O
O paradigma da inclusão educacional orienta o processo de mudanças desde a educação comum
aos serviços de apoio especializados com vistas a promover o desenvolvimento das escolas, consti-
tuindo práticas pedagógicas capazes de atender a todos os alunos. O sistema educacional inclusivo
está fundamentado na Constituição Federal/88, que garante a educação como um direito de todos, e no
Decreto Nº. 6.949/2009, que ratifica a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU/2006),
assegurando o direito de pleno acesso à educação em igualdade de condições com as demais pessoas.
Dessa forma, a construção da educação inclusiva requer a definição de políticas públicas que visem a
alterar a organização dos sistemas paralelos de ensino comum e especial, consolidando uma proposta de
educação especial integrada ao projeto político pedagógico da escola comum, capaz de contrapor as difer-
entes formas de exclusão e garantir as condições de acesso, participação e aprendizagem. Conforme a
Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/2008), a educação espe-
cial constitui uma modalidade de ensino não substitutiva à escolarização dos alunos com deficiência,
transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. O Decreto Nº. 6.571/2008 define o
Atendimento Educacional Especializado - AEE e institui o financiamento, no âmbito do Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB, para a
oferta do AEE aos alunos matriculados nas classes comuns do ensino regular da rede pública.
Com vistas a orientar a oferta do AEE em articulação com o ensino regular, o Conselho Nacional de
Educação - CNE estabelece Diretrizes Operacionais para o AEE na Educação Básica, por meio da Resolução
Nº. 4/2009. Neste contexto, ampliam-se as políticas públicas para o desenvolvimento inclusivo das escolas
por meio dos programas de acessibilidade, formação continuada de professores e implantação de salas de
recursos multifuncionais na rede pública.
Para impulsionar as mudanças sociais, políticas e culturais, construindo a inclusão no cotidiano das esco-
las, a Revista Inclusão, neste número, apresenta diversos artigos acerca do Atendimento Educacional
Especializado, entrevista sobre a inclusão educacional de alunos com transtornos globais do desenvolvi-
mento e demais sessões que refletem o processo de transformação dos sistemas educacionais em sistemas
educacionais inclusivos, a partir do envolvimento da gestão pública na articulação de ações para a garantia
das condições de acesso, participação e aprendizagem do público alvo da educação especial.
Secretaria de Educação Especial
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 1-76, jan/jul. 2010 1
1EDITORIAL
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 1
SUMÁRIO
1
Editorial
Secretaria de
Educação Especial
4
Entrevista
José Ferreira Belisário Filho
Psiquiatra. Doutor em
Ciências da Saúde. Membro
do Conselho Técnico
Científico CAPES do
Ministério da Educação.
12
Destaque
NACIONAL
O atendimento educacional
especializado na educação
inclusiva
Maria Teresa Eglér Mantoan
INTERNACIONAL
Traçando os mesmos
caminhos para o
desenvolvimento de uma
Educação inclusiva
Anabel Moriña Díez
26
Enfoque
Atendimento Educacional
Especializado - Deficiência
Física
Geísa Letícia Böck
Grasiela Maria da Silva Rios
Atendimento Educacional
Especializado - Deficiência
Visual
Adriana Argenta
Elizabet Dias de Sá
Atendimento Educacional
Especializado - Deficiência
Mental
Adriana Leite Limaverde
Gomes
Jean-Robert Poulin
Rita Vieira de Figueiredo
Atendimento Educacional
Especializado - Surdez
Josimário de Paulo Ferreira
Mirlene Ferreira Macedo
Damázio
Salas de Recursos
Multifuncionais
Rosângela Machado
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 2
64
Resenhas
Educação de Surdos -
Pontos e Contrapontos
Organizadora: Valéria
Arantes
65
Informes
Parecer Nº. 13 e
Resolução Nº. 4
69
Opinião
A maior geração de jovens
de todos os tempos
Fábio Meirelles
71
Veja Também
Experiência de Inclusão da
Rede Municipal de Ensino
de Cuiabá - MT
Julieta dos Santos Ribeiro
Nunes Domingues
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 3
1. Revista Inclusão - Diante de tan-
tas discussões, como você com-
preende uma criança autista?
José Belisário - A primeira coisa que
pensamos é que cada autista é um
autista. No entanto, considero que
existe uma forma de pensar sobre o
assunto que permite um diálogo mai-
or. Temos de pensar algumas classifi-
cações como possibilidades de diá-
logo. Se cada um tem a sua definição
de autismo, nunca conseguiremos
agrupá-los para o desenvolvimento
de projetos científicos e estratégias
de ajudar as crianças. Então, pen-
sando a classificação dessa forma,
temos três características que auxili-
am na compreensão do que seja
uma criança autista. São característi-
cas que nos permitem agrupar mais
gente. A primeira característica é que
toda criança autista vai ter uma difi-
culdade no seu desenvolvimento
neuropsicomotor e na comunicação.
O que significa isso? É uma criança
que apresenta uma peculiaridade
nesse desenvolvimento, um atraso
na fala ou um atraso, às vezes, no jei-
to de andar. Não existe uma idade
1
Psiquiatra. Doutor em Ciências da Saúde. Membro do Conselho Técnico Científico CAPES do Ministério da Educação.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 20104
4 ENTREVISTA
José Ferreira Belisário Filho
Sempre em intenso diálogo com a
educação, o médico José Belisário
tem uma prática marcada pelo seu
envolvimento com a inclusão esco-
lar de crianças com autismo. Nesta
entrevista, o psiquiatra nos esclare-
ce sobre questões relacionadas ao
autismo e fortalece a idéia de que
essas crianças devem estar na es-
cola comum.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 4
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 5
definida para as crianças, e trabalha-
mos por faixas de idade como de 0 a
6 anos. Essas características mar-
cam um quadro, mas só elas não fa-
zem o autismo. A segunda caracterís-
tica é a criança ter um comprometi-
mento em suas relações sociais. Ela
vai apresentar dificuldade de olhar
para os pais e de ter uma troca de
olhares com a mãe, por exemplo,
que aparece muito precocemente.
Alguns parâmetros sociais que ve-
mos nas crianças como, por exem-
plo, de começar a dar tchauzinho e
bater palmas, que são brincadeiri-
nhas que as crianças fazem antes de
aprender a falar que já são trocas so-
ciais, nas crianças com autismo, ob-
servamos diferenças significativas.
Algumas crianças que têm acesso à
fala, terão uma fala que, socialmente,
não funciona muito bem. A terceira
característica, que nos ajuda a pen-
sar no autismo, é a criança que apre-
senta estereotipias motoras, o que
casa com o que acabei de relatar so-
bre uma fala diferente. Seria uma fala
estereotipada. Só que existem este-
reotipias motoras muito clássicas no
grupo dos autistas. A mais clássica
de todas é de crianças que, mesmo
desde muito pequenininhas, come-
çam a bater os braços, fazendo um
flap de mão em situações de felicida-
de, de tristeza ou de angústia. Exis-
tem estereotipias mais complexas de
bater no corpo, mas o clássico é de
bater as mãos.
2. Revista Inclusão - Podemos ob-
servar, então, estas estereotipias já
nos primeiros anos de vida?
José Belisário - Sim, surgem nos
primeiros anos de vida. Temos um
diagnóstico até os cinco anos de ida-
de, aproximadamente. Esse quadro
que relatei vai estar presente neste
período. Como cada autista é um,
cada um vai ter um desenvolvimento
dentro deste quadro, mas de forma
diferente. Muitas vezes os pais de
autistas sabem disso e dizem que
seu filho é autista, mas não é igual
aquele outro. Na verdade, o que
pensamos ser o autismo? É uma
grande síndrome.
3. Revista Inclusão - Por que o au-
tismo é uma síndrome que perten-
ce ao grupo dos transtornos invasi-
vos do desenvolvimento?
José Belisário - Na verdade, a cate-
goria dos transtornos invasivos do de-
senvolvimento, o nome que usamos
não se refere ao comportamento,
mas trabalhamos com desenvolvi-
mento. Vamos pensar nas três pala-
vras: transtornos, invasivos e desen-
volvimento. Alguns profissionais
usam a sigla TID. Transtorno é um ter-
mo que vem de uma tradução do in-
glês que significa desordem. No Bra-
sil, não é um termo que usamos mui-
to. A partir do momento que nós in-
corporamos essa nova classificação
que começou nos Estados Unidos, e
que hoje a Organização Mundial da
Saúde reconhece, começamos a tra-
balhar a idéia de transtorno no nosso
país. Sempre trabalhamos a idéia de
doenças. O transtorno é o meio do
caminho, ou seja, a pessoa tem um
traço, e esse traço promove sofrimen-
to, e esse sofrimento compromete a
pessoa. Transtorno é alguma coisa
que aconteceu no desenvolvimento
daquela criança que não alcançou ou
que alcançou de forma diferente e es-
tá comprometendo a vida dela. No
caso dos autistas, sabemos que não
compromete só a vida deles, mas
também compromete a da família e a
da escola. A outra palavra que é inva-
sivo. Invasivo é uma tradução da pa-
lavra inglesa pervase, menos usada
por nós ainda e que nos dá a idéia de
vazio. A melhor tradução talvez fosse
infiltrativo. É alguma coisa que acon-
tece no desenvolvimento que aos
poucos vai se infiltrando no psiquis-
mo e no funcionamento. Essa palavra
em inglês tem uma função diferente
da tradução brasileira. Invasivo tem
uma idéia de coisa agressiva e essa
idéia não é verdadeira. O termo per-
vase diz respeito a uma coisa infiltrati-
va que vai aumentando aos pouqui-
nhos e vai crescendo no sujeito. No
começo, a criança não consegue
olhar a mãe e depois não consegue
falar com as pessoas. É muito mais
complexo. Chegamos a última pala-
vra que é o desenvolvimento. Temos
uma seqüência de desenvolvimento
humano. Primeiro fazemos uma coi-
sa e depois fazemos outra. Primeiro
balbuciamos, depois começamos a
articular os sons mais complexos, co-
meçamos a organizar palavras e, en-
tão, frases. Esse é o desenvolvimen-
to da linguagem. Socialmente, come-
çamos a trocar olhares com o mun-
do, ficamos atentos aos olhares dos
outros no mundo e, depois, lança-
mos as nossas olhadas. Desta forma,
o desenvolvimento vai por etapas.
Nas crianças com autismo, observa-
mos, claramente, um comprometi-
mento neste desenvolvimento que
pode ter esferas muito específicas ou
podem ser globais.
4. Revista Inclusão - Por falar no
termo global, por que existe, tam-
bém, a expressão Transtornos Glo-
bais do Desenvolvimento?
José Belisário - A palavra global foi
uma das primeiras traduções para a
palavra inglesa pervase. Invasivo e
global são traduções para a palavra
inglesa pervase. A primeira palavra
foi global feita por uma pessoa que
traduziu do Manual de Classificação
Americana de Doenças. Depois
houve uma revisão e foi traduzido
para invasivo.
5. Revista Inclusão - Você conside-
ra importante ter uma classificação
para as pessoas com autismo?
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 5
José Belisário - A classificação é
para facilitar a nossa vida e não pa-
ra dificultar. A idéia de classificar não
significa dividirmos os normais dos
patológicos. O que queremos com a
classificação é ter uma diretriz para
a pesquisa. Então, eu quero pesqui-
sar autismo: como vou agrupar isto?
Quais os autistas da minha pesqui-
sa? Quando publicamos um artigo
sobre uma pesquisa com autismo
em uma revista holandesa, cana-
dense ou angolana, vamos entender
do que estamos falando? A lingua-
gem em comum é fundamental para
falarmos da mesma coisa. Desta for-
ma, a idéia em português do invasi-
vo foi de transformar isso numa pa-
lavra para todo mundo, então, tem a
primeira tradução que é o global e,
hoje em dia, todo mundo usa o inva-
sivo que acabou ficando oficial. Es-
sas classificações são dinâmicas.
Está todo mundo esperando a nova
classificação americana. Os ameri-
canos fazem classificação desde o
século XIX. O Manual Diagnóstico
Americano, de tempos em tempos,
é revisado por um grupo grande de
pesquisadores para tentar adequar
a classificação. Com relação ao au-
tismo, temos um transtorno do gru-
po dos transtornos invasivos do de-
senvolvimento, Neste grande agru-
pamento, temos a síndrome de Rett
como uma doença neurodegenerati-
va que acomete, principalmente,
nas meninas, mas hoje em dia está
começando a descobrir algumas di-
ferenças com Rett em relação aos
meninos e que está nesse grupo pa-
ra mostrar que as síndromes têm
fundo biológico. A síndrome de Rett,
dentro dos transtornos invasivos, es-
tá, claramente, marcada pelo desen-
volvimento que é quebrado de re-
pente. O desenvolvimento do pró-
prio crescimento da calota craniana
que acontece, como também o
comprometimento motor em uma
série de áreas.
6. Revista Inclusão - Desta forma,
a Síndrome de Rett, como outros
grupos, pertence aos Transtornos
Invasivos do Desenvolvimento em
função desta quebra no desenvol-
vimento. Quais outros grupos fa-
zem parte destes Transtornos
porque tem uma quebra no de-
senvolvimento?
José Belisário - A síndrome de Rett,
o autismo, a síndrome de Asperger, o
Transtorno Desintegrativo da Infância
e o Transtorno Invasivo do Desenvol-
vimento sem Outra Especificação
(TID SOE) têm, em comum, a quebra
do desenvolvimento. Então, em caso
de síndrome de Rett, a menina está
se desenvolvendo muito bem e che-
ga aos 7, 8 anos e começa a ter cri-
ses convulsivas; o crescimento da
calota craniana não acompanha o
seu crescimento e uma série de com-
prometimentos motores que seria
uma ponta mais biológica. De outro
lado do espectro, se fossemos pen-
sar como tudo isso sendo um grande
espectro, temos as psicoses que
passam a ser chamadas de transtor-
no desintegrativo da infância porque
o termo psicose traz uma carga mui-
to grande para os pais que se sentem
culpados pelo desenvolvimento da
psicose. A idéia, hoje, não é essa. No
grupo das psicoses, entram as esqui-
zofrenias de início precoce que são
quadros muito complexos. Mas o
que eles têm em comum? São qua-
dros em que a criança vem se desen-
volvendo normalmente e ela tem uma
quebra no seu desenvolvimento. Ela
perde a fala, passa a não utilizar a fa-
la de uma forma pragmática que é di-
ferente, por exemplo, de uma criança
autista clássica que não desenvolveu
esse processo em momento nenhum
do seu desenvolvimento, a quebra é
mais inicial. Assim, no grupo dos
transtornos invasivos do desenvolvi-
mento temos vários tipos de síndro-
mes, várias alterações diferentes,
mas o que elas têm em comum são
as alterações no desenvolvimento
das crianças.
7. Revista Inclusão - Você mencio-
nou o Transtorno Invasivo do De-
senvolvimento sem Outra Especifi-
cação (TID SOE). O que significa?
José Belisário - Pensamos, inicial-
mente, que foi uma categoria criada
já que não conseguimos classificar
aqui classificamos lá. O que estamos
percebendo é que, as vezes, este
grupo é muito mais importante.
Quando usamos critérios mais rígi-
dos de diagnóstico, a tendência des-
te grupo é de aumentar. Quando fize-
mos a classificação dos transtornos
invasivos do desenvolvimento e es-
pecificamos, dentro de cada quadro,
isto é Rett, isto é autismo, isto é sín-
drome de Asperger, isto é o que seri-
am as psicoses, temos, também, os
grupos não especificados. Esses
grupos, à medida que o desenvolvi-
mento da genética cresce, começam
a ser elucidados. Dentro dos tran-
stornos invasivos do desenvolvimen-
to, temos outros quadros de altera-
ções genéticas raríssimas e que são
classificados como autismo e que,
antigamente, não tínhamos diagnós-
tico nenhum.
8. Revista Inclusão - O que seria
um quadro clássico de autismo?
José Belisário - É aquela criança
que, no berço, já não troca olhar com
a sua mãe. As mães se queixam que
colocá-la no colo é diferente. A crian-
ça não sente a acolhida corporal, ou
seja, não tem uma interação bem
precoce nesse desenvolvimento so-
cial na relação com a mãe. À medida
que ela vai se desenvolvendo, apare-
cem as estereotipias motoras e a difi-
culdade do relacionamento dela com
as questões sociais. A fala dela até os
cinco anos, provavelmente, não se
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 20106
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 6
desenvolve. Esta é uma criança do
grupo de autismo clássico. O grupo
de autismo clássico nem sempre re-
presenta, no grupo dos transtornos
invasivos do desenvolvimento, a
grande maioria. Os outros transtor-
nos associados como Asperger e TID
- sem outra especificação, também,
têm uma incidência alta. À medida
que a classificação abriu, se pensar-
mos nas três características que cita-
mos anteriormente, vamos ter uma
incidência bem mais alta de autismos
que é a grande discussão que se faz
hoje. Tem uma epidemia de autismo
hoje ou não? Existem pesquisas que
têm demonstrado que não. O dado
que temos é que os critérios classifi-
catórios foram alargados e um grupo
grande de crianças que não eram vis-
tas como autistas passaram a procu-
rar médico, passaram a procurar o
sistema de saúde e passaram a ser
diagnosticadas. Seria um número de
crianças que não desenvolvem a fala,
têm um atraso na motricidade fina,
uma fala mais estereotipada, uma es-
tereotipia em um tipo de brinquedo
de só gostar de um tipo de coisa. Es-
se grupo que passava despercebido
passou a ser diagnosticado como
autismo. Tem um caso interessante
de uma criança que foi diagnosticada
como autista nos Estados Unidos, a
mãe é brasileira e me procurou por-
que duvidou do diagnóstico do filho
pelos médicos americanos. À medi-
da que fui fazendo a entrevista, e que
fui descrevendo as questões de au-
tismo, o marido dela, que é um pes-
quisador sênior de informática e que
foi dar entrevista sobre o filho, reco-
nhece-se como autista e descreve a
história dele como síndrome de As-
perger. A mulher dele me disse que,
no primeiro dia que expliquei para ela
sobre o autismo, pensou que o mari-
do, claramente, era uma pessoa au-
tista mas que não teve coragem de
falar. Não fiz o diagnóstico dele por-
que meu paciente era o seu filho,
mas ele tinha várias características
que fechavam com o quadro de au-
tismo, por exemplo, ele só começou
a falar com seis anos de idade.
9. Revista Inclusão - Existem vários
artigos que citam o Bill Gates como
autista. O que você pensa sobre o
assunto?
José Belisário - É uma discussão.
Ele fez um tratamento, isso é público,
na infância com psiquiatra infantil. Ele
admite que fez tratamento e que ti-
nha muitas dificuldades sociais. As
dificuldades sociais têm de ser o nos-
so foco hoje porque quando a gente
pensa nos autistas, durante muitos
anos, o primeiro foco era a mãe gela-
deira. Que as crianças autistas eram
filhas da mãe geladeira que não con-
seguiam trocar afeto com eles e eles
não desenvolviam. Isso caiu por terra
há muito tempo. Hoje, qualquer es-
tratégia relacionada à criança autista
deve ser voltada ao social dela. Exis-
te uma idéia que as crianças autistas
não devem ir para a escola comum
porque não suportam o social. Vou
contar um caso para ficar mais claro.
Um paciente autista, em Belo Hori-
zonte, tinha uma dificuldade muito
grande com sons externos. Os pais
construíram um quarto com isola-
mento acústico para ele ficar mais
tranqüilo, porque qualquer barulho
diferente ele se desorganizava muito.
Essa criança, por uma questão de
educação, foi para a escola, sendo
que nem a escola especial ela supor-
tava. Então, imagina um menino com
uma dificuldade de lidar com sons e
vai para uma escola de meninos de 6
e 7 anos que é barulho total. Esse
menino, em menos de um mês, esta-
va freqüentando o recreio com os
seus colegas. Lógico que não foi fácil
no começo, lógico que todos os
grandes especialistas avaliaram a di-
ficuldade dele com o som, mas não
avaliaram isso dentro do social.
10. Revista Inclusão - Desta forma,
segundo o seu exemplo, há a pos-
sibilidade de mudanças de com-
portamentos sociais?
José Belisário - Do meu ponto de
vista, os ambientes sociais são as
grandes possibilidades e, se existe
alguma modificação para essas cri-
anças e para as famílias, é a partir
daí. Nada justifica o sofrimento de
uma família fechada dentro de casa,
vendo o seu filho cada vez mais iso-
lado dentro do quarto. Daí você que-
bra isso e em um mês esse menino
tem colega, tem escola, a mãe pode
sair para trabalhar. A vida desse pes-
soal se modifica. É outra dinâmica e
ele entra em outra dinâmica, porque
saímos da dinâmica da doença para
a dinâmica das possibilidades que
aquele sujeito pode construir. As
grandes possibilidades para o autis-
mo são os ambientes sociais porque
o grande comprometimento dele é
em relação ao social. Se o isolamos,
reforçamos este comportamento.
11. Revista Inclusão - Se os agru-
pamos entre os iguais, em uma
mesma sala de uma escola especi-
al, eles repetem comportamentos
estereotipados porque este é o so-
cial que vivem no cotidiano?
José Belisário - Você tocou num
ponto muito importante. As estereo-
tipias são muito freqüentes nestes
grupos. Eu já escutei de várias mães
de pacientes autistas que o filho de-
la aprendeu na escola especial ma-
nias que ele não tinha. Eu cheguei a
pensar que as mães estavam malu-
cas porque as manias fazem parte
das características dos autistas. Pre-
ciso pedir desculpas para estas mã-
es. À medida que, hoje em dia, eu
tenho mais crianças autistas na es-
cola comum, mais eu vejo a mudan-
ça impressionante no grupo dessas
crianças. Diminuem os maneiris-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 7
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 7
mos, e eles não copiam os maneiris-
mos dos outros. Porque criança, se-
ja ela autista ou não, está com a
mente pronta para copiar. Ela copia
o nosso comportamento. As crian-
ças têm essa capacidade muito
grande, o cérebro é feito para obser-
var e copiar. Claro que isso não quer
dizer que todas vão copiar tudo. En-
tão, os ambientes sociais são muito
importantes. Existe um grupo gran-
de de especialistas que sugere que
os autistas tenham um atendimento
especializado. Quando pensamos
numa criança autista na escola, não
estamos excluindo que ela tenha
atendimento educacional especiali-
zado. Como toda criança autista vê
seus irmãos, primos e vizinhos irem
para a escola, para eles não irem
para a escola é uma forma de com-
prometer o desenvolvimento social
deles. Isso não exclui, de forma al-
guma, que tem crianças autistas que
vão precisar de metodologias espe-
cíficas para poder desenvolver cer-
tas áreas. Aliás, é muito freqüente
ver isso. Acho que não podemos
pensar mais as crianças autistas
num mundo isolado. Então, vamos
criar uma série de habilidades na-
quele jovem, mas ele não vai saber
utilizá-las socialmente.
12. Revista Inclusão - Você defen-
de que as crianças autistas este-
jam na escola comum porque ali
elas desenvolvem a parte social da
mesma forma que você não exclui
o atendimento as suas necessida-
des específicas. Esse atendimento
é de ordem clínica ou pedagógica?
José Belisário - É uma questão de-
licada porque cada um é diferente.
Vamos pensar as peculiaridades de
todas as crianças. Tem criança que
vai precisar dos dois tipos, tanto o
pedagógico quanto o clínico. O que
vemos, por exemplo, é que quando
uma criança faz dois atendimentos
clínicos por semana, mas não vai à
escola, ela utiliza muito menos isso.
Então, devemos pensar que não
existe um guideline para todos os
autistas. Cada autista vai ter um ti-
po de atendimento que depende
dos recursos de sua cidade. Não
dá para pensar que existe uma téc-
nica ou um profissional especialista
numa cidade do interior de São
Paulo e toda criança autista tem
que passar por ele. Devemos pen-
sar quais são as estratégias possí-
veis de atendimento para uma cri-
ança naquela comunidade. Por
exemplo, uma criança que necessi-
ta de terapia ocupacional para me-
lhorar a organização motora, mas
na cidade não existe ninguém que
possa fazer isso por ela e os pais
não têm recursos para viajar para a
cidade mais próxima. Então, um
profissional desta cidade pode se
formar no sentido de ajudá-la, às
vezes uma fonoaudióloga que tra-
balharia mais a fala, mas acaba tra-
balhando a organização corporal
que vai também ajudá-la na fala.
13. Revista Inclusão - O atendimen-
to, então, é personalizado?
José Belisário - É personalizado. O
atendimento é um território indivi-
dual. Pensar o social como um todo.
Pensar que a criança autista deve fre-
qüentar os ambientes sociais que
seus próximos freqüentam é uma
coisa. Daí, a dizer que toda criança
autista tem que freqüentar fonoaudió-
logo, tem que freqüentar terapeuta
ocupacional não pode.
14. Revista Inclusão - Então, o
atendimento não pode ser univer-
salizado?
José Belisário - Toda criança autista
vai tomar remédio? Não, mas algu-
mas crianças autistas vão se organi-
zar muito mais tomando remédio.
15. Revista Inclusão - Adianta ter
somente o atendimento clínico, co-
mo por exemplo, ter um atendi-
mento com fonoaudióloga para
melhorar a sua fala e não ter com
quem falar?
José Belisário - Essa é a questão.
Vemos crianças anos e anos com
uma fonoaudióloga excelente e não
tem com quem trocar. Por exemplo,
as crianças autistas têm uma peculia-
ridade que, quando se sentem pres-
sionadas socialmente, elas param.
Aquela criança aprendendo a colocar
a língua no lugar certo, aprendendo
com a fonoaudióloga, ela não utiliza
isso porque ela tem dificuldade com
aquele adulto que está perto dela.
Ela se sente pressionada por ele. O
adulto quer resultado. Então, essa
criança vai conseguir, muitas vezes,
usar tudo o que ela aprendeu com a
fonoaudióloga, brincando com os co-
legas. Essa série de coisas que fa-
zem parte da técnica para ajudar a
organização de fala ele vai usar brin-
cando. Daí vão aparecer falas, comu-
nicações entre as crianças. Essa co-
municação é tudo o que precisamos
e que se garante na convivência com
os colegas.
16. Revista Inclusão - Como você
avalia a inclusão de crianças e jo-
vens com autismo na escola co-
mum brasileira? A escola comum
garante o desenvolvimento, a troca
e dá sentido as coisas na interação
com os demais?
José Belisário - Tem uma coisa mui-
to arrojada que tenho visto com as
crianças autistas. Nós, teóricos, pen-
samos que a escola pública é impor-
tante no nosso país. É uma fala gene-
ralizada. Na classe média, as crian-
ças, muito raramente, vão para as es-
colas púbicas e o que acontece, de
mais grave no nosso país, é que a es-
cola pública fica parecendo castigo.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 20108
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 8
O que os autistas têm mostrado para
nós, pelo menos na minha experiên-
cia, é que eles se dão muito melhor
no sistema público. Porque alguns
sistemas públicos são mais abertos
às mudanças do que os sistemas pri-
vados, onde as pessoas são formata-
das para passar no vestibular. Então,
não tem jeito de formatar um autista
para o vestibular. Ele até pode fazer
um vestibular e passar, mas ele não
vai cair neste grande engodo que é o
vestibular. Tenho visto uma experiên-
cia muito interessante de crianças
que passaram por boas escolas par-
ticulares no processo de inclusão e a
escola não conseguiu ter jogo de cin-
tura para lidar com elas e que vão pa-
ra uma escola pública e funcionam
fantasticamente.
17. Revista Inclusão - Podemos di-
zer, então, que já temos experiên-
cias bem sucedidas de inclusão
escolar de alunos com autismo?
José Belisário - Podemos falar dis-
so. No entanto, existem poucos estu-
dos quantitativos. As variáveis são
muito amplas. Do ponto de vista
quantitativo, é difícil agrupar as crian-
ças autistas e fazer uma pesquisa
porque os sistemas de ensino, nem
todos, dão certo. Então, temos, por
exemplo, um grupo funcionando em
São José do Rio Preto e outro que
não funciona em Ribeirão Preto. É di-
fícil agrupar e quando vamos fazer
uma avaliação qualitativa encontra-
mos os casos, mas o número de va-
riáveis, também, aumenta muito. A vi-
são qualitativa faz com que você en-
xergue muitas outras variáveis no
processo de inclusão. É difícil ter
uma pesquisa comprovando que fun-
ciona. No entanto, acho engraçado
quando as pessoas perguntam se a
inclusão dá certo porque ninguém foi
investigar se a escola especial funcio-
nava. Eu nunca vi pesquisa falando
que a escola especial é boa para au-
tista. Todo mundo cobra as nossas
pesquisas provando que a inclusão
funciona, mas vamos ver o outro lado
também. Quem provou que a exclu-
são funciona? Quais são as pesqui-
sas que sustentam a segregação?
Do meu ponto de vista, estou muito
satisfeito com o que eu tenho visto de
inclusão desse grupo de pacientes.
Importante dizer que várias crianças
com autismo, incluídas na Rede Mu-
nicipal de Ensino de Belo Horizonte,
fizeram a Prova Brasil, e várias tive-
ram média acima da média da esco-
la, mostrando que elas não estão na
escola somente para aprender a se
relacionar socialmente, como tam-
bém o conteúdo da aprendizagem
delas está acontecendo.
18. Revista Inclusão - Como você
entende a aprendizagem das crian-
ças autistas?
José Belisário - Elas aprendem. O
problema é que não adianta querer
fazer prova de tudo. As crianças au-
tistas têm uma peculiaridade. Primei-
ro, elas são feitas para sobreviverem
e não dão bobeira. Elas estão em
alerta constante e têm um instinto de
sobrevivência muito forte. Até pode-
mos pensar que é um instinto de vi-
da. Elas não fazem bobagem. Então,
virar para uma criança e dizer que ela
tem que estudar naquela escola por-
que ela vai passar no vestibular não
funciona para uma criança autista.
Não faz sentido para ela. Mas, ela es-
tá naquela escola e quer aprender
geografia porque no computador ela
sabe mexer, já visitou o Google e sa-
be conhecer o mundo. Então, ela vai
estudar geografia porque é um as-
sunto próximo dela. Não estamos fa-
lando de meninos ricos, mas de alu-
nos de escola pública que conhecem
o Google sim. Hoje em dia as crian-
ças têm acesso. Quanto mais social-
mente é vivido o aprendizado, mais
ele funciona. Quanto mais ele é de ci-
ma para baixo, mais difícil é. Nos pro-
cessos de aprendizagem existem pe-
culiaridades. Eu vejo que para as cri-
anças autistas as pessoas passam
quatro anos pegando na mão delas
para escreverem as letras ou então
para ensinar a fazer a letra cursiva.
Nem um adulto escreve com letra
cursiva direito. Exceto a letra da pro-
fessora, nenhuma letra é cursiva. To-
do mundo acaba elaborando um tipo
de escrita. E eles percebem isso. Por
um outro lado, eles sabem se comu-
nicar muito bem com as letras de cai-
xa alta. As pessoas gastam três anos
ensinando a fazer voltinha e não pre-
cisa perder tempo com isso. É lógico
que às vezes ele vai precisar disso
para assinar um documento na hora
de fazer suas coisas e aí vai se treinar
isso, mas gastar três anos da infância
de uma criança treinando a fazer vol-
tinhas nos pontinhos, ele não vai pa-
rar para isso, ele vai perder a paciên-
cia no meio do processo.
19. Revista Inclusão - Ainda na
perspectiva da aprendizagem,
existem autistas de baixo rendi-
mento e de alto rendimento?
José Belisário - Não existem. Por
que não? Quando falamos de alto e
baixo rendimento, estamos falando
de autista deficiente mental com ca-
racterísticas autistas. Na nova classi-
ficação de deficiência mental temos
que levar em conta os recursos co-
munitários que são oferecidos àque-
la pessoa. À medida que começa-
mos a ver os recursos que são ofere-
cidos a uma criança autista, começa-
mos a perceber que um grupo muito
grande que era tido como deficiente
mental grave, que só ficava batendo
a mão porque não conseguia esta-
belecer nenhuma comunicação soci-
al, e depois que apareceu o compu-
tador na casa do vizinho ensinou o
vizinho a mexer com o mouse, en-
tão, mudou radicalmente a catego-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 9
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 9
ria. O menino que ia babando no
consultório do médico, fazendo os
flaps de mão e a família não conse-
guia mais nada dele, de repente des-
cobriu a possibilidade. Antes de fa-
zer o diagnóstico, nós médicos te-
mos que ter esse cuidado, a defici-
ência mental é quase um diagnósti-
co de exclusão, principalmente na
esfera pouquíssimos profissionais no
nosso país conseguem fazer uma
testagem adequada para avaliar se
tem deficiência mental ou não no au-
tismo. Geralmente, isso é feito no ol-
hometro o que é muito grave porque
as pessoas acreditam naquele olho-
metro, definem que aquele sujeito
não vai para a escola porque ele é
um deficiente mental, definem que
ele não vai conviver socialmente por-
que ele é um autista e você compro-
mete a vida desse sujeito e da famí-
lia. Temos de ter muito cuidado sem-
pre que o território é de discutir as
deficiências mentais. Nós temos que
nos posicionar, lembrando sempre
que as deficiências dependem dos
recursos que são ofertados para
aquele sujeito.
20. Revista Inclusão - Desta forma,
por que a criança com síndrome
de Asperger é considerada como
tendo um alto rendimento? Por
que isso está no imaginário das
pessoas? E como podemos dife-
renciar uma criança com autismo
clássico de uma criança com sín-
drome de Asperger?
José Belisário - Geralmente, a pes-
soa com Asperger desenvolve a lin-
guagem mais precocemente, então,
isso já nos ajuda a diferenciar um do
outro. Ele vai estereotipar o conheci-
mento, ou seja, vai ter uma área do
conhecimento muito grande que é
estudar todo um catálogo telefônico
da cidade de São Paulo, por exem-
plo. Existem crianças que vão desen-
volver uma área específica e vão se
desenvolver dentro daquela área,
mas isso era uma forma de valorizá-
las. Olhe ele sabe isso, ele não sabe
jogar bola, mas ele sabe o catálogo
inteiro, mas ninguém vai perguntar
para ninguém qual é o nome que es-
tá no catálogo, mas com toda certe-
za saber que o São Paulo ganhou no
final de semana é mais importante do
que saber um catálogo. Então, em ci-
ma disso foi construída essa imagem
de que as pessoas com Aspergers
são extremamente inteligentes. Co-
mo eles têm uma área de conheci-
mento exacerbada, parece que isso é
um sinal de inteligência, mas sabe-
mos que isso não é inteligência. É
uma habilidade.
21. Revista Inclusão - Então, uma ha-
bilidade não significa inteligência?
José Belisário - Não, de forma al-
guma. Cada ser humano tem a sua
própria habilidade, a sua forma de
se organizar. Existem pessoas que
não têm memória nenhuma e pes-
soas que têm uma memória exce-
lente para coisas recentes, por
exemplo, ou para coisas antigas.
Cada um vai ter a sua peculiaridade,
sua forma de organizar o ser. Daí
acontece uma coisa triste com eles,
eles são segregados porque são al-
tamente hábeis numa coisa. Essa
habilidade não serviu para inseri-los
socialmente, serviu para apontar a
diferença deles. Aí que está o ponto
que devemos tomar cuidado, quan-
to mais ficamos apontando as dife-
renças que são óbvias, menos va-
mos construir uma prática social pa-
ra estas pessoas, uma inserção so-
cial para eles.
22. Revista Inclusão - Você conse-
guiria definir o atendimento educa-
cional especializado para uma cri-
ança com autismo? Existe um
atendimento ou é algo a ser pensa-
do e definido?
José Belisário - Isso vai depender de
cada caso. Existe, por exemplo, uma
técnica especial para trabalhar com
crianças com autismo que é o Teach.
É uma técnica que foi construída para
crianças autistas que ajuda na sua or-
ganização. Algumas crianças se favo-
recem com esta técnica. É uma técni-
ca muito bem estabelecida, muito or-
ganizada, de certa forma até um pou-
co rígida. É uma técnica que, quando
você a tem disponível, ela pode estar
funcionando, mas eu não posso dizer
que tem que ter uma sala de Teach to-
da escola brasileira. Agora, existem
algumas características muito fre-
qüentes neste grupo, há um tempo
de persistência no atendimento edu-
cacional especializado que pode mo-
dificar em relação a escola, as altera-
ções motoras que nesse grupo é mui-
to freqüente, tem técnicas específicas
para isso. Eu acho que os atendimen-
tos pedagógicos vão ter que ser pen-
sados no individual de cada sujeito e,
algumas coisas, talvez, pensadas no
grupo maior.
23. Revista Inclusão - Na Política
de Educação Especial na Perspec-
tiva da Educação Inclusiva, o aten-
dimento educacional especializa-
do não substitui a sala de aula co-
mum, ou seja, o aluno com autis-
mo, por exemplo, vai estar na sala
de aula comum tendo acesso a es-
colarização que é comum a todos.
Neste sentido, o AEE, na perspec-
tiva inclusiva, é tudo o que é dife-
rente da sala de aula comum, mas
que vai auxiliar o aluno com autis-
mo a acessar ou a lidar melhor
com tudo o que se passa na sala
de aula comum, ou seja, com o co-
nhecimento. Sendo assim, você
acredita que existe o atendimento
educacional especializado para o
aluno com autismo?
José Belisário - É difícil a pergunta
porque serão duas posturas dife-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 201010
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 10
rentes. Eu sempre acredito que os
professores dão conta dessas crian-
ças em sala de aula desde que se
ofertem os recursos para a sala de
aula. Vou contar um caso rápido.
Recentemente, foi incluído um paci-
ente meu com autismo que vinha de
anos de escola especial e os pais
resolveram incluí-lo em uma escola
religiosa de seu bairro, ligada ao
pastor, uma escola pequena de um
pequeno núcleo religioso. Eu, inici-
almente, fiquei muito preocupado.
Uma escola que nunca tinha tido
uma experiência, ele é um autista
grande, para azar dele ele tem um
percentil 90 de crescimento, ele é
muito grande, ele foi aceito nesta
escola e a professora que o acolheu
era uma professora que tinha uma
turma muito bagunceira e que era a
alfabetizadora da escola. Ele já ti-
nha 9 para 10 anos, mas foi a sala
que eles escolheram para colocá-lo,
ele não sabia escrever, mas eu não
vou discutir isso. O que é mais im-
portante é que três meses nesta sa-
la de aula, sem nenhum atendimen-
to educacional especializado, essa
professora e os colegas dele cria-
ram uma metodologia para o alfabe-
tizarem. Eu vi no meu ambulatório
da universidade. Três meses a pro-
fessora construiu umas cartas, os
colegas desenharam as cartas e ele
já estava juntando as letras. Três
meses de escola, para um menino
que já tinha passado por vários re-
cursos especializados, mas o que
ele não tinha passado ainda? Por
uma professora com a sua turma.
Esse ambiente social constrói coi-
sas muito mais importantes.
24. Revista Inclusão - Desta for-
ma, o que você está dizendo? É
possível ser atendida as especifi-
cidades de uma criança autista,
ela dar sentido para o conheci-
mento, dependendo da dinâmica
de sala de aula?
José Belisário - É, preferencialmen-
te, na sala de aula. Senão eu estarei
demitindo milhões de técnicos espe-
cializados e colocando os professo-
res no lugar e não é isso. Temos que
privilegiar a questão da sala de aula.
Esse é o ponto. Aliás, vou tocar em
outro ponto que eu acho muito deli-
cado também. A maioria das esco-
las quando recebe uma criança au-
tista, principalmente aquelas que
têm muitas estereotipias motoras e
que chamam muita atenção, daque-
las que batem na carteira, eles geral-
mente tendem, tanto no serviço pú-
blico quanto no privado, a pedir
acompanhantes para a criança em
sala de aula e esse acompanhante
em sala de aula é um ponto muito
delicado. Por quê? Se o acompa-
nhante é muito eficiente e está sem-
pre do lado da criança, é péssimo.
Porque ela perde aquele espaço de
bater nos colegas, de trombar, de
cair, que acontece com toda criança
na escola. As crianças correm, ca-
em, trombam, levantam, mas quan-
do tem o acompanhante do lado,
aquela criança fica cheia de cuida-
dos em volta dela. Então, esses
acompanhantes nunca podem re-
presentar integralmente o convívio
social da criança.
25. Revista Inclusão - Então, me-
lhor não ter os acompanhantes?
José Belisário - Eu gostaria muito de
não tê-los, mas algumas professoras
ficam muito angustiadas com a falta
da presença deles. Para incluir, às ve-
zes, é uma estratégia que não pode
ser para sempre, tem que ser tempo-
rária. Porque uma criança autista é
feita para sobreviver, se ela percebe
que ela sobrevive melhor com aque-
la mão que está ao lado dela fazendo
as coisas para ela, ela vai usar a mão
daquela pessoa. Agora, a mão de um
coleguinha ela não vai poder usar
porque o coleguinha perde a paciên-
cia. Os colegas tratam naturalmente
as crianças, depois de um tempo de
convívio eles incorporam e tratam
muito naturalmente. As crianças
aprendem esses jogos sociais muito
mais rapidamente do que a gente
imagina. Na verdade, o que acontece
é que a professora tinha de ter um
auxiliar na sala, porque não é só o
menino com autismo que precisa,
tem um tanto de meninos voando no
fundo da sala que não copiam as coi-
sas, que não estão acompanhando.
Estes todos precisariam de uma auxi-
liar no seu dia a dia, mas as pessoas
pedem para o aluno autista porque
ele tem uma alteração de comporta-
mento. Eu tenho uma paciente autis-
ta que adorava rasgar mapas, todos
os mapas da escola ela rasgava. Daí
arrumaram uma acompanhante para
ela para não rasgar os mapas da es-
cola. Nunca ninguém parou para dis-
cutir com ela o que é um mapa, tra-
balhar os mapas. É bom voltar a lem-
brar que a escola religiosa que acei-
tou o menino autista, a turma que era
a turma bagunceira da escola virou a
turma calma porque eles sentiram
que não estavam lá só para fazer ba-
gunça, estavam lá, também, para aju-
dar o colega. Então, eles se organiza-
ram de uma forma muito melhor. É
muito interessante esta história de
que o grupo de crianças se ajusta
nos processos de inclusão. A tendên-
cia, por exemplo, com toda razão,
90% de mães de crianças autistas
que vão levar o filho para a escola fi-
cam apavoradas porque o filho delas
dá trabalho desde que nasceu, ela
tem uma série de coisas especiais
que tem que montar para ele e aí ela
pensa, como uma escola pública vai
dar conta de fazer tudo o que eu fa-
ço, mas o que acontece é que a es-
cola pública não precisa fazer tudo o
que eu ou ela faz. Esta é a grande
quebra, que aquela proteção toda
que num certo ambiente é necessá-
rio em outro é diferente.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 11
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 11
O ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Entre as inúmeras contribuições oferecidas pela Política
Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Edu-
cação Inclusiva, visando à orientação das redes de en-
sino a definir uma nova proposta de trabalho dessa mo-
dalidade, há que se destacar a apresentação e a clarifi-
cação do atendimento educacional especializado - AEE.
Além de constituir a grande novidade dessa Política,
o AEE não restringe seus objetivos à Educação Espe-
cial. Quando devidamente interpretado e oferecido
nas escolas comuns, esse Atendimento pode provo-
car as tão esperadas mudanças no ensino comum
para que possa atender às exigências de uma educa-
ção para todos.
Palavras-chave: Diferenças; Identidade; Atendimento
Educacional Especializado; Inclusão escolar.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 201012
12 DESTAQUE NACIONAL
O ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Maria Teresa Eglér Mantoan
tmantoan@unicamp.br
A identidade joga pelas pontas; a diferença, pelo meio.
Silva, 2002
1
Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade (LEPED) do Departamento
de Educação da Unicamp; autora de várias obras com o tema inclusão; professora da Graduação e do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação - Unicamp.
Resumo
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 12
Among the countless contributions offered by the Natio-
nal Policy of Special Education in the Inclusive Educati-
on Perspective, which aims at counseling the educatio-
nal system to define a new working approach in this
area, one should emphasize the presentation and clarifi-
cation of atendimento educacional especializado - AEE
(Specialized Educational Attendance). Besides being
the great novelty of this Policy, AEE does not restrict its
objectives to Special Education. When this attendance is
properly understood and offered in common schools, it
brings about the so desirable changes in ordinary tea-
ching, which will make it keep up with the demands of an
education meant for all.
Key words: Differences; Identity; Specialized Educatio-
nal Attendance; Educational inclusion.
Introdução
O movimento em favor da inclu-
são escolar não seria uma novidade
se continuasse reduzindo a diferen-
ça à identidade. O propósito desse
movimento não é identificar e legiti-
mar as diferenças, defendendo-as a
partir de códigos, avaliações, hierar-
quizações, categorizações, que de-
sencadeiam a segregação e a cria-
ção de grupos marcados por uma
identidade. A inclusão se apóia na
idéia de que somos iguais, porque
diferimos uns dos outros e de que a
diferença se diferencia infinitamente.
Em uma palavra, a escola inclusi-
va assegura a igualdade entre alu-
nos diferentes, e este posicionamen-
to lhes garante o direito à diferença
na igualdade de direito à educação.
Os caminhos percorridos pela
educação brasileira para concretizar
seu projeto inclusivo tem esbarrado
em equívocos conceituais, que difi-
cultam a reorganização pedagógica
das escolas para atender às exigên-
cias que as diferenças lhes impõem.
Os avanços da escola brasileira
nessa direção têm acontecido muito
lentamente, e o número crescente de
alunos outrora excluídos das turmas
do ensino comum (notadamente os
alunos com deficiência) são uma pro-
vocação constante nesse sentido.
É até certo ponto compreensível
a resistência das escolas à inclusão
plena e incondicional, dada a nossa
inexperiência com as diferenças, que
nos faz reduzi-las a identidades fixa-
das: alunos com deficiência mental,
alunos em situação de risco social,
alunos da periferia, com altas habili-
dades e outros.
Os grupos que reivindicam uma
identidade específica e os que exi-
gem a transposição de fronteiras
identitárias, por não terem uma per-
tença definida e considerarem que
[...] a diferença é sempre um devir
(SILVA, 2002) criam um campo de
tensão nos espaços educacionais
comuns e especializados, que ora
expressa o poder da universalização
sobre as diferenças, ora o inverte.
Essa instabilidade dos sentidos da
diferença afeta o discurso e as práti-
cas escolares.
Os movimentos em favor da ex-
clusão total e os que defendem a
normalização/integração, ou seja, a
inclusão parcial, reduzem as diferen-
ças a identidades e apregoam a ma-
nutenção de escolas e classe espe-
ciais em que os alunos são agrupa-
dos por um atributo que os iguala.
Nas escolas inclusivas, a diferen-
ça é um desafio constante à fixação
das identidades e constitui o verda-
deiro sentido da própria identidade
(SCOTT, 1988). Nessas escolas, a di-
ferença não está associada a anor-
malidades, a desigualdades, a opo-
sições binárias: o aluno normal, co-
mum, padrão e o aluno com defici-
ência, o sadio e o doente, o normal e
o anormal, que sustentam o elitismo,
a meritocracia, a competitividade,
fontes de desigualdades sociais e de
exclusão nas escolas e da coletivida-
de em geral (FOREST & PEARPO-
INT, 1992; DESSENT, 1987).
A constitucionalidade da educa-
ção inclusiva é um fato no Brasil,
desde 1988. Adotar essa inovação
trazida pelo direito incondicional de
todos os alunos ao acesso e ao
prosseguimento da escolaridade em
turmas comuns exige a quebra de
modelos organizacionais conserva-
dores de uma organização escolar
conservadora e as mobiliza. Envolve
não apenas o desejo de mudar, mas
a realização dessa mudança e um
envolvimento dos sistemas de ensi-
no, inspirados por teorias, e nortea-
dos por políticas exeqüíveis e clara-
mente formuladas.
A Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educa-
ção Inclusiva constitui uma grande
força alavancada pela educação bra-
sileira, em favor da inclusão. Ao rom-
per com a possibilidade de a Educa-
ção Especial substituir a escola co-
mum, o documento sinaliza a abertu-
ra de novos horizontes educacio-
nais. O norte inclusivo da Política tor-
na a Educação Especial uma moda-
lidade presente em todos os níveis e
demais modalidades de ensino,
complementando a formação dos
alunos, sem, contudo, confundir-se
com o que é específico do processo
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 2010 13
Abstract
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 13
de escolarização comum.
Em sua nova perspectiva, a edu-
cação inclusiva, a Educação Especi-
al se entranha nos sistemas escola-
res, articula-se com eles e celebra a
diferença múltipla, a diferença dentro
das diferenças, sem ceder aos que
se recusam a participar da mesma
celebração! Desfazem-se, então, dis-
torções que destituíram a Educação
Especial de seu lugar próprio.
Ao definir seu público alvo: alu-
nos com deficiência, transtornos glo-
bais de desenvolvimento e com altas
habilidades, a Política delimita a atu-
ação e competências da Educação
Especial e recupera seu verdadeiro
papel, descaracterizado pelo atendi-
mento indiscriminado de alunos que
a escola comum exclui pelos mais
variados motivos. Seus professores
deixam, entre outras atividades des-
focadas de suas atribuições, de fazer
reforço escolar para alunos com difi-
culdades de aprendizagem, e adqui-
rem um estatuto profissional definido
e compatível com o que a Política en-
tende como caráter complementar
do ensino especial.
A Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educa-
ção Inclusiva traçou seus objetivos
tendo em vista reafirmar esse novo
lugar da Educação Especial nos sis-
temas de ensino. Nesse sentido, ela
é incisiva e esclarecedora, desta-
cando seu mote de contribuir para a
transformação das relações com as
diferenças, cultivadas na escola e
fora dela, relações estas que são
imprescindíveis para que o ensino
comum reconheça a necessidade
de refazer suas práticas e de re-
construir-se sob os princípios e va-
lores da inclusão.
Dentre as novidades lançadas
pela Política destaca-se o Atendi-
mento Educacional Especializado -
AEE, o qual é um serviço da Educa-
ção Especial que "[...] identifica, ela-
bora e organiza recursos pedagógi-
cos e de acessibilidade, que elimi-
nem as barreiras para a plena partici-
pação dos alunos, considerando su-
as necessidades específicas" (SE-
ESP/MEC, 2008).
O AEE constitui um vetor impor-
tante de transformação do ensino es-
pecial e comum exigida pela inclu-
são, por abordar as diferenças sem
apelo às generalizações que as es-
sencializam e que redundam em fór-
mulas prontas de atendimento espe-
cializado. O fato de a Política ter defi-
nido seu público específico não con-
tradiz esta abordagem das diferen-
ças; o AEE planeja e executa suas in-
tervenções dentro de quadros identi-
tários móveis individualizados, sus-
cetíveis a influências do meio, que
não estão restritos a características
previamente descritas, diagnósticos
e prognósticos implacáveis.
O professor de AEE é um profis-
sional que atua sobre as peculiarida-
des de certos alunos, provendo re-
cursos, meios, equipamentos, lin-
guagens e conhecimentos que os
apóiam no acesso e participação no
ensino comum. Seu trabalho vai
além do ensino de técnicas, códi-
gos, manuseio, treino de uso dos re-
cursos que dão suporte à escolari-
zação dos alunos nas turmas co-
muns e não visam à aprendizagem
de conteúdos das áreas curricula-
res. Trata-se de um professor espe-
cializado nesse tipo de atendimento,
mas que não se confunde com o es-
pecialista no sentido usual do termo,
porque ele é, antes de tudo, um pro-
fessor, cujo entendimento da Educa-
ção Especial na perspectiva inclusi-
va, permite que ele integre sua es-
pecialidade ao ensino comum, sem
desfigurá-la. Esse professor pesqui-
sa estuda cada um dos alunos que
lhe é encaminhado e decide, organi-
za, cria, desenvolve recursos para
além do que já existe de suportes de
todo tipo, que possam suprir as ne-
cessidades de cada um.
Não há um molde pronto para ser
aplicado indistintamente aos proble-
mas, às deficiências dos alunos e as-
sim sendo, o AEE desafia a capaci-
dade do professor especializado en-
contrar saídas, descobrir o que pode
acrescentar ao seu plano inicial de
ação, para mantê-lo atualizado e
aberto a novos possíveis. Todas as
suas atribuições envolvem muita de-
dicação e um nível de responsabili-
dade que precisa ser desenvolvido
na prática, mas tendo por detrás
uma boa sustentação teórica, coe-
rente com os princípios da inclusão
e, portanto, com o que se entende
por "diferenças na escola" e não com
a "escola dos diferentes".
O incentivo a novas relações
com as diferenças nas escolas ga-
nha força durante os estudos que
antecedem ao atendimento educa-
cional especializado de cada aluno;
o professor do AEE reúne dados co-
letados dos professores e demais
membros da comunidade escolar,
que estão direta ou indiretamente
envolvidos no caso em estudo e se-
diados, de preferência, na mesma
escola que este aluno freqüenta. Es-
se grupo, em que podem estar in-
cluídos pais e familiares do aluno, é
chamado a participar de encontros
de clarificação do problema na sala
de aula ou fora dela, da sua possível
solução e da discussão das ações
que serão elencadas para dar início
ao o atendimento.
Um bom plano de AEE tem a par-
ticipação da equipe escolar. Envolver
os interessados e diretamente relaci-
onados com os alunos que serão
atendidos e os que já estão em aten-
dimento educacional especializado é
mais uma atribuição do professor de
AEE. Há os que têm naturalmente a
capacidade de trazer as pessoas pa-
ra a roda de discussão e outros que
precisam se esforçar mais, pois é im-
prescindível a reunião do maior nú-
mero de informações, opiniões, su-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 201014
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 14
gestões sobre os alunos.
A colaboração sistemática dessa
equipe no atendimento especializa-
do "mexe" com os seus membros e é
uma oportunidade ímpar que cada
um deles têm de rever atitudes, valo-
res, comportamentos que são co-
muns em suas relações com as dife-
renças e que mantém o caráter ex-
cludente da sua organização peda-
gógica da escola. Quando os profes-
sores comuns encaminham seus
alunos (para os quais não se acham
preparados para ensinar) aos cole-
gas da Educação Especial, eles en-
tendem que esses alunos diferem
dos demais colegas da turma. Assim
procedendo, desconhecem as dife-
renças dos demais alunos e nada
muda na escola!
A virada das escolas que se reco-
nhecem inclusivas pode acontecer
rapidamente ou se alongar no tem-
po, mas há sempre um momento
inusitado em que os professores co-
muns e especializados descobrem
que não conseguimos conter as dife-
renças em grupos identitários fecha-
dos e criados arbitrariamente e que,
na inclusão escolar, a diferença não
desaparece na homogeneização e
universalização da igualdade, onde
o outro se torna o mesmo. A inclusão
depende de sabermos nos equilibrar
num fio de navalha.
A disponibilização preferencial do
AEE nas escolas comuns, como pro-
põe a Política atual de Educação Es-
pecial, aguça a necessidade de
mantermos esse equilíbrio.
Os argumentos em favor dessa
preferência reafirmam a importância
de todos os alunos serem reconheci-
dos em suas diferenças.
O AEE, sendo um serviço ofere-
cido na própria escola do aluno,
beneficia-o em sua formação, por
convalidar o que uma instituição in-
clusiva promove para todos os seus
estudantes: a preparação para a vi-
da pública e cidadã, a construção
da identidade, a partir dos confron-
tos com as diferenças e a convivên-
cia com o outro em um único ambi-
ente educacional.
Quando o AEE é realizado na es-
cola em que esse aluno estuda, rea-
firma o seu papel de oportunizar a in-
clusão, distanciando esse aluno de
centros especializados públicos e
particulares, que o privam de um am-
biente de formação comum a todos,
discriminando-o e continuando a tra-
tá-lo à parte dos demais colegas.
Quanto à escola comum, nada
mais indicado para o aluno do
AEE do que o aluno ter seus pro-
blemas tratados e discutidos no
dia-a-dia escolar, com a contribui-
ção de toda a sua equipe de ensi-
no comum e especial, como já nos
referimos anteriormente.
Sobre os pais de alunos que ne-
cessitam do AEE, o fato de eles vi-
verem o desenvolvimento e a esco-
larização de seus filhos, a partir de
uma experiência educacional intei-
ramente inclusiva, sem terem de re-
correr a atendimentos exteriores à
escola em que estudam reforça a
idéia de que a inserção total desses
alunos no meio escolar é possível e
caracteriza, portanto, a garantia de
um direito à igualdade, sem des-
considerar e descaracterizar as dife-
renças de cada aluno.
A Política é instigante, quando
trata da formação dos professores
para a Educação Especial. O texto
insinua uma revisão dessa formação,
que, como nos demais tópicos aqui
apresentados, toca nas mesmas
questões vitais da inclusão e que di-
zem respeito, como bem assinala
Silva (2002), às impertinências entre
identidade e diferenças.
Ainda há poucas iniciativas visan-
do a uma formação coerente com o
que está posto na Política, embora
corram por aí cursos destinados à
educação inclusiva, que a confun-
dem com Educação Especial e mais,
na sua concepção substitutiva do
ensino comum.
Com a urgência devida e com o
apoio e financiamento da Secretaria
de Educação Especial, do Ministério
da Educação, estamos preparando
professores de todo o Brasil, na mo-
dalidade ensino a distância, para
que possam iniciar o AEE nas esco-
las comuns de suas redes de ensino.
Nossa pretensão é que, com a
introdução de novas práticas edu-
cacionais nas escolas, os sentidos
atribuídos à igualdade e ao direito à
diferença na concepção inclusiva
da educação comum e especial, es-
clareçam-se.
A inclusão propõe uma pedago-
gia e uma escola das diferenças em
contraposição às escolas dos/para os
diferentes, e a nossa Política de Edu-
cação Especial, nessa perspectiva, é
um passo decisivo para que consiga-
mos chegar à escola que tanto quere-
mos. Vamos em frente, que as resis-
tências cederão às evidências.
Referências
BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria
de Educação Especial. Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Edu-
cação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
DESSENT, T. Making the ordinary school
special. UK: The Falmer Press, 1987.
FOREST, M. & PEARPOINT, J. MAPS. Action
planning to welcome people of all ages into
full life, at home, school, work and play. In:
PEARPOINT, J.; FOREST, M. & SNOW, J.
(Org.) Strategies to make inclusion work.
Toronto, ON: Inclusion Press, 1992.
SILVA, T. T. da. Identidade e diferença: im-
pertinências. Educação e Sociedade: São
Paulo, Vol.23, 2002, p.65-66.
SCOTT, J. Deconstructing Equality-versus-
Difference: Or the Uses of Poststructuralist
Theory for Feminism. Vol.14, nº 1. Spring:
Feminist Studies, 1988, p. 33-50.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 2010 15
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201016
TRAÇANDO OS MESMOS CAMINHOS
PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA
EDUCAÇÃO INCLUSIVA
A educação inclusiva é o argumento principal deste artigo.
Começando com uma conceitualização do significado de in-
clusão em educação, sendo propostas algumas condições
que são necessárias para desenvolver nos centros para que
se caminhe para a inclusão. Neste sentido, entre outros, a
colaboração, a liderança compartilhada, o apoio curricular e
institucional, a implicação da comunidade educativa são pi-
lares fundamentais para a implementação deste modelo de
educação. O artigo finaliza com uma reflexão sobre o que
podemos fazer ou que direções deveríamos seguir para
construir centros de educação que tenham capacidade pa-
ra todo o alunado, e nos quais o objetivo seja uma resposta
educativa eqüitativa e de qualidade para todos.
Palavras-chave: Educação inclusiva; Colaboração; Participa-
ção; Eqüidade; Qualidade.
1. Introdução
Nos extremos, alguns meninos e
meninas excluídos se transformam
em invisíveis, quando lhes dene-
gam seus direitos, quando passam
completamente desapercebidos
em suas comunidades, quando
não podem ir à escola ou quando
estão longe do alcance das autori-
dades devido a sua ausência nas
estatísticas, nas políticas e nos pro-
gramas (UNICEF, 2005, p. 7).
A educação inclusiva não está
sendo desenvolvida da mesma ma-
neira em todos os países. Em al-
guns, como ilustra a citação anterior,
a inclusão passa por desafiar os sis-
temas de educação a fim de garantir
a escolarização de todos os meni-
nos e meninas. Em outros, o objeti-
vo está em combater situações on-
de a escola para determinados estu-
16 DESTAQUE INTERNACIONAL
TRAÇANDO OS MESMOS CAMINHOS
PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA
EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Anabel Moriña Díez 2
anabelm@us.es
Resumo
Inclusive education is the main argument of this article. Be-
ginning with a conceptualization of the meaning of inclusi-
on in education, and proposed some conditions that are
necessary to develop for the centers should be towards
the inclusion. In this sense, among others, collaboration,
shared leadership, the curriculum and institutional support,
the involvement of the educational community are funda-
mental pillars for the implementation of this model of edu-
cation. The article concludes with a reflection on what we
can do or what direction we should follow to build educa-
tion centers have the capacity for the entire student body
and in which the goal is a response to educational quality
and equitable for all.
Key Words: Inclusive education; Collaboration; Participati-
on; Equity; Quality.
Abstract
1
1
Tradução realizada pelo Grupo Solución- SP.
2
Departamento de Didática e Organização Educativa, da Universidade de Sevilha, na Espanha.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 16
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dantes representa medidas de aten-
ção à diversidade segregadoras e o
estabelecimento de vias paralelas. E
também há outros países onde apa-
rentemente suas políticas de educa-
ção refletem os princípios de uma
educação inclusiva, mas que na prá-
tica desenvolvem propostas pseu-
do-inclusivas.
Todos os sistemas de educação,
independentemente do contexto po-
lítico, social, cultural e econômico
devem seguir incorporando em suas
agendas mecanismos para ir avan-
çando para práticas mais inclusivas.
Neste sentido, concordo com a co-
locação do professor Mel Ainscow
(2008), que em uma recente confe-
rência expressava a necessidade de
considerar que "cada menino e me-
nina é importante". Se assumirmos
esta colocação, supõe-se que deve-
remos questionar o que estamos fa-
zendo e teremos que propor o que
podemos fazer para chegar a ser
mais inclusivos em nossas políticas,
práticas, atitudes, etc.
Indevidamente falar de inclusão
supõe fazer referência à exclusão.
Aqueles sistemas de educação que
estão avançando para práticas de
educação inclusiva foram eliminan-
do barreiras que conduzem a pro-
cessos de exclusão.
Em um contexto mais amplo, dos
trabalhos sobre exclusão social
aprendemos que se trata de um pro-
cesso estrutural e não conjuntural
(WITCHER, 2003), pelo qual a deter-
minados cidadãos é negado o direi-
to a participar das estruturas sociais,
políticas, econômicas, trabalhistas e
também educativas de um contexto
concreto. Outra idéia que acompa-
nha a esse processo é que não exis-
te uma única forma de exclusão,
mas pode se dizer em termos de di-
versos graus da mesma que podem
conduzir a vivencias pessoais e his-
tórias sociais diferentes (SUBIRAT,
2006; TEZANOS, 2001). Neste terre-
no, existe um acordo generalizado
ao assinalar o caráter multidimensio-
nal da exclusão social. Pode ser en-
tendido como um fenômeno que su-
põe a interação de diversos fatores
de risco que marcam os itinerários
das pessoas.
A pesquisa atual, além disso,
permite estabelecer uma estreita re-
lação entre exclusão social e edu-
cativa, sendo a primeira mais geral
e a segunda mais específica. De fa-
to, autores como Slee e Allan
(2005) afirmaram que a escola in-
clusiva é um movimento social con-
tra a exclusão educativa, sendo o
âmbito educativo um dos fatores
geradores de exclusão mais poten-
te. Assim, Macrae, Maguire e Mel-
bourne (2003) contribuíram com
seu trabalho à tese de que a exclu-
são escolar pode gerar a médio e a
longo prazo exclusão social. Esses
autores mostram dados de como
em estudos recentes aparecem re-
ferências a jovens que poderiam
ser considerados pessoas em situ-
ação ou risco de exclusão social.
Estes jovens têm em comum, entre
outras características, um absentis-
mo freqüente do centro de educa-
ção, uma limitada ou inexistente
qualificação acadêmica, etc.
Neste artigo, eu gostaria de ex-
por algumas questões que conside-
ro prioritárias para desenvolver práti-
cas inclusivas nas organizações
educativas. O artigo partirá de algu-
mas idéias relacionadas com a con-
ceitualização da educação inclusiva.
Posteriormente me centrarei no nú-
cleo deste trabalho que gira em tor-
no de como desenvolver condições
para que os centros possam ter uma
orientação inclusiva. Neste compar-
timento, proporei algumas questões
práticas que podem ajudar aos cen-
tros a realizar uma auto-avaliação
sobre seu processo de educação in-
clusiva. O artigo terminará com algu-
mas reflexões em torno de algumas
direções a seguir para construir co-
munidades inclusivas.
2. A educação
inclusiva como um
processo que desafia
às práticas de
exclusão
A inclusão pode ser definida co-
mo um modelo de educação que
propõe escolas onde todos possam
participar e sejam recebidos como
membros valiosos delas. Trata-se de
uma filosofia e prática educativa que
pretende melhorar a aprendizagem
e participação ativa de todo o aluna-
do em um contexto educativo co-
mum. A educação inclusiva se con-
cebe como um processo inacabado
que desafia a qualquer situação de
exclusão, procurando mecanismos
para eliminar as barreiras que obsta-
culizam uma educação para todos
(MORIÑA, 2004).
Das colocações dos Direitos Hu-
manos, podemos estar falando de
educação inclusiva como uma ques-
tão de justiça. Todos os meninos e
meninas têm direito a ser educados
juntos (CSIE, 1997), a não ser discri-
minados e segregados por diferen-
ças individuais. No livro "o direito de
aprender", Darling-Hammond (2001)
assume que a nenhuma pessoa de-
ve ser privada da oportunidade de
aprender. É por isso que um dos de-
safios no qual devemos continuar
trabalhando é aquele no qual os sis-
temas de educação garantam a to-
dos os estudantes em todas as co-
munidades seu direito a aprender.
A idéia de que todas as pessoas
tem direito a receber a educação em
um sistema único e em seu próprio
entorno é importante, mas não sufici-
ente, questão que trato de desenvol-
ver neste artigo. Além disso, é neces-
sário reconhecer o fato de que todos
os meninos e meninas têm o direito
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 17
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201018
a receber uma educação de qualida-
de. Portanto, todas as pessoas que
se dedicam à educação estão na
obrigação de garantir uma aprendi-
zagem de qualidade para todos e ca-
da um de nossos estudantes. Como
nos recorda Pather (2007), a qualida-
de deve ser entendida em contrapo-
sição àqueles sistemas de educação
que optaram por uma educação efi-
ciente para determinados estudantes
- quer dizer, seleciona-se os melho-
res pelo que se exclui a determina-
dos estudantes-. Pelo contrário, a
qualidade é considerada como uma
resposta justa e eqüitativa para to-
dos os estudantes.
Neste sentido, é necessário que
nos posicionemos porque não po-
demos permanecer neutros e deve-
mos nos perguntar se estamos dis-
postos a questionar o que fazemos
e procurar caminhos para que isto
possa ocorrer?
Mas a inclusão também é uma
questão social. Para Sapon-Shevin
(2003), a inclusão exige que reflita-
mos sobre que tipo de mundo que-
remos criar e como deveríamos edu-
car a nossos estudantes para esse
mundo? Esta autora reflete a respei-
to de que a eliminação, segregação,
marginalização de determinados es-
tudantes considerados como dife-
rentes (já seja por sua falta de capa-
cidade, procedência cultural, origem
social, etc.) não permite ensinar ao
resto dos estudantes a viver em uma
sociedade plural, onde se compre-
endam as diferenças, respeite-se a
outros, etc.
Deste modo, para que a inclusão
seja considerada uma questão soci-
al, supõe que requer o compromis-
so e implicação da comunidade em
sua totalidade. Isto quer dizer que
não só corresponde às escolas ga-
rantir uma educação inclusiva, mas
também a sociedade deve fazê-lo.
Por outro lado, também a educa-
ção inclusiva é uma forma de viver. Is-
to quer dizer que deve se supor uma
opção pessoal que deve ser coeren-
te com as atuações que levamos adi-
ante. Para autores como Pearpoint e
Forest (1999), esta forma de viver tem
relação com o "viver juntos", com a
"acolhida ao desconhecido".
Uma última idéia que eu gostaria
de ressaltar é que a educação inclu-
siva pode ser entendida como o úni-
co caminho para conseguir uma
maior eqüidade em educação. E a
eqüidade está vinculada com princí-
pios éticos e de justiça. Supõe-se le-
var em consideração as diferenças
entre as pessoas e dar resposta a
estas de acordo ao que cada pes-
soa necessita. É oferecer a todos os
alunos as mesmas oportunidades
para que possam aproveitar suas
potencialidades, desenvolver-se e
avançar para sua plena realização.
3. Desenvolver as
condições nos centros
para práticas inclusivas
Nessa parte, queria apresentar
algumas das lições aprendidas das
pesquisas sobre escolas com orien-
tação inclusiva (ALDERSON, 1999;
HOPKINS, AINSCOW & WEST,
1994; PIJL, MEIJER & HEGARTY,
1997; PORTER, 1995, etc.). As dez
lições que vou analisar, eu gostaria
que fossem contempladas de uma
dupla visão. Por um lado, com ele-
mentos que podem descrever os
centros que desenvolvem práticas
inclusivas. Por outro lado, podem
ajudar aquelas organizações que
desejem começar a desenvolver
práticas inclusivas. Por sua vez em
um duplo sentido pode ser entendi-
da esta segunda leitura: em primeiro
lugar, serve de instrumento de auto-
revisão da própria organização
quanto a que um centro pode anali-
sar em que fase do processo de
educação inclusiva se encontra em
relação às condições abordadas
neste artigo. Em segundo lugar, ser-
ve também como projeção futura,
de acordo à visão transformadora
que propomos, já que possivelmen-
te para começar a construir práticas
inclusivas se deverá iniciar o proces-
so por alguma destas condições.
Para as idéias que apresenta-
mos a seguir, vou me apoiar em
dois projetos nos quais participei
nos dez últimos anos. Um deles, "a
escola da diversidade" (MORIÑA,
2008), é um programa de formação
colaborativa para o professorado
sobre educação inclusiva. Esse pro-
grama é o resultado de uma avalia-
ção do desenho e desenvolvimento
do programa em centros de educa-
ção Infantil, Fundamental e Médio.
O segundo projeto trata de uma
pesquisa que recentemente finaliza-
mos sobre exclusão social (PARRIL-
LA, 2008) . Esse estudo foi desen-
volvido em duas Universidades: a
Universidade de Sevilha e a da Can-
tábria. O propósito geral que se per-
segue é a análise da construção
(como vivência pessoal) do proces-
so de exclusão social de jovens
com idades compreendidas entre
18 e 25 anos.
A amostra total do estudo está
composta por 48 jovens em situa-
ção ou risco de exclusão perten-
centes a grupos vulneráveis a pro-
cessos de desigualdade por moti-
vos de cultura ou etnia minoritária,
deficiência, classe socioeconômica
e gênero. A metodologia utilizada é
a pesquisa biográfico-narrativa, que
permite dar voz aos participantes,
3
Pesquisa financiada pelo Ministério da Educação e Ciência, I+D+I, 2004-07, Ref. SEJ 2004-06193-C02-02/EDUC, Diretores. Ángeles Parrilla y Teresa Susinos.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 18
através da construção de suas his-
tórias de vida.
Uma das conclusões deste tra-
balho é a identificação de barreiras e
ajudas à inclusão. Nas páginas se-
guintes, em ocasiões, irei introduzin-
do as vozes dos jovens que sofre-
ram processos de exclusão educati-
va e que ajudam a construir o dis-
curso de como deveriam atuar as
escolas em matéria de educação.
Por último, nos perguntamos,
quais são as 10 lições que aprende-
mos. As respostas podem ser resu-
midas a seguir:
1. A diversidade é uma
oportunidade;
2. O apoio colaborativo e
curricular;
3. A liderança compartilhada;
4. A colaboração entre o
professorado;
5. A pesquisa e reflexão do
professorado;
6. A formação inicial e
permanente em colaboração
centrada na inclusão;
7. As redes de escola;
8. O compromisso da
comunidade educativa;
9. O sentimento de
comunidade;
10. A sala de aula como
comunidade social e de
aprendizagem.
3.1. Da diversidade como
um problema à
diversidade como uma
oportunidade
Nos centros de educação e na
sociedade em geral, parte-se da
idéia de que a diversidade é um
problema que terá que ser resolvi-
do. Nesse sentido, esse conceito é
construído em contraposição a
uma suposta idéia de normalidade.
Como diz Corbett (1991), não é
possível falar nesses termos, en-
tendendo que toda pessoa que se
afaste do padrão de normalidade
seja considerada como anormal ou
atípica. Lança a seguinte pergunta:
"Então, quem quer ser normal?". A
autora reconhece que gosta da di-
ferença porque supõe uma "mara-
vilhosa" combinação de culturas,
histórias, pensamentos… As vidas
das pessoas podem ser enriqueci-
das mutuamente. Por isso, acres-
centa Corbett que se sentiria insul-
tada por ser rotulada como "nor-
mal". Mas precisamente, os rótulos
são o mais comum numa organiza-
ção educativa. Recorre-se com
muita facilidade e naturalidade a
um rótulo para reconhecer às pes-
soas, sem contemplar o dano ou
efeito que isto ocasiona nas pesso-
as que recebem esses rótulos. A
seguinte reflexão exemplifica de
uma forma clara esse argumento:
R : Era conhecida pela DA (dificul-
dade de aprendizagem), por esse
aspecto e nada mais. P: Era co-
nhecida por seus companheiros?
R: E por outras classes também…
os professores… todos os profes-
sores dizem meu nome e já sa-
bem quem sou… P: E como se
sentia com isso? R: Como me
sentia? Muitas vezes havia mo-
mentos, muitos, que desejava ser
normal, de algum jeito (HISTÓRIA
DE VIDA DA ANA).
Desde essa concepção da diver-
sidade se anula, ignora ou rechaça
as diferenças humanas. Essa visão
provoca atitudes e práticas de discri-
minação, marginalização, exclusão
para aquelas pessoas que pelos
"outros" (consideradas normais) são
vistos como diferentes. As percep-
ções de seus iguais, como veremos
na seguinte entrevista, ou a dos pró-
prios docentes através de suas me-
todologias, expectativas ou condu-
tas fazem com que se vivencie o
sentir-se diferente como um proces-
so doloroso:
R: Eu queria ser um deles, mas eles
não me deixavam, algumas vezes
não me deixavam. Eu não gostava
dos meninos que riam de mim, por-
que me via como que se eu não
fosse ninguém, como se fosse me-
lhor que eu e eu não sou ninguém
(…) P: E o que fazia você para
ser..., como você demonstrava que
queria fazer parte deles? R: Eu me
aproximava para jogar com eles,
tentava falar dos animais e eles fa-
lavam de futebol, por exemplo (….)
(HISTÓRIA DE VIDA DO SÉRGIO).
Entretanto, um centro que de-
senvolve práticas inclusivas encon-
tra na diversidade uma oportunida-
de para aprender, para questionar o
que se faz e propor mudanças no
centro e nas salas-de-aula. A diver-
sidade é comemorada nessas insti-
tuições e se entende que as diferen-
ças humanas são comuns. Diversi-
dade se concebe como um concei-
to amplo, no qual todas as pessoas
têm condições independentemente
de sua capacidade, origem social,
cultura, etc.
Um centro que deseje começar a
ir para a inclusão deverá refletir so-
bre qual é o conceito de diversidade
que compartilha a comunidade edu-
cativa. É necessário expor uma vi-
são compartilhada do que se enten-
de por esse conceito já que as me-
didas de atenção à diversidade que
se proponham na instituição deve-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 19
4
A abreviação R significa resposta e a P quer dizer pergunta.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 19
rão ser coerentes com essa coloca-
ção. Portanto, tanto a equipe docen-
te, como o alunado ou as famílias
deveriam dedicar tempo e espaço a
refletir e deixar em comum suas con-
cepções sobre a diversidade. Algu-
mas questões que poderiam orien-
tar essa análise conjunta são:
O que se entende por diversidade?
Quem tem capacidade nesse con-
ceito?
Que repercussões tem esse con-
ceito para a prática educativa?
(Deveriam ser colocadas em co-
mum as reflexões e consensuar uma
definição de diversidade que sirva
para todo o centro).
3.2. De um apoio
terapêutico a um apoio
colaborativo e inclusivo
Os sistemas de apoio, tal e como
se estão desenvolvendo nos centros
de educação, demonstraram-se co-
mo insuficientes e inadequados pa-
ra responder à diversidade (AINS-
COW, 1998). Apesar das boas inten-
ções com as quais foram estabeleci-
dos esses serviços, na maioria dos
casos, atuaram como mecanismo
de segregação e rotulagem para o
alunado com necessidades educa-
cionais especiais (n.e.e.). Uma críti-
ca ao apoio que se implementa nas
escolas pode ser ilustrada através
da seguinte reflexão:
R: Eu pedia para a psicopedagoga
que me ajudasse a escrever e a re-
sumir e ela me dizia 'olhe, isso não
é minha função, a mim o que me
corresponde são as fotocópias que
dou' (…) Às classes de psicopeda-
gogia, não me importavam porque
me davam uma ficha de trabalho
de vocabulário de sinônimos e an-
tônimos e somente me diziam os
que estavam corretos ou os que
estavam incorretos, procurava no
dicionário e colocavam sim, mas
eu não entendia nada, porque o
que achava no dicionário não cor-
respondia ao significado que eu
aprendia, pegava, grifava a palavra
e colocava no seu lugar (HISTÓRIA
DE VIDA DE BRANCA).
O modelo de apoio que com
maior freqüência podemos encon-
trar nas organizações educativas é o
denominado apoio terapêutico, que
consiste em um apoio centrado no
alunado com n.e.e. e desenvolvido
exclusivamente por profissionais do
apoio, educação especial ou peda-
gogia terapêutica. Desde esse enfo-
que se entende que a sala de aula
simplesmente não é o lugar mais re-
comendável para atender às neces-
sidades de determinados estudan-
tes, por isso é preciso uma sala de
aula em que se possa oferecer a es-
ses alunos e alunas recursos e um
currículo mais adaptado a suas ne-
cessidades. Portanto, a responsabi-
lidade da resposta educativa ao alu-
nado com n.e.e. recai no profissio-
nal de apoio e não no professor da
sala de aula ordinária ou regular. Es-
sa colocação faz com que se assu-
ma que nada deve ser substituído
nem na sala de aula regular nem no
centro de educação.
Entretanto, a inclusão requer de
outro tipo de apoio que reconheça a
resposta à diversidade como uma
responsabilidade compartilhada.
Quer dizer, todos os profissionais
que estão envolvidos no processo
de educação de qualquer estudante
que em um momento determinado
apresente uma necessidade especí-
fica devem colaborar em busca de
respostas a essas necessidades. É
assim que o modelo de apoio que é
preciso é o conhecido como mode-
lo colaborativo, institucional ou curri-
cular (PARRILLA & DANIELS, 2004).
É um apoio que não só vai dirigido
ao alunado com n.e.e., mas sim
também é um apoio ao professora-
do, família e comunidade educativa,
a todo o alunado que um momento
determinado precisa de uma ajuda
mais específica.
Esse modelo de apoio implica na
coexistência de dois sistemas de
apoio, um é o formal (que está com-
posto pelos profissionais com for-
mação em atenção à diversidade) e
outro é o informal (onde o apoio não
recai em nenhuma estrutura de
apoio concreto, mas sim se respon-
sabiliza dele todo o professorado,
família, alunado…).
Uma possível proposta para que
um centro analise seu modelo de
apoio e se sejam propostas possí-
veis atuações é a que apresentamos
a seguir:
1. DE ONDE PARTIMOS? (como se
faz o apoio em meu centro?)
1.1. Possíveis elementos de análise:
Quem se ocupa do apoio à inte-
gração?
Qual é a experiência das pessoas
que se encarregam disso?
Qual é o tempo dedicado ao
apoio?
A quem se dirige o apoio?
Como é desenvolvido o apoio?
Quais são os recursos com os
que se conta?
Dos aspectos analisados previa-
mente identificar o que funciona
bem e aspectos que precisam
melhorar:
Como é o apoio (aspectos fortes e
fracos)?
O que é preciso para melhorar?
2. PARA ONDE QUEREMOS IR? (O
que se poderia fazer para ir para um
modelo de apoio inclusivo?)
2.1. Possíveis elementos de análise:
Que tipo de apoio faz falta?
Como pode ser organizado? Que
mudanças de organização e didáti-
cas são necessárias?
A quem deve ser dirigido?
Quais devem ser as funções das
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pessoas encarregadas do apoio?
Como deve ser desenvolvido es-
se apoio?
Que recursos são necessários e
com quais se pode contar?
3. POR ONDE COMEÇAR?
3.1. Das distintas propostas, estabe-
lecer prioridades para começar a co-
locação em prática (hierarquizar de
maior a menor prioridade)
3.2. Definir que passos devem ser
dados para se colocar em prática as
propostas priorizadas
3.3. De uma liderança individual a
uma liderança compartilhada
A liderança está sendo demons-
trada como um elemento imprescin-
dível para facilitar transformações
nos centros (NICOLAIDOU & AINS-
COW, 2005). Embora não só as
equipes de diretores sejam os res-
ponsáveis por ocupar responsabili-
dades de liderança nos centros, es-
tes estão surgindo como fundamen-
tais para facilitar ou pelo contrário,
dificultar os processos de melhoria.
As estruturas hierárquicas que,
em alguns centros, são estabeleci-
das com os distintos órgãos de go-
verno devem ser feitas novamente
por uma liderança compartilhada,
tal e qual expressa Wrigley (2007),
em um sentido plenamente demo-
crático, implicando que sejam ouvi-
das todas as vozes, que sejam com-
partilhadas perspectivas ou que se
debatam interpretações contraditó-
rias da realidade.
Alguns estudos ressaltam a im-
portância não só do líder vinculado
à gestão, mas também a de uma li-
derança pedagógica que deve im-
pregnar toda a escola (HOPKINS,
AINSCOW & WEST, 1994; PORTER,
1995; SLEE, 1995, etc.). Para o Ful-
lan e Hargreaves (1997), esse tipo
de liderança se caracteriza porque
compreende a cultura do centro es-
colar, valoriza a todo o professora-
do, entende e expressa o que valori-
za, promove a colaboração, oferece
possibilidades, etc.
Algumas questões que podem
orientar a análise de um centro so-
bre liderança são:
Quais são as pessoas que exer-
cem as funções de liderança?
O que é feito pelas pessoas que
atuam como líderes?
Como nós gostaríamos que atu-
assem essas pessoas que lideram
o centro?
Que passos poderiam ser dados
para ir para o perfil de liderança que
propomos?
3.4. Do trabalho isolado
do professorado ao
trabalho em colaboração
Distintas pesquisas que foram re-
alizadas sobre centros com orienta-
ção inclusiva concluem que a cola-
boração entre o professorado é fun-
damental para construir comunida-
des inclusivas (CLARK, DYSON &
MILLWARD, 1999; GIANGRESCO,
1997; HOPKINS, AINSCOW &
WEST, 1994, etc.). Esse achado de-
ve apoiar o argumento de que ne-
nhum professor ou professora isola-
damente, por mais inclusiva que se-
ja sua sala de aula, pode fazer com
que um centro seja inclusivo (MORI-
ÑA, 2005). Com relação à colabora-
ção, é necessário que os centros de
educação questionem o que fazem
e planejem como podem construir
uma cultura colaborativa. Entendida
esta como uma forma de trabalhar
juntos para resolver as dificuldades,
planejar e desenvolver mudanças,
criando uma organização que se
compromete a resolver os proble-
mas, formando uma organização de
aprendizagem que utiliza o conheci-
mento e os recursos existentes.
A colaboração foi definida pelo Fri-
end e Cook (2003) como um estilo de
trabalhar, que, segundo estes autores,
responde aos seguintes princípios:
É voluntária. Portanto, não se po-
de obrigar a ninguém a trabalhar em
colaboração.
Requer uma relação igualitária en-
tre os distintos participantes. Enten-
de-se que são valorizadas igualmen-
te as contribuições de cada pessoa
e que as relações que são estabele-
cidas são simétricas.
Está apoiada em objetivos mútuos.
As pessoas que colaboram devem
compartilhar ao menos um objetivo.
Depende da responsabilidade
compartilhada para participar e to-
mar decisões. Isto quer dizer que se
colaborar assume a responsabilida-
de de se comprometer ativamente
na atividade e tomada de decisões.
As pessoas que colaboram com-
partilham recursos. Cada pessoa
que se compromete em uma ativida-
de colaborativa contribui com recur-
sos que ajudam a alcançar o objeti-
vo comum.
As pessoas que colaboram com-
partilham responsabilidade para al-
cançar os resultados. Todos os par-
ticipantes são responsáveis pelos
resultados obtidos, sejam positivos
ou negativos.
Não digo que isto seja fácil. Mui-
to mais complicado se partirmos de
que, na maioria das escolas, a cul-
tura organizacional se caracteriza
por ser individualista. Mas é impres-
cindível que um centro de educa-
ção analise quais são as barreiras
que impedem o desenvolvimento, a
colaboração e que atuações pode-
riam levar adiante para ir gerando,
pouco a pouco, práticas de colabo-
ração. Propomos algumas ques-
tões que poderiam ajudar nesse
debate institucional:
Quais são os obstáculos vincula-
dos à colaboração em seu centro?
Como poderíamos eliminar ca-
da uma das barreiras identificadas
na colaboração?
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Para construir uma cultura colabo-
rativa, que mudanças são necessá-
rias? Quem pode participar? Quanto
tempo é necessário? etc.
3.5. O professorado deve
pesquisar e refletir sobre
suas práticas
Se a colaboração entre o profes-
sorado é importante para a constru-
ção da educação inclusiva, não são
menos valiosos os processos de re-
flexão individual e/ou com outros,
assim como o desenvolvimento de
projetos de pesquisa.
Sobre essa última idéia, nas esco-
las não existe uma cultura de pesqui-
sa. Algo que no mundo universitário é
tão presente, entendendo-se que de-
ve ser isso o que prejudica os proces-
sos de pesquisa, não parece tão evi-
dente e necessário nas etapas educa-
tivas regradas. Entretanto, demons-
trou-se que aqueles grupos de docen-
tes que investigam fazem com que su-
as organizações aprendam. Portanto,
considero que é importante que as es-
colas assumam esta função como
parte de seu trabalho diário e que ve-
ja a pesquisa como uma oportunida-
de para melhorar. Nesse sentido, Ains-
cow (2008) expõe que as escolas sa-
bem mais do que usam, quer dizer,
têm mais conhecimento de que acre-
ditam. Para esse autor, o ponto inicial
lógico para o desenvolvimento de um
centro é uma análise detalhada do
que já existe. Desse modo, poderiam
identificar e compartilhar as boas prá-
ticas e questionar as formas de pensa-
mento e práticas que subjazem às ro-
tinas de trabalho existentes e que cri-
am barreiras à participação e à apren-
dizagem de alguns estudantes.
É necessário que o professorado
recolha dados, analise, dê sentido e
obtenha resultados. Isto é, em ou-
tras palavras, considerar o docente
como pesquisador. Como Hopkins,
Ainscow e West (1994) sugerem, al-
gumas estratégias efetivas nesse
processo são: o recolhimento e uso
da informação para a tomada de de-
cisões, o estabelecimento de estra-
tégias para revisar o progresso e im-
pacto das iniciativas e práticas esco-
lares, e o apoio à equipe docente
para participar de processos de re-
colhimento e análise de dados.
A seguir exponho algumas ques-
tões que podem ajudar a aqueles
centros que estejam interessados
em pesquisar:
Sobre qual realidade de meu cen-
tro eu gostaria de pesquisar?
Com o quê conto para realizar es-
ta pesquisa?
Que informação é necessária re-
colher?
Como vou recolher essa informa-
ção?
O que vou fazer com a informação
de recolhimento?
3.6. É necessário um novo
planejamento para a
formação inicial e
permanente do
professorado
Uma cultura de colaboração,
pesquisa e reflexão do professorado
não pode ter lugar caso não se
questione e proponha mudanças na
formação inicial e permanente. Os
distintos planos de estudos das fa-
culdades de ciências da educação
não podem ficar à margem e devem
ser revisados o quê e como é ensi-
nado. É necessário incluir entre as
matérias que devem ser cursadas,
conteúdos relativos ao modelo de
educação inclusiva - tanto teoria co-
mo prática - e a como dar resposta à
diversidade. Também deve ser obje-
to de estudo as experiências de co-
laboração, a pesquisa e a reflexão.
Isso deve ser aprendido de forma
ativa, assumindo a construção do
conhecimento por parte do estudan-
te. Nem as lições magistrais, nem a
teoria sem aplicação prática, nem a
aprendizagem individual do alunado
são suficientes para fortalecer a for-
mação inicial de um professorado
que assuma e reconheça a impor-
tância dos princípios nos quais se
apóia a educação inclusiva e ponha
em prática os mesmos.
Não menos importante é revisar e
propor mudanças na formação per-
manente do professorado. Os esfor-
ços da administração da educação
limitam-se a oferecer quase que ex-
clusivamente planos de formação
através de cursos externos aos cen-
tros. Considero que se deve apostar
por uma formação no lugar de traba-
lho, que se aborde em colaboração
e que parta pelas necessidades ex-
pressas pelos docentes desse cen-
tro. Essa formação deve ser apoiada
no modelo de reflexão-ação-refle-
xão. Portanto, não é suficiente com
que o professorado reflita, embora
implique uma revisão das práticas
através da reflexão - que deve ser o
ponto de partida -, essa deve ir se-
guida por uma formação, uma posta
em prática das aprendizagens adqui-
ridas e uma nova reflexão mediante
uma avaliação das mudanças que
vão sendo introduzidas.
3.7. A criação de redes de
escola como um
mecanismo que responde à
diversidade
Tal e como sustenta Ainscow
(2008), há evidências de que a cola-
boração entre escolas pode fortale-
cer a capacidade de resposta das
organizações diante à diversidade
dos estudantes.
Em pesquisas como a de
Aisncow, Farrel e Tweddle (1998) e
Tuettteman et al. (2000), constata-se
como existe nos centros onde se im-
plementam processos de melhoria
para incluir a todos os alunos, cola-
boração entre distintos centros e ser-
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viços. Nesses centros, vê-se este tipo
de colaboração como um elemento
facilitador de atuações inclusivas.
A criação de redes de escolas
pode ir da colaboração pontual (co-
mo, por exemplo, dois centros que
se reúnem no começo do curso pa-
ra planejar o trânsito de estudantes
com n.e.e de Ensino Fundamental a
Ensino Médio) a uma colaboração
prolongada no tempo (assim cen-
tros que continuamente se reúnem
para compartilhar experiências e
planejar atuações para desenvolver
em seus respectivos centros com o
propósito de serem mais inclusivos).
3.8. Sem o compromisso
da comunidade educativa
é complicado o
desenvolvimento de uma
educação inclusiva
A colaboração do professora-
do é necessária, mas não sufici-
ente. É preciso que as famílias,
alunado e outros agentes da co-
munidade educativa colaborem
em distintos processos.
Com relação às famílias, Gartner
e Lipsky (1987) chegaram à conclu-
são de que os centros com uma po-
lítica de portas abertas que motivam
as famílias a participar e onde essas
se comprometem tendem a ser mais
efetivo. O desafio está no quê e co-
mo fazer para abrir as fronteiras a
fim de que as famílias entrem e se
envolvam nos centros de educação.
As seguintes perguntas podem con-
tribuir a refletir sobre esse tema:
A família participa freqüentemente
no centro? Quando? Como?
Que atuações podem ser levadas
adiante para fazer com que as famí-
lias participem mais?
Por onde pode ser iniciado?
Qual plano de ação pode ser
desenhado para levar adiante es-
sa escolha?
Quanto aos estudantes é neces-
sário também que participem das di-
nâmicas de sala de aula e do centro.
É importante perceber a voz dos alu-
nos - em muitos casos não escutada
- já que podem ser transformadoras
(RUDDUCK & FLUTTER, 2007).
Quando os estudantes não são
escutados, é negada a oportunida-
de de contribuir, de enriquecer ou
de desafiar a cultura, a organização
e o caráter das instituições educati-
vas e são, como conseqüência, ex-
cluídos dessas instituições. Os estu-
dantes estão na organização, mas
não fazem parte dela.
Como podemos aprender dos
centros que desenvolvem práticas
inclusivas, o alunado é uma peça
angular nos projetos dos centros.
Esses são administrados de forma
democrática, participando ativamen-
te em todos e em cada um dos âm-
bitos da instituição.
Portanto, devemos nos pergun-
tar o que fazemos e o que podemos
fazer para que os alunos tenham
uma maior representação:
Como os alunos participam no
centro?
O que poderia ser feito para au-
mentar o envolvimento desses no
centro?
Como influiria uma maior partici-
pação do alunado no centro? O que
mudaria?
Que plano de ação desenharia
para promover a participação do
alunado?
3.9. Sentir-se como uma
comunidade forma parte
da educação inclusiva
A escola como comunidade é ou-
tra das idéias que compartilham al-
guns dos estudos revisados sobre
centros que desenvolvem práticas in-
clusivas (ALDERSON, 1999; DAR-
LING-HAMMOND, 2001; LIPSKY &
GARTNER, 1997). Nesses centros, é
estabelecida uma meta de escola
compartilhada entre a comunidade
educativa. Nessas organizações é ga-
rantido que todos os alunos se sintam
valorizados, respeitados e escutados.
Como Darling-Hammond (2001)
Smith e Barr (2008) detalham, nessas
escolas há a divisão de uma missão
educativa, uma cultura comum e um
conjunto de normas comuns com re-
lação ao ensino e à aprendizagem.
Quando é gerado um sentido de
comunidade, cria-se uma interdepen-
dência positiva entre os distintos
membros da comunidade educativa.
Sentem que todos pertencem à esco-
la, que estão vinculados de tal manei-
ra que não conseguirão suas metas
se algum membro da comunidade
não conseguir. Portanto, é usual nes-
sas organizações a estrutura de
apoio entre iguais, dar e receber aju-
da, celebrar os êxitos dos outros, etc.
3.10. A sala de aula como
uma comunidade social e
de aprendizagem
A sala de aula inclusiva deve ser
concebida como um espaço social e
didático que reflita a cultura, valores
e metas da escola. A sala de aula é,
além disso, uma comunidade de
aprendizagem autônoma que requer
uma nova organização para chegar
a ser inclusiva.
Os docentes das salas de aula
inclusivas têm altas expectativas
para todos seus estudantes, acre-
ditando que todos podem apren-
der. Nessas salas de aula, como
argumenta Ainscow (1995), o pro-
fessorado planeja a classe como
um todo, assumindo que a exces-
siva ênfase em planejar para de-
terminados estudantes pode
ocultar fatores contextuais que
podem utilizar para estimular e
apoiar a aprendizagem de cada
membro da classe. Para a criação
dessas classes, parece funda-
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 23
mental que os docentes usem
efetivamente esses recursos na-
turais (que freqüentemente são
os próprios alunos) os quais po-
dem ajudar a apoiar a aprendiza-
gem dos estudantes.
Nessas salas de aula, a estrutu-
ra de atividade nem se organiza in-
dividual nem competitivamente, a
não ser pelo contrário de forma co-
operativa. Parte-se, além disso, do
princípio de diversificação e de
personalização do ensino. Por isso,
não são todos os estudantes que
têm que estar aprendendo exata-
mente o mesmo e ao mesmo tem-
po. Isto não quer dizer que esteja-
mos falando de curriculum parale-
los ou extremamente distintos - co-
mo evidencia a reflexão que a se-
guir aparece - mas sim partindo de
um curriculum comum se planeja
distintas atividades, usam-se dife-
rentes materiais, etc. que permitem
adaptar-se aos distintos ritmos de
aprendizagem dos estudantes.
R: Que como eu não fazia as mes-
mas coisas que eles por isso me da-
vam coisas que não tinham nenhum
valor. P: Davam coisas que não ti-
nham nenhum valor. R: Era isso es-
crever coisas, mas, eles também me
deixavam de lado porque eles me
davam coisas, coisas idiotas. P: Coi-
sas fáceis você diz? R: Sim coisas
fáceis, que não, que não, que não
produziam nada. P: Que não faziam
você pensar nada. R: Isso nada. P:
E normalmente, estava sempre fa-
zendo coisas diferentes dos outros?
R: Sempre. P: Sempre estava fazen-
do coisas diferentes (HISTÓRIA DE
VIDA DO ISRAEL).
Esta diversificação e persona-
lização do ensino dificilmente po-
dem ser feitas quando o único re-
curso utilizado é o livro de texto.
A experiência está demonstrando
que esse recurso didático, tal e
como está sendo empregado, ho-
mogeneíza em lugar de respon-
der à heterogeneidade. Como
conseqüência para evitar situa-
ções como a denunciada pelo Is-
rael, devemos procurar também a
diversificação de recursos, poten-
cializar a autonomia do alunado
para gerar seu próprio conheci-
mento e principalmente favorecer
o trabalho colaborativo entre as
equipes docentes com o propósi-
to de desenhar materiais adequa-
dos para todos.
4. Para finalização
Eu gostaria de finalizar esse arti-
go expondo algumas direções a se-
guir para me dirigir às escolas que
desenvolvam uma educação inclusi-
va. Nesse sentido, os centros de
educação devem ter um papel mais
ativo, denunciando os discursos e
práticas que legitimam qualquer
processo de exclusão educativa.
Não podem ficar à margem e con-
verter-se em cúmplices de práticas
que geram discriminação, segrega-
ção ou exclusão. O caminho não po-
de ser criar salas de aula especiais
ou via paralelas. Confio em que a di-
reção a seguir deve ser o modelo de
educação inclusiva.
Para começar a construir esse
modelo um primeiro passo é a revi-
são ou auto-análise que um centro
de educação faça de si mesmo. Essa
análise que pode ser feita em torno
das condições que fui apresentado
nesse trabalho permite ter indícios
para expor-se: Quem somos? Por on-
de começar? O que queremos ser?
O caminho a seguir deve ser
mostrada como algo que deve ser
construído pouco a pouco, de me-
nos a mais, dando pequenos pas-
sos. Assim, melhor começar com
uma das condições propostas do
que por muitas. Posteriormente, à
medida que se conseguem peque-
nas metas, novas atuações poderão
ser introduzidas.
Outra idéia que deve ser levada
em consideração, relacionada com o
parágrafo anterior, é que essa via-
gem é percorrida a longo prazo, por-
tanto, é um processo que ocorre no
tempo. A educação inclusiva não se
faz nem em um ano, nem em dois,
mas sim é considerada como um
processo inacabado, no qual conti-
nuamente é necessário ser revisado
quais são as barreiras que provocam
exclusão e mostram o que fazemos
para ir eliminando essas barreiras.
Esse trajeto deve ter, fazer pre-
sente e celebrar a diversidade. Só se
reconhecendo a diversidade como
uma oportunidade, como um valor,
podemos falar de avanços para prá-
ticas de inclusão.
Sem dúvida alguma essas via-
gens não podemos fazer sozi-
nhos, mas sim é necessária a im-
plicação de "todos": professorado,
família, alunado e a comunidade
social. No entanto, é preciso reco-
nhecer que o professorado tem
um papel muito decisivo no de-
senvolvimento da inclusão no cen-
tro. E mais, atrever-me-ia a dizer
que sem o compromisso desse é
impossível atacar essa transforma-
ção. O professorado deve assumir
que a colaboração deve ser o fio
condutor em sua prática profissio-
nal; que é necessário planejar pa-
ra todos, incrementando as opor-
tunidades de participação; que o
apoio à diversidade é responsabi-
lidade de todos e não exclusiva-
mente do profissional de apoio; e
que é a formação no lugar de tra-
balho o cenário privilegiado para
melhorar as práticas educativas.
Não posso terminar esse artigo
sem recordar que não existe um
projeto de educação inclusiva que
possa ser idêntico em todos os cen-
tros, mas sim cada organização de-
ve gerar seu próprio projeto de acor-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201024
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 25
do com sua realidade e necessida-
des. Nesse sentido, para que real-
mente estejamos falando de desen-
volvimento sustentável da inclusão,
os projetos devem ser construídos
no seu local, desde seu começo, em
cada contexto.
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Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 25
ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO PARA
DEFICIÊNCIA FÍSICA
O presente artigo tem o intuito de apresentar como as ações
desenvolvidas no Atendimento Educacional Especializado
(AEE) à deficiência física na rede municipal de ensino de Flo-
rianópolis - SC foram sendo desenvolvidas para garantir o
acesso e a permanência destes alunos na escola comum.
Este atendimento ocorre no contraturno escolar, nas salas
multimeios, denominadas de salas de recursos multifuncio-
nais pelo MEC, dentro das escolas comuns. Nestes espa-
ços, os alunos com deficiência física têm acesso à Tecnolo-
gia Assistiva (TA) e suas modalidades, por meio do ensino e
utilização de recursos que lhes possibilitam a ampliação de
uma habilidade funcional, oportunizando autonomia de
ações e participação em todos os momentos escolares.
Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializado;
Inclusão; Deficiência física; Tecnologia Assistiva.
1
Graduada em Educação Especial pela UFSM/RS, mestre em educação pela UFSC/SC. Coordenadora de Educação Especial na Secretaria Municipal de Educação -
Florianópolis/SC.
2
Graduada em Educação Especial pela UFSM/RS, professora do Atendimento Educacional Especializado da Rede Municipal de Florianópolis, Especialista em
Educação infantil pela UNIFRA/RS.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201026
26 ENFOQUE
Geisa Letícia Kempfer Böck1
geisabock@gmail.com
Grasiela Maria Silva Rios2
grasielarios@yahoo.com.br
Resumo
ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO PARA
DEFICIÊNCIA FÍSICA
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 26
Será impossível a tarefa de educar
na diversidade? Felizmente, é im-
possível educar se acreditarmos
que isto implica formatar por com-
pleto a alteridade, ou regular sem
resistência alguma, o pensamento,
a língua e a sensibilidade. Porém,
parece atraente pelo menos não
para poucos, imaginar o ato de
educar como uma colocação, à dis-
posição do outro, de tudo aquilo
que o possibilite ser distinto do que
é, em algum aspecto. Uma educa-
ção que aposte transitar por um iti-
nerário plural e criativo, sem regras
rígidas que definam os horizontes
de possibilidade (SKLIAR e DUS-
CHATZKY, 2000 apud LARROSA &
SKLIAR 2001, p.137).
A efetivação da política de Atendi-
mento Educacional Especializado no
município de Florianópolis/SC fez-se
como o cerzir de uma colcha de re-
talhos, nas quais diversas peças ne-
cessárias, importantes e singulares
foram entrelaçadas, produzindo um
efeito de beleza e sutileza. Ao mes-
mo tempo tornou-se indispensável
um pano de fundo forte, que ofere-
cesse sustentação e fundamentação
para completar este trabalho que co-
locou, sempre, o aluno como o cen-
tro de todas as decisões.
O pano de fundo desse atendi-
mento tem por base nos princípios
da escola inclusiva de fato e não
apenas de direito. Ao longo dos
anos, propostas e políticas foram
sendo discutidas na Rede Municipal
de Ensino de Florianópolis/SC pelos
seus profissionais, tendo como pre-
cursores os professores da Educa-
ção Especial.
Buscávamos diretrizes norteado-
ras para ações que estivessem con-
dizentes com as necessidades edu-
cativas de cada pessoa com deficiên-
cia, pensávamos um serviço que par-
tisse desta necessidade individual,
pois o que almejávamos estava dis-
tante das chamadas classes especi-
ais. E, para isso, fundamentamos
nossos pensamentos e nossos estu-
dos na Constituição Federal (1988),
na Declaração de Salamanca (1994),
na Convenção de Guatemala (1999),
entre outras bibliografias importantes
para o estudo, neste momento.
Desta maneira, pensamos que a
revisão e a participação deste pro-
cesso de aprimoramento do serviço
da Educação Especial deram-nos
subsídios teóricos e práticos para
que pudéssemos construir uma col-
cha de retalhos mais colorida e atra-
ente em sua completude.
Percebemos que fomos felizes
nas escolhas e decisões acerca do
trabalho de Atendimento Educacio-
nal Especializado (AEE), pois acredi-
tamos que estão em consonância
com o que nos é apresentado na Po-
lítica Nacional de Educação Especial
na Perspectiva da Educação Inclusi-
va, de janeiro de 2008.
Os retalhos desta colcha apare-
cem com significativas diferenças e
peculiaridades em momentos dis-
tintos como, por exemplo, as dife-
rentes características das pessoas
com deficiência física, as metodolo-
gias utilizadas para cada situação,
os métodos e recursos disponibili-
zados e pensados para contemplar
as distintas particularidades dos
nossos alunos.
Desta maneira, pretendemos pro-
porcionar uma reflexão sobre as prá-
ticas voltadas para a pessoa com de-
ficiência física adotadas no AEE. Pa-
ra isso, torna-se imprescindível con-
siderar-se ter como primeira atitude
o respeito à diversidade que se apre-
senta no contexto da escola comum,
no qual "o outro" (que também so-
mos nós) é um sujeito de iguais direi-
tos. E, nessa constatação das dife-
renças, que possamos fortalecer a
experiência da alteridade em cada
um de nós, leitores, escritores, en-
fim, sujeitos da educação.
A política do AEE no
município de
Florianópolis/SC
A Rede Municipal de Ensino de
Florianópolis, por meio da Portaria
033/2003 cria e normatiza o Serviço
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 27
This article has the intention of presenting the way the un-
dertaken actions at the "Atendimento Educacional Espe-
cializado (AEE)" - Specialized Educational Care - to the
physically disabled in the municipal schools in Florianó-
polis - SC were being developed to ensure the access
and permanence of these students in a common school.
This support occurs in the opposite turn of students'
school attendance, in multiways rooms called multifuncti-
onal ones by "MEC" - Education Ministery. At these spa-
ces, the students with some physical disabilities have ac-
cess to Assistive Technology (AT) and its modalities ,
through the teaching and use of resources which enable
the expansion of a functional ability, giving to these stu-
dents an opportunity of autonomy of actions and partici-
pation in all school places, situations and times.
Key words: Specialized Educational Care; inclusion;
physical disability; assistive Technology.
Abstract
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 27
de Atendimento Educacional Espe-
cializado. Este considera os pressu-
postos da Educação Inclusiva, no
qual as barreiras arquitetônicas, ati-
tudinais, de comunicação e informa-
ção devem ser superadas, e estabe-
lece um único sistema de ensino,
que reconhece e valoriza as diferen-
ças, rompendo com a idéia de pa-
dronização e classificação.
Concomitante a normatização do
AEE nas escolas de ensino regular
criou-se também o Programa Edu-
cacional "Escola Aberta às Diferen-
ças", que tem por princípio o direito
incondicional à escolarização de to-
dos os educandos nos mesmos es-
paços educativos.
A matrícula do aluno com defici-
ência na escola comum requer os
serviços da educação especial,
não para substituir o ensino formal,
tampouco confundir-se com práti-
cas clínicas, terapêuticas ou de re-
forço escolar. A matrícula apenas
efetiva o direito de acesso, mas o
que garante a permanência e a
continuidade dos estudos deste
aluno são as ações desempenha-
das pela direção, equipe pedagógi-
ca, professores regentes da sala
de aula e do AEE.
Nesta perspectiva, o AEE deve
ser oferecido dentro da escola co-
mum, nas salas de recursos multi-
funcionais, para que o aluno com de-
ficiência seja acompanhado e instru-
mentalizado na sua caminhada es-
colar, proporcionando a ele acesso
ao saber, em igualdade de condi-
ções dos colegas sem deficiência e
que sejam partícipes da construção
de seus saberes.
O atendimento educacional espe-
cializado identifica, elabora e organi-
za recursos pedagógicos e de aces-
sibilidade que eliminem as barreiras
para a plena participação dos alu-
nos, considerando as suas necessi-
dades específicas. As atividades de-
senvolvidas no AEE diferenciam-se
daquelas realizadas na sala de aula
comum, não sendo substitutivas à
escolarização (BRASIL, 2008).
Em Florianópolis/SC, o AEE é
oferecido nas escolas regulares,
nas Salas Multimeios3
, denomina-
das pelo MEC de Salas de Recur-
sos Multifuncionais. Tem como fina-
lidade atender às especificidades
de cada deficiência, como ensino
de LIBRAS (Língua Brasileira de Si-
nais) para alunos com surdez, Sis-
tema Braille, Sorobã e Orientação e
Mobilidade e ampliação de materi-
ais para alunos com cegueira ou
baixa-visão, Tecnologia Assistiva4
,
entre outros. Está disponível em to-
dos os níveis de ensino, por meio
de serviços que oferecem instru-
mentos de acessibilidade, comple-
mentando e suplementando a traje-
tória da pessoa com deficiência no
ensino regular.
É preciso ressaltar que a constru-
ção de uma escola inclusiva é uma
tarefa árdua e que depende do em-
penho de todos os profissionais que
nela atuam, de constantes avalia-
ções acerca das ações efetuadas, da
reflexão sobre as concepções de en-
sino, de aprendizagem e do potenci-
al humano.
Alguns profissionais perce-
bem-se como atores deste pro-
cesso, sabem da sua importância
na vida educacional de seus alu-
nos e na construção da política da
escola inclusiva. Para ilustrar o
olhar que alguns professores têm
em relação à experiência do traba-
lho em turmas que possuem alu-
nos com deficiência incluídos, tra-
remos a fala de uma professora
que atua nos anos iniciais do ensi-
no fundamental.
Era mês de abril do ano de 2006,
quando a prefeitura de Florianó-
polis me ligou oferecendo uma
vaga de quarenta horas na pri-
meira série da E. B. M. Antônio
Paschoal Apóstolo. A vaga em
princípio surgiu como um desafio,
já que nunca havia trabalhado
nas Séries Iniciais e principalmen-
te com crianças que estavam che-
gando à escola com seis anos.
Fui comunicada de que na turma
do período matutino havia duas
crianças com deficiência (...).
Neste momento é que percebi
que este desafio não seria so-
mente meu, mas de toda a institu-
ição. Era então o nosso desafio,
desafio principalmente das pes-
soas que encaravam o fato como
sendo também delas, pessoas
presentes e ativas. As meninas da
Sala Multimeios estiveram sem-
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201028
Figura 1 - Capa do livro do Programa
Escola Aberta às Diferenças
3
Espaços da escola onde se realiza o AEE para os alunos com deficiência, por meio do desenvolvimento de estratégias de aprendizagem que favoreçam a con-
strução de conhecimento, subsidiando-os para a plena participação da vida escolar.
4
Recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência, promovendo vida independente e inclusão
(BERSCH, 2007).
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 28
pre receptíveis e prontas para aju-
dar, intervir. Material de apoio,
materiais adaptados, ajuda, su-
porte, instruções, tudo isto veio
da Sala Multimeios e serviu real-
mente como um elo, uma corren-
te de ligação entre mim, o apren-
dizado e as crianças. A inclusão
está presente em quase todas as
escolas, e eu, você, nós educado-
res precisamos efetivamente in-
cluir estas crianças nas classes
regulares, oferecendo recursos
que as subsidiem e que supram
suas necessidades como, por
exemplo, materiais adaptados as
suas especificidades e o mais im-
portante: tratando a criança como
criança, não prevalecendo ou
desfazendo de suas necessida-
des, incluí-las no processo signifi-
ca também tratá-las com igualda-
de, favorecendo assim sua inclu-
são e interação com o grupo. Co-
mo vivi, como aprendi com esses
momentos, momentos em que er-
rei, consertei, tentei de novo, fiz e
refiz, acertei, ou melhor, acerta-
mos! Hoje posso dizer que o de-
safio valeu a pena, e por elas, as
crianças, com certeza, eu faria tu-
do de novo (Professora Vanessa
Melo Cotta - Pedagoga)
Compartilhar os momentos e os
passos dados para a construção da
nossa colcha de retalhos pelos pro-
fissionais nesta rede de ensino não
tem o intuito de nos colocarmos co-
mo um modelo a ser seguido, nem
como uma realidade perfeita, pois
sabemos que temos muito ainda a
acrescentar neste trabalho. Gostaría-
mos, sim, de demonstrar que a inclu-
são é possível de acontecer, caben-
do a cada profissional, a cada rede
de ensino pensar a sua realidade e o
percurso a ser trilhado, tecendo sua
própria colcha, com as cores, nuan-
ces e texturas possíveis para cada si-
tuação e para cada momento.
O Atendimento
Educacional
Especializado -
Deficiência Física
O AEE, como já falamos, com-
plementa a formação do aluno com
deficiência e deverá ser disponibili-
zado em todos os níveis, etapas e
modalidades de ensino. O profissi-
onal que atua nesse serviço, em
nossa rede, está em constante
aprimoramento, pois acreditamos
que a formação continuada em ser-
viço possibilita a construção de sa-
beres específicos necessários para
contemplar as singularidades de
cada deficiência. Dentre as tantas
ações realizadas no AEE, apresen-
taremos a nossa experiência no
atendimento a pessoas com defici-
ência física e a fundamentação pa-
ra este trabalho.
Todas as nossas ações foram
avaliadas e ressignificadas no pro-
cesso de efetivação da escola inclu-
siva, e o mesmo ocorreu com as in-
tervenções adotadas para os alunos
com deficiência física.
Inicialmente tínhamos a ilusão de
que apenas as adequações do espa-
ço físico, de mobiliários e equipa-
mentos escolares possibilitariam a
permanência e continuidade destes
alunos no ensino regular. No entan-
to, no decorrer dos anos esta de-
manda foi aumentando e modifican-
do-se. Alunos com diferentes com-
prometimentos motores passaram a
freqüentar nossas escolas e nos ins-
tigaram a pensar se realmente as
ações de eliminação das barreiras
arquitetônicas que estávamos reali-
zando eram suficientes para garantir
o que almejávamos.
Vivenciamos a angústia de querer
entender uma criança e não conse-
guir. Enxergamos o brilho da tentativa
em comunicar nos seus olhos e tam-
bém a tristeza da frustração por não
a compreender. Foi quando percebe-
mos que um retalho estava faltando
em nossa colcha, ou talvez, cores e
texturas precisavam ser inseridas.
Nesse momento, profissionais
de diferentes áreas foram convida-
dos a compartilhar suas experiên-
cias na prática com estes alunos, e,
então, nos apresentaram à Tecnolo-
gia Assistiva (TA), a qual pode ser
compreendida "como um auxílio
que promoverá a ampliação de
uma habilidade funcional deficitária
ou possibilitará a realização da fun-
ção desejada e que se encontra im-
pedida por circunstância de defici-
ência" (BERSCH apud SCHIRMER,
2007, p. 27).
A partir daí começamos a vis-
lumbrar um norte do AEE para estes
alunos, pois a TA possibilita a co-
municação e a interação com os pa-
res, a participação efetiva em todas
as atividades escolares com segu-
rança, conforto e autonomia, consi-
derando sempre as habilidades de
cada criança, os desejos e os recur-
sos disponibilizados para contem-
plar estas singularidades.
Bersch (apud Schirmer, 2007, p.
31) define a Tecnologia Assistiva co-
mo: "todo o arsenal de recursos e
serviços que contribuem para pro-
porcionar ou ampliar habilidades
funcionais de pessoas com deficiên-
cia e conseqüentemente promover
vida independente e inclusão".
A TA no espaço do AEE propor-
ciona uma variedade de instrumen-
tos que os profissionais devem sele-
cionar para então confeccioná-los
ou adquiri-los. Vale salientar que o
recurso é do aluno, e para tanto es-
te deverá participar ativamente na
escolha do mesmo, saindo da posi-
ção de expectador da construção de
sua autonomia.
Quando o aluno chega ao AEE,
uma das primeiras ações dos profis-
sionais é estabelecer vínculo, tanto
com o aluno, quanto com a família
dele, a qual é imprescindível para a
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 29
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 29
consolidação do trabalho. Eles tra-
zem informações que são funda-
mentais, como por exemplo, a his-
tória de vida, os profissionais que
estão envolvidos na habilitação ou
reabilitação desta pessoa, os tipos
de atendimento ou tratamento que
este aluno fez ou está fazendo, en-
tre outros.
Com estas informações, teremos
indicações de quais são as pessoas
que o professor do AEE precisa con-
tatar para estabelecer uma rede de
apoio. Mas afinal o que seria esta re-
de de apoio? Nada mais do que a
equipe de trabalho que atua nos di-
ferentes momentos com o nosso
aluno. Ela poderá ter, entre os seus
integrantes, profissionais da área clí-
nica como fonoaudiólogo, neurolo-
gista, psicólogo, fisioterapeuta, tera-
peuta ocupacional, ortopedista; e da
área da educação os professores do
ensino comum e do AEE, ainda con-
tamos com a participação impres-
cindível da pessoa com deficiência e
sua família.
Cada componente dessa equipe
traz elementos importantes para que
possamos conhecer melhor as ne-
cessidades do nosso aluno, do con-
texto escolar e familiar dele. Com es-
tas indicações, teremos maior clare-
za das metas a serem atingidas e co-
mo estabelecer um Plano de AEE
que contemple as necessidades
deste sujeito, ampliando as suas ha-
bilidades, permitindo uma maior au-
tonomia e proporcionando que este
acesse aos conhecimentos formais
em igualdade de condições com
seus pares.
Com clareza de aonde quere-
mos chegar, é dado o momento da
escolha e indicação dos possíveis
recursos necessários para o coti-
diano escolar. Estes serão experi-
mentados pelo aluno com a medi-
ação do professor do AEE em dife-
rentes momentos e espaços. É o
aluno que indica qual o recurso
está mais adequado a sua habili-
dade e que supre os seus anseios
e necessidades.
Por vezes, o recurso mais ade-
quado para uso do nosso aluno
não se encontra em lojas, mas na
transformação de materiais, como é
o exemplo da calça almofada sen-
sorial, a qual, preenchida com reta-
lhos de tecido e espumas, tornou-
se muito útil para uso no AEE e na
sala de aula. Esta permite que o
usuário de cadeira de rodas tenha
outros espaços para usufruir na sa-
la de aula, pois quando os colegas
estão realizando atividades no
chão, ele pode estar mais próximo
do seu grupo participando delas.
Com criatividade e utilizando ma-
teriais de baixo-custo, os professo-
res do AEE podem adaptar diferen-
tes materiais que auxiliem na execu-
ção das atividades de vida diária,
tais como: engrossadores de lápis,
pincéis, jogos, materiais para estí-
mulo visual e tátil, atividades de sala
de aula, respeitando o planejamento
e solicitações do professor do ensi-
no regular.
As habilidades físicas, sensoriais
(visão, audição, tato), cognitivas e a
atitude do usuário perante cada re-
curso novo, são decisivas para a in-
dicação dos melhores recursos a se-
rem adquiridos, a importância de
uma testagem prévia e a sinalização
positiva da pessoa com deficiência.
No entanto, temos situações em
que apenas os recursos de baixa
tecnologia não suprem as necessi-
dades do nosso aluno, sendo neces-
sário, então, à pesquisa entre as mo-
dalidades de TA, dos possíveis re-
cursos de alta tecnologia que podem
vir a facilitar a autonomia de ações
que resultem na construção de sabe-
res dos e pelos alunos.
Dentre essas possibilidades, te-
mos uma variedade bastante ampla
de materiais de informática acessí-
vel, tais como:
Teclados especiais que facilitam o
acesso independente ao computador,
Acionadores de mouse e mouses al-
ternativos para uso do aluno de acor-
do com a habilidade apresentada;
Softwares com acessibilidade;
Recursos que facilitam a comuni-
cação, como vocalizadores e pran-
chas de comunicação alternativa:
A comunicação Alternativa é uma
das modalidades da TA da qual mais
fazemos uso no atendimento espe-
cializado às pessoas com deficiência
física, tendo em vista que a maioria
de nossos alunos possuem um com-
prometimento na linguagem e comu-
nicação expressiva, apresentando
uma fala reduzida ou até mesmo
inexistente. Conforme Bersch apud
Schirmer 2007 (p.57), "A linguagem
facilita o encontro de desejos, neces-
sidades, interação social, acesso às
informações e conhecimento sobre
o complexo mundo em que vive".
A necessidade de se comunicar
é inerente ao ser humano. Ações
como pedir um copo de água, infor-
mar o desejo de ir a algum lugar,
por exemplo, são corriqueiras para
a grande maioria das pessoas. Po-
rém, para o aluno que apresenta li-
mitações físicas e motoras decor-
rentes da deficiência física, manifes-
tar um desejo, interagir e se fazer
compreender pelos demais é muito
difícil. Em decorrência disso, ele vi-
vencia situações em que é o outro
quem decide o que vai vestir, fazer
ou ingerir, remetendo-o a uma situa-
ção de passividade.
No espaço do AEE, as nossas
ações envolvem também a obser-
vação do aluno, onde um piscar de
olhos, um gesto de apontar, um
sorriso ou um olhar fixo podem ser
indicativos do canal de comunica-
ção estabelecido com ele e que se-
rá estimulado por meio dos recur-
sos disponibilizados pela comuni-
cação alternativa.
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201030
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 30
É bastante significativo o momen-
to em que o aluno percebe que com
uso dos cartões, pranchas de comu-
nicação ou até mesmo vocalizado-
res, está emitindo uma mensagem
que é compreendida pelo receptor.
Ao comunicar desejos, anseios, von-
tades e entendimentos, ele abando-
na a posição passiva em que se en-
contrava, passando a ser sujeito de
seu processo de desenvolvimento.
A organização do serviço de AEE
para deficiência Física, tais como ho-
rário de atendimento, duração, perío-
do, ações, ocorre de maneira indivi-
dual ou coletiva, dependendo de ca-
da realidade. Não podemos definir
como se dá este atendimento, se não
conhecermos o aluno, pois é ele
quem nos indicará o que deve cons-
tar no seu atendimento, ou seja, o ser-
viço parte da necessidade, potenciali-
dades e habilidades de cada pessoa.
A oferta do atendimento educa-
cional especializado preferencial-
mente na escola comum é obriga-
tória. Porém, a freqüência da pes-
soa com deficiência física neste
serviço pode ser transitória, ocor-
rendo até que o usuário amplie su-
as habilidades e adquira autono-
mia. Neste caso, não será mais ne-
cessário a continuidade no atendi-
mento de maneira regular, mas ain-
da sim o professor do AEE pode
continuar acompanhando a trajetó-
ria acadêmica desta pessoa. A ca-
da momento que se fizer necessá-
rio à introdução e testagem de um
novo recurso, este poderá contar
com o profissional do Atendimento
Educacional Especializado.
Considerações finais
"Nós vos pedimos com insistência: Nunca
digam - Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia.
Numa época em que reina a confusão,
Em que corre o sangue,
Em que o arbitrário tem a força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza...
Não digam nunca: Isso é natural!
A fim de que nada passe por ser imutável."
(Bertolt Brecht, 1898-1956)
O poema acima expressa uma
verdade que nos é válida e foi por di-
ferentes épocas. Nada pode ser imu-
tável, principalmente a educação.
Não podemos naturalizar idéias que
nos são impostas, impressões que
não são verdades, quando tratamos
de processos de aprendizagem. É
notório que alguns profissionais con-
tinuam a afirmar que a criança com
deficiência não aprende e que o ob-
jetivo da inclusão é a socialização,
mas temos a convicção de que mui-
tos acreditam no potencial humano e
nas infinitas maneiras de aprender.
Partindo desta idéia, gostaría-
mos de lançar algumas reflexões:
qual é a concepção de aprendiza-
gem que perpassa os ambientes es-
colares? E em qual acreditamos?
Pensamos que o nosso olhar trilha a
nossa direção, permitindo-nos reali-
zar as escolhas e dar um rumo para
o nosso trabalho. Quando o olhar do
professor se volta para as potencia-
lidades de cada um de seus alunos,
ele consegue desenvolver uma prá-
tica que atende às diversidades de
sua sala de aula, valorizando cada
saber que lhes é demonstrado. Da
mesma maneira, o aluno sente-se
valorizado e motivado a desenvol-
ver-se cada vez mais.
No entanto, quando fixa seu olhar
nas dificuldades, ocorre o oposto. O
aluno sente que a expectativa em re-
lação a sua aprendizagem é baixa,
podendo reprimir-se e perder o inte-
resse pelo cotidiano da sala de aula.
Enfim, pensamos que, para ame-
nizar a distância entre a qualidade
na educação das pessoas com defi-
ciência que temos e a que quere-
mos, depende exclusivamente de
cada um de nós, da mudança de
nossos olhares e de nossas ações.
Fazendo isso teremos a tranqüilida-
de de participar não apenas da nos-
sa mudança, mas também teremos
a certeza de estar contribuindo para
que ocorram modificações num âm-
bito maior do que dentro dos muros
de nossas escolas.
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 31
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ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO DE ALUNOS CEGOS
E COM BAIXA VISÃO
Este artigo apresenta a proposta de atendimento educacio-
nal especializado para alunos cegos e com baixa visão de
escolas do sistema regular de ensino. Enfatiza algumas es-
tratégias, recursos e equipamentos necessários para asse-
gurar o acesso ao conhecimento e favorecer a aprendiza-
gem. Baseia-se nos princípios e diretrizes norteadoras da
Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva do MEC/SEESP publicada em janeiro de 2008. Pre-
tende oferecer subsídios para uma melhor compreensão do
papel dos professores que atuam nos Centros ou Núcleos
de Atendimento Pedagógico, Salas de Recursos Multifuncio-
nais e outros serviços voltados ao atendimento educacional
especializado de alunos cegos e com baixa visão.
Palavras-Chave: Atendimento Educacional Especializado;
Alunos cegos; Baixa visão.
ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO DE ALUNOS CEGOS
E COM BAIXA VISÃO
Adriana Argenta1
adriana.argenta@yahoo.com.br
Elizabet Dias de Sá 2
elizabet.dias@terra.com.br
Resumo
1
Pedagoga de Séries Iniciais e Educação Especial com especialização em metodologia do ensino; professora do atendimento educacional especializado da Rede
Municipal de Educação de Florianópolis.
2
Psicóloga com especialização em psicologia educacional; Gerente de Coordenação do Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo
Horizonte (CAP-BH); Coordenadora de Conteúdo na área da deficiência visual do curso de formação continuada na modalidade à distância para professores,
promovido pela Secretaria de Educação Especial do MEC em parceria com a Universidade Federal de Fortaleza (UFC) em 2008.
32 ENFOQUE
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Introdução
Os conteúdos escolares, os li-
vros, as revistas, os jornais e outros
impressos são eminentemente visu-
ais. A visualização está presente nos
métodos, técnicas, atividades, tare-
fas e em outros aspectos da organi-
zação do trabalho pedagógico.
Os alunos que enxergam perce-
bem imediatamente e de forma si-
multânea todo o ambiente, o que fa-
cilita a acomodação e o deslocamen-
to. Observam tudo que está em volta,
andam e correm livremente de um la-
do para outro com desenvoltura e
agilidade, enquanto seus colegas ce-
gos levam mais tempo para conhe-
cer e reconhecer os objetos e os di-
versos espaços do ambiente escolar.
Isso porque o tamanho, a forma e ou-
tras características de um objeto ou
de um lugar são percebidos, pouco a
pouco, de forma fragmentária por in-
termédio do tato e de outras fontes
de informação não visuais.
A falta da visão tem como conse-
qüência a impossibilidade de perce-
ber cor, tamanho, distância, forma,
posição ou movimento de seres e ob-
jetos, entre outras dificuldades, o que
limita de forma significativa a varieda-
de de experiências, a mobilidade, o
controle do ambiente e a interação
do sujeito com o mundo que o cerca.
Por isto, torna-se necessário explorar
o pleno aproveitamento dos sentidos
remanescentes e do potencial de
aprendizagem dos alunos cegos,
pois a capacidade de perceber, co-
nhecer e aprender não depende ape-
nas da visão. As capacidades e po-
tencialidades destes alunos devem
ser estimuladas e desenvolvidas pelo
exercício constante de assimilação
de novos esquemas, de simboliza-
ção e ativação das funções mentais,
o que se dá por meio da mediação
natural e espontânea e pelo trabalho
de educação e reabilitação.
Os alunos cegos devem desen-
volver a formação de hábitos e de
postura, a destreza tátil, o sentido de
orientação, esquemas e critérios de
ordem e organização, o reconheci-
mento de desenhos, gráficos, dia-
gramas, mapas e maquetes em rele-
vo, dentre outras habilidades. Para
isto, as estratégias de aprendiza-
gem, os procedimentos, o acesso ao
conhecimento e à informação, bem
como os instrumentos de avaliação,
devem ser planejados e organizados
na perspectiva de recursos pedagó-
gicos e referenciais não visuais.
O contingente de alunos com
baixa visão em unidades de educa-
ção infantil e do ensino fundamental
é bem mais expressivo do que o
quantitativo de alunos cegos. Ocor-
re, no entanto, que os indícios de
baixa visão costumam ser detecta-
dos erroneamente no contexto da
escola e da família. Pais e educado-
res tendem a subestimar ou superes-
timar o potencial de visão destes alu-
nos, considerando-os como se fos-
sem cegos, negligentes, distraídos
ou preguiçosos. Isso porque a baixa
visão é complexa, apresenta uma va-
riedade de manifestações e peculia-
ridades características de cada indi-
víduo afetado, instabilidade e oscila-
ção entre o ver e o não-ver.
A baixa visão restringe o rol de in-
formações que o indivíduo recebe
do ambiente e limita ou altera a
construção do conhecimento sobre
o mundo exterior.
Alguns sinais e comportamentos
indicadores de baixa visão podem
ser observados em sala de aula. Por
exemplo, a aparência dos olhos, o
tremor involuntário e constante da
pupila (nistagmo), o andar hesitante,
o sentido de direção e localização de
objetos dentre outros aspectos.
Os alunos com baixa visão ne-
cessitam de recursos ópticos e não
ópticos além da alteração das condi-
ções de iluminação e de adequação
do ambiente escolar. Estes alunos
necessitam aprender a usar de for-
ma eficiente a visão residual, os ins-
trumentos e os recursos disponíveis
para este fim.
Os alunos cegos e com baixa vi-
são podem e devem participar de pra-
ticamente todas as atividades realiza-
das em sala de aula do ensino regu-
lar, com diferentes recursos de aces-
sibilidade que envolvem criatividade,
confecção de material e cooperação
entre os participantes. É neste contex-
to que se insere o atendimento edu-
cacional especializado (AEE), com o
objetivo de oferecer a estes educan-
This article presents the purpose for specialized care edu-
cation for blind students or with low vision of regular scho-
ols. Stresses some strategies, resources and equipment
necessary to ensure access to knowledge and encourage
learning. It is based on the guiding principles and guideli-
nes of the politics of special education and inclusive of
MEC/SEESP published in January, 2008. It aims to provide
subsidies to a better understanding of the role of teachers
who work in the centers or cores, customer educational,
multifunctional rooms and other services geared to the spe-
cialized care education of blind students or with low vision.
Key words: Specialized care education; Blind students;
Low vision.
Abstract
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dos recursos materiais e alternativas
que favoreçam o acesso aos conteú-
dos escolares e o pleno desenvolvi-
mento de suas potencialidades.
Atendimento
Educacional
Especializado - AEE
O atendimento educacional es-
pecializado é um serviço da educa-
ção especial destinado aos alunos
com deficiências física, sensorial e
mental, tendo em vista criar condi-
ções favoráveis de acesso aos con-
teúdos escolares e ao conhecimento
em geral. Este atendimento constitui
uma alternativa disponível no âmbito
do sistema escolar, sendo considera-
do um direito a ser usufruído pelo
aluno que dele necessita e não uma
imposição ou condição obrigatória
para o acesso e a permanência des-
tes alunos na escola. De acordo com
as diretrizes políticas do Ministério
da Educação,
O atendimento educacional espe-
cializado tem como função identifi-
car, elaborar e organizar recursos
pedagógicos e de acessibilidade
que eliminem as barreiras para a
plena participação dos alunos, con-
siderando suas necessidades espe-
cíficas. As atividades desenvolvidas
no atendimento educacional espe-
cializado diferenciam-se daquelas
realizadas na sala de aula comum,
não sendo substitutivas à escolari-
zação. Esse atendimento comple-
menta e/ou suplementa a formação
dos alunos com vistas à autonomia
e independência na escola e fora
dela (MEC/SEESP, 2008).
Nesta perspectiva, os alunos ce-
gos e com baixa visão, inseridos em
escolas de ensino regular, podem
contar com esta modalidade de
atendimento como complemento de
sua formação escolar, pois têm ne-
cessidades específicas não apenas
no que se refere aos conteúdos es-
colares e às situações de aprendiza-
gem. Estes alunos necessitam de-
senvolver um conjunto de habilida-
des e competências para a execu-
ção de tarefas corriqueiras ou de ro-
tina que dependam do uso eficiente
do resíduo visual e dos sentidos re-
manescentes, o que justifica o aten-
dimento complementar, organizado
e realizado em outro espaço, fora da
sala de aula do ensino regular, por
um profissional do magistério com
formação e competência na área da
deficiência visual.
A apropriação do Sistema Brail-
le, como veremos mais adiante, tem
características peculiares que não
se comparam ao desempenho visu-
al do ato de ler e escrever. O ensino
da matemática, física, química, a in-
terpretação de desenhos, diagra-
mas, figuras, mapas, gráficos e ou-
tros signos visuais dependem da
exploração tátil e da formação de
representações mentais. O desen-
volvimento do raciocínio lógico e a
habilidade de calcular e realizar
operações matemáticas serão facili-
tadas pelo domínio da técnica de
uso do sorobã e de outros recursos
não visuais.
A locomoção independente é al-
cançada por meio da assimilação
das técnicas de uso da bengala e de
noções ou referências espaciais que
devem ser aprendidas e aprimora-
das individualmente.
Do mesmo modo, o aproveita-
mento máximo do resíduo visual ou
a funcionalidade da visão não de-
pendem apenas do uso de recursos
ópticos. Trata-se de um processo no
qual o aluno deve aprender a ver e a
reconhecer seus limites e possibili-
dades. Para isto, torna-se necessária
uma avaliação funcional da visão e a
realização de outras ações de aten-
dimento educacional especializado
que envolvem os familiares e os pro-
fissionais da escola.
Portanto, o professor ou profes-
sora do AEE deve ter uma formação
ampla e ao mesmo tempo específi-
ca no que se refere aos conheci-
mentos anteriormente menciona-
dos, e o seu papel é completamen-
te diferente da atuação do professor
ou professora da sala de aula regu-
lar. Além disso, o AEE não deve ser
confundido com aulas de reforço
pedagógico para o ensino de conte-
údos escolares. Se isto ocorrer, o
AEE será desvirtuado e deixará de
cumprir a sua função. Neste caso, a
formação do aluno cego e com bai-
xa visão ficará seriamente compro-
metida pela falta de oportunidade
de apropriação de esquemas, estra-
tégias e mecanismos de acessibili-
dade, emancipação e autonomia.
Os serviços de educação especi-
al devem ser ofertados nas salas de
recursos multifuncionais de forma
complementar nas escolas públicas
e podem ser ofertados ainda para os
alunos cegos ou com baixa visão nos
Centros de Atendimento Pedagógico
para Deficientes Visuais (CAPs) ou
Núcleos de Apoio Pedagógico
(NAPs), criados pelo MEC/SEESP e
mantidos pelas Secretarias estaduais
e municipais de educação, bem co-
mo pelas instituições especializadas
na área da deficiência visual. De
acordo com a Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da
Educação Inclusiva:
Em todas as etapas e modalidades
da educação básica, o atendimento
educacional especializado é organi-
zado para apoiar o desenvolvimen-
to dos alunos, constituindo oferta
obrigatória dos sistemas de ensino
e deve ser realizado no turno inver-
so ao da classe comum, na própria
escola ou centro especializado que
realize esse serviço educacional
(MEC/SEESP, 2008).
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Nesta perspectiva, o Decreto nº
6.571 (setembro-2008) estabelece
que o Ministério da Educação pres-
tará apoio técnico e financeiro aos
sistemas públicos de ensino para a
implantação de salas de recursos
multifuncionais e para o desenvolvi-
mento de ações de formação e ex-
pansão do atendimento educacional
especializado. As salas de recursos
multifuncionais são definidas no Art.
3º, § 1º, do referido Decreto: As salas
de recursos multifuncionais são am-
bientes dotados de equipamentos,
mobiliários e materiais didáticos e
pedagógicos para a oferta do atendi-
mento educacional especializado.
A Secretaria de Educação Espe-
cial do MEC envia para as escolas li-
vros didáticos e para-didáticos em
Braille e uma mochila com material
escolar específico para alunos cegos
e com baixa visão, de acordo com o
levantamento realizado via censo es-
colar. A distribuição de laptops, equi-
pados com programa com síntese
de voz, para os alunos cegos do en-
sino médio é outra iniciativa relevan-
te no contexto da Política de Educa-
ção Especial na Perspectiva da Edu-
cação Inclusiva.
Atividades do
Atendimento Educacional
Especializado
Avaliação Funcional
da Visão
A avaliação funcional da visão
permite observar e compreender
como o aluno com baixa visão rece-
be, assimila, integra e interpreta os
estímulos visuais. Baseia-se na ob-
servação e análise qualitativa dos
inúmeros fatores de interferência e
de interação entre a percepção vi-
sual e os estímulos do ambiente em
níveis variáveis de iluminação e de
execução de tarefas. Esta avaliação
é um complemento indispensável
que deve acompanhar o diagnósti-
co e o prognóstico da deficiência vi-
sual. A partir dela, é possível definir
procedimentos, estratégias e adap-
tações dos materiais e das condi-
ções ambientais.
A observação formal e informal
do desempenho visual, a coleta de
dados junto aos familiares, profissio-
nais e outras fontes de informações
sobre o aluno ajudam a compreen-
der a limitação visual no contexto es-
colar e familiar. Os educadores de-
vem colaborar na tarefa de avaliar o
desempenho visual dos alunos e de
desenvolver habilidades importantes
para estimular o exercício e o uso efi-
ciente do potencial da visão, de re-
cursos ópticos e não ópticos.
Produção Braille
O Sistema Braille, criado por Lou-
is Braille (1809/1852), baseia-se na
composição de seis pontos em rele-
vo alinhados em duas colunas verti-
cais com três pontos à direita e três à
esquerda em uma cela cuja combi-
nação gera 64 sinais que represen-
tam as letras do alfabeto, os núme-
ros, as vogais acentuadas, a pontua-
ção, as notas musicais, os símbolos
matemáticos e outros sinais gráficos.
O instrumento usado como su-
porte para a escrita Braille é a regle-
te, uma régua de madeira, metal ou
plástico ajustada sobre uma base fi-
xa e composta por um conjunto de
celas distribuídas em linhas parale-
las (Figura 1) com um punção, uma
haste de metal para perfurar o papel
e produzir os pontos em relevo. A
leitura tátil é realizada da esquerda
para a direita, enquanto a escrita é
efetuada da direita para a esquerda
para evitar o espelhamento no verso
da folha de papel.
Embora a reglete seja um instru-
mento primitivo e rudimentar ainda é
usado amplamente por alunos ce-
gos que não contam com outra alter-
nativa, uma vez que a máquina de
escrever em Braille (Figura 2) tem
custo elevado.
Esta máquina é semelhante a
uma máquina de escrever comum,
cujo teclado diferencia-se por apre-
sentar dois conjuntos de três teclas,
separadas por uma barra de espaço
que reproduzem os seis pontos da
cela Braille. O toque simultâneo em
uma combinação de teclas produz
os pontos correspondentes aos si-
nais e símbolos desejados. Os pon-
tos em relevo aparecem na frente da
folha de papel, o que facilita e agiliza
a escrita e a leitura, bem como as
3
Luís Braille, natural de Coupvray, Paris, onde nasceu a 4 de janeiro de 1809. Ficou cego por volta dos quatro anos de idade, após ferir-se na oficina do pai. Criou
o Sistema Braille enquanto freqüentava o Instituto Real dos Jovens Cegos, em Paris.
Figura 2 - Máquina de escrever Braille.
Figura 1 - Reglete de madeira.
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correções, quando necessárias.
O tamanho da cela Braille é ade-
quado ao tamanho da ponta dos de-
dos e a leitura tátil é processada de
fragmento em fragmento para se
configurar o todo, pois ler com as
mãos é muito diferente de ler com os
olhos. A pessoa que enxerga é ca-
paz de visualizar o conteúdo de uma
página inteira, saltar trechos e pará-
grafos e localizar com certa agilidade
uma palavra ou expressão no texto
porque a visão, ao contrário do tato,
possibilita este movimento global.
Por isto, não se deve comparar a ve-
locidade da leitura tátil com a visual.
Cada página de texto impresso
equivale aproximadamente a três ou
quatro páginas de texto em Braille. O
tipo e a gramatura do papel devem
ser observados, pois a qualidade do
texto deteriora-se com o manuseio.
A compreensão e o reconheci-
mento destas particularidades são
importantes para o planejamento
e o desenvolvimento das ativida-
des escolares.
Os recursos tecnológicos atuais
possibilitam a produção Braille diver-
sificada e em grande escala. As im-
pressoras Braille aumentam a quan-
tidade e a qualidade da produção de
material acessível. Existem inúmeros
modelos de impressoras Braille dis-
poníveis no mercado com diferentes
programas de impressão. Um destes
programas é o "Braille Fácil", desen-
volvido pelo Núcleo de Computação
Eletrônica da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
Trata-se de um programa sim-
ples, de fácil acesso, com aplicativos
e utilitários que possibilitam conver-
ter um texto ou um livro digitalizado
para o Sistema Braille, produzir de-
senhos em relevo, gráficos, moldu-
ras e outros efeitos de formatação e
embelezamento do texto. O "Braille
Fácil" é distribuído gratuitamente pe-
lo Projeto Dosvox da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.
Os textos impressos são digitali-
zados através do uso de scanners e
de programas "ocr" (reconhecimento
óptico de caracteres), transferidos
para o computador e formatados pa-
ra a impressão Braille.
Recursos Pedagógicos
Acessíveis
Este trabalho consiste na confec-
ção de material em relevo (Figura 3)
com o uso de diferentes texturas e de
artefatos de baixo custo com o obje-
tivo de representar objetos, imagens
e outros estímulos eminentemente vi-
suais e fora do alcance das mãos.
Envolve também o uso de recursos
tecnológicos para a ampliação de
fontes e gravuras, a produção de de-
senhos em relevo, de gráficos, dia-
gramas e ilustrações em geral.
Os objetos inalcançáveis devem
ser miniaturizados. É o caso, por
exemplo, do sistema planetário, de
monumentos históricos etc. Já os
objetos microscópicos devem ser
ampliados para que os detalhes se-
jam percebidos pelo tato. Podem-se
confeccionar mapas políticos, hidro-
gráficos e outros como cartolina, li-
nha, barbante, cola, e outros materi-
ais de diferentes texturas.
Orientação e Mobilidade
A familiaridade e o domínio do
espaço físico pelos alunos cegos de-
pendem do conhecimento, da assi-
milação e da interpretação de refe-
rências ou sinais não visuais como a
discriminação de fontes sonoras, de
pistas táteis, olfativas, cinestésicas,
dentre outras. Por isto, o trabalho de
orientação e mobilidade é funda-
mental para o desenvolvimento da
autonomia, independência e auto-
confiança. O sentido de orientação
tem a ver com a capacidade de per-
cepção e de localização em relação
ao ambiente, enquanto a mobilidade
refere-se à capacidade de locomo-
ção ou de deslocamento entre um
ponto e outro.
A bengala é o recurso mais usa-
do pelas pessoas cegas, e o seu
uso eficiente envolve um conjunto
de habilidades e de conhecimentos
que fazem parte de um programa
específico a ser desenvolvido no
contexto do atendimento educacio-
nal especializado.
O kit "Caminhando Juntos: manu-
al das habilidades básicas de orien-
tação e mobilidade" foi distribuído
pelo MEC/SEESP para as Secreta-
rias de Educação e para os diversos
serviços de atendimento educacio-
nal especializado na área da defici-
ência visual (FELIPPE, 2003).
O manual apresenta um conjunto
de procedimentos, objetivos e técni-
cas básicas de orientação e mobili-
dade que visam a informar, a esclare-
cer e a orientar os usuários de ben-
gala e seus familiares, os educado-
res e outros interessados.
O kit contém um manual im-
presso, uma versão em "mp3" e
uma em audiovisual.
Equipamentos e Recursos
Tecnológicos
Os serviços de educação especi-
al destinados ao atendimento educa-
cional especializado de alunos ce-
gos e com baixa visão devem dispor
de computadores equipados com
Figura 3 - Livro acessível ao lado do
original em tinta
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programas leitores de tela com sínte-
se de voz, de lupas eletrônicas, de
softwares magnificadores de tela e
de outros recursos de acessibilida-
de, pois estas ferramentas são indis-
pensáveis para a comunicação, a
pesquisa e o acesso ao conheci-
mento. Além disso, não podemos ig-
norar que estamos na era do livro di-
gital e da produção do audiolivro, o
que se torna mais viável graças aos
avanços tecnológicos.
Nesta perspectiva, compete ao
atendimento educacional especializa-
do criar condições e alternativas de
aprendizagem e de uso destas ferra-
mentas para os alunos cegos e com
baixa visão. Considere-se que a inclu-
são digital é uma tendência cada vez
mais fomentada e, portanto, deve be-
neficiar, igualmente, a todos os alunos.
Ações e Estratégias
Trata-se de definir o que deve ser
feito em relação ao educando, à es-
cola e à família. Neste planejamento,
é necessário ter clareza em relação
aos possíveis parceiros envolvidos
e, sobretudo, compreender qual é o
papel e a função de cada um dos
profissionais que atuam neste pro-
cesso junto ao aluno e aos seus res-
ponsáveis. É necessário avaliar tam-
bém a necessidade e a disponibili-
dade de equipamentos e recursos
de acessibilidade.
O planejamento das ações deve
ser flexível e deixar claro para o alu-
no, seus familiares e profissionais do
ensino regular, em que consiste o
trabalho e como as ações serão de-
senvolvidas.
Identificação do aluno
O aluno cego ou com baixa visão
deve ser identificado inicialmente pe-
la escola e isto pode ser feito de di-
versas formas. Esta deve ser uma ro-
tina anual das escolas. É muito im-
portante registrar a presença deste
aluno no Censo Escolar INEP/MEC
através do formulário próprio com a
especificação da idade e da série ou
ciclo. Este procedimento é funda-
mental para que o aluno possa rece-
ber, eventualmente, os livros didáti-
cos acessíveis e o kit escolar com o
material pedagógico adequado à
sua condição visual, encaminhados
pelo MEC/SEESP para as escolas
que preencheram o formulário do
Censo Escolar.
O trabalho inicial do atendimento
educacional especializado consiste
em conhecer o educando, definir su-
as potencialidades, dificuldades e
necessidades.
Para isto, faz-se necessária a co-
leta de informações através de entre-
vista com o aluno (de acordo com
sua idade), com seus responsáveis,
familiares, amigos e educadores,
bem como de pesquisa de seus an-
tecedentes clínicos e escolares.
Este levantamento de dados é
muito relevante para o atendimento
educacional especializado, pois:
Conhecer o desenvolvimento global
do aluno, o diagnóstico, a avaliação
funcional da visão, o contexto fami-
liar e social, bem como as alternati-
vas e os recursos disponíveis, facili-
tam o planejamento de atividades e
a organização do trabalho pedagó-
gico (CAMPOS et al, 2007, p. 18).
O Plano de Atendimento
Educacional Especializado
Para cada aluno cego ou com
baixa visão, é feito um planejamento
específico, considerando os dados e
as informações coletadas, a faixa
etária e a escolaridade.
Após o levantamento inicial das
potencialidades, dificuldades e ne-
cessidades do aluno, o plano de
atendimento educacional especiali-
zado é elaborado com objetivos,
ações, estratégias e recursos materi-
ais que serão trabalhados em um de-
terminado período. É muito impor-
tante determinar o período para o
desenvolvimento das ações, obser-
var a coerência entre o período pre-
tendido, a realização das atividades
e analisar o desempenho do aluno
ao longo do processo.
O atendimento educacional espe-
cializado, em salas de recursos multi-
funcionais, deve ser realizado em ho-
rário oposto ao da sala de aula. Além
disso, o planejamento deve considerar
os recursos materiais e humanos dis-
poníveis. Neste sentido, o atendimento
educacional especializado deve dispor
do máximo de recursos possíveis para
que o aluno tenha diferentes opções e
possa escolher a alternativa que me-
lhor se adapta às suas necessidades.
Dimensões do
Atendimento Educacional
Especializado
A partir das características do alu-
no e da análise do contexto escolar e
familiar, torna-se possível definir e or-
ganizar as diversas dimensões do
atendimento educacional especiali-
zado de acordo com a faixa etária e
o nível de escolaridade. Neste senti-
do, relacionamos algumas das pos-
sibilidades de intervenção:
Estimulação Essencial
no Contexto da
Educação Infantil
A estimulação essencial consiste
na estimulação de todos os sentidos
da criança de zero a três anos, com
ênfase no "ver com o corpo", para o
bebê cego, e "ver com os olhos", pa-
ra o bebê com baixa visão.
Toda criança necessita de estímulos
para que seu potencial se desenvolva
efetivamente. O organismo infantil po-
de estar pronto para reagir, mas se
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não houver estímulos adequados, im-
prescindíveis ao seu desenvolvimen-
to, poderá permanecer em estado de
"latência" (RODRIGUES, 2002, p. 7).
A estimulação essencial tem o ob-
jetivo de evitar ou superar possíveis
atrasos secundários decorrentes da
privação visual. Este processo ba-
seia-se na estimulação e exploração
dos sentidos remanescentes, tendo
em vista a mobilidade, a comunica-
ção e a interação com os seres e os
objetos em sua volta através de brin-
cadeiras, jogos, canções, histórias,
entre outras modalidades de media-
ção pela fala e pelo contato físico.
Este trabalho é realizado com um
conjunto de brinquedos e de recur-
sos devidamente selecionados de
acordo com os objetivos e as finali-
dades, considerando-se o desenvol-
vimento e a condição visual de cada
criança. Assim, para o bebê cego
são apresentados brinquedos sono-
ros, com diferentes texturas e chei-
ros, miniaturas, livros táteis etc., en-
quanto o bebê com baixa visão rece-
be brinquedos coloridos, com alto e
médio contraste, adaptações lumi-
nosas, painéis coloridos etc.
Em ambos os casos, as ativida-
des podem ser realizadas duas ou
três vezes por semana, durante 50
minutos, aproximadamente, com a
presença e/ou a participação de uma
pessoa da família ou de professores
que aprendem a executar os mes-
mos exercícios, uma vez que as ativi-
dades desenvolvidas no atendimen-
to educacional especializado deve-
rão ter seqüência em casa e na uni-
dade de educação infantil freqüenta-
da pela criança.
Estimulação Sensório
Motora
Esta dimensão do atendimento
educacional especializado visa dar
continuidade à estimulação essen-
cial em um nível mais complexo, no
qual as crianças de quatro a sete
anos são incentivadas a identificar
e resolver diferentes situações do
dia a dia, usando estratégias, recur-
sos e equipamentos específicos às
suas necessidades.
A criança cega é estimulada a in-
terpretar as informações táteis, audi-
tivas, olfativas e sinestésicas, por
meio de brincadeiras e jogos acessí-
veis, que possibilitam a discrimina-
ção de formas, tamanhos, espessu-
ras, entre outros. A quantidade e a
variedade de estímulos em um ambi-
ente encorajador no qual a atividade
exploratória é incentivada e orienta-
da contribuem para a formação de
conceitos e representações mentais
que permitem à criança atuar sobre
o meio, como agente da ação, de
forma autônoma e independente.
A criança com baixa visão apren-
de a trabalhar suas funções ópticas
perceptivas ao realizar atividades
de discriminação, de memória visu-
al, de percepção espacial, de coor-
denação viso motora, entre outras.
Ela deve ser estimulada a usar a vi-
são potencial na realização das ati-
vidades para que possa "aprender a
ver" e desenvolver ao máximo a efi-
ciência visual.
O Ensino do Sistema
Braille no Contexto da
Alfabetização
As crianças cegas podem e de-
vem ser alfabetizadas em classes
comuns, cabendo ao atendimento
educacional especializado colabo-
rar com este processo com o su-
porte necessário para a aprendiza-
gem do Sistema Braille. Neste pon-
to, cabe ressaltar que a tarefa de al-
fabetizar é da competência do pro-
fessor da sala de aula regular e a
tarefa de iniciação e apropriação do
Sistema Braille fica a cargo do pro-
fissional responsável pelo atendi-
mento educacional especializado.
Considerando que a simbologia
Braille será o código inicial de es-
crita e de leitura da pessoa cega, é
recomendável introduzir os sinais e
os símbolos Braille em situações
cotidianas da vida da criança des-
de bebê. Por exemplo, colocar eti-
quetas em Braille com o nome da
criança na lancheira, na escova de
dentes, em caixas de presentes
etc. Enfim, confeccionar crachás
em braile e aproveitar embalagens,
rótulos e toda sorte de material em
Braille disponível e apresentar di-
versas alternativas de conversão
da escrita convencional para o Sis-
tema Braille dentro e fora da esco-
la, o que facilita a aprendizagem da
representação gráfica das palavras
através do sistema Braille, bem co-
mo seu uso social.
As atividades desenvolvidas na
sala de aula regular devem ser adap-
tadas e transcritas para o Sistema
Braille com antecedência para serem
realizadas pelo aluno cego no mes-
mo tempo e espaço que os seus co-
legas da turma.
Além da grafia Braille, as demais
representações gráficas do sistema
alfabético (a letra em caixa alta, cur-
siva e de imprensa, maiúscula e mi-
núscula) podem ser apresentadas
ao aluno cego e representadas em
variadas texturas.
No processo de alfabetização do
aluno cego, os profissionais do aten-
dimento educacional especializado
podem trabalhar a simbologia Braille
com os professores e com a turma
da classe comum.
O Sorobã
O sorobã (Figura 4) foi reconhe-
cido oficialmente como recurso
educativo para a realização de cál-
culos matemáticos por alunos com
deficiência visual pela Portaria Mi-
nisterial nº. 1.010, de maio de
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2006, que autoriza seu uso em
concursos públicos, vestibulares e
outros exames. Este instrumento
de cálculo é considerado:
(...) um contador mecânico adapta-
do para uso das pessoas com defi-
ciência visual, cuja manipulação de-
pende exclusivamente do raciocí-
nio, domínio e destreza do usuário,
diferindo, portanto, da calculadora
eletrônica, que é um aparelho de
processamento e automação do
cálculo, sem a intervenção do raci-
ocínio (...) (BRASIL, 2006).
O uso do sorobã costuma ser in-
troduzido, geralmente nas séries ou
ciclos do ensino fundamental devido
à complexidade gradativa das opera-
ções matemáticas. Antes disso os
cálculos são realizados através de
materiais concretos e do cálculo
mental (com todas as crianças). Nes-
te sentido, compete ao profissional
responsável pelo atendimento edu-
cacional especializado desenvolver
um conjunto de atividades com blo-
cos lógicos, ábaco, material doura-
do, jogos pedagógicos e outras situ-
ações de aprendizagem que contri-
buem para facilitar a introdução e o
manejo do sorobã.
Orientação e
Acompanhamento
O acompanhamento trata, especi-
ficamente, daqueles alunos que não
necessitam freqüentar o atendimento
na sala de recursos multifuncionais
ou nos centros especializados, po-
rém fazem uso de recursos ópticos
ou não ópticos, de material ampliado
ou em braille, de material confeccio-
nado com texturas, entre outros.
Estes alunos têm seu acesso aos
recursos e equipamentos utilizados
por meio do atendimento educacio-
nal especializado.
A orientação consiste em instru-
mentalizar a comunidade escolar
quanto aos aspectos relacionados à
inclusão da pessoa cega ou com
baixa visão na escola. Os pais ou
responsáveis pelo aluno também
são orientados no sentido de cola-
borar com o trabalho realizado pela
escola e pelo atendimento educa-
cional especializado.
Conclusão
Lembramos que o atendimento
educacional especializado tem o
objetivo primordial de possibilitar a
formação escolar do aluno com de-
ficiência visual. Consiste em um
conjunto de ações diferenciadas
do trabalho desenvolvido na sala
de aula, tendo em vista o acesso
ao conhecimento e o desenvolvi-
mento da independência e autono-
mia dos alunos cegos e com baixa
visão. Neste sentido, o AEE asse-
gura as condições de acessibilida-
de dos recursos pedagógicos, os
meios de locomoção, comunica-
ção e de inclusão escolar. Compe-
te aos educadores, gestores e fa-
miliares criar as condições para a
concretização deste direito.
Referências
BRASIL, Ministério da Educação. P. Política
nacional de educação especial na perspec-
tiva da educação inclusiva. Inclusão. Revis-
ta da educação especial. Brasília: MEC/SE-
ESP, v. 4, 2008, p. 7-17.
BRASIL. Ministério da Educação. Braille Fácil
3.0b. Projeto DOSVOX - NCE/UFRJ, c2002.
Disponível em: <http://intervox.nce.ufrj.br/brfa-
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BRASIL. Ministério da Educação.Portaria
Nº 1.010, de Maio de 2006. Disponível em:
< h t t p : / / w w w . u b c b r a -
sil.org.br/leis/port1010.htm >. Acesso em:
20 ago 2008.
CAMPOS, I. M. et al. Atendimento educa-
cional especializado: deficiência visual.
São Paulo: MEC/SEESP, 2007.
FELIPPE, J. A. M. et al. Caminhando jun-
tos: manual das habilidades básicas de
orientação e mobilidade. Brasília: MEC/SE-
ESP, 2003.
RODRIGUES, M. R. C. Estimulação preco-
ce: a contribuição da psicomotricidade na
intervenção fisioterápica como prevenção
de atrasos motores na criança cega congê-
nita nos dois primeiros anos de vida. Ben-
jamim Constant: Rio de Janeiro, v. 1, n. 21,
2002, p. 6-22.
Figura 4 - Sorobã
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201040
O ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO PARA O ALUNO
COM DEFICIÊNCIA MENTAL
O presente artigo define inicialmente o atendimento
educacional especializado para o aluno com deficiên-
cia mental e precisa suas finalidades. Em seguida,
apresenta as principais características cognitivas do
aluno com deficiência mental a fim de desvendar a per-
tinência desse atendimento para esse aluno. Tendo por
base o perfil cognitivo do aluno com deficiência men-
tal, o artigo ressalta com a ajuda de alguns exemplos
os princípios fundamentais de uma intervenção educa-
tiva própria desse tipo de atendimento. Finalmente
apresenta a experiência vivenciada no decorrer de dois
anos de desenvolvimento do projeto de Formação
Continuada de Professores em Atendimento Educacio-
nal Especializado, oferecida na modalidade de Educa-
ção à distância pela Universidade Federal do Ceará em
parceria com a Secretaria de Educação Especial, do
Ministério da Educação.
Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializa-
do; Deficiência mental; Formação de professor.
O ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO PARA O ALUNO
COM DEFICIÊNCIA MENTAL
Adriana L. Limaverde Gomes1
adrianalimaverde@terra.com.br
Rita Vieira de Figueiredo2
rvieira@ufc.br
Jean-Robert Poulin3
jean-robert_poulin@uqac.ca
1
Doutora em Educação - Faculdade 7 de Setembro; Técnica em Educação da Secretaria de Educação de Fortaleza/CE.
2
Doutora em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará - UFC.
3
Professor associado da Universidade de Quebec em Chicoutimi, Canadá e Professor Visitante da Universidade Federal do Ceará - UFC.
Resumo
40 ENFOQUE
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 2010 41
O Atendimento
Educacional
Especializado
O atendimento educacional espe-
cializado - AEE é um serviço da Educa-
ção Especial que tem como objetivo
eliminar barreiras que dificultem a par-
ticipação dos alunos no ensino regular,
considerando as suas necessidades
específicas. O atendimento educacio-
nal especializado para o aluno com
deficiência mental deve organizar situ-
ações que favoreçam o seu desenvol-
vimento, deve promover situações de
estimulação dos mecanismos do de-
senvolvimento cognitivo e da aprendi-
zagem e produzir materiais didáticos e
pedagógicos, tendo em vista as ne-
cessidades específicas desses alunos.
O professor do AEE acompanha o uso
desses materiais e recursos em sala
de aula, mas não realiza reforço esco-
lar. Ele não faz repetição das ativida-
des escolares.
O atendimento educacional espe-
cializado é uma inovação que provoca
rupturas no modelo conservador de
educação especial, porque se consti-
tui em um serviço que complementa o
ensino comum oferecendo suporte
para a aprendizagem do aluno, o que
pode favorecer sua permanência na
escola comum. A ousadia dessa pro-
posta reside na possibilidade de convi-
dar os professores a romperem com
concepções negativas sobre as possi-
bilidades de aprendizagem das pesso-
as com deficiência investindo no po-
tencial de aprendizagem delas.
A atual Política Nacional de Educa-
ção Especial na Perspectiva da Educa-
ção Inclusiva (2008) orienta aos muni-
cípios brasileiros o desenvolvimento
de um modelo original de atendimento
educacional especializado que se rea-
liza no contra turno do horário escolar.
A opção por esse modelo se justifica
por diferentes razões. A primeira, por-
que alguns alunos com deficiência
mental necessitam de suporte particu-
lar que favoreça o desenvolvimento de
suas ferramentas cognitivas, motoras,
afetivas e sociais permitindo a estes
alunos participar ativamente de um sa-
ber compartilhado na classe comum.
A interação do aluno com seus pares
na classe comum faz dele um agente
participativo que contribui ativamente
para a constituição de um saber com-
partilhado. Deste modo, o aluno po-
derá perceber-se como sujeito que
contribui para a construção de saberes
e de um saber-fazer coletivo retirando
disso múltiplas vantagens, inclusive a
de acessar um papel social valorizado.
A segunda razão se justifica pelo mo-
delo de escola brasileira cujo tempo
escolar corresponde a meio turno de
ensino. Comparando esse tempo com
o tempo escolar da maioria dos países
do mundo que praticam a escola de
período integral, a escola brasileira fica
em desvantagem no que diz respeito à
permanência do aluno na sala de aula.
Deste modo, oportunizar ao aluno
com deficiência mental viver integral-
mente a sua escolarização no espaço
da sala de aula comum, permite que
ele se beneficie dessa convivência, lo-
go não se justifica retirar esse aluno
de sala de aula para realizar outros
atendimentos. De acordo com a ne-
cessidade, o professor de AEE pode-
rá colaborar com o professor do ensi-
no comum orientando a utilização de
materiais e recursos pedagógicos
que favoreçam a participação em sa-
la de aula do aluno com deficiência.
Esse modelo de atendimento educa-
cional especializado permite a pre-
sença do aluno com deficiência em
sala de aula no mesmo momento e
em um tempo igual ao dos outros alu-
nos. O AEE complementa a formação
do aluno e visa a desenvolver a sua
autonomia e independência na esco-
la comum e fora dela.
O aluno com deficiência
mental: características
cognitivas
O funcionamento cognitivo do alu-
no com deficiência mental comporta
um conjunto de características que
The present article defines initially the special educa-
tion support for the pupil with mental deficiency and
needs its purposes. After that, it presents the main
cognitivies characteristics of the pupil with mental
deficiency in order to unmask the relevancy of this
attendance for this pupil. Having for base the cogni-
tive profile of the pupil with mental deficiency, the ar-
ticle standes out with the aid of some examples the
basic principles of a proper educative intervention of
this type of attendance. Finally it presents the expe-
rience lived deeply in elapsing of two years of deve-
lopment of the project of Continued Formation of
Professors in Specialized Educational Attendance,
offered in the modality of long-distance Education
for the Federal University of the Ceará in partnership
with the Secretariat of Special, Ministry of the Educa-
tion of Brazil.
Key words: Specialized Educational Attendance; Mental
retardation; Teacher training.
Abstract
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 41
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201042
testemunham certa fragilidade nesse
funcionamento. Consideramos impor-
tante delimitar um perfil desse funcio-
namento ressaltando que seja qual for
a importância da deficiência desse alu-
no, ele é capaz de realizar numerosas
aprendizagens. O professor não deve
considerar essas características como
obstáculo para uma ação educativa
eficiente. Ele deve, ao invés disso, le-
var em conta essas características ten-
do como objetivo desenvolver estraté-
gias que permitam maximizar a eficiên-
cia de suas intervenções educativas.
Os alunos com deficiência mental
têm dificuldades para mobilizar os
seus próprios recursos cognitivos in-
ternos de modo eficiente. Em situação
de resolução de problema, freqüente-
mente esses alunos se apóiam mais
sobre recursos externos, tais como a
opinião de um colega, do que sobre
seus próprios recursos cognitivos. Ele
é fortemente influenciado pela opinião
e pela ação do outro. As freqüentes di-
ficuldades vivenciadas por esses alu-
nos em contexto de aprendizagem po-
dem talvez explicar essa ausência de
confiança na própria capacidade de
resolver os desafios com os quais ele
é confrontado em casa ou na escola.
Inhelder (1963) realizou um estudo
importante sobre o funcionamento
cognitivo das pessoas com deficiência
mental o qual pode esclarecer, pelo
menos em parte, esta dificuldade para
mobilizar seus próprios recursos cog-
nitivos internos de modo eficiente.
Neste estudo, realizado com cem pes-
soas que apresentavam deficiência
mental, a autora observou a manifesta-
ção de oscilação do raciocínio em pe-
lo menos 10% dessas pessoas. Essas
oscilações se caracterizavam pela ex-
pressão de dois níveis de raciocínio
que elas apresentavam frente à de-
manda de resolução de um problema.
Neste estudo, Inhelder observou três
tipos de oscilação. Uma que se carac-
teriza por um raciocínio que marca um
progresso durante o período de inter-
rogação do sujeito, outra caracterizada
por oscilações simples entre dois ní-
veis de raciocínio e uma terceira cujo
raciocínio marca um retorno durante a
interrogação do sujeito.
Estas oscilações testemunham que
fatores extras cognitivos podem influ-
enciar os mecanismos operatórios, po-
dendo, inclusive, interferir na coerência
interna do pensamento (INHELDER,
1963). A respeito desses fatores extras
cognitivos, Inhelder identifica: a inquie-
tude, a sugestionabilidade e a hesita-
ção que em um contexto de troca soci-
al podem ter um efeito sobre a fragilida-
de do pensamento das pessoas com
deficiência mental. A inquietude resul-
taria de problemas de trocas afetivas
ou intelectuais com o meio social. A su-
gestionabilidade resultaria das cons-
tantes dificuldades cognitivas experien-
ciadas pela criança, que teria como
conseqüência a ausência de credibili-
dade nas próprias idéias. Ela resulta
da necessidade de aprovação do ou-
tro, o que não permite a criança buscar
soluções motivada pelo interesse na
resolução do problema, mas pela bus-
ca de aprovação. Essa forma de fun-
cionamento impede o sujeito de se
adaptar e de tratar os problemas de for-
ma objetiva. Essa necessidade de
aprovação presente nos procedimen-
tos cognitivos da criança dificultaria seu
processo de decisão quanto à resolu-
ção de problemas, resultando em com-
portamentos de hesitação. Os fenôme-
nos evolutivos, seja a construção pro-
gressiva do mecanismo operatório, se-
ja o desenvolvimento das trocas afeti-
vas com o meio social, constituem uma
totalidade da qual os diferentes aspec-
tos são interdependentes (INHEL-
DER,1963, p. 245). Segundo esta auto-
ra, o desenvolvimento operatório com-
porta um aspecto de equilíbrio indivi-
dual interno e um aspecto social. As
operações lógicas constituem um meio
de troca entre o indivíduo e o grupo, lo-
go, as regras operatórias são construí-
das no conjunto das normas sociais.
Assim, se o sujeito acumula experiên-
cia de sucesso em suas trocas com o
meio social, ele pode ultrapassar seu
potencial. Entretanto, o contrário tam-
bém pode se produzir.
O ponto de vista de Inhelder parece
ser compartilhado com o de Ferreti
(1994) quando considera que o desen-
volvimento de estratégias de resolução
de problemas depende algumas vezes
das características cognitivas do sujeito
e outras vezes dos suportes sociais e
contextuais que lhe são oferecidos.
Oferecer suportes qualitativos e ainda
situações de ensino e aprendizagem
que proporcionem interações eficazes
constitui estratégias importantes para a
superação das barreiras impostas pela
deficiência mental, no que diz respeito
à apropriação do conhecimento.
Em sala de aula, esses alunos ex-
perienciam dificuldades em centralizar
a atenção sobre os elementos essenci-
ais que permitiriam orientar o procedi-
mento de realização das tarefas pro-
postas pelo professor. Trata-se de um
problema de atenção seletiva. Normal-
mente eles têm dificuldade em com-
preender o que é esperado deles e
conseqüentemente, apresentam difi-
culdades para se orientarem e planeja-
rem eficazmente à realização da tarefa.
Em situação de aprendizagem, es-
ses alunos utilizam de maneira pouco
eficiente estratégias cognitivas de codi-
ficação da informação. No que consiste
a memória de curto prazo ou memória
de trabalho eles não utilizam as estraté-
gias cognitivas de repetição interna ou
de agrupamento de informação que
permitiriam reter as informações úteis à
resolução do problema. Eles facilmente
esquecem elementos importantes para
a realização eficiente da tarefa.
O planejamento e a auto-regulação
durante a situação de resolução de
problemas se constituem nos aspec-
tos que os alunos com deficiência
mental apresentam maiores dificulda-
des. Eles experimentam dificuldade
em refletir sobre o resultado da própria
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 42
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 2010 43
ação e sobre a transformação das es-
tratégias relacionadas a esta ação, ou
seja, são os aspectos metacognitivos
implicados na realização das tarefas
que se revelam pouco eficientes nes-
ses alunos. Eles tendem a repetir a
mesma estratégia mesmo quando
elas se mostram ineficazes.
A transferência das aprendizagens
para novos contextos constitui uma
outra dificuldade pelas quais passa o
aluno com deficiência mental. Fre-
qüentemente, este aluno não conse-
gue aplicar espontaneamente um sa-
ber ou um saber fazer adquirido em
outro contexto, mesmo quando existe
pouca diferença entre esse dois con-
textos. Esta dificuldade de transferên-
cia se constitui sem dúvida em um
grande desafio para o professor. Pro-
blemas de natureza metacognitiva po-
deriam explicar, em parte, essas difi-
culdades de transferência.
Outra característica a considerar
diz respeito à fragilidade que ele apre-
senta ao operar no nível das represen-
tações mentais, uma vez que essa difi-
culdade interfere na evolução concei-
tual. A evolução conceitual relaciona-
se com o desenvolvimento da oralida-
de, da capacidade de estabelecer diá-
logo com o outro e com o meio físico
e social de modo significativo.
Acreditamos que essas caracte-
rísticas podem interferir no processo
de apropriação do conhecimento pe-
lo aluno com deficiência mental.
Desse modo, o atendimento a esse
aluno deve se estruturar em função
das possibilidades de superação
dessas barreiras.
O atendimento
educacional
especializado para
o aluno com
deficiência mental
O trabalho do professor de atendi-
mento educacional especializado vol-
tado para o aluno com deficiência
mental se caracteriza essencialmente
pela realização de ações específicas
sobre os mecanismos responsáveis
pelo desenvolvimento e a aprendiza-
gem desses alunos. Para desenvolver
o AEE, é imprescindível que o profes-
sor conheça seu aluno e suas particu-
laridades para além das dificuldades e
limitações impostas pela deficiência. O
trabalho do professor de AEE é realizar
uma ação específica para ajudar o alu-
no com deficiência mental a agir de
modo estruturado no ambiente escolar
e fora dele. Este modelo de atendi-
mento deve se orientar pela realização
de estudo de caso. O estudo de caso
deve ser efetivado pelo professor de
AEE em colaboração com o professor
do ensino comum e com outros profis-
sionais que trabalham com esse aluno
no contexto da escola. A família deve
ser convidada para oferecer informa-
ções sobre o aluno e também colabo-
rar no seu estudo de caso. Dessa ma-
neira, o professor de AEE estabelece
os objetivos que ele deve seguir no
atendimento ao aluno, e trabalha de
maneira conjunta com o professor do
ensino comum.
Como já afirmamos anteriormente,
o trabalho do AEE não deve se apoiar
sobre os conteúdos curriculares. Esse
trabalho deve se realizar focalizando
as atitudes do aluno diante da aprendi-
zagem, bem como sobre os mecanis-
mos que permitirão o desenvolvimen-
to de ferramentas conceituais que faci-
litarão sua participação. O professor
de AEE pode trabalhar de uma manei-
ra sistemática sobre as estratégias me-
tacognitivas do aluno de modo a favo-
recer o desenvolvimento da capacida-
de de auto-regulação dele em situação
de resolução de problema. O trabalho
pedagógico envolvendo a habilidade
metacognitiva no espaço do AEE de-
manda a necessidade de planejar es-
tratégias para cada situação de apren-
dizagem, de forma que o aluno seja
capaz de (de modo autônomo) contro-
lar o processo de utilização dessas es-
tratégias, avaliá-las para detectar erros
que possam ter cometido e modificá-
las. O professor de AEE deve planejar
atividades que desenvolvam no aluno
a capacidade de generalizar ou trans-
ferir uma aprendizagem a novas situa-
ções. Ele deverá fazer intervenções
(de natureza educativa) estruturadas
para favorecer a utilização mais eficien-
te das estratégias metacognitivas
apresentadas pelo aluno. Por exem-
plo: comparar ou fazer seleção de es-
tratégias cognitivas pertinentes para
resolver um problema ou controlar e
ajustar o processo de resolução de
problema. Outro exemplo de interven-
ção sobre a responsabilidade do pro-
fessor de AEE diz respeito à organiza-
ção da linguagem. Normalmente o alu-
no com deficiência mental apresenta
problemas na memória a curto prazo.
As dificuldades de leitura enfrentadas
por esses alunos podem estar asso-
ciadas a essa fragilidade. O professor
do AEE deve realizar uma ação espe-
cífica no sentido de ajudar o aluno a
superar essa dificuldade. Dentre ou-
tros aspectos, ele pode trabalhar com
o aluno os mecanismos de representa-
ção interna e de agrupamento da infor-
mação. Se o problema de leitura do
aluno for de natureza da interpretação
do conteúdo, o professor deve traba-
lhar de maneira específica sobre essa
dificuldade cognitiva. Por exemplo, ele
pode narrar uma história e depois soli-
citar que o aluno reescreva de modo
que outro leitor compreenda os princi-
pais elementos do conteúdo da histo-
ria lida. Para apoiar a aprendizagem do
aluno, o professor poderá elaborar um
esquema conceitual que permita a
identificação dos principais eventos
narrativos e dos elementos responsá-
veis pelas causas e conseqüências da
situação apresentada pela historia, ou
seja, os elementos essenciais e os se-
cundários da narrativa, aspecto que
caracteriza a grande dificuldade do
aluno com deficiência mental na inter-
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 43
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201044
pretação da escrita.
A organização da linguagem ver-
bal se constitui em outro foco de inte-
resse do AEE. É importante que o
professor organize situações que per-
mitam ao aluno estabelecer diferen-
ças entre as características da lingua-
gem verbal e aquelas da linguagem
escrita. O professor de AEE deve pro-
porcionar ao aluno o contato com as
mais variadas formas de comunica-
ção, porque esse contato possibilita o
entendimento e a ampliação do seu
vocabulário. Ele deve organizar situa-
ções em que o aluno seja provocado
a se expressar oralmente através de
descrições de imagens, fotos, recon-
tos orais e relatos de experiências. A
capacidade de operar no nível das re-
presentações mentais constitui uma
fragilidade no aluno com deficiência
mental, e a oralidade pode possibilitar
o desenvolvimento dessa capacida-
de. A oralidade permite o aluno transi-
tar pelo mundo da representação,
porque a palavra substitui o mundo fí-
sico dos objetos, permite ao sujeito
planejar e organizar o pensamento e
contribui para a compreensão da pa-
lavra oral e para a interpretação de
significados. A ampliação do vocabu-
lário possibilita o seu uso de modo
compreensivo.
O trabalho de AEE também deve
focalizar as atitudes do aluno com de-
ficiência mental diante do conheci-
mento. Comumente, esse aluno ma-
nifesta atitudes de dependência da
resposta do outro quando confronta-
do com uma situação problema, ou
seja, transfere para o outro a respon-
sabilidade de resolver um determina-
do problema, antes de tentar de mo-
do autônomo sua solução. Nesse
sentido, o AEE deve priorizar a oferta
de atividades em que o aluno faz sua
opção de acordo com seus interes-
ses. Deverá ainda propor atividades
de acordo com as potencialidades
dos alunos, no sentido de promover a
vinculação com o êxito, bem como
organizar propostas a partir das pos-
sibilidades e interesses manifestados
pelo aluno. Essas propostas são pos-
síveis na medida em que ocorra a
promoção de situações diversificadas
que permitam o aluno se expressar li-
vremente. O professor de AEE pode
disponibilizar materiais e recursos di-
versos que possibilitem o aluno se ex-
pressar artisticamente, fazendo sua
escolha de acordo com seu desejo. O
oferecimento dessas diferentes op-
ções de atividades tem influência na
autonomia e na independência do
aluno frente às diferentes situações
de aprendizagem, contribuindo para
a autoconfiança e a motivação dele,
tendo em vista a possibilidade de êxi-
to. Figueiredo (2004) realizou um es-
tudo com um grupo de seis alunos
com deficiência mental no qual inves-
tigava a motivação deles frente a dife-
rentes atividades de leitura e de escri-
ta. O resultado da pesquisa demons-
trou que a motivação desses alunos
estava relacionada com o aspecto
funcional implicado nas atividades, e
com o nível de exigência para realiza-
ção delas.
No trabalho do AEE, o professor
exerce o papel de mediador do co-
nhecimento. O aluno com deficiência
mental abstrai e constrói conhecimen-
tos, no entanto, sua atividade cogniti-
va não é espontânea, necessitando
ser exercitada especialmente pela me-
diação do professor. O aluno com de-
ficiência mental, como sujeito social,
beneficia-se (ou não) das inúmeras
mediações que caracterizam as rela-
ções sociais e interpessoais estabele-
cidas no espaço escolar, as quais são
marcadas também pelos conflitos e
contradições da vida em sociedade. O
trabalho do professor de AEE deve se
pautar na interação com o aluno no
sentido de favorecer a busca pela re-
solução de um determinado problema
a partir da mediação do professor. Du-
rante a realização de jogos que de-
mandem desafios, o professor pode
fazer um apelo ao contexto, às experi-
ências e conhecimentos prévios do
aluno, para que ele utilize procedi-
mentos que permitam a resolução da
situação apresentada. Segundo Pao-
ur (1988), os sujeitos com deficiência
mental manifestam grande dificuldade
na mobilização de conhecimentos
prévios na resolução de situações-
problema. Entretanto, esta dificuldade
pode ser sensivelmente minimizada
por meio de procedimentos de media-
ção orientados em função da deman-
da da atividade e das potencialidades
do sujeito. Analisando a internalização
de estratégias de mediação Vygotsky,
argumenta que "no processo de de-
senvolvimento, as crianças começam
a usar as mesmas formas de compor-
tamento em relação a si mesmas que
os outros inicialmente usaram com
elas" (VYGOTSKY apud SMOLKA,
1991, p. 54-55). Isso significa, segun-
do o autor, que as crianças não ape-
nas se apropriam dos conhecimentos
envolvidos na resolução de tarefas,
como também internalizam as estraté-
gias empregadas pelo mediador, de
acordo com cada situação-problema.
A mediação pedagógica é mais signi-
ficativa e eficiente quando resulta na
combinação de estratégias variadas,
orientadas em função das dificulda-
des e potencialidades dos sujeitos e
da situação-problema. É importante
considerar a mediação como um fe-
nômeno multifacetado, visto que nela
estão implicados diversos aspectos
do desenvolvimento e não apenas os
processos cognitivos. É importante
considerar, também, as concepções
do mediador como um fator de gran-
de relevância no estabelecimento das
relações na tríade sujeito mediador,
objeto de conhecimento e sujeito da
aprendizagem.
Em síntese, o atendimento educa-
cional especializado deve propor ati-
vidades que estimulem o desenvolvi-
mento conceitual, além de propor si-
tuações vivenciais que possibilitem
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ao aluno com deficiência mental or-
ganizar o pensamento operatório e
ainda propor situações-problema que
exijam o uso do raciocínio abstrato.
Dessa maneira, o professor vai ajudar
esse aluno a confrontar com o seu li-
mite cognitivo fazendo uma oposição
sobre a maneira pela qual ele interage
com o mundo.
Assim, a estruturação desse aten-
dimento deve considerar as especifici-
dades do aluno com deficiência men-
tal. Especificidades que dizem respei-
to especialmente à relação que ele es-
tabelece com o conhecimento de mo-
do que a promoção da sua autonomia
intelectual embasa toda a organiza-
ção do AEE.
Formação em
Atendimento
Educacional
Especializado: uma
experiência em curso
Em 2007, a Universidade Federal
do Ceará ofereceu um curso de For-
mação Continuada em Atendimento
Educacional Especializado para for-
mação de professores dos 147 muni-
cípios pólos de redes municipais das
cinco regiões do Brasil. O curso con-
tou com o apoio do Ministério de Edu-
cação, por meio da Secretaria de
Educação Especial, e formou mais de
mil professores na modalidade à dis-
tância. O referido curso se iniciou
com uma formação presencial para
os tutores da cada município pólo cu-
jo objetivo era a fundamentação deles
com o conteúdo e a metodologia,
bem como a familiarização com o ma-
terial (livros, vídeos, dentre outros)
elaborado para este fim. A formação
aborda o atendimento educacional
especializado voltado para a deficiên-
cia mental, pessoa com surdez, defi-
ciência física e deficiência visual.
A formação a distância possibilitou
experienciar outro modo de exercer a
docência que diferia do presencial. Ini-
cialmente, trabalhar com o Ensino a
Distância parecia uma realidade dis-
tante. Avaliávamos que a relação me-
diada pelo computador poderia inter-
ferir no movimento contínuo de intera-
ção entre os participantes do curso. In-
terrogávamos-nos como interagir com
pessoas tão distantes, cuja voz era a
palavra escrita. De modo surpreen-
dente o contato com essas vozes es-
critas possibilitou uma sensação de
proximidade acrescentada pela rique-
za de entrar em contato com o movi-
mento dialógico das turmas de profes-
sores alunos do curso. A navegação
pelo computador foi mediada por uma
nova compreensão sobre o atendi-
mento do aluno em situação de defici-
ência. A proposta conceitual do curso
convidava os participantes a rompe-
rem com muitas de suas concepções
sobre as possibilidades de aprendiza-
gem dos alunos com deficiência. A
maioria dessas concepções residia na
crença de que apenas alguns alunos
se beneficiavam da escola comum e,
portanto, teriam capacidade de apren-
der. As atividades realizadas durante a
formação organizadas no formato de
estudo de caso provocavam conflitos
importantes, visto que algumas turmas
ainda centravam suas discussões na
necessidade de definir a deficiência,
de conhecer o diagnóstico ou de prio-
rizar o atendimento clínico como pos-
sibilidade de dar respostas às necessi-
dades educacionais do aluno com de-
ficiência. Essas ocorrências provoca-
ram a necessidade de uma interven-
ção constante no sentido de esclare-
cer os propósitos desse novo modelo
de atendimento educacional, que prio-
riza a eliminação de barreiras as quais
impedem o aluno de se apropriar dos
conhecimentos escolares.
As crescentes solicitações de for-
mação apresentadas por inúmeros
municípios brasileiros demandaram a
reedição do curso em Atendimento
Educacional Especializado para o
ano 2008. Esta nova versão do curso
contemplou o aprimoramento da me-
todologia de trabalho a partir das difi-
culdades identificadas em 2007. O es-
tudo de caso, fundado na aprendiza-
gem colaborativa em rede com base
em situações do cotidiano escolar, foi
priorizado como opção metodológica
pela riqueza de possibilidades de in-
terlocução entre os participantes do
curso. Este novo formato do curso,
sem dúvida, favoreceu uma maior im-
plicação dos professores alunos do
curso, na identificação das reais difi-
culdades de seus alunos, bem como
das suas possibilidades de aprendi-
zagem e, conseqüentemente, de in-
serção e interação no contexto da es-
cola comum, sendo esta a principal
razão que mobiliza a oferta do atendi-
mento educacional especializado nas
redes públicas de ensino.
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201046
EDUCAÇÃO ESCOLAR DE PESSOAS COM
SURDEZ - ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO EM CONSTRUÇÃO
Apresentamos neste texto reflexões sobre a educação es-
colar de alunos com surdez, rompendo com o embate
entre os gestualista e os oralistas, e interpretando, à luz
do pensamento pós-moderno, a pessoa com surdez, co-
mo ser humano descentrado, em que os processos per-
ceptivos, lingüísticos e cognitivos poderão ser estimula-
dos e desenvolvidos, tornando-os seres humanos capa-
zes, produtivos e constituídos de várias linguagens, com
potencialidade para adquirir e desenvolver não somente
os processos visuais-gestuais, mas também ler e escre-
ver as línguas em seus entornos. Isso nos faz pensar na
pessoa com surdez não reduzida ao chamado mundo
surdo, mas como ser biopessoa com surdezicosocial,
cognitivo, cultural. Neste contexto, a Educação Especial,
na perspectiva inclusiva, com o serviço complementar do
Atendimento Educacional Especializado na escola/classe
comum, oferece novas possibilidades para as pessoas
com surdez, em que a Libras e a Língua Portuguesa es-
crita são línguas de comunicação e instrução.
Palavras-chave: Educação inclusiva; Pessoa com surdez;
Atendimento Educacional Especializado.
EDUCAÇÃO ESCOLAR DE PESSOAS COM
SURDEZ - ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO EM CONSTRUÇÃO
Resumo
Mirlene Ferreira Macedo Damázio1
Josimário de Paulo Ferreira2
1
Pedagoga, Doutora em Educação pela Unicamp/SP e professora pesquisadora da Fundação Conviver para Ser - Uberlândia/MG.
2
Professor, Mestre em Lingüística pela UFU/MG e professor do Centro Universitário do Triângulo- Uberlândia/MG.
46 ENFOQUE
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 47
Introdução
Aproximadamente há dois séculos,
existe um embate político e epistemo-
lógico entre os gestualistas e os oralis-
tas, que tem ocupado lugar de desta-
que nas discussões e ações desenvol-
vidas em prol da educação das pesso-
as com surdez, responsabilizando o
sucesso ou o fracasso escolar com ba-
se na adoção de uma ou de outra con-
cepção com suas práticas pedagógi-
cas específicas. Enquanto as discus-
sões ficam centradas na aceitação de
uma língua ou de outra, as pessoas
com surdez não têm o seu potencial in-
dividual e coletivo desenvolvido, ficam
secundarizadas e descontextualizadas
das relações sociais das quais fazem
parte, sendo relegadas a uma condi-
ção excludente ou a uma minoria.
Sabemos que a nova política de
educação no Brasil vem tecendo fios
direcionais que possibilitam superar
uma visão centrada de homem, socie-
dade, cultura e linguagem de forma
fragmentária, certamente, não só nes-
te momento histórico como um modis-
mo, mas que se consolidará numa
perspectiva de inclusão de todos, com
especial destaque para as pessoas
com deficiência. Neste ponto, uma no-
va política de Educação Especial na
perspectiva inclusiva, principalmente
para pessoas com surdez, tem se tor-
nado promissora no ambiente escolar
e nas práticas sociais/institucionais.
Porém, por mais que as políticas este-
jam já definidas, muitas questões e de-
safios ainda estão para ser discutidos,
muitas propostas, principalmente no
espaço escolar, precisam ser revistas e
algumas tomadas de posição e bases
epistemológicas precisam ficar mais
claras, para que, realmente, as práti-
cas de ensino e aprendizagem na es-
cola comum pública e também priva-
da apresentem caminhos consistentes
e produtivos para a educação de pes-
soas com surdez.
Nesse sentido, sob a força do que
se constitui como paradigma inclusivo,
não legitimamos os estudos e traba-
lhos que têm defendido os marcado-
res identitários dos surdos: cultura sur-
da, identidade surda, línguas surdas e
sujeito surdo, tendo, do outro lado, os
seus oponentes: os ouvintes domina-
dores. Acreditamos na nova Política
Nacional de Educação Especial, numa
perspectiva inclusiva, e não coaduna-
mos com essas concepções que dico-
tomizam as pessoas com ou sem defi-
ciência, pois, antes de tudo, por mais
diferentes que nós humanos sejamos,
sempre nos igualamos na convivência,
na experiência, nas relações, enfim,
nas interações, por sermos humanos.
Enfim, refutamos essas propostas
que estão na contramão da perspecti-
va inclusiva, por provocar dicotomiza-
ções que separam as pessoas com
surdez das pessoas ouvintes, negli-
genciando o potencial e a capacidade
notórias e visíveis que elas possuem; e
rompemos com o embate gestualistas
e oralistas, pois ele prejudica o desen-
volvimento dessas pessoas na institui-
ção escolar, quando canaliza a aten-
ção dos profissionais da escola para o
problema de língua em si. A educação
das pessoas com surdez não pode
continuar sendo centrada nessa ou
naquela língua, como ficou até agora,
mas deve levar-nos a compreender
que o foco do fracasso escolar não es-
tá só nessa questão, mas também na
qualidade e na eficiência das práticas
pedagógicas. É preciso construir um
campo de comunicação e interação
amplo, possibilitando que as línguas
tenham o seu lugar de destaque, mas
que não sejam o centro de tudo o que
acontece nesse processo. Aí, deve-se
discutir a presença obrigatória de
quem age, produz sentido e interage:
a pessoa com surdez.
Nossa intenção é interpretar a pes-
soa com surdez, à luz do pensamento
pós-moderno, como ser humano des-
centrado, por acreditar no corpo bioló-
gico, não em uma parte com a defici-
ência; daí, termos certeza de que os
processos perceptivos, lingüísticos e
cognitivos das pessoas com surdez
We present in this text some reflections on the school edu-
cation of deaf students, trying to break up the existing re-
sistance between gestural and oral followers, and inter-
pret the deaf person in the light of a post-modern thought,
as a non-centered human being, who is able to have
his/her own perceptive, linguistic and cognitive proces-
ses, which can be stimulated and developed. That will
help them to be productive human beings who are able to
acquire a number of languages, and develop not only the
visual-gestural processes, but also learn how to read and
write languages. We understand the deaf person is not re-
duced to the so-called deaf world; instead he/she is a bio-
deaf personchosocial, cognitive and cultural being. In this
context, Special Education in the inclusive perspective,
along with the complementary service of the Specialized
Educational Assistance in the regular school/classroom,
offer new possibilities for deaf people, having Libras and
written Portuguese Languages instruction and communi-
cation languages.
Key words: Inclusive education; Deaf person; Specialized
Educational Assistance.
Abstract
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201048
deverão ser estimulados e desenvolvi-
dos, tornando-as sujeitos capazes,
produtivos e constituídos de várias lin-
guagens, com potencialidade para ad-
quirir e desenvolver não somente os
processos visuais-gestuais, mas tam-
bém ler e escrever as línguas em seus
entornos e, se desejar, também falar.
Isso nos faz pensar num sujeito com
surdez não reduzido ao chamado
mundo surdo, com a identidade e a
cultura surda, mas numa pessoa com
potencial a ser estimulado e desenvol-
vido nos aspectos cognitivos, cultura-
is, sociais e lingüísticos, pois a concep-
ção de pessoa com surdez descentra-
da se caracteriza pela diferença, que,
sob a força de divisões e antagonis-
mos, leva a pessoa a ser deslocada e
a assumir diferentes posições e identi-
dades, Hall (2006). É nesse sentido de
descentramento identitário que conce-
bemos a pessoa com surdez como ser
biopessoa com surdezicosocial, cog-
nitivo, cultural, não somente na consti-
tuição de sua subjetividade, mas tam-
bém na forma de aquisição e produ-
ção de conhecimentos.
Assim, torna-se difícil e complexo
marcarmos e estabelecermos frontei-
ras bem delineadas entre os vários
contextos sociais e de vida, para limitar
ou delimitar onde começam e termi-
nam as culturas ali existentes. Enfim,
pensar e construir uma prática peda-
gógica que se volte para o desenvolvi-
mento das potencialidades das pesso-
as com surdez, na escola, é fazer com
que essa instituição esteja imersa nes-
se emaranhado de redes sociais, cul-
turais e de saberes. É claro que se de-
vem considerar os contornos dessas
redes, não com a nitidez das fronteiras
territoriais de culturas e identidades,
mas como contornos que nos permi-
tam ver as pessoas em suas singulari-
dades e diferenças, cujos contextos re-
ais precisam ser respeitados. Contu-
do, precisamos nos afastar de idéias
de unanimidade, de obviedade, de
fragmentação, pois mergulhar na reali-
dade é saber que estamos sempre in-
completos, indefinidos, por sermos
complexus, Morin (2001), e isso nos
coloca na perspectiva do outro, cujos
fios tecem infinitos sentidos em redes
de conhecimento nas quais sempre o
ser humano, em especial, a pessoa
com surdez, estará enredada.
Rompemos com o paradigma da
dicotomização entre oralistas e gestua-
listas, e colocamos em cena a pessoa
com surdez na concepção pós-moder-
na, como a caracterizamos anterior-
mente, vemos que a tendência bilíngüe
se torna um território que desterritoriali-
za a clausura dessa pessoa, sob a óti-
ca multicultural. Porém, ao pensar a
abordagem bilíngüe para a educação
lingüística da pessoa com surdez, des-
locamos o lugar especificamente lin-
güístico e a tratamos com outros con-
tornos: a LIBRAS e a Língua Portugue-
sa, em suas variantes de uso padrão,
ensinadas no âmbito escolar, devem
ser tomadas em seus componentes
histórico-cultural, textual, interacional e
pragmático, além de seus aspectos for-
mais, envolvendo a fonologia, morfolo-
gia, sintaxe, léxico e semântica.
Para que isso ocorra, sob a força
da ressignificação da pessoa com sur-
dez, da tendência bilíngüe e da educa-
ção, não discutimos o bilingüismo
com olhar fronteiriço ou territorializado,
segundo o que a literatura (principal-
mente a estrangeira) tem produzido.
Para nós, a pessoa com surdez não é
estrangeira em seu próprio país, mas
usuária de um sistema lingüístico com
características e status próprios, no
qual cognitivamente se organiza e es-
trutura o pensamento e a linguagem
nos processos de mediação simbóli-
ca, na relação da linguagem/pensa-
mento/realidade e práxis social.
Assim, nesse processo de ressigni-
ficação da educação de pessoas com
surdez, sob a ótica bilíngüe, percebe-
mos que muitas questões se colocam,
tais como: que a proficiência em duas
línguas ainda parece uma ilusão, pois
ainda se pensa na subordinação de
uma língua a outra; há uma visão edu-
cacional priorizando a língua de sinais;
prega-se uma hierarquia nos usos da
língua, como se pudesse ser definido
a priori; o bilingüismo, muitas vezes,
dá lugar ao bimodalismo; não se leva
em conta a abordagem bilíngüe, con-
siderando as pessoas em seus graus
de surdez, a pessoa com implante co-
clear, os filhos de pais com surdez, os
filhos de pais sem surdez; a formação
de professores bilíngües; os proces-
sos de gestualizar, sinalizar, articular,
oralizar, ler e escrever na aquisição e
desenvolvimento das línguas. Há mui-
tos estudos e pesquisas a serem reali-
zados, há também, muitas questões e
pouquíssimas respostas, mas que po-
derão ser revistas, retomadas, pesqui-
sadas e estudadas sob o paradigma
do sujeito pós-moderno. É importante
frisar que a perspectiva inclusiva rom-
pe fronteiras, territórios, quebra pre-
conceitos e procura dar ao ser huma-
no com surdez, amplas possibilidades
sociais e educacionais.
Por isso, é necessário discutir que,
mais do que uma língua, as pessoas
com surdez precisam de ambientes
educacionais estimuladores, que de-
safiem o pensamento e exercitem a
capacidade perceptivo-cognitiva. Ob-
viamente, precisam como as demais,
de uma escola que explore suas capa-
cidades, em todos os sentidos. Se só
a posse de uma língua bastasse para
aprender, as pessoas ouvintes não te-
riam problemas de aproveitamento es-
colar, já que entram na escola com
uma língua oral desenvolvida. A aquisi-
ção da língua de sinais, de fato, não é
garantia de uma aprendizagem signifi-
cativa. O ambiente em que a pessoa
com surdez está inserida, uma vez que
não lhe ofereça condições para que se
estabeleçam mediações simbólicas
com o meio físico e social, não exerci-
ta ou provoca a capacidade represen-
tativa dessas pessoas, conseqüente-
mente, compromete o desenvolvimen-
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to do pensamento, da linguagem e da
produção de sentidos.
Diante do exposto, legitimamos a
abordagem bilingüe e aplicamos a
obrigatoriedade dos dispositivos le-
gais do Decreto 5.626 de 5 de dezem-
bro de 2005, que determina o direito
de uma educação que garanta a for-
mação da pessoa com surdez, em
que a Língua Brasileira de Sinais e a
Língua Portuguesa, preferencialmente
na sua modalidade escrita, constituam
línguas de instrução, e que o acesso
às duas línguas ocorra de forma si-
multânea no ambiente escolar, colabo-
rando para o desenvolvimento de todo
o processo educativo.
Compreendemos que o fracasso
do processo educativo das pessoas
com surdez é um problema da quali-
dade das práticas pedagógicas e não
um problema somente focado nessa
ou naquela língua, ou mesmo numa
diferença cultural, envolvendo outra
cultura, uma comunidade com identi-
dades surdas próprias. Por isso, como
já expusemos acima, fala-se muito da
diferença surda e pouco do potencial
desse ser humano; as pessoas com
surdez desejam ser guetificadas, ex-
cluídas da inclusão, em nome de uma
etnia diferente? Quem não ouve, não
tem deficiência e, sim, uma diferença
cultural? Eles são realmente de uma
etnia diferente? Acreditamos já ter sali-
entado anteriormente a interpretação
que damos a esses aspectos aborda-
dos, pois a deficiência da pessoa com
surdez a limita num aspecto sensorial,
mas há possibilidades em outros.
Em um contexto de rupturas com
essa visão segregacionista e de emba-
tes entre gestualista e oralistas, assina-
lamos que esse não é o caminho defi-
nido pelas políticas públicas educacio-
nais brasileira, quando legitima a pers-
pectiva inclusiva numa abordagem bi-
lingüe para a educação das pessoas
com surdez. A ruptura com o mundo
ouvinte não marcará ou respeitará a di-
ferença da pessoa com surdez, ou
mesmo lhe retirará a deficiência, que é
determinada pelo biológico, mas a falta
de audição não a impede de desenvol-
ver as possibilidades de significações e
definições na sociedade do conheci-
mento, uma vez que a demarcação do
território ouvinte ou surdo não é algo
real e concreto, pois as relações políti-
cas e sociais envolvem todo e qualquer
ser humano, independente de sua de-
ficiência ou não. Esse ser humano pre-
cisa ser trabalhado no espaço escolar
como um ser que possui uma deficiên-
cia, e que essa deficiência provoca
uma diferença, que deve ser reconhe-
cida e respeitada, mas não podemos
justificar o fracasso nessa questão, em
virtude de cairmos na cilada da diferen-
ça, segundo Pierucci (1999).
A atenção deve estar centrada, pri-
meiramente, no potencial natural que
esses seres humanos têm, indepen-
dente de deficiência, diferença. Nes-
sas pessoas, se lhes forem criados
ambientes propícios para desenvolve-
rem o seu potencial, outras questões
serão secundarizadas. Em segundo
lugar, o foco deve ser a transformação
da escola e das suas práticas pedagó-
gicas excludentes em inclusivas, pois
compreendemos o homem como um
ser dialógico, transformacional, incon-
cluso, reflexivo, síntese de múltiplas
determinações num conjunto de rela-
ções sociais, com capacidade de ide-
alizar e de criar. Mas ele pode ter difi-
culdade consigo mesmo e com os que
o rodeiam. Sob a égide do processo fi-
logenético do desenvolvimento huma-
no, o homem reflete o ser homo, cole-
tivo, semelhante a todos os outros da
sua espécie. Paralelamente, sob a vi-
são ontogenética, ele se mostra singu-
lar, único e idiossincrático.
Nesse contexto de compreensão é
que legitimamos a construção do
Atendimento Educacional Especializa-
do para pessoas com surdez, instituí-
do por meio da Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva In-
clusiva, que disponibiliza serviços e re-
cursos. Esse atendimento tem como
função organizar o trabalho comple-
mentar com vistas à autonomia e à in-
dependência social, afetiva, cognitiva e
lingüística da pessoa com surdez na
escola e fora dela.
Atendimento Educacional
Especializado para
Pessoas com Surdez
O atendimento educacional espe-
cializado para a pessoa com surdez, na
perspectiva inclusiva, estabelece como
ponto de partida a compreensão e o
reconhecimento do potencial e das ca-
pacidades desse ser humano, vislum-
brando o seu pleno desenvolvimento e
aprendizagem. As diferenças desses
alunos serão respeitadas, consideran-
do a obrigatoriedade dos dispositivos
legais, que determinam o direito de
uma educação bilíngüe, em que Libras
e Língua Portuguesa escrita constituam
línguas de instrução no desenvolvi-
mento de todo o processo educativo.
O atendimento educacional espe-
cializado para pessoas com surdez
deve ser visto como construção e re-
construção de experiências e vivên-
cias conceituais, em que a organiza-
ção do conteúdo curricular não deve
estar pautada numa visão linear, hierar-
quizada e fragmentada do conheci-
mento. O conhecimento precisa ser
compreendido como uma teia de rela-
ções, na qual as informações se pro-
cessem como instrumento de interlo-
cução e de diálogo. Pensamos no
atendimento educacional especializa-
do para a pessoa com surdez, na pers-
pectiva de que tudo se liga a tudo e
que o ato de um professor transformar
sua prática pedagógica, conectando
teoria e prática, a sala de aula comum
e o atendimento educacional especia-
lizado, numa visão complementar, sus-
tenta-se a base do fazer pedagógico
desse atendimento.
Dessa forma, o atendimento edu-
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 49
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201050
cacional especializado para a pessoa
com surdez precisa ser pensado em
redes interligadas, sem hierarquização
de conteúdos, sem dicotomizações,
reducionismos; mas com uma ação
conectada entre o pensar e o fazer pe-
dagógico. Com isso, certamente, o
ambiente de aprender a aprender será
adequado e sustentará que o profes-
sor e o aluno com surdez interajam
com a sala de aula comum, produzam,
pela mediação pela compreensão dos
conhecimentos, a partir, de novas prá-
ticas metodológicas, com suas estraté-
gias e recursos de ensino. Dessa for-
ma, as práticas metodológicas do
atendimento educacional especializa-
do para a pessoa com surdez, sob a
ótica do pensar inclusivo, quer a con-
junção, em que as partes e o todo es-
tejam numa simbiose.
Para realizar essa simbiose, adota-
mos a Pedagogia Contextual Relacio-
nal. O sentido dessa pedagogia en-
contra-se em formar o ser humano,
com base em contextos significativos,
em que se procura desenvolvê-lo em
todos os aspectos possíveis, tais co-
mo: na vontade, na inteligência, no co-
nhecimento e em idéias sociais, des-
pertando-o nas suas qualidades e es-
tabelecendo um movimento relacional
sadio entre o ser e o meio ambiente,
descartando tudo que é inútil, sem va-
lor real para a vida (DAMÁZIO, 2005).
Nesse sentido, o cotidiano adquire sig-
nificado, quando se levam em conta
todas as vivências contextuais relacio-
nais que o ser humano em evolução
experimenta. Nesse contexto, o aluno
com surdez se sentirá situado e com-
preenderá com mais facilidade os con-
teúdos em estudo.
De acordo com esses preceitos, es-
sa ação pedagógica entre o conhece-
dor, o conhecimento e o conhecido,
não fica restrita ao conhecimento do
mundo físico, dos objetos no plano
concreto. Ela também se realiza por
meio de exercícios reflexivos, intuitivos
e abstratos, baseados na complexida-
de do fenômeno inter e intra humanos
e no meio vivencial, de forma proces-
sual, e exige muita investigação e atos
educativos ligados à necessidade do
aluno com surdez, por meio de siste-
mas complexos que são auto-organi-
zados. Nesse conjunto, esse aluno é
trabalhado a partir da compreensão do
ciclo de desenvolvimento e aprendiza-
gem, respeitando os campos pedagó-
gicos e lingüístico das duas línguas no
atendimento educacional especializa-
do para a pessoa com surdez.
Para efetivar o cotidiano escolar do
atendimento educacional especializa-
do para a pessoa com surdez, aplica-
mos a metodologia vivencial, que leva
o aluno a aprender a aprender. Essa
metodologia é compreendida como
um caminho percorrido pelo professor,
para favorecer as condições essenciais
de aprendizagem do aluno com sur-
dez, numa abordagem bilíngüe. Nesse
sentido, o professor do atendimento
educacional especializado para a pes-
soa com surdez, na condição de auto-
ridade, para gestar e com responsabili-
dade para construir o ambiente de
aprendizagem para esse aluno, busca
os métodos, escolhendo os melhores
procedimentos e recursos para opera-
cionalização da aula especializada.
Assim, o professor, por meio dessa
metodologia, adota os seguintes prin-
cípios básicos para o ato de aprender
a aprender: o aluno com surdez pen-
sa, questiona e levanta idéias sobre to-
das as coisas; ao levantar idéia, entra
em conflito com os esquemas anterio-
res; ao entrar em conflito, busca res-
postas aos seus questionamentos, vi-
sando refutar ou confirmar o que está
sendo investigado, estudado; ao des-
cobrir sobre o saber investigado, tem
um ato conseguido; esse ato conse-
guido precisa ser repetido, construin-
do a aprendizagem significativa; ao
apreender o saber, a pessoa com sur-
dez realizará sua aplicabilidade no seu
cotidiano de vida. A seguir, expomos a
síntese esquemática da metodologia
vivencial.
Fig. 1 - Síntese esquemática da metodologia vivencial.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 50
Na condição de seres de lingua-
gens, de relações, de movimentos e
de expressões no mundo em cons-
tante transformação, procuramos de-
senvolver, nos alunos com surdez, a
língua e a linguagem, o pensamento,
as aptidões, os interesses, as habili-
dades e os talentos humanos, asse-
gurando uma formação ampla, di-
mensionada e conectada com os
tempos atuais. A prática pedagógica
do atendimento educacional especia-
lizado para a pessoa com surdez, e
organizada por meio de contextos,
está alicerçada nas representações
sociais e nos legados culturais e cien-
tíficos da humanidade, representados
em epistemes.
Os contextos são definidos e es-
colhidos, observando a significância,
a representatividade conceitual e a
obrigatoriedade do programa curricu-
lar oficial. Esses contextos enrique-
cem o ambiente de ensino, no qual
tudo que acontecer no decorrer do
processo do ato educativo terá sinto-
nia e provocará a possibilidade de co-
nectar e relacionar todos os saberes,
buscando o avanço conceitual do alu-
no com surdez. Para o planejamento
dos contextos, o professor do atendi-
mento educacional especializado pa-
ra a pessoa com surdez realiza pes-
quisas bibliográficas e elabora a tessi-
tura epistêmica do assunto, seguida
do quadro sinóptico, envolvendo:
contexto identitário, conceitualiza-
ções, áreas dos saberes científicos,
conteúdos curriculares, significantes
e significados identitário e as habilida-
des, demarcando o planejamento bá-
sico do atendimento.
Exemplo de um quadro sinóptico do planejamento básico do contexto e do conteúdo de um momento
do atendimento educacional especializado para a pessoa com surdez
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 51
Contexto
identitário do
ambiente de
aprendizagem
O Egito Antigo
Conceitualizações
do contexto
identitário do
ambiente de
aprendizagem
Nacionalidade
Sociedade
Historicidade
Cultura
Valores humanos
Relações sociais
Preconceito
Tecnologia
Linguagem
Criticidade
Literatura
Textualidade
Áreas dos saberes
científicos
Saberes da
geopolítica e
ecologia
Valores éticos e
estéticos
Criatividade
Comunicação e
expressão
Relações inter e
intrapessoais
Saberes
históricos culturais
e sociais
Conhecimentos
físicos, químicos e
matemáticos
Movimento corpo
e mente
Conteúdos
curriculares deste
contexto identitário
Morfologia da
Língua Portuguesa
Leitura de textos
Escrita de textos
Sistema de
numeração romano
Sistema de
numeração decimal
Operações
matemáticas
Sólidos
geométricos
Unidades de
medidas - metro
Universo e
movimento do
sistema solar
Localização
geográfica
O passado, o
presente
A água na terra
Valores Humanos:
ação correta, paz,
verdade, não
violência e amor
Significantes e
significados deste
contexto identitário
Civilização
Mitos
Mentalidade
Faraó
Monarca
Pergaminho
Papiros
Decomposição
Sacerdotes
Astrologia
Babillônico
Eclipessoa com
surdezes
Zodíacos
Presságios
Habilidades
Ler
Escrever
Falar
Dialogar
Relacionar
Expressar
Experimentar
Compreender
Conectar saberes
Competir
Intertextualizar
Extrapolar
Analisar
Sintetizar
Avaliar
Compor
Decompor
Criar
Inventar
Reinventar
Transformar
Tabela 1 - Quadro sinóptico do planejamento básico do contexto e do conteúdo de um momento do atendimento
educacional especializado para a pessoa com surdez
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 51
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201052
No decorrer do atendimento edu-
cacional especializado para a pessoa
com surdez, os alunos fazem pergun-
tas, analisam, criticam, fazem analogi-
as, associações diversas entre o que
sabem e os novos conhecimentos em
estudos. Os professores nesse aten-
dimento, registram o desenvolvimen-
to que o aluno apresenta, o atendi-
mento educacional especializado pa-
ra a pessoa com surdez contribui
com a interação e a comunicação en-
tre o professor, os colegas e o aluno
com surdez na sala de aula comum,
em virtude de já ter construindo de
forma complementar os vários sabe-
res que a classe comum não oferece,
garantindo, efetivamente, a participa-
ção do aluno com surdez na dinâmi-
ca da sala de aula comum.
Dessa forma, o atendimento edu-
cacional especializado para a pessoa
com surdez respeita princípios peda-
gógicos essenciais, que garantem o
acesso às duas línguas para o atendi-
mento do aluno com surdez, mediante
uma organização didática e metodoló-
gica do fazer aula especializada, sob a
autoridade técnica, humana e política
do professor como responsável pela
mediação entre o conhecimento, o co-
nhecedor e o conhecido num ambien-
te de aprendizagem processual dialó-
gico, no qual se devem oferecer possi-
bilidades infinitas para que ocorra a
problematização, a experienciação, a
experimentação, a demonstração e as
trocas circunstanciais, promovendo o
desenvolvimento social, afetivo, cogni-
tivo e lingüístico do aluno com surdez.
Assim sendo, a organização didáti-
ca do atendimento educacional espe-
cializado para a pessoa com surdez é
idealizada mediante a formação do
professor e do diagnóstico inicial do
aluno com surdez. Em seguida, o pro-
fessor elabora o plano atendimento
educacional especializado para a pes-
soa com surdez, envolvendo três mo-
mentos didático-pedagógicos: Atendi-
mento Educacional Especializado em
Libras; Atendimento Educacional Es-
pecializado para o ensino da Língua
Portuguesa escrita; e o atendimento
educacional especializado para o ensi-
no de Libras. Este plano de atendi-
mento educacional especializado para
a pessoa com surdez deve respeitar o
ambiente comunicacional das duas
línguas e a participação ativa e interati-
va dos alunos com surdez, asseguran-
do uma aprendizagem efetiva.
Para assegurarmos a aprendiza-
gem significativa em prol das pessoas
com surdez na escola comum, preci-
samos romper com os vários empeci-
lhos, que, segundo Damázio (2005),
impedem o desenvolvimento e provo-
cam a repetência e a evasão, ocasio-
nando o fracasso escolar. Esses em-
pecilhos envolvem as práticas da filo-
sofia integracionista com roupagem
de inclusiva, tais como:
Exigência do aprendizado da Língua
Portuguesa pelo aluno com surdez no
mesmo tempo e ritmo que os ouvintes;
Conteúdos ministrados em língua
oral ou só por meio da interpretação
de Libras em sala de aula comum, o
que não garante o efetivo desenvolvi-
mento e aprendizagem;
Intérprete de Libras fixo na classe
comum, estabelecendo total depen-
dência do aluno com surdez;
Sala de recursos multifuncionais no
contra turno com a finalidade de refor-
ço e apoio;
Sala de recursos multifuncionais
com trabalho substitutivo ao da sala de
aula comum;
Aprender Libras para ensinar Língua
Portuguesa;
não estabelecimento de ambientes
lingüísticos adequados ao aprendiza-
do das duas línguas;
Intérprete de Libras assumindo o pa-
pel do professor do atendimento edu-
cacional especializado para a pessoa
com surdez e do professor da sala de
aula comum;
Sala de aula comum com a presen-
ça do instrutor de Libras, como se es-
te profissional fosse professor de con-
teúdo curricular, sendo que ele não
habilitado para tal função;
O professor da sala de aula comum,
ao desenvolver os conteúdos, sinaliza
os vários textos, e informa que usa e
sabe Libras, provocando problemas
sérios na aprendizagem das duas lín-
guas pela pessoa com surdez, quan-
do legitima o bimodalismo e/ou portu-
guês sinalizado;
Professor da classe comum sendo
exigido a cumprir o papel do professor
do atendimento educacional especiali-
zado para a pessoa com surdez, pro-
vocando revolta entre os professores e
a negação do acesso e permanência
desses alunos no ambiente educacio-
nal da escola e na sala de aula comum;
professor do atendimento educacio-
nal especializado para a pessoa com
surdez, sem qualificação para atuar no
ensino das duas línguas;
sala de aula somente de alunos com
surdez na escola comum, com a pre-
sença fixa do intérprete, do instrutor e
do professor regente, causando um
caos pedagógico e no desenvolvimen-
to desses alunos;
uso exclusivo da Libras no cotidiano
do trabalho escolar, negando o direito
de aprender o português escrito.
Assim, para rompermos com es-
sa confusão nas práticas pedagógi-
cas e nas ações e funções dos profis-
sionais que atuam em prol da educa-
ção desses alunos, apresentamos de
forma didática o trabalho do atendi-
mento educacional especializado pa-
ra a pessoa com surdez, segundo
Damázio (2005:69-123), envolvendo
os três momentos didático-pedagógi-
cos, que são:
Atendimento Educacional Especiali-
zado em Libras;
Atendimento Educacional Especiali-
zado para o Ensino da Língua Portu-
guesa;
Atendimento Educacional Especiali-
zado para o Ensino de Libras.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 52
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 53
O Atendimento
Educacional
Especializado em Libras
Esse atendimento do atendimen-
to educacional especializado em Li-
bras ocorre diariamente, em horário
contrário aos das salas de aula co-
mum. Nesse atendimento, o profes-
sor acompanha o planejamento da
escola de acordo com a série ou ci-
clo que o aluno está cursando. A or-
ganização didática do espaço de en-
sino deve ser rica em imagens visu-
ais e de todos os tipos de referências
que possam colaborar com o apren-
dizado dos conteúdos curriculares.
Os professores utilizam imagens vi-
suais e, quando o conceito é muito
abstrato, recorrem a outros recursos,
como o teatro, por exemplo. Os ma-
teriais e os recursos para esse fim
precisam estar sempre presentes e
expostos no ambiente da sala. As
idéias dos conteúdos curriculares
em Libras devem ser ministrados an-
tecipadamente ao trabalhado da sa-
la de aula comum, garantindo uma
melhor associação dos conceitos
nas duas línguas.
Atendimento Educacional
Especializado para o
ensino da Língua
Portuguesa - Escrita
Estudos e pesquisas têm nos leva-
do, nos últimos dez anos, sob várias
vertentes lingüísticas, a reflexões sobre
a língua e as propostas de ensino do
Português para pessoas com surdez,
ora com foco na aquisição da língua
portuguesa, em sua modalidade oral
e/ou escrita, comparando a língua das
pessoas com surdez com a dos ouvin-
tes; ora com foco em análises de da-
dos, especialmente em estudo de ca-
sos de crianças, jovens ou adultos
com surdez que tenham ou não adqui-
rido e desenvolvido a Libras e sua rela-
ção com a aquisição e o desenvolvi-
mento da Língua Portuguesa, princi-
palmente em sua modalidade escrita:
leitura e produção de texto. Nesses tra-
balhos, estudiosos e pesquisadores
têm desvendado vários problemas lin-
güísticos das pessoas com surdez:
desde fracassos em codificar e deco-
dificar textos curtos em português, em
seus aspectos formais, até textos mais
complexos, com falta de densidade ci-
entífica, coerência e coesão.
Há também inúmeras propostas
de educação lingüística da pessoa
com surdez com destaque: para o
ensino de Português, condicionado
à aprendizagem de Libras - esta co-
mo primeira língua; aquela como se-
gunda língua; ou a discussão polê-
mica entre língua e identidade e cul-
tura surda; ou língua do surdo versus
língua do ouvinte; ou Língua portu-
guesa como língua estrangeira na
aquisição pelas pessoas com sur-
dez; ou aprendizagem do Português
como interlíngua pela pessoa com
surdez (como se fosse a pessoa
com surdez um estrangeiro ou estra-
nho na língua de seu país); enfim,
essas propostas adotam diferentes
teorias: estruturalismo, gerativismo,
pessoa com surdezicologia cognitiva
e pessoa com surdezicolingüística;
porém nota-se um turbilhão de idéi-
as e fundamentos teóricos, às vezes,
em alguns pesquisadores com a pre-
sença de certo ecletismo teórico, no-
tadamente em termos de conceber e
aplicar conceitos de língua e de lin-
guagem, com a intenção talvez, de
atualizar as pesquisas sobre surdez
e linguagem em sua maior parte, do
que realmente propor e elaborar, sob
a luz de uma fundamentação teórica
mais clara e objetiva, uma metodolo-
gia e uma práxis didático-pedagógi-
ca para a educação lingüística da
pessoa com surdez.
Trazemos, aqui, uma proposta di-
dático-pedagógica e metodológica
para se ensinar português escrito (do-
ravante PE) para a pessoa com sur-
dez. Acreditamos no ensino de portu-
guês como produtivo para as pessoas
com surdez, numa perspectiva inclusi-
va, e concebendo língua e linguagem
como processo de interação e uso
nas práticas sociais. Por isso, defen-
demos que o espaço escolar consti-
tui-se como o lugar-base onde podem
inserir-se as pessoas com surdez para
aquisição e desenvolvimento da mo-
dalidade de língua portuguesa escrita
em suas várias formas e adequação
do uso, sobretudo por essa língua ser
conteúdo do ensino regular, das séri-
es/ciclos iniciais ao ensino superior, e
por ser direito dos cidadãos com sur-
dez constituírem-se como sujeitos le-
trados numa segunda língua, em seus
vários níveis de desenvolvimento. E a
língua portuguesa escrita pode ser um
dos eficazes instrumentos para sua
constituição como sujeito/cidadão,
visto que nela se concentra o poder
discursivo de expressão formal de
sentidos, com ela é possível estabele-
cer as interações verbais entre o eu e
o outro e dela se apropriam todos os
que buscam e produzem conheci-
mentos científicos, os saberes e os
bens culturais a que demos direito de
acesso. Diante do exposto, exemplifi-
caremos, a seguir, a base epistemoló-
gica que defendemos para o atendi-
mento educacional especializado pa-
ra o ensino do PE, quanto ao ato de
ler, escrever e aprender a gramática
de uso pelas pessoas com surdez.
Ato de ler ao se ensinar
o português escrito para
pessoas com surdez no
atendimento educacional
especializado
Numa visão de leitura e ato de ler,
propomos o ato de ler como ato de lin-
guagem que se constitui num movi-
mento de conexão entre o todo e as
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201054
partes do que se pressupõe como tex-
to - tecido, tessitura de palavra, arran-
jos sonoros, jogos imagísticos, seja es-
crito, seja gestual-visual pelo qual se
escreve, percebe, sente, vê o mundo.
Assim, conforme diz Martins (1982), ler
é - além da atribuição de significados à
imagem gráfica segundo o sentido
que o escritor lhe atribui - a relação
que o leitor estabelece com a própria
experiência, por meio do texto. Assim,
envolve aspectos sensoriais, emocio-
nais e racionais. Há, portanto, diferen-
tes níveis de leitura que extrapolam do
texto para o mundo. A crise da leitura
abarca, hoje, muitos letrados, incapa-
zes de ler a própria realidade no mun-
do. Ler não é dizer o já dito, mas falar
do outro sentido; é impossível uma lei-
tura do consenso, uniforme, pois no
conflito das interpretações se revela a
diversidade rica de um texto e, através
dele, a da realidade.
Nesse sentido, a leitura é um pro-
cesso de interlocução entre leitor/autor
mediado pelo texto, em que há um
movimento de ir-e-vir constante do su-
jeito com surdez, que estimula seus
mecanismos perceptivos indo do todo
para as partes e vice-versa, num pro-
cesso de contextualização, descontex-
tualização e recontextualização. Enfim,
para mostrar os movimentos de todo e
partes no processo de ler, que aqui es-
tamos construindo, ressaltamos algu-
mas estratégias que julgamos muito
importantes para os atos de interpretar
e compreender que desenvolvemos
na prática escolar: o processo de inter-
pretação, como linguagem e sistemas
semióticos, depende de informativida-
de; interpretar está ligado a fazer pres-
suposição; ler com implícito; inferên-
cias; e intertextualidade.
Ato de escrever
(produção de textos) no
ensino do português
escrito para a pessoa
com surdez no
atendimento educacional
especializado
Para nós, que vivemos em uma so-
ciedade complexa, o ato de escrever
nos é um fenômeno inerente, pois so-
mos requisitados cotidianamente a
produzir sentidos escritos, uma vez
que os sujeitos históricos que vivem
em um mundo letrado têm necessida-
des de ler e escrever em práticas soci-
ais instrumentalizadas por esses atos.
Assim, para propor atividades de escri-
ta, devemos partir da concepção de
texto como forma tecida de palavra,
enfim, do léxico de uma língua natural
como o português, instrumento que le-
va o sujeito a escrever sobre um deter-
minado assunto, traz, em sua etimolo-
gia, proveniente do latim, a idéia de
textum, com o significado de tecido,
entrelaçamento. Isso garante ao texto
o seu caráter de coisa tecida, entrela-
çada de palavras, idéias, concepções,
princípios postos em unidades - como
um todo tecido - e suas partes interco-
nectadas, formando um todo em sua
textura ou teciitura, como uma rede de
relações, articulações, conexões, com
coerência, coesão.
Permitir que as pessoas com sur-
dez se apropriem dos atos de produ-
ção de textos em quaisquer sistemas
semióticos, especialmente dos siste-
mas lingüísticos - em sua modalidade
escrita - é torná-las competentes em
seus discursos, dar-lhes oportunida-
des de interações nas práticas escri-
tas da língua oficial, torná-las sujeito
de saber e poder, com criatividade e
arte. Essas habilidades somente po-
derão ser garantidas, se as pessoas
com surdez tiverem domínio da diver-
sidade textual circulante em nossas
práticas sociais. Para que isso ocorra,
a educação escolar deve permitir que
as pessoas com surdez se apropriem
desses tipos e, mais especificamente,
dos gêneros discursivos em proces-
sos de produção de leitura e de escri-
ta, tornando-as, essencialmente, pes-
soas com competência discursiva,
pois, em práticas discursivas, nas inte-
rações verbais (escritas) concretas,
poderão estabelecer dialogia e consti-
tuir-se sujeitos de seus lugares soci-
ais, expressar-se ao outro e, também,
constituir a si mesmo a partir desse
outro, conforme nos esclarece a con-
cepção Bakhtiniana. E a apropriação
dos gêneros e tipos de textos/discur-
sos torna-se um ingrediente essencial
por meio do qual haja prática do uso e
reflexão da gramática do PE por pes-
soas com surdez.
Gramática de Uso -
reflexão sobre a língua -
no ensino do português
escrito para pessoa com
surdez no atendimento
educacional
especializado
Ao se ensinar português escrito pa-
ra as pessoas com surdez, deve-se
conceber que o processo de letramen-
to requer o desenvolvimento e aperfei-
çoamento da língua em várias práticas
sociais de interação verbal e discursi-
va, principalmente da escrita. Isso de-
manda que as atividades propostas de
reflexão sobre a língua precisam voltar-
se para a observação e a análise da
língua em uso, quanto ao seu conheci-
mento, estrutura, sistema lingüístico,
funcionamento e variações em contex-
tos de prática e uso, seja nos proces-
sos de leitura do escrito e da produção
do escrito. Porém o domínio da gramá-
tica normativa não se sustenta por si
somente, pois há um processo prático
de produção de vários gêneros textu-
ais e gêneros discursivos, com a inten-
ção de permitir ao aluno ampliar sua
competência e seu desempenho lin-
güísticos no uso de sua gramática in-
ternalizada e reflexiva. Isso se reflete
nas atividades propostas como: ativi-
dades lingüísticas (a língua como es-
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 54
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 55
trutura, organização e funcionamento)
e epilingüísticas (a língua e seu uso em
situações adequadas, em vários con-
textos de uso da modalidade pa-
drão/oficial ou não-padrão).
Acreditamos que os processos te-
órico-metodológicos para o ensino e
aprendizagem da pessoa com surdez
do PE poderão consolidar-se da se-
guinte forma:
a) uma proposta didático-pedagógica
que norteie um primeiro nível de ensi-
no voltado para os processos iniciais
de alfabetizar e letrar;
b) uma proposta didático-pedagógica
para um segundo nível de ensino nor-
teado aos processos intermediários
de maior complexidade, em que os
textos veiculados apresentarão estru-
turas, organização e funcionamento
de razoáveis complexidades e promo-
vam atos de ler, interpretar e escrever,
segundo categorias mais elaboradas
da língua padrão;
c) uma proposta didático-pedagógica
de um terceiro nível, mais avançado,
da apropriação da língua oficial escrita,
em que o uso da língua esteja plena-
mente ao alcance da pessoa com sur-
dez, que poderá produzir os proces-
sos de leitura e de escrita de gêneros
textuais e discursivos em patamares
de maior complexidade e elaboração,
tornando-se sujeito de complexo nível
de letramento.
Diante do exposto teórico-episte-
mológico para o ato de ler, escrever e
a aprendizagem do uso gramatical pe-
la pessoa com surdez, exemplificare-
mos, a seguir, como operacionalizar a
prática pedagógica para esse atendi-
mento educacional especializado para
o ensino do PE.
Como se constitui o
momento do
atendimento educacional
especializado para o
ensino de português
escrito para a pessoa
com surdez?
Esse atendimento constitui-se co-
mo um dos momentos didático peda-
gógico realizados em favor do desen-
volvimento e da aprendizagem da Lín-
gua Portuguesa escrita pelos alunos
com surdez. Esse atendimento acon-
tece na sala de recursos multifuncio-
nais e em horário diferente ao da sala
de aula comum. Todo o ensino é de-
senvolvido por uma professora, prefe-
rencialmente, formada em Letras e
que conheça os pressupostos lingüís-
ticos e teóricos que norteiam o traba-
lho do ensino de português escrito pa-
ra pessoas com surdez.
O objetivo desse atendimento é de-
senvolver a competência lingüística,
bem como textual, nas pessoas com
surdez, para que elas sejam capazes
de gerar seqüências lingüísticas. Nessa
perspectiva, o atendimento educacio-
nal especializado para o ensino do PE é
organizado didaticamente asseguran-
do ao ambiente da aula especializada:
amplo acervo textual em Língua Por-
tuguesa, capaz de oferecer ao aluno a
pluralidade dos discursos, pelos quais
possam ter oportunidade de interação
com os mais variados tipos de situa-
ção de enunciação;
presença de pistas escritas pré-esta-
belecidas pelo professor em concor-
dância com os alunos, que possam
ser utilizadas como canal de comuni-
cação entre o aluno, o professor e a
estrutura e funcionamento da língua.
a não utilização de língua de sinais
para ensinar o português, pois o uso
da Libras em detrimento do ensino da
Língua Portuguesa seria, antes de tu-
do, um equívoco teórico, visto que am-
bas são línguas distintas, com gramá-
tica e regras próprias que as justificam.
As aulas do atendimento educa-
cional especializado para o ensino do
PE são preparadas segundo o desen-
volvimento e aprendizagem do aluno
com surdez. O professor do atendi-
mento educacional especializado di-
agnostica e analisa o estágio de todo
o desenvolvimento do aluno, em rela-
ção à Língua Portuguesa -leitura e es-
crita- procurando compreender em
qual estágio esse aluno se encontra,
no domínio da língua.
Nesse atendimento, o canal de co-
municação específico é a Língua Por-
tuguesa, ou seja, leitura labial, leitura e
escrita. Em resumo:
O atendimento educacional especia-
lizado para o ensino de PE, o profissi-
onal precisa conhecer muito bem a or-
ganização e a estrutura dessa língua,
bem como, as metodologias de ensi-
no apropriadas;
O uso de recursos escritos são vitais
para a compreensão do PE, seguidos
de uma exploração contextual do con-
teúdo em estudo;
O atendimento educacional especia-
lizado para o ensino de PE, diariamen-
te, assegura o respeito aos limites des-
sas pessoas na aquisição dessa língua;
Para a aquisição de PE, é preciso
que o professor estimule, permanente-
mente, o aluno, provocando-o a en-
frentar esse desafio, considerado por
eles como muito difícil;
O atendimento em Língua Portugue-
sa escrita é de extrema importância
para o desenvolvimento e a aprendiza-
gem do aluno com surdez nessa lín-
gua e na sala comum;
A avaliação do desenvolvimento do
PE deve ocorrer continuamente, para
assegurar que se conheçam os avan-
ços do aluno e redefinir o planejamen-
to, em caso contrário.
O Atendimento
Educacional
Especializado para o
ensino de LIBRAS
Numa visão e reconstrução histó-
rica, as pessoas com surdez vêm vi-
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vendo momentos diferenciados na
sociedade moderna contemporâ-
nea. Com base nos paradigmas in-
clusivos, nos quais olhar para as di-
ferenças humanas de todos os seres
humanos dá-se a priori, as pessoas
com surdez lutaram pelo reconheci-
mento da sua língua natural: a Lín-
gua de Sinais Brasileira (LIBRAS). E
nessa perspectiva, muitas ações,
sob a égide legal e de legitimidade,
vêm se tornando efetivas, evidenci-
ando-se uma fase produtiva de pes-
quisas e estudos, na área lingüística
e pedagógica, com objetivo de cons-
truir um lócus teórico de compreen-
são dessa língua e de seus usuários.
As línguas de sinais são línguas
naturais e complexas, que se utili-
zam de um canal visual-espacial, de
articulação das mãos, das expres-
sões e do corpo, para estabelecer
sua estrutura, nas dimensões fono-
lógicas, morfológicas, sintáticas e
semânticas. As línguas de sinais
são sistemas lingüísticos indepen-
dentes dos sistemas orais, e que se
apresentam numa modalidade dife-
rente das línguas orais-auditivas.
Como qualquer língua, também
existem diferenças regionais, por-
tanto, deve-se ter atenção as diver-
sas variações.
Nos últimos anos, várias iniciati-
vas foram criadas, no sentido de so-
cializar essa língua, junto aos seus
usuários e as pessoas ouvintes.
Nesse contexto, como socializar es-
sa língua entre os seus usuários?
Como desenvolver ambientes e prá-
ticas pedagógicas eficientes que
possam, efetivamente, favorecer o
seu ensino para as pessoas com
surdez, respeitando a singularidade
e a naturalidade da língua, levando
em consideração que essa língua
não é a língua usual da sociedade?
Diante desses questionamentos
e do direito de acesso ao aprendiza-
do da língua de sinais desde a tenra
idade, no ambiente escolar pela pes-
soa com surdez, o maior desafio das
políticas públicas inclusivas nas es-
colas brasileiras é a construção des-
ses ambientes propícios ao ensino
dessa língua, com as metodologias
de ensino adequadas, respeitando
os ciclos do desenvolvimento e a na-
turalidade na sua aquisição. Para
oferecer o aprendizado dessa língua
de forma significativa, resguardando
que seus usuários tenham a apro-
priação de maneira natural, é impor-
tante a presença de profissional com
surdez, se possível, nesse ambiente.
Esse trabalho tem sido executado
por instrutores de Libras (preferenci-
almente, por profissionais com sur-
dez) que têm a proficiência aplicada
pelo MEC por meio da avaliação do
Pró-Libras e, num futuro próximo, se-
rá ministrado por professores de Li-
bras formados por cursos de Le-
tras/Libras.
Como se constitui este momento
do atendimento educacional espe-
cializado de Libras (doravante aten-
dimento educacional especializado
de Libras)?
Este atendimento constitui um
momento didático-pedagógico para
os alunos com surdez incluídos na
escola comum. O atendimento ini-
cia-se com a avaliação do aluno e
ocorre de acordo com a necessida-
de, em horário contrário aos das au-
las, na sala de aula comum. Esse tra-
balhado é realizado pelo professor
e/ou instrutor de libras (preferencial-
mente, por profissionais com sur-
dez), de acordo com o estágio de
desenvolvimento da língua de sinais
em que o aluno se encontra. O aten-
dimento deve ser planejado com ba-
se na avaliação do conhecimento
que o aluno tem a respeito da língua
de sinais.
A organização didática desse es-
paço de ensino implica o uso de mui-
tas imagens visuais e de todo tipo de
referências. Os materiais e os recur-
sos para esse fim precisam estar pre-
sentes na sala e respeitar as necessi-
dades didático-pedagógicas para o
ensino dessa língua. No decorrer
atendimento educacional especializa-
do de Libras, os alunos interagem e vi-
venciam momentos singulares de diá-
logos e trocas. Os professores e os
alunos recorrem a vários recursos pe-
dagógicos, tais como DVDs, livros, di-
cionários, reálias, materiais concretos,
dentre outros.
Os professores atendimento edu-
cacional especializado de Libras fa-
zem, permanentemente, avaliações
para a verificação da aprendizagem
dos alunos em relação à Libras. Para
tanto, utilizam ficha de registro do de-
senvolvimento dos alunos, com os
seguintes aspectos: uso de mímica;
conhecimento dos sinais de Libras,
fluência e simetria. Em fluência e si-
metria, analisam: configuração de
mão; ponto de articulação; movimen-
to; orientação e expressão facial. Es-
tudam também, o grau de complexi-
dade do domínio da língua, em espe-
cífico, termos técnico científicos das
várias ciências. É importante ressaltar
que é observado e respeitado o ciclo
de desenvolvimento em que a pessoa
com surdez está, sua idade, sua série
ou ciclo escolar.
Em resumo, o atendimento para
a aprendizagem de Libras enrique-
ce a aprendizagem dos alunos com
surdez; esse atendimento exige
uma organização metodológica e
didática e especializada; o profes-
sor que ministra aulas de Libras de-
ve ser qualificado para realizar o
atendimento das exigências básicas
do ensino, não praticar o bimodalis-
mo, ou seja, misturar a Libras e a
Língua Portuguesa, que são duas
línguas de estruturas lingüísticas di-
ferentes; o professor com surdez,
para o ensino de Libras, oferece aos
alunos com surdez melhores possi-
bilidades do que o professor ouvin-
te, porque o contato com crianças e
jovens surdos com adultos surdos
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favorece a naturalidade no proces-
so de aquisição da língua; a avalia-
ção processual do aprendizado por
meio de Libras é importante para
que se verifiquem, pontualmente, o
desenvolvimento e a aprendizagem
dessa língua pelo aluno com sur-
dez; a qualidade dos recursos visu-
ais é primordial para facilitar a com-
preensão do conteúdo de libras; a
organização do ambiente de apren-
dizagem e as explicações do pro-
fessor de Libras propiciam uma
compreensão do contexto da lín-
gua; o atendimento educacional es-
pecializado de Libras oferece ao
aluno com surdez segurança e mo-
tivação, sendo, portanto, de extre-
ma importância para a inclusão.
Conclusão
Neste texto, tivemos o propósito de
demonstrar a possibilidade de as pes-
soas com surdez estudarem na escola
comum numa perspectiva inclusiva,
com o atendimento educacional espe-
cializado oferecido como complemen-
tar a classe comum, visando ao pleno
desenvolvimento e aprendizagem por
meio de Libras e da Língua Portugue-
sa escrita.
Concluímos, destacando o que
segue:
Refutamos as propostas que estão
na contramão da perspectiva inclusiva,
por provocar dicotomizações que se-
param as pessoas com surdez das
pessoas ouvintes;
Rompemos com o embate gestua-
listas e oralistas, pois ele prejudica o
desenvolvimento dessas pessoas
quando canaliza a atenção para o pro-
blema da língua em si.
O problema e o fracasso na educa-
ção das pessoas com surdez não po-
de continuar sendo centrado nessa ou
naquela língua, mas devemos com-
preender a qualidade e a eficiência
das práticas pedagógicas aplicadas.
A inclusão do aluno com surdez em
uma escola comum deve contar de
forma sistemática com o atendimento
educacional especializado para a pes-
soa com surdez nos três momentos di-
dático-pedagógicos, se necessário,
conforme diagnóstico do aluno;
O atendimento educacional especia-
lizado para a pessoa com surdez ado-
ta a abordagem bilíngüe, de acordo
com preceitos legais, no qual a Libras
e a Língua Portuguesa, são línguas de
instrução e comunicação;
Embora a Língua de Sinais seja con-
dição necessária para a escolarização
das pessoas com surdez, não é sufici-
ente, por si só, para resolver todos os
problemas escolares desses alunos,
assim como não é suficiente para que
eles dêem prosseguimento aos seus
estudos em todos os níveis de ensino;
Negar às pessoas com surdez a
possibilidade de estudar em uma es-
cola comum, na perspectiva inclusiva,
em nome de sua cultura, comunidade
e língua, é um grande equívoco teórico
educacional;
O estudo sistemático de Libras e Lín-
gua Portuguesa escrita não só é com-
plemento necessário ao bom desem-
penho escolar do aluno com surdez,
como também é garantia da sua inclu-
são em escolas comuns;
O atendimento educacional especia-
lizado em libras e o atendimento edu-
cacional especializado para o ensino
de Língua Portuguesa escrita são mo-
mentos educacionais específicos, que
não se configuram como um trabalho
segregado e/ou substitutivo, mas, sim,
em atendimentos necessários à inclu-
são escolar do aluno com surdez;
O professor de atendimento educa-
cional especializado para o ensino de
Língua Portuguesa escrita deve, prefe-
rencialmente, ser formado em Letras;
O professor de Língua Portuguesa
escrita deve ser capacitado quanto às
especificidades do ensino dessa lín-
gua para pessoas com surdez;
O professor do atendimento educa-
cional especializado de Libras deve es-
tar qualificado para o magistério e, pre-
ferencialmente, ser um profissional
com surdez.
Enfim, nesse processo educativo
de contatos humanos, a educação no
atendimento educacional especializa-
do para a pessoa com surdez significa
preparar para a individualidade e a co-
letividade, provocando um processo
comunicacional-dialogal-global, bus-
cando a superação da imanência, da
imediaticidade e buscando a transcen-
dência do social, do cultural e do histó-
rico-ideológico, com ruptura de frontei-
ras, e deflagrando uma sociedade mais
solidária, fraterna e humana, em que os
saberes não aprisionem o corpo e a
mente ao poder, mas possam liberá-lo.
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SALAS DE RECURSOS
MULTIFUNCIONAIS
O presente texto traz esclarecimentos e definições sobre a
sala de recursos multifuncionais e o atendimento educacio-
nal especializado - AEE, visando orientações as redes pú-
blicas de ensino. São abordadas questões voltadas às sa-
las de recursos multifuncionais como o espaço onde se re-
aliza o AEE e é neste contexto que o texto aborda e clarifi-
ca seus objetivos. Tendo por base as ações da Secretaria
de Educação Especial do Ministério da Educação, o texto
destaca a Política de Educação Especial na Perspectiva In-
clusiva em seu maior fundamento e princípio: o direito de
toda criança à educação escolar.
Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializado;
Sala de Recursos Multifuncionais; Inclusão escolar.
58 ENFOQUE
SALAS DE RECURSOS
MULTIFUNCIONAIS
Espaço e organização do Atendimento Educacional Especializado
Rosângela Machado
machado865@gmail.com / rosangela_machado@hotmail.com
Resumo
1
Pedagoga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (1990). Especialista em Educação Especial pela Universidade de Gunma/Japão (2001).
Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2006). Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Coordenadora de
Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis no período de 2001 a 2007. Membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em
Ensino e Diversidade - Leped/Unicamp. Coordenadora Geral da Política Pedagógica da Educação Especial da Secretaria de Educação Especial do Ministério da
Educação no período 2008/2009. Atualmente é professora especializada da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis.
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Introdução
A Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva traz um marco quando defi-
ne a educação especial como com-
plementar ou suplementar a forma-
ção do aluno com deficiência, tran-
stornos globais do desenvolvimento
e altas habilidades/superdotação, en-
fatizando que a tarefa de escolariza-
ção é do ensino comum. Ela sinaliza
um novo conceito de educação es-
pecial e, conseqüentemente, uma
nova prática que passa a ser constru-
ída para atender as especificidades
desses alunos, sem os impedirem de
estar nos ambientes das salas de au-
la do ensino comum. Desta forma, a
educação especial é uma modalida-
de que perpassa todas as etapas, as
demais modalidades e os níveis de
ensino sem substituí-los, mas ofer-
tando serviços, recursos e estraté-
gias de acessibilidade ao ambiente e
conhecimento escolares. A educa-
ção especial, desta forma, não cons-
titui um sistema paralelo de ensino,
com níveis e etapas próprias.
Não foi simples - e de fato não é -
adotar uma concepção transforma-
dora de educação especial, devido
aos longos anos de uma cultura es-
colar excludente e segregadora.
A Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educação
Inclusiva foi tecida fio a fio, envolven-
do profissionais e grupos empenha-
dos na defesa do direito de toda cri-
ança a educação escolar. Ela aponta
a possibilidade de reinventar o fazer
pedagógico, subvertendo a ordem
racional hegemônica. Foi possível
outro olhar, outras lógicas e outros
entendimentos e, conseqüentemen-
te, outra política.
Pensar e fazer a educação especi-
al na perspectiva da educação inclu-
siva indica a necessidade de transfor-
mar e inovar práticas de formação de
professores da educação especial e
de professores do ensino regular, de
compreender nosso ordenamento ju-
rídico e todos os documentos interna-
cionais em que o Brasil é signatário,
de prover e disponibilizar recursos de
acessibilidade, entre tantos outros fi-
os puxados que "tecem uma política
diferente para as diferenças".
Neste contexto, a Política traz
uma inovação: o Atendimento Edu-
cacional Especializado - AEE; um
serviço da educação especial que
"[...] identifica, elabora, e organiza re-
cursos pedagógicos e de acessibili-
dade, que eliminem as barreiras para
a plena participação dos alunos, con-
siderando suas necessidades espe-
cíficas" (SEESP/MEC, 2008).
Surge o desafio de disseminar es-
tá inovação e de atender as redes de
ensino por meio da formação conti-
nuada e pela provisão de recursos
que consolidem o AEE.
É neste sentido que o Ministério
da Educação, por meio da Secretaria
de Educação Especial, está disponi-
bilizando as Salas de Recursos Multi-
funcionais para os estados, municí-
pios e Distrito Federal com a finalida-
de de ter um espaço para a realiza-
ção do AEE.
Com base em muitas perguntas
encaminhadas ao Ministério da Edu-
cação e com o que é fundamental
conhecer sobre o AEE e o Programa
de Implantação das Salas de Recur-
sos Multifuncionais, o presente texto
tem por objetivo subsidiar os gesto-
res e educadores das redes de ensi-
no no que se refere ao atendimento
educacional especializado, oferecen-
do esclarecimentos sobre as Salas
de Recursos Multifuncionais que é o
espaço para este atendimento.
A educação especial na perspec-
tiva da educação inclusiva avança e
se aprimora, possibilitando a constru-
ção de uma prática consistente e
considerando os alunos com defici-
ência, transtornos globais do desen-
volvimento e altas habilidades/super-
dotação como sujeitos da educação.
A perspectiva inclusiva sempre
nos indicará as razões para defender
o direito de todas as crianças à edu-
cação escolar, sem deixarmos de
atender as necessidades específicas
dos alunos.
O Atendimento
Educacional
Especializado - AEE
O AEE é um serviço da educação
especial voltado para a vida escolar
dos alunos com deficiência, transtor-
The present text brings explanations and definitions about the
multifunctional rooms and the specialized educational atten-
dance, call "Atendimento Educacional Especializado" - AEE,
for orientation of public schools teachers. There are boarded
questions turned to the rooms of multifunctional resources
like the space where the AEE happens and it is in this context
in which the text boards and clarifies his objectives. Taking as
a base the actions of Secretariat of Special Education, Ministry
of Education, the text detaches the Politics of Special Educa-
tion in the Included Perspective in his biggest basis and be-
ginning: the right of every child to the school education.
Key words: Specialized Educational Attendance; Multifunctio-
nal rooms; Educational inclusion.
Abstract
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nos globais do desenvolvimento e al-
tas habilidades/superdotação, consi-
derando as suas necessidades espe-
cíficas de forma a promover acesso,
participação e interação nas ativida-
des escolares. Ele constitui oferta
obrigatória dos sistemas de ensino,
todavia, participam do AEE os alunos
que dele necessitam.
Sendo assim, o Ministério da Edu-
cação, por meio da Secretaria de
Educação Especial, criou o Programa
de Implantação de Salas de Recursos
Multifuncionais, instituído por meio da
Portaria n. 13 de 24 de abril de 2007,
que tem como finalidade a disponibi-
lização de equipamentos, mobiliário e
materiais pedagógicos, visando apoi-
ar as redes públicas de ensino na or-
ganização e na oferta do atendimento
educacional especializado.
No contexto da Política de Educa-
ção Especial na perspectiva da Educa-
ção Inclusiva demarcamos o público e
a atuação do AEE, definindo as atribu-
ições do professor e sua formação.
As Salas de Recursos
Multifuncionais
As salas de recursos multifuncio-
nais são espaços localizados nas es-
colas públicas de educação básica
onde se realiza o Atendimento Edu-
cacional Especializado - AEE. Elas
são constituídas de mobiliários, ma-
teriais didáticos, recursos pedagógi-
cos e de acessibilidade, equipamen-
tos específicos e de informática. Es-
tas salas permitem que o AEE, feito
no turno oposto ao da sala de aula
comum, seja realizado na própria es-
cola em que o aluno freqüenta ou em
outra escola próxima a sua. Se um
aluno faz uso, por exemplo, dos re-
cursos da comunicação aumentativa
e alternativa, o ideal é que eles este-
jam disponíveis na escola em que o
aluno freqüenta como um direito pró-
ximo ao seu cotidiano escolar.
Os alunos atendidos na sala de
recursos multifuncionais são os con-
siderados públicos-alvo da educação
especial. Neste sentido, os alunos
que recebem o AEE são: alunos com
deficiência: aqueles que têm impedi-
mentos de longo prazo de natureza
física, intelectual, mental ou senso-
rial, os quais, em interação com di-
versas barreiras, podem obstruir sua
participação plena e efetiva na socie-
dade em igualdade de condições
com as demais pessoas; alunos com
transtornos globais do desenvolvi-
mento: aqueles que apresentam um
quadro de alterações no desenvolvi-
mento neuropsicomotor, comprome-
timento nas relações sociais, na co-
municação ou estereotipias motoras.
Incluem-se nessa definição alunos
com autismo clássico, síndrome de
Asperger, síndrome de Rett, transtor-
no desintegrativo da infância (psico-
se infantil) e transtornos invasivos
sem outra especificação.
Os alunos com altas habilida-
des/superdotação têm suas ativida-
des de enriquecimento curricular de-
senvolvidas no âmbito de escolas pú-
blicas de ensino regular em interface
com os núcleos de atividades para
altas habilidades/superdotação e
com as instituições de ensino superi-
or, institutos voltados ao desenvolvi-
mento e promoção da pesquisa, das
artes, dos esportes, entre outros.
De 2005 a 2007, foram instaladas
1.251 salas de recursos multifuncio-
nais. Em 2008, como parte integrante
do Plano de Desenvolvimento da
Educação - PDE, essa ação teve co-
mo meta a implantação de 4.300 sa-
las (4.200 do Tipo I e 100 do Tipo II).
As salas de recursos multifuncionais -
Tipo I são constituídas de microcom-
putador com gravador de CD e leitor
de DVD, monitor LCD de 32 polega-
das, fones de ouvido e microfones,
scanner, impressora laser, teclado
com colméia, mouse com entrada
para acionador, acionador de pres-
são, laptop, bandinha rítmica, domi-
nó, material dourado, esquema cor-
poral, memória de numerais, tapete
quebra-cabeça, software para comu-
nicação alternativa, sacolão criativo,
quebra cabeças sobrepostos (se-
qüência lógica), dominó de animais
em Língua de Sinais, memória de an-
tônimos em Língua de Sinais, conjun-
to de lupas manuais (aumento 3x. 4x
e 6x), dominó com textura, plano in-
clinado - estante para leitura, mesa
redonda, cadeiras para computador,
cadeiras para mesa redonda, armário
de aço, mesa para computador, me-
sa para impressora, quadro melaníni-
co. As salas de recursos multifuncio-
nais - Tipo II são acrescidas de outros
recursos e materiais didáticos e pe-
dagógicos, tais como: impressora
Braille, máquina Braille, lupa eletrôni-
ca, reglete de mesa, punção, soro-
ban, guia de assinatura, globo terres-
tre adaptado, kit de desenho geomé-
trico adaptado, calculadora sonora,
software para produção de desenhos
gráficos e táteis.
Vale ressaltar que as salas de re-
cursos multifuncionais - Tipo II, mes-
mo sendo acrescidas de materiais di-
dático-pedagógicos para alunos com
deficiência visual, não se destinam ao
atendimento exclusivo destes alunos.
As escolas das redes públicas de
ensino devem atender os seguintes
critérios para o recebimento das sa-
las: ter matrículas de alunos com de-
ficiência, transtornos globais do de-
senvolvimento e altas habilidades/su-
perdotação registradas no Censo Es-
colar/MEC/INEP; disponibilizar pro-
fessores com formação inicial ou
continuada para o atendimento edu-
cacional especializado e ter espaço
para instalação dos equipamentos e
recursos. Importante salientar que as
secretarias municipais e estaduais de
educação devem estar inscritas no
Plano de Ações Articuladas - PAR.
Sendo assim, o AEE torna-se par-
te integrante do projeto pedagógico
da escola comum, não mais algo a
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parte, e a sala de recursos multifun-
cionais um espaço como tantos ou-
tros do ambiente escolar.
Vale lembrar que o AEE pode ser
feito em centros de atendimento edu-
cacional especializado da rede públi-
ca ou de instituição privada que de-
vem se adequar a Política Nacional
de Educação Especial na perspectiva
da Educação Inclusiva. Os conselhos
de educação têm atuação primordial
quando estabelecem exigências e
normas quanto ao credenciamento,
autorização de funcionamento e or-
ganização destes centros que devem
estar em consonância com os princí-
pios da educação inclusiva e com a
legislação brasileira.
O Professor da Sala de
Recursos Multifuncionais:
formação inicial e
continuada
O AEE é feito por professores que
devem ter formação inicial que o ha-
bilite para o exercício da docência e
formação específica para a educação
especial, inicial ou continuada, para
atuar com cada tipo de deficiência.
Existem muitos professores que
foram formados em cursos de gradu-
ação em educação com habilitação
em educação especial na perspecti-
va de atuar com pessoas com defici-
ências ou transtornos globais do de-
senvolvimento de forma substitutiva
ao ensino comum. A mesma pers-
pectiva substitutiva, ainda, repete-se
em cursos de formação continuada e
pós-graduação.
A educação especial na perspec-
tiva da educação inclusiva implica
uma transformação na formação de
professores que necessita se ade-
quar a novos conhecimentos que são
próprios do atendimento educacional
especializado. Não são poucos os
conhecimentos que os professores
devem ter para atuar no AEE. Na for-
mação inicial de professores, o que
devemos levar em conta é que todos
devem ter os conhecimentos básicos
da educação.
A formação continuada de pro-
fessores para o AEE, por meio de
cursos de extensão e/ou aperfeiçoa-
mento e especialização, constitui-se
como uma forma de aprofundar co-
nhecimentos e de atualizar as práti-
cas. Esta formação deve estabelecer
uma interlocução dos conhecimen-
tos especializados com as situações
reais do cotidiano escolar, nas quais
o professor possa discutir o atendi-
mento educacional especializado
com base nos recursos de acessibi-
lidade e possa, em seguida, atender
ao aluno. Aliás, a formação continua-
da só tem sentido quando está atre-
lada a prática escolar que nos possi-
bilita criar estratégias de atuação
com base no que experienciamos e
no que conhecemos.
São inúmeros os conhecimentos
fundamentais para o atendimento ao
aluno com deficiência, tais como: a
Tecnologia Assistiva e suas modali-
dades: Comunicação aumentativa e
alternativa, informática acessível, re-
cursos pedagógicos acessíveis, Sis-
tema Braille, técnica do sorobã, pro-
dução de materiais ampliados e em
alto relevo, Língua de Sinais Brasilei-
ra, Língua Portuguesa na modalida-
de escrita para alunos com surdez,
entre outros conhecimentos tão ne-
cessários ao atendimento educacio-
nal especializado.
A formação continuada deve levar
em conta a identificação de necessi-
dades, a elaboração de planos de
atuação, a organização de atendi-
mentos, a seleção de atividades e a
produção e/ou aquisição de recursos
de acessibilidade. É uma formação
que visa ao conhecimento especiali-
zado sob o enfoque educacional.
Da mesma forma que há a distri-
buição das Salas de Recurso Multi-
funcionais pelo Ministério da Educa-
ção, há o Programa de Formação
Continuada de Professores na Edu-
cação Especial que é realizado tanto
na modalidade a distância quanto na
presencial. Este Programa tem por fi-
nalidade trazer aos professores do
AEE fundamentos e subsídios para
atuação nestas salas, bem como for-
mar os professores das salas de aula
comum quanto aos fundamentos e
princípios da escola inclusiva.
As atribuições do
professor da Sala de
Recursos Multifuncionais
O professor da Sala de Recursos
Multifuncional não tem como única
atribuição o atendimento em si ao alu-
no. Suas atribuições estão atreladas a
outras ações que promovem, igual-
mente, os recursos de acessibilidade.
Sua primeira atribuição é identifi-
car as necessidades específicas dos
alunos de forma a construir um plano
de atuação.
Quando identificamos necessida-
des, não podemos esquecer as habili-
dades que o aluno tem, traçando os
resultados desejados. Por exemplo,
temos na sala de aula comum um alu-
no que não escreve por ter dificulda-
des motoras e não fala. Identificamos
a necessidade de comunicação. O re-
sultado desejado é que ele tenha os
primeiros recursos de comunicação.
No entanto, se observamos que ele
movimenta a cabeça, consegue apon-
tar o dedo, pisca os olhos, são estas
habilidades que nos ajudarão na sele-
ção dos recursos e das atividades.
Com base nestes dados, o pro-
fessor elabora o plano de AEE que
definirá o tipo de atendimento para o
aluno, os materiais que deverão ser
produzidos, a freqüência do aluno e
a duração do atendimento, entre ou-
tros elementos necessários ao plano.
A elaboração e a execução do plano
de AEE são feitas a partir do conheci-
mento sobre o aluno, reunindo da-
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 201062
dos que são coletados em articula-
ção com os professores da sala de
aula comum e demais membros da
comunidade escolar.
Na execução do plano, temos
condições de saber se o recurso de
acessibilidade proposto promove
participação do aluno nas atividades
escolares. Por isso, o plano deve ser,
constantemente, revisado e atualiza-
do, buscando sempre o melhor servi-
ço e recurso para o aluno e conside-
rando que cada aluno é único.
O professor do AEE pode ter em
seu plano a produção de materiais
tais como: a transcrição de textos, a
adequação de materiais didático-pe-
dagógicos, a ampliação de textos, a
gravação de textos, entre outros.
Existem muitos materiais no merca-
do, e o professor deve, também, indi-
car a aquisição de: softwares, recur-
sos e equipamentos tecnológicos,
mobiliário, recursos ópticos, dicioná-
rios e outros conforme cada aluno.
No atendimento ao aluno, o pro-
fessor o ensina a usar a tecnologia
ou o recurso de acessibilidade. As-
sim, o atendimento ao aluno é orga-
nizado de forma que ele aprenda a
usar os recursos ópticos como e al-
guns casos de alunos com baixa vi-
são; ou aprenda a usar os cartões de
comunicação ou vocalizador como
nos casos de alunos que não tem a
escrita funcional e a fala, entre outros,
de forma a ampliar habilidades fun-
cionais, promovendo autonomia, ati-
vidade e participação.
Outra atribuição do professor é
acompanhar o uso dos recursos na
sala de aula comum, bem como ori-
entar o professor do aluno sobre os
recursos que o aluno usa. O profes-
sor do AEE precisa observar à fun-
cionalidade e a aplicabilidade do re-
curso, analisando os impactos, os
efeitos, as distorções, a pertinência,
os limites e as possibilidades do re-
curso na sala de aula comum e nos
demais ambientes escolares. O pro-
fessor, também, orienta as famílias
quanto o recurso que foi planejado
para o aluno.
O papel do professor do AEE
não pode ser confundido com o pa-
pel dos profissionais do atendimen-
to clínico. Trata-se de um atendi-
mento educacional, como o próprio
nome indica, desenvolvido por pro-
fessores que atendem as necessi-
dades específicas do público alvo
da educação especial.
O saber educacional especiali-
zado e o saber clínico devem ser va-
lorizados de igual forma e um não
deve se justapor ao outro. O profes-
sor do AEE estabelece uma interlo-
cução com os profissionais do aten-
dimento clínico da mesma forma
que estabelece parcerias com ou-
tras áreas, tais como: arquitetura,
engenharia, assistência social, tera-
pia ocupacional, fisioterapia, fono-
audiologia, entre outras, para que
desenvolvam serviços e recursos
adequados a estes alunos.
As atribuições do AEE
em cada deficiência
No caso de alunos com surdez,
o AEE deverá providenciar o ensino
da Língua Brasileira de Sinais - LI-
BRAS; o ensino da Língua Portu-
guesa na modalidade escrita, o en-
sino em LIBRAS, a produção e ade-
quação de materiais didáticos e pe-
dagógicos com base em imagens,
entre outros. Deve ser considerado
e encaminhado para os profissio-
nais responsáveis os alunos que
optam pela oralização como forma
de comunicação.
Aos alunos cegos o ensino do
Sistema Braille; as noções sobre ori-
entação e mobilidade; as orienta-
ções sobre atividades da vida autô-
noma; o uso de ferramentas de co-
municação: sintetizadores de voz
para ler e escrever via computador;
as adaptações em alto relevo; o en-
sino da técnica de sorobã; a tran-
scrição e adaptação de material em
tinta para o Braille; a produção de
áudio-livro; a produção de textos es-
critos em formato digital.
Aos alunos com baixa visão: o en-
sino do uso de recursos ópticos e
não ópticos; as adaptações em tinta;
o encaminhamento para avaliação
funcional; a estimulação visual; a am-
pliação de fontes, entre outros; a pro-
dução de materiais com contraste vi-
sual; a produção de materiais didáti-
cos e pedagógicos adequados ao ti-
po de visão.
Aos alunos com deficiência física:
o ensino da comunicação alternativa;
os recursos de acesso ao computa-
dor: ponteira de cabeça, acionado-
res, entre outros; a adequação e con-
fecção de material pedagógico: en-
grossadores de lápis, plano inclina-
do, tesouras adaptadas, entre outros;
o mobiliário adequado: mesas, ca-
deiras, quadro, entre outros; a aquisi-
ção de materiais: quadro magnético
com letras imantadas, entre outros;
os recursos de auxílios da vida autô-
noma; os recursos de auxílio de mo-
bilidade: cadeira de rodas, andado-
res, entre outros.
Aos alunos com deficiência men-
tal: o desenvolvimento de processos
mentais/exercício da atividade cogni-
tiva; a aprendizagem que possibilita
passar de regulações automáticas
para regulações ativas; a possibilida-
de de sair de uma posição passiva e
automatizada diante da aprendiza-
gem para o acesso e apropriação ati-
va do próprio saber.
Aos alunos com transtornos glo-
bais do desenvolvimento: sempre
que o transtorno ocasionar uma defi-
ciência, o aluno é atendido na sua
necessidade de serviço e recursos
de acessibilidade.
Os serviços e recursos mencio-
nados para atender os alunos não
esgotam todas as possibilidades
de criação.
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 2010 63
O Decreto nº
6.571/2008
O Decreto 6.571/08, que dispõe
sobre o atendimento educacional es-
pecializado, consolida diretrizes e
ações já existentes, voltadas à edu-
cação especial na perspectiva da
educação inclusiva. Ele regulamenta
o parágrafo único do art. 60 da Lei n.
9394/1996, destinando recursos do
Fundo Nacional de Desenvolvimento
da Educação Básica - FUNDEB ao
atendimento educacional especiali-
zado de alunos com deficiência,
transtornos globais do desenvolvi-
mento e altas habilidades/superdota-
ção matriculados na rede pública de
ensino regular.
Desta forma, serão contabilizados
duplamente no âmbito do FUNDEB,
de acordo com o Decreto 6571/08,
os alunos matriculados em classes
comuns de ensino regular público
que tiverem matrícula concomitante
no AEE, a partir de 2010, com base
no censo escolar de 2009. Isso vai
possibilitar o investimento na forma-
ção continuada de professores, na
implantação de salas de recursos
multifuncionais e na reformulação do
espaço físico.
O financiamento da matrícula no
AEE é condicionado à matrícula no
ensino regular da rede pública, con-
forme registro no Censo escolar/
MEC/INEP do ano anterior, sendo
contemplada: matrícula na classe
comum e na sala de recursos multi-
funcionais da mesma escola públi-
ca; matrícula na classe comum e na
sala de recursos multifuncionais de
outra escola pública; matrícula na
classe comum e no centro de aten-
dimento educacional especializado
de instituição de educação especial
pública; matrícula na classe comum
e no centro de atendimento educa-
cional especializado de instituição
de educação especial privada sem
fins lucrativos.
Para receber o duplo financia-
mento, o aluno não poderá ter matrí-
cula somente no AEE. Sendo assim,
os sistemas de ensino devem matri-
cular os alunos com deficiência, os
com transtornos globais do desen-
volvimento e os com altas habilida-
des/superdotação na escola comum
do ensino regular e ofertar o atendi-
mento educacional especializado -
AEE, promovendo as condições para
o acesso a uma educação de quali-
dade, na classe comum.
Considerações finais
As ações para consolidação do
atendimento educacional especiali-
zado e a formação de professores do
AEE exigem a perseverança e o en-
volvimento no processo de todos
que buscam a escola aberta às dife-
renças. Os caminhos da mudança
nos fazem sair dos lugares fixos e
nos fazem avançar. Quando nos lan-
çamos aos caminhos da mudança, é
possível sair dos lugares instituídos.
A inclusão escolar implica uma
ressignificação das práticas de ensi-
no comum e de ensino especial. Só
há razão de os alunos com deficiên-
cia, com transtornos globais do de-
senvolvimento e com altas habilida-
des/superdotação receberem o aten-
dimento educacional especializado
se eles estiverem participando, ativa-
mente, dos espaços comuns a todos.
É preciso discernir as atribuições
do ensino regular das do especial e
lembrar que a inclusão não nega a
importância de nenhum deles. Os
professores do AEE não são respon-
sáveis pelo ensino escolar, tampouco
os professores do ensino regular o
são pelo ensino especializado. É a
educação especial - entendida como
atendimento educacional especiali-
zado - que garante as condições de o
aluno com deficiência freqüentar a
escola comum.
Temos a possibilidade de inventar
o cotidiano, como já nos dizia Michel
de Certeau (1994), colocando em
prática nossa capacidade criadora e
rompendo com lugares eternizados.
Trata-se de um processo de consen-
sos, de resistências, de acordos, de
desacordos; o tempo todo nos inven-
tamos e nos ensaiamos. Estamos,
dessa forma, pouco a pouco, desa-
prendendo o modelo tradicional de
educação especial.
A educação especial na perspec-
tiva da educação inclusiva é rica e di-
nâmica e seus movimentos são sin-
gulares e complexos. Neste sentido,
é preciso mergulhar nesta nova lógi-
ca e percorrer caminhos ainda não
percorridos e inusitados.
Precisamos criar práticas emanci-
padas nas tramas do cotidiano, enre-
dadas com o fazer pedagógico e a
formação dos professores, que vai
além da formação transmissiva e das
respostas prontas, constituindo múlti-
plas redes de trabalho que vão além
do esperado, além do sugerido. É
preciso doses de ousadia, inovação
e determinação!
Com efeito, a educação especial
na perspectiva da educação inclusiva
é uma ação que exige um forte com-
promisso de todos os que compõem
os sistemas de ensino.
Portanto, sem o desejo de con-
cluir este texto, deixamos as palavras
de Garcia (1994, p. 64): "a ousadia do
fazer é que abre o campo do possí-
vel. E é o fazer - com seus erros e
acertos - que nos possibilita a cons-
trução de algo consistente".
Referências
CERTEAU, M. de. A invenção do
cotidiano: artes de fazer. Petrópolis:
Vozes, 1994.
GARCIA, P. B. Paradigma em crise
e a educação. In: BRANDÃO, Z. A cri-
se dos paradigmas e a educação.
São Paulo: Cortez, 1994.
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 64, jan/jul. 201064
O livro Educação de surdos: Pon-
tos e Contrapontos, com participação
das professoras Regina de Souza, da
Faculdade de Educação da Universi-
dade de Campinas, e Núria Silvestre,
catedrática da Faculdade de Psicolo-
gia da Universidade Autônoma de
Barcelona (Espanha), é composto de
três diferentes etapas.
Na primeira, Parte I, cada uma das
autoras discorre livremente sobre a te-
mática em questão. Dos caminhos trilha-
dos pelas autoras na construção desses
textos, saltam aos olhos os pontos diver-
gentes que abrangem suas idéias.
Tomando como ponto de partida
as diferentes formas de se compreen-
der a linguagem no campo da psicolo-
gia, Regina de Souza inicia seu texto
revisitando autores como Skinner, Vi-
gotski, Piaget e Chomsky. Com base
em um diálogo estabelecido entre ela
e a vendedora de uma loja da cidade
de Montevidéu, demarca sua idéia
central: conhecer uma língua não é o
mesmo que saber estar nela. Na se-
qüência, tece algumas considerações
sobre o Decreto Nº 5.626, e envereda
pelo campo da psicanálise.
No caso de Núria Silvestre, o texto
abrange diferentes aspectos que envol-
vem a aquisição da linguagem oral pe-
los surdos, discorrendo desde seu de-
senvolvimento psíquico até sua aquisi-
ção da escrita, passando, também, pe-
los diversos aspectos presentes no pro-
cesso de socialização da pessoa surda.
Na Parte II do livro - Pontuando e
contrapondo -, coube a cada uma das
autorasformularquatroperguntassobre
o texto de sua parceira de diálogo. Núria
sugere que Regina discorra sobre o de-
senvolvimento da identidade e da auto-
estima das pessoas surdas e interroga-
lhe, ainda, quem e como deve tomar a
decisão de que linguagem deve ser pro-
porcionada à criança surda - oral, de si-
nais ou ambas -, sobre as bases psico-
linguísticas para a aquisição da língua
escrita, para a implantação da prótese
auditiva, para acompanhamento à famí-
lia e à pessoa surda etc. As questões
apresentadas por Regina de Souza par-
tem de uma crítica cuja essência adver-
te-nos dos riscos que uma determinada
concepção sobre a surdez apresentada
pelos ouvintes pode trazer aos surdos.
É nessa perspectiva que ela retoma a
discussão sobre a relação do sujeito
com a língua, focando-a nos problemas
afetivos, sociais e escolares que, para
ela, não foram superados pela oraliza-
ção. Além disso, solicita alguns esclare-
cimentos sobre a "teoria da mente" (refe-
rência importante para as idéias de Nú-
ria), bem como coloca em causa o pres-
suposto defendido por Núria, de que o
bilinguismo pode representar um retra-
so ou, ainda, colocar em risco a aquisi-
ção da língua oral.
Na terceira parte do livro - Entre pon-
tos e contrapontos -, na qualidade de co-
ordenadora da obra e mediadora do di-
álogo, apresento quatro questões co-
muns para as duas autoras. Tais ques-
tões, e suas respectivas respostas, com-
põem a Parte III, que finaliza a obra. Cir-
cunscritas no campo da educação, to-
das essas questões buscam, de um mo-
do ou de outro, trazer para o universo
educacional divergências e convergên-
cias que aparecem no diálogo até então
estabelecido e incorporar novos elemen-
tos, ressignificar algumas idéias e ampli-
ar a discussão sobre a educação de sur-
dos. Para tanto, foram objetos de refle-
xão: o movimento inclusivo, os prós e os
contras do bilingüismo para as pessoas
surdas, a formação de professores com
vistasàeducaçãodesurdoseàinclusão
escolar, o trabalho com os pais e com as
famílias dos surdos, etc. Minha intenção
foi, ao mesmo tempo, retomar alguns
pontosnevrálgicosdadiscussãoeaden-
trar os terrenos movediços das práticas
educativas que envolvem a surdez.
64 RESENHAS
Educação de Surdos
Pontos e Contrapontos
Autoras: Núria Silvestre, Valéria Amorim
Arantes e Regina de Souza
Valéria Amorim Arantes1
1
Doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona (Espanha), pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), professora
da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e coordenadora da coleção Pontos e Contrapontos. E-mail: varantes@usp.br
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 2010 65
I - RELATÓRIO
A Secretaria de Educação Especi-
al do MEC encaminha a este Conse-
lho Nacional de Educação o Ofício
SEESP/GAB nº 3.019, de 26 de no-
vembro de 2008, solicitando a regula-
mentação do Decreto nº 6.571, de 17
de setembro de 2008, tendo em vista
que a partir de janeiro de 2010 have-
rá a distribuição de recursos do FUN-
DEB com base nos dados obtidos
pelo INEP, no Censo Escolar, em mar-
ço do ano de 2009. O Ofício vem
acompanhado de subsídios com vis-
tas à elaboração de diretrizes opera-
cionais regulamentando o atendi-
mento educacional especializado na
Educação Básica, modalidade Edu-
cação Especial.
Mérito
Em janeiro de 2008, a nova "Políti-
ca Nacional de Educação Especial na
perspectiva da educação inclusiva"
da SEESP/MEC é publicada, passan-
do a orientar os sistemas educacio-
nais para a organização dos serviços
e recursos da Educação Especial de
forma complementar ao ensino regu-
lar, como oferta obrigatória e de res-
ponsabilidade dos sistemas de ensi-
no. Essa Política resgata o sentido da
Educação Especial expresso na
Constituição Federal de 1988, que in-
terpreta esta modalidade não substi-
tutiva da escolarização comum e defi-
ne a oferta do atendimento educacio-
nal especializado - AEE em todas as
etapas, níveis e modalidades, prefe-
rencialmente no atendimento à rede
pública de ensino.
A concepção da Educação Espe-
cial nesta perspectiva da educação
inclusiva busca superar a visão do ca-
ráter substitutivo da Educação Espe-
cial ao ensino comum, bem como a
organização de espaços educacio-
nais separados para alunos com defi-
ciência. Essa compreensão orienta
que a oferta do AEE será planejada
para ser realizada em turno inverso ao
da escolarização, contribuindo efeti-
vamente para garantir o acesso dos
alunos à educação comum e disponi-
bilizando os serviços e apoios que
complementam a formação desses
alunos nas classes comuns da rede
regular de ensino.
Dado o caráter complementar
dessa modalidade e sua transversali-
dade em todas as etapas, níveis e
modalidades, a Política visa atender
alunos com deficiência, transtornos
globais do desenvolvimento e altas
habilidades/superdotação e inova ao
trazer orientações pertinentes às con-
dições de acessibilidade dos alunos,
necessárias à sua permanência na
escola e prosseguimento acadêmico.
(grifo da relatora)
No sentido de implementar a "Po-
lítica Nacional da Educação Especial
na perspectiva da educação inclusi-
va", foi aprovado o Decreto Presiden-
cial de nº 6.571/2008, cujo objetivo
principal é o compromisso da União
na prestação de apoio técnico e finan-
ceiro aos sistemas públicos de ensino
dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, na forma deste Decreto,
para o atendimento educacional es-
pecializado.
Nesse sentido, a SEESP solicitou
ao Conselho Nacional de Educação
que regulamente o referido Decreto,
de forma a evitar equívocos na imple-
mentação do AEE.
O Decreto nº 6.571/2008, que dis-
põe sobre o atendimento educacional
especializado, regulamenta o pará-
grafo único do art. 60 da Lei nº
9.394/96, e acrescenta dispositivo ao
Decreto nº 6.253, de 13 de novembro
de 2007, estabelecendo que:
Art. 1º A União prestará apoio téc-
nico e financeiro aos sistemas públi-
cos de ensino dos Estados, do Distri-
to Federal e dos Municípios, na forma
deste Decreto, com a finalidade de
ampliar a oferta do atendimento edu-
cacional especializado aos alunos
com deficiência, transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilida-
des ou superdotação, matriculados na
rede pública de ensino regular.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO
DIRETRIZES OPERACIONAIS PARA O ATENDIMENTO EDUCACIONAL
ESPECIALIZADO NA EDUCAÇÃO BÁSICA, MODALIDADE EDUCAÇÃO ESPECIAL
PARECER CNE/CEB Nº: 13/2009
65INFORMES
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 65
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 201066
§ 1º Considera-se atendimento
educacional especializado o conjunto
de atividades, recursos de acessibili-
dade e pedagógicos organizados ins-
titucionalmente, prestado de forma
complementar ou suplementar à for-
mação dos alunos no ensino regular.
§ 2º O atendimento educacional
especializado deve integrar a propos-
ta pedagógica da escola, envolver a
participação da família e ser realizado
em articulação com as demais políti-
cas públicas.
O art. 60 da Lei nº 9.394/96, cujo
parágrafo único foi regulamentado
pelo mesmo Decreto, assim dispõe:
Art. 60. Os órgãos normativos
dos sistemas de ensino estabelece-
rão critérios de caracterização das
instituições privadas sem fins lucrati-
vos, especializadas e com atuação
exclusiva em Educação Especial, pa-
ra fins de apoio técnico e financeiro
pelo Poder Público.
Parágrafo único. O Poder Público
adotará, como alternativa preferencial,
a ampliação do atendimento aos edu-
candos com necessidades especiais
na própria rede pública regular de ensi-
no, independentemente do apoio às
instituições previstas neste artigo.
O Decreto nº 6.571/2008 também
acrescenta dispositivo ao Decreto nº
6.253/2007, que dispõe sobre o Fun-
do de Manutenção e Desenvolvimen-
to da Educação Básica e de Valoriza-
ção dos Profissionais da Educação -
FUNDEB, regulamenta a Lei nº
11.494, de 20 de junho de 2007, e dá
outras providências, passando este a
vigorar acrescido do seguinte artigo:
Art. 9º-A. Admitir-se-á, a partir de
1º de janeiro de 2010, para efeito da
distribuição dos recursos do FUN-
DEB, o cômputo das matrículas dos
alunos da educação regular da rede
pública que recebem atendimento
educacional especializado, sem pre-
juízo do cômputo dessas matrículas
na Educação Básica regular.
Parágrafo único O atendimento
educacional especializado poderá ser
oferecido pelos sistemas públicos de
ensino ou pelas instituições mencio-
nadas no art. 14.
O art. 14 do Decreto Nº.
6.253/2007, com redação dada pelo
Decreto nº 6.278, de 29 de novembro
de 2007, prevê:
Art. 14 Admitir-se-á, a partir de
1º de janeiro de 2008, para efeito
da distribuição dos recursos do
FUNDEB, o cômputo das matrícu-
las efetivadas na Educação Especi-
al oferecida por instituições comu-
nitárias, confessionais ou filantrópi-
cas sem fins lucrativos, com atua-
ção exclusiva na Educação Especi-
al, conveniadas com o poder exe-
cutivo competente.
Assim, a partir de 2010, os alunos
com deficiência, com transtornos
globais do desenvolvimento e com
altas habilidades/superdotação se-
rão contabilizados duplamente no
âmbito do FUNDEB, quando matri-
culados em classes comuns do ensi-
no regular e no atendimento educa-
cional especializado.
Essas Diretrizes Operacionais ba-
seiam-se, então, na concepção do
atendimento educacional especiali-
zado e não devem ser entendidas co-
mo substitutivo à escolarização reali-
zada em classe comum das diferen-
tes etapas da educação regular, mas
sim como mecanismo que viabilizará
a melhoria da qualidade do processo
educacional dos alunos com defici-
ência, com transtornos globais do
desenvolvimento e com altas habili-
dades/superdotação matriculados
nas classes comuns do ensino regu-
lar, ao mesmo tempo em que orienta
a organização da escola e as deman-
das dos sistemas de ensino.
Reafirma-se a pertinência da soli-
citação da SEESP para o CNE apre-
sentar orientações que devem nortear
os sistemas de ensino para efetivação
do direito ao atendimento educacio-
nal especializado - AEE aos alunos
matriculados no ensino regular da re-
de pública, que atendam aos critérios
estabelecidos, de modo a operacio-
nalizar o disposto no Decreto nº
6.571/2008.
Desse modo, propomos que este
Parecer seja regulamentado confor-
me o Projeto de Resolução anexo,
que estabeleceu como prioridade:
A obrigatoriedade da matrícula dos
alunos, público-alvo da Educação Es-
pecial, na escola comum do ensino
regular e da oferta do atendimento
educacional especializado - AEE.
A função complementar ou suple-
mentar do atendimento educacional
especializado e da Educação Especi-
al, como área responsável pela sua
realização.
A conceituação do público-alvo da
Educação Especial, a definição dos
espaços para a oferta do atendimen-
to educacional especializado e o tur-
no em que se realiza.
As formas de matrícula concomi-
tante no ensino regular e no atendi-
mento educacional especializado,
contabilizadas duplamente no âmbito
do FUNDEB, conforme definido no
Decreto nº 6.571/2008.
As orientações para elaboração de
plano do AEE e competências do pro-
fessor do AEE.
A inclusão do AEE no projeto peda-
gógico da escola da rede regular de
ensino.
As condições para a realização do
AEE em centros de atendimento edu-
cacional especializado.
As atribuições do professor que re-
aliza o AEE.
A formação do professor para atuar
na Educação Especial e no AEE.
II - VOTO DA RELATORA
Em vista do exposto, propõe-se a
aprovação das Diretrizes Operacio-
nais para a Educação Especial na
forma deste Parecer e do Projeto de
Resolução em anexo, do qual é par-
te integrante.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 66
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 2010 67
Brasília (DF), 3 de junho de 2009.
Conselheira Clélia Brandão Alva-
renga Craveiro - Relatora
Conselheiro Francisco Aparecido
Cordão - Relator ad hoc
III - DECISÃO DA CÂMARA
A Câmara de Educação Básica
aprova por unanimidade o voto da
Relatora.
Sala das Sessões, em 3 de junho
de 2009.
Conselheiro Cesar Callegari - Pre-
sidente
Conselheiro Mozart Neves Ramos
- Vice-Presidente
Diretrizes Operacionais para o aten-
dimento educacional especializado
na Educação Básica, modalidade
Educação Especial.
O Presidente da Câmara de Edu-
cação Básica do Conselho Nacional
de Educação, no uso de suas atribui-
ções legais, de conformidade com o
disposto na alínea "c" do artigo 9º da
Lei Nº 4.024/1961, com a redação da-
da pela Lei Nº 9.131/1995, bem como
no artigo 90, no § 1º do artigo 8º e no
§ 1º do artigo 9º da Lei Nº 9.394/1996,
considerando a Constituição Federal
de 1988; a Lei Nº 10.098/2000; a Lei
Nº 10.436/2002; a Lei Nº 11.494/2007;
o Decreto Nº 3.956/2001; o Decreto
Nº 5.296/2004; o Decreto Nº
5.626/2005; o Decreto Nº 6.253/2007;
o Decreto Nº 6.571/2008; e o Decreto
Legislativo Nº 186/2008, e com funda-
mento no Parecer CNE/CEB Nº
13/2009, homologado por Despacho
do Senhor Ministro de Estado da Edu-
cação, publicado no DOU de 24 de
setembro de 2009, resolve:
Art. 1º Para a implementação do
Decreto nº 6.571/2008, os sistemas
de ensino devem matricular os alunos
com deficiência, transtornos globais
do desenvolvimento e altas habilida-
des/superdotação nas classes co-
muns do ensino regular e no atendi-
mento educacional especializado,
ofertado em salas de recursos multi-
funcionais ou em centros de atendi-
mento educacional especializado da
rede pública ou de instituições comu-
nitárias, confessionais ou filantrópicas
sem fins lucrativos.
Art. 2º O AEE tem como função
complementar ou suplementar a for-
mação do aluno por meio da disponi-
bilização de serviços, recursos de
acessibilidade e estratégias que elimi-
nem as barreiras para sua plena par-
ticipação na sociedade e desenvolvi-
mento de sua aprendizagem.
Parágrafo único. Para fins destas
Diretrizes, consideram-se recursos de
acessibilidade na educação aqueles
que asseguram condições de acesso
ao currículo dos alunos com deficiên-
cia ou mobilidade reduzida, promoven-
do a utilização dos materiais didáticos
e pedagógicos, dos espaços, dos mo-
biliários e equipamentos, dos sistemas
de comunicação e informação, dos
transportes e dos demais serviços.
Art. 3º A Educação Especial se
realiza em todos os níveis, etapas e
modalidades de ensino, tendo o
AEE como parte integrante do pro-
cesso educacional.
Art. 4º Para fins destas Diretrizes,
considera-se público-alvo do AEE:
I - Alunos com deficiência: aque-
les que têm impedimentos de longo
prazo de natureza física, intelectual,
mental ou sensorial.
II - Alunos com transtornos globais
do desenvolvimento: aqueles que
apresentam um quadro de alterações
no desenvolvimento neuropsicomotor,
comprometimento nas relações soci-
ais, na comunicação ou estereotipias
motoras. Incluem-se nessa definição
alunos com autismo clássico, síndro-
me de Asperger, síndrome de Rett,
transtorno desintegrativo da infância
(psicoses) e transtornos invasivos sem
outra especificação.
III - Alunos com altas habilida-
des/superdotação: aqueles que apre-
sentam um potencial elevado e gran-
de envolvimento com as áreas do co-
nhecimento humano, isoladas ou
combinadas: intelectual, liderança,
psicomotora, artes e criatividade.
Art. 5º O AEE é realizado, priorita-
riamente, na sala de recursos multi-
funcionais da própria escola ou em
outra escola de ensino regular, no tur-
no inverso da escolarização, não sen-
do substitutivo às classes comuns,
podendo ser realizado, também, em
centro de atendimento educacional
especializado da rede pública ou de
instituições comunitárias, confessio-
nais ou filantrópicas sem fins lucrati-
vos, conveniadas com a Secretaria de
Educação ou órgão equivalente.
Art. 6º Em casos de atendimento
educacional especializado em ambi-
ente hospitalar ou domiciliar, será ofer-
tado aos alunos, pelo respectivo siste-
ma de ensino, a Educação Especial de
forma complementar ou suplementar.
Art. 7º Os alunos com altas habi-
lidades/superdotação terão suas ati-
vidades de enriquecimento curricular
desenvolvidas no âmbito de escolas
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO
CÂMARA DE EDUCAÇÃO BÁSICA
RESOLUÇÃO Nº. 4, DE 2 DE OUTUBRO DE 2009
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 67
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 201068
públicas de ensino regular em inter-
face com os núcleos de atividades
para altas habilidades/superdotação
e com as instituições de ensino su-
perior, institutos voltados ao desen-
volvimento e promoção da pesquisa,
das artes e dos esportes.
Art. 8º Serão contabilizados dupla-
mente no âmbito do FUNDEB, de
acordo com o Decreto nº 6.571/2008,
os alunos matriculados em classe co-
mum de ensino regular público que ti-
verem matrícula concomitante no AEE.
Parágrafo único. O financiamento
da matrícula no AEE é condicionado
à matrícula no ensino regular da re-
de pública, conforme registro no
Censo Escolar/MEC/INEP do ano
anterior, sendo contemplada:
a) matrícula em classe comum e em
sala de recursos multifuncionais da
mesma escola pública;
b) matrícula em classe comum e em
sala de recursos multifuncionais de
outra escola pública;
c) matrícula em classe comum e em
centro de Atendimento Educacional
Especializado de instituição de Edu-
cação Especial pública;
d) matrícula em classe comum e em
centro de Atendimento Educacional
Especializado de instituições de
Educação Especial comunitárias,
confessionais ou filantrópicas sem
fins lucrativos.
Art. 9º A elaboração e a execu-
ção do plano de AEE são de compe-
tência dos professores que atuam
na sala de recursos multifuncionais
ou centros de AEE, em articulação
com os demais professores do ensi-
no regular, com a participação da fa-
mília e em interface com os demais
serviços setoriais da saúde, da as-
sistência social, entre outros neces-
sários ao atendimento.
Art. 10. O projeto pedagógico da
escola de ensino regular deve institu-
cionalizar a oferta do AEE prevendo
na sua organização:
I - sala de recursos multifuncio-
nais: espaço físico, mobiliário, mate-
riais didáticos, recursos pedagógi-
cos e de acessibilidade e equipa-
mentos específicos;
II - matrícula no AEE de alunos
matriculados no ensino regular da
própria escola ou de outra escola;
III - cronograma de atendimento
dos alunos;
IV - plano do AEE: identificação
das necessidades educacionais es-
pecíficas dos alunos, definição dos
recursos necessários e das atividades
a serem desenvolvidas;
V - professores para o exercício da
docência do AEE;
VI - profissionais da educação:
tradutor e intérprete de Língua Brasi-
leira de Sinais, guia-intérprete e ou-
tros que atuem no apoio, principal-
mente, às atividades de alimentação,
higiene e locomoção;
VII - redes de apoio no âmbito da
atuação profissional, da formação, do
desenvolvimento da pesquisa, do
acesso a recursos, serviços e equipa-
mentos, entre outros que maximizem
o AEE.
Parágrafo único. Os profissio-
nais referidos no inciso VI atuam
com os alunos público-alvo da
Educação Especial em todas as
atividades escolares nas quais se
fizerem necessárias.
Art. 11. A proposta de AEE, previs-
ta no projeto pedagógico do centro de
atendimento educacional especializa-
do público ou privado sem fins lucrati-
vos, conveniado para essa finalidade,
deve ser aprovada pela respectiva Se-
cretaria de Educação ou órgão equi-
valente, contemplando a organização
disposta no art. 8º desta Resolução.
Parágrafo único Os centros de
atendimento educacional especializa-
do devem cumprir as exigências le-
gais estabelecidas pelo Conselho de
Educação do respectivo sistema de
ensino, quanto ao seu credenciamen-
to, autorização de funcionamento e
organização, em consonância com
as orientações preconizadas nestas
Diretrizes Operacionais.
Art. 12. Para atuação no AEE, o
professor deve ter formação inicial
que o habilite para o exercício da do-
cência e formação específica para a
Educação Especial.
Art. 13. São atribuições do profes-
sor do atendimento educacional es-
pecializado:
I - identificar, elaborar, produzir e
organizar serviços, recursos pedagó-
gicos, de acessibilidade e estratégias
considerando as necessidades espe-
cíficas dos alunos público-alvo da
Educação Especial;
II - elaborar e executar plano de
atendimento educacional especializa-
do, avaliando a funcionalidade e a
aplicabilidade dos recursos pedagó-
gicos e de acessibilidade;
III - organizar o tipo e o número de
atendimentos aos alunos na sala de
recursos multifuncionais;
IV - acompanhar a funcionalidade e
a aplicabilidade dos recursos pedagó-
gicos e de acessibilidade na sala de au-
la comum do ensino regular, bem como
em outros ambientes da escola;
V - estabelecer parcerias com as
áreas intersetoriais na elaboração de
estratégias e na disponibilização de
recursos de acessibilidade;
VI - orientar professores e famílias
sobre os recursos pedagógicos e de
acessibilidade utilizados pelo aluno;
VII - ensinar e usar a tecnologia as-
sistiva de forma a ampliar habilidades
funcionais dos alunos, promovendo
autonomia e participação.
VIII - estabelecer articulação com
os professores da sala de aula co-
mum, visando à disponibilização dos
serviços, dos recursos pedagógicos e
de acessibilidade e das estratégias
que promovem a participação dos
alunos nas atividades escolares.
Art. 14. Esta Resolução entrará
em vigor na data de sua publica-
ção, revogadas as disposições
em contrário.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 68
A MAIOR GERAÇÃO DE
JOVENS DE TODOS OS TEMPOS!
A MAIOR GERAÇÃO DE
JOVENS DE TODOS OS TEMPOS!
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 69-70, jan/jul. 2010 69
1
Jornalista e Oficineiro da Inclusão da Escola de Gente - Comunicação em Inclusão. Conselheiro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) da SG/PR e do
Conselho Estadual de Juventude do Rio de Janeiro (Cojuerj) da SEAS.DH.RJ.
Confusão, contradição, transtornos;
corpo, desejos, identidade; novo papel,
entre a dependência, a (in)subordina-
ção e a independência; pais: pela dificul-
dade em lidar com a personalidade e a
sexualidade, deixam de ser heróis para
serem os que criticam e julgam; irregu-
laridade, instabilidade, imprevisibilidade;
falta de perspectiva: 1 em cada 10 entra
na faculdade, poucos concluem; é pre-
ciso pensar a vocação e ingressar no
mundo do trabalho; alto índice de mor-
tes por conduta de risco (50% dos aci-
dentesdecarrofataisporusodeálcool);
alto índice de homicídios; Doenças Se-
xualmente Transmissíveis; papéis, atri-
buições, expectativas, direitos e deve-
res: necessidade de demarcar um lugar
social; discurso, comportamento, rela-
ções de poder; padrão, desvio, trans-
gressão. Estas palavras e expressões
nos remetem à uma fase. Na verdade, à
uma geração: a juventude!
O Brasil vive um panorama inédito.
O país tem no momento a maior gera-
ção de jovens de todos os tempos: são
48 milhões de brasileiros(as) com idade
entre 15 e 29 anos. Durante a década
de 90, viveu-se a chamada "onda jo-
vem". As taxas de crescimento da po-
pulação de 15 a 29 anos foram muito in-
tensas. Atualmente, 85% da população
jovem mundial vive nos chamados paí-
ses em desenvolvimento. Nessa pers-
pectiva, a maior barreira da juventude
se torna a pobreza, que lhes rouba as
oportunidades e as expectativas de
uma vida digna, condenando-a a situa-
ções e estruturas vulnerabilizantes.
A juventude é uma condição social,
parametrizada por uma faixa-etária, que
no Brasil congrega cidadãos(ãs) com
idade compreendida entre os 15 e os 29
anos. Sendo tema de interesse público,
a condição juvenil deve ser tratada sem
estereótipos e a consagração dos direi-
tos dos(as) jovens precisa partir da pró-
pria diversidade que caracteriza a(s) ju-
ventude(s). Em termos políticos e soci-
ais, os(as) jovens são sujeito de direitos
coletivos. Sua autonomia deve ser res-
peitada, suas identidades, formas de
agir, viver e se expressar, valorizadas.
Educação, ciência e tecnologia,
cultura, esporte, lazer, participação po-
lítica, trabalho e renda, saúde, meio
ambiente, terra, esses e outros temas
estão relacionados às políticas públi-
cas de juventude e devem ser levados
em conta a transversalidade dessas
políticas de maneira articulada.
Para pensar e propor diretrizes para
políticaspúblicasparaadiversidadejuve-
nil,negros(as),indígenas,jovenscomde-
ficiência, mulheres jovens, religiosos(as),
rurais, LGBTTT), assim como falar de te-
mas que a sociedade considera polêmi-
cos, como jovens em conflito com a lei e
egressosdosistemapenal,tráficodemu-
lheres, redução da maioridade penal, ex-
ploração sexual, casamento entre pesso-
as do mesmo sexo, violência doméstica,
aborto e entre outros assuntos, a presi-
dência da República lançou, no ano de
2005 uma política nacional para a juven-
tude,criandoaSecretariaNacionaldeJu-
ventude e o Conselho Nacional de Ju-
ventude. Estas decisões refletem um sis-
temático processo de aprendizado e re-
flexão do governo, sociedade civil, parla-
mento e organismos de cooperação in-
ternacional no tema.
Juventude X Deficiência
A Organização das Nações Unidas
(ONU) aponta que existem 600 milhões
de pessoas com deficiência no planeta
- 400 milhões nos países em desenvol-
vimento. Dados do Banco Mundial
apontam que pelo menos 79 milhões
de indivíduos com deficiência estão na
América Latina e Caribe, dos quais vin-
Fábio Meirelles1
69OPINIÃO
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 69-70, jan/jul. 201070
te e quatro milhões são cidadãos(ãs)
brasileiros(as). O Censo Demográfi-
co/2000 do Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística (IBGE) aponta que
existem aproximadamente 3.605.183
jovens com pelo menos uma deficiên-
cia (14,7% do total de jovens).
Vários são os grupos sociais excluí-
dos dos processos de desenvolvimen-
to socioeconômico e humano do plane-
ta, e muitos deles vivem abaixo da linha
de pobreza, devido ao estigma e à dis-
criminação sistemática à qual são sub-
metidos. As políticas públicas ditas uni-
versais - nas áreas de educação, traba-
lho, saúde, seguridade social, etc - dis-
criminam a população de pessoas com
deficiência. E essa lógica se reproduz
nas políticas públicas de juventude.
À juventude com deficiência não é
garantido o direito à participação em pro-
jetos, programas e políticas públicas de
juventudebrasileiras,tantonosníveismu-
nicipal,estadualquantofederal,emtodas
as áreas de atuação de governos e soci-
edade civil. Direitos que deveriam ser ga-
rantidospormeiodeajudastécnicaspre-
vistas em leis, como intérprete da Língua
de sinais brasileira (Libras), legendagem
em programas de televisão e sessões de
cinema, material em braile e sites com
acessibilidade, entre outras iniciativas.
Profissionais de todos os setores ig-
noram, mesmo que inconscientemente,
a existência de adolescentes e jovens
com deficiência no nosso país. Não es-
tão assegurados recursos e investimen-
tos, e em todas as áreas de atuação de
políticas públicas, para a efetiva inclusão
de jovens com deficiência. Não haven-
do previsão orçamentária, por princípio,
há segregação e discriminação.
Mudança no
panorama/perspectiva
e boas práticas
A cada dia cresce no país a percep-
ção de que é preciso construir políticas
públicas inclusivas para esse segmento,
ou seja, abertas à diversidade, contem-
plando as características e as necessida-
desinerentesdasinfinitasjuventudes,en-
tre elas aquela formada por jovens com
qualquer tipo de deficiência, hoje com
baixíssima escolaridade. Nesse sentido,
o ano de 2008 foi marcado por iniciativas
do executivo e legislativo federal que po-
dem ser destacadas como boas práticas
na perspectiva de reverter esse processo
histórico de discriminação, entre elas:
1) A aprovação da Convenção sobre os
Direitos das Pessoas com Deficiência co-
mo emenda constitucional pelo Congres-
soNacional;aaprovaçãosófoipossívela
partir de articulações da CORDE, órgão
daSecretariaEspecialdosDireitosHuma-
nos, e do Conade, órgão superior de de-
liberação colegiada e controle social da
política nacional de atenção à pessoa
com deficiência no Brasil; a aprovação re-
afirma o conteúdo da Declaração Univer-
saldosDireitosHumanoseavançanaga-
rantia de direitos aos(as) jovens brasilei-
ro(as) com qualquer tipo de deficiência;
2) A consolidação, pela SEESP/MEC, da
Política Nacional de Educação Especial
na Perspectiva da Educação Inclusiva; a
política avança na possibilidade de pro-
mover a convivência de crianças, ado-
lescentes e jovens com e sem deficiên-
cia em escolas comuns da rede regular
de ensino, buscando reverter práticas
seculares de discriminação, aprimoran-
do e integrando ações destinadas a es-
sepúblico.APolíticapodeserconsidera-
da uma proposta concreta de mudança
alinhadas com a legislação brasileira e fi-
losoficamente inspiradas na força mobili-
zadora e transformadora da juventude;
3) Realização, pela Secretaria Nacional
de Juventude/Secretaria Geral da Presi-
dência da República, da I Conferência
Nacional de Juventude, ocorrido em
abril de 2008, que mobilizou mais de 400
mil jovens em suas etapas preparatórias
e representou um marco na consolida-
ção da política nacional, controle social,
de diálogo entre governos (municipais,
estaduais e federal), poder legislativo e
sociedade civil. A Conferência reuniu de-
legados(as) jovens com e sem deficiên-
cia de todo o Brasil em uma intensa arti-
culação que antecedeu a aclamação, na
plenária final, de prioridade com relação
à juventude com deficiência.
Questões para o debate
Mesmo constatadas iniciativas de
avanço, algumas perguntas ainda po-
dem ser feitas e debatidas:
1) Como criar e implementar políticas
públicas que valorizem a diversidade,
garantam o exercício dos direitos hu-
manos, combatam a desigualdade
econômica e social e se mostrem ca-
pazes de atender às necessidades es-
pecíficas de adolescentes e jovens em
situação de vulnerabilidade?
2) Como agir para reverter os processos
de sistemática exclusão aos quais são
submetidos/asadolescentesejovensem
situação de desvantagem por diversida-
de de gênero, orientação sexual, religio-
sa, lingüística, regional, cultural, humana,
social, entre outras?
3) De que modo as questões específicas
dadiversidadedos(as)adolescentesejo-
vens no Brasil podem mudar o rumo da
criação, implementação e avaliação das
políticas públicas no país?
Há pressa em se disseminar o con-
ceito de uma sociedade inclusiva entre
jovensquesepreparameiniciamsuaen-
trada na vida adulta - pessoal e profissio-
nal. Dilemas, futuro, ética, estética, pater-
nidade/maternidade,fidelidade,amizade,
subjetividade: esses são somente alguns
dos principais desafios vividos pelo jo-
vem brasileiro no século XXI.
Nesse sentido, faz-se necessária a
criação de políticas públicas de juventu-
de inclusivas, que simultaneamente ratifi-
quem a diversidade humana como um
valor e combatam a desigualdade eco-
nômica e social. Está colocado o desafio.
Saiba mais em:
www.juventude.gov.br
www.escoladegente.org.br
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 70
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 71-72, jan/jul. 2010 71
INCLUSÃO EM EVIDÊNCIA
A Secretaria Municipal de Edu-
cação de Cuiabá-MT, ao aderir ao
Programa Educação Inclusiva: Di-
reito à Diversidade, define uma po-
lítica educacional fundamentada
na perspectiva da inclusão, na
qual a escola se constitui como um
espaço privilegiado de formação
humana que inclui saberes, valo-
res e atitudes, visando a romper
com todas as formas de exclusão
no seu interior.
Embora a definição da política
educacional inclusiva tenha sido
determinante para garantir o atendi-
INCLUSÃO EM EVIDÊNCIA
Julieta dos Santos Ribeiro Nunes Domingues1
sme.dipe@cuiaba.mt.gov.br
1
Licenciada em Educação Física pela UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso; pós-graduada em Saúde Mental pela UFMT; pós-graduada em Gestão
Educacional/Educação Inclusiva, pela UNEMAT - UNIVERSIDADE DE MATO GROSSO; Conselheira do Conselho Municipal de Educação e Diretora de Políticas
Educacionais da Secretaria Municipal de Educação/Cuiabá-MT.
71VEJA TAMBÉM
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 71
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 71-72, jan/jul. 201072
mento de todos os alunos, ainda se
faz necessário disseminar a con-
cepção que fundamenta a educa-
ção inclusiva, bem como as ques-
tões organizacionais e pedagógi-
cas, pensando o contexto da esco-
la nas suas múltiplas dimensões.
Neste sentido, a Secretaria Mu-
nicipal de Educação vem imple-
mentando nas escolas o Plano
Educação na Diversidade com o
objetivo de garantir o atendimento
educacional, considerando os indi-
cadores de acesso, permanência e
sucesso nas etapas e modalidades
de ensino, respeitando os diferen-
tes momentos do ciclo da vida.
Dentre os programas constantes no
Plano Educação na Diversidade,
destaca-se o Programa Currículo
na Diversidade, que visa a fortale-
cer as unidades de ensino por meio
de um currículo que favoreça o
atendimento educacional de quali-
dade e valorize a diversidade hu-
mana como fator de enriquecimen-
to das relações sociais.
A partir da definição do Progra-
ma Currículo na Diversidade, ao
qual se integra o projeto Inclusão
em Evidência, a rede municipal
rompe com o modelo de classes
especiais, não mais entendendo a
Educação Especial como ensino
paralelo de caráter substitutivo ao
ensino fundamental, mas como
uma modalidade de ensino que
assegure o atendimento educacio-
nal especializado, garantindo aos
alunos com deficiências, transtor-
nos globais de desenvolvimento e
altas habilidades/superdotação a
igualdade de oportunidades no en-
sino regular.
Nesse sentido, foram implanta-
das as salas multifuncionais, tendo
como objetivo a melhoria das res-
postas educativas para os alunos
com necessidades educacionais
especiais, de forma articulada com
a proposta pedagógica da escola.
Esta nova concepção de serviço
especializado tem possibilitado a
eliminação das barreiras impostas
pelo ambiente, ampliando as possi-
bilidades de acesso ao conheci-
mento e, conseqüentemente, o de-
senvolvimento das potencialidades
dos alunos. Fez-se necessário, en-
tão, definir um modelo de formação
continuada que, de fato, alcanças-
se as necessidades formativas dos
professores para que estes pudes-
sem dar as respostas requeridas
pelos alunos. Na proposta de for-
mação desenvolvida, privilegiou-se
a escola como um espaço formati-
vo por excelência, propondo uma
revisão da prática pedagógica de
forma reflexiva e investigativa.
Assim, o programa "Revitalizan-
do a Formação" tem sido funda-
mental para enfrentarmos os desa-
fios do processo educativo, a fim
de garantir a aprendizagem de to-
dos os nossos alunos. Com esse
conjunto de ações, estamos cons-
truindo a tão sonhada transversali-
dade proposta pela Educação Es-
pecial nas diferentes etapas e mo-
dalidades da Educação Básica.
Uma das experiências mais enri-
quecedoras tem sido o projeto Esti-
mulAção, que objetiva atender as
necessidades específicas das cri-
anças com deficiência e atraso
acentuado no desenvolvimento
neuro-psico-motor, realizando ser-
viço de intervenção precoce, orien-
tando os gestores e os professores
a fim de minimizar as barreiras im-
postas pelo ambiente. Este projeto
tem contribuído na interação da cri-
ança com o meio, favorecendo o
seu desenvolvimento integral, sen-
do perceptíveis os avanços nos as-
pectos cognitivo, afetivo, motor e
social já nos primeiros meses da in-
tervenção pedagógica.
Ao re-significarmos a política da
Educação Especial, fomos surpre-
endidos com o aumento das matrí-
culas de alunos com deficiências
nas nossas escolas e, em particu-
lar, a inclusão de crianças na Edu-
cação Infantil. As unidades escola-
res e creches vêm trabalhando de
forma coletiva o processo de sensi-
bilização, envolvendo todos os pro-
fissionais acerca dos fundamentos
da Educação Inclusiva.
Este trabalho refletiu conside-
ravelmente na forma de acolhi-
mento e oportunidade de aprendi-
zagem, desmistificando a idéia de
que as crianças com deficiência
deveriam estar em escolas ou
classes especiais.
As experiências positivas repe-
tem-se a cada dia conforme depoi-
mentos dos professores de diferen-
tes escolas, dos familiares e dos
próprios alunos, quando manifes-
tam a satisfação de estarem com as
outras crianças e adolescentes, be-
neficiando-se do mesmo espaço de
aprendizagem. Experiências estas
duplamente satisfatórias diante um
universo de 72 alunos com necessi-
dades educacionais especiais ma-
triculados em 2006, para 475 em
2007, evidenciando que a escola in-
clusiva é hoje uma realidade.
No entanto, sabemos que pre-
cisamos avançar em muitos aspec-
tos como: oportunizar a todos os
profissionais da educação básica
a formação continuada na pers-
pectiva da educação inclusiva; ad-
quirir equipamentos específicos
para as salas multifuncionais; ga-
rantir a acessibilidade a fim de fa-
vorecer um melhor atendimento
educacional aos nossos alunos,
entre outros.
Tem sido gratificante constatar
que a educação inclusiva é uma re-
alidade no município de Cuiabá e
que esta se efetiva no fazer, na ex-
perimentação fundamentada em
pressupostos teóricos sólidos que
tornam possível a garantia de uma
educação de qualidade para todos.
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 72
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 73-74, jan/jul. 2010 73
Política editorial
1 A Revista Inclusão publica artigos
cujo foco é a Educação Especial na
perspectiva da educação inclusiva
2 As colaborações podem ser apre-
sentadas como:
2.1 Artigos inéditos de caráter opinativo
ou científico, fundamentados em pes-
quisas e/ou relatos de experiências;
2.2 Resenhas.
3 Os artigos devem ser inéditos (de
preferência em português), cabendo
à revista a exclusividade da sua pu-
blicação. Precisam atender aos se-
guintes critérios:
3.1 Adequação ao escopo da revista;
3.2 Qualidade científica, atestada pela
Comissão Editorial e ouvido o Conse-
lho Consultivo;
3.3 Cumprimento das presentes
Normas;
3.4 Após aceitos, os artigos podem
sofrer alterações não substanciais (re-
paragrafações, correções gramaticais
e adequações estilísticas) na etapa de
editoração de texto.
4 Aceitação e revisão dos textos: os
artigos recebidos são enviados (com
exclusão do nome dos autores) a dois
pareceristas pertencentes ao Conse-
lho Consultivo da Revista que indicam
a aceitação, a recusa ou as reformula-
ções necessárias. Em caso de pare-
ceres contrários à aceitação, o artigo é
analisado pelos editores que definem
ou não a sua publicação com base
nas indicações dos pareceres. A revi-
são da normalização técnica é realiza-
da pelos editores.
5 Não há remuneração pelos traba-
lhos, o autor de cada artigo recebe 05
(cinco) exemplares da revista; no caso
do artigo assinado por mais de um au-
tor, serão entregues 5 (cinco) exem-
plares para cada. Os artigos aprova-
dos são publicados na forma impres-
sa e digital acessível.
Constituição dos artigos
1 Identificação: folha de rosto conten-
do o título (em português e inglês); au-
tor (titulação, instituição, departamen-
to, quando for o caso), endereço com-
pleto e e-mail (de todos os autores);
2 Resumo: deve ser informativo, ex-
pondo o objetivo, metodologia, resul-
tados e conclusões, quando se tratar
de relato de pesquisa. Deve conter em
torno de 250 palavras, não contendo
parágrafos e nem citações de autores
e datas.
3 Palavras-chave: fazer a indicação
após o resumo (mínimo de três e má-
ximo de cinco palavras).
4 Abstract e Key words: o resumo em
inglês deve ser apresentado logo
após o resumo em português e se-
guindo as mesmas normas aponta-
das anteriormente.
5 Texto: os artigos devem estar organi-
zados em: Introdução, Desenvolvi-
mento e Conclusão, podendo receber
subdivisões. No caso de relatos de
pesquisa, devem ter as seguintes se-
ções: Introdução, Método, Resulta-
dos, Discussões e Conclusões (com
numeração).
No caso de resenha de livros e teses,
o texto deve conter todas as informa-
ções para a identificação do trabalho
comentado.
Os textos, conforme orientações, de-
verão ser entregues impressos em ar-
quivo de texto em papel A4, e em CD
em formato .docx. O arquivo em for-
mato .docx será convertido em Livro
Digital Falado, que é uma representa-
ção acessível e multimídia de uma pu-
blicação impressa.
Obs: O arquivo .docx será utilizado
para geração do formato digital aces-
sível MecDaisy - um tipo de texto digi-
tal que consiste num sistema de mar-
cação que permite a navegação por
meio de teclas de atalho às diferentes
partes do texto (capítulos, itens, subi-
tens, páginas, parágrafos, linhas, en-
tre outros); disponibiliza a leitura em
áudio, a formatação para impressão
Braille e a ampliação dos caracteres.
6 Para conversão do artigo em forma-
to MEC Daisy, os autores deverão
descrever de maneira específica e de-
talhada os objetos imagéticos utiliza-
dos no artigo: ilustrações (foto, figura,
gravura, pintura, entre outros), tabelas
(disposição espacial de textos e nú-
meros); diagramas (fluxogramas, gra-
fos, organograma, entre outros); gráfi-
cos de base matemática (barra, dia-
grama circulares, função, entre ou-
tros); mapas; fórmulas (matemática,
química, física); símbolos (logotipo, lo-
gomarca) e tabelas, gráficos, (dese-
nhos, mapas e fotografias). Essa des-
crição deverá ser fidedigna aos obje-
tos apresentados, explicitando todas
as informações no texto do artigo, de
modo a permitir que o leitor tenha
compreensão do assunto tratado.
A descrição de objetos em geral de-
ve responder as seguintes questões:
a) o que, quem e onde, associado ao
objetivo do texto (quando necessário
enfatizar como a relação entre os
elementos da imagem se estabele-
ce); b) a relevância da imagem em
relação ao texto; c) destaque dos
elementos significativos (que contri-
buem para contextualizar o tema
central abordado). Para a descrição
específica de tabelas deve-se privile-
giar uma apresentação dos dados
contidos na tabela de modo a garan-
tir significação no formato áudio. As
regras básicas a seguir podem ser
NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 73
Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 73-74, jan/jul. 201074
utilizadas como parâmetros gerais:
a) as tabelas devem ser constituídas
com linhas e colunas, sem subdivi-
sões internas; b) deve-se minimizar o
número de colunas utilizadas; c)
quando necessário usar cabeçalho e
rodapé, que devem ser apresenta-
dos sucintamente; d) deve-se mini-
mizar a introdução de elementos de
formatação e cor, pois estas são ca-
racterísticas eminentemente visuais,
limitando a acessibilidade ao conteú-
do expresso; e) quando a tabela tiver
uma estrutura complexa deve-se
converter em texto, as informações
demonstradas nos diferentes níveis
da tabela.
7 Citações, notas e referências (livros,
periódicos, artigos de jornal, disserta-
ções e teses, meio eletrônico, artigo
em jornal científico, trabalho em con-
gresso, etc.): devem obedecer às nor-
mas da ABNT.
8. Apresentação de artigos
8.1 Os artigos, para serem submeti-
dos à apreciação, devem ser encami-
nhados à Comissão Editorial, acom-
panhados de:
a) ofício;
b) duas cópias do texto impresso;
c) CD com artigo em formato .docx;
d) carta de cessão dos direitos autora-
is, assinada por todos os autores, se-
gundo a ordem de autoria (primeiro
autor, segundo autor, etc.).
e) carta de cessão de direitos de ima-
gem para publicação de fotos.
8.2 Quando se tratar de relato de pes-
quisa deve ser enviada uma cópia da
autorização do comitê de ética;
8.3 Formatação: papel A4 e com pá-
ginas numeradas com, no mínimo,
12 laudas e, no máximo, 16 laudas
incluindo as referências (espaço um
e meio, letra Times New Roman, ta-
manho 12, justificado, parágrafos
com 2 cm);
8.4 Após ser aprovado para publica-
ção, enviar uma cópia em papel A4 e
outra em CD (em formato .docx), nas
quais tenham sido providenciadas as
eventuais adaptações exigidas pela
Comissão Editorial.
9 Os artigos devem ser enviados para:
Ministério da Educação
Secretaria de Educação Especial
Revista Inclusão - Revista da Educa-
ção Especial
Esplanada dos Ministérios
Bloco "L" - 6º andar - sala 600
CEP: 70047 - 900 - Brasília - DF
revistainclusao@mec.gov.br
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 75, jan/jul. 2010 75
Carta modelo:
Venho por meio desta ceder os direitos autorais sobre o artigo (nome do artigo) para
a Revista Inclusão, a ser publicado na forma impressa e eletrônica, mantida pela
Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação. Declaro que o mencionado
artigo é inédito, como consta nas normas de publicação da referida Revista, e não foi
publicado nem em outra revista e nem em meio digital, como páginas de Associações,
sites ou CDs de eventos.
Assinatura do primeiro autor
Nome completo (sem abreviatura) do primeiro autor
Assinatura do segundo autor
Nome completo (sem abreviatura) do segundo autor
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Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 76, jan/jul. 201076
Autorização
Venho por meio desta, AUTORIZAR o uso de fotografias enviadas para fazerem parte do
Artigo ............................................................................................................ para a Revista In-
clusão, a ser publicada na forma impressa e eletrônica, mantida pela Secretaria de Educa-
ção Especial do Ministério da Educação.
Local, data e ano.
Assinatura
Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 76

Revista inclusão 7

  • 1.
    O O paradigma dainclusão educacional orienta o processo de mudanças desde a educação comum aos serviços de apoio especializados com vistas a promover o desenvolvimento das escolas, consti- tuindo práticas pedagógicas capazes de atender a todos os alunos. O sistema educacional inclusivo está fundamentado na Constituição Federal/88, que garante a educação como um direito de todos, e no Decreto Nº. 6.949/2009, que ratifica a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (ONU/2006), assegurando o direito de pleno acesso à educação em igualdade de condições com as demais pessoas. Dessa forma, a construção da educação inclusiva requer a definição de políticas públicas que visem a alterar a organização dos sistemas paralelos de ensino comum e especial, consolidando uma proposta de educação especial integrada ao projeto político pedagógico da escola comum, capaz de contrapor as difer- entes formas de exclusão e garantir as condições de acesso, participação e aprendizagem. Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (MEC/2008), a educação espe- cial constitui uma modalidade de ensino não substitutiva à escolarização dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. O Decreto Nº. 6.571/2008 define o Atendimento Educacional Especializado - AEE e institui o financiamento, no âmbito do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação - FUNDEB, para a oferta do AEE aos alunos matriculados nas classes comuns do ensino regular da rede pública. Com vistas a orientar a oferta do AEE em articulação com o ensino regular, o Conselho Nacional de Educação - CNE estabelece Diretrizes Operacionais para o AEE na Educação Básica, por meio da Resolução Nº. 4/2009. Neste contexto, ampliam-se as políticas públicas para o desenvolvimento inclusivo das escolas por meio dos programas de acessibilidade, formação continuada de professores e implantação de salas de recursos multifuncionais na rede pública. Para impulsionar as mudanças sociais, políticas e culturais, construindo a inclusão no cotidiano das esco- las, a Revista Inclusão, neste número, apresenta diversos artigos acerca do Atendimento Educacional Especializado, entrevista sobre a inclusão educacional de alunos com transtornos globais do desenvolvi- mento e demais sessões que refletem o processo de transformação dos sistemas educacionais em sistemas educacionais inclusivos, a partir do envolvimento da gestão pública na articulação de ações para a garantia das condições de acesso, participação e aprendizagem do público alvo da educação especial. Secretaria de Educação Especial Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 1-76, jan/jul. 2010 1 1EDITORIAL Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 1
  • 2.
    SUMÁRIO 1 Editorial Secretaria de Educação Especial 4 Entrevista JoséFerreira Belisário Filho Psiquiatra. Doutor em Ciências da Saúde. Membro do Conselho Técnico Científico CAPES do Ministério da Educação. 12 Destaque NACIONAL O atendimento educacional especializado na educação inclusiva Maria Teresa Eglér Mantoan INTERNACIONAL Traçando os mesmos caminhos para o desenvolvimento de uma Educação inclusiva Anabel Moriña Díez 26 Enfoque Atendimento Educacional Especializado - Deficiência Física Geísa Letícia Böck Grasiela Maria da Silva Rios Atendimento Educacional Especializado - Deficiência Visual Adriana Argenta Elizabet Dias de Sá Atendimento Educacional Especializado - Deficiência Mental Adriana Leite Limaverde Gomes Jean-Robert Poulin Rita Vieira de Figueiredo Atendimento Educacional Especializado - Surdez Josimário de Paulo Ferreira Mirlene Ferreira Macedo Damázio Salas de Recursos Multifuncionais Rosângela Machado Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 2
  • 3.
    64 Resenhas Educação de Surdos- Pontos e Contrapontos Organizadora: Valéria Arantes 65 Informes Parecer Nº. 13 e Resolução Nº. 4 69 Opinião A maior geração de jovens de todos os tempos Fábio Meirelles 71 Veja Também Experiência de Inclusão da Rede Municipal de Ensino de Cuiabá - MT Julieta dos Santos Ribeiro Nunes Domingues Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 3
  • 4.
    1. Revista Inclusão- Diante de tan- tas discussões, como você com- preende uma criança autista? José Belisário - A primeira coisa que pensamos é que cada autista é um autista. No entanto, considero que existe uma forma de pensar sobre o assunto que permite um diálogo mai- or. Temos de pensar algumas classifi- cações como possibilidades de diá- logo. Se cada um tem a sua definição de autismo, nunca conseguiremos agrupá-los para o desenvolvimento de projetos científicos e estratégias de ajudar as crianças. Então, pen- sando a classificação dessa forma, temos três características que auxili- am na compreensão do que seja uma criança autista. São característi- cas que nos permitem agrupar mais gente. A primeira característica é que toda criança autista vai ter uma difi- culdade no seu desenvolvimento neuropsicomotor e na comunicação. O que significa isso? É uma criança que apresenta uma peculiaridade nesse desenvolvimento, um atraso na fala ou um atraso, às vezes, no jei- to de andar. Não existe uma idade 1 Psiquiatra. Doutor em Ciências da Saúde. Membro do Conselho Técnico Científico CAPES do Ministério da Educação. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 20104 4 ENTREVISTA José Ferreira Belisário Filho Sempre em intenso diálogo com a educação, o médico José Belisário tem uma prática marcada pelo seu envolvimento com a inclusão esco- lar de crianças com autismo. Nesta entrevista, o psiquiatra nos esclare- ce sobre questões relacionadas ao autismo e fortalece a idéia de que essas crianças devem estar na es- cola comum. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 4
  • 5.
    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 5 definida para as crianças, e trabalha- mos por faixas de idade como de 0 a 6 anos. Essas características mar- cam um quadro, mas só elas não fa- zem o autismo. A segunda caracterís- tica é a criança ter um comprometi- mento em suas relações sociais. Ela vai apresentar dificuldade de olhar para os pais e de ter uma troca de olhares com a mãe, por exemplo, que aparece muito precocemente. Alguns parâmetros sociais que ve- mos nas crianças como, por exem- plo, de começar a dar tchauzinho e bater palmas, que são brincadeiri- nhas que as crianças fazem antes de aprender a falar que já são trocas so- ciais, nas crianças com autismo, ob- servamos diferenças significativas. Algumas crianças que têm acesso à fala, terão uma fala que, socialmente, não funciona muito bem. A terceira característica, que nos ajuda a pen- sar no autismo, é a criança que apre- senta estereotipias motoras, o que casa com o que acabei de relatar so- bre uma fala diferente. Seria uma fala estereotipada. Só que existem este- reotipias motoras muito clássicas no grupo dos autistas. A mais clássica de todas é de crianças que, mesmo desde muito pequenininhas, come- çam a bater os braços, fazendo um flap de mão em situações de felicida- de, de tristeza ou de angústia. Exis- tem estereotipias mais complexas de bater no corpo, mas o clássico é de bater as mãos. 2. Revista Inclusão - Podemos ob- servar, então, estas estereotipias já nos primeiros anos de vida? José Belisário - Sim, surgem nos primeiros anos de vida. Temos um diagnóstico até os cinco anos de ida- de, aproximadamente. Esse quadro que relatei vai estar presente neste período. Como cada autista é um, cada um vai ter um desenvolvimento dentro deste quadro, mas de forma diferente. Muitas vezes os pais de autistas sabem disso e dizem que seu filho é autista, mas não é igual aquele outro. Na verdade, o que pensamos ser o autismo? É uma grande síndrome. 3. Revista Inclusão - Por que o au- tismo é uma síndrome que perten- ce ao grupo dos transtornos invasi- vos do desenvolvimento? José Belisário - Na verdade, a cate- goria dos transtornos invasivos do de- senvolvimento, o nome que usamos não se refere ao comportamento, mas trabalhamos com desenvolvi- mento. Vamos pensar nas três pala- vras: transtornos, invasivos e desen- volvimento. Alguns profissionais usam a sigla TID. Transtorno é um ter- mo que vem de uma tradução do in- glês que significa desordem. No Bra- sil, não é um termo que usamos mui- to. A partir do momento que nós in- corporamos essa nova classificação que começou nos Estados Unidos, e que hoje a Organização Mundial da Saúde reconhece, começamos a tra- balhar a idéia de transtorno no nosso país. Sempre trabalhamos a idéia de doenças. O transtorno é o meio do caminho, ou seja, a pessoa tem um traço, e esse traço promove sofrimen- to, e esse sofrimento compromete a pessoa. Transtorno é alguma coisa que aconteceu no desenvolvimento daquela criança que não alcançou ou que alcançou de forma diferente e es- tá comprometendo a vida dela. No caso dos autistas, sabemos que não compromete só a vida deles, mas também compromete a da família e a da escola. A outra palavra que é inva- sivo. Invasivo é uma tradução da pa- lavra inglesa pervase, menos usada por nós ainda e que nos dá a idéia de vazio. A melhor tradução talvez fosse infiltrativo. É alguma coisa que acon- tece no desenvolvimento que aos poucos vai se infiltrando no psiquis- mo e no funcionamento. Essa palavra em inglês tem uma função diferente da tradução brasileira. Invasivo tem uma idéia de coisa agressiva e essa idéia não é verdadeira. O termo per- vase diz respeito a uma coisa infiltrati- va que vai aumentando aos pouqui- nhos e vai crescendo no sujeito. No começo, a criança não consegue olhar a mãe e depois não consegue falar com as pessoas. É muito mais complexo. Chegamos a última pala- vra que é o desenvolvimento. Temos uma seqüência de desenvolvimento humano. Primeiro fazemos uma coi- sa e depois fazemos outra. Primeiro balbuciamos, depois começamos a articular os sons mais complexos, co- meçamos a organizar palavras e, en- tão, frases. Esse é o desenvolvimen- to da linguagem. Socialmente, come- çamos a trocar olhares com o mun- do, ficamos atentos aos olhares dos outros no mundo e, depois, lança- mos as nossas olhadas. Desta forma, o desenvolvimento vai por etapas. Nas crianças com autismo, observa- mos, claramente, um comprometi- mento neste desenvolvimento que pode ter esferas muito específicas ou podem ser globais. 4. Revista Inclusão - Por falar no termo global, por que existe, tam- bém, a expressão Transtornos Glo- bais do Desenvolvimento? José Belisário - A palavra global foi uma das primeiras traduções para a palavra inglesa pervase. Invasivo e global são traduções para a palavra inglesa pervase. A primeira palavra foi global feita por uma pessoa que traduziu do Manual de Classificação Americana de Doenças. Depois houve uma revisão e foi traduzido para invasivo. 5. Revista Inclusão - Você conside- ra importante ter uma classificação para as pessoas com autismo? Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 5
  • 6.
    José Belisário -A classificação é para facilitar a nossa vida e não pa- ra dificultar. A idéia de classificar não significa dividirmos os normais dos patológicos. O que queremos com a classificação é ter uma diretriz para a pesquisa. Então, eu quero pesqui- sar autismo: como vou agrupar isto? Quais os autistas da minha pesqui- sa? Quando publicamos um artigo sobre uma pesquisa com autismo em uma revista holandesa, cana- dense ou angolana, vamos entender do que estamos falando? A lingua- gem em comum é fundamental para falarmos da mesma coisa. Desta for- ma, a idéia em português do invasi- vo foi de transformar isso numa pa- lavra para todo mundo, então, tem a primeira tradução que é o global e, hoje em dia, todo mundo usa o inva- sivo que acabou ficando oficial. Es- sas classificações são dinâmicas. Está todo mundo esperando a nova classificação americana. Os ameri- canos fazem classificação desde o século XIX. O Manual Diagnóstico Americano, de tempos em tempos, é revisado por um grupo grande de pesquisadores para tentar adequar a classificação. Com relação ao au- tismo, temos um transtorno do gru- po dos transtornos invasivos do de- senvolvimento, Neste grande agru- pamento, temos a síndrome de Rett como uma doença neurodegenerati- va que acomete, principalmente, nas meninas, mas hoje em dia está começando a descobrir algumas di- ferenças com Rett em relação aos meninos e que está nesse grupo pa- ra mostrar que as síndromes têm fundo biológico. A síndrome de Rett, dentro dos transtornos invasivos, es- tá, claramente, marcada pelo desen- volvimento que é quebrado de re- pente. O desenvolvimento do pró- prio crescimento da calota craniana que acontece, como também o comprometimento motor em uma série de áreas. 6. Revista Inclusão - Desta forma, a Síndrome de Rett, como outros grupos, pertence aos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento em função desta quebra no desenvol- vimento. Quais outros grupos fa- zem parte destes Transtornos porque tem uma quebra no de- senvolvimento? José Belisário - A síndrome de Rett, o autismo, a síndrome de Asperger, o Transtorno Desintegrativo da Infância e o Transtorno Invasivo do Desenvol- vimento sem Outra Especificação (TID SOE) têm, em comum, a quebra do desenvolvimento. Então, em caso de síndrome de Rett, a menina está se desenvolvendo muito bem e che- ga aos 7, 8 anos e começa a ter cri- ses convulsivas; o crescimento da calota craniana não acompanha o seu crescimento e uma série de com- prometimentos motores que seria uma ponta mais biológica. De outro lado do espectro, se fossemos pen- sar como tudo isso sendo um grande espectro, temos as psicoses que passam a ser chamadas de transtor- no desintegrativo da infância porque o termo psicose traz uma carga mui- to grande para os pais que se sentem culpados pelo desenvolvimento da psicose. A idéia, hoje, não é essa. No grupo das psicoses, entram as esqui- zofrenias de início precoce que são quadros muito complexos. Mas o que eles têm em comum? São qua- dros em que a criança vem se desen- volvendo normalmente e ela tem uma quebra no seu desenvolvimento. Ela perde a fala, passa a não utilizar a fa- la de uma forma pragmática que é di- ferente, por exemplo, de uma criança autista clássica que não desenvolveu esse processo em momento nenhum do seu desenvolvimento, a quebra é mais inicial. Assim, no grupo dos transtornos invasivos do desenvolvi- mento temos vários tipos de síndro- mes, várias alterações diferentes, mas o que elas têm em comum são as alterações no desenvolvimento das crianças. 7. Revista Inclusão - Você mencio- nou o Transtorno Invasivo do De- senvolvimento sem Outra Especifi- cação (TID SOE). O que significa? José Belisário - Pensamos, inicial- mente, que foi uma categoria criada já que não conseguimos classificar aqui classificamos lá. O que estamos percebendo é que, as vezes, este grupo é muito mais importante. Quando usamos critérios mais rígi- dos de diagnóstico, a tendência des- te grupo é de aumentar. Quando fize- mos a classificação dos transtornos invasivos do desenvolvimento e es- pecificamos, dentro de cada quadro, isto é Rett, isto é autismo, isto é sín- drome de Asperger, isto é o que seri- am as psicoses, temos, também, os grupos não especificados. Esses grupos, à medida que o desenvolvi- mento da genética cresce, começam a ser elucidados. Dentro dos tran- stornos invasivos do desenvolvimen- to, temos outros quadros de altera- ções genéticas raríssimas e que são classificados como autismo e que, antigamente, não tínhamos diagnós- tico nenhum. 8. Revista Inclusão - O que seria um quadro clássico de autismo? José Belisário - É aquela criança que, no berço, já não troca olhar com a sua mãe. As mães se queixam que colocá-la no colo é diferente. A crian- ça não sente a acolhida corporal, ou seja, não tem uma interação bem precoce nesse desenvolvimento so- cial na relação com a mãe. À medida que ela vai se desenvolvendo, apare- cem as estereotipias motoras e a difi- culdade do relacionamento dela com as questões sociais. A fala dela até os cinco anos, provavelmente, não se Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 20106 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 6
  • 7.
    desenvolve. Esta éuma criança do grupo de autismo clássico. O grupo de autismo clássico nem sempre re- presenta, no grupo dos transtornos invasivos do desenvolvimento, a grande maioria. Os outros transtor- nos associados como Asperger e TID - sem outra especificação, também, têm uma incidência alta. À medida que a classificação abriu, se pensar- mos nas três características que cita- mos anteriormente, vamos ter uma incidência bem mais alta de autismos que é a grande discussão que se faz hoje. Tem uma epidemia de autismo hoje ou não? Existem pesquisas que têm demonstrado que não. O dado que temos é que os critérios classifi- catórios foram alargados e um grupo grande de crianças que não eram vis- tas como autistas passaram a procu- rar médico, passaram a procurar o sistema de saúde e passaram a ser diagnosticadas. Seria um número de crianças que não desenvolvem a fala, têm um atraso na motricidade fina, uma fala mais estereotipada, uma es- tereotipia em um tipo de brinquedo de só gostar de um tipo de coisa. Es- se grupo que passava despercebido passou a ser diagnosticado como autismo. Tem um caso interessante de uma criança que foi diagnosticada como autista nos Estados Unidos, a mãe é brasileira e me procurou por- que duvidou do diagnóstico do filho pelos médicos americanos. À medi- da que fui fazendo a entrevista, e que fui descrevendo as questões de au- tismo, o marido dela, que é um pes- quisador sênior de informática e que foi dar entrevista sobre o filho, reco- nhece-se como autista e descreve a história dele como síndrome de As- perger. A mulher dele me disse que, no primeiro dia que expliquei para ela sobre o autismo, pensou que o mari- do, claramente, era uma pessoa au- tista mas que não teve coragem de falar. Não fiz o diagnóstico dele por- que meu paciente era o seu filho, mas ele tinha várias características que fechavam com o quadro de au- tismo, por exemplo, ele só começou a falar com seis anos de idade. 9. Revista Inclusão - Existem vários artigos que citam o Bill Gates como autista. O que você pensa sobre o assunto? José Belisário - É uma discussão. Ele fez um tratamento, isso é público, na infância com psiquiatra infantil. Ele admite que fez tratamento e que ti- nha muitas dificuldades sociais. As dificuldades sociais têm de ser o nos- so foco hoje porque quando a gente pensa nos autistas, durante muitos anos, o primeiro foco era a mãe gela- deira. Que as crianças autistas eram filhas da mãe geladeira que não con- seguiam trocar afeto com eles e eles não desenvolviam. Isso caiu por terra há muito tempo. Hoje, qualquer es- tratégia relacionada à criança autista deve ser voltada ao social dela. Exis- te uma idéia que as crianças autistas não devem ir para a escola comum porque não suportam o social. Vou contar um caso para ficar mais claro. Um paciente autista, em Belo Hori- zonte, tinha uma dificuldade muito grande com sons externos. Os pais construíram um quarto com isola- mento acústico para ele ficar mais tranqüilo, porque qualquer barulho diferente ele se desorganizava muito. Essa criança, por uma questão de educação, foi para a escola, sendo que nem a escola especial ela supor- tava. Então, imagina um menino com uma dificuldade de lidar com sons e vai para uma escola de meninos de 6 e 7 anos que é barulho total. Esse menino, em menos de um mês, esta- va freqüentando o recreio com os seus colegas. Lógico que não foi fácil no começo, lógico que todos os grandes especialistas avaliaram a di- ficuldade dele com o som, mas não avaliaram isso dentro do social. 10. Revista Inclusão - Desta forma, segundo o seu exemplo, há a pos- sibilidade de mudanças de com- portamentos sociais? José Belisário - Do meu ponto de vista, os ambientes sociais são as grandes possibilidades e, se existe alguma modificação para essas cri- anças e para as famílias, é a partir daí. Nada justifica o sofrimento de uma família fechada dentro de casa, vendo o seu filho cada vez mais iso- lado dentro do quarto. Daí você que- bra isso e em um mês esse menino tem colega, tem escola, a mãe pode sair para trabalhar. A vida desse pes- soal se modifica. É outra dinâmica e ele entra em outra dinâmica, porque saímos da dinâmica da doença para a dinâmica das possibilidades que aquele sujeito pode construir. As grandes possibilidades para o autis- mo são os ambientes sociais porque o grande comprometimento dele é em relação ao social. Se o isolamos, reforçamos este comportamento. 11. Revista Inclusão - Se os agru- pamos entre os iguais, em uma mesma sala de uma escola especi- al, eles repetem comportamentos estereotipados porque este é o so- cial que vivem no cotidiano? José Belisário - Você tocou num ponto muito importante. As estereo- tipias são muito freqüentes nestes grupos. Eu já escutei de várias mães de pacientes autistas que o filho de- la aprendeu na escola especial ma- nias que ele não tinha. Eu cheguei a pensar que as mães estavam malu- cas porque as manias fazem parte das características dos autistas. Pre- ciso pedir desculpas para estas mã- es. À medida que, hoje em dia, eu tenho mais crianças autistas na es- cola comum, mais eu vejo a mudan- ça impressionante no grupo dessas crianças. Diminuem os maneiris- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 7 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 7
  • 8.
    mos, e elesnão copiam os maneiris- mos dos outros. Porque criança, se- ja ela autista ou não, está com a mente pronta para copiar. Ela copia o nosso comportamento. As crian- ças têm essa capacidade muito grande, o cérebro é feito para obser- var e copiar. Claro que isso não quer dizer que todas vão copiar tudo. En- tão, os ambientes sociais são muito importantes. Existe um grupo gran- de de especialistas que sugere que os autistas tenham um atendimento especializado. Quando pensamos numa criança autista na escola, não estamos excluindo que ela tenha atendimento educacional especiali- zado. Como toda criança autista vê seus irmãos, primos e vizinhos irem para a escola, para eles não irem para a escola é uma forma de com- prometer o desenvolvimento social deles. Isso não exclui, de forma al- guma, que tem crianças autistas que vão precisar de metodologias espe- cíficas para poder desenvolver cer- tas áreas. Aliás, é muito freqüente ver isso. Acho que não podemos pensar mais as crianças autistas num mundo isolado. Então, vamos criar uma série de habilidades na- quele jovem, mas ele não vai saber utilizá-las socialmente. 12. Revista Inclusão - Você defen- de que as crianças autistas este- jam na escola comum porque ali elas desenvolvem a parte social da mesma forma que você não exclui o atendimento as suas necessida- des específicas. Esse atendimento é de ordem clínica ou pedagógica? José Belisário - É uma questão de- licada porque cada um é diferente. Vamos pensar as peculiaridades de todas as crianças. Tem criança que vai precisar dos dois tipos, tanto o pedagógico quanto o clínico. O que vemos, por exemplo, é que quando uma criança faz dois atendimentos clínicos por semana, mas não vai à escola, ela utiliza muito menos isso. Então, devemos pensar que não existe um guideline para todos os autistas. Cada autista vai ter um ti- po de atendimento que depende dos recursos de sua cidade. Não dá para pensar que existe uma téc- nica ou um profissional especialista numa cidade do interior de São Paulo e toda criança autista tem que passar por ele. Devemos pen- sar quais são as estratégias possí- veis de atendimento para uma cri- ança naquela comunidade. Por exemplo, uma criança que necessi- ta de terapia ocupacional para me- lhorar a organização motora, mas na cidade não existe ninguém que possa fazer isso por ela e os pais não têm recursos para viajar para a cidade mais próxima. Então, um profissional desta cidade pode se formar no sentido de ajudá-la, às vezes uma fonoaudióloga que tra- balharia mais a fala, mas acaba tra- balhando a organização corporal que vai também ajudá-la na fala. 13. Revista Inclusão - O atendimen- to, então, é personalizado? José Belisário - É personalizado. O atendimento é um território indivi- dual. Pensar o social como um todo. Pensar que a criança autista deve fre- qüentar os ambientes sociais que seus próximos freqüentam é uma coisa. Daí, a dizer que toda criança autista tem que freqüentar fonoaudió- logo, tem que freqüentar terapeuta ocupacional não pode. 14. Revista Inclusão - Então, o atendimento não pode ser univer- salizado? José Belisário - Toda criança autista vai tomar remédio? Não, mas algu- mas crianças autistas vão se organi- zar muito mais tomando remédio. 15. Revista Inclusão - Adianta ter somente o atendimento clínico, co- mo por exemplo, ter um atendi- mento com fonoaudióloga para melhorar a sua fala e não ter com quem falar? José Belisário - Essa é a questão. Vemos crianças anos e anos com uma fonoaudióloga excelente e não tem com quem trocar. Por exemplo, as crianças autistas têm uma peculia- ridade que, quando se sentem pres- sionadas socialmente, elas param. Aquela criança aprendendo a colocar a língua no lugar certo, aprendendo com a fonoaudióloga, ela não utiliza isso porque ela tem dificuldade com aquele adulto que está perto dela. Ela se sente pressionada por ele. O adulto quer resultado. Então, essa criança vai conseguir, muitas vezes, usar tudo o que ela aprendeu com a fonoaudióloga, brincando com os co- legas. Essa série de coisas que fa- zem parte da técnica para ajudar a organização de fala ele vai usar brin- cando. Daí vão aparecer falas, comu- nicações entre as crianças. Essa co- municação é tudo o que precisamos e que se garante na convivência com os colegas. 16. Revista Inclusão - Como você avalia a inclusão de crianças e jo- vens com autismo na escola co- mum brasileira? A escola comum garante o desenvolvimento, a troca e dá sentido as coisas na interação com os demais? José Belisário - Tem uma coisa mui- to arrojada que tenho visto com as crianças autistas. Nós, teóricos, pen- samos que a escola pública é impor- tante no nosso país. É uma fala gene- ralizada. Na classe média, as crian- ças, muito raramente, vão para as es- colas púbicas e o que acontece, de mais grave no nosso país, é que a es- cola pública fica parecendo castigo. Inclusão: R. 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    O que osautistas têm mostrado para nós, pelo menos na minha experiên- cia, é que eles se dão muito melhor no sistema público. Porque alguns sistemas públicos são mais abertos às mudanças do que os sistemas pri- vados, onde as pessoas são formata- das para passar no vestibular. Então, não tem jeito de formatar um autista para o vestibular. Ele até pode fazer um vestibular e passar, mas ele não vai cair neste grande engodo que é o vestibular. Tenho visto uma experiên- cia muito interessante de crianças que passaram por boas escolas par- ticulares no processo de inclusão e a escola não conseguiu ter jogo de cin- tura para lidar com elas e que vão pa- ra uma escola pública e funcionam fantasticamente. 17. Revista Inclusão - Podemos di- zer, então, que já temos experiên- cias bem sucedidas de inclusão escolar de alunos com autismo? José Belisário - Podemos falar dis- so. No entanto, existem poucos estu- dos quantitativos. As variáveis são muito amplas. Do ponto de vista quantitativo, é difícil agrupar as crian- ças autistas e fazer uma pesquisa porque os sistemas de ensino, nem todos, dão certo. Então, temos, por exemplo, um grupo funcionando em São José do Rio Preto e outro que não funciona em Ribeirão Preto. É di- fícil agrupar e quando vamos fazer uma avaliação qualitativa encontra- mos os casos, mas o número de va- riáveis, também, aumenta muito. A vi- são qualitativa faz com que você en- xergue muitas outras variáveis no processo de inclusão. É difícil ter uma pesquisa comprovando que fun- ciona. No entanto, acho engraçado quando as pessoas perguntam se a inclusão dá certo porque ninguém foi investigar se a escola especial funcio- nava. Eu nunca vi pesquisa falando que a escola especial é boa para au- tista. Todo mundo cobra as nossas pesquisas provando que a inclusão funciona, mas vamos ver o outro lado também. Quem provou que a exclu- são funciona? Quais são as pesqui- sas que sustentam a segregação? Do meu ponto de vista, estou muito satisfeito com o que eu tenho visto de inclusão desse grupo de pacientes. Importante dizer que várias crianças com autismo, incluídas na Rede Mu- nicipal de Ensino de Belo Horizonte, fizeram a Prova Brasil, e várias tive- ram média acima da média da esco- la, mostrando que elas não estão na escola somente para aprender a se relacionar socialmente, como tam- bém o conteúdo da aprendizagem delas está acontecendo. 18. Revista Inclusão - Como você entende a aprendizagem das crian- ças autistas? José Belisário - Elas aprendem. O problema é que não adianta querer fazer prova de tudo. As crianças au- tistas têm uma peculiaridade. Primei- ro, elas são feitas para sobreviverem e não dão bobeira. Elas estão em alerta constante e têm um instinto de sobrevivência muito forte. Até pode- mos pensar que é um instinto de vi- da. Elas não fazem bobagem. Então, virar para uma criança e dizer que ela tem que estudar naquela escola por- que ela vai passar no vestibular não funciona para uma criança autista. Não faz sentido para ela. Mas, ela es- tá naquela escola e quer aprender geografia porque no computador ela sabe mexer, já visitou o Google e sa- be conhecer o mundo. Então, ela vai estudar geografia porque é um as- sunto próximo dela. Não estamos fa- lando de meninos ricos, mas de alu- nos de escola pública que conhecem o Google sim. Hoje em dia as crian- ças têm acesso. Quanto mais social- mente é vivido o aprendizado, mais ele funciona. Quanto mais ele é de ci- ma para baixo, mais difícil é. Nos pro- cessos de aprendizagem existem pe- culiaridades. Eu vejo que para as cri- anças autistas as pessoas passam quatro anos pegando na mão delas para escreverem as letras ou então para ensinar a fazer a letra cursiva. Nem um adulto escreve com letra cursiva direito. Exceto a letra da pro- fessora, nenhuma letra é cursiva. To- do mundo acaba elaborando um tipo de escrita. E eles percebem isso. Por um outro lado, eles sabem se comu- nicar muito bem com as letras de cai- xa alta. As pessoas gastam três anos ensinando a fazer voltinha e não pre- cisa perder tempo com isso. É lógico que às vezes ele vai precisar disso para assinar um documento na hora de fazer suas coisas e aí vai se treinar isso, mas gastar três anos da infância de uma criança treinando a fazer vol- tinhas nos pontinhos, ele não vai pa- rar para isso, ele vai perder a paciên- cia no meio do processo. 19. Revista Inclusão - Ainda na perspectiva da aprendizagem, existem autistas de baixo rendi- mento e de alto rendimento? José Belisário - Não existem. Por que não? Quando falamos de alto e baixo rendimento, estamos falando de autista deficiente mental com ca- racterísticas autistas. Na nova classi- ficação de deficiência mental temos que levar em conta os recursos co- munitários que são oferecidos àque- la pessoa. À medida que começa- mos a ver os recursos que são ofere- cidos a uma criança autista, começa- mos a perceber que um grupo muito grande que era tido como deficiente mental grave, que só ficava batendo a mão porque não conseguia esta- belecer nenhuma comunicação soci- al, e depois que apareceu o compu- tador na casa do vizinho ensinou o vizinho a mexer com o mouse, en- tão, mudou radicalmente a catego- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 9 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 9
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    ria. O meninoque ia babando no consultório do médico, fazendo os flaps de mão e a família não conse- guia mais nada dele, de repente des- cobriu a possibilidade. Antes de fa- zer o diagnóstico, nós médicos te- mos que ter esse cuidado, a defici- ência mental é quase um diagnósti- co de exclusão, principalmente na esfera pouquíssimos profissionais no nosso país conseguem fazer uma testagem adequada para avaliar se tem deficiência mental ou não no au- tismo. Geralmente, isso é feito no ol- hometro o que é muito grave porque as pessoas acreditam naquele olho- metro, definem que aquele sujeito não vai para a escola porque ele é um deficiente mental, definem que ele não vai conviver socialmente por- que ele é um autista e você compro- mete a vida desse sujeito e da famí- lia. Temos de ter muito cuidado sem- pre que o território é de discutir as deficiências mentais. Nós temos que nos posicionar, lembrando sempre que as deficiências dependem dos recursos que são ofertados para aquele sujeito. 20. Revista Inclusão - Desta forma, por que a criança com síndrome de Asperger é considerada como tendo um alto rendimento? Por que isso está no imaginário das pessoas? E como podemos dife- renciar uma criança com autismo clássico de uma criança com sín- drome de Asperger? José Belisário - Geralmente, a pes- soa com Asperger desenvolve a lin- guagem mais precocemente, então, isso já nos ajuda a diferenciar um do outro. Ele vai estereotipar o conheci- mento, ou seja, vai ter uma área do conhecimento muito grande que é estudar todo um catálogo telefônico da cidade de São Paulo, por exem- plo. Existem crianças que vão desen- volver uma área específica e vão se desenvolver dentro daquela área, mas isso era uma forma de valorizá- las. Olhe ele sabe isso, ele não sabe jogar bola, mas ele sabe o catálogo inteiro, mas ninguém vai perguntar para ninguém qual é o nome que es- tá no catálogo, mas com toda certe- za saber que o São Paulo ganhou no final de semana é mais importante do que saber um catálogo. Então, em ci- ma disso foi construída essa imagem de que as pessoas com Aspergers são extremamente inteligentes. Co- mo eles têm uma área de conheci- mento exacerbada, parece que isso é um sinal de inteligência, mas sabe- mos que isso não é inteligência. É uma habilidade. 21. Revista Inclusão - Então, uma ha- bilidade não significa inteligência? José Belisário - Não, de forma al- guma. Cada ser humano tem a sua própria habilidade, a sua forma de se organizar. Existem pessoas que não têm memória nenhuma e pes- soas que têm uma memória exce- lente para coisas recentes, por exemplo, ou para coisas antigas. Cada um vai ter a sua peculiaridade, sua forma de organizar o ser. Daí acontece uma coisa triste com eles, eles são segregados porque são al- tamente hábeis numa coisa. Essa habilidade não serviu para inseri-los socialmente, serviu para apontar a diferença deles. Aí que está o ponto que devemos tomar cuidado, quan- to mais ficamos apontando as dife- renças que são óbvias, menos va- mos construir uma prática social pa- ra estas pessoas, uma inserção so- cial para eles. 22. Revista Inclusão - Você conse- guiria definir o atendimento educa- cional especializado para uma cri- ança com autismo? Existe um atendimento ou é algo a ser pensa- do e definido? José Belisário - Isso vai depender de cada caso. Existe, por exemplo, uma técnica especial para trabalhar com crianças com autismo que é o Teach. É uma técnica que foi construída para crianças autistas que ajuda na sua or- ganização. Algumas crianças se favo- recem com esta técnica. É uma técni- ca muito bem estabelecida, muito or- ganizada, de certa forma até um pou- co rígida. É uma técnica que, quando você a tem disponível, ela pode estar funcionando, mas eu não posso dizer que tem que ter uma sala de Teach to- da escola brasileira. Agora, existem algumas características muito fre- qüentes neste grupo, há um tempo de persistência no atendimento edu- cacional especializado que pode mo- dificar em relação a escola, as altera- ções motoras que nesse grupo é mui- to freqüente, tem técnicas específicas para isso. Eu acho que os atendimen- tos pedagógicos vão ter que ser pen- sados no individual de cada sujeito e, algumas coisas, talvez, pensadas no grupo maior. 23. Revista Inclusão - Na Política de Educação Especial na Perspec- tiva da Educação Inclusiva, o aten- dimento educacional especializa- do não substitui a sala de aula co- mum, ou seja, o aluno com autis- mo, por exemplo, vai estar na sala de aula comum tendo acesso a es- colarização que é comum a todos. Neste sentido, o AEE, na perspec- tiva inclusiva, é tudo o que é dife- rente da sala de aula comum, mas que vai auxiliar o aluno com autis- mo a acessar ou a lidar melhor com tudo o que se passa na sala de aula comum, ou seja, com o co- nhecimento. Sendo assim, você acredita que existe o atendimento educacional especializado para o aluno com autismo? José Belisário - É difícil a pergunta porque serão duas posturas dife- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 201010 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 10
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    rentes. Eu sempreacredito que os professores dão conta dessas crian- ças em sala de aula desde que se ofertem os recursos para a sala de aula. Vou contar um caso rápido. Recentemente, foi incluído um paci- ente meu com autismo que vinha de anos de escola especial e os pais resolveram incluí-lo em uma escola religiosa de seu bairro, ligada ao pastor, uma escola pequena de um pequeno núcleo religioso. Eu, inici- almente, fiquei muito preocupado. Uma escola que nunca tinha tido uma experiência, ele é um autista grande, para azar dele ele tem um percentil 90 de crescimento, ele é muito grande, ele foi aceito nesta escola e a professora que o acolheu era uma professora que tinha uma turma muito bagunceira e que era a alfabetizadora da escola. Ele já ti- nha 9 para 10 anos, mas foi a sala que eles escolheram para colocá-lo, ele não sabia escrever, mas eu não vou discutir isso. O que é mais im- portante é que três meses nesta sa- la de aula, sem nenhum atendimen- to educacional especializado, essa professora e os colegas dele cria- ram uma metodologia para o alfabe- tizarem. Eu vi no meu ambulatório da universidade. Três meses a pro- fessora construiu umas cartas, os colegas desenharam as cartas e ele já estava juntando as letras. Três meses de escola, para um menino que já tinha passado por vários re- cursos especializados, mas o que ele não tinha passado ainda? Por uma professora com a sua turma. Esse ambiente social constrói coi- sas muito mais importantes. 24. Revista Inclusão - Desta for- ma, o que você está dizendo? É possível ser atendida as especifi- cidades de uma criança autista, ela dar sentido para o conheci- mento, dependendo da dinâmica de sala de aula? José Belisário - É, preferencialmen- te, na sala de aula. Senão eu estarei demitindo milhões de técnicos espe- cializados e colocando os professo- res no lugar e não é isso. Temos que privilegiar a questão da sala de aula. Esse é o ponto. Aliás, vou tocar em outro ponto que eu acho muito deli- cado também. A maioria das esco- las quando recebe uma criança au- tista, principalmente aquelas que têm muitas estereotipias motoras e que chamam muita atenção, daque- las que batem na carteira, eles geral- mente tendem, tanto no serviço pú- blico quanto no privado, a pedir acompanhantes para a criança em sala de aula e esse acompanhante em sala de aula é um ponto muito delicado. Por quê? Se o acompa- nhante é muito eficiente e está sem- pre do lado da criança, é péssimo. Porque ela perde aquele espaço de bater nos colegas, de trombar, de cair, que acontece com toda criança na escola. As crianças correm, ca- em, trombam, levantam, mas quan- do tem o acompanhante do lado, aquela criança fica cheia de cuida- dos em volta dela. Então, esses acompanhantes nunca podem re- presentar integralmente o convívio social da criança. 25. Revista Inclusão - Então, me- lhor não ter os acompanhantes? José Belisário - Eu gostaria muito de não tê-los, mas algumas professoras ficam muito angustiadas com a falta da presença deles. Para incluir, às ve- zes, é uma estratégia que não pode ser para sempre, tem que ser tempo- rária. Porque uma criança autista é feita para sobreviver, se ela percebe que ela sobrevive melhor com aque- la mão que está ao lado dela fazendo as coisas para ela, ela vai usar a mão daquela pessoa. Agora, a mão de um coleguinha ela não vai poder usar porque o coleguinha perde a paciên- cia. Os colegas tratam naturalmente as crianças, depois de um tempo de convívio eles incorporam e tratam muito naturalmente. As crianças aprendem esses jogos sociais muito mais rapidamente do que a gente imagina. Na verdade, o que acontece é que a professora tinha de ter um auxiliar na sala, porque não é só o menino com autismo que precisa, tem um tanto de meninos voando no fundo da sala que não copiam as coi- sas, que não estão acompanhando. Estes todos precisariam de uma auxi- liar no seu dia a dia, mas as pessoas pedem para o aluno autista porque ele tem uma alteração de comporta- mento. Eu tenho uma paciente autis- ta que adorava rasgar mapas, todos os mapas da escola ela rasgava. Daí arrumaram uma acompanhante para ela para não rasgar os mapas da es- cola. Nunca ninguém parou para dis- cutir com ela o que é um mapa, tra- balhar os mapas. É bom voltar a lem- brar que a escola religiosa que acei- tou o menino autista, a turma que era a turma bagunceira da escola virou a turma calma porque eles sentiram que não estavam lá só para fazer ba- gunça, estavam lá, também, para aju- dar o colega. Então, eles se organiza- ram de uma forma muito melhor. É muito interessante esta história de que o grupo de crianças se ajusta nos processos de inclusão. A tendên- cia, por exemplo, com toda razão, 90% de mães de crianças autistas que vão levar o filho para a escola fi- cam apavoradas porque o filho delas dá trabalho desde que nasceu, ela tem uma série de coisas especiais que tem que montar para ele e aí ela pensa, como uma escola pública vai dar conta de fazer tudo o que eu fa- ço, mas o que acontece é que a es- cola pública não precisa fazer tudo o que eu ou ela faz. Esta é a grande quebra, que aquela proteção toda que num certo ambiente é necessá- rio em outro é diferente. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 4-11, jan/jul. 2010 11 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 11
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    O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADONA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Entre as inúmeras contribuições oferecidas pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Edu- cação Inclusiva, visando à orientação das redes de en- sino a definir uma nova proposta de trabalho dessa mo- dalidade, há que se destacar a apresentação e a clarifi- cação do atendimento educacional especializado - AEE. Além de constituir a grande novidade dessa Política, o AEE não restringe seus objetivos à Educação Espe- cial. Quando devidamente interpretado e oferecido nas escolas comuns, esse Atendimento pode provo- car as tão esperadas mudanças no ensino comum para que possa atender às exigências de uma educa- ção para todos. Palavras-chave: Diferenças; Identidade; Atendimento Educacional Especializado; Inclusão escolar. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 201012 12 DESTAQUE NACIONAL O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO NA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Maria Teresa Eglér Mantoan tmantoan@unicamp.br A identidade joga pelas pontas; a diferença, pelo meio. Silva, 2002 1 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade (LEPED) do Departamento de Educação da Unicamp; autora de várias obras com o tema inclusão; professora da Graduação e do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação - Unicamp. Resumo Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 12
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    Among the countlesscontributions offered by the Natio- nal Policy of Special Education in the Inclusive Educati- on Perspective, which aims at counseling the educatio- nal system to define a new working approach in this area, one should emphasize the presentation and clarifi- cation of atendimento educacional especializado - AEE (Specialized Educational Attendance). Besides being the great novelty of this Policy, AEE does not restrict its objectives to Special Education. When this attendance is properly understood and offered in common schools, it brings about the so desirable changes in ordinary tea- ching, which will make it keep up with the demands of an education meant for all. Key words: Differences; Identity; Specialized Educatio- nal Attendance; Educational inclusion. Introdução O movimento em favor da inclu- são escolar não seria uma novidade se continuasse reduzindo a diferen- ça à identidade. O propósito desse movimento não é identificar e legiti- mar as diferenças, defendendo-as a partir de códigos, avaliações, hierar- quizações, categorizações, que de- sencadeiam a segregação e a cria- ção de grupos marcados por uma identidade. A inclusão se apóia na idéia de que somos iguais, porque diferimos uns dos outros e de que a diferença se diferencia infinitamente. Em uma palavra, a escola inclusi- va assegura a igualdade entre alu- nos diferentes, e este posicionamen- to lhes garante o direito à diferença na igualdade de direito à educação. Os caminhos percorridos pela educação brasileira para concretizar seu projeto inclusivo tem esbarrado em equívocos conceituais, que difi- cultam a reorganização pedagógica das escolas para atender às exigên- cias que as diferenças lhes impõem. Os avanços da escola brasileira nessa direção têm acontecido muito lentamente, e o número crescente de alunos outrora excluídos das turmas do ensino comum (notadamente os alunos com deficiência) são uma pro- vocação constante nesse sentido. É até certo ponto compreensível a resistência das escolas à inclusão plena e incondicional, dada a nossa inexperiência com as diferenças, que nos faz reduzi-las a identidades fixa- das: alunos com deficiência mental, alunos em situação de risco social, alunos da periferia, com altas habili- dades e outros. Os grupos que reivindicam uma identidade específica e os que exi- gem a transposição de fronteiras identitárias, por não terem uma per- tença definida e considerarem que [...] a diferença é sempre um devir (SILVA, 2002) criam um campo de tensão nos espaços educacionais comuns e especializados, que ora expressa o poder da universalização sobre as diferenças, ora o inverte. Essa instabilidade dos sentidos da diferença afeta o discurso e as práti- cas escolares. Os movimentos em favor da ex- clusão total e os que defendem a normalização/integração, ou seja, a inclusão parcial, reduzem as diferen- ças a identidades e apregoam a ma- nutenção de escolas e classe espe- ciais em que os alunos são agrupa- dos por um atributo que os iguala. Nas escolas inclusivas, a diferen- ça é um desafio constante à fixação das identidades e constitui o verda- deiro sentido da própria identidade (SCOTT, 1988). Nessas escolas, a di- ferença não está associada a anor- malidades, a desigualdades, a opo- sições binárias: o aluno normal, co- mum, padrão e o aluno com defici- ência, o sadio e o doente, o normal e o anormal, que sustentam o elitismo, a meritocracia, a competitividade, fontes de desigualdades sociais e de exclusão nas escolas e da coletivida- de em geral (FOREST & PEARPO- INT, 1992; DESSENT, 1987). A constitucionalidade da educa- ção inclusiva é um fato no Brasil, desde 1988. Adotar essa inovação trazida pelo direito incondicional de todos os alunos ao acesso e ao prosseguimento da escolaridade em turmas comuns exige a quebra de modelos organizacionais conserva- dores de uma organização escolar conservadora e as mobiliza. Envolve não apenas o desejo de mudar, mas a realização dessa mudança e um envolvimento dos sistemas de ensi- no, inspirados por teorias, e nortea- dos por políticas exeqüíveis e clara- mente formuladas. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educa- ção Inclusiva constitui uma grande força alavancada pela educação bra- sileira, em favor da inclusão. Ao rom- per com a possibilidade de a Educa- ção Especial substituir a escola co- mum, o documento sinaliza a abertu- ra de novos horizontes educacio- nais. O norte inclusivo da Política tor- na a Educação Especial uma moda- lidade presente em todos os níveis e demais modalidades de ensino, complementando a formação dos alunos, sem, contudo, confundir-se com o que é específico do processo Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 2010 13 Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 13
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    de escolarização comum. Emsua nova perspectiva, a edu- cação inclusiva, a Educação Especi- al se entranha nos sistemas escola- res, articula-se com eles e celebra a diferença múltipla, a diferença dentro das diferenças, sem ceder aos que se recusam a participar da mesma celebração! Desfazem-se, então, dis- torções que destituíram a Educação Especial de seu lugar próprio. Ao definir seu público alvo: alu- nos com deficiência, transtornos glo- bais de desenvolvimento e com altas habilidades, a Política delimita a atu- ação e competências da Educação Especial e recupera seu verdadeiro papel, descaracterizado pelo atendi- mento indiscriminado de alunos que a escola comum exclui pelos mais variados motivos. Seus professores deixam, entre outras atividades des- focadas de suas atribuições, de fazer reforço escolar para alunos com difi- culdades de aprendizagem, e adqui- rem um estatuto profissional definido e compatível com o que a Política en- tende como caráter complementar do ensino especial. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educa- ção Inclusiva traçou seus objetivos tendo em vista reafirmar esse novo lugar da Educação Especial nos sis- temas de ensino. Nesse sentido, ela é incisiva e esclarecedora, desta- cando seu mote de contribuir para a transformação das relações com as diferenças, cultivadas na escola e fora dela, relações estas que são imprescindíveis para que o ensino comum reconheça a necessidade de refazer suas práticas e de re- construir-se sob os princípios e va- lores da inclusão. Dentre as novidades lançadas pela Política destaca-se o Atendi- mento Educacional Especializado - AEE, o qual é um serviço da Educa- ção Especial que "[...] identifica, ela- bora e organiza recursos pedagógi- cos e de acessibilidade, que elimi- nem as barreiras para a plena partici- pação dos alunos, considerando su- as necessidades específicas" (SE- ESP/MEC, 2008). O AEE constitui um vetor impor- tante de transformação do ensino es- pecial e comum exigida pela inclu- são, por abordar as diferenças sem apelo às generalizações que as es- sencializam e que redundam em fór- mulas prontas de atendimento espe- cializado. O fato de a Política ter defi- nido seu público específico não con- tradiz esta abordagem das diferen- ças; o AEE planeja e executa suas in- tervenções dentro de quadros identi- tários móveis individualizados, sus- cetíveis a influências do meio, que não estão restritos a características previamente descritas, diagnósticos e prognósticos implacáveis. O professor de AEE é um profis- sional que atua sobre as peculiarida- des de certos alunos, provendo re- cursos, meios, equipamentos, lin- guagens e conhecimentos que os apóiam no acesso e participação no ensino comum. Seu trabalho vai além do ensino de técnicas, códi- gos, manuseio, treino de uso dos re- cursos que dão suporte à escolari- zação dos alunos nas turmas co- muns e não visam à aprendizagem de conteúdos das áreas curricula- res. Trata-se de um professor espe- cializado nesse tipo de atendimento, mas que não se confunde com o es- pecialista no sentido usual do termo, porque ele é, antes de tudo, um pro- fessor, cujo entendimento da Educa- ção Especial na perspectiva inclusi- va, permite que ele integre sua es- pecialidade ao ensino comum, sem desfigurá-la. Esse professor pesqui- sa estuda cada um dos alunos que lhe é encaminhado e decide, organi- za, cria, desenvolve recursos para além do que já existe de suportes de todo tipo, que possam suprir as ne- cessidades de cada um. Não há um molde pronto para ser aplicado indistintamente aos proble- mas, às deficiências dos alunos e as- sim sendo, o AEE desafia a capaci- dade do professor especializado en- contrar saídas, descobrir o que pode acrescentar ao seu plano inicial de ação, para mantê-lo atualizado e aberto a novos possíveis. Todas as suas atribuições envolvem muita de- dicação e um nível de responsabili- dade que precisa ser desenvolvido na prática, mas tendo por detrás uma boa sustentação teórica, coe- rente com os princípios da inclusão e, portanto, com o que se entende por "diferenças na escola" e não com a "escola dos diferentes". O incentivo a novas relações com as diferenças nas escolas ga- nha força durante os estudos que antecedem ao atendimento educa- cional especializado de cada aluno; o professor do AEE reúne dados co- letados dos professores e demais membros da comunidade escolar, que estão direta ou indiretamente envolvidos no caso em estudo e se- diados, de preferência, na mesma escola que este aluno freqüenta. Es- se grupo, em que podem estar in- cluídos pais e familiares do aluno, é chamado a participar de encontros de clarificação do problema na sala de aula ou fora dela, da sua possível solução e da discussão das ações que serão elencadas para dar início ao o atendimento. Um bom plano de AEE tem a par- ticipação da equipe escolar. Envolver os interessados e diretamente relaci- onados com os alunos que serão atendidos e os que já estão em aten- dimento educacional especializado é mais uma atribuição do professor de AEE. Há os que têm naturalmente a capacidade de trazer as pessoas pa- ra a roda de discussão e outros que precisam se esforçar mais, pois é im- prescindível a reunião do maior nú- mero de informações, opiniões, su- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 201014 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 14
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    gestões sobre osalunos. A colaboração sistemática dessa equipe no atendimento especializa- do "mexe" com os seus membros e é uma oportunidade ímpar que cada um deles têm de rever atitudes, valo- res, comportamentos que são co- muns em suas relações com as dife- renças e que mantém o caráter ex- cludente da sua organização peda- gógica da escola. Quando os profes- sores comuns encaminham seus alunos (para os quais não se acham preparados para ensinar) aos cole- gas da Educação Especial, eles en- tendem que esses alunos diferem dos demais colegas da turma. Assim procedendo, desconhecem as dife- renças dos demais alunos e nada muda na escola! A virada das escolas que se reco- nhecem inclusivas pode acontecer rapidamente ou se alongar no tem- po, mas há sempre um momento inusitado em que os professores co- muns e especializados descobrem que não conseguimos conter as dife- renças em grupos identitários fecha- dos e criados arbitrariamente e que, na inclusão escolar, a diferença não desaparece na homogeneização e universalização da igualdade, onde o outro se torna o mesmo. A inclusão depende de sabermos nos equilibrar num fio de navalha. A disponibilização preferencial do AEE nas escolas comuns, como pro- põe a Política atual de Educação Es- pecial, aguça a necessidade de mantermos esse equilíbrio. Os argumentos em favor dessa preferência reafirmam a importância de todos os alunos serem reconheci- dos em suas diferenças. O AEE, sendo um serviço ofere- cido na própria escola do aluno, beneficia-o em sua formação, por convalidar o que uma instituição in- clusiva promove para todos os seus estudantes: a preparação para a vi- da pública e cidadã, a construção da identidade, a partir dos confron- tos com as diferenças e a convivên- cia com o outro em um único ambi- ente educacional. Quando o AEE é realizado na es- cola em que esse aluno estuda, rea- firma o seu papel de oportunizar a in- clusão, distanciando esse aluno de centros especializados públicos e particulares, que o privam de um am- biente de formação comum a todos, discriminando-o e continuando a tra- tá-lo à parte dos demais colegas. Quanto à escola comum, nada mais indicado para o aluno do AEE do que o aluno ter seus pro- blemas tratados e discutidos no dia-a-dia escolar, com a contribui- ção de toda a sua equipe de ensi- no comum e especial, como já nos referimos anteriormente. Sobre os pais de alunos que ne- cessitam do AEE, o fato de eles vi- verem o desenvolvimento e a esco- larização de seus filhos, a partir de uma experiência educacional intei- ramente inclusiva, sem terem de re- correr a atendimentos exteriores à escola em que estudam reforça a idéia de que a inserção total desses alunos no meio escolar é possível e caracteriza, portanto, a garantia de um direito à igualdade, sem des- considerar e descaracterizar as dife- renças de cada aluno. A Política é instigante, quando trata da formação dos professores para a Educação Especial. O texto insinua uma revisão dessa formação, que, como nos demais tópicos aqui apresentados, toca nas mesmas questões vitais da inclusão e que di- zem respeito, como bem assinala Silva (2002), às impertinências entre identidade e diferenças. Ainda há poucas iniciativas visan- do a uma formação coerente com o que está posto na Política, embora corram por aí cursos destinados à educação inclusiva, que a confun- dem com Educação Especial e mais, na sua concepção substitutiva do ensino comum. Com a urgência devida e com o apoio e financiamento da Secretaria de Educação Especial, do Ministério da Educação, estamos preparando professores de todo o Brasil, na mo- dalidade ensino a distância, para que possam iniciar o AEE nas esco- las comuns de suas redes de ensino. Nossa pretensão é que, com a introdução de novas práticas edu- cacionais nas escolas, os sentidos atribuídos à igualdade e ao direito à diferença na concepção inclusiva da educação comum e especial, es- clareçam-se. A inclusão propõe uma pedago- gia e uma escola das diferenças em contraposição às escolas dos/para os diferentes, e a nossa Política de Edu- cação Especial, nessa perspectiva, é um passo decisivo para que consiga- mos chegar à escola que tanto quere- mos. Vamos em frente, que as resis- tências cederão às evidências. Referências BRASIL, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Edu- cação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. DESSENT, T. Making the ordinary school special. UK: The Falmer Press, 1987. FOREST, M. & PEARPOINT, J. MAPS. Action planning to welcome people of all ages into full life, at home, school, work and play. In: PEARPOINT, J.; FOREST, M. & SNOW, J. (Org.) Strategies to make inclusion work. Toronto, ON: Inclusion Press, 1992. SILVA, T. T. da. Identidade e diferença: im- pertinências. Educação e Sociedade: São Paulo, Vol.23, 2002, p.65-66. SCOTT, J. Deconstructing Equality-versus- Difference: Or the Uses of Poststructuralist Theory for Feminism. Vol.14, nº 1. Spring: Feminist Studies, 1988, p. 33-50. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 12-15, jan/jul. 2010 15 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 15
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201016 TRAÇANDO OS MESMOS CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA A educação inclusiva é o argumento principal deste artigo. Começando com uma conceitualização do significado de in- clusão em educação, sendo propostas algumas condições que são necessárias para desenvolver nos centros para que se caminhe para a inclusão. Neste sentido, entre outros, a colaboração, a liderança compartilhada, o apoio curricular e institucional, a implicação da comunidade educativa são pi- lares fundamentais para a implementação deste modelo de educação. O artigo finaliza com uma reflexão sobre o que podemos fazer ou que direções deveríamos seguir para construir centros de educação que tenham capacidade pa- ra todo o alunado, e nos quais o objetivo seja uma resposta educativa eqüitativa e de qualidade para todos. Palavras-chave: Educação inclusiva; Colaboração; Participa- ção; Eqüidade; Qualidade. 1. Introdução Nos extremos, alguns meninos e meninas excluídos se transformam em invisíveis, quando lhes dene- gam seus direitos, quando passam completamente desapercebidos em suas comunidades, quando não podem ir à escola ou quando estão longe do alcance das autori- dades devido a sua ausência nas estatísticas, nas políticas e nos pro- gramas (UNICEF, 2005, p. 7). A educação inclusiva não está sendo desenvolvida da mesma ma- neira em todos os países. Em al- guns, como ilustra a citação anterior, a inclusão passa por desafiar os sis- temas de educação a fim de garantir a escolarização de todos os meni- nos e meninas. Em outros, o objeti- vo está em combater situações on- de a escola para determinados estu- 16 DESTAQUE INTERNACIONAL TRAÇANDO OS MESMOS CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO DE UMA EDUCAÇÃO INCLUSIVA Anabel Moriña Díez 2 anabelm@us.es Resumo Inclusive education is the main argument of this article. Be- ginning with a conceptualization of the meaning of inclusi- on in education, and proposed some conditions that are necessary to develop for the centers should be towards the inclusion. In this sense, among others, collaboration, shared leadership, the curriculum and institutional support, the involvement of the educational community are funda- mental pillars for the implementation of this model of edu- cation. The article concludes with a reflection on what we can do or what direction we should follow to build educa- tion centers have the capacity for the entire student body and in which the goal is a response to educational quality and equitable for all. Key Words: Inclusive education; Collaboration; Participati- on; Equity; Quality. Abstract 1 1 Tradução realizada pelo Grupo Solución- SP. 2 Departamento de Didática e Organização Educativa, da Universidade de Sevilha, na Espanha. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 16
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 17 dantes representa medidas de aten- ção à diversidade segregadoras e o estabelecimento de vias paralelas. E também há outros países onde apa- rentemente suas políticas de educa- ção refletem os princípios de uma educação inclusiva, mas que na prá- tica desenvolvem propostas pseu- do-inclusivas. Todos os sistemas de educação, independentemente do contexto po- lítico, social, cultural e econômico devem seguir incorporando em suas agendas mecanismos para ir avan- çando para práticas mais inclusivas. Neste sentido, concordo com a co- locação do professor Mel Ainscow (2008), que em uma recente confe- rência expressava a necessidade de considerar que "cada menino e me- nina é importante". Se assumirmos esta colocação, supõe-se que deve- remos questionar o que estamos fa- zendo e teremos que propor o que podemos fazer para chegar a ser mais inclusivos em nossas políticas, práticas, atitudes, etc. Indevidamente falar de inclusão supõe fazer referência à exclusão. Aqueles sistemas de educação que estão avançando para práticas de educação inclusiva foram eliminan- do barreiras que conduzem a pro- cessos de exclusão. Em um contexto mais amplo, dos trabalhos sobre exclusão social aprendemos que se trata de um pro- cesso estrutural e não conjuntural (WITCHER, 2003), pelo qual a deter- minados cidadãos é negado o direi- to a participar das estruturas sociais, políticas, econômicas, trabalhistas e também educativas de um contexto concreto. Outra idéia que acompa- nha a esse processo é que não exis- te uma única forma de exclusão, mas pode se dizer em termos de di- versos graus da mesma que podem conduzir a vivencias pessoais e his- tórias sociais diferentes (SUBIRAT, 2006; TEZANOS, 2001). Neste terre- no, existe um acordo generalizado ao assinalar o caráter multidimensio- nal da exclusão social. Pode ser en- tendido como um fenômeno que su- põe a interação de diversos fatores de risco que marcam os itinerários das pessoas. A pesquisa atual, além disso, permite estabelecer uma estreita re- lação entre exclusão social e edu- cativa, sendo a primeira mais geral e a segunda mais específica. De fa- to, autores como Slee e Allan (2005) afirmaram que a escola in- clusiva é um movimento social con- tra a exclusão educativa, sendo o âmbito educativo um dos fatores geradores de exclusão mais poten- te. Assim, Macrae, Maguire e Mel- bourne (2003) contribuíram com seu trabalho à tese de que a exclu- são escolar pode gerar a médio e a longo prazo exclusão social. Esses autores mostram dados de como em estudos recentes aparecem re- ferências a jovens que poderiam ser considerados pessoas em situ- ação ou risco de exclusão social. Estes jovens têm em comum, entre outras características, um absentis- mo freqüente do centro de educa- ção, uma limitada ou inexistente qualificação acadêmica, etc. Neste artigo, eu gostaria de ex- por algumas questões que conside- ro prioritárias para desenvolver práti- cas inclusivas nas organizações educativas. O artigo partirá de algu- mas idéias relacionadas com a con- ceitualização da educação inclusiva. Posteriormente me centrarei no nú- cleo deste trabalho que gira em tor- no de como desenvolver condições para que os centros possam ter uma orientação inclusiva. Neste compar- timento, proporei algumas questões práticas que podem ajudar aos cen- tros a realizar uma auto-avaliação sobre seu processo de educação in- clusiva. O artigo terminará com algu- mas reflexões em torno de algumas direções a seguir para construir co- munidades inclusivas. 2. A educação inclusiva como um processo que desafia às práticas de exclusão A inclusão pode ser definida co- mo um modelo de educação que propõe escolas onde todos possam participar e sejam recebidos como membros valiosos delas. Trata-se de uma filosofia e prática educativa que pretende melhorar a aprendizagem e participação ativa de todo o aluna- do em um contexto educativo co- mum. A educação inclusiva se con- cebe como um processo inacabado que desafia a qualquer situação de exclusão, procurando mecanismos para eliminar as barreiras que obsta- culizam uma educação para todos (MORIÑA, 2004). Das colocações dos Direitos Hu- manos, podemos estar falando de educação inclusiva como uma ques- tão de justiça. Todos os meninos e meninas têm direito a ser educados juntos (CSIE, 1997), a não ser discri- minados e segregados por diferen- ças individuais. No livro "o direito de aprender", Darling-Hammond (2001) assume que a nenhuma pessoa de- ve ser privada da oportunidade de aprender. É por isso que um dos de- safios no qual devemos continuar trabalhando é aquele no qual os sis- temas de educação garantam a to- dos os estudantes em todas as co- munidades seu direito a aprender. A idéia de que todas as pessoas tem direito a receber a educação em um sistema único e em seu próprio entorno é importante, mas não sufici- ente, questão que trato de desenvol- ver neste artigo. Além disso, é neces- sário reconhecer o fato de que todos os meninos e meninas têm o direito Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 17
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201018 a receber uma educação de qualida- de. Portanto, todas as pessoas que se dedicam à educação estão na obrigação de garantir uma aprendi- zagem de qualidade para todos e ca- da um de nossos estudantes. Como nos recorda Pather (2007), a qualida- de deve ser entendida em contrapo- sição àqueles sistemas de educação que optaram por uma educação efi- ciente para determinados estudantes - quer dizer, seleciona-se os melho- res pelo que se exclui a determina- dos estudantes-. Pelo contrário, a qualidade é considerada como uma resposta justa e eqüitativa para to- dos os estudantes. Neste sentido, é necessário que nos posicionemos porque não po- demos permanecer neutros e deve- mos nos perguntar se estamos dis- postos a questionar o que fazemos e procurar caminhos para que isto possa ocorrer? Mas a inclusão também é uma questão social. Para Sapon-Shevin (2003), a inclusão exige que reflita- mos sobre que tipo de mundo que- remos criar e como deveríamos edu- car a nossos estudantes para esse mundo? Esta autora reflete a respei- to de que a eliminação, segregação, marginalização de determinados es- tudantes considerados como dife- rentes (já seja por sua falta de capa- cidade, procedência cultural, origem social, etc.) não permite ensinar ao resto dos estudantes a viver em uma sociedade plural, onde se compre- endam as diferenças, respeite-se a outros, etc. Deste modo, para que a inclusão seja considerada uma questão soci- al, supõe que requer o compromis- so e implicação da comunidade em sua totalidade. Isto quer dizer que não só corresponde às escolas ga- rantir uma educação inclusiva, mas também a sociedade deve fazê-lo. Por outro lado, também a educa- ção inclusiva é uma forma de viver. Is- to quer dizer que deve se supor uma opção pessoal que deve ser coeren- te com as atuações que levamos adi- ante. Para autores como Pearpoint e Forest (1999), esta forma de viver tem relação com o "viver juntos", com a "acolhida ao desconhecido". Uma última idéia que eu gostaria de ressaltar é que a educação inclu- siva pode ser entendida como o úni- co caminho para conseguir uma maior eqüidade em educação. E a eqüidade está vinculada com princí- pios éticos e de justiça. Supõe-se le- var em consideração as diferenças entre as pessoas e dar resposta a estas de acordo ao que cada pes- soa necessita. É oferecer a todos os alunos as mesmas oportunidades para que possam aproveitar suas potencialidades, desenvolver-se e avançar para sua plena realização. 3. Desenvolver as condições nos centros para práticas inclusivas Nessa parte, queria apresentar algumas das lições aprendidas das pesquisas sobre escolas com orien- tação inclusiva (ALDERSON, 1999; HOPKINS, AINSCOW & WEST, 1994; PIJL, MEIJER & HEGARTY, 1997; PORTER, 1995, etc.). As dez lições que vou analisar, eu gostaria que fossem contempladas de uma dupla visão. Por um lado, com ele- mentos que podem descrever os centros que desenvolvem práticas inclusivas. Por outro lado, podem ajudar aquelas organizações que desejem começar a desenvolver práticas inclusivas. Por sua vez em um duplo sentido pode ser entendi- da esta segunda leitura: em primeiro lugar, serve de instrumento de auto- revisão da própria organização quanto a que um centro pode anali- sar em que fase do processo de educação inclusiva se encontra em relação às condições abordadas neste artigo. Em segundo lugar, ser- ve também como projeção futura, de acordo à visão transformadora que propomos, já que possivelmen- te para começar a construir práticas inclusivas se deverá iniciar o proces- so por alguma destas condições. Para as idéias que apresenta- mos a seguir, vou me apoiar em dois projetos nos quais participei nos dez últimos anos. Um deles, "a escola da diversidade" (MORIÑA, 2008), é um programa de formação colaborativa para o professorado sobre educação inclusiva. Esse pro- grama é o resultado de uma avalia- ção do desenho e desenvolvimento do programa em centros de educa- ção Infantil, Fundamental e Médio. O segundo projeto trata de uma pesquisa que recentemente finaliza- mos sobre exclusão social (PARRIL- LA, 2008) . Esse estudo foi desen- volvido em duas Universidades: a Universidade de Sevilha e a da Can- tábria. O propósito geral que se per- segue é a análise da construção (como vivência pessoal) do proces- so de exclusão social de jovens com idades compreendidas entre 18 e 25 anos. A amostra total do estudo está composta por 48 jovens em situa- ção ou risco de exclusão perten- centes a grupos vulneráveis a pro- cessos de desigualdade por moti- vos de cultura ou etnia minoritária, deficiência, classe socioeconômica e gênero. A metodologia utilizada é a pesquisa biográfico-narrativa, que permite dar voz aos participantes, 3 Pesquisa financiada pelo Ministério da Educação e Ciência, I+D+I, 2004-07, Ref. SEJ 2004-06193-C02-02/EDUC, Diretores. Ángeles Parrilla y Teresa Susinos. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 18
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    através da construçãode suas his- tórias de vida. Uma das conclusões deste tra- balho é a identificação de barreiras e ajudas à inclusão. Nas páginas se- guintes, em ocasiões, irei introduzin- do as vozes dos jovens que sofre- ram processos de exclusão educati- va e que ajudam a construir o dis- curso de como deveriam atuar as escolas em matéria de educação. Por último, nos perguntamos, quais são as 10 lições que aprende- mos. As respostas podem ser resu- midas a seguir: 1. A diversidade é uma oportunidade; 2. O apoio colaborativo e curricular; 3. A liderança compartilhada; 4. A colaboração entre o professorado; 5. A pesquisa e reflexão do professorado; 6. A formação inicial e permanente em colaboração centrada na inclusão; 7. As redes de escola; 8. O compromisso da comunidade educativa; 9. O sentimento de comunidade; 10. A sala de aula como comunidade social e de aprendizagem. 3.1. Da diversidade como um problema à diversidade como uma oportunidade Nos centros de educação e na sociedade em geral, parte-se da idéia de que a diversidade é um problema que terá que ser resolvi- do. Nesse sentido, esse conceito é construído em contraposição a uma suposta idéia de normalidade. Como diz Corbett (1991), não é possível falar nesses termos, en- tendendo que toda pessoa que se afaste do padrão de normalidade seja considerada como anormal ou atípica. Lança a seguinte pergunta: "Então, quem quer ser normal?". A autora reconhece que gosta da di- ferença porque supõe uma "mara- vilhosa" combinação de culturas, histórias, pensamentos… As vidas das pessoas podem ser enriqueci- das mutuamente. Por isso, acres- centa Corbett que se sentiria insul- tada por ser rotulada como "nor- mal". Mas precisamente, os rótulos são o mais comum numa organiza- ção educativa. Recorre-se com muita facilidade e naturalidade a um rótulo para reconhecer às pes- soas, sem contemplar o dano ou efeito que isto ocasiona nas pesso- as que recebem esses rótulos. A seguinte reflexão exemplifica de uma forma clara esse argumento: R : Era conhecida pela DA (dificul- dade de aprendizagem), por esse aspecto e nada mais. P: Era co- nhecida por seus companheiros? R: E por outras classes também… os professores… todos os profes- sores dizem meu nome e já sa- bem quem sou… P: E como se sentia com isso? R: Como me sentia? Muitas vezes havia mo- mentos, muitos, que desejava ser normal, de algum jeito (HISTÓRIA DE VIDA DA ANA). Desde essa concepção da diver- sidade se anula, ignora ou rechaça as diferenças humanas. Essa visão provoca atitudes e práticas de discri- minação, marginalização, exclusão para aquelas pessoas que pelos "outros" (consideradas normais) são vistos como diferentes. As percep- ções de seus iguais, como veremos na seguinte entrevista, ou a dos pró- prios docentes através de suas me- todologias, expectativas ou condu- tas fazem com que se vivencie o sentir-se diferente como um proces- so doloroso: R: Eu queria ser um deles, mas eles não me deixavam, algumas vezes não me deixavam. Eu não gostava dos meninos que riam de mim, por- que me via como que se eu não fosse ninguém, como se fosse me- lhor que eu e eu não sou ninguém (…) P: E o que fazia você para ser..., como você demonstrava que queria fazer parte deles? R: Eu me aproximava para jogar com eles, tentava falar dos animais e eles fa- lavam de futebol, por exemplo (….) (HISTÓRIA DE VIDA DO SÉRGIO). Entretanto, um centro que de- senvolve práticas inclusivas encon- tra na diversidade uma oportunida- de para aprender, para questionar o que se faz e propor mudanças no centro e nas salas-de-aula. A diver- sidade é comemorada nessas insti- tuições e se entende que as diferen- ças humanas são comuns. Diversi- dade se concebe como um concei- to amplo, no qual todas as pessoas têm condições independentemente de sua capacidade, origem social, cultura, etc. Um centro que deseje começar a ir para a inclusão deverá refletir so- bre qual é o conceito de diversidade que compartilha a comunidade edu- cativa. É necessário expor uma vi- são compartilhada do que se enten- de por esse conceito já que as me- didas de atenção à diversidade que se proponham na instituição deve- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 19 4 A abreviação R significa resposta e a P quer dizer pergunta. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 19
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    rão ser coerentescom essa coloca- ção. Portanto, tanto a equipe docen- te, como o alunado ou as famílias deveriam dedicar tempo e espaço a refletir e deixar em comum suas con- cepções sobre a diversidade. Algu- mas questões que poderiam orien- tar essa análise conjunta são: O que se entende por diversidade? Quem tem capacidade nesse con- ceito? Que repercussões tem esse con- ceito para a prática educativa? (Deveriam ser colocadas em co- mum as reflexões e consensuar uma definição de diversidade que sirva para todo o centro). 3.2. De um apoio terapêutico a um apoio colaborativo e inclusivo Os sistemas de apoio, tal e como se estão desenvolvendo nos centros de educação, demonstraram-se co- mo insuficientes e inadequados pa- ra responder à diversidade (AINS- COW, 1998). Apesar das boas inten- ções com as quais foram estabeleci- dos esses serviços, na maioria dos casos, atuaram como mecanismo de segregação e rotulagem para o alunado com necessidades educa- cionais especiais (n.e.e.). Uma críti- ca ao apoio que se implementa nas escolas pode ser ilustrada através da seguinte reflexão: R: Eu pedia para a psicopedagoga que me ajudasse a escrever e a re- sumir e ela me dizia 'olhe, isso não é minha função, a mim o que me corresponde são as fotocópias que dou' (…) Às classes de psicopeda- gogia, não me importavam porque me davam uma ficha de trabalho de vocabulário de sinônimos e an- tônimos e somente me diziam os que estavam corretos ou os que estavam incorretos, procurava no dicionário e colocavam sim, mas eu não entendia nada, porque o que achava no dicionário não cor- respondia ao significado que eu aprendia, pegava, grifava a palavra e colocava no seu lugar (HISTÓRIA DE VIDA DE BRANCA). O modelo de apoio que com maior freqüência podemos encon- trar nas organizações educativas é o denominado apoio terapêutico, que consiste em um apoio centrado no alunado com n.e.e. e desenvolvido exclusivamente por profissionais do apoio, educação especial ou peda- gogia terapêutica. Desde esse enfo- que se entende que a sala de aula simplesmente não é o lugar mais re- comendável para atender às neces- sidades de determinados estudan- tes, por isso é preciso uma sala de aula em que se possa oferecer a es- ses alunos e alunas recursos e um currículo mais adaptado a suas ne- cessidades. Portanto, a responsabi- lidade da resposta educativa ao alu- nado com n.e.e. recai no profissio- nal de apoio e não no professor da sala de aula ordinária ou regular. Es- sa colocação faz com que se assu- ma que nada deve ser substituído nem na sala de aula regular nem no centro de educação. Entretanto, a inclusão requer de outro tipo de apoio que reconheça a resposta à diversidade como uma responsabilidade compartilhada. Quer dizer, todos os profissionais que estão envolvidos no processo de educação de qualquer estudante que em um momento determinado apresente uma necessidade especí- fica devem colaborar em busca de respostas a essas necessidades. É assim que o modelo de apoio que é preciso é o conhecido como mode- lo colaborativo, institucional ou curri- cular (PARRILLA & DANIELS, 2004). É um apoio que não só vai dirigido ao alunado com n.e.e., mas sim também é um apoio ao professora- do, família e comunidade educativa, a todo o alunado que um momento determinado precisa de uma ajuda mais específica. Esse modelo de apoio implica na coexistência de dois sistemas de apoio, um é o formal (que está com- posto pelos profissionais com for- mação em atenção à diversidade) e outro é o informal (onde o apoio não recai em nenhuma estrutura de apoio concreto, mas sim se respon- sabiliza dele todo o professorado, família, alunado…). Uma possível proposta para que um centro analise seu modelo de apoio e se sejam propostas possí- veis atuações é a que apresentamos a seguir: 1. DE ONDE PARTIMOS? (como se faz o apoio em meu centro?) 1.1. Possíveis elementos de análise: Quem se ocupa do apoio à inte- gração? Qual é a experiência das pessoas que se encarregam disso? Qual é o tempo dedicado ao apoio? A quem se dirige o apoio? Como é desenvolvido o apoio? Quais são os recursos com os que se conta? Dos aspectos analisados previa- mente identificar o que funciona bem e aspectos que precisam melhorar: Como é o apoio (aspectos fortes e fracos)? O que é preciso para melhorar? 2. PARA ONDE QUEREMOS IR? (O que se poderia fazer para ir para um modelo de apoio inclusivo?) 2.1. Possíveis elementos de análise: Que tipo de apoio faz falta? Como pode ser organizado? Que mudanças de organização e didáti- cas são necessárias? A quem deve ser dirigido? Quais devem ser as funções das Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201020 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 20
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    pessoas encarregadas doapoio? Como deve ser desenvolvido es- se apoio? Que recursos são necessários e com quais se pode contar? 3. POR ONDE COMEÇAR? 3.1. Das distintas propostas, estabe- lecer prioridades para começar a co- locação em prática (hierarquizar de maior a menor prioridade) 3.2. Definir que passos devem ser dados para se colocar em prática as propostas priorizadas 3.3. De uma liderança individual a uma liderança compartilhada A liderança está sendo demons- trada como um elemento imprescin- dível para facilitar transformações nos centros (NICOLAIDOU & AINS- COW, 2005). Embora não só as equipes de diretores sejam os res- ponsáveis por ocupar responsabili- dades de liderança nos centros, es- tes estão surgindo como fundamen- tais para facilitar ou pelo contrário, dificultar os processos de melhoria. As estruturas hierárquicas que, em alguns centros, são estabeleci- das com os distintos órgãos de go- verno devem ser feitas novamente por uma liderança compartilhada, tal e qual expressa Wrigley (2007), em um sentido plenamente demo- crático, implicando que sejam ouvi- das todas as vozes, que sejam com- partilhadas perspectivas ou que se debatam interpretações contraditó- rias da realidade. Alguns estudos ressaltam a im- portância não só do líder vinculado à gestão, mas também a de uma li- derança pedagógica que deve im- pregnar toda a escola (HOPKINS, AINSCOW & WEST, 1994; PORTER, 1995; SLEE, 1995, etc.). Para o Ful- lan e Hargreaves (1997), esse tipo de liderança se caracteriza porque compreende a cultura do centro es- colar, valoriza a todo o professora- do, entende e expressa o que valori- za, promove a colaboração, oferece possibilidades, etc. Algumas questões que podem orientar a análise de um centro so- bre liderança são: Quais são as pessoas que exer- cem as funções de liderança? O que é feito pelas pessoas que atuam como líderes? Como nós gostaríamos que atu- assem essas pessoas que lideram o centro? Que passos poderiam ser dados para ir para o perfil de liderança que propomos? 3.4. Do trabalho isolado do professorado ao trabalho em colaboração Distintas pesquisas que foram re- alizadas sobre centros com orienta- ção inclusiva concluem que a cola- boração entre o professorado é fun- damental para construir comunida- des inclusivas (CLARK, DYSON & MILLWARD, 1999; GIANGRESCO, 1997; HOPKINS, AINSCOW & WEST, 1994, etc.). Esse achado de- ve apoiar o argumento de que ne- nhum professor ou professora isola- damente, por mais inclusiva que se- ja sua sala de aula, pode fazer com que um centro seja inclusivo (MORI- ÑA, 2005). Com relação à colabora- ção, é necessário que os centros de educação questionem o que fazem e planejem como podem construir uma cultura colaborativa. Entendida esta como uma forma de trabalhar juntos para resolver as dificuldades, planejar e desenvolver mudanças, criando uma organização que se compromete a resolver os proble- mas, formando uma organização de aprendizagem que utiliza o conheci- mento e os recursos existentes. A colaboração foi definida pelo Fri- end e Cook (2003) como um estilo de trabalhar, que, segundo estes autores, responde aos seguintes princípios: É voluntária. Portanto, não se po- de obrigar a ninguém a trabalhar em colaboração. Requer uma relação igualitária en- tre os distintos participantes. Enten- de-se que são valorizadas igualmen- te as contribuições de cada pessoa e que as relações que são estabele- cidas são simétricas. Está apoiada em objetivos mútuos. As pessoas que colaboram devem compartilhar ao menos um objetivo. Depende da responsabilidade compartilhada para participar e to- mar decisões. Isto quer dizer que se colaborar assume a responsabilida- de de se comprometer ativamente na atividade e tomada de decisões. As pessoas que colaboram com- partilham recursos. Cada pessoa que se compromete em uma ativida- de colaborativa contribui com recur- sos que ajudam a alcançar o objeti- vo comum. As pessoas que colaboram com- partilham responsabilidade para al- cançar os resultados. Todos os par- ticipantes são responsáveis pelos resultados obtidos, sejam positivos ou negativos. Não digo que isto seja fácil. Mui- to mais complicado se partirmos de que, na maioria das escolas, a cul- tura organizacional se caracteriza por ser individualista. Mas é impres- cindível que um centro de educa- ção analise quais são as barreiras que impedem o desenvolvimento, a colaboração e que atuações pode- riam levar adiante para ir gerando, pouco a pouco, práticas de colabo- ração. Propomos algumas ques- tões que poderiam ajudar nesse debate institucional: Quais são os obstáculos vincula- dos à colaboração em seu centro? Como poderíamos eliminar ca- da uma das barreiras identificadas na colaboração? Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 21 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 21
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    Para construir umacultura colabo- rativa, que mudanças são necessá- rias? Quem pode participar? Quanto tempo é necessário? etc. 3.5. O professorado deve pesquisar e refletir sobre suas práticas Se a colaboração entre o profes- sorado é importante para a constru- ção da educação inclusiva, não são menos valiosos os processos de re- flexão individual e/ou com outros, assim como o desenvolvimento de projetos de pesquisa. Sobre essa última idéia, nas esco- las não existe uma cultura de pesqui- sa. Algo que no mundo universitário é tão presente, entendendo-se que de- ve ser isso o que prejudica os proces- sos de pesquisa, não parece tão evi- dente e necessário nas etapas educa- tivas regradas. Entretanto, demons- trou-se que aqueles grupos de docen- tes que investigam fazem com que su- as organizações aprendam. Portanto, considero que é importante que as es- colas assumam esta função como parte de seu trabalho diário e que ve- ja a pesquisa como uma oportunida- de para melhorar. Nesse sentido, Ains- cow (2008) expõe que as escolas sa- bem mais do que usam, quer dizer, têm mais conhecimento de que acre- ditam. Para esse autor, o ponto inicial lógico para o desenvolvimento de um centro é uma análise detalhada do que já existe. Desse modo, poderiam identificar e compartilhar as boas prá- ticas e questionar as formas de pensa- mento e práticas que subjazem às ro- tinas de trabalho existentes e que cri- am barreiras à participação e à apren- dizagem de alguns estudantes. É necessário que o professorado recolha dados, analise, dê sentido e obtenha resultados. Isto é, em ou- tras palavras, considerar o docente como pesquisador. Como Hopkins, Ainscow e West (1994) sugerem, al- gumas estratégias efetivas nesse processo são: o recolhimento e uso da informação para a tomada de de- cisões, o estabelecimento de estra- tégias para revisar o progresso e im- pacto das iniciativas e práticas esco- lares, e o apoio à equipe docente para participar de processos de re- colhimento e análise de dados. A seguir exponho algumas ques- tões que podem ajudar a aqueles centros que estejam interessados em pesquisar: Sobre qual realidade de meu cen- tro eu gostaria de pesquisar? Com o quê conto para realizar es- ta pesquisa? Que informação é necessária re- colher? Como vou recolher essa informa- ção? O que vou fazer com a informação de recolhimento? 3.6. É necessário um novo planejamento para a formação inicial e permanente do professorado Uma cultura de colaboração, pesquisa e reflexão do professorado não pode ter lugar caso não se questione e proponha mudanças na formação inicial e permanente. Os distintos planos de estudos das fa- culdades de ciências da educação não podem ficar à margem e devem ser revisados o quê e como é ensi- nado. É necessário incluir entre as matérias que devem ser cursadas, conteúdos relativos ao modelo de educação inclusiva - tanto teoria co- mo prática - e a como dar resposta à diversidade. Também deve ser obje- to de estudo as experiências de co- laboração, a pesquisa e a reflexão. Isso deve ser aprendido de forma ativa, assumindo a construção do conhecimento por parte do estudan- te. Nem as lições magistrais, nem a teoria sem aplicação prática, nem a aprendizagem individual do alunado são suficientes para fortalecer a for- mação inicial de um professorado que assuma e reconheça a impor- tância dos princípios nos quais se apóia a educação inclusiva e ponha em prática os mesmos. Não menos importante é revisar e propor mudanças na formação per- manente do professorado. Os esfor- ços da administração da educação limitam-se a oferecer quase que ex- clusivamente planos de formação através de cursos externos aos cen- tros. Considero que se deve apostar por uma formação no lugar de traba- lho, que se aborde em colaboração e que parta pelas necessidades ex- pressas pelos docentes desse cen- tro. Essa formação deve ser apoiada no modelo de reflexão-ação-refle- xão. Portanto, não é suficiente com que o professorado reflita, embora implique uma revisão das práticas através da reflexão - que deve ser o ponto de partida -, essa deve ir se- guida por uma formação, uma posta em prática das aprendizagens adqui- ridas e uma nova reflexão mediante uma avaliação das mudanças que vão sendo introduzidas. 3.7. A criação de redes de escola como um mecanismo que responde à diversidade Tal e como sustenta Ainscow (2008), há evidências de que a cola- boração entre escolas pode fortale- cer a capacidade de resposta das organizações diante à diversidade dos estudantes. Em pesquisas como a de Aisncow, Farrel e Tweddle (1998) e Tuettteman et al. (2000), constata-se como existe nos centros onde se im- plementam processos de melhoria para incluir a todos os alunos, cola- boração entre distintos centros e ser- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201022 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 22
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 23 viços. Nesses centros, vê-se este tipo de colaboração como um elemento facilitador de atuações inclusivas. A criação de redes de escolas pode ir da colaboração pontual (co- mo, por exemplo, dois centros que se reúnem no começo do curso pa- ra planejar o trânsito de estudantes com n.e.e de Ensino Fundamental a Ensino Médio) a uma colaboração prolongada no tempo (assim cen- tros que continuamente se reúnem para compartilhar experiências e planejar atuações para desenvolver em seus respectivos centros com o propósito de serem mais inclusivos). 3.8. Sem o compromisso da comunidade educativa é complicado o desenvolvimento de uma educação inclusiva A colaboração do professora- do é necessária, mas não sufici- ente. É preciso que as famílias, alunado e outros agentes da co- munidade educativa colaborem em distintos processos. Com relação às famílias, Gartner e Lipsky (1987) chegaram à conclu- são de que os centros com uma po- lítica de portas abertas que motivam as famílias a participar e onde essas se comprometem tendem a ser mais efetivo. O desafio está no quê e co- mo fazer para abrir as fronteiras a fim de que as famílias entrem e se envolvam nos centros de educação. As seguintes perguntas podem con- tribuir a refletir sobre esse tema: A família participa freqüentemente no centro? Quando? Como? Que atuações podem ser levadas adiante para fazer com que as famí- lias participem mais? Por onde pode ser iniciado? Qual plano de ação pode ser desenhado para levar adiante es- sa escolha? Quanto aos estudantes é neces- sário também que participem das di- nâmicas de sala de aula e do centro. É importante perceber a voz dos alu- nos - em muitos casos não escutada - já que podem ser transformadoras (RUDDUCK & FLUTTER, 2007). Quando os estudantes não são escutados, é negada a oportunida- de de contribuir, de enriquecer ou de desafiar a cultura, a organização e o caráter das instituições educati- vas e são, como conseqüência, ex- cluídos dessas instituições. Os estu- dantes estão na organização, mas não fazem parte dela. Como podemos aprender dos centros que desenvolvem práticas inclusivas, o alunado é uma peça angular nos projetos dos centros. Esses são administrados de forma democrática, participando ativamen- te em todos e em cada um dos âm- bitos da instituição. Portanto, devemos nos pergun- tar o que fazemos e o que podemos fazer para que os alunos tenham uma maior representação: Como os alunos participam no centro? O que poderia ser feito para au- mentar o envolvimento desses no centro? Como influiria uma maior partici- pação do alunado no centro? O que mudaria? Que plano de ação desenharia para promover a participação do alunado? 3.9. Sentir-se como uma comunidade forma parte da educação inclusiva A escola como comunidade é ou- tra das idéias que compartilham al- guns dos estudos revisados sobre centros que desenvolvem práticas in- clusivas (ALDERSON, 1999; DAR- LING-HAMMOND, 2001; LIPSKY & GARTNER, 1997). Nesses centros, é estabelecida uma meta de escola compartilhada entre a comunidade educativa. Nessas organizações é ga- rantido que todos os alunos se sintam valorizados, respeitados e escutados. Como Darling-Hammond (2001) Smith e Barr (2008) detalham, nessas escolas há a divisão de uma missão educativa, uma cultura comum e um conjunto de normas comuns com re- lação ao ensino e à aprendizagem. Quando é gerado um sentido de comunidade, cria-se uma interdepen- dência positiva entre os distintos membros da comunidade educativa. Sentem que todos pertencem à esco- la, que estão vinculados de tal manei- ra que não conseguirão suas metas se algum membro da comunidade não conseguir. Portanto, é usual nes- sas organizações a estrutura de apoio entre iguais, dar e receber aju- da, celebrar os êxitos dos outros, etc. 3.10. A sala de aula como uma comunidade social e de aprendizagem A sala de aula inclusiva deve ser concebida como um espaço social e didático que reflita a cultura, valores e metas da escola. A sala de aula é, além disso, uma comunidade de aprendizagem autônoma que requer uma nova organização para chegar a ser inclusiva. Os docentes das salas de aula inclusivas têm altas expectativas para todos seus estudantes, acre- ditando que todos podem apren- der. Nessas salas de aula, como argumenta Ainscow (1995), o pro- fessorado planeja a classe como um todo, assumindo que a exces- siva ênfase em planejar para de- terminados estudantes pode ocultar fatores contextuais que podem utilizar para estimular e apoiar a aprendizagem de cada membro da classe. Para a criação dessas classes, parece funda- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 23
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    mental que osdocentes usem efetivamente esses recursos na- turais (que freqüentemente são os próprios alunos) os quais po- dem ajudar a apoiar a aprendiza- gem dos estudantes. Nessas salas de aula, a estrutu- ra de atividade nem se organiza in- dividual nem competitivamente, a não ser pelo contrário de forma co- operativa. Parte-se, além disso, do princípio de diversificação e de personalização do ensino. Por isso, não são todos os estudantes que têm que estar aprendendo exata- mente o mesmo e ao mesmo tem- po. Isto não quer dizer que esteja- mos falando de curriculum parale- los ou extremamente distintos - co- mo evidencia a reflexão que a se- guir aparece - mas sim partindo de um curriculum comum se planeja distintas atividades, usam-se dife- rentes materiais, etc. que permitem adaptar-se aos distintos ritmos de aprendizagem dos estudantes. R: Que como eu não fazia as mes- mas coisas que eles por isso me da- vam coisas que não tinham nenhum valor. P: Davam coisas que não ti- nham nenhum valor. R: Era isso es- crever coisas, mas, eles também me deixavam de lado porque eles me davam coisas, coisas idiotas. P: Coi- sas fáceis você diz? R: Sim coisas fáceis, que não, que não, que não produziam nada. P: Que não faziam você pensar nada. R: Isso nada. P: E normalmente, estava sempre fa- zendo coisas diferentes dos outros? R: Sempre. P: Sempre estava fazen- do coisas diferentes (HISTÓRIA DE VIDA DO ISRAEL). Esta diversificação e persona- lização do ensino dificilmente po- dem ser feitas quando o único re- curso utilizado é o livro de texto. A experiência está demonstrando que esse recurso didático, tal e como está sendo empregado, ho- mogeneíza em lugar de respon- der à heterogeneidade. Como conseqüência para evitar situa- ções como a denunciada pelo Is- rael, devemos procurar também a diversificação de recursos, poten- cializar a autonomia do alunado para gerar seu próprio conheci- mento e principalmente favorecer o trabalho colaborativo entre as equipes docentes com o propósi- to de desenhar materiais adequa- dos para todos. 4. Para finalização Eu gostaria de finalizar esse arti- go expondo algumas direções a se- guir para me dirigir às escolas que desenvolvam uma educação inclusi- va. Nesse sentido, os centros de educação devem ter um papel mais ativo, denunciando os discursos e práticas que legitimam qualquer processo de exclusão educativa. Não podem ficar à margem e con- verter-se em cúmplices de práticas que geram discriminação, segrega- ção ou exclusão. O caminho não po- de ser criar salas de aula especiais ou via paralelas. Confio em que a di- reção a seguir deve ser o modelo de educação inclusiva. Para começar a construir esse modelo um primeiro passo é a revi- são ou auto-análise que um centro de educação faça de si mesmo. Essa análise que pode ser feita em torno das condições que fui apresentado nesse trabalho permite ter indícios para expor-se: Quem somos? Por on- de começar? O que queremos ser? O caminho a seguir deve ser mostrada como algo que deve ser construído pouco a pouco, de me- nos a mais, dando pequenos pas- sos. Assim, melhor começar com uma das condições propostas do que por muitas. Posteriormente, à medida que se conseguem peque- nas metas, novas atuações poderão ser introduzidas. Outra idéia que deve ser levada em consideração, relacionada com o parágrafo anterior, é que essa via- gem é percorrida a longo prazo, por- tanto, é um processo que ocorre no tempo. A educação inclusiva não se faz nem em um ano, nem em dois, mas sim é considerada como um processo inacabado, no qual conti- nuamente é necessário ser revisado quais são as barreiras que provocam exclusão e mostram o que fazemos para ir eliminando essas barreiras. Esse trajeto deve ter, fazer pre- sente e celebrar a diversidade. Só se reconhecendo a diversidade como uma oportunidade, como um valor, podemos falar de avanços para prá- ticas de inclusão. Sem dúvida alguma essas via- gens não podemos fazer sozi- nhos, mas sim é necessária a im- plicação de "todos": professorado, família, alunado e a comunidade social. No entanto, é preciso reco- nhecer que o professorado tem um papel muito decisivo no de- senvolvimento da inclusão no cen- tro. E mais, atrever-me-ia a dizer que sem o compromisso desse é impossível atacar essa transforma- ção. O professorado deve assumir que a colaboração deve ser o fio condutor em sua prática profissio- nal; que é necessário planejar pa- ra todos, incrementando as opor- tunidades de participação; que o apoio à diversidade é responsabi- lidade de todos e não exclusiva- mente do profissional de apoio; e que é a formação no lugar de tra- balho o cenário privilegiado para melhorar as práticas educativas. Não posso terminar esse artigo sem recordar que não existe um projeto de educação inclusiva que possa ser idêntico em todos os cen- tros, mas sim cada organização de- ve gerar seu próprio projeto de acor- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 201024 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 24
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 16-25, jan/jul. 2010 25 do com sua realidade e necessida- des. Nesse sentido, para que real- mente estejamos falando de desen- volvimento sustentável da inclusão, os projetos devem ser construídos no seu local, desde seu começo, em cada contexto. Referências AINSCOW, M. Education for all: Working it happen. Support for Learning, 1995. AINSCOW, M. Developing links between special needs and school improvement. Support for learning, 13 (2), 1998, p. 70-75. AINSCOW, M. Garantir que cada aluno é importante: a melhora da eqüidade den- tro dos sistemas de educação. In.: GAI- RÍN, J.; ANTÚNEZ, S. (Org.). Organiza- ções educativas ao serviço da sociedade. Madrid: Wolters Kluwer, 2008, p. 261-282. AINSCOW, M.; FARRELL, P.; TWEDDLE, D.A. Effective pratique in inclusion and in special and mainstream schools working together. London: Deparment for Educati- on and Employment, 1998. ALDERSON, P. Learning and inclusion. The Cleves School Experiencie. 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    ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA DEFICIÊNCIAFÍSICA O presente artigo tem o intuito de apresentar como as ações desenvolvidas no Atendimento Educacional Especializado (AEE) à deficiência física na rede municipal de ensino de Flo- rianópolis - SC foram sendo desenvolvidas para garantir o acesso e a permanência destes alunos na escola comum. Este atendimento ocorre no contraturno escolar, nas salas multimeios, denominadas de salas de recursos multifuncio- nais pelo MEC, dentro das escolas comuns. Nestes espa- ços, os alunos com deficiência física têm acesso à Tecnolo- gia Assistiva (TA) e suas modalidades, por meio do ensino e utilização de recursos que lhes possibilitam a ampliação de uma habilidade funcional, oportunizando autonomia de ações e participação em todos os momentos escolares. Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializado; Inclusão; Deficiência física; Tecnologia Assistiva. 1 Graduada em Educação Especial pela UFSM/RS, mestre em educação pela UFSC/SC. Coordenadora de Educação Especial na Secretaria Municipal de Educação - Florianópolis/SC. 2 Graduada em Educação Especial pela UFSM/RS, professora do Atendimento Educacional Especializado da Rede Municipal de Florianópolis, Especialista em Educação infantil pela UNIFRA/RS. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201026 26 ENFOQUE Geisa Letícia Kempfer Böck1 geisabock@gmail.com Grasiela Maria Silva Rios2 grasielarios@yahoo.com.br Resumo ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA DEFICIÊNCIA FÍSICA Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 26
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    Será impossível atarefa de educar na diversidade? Felizmente, é im- possível educar se acreditarmos que isto implica formatar por com- pleto a alteridade, ou regular sem resistência alguma, o pensamento, a língua e a sensibilidade. Porém, parece atraente pelo menos não para poucos, imaginar o ato de educar como uma colocação, à dis- posição do outro, de tudo aquilo que o possibilite ser distinto do que é, em algum aspecto. Uma educa- ção que aposte transitar por um iti- nerário plural e criativo, sem regras rígidas que definam os horizontes de possibilidade (SKLIAR e DUS- CHATZKY, 2000 apud LARROSA & SKLIAR 2001, p.137). A efetivação da política de Atendi- mento Educacional Especializado no município de Florianópolis/SC fez-se como o cerzir de uma colcha de re- talhos, nas quais diversas peças ne- cessárias, importantes e singulares foram entrelaçadas, produzindo um efeito de beleza e sutileza. Ao mes- mo tempo tornou-se indispensável um pano de fundo forte, que ofere- cesse sustentação e fundamentação para completar este trabalho que co- locou, sempre, o aluno como o cen- tro de todas as decisões. O pano de fundo desse atendi- mento tem por base nos princípios da escola inclusiva de fato e não apenas de direito. Ao longo dos anos, propostas e políticas foram sendo discutidas na Rede Municipal de Ensino de Florianópolis/SC pelos seus profissionais, tendo como pre- cursores os professores da Educa- ção Especial. Buscávamos diretrizes norteado- ras para ações que estivessem con- dizentes com as necessidades edu- cativas de cada pessoa com deficiên- cia, pensávamos um serviço que par- tisse desta necessidade individual, pois o que almejávamos estava dis- tante das chamadas classes especi- ais. E, para isso, fundamentamos nossos pensamentos e nossos estu- dos na Constituição Federal (1988), na Declaração de Salamanca (1994), na Convenção de Guatemala (1999), entre outras bibliografias importantes para o estudo, neste momento. Desta maneira, pensamos que a revisão e a participação deste pro- cesso de aprimoramento do serviço da Educação Especial deram-nos subsídios teóricos e práticos para que pudéssemos construir uma col- cha de retalhos mais colorida e atra- ente em sua completude. Percebemos que fomos felizes nas escolhas e decisões acerca do trabalho de Atendimento Educacio- nal Especializado (AEE), pois acredi- tamos que estão em consonância com o que nos é apresentado na Po- lítica Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusi- va, de janeiro de 2008. Os retalhos desta colcha apare- cem com significativas diferenças e peculiaridades em momentos dis- tintos como, por exemplo, as dife- rentes características das pessoas com deficiência física, as metodolo- gias utilizadas para cada situação, os métodos e recursos disponibili- zados e pensados para contemplar as distintas particularidades dos nossos alunos. Desta maneira, pretendemos pro- porcionar uma reflexão sobre as prá- ticas voltadas para a pessoa com de- ficiência física adotadas no AEE. Pa- ra isso, torna-se imprescindível con- siderar-se ter como primeira atitude o respeito à diversidade que se apre- senta no contexto da escola comum, no qual "o outro" (que também so- mos nós) é um sujeito de iguais direi- tos. E, nessa constatação das dife- renças, que possamos fortalecer a experiência da alteridade em cada um de nós, leitores, escritores, en- fim, sujeitos da educação. A política do AEE no município de Florianópolis/SC A Rede Municipal de Ensino de Florianópolis, por meio da Portaria 033/2003 cria e normatiza o Serviço Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 27 This article has the intention of presenting the way the un- dertaken actions at the "Atendimento Educacional Espe- cializado (AEE)" - Specialized Educational Care - to the physically disabled in the municipal schools in Florianó- polis - SC were being developed to ensure the access and permanence of these students in a common school. This support occurs in the opposite turn of students' school attendance, in multiways rooms called multifuncti- onal ones by "MEC" - Education Ministery. At these spa- ces, the students with some physical disabilities have ac- cess to Assistive Technology (AT) and its modalities , through the teaching and use of resources which enable the expansion of a functional ability, giving to these stu- dents an opportunity of autonomy of actions and partici- pation in all school places, situations and times. Key words: Specialized Educational Care; inclusion; physical disability; assistive Technology. Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 27
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    de Atendimento EducacionalEspe- cializado. Este considera os pressu- postos da Educação Inclusiva, no qual as barreiras arquitetônicas, ati- tudinais, de comunicação e informa- ção devem ser superadas, e estabe- lece um único sistema de ensino, que reconhece e valoriza as diferen- ças, rompendo com a idéia de pa- dronização e classificação. Concomitante a normatização do AEE nas escolas de ensino regular criou-se também o Programa Edu- cacional "Escola Aberta às Diferen- ças", que tem por princípio o direito incondicional à escolarização de to- dos os educandos nos mesmos es- paços educativos. A matrícula do aluno com defici- ência na escola comum requer os serviços da educação especial, não para substituir o ensino formal, tampouco confundir-se com práti- cas clínicas, terapêuticas ou de re- forço escolar. A matrícula apenas efetiva o direito de acesso, mas o que garante a permanência e a continuidade dos estudos deste aluno são as ações desempenha- das pela direção, equipe pedagógi- ca, professores regentes da sala de aula e do AEE. Nesta perspectiva, o AEE deve ser oferecido dentro da escola co- mum, nas salas de recursos multi- funcionais, para que o aluno com de- ficiência seja acompanhado e instru- mentalizado na sua caminhada es- colar, proporcionando a ele acesso ao saber, em igualdade de condi- ções dos colegas sem deficiência e que sejam partícipes da construção de seus saberes. O atendimento educacional espe- cializado identifica, elabora e organi- za recursos pedagógicos e de aces- sibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alu- nos, considerando as suas necessi- dades específicas. As atividades de- senvolvidas no AEE diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização (BRASIL, 2008). Em Florianópolis/SC, o AEE é oferecido nas escolas regulares, nas Salas Multimeios3 , denomina- das pelo MEC de Salas de Recur- sos Multifuncionais. Tem como fina- lidade atender às especificidades de cada deficiência, como ensino de LIBRAS (Língua Brasileira de Si- nais) para alunos com surdez, Sis- tema Braille, Sorobã e Orientação e Mobilidade e ampliação de materi- ais para alunos com cegueira ou baixa-visão, Tecnologia Assistiva4 , entre outros. Está disponível em to- dos os níveis de ensino, por meio de serviços que oferecem instru- mentos de acessibilidade, comple- mentando e suplementando a traje- tória da pessoa com deficiência no ensino regular. É preciso ressaltar que a constru- ção de uma escola inclusiva é uma tarefa árdua e que depende do em- penho de todos os profissionais que nela atuam, de constantes avalia- ções acerca das ações efetuadas, da reflexão sobre as concepções de en- sino, de aprendizagem e do potenci- al humano. Alguns profissionais perce- bem-se como atores deste pro- cesso, sabem da sua importância na vida educacional de seus alu- nos e na construção da política da escola inclusiva. Para ilustrar o olhar que alguns professores têm em relação à experiência do traba- lho em turmas que possuem alu- nos com deficiência incluídos, tra- remos a fala de uma professora que atua nos anos iniciais do ensi- no fundamental. Era mês de abril do ano de 2006, quando a prefeitura de Florianó- polis me ligou oferecendo uma vaga de quarenta horas na pri- meira série da E. B. M. Antônio Paschoal Apóstolo. A vaga em princípio surgiu como um desafio, já que nunca havia trabalhado nas Séries Iniciais e principalmen- te com crianças que estavam che- gando à escola com seis anos. Fui comunicada de que na turma do período matutino havia duas crianças com deficiência (...). Neste momento é que percebi que este desafio não seria so- mente meu, mas de toda a institu- ição. Era então o nosso desafio, desafio principalmente das pes- soas que encaravam o fato como sendo também delas, pessoas presentes e ativas. As meninas da Sala Multimeios estiveram sem- Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201028 Figura 1 - Capa do livro do Programa Escola Aberta às Diferenças 3 Espaços da escola onde se realiza o AEE para os alunos com deficiência, por meio do desenvolvimento de estratégias de aprendizagem que favoreçam a con- strução de conhecimento, subsidiando-os para a plena participação da vida escolar. 4 Recursos e serviços que contribuem para proporcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiência, promovendo vida independente e inclusão (BERSCH, 2007). Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 28
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    pre receptíveis eprontas para aju- dar, intervir. Material de apoio, materiais adaptados, ajuda, su- porte, instruções, tudo isto veio da Sala Multimeios e serviu real- mente como um elo, uma corren- te de ligação entre mim, o apren- dizado e as crianças. A inclusão está presente em quase todas as escolas, e eu, você, nós educado- res precisamos efetivamente in- cluir estas crianças nas classes regulares, oferecendo recursos que as subsidiem e que supram suas necessidades como, por exemplo, materiais adaptados as suas especificidades e o mais im- portante: tratando a criança como criança, não prevalecendo ou desfazendo de suas necessida- des, incluí-las no processo signifi- ca também tratá-las com igualda- de, favorecendo assim sua inclu- são e interação com o grupo. Co- mo vivi, como aprendi com esses momentos, momentos em que er- rei, consertei, tentei de novo, fiz e refiz, acertei, ou melhor, acerta- mos! Hoje posso dizer que o de- safio valeu a pena, e por elas, as crianças, com certeza, eu faria tu- do de novo (Professora Vanessa Melo Cotta - Pedagoga) Compartilhar os momentos e os passos dados para a construção da nossa colcha de retalhos pelos pro- fissionais nesta rede de ensino não tem o intuito de nos colocarmos co- mo um modelo a ser seguido, nem como uma realidade perfeita, pois sabemos que temos muito ainda a acrescentar neste trabalho. Gostaría- mos, sim, de demonstrar que a inclu- são é possível de acontecer, caben- do a cada profissional, a cada rede de ensino pensar a sua realidade e o percurso a ser trilhado, tecendo sua própria colcha, com as cores, nuan- ces e texturas possíveis para cada si- tuação e para cada momento. O Atendimento Educacional Especializado - Deficiência Física O AEE, como já falamos, com- plementa a formação do aluno com deficiência e deverá ser disponibili- zado em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino. O profissi- onal que atua nesse serviço, em nossa rede, está em constante aprimoramento, pois acreditamos que a formação continuada em ser- viço possibilita a construção de sa- beres específicos necessários para contemplar as singularidades de cada deficiência. Dentre as tantas ações realizadas no AEE, apresen- taremos a nossa experiência no atendimento a pessoas com defici- ência física e a fundamentação pa- ra este trabalho. Todas as nossas ações foram avaliadas e ressignificadas no pro- cesso de efetivação da escola inclu- siva, e o mesmo ocorreu com as in- tervenções adotadas para os alunos com deficiência física. Inicialmente tínhamos a ilusão de que apenas as adequações do espa- ço físico, de mobiliários e equipa- mentos escolares possibilitariam a permanência e continuidade destes alunos no ensino regular. No entan- to, no decorrer dos anos esta de- manda foi aumentando e modifican- do-se. Alunos com diferentes com- prometimentos motores passaram a freqüentar nossas escolas e nos ins- tigaram a pensar se realmente as ações de eliminação das barreiras arquitetônicas que estávamos reali- zando eram suficientes para garantir o que almejávamos. Vivenciamos a angústia de querer entender uma criança e não conse- guir. Enxergamos o brilho da tentativa em comunicar nos seus olhos e tam- bém a tristeza da frustração por não a compreender. Foi quando percebe- mos que um retalho estava faltando em nossa colcha, ou talvez, cores e texturas precisavam ser inseridas. Nesse momento, profissionais de diferentes áreas foram convida- dos a compartilhar suas experiên- cias na prática com estes alunos, e, então, nos apresentaram à Tecnolo- gia Assistiva (TA), a qual pode ser compreendida "como um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária ou possibilitará a realização da fun- ção desejada e que se encontra im- pedida por circunstância de defici- ência" (BERSCH apud SCHIRMER, 2007, p. 27). A partir daí começamos a vis- lumbrar um norte do AEE para estes alunos, pois a TA possibilita a co- municação e a interação com os pa- res, a participação efetiva em todas as atividades escolares com segu- rança, conforto e autonomia, consi- derando sempre as habilidades de cada criança, os desejos e os recur- sos disponibilizados para contem- plar estas singularidades. Bersch (apud Schirmer, 2007, p. 31) define a Tecnologia Assistiva co- mo: "todo o arsenal de recursos e serviços que contribuem para pro- porcionar ou ampliar habilidades funcionais de pessoas com deficiên- cia e conseqüentemente promover vida independente e inclusão". A TA no espaço do AEE propor- ciona uma variedade de instrumen- tos que os profissionais devem sele- cionar para então confeccioná-los ou adquiri-los. Vale salientar que o recurso é do aluno, e para tanto es- te deverá participar ativamente na escolha do mesmo, saindo da posi- ção de expectador da construção de sua autonomia. Quando o aluno chega ao AEE, uma das primeiras ações dos profis- sionais é estabelecer vínculo, tanto com o aluno, quanto com a família dele, a qual é imprescindível para a Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 29 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 29
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    consolidação do trabalho.Eles tra- zem informações que são funda- mentais, como por exemplo, a his- tória de vida, os profissionais que estão envolvidos na habilitação ou reabilitação desta pessoa, os tipos de atendimento ou tratamento que este aluno fez ou está fazendo, en- tre outros. Com estas informações, teremos indicações de quais são as pessoas que o professor do AEE precisa con- tatar para estabelecer uma rede de apoio. Mas afinal o que seria esta re- de de apoio? Nada mais do que a equipe de trabalho que atua nos di- ferentes momentos com o nosso aluno. Ela poderá ter, entre os seus integrantes, profissionais da área clí- nica como fonoaudiólogo, neurolo- gista, psicólogo, fisioterapeuta, tera- peuta ocupacional, ortopedista; e da área da educação os professores do ensino comum e do AEE, ainda con- tamos com a participação impres- cindível da pessoa com deficiência e sua família. Cada componente dessa equipe traz elementos importantes para que possamos conhecer melhor as ne- cessidades do nosso aluno, do con- texto escolar e familiar dele. Com es- tas indicações, teremos maior clare- za das metas a serem atingidas e co- mo estabelecer um Plano de AEE que contemple as necessidades deste sujeito, ampliando as suas ha- bilidades, permitindo uma maior au- tonomia e proporcionando que este acesse aos conhecimentos formais em igualdade de condições com seus pares. Com clareza de aonde quere- mos chegar, é dado o momento da escolha e indicação dos possíveis recursos necessários para o coti- diano escolar. Estes serão experi- mentados pelo aluno com a medi- ação do professor do AEE em dife- rentes momentos e espaços. É o aluno que indica qual o recurso está mais adequado a sua habili- dade e que supre os seus anseios e necessidades. Por vezes, o recurso mais ade- quado para uso do nosso aluno não se encontra em lojas, mas na transformação de materiais, como é o exemplo da calça almofada sen- sorial, a qual, preenchida com reta- lhos de tecido e espumas, tornou- se muito útil para uso no AEE e na sala de aula. Esta permite que o usuário de cadeira de rodas tenha outros espaços para usufruir na sa- la de aula, pois quando os colegas estão realizando atividades no chão, ele pode estar mais próximo do seu grupo participando delas. Com criatividade e utilizando ma- teriais de baixo-custo, os professo- res do AEE podem adaptar diferen- tes materiais que auxiliem na execu- ção das atividades de vida diária, tais como: engrossadores de lápis, pincéis, jogos, materiais para estí- mulo visual e tátil, atividades de sala de aula, respeitando o planejamento e solicitações do professor do ensi- no regular. As habilidades físicas, sensoriais (visão, audição, tato), cognitivas e a atitude do usuário perante cada re- curso novo, são decisivas para a in- dicação dos melhores recursos a se- rem adquiridos, a importância de uma testagem prévia e a sinalização positiva da pessoa com deficiência. No entanto, temos situações em que apenas os recursos de baixa tecnologia não suprem as necessi- dades do nosso aluno, sendo neces- sário, então, à pesquisa entre as mo- dalidades de TA, dos possíveis re- cursos de alta tecnologia que podem vir a facilitar a autonomia de ações que resultem na construção de sabe- res dos e pelos alunos. Dentre essas possibilidades, te- mos uma variedade bastante ampla de materiais de informática acessí- vel, tais como: Teclados especiais que facilitam o acesso independente ao computador, Acionadores de mouse e mouses al- ternativos para uso do aluno de acor- do com a habilidade apresentada; Softwares com acessibilidade; Recursos que facilitam a comuni- cação, como vocalizadores e pran- chas de comunicação alternativa: A comunicação Alternativa é uma das modalidades da TA da qual mais fazemos uso no atendimento espe- cializado às pessoas com deficiência física, tendo em vista que a maioria de nossos alunos possuem um com- prometimento na linguagem e comu- nicação expressiva, apresentando uma fala reduzida ou até mesmo inexistente. Conforme Bersch apud Schirmer 2007 (p.57), "A linguagem facilita o encontro de desejos, neces- sidades, interação social, acesso às informações e conhecimento sobre o complexo mundo em que vive". A necessidade de se comunicar é inerente ao ser humano. Ações como pedir um copo de água, infor- mar o desejo de ir a algum lugar, por exemplo, são corriqueiras para a grande maioria das pessoas. Po- rém, para o aluno que apresenta li- mitações físicas e motoras decor- rentes da deficiência física, manifes- tar um desejo, interagir e se fazer compreender pelos demais é muito difícil. Em decorrência disso, ele vi- vencia situações em que é o outro quem decide o que vai vestir, fazer ou ingerir, remetendo-o a uma situa- ção de passividade. No espaço do AEE, as nossas ações envolvem também a obser- vação do aluno, onde um piscar de olhos, um gesto de apontar, um sorriso ou um olhar fixo podem ser indicativos do canal de comunica- ção estabelecido com ele e que se- rá estimulado por meio dos recur- sos disponibilizados pela comuni- cação alternativa. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 201030 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 30
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    É bastante significativoo momen- to em que o aluno percebe que com uso dos cartões, pranchas de comu- nicação ou até mesmo vocalizado- res, está emitindo uma mensagem que é compreendida pelo receptor. Ao comunicar desejos, anseios, von- tades e entendimentos, ele abando- na a posição passiva em que se en- contrava, passando a ser sujeito de seu processo de desenvolvimento. A organização do serviço de AEE para deficiência Física, tais como ho- rário de atendimento, duração, perío- do, ações, ocorre de maneira indivi- dual ou coletiva, dependendo de ca- da realidade. Não podemos definir como se dá este atendimento, se não conhecermos o aluno, pois é ele quem nos indicará o que deve cons- tar no seu atendimento, ou seja, o ser- viço parte da necessidade, potenciali- dades e habilidades de cada pessoa. A oferta do atendimento educa- cional especializado preferencial- mente na escola comum é obriga- tória. Porém, a freqüência da pes- soa com deficiência física neste serviço pode ser transitória, ocor- rendo até que o usuário amplie su- as habilidades e adquira autono- mia. Neste caso, não será mais ne- cessário a continuidade no atendi- mento de maneira regular, mas ain- da sim o professor do AEE pode continuar acompanhando a trajetó- ria acadêmica desta pessoa. A ca- da momento que se fizer necessá- rio à introdução e testagem de um novo recurso, este poderá contar com o profissional do Atendimento Educacional Especializado. Considerações finais "Nós vos pedimos com insistência: Nunca digam - Isso é natural! Diante dos acontecimentos de cada dia. Numa época em que reina a confusão, Em que corre o sangue, Em que o arbitrário tem a força de lei, Em que a humanidade se desumaniza... Não digam nunca: Isso é natural! A fim de que nada passe por ser imutável." (Bertolt Brecht, 1898-1956) O poema acima expressa uma verdade que nos é válida e foi por di- ferentes épocas. Nada pode ser imu- tável, principalmente a educação. Não podemos naturalizar idéias que nos são impostas, impressões que não são verdades, quando tratamos de processos de aprendizagem. É notório que alguns profissionais con- tinuam a afirmar que a criança com deficiência não aprende e que o ob- jetivo da inclusão é a socialização, mas temos a convicção de que mui- tos acreditam no potencial humano e nas infinitas maneiras de aprender. Partindo desta idéia, gostaría- mos de lançar algumas reflexões: qual é a concepção de aprendiza- gem que perpassa os ambientes es- colares? E em qual acreditamos? Pensamos que o nosso olhar trilha a nossa direção, permitindo-nos reali- zar as escolhas e dar um rumo para o nosso trabalho. Quando o olhar do professor se volta para as potencia- lidades de cada um de seus alunos, ele consegue desenvolver uma prá- tica que atende às diversidades de sua sala de aula, valorizando cada saber que lhes é demonstrado. Da mesma maneira, o aluno sente-se valorizado e motivado a desenvol- ver-se cada vez mais. No entanto, quando fixa seu olhar nas dificuldades, ocorre o oposto. O aluno sente que a expectativa em re- lação a sua aprendizagem é baixa, podendo reprimir-se e perder o inte- resse pelo cotidiano da sala de aula. Enfim, pensamos que, para ame- nizar a distância entre a qualidade na educação das pessoas com defi- ciência que temos e a que quere- mos, depende exclusivamente de cada um de nós, da mudança de nossos olhares e de nossas ações. Fazendo isso teremos a tranqüilida- de de participar não apenas da nos- sa mudança, mas também teremos a certeza de estar contribuindo para que ocorram modificações num âm- bito maior do que dentro dos muros de nossas escolas. Referências BRASIL, Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspec- tiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. BRASIL, Ministério da Educação. Portal de Ajudas Técnicas. Disponível em http://por- tal.mec.gov.br/seesp/index.php?opti- on=content&task=view&id=64&Ite- mid=193 SEESP/MEC. Acesso em: 02 mar 2008. BRASIL, Ministério da Educação. Salas de Recursos Multifuncionais: Espaço para Aten- dimento Educacional Especializado. Brasília: MEC SEESP, 2006. Disponível em http://por- tal.mec.gov.br/seesp/index.php?opti- on=content&task=view&id=64&Ite- mid=193. Acesso em: 02 mar 2008. COOK, A. M.; HUSSEY, S. M. Assistive Technologies: Principles and Practices. St. Louis, Missouri. Mosby - Year Book, Inc, 1995. CORDE, Comitê de Ajudas Técnicas. Porta- ria que institui o Comitê. Disponível em http://www.mj.gov.br/sedh/ct/cor- de/dpdh/corde/comite_at.asp. Acesso em: 01 mar 2008. CORDE, Comitê de Ajudas Técnicas. ATA V. Disponível em http://www.mj.gov.br/ sedh/ct/corde/dpdh/corde/comite_at.asp. Acesso em: 01 mar. 2008. CORDE, Comitê de Ajudas Técnicas. ATA VII. Disponível em http://www.mj.gov.br/ sedh/ct/corde/dpdh/corde/comite_at.asp. Acesso em: 01 mar 2008. SCHIRMER, C. R. Formação Continuada a Distância de Professores para o Atendimen- to Educacional Especializado - Deficiência Fí- sica. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. SKLIAR, C.; DUSCHATZKY, S. O nome dos outros : narrando a alteridade na cultura e na educação. In.: LARROSA, J.; SKLIAR, C. (Org.) Habitantes da Babel: Políticas e poé- ticas da diferença. Belo Horizonte: Autênti- ca, 2001. Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 26-31, jan/jul. 2010 31 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 31
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 201032 ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DE ALUNOS CEGOS E COM BAIXA VISÃO Este artigo apresenta a proposta de atendimento educacio- nal especializado para alunos cegos e com baixa visão de escolas do sistema regular de ensino. Enfatiza algumas es- tratégias, recursos e equipamentos necessários para asse- gurar o acesso ao conhecimento e favorecer a aprendiza- gem. Baseia-se nos princípios e diretrizes norteadoras da Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do MEC/SEESP publicada em janeiro de 2008. Pre- tende oferecer subsídios para uma melhor compreensão do papel dos professores que atuam nos Centros ou Núcleos de Atendimento Pedagógico, Salas de Recursos Multifuncio- nais e outros serviços voltados ao atendimento educacional especializado de alunos cegos e com baixa visão. Palavras-Chave: Atendimento Educacional Especializado; Alunos cegos; Baixa visão. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO DE ALUNOS CEGOS E COM BAIXA VISÃO Adriana Argenta1 adriana.argenta@yahoo.com.br Elizabet Dias de Sá 2 elizabet.dias@terra.com.br Resumo 1 Pedagoga de Séries Iniciais e Educação Especial com especialização em metodologia do ensino; professora do atendimento educacional especializado da Rede Municipal de Educação de Florianópolis. 2 Psicóloga com especialização em psicologia educacional; Gerente de Coordenação do Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo Horizonte (CAP-BH); Coordenadora de Conteúdo na área da deficiência visual do curso de formação continuada na modalidade à distância para professores, promovido pela Secretaria de Educação Especial do MEC em parceria com a Universidade Federal de Fortaleza (UFC) em 2008. 32 ENFOQUE Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 32
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 2010 33 Introdução Os conteúdos escolares, os li- vros, as revistas, os jornais e outros impressos são eminentemente visu- ais. A visualização está presente nos métodos, técnicas, atividades, tare- fas e em outros aspectos da organi- zação do trabalho pedagógico. Os alunos que enxergam perce- bem imediatamente e de forma si- multânea todo o ambiente, o que fa- cilita a acomodação e o deslocamen- to. Observam tudo que está em volta, andam e correm livremente de um la- do para outro com desenvoltura e agilidade, enquanto seus colegas ce- gos levam mais tempo para conhe- cer e reconhecer os objetos e os di- versos espaços do ambiente escolar. Isso porque o tamanho, a forma e ou- tras características de um objeto ou de um lugar são percebidos, pouco a pouco, de forma fragmentária por in- termédio do tato e de outras fontes de informação não visuais. A falta da visão tem como conse- qüência a impossibilidade de perce- ber cor, tamanho, distância, forma, posição ou movimento de seres e ob- jetos, entre outras dificuldades, o que limita de forma significativa a varieda- de de experiências, a mobilidade, o controle do ambiente e a interação do sujeito com o mundo que o cerca. Por isto, torna-se necessário explorar o pleno aproveitamento dos sentidos remanescentes e do potencial de aprendizagem dos alunos cegos, pois a capacidade de perceber, co- nhecer e aprender não depende ape- nas da visão. As capacidades e po- tencialidades destes alunos devem ser estimuladas e desenvolvidas pelo exercício constante de assimilação de novos esquemas, de simboliza- ção e ativação das funções mentais, o que se dá por meio da mediação natural e espontânea e pelo trabalho de educação e reabilitação. Os alunos cegos devem desen- volver a formação de hábitos e de postura, a destreza tátil, o sentido de orientação, esquemas e critérios de ordem e organização, o reconheci- mento de desenhos, gráficos, dia- gramas, mapas e maquetes em rele- vo, dentre outras habilidades. Para isto, as estratégias de aprendiza- gem, os procedimentos, o acesso ao conhecimento e à informação, bem como os instrumentos de avaliação, devem ser planejados e organizados na perspectiva de recursos pedagó- gicos e referenciais não visuais. O contingente de alunos com baixa visão em unidades de educa- ção infantil e do ensino fundamental é bem mais expressivo do que o quantitativo de alunos cegos. Ocor- re, no entanto, que os indícios de baixa visão costumam ser detecta- dos erroneamente no contexto da escola e da família. Pais e educado- res tendem a subestimar ou superes- timar o potencial de visão destes alu- nos, considerando-os como se fos- sem cegos, negligentes, distraídos ou preguiçosos. Isso porque a baixa visão é complexa, apresenta uma va- riedade de manifestações e peculia- ridades características de cada indi- víduo afetado, instabilidade e oscila- ção entre o ver e o não-ver. A baixa visão restringe o rol de in- formações que o indivíduo recebe do ambiente e limita ou altera a construção do conhecimento sobre o mundo exterior. Alguns sinais e comportamentos indicadores de baixa visão podem ser observados em sala de aula. Por exemplo, a aparência dos olhos, o tremor involuntário e constante da pupila (nistagmo), o andar hesitante, o sentido de direção e localização de objetos dentre outros aspectos. Os alunos com baixa visão ne- cessitam de recursos ópticos e não ópticos além da alteração das condi- ções de iluminação e de adequação do ambiente escolar. Estes alunos necessitam aprender a usar de for- ma eficiente a visão residual, os ins- trumentos e os recursos disponíveis para este fim. Os alunos cegos e com baixa vi- são podem e devem participar de pra- ticamente todas as atividades realiza- das em sala de aula do ensino regu- lar, com diferentes recursos de aces- sibilidade que envolvem criatividade, confecção de material e cooperação entre os participantes. É neste contex- to que se insere o atendimento edu- cacional especializado (AEE), com o objetivo de oferecer a estes educan- This article presents the purpose for specialized care edu- cation for blind students or with low vision of regular scho- ols. Stresses some strategies, resources and equipment necessary to ensure access to knowledge and encourage learning. It is based on the guiding principles and guideli- nes of the politics of special education and inclusive of MEC/SEESP published in January, 2008. It aims to provide subsidies to a better understanding of the role of teachers who work in the centers or cores, customer educational, multifunctional rooms and other services geared to the spe- cialized care education of blind students or with low vision. Key words: Specialized care education; Blind students; Low vision. Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 33
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 201034 dos recursos materiais e alternativas que favoreçam o acesso aos conteú- dos escolares e o pleno desenvolvi- mento de suas potencialidades. Atendimento Educacional Especializado - AEE O atendimento educacional es- pecializado é um serviço da educa- ção especial destinado aos alunos com deficiências física, sensorial e mental, tendo em vista criar condi- ções favoráveis de acesso aos con- teúdos escolares e ao conhecimento em geral. Este atendimento constitui uma alternativa disponível no âmbito do sistema escolar, sendo considera- do um direito a ser usufruído pelo aluno que dele necessita e não uma imposição ou condição obrigatória para o acesso e a permanência des- tes alunos na escola. De acordo com as diretrizes políticas do Ministério da Educação, O atendimento educacional espe- cializado tem como função identifi- car, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, con- siderando suas necessidades espe- cíficas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional espe- cializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolari- zação. Esse atendimento comple- menta e/ou suplementa a formação dos alunos com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (MEC/SEESP, 2008). Nesta perspectiva, os alunos ce- gos e com baixa visão, inseridos em escolas de ensino regular, podem contar com esta modalidade de atendimento como complemento de sua formação escolar, pois têm ne- cessidades específicas não apenas no que se refere aos conteúdos es- colares e às situações de aprendiza- gem. Estes alunos necessitam de- senvolver um conjunto de habilida- des e competências para a execu- ção de tarefas corriqueiras ou de ro- tina que dependam do uso eficiente do resíduo visual e dos sentidos re- manescentes, o que justifica o aten- dimento complementar, organizado e realizado em outro espaço, fora da sala de aula do ensino regular, por um profissional do magistério com formação e competência na área da deficiência visual. A apropriação do Sistema Brail- le, como veremos mais adiante, tem características peculiares que não se comparam ao desempenho visu- al do ato de ler e escrever. O ensino da matemática, física, química, a in- terpretação de desenhos, diagra- mas, figuras, mapas, gráficos e ou- tros signos visuais dependem da exploração tátil e da formação de representações mentais. O desen- volvimento do raciocínio lógico e a habilidade de calcular e realizar operações matemáticas serão facili- tadas pelo domínio da técnica de uso do sorobã e de outros recursos não visuais. A locomoção independente é al- cançada por meio da assimilação das técnicas de uso da bengala e de noções ou referências espaciais que devem ser aprendidas e aprimora- das individualmente. Do mesmo modo, o aproveita- mento máximo do resíduo visual ou a funcionalidade da visão não de- pendem apenas do uso de recursos ópticos. Trata-se de um processo no qual o aluno deve aprender a ver e a reconhecer seus limites e possibili- dades. Para isto, torna-se necessária uma avaliação funcional da visão e a realização de outras ações de aten- dimento educacional especializado que envolvem os familiares e os pro- fissionais da escola. Portanto, o professor ou profes- sora do AEE deve ter uma formação ampla e ao mesmo tempo específi- ca no que se refere aos conheci- mentos anteriormente menciona- dos, e o seu papel é completamen- te diferente da atuação do professor ou professora da sala de aula regu- lar. Além disso, o AEE não deve ser confundido com aulas de reforço pedagógico para o ensino de conte- údos escolares. Se isto ocorrer, o AEE será desvirtuado e deixará de cumprir a sua função. Neste caso, a formação do aluno cego e com bai- xa visão ficará seriamente compro- metida pela falta de oportunidade de apropriação de esquemas, estra- tégias e mecanismos de acessibili- dade, emancipação e autonomia. Os serviços de educação especi- al devem ser ofertados nas salas de recursos multifuncionais de forma complementar nas escolas públicas e podem ser ofertados ainda para os alunos cegos ou com baixa visão nos Centros de Atendimento Pedagógico para Deficientes Visuais (CAPs) ou Núcleos de Apoio Pedagógico (NAPs), criados pelo MEC/SEESP e mantidos pelas Secretarias estaduais e municipais de educação, bem co- mo pelas instituições especializadas na área da deficiência visual. De acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva: Em todas as etapas e modalidades da educação básica, o atendimento educacional especializado é organi- zado para apoiar o desenvolvimen- to dos alunos, constituindo oferta obrigatória dos sistemas de ensino e deve ser realizado no turno inver- so ao da classe comum, na própria escola ou centro especializado que realize esse serviço educacional (MEC/SEESP, 2008). Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 34
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 2010 35 Nesta perspectiva, o Decreto nº 6.571 (setembro-2008) estabelece que o Ministério da Educação pres- tará apoio técnico e financeiro aos sistemas públicos de ensino para a implantação de salas de recursos multifuncionais e para o desenvolvi- mento de ações de formação e ex- pansão do atendimento educacional especializado. As salas de recursos multifuncionais são definidas no Art. 3º, § 1º, do referido Decreto: As salas de recursos multifuncionais são am- bientes dotados de equipamentos, mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do atendi- mento educacional especializado. A Secretaria de Educação Espe- cial do MEC envia para as escolas li- vros didáticos e para-didáticos em Braille e uma mochila com material escolar específico para alunos cegos e com baixa visão, de acordo com o levantamento realizado via censo es- colar. A distribuição de laptops, equi- pados com programa com síntese de voz, para os alunos cegos do en- sino médio é outra iniciativa relevan- te no contexto da Política de Educa- ção Especial na Perspectiva da Edu- cação Inclusiva. Atividades do Atendimento Educacional Especializado Avaliação Funcional da Visão A avaliação funcional da visão permite observar e compreender como o aluno com baixa visão rece- be, assimila, integra e interpreta os estímulos visuais. Baseia-se na ob- servação e análise qualitativa dos inúmeros fatores de interferência e de interação entre a percepção vi- sual e os estímulos do ambiente em níveis variáveis de iluminação e de execução de tarefas. Esta avaliação é um complemento indispensável que deve acompanhar o diagnósti- co e o prognóstico da deficiência vi- sual. A partir dela, é possível definir procedimentos, estratégias e adap- tações dos materiais e das condi- ções ambientais. A observação formal e informal do desempenho visual, a coleta de dados junto aos familiares, profissio- nais e outras fontes de informações sobre o aluno ajudam a compreen- der a limitação visual no contexto es- colar e familiar. Os educadores de- vem colaborar na tarefa de avaliar o desempenho visual dos alunos e de desenvolver habilidades importantes para estimular o exercício e o uso efi- ciente do potencial da visão, de re- cursos ópticos e não ópticos. Produção Braille O Sistema Braille, criado por Lou- is Braille (1809/1852), baseia-se na composição de seis pontos em rele- vo alinhados em duas colunas verti- cais com três pontos à direita e três à esquerda em uma cela cuja combi- nação gera 64 sinais que represen- tam as letras do alfabeto, os núme- ros, as vogais acentuadas, a pontua- ção, as notas musicais, os símbolos matemáticos e outros sinais gráficos. O instrumento usado como su- porte para a escrita Braille é a regle- te, uma régua de madeira, metal ou plástico ajustada sobre uma base fi- xa e composta por um conjunto de celas distribuídas em linhas parale- las (Figura 1) com um punção, uma haste de metal para perfurar o papel e produzir os pontos em relevo. A leitura tátil é realizada da esquerda para a direita, enquanto a escrita é efetuada da direita para a esquerda para evitar o espelhamento no verso da folha de papel. Embora a reglete seja um instru- mento primitivo e rudimentar ainda é usado amplamente por alunos ce- gos que não contam com outra alter- nativa, uma vez que a máquina de escrever em Braille (Figura 2) tem custo elevado. Esta máquina é semelhante a uma máquina de escrever comum, cujo teclado diferencia-se por apre- sentar dois conjuntos de três teclas, separadas por uma barra de espaço que reproduzem os seis pontos da cela Braille. O toque simultâneo em uma combinação de teclas produz os pontos correspondentes aos si- nais e símbolos desejados. Os pon- tos em relevo aparecem na frente da folha de papel, o que facilita e agiliza a escrita e a leitura, bem como as 3 Luís Braille, natural de Coupvray, Paris, onde nasceu a 4 de janeiro de 1809. Ficou cego por volta dos quatro anos de idade, após ferir-se na oficina do pai. Criou o Sistema Braille enquanto freqüentava o Instituto Real dos Jovens Cegos, em Paris. Figura 2 - Máquina de escrever Braille. Figura 1 - Reglete de madeira. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 35
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 201036 correções, quando necessárias. O tamanho da cela Braille é ade- quado ao tamanho da ponta dos de- dos e a leitura tátil é processada de fragmento em fragmento para se configurar o todo, pois ler com as mãos é muito diferente de ler com os olhos. A pessoa que enxerga é ca- paz de visualizar o conteúdo de uma página inteira, saltar trechos e pará- grafos e localizar com certa agilidade uma palavra ou expressão no texto porque a visão, ao contrário do tato, possibilita este movimento global. Por isto, não se deve comparar a ve- locidade da leitura tátil com a visual. Cada página de texto impresso equivale aproximadamente a três ou quatro páginas de texto em Braille. O tipo e a gramatura do papel devem ser observados, pois a qualidade do texto deteriora-se com o manuseio. A compreensão e o reconheci- mento destas particularidades são importantes para o planejamento e o desenvolvimento das ativida- des escolares. Os recursos tecnológicos atuais possibilitam a produção Braille diver- sificada e em grande escala. As im- pressoras Braille aumentam a quan- tidade e a qualidade da produção de material acessível. Existem inúmeros modelos de impressoras Braille dis- poníveis no mercado com diferentes programas de impressão. Um destes programas é o "Braille Fácil", desen- volvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se de um programa sim- ples, de fácil acesso, com aplicativos e utilitários que possibilitam conver- ter um texto ou um livro digitalizado para o Sistema Braille, produzir de- senhos em relevo, gráficos, moldu- ras e outros efeitos de formatação e embelezamento do texto. O "Braille Fácil" é distribuído gratuitamente pe- lo Projeto Dosvox da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os textos impressos são digitali- zados através do uso de scanners e de programas "ocr" (reconhecimento óptico de caracteres), transferidos para o computador e formatados pa- ra a impressão Braille. Recursos Pedagógicos Acessíveis Este trabalho consiste na confec- ção de material em relevo (Figura 3) com o uso de diferentes texturas e de artefatos de baixo custo com o obje- tivo de representar objetos, imagens e outros estímulos eminentemente vi- suais e fora do alcance das mãos. Envolve também o uso de recursos tecnológicos para a ampliação de fontes e gravuras, a produção de de- senhos em relevo, de gráficos, dia- gramas e ilustrações em geral. Os objetos inalcançáveis devem ser miniaturizados. É o caso, por exemplo, do sistema planetário, de monumentos históricos etc. Já os objetos microscópicos devem ser ampliados para que os detalhes se- jam percebidos pelo tato. Podem-se confeccionar mapas políticos, hidro- gráficos e outros como cartolina, li- nha, barbante, cola, e outros materi- ais de diferentes texturas. Orientação e Mobilidade A familiaridade e o domínio do espaço físico pelos alunos cegos de- pendem do conhecimento, da assi- milação e da interpretação de refe- rências ou sinais não visuais como a discriminação de fontes sonoras, de pistas táteis, olfativas, cinestésicas, dentre outras. Por isto, o trabalho de orientação e mobilidade é funda- mental para o desenvolvimento da autonomia, independência e auto- confiança. O sentido de orientação tem a ver com a capacidade de per- cepção e de localização em relação ao ambiente, enquanto a mobilidade refere-se à capacidade de locomo- ção ou de deslocamento entre um ponto e outro. A bengala é o recurso mais usa- do pelas pessoas cegas, e o seu uso eficiente envolve um conjunto de habilidades e de conhecimentos que fazem parte de um programa específico a ser desenvolvido no contexto do atendimento educacio- nal especializado. O kit "Caminhando Juntos: manu- al das habilidades básicas de orien- tação e mobilidade" foi distribuído pelo MEC/SEESP para as Secreta- rias de Educação e para os diversos serviços de atendimento educacio- nal especializado na área da defici- ência visual (FELIPPE, 2003). O manual apresenta um conjunto de procedimentos, objetivos e técni- cas básicas de orientação e mobili- dade que visam a informar, a esclare- cer e a orientar os usuários de ben- gala e seus familiares, os educado- res e outros interessados. O kit contém um manual im- presso, uma versão em "mp3" e uma em audiovisual. Equipamentos e Recursos Tecnológicos Os serviços de educação especi- al destinados ao atendimento educa- cional especializado de alunos ce- gos e com baixa visão devem dispor de computadores equipados com Figura 3 - Livro acessível ao lado do original em tinta Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 36
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 2010 37 programas leitores de tela com sínte- se de voz, de lupas eletrônicas, de softwares magnificadores de tela e de outros recursos de acessibilida- de, pois estas ferramentas são indis- pensáveis para a comunicação, a pesquisa e o acesso ao conheci- mento. Além disso, não podemos ig- norar que estamos na era do livro di- gital e da produção do audiolivro, o que se torna mais viável graças aos avanços tecnológicos. Nesta perspectiva, compete ao atendimento educacional especializa- do criar condições e alternativas de aprendizagem e de uso destas ferra- mentas para os alunos cegos e com baixa visão. Considere-se que a inclu- são digital é uma tendência cada vez mais fomentada e, portanto, deve be- neficiar, igualmente, a todos os alunos. Ações e Estratégias Trata-se de definir o que deve ser feito em relação ao educando, à es- cola e à família. Neste planejamento, é necessário ter clareza em relação aos possíveis parceiros envolvidos e, sobretudo, compreender qual é o papel e a função de cada um dos profissionais que atuam neste pro- cesso junto ao aluno e aos seus res- ponsáveis. É necessário avaliar tam- bém a necessidade e a disponibili- dade de equipamentos e recursos de acessibilidade. O planejamento das ações deve ser flexível e deixar claro para o alu- no, seus familiares e profissionais do ensino regular, em que consiste o trabalho e como as ações serão de- senvolvidas. Identificação do aluno O aluno cego ou com baixa visão deve ser identificado inicialmente pe- la escola e isto pode ser feito de di- versas formas. Esta deve ser uma ro- tina anual das escolas. É muito im- portante registrar a presença deste aluno no Censo Escolar INEP/MEC através do formulário próprio com a especificação da idade e da série ou ciclo. Este procedimento é funda- mental para que o aluno possa rece- ber, eventualmente, os livros didáti- cos acessíveis e o kit escolar com o material pedagógico adequado à sua condição visual, encaminhados pelo MEC/SEESP para as escolas que preencheram o formulário do Censo Escolar. O trabalho inicial do atendimento educacional especializado consiste em conhecer o educando, definir su- as potencialidades, dificuldades e necessidades. Para isto, faz-se necessária a co- leta de informações através de entre- vista com o aluno (de acordo com sua idade), com seus responsáveis, familiares, amigos e educadores, bem como de pesquisa de seus an- tecedentes clínicos e escolares. Este levantamento de dados é muito relevante para o atendimento educacional especializado, pois: Conhecer o desenvolvimento global do aluno, o diagnóstico, a avaliação funcional da visão, o contexto fami- liar e social, bem como as alternati- vas e os recursos disponíveis, facili- tam o planejamento de atividades e a organização do trabalho pedagó- gico (CAMPOS et al, 2007, p. 18). O Plano de Atendimento Educacional Especializado Para cada aluno cego ou com baixa visão, é feito um planejamento específico, considerando os dados e as informações coletadas, a faixa etária e a escolaridade. Após o levantamento inicial das potencialidades, dificuldades e ne- cessidades do aluno, o plano de atendimento educacional especiali- zado é elaborado com objetivos, ações, estratégias e recursos materi- ais que serão trabalhados em um de- terminado período. É muito impor- tante determinar o período para o desenvolvimento das ações, obser- var a coerência entre o período pre- tendido, a realização das atividades e analisar o desempenho do aluno ao longo do processo. O atendimento educacional espe- cializado, em salas de recursos multi- funcionais, deve ser realizado em ho- rário oposto ao da sala de aula. Além disso, o planejamento deve considerar os recursos materiais e humanos dis- poníveis. Neste sentido, o atendimento educacional especializado deve dispor do máximo de recursos possíveis para que o aluno tenha diferentes opções e possa escolher a alternativa que me- lhor se adapta às suas necessidades. Dimensões do Atendimento Educacional Especializado A partir das características do alu- no e da análise do contexto escolar e familiar, torna-se possível definir e or- ganizar as diversas dimensões do atendimento educacional especiali- zado de acordo com a faixa etária e o nível de escolaridade. Neste senti- do, relacionamos algumas das pos- sibilidades de intervenção: Estimulação Essencial no Contexto da Educação Infantil A estimulação essencial consiste na estimulação de todos os sentidos da criança de zero a três anos, com ênfase no "ver com o corpo", para o bebê cego, e "ver com os olhos", pa- ra o bebê com baixa visão. Toda criança necessita de estímulos para que seu potencial se desenvolva efetivamente. O organismo infantil po- de estar pronto para reagir, mas se Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 37
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 201038 não houver estímulos adequados, im- prescindíveis ao seu desenvolvimen- to, poderá permanecer em estado de "latência" (RODRIGUES, 2002, p. 7). A estimulação essencial tem o ob- jetivo de evitar ou superar possíveis atrasos secundários decorrentes da privação visual. Este processo ba- seia-se na estimulação e exploração dos sentidos remanescentes, tendo em vista a mobilidade, a comunica- ção e a interação com os seres e os objetos em sua volta através de brin- cadeiras, jogos, canções, histórias, entre outras modalidades de media- ção pela fala e pelo contato físico. Este trabalho é realizado com um conjunto de brinquedos e de recur- sos devidamente selecionados de acordo com os objetivos e as finali- dades, considerando-se o desenvol- vimento e a condição visual de cada criança. Assim, para o bebê cego são apresentados brinquedos sono- ros, com diferentes texturas e chei- ros, miniaturas, livros táteis etc., en- quanto o bebê com baixa visão rece- be brinquedos coloridos, com alto e médio contraste, adaptações lumi- nosas, painéis coloridos etc. Em ambos os casos, as ativida- des podem ser realizadas duas ou três vezes por semana, durante 50 minutos, aproximadamente, com a presença e/ou a participação de uma pessoa da família ou de professores que aprendem a executar os mes- mos exercícios, uma vez que as ativi- dades desenvolvidas no atendimen- to educacional especializado deve- rão ter seqüência em casa e na uni- dade de educação infantil freqüenta- da pela criança. Estimulação Sensório Motora Esta dimensão do atendimento educacional especializado visa dar continuidade à estimulação essen- cial em um nível mais complexo, no qual as crianças de quatro a sete anos são incentivadas a identificar e resolver diferentes situações do dia a dia, usando estratégias, recur- sos e equipamentos específicos às suas necessidades. A criança cega é estimulada a in- terpretar as informações táteis, audi- tivas, olfativas e sinestésicas, por meio de brincadeiras e jogos acessí- veis, que possibilitam a discrimina- ção de formas, tamanhos, espessu- ras, entre outros. A quantidade e a variedade de estímulos em um ambi- ente encorajador no qual a atividade exploratória é incentivada e orienta- da contribuem para a formação de conceitos e representações mentais que permitem à criança atuar sobre o meio, como agente da ação, de forma autônoma e independente. A criança com baixa visão apren- de a trabalhar suas funções ópticas perceptivas ao realizar atividades de discriminação, de memória visu- al, de percepção espacial, de coor- denação viso motora, entre outras. Ela deve ser estimulada a usar a vi- são potencial na realização das ati- vidades para que possa "aprender a ver" e desenvolver ao máximo a efi- ciência visual. O Ensino do Sistema Braille no Contexto da Alfabetização As crianças cegas podem e de- vem ser alfabetizadas em classes comuns, cabendo ao atendimento educacional especializado colabo- rar com este processo com o su- porte necessário para a aprendiza- gem do Sistema Braille. Neste pon- to, cabe ressaltar que a tarefa de al- fabetizar é da competência do pro- fessor da sala de aula regular e a tarefa de iniciação e apropriação do Sistema Braille fica a cargo do pro- fissional responsável pelo atendi- mento educacional especializado. Considerando que a simbologia Braille será o código inicial de es- crita e de leitura da pessoa cega, é recomendável introduzir os sinais e os símbolos Braille em situações cotidianas da vida da criança des- de bebê. Por exemplo, colocar eti- quetas em Braille com o nome da criança na lancheira, na escova de dentes, em caixas de presentes etc. Enfim, confeccionar crachás em braile e aproveitar embalagens, rótulos e toda sorte de material em Braille disponível e apresentar di- versas alternativas de conversão da escrita convencional para o Sis- tema Braille dentro e fora da esco- la, o que facilita a aprendizagem da representação gráfica das palavras através do sistema Braille, bem co- mo seu uso social. As atividades desenvolvidas na sala de aula regular devem ser adap- tadas e transcritas para o Sistema Braille com antecedência para serem realizadas pelo aluno cego no mes- mo tempo e espaço que os seus co- legas da turma. Além da grafia Braille, as demais representações gráficas do sistema alfabético (a letra em caixa alta, cur- siva e de imprensa, maiúscula e mi- núscula) podem ser apresentadas ao aluno cego e representadas em variadas texturas. No processo de alfabetização do aluno cego, os profissionais do aten- dimento educacional especializado podem trabalhar a simbologia Braille com os professores e com a turma da classe comum. O Sorobã O sorobã (Figura 4) foi reconhe- cido oficialmente como recurso educativo para a realização de cál- culos matemáticos por alunos com deficiência visual pela Portaria Mi- nisterial nº. 1.010, de maio de Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 38
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 32-39, jan/jul. 2010 39 2006, que autoriza seu uso em concursos públicos, vestibulares e outros exames. Este instrumento de cálculo é considerado: (...) um contador mecânico adapta- do para uso das pessoas com defi- ciência visual, cuja manipulação de- pende exclusivamente do raciocí- nio, domínio e destreza do usuário, diferindo, portanto, da calculadora eletrônica, que é um aparelho de processamento e automação do cálculo, sem a intervenção do raci- ocínio (...) (BRASIL, 2006). O uso do sorobã costuma ser in- troduzido, geralmente nas séries ou ciclos do ensino fundamental devido à complexidade gradativa das opera- ções matemáticas. Antes disso os cálculos são realizados através de materiais concretos e do cálculo mental (com todas as crianças). Nes- te sentido, compete ao profissional responsável pelo atendimento edu- cacional especializado desenvolver um conjunto de atividades com blo- cos lógicos, ábaco, material doura- do, jogos pedagógicos e outras situ- ações de aprendizagem que contri- buem para facilitar a introdução e o manejo do sorobã. Orientação e Acompanhamento O acompanhamento trata, especi- ficamente, daqueles alunos que não necessitam freqüentar o atendimento na sala de recursos multifuncionais ou nos centros especializados, po- rém fazem uso de recursos ópticos ou não ópticos, de material ampliado ou em braille, de material confeccio- nado com texturas, entre outros. Estes alunos têm seu acesso aos recursos e equipamentos utilizados por meio do atendimento educacio- nal especializado. A orientação consiste em instru- mentalizar a comunidade escolar quanto aos aspectos relacionados à inclusão da pessoa cega ou com baixa visão na escola. Os pais ou responsáveis pelo aluno também são orientados no sentido de cola- borar com o trabalho realizado pela escola e pelo atendimento educa- cional especializado. Conclusão Lembramos que o atendimento educacional especializado tem o objetivo primordial de possibilitar a formação escolar do aluno com de- ficiência visual. Consiste em um conjunto de ações diferenciadas do trabalho desenvolvido na sala de aula, tendo em vista o acesso ao conhecimento e o desenvolvi- mento da independência e autono- mia dos alunos cegos e com baixa visão. Neste sentido, o AEE asse- gura as condições de acessibilida- de dos recursos pedagógicos, os meios de locomoção, comunica- ção e de inclusão escolar. Compe- te aos educadores, gestores e fa- miliares criar as condições para a concretização deste direito. Referências BRASIL, Ministério da Educação. P. Política nacional de educação especial na perspec- tiva da educação inclusiva. Inclusão. Revis- ta da educação especial. Brasília: MEC/SE- ESP, v. 4, 2008, p. 7-17. BRASIL. Ministério da Educação. Braille Fácil 3.0b. Projeto DOSVOX - NCE/UFRJ, c2002. Disponível em: <http://intervox.nce.ufrj.br/brfa- cil/>. Acesso em: 20 ago 2008. BRASIL. Ministério da Educação.Portaria Nº 1.010, de Maio de 2006. Disponível em: < h t t p : / / w w w . u b c b r a - sil.org.br/leis/port1010.htm >. Acesso em: 20 ago 2008. CAMPOS, I. M. et al. Atendimento educa- cional especializado: deficiência visual. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. FELIPPE, J. A. M. et al. Caminhando jun- tos: manual das habilidades básicas de orientação e mobilidade. Brasília: MEC/SE- ESP, 2003. RODRIGUES, M. R. C. Estimulação preco- ce: a contribuição da psicomotricidade na intervenção fisioterápica como prevenção de atrasos motores na criança cega congê- nita nos dois primeiros anos de vida. Ben- jamim Constant: Rio de Janeiro, v. 1, n. 21, 2002, p. 6-22. Figura 4 - Sorobã Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 39
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201040 O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA O ALUNO COM DEFICIÊNCIA MENTAL O presente artigo define inicialmente o atendimento educacional especializado para o aluno com deficiên- cia mental e precisa suas finalidades. Em seguida, apresenta as principais características cognitivas do aluno com deficiência mental a fim de desvendar a per- tinência desse atendimento para esse aluno. Tendo por base o perfil cognitivo do aluno com deficiência men- tal, o artigo ressalta com a ajuda de alguns exemplos os princípios fundamentais de uma intervenção educa- tiva própria desse tipo de atendimento. Finalmente apresenta a experiência vivenciada no decorrer de dois anos de desenvolvimento do projeto de Formação Continuada de Professores em Atendimento Educacio- nal Especializado, oferecida na modalidade de Educa- ção à distância pela Universidade Federal do Ceará em parceria com a Secretaria de Educação Especial, do Ministério da Educação. Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializa- do; Deficiência mental; Formação de professor. O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA O ALUNO COM DEFICIÊNCIA MENTAL Adriana L. Limaverde Gomes1 adrianalimaverde@terra.com.br Rita Vieira de Figueiredo2 rvieira@ufc.br Jean-Robert Poulin3 jean-robert_poulin@uqac.ca 1 Doutora em Educação - Faculdade 7 de Setembro; Técnica em Educação da Secretaria de Educação de Fortaleza/CE. 2 Doutora em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará - UFC. 3 Professor associado da Universidade de Quebec em Chicoutimi, Canadá e Professor Visitante da Universidade Federal do Ceará - UFC. Resumo 40 ENFOQUE Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 40
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 2010 41 O Atendimento Educacional Especializado O atendimento educacional espe- cializado - AEE é um serviço da Educa- ção Especial que tem como objetivo eliminar barreiras que dificultem a par- ticipação dos alunos no ensino regular, considerando as suas necessidades específicas. O atendimento educacio- nal especializado para o aluno com deficiência mental deve organizar situ- ações que favoreçam o seu desenvol- vimento, deve promover situações de estimulação dos mecanismos do de- senvolvimento cognitivo e da aprendi- zagem e produzir materiais didáticos e pedagógicos, tendo em vista as ne- cessidades específicas desses alunos. O professor do AEE acompanha o uso desses materiais e recursos em sala de aula, mas não realiza reforço esco- lar. Ele não faz repetição das ativida- des escolares. O atendimento educacional espe- cializado é uma inovação que provoca rupturas no modelo conservador de educação especial, porque se consti- tui em um serviço que complementa o ensino comum oferecendo suporte para a aprendizagem do aluno, o que pode favorecer sua permanência na escola comum. A ousadia dessa pro- posta reside na possibilidade de convi- dar os professores a romperem com concepções negativas sobre as possi- bilidades de aprendizagem das pesso- as com deficiência investindo no po- tencial de aprendizagem delas. A atual Política Nacional de Educa- ção Especial na Perspectiva da Educa- ção Inclusiva (2008) orienta aos muni- cípios brasileiros o desenvolvimento de um modelo original de atendimento educacional especializado que se rea- liza no contra turno do horário escolar. A opção por esse modelo se justifica por diferentes razões. A primeira, por- que alguns alunos com deficiência mental necessitam de suporte particu- lar que favoreça o desenvolvimento de suas ferramentas cognitivas, motoras, afetivas e sociais permitindo a estes alunos participar ativamente de um sa- ber compartilhado na classe comum. A interação do aluno com seus pares na classe comum faz dele um agente participativo que contribui ativamente para a constituição de um saber com- partilhado. Deste modo, o aluno po- derá perceber-se como sujeito que contribui para a construção de saberes e de um saber-fazer coletivo retirando disso múltiplas vantagens, inclusive a de acessar um papel social valorizado. A segunda razão se justifica pelo mo- delo de escola brasileira cujo tempo escolar corresponde a meio turno de ensino. Comparando esse tempo com o tempo escolar da maioria dos países do mundo que praticam a escola de período integral, a escola brasileira fica em desvantagem no que diz respeito à permanência do aluno na sala de aula. Deste modo, oportunizar ao aluno com deficiência mental viver integral- mente a sua escolarização no espaço da sala de aula comum, permite que ele se beneficie dessa convivência, lo- go não se justifica retirar esse aluno de sala de aula para realizar outros atendimentos. De acordo com a ne- cessidade, o professor de AEE pode- rá colaborar com o professor do ensi- no comum orientando a utilização de materiais e recursos pedagógicos que favoreçam a participação em sa- la de aula do aluno com deficiência. Esse modelo de atendimento educa- cional especializado permite a pre- sença do aluno com deficiência em sala de aula no mesmo momento e em um tempo igual ao dos outros alu- nos. O AEE complementa a formação do aluno e visa a desenvolver a sua autonomia e independência na esco- la comum e fora dela. O aluno com deficiência mental: características cognitivas O funcionamento cognitivo do alu- no com deficiência mental comporta um conjunto de características que The present article defines initially the special educa- tion support for the pupil with mental deficiency and needs its purposes. After that, it presents the main cognitivies characteristics of the pupil with mental deficiency in order to unmask the relevancy of this attendance for this pupil. Having for base the cogni- tive profile of the pupil with mental deficiency, the ar- ticle standes out with the aid of some examples the basic principles of a proper educative intervention of this type of attendance. Finally it presents the expe- rience lived deeply in elapsing of two years of deve- lopment of the project of Continued Formation of Professors in Specialized Educational Attendance, offered in the modality of long-distance Education for the Federal University of the Ceará in partnership with the Secretariat of Special, Ministry of the Educa- tion of Brazil. Key words: Specialized Educational Attendance; Mental retardation; Teacher training. Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 41
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201042 testemunham certa fragilidade nesse funcionamento. Consideramos impor- tante delimitar um perfil desse funcio- namento ressaltando que seja qual for a importância da deficiência desse alu- no, ele é capaz de realizar numerosas aprendizagens. O professor não deve considerar essas características como obstáculo para uma ação educativa eficiente. Ele deve, ao invés disso, le- var em conta essas características ten- do como objetivo desenvolver estraté- gias que permitam maximizar a eficiên- cia de suas intervenções educativas. Os alunos com deficiência mental têm dificuldades para mobilizar os seus próprios recursos cognitivos in- ternos de modo eficiente. Em situação de resolução de problema, freqüente- mente esses alunos se apóiam mais sobre recursos externos, tais como a opinião de um colega, do que sobre seus próprios recursos cognitivos. Ele é fortemente influenciado pela opinião e pela ação do outro. As freqüentes di- ficuldades vivenciadas por esses alu- nos em contexto de aprendizagem po- dem talvez explicar essa ausência de confiança na própria capacidade de resolver os desafios com os quais ele é confrontado em casa ou na escola. Inhelder (1963) realizou um estudo importante sobre o funcionamento cognitivo das pessoas com deficiência mental o qual pode esclarecer, pelo menos em parte, esta dificuldade para mobilizar seus próprios recursos cog- nitivos internos de modo eficiente. Neste estudo, realizado com cem pes- soas que apresentavam deficiência mental, a autora observou a manifesta- ção de oscilação do raciocínio em pe- lo menos 10% dessas pessoas. Essas oscilações se caracterizavam pela ex- pressão de dois níveis de raciocínio que elas apresentavam frente à de- manda de resolução de um problema. Neste estudo, Inhelder observou três tipos de oscilação. Uma que se carac- teriza por um raciocínio que marca um progresso durante o período de inter- rogação do sujeito, outra caracterizada por oscilações simples entre dois ní- veis de raciocínio e uma terceira cujo raciocínio marca um retorno durante a interrogação do sujeito. Estas oscilações testemunham que fatores extras cognitivos podem influ- enciar os mecanismos operatórios, po- dendo, inclusive, interferir na coerência interna do pensamento (INHELDER, 1963). A respeito desses fatores extras cognitivos, Inhelder identifica: a inquie- tude, a sugestionabilidade e a hesita- ção que em um contexto de troca soci- al podem ter um efeito sobre a fragilida- de do pensamento das pessoas com deficiência mental. A inquietude resul- taria de problemas de trocas afetivas ou intelectuais com o meio social. A su- gestionabilidade resultaria das cons- tantes dificuldades cognitivas experien- ciadas pela criança, que teria como conseqüência a ausência de credibili- dade nas próprias idéias. Ela resulta da necessidade de aprovação do ou- tro, o que não permite a criança buscar soluções motivada pelo interesse na resolução do problema, mas pela bus- ca de aprovação. Essa forma de fun- cionamento impede o sujeito de se adaptar e de tratar os problemas de for- ma objetiva. Essa necessidade de aprovação presente nos procedimen- tos cognitivos da criança dificultaria seu processo de decisão quanto à resolu- ção de problemas, resultando em com- portamentos de hesitação. Os fenôme- nos evolutivos, seja a construção pro- gressiva do mecanismo operatório, se- ja o desenvolvimento das trocas afeti- vas com o meio social, constituem uma totalidade da qual os diferentes aspec- tos são interdependentes (INHEL- DER,1963, p. 245). Segundo esta auto- ra, o desenvolvimento operatório com- porta um aspecto de equilíbrio indivi- dual interno e um aspecto social. As operações lógicas constituem um meio de troca entre o indivíduo e o grupo, lo- go, as regras operatórias são construí- das no conjunto das normas sociais. Assim, se o sujeito acumula experiên- cia de sucesso em suas trocas com o meio social, ele pode ultrapassar seu potencial. Entretanto, o contrário tam- bém pode se produzir. O ponto de vista de Inhelder parece ser compartilhado com o de Ferreti (1994) quando considera que o desen- volvimento de estratégias de resolução de problemas depende algumas vezes das características cognitivas do sujeito e outras vezes dos suportes sociais e contextuais que lhe são oferecidos. Oferecer suportes qualitativos e ainda situações de ensino e aprendizagem que proporcionem interações eficazes constitui estratégias importantes para a superação das barreiras impostas pela deficiência mental, no que diz respeito à apropriação do conhecimento. Em sala de aula, esses alunos ex- perienciam dificuldades em centralizar a atenção sobre os elementos essenci- ais que permitiriam orientar o procedi- mento de realização das tarefas pro- postas pelo professor. Trata-se de um problema de atenção seletiva. Normal- mente eles têm dificuldade em com- preender o que é esperado deles e conseqüentemente, apresentam difi- culdades para se orientarem e planeja- rem eficazmente à realização da tarefa. Em situação de aprendizagem, es- ses alunos utilizam de maneira pouco eficiente estratégias cognitivas de codi- ficação da informação. No que consiste a memória de curto prazo ou memória de trabalho eles não utilizam as estraté- gias cognitivas de repetição interna ou de agrupamento de informação que permitiriam reter as informações úteis à resolução do problema. Eles facilmente esquecem elementos importantes para a realização eficiente da tarefa. O planejamento e a auto-regulação durante a situação de resolução de problemas se constituem nos aspec- tos que os alunos com deficiência mental apresentam maiores dificulda- des. Eles experimentam dificuldade em refletir sobre o resultado da própria Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 42
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 2010 43 ação e sobre a transformação das es- tratégias relacionadas a esta ação, ou seja, são os aspectos metacognitivos implicados na realização das tarefas que se revelam pouco eficientes nes- ses alunos. Eles tendem a repetir a mesma estratégia mesmo quando elas se mostram ineficazes. A transferência das aprendizagens para novos contextos constitui uma outra dificuldade pelas quais passa o aluno com deficiência mental. Fre- qüentemente, este aluno não conse- gue aplicar espontaneamente um sa- ber ou um saber fazer adquirido em outro contexto, mesmo quando existe pouca diferença entre esse dois con- textos. Esta dificuldade de transferên- cia se constitui sem dúvida em um grande desafio para o professor. Pro- blemas de natureza metacognitiva po- deriam explicar, em parte, essas difi- culdades de transferência. Outra característica a considerar diz respeito à fragilidade que ele apre- senta ao operar no nível das represen- tações mentais, uma vez que essa difi- culdade interfere na evolução concei- tual. A evolução conceitual relaciona- se com o desenvolvimento da oralida- de, da capacidade de estabelecer diá- logo com o outro e com o meio físico e social de modo significativo. Acreditamos que essas caracte- rísticas podem interferir no processo de apropriação do conhecimento pe- lo aluno com deficiência mental. Desse modo, o atendimento a esse aluno deve se estruturar em função das possibilidades de superação dessas barreiras. O atendimento educacional especializado para o aluno com deficiência mental O trabalho do professor de atendi- mento educacional especializado vol- tado para o aluno com deficiência mental se caracteriza essencialmente pela realização de ações específicas sobre os mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento e a aprendiza- gem desses alunos. Para desenvolver o AEE, é imprescindível que o profes- sor conheça seu aluno e suas particu- laridades para além das dificuldades e limitações impostas pela deficiência. O trabalho do professor de AEE é realizar uma ação específica para ajudar o alu- no com deficiência mental a agir de modo estruturado no ambiente escolar e fora dele. Este modelo de atendi- mento deve se orientar pela realização de estudo de caso. O estudo de caso deve ser efetivado pelo professor de AEE em colaboração com o professor do ensino comum e com outros profis- sionais que trabalham com esse aluno no contexto da escola. A família deve ser convidada para oferecer informa- ções sobre o aluno e também colabo- rar no seu estudo de caso. Dessa ma- neira, o professor de AEE estabelece os objetivos que ele deve seguir no atendimento ao aluno, e trabalha de maneira conjunta com o professor do ensino comum. Como já afirmamos anteriormente, o trabalho do AEE não deve se apoiar sobre os conteúdos curriculares. Esse trabalho deve se realizar focalizando as atitudes do aluno diante da aprendi- zagem, bem como sobre os mecanis- mos que permitirão o desenvolvimen- to de ferramentas conceituais que faci- litarão sua participação. O professor de AEE pode trabalhar de uma manei- ra sistemática sobre as estratégias me- tacognitivas do aluno de modo a favo- recer o desenvolvimento da capacida- de de auto-regulação dele em situação de resolução de problema. O trabalho pedagógico envolvendo a habilidade metacognitiva no espaço do AEE de- manda a necessidade de planejar es- tratégias para cada situação de apren- dizagem, de forma que o aluno seja capaz de (de modo autônomo) contro- lar o processo de utilização dessas es- tratégias, avaliá-las para detectar erros que possam ter cometido e modificá- las. O professor de AEE deve planejar atividades que desenvolvam no aluno a capacidade de generalizar ou trans- ferir uma aprendizagem a novas situa- ções. Ele deverá fazer intervenções (de natureza educativa) estruturadas para favorecer a utilização mais eficien- te das estratégias metacognitivas apresentadas pelo aluno. Por exem- plo: comparar ou fazer seleção de es- tratégias cognitivas pertinentes para resolver um problema ou controlar e ajustar o processo de resolução de problema. Outro exemplo de interven- ção sobre a responsabilidade do pro- fessor de AEE diz respeito à organiza- ção da linguagem. Normalmente o alu- no com deficiência mental apresenta problemas na memória a curto prazo. As dificuldades de leitura enfrentadas por esses alunos podem estar asso- ciadas a essa fragilidade. O professor do AEE deve realizar uma ação espe- cífica no sentido de ajudar o aluno a superar essa dificuldade. Dentre ou- tros aspectos, ele pode trabalhar com o aluno os mecanismos de representa- ção interna e de agrupamento da infor- mação. Se o problema de leitura do aluno for de natureza da interpretação do conteúdo, o professor deve traba- lhar de maneira específica sobre essa dificuldade cognitiva. Por exemplo, ele pode narrar uma história e depois soli- citar que o aluno reescreva de modo que outro leitor compreenda os princi- pais elementos do conteúdo da histo- ria lida. Para apoiar a aprendizagem do aluno, o professor poderá elaborar um esquema conceitual que permita a identificação dos principais eventos narrativos e dos elementos responsá- veis pelas causas e conseqüências da situação apresentada pela historia, ou seja, os elementos essenciais e os se- cundários da narrativa, aspecto que caracteriza a grande dificuldade do aluno com deficiência mental na inter- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 43
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 201044 pretação da escrita. A organização da linguagem ver- bal se constitui em outro foco de inte- resse do AEE. É importante que o professor organize situações que per- mitam ao aluno estabelecer diferen- ças entre as características da lingua- gem verbal e aquelas da linguagem escrita. O professor de AEE deve pro- porcionar ao aluno o contato com as mais variadas formas de comunica- ção, porque esse contato possibilita o entendimento e a ampliação do seu vocabulário. Ele deve organizar situa- ções em que o aluno seja provocado a se expressar oralmente através de descrições de imagens, fotos, recon- tos orais e relatos de experiências. A capacidade de operar no nível das re- presentações mentais constitui uma fragilidade no aluno com deficiência mental, e a oralidade pode possibilitar o desenvolvimento dessa capacida- de. A oralidade permite o aluno transi- tar pelo mundo da representação, porque a palavra substitui o mundo fí- sico dos objetos, permite ao sujeito planejar e organizar o pensamento e contribui para a compreensão da pa- lavra oral e para a interpretação de significados. A ampliação do vocabu- lário possibilita o seu uso de modo compreensivo. O trabalho de AEE também deve focalizar as atitudes do aluno com de- ficiência mental diante do conheci- mento. Comumente, esse aluno ma- nifesta atitudes de dependência da resposta do outro quando confronta- do com uma situação problema, ou seja, transfere para o outro a respon- sabilidade de resolver um determina- do problema, antes de tentar de mo- do autônomo sua solução. Nesse sentido, o AEE deve priorizar a oferta de atividades em que o aluno faz sua opção de acordo com seus interes- ses. Deverá ainda propor atividades de acordo com as potencialidades dos alunos, no sentido de promover a vinculação com o êxito, bem como organizar propostas a partir das pos- sibilidades e interesses manifestados pelo aluno. Essas propostas são pos- síveis na medida em que ocorra a promoção de situações diversificadas que permitam o aluno se expressar li- vremente. O professor de AEE pode disponibilizar materiais e recursos di- versos que possibilitem o aluno se ex- pressar artisticamente, fazendo sua escolha de acordo com seu desejo. O oferecimento dessas diferentes op- ções de atividades tem influência na autonomia e na independência do aluno frente às diferentes situações de aprendizagem, contribuindo para a autoconfiança e a motivação dele, tendo em vista a possibilidade de êxi- to. Figueiredo (2004) realizou um es- tudo com um grupo de seis alunos com deficiência mental no qual inves- tigava a motivação deles frente a dife- rentes atividades de leitura e de escri- ta. O resultado da pesquisa demons- trou que a motivação desses alunos estava relacionada com o aspecto funcional implicado nas atividades, e com o nível de exigência para realiza- ção delas. No trabalho do AEE, o professor exerce o papel de mediador do co- nhecimento. O aluno com deficiência mental abstrai e constrói conhecimen- tos, no entanto, sua atividade cogniti- va não é espontânea, necessitando ser exercitada especialmente pela me- diação do professor. O aluno com de- ficiência mental, como sujeito social, beneficia-se (ou não) das inúmeras mediações que caracterizam as rela- ções sociais e interpessoais estabele- cidas no espaço escolar, as quais são marcadas também pelos conflitos e contradições da vida em sociedade. O trabalho do professor de AEE deve se pautar na interação com o aluno no sentido de favorecer a busca pela re- solução de um determinado problema a partir da mediação do professor. Du- rante a realização de jogos que de- mandem desafios, o professor pode fazer um apelo ao contexto, às experi- ências e conhecimentos prévios do aluno, para que ele utilize procedi- mentos que permitam a resolução da situação apresentada. Segundo Pao- ur (1988), os sujeitos com deficiência mental manifestam grande dificuldade na mobilização de conhecimentos prévios na resolução de situações- problema. Entretanto, esta dificuldade pode ser sensivelmente minimizada por meio de procedimentos de media- ção orientados em função da deman- da da atividade e das potencialidades do sujeito. Analisando a internalização de estratégias de mediação Vygotsky, argumenta que "no processo de de- senvolvimento, as crianças começam a usar as mesmas formas de compor- tamento em relação a si mesmas que os outros inicialmente usaram com elas" (VYGOTSKY apud SMOLKA, 1991, p. 54-55). Isso significa, segun- do o autor, que as crianças não ape- nas se apropriam dos conhecimentos envolvidos na resolução de tarefas, como também internalizam as estraté- gias empregadas pelo mediador, de acordo com cada situação-problema. A mediação pedagógica é mais signi- ficativa e eficiente quando resulta na combinação de estratégias variadas, orientadas em função das dificulda- des e potencialidades dos sujeitos e da situação-problema. É importante considerar a mediação como um fe- nômeno multifacetado, visto que nela estão implicados diversos aspectos do desenvolvimento e não apenas os processos cognitivos. É importante considerar, também, as concepções do mediador como um fator de gran- de relevância no estabelecimento das relações na tríade sujeito mediador, objeto de conhecimento e sujeito da aprendizagem. Em síntese, o atendimento educa- cional especializado deve propor ati- vidades que estimulem o desenvolvi- mento conceitual, além de propor si- tuações vivenciais que possibilitem Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 44
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 40-45, jan/jul. 2010 45 ao aluno com deficiência mental or- ganizar o pensamento operatório e ainda propor situações-problema que exijam o uso do raciocínio abstrato. Dessa maneira, o professor vai ajudar esse aluno a confrontar com o seu li- mite cognitivo fazendo uma oposição sobre a maneira pela qual ele interage com o mundo. Assim, a estruturação desse aten- dimento deve considerar as especifici- dades do aluno com deficiência men- tal. Especificidades que dizem respei- to especialmente à relação que ele es- tabelece com o conhecimento de mo- do que a promoção da sua autonomia intelectual embasa toda a organiza- ção do AEE. Formação em Atendimento Educacional Especializado: uma experiência em curso Em 2007, a Universidade Federal do Ceará ofereceu um curso de For- mação Continuada em Atendimento Educacional Especializado para for- mação de professores dos 147 muni- cípios pólos de redes municipais das cinco regiões do Brasil. O curso con- tou com o apoio do Ministério de Edu- cação, por meio da Secretaria de Educação Especial, e formou mais de mil professores na modalidade à dis- tância. O referido curso se iniciou com uma formação presencial para os tutores da cada município pólo cu- jo objetivo era a fundamentação deles com o conteúdo e a metodologia, bem como a familiarização com o ma- terial (livros, vídeos, dentre outros) elaborado para este fim. A formação aborda o atendimento educacional especializado voltado para a deficiên- cia mental, pessoa com surdez, defi- ciência física e deficiência visual. A formação a distância possibilitou experienciar outro modo de exercer a docência que diferia do presencial. Ini- cialmente, trabalhar com o Ensino a Distância parecia uma realidade dis- tante. Avaliávamos que a relação me- diada pelo computador poderia inter- ferir no movimento contínuo de intera- ção entre os participantes do curso. In- terrogávamos-nos como interagir com pessoas tão distantes, cuja voz era a palavra escrita. De modo surpreen- dente o contato com essas vozes es- critas possibilitou uma sensação de proximidade acrescentada pela rique- za de entrar em contato com o movi- mento dialógico das turmas de profes- sores alunos do curso. A navegação pelo computador foi mediada por uma nova compreensão sobre o atendi- mento do aluno em situação de defici- ência. A proposta conceitual do curso convidava os participantes a rompe- rem com muitas de suas concepções sobre as possibilidades de aprendiza- gem dos alunos com deficiência. A maioria dessas concepções residia na crença de que apenas alguns alunos se beneficiavam da escola comum e, portanto, teriam capacidade de apren- der. As atividades realizadas durante a formação organizadas no formato de estudo de caso provocavam conflitos importantes, visto que algumas turmas ainda centravam suas discussões na necessidade de definir a deficiência, de conhecer o diagnóstico ou de prio- rizar o atendimento clínico como pos- sibilidade de dar respostas às necessi- dades educacionais do aluno com de- ficiência. Essas ocorrências provoca- ram a necessidade de uma interven- ção constante no sentido de esclare- cer os propósitos desse novo modelo de atendimento educacional, que prio- riza a eliminação de barreiras as quais impedem o aluno de se apropriar dos conhecimentos escolares. As crescentes solicitações de for- mação apresentadas por inúmeros municípios brasileiros demandaram a reedição do curso em Atendimento Educacional Especializado para o ano 2008. Esta nova versão do curso contemplou o aprimoramento da me- todologia de trabalho a partir das difi- culdades identificadas em 2007. O es- tudo de caso, fundado na aprendiza- gem colaborativa em rede com base em situações do cotidiano escolar, foi priorizado como opção metodológica pela riqueza de possibilidades de in- terlocução entre os participantes do curso. Este novo formato do curso, sem dúvida, favoreceu uma maior im- plicação dos professores alunos do curso, na identificação das reais difi- culdades de seus alunos, bem como das suas possibilidades de aprendi- zagem e, conseqüentemente, de in- serção e interação no contexto da es- cola comum, sendo esta a principal razão que mobiliza a oferta do atendi- mento educacional especializado nas redes públicas de ensino. Referências FERRETTI, R. P. Cognitive, social, and contex- tual déterminants of strategie production: comments on Bray et al. (1994). American Journal on Mental Retardation, 1994, p. 32-43. FIGUEIREDO, R. V. El aprendizaje de la len- gua escrita en sujetos con deficiencia mental. IV Congreso Internacional sobre adquisición de las lenguas del estado. Salamanca: Univer- sidade de Salamanca, 2004. FIGUEIREDO, R. V. A emergência de estraté- gias de leitura em crianças com deficiência mental. Relatório de Pesquisa apresentado ao CNPq, 2003. INHELDER, B. Le diagnostic du raisonnement chez les débiles mentaux, 2ième édition aug- mentée. Neuchâtel (Suisse): Éditions Dela- chaux & Niestlé, 1963. PAOUR, J. L. Retard mental et aides cogniti- ves. In CAVERNI, J. P. ; BASTIEN, C., MEN- DELSHON, P., THIBERGHIEN, G. (Éds), Psychologie cognitive: Modèles et méthodes. Grenoble: Les presses de l'Université de Gre- noble, 1988, pp. 191-216. SMOLKA, A. L. B. A Prática Discursiva na sala de Aula: uma perspectiva teórica e um esbo- ço de análise. Cadernos CEDES, Edição 24 - Pensamento e Linguagem: estudos na pers- pectiva da psicologia soviética. Campinas, São Paulo: Papirus, 1991, p. 51-65. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 45
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201046 EDUCAÇÃO ESCOLAR DE PESSOAS COM SURDEZ - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO EM CONSTRUÇÃO Apresentamos neste texto reflexões sobre a educação es- colar de alunos com surdez, rompendo com o embate entre os gestualista e os oralistas, e interpretando, à luz do pensamento pós-moderno, a pessoa com surdez, co- mo ser humano descentrado, em que os processos per- ceptivos, lingüísticos e cognitivos poderão ser estimula- dos e desenvolvidos, tornando-os seres humanos capa- zes, produtivos e constituídos de várias linguagens, com potencialidade para adquirir e desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas também ler e escre- ver as línguas em seus entornos. Isso nos faz pensar na pessoa com surdez não reduzida ao chamado mundo surdo, mas como ser biopessoa com surdezicosocial, cognitivo, cultural. Neste contexto, a Educação Especial, na perspectiva inclusiva, com o serviço complementar do Atendimento Educacional Especializado na escola/classe comum, oferece novas possibilidades para as pessoas com surdez, em que a Libras e a Língua Portuguesa es- crita são línguas de comunicação e instrução. Palavras-chave: Educação inclusiva; Pessoa com surdez; Atendimento Educacional Especializado. EDUCAÇÃO ESCOLAR DE PESSOAS COM SURDEZ - ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO EM CONSTRUÇÃO Resumo Mirlene Ferreira Macedo Damázio1 Josimário de Paulo Ferreira2 1 Pedagoga, Doutora em Educação pela Unicamp/SP e professora pesquisadora da Fundação Conviver para Ser - Uberlândia/MG. 2 Professor, Mestre em Lingüística pela UFU/MG e professor do Centro Universitário do Triângulo- Uberlândia/MG. 46 ENFOQUE Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 46
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 47 Introdução Aproximadamente há dois séculos, existe um embate político e epistemo- lógico entre os gestualistas e os oralis- tas, que tem ocupado lugar de desta- que nas discussões e ações desenvol- vidas em prol da educação das pesso- as com surdez, responsabilizando o sucesso ou o fracasso escolar com ba- se na adoção de uma ou de outra con- cepção com suas práticas pedagógi- cas específicas. Enquanto as discus- sões ficam centradas na aceitação de uma língua ou de outra, as pessoas com surdez não têm o seu potencial in- dividual e coletivo desenvolvido, ficam secundarizadas e descontextualizadas das relações sociais das quais fazem parte, sendo relegadas a uma condi- ção excludente ou a uma minoria. Sabemos que a nova política de educação no Brasil vem tecendo fios direcionais que possibilitam superar uma visão centrada de homem, socie- dade, cultura e linguagem de forma fragmentária, certamente, não só nes- te momento histórico como um modis- mo, mas que se consolidará numa perspectiva de inclusão de todos, com especial destaque para as pessoas com deficiência. Neste ponto, uma no- va política de Educação Especial na perspectiva inclusiva, principalmente para pessoas com surdez, tem se tor- nado promissora no ambiente escolar e nas práticas sociais/institucionais. Porém, por mais que as políticas este- jam já definidas, muitas questões e de- safios ainda estão para ser discutidos, muitas propostas, principalmente no espaço escolar, precisam ser revistas e algumas tomadas de posição e bases epistemológicas precisam ficar mais claras, para que, realmente, as práti- cas de ensino e aprendizagem na es- cola comum pública e também priva- da apresentem caminhos consistentes e produtivos para a educação de pes- soas com surdez. Nesse sentido, sob a força do que se constitui como paradigma inclusivo, não legitimamos os estudos e traba- lhos que têm defendido os marcado- res identitários dos surdos: cultura sur- da, identidade surda, línguas surdas e sujeito surdo, tendo, do outro lado, os seus oponentes: os ouvintes domina- dores. Acreditamos na nova Política Nacional de Educação Especial, numa perspectiva inclusiva, e não coaduna- mos com essas concepções que dico- tomizam as pessoas com ou sem defi- ciência, pois, antes de tudo, por mais diferentes que nós humanos sejamos, sempre nos igualamos na convivência, na experiência, nas relações, enfim, nas interações, por sermos humanos. Enfim, refutamos essas propostas que estão na contramão da perspecti- va inclusiva, por provocar dicotomiza- ções que separam as pessoas com surdez das pessoas ouvintes, negli- genciando o potencial e a capacidade notórias e visíveis que elas possuem; e rompemos com o embate gestualistas e oralistas, pois ele prejudica o desen- volvimento dessas pessoas na institui- ção escolar, quando canaliza a aten- ção dos profissionais da escola para o problema de língua em si. A educação das pessoas com surdez não pode continuar sendo centrada nessa ou naquela língua, como ficou até agora, mas deve levar-nos a compreender que o foco do fracasso escolar não es- tá só nessa questão, mas também na qualidade e na eficiência das práticas pedagógicas. É preciso construir um campo de comunicação e interação amplo, possibilitando que as línguas tenham o seu lugar de destaque, mas que não sejam o centro de tudo o que acontece nesse processo. Aí, deve-se discutir a presença obrigatória de quem age, produz sentido e interage: a pessoa com surdez. Nossa intenção é interpretar a pes- soa com surdez, à luz do pensamento pós-moderno, como ser humano des- centrado, por acreditar no corpo bioló- gico, não em uma parte com a defici- ência; daí, termos certeza de que os processos perceptivos, lingüísticos e cognitivos das pessoas com surdez We present in this text some reflections on the school edu- cation of deaf students, trying to break up the existing re- sistance between gestural and oral followers, and inter- pret the deaf person in the light of a post-modern thought, as a non-centered human being, who is able to have his/her own perceptive, linguistic and cognitive proces- ses, which can be stimulated and developed. That will help them to be productive human beings who are able to acquire a number of languages, and develop not only the visual-gestural processes, but also learn how to read and write languages. We understand the deaf person is not re- duced to the so-called deaf world; instead he/she is a bio- deaf personchosocial, cognitive and cultural being. In this context, Special Education in the inclusive perspective, along with the complementary service of the Specialized Educational Assistance in the regular school/classroom, offer new possibilities for deaf people, having Libras and written Portuguese Languages instruction and communi- cation languages. Key words: Inclusive education; Deaf person; Specialized Educational Assistance. Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 47
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201048 deverão ser estimulados e desenvolvi- dos, tornando-as sujeitos capazes, produtivos e constituídos de várias lin- guagens, com potencialidade para ad- quirir e desenvolver não somente os processos visuais-gestuais, mas tam- bém ler e escrever as línguas em seus entornos e, se desejar, também falar. Isso nos faz pensar num sujeito com surdez não reduzido ao chamado mundo surdo, com a identidade e a cultura surda, mas numa pessoa com potencial a ser estimulado e desenvol- vido nos aspectos cognitivos, cultura- is, sociais e lingüísticos, pois a concep- ção de pessoa com surdez descentra- da se caracteriza pela diferença, que, sob a força de divisões e antagonis- mos, leva a pessoa a ser deslocada e a assumir diferentes posições e identi- dades, Hall (2006). É nesse sentido de descentramento identitário que conce- bemos a pessoa com surdez como ser biopessoa com surdezicosocial, cog- nitivo, cultural, não somente na consti- tuição de sua subjetividade, mas tam- bém na forma de aquisição e produ- ção de conhecimentos. Assim, torna-se difícil e complexo marcarmos e estabelecermos frontei- ras bem delineadas entre os vários contextos sociais e de vida, para limitar ou delimitar onde começam e termi- nam as culturas ali existentes. Enfim, pensar e construir uma prática peda- gógica que se volte para o desenvolvi- mento das potencialidades das pesso- as com surdez, na escola, é fazer com que essa instituição esteja imersa nes- se emaranhado de redes sociais, cul- turais e de saberes. É claro que se de- vem considerar os contornos dessas redes, não com a nitidez das fronteiras territoriais de culturas e identidades, mas como contornos que nos permi- tam ver as pessoas em suas singulari- dades e diferenças, cujos contextos re- ais precisam ser respeitados. Contu- do, precisamos nos afastar de idéias de unanimidade, de obviedade, de fragmentação, pois mergulhar na reali- dade é saber que estamos sempre in- completos, indefinidos, por sermos complexus, Morin (2001), e isso nos coloca na perspectiva do outro, cujos fios tecem infinitos sentidos em redes de conhecimento nas quais sempre o ser humano, em especial, a pessoa com surdez, estará enredada. Rompemos com o paradigma da dicotomização entre oralistas e gestua- listas, e colocamos em cena a pessoa com surdez na concepção pós-moder- na, como a caracterizamos anterior- mente, vemos que a tendência bilíngüe se torna um território que desterritoriali- za a clausura dessa pessoa, sob a óti- ca multicultural. Porém, ao pensar a abordagem bilíngüe para a educação lingüística da pessoa com surdez, des- locamos o lugar especificamente lin- güístico e a tratamos com outros con- tornos: a LIBRAS e a Língua Portugue- sa, em suas variantes de uso padrão, ensinadas no âmbito escolar, devem ser tomadas em seus componentes histórico-cultural, textual, interacional e pragmático, além de seus aspectos for- mais, envolvendo a fonologia, morfolo- gia, sintaxe, léxico e semântica. Para que isso ocorra, sob a força da ressignificação da pessoa com sur- dez, da tendência bilíngüe e da educa- ção, não discutimos o bilingüismo com olhar fronteiriço ou territorializado, segundo o que a literatura (principal- mente a estrangeira) tem produzido. Para nós, a pessoa com surdez não é estrangeira em seu próprio país, mas usuária de um sistema lingüístico com características e status próprios, no qual cognitivamente se organiza e es- trutura o pensamento e a linguagem nos processos de mediação simbóli- ca, na relação da linguagem/pensa- mento/realidade e práxis social. Assim, nesse processo de ressigni- ficação da educação de pessoas com surdez, sob a ótica bilíngüe, percebe- mos que muitas questões se colocam, tais como: que a proficiência em duas línguas ainda parece uma ilusão, pois ainda se pensa na subordinação de uma língua a outra; há uma visão edu- cacional priorizando a língua de sinais; prega-se uma hierarquia nos usos da língua, como se pudesse ser definido a priori; o bilingüismo, muitas vezes, dá lugar ao bimodalismo; não se leva em conta a abordagem bilíngüe, con- siderando as pessoas em seus graus de surdez, a pessoa com implante co- clear, os filhos de pais com surdez, os filhos de pais sem surdez; a formação de professores bilíngües; os proces- sos de gestualizar, sinalizar, articular, oralizar, ler e escrever na aquisição e desenvolvimento das línguas. Há mui- tos estudos e pesquisas a serem reali- zados, há também, muitas questões e pouquíssimas respostas, mas que po- derão ser revistas, retomadas, pesqui- sadas e estudadas sob o paradigma do sujeito pós-moderno. É importante frisar que a perspectiva inclusiva rom- pe fronteiras, territórios, quebra pre- conceitos e procura dar ao ser huma- no com surdez, amplas possibilidades sociais e educacionais. Por isso, é necessário discutir que, mais do que uma língua, as pessoas com surdez precisam de ambientes educacionais estimuladores, que de- safiem o pensamento e exercitem a capacidade perceptivo-cognitiva. Ob- viamente, precisam como as demais, de uma escola que explore suas capa- cidades, em todos os sentidos. Se só a posse de uma língua bastasse para aprender, as pessoas ouvintes não te- riam problemas de aproveitamento es- colar, já que entram na escola com uma língua oral desenvolvida. A aquisi- ção da língua de sinais, de fato, não é garantia de uma aprendizagem signifi- cativa. O ambiente em que a pessoa com surdez está inserida, uma vez que não lhe ofereça condições para que se estabeleçam mediações simbólicas com o meio físico e social, não exerci- ta ou provoca a capacidade represen- tativa dessas pessoas, conseqüente- mente, compromete o desenvolvimen- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 48
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 49 to do pensamento, da linguagem e da produção de sentidos. Diante do exposto, legitimamos a abordagem bilingüe e aplicamos a obrigatoriedade dos dispositivos le- gais do Decreto 5.626 de 5 de dezem- bro de 2005, que determina o direito de uma educação que garanta a for- mação da pessoa com surdez, em que a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa, preferencialmente na sua modalidade escrita, constituam línguas de instrução, e que o acesso às duas línguas ocorra de forma si- multânea no ambiente escolar, colabo- rando para o desenvolvimento de todo o processo educativo. Compreendemos que o fracasso do processo educativo das pessoas com surdez é um problema da quali- dade das práticas pedagógicas e não um problema somente focado nessa ou naquela língua, ou mesmo numa diferença cultural, envolvendo outra cultura, uma comunidade com identi- dades surdas próprias. Por isso, como já expusemos acima, fala-se muito da diferença surda e pouco do potencial desse ser humano; as pessoas com surdez desejam ser guetificadas, ex- cluídas da inclusão, em nome de uma etnia diferente? Quem não ouve, não tem deficiência e, sim, uma diferença cultural? Eles são realmente de uma etnia diferente? Acreditamos já ter sali- entado anteriormente a interpretação que damos a esses aspectos aborda- dos, pois a deficiência da pessoa com surdez a limita num aspecto sensorial, mas há possibilidades em outros. Em um contexto de rupturas com essa visão segregacionista e de emba- tes entre gestualista e oralistas, assina- lamos que esse não é o caminho defi- nido pelas políticas públicas educacio- nais brasileira, quando legitima a pers- pectiva inclusiva numa abordagem bi- lingüe para a educação das pessoas com surdez. A ruptura com o mundo ouvinte não marcará ou respeitará a di- ferença da pessoa com surdez, ou mesmo lhe retirará a deficiência, que é determinada pelo biológico, mas a falta de audição não a impede de desenvol- ver as possibilidades de significações e definições na sociedade do conheci- mento, uma vez que a demarcação do território ouvinte ou surdo não é algo real e concreto, pois as relações políti- cas e sociais envolvem todo e qualquer ser humano, independente de sua de- ficiência ou não. Esse ser humano pre- cisa ser trabalhado no espaço escolar como um ser que possui uma deficiên- cia, e que essa deficiência provoca uma diferença, que deve ser reconhe- cida e respeitada, mas não podemos justificar o fracasso nessa questão, em virtude de cairmos na cilada da diferen- ça, segundo Pierucci (1999). A atenção deve estar centrada, pri- meiramente, no potencial natural que esses seres humanos têm, indepen- dente de deficiência, diferença. Nes- sas pessoas, se lhes forem criados ambientes propícios para desenvolve- rem o seu potencial, outras questões serão secundarizadas. Em segundo lugar, o foco deve ser a transformação da escola e das suas práticas pedagó- gicas excludentes em inclusivas, pois compreendemos o homem como um ser dialógico, transformacional, incon- cluso, reflexivo, síntese de múltiplas determinações num conjunto de rela- ções sociais, com capacidade de ide- alizar e de criar. Mas ele pode ter difi- culdade consigo mesmo e com os que o rodeiam. Sob a égide do processo fi- logenético do desenvolvimento huma- no, o homem reflete o ser homo, cole- tivo, semelhante a todos os outros da sua espécie. Paralelamente, sob a vi- são ontogenética, ele se mostra singu- lar, único e idiossincrático. Nesse contexto de compreensão é que legitimamos a construção do Atendimento Educacional Especializa- do para pessoas com surdez, instituí- do por meio da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva In- clusiva, que disponibiliza serviços e re- cursos. Esse atendimento tem como função organizar o trabalho comple- mentar com vistas à autonomia e à in- dependência social, afetiva, cognitiva e lingüística da pessoa com surdez na escola e fora dela. Atendimento Educacional Especializado para Pessoas com Surdez O atendimento educacional espe- cializado para a pessoa com surdez, na perspectiva inclusiva, estabelece como ponto de partida a compreensão e o reconhecimento do potencial e das ca- pacidades desse ser humano, vislum- brando o seu pleno desenvolvimento e aprendizagem. As diferenças desses alunos serão respeitadas, consideran- do a obrigatoriedade dos dispositivos legais, que determinam o direito de uma educação bilíngüe, em que Libras e Língua Portuguesa escrita constituam línguas de instrução no desenvolvi- mento de todo o processo educativo. O atendimento educacional espe- cializado para pessoas com surdez deve ser visto como construção e re- construção de experiências e vivên- cias conceituais, em que a organiza- ção do conteúdo curricular não deve estar pautada numa visão linear, hierar- quizada e fragmentada do conheci- mento. O conhecimento precisa ser compreendido como uma teia de rela- ções, na qual as informações se pro- cessem como instrumento de interlo- cução e de diálogo. Pensamos no atendimento educacional especializa- do para a pessoa com surdez, na pers- pectiva de que tudo se liga a tudo e que o ato de um professor transformar sua prática pedagógica, conectando teoria e prática, a sala de aula comum e o atendimento educacional especia- lizado, numa visão complementar, sus- tenta-se a base do fazer pedagógico desse atendimento. Dessa forma, o atendimento edu- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 49
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201050 cacional especializado para a pessoa com surdez precisa ser pensado em redes interligadas, sem hierarquização de conteúdos, sem dicotomizações, reducionismos; mas com uma ação conectada entre o pensar e o fazer pe- dagógico. Com isso, certamente, o ambiente de aprender a aprender será adequado e sustentará que o profes- sor e o aluno com surdez interajam com a sala de aula comum, produzam, pela mediação pela compreensão dos conhecimentos, a partir, de novas prá- ticas metodológicas, com suas estraté- gias e recursos de ensino. Dessa for- ma, as práticas metodológicas do atendimento educacional especializa- do para a pessoa com surdez, sob a ótica do pensar inclusivo, quer a con- junção, em que as partes e o todo es- tejam numa simbiose. Para realizar essa simbiose, adota- mos a Pedagogia Contextual Relacio- nal. O sentido dessa pedagogia en- contra-se em formar o ser humano, com base em contextos significativos, em que se procura desenvolvê-lo em todos os aspectos possíveis, tais co- mo: na vontade, na inteligência, no co- nhecimento e em idéias sociais, des- pertando-o nas suas qualidades e es- tabelecendo um movimento relacional sadio entre o ser e o meio ambiente, descartando tudo que é inútil, sem va- lor real para a vida (DAMÁZIO, 2005). Nesse sentido, o cotidiano adquire sig- nificado, quando se levam em conta todas as vivências contextuais relacio- nais que o ser humano em evolução experimenta. Nesse contexto, o aluno com surdez se sentirá situado e com- preenderá com mais facilidade os con- teúdos em estudo. De acordo com esses preceitos, es- sa ação pedagógica entre o conhece- dor, o conhecimento e o conhecido, não fica restrita ao conhecimento do mundo físico, dos objetos no plano concreto. Ela também se realiza por meio de exercícios reflexivos, intuitivos e abstratos, baseados na complexida- de do fenômeno inter e intra humanos e no meio vivencial, de forma proces- sual, e exige muita investigação e atos educativos ligados à necessidade do aluno com surdez, por meio de siste- mas complexos que são auto-organi- zados. Nesse conjunto, esse aluno é trabalhado a partir da compreensão do ciclo de desenvolvimento e aprendiza- gem, respeitando os campos pedagó- gicos e lingüístico das duas línguas no atendimento educacional especializa- do para a pessoa com surdez. Para efetivar o cotidiano escolar do atendimento educacional especializa- do para a pessoa com surdez, aplica- mos a metodologia vivencial, que leva o aluno a aprender a aprender. Essa metodologia é compreendida como um caminho percorrido pelo professor, para favorecer as condições essenciais de aprendizagem do aluno com sur- dez, numa abordagem bilíngüe. Nesse sentido, o professor do atendimento educacional especializado para a pes- soa com surdez, na condição de auto- ridade, para gestar e com responsabili- dade para construir o ambiente de aprendizagem para esse aluno, busca os métodos, escolhendo os melhores procedimentos e recursos para opera- cionalização da aula especializada. Assim, o professor, por meio dessa metodologia, adota os seguintes prin- cípios básicos para o ato de aprender a aprender: o aluno com surdez pen- sa, questiona e levanta idéias sobre to- das as coisas; ao levantar idéia, entra em conflito com os esquemas anterio- res; ao entrar em conflito, busca res- postas aos seus questionamentos, vi- sando refutar ou confirmar o que está sendo investigado, estudado; ao des- cobrir sobre o saber investigado, tem um ato conseguido; esse ato conse- guido precisa ser repetido, construin- do a aprendizagem significativa; ao apreender o saber, a pessoa com sur- dez realizará sua aplicabilidade no seu cotidiano de vida. A seguir, expomos a síntese esquemática da metodologia vivencial. Fig. 1 - Síntese esquemática da metodologia vivencial. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 50
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    Na condição deseres de lingua- gens, de relações, de movimentos e de expressões no mundo em cons- tante transformação, procuramos de- senvolver, nos alunos com surdez, a língua e a linguagem, o pensamento, as aptidões, os interesses, as habili- dades e os talentos humanos, asse- gurando uma formação ampla, di- mensionada e conectada com os tempos atuais. A prática pedagógica do atendimento educacional especia- lizado para a pessoa com surdez, e organizada por meio de contextos, está alicerçada nas representações sociais e nos legados culturais e cien- tíficos da humanidade, representados em epistemes. Os contextos são definidos e es- colhidos, observando a significância, a representatividade conceitual e a obrigatoriedade do programa curricu- lar oficial. Esses contextos enrique- cem o ambiente de ensino, no qual tudo que acontecer no decorrer do processo do ato educativo terá sinto- nia e provocará a possibilidade de co- nectar e relacionar todos os saberes, buscando o avanço conceitual do alu- no com surdez. Para o planejamento dos contextos, o professor do atendi- mento educacional especializado pa- ra a pessoa com surdez realiza pes- quisas bibliográficas e elabora a tessi- tura epistêmica do assunto, seguida do quadro sinóptico, envolvendo: contexto identitário, conceitualiza- ções, áreas dos saberes científicos, conteúdos curriculares, significantes e significados identitário e as habilida- des, demarcando o planejamento bá- sico do atendimento. Exemplo de um quadro sinóptico do planejamento básico do contexto e do conteúdo de um momento do atendimento educacional especializado para a pessoa com surdez Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 51 Contexto identitário do ambiente de aprendizagem O Egito Antigo Conceitualizações do contexto identitário do ambiente de aprendizagem Nacionalidade Sociedade Historicidade Cultura Valores humanos Relações sociais Preconceito Tecnologia Linguagem Criticidade Literatura Textualidade Áreas dos saberes científicos Saberes da geopolítica e ecologia Valores éticos e estéticos Criatividade Comunicação e expressão Relações inter e intrapessoais Saberes históricos culturais e sociais Conhecimentos físicos, químicos e matemáticos Movimento corpo e mente Conteúdos curriculares deste contexto identitário Morfologia da Língua Portuguesa Leitura de textos Escrita de textos Sistema de numeração romano Sistema de numeração decimal Operações matemáticas Sólidos geométricos Unidades de medidas - metro Universo e movimento do sistema solar Localização geográfica O passado, o presente A água na terra Valores Humanos: ação correta, paz, verdade, não violência e amor Significantes e significados deste contexto identitário Civilização Mitos Mentalidade Faraó Monarca Pergaminho Papiros Decomposição Sacerdotes Astrologia Babillônico Eclipessoa com surdezes Zodíacos Presságios Habilidades Ler Escrever Falar Dialogar Relacionar Expressar Experimentar Compreender Conectar saberes Competir Intertextualizar Extrapolar Analisar Sintetizar Avaliar Compor Decompor Criar Inventar Reinventar Transformar Tabela 1 - Quadro sinóptico do planejamento básico do contexto e do conteúdo de um momento do atendimento educacional especializado para a pessoa com surdez Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 51
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201052 No decorrer do atendimento edu- cacional especializado para a pessoa com surdez, os alunos fazem pergun- tas, analisam, criticam, fazem analogi- as, associações diversas entre o que sabem e os novos conhecimentos em estudos. Os professores nesse aten- dimento, registram o desenvolvimen- to que o aluno apresenta, o atendi- mento educacional especializado pa- ra a pessoa com surdez contribui com a interação e a comunicação en- tre o professor, os colegas e o aluno com surdez na sala de aula comum, em virtude de já ter construindo de forma complementar os vários sabe- res que a classe comum não oferece, garantindo, efetivamente, a participa- ção do aluno com surdez na dinâmi- ca da sala de aula comum. Dessa forma, o atendimento edu- cacional especializado para a pessoa com surdez respeita princípios peda- gógicos essenciais, que garantem o acesso às duas línguas para o atendi- mento do aluno com surdez, mediante uma organização didática e metodoló- gica do fazer aula especializada, sob a autoridade técnica, humana e política do professor como responsável pela mediação entre o conhecimento, o co- nhecedor e o conhecido num ambien- te de aprendizagem processual dialó- gico, no qual se devem oferecer possi- bilidades infinitas para que ocorra a problematização, a experienciação, a experimentação, a demonstração e as trocas circunstanciais, promovendo o desenvolvimento social, afetivo, cogni- tivo e lingüístico do aluno com surdez. Assim sendo, a organização didáti- ca do atendimento educacional espe- cializado para a pessoa com surdez é idealizada mediante a formação do professor e do diagnóstico inicial do aluno com surdez. Em seguida, o pro- fessor elabora o plano atendimento educacional especializado para a pes- soa com surdez, envolvendo três mo- mentos didático-pedagógicos: Atendi- mento Educacional Especializado em Libras; Atendimento Educacional Es- pecializado para o ensino da Língua Portuguesa escrita; e o atendimento educacional especializado para o ensi- no de Libras. Este plano de atendi- mento educacional especializado para a pessoa com surdez deve respeitar o ambiente comunicacional das duas línguas e a participação ativa e interati- va dos alunos com surdez, asseguran- do uma aprendizagem efetiva. Para assegurarmos a aprendiza- gem significativa em prol das pessoas com surdez na escola comum, preci- samos romper com os vários empeci- lhos, que, segundo Damázio (2005), impedem o desenvolvimento e provo- cam a repetência e a evasão, ocasio- nando o fracasso escolar. Esses em- pecilhos envolvem as práticas da filo- sofia integracionista com roupagem de inclusiva, tais como: Exigência do aprendizado da Língua Portuguesa pelo aluno com surdez no mesmo tempo e ritmo que os ouvintes; Conteúdos ministrados em língua oral ou só por meio da interpretação de Libras em sala de aula comum, o que não garante o efetivo desenvolvi- mento e aprendizagem; Intérprete de Libras fixo na classe comum, estabelecendo total depen- dência do aluno com surdez; Sala de recursos multifuncionais no contra turno com a finalidade de refor- ço e apoio; Sala de recursos multifuncionais com trabalho substitutivo ao da sala de aula comum; Aprender Libras para ensinar Língua Portuguesa; não estabelecimento de ambientes lingüísticos adequados ao aprendiza- do das duas línguas; Intérprete de Libras assumindo o pa- pel do professor do atendimento edu- cacional especializado para a pessoa com surdez e do professor da sala de aula comum; Sala de aula comum com a presen- ça do instrutor de Libras, como se es- te profissional fosse professor de con- teúdo curricular, sendo que ele não habilitado para tal função; O professor da sala de aula comum, ao desenvolver os conteúdos, sinaliza os vários textos, e informa que usa e sabe Libras, provocando problemas sérios na aprendizagem das duas lín- guas pela pessoa com surdez, quan- do legitima o bimodalismo e/ou portu- guês sinalizado; Professor da classe comum sendo exigido a cumprir o papel do professor do atendimento educacional especiali- zado para a pessoa com surdez, pro- vocando revolta entre os professores e a negação do acesso e permanência desses alunos no ambiente educacio- nal da escola e na sala de aula comum; professor do atendimento educacio- nal especializado para a pessoa com surdez, sem qualificação para atuar no ensino das duas línguas; sala de aula somente de alunos com surdez na escola comum, com a pre- sença fixa do intérprete, do instrutor e do professor regente, causando um caos pedagógico e no desenvolvimen- to desses alunos; uso exclusivo da Libras no cotidiano do trabalho escolar, negando o direito de aprender o português escrito. Assim, para rompermos com es- sa confusão nas práticas pedagógi- cas e nas ações e funções dos profis- sionais que atuam em prol da educa- ção desses alunos, apresentamos de forma didática o trabalho do atendi- mento educacional especializado pa- ra a pessoa com surdez, segundo Damázio (2005:69-123), envolvendo os três momentos didático-pedagógi- cos, que são: Atendimento Educacional Especiali- zado em Libras; Atendimento Educacional Especiali- zado para o Ensino da Língua Portu- guesa; Atendimento Educacional Especiali- zado para o Ensino de Libras. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 52
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 53 O Atendimento Educacional Especializado em Libras Esse atendimento do atendimen- to educacional especializado em Li- bras ocorre diariamente, em horário contrário aos das salas de aula co- mum. Nesse atendimento, o profes- sor acompanha o planejamento da escola de acordo com a série ou ci- clo que o aluno está cursando. A or- ganização didática do espaço de en- sino deve ser rica em imagens visu- ais e de todos os tipos de referências que possam colaborar com o apren- dizado dos conteúdos curriculares. Os professores utilizam imagens vi- suais e, quando o conceito é muito abstrato, recorrem a outros recursos, como o teatro, por exemplo. Os ma- teriais e os recursos para esse fim precisam estar sempre presentes e expostos no ambiente da sala. As idéias dos conteúdos curriculares em Libras devem ser ministrados an- tecipadamente ao trabalhado da sa- la de aula comum, garantindo uma melhor associação dos conceitos nas duas línguas. Atendimento Educacional Especializado para o ensino da Língua Portuguesa - Escrita Estudos e pesquisas têm nos leva- do, nos últimos dez anos, sob várias vertentes lingüísticas, a reflexões sobre a língua e as propostas de ensino do Português para pessoas com surdez, ora com foco na aquisição da língua portuguesa, em sua modalidade oral e/ou escrita, comparando a língua das pessoas com surdez com a dos ouvin- tes; ora com foco em análises de da- dos, especialmente em estudo de ca- sos de crianças, jovens ou adultos com surdez que tenham ou não adqui- rido e desenvolvido a Libras e sua rela- ção com a aquisição e o desenvolvi- mento da Língua Portuguesa, princi- palmente em sua modalidade escrita: leitura e produção de texto. Nesses tra- balhos, estudiosos e pesquisadores têm desvendado vários problemas lin- güísticos das pessoas com surdez: desde fracassos em codificar e deco- dificar textos curtos em português, em seus aspectos formais, até textos mais complexos, com falta de densidade ci- entífica, coerência e coesão. Há também inúmeras propostas de educação lingüística da pessoa com surdez com destaque: para o ensino de Português, condicionado à aprendizagem de Libras - esta co- mo primeira língua; aquela como se- gunda língua; ou a discussão polê- mica entre língua e identidade e cul- tura surda; ou língua do surdo versus língua do ouvinte; ou Língua portu- guesa como língua estrangeira na aquisição pelas pessoas com sur- dez; ou aprendizagem do Português como interlíngua pela pessoa com surdez (como se fosse a pessoa com surdez um estrangeiro ou estra- nho na língua de seu país); enfim, essas propostas adotam diferentes teorias: estruturalismo, gerativismo, pessoa com surdezicologia cognitiva e pessoa com surdezicolingüística; porém nota-se um turbilhão de idéi- as e fundamentos teóricos, às vezes, em alguns pesquisadores com a pre- sença de certo ecletismo teórico, no- tadamente em termos de conceber e aplicar conceitos de língua e de lin- guagem, com a intenção talvez, de atualizar as pesquisas sobre surdez e linguagem em sua maior parte, do que realmente propor e elaborar, sob a luz de uma fundamentação teórica mais clara e objetiva, uma metodolo- gia e uma práxis didático-pedagógi- ca para a educação lingüística da pessoa com surdez. Trazemos, aqui, uma proposta di- dático-pedagógica e metodológica para se ensinar português escrito (do- ravante PE) para a pessoa com sur- dez. Acreditamos no ensino de portu- guês como produtivo para as pessoas com surdez, numa perspectiva inclusi- va, e concebendo língua e linguagem como processo de interação e uso nas práticas sociais. Por isso, defen- demos que o espaço escolar consti- tui-se como o lugar-base onde podem inserir-se as pessoas com surdez para aquisição e desenvolvimento da mo- dalidade de língua portuguesa escrita em suas várias formas e adequação do uso, sobretudo por essa língua ser conteúdo do ensino regular, das séri- es/ciclos iniciais ao ensino superior, e por ser direito dos cidadãos com sur- dez constituírem-se como sujeitos le- trados numa segunda língua, em seus vários níveis de desenvolvimento. E a língua portuguesa escrita pode ser um dos eficazes instrumentos para sua constituição como sujeito/cidadão, visto que nela se concentra o poder discursivo de expressão formal de sentidos, com ela é possível estabele- cer as interações verbais entre o eu e o outro e dela se apropriam todos os que buscam e produzem conheci- mentos científicos, os saberes e os bens culturais a que demos direito de acesso. Diante do exposto, exemplifi- caremos, a seguir, a base epistemoló- gica que defendemos para o atendi- mento educacional especializado pa- ra o ensino do PE, quanto ao ato de ler, escrever e aprender a gramática de uso pelas pessoas com surdez. Ato de ler ao se ensinar o português escrito para pessoas com surdez no atendimento educacional especializado Numa visão de leitura e ato de ler, propomos o ato de ler como ato de lin- guagem que se constitui num movi- mento de conexão entre o todo e as Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 53
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201054 partes do que se pressupõe como tex- to - tecido, tessitura de palavra, arran- jos sonoros, jogos imagísticos, seja es- crito, seja gestual-visual pelo qual se escreve, percebe, sente, vê o mundo. Assim, conforme diz Martins (1982), ler é - além da atribuição de significados à imagem gráfica segundo o sentido que o escritor lhe atribui - a relação que o leitor estabelece com a própria experiência, por meio do texto. Assim, envolve aspectos sensoriais, emocio- nais e racionais. Há, portanto, diferen- tes níveis de leitura que extrapolam do texto para o mundo. A crise da leitura abarca, hoje, muitos letrados, incapa- zes de ler a própria realidade no mun- do. Ler não é dizer o já dito, mas falar do outro sentido; é impossível uma lei- tura do consenso, uniforme, pois no conflito das interpretações se revela a diversidade rica de um texto e, através dele, a da realidade. Nesse sentido, a leitura é um pro- cesso de interlocução entre leitor/autor mediado pelo texto, em que há um movimento de ir-e-vir constante do su- jeito com surdez, que estimula seus mecanismos perceptivos indo do todo para as partes e vice-versa, num pro- cesso de contextualização, descontex- tualização e recontextualização. Enfim, para mostrar os movimentos de todo e partes no processo de ler, que aqui es- tamos construindo, ressaltamos algu- mas estratégias que julgamos muito importantes para os atos de interpretar e compreender que desenvolvemos na prática escolar: o processo de inter- pretação, como linguagem e sistemas semióticos, depende de informativida- de; interpretar está ligado a fazer pres- suposição; ler com implícito; inferên- cias; e intertextualidade. Ato de escrever (produção de textos) no ensino do português escrito para a pessoa com surdez no atendimento educacional especializado Para nós, que vivemos em uma so- ciedade complexa, o ato de escrever nos é um fenômeno inerente, pois so- mos requisitados cotidianamente a produzir sentidos escritos, uma vez que os sujeitos históricos que vivem em um mundo letrado têm necessida- des de ler e escrever em práticas soci- ais instrumentalizadas por esses atos. Assim, para propor atividades de escri- ta, devemos partir da concepção de texto como forma tecida de palavra, enfim, do léxico de uma língua natural como o português, instrumento que le- va o sujeito a escrever sobre um deter- minado assunto, traz, em sua etimolo- gia, proveniente do latim, a idéia de textum, com o significado de tecido, entrelaçamento. Isso garante ao texto o seu caráter de coisa tecida, entrela- çada de palavras, idéias, concepções, princípios postos em unidades - como um todo tecido - e suas partes interco- nectadas, formando um todo em sua textura ou teciitura, como uma rede de relações, articulações, conexões, com coerência, coesão. Permitir que as pessoas com sur- dez se apropriem dos atos de produ- ção de textos em quaisquer sistemas semióticos, especialmente dos siste- mas lingüísticos - em sua modalidade escrita - é torná-las competentes em seus discursos, dar-lhes oportunida- des de interações nas práticas escri- tas da língua oficial, torná-las sujeito de saber e poder, com criatividade e arte. Essas habilidades somente po- derão ser garantidas, se as pessoas com surdez tiverem domínio da diver- sidade textual circulante em nossas práticas sociais. Para que isso ocorra, a educação escolar deve permitir que as pessoas com surdez se apropriem desses tipos e, mais especificamente, dos gêneros discursivos em proces- sos de produção de leitura e de escri- ta, tornando-as, essencialmente, pes- soas com competência discursiva, pois, em práticas discursivas, nas inte- rações verbais (escritas) concretas, poderão estabelecer dialogia e consti- tuir-se sujeitos de seus lugares soci- ais, expressar-se ao outro e, também, constituir a si mesmo a partir desse outro, conforme nos esclarece a con- cepção Bakhtiniana. E a apropriação dos gêneros e tipos de textos/discur- sos torna-se um ingrediente essencial por meio do qual haja prática do uso e reflexão da gramática do PE por pes- soas com surdez. Gramática de Uso - reflexão sobre a língua - no ensino do português escrito para pessoa com surdez no atendimento educacional especializado Ao se ensinar português escrito pa- ra as pessoas com surdez, deve-se conceber que o processo de letramen- to requer o desenvolvimento e aperfei- çoamento da língua em várias práticas sociais de interação verbal e discursi- va, principalmente da escrita. Isso de- manda que as atividades propostas de reflexão sobre a língua precisam voltar- se para a observação e a análise da língua em uso, quanto ao seu conheci- mento, estrutura, sistema lingüístico, funcionamento e variações em contex- tos de prática e uso, seja nos proces- sos de leitura do escrito e da produção do escrito. Porém o domínio da gramá- tica normativa não se sustenta por si somente, pois há um processo prático de produção de vários gêneros textu- ais e gêneros discursivos, com a inten- ção de permitir ao aluno ampliar sua competência e seu desempenho lin- güísticos no uso de sua gramática in- ternalizada e reflexiva. Isso se reflete nas atividades propostas como: ativi- dades lingüísticas (a língua como es- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 54
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 55 trutura, organização e funcionamento) e epilingüísticas (a língua e seu uso em situações adequadas, em vários con- textos de uso da modalidade pa- drão/oficial ou não-padrão). Acreditamos que os processos te- órico-metodológicos para o ensino e aprendizagem da pessoa com surdez do PE poderão consolidar-se da se- guinte forma: a) uma proposta didático-pedagógica que norteie um primeiro nível de ensi- no voltado para os processos iniciais de alfabetizar e letrar; b) uma proposta didático-pedagógica para um segundo nível de ensino nor- teado aos processos intermediários de maior complexidade, em que os textos veiculados apresentarão estru- turas, organização e funcionamento de razoáveis complexidades e promo- vam atos de ler, interpretar e escrever, segundo categorias mais elaboradas da língua padrão; c) uma proposta didático-pedagógica de um terceiro nível, mais avançado, da apropriação da língua oficial escrita, em que o uso da língua esteja plena- mente ao alcance da pessoa com sur- dez, que poderá produzir os proces- sos de leitura e de escrita de gêneros textuais e discursivos em patamares de maior complexidade e elaboração, tornando-se sujeito de complexo nível de letramento. Diante do exposto teórico-episte- mológico para o ato de ler, escrever e a aprendizagem do uso gramatical pe- la pessoa com surdez, exemplificare- mos, a seguir, como operacionalizar a prática pedagógica para esse atendi- mento educacional especializado para o ensino do PE. Como se constitui o momento do atendimento educacional especializado para o ensino de português escrito para a pessoa com surdez? Esse atendimento constitui-se co- mo um dos momentos didático peda- gógico realizados em favor do desen- volvimento e da aprendizagem da Lín- gua Portuguesa escrita pelos alunos com surdez. Esse atendimento acon- tece na sala de recursos multifuncio- nais e em horário diferente ao da sala de aula comum. Todo o ensino é de- senvolvido por uma professora, prefe- rencialmente, formada em Letras e que conheça os pressupostos lingüís- ticos e teóricos que norteiam o traba- lho do ensino de português escrito pa- ra pessoas com surdez. O objetivo desse atendimento é de- senvolver a competência lingüística, bem como textual, nas pessoas com surdez, para que elas sejam capazes de gerar seqüências lingüísticas. Nessa perspectiva, o atendimento educacio- nal especializado para o ensino do PE é organizado didaticamente asseguran- do ao ambiente da aula especializada: amplo acervo textual em Língua Por- tuguesa, capaz de oferecer ao aluno a pluralidade dos discursos, pelos quais possam ter oportunidade de interação com os mais variados tipos de situa- ção de enunciação; presença de pistas escritas pré-esta- belecidas pelo professor em concor- dância com os alunos, que possam ser utilizadas como canal de comuni- cação entre o aluno, o professor e a estrutura e funcionamento da língua. a não utilização de língua de sinais para ensinar o português, pois o uso da Libras em detrimento do ensino da Língua Portuguesa seria, antes de tu- do, um equívoco teórico, visto que am- bas são línguas distintas, com gramá- tica e regras próprias que as justificam. As aulas do atendimento educa- cional especializado para o ensino do PE são preparadas segundo o desen- volvimento e aprendizagem do aluno com surdez. O professor do atendi- mento educacional especializado di- agnostica e analisa o estágio de todo o desenvolvimento do aluno, em rela- ção à Língua Portuguesa -leitura e es- crita- procurando compreender em qual estágio esse aluno se encontra, no domínio da língua. Nesse atendimento, o canal de co- municação específico é a Língua Por- tuguesa, ou seja, leitura labial, leitura e escrita. Em resumo: O atendimento educacional especia- lizado para o ensino de PE, o profissi- onal precisa conhecer muito bem a or- ganização e a estrutura dessa língua, bem como, as metodologias de ensi- no apropriadas; O uso de recursos escritos são vitais para a compreensão do PE, seguidos de uma exploração contextual do con- teúdo em estudo; O atendimento educacional especia- lizado para o ensino de PE, diariamen- te, assegura o respeito aos limites des- sas pessoas na aquisição dessa língua; Para a aquisição de PE, é preciso que o professor estimule, permanente- mente, o aluno, provocando-o a en- frentar esse desafio, considerado por eles como muito difícil; O atendimento em Língua Portugue- sa escrita é de extrema importância para o desenvolvimento e a aprendiza- gem do aluno com surdez nessa lín- gua e na sala comum; A avaliação do desenvolvimento do PE deve ocorrer continuamente, para assegurar que se conheçam os avan- ços do aluno e redefinir o planejamen- to, em caso contrário. O Atendimento Educacional Especializado para o ensino de LIBRAS Numa visão e reconstrução histó- rica, as pessoas com surdez vêm vi- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 55
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 201056 vendo momentos diferenciados na sociedade moderna contemporâ- nea. Com base nos paradigmas in- clusivos, nos quais olhar para as di- ferenças humanas de todos os seres humanos dá-se a priori, as pessoas com surdez lutaram pelo reconheci- mento da sua língua natural: a Lín- gua de Sinais Brasileira (LIBRAS). E nessa perspectiva, muitas ações, sob a égide legal e de legitimidade, vêm se tornando efetivas, evidenci- ando-se uma fase produtiva de pes- quisas e estudos, na área lingüística e pedagógica, com objetivo de cons- truir um lócus teórico de compreen- são dessa língua e de seus usuários. As línguas de sinais são línguas naturais e complexas, que se utili- zam de um canal visual-espacial, de articulação das mãos, das expres- sões e do corpo, para estabelecer sua estrutura, nas dimensões fono- lógicas, morfológicas, sintáticas e semânticas. As línguas de sinais são sistemas lingüísticos indepen- dentes dos sistemas orais, e que se apresentam numa modalidade dife- rente das línguas orais-auditivas. Como qualquer língua, também existem diferenças regionais, por- tanto, deve-se ter atenção as diver- sas variações. Nos últimos anos, várias iniciati- vas foram criadas, no sentido de so- cializar essa língua, junto aos seus usuários e as pessoas ouvintes. Nesse contexto, como socializar es- sa língua entre os seus usuários? Como desenvolver ambientes e prá- ticas pedagógicas eficientes que possam, efetivamente, favorecer o seu ensino para as pessoas com surdez, respeitando a singularidade e a naturalidade da língua, levando em consideração que essa língua não é a língua usual da sociedade? Diante desses questionamentos e do direito de acesso ao aprendiza- do da língua de sinais desde a tenra idade, no ambiente escolar pela pes- soa com surdez, o maior desafio das políticas públicas inclusivas nas es- colas brasileiras é a construção des- ses ambientes propícios ao ensino dessa língua, com as metodologias de ensino adequadas, respeitando os ciclos do desenvolvimento e a na- turalidade na sua aquisição. Para oferecer o aprendizado dessa língua de forma significativa, resguardando que seus usuários tenham a apro- priação de maneira natural, é impor- tante a presença de profissional com surdez, se possível, nesse ambiente. Esse trabalho tem sido executado por instrutores de Libras (preferenci- almente, por profissionais com sur- dez) que têm a proficiência aplicada pelo MEC por meio da avaliação do Pró-Libras e, num futuro próximo, se- rá ministrado por professores de Li- bras formados por cursos de Le- tras/Libras. Como se constitui este momento do atendimento educacional espe- cializado de Libras (doravante aten- dimento educacional especializado de Libras)? Este atendimento constitui um momento didático-pedagógico para os alunos com surdez incluídos na escola comum. O atendimento ini- cia-se com a avaliação do aluno e ocorre de acordo com a necessida- de, em horário contrário aos das au- las, na sala de aula comum. Esse tra- balhado é realizado pelo professor e/ou instrutor de libras (preferencial- mente, por profissionais com sur- dez), de acordo com o estágio de desenvolvimento da língua de sinais em que o aluno se encontra. O aten- dimento deve ser planejado com ba- se na avaliação do conhecimento que o aluno tem a respeito da língua de sinais. A organização didática desse es- paço de ensino implica o uso de mui- tas imagens visuais e de todo tipo de referências. Os materiais e os recur- sos para esse fim precisam estar pre- sentes na sala e respeitar as necessi- dades didático-pedagógicas para o ensino dessa língua. No decorrer atendimento educacional especializa- do de Libras, os alunos interagem e vi- venciam momentos singulares de diá- logos e trocas. Os professores e os alunos recorrem a vários recursos pe- dagógicos, tais como DVDs, livros, di- cionários, reálias, materiais concretos, dentre outros. Os professores atendimento edu- cacional especializado de Libras fa- zem, permanentemente, avaliações para a verificação da aprendizagem dos alunos em relação à Libras. Para tanto, utilizam ficha de registro do de- senvolvimento dos alunos, com os seguintes aspectos: uso de mímica; conhecimento dos sinais de Libras, fluência e simetria. Em fluência e si- metria, analisam: configuração de mão; ponto de articulação; movimen- to; orientação e expressão facial. Es- tudam também, o grau de complexi- dade do domínio da língua, em espe- cífico, termos técnico científicos das várias ciências. É importante ressaltar que é observado e respeitado o ciclo de desenvolvimento em que a pessoa com surdez está, sua idade, sua série ou ciclo escolar. Em resumo, o atendimento para a aprendizagem de Libras enrique- ce a aprendizagem dos alunos com surdez; esse atendimento exige uma organização metodológica e didática e especializada; o profes- sor que ministra aulas de Libras de- ve ser qualificado para realizar o atendimento das exigências básicas do ensino, não praticar o bimodalis- mo, ou seja, misturar a Libras e a Língua Portuguesa, que são duas línguas de estruturas lingüísticas di- ferentes; o professor com surdez, para o ensino de Libras, oferece aos alunos com surdez melhores possi- bilidades do que o professor ouvin- te, porque o contato com crianças e jovens surdos com adultos surdos Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 56
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 46-57, jan/jul. 2010 57 favorece a naturalidade no proces- so de aquisição da língua; a avalia- ção processual do aprendizado por meio de Libras é importante para que se verifiquem, pontualmente, o desenvolvimento e a aprendizagem dessa língua pelo aluno com sur- dez; a qualidade dos recursos visu- ais é primordial para facilitar a com- preensão do conteúdo de libras; a organização do ambiente de apren- dizagem e as explicações do pro- fessor de Libras propiciam uma compreensão do contexto da lín- gua; o atendimento educacional es- pecializado de Libras oferece ao aluno com surdez segurança e mo- tivação, sendo, portanto, de extre- ma importância para a inclusão. Conclusão Neste texto, tivemos o propósito de demonstrar a possibilidade de as pes- soas com surdez estudarem na escola comum numa perspectiva inclusiva, com o atendimento educacional espe- cializado oferecido como complemen- tar a classe comum, visando ao pleno desenvolvimento e aprendizagem por meio de Libras e da Língua Portugue- sa escrita. Concluímos, destacando o que segue: Refutamos as propostas que estão na contramão da perspectiva inclusiva, por provocar dicotomizações que se- param as pessoas com surdez das pessoas ouvintes; Rompemos com o embate gestua- listas e oralistas, pois ele prejudica o desenvolvimento dessas pessoas quando canaliza a atenção para o pro- blema da língua em si. O problema e o fracasso na educa- ção das pessoas com surdez não po- de continuar sendo centrado nessa ou naquela língua, mas devemos com- preender a qualidade e a eficiência das práticas pedagógicas aplicadas. A inclusão do aluno com surdez em uma escola comum deve contar de forma sistemática com o atendimento educacional especializado para a pes- soa com surdez nos três momentos di- dático-pedagógicos, se necessário, conforme diagnóstico do aluno; O atendimento educacional especia- lizado para a pessoa com surdez ado- ta a abordagem bilíngüe, de acordo com preceitos legais, no qual a Libras e a Língua Portuguesa, são línguas de instrução e comunicação; Embora a Língua de Sinais seja con- dição necessária para a escolarização das pessoas com surdez, não é sufici- ente, por si só, para resolver todos os problemas escolares desses alunos, assim como não é suficiente para que eles dêem prosseguimento aos seus estudos em todos os níveis de ensino; Negar às pessoas com surdez a possibilidade de estudar em uma es- cola comum, na perspectiva inclusiva, em nome de sua cultura, comunidade e língua, é um grande equívoco teórico educacional; O estudo sistemático de Libras e Lín- gua Portuguesa escrita não só é com- plemento necessário ao bom desem- penho escolar do aluno com surdez, como também é garantia da sua inclu- são em escolas comuns; O atendimento educacional especia- lizado em libras e o atendimento edu- cacional especializado para o ensino de Língua Portuguesa escrita são mo- mentos educacionais específicos, que não se configuram como um trabalho segregado e/ou substitutivo, mas, sim, em atendimentos necessários à inclu- são escolar do aluno com surdez; O professor de atendimento educa- cional especializado para o ensino de Língua Portuguesa escrita deve, prefe- rencialmente, ser formado em Letras; O professor de Língua Portuguesa escrita deve ser capacitado quanto às especificidades do ensino dessa lín- gua para pessoas com surdez; O professor do atendimento educa- cional especializado de Libras deve es- tar qualificado para o magistério e, pre- ferencialmente, ser um profissional com surdez. Enfim, nesse processo educativo de contatos humanos, a educação no atendimento educacional especializa- do para a pessoa com surdez significa preparar para a individualidade e a co- letividade, provocando um processo comunicacional-dialogal-global, bus- cando a superação da imanência, da imediaticidade e buscando a transcen- dência do social, do cultural e do histó- rico-ideológico, com ruptura de frontei- ras, e deflagrando uma sociedade mais solidária, fraterna e humana, em que os saberes não aprisionem o corpo e a mente ao poder, mas possam liberá-lo. Referências BUENO, J. G. S. Diversidade, deficiência e educação. Revista Espaço. Rio de Janeiro: INES. nº 12, julho-dezembro, 1999, p. 3-12. _______. Educação inclusiva e escolariza- ção dos surdos. Revista Integração. Brasí- lia: MEC. nº 23, Ano 13, 2001, p. 37-42. BRASIL, Ministério da Educação. Língua Brasileira de Sinais. V.III. - (série Atualidades Pedagógicas, n.4). In: LUCINDA, F. B. et. Al (Org.). Brasília: MEC/SEESP, 1997. 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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 201058 SALAS DE RECURSOS MULTIFUNCIONAIS O presente texto traz esclarecimentos e definições sobre a sala de recursos multifuncionais e o atendimento educacio- nal especializado - AEE, visando orientações as redes pú- blicas de ensino. São abordadas questões voltadas às sa- las de recursos multifuncionais como o espaço onde se re- aliza o AEE e é neste contexto que o texto aborda e clarifi- ca seus objetivos. Tendo por base as ações da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação, o texto destaca a Política de Educação Especial na Perspectiva In- clusiva em seu maior fundamento e princípio: o direito de toda criança à educação escolar. Palavras-chave: Atendimento Educacional Especializado; Sala de Recursos Multifuncionais; Inclusão escolar. 58 ENFOQUE SALAS DE RECURSOS MULTIFUNCIONAIS Espaço e organização do Atendimento Educacional Especializado Rosângela Machado machado865@gmail.com / rosangela_machado@hotmail.com Resumo 1 Pedagoga formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (1990). Especialista em Educação Especial pela Universidade de Gunma/Japão (2001). Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2006). Doutoranda em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Coordenadora de Educação Especial da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis no período de 2001 a 2007. Membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade - Leped/Unicamp. Coordenadora Geral da Política Pedagógica da Educação Especial da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação no período 2008/2009. Atualmente é professora especializada da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 58
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 2010 59 Introdução A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva traz um marco quando defi- ne a educação especial como com- plementar ou suplementar a forma- ção do aluno com deficiência, tran- stornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, en- fatizando que a tarefa de escolariza- ção é do ensino comum. Ela sinaliza um novo conceito de educação es- pecial e, conseqüentemente, uma nova prática que passa a ser constru- ída para atender as especificidades desses alunos, sem os impedirem de estar nos ambientes das salas de au- la do ensino comum. Desta forma, a educação especial é uma modalida- de que perpassa todas as etapas, as demais modalidades e os níveis de ensino sem substituí-los, mas ofer- tando serviços, recursos e estraté- gias de acessibilidade ao ambiente e conhecimento escolares. A educa- ção especial, desta forma, não cons- titui um sistema paralelo de ensino, com níveis e etapas próprias. Não foi simples - e de fato não é - adotar uma concepção transforma- dora de educação especial, devido aos longos anos de uma cultura es- colar excludente e segregadora. A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva foi tecida fio a fio, envolven- do profissionais e grupos empenha- dos na defesa do direito de toda cri- ança a educação escolar. Ela aponta a possibilidade de reinventar o fazer pedagógico, subvertendo a ordem racional hegemônica. Foi possível outro olhar, outras lógicas e outros entendimentos e, conseqüentemen- te, outra política. Pensar e fazer a educação especi- al na perspectiva da educação inclu- siva indica a necessidade de transfor- mar e inovar práticas de formação de professores da educação especial e de professores do ensino regular, de compreender nosso ordenamento ju- rídico e todos os documentos interna- cionais em que o Brasil é signatário, de prover e disponibilizar recursos de acessibilidade, entre tantos outros fi- os puxados que "tecem uma política diferente para as diferenças". Neste contexto, a Política traz uma inovação: o Atendimento Edu- cacional Especializado - AEE; um serviço da educação especial que "[...] identifica, elabora, e organiza re- cursos pedagógicos e de acessibili- dade, que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, con- siderando suas necessidades espe- cíficas" (SEESP/MEC, 2008). Surge o desafio de disseminar es- tá inovação e de atender as redes de ensino por meio da formação conti- nuada e pela provisão de recursos que consolidem o AEE. É neste sentido que o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação Especial, está disponi- bilizando as Salas de Recursos Multi- funcionais para os estados, municí- pios e Distrito Federal com a finalida- de de ter um espaço para a realiza- ção do AEE. Com base em muitas perguntas encaminhadas ao Ministério da Edu- cação e com o que é fundamental conhecer sobre o AEE e o Programa de Implantação das Salas de Recur- sos Multifuncionais, o presente texto tem por objetivo subsidiar os gesto- res e educadores das redes de ensi- no no que se refere ao atendimento educacional especializado, oferecen- do esclarecimentos sobre as Salas de Recursos Multifuncionais que é o espaço para este atendimento. A educação especial na perspec- tiva da educação inclusiva avança e se aprimora, possibilitando a constru- ção de uma prática consistente e considerando os alunos com defici- ência, transtornos globais do desen- volvimento e altas habilidades/super- dotação como sujeitos da educação. A perspectiva inclusiva sempre nos indicará as razões para defender o direito de todas as crianças à edu- cação escolar, sem deixarmos de atender as necessidades específicas dos alunos. O Atendimento Educacional Especializado - AEE O AEE é um serviço da educação especial voltado para a vida escolar dos alunos com deficiência, transtor- The present text brings explanations and definitions about the multifunctional rooms and the specialized educational atten- dance, call "Atendimento Educacional Especializado" - AEE, for orientation of public schools teachers. There are boarded questions turned to the rooms of multifunctional resources like the space where the AEE happens and it is in this context in which the text boards and clarifies his objectives. Taking as a base the actions of Secretariat of Special Education, Ministry of Education, the text detaches the Politics of Special Educa- tion in the Included Perspective in his biggest basis and be- ginning: the right of every child to the school education. Key words: Specialized Educational Attendance; Multifunctio- nal rooms; Educational inclusion. Abstract Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 59
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 201060 nos globais do desenvolvimento e al- tas habilidades/superdotação, consi- derando as suas necessidades espe- cíficas de forma a promover acesso, participação e interação nas ativida- des escolares. Ele constitui oferta obrigatória dos sistemas de ensino, todavia, participam do AEE os alunos que dele necessitam. Sendo assim, o Ministério da Edu- cação, por meio da Secretaria de Educação Especial, criou o Programa de Implantação de Salas de Recursos Multifuncionais, instituído por meio da Portaria n. 13 de 24 de abril de 2007, que tem como finalidade a disponibi- lização de equipamentos, mobiliário e materiais pedagógicos, visando apoi- ar as redes públicas de ensino na or- ganização e na oferta do atendimento educacional especializado. No contexto da Política de Educa- ção Especial na perspectiva da Educa- ção Inclusiva demarcamos o público e a atuação do AEE, definindo as atribu- ições do professor e sua formação. As Salas de Recursos Multifuncionais As salas de recursos multifuncio- nais são espaços localizados nas es- colas públicas de educação básica onde se realiza o Atendimento Edu- cacional Especializado - AEE. Elas são constituídas de mobiliários, ma- teriais didáticos, recursos pedagógi- cos e de acessibilidade, equipamen- tos específicos e de informática. Es- tas salas permitem que o AEE, feito no turno oposto ao da sala de aula comum, seja realizado na própria es- cola em que o aluno freqüenta ou em outra escola próxima a sua. Se um aluno faz uso, por exemplo, dos re- cursos da comunicação aumentativa e alternativa, o ideal é que eles este- jam disponíveis na escola em que o aluno freqüenta como um direito pró- ximo ao seu cotidiano escolar. Os alunos atendidos na sala de recursos multifuncionais são os con- siderados públicos-alvo da educação especial. Neste sentido, os alunos que recebem o AEE são: alunos com deficiência: aqueles que têm impedi- mentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou senso- rial, os quais, em interação com di- versas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na socie- dade em igualdade de condições com as demais pessoas; alunos com transtornos globais do desenvolvi- mento: aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvi- mento neuropsicomotor, comprome- timento nas relações sociais, na co- municação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtor- no desintegrativo da infância (psico- se infantil) e transtornos invasivos sem outra especificação. Os alunos com altas habilida- des/superdotação têm suas ativida- des de enriquecimento curricular de- senvolvidas no âmbito de escolas pú- blicas de ensino regular em interface com os núcleos de atividades para altas habilidades/superdotação e com as instituições de ensino superi- or, institutos voltados ao desenvolvi- mento e promoção da pesquisa, das artes, dos esportes, entre outros. De 2005 a 2007, foram instaladas 1.251 salas de recursos multifuncio- nais. Em 2008, como parte integrante do Plano de Desenvolvimento da Educação - PDE, essa ação teve co- mo meta a implantação de 4.300 sa- las (4.200 do Tipo I e 100 do Tipo II). As salas de recursos multifuncionais - Tipo I são constituídas de microcom- putador com gravador de CD e leitor de DVD, monitor LCD de 32 polega- das, fones de ouvido e microfones, scanner, impressora laser, teclado com colméia, mouse com entrada para acionador, acionador de pres- são, laptop, bandinha rítmica, domi- nó, material dourado, esquema cor- poral, memória de numerais, tapete quebra-cabeça, software para comu- nicação alternativa, sacolão criativo, quebra cabeças sobrepostos (se- qüência lógica), dominó de animais em Língua de Sinais, memória de an- tônimos em Língua de Sinais, conjun- to de lupas manuais (aumento 3x. 4x e 6x), dominó com textura, plano in- clinado - estante para leitura, mesa redonda, cadeiras para computador, cadeiras para mesa redonda, armário de aço, mesa para computador, me- sa para impressora, quadro melaníni- co. As salas de recursos multifuncio- nais - Tipo II são acrescidas de outros recursos e materiais didáticos e pe- dagógicos, tais como: impressora Braille, máquina Braille, lupa eletrôni- ca, reglete de mesa, punção, soro- ban, guia de assinatura, globo terres- tre adaptado, kit de desenho geomé- trico adaptado, calculadora sonora, software para produção de desenhos gráficos e táteis. Vale ressaltar que as salas de re- cursos multifuncionais - Tipo II, mes- mo sendo acrescidas de materiais di- dático-pedagógicos para alunos com deficiência visual, não se destinam ao atendimento exclusivo destes alunos. As escolas das redes públicas de ensino devem atender os seguintes critérios para o recebimento das sa- las: ter matrículas de alunos com de- ficiência, transtornos globais do de- senvolvimento e altas habilidades/su- perdotação registradas no Censo Es- colar/MEC/INEP; disponibilizar pro- fessores com formação inicial ou continuada para o atendimento edu- cacional especializado e ter espaço para instalação dos equipamentos e recursos. Importante salientar que as secretarias municipais e estaduais de educação devem estar inscritas no Plano de Ações Articuladas - PAR. Sendo assim, o AEE torna-se par- te integrante do projeto pedagógico da escola comum, não mais algo a Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 60
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 2010 61 parte, e a sala de recursos multifun- cionais um espaço como tantos ou- tros do ambiente escolar. Vale lembrar que o AEE pode ser feito em centros de atendimento edu- cacional especializado da rede públi- ca ou de instituição privada que de- vem se adequar a Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Os conselhos de educação têm atuação primordial quando estabelecem exigências e normas quanto ao credenciamento, autorização de funcionamento e or- ganização destes centros que devem estar em consonância com os princí- pios da educação inclusiva e com a legislação brasileira. O Professor da Sala de Recursos Multifuncionais: formação inicial e continuada O AEE é feito por professores que devem ter formação inicial que o ha- bilite para o exercício da docência e formação específica para a educação especial, inicial ou continuada, para atuar com cada tipo de deficiência. Existem muitos professores que foram formados em cursos de gradu- ação em educação com habilitação em educação especial na perspecti- va de atuar com pessoas com defici- ências ou transtornos globais do de- senvolvimento de forma substitutiva ao ensino comum. A mesma pers- pectiva substitutiva, ainda, repete-se em cursos de formação continuada e pós-graduação. A educação especial na perspec- tiva da educação inclusiva implica uma transformação na formação de professores que necessita se ade- quar a novos conhecimentos que são próprios do atendimento educacional especializado. Não são poucos os conhecimentos que os professores devem ter para atuar no AEE. Na for- mação inicial de professores, o que devemos levar em conta é que todos devem ter os conhecimentos básicos da educação. A formação continuada de pro- fessores para o AEE, por meio de cursos de extensão e/ou aperfeiçoa- mento e especialização, constitui-se como uma forma de aprofundar co- nhecimentos e de atualizar as práti- cas. Esta formação deve estabelecer uma interlocução dos conhecimen- tos especializados com as situações reais do cotidiano escolar, nas quais o professor possa discutir o atendi- mento educacional especializado com base nos recursos de acessibi- lidade e possa, em seguida, atender ao aluno. Aliás, a formação continua- da só tem sentido quando está atre- lada a prática escolar que nos possi- bilita criar estratégias de atuação com base no que experienciamos e no que conhecemos. São inúmeros os conhecimentos fundamentais para o atendimento ao aluno com deficiência, tais como: a Tecnologia Assistiva e suas modali- dades: Comunicação aumentativa e alternativa, informática acessível, re- cursos pedagógicos acessíveis, Sis- tema Braille, técnica do sorobã, pro- dução de materiais ampliados e em alto relevo, Língua de Sinais Brasilei- ra, Língua Portuguesa na modalida- de escrita para alunos com surdez, entre outros conhecimentos tão ne- cessários ao atendimento educacio- nal especializado. A formação continuada deve levar em conta a identificação de necessi- dades, a elaboração de planos de atuação, a organização de atendi- mentos, a seleção de atividades e a produção e/ou aquisição de recursos de acessibilidade. É uma formação que visa ao conhecimento especiali- zado sob o enfoque educacional. Da mesma forma que há a distri- buição das Salas de Recurso Multi- funcionais pelo Ministério da Educa- ção, há o Programa de Formação Continuada de Professores na Edu- cação Especial que é realizado tanto na modalidade a distância quanto na presencial. Este Programa tem por fi- nalidade trazer aos professores do AEE fundamentos e subsídios para atuação nestas salas, bem como for- mar os professores das salas de aula comum quanto aos fundamentos e princípios da escola inclusiva. As atribuições do professor da Sala de Recursos Multifuncionais O professor da Sala de Recursos Multifuncional não tem como única atribuição o atendimento em si ao alu- no. Suas atribuições estão atreladas a outras ações que promovem, igual- mente, os recursos de acessibilidade. Sua primeira atribuição é identifi- car as necessidades específicas dos alunos de forma a construir um plano de atuação. Quando identificamos necessida- des, não podemos esquecer as habili- dades que o aluno tem, traçando os resultados desejados. Por exemplo, temos na sala de aula comum um alu- no que não escreve por ter dificulda- des motoras e não fala. Identificamos a necessidade de comunicação. O re- sultado desejado é que ele tenha os primeiros recursos de comunicação. No entanto, se observamos que ele movimenta a cabeça, consegue apon- tar o dedo, pisca os olhos, são estas habilidades que nos ajudarão na sele- ção dos recursos e das atividades. Com base nestes dados, o pro- fessor elabora o plano de AEE que definirá o tipo de atendimento para o aluno, os materiais que deverão ser produzidos, a freqüência do aluno e a duração do atendimento, entre ou- tros elementos necessários ao plano. A elaboração e a execução do plano de AEE são feitas a partir do conheci- mento sobre o aluno, reunindo da- Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 61
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 201062 dos que são coletados em articula- ção com os professores da sala de aula comum e demais membros da comunidade escolar. Na execução do plano, temos condições de saber se o recurso de acessibilidade proposto promove participação do aluno nas atividades escolares. Por isso, o plano deve ser, constantemente, revisado e atualiza- do, buscando sempre o melhor servi- ço e recurso para o aluno e conside- rando que cada aluno é único. O professor do AEE pode ter em seu plano a produção de materiais tais como: a transcrição de textos, a adequação de materiais didático-pe- dagógicos, a ampliação de textos, a gravação de textos, entre outros. Existem muitos materiais no merca- do, e o professor deve, também, indi- car a aquisição de: softwares, recur- sos e equipamentos tecnológicos, mobiliário, recursos ópticos, dicioná- rios e outros conforme cada aluno. No atendimento ao aluno, o pro- fessor o ensina a usar a tecnologia ou o recurso de acessibilidade. As- sim, o atendimento ao aluno é orga- nizado de forma que ele aprenda a usar os recursos ópticos como e al- guns casos de alunos com baixa vi- são; ou aprenda a usar os cartões de comunicação ou vocalizador como nos casos de alunos que não tem a escrita funcional e a fala, entre outros, de forma a ampliar habilidades fun- cionais, promovendo autonomia, ati- vidade e participação. Outra atribuição do professor é acompanhar o uso dos recursos na sala de aula comum, bem como ori- entar o professor do aluno sobre os recursos que o aluno usa. O profes- sor do AEE precisa observar à fun- cionalidade e a aplicabilidade do re- curso, analisando os impactos, os efeitos, as distorções, a pertinência, os limites e as possibilidades do re- curso na sala de aula comum e nos demais ambientes escolares. O pro- fessor, também, orienta as famílias quanto o recurso que foi planejado para o aluno. O papel do professor do AEE não pode ser confundido com o pa- pel dos profissionais do atendimen- to clínico. Trata-se de um atendi- mento educacional, como o próprio nome indica, desenvolvido por pro- fessores que atendem as necessi- dades específicas do público alvo da educação especial. O saber educacional especiali- zado e o saber clínico devem ser va- lorizados de igual forma e um não deve se justapor ao outro. O profes- sor do AEE estabelece uma interlo- cução com os profissionais do aten- dimento clínico da mesma forma que estabelece parcerias com ou- tras áreas, tais como: arquitetura, engenharia, assistência social, tera- pia ocupacional, fisioterapia, fono- audiologia, entre outras, para que desenvolvam serviços e recursos adequados a estes alunos. As atribuições do AEE em cada deficiência No caso de alunos com surdez, o AEE deverá providenciar o ensino da Língua Brasileira de Sinais - LI- BRAS; o ensino da Língua Portu- guesa na modalidade escrita, o en- sino em LIBRAS, a produção e ade- quação de materiais didáticos e pe- dagógicos com base em imagens, entre outros. Deve ser considerado e encaminhado para os profissio- nais responsáveis os alunos que optam pela oralização como forma de comunicação. Aos alunos cegos o ensino do Sistema Braille; as noções sobre ori- entação e mobilidade; as orienta- ções sobre atividades da vida autô- noma; o uso de ferramentas de co- municação: sintetizadores de voz para ler e escrever via computador; as adaptações em alto relevo; o en- sino da técnica de sorobã; a tran- scrição e adaptação de material em tinta para o Braille; a produção de áudio-livro; a produção de textos es- critos em formato digital. Aos alunos com baixa visão: o en- sino do uso de recursos ópticos e não ópticos; as adaptações em tinta; o encaminhamento para avaliação funcional; a estimulação visual; a am- pliação de fontes, entre outros; a pro- dução de materiais com contraste vi- sual; a produção de materiais didáti- cos e pedagógicos adequados ao ti- po de visão. Aos alunos com deficiência física: o ensino da comunicação alternativa; os recursos de acesso ao computa- dor: ponteira de cabeça, acionado- res, entre outros; a adequação e con- fecção de material pedagógico: en- grossadores de lápis, plano inclina- do, tesouras adaptadas, entre outros; o mobiliário adequado: mesas, ca- deiras, quadro, entre outros; a aquisi- ção de materiais: quadro magnético com letras imantadas, entre outros; os recursos de auxílios da vida autô- noma; os recursos de auxílio de mo- bilidade: cadeira de rodas, andado- res, entre outros. Aos alunos com deficiência men- tal: o desenvolvimento de processos mentais/exercício da atividade cogni- tiva; a aprendizagem que possibilita passar de regulações automáticas para regulações ativas; a possibilida- de de sair de uma posição passiva e automatizada diante da aprendiza- gem para o acesso e apropriação ati- va do próprio saber. Aos alunos com transtornos glo- bais do desenvolvimento: sempre que o transtorno ocasionar uma defi- ciência, o aluno é atendido na sua necessidade de serviço e recursos de acessibilidade. Os serviços e recursos mencio- nados para atender os alunos não esgotam todas as possibilidades de criação. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 62
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 58-63, jan/jul. 2010 63 O Decreto nº 6.571/2008 O Decreto 6.571/08, que dispõe sobre o atendimento educacional es- pecializado, consolida diretrizes e ações já existentes, voltadas à edu- cação especial na perspectiva da educação inclusiva. Ele regulamenta o parágrafo único do art. 60 da Lei n. 9394/1996, destinando recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica - FUNDEB ao atendimento educacional especiali- zado de alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvi- mento e altas habilidades/superdota- ção matriculados na rede pública de ensino regular. Desta forma, serão contabilizados duplamente no âmbito do FUNDEB, de acordo com o Decreto 6571/08, os alunos matriculados em classes comuns de ensino regular público que tiverem matrícula concomitante no AEE, a partir de 2010, com base no censo escolar de 2009. Isso vai possibilitar o investimento na forma- ção continuada de professores, na implantação de salas de recursos multifuncionais e na reformulação do espaço físico. O financiamento da matrícula no AEE é condicionado à matrícula no ensino regular da rede pública, con- forme registro no Censo escolar/ MEC/INEP do ano anterior, sendo contemplada: matrícula na classe comum e na sala de recursos multi- funcionais da mesma escola públi- ca; matrícula na classe comum e na sala de recursos multifuncionais de outra escola pública; matrícula na classe comum e no centro de aten- dimento educacional especializado de instituição de educação especial pública; matrícula na classe comum e no centro de atendimento educa- cional especializado de instituição de educação especial privada sem fins lucrativos. Para receber o duplo financia- mento, o aluno não poderá ter matrí- cula somente no AEE. Sendo assim, os sistemas de ensino devem matri- cular os alunos com deficiência, os com transtornos globais do desen- volvimento e os com altas habilida- des/superdotação na escola comum do ensino regular e ofertar o atendi- mento educacional especializado - AEE, promovendo as condições para o acesso a uma educação de quali- dade, na classe comum. Considerações finais As ações para consolidação do atendimento educacional especiali- zado e a formação de professores do AEE exigem a perseverança e o en- volvimento no processo de todos que buscam a escola aberta às dife- renças. Os caminhos da mudança nos fazem sair dos lugares fixos e nos fazem avançar. Quando nos lan- çamos aos caminhos da mudança, é possível sair dos lugares instituídos. A inclusão escolar implica uma ressignificação das práticas de ensi- no comum e de ensino especial. Só há razão de os alunos com deficiên- cia, com transtornos globais do de- senvolvimento e com altas habilida- des/superdotação receberem o aten- dimento educacional especializado se eles estiverem participando, ativa- mente, dos espaços comuns a todos. É preciso discernir as atribuições do ensino regular das do especial e lembrar que a inclusão não nega a importância de nenhum deles. Os professores do AEE não são respon- sáveis pelo ensino escolar, tampouco os professores do ensino regular o são pelo ensino especializado. É a educação especial - entendida como atendimento educacional especiali- zado - que garante as condições de o aluno com deficiência freqüentar a escola comum. Temos a possibilidade de inventar o cotidiano, como já nos dizia Michel de Certeau (1994), colocando em prática nossa capacidade criadora e rompendo com lugares eternizados. Trata-se de um processo de consen- sos, de resistências, de acordos, de desacordos; o tempo todo nos inven- tamos e nos ensaiamos. Estamos, dessa forma, pouco a pouco, desa- prendendo o modelo tradicional de educação especial. A educação especial na perspec- tiva da educação inclusiva é rica e di- nâmica e seus movimentos são sin- gulares e complexos. Neste sentido, é preciso mergulhar nesta nova lógi- ca e percorrer caminhos ainda não percorridos e inusitados. Precisamos criar práticas emanci- padas nas tramas do cotidiano, enre- dadas com o fazer pedagógico e a formação dos professores, que vai além da formação transmissiva e das respostas prontas, constituindo múlti- plas redes de trabalho que vão além do esperado, além do sugerido. É preciso doses de ousadia, inovação e determinação! Com efeito, a educação especial na perspectiva da educação inclusiva é uma ação que exige um forte com- promisso de todos os que compõem os sistemas de ensino. Portanto, sem o desejo de con- cluir este texto, deixamos as palavras de Garcia (1994, p. 64): "a ousadia do fazer é que abre o campo do possí- vel. E é o fazer - com seus erros e acertos - que nos possibilita a cons- trução de algo consistente". Referências CERTEAU, M. de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. GARCIA, P. B. Paradigma em crise e a educação. In: BRANDÃO, Z. A cri- se dos paradigmas e a educação. São Paulo: Cortez, 1994. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 63
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 64, jan/jul. 201064 O livro Educação de surdos: Pon- tos e Contrapontos, com participação das professoras Regina de Souza, da Faculdade de Educação da Universi- dade de Campinas, e Núria Silvestre, catedrática da Faculdade de Psicolo- gia da Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), é composto de três diferentes etapas. Na primeira, Parte I, cada uma das autoras discorre livremente sobre a te- mática em questão. Dos caminhos trilha- dos pelas autoras na construção desses textos, saltam aos olhos os pontos diver- gentes que abrangem suas idéias. Tomando como ponto de partida as diferentes formas de se compreen- der a linguagem no campo da psicolo- gia, Regina de Souza inicia seu texto revisitando autores como Skinner, Vi- gotski, Piaget e Chomsky. Com base em um diálogo estabelecido entre ela e a vendedora de uma loja da cidade de Montevidéu, demarca sua idéia central: conhecer uma língua não é o mesmo que saber estar nela. Na se- qüência, tece algumas considerações sobre o Decreto Nº 5.626, e envereda pelo campo da psicanálise. No caso de Núria Silvestre, o texto abrange diferentes aspectos que envol- vem a aquisição da linguagem oral pe- los surdos, discorrendo desde seu de- senvolvimento psíquico até sua aquisi- ção da escrita, passando, também, pe- los diversos aspectos presentes no pro- cesso de socialização da pessoa surda. Na Parte II do livro - Pontuando e contrapondo -, coube a cada uma das autorasformularquatroperguntassobre o texto de sua parceira de diálogo. Núria sugere que Regina discorra sobre o de- senvolvimento da identidade e da auto- estima das pessoas surdas e interroga- lhe, ainda, quem e como deve tomar a decisão de que linguagem deve ser pro- porcionada à criança surda - oral, de si- nais ou ambas -, sobre as bases psico- linguísticas para a aquisição da língua escrita, para a implantação da prótese auditiva, para acompanhamento à famí- lia e à pessoa surda etc. As questões apresentadas por Regina de Souza par- tem de uma crítica cuja essência adver- te-nos dos riscos que uma determinada concepção sobre a surdez apresentada pelos ouvintes pode trazer aos surdos. É nessa perspectiva que ela retoma a discussão sobre a relação do sujeito com a língua, focando-a nos problemas afetivos, sociais e escolares que, para ela, não foram superados pela oraliza- ção. Além disso, solicita alguns esclare- cimentos sobre a "teoria da mente" (refe- rência importante para as idéias de Nú- ria), bem como coloca em causa o pres- suposto defendido por Núria, de que o bilinguismo pode representar um retra- so ou, ainda, colocar em risco a aquisi- ção da língua oral. Na terceira parte do livro - Entre pon- tos e contrapontos -, na qualidade de co- ordenadora da obra e mediadora do di- álogo, apresento quatro questões co- muns para as duas autoras. Tais ques- tões, e suas respectivas respostas, com- põem a Parte III, que finaliza a obra. Cir- cunscritas no campo da educação, to- das essas questões buscam, de um mo- do ou de outro, trazer para o universo educacional divergências e convergên- cias que aparecem no diálogo até então estabelecido e incorporar novos elemen- tos, ressignificar algumas idéias e ampli- ar a discussão sobre a educação de sur- dos. Para tanto, foram objetos de refle- xão: o movimento inclusivo, os prós e os contras do bilingüismo para as pessoas surdas, a formação de professores com vistasàeducaçãodesurdoseàinclusão escolar, o trabalho com os pais e com as famílias dos surdos, etc. Minha intenção foi, ao mesmo tempo, retomar alguns pontosnevrálgicosdadiscussãoeaden- trar os terrenos movediços das práticas educativas que envolvem a surdez. 64 RESENHAS Educação de Surdos Pontos e Contrapontos Autoras: Núria Silvestre, Valéria Amorim Arantes e Regina de Souza Valéria Amorim Arantes1 1 Doutora em Psicologia pela Universidade de Barcelona (Espanha), pós-doutorado em Psicologia pela Universidade Autônoma de Barcelona (Espanha), professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e coordenadora da coleção Pontos e Contrapontos. E-mail: varantes@usp.br Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 64
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 2010 65 I - RELATÓRIO A Secretaria de Educação Especi- al do MEC encaminha a este Conse- lho Nacional de Educação o Ofício SEESP/GAB nº 3.019, de 26 de no- vembro de 2008, solicitando a regula- mentação do Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008, tendo em vista que a partir de janeiro de 2010 have- rá a distribuição de recursos do FUN- DEB com base nos dados obtidos pelo INEP, no Censo Escolar, em mar- ço do ano de 2009. O Ofício vem acompanhado de subsídios com vis- tas à elaboração de diretrizes opera- cionais regulamentando o atendi- mento educacional especializado na Educação Básica, modalidade Edu- cação Especial. Mérito Em janeiro de 2008, a nova "Políti- ca Nacional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva" da SEESP/MEC é publicada, passan- do a orientar os sistemas educacio- nais para a organização dos serviços e recursos da Educação Especial de forma complementar ao ensino regu- lar, como oferta obrigatória e de res- ponsabilidade dos sistemas de ensi- no. Essa Política resgata o sentido da Educação Especial expresso na Constituição Federal de 1988, que in- terpreta esta modalidade não substi- tutiva da escolarização comum e defi- ne a oferta do atendimento educacio- nal especializado - AEE em todas as etapas, níveis e modalidades, prefe- rencialmente no atendimento à rede pública de ensino. A concepção da Educação Espe- cial nesta perspectiva da educação inclusiva busca superar a visão do ca- ráter substitutivo da Educação Espe- cial ao ensino comum, bem como a organização de espaços educacio- nais separados para alunos com defi- ciência. Essa compreensão orienta que a oferta do AEE será planejada para ser realizada em turno inverso ao da escolarização, contribuindo efeti- vamente para garantir o acesso dos alunos à educação comum e disponi- bilizando os serviços e apoios que complementam a formação desses alunos nas classes comuns da rede regular de ensino. Dado o caráter complementar dessa modalidade e sua transversali- dade em todas as etapas, níveis e modalidades, a Política visa atender alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação e inova ao trazer orientações pertinentes às con- dições de acessibilidade dos alunos, necessárias à sua permanência na escola e prosseguimento acadêmico. (grifo da relatora) No sentido de implementar a "Po- lítica Nacional da Educação Especial na perspectiva da educação inclusi- va", foi aprovado o Decreto Presiden- cial de nº 6.571/2008, cujo objetivo principal é o compromisso da União na prestação de apoio técnico e finan- ceiro aos sistemas públicos de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na forma deste Decreto, para o atendimento educacional es- pecializado. Nesse sentido, a SEESP solicitou ao Conselho Nacional de Educação que regulamente o referido Decreto, de forma a evitar equívocos na imple- mentação do AEE. O Decreto nº 6.571/2008, que dis- põe sobre o atendimento educacional especializado, regulamenta o pará- grafo único do art. 60 da Lei nº 9.394/96, e acrescenta dispositivo ao Decreto nº 6.253, de 13 de novembro de 2007, estabelecendo que: Art. 1º A União prestará apoio téc- nico e financeiro aos sistemas públi- cos de ensino dos Estados, do Distri- to Federal e dos Municípios, na forma deste Decreto, com a finalidade de ampliar a oferta do atendimento edu- cacional especializado aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilida- des ou superdotação, matriculados na rede pública de ensino regular. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO DIRETRIZES OPERACIONAIS PARA O ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO NA EDUCAÇÃO BÁSICA, MODALIDADE EDUCAÇÃO ESPECIAL PARECER CNE/CEB Nº: 13/2009 65INFORMES Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 65
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 201066 § 1º Considera-se atendimento educacional especializado o conjunto de atividades, recursos de acessibili- dade e pedagógicos organizados ins- titucionalmente, prestado de forma complementar ou suplementar à for- mação dos alunos no ensino regular. § 2º O atendimento educacional especializado deve integrar a propos- ta pedagógica da escola, envolver a participação da família e ser realizado em articulação com as demais políti- cas públicas. O art. 60 da Lei nº 9.394/96, cujo parágrafo único foi regulamentado pelo mesmo Decreto, assim dispõe: Art. 60. Os órgãos normativos dos sistemas de ensino estabelece- rão critérios de caracterização das instituições privadas sem fins lucrati- vos, especializadas e com atuação exclusiva em Educação Especial, pa- ra fins de apoio técnico e financeiro pelo Poder Público. Parágrafo único. O Poder Público adotará, como alternativa preferencial, a ampliação do atendimento aos edu- candos com necessidades especiais na própria rede pública regular de ensi- no, independentemente do apoio às instituições previstas neste artigo. O Decreto nº 6.571/2008 também acrescenta dispositivo ao Decreto nº 6.253/2007, que dispõe sobre o Fun- do de Manutenção e Desenvolvimen- to da Educação Básica e de Valoriza- ção dos Profissionais da Educação - FUNDEB, regulamenta a Lei nº 11.494, de 20 de junho de 2007, e dá outras providências, passando este a vigorar acrescido do seguinte artigo: Art. 9º-A. Admitir-se-á, a partir de 1º de janeiro de 2010, para efeito da distribuição dos recursos do FUN- DEB, o cômputo das matrículas dos alunos da educação regular da rede pública que recebem atendimento educacional especializado, sem pre- juízo do cômputo dessas matrículas na Educação Básica regular. Parágrafo único O atendimento educacional especializado poderá ser oferecido pelos sistemas públicos de ensino ou pelas instituições mencio- nadas no art. 14. O art. 14 do Decreto Nº. 6.253/2007, com redação dada pelo Decreto nº 6.278, de 29 de novembro de 2007, prevê: Art. 14 Admitir-se-á, a partir de 1º de janeiro de 2008, para efeito da distribuição dos recursos do FUNDEB, o cômputo das matrícu- las efetivadas na Educação Especi- al oferecida por instituições comu- nitárias, confessionais ou filantrópi- cas sem fins lucrativos, com atua- ção exclusiva na Educação Especi- al, conveniadas com o poder exe- cutivo competente. Assim, a partir de 2010, os alunos com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habilidades/superdotação se- rão contabilizados duplamente no âmbito do FUNDEB, quando matri- culados em classes comuns do ensi- no regular e no atendimento educa- cional especializado. Essas Diretrizes Operacionais ba- seiam-se, então, na concepção do atendimento educacional especiali- zado e não devem ser entendidas co- mo substitutivo à escolarização reali- zada em classe comum das diferen- tes etapas da educação regular, mas sim como mecanismo que viabilizará a melhoria da qualidade do processo educacional dos alunos com defici- ência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habili- dades/superdotação matriculados nas classes comuns do ensino regu- lar, ao mesmo tempo em que orienta a organização da escola e as deman- das dos sistemas de ensino. Reafirma-se a pertinência da soli- citação da SEESP para o CNE apre- sentar orientações que devem nortear os sistemas de ensino para efetivação do direito ao atendimento educacio- nal especializado - AEE aos alunos matriculados no ensino regular da re- de pública, que atendam aos critérios estabelecidos, de modo a operacio- nalizar o disposto no Decreto nº 6.571/2008. Desse modo, propomos que este Parecer seja regulamentado confor- me o Projeto de Resolução anexo, que estabeleceu como prioridade: A obrigatoriedade da matrícula dos alunos, público-alvo da Educação Es- pecial, na escola comum do ensino regular e da oferta do atendimento educacional especializado - AEE. A função complementar ou suple- mentar do atendimento educacional especializado e da Educação Especi- al, como área responsável pela sua realização. A conceituação do público-alvo da Educação Especial, a definição dos espaços para a oferta do atendimen- to educacional especializado e o tur- no em que se realiza. As formas de matrícula concomi- tante no ensino regular e no atendi- mento educacional especializado, contabilizadas duplamente no âmbito do FUNDEB, conforme definido no Decreto nº 6.571/2008. As orientações para elaboração de plano do AEE e competências do pro- fessor do AEE. A inclusão do AEE no projeto peda- gógico da escola da rede regular de ensino. As condições para a realização do AEE em centros de atendimento edu- cacional especializado. As atribuições do professor que re- aliza o AEE. A formação do professor para atuar na Educação Especial e no AEE. II - VOTO DA RELATORA Em vista do exposto, propõe-se a aprovação das Diretrizes Operacio- nais para a Educação Especial na forma deste Parecer e do Projeto de Resolução em anexo, do qual é par- te integrante. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 66
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 2010 67 Brasília (DF), 3 de junho de 2009. Conselheira Clélia Brandão Alva- renga Craveiro - Relatora Conselheiro Francisco Aparecido Cordão - Relator ad hoc III - DECISÃO DA CÂMARA A Câmara de Educação Básica aprova por unanimidade o voto da Relatora. Sala das Sessões, em 3 de junho de 2009. Conselheiro Cesar Callegari - Pre- sidente Conselheiro Mozart Neves Ramos - Vice-Presidente Diretrizes Operacionais para o aten- dimento educacional especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial. O Presidente da Câmara de Edu- cação Básica do Conselho Nacional de Educação, no uso de suas atribui- ções legais, de conformidade com o disposto na alínea "c" do artigo 9º da Lei Nº 4.024/1961, com a redação da- da pela Lei Nº 9.131/1995, bem como no artigo 90, no § 1º do artigo 8º e no § 1º do artigo 9º da Lei Nº 9.394/1996, considerando a Constituição Federal de 1988; a Lei Nº 10.098/2000; a Lei Nº 10.436/2002; a Lei Nº 11.494/2007; o Decreto Nº 3.956/2001; o Decreto Nº 5.296/2004; o Decreto Nº 5.626/2005; o Decreto Nº 6.253/2007; o Decreto Nº 6.571/2008; e o Decreto Legislativo Nº 186/2008, e com funda- mento no Parecer CNE/CEB Nº 13/2009, homologado por Despacho do Senhor Ministro de Estado da Edu- cação, publicado no DOU de 24 de setembro de 2009, resolve: Art. 1º Para a implementação do Decreto nº 6.571/2008, os sistemas de ensino devem matricular os alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilida- des/superdotação nas classes co- muns do ensino regular e no atendi- mento educacional especializado, ofertado em salas de recursos multi- funcionais ou em centros de atendi- mento educacional especializado da rede pública ou de instituições comu- nitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos. Art. 2º O AEE tem como função complementar ou suplementar a for- mação do aluno por meio da disponi- bilização de serviços, recursos de acessibilidade e estratégias que elimi- nem as barreiras para sua plena par- ticipação na sociedade e desenvolvi- mento de sua aprendizagem. Parágrafo único. Para fins destas Diretrizes, consideram-se recursos de acessibilidade na educação aqueles que asseguram condições de acesso ao currículo dos alunos com deficiên- cia ou mobilidade reduzida, promoven- do a utilização dos materiais didáticos e pedagógicos, dos espaços, dos mo- biliários e equipamentos, dos sistemas de comunicação e informação, dos transportes e dos demais serviços. Art. 3º A Educação Especial se realiza em todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, tendo o AEE como parte integrante do pro- cesso educacional. Art. 4º Para fins destas Diretrizes, considera-se público-alvo do AEE: I - Alunos com deficiência: aque- les que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou sensorial. II - Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações soci- ais, na comunicação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndro- me de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos sem outra especificação. III - Alunos com altas habilida- des/superdotação: aqueles que apre- sentam um potencial elevado e gran- de envolvimento com as áreas do co- nhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade. Art. 5º O AEE é realizado, priorita- riamente, na sala de recursos multi- funcionais da própria escola ou em outra escola de ensino regular, no tur- no inverso da escolarização, não sen- do substitutivo às classes comuns, podendo ser realizado, também, em centro de atendimento educacional especializado da rede pública ou de instituições comunitárias, confessio- nais ou filantrópicas sem fins lucrati- vos, conveniadas com a Secretaria de Educação ou órgão equivalente. Art. 6º Em casos de atendimento educacional especializado em ambi- ente hospitalar ou domiciliar, será ofer- tado aos alunos, pelo respectivo siste- ma de ensino, a Educação Especial de forma complementar ou suplementar. Art. 7º Os alunos com altas habi- lidades/superdotação terão suas ati- vidades de enriquecimento curricular desenvolvidas no âmbito de escolas MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO CÂMARA DE EDUCAÇÃO BÁSICA RESOLUÇÃO Nº. 4, DE 2 DE OUTUBRO DE 2009 Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 67
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 65-68, jan/jul. 201068 públicas de ensino regular em inter- face com os núcleos de atividades para altas habilidades/superdotação e com as instituições de ensino su- perior, institutos voltados ao desen- volvimento e promoção da pesquisa, das artes e dos esportes. Art. 8º Serão contabilizados dupla- mente no âmbito do FUNDEB, de acordo com o Decreto nº 6.571/2008, os alunos matriculados em classe co- mum de ensino regular público que ti- verem matrícula concomitante no AEE. Parágrafo único. O financiamento da matrícula no AEE é condicionado à matrícula no ensino regular da re- de pública, conforme registro no Censo Escolar/MEC/INEP do ano anterior, sendo contemplada: a) matrícula em classe comum e em sala de recursos multifuncionais da mesma escola pública; b) matrícula em classe comum e em sala de recursos multifuncionais de outra escola pública; c) matrícula em classe comum e em centro de Atendimento Educacional Especializado de instituição de Edu- cação Especial pública; d) matrícula em classe comum e em centro de Atendimento Educacional Especializado de instituições de Educação Especial comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos. Art. 9º A elaboração e a execu- ção do plano de AEE são de compe- tência dos professores que atuam na sala de recursos multifuncionais ou centros de AEE, em articulação com os demais professores do ensi- no regular, com a participação da fa- mília e em interface com os demais serviços setoriais da saúde, da as- sistência social, entre outros neces- sários ao atendimento. Art. 10. O projeto pedagógico da escola de ensino regular deve institu- cionalizar a oferta do AEE prevendo na sua organização: I - sala de recursos multifuncio- nais: espaço físico, mobiliário, mate- riais didáticos, recursos pedagógi- cos e de acessibilidade e equipa- mentos específicos; II - matrícula no AEE de alunos matriculados no ensino regular da própria escola ou de outra escola; III - cronograma de atendimento dos alunos; IV - plano do AEE: identificação das necessidades educacionais es- pecíficas dos alunos, definição dos recursos necessários e das atividades a serem desenvolvidas; V - professores para o exercício da docência do AEE; VI - profissionais da educação: tradutor e intérprete de Língua Brasi- leira de Sinais, guia-intérprete e ou- tros que atuem no apoio, principal- mente, às atividades de alimentação, higiene e locomoção; VII - redes de apoio no âmbito da atuação profissional, da formação, do desenvolvimento da pesquisa, do acesso a recursos, serviços e equipa- mentos, entre outros que maximizem o AEE. Parágrafo único. Os profissio- nais referidos no inciso VI atuam com os alunos público-alvo da Educação Especial em todas as atividades escolares nas quais se fizerem necessárias. Art. 11. A proposta de AEE, previs- ta no projeto pedagógico do centro de atendimento educacional especializa- do público ou privado sem fins lucrati- vos, conveniado para essa finalidade, deve ser aprovada pela respectiva Se- cretaria de Educação ou órgão equi- valente, contemplando a organização disposta no art. 8º desta Resolução. Parágrafo único Os centros de atendimento educacional especializa- do devem cumprir as exigências le- gais estabelecidas pelo Conselho de Educação do respectivo sistema de ensino, quanto ao seu credenciamen- to, autorização de funcionamento e organização, em consonância com as orientações preconizadas nestas Diretrizes Operacionais. Art. 12. Para atuação no AEE, o professor deve ter formação inicial que o habilite para o exercício da do- cência e formação específica para a Educação Especial. Art. 13. São atribuições do profes- sor do atendimento educacional es- pecializado: I - identificar, elaborar, produzir e organizar serviços, recursos pedagó- gicos, de acessibilidade e estratégias considerando as necessidades espe- cíficas dos alunos público-alvo da Educação Especial; II - elaborar e executar plano de atendimento educacional especializa- do, avaliando a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagó- gicos e de acessibilidade; III - organizar o tipo e o número de atendimentos aos alunos na sala de recursos multifuncionais; IV - acompanhar a funcionalidade e a aplicabilidade dos recursos pedagó- gicos e de acessibilidade na sala de au- la comum do ensino regular, bem como em outros ambientes da escola; V - estabelecer parcerias com as áreas intersetoriais na elaboração de estratégias e na disponibilização de recursos de acessibilidade; VI - orientar professores e famílias sobre os recursos pedagógicos e de acessibilidade utilizados pelo aluno; VII - ensinar e usar a tecnologia as- sistiva de forma a ampliar habilidades funcionais dos alunos, promovendo autonomia e participação. VIII - estabelecer articulação com os professores da sala de aula co- mum, visando à disponibilização dos serviços, dos recursos pedagógicos e de acessibilidade e das estratégias que promovem a participação dos alunos nas atividades escolares. Art. 14. Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publica- ção, revogadas as disposições em contrário. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 68
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    A MAIOR GERAÇÃODE JOVENS DE TODOS OS TEMPOS! A MAIOR GERAÇÃO DE JOVENS DE TODOS OS TEMPOS! Inclusão: R. Educ. esp., Brasília, v.5, n.1, p. 69-70, jan/jul. 2010 69 1 Jornalista e Oficineiro da Inclusão da Escola de Gente - Comunicação em Inclusão. Conselheiro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) da SG/PR e do Conselho Estadual de Juventude do Rio de Janeiro (Cojuerj) da SEAS.DH.RJ. Confusão, contradição, transtornos; corpo, desejos, identidade; novo papel, entre a dependência, a (in)subordina- ção e a independência; pais: pela dificul- dade em lidar com a personalidade e a sexualidade, deixam de ser heróis para serem os que criticam e julgam; irregu- laridade, instabilidade, imprevisibilidade; falta de perspectiva: 1 em cada 10 entra na faculdade, poucos concluem; é pre- ciso pensar a vocação e ingressar no mundo do trabalho; alto índice de mor- tes por conduta de risco (50% dos aci- dentesdecarrofataisporusodeálcool); alto índice de homicídios; Doenças Se- xualmente Transmissíveis; papéis, atri- buições, expectativas, direitos e deve- res: necessidade de demarcar um lugar social; discurso, comportamento, rela- ções de poder; padrão, desvio, trans- gressão. Estas palavras e expressões nos remetem à uma fase. Na verdade, à uma geração: a juventude! O Brasil vive um panorama inédito. O país tem no momento a maior gera- ção de jovens de todos os tempos: são 48 milhões de brasileiros(as) com idade entre 15 e 29 anos. Durante a década de 90, viveu-se a chamada "onda jo- vem". As taxas de crescimento da po- pulação de 15 a 29 anos foram muito in- tensas. Atualmente, 85% da população jovem mundial vive nos chamados paí- ses em desenvolvimento. Nessa pers- pectiva, a maior barreira da juventude se torna a pobreza, que lhes rouba as oportunidades e as expectativas de uma vida digna, condenando-a a situa- ções e estruturas vulnerabilizantes. A juventude é uma condição social, parametrizada por uma faixa-etária, que no Brasil congrega cidadãos(ãs) com idade compreendida entre os 15 e os 29 anos. Sendo tema de interesse público, a condição juvenil deve ser tratada sem estereótipos e a consagração dos direi- tos dos(as) jovens precisa partir da pró- pria diversidade que caracteriza a(s) ju- ventude(s). Em termos políticos e soci- ais, os(as) jovens são sujeito de direitos coletivos. Sua autonomia deve ser res- peitada, suas identidades, formas de agir, viver e se expressar, valorizadas. Educação, ciência e tecnologia, cultura, esporte, lazer, participação po- lítica, trabalho e renda, saúde, meio ambiente, terra, esses e outros temas estão relacionados às políticas públi- cas de juventude e devem ser levados em conta a transversalidade dessas políticas de maneira articulada. Para pensar e propor diretrizes para políticaspúblicasparaadiversidadejuve- nil,negros(as),indígenas,jovenscomde- ficiência, mulheres jovens, religiosos(as), rurais, LGBTTT), assim como falar de te- mas que a sociedade considera polêmi- cos, como jovens em conflito com a lei e egressosdosistemapenal,tráficodemu- lheres, redução da maioridade penal, ex- ploração sexual, casamento entre pesso- as do mesmo sexo, violência doméstica, aborto e entre outros assuntos, a presi- dência da República lançou, no ano de 2005 uma política nacional para a juven- tude,criandoaSecretariaNacionaldeJu- ventude e o Conselho Nacional de Ju- ventude. Estas decisões refletem um sis- temático processo de aprendizado e re- flexão do governo, sociedade civil, parla- mento e organismos de cooperação in- ternacional no tema. Juventude X Deficiência A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que existem 600 milhões de pessoas com deficiência no planeta - 400 milhões nos países em desenvol- vimento. Dados do Banco Mundial apontam que pelo menos 79 milhões de indivíduos com deficiência estão na América Latina e Caribe, dos quais vin- Fábio Meirelles1 69OPINIÃO Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 69
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 69-70, jan/jul. 201070 te e quatro milhões são cidadãos(ãs) brasileiros(as). O Censo Demográfi- co/2000 do Instituto Brasileiro de Geo- grafia e Estatística (IBGE) aponta que existem aproximadamente 3.605.183 jovens com pelo menos uma deficiên- cia (14,7% do total de jovens). Vários são os grupos sociais excluí- dos dos processos de desenvolvimen- to socioeconômico e humano do plane- ta, e muitos deles vivem abaixo da linha de pobreza, devido ao estigma e à dis- criminação sistemática à qual são sub- metidos. As políticas públicas ditas uni- versais - nas áreas de educação, traba- lho, saúde, seguridade social, etc - dis- criminam a população de pessoas com deficiência. E essa lógica se reproduz nas políticas públicas de juventude. À juventude com deficiência não é garantido o direito à participação em pro- jetos, programas e políticas públicas de juventudebrasileiras,tantonosníveismu- nicipal,estadualquantofederal,emtodas as áreas de atuação de governos e soci- edade civil. Direitos que deveriam ser ga- rantidospormeiodeajudastécnicaspre- vistas em leis, como intérprete da Língua de sinais brasileira (Libras), legendagem em programas de televisão e sessões de cinema, material em braile e sites com acessibilidade, entre outras iniciativas. Profissionais de todos os setores ig- noram, mesmo que inconscientemente, a existência de adolescentes e jovens com deficiência no nosso país. Não es- tão assegurados recursos e investimen- tos, e em todas as áreas de atuação de políticas públicas, para a efetiva inclusão de jovens com deficiência. Não haven- do previsão orçamentária, por princípio, há segregação e discriminação. Mudança no panorama/perspectiva e boas práticas A cada dia cresce no país a percep- ção de que é preciso construir políticas públicas inclusivas para esse segmento, ou seja, abertas à diversidade, contem- plando as características e as necessida- desinerentesdasinfinitasjuventudes,en- tre elas aquela formada por jovens com qualquer tipo de deficiência, hoje com baixíssima escolaridade. Nesse sentido, o ano de 2008 foi marcado por iniciativas do executivo e legislativo federal que po- dem ser destacadas como boas práticas na perspectiva de reverter esse processo histórico de discriminação, entre elas: 1) A aprovação da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência co- mo emenda constitucional pelo Congres- soNacional;aaprovaçãosófoipossívela partir de articulações da CORDE, órgão daSecretariaEspecialdosDireitosHuma- nos, e do Conade, órgão superior de de- liberação colegiada e controle social da política nacional de atenção à pessoa com deficiência no Brasil; a aprovação re- afirma o conteúdo da Declaração Univer- saldosDireitosHumanoseavançanaga- rantia de direitos aos(as) jovens brasilei- ro(as) com qualquer tipo de deficiência; 2) A consolidação, pela SEESP/MEC, da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva; a política avança na possibilidade de pro- mover a convivência de crianças, ado- lescentes e jovens com e sem deficiên- cia em escolas comuns da rede regular de ensino, buscando reverter práticas seculares de discriminação, aprimoran- do e integrando ações destinadas a es- sepúblico.APolíticapodeserconsidera- da uma proposta concreta de mudança alinhadas com a legislação brasileira e fi- losoficamente inspiradas na força mobili- zadora e transformadora da juventude; 3) Realização, pela Secretaria Nacional de Juventude/Secretaria Geral da Presi- dência da República, da I Conferência Nacional de Juventude, ocorrido em abril de 2008, que mobilizou mais de 400 mil jovens em suas etapas preparatórias e representou um marco na consolida- ção da política nacional, controle social, de diálogo entre governos (municipais, estaduais e federal), poder legislativo e sociedade civil. A Conferência reuniu de- legados(as) jovens com e sem deficiên- cia de todo o Brasil em uma intensa arti- culação que antecedeu a aclamação, na plenária final, de prioridade com relação à juventude com deficiência. Questões para o debate Mesmo constatadas iniciativas de avanço, algumas perguntas ainda po- dem ser feitas e debatidas: 1) Como criar e implementar políticas públicas que valorizem a diversidade, garantam o exercício dos direitos hu- manos, combatam a desigualdade econômica e social e se mostrem ca- pazes de atender às necessidades es- pecíficas de adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade? 2) Como agir para reverter os processos de sistemática exclusão aos quais são submetidos/asadolescentesejovensem situação de desvantagem por diversida- de de gênero, orientação sexual, religio- sa, lingüística, regional, cultural, humana, social, entre outras? 3) De que modo as questões específicas dadiversidadedos(as)adolescentesejo- vens no Brasil podem mudar o rumo da criação, implementação e avaliação das políticas públicas no país? Há pressa em se disseminar o con- ceito de uma sociedade inclusiva entre jovensquesepreparameiniciamsuaen- trada na vida adulta - pessoal e profissio- nal. Dilemas, futuro, ética, estética, pater- nidade/maternidade,fidelidade,amizade, subjetividade: esses são somente alguns dos principais desafios vividos pelo jo- vem brasileiro no século XXI. Nesse sentido, faz-se necessária a criação de políticas públicas de juventu- de inclusivas, que simultaneamente ratifi- quem a diversidade humana como um valor e combatam a desigualdade eco- nômica e social. Está colocado o desafio. Saiba mais em: www.juventude.gov.br www.escoladegente.org.br Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:47 Page 70
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 71-72, jan/jul. 2010 71 INCLUSÃO EM EVIDÊNCIA A Secretaria Municipal de Edu- cação de Cuiabá-MT, ao aderir ao Programa Educação Inclusiva: Di- reito à Diversidade, define uma po- lítica educacional fundamentada na perspectiva da inclusão, na qual a escola se constitui como um espaço privilegiado de formação humana que inclui saberes, valo- res e atitudes, visando a romper com todas as formas de exclusão no seu interior. Embora a definição da política educacional inclusiva tenha sido determinante para garantir o atendi- INCLUSÃO EM EVIDÊNCIA Julieta dos Santos Ribeiro Nunes Domingues1 sme.dipe@cuiaba.mt.gov.br 1 Licenciada em Educação Física pela UFMT - Universidade Federal de Mato Grosso; pós-graduada em Saúde Mental pela UFMT; pós-graduada em Gestão Educacional/Educação Inclusiva, pela UNEMAT - UNIVERSIDADE DE MATO GROSSO; Conselheira do Conselho Municipal de Educação e Diretora de Políticas Educacionais da Secretaria Municipal de Educação/Cuiabá-MT. 71VEJA TAMBÉM Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 71
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 71-72, jan/jul. 201072 mento de todos os alunos, ainda se faz necessário disseminar a con- cepção que fundamenta a educa- ção inclusiva, bem como as ques- tões organizacionais e pedagógi- cas, pensando o contexto da esco- la nas suas múltiplas dimensões. Neste sentido, a Secretaria Mu- nicipal de Educação vem imple- mentando nas escolas o Plano Educação na Diversidade com o objetivo de garantir o atendimento educacional, considerando os indi- cadores de acesso, permanência e sucesso nas etapas e modalidades de ensino, respeitando os diferen- tes momentos do ciclo da vida. Dentre os programas constantes no Plano Educação na Diversidade, destaca-se o Programa Currículo na Diversidade, que visa a fortale- cer as unidades de ensino por meio de um currículo que favoreça o atendimento educacional de quali- dade e valorize a diversidade hu- mana como fator de enriquecimen- to das relações sociais. A partir da definição do Progra- ma Currículo na Diversidade, ao qual se integra o projeto Inclusão em Evidência, a rede municipal rompe com o modelo de classes especiais, não mais entendendo a Educação Especial como ensino paralelo de caráter substitutivo ao ensino fundamental, mas como uma modalidade de ensino que assegure o atendimento educacio- nal especializado, garantindo aos alunos com deficiências, transtor- nos globais de desenvolvimento e altas habilidades/superdotação a igualdade de oportunidades no en- sino regular. Nesse sentido, foram implanta- das as salas multifuncionais, tendo como objetivo a melhoria das res- postas educativas para os alunos com necessidades educacionais especiais, de forma articulada com a proposta pedagógica da escola. Esta nova concepção de serviço especializado tem possibilitado a eliminação das barreiras impostas pelo ambiente, ampliando as possi- bilidades de acesso ao conheci- mento e, conseqüentemente, o de- senvolvimento das potencialidades dos alunos. Fez-se necessário, en- tão, definir um modelo de formação continuada que, de fato, alcanças- se as necessidades formativas dos professores para que estes pudes- sem dar as respostas requeridas pelos alunos. Na proposta de for- mação desenvolvida, privilegiou-se a escola como um espaço formati- vo por excelência, propondo uma revisão da prática pedagógica de forma reflexiva e investigativa. Assim, o programa "Revitalizan- do a Formação" tem sido funda- mental para enfrentarmos os desa- fios do processo educativo, a fim de garantir a aprendizagem de to- dos os nossos alunos. Com esse conjunto de ações, estamos cons- truindo a tão sonhada transversali- dade proposta pela Educação Es- pecial nas diferentes etapas e mo- dalidades da Educação Básica. Uma das experiências mais enri- quecedoras tem sido o projeto Esti- mulAção, que objetiva atender as necessidades específicas das cri- anças com deficiência e atraso acentuado no desenvolvimento neuro-psico-motor, realizando ser- viço de intervenção precoce, orien- tando os gestores e os professores a fim de minimizar as barreiras im- postas pelo ambiente. Este projeto tem contribuído na interação da cri- ança com o meio, favorecendo o seu desenvolvimento integral, sen- do perceptíveis os avanços nos as- pectos cognitivo, afetivo, motor e social já nos primeiros meses da in- tervenção pedagógica. Ao re-significarmos a política da Educação Especial, fomos surpre- endidos com o aumento das matrí- culas de alunos com deficiências nas nossas escolas e, em particu- lar, a inclusão de crianças na Edu- cação Infantil. As unidades escola- res e creches vêm trabalhando de forma coletiva o processo de sensi- bilização, envolvendo todos os pro- fissionais acerca dos fundamentos da Educação Inclusiva. Este trabalho refletiu conside- ravelmente na forma de acolhi- mento e oportunidade de aprendi- zagem, desmistificando a idéia de que as crianças com deficiência deveriam estar em escolas ou classes especiais. As experiências positivas repe- tem-se a cada dia conforme depoi- mentos dos professores de diferen- tes escolas, dos familiares e dos próprios alunos, quando manifes- tam a satisfação de estarem com as outras crianças e adolescentes, be- neficiando-se do mesmo espaço de aprendizagem. Experiências estas duplamente satisfatórias diante um universo de 72 alunos com necessi- dades educacionais especiais ma- triculados em 2006, para 475 em 2007, evidenciando que a escola in- clusiva é hoje uma realidade. No entanto, sabemos que pre- cisamos avançar em muitos aspec- tos como: oportunizar a todos os profissionais da educação básica a formação continuada na pers- pectiva da educação inclusiva; ad- quirir equipamentos específicos para as salas multifuncionais; ga- rantir a acessibilidade a fim de fa- vorecer um melhor atendimento educacional aos nossos alunos, entre outros. Tem sido gratificante constatar que a educação inclusiva é uma re- alidade no município de Cuiabá e que esta se efetiva no fazer, na ex- perimentação fundamentada em pressupostos teóricos sólidos que tornam possível a garantia de uma educação de qualidade para todos. Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 72
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 73-74, jan/jul. 2010 73 Política editorial 1 A Revista Inclusão publica artigos cujo foco é a Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva 2 As colaborações podem ser apre- sentadas como: 2.1 Artigos inéditos de caráter opinativo ou científico, fundamentados em pes- quisas e/ou relatos de experiências; 2.2 Resenhas. 3 Os artigos devem ser inéditos (de preferência em português), cabendo à revista a exclusividade da sua pu- blicação. Precisam atender aos se- guintes critérios: 3.1 Adequação ao escopo da revista; 3.2 Qualidade científica, atestada pela Comissão Editorial e ouvido o Conse- lho Consultivo; 3.3 Cumprimento das presentes Normas; 3.4 Após aceitos, os artigos podem sofrer alterações não substanciais (re- paragrafações, correções gramaticais e adequações estilísticas) na etapa de editoração de texto. 4 Aceitação e revisão dos textos: os artigos recebidos são enviados (com exclusão do nome dos autores) a dois pareceristas pertencentes ao Conse- lho Consultivo da Revista que indicam a aceitação, a recusa ou as reformula- ções necessárias. Em caso de pare- ceres contrários à aceitação, o artigo é analisado pelos editores que definem ou não a sua publicação com base nas indicações dos pareceres. A revi- são da normalização técnica é realiza- da pelos editores. 5 Não há remuneração pelos traba- lhos, o autor de cada artigo recebe 05 (cinco) exemplares da revista; no caso do artigo assinado por mais de um au- tor, serão entregues 5 (cinco) exem- plares para cada. Os artigos aprova- dos são publicados na forma impres- sa e digital acessível. Constituição dos artigos 1 Identificação: folha de rosto conten- do o título (em português e inglês); au- tor (titulação, instituição, departamen- to, quando for o caso), endereço com- pleto e e-mail (de todos os autores); 2 Resumo: deve ser informativo, ex- pondo o objetivo, metodologia, resul- tados e conclusões, quando se tratar de relato de pesquisa. Deve conter em torno de 250 palavras, não contendo parágrafos e nem citações de autores e datas. 3 Palavras-chave: fazer a indicação após o resumo (mínimo de três e má- ximo de cinco palavras). 4 Abstract e Key words: o resumo em inglês deve ser apresentado logo após o resumo em português e se- guindo as mesmas normas aponta- das anteriormente. 5 Texto: os artigos devem estar organi- zados em: Introdução, Desenvolvi- mento e Conclusão, podendo receber subdivisões. No caso de relatos de pesquisa, devem ter as seguintes se- ções: Introdução, Método, Resulta- dos, Discussões e Conclusões (com numeração). No caso de resenha de livros e teses, o texto deve conter todas as informa- ções para a identificação do trabalho comentado. Os textos, conforme orientações, de- verão ser entregues impressos em ar- quivo de texto em papel A4, e em CD em formato .docx. O arquivo em for- mato .docx será convertido em Livro Digital Falado, que é uma representa- ção acessível e multimídia de uma pu- blicação impressa. Obs: O arquivo .docx será utilizado para geração do formato digital aces- sível MecDaisy - um tipo de texto digi- tal que consiste num sistema de mar- cação que permite a navegação por meio de teclas de atalho às diferentes partes do texto (capítulos, itens, subi- tens, páginas, parágrafos, linhas, en- tre outros); disponibiliza a leitura em áudio, a formatação para impressão Braille e a ampliação dos caracteres. 6 Para conversão do artigo em forma- to MEC Daisy, os autores deverão descrever de maneira específica e de- talhada os objetos imagéticos utiliza- dos no artigo: ilustrações (foto, figura, gravura, pintura, entre outros), tabelas (disposição espacial de textos e nú- meros); diagramas (fluxogramas, gra- fos, organograma, entre outros); gráfi- cos de base matemática (barra, dia- grama circulares, função, entre ou- tros); mapas; fórmulas (matemática, química, física); símbolos (logotipo, lo- gomarca) e tabelas, gráficos, (dese- nhos, mapas e fotografias). Essa des- crição deverá ser fidedigna aos obje- tos apresentados, explicitando todas as informações no texto do artigo, de modo a permitir que o leitor tenha compreensão do assunto tratado. A descrição de objetos em geral de- ve responder as seguintes questões: a) o que, quem e onde, associado ao objetivo do texto (quando necessário enfatizar como a relação entre os elementos da imagem se estabele- ce); b) a relevância da imagem em relação ao texto; c) destaque dos elementos significativos (que contri- buem para contextualizar o tema central abordado). Para a descrição específica de tabelas deve-se privile- giar uma apresentação dos dados contidos na tabela de modo a garan- tir significação no formato áudio. As regras básicas a seguir podem ser NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ARTIGOS Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 73
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 73-74, jan/jul. 201074 utilizadas como parâmetros gerais: a) as tabelas devem ser constituídas com linhas e colunas, sem subdivi- sões internas; b) deve-se minimizar o número de colunas utilizadas; c) quando necessário usar cabeçalho e rodapé, que devem ser apresenta- dos sucintamente; d) deve-se mini- mizar a introdução de elementos de formatação e cor, pois estas são ca- racterísticas eminentemente visuais, limitando a acessibilidade ao conteú- do expresso; e) quando a tabela tiver uma estrutura complexa deve-se converter em texto, as informações demonstradas nos diferentes níveis da tabela. 7 Citações, notas e referências (livros, periódicos, artigos de jornal, disserta- ções e teses, meio eletrônico, artigo em jornal científico, trabalho em con- gresso, etc.): devem obedecer às nor- mas da ABNT. 8. Apresentação de artigos 8.1 Os artigos, para serem submeti- dos à apreciação, devem ser encami- nhados à Comissão Editorial, acom- panhados de: a) ofício; b) duas cópias do texto impresso; c) CD com artigo em formato .docx; d) carta de cessão dos direitos autora- is, assinada por todos os autores, se- gundo a ordem de autoria (primeiro autor, segundo autor, etc.). e) carta de cessão de direitos de ima- gem para publicação de fotos. 8.2 Quando se tratar de relato de pes- quisa deve ser enviada uma cópia da autorização do comitê de ética; 8.3 Formatação: papel A4 e com pá- ginas numeradas com, no mínimo, 12 laudas e, no máximo, 16 laudas incluindo as referências (espaço um e meio, letra Times New Roman, ta- manho 12, justificado, parágrafos com 2 cm); 8.4 Após ser aprovado para publica- ção, enviar uma cópia em papel A4 e outra em CD (em formato .docx), nas quais tenham sido providenciadas as eventuais adaptações exigidas pela Comissão Editorial. 9 Os artigos devem ser enviados para: Ministério da Educação Secretaria de Educação Especial Revista Inclusão - Revista da Educa- ção Especial Esplanada dos Ministérios Bloco "L" - 6º andar - sala 600 CEP: 70047 - 900 - Brasília - DF revistainclusao@mec.gov.br Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 74
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 75, jan/jul. 2010 75 Carta modelo: Venho por meio desta ceder os direitos autorais sobre o artigo (nome do artigo) para a Revista Inclusão, a ser publicado na forma impressa e eletrônica, mantida pela Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação. Declaro que o mencionado artigo é inédito, como consta nas normas de publicação da referida Revista, e não foi publicado nem em outra revista e nem em meio digital, como páginas de Associações, sites ou CDs de eventos. Assinatura do primeiro autor Nome completo (sem abreviatura) do primeiro autor Assinatura do segundo autor Nome completo (sem abreviatura) do segundo autor Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 75
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    Inclusão: R. Educ.esp., Brasília, v.5, n.1, p. 76, jan/jul. 201076 Autorização Venho por meio desta, AUTORIZAR o uso de fotografias enviadas para fazerem parte do Artigo ............................................................................................................ para a Revista In- clusão, a ser publicada na forma impressa e eletrônica, mantida pela Secretaria de Educa- ção Especial do Ministério da Educação. Local, data e ano. Assinatura Inclusao 7 - FNDE - Final.qxd 13/11/2010 10:48 Page 76