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Literatas
                                                                                                  o Veneno
sai às terças-feiras   Não conhecemos o preço da palavra. Envie esta revista à um amigo




                                                                                                  de sócrates
                                                                                                        pg. 8



                                revista de Literatura Moçambicana e Lusófona
Director Editorial: Eduardo Quive * Maputo * 12 de Julho de 2011 * Ano 01 * Nº 01 * E-Mail: kuphaluxa@gmail.com




                       S h owe s i a n a
Colômbia e
B ra s i l




Joana Ruas revela os mistérios
das“Crónicas Timorenses”
                                                                                                                  pg. 3


No Discurso DirEcto , LíLiA MoMpLé Diz

   “Vivemos uma sociedade de negócios o
   ´Busness society´, onde o que vale é o
   medíocre e não desenvolvimento.”                                                       pg. 6
2    BLA BLA BLA   Exero 01, 5555
     terça-feira, 12 de Julho de 2011                           https://revistaliteratas.blogspot.com                                                           2


 Em primEira

 Tánia Tomé: Leva Showesia à Colômbia e Brasil




                                                                                                               Prémio de música da Organização mundial de
                                                    vários poetas, que ultrapassam os 160, provenientes de     Saúde, Premio de Poesia Millenium Bim, no seu
                                                    vários destinos do mundo.                                  desempenho literário e musical.
                                                       Depois desta participação, a artista moçambicana           Licenciada em Economia, e Pós – graduada em
                                                    internacional ruma ao Brasil, onde juntamente com          Auditoria e Controlo Gestão.
                                                    vários artistas, será homenageada no Teatro do Sesi no        Tânia Tome produziu e realizou o primeiro DVD
                                                    Rio de Janeiro. A história, conta que no rol destas hom-   de poesia em Moçambique. Criou e fundou o con-
A cantora e poetisa tânia                           enagens e nesta sala, artistas conceituados, passearam     ceito e movimento denominado Showesia – espe-
                                                    a sua classe, como Adriana calcanhoto, augusto Mar-        ctáculo de poesia
   tomé volta a levar a                             tins, Gilberto Gil, Maria entre outros.                       É presidente da Associação Showesia com objec-
                                                       Os eventos na terra do samba, terão lugar nos dias      tivos culturais e de carácter sócio-humanitário e
   Bandeira de Moçambique                           14 e 15 deste mês, com a declamação de poemas do           directora do Festival internacional showesia.
                                                    seu mais recente livro, para além de uma sessão de            Lançou em Maio de 2010 em Moçambique seu
   para fora do país.                               música acústica, cantando vários temas inéditos do seu     livro de poesia “Agarra-me o Sol por trás” que é uma
                                                    álbum, acompanhada dos seus dedos ao piano.                das referências bibliográficas da Pós-graduação
   Desta vez, levou com sigo o showesia, que           Já na Kitabu, Livraria Nandyala, onde foi recente-      em Letras Vernáculas da Universidade Federal do
é uma forma criativa de dizer a poesia, ao Fes-     mente lançado o livro sobre Fela Kuti, da autoria de       Rio de Janeiro. Finais de 2010 a editora brasileira
tival de Medellin XXI entre os dias 1 e 9 Julho,    Carlos Moore e prefaciado por Glberto GIL, músico e        escrituras lançou o livro “Agarra-me o Sol por tras,
na Colômbia.                                        ministro brasileiro.                                       outros escritos e melodias” com prefácio do Brasil-
   O festival, é considerado um dos maiores            Tânia prepara seu mais recente álbum de música e        eiro Floriano Martins e pintura de Eduardo Eloy.
eventos de poesia no mundo, com mais de             irá, ainda estar com músico moçambicano Guilherme          O livro foi seleccionado para o prémio Portugal
170 mil pessoas a aderir anualmente.                Silva, a radicado no Brasil e outros músicos como          telecom 2011 no Brasil.
   No Medellin, vários músicos consagrados,         Grecco Buratto e Fernando, com os quais, estabeleceu          Faz parte da Antologia World Poetry Almanac
nóbeis de literatura, actores mundiais já des-      contacto recentemente, para estudar a possibilidade        2009 (Com 190 poetas do mundo oriundos de 100
filaram, dando a imagem de grandeza.                de gravar alguns temas de música.                          países do mundo), representando Moçambique e
   A moçambicana Tânia Tomé, foi convidada             Refira-se que a dias, Tânia Tomé lançou sua música e    os Palop , e faz parte da Antologia THE BILINGUAL
como cantora e poetisa, levando seus temas          vídeo mais recente intitulada Cimbalaia.                   ANTHOLOGY ON AFRICAN POETRY EM CHINES,
inéditos de música como Estoy Enamorada,                                                                       lançada em Shangai, China.


                                                    BiogrAfiA
Amar é bom, que irá cantar em acústico com                                                                        Participa do primeiro ano de comemoração de
seus dedos ao piano.                                                                                           Celebração da língua e Cultura Portuguesa da
   Nas suas actuações n este festival, a artista,                                                              CPLP em Moçambique, ao lado do Mia Couto e
terá o palco compartilhado com a cantora Chi-                                                                  Calane da Silva.
woniso Maraire do Zimbabwe, Madosini Latozi                                                                       É membro da Associação dos escritores Moçambi-
Mpahleni cantora tradicional, e do cantor Pedro       Tânia Tomé, de 29 anos e de Moçambique é                 canos, da Associação dos músicos moçambicanos,
Espia - Sanchis do South África - Spain.            cantora, compositora, actriz, poetisa, declamadora         da Associação dos Poetas del mundo e membro
   Tânia também apresentou poesia ao lado de        e apresentadora de espectáculos e televisão.               correspondente da Academia Rio-Grandina de
outros poetas, entre os quais se destacou-se          Conta já com vários prémios internacionais entre         Letras do Brasil
a presença da actriz do filme “Hotel Ruanda”        os quais se destacam prémio académico da Funda-             págiNA oficiAL: www.tANiAtoME.coM
sobejamente conhecido, o prémio Nobel de            ção Mário Soares, Prémio Festival da Canção, Porto,
literatura 1994, Derek Walcott, entre outros
                                                    Portugal, Prémio Soundcity Music Award (África),
Exero 01, 5555   BLA BLA BLA       3
 terça-feira, 12 de Julho de 2011                                   https://revistaliteratas.blogspot.com                                                                             3


Em primEira

“Crónicas Timorenses”
 JoANA ruAs – LisBoA                                           as fontes escritas e tinha ainda as que me haviam sido
                                                               fornecidas e que pertenciam à tradição oral. A análise
                                                               desse material levou-me à conclusão de que uma vez
                                                               concretizada a unificação administrativa do território,
                                                               em finais do século XIX, este, embora tenha continu-

crónicas timorenses — estas
                                                               ado a estar administrativamente dividido em reinos,
                                                               esses reinos eram assim chamados formalmente pois

  crónicas abrangem um
                                                               os seus reis haviam deixado de ser vassalos do rei
                                                               de Portugal, para serem apenas súbditos, não sendo

  período que vai de 1910 a
                                                               os seus reinos nem já independentes nem mesmo
                                                               autónomos. Apenas um, Manufhai, ousava ainda proc-

  1965.Dada a interferência
                                                               lamar a sua independência face ao poder central.
                                                               Constatei, pois, que a construção erguida durante sécu-

  no território de vários
                                                               los pela política de casados de Afonso de Albuquerque
                                                               e mais tarde reforçada pela luta contra os Holandeses

  protagonismos quer antes
                                                               levada a cabo sobretudo pelos governadores per-
                                                               nambucanos, ruíra com as guerras de pacificação do

  quer depois da 2ª guerra
                                                               território. Para um observador externo, a existência
                                                               colectiva do povo timorense tinha sofrido uma des-          primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Ora esta con-

  Mundial, a autora deu à
                                                               continuidade, pois uma vez vencido na guerra de             centração resulta da racionalidade imposta pela mudança
                                                               Manufhai, os episódios novos que viria a sofrer já não      de estatuto da colónia. Na documentação que esteve na
                                                               eram um prolongamento dos antigos.                          base do 1º volume, à medida que li todos aqueles livros,
                                                                                 PerAnte eSteS novos dados da reali-       relatórios militares, documentação avulsa e notícias dos
                                                                                  dade, olhei para o material que          jornais, os personagens foram-se-me impondo, quer porque
                                                                                  tinha entre mãos. Fixar a história       os autores desses documentos os consideravam heróis
                                                                                  destes povos na sua longa e perigosa     nacionais, fossem portugueses, goeses ou timorenses, quer
                                                                                  marcha é extremamente difícil. Uma       porque sendo gente obscura acedeu à História por infracção,
                                                                                  das razões pode ser aduzida do facto     isto é, as suas vidas cruzaram-se com o Poder, passando a
                                                                                  da sua vida colectiva não possuir a      fazer parte dessa pluralidade de vozes que se perdem no
                                                                                  característica ocidental da circu-       tempo, os infames como os descreveu Michel Foucault em
                                                                                  laridade imutável em que mesmo           La Vie des Hommes Infâmes : «Vidas breves, achadas a esmo
                                                                                  com retrocessos se processa uma          em livros e documentos».
                                                                                  continuidade na vivência histórica.      orA dePoiS da pacificação do território como lhe chamou
                                                                                  Na verdade, havia já factores de         Celestino da Silva, tudo passou a ser diferente aos olhares
                                                                                  coesão que se viriam a manifestar        dos observadores, militares e administrativos que relataram
                                                                                  na Resistência ao invasor indonésio      os acontecimentos havidos no século XX, em vésperas da 1ª
                                                                                  e que paradoxalmente surgiu no           Guerra Mundial: à excepção de D. Boaventura de Manufhai,
                                                                                  território com uma corrente nacio-       não foi registado nome algum de timorense, todos passaram
                                                                                  nalista que estava sintonizada com       à categoria dos vastos e anónimos, fenómeno registado por
                                                                                  os nacionalistas indonésios lidera-      Rilke e mais tarde por Canetti como os «sem nome».
                                                                                  dos por Sukarno na sequência da          É minha convicção que o povo de Timor-Leste rasgou a noite
                                                                                  invasão nipónica.                        de um longo sofrimento e de uma deriva histórica perigosa
                                                                               Em A Batalha das                            para a sua sobrevivência como povo até nos surpreender a
                                                                                                                           todos nós Portugueses e ao mundo inteiro tornando-se a
                                                                    Lágrimas a intriga, de facto,
    progressão dessa realidade
                                                                                                                           primeira nação do século XXI, Timor Loro Sae.A sua coragem,
                                                                    perde-se na linearidade fac-                           determinação e capacidade de sofrimento foram por assim

    complexa a forma de
                                                                                                                           dizer a minha veste de luz, e acolhi a inspiração que deles
                                                                  tual dos sucessivos episódios                            recebi nesses duros tempos de horror e de esperança. Indo
                                                                   da guerra. A intriga perde-se
    contos por se basearem em
                                                                                                                           a mais de meio do meu trabalho, apenas espero ter con-
                                                                      porque estas histórias são                           tribuído para a definitiva reconciliação da família timorense.

    documentação escrita e oral.
                                                                                                                           Sobre tantos personagens colhidos aqui e ali apenas vos
                                                                   histórias da resistência e dos                          digo como Saint-Exupéry em O Principezinho :«Só se vê com

São eStAS as crónicas: D. Manuel dos Remédios — breve
                                                                  vencidos e não as dos vence-                             o coração; o essencial é invisível aos olhos».

                                                                                           dores.
                                                                                                                           BiogrAfiA
texto sobre o exílio e morte na serra de Lavater deste lib-
eral timorense perseguido pelas autoridades militares e        noS vencidoS, à excepção dos que possuem uma arte,
religiosas em 1878; O Cofre e a Espada — a autora desen-       a arte da resistência que Dante, na Divina Comédia ,
volve e aprofunda, a partir de personagens timorenses, a       define como a capacidade de resistência às adversi-
trama que leva à guerra de Manufahi quando em Portugal         dades e aos inimigos políticos, tudo se dissolve no ina-    JoAnA ruAS nasceu em 1945 na Quinta do Pinheiro em
vigorava o novo regime — a República. A autora segue o         cabado porque a espoliação de que foram vítimas lhes        Freches, no distrito da Guarda. Por volta dos anos 50 do
desenrolar deste conflito baseando-se na obra do oficial       rouba os fios da própria existência. Havia ainda que        século XX , a sua família estabeleceu-se em Angola onde
da Armada, Jaime do Inso, intitulada Timor-1912 ;Folhas        ponderar que na nossa cultura há uma oposição entre         Joana Ruas viveu e estudou até aos quinze anos, idade em
soltas no bosque — a acção deste conto que se baseia           o oral e o escrito. Nas culturas orientais essa oposição    que, segundo o costume da burguesia colonial , regressou
nas informações contidas no livro Funo-A Guerra em             não existe. Mesmo na cultura chinesa, a oposição            a Portugal para completar os seus estudos em Coimbra. A
Timor de Carlos Cal Brandão, decorre no rescaldo da reti-      que existe é entre o gesto e o discurso. Lembremos a        guerra colonial levou o seu ex-marido para Timor-Leste para
rada nipónica de Timor, em Agosto de 1945; Funan-Mutin         Questão dos Ritos Chineses, essa controvérsia que se        onde Joana Ruas o acompanhou .
(Branca- Flor) — a chegada dos oficiais milicianos e suas      travou nos séculos XVII e XVIII, isto é de 1631 a 1743,     trABALhou como jornalista cultural e tradutora na Radiodi-
esposas a Timor-Leste, as consequências do golpe contra        quando se iniciava a evangelização da China.                fusão Portuguesa e no jornal Nô Pintcha da República da
Sukarno e também sobre os ventos de mudança que se             ASSim, nA medida em que a escrita muda a natureza           Guiné –Bissau.
anunciavam em Portugal e nas colónias.                         da narrativa oral, pois pelo facto de passar para a         A convite de Natália Correia, traduziu prosa e poesia para
                                                               forma escrita, o texto corta as amarras que o ligavam à     diversas editoras.


AprEsENtAção DA
                                                               oralidade, chamei-lhes crónicas e não contos . Crónicas     PArticiPou nA causa da Libertação do Povo de Timor-Leste,
                                                               no sentido dado às Crónicas Italianas de Stendhal, pela     tendo feito várias conferências sobre a Língua Portuguesa
                                                               diversidade das fontes, escritas e orais e pela liberdade   em Timor –Leste, sua história e cultura. .Em 1975, o poeta


oBrA pELA AutorA
                                                               de invenção no tocante aos personagens mas não aos          Herberto Helder editou um poema seu e, desde então, con-
                                                               factos que se erguem sobre fundo histórico.                 sagrou-se à sua obra literária, tendo publicado romances,
                                                                                                                           ensaios e poemas. Trabalha há anos na escrita de uma obra
                                                               Todas estas crónicas têm as suas fontes históricas          em três volumes (um romance, um livro de contos e uma
ABordei eSte segundo volume da trilogia A Pedra e a Folha,     assinaladas nas notas finais de cada uma delas. Entre       novela), sobre cem anos de Resistência Timorense — de
ainda antes de ter iniciado a investigação que me levaria ao   as fontes portuguesas não se verifica já a dispersão        finais do século XIX até à Independência
primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Tinha entre mãos      das fontes e dos documentos que estão na base do
4    BLA BLA BLA      Exero 01, 5555
    terça-feira, 12 de Julho de 2011                                       https://revistaliteratas.blogspot.com                                                                4
Em poucas paLavras / poEsia
Que culpa temos nós?                                                   Quero ser                                           fazer
    MukurruzA - LichiNgA                                                 ruth BoANE - tEtE                                 pEDro Du Bois - BrAsiL

    Gentil nossa alma,                                                   Quero ser uma estrela                             Feito ao avesso: da cabeça
    Nossa esperança, dores, mágoas, enfim, roubadas.                     para o teu mundo iluminar                         aos pés transitam ordens desconexas
    Penúrias penduradas n’angústias                                      Quero ser uma flor                                o primeiro limite estabelece o siso
    Desfeitas de graças.                                                 para o teu jardim embelezar.                      o último rearranja as forças
    Estas vaidades traduzidas nas danças de batuques marimba, enfim.                                                       com que chuto as pedras
                                                                         Quero ser o mar
    Oh! danças de ekuetthe danças desconhecidas!                         Para as tristezas comigo levar                    desconheço a determinação
    -Será que não lembram destas danças?                                 e as alegrias contigo deixar.                     da placa: disparo
    -Isto é mesmo que não lembrar do filho desta terra esquecida ah!                                                       ao encontro do corpo
    Que esperança falhada nesta terra de moldes, desfeita                Quero ser borboleta                               contrário e o choque
    de estragar tijolos de adobe!                                        Quero borboleta ser                               desintegra o mito
    Tristeza é a palavra que só se vos diz.                              Para um sorriso no rosto do teu jardim colocar.
    Nestes gritos esquecidos;                                                                                              da cordialidade.
    Gritos sem referentes, sem donos.                                    Quero ser poetisa
                                                                         para palavras de amor te dizer
    Ah! que tristeza nos acolhe nestes abrigos sem reflexos!             e seus ouvidos enlouquecer.
    Que pena nos impedem de sonhar!
    Esperança desfeita de mistérios dos magnos xicuembos                 Quero ser a rainha do teu coração
                                                                         e contigo para sempre ficar.

                                                                         Amo-te Sansão!




Quinta D´Poesia: em “Noite de Revelação”
 mAPuto - Nos habituais encontros das primeiras
quintas-feiras de cada mês, o grupo cultural Nkarin-
gana Arte, proporciona verdadeiros momentos de
recitação de poesia de novas revelações na poesia
moçambicana.
neStA quintA-feirA, não se foge a regra, o evento
como sempre, teve lugar no Café – Bar Gil Vicente
em Maputo, a partir as 18 e 30, e contou com ilus-
tres figuras de cartaz na arte de declamar, tocar, e
desta vez, em especial, acompanhado de um debate
sobre um grupo de poesia, denominado “Canto da
Poesia”, idealizado pelo já conhecido jovem poeta,
Rafael Iguane, para além da presença de Eduardo
Quive, quem falarou da revista digital, Literatas, um
palco onde convergem várias formas de “Dizer, fazer




e sentir a literatura” Os jovens Dudas Aled e Rãs Soto, dedilharam as guitarras acompanhando os recitais com a especial presença do grupo Nkaringana Poetry,
Voka, Yacy Lurdes, Bimazonda.
noS hABituAiS encontros das primeiras quintas-feiras de cada mês, o grupo cultural Nkaringana Arte, proporciona verdadeiros momentos de recitação de
poesia de novas revelações na poesia moçambicana (Literatas)



                                                          Escritora brasileira a caminho de Maputo”
                                                          Das terras brasileiras, concretamente de São Paulo, a escritora Ana Rusche, ruma para Moçambique, onde efectuará uma
                                                          visita de cinco
                                                          dias. Ana Rusche, vem a Maputo, para desenvolver várias actividades de índole artístico - literárias, com o Movimento
                                                          Literário Kuphaluxa. Dentre várias componentes, destaca-se a realização de uma oficina literárias, participação em saraus
                                                          culturais do movimento e outros eventos artísticos da cidade, e vai entrevistas escritores moçambicanos, para além de
                                                          orientar palestras com jovens amantes da literatura da capital moçambicana. Ana Rusche publicou Rasgada (Ed. Quinze
                                                          & Trinta, 2005) e Sarabanda – Um caderno de Estudos (Selo Demônio Negro, 2007). Estreará em prosa com o romance
                                                          Acordados (Ed. Amauta, no prelo), premiado pelo PAC – Programa de Ação Cultural do Governo de São Paulo. Posui
                                                          poemas publicados em diversas revistas literárias, participou da Antologia Oitavas, org. Vanderley Mendonça (Selo
                                                          Demonio Negro, 2006) e 8 Femmes, org. Virna Teixeira. (http://peixedeaquario.zip.net)


fichA tÉcnicA
                                                        Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa
 Sede: Centro Cultural Brasil-Moçambique* AV. 25 de Setembro nº 1728, Maputo, Caixa Postal nº 1167 * Celulares: (+258) 82 27 17 645 e (+258) 84 57 78 117 *
                                                    Fax: (+258) 21 02 05 84 * E-mail: kuphaluxa@gmail.com
Director Editorial: Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com)
Coordenador: Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br)
Editor - Canto da Poesia: Rafael Inguane (inguane.rafael@hotmail.com)
Redacção: David Bamo, Nelson Lineu, Mauro Brito, Izidine Jaime, Japone Arijuane.
Colaboradores: Maputo: Osório Chembene Júnior * Xai-Xai: Deusa D´África * Tete: Ruth Boane * Nampula: Jessemusse Cacinda * Lichinga: Mukurruza*
Brasil: Itapema - Pedro Du Bois * Santa Catarina: Samuel da Costa * Nilton Pavin. * Portugal: Victor Eustaquio e Joana Ruas.
Design e páginação: Eduardo Quive
Exero 01, 5555   BLA BLA BLA       5
terça-feira, 12 de Julho de 2011                    https://revistaliteratas.blogspot.com                                                             5

prosa                                               EscrEViVêNciAs
                                       uMA prosA    EM DosEs
                                       pArA ArséNiA crôNicAs
                                        DAViD BAMo - MAputo             MArcELo soriANo - BrAsiL
                                       Dezembro de 2008, fim            1ª dose - Prólogo
                                       de um espetáculo alusivo         Recebi com muito gosto o convite
                                       ao Dia Mundial Contra a          para escrever uma crônica para a
                                       Sida. Uma jovem magra,           Revista Literatas. Fico feliz e grato
                                       quase com minha altura,          ao irmão Amosse Mucavele que
                                       bonita cabelos cumpridas         disse-me: “Sabes, conquistaste o coração dos moçambicanos.”, referindo-
                                       se aproxima de mim e diz:        se ao artigo publicado na Tempo Nº Zero (http://www.revista-tempo.
                                       Oi, gostei do show,              com/) que foi relançada em Maio, recentemente. Mantenho firme, com
                                       apresentas muito bem!            este tipo de intercâmbio, o sonho de ver/ler a riqueza cultural dos países
                                                                        da CPLP transitando livremente, sem fronteiras, de lá para cá, daqui para
                                                                        lá.
Muito obrigado! Disse eu. Curioso, porque durante o evento vi uma        2ª dose - A microliteratura nas redes sociais
jovem atenta a todos os meus movimentos, pois estivera sentada num      Desde pequeno tendo a escrever com o mínimo de caracteres. Aquilo
plano que a permitia controlar todos os meus passos. A sua saudação     que seria uma mania estranha de um garoto que pensava demais e falava
quase que precipitava as minhas. Moça que multiplicada por qualquer     (e escrevia) de menos, hoje transformou-se em modismo cultural,
coisa seria igual a simpatia! Com uma beleza mais por interior que      propagado amplamente pelo Twitter, Facebook, Blogues em geral,
do lado de fora do seu fisico. Esta jovem chamava se Arsénia.           enfim, pelas chamadas Redes de Relacionamentos Sócio-Virtuais. Bem,
- Eu sou David. Me introduzi!                                           o que poderia dizer aquele garoto de antigamente, de poucas letras com
- Não precisavas me dizer já te conheço!                                grande significado (ao menos para si)?! O garoto se encontrou, não
Fiquei boqueaberto, tanta beleza e bondande feminina a minha            apenas consigo mesmo, mas com uma proposta de literatura (e, por
disposição, só podia se tratar de um sonho! Mas como um sonho? Se       conseqüência, literatos jovens de todas as idades), tão espontânea, quanto
eu sentia na pele e na alma o carinho                                   fluente pelos países da CPLP. Críticas, estudos, discussões sobre o teor
daquela criatura que Deus trouxera do Eden para dar brilho ao meu       e a pertinência cultural das expressões literárias deste “novo” estilo de
dia, naquela data!                                                      escrever... Bom, deixemos isto aos acadêmicos!
- Vivo no Singathela, e tu?                                             3ª dose - Aforismos sobre Literatura
- Também!                                                               A literatura é um mar de rosas de cabeças baixas.
- Então vamos juntos para casa!?!                                       Lembre-se: neste mundo, uma palavra vale muito mais que mil idéias.
- Sim vamos!                                                            Nada de falar a verdade. Um poeta verdadeiro deve sempre escrever a
Começava assim uma grande viagem de amizade entre duas almas,           verdade.
dois corpos, duas gentes que apesar das suas vivência diferentes        Um grande escritor não é aquele que se libera ao ímpeto do escrever.
partilhavam o mesmo sonho, fazer radio                                  Um grande escritor resiste ao ímpeto de não escrever.
ou televisão um dia.                                                    A poesia vem do nada, logo, poesia é tudo!
A vontade de construir com betão e prata uma amizade entre nós,         O escrever é superior ao redigir.
foi mais galopante que as nossas próprias vontades! Arsénia e David     Todo o poema pode ser melhorado. Todo o poema deve ser melhorado.
consiguiram em tempo curto mais que o sentido da própria palavra,       Não fosse assim, não seria poema.
aproximar os seus seres e traçar a mesma história. Uma amizade do       O universo uniu os versos... E esquartejou os poetas...
tamanho da obra de José Craverinha.                                     Nunca duvide da Arte de dormir operário e acordar poeta.
Ao longo destes quatro anos de amizade fui aprendendo que os            A poesia funciona quando o leitor sorri.
encantos de uma mulher, não residem apenas nas curvas que               O livro é uma gaiola de pássaros que canta para ser aberta.
compoem o seu corpo, muito menos no cruzamento entre as suas            Os menos preparados sempre sucumbem ao afã da palavra final.
pernas, mas sim na personalidade! Conceito muito pouco conhecido        O bom poema é o que nos lê.
nos dias que correm.                                                    A verdade está situada em algum lugar ilegível entre as metáforas e as
A nossa intimidade significou o fim do que nunca tive em mim, a         parábolas.
poesia, se não um conjunto de frases, versos e palavras gastas em       O óbvio, às vezes, surpreende.
almas satánicas que me fizeram sugar o veneno da Jiboa.
Procurei todas explicações possíveis para conhecer o verdadeiro         Quem passa a maior parte do tempo tentando ser genial, acaba se
sentido dos nossos sentimentos, nenhuma resposta achei se não um        tornando um gênio muito chato.
tesouro chamado Amizade, possível de                                    Nós que escrevemos tanto sobre amor, não é que o saibamos ao ponto de
encontrar em terras onde abunda leite e mel.                            ensinar, é porque precisamos escrever; escrever ao ponto de aprender.
                                                                        Por isso eu digo, sem ser douto no assunto... Escrever também é amar.
Todos cobiçavam indisfarçadamente o nosso relaccionamento!              Poetas são árvores frutíferas que acharam mais produtivo perambular.
Lambusavam se de vontade, queriam de ser um de nós. Se contorciam
para sentir a doçura de uma amizade pura como o grito de uma            Escrever é pura falta do que fazer quando se está com a agenda lotada.
criança saindo do ventre da mãe.                                        Já observaram? O livro aberto tem formato de pássaro.
O nosso ninho chamou outros e juntamos o útil ao agradável! Não         O autor é o Deus do livro, mas é comum deuses serem engolidos pela
fomos, nem somos e nunca serenos só nós, porque sempre viajámos         vaidade da própria criação.
em outras vidas, buscando novos e melhores sabores para apimentar       Há poemas que são auto-exorcistas.
o lar que aos poucos iamos formando em nossas vidas!                    Apelo aos escritores: deixem de definir o amor e comecem a amar!
Descobri igualmente que a mulher da minha vida não foi aquela           Para o poeta ser amado é ser lido. Um livro de papel comestível venderia
a quem devo a minha existência, muito menos a que me fezera             mais (porque mataria, também, a fome do corpo).
descobrir os apetites carnais, mas sim foi a Arsénia! Não sou, porque   Por mais enfadonha que seja a nossa história de vida, largar o livro nem
não quis aprender, todavia, a Arsénia ensinou me a ser verdadeiro.      pensar!
                                                                        Escrevo primeiro; penso depois. Se pensasse antes, jamais escreveria.
Pena que as palavras nunca dizem tudo o que sentimos, mas fica          Escrever não é um caso pensado.
esta prosa, que leva consigo o ritimo do Detalhes de Nós Dois,          A minha grande certeza é a incerteza das letras de um poema não escrito.
cantado pelo rei Roberto Carlos, pintada pelo mestre Malangatana.       Poesia de verdade não é a leitura do mesmo, é a releitura do novo.
Esta carta de reconhecimento ultapassa a dimensão da obra do Dan        O Poeta se faz digno pelo strip-tease de suas palavras.
Brown, o marximo resgatado por Lenin não chega aos calcanháres          Ler com o lápis; escrever com os olhos.
desta mensagem, feita por este pobre homem abanonado pela única
mulher a quem ele não consiguiu satisfazer todos os seus desejos.       A vida é uma luta diária. Em todos os amanheceres reiniciamos do nada.
Mulher que as exigências da vida a levaram para as outras terras de     Escrever é semelhante.
Moçambique. Mulher que se as forças do além quiserem voltaremos         A cisma da Ordem dos Poetas Alucinados é jamais saber precisamente o
a cruzar o mesmo caminho!                                               lugar correto e derradeiro do ponto final
6    BLA BLA BLA   Exero 01, 5555
    terça-feira, 12 de Julho de 2011                                  https://revistaliteratas.blogspot.com                                                                          6

- Discurso DirEcto
Contadora de estórias que ilustram a história
    EDuArDo QuiVE - MAputo                               colonialismo. Muita raiva. Tinha a raiva da                       - Quero agradecer a oportunidade que o vosso movimento
                                                                            injustiça. Eu nunca me                       (Movimento Literário Kuphaluxa) me deu de estar aqui em
   Ida dos remotos tempos da dominação colonial                     conformava por tudo que via:                         conversa com os jovens e devo dizer que vos admiro. Realmente
portuguesa nas terras moçambicanas e voltada             massacres sofrimento, oPreSSão. iSSo                            vocês são amantes da literatura e esta conversa que aqui tive-
dos horizontes do mundo fora, a escritora moçam-                                                                         mos é muito significativa para mim. Já passei por mais de 20
bicana Lília Momplé, encontrou-se com aman-
                                                                          incomoda-me.
tes da literatura para falar de si, da sua obra e do     Mesmo quando casei-me, embora com um
protagonismo em que expende a sua escrita nos          branco, ele porque também não suportava
leitores. Lília Momplé fora voz do nacionalismo,       ver a injustiça disse que tínhamos que sair do
mas hoje, aos 76 anos de vida, é a palavra que         país. Foi assim que acabei vivendo no Brasil por
se exalta na nova consciência e inspira as novas       muito tempo. Escrevi o Ninguém Matou Suhura
gerações. Mas não abandonou o seu nacional-            porque eu queria conversar com alguém sobre
ismo literário. Na conversa promovida pelo Movi-       o que vi e vivi durante aquele tempo. Tinha que
mento Literário Kuphaluxa, na última quarta-feira      me revelar.
em Maputo, a escritora brincou com as palavras e
educou os literatos novatos, afinal de contas Lília,   As outras obras «os olhos da cobra Verde»
fora também professora.                                e um romance, intitulado «Neighbours»
   De nome completo Lília Maria Clara Carriére         não fogem muito do quem caracterizou a
Momplé, natural da Ilha de Moçambique, esta
mulher que escreve o que lhe vai na alma, inspira      primeira…?
os jovens e nas suas obras, revela os mistérios da
sua força nacionalista e pela justiça social.            - O segundo livro também se baseou em
   Há quem diga que cada escrito da Lília Momplé,      factos reais. Da morte de uma amiga que era
é uma denúncia, mas a escritora prefere dizer que é    muito boa gente. Ela tinha muita vida, se não
um momento de desabafo, revelação, confidências        mesmo ela era a própria vida. Isso foi muito
e só o faz quando não aguenta mais se calar.           doloroso e marcou-me. Eu tinha que escrever.
   “Há uma necessitada de se fazer valer a litera-     O terceiro também foi mais uma revelação.
tura oral. Esta forma literária é riquíssima e corre
o risco de se esquecer. Com a literatura, há opor-
tunidade de se criar riqueza. A literatura é a base
                                                            Vivemos uma sociedade
para o conhecimento e criação, e num país onde               de negócios o “Busness
há criação, já sabemos que se pode alcançar o                Society”, onde o que
desenvolvimento.
                                                            vALe É o medíocre e                                          países para falar da literatura de mim e das minhas obras, mas
como é que surge a vontade de escrever?                         não deSenvoLvimento.                                     a emoção que estar a falar com os verdadeiros mensageiros
                                                                                                                         da literatura e que são jovens muito novos do meu país, que
   - Quanto ao ser escritora, sempre sobe que um       tem em vista mais uma obra?                                       mostram o verdadeiro interesse pelas artes, isso me deixa muito
dia ia escrever, só não sabia quando. O gosto pela                                                                       feliz. Obrigado Kuphaluxa.
literatura herdei da minha avó. Ela era Macua e           - Estou a preparar mais um livro, talvez seja o último. Ele       E mais… se querem realmente crescer nesta área, leiam.
habitualmente contava-nos estórias lindas da           vai retrar o que chamo de “Busniss Society” (sociedade de         Leiam muito. Assim o podem ser de facto uma nova geração
tradição em volta da fogueira. Nesse momento           negócios). O título poderá ser “Fantoches de Aços”.               de escritores e eu tenho fé, que daqui a mais quatro anos ou
eu dia para mim, «um dia vou escrever estas               Nesta obra vai sair muitas verdades. É mais uma revelação      menos. Um de vocês vai aparecer no sucesso e lembrar-se das
estórias».                                             de algo que me vai na alma, sobre os dias que vivemos. Onde       minhas palavras. Continuem assim. Convidem mais escritores
   E ouve um outro acontecimento que significou        as pessoas são insensíveis pelos negócios. Tudo eles fazem        para estes encontros, que não seja apenas a Lília Momplé, os
muito para mim: aos 13 anos, estudei no Liceu Luís     pelo dinheiro. Pobres que sofrem e só discursos políticos         jovens precisam destes momentos e eu sempre estarei ao vosso
Salazar, uma escola que era apenas para brancos e      vazios. Só para fazer negócios. É o Busness Society a que me      dispor, para qualquer momento destes e outros.
pessoas com as melhores condições. Eu era a única      refiro. Essa sociedade não é a verdadeira moçambicanidade,
negra e minha mãe teve que fazer muito sacrifício
para que eu estudasse lá. Ela passava noites a cos-
turar para poder pagar a minha escola, foi uma fase
                                                       isso nos tira a identidade e aconselho-vos a sair dela.
                                                          São Fantoches porque são; e são de Aço porque não tem
                                                       piedade. No Busness Society o que vale é o medíocre e não
                                                                                                                         BrEVE BiogrAfiA
                                                                                                                            Lília Maria Clara Carriére Momplé, nascida a 19 de Março de
muito difícil. Foi mesmo um acto heróico estudar       o desenvolvimento.                                                1935 na Ilha de Moçambique, província de Nampula, a norte de
lá. Tive um professor de que o nome não posso                                                                            Moçambique, é Assistente Social de profissão, com licenciatura
me esquecer: o seu nome é Rodrigues Pinto, era         como é que se define Lília Momplé?                                em Serviços Sociais.
professor de língua portuguesa. Mandou-nos fazer                                                                            Lília Momplé, foi professora de Inglês e Língua Portuguesa
uma redacção sobre o último de dia de férias.            - Essa é uma pergunta muito difícil. Acho que não sei me        na Escola Secundária de Ilha de Moçambique e directora da
    Feita a redacção e chegada a hora de entrega       definir, mas vou tentar. Penso que sou uma pessoa coerente,       mesma escola entre 1970 e 1981. Em outras missões, Lília
dos trabalhos depois de avaliadas, ele foi chaman-     que, por exemplo, não se pode adaptar ao Busness Society.         Momplé foi, de 1992 a 1998, directora do Fundo para o Desen-
do cada aluno para buscar o seu trabalho e o meu       Porque não suporto injustiça. Sou coerente.                       volvimento Artístico e Cultural de Moçambique (FUNDAC) e de
foi último. Confesso que fiquei com medo quando                                                                          2001 a 2005, membro do Conselho Executivo da UNESCO (Orga-
não chamaram-me. Quando terminou a entrega             A caminho dos 80 e com percursos brilhantes na sua                nização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura.
aos outros ele disse chamou-me e disse que o           vida literária, pensa ainda em fazer alguma coisa na              No seu percurso literário, dirigiu a Associação dos Escritores
meu trabalho foi magnífico. E dali, ele passou a                                                                         Moçambicanos (AEMO) de 1991 a 2001, como secretária geral,
ler a redacção em, toda escola. Fiquei muito orgul-    literatura, para além do livro que vai lançar em breve?           de seguida ficou presidente da Mesa da Assembleia-geral da
hosa. Toda escola apontava no pátio por ter feito o                                                                      mesma agremiação.
melhor trabalho. Isso marcou-me muito e cada vez         - Essa também é muito difícil de responder. Engraçado que         O seu primeiro livro veio ao público em 1988, editado pela
mais acreditava que um dia ia escrever.                nunca pensei nisso. Sinceramente que não.                         AEMO, com o título «Ninguém Matou Suhura», uma colectânea
                                                         Mas é assim…Não escrevo porque quer fazer alguma coisa          de Contos; «Neighbours» romance publicado em 1995 e «Os
E porque escreve?                                      na literatura, aliás eu nunca quis fazer nada na literatura.      Olhos da Cobra Verde» obra de contos publicada em 1997,
                                                         Quando não tenho nada para dizer não escrevo. Então não         também sob a chancela da AEMO.
  Escrevo porque me sinto honrada!                     quero fazer nada na literatura, por isso não falta nada para        Ainda na arte, a escritora publicou o «Muhipiti-Alima» um
  Escrevo pelo desejo de contar e de descarregar       fazer. Eu escrevo porque tenho que escrever.                      vídeo de drama, editado pela PROMARTE em 1997.
os meus segredos.                                                                                                          As obras da Lília Momplé, já foram editadas em Inglês, Ital-
                                                       Qual é o segredo que quer deixar para uma nova gera-              iano, Francês e Alemão.
E o primeiro livro… “Ninguém Matou                     ção de escritores?                                                  Neste momento, a escritora faz parte do «Internacional Who´s
suhura”, como é que surge?                                                                                               Who of Authores and Writeres» e desde 1997 é membro de
                                                          - Que amem a literatura antes de querer ser escritor, porque   «Honorary Fellow in Literature» da universidade IOWA dos
    Escrevi o primeiro livro porque                    só assim poderão ser os verdadeiros escritores. Eu não acred-     Estados Unidos da América (EUA).
                                                       ito em quem quer ser escritor, pois escrever tem que ser por        Em termos de prémios, Lília Momplé, conquistou o primeiro
    tinha uma carga muito grande                       força de alguma coisa. Uma emoção forte. Você é um enviado        prémio do concurso literário comemorativo da cidade Maputo,
          sobre o colonialismo em                      especial de algum sentimento. Mas se os jovens amarem a           intitulado Prémio 10 de Novembro com o conto «Caniço» em
    Moçambique. Eu tinha raiva do                      literatura, farão algo por ela e nessa convivência, podem         1987. Melhor vídeo-drama moçambicano em 1998, com o vídeo
                                                       ser escritores e bons escritores. Que sinceramente o nosso        «Muhipiti-Alima».
                                                       Moçambique precisa.                                                 Foi nomeada o Caine Prize for Africaan Writing, edição de
                                                                                                                         2001. fez parte dos cinco nomeados entre 120 escritores de
                                                       tem mais alguma coisa a dizer?                                    28 países.
Exero 01, 5555      BLA BLA BLA          7
 terça-feira, 12 de Julho de 2011                                                       https://revistaliteratas.blogspot.com                                                                                                    7

“canto Da poEsia”
                                                              sou um dessidente Lua cheia                                                                                     ser poeta
 NoMis EruDAM
                                                                                                                                                                              ANA DE sousA BAptistA
  sinto que bem recebido                                      VicENtE sitoE                                        Nico tEMBE
  E na voraz necessidade de me proclamar                                                                                                                                       ser poeta é ser mais alto, é ser maior
  Em algum verso bem teso,                                     tenho um grande favor por pedir                      Vadiando pelo percurso do anoitecer                        Do que os homens! Morder como quem beija!
  porque me confundo:                                          primeiramente peço emprestado ouvidos                indo e vindo vejo as nuvens desvanecer                     é ser mendigo e dar como quem seja
  Despir o meu veste? E ficar como?                            segundamente rogo ser deixado pedir                  trapaceando, se jogando ao porém do além                   rei do reino de Aquém e de Além Dor!
  Assim me desidentifico,                                      por fim imploro para ser entendido                   Ao compasso descompassado de outrem
  corro o risco.                                                                                                    Linda moça contra-curvada se faz ver                       é ter de mil desejos o esplendor
  ou logra-se que me dispa                                     Não quero ser julgado porque não sei julgar          invejada, cortejada lua aparecer                           E não saber sequer que se deseja!
  somente para que o mundo me veja? sem entrelinhas?           Não quero ser desprezado porque não sei desprezar    Nesta noite de lua cheia                                   é ter cá dentro um astro que flameja,
  De novo me confundo                                          Na minha vida aceito críticas sem negar              A encontrei                                                é ter garras e asas de condor!
  E adestro: os poetas não se despem.                          porque depois delas ajoelho e começo a rezar
  Mas é-nos consentido partilhar,                                                                                   Andando, desfilando entre os oásis                         é ter fome, é ter sede de infinito!
  cada pedaço de palavra                                       sou um cidadão comum                                 rolando, espalhando a sua classe                           por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
  Que germina em cada orgasmo,                                 sou um indivíduo como qualquer um                    Livre feito um pássaro voando ao mar                       é condensar o mundo num só grito!
  uma orgia com cada um de nós isolado.                        tentei ser cientista                                 intocável, depreciável feito frases
                                                               e terminei como um idiota                            Norteando alvoradas, iluminado palavras                    E é amar-te, assim, perdidamente...

Eu respeito Manhiça                                            Mergulhei em muitas teorias
                                                                                                                    Descobrindo sonhos e concretizando-os
                                                                                                                    ondulando, harpeando prazeres
                                                                                                                                                                               é seres alma, e sangue, e vida em mim
                                                                                                                                                                               E dizê-lo cantando a toda a gente!
 DAViD gABriEL NhAssENgo                                       Marxismo, capitalismo, africanismo
                                                               socialismo, idealismo, sanguissuguismo               Nessa noite a encontrei
  pelas suas terras...                                         Até naveguei sobre todos dogmas                      há momentos a procurei
  Verdes de esperança                                                                                               Andei, naveguei e cheguei ate a voar
  Que se incorporam à maravilha dos solos
  Nutrindo de simpatia o semblante do seu povo
                                                               Não sou um cão
                                                               é a convivência que me faz parecido
                                                                                                                    Nua, despida, em teus braços me lavei
                                                                                                                    oh meu céu, minha Lua
                                                                                                                                                                              Noites da Minha cidade
  E expondo o sorriso contagiante das suas crianças            Não estou a tentar me justificar                     Meu abrigo é em cada curva sua                            JEssEMussE cAciNDA - NAMpuLA
                                                               Estou a seguir os meus instintos                     Bela e redundante se faz comparar ao seus seios            são longas noites
  pelo seu povo...                                                                                                  Espero voltar a vela, embaciada de estrelas                Que passo aos sonos moribundos
  Único e muito especial                                       fizeram da minha vida uma desgraça                                                                              Me desespero no açoite
  Brioso sobremaneira e sensacional.                           Deram-me pão quando precisava de amor                                                                           Daqueles que têm fundos
  Maravilhoso e esperançoso
  Que em desafios sociais, sempre vitorioso
                                                               Na minha vida há muitos que veêm à caça
                                                               procuram matar os meus sentimentos
                                                                                                                   fazendo amor de joelhos                                     passo! Versos de amor
  transfigura-se em povo heróico                                                                                   rAffAEL iNguANE                                             Escrevendo
  Miticamente glorioso                                         sou activista da paz, por isso não luto                                                                         E versos de dor
                                                               tive um percurso muito bruto                         Nossos corpos desnudos na noite fria                       No papel pintando
  pelas estradas...                                            por isso sou assim tão estranho                      Meu olhar dividia
  Locais onde capotam as divergências                          Até não sou estranho, sou diferente                  todas partes do teu corpo fatia por fatia                  utopias metafísicas
  E correm as semelhanças.                                                                                          Meus lábios bebiam o néctar da tua boca vadia              Acompanham as veias poéticas
  Asfaltos harmónicos de estradas calmas                       canto para não chorar                                tua pele crua minha língua lambia                          Que me levam a não dar ouvidos
                                                               finjo que sou feliz para não perder peso             Em nossa cama eras o meu prato do dia                      As críticas platónicas
  pelo seu poderio vocal...                                    para espantar inimizades mantenho o sorriso          No teu ouvido minha voz sussurava a poesia
  Que ressoa admiravelmente no canto coral                     continuo vivo para cumprir a missão evolutiva        Dizendo “amo-te” de formas diferentes, usando a melodia    Muikhwiris¹ rondando a minha palhota
                                                                                                                    fiz de ti uma gostosa iguaria                              Voando na peneira para qualquer frota
  pela produção...                                             Não sou nenhum revolucionário                        temperada com piri-piri, meu talher genital ardia          prostitutas sem medo circundam
  colossal da banana                                           porque sequer consegui mudar a minha vida            A cada toque teu, meu apetite crescia                      o matador² e de carro em caro saltitam
  E da batata-doce de polpa alaranjada                         Não sou nem sequer reaccionário                      Era bom o sabor que em minha boca perecia
  Vendida à beira da estrada.                                  porque não tenho nada em contrapartida                                                                          é tempo de fazer dinheiro
                                                                                                                    Lá estavas tu implorando-me                                Que é o bem supremo
  pela beleza...                                               sou um cidadão comum                                 gemendo suavemente                                         pelo mundo inteiro
  Da variedade e significância das capulanas                   não um idiota como qualquer um                       Dizendo, ama-me e coma-me                                  outros roubam, outros agridem
  E do grito comovente das nossas mamanas.                     sou um candidato ao novo mundo                       Mas de repente,                                            E sobre o corpo de outrem, outros se estendem
                                                               Quero sentir o sabor da nova geração                 passei meu dedo, estavas molhada, lubrificada e quente
  por temor...                                                                                                      Mesmo no escuro eu te via deitada de cócoras     E eu, rico de tanta pobreza
  Que me deixa com tremor                                      Aliás, quero ser o próprio sabor                     Não podia ver, não queria e nem sabia as horas   confesso os pecados que cometi durante o dia
  pois o mal ainda habita nas curvas do alvor                  com uma dose eloquente de poesias                    Minhas mãos serenamente apalpavam teus seios     com coragem e frieza
  E nas das nossas belíssimas meninas                          Quero ser desfrutado a garfo e faca                  Eu de joelhos                                    Escrevo esta poesia
  Entendidas em feitiçarias.                                   por isso sou um candidato                            um som afro-reggae invadia meus ouvidos
                                                                                                                    Aventurei-me na maravilhosa vista do teu corpo
  Baza lixa*                                                   Ao novo mundo da literatura                          E fui beijando carinhosamente tuas costas      gLossrio
  Ando de incoluane a Maluana                                  idiota que escreva poesias idiotas                   pele doce, lisa e cheirosa como as rosas
  E de calanga a Mirrona                                       cidadão comum que todos gostem                                                                                  (1) feticeirio em Emakhuwa, língua a de Nampula
  sempre, respeitando Manhiça                                  Quero ser activista da paz e do amor                 penetrei,                                                  (2) Nome do meu bairro
                                                                                                                    Ao som da música eu coreografava as penetrações
LEgENDA:                                                       tenho um grande favor por pedir                      Num passo de dança alternavamos as posições
                                                               primeiramente peço emprestado ideias                 sentia o aumento dos teus batimentos cardíacos
  *Ao raiar do sol                                             segundamente rogo para não ser julgado               Em nossa dança eu ia acelerando os passos                 Deliciando a com beijos ardentes e cheios de desejo
                                                               por fim... imploro para ser entendido                Domado pelo prazer, eu puxava teus cabelos                completando o pequeno e destemido verso.
                                                                                                                    ouviam-se gritos, rugidos e latidos
                                                                                                                    Alguns nomes atractivos e gemidos                         o verso sem pudor arranca-lhe as vestes
Exaltação                                                                                                           E ah, ah ,ah, ah                                          Deita-se no seu leito e
                                                                                                                    Lá estavamos em ritmos sincronizados                      Lambuza os pontiagudos e duros mamilos dos
osório chEMBENE                                                                                                     simultaneamente atingindo orgasmos sucessivos.            seus seios pomposos
                                                preto, olha para cor da tua pele                                                                                              percorre em seguida todo seu corpo nu
 Menino preto, o que fazes tu ai?               é preta patrão                                                                                                                satisfazendo com doçura os seus desejos.
 procuro a minha pessoa,                        é a raiva de quem me ferre                                                                                                    Abrasado de tesão penetra as suas genitálias
 o eu que se esconde de mim.                                                                     pEtEr pEDro piErrE                                                           na estrofe ansiada.
                                                Mas preto, tu és homem de cor
 Mas preto, o que fazes tu ai?                  Aah… então é por isso…                             Maravilhada pela beleza impar e indescritível                              Endurecidas genitálias cantam odes ofegantes
 Busco por minha alma,                          por isso é que não me das valor                    da virgem Deusa branca                                                     numa dança frenética
 A única escrava de mim.                                                                           Minhas palavras transbordam de tesão lírica                                E num estugado balançar de rimas
                                                tu és um bicho, não tens coração                   Entrelaçam-se e chocam-se de forma abrupta                                 sedentas debruçam os versos lascivos
 Mas preto escravo, de que falas tu afinal?     fique sabendo branco                               E vão de encontro a aquela Deusa                                           perspectivando a penetração nas outras duas
 Eu também tenho alma patrão                    Que eu me orgulho de ser preto, preto carvão.      Enlaçam e acariciam delicadamente os                                       deliciosas estrofes
 sou humano, não animal                                                                            contornos curvilíneos do seu corpo                                         E um orgasmo múltiplo para concluir o poema
                                                                                                                                                                              sobre o subtil e enlaces corpo da virgem
                                                                                                                                                                              Deusa branca.
 grupo Do fAcEBook: http://www.fAcEBook.coM/hoME.php?sk=group_185846178099556&Ap=1

 rEspoNsáVEL: rAfAEL iNguANE
8    BLA BLA BLA     Exero 01, 5555
    terça-feira, 12 de Julho de 2011                                            https://revistaliteratas.blogspot.com                                                                                           8

Em outras paLavras

O veneno de Sócrates
    … Foi pois sob o «veneno de Sócrates» que Carlos Antunes
    sucumbiu entre as pernas da mulher, com os lábios ainda
    molhados de sucos vaginais …                                          rosa, como sucedia com os judeus. É sabido que os nazis não              precipício do prazer supremo; mas de menores, seres humanos
                                                                          resistiam a dar umas boas gargalhadas sempre que abriam as               ainda a caminho da consciência plena da sua sexualidade.
    Victor EustAQuio - LisBoA                                             câmaras de gás. E compreende-se. Corpos e mais corpos, todos                No Chile, o caso «Wena Naty» é paradigmático. A história
                                                                          amontoados, todos rosados. Não é por acaso que a diáspora                começou com as imagens amplamente divulgadas, sobretudo
   I.                                                                     judaica escolheu o azul para o centro da sua bandeira nacional, a        na Internet, de uma jovem de 14 anos, estudante de um colégio
   Carlos Antunes foi vítima de homicídio por envenenamento. Com          estrela de David, que traduz a primeira territorialização soberana       católico, a abocanhar o falo erecto de um rapaz num dos parques
diligências várias, e após uma investigação exaustiva mas secreta         sionista: o Estado de Israel. Pelo menos é a tese defendida por          mais frequentados de Santiago, à luz do dia, enquanto um amigo
sobre o verdejante mundo dos alcalóides venenosos extraídos de            alguns especialistas que, melhor do que ninguém, sabem explicar          da dupla, ou amigos – há várias versões – registava às escondidas
plantas facilmente acessíveis a um olhar botânico mais atento, Maria      estas coisas, embora não esteja ainda muito claro o porquê do            o famigerado felaccio juvenil. As provas materiais da degustativa
Clara, uma mulher fogosa e apetrechada, que nunca se opôs aos             azul em prejuízo de outra cor primária como o amarelo ou o ver-          felação levaram milhares de visitantes ao sítio que as publicou
criativos desejos carnais do marido, que incluíam práticas sexuais        melho. É certo que o azul é a cor da espiritualidade, da abóboda         online e as autoridades locais a investigar o assunto depois de
um tanto ao quanto invulgares, decidiu untar a vagina com cicutina,       celeste (ou a ilusão da mesma, que no espaço a imensidão de              considerarem que havia fortes indícios da existência de um
uma substância tóxica mortal insípida com a aparência de um óleo          negritude bem que poderia ser o paraíso cosmológico das mais             grupo organizado de adolescentes que se dedicava à produção
amarelado.                                                                variadas diásporas subsarianas, faltava aqui Isaac Newton para o         de material pornográfico. Wena Naty, a rapariga da garganta
   Extraída da cicuta, uma planta apiácea também conhecida como           sugerir); a cor de um céu limpo e imaculado, o que faz supor uma         prematuramente funda, ficou conhecida em todo o Mundo, tal
abioto, a cicutina, ou em rigor, a cicutoxina – que ficou inscrita        predisposição para uma maior proximidade com as divindades               como o nome dela, que entrou inclusive para o património lexical
na História como o «veneno de Sócrates» – provoca o colapso               que erram pelo universo; mas remete também o pensamento e,               daquele País sul-americano. «Dicese de la mujer ke le gusta lamer
do sistema nervoso central e, por conseguinte, a morte, que, por          já agora, para um grupo de artistas de inspiração expressionista,        una y otra vez el miembro inferior masculino, sin importarle de
sinal, não é coisa bonita de se ver. Pelo menos desta forma (já que       curiosamente germânico, o Der BlaueReiter, ou O Cavaleiro Azul.          kien es», «cabra culia q le chupa el pico a todos los compañeros»
a mors, no sentido da mitologia greco-romana, até pode assomar            Poder-se-á aduzir o argumento de que o azul simboliza a lealdade,        ou «pequeña prostituta que le gusta hacer mamadas en plazas y
de modo exuberante, como uma bela e flamejante imolação por               a fidelidade, a personalidade e subtileza. Trata-se, com efeito, de      ser exhibida en youtube» são algumas das definições que podem
fogo). Mas não é o caso. Que o diga o filósofo grego, se ainda falasse,   uma cor romântica, talvez porque lembre a cor do mar, mas está           ser encontradas para a expressão «Wena Naty».
ou escrevesse, após a famigerada ingestão do chá de cicuta que            igualmente associada à falta de coragem ou monotonia.                       De resto, foi justamente com este nome que se popularizou
lhe arrefeceu e enrijou o corpo. É certo que o ataque tóxico não foi          Por seu lado, o amarelo transmite calor, luz, descontracção; é       o sítio que divulgou os três vídeos malditos da perversa filha
imediato. Sócrates ainda teve tempo de andar às voltas pelo quarto,       uma cor cheia de energia, activa, associada à prosperidade e que         da blasfémia, entretanto removidos pela Justiça. Sublinhe-se,
mergulhado nos seus profundos e derradeiros pensamentos até               transmite optimismo. Tal como o vermelho, a cor da paixão e do           todavia, que a perfilhação demoníaca nunca chegou a ser
que começou a sentir as pernas pesadas. E aí sim, depressa passou         sentimento, do amor e do desejo, do orgulho e da violência, da              estendida ao co-protagonista masculino, uma vez que, cremos
das voltas pelo quarto ao quarto às voltas, desaire locomotor que         agressividade e do poder. Mas os hebreus assim decidiram, e está         nós, em terrenos da Igreja e da fé – a Católica Apostólica Romana,
obrigou o pensador ateísta, um malévolo instigador da corrupção           decidido. Para acabar de vez com a humilhação da morte cor-              que as outras não são para aqui chamadas – quem manda são
moral dos jovens gregos, a deitar-se de costas. Os seus carrascos         de-rosa, e a fragilidade, delicadeza e o pendor feminino que lhes        os homens. É que, apesar de todos os encantos do misterioso
examinaram-lhe os pés e as pernas até se certificarem de que              são inerentes. Até nisso o nacional-socialismo alemão foi cruel:         feminino tão exaltados pelos vários movimentos intelectuais
o filósofo havia deixado finalmente de as sentir. Seguiram-se as          chacinou a praga judaica sob o jugo da efeminação.                       fruto do romantismo europeu, as mulheres servem para pouco.
carícias mitigativas da toxina no coração e o princípio do fim da             De certo modo, também foi este o destino de Carlos Antunes:          Basta lembrar o que o Senhor Deus disse no acto da criação:
existência cartesiana, ontológica e epistemológica do enigmático          nu, de rabo para o ar, com a língua enfiada na vagina ardente e          “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe um ajudante
pai da filosofia ocidental.                                               possessa da mulher, com o corpo inerte e sem vida. Um homem              em conformidade”. Então o Senhor Deus formou da terra todos
   “E agora chegou a hora de nós irmos, eu para morrer, vós para          desvirilizado na hora definitiva e irreversível da partida. Por efeito   os animais selvagens e todas as aves do céu, e trouxe-os ao
viver; quem de nós fica com a melhor parte ninguém sabe, excepto          do seu desejo mais primitivo e animalesco atacado selvatica-             homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome
Deus”, ter-se-á despedido Sócrates, o ateu, que aparentemente             mente por um clítoris venenoso. O doce veneno do escorpião,              que o homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os animais
acreditava no Senhor, como relata o seu discípulo Platão, lançando        esse temível aracnídeo que nem no Zodíaco escapa de ter fama             domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Mas
a dúvida sacrossanta dos filósofos, que pouco tem de sagrada para         de má rês. Um invertebrado artrópode cujo móbil gravitacional            entre todos eles não havia para o homem um ajudante em con-
o venerável e sacro conhecimento daqueles que condenaram o                é tão-só o prazer e a posse na sua relação com o outro; o sexo e a       formidade. Então o Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre
pensador à morte em nome da santidade. E provavelmente de                 paixão possessiva; o amor e o ódio; sempre pronto a atacar. Não          o homem e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o
alguma, ou muita, necessidade de sanidade religiosa para tempos           foi este o animal enviado por Apolo para matar Órion, enciumado          buraco com carne. Depois da costela tirada ao homem, o Senhor
tão adversos.Foi pois sob o «veneno de Sócrates» que Carlos               com a relação entre este e a sua irmã Ártemis? Não está cienti-          Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem
Antunes sucumbiu entre as pernas da mulher, com os lábios ainda           ficamente demonstrado que as estrelas de Órion desaparecem               exclamou: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da
molhados de sucos vaginais. E de uma dose letal de cicutoxina.            do Ocidente quando as do escorpião nascem no Oriente? O sexo             minha carne! Chamar-se-á mulher porque foi tirada do homem”.
Uma mise-en-scène clitoriana indigna para um homem de tão alta            oral sempre teve destes problemas. Foi justamente através de um          Está tudo escrito no Antigo Testamento. Quem somos nós para
posição na sociedade, condenado, também ele, a ser imortalizado,          pequeno vídeo caseiro, no qual se via uma mulher a lamber à força        contrariar os desígnios do Senhor Deus, nosso pai? Primeiro, há
pelo menos ao olhar de Maria Clara, com a boca caída sobre a púbis        os baixios vaginais de uma adolescente – à força é como quem diz,        o homem. Depois há os animais e as mulheres, cada uma das
aloirada da mulher e o corpo retesado, nu, de rabo para o ar. Quem        porque a menor estava inconsciente – que Karla Leanne Homolka            espécies com os seus respectivos deveres e obrigações para
deles ficou com a melhor parte ninguém sabe, ele que partiu para          (a retratada no filme) e o marido Paul Bernardo, um casal de serial      com o homem, em nome da vontade divina.
morrer, ela para viver; porém, Maria Clara pouco se importava com         killers canadiano, foram apanhados pela polícia.                           Após o felaccio da jovem chilena, Wena Naty, o sítio da web,
o assunto pelas razões de que estava convencida ter, razões que,              Após dezenas de casos de abusos sexuais e assassinatos vio-          mostrou mais. Ainda chegou a aventurar-se pela libidinosa adren-
do seu ponto de vista, legitimavam em absoluto a prática daquele          lentos de mulheres adolescentes que se arrastaram durante três           alina do bullying, mas os falos erectos e robustos abocanhados
nefasto gesto assassino.                                                  longos anos. Aliás, esta onda de produção de vídeos ditos caseiros       por pequenas e pueris bocas femininas é que faziam sensação.
   Não deixa de ser curioso, contudo, no quadro deste bizarro             com imagens de natureza sexual mais ou menos explícitas tem              Daí que se seguiu mais um caso, de novo num colégio, agora
crime vaginal, que alguns investigadores forenses tenham perdido          muito que se lhe diga. Sobretudo quando caem na rede. Não                franciscano, um pouco mais distante do centro nevrálgico da
imenso tempo, na fase das entrevistas periciais, a tentar descobrir se    supomos, apesar de tudo, que valha a pena perder muito tempo             capital, mas ainda situado nos limites da região metropolitana de
a expedita companheira marital de Carlos Antunes, que acreditava          com o assunto. Tanto mais que o mesmo está devidamente docu-             Santiago. Desta vez, o protagonista central foi um estudante de
ser tanto a esposa de Cristo como a esposa do Senhor (o que vai dar       mentado e até se transformou numa prática comum com intuitos             14 anos, um aluno problemático e, por conseguinte, repetente,
ao mesmo, embora a Igreja diga que não), terá chegado a atingir o         nem sempre muito claros. Os visados tendem a queixar-se, com             que conseguiu derramar as sementes líquidas das suas glândulas
orgasmo de tão excitada que estava em atentar de forma definitiva         ameaças várias em conformidade com a natureza e a dimensão               reprodutoras sobre as línguas e os lábios de pelo menos de três
e irremediável contra a integridade física do seu esposo. A avaliar       da publicidade dada às imagens, mas o protagonismo mediático             raparigas de 12 anos. A diferença é que o fez, entre ruidosos
pelos fulgores a que costumava dar-se no acto do amor, como               que decorre destes já célebres vídeos leva a crer que o fenómeno         gemidos, em plena sala de aulas à frente de toda a turma. Uma,
várias fontes próximas da homicida corroboram, é bem provável             digital, que enferma de contornos claramente neuróticos – dize-          duas, talvez três ou mais vezes. Por estranho que pareça, ninguém
que tenha chegado a sentir as tão populares contracções reflexas          mos nós, embora se remeta a questão para quem melhor seja                sabe ao certo quantas foram nem as condições em que foi pos-
ritmadas dos músculos perivaginais e perineais que circundam a            capaz de a avaliar – será bem mais objectivo, nos efeitos que            sível que os supostos factos ocorressem e de forma tão reiterada.
vagina, a intervalos de 0,8 segundos. Para isso, e não obstante estar     visa produzir, do que um mero e subjectivo fetiche, posicionado          Mas há imagens que o provam, captadas com telemóveis. As
consciente de que o seu centro gravitacional de prazer ocultava um        a montante, como alguns defendem. Tudo somado, a verdade é               alegadas vítimas acusaram o rebelde de as ter forçado a tão
alcalóide altamente venenoso, Maria Clara terá de ter sentido uma         que, a jusante, o resultado é o mesmo. Para delícia dos cibernau-        ignóbil prova oral perante o olhar impassível e complacente dos
vasocongestão e o início da lubrificação vaginal, com os pequenos         tas adeptos deste voyeurismo pastoral.O que parece dramático             restantes alunos, tanto rapazes como raparigas.
lábios ingurgitados a assumir uma coloração intensa arroxeada ou          é o crescente apetite pela inocência roubada, uma liberdade                 Em contrapartida, o presumível autor dos desenfreados crimes
cor de vinho e uma retração do clitóris em posição protuberante           eufemística a que nos damos ao luxo de recorrer para sublinhar           sexuais alegou que as bocas das meninas abriram-se milagrosa-
a colocar-se por trás da sínfise pubiana. São meras suposições            a problemática da devassa da intimidade por meios ilegítimos             mente, com o devido consentimento, para receber a jeito e com
fisiológicas, mas a ciência forense a tal se vê obrigada em busca         (ou quase, porque nestas coisas da legitimidade a zona cinzenta          prumo o seu membro viril, determinado a distribuir esperma
da validação das suas descobertas, tantos mais que é delas que            é extensa e pantanosa). Devassa, pois não se trata de gente adulta,      pelas demais, que se infiltrava pelas narinas e corria em longos
depende, em parte considerável, uma boa acusação judicial e a             ou no limite legalmente emancipada, a sopesar, lamber, sugar,            fios gelatinosos pela boca e o queixo de cada uma das raparigas.
deseja condenação da ré.                                                  tilintar, penetrar ou deixar penetrar as protuberâncias e os orifícios   por terra o anonimato das filhas amadas; e, por fim, ouviram
   Quanto a Carlos Antunes, apesar de não ter sido tarefa fácil           erógenos e ejaculadores dos seus corpos suados e tensos, no              igualmente o presumível coleccionador exibicionista de felaccios.
remover-lhe da boca e da língua os restos de pêlos púbicos da                                                                                      Ouviram, condenaram, mas ninguém foi sentenciado
mulher, pelo menos o seu corpo não apresentava um tom cor-de-                                                                                                                                          continua

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  • 1. Literatas o Veneno sai às terças-feiras Não conhecemos o preço da palavra. Envie esta revista à um amigo de sócrates pg. 8 revista de Literatura Moçambicana e Lusófona Director Editorial: Eduardo Quive * Maputo * 12 de Julho de 2011 * Ano 01 * Nº 01 * E-Mail: kuphaluxa@gmail.com S h owe s i a n a Colômbia e B ra s i l Joana Ruas revela os mistérios das“Crónicas Timorenses” pg. 3 No Discurso DirEcto , LíLiA MoMpLé Diz “Vivemos uma sociedade de negócios o ´Busness society´, onde o que vale é o medíocre e não desenvolvimento.” pg. 6
  • 2. 2 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 2 Em primEira Tánia Tomé: Leva Showesia à Colômbia e Brasil Prémio de música da Organização mundial de vários poetas, que ultrapassam os 160, provenientes de Saúde, Premio de Poesia Millenium Bim, no seu vários destinos do mundo. desempenho literário e musical. Depois desta participação, a artista moçambicana Licenciada em Economia, e Pós – graduada em internacional ruma ao Brasil, onde juntamente com Auditoria e Controlo Gestão. vários artistas, será homenageada no Teatro do Sesi no Tânia Tome produziu e realizou o primeiro DVD Rio de Janeiro. A história, conta que no rol destas hom- de poesia em Moçambique. Criou e fundou o con- A cantora e poetisa tânia enagens e nesta sala, artistas conceituados, passearam ceito e movimento denominado Showesia – espe- a sua classe, como Adriana calcanhoto, augusto Mar- ctáculo de poesia tomé volta a levar a tins, Gilberto Gil, Maria entre outros. É presidente da Associação Showesia com objec- Os eventos na terra do samba, terão lugar nos dias tivos culturais e de carácter sócio-humanitário e Bandeira de Moçambique 14 e 15 deste mês, com a declamação de poemas do directora do Festival internacional showesia. seu mais recente livro, para além de uma sessão de Lançou em Maio de 2010 em Moçambique seu para fora do país. música acústica, cantando vários temas inéditos do seu livro de poesia “Agarra-me o Sol por trás” que é uma álbum, acompanhada dos seus dedos ao piano. das referências bibliográficas da Pós-graduação Desta vez, levou com sigo o showesia, que Já na Kitabu, Livraria Nandyala, onde foi recente- em Letras Vernáculas da Universidade Federal do é uma forma criativa de dizer a poesia, ao Fes- mente lançado o livro sobre Fela Kuti, da autoria de Rio de Janeiro. Finais de 2010 a editora brasileira tival de Medellin XXI entre os dias 1 e 9 Julho, Carlos Moore e prefaciado por Glberto GIL, músico e escrituras lançou o livro “Agarra-me o Sol por tras, na Colômbia. ministro brasileiro. outros escritos e melodias” com prefácio do Brasil- O festival, é considerado um dos maiores Tânia prepara seu mais recente álbum de música e eiro Floriano Martins e pintura de Eduardo Eloy. eventos de poesia no mundo, com mais de irá, ainda estar com músico moçambicano Guilherme O livro foi seleccionado para o prémio Portugal 170 mil pessoas a aderir anualmente. Silva, a radicado no Brasil e outros músicos como telecom 2011 no Brasil. No Medellin, vários músicos consagrados, Grecco Buratto e Fernando, com os quais, estabeleceu Faz parte da Antologia World Poetry Almanac nóbeis de literatura, actores mundiais já des- contacto recentemente, para estudar a possibilidade 2009 (Com 190 poetas do mundo oriundos de 100 filaram, dando a imagem de grandeza. de gravar alguns temas de música. países do mundo), representando Moçambique e A moçambicana Tânia Tomé, foi convidada Refira-se que a dias, Tânia Tomé lançou sua música e os Palop , e faz parte da Antologia THE BILINGUAL como cantora e poetisa, levando seus temas vídeo mais recente intitulada Cimbalaia. ANTHOLOGY ON AFRICAN POETRY EM CHINES, inéditos de música como Estoy Enamorada, lançada em Shangai, China. BiogrAfiA Amar é bom, que irá cantar em acústico com Participa do primeiro ano de comemoração de seus dedos ao piano. Celebração da língua e Cultura Portuguesa da Nas suas actuações n este festival, a artista, CPLP em Moçambique, ao lado do Mia Couto e terá o palco compartilhado com a cantora Chi- Calane da Silva. woniso Maraire do Zimbabwe, Madosini Latozi É membro da Associação dos escritores Moçambi- Mpahleni cantora tradicional, e do cantor Pedro Tânia Tomé, de 29 anos e de Moçambique é canos, da Associação dos músicos moçambicanos, Espia - Sanchis do South África - Spain. cantora, compositora, actriz, poetisa, declamadora da Associação dos Poetas del mundo e membro Tânia também apresentou poesia ao lado de e apresentadora de espectáculos e televisão. correspondente da Academia Rio-Grandina de outros poetas, entre os quais se destacou-se Conta já com vários prémios internacionais entre Letras do Brasil a presença da actriz do filme “Hotel Ruanda” os quais se destacam prémio académico da Funda- págiNA oficiAL: www.tANiAtoME.coM sobejamente conhecido, o prémio Nobel de ção Mário Soares, Prémio Festival da Canção, Porto, literatura 1994, Derek Walcott, entre outros Portugal, Prémio Soundcity Music Award (África),
  • 3. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 3 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 3 Em primEira “Crónicas Timorenses” JoANA ruAs – LisBoA as fontes escritas e tinha ainda as que me haviam sido fornecidas e que pertenciam à tradição oral. A análise desse material levou-me à conclusão de que uma vez concretizada a unificação administrativa do território, em finais do século XIX, este, embora tenha continu- crónicas timorenses — estas ado a estar administrativamente dividido em reinos, esses reinos eram assim chamados formalmente pois crónicas abrangem um os seus reis haviam deixado de ser vassalos do rei de Portugal, para serem apenas súbditos, não sendo período que vai de 1910 a os seus reinos nem já independentes nem mesmo autónomos. Apenas um, Manufhai, ousava ainda proc- 1965.Dada a interferência lamar a sua independência face ao poder central. Constatei, pois, que a construção erguida durante sécu- no território de vários los pela política de casados de Afonso de Albuquerque e mais tarde reforçada pela luta contra os Holandeses protagonismos quer antes levada a cabo sobretudo pelos governadores per- nambucanos, ruíra com as guerras de pacificação do quer depois da 2ª guerra território. Para um observador externo, a existência colectiva do povo timorense tinha sofrido uma des- primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Ora esta con- Mundial, a autora deu à continuidade, pois uma vez vencido na guerra de centração resulta da racionalidade imposta pela mudança Manufhai, os episódios novos que viria a sofrer já não de estatuto da colónia. Na documentação que esteve na eram um prolongamento dos antigos. base do 1º volume, à medida que li todos aqueles livros, PerAnte eSteS novos dados da reali- relatórios militares, documentação avulsa e notícias dos dade, olhei para o material que jornais, os personagens foram-se-me impondo, quer porque tinha entre mãos. Fixar a história os autores desses documentos os consideravam heróis destes povos na sua longa e perigosa nacionais, fossem portugueses, goeses ou timorenses, quer marcha é extremamente difícil. Uma porque sendo gente obscura acedeu à História por infracção, das razões pode ser aduzida do facto isto é, as suas vidas cruzaram-se com o Poder, passando a da sua vida colectiva não possuir a fazer parte dessa pluralidade de vozes que se perdem no característica ocidental da circu- tempo, os infames como os descreveu Michel Foucault em laridade imutável em que mesmo La Vie des Hommes Infâmes : «Vidas breves, achadas a esmo com retrocessos se processa uma em livros e documentos». continuidade na vivência histórica. orA dePoiS da pacificação do território como lhe chamou Na verdade, havia já factores de Celestino da Silva, tudo passou a ser diferente aos olhares coesão que se viriam a manifestar dos observadores, militares e administrativos que relataram na Resistência ao invasor indonésio os acontecimentos havidos no século XX, em vésperas da 1ª e que paradoxalmente surgiu no Guerra Mundial: à excepção de D. Boaventura de Manufhai, território com uma corrente nacio- não foi registado nome algum de timorense, todos passaram nalista que estava sintonizada com à categoria dos vastos e anónimos, fenómeno registado por os nacionalistas indonésios lidera- Rilke e mais tarde por Canetti como os «sem nome». dos por Sukarno na sequência da É minha convicção que o povo de Timor-Leste rasgou a noite invasão nipónica. de um longo sofrimento e de uma deriva histórica perigosa Em A Batalha das para a sua sobrevivência como povo até nos surpreender a todos nós Portugueses e ao mundo inteiro tornando-se a Lágrimas a intriga, de facto, progressão dessa realidade primeira nação do século XXI, Timor Loro Sae.A sua coragem, perde-se na linearidade fac- determinação e capacidade de sofrimento foram por assim complexa a forma de dizer a minha veste de luz, e acolhi a inspiração que deles tual dos sucessivos episódios recebi nesses duros tempos de horror e de esperança. Indo da guerra. A intriga perde-se contos por se basearem em a mais de meio do meu trabalho, apenas espero ter con- porque estas histórias são tribuído para a definitiva reconciliação da família timorense. documentação escrita e oral. Sobre tantos personagens colhidos aqui e ali apenas vos histórias da resistência e dos digo como Saint-Exupéry em O Principezinho :«Só se vê com São eStAS as crónicas: D. Manuel dos Remédios — breve vencidos e não as dos vence- o coração; o essencial é invisível aos olhos». dores. BiogrAfiA texto sobre o exílio e morte na serra de Lavater deste lib- eral timorense perseguido pelas autoridades militares e noS vencidoS, à excepção dos que possuem uma arte, religiosas em 1878; O Cofre e a Espada — a autora desen- a arte da resistência que Dante, na Divina Comédia , volve e aprofunda, a partir de personagens timorenses, a define como a capacidade de resistência às adversi- trama que leva à guerra de Manufahi quando em Portugal dades e aos inimigos políticos, tudo se dissolve no ina- JoAnA ruAS nasceu em 1945 na Quinta do Pinheiro em vigorava o novo regime — a República. A autora segue o cabado porque a espoliação de que foram vítimas lhes Freches, no distrito da Guarda. Por volta dos anos 50 do desenrolar deste conflito baseando-se na obra do oficial rouba os fios da própria existência. Havia ainda que século XX , a sua família estabeleceu-se em Angola onde da Armada, Jaime do Inso, intitulada Timor-1912 ;Folhas ponderar que na nossa cultura há uma oposição entre Joana Ruas viveu e estudou até aos quinze anos, idade em soltas no bosque — a acção deste conto que se baseia o oral e o escrito. Nas culturas orientais essa oposição que, segundo o costume da burguesia colonial , regressou nas informações contidas no livro Funo-A Guerra em não existe. Mesmo na cultura chinesa, a oposição a Portugal para completar os seus estudos em Coimbra. A Timor de Carlos Cal Brandão, decorre no rescaldo da reti- que existe é entre o gesto e o discurso. Lembremos a guerra colonial levou o seu ex-marido para Timor-Leste para rada nipónica de Timor, em Agosto de 1945; Funan-Mutin Questão dos Ritos Chineses, essa controvérsia que se onde Joana Ruas o acompanhou . (Branca- Flor) — a chegada dos oficiais milicianos e suas travou nos séculos XVII e XVIII, isto é de 1631 a 1743, trABALhou como jornalista cultural e tradutora na Radiodi- esposas a Timor-Leste, as consequências do golpe contra quando se iniciava a evangelização da China. fusão Portuguesa e no jornal Nô Pintcha da República da Sukarno e também sobre os ventos de mudança que se ASSim, nA medida em que a escrita muda a natureza Guiné –Bissau. anunciavam em Portugal e nas colónias. da narrativa oral, pois pelo facto de passar para a A convite de Natália Correia, traduziu prosa e poesia para forma escrita, o texto corta as amarras que o ligavam à diversas editoras. AprEsENtAção DA oralidade, chamei-lhes crónicas e não contos . Crónicas PArticiPou nA causa da Libertação do Povo de Timor-Leste, no sentido dado às Crónicas Italianas de Stendhal, pela tendo feito várias conferências sobre a Língua Portuguesa diversidade das fontes, escritas e orais e pela liberdade em Timor –Leste, sua história e cultura. .Em 1975, o poeta oBrA pELA AutorA de invenção no tocante aos personagens mas não aos Herberto Helder editou um poema seu e, desde então, con- factos que se erguem sobre fundo histórico. sagrou-se à sua obra literária, tendo publicado romances, ensaios e poemas. Trabalha há anos na escrita de uma obra Todas estas crónicas têm as suas fontes históricas em três volumes (um romance, um livro de contos e uma ABordei eSte segundo volume da trilogia A Pedra e a Folha, assinaladas nas notas finais de cada uma delas. Entre novela), sobre cem anos de Resistência Timorense — de ainda antes de ter iniciado a investigação que me levaria ao as fontes portuguesas não se verifica já a dispersão finais do século XIX até à Independência primeiro volume, A Batalha das Lágrimas. Tinha entre mãos das fontes e dos documentos que estão na base do
  • 4. 4 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 4 Em poucas paLavras / poEsia Que culpa temos nós? Quero ser fazer MukurruzA - LichiNgA ruth BoANE - tEtE pEDro Du Bois - BrAsiL Gentil nossa alma, Quero ser uma estrela Feito ao avesso: da cabeça Nossa esperança, dores, mágoas, enfim, roubadas. para o teu mundo iluminar aos pés transitam ordens desconexas Penúrias penduradas n’angústias Quero ser uma flor o primeiro limite estabelece o siso Desfeitas de graças. para o teu jardim embelezar. o último rearranja as forças Estas vaidades traduzidas nas danças de batuques marimba, enfim. com que chuto as pedras Quero ser o mar Oh! danças de ekuetthe danças desconhecidas! Para as tristezas comigo levar desconheço a determinação -Será que não lembram destas danças? e as alegrias contigo deixar. da placa: disparo -Isto é mesmo que não lembrar do filho desta terra esquecida ah! ao encontro do corpo Que esperança falhada nesta terra de moldes, desfeita Quero ser borboleta contrário e o choque de estragar tijolos de adobe! Quero borboleta ser desintegra o mito Tristeza é a palavra que só se vos diz. Para um sorriso no rosto do teu jardim colocar. Nestes gritos esquecidos; da cordialidade. Gritos sem referentes, sem donos. Quero ser poetisa para palavras de amor te dizer Ah! que tristeza nos acolhe nestes abrigos sem reflexos! e seus ouvidos enlouquecer. Que pena nos impedem de sonhar! Esperança desfeita de mistérios dos magnos xicuembos Quero ser a rainha do teu coração e contigo para sempre ficar. Amo-te Sansão! Quinta D´Poesia: em “Noite de Revelação” mAPuto - Nos habituais encontros das primeiras quintas-feiras de cada mês, o grupo cultural Nkarin- gana Arte, proporciona verdadeiros momentos de recitação de poesia de novas revelações na poesia moçambicana. neStA quintA-feirA, não se foge a regra, o evento como sempre, teve lugar no Café – Bar Gil Vicente em Maputo, a partir as 18 e 30, e contou com ilus- tres figuras de cartaz na arte de declamar, tocar, e desta vez, em especial, acompanhado de um debate sobre um grupo de poesia, denominado “Canto da Poesia”, idealizado pelo já conhecido jovem poeta, Rafael Iguane, para além da presença de Eduardo Quive, quem falarou da revista digital, Literatas, um palco onde convergem várias formas de “Dizer, fazer e sentir a literatura” Os jovens Dudas Aled e Rãs Soto, dedilharam as guitarras acompanhando os recitais com a especial presença do grupo Nkaringana Poetry, Voka, Yacy Lurdes, Bimazonda. noS hABituAiS encontros das primeiras quintas-feiras de cada mês, o grupo cultural Nkaringana Arte, proporciona verdadeiros momentos de recitação de poesia de novas revelações na poesia moçambicana (Literatas) Escritora brasileira a caminho de Maputo” Das terras brasileiras, concretamente de São Paulo, a escritora Ana Rusche, ruma para Moçambique, onde efectuará uma visita de cinco dias. Ana Rusche, vem a Maputo, para desenvolver várias actividades de índole artístico - literárias, com o Movimento Literário Kuphaluxa. Dentre várias componentes, destaca-se a realização de uma oficina literárias, participação em saraus culturais do movimento e outros eventos artísticos da cidade, e vai entrevistas escritores moçambicanos, para além de orientar palestras com jovens amantes da literatura da capital moçambicana. Ana Rusche publicou Rasgada (Ed. Quinze & Trinta, 2005) e Sarabanda – Um caderno de Estudos (Selo Demônio Negro, 2007). Estreará em prosa com o romance Acordados (Ed. Amauta, no prelo), premiado pelo PAC – Programa de Ação Cultural do Governo de São Paulo. Posui poemas publicados em diversas revistas literárias, participou da Antologia Oitavas, org. Vanderley Mendonça (Selo Demonio Negro, 2006) e 8 Femmes, org. Virna Teixeira. (http://peixedeaquario.zip.net) fichA tÉcnicA Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Sede: Centro Cultural Brasil-Moçambique* AV. 25 de Setembro nº 1728, Maputo, Caixa Postal nº 1167 * Celulares: (+258) 82 27 17 645 e (+258) 84 57 78 117 * Fax: (+258) 21 02 05 84 * E-mail: kuphaluxa@gmail.com Director Editorial: Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com) Coordenador: Amosse Mucavele (amosse1987@yahoo.com.br) Editor - Canto da Poesia: Rafael Inguane (inguane.rafael@hotmail.com) Redacção: David Bamo, Nelson Lineu, Mauro Brito, Izidine Jaime, Japone Arijuane. Colaboradores: Maputo: Osório Chembene Júnior * Xai-Xai: Deusa D´África * Tete: Ruth Boane * Nampula: Jessemusse Cacinda * Lichinga: Mukurruza* Brasil: Itapema - Pedro Du Bois * Santa Catarina: Samuel da Costa * Nilton Pavin. * Portugal: Victor Eustaquio e Joana Ruas. Design e páginação: Eduardo Quive
  • 5. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 5 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 5 prosa EscrEViVêNciAs uMA prosA EM DosEs pArA ArséNiA crôNicAs DAViD BAMo - MAputo MArcELo soriANo - BrAsiL Dezembro de 2008, fim 1ª dose - Prólogo de um espetáculo alusivo Recebi com muito gosto o convite ao Dia Mundial Contra a para escrever uma crônica para a Sida. Uma jovem magra, Revista Literatas. Fico feliz e grato quase com minha altura, ao irmão Amosse Mucavele que bonita cabelos cumpridas disse-me: “Sabes, conquistaste o coração dos moçambicanos.”, referindo- se aproxima de mim e diz: se ao artigo publicado na Tempo Nº Zero (http://www.revista-tempo. Oi, gostei do show, com/) que foi relançada em Maio, recentemente. Mantenho firme, com apresentas muito bem! este tipo de intercâmbio, o sonho de ver/ler a riqueza cultural dos países da CPLP transitando livremente, sem fronteiras, de lá para cá, daqui para lá. Muito obrigado! Disse eu. Curioso, porque durante o evento vi uma 2ª dose - A microliteratura nas redes sociais jovem atenta a todos os meus movimentos, pois estivera sentada num Desde pequeno tendo a escrever com o mínimo de caracteres. Aquilo plano que a permitia controlar todos os meus passos. A sua saudação que seria uma mania estranha de um garoto que pensava demais e falava quase que precipitava as minhas. Moça que multiplicada por qualquer (e escrevia) de menos, hoje transformou-se em modismo cultural, coisa seria igual a simpatia! Com uma beleza mais por interior que propagado amplamente pelo Twitter, Facebook, Blogues em geral, do lado de fora do seu fisico. Esta jovem chamava se Arsénia. enfim, pelas chamadas Redes de Relacionamentos Sócio-Virtuais. Bem, - Eu sou David. Me introduzi! o que poderia dizer aquele garoto de antigamente, de poucas letras com - Não precisavas me dizer já te conheço! grande significado (ao menos para si)?! O garoto se encontrou, não Fiquei boqueaberto, tanta beleza e bondande feminina a minha apenas consigo mesmo, mas com uma proposta de literatura (e, por disposição, só podia se tratar de um sonho! Mas como um sonho? Se conseqüência, literatos jovens de todas as idades), tão espontânea, quanto eu sentia na pele e na alma o carinho fluente pelos países da CPLP. Críticas, estudos, discussões sobre o teor daquela criatura que Deus trouxera do Eden para dar brilho ao meu e a pertinência cultural das expressões literárias deste “novo” estilo de dia, naquela data! escrever... Bom, deixemos isto aos acadêmicos! - Vivo no Singathela, e tu? 3ª dose - Aforismos sobre Literatura - Também! A literatura é um mar de rosas de cabeças baixas. - Então vamos juntos para casa!?! Lembre-se: neste mundo, uma palavra vale muito mais que mil idéias. - Sim vamos! Nada de falar a verdade. Um poeta verdadeiro deve sempre escrever a Começava assim uma grande viagem de amizade entre duas almas, verdade. dois corpos, duas gentes que apesar das suas vivência diferentes Um grande escritor não é aquele que se libera ao ímpeto do escrever. partilhavam o mesmo sonho, fazer radio Um grande escritor resiste ao ímpeto de não escrever. ou televisão um dia. A poesia vem do nada, logo, poesia é tudo! A vontade de construir com betão e prata uma amizade entre nós, O escrever é superior ao redigir. foi mais galopante que as nossas próprias vontades! Arsénia e David Todo o poema pode ser melhorado. Todo o poema deve ser melhorado. consiguiram em tempo curto mais que o sentido da própria palavra, Não fosse assim, não seria poema. aproximar os seus seres e traçar a mesma história. Uma amizade do O universo uniu os versos... E esquartejou os poetas... tamanho da obra de José Craverinha. Nunca duvide da Arte de dormir operário e acordar poeta. Ao longo destes quatro anos de amizade fui aprendendo que os A poesia funciona quando o leitor sorri. encantos de uma mulher, não residem apenas nas curvas que O livro é uma gaiola de pássaros que canta para ser aberta. compoem o seu corpo, muito menos no cruzamento entre as suas Os menos preparados sempre sucumbem ao afã da palavra final. pernas, mas sim na personalidade! Conceito muito pouco conhecido O bom poema é o que nos lê. nos dias que correm. A verdade está situada em algum lugar ilegível entre as metáforas e as A nossa intimidade significou o fim do que nunca tive em mim, a parábolas. poesia, se não um conjunto de frases, versos e palavras gastas em O óbvio, às vezes, surpreende. almas satánicas que me fizeram sugar o veneno da Jiboa. Procurei todas explicações possíveis para conhecer o verdadeiro Quem passa a maior parte do tempo tentando ser genial, acaba se sentido dos nossos sentimentos, nenhuma resposta achei se não um tornando um gênio muito chato. tesouro chamado Amizade, possível de Nós que escrevemos tanto sobre amor, não é que o saibamos ao ponto de encontrar em terras onde abunda leite e mel. ensinar, é porque precisamos escrever; escrever ao ponto de aprender. Por isso eu digo, sem ser douto no assunto... Escrever também é amar. Todos cobiçavam indisfarçadamente o nosso relaccionamento! Poetas são árvores frutíferas que acharam mais produtivo perambular. Lambusavam se de vontade, queriam de ser um de nós. Se contorciam para sentir a doçura de uma amizade pura como o grito de uma Escrever é pura falta do que fazer quando se está com a agenda lotada. criança saindo do ventre da mãe. Já observaram? O livro aberto tem formato de pássaro. O nosso ninho chamou outros e juntamos o útil ao agradável! Não O autor é o Deus do livro, mas é comum deuses serem engolidos pela fomos, nem somos e nunca serenos só nós, porque sempre viajámos vaidade da própria criação. em outras vidas, buscando novos e melhores sabores para apimentar Há poemas que são auto-exorcistas. o lar que aos poucos iamos formando em nossas vidas! Apelo aos escritores: deixem de definir o amor e comecem a amar! Descobri igualmente que a mulher da minha vida não foi aquela Para o poeta ser amado é ser lido. Um livro de papel comestível venderia a quem devo a minha existência, muito menos a que me fezera mais (porque mataria, também, a fome do corpo). descobrir os apetites carnais, mas sim foi a Arsénia! Não sou, porque Por mais enfadonha que seja a nossa história de vida, largar o livro nem não quis aprender, todavia, a Arsénia ensinou me a ser verdadeiro. pensar! Escrevo primeiro; penso depois. Se pensasse antes, jamais escreveria. Pena que as palavras nunca dizem tudo o que sentimos, mas fica Escrever não é um caso pensado. esta prosa, que leva consigo o ritimo do Detalhes de Nós Dois, A minha grande certeza é a incerteza das letras de um poema não escrito. cantado pelo rei Roberto Carlos, pintada pelo mestre Malangatana. Poesia de verdade não é a leitura do mesmo, é a releitura do novo. Esta carta de reconhecimento ultapassa a dimensão da obra do Dan O Poeta se faz digno pelo strip-tease de suas palavras. Brown, o marximo resgatado por Lenin não chega aos calcanháres Ler com o lápis; escrever com os olhos. desta mensagem, feita por este pobre homem abanonado pela única mulher a quem ele não consiguiu satisfazer todos os seus desejos. A vida é uma luta diária. Em todos os amanheceres reiniciamos do nada. Mulher que as exigências da vida a levaram para as outras terras de Escrever é semelhante. Moçambique. Mulher que se as forças do além quiserem voltaremos A cisma da Ordem dos Poetas Alucinados é jamais saber precisamente o a cruzar o mesmo caminho! lugar correto e derradeiro do ponto final
  • 6. 6 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 6 - Discurso DirEcto Contadora de estórias que ilustram a história EDuArDo QuiVE - MAputo colonialismo. Muita raiva. Tinha a raiva da - Quero agradecer a oportunidade que o vosso movimento injustiça. Eu nunca me (Movimento Literário Kuphaluxa) me deu de estar aqui em Ida dos remotos tempos da dominação colonial conformava por tudo que via: conversa com os jovens e devo dizer que vos admiro. Realmente portuguesa nas terras moçambicanas e voltada massacres sofrimento, oPreSSão. iSSo vocês são amantes da literatura e esta conversa que aqui tive- dos horizontes do mundo fora, a escritora moçam- mos é muito significativa para mim. Já passei por mais de 20 bicana Lília Momplé, encontrou-se com aman- incomoda-me. tes da literatura para falar de si, da sua obra e do Mesmo quando casei-me, embora com um protagonismo em que expende a sua escrita nos branco, ele porque também não suportava leitores. Lília Momplé fora voz do nacionalismo, ver a injustiça disse que tínhamos que sair do mas hoje, aos 76 anos de vida, é a palavra que país. Foi assim que acabei vivendo no Brasil por se exalta na nova consciência e inspira as novas muito tempo. Escrevi o Ninguém Matou Suhura gerações. Mas não abandonou o seu nacional- porque eu queria conversar com alguém sobre ismo literário. Na conversa promovida pelo Movi- o que vi e vivi durante aquele tempo. Tinha que mento Literário Kuphaluxa, na última quarta-feira me revelar. em Maputo, a escritora brincou com as palavras e educou os literatos novatos, afinal de contas Lília, As outras obras «os olhos da cobra Verde» fora também professora. e um romance, intitulado «Neighbours» De nome completo Lília Maria Clara Carriére não fogem muito do quem caracterizou a Momplé, natural da Ilha de Moçambique, esta mulher que escreve o que lhe vai na alma, inspira primeira…? os jovens e nas suas obras, revela os mistérios da sua força nacionalista e pela justiça social. - O segundo livro também se baseou em Há quem diga que cada escrito da Lília Momplé, factos reais. Da morte de uma amiga que era é uma denúncia, mas a escritora prefere dizer que é muito boa gente. Ela tinha muita vida, se não um momento de desabafo, revelação, confidências mesmo ela era a própria vida. Isso foi muito e só o faz quando não aguenta mais se calar. doloroso e marcou-me. Eu tinha que escrever. “Há uma necessitada de se fazer valer a litera- O terceiro também foi mais uma revelação. tura oral. Esta forma literária é riquíssima e corre o risco de se esquecer. Com a literatura, há opor- tunidade de se criar riqueza. A literatura é a base Vivemos uma sociedade para o conhecimento e criação, e num país onde de negócios o “Busness há criação, já sabemos que se pode alcançar o Society”, onde o que desenvolvimento. vALe É o medíocre e países para falar da literatura de mim e das minhas obras, mas como é que surge a vontade de escrever? não deSenvoLvimento. a emoção que estar a falar com os verdadeiros mensageiros da literatura e que são jovens muito novos do meu país, que - Quanto ao ser escritora, sempre sobe que um tem em vista mais uma obra? mostram o verdadeiro interesse pelas artes, isso me deixa muito dia ia escrever, só não sabia quando. O gosto pela feliz. Obrigado Kuphaluxa. literatura herdei da minha avó. Ela era Macua e - Estou a preparar mais um livro, talvez seja o último. Ele E mais… se querem realmente crescer nesta área, leiam. habitualmente contava-nos estórias lindas da vai retrar o que chamo de “Busniss Society” (sociedade de Leiam muito. Assim o podem ser de facto uma nova geração tradição em volta da fogueira. Nesse momento negócios). O título poderá ser “Fantoches de Aços”. de escritores e eu tenho fé, que daqui a mais quatro anos ou eu dia para mim, «um dia vou escrever estas Nesta obra vai sair muitas verdades. É mais uma revelação menos. Um de vocês vai aparecer no sucesso e lembrar-se das estórias». de algo que me vai na alma, sobre os dias que vivemos. Onde minhas palavras. Continuem assim. Convidem mais escritores E ouve um outro acontecimento que significou as pessoas são insensíveis pelos negócios. Tudo eles fazem para estes encontros, que não seja apenas a Lília Momplé, os muito para mim: aos 13 anos, estudei no Liceu Luís pelo dinheiro. Pobres que sofrem e só discursos políticos jovens precisam destes momentos e eu sempre estarei ao vosso Salazar, uma escola que era apenas para brancos e vazios. Só para fazer negócios. É o Busness Society a que me dispor, para qualquer momento destes e outros. pessoas com as melhores condições. Eu era a única refiro. Essa sociedade não é a verdadeira moçambicanidade, negra e minha mãe teve que fazer muito sacrifício para que eu estudasse lá. Ela passava noites a cos- turar para poder pagar a minha escola, foi uma fase isso nos tira a identidade e aconselho-vos a sair dela. São Fantoches porque são; e são de Aço porque não tem piedade. No Busness Society o que vale é o medíocre e não BrEVE BiogrAfiA Lília Maria Clara Carriére Momplé, nascida a 19 de Março de muito difícil. Foi mesmo um acto heróico estudar o desenvolvimento. 1935 na Ilha de Moçambique, província de Nampula, a norte de lá. Tive um professor de que o nome não posso Moçambique, é Assistente Social de profissão, com licenciatura me esquecer: o seu nome é Rodrigues Pinto, era como é que se define Lília Momplé? em Serviços Sociais. professor de língua portuguesa. Mandou-nos fazer Lília Momplé, foi professora de Inglês e Língua Portuguesa uma redacção sobre o último de dia de férias. - Essa é uma pergunta muito difícil. Acho que não sei me na Escola Secundária de Ilha de Moçambique e directora da Feita a redacção e chegada a hora de entrega definir, mas vou tentar. Penso que sou uma pessoa coerente, mesma escola entre 1970 e 1981. Em outras missões, Lília dos trabalhos depois de avaliadas, ele foi chaman- que, por exemplo, não se pode adaptar ao Busness Society. Momplé foi, de 1992 a 1998, directora do Fundo para o Desen- do cada aluno para buscar o seu trabalho e o meu Porque não suporto injustiça. Sou coerente. volvimento Artístico e Cultural de Moçambique (FUNDAC) e de foi último. Confesso que fiquei com medo quando 2001 a 2005, membro do Conselho Executivo da UNESCO (Orga- não chamaram-me. Quando terminou a entrega A caminho dos 80 e com percursos brilhantes na sua nização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. aos outros ele disse chamou-me e disse que o vida literária, pensa ainda em fazer alguma coisa na No seu percurso literário, dirigiu a Associação dos Escritores meu trabalho foi magnífico. E dali, ele passou a Moçambicanos (AEMO) de 1991 a 2001, como secretária geral, ler a redacção em, toda escola. Fiquei muito orgul- literatura, para além do livro que vai lançar em breve? de seguida ficou presidente da Mesa da Assembleia-geral da hosa. Toda escola apontava no pátio por ter feito o mesma agremiação. melhor trabalho. Isso marcou-me muito e cada vez - Essa também é muito difícil de responder. Engraçado que O seu primeiro livro veio ao público em 1988, editado pela mais acreditava que um dia ia escrever. nunca pensei nisso. Sinceramente que não. AEMO, com o título «Ninguém Matou Suhura», uma colectânea Mas é assim…Não escrevo porque quer fazer alguma coisa de Contos; «Neighbours» romance publicado em 1995 e «Os E porque escreve? na literatura, aliás eu nunca quis fazer nada na literatura. Olhos da Cobra Verde» obra de contos publicada em 1997, Quando não tenho nada para dizer não escrevo. Então não também sob a chancela da AEMO. Escrevo porque me sinto honrada! quero fazer nada na literatura, por isso não falta nada para Ainda na arte, a escritora publicou o «Muhipiti-Alima» um Escrevo pelo desejo de contar e de descarregar fazer. Eu escrevo porque tenho que escrever. vídeo de drama, editado pela PROMARTE em 1997. os meus segredos. As obras da Lília Momplé, já foram editadas em Inglês, Ital- Qual é o segredo que quer deixar para uma nova gera- iano, Francês e Alemão. E o primeiro livro… “Ninguém Matou ção de escritores? Neste momento, a escritora faz parte do «Internacional Who´s suhura”, como é que surge? Who of Authores and Writeres» e desde 1997 é membro de - Que amem a literatura antes de querer ser escritor, porque «Honorary Fellow in Literature» da universidade IOWA dos Escrevi o primeiro livro porque só assim poderão ser os verdadeiros escritores. Eu não acred- Estados Unidos da América (EUA). ito em quem quer ser escritor, pois escrever tem que ser por Em termos de prémios, Lília Momplé, conquistou o primeiro tinha uma carga muito grande força de alguma coisa. Uma emoção forte. Você é um enviado prémio do concurso literário comemorativo da cidade Maputo, sobre o colonialismo em especial de algum sentimento. Mas se os jovens amarem a intitulado Prémio 10 de Novembro com o conto «Caniço» em Moçambique. Eu tinha raiva do literatura, farão algo por ela e nessa convivência, podem 1987. Melhor vídeo-drama moçambicano em 1998, com o vídeo ser escritores e bons escritores. Que sinceramente o nosso «Muhipiti-Alima». Moçambique precisa. Foi nomeada o Caine Prize for Africaan Writing, edição de 2001. fez parte dos cinco nomeados entre 120 escritores de tem mais alguma coisa a dizer? 28 países.
  • 7. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 7 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 7 “canto Da poEsia” sou um dessidente Lua cheia ser poeta NoMis EruDAM ANA DE sousA BAptistA sinto que bem recebido VicENtE sitoE Nico tEMBE E na voraz necessidade de me proclamar ser poeta é ser mais alto, é ser maior Em algum verso bem teso, tenho um grande favor por pedir Vadiando pelo percurso do anoitecer Do que os homens! Morder como quem beija! porque me confundo: primeiramente peço emprestado ouvidos indo e vindo vejo as nuvens desvanecer é ser mendigo e dar como quem seja Despir o meu veste? E ficar como? segundamente rogo ser deixado pedir trapaceando, se jogando ao porém do além rei do reino de Aquém e de Além Dor! Assim me desidentifico, por fim imploro para ser entendido Ao compasso descompassado de outrem corro o risco. Linda moça contra-curvada se faz ver é ter de mil desejos o esplendor ou logra-se que me dispa Não quero ser julgado porque não sei julgar invejada, cortejada lua aparecer E não saber sequer que se deseja! somente para que o mundo me veja? sem entrelinhas? Não quero ser desprezado porque não sei desprezar Nesta noite de lua cheia é ter cá dentro um astro que flameja, De novo me confundo Na minha vida aceito críticas sem negar A encontrei é ter garras e asas de condor! E adestro: os poetas não se despem. porque depois delas ajoelho e começo a rezar Mas é-nos consentido partilhar, Andando, desfilando entre os oásis é ter fome, é ter sede de infinito! cada pedaço de palavra sou um cidadão comum rolando, espalhando a sua classe por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... Que germina em cada orgasmo, sou um indivíduo como qualquer um Livre feito um pássaro voando ao mar é condensar o mundo num só grito! uma orgia com cada um de nós isolado. tentei ser cientista intocável, depreciável feito frases e terminei como um idiota Norteando alvoradas, iluminado palavras E é amar-te, assim, perdidamente... Eu respeito Manhiça Mergulhei em muitas teorias Descobrindo sonhos e concretizando-os ondulando, harpeando prazeres é seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente! DAViD gABriEL NhAssENgo Marxismo, capitalismo, africanismo socialismo, idealismo, sanguissuguismo Nessa noite a encontrei pelas suas terras... Até naveguei sobre todos dogmas há momentos a procurei Verdes de esperança Andei, naveguei e cheguei ate a voar Que se incorporam à maravilha dos solos Nutrindo de simpatia o semblante do seu povo Não sou um cão é a convivência que me faz parecido Nua, despida, em teus braços me lavei oh meu céu, minha Lua Noites da Minha cidade E expondo o sorriso contagiante das suas crianças Não estou a tentar me justificar Meu abrigo é em cada curva sua JEssEMussE cAciNDA - NAMpuLA Estou a seguir os meus instintos Bela e redundante se faz comparar ao seus seios são longas noites pelo seu povo... Espero voltar a vela, embaciada de estrelas Que passo aos sonos moribundos Único e muito especial fizeram da minha vida uma desgraça Me desespero no açoite Brioso sobremaneira e sensacional. Deram-me pão quando precisava de amor Daqueles que têm fundos Maravilhoso e esperançoso Que em desafios sociais, sempre vitorioso Na minha vida há muitos que veêm à caça procuram matar os meus sentimentos fazendo amor de joelhos passo! Versos de amor transfigura-se em povo heróico rAffAEL iNguANE Escrevendo Miticamente glorioso sou activista da paz, por isso não luto E versos de dor tive um percurso muito bruto Nossos corpos desnudos na noite fria No papel pintando pelas estradas... por isso sou assim tão estranho Meu olhar dividia Locais onde capotam as divergências Até não sou estranho, sou diferente todas partes do teu corpo fatia por fatia utopias metafísicas E correm as semelhanças. Meus lábios bebiam o néctar da tua boca vadia Acompanham as veias poéticas Asfaltos harmónicos de estradas calmas canto para não chorar tua pele crua minha língua lambia Que me levam a não dar ouvidos finjo que sou feliz para não perder peso Em nossa cama eras o meu prato do dia As críticas platónicas pelo seu poderio vocal... para espantar inimizades mantenho o sorriso No teu ouvido minha voz sussurava a poesia Que ressoa admiravelmente no canto coral continuo vivo para cumprir a missão evolutiva Dizendo “amo-te” de formas diferentes, usando a melodia Muikhwiris¹ rondando a minha palhota fiz de ti uma gostosa iguaria Voando na peneira para qualquer frota pela produção... Não sou nenhum revolucionário temperada com piri-piri, meu talher genital ardia prostitutas sem medo circundam colossal da banana porque sequer consegui mudar a minha vida A cada toque teu, meu apetite crescia o matador² e de carro em caro saltitam E da batata-doce de polpa alaranjada Não sou nem sequer reaccionário Era bom o sabor que em minha boca perecia Vendida à beira da estrada. porque não tenho nada em contrapartida é tempo de fazer dinheiro Lá estavas tu implorando-me Que é o bem supremo pela beleza... sou um cidadão comum gemendo suavemente pelo mundo inteiro Da variedade e significância das capulanas não um idiota como qualquer um Dizendo, ama-me e coma-me outros roubam, outros agridem E do grito comovente das nossas mamanas. sou um candidato ao novo mundo Mas de repente, E sobre o corpo de outrem, outros se estendem Quero sentir o sabor da nova geração passei meu dedo, estavas molhada, lubrificada e quente por temor... Mesmo no escuro eu te via deitada de cócoras E eu, rico de tanta pobreza Que me deixa com tremor Aliás, quero ser o próprio sabor Não podia ver, não queria e nem sabia as horas confesso os pecados que cometi durante o dia pois o mal ainda habita nas curvas do alvor com uma dose eloquente de poesias Minhas mãos serenamente apalpavam teus seios com coragem e frieza E nas das nossas belíssimas meninas Quero ser desfrutado a garfo e faca Eu de joelhos Escrevo esta poesia Entendidas em feitiçarias. por isso sou um candidato um som afro-reggae invadia meus ouvidos Aventurei-me na maravilhosa vista do teu corpo Baza lixa* Ao novo mundo da literatura E fui beijando carinhosamente tuas costas gLossrio Ando de incoluane a Maluana idiota que escreva poesias idiotas pele doce, lisa e cheirosa como as rosas E de calanga a Mirrona cidadão comum que todos gostem (1) feticeirio em Emakhuwa, língua a de Nampula sempre, respeitando Manhiça Quero ser activista da paz e do amor penetrei, (2) Nome do meu bairro Ao som da música eu coreografava as penetrações LEgENDA: tenho um grande favor por pedir Num passo de dança alternavamos as posições primeiramente peço emprestado ideias sentia o aumento dos teus batimentos cardíacos *Ao raiar do sol segundamente rogo para não ser julgado Em nossa dança eu ia acelerando os passos Deliciando a com beijos ardentes e cheios de desejo por fim... imploro para ser entendido Domado pelo prazer, eu puxava teus cabelos completando o pequeno e destemido verso. ouviam-se gritos, rugidos e latidos Alguns nomes atractivos e gemidos o verso sem pudor arranca-lhe as vestes Exaltação E ah, ah ,ah, ah Deita-se no seu leito e Lá estavamos em ritmos sincronizados Lambuza os pontiagudos e duros mamilos dos osório chEMBENE simultaneamente atingindo orgasmos sucessivos. seus seios pomposos preto, olha para cor da tua pele percorre em seguida todo seu corpo nu Menino preto, o que fazes tu ai? é preta patrão satisfazendo com doçura os seus desejos. procuro a minha pessoa, é a raiva de quem me ferre Abrasado de tesão penetra as suas genitálias o eu que se esconde de mim. pEtEr pEDro piErrE na estrofe ansiada. Mas preto, tu és homem de cor Mas preto, o que fazes tu ai? Aah… então é por isso… Maravilhada pela beleza impar e indescritível Endurecidas genitálias cantam odes ofegantes Busco por minha alma, por isso é que não me das valor da virgem Deusa branca numa dança frenética A única escrava de mim. Minhas palavras transbordam de tesão lírica E num estugado balançar de rimas tu és um bicho, não tens coração Entrelaçam-se e chocam-se de forma abrupta sedentas debruçam os versos lascivos Mas preto escravo, de que falas tu afinal? fique sabendo branco E vão de encontro a aquela Deusa perspectivando a penetração nas outras duas Eu também tenho alma patrão Que eu me orgulho de ser preto, preto carvão. Enlaçam e acariciam delicadamente os deliciosas estrofes sou humano, não animal contornos curvilíneos do seu corpo E um orgasmo múltiplo para concluir o poema sobre o subtil e enlaces corpo da virgem Deusa branca. grupo Do fAcEBook: http://www.fAcEBook.coM/hoME.php?sk=group_185846178099556&Ap=1 rEspoNsáVEL: rAfAEL iNguANE
  • 8. 8 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 terça-feira, 12 de Julho de 2011 https://revistaliteratas.blogspot.com 8 Em outras paLavras O veneno de Sócrates … Foi pois sob o «veneno de Sócrates» que Carlos Antunes sucumbiu entre as pernas da mulher, com os lábios ainda molhados de sucos vaginais … rosa, como sucedia com os judeus. É sabido que os nazis não precipício do prazer supremo; mas de menores, seres humanos resistiam a dar umas boas gargalhadas sempre que abriam as ainda a caminho da consciência plena da sua sexualidade. Victor EustAQuio - LisBoA câmaras de gás. E compreende-se. Corpos e mais corpos, todos No Chile, o caso «Wena Naty» é paradigmático. A história amontoados, todos rosados. Não é por acaso que a diáspora começou com as imagens amplamente divulgadas, sobretudo I. judaica escolheu o azul para o centro da sua bandeira nacional, a na Internet, de uma jovem de 14 anos, estudante de um colégio Carlos Antunes foi vítima de homicídio por envenenamento. Com estrela de David, que traduz a primeira territorialização soberana católico, a abocanhar o falo erecto de um rapaz num dos parques diligências várias, e após uma investigação exaustiva mas secreta sionista: o Estado de Israel. Pelo menos é a tese defendida por mais frequentados de Santiago, à luz do dia, enquanto um amigo sobre o verdejante mundo dos alcalóides venenosos extraídos de alguns especialistas que, melhor do que ninguém, sabem explicar da dupla, ou amigos – há várias versões – registava às escondidas plantas facilmente acessíveis a um olhar botânico mais atento, Maria estas coisas, embora não esteja ainda muito claro o porquê do o famigerado felaccio juvenil. As provas materiais da degustativa Clara, uma mulher fogosa e apetrechada, que nunca se opôs aos azul em prejuízo de outra cor primária como o amarelo ou o ver- felação levaram milhares de visitantes ao sítio que as publicou criativos desejos carnais do marido, que incluíam práticas sexuais melho. É certo que o azul é a cor da espiritualidade, da abóboda online e as autoridades locais a investigar o assunto depois de um tanto ao quanto invulgares, decidiu untar a vagina com cicutina, celeste (ou a ilusão da mesma, que no espaço a imensidão de considerarem que havia fortes indícios da existência de um uma substância tóxica mortal insípida com a aparência de um óleo negritude bem que poderia ser o paraíso cosmológico das mais grupo organizado de adolescentes que se dedicava à produção amarelado. variadas diásporas subsarianas, faltava aqui Isaac Newton para o de material pornográfico. Wena Naty, a rapariga da garganta Extraída da cicuta, uma planta apiácea também conhecida como sugerir); a cor de um céu limpo e imaculado, o que faz supor uma prematuramente funda, ficou conhecida em todo o Mundo, tal abioto, a cicutina, ou em rigor, a cicutoxina – que ficou inscrita predisposição para uma maior proximidade com as divindades como o nome dela, que entrou inclusive para o património lexical na História como o «veneno de Sócrates» – provoca o colapso que erram pelo universo; mas remete também o pensamento e, daquele País sul-americano. «Dicese de la mujer ke le gusta lamer do sistema nervoso central e, por conseguinte, a morte, que, por já agora, para um grupo de artistas de inspiração expressionista, una y otra vez el miembro inferior masculino, sin importarle de sinal, não é coisa bonita de se ver. Pelo menos desta forma (já que curiosamente germânico, o Der BlaueReiter, ou O Cavaleiro Azul. kien es», «cabra culia q le chupa el pico a todos los compañeros» a mors, no sentido da mitologia greco-romana, até pode assomar Poder-se-á aduzir o argumento de que o azul simboliza a lealdade, ou «pequeña prostituta que le gusta hacer mamadas en plazas y de modo exuberante, como uma bela e flamejante imolação por a fidelidade, a personalidade e subtileza. Trata-se, com efeito, de ser exhibida en youtube» são algumas das definições que podem fogo). Mas não é o caso. Que o diga o filósofo grego, se ainda falasse, uma cor romântica, talvez porque lembre a cor do mar, mas está ser encontradas para a expressão «Wena Naty». ou escrevesse, após a famigerada ingestão do chá de cicuta que igualmente associada à falta de coragem ou monotonia. De resto, foi justamente com este nome que se popularizou lhe arrefeceu e enrijou o corpo. É certo que o ataque tóxico não foi Por seu lado, o amarelo transmite calor, luz, descontracção; é o sítio que divulgou os três vídeos malditos da perversa filha imediato. Sócrates ainda teve tempo de andar às voltas pelo quarto, uma cor cheia de energia, activa, associada à prosperidade e que da blasfémia, entretanto removidos pela Justiça. Sublinhe-se, mergulhado nos seus profundos e derradeiros pensamentos até transmite optimismo. Tal como o vermelho, a cor da paixão e do todavia, que a perfilhação demoníaca nunca chegou a ser que começou a sentir as pernas pesadas. E aí sim, depressa passou sentimento, do amor e do desejo, do orgulho e da violência, da estendida ao co-protagonista masculino, uma vez que, cremos das voltas pelo quarto ao quarto às voltas, desaire locomotor que agressividade e do poder. Mas os hebreus assim decidiram, e está nós, em terrenos da Igreja e da fé – a Católica Apostólica Romana, obrigou o pensador ateísta, um malévolo instigador da corrupção decidido. Para acabar de vez com a humilhação da morte cor- que as outras não são para aqui chamadas – quem manda são moral dos jovens gregos, a deitar-se de costas. Os seus carrascos de-rosa, e a fragilidade, delicadeza e o pendor feminino que lhes os homens. É que, apesar de todos os encantos do misterioso examinaram-lhe os pés e as pernas até se certificarem de que são inerentes. Até nisso o nacional-socialismo alemão foi cruel: feminino tão exaltados pelos vários movimentos intelectuais o filósofo havia deixado finalmente de as sentir. Seguiram-se as chacinou a praga judaica sob o jugo da efeminação. fruto do romantismo europeu, as mulheres servem para pouco. carícias mitigativas da toxina no coração e o princípio do fim da De certo modo, também foi este o destino de Carlos Antunes: Basta lembrar o que o Senhor Deus disse no acto da criação: existência cartesiana, ontológica e epistemológica do enigmático nu, de rabo para o ar, com a língua enfiada na vagina ardente e “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe um ajudante pai da filosofia ocidental. possessa da mulher, com o corpo inerte e sem vida. Um homem em conformidade”. Então o Senhor Deus formou da terra todos “E agora chegou a hora de nós irmos, eu para morrer, vós para desvirilizado na hora definitiva e irreversível da partida. Por efeito os animais selvagens e todas as aves do céu, e trouxe-os ao viver; quem de nós fica com a melhor parte ninguém sabe, excepto do seu desejo mais primitivo e animalesco atacado selvatica- homem para ver como os chamaria; cada ser vivo teria o nome Deus”, ter-se-á despedido Sócrates, o ateu, que aparentemente mente por um clítoris venenoso. O doce veneno do escorpião, que o homem lhe desse. E o homem deu nome a todos os animais acreditava no Senhor, como relata o seu discípulo Platão, lançando esse temível aracnídeo que nem no Zodíaco escapa de ter fama domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens. Mas a dúvida sacrossanta dos filósofos, que pouco tem de sagrada para de má rês. Um invertebrado artrópode cujo móbil gravitacional entre todos eles não havia para o homem um ajudante em con- o venerável e sacro conhecimento daqueles que condenaram o é tão-só o prazer e a posse na sua relação com o outro; o sexo e a formidade. Então o Senhor Deus fez cair um sono profundo sobre pensador à morte em nome da santidade. E provavelmente de paixão possessiva; o amor e o ódio; sempre pronto a atacar. Não o homem e ele adormeceu. Tirou-lhe uma das costelas e fechou o alguma, ou muita, necessidade de sanidade religiosa para tempos foi este o animal enviado por Apolo para matar Órion, enciumado buraco com carne. Depois da costela tirada ao homem, o Senhor tão adversos.Foi pois sob o «veneno de Sócrates» que Carlos com a relação entre este e a sua irmã Ártemis? Não está cienti- Deus formou a mulher e apresentou-a ao homem. E o homem Antunes sucumbiu entre as pernas da mulher, com os lábios ainda ficamente demonstrado que as estrelas de Órion desaparecem exclamou: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da molhados de sucos vaginais. E de uma dose letal de cicutoxina. do Ocidente quando as do escorpião nascem no Oriente? O sexo minha carne! Chamar-se-á mulher porque foi tirada do homem”. Uma mise-en-scène clitoriana indigna para um homem de tão alta oral sempre teve destes problemas. Foi justamente através de um Está tudo escrito no Antigo Testamento. Quem somos nós para posição na sociedade, condenado, também ele, a ser imortalizado, pequeno vídeo caseiro, no qual se via uma mulher a lamber à força contrariar os desígnios do Senhor Deus, nosso pai? Primeiro, há pelo menos ao olhar de Maria Clara, com a boca caída sobre a púbis os baixios vaginais de uma adolescente – à força é como quem diz, o homem. Depois há os animais e as mulheres, cada uma das aloirada da mulher e o corpo retesado, nu, de rabo para o ar. Quem porque a menor estava inconsciente – que Karla Leanne Homolka espécies com os seus respectivos deveres e obrigações para deles ficou com a melhor parte ninguém sabe, ele que partiu para (a retratada no filme) e o marido Paul Bernardo, um casal de serial com o homem, em nome da vontade divina. morrer, ela para viver; porém, Maria Clara pouco se importava com killers canadiano, foram apanhados pela polícia. Após o felaccio da jovem chilena, Wena Naty, o sítio da web, o assunto pelas razões de que estava convencida ter, razões que, Após dezenas de casos de abusos sexuais e assassinatos vio- mostrou mais. Ainda chegou a aventurar-se pela libidinosa adren- do seu ponto de vista, legitimavam em absoluto a prática daquele lentos de mulheres adolescentes que se arrastaram durante três alina do bullying, mas os falos erectos e robustos abocanhados nefasto gesto assassino. longos anos. Aliás, esta onda de produção de vídeos ditos caseiros por pequenas e pueris bocas femininas é que faziam sensação. Não deixa de ser curioso, contudo, no quadro deste bizarro com imagens de natureza sexual mais ou menos explícitas tem Daí que se seguiu mais um caso, de novo num colégio, agora crime vaginal, que alguns investigadores forenses tenham perdido muito que se lhe diga. Sobretudo quando caem na rede. Não franciscano, um pouco mais distante do centro nevrálgico da imenso tempo, na fase das entrevistas periciais, a tentar descobrir se supomos, apesar de tudo, que valha a pena perder muito tempo capital, mas ainda situado nos limites da região metropolitana de a expedita companheira marital de Carlos Antunes, que acreditava com o assunto. Tanto mais que o mesmo está devidamente docu- Santiago. Desta vez, o protagonista central foi um estudante de ser tanto a esposa de Cristo como a esposa do Senhor (o que vai dar mentado e até se transformou numa prática comum com intuitos 14 anos, um aluno problemático e, por conseguinte, repetente, ao mesmo, embora a Igreja diga que não), terá chegado a atingir o nem sempre muito claros. Os visados tendem a queixar-se, com que conseguiu derramar as sementes líquidas das suas glândulas orgasmo de tão excitada que estava em atentar de forma definitiva ameaças várias em conformidade com a natureza e a dimensão reprodutoras sobre as línguas e os lábios de pelo menos de três e irremediável contra a integridade física do seu esposo. A avaliar da publicidade dada às imagens, mas o protagonismo mediático raparigas de 12 anos. A diferença é que o fez, entre ruidosos pelos fulgores a que costumava dar-se no acto do amor, como que decorre destes já célebres vídeos leva a crer que o fenómeno gemidos, em plena sala de aulas à frente de toda a turma. Uma, várias fontes próximas da homicida corroboram, é bem provável digital, que enferma de contornos claramente neuróticos – dize- duas, talvez três ou mais vezes. Por estranho que pareça, ninguém que tenha chegado a sentir as tão populares contracções reflexas mos nós, embora se remeta a questão para quem melhor seja sabe ao certo quantas foram nem as condições em que foi pos- ritmadas dos músculos perivaginais e perineais que circundam a capaz de a avaliar – será bem mais objectivo, nos efeitos que sível que os supostos factos ocorressem e de forma tão reiterada. vagina, a intervalos de 0,8 segundos. Para isso, e não obstante estar visa produzir, do que um mero e subjectivo fetiche, posicionado Mas há imagens que o provam, captadas com telemóveis. As consciente de que o seu centro gravitacional de prazer ocultava um a montante, como alguns defendem. Tudo somado, a verdade é alegadas vítimas acusaram o rebelde de as ter forçado a tão alcalóide altamente venenoso, Maria Clara terá de ter sentido uma que, a jusante, o resultado é o mesmo. Para delícia dos cibernau- ignóbil prova oral perante o olhar impassível e complacente dos vasocongestão e o início da lubrificação vaginal, com os pequenos tas adeptos deste voyeurismo pastoral.O que parece dramático restantes alunos, tanto rapazes como raparigas. lábios ingurgitados a assumir uma coloração intensa arroxeada ou é o crescente apetite pela inocência roubada, uma liberdade Em contrapartida, o presumível autor dos desenfreados crimes cor de vinho e uma retração do clitóris em posição protuberante eufemística a que nos damos ao luxo de recorrer para sublinhar sexuais alegou que as bocas das meninas abriram-se milagrosa- a colocar-se por trás da sínfise pubiana. São meras suposições a problemática da devassa da intimidade por meios ilegítimos mente, com o devido consentimento, para receber a jeito e com fisiológicas, mas a ciência forense a tal se vê obrigada em busca (ou quase, porque nestas coisas da legitimidade a zona cinzenta prumo o seu membro viril, determinado a distribuir esperma da validação das suas descobertas, tantos mais que é delas que é extensa e pantanosa). Devassa, pois não se trata de gente adulta, pelas demais, que se infiltrava pelas narinas e corria em longos depende, em parte considerável, uma boa acusação judicial e a ou no limite legalmente emancipada, a sopesar, lamber, sugar, fios gelatinosos pela boca e o queixo de cada uma das raparigas. deseja condenação da ré. tilintar, penetrar ou deixar penetrar as protuberâncias e os orifícios por terra o anonimato das filhas amadas; e, por fim, ouviram Quanto a Carlos Antunes, apesar de não ter sido tarefa fácil erógenos e ejaculadores dos seus corpos suados e tensos, no igualmente o presumível coleccionador exibicionista de felaccios. remover-lhe da boca e da língua os restos de pêlos púbicos da Ouviram, condenaram, mas ninguém foi sentenciado mulher, pelo menos o seu corpo não apresentava um tom cor-de- continua