atitudetão radicalmente com respeito a Jesus não
deve fazer-nos pensar somentenos “outros”, ou assinalar certos grupos de poder para sentir-nos
desculpados, mas sim deve fazer-nos refletir humildemente em nossa própria volubilidade e
inconsistência. Quantas vezes arrependidos, emocionados, tocados profundamente por um
encontro com o Senhor, convencidos de que Cristo é a resposta a toda nossa busca de felicidade,
de que Ele é O Senhor, lhe abrimos as portas de nossa mente e de nosso coração, o acolhemos
com alegria e entusiasmo, com palmas egritos de glória, mas poucos dias depois o expulsamos e
gritamos “crucifica-o!” com nossas ações e opiniões opostas a seus ensinamentos? Quantas vezes
preferimos o “Barrabás” de nossos próprios vícios e pecados?
Tambémeu me deixo manipular tão facilmente pelas vozes sedutoras de um mundo que odeia a
Cristo e busca arrancar toda raiz da cultura edos valores cristãos de nosso povo que foram
forjados ao calor da fé! Também eu me deixo influenciar tão facilmente pelas vozes enganadoras
de minhas próprias inclinações ao mal! Também eu me deixo seduzir tão facilmente pelas vozes
sutis e agradáveis do Maligno que com suas astutas ilusões me promete a felicidade que sonho se
em troca oferecer a minha vida aos deuses do poder, do prazer ou do ter! E assim, quantas vezes,
ainda que cristão de nome, grito: “A esse não! Escolho a Barrabás! A esse tiro da minha vida! A
esse crucifica-o!”
Como é importante aprender a ser fielaté nos pequenos detalhes de nossa vida, para responder
com fé coerente quem é Jesus para mim e para não crucificá-lo novamente com nossasopiniões e
ações! Como é importante ser fiel a Cristo edesmascarar, resistir e afastar aquelas vozes que sutil
e habilmente querem-nos por contra Jesus, para em troca construir nossa fidelidade ao Senhor dia
a dia com as pequenas opções por Ele. Como é importante fortalecer nossa amizade comEle
através da escuta de sua Palavra e da oração perseverante! Do contrário, no momento da prova
ou da tentação, em que escutamos as “vozes” interiores ou exteriores que nos convidam a
eliminar o Senhor Jesus de nossas vidas, descobriremos como nosso “hosana” inicial se
converteu em um traiçoeiro “crucifica-o”. O que escolho? Ser fiel ao Senhor até a morte? Ou,
covarde como tantos, me deixar levar na direçãoem que sopram os ventos deste mundo que
detesta a Cristo, que detesta a sua Igreja e a todos aqueles que são de Cristo?
A força do olhar de amor e perdão
Às portas da semana santa, semana do “amor maior”. No V Domingo desta Quaresma
Penitencial, a Palavra de Deus nos convida a olhar para o interior de nós mesmos fazendo um
bom exame de consciência, pensando no modo como julgamos ou muitas vezes condenamos as
atitudes daqueles que nos rodeiam, totalmente oposto ao olhar de amor de Jesus no confronto
com a agressividade e a violência com que os mais frágeis são muitas vezes castigados.
O tempo da Quaresma, já quase no seu final, a paixão de Jesus, deve produzir uma reflexão sobre
nossas faltas e ausências de amor ao próximo. Percorrendo esta ultima etapa deste itinerário de
conversão em direção à Páscoa, aproveitemos a oportunidade de conversão e façamos a
experiência do encontro com o amor, a ternura, o perdão e a misericórdia de Deus no Sacramento
da Reconciliação e da Penitência.
No centro do relato da “mulher adúltera” (cf. Jo 8,1-11), muito provavelmente este episódio
pertence aos últimos dias da vida de Jesus, vemos uma mulher indefesa, ameaçada, talvez
agredida, enfrentando sozinha os seus acusadores. Talvez ela não estivesse arrependida, mas com
certeza estava perturbada, assustada e envergonhada. Ela é deixada só, exposta diante da opinião
pública com “o seu pecado”, jogada aos pés de Jesus. Esta mulher é a imagem exata do que era,
naquele tempo, a mulher na sociedade, considerada uma propriedade do marido. Por isso o
adultério mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade.
“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei Moisés nos ordena
apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?” (vv. 4-5) O livro do Levítico diz que: “o homem
que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua
cúmplice.” (Lv 20,10); e o Deuteronômio, exige: “os trareis ambos à porta da cidade e os
apedrejareis até que morram... deste modo extirparás o mal do teu meio.” (Dt 22,24) Claro que
Deus não exigiu isso, mas, a cultura da época impôs estas penas como exigências morais. É
óbvio que Jesus não pode estar de acordo com a pena de morte, nem com a infâmia de que
somente o ser considerado mais frágil (no caso a mulher) tenha que pagar publicamente.
A leitura “profética” que Jesus faz da lei põe em evidência uma religião e uma moral sem
coração e sem entranhas. Jesus não mandou buscar o “companheiro” para que juntos pagassem.
O que indigna a Jesus é a “dureza” de coração, camuflada no puritanismo de aplicar uma lei tão
injusta como
inumana. Os escribas e fariseus se mostravam empenhados em salvar a letra da lei, ainda que
para isso tivessem que condenar pessoas; Jesus estava empenhado em salvar pessoas,
interpretando para isso a lei a partir da compreensão e do amor.
Jesus escuta atento as acusações daqueles que haviam encontrado a mulher perdendo sua
dignidade com um qualquer e o que se lhe ocorre é precisamente devolvê-la para sempre. De
nada valia àquela mulher Ele lhe falar de um Deus libertador, se os responsáveis pela lei
abandonaram a mulher e a deixaram a mercê de sua própria sorte. Jesus, pois, é o melhor
intérprete do Deus Libertador que tem compaixão e escuta os clamores e penas dos que sofrem
todo o peso de uma sociedade e duma religião sem misericórdia. Pouco lhe importa as histórias
passadas daquela mulher. Para o Senhor, o momento presente, é o mais essencial. E, o mais
desprezível, aqueles que sem ter poder para isso, se erguem em juízes dos defeitos dos outros.
“Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (v. 7) Quer dizer,
se todos somos pecadores, por que não somos mais humanos ao julgar os outros? “Embora todos
sejamos imperfeitos, acusando os outros como fiscais, julgamo-nos inocentes. Parece-nos a coisa
mais natural do mundo deitar a culpa para os outros. Por isso diz o ditado ‘a culpa morreu
solteira’, porque ninguém a quer. Procura-se, arranja-se sempre um bode expiatório, tanto a nível
político e social, religioso e até a nível técnico... Hipócritas! Julgamos assim que nos auto-
justificamos. Aqueles fariseus do evangelho não eram muito piores do que nós, que percebemos
nitidamente o cisco no olho do outro e não vemos a trave no nosso. Contudo, constituirmo-nos
como juízes dos outros é um contra-senso clamoroso. Isso é competência exclusiva de Deus, o
único que conhece integralmente a pessoa com os seus condicionamentos psicológicos e as suas
limitações à liberdade, e por conseguinte, a responsabilidade e culpabilidade de cada
um.” (Caballero, 2000.)
“Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” Por que Jesus
reage assim? Não podemos imaginar que os que levam a mulher são todos maus ou adúlteros.
Não é isso! Mas sim, pecadores de uma ou de outra forma. Então, se todos somos pecadores, por
que não somos mais humanos ao julgar os outros? Não é uma questão de que há pecados e
pecados. Isto é verdade. Mas, por mais simples que seja nosso pecado todos queremos perdão e
misericórdia. Os grandes pecados também pedem misericórdia, e assim, nenhum pecado ante
Deus exige a morte. Ele não quer a morte do pecador.
Acredito ser necessário fazermos uma autocrítica. Perguntar-nos até que ponto, nossa vida cristã
se encontra adulterada. Mas, também somos chamados a sermos compreensivos uns com os
outros, sermos conscientes de que se nós temos alguma cicatriz aberta em nosso corpo, também
os outros podem tê-la ou não? Muitas vezes, querendo ou sem querer, com a verdade ou sem ela,
podemos arruinar muitas pessoas; sentenciá-las ou enterrá-las vivas.
“Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Disse ela: ‘Ninguém, Senhor’. Disse, então,
Jesus: nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. (vv. 10-11) “Superado o
medo, ela percebe um olhar de misericórdia como um banho de luz; nenhum homem jamais a
tinha olhado daquele modo!... Quanta nova confiança deve ter infundido na mulher aquele Vai,
pois significava: volta a viver, a esperar, volta para casa; retoma a tua dignidade; dize aos
homens, com tua presença entre eles, que não há somente a Lei, há também a graça. Podemos
estar certos: a experiência daquele perdão, daquela compreensão infinita por parte de Jesus,
reergueu aquela mulher, lhe encheu o coração com a experiência de um amor novo, tão diferente
daquele que a tinha iludido em seu adultério. De modo que ela não deve ter mais procurado um
momento de uma dúbia felicidade nos braços de um homem que, depois de tê-la talvez seduzido,
a havia deixado tão covardemente abandonada pelas ruas da vida.” (Cantalamessa, 2012.)
O gesto de Jesus passando por cima do pecado daquela mulher aconteceu com todos os cristãos
no Batismo, e se renova no Sacramento da Reconciliação, tantas vezes quando dele obtemos o
perdão dos pecados. “A confissão é, portanto, o encontro com o perdão divino, que nos é
oferecido em Jesus e que nos é transmitido mediante o ministério da Igreja. Neste sinal eficaz da
graça, encontro com a misericórdia sem fim, é-nos oferecido o rosto de um Deus que conhece
como ninguém nossa condição humana e se faz próximo com terno amor... Desta proximidade
terna e compassiva de Deus temos imensa necessidade... O sacramento do perdão vem a nos
socorrer sempre de novo em nossa condição de pecado, alcançando-nos com a força curadora da
graça divina e transformando nosso coração e nossos comportamentos.” (Forte, 2005-2006.)
Aquela mulher, jogada no chão, tremendo de medo, olhada do alto com olhares de desprezo
encontra outro olhar, o olhar do Amor e do perdão. Há olhares e olhares. Diz o dito popular “há
olhares que matam”, que expressam uma grande carga de agressividade e violência, desejam o
mal, a destruição da pessoa que olham. Há “olhares indiferentes”, que não dizem nada, que
simplesmente refletem isso, desprezo. Mas, há olhares que restauram, que curam, que animam,
que dão vida… São os “olhares de amor”.
Alguém já disse que “amar é saber olhar”. O amor tem olhos mais claros, mais potentes para ver
com o coração o interior das pessoas. O amor tem um olhar mais penetrante que a inteligência,
sabe ver o invisível, mas que está aí, é real. “Amar é saber olhar”.
Neste evangelho há um encontro de olhares. O olhar da multidão de homens, mestres da lei e
fariseus, é um “olhar que mata”. Seus olhos não vêm mais que uma mulher adúltera que deve ser
apedrejada. Olham para esta mulher com um olhar que mata. Mas, encontramo-nos também com
o olhar de Jesus, que condena o pecado: “não peques mais”; mas que ama o pecador, um olhar
cheio de amor para esta mulher.
O olhar de amor tem características que não tem o olhar sem amor. O olhar de amor vê para além
das aparências, vê com profundidade o interior das situações e das pessoas. Neste caso concreto,
Jesus com seu olhar de amor, vê que essa mulher está doída, humilhada e arrependida pelo que
fez, mas sem a possibilidade de se defender. Vê o olhar dessa mulher que está pedindo que a
compreendam e a perdoem.
Outra característica do olhar de amor é sempre buscar amar. Os mestres da lei e fariseus, porque
não amavam, só buscavam o castigo para a que havia pecado. Mas Jesus com seu olhar de amor,
não busca condenar e castigar, mas sim curar, refazer a vida, devolver a sua dignidade.
Como é diferente nosso olhar sobre o mundo e as pessoas, ao que Deus possui! Por que será?
“Olhemo-nos com o olhar com que Deus nos vê e, então, sentiremos, sim, a necessidade de
correr a Jesus, mas para pedir perdão para nós e não a condenação para os outros.” (Ibid.
Cantalamessa.)
Nós, como cristãos devemos buscar o que Jesus ofereceu a esta mulher, seu olhar de amor,
compaixão e compreensão. Que bom que venha até nós esta reflexão quase ao final deste tempo
quaresmal para nos questionar: Como nos posicionamos frente aos defeitos e as quedas dos
outros, como juízes ou como discípulos de Jesus alcançando a todos com o amor e o perdão de
Jesus?
Bibliografia:
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002.
Rocchetta, Carlo. Teologia da ternura, um evangelho a descobrir. São Paulo: Paulus, 2002.
Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus, Anos A,B, C.
São Paulo, Ave Maria, 2012.
Forte, D. Bruno. Carta pastoral Confessar-se, por quê? Traduzido e publicado por Zenit.org
2005-2006.
Paróquia de Nossa Senhora de Fátima
CATEQUESE QUARESMAL
2. A conversão e a reconciliação
Org. Pe. José Assis Pereira Soares
“Suscitar no coração do homem a conversão e a penitência
e proporcionar-lhe o dom da reconciliação é a missão da Igreja,
como continuadora da obra redentora do seu divino Fundador.
Trata-se de uma missão que não será cumprida só com algumas
afirmações teóricas [...] mas está destinada a expressar-se em funções
ministeriais na prática concreta da penitência e da reconciliação.”(RP n.23)
“O pecado mortal, atacando em nós o princípio vital, que é a caridade,
exige uma nova iniciativa da misericórdia de Deus e uma conversão do coração,
que se realiza normalmente no sacramento da Reconciliação.” (CIC 1856)
“Nós vos pedimos em nome de Cristo; reconciliai-vos com Deus” (2Cor 5,20)
“O tempo estabelecido completou-se e o Reino de Deus chegou!
Convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1,15)
- Jesus percorre os povoados anunciando o Evangelho de Deus. A primeira frase que Ele
pronuncia no Evangelho de Marcos é: “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15).
Portanto, a conversão não está ligada somente à confissão, mas ela deve marcar toda a nossa
vida; a razão disso é a proximidade do Reino de Deus. Como Deus está próximo, como o
bondoso e misericordioso Deus se aproximou de nós em Jesus Cristo, devemos nos converter.
Devemos nos afastar de nós mesmos e nos voltar para Deus.
- É impressionante que estas sejam as primeiras palavras que Jesus diz. Estranhamente, a “boa
nova” não começa por “alegrai-vos” ou algo semelhante, mas por “convertei-vos” ou traduzido
em outras tradições: “arrependei-vos” e “fazei penitência”.
- O que as palavras de Jesus evocam é a grande realidade da volta que era expressa pela
terminologia hebraica do voltar e traduzido para o grego pelo conceito de “metanoia”.
- O termo “metanoia” evoca, uma tradição riquíssima: A volta, ou êxodo, da escravidão do
Egito, a volta – sobretudo – do exílio babilônico, a volta do homem para Deus e de Deus para o
homem, segundo o dizer dos profetas. A “metanoia” faz parte de um diálogo: Deus quer estar
junto de sua gente (isso significa: o Reino de Deus chegou) e por causa desta iniciativa de Deus,
que se volta para nós, nós devemos voltar para Deus. Encher-nos de atenção para com Ele, de
boa disposição para compreender o que Ele quer de nós. Voltar para Deus que se volta para nós
isso é a conversão.
- O Coração do ser humano não sossega enquanto não encontrar Deus. Todos nós almejamos
tal encontro. Todos querem fazer essa “experiência” de Deus.
- O verdadeiro significado de “metanoia” é ‘reconhecer posteriormente’, ‘modificar o sentido’,
‘pensar diferente’. Meta também pode significar ‘por trás’. Então conversão significaria ‘ver por
trás das coisas’, ‘ver o próprio Deus em todas as pessoas e na criação’, ‘reconhecer Deus em
nossas vivências cotidianas quando Ele nos fala’. Também quer dizer ‘reconhecer o essencial que
está oculto em todas as coisas’. Conversão quer dizer assumir o olhar de Jesus para reconhecer
Deus em tudo que encontro, Deus que fala comigo por meio do encontro com uma pessoa, por
meio de uma experiência feliz, um infortúnio, um sucesso e um fracasso, por meio dos meus
pensamentos, de palavras que outros me transmitem. Quer dizer acreditar que Deus está em tudo
próximo de mim, que Ele me fala, que age em mim.
- Converter-se quer dizer dirigir-se a Deus. Quando me volto a Deus e caminho em sua direção,
encontro meu ser verdadeiro, meu eu real. Para Jesus a conversão consiste em crer no Evangelho,
na boa nova da proximidade salutar e amorosa de Deus.
- Alguns pregadores da conversão anunciam-nos muito mais uma “ameaça” que uma boa nova.
Ameaçam-nos com julgamentos e infernos querem nos forçar a segui-los e a seguir ideias
amedrontadoras de Deus. Mas não é essa a mensagem de Jesus que nos anuncia a proximidade
do Pai amoroso e misericordioso.
- Cada um de nós imagina Deus de uma forma. Todavia, temos certeza de que essa imagem é
verdadeira? Podemos nos enganar também quanto à experiência que desejamos fazer de Deus?
Para fazer uma experiência autêntica de Deus, requer-se o homem “total”: com seu coração, sua
mente e sua vontade. Assim, não seria verdadeira a experiência de Deus que se estabelecesse
apenas no coração, sem provocar uma mudança radical da vontade e uma lúcida adesão da
mente. Todas as faculdades humanas devem ser mobilizadas, e no grau máximo.
- Do ponto de vista psicológico, duas condições parecem ser decisivas, se queremos chegar a
uma verdadeira experiência de Deus:
1) a harmonia estrutural interior, ou seja, deve ser uma experiência unitária, que unifique a
pessoa toda, envolvendo todos os seus dinamismos psíquicos: coração, mente, vontade;
2) a profundidade da própria experiência: é preciso amar a Deus com a “totalidade” do nosso ser,
comprometendo nossa vida por Ele.
- É impossível conhecer a Deus, “fazer experiência dele”, se não se está disposto a mudar de
vida. É preciso ficar bem claro que não se trata da conversão súbita de um ateu, tampouco
daquela conversão excepcional e maravilhosa que lemos na vida de alguns santos. Referimo-
nos, ao contrário, àquele processo lento, discreto e profundo de transformação que dura a vida
inteira, que se dá na vida de quem encontra Deus, descobre-o sempre mais e se deixa
radicalmente transformar por Ele. É, portanto, uma caminhada, uma condição comum de vida,
mais do que um momento apenas limitado no tempo. Uma caminhada a ser feita por todas as
pessoas, crentes ou não, embora de maneiras diferentes.
- A conversão é um processo contínuo; não é um dado instantâneo, pontual e de uma vez por
todas, mas constitui um crescimento ininterrupto e sempre ascendente. A conversão do coração a
que nos chama a Quaresma, além de se expressar na vida e se conhecer pelos seus frutos, tem um
sacramento que a conduz: a Penitência ou Reconciliação, o sacramento do perdão em que Deus
nos reconcilia consigo e com os irmãos.
- Por que é tão difícil converter-se? Por que uma vez que optamos por viver de fé, logo nos
colocamos na categoria dos justos, os quais não precisam de penitência nem de conversão?
- A caminhada de quem se converte começa quando descobre que Deus está acima das coisas, e
é muito maior do que os seus projetos e ideais. Ele é radicalmente o contrário de como o temos
imaginado, e transcende infinitamente a nossa realidade de criaturas humanas. Não pode ser
entendido e explicado pela nossa lógica míope, nem atingido pelos nossos sonhos de intimidade.
Quando esta verdade se tornar certeza, nossa vida começará a mudar. A descoberta daquele que é
absolutamente Outro modificará, de maneira radical, a percepção de nós mesmos, do nosso
caminho vital, do nosso relacionamento com o Absoluto.
- Não é possível acolher a mensagem de conversão de Jesus se o nosso coração estiver cheio de
egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preocupação com os bens materiais… É preciso,
portanto, uma mudança da nossa mentalidade, dos nossos valores, dos nossos comportamentos,
das nossas atitudes, das nossas palavras; é preciso um despojamento de tudo o que rouba espaço
a Deus.
- Estou disposto a esta mudança, a esta “metanoia” para que no meu coração haja lugar para
Jesus?
- A experiência que fez Saulo, o grande convertido é de que há momentos na vida, em que as
cosias de antes não valem mais nada: “O que para mim era lucro eu tive como perda, por amor
de Cristo. Mas ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus,
meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco para ganhar a Cristo.” (Fl 3,7-8)
- Se não tivermos a coragem de relativizar as coisas e chamá-las assim, correremos o risco de
não nos converter, de não renascer para uma vida nova. Se a certa altura da vida não sentimos
náusea daquela nossa maneira de viver, acabaremos por nos contentar com uma vida velha,
cansada monótona, porque medíocre. Não chegaremos a ser “homens novos”.
- O que é que, prioritariamente, deve mudar na minha vida?
- Temos muitos obstáculos a remover, obstáculos em nosso próprio coração: egoísmo,
ambiguidade, desamor... Obstáculos no coração de nossa sociedade: estruturas injustas,
desigualdades, leis que produzem monstros de riqueza ao lado de miseráveis, políticas em favor
só de alguns e não de todos.
- Os obstáculos a serem derrubados estão em parte dentro de nós mesmos e, em parte, na
estrutura de nossa sociedade. Importa trabalhar nos dois níveis. Não com rancor, próprio dos que
antes odeiam os outros (e até a si mesmos) do que amam o bem... O rancor não faz Deus chegar.
O que marca quem procura experimentar a salvação que vem de Deus é a alegria. É uma alegria
limpar o caminho para Deus.
- Tenhamos a coragem de questionar a nós mesmos: não pode acontecer às vezes que também
nas nossas famílias ou comunidades sejam tolerados algumas atitudes ambíguas? Não há, por
acaso, “montanhas” que impedem, de caminhar ao encontro de Jesus? Não há por acaso, “vales”
que separam irmãos de uma mesma família? Quais são as “montanhas” que devem ser aplainadas
e os “vales” que devem ser aterrados na nossa vida.
- “Sendo o pecado o princípio ativo da divisão – divisão entre o homem e o Criador, divisão no
coração e no ser do homem, divisão entre os indivíduos e entre os grupos humanos, divisão entre
o homem e a natureza criada por Deus – só a conversão do pecado é capaz de operar uma
reconciliação profunda e duradoura onde quer que a divisão tenha penetrado.” (RP 23)
Reconciliação
Uma parábola da reconciliação (Lc 15,11-32)
- “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao Pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que
me compete’” conta Jesus ao apresentar as dramáticas vicissitudes daquele jovem: a aventurosa
partida da casa paterna, a dissipação de todos os seus bens numa vida dissoluta e vazia, os dias
tenebrosos da distância e da fome e, pior ainda, da dignidade perdida, da humilhação e da
vergonha; e, por fim, a nostalgia da própria casa, a coragem de regressar e o acolhimento do pai.
Este, certamente, não tinha esquecido o filho; ao contrário, conservara intactos o afeto e a estima
para com ele e assim, esperara-o sempre; e agora abraça-o enquanto inicia a grande festa do
regresso “daquele que estava morto e voltou à vida, se tinha perdido e foi encontrado”.
O homem – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinados pela tentação de se separar do
Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada
que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que
tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria,
pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola Deus fica à espreita do
regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com
que se festeja a reconciliação.
O que nesta parábola sobressai mais é o acolhimento festivo e amoroso do pai ao filho que
regressa: imagem da misericórdia de Deus sempre pronto a perdoar. A reconciliação é
principalmente um dom do Pai celeste.
Mas a parábola faz entrar em cena também o irmão mais velho, que recusa ocupar o seu lugar no
banquete. Critica ao irmão mais novo os seus extravios e ao pai o acolhimento que lhe dispensou,
enquanto a ele, morigerado e trabalhador, fiel ao pai e à casa, nunca foi permitido – diz ele –
fazer uma festa com os amigos. Sinal de que não compreende a bondade do pai. Enquanto este
irmão, demasiado seguro de si mesmo e dos próprios méritos, ciumento e desdenhoso, cheio de
azedume e de raiva, não se converteu e se reconciliou com o pai e com o irmão, o banquete ainda
não era, no sentido pleno, a festa do encontro e do convívio recuperado.
O homem – cada um dos homens – é também este irmão mais velho. O egoísmo torna-o
ciumento, endurece-lhe o coração, cega-o e leva-o a fechar-se aos outros e a Deus. A benignidade
e a misericórdia do pai irritam-no; a felicidade do irmão reencontrado tem um sabor amargo para
ele. Também sob este aspecto ele precisa de se converter para se reconciliar.
A parábola do filho pródigo é, antes de mais a história inefável do grande amor do Pai – Deus –
que oferece ao filho, que a ele retorna, o dom da reconciliação plena. E ao evocar, na figura do
irmão mais velho, o egoísmo que divide os irmãos entre si, ela torna-se também a história da
família humana: mostra a nossa situação e indica o caminho a percorrer. O filho pródigo, com a
sua ânsia de conversão, de regresso aos braços do pai e de perdão, representa aqueles que
pressentem no fundo da própria consciência a nostalgia de uma reconciliação a todos os níveis e
sem reserva, e têm a intuição, com íntima certeza, de que ela só será possível, se derivar de uma
primeira e fundamental reconciliação: aquela reconciliação que leva o homem da distância à
amizade filial com Deus, do qual reconhece a misericórdia infinita. Lida, porém, na perspectiva
do outro filho, a parábola retrata a situação da família humana dividida pelos egoísmos, põe em
evidencia a dificuldade em secundar o desejo e a nostalgia de uma só família reconciliada e
unida; e, por conseguinte, apela para a necessidade de uma profunda transformação dos corações,
pela redescoberta da misericórdia do Pai e pela vitória sobre a incompreensão e a hostilidade
entre irmãos.
A luz desta inesgotável parábola da misericórdia que apaga o pecado, a Igreja, acolhendo o apelo
que nela está contido, compreende a sua missão de empenhar-se, seguindo as pegados do Senhor,
pela conversão dos corações e pela reconciliação dos homens com Deus e entre si, duas
realidades que estão intimamente conexas.
- Reconciliação consigo mesmo - Existem cristãos que sempre se confessam mas não
conseguem reconciliar-se consigo mesmos. Nossa tarefa mais importante como cristãos é dizer
“sim” a nós mesmos. Isso começa quando nos reconciliamos com nossa história de vida. Muitos
brigam a vida inteira com a própria infância na qual se sentiram incompreendidos e
frequentemente foram magoados, culpando os pais por seu sofrimento. Nenhum dos caminhos
espirituais poderá ajudar a evolução daquele que permanece em tal postura irreconciliável com
sua história de vida.
- Reconciliar-se comigo mesmo significa reconciliar-me com meu corpo. Na confissão, muitos
falam de um profundo sentimento de ódio por si mesmos. Não conseguem aceitar-se como são.
Muitas vezes é o corpo que eles rejeitam. É uma tarefa de toda a vida reconciliar-se como próprio
corpo, amar-se com o corpo que se tem.
- Muitos se aborrecem quando são confrontados com seus lados sombrios. Gostariam de ser
corretos e perfeitos, mas percebem a existência de pontos sensíveis. Às vezes vem à tona um
profundo ódio por outras pessoas. Não consegue aceitar o fato de ser constantemente acometidos
por sentimentos depressivos. Quando sentem inveja, acusam-se a si mesmos. Quando são
acometidos pelo medo, criticam-se dizendo que como cristãos não deveriam sentir medo. Porém,
quanto mais se voltam contra si mesmos e seus lados sombrios tanto mais este se fortalecem.
Seria preciso que adotassem o caminho da humildade.
- Humildade é a coragem de descer à própria escuridão aos lados sombrios do “eu” que
funciona para fora. Humildade quer dizer sempre contar com a possibilidade de aflorarem em
mim necessidades e paixões que eu acreditava havia muito superadas. Essa humildade interior
para trilhar meu caminho com atenção e confiança, ver como sinal de Deus tudo o que vier ao
meu encontre nesse caminho, e me reconciliar com tudo o que há dentro de mim.
Reconciliação com a comunidade
- Não chego à reconciliação simplesmente reprimindo todas as mágoas e dores que me foram
infligidas, engolindo=as e reprimindo a raiva das pessoas que me magoaram. Preciso primeiro
admitir minha ira e com isso distanciar-me do outro. Só depois que obtive um distanciamente
sadio do outro, posso libertar-me do poder destrutivo que emana dele. Deixo-o ser como é, mas
não lhe dou mais nenhum poder sobre mim. Perdoar não quer dizer ainda que vou cair-lhe nos
braços.
- O primeiro passo para a reconciliação com o outro consiste em deixa-lo ser como é, em
renunciar a um julgamento ou a uma condenação. O que ele fez é problema dele. Ele me
magoou, mas eu não dou mais espaço a essa mágoa. Converto a raiva dessa mágoa em um
egoísmo, uma vontade de viver por mim mesmo, em vez de me deixar determinar por ela.
- O segundo passo seria reassumir um relacionamento com o outro. Mas esse caminho nem
sempre é possível. Pois ele também depende da possibilidade de o outro estar disposto a ter
comigo uma conversa esclarecedora. Se ele recusar esse passo, mesmo assim poderei reconciliar-
me com ele, não me queixando mais e parando de pensar nele. Deixo-o e espero. Tento
permanecer reconciliado internamente comigo mesmo e com minha história passada. Estarei
disposto, tão logo ele o permita, a me aproximar dele, ou a reagir positivamente a um passo seu.
- Quando pessoas irreconciliadas convivem numa comunidade, isso pode afetar toda a
comunidade. Alias pessoas só podem viver bem umas com as outras quando há disposição para a
reconciliação, e quando constantemente são dados passos concretos nesse sentido. Justamente no
convívio de uma família, numa comunidade, ou até mesmo numa empresa, ficamos sabendo que
dependemos do perdão mútuo.
- O evangelista Mateus sentiu isso junto aos antigos membros de sua comunidade. Por isso, a
assim chamada regra da comunidade, no capitulo 18, ele resumiu as palavras de Jesus que têm
como ponto central o perdão.
- A confissão não deve ser uma saída para elucidar os conflitos apenas na conversa pessoal
com o sacerdote. Ela nos estimula muito mais a buscar caminhos de esclarecimento conjunto dos
conflitos. E nos manda para casa com a missão de nos reconciliarmos com pessoas que nos
magoaram ou nos prejudicaram.
- A Confissão é um caminho concreto para nos reconciliarmos com nós mesmos e com os
outros, para experimentarmos sempre de novo a conversão e vivenciarmos Deus como aquele
que nos ama incondicionalmente.
Bibliografia:
Cencini, Amedeo, Amarás o Senhor teu Deus, Paulinas, 5ª Edição, 2004.
Grün, Ansel. Penitência, celebração da reconciliação. São Paulo, Loyola, 2006.
João Paulo II. Reconciliação e Penitência, exortação apostólica pós sinodal. São Paulo, Paulinas,
1984.
O caminho do Tabor ao Calvário
Neste segundo domingo da Quaresma o Evangelho situa Jesus a caminho de Jerusalém. Esse
caminho está cheio de referências simbólicas, já que é o caminho que o levará a ser “entregue
aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros, depois de açoitá-lo, eles o matarão. E no
terceiro dia ressuscitará”. (Lc 18,32) É um caminho de subida até a entrega de sua própria vida,
até sua morte e ressurreição. Essa mesma simbologia a podemos aplicar à Quaresma: um
“caminho” de subida, de entrega, de sacrifício pelos outros, de jejum, caridade e oração, para
encontrar-nos com o crucificado que ressuscita dentre os mortos. Poderíamos dizer que os
cristãos sempre estamos “a caminho”, mas de maneira especial, o experimentamos neste tempo
da Quaresma.
Neste “caminho” Jesus, hoje sobe com três de seus discípulos a uma montanha para rezar. Lucas
(cf. Lc 9,28b-36) não fala de Transfiguração, mas descreve o que aconteceu através de dois
elementos: o rosto de Jesus que muda e a sua veste que se torna resplandecente, na presença de
Moisés e Elias: “Enquanto orava, o aspecto de seu rosto se alterou, suas vestes tornaram-se de
fulgurante brancura. E eis que dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias que,
aparecendo envoltos em glória, falavam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém.” (vv.29-
31)
Olhando o cenário evangélico anterior à “Transfiguração” de Jesus vemos Herodes se
perguntando perplexo sobre quem é Jesus: “Quem é esse, portanto, de quem ouço tais
coisas?” (Lc 9,9). Por outro lado os discípulos acabam de confessá-lo em Cesaréia de Filipe
como Messias (cf. 9,18-21), e ai vem o anúncio da paixão desconcertando-os e deixando-os
perplexos e perdidos num mar de duvidas.
Jesus era plenamente consciente da sorte que o esperava e a assumia com serenidade e inteireza.
Porém, seus discípulos prediletos, assistem atônitos e desconcertados à cena: “a ninguém
contaram coisa alguma do que tinham visto”. (Lc 9,36)
Era realmente Jesus o Messias que cumpriria as promessas da antiga aliança? Assim se pode
entender o porquê de muitos o terem abandonado decepcionados com seu messianismo. Já as
autoridades políticas e religiosas o criticavam, desautorizavam-no e até o perseguiam. Como
entendê-lo? O próprio Jesus vai ajudá-los fazendo-lhes uma revelação. Jesus quer fazer-lhes
partícipes de uma experiência pessoal que marcará e condicionará o resto de sua missão: “Se
alguém quer vir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia e siga-me”. (Lc 9,23)
A montanha assim como o deserto é também lugar de encontro com Deus, ao longo da Sagrada
Escritura: O monte Sião é o lugar do Templo; o monte Sinai, lugar de encontro de Moisés com
Deus (cf. Ex 34); o monte Horeb o encontro do profeta Elias com Deus (cf. 1 Re 19,11-13), o
monte das Bem aventuranças; o monte das Oliveiras, o monte Calvário; e hoje... o monte Tabor,
a montanha onde Jesus se transfigura e Deus mesmo se revela na voz celeste confirmando deste
modo o recente e surpreendente anuncio premonitório de sua paixão no meio do majestoso
esplendor de sua glória.
Se ao pedido de Moisés: “mostra-me tua glória”, o Senhor se revela só em parte, de costas, na
cena da transfiguração Deus se nos revela plenamente em seu Filho, o Eleito apontando para o
final de seu destino salvífico.
Na realidade tudo aconteceu “enquanto Jesus orava”, só a partir da oração, entende Lucas, é
possível vislumbrar o que acontece na sua alma. Para o evangelista Jesus é um homem de oração.
A cena da transfiguração o configura com um “homem” que ora intensamente a Deus para que
não lhe faltem as forças em seu “êxodo”, em sua ida a Jerusalém. A transfiguração, pois, quer ser
uma preparação para a hora decisiva que a espera Jesus. “Esse Jesus que caminha para a morte e
convida a abraçar o seu destino não foi nem é apenas um coitado, sinal de fracasso. Quando sobe
à montanha e ora, a verdade do seu interior se transfigura. Deus o assiste. É Deus que repleta o
seu interior. Por isso transforma-se seu rosto e as vestes brilham de um branco que deslumbra. É
Deus e somente Deus que se encontra nesse homem, aparentemente abandonado e sozinho, na
montanha.” (Pikasa, 1998.)
A oração transfigura nossa vida e transforma nossa conduta. Porque a oração é falar com Deus e
também escutar a Deus, escutar o que quer de mim, escutar por onde tenho que ir, quais são os
caminhos para mim. A oração é ajuda para viver em fidelidade o projeto de felicidade que Deus
tem para mim. E Jesus busca essa oração. E na oração encontra forças para seguir o caminho,
para seguir subindo a Jerusalém, apesar do que ali o espera, porque sabe que ao final triunfará o
bem sobre o mal. No fundo, a transfiguração é um sinal para os discípulos, para que saibam que,
apesar das dificuldades que venham a passar seu Mestre, não percam a esperança nem a
confiança em Deus.
A transfiguração, que Lucas situa no caminho que sobe a Jerusalém, não é outra coisa que uma
antecipação momentânea da última meta e como um alento para seguir caminhando. Os três
discípulos que seriam testemunhas do abatimento de Jesus no Getsemani foram escolhidos antes
para ver sua glória no Tabor. A brancura de suas vestes e o novo aspecto de seu rosto não são
mais que a manifestação da dignidade e da glória que lhe correspondia como Filho de Deus.
Toda a história da salvação culmina em Jesus Cristo, cujo ápice é a hora de sua exaltação na cruz.
O Tabor não se explica sem o Calvário. Como a cruz não se explica sem a ressurreição. O cristão
precisa contemplar a cruz com os olhos fixos na ressurreição. Jesus manda que os discípulos
fiquem calados até que tudo se cumpra e o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos.
Tudo isso aconteceu a apenas seis dias do anuncio que Jesus havia feito de sua paixão e morte
em Jerusalém e havia repreendido precisamente a Pedro porque tentou torcer seu caminho.
Parece que Pedro e seus companheiros não compreenderam o que estavam experimentando.
Pensam que é chegada a hora de desfrutar o triunfo. Pedro se move na mesma linha em que se
movia o tentador do domingo passado. O domingo passado falava das tentações de Jesus. Hoje
falamos da tentação de Pedro. Continua havendo muitos “Pedros” que desejam um Deus
vingador e triunfador. Pedro concebe a Jesus em termos do onipotente que pode e deve impor sua
mão. Pedro não entra em Jerusalém pelo caminho da Cruz.
No entanto, Pedro é o único que deseja perpetuar esse momento da transfiguração. Por isso quer
fazer uma tenda para o Senhor, outra para Moisés e Elias, com o fim de que fiquem ali ante seu
olhar extasiado, ausente de tudo o que lhe rodeia, esquecido inclusive de si mesmo, disposto a
estar olhando aquela aparição celestial por toda a eternidade.
Na montanha os discípulos se vêm envolvidos em uma experiência profunda, transcendente, que
lhes faz evadir-se de toda realidade. As palavras de Pedro romperam o encanto daquela visão.
Ainda fala quando “uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra... Da nuvem, porém, veio
uma voz dizendo: ‘Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o.” (Lc 9,34-35) Estas palavras ressoarão
também em nossos ouvidos e em nossos corações, para que nossa fé em Cristo aumente, e
também nossa esperança de ver a face de Deus um dia. Aliás, contemplar o rosto de Deus sempre
foi o anseio dos “justos” do Antigo Testamento e dos santos do Novo Testamento. Mas, quando
concede Deus tal privilégio, é apenas um momento fugaz, destinado, como a visão da montanha,
a robustecer a fé e a infundir coragem para prosseguir o caminho levando a cruz.
Mas, Jesus que viveu esta experiência mais intensamente que seus amigos, sem dúvida, sabe que
deve descer do monte misterioso da Transfiguração para seguir seu caminho. Não podia ser como
queria Pedro. É óbvio que era bom ficar ali, num momento místico de êxtase, fora da realidade,
longe do dia-a-dia, das dúvidas e incertezas dessa caminhada até Jerusalém. Mas, para Jesus,
seria como abandonar seu caminho de profeta do Reino de Deus e o projeto do Pai.
De certo modo, nós também somos como Pedro. Não entendemos bem, mas começamos mais
uma vez a Quaresma. Não sabemos bem por que, mas pusemos cinzas em nossa cabeça e, às
sextas-feiras andamos até jejuando. Vamos à missa, a Eucaristia, este Tabor aonde Jesus nos vem
ao encontro cada domingo, mas às vezes vamos sem nos ter “conectado” com ele, sem haver
descoberto seu verdadeiro rosto ressuscitado. E nos identificamos com os momentos trágicos de
sua vida, que vivemos com certa intensidade na Semana Santa, porque nos move a compaixão ao
ver o sofrimento do “pobre Jesus”. E como Pedro e os discípulos no Tabor, “perdemos o melhor
da festa”, ficando pasmados e sem dar-nos conta de que o que Jesus quer dizer é que o final, a
meta é a Páscoa, a Ressurreição, e isso é o que verdadeiramente dá sentido a nossa vida e a nossa
fé. Essa é a meta verdadeira deste caminho a que chamamos Quaresma.
Assim como experimentamos em nossa espiritualidade momentos de “deserto”, também
devemos experimentar momentos de “Tabor”, de estar na montanha com Jesus. Momentos de
contemplação, de intimidade com Deus, de escuta da voz do Senhor, de oração, de meditação, de
paz interior.
Nosso Tabor é a oração porque nela está Cristo que ora em nós. Todos nós precisamos, para
termos forças de enfrentarmos nossas crises e carregarmos nossas cruzes de intensos momentos
de oração, de intimidade com Deus. Para agradecermos, sermos capazes de como o salmista
dizer: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma.” (Sl
137, 3)
A oração torna-se cada vez mais importante na agitação do mundo atual. Temos que descobrir
como “subir a montanha”, criar espaços de tempo para sentirmo-nos mais profundamente na
presença de Deus e para renovarmos as nossas forças.
Quaresma é tempo privilegiado de oração, tempo para tomar consciência das situações
problemáticas e dramáticas de nossa vida e para rezar por nós e pelos outros e juntamente com os
outros.
Bibliografia
Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
Pikasa, Javier. A Teologia de Lucas. São Paulo, Paulinas, 1998
Paróquia de Nossa Senhora de Fátima
CATEQUESE QUARESMAL
1. O Mistério do pecado em face do amor de Deus
Org. Pe. José Assis Pereira Soares
- «Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós.
Se confessarmos os nossos pecados, ele que é fiel e justo perdoar-nos-á os pecados.» (1Jo 1,8s).
Estas palavras inspiradas introduzem melhor do que qualquer outra expressão humana a reflexão
sobre o pecado. Elas apreendem o problema do pecado, enquanto parte integrante da verdade
acerca do ser humano, mas, inserem-no imediatamente no horizonte divino, no qual o pecado é
confrontado com a verdade do amor de Deus, justo, generoso e fiel, que se manifesta, sobretudo
pelo perdão e pela redenção. Por isso, o próprio São João escreve pouco depois que «se (o nosso
coração) de alguma coisa nos acusa. Deus é maior do que o nosso coração.» (1Jo 3,20)
- Reconhecer o próprio pecado, ou melhor, reconhecer-se pecador, capaz de pecar e de ser
induzido ao pecado, é o princípio indispensável do retorno a Deus. É a experiência exemplar de
Davi, que depois de «ter feito o mal aos olhos do Senhor», repreendido pelo profeta Natan (cf.
2Sm 11-12), exclama: «Reconheço a minha culpa, o meu pecado está sempre diante de mim.
Pequei contra vós, só contra vós; pratiquei aquilo que é mal aos vossos olhos.» (Sl 50(51), 5s.)
- O livro do Gênesis 1-11, contém as narrativas primordiais: Adão, Caim, Noé, Babel. Esses atos
são símbolos de nossos grandes pecados. Não são relatos históricos, o seu sentido é muito mais
profundo. Em narrações simbólicas, descreve-se o núcleo de toda a história humana, desde o
início até o fim dos tempos. Adão é “o Homem”; Caim, dele se escreve nos jornais
sensacionalistas, e pode ser encontrado em nosso próprio coração; Noé e os construtores da torre
de Babel: somos todos nós.
- Mas Deus não entrega o homem à sua miséria. Já em Israel demonstra-se um Deus
incompreensivelmente misericordioso. Também as narrativas primordiais deixam isso bem claro:
depois de cada queda da parte do homem, um gesto de graça, da parte de Deus. Na fuga do
paraíso, o próprio Deus fornece vestimenta e proclama solenemente, a promessa de que a
descendência da mulher há de esmagar a cabeça da serpente. Caim recebe dele sinal indicativo
de que não pode ser morto. Na história de Noé, predomina sumamente o elemento de “salvação”.
E depois de Babel, a partir daí inicia-se imediatamente a história de Abraão, que significa o
começo da grande restauração que o Filho de Deus há de trazer a toda humanidade.
- Se lermos a página bíblica da cidade e da torre de Babel à luz da novidade evangélica e a
confrontarmos com a outra página da queda dos primeiros pais, podemos tirar daí elementos
preciosos para uma tomada de consciência do mistério do pecado. Porque por dentro da realidade
da experiência da liberdade humana agem fatores, pelos quais ela se situa para além do humano,
na zona limite onde a consciência, a vontade e a sensibilidade do homem estão em contato com
forças obscuras (cf. Rm 7,7-25; Ef 2,2; 6,12).
- Da narração bíblica relativa à construção da torre de Babel emerge um primeiro elemento, que
nos ajuda a compreender o pecado: os homens pretenderam edificar uma cidade, reunir-se numa
estrutura social, ser fortes e poderosos sem Deus, se bem que, talvez não contra Deus. Neste
sentido, a narração do primeiro pecado no Éden e a narração de Babel, não obstante as diferenças
notáveis, de conteúdo e de forma, têm um ponto de convergência: em ambas nos encontramos
diante de uma exclusão de Deus, pela oposição frontal a um mandamento seu, por uma atitude de
rivalidade em relação a ele, pela ilusória pretensão de ser «como ele» (Gn 3,5). Na narração de
Babel, a exclusão de Deus não aparece tanto num tom de contraste com Deus, mas como
esquecimento e indiferença em relação a ele, como se o mesmo Deus não merecesse nenhum
interesse no âmbito dos desígnios empreendedores e associativos do homem. Mas em ambos os
casos a relação com Deus é cortada com violência. No caso do Éden, aparece com toda a sua
gravidade e dramaticidade aquilo que constitui a essência mais íntima e mais obscura do pecado
a desobediência a Deus, à sua lei, à norma moral que ele deu ao homem, gravando-lhe no
coração e confirmando-a e aperfeiçoando-a com a revelação.
- Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de
toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à
negação de Deus e da sua existência: é o fenômeno chamado ateísmo.
- Desobediência do homem, que – com um ato da sua liberdade – não reconhece o senhorio de
Deus sobre a sua vida, pelo menos naquele momento determinado em que viola a sua lei.
- Nas narrações bíblicas acima recordadas a ruptura com Deus desemboca dramaticamente na
divisão entre os irmãos.
- Na descrição do “primeiro pecado”, a ruptura com o Senhor espedaçou, ao mesmo tempo, o fio
da amizade que unia a família humana; tanto assim que as páginas do Gênesis que se seguem nos
mostram o homem e a mulher, como que a apontarem com o dedo acusador um contra o outro;
(cf. Gn 3,12) depois o irmão que, hostil ao irmão, acaba por tirar-lhe a vida. (cf. Gn 4,2-16).
- Segundo a narração dos fatos de babel, a consequência do pecado é a desagregação da família
humana, que já começara com o primeiro pecado e agora chega ao extremo na sua forma social.
- Quem quiser indagar sobre o mistério do pecado não pode deixar de considerar esta
concatenação de causa e efeito. Como ruptura com Deus, o pecado é o ato de desobediência de
uma criatura que, pelo menos implicitamente, enjeita aquele do qual proveio e que a mantém em
vida; é, portanto, um ato suicida.
- Com o pecado o homem se recusa a submeter-se a Deus, também se transtorna o seu equilíbrio
interior; e, precisamente no seu íntimo, irrompem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o
homem produz, quase inevitavelmente, uma laceração no tecido das suas relações com os outros
homens e com o mundo criado. É uma lei e um fato objetivo, que têm confirmação em muitos
momentos da psicologia humana e da vida espiritual, como aliás, na realidade da vida social,
onde é fácil observar as repercussões e sinais da desordem interior.
O caráter mistérico do pecado.
- O pecado é mistério que nos é revelado como incluído no mistério do Cristo Redentor. È
mistério, porque a ação e a atitude livre da pessoa, em resposta ao apelo de Deus, não é jamais
totalmente conceitualizável. Não se poderá, pois falar do pecado senão em relação ao mistério do
relacionamento do homem dom Deus em Cristo.
- O mistério de Cristo, assim como ele se realiza na história revela qual é a estrutura fundamental
e o sentido último da vida do homem. Esta aparece como ser que vive necessariamente em
diálogo com Deus e com os outros homens; existe, pois, em virtude dos outros, com os outros e
para os outros.
- A misteriosa profundidade do pecado aparece mais claramente revelada no evento pascal. Na
morte de Cristo, de fato, o pecado aparece, ao mesmo tempo, como negação de Deus, negação
dos outros e negação de si mesmo. Negação de Deus, porque Jesus Cristo é Deus que morre pelo
pecado dos homens. Negação dos outros, porque Jesus Cristo, que morre pelo pecado, é irmão de
todos os homens, sendo todos criados à imagem dele e sendo todos solidários com ele. Negação
dos outros, porque a recusa de Cristo com o pecado é recusa da aliança à qual são chamados
todos os homens, é recusa e negação do Reino, do novo futuro prometido por Deus a todos os
homens. Negação, enfim, de si mesmo, porque Jesus Cristo é a Palavra de Deus que nos põe na
existência e nos convida à construção de nós mesmos numa comunhão de vida sempre mais
perfeita com ele e com os irmãos.
- A morte de Cristo nos revela nosso pecado como ação e atitude livre e responsável de cada
homem: porque Cristo morre pelos nossos pecados, por cada um de nós.
- Mas o não do homem foi superado pelo sim definitivo de Deus na ressurreição de Cristo. Nela
Jesus Cristo venceu definitivamente as potências adversas, o príncipe deste mundo, isto é,
libertou definitivamente o homem da escravidão do pecado que existe no mundo. Com a sua
ressurreição reconciliou todo homem com o Pai e oferece a todos os pecadores esta
superabundante justificação. Porém, na visão cristã do homem e da história, o pecado é momento
negativo a superar mediante a inserção livre e voluntária, na fé e nos sacramentos, no mistério
pascal de Cristo.
- O mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e
na relação com o próximo. Por isso pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob
um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob outro aspecto é social enquanto e porque tem também
consequências sociais.
Como foi possível que o pecado entrasse na obra de Deus?
- Deve ter havido um primeiro momento em que começou o pecado. A entrada do pecado no
mundo relaciona-se com a liberdade humana; na humanidade crescia a liberdade e, com ela,
nasceu o pecado.
- O pecado só pode ser cometido, se se possui certo grau de liberdade – sem isso, nunca pode
haver pecado! E liberdade significa que o homem tinha a capacidade de não o fazer.
- Mas, o que é o pecado?
Muitos cristãos se reconhecem hoje como pecadores, mas frequentemente, não sabem bem que
coisa seja o pecado ou têm dele sentido vago e impreciso. Por isso e pelo fato de que os nossos
contemporâneos não se põem mais a fazer a contabilidade exata de seus “pecados”, alguns
observadores dizem que estes perderam o sentido ou a consciência do pecado. Mas pode-se
perguntar o que se entende por sentido ou consciência do pecado e o que se entende por pecado?
- O pecado o Catecismo da Igreja assim o define:
"O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor
verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens.
Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. foi definido como uma palavra, um
ato ou um desejo contrários à lei eterna." (CIC 1849)
- "O pecado ergue-se contra o amor de Deus por nós e desvia dele os nossos corações. Como o
primeiro pecado, é uma desobediência, uma revolta contra Deus, por vontade de tornar-se 'como
deuses', conhecendo e determinando o bem e o mal (Gn 3,5). O pecado é, portanto, amor de si
mesmo até o desprezo de Deus. por esta exaltação orgulhosa de si, o pecado é diametralmente
contrário à obediência de Jesus, que realiza a salvação." (CIC 1850)
- “O pecado é um ato pessoal. Além disso, temos responsabilidade nos pecados cometidos por
outros, quando neles cooperamos: participando neles direta e voluntariamente; mandando,
aconselhando, louvando ou aprovando esses pecados; não os revelando ou não os impedindo,
quando a isso somos obrigados; protegendo os que fazem o mal.” (CIC 1868)
- “O secularismo que, pela sua própria natureza e definição, é um movimento de ideias e de
costumes, o qual abstrai de Deus totalmente, concentrado só no culto do empreender e do
produzir e arrastado pela embriaguez do consumo e do prazer, sem preocupações com o perigo
de “perder a própria alma”, não pode deixar de minar o sentido do pecado. Reduzir-se-á este
último, quando muito, àquilo que ofende o homem. Aqui se impõe a amarga experiência que o
homem pode construir um mundo sem Deus, mas esse mundo acabará por voltar-se contra o
mesmo homem. Na realidade, Deus é a origem e o fim supremo do homem e este leva consigo
um germe divino. Por isso, é a realidade de Deus, que desvenda e ilumina o mistério do homem.
É inútil, pois, esperar que ganhe consciência um sentido do pecado, no que respeita ao homem e
aos valores humanos, quando falta ao sentido da ofensa cometida contra Deus, isto é, o
verdadeiro sentido do pecado.
- A perda do sentido do pecado, portanto, é uma forma ou um fruto da negação de Deus. Se o
pecado é a interrupção da relação filial com Deus para levar a própria existência fora da
obediência a ele devida, então pecar não é só negar Deus; pecar é também viver como se ele não
existisse, bani-lo do próprio quotidiano.
- Até mesmo no campo do pensamento e da vida eclesial, algumas tendências favorecem
inevitavelmente o declínio do sentido do pecado. A confusão criada na consciência de muitos
fieis pelas divergências de opiniões e de ensinamentos da teologia, na pregação, na catequese e
na direção espiritual, acerca de questões graves e delicadas da moral cristã, acaba por fazer
diminuir, quase até à sua extinção, o verdadeiro sentido do pecado.
- Restabelecer o sentido do pecado é a primeira forma de combater a grave crise espiritual que
impende sobre as pessoas do nosso tampo. Mas o sentido do pecado só se restabelecerá com uma
chamada a atenção clara para os princípios de razão e de fé, que a doutrina moral da Igreja
sempre sustentou. (RP n. 18)
O pecado como ação humana
- O pecado é ação humana. Mas não existe ação em si. Existe a pessoa que age. Uma ação humana
é o modo de existir, num momento determinado, de uma pessoa que fez uma escolha. E, assim,
um pouco paradoxalmente, pode-se dizer que não existe o pecado, mas o pecador, a pessoa que
peca.
- O pecado, como ação humana, é tomada de posição consciente e livre da pessoa; esta age de tal
maneira que o modo atual de existir lhe pertença real e responsavelmente.
- Existe dois elementos muito importantes da estrutura do pecado:
· A intenção, a opção da pessoa o que dá sentido a cada ação. De fato, com cada uma de suas
ações livres a pessoa quer desenvolver-se e se construir nesta ou naquela direção.
· Cada ação humana é, porém, incluída na história da pessoa, no seu tornar-se livre e responsável.
Por isso não se pode “coisificar” o pecado, considerando-o isoladamente do tornar-se vital no
qual está inserido. Para se emitir juízo sobre uma ação particular da pessoa é preciso considerá-la
à luz da direção fundamental do futuro da pessoa, tendo presente de onde vem e para qual
direção quer andar.
O pecado como ação humana má
- O pecado é ação humana má: isto significa que o pecado é a pessoa humana que se faz existir a
si mesma, livremente, em forma má. Mas em que consiste a malicia desta tomada de posição? A
verdadeira essência do pecado consiste na negação ou recusa a Deus, recusa aos outros, recusa à
autêntica construção de si mesmo.
a. O pecado como recusa a Deus – é essencialmente uma realidade religiosa, que toca o
relacionamento da pessoa com Deus; é recusa e ofensa a Deus, enquanto criador e salvador.
Recusa que pode ser descrita como o posicionamento da pessoa que não quer ser determinada na
sua existência pela relação com Deus como Criador, como Salvador, como aquele que o convida
à aliança, como o Amor que o convida à comunhão de amizade com ele e com os outros homens
mediante Cristo e no Espírito. O pecador, pois, é tal porque recusa o amor de Deus que o mantém
na existência e o chama à intimidade, à participação na própria vida trinitária. O pecador recusa
ser filho do Pai, irmão de Cristo, templo do Espírito Santo. De um ponto de vista dinâmico-
histórico, o pecado é recusa ao apelo de Deus a construir o novo futuro que já foi inaugurado
pelo evento de Cristo, a recusa em construir a comunhão com os outros homens, a recusa, enfim,
do Reino de Deus.
O pecador não confia em Deus e quer construir por si, prescindindo ou negando o influxo de
Deus na sua vida: é “o poder das trevas”, a oposição positiva da humanidade ao plano de Deus, à
afirmação de si contra Deus que se manifesta em todo pecado. Por isso, pecar é tomar parte na
luta escatológica contra Cristo, afirmando a si mesmo fora dele ou contra ele. Isso acontece
quando a pessoa quer realizar desordenadamente a si mesma ou um valor criado, fazendo um
ídolo ao qual subordina a sua vida em todas as suas dimensões.
Esta afirmação desordenada de si em lugar, antes de tudo, quando a pessoa nega explicitamente
seu relacionamento autêntico com Deus ou prescinde dele. Por isso, a pessoa que age assim
afirma desordenadamente a si mesma, enquanto nega ou prescinde do Amor que faz existir toda
as possibilidades de amar realmente, e se coloca na incapacidade de realizar a si mesma em
relação à outra liberdade na construção comum da história: numa palavra, faz de si mesma um
ídolo ao qual quer instrumentalizar todo o resto.
Ordinariamente, porém, o pecador não tem a vontade expressa de se separar de Deus, de querer
recusá-lo, de se opor ao Reino de Cristo; antes, com freqüência, nega ter tido esta intenção.
Todavia, o negar ou prescindir de Deus, pode acontecer também implicitamente: quando a pessoa
não aceita seu relacionamento autêntico com as outras pessoas e com os valores absolutos
propostos pela consciência moral como linhas gerais do seu desenvolvimento; quando a pessoa
não respeita as outras pessoas e não segue o apelo dos valores absolutos da liberdade, do amor,
da justiça, da solidariedade, da verdade. Quando uma pessoa segue a voz da consciência, o apelo
dos valores morais que lhe indicam o dever-ser em cuja direção deve desenvolver-se em
relacionamento aos outros e na criação de um mundo novo, está unida implicitamente a Deus por
Cristo e no Espírito, mesmo que não esteja consciente disso. Do mesmo modo, quem não segue a
voz da consciência e o apelo dos valores morais na construção de si e da história, nega
implicitamente a Deus e recusa implicitamente a Cristo.
O pecado pressupõe, de fato, a iniciativa divina de criar o homem e chamá-lo à aliança, à
comunhão consigo e com os outros pela construção da história. Situado nesta perspectiva o
pecado aparece como ofensa a Deus, precisamente porque o toca no seu amor, porque é recusa de
Deus como amor que quer o risco do amor, porque é recusa do seu projeto de unidade a respeito
dos homens. Recusa e ofensa pessoal, porque se trata de um “não” dito àquele Deus que, não por
interesse próprio, mas por puro amor, entrou na história humana para encontrar cada homem e
abrir-lhe o seu futuro.
É precisamente porque o pecado é recusa à comunhão com Deus, recusa de seu apelo, ele é
também recusa à comunhão com Deus, recusa de ser apelo, ele é também recusa à comunhão
com os outros e negação da reta construção da própria pessoa.
b. O pecado como recusa aos outros
Uma das características da mentalidade contemporânea, sobretudo ocidental, é a tomada de
consciência da solidariedade existente de fato entre todos os homens e, ainda, a tomada de
consciência da responsabilidade de todos os homens nos confrontos dos outros e das situações de
injustiça e de opressão que existe no mundo.
A dimensão social de todo o pecado. Tem seu ponto de partida na Sagrada Escritura. Segundo o
Decálogo, o amor de Deus e o amor dos irmãos são dois aspectos inseparáveis do único “sim” ao
Deus da aliança.
Também para o NT o amor a Deus é de tal modo inseparável do amor aos irmãos, que Cristo
retém como feito a si aquilo que é feito aos irmãos. Por isso, o perdão e a reconciliação com os
irmãos, é condição e pressuposto, seja para o verdadeiro culto a Deus, seja para poder obter o
perdão e a reconciliação com Deus.
O pecado, enquanto recusa a aliança, enquanto não do homem ao projeto e ao apelo divino,
enquanto recusa à comunhão com os outros homens, recusa a construir juntos seu futuro comum
prometido por Deus, antes, oposição à construção do Reino de Cristo, nas suas dimensões
pessoal e social.
Não existe, pois, um amor a Deus puramente individualista e privado, que não inclua e não se
manifeste no amor para os outros. E assim não existe, pecado puramente individualista e privado.
O pecador, recusando o apelo de Deus ao amor para ele e para os outros homens, fecha-se no seu
egoísmo. E esta sua atitude egoísta influi – para o mal – sobre outros, sobre a comunidade, sobre
a sociedade.
O pecado mais “íntimo” tem dimensão social e exercita, de modo implícito, influxo negativo
sobre os outros tomados como pessoa e como sociedade. Qualquer modo de existir do homem no
mundo como pessoa que recusa o amor e o apelo de Deus influi necessariamente na recusa dos
outros.
“O pecado é surpreendido no coração, no ponto onde surgem os relacionamentos com os outros;
por isso o pecado que denunciam os profetas é, inseparavelmente, iniquidade na pessoa e ferida
da comunidade humana” (P. Ricoeur).
Bibliografia:
REGIDOR, José Ramos. Teologia do Sacramento da Penitência. São Paulo: Paulinas, 1989
JOAO PAULO II. Reconciliação e Penitência: exortação apostólica pós-sinodal. São Paulo:
Paulinas, 1984
CATECISMO DA IGREJA CATOLICA. São Paulo: Loyola, 2000
link para essa postagem na página de artigos : http://www.paroquiadefatimacg.com/p/artigo-pe-
assis.html

TODOS OS ARTIGOS DE PADRE ASSIS

  • 1.
    Administrar a própriavida O evangelho de São Lucas nos oferece (cf. 12, 32-48) qualidades que os discípulos de Jesus devem ter para segui-lo no seu caminho para Jerusalém, onde sabemos que acontecerá o desfecho final de sua obra e missão. Através de uma série de elementos que estão também presentes no famoso sermão da montanha em Mateus, Lucas nos apresenta um conjunto de ditos e parábolas sobre a vigilância e a fidelidade ao Senhor. Lucas, vivendo no ambiente mercantilista do Império Romano, escrevendo em uma cidade, Éfeso ou Corinto, vê constantemente o mal causado pelas falsas ilusões da riqueza e bem estar, além do escândalo da fome (cf.16,19-31). Ele é um evangelista que cuida, mais que nenhum outro, deste aspecto tão determinante da vida social e econômica e como os cristãos deviam tomar uma postura frente à injustiça e a divisão de classes. Se escrevesse hoje, não precisaria mudar muito. Nesta realidade em que vivemos de uma sociedade consumista, diz-nos Jesus, que a primeira coisa que temos que fazer é desapegar nosso coração do afeto imoderado ao dinheiro: “Vendei vossos bens e daí esmola. Fazei bolsas que não fiquem velhas, um tesouro inesgotável nos céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Lc 12,33-34) Se para nós o mais importante na vida é o dinheiro, se temos posto nosso coração no dinheiro, dificilmente poderemos entender a mensagem evangélica. Cristo nos diz que devemos por o coração nos valores do Reino de Deus, nos valores evangélicos. Isto não é nada fácil, porque o dinheiro e os prazeres deste mundo nos tentam continuamente. Por isso, devemos estar sempre vigilantes, para que não se introduza em nosso coração o apego ao dinheiro e aos bens deste mundo. Cristo viveu totalmente desapegado do afeto ao dinheiro, preocupado unicamente dos valores do Reino. Como cristãos, devemos fazer nós o mesmo. “Precisamos possuir alguns bens para viver, é certo; mas não são a fonte da vida nem está neles a chave e o segredo para ser pessoa. Porque somente quem ama e vive em solidariedade e abertura aos outros, dando-se a Deus e ao próximo, tem uma vida autêntica e, em última análise, é feliz porque entende a vida com sabedoria. O sem-sentido da vida aparece quando o homem se fecha a Deus e aos irmãos, pois sem relação com os valores perenes que Deus, Cristo e o próximo representam, as coisas e os bens carecem de referência que lhes dê um valor que em si mesmos não possuem para a felicidade humana, como demonstra a experiência.” (Caballero, B. 2000.) Na teoria sabemos tudo isso! Que o mais importante não é o dinheiro e sim Deus e as coisas de Deus, mas não é bem assim que se passa em nossa vida, quando nos decuidamos e não vigiamo o dinheiro acaba se convertendo no mais importante. Talvez o problema real está em discernir qual é o maior bem para nós e que meios usamos para consegui-lo. E por isso Jesus pergunta onde está o teu tesouro? Que tesouro tenho eu e que posso compartilhar com os outros? Essa é a força transformadora do amor, que nos transforma a nós e transforma nossa relação com os outros. Quem descobriu este tesouro do amor desprendido e o compartilha põe nele todo seu coração e se mantém administrador vigilante e fiel. “Qual é, então, o administrador fiel e prudente que o senhor constituirá sobre o seu pessoal para dar em tempo oportuno a ração de trigo? (Lc 12,42) “Ao fazer uso da imagem do administrador, procura Ele (Jesus) representar aqueles que têm alguma autoridade ou poder sobre outros. A aplicação incidia diretamente sobre Pedro e os Apóstolos, que receberiam em suas mãos a
  • 2.
    instituição da Igrejae também abrangeria os pais, tutores, etc. A primeiríssima obrigação do administrador é a de não se apropriar de nenhum dos bens que o Senhor lhe confiou e por isso não procurar seu prazer, sua glória e sua vontade, mas sim o puro interesse de seu senhor. Em segundo lugar, deve ser prudente, discernindo com senso de hierarquia como distribuir os trabalhos em proporção aos talentos e às forças de cada um. Ademais, deverá prover às necessidades de todos, oferecendo-lhes os meios e instruções, sustento, etc., para o desempenho das respectivas funções. Procedendo com esse amor à perfeição, a autoridade, ao encontrar-se como seu senhor, além da bem-aventurança, receberá a administração de toda as suas posses.”(Clá, 2012.) Todos sabemos como é difícil administrar fiel e diligentemente uma empresa e administrar bem, em geral, a vida dos outros. Que se pergunte a nossos políticos e governantes. Mas, eu creio que governar bem nossa própria vida é ainda mais difícil que administrar bem a vida dos outros. Porque o egoísmo, a ambição, os aparentes interesses, a falta de sinceridade, nos cegam tremendamente e nos impedem de ver-nos a nós mesmos com imparcialidade e realismo. Muitas vezes nem reconhecemos nossa incompetência para administrar nem a nossa vida, quanto mais a dos outros. A parábola do evangelho de hoje não é dirigida apenas aos governantes e administradores em geral, mas também vai diretamente a seus discípulos, a “seu pequeno rebanho”. A eles lhes diz Jesus, que devem estar sempre preparados para que quando chegar o Senhor lhes encontre vigilantes, dispostos a abrir-lhe a porta, porque, “na hora em que menos pensais, virá o Filho do Homem.” (Lc 12,40) “O Senhor virá. É absolutamente certa sua vinda... Poderá ser, portanto, num dia inesperado; numa idade na qual nada havia para temer, quando os grandes planos se multiplicavam, e, quiçá, as inclinações já se lançavam nos prazeres, realizações, negócios...” (Ibid. Clá.) Um cristão, um discípulo de Cristo, deve entender sempre sua vida como uma preparação para a vida eterna. Este mundo é caminho para o outro, e cumpre ter bom tino administrativo para andar neste caminho sem “errar”. O negócio mais importante de nossa vida é nossa vida mesma e nossa vida aqui na terra, falando em cristão, deve conduzir-nos diretamente à vida eterna. Porque, se administramos bem nossa vida, quando chegar o Senhor “nos fará sentar a sua mesa e nos irá servir”. Administrar bem a nossa própria vida é viver de tal modo que sejamos dignos de receber a vida eterna. O mais importante dessa mensagem é que cada um, assumindo o que Deus lhe confiou, a sua responsabilidade de cuidar do mundo, de cuidar do bem de todos os que estão em casa, conhecendo a vontade do Pai no dia-a-dia, está preparando sua eterna e alegre companhia junto a Cristo. Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002. Dias, Mons. João Scognamiglio Clá. O inédito sobre os Evangelhos, comentários aos Evangelhos dominicais Ano C – Domingos do Tempo Comum. Vol VI. São Paulo, Instituto Lumen Sapientiae, 2012. Caballero, B. A Palavra de Cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000. Dar um sentido a vida A Liturgia deste domingo faz-nos percorrer um itinerário de fé muito interessante e questionador. A Palavra de Deus nos interroga: Que sentido tem a nossa vida? Qual é o centro da vida humana?
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    A vida selimita ao tempo presente? A vida consiste ou se realiza no desfrutar dos bens materiais? Estes questionamentos, respondemos com nosso estilo de vida. “Que sentido tem a nossa vida? Esta interrogação ocupa as mentes e as reflexões de muitas pessoas. De fato muitos, embora tendo uma vida social e economicamente satisfatória, não conseguem sentirem-se felizes; outros, perante as dificuldades, são tentados a entrar numa espécie de amargo cinismo e a entregar-se à procura de prazeres. O ‘vazio’ pode ser a origem de varias tristezas e depressões. Cria-se então a ilusão de que para sair deste estado de coisas é suficiente uma espécie de ‘filosofia’ de vida: coerência; desinteresse; agressividade ou fundamentalismo; ou então, simplesmente uma superficialidade e um espírito bonacheirão, que dá a cada um o ‘seu’ e também a Deus, desde que seja salvaguardado o seu espaço pessoal. Em nossa sociedade existe a convicção de que o importante para viver bem é ganhar, gastar, desfrutar e satisfazer nossos desejos, muitas vezes disfarçados de necessidades. A Palavra de Deus desmascara esta ilusão... O autor do Eclesiastes, (cf. Ecl 1,2;2.21-23) um sábio de Israel comparado na sabedoria a Salomão, interroga-se para que afadigar-se na vida, agitar-se e inquietar-se. A sua sentença irônica e lapidar, ‘tudo é vaidade’ (1,2), (em hebraico, ‘vaidade’ = vazio) coloca a descoberto o fato de que nenhuma coisa, vista em si mesma, está em condições de dar um sentido à vida, mesmo as coisas mais sagradas como o trabalho feito conscienciosamente, a cultura mais profunda ou o sucesso merecido. O homem está como ‘nu’ perante a vida que o persegue de todos os lados com suas lógicas férreas, com a fragilidade, a velhice e a morte. E o grotesco é que, quando uma pessoa constrói alguma coisa com esforço e consciência, esta pode ser usufruída por um preguiçoso que o herda.” (1,21) (Casarin, 2010.) Esta conduta do sábio a vemos, por exemplo, encarnada na pessoa de Jó, herói dos tempos antigos, considerado o grande justo, que permaneceu fiel a Deus na provação e que exclama com serenidade: “Nu sai do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá, o Senhor o deu, o Senhor o tirou, bendito seja o nome do Senhor!” (Jo 1,21) “Jesus no evangelho (cf. Lc 12,13-21) retoma o discurso das riquezas, mas numa chave bem diferente. A ocasião lhe é oferecida por um fulano que, intrigado com o próprio irmão, se dirigiu a ele para uma espécie de arbitragem; trata-se, talvez, de um irmão menor que quer convencer o irmão mais velho a repartir com ele a herança paterna, em vez de mantê-la indivisa obrigando-o a conviver na mesma família. Jesus não só recusa esta função de ‘juiz mediador’, mas denuncia a raiz de todas essas discórdias entre irmãos: ‘Precavei-vos cuidadosamente de qualquer cupidez, pois, mesmo na abundância, a vida do homem não é assegurada por seus bens’(12,15) e acrescenta a parábola do rico tolo, para fazer entender quão errados são aqueles que põem todas suas esperanças nos bens materiais.“ (Cantalamessa, 2012.) A parábola (cf. Lc 12, 16-21) abriga esta mentalidade das pessoas que trabalham acumulando bens e pensando que logo terão a vida toda pela frente para desfrutar de suas riquezas. Não se quer censurar a preocupação por dispor dos bens necessários para a vida, mas sim, o que o evangelho reprova é a acumulação, e a despreocupação com os outros. O desejo de açambarcar, fruto da mais feroz falta de solidariedade, do mais selvagem egoísmo. É o “viver para si mesmo” cujo ponto de referência de tudo é o ”eu”. O “viver para si mesmo” é um modo de estar no mundo, de realizar a existência no arco de anos entre o nascimento e a morte. É um modo de pensar, de atuar, de relacionar-se com as pessoas e com as coisas, cujo ponto de referência de tudo é o “eu”. O saber, o trabalho, o esforço com seus bons resultados aparecem, ante o velho eu.
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    Ora, se oser humano é um ser destinado a morrer, para que serve seu saber, seu trabalho, se não pode vencer o seu destino mortal? Desculpe-me o pessimismo! Por outro lado, há algo mais efêmero que essa realidade? Como se pode fundar uma existência, que é breve, sobre algo que hoje é e amanhã desaparece? Como se pode olhar de frente a morte, quando os grandes valores que têm regido a vida têm sido os bens materiais e as aparências, a quem está proibido de passar o umbral do mais além? “Tudo é vaidade” quando o “eu” é o centro da vida, aí temos o chamado “homem velho”, incapaz de por si mesmo sair do seu fechamento, cada vez mais submergindo no fundo do pecado, com o olhar cada vez mais posto nas coisas da terra, sem possibilidade de alcançar as alturas. Então você há de convir que com razão se possa aplicar a quem vive para si, as palavras de Jesus na parábola do texto evangélico: "Insensato! Nessa mesma noite ser-te-á reclamada a alma. E as coisas que acumulaste, de quem serão?” (Lc 12,20) Podemos entender esta palavra, “insensato”, ouvi-la como uma condenação. Mas, há outra maneira de entendê-la. Podemos ouvir como se Jesus estivesse libertando este homem, ou o ser humano, de seu pequeno, irreal e falso sonho. O homem ou a mulher estão presos no diminuto mundo de si mesmos. Está totalmente só. Este é um mundo onde não se pode ser feliz. E quando Jesus lhe chamou de “insensato”, o está libertando dessa pequena prisão que foi construindo. Liberta-nos de nosso egoísmo, do vazio e da visão materialista da vida. É ao mesmo tempo um convite a guardar-nos de toda forma de ambição, porque nossa vida não depende de nossos bens. Esta libertação possibilita a realização do “homem novo”; a pessoa humana em sua plenitude; que desenvolve uma nova vida em Cristo. Nós não podemos com as nossas forças dar um sentido à nossa vida, este sentido vem-nos de Deus, através de Jesus Cristo. Nas palavras de São Paulo (cf. Col 3,1-5.9-11) o cristão é um “homem novo”: “Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto... pensai nas coisas do alto, e não nas da terra... Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segundo a imagem do seu Criador”. Isto é situar-nos em outro horizonte para construir um novo ser humano, libertado de toda forma de cobiça, da injustiça, do egoísmo e edificado sobre o mistério Pascal. É construir em Cristo o valor da fraternidade e da solidariedade com os mais pobres, é também abrir os olhos ante a ambiguidade que se esconde em um desenvolvimento econômico mundial e em uma técnica que desconhece a dignidade da pessoa humana e a miséria na qual vive a maioria da humanidade. Segundo dados atuais “as 300 maiores fortunas do mundo acumulam mais riqueza que os mais de 3.000 milhões de pobres... ‘Citamos estes números porque nos oferece uma comparação clara e impressionante: as 200 pessoas mais ricas possuem aproximadamente 2,7 trilhões de dólares e isso é muito mais que o que possui as 3.500 milhões de pessoas, que possuem um total de 2,2 trilhões”, explica o economista Jason Hickel, citando um estudo recente da ONG Oxfam, que salienta que o 1% dos mais ricos aumentou seus ingressos em 60% nos últimos 20 anos com a radicalização das políticas imperialistas. De acordo com o economista, o crescimento da brecha se deve em parte às políticas econômicas neoliberais que instituições internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC) impuseram aos países em desenvolvimento durante as últimas décadas.” (http://www.adital.com.br/?n=cl74) Egoísmo, ganância e injustiça sempre andam juntos. Por exemplo, a ganância está na origem da corrupção das pessoas públicas, que não se conformam com o que lhes corresponde, mas sim que intentam aproveitar-se do cargo privilegiado que ocupam. Tá na boca do povo: “a ambição do ter
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    é insaciável”. Converteos que deveriam ser servidores da sociedade em corruptos aproveitadores. Inclusive leva-os a apropriar-se do que pertence aos excluídos de nossa sociedade. É necessário que todos compreendamos, que crer em Jesus Cristo nos leva a um comportamento ético, a uma ética cristã. É urgente a regeneração ética de nossa sociedade. Talvez Gandhi tenha razão quando dizia que com a mensagem evangélica ocorreu o que com uma pedra depositada no fundo do lago. A água não impregnou seu interior. Necessitamos mudar, converter-nos, transformar nossa vida, ser homens e mulheres novos, encontrar o novo sentido da vida. Talvez, em nossa evangelização temos insistido demasiadamente em alguns sacramentos e nos temos esquecido do principal, que é a prática do amor e da justiça. Por exemplo, a Doutrina Social é uma grande desconhecida e ignorada por grande parte dos cristãos. É necessário inverter nossa vida nos valores do Reino de Deus. Esta vida nova que irrompe em nós quando, como diz o Apóstolo Paulo Cristo mesmo é “vossa vida” (Col 3,4). Que sejamos homens e mulheres novos com os pés firmados nesta realidade do mundo e na desafiante tarefa de criar um mundo novo, mas tendo o olhar e o coração postos acima, no céu, para onde caminhamos com confiança e esperança. Os bens do alto começam nesta vida. As “coisas do alto” indicam os valores da vida nova em Cristo; que nos fazem ser ricos diante de Deus, por entregar nossa vida, nossas capacidades ou dons na luta para alcançarmos a libertação e a felicidade de todos. Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002. Casarin, Giuseppe. (org.) Leccionário Comentado, Tempo Comum, semanas XVIII-XXXIV, Lisboa (Portugal), Paulus, 2010. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus – Anos A,B,C. São Paulo, Ave Maria, 2012. A única coisa necessária O Evangelho de São Lucas (cf. Lc 10,38-42) nos apresenta neste domingo Jesus em Betânia, na casa de Marta e Maria; uma casa de mulheres o que não podia ser bem visto naquela sociedade judia. Mas, o evangelista Lucas é o evangelista da mulher e quer ressaltar o sentido do discipulado cristão das mulheres no ambiente das comunidades primitivas. Sintamo-nos na casa de Marta e Maria. A cena se dá num ambiente muito familiar, entre amigos, em casa. Tudo pode ter acontecido mais ou menos assim: Enquanto algumas pessoas conversam, outras preparam a comida. As duas coisas são importantes e necessárias, as duas se completam, sobretudo quando se trata de acolher um hóspede querido. Marta, como anfitriã, segundo o costume da época, está fazendo os trabalhos próprios de sua condição de mulher: a limpeza da casa, a cozinha, a mesa, a acolhida e atenção aos hóspedes. Maria, sua irmã ao contrário, salta seu papel de mulher e se atreve a realizar o que só correspondia aos homens: Maria se sente autêntica discípula de Jesus e se agacha aos seus pés pondo-se a escutá-lo.
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    É obvio queMarta se chocou com aquela atitude “revolucionária” para uma mulher, e reprovou o fato de sua irmã querer ser discípula. Pede então a Jesus que intervenha: “Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o trabalho? Dize-lhe, pois que me ajude”. (Lc 10,40-41) Marta reclama porque se considera uma servidora e pensa que o seu serviço (diaconia) de acolher os hóspedes, preparar a comida e servir à mesa é mais importante que o de sua irmã que escuta e conversa com Jesus. Para Marta, o que faz Maria não é serviço. Mas, Marta deve entender que ela não é a única “serva”. Também Jesus assume o papel de servo e o profeta Isaías fala que o serviço principal do “servo” é o de estar diante de Deus à escuta, em oração para poder descobrir uma palavra de conforto para aqueles que estão cansados. (cf. Is 50,4) Então, surge a pergunta: quem realiza melhor o serviço de serva: Marta ou Maria? Marta se preocupa em servir, queria ser ajudada por Maria no serviço da mesa. Mas qual é o serviço que Deus deseja? Esta é a questão. O comportamento de Maria está mais de acordo com o comportamento do “Servo de Deus”, porque, como ele, ela se encontra numa atitude de oração e escuta diante de Jesus e não pode abandonar esta postura porque se o fizesse, não descobriria a “palavra de conforto” para levar aos cansados e desanimados. Através da imagem de Maria sentada a escutar o Mestre, isto é, uma vez formada, não irá ela fazer que os outros se beneficiem de seu conhecimento da boa nova? Não evoca esta postura de Maria o “ministério da Palavra”? Não quer fazer Lucas uma alusão aos ministérios das mulheres: Marta (diaconia) Maria (anúncio da Palavra)? Ainda que não o diga expressamente, Lucas se revela favorável aos ministérios desempenhados pelas mulheres, concedendo-as um lugar importante na comunidade, como era o ministério da Palavra, algo que poucas religiões antigas ofereciam. Como não nos perguntarmos hoje sobre o ministério exercido pelas mulheres na Igreja? Sem dúvida existiu o chamado de Jesus a Maria para o discipulado, pois do contrário Lucas não teria contado algo que então não era bem visto: que um mestre tivesse discípulas. Os evangelhos falam de umas mulheres que viajavam com Jesus, lhe ajudavam até economicamente com seus próprios meios e que estiveram ao seu lado durante a crucifixão, quando a maioria dos discípulos homens, lhe abandonaram por medo do perigo e da hostilidade. Não há a menor dúvida de que as seguidoras de Jesus desempenharam um papel similar ao dos discípulos e reuniram as condições para exercer o discipulado. Jesus rompeu os moldes de seu tempo e de sua sociedade para mostrar-nos que no Reino de Deus já não há distinções entre o homem e a mulher. Para Ele o que Maria está fazendo, ser discípula, está bem e é correto para uma mulher, não só para os homens. Jesus dá assim o respaldo a Maria. Assim não só é absolutamente revolucionária a atitude de Maria, mas também a de Jesus, que admite uma mulher como discípula, evangelizadora. Por que Maria estava escutando o Senhor se não fosse para transmiti-lo depois como anunciadora do evangelho? Assim, pois, um dos aspectos da novidade do Evangelho consiste em acabar com a marginalização da mulher dentro e fora da igreja, porque, diante de Deus, mulher e homem têm a mesma dignidade. Jesus, no entanto, não está pondo em segundo lugar a atividade diária de Marta e de tantas mulheres donas de casa, que com grande sacrifício e pouca valorização têm levado o peso das famílias. O evangelho não quer dizer que o serviço de Maria é melhor que o de Marta ou vice e versa. O que não pode acontecer é que o serviço da Palavra de Deus, da evangelização, fique prejudicado pelas exigências imprevistas do serviço das mesas, da partilha,
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    da caridade. AssimLucas reflete nos Atos dos Apóstolos a realidade das primeiras comunidades cristãs (cf. At 6,1-5). A comunidade tinha a obrigação de enfrentar o problema preocupando-se de ter gente suficiente em todos os serviços, para poder conservar, assim, o serviço da Palavra e da evangelização em sua integridade. Não se trata de uma opção entre os dois serviços: palavra e mesa. Os dois são necessários e importantes para a vida da comunidade. Para os dois é necessário ter gente disponível. Além disso, o serviço da evangelização é a raiz, a fonte. O serviço da mesa é o resultado, o fruto, é sua revelação. Jesus respondeu: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas, no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”. (Lc 10,41-42) Uma bela e muito humana resposta. Para Lucas e para os primeiros cristãos, a “parte melhor” que Jesus fala a Marta é o serviço da evangelização, fonte de todo o resto. Para Jesus uma boa conversa com pessoas amigas é importante até mais que o comer (cf. Jo 4,32). Jesus não quer que o serviço da mesa interrompa a conversa, como se dissesse: Marta, não há necessidade de preparar tantas coisas. Basta uma coisa. E logo vem participar da conversa. Este é o significado das palavras de Jesus. A Jesus lhe agrada uma boa conversa, pois esta produz conversão. Mas, no contexto do evangelho de Lucas, estas palavras decisivas de Jesus tomam um significado simbólico mais profundo: Como Marta, também os discípulos na missão se preocupavam com muita coisa, mas Jesus deixa claro que os muitos serviços devem ser realizados a partir deste único serviço verdadeiramente necessário que é a escuta e oração diante de Deus e a atenção e escuta amorosa das pessoas. Esta é a melhor parte que Maria escolheu e que não lhe será tirada. “A melhor parte” é uma expressão de contraste para dar importância ao discipulado e ao ministério feminino, podemos até afirmar que no evangelho de Lucas se mostra que Jesus quer que as mulheres desempenhem o discipulado e o ministério da Palavra e tudo o que isso implica e mais com a promessa de que nunca isso lhes seria tirado. A história, por desgraça, parece nos dizer outra coisa muito diferente, infelizmente! Agora, “é preciso que nós esqueçamos a casa de Marta e Maria e nos transportemos com a mente ao momento presente: nós somos neste instante a família que hospeda Jesus; esta Igreja e esta nossa assembleia é a casa de Betânia na qual o Mestre fala; nós somos Marta e Maria!... Ele diz: Amigo, tu te preocupas e te agitas com muitas coisas e descuidas a única realmente importante! Como são verdadeiras estas palavras de Jesus! Ele tem razão: nossa vida é uma corrida desenfreada atrás de mil coisas: sonhos, projetos, negócios, ocupações; somos Martas atarefadas que pensam fazer as coisas mais importantes do mundo e ao invés perdemos tempo, fazemos coisas inúteis, nos agitamos por coisas que são somente urgentes e não importantes, por coisas que muitas vezes não acontecerão nunca.” (Cantalamessa, 2012.) “Um só coisa é necessária”, Jesus nos convida a sair da dispersão e apresenta-nos o “único necessário” que ninguém poderá tirar. “Qual é esta coisa realmente importante, esta ‘parte melhor’ que não será nunca tirada de quem a escolheu? O evangelho no-la faz entender claramente: é aquela escolhida por Maria. Mas o que escolheu Maria? Escolheu ouvir Jesus! Escolheu Jesus! Com Jesus escolheu tudo: seu Reino, sua vontade, escolheu o que fica para sempre... Maria escolheu a melhor parte: e nós? Temos nós realmente escolhido a parte melhor? Ou somos tantas pobres Martas atarefadas em coisas que não servem e que irão acabar conosco?
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    Maria ouvia! Nãosó com os ouvidos, mas com o coração e com todo o seu ser ela prestava atenção a Jesus. Também nós devemos aprender esta escuta profunda, de modo que a Palavra de Jesus que escutamos na igreja, ou que lemos, nos volte à mente no momento oportuno, quando estamos diante de uma escolha, de uma tentação a vencer. Do episódio de Marta e Maria aprendemos, finalmente, também esta lição: que o melhor modo de ser Marta é ser Maria! A escuta atenta da Palavra de Deus, manter o olho fixo em Jesus, o hábito de rezar e refletir purificam a ação, impedem de procurar a si mesmo também quando se pratica a caridade para com os irmãos; permitem perceber e respeitar as prioridades, executar tudo com calma, o que afinal, é o melhor jeito para fazer bem as coisas e fazer mais.” (Ibid. Cantalamessa.) Senhor, dai-nos um coração de servos para escutarmos a Palavra do vosso Filho que hoje ressoa ainda em tua Igreja e servi-lo como hóspede na pessoa dos nossos irmãos e irmãs. Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A,B,C. São Paulo, Ave Maria, 2012. A provocação de Jesus: “Um Deus-samaritano” O Evangelho de São Lucas que escutamos neste domingo, “a parábola do bom samaritano” (cf. Lc 10, 25-37) é uma das narrações mais majestosas do Novo Testamento e em particular deste evangelho; um caminho de conduta para os seguidores de Cristo. Uma narração que só podia ter saído dos lábios de Jesus, ainda que Lucas a situe junto a um diálogo com o escriba que quer uma resposta “jurídica”, que pretende algo impossível quer uma garantia da vida eterna, da salvação e quer que Jesus lhe aponte exatamente o que deve fazer para isso. A pedagogia de Jesus mais uma vez se revela através da narração de uma parábola. O evangelista Lucas diz que um escriba dirigiu a seguinte pergunta a Jesus: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (v.25) para provocar Jesus e para testá-lo. Sabendo a resposta que a escritura dá a esta pergunta, ele quer saber o que este jovem mestre e profeta da Galileia, sem estudo, dirá a este respeito. Quem lê ou escuta esta parábola inevitavelmente se sente provocado, interpelado: e eu, com que personagem me identifico? Mas, o próprio conteúdo da parábola também é provocador pelos próprios personagens que Jesus escolheu: um sacerdote, um levita e um samaritano. O samaritano é como um estrangeiro para o judeu daquela época. O sacerdote e o levita, mestre da Lei, que interroga Jesus justificam sua conduta com vários pretextos e põe à prova Jesus. Vai ser o samaritano quem mostrará ao vivo o rosto do amor misericordioso de Deus. Tudo é muito provocador e para os judeus devotos daquele tempo “um escândalo!” Comparar um sacerdote, um levita, ou um letrado, com um samaritano era fortemente pejorativo. Os samaritanos eram considerados como hereges e alijados do culto a Deus que se centrava no templo de Jerusalém. Sem duvida, o interlocutor que iniciou o diálogo com Jesus sentiu-se ofendido pela comparação.
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    A tradição cristãnos revelou que Jesus havia definido que a Lei se resumia em amar a Deus e ao próximo em uma mesma experiência de amor. Não é distinto o amor a Deus do amor ao próximo, mesmo que, Deus seja Deus e nós criaturas. Mas o escriba, que tinha uma concepção da Lei demasiado legalista, quer precisar o que não se pode precisar: Quem é meu próximo, a quem devo amar em concreto? Aqui é onde a parábola começa a converter-se em contradição com uma mentalidade absurda e puritana. Voltemos à pergunta do letrado: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” “O Senhor remete-o simplesmente para a Escritura, que ele conhece, e deixa que o próprio escriba dê a resposta. O escriba o faz de um modo muito preciso, numa ligação do Deuteronômio 6,5, com o Levítico, 19,18: ‘Tu deves amar o Senhor teu Deus com todo o coração, com todas as tuas forças e com todos os teus pensamentos, e: deves amar o teu próximo como a ti mesmo’. ‘Quem é, então, o próximo’? A esta pergunta tão concreta, Jesus responde então com a parábola do homem que caiu nas mãos dos ladrões no caminho que vai de Jerusalém para Jericó e que foi abandonado saqueado e quase morto ao lado da estrada. Esta era uma história absolutamente real, visto que ao longo daquele caminho aconteciam regularmente assaltos como este. Um sacerdote e um levita – conhecedores da Lei, que conheciam a questão da salvação e que a serviam por profissão – passam por ali e não prestam atenção no ocorrido. Eles não deviam necessariamente ser pessoas duras de coração; talvez tivessem medo e por isso procuravam o mais depressa possível chegar à cidade, talvez fossem pessoas sem habilidade e soubessem como fazer para ajudar – além do que parecia que já nada mais havia que se pudesse fazer. Então aparece no caminho o samaritano – provavelmente um comerciante, que tinha de passar por esta estrada muitas vezes e que era conhecido do proprietário da estalagem mais próxima; um samaritano – portanto, alguém que não pertence à comunidade solidária de Israel e não precisava, consequentemente, olhar para o assaltado como seu ‘próximo’ [...] Aqui entra em ação o samaritano. O que vai fazer? Não pergunta a respeito do raio de extensão dos seus deveres de solidariedade nem sequer sobre merecimentos para a vida eterna. Acontece algo completamente diferente: o seu coração como que se rasga; o Evangelho usa a palavra que originariamente em hebraico se referia ao corpo materno e à relação maternal. Ele é atingido nas suas ‘entranhas’, na sua alma, ao ver este homem assim. ‘Foi tomado de compaixão’, traduzimos hoje, atenuando assim a originária vitalidade do texto. Por meio da luz fulminante da misericórdia que alcança a sua alma, torna-se ele mesmo ‘próximo’, para além das perguntas e dos perigos. Neste ponto, a questão vai em outra direção: já não se trata de saber quem é o meu próximo ou não. Trata-se de mim mesmo. Eu tenho de me tornar próximo porque o outro conta comigo ‘como eu mesmo’. (Bento XVI, 2007.) Santo Agostinho interpreta de modo particular esta parábola, considerando todo o simbolismo. No “homem que desce de Jerusalém para Jericó” vê a figura de Adão que representa toda a humanidade expulsa do paraíso, por causa do pecado. “Nos assaltantes” vê o tentador que se despoja da amizade com Deus e fere com suas trapaças e mantém na escravidão a humanidade ferida pelo pecado. Na figura do “sacerdote e do levita” vê a insuficiência da lei antiga para nossa salvação que será levada a cumprimento pelo “bom samaritano”, que é Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador; que saindo também Ele da Jerusalém celeste vem ao encontro de nossa condição de pecadores e nos cura com o “azeite” da graça e o “vinho” do Espírito. Na “hospedaria” Agostinho vê a imagem da Igreja e na figura do “hospedeiro” os pastores, nas mãos dos quais Jesus confia o cuidado de seu povo. A “partida do samaritano da hospedaria” a interpreta como a ressurreição e ascensão de Jesus, a promessa de voltar para dar a cada um o
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    merecido. À Igrejadeixa para nossa salvação os “dois denários”, ou seja, a Sagrada Escritura e os Sacramentos que nos ajudam no caminho até a santidade. A parábola de Jesus termina com uma pergunta provocadora: quem se fez próximo daquele homem caído na estrada? Deste modo, Jesus dá a volta sutilmente à questão do escriba: não se trata de se o outro é ou não meu próximo, mas sim se do outro eu me faço ou não próximo. Enquanto o mestre da Lei quer indagar acerca do outro, acerca de quem devo ser considerado próximo e quem não, Jesus muda a perspectiva pedindo-lhe que ponha o foco em si mesmo em vez do outro. E assim converte o que lhe formulavam como uma questão eminentemente especulativa, em um chamado a uma mudança de vida. Quem é meu próximo? Todas as pessoas ajudam ao próximo, mas todos se perguntam quem é meu próximo? Em que medida se considera esta proximidade? Nas sociedades primitivas, sobretudo, segundo o parentesco de sangue: a família. Também as nações se consideravam como uma extensão dos laços familiares. Quanto mais a sociedade evolui, tanto mais se manifesta a tendência a superar os laços de sangue e estabelecer relações novas, baseadas na proximidade de ideias, de planos e de projetos comuns. Trata-se de vínculos superiores. Mas, ainda hoje, há uma tendência muito grande em favor dos antigos laços de sangue. Sem duvida, também esta tendência pode deteriorar-se em nacionalismos e racismos de todo tipo. Então, devemos nos perguntar sobre que fundamento se constrói nossas relações com o próximo? Quem é meu próximo segundo o espírito do evangelho? Com que medida devo julgar minha proximidade com ele? Não podemos esquecer que o parentesco de sangue, do povo, da raça era o vínculo principal do povo de Deus no Antigo Testamento. Jesus não veio abolir a lei antiga, mas sim cumpri-la. Jesus não vem destruir os laços de sangue, mas deu um novo espírito às antigas uniões, o que antes eram as família e as nações segundo o sangue, agora devem ser também segundo o espírito, do mesmo modo que o povo de Israel se transformou em povo de Deus, em Igreja universal. Os profetas usam a imagem das núpcias, do amor esponsal para explicar a relação das pessoas com Deus. Por meio do amor, a pessoa entra na família divina, mas esta é uma família imensa. Seus membros são todos aqueles que fazem a vontade de Deus na terra. O fariseu sabia que um dos primeiros mandamentos é o amor ao próximo. Porém não tinha claro de quem se tratava o próximo. O cristão jamais deveria fazer esta pergunta: Quem é o meu próximo? O próximo é quem é amado. Deveria ser mais difícil mostrar quem não é meu próximo, dado que o amor verdadeiro é universal, quer dizer, católica é a Igreja. Uma vez mais, o Evangelho insiste que o amor a Deus e o amor ao ser humano não pode conceber-se de maneira separada ou independente. Mas, sim, que de tanto repeti-lo não se nos esqueçamos de vivê-lo. Uma religião que deixa o homem em sua morte, não é uma religião verdadeira; a religião verdadeira é aquela que dá vida, como faz o Deus-samaritano. “É óbvia a atualidade da parábola... não encontramos também por acaso à nossa volta pessoas saqueadas e destroçadas? As vítimas das drogas, do comércio de seres humanos, do turismo sexual, homens interiormente destruídos, que estão vazios no meio de uma riqueza material. Tudo isso nos diz respeito e nos chama para termos olhar e coração para o próximo e também a coragem para o amor fraterno. Pois, como foi dito, o sacerdote e o levita seguiram adiante talvez mais por temor do que por indiferença. De novo e a partir do interior é que havemos de aprender o risco da bondade; só havemos de poder fazer isso se nós mesmos formos ‘bons’ a começar de dentro, se a começar de dentro formos próximo e então estivermos atentos ao modo do serviço que nos é exigido no nosso ambiente e no raio maior da nossa vida e que a nós possivelmente, e a partir daí, nos é confiado como tarefa”. (Ibid. Bento XVI.)
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    Portanto, como nosensinou alguns santos Padres esta parábola, quer falar de Deus, nosso Deus é um Deus-samaritano “herege” que não lhe importa ser alguém que rompa as leis de pureza ou de culto religiosas para mostrar amor a quem o necessita. “Vai, e também tu, faze o mesmo.” (v.37) Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002. Bento XVI, Jesus de Nazaré. São Paulo, Editora Planeta, 2007. O olhar da Igreja sobre a Cidade “O Senhor designou outros setenta e dois, e os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir.” Assim São Lucas inicia um discurso e ensinamento de Jesus sobre a missão, (cf. Lc 10,1-12.17-20) não dos Doze, mas dos setenta e dois discípulos, isto é, quase todos aqueles que o seguiam naquele momento, pois a evangelização não foi um privilégio exclusivo dos Doze. Jesus dá instruções aos discípulos a partir da realidade concreta de uma plantação pronta para a colheita. Provocado pela urgência da missão nos “campos do Reino”, como o dono de um campo agrícola que vê o trigo maduro em risco de se perder, caso não seja logo colhido; e preocupado em encontrar braços para o urgentíssimo trabalho: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos.” (v. 2) Nos campos, durante a colheita são as pessoas que recolhem as coisas. Na colheita para o Reino de Deus, é necessário cuidar de pessoas. Cada uma delas tem um valor infinitamente maior que tudo. Os autores espirituais afirmam que, se existisse no mundo um só homem, também por ele, o Filho de Deus desceria e morreria para salvá-lo. Não podemos, portanto, imaginar que nos campos confiados à Igreja fique nem sequer uma só espiga sem ser colhida, quer dizer, nem sequer uma pessoa pela qual Deus não haveria de dar tudo para salvá-la. Por isso Jesus lamenta que “os operários são poucos” para a colheita e que se deve pedir ao dono, o próprio Deus que mande trabalhadores (cf. v.2) para que ninguém se perca. Todos nós sabemos que as dificuldades são inerentes à missão de evangelizar. Nunca foi fácil evangelizar nem antes nem nos dias atuais. Jesus é consciente disso e envia os seus evangelizadores “como cordeiros para o meio de lobos.” (v. 3) O êxito da missão não está assegurado porque é possível a rejeição da mensagem e do mensageiro; fato que o próprio Jesus e a Igreja experimentou e experimenta em todos tempos. Vendo o assustador panorama internacional onde a cada ano morrem no mundo cerca de 20.000 pessoas pelo fato de ser cristãs, mártires por causa da fé ou vítimas de leis que legislam contra a vida etc. Constatamos que a pregação do evangelho foi e sempre será uma experiência tensa, acompanhada de perseguições mas, ao mesmo tempo feliz, de uma alegria cheia de esperança que acompanhou e sempre acompanhará a Igreja de todos os tempos. “Os setenta e dois voltaram com alegria, dizendo: Senhor, até os demônios se nos submetem em teu nome!” (v.17) Esta expressão quer dizer simplesmente que o mal do mundo se vence com a bondade do evangelho. A outra imagem do evangelho de hoje é a da cidade como espaço de evangelização: Jesus envia os setenta e dois “a toda cidade” (v. 1), povoados e aldeias para anunciar o evangelho. “A Igreja em seu início se formou nas grandes cidades de seu tempo e se serviu delas para se propagar.” (DA n. 513) O cristianismo nasce e cresce no ambiente urbano.
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    São Lucas noseu evangelho quis com a imagem da “viagem à cidade de Jerusalém”, colocar o marco adequado para a iniciação de alguns seguidores de Jesus nesta tarefa que Ele não poderá levar a cabo quando chegar em Jerusalém assim, quis adiantar o que será a missão da Igreja. Na linguagem daquele tempo esta missão se expressava com a imagem da “nova Jerusalém”. Jesus quis que toda a terra se convertesse em nova Jerusalém, cidade de paz e consolo, da hospitalidade e presença de Deus. O profeta Isaías (VIII a.C.) também queria animar a comunidade do pós exílio da Babilônia para criar uma Jerusalém nova. A profecia (cf. Is 66,10-14) nos fala de uma restauração de Jerusalém, depois do luto. Deus mesmo, em Jerusalém, cuidará dos seus filhos como uma mãe, amamentando-os e saciando-os, consolando-os. Jerusalém, capital do antigo reino de Israel é uma cidade condicionada por sua história e por sua longa tradição religiosa. É uma cidade disputada ainda hoje por árabes, judeus e cristãos. No Novo Testamento a Jerusalém, portanto fica constituída, como símbolo da Igreja de Cristo, protótipo da cidade de Deus. “O projeto de Deus é a Cidade Santa, a nova Jerusalém, ‘vestida como noiva que se adorna para seu esposo, a tenda que Deus instalou entre os homens. Acampará com eles, eles serão seu povo e o próprio Deus estará com eles. Enxugará as lágrimas de seus olhos, e não haverá morte, nem luto, nem pranto, nem dor, porque tudo o que é antigo terá desaparecido’ (Ap 21,2-4). Esse projeto em sua plenitude é futuro, mas já está se realizando em Jesus Cristo.” (DA n. 515) “A Igreja está a serviço da realização dessa Cidade Santa, mediante a proclamação e a vivência da palavra, a celebração da Liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos mais pobres e aos que mais sofrem, e dessa forma vai transformando em Cristo, como fermento do Reino, a cidade atual.” (DA n. 516) Mas essa Jerusalém não existe, tem que ser criada em toda parte, alí onde cada comunidade for capaz de sentir a ação libertadora de Deus. A realidade urbana é muito complexa. Na mesma cidade os contrastes são gritantes: bairros residenciais de alto padrão de conforto, condomínios fechados, grandes e ricos edifícios, ao lado de bairros da periferia sem as mínimas condições de infraestrutura, onde a população se amontoa vivendo em sub-habitações, favelas, becos, cortiços ou ocupações, correndo riscos constantes de desabamentos e inundações. Contudo não basta para nós cristãos, o olhar somente sobre o tecido urbano, sobre a geografia da cidade. É preciso aprofundar nosso olhar e perceber a diversidade de “culturas” isto é, os diversos estilos de vida que convivem numa mesma cidade. Tudo isto se traduz no que se come, como se veste, no transporte que se usa, no lazer que se tem (ou não se tem), até mesmo na religião e no modo como se vive a fé, inclusive na Igreja Católica. Alguns cristãos da cidade fazem da Igreja um bem de consumo ou espaço social do qual são meros usuários: o batizado, o casamento etc. Para outros a participação na comunidade, a Igreja dá sentido profundo às suas vidas. Para estes não existe a dicotomia, mas sim a unidade Fé-Vida. Na verdade, a cidade é um espaço de culturas que convivem, mas também que se conflitam; se fundem ou se fragmentam até à extinção. Esta realidade da cidade desafia a Pastoral da Igreja, o seu modo de ser e de agir no mundo urbano. Com certeza a figura romântica da Igreja-Matriz no meio da praça da cidade ou do bairro, não é mais o principal referencial dos cidadãos. O Documento de Aparecida, da V Conferência Geral do Episcopado Latino Americano e do Caribe na parte referente à “Pastoral Urbana” é um bom exemplo do esforço que fizeram os nossos bispos para encontrar um tom evangélico e até otimista para olhar a desafiadora realidade da evangelização da cidade. Um olhar de fé sobre a cidade. Diante da complexidade desta
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    realidade: a culturaplural, as novas linguagens, as complexas transformações socioeconômicas, culturais, políticas e religiosas, as diferenças sociais, as tensões desafiantes da tradição e da modernidade… etc. (cf. DA ns. 509-512) Acontece algo curioso, se valoriza o passado, a origem da Igreja ligada às cidades e se assinalam experiências de renovação. Mas, também se percebem atitudes de medo em relação à pastoral urbana; muitos pastores manifestam seu desejo de trabalhar na zona rural ou nas pequenas cidades e isso revela a tendência a se fechar nos métodos antigos e a tomar atitude de defesa diante da nova cultura, com sentimentos de impotência diante das grandes dificuldades das cidades. (cf. DA n. 513) Aí os bispos fazem uma bela revelação, a missão evangelizadora da cidade não se opõe a ter que aprender com ela: “A fé nos ensina que Deus vive na cidade, em meio a suas alegrias, desejos e esperanças, e como também em meio a suas dores e sofrimentos. As sombras que marcam o cotidiano das cidades, como exemplo a violência, pobreza, individualismo e exclusão, não nos podem impedir que busquemos e contemplemos o Deus da vida também nos ambientes urbanos. As cidades são lugares de liberdade e oportunidade. Nelas, as pessoas têm a possibilidade de conhecer mais pessoas, interagir e conviver com elas. Nas cidades é possível experimentar vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nelas, o ser humano é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele.” (DA n. 515) O então Cardeal Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, (Argentina) hoje Papa Francisco disse na abertura de um congresso de pastoral urbana em seu país: “O Papa Bento XVI no seu discurso inaugural da assembleia de Aparecida perguntava: ‘Que é a realidade sem Deus?’ Nós podemos fazer a mesma pergunta com respeito à cidade: ‘O que é a cidade sem Deus?’ Sem um ponto de referência fundante e absoluto, a realidade da cidade se fragmenta e se dilui em mil particularidades sem história e sem identidade... Em que termina um olhar sobre a cidade se não se centra em uma fé aberta ao transcendente? Para ver a realidade faz falta um olhar de fé, um olhar crente. Se não, a realidade se fragmenta. Nosso Deus vive na cidade e Se mistura na sua vida quotidiana, não discrimina nem relativiza porque é misericordioso e a misericórdia cria maior proximidade... Deus já vive na nossa cidade e urge – enquanto refletimos – sair ao seu encontro, para O descobrir, para construir relações de proximidade, para o acompanhar no seu crescimento e encarnar o fermento de sua palavra em obras concretas. O olhar de fé cresce sempre que pomos a Palavra em prática. A contemplação melhora no meio da ação. Agir como bons cidadãos – em qualquer cidade – melhora a fé. Poder-se-á dizer que o olhar de fé nos leva a sair todos os dias e cada vez mais ao encontro do próximo que habita a cidade. Leva-nos a sair ao encontro porque este olhar se alimenta na proximidade. Não tolera a distância...”(Bergoglio, 2011.) O olhar e a atitude de proximidade do cristão-missionário não pode ser o olhar parado ou de espectador passivo, a atitude de ficar em casa; “a messe” está sempre fora, “o campo do Reino” hoje é a cidade. Temos que sair para buscar a messe e estabelecer com ela uma relação mais humana; humanizar a “cidade dos homens” tornando-a mais “cidade de Deus”, aí está uma grande missão para os cristãos hoje e as palavras de Jesus estão cheias de urgência, põe-nos a caminho, ligeiros “pois o Reino de Deus está próximo de vós.”(v. 9) Bibliografia Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.
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    CELAM. Documento deAparecida, Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado latino Americano e do Caribe. São Paulo, CNBB/Paulus/Paulinas, 2007. Bergoglio, Card. Jorge sJ. Palavra de Abertura no I Congresso de Pastoral Urbana de Buenos Aires, (Argentina): “Deus vive na cidade”. 2011. www.vanthuanobservatory.org São Pedro e são Paulo, origem e meta da Igreja Como todos sabem, Jesus escolheu alguns discípulos, aos quais deu o nome de apóstolos. Num só dia celebramos o martírio de dois destes apóstolos: Pedro e Paulo. Na realidade, os dois eram como um só. Embora tenham sido martirizados na perseguição de Nero, em datas diferentes entre os anos 64 e 67, deram o mesmo testemunho. Pedro foi à frente; Paulo o seguiu. A Liturgia reúne em uma única celebração estes dois grandes apóstolos: Pedro, o escolhido para conduzir a Igreja e confirmar seus irmãos na fé e Paulo, o eleito por Deus, para ser o evangelizador, aquele que com suas cartas e suas pregações ensinou de modo profundo as palavras do Mestre. Celebramos o dia festivo consagrado para nós pelo sangue desses dois apóstolos. Amemos sua fé, vida, trabalhos, sofrimentos, testemunhos e as pregações. “São Pedro e São Paulo são os últimos dois aneis de uma corrente que nos une ao próprio Cristo. Em certo sentido, nossa comunhão com Jesus passa através deles. Nós celebramos, por isso, a festa dos ‘fundadores’ de nossa fé, dos antepassados do povo cristão.” (Cantalamessa, 2012.) Pedro é o primeiro a quem Jesus chamou. Nasceu em Betsaida, junto ao lago de Tiberíades e se mudou para Cafarnaum, onde junto ao seu irmão André, seu pai Jonas, aos filhos de Zebedeu, montou uma pequena empresa familiar de pesca. Escolhidos os três por Jesus, Pedro Tiago e João se converteram nos discípulos mais íntimos e foram testemunhas dos maiores acontecimentos de sua vida, como a Transfiguração no Tabor e a agonia do Getsemani. Pedro seguiu a Jesus da Galileia à Judeia e depois da morte de Jesus transferiu-se para Antioquia e enfim chegou a Roma. Dentre os apóstolos, somente Pedro mereceu ouvir estas palavras de Jesus: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja." (Mt 16,18) A ele e seus sucessores lhes concede Jesus uma missão única na Igreja, missão apresentada através da imagem da construção de um edifício, “quem edifica a Igreja é Cristo. É ele que escolhe livremente um homem e o põe na base do edifício. Pedro é apenas um instrumento, a primeira pedra do edifício, enquanto Cristo é aquele que põe a primeira pedra. Todavia, doravante, não se poderá estar verdadeira e plenamente na Igreja, como pedra viva, se não se está em comunhão com a fé de Pedro e sua autoridade ou, ao menos, se não se procura estar.” (Ibid. Cantalamessa.) "Ninguém pode por outro fundamento do que o que foi posto: Jesus Cristo." (1Cor 3,10). Se o fundamento invisível é Cristo Ressuscitado, o visível é a chamada “cátedra de Pedro”, os que o sucederam até o atual sucessor o papa Francisco. Neles, Pedro continua a ser a “rocha”, garantindo misteriosamente a indefectibilidade da Igreja no tempo e nas tormentas que tem que superar essa “barca”, outra alegoria apropriada ao pescador de Galileia, acostumado a enfrentar as tempestades e ressacas do mar.
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    Outra metáfora expressao poder especial de Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt 16,19) “Ligar e desligar” é símbolo do poder de permitir e proibir, o que significa o governo da Igreja como sociedade. Mas, como no mundo o poder corrompe, Jesus quer que "o maior dentre vós seja aquele que serve a todos." (Mt 23,11) Poder exercido a partir do amor: por isso o Ressuscitado pergunta a Pedro: "Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?” (Jo 21,15) Esta é a segunda vocação de Pedro, que teve que experimentar visível e publicamente, sua debilidade: negou três vezes seu Mestre. Quando se arrependeu e chorou amargamente, Jesus converteu sua volta ao amor em cura de amor, com suas três promessas de amor, com o qual o purificou para ser o pastor dos cordeiros e das ovelhas. Quando Jesus lhe pergunta pela terceira vez se o ama mais que os outros, Pedro não responde como antes, mas sim com um: “Senhor, tu sabes tudo: tu sabes que te amo." (Jo 21,17) Pedro, um pecador arrependido, foi escolhido por Jesus para ser o guia de sua Igreja, santa. É que aquele que haveria de ser pastor de pecadores é necessário que experimente a prova humilhante de ser ele mesmo pecador. Se não como poderia compreender as experiências de uma comunidade de pecadores? Só depois da Ressurreição, aquele que havia recebido a promessa de que a Igreja seria construída sobre sua Pedra, agora um Pedro humanizado pela derrota do pecado, é confirmado em sua missão de apascentar o rebanho, o constitui Pastor Universal. São Paulo foi um homem fascinado pela pessoa de Cristo. “Ele se encontrava em Jerusalém nos dias em que Jesus foi morto. Filho de um judeu de Tarso, Saulo estava na Cidade santa aperfeiçoando-se em estudos bíblicos. Em seu zelo ardente pela lei, pensava dar glória a Deus perseguindo a jovem Igreja. Mas Jesus o esperava no caminho de Damasco: Saulo, ‘Saulo, por que me persegues?’ (At 9,4) Teve apenas a força de balbuciar: ‘Quem és, Senhor?’ Mas tarde repensando aquela experiência, teve a sensação que naquele dia Cristo o tinha agarrado na alma e no corpo (Fl 3,12). Cristo tornou-se sua chama interior, sua paixão... percorreu o mundo conhecido de então pregando Cristo aos judeus e aos pagãos. Suas viagens formam uma teia sobre o mapa daquele do tempo.” (Ibid. Cantalamessa.) Encontrar-se com Jesus Ressuscitado foi sua experiência maior, mais profunda, comprometida e decisiva de sua vida. Experiência de amor e de liberdade. Cristo rompeu a pedra do sepulcro de seu orgulho e autossuficiência, que era própria dos fariseus, e lhe ressuscitou por dentro. Daí em diante sentirá a necessidade de evangelizar: "Anunciar o evangelho não é título de glória para mim; é, antes uma necessidade que se me impõe. A¡ de mim, se eu não anunciar o evangelho!" (1Cor 9,16) Prega a verdade desnudada de todo ornato humano, “e proclama a palavra, insiste, no tempo oportuno e inoportuno, refuta, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina.”(2Tm 4,2) Seus sofrimentos, sabe que são valiosíssimos, pois são principalmente as portas que abrem as portas ao Evangelho por toda a parte: "Eu não me apresentei com adulações, como sabeis; nem com secreta ganância, Deus é testemunha! Tampouco procuramos o elogio dos homens... Pelo contrário, apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como uma mãe que acaricia os filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos. Ainda vos lembrais, meus irmãos, dos nossos trabalhos e fadigas. Trabalhamos de noite e de dia, para não sermos pesados à nenhum de vós. Foi assim que pregamos o Evangelho de Deus." (1Ts 2,5-9)
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    Sofreu torturas espirituais,abandono de seus companheiros de missão e evangelizados, perseguições, solidão. E apesar de tudo, é alegre, “transbordo de alegria em toda a nossa tribulação.” (2Cor 7,4) Chegando a Roma, foi encarcerado e como cidadão romano, decapitado: Assim o escreve nas vésperas de seu martírio: "quanto a mim, já fui oferecido em libação e chegou o tempo de minha partida. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé." (2Tm 4,6-7) Façamos hoje nossa profissão de fé nesta Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja e também nosso exame de consciência. Quem é a Igreja? Para os católicos, a Igreja é nosso “eu” plural, o Corpo Místico de Jesus do qual eu sou membro. Na Igreja, portanto, devemos ao invés de criticá- la examinar nosso amor para com ela. Nascido pelo Batismo na Igreja, espaço onde atua o Espírito Santo, para viver filialmente com Deus; cresci e cresço na Igreja para servi-la; recebi na Igreja o melhor que tenho em mim; realizo na Igreja, o mais valioso que posso fazer por seu ministério; sou enamorado da Igreja, dei a ela o melhor dos meus anos, a minha juventude e dou dia a dia a minha vida por ela; sofri muito pela Igreja, por seus erros; e sigo sofrendo, desejo e luto por uma Igreja mais pura, mais unida e humilde, mais interior e evangélica, mais samaritana e materna, mais simples, mais servidora. Quem só vê na Igreja uma organização meramente humana e pecadora e não sabe ver sua qualidade de santa porque é vivificada pelo Espírito de Cristo, sempre com ela, logo se escandaliza e deixa de crer nela. Quem a vê como um povo maravilhoso que caminha nestes vinte séculos, vindo de todos os lugares, atraindo a si todos os povos, assimilando todas as civilizações, traduzindo-se em todas as culturas, falando em todas as línguas, sempre fazendo o bem, ainda que não o tenha feito sempre bem, a amará e a respeitará, como a uma mãe anciã, que apesar das rugas que assimilou na luta, sempre se renova e rejuvenesce para o seu Divino Esposo. A Igreja sempre me ofereceu um acervo riquíssimo de sabedoria, de santos, místicos e gênios atuais, que forjaram a formação da minha personalidade. Os erros que detectei na Igreja sempre os vi retificados por outros homens mais lúcidos e provectos e comprovo que os obstáculos exerceram o papel de adubo, pois como já disse alguém: as coisas crescem pelo que nascem, e o que nasce da cruz cresce pela mesma cruz, ainda que ao ritmo peculiar da vida. Que seria do mundo sem a cultura e sem a arte criada e conservada na e pela Igreja? Que seria da educação; das escolas e universidades nascidas nos claustros dos mosteiros? Que seria dos órfãos, dos abandonados, pobres e excluídos da sociedade, sem a Igreja? Como posso esquecer o sacerdote que me fascinou quando ainda criança e adolescente até o ponto de querer ser como ele, padre? E tantas santas mulheres, religiosas anônimas e verdadeiramente pobres, trabalhando e orando por toda a humanidade no silêncio dos seus claustros? Gostaria de como santa Teresa de Jesus dizer: Minha glória e minha vida será servir sempre à Igreja, e morrer como filho da Igreja. Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Ano A.B,C. São Paulo, Ave Maria, 2012.
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    Duas virtudes evangélicas:a fé e a humildade Ao longo do Ano Litúrgico não celebramos temas, celebramos o mistério de Cristo, o Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado para nossa salvação, segundo a nossa profissão de fé. Para nós cristãos católicos a celebração litúrgica é fonte de vida cristã e "na liturgia Deus fala ao seu povo; Cristo continua a anunciar o Evangelho e o povo responde a Deus com o canto e a oração." (Sacrosanctum Concilium n.33) Por isso acrescenta o Concílio Vaticano II: "Para realizar uma obra tão grande (a salvação), Cristo está presente na sua Igreja, sobretudo na ação litúrgica..., nos sacramentos..., e na Palavra, pois quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura, é ele quem fala". (SC 7) Daqui se conclui uma presença de Cristo no mesmo nível, embora diversa, na Palavra e nas espécies eucarísticas. Por essa razão, "a Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada liturgia, de tomar e distribuir aos fieis o pão da vida, quer da mesa da Palavra de Deus, quer da do Corpo de Cristo”. (Dei Verbum 21) É muito estreita a ligação entre a Palavra de Deus (leituras bíblicas e homilia) e o mistério eucarístico, que constitui assim as duas partes da Missa; liturgia da Palavra e liturgia Eucarística, unidas “num só ato de culto” (SC 56). Tanto a celebração litúrgica como a Palavra de Deus atualizam o mistério de Cristo. Passado o Tempo Pascal, retornamos ao Tempo Comum. Na leitura evangélica seguimos este ano o terceiro evangelho, que segundo uma tradição eclesial seu autor juntamente com o livro dos Atos dos Apóstolos seria Lucas, mas, segundo os especialistas, isso não é totalmente seguro. Escrito por volta do ano 80 da era apostólica o evangelho de Lucas tem um estilo literário melhor e mais rico dos três sinóticos. Para alguns é o mais atual e humano de todos os livros do Novo Testamento. É considerado o evangelho da misericórdia, do acolhimento e do perdão e é também o evangelho dos pobres e da pobreza proclamada como uma das bem-aventuranças e o próprio Jesus alerta para o perigo das riquezas à medida que caminha da Galiléia para Jerusalém, onde o espera o fracasso aparente da morte e a vitória da ressurreição. “O capitulo sétimo de Lucas apresenta uma serie de encontros que acontecem fora do povo de Israel: um soldado estrangeiro; uma viúva; uma delegação enviada por João Batista; uma mulher julgada pecadora na cidade. A cada uma destas pessoas Jesus manifesta-se como Messias de misericórdia.” (Casarin, 2010.) Segundo o texto deste Domingo (cf. Lc 7,1-10), um pagão, centurião romano (oficial que comandava cem soldados, pertencentes às tropas de ocupação da Palestina) que tinha um criado a quem gostava muito e que estava doente, ao ouvir falar de Jesus, enviou-lhe alguns anciãos amigos, pois era amigo dos judeus de Cafarnaum, tendo construído para eles uma sinagoga pedindo-lhe, que viesse curar o seu criado. “Os centuriões romanos deixaram uma boa reputação no Novo Testamento; recordam-se três e todos eles muito piedosos. Um é aquele do evangelho de hoje, outro aquele que ao pé da cruz exclamou: Este homem era realmente o Filho de Deus (Mc 15,39), e o último, de nome Cornélio foi o primeiro pagão a entrar na Igreja (cf. At 10,1ss). No evangelho, porém, as coisas não seguem o ritmo do mundo: no mundo uma alta patente do exército é admirada e distinguida com honrarias pelo seu valor militar, pelo seu orgulho e pelas vitórias sobre seus inimigos; aqui, ao contrário, estes são louvados pela humildade, pela fé, pela esmola e pela oração... são os paradoxos do Reino, a exemplificação dos valores novos proclamados pelas bem-aventuranças;
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    ninguém está excluídodo Reino – nem sequer um general do exército de ocupação – uma vez que aceite entrar pela porta certa, que é a ‘porta estreita’.” (Cantalamessa, 2012.) Quando Jesus já estava perto da casa, o centurião lhe mandou dizer por uns amigos: “Senhor não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa; nem mesmo me achei digno de ir ao seu encontro. Dize, porém uma palavra, para que o meu criado seja curado. Pois também eu estou sob uma autoridade, e tenho soldados às minhas ordens; e a um digo ‘Vai!’ E ele vai; e a outro ‘Vem!’ E ele vem; e a meu servo ‘Faze isto!’ e ele o faz.” (v.6-8) A fé supera a distância, nem o centurião nem Jesus se conhece um ao outro, porém há um diálogo muito próximo, porque a fé humilde do suplicante encurta esta distância. Se fosse qualquer um de nós, pediríamos a Jesus para vir à nossa casa, tocar-nos, abençoar-nos porque essa presença física nos daria a garantia da cura. Mas, o oficial romano dispensa este contato físico, pois com fé no poder de Jesus confia na “Palavra” de ordem de Jesus. “A fé é a certeza do que se espera e a prova do que não se vê.” (Hb 11,1) “Jesus ficou admirado e, voltando-se para a multidão que o seguia disse: ‘Eu vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé”. (v.9) A fé deste homem é uma fé humilde, sua humildade é surpreendente e transparece, sobretudo nas palavras: “Senhor, Eu não sou digno”. Essas palavras ficaram na tradição cristã como límpida expressão de humildade cristã e por isso as repetimos antes da comunhão eucarística. É uma estranha coincidência! As pronunciou um não cristão e revelam uma virtude que os não cristãos não conheciam e que consideravam como uma atitude falsa que impede a coragem de viver. A palavra “humildade”, do latim “humilitas”, proveniente de “humus”, terra, barro conduz o significado da palavra humildade para algo terreno. Alguém que se coloca abaixo, que se humilha, em uma posição de submissão. Para os cristãos, humilde seria a pessoa que tem a consciência de suas capacidades e de suas debilidades. Quais são nossas medidas diante de Deus? No Antigo Testamento se repete que diante de Deus o homem não é nada, “disse Abraão: ‘eu me atrevo a falar do meu Senhor, eu que sou poeira e cinza.” (Gn 18,27) Pensar em não temer a Deus é soberba imperdoável. Como não ter necessidade de Deus? Geralmente, aqui caem os ricos e os poderosos que só confiam em sua riqueza e em seus grandes conhecimentos. Totalmente o contrário daqueles que a Bíblia chama de “anawin”, os pobres. Eles não têm nada e a nada em que poder apoiar-se, senão em Deus. Por isso o Senhor cuida deles. Jesus no sermão da montanha disse que os pobres são “bem-aventurados” porque o Reino de Deus lhes pertence. O mesmo motivo o encontramos no Magnificat da Virgem Maria, (cf. Lc 1,46-56) que agradece ao Senhor que “olhou para a humilde condição de sua serva” e o próprio Jesus é modelo de humildade: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração.” (Mt 11,29) Ele manifesta esta humildade em sua vida, pois se apresenta como alguém que provém da classe dos pobres. Mas, sobretudo na atitude de obediência ao Pai, disposto a seguir sua vontade até a morte. (cf. Fl 2) Diante do exemplo de fé e humildade do centurião romano às vezes exclama-se: “Se eu tivesse essa fé... Por que é que não alcançamos esse nível, nós que conhecemos muito melhor que o soldado romano o amor e o poder de Deus? Que cada um dê a si próprio a resposta... Precisamos de uma margem de confiança em Deus, em Jesus Cristo, sua imagem pessoal, e aceitar o claro- escuro da fé sem ceder à psicose de segurança palpável que gera mecanismos de magia. Porque se torna tão difícil para o homem acreditar, confiando em Deus e entregando-se a Ele? Não pode haver fé verdadeira sem uma profunda humildade.
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    O centurião deCafarnaum é modelo de ambas as virtudes. Todos os grandes crentes da história foram humildes diante de Deus e dos outros, mesmo sendo grandes personalidades, grandes sábios ou grandes santos. Para crer em Deus é, pois, necessária a humildade, embora não seja essa uma virtude muito cotada no nosso mundo. A humildade parece não casar com a psicologia agressiva e de triunfador que o homem de hoje necessita para fazer-se valer e subir na vida. Contudo, somente o que é humilde pode acreditar em profundidade e realizar-se plenamente como pessoa, individual e comunitariamente”. (Caballero, 2000.) Que neste ano da fé, mantenhamos nosso olhar fixo sobre Jesus Cristo, “autor e consumador da fé” (Hb 12,2): nele encontra plena realização toda a ânsia e aspiração do coração humana. Aprendamos com o centurião romano a procurar e a professar a fé e peçamos a Jesus que a aumente sempre mais e que sejamos capazes de a testemunharmos não só com palavras, mas, sobretudo com obras, pois a fé sem obras está completamente morta (cf. Tg 2,14ss). “A fé sem a caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida. Fé e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente à outra realizar seu caminho... É a fé que permite reconhecer Cristo, é o seu próprio amor que impele a socorrê- lo sempre que se faz próximo nosso no caminho da vida. Sustentados pela fé, olhamos com esperança nosso serviço no mundo, aguardando ‘novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça.’” (Pd 3,13; cf. Ap 21,1) (Bento XVI, 2012.) Bibliografia Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002 Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Ano A.B,C. São Paulo, Ave Maria, 2012. Casarin, Giuseppe (org.). Leccionário Comentado, Tempo Comum, semanas I-XVII. Lisboa (Portugal), Paulus, 2010. Caballero, B. A Palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000. Bento XVI. Porta Fidei. Brasilia, Edições CNBB, 2012. Como é Deus? Terminado o tempo pascal, concluído no domingo passado com a festa de Pentecostes, voltamos ao Tempo Comum. Voltamos pela Liturgia a esse caminho habitual de Jesus em seus anos de ensinamento pelas terras da Judéia e Galiléia e caminho espiritual de todo cristão. Depois da grandeza da Páscoa e Pentecostes a Igreja quer recordar-nos o Mistério da Santíssima Trindade não com o objetivo de decifrá-lo, como um complicado teorema. Nossa fé nos convida
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    a aceitá-lo ereconhecê-lo nas múltiplas manifestações que Deus mesmo nos dá ao longo da história da humanidade. Este domingo, num certo sentido recapitula a revelação de Deus que aconteceu nos mistérios pascais: morte e ressurreição, ascensão e efusão do Espírito Santo. Com esta celebração a Liturgia, elo entre o tempo pascal e o tempo ordinário, a Igreja nos propõe chaves para descobrir a impressionante riqueza deste grande mistério que é sem duvida a luz, a força e o alimento que necessitamos em nossa caminhada para Deus. Quem é Deus ou como é Deus? Na Liturgia da Palavra, “as três leituras bíblicas que ouvimos são como três janelas; através de cada uma lançamos um olhar sobre uma etapa da história da salvação, observando a ação ora de uma, ora de outra das três Pessoas divinas (embora todas três operem contemporaneamente).” (Cantalamessa, 2012.) O autor do Livro dos Provérbios, (cf. Pr 8,22-31) acertou em suas imagens literárias. “A Sabedoria de Deus” chega a se personificar no Filho, gerado desde o princípio, dialoga com o Pai e é seu colaborador e conselheiro em todas as suas obras. "Eu estava junto com ele como mestre-de-obra, eu era o seu encanto todos os dias.” (v. 30) O texto nos propõe um ambiente de total familiaridade, inocência, quase infantil. “Todo o tempo brincava na superfície da terra, encontrava minhas delicias entre os homens.” (vv. 30- 31) “Brincava em sua presença”, jogava com a bola da terra, um modo de expressar poeticamente a ausência total de maldade, conflito ou divisão no seio da Trindade. Tudo é beleza, paz, harmonia e ordem. Deus não é um solitário. A criação é expressão dessa divina comunicação. Desde a eternidade, Deus já pensa em nós e nos ama. “Nós proclamamos a vossa grandeza, Pai Santo, a sabedoria e o amor com que fizestes todas as coisas: criastes o homem e a mulher à vossa imagem e lhes confiastes todo o universo..” (Oração Eucarística IV) O Apóstolo Paulo (cf. Rm 5,1-5) “nos introduz numa atmosfera diferente: o homem, criado à imagem de Deus, perdeu sua amizade por causa do pecado, sendo destinado à perdição; porém, Deus não o abandona ao poder da morte, mas empreende um grande plano de salvação – o da encarnação, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo –, e foi na execução desse plano que se revelou plenamente ao homem o Filho de Deus... O Filho unigênito de Deus, escondido desde a eternidade no seio do Pai e que estava com ele quando criava os céus, manifestou-se, portanto, como Pessoa em Jesus Cristo e nos introduziu no conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino.” (Ibid. Cantalamessa.) “Tendo sido, pois, justificados pela fé, estamos em paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo.” (v. 1) O ser humano, criado para a comunhão com Deus e com os outros, a perdeu pelo pecado. Deus restaura a unidade perdida pela encarnação de Jesus Cristo. E como prova da “esperança, que não decepciona… o Espírito Santo foi derramado em nossos corações.” (v. 5) O Evangelho nos abre uma janela sobre a última fase da história da salvação: o tempo da Igreja, o tempo em que se irá revelar a presença do Espírito Santo. (cf. Jo 16,12-15) Na cena da última ceia, Jesus fala aos discípulos com palavras de despedida, carregadas de ternura, quase “nostalgia” do Pai e do Espírito, desejando “voltar” e de algum modo desejando que os discípulos cheguem à verdade plena: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender agora. Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena.”(vv. 12-13) A mente e a linguagem humanas são inapropriadas para explicar a relação existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Pouco a pouco, paulatinamente, ao longo da vida terrena, Deus se nos
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    vai aproximando, seadaptando à nossa capacidade limitada, para sermos capazes de descobrir sua grandeza sem limites. O Espírito Santo guiou os discípulos e a nós para a Verdade plena. Ao dizer que “tudo o que o Pai tem é meu” (v.15), Jesus nos revela sua igualdade de natureza e dignidade com o Pai Criador do Universo e também anuncia o Espírito Santo, que também com Ele é um, igual a Ele. Estamos assim nos umbrais da revelação do mistério da Santíssima Trindade, mistério insondável e incompreensível, diante do qual só cabe a humilde aceitação. “E a fim de não mais vivermos para nós, mas para ele que por nós morreu e ressuscitou, enviou de vós, ó Pai, o Espírito Santo, como primeiro dom aos vossos fieis para santificar toas as coisas, levando à plenitude a sua obra.” (Oração Eucarística IV) Em algum momento de nossa vida já nos perguntamos quem é Deus? Como pode ser Deus? Vã ilusão seria pretender conhecê-lo, compreendê-lo, abarcar ao “Deus vivo e verdadeiro que (existe) antes de todo o tempo e (permanece) para sempre, habitando em luz inacessível.” (Oração Eucarística IV) A grandeza divina é tão imensa que a mais penetrante inteligência humana se sente embotada e lenta para compreender. A verdade plena do mistério da Trindade está além de nossa capacidade humana de entender. Os mistérios não se podem entender, nem explicar racionalmente; os que temos fé os adoramos, guiados pela fé e pelo amor a Deus que nos revelou. Deus é um mistério que nos ultrapassa. Já o disse Santo Agostinho: “Se o entendes, não é Deus”. Deus se foi revelando não como uma “ideia” ou “conceito filosófico”. Mas, sim como um Deus- Amor que se dá até o fim da Encarnação do Verbo e o envio do Espírito Santo. Como é Deus? Ante esta pergunta, vêm mil respostas: Deus é assim, mas... É muito mais que isso. A festa da Santíssima Trindade nos põe frente a uma realidade: Alguns se conformam em pensar em Deus sem se dar conta de que Ele se encarnou, assumiu a nossa condição humana, “verdadeiro homem, concebido do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade, aos tristes, a alegria. E para realizar o plano de amor (do Pai), entregou-se à morte e, ressuscitando dos mortos, venceu a morte e renovou a vida”. (Oração Eucarística IV) Que pena! Certamente desejavam um Deus perdido entre as nuvens. Talvez lhes incomode pensar num Deus tão humano e tão próximo, como um Deus encarnado. Outros, por outro lado, se esqueceram do Deus do céu e se têm aferrado a Jesus de Nazaré. A um Senhor sem referência ao divino. Querem um Jesus sem a transcendência que acompanhou a sua história: homem comprometido com os pobres, defensor dos oprimidos e contra o sistema estabelecido. Talvez porque, o Senhor Divino, lhes incomoda ante um mundo que pretende só um discurso humanizante, só terreno e pagão. E finalmente, há aqueles que ficam no sentimentalismo da fé. Uma fé sem mais referência que aquilo que o momento exige. Os sentimentos são bons quando vão acompanhado da fé. Um Espírito, sem referência a Aquele que o envia, se converte em seita, em sentimentalismo, emoção ou lágrimas que brotam mais de um coração fingido, forçado que das entranhas comprometidas com a conversão; comovidas pela Palavra de um Deus que falou por Cristo e atua pelo Espírito Santo. Como é Deus? Quando perguntaram João, o discípulo testemunha ocular do mistério da Cruz do Senhor: Diga-nos algo sobre Deus? Ele, respondeu: “Deus é Amor!” (1Jo 4,16) Neste sentido devemos dizer, com João, que Deus é o mesmo Amor quando é Pai e quando é Filho e quando é Espírito Santo. Deus, o Deus de Jesus Cristo, nosso Deus, sempre é Amor. Mas o mundo prefere
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    reger-se por outrosdeuses que se propagam como uma peste e confunde o amor em prazer, a unidade com a imposição de ideologias ou a caridade com gestos inconsistentes. Nosso Deus não é isolado, frio e distante. Primordialmente é comunhão, é “comunidade”. È um ser relacional em suas três pessoas, na Unidade e na Diversidade. Frente ao individualismo do nosso tempo, a Trindade, nos apresenta um impressionante ícone da família: São três em um! Cada um com sua personalidade, mas cada um, com sua própria cor. Cada um diferente, mas os três, olhando na mesma direção. “Teremos que nos perguntar hoje com sinceridade o que significa o mistério trinitário na nossa vida de batizados. Deixamo-nos guiar pelo Espírito da Verdade? Realizamos, pela fé, o encontro pessoal com o Deus uno e trino que mora em nós, em cada um e na comunidade eclesial da qual fazemos parte?... Somos guiados pelo espírito de Jesus sempre que servimos a verdade da vida, das relações e direitos humanos, o amor e a fraternidade, a dignidade e a libertação integral do homem; numa palavra, sempre que servimos o Reino de Deus... Em qualquer campo da atividade humana, é o Espírito de Deus quem nos guia, que nos faz filhos e dando-nos consciência de o ser. Este será o sinal visível de que Deus mora em nós como no seu templo, e nos acompanha Cristo com o Espírito de filiação, liberdade, comunhão e abertura aos irmãos.” (Caballero, 2000.) Em um mundo tão dividido, desagregador, com rupturas interiores, com individualismos e diferenças tão marcantes. Deus Uno e Trino nos chama a ser novamente Uno, a voltar por sua graça, à “imagem e semelhança” perdida. E isto começando pelos espaços que temos mais ao nosso alcance: a família, a paróquia, a comunidade, a pastoral, o movimento eclesial etc. Se somos unidade no pequeno e acessível espaço, ao final o seremos também em grande escala. Com a Bem-Aventurada Isabel da Trindade, (França 1880-1906) suplicamos: “Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente, para me estabelecer em Vós, imóvel e pacifica, como se já a minha alma estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar a minha paz, nem fazer-me sair de Vós, ó meu imutável, mas que cada minuto me leve mais longe na profundeza do vosso Mistério... Ó meu Três, meu Tudo... Intensidade em que me perco, entrego-me a Vós.” (Ibid. Casarin.) Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002 Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – Anos A,B,C. São Paulo, Ave Maria, 2012. Casarin, Giuseppe (Org.) Lecionário Comentado, Tempo Comum Semanas I-XVII. Lisboa (Portugal) Paulus, 2010. Caballero, B. A Palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação (Portugal), Paulus, 2000. Pentecostes, nasce a Igreja.
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    Chegamos ao pontoculminante da Páscoa, o Domingo de Pentecostes. Com esta festa litúrgica encerra-se o tempo pascal, centrado no mistério de Cristo Ressuscitado e glorioso. Os textos litúrgicos da festa de Pentecostes sublinham a importância fundamental da presença do Espírito Santo na vida da Igreja. Na Sagrada Escritura, frequentemente se fala do Espírito do Senhor, do Espírito de Cristo, do Espírito da Verdade etc. Os teólogos interpretam todas estas expressões fundamentalmente em um único sentido: se trata do Espírito Santo. A cena de Pentecostes, descrita nos Atos dos Apóstolos (cf. At 2,1-11), é muito rica em símbolos com grande significado religioso. “Lucas situa a efusão do Espírito Santo sobre o grupo dos discípulos de Jesus reunidos em oração durante a festa hebraica do Pentecostes (v. 1). O dom do Espírito é acompanhado por fenômenos extraordinários (‘forte rajada de vento’, ‘uma espécie de línguas de fogo’: cf. vv.2-3) e por um efeito carismático (‘falar outras línguas’: v. 4). O acontecimento adquire imediatamente ressonância universal, devido à presença, em Jerusalém, de judeus provenientes de varias partes do mundo, cada um deles capaz de compreender na sua língua o que O Espírito Santo faz dizer aos Apóstolos (vv. 5-11)”. (Casarin, 2009.) Lucas narra a chegada do Espírito como se narram no Antigo Testamento as manifestações de Deus. Em especial, nos textos em que Deus faz Aliança com seu povo no Sinai. A festa judaica de Pentecostes fazia memória deste acontecimento, se fala também de fenômenos parecidos: ruídos, ventos, estrondos, trovões… é o momento fundacional de Israel como povo de Deus. O mesmo acontece no Novo Testamento. Já reunidos por Jesus, se constitui agora a comunidade plenamente em Igreja, em comunidade que ora, prega e convive: sem medo e com alegria. Esta Igreja no dia de Pentecostes recebe o dom do Espírito Santo. É a Nova Lei, que faz possível a criação de uma humanidade nova, uma vida nova que é participação antecipada da vida divina. Uma vida ideal, de liberdade, de paz, de alegria, de perdão e de comunidade. Na criação de uma humanidade nova, de um grande corpo do qual cada um de nós faz parte, o Espírito torna possível a unidade graças à diversidade e não a unidade apesar da diversidade: sendo diferentes, tendo cada um características pessoais e gozando de dons distintos, todos temos que estar implicados na construção da comunidade humana. É o Espírito que suscita a pluralidade: a variedade e a diferença são os dons gratuitos do mesmo Deus. “Todas as manifestações da vida cristã são consequência direta do Espírito Santo. São Paulo os chama carismas e enumera muitos: ‘Assim o Espírito a um concede falar com sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, falar com conhecimento profundo; a um lhe concede o dom da fé; a outro, o poder de curar os enfermos; a outro, o dom de fazer milagres; a outro, o de dizer profecias; a outro, o saber discernir entre os espíritos falsos e o Espírito verdadeiro; a outro, falar línguas estranhas e saber interpretá-las; a outro, dom de interpretá-las. Tudo isto o leva a cabo o único e mesmo Espírito, repartindo a cada um seus dons como quer.” (cf. 1Cor 12,8-11) Somos homicidas de nós mesmos se pretendermos uniformizar o que Deus fez diferente. Anulando as diferenças suscitadas pelo mesmo Espírito mutilamos o corpo de Cristo. Por isso o “primeiro efeito do dom do Espírito, significativamente, é o falar em línguas: os discípulos são habilitados a fazer-se entender por uma multidão internacional nas diversas línguas (vv. 6-11). Desde o início, portanto, o Espírito abre a Igreja nascente à missão universal: o Evangelho está destinado a ser compreendido em todas as línguas e culturas, e proclamado em todas as nações.” (Ibid. Casarin.)
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    Apesar de mantercada um suas diferenças pessoais, culturais e linguísticas, a todos chega a Boa Nova. O dom de línguas nos fala desta universalidade intrínseca ao Evangelho e à catolicidade da Igreja. Sua proposta de salvação é para todos os homens e mulheres do mundo. Não porque devam uniformizar-se, mas sim porque devem perdoar-se e trabalhar na construção do bem comum respeitando as diferenças, conjugando as diversidades de línguas em uma gramática humana universal. Cabe aqui uma nota, “depois do Concílio Vaticano II se assiste a um sinal grandioso em toda a Igreja Católica: o reaparecimento dos carismas; não se trata somente do assim chamado “movimento carismático”; quase todos os movimentos de renovação que florescem cá e lá na Igreja Católica e em outras confissões cristãs mostram esta surpreendente nota comum. Através deles o povo cristão recupera sua espontaneidade, sua criatividade, sua força de testemunho que são o sinal típico da ação do Espírito de Deus.” (Cantalamessa, 2012.) O Evangelho de João (cf. Jo 20,19-23), escolhido para esta festa por nele se falar também de uma comunicação do Espírito Santo, nos diz que desde o dia mesmo em que Jesus ressuscitou dentre os mortos sua comunicação com os discípulos se realizou por meio do Espírito. O Espírito que o Ressuscitado “insuflou” neles lhes dava o discernimento, a alegria e o poder para perdoar os pecados: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos.” (v. 23) Pentecostes é como a representação decisiva e programática de como a Igreja, nascida da Páscoa, tem que abrir-se a toda humanidade, sua universalidade. Para o autor do quarto evangelho a verdade é que o Espírito do Senhor esteve presente em toda a Páscoa e foi o autêntico artífice da igreja primitiva desde o primeiro dia em que Jesus já não estava mais historicamente com eles. Mas, estava com eles, por meio do Espírito que como Ressuscitado lhes dava. Pentecostes é a festa do Espírito, da Igreja e da comunidade. É a culminância da Páscoa. A vida nova que Jesus conseguiu é também nossa vida. Muitas vezes não somos suficientemente convencidos da atuação do Espírito em nós. Talvez seja porque não lhe deixamos atuar... Dá a sensação de que estamos como os discípulos antes de Pentecostes: dizemos que cremos em Jesus, nos confessamos cristãos, mas vivemos medrosos, apáticos, desestimulados, sem garra. Então nos refugiamos em nossa fortaleza por medo de sair ao mundo. Mas, a imagem que define melhor a Igreja não é a da fortaleza e sim a da “tenda” que se arma no meio do mundo. Também os discípulos estavam dentro de casa, com portas e janelas fechadas por medo dos judeus. Compartilham medos, ilusões e recordações de Jesus. O Espírito se apresentou como vento e chamas de fogo. O vento e o fogo purificam e transformam. E então... saíram a anunciar e testemunhar o Evangelho sem medo, sem utilizar a força, sustentados em sua debilidade pelo Espírito. Quando a Igreja se fecha em si mesma por medo de se contaminar com o mundo, a imagem que dá é a de uma fortaleza firme, mas infelizmente não convence, por vezes até se converte em pedra de escândalo para muitos. Disse Bento XVI que “a Igreja vive constantemente da efusão do Espírito Santo, sem o qual ela esgotaria as próprias forças, como uma barca a vela à qual faltasse o vento. O Pentecostes renova-se de modo particular em alguns momentos fortes, tanto a nível local como universal, em pequenas assembleias ou em grandes convocações... Mas a Igreja conhece numerosos “pentecostes” que vivificam em comunidades locais: pensemos nas liturgias, em particular nas que foram vividas em momentos especiais para a vida da comunidade, nas quais a força de Deus se sentiu de modo evidente, infundido alegria e entusiasmo nos corações. Pensemos em tantos encontros de oração, nos quais os jovens sentem claramente a o chamado de Deus a enraizar a
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    sua vida noseu amor, também consagrando-se inteiramente a Ele. Portanto, não há Igreja sem Pentecostes...” (Bento XVI, Regina Caeli, 23.05.2010) “Espírito de Deus, enviai dos céus, um raio de luz! Vinde, Pai dos pobres daí aos corações vossos sete dons. Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alivio, vinde!... Dai à vossa Igreja, que espera e deseja, vossos sete dons.” Esta “sequência” que cantamos na liturgia desta festa, antes da proclamação do evangelho, é um dos hinos e orações mais fervorosamente rezados pelos cristãos. É uma oração que, rezada com devoção e amor, nos dá paz interior, consolo e descanso na difícil caminhada por este mundo. O Espírito Santo, quando se apodera de uma alma cristã, a ilumina e vivifica. A vida da alma cristã é o Espírito Santo, porque nos fortalece quando estamos fracos, nos enche quando nos sentimos pobres e vazios, nos dá luz e calor quando estamos apagados e frios, nos orienta e cura sempre nosso coração enfermo e desorientado, muitas vezes perdido e abandonado. O ser humano é por natureza, um ser demasiado egoísta e frágil. Se nos deixamos arrastar por nossos instintos mais primários caímos facilmente em atitudes e comportamentos mais animais que espirituais. Necessitamos a força do espírito, a graça e a força do alto, para nos sobrepor às tentações do mal. Para conseguir isto necessitamos que o Espírito Santo nos encha por dentro, seja o “doce hóspede da alma”, brisa nas horas de fogo, alegria que enxugue as lágrimas, dom, em seus dons esplêndidos. Peçamos nesta festa de Pentecostes, que o Espírito Santo seja a água viva que regue nossos corações tantas vezes áridos e secos; Que com seu amor, guie e encha nossos corações quase sempre inquietos e insatisfeitos.”Vinde Espírito Santo!” Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 200.2 Casarin, Giuseppe (Org.) Lecionário Comentado, Quaresma – Páscoa. Lisboa (Portugal) Paulus, 2009. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz Carne, reflexão sobre a Palavra de Deus – A,B.C. São Paulo, Ave Maria, 2012. Amor marca indelével do cristão Estamos neste V Domingo da Páscoa no evangelho de João (cf. Jo 13, 31-35) na última ceia de Jesus e seu discurso de despedida, seu testamento aos seus discípulos: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” (v. 34) A eucaristia celebrada hoje à luz deste mandamento novo adquire uma força toda especial: é o encontro com a fonte daquele amor novo e a manifestação daquela nova comunidade que Jesus imaginou. A última ceia de Jesus com seus discípulos ficaria gravada em suas mentes e em seus corações. O redator do evangelho de João sabe que aquela noite foi especialmente significativa para Jesus,
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    não tanto paraos discípulos, que somente a puderam recordar e recriar a partir da ressurreição, como a contemplamos neste tempo pascal. João é o evangelista que mais profundamente tratou esse momento, mesmo não descrevendo nele a instituição da eucaristia, preferindo outros sinais e outras palavras, certo que já se conheciam as palavras eucarísticas dadas pelos outros evangelistas. Sabe-se que para João a hora da morte de Jesus é a hora da sua “glorificação”, por isso não estão presentes os indícios de tragédia. A saída de Judas do cenáculo (v.30) desencadeia a “glorificação”, não a tragédia, mas sim o prodígio do amor consumado: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.” (v.1) Jesus veio para amar e este amor se faz mais intenso frente ao poder deste mundo e ao poder do mal. Na realidade esta não pode ser mais que uma leitura “glorificada” da paixão e entrega de Jesus, que a páscoa da ressurreição que celebramos nos permite fazer. E não se pode fazer outro tipo de leitura da que fez o próprio Jesus e das razões pelas quais a fez. Por isso, falar apenar da paixão e crueldade do seu sofrimento não leva lugar nenhum. O evangelista entende que isto experimentou Jesus, por amor. Ele deu a sua vida e assim deve ser vivido por seus discípulos. Ou alguém duvida que o que fez Jesus na cruz foi uma prova de obediência de amor ao Pai por todos nós? O amor foi o “culpado” do que se passou no Gólgota. Com a morte de Jesus aparecerá a glória de Deus comprometido com Ele e com sua causa. Por outro lado, Ele já nos está preparando, como aos discípulos, para o momento de passar da Páscoa a Pentecostes; do tempo de Jesus ao tempo da Igreja. É lógico pensar que naquela noite em que Jesus sabia o que poderia passar tinha que preparar os seus para quando não estivesse mais presente. Não os havia chamado para uma guerra e uma conquista militar, nem contra o Império de Roma. Os havia chamado para a guerra do amor sem medida, do amor consumado. Por isso, a pergunta que devemos fazer é: Como podem identificar-se no mundo hostil aqueles que lhe seguiram e os que lhe seguirão? “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos.” (v. 35) Ser cristão, discípulo ou discípula de Jesus, é “amar uns aos outros”. Esse é o catecismo que devemos viver. Tudo o mais encontra sua razão de ser nesta lei suprema da comunidade que Jesus imaginou para seus discípulos, Igreja casa do amor fraterno. Tudo o que não seja isso é trair, é abandonar como Judas, a comunhão com o Senhor ressuscitado e desistir da verdadeira causa do evangelho, desistir e assassinar o amor. Sempre nos ronda a tentação de confundir o sinal de identidade dos discípulos de Jesus. Temos posto demasiadas normas, algumas muito pesadas e outras um tanto discriminatórias, onde só devia estar o amor. Cumprir mandamentos não resulta de todo difícil; ficar no exterior, na superficialidade é muito cômodo. A raiz e o centro, a razão de nossa fé é exclusivamente o amor: o que experimentamos de Deus, Ele nos amou primeiro o que vivemos com paixão e exigência. Frequentemente confundimos o amor com a sensação de “estar bem”, “estar gostando”, uma experiência meramente sensível, afetiva, superficial. Essa que quando aparecem as dificuldades surpreendentemente desaparece. Não é o amor o antídoto que tira a dor. A vida humana corre paralela a essas duras realidades, que a vão marcando. Deus, a adesão a Ele, não evita o sofrimento: o Reino não se accede sem ser curtido humanamente na dor ou na dificuldade. O amor não é uma ideia, nem se reduz a um sentimento, mas se traduz em atitudes, em ações, neste caso em testemunho. O testemunho da experiência de amor que foi a entrega de Jesus na cruz e sua ressurreição há de traduzir-se no amor entre os discípulos desse Cristo. E é dessa nova forma de amar que Ele nos fala hoje.
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    “O amor nãopode ser mandado; é em definitivo, um sentimento que pode existir ou não, mas não pode ser criado pela vontade... (Deus) amou-nos primeiro e continua a ser o primeiro a amar- nos; por isso, também nós podemos responder com amor. Deus não nos ordena um sentimento que não possamos suscitar em nós mesmos. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar seu amor, e desta ‘antecipação’ de Deus pode, como resposta, despontar também em nós o seu amor. No desenrolar desse encontro, revela-se com clareza que o amor não é apenas um sentimento. Os sentimentos vão e vêm. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas não é a totalidade do amor... É próprio da maturidade do amor abranger todas as potencialidades do homem e incluir, por assim dizer, o homem em sua totalidade.” (Bento XVI, 2006.) Esse “mandamento novo” é duro de entender e mais duro de testemunhar, ou seja, praticar, porque só olhando Jesus saberemos como Ele nos amou. Sabemos que quando se está apaixonado se se nota no olhar. Pois entre nós, os cristãos, se deveria notar que nos amamos, porque somos discípulos de um Deus que é amor até as últimas consequências e que nos amou desde sempre e nos amará para sempre. Quando amarmos assim, então daremos ao mundo que nos rodeia, o verdadeiro testemunho de que somos discípulos e discípulas de Jesus. Seremos examinados ao final no amor, mas na matéria amor a maioria dos cristãos somos reprovados no exame. Nem se quer amamos aos nossos familiares e nem tampouco aos vizinhos. No mundo moderno se tem instalado um egoísmo solitário e duríssimo. Uma situação de fechamento tal que leva as pessoas a um isolamento que não só é produzido pela vergonha de expor sua crise, mas também porque as poucas aproximações que tenham experimentado para contar seu problema são recebidas com frieza ou hostilidade... e muitos até saem da comunidade cristã por não se sentirem acolhidas, amadas... O amor não reina na terra e só uns poucos praticam realmente o mandamento principal de Cristo. Jesus nos disse que se saberá que somos seus discípulos ao ver-se que nos amamos uns aos outros. Mas não é assim agora, nem tem sido antes. E não só não há amor, mas até em muitos casos o que circula entre nós é uma coisa muito próxima do ódio. “Depois de quase dois mil anos que Cristo proclamou o mandamento novo. Em nossa cidade daqui debaixo não se ouve ainda o canto novo do amor, mas se ouve o canto antigo das armas que disparam, das sirenes que gritam depois de ter recolhido nas estradas as vitimas do ódio e da violência. Há ainda tanto lamento, tanta angustia, tanto luto e tanta morte sobre nossa terra; há ainda muitas lágrimas nos olhos das pessoas e quase todas causadas pela falta de amor ou pela traição do amor... Mas não devemos vacilar na fé e na esperança, como se tudo tivesse sido uma ilusão, um sonho efêmero da humanidade, como se Cristo tivesse se enganado em considerar possível a tal coisa nova que é o amor.” (Cantalamessa, 2012.) Se fossemos capazes de amar a todos, o mundo viveria em paz. E na busca do amor talvez nos falte a capacidade para fazê-lo. Não amamos porque não buscamos os caminhos que nos levam a isso. A mensagem de Cristo fica na maioria dos casos como um adorno. E, sem duvida a fé sem obras não é fé, porque, de certo modo, se está negando a principal característica de Cristo, o amor. Há muitas instâncias da Igreja Católica e de seus fieis que lutam contra esse mundo atroz. E, por certo, muitos caminhos para exercitar, com obras nosso amor aos outros. Mas temos de ser perseverante e ter aberto o coração ao que nos manda Cristo no respeito aos nossos irmãos. O problema emerge porque muitas vezes esse coração está fechado às palavras de Jesus. Temos que trabalhar duro para que não haja violência, egoísmo, falta de solidariedade e que tudo isso saia dos setores da sociedade que se diz cristã, aliás, esta sociedade está sendo honesta em
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    não mais sedizer cristã, “o Estado é laico!” Certamente temos de trabalhar para que essa falta de amor, que produz violência, egoísmo e falta de solidariedade, não frutifique em parte alguma. Mas o cristão deve ser exigente também consigo mesmo, quanto a uma possível cumplicidade com os violentos, perversos e opressores; com os que matam inocentes e os culpados; com os assassinos do amor. “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos.” (v.35) Onde quer que haja uma pessoa que ame aos outros, por Cristo; que viva, testemunhe e pratique o mandamento do amor, aí está um cristão. Não podemos inventar outro sinal diferente daquele que nos marcou Jesus: amar como Ele nos amou está aí a nossa marca indelével. Só nos diferenciamos dos outros se amarmos gratuitamente, servindo, perdoando, dedicando aos outros nossa atenção, nosso tempo, compreendendo-os nas suas tristezas e alegrias, limpando do nosso estilo de ser e agir todo egoísmo, desprezo, prepotência e o esquecimento. É preciso que deixemos marcar em nós o amor de Deus e amemos, não somente por palavras, mas com ações e de verdade. Talvez não sejam momentos fáceis os que vivemos. Mas são tempos nos quais amar ao estilo de Jesus é um desafio. Porque cremos que o amor dá sentido ao humano seguimos anunciando o Evangelho na certeza de que o ressuscitado nos anima e acompanha! Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002 Bento XVI. Carta Encíclica Deus Caritas Est. São Paulo, Paulus, Edições Loyola, 2006. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus – Ano A,B.C. São Paulo, Ave Maria, 2012. PASTORES COM O CHEIRO DAS OVELHAS Neste 4º domingo da Páscoa sempre lemos um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João, (cf. Jo 10,27-30) que é o capítulo do Bom Pastor, e aproveitamos este texto, que tem tons vocacionais, para ilustrar o convite que a Igreja nos faz neste dia a rezar pelas vocações. No rescaldo da Páscoa voltam a ressoar as palavras que Jesus pronunciou antes de morrer. Depois da sua ressurreição tudo aquilo que Ele disse adquire uma profundidade nova, uma luminosidade distinta. Descobre-se então, todo o valor que sua mensagem tem. O Senhor disse que depois da sua partida, o Espírito recordaria aos seus discípulos suas palavras e os conduziria à Verdade. Num primeiro momento eles não compreenderam perfeitamente o que o Mestre lhes ensinava, mas logo penetrariam extasiados nas palavras que conduzem à vida eterna, que nos transmitem essa felicidade sem fim. De todos os apóstolos, o que mais tardou em escrever suas recordações foi João. Antes de redigir seu evangelho, ele o pregou umas mil vezes, e, sobretudo, o meditou. Quantas horas de intensa oração do “discípulo amado”, quantos momentos de intimidade com o Mestre no silêncio da contemplação! O espírito de João se elevaria com frequência até o cimo da mais alta mística. A ele, como sabemos, se lhe simboliza com a águia, essa ave gigante que como dizem, alça seu voo majestoso sobre as mais altas nuvens, que penetra com seu olhar as distâncias mais remotas, que olha fixamente o sol.
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    Por tudo isso,quando João escreve, suas palavras adquirem uma luminosidade nova e maravilhosa. O mesmo Espírito que inspirou aos outros evangelistas estava por trás de sua pena. Mas Deus, o Autor principal, aceitou sempre o modo de ser de cada um dos autores secundários, respeitou ao máximo sua liberdade. João foi sempre um apaixonado, um homem que sabia querer com ternura e fortaleza a um tempo, que intuía mais que discorria. Talvez por tudo isso Jesus o preferisse aos outros. Além do mais era o mais jovem e tinha o coração limpo. João recordava com emoção como Jesus falava de seu rebanho, pelo qual daria sua vida: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna; elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão...” (vv. 27-28) João havia escutado o Mestre de quem bebia suas palavras e agora nos convida a escutar da mesma forma, e que façamos de nossa vida o ensinamento divino de Jesus Cristo. Nesta pericope tão curta, mas tão densa em conteúdo, o evangelista fala que a fé é uma relação pessoal entre aquele que crê e Jesus. “Eu as conheço”, na linguagem bíblica a palavra “conhecer” tem conotações mais profundas do que no nosso uso comum, significa não tanto um saber intelectual. O “conhecer”, implica uma relação intima e profunda: o amar, o desejar o bem da pessoa, o sentir afeto por ela. É dizer, só se pode chegar a conhecer uma pessoa no âmbito da relação íntima e pessoal. Quanto mais uma pessoa é conhecida dessa maneira por Jesus, em virtude do caráter recíproco de toda relação pessoal, entra também no mundo da sua intimidade, lhe escuta com atenção e lhe segue com fidelidade e alegria. No evangelho de João, o “conhecer” quase se identifica com o crer. Jesus tem confiança em suas ovelhas, porque as ama e sente-se amado por elas. E, sobretudo, as ovelhas confiam nele. “O pastor conhece as ovelhas, porque elas lhe pertencem, e elas o conhecem precisamente porque elas são as suas ovelhas. O conhecer e o pertencer são propriamente uma e a mesma coisa. O verdadeiro pastor não ‘possui’ as ovelhas como uma coisa qualquer, que se pode usar e gastar; elas ‘lhe pertencem’ precisamente no se conhecerem, e este ‘conhecer’ é um acolhimento interior. Significa um pertencer interior, que vai muito mais além do que a posse de coisas. Procuremos tornar isto claro com um exemplo da nossa vida. Nenhum homem ‘pertence’ a outro como uma coisa lhe pertence... “Eu e o Pai somos um.” (Jo 10,30) O recíproco conhecer-se entre o Pai e o Filho é entretecido com o conhecimento recíproco do pastor e das ovelhas. O conhecimento que liga Jesus com os seus está no campo interior da sua comunhão de conhecimento com o Pai... Para transferirmos tudo isto para o mundo da nossa vida, podemos dizer: só em Deus e só a partir de Deus é que o homem conhece verdadeiramente o homem. Um conhecer-se que confina o homem ao que é empírico e inteligível não encontra de modo algum a profundidade própria do homem. O homem só se conhece a si mesmo se aprende a compreender- se a partir de Deus e só conhece o outro se vir nele o mistério de Deus. Para o pastor a serviço de Jesus, isto quer dizer que não deve prender os homens em si, no seu próprio e pequeno eu. O conhecer-se que o liga com as ovelhas que lhe foram confiadas deve ter como objetivo conduzirem-se reciprocamente a Deus, levá-las a Ele; deve então ser um encontrar-se na comunhão do conhecimento e do amor de Deus. O pastor a serviço de Jesus deve conduzir-se sempre mais para além de si mesmo, de modo que o outro possa encontrar a sua total liberdade; e por isso mesmo ele deve também transcender-se a si mesmo rumo à unidade com Jesus e com o Deus trinitário.” (Bento XVI, 2007.) “As minhas ovelhas escutam a minha voz e eu as conheço”. (v. 27). O Papa Francisco, na Missa da Quinta-Feira Santa, 28 de Março p.p. em sua homilia (L’Osservatore Romano,2013.) disse aos 1600 sacerdotes presentes na basílica de São Pedro, que deviam ser “pastores com cheiro de
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    ovelhas”. Esta frase,fora de seu contexto, pode ser interpretada com sentidos diferentes, mas, no contexto em que o Papa a disse, o significado da frase só pode ser o que o Papa lhe deu. O Papa disse exatamente que os sacerdotes devem ser “pastores com o cheiro das ovelhas, isto vo-lo peço: sede pastores no meio do seu rebanho, e pescadores de homens”. O Papa crê que os sacerdotes não podem estar só atentos às pessoas que lhes buscam a eles, mas sim que têm que sair eles a buscar as pessoas. “O poder da graça, que se ativa e cresce na medida em que, com fé, saímos para nos dar a nós mesmos oferecendo o Evangelho aos outros, para dar a pouca unção que temos àqueles que não têm nada de nada”. E segue dizendo: “Quem não sai de si mesmo, em vez de ser mediador, torna-se pouco a pouco um intermediário, um gestor. A diferença é bem conhecida de todos: o intermediário e o gestor 'já receberam a sua recompensa'. É que, não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração; e daqui deriva precisamente a insatisfação de alguns, que acabam por viver tristes, padres tristes transformados numa espécie de colecionadores de antiguidades ou então de novidades, em vez de serem pastores com o 'cheiro das velhas'." Hoje celebramos o domingo do Bom Pastor, segundo o evangelho de são João. Cristo nos disse que Ele conhece as suas ovelhas e elas escutam sua voz e lhe seguem, quer dizer que ele vive em contato direto com suas ovelhas, guiando-as e defendendo-as, e que nada poderá arrebatá-las de sua mão. Definitivamente no que insistiu o Papa Francisco na homilia da Missa Crismal e o que nos quer dizer Cristo no Evangelho de hoje é que o bom pastor vive no meio das ovelhas, por isso tem o cheiro das ovelhas. Esforça-se em ser companheiro e irmão dos outros, não para dominá-los ou dirigi-los como a ovelhas cegas e tontas, mas sim para acompanhá-las com a palavra e com o exemplo no verdadeiro caminho que nos leva todos ao Pai. “O exercício pastoral só se justifica se é ‘sacramento’ da missão do Filho de Deus. Se tiver os traços do bom pastoreio do Senhor: ‘as ovelhas me conhecem, eu as conheço...’ Entre ovelhas e pastor há uma relação de sedução e intimidade. Batizados e batizadas que colaboramos na ação pastoral da Igreja temos a responsabilidade de expor nosso Pai-Mãe-Deus, nosso Senhor Jesus, através de nossa ação e paixão ao único pastor-pastora de seu povo. O pior que nos pode acontecer – tanto na ação pastoral da Igreja como nas lideranças de nosso mundo – é que aqueles que exercem essa função pouco a pouco suplantam o Bom Pastor, o único pastor; perdem identidade representativa e ganham identidade usurpadora ou suplantadora. Isso sucede quando depois das declarações iniciais de boa vontade vão se separando do povo, da comunidade, fecham-se em seu mundo e decidem mais com base em suas ideias e interesses que na atenção real às necessidades e problemas do povo; quando ao afastar-se do povo e da comunidade, se afastam do Bom Pastor, que sempre está com suas ovelhas. A ‘burocratização’ excessiva do ministério pastoral conduz a isto. Quando não temos fácil acesso ao pastor, que está sobrecarregado com milhares de tarefas burocráticas ou atos oficiais, que passa mais tempo em viagens do que em casa, que tem de delegar muitas funções porque não dá cabo de tudo... a que fica reduzido o serviço pastoral?”(Pardes, 2011.) Sejamos pastores com o cheiro das ovelhas, não porque renunciamos a nossa condição de pastores, mas sim porque vivemos entre as ovelhas, compartilhamos as mesmas alegrias, angustias, esperanças... e as conhecemos e as guiamos para Deus o único e verdadeiro “Bom Pastor”. E que ninguém nem nada nos arrebate de suas mãos. Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002
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    Ratzinger, Joseph. (BentoXVI). Jesus de Nazaré. São Paulo: Editora Planeta, 2007. L’Osservatore Romano, Ano XLIV, n. 13 (2.257), Edição Semanal em Português. Cidade do Vaticano, Domingo 31 de Março de 2013. Paredes, José Cristo Rey Garcia. A Liturgia da Palavra Comentada, Anos A,B,C. São Paulo, Ave Maria, 2011. Como nosso “hosana” se converteu em “crucifica-o” Todos os anos os livros litúrgicos assinalam este dia como “Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor”. Com esta expressão a liturgia da Igreja nos introduzno mistério da Paixão e Morte de Jesus,dando-nos a chave para compreender, em sua autêntica dimensão, os acontecimentos que fazemos presentenas celebrações dos próximos dias da semana santa.Sim, porque nas celebrações litúrgicas a comunidade cristã não apenas recorda ou dramatiza fatos que ocorreram no passado; mas, “faz memória”, Istoé, atualizaos acontecimentos (”Kairós”) da história da salvação. A liturgia do Domingo de Ramos associa dois momentos radicalmente contrapostos, separados tão somentepor poucos dias: a acolhida gloriosa de Jesus em Jerusalém e sua crucifixão no Calvário, o “hosana” transbordante de fervor e o impiedoso “crucifica-o!” Portanto, há dois aspectos nesta celebração que se fazem presente em dois momentos distintos. Umcelebrar, bendizer e acompanhar Jesus o que “vem em nome do Senhor”neste triunfo passageiro de suaentradaem Jerusalém. Noutro momento, ressaltar o valor que temacompanhar Jesuse sentir-se acompanhado por Eleno caminho de cada dia como o servo justo e humilde que agrada o Pai e cumpre sua vontade. Inicia assim um caminho de justiçae humildade que só é acreditado pelo povo simples que o acompanha. Este é o único Domingo em que na liturgia lemos o relato da Paixão de Jesus. É necessário que o povo cristão escute o “anuncio” da Paixão como o faziam os primeiros cristãos, que escreveram estes relatos nos primeiros anos do cristianismo para serem lidos e meditados emsuas celebrações. A narração da Paixão do “profeta da Galiléia” de São Lucas (Cf. Lc 22,14-23,56) segue uma tradição mais antiga que as de São Marcos e São Mateus. É uma narração que veio precedida pela importância que Jesus comunicou aos seus discípulos de ir a Jerusalém, porque um profeta não pode morrer fora de Jerusalém (cf. Lc 13,33). Como profeta Ele foi à morte, por sua vida e por suas palavras, à cidade santa onde se decidiam todas as coisas importantes da religião judaica. Com os relatos da paixão, não somente se pretende explicar as causas da morte de Jesus, quem o matou, ou por que o mataram; mas o sentido que o próprio Jesus deu a sua morte, como acontece no relato da última ceia com seus discípulos(Cf. Lc 22, 14-20). Lucas nos apresenta as palavras de Jesus sobre o serviço, que considera que sua morte “énecessária” para que o Reino de Deus seja uma realidade mais real e efetiva. Comeste relato Lucas conseguia explicar, numa catequese muito apropriada a sua comunidade, que a Paixão do Senhor não é uma tragédia, mas que Jesus deu à sua morte um sentido de entrega e de fidelidade a Deus-Pai.Nela se suaviza tudo o que seja violência e dramaticidade.O evangelista não quer insistir nos sofrimentos, por isso não narra os açoites, nem a coroação de espinhos. E a crucifixãoé relatada muito brevemente.
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    Lucas ressalta osenhorio de Jesus, que se deixa prender, sem resistência e responde com autoridade aos sumos sacerdotes(Cf. Lc 22,47-54). E,sobretudo, resplandece a infinita misericórdia do Senhor em tais momentos, chamando o traidor por seu nome, curando a orelha doempregado do sumo sacerdote, perdoando aos que o crucificam, e prometendo o paraíso ao ladrão arrependido. Jesus se manifesta assim como reflexo do amor e da misericórdia do Paipara conosco. Na cena da crucificação sobressai especialmente o diálogo de Jesus com o bom ladrão(Cf. Lc 23,39-43). Esta narração dos dois “malfeitores crucificados”ao lado de Jesus é um dos momentos culminantes da paixão do nosso evangelista que reflete muito bem sua teologia: Jesus está sempre aberto a comunicar a misericórdia divina Por isso é considerado o evangelista da misericórdia e da salvação: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso.” Isto é determinante, a partir da morte de Cristo e não só no fim do mundo, estaremos nas mãos salvadoras de Deus. Alguém já escreveu que “um ‘Deus crucificado’ constitui uma revoluçãoe umescândalo… o Crucificado não tem o rosto nem os traços que as religiões atribuem ao Ser Supremo“. Este Deus não permite uma féfútile egoísta em um Deus onipotente a serviço de nossos caprichos e pretensões. Com Ele nos encontramos quando nos aproximamos do sofrimento,em nós mesmos e de qualquer crucificado atual pelo sofrimento das injustiças e maldades que existem emnosso mundo. Por isso nestes dias, talvez e mais uma vez, teríamos que nos perguntar quemé esse Homem que a dois mil anos atrás fez uma contundente pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?”(Lc 9,20) Nós homens e mulheres que vivemos neste século XXI, somos muito ilustrados eminformações e saberes, mas, com frequência, somos muito ignorantes nas coisas da fé. Temos uma cultura de “tradições ou costumes” religiosos e litúrgicos, mas que não nos ajudam a ter uma vivência profunda de nossa fé. Queresposta podemos darà pergunta feita por Jesus? Seremos capazes de reconhecer em Jesus esse homem que mudou a imagem que os judeus e muitos de nós hoje ainda têm de Deus? Ele é quem nos revelou que Deus é um Pai, cheio de ternura e de misericórdia. O relato da Paixão do Evangelista Lucas ressalta a confiança no Paie o pedido de misericórdia para os “que não sabem o que fazem”(Lc 23,34) ou para o bom ladrão “hoje estarás comigo” (Lc 23,43). Esta celebraçãoe nossa confissão de féteria que nos levar a dar uma verdadeira resposta à pergunta de Jesus como Pedro, ainda que depois o neguemos: “Tués oCristo de Deus” (Lc 9,20). Ou como ocenturião: “De fato! Este homem era justo!”(Lc 23,47) São João de Ávila (1499-1569) deixou escrito que era necessário que a lança do centurião romano abrisse o coração de Cristo para que através dessa ferida pudéssemos vislumbrar o amor infinito do Pai que entrega seu Filho por nós, e doFilho, Jesus Cristo, que se entrega à morte por nós.O Papa emérito Bento XVI disse: “Olhemos para Cristo transpassado na Cruz! É Ele a revelação mais perturbadora do amor de Deus. Na Cruz é o próprio Deus que mendiga o amor da sua criatura: Ele tem sede do amor de cada um de nós.” Por isso devo insistir que ante a Paixão de Jesus não podemos ser meros espectadores ou como auditório passivo. Cada um de nós estava ali, entre aqueles judeus ou aqueles discípulos, porque Jesus oferecia sua vida também por cada um de nós. Mas, voltemos ao duplo aspecto desta celebração e também nos perguntamos: Como é possível que os gritos eufóricos de “hosana” e “bendito o Rei, que vem em nome do Senhor!”(Lc 19,38) com que a multidão reconhecia e acolhia o Messias-Filho de Davi se trocassemlogo porinsultos e aversão: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!... Crucifica-o, crucifica-o!”?(Lc 23,
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    18.21)O que aconteceuem tão breve espaço de tempo? Por que esta mudança tão radical de atitude? Uma explicação sem duvida é a manipulação a que é submetida a multidão. Como acontece também em nossos dias, quem carece de sentido crítico tende a submeter-se à “opinião pública”, a “o que dizem os outros”, deixando-se arrastar facilmente por suas opiniões eações,pelo que “a maioria” pensa, disse oufez. Não fazem o mesmo hoje,muitos inimigos da Igreja que fazendo eco nos poderosos meios de comunicação social apresentam “a verdade sobre Jesus” para que muitos gritem novamente: “crucifica-o!” e “crucifiquem a Igreja”? Como naquele tempo, também hoje a “opinião pública” é manipulada habilmente por um pequeno grupo de poder que quer tirar Cristo e a Igreja do meio, da sociedade, dizendo que a Igreja deve ficar restrita ao interior dos seus templos, pois o estado é laico, religião e vida são coisas distintas. Porém a assombrosa facilidade para mudar de atitudetão radicalmente com respeito a Jesus não deve fazer-nos pensar somentenos “outros”, ou assinalar certos grupos de poder para sentir-nos desculpados, mas sim deve fazer-nos refletir humildemente em nossa própria volubilidade e inconsistência. Quantas vezes arrependidos, emocionados, tocados profundamente por um encontro com o Senhor, convencidos de que Cristo é a resposta a toda nossa busca de felicidade, de que Ele é O Senhor, lhe abrimos as portas de nossa mente e de nosso coração, o acolhemos com alegria e entusiasmo, com palmas egritos de glória, mas poucos dias depois o expulsamos e gritamos “crucifica-o!” com nossas ações e opiniões opostas a seus ensinamentos? Quantas vezes preferimos o “Barrabás” de nossos próprios vícios e pecados? Tambémeu me deixo manipular tão facilmente pelas vozes sedutoras de um mundo que odeia a Cristo e busca arrancar toda raiz da cultura edos valores cristãos de nosso povo que foram forjados ao calor da fé! Também eu me deixo influenciar tão facilmente pelas vozes enganadoras de minhas próprias inclinações ao mal! Também eu me deixo seduzir tão facilmente pelas vozes sutis e agradáveis do Maligno que com suas astutas ilusões me promete a felicidade que sonho se em troca oferecer a minha vida aos deuses do poder, do prazer ou do ter! E assim, quantas vezes, ainda que cristão de nome, grito: “A esse não! Escolho a Barrabás! A esse tiro da minha vida! A esse crucifica-o!” Como é importante aprender a ser fielaté nos pequenos detalhes de nossa vida, para responder com fé coerente quem é Jesus para mim e para não crucificá-lo novamente com nossasopiniões e ações! Como é importante ser fiel a Cristo edesmascarar, resistir e afastar aquelas vozes que sutil e habilmente querem-nos por contra Jesus, para em troca construir nossa fidelidade ao Senhor dia a dia com as pequenas opções por Ele. Como é importante fortalecer nossa amizade comEle através da escuta de sua Palavra e da oração perseverante! Do contrário, no momento da prova ou da tentação, em que escutamos as “vozes” interiores ou exteriores que nos convidam a eliminar o Senhor Jesus de nossas vidas, descobriremos como nosso “hosana” inicial se converteu em um traiçoeiro “crucifica-o”. O que escolho? Ser fiel ao Senhor até a morte? Ou, covarde como tantos, me deixar levar na direçãoem que sopram os ventos deste mundo que detesta a Cristo, que detesta a sua Igreja e a todos aqueles que são de Cristo? A força do olhar de amor e perdão
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    Às portas dasemana santa, semana do “amor maior”. No V Domingo desta Quaresma Penitencial, a Palavra de Deus nos convida a olhar para o interior de nós mesmos fazendo um bom exame de consciência, pensando no modo como julgamos ou muitas vezes condenamos as atitudes daqueles que nos rodeiam, totalmente oposto ao olhar de amor de Jesus no confronto com a agressividade e a violência com que os mais frágeis são muitas vezes castigados. O tempo da Quaresma, já quase no seu final, a paixão de Jesus, deve produzir uma reflexão sobre nossas faltas e ausências de amor ao próximo. Percorrendo esta ultima etapa deste itinerário de conversão em direção à Páscoa, aproveitemos a oportunidade de conversão e façamos a experiência do encontro com o amor, a ternura, o perdão e a misericórdia de Deus no Sacramento da Reconciliação e da Penitência. No centro do relato da “mulher adúltera” (cf. Jo 8,1-11), muito provavelmente este episódio pertence aos últimos dias da vida de Jesus, vemos uma mulher indefesa, ameaçada, talvez agredida, enfrentando sozinha os seus acusadores. Talvez ela não estivesse arrependida, mas com certeza estava perturbada, assustada e envergonhada. Ela é deixada só, exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, jogada aos pés de Jesus. Esta mulher é a imagem exata do que era, naquele tempo, a mulher na sociedade, considerada uma propriedade do marido. Por isso o adultério mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade. “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?” (vv. 4-5) O livro do Levítico diz que: “o homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice.” (Lv 20,10); e o Deuteronômio, exige: “os trareis ambos à porta da cidade e os apedrejareis até que morram... deste modo extirparás o mal do teu meio.” (Dt 22,24) Claro que Deus não exigiu isso, mas, a cultura da época impôs estas penas como exigências morais. É óbvio que Jesus não pode estar de acordo com a pena de morte, nem com a infâmia de que somente o ser considerado mais frágil (no caso a mulher) tenha que pagar publicamente. A leitura “profética” que Jesus faz da lei põe em evidência uma religião e uma moral sem coração e sem entranhas. Jesus não mandou buscar o “companheiro” para que juntos pagassem. O que indigna a Jesus é a “dureza” de coração, camuflada no puritanismo de aplicar uma lei tão injusta como inumana. Os escribas e fariseus se mostravam empenhados em salvar a letra da lei, ainda que para isso tivessem que condenar pessoas; Jesus estava empenhado em salvar pessoas, interpretando para isso a lei a partir da compreensão e do amor. Jesus escuta atento as acusações daqueles que haviam encontrado a mulher perdendo sua dignidade com um qualquer e o que se lhe ocorre é precisamente devolvê-la para sempre. De nada valia àquela mulher Ele lhe falar de um Deus libertador, se os responsáveis pela lei abandonaram a mulher e a deixaram a mercê de sua própria sorte. Jesus, pois, é o melhor intérprete do Deus Libertador que tem compaixão e escuta os clamores e penas dos que sofrem todo o peso de uma sociedade e duma religião sem misericórdia. Pouco lhe importa as histórias passadas daquela mulher. Para o Senhor, o momento presente, é o mais essencial. E, o mais desprezível, aqueles que sem ter poder para isso, se erguem em juízes dos defeitos dos outros. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (v. 7) Quer dizer, se todos somos pecadores, por que não somos mais humanos ao julgar os outros? “Embora todos sejamos imperfeitos, acusando os outros como fiscais, julgamo-nos inocentes. Parece-nos a coisa mais natural do mundo deitar a culpa para os outros. Por isso diz o ditado ‘a culpa morreu
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    solteira’, porque ninguéma quer. Procura-se, arranja-se sempre um bode expiatório, tanto a nível político e social, religioso e até a nível técnico... Hipócritas! Julgamos assim que nos auto- justificamos. Aqueles fariseus do evangelho não eram muito piores do que nós, que percebemos nitidamente o cisco no olho do outro e não vemos a trave no nosso. Contudo, constituirmo-nos como juízes dos outros é um contra-senso clamoroso. Isso é competência exclusiva de Deus, o único que conhece integralmente a pessoa com os seus condicionamentos psicológicos e as suas limitações à liberdade, e por conseguinte, a responsabilidade e culpabilidade de cada um.” (Caballero, 2000.) “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” Por que Jesus reage assim? Não podemos imaginar que os que levam a mulher são todos maus ou adúlteros. Não é isso! Mas sim, pecadores de uma ou de outra forma. Então, se todos somos pecadores, por que não somos mais humanos ao julgar os outros? Não é uma questão de que há pecados e pecados. Isto é verdade. Mas, por mais simples que seja nosso pecado todos queremos perdão e misericórdia. Os grandes pecados também pedem misericórdia, e assim, nenhum pecado ante Deus exige a morte. Ele não quer a morte do pecador. Acredito ser necessário fazermos uma autocrítica. Perguntar-nos até que ponto, nossa vida cristã se encontra adulterada. Mas, também somos chamados a sermos compreensivos uns com os outros, sermos conscientes de que se nós temos alguma cicatriz aberta em nosso corpo, também os outros podem tê-la ou não? Muitas vezes, querendo ou sem querer, com a verdade ou sem ela, podemos arruinar muitas pessoas; sentenciá-las ou enterrá-las vivas. “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Disse ela: ‘Ninguém, Senhor’. Disse, então, Jesus: nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais”. (vv. 10-11) “Superado o medo, ela percebe um olhar de misericórdia como um banho de luz; nenhum homem jamais a tinha olhado daquele modo!... Quanta nova confiança deve ter infundido na mulher aquele Vai, pois significava: volta a viver, a esperar, volta para casa; retoma a tua dignidade; dize aos homens, com tua presença entre eles, que não há somente a Lei, há também a graça. Podemos estar certos: a experiência daquele perdão, daquela compreensão infinita por parte de Jesus, reergueu aquela mulher, lhe encheu o coração com a experiência de um amor novo, tão diferente daquele que a tinha iludido em seu adultério. De modo que ela não deve ter mais procurado um momento de uma dúbia felicidade nos braços de um homem que, depois de tê-la talvez seduzido, a havia deixado tão covardemente abandonada pelas ruas da vida.” (Cantalamessa, 2012.) O gesto de Jesus passando por cima do pecado daquela mulher aconteceu com todos os cristãos no Batismo, e se renova no Sacramento da Reconciliação, tantas vezes quando dele obtemos o perdão dos pecados. “A confissão é, portanto, o encontro com o perdão divino, que nos é oferecido em Jesus e que nos é transmitido mediante o ministério da Igreja. Neste sinal eficaz da graça, encontro com a misericórdia sem fim, é-nos oferecido o rosto de um Deus que conhece como ninguém nossa condição humana e se faz próximo com terno amor... Desta proximidade terna e compassiva de Deus temos imensa necessidade... O sacramento do perdão vem a nos socorrer sempre de novo em nossa condição de pecado, alcançando-nos com a força curadora da graça divina e transformando nosso coração e nossos comportamentos.” (Forte, 2005-2006.) Aquela mulher, jogada no chão, tremendo de medo, olhada do alto com olhares de desprezo encontra outro olhar, o olhar do Amor e do perdão. Há olhares e olhares. Diz o dito popular “há olhares que matam”, que expressam uma grande carga de agressividade e violência, desejam o mal, a destruição da pessoa que olham. Há “olhares indiferentes”, que não dizem nada, que
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    simplesmente refletem isso,desprezo. Mas, há olhares que restauram, que curam, que animam, que dão vida… São os “olhares de amor”. Alguém já disse que “amar é saber olhar”. O amor tem olhos mais claros, mais potentes para ver com o coração o interior das pessoas. O amor tem um olhar mais penetrante que a inteligência, sabe ver o invisível, mas que está aí, é real. “Amar é saber olhar”. Neste evangelho há um encontro de olhares. O olhar da multidão de homens, mestres da lei e fariseus, é um “olhar que mata”. Seus olhos não vêm mais que uma mulher adúltera que deve ser apedrejada. Olham para esta mulher com um olhar que mata. Mas, encontramo-nos também com o olhar de Jesus, que condena o pecado: “não peques mais”; mas que ama o pecador, um olhar cheio de amor para esta mulher. O olhar de amor tem características que não tem o olhar sem amor. O olhar de amor vê para além das aparências, vê com profundidade o interior das situações e das pessoas. Neste caso concreto, Jesus com seu olhar de amor, vê que essa mulher está doída, humilhada e arrependida pelo que fez, mas sem a possibilidade de se defender. Vê o olhar dessa mulher que está pedindo que a compreendam e a perdoem. Outra característica do olhar de amor é sempre buscar amar. Os mestres da lei e fariseus, porque não amavam, só buscavam o castigo para a que havia pecado. Mas Jesus com seu olhar de amor, não busca condenar e castigar, mas sim curar, refazer a vida, devolver a sua dignidade. Como é diferente nosso olhar sobre o mundo e as pessoas, ao que Deus possui! Por que será? “Olhemo-nos com o olhar com que Deus nos vê e, então, sentiremos, sim, a necessidade de correr a Jesus, mas para pedir perdão para nós e não a condenação para os outros.” (Ibid. Cantalamessa.) Nós, como cristãos devemos buscar o que Jesus ofereceu a esta mulher, seu olhar de amor, compaixão e compreensão. Que bom que venha até nós esta reflexão quase ao final deste tempo quaresmal para nos questionar: Como nos posicionamos frente aos defeitos e as quedas dos outros, como juízes ou como discípulos de Jesus alcançando a todos com o amor e o perdão de Jesus? Bibliografia: Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002. Rocchetta, Carlo. Teologia da ternura, um evangelho a descobrir. São Paulo: Paulus, 2002. Cantalamessa, Raniero. O Verbo se faz carne, reflexão sobre a palavra de Deus, Anos A,B, C. São Paulo, Ave Maria, 2012. Forte, D. Bruno. Carta pastoral Confessar-se, por quê? Traduzido e publicado por Zenit.org 2005-2006. Paróquia de Nossa Senhora de Fátima CATEQUESE QUARESMAL 2. A conversão e a reconciliação Org. Pe. José Assis Pereira Soares “Suscitar no coração do homem a conversão e a penitência e proporcionar-lhe o dom da reconciliação é a missão da Igreja, como continuadora da obra redentora do seu divino Fundador.
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    Trata-se de umamissão que não será cumprida só com algumas afirmações teóricas [...] mas está destinada a expressar-se em funções ministeriais na prática concreta da penitência e da reconciliação.”(RP n.23) “O pecado mortal, atacando em nós o princípio vital, que é a caridade, exige uma nova iniciativa da misericórdia de Deus e uma conversão do coração, que se realiza normalmente no sacramento da Reconciliação.” (CIC 1856) “Nós vos pedimos em nome de Cristo; reconciliai-vos com Deus” (2Cor 5,20) “O tempo estabelecido completou-se e o Reino de Deus chegou! Convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1,15) - Jesus percorre os povoados anunciando o Evangelho de Deus. A primeira frase que Ele pronuncia no Evangelho de Marcos é: “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Portanto, a conversão não está ligada somente à confissão, mas ela deve marcar toda a nossa vida; a razão disso é a proximidade do Reino de Deus. Como Deus está próximo, como o bondoso e misericordioso Deus se aproximou de nós em Jesus Cristo, devemos nos converter. Devemos nos afastar de nós mesmos e nos voltar para Deus. - É impressionante que estas sejam as primeiras palavras que Jesus diz. Estranhamente, a “boa nova” não começa por “alegrai-vos” ou algo semelhante, mas por “convertei-vos” ou traduzido em outras tradições: “arrependei-vos” e “fazei penitência”. - O que as palavras de Jesus evocam é a grande realidade da volta que era expressa pela terminologia hebraica do voltar e traduzido para o grego pelo conceito de “metanoia”. - O termo “metanoia” evoca, uma tradição riquíssima: A volta, ou êxodo, da escravidão do Egito, a volta – sobretudo – do exílio babilônico, a volta do homem para Deus e de Deus para o homem, segundo o dizer dos profetas. A “metanoia” faz parte de um diálogo: Deus quer estar junto de sua gente (isso significa: o Reino de Deus chegou) e por causa desta iniciativa de Deus, que se volta para nós, nós devemos voltar para Deus. Encher-nos de atenção para com Ele, de boa disposição para compreender o que Ele quer de nós. Voltar para Deus que se volta para nós isso é a conversão. - O Coração do ser humano não sossega enquanto não encontrar Deus. Todos nós almejamos tal encontro. Todos querem fazer essa “experiência” de Deus. - O verdadeiro significado de “metanoia” é ‘reconhecer posteriormente’, ‘modificar o sentido’, ‘pensar diferente’. Meta também pode significar ‘por trás’. Então conversão significaria ‘ver por trás das coisas’, ‘ver o próprio Deus em todas as pessoas e na criação’, ‘reconhecer Deus em nossas vivências cotidianas quando Ele nos fala’. Também quer dizer ‘reconhecer o essencial que está oculto em todas as coisas’. Conversão quer dizer assumir o olhar de Jesus para reconhecer Deus em tudo que encontro, Deus que fala comigo por meio do encontro com uma pessoa, por meio de uma experiência feliz, um infortúnio, um sucesso e um fracasso, por meio dos meus pensamentos, de palavras que outros me transmitem. Quer dizer acreditar que Deus está em tudo próximo de mim, que Ele me fala, que age em mim. - Converter-se quer dizer dirigir-se a Deus. Quando me volto a Deus e caminho em sua direção, encontro meu ser verdadeiro, meu eu real. Para Jesus a conversão consiste em crer no Evangelho, na boa nova da proximidade salutar e amorosa de Deus.
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    - Alguns pregadoresda conversão anunciam-nos muito mais uma “ameaça” que uma boa nova. Ameaçam-nos com julgamentos e infernos querem nos forçar a segui-los e a seguir ideias amedrontadoras de Deus. Mas não é essa a mensagem de Jesus que nos anuncia a proximidade do Pai amoroso e misericordioso. - Cada um de nós imagina Deus de uma forma. Todavia, temos certeza de que essa imagem é verdadeira? Podemos nos enganar também quanto à experiência que desejamos fazer de Deus? Para fazer uma experiência autêntica de Deus, requer-se o homem “total”: com seu coração, sua mente e sua vontade. Assim, não seria verdadeira a experiência de Deus que se estabelecesse apenas no coração, sem provocar uma mudança radical da vontade e uma lúcida adesão da mente. Todas as faculdades humanas devem ser mobilizadas, e no grau máximo. - Do ponto de vista psicológico, duas condições parecem ser decisivas, se queremos chegar a uma verdadeira experiência de Deus: 1) a harmonia estrutural interior, ou seja, deve ser uma experiência unitária, que unifique a pessoa toda, envolvendo todos os seus dinamismos psíquicos: coração, mente, vontade; 2) a profundidade da própria experiência: é preciso amar a Deus com a “totalidade” do nosso ser, comprometendo nossa vida por Ele. - É impossível conhecer a Deus, “fazer experiência dele”, se não se está disposto a mudar de vida. É preciso ficar bem claro que não se trata da conversão súbita de um ateu, tampouco daquela conversão excepcional e maravilhosa que lemos na vida de alguns santos. Referimo- nos, ao contrário, àquele processo lento, discreto e profundo de transformação que dura a vida inteira, que se dá na vida de quem encontra Deus, descobre-o sempre mais e se deixa radicalmente transformar por Ele. É, portanto, uma caminhada, uma condição comum de vida, mais do que um momento apenas limitado no tempo. Uma caminhada a ser feita por todas as pessoas, crentes ou não, embora de maneiras diferentes. - A conversão é um processo contínuo; não é um dado instantâneo, pontual e de uma vez por todas, mas constitui um crescimento ininterrupto e sempre ascendente. A conversão do coração a que nos chama a Quaresma, além de se expressar na vida e se conhecer pelos seus frutos, tem um sacramento que a conduz: a Penitência ou Reconciliação, o sacramento do perdão em que Deus nos reconcilia consigo e com os irmãos. - Por que é tão difícil converter-se? Por que uma vez que optamos por viver de fé, logo nos colocamos na categoria dos justos, os quais não precisam de penitência nem de conversão? - A caminhada de quem se converte começa quando descobre que Deus está acima das coisas, e é muito maior do que os seus projetos e ideais. Ele é radicalmente o contrário de como o temos imaginado, e transcende infinitamente a nossa realidade de criaturas humanas. Não pode ser entendido e explicado pela nossa lógica míope, nem atingido pelos nossos sonhos de intimidade. Quando esta verdade se tornar certeza, nossa vida começará a mudar. A descoberta daquele que é absolutamente Outro modificará, de maneira radical, a percepção de nós mesmos, do nosso caminho vital, do nosso relacionamento com o Absoluto. - Não é possível acolher a mensagem de conversão de Jesus se o nosso coração estiver cheio de egoísmo, de orgulho, de auto-suficiência, de preocupação com os bens materiais… É preciso, portanto, uma mudança da nossa mentalidade, dos nossos valores, dos nossos comportamentos, das nossas atitudes, das nossas palavras; é preciso um despojamento de tudo o que rouba espaço a Deus. - Estou disposto a esta mudança, a esta “metanoia” para que no meu coração haja lugar para Jesus?
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    - A experiênciaque fez Saulo, o grande convertido é de que há momentos na vida, em que as cosias de antes não valem mais nada: “O que para mim era lucro eu tive como perda, por amor de Cristo. Mas ainda: tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco para ganhar a Cristo.” (Fl 3,7-8) - Se não tivermos a coragem de relativizar as coisas e chamá-las assim, correremos o risco de não nos converter, de não renascer para uma vida nova. Se a certa altura da vida não sentimos náusea daquela nossa maneira de viver, acabaremos por nos contentar com uma vida velha, cansada monótona, porque medíocre. Não chegaremos a ser “homens novos”. - O que é que, prioritariamente, deve mudar na minha vida? - Temos muitos obstáculos a remover, obstáculos em nosso próprio coração: egoísmo, ambiguidade, desamor... Obstáculos no coração de nossa sociedade: estruturas injustas, desigualdades, leis que produzem monstros de riqueza ao lado de miseráveis, políticas em favor só de alguns e não de todos. - Os obstáculos a serem derrubados estão em parte dentro de nós mesmos e, em parte, na estrutura de nossa sociedade. Importa trabalhar nos dois níveis. Não com rancor, próprio dos que antes odeiam os outros (e até a si mesmos) do que amam o bem... O rancor não faz Deus chegar. O que marca quem procura experimentar a salvação que vem de Deus é a alegria. É uma alegria limpar o caminho para Deus. - Tenhamos a coragem de questionar a nós mesmos: não pode acontecer às vezes que também nas nossas famílias ou comunidades sejam tolerados algumas atitudes ambíguas? Não há, por acaso, “montanhas” que impedem, de caminhar ao encontro de Jesus? Não há por acaso, “vales” que separam irmãos de uma mesma família? Quais são as “montanhas” que devem ser aplainadas e os “vales” que devem ser aterrados na nossa vida. - “Sendo o pecado o princípio ativo da divisão – divisão entre o homem e o Criador, divisão no coração e no ser do homem, divisão entre os indivíduos e entre os grupos humanos, divisão entre o homem e a natureza criada por Deus – só a conversão do pecado é capaz de operar uma reconciliação profunda e duradoura onde quer que a divisão tenha penetrado.” (RP 23) Reconciliação Uma parábola da reconciliação (Lc 15,11-32) - “Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao Pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me compete’” conta Jesus ao apresentar as dramáticas vicissitudes daquele jovem: a aventurosa partida da casa paterna, a dissipação de todos os seus bens numa vida dissoluta e vazia, os dias tenebrosos da distância e da fome e, pior ainda, da dignidade perdida, da humilhação e da vergonha; e, por fim, a nostalgia da própria casa, a coragem de regressar e o acolhimento do pai. Este, certamente, não tinha esquecido o filho; ao contrário, conservara intactos o afeto e a estima para com ele e assim, esperara-o sempre; e agora abraça-o enquanto inicia a grande festa do regresso “daquele que estava morto e voltou à vida, se tinha perdido e foi encontrado”. O homem – cada um dos homens – é este filho pródigo: fascinados pela tentação de se separar do Pai para viver de modo independente a própria existência; caído na tentação; desiludido do nada que, como miragem, o tinha deslumbrado; sozinho, desonrado e explorado no momento em que tenta construir um mundo só para si; atormentado, mesmo no mais profundo da própria miséria, pelo desejo de voltar à comunhão com o Pai. Como o pai da parábola Deus fica à espreita do regresso do filho, abraça-o à sua chegada e põe a mesa para o banquete do novo encontro, com que se festeja a reconciliação.
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    O que nestaparábola sobressai mais é o acolhimento festivo e amoroso do pai ao filho que regressa: imagem da misericórdia de Deus sempre pronto a perdoar. A reconciliação é principalmente um dom do Pai celeste. Mas a parábola faz entrar em cena também o irmão mais velho, que recusa ocupar o seu lugar no banquete. Critica ao irmão mais novo os seus extravios e ao pai o acolhimento que lhe dispensou, enquanto a ele, morigerado e trabalhador, fiel ao pai e à casa, nunca foi permitido – diz ele – fazer uma festa com os amigos. Sinal de que não compreende a bondade do pai. Enquanto este irmão, demasiado seguro de si mesmo e dos próprios méritos, ciumento e desdenhoso, cheio de azedume e de raiva, não se converteu e se reconciliou com o pai e com o irmão, o banquete ainda não era, no sentido pleno, a festa do encontro e do convívio recuperado. O homem – cada um dos homens – é também este irmão mais velho. O egoísmo torna-o ciumento, endurece-lhe o coração, cega-o e leva-o a fechar-se aos outros e a Deus. A benignidade e a misericórdia do pai irritam-no; a felicidade do irmão reencontrado tem um sabor amargo para ele. Também sob este aspecto ele precisa de se converter para se reconciliar. A parábola do filho pródigo é, antes de mais a história inefável do grande amor do Pai – Deus – que oferece ao filho, que a ele retorna, o dom da reconciliação plena. E ao evocar, na figura do irmão mais velho, o egoísmo que divide os irmãos entre si, ela torna-se também a história da família humana: mostra a nossa situação e indica o caminho a percorrer. O filho pródigo, com a sua ânsia de conversão, de regresso aos braços do pai e de perdão, representa aqueles que pressentem no fundo da própria consciência a nostalgia de uma reconciliação a todos os níveis e sem reserva, e têm a intuição, com íntima certeza, de que ela só será possível, se derivar de uma primeira e fundamental reconciliação: aquela reconciliação que leva o homem da distância à amizade filial com Deus, do qual reconhece a misericórdia infinita. Lida, porém, na perspectiva do outro filho, a parábola retrata a situação da família humana dividida pelos egoísmos, põe em evidencia a dificuldade em secundar o desejo e a nostalgia de uma só família reconciliada e unida; e, por conseguinte, apela para a necessidade de uma profunda transformação dos corações, pela redescoberta da misericórdia do Pai e pela vitória sobre a incompreensão e a hostilidade entre irmãos. A luz desta inesgotável parábola da misericórdia que apaga o pecado, a Igreja, acolhendo o apelo que nela está contido, compreende a sua missão de empenhar-se, seguindo as pegados do Senhor, pela conversão dos corações e pela reconciliação dos homens com Deus e entre si, duas realidades que estão intimamente conexas. - Reconciliação consigo mesmo - Existem cristãos que sempre se confessam mas não conseguem reconciliar-se consigo mesmos. Nossa tarefa mais importante como cristãos é dizer “sim” a nós mesmos. Isso começa quando nos reconciliamos com nossa história de vida. Muitos brigam a vida inteira com a própria infância na qual se sentiram incompreendidos e frequentemente foram magoados, culpando os pais por seu sofrimento. Nenhum dos caminhos espirituais poderá ajudar a evolução daquele que permanece em tal postura irreconciliável com sua história de vida. - Reconciliar-se comigo mesmo significa reconciliar-me com meu corpo. Na confissão, muitos falam de um profundo sentimento de ódio por si mesmos. Não conseguem aceitar-se como são. Muitas vezes é o corpo que eles rejeitam. É uma tarefa de toda a vida reconciliar-se como próprio corpo, amar-se com o corpo que se tem. - Muitos se aborrecem quando são confrontados com seus lados sombrios. Gostariam de ser corretos e perfeitos, mas percebem a existência de pontos sensíveis. Às vezes vem à tona um
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    profundo ódio poroutras pessoas. Não consegue aceitar o fato de ser constantemente acometidos por sentimentos depressivos. Quando sentem inveja, acusam-se a si mesmos. Quando são acometidos pelo medo, criticam-se dizendo que como cristãos não deveriam sentir medo. Porém, quanto mais se voltam contra si mesmos e seus lados sombrios tanto mais este se fortalecem. Seria preciso que adotassem o caminho da humildade. - Humildade é a coragem de descer à própria escuridão aos lados sombrios do “eu” que funciona para fora. Humildade quer dizer sempre contar com a possibilidade de aflorarem em mim necessidades e paixões que eu acreditava havia muito superadas. Essa humildade interior para trilhar meu caminho com atenção e confiança, ver como sinal de Deus tudo o que vier ao meu encontre nesse caminho, e me reconciliar com tudo o que há dentro de mim. Reconciliação com a comunidade - Não chego à reconciliação simplesmente reprimindo todas as mágoas e dores que me foram infligidas, engolindo=as e reprimindo a raiva das pessoas que me magoaram. Preciso primeiro admitir minha ira e com isso distanciar-me do outro. Só depois que obtive um distanciamente sadio do outro, posso libertar-me do poder destrutivo que emana dele. Deixo-o ser como é, mas não lhe dou mais nenhum poder sobre mim. Perdoar não quer dizer ainda que vou cair-lhe nos braços. - O primeiro passo para a reconciliação com o outro consiste em deixa-lo ser como é, em renunciar a um julgamento ou a uma condenação. O que ele fez é problema dele. Ele me magoou, mas eu não dou mais espaço a essa mágoa. Converto a raiva dessa mágoa em um egoísmo, uma vontade de viver por mim mesmo, em vez de me deixar determinar por ela. - O segundo passo seria reassumir um relacionamento com o outro. Mas esse caminho nem sempre é possível. Pois ele também depende da possibilidade de o outro estar disposto a ter comigo uma conversa esclarecedora. Se ele recusar esse passo, mesmo assim poderei reconciliar- me com ele, não me queixando mais e parando de pensar nele. Deixo-o e espero. Tento permanecer reconciliado internamente comigo mesmo e com minha história passada. Estarei disposto, tão logo ele o permita, a me aproximar dele, ou a reagir positivamente a um passo seu. - Quando pessoas irreconciliadas convivem numa comunidade, isso pode afetar toda a comunidade. Alias pessoas só podem viver bem umas com as outras quando há disposição para a reconciliação, e quando constantemente são dados passos concretos nesse sentido. Justamente no convívio de uma família, numa comunidade, ou até mesmo numa empresa, ficamos sabendo que dependemos do perdão mútuo. - O evangelista Mateus sentiu isso junto aos antigos membros de sua comunidade. Por isso, a assim chamada regra da comunidade, no capitulo 18, ele resumiu as palavras de Jesus que têm como ponto central o perdão. - A confissão não deve ser uma saída para elucidar os conflitos apenas na conversa pessoal com o sacerdote. Ela nos estimula muito mais a buscar caminhos de esclarecimento conjunto dos conflitos. E nos manda para casa com a missão de nos reconciliarmos com pessoas que nos magoaram ou nos prejudicaram. - A Confissão é um caminho concreto para nos reconciliarmos com nós mesmos e com os outros, para experimentarmos sempre de novo a conversão e vivenciarmos Deus como aquele que nos ama incondicionalmente. Bibliografia: Cencini, Amedeo, Amarás o Senhor teu Deus, Paulinas, 5ª Edição, 2004.
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    Grün, Ansel. Penitência,celebração da reconciliação. São Paulo, Loyola, 2006. João Paulo II. Reconciliação e Penitência, exortação apostólica pós sinodal. São Paulo, Paulinas, 1984. O caminho do Tabor ao Calvário Neste segundo domingo da Quaresma o Evangelho situa Jesus a caminho de Jerusalém. Esse caminho está cheio de referências simbólicas, já que é o caminho que o levará a ser “entregue aos gentios, escarnecido, ultrajado, coberto de escarros, depois de açoitá-lo, eles o matarão. E no terceiro dia ressuscitará”. (Lc 18,32) É um caminho de subida até a entrega de sua própria vida, até sua morte e ressurreição. Essa mesma simbologia a podemos aplicar à Quaresma: um “caminho” de subida, de entrega, de sacrifício pelos outros, de jejum, caridade e oração, para encontrar-nos com o crucificado que ressuscita dentre os mortos. Poderíamos dizer que os cristãos sempre estamos “a caminho”, mas de maneira especial, o experimentamos neste tempo da Quaresma. Neste “caminho” Jesus, hoje sobe com três de seus discípulos a uma montanha para rezar. Lucas (cf. Lc 9,28b-36) não fala de Transfiguração, mas descreve o que aconteceu através de dois elementos: o rosto de Jesus que muda e a sua veste que se torna resplandecente, na presença de Moisés e Elias: “Enquanto orava, o aspecto de seu rosto se alterou, suas vestes tornaram-se de fulgurante brancura. E eis que dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias que, aparecendo envoltos em glória, falavam de seu êxodo que se consumaria em Jerusalém.” (vv.29- 31) Olhando o cenário evangélico anterior à “Transfiguração” de Jesus vemos Herodes se perguntando perplexo sobre quem é Jesus: “Quem é esse, portanto, de quem ouço tais coisas?” (Lc 9,9). Por outro lado os discípulos acabam de confessá-lo em Cesaréia de Filipe como Messias (cf. 9,18-21), e ai vem o anúncio da paixão desconcertando-os e deixando-os perplexos e perdidos num mar de duvidas. Jesus era plenamente consciente da sorte que o esperava e a assumia com serenidade e inteireza. Porém, seus discípulos prediletos, assistem atônitos e desconcertados à cena: “a ninguém contaram coisa alguma do que tinham visto”. (Lc 9,36) Era realmente Jesus o Messias que cumpriria as promessas da antiga aliança? Assim se pode entender o porquê de muitos o terem abandonado decepcionados com seu messianismo. Já as autoridades políticas e religiosas o criticavam, desautorizavam-no e até o perseguiam. Como entendê-lo? O próprio Jesus vai ajudá-los fazendo-lhes uma revelação. Jesus quer fazer-lhes partícipes de uma experiência pessoal que marcará e condicionará o resto de sua missão: “Se alguém quer vir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz, cada dia e siga-me”. (Lc 9,23) A montanha assim como o deserto é também lugar de encontro com Deus, ao longo da Sagrada Escritura: O monte Sião é o lugar do Templo; o monte Sinai, lugar de encontro de Moisés com Deus (cf. Ex 34); o monte Horeb o encontro do profeta Elias com Deus (cf. 1 Re 19,11-13), o monte das Bem aventuranças; o monte das Oliveiras, o monte Calvário; e hoje... o monte Tabor, a montanha onde Jesus se transfigura e Deus mesmo se revela na voz celeste confirmando deste
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    modo o recentee surpreendente anuncio premonitório de sua paixão no meio do majestoso esplendor de sua glória. Se ao pedido de Moisés: “mostra-me tua glória”, o Senhor se revela só em parte, de costas, na cena da transfiguração Deus se nos revela plenamente em seu Filho, o Eleito apontando para o final de seu destino salvífico. Na realidade tudo aconteceu “enquanto Jesus orava”, só a partir da oração, entende Lucas, é possível vislumbrar o que acontece na sua alma. Para o evangelista Jesus é um homem de oração. A cena da transfiguração o configura com um “homem” que ora intensamente a Deus para que não lhe faltem as forças em seu “êxodo”, em sua ida a Jerusalém. A transfiguração, pois, quer ser uma preparação para a hora decisiva que a espera Jesus. “Esse Jesus que caminha para a morte e convida a abraçar o seu destino não foi nem é apenas um coitado, sinal de fracasso. Quando sobe à montanha e ora, a verdade do seu interior se transfigura. Deus o assiste. É Deus que repleta o seu interior. Por isso transforma-se seu rosto e as vestes brilham de um branco que deslumbra. É Deus e somente Deus que se encontra nesse homem, aparentemente abandonado e sozinho, na montanha.” (Pikasa, 1998.) A oração transfigura nossa vida e transforma nossa conduta. Porque a oração é falar com Deus e também escutar a Deus, escutar o que quer de mim, escutar por onde tenho que ir, quais são os caminhos para mim. A oração é ajuda para viver em fidelidade o projeto de felicidade que Deus tem para mim. E Jesus busca essa oração. E na oração encontra forças para seguir o caminho, para seguir subindo a Jerusalém, apesar do que ali o espera, porque sabe que ao final triunfará o bem sobre o mal. No fundo, a transfiguração é um sinal para os discípulos, para que saibam que, apesar das dificuldades que venham a passar seu Mestre, não percam a esperança nem a confiança em Deus. A transfiguração, que Lucas situa no caminho que sobe a Jerusalém, não é outra coisa que uma antecipação momentânea da última meta e como um alento para seguir caminhando. Os três discípulos que seriam testemunhas do abatimento de Jesus no Getsemani foram escolhidos antes para ver sua glória no Tabor. A brancura de suas vestes e o novo aspecto de seu rosto não são mais que a manifestação da dignidade e da glória que lhe correspondia como Filho de Deus. Toda a história da salvação culmina em Jesus Cristo, cujo ápice é a hora de sua exaltação na cruz. O Tabor não se explica sem o Calvário. Como a cruz não se explica sem a ressurreição. O cristão precisa contemplar a cruz com os olhos fixos na ressurreição. Jesus manda que os discípulos fiquem calados até que tudo se cumpra e o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos. Tudo isso aconteceu a apenas seis dias do anuncio que Jesus havia feito de sua paixão e morte em Jerusalém e havia repreendido precisamente a Pedro porque tentou torcer seu caminho. Parece que Pedro e seus companheiros não compreenderam o que estavam experimentando. Pensam que é chegada a hora de desfrutar o triunfo. Pedro se move na mesma linha em que se movia o tentador do domingo passado. O domingo passado falava das tentações de Jesus. Hoje falamos da tentação de Pedro. Continua havendo muitos “Pedros” que desejam um Deus vingador e triunfador. Pedro concebe a Jesus em termos do onipotente que pode e deve impor sua mão. Pedro não entra em Jerusalém pelo caminho da Cruz. No entanto, Pedro é o único que deseja perpetuar esse momento da transfiguração. Por isso quer fazer uma tenda para o Senhor, outra para Moisés e Elias, com o fim de que fiquem ali ante seu olhar extasiado, ausente de tudo o que lhe rodeia, esquecido inclusive de si mesmo, disposto a estar olhando aquela aparição celestial por toda a eternidade.
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    Na montanha osdiscípulos se vêm envolvidos em uma experiência profunda, transcendente, que lhes faz evadir-se de toda realidade. As palavras de Pedro romperam o encanto daquela visão. Ainda fala quando “uma nuvem desceu e os cobriu com sua sombra... Da nuvem, porém, veio uma voz dizendo: ‘Este é o meu Filho, o Eleito; ouvi-o.” (Lc 9,34-35) Estas palavras ressoarão também em nossos ouvidos e em nossos corações, para que nossa fé em Cristo aumente, e também nossa esperança de ver a face de Deus um dia. Aliás, contemplar o rosto de Deus sempre foi o anseio dos “justos” do Antigo Testamento e dos santos do Novo Testamento. Mas, quando concede Deus tal privilégio, é apenas um momento fugaz, destinado, como a visão da montanha, a robustecer a fé e a infundir coragem para prosseguir o caminho levando a cruz. Mas, Jesus que viveu esta experiência mais intensamente que seus amigos, sem dúvida, sabe que deve descer do monte misterioso da Transfiguração para seguir seu caminho. Não podia ser como queria Pedro. É óbvio que era bom ficar ali, num momento místico de êxtase, fora da realidade, longe do dia-a-dia, das dúvidas e incertezas dessa caminhada até Jerusalém. Mas, para Jesus, seria como abandonar seu caminho de profeta do Reino de Deus e o projeto do Pai. De certo modo, nós também somos como Pedro. Não entendemos bem, mas começamos mais uma vez a Quaresma. Não sabemos bem por que, mas pusemos cinzas em nossa cabeça e, às sextas-feiras andamos até jejuando. Vamos à missa, a Eucaristia, este Tabor aonde Jesus nos vem ao encontro cada domingo, mas às vezes vamos sem nos ter “conectado” com ele, sem haver descoberto seu verdadeiro rosto ressuscitado. E nos identificamos com os momentos trágicos de sua vida, que vivemos com certa intensidade na Semana Santa, porque nos move a compaixão ao ver o sofrimento do “pobre Jesus”. E como Pedro e os discípulos no Tabor, “perdemos o melhor da festa”, ficando pasmados e sem dar-nos conta de que o que Jesus quer dizer é que o final, a meta é a Páscoa, a Ressurreição, e isso é o que verdadeiramente dá sentido a nossa vida e a nossa fé. Essa é a meta verdadeira deste caminho a que chamamos Quaresma. Assim como experimentamos em nossa espiritualidade momentos de “deserto”, também devemos experimentar momentos de “Tabor”, de estar na montanha com Jesus. Momentos de contemplação, de intimidade com Deus, de escuta da voz do Senhor, de oração, de meditação, de paz interior. Nosso Tabor é a oração porque nela está Cristo que ora em nós. Todos nós precisamos, para termos forças de enfrentarmos nossas crises e carregarmos nossas cruzes de intensos momentos de oração, de intimidade com Deus. Para agradecermos, sermos capazes de como o salmista dizer: “Naquele dia em que gritei, vós me escutastes e aumentastes o vigor da minha alma.” (Sl 137, 3) A oração torna-se cada vez mais importante na agitação do mundo atual. Temos que descobrir como “subir a montanha”, criar espaços de tempo para sentirmo-nos mais profundamente na presença de Deus e para renovarmos as nossas forças. Quaresma é tempo privilegiado de oração, tempo para tomar consciência das situações problemáticas e dramáticas de nossa vida e para rezar por nós e pelos outros e juntamente com os outros. Bibliografia Textos e referências bíblicas: Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002 Pikasa, Javier. A Teologia de Lucas. São Paulo, Paulinas, 1998
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    Paróquia de NossaSenhora de Fátima CATEQUESE QUARESMAL 1. O Mistério do pecado em face do amor de Deus Org. Pe. José Assis Pereira Soares - «Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele que é fiel e justo perdoar-nos-á os pecados.» (1Jo 1,8s). Estas palavras inspiradas introduzem melhor do que qualquer outra expressão humana a reflexão sobre o pecado. Elas apreendem o problema do pecado, enquanto parte integrante da verdade acerca do ser humano, mas, inserem-no imediatamente no horizonte divino, no qual o pecado é confrontado com a verdade do amor de Deus, justo, generoso e fiel, que se manifesta, sobretudo pelo perdão e pela redenção. Por isso, o próprio São João escreve pouco depois que «se (o nosso coração) de alguma coisa nos acusa. Deus é maior do que o nosso coração.» (1Jo 3,20) - Reconhecer o próprio pecado, ou melhor, reconhecer-se pecador, capaz de pecar e de ser induzido ao pecado, é o princípio indispensável do retorno a Deus. É a experiência exemplar de Davi, que depois de «ter feito o mal aos olhos do Senhor», repreendido pelo profeta Natan (cf. 2Sm 11-12), exclama: «Reconheço a minha culpa, o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra vós, só contra vós; pratiquei aquilo que é mal aos vossos olhos.» (Sl 50(51), 5s.) - O livro do Gênesis 1-11, contém as narrativas primordiais: Adão, Caim, Noé, Babel. Esses atos são símbolos de nossos grandes pecados. Não são relatos históricos, o seu sentido é muito mais profundo. Em narrações simbólicas, descreve-se o núcleo de toda a história humana, desde o início até o fim dos tempos. Adão é “o Homem”; Caim, dele se escreve nos jornais sensacionalistas, e pode ser encontrado em nosso próprio coração; Noé e os construtores da torre de Babel: somos todos nós. - Mas Deus não entrega o homem à sua miséria. Já em Israel demonstra-se um Deus incompreensivelmente misericordioso. Também as narrativas primordiais deixam isso bem claro: depois de cada queda da parte do homem, um gesto de graça, da parte de Deus. Na fuga do paraíso, o próprio Deus fornece vestimenta e proclama solenemente, a promessa de que a descendência da mulher há de esmagar a cabeça da serpente. Caim recebe dele sinal indicativo de que não pode ser morto. Na história de Noé, predomina sumamente o elemento de “salvação”. E depois de Babel, a partir daí inicia-se imediatamente a história de Abraão, que significa o começo da grande restauração que o Filho de Deus há de trazer a toda humanidade. - Se lermos a página bíblica da cidade e da torre de Babel à luz da novidade evangélica e a confrontarmos com a outra página da queda dos primeiros pais, podemos tirar daí elementos preciosos para uma tomada de consciência do mistério do pecado. Porque por dentro da realidade da experiência da liberdade humana agem fatores, pelos quais ela se situa para além do humano, na zona limite onde a consciência, a vontade e a sensibilidade do homem estão em contato com forças obscuras (cf. Rm 7,7-25; Ef 2,2; 6,12). - Da narração bíblica relativa à construção da torre de Babel emerge um primeiro elemento, que nos ajuda a compreender o pecado: os homens pretenderam edificar uma cidade, reunir-se numa estrutura social, ser fortes e poderosos sem Deus, se bem que, talvez não contra Deus. Neste sentido, a narração do primeiro pecado no Éden e a narração de Babel, não obstante as diferenças notáveis, de conteúdo e de forma, têm um ponto de convergência: em ambas nos encontramos
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    diante de umaexclusão de Deus, pela oposição frontal a um mandamento seu, por uma atitude de rivalidade em relação a ele, pela ilusória pretensão de ser «como ele» (Gn 3,5). Na narração de Babel, a exclusão de Deus não aparece tanto num tom de contraste com Deus, mas como esquecimento e indiferença em relação a ele, como se o mesmo Deus não merecesse nenhum interesse no âmbito dos desígnios empreendedores e associativos do homem. Mas em ambos os casos a relação com Deus é cortada com violência. No caso do Éden, aparece com toda a sua gravidade e dramaticidade aquilo que constitui a essência mais íntima e mais obscura do pecado a desobediência a Deus, à sua lei, à norma moral que ele deu ao homem, gravando-lhe no coração e confirmando-a e aperfeiçoando-a com a revelação. - Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua existência: é o fenômeno chamado ateísmo. - Desobediência do homem, que – com um ato da sua liberdade – não reconhece o senhorio de Deus sobre a sua vida, pelo menos naquele momento determinado em que viola a sua lei. - Nas narrações bíblicas acima recordadas a ruptura com Deus desemboca dramaticamente na divisão entre os irmãos. - Na descrição do “primeiro pecado”, a ruptura com o Senhor espedaçou, ao mesmo tempo, o fio da amizade que unia a família humana; tanto assim que as páginas do Gênesis que se seguem nos mostram o homem e a mulher, como que a apontarem com o dedo acusador um contra o outro; (cf. Gn 3,12) depois o irmão que, hostil ao irmão, acaba por tirar-lhe a vida. (cf. Gn 4,2-16). - Segundo a narração dos fatos de babel, a consequência do pecado é a desagregação da família humana, que já começara com o primeiro pecado e agora chega ao extremo na sua forma social. - Quem quiser indagar sobre o mistério do pecado não pode deixar de considerar esta concatenação de causa e efeito. Como ruptura com Deus, o pecado é o ato de desobediência de uma criatura que, pelo menos implicitamente, enjeita aquele do qual proveio e que a mantém em vida; é, portanto, um ato suicida. - Com o pecado o homem se recusa a submeter-se a Deus, também se transtorna o seu equilíbrio interior; e, precisamente no seu íntimo, irrompem contradições e conflitos. Assim dilacerado, o homem produz, quase inevitavelmente, uma laceração no tecido das suas relações com os outros homens e com o mundo criado. É uma lei e um fato objetivo, que têm confirmação em muitos momentos da psicologia humana e da vida espiritual, como aliás, na realidade da vida social, onde é fácil observar as repercussões e sinais da desordem interior. O caráter mistérico do pecado. - O pecado é mistério que nos é revelado como incluído no mistério do Cristo Redentor. È mistério, porque a ação e a atitude livre da pessoa, em resposta ao apelo de Deus, não é jamais totalmente conceitualizável. Não se poderá, pois falar do pecado senão em relação ao mistério do relacionamento do homem dom Deus em Cristo. - O mistério de Cristo, assim como ele se realiza na história revela qual é a estrutura fundamental e o sentido último da vida do homem. Esta aparece como ser que vive necessariamente em diálogo com Deus e com os outros homens; existe, pois, em virtude dos outros, com os outros e para os outros. - A misteriosa profundidade do pecado aparece mais claramente revelada no evento pascal. Na morte de Cristo, de fato, o pecado aparece, ao mesmo tempo, como negação de Deus, negação dos outros e negação de si mesmo. Negação de Deus, porque Jesus Cristo é Deus que morre pelo
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    pecado dos homens.Negação dos outros, porque Jesus Cristo, que morre pelo pecado, é irmão de todos os homens, sendo todos criados à imagem dele e sendo todos solidários com ele. Negação dos outros, porque a recusa de Cristo com o pecado é recusa da aliança à qual são chamados todos os homens, é recusa e negação do Reino, do novo futuro prometido por Deus a todos os homens. Negação, enfim, de si mesmo, porque Jesus Cristo é a Palavra de Deus que nos põe na existência e nos convida à construção de nós mesmos numa comunhão de vida sempre mais perfeita com ele e com os irmãos. - A morte de Cristo nos revela nosso pecado como ação e atitude livre e responsável de cada homem: porque Cristo morre pelos nossos pecados, por cada um de nós. - Mas o não do homem foi superado pelo sim definitivo de Deus na ressurreição de Cristo. Nela Jesus Cristo venceu definitivamente as potências adversas, o príncipe deste mundo, isto é, libertou definitivamente o homem da escravidão do pecado que existe no mundo. Com a sua ressurreição reconciliou todo homem com o Pai e oferece a todos os pecadores esta superabundante justificação. Porém, na visão cristã do homem e da história, o pecado é momento negativo a superar mediante a inserção livre e voluntária, na fé e nos sacramentos, no mistério pascal de Cristo. - O mistério do pecado é formado por esta dupla ferida, que o pecador abre no seu próprio seio e na relação com o próximo. Por isso pode falar-se de pecado pessoal e social: todo o pecado sob um aspecto é pessoal, e todo o pecado sob outro aspecto é social enquanto e porque tem também consequências sociais. Como foi possível que o pecado entrasse na obra de Deus? - Deve ter havido um primeiro momento em que começou o pecado. A entrada do pecado no mundo relaciona-se com a liberdade humana; na humanidade crescia a liberdade e, com ela, nasceu o pecado. - O pecado só pode ser cometido, se se possui certo grau de liberdade – sem isso, nunca pode haver pecado! E liberdade significa que o homem tinha a capacidade de não o fazer. - Mas, o que é o pecado? Muitos cristãos se reconhecem hoje como pecadores, mas frequentemente, não sabem bem que coisa seja o pecado ou têm dele sentido vago e impreciso. Por isso e pelo fato de que os nossos contemporâneos não se põem mais a fazer a contabilidade exata de seus “pecados”, alguns observadores dizem que estes perderam o sentido ou a consciência do pecado. Mas pode-se perguntar o que se entende por sentido ou consciência do pecado e o que se entende por pecado? - O pecado o Catecismo da Igreja assim o define: "O pecado é uma falta contra a razão, a verdade, a consciência reta; é uma falta ao amor verdadeiro para com Deus e para com o próximo, por causa de um apego perverso a certos bens. Fere a natureza do homem e ofende a solidariedade humana. foi definido como uma palavra, um ato ou um desejo contrários à lei eterna." (CIC 1849) - "O pecado ergue-se contra o amor de Deus por nós e desvia dele os nossos corações. Como o primeiro pecado, é uma desobediência, uma revolta contra Deus, por vontade de tornar-se 'como deuses', conhecendo e determinando o bem e o mal (Gn 3,5). O pecado é, portanto, amor de si mesmo até o desprezo de Deus. por esta exaltação orgulhosa de si, o pecado é diametralmente contrário à obediência de Jesus, que realiza a salvação." (CIC 1850) - “O pecado é um ato pessoal. Além disso, temos responsabilidade nos pecados cometidos por outros, quando neles cooperamos: participando neles direta e voluntariamente; mandando,
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    aconselhando, louvando ouaprovando esses pecados; não os revelando ou não os impedindo, quando a isso somos obrigados; protegendo os que fazem o mal.” (CIC 1868) - “O secularismo que, pela sua própria natureza e definição, é um movimento de ideias e de costumes, o qual abstrai de Deus totalmente, concentrado só no culto do empreender e do produzir e arrastado pela embriaguez do consumo e do prazer, sem preocupações com o perigo de “perder a própria alma”, não pode deixar de minar o sentido do pecado. Reduzir-se-á este último, quando muito, àquilo que ofende o homem. Aqui se impõe a amarga experiência que o homem pode construir um mundo sem Deus, mas esse mundo acabará por voltar-se contra o mesmo homem. Na realidade, Deus é a origem e o fim supremo do homem e este leva consigo um germe divino. Por isso, é a realidade de Deus, que desvenda e ilumina o mistério do homem. É inútil, pois, esperar que ganhe consciência um sentido do pecado, no que respeita ao homem e aos valores humanos, quando falta ao sentido da ofensa cometida contra Deus, isto é, o verdadeiro sentido do pecado. - A perda do sentido do pecado, portanto, é uma forma ou um fruto da negação de Deus. Se o pecado é a interrupção da relação filial com Deus para levar a própria existência fora da obediência a ele devida, então pecar não é só negar Deus; pecar é também viver como se ele não existisse, bani-lo do próprio quotidiano. - Até mesmo no campo do pensamento e da vida eclesial, algumas tendências favorecem inevitavelmente o declínio do sentido do pecado. A confusão criada na consciência de muitos fieis pelas divergências de opiniões e de ensinamentos da teologia, na pregação, na catequese e na direção espiritual, acerca de questões graves e delicadas da moral cristã, acaba por fazer diminuir, quase até à sua extinção, o verdadeiro sentido do pecado. - Restabelecer o sentido do pecado é a primeira forma de combater a grave crise espiritual que impende sobre as pessoas do nosso tampo. Mas o sentido do pecado só se restabelecerá com uma chamada a atenção clara para os princípios de razão e de fé, que a doutrina moral da Igreja sempre sustentou. (RP n. 18) O pecado como ação humana - O pecado é ação humana. Mas não existe ação em si. Existe a pessoa que age. Uma ação humana é o modo de existir, num momento determinado, de uma pessoa que fez uma escolha. E, assim, um pouco paradoxalmente, pode-se dizer que não existe o pecado, mas o pecador, a pessoa que peca. - O pecado, como ação humana, é tomada de posição consciente e livre da pessoa; esta age de tal maneira que o modo atual de existir lhe pertença real e responsavelmente. - Existe dois elementos muito importantes da estrutura do pecado: · A intenção, a opção da pessoa o que dá sentido a cada ação. De fato, com cada uma de suas ações livres a pessoa quer desenvolver-se e se construir nesta ou naquela direção. · Cada ação humana é, porém, incluída na história da pessoa, no seu tornar-se livre e responsável. Por isso não se pode “coisificar” o pecado, considerando-o isoladamente do tornar-se vital no qual está inserido. Para se emitir juízo sobre uma ação particular da pessoa é preciso considerá-la à luz da direção fundamental do futuro da pessoa, tendo presente de onde vem e para qual direção quer andar.
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    O pecado comoação humana má - O pecado é ação humana má: isto significa que o pecado é a pessoa humana que se faz existir a si mesma, livremente, em forma má. Mas em que consiste a malicia desta tomada de posição? A verdadeira essência do pecado consiste na negação ou recusa a Deus, recusa aos outros, recusa à autêntica construção de si mesmo. a. O pecado como recusa a Deus – é essencialmente uma realidade religiosa, que toca o relacionamento da pessoa com Deus; é recusa e ofensa a Deus, enquanto criador e salvador. Recusa que pode ser descrita como o posicionamento da pessoa que não quer ser determinada na sua existência pela relação com Deus como Criador, como Salvador, como aquele que o convida à aliança, como o Amor que o convida à comunhão de amizade com ele e com os outros homens mediante Cristo e no Espírito. O pecador, pois, é tal porque recusa o amor de Deus que o mantém na existência e o chama à intimidade, à participação na própria vida trinitária. O pecador recusa ser filho do Pai, irmão de Cristo, templo do Espírito Santo. De um ponto de vista dinâmico- histórico, o pecado é recusa ao apelo de Deus a construir o novo futuro que já foi inaugurado pelo evento de Cristo, a recusa em construir a comunhão com os outros homens, a recusa, enfim, do Reino de Deus. O pecador não confia em Deus e quer construir por si, prescindindo ou negando o influxo de Deus na sua vida: é “o poder das trevas”, a oposição positiva da humanidade ao plano de Deus, à afirmação de si contra Deus que se manifesta em todo pecado. Por isso, pecar é tomar parte na luta escatológica contra Cristo, afirmando a si mesmo fora dele ou contra ele. Isso acontece quando a pessoa quer realizar desordenadamente a si mesma ou um valor criado, fazendo um ídolo ao qual subordina a sua vida em todas as suas dimensões. Esta afirmação desordenada de si em lugar, antes de tudo, quando a pessoa nega explicitamente seu relacionamento autêntico com Deus ou prescinde dele. Por isso, a pessoa que age assim afirma desordenadamente a si mesma, enquanto nega ou prescinde do Amor que faz existir toda as possibilidades de amar realmente, e se coloca na incapacidade de realizar a si mesma em relação à outra liberdade na construção comum da história: numa palavra, faz de si mesma um ídolo ao qual quer instrumentalizar todo o resto. Ordinariamente, porém, o pecador não tem a vontade expressa de se separar de Deus, de querer recusá-lo, de se opor ao Reino de Cristo; antes, com freqüência, nega ter tido esta intenção. Todavia, o negar ou prescindir de Deus, pode acontecer também implicitamente: quando a pessoa não aceita seu relacionamento autêntico com as outras pessoas e com os valores absolutos propostos pela consciência moral como linhas gerais do seu desenvolvimento; quando a pessoa não respeita as outras pessoas e não segue o apelo dos valores absolutos da liberdade, do amor, da justiça, da solidariedade, da verdade. Quando uma pessoa segue a voz da consciência, o apelo dos valores morais que lhe indicam o dever-ser em cuja direção deve desenvolver-se em relacionamento aos outros e na criação de um mundo novo, está unida implicitamente a Deus por Cristo e no Espírito, mesmo que não esteja consciente disso. Do mesmo modo, quem não segue a voz da consciência e o apelo dos valores morais na construção de si e da história, nega implicitamente a Deus e recusa implicitamente a Cristo. O pecado pressupõe, de fato, a iniciativa divina de criar o homem e chamá-lo à aliança, à comunhão consigo e com os outros pela construção da história. Situado nesta perspectiva o pecado aparece como ofensa a Deus, precisamente porque o toca no seu amor, porque é recusa de Deus como amor que quer o risco do amor, porque é recusa do seu projeto de unidade a respeito
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    dos homens. Recusae ofensa pessoal, porque se trata de um “não” dito àquele Deus que, não por interesse próprio, mas por puro amor, entrou na história humana para encontrar cada homem e abrir-lhe o seu futuro. É precisamente porque o pecado é recusa à comunhão com Deus, recusa de seu apelo, ele é também recusa à comunhão com Deus, recusa de ser apelo, ele é também recusa à comunhão com os outros e negação da reta construção da própria pessoa. b. O pecado como recusa aos outros Uma das características da mentalidade contemporânea, sobretudo ocidental, é a tomada de consciência da solidariedade existente de fato entre todos os homens e, ainda, a tomada de consciência da responsabilidade de todos os homens nos confrontos dos outros e das situações de injustiça e de opressão que existe no mundo. A dimensão social de todo o pecado. Tem seu ponto de partida na Sagrada Escritura. Segundo o Decálogo, o amor de Deus e o amor dos irmãos são dois aspectos inseparáveis do único “sim” ao Deus da aliança. Também para o NT o amor a Deus é de tal modo inseparável do amor aos irmãos, que Cristo retém como feito a si aquilo que é feito aos irmãos. Por isso, o perdão e a reconciliação com os irmãos, é condição e pressuposto, seja para o verdadeiro culto a Deus, seja para poder obter o perdão e a reconciliação com Deus. O pecado, enquanto recusa a aliança, enquanto não do homem ao projeto e ao apelo divino, enquanto recusa à comunhão com os outros homens, recusa a construir juntos seu futuro comum prometido por Deus, antes, oposição à construção do Reino de Cristo, nas suas dimensões pessoal e social. Não existe, pois, um amor a Deus puramente individualista e privado, que não inclua e não se manifeste no amor para os outros. E assim não existe, pecado puramente individualista e privado. O pecador, recusando o apelo de Deus ao amor para ele e para os outros homens, fecha-se no seu egoísmo. E esta sua atitude egoísta influi – para o mal – sobre outros, sobre a comunidade, sobre a sociedade. O pecado mais “íntimo” tem dimensão social e exercita, de modo implícito, influxo negativo sobre os outros tomados como pessoa e como sociedade. Qualquer modo de existir do homem no mundo como pessoa que recusa o amor e o apelo de Deus influi necessariamente na recusa dos outros. “O pecado é surpreendido no coração, no ponto onde surgem os relacionamentos com os outros; por isso o pecado que denunciam os profetas é, inseparavelmente, iniquidade na pessoa e ferida da comunidade humana” (P. Ricoeur). Bibliografia: REGIDOR, José Ramos. Teologia do Sacramento da Penitência. São Paulo: Paulinas, 1989 JOAO PAULO II. Reconciliação e Penitência: exortação apostólica pós-sinodal. São Paulo: Paulinas, 1984 CATECISMO DA IGREJA CATOLICA. São Paulo: Loyola, 2000 link para essa postagem na página de artigos : http://www.paroquiadefatimacg.com/p/artigo-pe- assis.html