Projecto em Educação/Animação Comunitária
Henrique Santos
Educador de Infância
hen@sapo.pt
O postulado fundamental da Educação/Animação Comunitária é a necessidade de
realizar uma síntese entre o estudo do processo de mudança social e a participação
nesse mesmo processo.
Visando assegurar a unidade entre metodologia e prática (em que a última é sempre
fonte do conhecimento) é procedimento metodológico preferencial em
Educação/Animação Comunitária a Observação/participação militante.
Ao mesmo tempo observador e militante, o pesquisador terá como objectivo fazer
avançar a luta do grupo social rumo ao objectivo proposto (de mudança).
No entanto, também a reflexão sobre a prática, a que podemos chamar Seminário,
concebida como contexto teórico no qual se faz a reflexão crítica sobre a prática, se
torna essencial para uma efectiva prossecução dos projectos de Educação/Animação
Comunitária. Nesse sentido, as questões discutidas no Seminário serão os problemas
concretos e as práticas da vida e a experiência quotidiana dos participantes.
O papel do animador ou coordenador do Seminário é o de assegurar a existência de
um contexto que propicie ao grupo uma reflexão crítica, ligada à prática, de forma a
tentar estabelecer relações entre consequências e causas e entre fenómenos parciais
e específicos e a realidade global de forma a construir um Projecto de
Educação/Animação Comunitária que possa responder, através da sua realização, às
esperanças e anseios da comunidade envolvida.
Metodologia do projecto de Educação/Animação Comunitária
A palavra projecto deriva do latim “projectu” que significa lançar, relacionando-se com
o verbo latino “projectare” que se poderá traduzir por lançar para diante. A partir desta
raiz latina, a palavra projecto pode ter vários sentidos: plano para a realização de um
acto; desígnio, tenção; redacção provisória de uma medida qualquer; esboço.
(Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 1989).
Em qualquer circunstância, podemos referir que “projecto” encerra um conceito ligado
à previsão de algo a que queremos dar forma. No entanto, tal como os vários sentidos
do termo, também o seu conteúdo pode ser alvo de confusões e indefinições.
A elaboração de qualquer projecto pressupõe um processo que tem como referências
um ponto de partida (situação que se pretende modificar), um ponto de chegada (uma
ideia do que se pretende modificar) e a previsão do processo de “construção” (o
“como” fazer).
A realização de um projecto exige, na escola como na vida pessoal ou social, que este
se precise através da elaboração de planos que estabelecem quem faz o quê, quando
e quais os recursos necessários. O plano de um projecto deverá prever a quem são os
intervenientes, como se organizam, as estratégias de acção a desenvolver, os
recursos necessários, bem como as actividades que permitam concretizar o projecto.
Dado que o projecto se centra no desenvolvimento de um processo, existem três
características que o distinguem de um plano, a ver: Flexibilidade – o projecto vai-se
concretizando através de uma evolução que pode não ser inteiramente prevista. A sua
flexibilidade permite a sua adaptação e adequação constante; Contexto específico de
desenvolvimento – o sentido de um projecto decorre do contexto específico em que se
desenvolve. O projecto tem uma dimensão temporal que articula passado, presente e
futuro, num processo evolutivo que se vai construindo e Empenhamento do grupo –
porque corresponde a um desejo, intenção ou interesse, o projecto é alvo de uma
carga emotiva (empenhamento e compromisso do grupo) que o distingue da mera
realização do plano.
Onde desenvolver o Projecto?
Nenhum projecto de Animação/Educação Comunitária deve iniciar-se sem definir com
algum rigor a sua área de acção/intervenção, quer seja espacial quer seja sectorial.
O primeiro passo consiste em definir e conhecer o local e o ambiente, para tal, é
conveniente reunir um conjunto de informações disponibilizadas quer pelo próprio
grupo alvo, quer através do levantamento informativo em publicações, imagens e
outros documentos que possam ajudar a explicar as características da área.
Uma tabela bem organizada pode ajudar a comprimir muitas informações básicas, e
da organização desta informação depende a fiabilidade e qualidade do processo
comunicativo intra e interparceiros.
Por outro lado, a organização adequada da informação permite identificar e discernir o
conhecimento oficial do conhecimento local, que, por vezes, é desajustado e
incoerente, sendo o conhecimento local, normalmente, mais próximo da realidade
social.
A organização da informação deve ser cultivada desde o início do projecto de forma a
evitar uma sobrecarga de actividade e uma complexidade desnecessária. Por outro
lado, a existência e a manutenção de arquivos claros e concretos permite-lhe,
posteriormente, “contar a história” do seu projecto.
Elaborar um Projecto
Como referido, o levantamento de problemas e necessidades que precisem de uma
acção integrada e de carácter comunitário terá de ser baseada numa muito eficaz
recolha de dados e informação sobre a área (geográfica e sectorial).
De um modo geral, a planificação de “gabinete” parte de estudos, inquéritos,
planeamentos logísticos e muitas vezes “esquece” a ligação dos problemas entre si,
os desejos da comunidade, as suas próprias prioridades e os contextos em que estas
necessidades são expressas.
Numa comunidade, perante um conjunto de problemas, haverá, por parte do
planificador, uma opção baseada sobretudo nos recursos disponíveis, na dimensão do
problema e na viabilidade da solução. No entanto, é fundamental que ele ausculte os
grupos sociais sobre as expectativas ou problemas por eles considerados mais
prementes. Ao estabelecer prioridades considerar-se-á os problemas e eventuais
acções de forma sistemática, evidenciando as relações e os efeitos de um problema
sobre os outros.
É fundamental rever e discutir os dados apresentados para identificar os problemas
mais prementes.
Para cada problema é necessário identificar os grupos etários mais afectados; os
dados que indicam a existência efectiva de um problema e os recursos disponíveis
para a sua resolução.
Depois do levantamento mais ou menos exaustivo dos problemas deverá elaborar-se
uma lista de prioridade (p. ex. : 1 = muito prioritário), através da utilização de critérios
como: dimensão do problema, viabilidade da solução, situação quanto às prioridades
de financiamento, etc.
Após o preenchimento da grelha, deverá discutir-se se os problemas detectados a
priori pela equipa do projecto correspondem à apreciação feita inicialmente pelo grupo.
Após esta primeira fase, é fundamental estudar exaustivamente as condições
desejáveis para cada uma das situações reflectindo sempre sobre os resultados
esperados.
Depois da selecção de um problema, e tendo em conta que esta escolha deverá
respeitar as expectativas da comunidade, procede-se ao levantamento de um conjunto
de acções, distinguindo as estratégias desejáveis das exequíveis.
De uma forma geral, os serviços (educação, saúde, emprego, etc.) trabalham
separadamente numa fase zero, trata-se agora de articular (“pôr junto”) aquilo que
deveria estar junto: bibliotecas públicas, o mercado, o jardim, etc.
Definir objectivos
Como já referimos anteriormente, a definição de objectivos de um projecto é a forma
mais eficaz de promover planos de acção adequados, específicos e orientados para a
resolução de problemas.
É fundamental listar as condições da situação actual, como referido na identificação
dos problemas. Posteriormente discute-se e define-se as “condições desejáveis” (após
reflexão sobre as condições, os recursos e os apoios da comunidade) e estabelece-se
um cronograma para atingir os resultados (normalmente entre 3 a 5 anos).
Identificar e seleccionar acções para atingir os objectivos
Um bom exercício poderá ser o “braimstorming” de ideias, após o qual se fará uma
selecção, bem como uma associação se for caso disso, aperfeiçoando os conceitos
que estão por detrás das boas ideias e focalizá-las directamente nas condições da
zona de intervenção.
Estabelecer posteriormente um sumário conciso por cada uma das acções
seleccionadas e registá-lo é um passo importante para a selecção das melhores (e
mais adequadas) acções.
De um modo geral, o trabalho de planificação peca por excesso de objectivos, por
vezes irrealistas, ou por objectivos demasiado vagos e de difícil operacionalização e
avaliação, para além disto, muitos dos objectivos pressupõem ideias isoladamente,
sem terem em conta a integração das acções.
Cada uma das acções anteriormente descritas deverá ser subdividida em tarefas que
possam ser atribuídas a alguém ou a algum grupo para sua execução.
O tempo necessário para a sua realização deverá também ser registado, bem como a
definição de intervenientes deve definir as funções específicas a desempenhar e as
competências necessárias.
A clareza e especificidade dos objectivos, a identificação de tarefas e a sua pertinente
atribuição a pessoas ou grupos facilitam a eficácia do processo e a verificação dos
resultados.
Preparação dos planos de trabalho
É conveniente subdividir cada acção seleccionada em tarefas isoladas que possam
ser atribuídas a alguém (ou algum grupo) para a sua execução concreta (exemplo:
visitar os pais em casa para informar da proposta da junta de freguesia sobre o espaço
exterior da Escola; a) preparar o conteúdo e material, b) planear os visitadores, c)
reflectir sobre as visitas iniciais para melhorar a abordagem, etc.
É importante definir um calendário para a realização das tarefas (exemplo: usar uma
linha para indicar a duração das tarefas e um X para as tarefas pontuais.
Avaliação
Num plano de “intervenção comunitária” não devemos esquecer que “tudo diz respeito
a todos”, daí que é essencial envolver todos os grupos, instituições (formais e não
formais) que terão sempre uma palavra a dizer ou uma acção a desenvolver sobre
algo que lhes diz respeito e contribui para a prossecução dos objectivos. No entanto, a
sua aproximação ao projecto pode ter graus diferenciados, daí advindo a necessidade
de definir claramente a supervisão e coordenação do projecto como forma de
promover a clareza de processos, a motivação constante e a clarificação de
competências.
Sem avaliação sistemática das tarefas não é possível “ler” o trabalho realizado, não
sendo possível agir retroactivamente nem reformular as acções. Só é possível
estabelecer estratégias adequadas se se puder avaliar o trabalho realizado. O tipo de
avaliação preconizado deverá estar em perfeita sintonia com o estilo de acções e com
a filosofia do projecto.
Como se verificam os objectivos e acções; que instrumentos se utilizam e com que
frequência; quem é avaliado; quem avalia; como serão conhecidos e utilizados os
resultados são os elementos pertinentes a que o projecto tem de atender. Outros
factores, como o índice de inovação e o grau de satisfação dos participantes também
podem constituir indicadores para a avaliação do processo e dos produtos.
O Orçamento ou a questão do “Quanto custa?”
Muitas vezes as análises e a reflexão sobre custos e benefícios poderão inflectir
políticas de acção e melhorar a organização de recursos financeiros. Com frequência,
a única maneira de convencer autoridades, organismos financeiros ou mesmo as
populações é mostrar que é “melhor, embora caro” e “mais barato a longo prazo”.
Aos custos dos bens, serviços e acções tradicionais deverão acrescentar-se
indicadores como sejam o desgaste dos equipamentos, gastos de deslocação,
formação da equipa, despesas de “marketing”, autofinanciamento, tempos de
adaptação das pessoas ao processo, etc.
O orçamento é legitimado pelos serviços que o projecto presta à comunidade e pela
grandeza dos problemas que ajuda a resolver. Os custos/benefício e os
custos/eficácia são fundamentais para a exequibilidade e continuidade do projecto.
Conclusão
Para fechar esta breve reflexão partilhada, fica o registo que a dinâmica decorrente da
realização de projectos pertinentes, de Educação/Animação Comunitária ou mesmo da
Escola, a possibilidade da participação dos indivíduos (grupo-alvo) e a adequação dos
resultados às práticas quotidianas, com a natural promoção de mudanças positivas,
alargará o interesse, a curiosidade e a participação das comunidades o que possibilita
o surgimento de outros projectos que poderão ser encadeados ao longo de um
período de tempo maior, nunca esquecendo que um projecto é um elo de uma cadeia.
Bibliografia
Canário, R. et al (2001) Escola e Exclusão Social. Lisboa: Educa-IIE
Hohmann, M. (1992) A criança em Acção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian
Ministério da Educação (1997) Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar.
Lisboa: DEB
Ministério da Educação (1998) Qualidade e Projecto na educação pré-escolar. Lisboa:
DEB
Ministério da Educação (1999) Forum “Escola, diversidade e Currículo”. Lisboa: DEB,
Nóvoa, A. (coord.) (1998) Paulo Freire: Pedagogia e Política. Col. Ciências da
Educação. Porto: Porto Editora
Santos Silva, A. (1996) Textos Datados com Motivo e Causa. Lisboa: Público
Santos, J. (1988) Se não sabe porque é que pergunta?, Lisboa: Assírio e Alvim
Serviços de Educação (1993) Encontro sobre educação Pré-Escolar. Lisboa:
Fundação Calouste Gulbenkian
Van der Eyken, W. (1994) Introduzindo a avaliação. Haia: Fundação Bernard Van Leer
Whalley, M. (1994) Learning to be Strong. London: Hodder & Stoughton

Projeto em Educação/Animação Comunitária.

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    Projecto em Educação/AnimaçãoComunitária Henrique Santos Educador de Infância hen@sapo.pt O postulado fundamental da Educação/Animação Comunitária é a necessidade de realizar uma síntese entre o estudo do processo de mudança social e a participação nesse mesmo processo. Visando assegurar a unidade entre metodologia e prática (em que a última é sempre fonte do conhecimento) é procedimento metodológico preferencial em Educação/Animação Comunitária a Observação/participação militante. Ao mesmo tempo observador e militante, o pesquisador terá como objectivo fazer avançar a luta do grupo social rumo ao objectivo proposto (de mudança). No entanto, também a reflexão sobre a prática, a que podemos chamar Seminário, concebida como contexto teórico no qual se faz a reflexão crítica sobre a prática, se torna essencial para uma efectiva prossecução dos projectos de Educação/Animação Comunitária. Nesse sentido, as questões discutidas no Seminário serão os problemas concretos e as práticas da vida e a experiência quotidiana dos participantes. O papel do animador ou coordenador do Seminário é o de assegurar a existência de um contexto que propicie ao grupo uma reflexão crítica, ligada à prática, de forma a tentar estabelecer relações entre consequências e causas e entre fenómenos parciais e específicos e a realidade global de forma a construir um Projecto de Educação/Animação Comunitária que possa responder, através da sua realização, às esperanças e anseios da comunidade envolvida. Metodologia do projecto de Educação/Animação Comunitária A palavra projecto deriva do latim “projectu” que significa lançar, relacionando-se com o verbo latino “projectare” que se poderá traduzir por lançar para diante. A partir desta raiz latina, a palavra projecto pode ter vários sentidos: plano para a realização de um acto; desígnio, tenção; redacção provisória de uma medida qualquer; esboço. (Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora, 1989). Em qualquer circunstância, podemos referir que “projecto” encerra um conceito ligado à previsão de algo a que queremos dar forma. No entanto, tal como os vários sentidos do termo, também o seu conteúdo pode ser alvo de confusões e indefinições. A elaboração de qualquer projecto pressupõe um processo que tem como referências um ponto de partida (situação que se pretende modificar), um ponto de chegada (uma
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    ideia do quese pretende modificar) e a previsão do processo de “construção” (o “como” fazer). A realização de um projecto exige, na escola como na vida pessoal ou social, que este se precise através da elaboração de planos que estabelecem quem faz o quê, quando e quais os recursos necessários. O plano de um projecto deverá prever a quem são os intervenientes, como se organizam, as estratégias de acção a desenvolver, os recursos necessários, bem como as actividades que permitam concretizar o projecto. Dado que o projecto se centra no desenvolvimento de um processo, existem três características que o distinguem de um plano, a ver: Flexibilidade – o projecto vai-se concretizando através de uma evolução que pode não ser inteiramente prevista. A sua flexibilidade permite a sua adaptação e adequação constante; Contexto específico de desenvolvimento – o sentido de um projecto decorre do contexto específico em que se desenvolve. O projecto tem uma dimensão temporal que articula passado, presente e futuro, num processo evolutivo que se vai construindo e Empenhamento do grupo – porque corresponde a um desejo, intenção ou interesse, o projecto é alvo de uma carga emotiva (empenhamento e compromisso do grupo) que o distingue da mera realização do plano. Onde desenvolver o Projecto? Nenhum projecto de Animação/Educação Comunitária deve iniciar-se sem definir com algum rigor a sua área de acção/intervenção, quer seja espacial quer seja sectorial. O primeiro passo consiste em definir e conhecer o local e o ambiente, para tal, é conveniente reunir um conjunto de informações disponibilizadas quer pelo próprio grupo alvo, quer através do levantamento informativo em publicações, imagens e outros documentos que possam ajudar a explicar as características da área. Uma tabela bem organizada pode ajudar a comprimir muitas informações básicas, e da organização desta informação depende a fiabilidade e qualidade do processo comunicativo intra e interparceiros. Por outro lado, a organização adequada da informação permite identificar e discernir o conhecimento oficial do conhecimento local, que, por vezes, é desajustado e incoerente, sendo o conhecimento local, normalmente, mais próximo da realidade social. A organização da informação deve ser cultivada desde o início do projecto de forma a evitar uma sobrecarga de actividade e uma complexidade desnecessária. Por outro lado, a existência e a manutenção de arquivos claros e concretos permite-lhe, posteriormente, “contar a história” do seu projecto.
  • 3.
    Elaborar um Projecto Comoreferido, o levantamento de problemas e necessidades que precisem de uma acção integrada e de carácter comunitário terá de ser baseada numa muito eficaz recolha de dados e informação sobre a área (geográfica e sectorial). De um modo geral, a planificação de “gabinete” parte de estudos, inquéritos, planeamentos logísticos e muitas vezes “esquece” a ligação dos problemas entre si, os desejos da comunidade, as suas próprias prioridades e os contextos em que estas necessidades são expressas. Numa comunidade, perante um conjunto de problemas, haverá, por parte do planificador, uma opção baseada sobretudo nos recursos disponíveis, na dimensão do problema e na viabilidade da solução. No entanto, é fundamental que ele ausculte os grupos sociais sobre as expectativas ou problemas por eles considerados mais prementes. Ao estabelecer prioridades considerar-se-á os problemas e eventuais acções de forma sistemática, evidenciando as relações e os efeitos de um problema sobre os outros. É fundamental rever e discutir os dados apresentados para identificar os problemas mais prementes. Para cada problema é necessário identificar os grupos etários mais afectados; os dados que indicam a existência efectiva de um problema e os recursos disponíveis para a sua resolução. Depois do levantamento mais ou menos exaustivo dos problemas deverá elaborar-se uma lista de prioridade (p. ex. : 1 = muito prioritário), através da utilização de critérios como: dimensão do problema, viabilidade da solução, situação quanto às prioridades de financiamento, etc. Após o preenchimento da grelha, deverá discutir-se se os problemas detectados a priori pela equipa do projecto correspondem à apreciação feita inicialmente pelo grupo. Após esta primeira fase, é fundamental estudar exaustivamente as condições desejáveis para cada uma das situações reflectindo sempre sobre os resultados esperados. Depois da selecção de um problema, e tendo em conta que esta escolha deverá respeitar as expectativas da comunidade, procede-se ao levantamento de um conjunto de acções, distinguindo as estratégias desejáveis das exequíveis. De uma forma geral, os serviços (educação, saúde, emprego, etc.) trabalham separadamente numa fase zero, trata-se agora de articular (“pôr junto”) aquilo que deveria estar junto: bibliotecas públicas, o mercado, o jardim, etc. Definir objectivos
  • 4.
    Como já referimosanteriormente, a definição de objectivos de um projecto é a forma mais eficaz de promover planos de acção adequados, específicos e orientados para a resolução de problemas. É fundamental listar as condições da situação actual, como referido na identificação dos problemas. Posteriormente discute-se e define-se as “condições desejáveis” (após reflexão sobre as condições, os recursos e os apoios da comunidade) e estabelece-se um cronograma para atingir os resultados (normalmente entre 3 a 5 anos). Identificar e seleccionar acções para atingir os objectivos Um bom exercício poderá ser o “braimstorming” de ideias, após o qual se fará uma selecção, bem como uma associação se for caso disso, aperfeiçoando os conceitos que estão por detrás das boas ideias e focalizá-las directamente nas condições da zona de intervenção. Estabelecer posteriormente um sumário conciso por cada uma das acções seleccionadas e registá-lo é um passo importante para a selecção das melhores (e mais adequadas) acções. De um modo geral, o trabalho de planificação peca por excesso de objectivos, por vezes irrealistas, ou por objectivos demasiado vagos e de difícil operacionalização e avaliação, para além disto, muitos dos objectivos pressupõem ideias isoladamente, sem terem em conta a integração das acções. Cada uma das acções anteriormente descritas deverá ser subdividida em tarefas que possam ser atribuídas a alguém ou a algum grupo para sua execução. O tempo necessário para a sua realização deverá também ser registado, bem como a definição de intervenientes deve definir as funções específicas a desempenhar e as competências necessárias. A clareza e especificidade dos objectivos, a identificação de tarefas e a sua pertinente atribuição a pessoas ou grupos facilitam a eficácia do processo e a verificação dos resultados. Preparação dos planos de trabalho É conveniente subdividir cada acção seleccionada em tarefas isoladas que possam ser atribuídas a alguém (ou algum grupo) para a sua execução concreta (exemplo: visitar os pais em casa para informar da proposta da junta de freguesia sobre o espaço exterior da Escola; a) preparar o conteúdo e material, b) planear os visitadores, c) reflectir sobre as visitas iniciais para melhorar a abordagem, etc.
  • 5.
    É importante definirum calendário para a realização das tarefas (exemplo: usar uma linha para indicar a duração das tarefas e um X para as tarefas pontuais. Avaliação Num plano de “intervenção comunitária” não devemos esquecer que “tudo diz respeito a todos”, daí que é essencial envolver todos os grupos, instituições (formais e não formais) que terão sempre uma palavra a dizer ou uma acção a desenvolver sobre algo que lhes diz respeito e contribui para a prossecução dos objectivos. No entanto, a sua aproximação ao projecto pode ter graus diferenciados, daí advindo a necessidade de definir claramente a supervisão e coordenação do projecto como forma de promover a clareza de processos, a motivação constante e a clarificação de competências. Sem avaliação sistemática das tarefas não é possível “ler” o trabalho realizado, não sendo possível agir retroactivamente nem reformular as acções. Só é possível estabelecer estratégias adequadas se se puder avaliar o trabalho realizado. O tipo de avaliação preconizado deverá estar em perfeita sintonia com o estilo de acções e com a filosofia do projecto. Como se verificam os objectivos e acções; que instrumentos se utilizam e com que frequência; quem é avaliado; quem avalia; como serão conhecidos e utilizados os resultados são os elementos pertinentes a que o projecto tem de atender. Outros factores, como o índice de inovação e o grau de satisfação dos participantes também podem constituir indicadores para a avaliação do processo e dos produtos. O Orçamento ou a questão do “Quanto custa?” Muitas vezes as análises e a reflexão sobre custos e benefícios poderão inflectir políticas de acção e melhorar a organização de recursos financeiros. Com frequência, a única maneira de convencer autoridades, organismos financeiros ou mesmo as populações é mostrar que é “melhor, embora caro” e “mais barato a longo prazo”. Aos custos dos bens, serviços e acções tradicionais deverão acrescentar-se indicadores como sejam o desgaste dos equipamentos, gastos de deslocação, formação da equipa, despesas de “marketing”, autofinanciamento, tempos de adaptação das pessoas ao processo, etc. O orçamento é legitimado pelos serviços que o projecto presta à comunidade e pela grandeza dos problemas que ajuda a resolver. Os custos/benefício e os custos/eficácia são fundamentais para a exequibilidade e continuidade do projecto. Conclusão
  • 6.
    Para fechar estabreve reflexão partilhada, fica o registo que a dinâmica decorrente da realização de projectos pertinentes, de Educação/Animação Comunitária ou mesmo da Escola, a possibilidade da participação dos indivíduos (grupo-alvo) e a adequação dos resultados às práticas quotidianas, com a natural promoção de mudanças positivas, alargará o interesse, a curiosidade e a participação das comunidades o que possibilita o surgimento de outros projectos que poderão ser encadeados ao longo de um período de tempo maior, nunca esquecendo que um projecto é um elo de uma cadeia. Bibliografia Canário, R. et al (2001) Escola e Exclusão Social. Lisboa: Educa-IIE Hohmann, M. (1992) A criança em Acção. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian Ministério da Educação (1997) Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar. Lisboa: DEB Ministério da Educação (1998) Qualidade e Projecto na educação pré-escolar. Lisboa: DEB Ministério da Educação (1999) Forum “Escola, diversidade e Currículo”. Lisboa: DEB, Nóvoa, A. (coord.) (1998) Paulo Freire: Pedagogia e Política. Col. Ciências da Educação. Porto: Porto Editora Santos Silva, A. (1996) Textos Datados com Motivo e Causa. Lisboa: Público Santos, J. (1988) Se não sabe porque é que pergunta?, Lisboa: Assírio e Alvim Serviços de Educação (1993) Encontro sobre educação Pré-Escolar. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian Van der Eyken, W. (1994) Introduzindo a avaliação. Haia: Fundação Bernard Van Leer Whalley, M. (1994) Learning to be Strong. London: Hodder & Stoughton