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CapaEstilo
mais original
uem observa um manuscrito de
Marcel Proust (hoje esse é luxo
possível ao navegar no acervo digital
da Biblioteca Nacional da França) tem
como constatar algo irremediável: suas
notas percorrem páginas, intercalam
espaços não lineares e se esparramam
em exíguos vãos de branco. São letras
miúdas que revelam segredos e pistas
da gênese de criação literária do autor.
Seus originais constituem, portanto,
um desafio inestimável aos estudos da
crítica genética, não só pelo aspecto
monumental da obra, e já reconhecida
importância literária, mas também pela
caligrafia do autor e sua relação, ao que
tudo indica, visceral com o papel – obje-
to depositário de sua ficção e confissões.
Nas versões de seus livros, ele deixava
notas que hoje são relíquias para pesqui-
sadores e fãs. Como as que Metáfora
apresenta, com exclusividade, nas pró-
ximas páginas, além de duas notas ma-
nuscritas e uma carta que traz nuances
de seu processo criativo.
É fundamental relembrar esse ce-
nário ao leitor brasileiro que acaba de
receber A prisioneira, quinto volume do
romance Em busca do tempo perdido (À
la recherche du temps perdu), obra que
Um passeio por trechos
inéditos, anotações e
comentários de Em busca
do tempo perdido. A
monumental obra-prima
do escritor está sendo
revista e relançada em oito
volumes pela Globo Livros:
os sete que compõem
o romance e mais um
dicionário de leitura.
Projeto deve ser concluído
no segundo semestre
Por Marcos Gomes e Terciane Alves
UmProust
Q
©reprodução
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mo volume (O tempo redescoberto) teve
mais acréscimos, pois encontrava-se in-
teiroemcadernosmanuscritos.Porisso,
a reedição da tradução de Lúcia Miguel
Pereira terá vários trechos inéditos que
foram integrados à última edição fran-
cesa de 1989”, explica o professor. Tan-
to esse como o volume seguinte, que
já tinham passado por revisão técnica
de Olgária Chain Féres Matos em edi-
ção anterior, foram novamente revistos
ce, A prisioneira, por exemplo, traz uma
longa discussão entre um professor da
Sorbonne (Brichot) e um aristocrata re-
finadíssimo (o barão de Charlus) sobre a
história da homossexualidade na Anti-
guidade e principalmente na sociedade
francesa do Antigo Regime, da qual o
barão é herdeiro e defensor. Mais para
o final do livro, numa espécie de conclu-
são antecipada, o narrador desenvolve
para a noiva (Albertine) ideias impor-
“Nossos desafios: respeitar a tradução
clássica da geração da Globo de Porto Alegre
e incorporar trechos inéditos”
Marcos Strecker, diretor editorial da Globo Livros
por Guilherme Ignácio da Silva, Regina
Campos e Henriette Karan. Tudo para
manter a fidelidade aos tradutores ori-
ginais e à incorporação dos acréscimos
das novas edições francesas.
Essa edição definitiva da obra de
Proust feita pela Globo Livros pretende
ser referência para leitores de Proust no
Brasil. A minuciosa revisão adapta até
mesmo a paragrafação do texto portu-
guês à paragrafação do texto original
francês. Mas a grande novidade da nova
edição da Globo Livros é de, ao mes-
mo tempo, manter-se fiel às traduções
clássicas de Mario Quintana, Manuel
Bandeira , Drummond e Lúcia Miguel
Pereira, acrescidas de amplo aparato de
leitura: um prefácio introdutório, no-
tas, orelha, contracapa, resumo final e
um posfácio de algum grande leitor de
Proust no Brasil ou no exterior. O pro-
fessor também destaca o trabalho gráfi-
co de Raul Loureiro.
Essa nova edição tutela a leitura e o
entendimento da obra, pois explica em
notas as alusões a pessoas, obras de arte
e acontecimentos que complicam a lei-
tura das pessoas menos familiarizadas
com o universo artístico e cultural do
escritor. “O quinto volume do roman-
tantíssimas sobre a maneira de se ler
livros de literatura. São tantas citações e
referências que levei um ano e meio para
concluir o trabalho com as notas de lei-
tura desse volume,” conta o professor.
Ignácio da Silva diz que os prefácios
situam o volume no contexto mais am-
plo da série de romances. “O resumo fi-
nal é também um índice remissivo que
permite encontrar qualquer cena do li-
vro. Os posfácios trazem textos de análi-
se mais complexos, relacionando a obra
de Proust à filosofia, psicanálise, histó-
ria, crítica de arte e crítica genética.”
O professor está na França, traba-
lhando com manuscritos de Proust.
“Eles começam a ser editados na Europa
pela Equipe Proust do Institut des Tex-
tes et Manuscrits Modernes (ITEM),
em parceria com a Bibliothèque Natio-
nale de France (BNF) e a editora belga
Brépols. “Fui o primeiro no Brasil a
transcrever integralmente um desses
cadernos escritos a mão por Proust.”
Até agora já foram lançados cinco vo-
lumes da nova versão do romance. Os
últimos, A fugitiva e O tempo redesco-
berto, deverão ser publicados ainda nes-
te ano em conjunto com um dicionário
de leitura do crítico Michel Erman.
está sendo reeditada pela Globo Livros e
que, no conjunto, terá sua versão brasi-
leira em oito volumes, sete que revisam
e fixam o texto original antes publicado
pela Globo de Porto Alegre, mais um
dicionário de leitura.
Proust dedicou oito anos de sua vida
para escrever Em busca do tempo perdi-
do. Mas só revisou os primeiros quatro
livros, os últimos três foram publicados
postumamente.
Nos anos 1940/50, a Editora Glo-
bo de Porto Alegre reuniu um time de
escritores inestimável para traduzir os
sete volumes de Em busca do tempo per-
dido, encarregando da tarefa renoma-
dos escritores brasileiros, como Mario
Quintana, Carlos Drummond de An-
drade, Manuel Bandeira, a crítica Lúcia
Miguel Pereira e a tradutora Lurdes de
Sousa Alencar. Já na época, essa obra
de Proust era considerada o romance
mais importante da literatura francesa
no século 20.
Há oito anos, a Globo Livros reto-
mou o projeto de reedição da obra. O
professor Guilherme Ignácio da Silva,
responsável pela revisao técnica do pro-
jeto, por exemplo, começou a ler Proust
há pouco mais de vinte anos. De lá para
cá, defendeu mestrado, doutorado e
pós-doutorado sobre o romance.
A obra, que consumiu os últimos
anos do autor, asmático e viciado em
ópio, é composta de sete volumes: No
caminho de Swann (1913), À sombra
das raparigas em flor (1918) – a edição
foi atrasada pela Primeira Guerra Mun-
dial), O caminho de Guermantes (1920),
Sodoma e Gomorra (1922) – ano da
morte de Proust, vitimado por pneu-
monia), A prisioneira (1923), A fugitiva
(1925) e O tempo redescoberto (1927).
As edições póstumas dos três últimos
volumes foram baseadas em seus ma-
nuscritos ordenados por parentes.
O professor conta que o quinto e o
sexto volumes (A prisioneira e A fugiti-
va) tiveram apenas pequenas mudanças
e acréscimos por conta da revisão críti-
ca feita na obra nos anos 1980. “O últi-
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CapaUm Proust mais original
Homossexual numa época de mui-
tos preconceitos, o escritor Marcel Proust
(1871-1922) refugiou-se no isolamento e
na solidão, dedicando boa parte de sua ju-
ventude para escrever Em busca do tempo
perdido, uma longa narrativa sinfônica, em
que os temas e os personagens ora apare-
cem como pano de fundo, ora em destaque,
com profunda psicologia. Para criar os per-
sonagens, Proust se inspirou na aristocra-
cia francesa numa época em que ela ainda
tinha poder e os capitalistas da sociedade
de massas não tinham dominado o mundo.
Marcel, o narrador, é um jovem sensível e
sofisticado que frequenta refinados ambien-
tes aristocráticos, como os jantares e salões
da duquesa de Guermantes, onde desfilam
personagens como o sr. Swann, judeu rico,
colecionador de obras de arte, e sua amante,
a ex-cortesã Odette.
Mas Marcel não se sente amado por Al-
bertine, a musa do romance, e suspeita de
que ela seja lésbica e tenha suas mulheres. A
ambiguidade dos personagens vai revelando
surpresas para o leitor. Apresentado como
um machão refinado nas primeiras vezes em
que aparece, outro personagem cortejado
nos salões, o barão de Charlus, acaba sendo,
no quarto volume, flagrado numa relação se-
xual com um alfaiate pelo narrador. A partir
daí se alternarão com outras narrativas do
romance os mergulhos nos detalhes da vida
homossexual na aristocracia francesa. Mas
a ambiguidade de Albertine permanece em
toda a longa narrativa, ao mesmo tempo tão
interessante quanto minuciosa e detalhada a
ponto de parecer esgotar os recursos da me-
mória e da linguagem. Mistura de romance,
ensaios de crítica de arte, filosofia e psicolo-
gia, a obra de Proust está sempre aberta para
novas revelações, a cada leitura.
Por Marcos Gomes
Aquele gosto era o do pedaço de
madalena que nos domingos de manhã
em Combray (...) minha tia Léonie me
oferecia , depois de o ter mergulhado em
seu chá da Índia ou de tília, quando ia
cumprimentá-la em seu quarto. (...) Eis
que a velha casa cinzenta de fachada
para a rua, onde estava seu quarto, veio
aplicar-se, como um cenário de teatro, ao
pequeno pavilhão que dava para o jardim
(...); e com a casa a cidade toda. (...) Toda
a Combray e seus arredores, tudo isso
que toma forma e solidez, saiu, cidade e
jardins, de minha taça de chá.”
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido,
vol. 1 – No caminho de Swann (tradução
de Mario Quintana, com revisão técnica de
Olgária Chain Féres Matos)
O primeiro volume do ciclo de Proust, No caminho de Swann, narra as visitas que a
família do narrador fazia desde que ele era criança à cidadezinha de Combray, durante
as férias de Páscoa. Logo nos vemos imersos num estilo singular, em que a imagem
surge da estrutura das frases, segundo comentou o crítico e filósofo Walter Benjamin.
Outro filósofo, Michel Foucault, faz um comentário que se aplica à obra de Proust: “Na
meditação, o sujeito é incessantemente alterado por seu próprio movimento; seu discurso
suscita efeitos no interior dos quais o sujeito é tomado; ele o expõe a riscos, o faz passar
por novas provas ou tentações, produz nele estados, e confere a ele um estatuto ou uma
qualificação que ele não possuía no início. Em suma, a meditação implica um sujeito
móvel e modificável pelo próprio efeito dos eventos discursivos que se produzem”.
Michel Foucault, História da loucura na Idade Clássica
“Vendo minha mãe que eu tinha frio,
ofereceu-me chá, coisa que era contra
os meus hábitos. (...) Ela mandou
buscar um desses bolinhos pequenos
e cheios chamados madalenas e que
parecem moldados na valva estriada de
uma concha de são Tiago. Em breve,
maquinalmente, acabrunhado com aquele
triste dia e a perspectiva de mais um dia
tão sombrio como o primeiro, levei aos
lábios uma colherada de chá onde deixara
amolecer um pedaço de madalena. Mas,
no mesmo instante em que aquele gole,
de envolta com as migalhas do bolo,
tocou meu paladar, estremeci, atento
ao que se passava de extraordinário em
mim. Invadiu-me um prazer delicioso,
isolado, sem noção de sua causa. (...)
E de súbito a lembrança me apareceu.
O segredo da escrita proustiana
A escrita de Proust produz identificação. Ela é um convite
a entrar em contato com a força incomum das palavras
e um desejo cego de felicidade. Por mais que se tenha
lido e se conheça a história da literatura, nosso silêncio e
concentração são percorridos por uma espécie de frêmito
que, se pudesse ser formulado, seria a certeza de que
nunca ninguém escreveu algo tão belo e grandioso.”
Guilherme Ignácio da Silva
1º volume
O PODER DA MEMÓRIA
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recursos estilísticos dosNarrativa
sinfônica
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“Essas individualidades efêmeras e vivazes que são as personagens, de
uma peça igualmente sedutora, a quem se ama, se admira, se lamenta, a
quem se desejaria encontrar de novo, uma vez que se saiu do teatro, mas
que já se desagregaram num comediante que não tem mais a condição que
tinha na peça (...), consumidas logo após o fim do espetáculo, fazem, como a
dissolução de um ente querido, duvidar da realidade do eu e meditar sobre o
mistério da morte.”
Marcel Proust, O caminho de Guermantes (tradução de Mario Quintana, revisão crítica
de Olgária Chain Féres Matos, prefácio de Guilherme Ignácio da Silva)
O caminho de Guermantes mostra a vida nos salões da alta sociedade
francesa, frequentados pelo narrador. Nesse volume, acompanhamos também
a eclosão do “caso Dreyfus” e suas repercussões nos salões por que trafega
o narrador; caso tem fundo antissemita e revoluciona toda a configuração
dos salões. A crítica de arte aí se mistura com as narrações. “No centro da
crítica proustiana está o poder da arte, que chega à identidade de seu objeto
pelo jogo entre a fundamentação e a despotencialização do significado. Para
mostrar que apenas ela é capaz de atingir a verdadeira realidade, à qual visam
tanto a lembrança como a narrativa, o texto de Proust utiliza uma metáfora
visual. Crítica e narração andam lado a lado”, escreveu Rolf Renner, professor
da Universidade de Freiburg.
“E o laboratório (do pintor) Elstir me
pareceu como o laboratório de uma
espécie de nova criação do mundo, onde,
do caos em que estão todas as coisas
que vemos, ele havia tirado, pintando
sobre diversos retângulos de tela que
se achavam colocados em todos os
sentidos, aqui uma vaga colérica batendo
contra a areia a sua espuma lilás, acolá
um jovem de linho branco apoiado no
convés de um barco. O casaco do jovem
e a vaga espumejante tinham adquirido
uma dignidade nova pelo fato de que
continuavam a existir, embora já não
fossem aquilo em que aparentemente
consistiam, visto que a vaga não podia
molhar, nem o casaco vestir ninguém.”
Marcel Proust - À sombra das raparigas em
flor (tradução de Mario Quintana com revisão
técnica de Maria Lúcia Machado)
MEDITAÇÃO SOBRE AS ARTES
2º volume
3º volume
O MISTÉRIO DA ARTE “A julgar pelo que ouvi (...), não foi mais que alguns sons
inarticulados, suponho que foram pronunciados em poucas
palavras. Verdade é que esses sons eram tão violentos que,
se não tivessem sido repetidos sempre uma oitava mais
alto por um gemido paralelo, podia eu ter pensado que
uma pessoa degolava a outra perto de mim e que logo o
assassino e sua vítima, ressuscitada, tomavam um banho
para apagar os vestígios do crime. Disso deduzi mais tarde
que há uma coisa tão ruidosa como a dor: o prazer.”
Marcel Proust, Sodoma e Gomorra (tradução de Mario Quintana,
com revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos, prefácio de
Guilherme Ignácio da Silva)
A cena descrita acima, em que o narrador Marcel
observa de longe a relação sexual entre o barão de
Charlus e um alfaiate abre caminho para a descrição da
vida dos homossexuais. Verdadeira reviravolta na intriga
do livro, vai diminuindo progressivamente a presença de
Swann e aumentando a do barão de Charlus, seu duplo
junto ao narrador, conforme destaca a citação de Jean
Rousset na contracapa.
4º volume
Estilo
À sombra das raparigas em flor é passado em parte na estação
balneária de Balbec e mostra o encontro do autor com outros
personagens importantes como o barão de Charlus, apresentado
como um machão refinado (“o que mais censurava nos rapazes
de hoje era seu efeminamento. (...) Nem sequer admitia que um
homem usasse anel.”) e Albertine, por quem se apaixonará.
Ela é uma das raparigas em flor citadas no título (“se devesse
morrer em breve, desejaria saber como eram feitas de perto, na
realidade, as mais bonitas raparigas que a vida pudesse oferecer,
ainda que fosse outro que não eu, ou mesmo ninguém, que
devesse aproveitar aquela oferta”).
Os comentários que os personagens fazem sobre arte se
intensificam, compondo uma metalinguística própria da obra
proustiana. O professor Rolf Renner, da Universidade de
Freiburg, na Alemanha, faz a seguinte afirmação no posfácio do
livro: “A associação de crítica, estética e romance na escrita de
Proust já foi devidamente destacada por Benjamin (...). Benjamin
caracteriza a Recherche como um texto que ‘conjuga a poesia,
a memorialística e o comentário’, e no qual tudo, até as frases
transbordantes, excede a norma. Esta observação vale (...) para
as referências a outras artes que, no conjunto da Recherche,
somam um volume de cerca de 600 páginas. Mais da metade
dessas referências aludem à literatura e ao ato da escrita no
sentido mais amplo, cerca de um terço às artes visuais”. Música
predomina em A prisioneira. O primeiro e o último volumes
abordam mais reflexões sobre a literatura.
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sete volumes do romance
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CapaUm Proust mais original
A prisão de Albertine é motivada pelas dúvidas que o narrador tem sobre
sua sexualidade. O amor de Marcel por Albertine acaba se tornando
uma prisão para ela e os ciúmes do narrador dão lugar ao desamor.
Sobre isso eis o comentário de Theodor W. Adorno na contracapa da
edição: “O autor não se cansa de assegurar que, enquanto goza com
todo o martírio de Albertine, já não mais a ama. Amor e ciúme não estão
assim tão ligados, como se poderia imaginar”. O quinto volume contém
também uma discussão sobre a história da homossexualidade, um
paralelo entre a música e a literatura e um diálogo esclarecedor sobre
como ler livros de literatura.
5º volume
Vida em cativeiro
“Ora, as criaturas que não nos compreendem são justamente as
únicas junto de quem pode ser-nos útil usar de um prestígio que
temos aos olhos de criaturas superiores só pelo fato de sermos
inteligentes. (...) Mas a ideia do meu cativeiro cessava subitamente
de pesar sobre mim e eu desejava prolongá-lo ainda, porque me
parecia perceber que Albertine sentia cruelmente o seu.”
Marcel Proust, A prisioneira (tradução de Manuel Bandeira e Lourdes
Sousa de Alencar, com revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos e
Guilherme Ignácio da Silva)
Os livros de Em busca do tempo perdido que ainda vão ser lançados na versão definitiva
6.º volume
O fim do amor
“A Srta. Albertine foi-se embora! Como, em psicologia, o
sofrimento vai mais longe que a psicologia! Ainda há pouco, ao
analisar-me, julgara que essa separação, sem nos termos visto
outra vez, era justamente o que eu desejava e, comparando a
mediocridade dos prazeres que Albertine me proporcionava,
com a riqueza dos desejos que me impedia de realizar, eu me
achara sutil, e concluíra que não queria tornar a vê-la, que já
não a amava.”
Marcel Proust – A fugitiva (tradução de Carlos Drummond de
Andrade, revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos , Guilherme
Ignácio da Silva, Regina Campos e Henriette Karan, com lançamento
previsto para este ano)
7º volume
Nas profundezas do tempo
“Se ao menos me fosse concedido um prazo para terminar minha obra,
eu não deixaria de lhe imprimir o cunho desse Tempo cuja noção se
me impunha hoje com tanto vigor, e, ao risco de fazê-los parecerem
monstruosos, mostraria os homens ocupando no Tempo um lugar
muito mais considerável que o tão restrito a eles reservado no espaço,
um lugar, ao contrário, desmesurado, pois, à semelhança de gigantes,
tocam simultaneamente, imersos nos anos, todas as épocas de suas
vidas, tão distantes – entre as quais tantos dias cabem – no Tempo.”
Marcel Proust, O tempo redescoberto, tradução de Lúcia Miguel Pereira,
revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos , Guilherme Ignácio da Silva,
Regina Campos e Henriette Karan, com lançamento previsto para este ano)
“Uma das cenas de destaque neste volume é o passeio do narrador
com o barão de Charlus pela Paris durante os bombardeios da Primeira
Guerra. Este livro marca a conclusão do ciclo de romances proustianos,
com a revelação final do sentido da arte e da literatura: ‘A verdadeira
vida, a vida enfim compreendida e tornada clara é a literatura.’”
Guilherme Ignácio da Silva
“É neste volume que ocorre a reclusão súbita do narrador e
sua noiva em um apartamento de Paris. O livro é marcado pela
presença de reflexões decisivas sobre o paralelo da literatura
com a música e a análise do narrador proustiano da maneira
de se ler livros de ficção.”
Guilherme Ignácio da Silva
Proust explica seu estilo
“O estilo não é de maneira alguma um enfeite como creem
certas pessoas, não é sequer uma questão de técnica, é – como
a cor para os pintores – uma qualidade da visão, a revelação do
universo particular que cada um de nós vê, e que não veem os
outros. O prazer que nos dá um artista é de nos fazer conhecer
um universo a mais.”
Entrevista com Marcel Proust publicada no jornal Le Temps, em 14 de
novembro de 1913
“Floresta encantada”
“Que livros curiosos! Penetramos neles como em uma floresta
encantada; desde as primeiras páginas nos perdemos, e ficamos felizes
de nos perder; logo não sabemos mais por onde entramos nem a que
distância nos encontramos da margem; em alguns momentos, parece
que caminhamos sem avançar, e, em outros, que avançamos sem
caminhar, vamos olhando tudo de passagem; não sabemos mais onde
estamos, para onde vamos.”
André Gide, À propos de Marcel Proust, in Incidences, Paris, Gallimard, 1948.
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continuação: recursos estilísticos dos sete volumes do romance
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Estilo
Este trecho, que integra um
acréscimo de mais de uma página
(305 e 306) do volume 5 do romance,
A prisioneira, traz uma briga entre
os personagens depois de uma au-
dição de música num salão. Ele não
existe nas edições anteriores da obra
em português (tradução de Manuel
Bandeira e Lourdes Sousa de Alen-
car) e foi incluído na revisão técnica
feitaporOlgáriaChainFéresMatose
Guilherme Ignácio da Silva. O maior
número de inclusões está no sétimo
volume, O tempo redescoberto, cuja
edição definitiva está para ser lança-
da neste ano pela Globo Livros
Por Marcos Gomes
“Bem tocado, hein’, perguntou o Sr. Verdurin a Saniette. “Temo apenas”, respondeu ele
gaguejando, “que a virtuosidade de Morel acabe ofuscando um pouco o sentimento geral da
obra.” “Ofuscar, o que você quer dizer?”, urrou o sr. Verdurin enquanto alguns convidados já
estavam prontos, como leões, a devorar o homem vencido. “Oh! Não estou visando apenas ele...”
“Mas ele não sabe mais o que diz. Visar o quê?” “Seria necessário... que... eu ouvisse... mais
uma vez para poder chegar a um julgamento a rigor.” “A rigor! É um louco!”, disse o sr. Verdurin
tomando a cabeça entre as mãos. “Deviam levá-lo embora.” (...) “E eu digo para você ir embora
daqui”, gritou o Sr. Verdurin embriagado pela própria cólera, mostrando-lhe a porta com o dedo, o
olho em chamas. “Não permito que falem assim em minha casa!”
Trechos inéditos de Em busca do tempo perdido e notas que elucidam a gênese da obra
O poder das notas
As notas da revisão técnica esclarecem
dados sobre os personagens, situações e
citações ou referências a outras obras de
arte presentes no romance. Um exemplo
é esta nota na página 160 do volume em
que a revisão técnica de Olgária Chain
Féres Matos e Guilherme Ignácio da Silva
explica o contexto de uma citação feita
pelo narrador do romance.
 «Já houve quem dissesse que a beleza é
uma promessa de felicidade.52
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido -
A prisioneira
52. Alusão provável a uma frase de
Baudelaire, no primeiro capítulo do
Pintor da vida moderna: ali Baudelaire
atribui a frase a Stendhal, que, segundo
ele, teria escrito que “O belo não é outra
coisa senão a promessa de felicidade”.
As reflexões de Stendhal sobre a beleza
em Do amor não contêm, entretanto,
essa frase. (N. do R. T.)
Outro exemplo, entre inúmeros, de notas esclarecedoras está na página 502 do segundo volume,
À sombra das raparigas em flor, feitas por Guilherme Ignácio da Silva. A a alusão de Proust a uma
peça famosa em sua época é esclarecida, inclusive em seu contexto estético para a obra.
 “O caráter ambíguo da criatura (atriz retratada pelo pintor Elstir), cujo retrato contemplava,
procedia, sem que eu o compreendesse, de que era uma jovem atriz de outrora em meio travesti.
Mas seu chapéu-coco, sob o qual os cabelos se mostravam estufados mas curtos, sua jaqueta
de veludo sem lapela, abrindo-se sobre um peitilho branco, fizeram-me hesitar no tocante à data
da moda e ao sexo do modelo, de modo que eu não sabia o que tinha ante os olhos, senão que
era a mais luminosa das obras de pintura. (...) Embaixo do retrato estava escrito: ‘Miss Sacripant,
outubro de 1872. Não pude conter minha admiração.85
”.
Marcel Proust, Em busca do tempo perdido – À sombra das raparigas em flor
85. Alusão possível a uma ópera cômica, representada pela primeira vez em Paris no ano de
1866. Nela, a personagem Sacripant aparecia, nas duas últimas cenas, disfarçada de mulher. Mas
quem fazia Sacripant não era um homem, mas uma mulher, a atriz Goby-Fontanel, o que sublinha
duplamente o papel da ambiguidade sexual e do travestimento, tão importantes na figuração das
relações amorosas no decorrer da obra proustiana. (N. do R. T.)
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CapaUm Proust mais original
O poder
do romancista
“Ao fecharmos um
belo romance, mesmo
que seja triste, nos
sentimos tão felizes”
Diante do romancista, ficamos
todos como escravos diante do
imperador: com uma palavra, ele
pode nos libertar. Através dele,
perdemos nossa antiga condição
para conhecer a condição do
general, a do tecelão, a da cantora,
a do fidalgo que mora no campo, a
vida rural, o jogo, a caça, o ódio, o
amor, a vida dos campos de batalha.
Através dele, somos Napoleão,
Savonarole, um camponês, mais
do que isso – existência que
poderíamos nunca vir a conhecer
– somos nós mesmos. Ele dá voz
à multidão, à solidão, ao velho
eclesiástico, ao escultor, à criança,
ao cavalo, à nossa alma. Através
dele, somos um verdadeiro Proteu
que se reveste sucessivamente
de todas as formas da vida. De
tanto trocá-las umas pelas outras,
sentimos que para nosso ser,
tornado tão ágil e tão forte, elas não
passam de um jogo, uma máscara
de lamento ou de alegria, mas que
não possui nada de real. Nossa
desgraça ou nossa sorte deixam
momentaneamente de nos tiranizar,
brincamos com ela e com a dos
outros. É por isso que, ao fecharmos
um belo romance, mesmo que seja
triste, nos sentimos tão felizes.
(Textos publicados em: Marcel Proust,
Essais et Articles. Paris, Gallimard-
Pléiade, 1971, pp. 109-110.)
De Paris - O poder do romancista e
o Ato de criação poética são notas manus-
critas publicadas no volume de ensaios de
Proust. São de um período em que Proust
trabalhava num projeto de romance dei-
xado inacabado, Jean Santeuil (traduzido
em português por Fernando Py).
O terceiro texto é uma carta de
Proust à sra. Scheikévich, amiga com a
qual ele partilha informações importan-
tes sobre a continuação do romance. Em
vez de colocar uma dedicatória, Proust
utiliza as páginas em branco de No ca-
minho de Swann, que daria de presente
para a amiga, revelando detalhes em que
vinha trabalhando. A carta-dedicatória
é de 1915, durante a Primeira Grande
Guerra, quando Proust, obrigado a pa-
rar a publicação de Em busca do tempo
perdido, aprofundava o ciclo de Sodoma
e Gomorra e escrevia sobre um persona-
gem crucial em sua obra: Albertine.
O ato de criação poética
A vida do poeta possui seus pequenos
acontecimentos como a vida dos outros homens.
Ele vai para o campo, ele viaja. Mas o nome da
cidade em que ele passou um verão, inscrito
com a data no final da última página de uma
obra nos mostra que da vida que partilha com
os outros homens ele faz um uso totalmente
diferente, e às vezes, se esse nome de cidade,
que registra ao final do volume o momento e o
lugar em que o livro foi escrito, for justamente
o da cidade em que se passa o romance,
sentimos todo o romance como uma espécie
de prolongamento imenso que se adapta à
realidade, e passamos a compreender que
a realidade foi para o poeta algo totalmente
diferente do que foi para os outros, algo que
contém a coisa preciosa que ele buscava e que
não é fácil fazê-la vir à tona.
O estado de espírito em que ele descobre
facilmente em tudo, numa espécie de
encantamento, a coisa preciosa que ali está
oculta é raro. Daí tantas reflexões, tantos
esforços para se apoderar do gênio criador,
com o auxílio da leitura, do vinho, do amor, de
uma viagem, do retorno a lugares conhecidos.
Daí tantas obras interrompidas, retomadas,
incessantemente recomeçadas, por vezes
Tradução de Guilherme Ignácio da Silva e Érica Gonçalves de Castro
Exclusivo
Três relíquias inéditas de Proust
Notas manuscritas do escritor francês até hoje inéditas em português ajudam a entender melhor sua obra
concluídas depois de sessenta anos como
o Fausto de Goethe, por vezes deixadas
inacabadas e sem que o gênio tenha passado
por elas, daí Mallarmé, no último instante,
pedir à sua filha, numa revelação como a
de Dom Quixote no momento da morte, que
queimasse os manuscritos de uma obra
imensa, que o consumia há dez anos. Daí as
insônias, as dúvidas, o apelo ao exemplo dos
mestres, as obras ruins, o refúgio em coisas
que não requerem o gênio criador, as desculpas
encontradas no caso Dreyfus, os problemas
de família, uma paixão que incomodou sem
inspirar, a crítica literária, a anotação exata
das coisas tais como elas aparecem para a
inteligência, mas que são desprovidas dessa
embriaguez que é o único indício das coisas
notáveis, indício que nos permite distingui-las
no momento em que elas nos ocorrem. Daí o
esforço perpétuo que acaba fazendo penetrar
nossa preocupação estética no domínio
inconsciente do pensamento, de forma que
continuamos buscando a beleza das paisagens
que vemos dormindo, que procuramos
embelezar as frases que pronunciamos em um
sonho, e que, no momento de morrer, Goethe,
delirando, fala do colorido de sua alucinação.
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Marcel Proust, nota manuscrita
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Estilo
EXCLUSIVO
Carta desvenda o romance
Proust faz citações de trechos
extraídos do volume À sombra
das raparigas em flor (Trad.
Mario Quintana). São Paulo, Ed.
Globo Livros, 2006.
Alusão da anglófila Odette à
casa Redfern, fundada por volta
de 1890 em Paris. (N. do E.).
Loja de roupas fundada em
1883, em Paris. (N. do E.).
Duas citações extraídas do
volume Sodoma e Gomorra
(Trad. Mario Quintana). São
Paulo, Globo Livros, 2007
Em confissões à senhora Scheikévich, escritor narra a arquitetura de personagens e fala de seus “eus”
“Senhora,
a senhora queria saber o que a sra. Swann se tornou ao envelhecer. É bastante
difícil de resumir. Posso dizer-lhe que ela ficou mais bonita.
“Odette, ao chegar à meia-idade, afinal descobrira, ou inventara, uma fisio-
nomia pessoal, um “caráter” imutável, um “gênero de beleza”, e aplicara esse tipo
fixo, como uma imortal juventude, àqueles descosidos traços de seu rosto que
por tanto tempo haviam estado sujeitos aos caprichos ocasionais e impotentes da
carne e que, à menor fadiga, em um momento se carregavam de anos, de passa-
geira velhice; aqueles traços que compunham para Odette, bem ou mal, confor-
me o seu humor ou o seu gesto, um rosto disperso, diário, informe e delicioso.”
A senhora verá o salão dela se renovar; entretanto (sem que saibamos a razão disso
antes do final) a senhora ainda encontrará nesse salão a sra. Cottard que vai partilhar
com a sra. Swann falas como essas:
“— Sabe que está muito elegante? Redfern fecit ?
— Não, bem sabe que sou uma fervorosa de Raudnitz . Aliás, é uma reforma.
— Pois bem! É de um chique!...
— Quanto julga que foi?... Não, mude o primeiro algarismo.”
“— Oh!, sra. Bontemps, já se vai? Não fica bem isso de dar o sinal de debandada. A
senhora ainda me deve uma compensação por não ter vindo na última quinta-feira. Va-
mos, sente-se um pouquinho mais. (...) E então, não se deixa tentar? — acrescentava a
sra. Swann, estendendo-lhe um prato de doces. — Sabe que não são de todo más essas
porcariazinhas? O aspecto não ajuda, mas prove que há de ver...”
Mas prefiro apresentar-lhe os personagens que a senhora ainda não conhece,
sobretudo o que assume o papel principal e conduz a intriga do livro, Albertine. A
senhora a verá quando ela ainda não passa de uma “rapariga em flor” à sombra da
qual passo tão bons momentos em Balbec. E mais tarde, quando passo a suspeitar
dela por ninharias, e também por ninharias volto a confiar nela, “pois é próprio do
amor nos tornar ao mesmo tempo mais desconfiados e crédulos”.
Eu deveria parar por aí. “O mais sábio seria considerar com curiosidade, possuir
com delícia, essa pequena parcela de felicidade na falta da qual eu morreria sem
ter suspeitado o que pode ser a felicidade para corações menos difíceis ou mais
favorecidos; (...) Eu deveria deixar Balbec, encerrar-me na minha solidão, ali fi-
car em harmonia com as últimas vibrações da voz que eu soubera tornar por um
instante amorosa e da qual nada mais exigiria a não ser que jamais se dirigisse
a mim, por medo de que, com uma palavra nova, que desde então só poderia
ser diferente, viesse ela a ferir com uma dissonância o silêncio sensitivo, onde a
tonalidade da ventura, como que graças a um pedal, poderia sobreviver em mim
por muito tempo.”
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CapaUm Proust mais original
sentado nela quando Albertine ainda estava co-
migo; e assim, a cada instante, havia algum dos
inúmeros e humildes “eus” que nos compõem a
quem era preciso notificar sua partida, a quem
era preciso dizer palavras para ele desconheci-
das: “Albertine foi embora” E assim, para cada
ato, o mínimo que fosse, que anteriormente
estava banhado na atmosfera de sua presen-
ça, era preciso que eu, com fôlego renovado,
com a mesma dor, recomeçasse o aprendizado
da separação. E ainda a concorrência das ou-
tras formas da vida... Assim que percebi isso,
fui tomado de pânico. Essa calma que acabara
de experimentar era a primeira aparição desta
grande força intermitente que ia lutar contra a
dor, contra o amor e acabaria por vencê-los.”
Trata-se do esquecimento, mas a página já está
escrita pela metade e sou obrigado a pular esse
trecho caso queira contar-lhe o final. Alberti-
ne não volta, chego a desejar sua morte para
que ela não fique com outras pessoas. “Como
Swann pudera acreditar outrora que se Odette
morresse vítima de um acidente, ele teria vol-
tado a encontrar, senão a felicidade, pelo me-
nos a calma pela supressão do sofrimento? A
supressão do sofrimento? Pudera eu realmente
acreditar, acreditar que a morte apenas elimina
o que existe!” Fico sabendo da morte de Alber-
tine. – Para que sua morte pudesse suprimir
meu sofrimento, seria preciso que o acidente a
tivesse matado não apenas fora de mim como o
fizera, mas em mim. Ela nunca tinha estado tão
viva. Para entrar em nós, um ser é obrigado a
assumir a forma, a se curvar ao molde do tem-
po; aparecendo para nós apenas por minutos
sucessivos, ele nunca conseguiu nos entregar
de si mais do que um único aspecto por vez,
nos entregar somente uma única fotografia.
Grande fragilidade talvez a de um ser consistir
apenas em uma coleção de momentos; grande
força também, pois ele está vinculado à memó-
ria, e a memória de um certo momento não está
instruída do que aconteceu depois, o momento
que ela registrou ainda dura e com ele vive o
ser que se mostrava. Fracionamento aliás que
De resto, pouco a pouco, fico cansado dela,
o projeto de me casar com ela não mais me
agrada; quando, uma noite, na volta de um dos
jantares na “casa de campo dos Verdurin” onde
a senhora conhecerá enfim a verdadeira perso-
nalidade do sr. de Charlus, ela me diz ao se des-
pedir que a amiga de infância de que me falou
com frequência, e com quem ela ainda mantém
relações afetivas, é a srta. Vinteuil. A senhora
verá a noite terrível que passo então, ao fim da
qual vou chorando pedir a minha mãe a permis-
são para ficar noivo de Albertine. Depois a se-
nhora verá nossa vida em comum durante um
longo noivado, a escravidão a que meu ciúme a
reduz, e que, conseguindo acalmar meu ciúme,
faz se esvair, pelo menos é o que acho, meu de-
sejo de me casar com ela. Mas um belo dia em
que estou pensando em todas as mulheres que
passam, em todas as viagens que poderia fazer,
quero pedir a Albertine que vá embora, Françoi-
se ao entrar em meu quarto me entrega uma
carta de minha noiva que tomou a decisão de
romper comigo e foi embora pela manhã. Era o
que eu acreditava desejar! e eu sofria tanto que
me via obrigado a prometer a mim mesmo que
encontraríamos daquele momento até a noite
um meio de fazê-la voltar. “Ainda há pouco
julgara que era o que eu desejava. Ven-
do o quanto me enganara, compreendi
o quanto, em psicologia, o sofrimento
vai mais longe do que o melhor psicólo-
go, e que o conhecimento dos elemen-
tos que compõem nossa alma não nos
é dado pelas mais refinadas percepções
de nossa inteligência, mas – dura, es-
pantosa, estranha como a repentina
cristalização de um sal – pela brusca re-
ação da dor.” Nos dias seguintes, mal conse-
guia andar no quarto, “procurava não esbarrar
nas cadeiras, não notar o piano, nem nenhum
dos objetos que ela utilizara e que todos, na lin-
guagem particular que minhas lembranças de-
les forjara, pareciam querer traduzir novamente
para mim sua partida. Caí sobre uma poltrona,
e não pude permanecer ali, pois só havia me
Duas citações extraídas do
volume Sodoma e Gomorra
(Trad. Mario Quintana). São
Paulo, Globo Livros, 2007
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continuação: carta de proust à senhora scheikévich sobre a arquitetura de seus personagens
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Estilo
não apenas traz de volta à vida a pessoa morta
mas a multiplica. Quando conseguira suportar
a tristeza de ter perdido uma dessas várias Al-
bertine, tudo estava por recomeçar com uma
outra, com cem outras. Então o que fora até
aquele momento a doçura de minha vida, o per-
pétuo renascimento dos momentos de outrora,
tornou-se o suplício (diversas horas, diferentes
estações do ano). Fico esperando o verão aca-
bar, depois o outono. Mas as primeiras geadas
despertam em mim lembranças tão cruéis que
então, como um doente (que adota o ponto de
vista de seu próprio corpo, de seu tórax e de sua
tosse, mas, no meu caso, do ponto de vista mo-
ral) senti que o que eu mais devia temer para
minha tristeza, para meu coração, era o retorno
do inverno. Ligada a todas as estações do ano,
para que eu perdesse a lembrança de Albertine,
eu tinha que me esquecer de todas elas, pronto a
voltar a conhecê-las, como um hemiplégico que
reaprende a ler. Somente minha morte de fato
teria me consolado da morte dela. Mas a própria
morte não é algo tão extraordinário, ela se con-
suma à nossa revelia todos os dias. – Já que, só
de pensar nela, eu a ressuscitava, suas traições
nunca podiam ser as de uma morta; o momento
em que ela as cometera tornava-se atual, não
apenas para ela, mas para um de meus “eus”
evocados que a contemplava. De forma que ne-
nhum anacronismo podia jamais separar o casal
indissolúvel quando, a cada novo culpado, vinha
logo se juntar um ciumento sempre contemporâ-
neo a ele. No fim das contas, não é mais absurdo
lamentar que uma pessoa morta ignore que não
conseguiu nos enganar, do que desejar que da-
qui a duzentos anos nosso nome seja conhecido.
Apenas o que sentimos existe para nós, nós o
projetamos no passado, no futuro, sem nos
deixar deter pelas barreiras fictícias da morte.
E quando minhas grandes lembranças não mais
a evocaram, pequeninas coisas insignificantes
tiveram esse poder. Pois as lembranças de amor
não são exceção às leis gerais da Memória, ela
própria regida pelo Hábito, que tudo enfraque-
ce. E assim, o que nos faz lembrar melhor de
alguém é justamente o que havíamos esquecido
porque era sem importância. Comecei pouco a
pouco a sentir os efeitos do esquecimento, esse
poderoso instrumento de adaptação à realidade,
que destrói em nós esse passado resistente que
está em constante contradição com ela. Não
que eu não amasse mais Albertine. Mas eu já
não mais a amava como nos últimos tempos,
e sim como nos dias mais remotos de nosso
amor. Antes de esquecê-la definitivamente, se-
ria necessário que eu, tal como um viajante que
retorna pelo mesmo caminho de onde partiu,
antes de alcançar a indiferença inicial, atraves-
sasse em sentido inverso todos os sentimentos
pelos quais havia passado. Mas as etapas não
parecem imóveis. Enquanto estamos parados
numa delas, temos a ilusão de que o trem par-
te novamente no sentido do lugar de que es-
tamos chegando, como na primeira vez. Eis a
crueldade da lembrança. Albertine não poderia
me recriminar. Só podemos ser fiéis àquilo de
que nos lembramos, só podemos nos lembrar
do que conhecemos. O meu novo eu, à medida
que crescia à sombra do antigo eu moribun-
do, ouvia com frequência este último falar de
Albertine. Por meio dos relatos do moribundo,
ele acreditava conhecê-la, amá-la. Mas não
passava de um sentimento de segunda mão. –
Como certas alegrias, há certas tristezas que
nos atingem tarde demais, quando não podem
mais assumir em nós a dimensão que teriam
tido antes. Quando aprendi isso, já estava con-
solado. E não tinha mais por que ficar surpreso
com isso. O remorso é de fato uma dor física,
mas entre as dores físicas é preciso distinguir
as que só agem sobre o corpo por intermédio
da memória. No primeiro caso, o diagnóstico é
geralmente favorável. Ao fim de algum tempo,
um doente com câncer morrerá. É muito raro
que um viúvo inconsolável, ao final do mesmo
tempo, não esteja curado. – É uma pena! Se-
nhora: o papel acabou justo no momento em
que estava começando a ficar cada vez melhor.
					
Seu Marcel Proust.
Tradução de Guilherme Ignácio da Silva e Érica Gonçalves de Castro
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Proust

  • 1.
    www.revistametafora.com.br22 CapaEstilo mais original uem observaum manuscrito de Marcel Proust (hoje esse é luxo possível ao navegar no acervo digital da Biblioteca Nacional da França) tem como constatar algo irremediável: suas notas percorrem páginas, intercalam espaços não lineares e se esparramam em exíguos vãos de branco. São letras miúdas que revelam segredos e pistas da gênese de criação literária do autor. Seus originais constituem, portanto, um desafio inestimável aos estudos da crítica genética, não só pelo aspecto monumental da obra, e já reconhecida importância literária, mas também pela caligrafia do autor e sua relação, ao que tudo indica, visceral com o papel – obje- to depositário de sua ficção e confissões. Nas versões de seus livros, ele deixava notas que hoje são relíquias para pesqui- sadores e fãs. Como as que Metáfora apresenta, com exclusividade, nas pró- ximas páginas, além de duas notas ma- nuscritas e uma carta que traz nuances de seu processo criativo. É fundamental relembrar esse ce- nário ao leitor brasileiro que acaba de receber A prisioneira, quinto volume do romance Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), obra que Um passeio por trechos inéditos, anotações e comentários de Em busca do tempo perdido. A monumental obra-prima do escritor está sendo revista e relançada em oito volumes pela Globo Livros: os sete que compõem o romance e mais um dicionário de leitura. Projeto deve ser concluído no segundo semestre Por Marcos Gomes e Terciane Alves UmProust Q ©reprodução www.revistametafora.com.br22
  • 2.
    www.revistametafora.com.br 23 mo volume(O tempo redescoberto) teve mais acréscimos, pois encontrava-se in- teiroemcadernosmanuscritos.Porisso, a reedição da tradução de Lúcia Miguel Pereira terá vários trechos inéditos que foram integrados à última edição fran- cesa de 1989”, explica o professor. Tan- to esse como o volume seguinte, que já tinham passado por revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos em edi- ção anterior, foram novamente revistos ce, A prisioneira, por exemplo, traz uma longa discussão entre um professor da Sorbonne (Brichot) e um aristocrata re- finadíssimo (o barão de Charlus) sobre a história da homossexualidade na Anti- guidade e principalmente na sociedade francesa do Antigo Regime, da qual o barão é herdeiro e defensor. Mais para o final do livro, numa espécie de conclu- são antecipada, o narrador desenvolve para a noiva (Albertine) ideias impor- “Nossos desafios: respeitar a tradução clássica da geração da Globo de Porto Alegre e incorporar trechos inéditos” Marcos Strecker, diretor editorial da Globo Livros por Guilherme Ignácio da Silva, Regina Campos e Henriette Karan. Tudo para manter a fidelidade aos tradutores ori- ginais e à incorporação dos acréscimos das novas edições francesas. Essa edição definitiva da obra de Proust feita pela Globo Livros pretende ser referência para leitores de Proust no Brasil. A minuciosa revisão adapta até mesmo a paragrafação do texto portu- guês à paragrafação do texto original francês. Mas a grande novidade da nova edição da Globo Livros é de, ao mes- mo tempo, manter-se fiel às traduções clássicas de Mario Quintana, Manuel Bandeira , Drummond e Lúcia Miguel Pereira, acrescidas de amplo aparato de leitura: um prefácio introdutório, no- tas, orelha, contracapa, resumo final e um posfácio de algum grande leitor de Proust no Brasil ou no exterior. O pro- fessor também destaca o trabalho gráfi- co de Raul Loureiro. Essa nova edição tutela a leitura e o entendimento da obra, pois explica em notas as alusões a pessoas, obras de arte e acontecimentos que complicam a lei- tura das pessoas menos familiarizadas com o universo artístico e cultural do escritor. “O quinto volume do roman- tantíssimas sobre a maneira de se ler livros de literatura. São tantas citações e referências que levei um ano e meio para concluir o trabalho com as notas de lei- tura desse volume,” conta o professor. Ignácio da Silva diz que os prefácios situam o volume no contexto mais am- plo da série de romances. “O resumo fi- nal é também um índice remissivo que permite encontrar qualquer cena do li- vro. Os posfácios trazem textos de análi- se mais complexos, relacionando a obra de Proust à filosofia, psicanálise, histó- ria, crítica de arte e crítica genética.” O professor está na França, traba- lhando com manuscritos de Proust. “Eles começam a ser editados na Europa pela Equipe Proust do Institut des Tex- tes et Manuscrits Modernes (ITEM), em parceria com a Bibliothèque Natio- nale de France (BNF) e a editora belga Brépols. “Fui o primeiro no Brasil a transcrever integralmente um desses cadernos escritos a mão por Proust.” Até agora já foram lançados cinco vo- lumes da nova versão do romance. Os últimos, A fugitiva e O tempo redesco- berto, deverão ser publicados ainda nes- te ano em conjunto com um dicionário de leitura do crítico Michel Erman. está sendo reeditada pela Globo Livros e que, no conjunto, terá sua versão brasi- leira em oito volumes, sete que revisam e fixam o texto original antes publicado pela Globo de Porto Alegre, mais um dicionário de leitura. Proust dedicou oito anos de sua vida para escrever Em busca do tempo perdi- do. Mas só revisou os primeiros quatro livros, os últimos três foram publicados postumamente. Nos anos 1940/50, a Editora Glo- bo de Porto Alegre reuniu um time de escritores inestimável para traduzir os sete volumes de Em busca do tempo per- dido, encarregando da tarefa renoma- dos escritores brasileiros, como Mario Quintana, Carlos Drummond de An- drade, Manuel Bandeira, a crítica Lúcia Miguel Pereira e a tradutora Lurdes de Sousa Alencar. Já na época, essa obra de Proust era considerada o romance mais importante da literatura francesa no século 20. Há oito anos, a Globo Livros reto- mou o projeto de reedição da obra. O professor Guilherme Ignácio da Silva, responsável pela revisao técnica do pro- jeto, por exemplo, começou a ler Proust há pouco mais de vinte anos. De lá para cá, defendeu mestrado, doutorado e pós-doutorado sobre o romance. A obra, que consumiu os últimos anos do autor, asmático e viciado em ópio, é composta de sete volumes: No caminho de Swann (1913), À sombra das raparigas em flor (1918) – a edição foi atrasada pela Primeira Guerra Mun- dial), O caminho de Guermantes (1920), Sodoma e Gomorra (1922) – ano da morte de Proust, vitimado por pneu- monia), A prisioneira (1923), A fugitiva (1925) e O tempo redescoberto (1927). As edições póstumas dos três últimos volumes foram baseadas em seus ma- nuscritos ordenados por parentes. O professor conta que o quinto e o sexto volumes (A prisioneira e A fugiti- va) tiveram apenas pequenas mudanças e acréscimos por conta da revisão críti- ca feita na obra nos anos 1980. “O últi- www.revistametafora.com.br 23
  • 3.
    www.revistametafora.com.br24 CapaUm Proust maisoriginal Homossexual numa época de mui- tos preconceitos, o escritor Marcel Proust (1871-1922) refugiou-se no isolamento e na solidão, dedicando boa parte de sua ju- ventude para escrever Em busca do tempo perdido, uma longa narrativa sinfônica, em que os temas e os personagens ora apare- cem como pano de fundo, ora em destaque, com profunda psicologia. Para criar os per- sonagens, Proust se inspirou na aristocra- cia francesa numa época em que ela ainda tinha poder e os capitalistas da sociedade de massas não tinham dominado o mundo. Marcel, o narrador, é um jovem sensível e sofisticado que frequenta refinados ambien- tes aristocráticos, como os jantares e salões da duquesa de Guermantes, onde desfilam personagens como o sr. Swann, judeu rico, colecionador de obras de arte, e sua amante, a ex-cortesã Odette. Mas Marcel não se sente amado por Al- bertine, a musa do romance, e suspeita de que ela seja lésbica e tenha suas mulheres. A ambiguidade dos personagens vai revelando surpresas para o leitor. Apresentado como um machão refinado nas primeiras vezes em que aparece, outro personagem cortejado nos salões, o barão de Charlus, acaba sendo, no quarto volume, flagrado numa relação se- xual com um alfaiate pelo narrador. A partir daí se alternarão com outras narrativas do romance os mergulhos nos detalhes da vida homossexual na aristocracia francesa. Mas a ambiguidade de Albertine permanece em toda a longa narrativa, ao mesmo tempo tão interessante quanto minuciosa e detalhada a ponto de parecer esgotar os recursos da me- mória e da linguagem. Mistura de romance, ensaios de crítica de arte, filosofia e psicolo- gia, a obra de Proust está sempre aberta para novas revelações, a cada leitura. Por Marcos Gomes Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (...) minha tia Léonie me oferecia , depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. (...) Eis que a velha casa cinzenta de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim (...); e com a casa a cidade toda. (...) Toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.” Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, vol. 1 – No caminho de Swann (tradução de Mario Quintana, com revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos) O primeiro volume do ciclo de Proust, No caminho de Swann, narra as visitas que a família do narrador fazia desde que ele era criança à cidadezinha de Combray, durante as férias de Páscoa. Logo nos vemos imersos num estilo singular, em que a imagem surge da estrutura das frases, segundo comentou o crítico e filósofo Walter Benjamin. Outro filósofo, Michel Foucault, faz um comentário que se aplica à obra de Proust: “Na meditação, o sujeito é incessantemente alterado por seu próprio movimento; seu discurso suscita efeitos no interior dos quais o sujeito é tomado; ele o expõe a riscos, o faz passar por novas provas ou tentações, produz nele estados, e confere a ele um estatuto ou uma qualificação que ele não possuía no início. Em suma, a meditação implica um sujeito móvel e modificável pelo próprio efeito dos eventos discursivos que se produzem”. Michel Foucault, História da loucura na Idade Clássica “Vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. (...) Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de são Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas, no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadiu-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. (...) E de súbito a lembrança me apareceu. O segredo da escrita proustiana A escrita de Proust produz identificação. Ela é um convite a entrar em contato com a força incomum das palavras e um desejo cego de felicidade. Por mais que se tenha lido e se conheça a história da literatura, nosso silêncio e concentração são percorridos por uma espécie de frêmito que, se pudesse ser formulado, seria a certeza de que nunca ninguém escreveu algo tão belo e grandioso.” Guilherme Ignácio da Silva 1º volume O PODER DA MEMÓRIA 24 recursos estilísticos dosNarrativa sinfônica
  • 4.
    www.revistametafora.com.br 25 “Essas individualidadesefêmeras e vivazes que são as personagens, de uma peça igualmente sedutora, a quem se ama, se admira, se lamenta, a quem se desejaria encontrar de novo, uma vez que se saiu do teatro, mas que já se desagregaram num comediante que não tem mais a condição que tinha na peça (...), consumidas logo após o fim do espetáculo, fazem, como a dissolução de um ente querido, duvidar da realidade do eu e meditar sobre o mistério da morte.” Marcel Proust, O caminho de Guermantes (tradução de Mario Quintana, revisão crítica de Olgária Chain Féres Matos, prefácio de Guilherme Ignácio da Silva) O caminho de Guermantes mostra a vida nos salões da alta sociedade francesa, frequentados pelo narrador. Nesse volume, acompanhamos também a eclosão do “caso Dreyfus” e suas repercussões nos salões por que trafega o narrador; caso tem fundo antissemita e revoluciona toda a configuração dos salões. A crítica de arte aí se mistura com as narrações. “No centro da crítica proustiana está o poder da arte, que chega à identidade de seu objeto pelo jogo entre a fundamentação e a despotencialização do significado. Para mostrar que apenas ela é capaz de atingir a verdadeira realidade, à qual visam tanto a lembrança como a narrativa, o texto de Proust utiliza uma metáfora visual. Crítica e narração andam lado a lado”, escreveu Rolf Renner, professor da Universidade de Freiburg. “E o laboratório (do pintor) Elstir me pareceu como o laboratório de uma espécie de nova criação do mundo, onde, do caos em que estão todas as coisas que vemos, ele havia tirado, pintando sobre diversos retângulos de tela que se achavam colocados em todos os sentidos, aqui uma vaga colérica batendo contra a areia a sua espuma lilás, acolá um jovem de linho branco apoiado no convés de um barco. O casaco do jovem e a vaga espumejante tinham adquirido uma dignidade nova pelo fato de que continuavam a existir, embora já não fossem aquilo em que aparentemente consistiam, visto que a vaga não podia molhar, nem o casaco vestir ninguém.” Marcel Proust - À sombra das raparigas em flor (tradução de Mario Quintana com revisão técnica de Maria Lúcia Machado) MEDITAÇÃO SOBRE AS ARTES 2º volume 3º volume O MISTÉRIO DA ARTE “A julgar pelo que ouvi (...), não foi mais que alguns sons inarticulados, suponho que foram pronunciados em poucas palavras. Verdade é que esses sons eram tão violentos que, se não tivessem sido repetidos sempre uma oitava mais alto por um gemido paralelo, podia eu ter pensado que uma pessoa degolava a outra perto de mim e que logo o assassino e sua vítima, ressuscitada, tomavam um banho para apagar os vestígios do crime. Disso deduzi mais tarde que há uma coisa tão ruidosa como a dor: o prazer.” Marcel Proust, Sodoma e Gomorra (tradução de Mario Quintana, com revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos, prefácio de Guilherme Ignácio da Silva) A cena descrita acima, em que o narrador Marcel observa de longe a relação sexual entre o barão de Charlus e um alfaiate abre caminho para a descrição da vida dos homossexuais. Verdadeira reviravolta na intriga do livro, vai diminuindo progressivamente a presença de Swann e aumentando a do barão de Charlus, seu duplo junto ao narrador, conforme destaca a citação de Jean Rousset na contracapa. 4º volume Estilo À sombra das raparigas em flor é passado em parte na estação balneária de Balbec e mostra o encontro do autor com outros personagens importantes como o barão de Charlus, apresentado como um machão refinado (“o que mais censurava nos rapazes de hoje era seu efeminamento. (...) Nem sequer admitia que um homem usasse anel.”) e Albertine, por quem se apaixonará. Ela é uma das raparigas em flor citadas no título (“se devesse morrer em breve, desejaria saber como eram feitas de perto, na realidade, as mais bonitas raparigas que a vida pudesse oferecer, ainda que fosse outro que não eu, ou mesmo ninguém, que devesse aproveitar aquela oferta”). Os comentários que os personagens fazem sobre arte se intensificam, compondo uma metalinguística própria da obra proustiana. O professor Rolf Renner, da Universidade de Freiburg, na Alemanha, faz a seguinte afirmação no posfácio do livro: “A associação de crítica, estética e romance na escrita de Proust já foi devidamente destacada por Benjamin (...). Benjamin caracteriza a Recherche como um texto que ‘conjuga a poesia, a memorialística e o comentário’, e no qual tudo, até as frases transbordantes, excede a norma. Esta observação vale (...) para as referências a outras artes que, no conjunto da Recherche, somam um volume de cerca de 600 páginas. Mais da metade dessas referências aludem à literatura e ao ato da escrita no sentido mais amplo, cerca de um terço às artes visuais”. Música predomina em A prisioneira. O primeiro e o último volumes abordam mais reflexões sobre a literatura. www.revistametafora.com.br 25 sete volumes do romance
  • 5.
    www.revistametafora.com.br26 CapaUm Proust maisoriginal A prisão de Albertine é motivada pelas dúvidas que o narrador tem sobre sua sexualidade. O amor de Marcel por Albertine acaba se tornando uma prisão para ela e os ciúmes do narrador dão lugar ao desamor. Sobre isso eis o comentário de Theodor W. Adorno na contracapa da edição: “O autor não se cansa de assegurar que, enquanto goza com todo o martírio de Albertine, já não mais a ama. Amor e ciúme não estão assim tão ligados, como se poderia imaginar”. O quinto volume contém também uma discussão sobre a história da homossexualidade, um paralelo entre a música e a literatura e um diálogo esclarecedor sobre como ler livros de literatura. 5º volume Vida em cativeiro “Ora, as criaturas que não nos compreendem são justamente as únicas junto de quem pode ser-nos útil usar de um prestígio que temos aos olhos de criaturas superiores só pelo fato de sermos inteligentes. (...) Mas a ideia do meu cativeiro cessava subitamente de pesar sobre mim e eu desejava prolongá-lo ainda, porque me parecia perceber que Albertine sentia cruelmente o seu.” Marcel Proust, A prisioneira (tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alencar, com revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos e Guilherme Ignácio da Silva) Os livros de Em busca do tempo perdido que ainda vão ser lançados na versão definitiva 6.º volume O fim do amor “A Srta. Albertine foi-se embora! Como, em psicologia, o sofrimento vai mais longe que a psicologia! Ainda há pouco, ao analisar-me, julgara que essa separação, sem nos termos visto outra vez, era justamente o que eu desejava e, comparando a mediocridade dos prazeres que Albertine me proporcionava, com a riqueza dos desejos que me impedia de realizar, eu me achara sutil, e concluíra que não queria tornar a vê-la, que já não a amava.” Marcel Proust – A fugitiva (tradução de Carlos Drummond de Andrade, revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos , Guilherme Ignácio da Silva, Regina Campos e Henriette Karan, com lançamento previsto para este ano) 7º volume Nas profundezas do tempo “Se ao menos me fosse concedido um prazo para terminar minha obra, eu não deixaria de lhe imprimir o cunho desse Tempo cuja noção se me impunha hoje com tanto vigor, e, ao risco de fazê-los parecerem monstruosos, mostraria os homens ocupando no Tempo um lugar muito mais considerável que o tão restrito a eles reservado no espaço, um lugar, ao contrário, desmesurado, pois, à semelhança de gigantes, tocam simultaneamente, imersos nos anos, todas as épocas de suas vidas, tão distantes – entre as quais tantos dias cabem – no Tempo.” Marcel Proust, O tempo redescoberto, tradução de Lúcia Miguel Pereira, revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos , Guilherme Ignácio da Silva, Regina Campos e Henriette Karan, com lançamento previsto para este ano) “Uma das cenas de destaque neste volume é o passeio do narrador com o barão de Charlus pela Paris durante os bombardeios da Primeira Guerra. Este livro marca a conclusão do ciclo de romances proustianos, com a revelação final do sentido da arte e da literatura: ‘A verdadeira vida, a vida enfim compreendida e tornada clara é a literatura.’” Guilherme Ignácio da Silva “É neste volume que ocorre a reclusão súbita do narrador e sua noiva em um apartamento de Paris. O livro é marcado pela presença de reflexões decisivas sobre o paralelo da literatura com a música e a análise do narrador proustiano da maneira de se ler livros de ficção.” Guilherme Ignácio da Silva Proust explica seu estilo “O estilo não é de maneira alguma um enfeite como creem certas pessoas, não é sequer uma questão de técnica, é – como a cor para os pintores – uma qualidade da visão, a revelação do universo particular que cada um de nós vê, e que não veem os outros. O prazer que nos dá um artista é de nos fazer conhecer um universo a mais.” Entrevista com Marcel Proust publicada no jornal Le Temps, em 14 de novembro de 1913 “Floresta encantada” “Que livros curiosos! Penetramos neles como em uma floresta encantada; desde as primeiras páginas nos perdemos, e ficamos felizes de nos perder; logo não sabemos mais por onde entramos nem a que distância nos encontramos da margem; em alguns momentos, parece que caminhamos sem avançar, e, em outros, que avançamos sem caminhar, vamos olhando tudo de passagem; não sabemos mais onde estamos, para onde vamos.” André Gide, À propos de Marcel Proust, in Incidences, Paris, Gallimard, 1948. www.revistametafora.com.br26 continuação: recursos estilísticos dos sete volumes do romance
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    www.revistametafora.com.br 27 Estilo Este trecho,que integra um acréscimo de mais de uma página (305 e 306) do volume 5 do romance, A prisioneira, traz uma briga entre os personagens depois de uma au- dição de música num salão. Ele não existe nas edições anteriores da obra em português (tradução de Manuel Bandeira e Lourdes Sousa de Alen- car) e foi incluído na revisão técnica feitaporOlgáriaChainFéresMatose Guilherme Ignácio da Silva. O maior número de inclusões está no sétimo volume, O tempo redescoberto, cuja edição definitiva está para ser lança- da neste ano pela Globo Livros Por Marcos Gomes “Bem tocado, hein’, perguntou o Sr. Verdurin a Saniette. “Temo apenas”, respondeu ele gaguejando, “que a virtuosidade de Morel acabe ofuscando um pouco o sentimento geral da obra.” “Ofuscar, o que você quer dizer?”, urrou o sr. Verdurin enquanto alguns convidados já estavam prontos, como leões, a devorar o homem vencido. “Oh! Não estou visando apenas ele...” “Mas ele não sabe mais o que diz. Visar o quê?” “Seria necessário... que... eu ouvisse... mais uma vez para poder chegar a um julgamento a rigor.” “A rigor! É um louco!”, disse o sr. Verdurin tomando a cabeça entre as mãos. “Deviam levá-lo embora.” (...) “E eu digo para você ir embora daqui”, gritou o Sr. Verdurin embriagado pela própria cólera, mostrando-lhe a porta com o dedo, o olho em chamas. “Não permito que falem assim em minha casa!” Trechos inéditos de Em busca do tempo perdido e notas que elucidam a gênese da obra O poder das notas As notas da revisão técnica esclarecem dados sobre os personagens, situações e citações ou referências a outras obras de arte presentes no romance. Um exemplo é esta nota na página 160 do volume em que a revisão técnica de Olgária Chain Féres Matos e Guilherme Ignácio da Silva explica o contexto de uma citação feita pelo narrador do romance.  «Já houve quem dissesse que a beleza é uma promessa de felicidade.52 Marcel Proust, Em busca do tempo perdido - A prisioneira 52. Alusão provável a uma frase de Baudelaire, no primeiro capítulo do Pintor da vida moderna: ali Baudelaire atribui a frase a Stendhal, que, segundo ele, teria escrito que “O belo não é outra coisa senão a promessa de felicidade”. As reflexões de Stendhal sobre a beleza em Do amor não contêm, entretanto, essa frase. (N. do R. T.) Outro exemplo, entre inúmeros, de notas esclarecedoras está na página 502 do segundo volume, À sombra das raparigas em flor, feitas por Guilherme Ignácio da Silva. A a alusão de Proust a uma peça famosa em sua época é esclarecida, inclusive em seu contexto estético para a obra.  “O caráter ambíguo da criatura (atriz retratada pelo pintor Elstir), cujo retrato contemplava, procedia, sem que eu o compreendesse, de que era uma jovem atriz de outrora em meio travesti. Mas seu chapéu-coco, sob o qual os cabelos se mostravam estufados mas curtos, sua jaqueta de veludo sem lapela, abrindo-se sobre um peitilho branco, fizeram-me hesitar no tocante à data da moda e ao sexo do modelo, de modo que eu não sabia o que tinha ante os olhos, senão que era a mais luminosa das obras de pintura. (...) Embaixo do retrato estava escrito: ‘Miss Sacripant, outubro de 1872. Não pude conter minha admiração.85 ”. Marcel Proust, Em busca do tempo perdido – À sombra das raparigas em flor 85. Alusão possível a uma ópera cômica, representada pela primeira vez em Paris no ano de 1866. Nela, a personagem Sacripant aparecia, nas duas últimas cenas, disfarçada de mulher. Mas quem fazia Sacripant não era um homem, mas uma mulher, a atriz Goby-Fontanel, o que sublinha duplamente o papel da ambiguidade sexual e do travestimento, tão importantes na figuração das relações amorosas no decorrer da obra proustiana. (N. do R. T.) ©reprodução www.revistametafora.com.br 27
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    www.revistametafora.com.br28 CapaUm Proust maisoriginal O poder do romancista “Ao fecharmos um belo romance, mesmo que seja triste, nos sentimos tão felizes” Diante do romancista, ficamos todos como escravos diante do imperador: com uma palavra, ele pode nos libertar. Através dele, perdemos nossa antiga condição para conhecer a condição do general, a do tecelão, a da cantora, a do fidalgo que mora no campo, a vida rural, o jogo, a caça, o ódio, o amor, a vida dos campos de batalha. Através dele, somos Napoleão, Savonarole, um camponês, mais do que isso – existência que poderíamos nunca vir a conhecer – somos nós mesmos. Ele dá voz à multidão, à solidão, ao velho eclesiástico, ao escultor, à criança, ao cavalo, à nossa alma. Através dele, somos um verdadeiro Proteu que se reveste sucessivamente de todas as formas da vida. De tanto trocá-las umas pelas outras, sentimos que para nosso ser, tornado tão ágil e tão forte, elas não passam de um jogo, uma máscara de lamento ou de alegria, mas que não possui nada de real. Nossa desgraça ou nossa sorte deixam momentaneamente de nos tiranizar, brincamos com ela e com a dos outros. É por isso que, ao fecharmos um belo romance, mesmo que seja triste, nos sentimos tão felizes. (Textos publicados em: Marcel Proust, Essais et Articles. Paris, Gallimard- Pléiade, 1971, pp. 109-110.) De Paris - O poder do romancista e o Ato de criação poética são notas manus- critas publicadas no volume de ensaios de Proust. São de um período em que Proust trabalhava num projeto de romance dei- xado inacabado, Jean Santeuil (traduzido em português por Fernando Py). O terceiro texto é uma carta de Proust à sra. Scheikévich, amiga com a qual ele partilha informações importan- tes sobre a continuação do romance. Em vez de colocar uma dedicatória, Proust utiliza as páginas em branco de No ca- minho de Swann, que daria de presente para a amiga, revelando detalhes em que vinha trabalhando. A carta-dedicatória é de 1915, durante a Primeira Grande Guerra, quando Proust, obrigado a pa- rar a publicação de Em busca do tempo perdido, aprofundava o ciclo de Sodoma e Gomorra e escrevia sobre um persona- gem crucial em sua obra: Albertine. O ato de criação poética A vida do poeta possui seus pequenos acontecimentos como a vida dos outros homens. Ele vai para o campo, ele viaja. Mas o nome da cidade em que ele passou um verão, inscrito com a data no final da última página de uma obra nos mostra que da vida que partilha com os outros homens ele faz um uso totalmente diferente, e às vezes, se esse nome de cidade, que registra ao final do volume o momento e o lugar em que o livro foi escrito, for justamente o da cidade em que se passa o romance, sentimos todo o romance como uma espécie de prolongamento imenso que se adapta à realidade, e passamos a compreender que a realidade foi para o poeta algo totalmente diferente do que foi para os outros, algo que contém a coisa preciosa que ele buscava e que não é fácil fazê-la vir à tona. O estado de espírito em que ele descobre facilmente em tudo, numa espécie de encantamento, a coisa preciosa que ali está oculta é raro. Daí tantas reflexões, tantos esforços para se apoderar do gênio criador, com o auxílio da leitura, do vinho, do amor, de uma viagem, do retorno a lugares conhecidos. Daí tantas obras interrompidas, retomadas, incessantemente recomeçadas, por vezes Tradução de Guilherme Ignácio da Silva e Érica Gonçalves de Castro Exclusivo Três relíquias inéditas de Proust Notas manuscritas do escritor francês até hoje inéditas em português ajudam a entender melhor sua obra concluídas depois de sessenta anos como o Fausto de Goethe, por vezes deixadas inacabadas e sem que o gênio tenha passado por elas, daí Mallarmé, no último instante, pedir à sua filha, numa revelação como a de Dom Quixote no momento da morte, que queimasse os manuscritos de uma obra imensa, que o consumia há dez anos. Daí as insônias, as dúvidas, o apelo ao exemplo dos mestres, as obras ruins, o refúgio em coisas que não requerem o gênio criador, as desculpas encontradas no caso Dreyfus, os problemas de família, uma paixão que incomodou sem inspirar, a crítica literária, a anotação exata das coisas tais como elas aparecem para a inteligência, mas que são desprovidas dessa embriaguez que é o único indício das coisas notáveis, indício que nos permite distingui-las no momento em que elas nos ocorrem. Daí o esforço perpétuo que acaba fazendo penetrar nossa preocupação estética no domínio inconsciente do pensamento, de forma que continuamos buscando a beleza das paisagens que vemos dormindo, que procuramos embelezar as frases que pronunciamos em um sonho, e que, no momento de morrer, Goethe, delirando, fala do colorido de sua alucinação. www.revistametafora.com.br28 Marcel Proust, nota manuscrita
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    www.revistametafora.com.br 29 Estilo EXCLUSIVO Carta desvendao romance Proust faz citações de trechos extraídos do volume À sombra das raparigas em flor (Trad. Mario Quintana). São Paulo, Ed. Globo Livros, 2006. Alusão da anglófila Odette à casa Redfern, fundada por volta de 1890 em Paris. (N. do E.). Loja de roupas fundada em 1883, em Paris. (N. do E.). Duas citações extraídas do volume Sodoma e Gomorra (Trad. Mario Quintana). São Paulo, Globo Livros, 2007 Em confissões à senhora Scheikévich, escritor narra a arquitetura de personagens e fala de seus “eus” “Senhora, a senhora queria saber o que a sra. Swann se tornou ao envelhecer. É bastante difícil de resumir. Posso dizer-lhe que ela ficou mais bonita. “Odette, ao chegar à meia-idade, afinal descobrira, ou inventara, uma fisio- nomia pessoal, um “caráter” imutável, um “gênero de beleza”, e aplicara esse tipo fixo, como uma imortal juventude, àqueles descosidos traços de seu rosto que por tanto tempo haviam estado sujeitos aos caprichos ocasionais e impotentes da carne e que, à menor fadiga, em um momento se carregavam de anos, de passa- geira velhice; aqueles traços que compunham para Odette, bem ou mal, confor- me o seu humor ou o seu gesto, um rosto disperso, diário, informe e delicioso.” A senhora verá o salão dela se renovar; entretanto (sem que saibamos a razão disso antes do final) a senhora ainda encontrará nesse salão a sra. Cottard que vai partilhar com a sra. Swann falas como essas: “— Sabe que está muito elegante? Redfern fecit ? — Não, bem sabe que sou uma fervorosa de Raudnitz . Aliás, é uma reforma. — Pois bem! É de um chique!... — Quanto julga que foi?... Não, mude o primeiro algarismo.” “— Oh!, sra. Bontemps, já se vai? Não fica bem isso de dar o sinal de debandada. A senhora ainda me deve uma compensação por não ter vindo na última quinta-feira. Va- mos, sente-se um pouquinho mais. (...) E então, não se deixa tentar? — acrescentava a sra. Swann, estendendo-lhe um prato de doces. — Sabe que não são de todo más essas porcariazinhas? O aspecto não ajuda, mas prove que há de ver...” Mas prefiro apresentar-lhe os personagens que a senhora ainda não conhece, sobretudo o que assume o papel principal e conduz a intriga do livro, Albertine. A senhora a verá quando ela ainda não passa de uma “rapariga em flor” à sombra da qual passo tão bons momentos em Balbec. E mais tarde, quando passo a suspeitar dela por ninharias, e também por ninharias volto a confiar nela, “pois é próprio do amor nos tornar ao mesmo tempo mais desconfiados e crédulos”. Eu deveria parar por aí. “O mais sábio seria considerar com curiosidade, possuir com delícia, essa pequena parcela de felicidade na falta da qual eu morreria sem ter suspeitado o que pode ser a felicidade para corações menos difíceis ou mais favorecidos; (...) Eu deveria deixar Balbec, encerrar-me na minha solidão, ali fi- car em harmonia com as últimas vibrações da voz que eu soubera tornar por um instante amorosa e da qual nada mais exigiria a não ser que jamais se dirigisse a mim, por medo de que, com uma palavra nova, que desde então só poderia ser diferente, viesse ela a ferir com uma dissonância o silêncio sensitivo, onde a tonalidade da ventura, como que graças a um pedal, poderia sobreviver em mim por muito tempo.” www.revistametafora.com.br 29
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    www.revistametafora.com.br30 CapaUm Proust maisoriginal sentado nela quando Albertine ainda estava co- migo; e assim, a cada instante, havia algum dos inúmeros e humildes “eus” que nos compõem a quem era preciso notificar sua partida, a quem era preciso dizer palavras para ele desconheci- das: “Albertine foi embora” E assim, para cada ato, o mínimo que fosse, que anteriormente estava banhado na atmosfera de sua presen- ça, era preciso que eu, com fôlego renovado, com a mesma dor, recomeçasse o aprendizado da separação. E ainda a concorrência das ou- tras formas da vida... Assim que percebi isso, fui tomado de pânico. Essa calma que acabara de experimentar era a primeira aparição desta grande força intermitente que ia lutar contra a dor, contra o amor e acabaria por vencê-los.” Trata-se do esquecimento, mas a página já está escrita pela metade e sou obrigado a pular esse trecho caso queira contar-lhe o final. Alberti- ne não volta, chego a desejar sua morte para que ela não fique com outras pessoas. “Como Swann pudera acreditar outrora que se Odette morresse vítima de um acidente, ele teria vol- tado a encontrar, senão a felicidade, pelo me- nos a calma pela supressão do sofrimento? A supressão do sofrimento? Pudera eu realmente acreditar, acreditar que a morte apenas elimina o que existe!” Fico sabendo da morte de Alber- tine. – Para que sua morte pudesse suprimir meu sofrimento, seria preciso que o acidente a tivesse matado não apenas fora de mim como o fizera, mas em mim. Ela nunca tinha estado tão viva. Para entrar em nós, um ser é obrigado a assumir a forma, a se curvar ao molde do tem- po; aparecendo para nós apenas por minutos sucessivos, ele nunca conseguiu nos entregar de si mais do que um único aspecto por vez, nos entregar somente uma única fotografia. Grande fragilidade talvez a de um ser consistir apenas em uma coleção de momentos; grande força também, pois ele está vinculado à memó- ria, e a memória de um certo momento não está instruída do que aconteceu depois, o momento que ela registrou ainda dura e com ele vive o ser que se mostrava. Fracionamento aliás que De resto, pouco a pouco, fico cansado dela, o projeto de me casar com ela não mais me agrada; quando, uma noite, na volta de um dos jantares na “casa de campo dos Verdurin” onde a senhora conhecerá enfim a verdadeira perso- nalidade do sr. de Charlus, ela me diz ao se des- pedir que a amiga de infância de que me falou com frequência, e com quem ela ainda mantém relações afetivas, é a srta. Vinteuil. A senhora verá a noite terrível que passo então, ao fim da qual vou chorando pedir a minha mãe a permis- são para ficar noivo de Albertine. Depois a se- nhora verá nossa vida em comum durante um longo noivado, a escravidão a que meu ciúme a reduz, e que, conseguindo acalmar meu ciúme, faz se esvair, pelo menos é o que acho, meu de- sejo de me casar com ela. Mas um belo dia em que estou pensando em todas as mulheres que passam, em todas as viagens que poderia fazer, quero pedir a Albertine que vá embora, Françoi- se ao entrar em meu quarto me entrega uma carta de minha noiva que tomou a decisão de romper comigo e foi embora pela manhã. Era o que eu acreditava desejar! e eu sofria tanto que me via obrigado a prometer a mim mesmo que encontraríamos daquele momento até a noite um meio de fazê-la voltar. “Ainda há pouco julgara que era o que eu desejava. Ven- do o quanto me enganara, compreendi o quanto, em psicologia, o sofrimento vai mais longe do que o melhor psicólo- go, e que o conhecimento dos elemen- tos que compõem nossa alma não nos é dado pelas mais refinadas percepções de nossa inteligência, mas – dura, es- pantosa, estranha como a repentina cristalização de um sal – pela brusca re- ação da dor.” Nos dias seguintes, mal conse- guia andar no quarto, “procurava não esbarrar nas cadeiras, não notar o piano, nem nenhum dos objetos que ela utilizara e que todos, na lin- guagem particular que minhas lembranças de- les forjara, pareciam querer traduzir novamente para mim sua partida. Caí sobre uma poltrona, e não pude permanecer ali, pois só havia me Duas citações extraídas do volume Sodoma e Gomorra (Trad. Mario Quintana). São Paulo, Globo Livros, 2007 www.revistametafora.com.br30 continuação: carta de proust à senhora scheikévich sobre a arquitetura de seus personagens
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    www.revistametafora.com.br 31 Estilo não apenastraz de volta à vida a pessoa morta mas a multiplica. Quando conseguira suportar a tristeza de ter perdido uma dessas várias Al- bertine, tudo estava por recomeçar com uma outra, com cem outras. Então o que fora até aquele momento a doçura de minha vida, o per- pétuo renascimento dos momentos de outrora, tornou-se o suplício (diversas horas, diferentes estações do ano). Fico esperando o verão aca- bar, depois o outono. Mas as primeiras geadas despertam em mim lembranças tão cruéis que então, como um doente (que adota o ponto de vista de seu próprio corpo, de seu tórax e de sua tosse, mas, no meu caso, do ponto de vista mo- ral) senti que o que eu mais devia temer para minha tristeza, para meu coração, era o retorno do inverno. Ligada a todas as estações do ano, para que eu perdesse a lembrança de Albertine, eu tinha que me esquecer de todas elas, pronto a voltar a conhecê-las, como um hemiplégico que reaprende a ler. Somente minha morte de fato teria me consolado da morte dela. Mas a própria morte não é algo tão extraordinário, ela se con- suma à nossa revelia todos os dias. – Já que, só de pensar nela, eu a ressuscitava, suas traições nunca podiam ser as de uma morta; o momento em que ela as cometera tornava-se atual, não apenas para ela, mas para um de meus “eus” evocados que a contemplava. De forma que ne- nhum anacronismo podia jamais separar o casal indissolúvel quando, a cada novo culpado, vinha logo se juntar um ciumento sempre contemporâ- neo a ele. No fim das contas, não é mais absurdo lamentar que uma pessoa morta ignore que não conseguiu nos enganar, do que desejar que da- qui a duzentos anos nosso nome seja conhecido. Apenas o que sentimos existe para nós, nós o projetamos no passado, no futuro, sem nos deixar deter pelas barreiras fictícias da morte. E quando minhas grandes lembranças não mais a evocaram, pequeninas coisas insignificantes tiveram esse poder. Pois as lembranças de amor não são exceção às leis gerais da Memória, ela própria regida pelo Hábito, que tudo enfraque- ce. E assim, o que nos faz lembrar melhor de alguém é justamente o que havíamos esquecido porque era sem importância. Comecei pouco a pouco a sentir os efeitos do esquecimento, esse poderoso instrumento de adaptação à realidade, que destrói em nós esse passado resistente que está em constante contradição com ela. Não que eu não amasse mais Albertine. Mas eu já não mais a amava como nos últimos tempos, e sim como nos dias mais remotos de nosso amor. Antes de esquecê-la definitivamente, se- ria necessário que eu, tal como um viajante que retorna pelo mesmo caminho de onde partiu, antes de alcançar a indiferença inicial, atraves- sasse em sentido inverso todos os sentimentos pelos quais havia passado. Mas as etapas não parecem imóveis. Enquanto estamos parados numa delas, temos a ilusão de que o trem par- te novamente no sentido do lugar de que es- tamos chegando, como na primeira vez. Eis a crueldade da lembrança. Albertine não poderia me recriminar. Só podemos ser fiéis àquilo de que nos lembramos, só podemos nos lembrar do que conhecemos. O meu novo eu, à medida que crescia à sombra do antigo eu moribun- do, ouvia com frequência este último falar de Albertine. Por meio dos relatos do moribundo, ele acreditava conhecê-la, amá-la. Mas não passava de um sentimento de segunda mão. – Como certas alegrias, há certas tristezas que nos atingem tarde demais, quando não podem mais assumir em nós a dimensão que teriam tido antes. Quando aprendi isso, já estava con- solado. E não tinha mais por que ficar surpreso com isso. O remorso é de fato uma dor física, mas entre as dores físicas é preciso distinguir as que só agem sobre o corpo por intermédio da memória. No primeiro caso, o diagnóstico é geralmente favorável. Ao fim de algum tempo, um doente com câncer morrerá. É muito raro que um viúvo inconsolável, ao final do mesmo tempo, não esteja curado. – É uma pena! Se- nhora: o papel acabou justo no momento em que estava começando a ficar cada vez melhor. Seu Marcel Proust. Tradução de Guilherme Ignácio da Silva e Érica Gonçalves de Castro www.revistametafora.com.br 31