Revista literatas edição 16

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Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona

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Revista literatas edição 16

  1. 1. Literatas Não conhecemos o preço da palavra. Envie esta revista a um amigo Literatas agora é no SAPOSai às Terças-feiras literatas.blogs.sapo.mz Encontre-nos no facebook Literatas Revista de Literatura Moçambicana e LusófonaDirector editorial: Eduardo Quive * Maputo * 01 de Novembro de 2011 * Ano 01 * Nº 16 * E-Mail: kuphaluxa@sapo.mz “Escrevo para extravasar sentimentos” - fátima porto, em discurso directo na literatasBasta deser gente PArtIDA SeM O FIM DAS regreSSO PArA cArtAS uMA terrA IncógnItA Pág. 3 Pág. 2
  2. 2. 2 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 2Em primEiraDos Frutos do Amor e Desamores até à Partida de Adelino Timóteo:Partida sem regresso para uma terra incógnita EDuARDO QuivE - MAPuTO FOTO: FRANciScO JúNiOR dura realidade, mas que não faz parte deveria fazer parte desafios manter intercâmbios com outros grupos de outrasEra para ser umaviagem temporária,com ida e volta. Está-vamos a caminhode uma cidade, cujachegada estava pre-vista para o mesmodia e a partida deregresso, para o diaseguinte. Essa cidadechama-se Xai-xai, acapital da provín-cia de Gaza, terrasque avizinham-sede Maputo, de ondevinha o MovimentoLiterário Kuphaluxa.O propósito dessapartida programadaera um e único –“dizer, fazer e sentira literatura” com osirmãos da Associa-ção Cultural Xitendedaquela província.E foi cumprido oobjectivo. Contudo,ouve imprevistos –tivemos um acolhi-mento acima das nossas expectativas, fomos vítimas de deste artigo. províncias e juntos “dizer, fazer e sentir a literatura”um magnífico atendimento, tivemos ataques cardíacos e Ah! Xai-xai também é tranquila, outra diferença com a cidadeficamos por lá. que ainda é das acácias (Maputo). E o sarau vai começar. Anuncia-se a nossa presença no local. VIAJEM A XAI XAINo princípio da tarde do dia 29, chegava-mos nas terras E volto a repetir, éramos sete: Eu, Amosse Mucavele, Améliaque os nativos designam por Ka Ntxai-ntxai (designação Matavele, Francisco Celestino Júnior, Izidine Jaime Japoneem Changana), antes chamadas por João Belo, em hom- Arijuane e Nelson Lineu. O ar misturado de vozesenagem a um administrador português, na era colonial. O Xinyamukwasa e Deusa D´África apresentam o evento e nosSarau Cultural em que íamos participar, intitulado “Versos glorificam. Acima de tudo glorificam o dom de amizade que calava os nossos murmúrios da alma.ensanguentados” tinha o seu início as 18 horas e para os dois combinados têm.além desse intercâmbio Cultural entre a Xitende e Kupha- Estavam presentes o director da Casa Provincial da Cultura Os corpos em seus assentosluxa, era a final de um concurso de poesia entre escolas de Gaza e o delegado de Gaza do Arquivo do Patrimóniosecundárias locais. Cultural (ARPAC) e oferecem ao Kuphaluxa uma lembrança viam-se abraçados aos apertos do outro.Mas antes disso, há algo por relatar. A viagem. Da Junta, – um livro, e o Xitende ofereceu um Diploma de Honra, peloterminal de transportes inter-provinciais em Maputo até nosso contributo na promoção e criação de uma identidade Meus olhos apalpavam o mundo fora.a cidade de Xai-xai foram vários os momentos marcantes. própria no ramo das artes e cultura.Durante a viagem, nasceram versos, cresceram amizades, Mas não se pode oferecer a quem não dá. Por isso demos. A natureza caia na minha vista em jeito de verde.alojaram-se conhecimentos, repousaram os ares da liber- Não imitando o gesto, mas incumbindo outras responsabili-dade e a imensidão logrou os seus intentos: Francisco dades à aquele grupo que torna Xai-xai representativa a nível Um espaço aberto ao ventoJúnior tinha saudade do além que vive e a loucura voltou nacional. O Movimento Literário Kuphaluxa, retirou do seua apoderar-se do seu corpo e pariram-se seus versos. acervo bibliográfico, livros e revistas que ofereceu a Associa- Fingia condicionar o ar daquele ombro que nos carre-Outros apuros surgiram, gritaram outros versos perversos ção Cultural Xitende e a Casa Provincial da Cultura de Gaza. gava.e dispersos. Livros de literatura Moçambicana e Brasileira (livros brasileirosEra Izidine Jaime, despido de si, para um outro ele. Não oferecidos ao Kuphaluxa pela Ana Rusche e Rubervam Du Conversávamos para espantar o silêncio.evitou dizer palavras, estas que comoveram Amosse Nascimento, escritores daquele país latino-americano) e aMucavele, o ensaísta do movimento, considerado extra- Revista Proler, carinhosamente fornecida ao Kuphaluxa pela Uma voz ecoando ao som da músicaterrestre pela espontaneidade da sua criatividade. Um direcção da mesma.autêntico atirador de verdades em chãos ardentes das Com esta oferta, o propósito era único. Levar a leitura para Há quem seguia o rítmo num balançar da cabeça.letras. Comovido, disse poesia “Até então Xai-xai é uma aquele ponto do País e fazer conhecer as novas tendênciasincógnita”. literárias. Sai de mim por um momento.E não eram apenas estes, Japone Arijuane, se expressou Xai-xai foi muito naquele sábado datado de 29 de Outubro.de óculos escuros, Nelson Lineu, agora assimilado para Descrever tais momentos seria uma missão impossível. Uma Meus olhos conversavam com as árvoressecretário-geral deste movimento que ainda se faz bebé e noite em que “versos ensanguentados” untaram a todos nósAmélia Matavele também suspiravam ares do destino que de sangue. O sangue da vida. O sangue de amor as artes. Amor Sem muito afecto com o tempo.se procurava atingir com demasiada ânsia. Eu também a literatura. O sangue que catalisa corpos celestes que formamestava lá. Eu também Eduardo Quive. o horizonte desconhecido. Algo inatingível. A supremetudo Havia gente naquele espaçoAgora sim. Chegamos a Xai-xai. Começamos pelo edifí- do amor que revelamos a este enigma que se chama leituracio do Conselho Municipal Local. Tiramos fotos. Depois e escrita. E tudo isto, devemos ao Calane da Silva que ajudou- Contemplavam o mapa do abandono.chegara uma autoridade que nos expulsou do local. Era nos financeiramente para esta viagem. Xai-xai nos conheceuproibido usar aquela vista para ilustrar fotografias. Isso pelas suas mãos homens. Viva para nós e por nós. Que vivam O suor dos campos transbordando as culturas,não sabíamos. Na verdade, chegávamos a uma cidade também os membros do movimento Kuphaluxa que nãoque em tão-pouco se difere de Maputo. Maputo é cidade hesitam em contribuir do seu próprio bolso para o andamento casas vestidas de capimde lixo e Xai-xai não e o mais curioso, há latas de lixo em deste grande sonho.qualquer lugar, as mesmas não tem aderência e a cidade Que vivam os membros do Xitende que proporcionaram-nos Nos desejavam boa viajem.continua limpa. Diferentemente de Maputo onde são momentos de glória e fizeram-nos acreditar que Moçambiquecontentores tão grandes, cheios e a cidade ainda a levar é pequeno, apesar dos 799.380 quilómetros quadrados que Viajávamos a Xai-Xaimoscas e cheiro nauseabundo no seu seio. Em fim… ocupam. Estava previsto que de lá voltássemos, mas três dias depois, nos demos conta ainda lá presentes. E são próximos Dizeres De Izidine Jaime
  3. 3. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 3 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 3Em primEira Hoje já não se escrevem cartasHoje já não se escrevem cartas como acontecia no antigamente. Ou se quisermos, as cartas sãoagora escritas duma outra forma : através do insubstituível “electronic-mail” e das mensagens portelefones celulares. A linguagem é obviamente clara, sintética, breve. Não há lugar para divagaçõesmais ou menos longas capazes de oferecer àquele que escreve momentos de particular prazer... Ao Compadre Adérito Silveira tentativa de estender o seu pensamento até às proximidades esperou pacientemente, ao longos de anos, por uma da sabedoria. Recordo-me, por exemplo, das maravilhosas car- MARcELO PANguANA - MAPuTO carta do governo que traria tas que o “mestre” David Mestre escreveu para o escritor baiano a reforma que ele tinha Jorge Amado, enaltecendo a sua arte, a beleza da sua escrita, direito, como recompensa falando sobretudo do mundo dos afectos e desafectos em que de muitos anos de guerra. os dois viviam. Da correspondência entre Goethe e Schiller, Mas todos, naquela cida- cada um actuando para o outro como um tipo de interlocutor, dezinha, sabem que essa aprumando assim a sua imaginação e a sua escrita. Entre Cas- carta nunca mais chegará, tilho e Camilo. Ou entre Tchékov e Górki. Todos eles escreventes incluindo ele próprio. Mas de cartas que resistem ao tempo e que correm o risco de se o velho coronel não se can- tornarem legados eternos da nossa civilização. sa de esperar. A esperança No bairro onde vivo existe um senhor que vive de fazer cartas. não é, afinal, a última coisa Para isso montou um modesto escritório no mercado do lugar: que morre ? Bonita história, uma pequena mesa onde ficava instalada uma velha máquina esta do Gabriel! de dactilografia, uma cadeira de jambire que dava costas a um Hoje já não se escrevem calendário que ostentava a figura de Nelson Mandela. Chegava cartas como acontecia no no seu escritório logo de manhã, sempre de fato escuro, sem- antigamente. Ou se quiser- blante carregado, ombros curvados, como se estivesse a carre- mos, as cartas são agora gar nos ombros toda a sabedoria do mundo. Trazia os sapatos escritas duma outra forma iguais àqueles que usavam os dançarinos de “twist” na famosa : através do insubstituível época do Chube Checker, e um desses chapéus escuros que “electronic-mail” e das me faziam lembrar os conhecidos chapéus do poeta Fernan- mensagens por telefones do Pessoa. O senhor Lampião, que é assim que se chamava o celulares. A linguagem é fazedor de cartas, escreve muitas todos os dias, encomendadas obviamente clara, sinté- por gente que de manhã à noite lhe batiam a porta da casa, tica, breve. Não há lugar desde cartas para familiares a viver numa localidade ou alde- para divagações mais ou ia longíquas, a informar que uma tia qualquer que podemos menos longas capazes de chamar Maria acabava de trazer mais um filho ao mundo, cartas oferecer àquele que es- dizendo, por exemplo, que um tal Ngomane acabara abando- creve momentos de partic- nando as minas da terra do rand e agora estava na cidade de ular prazer. As mensagens Maputo, o corpo terrivelmente debilitado, uma tosse produtiva telefónicas empobreceram a se ouvir constamente no silêncio dos becos. Cartas para pedir a escrita e a própria língua. emprego ou para acabar com ele. Outras de um amante zeloso Com o desaparecimento a desculpar-se a uma amante pela mesada do mês passado que do hábito de escrever car- não chegou de ser enviada. Se tornara enfim o senhor Lampião,Hoje já ninguém escreve cartas como acontecia no an- tas quase que também desapareceu uma profissão que por via do seu ofício, uma figura de prestígio. De modo que pas-tigamente. Já ninguém pega uma caneta de tinta per- noutros tempos teve muito prestígio : a de “carteiro”. sando pela rua, toda a gente o cumprimentava com o devidomanente ou uma esferográfica para enfrentar uma folha Um carteiro era aquele que batia a porta da nossa casa respeito e dizia : “Lá vai o escritor de cartas”. E o senhor Lampião,em branco. Já ninguém faz isso. Nos tempos que correm para nos trazer notícias vindas de perto ou de longe. As com o seu passo lento, como se todo o tempo do mundo lheas cartas deixaram se substituir por meios mais rápidos cartas que depunha em nossas mãos podiam nos tornar pertencesse, respondia com um vagaroso e distraído aceno, sede comunicação, provavelmente mais eficazes, como os muito felizes ou nos deixarem muito tristes. O carteiro calhar a escrever naquele preciso momento mais uma carta.telefones celulares e o famoso correio electrónico. Eu era uma espécie de um novo membro da família. Um Quem sabe ?que sou de um outro tempo, lembro-me das cartas que disfarçado conselheiro. Conversava connosco. Com aescrevia quando na década de setenta, durante a guerra nossa mulher. Com os nossos filhos.colonial, cumpria o serviço militar obrigatório. Afastado Escutava as estórias das nossas vidas.de tudo e de todos, escrevia cartas para amainar a solidão Oferecia o seu ombro amigo e deixavae sentir-me mais próximo daqueles que mais gostava. ficar a sua opinião à quem precisasse.Escrevia em longos blocos de papel, tão longos como a Como as cartas deixaram de existir, osminha saudade, ou em aerogramas que nos isentavam carteiros agora se contam aos dedos,de qualquer taxa dos correios, fazia isso durante “a hora ou melhor, já não se contam.maconde“, que é a designação que algures, em Cabo Del- Sabe-se lá se é pelo facto de não segado, se dava ao espaço de tempo em que os “turras” não escreverem cartas como no antiga-atacavam. Escrevíamos à namorada cartas inflamados mente que os nossos filhos deixaramde amor inspirados nas revistas de Corin Telado, cartas de escrever bem. Quem sabe se opara os amigos, os velhotes, ou para a zelosa madrinha facto de passarem o tempo a redigirde guerra. Lembro-me das cartas que alguém escrevia e mensagens nos telefones celularesem seguida enviava à si próprio, cansado de esperar por não terá reduzido a sua capacidadeuma correspondência que nunca mais chegava. discursiva, a imaginação, a criativi-Naqueles tempos as pessoas gostavam de escrever cartas, dade e obviamente a escrita ? Não émesmo que o domínio da língua portuguesa não fosse lá verdade que todo aquele que tem porgrande coisa e tivesse alguma semelhança com os dis- hábito escrever cartas se torna umcursos do Mestre Tamoda, famosa personagem fictícia conhecedor de todas as coisas ? Não ébuscada nos escritos do meu confrade Uanhenga Xitu. verdade que se transforma num poetaEstou a lembrar-me das cartas que comecei a escrever ou um pequeno filósofo da vida ?nos bancos da escola para conquistar o amor e o sorriso Sei de cartas que ficaram conhecidasda rapariga por quem me apaixonara perdidamente. E na história da cultura universal, desdedas cartas que os nossos pais nos mandavam entregar ao os tempos do antanho até aos nossossenhor “cantineiro”, a solicitar alguns litros de vinho tinto, dias. De correspondência entre filóso-algumas latas de sardinha, uns quilos de arroz e petróleo fos, escritores, cientistas e outros queque bastasse. Sobre cartas recordo-me, agora, daquela tais. Essa correspondência permitiuoutra famosa que serviria de pretexto para o escritor co- não apenas a discussão dos proble-lombiano Gabriel Garcia Marquez, Prémio Nobel da Lit- mas do seu tempo, como tambémeratura, criar em 1958 o famoso conto “Ninguém escreve permitiu a possibilidade de os inter-ao Coronel”, onde numa cidadezinha anónima e desola- vientes ensaiarem a sua capacidadeda, um velho coronel e antigo combatente da revolução especulativa, a sua imaginação, nessa
  4. 4. 4 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 LiTERATuRA ANgOLANA 4Basta de ser Gente, vou emigrar paracoisalidades, como uma onda no prédioUma leitura do livro “Quem me dera ser Onda” de Manuel Rui identidade nunca avistada, fresca de notícias e coisas novas, lhe prendem só que o recebem.... De onde vem, chegou bem, a família lá em casa está de saúde? o CHeFe de família, todo ele realizado nos seus pensamentos, salivava a cada olhar que cruzava com a imagem do animal que virou caseiro, todo ele carrancudo, em gestos de domador de touros, ensaiava perante a hora do peixe frito no arroz, seus planos mortíferos ao pobre bicho. (...) “ - Mas vamos comer leitão, não é? ” - NADA, Zeca. Plano, sempre o plano. Vamos criar. Engordar. Depois é muita carne. Pág. 10. ComeNTAvA Diogo, os seus ensaios na aniquilação daquele grande amigo que se viria a descobrir, do Zeca, Beto e Ruca, os pionei- ros. e DALi para frente educações surgiram para o animal, um novo animal burguês, de modo a que não gritasse ao gesto de Zeca e Ruca, de puxar, em modos de brincadeira, a cauda de Carnaval da Vitória, restos de Hotel, música o dia todo, que vinha dos sons do único rádio que existia na pequena sala daquela flat de um sétimo andar clandestino. “e Com panquê1, nem um porco grita. É lei da vida”- provérbio da dona Liloca Num prÉDio onde vive gente, escriturários, secretários, funcionários de ministérios, um assessor popular, até um segurança, não podem duma forma assumida compartilhar o mesmo espaço com bichos, ainda mais em estado vivo, de saúde e arfaras, animais com animais, pessoas com pessoas. “Pois segundo o responsável da assembleia dos moradores ficou votado por unanimidade, no elevador só pes- soas, coisas no monta-cargas, quanto aos bichos ficou combinado cão, gato ou passarinho, se for galinha ou cabrito, morto, limpo e embrulhado, passa como carne.” os pioNeiros, Zeca e Ruca, com tamanhas espertezas, demon- straram duma forma inteligente as suas habilidades em enganar o camarada Fiscal, de não permitir que o mesmo descobrisse o porco que ali já residia; visto que tinham acabado de se meter numa saia justa. Não podiam deixar de venerar Carnaval da Vitória, antes de se deitarem fizeram questão de deixar alguns cumprimentos; nos seus sonhos, Carnaval da Vitória era a principal figura de cartaz, talvez porque nas aulas sobre os animais, só terem ouvido falar de MAuRO bRiTO - MAPuTO não vale nada, como prego, ferro, papel, palavras, essas animais domésticos por estes conhecidos virtualmente, até aqueleApreseNTAção Do novo inquilino do prédio: Esta é uma coisas, ar, discursos, esse tipo de coisas, sim onda é boa momento nunca antes tiveram a sorte de trocar intimidades comonda que responde pelo nome de Carnaval, depois coisa, onda, vou ser onda como nunca, essa ninguém bichos, servia como que uma aula prática. Os pioneiros, na escolamudaram-lhe o nome para Carnaval da Vitória, isto à amarra. Ali por cima da água, nem precisa nadar. Pode no tempo do intervalo, com os lábios sorvidos de saliva e sorrisopropósito da abastada algazarra que causou a presença alguém agarrar uma onda, prende-la? brilhante, narravam a cena do dia anterior, com tanta paixão, semdo animal, quando um dos vizinhos da família criadora NesTA oBrA, de dimensão física, pequeníssima, mas no desdém.do bicho, tratou logo de alertar o fiscal da zona, que sentido real e morfológico da palavra, a obra “ Quem CArNAvAL DA Vitoria, no seu novo lar, merecia tratamentos carís-havia qualquer coisa de estranho no sétimo andar. me dera ser Onda” de Manuel Rui , é uma grandíssima simos, que nenhum outro animal antes tivera, era já membro daApercebendo-se da ausência dos donos da flat, do viagem aos tempos já idos, da burguesia portuguesa. família, com direito a banho, comida de primeira que vinha dasmesmo, decidiu ganhar satisfações da razão de ter um Tempos de escassez, tempos de poucas condições, de sobras do Hotel trópico, e habituado ao som do rádio, quandoporco no prédio só para GENTE sem que os restantes pouco açúcar, pouco arroz, pouca farinha, peixe as vezes, assim berrasse, para que a vizinhança não se apercebe-se da pre-dos moradores tomassem conhecimento do assunto; pouca voz e por ai em diante. sença do novo inquilino. Era comer, dormir e ouvir musica, originalo Zeca e o Ruca após terem vencido a estonteante NesTA oBrA, Manuel Rui, faz-nos mergulhar num uni- exemplo de vida de Lorde.batalha de impedir a inspecção ao famoso porco, por verso socialmente habitável, por todos, tanto seres NuNCA mAis os dias foram os mesmos desde o dia em que o paiunanimidade lhe atribuíram por mérito de nome humanos como seres animais. Por outro lado quão Diogo, depois de afiar as facas, preparar a fogueira, ter aniquiladocompleto, Carnaval da Vitória. fértil o coração dos animais, e de como os animais são Carnaval da Vitória sem escrúpulos, nem pena; na casa os pioneirosANTes eLA queria ser um ser vivo, mergulhou na tentati- mais humanos do que nós (homens), correspondendo assistiam a azafama que anunciava o matadouro de seu amigo.va de ser pessoa mas viu que os homens ainda não são amorosamente ao pequeno gesto de carinho e afeição, Em todas as estórias existem heróis, Carnaval da Vitória não foipessoas, ainda aprisionam-se uns aos outros, matando- mostrando o quão forte e intenso é o amor verdadeiro, excepção, virou herói da família, e dos pioneiros da comarca. Nase modernamente, olha que nem gente sonhou ser, ser que cinge-se simplesmente na troca de verdadeiro fogueira em forma de febras, costeletas, toucinho, gordura, refeiçãogente requer grandes investimentos, muito dinheiro afecto e protecção, um amigo do outro, todos irmãos para todos ate serem convidados os anteriores inimigos da famíliaem jogo, ter família, ter cargo político, contudo nem no arroz com peixe frito e as sobras do hotel Trópico. Diogo, Faustino, o camarada Nazario e os membros da comissãogente conseguiu ser, que pena dela! Disse novamente, (...) - Olha só, ronca que chega - Ruca aproximava-se dos moradores, viraram todos excelentes amigos por causa devou tentar ser animal, mas também os animais não, os tentando a familiaridade com o bicho. pág 8. Carnaval da Vitória, e por fim o sonho dos pioneiros, em ter semprehomens tratam-nos mal e porcamente, vejam os jardins A CHegADA do novo inquilino ao novo lar (o porco), a imagem do porco, em suas mentes, nas correrias do intervalo, nozoológicos por aí, desfilados em porquices e tolices, a deixava todos os viventes, de bocas secas, de saliva trópico. Se pudessem voltar atrás para mudar o curso da estória,própria pobreza da local apodrecida parecem autên- por não ter que lamber os beiços, os miúdos na pressa escolheria que Carnaval da Vitória tivesse nascido cão ou gato, masticas pocilgas; animal não, vale a pena ser algo que de seduzir amizades para com o bicho, não esperaram não, queriam mesmo ser onda. que este se acomodasse devidamente, como que umaFiCHA TÉCNiCA Propriedade do Movimento Literário Kuphaluxa Sede: Centro Cultural Brasil-Moçambique* AV. 25 de Setembro nº 1728, Maputo, Caixa Postal nº 1167 * Celulares: (+258) 82 27 17 645 e (+258) 84 57 78 117 * Fax: (+258) 21 02 05 84 * E-mail: kuphaluxa@sapo.mzDirector Editorial: Eduardo Quive (eduardoquive@gmail.com)Coordenação: Amosse Mucavele, Japone Matias e Mauro BritoRedacção: David Bamo, Nelson Lineu, Mauro Brito, Izidine Jaime, Japone Arijuane.Colaboradores: Maputo: Osório Chembene Júnior * Xai-Xai: Deusa D´África * Tete: Ruth Boane * Nampula: Jessemusse Cacinda * Lichinga: Mukurruza*Brasil:Balneário Camboriú - Pedro Du Bois * Santa Catarina: Samuel da Costa * Nilton Pavin * Marcelo Soriano * Portugal: Victor Eustaquio e Joana Ruas.Design e páginação: Eduardo Quive
  5. 5. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 5 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 cRÓNicA / cONTO 5 FiLosoFonias rapsódicas Atxaga e a MARcELO SORiANO - bRASiL profecia de m.m.soriano@gmail.com Nota preliminar: Antes de Nadeau prosseguir com este artigo, lembro ao leitor que me dirijo à CPLP (Comunidade LuíS cARMELO* - ÉvORA dos Países de Língua Portuguesa), portanto, Num encontro realizado em 1965, sub- podemos encontrarordinado ao tema “Que peut la Littérature?”, Jean-Pierre Faye, na sua comunicação, gerúndios, futuros do pretérito, expressões etnocêntricas,escrevia: “Foi no fim de um artigo publicado em 1957 que, pela primeira vez, surgiu familiares a certos leitores, porém, inusitadas a outros. Oxalá,pela pena de Maurice Nadeau, a expressão legendária ‘Nouveau Roman’. O autorafirmou nesse texto que era a partir de um mundo subitamente ‘lisible’ que as que esta peculiaridade não seja pretexto para correções, mastomadas de consciência tinham lugar e que as revoluções poderiam florescer”*. O para integrações e enriquecimentos léxicos e culturais entretom do encontro era meio épico e carregado de certezas e ideologemas próprios da nós. Marcelo Soriano. Santa Maria - RS - BR. 14/07/2011.época (basta ler o início das comunicações de Sartre, Semprun ou Ricardou para quea efígie irónica da actualidade possa desbragadamente sorrir). Ao fim e ao cabo, nesteencontro de 1965 debatia-se a (dir-se-ia necessária) irredutibilidade entre a escala do‘Nouveau Roman’ e a chamada literatura ‘comprometida’ (enfim, comprometida com [v e r - s Ó i s]as fantasias de quem a teorizava com botas de chumbo e tambores exaltados). No entanto, a alegação de Nadeau, citada por Faye, não deixa de ser interessante, até introduçãoporque vinca a ideia de uma possível ‘tabula rasa’ como suspensão do mundo queacabaria por convidar ao descomprometimento ficcional (seria essa, afinal, a mais Numa noite acordei para o dia. E outro dia. Outro dia. Sol a sol,do que sadia “lisibilité”). Creio que Alain Robbe-Grillet deu corpo a esse espírito derenovação e convidou, em muitas outras latitudes, a experiência literária a interrogar- fui tecendo o manto da vida, enquanto esperava a morte, que nãose. No início dos anos noventa, mais de meio século depois do artigo de Maurice veio...Nadeau, ainda me lembro de Fernando Dacosta ter considerado, numa crítica no JL,que o romance Na tua face de Vergílio Ferreira (1993) era um fruto emblemático do‘Nouveau Roman’.Esta breve reflexão leva-me a um conto de Bernardo Atxaga que li dois anos após 5º [ver-sÓ]a saída a público do penúltimo romance o autor da Aparição. O conto de Atxaga– editado num volume de narrativas curtas intitulado Relatos Urbanos (Alfaguara versiDADeHispânica, 1995) – espelhava com imensa nitidez a atitude ‘lisible’ desencantada vi A CiDADepor Nadeau. O autor imaginou no seu conto uma “Vuelapluma”, espécie de aparomiraculoso que, na sua forma de artefacto original, sobrevoaria a cidade de Bilbao. O mi’A CiDADedispositivo (meio físico meio imaginário) evitava locais onde as histórias avolumadas vivereiseriam excessivas e evitava também as periferias, isto é, os lugares de mero trânsito vivACiDADeou passagem, sobretudo porque aí as narrativas latentes esfumariam a criatividade vir-Te-vAisda invenção literária. sAuDADeAtaxaga preferiu conduzir a sua “Vuelapluma” entre a nuvem incerta do puro acidente Aversãoe da contingência. E foi desse modo que, a dada altura, o olhar narrativo se fixou Ave voAnuma pessoa de idade que, solitária, vagueava através de um parque, embalada vÊ e voApelos encantos do lazer desportivo. É evidente que o personagem em causa nãoexercitava os músculos para “convertirse en un viking de los que viajaban en la proa Nu ver-sÓde su embarcación desafiando a las olas, al viento y a los cormoranes”. Contudo, estehomem com um pouco mais de setenta anos, entre muitos outros dotes, tambémsabia tocar acordeão (confessou-o, a dada altura, a pluma voadora em diálogo directo (CoNTiNuA NA prÓximA eDição...)com o narrador). ......................................................................... Talvez devido aos muitos dotes do personagem e a outros motivos para os quais aficção não desejou – e bem – encontrar explicações, o certo é que o ‘jogger’ tinha, ..há menos de uma hora, colocado um anúncio num jornal onde se candidatava aacompanhar um aventureiro que só já desejava partir no seu barco à vela, de Bilbao Homem-mãepara os Açores, passando pela Finisterra e pela costa portuguesa. Terá esse sido, aofim e ao cabo, o desvendado segredo da pluma voadora. O poeta-homem é mãe no poema. É mão pesada a carregar seus filhos, Nesse dia, o mundo tornou-se branco, nítido, legível. Tudo começou e acabou e a“Vuelapluma” de Atxaga cumpriu como ninguém a profecia aventurosa de Nadeau. como se a pena fosse brisa.Sem que Robbe-Grillet desse por isso. .....................................................................................___________________________________________________________________ FrAse TAmANHo FAmíLiA soBre A esperA*Jean-Pierre Faye Que peut la Littérature? em Que peut la Littérature?, L´Inedit, Paris, 1965 Pessoas me esperam no Porto. Também me esperam em(pp. 63-72) Lisboa. São Paulo. Curitiba. Maputo. Porto Alegre. Fortaleza...________________________________________ Pessoas me esperam, inclusive, em Santa Maria, a minha TerraexTrAíDo Do portal: PNETLITERATURA. www.pnetliteratura.pt Natal. Esperariam “por” mim, ou esperariam “de” mim? Não sei o que esperam. Não sou quem esperam. Ou sei... Ou* Luís Carmelo (Évora, 1954) é autor de uma vasta obra literária e ensaística, de sou... Sinto muito, de coração, ter de frustrá-los. E, o que euonde se destacam dez romances (com destaque para A Falha, adaptado ao cinemapor João Mário Grilo em 2002) e quinze livros de ensaio (incluindo o Prémio A.P.E. de esperaria, seria, que não sentissem muito. Que não sentissem1988) sobre semiótica, teoria da cultura, literatura e o cruzamento multidisciplinar falta antecipada. Que não sentissem falta posterior. Queria quede expressões contemporâneas. fôssemos uma família de irmãos que ainda não se conhecem. Amaríamo-nos mesmo sem sabermo-nos... Família é isso...DouTorADo peLA Universidade de Utreque (Holanda), o autor é professor naEscola Superior de Design (IADE), membro da Associação Portuguesa de Escritores Família são todos aqueles que sabem a verdade sobre nós e,(A.P.E.) e da Associação Internacional de Semiótica (I.A.S.S.-A.I.S.). apesar disso, continuam nos querendo muito bem. Isto é o que eu espero!pArA ALÉm de autor de diversos manuais de escrita criativa, actividade que coordena ....................................................................em diversas instituições, entre elas o Instituto Camões, é ainda colunista do jornalExpresso (edição online), autor do blogue “Miniscente” e editor do site PNETlitera- FrAse CAixA ALTA:tura. se ToDo muNDo ACreDiTA, É verDADe. se NiNguÉm ACreDiTA, TAmBÉm
  6. 6. 6 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 6- discurso dirEctoEscrever para extravasar sentimentos Por vezes, começo a escrever, e as palavras fluem com tal ligeireza, que quando me apercebo, já estou na parte final. EDuARDO QuivE - MAPuTO poesia, podemos encontrar o grito eDuArDo Quive: Que espaço ocupa a literatura na suaO seu processo de criação não ultra- de saudades da mãe África “quem vida? FáTimA porTo: A literatura tem um espaço muito impor-passa os meios humanos comandados os ler, vê a saudade, a tristeza, a dor, tante, desde a leitura de obras de autores nacionais e inter- nacionais, como até a minha própria escrita.pelos sentimentos, mas o produto até mesmo a revolta de ter visto os eDuArDo Quive: O que a leva a escrever?final, que é a sua poesia, ultrapassa seus filhos partirem… “Mas have- FáTimA porTo:continentes e forma um horizonte mos de voltar!”, já assim dizia Alda Extravasar todos os meusque cujo alcance é sempre o mesmo Lara!” é bancária de profissão e Por-para o leitor – a insatisfação. Lemos tugal a acolhe desde a tenra idade, sentimentos, sejam eles de dor,sempre, mas sempre, queremos mais. mas o seu berço, é aquele que é da alegria, até mesmo de Amor.Na sua poética forma de “extravasar humanidade – África, mais concre- eDuArDo Quive: Quando é que escreve?sentimentos”, navega o Atlântico tamente, em Angola, terra de Pep- FáTimA porTo: Sempre que sinto necessidade para tal, o que posso mesmo dizer, que é uma constante diária.que banha os trópicos da África, ne- etela e Agualusa, exímios escritores eDuArDo Quive: A quanto tempo escreve?gra terra que a viu nascer, mas neste dos tempos de hoje. Quem sabe ela FáTimA porTo: Desde muito cedo que comecei a escrever, desde pensamentos poéticos a pequenos textos poéticosmesmo oceano, embrulha-se um também será! … Falo-vos de uma que mais tarde se transformariam na minha grande paixão literária.outro continente que a acolhe tem- mulher que ostenta o nome de Fáti- eDuArDo Quive: Que passos obedece o seu processo deporariamente, como declara nesta ma Porto. criação? Fátima Porto: Essencialmente a minha vivência do quotidiano; por vezes uma fotografia pode traduzir ementrevista. Aliás, segundo ela, na sua
  7. 7. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 7 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 7mim, a essência “forte” para “entrar” dentro do contexto e de TV onde o escritor, na sua intervenção, dissertou,transformar em letras tudo aquilo que sinto. sobre o tema “Ter medo que o medo acabe”. um pouco, mas cabe aoseDuArDo Quive: Escreve só poesia?FáTimA porTo: Sim, apenas poesia. eDuArDo Quive: Acha que há uma interacção literária entre esses países? Pais e aos Professores voltareDuArDo Quive: Porque razão?FáTimA porTo: FáTimA porTo: Sim, acho que há, mas a meu ver, deveria haver interligação através de Congressos, abrangendo também os que estão a dar os primeiros passos na lit- a incutir esse gosto de LER! A poesia É o estilo de eratura. eDuArDo Quive: Que palavras diria a um iniciante da escrita? eDuArDo Quive: Quer mencionar a sua lista de escritor FáTimA porTo: Muito simplesmente: “Leiam muito, aprendam escrita que mais se coaduna com o meu “EU”, e por outro lado, eu costumo dizer que “a poesia não se aprende, já nasce connosco”.eDuArDo Quive: Que influências literárias você tem?FáTimA porTo: Influências, não direi, mas gosto da obracompleta de Florbela Espanca, Alda Lara, Fernando Pessoa,António Nobre no seu livro “Só”.eDuArDo Quive: Estarão (as influências literárias) iminentesno que escreve?FáTimA porTo: Inconscientemente, acredito que estejam, nocaso de Alda Lara, pelo facto de ela ter morado em Portugalenquanto estudante, e nessa altura escreveu muito sobreAngola e as suas saudades, por outro lado, quem conhecea obra de Florbela, compara-me um pouco a ela, mas no lusófonos? a gostar de ler para serem bons escritores”!essencial, é a minha Alma que “fala”, que “grita” a dor nelacontida, e de mais ninguém. FáTimA porTo: Milton Gama, Carlos Drummond de eDuArDo Quive: Angola está presente nos seus escritos? Andrade, Mário de Miranda Quintana (ambos brasil- FáTimA porTo:eDuArDo Quive: Qual é a sua maior preocupação quando eiros) Agostinho Neto, Alda Lara, José Eduardo Agualusa,escreve? Pepetela, (angolanos) Mia Couto, Ruy Guerra (moçam-FáTimA porTo: Conseguir transmitir o que sinto, passar bicanos) Yara Tavares, Eugénio Santos (cabo-verdianos)através das letras os sentimentos, por vezes dolorosos, que Alda do Espírito Santo, Conceição Lima (São-tomenses), Claro que sim, Angolame vão na alma. Luís Cardoso de Noronha, Fernando Sylvan (timorenses), Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Luís de Camões,eDuArDo Quive: Que dificuldade tem encarado na criação António Nobre (antigos escritores portugueses, mas minha terra natal, está ede um texto? imortais) Agustina Bessa Luís, José Saramago – PrémioFáTimA porTo: Pouca dificuldade. Sou sincera, por vezes, Nobel da Literatura, Miguel Esteves Cardoso, Miguelcomeço a escrever, e as palavras fluem com tal ligeireza, que Torga e tantos outros… estará sempre presente.quando me apercebo, já estou na parte final. eDuArDo Quive: Como? FáTimA porTo: Em vários poemas, desde “Menino””África I”,eDuArDo Quive: E qual é o espaço que tem para gritar os eDuArDo Quive: Sei que está no sector bancário, mas “África II”, “Para lá do mar”,”Mãe Preta África”… quem os ler, vêseus sentimentos expostos no que escreve? sente que há cultura de leitura no seio de estudantes? a saudade, a tristeza, a dor, até mesmo a revolta de ter vistoFáTimA porTo: Neste momento, tenho um blog (http:// FáTimA porTo: os seus filhos partirem… “Mas havemos de voltar!”, já assimportodefatima.blogspot.com) onde por vezes dou gritos dizia Alda Lara!abafados, choro lágrimas secas, e olho o horizonte vaziode nada! Com as novas tecnolo- BiogrAFiA:eDuArDo Quive: Está nos seus planos lançar um livro? Sim,graças a um amigo, também poeta Ângelo Vaz, muito breve-mente iremos editar um livro, em parceria, “CAPAS”. gias informáticas, o gosto Nome: mAriA de Fátima de Carvalho Oliveira da Cunha Porto DATA De nascimento: 23 de Janeiro de 1959eDuArDo Quive: Tem publicado os seus textos no Brasil(jornal O REBATE) isso por falta de espaço no seu País? pela leitura dispersou-se NATurALiDADe: CATumBeLA, Benguela, Angola ACTiviDADe proFissioNAL: Bancária Fez os seus estudos primários na Catumbela, continuando osFáTimA porTo: Essa pergunta é pertinente, mas infelizmente, mesmos em Novo Redondo (Sumbe). Concluiu o 5ºAno doapesar de sermos observados por todos os lados, Liceu em Benguela.foi do Brasil, e mais propriamente do Jornal O veio pArA Portugal em 1975 onde continuou os estudos emREBATE, que recebi o convite para ser colunista Coimbra e Oliveira do Bairro.diária do mesmo, que aceitei, claro. FáTimA porTo, fez parte da Rádio Voz da Bairrada em Oliveira do Bairro.eDuArDo Quive: Quer comentar sobre a situação NessA ráDio foi responsável pelos seguintes programas:em que situação está a Angola em termos de progrAmA iNFANTiL semanal, “ Bola de Sabão”, (sábados àdivulgação de novos autores? tarde).FáTimA porTo: Angola, como todos os novos revisTA semANAL, Nacional e Internacional incluindo desporto,Países Lusófonos, está a dar uma grande evolução (programa semanal, aos sábados).na divulgação dos novos autores. voz De África, (programa semanal). peNsAmeNTo Diário (temas generalizados).eDuArDo Quive: Tem contacto com as literaturas progrAmA DesporTivo, como pivô (programa semanal aosde outros países Lusófonos? domingos)FáTimA porTo: Sim, é uma grande preocupação muiTo CeDo que a escrita poética é uma busca constante atéminha ter contacto com a literatura de todos os os dias de hoje.Países, principalmente Lusófonos. FAz pArTe da redacção poética de jornal O REBATE de Macaé- Rio de Janeiro, BrasileDuArDo Quive: E de Moçambique?FáTimA porTo: Também, claro. Mia Couto, porexemplo, esteve recentemente em Portugal, esegui com muita atenção, inclusive, o programa
  8. 8. 8 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 8O dia do casamento de Matiangola NÉLiO NhAMPOSSE - MAPuTO aconselho. E eu não sou uma excepção. Quero, minha perdição sem o luto e o amor; a desgraça e a graça. Desta maneira, distintoso CHiAr das aves anuncia a nobreza e pureza da alma. A eleição, tu que fazes o verbo levitar flores, que provocas vapor e gás convidados e excelências, imortalizamos quer a morte quer a vida.poesia e os versos métricos poluíam o ambiente. As sonori- mesmo sem perplexia, casar-me contigo. Tu serás o elo entre a vida e Não nos enganemos, clarividentes, a partir de agora viveremosdades do blues evocam os deuses da morte à vida. Era um a morte; entre o falecido e o morto; entre o caixão e o covil; entre as nesse vácuo entre a vida e a morte. Nesse espaço onde teremos,dia igual ao dos selenitas. O calor intensificava a cada para- trevas e a mágoa; entre o sepulcro e o enterro. em simultâneo, falecidos e vivos. Por isso, saudosos irmãos, cel-gem brusca de um movimento. O jazz emergia entre a ida ebramos esta união aqui neste sítio. E meus ente queridos, vose o regresso da morte. Matiangola, pelo mais sagrado que - esTrANHo! conjuro, a lua-de-mel para os nubentes será num caixão, exacta-existe, era um homem que vivia entre a vida e a morte; entre mente neste cemitério, onde começou a Matiangola Company,as trevas e a angústia; entre a dor e mágoa. E nesse vácuo, - e quem disse que os mortos não se casam. Já combinei com o bispo. obra-prima que ora e faz os discursos fúnebres para os falecidos.encontrava espaço para amar. E não demorou muito para Vamos casar no sábado. Casaremos mortos e até já pensei na lua-de- As sementes devem ser lançadas aqui. Hoje, Julieta, o verbo vaidar o nó. mel. Será no cemitério, claro, num caixão. Vamos fazer, nessa noite, as perplexar. O mergulho vai carbonizar o parnaso. Os campos vão- JuLieTA, a minha vida tem sido incaracterística. letras cantarem afro ao brilho das estrelas; as aves cintilarem até ao ficar verdes como as tuas plantações. As aves Maria vão nascer. alvorecer; a álgebra suar até à região central do hemisfério; as águas Senhor de todas as coisas, Deus de Deus, luz da luz, santifique- porQuÊ? do oceano fervilharem até encontrarem a nascente. O leito do rio vai este matrimónio. Que a paz e a morte sejam o dia-a-dia do casal; nascer. que as trevas e a felicidade transbordem neste lar; que a dor e a- vivo entre o abismo e a escuridão. Entre a morte e o caixão. mágoa unam-se ao amor e espalhem o avesso; que os falecidos eSou uma espécie de cemitério ambulante. Por onde passo, - voCÊ é um louco. os mortos sejam o vosso lar; que Deus vos abençoe. Amen!atraio a morte. E as pessoas, quando me vêem, só vêemmorte, choros, angústia. Talvez eu seja a própria morte. Sabe, - Há uma coisa que devias saber, amor. A loucura é para os eleitos. É NAQueLA NoiTe, de núpcias, ao som do vento, carreguei umaem tempos, até pensei em mudar de nome. Sim, mudar para o estágio mais avançado da sabedoria. Só é louco quem não é com- carta de amor, que com a profundeza da secreção esperneouMorte. preendido. E tu me compreendes. nos óvulos de Julieta e com o cintilar das aves, suspirámos nessa aurora infinita, como se de hipotipose se tratasse. Quase que a mil,- e por que não mudaste? umA semANA depois, a agitação era desusada no cemitério. A suspiramos novamente, numa penetração que dilacerou o nosso algazarra era tal que o casal não precisou de convidados, tudo porque o ego e, nesse frenesim, amargámos os nossos lábios congelados de- porQue também tenho medo de morrer, apesar de já viver cemitério estava abarrotado de mortos e, por tabela, dos familiares dos saliva, num balbuceamento azedo. E quando a alvorada cessou,como um falecido. mesmos. Tudo havia sido preparado ao detalhe. às 15h00 de sábado, com o nascer do covil, Julieta estava grávida. com a presença dos padrinhos Jonh Mabalend e Suzana Gazetão,- Deixe-Te de estórias. Como é que uma pessoa que ama a falecidos de primeira, o bispo Quim Selex iniciou a cerimónia. ps: A Matiangola Company e sua filial de malopa comunicam,morte pode ter medo de morrer? com pesar profundo, a não realização de enterros esta semana, - CAríssimos irmãos, hoje, celebramos a união em Cristo de Matian- em virtude da realização do matrimónio do seu presidente do- poDe até parecer estranho, mas mesmo o próprio morto gola e Julieta. A partir de hoje, em diante, o que Deus unir ninguém Conselho de Administração. Pelos transtornos causados, as nossastem medo do seu estado de morto e, pior ainda, da ideia de separa. Matiangola é um morto e Julieta uma vivente. Pelo que unimos sinceras desculpas. Paz às vossas almas.falecer. Não te engane Julieta, é difícil ser falecido. Não te a morte e a vida; a treva e a paz; a dor e a felicidade; a mágoa e a trégua; Halaca-vuma Malêstambém é sagrado gERALDO LiMA - SãO PAuLO peLAs ruAs De são pAuLo, seguiNDo-A. um Negro em seu eNCALço. AssusTADA? pAssos LÉpiDos, ANCAs eNvoLveNTes: umA priNCesA NAgô, sem DúviDA ALgumA. DANy wAMbiRE - bEiRA céptica assustava os polícias e deixava-os assoberbados de dúvida. O Tapera vincava que não tinha apanhado nenhum ArmADos, os polícias tradicionais tomaram, de assalto, a casa animal sagrado. — LuízA mAHim. seNHorA LuízA mAHim!do Tapera. Vestiam-se de roupas rotas com a acção do trabalho CoNFiNADos Com o posicionamento do Tapera, os políciaspolicial. E entraram de forma abusiva e desrespeitosa, para tirar tradicionais chamaram pelo régulo, para ele os ajudar a achar oalgum animal sacro, que o Tapera tivesse apanhado, na sua longín- procurado. E o régulo apareceu. AproveiTou A muLTiDão e esTACou. umA priNCesAqua viagem a Maropanhe, na caça de todo o tipo de animal, para CHegou e insistiu: NAgô, Não TeNHo DúviDA.a sua difícil sobrevivência. ― TAperA, concede-nos o halaca-vuma, que achaste, algures, e A gente, ante aquela agitação dos polícias, ladeou-os, para na mata. Tu apanhaste um animal na mata, tenho a certeza.junto deles perceber as razões daquele rebuliço e da prisão do De CerTezA os polícias e o régulo tinham tido informações de — Que merDA É essA! Não me CHAmo LuízA...velho Tapera. Alguns não compreendiam as motivações daquela pessoas críveis, que tinham visto o pangolim achado pelo Tapera.tristonha cena. E essas mesmas pessoas temiam pela eclosão duma estiagem e Não tardou que os interessados desvendassem a causa da com causas humanas. — mAHim... LuízA mAHim, mãe De Luiz gAmA...prisão de Tapera. Era a Teresinha, de quem se conjecturava que por ForçA das palavras assustadoras do régulo, teve o Taperafosse a informante furtiva do régulo. Ela é que tinha assistido dubi- que desobrigar o pangolim e acompanhá-lo ao Regulado, à sedeamente ao Tapera a recolher um pangolim, num trilho poeirento, do mandante da ordem. perpLexA. QuereNDo eNTeNDer e Não poDeNDo.quando ela regressava da labuta na sua modesta machamba. Ao seu lado, ouvia-se um jovem vindo da Beira a dizer as moti- e o régulo não demorou a chamar os anciãos do Regulado, paravações daquela peripécia, o que logo ridicularizou: lhes apresentar o animal sagrado, halaca-vuma, que facilita as — LemBrA-se Dos mALÊs? o reCôNCAvo BAiANo, o - esTes polícias, não estão bem... Não têm nada que fazer...! preces da vinda da chuva ao Regulado, e também as impede. QuiNTAL DA suA CAsA...Estão a prender alguém, só porque apanhou um animal, umpangolim! ToCArAm A trombeta. Os populares dirigiram-se às pressas esTe Jovem beirense criou, involuntariamente, uma aberra- à sede do Regulado. Queriam ver aquele animal, de que muito Já HAviA virADo As CosTAs, ABorreCiDA. Fezção, para um velho, que assistia, apreensivo, à peripécia, e que se falava na região, o animal do bem e do mal. Assim Com umA DAs mãos, Como se Dissesse:conhecia bem a real perigosidade do halaca-vuma, os poderes CADA mALuCo Que me ApAreCe.sobrenaturais deste animal. mAs sÓ se consegue ver a cabeça do halaca-vuma, em troca o ANCião retorquiu para o miúdo: de dinheiro, de porcelanas e de cânticos. Halaca-vuma idola- ― oH cala-te, ó jovem da cidade. Tu não sabes perfeitamente dos tra dinheiro ou porcelanas acompanhadas de súplicas com Não A segui mAis. Que se Fosse, DesCoNHeCeNDopoderes de que o pangolim dispõe. O pangolim atalha a chuva. cânticos. Mexe a cabeça e a pequena cauda, num movimento Quem reALmeNTe erA. HAviA ouTrAs. mAis DiA o Jovem ficou cada vez mais perplexo, e interessado com a extraordinário e espectacular. Mas embrenha-se, quando apare- meNos DiA, umA se ApreseNTAriA DiANTe De NÓs,declaração. Necessitava de mais detalhes, e perguntou: cem pessoas que não lhe endereçaram súplicas com dinheiro e umA priNCesA NAgô: ― Como é que um animal tão pequeno como o pangolim pode porcelanas.estrangular a chuva? e Do velho veio-lhe a resposta, que o manteve mudo e sem mais o DiNHeiro amealhado à custa do pangolim ultrapassou as — seNHores, É por AQui. eis o meu QuiNTAL...querença de perguntar algo. expectativas. Foram novecentos meticais. Com este dinheiro, vAmos ComeçAr TuDo De Novo. ― DeixA-Te estar, ó jovem da cidade, e deixa o povo do Regulado adquiriram os anciãos a utchema, e também fizeram dhoro.fazer o que bem sabe. Depois mataram o pangolim, para uma pequena festa metafóri- eNQuANTo As pessoas espectadoras se digladiavam em comen- ca, no Regulado. E estiveram lá os mais cotados do Regulado. Étários diferenciados, o Tapera, lá dentro da palhota, sofria vários que esta festa só admite essas pessoas: os anciãos, os régulos, egolpes de coação, para a outorga do pangolim. Mas continuava os seus súbditos, e outros distintos convidados.a não mostrar o esconderijo do animal sagrado. A sua teima
  9. 9. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 9 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 9outras margEns Avó Mariana Presença AfricanaDesfazer ALDA LARA - ANgOLA ALDA ESPíRiTO SANTO - SãO TOMÉ E apesar de tudo, ainda sou a mesma! Avó Mariana, lavadeira Livre e esguia, dos brancos lá da Fazenda filha eterna de quanta rebeldia chegou um dia de terras distantes me sagrou. PEDRO DO bOiS - bRASiL com seu pedaço de pano na cintura Mãe-África! e ficou. Mãe forte da floresta e do deserto, Ficou a Avó Mariana ainda sou, Numero acontecimentos lavando, lavando, lá na roça a irmã-mulher desordenadamente. Capitulo pitando seu jessu1 de tudo o que em ti vibra ao extremo desgosto à porta da sanzala puro e incerto!... das arrumações: a cama lembrando a viagem dos seus campos de sisal. os objetos - A dos coqueiros, a comida Num dia sinistro de cabeleiras verdes o banho p’ra ilha distante e corpos arrojados retiro da estante o livro onde a faina de trabalho sobre o azul... instantaneamente convertido apagou a lembrança A do dendém em acompanhante: desarrumo os fatos dos bois, nos óbitos nascendo dos abraços e os distribuo pela casa: lá no Cubal distante. das palmeiras... a história forjada A do sol bom, de reis e reinos: Avó Mariana chegou mordendo a desabilitação das fábulas e sentou-se à porta da sanzala2 o chão das Ingombotas... moralizam o animal que teima e pitou seu jessu1 A das acácias rubras, sua liberdade. lavando, lavando salpicando de sangue as avenidas, numa barreira de silêncio. longas e floridas... Amor Platônico Os anos escoaram lá na terra calcinante. Sim!, ainda sou a mesma. - A do amor transbordandocÁSSiO ubiRAJAR -iTAJAí - “Avó Mariana, Avó Mariana pelos carregadores do cais suados e confusos,Nem é mais tão cedo é a hora de partir. pelos bairros imundos e dormentesnem há mais tanto amor Vai rever teus campos extensos (Rua 11...Rua 11...)por fim é isso que resta de plantações sem fim”. pelos negros meninosuma manhã chuvosa de barriga inchadamal sei se de maio ou abril - “Onde é terra di gente? e olhos fundos... Velha vem, não volta mais...Ela já não mais a mesma Cheguei de muito longe, Sem dores nem alegrias,o encanto já não me encanta mais anos e mais anos aqui no terreiro... de tronco nu e musculoso,não por palavras Velha tonta, já não tem terra a raça escreve a prumo,não por atitudes Vou ficar aqui, minino tonto”. a força destes dias...a simples falta é onde o amor se esvai Avó Mariana, pitando seu jessu1 E eu revendo aindaHoje só continuo seguindo na soleira do seu beco escuro, e sempre, nela,por entre os dedos deixei escapar conta Avó Velhinha aquelaah amor!! Continua vivo!! teu fado inglório. longa historia inconseqüente... Viver, vegetarLindo era sol da manhã à sombra dum terreiro Terra!hoje está nublado tu mesmo Avó minha Minha, eternamente...lindo era teu sorriso sobre meu peito não contarás a tua história. Terra das acácias,hoje não consigo lembrar dos dongos, Avó Mariana, velhinha minha, dos cólios baloiçando,Vem Sol vem iluminar novamente pitando seu jessu1 mansamente... mansamente!...vem trazer teu calor na soleira da senzala Terra!vem acender meu caminho nada dirás do teu destino... Ainda sou a mesma!vem Sol astro Rei Porque cruzaste mares, avó velhinha, Ainda souvem reinar pra tua amada Lua e te quedaste sozinha a que num canto novo, costuras pitando teu jessu1? pura e livre, me levanto, (É nosso o solo sagrado da terra) ao aceno do teu Povo!... DORiANA - ANgOLA 1 - Jessu: cachimbo de barro; A vida bordou surpresas em ponto agrilhão Tecias auroras carsidas. 2 - Sanzala: aldeia. Desfiaste o tecido para o crivo; esqueceste chulear as baínhas. Não pudeste atingir a perfeição dos deuses, gostei do passajado feito quando tudo se desmanchou Algo mais Continuo trajando o vestido da tua oferta. baloiça o tempo na folha da goiabeira vem, desespero MAuRO bRiTO -MAPuTO baloiça oh folha! JOFRE ROchA - ANgOLA que o silêncio geométrico multiplica a esfera: a noite aleita o traçado dos morcegos vem, desespero Sinto mais que tudo sombras mudas enamoram açucenas mata em minhas veias o brilho desta lua Invadido por marés a memória afaga paralelos idos a enfeitar com simulacros de prata Entrei e vi uma cidade e o corpo se desfaz em loiras labaredas. a miséria de vidas sem destino. em estado de mar balança o tempo nas folhas da minha terra, Pés acotovelam-se balança oh terra! vem, desespero Milhões de coisas já o meu corpo se desfaz na geografia da espera. gela nas bocas o murmúrio de conformismo Sem ressentimento esse ópio de vontades Aqui nunca houve razão para algo nômada a sabotar a flor única de esperança Deliram pórticos o adiante veste incógnitas de cristal na planície dos homens de rastos. E em nada que te sei balança oh folha! balança oh terra vem, oh! vem desespero, queria ainda beijar-lhe a era. e cria nos homens o ímpeto dos tornados. Quando em suor ganha-se o nada Espaço para divulgação de poetas dos países LUSÓFONOS. Envie os seus textos para: kuphaluxa@sapo.mz
  10. 10. 10 BLA BLA BLA Exero 01, 5555 Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 10 Noites d ´Álma Em outras paLavras https://noitesdalma.blogspot.com VII Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus – CRÔNICAS eDição em HomeNAgem A esCriTores BAiANosOutro Olho da Carla 1 - O Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus visa estimular novas produções literárias e é dirigido a candidatos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil ou no exterior, desde que seus trabalhos sejam escritos em língua portuguesa. XiguiANA DA LuZ 2 – As inscrições acontecem de 01 de janeiro a até 30 de novembro, através do e-mail valdeck2007@ gmail.com (CRÔNICAS de até 20 linhas, minibiografia de até cinco, endereço completo, com CEP e fone A dor se espalha pelas veias do meu corpo de contato, com DDD). Os textos devem vir DENTRO do corpo do e-mail. Inscrições incompletas serão O seu cheiro se invoca entre os meus pensamentos desclassificadas. Vale a data de postagem no e-mail. Não serão aceitas inscrições pelos correios. A sua imagem se faz na minha face, 3 - A crônica deve ser inédita, versando sobre qualquer tema (exceto apologia ao uso de drogas, Mas apenas se torna realidade na imaginação! conteúdo racista, preconceituoso, propaganda política ou intolerância religiosa ou de culto). Terão preferências os textos sobre escritores baianos da contemporaneidade. Entende-se como escritores contemporâneos aqueles cuja obra ainda não foi lançada por grandes editoras e que não são con- hecidos do grande público. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro Tenho medo… crime relacionado ao direito autoral. A inscrição implica concordância com o regulamento e cessão dos direitos autorais apenas para a primeira edição do livro. Sinto tanto medo. 4 - Uma equipe de escritores faz a seleção de apenas um texto por autor. A premiação é a publica- ção do texto selecionado em livro, em até seis meses do encerramento das inscrições. Os escritores O sono se esconde, selecionados devem criar um blog gratuito, após a divulgação do resultado do concurso, para dar O coração exige, visibilidade ao trabalho de todos os participantes. Os casos omissos serão decididos soberanamente As ideias se trancam, pela equipe promotora. E nada fica no espaço. 5 - O autor que desejar adquirir exemplares do livro deverá fazê-lo diretamente com a editora ou com o organizador do prêmio. Os primeiros dez classificados receberão um exemplar gratuitamente. Sinto muita dor… Os demais podem receber, a critério da organização do evento e da disponibilidade de recursos Misturada com ardor e medo, financeiros. Angústia e remorsos, Aterrorizo-me nos passos do silêncio moDeLo De FiCHA De iNsCrição: E o caos se instala no meu corpo. Paulo Pereira dos Santos Rua Santo André, 40 – Edf. Pedra – Apt. 201 35985-999 – Portão Tenho medo… Belo Horizonte-MG (31) 3366-9988, 8877-8999 Mas a vida me veda possibilidades, moDeLo De miNiBiogrAFiA: Me dá a sua voz, Paulo Pereira dos Santos é natural de Santana-PB. Escritor, poeta e jornalista, tem dois livros O seu rosto, publicados: “Antes de tudo” e “Até amanhã”. Paticipa de cinco antologias de poesias. Graduado em A sua imagem, comunicação social. Menção honrosa em diversos concursos de poesia, tem dois livros no prelo e Mas nunca o seu corpo pretende lançá-los em 2012. Nem o seu amor. proJeTo puBLiCADo No siTe Do pNLL Do miNisTÉrio DA CuLTurA Escrevo… mAis iNFormAçÕes: Alivio a dor, Valdeck Almeida de Jesus Tel: (71) 8805-4708 Mais um dia fiquei historiador, E-mail: valdeck2007@gmail.com Site do Organizador: www.galinhapulando.com Mas as forças se acabam, Nem se quer amanheceu, NOTA: NESTE cONcuRSO PODEM TAMbÉM PARTiciPAR PESSOAS DE OuTROS PAíSES DE LíNguA PORTuguESA, iNcLuiNDO MOçAMbiQuE, SENDO QuE NA Para tiver novamente! iMPOSSíbiLiDADE DESTES EM FALAR DE EScRiTORES bAiANOS, PODEM FALAR DOS cONTEMPORâNiOS DOS SEuS PAíSES.
  11. 11. Exero 01, 5555 BLA BLA BLA 11Terça-feira, 01 de Novembro de 2011 https://literatas.blogs.sapo.mz 11agEndado

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