UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
TAÍS SILVA OLIVEIRA
Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica:
Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil
SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP
2019
TAÍS SILVA OLIVEIRA
Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica:
Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Ciências Humanas e Sociais da
Universidade Federal do ABC como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências
Humanas e Sociais. Área de concentração: cultura,
desenvolvimento e políticas públicas.
Orientador: Prof. Dr. Claudio Luis de Camargo
Penteado
Coorientador: Prof. Dr. Ramatis Jacino.
SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP
2019
Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do ABC
Elaborada pelo Sistema de Geração de Ficha Catalográfica da UFABC
Com os dados fornecidos pelo(a) autor(a).
Oliveira, Taís Silva
Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: um estudo sobre o
afroempreendedorismo no Brasil / Taís Silva Oliveira. — 2019.
144 fls.: il.
Orientador: Claudio Luis de Camargo Penteado
Coorientador: Ramatis Jacino
Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-Graduação
em Ciências Humanas e Sociais, São Bernardo do Campo, 2019.
1. Afroempreendedorismo. 2. Redes Sociais na Internet. 3. Teoria da Economia Étnica.
4. Identidade. 5. Negritude no Brasil. I. Camargo Penteado, Claudio Luis de. II. Jacino,
Ramatis. III. Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais, 2019. IV.
Título.
A todos aqueles que abriram os caminhos.
Nossos passos vêm de longe.
AGRADECIMENTOS
Agradeço à minha família, sobretudo minha mãe Dona Nalva e meu pai Messias (in
memoriam) que, ainda crianças, tiveram que escolher trabalhar ao invés de estudar para
colaborar no sustento da família, mas nos permitiram escolher os estudos como prioridade. E
ao meu irmão Renato que, aos meus quatro anos de idade, me ensinou a fazer contas de somar
instigando a curiosidade científica.
Agradeço a Tarcízio, meu companheiro, amigo, namorado, revisor, conselheiro, parceiro de
vídeo game e carnavais que desde fevereiro de 2016 se interessou e motivou essa pesquisa
mesmo quando ela era só um pré-projeto repleto de inseguranças.
Agradeço aos amigos e amigas que torceram dia após dia por essa empreitada, em especial
Barradas em Wakanda: sem vocês não teria conseguido.
Agradeço a todos os professores que passaram por minha jornada enquanto estudante. Eu sou
quem sou por cada bom exemplo que tive. Em especial aos professores Claudio Penteado,
Ramatis Jacino e Silvia Dotta, meus orientadores neste ciclo, que foram extremamente
generosos, parceiros e sábios em suas contribuições.
Agradeço aos membros da banca pelos excelentes apontamentos feitos na qualificação e que
foram essenciais para a conclusão deste trabalho.
Agradeço aos colegas de jornada na universidade e aos membros do Núcleo de Estudos
Africanos e Afro-brasileiros da UFABC, é uma honra estar ao lado de grandes referências.
Agradeço a todos, inclusive aqueles que nem me conhecem, mas que colaboraram com o
desenvolvimento da pesquisa: os entrevistados, quem compartilhou o material e aqueles que
fizeram uma verdadeira campanha para que eu pudesse alcançar os objetivos.
Agradeço à UFABC por sua estrutura, abertura e aos seus colaboradores sempre solícitos.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
RESUMO
A dissertação aqui apresentada tem como objeto de estudo o Afroempreendedorismo no
Brasil, e seu objetivo geral é compreender as aproximações e distanciamentos entre o
Afroempreendedorismo e a Teoria da Economia Étnica (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989).
Para tanto, optamos como campo de análise as redes sociais na internet (RECUERO, 2009), a
partir de páginas do site de mídia social Facebook que: tratam do tema
Afroempreendedorismo, que são de negócios de afroempreendedores ou de grupos e
associações relacionadas. Como complemento metodológico, aplicamos um formulário
direcionado aos afroempreendedores e uma entrevista semiestruturada com os responsáveis
pelas páginas que se destacaram na análise da rede. Observamos como resultados elementos
que aproximam as variáveis, todavia com ressalvas em relação à formação e contexto da
população negra no Brasil.
Palavras-chave: Afroempreendedorismo - Redes Sociais na Internet - Teoria da Economia
Étnica – Identidade - Negritude no Brasil.
ABSTRACT
The dissertation presented here has as object the Black Entrepreneurship in Brazil, and its
general objective is to understand the approaches and distancings between Black
Entrepreneurship and The Ethnic Economy Theory (LIGHT, 2005, 2013, GOLD, 1989).
Therefore, we choose as field of analysis the social network on the internet (RECUERO,
2009), starting from pages on the social media site Facebook that: deal with the subject Black
Entrepreneurship, which are Black Entrepreneurs business or groups and related associations.
As a methodological complement, we applied a form directed to the Black Entrepreneurs and
a semi-structured interview with those responsible for the pages that stood out in the network
analysis. We observed as results elements that approximate the variables, however with
caveats regarding the formation and context of the black population in Brazil.
Keywords: Black Entrepreneurship - Social Networking on the Internet - Ethnic Economy
Theory – Identity - Negritude in Brazil.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO: UM PROBLEMA INTERDISCIPLINAR ................................................................ 18
2. TEORIA DA ECONOMIA ÉTNICA: ABORDAGENS CONCEITUAIS E APLICAÇÕES ............... 24
2.1 TEORIA DA ECONOMIA ÉTNICA: UM ESTADO DA ARTE ............................................................................26
3. ECONOMIA DE SUBSISTÊNCIA: TRABALHO E GERAÇÃO DE RENDA DA POPULAÇÃO
NEGRA NO BRASIL ................................................................................................................................ 32
3.1 DA SUBSISTÊNCIA AO AFROEMPREENDEDORISMO: UMA OUTRA ECONOMIA É POSSÍVEL? ....................38
3.2 AFROEMPREENDEDORISMO: UM ESTADO DA ARTE...............................................................................40
3.3 PERFIL, ACESSO AO CRÉDITO E POLÍTICAS PÚBLICAS SOBRE O AFROEMPREENDEDORISMO ..............44
4. REDES SOCIAIS NA INTERNET E A FILIAÇÃO PELO FATOR RACIAL: A REDE DE
AFROEMPREENDEDORES .................................................................................................................... 50
5. METODOLOGIA................................................................................................................................. 58
6. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS ............................................................................... 62
6.1 ESTRUTURA E RELAÇÕES DO AFROEMPREENDEDORISMO A PARTIR DA ANÁLISE DE REDES SOCIAIS NA
INTERNET .........................................................................................................................................................62
6.2 PERFIL E PERCEPÇÕES DOS AFROEMPREENDEDORES ...........................................................................67
6.3 TRAJETÓRIAS E VIVÊNCIA DO AFROEMPREENDEDORISMO PELOS NÓS EM DESTAQUE........................82
6.3.1 “Eu acredito no poder que a educação tem de transformar” – Jaciana Melquíades......................83
6.3.2 “A busca pela autonomia, me fez virar empreendedora” – Wanessa Yano.....................................85
6.3.3 “O principal elemento da identidade é esse poder da gente fazer muito com pouco” – Michelle
Fernandes....................................................................................................................................................86
6.3.4 “Então a gente percebeu que a gente tinha um propósito muito grande” – Fióti ...........................87
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................................. 96
8. APÊNDICE ........................................................................................................................................ 104
8.1 PARECER CONSUBSTANCIADO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA.................................................. 104
8.2 LISTAGEM DE PÁGINAS SEMENTES ...................................................................................................... 107
8.3 TERMO DE CONSENTIMENTO DO FORMULÁRIO................................................................................... 112
8.4 TERMOS DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO: ENTREVISTAS SEMIESTRUTURADAS......ERRO!
INDICADOR NÃO DEFINIDO.
8.5 PERGUNTAS DO FORMULÁRIO ONLINE ............................................................................................... 113
8.6 ROTEIRO DA ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA ................................................................................... 119
8.7 TRANSCRIÇÕES DA ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA......................................................................... 120
8.7.1 Jaciana Melquiades, da Era Uma Vez o Mundo .......................................................................120
8.7.2 Wanessa Yano, da Aye Acessórios...................................................................................................123
8.7.3 Michelle Fernandes, da Boutique de Crioula.................................................................................125
8.7.4 Fióti da Laboratório Fantasma .......................................................................................................129
18
1. INTRODUÇÃO: UM PROBLEMA INTERDISCIPLINAR
Dinheiro é foda
Na mão de favelado, é "mó guela"
Na crise, vários pedra na venta, esfarela
Eu vou jogar pra ganhar
O meu money, vai e vem
Porém quem tem, tem
Não cresço o "zóio" em ninguém
O que tiver que ser
Será meu
Tá escrito nas estrelas
Vai reclamar com Deus
Vida Loka II – Racionais MC’s
Desde pequena sempre acompanhei minha mãe – mulher negra, nordestina radicada
em São Paulo, doméstica, semianalfabeta – em suas diversas empreitadas na busca pela renda
extra. Seja na venda de doces, bebidas e sorvetes na garagem, roupas do Brás de porta em
porta, no carrinho de churros nas festas do bairro, na loja na rua da escola, entre outras
atividades. Demorei a compreender – até a fase adulta – que suas atividades eram o próprio
afroempreendedorismo, conceito aplicado em algo que pessoas negras praticam desde muito
cedo na história do país. Na trajetória de interesses pelo tema, conheci a Feira Cultural Preta,
depois os diversos grupos no Facebook que tratam do tema e, mais recentemente, pude
estreitar laços com os movimentos afroempreendedores. Meu interesse por esse grupo de
pessoas foi despertando a cada nova pesquisa, conversa ou evento que frequentava, sobretudo
ao perceber que o contexto do afroempreendedorismo ia além das questões econômicas.
Entendi, então, que seria um recorte interessante para ser estudado.
Entendendo que o tema afroempreendedorismo entrelaça tópicos complexos da
sociedade, consideramos importante pontuar o contexto acadêmico em que o trabalho está
inserido. A pesquisa foi desenvolvida alinhada ao projeto pedagógico interdisciplinar da
Universidade Federal do ABC (UFABC), projeto que promove a construção e
compartilhamento de saberes entre profissionais de diferentes campos e com o objetivo de
estabelecer a interação e integração de diversas áreas do conhecimento consideradas
necessárias para a resolução de questões com demandas complexas (PENTEADO et al,
2015). A interdisciplinaridade nasce como um movimento que busca refletir sobre a
contraposição de um capitalismo epistemológico e contra propostas de um conhecimento
construído a partir de um único ponto de vista. De modo que a interdisciplinaridade se baseia
na intersubjetividade dos elementos envolvidos na pesquisa, ocorre a partir da constante
19
dialética entre esses elementos e é necessário que a problematização se desenvolva
fundamentada em uma contínua construção dos saberes científicos de acordo com as
exigências éticas, sociais, políticas, históricas e econômicas (FAZENDA, 1994, 2018).
A numerosa população de afroempreendedores, o uso contínuo de sites de redes
sociais, os diversos estudos que perpassam pelo tema e a popularização do debate, sobretudo
nos veículos de comunicação, compõem a justificativa da relevância do trabalho aqui
desenvolvido. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de
2016, a população que se autodenomina preta ou parda representa 54% da população
brasileira12
. Já de acordo com levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas (SEBRAE), no Brasil há 12,8 milhões de pessoas negras
empreendedoras, ou afroempreendedores, como popularmente denominadas, o que
corresponde a 51% do total de empreendedores (SEBRAE, 2013). Vale pontuar que a referida
pesquisa trata apenas de empreendedores cadastrados como Microempreendedor Individual
(MEI), portanto não considera os trabalhadores informais, tampouco problematiza o crescente
número de trabalhadores autônomos para o campo do empreendedorismo, consequência da
precarização das leis trabalhistas. Além disso, o estudo não aplica uma conceituação acerca da
categorização do que é ou não um empreendedor; porém, ainda assim, consideramos esse
dado relevante para a reflexão inicial desta dissertação. De maneira mais delimitada, a
pesquisa encomendada pelo Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE) que trata estritamente
do perfil dos participantes do referido projeto, afirma que os afroempreendedores possuem
estreita relação com movimentos sociais, vivenciaram situações de racismo em algum
momento de suas vidas, demonstram a existência de redes solidárias, cooperação produtiva,
combate ao racismo e valorização do orgulho negro. Também é possível observar na pesquisa
que a internet e suas ferramentas aparecem entre os três principais canais de viabilização das
atividades empresariais (MICK, 2016).
Aspectos relacionados ao trabalho e renda da população negra no Brasil são temas de
diversas pesquisas e livros, como o trabalho desenvolvido por Jacino (2014) sobre a transição
no mercado de trabalho no período pós-abolição; de Figueiredo (2002), que aborda a ascensão
social da elite negra da cidade de Salvador, na Bahia, e a tentativa de verificar a existência de
atitudes pensadas e executadas coletivamente que visam o crescimento e a inserção de novos
1
População chega a 205,5 milhões, com menos brancos e mais pardos e pretos. Agência IBGE Notícias.
Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-
populacao-chega-a-205-5-milhoes-com-menos-brancos-e-mais-pardos-e-pretos Acesso em 01 de out. 2019.
2
Durante o texto deste trabalho, quando a menção tratar de pessoas que se autodenominam pretas e pardas a
referência será a pessoas negras ou população negra.
20
membros neste grupo social; ou ainda de Jaime (2016), que estudou, a partir do viés
antropológico, os executivos negros na cidade de São Paulo a fim de entender as percepções
de racismo entre as gerações e como o racismo e a diversidade são abordados no mundo
empresarial. A leitura prévia destas pesquisas nos instiga a compreender com mais
especificidade a problemática aqui proposta, uma vez que os fenômenos se assemelham
quanto ao recorte racial. Especificamente sobre afroempreendedorismo, apresentaremos no
capítulo quatro uma revisão sistemática sobre o tema com o objetivo de mapear as pesquisas
nacionais já publicadas.
Outro aspecto que motiva a execução da pesquisa é o crescente e relevante conteúdo
jornalístico acerca do tema afroempreendedorismo. Destacamos aqui algumas matérias para
efeito de ilustração, como a que trata da Start up Diaspora Black3
que tem como objetivo ser
mediadora de reserva de hotéis para pessoas negras, ideia que surge a partir de experiências
racistas sofridas por um dos fundadores. Temos também notícias que repercutem o evento da
Feira de Afroempreendedorismo no Distrito Federal4
e a semana cultural Afro da cidade de
Bauru5
. Há ainda a matéria sobre o programa de aceleração de afroempreendimentos6
com
apoio do Facebook e a matéria especial sobre o Movimento Black Money7
no Brasil. Grande
parte desses destaques são liderados por grupos e associações de Afroempreendedores, desde
a Feira Cultural Preta – referência há mais de 15 anos na promoção do empreendedorismo
negro, aos mais recentes como AfroBusiness, BlackRocks Startup, Movimento Black Money,
Projeto Brasil Afroempreendedor, Rede de Profissionais Negros, Rede de
Afroempreendedores, Vale do Dendê, entre outras iniciativas (OLIVEIRA, 2018). De modo
geral, essas organizações e grupos foram estruturados a partir da reunião de interessados por
meio de sites de redes sociais e levadas à execução de atividades para além do campo digital.
3
Start-up afroempreendedora busca financiamento coletivo. Revista Claudia. Disponível em:
https://claudia.abril.com.br/carreira/start-up-afro-financiamento/ Acesso em 01 de out. 2019.
4
Feira de Afroempreendedorismo do DF vai até sábado (18). Agência Brasília. Disponível em:
https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2017/11/16/feira-de-afroempreendedorismo-do-df-vai-ate-sabado-18/
Acesso em 01 de out. 2019.
5
Semana Cultural Afro Bauruense começa nesta terça-feira. G1 Bauru e Marília. Disponível em:
https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/semana-cultural-afro-bauruense-comeca-nesta-terca-feira.ghtml
Acesso em 01 de out. 2019.
6
CONHEÇA O AFRO HUB, PROGRAMA DE ACELERAÇÃO PARA EMPREENDEDORES
NEGROS. Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Disponível em:
https://revistapegn.globo.com/Startups/noticia/2018/05/conheca-o-afro-hub-programa-de-aceleracao-para-
empreendedores-negros.html Acesso em 01 de out. 2019.
7
Mundo S/A: movimento valoriza cultura negra por meio do empreendedorismo. Globo News. Disponível
em: http://g1.globo.com/globo-news/dossie-globo-news/videos/t/ultimos-programas/v/mundo-sa-movimento-
valoriza-cultura-negra-por-meio-do-empreendedorismo/6769923/ Acesso em 01 de out. 2019.
21
A apropriação coletiva e objetivada das ferramentas da internet e de sites de redes
sociais pelos usuários é reflexo de uma sociedade que as utiliza rotineiramente, como aponta
pesquisa liderada pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da
Comunicação (CETIC). Atualmente, os usuários de internet no Brasil com 10 anos ou mais
chegam a uma estimativa de 107,9 milhões de indivíduos, o que corresponde a 61% da
população brasileira. Desses, 86% acessam a internet todos os dias ou quase todos os dias e
suas principais atividades são envio de mensagens instantâneas (89%) e o uso de redes
sociais8
(78%). Enquanto a pesquisa sobre produtos e serviços foi realizada por 59% dos
usuários de internet, a compra de produtos ou serviços por 38% e a divulgação e venda de
produtos por 17%. Em relação aos lares, 54% dos domicílios brasileiros (36,7 milhões)
possuem acesso à internet (CETIC.BR, 2017).
Essas pesquisas enfatizam a importância de se debater as complexidades e nuances do
afroempreendedorismo no Brasil enquanto prática em contínua expansão. Isso posto,
apontamos como tripé teórico interdisciplinar: a escala de brasileiros conectados e que
formam redes sociais na internet; o afroempreendedorismo enquanto fenômeno em
desenvolvimento e que carrega uma gama de variáveis sociológicas como racismo,
antirracismo, identidade, trabalho, renda, educação, entre outras; e a possibilidade de estudar
o objeto à luz da teoria da economia étnica (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989). Teoria que,
por sua vez, tem como premissa abordar grupos étnicos que desenvolvem atividades
econômicas pensadas na comunidade co-étnica, fortalecendo negócios, gerando emprego e
formação técnica entre si.
Trabalhamos com as hipóteses de que, embora com tensionamentos teóricos e
históricos, o afroempreendedorismo no Brasil apresenta características que se aproximam da
teoria da economia étnica e que existe um discurso alinhado com causas defendidas pelo
movimento negro, ainda que a finalidade da prática afroempreendedora seja tratar de relações
comerciais. A partir disso, propomos uma metodologia qualitativa amparada nos métodos de
análise de redes sociais na internet (RECUERO, 2009; BARABÁSI, 2009; RECUERO;
BASTOS & ZAGO, 2015; SILVA & STABILE, 2017; RECUERO, 2018), formulário
direcionado aos Afroempreendedores e entrevista semiestruturada com os responsáveis pelos
nós em destaque na rede a partir da métrica de grau de entrada e assim tentar verificar se as
hipóteses se confirmam (FLICK, 2004; BONI, 2005).
8
Termo utilizado na pesquisa para designar os sites de mídias sociais.
22
Portanto, a dissertação aqui apresentada tem como objeto de estudo o
afroempreendedorismo no Brasil e seu objetivo geral é compreender as aproximações e
distanciamentos entre o Afroempreendedorismo e a Teoria da Economia Étnica (LIGHT,
2005, 2013; GOLD, 1989). Assim, buscamos responder a seguinte problemática: é possível
aplicar a Teoria da Economia Étnica na análise do Afroempreendedorismo no Brasil?
Temos ainda como objetivos específicos:
• Compreender de que forma a história da população negra no Brasil colabora e
corrobora na prática afroempreendedora na atualidade;
• Compreender quais comunidades na plataforma privada Facebook são
identificadas na análise de redes;
• Colaborar com os estudos já publicados sobre o afroempreendedorismo no Brasil;
• Compreender quais as características sociodemográficas dos afroempreendedores;
• Compreender se há posicionamentos políticos e sociais por parte dos
afroempreendedores;
• Entender como as redes sociais na internet são percebidas e se colaboram com a
promoção do afroempreendedorismo.
Estruturamos a dissertação da seguinte maneira: para além desta Introdução, há o
capítulo 2, de conceituação e revisão sistemática (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002;
SAMPAIO & MANCINI, 2007) sobre Teoria da Economia Étnica; o capítulo 3, que disserta
sobre o contexto da população negra no Brasil, sobretudo no que tange a trabalho e renda; e o
contexto e revisão sistemática sobre o afroempreendedorismo; o capítulo 4, que relaciona a
discussão da identidade, cultura e relações étnico-raciais com os sites de redes sociais; o
capítulo 5, com o detalhamento da metodologia utilizada; o capítulo 6, de apresentação e
análise de dados; as considerações finais; a bibliografia; e finalmente o apêndice.
23
24
2. TEORIA DA ECONOMIA ÉTNICA: ABORDAGENS CONCEITUAIS E
APLICAÇÕES
E tá tirando dez de Havaiana
E quem não quer chegar de Honda
preto e banco de couro,
E ter a caminhada escrita em letras de ouro
A mulher mais linda, sensual e atraente,
Da pele cor da noite, lisa e reluzente
Andar com quem é mais leal e verdadeiro,
Na vida ou na morte, o mais nobre guerreiro
O riso da criança mais triste e carente,
Ouro e diamante, relógio e corrente
Ver minha coroa onde eu sempre quis por,
De turbante, chofer, uma madame nagô.
Sofrer, pra quê? Mas se o mundo jaz do maligno
Da ponte pra cá – Racionais MC’s
O conceito de Economia Étnica deriva da teoria de middleman minority,9
ou seja,
grupos étnicos em determinadas ocupações de serviços ou comércios que estão em grau
intermediário de posição social: nem abaixo e nem acima, no meio. Esses grupos se formam e
se desenvolvem em decorrência da hostilidade social por causa de sua religiosidade ou raça e
cultura, e assim eles fazem a economia circular prioritariamente dentro de seu grupo,
tornando-os fortes (BONACICH, 1973). A economia étnica trata das movimentações
econômicas de imigrantes e minorias étnicas instalados e organizados em comunidades de
outros países que não os de origem e pressupõe uma rede estratégica para circular negócios,
oportunidades de emprego e capacitação técnica entre a comunidade. Dessa maneira, a teoria
propõe que exista integração, solidariedade, suporte para fontes de capital, trabalho e
informação compartilhados prioritariamente entre os membros do grupo co-étnico (LIGHT,
2005, 2013; GOLD, 1989).
Para Garrido e Olmos (2006), é possível pensar a economia étnica a partir de três
perspectivas: a culturalista, a ecológica e a interativa. A primeira diz respeito à afinidade para
o auto emprego por questões religiosas, solidariedade em resposta a uma sociedade hostil,
negócios familiares e capital social. Já a perspectiva ecológica trata dos pequenos negócios
que grandes organizações não atendem ou apropriações de grupos étnicos em nichos que eram
atendidos por determinadas empresas e agora não são mais, pois estas avançaram na
economia global. Por fim, na perspectiva interativa, os bens culturais relacionados ao país de
9
“Minorias intermediárias”, trad. própria.
25
origem são os mais recorrentes entre negócios étnicos, a exemplo da culinária, livros, música
e roupas. Todavia, é possível observar, segundo os autores, outras modalidades de serviços
necessários e que são provenientes das mesmas comunidades, como assessoria jurídica,
contábil, administrativa ou associações e linhas de créditos com foco no grupo co-étnico.
Portanto, para os autores, a perspectiva interativa diz respeito sobre a estratégia étnica
determinada pelo grupo.
A partir do forte viés economicista da perspectiva interativa, Garrido e Olmos (2006)
desenvolveram uma perspectiva denominada mixed embeddedness10
. Para os autores, as
economias étnicas dependem da adequação entre o que os grupos étnicos podem oferecer e o
que está permitido que eles ofereçam. Além disso, um dos elementos de suma importância,
além das redes sociais, trata da estrutura socioeconômica e política institucional da sociedade.
Para os autores, a perspectiva South-European Model afirma que os empreendedores étnicos
precisam vencer diversos obstáculos para conseguir se estabelecer e prosperar em suas
iniciativas empresariais (GARRIDO & OLMOS, 2006). O transnacionalismo é outra
característica possível em economias étnicas: trata-se de comunidades diaspóricas que estão
globalmente dispersas, mas socialmente integradas, ou seja, pessoas de comunidades
transnacionais transitam entre seu país de origem e sua localidade atual e fazem desse
movimento oportunidades empreendedoras, pois se fortalecem nas possibilidades culturais e
no capital social internacional (LIGHT, 2013).
Em algumas discussões, a maturação metodológica da literatura relacionada à teoria da
economia étnica é limitada, pois grande parte dos trabalhos aborda somente uma perspectiva
histórica, estudos de caso e poucos métodos quantitativos em decorrência das generalizações a
partir de um único grupo étnico. Há ainda, discussões teóricas que afirmam que só seria
possível tratar da economia étnica a partir do ponto de vista geográfico, pois a proximidade
territorial facilitaria a formação da comunidade étnica (LIGHT, 2003). De maneira geral, a
teoria da economia étnica trata de um grupo étnico que imigra e desenvolve relações
econômicas a partir de sua comunidade étnica. Todavia, propomos aqui a análise do grupo
social composto pela população negra brasileira que exerce atividades dentro do escopo do
afroempreendedorismo, tendo em mente que o contexto histórico desse grupo não se trata de
imigração, mas sim de sequestro e trabalho forçado a partir de um regime violento e
autoritário que resulta em marginalização, segregação e, em certa medida, no reforço e
valorização da identidade étnica (SANTOS, 2009). Assim, buscamos compreender quais são
10
“Imersão mista”, trad. própria.
26
as aproximações e distanciamentos entre o afroempreendedorismo e a teoria da economia
étnica.
2.1 Teoria da Economia Étnica: um estado da arte
Para que tenhamos uma visão ampliada das metodologias, epistemologias e aplicações
da teoria da economia étnica, apresentamos um estudo de revisão sistemática (HADDAD,
2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO & MANCINI, 2007) para mapeamento e categorização
acerca de trabalhos já publicados. O estudo de revisão sistemática, também chamado de
"estado da arte", tem caráter bibliográfico e o principal desafio é observar, categorizar e
avaliar o conhecimento já produzido sobre determinado tema. Assim, com a sistematização do
conhecimento já produzido, se busca responder questões acerca do contexto, do tipo de
produção, abordagens teóricas, motivações empíricas e aplicações metodológicas
(FERREIRA, 2002). A partir da síntese das informações expostas de maneira organizada é
possível tê-las como base para a identificação de limitações ou ampliações de discussões,
como temas que precisam de evidências e oportunidades para guiar novas investigações
(SAMPAIO & MANCINI, 2007).
Portanto, a premissa é que o estado da arte aqui apresentado colabore para a
compreensão das aproximações e distanciamentos da teoria da economia étnica com o
afroempreendedorismo no Brasil. Para tanto, buscamos nos bancos de trabalhos científicos
Scielo, Periódicos Capes e Google Acadêmico nos idiomas português, inglês e espanhol e a
partir das palavras-chave "economia étnica", "ethnic economy", "ethnic economies" e
"economía étnica" os artigos, teses, dissertações e capítulos de livros que abordam temas
relacionados à teoria em questão. O objetivo da categorização e análise dos trabalhos
encontrados é responder às questões: quais grupos raciais e étnicos são abordados nos
trabalhos sobre economia étnica; quais metodologias são aplicadas nas análises e quais áreas
do saber abordam a teoria da economia étnica.
Utilizamos como ferramenta de apoio para o estudo de revisão sistemática a StArt,
desenvolvida no Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software da Universidade Federal
de São Carlos e que auxilia na categorização dos trabalhos selecionados (FABBRI et al,
2016). A partir da pesquisa pelas palavras-chave e com um recorte temporal de 20 anos
(1997-2017), prezando por dados de duas décadas com contextos sociais diferentes,
principalmente pelo viés dos avanços tecnológicos, encontramos 111 trabalhos entre artigos
de periódicos, dissertações, teses e capítulos de livros. Na primeira etapa de classificação,
27
tendo como critérios de inclusão estar nas línguas citadas acima e constar alguma das
palavras-chave no resumo ou título, restaram 76 trabalhos com essas especificações. Na
segunda estratificação, seguindo os critérios de identificação da metodologia ou grupo étnico,
restaram 59 trabalhos. Foram excluídos aqueles que não atendiam algum destes critérios
citados, que estavam duplicados, não continham as informações necessárias no resumo,
tampouco no decorrer do texto, ou ainda trabalhos dos quais sua visualização completa exigia
pagamento de acesso.
Sobre a análise do material selecionado em relação ao período, cinco dos 59 trabalhos
foram publicados entre os anos de 1997 e 1998, 18 entre os anos de 2000 a 2010 e sete entre
2011 e 2017. Sendo 2015 o ano com mais publicações: nove ao todo. Sobre o tipo de trabalho,
52 são artigos de periódicos, três dissertações, três teses e um capítulo de livro. Em relação à
língua redigida, seis estão em português, sete em espanhol e 46 em inglês.
Os métodos utilizados nos trabalhos analisados foram: Análise de Dados Secundários,
Discussão Teórica, Entrevista, Etnografia, Estudo Comparativo, Estudo de Caso,
Questionário, Estudo de Revisão Sistemática, Observação Participante, Trabalho de Campo,
Pesquisa Longitudinal, Análise de Redes Sociais, Observação e Técnicas Geográficas.
Abaixo, no Gráfico 1, é possível visualizar a quantidade para cada tipo de método. Importante
ressaltar que em algumas vezes mais de um método foi utilizado no mesmo trabalho.
Gráfico 1 – Teoria da Economia Étnica: Métodos utilizados
Fonte: Elaboração própria.
A respeito dos grupos étnicos dos trabalhos analisados, encontramos 27 grupos
diferentes – embora 21 trabalhos não especifiquem um grupo étnico, sendo que nestes o
28
debate foi realizado somente em torno de tópicos teóricos. O grupo étnico de maior destaque é
o de chineses, com 11 trabalhos encontrados, seguidos de negros, poloneses, indianos,
mexicanos e turcos com dois trabalhos e os demais grupos com um trabalho cada, como
demonstrado no Gráfico 2 abaixo.
Gráfico 2 – Teoria da Economia Étnica: Classificação de Grupos Étnicos
Fonte: Elaboração própria.
Dentre os 59 trabalhos selecionados, apenas dois abordam o grupo étnico formado por
pessoas negras. Ambos do mesmo autor, o professor Robert L. Boyd, do Departamento de
Sociologia da Universidade do Estado do Mississipi. Em The organization of an ethnic
economy: Urban black communities in the early twentieth century (BOYD, 2012), o autor
revisa as afirmações em torno das atividades empreendedoras de negros no Sul dos Estados
Unidos no início do século XX, sobretudo na tentativa de confirmar a existência de uma
organização coerente das atividades e que essas foram importantes para a participação negra
em serviços públicos, artísticos, entretenimento e na mídia de massa. O autor não conclui o
artigo com afirmações categóricas devido à carência dos dados disponíveis, porém finaliza
indicando caminhos a serem seguidos por outros pesquisadores para que seja possível inferir
mais diretamente em como a participação dos negros em certas ocupações é afetada pelo
contexto mais amplo que inclui empresas de propriedade de negros, igrejas negras e outras
instituições negras no ambiente urbano.
29
Já em Urban locations and Black Metropolis resilience in the Great Depression
(BOYD, 2017), o autor pesquisa as Black Metropolis nos Estados Unidos no início do século
XX, diferenciando-se do estudo anterior por levantar o período da Grande Depressão entre
1930 e 1940 como recorte temporal. Também utiliza como método a análise dos dados
censitários a respeito de profissões e ocupações de pessoas negras. Sua hipótese sustenta que
centros urbanos dominantes em Nova York, Chicago e Filadélfia tinham as Black Metropolis
mais resilientes. Seus resultados atestam que cidades do norte eram, em geral, mais resistentes
do que cidades do sul, principalmente para negros profissionais e empreendedores. Logo, as
metrópoles negras do norte urbano eram centros vitais de oportunidade econômica para as
comunidades negras, avançando, assim, os interesses das classes média e alta dessas
comunidades. O autor finaliza sugerindo que estudos futuros podem usar uma gama mais
ampla de variáveis explicativas, incluindo fatores políticos, como a mobilização dos eleitores
e grupos de pressão, fatores sociais e econômicos, como a estrutura industrial mais ampla em
centros urbanos e o capital humano da força de trabalho.
Embora sejam os únicos trabalhos com viés racial voltados a pessoas negras, vale
pontuar que o contexto de negritude nos Estados Unidos é bastante diferente do contexto
brasileiro. Sendo que aqui a maioria da população (54%) é declaradamente negra, enquanto
no país norte-americano esse número é de 13,4%11
. Além disso o Brasil foi o último país
colonizado a extinguir a escravidão e suas consequências pulsam fortemente até os dias
atuais, sobretudo no racismo baseado em práticas sociais.
Como resultados, observamos que o principal grupo étnico estudado são os chineses,
seguido de negros, turcos, mexicanos, indianos e poloneses. A respeito das metodologias, a
predominância é de análise de dados secundários, discussão teórica, entrevistas e etnografia.
Observamos ainda que existe uma preocupação dos pesquisadores em compreender as
maneiras que ocorrem as interações, a estrutura social e os mecanismos de cooperação e
confiança entre os grupos étnicos analisados nos trabalhos encontrados. Além disso, os
trabalhos trazem temas que abordam não só as formações de negócios como também as
relações empregador-empregado dentro das relações co-étnicas, além de características
subjetivas como a valorização de identidades. Outro ponto que merece reflexão é que nenhum
dos trabalhos selecionados apresenta problemática a partir do contexto de novas tecnologias e
internet, fenômeno em franca expansão nas últimas décadas.
11
Census of United States. Disponível em: https://www.census.gov/quickfacts/fact/table/US/PST045218 Acesso
em 01 de out. 2019.
30
Nos trabalhos de autores brasileiros (GRUN, 1998; TEIXEIRA, 2001; CASTRO,
2007; TRUZZIL & SACOMANO NETO, 2007; MACHADO, 2010; VILELA &
NORONHA, 2013;) observamos como principais abordagens: o contraponto de crítica à
teoria da economia étnica e sua aplicabilidade teórica, diversidade dos negócios, percepção
das várias gerações etárias dentro dos grupos étnicos, exploração do tema por áreas como
sociologia e antropologia, desempenho de rendimentos para imigrantes e imigrantes
mulçumanos no estado de São Paulo. Todavia, não há estudos relacionados ao
afroempreendedorismo que tenham como base a teoria da economia étnica e, ainda, é
necessário destacar que nenhum dos trabalhos brasileiros problematiza o projeto político
estimulado pelo governo brasileiro em trazer imigrantes europeus para realizar atividades que
antes eram feitas por pessoas escravizados e que seriam, a partir de então, remunerados,
preferencialmente ao imigrante não-negro (discutiremos esse tópico nos capítulos seguintes).
De modo geral, o estado da arte sobre a teoria da economia étnica aqui apresentado
colabora para que tenhamos uma visão ampla das técnicas e grupos já estudados nos
possibilitando aprender com as práticas efetuadas. Ainda, atesta a proposta de inovação na
temática visto que não há trabalhos relacionados ao contexto digital, tampouco ao estudo do
afroempreendedorismo no Brasil. Assim, ainda que a Teoria da Economia Étnica seja
relativamente novo no campo das ciências é necessário que haja a problematização da
ausência de estudos que englobem a população negra, sobretudo na perspectiva brasileira,
bem como a ausência de trabalhos que insiram a discussão que contemple as novas
tecnologias. Outra ressalva fica por conta das áreas em que os estudos são desenvolvidos,
predominantemente no campo das ciências sociais, o que demonstra aproximação com
debates que vão além das questões puramente técnicas da prática empreendedora. Dessa
maneira, apoiados nas abordagens acima apresentadas, pretendemos compreender as
aproximações e distanciamentos entre o afroempreendedorismo e a teoria da economia étnica.
31
32
3. Economia de subsistência: trabalho e geração de renda da população negra
no Brasil
Eu me formei suspeito profissional,
Bacharel pós-graduado em tomar geral.
Eu tenho um manual com os lugares horários,
De como dar perdido, ai caralho...
Prefixo da placa é My sentido Jaçanã, Jardim Hebron.
Quem é preto como eu, já tá ligado qual é, nota fiscal RG polícia no pé.
Escuta aqui o primo do cunhado do meu genro é mestiço,
Racismo não existe, comigo não tem disso,
É pra sua segurança. Falou, falou... Deixa pra lá.
Vou escolher em qual mentira vou acreditar.
Tem que saber curtir, tem que saber lidar.
Em qual mentira vou acreditar?
Qual mentira vou acreditar – Racionais MC’s
A compreensão do afroempreendedorismo enquanto fenômeno contemporâneo
perpassa a história da população negra no Brasil, sobretudo quando se trata de um conceito
ainda pouco explorado pelas ciências sociais, ficando a cargo de áreas técnicas tratar do
empreendedorismo apenas como uma maneira fim de se obter renda. Todavia, o
afroempreendedorismo carrega em si uma gama de questionamentos e problemáticas alocadas
em muitos campos do cotidiano social, como a distinção sobre o que é ou não
empreendedorismo, o empreendedorismo por oportunidade ou necessidade, o trabalho
informal e a precarização das leis trabalhistas, as políticas públicas de reparação histórica e
assim por diante. Pretendemos neste capítulo abordar algumas premissas, sobretudo no que se
refere ao trabalho, renda e educação da população negra, a fim de compreender o que
atualmente e comumente é chamado de afroempreendedorismo.
Como afirma Moura (1992), a trajetória da população negra no Brasil confunde-se
com a formação histórica e social da própria nação. Assim, a grande evidência dessa trajetória
é o fundamental papel da escravidão para o desenvolvimento da economia da colônia, do
Império e até mesmo da República, surgida após o fim legal da escravidão, mas implementada
graças ao protagonismo político das oligarquias enriquecidas, portanto empoderadas, graças
ao trabalho escravo. No período escravocrata, os escravizados eram responsáveis pela
plantação, colheita e distribuição de vários produtos agrícolas, na criação de gados, serviços
domésticos, fabricação de ferramentas manuais, pelo transporte de cargas nas cidades,
construção de vias e demais serviços urbanos (ALBUQUERQUE & FRAGA FILHO, 2006).
Percebe-se, portanto, que desde sempre e por quase quatro séculos a mão de obra negra era
33
utilizada como meio para enriquecer determinados grupos étnicos com a força dominante de
poder; ou seja, podemos dizer que já existia desde então uma prática de economia étnica,
porém baseada na violência e exploração a partir de uma categorização hierarquizada a
respeito de quem manda e quem obedece. O escravizado era elemento fundamental da
economia, pois ela “exigia uma técnica muito complexa, considerando que não era apenas
uma economia extrativa, mas uma agroindústria cuja diversificação interna do trabalho era
bem acentuada” (MOURA, 1992, p. 19). Afirma Castro (1976) que a indústria canavieira
representava o que de mais avançado existia na produção da riqueza nos séculos XVI e XVII
e os engenhos poderiam ser considerados como precursores do fordismo, tal era o nível de
organização do trabalho e a produtividade auferida, a partir da exploração desumana do
trabalho escravo.
Em decorrência da distribuição mercadológica e desumana de escravizados, havia a
dificuldade de que estes estabelecessem vínculos em comunidades, já que amigos e
familiares, quando não eram separados desde o continente africano, poderiam ser vendidos,
abandonados ou assassinados a qualquer momento. Contudo, as relações sociais entre os
escravizados nas tarefas do dia a dia davam certo suporte para a sobrevivência e para o
reforço de valores e referência culturais. Segundo Albuquerque & Fraga Filho (2006), o
trabalho era um momento especial para forjar laços de solidariedade. Além desse fator, a
solidariedade também era encontrada com ênfase nos quilombos, formados desde os
primeiros grupos de africanos desembarcados no Brasil, onde os negros rebelados se
refugiavam para ter, enfim, um pouco de humanidade (MOURA, 1992). Além da
remodelagem do trabalho coletivo (OLIVEIRA in MOURA, 2001), os quilombos eram os
grandes redutos de resistência negra, lugar onde eram confabuladas as conversações do
movimento de luta contra a escravidão, de humanização dos negros, de organização social e
reafirmação dos valores e identidade africanos. Para Carneiro (in MOURA, 2001, p.12) "o
quilombo foi essencialmente um movimento coletivo, de massa", resultado da cultura de
resistência.
Já Reis (1989; 1996) discorre acerca da imensa quantidade de conflitos protagonizados
pelos escravizados e ex-escravizados ao longo da história do Brasil e como esses conflitos
foram determinantes para minar a rígida hierarquia da sociedade escravocrata abrindo fissuras
e obrigando aquela sociedade a diversificar as formas de controle e dominação dos
escravizados. Para Cardoso (1987), esses conflitos perenes, sintetizados no binômio luta e
acomodação, fizeram com que parte significativa dos proprietários tenham sido levados a
estabelecer algum tipo de negociação como tentativa de diminuir a resistência negra. A
34
exemplo disto, havia a disponibilização por parte dos escravocratas de pequenos lotes de terra
onde os cativos poderiam (nos domingos e dias santos) praticar a agricultura e pecuária de
subsistência e exercer certas atividades sociais e culturais, longe das vistas dos senhores e de
capatazes. Aquele espaço de autonomia - além de formas alternativas de exploração do
trabalho escravo, no ambiente urbano, na mineração, no pastoreio e na condução de animais,
dentre outras - permitiu que os ex-escravizados passassem a sobreviver nas mesmas
ocupações que exerciam antes, conforme os estudos desenvolvidos por Dias (1995) e Santos
(1998).
Como enfrentavam a recusa generalizada por parte dos empregadores em contratar
negros de forma assalariada, restava-lhes o trabalho autônomo ou o empreendedorismo,
expressão que, a luz das elaborações teóricas atuais, não poderia ser considerada anacrônica
para classificar aquela forma de organizar o trabalho e se inserir no mercado. Ou seja, o
trabalho autônomo, auto gestionário, resultado de condicionantes sociais e não por opção,
acabou se tornando um traço cultural de parte significativa da população negra. Teria sido
determinante, ainda, o legado tecnológico africano, pesquisado por Cunha (2010), no que diz
respeito ao desenvolvimento da agricultura, pesca, pecuária e mineração, assim como o
artesanato com ouro, metalurgia, carpintaria e marcenaria, indústria têxtil e química,
construção civil, comércio e navegação. Todos fundamentais para a sobrevivência dos ex-
escravizados, invariavelmente na condição de autônomos, buscando inserção em uma
sociedade que, não obstante, negava o trabalho assalariado ao negro, privilegiando operários
europeus, como apontado por Kowarick (1994).
Ou seja, tanto o quilombo quanto as formas alternativas de sobrevivência na condição
de libertos no seio da sociedade escravista, assim como as ocupações de negros características
no pós-escravismo, apresentavam importantes aspectos culturais que se mantêm até os dias
atuais. Cultura essa que começa quando os negros escravizados veem na manifestação de sua
religião, música, indumentária, entre outros aspectos, uma função de resguardo contra a
cultura dos opressores. As manifestações culturais muitas vezes iam além do papel simbólico
e desempenhavam o papel de veículo ideológico de luta, uma vez que a dominação cultural
tem como efeito a dominação social e econômica. Em contrapartida, os negros criaram
mecanismos de defesa contra a cultura dominadora, o que para Moura (1992) isso persiste
pós-escravidão, quando grupos negros aproveitam valores afro-brasileiros como instrumentos
de resistência.
Já em relação à abolição, os projetos, orientados pelas construções ideológicas racistas
citadas por Schwarcz (1993), não tinham por objetivo inserir os ex-escravizados no mercado
35
de trabalho; ao contrário: as vantagens oferecidas aos imigrantes, inclusive em dispositivos
legais, e a preferência de europeus na contratação por parte dos empregadores, explicitados
em anúncios de jornais estudados por Jacino (2008), demonstram que o abolicionismo veio
acompanhado do projeto de branqueamento da nação, resultante do darwinismo social e da
eugenia, materializada em ações governamentais e na legislação. Ou seja, a marginalização
social da população negra foi uma opção dos detentores de poder econômico e do Estado
brasileiro. Essa marginalização reforçou o caráter “empreendedor12
” de homens e mulheres
negros que passaram a incorporar o empreendedorismo no seu modo de vida para desenvolver
alternativas para burlar o sistema. Exemplos são as atividades desenvolvidas no fim do século
XVIII por comunidades que não dependiam exclusivamente da estrutura em torno das tarefas
de mineradores, sobretudo em Minas Gerais, onde havia alguns trabalhos essencialmente
ocupados por negros livres, como mecânica, lavandeiras, tabuleiros e vendedores ambulantes
(BOSCHI, 2002).
As propostas de abolição têm início com a crise do sistema escravista, em 1850,
quando é extinto o tráfico de escravizados da África para o Brasil. Além disso, o negócio
açucareiro entra em decadência e o café passa a exigir maior mão de obra, mas não tendo
como importar escravizados da África, a troca de cativos acontece entre províncias, causando
certa desarticulação da população negra, que se vê separada de seus familiares com a venda
para senhores diferentes, porém acirrando os ânimos daqueles cativos e obrigando os senhores
a trocar negros rebelados por outros. A decadência do sistema escravista faz emergir também
novas configurações do trabalho, sobretudo com o estímulo governamental pela vinda de
imigrantes para o país para substituir a mão-de-obra do escravizado, como já mencionado
acima. Então, quando ocorre a abolição, não há nenhuma garantia ou possibilidade de
inserção social por parte do Estado. Agora os negros supostamente libertos, além de
abandonados na periferia do trabalho, são impedidos do exercício de ocupações com maior
valor social e mais bem remuneradas (MOURA, 1992). Sem amparo do Estado e sem um
projeto de desenvolvimento, restava como alternativa aos que sobreviviam a economia da
subsistência. Em decorrência desse processo de exclusão social, o preconceito e a
discriminação eram característicos de um tratamento racial desigual, que minava ou restringia
as oportunidades ocupacionais (FERNANDES, 1989; 2013).
Ainda assim, a formação de comunidades também ocorria no pós-abolição, quando
grupos de ex-escravizados se reuniam para o trabalho de caráter cooperativado, lazer, cultura
12
A prática de atividades autônomas se dava mais por necessidade do que oportunidade.
36
ou para a prática esportiva. Já em meados do século XX, são criados diversos movimentos
negros responsáveis por promover a comunicação entre suas comunidades. Destacamos aqui a
edição e circulação de jornais como o Menelick, Notícias de Ébano, Correio d’Ébano, entre
outros. Movimentos esses responsáveis por trazer à tona a consciência étnica dos negros e
movimentar pautas relacionadas às suas causas. Da década de 1930 em diante surgem
organizações mais amplas e organizadas como a Frente Negra Brasileira, o Teatro
Experimental do Negro, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, Associação Cultural do
Negro, todas com caráter político e de organização social, mas sempre apontando formas
alternativas de sobrevivência econômica da população negra.
Na década de 1970, nos período de ditadura civil/militar no país entre os anos de 1964
e 1985, junto ao florescer de diversas organizações sociais reprimidas no período autoritário,
surge o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR), mais tarde
renomeado de Movimento Negro Unificado (MNU) que, como afirma Moura (1992),
representa "uma verdadeira teia nacional desses grupos, mantém o negro unido e cria
condições para a preservação da sua memória afro-brasileira" (p. 78). Há certo destaque para
esses grupos, numa fase mais recente, para movimentos culturais e artísticos como o hip-hop,
que traz consigo características populares, de vanguarda e com linguagem periférica acessível
(DOMINGUES, 2007). Como afirma Gomes (2005), os movimentos sociais têm certa
responsabilidade de também atuar na reeducação da sociedade, dos meios políticos e
acadêmicos, e assim inserir o debate massivo contra a hierarquização de classes, raças,
gêneros entre outras classificações que perpetuam tratamentos diferentes e geram
desigualdades.
Entre as principais bandeiras defendidas pelo movimento negro, encontra-se o acesso à
educação, já que desde o período da redemocratização, principalmente os movimentos sociais
travam lutas diretas com os poderes públicos em prol de sua universalização. Embora o ensino
básico tenha atingindo um patamar em certa medida democrático, os ensinos médio e superior
ainda são marcados pela exclusão de acesso para grupos não privilegiados, mesmo que nos
últimos anos a lei de cotas no ensino superior tenha sido adotada por grande parte das
universidades públicas, ampliando, assim, o acesso de jovens negros a cursos de graduação
(NOGUEIRA & MICK, 2013, p, 91). Jaccoud e Theodoro (2005) mobilizam analistas que
indicam que a reversão do quadro de desigualdades, que coloca o negro em todas as piores
posições nos indicadores sociais, só seria possível a partir de ações educacionais, uma vez que
essas proporcionam mobilidade social e possibilidades mais igualitárias na disputa de postos
no mercado de trabalho. Todavia, os autores ressaltam que o Estado precisa ir além das
37
políticas universalistas para garantir o acesso e permanência de crianças e jovens negros em
todos os níveis educacionais. Para os autores, "tais medidas implicariam a adoção de políticas
de combate aos estereótipos, aos preconceitos e ao racismo, e a promoção de determinadas
políticas de promoção da igualdade" (JACCOUD & THEODORO, 2005, p. 115-116).
Assim, podemos constatar que desde a chegada de africanos sequestrados no país e até
os dias atuais, percebe-se uma organização peculiar de grupos sociais minorizados que se
juntam pela denúncia e busca de soluções dos problemas que, de modo geral, foram causados
em decorrência de preconceito e discriminação, e que dificultam o acesso e a permanência nos
sistemas de trabalho, educação, político, social e cultural. Bem como afirma Almeida (2018):
“não é o racismo estranho à formação social de qualquer Estado capitalista, mas um fator
estrutural, que organiza as relações políticas e econômicas” (p. 141), assim podemos afirmar
que a escravidão definiu lugares de pertencimento e exclusão na sociedade, principalmente a
partir das relações de poder e de exploração econômica que geraram opressão racial, causando
diversos males também no tempo atual (ALBUQUERQUE & FRAGA FILHO, 2006).
A formação e vivência da população negra no Brasil segue entrelaçada ao contexto
social e político do país, uma vez que a cada avanço e retrocesso, conquistas ou derrotas
recaem sob a população da base da pirâmide. A população negra enquanto organização
coletiva passa por uma nova reconfiguração de atuação, sobretudo com o advento da internet
e suas plataformas de conexões. Consequentemente, chegamos a um emaranhado de questões
que envolvem o complexo cenário do afroempreendedorismo no Brasil: a prática
afroempreendedora ocorre por necessidade ou por oportunidade? Os empreendedores negros
se sustentam exclusivamente através de suas atividades empresariais? Lucram o suficiente
para manter ou melhorar seu padrão de vida? Seria o afroempreendedorismo uma forma de
reforçar a identidade negra? A internet e os sites de redes sociais são realmente
democratizantes em termos de comunicação para segmentos marginalizados, como a
população negra no Brasil?
38
3.1 Da subsistência ao Afroempreendedorismo: uma outra Economia é possível?
Há uma série de definições sobre o que é empreendedorismo, dentre as quais Dornelas
(2001) afirma que empreendedores são os pequenos e microempresários que oferecem
serviços ou produtos para obtenção de renda. Outros autores definem empreendedorismo
como um conjunto de iniciativas para a resolução de problemas sociais e econômicos e a
capacidade de criar algo a que se dedicar e receber, eventualmente, recompensas satisfatórias
e independência financeira (SANDRONI, 2005; HERICHI; PETERS, 2004 apud
SANTIAGO, 2009). Dolabela (2003) emprega uma definição um pouco mais subjetiva e
afirma que empreender é um processo humano dominado por emoções, sonhos e desejos,
realizado por quem acredita na capacidade de mudar a sociedade e que tem indignação em
relação aos problemas sociais. Para o autor, "empreender é, principalmente, um processo de
construção do futuro" (DOLABELA, 2003, p. 29).
Como discutido no capítulo anterior, todas as fases econômicas do Brasil, passando
pela produção açucareira, pela mineração, produtos tropicais e o café, foram desenvolvidas
sob a exploração da mão-de-obra escrava de negros e indígenas. Como afirma Oliveira
(2017), a respeito das singularidades da configuração da sociedade liberal brasileira, o
racismo é elemento estruturante, uma vez que não houve rupturas e nem esforço da elite
dominante em amparar a população negra na transição entre a economia colonial para a
capitalista. A concentração de riqueza como eixo central da sociedade capitalista brasileira é,
portanto, a manutenção da concentração de posse e superexploração do trabalho como
instrumental elementar da reprodução do capital e a violência como prática e política
permanente para uma suposta ordem social, classificando os conflitos sociais como casos de
polícia. Há, em certa medida, uma problemática em relação à prática empreendedora, uma vez
que o capitalismo é o algoz protagonista da estrutura racista em voga no país, como afirma
Oliveira (2017): “o racismo não é uma deformação de comportamento e sim um mecanismo
processual do capitalismo” (p. 35).
Refletir sobre a liberdade e o acesso ao trabalho do negro escravizado é essencial para
compreender as configurações da sociedade. Em meados do fim do século XIX, na transição
econômica do período pós-abolição, havia certas tendências de ocupações para negros livres,
como comércio e prestação de serviços para a maioria de mulheres, e trabalho braçais para
homens. Todavia, além do aumento exponencial da concorrência de trabalho com os
estrangeiros brancos, os trabalhos livres por parte dos negros eram considerados
“vagabundagem”. Em decorrência disso, a elite deixava claro que sua preferência de
39
contratação era de brancos estrangeiros e não de negros. Sem qualquer amparo do Estado,
ocupações subalternas desvalorizadas, sem acesso à terra e à educação, desprestígio e
criminalização das manifestações culturais e de sociabilidade contribuíram para a segregação
de negros e mestiços para as periferias das cidades, a perpetuação da alienação cultural, social
e política, dificultando a organização autônoma (THEODORO, 2008; JACINO, 2019).
O contexto econômico atual reforça a existência de conflitos estruturais da sociedade
não resolvidos, porém para Almeida (2017) os efeitos recaem aos sujeitos, sobretudo os que
pertencem a grupos minoritários, e não há, de forma incisiva, questionamento das estruturas
por aqueles acomodados nos privilégios que elas [as estruturas] proporcionam, essas sim
responsáveis por desencadear crises. O autor afirma ainda que, ao pensar nos conflitos sociais
pelo viés de classe, é necessário se atentar às estratificações específicas em cada uma dessas
classes, ou seja: há mulheres, negros, pessoas LGBTI+, entre outros grupos minoritários, em
todas elas. Há de se problematizar ainda o discurso empreendedor meritocrata que outorga o
fim do emprego e liberdade econômica cunhado no enfraquecimento dos direitos trabalhistas
e proteção social que promove a responsabilização dos indivíduos pela resolução de conflitos
que são da alçada do Estado e causados pelo capitalismo (ALMEIDA, 2017). Essa visão se
aproxima ao que Dardot e Laval (2017) chamam de sujeito neoliberal, ou seja, aquele que é
uma “empresa de si mesmo”, inteiramente imerso numa competitividade empresarial, mas em
decorrência das reconfigurações do sistema capitalista. Para os autores, o sujeito produtivo é
resultante da sociedade industrial de redefinição de poder para além do aumento de
produtividade. Cada sujeito é, então, o “sujeito empresa” tanto no sentido burocrático, quanto
na subjetividade. A partir desta reflexão, concordamos com Almeida (2017) quando o autor
afirma:
A busca por uma nova economia e por formas alternativas de organização é tarefa
impossível sem que o racismo e outras formas de discriminação sejam
compreendidas como parte essencial dos processos de exploração e de opressão de
uma sociedade que se quer transformar (p.198).
Logo, ao pensar em um recorte de raça dentro da temática do empreendedorismo,
encontramos um exponente movimento de afroempreendedorismo realizado por pessoas
negras e, por vezes, com foco em consumidores também negros. O cenário atual do
afroempreendedorismo no Brasil ganha certo destaque com iniciativas coletivas que pautam a
temática na sociedade, como: Feira Cultural Preta, Afrobusiness, Black Rocks Startup,
Movimento Black Money, Projeto Brasil Afroempreendedor, Reafro, Centro de Estudos e
Assessoramento de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros, Coletivos de
40
Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros, Associação Nacional de Coletivos de
Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (MONTEIRO, 2013; OLIVEIRA, 2018),
dessa maneira nos atentamos para o caráter de filiação da população negra enquanto herança
de sua própria história ultrajante, bem como afirma Monteiro (2013): “não é razoável supor
que os afro-brasileiros tenham como se libertar dela (história ultrajante) a não ser também
coletivamente, juntos, um ajudando ao outro, formando associações capazes de torná-los
fortes profissionalmente” (p. 112).
Mas mais do que articulação coletiva somente dos afroempreendedores, é necessário
também uma atenção por parte do Estado, uma vez que o direito ao trabalho e renda é eixo
central para o desenvolvimento econômico e social (RIBEIRO, 2013). Assim, “o
empoderamento desses agentes deve acrescentar estratégias específicas dos poderes públicos
para assegurar capacitação, crédito e políticas compensatórias” (NOGUEIRA & MICK,
2013). Para tanto, na próxima seção apresentaremos pesquisas já realizadas sobre
afroempreendedorismo no Brasil, levantamentos de perfil com o fim em criação de políticas
públicas e o mapeamento das discussões dos últimos anos na Secretaria de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).
3.2 Afroempreendedorismo: um estado da arte
Para compreender o que se tem pesquisado sobre afroempreendedorismo no Brasil,
realizamos uma revisão sistemática (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO &
MANCINI, 2007) sobre o tema e assim buscamos entender: quais áreas de pesquisa o
abordam; de quais regiões do país são os estudos; em quais níveis acadêmicos estão alocadas
as pesquisas; quais metodologias são utilizadas; e quais problemas de pesquisas aparecem nos
estudos sobre afroempreendedorismo.
Para tanto, buscamos nos repositórios Google Acadêmico, Scielo e Capes pelas
palavras-chave “afroempreendedorismo”, “afro empreendedorismo”, “empreendedorismo
negro”, “afro-empreendedorismo”, “afroempreendedor”, “afro empreendedor”,
“empreendedor negro”, “afro-empreendedor” em língua portuguesa a respeito dos trabalhos
publicados nos últimos 10 anos (2008 – 2018) 13
. Além da língua, determinamos como
critérios de inclusão trabalhos que continham os termos de busca nas palavras-chave ou no
13
Buscamos entender o contexto da última década, embora, conforme ilustra o gráfico 3, somente a partir de
2014 há trabalhos relacionados à temática.
41
resumo. Sobre os resultados, não foram encontrados trabalhos nos repositórios Scielo e
Capes, porém no Google Acadêmico encontramos 20 trabalhos. Na aplicação do segundo
nível de inclusão – estar em língua portuguesa e ter propriamente o tema no desenvolvimento
do trabalho – restaram 14 trabalhos.
O ano de 2018 foi o que mais teve publicações sobre o tema: ao todo foram 9,
conforme Gráfico 3 abaixo. A maioria dos trabalhos são monografias (5), seguido de paper de
evento (3), periódicos (2), tese (1), dissertação (1), livro (1) e capítulo de livro (1) e os
trabalhos tratam principalmente de economia (5), identidade (4), racismo (4) e epistemologia
(1). Sobre metodologias, o memorial descritivo e a etnografia são aos dois métodos mais
utilizados, estando em 11 e 7 trabalhos, respectivamente. Já em relação às áreas, antropologia
aparece em destaque com 8 trabalhos e administração com 3. Aparecem ainda comunicação,
ciências humanas, ciências sociais e sociologia. E por fim, sobre os níveis acadêmicos
identificados, temos especialização e mestrado com 3 publicações cada.
Gráfico 3 – Afroempreendedorismo: trabalhos publicados por ano
Fonte: Elaboração Própria.
Em uma observação qualitativa dos artigos encontrados na revisão sistemática, vemos
algumas características que se sobressaem, como a questão da territorialidade abordada nos
trabalhos de Lima e Benevides (2018) sobre o afroempreendedorismo em Salvador, tendo
42
como ponto de partida os negócios alocados no co-working Ujamaa. As autoras levam em
consideração o fato de a cidade ser a maior em quantidade de pessoas negras fora da África,
questões históricas e sociais da população negra no Brasil e os benefícios da formação de uma
rede de colaboração entre os afroempreendedores.
Já no artigo de França, Dias e Oliveira (2018) os autores buscam expor as dificuldades
enfrentadas por empreendedores negros na cidade de Uberaba, Minas Gerais. Sobretudo a
partir da concepção do preconceito racial enquanto raiz de uma dificuldade maior para
estabelecer e manter os empreendimentos. Os negros empreendedores da região metropolitana
do Rio de Janeiro são o foco de pesquisa na dissertação de Santos (2017). O autor busca
compreender as influências raciais no empreendedorismo e ressalta a importância de se
discutir raça no campo da administração. Como resultados, o pesquisador elenca aspectos da
identificação e significado do trabalho por parte dos afroempreendedores.
No trabalho de monografia de Teixeira (2017), o autor analisa os desafios e
oportunidades para empreendedores negros no Distrito Federal. Para tanto, o autor aplicou
entrevista em profundidade com empreendedores negros acerca da vivência, identidade,
discriminação e opiniões a respeito da Feira ‘Coisa de Preto’ e a Lei 5.447/2015, que instituiu
o Programa Afroempreendedor do Distrito Federal. O pesquisador concluiu que os
empreendedores usam do espaço que alcançaram para afirmar sua identidade racial, com uma
representação positiva do negro em seu empreendimento e na geração de empregos e/ou
prestação de serviços para outros afrodescendentes.
Outros aspectos aparecem nas pesquisas já publicadas sobre a temática do
afroempreendedorismo, como as questões sociais e econômicas abordadas nos trabalhos de
Nascimento (2018), que analisa o perfil socioeconômico e cultural para explorar quais as
motivações e o sentido atribuído na prática empreendedora da população negra no Brasil, e no
artigo de Souza (2015), que discute o papel do BNDES e do SEBRAE no fomento e
capacitação do empreendedorismo negro brasileiro. Para tanto, o autor argumenta sobre a
impossibilidade de se dissociar desenvolvimento econômico da equidade racial. O
pesquisador analisa o relatório do SEBRAE "Os donos de negócio no Brasil: análise por
raça/cor” e as políticas de investimento do BNDES.
As organizações que tratam de afroempreendedorismo são temas de diversas
pesquisas, dentre elas a de Qundondo (2017) pela qual o autor apresenta uma análise do perfil
dos afroempreendedores da cidade de Criciúma, em Santa Catarina. Principalmente dos
filiados à rede Afroem, identificando ao fim que a maioria dos participantes da rede é do ramo
do comércio e que os empreendedores sofrem com recursos financeiros para iniciar ou manter
43
seus empreendimentos. Já na tese de Silva (2016), a autora aborda, a partir do viés
antropológico, as imbricações entre política e economia nas relações estabelecidas no evento
‘Feira Preta’. A autora considera em sua análise o contexto social e político do país nos
últimos 15 anos, os mecanismos de solidariedade que potencializam a construção de
imaginários e espaços, além da ênfase no papel protagonista de mulheres negras na
articulação e mobilização estética e política no Brasil contemporâneo.
A Reafro (Rede Brasil Afroempreendedor) é tema de dois trabalhos, o de Silva (2017),
em que a autora busca compreender como as atividades empreendedoras da Reafro reforçam a
identidade afrodescendente dos seus associados. Além disso, a autora busca: elencar as
atividades empreendedoras propostas pela Reafro e Reafro do Rio Grande do Sul; identificar
os motivos que levaram os empreendedores a se associarem à Reafro/RS; identificar a
presença do tema da identidade afrodescendente no material institucional e no discurso da
rede; e compreender a relação dos associados com o tema da identidade afrodescendente. Já
na monografia de Simão (2017), o autor discute o perfil dos Afroempreendedores da Reafro
também no Rio Grande do Sul e os impactos do pertencimento à rede para os negócios. O
pesquisador identificou, como parte dos resultados, que as mulheres negras são maioria na
rede, grande parte são microempreendedoras individuais e prestam serviços. Além disso, o
autor constata que o pertencimento à rede Reafro trouxe benefícios para a maioria dos
entrevistados em seu trabalho.
Já os trabalhos de Oliveira (2018a; 2018b) fazem uma aproximação da teoria da
economia étnica e o afroempreendedorismo a partir da análise de redes sociais com páginas
de grupos e associações relacionados ao tema, e a partir da página no Facebook da Feira
Cultural Preta.
Por fim, encontramos o livro “O Empresário Negro – Trajetórias de sucesso em busca
de afirmação social”, de José Aparecido Monteiro, publicado somente em 2001 e com
segunda edição em 2017, mas que reúne história de empreendedores negros do final da
década de 80. O livro conta a trajetória da pesquisa realizada pelo autor, que entrevistou
pequenos empresários negros em torno de temas relacionados ao empreendedorismo negro
como ferramenta de desenvolvimento econômico e humano. O autor ressalta em seu trabalho
a necessidade de organizar coletivamente ações para a promoção do grupo enquanto
comunidade historicamente discriminada.
Portanto, observamos uma forte demarcação territorial nos trabalhos analisados, além
de estudos que têm como ponto de partida a atuação de grupos ou associações, como os
trabalhos que analisam a Reafro, Afroem e Feira Preta. Além disso, vemos que grande parte
44
dos trabalhos foi publicada muito recentemente (entre os últimos dois anos), fato que
demonstra a crescente observação e importância do tema. Não há, além dos trabalhos
originados desta própria pesquisa, outros que se relacionam à teoria da economia étnica,
tampouco com viés da tecnologia e internet.
A realização desta revisão sistemática é importante na medida em que nos permite
conhecer o que se tem estudado a respeito do afroempreendedorismo no Brasil, quais as
problemáticas foram levantadas e quais os panoramas de contribuição para o campo a partir
da pesquisa aqui desenvolvida.
3.3 Perfil, acesso ao crédito e políticas públicas sobre o afroempreendedorismo
Há iniciativas acadêmicas e institucionais que se empenharam em estudar o perfil e as
condições de atuação do afroempreendedor brasileiro. Dentre elas, trazemos o “Relatório
Igualdade Racial, Desenvolvimento, Empreendedorismo e Solidariedade: desafios para o
Brasil Contemporâneo” (MICK, 2016) e o estudo “Acesso ao crédito produtivo pelos
microempreendedores afrodescendentes e os desafios para a inclusão financeira no Brasil”
(PAIXÃO, 2015) para discutir o perfil e as dificuldades no acesso de investimento por
afroempreendedores, elemento essencial para o estabelecimento, mantimento e
desenvolvimento de empreendimentos. Além disso, realizamos um levantamento
desenvolvido, por meio de pesquisa documental, das intenções em políticas públicas cunhadas
pela então Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) entre os anos de
2009 e 2016. Discorremos a seguir sobre os principais aspectos desses levantamentos.
A pesquisa desenvolvida por Mick (2016) teve métodos baseados em: coleta de dados
documentais na base cadastral do Projeto Brasil Afroempreendedor, enquete online e
presencial, entrevista em profundidade com participantes do projeto, entrevista em
profundidade com consultores estaduais do projeto, coleta de dados documentais nos planos
de negócios e enquete de avaliação do projeto. O objetivo é comparar o perfil dos
participantes do Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE) com a pesquisa Os donos dos
negócios: análise por raça/cor do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas) e assim tentar compreender os efeitos do racismo no mundo dos
negócios e análise de planos de negócios e cadeias produtivas.
Dentre os principais resultados, nota-se que no PBAE, a presença de mulheres foi duas
vezes superior ao conjunto de empreendedores, e a formação superior foi noves vezes maior
45
que a média. Em relação ao grau de escolaridade dos participantes do PBAE, 64,4% tem ao
menos curso superior incompleto, o que para o autor impacta diretamente em resultados das
políticas de acesso à educação, como as cotas raciais. Embora o acesso ao ensino superior seja
importante, o aumento da renda, segundo o autor, não acontece na mesma proporção que para
pessoas não negras. A maioria dos respondentes (48%) recebe de um a três salários mínimos e
a taxa de novos empreendimentos foi quase duas vezes maior que no total de
afroempreendedorismo.
Há um forte envolvimento dos participantes (55,3%) em partidos políticos,
movimentos sociais, culturais, de caridade e religiosas, sobretudo as de matriz africanas como
o candomblé e umbanda. Mais da metade dos participantes (53,8%) do PBAE afirma já ter
vivido situações de preconceito em suas atividades profissionais. Para o autor, quanto mais
elevado o grau de escolaridade e a participação em movimentos sociais, maior a capacidade
de reconhecimento de preconceitos. Outra maneira de articulação em destaque é o uso das
redes sociais14
, apontada por 96% dos participantes, sobretudo as plataformas Facebook
(96,6%) e WhatsApp (86,1%). Para o autor, esse dado indica elevado potencial de articulação
e cooperação entre os empreendedores.
Sobre o perfil das empresas, grande parte dos empreendimentos do PBAE se concentra
em serviços (41,7%), seguido de comércio (30,1%) e atividades lúdico-culturais (12,6%). A
criação dos negócios se deu por oportunidade (39,1%), necessidade (23,5%) ou outras razões
(37,1%). Dentre essas outras razões estão a realização de um sonho (31,6%), oportunidade de
ganhar dinheiro (19,4%), possibilidade de atendimento de uma demanda de mercado (18,9%)
ou já ter trabalhado no ramo como empregado (17,6%).
Em relação aos recursos, a pesquisa demonstra que grande parte dos negócios foi
iniciada com recursos próprios (78,1%) ou com empréstimo de familiares ou amigos (7,8%);
apenas 3,7% obtiveram financiamento bancário; 69,3% dos negócios nunca obtiveram crédito
e entre os que tiveram acesso a crédito, a maior parcela (19,9%) afirmou que o recurso ajudou
o empreendimento (muito ou pouco) e para 7,7% o dinheiro não ajudou ou gerou
endividamento. Dado que nos leva ao estudo “Acesso ao crédito produtivo pelos
microempreendedores afrodescendentes e os desafios para a inclusão financeira no Brasil” -
desenvolvido pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro
(IE/UFRJ) no Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das
Relações Raciais (LAESER), sob coordenação do Professor Marcelo Paixão - que teve como
14
Terminologia utilizada no documento mencionado.
46
objetivo avaliar a presença da discriminação de cor ou raça no acesso ao financiamento
produtivo de Microempreendedores Individuais (MEI’s).
A metodologia do estudo é baseada em entrevistas com uma amostra composta por
cerca de 1.000 (mil) MEI’s da cidade do Rio de Janeiro/RJ e Salvador/BA e conta com cinco
partes temáticas, sendo elas: 1) o problema do racionamento de crédito; 2) as políticas
recentes de microcrédito produtivo no Brasil; 3) a caracterização da população pesquisada; 4)
acesso ao sistema de crédito produtivo e percepção de discriminação; 5) considerações finais.
Na análise dos valores solicitados e aprovados por bancos públicos, bancos privados,
financeiras, bancos cooperativados e por Organizações da Sociedade Civil de Interesse
Público (OSCIP) com recorte de raça em preto, pardo e branco, entre os MEI’s entrevistados é
possível ter uma noção da possível discriminação por estereótipo. Os MEI’s brancos são os
que solicitam maior valor de crédito e tem maior taxa de aprovação do valor total (62,7%), os
MEI’s pretos embora solicitem um valor acima dos pardos, são os que têm menor taxa de
aprovação do valor total do solicitado (50,7%) e, consequentemente, a maior taxa de não
liberação do pedido de crédito (10%).
O estudo indagou os entrevistados sobre por qual razão eles imaginam que tenha
ocorrido o racionamento de crédito, e as opções de respostas foram agrupadas em quatro
tipos. São eles: 1) Problemas relacionados ao perfil do negócio que engloba: Pelo pouco
tempo de desempenho da atividade econômica; Pelo tipo de atividade econômica; 2) Renda
insuficiente que engloba: por ter renda insuficiente; 3) Por restrições cadastrais ou falta de
garantias que engloba: Por estar com restrições no SPC/SERASA; Por não oferecer garantias
exigidas; 4) Por discriminação de distintas naturezas que engloba: pela minha cor ou raça;
Pelo local de nascimento. Os pretos, embora com menor taxa de resposta em relação à renda
insuficiente e de restrições cadastrais, formam a única categoria que aponta discriminação
com 22,2% de respostas no agrupamento “Por discriminação por distintas naturezas”.
Ao serem questionados sobre o grau de dificuldade, os MEI’s pretos são os que
apresentaram maior pessimismo sobre o acesso ao crédito produtivo com 29,6% que
consideram muito difícil e 31,2% difícil. Sobre o grau de conforto dentro dos
estabelecimentos públicos e privados, os MEI’s pretos e pardos são os que mais verbalizaram
incômodos com a forma como são olhados, com constrangimento sentido e pelo incomodo
com a porta giratória tanto em bancos públicos quanto em bancos privados.
O estudo sugere aplicações de políticas públicas para estimular e direcionar a
utilização do sistema de crédito levando em consideração as variáveis de escolaridade,
dificuldades de funcionamento e por região, bem como raça e cor para diminuir os possíveis
47
racionamentos de créditos baseados em estereótipos e preconceitos. Pensando nesses
aspectos, realizamos levantamento dos últimos anos nos relatórios de gestão da Secretaria de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR)15
sobre pautas relacionadas ao
afroempreendedorismo. Buscamos então, as menções ao empreendedorismo negro16
nos
relatórios anuais17
dos anos de 2009 a 2016, recorte temporal justificado por conter os anos
disponíveis na seção ‘Acesso à Informação’ do órgão. Segue abaixo a descrição de cada
menção encontrada em cada um dos documentos.
No documento do ano de 2009 não há menções ao empreendedorismo negro, já em
2010 há menções em relação à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, a Lei n.º 12.288 de
20 de julho de 2010, da qual incentiva, entre outros aspectos, o empreendedorismo negro.
Além disso, o documento afirma ter dado apoio à 9ª edição da Feira Cultural Preta, evento
que incentiva a participação de pessoas negras no ambiente mercadológico, negócios,
comércios e serviços. Nos resultados e conclusões há a ressalva da necessidade de pesquisas e
mapeamento com recorte de raça, devido à importância em se compreender o perfil da
população negra no Brasil, sendo que essa ressalva contempla o empreendedorismo. No
campo da formação e capacitação houve uma parceria com o Ministério do Trabalho e
Emprego para qualificar cerca de 25 mil pessoas com diversos cursos, entre eles o de
Empreendedor Individual (SEPPIR, 2011).
No ano de 2011 a SEPPIR realizou, a partir da Rede Selo Quilombos do Brasil e em
parceria com alguns ministérios, o Seminário Nacional de Empreendedorismo. O evento
ocorreu na cidade de Santa Maria e compôs a 18ª Feira Estadual de Cooperativismo
Alternativo e a 7ª Feira de Economia Solidária dos Países do Mercosul. Entre os temas
debatidos estavam Etnodesenvolvimento, Comércio Justo e Economia Solidária, além da
presença de mais de 50 representações, entre elas, a Secretaria da Justiça e Direitos Humanos
do Estado do Rio Grande do Sul, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
(INCRA), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Museu Treze de Maio,
representantes das Comunidades Quilombolas de outros Estados e de diversos municípios do
Rio Grande do Sul (SEPPIR, 2012).
Em 2012 a SEPPIR firmou parcerias com agências de fomento e assessoria técnica
para micro e pequenas empresas e para atividades com iniciativas da sociedade civil com o
15
Secretaria que no ano de 2019 passou a fazer parte do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos
Humanos.
16
Terminologia utilizada no documento.
17
Relatórios disponíveis via Transparência Ativa em atendimento à Lei de Acesso à Informação.
48
objetivo de estabelecer diálogo com empreendedores negros. Ainda em 2012 foi realizado o
Seminário com Empreendedores Negros Americanos e Brasileiros resultando em propostas de
trabalho com o Ministério do Esporte e demais entidades relacionadas aos grandes eventos
que ocorreriam em 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas). Também em 2012 ocorreu o
encontro de empreendedores negros no Rio de Janeiro, resultando em parcerias de trabalho
entre Superintendência de Políticas da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro (SUPIR)
e a Coordenadoria de Promoção da Igualdade do Município do Rio de Janeiro. E, por fim, em
2012 ocorre o início da conversa entre SEPPIR e SEBRAE para um Acordo de Cooperação
para promover ações afirmativas no campo do empreendedorismo negro no Brasil. Nas
propostas previstas para o ano seguinte havia a sugestão da criação de linhas de crédito para
em apoio ao empreendedorismo negro (SEPPIR, 2013).
No ano de 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial,
foi assinado o Protocolo de Intenções entre a SEPPIR e o SEBRAE para a implementação de
ações relacionadas ao empreendedorismo negro, voltadas ao seu fortalecimento e com o
objetivo de beneficiar diretamente pessoas e organizações da comunidade afro-brasileira que
se enquadrassem nas categorias de potenciais empresários, microempreendedores individuais
e micro ou pequenas empresas. Outro ponto relacionado ao tema, foram as ações de
Cooperação Internacional, ocasião pela qual a SEPPIR deu continuidade à implementação do
Plano de Ação Conjunto entre o Governo Brasileiro e o Governo dos Estados Unidos da
América para a Eliminação da Discriminação Étnico-racial e a Promoção da Igualdade,
coordenado pela SEPPIR e pelo Ministério das Relações Exteriores e cujo objetivo foi
promover trocas de experiências, tendo estabelecido como foco diversas áreas temáticas, entre
elas o empreendedorismo (SEPPIR, 2014).
No ano de 2014 os destaques em empreendedorismo negro da SEPPIR foram o
protocolo de intenções firmado entre SEPPIR e SEBRAE, realização do Seminário sobre
Empreendedorismo Negro que contou a presença de 25 pessoas, dentre elas: acadêmicos,
setores do governo e representantes de instituições financeiras como Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES), Ministério do Trabalho e Emprego (MTEM), Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste do
Brasil (BNB), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX),
Secretaria da Micro e Pequena Empresa (SMPE), SEBRAE e Caixa Crescer. O objetivo foi
estabelecer metas e diálogos para a disseminação de informações a respeito do
empreendedorismo na perspectiva da promoção da igualdade racial. Desse encontro, ocorreu
49
o encaminhamento do protocolo de intenções sobre a Caixa Crescer, programa de
microcrédito orientado para empreendedores negros (SEPPIR, 2015).
Em 2015 e em 2016 ainda permanecem os protocolos de intenção entre SEPPIR,
SEBRAE e a Caixa Crescer, além de atividades que versam, sobretudo, pelo fortalecimento
da formalização e desenvolvimento de pequenos empreendedores, impulsionando a geração
de emprego e renda sempre pelo viés de prevenção e enfrentamento do racismo institucional e
promoção de política de igualdade racial (SEPPIR, 2016; 2017).
Portanto, verificamos que foi uma pauta da SEPPIR promover e tornar política pública
esforços para o desenvolvimento técnico e financeiro de empreendedores negros. Nota-se
forte ênfase na necessidade de se pensar linhas de crédito específicas, programas de educação
e formação empreendedora, parcerias público-privada e o forte reforço da mensagem em
combater o racismo estrutural da sociedade brasileira e a promoção de igualdade racial.
Observamos, então, que tanto nos trabalhos da revisão sistemática quanto nos
relatórios apresentados neste capítulo, as concepções e práticas de afroempreendedorismo
colocadas em discussão demonstram pleno conhecimento das consequências do racismo
estrutural que permeia a história econômica e social do país. Principalmente se tratando do
problema do acesso ao financiamento que se mostra como uma das questões mais latentes de
impedimento burocrático para se desenvolver uma prática afroempreendedora plena. Ainda
que no passado tenha ocorrido algum esforço da SEPPIR para promover ações de políticas
públicas e parcerias benéficas para o circuito afroempreendedor, nenhuma decisão categórica
foi de fato efetivada. Do mesmo modo, as pesquisas levantadas no estado da arte relacionam-
se também com aspectos sobre identidade, comunidade e redes cooperativas de
Afroempreendedores. Temos, então, como elemento central e inquestionável as questões
relacionadas ao racismo que, talvez sejam o principal empecilho para uma nova economia
possível.
50
4. REDES SOCIAIS NA INTERNET E A FILIAÇÃO PELO FATOR RACIAL:
A REDE DE AFROEMPREENDEDORES
Negro drama,
Eu sei quem trama,
E quem tá comigo,
O trauma que eu carrego,
Pra não ser mais um preto fodido,
O drama da cadeia e favela,
Túmulo, sangue,
Sirenes, choros e velas,
Passageiro do Brasil, São Paulo,
Agonia que sobrevivem,
Em meia zorra e covardias,
Periferias, vielas, cortiços,
Você deve tá pensando,
O que você tem a ver com isso?
Desde o início,
Por ouro e prata,
Olha quem morre,
Então veja você quem mata,
Recebe o mérito, a farda,
Que pratica o mal,
Me ver pobre preso ou morto,
Já é cultural
Negro Drama – Racionais MC’s
Este capítulo pretende discutir aspectos primordiais para a pesquisa sobre internet e
suas ferramentas de sociabilidade, sobretudo em relação ao processo de formação de filiação e
aglomerações de grupos pelo fator identidade e a discussão sobre humanidades digitais com
foco em população negra. Gostaríamos, porém, de iniciar pontuando conceitos que serão
citados e que podem, eventualmente, causar confusão, tais como sites de redes sociais, mídias
sociais e redes sociais na internet.
Os sites de redes sociais são suportes para a criação e manutenção de redes sociais.
Logo, para que um suporte seja considerado um site de rede social é necessário que se tenha
perfis públicos de usuários, conteúdos produzidos e distribuídos por diversos usuários e não
somente pelo suporte em si, ainda que haja articulação pública de conexões, como as
amizades no Facebook. Todavia, os sites de redes sociais ganham certa relevância quando os
usuários passam a utilizá-los como principal meio cotidiano para consumir e produzir
conteúdo – a reapropriação da ferramenta pelo usuário. À vista disto, do ponto de vista da
propagação de conteúdo, os sites de redes sociais são vistos como uma mídia social, ou seja,
51
meio de distribuição de conteúdo estruturalmente diferente das mídias de massa, como rádio e
televisão. Já quando se trata de redes sociais por si só, falamos dos agrupamentos sociais
constituídas através das relações entre os indivíduos, logo as redes sociais na internet são as
migrações desse agrupamento social para o campo digital e que trazem como principais
características os rastros digitais das dinâmicas sociais, produções de conteúdos e as
representações de indivíduos (RECUERO, BASTOS & ZAGO, 2015).
Dito isso, é importante compreendermos, conforme Castells (2003), que a sociedade não
pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas e sem compreender
como ocorrem as apropriações dessas tecnologias pelos indivíduos. Para o autor, quando os
usuários assumem certo controle do uso assimilado da tecnologia, eles incorporam a
capacidade de transformação das sociedades. Logo, os usuários adaptam as novas tecnologias
e os processos para seus objetivos, apropriam-se da comunicação horizontal e da formação
autônoma de redes, e assim atribuem qualidades à internet que influenciam atividades
econômicas, sociais, culturais e políticas.
Há diferenças encontradas no ambiente informacional em contrapartida à mídia de massa,
a exemplo da arquitetura de rede que, ao ser distribuída, proporciona conexões
multidirecionadas entre os nós, e por esse motivo há elevada interatividade e
interconectividade. Há ainda o acesso de custo menor, assim o "usuário comum" torna-se
propagador de suas próprias mensagens (SILVEIRA, 2008). Dessa forma, as novas
tecnologias de comunicação e informação demandam novos fenômenos observáveis e
problematizáveis, sobretudo ao que se refere à transversalidade, à descentralização e à
interatividade, fatos que, segundo Lemos (2015), proporcionam a potencialização de vozes e
visões diferenciadas. Logo, a internet, ao produzir sentido em seres socialmente situados e
que fazem de seu uso algo rotineiro, torna-se campo de manifestações políticas, comerciais,
de propagação de opiniões, de associações e formação de comunidades por interesse (HINE,
2015). Ainda que no ambiente digital as grandes corporações tenham o poder de controlar a
infraestrutura e os fluxos de informação, as audiências não podem ser impedidas de acontecer.
Assim, pessoas e coletivos são capazes de criar conteúdo e soluções relacionadas às suas
questões sem o intermédio de grandes grupos de comunicação. Criando então, novas formas
de ação, interação e relações sociais (SILVEIRA, 2008).
Chama-nos atenção especificamente a formação de relacionamentos a partir de interesses
em comum, do ambiente interativo, recíproco, comunitário e intercomunitário do qual, em
certa medida, os participantes podem contribuir (LÉVY, 2010). Ainda dentro desse recorte de
análise, a pesquisa aqui desenvolvida foca em aspectos racializados, pautados na questão da
52
identidade nos sites de redes sociais, nos sites de mídia sociais e nas redes sociais na internet.
Esses temas já são comumente debatidos em alguns estudos, a exemplo do trabalho de
Freelon et al (2016a; 2016b; 2018) que estuda: o movimento Black Lives Matter no Twitter e
em alguns sites, para verificar o poder dos movimentos sociais no contexto digital em torno
de quatro elementos essenciais de análise de contestação online: valor, unidade, números e
comprometimento; os movimentos de direitos civis e justiça a partir da análise das hashtag
#Ferguson e #BlackLivesMatter para entender como o uso de sites de redes sociais
contribuem para os objetivos contra a violência de ativistas, sobretudo os relacionados ao
movimento Black Lives Matter; e outras comunidades em sites de redes sociais que interagem
e pautam as mídias jornalísticas alternativas sobre esse mesmo movimento. Ou ainda Noble e
Tynes (2016) que tratam de discutir a interseccionalidade na internet a partir de debates em
torno de raça, classe, gênero e cultura online. Sobretudo numa análise baseada em teoria
crítica racial para compreender fenômenos sociais, políticos e econômicos, racismo e
desigualdades.
Percebemos nessas propostas de análise a presença marcante de discussões sobre a
questão da identidade e sua relevância na delimitação de discursos, posicionamento político,
entre outros aspectos sociais. Logo, entendemos que a reflexão acerca do conceito de
identidade compõe papel importante no desenvolvimento da pesquisa aqui proposta. A
identidade, por sua vez, percorre por diversos debates em muitas áreas do conhecimento. Para
Castells (1999), por exemplo, a identidade é uma fonte de significados e experiências de um
determinado povo, sobretudo com base em um conjunto de atributos culturais inter-
relacionados, sendo possível possuir identidades múltiplas a um indivíduo. O autor afirma
ainda que toda identidade é construída. A questão é compreender o como, a partir de quê, por
quem e para quê. Pontua, ainda, três formas dessa construção de identidade, são elas:
identidade legitimadora, apresentada pelas instituições dominantes para expandir e
racionalizar sua dominação; a identidade de resistência, criada por atores sociais em
condições desvalorizadas e estigmatizadas pelas relações de poder e que diante disto criam
maneiras de resistir e sobreviver ao contexto; e por fim, a identidade de projeto – quando os
atores sociais criam uma nova identidade que redefine sua posição na sociedade e assim
fazem a partir de qualquer material cultural ao seu alcance.
Sendo assim, quando tratamos de pessoas negras no Brasil, esse grupo está repleto de
estigmas, papéis sociais e estereótipos, ou seja, de uma série de atributos culturais inter-
relacionados. A priori, é possível afirmar que dentre as categorias apresentadas por Castells
(1999), as identidades em torno da população negra se enquadram na identidade de
53
resistência, sobretudo pela trajetória histórico-social marcada por eventos excludentes e
violentos, como já melhor especificado no capítulo três deste trabalho. Quando tratamos de
população negra que descende principalmente de Africanos, estamos falando também do
movimento de diáspora. Para Gilroy (2007), a diáspora vai além da codificação no corpo, na
“raça” enquanto pertencimento a uma nação, mas ela
problematiza a mecânica cultural e histórica do pertencimento. Ela perturba o poder
fundamental do território na definição da identidade ao quebrar a sequência simples
de elos exploratórios entre lugar, localização e consciência (GILROY, 2007, p. 151).
Em outra perspectiva, a diáspora por Hall (2003) é um não estar efetivamente em casa,
nesse contexto as identidades se tornam múltiplas e não é possível se desenvolver sem levar
em consideração os outros significativos. Logo, o outro passa a ter uma posição marcada de
forma diferencial dentro da cadeia discursiva. Essa posição de outros também pode ser
analisada pelo o que Canclini (2015) considera diferentes, aqueles que têm em seu lugar de
fala um instrumento político que vai à contramão de uma autorização discursiva nas relações
de poder, tanto do ponto de vista das mídias quanto das próprias relações sociais (RIBEIRO,
2017). Por diferenças ou os diferentes, Canclini (2015) afirma que são aqueles que não se
enquadram nos padrões homogeneizados impostos pela globalização. Para o autor, os recursos
interculturais são decisivos para construir alternativas que colaboram com o entendimento de
que “os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos
recíprocos” (CANCLINI, 2015, p. 17) e assim criam maneiras de ressaltar suas identidades
sem necessariamente adotar um padrão preconcebido pelos efeitos da globalização. Esses
grupos são localizados em uma hierarquia social e não humanizada, o que faz com que suas
produções intelectuais, saberes e vozes sejam estruturalmente silenciados (RIBEIRO, 2017).
Para a autora,
isso, de forma alguma, significa que esses grupos não criam ferramentas para
enfrentar esses silêncios institucionais, ao contrário, existem várias formas de
organizações políticas, culturais e intelectuais (RIBEIRO, 2017, p. 63).
Nesse sentido, retomamos Castells (1999), que afirma que a raça é uma fonte
fundamental de significado e reconhecimento e, entre diversos aspectos como as questões de
opressão e discriminação, a organização em rede a partir da raça e etnia proporciona relações
baseadas em significado e identidade. Para argumentar seu ponto de vista o autor apresenta
breve trajetória da população negra norte-americana que, assim como na história do Brasil,
também tem sua identidade calcada a partir de um povo sequestrado e escravizado. A
construção de identidade acontece principalmente a partir do princípio de identidade de
54
resistência e sua capacidade de oferecer abrigo, isolamento, certeza e proteção. Há, portanto,
uma responsabilidade coletiva em reconstruir espaços saudáveis a partir da base. Ocorre,
assim, um necessário processo de mobilização social e de engajamento, como afirma em:
As pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a
agrupar-se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um
sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade
cultural, comunal (CASTELLS, 1999, p. 79).
A atual composição da população negra no Brasil descende dos africanos do
movimento de diáspora e está em constante resgate de sua cultura, ancestralidade e valores.
De fato, exprimem em suas práticas sociais o pertencimento de uma “raça” para além do fator
biológico e vivenciam no cotidiano a dicotomia em carregar o fardo em ser o “outro”,
sobretudo nas relações de poder predominantes numa sociedade imbuída no racismo
estrutural. A negritude não se caracteriza exclusivamente pelo seu caráter biológico, mas
também pela soma de vivências, muitas dessas relacionadas à violência e opressão, que se
caracterizam em formas históricas da condição humana. Seu estágio inicial é a tomada de
consciência da diferença, resultante de uma atitude combativa e proativa. A consciência da
negritude é propriamente a reabilitação de valores, re-enraizamento da história e da cultura. A
negritude é, como afirma Cesaire (apud Moore, 1939):
Uma maneira de viver a história dentro da história; a história de uma comunidade cuja
experiência parece, em verdade singular, com suas deportações, seus deslocamentos
de homens de um continente a outro, suas lembranças distantes, seus restos de
culturas assassinadas (p. 109).
A identidade, para Cesaire (apud MOORE, 1939), é aquilo que dá ao homem, a
cultura ou a uma civilização sua forma, estilo e singularidade. O reconhecimento da negritude
seria a explosão de uma identidade reprimida por longo tempo e finalmente libertada, que
então se afirma e se reconhece com direito a ser diferente. Logo, o cenário do movimento
político e econômico da população negra no Brasil, do qual pretendemos estudar e do qual
observamos essas características, perpassa pela trajetória histórica de um sistema de
dominação social, de exploração, racialização e apagamento de identidades e memórias
resultante do colonialismo europeu (QUIJANO, 2005). Para Munanga (1999), os movimentos
negros contemporâneos buscam o resgate de sua cultura, de seu passado falsificado, da
valorização da sua cor de pele inferiorizada e do reconhecimento da participação positiva na
construção do país. Para o autor, o reforço da identidade funciona como ideologia, permitindo
aos membros do grupo étnico reforçar a solidariedade entre eles (MUNANGA, 2012). Assim,
55
a identidade negra tem significância política, pois ressalta aspectos de exclusão em sociedades
multirraciais, logo:
A identidade do mundo negro se inscreve no real sob a forma de “exclusão”. Ser
negro é ser excluído. Por isso, sem minimizar os outros fatores, persistimos em
afirmar que a identidade negra mais abrangente seria a identidade política de um
segmento importante da população brasileira excluída de sua participação política e
econômica e do pleno exercício da cidadania (MUNANGA, 2012, p. 11).
A identidade enquanto modo de ser no mundo e elo relevante para a criação de redes
de relações e referências culturais dos grupos sociais por meio de práticas linguísticas,
festivas, rituais, entre outros aspectos, delimita padrões civilizatórios da condição humana. A
identidade negra, por sua vez, também se constrói paulatinamente com a intersecção de
múltiplas variáveis sociais, históricas e culturais. Logo, de modo geral, a identidade se refere
aos níveis sócio-políticos e históricos da sociedade, sobretudo quando um determinado grupo
reivindica visibilidade social em decorrência do apagamento histórico (GOMES, 2005).
Observamos esse agrupamento e reivindicação atualmente na atuação de grupos identitários
nos sites de redes sociais e na formação de redes sociais na internet que encontram espaço
para verbalizar opiniões, encontrar seus iguais, organizar comunidades de apoio e eventos
para além do campo da comunicação digital.
Deste modo, os sites de redes sociais e a formação de redes sociais na internet
funcionam como um espaço que incentiva a interação discursiva de pessoas que se encontram
por proximidade de identificação. Há, portanto, a ideia de que a internet é também um local
para construção e formação de comunidade a partir dessa identidade. Assim, compartilhar
conteúdos que dão ênfase às características raciais fornece aos usuários um sentimento de
pertencimento, sobretudo quando estamos tratando de um grupo historicamente estigmatizado
e oprimido pela sociedade dominante (DANIELS, 2012).
O contexto das humanidades digitais se apresenta como um campo com grande escala
de dados oriundos das práticas sociais mediadas por ferramentas e plataformas digitais. Mais
do que o aparato tecnológico, as humanidades digitais se mesclam com os estudos clássicos
sobre a humanidade no advento das tecnologias e seus novos exercícios. Para Jones (2016), as
humanidades digitais são um conjunto transitório de práticas mistas entre os artefatos físicos e
as novas redes digitais que se sobrepõem em multicamadas e interfaces. A delimitação de
análise de temas a partir de um recorte identitário é pauta de diversas discussões na chamada
Black Digital Humanities, uma abordagem que leva em consideração a intersecção entre o
campo digital e a negritude. Em concordância com Gray (2016), há uma falta de interesse em
se discutir conteúdo e experiências racializadas também nos espaços digitais. Existe, segundo
56
a autora, um daltonismo racial, ou seja, há quem acredite que raça ou etnia não influencie nas
dificuldades ou privilégios de determinados grupos sociais, fato esse que colabora com a
perpetuação das desigualdades.
Para Gallon (2016), as interações discursivas cotidianas por pessoas negras nos sites
de redes sociais são uma continuação do esforço secular empregado por populações negras
escravizadas em todo o mundo e em decorrência disso é necessário compreender como as
tradições teóricas são tão racializadas quanto as discussões atuais sobre o meio digital e suas
reapropriações. Para a autora a Black Digital Humanities gera uma nova epistemologia negra
que traz investigações e entendimentos mais profundos sobre a humanidade de maneira geral.
Portanto, consideramos importante estudar o aglomerado (clusters) de nós (nodes –
indivíduos ou organizações) conectados pelas arestas (elo social) da questão racial e das
relações estabelecidas a partir do afroempreendedorismo. Os nós são a representação dos
atores, as arestas são as conexões entre os nós e os clusters, os grupos mais densos na rede e
com maior número de conexões na rede. Trataremos aqui de uma rede associativa. Ou seja,
em que há uma relação que representa capital social: páginas que curtem outras páginas no
Facebook (BARABÁSI, 2009; RECUERO, 2009; 2018), por exemplo. Os atores nas redes
sociais na internet devem ser analisados a partir de representações ou das construções
identitárias na cultura digital e para entender esses atores sociais é necessário também
entender como as conexões são estabelecidas, como são constituídas e quais padrões de
conexão existem entre eles. Assim, a partir da análise de redes sociais na internet, obtemos
uma maneira de compreender parte da estrutura social, a geração de fluxos informacionais e
como as interações sociais impactam a estrutura.
A pesquisa tem como ponto de partida as redes sociais na internet por se tratar de um
fenômeno que emergiu e se destacou gradativamente no contexto digital. Constatamos, a
partir de observação empírica, que as relações estabelecidas em torno do tema
afroempreendedorismo na internet indicavam um fato passível de análise mais profunda.
Portanto, após um breve detalhamento metodológico, apresentaremos no capítulo 7 os
resultados de análise de redes sociais na internet a partir do afroempreendedorismo, além da
complementariedade do formulário e de entrevistas semiestruturadas, buscando entender se é
possível aplicar a teoria da economia étnica na análise do afroempreendedorismo no Brasil.
57
58
5. METODOLOGIA
É necessário sempre acreditar que o sonho é possível
Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível
Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase
E o sofrimento alimenta mais a sua coragem
Que a sua família precisa de você
Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perde
[...]
É isso aí, você não pode parar
Esperar o tempo ruim vir te abraçar
Acreditar que sonhar sempre é preciso
É o que mantém os irmãos vivos
A vida é o desafio – Racionais MC’s
A dissertação está baseada numa fundamentação teórica sobre a teoria da economia
étnica, na contextualização da população negra no Brasil, o afroempreendedorismo e a relação
da internet e suas ferramentas como suporte de identidades. Além disso, apresentamos duas
revisões sistemáticas de literatura (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO &
MANCINI, 2007) que consideramos essenciais para a discussão teórica da pesquisa, que
tratam dos trabalhos anteriores sobre a teoria da economia étnica e sobre
afroempreendedorismo no Brasil. Diante deste cenário, aplicamos uma metodologia
qualitativa com triangulação de métodos (DUARTE, 2009; ROMANCINI, 2011) que se
complementam na busca pela resposta da problemática posta: é possível aplicar a teoria da
economia étnica na análise do afroempreendedorismo no Brasil?
Em relação à revisão sistemática, o procedimento correspondente ao método consiste
em:
• Definição do problema e parâmetros da revisão sistemática;
• Definição do período de coleta;
• Definição das bibliotecas digitais de coleta;
• Tabulação e análise dos dados obtidos.
A partir de dados obtidos nas diversas ferramentas disponíveis na internet, a análise de
dados na era digital permite obter, entre outros aspectos, escalabilidade de informações, dados
em tempo real, aprimoramento do conhecimento literário e histórico. Temos, então, uma
variedade de especificações como volume, tipo, plataformas, algoritmos, entre outros
(BURDICK et al, 2012). Assim, o primeiro método proposto é a análise de redes sociais na
59
internet (RECUERO, 2009; BARABÁSI, 2009; RECUERO, BASTOS & ZAGO, 2015;
SILVA & STABILE, 2017; RECUERO, 2018), que consiste em uma abordagem estrutural
que visa compreender aspectos de grupos sociais a partir de suas conexões e relações entre os
atores do grupo, além da influência na difusão de informações e das dinâmicas nos processos
sociais. A análise de redes utiliza, portanto, dados relacionais para focar nos atributos que os
conectam. Com isso pautado, pretendemos obter por meio deste método, dados sobre as
relações, estruturas e comunidades do afroempreendedorismo no Brasil que utilizam a
plataforma do Facebook. Para tanto, o procedimento correspondente a esse método consiste
em:
• Pesquisa de páginas no Facebook que contenham os termos “afroempreendedorismo”,
“afroempreendedor”, “empreendedor negro”, “afro”, “negro”, “black” e variações nos
títulos ou descrições (sessão “sobre”) das páginas;
• Tabulação classificatória das páginas encontradas relacionadas ao tema;
• Busca dos números identificadores (ID) de cada página por meio do site Find My FB
ID18
;
• Coleta dos dados relacionados às redes por meio da ferramenta Netvizz (RIEDER,
2013)19
;
• Análise e visualização da rede com a ferramenta Gephi (BASTIAN et al, 2009).
O segundo método utiliza um formulário (FLICK, 2004) aplicado via internet,
sobretudo em grupos específicos sobre o tema ou a partir de divulgação de canais de
comunicação especializados, aos afroempreendedores, para traçarmos um perfil
sociodemográfico que contemple aspectos como faixa etária, gênero, estado civil,
escolaridade, raça, profissão, entre outros. Além disso, o questionário tem em sua composição
perguntas relacionadas ao empreendimento e à prática do afroempreendedorismo de modo
geral e nos sites de redes sociais. O procedimento correspondente a esse método consiste em:
• Elaboração do questionário em formato online a partir da ferramenta Google Forms20
;
• Disparo do questionário para os Afroempreendedores;
• Análise dos dados coletados.
18
Find your Facebook ID. Disponível em: https://findmyfbid.com/ Acesso em 01 de out. 2019.
19
Netvizz. Disponível em: https://apps.Facebook.com/107036545989762 Acesso em 01 de out. 2019.
20
Google Forms. Disponível em: https://docs.google.com/forms Acesso em 01 de out. 2019.
60
Por fim, aplicamos uma entrevista semiestruturada (BONI, 2005) direcionada às
pessoas que representam as páginas em destaque na rede a partir da métrica de grau de
entrada, ou seja, aqueles que recebem mais curtidas de outras páginas. Destacamos páginas
que vão do mais alto grau de entrada (46) até o menor grau antes de cinco (8), sendo cinco, o
grau de corte determinado por nós como relevante ou não. Portanto, pretendemos avançar em
informações mais qualitativas e detalhadas acerca de temas como identidade,
afroempreendedorismo, utilização de redes, entre outros. O procedimento correspondente a
esse método consiste em:
• Definição dos nós mais relevantes da rede a partir do grau de entrada;
• Elaboração do roteiro da entrevista semiestruturada;
• Aplicação da entrevista com os representantes das páginas mais evidentes da rede;
• Apresentação da síntese e análise das entrevistas.
61
62
6. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS
Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim.
Muitos morreram sim, sonhando alto assim,
me digam quem é feliz,
quem não se desespera, vendo
nascer seu filho no berço da miséria.
Um lugar onde só tinham como atração,
o bar e o candomblé pra se tomar a benção.
Esse é o palco da história que
por mim será contada.
...um homem na estrada.
Homem na estrada – Racionais MC’s
Nesta seção, apresentamos os resultados e a discussão dos dados como elementos
norteadores para a resolução do problema desta pesquisa. Os dados estão organizados na
ordem: a Análise de Redes Sociais na Internet com o apontamento das principais métricas e as
comunidades encontradas; em seguida os resultados do formulário online e a discussão dos
tópicos pertinentes; e por fim as entrevistas semiestruturadas com os representantes das
páginas que se destacaram na rede.
6.1 Estrutura e relações do afroempreendedorismo a partir da análise de redes
sociais na internet
A listagem base21
- também chamada de ‘sementes’, pois são as que iniciam o
processo de ramificação da rede - de páginas da plataforma Facebook para a construção da
rede foi composta pela coleta de 120 páginas que contém os termos “afroempreendedorismo”,
“afroempreendedor”, “empreendedor negro”, “afro”, “negro”, “black” e variações nos títulos
ou descrições das páginas no Facebook com profundidade de rastreamento 1 22
no Netvizz
(RIEDER, 2013). Ao mesclar todas as referências e suas conexões, gerou-se uma rede
direcionada de 1.300 nós e 3.624 arestas. Para visualização, aplicamos o layout Force Atlas 2
23
no Gephi (BASTIAN, 2009).
21
A lista completa pode ser encontrada nos apêndices 8.2.
22
Esse nível de profundidade de coleta mostra as páginas que as páginas semente curtem. Numa profundidade de
rastreamento 2, mostraria quais páginas as páginas que curtem as páginas sem entes também curtem.
23
Layout cujo algoritmo é direcionado pela força entre os nós, causando atração e repulsão entre nós de acordo
com as variáveis.
63
Essa rede, conforme mostra a figura 1, tem grau médio de 2,78824
; grau ponderado
médio de 3,03225
; diâmetro da rede de 1326
, densidade do grafo de 0,00227
, modularidade de
0,679 com 79 comunidades28
e componentes conectados de 6329
. Ou seja, temos uma rede
relativamente extensa, de acordo com seu diâmetro, uma vez que uma informação teria que
passar por 13 nós, em média, para chegar a todos os atores. A densidade nos mostra que é
uma rede pouco conectada, na medida em que o grau de densidade máximo de um grafo é 1 e
com muitas comunidades de acordo com a modularidade, ou seja, há diversos subgrupos
dentre da rede analisada. O número de componentes conectados demonstra que há diversos
grupos desconectados no grafo.
24
A métrica permite a identificação do nó com maior número de conexões.
25
A métrica ponderada entre grau de entrada e saída médios.
26
A métrica mede a maior distância entre nós da rede.
27
A métrica informa a quantidade de conexões em relação ao número total de conexões possíveis no grafo.
28
A métrica permite a identificação dos clusters.
29
A métrica informa um conjunto de nós ligados por um conjunto de arestas.
64
Figura 1: Rede de Afroempreendedorismo por cluster
Fonte: Elaboração própria.
65
Deste modo, observamos uma rede de atributos diversos, não homogêneos e com
representações que demonstram especificidades, como veremos na descrição, atribuída por
inferência analítica, das comunidades a seguir.
A comunidade em rosa (Moda e Acessórios) tem 107 nós (17,31% da rede) que são
compostos em sua maioria por páginas relacionadas à venda de acessórios como brincos,
turbantes ou que tratam de moda especificamente. Se destacam nesse cluster, a partir do grau
de entrada, as páginas Mulher Negra e Cia – by Opinião da Preta e Boutique de Krioula, que
são responsáveis por conectar a rede deste cluster com 26 e 25 graus respectivamente. E as
páginas AFROPUNK e Jazz Ngz são responsáveis por conectar nós a partir de seus
posicionamentos na rede. Nesse cluster muitas representações evocam a estética e beleza
negra, sobretudo da mulher, e ainda páginas que remetem ao cuidado com a autoestima de
crianças como Quilombo dos meninos crespos, Meninas de cabelos Crespos e Encrespando
por Meninas Black Power.
A comunidade na cor verde (Comunicação Alternativa e Direitos Humanos) tem 163
páginas (13,23% da rede) cujo os principais destaque por grau de entrada são Geledés
Instituto da Mulher Negra, Igualdade Racial, Blogueiras Negras, Fundação Cultural
Palmares, Portal Correio Nagô, Anistia Internacional, 2015 - Marcha das Mulheres Negras,
Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, AFREAKA, ONU Brasil e Por dentro da África.
De modo geral, aparecem nesse cluster alguns coletivos, sobretudo de mulheres negras,
organizações não governamentais, mídias alternativas e periféricas e personalidades como
Sueli Carneiro e Douglas Belchior. O Projeto Brasil Afroempreendedor tem o maior grau de
saída (218), tornando-se um importante conector na comunidade.
No cluster azul (Empregabilidade e Afroempreendedorismo) (12,46% da rede)
destacam-se por grau de entrada a página da Feira Cultural Preta, Museu Afro Brasil,
Catraca Livre, Observatório das Favelas, Era Uma Vez o Mundo, KBELA e Empregueafro -
Consultoria em RH e Diversidade. Essa comunidade tem 113 nós, e suas principais
características são as diversas páginas de grupos, redes e associações como Rede Mulheres
Negras de Sergipe, Afro Lab, MulheresDigitais.ORG, Marcha do Orgulho Crespo Brasil,
ID_BR, Movimento Black Money, entre outros. A Feira Cultural Preta e Empregueafro -
Consultoria em RH e Diversidade são as páginas que mais conectam na rede desse cluster; a
primeira tem grau de entrada e de saída quase equivalentes: 46 e 58 respectivamente.
Enquanto a Empregueafro - Consultoria em RH e Diversidade cumpre esse papel pelo seu
grau de saída de 53.
66
Na comunidade em laranja (Pedagogia, Produção Cultural e Eventos) (7,54% da rede)
destacam-se por grau de entrada as páginas Era Uma Vez o Mundo, que desenvolve bonecas
negras a partir de um trabalho pedagógico, e Odarah Cultura e Missão, focada em
desenvolver eventos para a comunidade negra, com 20 e 15 de grau de entrada
respectivamente. Nesta comunidade aparecem artistas negros brasileiros, como Mart'nália,
Gaby Amarantos, Gilberto Gil, Elza Soares, Milton Nascimento, Sandra de Sá, Mariene de
Castro, entre outros.
A comunidade lilás (Continente Africano) é composta por 68 nós (5,23% da rede) e
sua principal característica é a relação Brasil-África, todavia é uma comunidade que se afasta
da centralidade da rede. Podemos observar que a página Afrochamber - Câmara de Comércio
Afro-Brasileira tem grau de saída em 40 que conecta com as páginas de Embaixadas do Brasil
em de países do continente Africano. A página Lafrikana conecta essa comunidade com a
parte central da rede.
No cluster preto (Rappers) encontramos 107 nós (8,31% da rede) que também se
distanciam consideravelmente da massa da rede como um todo. Nessa comunidade temos os
elementos do hip hop, os rappers, as produtoras e distribuidoras e páginas relacionadas às
batalhas de rima. Além disso, observamos as lojas de seus respectivos selos como
Laboratório Fantasma do rapper Emicida e de seu irmão Fióti, VVAR e Loja do Cone Crew
Diretoria. A página Afreeka é responsável por 108 de grau de saída, enquanto o rapper
Emicida se destaca pelo grau de entrada com 29. As páginas Mídia Periférica, Turbante-se e a
Feira da Cidade são as responsáveis por conectar esse cluster ao restante da rede.
No cluster verde musgo (Beleza e Estética) temos 59 nós (4,54% da rede) que são
compostos por salões de cabelo conectados principalmente pela página Preta Brasileira com
40 de grau de saída. As páginas Cabelos cacheados e crespos e Salão Afro Odara tem ambas
10 de grau de saída, também responsáveis por grande parte das conexões dessa comunidade.
Por fim, no cluster salmão (Serviços), observamos 54 nós (4,51%) que têm como
principais páginas negócios de Afroempreendedores, tais como Afro Negócios, responsável
pelo elo com o centro da rede, Espaço Cultural Bonecas Makena, Coaching da Cor School,
Raiz Moda Afro, entre outras.
Portanto, a partir da estrutura da rede observamos a predominância de representações
que valorizam e reforçam a estética negra, sobretudo no primeiro cluster e elementos que
surgem também nas demais comunidades. A rede nos mostra páginas que representam certa
preocupação com problemas sociais como as que aparecem na comunidade de Comunicação
Alternativa e Direitos Humanos. Importante ressaltar a quantidade expressiva de páginas de
67
veículos de comunicação que atuam como uma ferramenta alternativa de fluxo de informação
e que explicitam em seus títulos a questão racial ou de território, como Alma Preta, Mundo
Negro, Por Dentro da África, Blogueiras Negras, Portal Correio Nagô e Mídia Periférica.
Outro aspecto de destaque são os diversos artistas negros que aparecem em pelo menos três
comunidades distintas. Assim, podemos destacar que principais temáticas relacionais da rede
de afroempreendedores tratam de estética e beleza, problemas sociais e direitos humanos,
comunicação e artes. Elementos que não permeiam especificamente a prática
afroempreendedora, mas que sugerem um entrelaçamento com a própria identidade e vivência
da população negra.
6.2 Perfil e percepções dos afroempreendedores
O formulário online30
circulou entre os dias 15 de abril de 2019 e 09 de maio de 2019, e
obteve um total de 141 respostas31
, dentre as quais 69,5% são do gênero feminino e 30,5% do
gênero masculino. A respeito da faixa etária 58,6% dos respondentes têm entre 26 e 41 anos
e, quanto à religião, 33,3% declararam praticar alguma religião de matriz africana,
Candomblé ou Umbanda, enquanto 31,9% afirmam não ter religião. A maioria dos
respondentes é composta por heterossexuais (78,7%), solteiros (49,6%) e casados ou morando
com companheiros (36,2%).
30
O método foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFABC e todos os respondentes concordaram
com o procedimento. Verificar documentação no Apêndice.
31
As perguntas se encontram no Apêndice 8.5.
68
Gráfico 4: Gênero, faixa etária e estado civil dos afroempreendedores no formulário
online
69
Fonte: Elaboração própria.
A maioria dos respondentes é do estado de São Paulo (57,4%), seguido de Bahia
(14,9%) e Rio de Janeiro (10,6%). Os outros 17% estão divididos entre 7 estados. Sobre a
escolaridade, 29,8% afirmam ter curso superior completo, 22% pós-graduação completa e
14,9% superior incompleto, enquanto 39% afirmam que tiveram acesso a alguma política
educacional. Entre as políticas educacionais, as citadas foram FIES (Financiamento
Estudantil), bolsa interna de instituição privada, cotas raciais e sociais, Programa Escola da
Família, ProUni (Programa Universidade para Todos) e ajuda de custo empresarial. Entre os
que têm superior completo, cursando ou incompleto, a maioria (19,1%) encontra-se na faixa
de idade entre 26 e 33 anos, e, desses, 55,5% são beneficiários de alguma política
educacional. Entre a faixa etária de 42 anos para cima, somente duas pessoas foram tiveram
contato com algum benefício educacional, entre elas uma bolsa de instituição privada e uma
por cota social.
70
Gráfico 5: Estado e Escolaridade dos afroempreendedores no formulário online
Fonte: Elaboração própria.
Sobre o porte da empresa, 60,3% afirmam que são profissionais autônomos, enquanto
38,3% possuem uma Microempresa (de até 9 empregados) e 3,5%, uma empresa de pequeno
porte (de 10 a 49 empregados). Já em relação à atividade desempenhada, 59,6% assinalaram o
ramo de serviços, 24,1% no comércio e 15,6% em ambos os casos. Quanto ao tempo de
71
atuação, 51,1% possuem entre dois e cinco anos, 25,5% menos de um ano, 14,2% entre cinco
e dez anos e 9,2% mais de dez anos.
Gráfico 4: Porte, atividade e tempo de atuação da empresa dos afroempreendedores no
formulário online
72
Fonte: Elaboração própria.
Nas questões relacionadas à formalização, 72,5% afirmam que sua empresa é
formalizada, enquanto 27,5% estão sem formalização. Entre os formalizados (109
respondentes), o tipo de formalização que predomina é o Microempreendedor Individual
(74,3%), seguido de Sociedade Empresarial Limitada (9,2%), Sociedade Simples (7,3%) e
Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (5,5%). A respeito de funcionários, 73%
assinalam que não tem funcionários, enquanto 27% afirmam ter funcionários; desses, a
maioria (85,4%) afirma que são de 1 a 5 funcionários. Já sobre faturamento, 72,3% afirmam
faturar até 5 mil reais por mês e 17,7% entre 5 e 10 mil reais por mês. Entre os profissionais
autônomos, 87,8% faturam até 5 mil reais por mês. Vale destacar que nas Microempresas a
mesma faixa de faturamento também é maioria (53,7%). Já entre as empresas de pequeno
porte (3,5%), o faturamento fica em torno de mais de 15 mil reais para 60% delas.
73
Gráfico 5: formalização, funcionários, tipo de formalização e faturamento dos
afroempreendedores no formulário online
74
Fonte: Elaboração própria.
Entre os respondentes, 50,3% afirmam que seu empreendimento é a única forma de
obtenção de renda e 49,6% que não é a única maneira de obter renda. Entre os que possuem
outras formas, as principais são o emprego formal para grande parte dos respondentes, outras
75
atividades autônomas como trancista, representação comercial, motorista, segurança,
comunicação, artes e relacionadas à espiritualidade. Há ainda entre as atividades, consultorias,
palestras e aulas particulares, apoio de renda da família, estágio, aposentadoria, bolsistas de
programas educacionais, aluguel de imóveis e usufruto do Fundo de Garantia por Tempo de
Serviço (FGTS). Sobre as atividades exercidas antes de se tornar um afroempreendedor,
62,4% afirmam ter um emprego formal anteriormente e 18,4% ainda estão empregados
paralelamente à atividade empreendedora.
Gráfico 6: formas de obter renda e emprego formal dos afroempreendedores no formulário
online
76
Fonte: Elaboração própria.
Quanto a se sua atividade empresarial tem relação com alguma temática da cultura
negra, 51% dos respondentes afirmam que sim. Já sobre se o foco da sua atividade é em
consumidores e clientes negros, 52% dizem que não. Entre os que afirmam que suas
atividades são focadas na temática negra, encontram-se: espaço de mobilização e fomento do
afroempreendedorismo, escolas de idiomas, pesquisa de mercado, consultorias em
diversidade, comunicação, estilo, educação, projetos sociais e de recursos humanos, produção
cultural, conta digital (fintech), clube de assinaturas, estabelecimentos relacionados à estética
negra e confecção e vendas no campo de moda e acessórios.
Sobre movimentos sociais, 92,2% afirmam que participam ou têm interesse. Entre os
movimentos sociais foram citados o próprio afroempreendedorismo, com iniciativas como o
Movimento Black Money, a BlackRocks Startups, AfroBusiness e Reafro. Aparecem ainda
atividades relacionadas à educação, como cursos de formação ou movimentos estudantis
negros dentro de universidades, ainda o movimento negro, feminista e de mulheres negras,
movimentos relacionados à arte e estética, com destaque para o movimento hip hop muito
lembrado entre os respondentes. Nessa pergunta somente uma pessoa sinalizou partido
político, sendo esse o Partido dos Trabalhadores (PT). Há pessoas que participam de vários
movimentos sociais ao mesmo tempo e entre esses aparecem movimentos por moradia, por
terra e por negros e indígenas.
77
Gráfico 7: Cultura e consumidores negros; Movimentos sociais dos afroempreendedores no
formulário online
Fonte: Elaboração própria.
78
Sobre o conceito de Black Money32
, 85,1% afirmam conhecer, 84,4% mantém contato
com outros afroempreendedores e 94,3% afirmam ter preferência em utilizar serviços ou
comprar de outros afroempreendedores. A respeito de organizações, associações e pessoas
que promovem o afroempreendedorismo, 57,4% afirmam conhecer alguma e 42,6% não
conhecem esses agentes promotores. Entre as personalidades citadas aparecem Adriana
Barbosa e Monique Evelle com 4 menções cada, Nina Silva, Luana Teoffilo, Maitê Lourenço
e Paulo Rogério com duas menções cada, e mais 12 nomes citados com uma menção cada. Já
sobre organizações se destacam Movimento Black Money (20), Feira Preta (19), Afrobusiness
(14) e BlackRocks Startups (8). Nessa questão aparecem ainda citações a grupos originados
no Facebook, como A Ponte para Pretx, Preta comprando de Preta e Publicitários Negros,
esse último citado quatro vezes.
Gráfico 8: Black Money, contato e preferências com afroempreendedores e conhecimento de
organizações promotoras
32
Nome dado ao ato de consumir produtos e serviços de Afroempreendedores.
79
80
Fonte: Elaboração própria.
Entre os respondentes, 62,4% afirmam que tinham emprego formal antes de se
tornarem empreendedores, e entre as razões pelas quais optaram por essa forma de trabalho
estão: a busca por propósito, a realização de um sonho, autonomia, flexibilidade, não querer
ser uma pessoa empregada e receber ordens de pessoas brancas. Apareceram ainda diversas
formas de oportunidades, como após demissão, por demanda do mercado ou por parcerias
estabelecidas. Há ainda três pessoas que sinalizaram questões relacionadas à idade avançada e
à falta de oportunidade no mercado formal, então por necessidade decidiram empreender.
Sobre o enfrentamento de dificuldades por ser um empreendedor negro, 61,7% afirmam que
enfrentam dificuldades e entre as citadas se destacam a falta de credibilidade com possíveis
clientes, fornecedores ou em visitas a lugares, problemas relacionados à concessão de crédito
bancário e o racismo explícito.
Sobre o uso de internet, 98,5% afirmam utilizar a ferramenta no empreendimento e
dentre esses usos estão: para o envio de mensagens aos clientes ou parceiros, redes sociais da
empresa, para participar de grupos, site da empresa, blog da empresa, pesquisas de mercado e
tendências, organização e gestão, reuniões, entre outras.
De modo geral o formulário nos indica que o afroempreendedorismo tem em sua
prática mulheres, pessoas jovens e solteiras. A justificativa em pontuar a prática religiosa se
faz interessante para averiguar se as tradições africanas e afro diaspóricas são mantidas entre
81
os afroempreendedores, sendo essas também portadoras de valores e identidades que
demarcam a população negra no Brasil. Entre os respondentes a maioria sinaliza prática de
religião de matriz africana.
A maioria dos afroempreendedores: trabalha sozinha, presta serviços, está entre os
primeiros 5 anos de atividade e com faturamento até 5 mil reais por mês. Esse dado reforça
características da “empresa de si mesmo” debatido no capítulo 4. Vale observar ainda a
necessidade desse comparativo com tipo de serviço, tempo de atuação e faturamento entre
empreendedores não negros.
Sobre os negócios com foco em temática negra, as respostas nos apontam a uma
diversificada gama de serviços e produtos, sobretudo serviços que exigem qualificação
técnica, como as consultorias em comunicação, estilo, educacional, projetos sociais e recursos
humanos. Outras alinhadas ao campo da inovação como a fintech, pesquisa de mercado e
clube por assinaturas. O interesse em movimentos sociais é o índice quase unânime mais
preponderante, 92,2% tem proximidade, participação ativa ou interesse em movimentos
sociais. Aqui vale ressaltar em como os próprios movimentos de afroempreendedorismo são
apontados como movimentos sociais.
A forte relação entre os afroempreendedores demonstrada na pergunta sobre o contato
e a preferência em adquirir serviços ou produtos de outros afroempreendedores deixa evidente
a importância da comunidade e o dinheiro circulando entre o grupo co-étnico. Os nomes mais
lembrados na questão sobre pessoas e organizações referências ressalta novamente a forte
atuação das mulheres negras que, ou são citadas diretamente por seus nomes, ou estão à frente
das organizações citadas. Vale destacar os grupos de Facebook citados que, embora não são
formalizados como organizações fora do ambiente digital, são vistos como forma de
promover o afroempreendedorismo. A Feira Preta e a Adriana Barbosa, sua fundadora, são
destaques tanto na rede quanto entre as referências citadas, legitimando seu importante papel
no desenvolvimento do afroempreendedorismo no Brasil.
Tanto sobre a razão de se tornar um afroempreendedor quanto nas dificuldades em ser
um afroempreendedor observamos o racismo estrutural como epicentro de grande parte das
causas apontadas: como não querer receber ordens de pessoas brancas ou a falta de
credibilidade ao não corresponder o imaginário do empreendedor não-negro.
Nota-se certa proximidade com a teoria da economia étnica quando os respondentes
sinalizam que mantêm contato com outros afroempreendedores, têm preferência por utilizar
serviços e comprar de outros afroempreendedores e por quase 60% dos respondentes
82
conhecerem e apontarem referências de pessoas e organizações que promovem o
afroempreendedorismo.
É interessante observar que o grau de escolaridade é bem elevado e há mais serviços
técnicos que comércios, contrapondo-se a uma lógica de mão de obra braçal, herança do
período escravocrata. Ainda que que seja uma questão problemática que a maioria dos
afroempreendedores sejam “empresas de si”, é interessante observar que a maioria é
formalizada. Porém, grande parte dos afroempreendedores faturam até 5 mil reais por mês e
também a maioria mantém atividades paralelas para se sustentar além do empreendimento,
apontando aspectos relacionados ao racismo estrutural como condicionantes das dificuldades
em manter suas atividades.
Possivelmente o dado mais destacado dessa etapa, 92,2% se interessam por
movimentos sociais. Dentre esses, diversos que promovem desenvolvimento pessoal,
educacional e técnico e pela garantia de direitos fundamentais. No uso da internet e seu
ferramental observamos dialetos específicos, como alguns respondentes que colocaram o
nome da referência com a @ na resposta do formulário como se fosse “linkar” na mídia
social. Ainda, as formas de se estabelecer relacionamento, como enviar mensagens aos
clientes e participar de grupos, aparecem de modo destacado na ordem de prioridades dos
afroempreendedores, antes de formas de promover a visibilidade da empresa, capacitação e
organização.
Alguns dos resultados nos levam a outras questões, tais como: por que há mais
mulheres do que homens no circuito afroempreendedor? Por que mais pessoas jovens e
solteiras? Será que o maior grau de escolaridade influencia na opção por ser
afroempreendedor? Quais as razões que levam aqueles com negócios focados em algum
aspecto da cultura negra optarem por isso? Por fim, vale pontuar alguns aspectos
metodológicos que podem enviesar os resultados, como grande parte dos respondentes serem
do estado de São Paulo e o formulário ter circulado somente online, o que talvez já elimine
uma gama de perfis de afroempreendedores sem acesso à internet.
6.3 Trajetórias e vivência do afroempreendedorismo pelos nós em destaque
83
As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com quatro afroempreendedores33
responsáveis por páginas que se destacaram na rede pelo grau de entrada34
. São eles: Jaciana
Melquiades da ‘Era Uma Vez o Mundo’, Wanessa Yano, da ‘Ayê Acessórios’, Michelle
Fernandes, da ‘Boutique de Krioula’ e Evandro Fióti, da ‘Laboratório Fantasma’. As
perguntas variaram entre a trajetória pessoal de cada afroempreendedor, a rotina e a
importância das ferramentas da internet, sobretudo os sites de redes sociais, o
afroempreendedorismo e a relação com a identidade, posicionamentos e perspectivas políticas
e a relação do afroempreendedorismo com o sistema capitalista que estrutura e perpetua o
racismo. Abaixo apresentamos uma síntese de cada entrevistado35
.
6.3.1 “Eu acredito no poder que a educação tem de transformar” – Jaciana Melquíades
Jaciana Melquíades, 36 anos, é historiadora e moradora da cidade do Rio de Janeiro.
Além de sócia-fundadora da ‘Era Uma Vez o Mundo’, Jaciana também lidera o Coletivo
‘Meninas Black Power’, que promove discussões raciais com foco em meninas negras na
internet e posteriormente em atividades em escolas. A ‘Era Uma Vez o Mundo’, fundada em
2017, é uma empresa de impacto social que visa desenvolver brinquedos com viés
educacional e representativo, sobretudo para crianças negras. Seu foco principal de negócios é
de educadores que podem utilizar os brinquedos e os livros produzidos nas atividades em sala
de aula, principalmente quando estas são relacionadas à Lei 10.639, que trata da
obrigatoriedade do ensino de África no ensino básico.
Sobre sua trajetória, Jaciana afirma que o processo de empreender foi intuitivo, pois
não havia um planejamento sobre seu início e seus objetivos enquanto afroempreendedora.
Tudo começou pela necessidade de oferecer a seu filho relações pedagógicas lúdicas com
representação racial. Após criar bonecos para ele, passou a desenvolver de forma mais
organizada atividades escolares e muitas pessoas passaram a pedir o material, então Jaciana
começou a vender suas criações por encomenda. Somente em 2017 é que ela buscou se
capacitar com um curso de especialização em gestão de negócios, processos seletivos para
aceleração de negócios, participação em cursos, oficinas e palestras, entre outras atividades
que a levaram a desenvolver aspectos técnicos de seu negócio.
33
O método foi autorizado pela Comitê de Ética em Pesquisa da UFABC e todos os entrevistados assinaram o
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), verificar documentação no apêndice 8.1.
34
A listagem inicial constava de 10 a 15 páginas com o critério, porém, como houve dificuldade no contato e
respostas dos representantes das iniciativas, fechamos o trabalho com as fontes que atenderam a solicitação.
35
As transcrições completas encontram-se no apêndice 8.7.
84
A respeito das mídias sociais, Jaciana afirma que são elas que dão relevância para o
seu trabalho. Para ela, tanto como pessoa física como empresa, há uma necessidade em se ter
relevância e de ser "ouvida". A utilização da internet e de suas ferramentas é a forma como
Jaciana encontra para driblar a falta de recursos e alcançar mais pessoas que possam ter
interesse em seu trabalho, segundo ela: “A internet é hoje o jeito mais simples e mais fácil”.
Já sobre a relação entre os afroempreendedores, Jaciana pontua que é ruim pois as
pessoas competem muito. Segundo ela, em 2015 houve um crescimento muito grande de
eventos, feiras, cursos e criação de novos negócios, porém muitos empreendimentos
abordavam o mesmo escopo, então havia uma competição acirrada entre esses. E completa
afirmando que há um auto boicote entre os afroempreendedores, não há o compartilhamento
de oportunidades e de conhecimento. Ela questiona como compartilhar, por exemplo, seus
conhecimentos adquiridos na especialização em gestão de negócios sem ser lida como
arrogante. Para Jaciana tudo isso atrapalha o ecossistema empreendedor que poderia ser fértil,
mas acaba andando muito devagar. Jaciana também vê certa desorganização no
afroempreendedorismo que, segundo ela, pode ser em decorrência da falta de formação.
Exemplifica com tarefas que acabam indo para o lado pessoal do afroempreendedor, como
contratação de pessoas ou o estabelecimento de laços afetivos no ambiente de trabalho. Para
ela, o afroempreendedorismo trabalha de forma diferente do empreendedorismo não-negro,
paradoxalmente talvez fosse bom se moldar à maneira tradicional, mas também não tão
vantajoso se moldar a um modo branco de empreender.
Em relação a posicionamentos políticos por parte dos afroempreendedores, Jaciana
afirma que vê posicionamentos e acredita que isso ocorre, pois a maioria dos
afroempreendedores assim o são para suprir necessidades e pela falta de recursos da
população negra. De modo geral, ela acredita que os afroempreendedores estão sempre
engajados em pautas raciais e coletivas. Refere-se, principalmente, a problemas estruturais e
que os afroempreendedores criam seus negócios para suprir algumas dessas demandas, que se
intensificam com a aproximação de movimentos sociais, como citado nos resultados
apresentados na seção anterior.
Sobre acesso ao crédito, Jaciana afirma que na primeira conta jurídica que abriu, a
gerente perguntou se usaria a máquina de cartão de crédito para se prostituir. Ela compartilha
esse caso para exemplificar o tratamento desigual oferecido para pessoas negras em
instituições bancárias. Embora esteja nesse momento em um banco que atende suas
85
necessidades, ela sente dificuldades no pleno entendimento das opções de crédito. Ainda
sobre questões financeiras, Jaciana acrescenta que a "pejotização”36
leva as pessoas a
acreditarem que estão abrindo um negócio, quando na verdade faltam-lhes planejamento,
visão de futuro e possibilidades de expansão.
6.3.2 “A busca pela autonomia, me fez virar empreendedora” – Wanessa Yano
A segunda entrevista foi realizada com Wanessa Yano, 28 anos, profissional da área
de moda e marketing, sócia-fundadora da ‘Ayê Acessórios’ desde 2012. A ‘Ayê’ é uma
marca nascida na periferia da cidade de São Paulo e tem como objetivo desenvolver
acessórios artesanais com referências africanas na diáspora para que se fale de um resgate de
valores culturais e tradições que foram esquecidas, segundo sua própria descrição, ao longo
do tempo. A marca preza por comércio justo, local e consciente, e as peças são produzidas por
artistas africanos e da diáspora.
Sobre seu relato de trajetória, Wanessa também afirma que a internet é a base de seu
negócio, as mídias sociais são ferramentas indispensáveis e grande parte das vendas de seus
produtos vem do resultado de publicidade online nas mídias sociais.
Para Wanessa, a relação entre os afroempreendedores reflete as relações entre a
população negra de modo geral: são patológicas, dolorosas e difíceis. Para ela também não há
uma divisão estabelecida entre pessoa jurídica e física, e isso dificulta as relações
empresariais.
Sobre a questão da precarização das leis trabalhistas, Wanessa afirma que é o mesmo
que o aval do retorno da escravidão ou uma escravidão moderna. Para ela, a precarização
dificulta a vida das pessoas, sobretudo em relação aos contratos intermitentes e o discurso de
glamourização do empreendedorismo que dão a falsa ilusão de alta rentabilidade e
flexibilidade de jornada de trabalho.
Todavia, Wanessa vê com positividade a relação do afroempreendedorismo com
questões relacionadas à política. Para ela, há mais diálogo sobre encarceramento em massa,
genocídio da população negra, entre outros temas. Mas também afirma que a venda de
produtos por si só não modifica cenários, é preciso ir além no ecossistema empreendedor.
Sobre a afirmação "uma luta antirracista tem que necessariamente ser anticapitalista", ela
36
Nome pejorativo para se referir à contratação de profissionais como Pessoa Jurídica e não contrato de trabalho
formal.
86
discorda e afirma que mesmo em uma estrutura socialista de sociedade haveria racismo, pois
este é a manifestação de dominação e poder sob uma raça e não sobre poder econômico.
6.3.3 “O principal elemento da identidade é esse poder da gente fazer muito com pouco”
– Michelle Fernandes
A terceira entrevista foi realizada com Michelle Fernandes, 36 anos, cofundadora da
‘Boutique de Krioula’ desde 2012. A Boutique começou com a venda de turbantes, acessórios
muito popularizados no Brasil com forte referência à cultura africana, mas atualmente
Michelle vende também outros acessórios. Além disso, Michelle é youtuber e mantém canal
sobre moda, estética e beleza com foco em mulheres negras.
Michelle conta que seu início foi também sem planejamento. Primeiro começou a
comprar turbantes para si mesma com forma de ter uma referência negra. Quando muitas
pessoas passaram a questionar onde ela havia adquirido os produtos, ela percebeu que ali
havia uma oportunidade, então fez uma página no Facebook e avisou suas amigas. Esse
período coincidiu com sua demissão no emprego formal, o que encadeou o desenvolvimento
prioritário da ‘Boutique de Krioula’.
Para Michelle, a prática empreendedora está presente nas famílias negras muito antes
de se tornar um conceito, exemplifica contando que sua avó e sua mãe que sempre tiveram
atividades paralelas como forma de obter renda. Sobre identidade, complementa afirmando
que o principal elemento da identidade é a garra e força de fazer muito com pouco.
Além de seu negócio se iniciar pelas plataformas, Michelle afirma que as mídias
sociais são o contato direto com o cliente e que a principal mídia atualmente é o Instagram,
para mostrar os bastidores da produção das peças. Já os contatos são realizados
principalmente pelo WhatsApp. Para ela, as mídias sociais são o que fazem a empresa se
manter no mercado.
Sobre o contexto político atual, Michelle afirma não ter perspectivas boas, sobretudo
por se tratar de um governo racista, machista e homofóbico, e com uma sociedade de pessoas
declaradamente intolerantes e preconceituosas. Para ela, as oportunidades estão cada vez mais
difíceis, mas segue trabalhando para manter a empresa na esperança de dias melhores. Em
relação à questão de a luta antirracista ser anticapitalista, Michele não concorda e afirma que
pessoas brancas ganham dinheiro fazendo produtos para todas as pessoas e que ela não pode
realizar seu trabalho apenas por amor. Afirma que é um trabalho como outro qualquer, com
processos e pessoas envolvidas que merecem ser muito bem remuneradas. Para Michelle, as
87
pessoas negras precisam entender que com seu poder aquisitivo e de escolha elas podem
mudar todo o mercado e fortalecer, principalmente, os pequenos afroempreendedores.
6.3.4 “Então a gente percebeu que a gente tinha um propósito muito grande” – Fióti
Por fim, a última entrevista foi realizada com Evandro Fióti, 30 anos, cofundador do
selo ‘Laboratório Fantasma’ ao lado deu seu irmão, o rapper Emicida. Fióti afirma que a
existência da ‘Laboratório Fantasma’ só foi possível a partir da junção de diversos fatores do
contexto, dentre os quais: o avanço tecnológico e a criação de diversas plataformas mais
acessíveis para artistas, como o Youtube e Facebook; a própria conjuntura política da época,
que fazia o Brasil estar bem posicionado perante o resto do mundo; e mecanismos de
produção acessíveis financeiramente, como os CD's que eles mesmos produziam e vendiam
nas ruas, coletivos de transporte públicos e na porta de eventos por R$2,00.
Sobre o crescimento da empresa, Fióti relata que sentiu necessidade de se
profissionalizar conforme as variadas demandas foram crescendo. Hoje, segundo ele, a
Laboratório Fantasma alimenta cerca de 200 famílias mensalmente, entre colaboradores
diretos, prestadores de serviços e empresas associadas. Fióti também fala da sua relação de
amor pelo que faz e a dificuldade em transformar sua arte em negócio sem perder sua
essência. Para ele foi importante estabelecer um propósito de transformação. Esse propósito,
segundo ele, é uma questão ancestral que pessoas negras herdam e colocam em prática,
principalmente no que se refere à busca incessante de se reconectar com o outro, e
complementa afirmando que para a Laboratório Fantasma chegar onde está hoje foi necessária
a colaboração de muitas pessoas que se sentiam representadas pelo propósito.
Sobre o papel da internet em sua trajetória, Fióti afirma que a ferramenta foi essencial
para a solidez do negócio e que plataformas como Orkut, Youtube e Facebook tornaram
possível expandir a visibilidade do trabalho que antes era feito somente nas ruas. Para ele,
alguns gêneros souberam "hackear" o sistema e eles fizeram isso com o hip hop no Brasil.
Porém afirma que, assim como os meios de massa como a TV e o Rádio, a internet também
pode ser uma ferramenta empregada para o mal e é preciso saber usá-la.
Quando questionado sobre posicionamentos políticos no afroempreendedorismo, Fióti
afirma que a empresa em si já tem posicionamentos firmes em decorrência da postura de seus
dois porta-vozes (Fióti e Emicida). Para ele, as três marcas se misturam, mas não é em toda
ocasião em que isso ocorre. Exemplifica com os apoios políticos explícitos da marca na
contraposição ao golpe da Presidente Dilma Rousseff, apoio ao movimento secundarista e as
88
recentes paralisações dos trabalhadores. Afirma ainda que é necessário saber brigar com as
armas que se tem dentro do ecossistema dos negócios e assim encontrar um equilíbrio e
espaços para diálogo. Para ele, isso só ocorre quando existe uma autossuficiência da empresa
em relação ao mercado.
Fióti compartilha que em 2017 a ‘Laboratório Fantasma’ esteve entre as marcas mais
lembradas como referência de empreendedorismo entre os jovens, e se orgulha, pois para ele
esse fato se encaixa no propósito de transformação citado acima, sobretudo na perspectiva de
que é possível ser outras coisas além de empregado de outra pessoa. Ele ressalta a importância
desse reconhecimento ocorrer com marcas da periferia e afirma que atualmente a ‘Laboratório
Fantasma’ está localizada estrategicamente em um bairro da cidade que transita entre o centro
e as periferias37
. Quando questionado sobre a diversidade de seus colaboradores, Fióti afirma
que isso é um valor que tem que ser levado a sério na área de Recursos Humanos da empresa
e afirma que ao contratar leva em consideração características como competência, qualidade,
mas também de onde a pessoa vem, o gênero, de qual grupo social ela pertence e assim por
diante. Exemplifica dizendo que a maioria dos colaboradores da Lab são negros e que tem
como horizonte equilibrar melhor o quadro de gênero. Atualmente essa divisão fica em torno
de 65% de homens e 35% de mulheres. Sobre essa temática, Fióti ainda afirma que por vezes
é difícil encaixar todos os requisitos da oportunidade de emprego com pessoas de grupos
minorizados e, para ele, isso é reflexo da falta de oportunidades de capacitação técnica,
educação e a constante disputa com pessoas que foram privilegiadas a vida toda.
De modo geral, as entrevistas apresentam um contraponto divergente do formulário
sobre a relação estabelecida entre os afroempreendedores. Três dos quatro entrevistados
apontam aspectos que precisam ser melhorados na comunidade, como a competição entre si, o
compartilhamento de saberes, a formação técnica e a diferenciação entre as relações afetivas e
comerciais. Os entrevistados apontam os mesmos problemas em relação ao acesso financeiro,
situações de racismo e a descrença em perspectivas positivas em relação ao contexto político.
Resgatando a perspectiva de Garrido e Olmos (2006), podemos afirmar que a ‘Aye
Acessórios’ e a ‘Boutique da Krioula’ possuem perspectiva culturalista, ou seja, apresentam
características de auto emprego por questões religiosas, solidariedade em resposta a uma
sociedade hostil, negócios familiares e capital social. A ‘Laboratório Fantasma’ tem a
perspectiva ecológica: trata dos negócios em que grandes organizações não atendem ou
apropriações de grupos étnicos em nichos que eram atendidos por determinadas empresas e
37
Em Santana, na zona norte da cidade de São Paulo.
89
agora não são mais, pois estas avançaram na economia global. E, por fim, a ‘Era Uma Vez o
Mundo’ apresenta a perspectiva interativa, já que bens culturais relacionados ao país de
diáspora são os mais recorrentes entre negócios étnicos, a exemplo da culinária, livros, música
e roupas.
Há percepção de proximidade com a teoria da economia étnica quando observamos o
resgate de valores, representação de identidades e ícones históricos negros e laços afetivos,
embora esse último aspecto tenha indicado certa problemática, como pontuado acima. Há
ainda a afirmação do desejo de poder de compra entre os afroempreendedores para fortalecer
a comunidade e a contratação de pessoas negras no quadro de funcionários, como afirma
Fióti.
É interessante observar que novamente as mulheres são destaques no movimento
Afroempreendedor, sendo três de quatro das entrevistadas. Ainda, notamos que todos os
negócios partem de uma problemática racial, ou pela falta de referências no campo,
necessidade de se auto afirmar ou por necessidade de suprir uma demanda não atendida
anteriormente. Observamos ainda forte ligação entre temas políticos: os entrevistados
sinalizam que há posicionamento político no afroempreendedorismo, sobretudo pela
percepção das desigualdades sociais que atingem significativamente o grupo co-étnico.
Sobre o uso da internet e suas ferramentas, todos apontam como essencial para a
existência, crescimento e permanência dos negócios. Observamos usos estratégicos das
plataformas de mídias sociais, como Michelle que é youtuber, Jaciana que afirma usar para ter
relevância, e Fióti que fala de “hackear” o sistema como forma de desenvolvimento,
sobretudo a partir da reconfiguração de mercados que ocorre após a ascensão da internet e
suas apropriações sociotécnicas.
Por fim, a observação mais contundente dessa etapa trata da afirmação sobre a luta
antirracista ser uma luta anticapitalista. Os entrevistados discordam e relacionam a tratativa
com os empreendimentos de não negros que estabelecem suas práticas no mesmo sistema,
embora concordem que o racismo estrutural seja inerente ao capitalismo.
90
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Jão 1 por amor
2 por dinheiro
3 pela África
4 pros parceiro
que estão na guerra
sem medo de errar quem
quiser falar só
Deus pode julgar
1 Por Amor 2 Por Dinheiro – Racionais MC’s
A partir do conceito e das aplicações da teoria da economia étnica, consideramos
pertinente a aproximação com o afroempreendedorismo, embora também haja alguns
distanciamentos.
Dentre as aproximações, o reforço e orgulho da identidade negra postos desde os
próprios nomes dos afroempreendimentos e nas relações estabelecidas na rede que se
destacam pela necessidade de se auto afirmar enquanto pessoas negras, sobretudo a partir de
aspectos estéticos e de beleza.
O senso de comunidade também é um demarcador latente que aproxima as duas
variáveis, principalmente com o papel dos grupos e associações que promovem o
Afroempreendedorismo, discussões e formações técnicas como Feira Preta, Afrobusiness,
BlackRocks Startup, Movimento Black Money, Reafro entre outras, que ora se destacam na
revisão sistemática como objeto de estudo, ou na rede como nó predominante ou nas
devolutivas do formulário como referência no campo. Todas essas organizações e outras mais
citadas estabelecem relações coletivas em prol do afroempreendedorismo, dessa forma é
possível afirmar que há, portanto, uma comunidade situada.
Há ainda elementos como auto emprego e preferência de consumo dentro do grupo co-
étnico, como apontado tanto nas respostas do formulário, quanto nas entrevistas
semiestruturadas, ainda que nesta última tenham sido mencionados problemas com os limites
entre afetividade e relações comerciais.
Fica evidente, ao se atentar à historicidade da população negra no Brasil, as
consequências do regime escravocrata, que traz graves implicações ainda hoje para todas as
gerações de negros no país. Assim como nos resultados das três metodologias pelas quais as
representações e discursos proferidos apontam para mecanismos de autodefesa e articulação
estratégica, sobretudo em contraposição do racismo estrutural que os impede de avançar e
usufruir plenamente de direitos básicos, inclusive do direito à educação e ao trabalho digno.
91
Outro aspecto inclui a estrutura socioeconômica e política da sociedade brasileira na
contemporaneidade que dita determinados padrões na prática afroempreendedora, como
observado nas entrevistas semiestruturadas em que todos os afroempreendedores declararam
suas perspectivas a respeito de temas relacionados à política. Principalmente ao refletir sobre
o impacto da construção e condições futuras de seus negócios, afroempreendedorismo como
um todo e pautas essenciais para a população negra no Brasil.
O afroempreendedorismo se distancia da conceituação estabelecida da teoria da
economia étnica pela formação da população negra no país. Visto que o grupo co-étnico não
migrou, não recebeu políticas públicas governamentais para permanecer, muito pelo contrário,
conviveu décadas com políticas higienistas e convive ainda com as questões do genocídio da
população negra. Logo, o grupo vive em condição de diáspora, embora sem saber ao certo de
onde vem. Assim, estabelecer uma relação entre o afroempreendedorismo e a teoria da
economia étnica pode revelar um acréscimo ao campo de estudo, uma vez que há nítidas
aproximações em um contexto com nuances complexas não exploradas anteriormente.
É importante ressaltarmos também alguns aspectos e problemáticas estruturais
primordiais sobre o contexto da população negra. Os movimentos negros, de comunicação, de
arte e políticos empenhados nas questões sociais do grupo lutam por educação, trabalho e
renda há anos. Conquistas como políticas educacionais nas últimas décadas foram importantes
para alterar consideravelmente o cenário de exclusão. Observamos esse aspecto nos dados
obtidos via formulário pelo qual grande parte dos respondentes são graduados ou com graus
acima, e a maioria também foi beneficiada por alguma destas políticas educacionais,
possivelmente influenciando o deslocamento do afroempreendedorismo por necessidade para
o afroempreendedorismo por oportunidade.
Há questões preocupantes em relação ao discurso empreendedor cunhado na
precarização dos direitos trabalhistas, na "pejotização" e no avanço liberal de aplicativos de
economia compartilhada nativos das tecnologias e da internet, como Uber e afins, que
promovem e estimulam a prática das "empresas de si mesmo". Vemos este dado no
formulário quando a maioria dos respondentes se declara como profissional autônomo e com
faturamento de até cinco mil reais por mês. É necessário refletir sobre em até que medida este
escopo de atuação é afroempreendedorismo ou precarização de trabalhos que poderiam ser
exercidos amparados às leis trabalhistas. Ou ainda pensar até que ponto fatores relacionados
ao racismo estrutural limitam esse faturamento.
Os relatórios e levantamentos apresentados no capítulo quatro estabelecem
semelhanças com os dados apresentados a partir do formulário online. A exemplo, a presença
92
marcante de mulheres, o envolvimento em partidos políticos ou movimentos sociais e o
acesso dificultado ao crédito bancário, dado presente tanto no relatório de Mick (2016) quanto
na pesquisa feita por Paixão (2015). Neste último observamos com um pouco mais de
detalhes a discrepância do acesso ao microcrédito por negros e não negros e as razões
percebidas para a não liberação de crédito. Em alinhamento, nos deparamos com o
depoimento impactante na fala de Jaciana, da ‘Era Uma Vez o Mundo’, quando questionada
se sua ferramenta bancária seria utilizada para prostituição. Esses fatores nos levam a pensar
na necessidade de políticas públicas relacionadas ao acesso ao crédito, para o oferecimento de
formações técnicas, essa, inclusive, uma das queixas recorrentes nas entrevistas
semiestruturadas, bem como políticas permanentes de combate ao racismo. Como
demonstrado no levantamento feito a partir dos relatórios de atividades da Secretaria de
Políticas de Promoção da Igualdade Racial, havia planos para o desenvolvimento de políticas
públicas de acesso ao crédito que possibilitassem o desenvolvimento e sobrevivência
econômica dos afroempreendimentos, além de formação e assessoria técnica, porém não
existiram ações concretas em relação ao problema, principalmente em decorrência das
transições governamentais a partir de 201638
.
Ao pensar sobre as redes sociais que emergem a partir do uso das plataformas e sites
de mídias sociais, observamos a formação de comunidades por interesse e identificação. Ou
seja, determinadas características de um grupo são elementos essenciais para a formação
destes clusters. Aqui, sobretudo, observamos no afroempreendedorismo aspectos para além
das tratativas comerciais. O movimento apresenta desde nomes de seus negócios, auto
apresentação, valores, estética e ideias que ressaltam o pertencimento a uma comunidade que
tem como principal marcador a questão racial e o reforço da identidade negra. A utilização
das ferramentas tecnológicas e de internet, sobretudo as plataformas e sites de redes sociais,
possibilitam a reunião da comunidade sem a dependência da aproximação geográfica.
Portanto, a discussão sobre identidade surge também no campo na comunicação digital
despertando interesse em como os grupos usam e como são os resultados desta utilização.
É necessário destacar o alinhamento do afroempreendedorismo com questões sociais e
políticas, dados marcantes no formulário online, explicitados recorrentemente nas entrevistas
semiestruturadas, bem como observados nas relações da rede. Há, portanto, uma reafirmação
do interesse e atuação em movimentos sociais e discussões políticas, não somente ao que se
38
Golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff, posse de Michel Temer e readequação de pastas federais.
93
refere à prática afroempreendedora, como em variadas pautas que impactam na vida coletiva
das pessoas negras no Brasil.
Portanto, acreditamos que é possível aplicar a teoria da economia étnica na análise do
afroempreendedorismo no Brasil, e que há discurso alinhado com causas defendidas pelo
movimento negro. Todavia, é necessário levar em consideração a formação do grupo étnico
no país, seus tensionamentos teóricos, históricos e políticos.
Diante disso, acreditamos que as principais características do afroempreendedorismo,
enquanto atividade desenvolvida por profissionais e empresários negros com o objetivo de
obter renda, vão além desse aspecto e dedicam-se também a suprir demandas ocasionalmente
desenvolvidas por problemas sociais, políticos e estruturais. Os afroempreendedores
empregam emoções, identidade que demarcam sua etnicidade em seus negócios, eles têm
indignações e acreditam na capacidade de alterar cenários a partir de suas redes
afroempreendedoras. Todavia, observamos que em sua maioria, para os afroempreendedores
empreender é construir o passado e o presente de suas histórias, dado suas condições de vida,
pois a prática do afroempreendedorismo também demarca as disparidades no ato de
empreender entre negros e não-negros, sobretudo ao que se refere ao capital social,
econômico e político desses grupos.
A respeito dos desdobramentos possíveis a partir das premissas deste trabalho,
consideramos importante verificar:
• A relação entre as políticas educacionais e o estímulo ao afroempreendedorismo. Bem
como se o grau de escolaridade interfere diretamente nos serviços e produtos
oferecidos;
• O destaque, a relação e a importância de artistas na formação da rede do
Afroempreendedorismo, sobretudo do gênero do rap e hip hop;
• A massiva participação de aspectos estéticos e de beleza negra;
• A formação, a relação e a importância de uma comunidade de veículos de
comunicação alternativos e independentes, sobretudo os que carregam demarcadores
étnicos;
• A importância dos grupos e associação no afroempreendedorismo;
• A consideração que se leva a respeito de grupos formados nas plataformas de sites de
redes sociais como representantes do movimento afroempreendedor;
• A própria inclusão do afroempreendedorismo como um movimento social e qual o
impacto isso representa em relação à percepção do que é um movimento social;
94
• A atuação e importância das mulheres negras como grupo massivamente presente e
determinante no afroempreendedorismo;
• Questões problemáticas no porte e faturamento dos afroempreendimentos;
• A forte ligação dos entrevistados com o interesse em movimentos sociais.
Por fim, estimamos que o trabalho traga acréscimos ao campo da economia étnica e
aos estudos sobre trabalho e renda da população negra no Brasil, principalmente ao se pensar
o afroempreendedorismo como um fenômeno contemporâneo em expansão.
95
96
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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8. APÊNDICE
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105
106
107
8.2 Listagem de páginas sementes
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Afreeka 1417754631810440 www.Facebook.com/afreekastore/
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Black Money Brasil 320364838357251 www.Facebook.com/blackmoneybrasil/
BlackRocks Startup 316799475356668 www.Facebook.com/blackrocksstartup/
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Preta Brasileira 132897000152316 www.Facebook.com/PretaBrasileiraBeleza/
Preta Trucker 1073534509363590 www.Facebook.com/pretatrucker/
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Raízes Salão Afro 251657018311635 www.Facebook.com/RaizesSalaoAfro/
Rap Burguer 706868126120972 www.Facebook.com/rapburguer/
Reafro 1767263330156390 www.Facebook.com/Reafronacional/
Reafro Campinas 125153368249391 www.Facebook.com/reafrocampinas/
Reafro II 1529190554041845 www.Facebook.com/reafro/
Reafro SP 1642516142675429 www.Facebook.com/reafrosp/
Reafro/MG 241555046228754 www.Facebook.com/reafromg/
Reafro/RS 1141642375887454 www.Facebook.com/REAFRORS-1141642375887454/
Rede Brasil Afroempreendedor de Santa Catari-
na - Reafro/SC
849122741781245 www.Facebook.com/redeafrosc/
Rede de Mulheres Negras Empreendedoras de
SFConde - Remesfc
791488197603428
www.Facebook.com/Rede-de-Mulheres-Negras-
Empreendedoras-de-SFConde-Remesfc-791488197603428/
Rede de Profissionais Negros 1016166525176350 www.Facebook.com/RDPNSP/
S.K Cabelo Afro 1524246254260035 www.Facebook.com/NaiaBOXBRAIDS/
111
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Salon Studio 584722978303616 www.Facebook.com/SalonStudiOfficial/
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Seminário Brasil Afroempreendedor - Rio de
Janeiro
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Simbaz - Culinária Afro e Bar 1869071890021877 www.Facebook.com/simbazbrasil/
Tayó 947309935284369 www.Facebook.com/tayocachos/
Tecidos Africanos Gningue 549352435173145
www.Facebook.com/Tecidos-Africanos-Gningue-
549352435173145/
Trança Nagô 132757073463561 www.Facebook.com/trancanago/
Tranças afro 1649496172015450 www.Facebook.com/sabrinaatoledoo/
Tranças AfroJu 892894270865107 www.Facebook.com/Jullhane/
Turismo Etinico Afro 358152584525489 www.Facebook.com/turismoetinicoafro
Vanderlei Afro 1510727668987730 www.Facebook.com/vanderleiafro/
Xongani Moda Afro 106613129431083 www.Facebook.com/xonganimodaafro/
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112
8.3 Termo de consentimento do formulário
113
8.4 Perguntas do Formulário Online
Dimensão Sociodemográfica
Raça/Cor
● Branco
● Preto
● Pardo
● Amarelo
● Indígena
Gênero
● Feminino
● Masculino
● Outro
Você é:
● Cisgênero
● Transgênero
● Outro
Faixa etária
Entre 18 e 25 anos
Entre 26 e 33 anos
Entre 34 e 41 anos
Entre 42 e 49 anos
50 anos ou mais
Cidade
Estado
[caixa de opção]
Acre (AC)
Alagoas (AL)
Amapá (AP)
Amazonas (AM)
Bahia (BA)
114
Ceará (CE)
Distrito Federal (DF)
Espírito Santo (ES)
Goiás (GO)
Maranhão (MA)
Mato Grosso (MT)
Mato Grosso do Sul (MS)
Minas Gerais (MG)
Pará (PA)
Paraíba (PB)
Paraná (PR)
Pernambuco (PE)
Piauí (PI)
Rio de Janeiro (RJ)
Rio Grande do Norte (RN)
Rio Grande do Sul (RS)
Rondônia (RO)
Roraima (RR)
Santa Catarina (SC)
São Paulo (SP)
Sergipe (SE)
Tocantins (TO)
Escolaridade
Primário Completo
Primário Incompleto
Primário Cursando
Fundamental Completo
Fundamental Incompleto
Fundamental Cursando
Médio Completo
Médio Incompleto
Médio Cursando
Superior Completo
Superior Incompleto
115
Superior Cursando
Pós-graduação Completo
Pós-graduação Incompleto
Pós-graduação Cursando
Outro
Se graduado, foi beneficiário de alguma política educacional?
● Sim
● Não
Se sim, qual?
● ProUni
● FIES
● Cotas sociais
● Cotas raciais
● Outras
Orientação Sexual
Heterossexual
Lésbica
Bissexual
Gay
Outro
Estado Civil
Solteiro(a)
Casado(a) / mora com um(a) companheiro(a)
Separado(a) / divorciado(a) / desquitado(a)
Viúvo(a).
Religião
● Católica
● Protestante
● Evangélica
● Espírita
● Umbanda
● Candomblé
● Outra
● Sem religião
116
● Ateu
Dimensão Empreendimento
Qual o porte da sua empresa?
Profissional Autônomo
Microempresa (até 9 empregados)
Pequeno Porte (de 10 a 49 empregados)
Médio Porte (de 50 a 99 empregados)
Grande empresa (100 ou mais empregados)
Qual atividade você oferece em sua empresa?
Serviço
Comércio
Ambas
Outro
Qual o tempo de atuação sua empresa?
Menos de um ano
Entre dois e cinco anos
Entre cinco e 10 anos
Mais de 10 anos
Sua atividade é formalizada?
● Sim
● Não
Se sim, qual o tipo de formalização?
Microempreendedor Individual (MEI)
Sociedade Simples (SS)
Sociedade Anônima (SA)
Sociedade Empresária Limitada (Ltda.)
Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli)
Tem funcionários
● Sim
● Não
Se sim, quantos?
1 a 5
6 a 10
117
11 a 15
Mais de 15
Média de faturamento mensal
Até 5 mil reais por mês
Entre 6 e 10 mil reais por mês
Entre 11 e 15 mil reais por mês
Mais de 15 mil reais por mês
Seu empreendimento é focado em alguma temática relacionada a cultura negra?
● Sim
● Não
Seu empreendimento é focado em clientes / consumidores negros?
● Sim
● Não
Seu empreendimento é sua única forma de obter renda?
● Sim
● Não
Se não, de que outra forma você obtém renda?
Você participa ou tem interesse em algum movimento social?
● Sim
● Não
Se sim, em qual/quais?
Dimensão Afroempreendedorismo
Você se considera um Afroempreendedor?
● Sim
● Não
Você sabe o que é Black Money?
● Sim
● Não
Você tem contato com outros Afroempreendedores?
● Sim
● Não
Você prefere utilizar serviços ou comprar de outros Afroempreendedores?
118
● Sim
● Não
Você conhece organizações ou pessoas que promovem eventos sobre
Afroempreendedorismo?
● Sim
● Não
Se sim, quais?
Você já enfrentou alguma dificuldade como por ser um empreendedor negro?
● Sim
● Não
Se sim, quais?
Você utiliza internet em seu empreendimento?
● Sim
● Não
Se sim, de que forma?
Você tinha um emprego formal antes de ser afroempreendedor?
● Sim
● Não
Se sim, por que virou empreendedor?
119
8.5 Roteiro da entrevista semiestruturada
1. Qual a importância da internet e das redes sociais na sua rotina como empreendedor?
2. O que te fez tornar-se um afroempreendedor?
3. Como você percebe a relação entre os afroempreendedores?
4. Você percebe algum elemento da identidade negra no fazer afroempreendedor?
5. Há posicionamentos político-sociais no afroempreendedorismo? Se sim, de que forma
você percebe esse fato?
6. Você já buscou acesso ao crédito? Como foi essa experiência?
7. Qual sua consideração sobre a precarização das leis trabalhistas e a glamourização do
discurso empreendedor?
8. Como é sua rotina de trabalho? Quantas horas por dia você trabalha em sua empresa?
9. Muitos empreendimentos de afroempreendedores tem foco (venda e/ou prestação de
serviços) na população negra, o que você pensa sobre essa estratégia de abordagem?
10. Quais suas perspectivas para o afroempreendedorismo no atual contexto político?
11. Você concorda com a afirmação "uma luta antirracista precisa ser anticapitalista"? E
como você relaciona essa afirmação com o afroempreendedorismo?
120
8.6 Transcrições da entrevista semiestruturada
8.6.1 Jaciana Melquiades, da Era Uma Vez o Mundo
Sobre a trajetória, isso é muito curioso. É uma pergunta bem recorrente, e eu fico
pensando no quanto eu não tenho um planejamento do que eu estava fazendo e onde eu queria
chegar. A Era Uma Vez o Mundo surgiu de uma insatisfação, da minha inquietação, de uma
vontade de ter coisas que eu não tinha. Eu precisava entregar para o meu filho elementos
fofos, lúdicos e pretos e eu não conseguia encontrar, quando encontrava era muito caro, era
gringo, enfim. Aí eu comecei a fazer para ele e por um momento fui só a mãe do Matias.
Lá por 2011 ou 2012, eu estava fora do mercado fazendo e tinha uma máquina de
costura que ganhei de presente, então eu fazia coisas para basicamente me distrair, enfeitar o
quarto do Matias. Em um determinado momento comecei a ficar insatisfeita de estar nesse
lugar somente de mãe e comecei a fazer algumas atividades voluntárias fora de casa, em
escolas trabalhando com questões raciais nas escolas, foi então que comecei a levar esses
brinquedos que eu fazia para que as professoras trabalhassem com as crianças. Aí o processo
foi de interesse das pessoas, perguntando como que fazia para ter e eu começar. E aí comecei,
de um jeito muito tímido, a pensar nisso como um negócio, somente em 2013 eu comecei a
vender por encomenda algumas coisas. E aí depois que já estava funcionando bem esse
esquema de venda por encomenda eu abri uma loja online, em 2014. Esse processo de
empreender foi bem intuitivo e foi acontecendo de acordo com vida. Só depois de 2017 de é
que eu comecei a olhar para a Era Uma Vez o Mundo como um negócio potente que poderia
de fato transformar não só a minha vida como a de várias outras pessoas.
Em janeiro de 2017 eu comecei a focar na profissionalização do meu trabalho na Era
Uma Vez o Mundo. Entrei no MBA em gestão de negócios para entender como fazer o
negócio crescer, comecei a participar de processo de aceleração e agora de verdade eu consigo
dizer que eu tenho planejamento. No início foi sem pensar em o que seria da Era Uma Vez o
Mundo, até porque eu tinha um outro emprego e não me dedicava exclusivamente para a
empresa, a Era Uma Vez o Mundo era quase um complemento de renda, então eu focava
muito em outras coisas que eu fazia e menos nela.
121
Sobre redes sociais, hoje elas são basicamente o que dá relevância para o meu
trabalho. Eu sinto uma necessidade muito grande, mesma como pessoa física, de ter
relevância, das pessoas ouvirem as coisas que eu falo porque elas têm uma ligação direta com
o que eu faço na Era Uma Vez o Mundo e com o que eu acredito no poder que a educação tem
de transformar, então eu acabo tentando me colocar e me posicionar como alguém que possa
debater sobre educação. A própria Era Uma Vez o Mundo para ser vista a gente usa muito a
internet, a gente chega nas pessoas basicamente usando a internet porque é a forma como a
gente consegue driblar essa falta de recursos que os pequenos empreendedores têm, então a
gente usa as ferramentas que estão ao nosso alcance para conseguir chegar na casa das
pessoas. A internet é hoje o jeito mais simples mais fácil.
A relação entre os empreendedores infelizmente ainda é muito ruim, as pessoas
competem muito. Lá em 2015 e 2016 foi o auge desse movimento empreendedor, muitos
eventos, feiras e muitas pessoas criando novos negócios que eram muito parecidos. Então, a
gente via uma competição muito acirrada entre os pretos como se a gente realmente tivesse
condições de competir uns com os outros. Não existe mercado e produtos pensados para gente
entre as grandes empresas ao ponto de conseguir atender a população negra, então a gente
podia tentar cooperar mais uns com os outros para que os nossos negócios não morram, mas a
gente ainda compete muito, a gente ainda boicota muito uns aos outros e a gente não
compartilha oportunidades e conhecimentos que a gente vai adquirindo. Por exemplo, eu
investi no MBA, aprendi coisas preciosíssimas, mas eu fico pensando em como conseguir
compartilhar essas coisas que eu aprendi sem ser lida como arrogante. Essas pequenas
questões vão afastando a gente. Enfim, acho que entre os afroempreendedores têm muita
competição e muita falta de proximidade, isso acaba atrapalhando um pouco o ecossistema
empreendedor que poderia ser muito fértil e acaba andando muito devagar.
Eu fico me perguntando se todo empreendedor negro é um afroempreendedor, eu
consigo identificar traços da nossa falta de organização e aí eu não gostaria de ler isso como
traços de identidade negra. Tenho pensado muito que o nosso jeito de fazer
empreendedorismo é diferente do jeito branco e fico pensando em que medida esse nosso jeito
diferente de fazer também não tem a ver com uma falta de formação e orientação para que a
gente consiga fazer as coisas nos moldes que que são mais usuais e no fim das contas acabam
sendo moldes brancos. A forma como a gente trabalha e como a gente contrata tudo vai indo
muito para o lado pessoal e chamam isso de coletividade, Ubuntu... mas eu acho que é muito
também falta de saber sobre contrato e coisas formais de um jeito mais polarizado.
122
Quando perguntam se os empreendedores pretos têm posicionamentos políticos e
sociais no empreendedorismo, eu acho que sim. A gente, por conta da grande maioria viver
nesse ambiente escasso de recursos escassos de tudo, acaba empreendendo pra suprir faltas.
Não é empreender por vocação ou empreender por sonho, a maioria das vezes a gente
empreende por necessidade e depois que a gente consegue suprir as nossas necessidades
básicas a gente não consegue fazer um negócio qualquer. Não sei em que medida as pessoas
estão indo para esse nicho por vocação ou porque realmente sentem o incômodo. A gente
sente o incômodo e quer resolver um problema preto quando a gente abre um negócio em que
o nosso produto resolve um problema que é um pouco mais coletivo. A gente não consegue se
desprender muito desse olhar e entender que o nosso negócio não é só nosso, assim acho que
a gente acaba sempre se engajando em pautas raciais e coletivas.
Sobre financiamento, eu sou uma pessoa que não tem dinheiro, vivi muito tempo com
restrição de crédito, com nome no SPC, essas coisas. Agora que a gente está começando a
pensar em acessar o crédito, mas a minha relação com o banco de um modo geral não é uma
relação boa. Já troquei de banco várias vezes especificamente por causa do tratamento que eu
recebo. A primeira conta jurídica que eu abri a gerente questionou se eu usar a maquininha de
crédito para prostituição. Obviamente eu precisava muito da conta e estava quase abrindo, eu
abri a conta, mas ela teve um problema comigo depois por conta desse comentário. É esse tipo
de tratamento que é dispensado para a gente. Agora eu consegui encontrar um banco bacana e
nesse momento eu tenho começado a conversar para entender um pouco sobre empréstimos e
tudo mais. Ainda estou amadurecendo a ideia, mas é bem foda porque nunca tem nada
disponível para a gente. Nem no banco e nem em outros espaços que que trabalham com
financiamento. A gente fica muito longe das informações sobre crédito, de como faz, como é
possível.
Acho que no geral para o empreendedor preto falta muito conhecimento, a gente está
muito longe das informações importantes, esse passo a passo do conhecimento formal sobre o
que é ter um negócio. As pessoas tão abrindo um CNPJ achando que isso é ter um negócio e
eu realmente acho que são coisas completamente diferentes. Você ter um CNPJ e vender
coisas é diferente de você dono de um negócio. Um negócio tem que ter planejamento, visão
de futur. Você tem que entender como é que você cresce, expande, aumenta a produção ou
aumenta o seu poder de alcance. Tem fatores que fazem o seu negócio crescer e deixar de ser
pequenininho para ser imenso e eu não sei se nós pretos estamos acessando essas
informações.
123
8.7.2 Wanessa Yano, da Aye Acessórios
A internet é a base do meu negócio. Todas as marcas que gerencio foram
desenvolvidas para a Internet, o que o mercado chama de e-business. As redes sociais se
tornaram ferramentas de vendas indispensáveis. Nos primeiros anos empreendendo era apenas
uma vitrine hoje a maior parte das vendas vêm da publicidade online nas redes sociais.
A busca pela autonomia me fez virar empreendedora. O fato de eu ter nascido preta
automaticamente me inclui no afroempreendedorismo. Entender esses dois conceitos me
tornaram uma afroemprendedora. Pois compreendi que eu não poderia ser uma comerciante
comum de bijuterias. Iniciei a minha marca com 8mil reais e a ideia inicial era ser uma marca
apenas de revenda, mas quando participava de feiras que não tinham o foco étnico-racial, me
incluíam dentro do quadrante entendido como a cota, logo os estereótipos eram atribuídos no
meu negócio.
A relação entre os afroempreendedores é exatamente um espelho da população preta,
não se divide entre pessoa jurídica e pessoa física. Carlos Moore diz “O povo preto é um povo
patológico” e eu concordo com ele nossas relações são dolorosas e difíceis, e no campo de
negócios não é diferente.
Diversos aspectos, o ato do comércio em si dentro desse território é um legado preto,
além das diversas buscas pela ausência de identidade visual afro brasileira. Já que as culturais
são inúmeras. Existe sim! Como disse na resposta anterior, a falta da identidade visual,
representação no mercado, e principalmente a negação do legado africano faz com que
empreendedores pretos buscam em seu negócio a manutenção disto, é simples de observar em
um primeiro momento os nomes das marcas, dos produtos, a matéria prima e assim por
diante.
Sim, já busquei, e foi positiva. Busquei em iniciativas voltadas para MEI, pequenos
empreendedores, dentro de instituições privadas, mas acabei optando em não pegar o valor
que era pequeno: aproximadamente 3 mil reais. Para não me envolver em dívidas.
Penso que é o aval do retorno à escravidão, algumas pessoas diriam que é uma
escravidão moderna, mas entendo como algo que foi dado e retirado, principalmente da
população preta, pois alguns conseguiam “ajeitar” a vida com o valor inicial da aposentadoria,
abrindo até então os seus negócios, compreendendo então uma estabilidade financeira.
Acredito que é muito ruim, não pelos encargos a serem pagos pensando como empresária,
mas a impossibilidade de acrescentar na vida das pessoas quando você gera esse emprego
então sabe que pode contribuir pra a pessoa mudar o percurso da sua vida. A precarização das
124
leis trabalhistas atrasa a vida das pessoas de ambos os lados principalmente com relação a
contratos intermitentes. E justamente por isso a glamourização do discurso empreendedor
aumenta, como uma alternativa rentável de alta remuneração e controle do tempo, que é
apenas uma ilusão.
Minha rotina de trabalhos é intensa. Separo as atividades por períodos e dia a da
semana. Por exemplo na terça e quinta são entregas em mãos nas estações de metrô. Como
terei que me deslocar, já aproveito pra visitar fornecedores, buscar matéria prima ou qualquer
outra atividade externa. Trabalho na real em uma jornada diária de 12h ou mais
aproximadamente
Na teoria é rentável, o Brasil tem mais de 57% da população negra, na prática é furada
(digo por mim), pois ao mesmo tempo que é rentável, o poder de compra desse público é
baixo, além de que é necessário todo um processo de impulsionamento e consciência étnico-
racial para que esse público de fato consuma. Quem detém o poder econômico mais alto
infelizmente é o branco e estamos falando de negócios. E para isso, precisamos aumentar o
ecossistema econômico preto primeiro, Garvey já dizia “Compre do preto, mas venda para
todos”.
Meu posicionamento político é pan-africanista nacionalista e garveyista, mas a
situação força as pessoas pretas a entender o que é o estado e a sua força. Essa força as
pessoas a terem consciência racial, pois uma guerra foi decretada, logo os movimentos de
minorias ganham forças. É, são essa força que vai impulsionar as mudanças. E já podemos ver
isso com as legislações voltadas para manter o sacrifício nas religiões de matrizes africanas,
as leis de proteção a comunidade LGBTI+ conquistadas nas controvérsias do Governo, mas
pela presença do que significa quem está no poder. Acredito que morreríamos de formas
veladas como sempre foi, pelos becos e vielas escuras. Falamos mais sobre encarceramento
em massa, entendemos a luta racial e sobre o genocídio de um povo. E tudo isso faz com que
as pessoas pretas compreendam a importância do afroempreendedorismo. Mas ainda há um
agravante que não é apenas a compra que muda isso. Ela ajuda, é fato. Mas estamos falando
de um ecossistema que precisa ser alterado e para isso quem empreende precisa pensar para
além de venda de produtos. E sim de matéria prima então veremos mudança significativas.
Eu discordo, pois se fosse assim não teria iniciado uma propriedade privada, é isso que
empresas são. Mesmo que vivêssemos sob a estrutura socialista ainda assim o racismo
existiria.
125
8.7.3 Michelle Fernandes, da Boutique de Crioula
Eu começo a Boutique de Crioula - não existia esse termo né - a foi empreendedor eu queria
ser empreendedora não sabia não quer empreender, mas na época além da gente ter acabado
de ser demitida eu tava passando por um processo de transição capilar já tinha passado já tá
crescendo e eu usava os turbantes um meio de... de ponderar, de ter uma referência negra.
Minha referência então misturava muito nela e o turbante serviu como meu negócio sabe as
pessoas começaram a perguntar pra mim aonde eu comprei onde aquela estampa e eu vi ali
uma, uma oportunidade de negócio. Então eu fiz a curadoria das minhas primeiras estampas,
criei a página no Facebook, comecei avisar as amigas... depois de um tempo eu percebi que
essa necessidade de ser reconhecida no mercado de se pertencer, sentir pertencida e até
comprar produtos que valorizem a cultura brasileira num era uma necessidade só minha e sim
também das pessoas que tavam ao meu redor. Então com o tempo esse tema pro
empreendedor foi surgindo e eu já estava trabalhando muito antes desse tema surgir.
Bem, a minha rotina na internet redes sociais, ela é o meu contato direto com o cliente
da Boutique de Crioula. A gente já começou a Boutique de Crioula numa rede social que é o
Facebook. A gente tá lá ainda, mas hoje ela não é na sua rede principal. Nossa rede principal
Instagram, onde a gente faz todo o contato com o cliente e mostra nossos bastidores, mostra
os produtos novos que chegaram, os eventos que a gente está e dali que vem os... os
compradores né, dos nossos produtos. Eles entram em contato tanto ali no... no Instagram
quanto também são direcionados no WhatsApp, no nosso Instagram. Então as redes sociais,
cem por cento é que faz a empresa ficar viva, né, se manter no mercado.
Eu tenho uma boa relação com vários empreendedores, como as meninas da Queda
Cosméticos, que começou lá atrás comigo. Vamos começar bem antes do que, lógico, mas
assim, a gente foi crescendo juntas então eu tenho uma admiração muito grande por elas e
outras empreendedoras. Trabalho com moda Santa Tereza Design tem a que... é uma marca
nova, então a gente tá sempre se encontrar, tá se falando, se encontrando nos eventos,
trocando também porque é importante isso, já que a gente atinge praticamente o mesmo
público. Então a gente tá sempre trocando sobre o que tá acontecendo no mercado, o que que
a gente tá fazendo pra melhorar e tal... Então tenho admiração e me inspiro em muitas
mulheres empreendedoras.
Eu acredito que essa questão de empreender, por mais que as revistas sobre
empreendedorismo, os artigos e até os programas de tevê que fala de empreendedorismo:
“não as mulheres negras periféricas no perfil de empreendedor...” mas acredito que essa
126
questão muito antes na família a gente tem, né, as nossas avós... da minha mãe era
empreendedora. A minha vó sempre prendeu trançando o cabelo e tal, e eu acho que isso é
algo que a gente carrega no nosso, na nossa... nosso DNA mesmo, a nossa família. Então eu
me inspiro muito dessas mulheres. Reconheço aqui, pra eu tá aqui empreendendo com meu
ateliê, enviando pro Brasil inteiro, ter essa possibilidade de ter o poder de fala, o poder de tá
no... na frente de uma empresa, veio muito antes, veio dessas mulheres abrindo o caminho. E
eu tô abrindo outras mulheres fazendo um trabalho bem maior, sabe, estarem nos lugares.
Então eu acredito que o principal elemento da identidade, essa garra, essa força, essa... esse
poder da gente fazer muito com pouco.
Eu acredito que o posicionamento político do empreendedor é o posicionamento de
esquerda, um onde procura saber, ter mais igualdade, distribuição de renda... Então eu
acredito que seja esse posicionamento de né... está bem numa fase de, é bem dividido isso
pelo governo atual que tá no poder então fica bem claro a gente sabendo em que posição a
gente está.
Eu tô... assim que eu acordo e eu já tô trabalhando. É o meu celular particular que não
é mais particular, é um celular da empresa, é um celular só. Então a partir do momento que eu
ligo a internet já tá acontecendo, as ligações que eu recebo sorrindo, ligações relacionadas ao
trabalh. Mas, assim, eu tenho que trabalhar das nove, dez horas da manhã até umas dezoito
horas que é horário que o bebê chega em casa, é... E aí ele sempre, umas nove horas, depois
que a bebê dormiu e tal, já fez, já fiz outras coisas que eu sempre dou uma olhadinha,
respondo um cliente ali, outro ou faço uma postagem no Instagram, sabe... Domingo também
a mesma coisa. Domingo às vezes que eu desligo o celular o dia inteiro pra não ter redes
sociais e tal e nem atender nenhum tipo de...
Eu acho que cada vez tá mais difícil pra quem é trabalhador que precisa de uma
carteira assinada, quem tá desempregado. Tá muito difícil de conseguir emprego e quando
consegue, consegue emprego é pra... pra trabalhar muito, ganhar pouco perdendo direitos
sabe? E é muito cabeça, atinge diretamente as pessoas que eu trabalho, né, o meu público alvo
e a valorização do discurso de empreendedor é outra coisa também, né. Aas pessoas tem ideia
que você empreende, que você faz o seu próprio horário, dinheiro, que você sabe... Enfim,
tem um... é fogo, não é fácil empreender, não é fácil entender quando falam que cê faz sua
propriedade. Realmente, se brincar, cê vai trabalhar vinte e quatro horas por dia, sete dias por
semana, é muito difícil ser empreendedor. A gente fala: “empreendedor é você acordar
desempregado todos os dias, então você todos os dias tem que ter força, garra, resiliência”. É,
eu vejo muita gente falando aí “vai lá ganhar dinheiro pro seu patrão, mas muitas vezes aqui
127
mesmo a gente já pagou todos os funcionários e ficamos sem um real na... mas o rango aquele
funcionário viajar pra praia e feriado, e a gente tá em casa porque não tem grana, isso já
aconteceu várias vezes. Mas você vai, é, se agarrando num sonho de que você vai conseguir
fazer as coisas acontecerem, sabe, mas não é assim, não é fácil. É, cê tem que ter uma pessoa
pra te ajudar, pessoas pra te confortar na hora do desespero. Cê tem que ter força pra acreditar
num dia melhor a gente tá vivendo desde dois mil e dezesseis uma crise no país que eu
muito... tem meses que são, que é bom, muito bom, e tem vários meses que é muito ruim, que
você faz o básico pra manter as paga, as contas. Então é bem difícil mesmo, então cê tem que
ter segurança naquilo que você vai fazer, investir uma quantidade que você se dentro dessa
errado, você não perca tudo. Então tenha cautela pra começar um negócio, e é isso, cara. Mas
quem tá empreendendo, Taís, é do jogo.
Entendi muito, mas eu acredito que os vendedores trabalham com aquilo que eles têm
talento, mas que tem... sejam ligados nessa questão de, de aço, né, então a gente trabalha
muito com os tecidos africanos se é uma prestação de serviço, é um serviço voltado à
comunidade negra - assim como o clube da preta que é muito bacana, que é um box
direcionada pra pessoas negras junta vários empreendedores - a própria queda que faz
produtos para cabelos crespos... Então outros serviços, não sei, serviços financeiros voltados
às pessoas negras, então sempre tem esse recorte racial porque a gente tá na pele, sabe quais
são as dificuldades que encontra determinados produtos, determinados serviços, e eu acho
isso uma boa, eu acho isso maravilhoso. Porque as vezes a gente tem que ficar, a gente tem
que pagar por um serviço que tem e não pelo serviço, a gente quer ou o serviço que a gente
precisaria ter, sabe, como uma psicóloga mulher negra, sabe. Ela vai entender várias paradas
que uma psicóloga branca não entenderia porque não é a realidade dela, entendeu? Então eu
acho isso bem maravilhoso que tenho mais.
As minhas perspectivas não são muito boas não, sabe? Tá cada vez mais difícil pra
gente, o governo é racista,a as pessoas que eram racistas intolerantes, cês tão saindo de tudo
que é canto, deixando isso bem claro: a gente tá tentando criar pessoas que não tem, tá sendo
bem difícil. As oportunidades estão ficando cada vez menores, ahm... e eu, eu no momento
não tô com grandes esperanças. Assim, lógico que eu tô trabalhando, tentando fazer
acontecer, tentando manter a minha empresa aberta, mas é muito difícil assim, gente, mata a
gente, mata uma família inteira então, assim, eu espero muito que melhore, mas quanto mais
esse governo se mostrar racista, homofóbico, machista, mais vai ser difícil a gente ter nossos
lugares.
128
Olha, Taís, eu, assim, vamo ver se eu entendi a pergunta. Então se pra eu trabalhar
uma luta de racista, sabe, eu fazer algo contra o racismo eu não posso ganhar dinheiro com
isso seria basicamente pergunta sim. Eu não concordo, sabe, eu acho assim: os brancos estão
aí ganhando todo dinheiro do mundo sabe, fazendo produtos pra todas as pessoas e quando eu
chego com um recorte, sabe, um olhar diferenciado pra é... que tem as mesmas necessidades
que eu, eu tenho que fazer isso só por amor. Eu acho que não, sabe, eu acho que você se sente
racista, e você sabe e no meu caso como empreendedor é criar produtos que mostrem pra
todas as pessoas que a cultura linda, quando, como as outras culturas. E sim, eu posso ganhar
dinheiro com isso, é o meu trabalho é um trabalho como de uma outra pessoa, eu faço a
curadoria, eu criei os produtos, eu imagino como vai ser eu faço, a produção dos produtos e
ele sempre... se eles precisam ser remunerado por isso. E não só remuneradas, precisam ser
bem remunerados, né. A gente tem a mania de comparar um pequeno empreendedor com uma
grande marca, sabe, a grande marca ela ganha, ela ganha muitas vantagens em produzir algo
então enquanto produzindo dez mil blusinhas a vinte reais, eu quero fazer uma coleção com
cinquenta peças, eu vou pagar quarenta reais em cada blusinha. Tenho que pagar muitas vezes
à vista pro meu fornecedor e só isso, pegar o produto daqui quinze, vinte dias. Enquanto uma
marca grande paga daqui quatro meses, tem todas as regalias. Então, enquanto isso chega na
mão do cliente, com certeza vai chegar no valor diferenciado, sabe, vai chegar no valor mais
caro mas não é só porque quer comprar mais cara porque o, o mundo gira em função de quem
tem mais dinheiro e quem não tem dinheiro pra fazer acontecer, é... acaba tendo que se
submeter ao que o mercado oferece, entendeu? E aí infelizmente cê chega na mão do cliente
final. Mas eu não acredito que pra você ser racista você tem que ser anticapitalista o mundo é
capitalista, sabe, infelizmente, ou felizmente num sei te dizer, mas tudo gira em torno do
dinheiro, tudo você usa seu dinheiro pra comprar todas as coisas, você usa seu dinheiro pra
comprar, seu dinheiro pra comprar comida, usa o dinheiro pra comprar acessórios, o dinheiro
pra comprar roupa... Por que não usar o seu dinheiro pra fortalecer o trabalho de pessoas que
tão fazendo um trabalho que tem, se você na hora de fazer aquele produto, sabe... Eu acho que
todo mundo tá vendo que tema agora é um termo bonito, mas que é um tema que precisa ser
usado, sabe, total quando as pessoas entenderem, principalmente as pessoas negras, que elas
têm poder aquisitivo - e poder tá no bolso delas, elas que mandam no dinheiro - vai mudar
todo o mercado. Primeiro vai fortalecer a gente, que nós somos empreendedores, estamos
nesse dia fazendo acontecer e vai mudar também a, é... o jeito de trabalhar com grandes
marcas, elas vão ser obrigadas a criar produtos pensando na gente, sabe, então eu não
129
concordo com esse tema e eu acho que acredito que assim que ele entra ele se relaciona com o
tema.
8.7.4 Fióti da Laboratório Fantasma
A necessidade que a gente viu é que a gente ia trabalhar com música, a gente procurou
referências de modelo de negócio no Brasil e encontramos muito poucos. Os contatos que
fizemos pra naquele momento gerenciar a carreira dele eram de pessoas distantes do universo
do hip hop e também do ambiente de negócios da música de uma forma estruturada. Então
surgiu a necessidade e a responsabilidade de arregaçar as mangas e fazer acontecer e foi assim
que nasceu a Lab Fantasma.
Isso foi em 2009, um momento em que o Emicida já estava com muita visibilidade
porque ele já tinha conseguido se firmar como ícone nas batalhas de freestyle e nasceu essa
necessidade de conseguir capitalizar essa audiência que já tinha ele como referência dentro
das rodas de freestyle, pra conseguir posicionar a carreira dele como uma carreira sólida
dentro do mercado da música que era o desafio. Até então a gente tinha poucas referências de
artistas que tinha vindo desse segmento do rap e do fresstyle e tinha conseguido consolidar
uma carreira dentro do universo da música. Então a gente tinha esse desafio.
Eu digo que Lab na verdade é uma conjuntura de vários fatores positivos no Brasil pra
ter conseguido ter êxito. Então a gente teve um momento de um país que estava com um
mundo inteiro olhando pro Brasil, estávamos passando por um momento tecnológico novo e
interesse. Então a gente teve surgimento do Youtube e Facebook. As pessoas conseguiam
acessar o conteúdo dos artistas diretamente sem ter a necessidade e a obrigatoriedade de ter
que consumir isso somente através da rádio ou da televisão que era muito comum dentro na
indústria fonográfica. E a gente tinha uma indústria fonográfica completamente em casa,
naquele momento a pirataria estava dominando todos os meios. Cd e dvd já não se fazia mais
tão relevante comercialmente falando, e no meio desse cenário a gente teve a ideia de
arregaçar as mangas e fazer nosso próprio cdzinho a dois reais e sair na rua vendendo esse cd
de forma completamente independente. Por que a gente fez dessa maneira? Primeiro por uma
questão de necessidade de popularizar o produto, e segundo por que a gente não concordava
com o preço que os cds eram vendidos naquela época, então um dvd de um artista bem
posicionado custava em média 50, 60 e 70 reais, um cd ficava na casa dos 15 até 45 mais ou
menos. A gente não achava que esse valor era justo para o trabalhador pagar, então a gente
130
viu na possibilidade de fazer isso sozinho conseguir o produto final e se auto-piratear, e isso
deu muito certo.
A gente começou a fazer o cd a dois reais. Eu lembro até hoje quando o Leandro falou
que ia fazer um cd de 25 músicas eu achei “era uma loucura”, mas ai depois eu fui entender a
importância disso e foi um momento que eu decidi sair do MC Donalds também e agarrar essa
responsabilidade junto com ele. Eu lembro que a gente foi vender pra rua, começou a vender
cd igual maluco, a gente tinha uma meta muito ambiciosa. A gente queria vender no começo 3
mil cds por semana. Por que a gente ia vender cd a dois reais, na nossa conta um real era pra
reinvestir e um real era lucro. Como no Mc Donalds a minha hora não ia muito para além
desse um real, então pra mim não foi muito difícil fazer essa escolha e deu certo. A gente,
graças a deus, na primeira sexta-feira vendemos mais de três mil e pouco cd vendido, a gente
já começou com aquele desafio de “pô e agora?” Só tem nós dois, se nós dois precisamos de ir
pra rua vender quem é vai fazer esse cd e que horas vai fazer esse cd? E ao mesmo tempo que
a gente conseguia capitalizar, não era o suficiente pra gente contratar outras pessoas, então a
gente foi aderindo no começo, parceiros e amigos que tinha algum talento e que podiam
colaborar com a causa naquele momento com a gente, e isso deu certo.
Então a gente começou a ir pra rua e ir pras portas dos eventos e pros metrôs e pros
trens e fazer fresstyle e vendia cd, e isso começou a tomar uma proporção grande porque as
pessoas começaram a ver que o material tinha uma qualidade artística e musical e que era uma
forma de abordagem rítmica diferente do que já havia sendo feita anteriormente e isso
começou a sair em todos os lugares e começou a ter reconhecimento da mídia e foi daí que a
gente começou a ver a necessidade de se profissionalizar de fato. Foi o momento que eu me
deparei com um lugar que eu não sabia onde eu tava entrando, onde eu tava me enfiando que
era isso daqui. Na verdade eu acredito que a maioria de vocês, tipo a gente não tem referência
de pessoas bem sucedida em negócios dentro da nossa família ou perto da gente. Então a
gente pena pra achar essas referências, hoje agente tem ai o Youtube que ajuda muito. Todo
mundo compartilha suas histórias e talvez essa geração de hoje já tenha possibilidades
maiores que a nossa, mas pra gente era muito difícil. A gente sabia que tinha que fazer e quais
eram as nossas referencias? Os gringos.
A gente via muita entrevista do Jay Z, leio até hoje ainda, muita entrevista da Beoynce
e Doctor Grey, só que era de uma outra realidade, né? Não só financeira, mas uma outra
realidade de mercado completamente distante, mas que a gente adaptou pro nosso modelo de
negócio. A mensagem principal que a gente foi “o cara vendia droga e conseguiu ser
referencia dentro do mercado, a gente não vende droga, mas a gente tem uma droga muito boa
131
que é a música”. Parece que é piada, mas não é. O filme que a gente se inspirou pra montar a
laboratório fantasma foi o American Gangster, e a frase crucial você tem que ter uma droga
mais barata e melhor que a do seu concorrente. E por isso que a gente foi pra rua vender esse
cd a dois reais, então a partir do momento que a gente tem um disco com 25 músicas que
passa uma mensagem importante e interessante pras pessoas, e consegue vender isso a dois
reais, as pessoas vão falar “esse moleques são malucos, não é possível”.
E foi aí que as coisas começaram a andar e a gente começou a se deparar com esse
cenário, a gente precisa estruturar a empresa pra cuidar de toda a parte de show, produção
artística, gerenciamento de carreira, gerenciar o catalogo dos artistas, cuidando da parte de
produção desses shows, dos eventos. E aí hoje a gente em a parte do estúdio, a gente faz todas
as produções internamente, tem investido em novos artistas e novos conteúdos e a parte que
hoje a gente fala de moda e marca que é a parte do merchandising. Que a gente começou
desde o começo e foi onde a gente começou em 2009 a conseguir ter mais receita pra ter fluxo
de caixa pra conseguir reinvestimento nos nossos projetos. E como a gente vendia só a dois
reais, a verba que sobrava era muito pouco para a gente conseguir em vídeo clipe, marketing e
produção e conseguir fazer novos projetos. Então foi através do merchandising que a gente
começou a ver espaço pra isso, no nosso merchandising a gente começou a priorizar sempre,
não só o preço, mas ter a matéria prima diferenciada e com qualidade. E isso foi fazendo a
gente cada vez a avançar mais pra dentro do mercado da moda, até chegar no SPFW.
Bom nessa cadeia como um todo hoje, na ultima estimativa que a gente fez, já está
desatualizado, mas a gente estava mensalmente alimentando mais de 200 família, diretamente
do que é produzido no laboratório fantasma. Isso de colaboradores diretos, prestadores de
serviços e empresas associadas. E uma coisa que a gente percebeu, quando a gente começou a
avançar mais dentro da indústria, foi que a gente gostava muito do que a gente fazia e fazia
com amor, mas aquilo tinha virado um negócio. E como a gente fazia e ia caminhar dentro
disso sem isso ser corrompido por isso e conseguir de alguma maneira transformar os lugares
que a gente passa com a nossa mensagem e sem deixar ser levado por isso. Então a gente
percebeu que a gente tinha um propósito muito grande. E qual propósito era esse? Era o
propósito de transformação. Esse propósito ele na verdade, as pessoas, nas faculdades, a
maioria branca, as pessoas param pra estudar e pensam de onde vem isso. Mas na verdade é
uma questão ancestral, a gente já vem com isso. A gente já tem numa busca eterna de se
encontrar e de se reconectar no outro. Então a gente percebeu muito que o fato de onde a
gente conseguir chegar, onde a gente chegou não dependia só da gente. Que dependia na
verdade de uma cadeia de pessoas que começaram a se sentir representadas pelo o que a gente
132
representava pra elas. Que a gente significava na verdade um universo de possibilidades e foi
galgado nesse pilar que a gente começou que a gente não só transformou nossa vida,
transformou a vida da nossa família, mas passou a transformar a vida de outras pessoas que
diretamente ou indiretamente se inspirava na gente. E isso trouxe uma responsabilidade ainda
maior no ambiente dos negócios. Porque você não pode falar só de vendas, você tem que falar
do impacto do que você está vendendo e da forma que você está se relacionando com as
pessoas e com o produto que você tem. Então através dessa transformação, a gente
transformou a nossa vida e a gente conseguiu devagarzinho transformar a forma como o
movimento do rap e hip hop via a forma de fazer negócio. Hoje se você for em qualquer
evento, as pessoas não dão muito crédito, a gente não é preocupado com crédito, mas é muito
difícil você ir em qualquer evento de rap sem ser abordado por alguém vendendo um cd ou
um livro antes de entrar. E isso a 10, 12 anos atrás não existia.
Então a geração que vem hoje já vem pensando “cara eu preciso ter um empresário,
preciso de um produtor, preciso pensar no meu produto, preciso ver como vou me posicionar
no mercado”, que já é fruto de uma construção que não nasce com a gente, mas a gente
consegue dar visibilidade pra isso por que a gente tem meios pra isso. Tiveram muitas pessoas
que vieram que infelizmente não conseguiram ter o mesmo êxito. Por que infelizmente talvez
o momento não tivesse tão propicio pra algo tão audacioso. Eu dou sempre o exemplo do
Itamar Assumpção que é um artista que eu tenho muito como referência, um dos artistas
independentes mais importantes da música brasileira, mas que infelizmente o que ele fazia na
época que ele fazia, os meios, as ferramentas ainda não estavam preparados pra o quão
audacioso e o quão perspicaz e sagaz ele era. Então quando a gente vê que a trajetória com o
Emicida eu comparo muito com a trajetória que o Itamar poderia ter tido também. De sucesso,
visibilidade, sucesso financeiro. Então, essa conjuntura de fatores é o que faz da Lab e do
Emicida e o que faz dessa geração ter sido de certa forma beneficiada também por tudo que
estava acontecendo no país e no mundo.
A gente consegue transformar a comunidade, o mercado da música começa a perceber
também que a cena independente já não era uma cena alternativa, que existiam artistas se
consolidando dentro desse contexto de forma genuína. Se você para pra ver, hoje, pelo menos
em uns 4 ou 5 anos todos eles tentaram de alguma maneira negociar com a gente pra comprar
parte dos nossos negócios também. E isso há dez anos atrás era impensável. E tudo isso foi
possível depois de toda essa ebulição no marcado. E depois de transformar o mercado da
música, a gente também conseguiu com mais presença fazer isso no mercado da moda, e
depois esse movimento todo que a gente fez com moda e música, a gente teve essa
133
gratificação muito interessante. Às vezes a gente está tão imerso na necessidade de fazer por
conta da complexidade que é ser empreender e ter que construir as coisas no dia a dia do
nosso negócio, que a gente não parou pra medir no impacto do que a gente estava fazendo.
Em 2017, depois da nossa segunda participação no SPFW, foi feito uma pesquisa no
Brasil pela InterBrand. Dentro desta pesquisa o laboratório fantasma apareceu, duas marcas
de periferia, a Lab Fantasma e a outra o Kondizila. Mas achei interessante por que apareceram
em óticas diferentes. A kondi apareceu como uma marca que os jovens se espalhavam pra
trabalhar e empreender no funk e a Lab apareceu também através da veia empreendedora, mas
principalmente da parte de como a gente consegue colocar na cabeça do jovem brasileiro que
é possível ele ocupar um outro papel na sociedade para além do que ser só um funcionário de
uma outra pessoa, então isso foi muito interessante pra gente. Aconteceu depois de toda essa
jornada que a gente fez tanto na música quanto na moda.
A internet, ela foi um divisor de água globalmente falando, quanto pro bem quanto pro
mal. A gente só existe com solidez na verdade por conta da internet. Foram plataformas como
Youtube, Facebook, Myspace, o Orkut, que fizeram com que a gente conseguisse tirar o
ambiente da rua e colocar isso no ambiente que pudesse dar viabilidade pro projeto e
consequentemente através da visibilidade fazer isso virar um modelo de negócio. Porque aí
você passa a influenciar pessoas. A gente fez parte de uma geração que teve muitos fatores
importantes. Tem o talento, a disposição, teve o momento do país que incentiva isso, políticas
públicas. Uma ascensão de uma nova classe social através do consumo e a tecnologia. Então
une-se todos esses fatores. Alguns gêneros hackearam o sistema nesses últimos 15 anos, e a
gente estava dentro do gênero hip hop, dentro do rap e a gente conseguiu, graças às
tecnologias, dar um passo para além do que pessoas de outras gerações. Hoje já a época já é
outra, com outros desafios. A internet já é um meio estabelecido, então é uma concorrência
mil vezes maior. Pra nossa geração ainda era uma descoberta, hoje é uma plataforma usada
tão para o mal quanto a tv e o rádio. Então eu acho que como tudo ela está ali e você tem que
saber usar.
Sem dúvidas, na verdade assim, a empresa em si já tem um posicionamento muito
firma porque os dois porta-vozes dela tem uma presença digital e política muito forte. De
certa forma, essas três marcas se misturam muito, né. Agora em toda atuação política que a
gente posiciona a empresa? Não, a gente posiciona quando a gente acha que cabe um
posicionamento empresarial naquilo. A gente se posicionou firmemente no momento da
destituição da Dilma Rouseef, a gente teve junto com os estudantes nas manifestações de São
Paulo enquanto empresa, paralisação dos trabalhadores, enfim, em diversas outras pautas
134
onde a gente vê que cabe e que é importante esse posicionamento, mas eu entendo também
que participar num ambiente de negócios tem momentos que você pode fazer e tem momentos
que não dá pra fazer isso. Uma coisa que a gente tem muito séria dentro da nossa atuação é
que a gente precisa encontrar um equilíbrio entre a forma como a gente limita e a forma como
a gente dialoga com o mercado, por que a gente está nos dois e a gente tem muitos casos de
frustação de pessoas que vieram antes da gente e que não souberam diálogos com o mercado.
Então a gente procura fazer o diálogo e fazer as coisas de uma maneira que a gente consiga
caminhar nos dois universos. Infelizmente a gente não consegue mudar alguns processos.
Tipo, querendo ou não a gente está inserido numa ótica capitalista, se a gente não conseguir se
movimentar dentro disso a gente não vai conseguir propor mudanças, porque não existe
perspectivas. Existem outros caminhos? Existe, cada um escolhe o seu. A gente escolheu
empreendedorismo, a gente precisa ser autossuficiente dentro desse cenário, pra isso
acontecer a gente tem que saber brigar com as armas que a gente tem dentro desse
ecossistema.
É um valor, mas estar dentro da periferia pra gente não significa necessariamente não
trabalhar o que a gente acredita que precisam ser enaltecidos pro nosso povo, né. Então, a
gente está localizada num bairro de classe média, que é Santana, mas perto de onde os outros
produtores que atuam com música, a gente está no caminho. A gente não está nem no centro e
nem numa região elitizada, mas acho que de fato o lugar onde a empresa está estabelecida não
pauta nenhuma das questões de transformação. Eu acho que quem pauta a questão da
transformação é o RH da empresa. Eu acredito que é mais potente você valorizar essas
características dentro do departamento do RH, a gente olha minuciosamente todas as
características, de onde a pessoas vêm, qualidade, competência, a gente analisa também o
perfil de onde a pessoas vem, qual grupo ela pertence, qual gênero, mas se eu falar pra você
que eu sempre pensei assim é uma falácia. Eu fui evoluindo, na verdade. E dentro dessa
evolução eu fui vendo o quanto esse discurso de transformação necessitava de ser mais
profundo. Minha cabeça abriu não só para mulheres, mas pra comunidade LGBT de uma
maneira geral e hoje eu entendo que a gente está mais maduro nesse sentido. A empresa tem
10 anos, a maioria das empresas quebra em cinco anos, a gente já dobrou esse período e em
condições completamente adversas. Então, entendo que a gente já conseguiu ter uma grande
construção. Estar sentado nessa cadeira eu sei o desafio que é. Eu gosto de ter desafios e gosto
de honrar eles. Mas entendo também que a gente precisa ter competitividade. Várias vezes eu
fico chateado por que não consigo às vezes contratar a pessoa com o perfil que eu gostaria
pra aquela determinada vaga, por que talvez naquela vaga não posso dar só a oportunidade,
135
preciso de alguém com a capacidade pra conseguir dar conta do recado e da responsabilidade.
O problema é que a gente tem muito grande hoje dentro da sociedade e de formação e
capacitação que é isso que a gente está fazendo aqui, aí vem o segundo problema que é a
conexão. É fazer as pessoas estarem conectadas com a dedicação. Porque esse problema não
vai se solucionar da noite pro dia. É um problema de educação mesmo, de formação. De
quantidade de homens negros que morrem, da quantidade de pessoas que... a primeira pessoa
da minha família que está conseguindo se formar na minha família é minha irmã agora e ainda
faltam quatro anos, conseguiu entrar na universidade só agora. Isso é um reflexo que atinge a
sociedade brasileira como um todo e isso se reflete no ambiente de negócios, reflete no
mercado de trabalho. A gente ainda está trabalhando em condições subumanas e em
subempregos. Se não consegue ter boa educação, não consegue boas universidades, não
consegue bons empregos. E ainda que a gente consiga tudo isso, quando chegar na hora da
oportunidade, a gente ainda vai ser analisado fria e calculisticamente contra uma pessoa que
teve diversos privilégios e veio de um bairro e de condição de vida um milhão de vezes
melhores que a nossa. O que já nos coloca em posição de desvantagem completamente. Então
é um grande desafio, mas a gente tem isso dentro da nossa empresa, a gente tem uma maioria
negra, ainda não tem uma maioria mulher. Eu diria que a gente está entre uns 65% e 35%
(homens e mulheres).

Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil

  • 1.
    UNIVERSIDADE FEDERAL DOABC PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS TAÍS SILVA OLIVEIRA Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP 2019
  • 2.
    TAÍS SILVA OLIVEIRA RedesSociais na Internet e a Economia Étnica: Um estudo sobre o Afroempreendedorismo no Brasil Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Humanas e Sociais. Área de concentração: cultura, desenvolvimento e políticas públicas. Orientador: Prof. Dr. Claudio Luis de Camargo Penteado Coorientador: Prof. Dr. Ramatis Jacino. SÃO BERNARDO DO CAMPO - SP 2019
  • 3.
    Sistema de Bibliotecasda Universidade Federal do ABC Elaborada pelo Sistema de Geração de Ficha Catalográfica da UFABC Com os dados fornecidos pelo(a) autor(a). Oliveira, Taís Silva Redes Sociais na Internet e a Economia Étnica: um estudo sobre o afroempreendedorismo no Brasil / Taís Silva Oliveira. — 2019. 144 fls.: il. Orientador: Claudio Luis de Camargo Penteado Coorientador: Ramatis Jacino Dissertação (Mestrado) — Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais, São Bernardo do Campo, 2019. 1. Afroempreendedorismo. 2. Redes Sociais na Internet. 3. Teoria da Economia Étnica. 4. Identidade. 5. Negritude no Brasil. I. Camargo Penteado, Claudio Luis de. II. Jacino, Ramatis. III. Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais, 2019. IV. Título.
  • 8.
    A todos aquelesque abriram os caminhos. Nossos passos vêm de longe.
  • 10.
    AGRADECIMENTOS Agradeço à minhafamília, sobretudo minha mãe Dona Nalva e meu pai Messias (in memoriam) que, ainda crianças, tiveram que escolher trabalhar ao invés de estudar para colaborar no sustento da família, mas nos permitiram escolher os estudos como prioridade. E ao meu irmão Renato que, aos meus quatro anos de idade, me ensinou a fazer contas de somar instigando a curiosidade científica. Agradeço a Tarcízio, meu companheiro, amigo, namorado, revisor, conselheiro, parceiro de vídeo game e carnavais que desde fevereiro de 2016 se interessou e motivou essa pesquisa mesmo quando ela era só um pré-projeto repleto de inseguranças. Agradeço aos amigos e amigas que torceram dia após dia por essa empreitada, em especial Barradas em Wakanda: sem vocês não teria conseguido. Agradeço a todos os professores que passaram por minha jornada enquanto estudante. Eu sou quem sou por cada bom exemplo que tive. Em especial aos professores Claudio Penteado, Ramatis Jacino e Silvia Dotta, meus orientadores neste ciclo, que foram extremamente generosos, parceiros e sábios em suas contribuições. Agradeço aos membros da banca pelos excelentes apontamentos feitos na qualificação e que foram essenciais para a conclusão deste trabalho. Agradeço aos colegas de jornada na universidade e aos membros do Núcleo de Estudos Africanos e Afro-brasileiros da UFABC, é uma honra estar ao lado de grandes referências. Agradeço a todos, inclusive aqueles que nem me conhecem, mas que colaboraram com o desenvolvimento da pesquisa: os entrevistados, quem compartilhou o material e aqueles que fizeram uma verdadeira campanha para que eu pudesse alcançar os objetivos. Agradeço à UFABC por sua estrutura, abertura e aos seus colaboradores sempre solícitos. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
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    RESUMO A dissertação aquiapresentada tem como objeto de estudo o Afroempreendedorismo no Brasil, e seu objetivo geral é compreender as aproximações e distanciamentos entre o Afroempreendedorismo e a Teoria da Economia Étnica (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989). Para tanto, optamos como campo de análise as redes sociais na internet (RECUERO, 2009), a partir de páginas do site de mídia social Facebook que: tratam do tema Afroempreendedorismo, que são de negócios de afroempreendedores ou de grupos e associações relacionadas. Como complemento metodológico, aplicamos um formulário direcionado aos afroempreendedores e uma entrevista semiestruturada com os responsáveis pelas páginas que se destacaram na análise da rede. Observamos como resultados elementos que aproximam as variáveis, todavia com ressalvas em relação à formação e contexto da população negra no Brasil. Palavras-chave: Afroempreendedorismo - Redes Sociais na Internet - Teoria da Economia Étnica – Identidade - Negritude no Brasil.
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    ABSTRACT The dissertation presentedhere has as object the Black Entrepreneurship in Brazil, and its general objective is to understand the approaches and distancings between Black Entrepreneurship and The Ethnic Economy Theory (LIGHT, 2005, 2013, GOLD, 1989). Therefore, we choose as field of analysis the social network on the internet (RECUERO, 2009), starting from pages on the social media site Facebook that: deal with the subject Black Entrepreneurship, which are Black Entrepreneurs business or groups and related associations. As a methodological complement, we applied a form directed to the Black Entrepreneurs and a semi-structured interview with those responsible for the pages that stood out in the network analysis. We observed as results elements that approximate the variables, however with caveats regarding the formation and context of the black population in Brazil. Keywords: Black Entrepreneurship - Social Networking on the Internet - Ethnic Economy Theory – Identity - Negritude in Brazil.
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    SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO: UMPROBLEMA INTERDISCIPLINAR ................................................................ 18 2. TEORIA DA ECONOMIA ÉTNICA: ABORDAGENS CONCEITUAIS E APLICAÇÕES ............... 24 2.1 TEORIA DA ECONOMIA ÉTNICA: UM ESTADO DA ARTE ............................................................................26 3. ECONOMIA DE SUBSISTÊNCIA: TRABALHO E GERAÇÃO DE RENDA DA POPULAÇÃO NEGRA NO BRASIL ................................................................................................................................ 32 3.1 DA SUBSISTÊNCIA AO AFROEMPREENDEDORISMO: UMA OUTRA ECONOMIA É POSSÍVEL? ....................38 3.2 AFROEMPREENDEDORISMO: UM ESTADO DA ARTE...............................................................................40 3.3 PERFIL, ACESSO AO CRÉDITO E POLÍTICAS PÚBLICAS SOBRE O AFROEMPREENDEDORISMO ..............44 4. REDES SOCIAIS NA INTERNET E A FILIAÇÃO PELO FATOR RACIAL: A REDE DE AFROEMPREENDEDORES .................................................................................................................... 50 5. METODOLOGIA................................................................................................................................. 58 6. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS ............................................................................... 62 6.1 ESTRUTURA E RELAÇÕES DO AFROEMPREENDEDORISMO A PARTIR DA ANÁLISE DE REDES SOCIAIS NA INTERNET .........................................................................................................................................................62 6.2 PERFIL E PERCEPÇÕES DOS AFROEMPREENDEDORES ...........................................................................67 6.3 TRAJETÓRIAS E VIVÊNCIA DO AFROEMPREENDEDORISMO PELOS NÓS EM DESTAQUE........................82 6.3.1 “Eu acredito no poder que a educação tem de transformar” – Jaciana Melquíades......................83 6.3.2 “A busca pela autonomia, me fez virar empreendedora” – Wanessa Yano.....................................85 6.3.3 “O principal elemento da identidade é esse poder da gente fazer muito com pouco” – Michelle Fernandes....................................................................................................................................................86 6.3.4 “Então a gente percebeu que a gente tinha um propósito muito grande” – Fióti ...........................87 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................................................. 96 8. APÊNDICE ........................................................................................................................................ 104 8.1 PARECER CONSUBSTANCIADO DO COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA.................................................. 104 8.2 LISTAGEM DE PÁGINAS SEMENTES ...................................................................................................... 107 8.3 TERMO DE CONSENTIMENTO DO FORMULÁRIO................................................................................... 112 8.4 TERMOS DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO: ENTREVISTAS SEMIESTRUTURADAS......ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO. 8.5 PERGUNTAS DO FORMULÁRIO ONLINE ............................................................................................... 113 8.6 ROTEIRO DA ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA ................................................................................... 119 8.7 TRANSCRIÇÕES DA ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA......................................................................... 120 8.7.1 Jaciana Melquiades, da Era Uma Vez o Mundo .......................................................................120 8.7.2 Wanessa Yano, da Aye Acessórios...................................................................................................123 8.7.3 Michelle Fernandes, da Boutique de Crioula.................................................................................125 8.7.4 Fióti da Laboratório Fantasma .......................................................................................................129
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    18 1. INTRODUÇÃO: UMPROBLEMA INTERDISCIPLINAR Dinheiro é foda Na mão de favelado, é "mó guela" Na crise, vários pedra na venta, esfarela Eu vou jogar pra ganhar O meu money, vai e vem Porém quem tem, tem Não cresço o "zóio" em ninguém O que tiver que ser Será meu Tá escrito nas estrelas Vai reclamar com Deus Vida Loka II – Racionais MC’s Desde pequena sempre acompanhei minha mãe – mulher negra, nordestina radicada em São Paulo, doméstica, semianalfabeta – em suas diversas empreitadas na busca pela renda extra. Seja na venda de doces, bebidas e sorvetes na garagem, roupas do Brás de porta em porta, no carrinho de churros nas festas do bairro, na loja na rua da escola, entre outras atividades. Demorei a compreender – até a fase adulta – que suas atividades eram o próprio afroempreendedorismo, conceito aplicado em algo que pessoas negras praticam desde muito cedo na história do país. Na trajetória de interesses pelo tema, conheci a Feira Cultural Preta, depois os diversos grupos no Facebook que tratam do tema e, mais recentemente, pude estreitar laços com os movimentos afroempreendedores. Meu interesse por esse grupo de pessoas foi despertando a cada nova pesquisa, conversa ou evento que frequentava, sobretudo ao perceber que o contexto do afroempreendedorismo ia além das questões econômicas. Entendi, então, que seria um recorte interessante para ser estudado. Entendendo que o tema afroempreendedorismo entrelaça tópicos complexos da sociedade, consideramos importante pontuar o contexto acadêmico em que o trabalho está inserido. A pesquisa foi desenvolvida alinhada ao projeto pedagógico interdisciplinar da Universidade Federal do ABC (UFABC), projeto que promove a construção e compartilhamento de saberes entre profissionais de diferentes campos e com o objetivo de estabelecer a interação e integração de diversas áreas do conhecimento consideradas necessárias para a resolução de questões com demandas complexas (PENTEADO et al, 2015). A interdisciplinaridade nasce como um movimento que busca refletir sobre a contraposição de um capitalismo epistemológico e contra propostas de um conhecimento construído a partir de um único ponto de vista. De modo que a interdisciplinaridade se baseia na intersubjetividade dos elementos envolvidos na pesquisa, ocorre a partir da constante
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    19 dialética entre esseselementos e é necessário que a problematização se desenvolva fundamentada em uma contínua construção dos saberes científicos de acordo com as exigências éticas, sociais, políticas, históricas e econômicas (FAZENDA, 1994, 2018). A numerosa população de afroempreendedores, o uso contínuo de sites de redes sociais, os diversos estudos que perpassam pelo tema e a popularização do debate, sobretudo nos veículos de comunicação, compõem a justificativa da relevância do trabalho aqui desenvolvido. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2016, a população que se autodenomina preta ou parda representa 54% da população brasileira12 . Já de acordo com levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), no Brasil há 12,8 milhões de pessoas negras empreendedoras, ou afroempreendedores, como popularmente denominadas, o que corresponde a 51% do total de empreendedores (SEBRAE, 2013). Vale pontuar que a referida pesquisa trata apenas de empreendedores cadastrados como Microempreendedor Individual (MEI), portanto não considera os trabalhadores informais, tampouco problematiza o crescente número de trabalhadores autônomos para o campo do empreendedorismo, consequência da precarização das leis trabalhistas. Além disso, o estudo não aplica uma conceituação acerca da categorização do que é ou não um empreendedor; porém, ainda assim, consideramos esse dado relevante para a reflexão inicial desta dissertação. De maneira mais delimitada, a pesquisa encomendada pelo Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE) que trata estritamente do perfil dos participantes do referido projeto, afirma que os afroempreendedores possuem estreita relação com movimentos sociais, vivenciaram situações de racismo em algum momento de suas vidas, demonstram a existência de redes solidárias, cooperação produtiva, combate ao racismo e valorização do orgulho negro. Também é possível observar na pesquisa que a internet e suas ferramentas aparecem entre os três principais canais de viabilização das atividades empresariais (MICK, 2016). Aspectos relacionados ao trabalho e renda da população negra no Brasil são temas de diversas pesquisas e livros, como o trabalho desenvolvido por Jacino (2014) sobre a transição no mercado de trabalho no período pós-abolição; de Figueiredo (2002), que aborda a ascensão social da elite negra da cidade de Salvador, na Bahia, e a tentativa de verificar a existência de atitudes pensadas e executadas coletivamente que visam o crescimento e a inserção de novos 1 População chega a 205,5 milhões, com menos brancos e mais pardos e pretos. Agência IBGE Notícias. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282- populacao-chega-a-205-5-milhoes-com-menos-brancos-e-mais-pardos-e-pretos Acesso em 01 de out. 2019. 2 Durante o texto deste trabalho, quando a menção tratar de pessoas que se autodenominam pretas e pardas a referência será a pessoas negras ou população negra.
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    20 membros neste gruposocial; ou ainda de Jaime (2016), que estudou, a partir do viés antropológico, os executivos negros na cidade de São Paulo a fim de entender as percepções de racismo entre as gerações e como o racismo e a diversidade são abordados no mundo empresarial. A leitura prévia destas pesquisas nos instiga a compreender com mais especificidade a problemática aqui proposta, uma vez que os fenômenos se assemelham quanto ao recorte racial. Especificamente sobre afroempreendedorismo, apresentaremos no capítulo quatro uma revisão sistemática sobre o tema com o objetivo de mapear as pesquisas nacionais já publicadas. Outro aspecto que motiva a execução da pesquisa é o crescente e relevante conteúdo jornalístico acerca do tema afroempreendedorismo. Destacamos aqui algumas matérias para efeito de ilustração, como a que trata da Start up Diaspora Black3 que tem como objetivo ser mediadora de reserva de hotéis para pessoas negras, ideia que surge a partir de experiências racistas sofridas por um dos fundadores. Temos também notícias que repercutem o evento da Feira de Afroempreendedorismo no Distrito Federal4 e a semana cultural Afro da cidade de Bauru5 . Há ainda a matéria sobre o programa de aceleração de afroempreendimentos6 com apoio do Facebook e a matéria especial sobre o Movimento Black Money7 no Brasil. Grande parte desses destaques são liderados por grupos e associações de Afroempreendedores, desde a Feira Cultural Preta – referência há mais de 15 anos na promoção do empreendedorismo negro, aos mais recentes como AfroBusiness, BlackRocks Startup, Movimento Black Money, Projeto Brasil Afroempreendedor, Rede de Profissionais Negros, Rede de Afroempreendedores, Vale do Dendê, entre outras iniciativas (OLIVEIRA, 2018). De modo geral, essas organizações e grupos foram estruturados a partir da reunião de interessados por meio de sites de redes sociais e levadas à execução de atividades para além do campo digital. 3 Start-up afroempreendedora busca financiamento coletivo. Revista Claudia. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/carreira/start-up-afro-financiamento/ Acesso em 01 de out. 2019. 4 Feira de Afroempreendedorismo do DF vai até sábado (18). Agência Brasília. Disponível em: https://www.agenciabrasilia.df.gov.br/2017/11/16/feira-de-afroempreendedorismo-do-df-vai-ate-sabado-18/ Acesso em 01 de out. 2019. 5 Semana Cultural Afro Bauruense começa nesta terça-feira. G1 Bauru e Marília. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/noticia/semana-cultural-afro-bauruense-comeca-nesta-terca-feira.ghtml Acesso em 01 de out. 2019. 6 CONHEÇA O AFRO HUB, PROGRAMA DE ACELERAÇÃO PARA EMPREENDEDORES NEGROS. Pequenas Empresas & Grandes Negócios. Disponível em: https://revistapegn.globo.com/Startups/noticia/2018/05/conheca-o-afro-hub-programa-de-aceleracao-para- empreendedores-negros.html Acesso em 01 de out. 2019. 7 Mundo S/A: movimento valoriza cultura negra por meio do empreendedorismo. Globo News. Disponível em: http://g1.globo.com/globo-news/dossie-globo-news/videos/t/ultimos-programas/v/mundo-sa-movimento- valoriza-cultura-negra-por-meio-do-empreendedorismo/6769923/ Acesso em 01 de out. 2019.
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    21 A apropriação coletivae objetivada das ferramentas da internet e de sites de redes sociais pelos usuários é reflexo de uma sociedade que as utiliza rotineiramente, como aponta pesquisa liderada pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC). Atualmente, os usuários de internet no Brasil com 10 anos ou mais chegam a uma estimativa de 107,9 milhões de indivíduos, o que corresponde a 61% da população brasileira. Desses, 86% acessam a internet todos os dias ou quase todos os dias e suas principais atividades são envio de mensagens instantâneas (89%) e o uso de redes sociais8 (78%). Enquanto a pesquisa sobre produtos e serviços foi realizada por 59% dos usuários de internet, a compra de produtos ou serviços por 38% e a divulgação e venda de produtos por 17%. Em relação aos lares, 54% dos domicílios brasileiros (36,7 milhões) possuem acesso à internet (CETIC.BR, 2017). Essas pesquisas enfatizam a importância de se debater as complexidades e nuances do afroempreendedorismo no Brasil enquanto prática em contínua expansão. Isso posto, apontamos como tripé teórico interdisciplinar: a escala de brasileiros conectados e que formam redes sociais na internet; o afroempreendedorismo enquanto fenômeno em desenvolvimento e que carrega uma gama de variáveis sociológicas como racismo, antirracismo, identidade, trabalho, renda, educação, entre outras; e a possibilidade de estudar o objeto à luz da teoria da economia étnica (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989). Teoria que, por sua vez, tem como premissa abordar grupos étnicos que desenvolvem atividades econômicas pensadas na comunidade co-étnica, fortalecendo negócios, gerando emprego e formação técnica entre si. Trabalhamos com as hipóteses de que, embora com tensionamentos teóricos e históricos, o afroempreendedorismo no Brasil apresenta características que se aproximam da teoria da economia étnica e que existe um discurso alinhado com causas defendidas pelo movimento negro, ainda que a finalidade da prática afroempreendedora seja tratar de relações comerciais. A partir disso, propomos uma metodologia qualitativa amparada nos métodos de análise de redes sociais na internet (RECUERO, 2009; BARABÁSI, 2009; RECUERO; BASTOS & ZAGO, 2015; SILVA & STABILE, 2017; RECUERO, 2018), formulário direcionado aos Afroempreendedores e entrevista semiestruturada com os responsáveis pelos nós em destaque na rede a partir da métrica de grau de entrada e assim tentar verificar se as hipóteses se confirmam (FLICK, 2004; BONI, 2005). 8 Termo utilizado na pesquisa para designar os sites de mídias sociais.
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    22 Portanto, a dissertaçãoaqui apresentada tem como objeto de estudo o afroempreendedorismo no Brasil e seu objetivo geral é compreender as aproximações e distanciamentos entre o Afroempreendedorismo e a Teoria da Economia Étnica (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989). Assim, buscamos responder a seguinte problemática: é possível aplicar a Teoria da Economia Étnica na análise do Afroempreendedorismo no Brasil? Temos ainda como objetivos específicos: • Compreender de que forma a história da população negra no Brasil colabora e corrobora na prática afroempreendedora na atualidade; • Compreender quais comunidades na plataforma privada Facebook são identificadas na análise de redes; • Colaborar com os estudos já publicados sobre o afroempreendedorismo no Brasil; • Compreender quais as características sociodemográficas dos afroempreendedores; • Compreender se há posicionamentos políticos e sociais por parte dos afroempreendedores; • Entender como as redes sociais na internet são percebidas e se colaboram com a promoção do afroempreendedorismo. Estruturamos a dissertação da seguinte maneira: para além desta Introdução, há o capítulo 2, de conceituação e revisão sistemática (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO & MANCINI, 2007) sobre Teoria da Economia Étnica; o capítulo 3, que disserta sobre o contexto da população negra no Brasil, sobretudo no que tange a trabalho e renda; e o contexto e revisão sistemática sobre o afroempreendedorismo; o capítulo 4, que relaciona a discussão da identidade, cultura e relações étnico-raciais com os sites de redes sociais; o capítulo 5, com o detalhamento da metodologia utilizada; o capítulo 6, de apresentação e análise de dados; as considerações finais; a bibliografia; e finalmente o apêndice.
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    24 2. TEORIA DAECONOMIA ÉTNICA: ABORDAGENS CONCEITUAIS E APLICAÇÕES E tá tirando dez de Havaiana E quem não quer chegar de Honda preto e banco de couro, E ter a caminhada escrita em letras de ouro A mulher mais linda, sensual e atraente, Da pele cor da noite, lisa e reluzente Andar com quem é mais leal e verdadeiro, Na vida ou na morte, o mais nobre guerreiro O riso da criança mais triste e carente, Ouro e diamante, relógio e corrente Ver minha coroa onde eu sempre quis por, De turbante, chofer, uma madame nagô. Sofrer, pra quê? Mas se o mundo jaz do maligno Da ponte pra cá – Racionais MC’s O conceito de Economia Étnica deriva da teoria de middleman minority,9 ou seja, grupos étnicos em determinadas ocupações de serviços ou comércios que estão em grau intermediário de posição social: nem abaixo e nem acima, no meio. Esses grupos se formam e se desenvolvem em decorrência da hostilidade social por causa de sua religiosidade ou raça e cultura, e assim eles fazem a economia circular prioritariamente dentro de seu grupo, tornando-os fortes (BONACICH, 1973). A economia étnica trata das movimentações econômicas de imigrantes e minorias étnicas instalados e organizados em comunidades de outros países que não os de origem e pressupõe uma rede estratégica para circular negócios, oportunidades de emprego e capacitação técnica entre a comunidade. Dessa maneira, a teoria propõe que exista integração, solidariedade, suporte para fontes de capital, trabalho e informação compartilhados prioritariamente entre os membros do grupo co-étnico (LIGHT, 2005, 2013; GOLD, 1989). Para Garrido e Olmos (2006), é possível pensar a economia étnica a partir de três perspectivas: a culturalista, a ecológica e a interativa. A primeira diz respeito à afinidade para o auto emprego por questões religiosas, solidariedade em resposta a uma sociedade hostil, negócios familiares e capital social. Já a perspectiva ecológica trata dos pequenos negócios que grandes organizações não atendem ou apropriações de grupos étnicos em nichos que eram atendidos por determinadas empresas e agora não são mais, pois estas avançaram na economia global. Por fim, na perspectiva interativa, os bens culturais relacionados ao país de 9 “Minorias intermediárias”, trad. própria.
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    25 origem são osmais recorrentes entre negócios étnicos, a exemplo da culinária, livros, música e roupas. Todavia, é possível observar, segundo os autores, outras modalidades de serviços necessários e que são provenientes das mesmas comunidades, como assessoria jurídica, contábil, administrativa ou associações e linhas de créditos com foco no grupo co-étnico. Portanto, para os autores, a perspectiva interativa diz respeito sobre a estratégia étnica determinada pelo grupo. A partir do forte viés economicista da perspectiva interativa, Garrido e Olmos (2006) desenvolveram uma perspectiva denominada mixed embeddedness10 . Para os autores, as economias étnicas dependem da adequação entre o que os grupos étnicos podem oferecer e o que está permitido que eles ofereçam. Além disso, um dos elementos de suma importância, além das redes sociais, trata da estrutura socioeconômica e política institucional da sociedade. Para os autores, a perspectiva South-European Model afirma que os empreendedores étnicos precisam vencer diversos obstáculos para conseguir se estabelecer e prosperar em suas iniciativas empresariais (GARRIDO & OLMOS, 2006). O transnacionalismo é outra característica possível em economias étnicas: trata-se de comunidades diaspóricas que estão globalmente dispersas, mas socialmente integradas, ou seja, pessoas de comunidades transnacionais transitam entre seu país de origem e sua localidade atual e fazem desse movimento oportunidades empreendedoras, pois se fortalecem nas possibilidades culturais e no capital social internacional (LIGHT, 2013). Em algumas discussões, a maturação metodológica da literatura relacionada à teoria da economia étnica é limitada, pois grande parte dos trabalhos aborda somente uma perspectiva histórica, estudos de caso e poucos métodos quantitativos em decorrência das generalizações a partir de um único grupo étnico. Há ainda, discussões teóricas que afirmam que só seria possível tratar da economia étnica a partir do ponto de vista geográfico, pois a proximidade territorial facilitaria a formação da comunidade étnica (LIGHT, 2003). De maneira geral, a teoria da economia étnica trata de um grupo étnico que imigra e desenvolve relações econômicas a partir de sua comunidade étnica. Todavia, propomos aqui a análise do grupo social composto pela população negra brasileira que exerce atividades dentro do escopo do afroempreendedorismo, tendo em mente que o contexto histórico desse grupo não se trata de imigração, mas sim de sequestro e trabalho forçado a partir de um regime violento e autoritário que resulta em marginalização, segregação e, em certa medida, no reforço e valorização da identidade étnica (SANTOS, 2009). Assim, buscamos compreender quais são 10 “Imersão mista”, trad. própria.
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    26 as aproximações edistanciamentos entre o afroempreendedorismo e a teoria da economia étnica. 2.1 Teoria da Economia Étnica: um estado da arte Para que tenhamos uma visão ampliada das metodologias, epistemologias e aplicações da teoria da economia étnica, apresentamos um estudo de revisão sistemática (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO & MANCINI, 2007) para mapeamento e categorização acerca de trabalhos já publicados. O estudo de revisão sistemática, também chamado de "estado da arte", tem caráter bibliográfico e o principal desafio é observar, categorizar e avaliar o conhecimento já produzido sobre determinado tema. Assim, com a sistematização do conhecimento já produzido, se busca responder questões acerca do contexto, do tipo de produção, abordagens teóricas, motivações empíricas e aplicações metodológicas (FERREIRA, 2002). A partir da síntese das informações expostas de maneira organizada é possível tê-las como base para a identificação de limitações ou ampliações de discussões, como temas que precisam de evidências e oportunidades para guiar novas investigações (SAMPAIO & MANCINI, 2007). Portanto, a premissa é que o estado da arte aqui apresentado colabore para a compreensão das aproximações e distanciamentos da teoria da economia étnica com o afroempreendedorismo no Brasil. Para tanto, buscamos nos bancos de trabalhos científicos Scielo, Periódicos Capes e Google Acadêmico nos idiomas português, inglês e espanhol e a partir das palavras-chave "economia étnica", "ethnic economy", "ethnic economies" e "economía étnica" os artigos, teses, dissertações e capítulos de livros que abordam temas relacionados à teoria em questão. O objetivo da categorização e análise dos trabalhos encontrados é responder às questões: quais grupos raciais e étnicos são abordados nos trabalhos sobre economia étnica; quais metodologias são aplicadas nas análises e quais áreas do saber abordam a teoria da economia étnica. Utilizamos como ferramenta de apoio para o estudo de revisão sistemática a StArt, desenvolvida no Laboratório de Pesquisa em Engenharia de Software da Universidade Federal de São Carlos e que auxilia na categorização dos trabalhos selecionados (FABBRI et al, 2016). A partir da pesquisa pelas palavras-chave e com um recorte temporal de 20 anos (1997-2017), prezando por dados de duas décadas com contextos sociais diferentes, principalmente pelo viés dos avanços tecnológicos, encontramos 111 trabalhos entre artigos de periódicos, dissertações, teses e capítulos de livros. Na primeira etapa de classificação,
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    27 tendo como critériosde inclusão estar nas línguas citadas acima e constar alguma das palavras-chave no resumo ou título, restaram 76 trabalhos com essas especificações. Na segunda estratificação, seguindo os critérios de identificação da metodologia ou grupo étnico, restaram 59 trabalhos. Foram excluídos aqueles que não atendiam algum destes critérios citados, que estavam duplicados, não continham as informações necessárias no resumo, tampouco no decorrer do texto, ou ainda trabalhos dos quais sua visualização completa exigia pagamento de acesso. Sobre a análise do material selecionado em relação ao período, cinco dos 59 trabalhos foram publicados entre os anos de 1997 e 1998, 18 entre os anos de 2000 a 2010 e sete entre 2011 e 2017. Sendo 2015 o ano com mais publicações: nove ao todo. Sobre o tipo de trabalho, 52 são artigos de periódicos, três dissertações, três teses e um capítulo de livro. Em relação à língua redigida, seis estão em português, sete em espanhol e 46 em inglês. Os métodos utilizados nos trabalhos analisados foram: Análise de Dados Secundários, Discussão Teórica, Entrevista, Etnografia, Estudo Comparativo, Estudo de Caso, Questionário, Estudo de Revisão Sistemática, Observação Participante, Trabalho de Campo, Pesquisa Longitudinal, Análise de Redes Sociais, Observação e Técnicas Geográficas. Abaixo, no Gráfico 1, é possível visualizar a quantidade para cada tipo de método. Importante ressaltar que em algumas vezes mais de um método foi utilizado no mesmo trabalho. Gráfico 1 – Teoria da Economia Étnica: Métodos utilizados Fonte: Elaboração própria. A respeito dos grupos étnicos dos trabalhos analisados, encontramos 27 grupos diferentes – embora 21 trabalhos não especifiquem um grupo étnico, sendo que nestes o
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    28 debate foi realizadosomente em torno de tópicos teóricos. O grupo étnico de maior destaque é o de chineses, com 11 trabalhos encontrados, seguidos de negros, poloneses, indianos, mexicanos e turcos com dois trabalhos e os demais grupos com um trabalho cada, como demonstrado no Gráfico 2 abaixo. Gráfico 2 – Teoria da Economia Étnica: Classificação de Grupos Étnicos Fonte: Elaboração própria. Dentre os 59 trabalhos selecionados, apenas dois abordam o grupo étnico formado por pessoas negras. Ambos do mesmo autor, o professor Robert L. Boyd, do Departamento de Sociologia da Universidade do Estado do Mississipi. Em The organization of an ethnic economy: Urban black communities in the early twentieth century (BOYD, 2012), o autor revisa as afirmações em torno das atividades empreendedoras de negros no Sul dos Estados Unidos no início do século XX, sobretudo na tentativa de confirmar a existência de uma organização coerente das atividades e que essas foram importantes para a participação negra em serviços públicos, artísticos, entretenimento e na mídia de massa. O autor não conclui o artigo com afirmações categóricas devido à carência dos dados disponíveis, porém finaliza indicando caminhos a serem seguidos por outros pesquisadores para que seja possível inferir mais diretamente em como a participação dos negros em certas ocupações é afetada pelo contexto mais amplo que inclui empresas de propriedade de negros, igrejas negras e outras instituições negras no ambiente urbano.
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    29 Já em Urbanlocations and Black Metropolis resilience in the Great Depression (BOYD, 2017), o autor pesquisa as Black Metropolis nos Estados Unidos no início do século XX, diferenciando-se do estudo anterior por levantar o período da Grande Depressão entre 1930 e 1940 como recorte temporal. Também utiliza como método a análise dos dados censitários a respeito de profissões e ocupações de pessoas negras. Sua hipótese sustenta que centros urbanos dominantes em Nova York, Chicago e Filadélfia tinham as Black Metropolis mais resilientes. Seus resultados atestam que cidades do norte eram, em geral, mais resistentes do que cidades do sul, principalmente para negros profissionais e empreendedores. Logo, as metrópoles negras do norte urbano eram centros vitais de oportunidade econômica para as comunidades negras, avançando, assim, os interesses das classes média e alta dessas comunidades. O autor finaliza sugerindo que estudos futuros podem usar uma gama mais ampla de variáveis explicativas, incluindo fatores políticos, como a mobilização dos eleitores e grupos de pressão, fatores sociais e econômicos, como a estrutura industrial mais ampla em centros urbanos e o capital humano da força de trabalho. Embora sejam os únicos trabalhos com viés racial voltados a pessoas negras, vale pontuar que o contexto de negritude nos Estados Unidos é bastante diferente do contexto brasileiro. Sendo que aqui a maioria da população (54%) é declaradamente negra, enquanto no país norte-americano esse número é de 13,4%11 . Além disso o Brasil foi o último país colonizado a extinguir a escravidão e suas consequências pulsam fortemente até os dias atuais, sobretudo no racismo baseado em práticas sociais. Como resultados, observamos que o principal grupo étnico estudado são os chineses, seguido de negros, turcos, mexicanos, indianos e poloneses. A respeito das metodologias, a predominância é de análise de dados secundários, discussão teórica, entrevistas e etnografia. Observamos ainda que existe uma preocupação dos pesquisadores em compreender as maneiras que ocorrem as interações, a estrutura social e os mecanismos de cooperação e confiança entre os grupos étnicos analisados nos trabalhos encontrados. Além disso, os trabalhos trazem temas que abordam não só as formações de negócios como também as relações empregador-empregado dentro das relações co-étnicas, além de características subjetivas como a valorização de identidades. Outro ponto que merece reflexão é que nenhum dos trabalhos selecionados apresenta problemática a partir do contexto de novas tecnologias e internet, fenômeno em franca expansão nas últimas décadas. 11 Census of United States. Disponível em: https://www.census.gov/quickfacts/fact/table/US/PST045218 Acesso em 01 de out. 2019.
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    30 Nos trabalhos deautores brasileiros (GRUN, 1998; TEIXEIRA, 2001; CASTRO, 2007; TRUZZIL & SACOMANO NETO, 2007; MACHADO, 2010; VILELA & NORONHA, 2013;) observamos como principais abordagens: o contraponto de crítica à teoria da economia étnica e sua aplicabilidade teórica, diversidade dos negócios, percepção das várias gerações etárias dentro dos grupos étnicos, exploração do tema por áreas como sociologia e antropologia, desempenho de rendimentos para imigrantes e imigrantes mulçumanos no estado de São Paulo. Todavia, não há estudos relacionados ao afroempreendedorismo que tenham como base a teoria da economia étnica e, ainda, é necessário destacar que nenhum dos trabalhos brasileiros problematiza o projeto político estimulado pelo governo brasileiro em trazer imigrantes europeus para realizar atividades que antes eram feitas por pessoas escravizados e que seriam, a partir de então, remunerados, preferencialmente ao imigrante não-negro (discutiremos esse tópico nos capítulos seguintes). De modo geral, o estado da arte sobre a teoria da economia étnica aqui apresentado colabora para que tenhamos uma visão ampla das técnicas e grupos já estudados nos possibilitando aprender com as práticas efetuadas. Ainda, atesta a proposta de inovação na temática visto que não há trabalhos relacionados ao contexto digital, tampouco ao estudo do afroempreendedorismo no Brasil. Assim, ainda que a Teoria da Economia Étnica seja relativamente novo no campo das ciências é necessário que haja a problematização da ausência de estudos que englobem a população negra, sobretudo na perspectiva brasileira, bem como a ausência de trabalhos que insiram a discussão que contemple as novas tecnologias. Outra ressalva fica por conta das áreas em que os estudos são desenvolvidos, predominantemente no campo das ciências sociais, o que demonstra aproximação com debates que vão além das questões puramente técnicas da prática empreendedora. Dessa maneira, apoiados nas abordagens acima apresentadas, pretendemos compreender as aproximações e distanciamentos entre o afroempreendedorismo e a teoria da economia étnica.
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    32 3. Economia desubsistência: trabalho e geração de renda da população negra no Brasil Eu me formei suspeito profissional, Bacharel pós-graduado em tomar geral. Eu tenho um manual com os lugares horários, De como dar perdido, ai caralho... Prefixo da placa é My sentido Jaçanã, Jardim Hebron. Quem é preto como eu, já tá ligado qual é, nota fiscal RG polícia no pé. Escuta aqui o primo do cunhado do meu genro é mestiço, Racismo não existe, comigo não tem disso, É pra sua segurança. Falou, falou... Deixa pra lá. Vou escolher em qual mentira vou acreditar. Tem que saber curtir, tem que saber lidar. Em qual mentira vou acreditar? Qual mentira vou acreditar – Racionais MC’s A compreensão do afroempreendedorismo enquanto fenômeno contemporâneo perpassa a história da população negra no Brasil, sobretudo quando se trata de um conceito ainda pouco explorado pelas ciências sociais, ficando a cargo de áreas técnicas tratar do empreendedorismo apenas como uma maneira fim de se obter renda. Todavia, o afroempreendedorismo carrega em si uma gama de questionamentos e problemáticas alocadas em muitos campos do cotidiano social, como a distinção sobre o que é ou não empreendedorismo, o empreendedorismo por oportunidade ou necessidade, o trabalho informal e a precarização das leis trabalhistas, as políticas públicas de reparação histórica e assim por diante. Pretendemos neste capítulo abordar algumas premissas, sobretudo no que se refere ao trabalho, renda e educação da população negra, a fim de compreender o que atualmente e comumente é chamado de afroempreendedorismo. Como afirma Moura (1992), a trajetória da população negra no Brasil confunde-se com a formação histórica e social da própria nação. Assim, a grande evidência dessa trajetória é o fundamental papel da escravidão para o desenvolvimento da economia da colônia, do Império e até mesmo da República, surgida após o fim legal da escravidão, mas implementada graças ao protagonismo político das oligarquias enriquecidas, portanto empoderadas, graças ao trabalho escravo. No período escravocrata, os escravizados eram responsáveis pela plantação, colheita e distribuição de vários produtos agrícolas, na criação de gados, serviços domésticos, fabricação de ferramentas manuais, pelo transporte de cargas nas cidades, construção de vias e demais serviços urbanos (ALBUQUERQUE & FRAGA FILHO, 2006). Percebe-se, portanto, que desde sempre e por quase quatro séculos a mão de obra negra era
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    33 utilizada como meiopara enriquecer determinados grupos étnicos com a força dominante de poder; ou seja, podemos dizer que já existia desde então uma prática de economia étnica, porém baseada na violência e exploração a partir de uma categorização hierarquizada a respeito de quem manda e quem obedece. O escravizado era elemento fundamental da economia, pois ela “exigia uma técnica muito complexa, considerando que não era apenas uma economia extrativa, mas uma agroindústria cuja diversificação interna do trabalho era bem acentuada” (MOURA, 1992, p. 19). Afirma Castro (1976) que a indústria canavieira representava o que de mais avançado existia na produção da riqueza nos séculos XVI e XVII e os engenhos poderiam ser considerados como precursores do fordismo, tal era o nível de organização do trabalho e a produtividade auferida, a partir da exploração desumana do trabalho escravo. Em decorrência da distribuição mercadológica e desumana de escravizados, havia a dificuldade de que estes estabelecessem vínculos em comunidades, já que amigos e familiares, quando não eram separados desde o continente africano, poderiam ser vendidos, abandonados ou assassinados a qualquer momento. Contudo, as relações sociais entre os escravizados nas tarefas do dia a dia davam certo suporte para a sobrevivência e para o reforço de valores e referência culturais. Segundo Albuquerque & Fraga Filho (2006), o trabalho era um momento especial para forjar laços de solidariedade. Além desse fator, a solidariedade também era encontrada com ênfase nos quilombos, formados desde os primeiros grupos de africanos desembarcados no Brasil, onde os negros rebelados se refugiavam para ter, enfim, um pouco de humanidade (MOURA, 1992). Além da remodelagem do trabalho coletivo (OLIVEIRA in MOURA, 2001), os quilombos eram os grandes redutos de resistência negra, lugar onde eram confabuladas as conversações do movimento de luta contra a escravidão, de humanização dos negros, de organização social e reafirmação dos valores e identidade africanos. Para Carneiro (in MOURA, 2001, p.12) "o quilombo foi essencialmente um movimento coletivo, de massa", resultado da cultura de resistência. Já Reis (1989; 1996) discorre acerca da imensa quantidade de conflitos protagonizados pelos escravizados e ex-escravizados ao longo da história do Brasil e como esses conflitos foram determinantes para minar a rígida hierarquia da sociedade escravocrata abrindo fissuras e obrigando aquela sociedade a diversificar as formas de controle e dominação dos escravizados. Para Cardoso (1987), esses conflitos perenes, sintetizados no binômio luta e acomodação, fizeram com que parte significativa dos proprietários tenham sido levados a estabelecer algum tipo de negociação como tentativa de diminuir a resistência negra. A
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    34 exemplo disto, haviaa disponibilização por parte dos escravocratas de pequenos lotes de terra onde os cativos poderiam (nos domingos e dias santos) praticar a agricultura e pecuária de subsistência e exercer certas atividades sociais e culturais, longe das vistas dos senhores e de capatazes. Aquele espaço de autonomia - além de formas alternativas de exploração do trabalho escravo, no ambiente urbano, na mineração, no pastoreio e na condução de animais, dentre outras - permitiu que os ex-escravizados passassem a sobreviver nas mesmas ocupações que exerciam antes, conforme os estudos desenvolvidos por Dias (1995) e Santos (1998). Como enfrentavam a recusa generalizada por parte dos empregadores em contratar negros de forma assalariada, restava-lhes o trabalho autônomo ou o empreendedorismo, expressão que, a luz das elaborações teóricas atuais, não poderia ser considerada anacrônica para classificar aquela forma de organizar o trabalho e se inserir no mercado. Ou seja, o trabalho autônomo, auto gestionário, resultado de condicionantes sociais e não por opção, acabou se tornando um traço cultural de parte significativa da população negra. Teria sido determinante, ainda, o legado tecnológico africano, pesquisado por Cunha (2010), no que diz respeito ao desenvolvimento da agricultura, pesca, pecuária e mineração, assim como o artesanato com ouro, metalurgia, carpintaria e marcenaria, indústria têxtil e química, construção civil, comércio e navegação. Todos fundamentais para a sobrevivência dos ex- escravizados, invariavelmente na condição de autônomos, buscando inserção em uma sociedade que, não obstante, negava o trabalho assalariado ao negro, privilegiando operários europeus, como apontado por Kowarick (1994). Ou seja, tanto o quilombo quanto as formas alternativas de sobrevivência na condição de libertos no seio da sociedade escravista, assim como as ocupações de negros características no pós-escravismo, apresentavam importantes aspectos culturais que se mantêm até os dias atuais. Cultura essa que começa quando os negros escravizados veem na manifestação de sua religião, música, indumentária, entre outros aspectos, uma função de resguardo contra a cultura dos opressores. As manifestações culturais muitas vezes iam além do papel simbólico e desempenhavam o papel de veículo ideológico de luta, uma vez que a dominação cultural tem como efeito a dominação social e econômica. Em contrapartida, os negros criaram mecanismos de defesa contra a cultura dominadora, o que para Moura (1992) isso persiste pós-escravidão, quando grupos negros aproveitam valores afro-brasileiros como instrumentos de resistência. Já em relação à abolição, os projetos, orientados pelas construções ideológicas racistas citadas por Schwarcz (1993), não tinham por objetivo inserir os ex-escravizados no mercado
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    35 de trabalho; aocontrário: as vantagens oferecidas aos imigrantes, inclusive em dispositivos legais, e a preferência de europeus na contratação por parte dos empregadores, explicitados em anúncios de jornais estudados por Jacino (2008), demonstram que o abolicionismo veio acompanhado do projeto de branqueamento da nação, resultante do darwinismo social e da eugenia, materializada em ações governamentais e na legislação. Ou seja, a marginalização social da população negra foi uma opção dos detentores de poder econômico e do Estado brasileiro. Essa marginalização reforçou o caráter “empreendedor12 ” de homens e mulheres negros que passaram a incorporar o empreendedorismo no seu modo de vida para desenvolver alternativas para burlar o sistema. Exemplos são as atividades desenvolvidas no fim do século XVIII por comunidades que não dependiam exclusivamente da estrutura em torno das tarefas de mineradores, sobretudo em Minas Gerais, onde havia alguns trabalhos essencialmente ocupados por negros livres, como mecânica, lavandeiras, tabuleiros e vendedores ambulantes (BOSCHI, 2002). As propostas de abolição têm início com a crise do sistema escravista, em 1850, quando é extinto o tráfico de escravizados da África para o Brasil. Além disso, o negócio açucareiro entra em decadência e o café passa a exigir maior mão de obra, mas não tendo como importar escravizados da África, a troca de cativos acontece entre províncias, causando certa desarticulação da população negra, que se vê separada de seus familiares com a venda para senhores diferentes, porém acirrando os ânimos daqueles cativos e obrigando os senhores a trocar negros rebelados por outros. A decadência do sistema escravista faz emergir também novas configurações do trabalho, sobretudo com o estímulo governamental pela vinda de imigrantes para o país para substituir a mão-de-obra do escravizado, como já mencionado acima. Então, quando ocorre a abolição, não há nenhuma garantia ou possibilidade de inserção social por parte do Estado. Agora os negros supostamente libertos, além de abandonados na periferia do trabalho, são impedidos do exercício de ocupações com maior valor social e mais bem remuneradas (MOURA, 1992). Sem amparo do Estado e sem um projeto de desenvolvimento, restava como alternativa aos que sobreviviam a economia da subsistência. Em decorrência desse processo de exclusão social, o preconceito e a discriminação eram característicos de um tratamento racial desigual, que minava ou restringia as oportunidades ocupacionais (FERNANDES, 1989; 2013). Ainda assim, a formação de comunidades também ocorria no pós-abolição, quando grupos de ex-escravizados se reuniam para o trabalho de caráter cooperativado, lazer, cultura 12 A prática de atividades autônomas se dava mais por necessidade do que oportunidade.
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    36 ou para aprática esportiva. Já em meados do século XX, são criados diversos movimentos negros responsáveis por promover a comunicação entre suas comunidades. Destacamos aqui a edição e circulação de jornais como o Menelick, Notícias de Ébano, Correio d’Ébano, entre outros. Movimentos esses responsáveis por trazer à tona a consciência étnica dos negros e movimentar pautas relacionadas às suas causas. Da década de 1930 em diante surgem organizações mais amplas e organizadas como a Frente Negra Brasileira, o Teatro Experimental do Negro, o Comitê Democrático Afro-Brasileiro, Associação Cultural do Negro, todas com caráter político e de organização social, mas sempre apontando formas alternativas de sobrevivência econômica da população negra. Na década de 1970, nos período de ditadura civil/militar no país entre os anos de 1964 e 1985, junto ao florescer de diversas organizações sociais reprimidas no período autoritário, surge o Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR), mais tarde renomeado de Movimento Negro Unificado (MNU) que, como afirma Moura (1992), representa "uma verdadeira teia nacional desses grupos, mantém o negro unido e cria condições para a preservação da sua memória afro-brasileira" (p. 78). Há certo destaque para esses grupos, numa fase mais recente, para movimentos culturais e artísticos como o hip-hop, que traz consigo características populares, de vanguarda e com linguagem periférica acessível (DOMINGUES, 2007). Como afirma Gomes (2005), os movimentos sociais têm certa responsabilidade de também atuar na reeducação da sociedade, dos meios políticos e acadêmicos, e assim inserir o debate massivo contra a hierarquização de classes, raças, gêneros entre outras classificações que perpetuam tratamentos diferentes e geram desigualdades. Entre as principais bandeiras defendidas pelo movimento negro, encontra-se o acesso à educação, já que desde o período da redemocratização, principalmente os movimentos sociais travam lutas diretas com os poderes públicos em prol de sua universalização. Embora o ensino básico tenha atingindo um patamar em certa medida democrático, os ensinos médio e superior ainda são marcados pela exclusão de acesso para grupos não privilegiados, mesmo que nos últimos anos a lei de cotas no ensino superior tenha sido adotada por grande parte das universidades públicas, ampliando, assim, o acesso de jovens negros a cursos de graduação (NOGUEIRA & MICK, 2013, p, 91). Jaccoud e Theodoro (2005) mobilizam analistas que indicam que a reversão do quadro de desigualdades, que coloca o negro em todas as piores posições nos indicadores sociais, só seria possível a partir de ações educacionais, uma vez que essas proporcionam mobilidade social e possibilidades mais igualitárias na disputa de postos no mercado de trabalho. Todavia, os autores ressaltam que o Estado precisa ir além das
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    37 políticas universalistas paragarantir o acesso e permanência de crianças e jovens negros em todos os níveis educacionais. Para os autores, "tais medidas implicariam a adoção de políticas de combate aos estereótipos, aos preconceitos e ao racismo, e a promoção de determinadas políticas de promoção da igualdade" (JACCOUD & THEODORO, 2005, p. 115-116). Assim, podemos constatar que desde a chegada de africanos sequestrados no país e até os dias atuais, percebe-se uma organização peculiar de grupos sociais minorizados que se juntam pela denúncia e busca de soluções dos problemas que, de modo geral, foram causados em decorrência de preconceito e discriminação, e que dificultam o acesso e a permanência nos sistemas de trabalho, educação, político, social e cultural. Bem como afirma Almeida (2018): “não é o racismo estranho à formação social de qualquer Estado capitalista, mas um fator estrutural, que organiza as relações políticas e econômicas” (p. 141), assim podemos afirmar que a escravidão definiu lugares de pertencimento e exclusão na sociedade, principalmente a partir das relações de poder e de exploração econômica que geraram opressão racial, causando diversos males também no tempo atual (ALBUQUERQUE & FRAGA FILHO, 2006). A formação e vivência da população negra no Brasil segue entrelaçada ao contexto social e político do país, uma vez que a cada avanço e retrocesso, conquistas ou derrotas recaem sob a população da base da pirâmide. A população negra enquanto organização coletiva passa por uma nova reconfiguração de atuação, sobretudo com o advento da internet e suas plataformas de conexões. Consequentemente, chegamos a um emaranhado de questões que envolvem o complexo cenário do afroempreendedorismo no Brasil: a prática afroempreendedora ocorre por necessidade ou por oportunidade? Os empreendedores negros se sustentam exclusivamente através de suas atividades empresariais? Lucram o suficiente para manter ou melhorar seu padrão de vida? Seria o afroempreendedorismo uma forma de reforçar a identidade negra? A internet e os sites de redes sociais são realmente democratizantes em termos de comunicação para segmentos marginalizados, como a população negra no Brasil?
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    38 3.1 Da subsistênciaao Afroempreendedorismo: uma outra Economia é possível? Há uma série de definições sobre o que é empreendedorismo, dentre as quais Dornelas (2001) afirma que empreendedores são os pequenos e microempresários que oferecem serviços ou produtos para obtenção de renda. Outros autores definem empreendedorismo como um conjunto de iniciativas para a resolução de problemas sociais e econômicos e a capacidade de criar algo a que se dedicar e receber, eventualmente, recompensas satisfatórias e independência financeira (SANDRONI, 2005; HERICHI; PETERS, 2004 apud SANTIAGO, 2009). Dolabela (2003) emprega uma definição um pouco mais subjetiva e afirma que empreender é um processo humano dominado por emoções, sonhos e desejos, realizado por quem acredita na capacidade de mudar a sociedade e que tem indignação em relação aos problemas sociais. Para o autor, "empreender é, principalmente, um processo de construção do futuro" (DOLABELA, 2003, p. 29). Como discutido no capítulo anterior, todas as fases econômicas do Brasil, passando pela produção açucareira, pela mineração, produtos tropicais e o café, foram desenvolvidas sob a exploração da mão-de-obra escrava de negros e indígenas. Como afirma Oliveira (2017), a respeito das singularidades da configuração da sociedade liberal brasileira, o racismo é elemento estruturante, uma vez que não houve rupturas e nem esforço da elite dominante em amparar a população negra na transição entre a economia colonial para a capitalista. A concentração de riqueza como eixo central da sociedade capitalista brasileira é, portanto, a manutenção da concentração de posse e superexploração do trabalho como instrumental elementar da reprodução do capital e a violência como prática e política permanente para uma suposta ordem social, classificando os conflitos sociais como casos de polícia. Há, em certa medida, uma problemática em relação à prática empreendedora, uma vez que o capitalismo é o algoz protagonista da estrutura racista em voga no país, como afirma Oliveira (2017): “o racismo não é uma deformação de comportamento e sim um mecanismo processual do capitalismo” (p. 35). Refletir sobre a liberdade e o acesso ao trabalho do negro escravizado é essencial para compreender as configurações da sociedade. Em meados do fim do século XIX, na transição econômica do período pós-abolição, havia certas tendências de ocupações para negros livres, como comércio e prestação de serviços para a maioria de mulheres, e trabalho braçais para homens. Todavia, além do aumento exponencial da concorrência de trabalho com os estrangeiros brancos, os trabalhos livres por parte dos negros eram considerados “vagabundagem”. Em decorrência disso, a elite deixava claro que sua preferência de
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    39 contratação era debrancos estrangeiros e não de negros. Sem qualquer amparo do Estado, ocupações subalternas desvalorizadas, sem acesso à terra e à educação, desprestígio e criminalização das manifestações culturais e de sociabilidade contribuíram para a segregação de negros e mestiços para as periferias das cidades, a perpetuação da alienação cultural, social e política, dificultando a organização autônoma (THEODORO, 2008; JACINO, 2019). O contexto econômico atual reforça a existência de conflitos estruturais da sociedade não resolvidos, porém para Almeida (2017) os efeitos recaem aos sujeitos, sobretudo os que pertencem a grupos minoritários, e não há, de forma incisiva, questionamento das estruturas por aqueles acomodados nos privilégios que elas [as estruturas] proporcionam, essas sim responsáveis por desencadear crises. O autor afirma ainda que, ao pensar nos conflitos sociais pelo viés de classe, é necessário se atentar às estratificações específicas em cada uma dessas classes, ou seja: há mulheres, negros, pessoas LGBTI+, entre outros grupos minoritários, em todas elas. Há de se problematizar ainda o discurso empreendedor meritocrata que outorga o fim do emprego e liberdade econômica cunhado no enfraquecimento dos direitos trabalhistas e proteção social que promove a responsabilização dos indivíduos pela resolução de conflitos que são da alçada do Estado e causados pelo capitalismo (ALMEIDA, 2017). Essa visão se aproxima ao que Dardot e Laval (2017) chamam de sujeito neoliberal, ou seja, aquele que é uma “empresa de si mesmo”, inteiramente imerso numa competitividade empresarial, mas em decorrência das reconfigurações do sistema capitalista. Para os autores, o sujeito produtivo é resultante da sociedade industrial de redefinição de poder para além do aumento de produtividade. Cada sujeito é, então, o “sujeito empresa” tanto no sentido burocrático, quanto na subjetividade. A partir desta reflexão, concordamos com Almeida (2017) quando o autor afirma: A busca por uma nova economia e por formas alternativas de organização é tarefa impossível sem que o racismo e outras formas de discriminação sejam compreendidas como parte essencial dos processos de exploração e de opressão de uma sociedade que se quer transformar (p.198). Logo, ao pensar em um recorte de raça dentro da temática do empreendedorismo, encontramos um exponente movimento de afroempreendedorismo realizado por pessoas negras e, por vezes, com foco em consumidores também negros. O cenário atual do afroempreendedorismo no Brasil ganha certo destaque com iniciativas coletivas que pautam a temática na sociedade, como: Feira Cultural Preta, Afrobusiness, Black Rocks Startup, Movimento Black Money, Projeto Brasil Afroempreendedor, Reafro, Centro de Estudos e Assessoramento de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros, Coletivos de
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    40 Empresários e EmpreendedoresAfro-brasileiros, Associação Nacional de Coletivos de Empresários e Empreendedores Afro-brasileiros (MONTEIRO, 2013; OLIVEIRA, 2018), dessa maneira nos atentamos para o caráter de filiação da população negra enquanto herança de sua própria história ultrajante, bem como afirma Monteiro (2013): “não é razoável supor que os afro-brasileiros tenham como se libertar dela (história ultrajante) a não ser também coletivamente, juntos, um ajudando ao outro, formando associações capazes de torná-los fortes profissionalmente” (p. 112). Mas mais do que articulação coletiva somente dos afroempreendedores, é necessário também uma atenção por parte do Estado, uma vez que o direito ao trabalho e renda é eixo central para o desenvolvimento econômico e social (RIBEIRO, 2013). Assim, “o empoderamento desses agentes deve acrescentar estratégias específicas dos poderes públicos para assegurar capacitação, crédito e políticas compensatórias” (NOGUEIRA & MICK, 2013). Para tanto, na próxima seção apresentaremos pesquisas já realizadas sobre afroempreendedorismo no Brasil, levantamentos de perfil com o fim em criação de políticas públicas e o mapeamento das discussões dos últimos anos na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR). 3.2 Afroempreendedorismo: um estado da arte Para compreender o que se tem pesquisado sobre afroempreendedorismo no Brasil, realizamos uma revisão sistemática (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO & MANCINI, 2007) sobre o tema e assim buscamos entender: quais áreas de pesquisa o abordam; de quais regiões do país são os estudos; em quais níveis acadêmicos estão alocadas as pesquisas; quais metodologias são utilizadas; e quais problemas de pesquisas aparecem nos estudos sobre afroempreendedorismo. Para tanto, buscamos nos repositórios Google Acadêmico, Scielo e Capes pelas palavras-chave “afroempreendedorismo”, “afro empreendedorismo”, “empreendedorismo negro”, “afro-empreendedorismo”, “afroempreendedor”, “afro empreendedor”, “empreendedor negro”, “afro-empreendedor” em língua portuguesa a respeito dos trabalhos publicados nos últimos 10 anos (2008 – 2018) 13 . Além da língua, determinamos como critérios de inclusão trabalhos que continham os termos de busca nas palavras-chave ou no 13 Buscamos entender o contexto da última década, embora, conforme ilustra o gráfico 3, somente a partir de 2014 há trabalhos relacionados à temática.
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    41 resumo. Sobre osresultados, não foram encontrados trabalhos nos repositórios Scielo e Capes, porém no Google Acadêmico encontramos 20 trabalhos. Na aplicação do segundo nível de inclusão – estar em língua portuguesa e ter propriamente o tema no desenvolvimento do trabalho – restaram 14 trabalhos. O ano de 2018 foi o que mais teve publicações sobre o tema: ao todo foram 9, conforme Gráfico 3 abaixo. A maioria dos trabalhos são monografias (5), seguido de paper de evento (3), periódicos (2), tese (1), dissertação (1), livro (1) e capítulo de livro (1) e os trabalhos tratam principalmente de economia (5), identidade (4), racismo (4) e epistemologia (1). Sobre metodologias, o memorial descritivo e a etnografia são aos dois métodos mais utilizados, estando em 11 e 7 trabalhos, respectivamente. Já em relação às áreas, antropologia aparece em destaque com 8 trabalhos e administração com 3. Aparecem ainda comunicação, ciências humanas, ciências sociais e sociologia. E por fim, sobre os níveis acadêmicos identificados, temos especialização e mestrado com 3 publicações cada. Gráfico 3 – Afroempreendedorismo: trabalhos publicados por ano Fonte: Elaboração Própria. Em uma observação qualitativa dos artigos encontrados na revisão sistemática, vemos algumas características que se sobressaem, como a questão da territorialidade abordada nos trabalhos de Lima e Benevides (2018) sobre o afroempreendedorismo em Salvador, tendo
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    42 como ponto departida os negócios alocados no co-working Ujamaa. As autoras levam em consideração o fato de a cidade ser a maior em quantidade de pessoas negras fora da África, questões históricas e sociais da população negra no Brasil e os benefícios da formação de uma rede de colaboração entre os afroempreendedores. Já no artigo de França, Dias e Oliveira (2018) os autores buscam expor as dificuldades enfrentadas por empreendedores negros na cidade de Uberaba, Minas Gerais. Sobretudo a partir da concepção do preconceito racial enquanto raiz de uma dificuldade maior para estabelecer e manter os empreendimentos. Os negros empreendedores da região metropolitana do Rio de Janeiro são o foco de pesquisa na dissertação de Santos (2017). O autor busca compreender as influências raciais no empreendedorismo e ressalta a importância de se discutir raça no campo da administração. Como resultados, o pesquisador elenca aspectos da identificação e significado do trabalho por parte dos afroempreendedores. No trabalho de monografia de Teixeira (2017), o autor analisa os desafios e oportunidades para empreendedores negros no Distrito Federal. Para tanto, o autor aplicou entrevista em profundidade com empreendedores negros acerca da vivência, identidade, discriminação e opiniões a respeito da Feira ‘Coisa de Preto’ e a Lei 5.447/2015, que instituiu o Programa Afroempreendedor do Distrito Federal. O pesquisador concluiu que os empreendedores usam do espaço que alcançaram para afirmar sua identidade racial, com uma representação positiva do negro em seu empreendimento e na geração de empregos e/ou prestação de serviços para outros afrodescendentes. Outros aspectos aparecem nas pesquisas já publicadas sobre a temática do afroempreendedorismo, como as questões sociais e econômicas abordadas nos trabalhos de Nascimento (2018), que analisa o perfil socioeconômico e cultural para explorar quais as motivações e o sentido atribuído na prática empreendedora da população negra no Brasil, e no artigo de Souza (2015), que discute o papel do BNDES e do SEBRAE no fomento e capacitação do empreendedorismo negro brasileiro. Para tanto, o autor argumenta sobre a impossibilidade de se dissociar desenvolvimento econômico da equidade racial. O pesquisador analisa o relatório do SEBRAE "Os donos de negócio no Brasil: análise por raça/cor” e as políticas de investimento do BNDES. As organizações que tratam de afroempreendedorismo são temas de diversas pesquisas, dentre elas a de Qundondo (2017) pela qual o autor apresenta uma análise do perfil dos afroempreendedores da cidade de Criciúma, em Santa Catarina. Principalmente dos filiados à rede Afroem, identificando ao fim que a maioria dos participantes da rede é do ramo do comércio e que os empreendedores sofrem com recursos financeiros para iniciar ou manter
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    43 seus empreendimentos. Jána tese de Silva (2016), a autora aborda, a partir do viés antropológico, as imbricações entre política e economia nas relações estabelecidas no evento ‘Feira Preta’. A autora considera em sua análise o contexto social e político do país nos últimos 15 anos, os mecanismos de solidariedade que potencializam a construção de imaginários e espaços, além da ênfase no papel protagonista de mulheres negras na articulação e mobilização estética e política no Brasil contemporâneo. A Reafro (Rede Brasil Afroempreendedor) é tema de dois trabalhos, o de Silva (2017), em que a autora busca compreender como as atividades empreendedoras da Reafro reforçam a identidade afrodescendente dos seus associados. Além disso, a autora busca: elencar as atividades empreendedoras propostas pela Reafro e Reafro do Rio Grande do Sul; identificar os motivos que levaram os empreendedores a se associarem à Reafro/RS; identificar a presença do tema da identidade afrodescendente no material institucional e no discurso da rede; e compreender a relação dos associados com o tema da identidade afrodescendente. Já na monografia de Simão (2017), o autor discute o perfil dos Afroempreendedores da Reafro também no Rio Grande do Sul e os impactos do pertencimento à rede para os negócios. O pesquisador identificou, como parte dos resultados, que as mulheres negras são maioria na rede, grande parte são microempreendedoras individuais e prestam serviços. Além disso, o autor constata que o pertencimento à rede Reafro trouxe benefícios para a maioria dos entrevistados em seu trabalho. Já os trabalhos de Oliveira (2018a; 2018b) fazem uma aproximação da teoria da economia étnica e o afroempreendedorismo a partir da análise de redes sociais com páginas de grupos e associações relacionados ao tema, e a partir da página no Facebook da Feira Cultural Preta. Por fim, encontramos o livro “O Empresário Negro – Trajetórias de sucesso em busca de afirmação social”, de José Aparecido Monteiro, publicado somente em 2001 e com segunda edição em 2017, mas que reúne história de empreendedores negros do final da década de 80. O livro conta a trajetória da pesquisa realizada pelo autor, que entrevistou pequenos empresários negros em torno de temas relacionados ao empreendedorismo negro como ferramenta de desenvolvimento econômico e humano. O autor ressalta em seu trabalho a necessidade de organizar coletivamente ações para a promoção do grupo enquanto comunidade historicamente discriminada. Portanto, observamos uma forte demarcação territorial nos trabalhos analisados, além de estudos que têm como ponto de partida a atuação de grupos ou associações, como os trabalhos que analisam a Reafro, Afroem e Feira Preta. Além disso, vemos que grande parte
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    44 dos trabalhos foipublicada muito recentemente (entre os últimos dois anos), fato que demonstra a crescente observação e importância do tema. Não há, além dos trabalhos originados desta própria pesquisa, outros que se relacionam à teoria da economia étnica, tampouco com viés da tecnologia e internet. A realização desta revisão sistemática é importante na medida em que nos permite conhecer o que se tem estudado a respeito do afroempreendedorismo no Brasil, quais as problemáticas foram levantadas e quais os panoramas de contribuição para o campo a partir da pesquisa aqui desenvolvida. 3.3 Perfil, acesso ao crédito e políticas públicas sobre o afroempreendedorismo Há iniciativas acadêmicas e institucionais que se empenharam em estudar o perfil e as condições de atuação do afroempreendedor brasileiro. Dentre elas, trazemos o “Relatório Igualdade Racial, Desenvolvimento, Empreendedorismo e Solidariedade: desafios para o Brasil Contemporâneo” (MICK, 2016) e o estudo “Acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores afrodescendentes e os desafios para a inclusão financeira no Brasil” (PAIXÃO, 2015) para discutir o perfil e as dificuldades no acesso de investimento por afroempreendedores, elemento essencial para o estabelecimento, mantimento e desenvolvimento de empreendimentos. Além disso, realizamos um levantamento desenvolvido, por meio de pesquisa documental, das intenções em políticas públicas cunhadas pela então Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) entre os anos de 2009 e 2016. Discorremos a seguir sobre os principais aspectos desses levantamentos. A pesquisa desenvolvida por Mick (2016) teve métodos baseados em: coleta de dados documentais na base cadastral do Projeto Brasil Afroempreendedor, enquete online e presencial, entrevista em profundidade com participantes do projeto, entrevista em profundidade com consultores estaduais do projeto, coleta de dados documentais nos planos de negócios e enquete de avaliação do projeto. O objetivo é comparar o perfil dos participantes do Projeto Brasil Afroempreendedor (PBAE) com a pesquisa Os donos dos negócios: análise por raça/cor do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e assim tentar compreender os efeitos do racismo no mundo dos negócios e análise de planos de negócios e cadeias produtivas. Dentre os principais resultados, nota-se que no PBAE, a presença de mulheres foi duas vezes superior ao conjunto de empreendedores, e a formação superior foi noves vezes maior
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    45 que a média.Em relação ao grau de escolaridade dos participantes do PBAE, 64,4% tem ao menos curso superior incompleto, o que para o autor impacta diretamente em resultados das políticas de acesso à educação, como as cotas raciais. Embora o acesso ao ensino superior seja importante, o aumento da renda, segundo o autor, não acontece na mesma proporção que para pessoas não negras. A maioria dos respondentes (48%) recebe de um a três salários mínimos e a taxa de novos empreendimentos foi quase duas vezes maior que no total de afroempreendedorismo. Há um forte envolvimento dos participantes (55,3%) em partidos políticos, movimentos sociais, culturais, de caridade e religiosas, sobretudo as de matriz africanas como o candomblé e umbanda. Mais da metade dos participantes (53,8%) do PBAE afirma já ter vivido situações de preconceito em suas atividades profissionais. Para o autor, quanto mais elevado o grau de escolaridade e a participação em movimentos sociais, maior a capacidade de reconhecimento de preconceitos. Outra maneira de articulação em destaque é o uso das redes sociais14 , apontada por 96% dos participantes, sobretudo as plataformas Facebook (96,6%) e WhatsApp (86,1%). Para o autor, esse dado indica elevado potencial de articulação e cooperação entre os empreendedores. Sobre o perfil das empresas, grande parte dos empreendimentos do PBAE se concentra em serviços (41,7%), seguido de comércio (30,1%) e atividades lúdico-culturais (12,6%). A criação dos negócios se deu por oportunidade (39,1%), necessidade (23,5%) ou outras razões (37,1%). Dentre essas outras razões estão a realização de um sonho (31,6%), oportunidade de ganhar dinheiro (19,4%), possibilidade de atendimento de uma demanda de mercado (18,9%) ou já ter trabalhado no ramo como empregado (17,6%). Em relação aos recursos, a pesquisa demonstra que grande parte dos negócios foi iniciada com recursos próprios (78,1%) ou com empréstimo de familiares ou amigos (7,8%); apenas 3,7% obtiveram financiamento bancário; 69,3% dos negócios nunca obtiveram crédito e entre os que tiveram acesso a crédito, a maior parcela (19,9%) afirmou que o recurso ajudou o empreendimento (muito ou pouco) e para 7,7% o dinheiro não ajudou ou gerou endividamento. Dado que nos leva ao estudo “Acesso ao crédito produtivo pelos microempreendedores afrodescendentes e os desafios para a inclusão financeira no Brasil” - desenvolvido pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ) no Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER), sob coordenação do Professor Marcelo Paixão - que teve como 14 Terminologia utilizada no documento mencionado.
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    46 objetivo avaliar apresença da discriminação de cor ou raça no acesso ao financiamento produtivo de Microempreendedores Individuais (MEI’s). A metodologia do estudo é baseada em entrevistas com uma amostra composta por cerca de 1.000 (mil) MEI’s da cidade do Rio de Janeiro/RJ e Salvador/BA e conta com cinco partes temáticas, sendo elas: 1) o problema do racionamento de crédito; 2) as políticas recentes de microcrédito produtivo no Brasil; 3) a caracterização da população pesquisada; 4) acesso ao sistema de crédito produtivo e percepção de discriminação; 5) considerações finais. Na análise dos valores solicitados e aprovados por bancos públicos, bancos privados, financeiras, bancos cooperativados e por Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) com recorte de raça em preto, pardo e branco, entre os MEI’s entrevistados é possível ter uma noção da possível discriminação por estereótipo. Os MEI’s brancos são os que solicitam maior valor de crédito e tem maior taxa de aprovação do valor total (62,7%), os MEI’s pretos embora solicitem um valor acima dos pardos, são os que têm menor taxa de aprovação do valor total do solicitado (50,7%) e, consequentemente, a maior taxa de não liberação do pedido de crédito (10%). O estudo indagou os entrevistados sobre por qual razão eles imaginam que tenha ocorrido o racionamento de crédito, e as opções de respostas foram agrupadas em quatro tipos. São eles: 1) Problemas relacionados ao perfil do negócio que engloba: Pelo pouco tempo de desempenho da atividade econômica; Pelo tipo de atividade econômica; 2) Renda insuficiente que engloba: por ter renda insuficiente; 3) Por restrições cadastrais ou falta de garantias que engloba: Por estar com restrições no SPC/SERASA; Por não oferecer garantias exigidas; 4) Por discriminação de distintas naturezas que engloba: pela minha cor ou raça; Pelo local de nascimento. Os pretos, embora com menor taxa de resposta em relação à renda insuficiente e de restrições cadastrais, formam a única categoria que aponta discriminação com 22,2% de respostas no agrupamento “Por discriminação por distintas naturezas”. Ao serem questionados sobre o grau de dificuldade, os MEI’s pretos são os que apresentaram maior pessimismo sobre o acesso ao crédito produtivo com 29,6% que consideram muito difícil e 31,2% difícil. Sobre o grau de conforto dentro dos estabelecimentos públicos e privados, os MEI’s pretos e pardos são os que mais verbalizaram incômodos com a forma como são olhados, com constrangimento sentido e pelo incomodo com a porta giratória tanto em bancos públicos quanto em bancos privados. O estudo sugere aplicações de políticas públicas para estimular e direcionar a utilização do sistema de crédito levando em consideração as variáveis de escolaridade, dificuldades de funcionamento e por região, bem como raça e cor para diminuir os possíveis
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    47 racionamentos de créditosbaseados em estereótipos e preconceitos. Pensando nesses aspectos, realizamos levantamento dos últimos anos nos relatórios de gestão da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR)15 sobre pautas relacionadas ao afroempreendedorismo. Buscamos então, as menções ao empreendedorismo negro16 nos relatórios anuais17 dos anos de 2009 a 2016, recorte temporal justificado por conter os anos disponíveis na seção ‘Acesso à Informação’ do órgão. Segue abaixo a descrição de cada menção encontrada em cada um dos documentos. No documento do ano de 2009 não há menções ao empreendedorismo negro, já em 2010 há menções em relação à aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, a Lei n.º 12.288 de 20 de julho de 2010, da qual incentiva, entre outros aspectos, o empreendedorismo negro. Além disso, o documento afirma ter dado apoio à 9ª edição da Feira Cultural Preta, evento que incentiva a participação de pessoas negras no ambiente mercadológico, negócios, comércios e serviços. Nos resultados e conclusões há a ressalva da necessidade de pesquisas e mapeamento com recorte de raça, devido à importância em se compreender o perfil da população negra no Brasil, sendo que essa ressalva contempla o empreendedorismo. No campo da formação e capacitação houve uma parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego para qualificar cerca de 25 mil pessoas com diversos cursos, entre eles o de Empreendedor Individual (SEPPIR, 2011). No ano de 2011 a SEPPIR realizou, a partir da Rede Selo Quilombos do Brasil e em parceria com alguns ministérios, o Seminário Nacional de Empreendedorismo. O evento ocorreu na cidade de Santa Maria e compôs a 18ª Feira Estadual de Cooperativismo Alternativo e a 7ª Feira de Economia Solidária dos Países do Mercosul. Entre os temas debatidos estavam Etnodesenvolvimento, Comércio Justo e Economia Solidária, além da presença de mais de 50 representações, entre elas, a Secretaria da Justiça e Direitos Humanos do Estado do Rio Grande do Sul, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Museu Treze de Maio, representantes das Comunidades Quilombolas de outros Estados e de diversos municípios do Rio Grande do Sul (SEPPIR, 2012). Em 2012 a SEPPIR firmou parcerias com agências de fomento e assessoria técnica para micro e pequenas empresas e para atividades com iniciativas da sociedade civil com o 15 Secretaria que no ano de 2019 passou a fazer parte do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. 16 Terminologia utilizada no documento. 17 Relatórios disponíveis via Transparência Ativa em atendimento à Lei de Acesso à Informação.
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    48 objetivo de estabelecerdiálogo com empreendedores negros. Ainda em 2012 foi realizado o Seminário com Empreendedores Negros Americanos e Brasileiros resultando em propostas de trabalho com o Ministério do Esporte e demais entidades relacionadas aos grandes eventos que ocorreriam em 2014 (Copa do Mundo) e 2016 (Olimpíadas). Também em 2012 ocorreu o encontro de empreendedores negros no Rio de Janeiro, resultando em parcerias de trabalho entre Superintendência de Políticas da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro (SUPIR) e a Coordenadoria de Promoção da Igualdade do Município do Rio de Janeiro. E, por fim, em 2012 ocorre o início da conversa entre SEPPIR e SEBRAE para um Acordo de Cooperação para promover ações afirmativas no campo do empreendedorismo negro no Brasil. Nas propostas previstas para o ano seguinte havia a sugestão da criação de linhas de crédito para em apoio ao empreendedorismo negro (SEPPIR, 2013). No ano de 2013, durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, foi assinado o Protocolo de Intenções entre a SEPPIR e o SEBRAE para a implementação de ações relacionadas ao empreendedorismo negro, voltadas ao seu fortalecimento e com o objetivo de beneficiar diretamente pessoas e organizações da comunidade afro-brasileira que se enquadrassem nas categorias de potenciais empresários, microempreendedores individuais e micro ou pequenas empresas. Outro ponto relacionado ao tema, foram as ações de Cooperação Internacional, ocasião pela qual a SEPPIR deu continuidade à implementação do Plano de Ação Conjunto entre o Governo Brasileiro e o Governo dos Estados Unidos da América para a Eliminação da Discriminação Étnico-racial e a Promoção da Igualdade, coordenado pela SEPPIR e pelo Ministério das Relações Exteriores e cujo objetivo foi promover trocas de experiências, tendo estabelecido como foco diversas áreas temáticas, entre elas o empreendedorismo (SEPPIR, 2014). No ano de 2014 os destaques em empreendedorismo negro da SEPPIR foram o protocolo de intenções firmado entre SEPPIR e SEBRAE, realização do Seminário sobre Empreendedorismo Negro que contou a presença de 25 pessoas, dentre elas: acadêmicos, setores do governo e representantes de instituições financeiras como Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Ministério do Trabalho e Emprego (MTEM), Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (APEX), Secretaria da Micro e Pequena Empresa (SMPE), SEBRAE e Caixa Crescer. O objetivo foi estabelecer metas e diálogos para a disseminação de informações a respeito do empreendedorismo na perspectiva da promoção da igualdade racial. Desse encontro, ocorreu
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    49 o encaminhamento doprotocolo de intenções sobre a Caixa Crescer, programa de microcrédito orientado para empreendedores negros (SEPPIR, 2015). Em 2015 e em 2016 ainda permanecem os protocolos de intenção entre SEPPIR, SEBRAE e a Caixa Crescer, além de atividades que versam, sobretudo, pelo fortalecimento da formalização e desenvolvimento de pequenos empreendedores, impulsionando a geração de emprego e renda sempre pelo viés de prevenção e enfrentamento do racismo institucional e promoção de política de igualdade racial (SEPPIR, 2016; 2017). Portanto, verificamos que foi uma pauta da SEPPIR promover e tornar política pública esforços para o desenvolvimento técnico e financeiro de empreendedores negros. Nota-se forte ênfase na necessidade de se pensar linhas de crédito específicas, programas de educação e formação empreendedora, parcerias público-privada e o forte reforço da mensagem em combater o racismo estrutural da sociedade brasileira e a promoção de igualdade racial. Observamos, então, que tanto nos trabalhos da revisão sistemática quanto nos relatórios apresentados neste capítulo, as concepções e práticas de afroempreendedorismo colocadas em discussão demonstram pleno conhecimento das consequências do racismo estrutural que permeia a história econômica e social do país. Principalmente se tratando do problema do acesso ao financiamento que se mostra como uma das questões mais latentes de impedimento burocrático para se desenvolver uma prática afroempreendedora plena. Ainda que no passado tenha ocorrido algum esforço da SEPPIR para promover ações de políticas públicas e parcerias benéficas para o circuito afroempreendedor, nenhuma decisão categórica foi de fato efetivada. Do mesmo modo, as pesquisas levantadas no estado da arte relacionam- se também com aspectos sobre identidade, comunidade e redes cooperativas de Afroempreendedores. Temos, então, como elemento central e inquestionável as questões relacionadas ao racismo que, talvez sejam o principal empecilho para uma nova economia possível.
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    50 4. REDES SOCIAISNA INTERNET E A FILIAÇÃO PELO FATOR RACIAL: A REDE DE AFROEMPREENDEDORES Negro drama, Eu sei quem trama, E quem tá comigo, O trauma que eu carrego, Pra não ser mais um preto fodido, O drama da cadeia e favela, Túmulo, sangue, Sirenes, choros e velas, Passageiro do Brasil, São Paulo, Agonia que sobrevivem, Em meia zorra e covardias, Periferias, vielas, cortiços, Você deve tá pensando, O que você tem a ver com isso? Desde o início, Por ouro e prata, Olha quem morre, Então veja você quem mata, Recebe o mérito, a farda, Que pratica o mal, Me ver pobre preso ou morto, Já é cultural Negro Drama – Racionais MC’s Este capítulo pretende discutir aspectos primordiais para a pesquisa sobre internet e suas ferramentas de sociabilidade, sobretudo em relação ao processo de formação de filiação e aglomerações de grupos pelo fator identidade e a discussão sobre humanidades digitais com foco em população negra. Gostaríamos, porém, de iniciar pontuando conceitos que serão citados e que podem, eventualmente, causar confusão, tais como sites de redes sociais, mídias sociais e redes sociais na internet. Os sites de redes sociais são suportes para a criação e manutenção de redes sociais. Logo, para que um suporte seja considerado um site de rede social é necessário que se tenha perfis públicos de usuários, conteúdos produzidos e distribuídos por diversos usuários e não somente pelo suporte em si, ainda que haja articulação pública de conexões, como as amizades no Facebook. Todavia, os sites de redes sociais ganham certa relevância quando os usuários passam a utilizá-los como principal meio cotidiano para consumir e produzir conteúdo – a reapropriação da ferramenta pelo usuário. À vista disto, do ponto de vista da propagação de conteúdo, os sites de redes sociais são vistos como uma mídia social, ou seja,
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    51 meio de distribuiçãode conteúdo estruturalmente diferente das mídias de massa, como rádio e televisão. Já quando se trata de redes sociais por si só, falamos dos agrupamentos sociais constituídas através das relações entre os indivíduos, logo as redes sociais na internet são as migrações desse agrupamento social para o campo digital e que trazem como principais características os rastros digitais das dinâmicas sociais, produções de conteúdos e as representações de indivíduos (RECUERO, BASTOS & ZAGO, 2015). Dito isso, é importante compreendermos, conforme Castells (2003), que a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas e sem compreender como ocorrem as apropriações dessas tecnologias pelos indivíduos. Para o autor, quando os usuários assumem certo controle do uso assimilado da tecnologia, eles incorporam a capacidade de transformação das sociedades. Logo, os usuários adaptam as novas tecnologias e os processos para seus objetivos, apropriam-se da comunicação horizontal e da formação autônoma de redes, e assim atribuem qualidades à internet que influenciam atividades econômicas, sociais, culturais e políticas. Há diferenças encontradas no ambiente informacional em contrapartida à mídia de massa, a exemplo da arquitetura de rede que, ao ser distribuída, proporciona conexões multidirecionadas entre os nós, e por esse motivo há elevada interatividade e interconectividade. Há ainda o acesso de custo menor, assim o "usuário comum" torna-se propagador de suas próprias mensagens (SILVEIRA, 2008). Dessa forma, as novas tecnologias de comunicação e informação demandam novos fenômenos observáveis e problematizáveis, sobretudo ao que se refere à transversalidade, à descentralização e à interatividade, fatos que, segundo Lemos (2015), proporcionam a potencialização de vozes e visões diferenciadas. Logo, a internet, ao produzir sentido em seres socialmente situados e que fazem de seu uso algo rotineiro, torna-se campo de manifestações políticas, comerciais, de propagação de opiniões, de associações e formação de comunidades por interesse (HINE, 2015). Ainda que no ambiente digital as grandes corporações tenham o poder de controlar a infraestrutura e os fluxos de informação, as audiências não podem ser impedidas de acontecer. Assim, pessoas e coletivos são capazes de criar conteúdo e soluções relacionadas às suas questões sem o intermédio de grandes grupos de comunicação. Criando então, novas formas de ação, interação e relações sociais (SILVEIRA, 2008). Chama-nos atenção especificamente a formação de relacionamentos a partir de interesses em comum, do ambiente interativo, recíproco, comunitário e intercomunitário do qual, em certa medida, os participantes podem contribuir (LÉVY, 2010). Ainda dentro desse recorte de análise, a pesquisa aqui desenvolvida foca em aspectos racializados, pautados na questão da
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    52 identidade nos sitesde redes sociais, nos sites de mídia sociais e nas redes sociais na internet. Esses temas já são comumente debatidos em alguns estudos, a exemplo do trabalho de Freelon et al (2016a; 2016b; 2018) que estuda: o movimento Black Lives Matter no Twitter e em alguns sites, para verificar o poder dos movimentos sociais no contexto digital em torno de quatro elementos essenciais de análise de contestação online: valor, unidade, números e comprometimento; os movimentos de direitos civis e justiça a partir da análise das hashtag #Ferguson e #BlackLivesMatter para entender como o uso de sites de redes sociais contribuem para os objetivos contra a violência de ativistas, sobretudo os relacionados ao movimento Black Lives Matter; e outras comunidades em sites de redes sociais que interagem e pautam as mídias jornalísticas alternativas sobre esse mesmo movimento. Ou ainda Noble e Tynes (2016) que tratam de discutir a interseccionalidade na internet a partir de debates em torno de raça, classe, gênero e cultura online. Sobretudo numa análise baseada em teoria crítica racial para compreender fenômenos sociais, políticos e econômicos, racismo e desigualdades. Percebemos nessas propostas de análise a presença marcante de discussões sobre a questão da identidade e sua relevância na delimitação de discursos, posicionamento político, entre outros aspectos sociais. Logo, entendemos que a reflexão acerca do conceito de identidade compõe papel importante no desenvolvimento da pesquisa aqui proposta. A identidade, por sua vez, percorre por diversos debates em muitas áreas do conhecimento. Para Castells (1999), por exemplo, a identidade é uma fonte de significados e experiências de um determinado povo, sobretudo com base em um conjunto de atributos culturais inter- relacionados, sendo possível possuir identidades múltiplas a um indivíduo. O autor afirma ainda que toda identidade é construída. A questão é compreender o como, a partir de quê, por quem e para quê. Pontua, ainda, três formas dessa construção de identidade, são elas: identidade legitimadora, apresentada pelas instituições dominantes para expandir e racionalizar sua dominação; a identidade de resistência, criada por atores sociais em condições desvalorizadas e estigmatizadas pelas relações de poder e que diante disto criam maneiras de resistir e sobreviver ao contexto; e por fim, a identidade de projeto – quando os atores sociais criam uma nova identidade que redefine sua posição na sociedade e assim fazem a partir de qualquer material cultural ao seu alcance. Sendo assim, quando tratamos de pessoas negras no Brasil, esse grupo está repleto de estigmas, papéis sociais e estereótipos, ou seja, de uma série de atributos culturais inter- relacionados. A priori, é possível afirmar que dentre as categorias apresentadas por Castells (1999), as identidades em torno da população negra se enquadram na identidade de
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    53 resistência, sobretudo pelatrajetória histórico-social marcada por eventos excludentes e violentos, como já melhor especificado no capítulo três deste trabalho. Quando tratamos de população negra que descende principalmente de Africanos, estamos falando também do movimento de diáspora. Para Gilroy (2007), a diáspora vai além da codificação no corpo, na “raça” enquanto pertencimento a uma nação, mas ela problematiza a mecânica cultural e histórica do pertencimento. Ela perturba o poder fundamental do território na definição da identidade ao quebrar a sequência simples de elos exploratórios entre lugar, localização e consciência (GILROY, 2007, p. 151). Em outra perspectiva, a diáspora por Hall (2003) é um não estar efetivamente em casa, nesse contexto as identidades se tornam múltiplas e não é possível se desenvolver sem levar em consideração os outros significativos. Logo, o outro passa a ter uma posição marcada de forma diferencial dentro da cadeia discursiva. Essa posição de outros também pode ser analisada pelo o que Canclini (2015) considera diferentes, aqueles que têm em seu lugar de fala um instrumento político que vai à contramão de uma autorização discursiva nas relações de poder, tanto do ponto de vista das mídias quanto das próprias relações sociais (RIBEIRO, 2017). Por diferenças ou os diferentes, Canclini (2015) afirma que são aqueles que não se enquadram nos padrões homogeneizados impostos pela globalização. Para o autor, os recursos interculturais são decisivos para construir alternativas que colaboram com o entendimento de que “os diferentes são o que são, em relações de negociação, conflito e empréstimos recíprocos” (CANCLINI, 2015, p. 17) e assim criam maneiras de ressaltar suas identidades sem necessariamente adotar um padrão preconcebido pelos efeitos da globalização. Esses grupos são localizados em uma hierarquia social e não humanizada, o que faz com que suas produções intelectuais, saberes e vozes sejam estruturalmente silenciados (RIBEIRO, 2017). Para a autora, isso, de forma alguma, significa que esses grupos não criam ferramentas para enfrentar esses silêncios institucionais, ao contrário, existem várias formas de organizações políticas, culturais e intelectuais (RIBEIRO, 2017, p. 63). Nesse sentido, retomamos Castells (1999), que afirma que a raça é uma fonte fundamental de significado e reconhecimento e, entre diversos aspectos como as questões de opressão e discriminação, a organização em rede a partir da raça e etnia proporciona relações baseadas em significado e identidade. Para argumentar seu ponto de vista o autor apresenta breve trajetória da população negra norte-americana que, assim como na história do Brasil, também tem sua identidade calcada a partir de um povo sequestrado e escravizado. A construção de identidade acontece principalmente a partir do princípio de identidade de
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    54 resistência e suacapacidade de oferecer abrigo, isolamento, certeza e proteção. Há, portanto, uma responsabilidade coletiva em reconstruir espaços saudáveis a partir da base. Ocorre, assim, um necessário processo de mobilização social e de engajamento, como afirma em: As pessoas resistem ao processo de individualização e atomização, tendendo a agrupar-se em organizações comunitárias que, ao longo do tempo, geram um sentimento de pertença e, em última análise, em muitos casos, uma identidade cultural, comunal (CASTELLS, 1999, p. 79). A atual composição da população negra no Brasil descende dos africanos do movimento de diáspora e está em constante resgate de sua cultura, ancestralidade e valores. De fato, exprimem em suas práticas sociais o pertencimento de uma “raça” para além do fator biológico e vivenciam no cotidiano a dicotomia em carregar o fardo em ser o “outro”, sobretudo nas relações de poder predominantes numa sociedade imbuída no racismo estrutural. A negritude não se caracteriza exclusivamente pelo seu caráter biológico, mas também pela soma de vivências, muitas dessas relacionadas à violência e opressão, que se caracterizam em formas históricas da condição humana. Seu estágio inicial é a tomada de consciência da diferença, resultante de uma atitude combativa e proativa. A consciência da negritude é propriamente a reabilitação de valores, re-enraizamento da história e da cultura. A negritude é, como afirma Cesaire (apud Moore, 1939): Uma maneira de viver a história dentro da história; a história de uma comunidade cuja experiência parece, em verdade singular, com suas deportações, seus deslocamentos de homens de um continente a outro, suas lembranças distantes, seus restos de culturas assassinadas (p. 109). A identidade, para Cesaire (apud MOORE, 1939), é aquilo que dá ao homem, a cultura ou a uma civilização sua forma, estilo e singularidade. O reconhecimento da negritude seria a explosão de uma identidade reprimida por longo tempo e finalmente libertada, que então se afirma e se reconhece com direito a ser diferente. Logo, o cenário do movimento político e econômico da população negra no Brasil, do qual pretendemos estudar e do qual observamos essas características, perpassa pela trajetória histórica de um sistema de dominação social, de exploração, racialização e apagamento de identidades e memórias resultante do colonialismo europeu (QUIJANO, 2005). Para Munanga (1999), os movimentos negros contemporâneos buscam o resgate de sua cultura, de seu passado falsificado, da valorização da sua cor de pele inferiorizada e do reconhecimento da participação positiva na construção do país. Para o autor, o reforço da identidade funciona como ideologia, permitindo aos membros do grupo étnico reforçar a solidariedade entre eles (MUNANGA, 2012). Assim,
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    55 a identidade negratem significância política, pois ressalta aspectos de exclusão em sociedades multirraciais, logo: A identidade do mundo negro se inscreve no real sob a forma de “exclusão”. Ser negro é ser excluído. Por isso, sem minimizar os outros fatores, persistimos em afirmar que a identidade negra mais abrangente seria a identidade política de um segmento importante da população brasileira excluída de sua participação política e econômica e do pleno exercício da cidadania (MUNANGA, 2012, p. 11). A identidade enquanto modo de ser no mundo e elo relevante para a criação de redes de relações e referências culturais dos grupos sociais por meio de práticas linguísticas, festivas, rituais, entre outros aspectos, delimita padrões civilizatórios da condição humana. A identidade negra, por sua vez, também se constrói paulatinamente com a intersecção de múltiplas variáveis sociais, históricas e culturais. Logo, de modo geral, a identidade se refere aos níveis sócio-políticos e históricos da sociedade, sobretudo quando um determinado grupo reivindica visibilidade social em decorrência do apagamento histórico (GOMES, 2005). Observamos esse agrupamento e reivindicação atualmente na atuação de grupos identitários nos sites de redes sociais e na formação de redes sociais na internet que encontram espaço para verbalizar opiniões, encontrar seus iguais, organizar comunidades de apoio e eventos para além do campo da comunicação digital. Deste modo, os sites de redes sociais e a formação de redes sociais na internet funcionam como um espaço que incentiva a interação discursiva de pessoas que se encontram por proximidade de identificação. Há, portanto, a ideia de que a internet é também um local para construção e formação de comunidade a partir dessa identidade. Assim, compartilhar conteúdos que dão ênfase às características raciais fornece aos usuários um sentimento de pertencimento, sobretudo quando estamos tratando de um grupo historicamente estigmatizado e oprimido pela sociedade dominante (DANIELS, 2012). O contexto das humanidades digitais se apresenta como um campo com grande escala de dados oriundos das práticas sociais mediadas por ferramentas e plataformas digitais. Mais do que o aparato tecnológico, as humanidades digitais se mesclam com os estudos clássicos sobre a humanidade no advento das tecnologias e seus novos exercícios. Para Jones (2016), as humanidades digitais são um conjunto transitório de práticas mistas entre os artefatos físicos e as novas redes digitais que se sobrepõem em multicamadas e interfaces. A delimitação de análise de temas a partir de um recorte identitário é pauta de diversas discussões na chamada Black Digital Humanities, uma abordagem que leva em consideração a intersecção entre o campo digital e a negritude. Em concordância com Gray (2016), há uma falta de interesse em se discutir conteúdo e experiências racializadas também nos espaços digitais. Existe, segundo
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    56 a autora, umdaltonismo racial, ou seja, há quem acredite que raça ou etnia não influencie nas dificuldades ou privilégios de determinados grupos sociais, fato esse que colabora com a perpetuação das desigualdades. Para Gallon (2016), as interações discursivas cotidianas por pessoas negras nos sites de redes sociais são uma continuação do esforço secular empregado por populações negras escravizadas em todo o mundo e em decorrência disso é necessário compreender como as tradições teóricas são tão racializadas quanto as discussões atuais sobre o meio digital e suas reapropriações. Para a autora a Black Digital Humanities gera uma nova epistemologia negra que traz investigações e entendimentos mais profundos sobre a humanidade de maneira geral. Portanto, consideramos importante estudar o aglomerado (clusters) de nós (nodes – indivíduos ou organizações) conectados pelas arestas (elo social) da questão racial e das relações estabelecidas a partir do afroempreendedorismo. Os nós são a representação dos atores, as arestas são as conexões entre os nós e os clusters, os grupos mais densos na rede e com maior número de conexões na rede. Trataremos aqui de uma rede associativa. Ou seja, em que há uma relação que representa capital social: páginas que curtem outras páginas no Facebook (BARABÁSI, 2009; RECUERO, 2009; 2018), por exemplo. Os atores nas redes sociais na internet devem ser analisados a partir de representações ou das construções identitárias na cultura digital e para entender esses atores sociais é necessário também entender como as conexões são estabelecidas, como são constituídas e quais padrões de conexão existem entre eles. Assim, a partir da análise de redes sociais na internet, obtemos uma maneira de compreender parte da estrutura social, a geração de fluxos informacionais e como as interações sociais impactam a estrutura. A pesquisa tem como ponto de partida as redes sociais na internet por se tratar de um fenômeno que emergiu e se destacou gradativamente no contexto digital. Constatamos, a partir de observação empírica, que as relações estabelecidas em torno do tema afroempreendedorismo na internet indicavam um fato passível de análise mais profunda. Portanto, após um breve detalhamento metodológico, apresentaremos no capítulo 7 os resultados de análise de redes sociais na internet a partir do afroempreendedorismo, além da complementariedade do formulário e de entrevistas semiestruturadas, buscando entender se é possível aplicar a teoria da economia étnica na análise do afroempreendedorismo no Brasil.
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    58 5. METODOLOGIA É necessáriosempre acreditar que o sonho é possível Que o céu é o limite e você, truta, é imbatível Que o tempo ruim vai passar, é só uma fase E o sofrimento alimenta mais a sua coragem Que a sua família precisa de você Lado a lado se ganhar pra te apoiar se perde [...] É isso aí, você não pode parar Esperar o tempo ruim vir te abraçar Acreditar que sonhar sempre é preciso É o que mantém os irmãos vivos A vida é o desafio – Racionais MC’s A dissertação está baseada numa fundamentação teórica sobre a teoria da economia étnica, na contextualização da população negra no Brasil, o afroempreendedorismo e a relação da internet e suas ferramentas como suporte de identidades. Além disso, apresentamos duas revisões sistemáticas de literatura (HADDAD, 2002; FERREIRA, 2002; SAMPAIO & MANCINI, 2007) que consideramos essenciais para a discussão teórica da pesquisa, que tratam dos trabalhos anteriores sobre a teoria da economia étnica e sobre afroempreendedorismo no Brasil. Diante deste cenário, aplicamos uma metodologia qualitativa com triangulação de métodos (DUARTE, 2009; ROMANCINI, 2011) que se complementam na busca pela resposta da problemática posta: é possível aplicar a teoria da economia étnica na análise do afroempreendedorismo no Brasil? Em relação à revisão sistemática, o procedimento correspondente ao método consiste em: • Definição do problema e parâmetros da revisão sistemática; • Definição do período de coleta; • Definição das bibliotecas digitais de coleta; • Tabulação e análise dos dados obtidos. A partir de dados obtidos nas diversas ferramentas disponíveis na internet, a análise de dados na era digital permite obter, entre outros aspectos, escalabilidade de informações, dados em tempo real, aprimoramento do conhecimento literário e histórico. Temos, então, uma variedade de especificações como volume, tipo, plataformas, algoritmos, entre outros (BURDICK et al, 2012). Assim, o primeiro método proposto é a análise de redes sociais na
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    59 internet (RECUERO, 2009;BARABÁSI, 2009; RECUERO, BASTOS & ZAGO, 2015; SILVA & STABILE, 2017; RECUERO, 2018), que consiste em uma abordagem estrutural que visa compreender aspectos de grupos sociais a partir de suas conexões e relações entre os atores do grupo, além da influência na difusão de informações e das dinâmicas nos processos sociais. A análise de redes utiliza, portanto, dados relacionais para focar nos atributos que os conectam. Com isso pautado, pretendemos obter por meio deste método, dados sobre as relações, estruturas e comunidades do afroempreendedorismo no Brasil que utilizam a plataforma do Facebook. Para tanto, o procedimento correspondente a esse método consiste em: • Pesquisa de páginas no Facebook que contenham os termos “afroempreendedorismo”, “afroempreendedor”, “empreendedor negro”, “afro”, “negro”, “black” e variações nos títulos ou descrições (sessão “sobre”) das páginas; • Tabulação classificatória das páginas encontradas relacionadas ao tema; • Busca dos números identificadores (ID) de cada página por meio do site Find My FB ID18 ; • Coleta dos dados relacionados às redes por meio da ferramenta Netvizz (RIEDER, 2013)19 ; • Análise e visualização da rede com a ferramenta Gephi (BASTIAN et al, 2009). O segundo método utiliza um formulário (FLICK, 2004) aplicado via internet, sobretudo em grupos específicos sobre o tema ou a partir de divulgação de canais de comunicação especializados, aos afroempreendedores, para traçarmos um perfil sociodemográfico que contemple aspectos como faixa etária, gênero, estado civil, escolaridade, raça, profissão, entre outros. Além disso, o questionário tem em sua composição perguntas relacionadas ao empreendimento e à prática do afroempreendedorismo de modo geral e nos sites de redes sociais. O procedimento correspondente a esse método consiste em: • Elaboração do questionário em formato online a partir da ferramenta Google Forms20 ; • Disparo do questionário para os Afroempreendedores; • Análise dos dados coletados. 18 Find your Facebook ID. Disponível em: https://findmyfbid.com/ Acesso em 01 de out. 2019. 19 Netvizz. Disponível em: https://apps.Facebook.com/107036545989762 Acesso em 01 de out. 2019. 20 Google Forms. Disponível em: https://docs.google.com/forms Acesso em 01 de out. 2019.
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    60 Por fim, aplicamosuma entrevista semiestruturada (BONI, 2005) direcionada às pessoas que representam as páginas em destaque na rede a partir da métrica de grau de entrada, ou seja, aqueles que recebem mais curtidas de outras páginas. Destacamos páginas que vão do mais alto grau de entrada (46) até o menor grau antes de cinco (8), sendo cinco, o grau de corte determinado por nós como relevante ou não. Portanto, pretendemos avançar em informações mais qualitativas e detalhadas acerca de temas como identidade, afroempreendedorismo, utilização de redes, entre outros. O procedimento correspondente a esse método consiste em: • Definição dos nós mais relevantes da rede a partir do grau de entrada; • Elaboração do roteiro da entrevista semiestruturada; • Aplicação da entrevista com os representantes das páginas mais evidentes da rede; • Apresentação da síntese e análise das entrevistas.
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    62 6. APRESENTAÇÃO EDISCUSSÃO DOS DADOS Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim. Muitos morreram sim, sonhando alto assim, me digam quem é feliz, quem não se desespera, vendo nascer seu filho no berço da miséria. Um lugar onde só tinham como atração, o bar e o candomblé pra se tomar a benção. Esse é o palco da história que por mim será contada. ...um homem na estrada. Homem na estrada – Racionais MC’s Nesta seção, apresentamos os resultados e a discussão dos dados como elementos norteadores para a resolução do problema desta pesquisa. Os dados estão organizados na ordem: a Análise de Redes Sociais na Internet com o apontamento das principais métricas e as comunidades encontradas; em seguida os resultados do formulário online e a discussão dos tópicos pertinentes; e por fim as entrevistas semiestruturadas com os representantes das páginas que se destacaram na rede. 6.1 Estrutura e relações do afroempreendedorismo a partir da análise de redes sociais na internet A listagem base21 - também chamada de ‘sementes’, pois são as que iniciam o processo de ramificação da rede - de páginas da plataforma Facebook para a construção da rede foi composta pela coleta de 120 páginas que contém os termos “afroempreendedorismo”, “afroempreendedor”, “empreendedor negro”, “afro”, “negro”, “black” e variações nos títulos ou descrições das páginas no Facebook com profundidade de rastreamento 1 22 no Netvizz (RIEDER, 2013). Ao mesclar todas as referências e suas conexões, gerou-se uma rede direcionada de 1.300 nós e 3.624 arestas. Para visualização, aplicamos o layout Force Atlas 2 23 no Gephi (BASTIAN, 2009). 21 A lista completa pode ser encontrada nos apêndices 8.2. 22 Esse nível de profundidade de coleta mostra as páginas que as páginas semente curtem. Numa profundidade de rastreamento 2, mostraria quais páginas as páginas que curtem as páginas sem entes também curtem. 23 Layout cujo algoritmo é direcionado pela força entre os nós, causando atração e repulsão entre nós de acordo com as variáveis.
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    63 Essa rede, conformemostra a figura 1, tem grau médio de 2,78824 ; grau ponderado médio de 3,03225 ; diâmetro da rede de 1326 , densidade do grafo de 0,00227 , modularidade de 0,679 com 79 comunidades28 e componentes conectados de 6329 . Ou seja, temos uma rede relativamente extensa, de acordo com seu diâmetro, uma vez que uma informação teria que passar por 13 nós, em média, para chegar a todos os atores. A densidade nos mostra que é uma rede pouco conectada, na medida em que o grau de densidade máximo de um grafo é 1 e com muitas comunidades de acordo com a modularidade, ou seja, há diversos subgrupos dentre da rede analisada. O número de componentes conectados demonstra que há diversos grupos desconectados no grafo. 24 A métrica permite a identificação do nó com maior número de conexões. 25 A métrica ponderada entre grau de entrada e saída médios. 26 A métrica mede a maior distância entre nós da rede. 27 A métrica informa a quantidade de conexões em relação ao número total de conexões possíveis no grafo. 28 A métrica permite a identificação dos clusters. 29 A métrica informa um conjunto de nós ligados por um conjunto de arestas.
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    64 Figura 1: Redede Afroempreendedorismo por cluster Fonte: Elaboração própria.
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    65 Deste modo, observamosuma rede de atributos diversos, não homogêneos e com representações que demonstram especificidades, como veremos na descrição, atribuída por inferência analítica, das comunidades a seguir. A comunidade em rosa (Moda e Acessórios) tem 107 nós (17,31% da rede) que são compostos em sua maioria por páginas relacionadas à venda de acessórios como brincos, turbantes ou que tratam de moda especificamente. Se destacam nesse cluster, a partir do grau de entrada, as páginas Mulher Negra e Cia – by Opinião da Preta e Boutique de Krioula, que são responsáveis por conectar a rede deste cluster com 26 e 25 graus respectivamente. E as páginas AFROPUNK e Jazz Ngz são responsáveis por conectar nós a partir de seus posicionamentos na rede. Nesse cluster muitas representações evocam a estética e beleza negra, sobretudo da mulher, e ainda páginas que remetem ao cuidado com a autoestima de crianças como Quilombo dos meninos crespos, Meninas de cabelos Crespos e Encrespando por Meninas Black Power. A comunidade na cor verde (Comunicação Alternativa e Direitos Humanos) tem 163 páginas (13,23% da rede) cujo os principais destaque por grau de entrada são Geledés Instituto da Mulher Negra, Igualdade Racial, Blogueiras Negras, Fundação Cultural Palmares, Portal Correio Nagô, Anistia Internacional, 2015 - Marcha das Mulheres Negras, Reaja ou Será Morta, Reaja ou Será Morto, AFREAKA, ONU Brasil e Por dentro da África. De modo geral, aparecem nesse cluster alguns coletivos, sobretudo de mulheres negras, organizações não governamentais, mídias alternativas e periféricas e personalidades como Sueli Carneiro e Douglas Belchior. O Projeto Brasil Afroempreendedor tem o maior grau de saída (218), tornando-se um importante conector na comunidade. No cluster azul (Empregabilidade e Afroempreendedorismo) (12,46% da rede) destacam-se por grau de entrada a página da Feira Cultural Preta, Museu Afro Brasil, Catraca Livre, Observatório das Favelas, Era Uma Vez o Mundo, KBELA e Empregueafro - Consultoria em RH e Diversidade. Essa comunidade tem 113 nós, e suas principais características são as diversas páginas de grupos, redes e associações como Rede Mulheres Negras de Sergipe, Afro Lab, MulheresDigitais.ORG, Marcha do Orgulho Crespo Brasil, ID_BR, Movimento Black Money, entre outros. A Feira Cultural Preta e Empregueafro - Consultoria em RH e Diversidade são as páginas que mais conectam na rede desse cluster; a primeira tem grau de entrada e de saída quase equivalentes: 46 e 58 respectivamente. Enquanto a Empregueafro - Consultoria em RH e Diversidade cumpre esse papel pelo seu grau de saída de 53.
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    66 Na comunidade emlaranja (Pedagogia, Produção Cultural e Eventos) (7,54% da rede) destacam-se por grau de entrada as páginas Era Uma Vez o Mundo, que desenvolve bonecas negras a partir de um trabalho pedagógico, e Odarah Cultura e Missão, focada em desenvolver eventos para a comunidade negra, com 20 e 15 de grau de entrada respectivamente. Nesta comunidade aparecem artistas negros brasileiros, como Mart'nália, Gaby Amarantos, Gilberto Gil, Elza Soares, Milton Nascimento, Sandra de Sá, Mariene de Castro, entre outros. A comunidade lilás (Continente Africano) é composta por 68 nós (5,23% da rede) e sua principal característica é a relação Brasil-África, todavia é uma comunidade que se afasta da centralidade da rede. Podemos observar que a página Afrochamber - Câmara de Comércio Afro-Brasileira tem grau de saída em 40 que conecta com as páginas de Embaixadas do Brasil em de países do continente Africano. A página Lafrikana conecta essa comunidade com a parte central da rede. No cluster preto (Rappers) encontramos 107 nós (8,31% da rede) que também se distanciam consideravelmente da massa da rede como um todo. Nessa comunidade temos os elementos do hip hop, os rappers, as produtoras e distribuidoras e páginas relacionadas às batalhas de rima. Além disso, observamos as lojas de seus respectivos selos como Laboratório Fantasma do rapper Emicida e de seu irmão Fióti, VVAR e Loja do Cone Crew Diretoria. A página Afreeka é responsável por 108 de grau de saída, enquanto o rapper Emicida se destaca pelo grau de entrada com 29. As páginas Mídia Periférica, Turbante-se e a Feira da Cidade são as responsáveis por conectar esse cluster ao restante da rede. No cluster verde musgo (Beleza e Estética) temos 59 nós (4,54% da rede) que são compostos por salões de cabelo conectados principalmente pela página Preta Brasileira com 40 de grau de saída. As páginas Cabelos cacheados e crespos e Salão Afro Odara tem ambas 10 de grau de saída, também responsáveis por grande parte das conexões dessa comunidade. Por fim, no cluster salmão (Serviços), observamos 54 nós (4,51%) que têm como principais páginas negócios de Afroempreendedores, tais como Afro Negócios, responsável pelo elo com o centro da rede, Espaço Cultural Bonecas Makena, Coaching da Cor School, Raiz Moda Afro, entre outras. Portanto, a partir da estrutura da rede observamos a predominância de representações que valorizam e reforçam a estética negra, sobretudo no primeiro cluster e elementos que surgem também nas demais comunidades. A rede nos mostra páginas que representam certa preocupação com problemas sociais como as que aparecem na comunidade de Comunicação Alternativa e Direitos Humanos. Importante ressaltar a quantidade expressiva de páginas de
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    67 veículos de comunicaçãoque atuam como uma ferramenta alternativa de fluxo de informação e que explicitam em seus títulos a questão racial ou de território, como Alma Preta, Mundo Negro, Por Dentro da África, Blogueiras Negras, Portal Correio Nagô e Mídia Periférica. Outro aspecto de destaque são os diversos artistas negros que aparecem em pelo menos três comunidades distintas. Assim, podemos destacar que principais temáticas relacionais da rede de afroempreendedores tratam de estética e beleza, problemas sociais e direitos humanos, comunicação e artes. Elementos que não permeiam especificamente a prática afroempreendedora, mas que sugerem um entrelaçamento com a própria identidade e vivência da população negra. 6.2 Perfil e percepções dos afroempreendedores O formulário online30 circulou entre os dias 15 de abril de 2019 e 09 de maio de 2019, e obteve um total de 141 respostas31 , dentre as quais 69,5% são do gênero feminino e 30,5% do gênero masculino. A respeito da faixa etária 58,6% dos respondentes têm entre 26 e 41 anos e, quanto à religião, 33,3% declararam praticar alguma religião de matriz africana, Candomblé ou Umbanda, enquanto 31,9% afirmam não ter religião. A maioria dos respondentes é composta por heterossexuais (78,7%), solteiros (49,6%) e casados ou morando com companheiros (36,2%). 30 O método foi autorizado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFABC e todos os respondentes concordaram com o procedimento. Verificar documentação no Apêndice. 31 As perguntas se encontram no Apêndice 8.5.
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    68 Gráfico 4: Gênero,faixa etária e estado civil dos afroempreendedores no formulário online
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    69 Fonte: Elaboração própria. Amaioria dos respondentes é do estado de São Paulo (57,4%), seguido de Bahia (14,9%) e Rio de Janeiro (10,6%). Os outros 17% estão divididos entre 7 estados. Sobre a escolaridade, 29,8% afirmam ter curso superior completo, 22% pós-graduação completa e 14,9% superior incompleto, enquanto 39% afirmam que tiveram acesso a alguma política educacional. Entre as políticas educacionais, as citadas foram FIES (Financiamento Estudantil), bolsa interna de instituição privada, cotas raciais e sociais, Programa Escola da Família, ProUni (Programa Universidade para Todos) e ajuda de custo empresarial. Entre os que têm superior completo, cursando ou incompleto, a maioria (19,1%) encontra-se na faixa de idade entre 26 e 33 anos, e, desses, 55,5% são beneficiários de alguma política educacional. Entre a faixa etária de 42 anos para cima, somente duas pessoas foram tiveram contato com algum benefício educacional, entre elas uma bolsa de instituição privada e uma por cota social.
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    70 Gráfico 5: Estadoe Escolaridade dos afroempreendedores no formulário online Fonte: Elaboração própria. Sobre o porte da empresa, 60,3% afirmam que são profissionais autônomos, enquanto 38,3% possuem uma Microempresa (de até 9 empregados) e 3,5%, uma empresa de pequeno porte (de 10 a 49 empregados). Já em relação à atividade desempenhada, 59,6% assinalaram o ramo de serviços, 24,1% no comércio e 15,6% em ambos os casos. Quanto ao tempo de
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    71 atuação, 51,1% possuementre dois e cinco anos, 25,5% menos de um ano, 14,2% entre cinco e dez anos e 9,2% mais de dez anos. Gráfico 4: Porte, atividade e tempo de atuação da empresa dos afroempreendedores no formulário online
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    72 Fonte: Elaboração própria. Nasquestões relacionadas à formalização, 72,5% afirmam que sua empresa é formalizada, enquanto 27,5% estão sem formalização. Entre os formalizados (109 respondentes), o tipo de formalização que predomina é o Microempreendedor Individual (74,3%), seguido de Sociedade Empresarial Limitada (9,2%), Sociedade Simples (7,3%) e Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (5,5%). A respeito de funcionários, 73% assinalam que não tem funcionários, enquanto 27% afirmam ter funcionários; desses, a maioria (85,4%) afirma que são de 1 a 5 funcionários. Já sobre faturamento, 72,3% afirmam faturar até 5 mil reais por mês e 17,7% entre 5 e 10 mil reais por mês. Entre os profissionais autônomos, 87,8% faturam até 5 mil reais por mês. Vale destacar que nas Microempresas a mesma faixa de faturamento também é maioria (53,7%). Já entre as empresas de pequeno porte (3,5%), o faturamento fica em torno de mais de 15 mil reais para 60% delas.
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    73 Gráfico 5: formalização,funcionários, tipo de formalização e faturamento dos afroempreendedores no formulário online
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    74 Fonte: Elaboração própria. Entreos respondentes, 50,3% afirmam que seu empreendimento é a única forma de obtenção de renda e 49,6% que não é a única maneira de obter renda. Entre os que possuem outras formas, as principais são o emprego formal para grande parte dos respondentes, outras
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    75 atividades autônomas comotrancista, representação comercial, motorista, segurança, comunicação, artes e relacionadas à espiritualidade. Há ainda entre as atividades, consultorias, palestras e aulas particulares, apoio de renda da família, estágio, aposentadoria, bolsistas de programas educacionais, aluguel de imóveis e usufruto do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Sobre as atividades exercidas antes de se tornar um afroempreendedor, 62,4% afirmam ter um emprego formal anteriormente e 18,4% ainda estão empregados paralelamente à atividade empreendedora. Gráfico 6: formas de obter renda e emprego formal dos afroempreendedores no formulário online
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    76 Fonte: Elaboração própria. Quantoa se sua atividade empresarial tem relação com alguma temática da cultura negra, 51% dos respondentes afirmam que sim. Já sobre se o foco da sua atividade é em consumidores e clientes negros, 52% dizem que não. Entre os que afirmam que suas atividades são focadas na temática negra, encontram-se: espaço de mobilização e fomento do afroempreendedorismo, escolas de idiomas, pesquisa de mercado, consultorias em diversidade, comunicação, estilo, educação, projetos sociais e de recursos humanos, produção cultural, conta digital (fintech), clube de assinaturas, estabelecimentos relacionados à estética negra e confecção e vendas no campo de moda e acessórios. Sobre movimentos sociais, 92,2% afirmam que participam ou têm interesse. Entre os movimentos sociais foram citados o próprio afroempreendedorismo, com iniciativas como o Movimento Black Money, a BlackRocks Startups, AfroBusiness e Reafro. Aparecem ainda atividades relacionadas à educação, como cursos de formação ou movimentos estudantis negros dentro de universidades, ainda o movimento negro, feminista e de mulheres negras, movimentos relacionados à arte e estética, com destaque para o movimento hip hop muito lembrado entre os respondentes. Nessa pergunta somente uma pessoa sinalizou partido político, sendo esse o Partido dos Trabalhadores (PT). Há pessoas que participam de vários movimentos sociais ao mesmo tempo e entre esses aparecem movimentos por moradia, por terra e por negros e indígenas.
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    77 Gráfico 7: Culturae consumidores negros; Movimentos sociais dos afroempreendedores no formulário online Fonte: Elaboração própria.
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    78 Sobre o conceitode Black Money32 , 85,1% afirmam conhecer, 84,4% mantém contato com outros afroempreendedores e 94,3% afirmam ter preferência em utilizar serviços ou comprar de outros afroempreendedores. A respeito de organizações, associações e pessoas que promovem o afroempreendedorismo, 57,4% afirmam conhecer alguma e 42,6% não conhecem esses agentes promotores. Entre as personalidades citadas aparecem Adriana Barbosa e Monique Evelle com 4 menções cada, Nina Silva, Luana Teoffilo, Maitê Lourenço e Paulo Rogério com duas menções cada, e mais 12 nomes citados com uma menção cada. Já sobre organizações se destacam Movimento Black Money (20), Feira Preta (19), Afrobusiness (14) e BlackRocks Startups (8). Nessa questão aparecem ainda citações a grupos originados no Facebook, como A Ponte para Pretx, Preta comprando de Preta e Publicitários Negros, esse último citado quatro vezes. Gráfico 8: Black Money, contato e preferências com afroempreendedores e conhecimento de organizações promotoras 32 Nome dado ao ato de consumir produtos e serviços de Afroempreendedores.
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    80 Fonte: Elaboração própria. Entreos respondentes, 62,4% afirmam que tinham emprego formal antes de se tornarem empreendedores, e entre as razões pelas quais optaram por essa forma de trabalho estão: a busca por propósito, a realização de um sonho, autonomia, flexibilidade, não querer ser uma pessoa empregada e receber ordens de pessoas brancas. Apareceram ainda diversas formas de oportunidades, como após demissão, por demanda do mercado ou por parcerias estabelecidas. Há ainda três pessoas que sinalizaram questões relacionadas à idade avançada e à falta de oportunidade no mercado formal, então por necessidade decidiram empreender. Sobre o enfrentamento de dificuldades por ser um empreendedor negro, 61,7% afirmam que enfrentam dificuldades e entre as citadas se destacam a falta de credibilidade com possíveis clientes, fornecedores ou em visitas a lugares, problemas relacionados à concessão de crédito bancário e o racismo explícito. Sobre o uso de internet, 98,5% afirmam utilizar a ferramenta no empreendimento e dentre esses usos estão: para o envio de mensagens aos clientes ou parceiros, redes sociais da empresa, para participar de grupos, site da empresa, blog da empresa, pesquisas de mercado e tendências, organização e gestão, reuniões, entre outras. De modo geral o formulário nos indica que o afroempreendedorismo tem em sua prática mulheres, pessoas jovens e solteiras. A justificativa em pontuar a prática religiosa se faz interessante para averiguar se as tradições africanas e afro diaspóricas são mantidas entre
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    81 os afroempreendedores, sendoessas também portadoras de valores e identidades que demarcam a população negra no Brasil. Entre os respondentes a maioria sinaliza prática de religião de matriz africana. A maioria dos afroempreendedores: trabalha sozinha, presta serviços, está entre os primeiros 5 anos de atividade e com faturamento até 5 mil reais por mês. Esse dado reforça características da “empresa de si mesmo” debatido no capítulo 4. Vale observar ainda a necessidade desse comparativo com tipo de serviço, tempo de atuação e faturamento entre empreendedores não negros. Sobre os negócios com foco em temática negra, as respostas nos apontam a uma diversificada gama de serviços e produtos, sobretudo serviços que exigem qualificação técnica, como as consultorias em comunicação, estilo, educacional, projetos sociais e recursos humanos. Outras alinhadas ao campo da inovação como a fintech, pesquisa de mercado e clube por assinaturas. O interesse em movimentos sociais é o índice quase unânime mais preponderante, 92,2% tem proximidade, participação ativa ou interesse em movimentos sociais. Aqui vale ressaltar em como os próprios movimentos de afroempreendedorismo são apontados como movimentos sociais. A forte relação entre os afroempreendedores demonstrada na pergunta sobre o contato e a preferência em adquirir serviços ou produtos de outros afroempreendedores deixa evidente a importância da comunidade e o dinheiro circulando entre o grupo co-étnico. Os nomes mais lembrados na questão sobre pessoas e organizações referências ressalta novamente a forte atuação das mulheres negras que, ou são citadas diretamente por seus nomes, ou estão à frente das organizações citadas. Vale destacar os grupos de Facebook citados que, embora não são formalizados como organizações fora do ambiente digital, são vistos como forma de promover o afroempreendedorismo. A Feira Preta e a Adriana Barbosa, sua fundadora, são destaques tanto na rede quanto entre as referências citadas, legitimando seu importante papel no desenvolvimento do afroempreendedorismo no Brasil. Tanto sobre a razão de se tornar um afroempreendedor quanto nas dificuldades em ser um afroempreendedor observamos o racismo estrutural como epicentro de grande parte das causas apontadas: como não querer receber ordens de pessoas brancas ou a falta de credibilidade ao não corresponder o imaginário do empreendedor não-negro. Nota-se certa proximidade com a teoria da economia étnica quando os respondentes sinalizam que mantêm contato com outros afroempreendedores, têm preferência por utilizar serviços e comprar de outros afroempreendedores e por quase 60% dos respondentes
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    82 conhecerem e apontaremreferências de pessoas e organizações que promovem o afroempreendedorismo. É interessante observar que o grau de escolaridade é bem elevado e há mais serviços técnicos que comércios, contrapondo-se a uma lógica de mão de obra braçal, herança do período escravocrata. Ainda que que seja uma questão problemática que a maioria dos afroempreendedores sejam “empresas de si”, é interessante observar que a maioria é formalizada. Porém, grande parte dos afroempreendedores faturam até 5 mil reais por mês e também a maioria mantém atividades paralelas para se sustentar além do empreendimento, apontando aspectos relacionados ao racismo estrutural como condicionantes das dificuldades em manter suas atividades. Possivelmente o dado mais destacado dessa etapa, 92,2% se interessam por movimentos sociais. Dentre esses, diversos que promovem desenvolvimento pessoal, educacional e técnico e pela garantia de direitos fundamentais. No uso da internet e seu ferramental observamos dialetos específicos, como alguns respondentes que colocaram o nome da referência com a @ na resposta do formulário como se fosse “linkar” na mídia social. Ainda, as formas de se estabelecer relacionamento, como enviar mensagens aos clientes e participar de grupos, aparecem de modo destacado na ordem de prioridades dos afroempreendedores, antes de formas de promover a visibilidade da empresa, capacitação e organização. Alguns dos resultados nos levam a outras questões, tais como: por que há mais mulheres do que homens no circuito afroempreendedor? Por que mais pessoas jovens e solteiras? Será que o maior grau de escolaridade influencia na opção por ser afroempreendedor? Quais as razões que levam aqueles com negócios focados em algum aspecto da cultura negra optarem por isso? Por fim, vale pontuar alguns aspectos metodológicos que podem enviesar os resultados, como grande parte dos respondentes serem do estado de São Paulo e o formulário ter circulado somente online, o que talvez já elimine uma gama de perfis de afroempreendedores sem acesso à internet. 6.3 Trajetórias e vivência do afroempreendedorismo pelos nós em destaque
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    83 As entrevistas semiestruturadasforam realizadas com quatro afroempreendedores33 responsáveis por páginas que se destacaram na rede pelo grau de entrada34 . São eles: Jaciana Melquiades da ‘Era Uma Vez o Mundo’, Wanessa Yano, da ‘Ayê Acessórios’, Michelle Fernandes, da ‘Boutique de Krioula’ e Evandro Fióti, da ‘Laboratório Fantasma’. As perguntas variaram entre a trajetória pessoal de cada afroempreendedor, a rotina e a importância das ferramentas da internet, sobretudo os sites de redes sociais, o afroempreendedorismo e a relação com a identidade, posicionamentos e perspectivas políticas e a relação do afroempreendedorismo com o sistema capitalista que estrutura e perpetua o racismo. Abaixo apresentamos uma síntese de cada entrevistado35 . 6.3.1 “Eu acredito no poder que a educação tem de transformar” – Jaciana Melquíades Jaciana Melquíades, 36 anos, é historiadora e moradora da cidade do Rio de Janeiro. Além de sócia-fundadora da ‘Era Uma Vez o Mundo’, Jaciana também lidera o Coletivo ‘Meninas Black Power’, que promove discussões raciais com foco em meninas negras na internet e posteriormente em atividades em escolas. A ‘Era Uma Vez o Mundo’, fundada em 2017, é uma empresa de impacto social que visa desenvolver brinquedos com viés educacional e representativo, sobretudo para crianças negras. Seu foco principal de negócios é de educadores que podem utilizar os brinquedos e os livros produzidos nas atividades em sala de aula, principalmente quando estas são relacionadas à Lei 10.639, que trata da obrigatoriedade do ensino de África no ensino básico. Sobre sua trajetória, Jaciana afirma que o processo de empreender foi intuitivo, pois não havia um planejamento sobre seu início e seus objetivos enquanto afroempreendedora. Tudo começou pela necessidade de oferecer a seu filho relações pedagógicas lúdicas com representação racial. Após criar bonecos para ele, passou a desenvolver de forma mais organizada atividades escolares e muitas pessoas passaram a pedir o material, então Jaciana começou a vender suas criações por encomenda. Somente em 2017 é que ela buscou se capacitar com um curso de especialização em gestão de negócios, processos seletivos para aceleração de negócios, participação em cursos, oficinas e palestras, entre outras atividades que a levaram a desenvolver aspectos técnicos de seu negócio. 33 O método foi autorizado pela Comitê de Ética em Pesquisa da UFABC e todos os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), verificar documentação no apêndice 8.1. 34 A listagem inicial constava de 10 a 15 páginas com o critério, porém, como houve dificuldade no contato e respostas dos representantes das iniciativas, fechamos o trabalho com as fontes que atenderam a solicitação. 35 As transcrições completas encontram-se no apêndice 8.7.
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    84 A respeito dasmídias sociais, Jaciana afirma que são elas que dão relevância para o seu trabalho. Para ela, tanto como pessoa física como empresa, há uma necessidade em se ter relevância e de ser "ouvida". A utilização da internet e de suas ferramentas é a forma como Jaciana encontra para driblar a falta de recursos e alcançar mais pessoas que possam ter interesse em seu trabalho, segundo ela: “A internet é hoje o jeito mais simples e mais fácil”. Já sobre a relação entre os afroempreendedores, Jaciana pontua que é ruim pois as pessoas competem muito. Segundo ela, em 2015 houve um crescimento muito grande de eventos, feiras, cursos e criação de novos negócios, porém muitos empreendimentos abordavam o mesmo escopo, então havia uma competição acirrada entre esses. E completa afirmando que há um auto boicote entre os afroempreendedores, não há o compartilhamento de oportunidades e de conhecimento. Ela questiona como compartilhar, por exemplo, seus conhecimentos adquiridos na especialização em gestão de negócios sem ser lida como arrogante. Para Jaciana tudo isso atrapalha o ecossistema empreendedor que poderia ser fértil, mas acaba andando muito devagar. Jaciana também vê certa desorganização no afroempreendedorismo que, segundo ela, pode ser em decorrência da falta de formação. Exemplifica com tarefas que acabam indo para o lado pessoal do afroempreendedor, como contratação de pessoas ou o estabelecimento de laços afetivos no ambiente de trabalho. Para ela, o afroempreendedorismo trabalha de forma diferente do empreendedorismo não-negro, paradoxalmente talvez fosse bom se moldar à maneira tradicional, mas também não tão vantajoso se moldar a um modo branco de empreender. Em relação a posicionamentos políticos por parte dos afroempreendedores, Jaciana afirma que vê posicionamentos e acredita que isso ocorre, pois a maioria dos afroempreendedores assim o são para suprir necessidades e pela falta de recursos da população negra. De modo geral, ela acredita que os afroempreendedores estão sempre engajados em pautas raciais e coletivas. Refere-se, principalmente, a problemas estruturais e que os afroempreendedores criam seus negócios para suprir algumas dessas demandas, que se intensificam com a aproximação de movimentos sociais, como citado nos resultados apresentados na seção anterior. Sobre acesso ao crédito, Jaciana afirma que na primeira conta jurídica que abriu, a gerente perguntou se usaria a máquina de cartão de crédito para se prostituir. Ela compartilha esse caso para exemplificar o tratamento desigual oferecido para pessoas negras em instituições bancárias. Embora esteja nesse momento em um banco que atende suas
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    85 necessidades, ela sentedificuldades no pleno entendimento das opções de crédito. Ainda sobre questões financeiras, Jaciana acrescenta que a "pejotização”36 leva as pessoas a acreditarem que estão abrindo um negócio, quando na verdade faltam-lhes planejamento, visão de futuro e possibilidades de expansão. 6.3.2 “A busca pela autonomia, me fez virar empreendedora” – Wanessa Yano A segunda entrevista foi realizada com Wanessa Yano, 28 anos, profissional da área de moda e marketing, sócia-fundadora da ‘Ayê Acessórios’ desde 2012. A ‘Ayê’ é uma marca nascida na periferia da cidade de São Paulo e tem como objetivo desenvolver acessórios artesanais com referências africanas na diáspora para que se fale de um resgate de valores culturais e tradições que foram esquecidas, segundo sua própria descrição, ao longo do tempo. A marca preza por comércio justo, local e consciente, e as peças são produzidas por artistas africanos e da diáspora. Sobre seu relato de trajetória, Wanessa também afirma que a internet é a base de seu negócio, as mídias sociais são ferramentas indispensáveis e grande parte das vendas de seus produtos vem do resultado de publicidade online nas mídias sociais. Para Wanessa, a relação entre os afroempreendedores reflete as relações entre a população negra de modo geral: são patológicas, dolorosas e difíceis. Para ela também não há uma divisão estabelecida entre pessoa jurídica e física, e isso dificulta as relações empresariais. Sobre a questão da precarização das leis trabalhistas, Wanessa afirma que é o mesmo que o aval do retorno da escravidão ou uma escravidão moderna. Para ela, a precarização dificulta a vida das pessoas, sobretudo em relação aos contratos intermitentes e o discurso de glamourização do empreendedorismo que dão a falsa ilusão de alta rentabilidade e flexibilidade de jornada de trabalho. Todavia, Wanessa vê com positividade a relação do afroempreendedorismo com questões relacionadas à política. Para ela, há mais diálogo sobre encarceramento em massa, genocídio da população negra, entre outros temas. Mas também afirma que a venda de produtos por si só não modifica cenários, é preciso ir além no ecossistema empreendedor. Sobre a afirmação "uma luta antirracista tem que necessariamente ser anticapitalista", ela 36 Nome pejorativo para se referir à contratação de profissionais como Pessoa Jurídica e não contrato de trabalho formal.
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    86 discorda e afirmaque mesmo em uma estrutura socialista de sociedade haveria racismo, pois este é a manifestação de dominação e poder sob uma raça e não sobre poder econômico. 6.3.3 “O principal elemento da identidade é esse poder da gente fazer muito com pouco” – Michelle Fernandes A terceira entrevista foi realizada com Michelle Fernandes, 36 anos, cofundadora da ‘Boutique de Krioula’ desde 2012. A Boutique começou com a venda de turbantes, acessórios muito popularizados no Brasil com forte referência à cultura africana, mas atualmente Michelle vende também outros acessórios. Além disso, Michelle é youtuber e mantém canal sobre moda, estética e beleza com foco em mulheres negras. Michelle conta que seu início foi também sem planejamento. Primeiro começou a comprar turbantes para si mesma com forma de ter uma referência negra. Quando muitas pessoas passaram a questionar onde ela havia adquirido os produtos, ela percebeu que ali havia uma oportunidade, então fez uma página no Facebook e avisou suas amigas. Esse período coincidiu com sua demissão no emprego formal, o que encadeou o desenvolvimento prioritário da ‘Boutique de Krioula’. Para Michelle, a prática empreendedora está presente nas famílias negras muito antes de se tornar um conceito, exemplifica contando que sua avó e sua mãe que sempre tiveram atividades paralelas como forma de obter renda. Sobre identidade, complementa afirmando que o principal elemento da identidade é a garra e força de fazer muito com pouco. Além de seu negócio se iniciar pelas plataformas, Michelle afirma que as mídias sociais são o contato direto com o cliente e que a principal mídia atualmente é o Instagram, para mostrar os bastidores da produção das peças. Já os contatos são realizados principalmente pelo WhatsApp. Para ela, as mídias sociais são o que fazem a empresa se manter no mercado. Sobre o contexto político atual, Michelle afirma não ter perspectivas boas, sobretudo por se tratar de um governo racista, machista e homofóbico, e com uma sociedade de pessoas declaradamente intolerantes e preconceituosas. Para ela, as oportunidades estão cada vez mais difíceis, mas segue trabalhando para manter a empresa na esperança de dias melhores. Em relação à questão de a luta antirracista ser anticapitalista, Michele não concorda e afirma que pessoas brancas ganham dinheiro fazendo produtos para todas as pessoas e que ela não pode realizar seu trabalho apenas por amor. Afirma que é um trabalho como outro qualquer, com processos e pessoas envolvidas que merecem ser muito bem remuneradas. Para Michelle, as
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    87 pessoas negras precisamentender que com seu poder aquisitivo e de escolha elas podem mudar todo o mercado e fortalecer, principalmente, os pequenos afroempreendedores. 6.3.4 “Então a gente percebeu que a gente tinha um propósito muito grande” – Fióti Por fim, a última entrevista foi realizada com Evandro Fióti, 30 anos, cofundador do selo ‘Laboratório Fantasma’ ao lado deu seu irmão, o rapper Emicida. Fióti afirma que a existência da ‘Laboratório Fantasma’ só foi possível a partir da junção de diversos fatores do contexto, dentre os quais: o avanço tecnológico e a criação de diversas plataformas mais acessíveis para artistas, como o Youtube e Facebook; a própria conjuntura política da época, que fazia o Brasil estar bem posicionado perante o resto do mundo; e mecanismos de produção acessíveis financeiramente, como os CD's que eles mesmos produziam e vendiam nas ruas, coletivos de transporte públicos e na porta de eventos por R$2,00. Sobre o crescimento da empresa, Fióti relata que sentiu necessidade de se profissionalizar conforme as variadas demandas foram crescendo. Hoje, segundo ele, a Laboratório Fantasma alimenta cerca de 200 famílias mensalmente, entre colaboradores diretos, prestadores de serviços e empresas associadas. Fióti também fala da sua relação de amor pelo que faz e a dificuldade em transformar sua arte em negócio sem perder sua essência. Para ele foi importante estabelecer um propósito de transformação. Esse propósito, segundo ele, é uma questão ancestral que pessoas negras herdam e colocam em prática, principalmente no que se refere à busca incessante de se reconectar com o outro, e complementa afirmando que para a Laboratório Fantasma chegar onde está hoje foi necessária a colaboração de muitas pessoas que se sentiam representadas pelo propósito. Sobre o papel da internet em sua trajetória, Fióti afirma que a ferramenta foi essencial para a solidez do negócio e que plataformas como Orkut, Youtube e Facebook tornaram possível expandir a visibilidade do trabalho que antes era feito somente nas ruas. Para ele, alguns gêneros souberam "hackear" o sistema e eles fizeram isso com o hip hop no Brasil. Porém afirma que, assim como os meios de massa como a TV e o Rádio, a internet também pode ser uma ferramenta empregada para o mal e é preciso saber usá-la. Quando questionado sobre posicionamentos políticos no afroempreendedorismo, Fióti afirma que a empresa em si já tem posicionamentos firmes em decorrência da postura de seus dois porta-vozes (Fióti e Emicida). Para ele, as três marcas se misturam, mas não é em toda ocasião em que isso ocorre. Exemplifica com os apoios políticos explícitos da marca na contraposição ao golpe da Presidente Dilma Rousseff, apoio ao movimento secundarista e as
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    88 recentes paralisações dostrabalhadores. Afirma ainda que é necessário saber brigar com as armas que se tem dentro do ecossistema dos negócios e assim encontrar um equilíbrio e espaços para diálogo. Para ele, isso só ocorre quando existe uma autossuficiência da empresa em relação ao mercado. Fióti compartilha que em 2017 a ‘Laboratório Fantasma’ esteve entre as marcas mais lembradas como referência de empreendedorismo entre os jovens, e se orgulha, pois para ele esse fato se encaixa no propósito de transformação citado acima, sobretudo na perspectiva de que é possível ser outras coisas além de empregado de outra pessoa. Ele ressalta a importância desse reconhecimento ocorrer com marcas da periferia e afirma que atualmente a ‘Laboratório Fantasma’ está localizada estrategicamente em um bairro da cidade que transita entre o centro e as periferias37 . Quando questionado sobre a diversidade de seus colaboradores, Fióti afirma que isso é um valor que tem que ser levado a sério na área de Recursos Humanos da empresa e afirma que ao contratar leva em consideração características como competência, qualidade, mas também de onde a pessoa vem, o gênero, de qual grupo social ela pertence e assim por diante. Exemplifica dizendo que a maioria dos colaboradores da Lab são negros e que tem como horizonte equilibrar melhor o quadro de gênero. Atualmente essa divisão fica em torno de 65% de homens e 35% de mulheres. Sobre essa temática, Fióti ainda afirma que por vezes é difícil encaixar todos os requisitos da oportunidade de emprego com pessoas de grupos minorizados e, para ele, isso é reflexo da falta de oportunidades de capacitação técnica, educação e a constante disputa com pessoas que foram privilegiadas a vida toda. De modo geral, as entrevistas apresentam um contraponto divergente do formulário sobre a relação estabelecida entre os afroempreendedores. Três dos quatro entrevistados apontam aspectos que precisam ser melhorados na comunidade, como a competição entre si, o compartilhamento de saberes, a formação técnica e a diferenciação entre as relações afetivas e comerciais. Os entrevistados apontam os mesmos problemas em relação ao acesso financeiro, situações de racismo e a descrença em perspectivas positivas em relação ao contexto político. Resgatando a perspectiva de Garrido e Olmos (2006), podemos afirmar que a ‘Aye Acessórios’ e a ‘Boutique da Krioula’ possuem perspectiva culturalista, ou seja, apresentam características de auto emprego por questões religiosas, solidariedade em resposta a uma sociedade hostil, negócios familiares e capital social. A ‘Laboratório Fantasma’ tem a perspectiva ecológica: trata dos negócios em que grandes organizações não atendem ou apropriações de grupos étnicos em nichos que eram atendidos por determinadas empresas e 37 Em Santana, na zona norte da cidade de São Paulo.
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    89 agora não sãomais, pois estas avançaram na economia global. E, por fim, a ‘Era Uma Vez o Mundo’ apresenta a perspectiva interativa, já que bens culturais relacionados ao país de diáspora são os mais recorrentes entre negócios étnicos, a exemplo da culinária, livros, música e roupas. Há percepção de proximidade com a teoria da economia étnica quando observamos o resgate de valores, representação de identidades e ícones históricos negros e laços afetivos, embora esse último aspecto tenha indicado certa problemática, como pontuado acima. Há ainda a afirmação do desejo de poder de compra entre os afroempreendedores para fortalecer a comunidade e a contratação de pessoas negras no quadro de funcionários, como afirma Fióti. É interessante observar que novamente as mulheres são destaques no movimento Afroempreendedor, sendo três de quatro das entrevistadas. Ainda, notamos que todos os negócios partem de uma problemática racial, ou pela falta de referências no campo, necessidade de se auto afirmar ou por necessidade de suprir uma demanda não atendida anteriormente. Observamos ainda forte ligação entre temas políticos: os entrevistados sinalizam que há posicionamento político no afroempreendedorismo, sobretudo pela percepção das desigualdades sociais que atingem significativamente o grupo co-étnico. Sobre o uso da internet e suas ferramentas, todos apontam como essencial para a existência, crescimento e permanência dos negócios. Observamos usos estratégicos das plataformas de mídias sociais, como Michelle que é youtuber, Jaciana que afirma usar para ter relevância, e Fióti que fala de “hackear” o sistema como forma de desenvolvimento, sobretudo a partir da reconfiguração de mercados que ocorre após a ascensão da internet e suas apropriações sociotécnicas. Por fim, a observação mais contundente dessa etapa trata da afirmação sobre a luta antirracista ser uma luta anticapitalista. Os entrevistados discordam e relacionam a tratativa com os empreendimentos de não negros que estabelecem suas práticas no mesmo sistema, embora concordem que o racismo estrutural seja inerente ao capitalismo.
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    90 CONSIDERAÇÕES FINAIS Jão 1por amor 2 por dinheiro 3 pela África 4 pros parceiro que estão na guerra sem medo de errar quem quiser falar só Deus pode julgar 1 Por Amor 2 Por Dinheiro – Racionais MC’s A partir do conceito e das aplicações da teoria da economia étnica, consideramos pertinente a aproximação com o afroempreendedorismo, embora também haja alguns distanciamentos. Dentre as aproximações, o reforço e orgulho da identidade negra postos desde os próprios nomes dos afroempreendimentos e nas relações estabelecidas na rede que se destacam pela necessidade de se auto afirmar enquanto pessoas negras, sobretudo a partir de aspectos estéticos e de beleza. O senso de comunidade também é um demarcador latente que aproxima as duas variáveis, principalmente com o papel dos grupos e associações que promovem o Afroempreendedorismo, discussões e formações técnicas como Feira Preta, Afrobusiness, BlackRocks Startup, Movimento Black Money, Reafro entre outras, que ora se destacam na revisão sistemática como objeto de estudo, ou na rede como nó predominante ou nas devolutivas do formulário como referência no campo. Todas essas organizações e outras mais citadas estabelecem relações coletivas em prol do afroempreendedorismo, dessa forma é possível afirmar que há, portanto, uma comunidade situada. Há ainda elementos como auto emprego e preferência de consumo dentro do grupo co- étnico, como apontado tanto nas respostas do formulário, quanto nas entrevistas semiestruturadas, ainda que nesta última tenham sido mencionados problemas com os limites entre afetividade e relações comerciais. Fica evidente, ao se atentar à historicidade da população negra no Brasil, as consequências do regime escravocrata, que traz graves implicações ainda hoje para todas as gerações de negros no país. Assim como nos resultados das três metodologias pelas quais as representações e discursos proferidos apontam para mecanismos de autodefesa e articulação estratégica, sobretudo em contraposição do racismo estrutural que os impede de avançar e usufruir plenamente de direitos básicos, inclusive do direito à educação e ao trabalho digno.
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    91 Outro aspecto incluia estrutura socioeconômica e política da sociedade brasileira na contemporaneidade que dita determinados padrões na prática afroempreendedora, como observado nas entrevistas semiestruturadas em que todos os afroempreendedores declararam suas perspectivas a respeito de temas relacionados à política. Principalmente ao refletir sobre o impacto da construção e condições futuras de seus negócios, afroempreendedorismo como um todo e pautas essenciais para a população negra no Brasil. O afroempreendedorismo se distancia da conceituação estabelecida da teoria da economia étnica pela formação da população negra no país. Visto que o grupo co-étnico não migrou, não recebeu políticas públicas governamentais para permanecer, muito pelo contrário, conviveu décadas com políticas higienistas e convive ainda com as questões do genocídio da população negra. Logo, o grupo vive em condição de diáspora, embora sem saber ao certo de onde vem. Assim, estabelecer uma relação entre o afroempreendedorismo e a teoria da economia étnica pode revelar um acréscimo ao campo de estudo, uma vez que há nítidas aproximações em um contexto com nuances complexas não exploradas anteriormente. É importante ressaltarmos também alguns aspectos e problemáticas estruturais primordiais sobre o contexto da população negra. Os movimentos negros, de comunicação, de arte e políticos empenhados nas questões sociais do grupo lutam por educação, trabalho e renda há anos. Conquistas como políticas educacionais nas últimas décadas foram importantes para alterar consideravelmente o cenário de exclusão. Observamos esse aspecto nos dados obtidos via formulário pelo qual grande parte dos respondentes são graduados ou com graus acima, e a maioria também foi beneficiada por alguma destas políticas educacionais, possivelmente influenciando o deslocamento do afroempreendedorismo por necessidade para o afroempreendedorismo por oportunidade. Há questões preocupantes em relação ao discurso empreendedor cunhado na precarização dos direitos trabalhistas, na "pejotização" e no avanço liberal de aplicativos de economia compartilhada nativos das tecnologias e da internet, como Uber e afins, que promovem e estimulam a prática das "empresas de si mesmo". Vemos este dado no formulário quando a maioria dos respondentes se declara como profissional autônomo e com faturamento de até cinco mil reais por mês. É necessário refletir sobre em até que medida este escopo de atuação é afroempreendedorismo ou precarização de trabalhos que poderiam ser exercidos amparados às leis trabalhistas. Ou ainda pensar até que ponto fatores relacionados ao racismo estrutural limitam esse faturamento. Os relatórios e levantamentos apresentados no capítulo quatro estabelecem semelhanças com os dados apresentados a partir do formulário online. A exemplo, a presença
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    92 marcante de mulheres,o envolvimento em partidos políticos ou movimentos sociais e o acesso dificultado ao crédito bancário, dado presente tanto no relatório de Mick (2016) quanto na pesquisa feita por Paixão (2015). Neste último observamos com um pouco mais de detalhes a discrepância do acesso ao microcrédito por negros e não negros e as razões percebidas para a não liberação de crédito. Em alinhamento, nos deparamos com o depoimento impactante na fala de Jaciana, da ‘Era Uma Vez o Mundo’, quando questionada se sua ferramenta bancária seria utilizada para prostituição. Esses fatores nos levam a pensar na necessidade de políticas públicas relacionadas ao acesso ao crédito, para o oferecimento de formações técnicas, essa, inclusive, uma das queixas recorrentes nas entrevistas semiestruturadas, bem como políticas permanentes de combate ao racismo. Como demonstrado no levantamento feito a partir dos relatórios de atividades da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, havia planos para o desenvolvimento de políticas públicas de acesso ao crédito que possibilitassem o desenvolvimento e sobrevivência econômica dos afroempreendimentos, além de formação e assessoria técnica, porém não existiram ações concretas em relação ao problema, principalmente em decorrência das transições governamentais a partir de 201638 . Ao pensar sobre as redes sociais que emergem a partir do uso das plataformas e sites de mídias sociais, observamos a formação de comunidades por interesse e identificação. Ou seja, determinadas características de um grupo são elementos essenciais para a formação destes clusters. Aqui, sobretudo, observamos no afroempreendedorismo aspectos para além das tratativas comerciais. O movimento apresenta desde nomes de seus negócios, auto apresentação, valores, estética e ideias que ressaltam o pertencimento a uma comunidade que tem como principal marcador a questão racial e o reforço da identidade negra. A utilização das ferramentas tecnológicas e de internet, sobretudo as plataformas e sites de redes sociais, possibilitam a reunião da comunidade sem a dependência da aproximação geográfica. Portanto, a discussão sobre identidade surge também no campo na comunicação digital despertando interesse em como os grupos usam e como são os resultados desta utilização. É necessário destacar o alinhamento do afroempreendedorismo com questões sociais e políticas, dados marcantes no formulário online, explicitados recorrentemente nas entrevistas semiestruturadas, bem como observados nas relações da rede. Há, portanto, uma reafirmação do interesse e atuação em movimentos sociais e discussões políticas, não somente ao que se 38 Golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff, posse de Michel Temer e readequação de pastas federais.
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    93 refere à práticaafroempreendedora, como em variadas pautas que impactam na vida coletiva das pessoas negras no Brasil. Portanto, acreditamos que é possível aplicar a teoria da economia étnica na análise do afroempreendedorismo no Brasil, e que há discurso alinhado com causas defendidas pelo movimento negro. Todavia, é necessário levar em consideração a formação do grupo étnico no país, seus tensionamentos teóricos, históricos e políticos. Diante disso, acreditamos que as principais características do afroempreendedorismo, enquanto atividade desenvolvida por profissionais e empresários negros com o objetivo de obter renda, vão além desse aspecto e dedicam-se também a suprir demandas ocasionalmente desenvolvidas por problemas sociais, políticos e estruturais. Os afroempreendedores empregam emoções, identidade que demarcam sua etnicidade em seus negócios, eles têm indignações e acreditam na capacidade de alterar cenários a partir de suas redes afroempreendedoras. Todavia, observamos que em sua maioria, para os afroempreendedores empreender é construir o passado e o presente de suas histórias, dado suas condições de vida, pois a prática do afroempreendedorismo também demarca as disparidades no ato de empreender entre negros e não-negros, sobretudo ao que se refere ao capital social, econômico e político desses grupos. A respeito dos desdobramentos possíveis a partir das premissas deste trabalho, consideramos importante verificar: • A relação entre as políticas educacionais e o estímulo ao afroempreendedorismo. Bem como se o grau de escolaridade interfere diretamente nos serviços e produtos oferecidos; • O destaque, a relação e a importância de artistas na formação da rede do Afroempreendedorismo, sobretudo do gênero do rap e hip hop; • A massiva participação de aspectos estéticos e de beleza negra; • A formação, a relação e a importância de uma comunidade de veículos de comunicação alternativos e independentes, sobretudo os que carregam demarcadores étnicos; • A importância dos grupos e associação no afroempreendedorismo; • A consideração que se leva a respeito de grupos formados nas plataformas de sites de redes sociais como representantes do movimento afroempreendedor; • A própria inclusão do afroempreendedorismo como um movimento social e qual o impacto isso representa em relação à percepção do que é um movimento social;
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    94 • A atuaçãoe importância das mulheres negras como grupo massivamente presente e determinante no afroempreendedorismo; • Questões problemáticas no porte e faturamento dos afroempreendimentos; • A forte ligação dos entrevistados com o interesse em movimentos sociais. Por fim, estimamos que o trabalho traga acréscimos ao campo da economia étnica e aos estudos sobre trabalho e renda da população negra no Brasil, principalmente ao se pensar o afroempreendedorismo como um fenômeno contemporâneo em expansão.
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    108 Atelier MaclaDê 743023662413978www.Facebook.com/ateliermaclade/ Atitude Negra 913672628672545 www.Facebook.com/atitudenegra1/ Ayê Acessórios 199503240163992 www.Facebook.com/lojaayeacessorios/ Bantu 875618122542860 www.Facebook.com/bantu.com.br/ Baobá Moda Afro 765112377025830 www.Facebook.com/baobamodaafro/ Beleza Afro 191404894249254 www.Facebook.com/BelezaAfroOficial/ Biyou'Z Restaurante Afro 477818662294943 www.Facebook.com/biyouzresto/ Black Codes Consulting 550990678444389 www.Facebook.com/blackcodesconsulting/ Black Money Brasil 320364838357251 www.Facebook.com/blackmoneybrasil/ BlackRocks Startup 316799475356668 www.Facebook.com/blackrocksstartup/ Boutique da Krioula 462370227119188 www.Facebook.com/boutiquedekrioula/ Brasil Afroempreendedor Amapá 445061832306681 www.Facebook.com/brasilafroempreendedorap/ Cabelo Afro 173655953180894 www.Facebook.com/CabeloAfrooO/ Candances Moda Afro 582180688497005 www.Facebook.com/candacesmodaafro Casamentos Afro - Consultoria 498082350325193 www.Facebook.com/igbeyawocasamentosafro/ Central das Divas 500052880060136 www.Facebook.com/centraldasdivas/ Cia das Tranças by Chris Oliveira 168519923226160 www.Facebook.com/euquerociadastrancas/ Clube da Preta 1377831385598638 www.Facebook.com/clubedapreta/ Coaching da Cor School 1607588709571724 www.Facebook.com/coachingdacor/ Coletivo De Afroempreendedorismo De Diade- ma 129787794367077 www.Facebook.com/Coletivo-De-Afroempreendedorismo-De- Diadema-129787794367077/ Conta Black 2001875240050216 www.Facebook.com/contablack/ Criola Hair 839209552792422 www.Facebook.com/criola.hair.sp/ D'Afrika 422573144620059 www.Facebook.com/dafrikamoda/ Diáspora Black 1301421376544939 www.Facebook.com/diaspora.black/ Drescoração 309113532449309 www.Facebook.com/dresscoracao/ D'Turbantes Moda Afro 376431372519456 www.Facebook.com/DTurbantesModaAfro/ Ebony English 270846256334710 www.Facebook.com/ebonyenglishbrazil/ EmpregueAfro - Consultoria em RH e Diversida- de 186846448052474 www.Facebook.com/empregueafro/
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    109 Encontre Afro 563810887108408www.Facebook.com/encontreafro/ Enia Dara - Moda Afro, Estilo e Cultura 586068998125249 www.Facebook.com/eniamoda Espaço Cultural Bonecas Makena 122140697929055 www.Facebook.com/EspacoCulturalBonecasMakena/ ETHNIC CONSULT - Empreendedorismo Étnico, Cultural e Social e Gestão do 3º Setor 235367399849569 www.Facebook.com/EthnicConsultEmpreendedorismoEtnico Feira Afro Cultural Zona Norte 1782034818714296 www.Facebook.com/Sergio.lapaloma/ Feira Criola 534437569906284 www.Facebook.com/FeiraCriola/ Feira Cultural Preta 156590172771 www.Facebook.com/feiraculturalpreta/ Gih Afro Tranças 1079211278791939 www.Facebook.com/Gihafrotrancas/ Guia de Cabeleireiros Afros 1620806004808319 www.Facebook.com/guiaafro/ Ileko Obá:Bonecas De Orixás 633177190177385 www.Facebook.com/IlekoOba/ InfoPreta 499818673366091 www.Facebook.com/InfoPreta/ Inova Capital 1784081988542559 www.Facebook.com/Inova-Capital-1784081988542559/ Jazz Nigga 1141813565828910 www.Facebook.com/jazzngz/ Kilombu 938300006256194 www.Facebook.com/kilombu/ Kultafro 314315981982301 www.Facebook.com/kultafro/ Kumasi 1726053384299084 www.Facebook.com/KumasiLoja/ Lafrikana 1491684417739308 www.Facebook.com/lafrikana.lafrikana/ Linda Black Studio - Especializado permanente afro,cabelo crespo e cacheadas 1023180304456930 www.Facebook.com/lindablackstudio/ Loja Preta Chic 467721499985917 www.Facebook.com/pretachiclook/ MALIempreendedoras 551310465075381 www.Facebook.com/maliempreendedoras/ Maravilha Afro Disco 188825241710123 www.Facebook.com/afroMARAVILHA/ Mercado Afro 272383809547586 www.Facebook.com/mercadoafro/ Mercado Negra 945035098884420 www.Facebook.com/mercadonegraSP/ Meu Afro by Camila Marques 1042240955807257 www.Facebook.com/myafro10/ Meu Cabelo Crespo 803506249726358 www.Facebook.com/studiomeucabelocrespo/ Meu Turbante Minha Coroa 740801939355434 www.Facebook.com/lojameuturbanteminhacoroa/ Moda AfroNipo 1486334408299439 www.Facebook.com/afronipo Movimento Black Money 278446599315496 www.Facebook.com/MovimentoBlackMoney/
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    110 Mulher Negra eCia by Opinião da Preta 194226437256434 www.Facebook.com/mulhernegraecia/ MUNDO AFRO Cabelos 304021040018883 www.Facebook.com/mundoafrocabelos/ Negra Atrevida Moda Étnica 236744026530062 www.Facebook.com/negaatrrevida/ Negra Rosa 104933643051225 www.Facebook.com/NegraRosaa/ Negras Empreendedoras do ES 930952463650278 www.Facebook.com/Negras-Empreendedoras-do-ES- 930952463650278/ Nina Silva Produções 569644259738618 www.Facebook.com/ninasilvaproducoes/ Odarah Cultural e Missão 394139777373389 www.Facebook.com/odarahproducao/ Ojire - moda afro 344713489068567 www.Facebook.com/ojiremodaafro/ OYAya Turbantes 796093493778876 www.Facebook.com/OYAyaturbantes/ Painel BAP 1774676869451945 www.Facebook.com/PainelBAP/ Penteados Afro 681686635365728 www.Facebook.com/RosePenteadoAfro/ Preta Brasileira 132897000152316 www.Facebook.com/PretaBrasileiraBeleza/ Preta Trucker 1073534509363590 www.Facebook.com/pretatrucker/ Projeto Brasil Afroempreendedor 133791006964345 www.Facebook.com/ProjetoBrasilAfroempreendedor/ Raizes Moda Afro 821169218001119 www.Facebook.com/RaizesModaAFRO/ Raízes Salão Afro 251657018311635 www.Facebook.com/RaizesSalaoAfro/ Rap Burguer 706868126120972 www.Facebook.com/rapburguer/ Reafro 1767263330156390 www.Facebook.com/Reafronacional/ Reafro Campinas 125153368249391 www.Facebook.com/reafrocampinas/ Reafro II 1529190554041845 www.Facebook.com/reafro/ Reafro SP 1642516142675429 www.Facebook.com/reafrosp/ Reafro/MG 241555046228754 www.Facebook.com/reafromg/ Reafro/RS 1141642375887454 www.Facebook.com/REAFRORS-1141642375887454/ Rede Brasil Afroempreendedor de Santa Catari- na - Reafro/SC 849122741781245 www.Facebook.com/redeafrosc/ Rede de Mulheres Negras Empreendedoras de SFConde - Remesfc 791488197603428 www.Facebook.com/Rede-de-Mulheres-Negras- Empreendedoras-de-SFConde-Remesfc-791488197603428/ Rede de Profissionais Negros 1016166525176350 www.Facebook.com/RDPNSP/ S.K Cabelo Afro 1524246254260035 www.Facebook.com/NaiaBOXBRAIDS/
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    111 Sônia Rodrigues AfroHair 1794892167494129 www.Facebook.com/soniarodriguesafrohair/ Saúda - Acessórios Afro 447916605403140 www.Facebook.com/Sauda.afro/ Salão Afro Odara 1380932448799502 www.Facebook.com/AfroOdara Salon Studio 584722978303616 www.Facebook.com/SalonStudiOfficial/ Santa Resistência 1525897097701316 www.Facebook.com/srsantaresistencia/ Seminário Brasil Afroempreendedor - Rio de Janeiro 257689907744226 www.Facebook.com/projetobrasilafroempreendedorrj/ Simbaz - Culinária Afro e Bar 1869071890021877 www.Facebook.com/simbazbrasil/ Tayó 947309935284369 www.Facebook.com/tayocachos/ Tecidos Africanos Gningue 549352435173145 www.Facebook.com/Tecidos-Africanos-Gningue- 549352435173145/ Trança Nagô 132757073463561 www.Facebook.com/trancanago/ Tranças afro 1649496172015450 www.Facebook.com/sabrinaatoledoo/ Tranças AfroJu 892894270865107 www.Facebook.com/Jullhane/ Turismo Etinico Afro 358152584525489 www.Facebook.com/turismoetinicoafro Vanderlei Afro 1510727668987730 www.Facebook.com/vanderleiafro/ Xongani Moda Afro 106613129431083 www.Facebook.com/xonganimodaafro/ Trajetos Costurados da Moda Afrobrasileira 245290025663452 www.Facebook.com/pg/afrorepresentatividade
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    112 8.3 Termo deconsentimento do formulário
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    113 8.4 Perguntas doFormulário Online Dimensão Sociodemográfica Raça/Cor ● Branco ● Preto ● Pardo ● Amarelo ● Indígena Gênero ● Feminino ● Masculino ● Outro Você é: ● Cisgênero ● Transgênero ● Outro Faixa etária Entre 18 e 25 anos Entre 26 e 33 anos Entre 34 e 41 anos Entre 42 e 49 anos 50 anos ou mais Cidade Estado [caixa de opção] Acre (AC) Alagoas (AL) Amapá (AP) Amazonas (AM) Bahia (BA)
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    114 Ceará (CE) Distrito Federal(DF) Espírito Santo (ES) Goiás (GO) Maranhão (MA) Mato Grosso (MT) Mato Grosso do Sul (MS) Minas Gerais (MG) Pará (PA) Paraíba (PB) Paraná (PR) Pernambuco (PE) Piauí (PI) Rio de Janeiro (RJ) Rio Grande do Norte (RN) Rio Grande do Sul (RS) Rondônia (RO) Roraima (RR) Santa Catarina (SC) São Paulo (SP) Sergipe (SE) Tocantins (TO) Escolaridade Primário Completo Primário Incompleto Primário Cursando Fundamental Completo Fundamental Incompleto Fundamental Cursando Médio Completo Médio Incompleto Médio Cursando Superior Completo Superior Incompleto
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    115 Superior Cursando Pós-graduação Completo Pós-graduaçãoIncompleto Pós-graduação Cursando Outro Se graduado, foi beneficiário de alguma política educacional? ● Sim ● Não Se sim, qual? ● ProUni ● FIES ● Cotas sociais ● Cotas raciais ● Outras Orientação Sexual Heterossexual Lésbica Bissexual Gay Outro Estado Civil Solteiro(a) Casado(a) / mora com um(a) companheiro(a) Separado(a) / divorciado(a) / desquitado(a) Viúvo(a). Religião ● Católica ● Protestante ● Evangélica ● Espírita ● Umbanda ● Candomblé ● Outra ● Sem religião
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    116 ● Ateu Dimensão Empreendimento Qualo porte da sua empresa? Profissional Autônomo Microempresa (até 9 empregados) Pequeno Porte (de 10 a 49 empregados) Médio Porte (de 50 a 99 empregados) Grande empresa (100 ou mais empregados) Qual atividade você oferece em sua empresa? Serviço Comércio Ambas Outro Qual o tempo de atuação sua empresa? Menos de um ano Entre dois e cinco anos Entre cinco e 10 anos Mais de 10 anos Sua atividade é formalizada? ● Sim ● Não Se sim, qual o tipo de formalização? Microempreendedor Individual (MEI) Sociedade Simples (SS) Sociedade Anônima (SA) Sociedade Empresária Limitada (Ltda.) Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (Eireli) Tem funcionários ● Sim ● Não Se sim, quantos? 1 a 5 6 a 10
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    117 11 a 15 Maisde 15 Média de faturamento mensal Até 5 mil reais por mês Entre 6 e 10 mil reais por mês Entre 11 e 15 mil reais por mês Mais de 15 mil reais por mês Seu empreendimento é focado em alguma temática relacionada a cultura negra? ● Sim ● Não Seu empreendimento é focado em clientes / consumidores negros? ● Sim ● Não Seu empreendimento é sua única forma de obter renda? ● Sim ● Não Se não, de que outra forma você obtém renda? Você participa ou tem interesse em algum movimento social? ● Sim ● Não Se sim, em qual/quais? Dimensão Afroempreendedorismo Você se considera um Afroempreendedor? ● Sim ● Não Você sabe o que é Black Money? ● Sim ● Não Você tem contato com outros Afroempreendedores? ● Sim ● Não Você prefere utilizar serviços ou comprar de outros Afroempreendedores?
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    118 ● Sim ● Não Vocêconhece organizações ou pessoas que promovem eventos sobre Afroempreendedorismo? ● Sim ● Não Se sim, quais? Você já enfrentou alguma dificuldade como por ser um empreendedor negro? ● Sim ● Não Se sim, quais? Você utiliza internet em seu empreendimento? ● Sim ● Não Se sim, de que forma? Você tinha um emprego formal antes de ser afroempreendedor? ● Sim ● Não Se sim, por que virou empreendedor?
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    119 8.5 Roteiro daentrevista semiestruturada 1. Qual a importância da internet e das redes sociais na sua rotina como empreendedor? 2. O que te fez tornar-se um afroempreendedor? 3. Como você percebe a relação entre os afroempreendedores? 4. Você percebe algum elemento da identidade negra no fazer afroempreendedor? 5. Há posicionamentos político-sociais no afroempreendedorismo? Se sim, de que forma você percebe esse fato? 6. Você já buscou acesso ao crédito? Como foi essa experiência? 7. Qual sua consideração sobre a precarização das leis trabalhistas e a glamourização do discurso empreendedor? 8. Como é sua rotina de trabalho? Quantas horas por dia você trabalha em sua empresa? 9. Muitos empreendimentos de afroempreendedores tem foco (venda e/ou prestação de serviços) na população negra, o que você pensa sobre essa estratégia de abordagem? 10. Quais suas perspectivas para o afroempreendedorismo no atual contexto político? 11. Você concorda com a afirmação "uma luta antirracista precisa ser anticapitalista"? E como você relaciona essa afirmação com o afroempreendedorismo?
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    120 8.6 Transcrições daentrevista semiestruturada 8.6.1 Jaciana Melquiades, da Era Uma Vez o Mundo Sobre a trajetória, isso é muito curioso. É uma pergunta bem recorrente, e eu fico pensando no quanto eu não tenho um planejamento do que eu estava fazendo e onde eu queria chegar. A Era Uma Vez o Mundo surgiu de uma insatisfação, da minha inquietação, de uma vontade de ter coisas que eu não tinha. Eu precisava entregar para o meu filho elementos fofos, lúdicos e pretos e eu não conseguia encontrar, quando encontrava era muito caro, era gringo, enfim. Aí eu comecei a fazer para ele e por um momento fui só a mãe do Matias. Lá por 2011 ou 2012, eu estava fora do mercado fazendo e tinha uma máquina de costura que ganhei de presente, então eu fazia coisas para basicamente me distrair, enfeitar o quarto do Matias. Em um determinado momento comecei a ficar insatisfeita de estar nesse lugar somente de mãe e comecei a fazer algumas atividades voluntárias fora de casa, em escolas trabalhando com questões raciais nas escolas, foi então que comecei a levar esses brinquedos que eu fazia para que as professoras trabalhassem com as crianças. Aí o processo foi de interesse das pessoas, perguntando como que fazia para ter e eu começar. E aí comecei, de um jeito muito tímido, a pensar nisso como um negócio, somente em 2013 eu comecei a vender por encomenda algumas coisas. E aí depois que já estava funcionando bem esse esquema de venda por encomenda eu abri uma loja online, em 2014. Esse processo de empreender foi bem intuitivo e foi acontecendo de acordo com vida. Só depois de 2017 de é que eu comecei a olhar para a Era Uma Vez o Mundo como um negócio potente que poderia de fato transformar não só a minha vida como a de várias outras pessoas. Em janeiro de 2017 eu comecei a focar na profissionalização do meu trabalho na Era Uma Vez o Mundo. Entrei no MBA em gestão de negócios para entender como fazer o negócio crescer, comecei a participar de processo de aceleração e agora de verdade eu consigo dizer que eu tenho planejamento. No início foi sem pensar em o que seria da Era Uma Vez o Mundo, até porque eu tinha um outro emprego e não me dedicava exclusivamente para a empresa, a Era Uma Vez o Mundo era quase um complemento de renda, então eu focava muito em outras coisas que eu fazia e menos nela.
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    121 Sobre redes sociais,hoje elas são basicamente o que dá relevância para o meu trabalho. Eu sinto uma necessidade muito grande, mesma como pessoa física, de ter relevância, das pessoas ouvirem as coisas que eu falo porque elas têm uma ligação direta com o que eu faço na Era Uma Vez o Mundo e com o que eu acredito no poder que a educação tem de transformar, então eu acabo tentando me colocar e me posicionar como alguém que possa debater sobre educação. A própria Era Uma Vez o Mundo para ser vista a gente usa muito a internet, a gente chega nas pessoas basicamente usando a internet porque é a forma como a gente consegue driblar essa falta de recursos que os pequenos empreendedores têm, então a gente usa as ferramentas que estão ao nosso alcance para conseguir chegar na casa das pessoas. A internet é hoje o jeito mais simples mais fácil. A relação entre os empreendedores infelizmente ainda é muito ruim, as pessoas competem muito. Lá em 2015 e 2016 foi o auge desse movimento empreendedor, muitos eventos, feiras e muitas pessoas criando novos negócios que eram muito parecidos. Então, a gente via uma competição muito acirrada entre os pretos como se a gente realmente tivesse condições de competir uns com os outros. Não existe mercado e produtos pensados para gente entre as grandes empresas ao ponto de conseguir atender a população negra, então a gente podia tentar cooperar mais uns com os outros para que os nossos negócios não morram, mas a gente ainda compete muito, a gente ainda boicota muito uns aos outros e a gente não compartilha oportunidades e conhecimentos que a gente vai adquirindo. Por exemplo, eu investi no MBA, aprendi coisas preciosíssimas, mas eu fico pensando em como conseguir compartilhar essas coisas que eu aprendi sem ser lida como arrogante. Essas pequenas questões vão afastando a gente. Enfim, acho que entre os afroempreendedores têm muita competição e muita falta de proximidade, isso acaba atrapalhando um pouco o ecossistema empreendedor que poderia ser muito fértil e acaba andando muito devagar. Eu fico me perguntando se todo empreendedor negro é um afroempreendedor, eu consigo identificar traços da nossa falta de organização e aí eu não gostaria de ler isso como traços de identidade negra. Tenho pensado muito que o nosso jeito de fazer empreendedorismo é diferente do jeito branco e fico pensando em que medida esse nosso jeito diferente de fazer também não tem a ver com uma falta de formação e orientação para que a gente consiga fazer as coisas nos moldes que que são mais usuais e no fim das contas acabam sendo moldes brancos. A forma como a gente trabalha e como a gente contrata tudo vai indo muito para o lado pessoal e chamam isso de coletividade, Ubuntu... mas eu acho que é muito também falta de saber sobre contrato e coisas formais de um jeito mais polarizado.
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    122 Quando perguntam seos empreendedores pretos têm posicionamentos políticos e sociais no empreendedorismo, eu acho que sim. A gente, por conta da grande maioria viver nesse ambiente escasso de recursos escassos de tudo, acaba empreendendo pra suprir faltas. Não é empreender por vocação ou empreender por sonho, a maioria das vezes a gente empreende por necessidade e depois que a gente consegue suprir as nossas necessidades básicas a gente não consegue fazer um negócio qualquer. Não sei em que medida as pessoas estão indo para esse nicho por vocação ou porque realmente sentem o incômodo. A gente sente o incômodo e quer resolver um problema preto quando a gente abre um negócio em que o nosso produto resolve um problema que é um pouco mais coletivo. A gente não consegue se desprender muito desse olhar e entender que o nosso negócio não é só nosso, assim acho que a gente acaba sempre se engajando em pautas raciais e coletivas. Sobre financiamento, eu sou uma pessoa que não tem dinheiro, vivi muito tempo com restrição de crédito, com nome no SPC, essas coisas. Agora que a gente está começando a pensar em acessar o crédito, mas a minha relação com o banco de um modo geral não é uma relação boa. Já troquei de banco várias vezes especificamente por causa do tratamento que eu recebo. A primeira conta jurídica que eu abri a gerente questionou se eu usar a maquininha de crédito para prostituição. Obviamente eu precisava muito da conta e estava quase abrindo, eu abri a conta, mas ela teve um problema comigo depois por conta desse comentário. É esse tipo de tratamento que é dispensado para a gente. Agora eu consegui encontrar um banco bacana e nesse momento eu tenho começado a conversar para entender um pouco sobre empréstimos e tudo mais. Ainda estou amadurecendo a ideia, mas é bem foda porque nunca tem nada disponível para a gente. Nem no banco e nem em outros espaços que que trabalham com financiamento. A gente fica muito longe das informações sobre crédito, de como faz, como é possível. Acho que no geral para o empreendedor preto falta muito conhecimento, a gente está muito longe das informações importantes, esse passo a passo do conhecimento formal sobre o que é ter um negócio. As pessoas tão abrindo um CNPJ achando que isso é ter um negócio e eu realmente acho que são coisas completamente diferentes. Você ter um CNPJ e vender coisas é diferente de você dono de um negócio. Um negócio tem que ter planejamento, visão de futur. Você tem que entender como é que você cresce, expande, aumenta a produção ou aumenta o seu poder de alcance. Tem fatores que fazem o seu negócio crescer e deixar de ser pequenininho para ser imenso e eu não sei se nós pretos estamos acessando essas informações.
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    123 8.7.2 Wanessa Yano,da Aye Acessórios A internet é a base do meu negócio. Todas as marcas que gerencio foram desenvolvidas para a Internet, o que o mercado chama de e-business. As redes sociais se tornaram ferramentas de vendas indispensáveis. Nos primeiros anos empreendendo era apenas uma vitrine hoje a maior parte das vendas vêm da publicidade online nas redes sociais. A busca pela autonomia me fez virar empreendedora. O fato de eu ter nascido preta automaticamente me inclui no afroempreendedorismo. Entender esses dois conceitos me tornaram uma afroemprendedora. Pois compreendi que eu não poderia ser uma comerciante comum de bijuterias. Iniciei a minha marca com 8mil reais e a ideia inicial era ser uma marca apenas de revenda, mas quando participava de feiras que não tinham o foco étnico-racial, me incluíam dentro do quadrante entendido como a cota, logo os estereótipos eram atribuídos no meu negócio. A relação entre os afroempreendedores é exatamente um espelho da população preta, não se divide entre pessoa jurídica e pessoa física. Carlos Moore diz “O povo preto é um povo patológico” e eu concordo com ele nossas relações são dolorosas e difíceis, e no campo de negócios não é diferente. Diversos aspectos, o ato do comércio em si dentro desse território é um legado preto, além das diversas buscas pela ausência de identidade visual afro brasileira. Já que as culturais são inúmeras. Existe sim! Como disse na resposta anterior, a falta da identidade visual, representação no mercado, e principalmente a negação do legado africano faz com que empreendedores pretos buscam em seu negócio a manutenção disto, é simples de observar em um primeiro momento os nomes das marcas, dos produtos, a matéria prima e assim por diante. Sim, já busquei, e foi positiva. Busquei em iniciativas voltadas para MEI, pequenos empreendedores, dentro de instituições privadas, mas acabei optando em não pegar o valor que era pequeno: aproximadamente 3 mil reais. Para não me envolver em dívidas. Penso que é o aval do retorno à escravidão, algumas pessoas diriam que é uma escravidão moderna, mas entendo como algo que foi dado e retirado, principalmente da população preta, pois alguns conseguiam “ajeitar” a vida com o valor inicial da aposentadoria, abrindo até então os seus negócios, compreendendo então uma estabilidade financeira. Acredito que é muito ruim, não pelos encargos a serem pagos pensando como empresária, mas a impossibilidade de acrescentar na vida das pessoas quando você gera esse emprego então sabe que pode contribuir pra a pessoa mudar o percurso da sua vida. A precarização das
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    124 leis trabalhistas atrasaa vida das pessoas de ambos os lados principalmente com relação a contratos intermitentes. E justamente por isso a glamourização do discurso empreendedor aumenta, como uma alternativa rentável de alta remuneração e controle do tempo, que é apenas uma ilusão. Minha rotina de trabalhos é intensa. Separo as atividades por períodos e dia a da semana. Por exemplo na terça e quinta são entregas em mãos nas estações de metrô. Como terei que me deslocar, já aproveito pra visitar fornecedores, buscar matéria prima ou qualquer outra atividade externa. Trabalho na real em uma jornada diária de 12h ou mais aproximadamente Na teoria é rentável, o Brasil tem mais de 57% da população negra, na prática é furada (digo por mim), pois ao mesmo tempo que é rentável, o poder de compra desse público é baixo, além de que é necessário todo um processo de impulsionamento e consciência étnico- racial para que esse público de fato consuma. Quem detém o poder econômico mais alto infelizmente é o branco e estamos falando de negócios. E para isso, precisamos aumentar o ecossistema econômico preto primeiro, Garvey já dizia “Compre do preto, mas venda para todos”. Meu posicionamento político é pan-africanista nacionalista e garveyista, mas a situação força as pessoas pretas a entender o que é o estado e a sua força. Essa força as pessoas a terem consciência racial, pois uma guerra foi decretada, logo os movimentos de minorias ganham forças. É, são essa força que vai impulsionar as mudanças. E já podemos ver isso com as legislações voltadas para manter o sacrifício nas religiões de matrizes africanas, as leis de proteção a comunidade LGBTI+ conquistadas nas controvérsias do Governo, mas pela presença do que significa quem está no poder. Acredito que morreríamos de formas veladas como sempre foi, pelos becos e vielas escuras. Falamos mais sobre encarceramento em massa, entendemos a luta racial e sobre o genocídio de um povo. E tudo isso faz com que as pessoas pretas compreendam a importância do afroempreendedorismo. Mas ainda há um agravante que não é apenas a compra que muda isso. Ela ajuda, é fato. Mas estamos falando de um ecossistema que precisa ser alterado e para isso quem empreende precisa pensar para além de venda de produtos. E sim de matéria prima então veremos mudança significativas. Eu discordo, pois se fosse assim não teria iniciado uma propriedade privada, é isso que empresas são. Mesmo que vivêssemos sob a estrutura socialista ainda assim o racismo existiria.
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    125 8.7.3 Michelle Fernandes,da Boutique de Crioula Eu começo a Boutique de Crioula - não existia esse termo né - a foi empreendedor eu queria ser empreendedora não sabia não quer empreender, mas na época além da gente ter acabado de ser demitida eu tava passando por um processo de transição capilar já tinha passado já tá crescendo e eu usava os turbantes um meio de... de ponderar, de ter uma referência negra. Minha referência então misturava muito nela e o turbante serviu como meu negócio sabe as pessoas começaram a perguntar pra mim aonde eu comprei onde aquela estampa e eu vi ali uma, uma oportunidade de negócio. Então eu fiz a curadoria das minhas primeiras estampas, criei a página no Facebook, comecei avisar as amigas... depois de um tempo eu percebi que essa necessidade de ser reconhecida no mercado de se pertencer, sentir pertencida e até comprar produtos que valorizem a cultura brasileira num era uma necessidade só minha e sim também das pessoas que tavam ao meu redor. Então com o tempo esse tema pro empreendedor foi surgindo e eu já estava trabalhando muito antes desse tema surgir. Bem, a minha rotina na internet redes sociais, ela é o meu contato direto com o cliente da Boutique de Crioula. A gente já começou a Boutique de Crioula numa rede social que é o Facebook. A gente tá lá ainda, mas hoje ela não é na sua rede principal. Nossa rede principal Instagram, onde a gente faz todo o contato com o cliente e mostra nossos bastidores, mostra os produtos novos que chegaram, os eventos que a gente está e dali que vem os... os compradores né, dos nossos produtos. Eles entram em contato tanto ali no... no Instagram quanto também são direcionados no WhatsApp, no nosso Instagram. Então as redes sociais, cem por cento é que faz a empresa ficar viva, né, se manter no mercado. Eu tenho uma boa relação com vários empreendedores, como as meninas da Queda Cosméticos, que começou lá atrás comigo. Vamos começar bem antes do que, lógico, mas assim, a gente foi crescendo juntas então eu tenho uma admiração muito grande por elas e outras empreendedoras. Trabalho com moda Santa Tereza Design tem a que... é uma marca nova, então a gente tá sempre se encontrar, tá se falando, se encontrando nos eventos, trocando também porque é importante isso, já que a gente atinge praticamente o mesmo público. Então a gente tá sempre trocando sobre o que tá acontecendo no mercado, o que que a gente tá fazendo pra melhorar e tal... Então tenho admiração e me inspiro em muitas mulheres empreendedoras. Eu acredito que essa questão de empreender, por mais que as revistas sobre empreendedorismo, os artigos e até os programas de tevê que fala de empreendedorismo: “não as mulheres negras periféricas no perfil de empreendedor...” mas acredito que essa
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    126 questão muito antesna família a gente tem, né, as nossas avós... da minha mãe era empreendedora. A minha vó sempre prendeu trançando o cabelo e tal, e eu acho que isso é algo que a gente carrega no nosso, na nossa... nosso DNA mesmo, a nossa família. Então eu me inspiro muito dessas mulheres. Reconheço aqui, pra eu tá aqui empreendendo com meu ateliê, enviando pro Brasil inteiro, ter essa possibilidade de ter o poder de fala, o poder de tá no... na frente de uma empresa, veio muito antes, veio dessas mulheres abrindo o caminho. E eu tô abrindo outras mulheres fazendo um trabalho bem maior, sabe, estarem nos lugares. Então eu acredito que o principal elemento da identidade, essa garra, essa força, essa... esse poder da gente fazer muito com pouco. Eu acredito que o posicionamento político do empreendedor é o posicionamento de esquerda, um onde procura saber, ter mais igualdade, distribuição de renda... Então eu acredito que seja esse posicionamento de né... está bem numa fase de, é bem dividido isso pelo governo atual que tá no poder então fica bem claro a gente sabendo em que posição a gente está. Eu tô... assim que eu acordo e eu já tô trabalhando. É o meu celular particular que não é mais particular, é um celular da empresa, é um celular só. Então a partir do momento que eu ligo a internet já tá acontecendo, as ligações que eu recebo sorrindo, ligações relacionadas ao trabalh. Mas, assim, eu tenho que trabalhar das nove, dez horas da manhã até umas dezoito horas que é horário que o bebê chega em casa, é... E aí ele sempre, umas nove horas, depois que a bebê dormiu e tal, já fez, já fiz outras coisas que eu sempre dou uma olhadinha, respondo um cliente ali, outro ou faço uma postagem no Instagram, sabe... Domingo também a mesma coisa. Domingo às vezes que eu desligo o celular o dia inteiro pra não ter redes sociais e tal e nem atender nenhum tipo de... Eu acho que cada vez tá mais difícil pra quem é trabalhador que precisa de uma carteira assinada, quem tá desempregado. Tá muito difícil de conseguir emprego e quando consegue, consegue emprego é pra... pra trabalhar muito, ganhar pouco perdendo direitos sabe? E é muito cabeça, atinge diretamente as pessoas que eu trabalho, né, o meu público alvo e a valorização do discurso de empreendedor é outra coisa também, né. Aas pessoas tem ideia que você empreende, que você faz o seu próprio horário, dinheiro, que você sabe... Enfim, tem um... é fogo, não é fácil empreender, não é fácil entender quando falam que cê faz sua propriedade. Realmente, se brincar, cê vai trabalhar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, é muito difícil ser empreendedor. A gente fala: “empreendedor é você acordar desempregado todos os dias, então você todos os dias tem que ter força, garra, resiliência”. É, eu vejo muita gente falando aí “vai lá ganhar dinheiro pro seu patrão, mas muitas vezes aqui
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    127 mesmo a gentejá pagou todos os funcionários e ficamos sem um real na... mas o rango aquele funcionário viajar pra praia e feriado, e a gente tá em casa porque não tem grana, isso já aconteceu várias vezes. Mas você vai, é, se agarrando num sonho de que você vai conseguir fazer as coisas acontecerem, sabe, mas não é assim, não é fácil. É, cê tem que ter uma pessoa pra te ajudar, pessoas pra te confortar na hora do desespero. Cê tem que ter força pra acreditar num dia melhor a gente tá vivendo desde dois mil e dezesseis uma crise no país que eu muito... tem meses que são, que é bom, muito bom, e tem vários meses que é muito ruim, que você faz o básico pra manter as paga, as contas. Então é bem difícil mesmo, então cê tem que ter segurança naquilo que você vai fazer, investir uma quantidade que você se dentro dessa errado, você não perca tudo. Então tenha cautela pra começar um negócio, e é isso, cara. Mas quem tá empreendendo, Taís, é do jogo. Entendi muito, mas eu acredito que os vendedores trabalham com aquilo que eles têm talento, mas que tem... sejam ligados nessa questão de, de aço, né, então a gente trabalha muito com os tecidos africanos se é uma prestação de serviço, é um serviço voltado à comunidade negra - assim como o clube da preta que é muito bacana, que é um box direcionada pra pessoas negras junta vários empreendedores - a própria queda que faz produtos para cabelos crespos... Então outros serviços, não sei, serviços financeiros voltados às pessoas negras, então sempre tem esse recorte racial porque a gente tá na pele, sabe quais são as dificuldades que encontra determinados produtos, determinados serviços, e eu acho isso uma boa, eu acho isso maravilhoso. Porque as vezes a gente tem que ficar, a gente tem que pagar por um serviço que tem e não pelo serviço, a gente quer ou o serviço que a gente precisaria ter, sabe, como uma psicóloga mulher negra, sabe. Ela vai entender várias paradas que uma psicóloga branca não entenderia porque não é a realidade dela, entendeu? Então eu acho isso bem maravilhoso que tenho mais. As minhas perspectivas não são muito boas não, sabe? Tá cada vez mais difícil pra gente, o governo é racista,a as pessoas que eram racistas intolerantes, cês tão saindo de tudo que é canto, deixando isso bem claro: a gente tá tentando criar pessoas que não tem, tá sendo bem difícil. As oportunidades estão ficando cada vez menores, ahm... e eu, eu no momento não tô com grandes esperanças. Assim, lógico que eu tô trabalhando, tentando fazer acontecer, tentando manter a minha empresa aberta, mas é muito difícil assim, gente, mata a gente, mata uma família inteira então, assim, eu espero muito que melhore, mas quanto mais esse governo se mostrar racista, homofóbico, machista, mais vai ser difícil a gente ter nossos lugares.
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    128 Olha, Taís, eu,assim, vamo ver se eu entendi a pergunta. Então se pra eu trabalhar uma luta de racista, sabe, eu fazer algo contra o racismo eu não posso ganhar dinheiro com isso seria basicamente pergunta sim. Eu não concordo, sabe, eu acho assim: os brancos estão aí ganhando todo dinheiro do mundo sabe, fazendo produtos pra todas as pessoas e quando eu chego com um recorte, sabe, um olhar diferenciado pra é... que tem as mesmas necessidades que eu, eu tenho que fazer isso só por amor. Eu acho que não, sabe, eu acho que você se sente racista, e você sabe e no meu caso como empreendedor é criar produtos que mostrem pra todas as pessoas que a cultura linda, quando, como as outras culturas. E sim, eu posso ganhar dinheiro com isso, é o meu trabalho é um trabalho como de uma outra pessoa, eu faço a curadoria, eu criei os produtos, eu imagino como vai ser eu faço, a produção dos produtos e ele sempre... se eles precisam ser remunerado por isso. E não só remuneradas, precisam ser bem remunerados, né. A gente tem a mania de comparar um pequeno empreendedor com uma grande marca, sabe, a grande marca ela ganha, ela ganha muitas vantagens em produzir algo então enquanto produzindo dez mil blusinhas a vinte reais, eu quero fazer uma coleção com cinquenta peças, eu vou pagar quarenta reais em cada blusinha. Tenho que pagar muitas vezes à vista pro meu fornecedor e só isso, pegar o produto daqui quinze, vinte dias. Enquanto uma marca grande paga daqui quatro meses, tem todas as regalias. Então, enquanto isso chega na mão do cliente, com certeza vai chegar no valor diferenciado, sabe, vai chegar no valor mais caro mas não é só porque quer comprar mais cara porque o, o mundo gira em função de quem tem mais dinheiro e quem não tem dinheiro pra fazer acontecer, é... acaba tendo que se submeter ao que o mercado oferece, entendeu? E aí infelizmente cê chega na mão do cliente final. Mas eu não acredito que pra você ser racista você tem que ser anticapitalista o mundo é capitalista, sabe, infelizmente, ou felizmente num sei te dizer, mas tudo gira em torno do dinheiro, tudo você usa seu dinheiro pra comprar todas as coisas, você usa seu dinheiro pra comprar, seu dinheiro pra comprar comida, usa o dinheiro pra comprar acessórios, o dinheiro pra comprar roupa... Por que não usar o seu dinheiro pra fortalecer o trabalho de pessoas que tão fazendo um trabalho que tem, se você na hora de fazer aquele produto, sabe... Eu acho que todo mundo tá vendo que tema agora é um termo bonito, mas que é um tema que precisa ser usado, sabe, total quando as pessoas entenderem, principalmente as pessoas negras, que elas têm poder aquisitivo - e poder tá no bolso delas, elas que mandam no dinheiro - vai mudar todo o mercado. Primeiro vai fortalecer a gente, que nós somos empreendedores, estamos nesse dia fazendo acontecer e vai mudar também a, é... o jeito de trabalhar com grandes marcas, elas vão ser obrigadas a criar produtos pensando na gente, sabe, então eu não
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    129 concordo com essetema e eu acho que acredito que assim que ele entra ele se relaciona com o tema. 8.7.4 Fióti da Laboratório Fantasma A necessidade que a gente viu é que a gente ia trabalhar com música, a gente procurou referências de modelo de negócio no Brasil e encontramos muito poucos. Os contatos que fizemos pra naquele momento gerenciar a carreira dele eram de pessoas distantes do universo do hip hop e também do ambiente de negócios da música de uma forma estruturada. Então surgiu a necessidade e a responsabilidade de arregaçar as mangas e fazer acontecer e foi assim que nasceu a Lab Fantasma. Isso foi em 2009, um momento em que o Emicida já estava com muita visibilidade porque ele já tinha conseguido se firmar como ícone nas batalhas de freestyle e nasceu essa necessidade de conseguir capitalizar essa audiência que já tinha ele como referência dentro das rodas de freestyle, pra conseguir posicionar a carreira dele como uma carreira sólida dentro do mercado da música que era o desafio. Até então a gente tinha poucas referências de artistas que tinha vindo desse segmento do rap e do fresstyle e tinha conseguido consolidar uma carreira dentro do universo da música. Então a gente tinha esse desafio. Eu digo que Lab na verdade é uma conjuntura de vários fatores positivos no Brasil pra ter conseguido ter êxito. Então a gente teve um momento de um país que estava com um mundo inteiro olhando pro Brasil, estávamos passando por um momento tecnológico novo e interesse. Então a gente teve surgimento do Youtube e Facebook. As pessoas conseguiam acessar o conteúdo dos artistas diretamente sem ter a necessidade e a obrigatoriedade de ter que consumir isso somente através da rádio ou da televisão que era muito comum dentro na indústria fonográfica. E a gente tinha uma indústria fonográfica completamente em casa, naquele momento a pirataria estava dominando todos os meios. Cd e dvd já não se fazia mais tão relevante comercialmente falando, e no meio desse cenário a gente teve a ideia de arregaçar as mangas e fazer nosso próprio cdzinho a dois reais e sair na rua vendendo esse cd de forma completamente independente. Por que a gente fez dessa maneira? Primeiro por uma questão de necessidade de popularizar o produto, e segundo por que a gente não concordava com o preço que os cds eram vendidos naquela época, então um dvd de um artista bem posicionado custava em média 50, 60 e 70 reais, um cd ficava na casa dos 15 até 45 mais ou menos. A gente não achava que esse valor era justo para o trabalhador pagar, então a gente
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    130 viu na possibilidadede fazer isso sozinho conseguir o produto final e se auto-piratear, e isso deu muito certo. A gente começou a fazer o cd a dois reais. Eu lembro até hoje quando o Leandro falou que ia fazer um cd de 25 músicas eu achei “era uma loucura”, mas ai depois eu fui entender a importância disso e foi um momento que eu decidi sair do MC Donalds também e agarrar essa responsabilidade junto com ele. Eu lembro que a gente foi vender pra rua, começou a vender cd igual maluco, a gente tinha uma meta muito ambiciosa. A gente queria vender no começo 3 mil cds por semana. Por que a gente ia vender cd a dois reais, na nossa conta um real era pra reinvestir e um real era lucro. Como no Mc Donalds a minha hora não ia muito para além desse um real, então pra mim não foi muito difícil fazer essa escolha e deu certo. A gente, graças a deus, na primeira sexta-feira vendemos mais de três mil e pouco cd vendido, a gente já começou com aquele desafio de “pô e agora?” Só tem nós dois, se nós dois precisamos de ir pra rua vender quem é vai fazer esse cd e que horas vai fazer esse cd? E ao mesmo tempo que a gente conseguia capitalizar, não era o suficiente pra gente contratar outras pessoas, então a gente foi aderindo no começo, parceiros e amigos que tinha algum talento e que podiam colaborar com a causa naquele momento com a gente, e isso deu certo. Então a gente começou a ir pra rua e ir pras portas dos eventos e pros metrôs e pros trens e fazer fresstyle e vendia cd, e isso começou a tomar uma proporção grande porque as pessoas começaram a ver que o material tinha uma qualidade artística e musical e que era uma forma de abordagem rítmica diferente do que já havia sendo feita anteriormente e isso começou a sair em todos os lugares e começou a ter reconhecimento da mídia e foi daí que a gente começou a ver a necessidade de se profissionalizar de fato. Foi o momento que eu me deparei com um lugar que eu não sabia onde eu tava entrando, onde eu tava me enfiando que era isso daqui. Na verdade eu acredito que a maioria de vocês, tipo a gente não tem referência de pessoas bem sucedida em negócios dentro da nossa família ou perto da gente. Então a gente pena pra achar essas referências, hoje agente tem ai o Youtube que ajuda muito. Todo mundo compartilha suas histórias e talvez essa geração de hoje já tenha possibilidades maiores que a nossa, mas pra gente era muito difícil. A gente sabia que tinha que fazer e quais eram as nossas referencias? Os gringos. A gente via muita entrevista do Jay Z, leio até hoje ainda, muita entrevista da Beoynce e Doctor Grey, só que era de uma outra realidade, né? Não só financeira, mas uma outra realidade de mercado completamente distante, mas que a gente adaptou pro nosso modelo de negócio. A mensagem principal que a gente foi “o cara vendia droga e conseguiu ser referencia dentro do mercado, a gente não vende droga, mas a gente tem uma droga muito boa
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    131 que é amúsica”. Parece que é piada, mas não é. O filme que a gente se inspirou pra montar a laboratório fantasma foi o American Gangster, e a frase crucial você tem que ter uma droga mais barata e melhor que a do seu concorrente. E por isso que a gente foi pra rua vender esse cd a dois reais, então a partir do momento que a gente tem um disco com 25 músicas que passa uma mensagem importante e interessante pras pessoas, e consegue vender isso a dois reais, as pessoas vão falar “esse moleques são malucos, não é possível”. E foi aí que as coisas começaram a andar e a gente começou a se deparar com esse cenário, a gente precisa estruturar a empresa pra cuidar de toda a parte de show, produção artística, gerenciamento de carreira, gerenciar o catalogo dos artistas, cuidando da parte de produção desses shows, dos eventos. E aí hoje a gente em a parte do estúdio, a gente faz todas as produções internamente, tem investido em novos artistas e novos conteúdos e a parte que hoje a gente fala de moda e marca que é a parte do merchandising. Que a gente começou desde o começo e foi onde a gente começou em 2009 a conseguir ter mais receita pra ter fluxo de caixa pra conseguir reinvestimento nos nossos projetos. E como a gente vendia só a dois reais, a verba que sobrava era muito pouco para a gente conseguir em vídeo clipe, marketing e produção e conseguir fazer novos projetos. Então foi através do merchandising que a gente começou a ver espaço pra isso, no nosso merchandising a gente começou a priorizar sempre, não só o preço, mas ter a matéria prima diferenciada e com qualidade. E isso foi fazendo a gente cada vez a avançar mais pra dentro do mercado da moda, até chegar no SPFW. Bom nessa cadeia como um todo hoje, na ultima estimativa que a gente fez, já está desatualizado, mas a gente estava mensalmente alimentando mais de 200 família, diretamente do que é produzido no laboratório fantasma. Isso de colaboradores diretos, prestadores de serviços e empresas associadas. E uma coisa que a gente percebeu, quando a gente começou a avançar mais dentro da indústria, foi que a gente gostava muito do que a gente fazia e fazia com amor, mas aquilo tinha virado um negócio. E como a gente fazia e ia caminhar dentro disso sem isso ser corrompido por isso e conseguir de alguma maneira transformar os lugares que a gente passa com a nossa mensagem e sem deixar ser levado por isso. Então a gente percebeu que a gente tinha um propósito muito grande. E qual propósito era esse? Era o propósito de transformação. Esse propósito ele na verdade, as pessoas, nas faculdades, a maioria branca, as pessoas param pra estudar e pensam de onde vem isso. Mas na verdade é uma questão ancestral, a gente já vem com isso. A gente já tem numa busca eterna de se encontrar e de se reconectar no outro. Então a gente percebeu muito que o fato de onde a gente conseguir chegar, onde a gente chegou não dependia só da gente. Que dependia na verdade de uma cadeia de pessoas que começaram a se sentir representadas pelo o que a gente
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    132 representava pra elas.Que a gente significava na verdade um universo de possibilidades e foi galgado nesse pilar que a gente começou que a gente não só transformou nossa vida, transformou a vida da nossa família, mas passou a transformar a vida de outras pessoas que diretamente ou indiretamente se inspirava na gente. E isso trouxe uma responsabilidade ainda maior no ambiente dos negócios. Porque você não pode falar só de vendas, você tem que falar do impacto do que você está vendendo e da forma que você está se relacionando com as pessoas e com o produto que você tem. Então através dessa transformação, a gente transformou a nossa vida e a gente conseguiu devagarzinho transformar a forma como o movimento do rap e hip hop via a forma de fazer negócio. Hoje se você for em qualquer evento, as pessoas não dão muito crédito, a gente não é preocupado com crédito, mas é muito difícil você ir em qualquer evento de rap sem ser abordado por alguém vendendo um cd ou um livro antes de entrar. E isso a 10, 12 anos atrás não existia. Então a geração que vem hoje já vem pensando “cara eu preciso ter um empresário, preciso de um produtor, preciso pensar no meu produto, preciso ver como vou me posicionar no mercado”, que já é fruto de uma construção que não nasce com a gente, mas a gente consegue dar visibilidade pra isso por que a gente tem meios pra isso. Tiveram muitas pessoas que vieram que infelizmente não conseguiram ter o mesmo êxito. Por que infelizmente talvez o momento não tivesse tão propicio pra algo tão audacioso. Eu dou sempre o exemplo do Itamar Assumpção que é um artista que eu tenho muito como referência, um dos artistas independentes mais importantes da música brasileira, mas que infelizmente o que ele fazia na época que ele fazia, os meios, as ferramentas ainda não estavam preparados pra o quão audacioso e o quão perspicaz e sagaz ele era. Então quando a gente vê que a trajetória com o Emicida eu comparo muito com a trajetória que o Itamar poderia ter tido também. De sucesso, visibilidade, sucesso financeiro. Então, essa conjuntura de fatores é o que faz da Lab e do Emicida e o que faz dessa geração ter sido de certa forma beneficiada também por tudo que estava acontecendo no país e no mundo. A gente consegue transformar a comunidade, o mercado da música começa a perceber também que a cena independente já não era uma cena alternativa, que existiam artistas se consolidando dentro desse contexto de forma genuína. Se você para pra ver, hoje, pelo menos em uns 4 ou 5 anos todos eles tentaram de alguma maneira negociar com a gente pra comprar parte dos nossos negócios também. E isso há dez anos atrás era impensável. E tudo isso foi possível depois de toda essa ebulição no marcado. E depois de transformar o mercado da música, a gente também conseguiu com mais presença fazer isso no mercado da moda, e depois esse movimento todo que a gente fez com moda e música, a gente teve essa
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    133 gratificação muito interessante.Às vezes a gente está tão imerso na necessidade de fazer por conta da complexidade que é ser empreender e ter que construir as coisas no dia a dia do nosso negócio, que a gente não parou pra medir no impacto do que a gente estava fazendo. Em 2017, depois da nossa segunda participação no SPFW, foi feito uma pesquisa no Brasil pela InterBrand. Dentro desta pesquisa o laboratório fantasma apareceu, duas marcas de periferia, a Lab Fantasma e a outra o Kondizila. Mas achei interessante por que apareceram em óticas diferentes. A kondi apareceu como uma marca que os jovens se espalhavam pra trabalhar e empreender no funk e a Lab apareceu também através da veia empreendedora, mas principalmente da parte de como a gente consegue colocar na cabeça do jovem brasileiro que é possível ele ocupar um outro papel na sociedade para além do que ser só um funcionário de uma outra pessoa, então isso foi muito interessante pra gente. Aconteceu depois de toda essa jornada que a gente fez tanto na música quanto na moda. A internet, ela foi um divisor de água globalmente falando, quanto pro bem quanto pro mal. A gente só existe com solidez na verdade por conta da internet. Foram plataformas como Youtube, Facebook, Myspace, o Orkut, que fizeram com que a gente conseguisse tirar o ambiente da rua e colocar isso no ambiente que pudesse dar viabilidade pro projeto e consequentemente através da visibilidade fazer isso virar um modelo de negócio. Porque aí você passa a influenciar pessoas. A gente fez parte de uma geração que teve muitos fatores importantes. Tem o talento, a disposição, teve o momento do país que incentiva isso, políticas públicas. Uma ascensão de uma nova classe social através do consumo e a tecnologia. Então une-se todos esses fatores. Alguns gêneros hackearam o sistema nesses últimos 15 anos, e a gente estava dentro do gênero hip hop, dentro do rap e a gente conseguiu, graças às tecnologias, dar um passo para além do que pessoas de outras gerações. Hoje já a época já é outra, com outros desafios. A internet já é um meio estabelecido, então é uma concorrência mil vezes maior. Pra nossa geração ainda era uma descoberta, hoje é uma plataforma usada tão para o mal quanto a tv e o rádio. Então eu acho que como tudo ela está ali e você tem que saber usar. Sem dúvidas, na verdade assim, a empresa em si já tem um posicionamento muito firma porque os dois porta-vozes dela tem uma presença digital e política muito forte. De certa forma, essas três marcas se misturam muito, né. Agora em toda atuação política que a gente posiciona a empresa? Não, a gente posiciona quando a gente acha que cabe um posicionamento empresarial naquilo. A gente se posicionou firmemente no momento da destituição da Dilma Rouseef, a gente teve junto com os estudantes nas manifestações de São Paulo enquanto empresa, paralisação dos trabalhadores, enfim, em diversas outras pautas
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    134 onde a gentevê que cabe e que é importante esse posicionamento, mas eu entendo também que participar num ambiente de negócios tem momentos que você pode fazer e tem momentos que não dá pra fazer isso. Uma coisa que a gente tem muito séria dentro da nossa atuação é que a gente precisa encontrar um equilíbrio entre a forma como a gente limita e a forma como a gente dialoga com o mercado, por que a gente está nos dois e a gente tem muitos casos de frustação de pessoas que vieram antes da gente e que não souberam diálogos com o mercado. Então a gente procura fazer o diálogo e fazer as coisas de uma maneira que a gente consiga caminhar nos dois universos. Infelizmente a gente não consegue mudar alguns processos. Tipo, querendo ou não a gente está inserido numa ótica capitalista, se a gente não conseguir se movimentar dentro disso a gente não vai conseguir propor mudanças, porque não existe perspectivas. Existem outros caminhos? Existe, cada um escolhe o seu. A gente escolheu empreendedorismo, a gente precisa ser autossuficiente dentro desse cenário, pra isso acontecer a gente tem que saber brigar com as armas que a gente tem dentro desse ecossistema. É um valor, mas estar dentro da periferia pra gente não significa necessariamente não trabalhar o que a gente acredita que precisam ser enaltecidos pro nosso povo, né. Então, a gente está localizada num bairro de classe média, que é Santana, mas perto de onde os outros produtores que atuam com música, a gente está no caminho. A gente não está nem no centro e nem numa região elitizada, mas acho que de fato o lugar onde a empresa está estabelecida não pauta nenhuma das questões de transformação. Eu acho que quem pauta a questão da transformação é o RH da empresa. Eu acredito que é mais potente você valorizar essas características dentro do departamento do RH, a gente olha minuciosamente todas as características, de onde a pessoas vêm, qualidade, competência, a gente analisa também o perfil de onde a pessoas vem, qual grupo ela pertence, qual gênero, mas se eu falar pra você que eu sempre pensei assim é uma falácia. Eu fui evoluindo, na verdade. E dentro dessa evolução eu fui vendo o quanto esse discurso de transformação necessitava de ser mais profundo. Minha cabeça abriu não só para mulheres, mas pra comunidade LGBT de uma maneira geral e hoje eu entendo que a gente está mais maduro nesse sentido. A empresa tem 10 anos, a maioria das empresas quebra em cinco anos, a gente já dobrou esse período e em condições completamente adversas. Então, entendo que a gente já conseguiu ter uma grande construção. Estar sentado nessa cadeira eu sei o desafio que é. Eu gosto de ter desafios e gosto de honrar eles. Mas entendo também que a gente precisa ter competitividade. Várias vezes eu fico chateado por que não consigo às vezes contratar a pessoa com o perfil que eu gostaria pra aquela determinada vaga, por que talvez naquela vaga não posso dar só a oportunidade,
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    135 preciso de alguémcom a capacidade pra conseguir dar conta do recado e da responsabilidade. O problema é que a gente tem muito grande hoje dentro da sociedade e de formação e capacitação que é isso que a gente está fazendo aqui, aí vem o segundo problema que é a conexão. É fazer as pessoas estarem conectadas com a dedicação. Porque esse problema não vai se solucionar da noite pro dia. É um problema de educação mesmo, de formação. De quantidade de homens negros que morrem, da quantidade de pessoas que... a primeira pessoa da minha família que está conseguindo se formar na minha família é minha irmã agora e ainda faltam quatro anos, conseguiu entrar na universidade só agora. Isso é um reflexo que atinge a sociedade brasileira como um todo e isso se reflete no ambiente de negócios, reflete no mercado de trabalho. A gente ainda está trabalhando em condições subumanas e em subempregos. Se não consegue ter boa educação, não consegue boas universidades, não consegue bons empregos. E ainda que a gente consiga tudo isso, quando chegar na hora da oportunidade, a gente ainda vai ser analisado fria e calculisticamente contra uma pessoa que teve diversos privilégios e veio de um bairro e de condição de vida um milhão de vezes melhores que a nossa. O que já nos coloca em posição de desvantagem completamente. Então é um grande desafio, mas a gente tem isso dentro da nossa empresa, a gente tem uma maioria negra, ainda não tem uma maioria mulher. Eu diria que a gente está entre uns 65% e 35% (homens e mulheres).