O poeta combina pensamentos cognatos e paralelos: um nos quartetos, outro no
primeiro terceto, enquanto um terceiro pensamento, que é a essência do
pequeno poema, se consubstancia finalmente no último terceto.
Recitemos a produção, comparando-a com o esquema assim depreendido:
A) Visita à sepultura com as idéias que acompanham esse gestode saudade e
carinho: a evocação da felicidade e a afirmação de uma lembrança e afeto que
não mais se apaga ou sequer desfalece:
Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te ocoração de companheiro.
Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.
B) Oferta flores, como símbolo dessa saudade, que assim se concretiza num
gesto ritual:
Trago-te flores, restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
C) Finalmente, o conceito de que o poeta está morto para o mundo, e a sua vida
física se prolonga automaticamente pelo impulso de uma força vital que
desapareceu:
Que, se eu tenho os olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.
Mas não é tudo. Não se resume nesta análise o plano complexo do soneto.
O poeta articulou sutilmente a parte C com a parte B, tirando-a expressão,
aparentemente secundária, de que ele está tão morto quanto a sua Carolina.
Digo “aparentemente secundária”, porque o termo está colocado em meio de
frase e como primeiro elemento de um conjugado copulativo, em que
predomina formalmente, portanto, o segundo qualificativo separados.
Há a intenção de provocar a perplexidade a posteriori do leitor, cuja atenção
desliza até juntos e, depois de aceitar essa idéia self-evident, há de retomar, sem
querer, para o paradoxal adjetivo mortos, que o antecede. “Mortos, por quê?”
Assim concentrado num novo conceito, que obviamente tem de intrigá-lo, está
ele preparado para receber oimpacto de pensamento final, introduzindo ao
último terceto para um que de valor casual.
Temos, assim, – não um desdobramento que regularmente vai ascendendo para
uma idéia ápice -, mas um primeiro pensamento concluso ( a evocação da
felicidade perdida e a lembrança perene da mulher amada), um segundo que o
ilustra numa concretização simbólica, e, saindo de um elemento aí lançado
quase ao acaso, um pensamento final, que transfigura o poema e lhe dá a
substância definitiva.
É nesta forma intensa e no seu contraste de um plano natural de um soneto, que
me parece estar, estilisticamente, a significação da pequena jóia poética que
acabamos de rapidamente apreciar.
- Joaquim Mattoso Câmara Jr. (Revista do Livro, n. 5, p. 71
Disponível em: www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u447990.shtml acesso
06/02/2012 as 15:00hEm cache - Similares

Soneto carolina

  • 1.
    O poeta combinapensamentos cognatos e paralelos: um nos quartetos, outro no primeiro terceto, enquanto um terceiro pensamento, que é a essência do pequeno poema, se consubstancia finalmente no último terceto. Recitemos a produção, comparando-a com o esquema assim depreendido: A) Visita à sepultura com as idéias que acompanham esse gestode saudade e carinho: a evocação da felicidade e a afirmação de uma lembrança e afeto que não mais se apaga ou sequer desfalece: Querida, ao pé do leito derradeiro Em que descansas dessa longa vida, Aqui venho e virei, pobre querida, Trazer-te ocoração de companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro Que, a despeito de toda a humana lida, Fez a nossa existência apetecida E num recanto pôs o mundo inteiro. B) Oferta flores, como símbolo dessa saudade, que assim se concretiza num gesto ritual: Trago-te flores, restos arrancados Da terra que nos viu passar unidos E ora mortos nos deixa e separados. C) Finalmente, o conceito de que o poeta está morto para o mundo, e a sua vida física se prolonga automaticamente pelo impulso de uma força vital que desapareceu: Que, se eu tenho os olhos malferidos Pensamentos de vida formulados, São pensamentos idos e vividos. Mas não é tudo. Não se resume nesta análise o plano complexo do soneto. O poeta articulou sutilmente a parte C com a parte B, tirando-a expressão, aparentemente secundária, de que ele está tão morto quanto a sua Carolina. Digo “aparentemente secundária”, porque o termo está colocado em meio de frase e como primeiro elemento de um conjugado copulativo, em que predomina formalmente, portanto, o segundo qualificativo separados.
  • 2.
    Há a intençãode provocar a perplexidade a posteriori do leitor, cuja atenção desliza até juntos e, depois de aceitar essa idéia self-evident, há de retomar, sem querer, para o paradoxal adjetivo mortos, que o antecede. “Mortos, por quê?” Assim concentrado num novo conceito, que obviamente tem de intrigá-lo, está ele preparado para receber oimpacto de pensamento final, introduzindo ao último terceto para um que de valor casual. Temos, assim, – não um desdobramento que regularmente vai ascendendo para uma idéia ápice -, mas um primeiro pensamento concluso ( a evocação da felicidade perdida e a lembrança perene da mulher amada), um segundo que o ilustra numa concretização simbólica, e, saindo de um elemento aí lançado quase ao acaso, um pensamento final, que transfigura o poema e lhe dá a substância definitiva. É nesta forma intensa e no seu contraste de um plano natural de um soneto, que me parece estar, estilisticamente, a significação da pequena jóia poética que acabamos de rapidamente apreciar. - Joaquim Mattoso Câmara Jr. (Revista do Livro, n. 5, p. 71 Disponível em: www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u447990.shtml acesso 06/02/2012 as 15:00hEm cache - Similares