O AMOR EM PROSA
Artur Mendonça
É o amor que nos salva da dor da existência.
SUMÁRIO
1. AMAR PARA QUÊ?.................................................................................... 1
2. O AMOR NA GRÉCIA ANTIGA .................................................................. 3
2.1. EROS E ANTEROS, DEUSES DA PRIMEIRA GERAÇÃO................... 4
2.2. EROS E PSIQUE .................................................................................. 5
2.3. ÁGAPE................................................................................................ 13
2.4. O AMOR PLATÔNICO E A HOMOSSEXUALIDADE.......................... 13
2.5. A AMIZADE ARISTOTÉLICA .............................................................. 15
3. O AMOR NA IDADE MÉDIA ..................................................................... 16
4. O AMOR NA MODERNIDADE.................................................................. 21
5. O AMOR NA CONTEMPORANEIDADE ATÉ OS DIAS ATUAIS............. 24
6. O AMOR NA PSICANÁLISE..................................................................... 28
6.1. O AMOR PLENAMENTE SENSUAL E O AMOR INIBIDO EM SUA
FINALIDADE................................................................................................. 31
6.2. O AMOR ANACLÍTICO E O AMOR NARCÍSICO ............................... 32
6.3. POLIAMOR NA PSICANÁLISE........................................................... 33
6.4. O AMOR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA............................................. 34
7. O AMOR NO FUTURO.............................................................................. 35
8. (DES)CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................. 37
DAS FONTES QUE BEBI A ÁGUA DO AMOR............................................... 39
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1. AMAR PARA QUÊ?
All by myself, don't wanna be
All by myself, anymore
Hard to be sure
Sometimes I feel so insecure
And loves so distant and obscure
Remains the cure
Sozinha, não quero estar
Sozinha, não mais
É dificil ter a certeza
Às vezes sinto-me tão insegura
E o amor é tão distante e obscuro
Falta a cura
Celine Dion, “All by myself”
A pergunta é intrigante: “Amar para quê?” Ora, por que o amor é uma
cura, diz Celine Dion em sua música. Mas cura o quê? Cura a dor da falta
humana. Cura isto que passamos a vida a buscar, esse buraco no peito, isso
que nos move constantemente à vida e nos lança no mundo. Existir enquanto
humano é admitir uma falta, é compreender que temos um objeto perdido. A
vida, então, se resume em procurá-lo.
Existir dói. Não é à toa estarmos sempre em busca da felicidade; isto é,
portanto, um sinal que estamos eternamente infelizes em nossa posição. E
talvez seja até mais doloroso pensar o quão a nossa vida é incompleta, em
como ela está sempre por se fazer, e nunca, por efeito, dada como perfeita. Até
respirar, que é tão necessário, nos causa certo dano, com o a produção de
radicais livres. Até o oxigênio, que nos mantêm vivos, também nos causa
prejuízo.
A dor de existir é tamanha ao ponto de apreciarmos aqueles que
entendem esta nossa dor. Se alguém nos é simpático, logo temos apreço por
este. A antipatia é algo horroroso, ninguém quer antipáticos consigo, nem ser a
antipatia em pessoa. A empatia é acolhedora, reconfortante. Gente apática é
gente chata, gente irrelevante, gente sem relevo, sem relevância; enfim,
alguém que desconsideramos.
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Ora, interessante é pensarmos que as palavras “simpatia”, “antipatia”,
“empatia” e “apatia”, todas estas têm uma origem na palavra grega “pathos”,
mesma palavra que originou o termo “patologia”. “Pathos”, patologia, para além
de uma doença, é uma dor. Estar doente é estar a se doer. Logo, adjetivar
alguém de simpático, é querer dizer que o outro entende a nossa dor, a dor da
nossa existência. “Simpático”, “sim”, um termo positivo que antecede “-pático”,
de doença, de dor. A frase “ele é simpático comigo” implica dizer, então, “ele
entende a minha dor”. Assim acontece com a antiapatia. Em geral, não
gostamos de pessoas antipáticas. Isso acontece por que elas são anti nossa
dor, são contrárias a isso que somos. Empáticos são aqueles que estão
conosco, em nossa dor. “Em” é um termo que significa estar inserido, estar
dentro, estar no local. A palavra “apatia” nos traz o prefixo “a” que significa
“não”. Apáticos não são contrários a nossa dor (como os antipáticos), mas
estes não são com a nossa dor.
Logo, estamos todos a nos doer eternamente. Estamos a (con)viver com
a dor que é ser e existir e que nos move para algum lugar. E que lugar é esse?
Ora, este lugar é o amor. É amor que tem a capacidade de nos salvar da dor
da existência, de nos curar dos efeitos dessa doença que é o ser, essa doença
que é nos ser, a doença que é o eu.
Mas, o amor como cura dessa dor, tem efeitos colaterais. O amor é
perigoso, está em toda grande tragédia, mas em todo final feliz também. O que
dizer de Romeu e Julieta?! O amor também se inscreve em seus líquidos. O
vinho, que criou laços entre Tristão e Isolda e que marcou o sacrifício de Jesus.
O amor é improvável, é impossível. Ele costuma nascer onde não o cabe, só
por implicância, só para se fazer valer por si. O amor é imperioso, imperativo,
decidido. “O amor é fogo, que arde sem se ver”.
O videoclipe de Ed Sheeran, da música “Give me Love”, retrata esse
amor indissolúvel, ditatorial. Eros (chamado de Cupido na Mitologia Romana)
desperta e sai às ruas, flechando as pessoas, unindo os casais, e nem sempre
são relacionamentos a dois. Este clipe é um prenuncio para falarmos do amor
na Grécia Antiga.
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2. O AMOR NA GRÉCIA ANTIGA
Os viventes do berço do conhecimento ocidental investiram muito do seu
tempo para este sentimento. O amor era o cerne de muitas discussões entre os
gregos clássicos. Platão muito se debruçou sobre o amor, como nos seus
diálogos “Fedro” e “O Banquete”. Aristóteles, que vem em seguida de Platão,
vai na contramão do amor, mas sem perder de vista a relação com este e os
seus efeitos. Na Grécia Antiga, até um deus próprio vem sendo posto como o
próprio amor, Eros.
Interessante, antes de começarmos a pensar neste amor dos antigos
gregos, abdicarmos dos nossos pré-conceitos, conceitos pré-estabelecidos. O
amor, neste período, tem uma conotação e sentido sensivelmente diferente dos
dias atuais. Inclusive, como veremos, ele será marginalizado em certo período
da História (e, por que não dizer, de certo modo, até hoje).
Mas, apesar de sê-lo diferente do amor contemporâneo, desta nossa
vivência atual deste sentimento, este sentimento da Grécia Antiga ainda ecoa
até os dias atuais. Porém, só ecoa.
Uma poetisa desta época chamada Safo, que viveu entre no século VII
a.C., na Ilha de Lesbos, foi uma das personagens que se destacaram, não só
por falar de amor, mas, também, por unir este sentimento ao sexo, aos desejos
do corpo. Proibido de serem lidas na Idade Média, as obras de Safo foram
queimadas pela Igreja.
Num de seus escritos salvos, Safo cita: “O Amor agita meu espírito como
se fosse um vendaval a desabar sobre os carvalhos.”
Deste modo, percebemos que para pensarmos sobre amor nesta época,
se faz necessário um passeio sobre filosofia, mitologia e a posição feminina na
Grécia Antiga, para que, assim, possamos abordar este sentimento tão nobre
quanto perverso para os gregos clássicos.
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2.1. EROS E ANTEROS, DEUSES DA PRIMEIRA GERAÇÃO
Impossível falar de amor sem nos reportarmos com primazia à Mitologia
Grega, onde o amor era um deus. Um não, mas dois deuses. Dois Eros. O
primeiro Eros vem da primeira geração de deuses gregos, que contrapõe
Anteros, enquanto o segundo Eros que aparece nesta Mitologia surge na
terceira geração, como filho de Afrodite.
Segundo esta Mitologia, tudo começou com Caos, o primeiro dos
deuses. Caos era uma forma vaga, indizível, indefinida. Relacionado com
desordem, desorganização, Caos foi o princípio de tudo o que existe, sendo
inexorável e primordial à criação. Este, sozinho, gerou a Noite e o Érebo.
A Noite era considerada a Mãe dos deuses e Deusa das Trevas,
enquanto Érebo, metamorfoseado em rio e posto no Mundo Inferior, era tido
como o próprio Inferno. Em seguida, Noite e Érebo se desposaram e geraram o
Éter e o Dia. E assim nasceu Eros, com a junção de Noite e Érebo.
Portanto, Eros da primeira geração de deuses gregos é um deus que
une as coisas. Ele é por excelência uma força capaz de reunir, juntar, misturar,
agrupar os elementos. E ele age não somente entre os humanos e deuses,
mas também na natureza. Quando dois elementos se juntam, se aproximam,
isto foi graças a força de Eros. Por exemplo, quando misturamos açúcar na
água, esta mistura só acontece pela força de Eros, segunda esta mitologia.
Anteros é o oposto de Eros e tem a capacidade de separar, desunir,
desagregar, afastar. Este deus também é associado ao ódio e à discórdia. Eros
e Anteros são dois dos deuses mais supremos, não superando somente o
Destino, implacável, de quem ninguém pode fugir, seja humano ou deus.
Logo, este mito de Eros nos remete a pensarmos sobre a força do amor
como união, como afinidade. Portanto, este deus se põe como a força da
criação pela junção. Mais: esta força é análoga ao seu oposto, Anteros. O
amor, então, é uma força criadora que está correlacionada com o seu
sentimento oposto, está paralela ao ódio, a desunião.
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2.2. EROS E PSIQUE
Este é o Eros da terceira geração de deuses da Mitologia Grega. Na
Mitologia Romana, era conhecido como Cupido. Este Deus do amor era filho de
Afrodite (ou Vênus, como é conhecida na Mitologia Romana) e, por vezes, é
representado por uma imagem pueril, sendo uma criança alada, munida de
arco e flecha. Esta representação de Eros se refere ao caráter maligno que o
amor tem. Freud chamava a criança de pequeno perverso polimorfo. E é assim
que a Mitologia Grega representa o amor, como uma criança perversa, armada,
flechando indiscriminadamente as pessoas e despertando o amor nestas. Eros
também ganha esta imagem pela a infantilidade que há no amor, pelo modo
que este sentimento se dá, sendo-o irracional e impulsivo.
Esta Mitologia conta a estória que havia numa cidadezinha uma moça
chamada Psique. Uma jovem muito bela, em que todos os rapazes lhe
entoavam elogios e louvores. Isto deixa Afrodite, Deusa da beleza e da
fertilidade, irada, enciumada. Como podem os homens se encantar por uma
mortal e esquecerem-se de venerar primordialmente sua Deusa mais bela?!
Afrodite, então, resolve convocar o seu filho, Eros, para que a castigue e
sacie seu ódio pela inveja da beleza de Psique.
“- Castiga, meu filho, aquela audaciosa beleza; assegura a tua
mãe uma vingança tão doce quanto foram as amargas injúrias
recebidas. Infunde no peito daquela altiva donzela uma paixão por
algum ser baixo, indigno de sorte que ela possa colher uma
mortificação tão grande quanto o júbilo e o triunfo de agora.”
(BULFINCH, 2000, p. 100.)
Eros, então, prontificou-se a atender a mãe. No jardim de Afrodite há
duas fontes, uma doce e a outra amarga. Eros encheu os seus vasos de âmbar
com as duas fontes e foi ao encontro de Psique, pronto para realizar os
pedidos da mãe.
Psique encontra-se a dormir quando Eros, invisível, invade o seu quarto
e derrama algumas gotas da fonte amarga nos lábios da bela jovem. Enquanto
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isso, Eros passa sua flecha na pele de Psique, admirando a sua beleza, quase
que tomado pela piedade. Logo Psique acorda e, assustado, Eros se fere com
a sua própria flecha. Tomado pelos poderes que a sua flechada causava, Eros
cai de amores por Psique e aí só pensa em desfazer o mal que lhe fez. Então,
Eros derrama a fonte doce nos cabelos de Psique. A partir daí, esta não mais
contou vantagem pela sua beleza, apesar de ainda ser desprezada por
Afrodite.
Psique, mesmo sendo muito linda, não conseguia casar com ninguém.
Apesar de sua grande beleza, esta não despertava o amor em nenhum
homem. Mesmo as duas irmãs mais novas, que nem eram tão belas quanto a
jovem, já haviam se casado.
Os pais de Psique, preocupados com a situação, resolveram então levá-
la ao oráculo de Apolo. Lá, lhes foi dito: “A virgem não se destina a ser esposa
de um amante mortal. Seu futuro marido a espera no alto da montanha. É um
monstro a quem nem os deuses nem o os homens podem resistir.” (Bulfinch, p.
101)
Esta notícia abate todos de tristeza. Porém, Psique, já conformada com
o seu destino, convoca os pais a levá-la para a montanha.
Chegando ao alto da montanha, todos retornam enquanto Psique fica
sozinha e se põe a chorar. A jovem chora até cair no sono. Zéfiro, o vento do
oeste, então a ergue e a leva para um vale florido. Ao acordar, Psique
vislumbra um bosque muito bonito, com fontes de água cristalina e com um
palácio magnífico. Este palácio tinha colunas de ouro e era repleto de obras de
arte. Psique fica encantada e adentra no palácio. Lá dentro desta bela
construção, vozes ecoam para Psique.
“- Soberana dama, tudo o que vês é teu. Nós, cujas vozes ouves,
somos teus servos e obedeceremos as tuas ordens com a maior
atenção e diligência. Retira-te, pois, para o teu quarto, e repousa
em seu leito e, quando estiveres descansado, poderás banhar-te.
A ceia te espera no aposento adjacente, quando te aprover ali te
sentares.” (BULFINCH, 2000, p. 102)
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Psique seguiu as recomendações dos servos e, após descansar e
banhar-se, foi à ceia no aposento adjacente, onde uma mesa farta surgiu
diante de seus olhos. Enquanto se alimentava, instrumentos musicais eram
tocados por seres invisíveis, só para o seu deleite.
Enquanto ao seu esposo, Psique nunca o via. Ele sempre vinha ao
anoitecer e lhe enchia de carícias, as quais lhe encantavam. Porém, ele saia
antes do amanhecer, impedindo-a de vislumbrar o seu rosto, sempre se
escondendo na escuridão. Psique o suplicava para que lhe deixasse conhecer
o seu amado, porém, ele não só não permitia como também lhe aconselhava
que nunca tentasse vê-lo. Assim, Psique se aquietou.
Ao passar do tempo, a lembrança da família despertou saudade na
moça, que começou a considerar todo aquele palácio como uma bela prisão.
Ela, então, ao anoitecer, contou-lhe seus sofrimentos ao seu esposo, que, a
muito custo, lhe permitiu que suas irmãs a visitasse.
Psique convocou Zéfiro e o pediu, como combinado com o seu esposo,
que trouxesse suas irmãs. Logo estas chegaram e ficaram maravilhadas com o
palácio e a vida que Psique tinha. Tomadas pela cobiça, as irmãs da jovem lhe
indagam sobre o vosso esposo. Então, com muita relutância, Psique confessa
que nunca o vira. As irmãs de Psique, então, gerando-lhe desconfiança, a
relembra do que disse o oráculo.
“- Lembra-te [...] que o oráculo disse que tu te casarias com um
monstro horrível e tremendo. Os habitantes deste vale dizem que
o teu marido é uma terrível e monstruosa serpente, que te nutre,
por enquanto, com alimentos deliciosos a fim de devorar-te depois.
Ouve nosso conselho. Mune-te de uma lâmpada e uma faca
afiada; esconde-as de maneira que o teu marido não possa achá-
las, e, quando ele estiver dormindo profundamente, sai do teu
leito, traze a lâmpada, e vê, com os teus próprios olhos, se o que
dizem é verdade ou não. Se é, não hesite em cortar a cabeça do
monstro e recuperares a tua liberdade.” (BULFINCH, 2000, p. 103-
104)
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Psique, impressionada com os conselhos das irmãs, resolve acatá-los.
Ao anoitecer, enquanto o seu esposo dormia profundamente, Psique pegou a
lâmpada e a faca e foi, finalmente, ver o rosto de quem todas as noites o
aprecia dando-lhe amor. Quando Psique, então, aproxima a lâmpada do rosto
de seu esposo, não vê um monstro ali, mas um lindo deus, de cabelos
encaracolados e loiros, pele rosada e com um par de asas, com penas
brilhantes e mais brancas que a neve. Ao tentar vê-lo mais de perto, uma gota
de óleo quente cai da lâmpada sobre o ombro de Eros, que acorda e encara
Psique. Assustado, Eros sai, sem dizer nada, voando pela janela. Numa
tentativa de segui-lo, Psique corre atrás de Eros e cai da janela. O Deus do
amor, ao vê-la caída no chão, retorna.
“- Tola Psique, é assim que retribuis o meu amor? Depois de haver
desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha
esposa, tu me julgavas um monstro e estava disposta a cortar-me
a cabeça? Vai. Volta para junto das tuas irmãs, cujos conselhos
pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além
do de deixar-te para sempre. O amor não pode viver com a
desconfiança.” (BULFINCH, 2000, p. 104)
Estendida ao chão, Psique se põe a chorar, enquanto Eros prossegue o
seu voo. Quando se recompõe, Psique percebe que o palácio e os jardins
haviam sumido, ela se encontrava num campo aberto, próximo da casa de
suas irmãs. Psique vai em busca de suas irmãs, que se regozijam de sua sorte
e creem que, agora, com Eros solteiro, podem ter a mesma sorte da irmã de se
casar com um deus. Então as duas irmãs de Psique vão ao alto da montanha e
convocam Zéfiro para levá-las até Eros. Lançam-se, então, do alto da
montanha. Porém, Zéfiro não as carrega, e morrem ao se despedaçarem no
encontro com chão.
Psique passa, então, a vagar, dia e noite, a procura de seu amado.
Numa de suas andanças, a bela moça vê no alto de uma montanha um grande
templo e se enche de esperança de encontrar Eros neste lugar. Porém, ao
entrar no templo, Psique encontra o local muito desorganizado, com montes de
trigo e espigas espalhados e desordenados. Psique resolve ordenar toda essa
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confusão, crendo que não se deve negligenciar o culto de nenhum deus, mas
pelo contrário, cultuar a todos. Assim, Deméter (ou Ceres, na Mitologia
Romana), Deusa do amor maternal e das plantas que brotam dos grãos, era
esta a Deusa a quem o templo cultuava, se apiedou de Psique e disse-lhe:
“- Ó Psique, em verdade digna de nossa piedade, embora eu não
possa proteger-te contra a má vontade de Vênus, posso ensinar-te
o melhor meio de evitar desagradá-la. Vai e voluntariamente
rende-te à tua deusa e trata de conseguir-lhe o perdão pela
modéstia e submissão, e talvez ela te restitua o marido que
perdeste.” (BULFINCH, p. 105-106)
Psique, então, vai ao templo de Afrodite, já preparando o seu discurso
de perdão para a Deusa da beleza. Ao encontrar Afrodite, esta lhe aparece
com a ira estampada em sua fisionomia.
“- Tu, a mais ingrata e infiel das servas, lembraste, afinal, que tens
realmente uma senhora? [...] Ou talvez vinheste para ver teu
marido enfermo, ainda guardando o leito em consequência da
ferida que lhe causou a amada esposa? És tão pouco favorecida e
tão desagradável, que o único meio pelo o qual podes merecer o
teu amante é a prova de indústria e diligência. Farei uma
experiência de tua capacidade como dona de casa.” (BULFINCH,
p. 105-106)
Afrodite, então, ordena que Psique vá até o celeiro de seu templo e
separe o trigo, aveia, milhete, ervilhacas, feijões e lentilhas, que se encontram
em grande quantidade e desordenados, que serviriam de alimento aos pombos
sagrados. A Deusa, antes de partir, ordenou que a bela mortal fizesse uma
organização em qualidade dos grãos e que terminasse antes do anoitecer.
Psique fica inerte, abismada, ao perceber que esta tarefa é impossível,
pela enorme quantidade de grãos e pelo pouco tempo para a realização. Eros,
então, incita as formigas a se apiedarem de Psique. Logo, estas trabalham e
separam todos os grãos em qualidade, assim como Afrodite ordenou que
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Psique fizesse. Ao fim do dia, ao retorno da Deusa, esta se torna irada ao
perceber que a tarefa que ela impôs foi realizada. “Isto não é obra tua,
desgraçada, mas daquele que conquistaste para o seu infortúnio e para o teu”
(Bulfinch, p. 107). Dando-lhe um pedaço de pão preto para alimentar-se
Afrodite, em seguida, partiu.
No dia seguinte, mandou que chamassem Psique e a ordenou:
“- Olha para aquele bosque que se estende à margem do rio. Ali
encontrarás carneiros pastando sem um pastor, cobertos de lã
brilhante como ouro. Vai buscar-me uma amostra daquela lã
preciosa colhida de cada um dos velocinos.” (BULFINCH, 2000, p.
107)
Porém, Psique ao aproximar-se das margens do rio, o rio deus alertou-a
sobre o perigo que são suas correntezas e a ameaça que são os carneiros.
Durante o dia, estes animais são dominados por uma raiva brutal, que mata,
com os seus chifres pontiagudos, qualquer mortal que se aproxime deles. Mas,
alertou o deus rio, que após o sol de meio-dia, quando o rio aquietar-se e os
carneiros saírem em busca de sombra, ela poderá atravessar o rio e pegar a lã
dos carneiros que ficarão nos arbustos e troncos das árvores. Assim Psique
fez, conseguindo realizar mais uma tarefa imposta por sua senhora.
Ainda assim, a mortal não foi bem recebida por Afrodite, que mais uma
vez desconfiou de sua capacidade e lhe deu mais uma tarefa. Afrodite ordenou
a Psique que fosse ao Mundo Inferior e que trouxesse, numa caixa, um pouco
da beleza de Perséfone, pois a beleza da Deusa estava cansada, por cuidar de
seu filho enfermo.
Psique, conformada que não conseguiria realizar tal tarefa imposta pela
Deusa, decide acabar com a sua própria vida, se jogando do alto de uma torre.
Porém, antes de se jogar, Psique ouve uma voz, vindo da própria torre,
indagando-lhe sobre o seu sofrimento. Ao explicar o que acontecia, a voz lhe
ensinou como adentrar no Inferno por uma gruta, passar sem ser percebida
pelo Cérbero, o cão de três cabeças, e a convencer Caronte, o barqueiro, a
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atravessá-la o rio e trazê-la de volta. A voz ainda a alertou para que não
abrisse de modo algum a caixa que Perséfone lhe entregaria.
A bela jovem, então, seguiu todas as recomendações da voz da torre e
chegou sã e salva ao reino de Hades. Encontrou o palácio de Perséfone e,
rejeitando o banquete que lhe foi oferecido, pegou a caixa com a beleza das
deusas e partiu de volta ao mundo dos vivos.
Tendo retornado dos perigos infernais com o dever cumprido, Psique
quis experimentar daquela beleza que continha na caixa, só para, aos olhos do
amado, parecer-lhe ainda mais bela. Porém, na caixa não continha a beleza,
mas, sim, o sono infernal, que, livre da prisão da caixa, tomou posse de Psique,
que caiu, como que desfalecida, no meio do caminho.
Eros, já reestabelecido de seu ferimento, sentindo-se saudoso da
presença de sua amada, voa ao seu encontro. Encontrando Psique caída ao
chão, aos efeitos do sono, Eros fecha a caixa, prendendo o sono dentro dela. O
Deus, então, acorda Psique e fala-lhe: “Mais uma vez, quase morreste devido a
tua curiosidade. Mas, agora executa exatamente a tarefa que lhe foi imposta
por minha mãe e cuidarei do resto” (Bulfinch, p. 109).
Assim, Eros voa até Zeus, pedindo sua intercessão ao amor que o
destino lhe havia reservado. Zeus, piedoso, interviu no caso, falou com Afrodite
e lhe abrandou. Então, na assembleia dos deuses, Zeus, com uma taça de
ambrosia, tornou Psique imortal. Eros e Psique casaram-se, enfim, e viveram
eternamente juntos, tendo, mais tarde, uma filha, chamada Prazer.
Este mito de Eros e Psique é, obviamente, uma alegoria. Podemos
analisá-lo da seguinte forma. Eros, neste mito, se mostra o amor paciente, o
amor que tudo crê, tudo suporta e tudo espera. Ora, Eros acreditou, confiou em
Psique, que ela não o trairia em seu pedido de permanecer no anonimato. O
amor de Eros também suportou os erros de Psique, e a perdoou. E Eros ainda
esperou Psique em suas tarefas impostas por Afrodite, mesmo que ainda
intervindo a seu favor.
Enquanto a Psique, esta palavra grega significa não somente “alma”,
mas também “borboleta”, demonstrando, como nos diz Bulfinch (2000), que o
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amor é belo como a borboleta, símbolo da primavera, e que deixara sua vida
rastejante para, do túmulo, emergir bela e sensível. Se tomarmos “psique”
enquanto “alma”, podemos fazer o paralelo da “alma” como “mente”, assim
como na palavra “psicologia”, que tomou “psique” como mente e passou a
significar “o estudo da mente”. “Psique” enquanto “mente pensante” se
corrobora no mito de Eros e Psique na curiosidade e desconfiança que esta
personagem demonstra. Mais: esta personagem também, nesta lenda, se
mostra menos sábia que Eros, tendo o papel de desenrolar todos os impasses
da estória. Assim como Eros, enquanto amor, filho da beleza, se mostra
teimoso, em desobedecer as ordens da mãe, e desastrado, ao se ferir com a
sua própria flecha.
Ou seja, este mito nos traz o amor como improvável, insistente,
esperançoso, paciente, piedoso e ainda nos faz pensar que a razão não é o
melhor caminho para a concretude amorosa. Mais: quando juntamos amor e
razão, temos, assim, o prazer.
Há ainda outra lenda de Eros. Este, como já foi dito, era, por vezes,
representado por uma imagem de uma criança. Afrodite, preocupada com o
futuro de seu filho, reclama a Zeus que Eros já está demorando muito para
crescer e se tornar adulto. Zeus, então, concede-lhe outro filho, Anteros. Só
após o nascimento de Anteros é que Eros cresce, no mesmo compasso de seu
irmão. Assim, tendo esta lenda como alegoria, podemos analisar que esta
estória nos traz o amor como antítese do ódio, como um sentimento que só
cresce por que é paralelo com o seu oposto. São dois lados de uma mesma
moeda.
Este mito muito se assemelha com o deus Eros da primeira geração dos
deuses da Mitologia Grega. Isto ocorre pelas versões que há das estórias
míticas, graças à tradição da oralidade na Grécia Antiga.
Eros e Psique, Eros e Anteros, são belos mitos que nos mostram um
pouco da visão do amor na Mitologia Grega, assim como também nos fazem
perceber o quão este sentimento é valorizado entre os gregos e romanos, já
que estes mitos também fazem parte da Mitologia Romana, mas com os
deuses tendo outros nomes, como foi explanado durante todo o texto.
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2.3. ÁGAPE
Falar de ágape na Grécia Antiga é remeter ao amor altruísta, que ama
sem exigir reciprocidade. Também tido como amor familiar ou amor pelo
trabalho, é o sentimento de amor, de querer bem, de querer a felicidade do
outro. Este amor entende este querer bem a tudo o que existe.
2.4. O AMOR PLATÔNICO E A HOMOSSEXUALIDADE
Platão, discípulo de Sócrates, foi um filósofo da Antiga Grécia que se
debruçou sobre o amor, sobre Eros. Interessante pensarmos, primeiramente,
sobre o amor platônico, tão conhecido e, de certo modo, vulgarizado.
Como Marcia Tiburi em dois seminários, “Felicidade?” e “Democratizar o
Amor e a Amizade I”, nos expõe, Platão nomeava o amor e a felicidade com
um só termo, daimon. Logo, Platão coloca o amor e a felicidade com o mesmo
juízo de valor.
Segundo este filósofo, daimon era o amor (ou a felicidade) real,
verdadeira, e que para alcançarmos o daimon era necessário buscarmos a
virtude. E, para alcançar a virtude, deveríamos buscar o Bem, o Belo e a
Verdade. Estas são virtudes supremas, segundo Platão.
Ao atingirmos este nível, chegaríamos, então, no campo das ideias. Este
é o mundo que não está neste mundo em que vivemos, no mundo sensível,
dos sentidos, mas é algo que vai para além do físico. Assim é como em sua
alegoria da caverna, em que fazemos a análise de que somos nós os
prisioneiros na caverna e o campo das ideias é este em que devemos buscar,
fora da caverna, fora deste mundo. Logo, amor platônico não é exatamente o
amor impossível, mas, sim, o amor que não está no mundo físico, concreto,
mas neste tal campo das ideias, e que devemos procurá-lo, caso queiramos o
real amor.
Porém, curioso pensarmos sobre o amor platônico e a virtude da Beleza.
Marcia Tiburi, no seminário já citado, “Democratizar o Amor e a Felicidade I”,
nos acrescenta neste pensamento. Na Grécia antiga, o belo era o corpo
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musculoso, bem definido. Isto se expressa em todas as obras de arte da época
em que se exibe músculos e virilidade. Mais: o belo era o corpo masculino.
Logo, pensar no amor, no daimon, a partir da virtude da Beleza, é, então, amar
o corpo masculino.
Ainda temos a noção de que na sociedade grega desta época, a mulher
não tinha espaço. Uma comprovação disto vem com Platão, no escrito “O
Banquete”. Ao iniciar a sua fala, quando pretende pensar sobre a filosofia e
amor, pede para que todas as mulheres se retirem do recinto. A figura feminina
estava fora de cena. A mulher na Grécia Antiga era vista como um ser para o
lar e a procriação, somente. Com algumas exceções, como Safo, poetisa já
citada no início do texto, a mulher era tida como Chico Buarque bem
exemplifica em sua música “Mulheres de Atenas”, mulheres omissas.
Então, pensar sobre o amor na Grécia Antiga, é, antes de tudo, pensar
no amor como Belo e sendo, então, homossexual, já que só os homens tinham
o direito a filosofar e filosofar sobre o amor; e o Belo, como já foi dito, era o
corpo masculino.
O amor homossexual era normal e comum na Grécia Antiga. O próprio
Sócrates morreu nos braços de seu amado, Alcibíades, um general grego.
Também não poderíamos esquecer “Fedro”, um triângulo amoroso
homossexual escrito por Platão. Até em sua mitologia a Grécia se mostra
aberta em relação ao amor homossexual. Há, por exemplo, o amor entre Apolo
e Jacinto, em que finda no ato contra a vida deste último por Zéfiro, enciumado
pelo o seu amado Deus Apolo. Ainda há a bissexualidade de Laio, que se
apaixona pelo príncipe Crisipo em sua juventude, e, anos após, se casa com
Jocasta, gerando Édipo.
Enfim, a mulher não tinha lugar no amor nesta época. Não se tinha um
jeito de pensar ou uma forma de amar femininamente, a não ser que seja pela
total omissão. Marcia Tiburi ainda verbaliza que o amor platônico é um amor
homossexual, é um amor entre homens, pegando este amor platônico como o
amor para além do que vemos, para além deste mundo sensível, buscando
amar no campo das ideias, no amor (ou felicidade) real, no daimon. Platão, em
seu pensamento, dava lugar central este eros, a este daimon.
15
2.5. A AMIZADE ARISTOTÉLICA
Aristóteles, discípulo de Platão, vai contra este quando tira eros do
centro de seu pensamento. Aristóteles vai priorizar, digamos assim, um outro
tipo de amor, a philia. Mais uma vez Marcia tiburi nos guia neste pensamento.
A philia para Aristóteles é a amizade. Este é o centro de seu
pensamento, quando põe a importância na relação amigável. Esta relação
define-se como uma disposição de caráter. Quer dizer, para Aristóteles não há
sentimento na amizade, mas o caráter. Neste sentido, podemos dizer que
amizade aristotélica vai na contra mão do amor mitológico, sendo racional e
ético; se pondo numa prática de reflexão de um comportamento para com o
outro.
Ainda há três tipos de philia. Há a amizade por interesse, que é uma
amizade parcial, que só há relação enquanto há ganhos, ao menos, para uma
das partes. Há também a amizade por prazer. Esta é uma philia que une os
membros enquanto há prazer nesta relação. Este prazer pode se dar, por
exemplo, na personalidade do outro, que lhe agrada, na espontaneidade do
outro, que lhe diverte. Esta amizade também é parcial, segundo o filósofo.
Há ainda uma última forma de amizade. Segundo Aristóteles, esta é a
amizade verdadeira, que é a philia por admiração. Esta é a relação que há
enquanto existe uma admiração nos laços ou para com os membros deste
laço. É somente nesta amizade que existe, de fato, amigos, quando se
consegue admirar o outro pelo o que o outro é.
Curioso ainda pensarmos a amizade no casamento. Nesse sentido da
philia aristotélica, podemos pensar que é justamente a amizade por admiração
que deve sustentar um matrimônio, haja vista as intempéries de eros, como
visto na Mitologia Grega.
É neste tipo de amor, enquanto amizade que não há sentimento, que a
“philia” compõe a palavra “filosofia”, como amor a sabedoria, ou, neste sentido,
admiração pela sabedoria. Sendo, assim, o filosofar uma escolha racional e
ética.
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3. O AMOR NA IDADE MÉDIA
“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Luís de Camões
17
Não, Camões. Isso não é amor. Explico o por quê.
Luís Vaz de Camões, poeta português, não viveu na Idade Média, mas,
sim, no começo da Idade Moderna, século XVI. Porém, este poema de Camões
pode nos explicar mais sobre o amor na Idade Média do que o amor na própria
Idade Moderna.
A Idade das Trevas, como é pejorativamente conhecida, foi o período
entre o século V e XV, marcado principalmente pelo advento do cristianismo e
da Igreja Católica. Foi a época em que as autoflagelações, os cilícios (cintas
feitas de arames pontiagudos, normalmente usadas na perna, como forma de
causar dor intensa) e outras formas de (auto)tortura foram extremamente
utilizadas.
Todas estas formas de causar dor a si próprio foram, geralmente, em
nome de Deus, incitadas pela Igreja. Isto era uma forma de se aproximar de
Deus, pois estes atos tinham como objetivo a purificação do sujeito, livrá-lo do
pecado pela dor, assim como Cristo fez na Cruz. Segundo a crença cristã, foi
na Sexta-Feira da Paixão que Jesus, em sua crucificação, lavou o pecado da
humanidade.
Concentremo-nos, então, neste termo, “paixão”, citado na nomenclatura
desta data. Interessante lembrar que o período compreendido entre a prisão de
Jesus, no Monte das Oliveiras, até a sua ressurreição, é chamado de Paixão
de Cristo. Notemos também que não só nos referimos a Jesus quando falamos
em paixão, mas também a Paixão de Joana D’Arc. O termo paixão, logo, é
associado ao sofrimento. A etimologia nos ajuda a entender.
A palavra “paixão”, assim como “simpatia” e seus afins, definido no
começo do texto, também tem como radical a palavra grega “pathos”. Ou seja,
paixão está aliada a doença e, indo além da doença, paixão está relacionada à
dor. Na Grécia Antiga, ao contrário do amor, que era considerado uma dádiva
dada pelos deuses, a paixão era considerada uma doença. Pior: uma doença
em que o doente gostava de estar doente.
A paixão, assim, cabe perfeitamente ao falarmos “Paixão de Cristo”,
afinal de contas, Jesus sofreu, foi chicoteado, humilhado e crucificado. Assim
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como Joana D’Arc, jogada à fogueira. Houve, com estes dois, o sofrimento e a
dor como marca de sua história. E assim eles quiseram e prosseguiram em
suas labutas.
Uma das expressões para designar que estamos apaixonados por
alguém é dizer que se está “caído de amores”. Ora, mas o que nos derruba são
justamente as doenças, como o próprio termo “prostrado” se refere. Então,
neste ínterim da paixão, nos colocamos prostrados, como quem se prostra com
uma doença. Mais uma exemplificação de quanto a paixão está ligada com a
doença e com a dor.
E agora, finalmente, retornaremos a Camões e podemos pensar em
como o seu poema nos traz esta visão de paixão. “Fogo que arde sem se
ver”... “Ferida que dói e não se sente”... “Contentamento descontente”... Toda
estas linhas de Luís Vaz de Camões estão permeadas desta paixão, enquanto
sentimento dolorido e com um certo caráter patológico. É um sentimento que
dói, mesmo sem doer; é algo que dá um descontentamento contente. É um
sentimento que proporciona opostos. Assim é a paixão, que é uma dor que
gera prazer em quem a sente.
Toda a Idade Média foi regida por este sentimento. Neste período, o
amor sai de cena, dando lugar à paixão. A dor é valorizada ao ponto de ser
sacralizada.
Porém, ainda há resquícios do amor da Grécia Antiga no cristianismo e
na Bíblia. Um dos trechos que exemplifica isso é o livro de 1 Coríntios, capítulo
13, do versículo 4 a 8, quando nos traz:
⁴O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não
se vangloria, não se ensoberbece, ⁵não se porta
inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não
se irrita, não suspeita mal; ⁶não se regozija com a injustiça, mas
se regozija com a verdade; ⁷tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo
suporta. ⁸O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão
aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência,
desaparecerá;
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Mas, ora, este amor que tudo sofre, tudo crê e tudo espera não é
justamente o amor de Eros por Psique, como já o analisamos?!
Também o amor ágape vem, até os dias de hoje, sendo usado como
definição do amor cristão. Mas, como podemos perceber, é a paixão que vigora
no seio bíblico.
A Igreja Católica, neste período, não só dispensa o amor, como também
o demoniza. Exatamente isso, o demoniza, no sentido etimológico. Como já foi
dito, o real amor, segundo Platão, só era alcançado através do daimon, que era
as virtudes que levavam ao campo das ideias. A palavra “daimon” originou a
palavra “demônio”, o qual foi e é ferrenhamente desprezado pelo cristianismo.
Mas, ora, daimon é justamente a busca do Belo, do Bem e da Verdade, e nada
há de maléfico nisso. A Igreja, para prevalecer como única Verdade, como
Bondosa e Bela, inverte todos os conceitos platônicos e se põe com o mesmo
juízo de valor, rechaçando o pensamento dos gregos antigos.
Podemos analisar isto da seguinte forma. Um dos meios da Igreja,
então, de se pôr como Bela é invertendo e pondo um cunho negativo ao que
antes era tido como Belo, e, assim, adquirindo ela, a própria Igreja, o status de
Bela. O que era Belo na Grécia Antiga era o corpo masculino e pensar no amor
Belo era pensar no amor homossexual entre homens. Assim, a Igreja põe o
caráter maléfico sobre a homossexualidade e constrói uma nova moral sobre o
corpo, dizendo que este não deve ser mais exposto, mas, sim, coberto,
protegido, escondido. Aí, o erótico (o que advém de “eros”) é proibido.
Enquanto ao Bem e a Verdade, a própria Bíblia exemplifica isso
claramente, ao trazer para si, para sua própria crença, os conceitos platônicos.
Isso se dá no livro de João, capitulo 14, versículo 6, na fala de Jesus em: “Eu
sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” Logo,
com esta fala, Cristo não se coloca como UM caminho, UMA verdade, mas,
sim, como O Caminho, A Verdade. Mais uma vez a Bíblia ojeriza o pensamento
do filósofo grego, se opondo, assim, à filosofia, já que a própria filosofia dizia
que devemos procurar o Bem e a Verdade. Isto também se soma à proibição
destes escritos platônicos de serem lidos nesta época. As obras platônicas
eram guardadas em mosteiros, ao qual somente o clero tinha acesso.
20
Toda esta inversão cristã dos conceitos gregos clássicos se apoiou
numa nova ética, que surge com o Novo Testamento. É a ética cristã, de
valorização da vida. Enquanto as outras crenças e mitologias costumavam
relativizar o valor da vida e hierarquizar as pessoas, geralmente em castas, o
Novo Testamento vem com a noção de que todos são iguais perante a Deus.
E é nessa valorização da vida que se apoia, por exemplo, a
contrariedade à homossexualidade, por não gerar descendência. Também se
apoia à noção de corpo resguardado, como foi dito. Pois este corpo (e esta
vida que há no corpo) deve ser protegido contra os pecados da carne, a
luxúria. Assim, com esta nova ética contrária a tudo o que foi elaborado na
Grécia Antiga, o cristianismo se põe com uma nova forma de amar, contrária a
que vigorava na época, e que, como já foi dito, se põe como o Amor, mas que
mais está relacionado com a paixão, como também já foi explicitado.
O poeta português já citado ainda pode nos acrescentar de forma mais
visceral a dor e a patologia que é a paixão com os seguintes versos:
“Mas conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde;
Vem não sei como; e dói não sei porquê.”
Luís de Camões
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4. O AMOR NA MODERNIDADE
Interessante falarmos do amor na Idade Moderna por que este
sentimento, da forma que prevaleceu neste período, não iniciou nem findou a
sua forma neste espaço de tempo. Porém, foi durante a Modernidade que o
amor romântico prevaleceu.
Próximo do fim da Idade Média, século XII, surge o “Tratado do Amor
Cortês”, de André Capelão. Este escrito vai, finalmente, trazer a mulher para o
amor.
Vimos até aqui que a mulher não tinha espaço na sociedade. Nem
mesmo no amor a mulher poderia se expressar, salvo na mitologia, no mito, na
lenda, no que não é real. Por que na realidade, a mulher tinha o seu posto de
submissa ao homem, não tinha direito verbalizar ou pensar sobre o amor nem
tinha sua forma de amar.
Na Idade Média, como sabemos, houve o que foi chamado de Santa
Inquisição. É bom lembrarmos que esta ação promovida pela Igreja Católica foi
de total devastação não somente para os homens indignos da fé cristã, mas,
principalmente, para as mulheres, tidas como bruxas, feiticeiras. As mulheres
foram as mais assassinadas nesta época. A figura feminina, então, ganha um
estigma diabólico.
André Capelão, com o seu livro, tenta resgatar a mulher desta condição
de ausência no amor e pacto com o maléfico. Para isso, este autor busca não
somente a mulher, de todas as formas que ela poderia ser, mas busca resgatar
a Virgem Maria. Contrapondo a mulher bruxa, a mulher diabólica, que tanto a
Santa Inquisição queimou nas fogueiras, Capelão vem trazendo a mulher
santa, pura, virgem, casta, singela.
Prevalecendo aí o machismo, esta mulher vinda do “Tratado do Amor
Cortês” era mais divina, menos diabólica e não mais digna que o homem; pois
esta nova mulher, nesta nova condição de submissão, estava à mercê dos
cortejos masculinos, saindo de uma ausência para se pôr numa posição
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passiva. O relacionamento, então, se dava pela mulher que deveria se deixar
levar aos agrados do homem.
Logo, com esta passividade da mulher e atividade do homem, o
machismo mais uma vez se demarca ao trazer o homem como uma salvação
para a mulher. O homem, aí, se torna o objetivo da vida da mulher, pois esse
deveria ser o futuro de toda mulher, o casamento.
Nesse sentido, esta obra, então, vai abrir precedente para o amor
romântico, que vigora com força na Idade Moderna. Capelão abre passagem
para este tipo de sentimento quando o seu objetivo de trazer para o palco do
amor uma mulher santa acaba sendo falho, esta ideia será um tiro que sai pela
culatra. Isto acontece por que Capelão nos traz, com a visão de amor à mulher
santa, o amor a uma mulher que não existe. A santidade, a divindade, não está
no campo humano. Este pensamento de Capelão tem raiz na crença cristã, que
defende a santidade não na vida, por que este, em que estamos, não é o
mundo de Deus, mas o mundo divino é o paraíso, o que está para além da vida
carnal. Por isso, Capelão, ao instalar a mulher santa no amor, na realidade,
põe em jogo uma mulher que não existe, que não é viva, que não é real.
Este amor à mulher morta se dá muito explicitamente no conto de
Romeu e Julieta. Escrito no meio da Modernidade, século XVI, Romeu, em
última instância, se mata por crer que o seu amor morreu. Julieta, ao despertar
de sua falsa morte, percebe Romeu falecido e também se mata. O amor (ou a
prova de amor), então, se concretiza com a morte. O amor romântico é assim,
se habilita no impossível.
Outro exemplo de amor romântico se dá já na Idade Contemporânea,
mostrando aí o quanto o amor romântico se fixou no ideal de felicidade. É o
conto da Branca de Neve, escrito pelos irmãos Grimm, século XIX. Este conto
expõe de forma explícita este romantismo. Branca de Neve, um total ideal
desta mulher moderna, é, na realidade, uma mulher morta. Só o príncipe, que
vem em seu cavalo branco, poderá ressuscitá-la. Branca de Neve, uma mulher
doce, casta, gentil, é assassinada pela vilã da estória, a mulher que se diz bela
e perversa e que se afirma como tal. Curioso notar também que neste conto a
madrasta da Branca de Neve era uma bruxa e foi morta no fim da estória. É
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uma total semelhança com as mulheres assassinadas pela Igreja na Idade
Média. Enquanto à Branca de Neve, mulher perfeita, tem o destino que o amor
romântico prevê: o seu homem salvador. Uma mulher medieval para uma
estória medieval (apesar deste conto ter sido escrito somente na
Contemporaneidade).
Uma história macabra de amor romântico aconteceu não há muito
tempo, no século XX. Carl von Cosel, médico alemão que atuava num hospital
da Flórida, conhece uma paciente chamada Maria Elena Milagros de Hoyos,
uma jovem cubana que sofria de tuberculose. Cosel cai de amores por Elena.
Porém, pouco tempo depois, esta vem a falecer. Cosel, obsecado por Elena,
decide então pagar pelo o seu funeral e pela construção de seu mausoléu. É aí
que Cosel demonstra sua fixação por Elena, visitando-a toda noite. Após um
tempo, Cosel decide raptar o corpo e levá-lo para a sua própria casa. O médico
faz diversas intervenções para que o corpo se mantenha conservado, dentre
elas, amarrar os ossos do cadáver com arames e cordas de piano, hidratar os
órgãos se decompondo e reconstituir o seu rosto com cera e gesso. Assim,
Cosel vive por sete anos com o corpo de sua amada, até que a irmã de Elena
desconfia do que acontece e descobre o que o médico fez. Carl é preso, mas,
com o pagamento da fiança, é solto. Anos mais tarde, o médico é encontrado
morto ao lado de uma estátua de gesso, uma cópia de sua amada Elena.
Logo, com todos estes contos, nota-se o quão este amor romântico gera
infelicidade ao criar um padrão de amor perfeito, um amor que não existe. É
também notória sua impregnação até à Contemporaneidade.
Porém, este tipo de amor também muito se assemelha com o amor
platônico, que tem como objetivo o amor real que vai para além do mundo
sensível, do mundo físico. A diferença era que Platão dizia que deveríamos
buscar esse amor, e não que esse amor era acessível. Ao contrário do amor
romântico, que não só afirma a possibilidade do amor impossível, o amor
perfeito, como o põe como salvação para a felicidade num relacionamento.
Ora, ainda educamos nossas crianças com estes mesmos contos já citados e
toda novela ou filme considerado bom tem esse final (feliz?) ilusório de amor
completo.
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5. O AMOR NA CONTEMPORANEIDADE ATÉ OS DIAS ATUAIS
O modelo de amor romântico vem se concretizando na Idade
Contemporânea. Como foi apontado, muitas produções televisivas e
cinematográficas ainda seguem este modelo e obtêm sucesso por isso.
Poderíamos ter uma lista infinita de filmes para exemplificar este
romantismo, mas podemos nos concentrar em alguns que fizeram e ainda
fazem grande sucesso entre os cinéfilos mais românticos. O filme “Um Amor
Para Recordar” (2002) conta a história amorosa em que a mocinha morre no
final. Na Saga “Crepúsculo” (2008-2013) há um amor entre uma mortal e um
vampiro. “Diário de Uma Paixão” (2004) é outro filme que desperta o
romantismo em quem assiste, e que está baseado num amor já vivido, pois o
desenrolar romântico acontece no passado, já esquecido pela personagem que
sofre de Mal de Alzheimer. Não poderíamos também esquecer o filme com
recorde de bilheteria do cinema em todo o mundo, “Titanic” (1997), em que o
mocinho morre nos braços de sua amada.
Vemos que em todos estes filmes citados, que têm um grande público
de adoradores, o amor se dá no campo da morte, do impossível, seja pela
morte de fato ou pela incapacidade de rememorar o que foi vivido.
Este amor no impossível acaba, então, por virar um padrão. Mais: este
padrão de amar ganha, obviamente, analisando de onde este surgiu, um teor
medieval e moderno, sendo, portanto, um padrão heterossexual e que se
evoca por si. Este é o motivo do amor homossexual ou simplesmente a
castidade serem ojerizadas nos tempos atuais.
Porém, é interessante pensar o amor na Idade Contemporânea pela
plasticidade em que ele sobrevive nestes tempos mais atuais. Apesar de sê-lo
extremamente plástico, este amor só vem realmente sendo mudado (em sua
forma de ser vivida e não em sua essência romântica) nos últimos anos.
Comecemos a pensar sobre o prenúncio desta mudança da forma de
amar.
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É no século XIX que há a invenção da luz elétrica, do telefone e do
rádio. Anuncia-se, então, um novo tempo. A tecnologia eletrônica se alia a
novos meios de comunicação e informação, avançando cada vez mais rápido,
buscando seguir a velocidade da luz. Isto nos acarreta mudanças em nossa
percepção e, obviamente, no nosso jeito de amar.
As cartas dão lugar aos telefonemas. Os telefonemas, por sua vez, dão
lugar ao e-mail. Logo, o e-mail passa a vez para as redes sociais. O telefone
perde espaço para o celular. O celular, que inicialmente tinha a única função de
ligar, passa, gradativamente, a ter a capacidade de armazenar contatos,
mandar mensagens de texto, o envio de imagens, gravar voz, ter câmera
fotográfica embutida, acessar a internet e ter dos mais diversos aplicativos.
Toda essa evolução muda o nosso ritmo e nos convoca à multifuncionalidade
em tempo real.
Período pós-guerra, décadas 50, 60 e 70, há uma explosão que nos
convida ainda mais para este espírito etéreo de humano. Surge, então, o
movimento “paz e amor”, numa contra cultura de dor e morte que a guerra
causou. Prega-se aí a liberdade, inclusive do amor.
É neste período que surge o chamado “casamento aberto”, em que se
tinha uma liberdade, dentro do casamento, para que os cônjuges se
relacionassem sexualmente com outros parceiros. Este tipo de relacionamento
não vinga, ao menos formalmente falando. Porém, é este tipo de relação que
gera, já nos anos 80, 90 e 2000, o poliamor. Designado como um amor livre,
em que há a possibilidade de um relacionamento amoroso saudável entre três
ou mais pessoas, o poliamor vem se configurando, então, não mais sobre a
égide sexual, mas, sim, sentimental.
Toda esta liberdade e, como já citado, multifuncionalidade e agilidade
humana nestes tempos contemporâneos desemboca, então, num amor cada
vez mais efêmero. Hoje em dia não se tem mais o mesmo tempo que se tinha
antes para cultivar o amor. Isso também é válido para os produtos que
consumimos. Já não se gasta tempo para produzir algo, se compra feito. O
capitalismo selvagem da contemporaneidade se vale no amor, quando busca-
se um amor perfeito (ideia advinda do romantismo) e já pronto (advindo da
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mania capitalista). E ainda há um adendo, esse amor perfeito e pronto tem que
vir rápido, assim como a velocidade que a tecnologia nos impõe.
Deste modo, surge o “ficar”. Prática de trocar carícias, beijos e até
mesmo acontecer o sexo, porém, de modo casual. Este toma, então, um
sentido de um “amor instantâneo e com curto prazo de validade”. Numa
tentativa, ainda, de alguns buscarem um amor mais duradouro, este “ficar”
surge com força entre os mais jovens, principalmente entre os que estão
inseridos na era digital.
Pensar em era digital é pensar em algo que é feito a partir do dígito, do
ato de digitar, da digital em nossos dedos. Desta era digital surge o mundo
virtual, que nada mais é do que um mundo que finge ser, sem ser, mesmo
sendo. Quero dizer, este virtual não existe de forma física, porém, ele busca
simular o físico e acaba, assim, por adentrar nos ditames das relações no que
vai para além do próprio virtual.
Assim, com um mundo que se vale sem o físico, é, então, aberta uma
nova possibilidade de amar: o amor sem corpo. Neste mundo em que o físico
se dispensa (porém, não por absoluto), é possível amar alguém que não está
fisicamente com o amante. Então, novos relacionamentos surgem em que os
parceiros amorosos não necessariamente moram no mesmo lugar. É possível
existir dois amantes que morem em lados opostos do país e se amam sem
nunca sequer terem se visto fisicamente, olho a olho, sem nunca terem se
tocado.
Diego Engenho Novo, proprietário do blog Palavra Crônica, nos
esclarece em seu texto “Amar à Distância”, de forma poética, justamente este
novo amor sem corpo. Ainda faz um paradigma do que esta possibilidade que
se tem nos dias atuais para com o amor pode mobilizar em comparação a uma
relação amorosa física. Relatando sobre esta nova ética amorosa, Diego
também fala de como este afeto tem novas formas de se demonstrar neste
mundo virtual. Que, aliás, é outro ponto para nos deter, sobre a demonstração
de afeto que se torna mais sensível, mais delicado.
27
Cau e Juliano se amam. Juliano e Cau não se desgrudam.
Conversam o tempo todo, trocam mensagens pelo celular o dia
inteiro. Deixam recadinhos com frases gostosas e sacanas um
para o outro, trocam carinho por horas e horas, e depois ainda
enviam longos e-mails comentando suas sensações, seus
sentimentos, sua vontade de estar ainda mais juntos. Tanto
sentimento, quase despista os dois mil quilômetros que os
separam. Cau mora perto do mar, Ju sonha com ele.
Dalton e Ana Clara se amam. Clarinha e Dalton quase nunca
se veem. Pouco conversam, trocam algumas mensagens de texto
durante o dia para tomar decisões práticas. Os recadinhos
sacanas foram trocados por frases imperativas e não têm mais
cheiro de perfume, nem gosto de nada. Assistem TV juntos, por
horas e horas, e depois murmuram algum comentário, geralmente
sem réplica. Dalton e Ana Clara vivem juntos em um apartamento
pequeno no centro da cidade.
Cau e Juliano tinham tudo para nunca se conhecerem, mas
pela graciosidade da vida, se encontraram, ao acaso. Dalton e
Ana cresceram na mesma cidade, frequentavam as mesmas
festas, foi fácil se apaixonar. O amor surge em terrenos
improváveis, como uma planta delicada que floresce nas pedras.
O desamor, na contramão, é cultivado vagarosamente, em solos
óbvios, no descuidado diário.
O distanciamento no amor acontece nas pequenas coisas que
deixamos de fazer e dizer, nos consecutivos desencontros, nas
noites mal dormidas. O amor se vai de mãos dadas com a
admiração. Já um amor em distância física é alimentado por
pequenas delicadezas, por todo e qualquer sintoma da vontade de
proximidade. A dificuldade nos ensina a valorizar quem não está
por perto, isto é antigo e certo. Ter alguém ao alcance do braço e
do abraço nos lança ao risco de nos acostumarmos.
Cau e Juliano só se tocam em feriados e datas comemorativas.
Dalton e Ana Clara também. Há quem duvide do futuro do amor de
Cau, Juliano, Dalton e Ana. Mas, no frigir dos ovos, o que importa
é que eles se acreditem. Se o amor pega um trem, avião, táxi, e
ainda sobe dois lances de escada, porque não poderia vencer o
dia de hoje e atravessar a sala para dar um abraço apertado numa
hora imprópria? Cau e Juliano não podem fazê-lo, por enquanto.
Cau e Juliano se amam intensamente, mesmo sem se tocarem, mesmo
sem se olharem. Enquanto Dalton e Ana, que moram juntos, não demonstram
afeto. Vemos aí o quão o amor não depende do corpo, e, talvez, justamente
por isso, ele é tão mais eficaz para Cau e Juliano. Este é um ótimo prenúncio
para tratarmos do amor na psicanálise. Vejamos o porquê.
28
6. O AMOR NA PSICANÁLISE
Pensarmos o amor na psicanálise não é tarefa árdua por que toda a
psicanálise trata justamente do amor. O que é o amor para a psicanálise,
então?
O sujeito, enquanto tal, contém uma falta. Essa falta é o que nos move,
é o que nos faz buscar exatamente o amor. Esta busca de amor advém do
complexo de Édipo, em que somos barrados de concretizar o desejo
inconsciente do incesto, de nos relacionarmos amorosamente com um dos
nossos pais, segundo afirma Freud. Esta lembrança, porém, é recalcada,
esquecida, posta para os recônditos inconscientes. O complexo de Édipo é um
ponto central na psicanálise, pois é a partir disto que se dá a estrutura psíquica
do sujeito e a sua demanda de amor.
Passamos agora a analisar esse alguém a quem amamos. Para a
psicanálise, nós nunca amamos alguém, uma pessoa. O que amamos é a
imagem dessa pessoa, o que ela representa para nós. Temos, então, o nosso
objeto de amor. Não se chama de “objeto” por querer coisificar o outro, mas,
sim, por que, de fato, nunca conseguiríamos amar por inteiro esse outro. Há
sempre algo do outro que escapa desse nosso amor. Logo, o que chamamos
de objeto de amor é esta imagem que formamos do amado e que nesta
imagem está inscrita as características que nos fazem amá-lo.
O amor, então, nada mais é do que um investimento para com este
nosso objeto de amor. Isto, para a psicanálise, é chamado de investimento
libidinal. Esta libido está relacionada ao afeto, ao cuidado, à dedicação
sentimental.
Seguindo este raciocínio, percebemos que o outro está sempre a serviço
dos nossos desejos. Quero dizer, o outro, o nosso objeto de amor, está, na
realidade, me servindo ao amor. O outro que eu amo é o outro que me serve
para amar, por que eu amo aquilo que eu percebo que ele tem; mas que, na
realidade, este outro pode até nem ter de fato o que eu percebo, mas, por
assim eu percebê-lo, eu, então, o amo.
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Lacan falou que amar é querer ser amado, e aí percebemos isto, o quão
o outro está ao nosso serviço, pois é algo que está no outro que me faz querê-
lo para mim.
Amar é querer ser amado por que, de fato, o que queremos é retornar ao
estado primário de nossas vidas, ao estado em que éramos bebês, em que
nossas mães nos devotavam o total amor e atenção. Este é mais um conceito
psicanalítico, o narcisismo.
Para a psicanálise, todos somos seres narcísicos. Afinal de contas, se
não fôssemos, por exemplo, por que buscaríamos parecer belos? Se não
fôssemos narcísicos, por que iríamos buscar nos vestir bem, ao nosso modo?
Para Freud, ao nascermos somos “a majestade, o bebê”, pois os bebês
são seres narcísicos e que suas mães alimentam este sentimento ao passo
que vivem em função de seus filhos. Ao passar do tempo, o bebê começa a
perder esta exclusividade. É no complexo de Édipo que isto se encerra,
quando, ao se deparar com o incesto e ser barrado nisto, a criança, então,
passará o resto da vida buscando ser aceito e amado como antes.
É aí que nasce essa busca nos outros desses elementos que nos são
parentais, advindo de nossos pais. Pois, ao encontrarmos alguém com essas
características, tentaríamos reproduzir o desejo do incesto, já há muito
recalcado.
Porém, nem sempre o nosso objeto de amor tem elementos que advém
de nossos pais. Como veremos a posteriori, também há a possibilidade de
buscarmos alguém que se pareça conosco, um espelho, um reflexo nosso para
amar.
O que está sendo posto neste momento com relevância é o fato do outro
ser sempre algo que eu o amo por ele ter não questões dele, mas, sim,
exatamente por esta pessoa ter questões que são minhas, que dizem respeito
a mim e a minha experiência do complexo de Édipo.
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Diego Engenho Novo mais uma vez vem clareando o nosso pensamento
com o texto “Adeus Nicolai” e nos demonstrando o quão o outro nos é um
objeto de amor e o quanto nós nos aproveitamos deste objeto que é o outro.
Adeus, Nicolai. Percebi hoje que saí sem dizê-lo. Percebi só
agora, que nossa história acabou, mas não foi encerrada. Até
dizer “adeus”, eu permaneço em débito com você. Quebrei a
primeira regra da boa educação, me esqueci das palavrinhas
mágicas. Educação nunca foi nosso forte. A intensidade não nos
deu tempo para as formalidades. O amor é mesmo meio
desbocado.
Por favor, Nicolai, não perca a doçura com a qual lê Clarice
Lispector, nem perca o brilho nos olhos quando é Natal. Por favor,
continue pensando longe enquanto cozinha, continue tomando
seus banhos demorados, continue se divertindo enquanto lava o
carro. Por favor, tenha na agenda mais contatos de amigos que de
deliverys.
Por favor, viva amores ainda mais loucos. Sim, tem gente bem
mais maluca que eu no mercado. Se apaixone perdidamente por
um chinês de fala engraçada, um francês refinado e falante e logo
depois, se entregue também para um geek cheio de humor. Não
se preocupe em entender se é amor ou paixão, você mesmo me
ensinou que estas são definições rasas para traduzir a vontade de
estar junto ou não.
Assim como saí sem dizer “adeus”, você entrou sem pedir
licença. Num dia comum, um sábado cinza, você pediu companhia
para ir até o supermercado e eu implorei que, por favor, não me
deixasse sozinho, nunca mais. Eu nunca soube ser só, Nicolai. E,
ironicamente, também nunca aprendi a ser tão seu quanto você
queria. Eu não queria ser solitário, nem queria ser teu. Queria ser
meu, contigo. Me desculpe.
Eu me despedi de você enquanto o carro se afastava do nosso
antigo bairro, me despedi enquanto chorava no banho, enquanto
comprava roupas novas que você jamais aprovaria. Me despedi
enquanto quebrava suas regras, que não se aplicavam mais a
mim. Me despedi, quando tive vontade de ligar e não liguei,
quando quis responder a você chamando e não o fiz. Me despedi,
mas não disse “adeus”, ainda.
Digo que saí sem me despedir, porque as últimas palavras
mágicas da boa educação, ensinadas por nossas mães, logo após
“por favor” ,“com licença “ e “desculpe-me”, não é “adeus”, mas
“obrigado”. Obrigado, Pequeno.
Adeus, Nicolai.
31
Nota-se neste texto que Nicolai usava amorosamente o eu lírico,
enquanto este mesmo buscava do mesmo objetivo com Nicolai. Porém, o que
não deu certo e fez com que este relacionamento findasse foi que Nicolai não
se mostrou como o eu lírico o percebia, enquanto este, ao que parece,
correspondia a idealização de objeto de amor de Nicolai. O que fez o
sofrimento do eu lírico foi o desinvestimento libidinal no objeto de amor que
quebrou sua imagem enquanto idealizada.
6.1. O AMOR PLENAMENTE SENSUAL E O AMOR INIBIDO EM SUA
FINALIDADE
Freud, em seu escrito “Mal estar na Civilização”, nos traz dois tipos de
amor, o amor plenamente sensual e o amor inibido em sua finalidade. O pai da
psicanálise nos faz refletir, a priori, que sentimento é esse que chamamos de
amor e que o denominamos não somente como sendo as relações familiares e
com os amigos, mas também as relações sexuais que se tem com os parceiros
nos relacionamentos.
Amor plenamente sensual, segundo Freud, é aquele amor genital, que
tem como finalidade o prazer sexual. É o amor instintivo, amor animal,
selvagem. Enquanto o amor inibido em sua finalidade é este amor sensual,
porém, este se mostra sublimado em afeição, em ternura. Este é, então, o
amor sensual que se torna dessexualizado, retirado do âmbito sexual. Assim
acontece com os amigos e familiares, por exemplo. É o afeto.
Logo, para Freud, todo amor é essencialmente sexual, ou, melhor
dizendo, sexualizado. Mas devemos pensar sobre o que Freud considera como
sexualizado. Este termo não vem no sentido consciente, na forma como o
entendemos, mas é uma sexualização da ordem do inconsciente.
Freud vinha afirmando que estes dois tipos de amor era que fundava
uma família e uma sociedade, ao passo que o amor plenamente sensual vinha
com o objetivo de procriação e o amor inibido em sua finalidade, com o objetivo
de conservação a partir dos laços sociais, como os vínculos familiares e a
amizade.
32
6.2. O AMOR ANACLÍTICO E O AMOR NARCÍSICO
Essas são duas formas de amar que Freud traz em sua teoria. Agora
ficará ainda mais claro o quão amamos não uma pessoa inteira, mas é algo
nela que nos faz amá-la. E, assim, amamos esse outro (ou ilusão do outro)
pelo o que ele tem e que queremos para nós ou a nosso desejo. Entendamos o
porquê.
O amor anaclítico é o sentimento que nos leva a afeiçoar o outro por que
nele há elementos que são provenientes de um dos nossos pais e, que, por
isso, eu o amo. Esse outro tem características, que pode ser um timbre de voz,
o penteado, o perfume, o jeito de andar... enfim, este outro tem algo que pode
ser o mais delicado de se perceber, mas que eu, inconscientemente, percebo e
o amo por que isto que percebi neste outro e que me faz amá-lo é algo que
pertence aos meus pais, meus cuidadores. Logo, o meu desejo, nessa forma
de amor anaclítico, é me relacionar amorosamente com um dos meus pais.
Mas, como isso me foi proibido enquanto criança (e aí temos o famoso
complexo de Édipo), eu passo, então, a vida a buscar uma pessoa, um objeto
de amor que me sirva como substituto deste pai ou mãe que eu amo. Este
objeto de amor é uma tentativa de realizar o meu desejo de me relacionar com
um dos meus pais. Por isso, quem ama de forma anaclítica, sempre ama
alguém que tem características parecidas com as de um dos seus pais.
Já o amor narcísico, como o próprio nome diz, se refere a autoimagem.
No amor narcísico se busca amar alguém que se pareça com o próprio amante.
Este objeto de amor, na realidade, deve ser alguém que parece com quem eu
penso que sou ou quero ser ou já fui. Logo, quem ama narcisicamente ama, na
realidade, a si próprio no outro. O amor narcísico é um amor espelhado, em
que se ama o próprio reflexo. Quem ama narcisicamente passa a vida a
procurar um reflexo seu, assim como no mito de Narciso, na Mitologia Grega,
em que este, que nunca amara ninguém, se apaixonou por seu próprio reflexo
no lago.
Freud relatava que este é o tipo de amor que se dá mais comumente
entre homossexuais, em que, por sua vez, estes têm a característica de um
33
narcisismo enaltecido. Nasio, em seu livro “Lições sobre os 7 Conceitos
Cruciais da Psicanálise” nos acrescenta em:
Colocações de Freud sobre a escolha de objeto de amor entre os
homossexuais: eles se tornam o seu próprio objeto sexual, diz
Freud, ou seja, “partindo do narcisismo, procuram adolescentes
que se pareçam com eles e a quem querem amar como sua mãe
os amou”. Amar a si mesmo através de um semelhante é o que
Freud chamou de “escolha objetal narcísica”. E ele esclare que
todo amor objetal comporta uma parcela de narcisismo. (NASIO,
1997, p. 56)
Logo percebemos que Nasio cita que Freud afirma que todo amor objetal
tem uma parcela narcísica. Mas o que isso significa? Significa dizer que tanto o
amor narcísico quanto o amor anaclítico comporta um quê narcísico, pois estas
duas formas de amar buscam no outro questão que não são do amado, mas,
sim, do próprio amante. Amar este outro, este objeto de amor, é, antes de tudo,
identificar nele questões minhas, seja de mim mesmo ou dos meus pais, e que
me faz, então, querê-lo amar. Para a psicanálise, então, amar é uma escolha,
mas uma escolha inconsciente, ditatorial, uma escolha de amar que não nos dá
direito pleno de escolher se amo ou não, eu simplesmente amo.
6.3. POLIAMOR NA PSICANÁLISE
É no sentido do amor ditatorial que o poliamor afunda na teoria
psicanalítica. Se somos narcísicos, queremos, então, este amor só para nós,
legitimando o nosso pedestal, nossa exclusividade. O ciúme existe, e ele barra
essa legalidade do amor ser múltiplo. O sentimento e desejo de posse há para
com este outro que é o nosso objeto de amor. Isso impede o amor liberal, o
amor harmonioso entre três ou mais pessoas. Este amor sempre será
conflituoso, se nos ditames psicanalíticos. O que corrobora é que esta prática
até o presente momento não foi aceita pela Lei e nem há rumores para isto,
pois, simplesmente, este é um tipo de relacionamento que não se sustenta.
34
6.4. O AMOR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA
A clínica da psicanálise só acontece se houver amor. Aquilo que se
chama de transferência psicanalítica na clínica, podemos denominá-la de amor.
A relação terapêutica se dá numa ponte de não só de confiança, mas de
identificação e, em última instância, de amor. Este amor nem sempre aparece
desta forma, pode vir como ódio, por exemplo. Mas o amor é quem vai
estabelecer esta relação psicoterápica.
Assim, surge também o conceito de transferência como peça
decisiva no trabalho analítico, em que o analista é substituto das
figuras parentais do paciente e é depositário de seu investimento
libidinal. Caberá, então ao analista, seguir o caminho dessa libido,
utilizando-se dessa confiança depositária, pelo o paciente, nele,
para o desenvolvimento do trabalho analítico (Brito & Besset,
2008). Assim, o setting terapêutico se dispõe a ser o seu lugar, no
tempo e no espaço, onde as manifestações das fases anteriores
são permitidas e desejadas, objetivando que essas sejam
trabalhadas (Ferreira, 2006). (SCHLÖSSER, DALFOVO &
DELVAN, 2012, p. 569)
Logo, amar é admitir uma falta, é afeiçoar o que se perdeu de/em si e se
encontrou no outro. Neste caso, no analista.
Justamente, é a partir da falta e da ilusão amorosa que é possível
o surgimento da transferência. A emergência do fenômeno
amoroso define-se como a busca no objeto amoroso – o analista –
de algo que ele, o amante, não tem. Sendo assim, nos termos de
Miller, “o primeiro valor que se pode dar a ‘eu amo’ é: ‘sinto falta
de’” (Miller, 2006a, p. 17). (BRITO & BESSET, 2008, p. 694 – 695)
Então, o analista nesta posição de depositário de amor, corre o risco de
suscitar amores que saem da égide da terapia e adentram no campo
romântico. Este amor é duplamente ilusório, pois ama-se não a percepção
daquele sujeito, mas o ato profissional dele, como nos alerta Calligaris em
“Cartas a um jovem terapeuta”.
35
7. O AMOR NO FUTURO
Lutero, no século XVI, com a Reforma Protestante, iniciou uma grande
onda no sentido de responsabilização do sujeito pelo sujeito. Quero dizer,
Lutero, ao ir contra a mais poderosa instituição que já houve, a Igreja Católica,
e pregar que a salvação cristã e a leitura da Bíblia deve ser feita não por
intermédio da Igreja, mas, sim, pelo próprio fiel, põe aí a noção de
responsabilidade que as pessoas devem ter por si.
Neste sentido, muitos foram os eventos que se prosseguiram e que
avançaram neste sentido. Temos como exemplos a Marcha sobre Versalhes,
em 1789, indo contra a monarquia francesa, e todo o desenrolar da Revolução
Francesa, findada em 1799, que resultou numa França republicana.
Eventos da esquerda liberalista geraram um amor de esquerda
liberalista. Essa liberdade veio, mais recentemente, ganhando força com o
avanço da tecnologia, a partir dos anos 50, com a propagação mais intensa
das tecnologias que priorizam o laço social.
Podemos observar que na última metade do século XX a tecnologia
avançou principalmente nos meios em que se trata de comunicação. A
telefonia ficou cada vez mais moderna e ampla, a internet ficou cada vez mais
ágil e expansiva no território mundial, ganhando força o e-mail e as redes
sociais. Os celulares foram buscando cada vez mais interatividade instantânea,
não se contentando com a possibilidade da fala, mas também ganha o viés das
SMS’s, acesso à internet e aplicativos de trocas de mensagens, voz e vídeo.
Logo, é importante ressaltarmos o papel do avanço tecnológico. Como já
foi dito, a tecnologia avançou principalmente no campo da comunicação. Ou
seja, a tecnologia deu primazia aos meios que ligam as pessoas, que as
conectam, que as permite se relacionarem de algum modo.
Logo, percebe-se com tudo isso que a nossa sociedade ficou cada vez
mais horizontalizada. O humano saiu da sombra de uma figura de autoridade,
seja a Igreja, o Estado, a polícia ou até mesmo o pai, que já não representa a
36
figura de uma déspota parental. Mais: nossa sociedade, horizontalizada, ganha
então a necessidade de se relacionar entre si, ganha a necessidade, estando
todos num mesmo nível, da comunicação entre si, ratificando ainda mais esta
sua horizontalidade.
Isto tudo está nos trazendo amores que antes eram tidos como
proibidos, imorais, pela Igreja e o Estado. O amor homossexual é um exemplo.
Estamos caminhando para um amor cada vez mais livre.
Lanço, então, aqui a minha previsão de amor como sendo um
sentimento cada vez mais secular, formando relacionamentos cada vez mais
frágeis, graças ao capitalismo (vide o capítulo “O amor na Contemporaneidade
até os dias atuais”), mas também cada vez mais sinceros.
O amor, a meu ver, também será cada vez mais urgente, tomado cada
vez mais com importância, criando uma contra cultura do capitalismo selvagem
e da violência urbana, que só cresce devido à desigualdade social.
O amor, então, vai adentrar no campo político. Já inicia-se este
processo, com a união igualitária estável assegurada pela Lei.
Com esta nossa sociedade horizontalizada, os preconceitos também
cairão em nome do amor. Teremos cada vez mais brancos casando com
negros, ricos casando com pobres, pessoas mais velhas casando com pessoas
mais novas... E até mesmo o amor sem casamento, por que já não se clama
tanto por um amor institucionalizado. As festas de casamento continuarão,
cada vez mais pomposas. É o que nos restou da sociedade unitária, em que
não se tinha clara a noção de individualidade. Estas festas também continuarão
pelo nosso atual desejo de espetáculo, de eventos grandiosos.
O amor no futuro me parece ser a mais nova invenção de amor. Ele
finalmente não sofrerá mais ecos de nenhuma cultura. Mais igualitário, ele será
totalmente novo. Não discriminará nenhum gênero, raça, classe
socioeconômica ou condição sexual. O amor ainda será ligado à felicidade,
mas isto será, então, um direito de todos.
37
8. (DES)CONSIDERAÇÕES FINAIS
O teu amor é uma mentira
Que a minha vaidade quer
E o meu, poesia de cego
Você não pode ver
Não pode ver que no meu mundo
Um troço qualquer morreu
Num corte lento e profundo
Entre você e eu
O nosso amor a gente inventa
Pra se distrair
E quando acaba a gente pensa
Que ele nunca existiu
O nosso amor
A gente inventa
Inventa
O nosso amor
A gente inventa
Cazuza, “O nosso amor a gente inventa”
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A letra de Cazuza é categoricamente clara, o amor é uma mentira, é
uma invenção, que nos serve por pura distração. Mais: além distrair, serve para
envaidecer.
O amor, depois de tudo o que lemos, realmente é uma invenção sócio-
histórica muito bonita. Em cada época o amor se entrelaçou no pensamento
vigente e se fez valer como o ideal de vida.
É, Cazuza, o amor é uma ilusão. Mas que bela ilusão, não?! E quem foi
que disse que não devemos acreditar nas ilusões, se esta nos faz mais felizes?
Quem foi que disse que o amor, sendo uma mentira, tem que ser desfeito para
que busquemos a (triste) realidade? Se a mentira traz felicidade, se não agride,
mas só faz o bem... Por que não, então, crer no amor?
Esta é uma (des)consideração final por que, apesar de tudo que lemos
aqui, nada será capaz de guiar o nosso afeto ao ponto de controlarmos, por
que o afeto é livre, o amor tem vida própria. Vive até sem corpo, como vimos. O
amor é uma mentira docemente convincente e que todo mundo crê quando
sente.
Renato Russo sabia a importância que tem o amor para as pessoas.
Realmente é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. O amor
sempre se deu no campo do impossível, mas os seus prazeres e dores se dão
no campo do sensível. O amor é urgente, é agora. Vinícius de Morais corrobora
nessa ideia, finalizando brilhantemente a nossa prosa de amor.
“Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.”
Vinícius de Morais, “Soneto de Fidelidade”
39
DAS FONTES QUE BEBI A ÁGUA DO AMOR
“Amores improváveis”. Tv Brasil. Disponível em:
<http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem/episodio/amores-
improvaveis#media-youtube-1>. Acessado em 19/10/2013.
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<http://www.jorgeforbes.com.br/br/imprensa/amor-nos-tempos-digitais2.html>
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BRITO, B. P. M. “Amor e saber na experiência analítica”. Revista Mal-Estar e
Subjetividade. Fortaleza. Vol. VIII, n. 3. P. 681 – 703. 2008.
BULFINCH, T. “O livro de outro da mitologia – Histórias de deuses e heróis”. 11
Ed. Rio de Janeiro. Ediouro. 2000.
CALLIGARIS, C. “Cartas a jovem terapeuta”. 1 Ed. Rio de Janeiro. Campus Ed.
2007.
COMMELIN, P. “Mitologia Grega e Romana”. Ediouro.
FORBES, J. “Aforismos de Jorge Forbes sobre o amor”. Disponível em:
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FORBES, J. “Um novo amor está no ar”. Disponível em:
<http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/um-novo-amor-est%C3%A1-no-
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GHIRALDELLI, P. J. “Como a Filosofia Pode Explicar o Amor”. São Paulo, ed 1.
Universo dos Livros. 2011.
40
GIKOVATE, F. “As relações, no futuro, serão mesmo do tipo poliamor”?
Disponível em: <http://flaviogikovate.com.br/as-relacoes-no-futuro-serao-
mesmo-do-tipo-poliamor/>. Acessado em 19/10/2013.
JORGE, M. A. C. “Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan”. 5 Ed. Rio
de Janeiro. Jorge Zahar Ed. 2008.
MARQUES, L. R. “Homossexualidade: uma análise do tema sob a luz da
psicanálise”. Rio de Janeiro. Universidade Veiga de Almeida. 2008.
NASIO, J. –D., “Lições sobre os 7 conceitos cruciais da psicanálise”. 6 Ed. Rio
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NOVO, D. E. “Adeus, Nicolai”. Palavra Crônica. Disponível em:
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NOVO, D. E. “Amar à Distância”. Palavra Crônica. Disponível em:
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RIBEIRO, V. N. F., FERRAZ, M. A. L., COSTA, A. M. M. “O amor, o feminino e
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41
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TIBURI, M. “’Felicidade?’, com Marcia Tiburi- Programa I” Sempre um papo.
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TIBURI, M. “’Felicidade?’, com Marcia Tiburi- Programa II” Sempre um papo.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=2NSyVuJWBf8>. Acessado
em 19/10/2013.
TIBURI, M. “’Felicidade?’, com Marcia Tiburi- Programa III” Sempre um papo.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=6Ri8ZgKRISY>. Acessado
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TIBURI, M. “’Felicidade?’, com Marcia Tiburi- Programa IV” Sempre um papo.
Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=0kDb6Xq1ZpQ>. Acessado
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TIBURI, M. “O Amor: promessa e Dúvida”. Revista Vida Simples. Ed. 46. P.
56 – 57. 2006. Disponível em:
<http://www.marciatiburi.com.br/textos/quadro_oamorpromessaeducida.htm>.
Acessado em 19/10/2013.
TIBURI, M. “Sobre Amor e Filosofia”. Revista Cult. São Paulo, ano 8, n. 98. P.
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<http://www.marciatiburi.com.br/textos/quadro_amorfilosofia.htm>. Acessado
em 19/10/2013.

O amor em prosa

  • 1.
    O AMOR EMPROSA Artur Mendonça
  • 2.
    É o amorque nos salva da dor da existência.
  • 3.
    SUMÁRIO 1. AMAR PARAQUÊ?.................................................................................... 1 2. O AMOR NA GRÉCIA ANTIGA .................................................................. 3 2.1. EROS E ANTEROS, DEUSES DA PRIMEIRA GERAÇÃO................... 4 2.2. EROS E PSIQUE .................................................................................. 5 2.3. ÁGAPE................................................................................................ 13 2.4. O AMOR PLATÔNICO E A HOMOSSEXUALIDADE.......................... 13 2.5. A AMIZADE ARISTOTÉLICA .............................................................. 15 3. O AMOR NA IDADE MÉDIA ..................................................................... 16 4. O AMOR NA MODERNIDADE.................................................................. 21 5. O AMOR NA CONTEMPORANEIDADE ATÉ OS DIAS ATUAIS............. 24 6. O AMOR NA PSICANÁLISE..................................................................... 28 6.1. O AMOR PLENAMENTE SENSUAL E O AMOR INIBIDO EM SUA FINALIDADE................................................................................................. 31 6.2. O AMOR ANACLÍTICO E O AMOR NARCÍSICO ............................... 32 6.3. POLIAMOR NA PSICANÁLISE........................................................... 33 6.4. O AMOR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA............................................. 34 7. O AMOR NO FUTURO.............................................................................. 35 8. (DES)CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................. 37 DAS FONTES QUE BEBI A ÁGUA DO AMOR............................................... 39
  • 4.
    1 1. AMAR PARAQUÊ? All by myself, don't wanna be All by myself, anymore Hard to be sure Sometimes I feel so insecure And loves so distant and obscure Remains the cure Sozinha, não quero estar Sozinha, não mais É dificil ter a certeza Às vezes sinto-me tão insegura E o amor é tão distante e obscuro Falta a cura Celine Dion, “All by myself” A pergunta é intrigante: “Amar para quê?” Ora, por que o amor é uma cura, diz Celine Dion em sua música. Mas cura o quê? Cura a dor da falta humana. Cura isto que passamos a vida a buscar, esse buraco no peito, isso que nos move constantemente à vida e nos lança no mundo. Existir enquanto humano é admitir uma falta, é compreender que temos um objeto perdido. A vida, então, se resume em procurá-lo. Existir dói. Não é à toa estarmos sempre em busca da felicidade; isto é, portanto, um sinal que estamos eternamente infelizes em nossa posição. E talvez seja até mais doloroso pensar o quão a nossa vida é incompleta, em como ela está sempre por se fazer, e nunca, por efeito, dada como perfeita. Até respirar, que é tão necessário, nos causa certo dano, com o a produção de radicais livres. Até o oxigênio, que nos mantêm vivos, também nos causa prejuízo. A dor de existir é tamanha ao ponto de apreciarmos aqueles que entendem esta nossa dor. Se alguém nos é simpático, logo temos apreço por este. A antipatia é algo horroroso, ninguém quer antipáticos consigo, nem ser a antipatia em pessoa. A empatia é acolhedora, reconfortante. Gente apática é gente chata, gente irrelevante, gente sem relevo, sem relevância; enfim, alguém que desconsideramos.
  • 5.
    2 Ora, interessante épensarmos que as palavras “simpatia”, “antipatia”, “empatia” e “apatia”, todas estas têm uma origem na palavra grega “pathos”, mesma palavra que originou o termo “patologia”. “Pathos”, patologia, para além de uma doença, é uma dor. Estar doente é estar a se doer. Logo, adjetivar alguém de simpático, é querer dizer que o outro entende a nossa dor, a dor da nossa existência. “Simpático”, “sim”, um termo positivo que antecede “-pático”, de doença, de dor. A frase “ele é simpático comigo” implica dizer, então, “ele entende a minha dor”. Assim acontece com a antiapatia. Em geral, não gostamos de pessoas antipáticas. Isso acontece por que elas são anti nossa dor, são contrárias a isso que somos. Empáticos são aqueles que estão conosco, em nossa dor. “Em” é um termo que significa estar inserido, estar dentro, estar no local. A palavra “apatia” nos traz o prefixo “a” que significa “não”. Apáticos não são contrários a nossa dor (como os antipáticos), mas estes não são com a nossa dor. Logo, estamos todos a nos doer eternamente. Estamos a (con)viver com a dor que é ser e existir e que nos move para algum lugar. E que lugar é esse? Ora, este lugar é o amor. É amor que tem a capacidade de nos salvar da dor da existência, de nos curar dos efeitos dessa doença que é o ser, essa doença que é nos ser, a doença que é o eu. Mas, o amor como cura dessa dor, tem efeitos colaterais. O amor é perigoso, está em toda grande tragédia, mas em todo final feliz também. O que dizer de Romeu e Julieta?! O amor também se inscreve em seus líquidos. O vinho, que criou laços entre Tristão e Isolda e que marcou o sacrifício de Jesus. O amor é improvável, é impossível. Ele costuma nascer onde não o cabe, só por implicância, só para se fazer valer por si. O amor é imperioso, imperativo, decidido. “O amor é fogo, que arde sem se ver”. O videoclipe de Ed Sheeran, da música “Give me Love”, retrata esse amor indissolúvel, ditatorial. Eros (chamado de Cupido na Mitologia Romana) desperta e sai às ruas, flechando as pessoas, unindo os casais, e nem sempre são relacionamentos a dois. Este clipe é um prenuncio para falarmos do amor na Grécia Antiga.
  • 6.
    3 2. O AMORNA GRÉCIA ANTIGA Os viventes do berço do conhecimento ocidental investiram muito do seu tempo para este sentimento. O amor era o cerne de muitas discussões entre os gregos clássicos. Platão muito se debruçou sobre o amor, como nos seus diálogos “Fedro” e “O Banquete”. Aristóteles, que vem em seguida de Platão, vai na contramão do amor, mas sem perder de vista a relação com este e os seus efeitos. Na Grécia Antiga, até um deus próprio vem sendo posto como o próprio amor, Eros. Interessante, antes de começarmos a pensar neste amor dos antigos gregos, abdicarmos dos nossos pré-conceitos, conceitos pré-estabelecidos. O amor, neste período, tem uma conotação e sentido sensivelmente diferente dos dias atuais. Inclusive, como veremos, ele será marginalizado em certo período da História (e, por que não dizer, de certo modo, até hoje). Mas, apesar de sê-lo diferente do amor contemporâneo, desta nossa vivência atual deste sentimento, este sentimento da Grécia Antiga ainda ecoa até os dias atuais. Porém, só ecoa. Uma poetisa desta época chamada Safo, que viveu entre no século VII a.C., na Ilha de Lesbos, foi uma das personagens que se destacaram, não só por falar de amor, mas, também, por unir este sentimento ao sexo, aos desejos do corpo. Proibido de serem lidas na Idade Média, as obras de Safo foram queimadas pela Igreja. Num de seus escritos salvos, Safo cita: “O Amor agita meu espírito como se fosse um vendaval a desabar sobre os carvalhos.” Deste modo, percebemos que para pensarmos sobre amor nesta época, se faz necessário um passeio sobre filosofia, mitologia e a posição feminina na Grécia Antiga, para que, assim, possamos abordar este sentimento tão nobre quanto perverso para os gregos clássicos.
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    4 2.1. EROS EANTEROS, DEUSES DA PRIMEIRA GERAÇÃO Impossível falar de amor sem nos reportarmos com primazia à Mitologia Grega, onde o amor era um deus. Um não, mas dois deuses. Dois Eros. O primeiro Eros vem da primeira geração de deuses gregos, que contrapõe Anteros, enquanto o segundo Eros que aparece nesta Mitologia surge na terceira geração, como filho de Afrodite. Segundo esta Mitologia, tudo começou com Caos, o primeiro dos deuses. Caos era uma forma vaga, indizível, indefinida. Relacionado com desordem, desorganização, Caos foi o princípio de tudo o que existe, sendo inexorável e primordial à criação. Este, sozinho, gerou a Noite e o Érebo. A Noite era considerada a Mãe dos deuses e Deusa das Trevas, enquanto Érebo, metamorfoseado em rio e posto no Mundo Inferior, era tido como o próprio Inferno. Em seguida, Noite e Érebo se desposaram e geraram o Éter e o Dia. E assim nasceu Eros, com a junção de Noite e Érebo. Portanto, Eros da primeira geração de deuses gregos é um deus que une as coisas. Ele é por excelência uma força capaz de reunir, juntar, misturar, agrupar os elementos. E ele age não somente entre os humanos e deuses, mas também na natureza. Quando dois elementos se juntam, se aproximam, isto foi graças a força de Eros. Por exemplo, quando misturamos açúcar na água, esta mistura só acontece pela força de Eros, segunda esta mitologia. Anteros é o oposto de Eros e tem a capacidade de separar, desunir, desagregar, afastar. Este deus também é associado ao ódio e à discórdia. Eros e Anteros são dois dos deuses mais supremos, não superando somente o Destino, implacável, de quem ninguém pode fugir, seja humano ou deus. Logo, este mito de Eros nos remete a pensarmos sobre a força do amor como união, como afinidade. Portanto, este deus se põe como a força da criação pela junção. Mais: esta força é análoga ao seu oposto, Anteros. O amor, então, é uma força criadora que está correlacionada com o seu sentimento oposto, está paralela ao ódio, a desunião.
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    5 2.2. EROS EPSIQUE Este é o Eros da terceira geração de deuses da Mitologia Grega. Na Mitologia Romana, era conhecido como Cupido. Este Deus do amor era filho de Afrodite (ou Vênus, como é conhecida na Mitologia Romana) e, por vezes, é representado por uma imagem pueril, sendo uma criança alada, munida de arco e flecha. Esta representação de Eros se refere ao caráter maligno que o amor tem. Freud chamava a criança de pequeno perverso polimorfo. E é assim que a Mitologia Grega representa o amor, como uma criança perversa, armada, flechando indiscriminadamente as pessoas e despertando o amor nestas. Eros também ganha esta imagem pela a infantilidade que há no amor, pelo modo que este sentimento se dá, sendo-o irracional e impulsivo. Esta Mitologia conta a estória que havia numa cidadezinha uma moça chamada Psique. Uma jovem muito bela, em que todos os rapazes lhe entoavam elogios e louvores. Isto deixa Afrodite, Deusa da beleza e da fertilidade, irada, enciumada. Como podem os homens se encantar por uma mortal e esquecerem-se de venerar primordialmente sua Deusa mais bela?! Afrodite, então, resolve convocar o seu filho, Eros, para que a castigue e sacie seu ódio pela inveja da beleza de Psique. “- Castiga, meu filho, aquela audaciosa beleza; assegura a tua mãe uma vingança tão doce quanto foram as amargas injúrias recebidas. Infunde no peito daquela altiva donzela uma paixão por algum ser baixo, indigno de sorte que ela possa colher uma mortificação tão grande quanto o júbilo e o triunfo de agora.” (BULFINCH, 2000, p. 100.) Eros, então, prontificou-se a atender a mãe. No jardim de Afrodite há duas fontes, uma doce e a outra amarga. Eros encheu os seus vasos de âmbar com as duas fontes e foi ao encontro de Psique, pronto para realizar os pedidos da mãe. Psique encontra-se a dormir quando Eros, invisível, invade o seu quarto e derrama algumas gotas da fonte amarga nos lábios da bela jovem. Enquanto
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    6 isso, Eros passasua flecha na pele de Psique, admirando a sua beleza, quase que tomado pela piedade. Logo Psique acorda e, assustado, Eros se fere com a sua própria flecha. Tomado pelos poderes que a sua flechada causava, Eros cai de amores por Psique e aí só pensa em desfazer o mal que lhe fez. Então, Eros derrama a fonte doce nos cabelos de Psique. A partir daí, esta não mais contou vantagem pela sua beleza, apesar de ainda ser desprezada por Afrodite. Psique, mesmo sendo muito linda, não conseguia casar com ninguém. Apesar de sua grande beleza, esta não despertava o amor em nenhum homem. Mesmo as duas irmãs mais novas, que nem eram tão belas quanto a jovem, já haviam se casado. Os pais de Psique, preocupados com a situação, resolveram então levá- la ao oráculo de Apolo. Lá, lhes foi dito: “A virgem não se destina a ser esposa de um amante mortal. Seu futuro marido a espera no alto da montanha. É um monstro a quem nem os deuses nem o os homens podem resistir.” (Bulfinch, p. 101) Esta notícia abate todos de tristeza. Porém, Psique, já conformada com o seu destino, convoca os pais a levá-la para a montanha. Chegando ao alto da montanha, todos retornam enquanto Psique fica sozinha e se põe a chorar. A jovem chora até cair no sono. Zéfiro, o vento do oeste, então a ergue e a leva para um vale florido. Ao acordar, Psique vislumbra um bosque muito bonito, com fontes de água cristalina e com um palácio magnífico. Este palácio tinha colunas de ouro e era repleto de obras de arte. Psique fica encantada e adentra no palácio. Lá dentro desta bela construção, vozes ecoam para Psique. “- Soberana dama, tudo o que vês é teu. Nós, cujas vozes ouves, somos teus servos e obedeceremos as tuas ordens com a maior atenção e diligência. Retira-te, pois, para o teu quarto, e repousa em seu leito e, quando estiveres descansado, poderás banhar-te. A ceia te espera no aposento adjacente, quando te aprover ali te sentares.” (BULFINCH, 2000, p. 102)
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    7 Psique seguiu asrecomendações dos servos e, após descansar e banhar-se, foi à ceia no aposento adjacente, onde uma mesa farta surgiu diante de seus olhos. Enquanto se alimentava, instrumentos musicais eram tocados por seres invisíveis, só para o seu deleite. Enquanto ao seu esposo, Psique nunca o via. Ele sempre vinha ao anoitecer e lhe enchia de carícias, as quais lhe encantavam. Porém, ele saia antes do amanhecer, impedindo-a de vislumbrar o seu rosto, sempre se escondendo na escuridão. Psique o suplicava para que lhe deixasse conhecer o seu amado, porém, ele não só não permitia como também lhe aconselhava que nunca tentasse vê-lo. Assim, Psique se aquietou. Ao passar do tempo, a lembrança da família despertou saudade na moça, que começou a considerar todo aquele palácio como uma bela prisão. Ela, então, ao anoitecer, contou-lhe seus sofrimentos ao seu esposo, que, a muito custo, lhe permitiu que suas irmãs a visitasse. Psique convocou Zéfiro e o pediu, como combinado com o seu esposo, que trouxesse suas irmãs. Logo estas chegaram e ficaram maravilhadas com o palácio e a vida que Psique tinha. Tomadas pela cobiça, as irmãs da jovem lhe indagam sobre o vosso esposo. Então, com muita relutância, Psique confessa que nunca o vira. As irmãs de Psique, então, gerando-lhe desconfiança, a relembra do que disse o oráculo. “- Lembra-te [...] que o oráculo disse que tu te casarias com um monstro horrível e tremendo. Os habitantes deste vale dizem que o teu marido é uma terrível e monstruosa serpente, que te nutre, por enquanto, com alimentos deliciosos a fim de devorar-te depois. Ouve nosso conselho. Mune-te de uma lâmpada e uma faca afiada; esconde-as de maneira que o teu marido não possa achá- las, e, quando ele estiver dormindo profundamente, sai do teu leito, traze a lâmpada, e vê, com os teus próprios olhos, se o que dizem é verdade ou não. Se é, não hesite em cortar a cabeça do monstro e recuperares a tua liberdade.” (BULFINCH, 2000, p. 103- 104)
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    8 Psique, impressionada comos conselhos das irmãs, resolve acatá-los. Ao anoitecer, enquanto o seu esposo dormia profundamente, Psique pegou a lâmpada e a faca e foi, finalmente, ver o rosto de quem todas as noites o aprecia dando-lhe amor. Quando Psique, então, aproxima a lâmpada do rosto de seu esposo, não vê um monstro ali, mas um lindo deus, de cabelos encaracolados e loiros, pele rosada e com um par de asas, com penas brilhantes e mais brancas que a neve. Ao tentar vê-lo mais de perto, uma gota de óleo quente cai da lâmpada sobre o ombro de Eros, que acorda e encara Psique. Assustado, Eros sai, sem dizer nada, voando pela janela. Numa tentativa de segui-lo, Psique corre atrás de Eros e cai da janela. O Deus do amor, ao vê-la caída no chão, retorna. “- Tola Psique, é assim que retribuis o meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu me julgavas um monstro e estava disposta a cortar-me a cabeça? Vai. Volta para junto das tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir aos meus. Não lhe imponho outro castigo, além do de deixar-te para sempre. O amor não pode viver com a desconfiança.” (BULFINCH, 2000, p. 104) Estendida ao chão, Psique se põe a chorar, enquanto Eros prossegue o seu voo. Quando se recompõe, Psique percebe que o palácio e os jardins haviam sumido, ela se encontrava num campo aberto, próximo da casa de suas irmãs. Psique vai em busca de suas irmãs, que se regozijam de sua sorte e creem que, agora, com Eros solteiro, podem ter a mesma sorte da irmã de se casar com um deus. Então as duas irmãs de Psique vão ao alto da montanha e convocam Zéfiro para levá-las até Eros. Lançam-se, então, do alto da montanha. Porém, Zéfiro não as carrega, e morrem ao se despedaçarem no encontro com chão. Psique passa, então, a vagar, dia e noite, a procura de seu amado. Numa de suas andanças, a bela moça vê no alto de uma montanha um grande templo e se enche de esperança de encontrar Eros neste lugar. Porém, ao entrar no templo, Psique encontra o local muito desorganizado, com montes de trigo e espigas espalhados e desordenados. Psique resolve ordenar toda essa
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    9 confusão, crendo quenão se deve negligenciar o culto de nenhum deus, mas pelo contrário, cultuar a todos. Assim, Deméter (ou Ceres, na Mitologia Romana), Deusa do amor maternal e das plantas que brotam dos grãos, era esta a Deusa a quem o templo cultuava, se apiedou de Psique e disse-lhe: “- Ó Psique, em verdade digna de nossa piedade, embora eu não possa proteger-te contra a má vontade de Vênus, posso ensinar-te o melhor meio de evitar desagradá-la. Vai e voluntariamente rende-te à tua deusa e trata de conseguir-lhe o perdão pela modéstia e submissão, e talvez ela te restitua o marido que perdeste.” (BULFINCH, p. 105-106) Psique, então, vai ao templo de Afrodite, já preparando o seu discurso de perdão para a Deusa da beleza. Ao encontrar Afrodite, esta lhe aparece com a ira estampada em sua fisionomia. “- Tu, a mais ingrata e infiel das servas, lembraste, afinal, que tens realmente uma senhora? [...] Ou talvez vinheste para ver teu marido enfermo, ainda guardando o leito em consequência da ferida que lhe causou a amada esposa? És tão pouco favorecida e tão desagradável, que o único meio pelo o qual podes merecer o teu amante é a prova de indústria e diligência. Farei uma experiência de tua capacidade como dona de casa.” (BULFINCH, p. 105-106) Afrodite, então, ordena que Psique vá até o celeiro de seu templo e separe o trigo, aveia, milhete, ervilhacas, feijões e lentilhas, que se encontram em grande quantidade e desordenados, que serviriam de alimento aos pombos sagrados. A Deusa, antes de partir, ordenou que a bela mortal fizesse uma organização em qualidade dos grãos e que terminasse antes do anoitecer. Psique fica inerte, abismada, ao perceber que esta tarefa é impossível, pela enorme quantidade de grãos e pelo pouco tempo para a realização. Eros, então, incita as formigas a se apiedarem de Psique. Logo, estas trabalham e separam todos os grãos em qualidade, assim como Afrodite ordenou que
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    10 Psique fizesse. Aofim do dia, ao retorno da Deusa, esta se torna irada ao perceber que a tarefa que ela impôs foi realizada. “Isto não é obra tua, desgraçada, mas daquele que conquistaste para o seu infortúnio e para o teu” (Bulfinch, p. 107). Dando-lhe um pedaço de pão preto para alimentar-se Afrodite, em seguida, partiu. No dia seguinte, mandou que chamassem Psique e a ordenou: “- Olha para aquele bosque que se estende à margem do rio. Ali encontrarás carneiros pastando sem um pastor, cobertos de lã brilhante como ouro. Vai buscar-me uma amostra daquela lã preciosa colhida de cada um dos velocinos.” (BULFINCH, 2000, p. 107) Porém, Psique ao aproximar-se das margens do rio, o rio deus alertou-a sobre o perigo que são suas correntezas e a ameaça que são os carneiros. Durante o dia, estes animais são dominados por uma raiva brutal, que mata, com os seus chifres pontiagudos, qualquer mortal que se aproxime deles. Mas, alertou o deus rio, que após o sol de meio-dia, quando o rio aquietar-se e os carneiros saírem em busca de sombra, ela poderá atravessar o rio e pegar a lã dos carneiros que ficarão nos arbustos e troncos das árvores. Assim Psique fez, conseguindo realizar mais uma tarefa imposta por sua senhora. Ainda assim, a mortal não foi bem recebida por Afrodite, que mais uma vez desconfiou de sua capacidade e lhe deu mais uma tarefa. Afrodite ordenou a Psique que fosse ao Mundo Inferior e que trouxesse, numa caixa, um pouco da beleza de Perséfone, pois a beleza da Deusa estava cansada, por cuidar de seu filho enfermo. Psique, conformada que não conseguiria realizar tal tarefa imposta pela Deusa, decide acabar com a sua própria vida, se jogando do alto de uma torre. Porém, antes de se jogar, Psique ouve uma voz, vindo da própria torre, indagando-lhe sobre o seu sofrimento. Ao explicar o que acontecia, a voz lhe ensinou como adentrar no Inferno por uma gruta, passar sem ser percebida pelo Cérbero, o cão de três cabeças, e a convencer Caronte, o barqueiro, a
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    11 atravessá-la o rioe trazê-la de volta. A voz ainda a alertou para que não abrisse de modo algum a caixa que Perséfone lhe entregaria. A bela jovem, então, seguiu todas as recomendações da voz da torre e chegou sã e salva ao reino de Hades. Encontrou o palácio de Perséfone e, rejeitando o banquete que lhe foi oferecido, pegou a caixa com a beleza das deusas e partiu de volta ao mundo dos vivos. Tendo retornado dos perigos infernais com o dever cumprido, Psique quis experimentar daquela beleza que continha na caixa, só para, aos olhos do amado, parecer-lhe ainda mais bela. Porém, na caixa não continha a beleza, mas, sim, o sono infernal, que, livre da prisão da caixa, tomou posse de Psique, que caiu, como que desfalecida, no meio do caminho. Eros, já reestabelecido de seu ferimento, sentindo-se saudoso da presença de sua amada, voa ao seu encontro. Encontrando Psique caída ao chão, aos efeitos do sono, Eros fecha a caixa, prendendo o sono dentro dela. O Deus, então, acorda Psique e fala-lhe: “Mais uma vez, quase morreste devido a tua curiosidade. Mas, agora executa exatamente a tarefa que lhe foi imposta por minha mãe e cuidarei do resto” (Bulfinch, p. 109). Assim, Eros voa até Zeus, pedindo sua intercessão ao amor que o destino lhe havia reservado. Zeus, piedoso, interviu no caso, falou com Afrodite e lhe abrandou. Então, na assembleia dos deuses, Zeus, com uma taça de ambrosia, tornou Psique imortal. Eros e Psique casaram-se, enfim, e viveram eternamente juntos, tendo, mais tarde, uma filha, chamada Prazer. Este mito de Eros e Psique é, obviamente, uma alegoria. Podemos analisá-lo da seguinte forma. Eros, neste mito, se mostra o amor paciente, o amor que tudo crê, tudo suporta e tudo espera. Ora, Eros acreditou, confiou em Psique, que ela não o trairia em seu pedido de permanecer no anonimato. O amor de Eros também suportou os erros de Psique, e a perdoou. E Eros ainda esperou Psique em suas tarefas impostas por Afrodite, mesmo que ainda intervindo a seu favor. Enquanto a Psique, esta palavra grega significa não somente “alma”, mas também “borboleta”, demonstrando, como nos diz Bulfinch (2000), que o
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    12 amor é belocomo a borboleta, símbolo da primavera, e que deixara sua vida rastejante para, do túmulo, emergir bela e sensível. Se tomarmos “psique” enquanto “alma”, podemos fazer o paralelo da “alma” como “mente”, assim como na palavra “psicologia”, que tomou “psique” como mente e passou a significar “o estudo da mente”. “Psique” enquanto “mente pensante” se corrobora no mito de Eros e Psique na curiosidade e desconfiança que esta personagem demonstra. Mais: esta personagem também, nesta lenda, se mostra menos sábia que Eros, tendo o papel de desenrolar todos os impasses da estória. Assim como Eros, enquanto amor, filho da beleza, se mostra teimoso, em desobedecer as ordens da mãe, e desastrado, ao se ferir com a sua própria flecha. Ou seja, este mito nos traz o amor como improvável, insistente, esperançoso, paciente, piedoso e ainda nos faz pensar que a razão não é o melhor caminho para a concretude amorosa. Mais: quando juntamos amor e razão, temos, assim, o prazer. Há ainda outra lenda de Eros. Este, como já foi dito, era, por vezes, representado por uma imagem de uma criança. Afrodite, preocupada com o futuro de seu filho, reclama a Zeus que Eros já está demorando muito para crescer e se tornar adulto. Zeus, então, concede-lhe outro filho, Anteros. Só após o nascimento de Anteros é que Eros cresce, no mesmo compasso de seu irmão. Assim, tendo esta lenda como alegoria, podemos analisar que esta estória nos traz o amor como antítese do ódio, como um sentimento que só cresce por que é paralelo com o seu oposto. São dois lados de uma mesma moeda. Este mito muito se assemelha com o deus Eros da primeira geração dos deuses da Mitologia Grega. Isto ocorre pelas versões que há das estórias míticas, graças à tradição da oralidade na Grécia Antiga. Eros e Psique, Eros e Anteros, são belos mitos que nos mostram um pouco da visão do amor na Mitologia Grega, assim como também nos fazem perceber o quão este sentimento é valorizado entre os gregos e romanos, já que estes mitos também fazem parte da Mitologia Romana, mas com os deuses tendo outros nomes, como foi explanado durante todo o texto.
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    13 2.3. ÁGAPE Falar deágape na Grécia Antiga é remeter ao amor altruísta, que ama sem exigir reciprocidade. Também tido como amor familiar ou amor pelo trabalho, é o sentimento de amor, de querer bem, de querer a felicidade do outro. Este amor entende este querer bem a tudo o que existe. 2.4. O AMOR PLATÔNICO E A HOMOSSEXUALIDADE Platão, discípulo de Sócrates, foi um filósofo da Antiga Grécia que se debruçou sobre o amor, sobre Eros. Interessante pensarmos, primeiramente, sobre o amor platônico, tão conhecido e, de certo modo, vulgarizado. Como Marcia Tiburi em dois seminários, “Felicidade?” e “Democratizar o Amor e a Amizade I”, nos expõe, Platão nomeava o amor e a felicidade com um só termo, daimon. Logo, Platão coloca o amor e a felicidade com o mesmo juízo de valor. Segundo este filósofo, daimon era o amor (ou a felicidade) real, verdadeira, e que para alcançarmos o daimon era necessário buscarmos a virtude. E, para alcançar a virtude, deveríamos buscar o Bem, o Belo e a Verdade. Estas são virtudes supremas, segundo Platão. Ao atingirmos este nível, chegaríamos, então, no campo das ideias. Este é o mundo que não está neste mundo em que vivemos, no mundo sensível, dos sentidos, mas é algo que vai para além do físico. Assim é como em sua alegoria da caverna, em que fazemos a análise de que somos nós os prisioneiros na caverna e o campo das ideias é este em que devemos buscar, fora da caverna, fora deste mundo. Logo, amor platônico não é exatamente o amor impossível, mas, sim, o amor que não está no mundo físico, concreto, mas neste tal campo das ideias, e que devemos procurá-lo, caso queiramos o real amor. Porém, curioso pensarmos sobre o amor platônico e a virtude da Beleza. Marcia Tiburi, no seminário já citado, “Democratizar o Amor e a Felicidade I”, nos acrescenta neste pensamento. Na Grécia antiga, o belo era o corpo
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    14 musculoso, bem definido.Isto se expressa em todas as obras de arte da época em que se exibe músculos e virilidade. Mais: o belo era o corpo masculino. Logo, pensar no amor, no daimon, a partir da virtude da Beleza, é, então, amar o corpo masculino. Ainda temos a noção de que na sociedade grega desta época, a mulher não tinha espaço. Uma comprovação disto vem com Platão, no escrito “O Banquete”. Ao iniciar a sua fala, quando pretende pensar sobre a filosofia e amor, pede para que todas as mulheres se retirem do recinto. A figura feminina estava fora de cena. A mulher na Grécia Antiga era vista como um ser para o lar e a procriação, somente. Com algumas exceções, como Safo, poetisa já citada no início do texto, a mulher era tida como Chico Buarque bem exemplifica em sua música “Mulheres de Atenas”, mulheres omissas. Então, pensar sobre o amor na Grécia Antiga, é, antes de tudo, pensar no amor como Belo e sendo, então, homossexual, já que só os homens tinham o direito a filosofar e filosofar sobre o amor; e o Belo, como já foi dito, era o corpo masculino. O amor homossexual era normal e comum na Grécia Antiga. O próprio Sócrates morreu nos braços de seu amado, Alcibíades, um general grego. Também não poderíamos esquecer “Fedro”, um triângulo amoroso homossexual escrito por Platão. Até em sua mitologia a Grécia se mostra aberta em relação ao amor homossexual. Há, por exemplo, o amor entre Apolo e Jacinto, em que finda no ato contra a vida deste último por Zéfiro, enciumado pelo o seu amado Deus Apolo. Ainda há a bissexualidade de Laio, que se apaixona pelo príncipe Crisipo em sua juventude, e, anos após, se casa com Jocasta, gerando Édipo. Enfim, a mulher não tinha lugar no amor nesta época. Não se tinha um jeito de pensar ou uma forma de amar femininamente, a não ser que seja pela total omissão. Marcia Tiburi ainda verbaliza que o amor platônico é um amor homossexual, é um amor entre homens, pegando este amor platônico como o amor para além do que vemos, para além deste mundo sensível, buscando amar no campo das ideias, no amor (ou felicidade) real, no daimon. Platão, em seu pensamento, dava lugar central este eros, a este daimon.
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    15 2.5. A AMIZADEARISTOTÉLICA Aristóteles, discípulo de Platão, vai contra este quando tira eros do centro de seu pensamento. Aristóteles vai priorizar, digamos assim, um outro tipo de amor, a philia. Mais uma vez Marcia tiburi nos guia neste pensamento. A philia para Aristóteles é a amizade. Este é o centro de seu pensamento, quando põe a importância na relação amigável. Esta relação define-se como uma disposição de caráter. Quer dizer, para Aristóteles não há sentimento na amizade, mas o caráter. Neste sentido, podemos dizer que amizade aristotélica vai na contra mão do amor mitológico, sendo racional e ético; se pondo numa prática de reflexão de um comportamento para com o outro. Ainda há três tipos de philia. Há a amizade por interesse, que é uma amizade parcial, que só há relação enquanto há ganhos, ao menos, para uma das partes. Há também a amizade por prazer. Esta é uma philia que une os membros enquanto há prazer nesta relação. Este prazer pode se dar, por exemplo, na personalidade do outro, que lhe agrada, na espontaneidade do outro, que lhe diverte. Esta amizade também é parcial, segundo o filósofo. Há ainda uma última forma de amizade. Segundo Aristóteles, esta é a amizade verdadeira, que é a philia por admiração. Esta é a relação que há enquanto existe uma admiração nos laços ou para com os membros deste laço. É somente nesta amizade que existe, de fato, amigos, quando se consegue admirar o outro pelo o que o outro é. Curioso ainda pensarmos a amizade no casamento. Nesse sentido da philia aristotélica, podemos pensar que é justamente a amizade por admiração que deve sustentar um matrimônio, haja vista as intempéries de eros, como visto na Mitologia Grega. É neste tipo de amor, enquanto amizade que não há sentimento, que a “philia” compõe a palavra “filosofia”, como amor a sabedoria, ou, neste sentido, admiração pela sabedoria. Sendo, assim, o filosofar uma escolha racional e ética.
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    16 3. O AMORNA IDADE MÉDIA “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor?” Luís de Camões
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    17 Não, Camões. Issonão é amor. Explico o por quê. Luís Vaz de Camões, poeta português, não viveu na Idade Média, mas, sim, no começo da Idade Moderna, século XVI. Porém, este poema de Camões pode nos explicar mais sobre o amor na Idade Média do que o amor na própria Idade Moderna. A Idade das Trevas, como é pejorativamente conhecida, foi o período entre o século V e XV, marcado principalmente pelo advento do cristianismo e da Igreja Católica. Foi a época em que as autoflagelações, os cilícios (cintas feitas de arames pontiagudos, normalmente usadas na perna, como forma de causar dor intensa) e outras formas de (auto)tortura foram extremamente utilizadas. Todas estas formas de causar dor a si próprio foram, geralmente, em nome de Deus, incitadas pela Igreja. Isto era uma forma de se aproximar de Deus, pois estes atos tinham como objetivo a purificação do sujeito, livrá-lo do pecado pela dor, assim como Cristo fez na Cruz. Segundo a crença cristã, foi na Sexta-Feira da Paixão que Jesus, em sua crucificação, lavou o pecado da humanidade. Concentremo-nos, então, neste termo, “paixão”, citado na nomenclatura desta data. Interessante lembrar que o período compreendido entre a prisão de Jesus, no Monte das Oliveiras, até a sua ressurreição, é chamado de Paixão de Cristo. Notemos também que não só nos referimos a Jesus quando falamos em paixão, mas também a Paixão de Joana D’Arc. O termo paixão, logo, é associado ao sofrimento. A etimologia nos ajuda a entender. A palavra “paixão”, assim como “simpatia” e seus afins, definido no começo do texto, também tem como radical a palavra grega “pathos”. Ou seja, paixão está aliada a doença e, indo além da doença, paixão está relacionada à dor. Na Grécia Antiga, ao contrário do amor, que era considerado uma dádiva dada pelos deuses, a paixão era considerada uma doença. Pior: uma doença em que o doente gostava de estar doente. A paixão, assim, cabe perfeitamente ao falarmos “Paixão de Cristo”, afinal de contas, Jesus sofreu, foi chicoteado, humilhado e crucificado. Assim
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    18 como Joana D’Arc,jogada à fogueira. Houve, com estes dois, o sofrimento e a dor como marca de sua história. E assim eles quiseram e prosseguiram em suas labutas. Uma das expressões para designar que estamos apaixonados por alguém é dizer que se está “caído de amores”. Ora, mas o que nos derruba são justamente as doenças, como o próprio termo “prostrado” se refere. Então, neste ínterim da paixão, nos colocamos prostrados, como quem se prostra com uma doença. Mais uma exemplificação de quanto a paixão está ligada com a doença e com a dor. E agora, finalmente, retornaremos a Camões e podemos pensar em como o seu poema nos traz esta visão de paixão. “Fogo que arde sem se ver”... “Ferida que dói e não se sente”... “Contentamento descontente”... Toda estas linhas de Luís Vaz de Camões estão permeadas desta paixão, enquanto sentimento dolorido e com um certo caráter patológico. É um sentimento que dói, mesmo sem doer; é algo que dá um descontentamento contente. É um sentimento que proporciona opostos. Assim é a paixão, que é uma dor que gera prazer em quem a sente. Toda a Idade Média foi regida por este sentimento. Neste período, o amor sai de cena, dando lugar à paixão. A dor é valorizada ao ponto de ser sacralizada. Porém, ainda há resquícios do amor da Grécia Antiga no cristianismo e na Bíblia. Um dos trechos que exemplifica isso é o livro de 1 Coríntios, capítulo 13, do versículo 4 a 8, quando nos traz: ⁴O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece, ⁵não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal; ⁶não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade; ⁷tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. ⁸O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
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    19 Mas, ora, esteamor que tudo sofre, tudo crê e tudo espera não é justamente o amor de Eros por Psique, como já o analisamos?! Também o amor ágape vem, até os dias de hoje, sendo usado como definição do amor cristão. Mas, como podemos perceber, é a paixão que vigora no seio bíblico. A Igreja Católica, neste período, não só dispensa o amor, como também o demoniza. Exatamente isso, o demoniza, no sentido etimológico. Como já foi dito, o real amor, segundo Platão, só era alcançado através do daimon, que era as virtudes que levavam ao campo das ideias. A palavra “daimon” originou a palavra “demônio”, o qual foi e é ferrenhamente desprezado pelo cristianismo. Mas, ora, daimon é justamente a busca do Belo, do Bem e da Verdade, e nada há de maléfico nisso. A Igreja, para prevalecer como única Verdade, como Bondosa e Bela, inverte todos os conceitos platônicos e se põe com o mesmo juízo de valor, rechaçando o pensamento dos gregos antigos. Podemos analisar isto da seguinte forma. Um dos meios da Igreja, então, de se pôr como Bela é invertendo e pondo um cunho negativo ao que antes era tido como Belo, e, assim, adquirindo ela, a própria Igreja, o status de Bela. O que era Belo na Grécia Antiga era o corpo masculino e pensar no amor Belo era pensar no amor homossexual entre homens. Assim, a Igreja põe o caráter maléfico sobre a homossexualidade e constrói uma nova moral sobre o corpo, dizendo que este não deve ser mais exposto, mas, sim, coberto, protegido, escondido. Aí, o erótico (o que advém de “eros”) é proibido. Enquanto ao Bem e a Verdade, a própria Bíblia exemplifica isso claramente, ao trazer para si, para sua própria crença, os conceitos platônicos. Isso se dá no livro de João, capitulo 14, versículo 6, na fala de Jesus em: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” Logo, com esta fala, Cristo não se coloca como UM caminho, UMA verdade, mas, sim, como O Caminho, A Verdade. Mais uma vez a Bíblia ojeriza o pensamento do filósofo grego, se opondo, assim, à filosofia, já que a própria filosofia dizia que devemos procurar o Bem e a Verdade. Isto também se soma à proibição destes escritos platônicos de serem lidos nesta época. As obras platônicas eram guardadas em mosteiros, ao qual somente o clero tinha acesso.
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    20 Toda esta inversãocristã dos conceitos gregos clássicos se apoiou numa nova ética, que surge com o Novo Testamento. É a ética cristã, de valorização da vida. Enquanto as outras crenças e mitologias costumavam relativizar o valor da vida e hierarquizar as pessoas, geralmente em castas, o Novo Testamento vem com a noção de que todos são iguais perante a Deus. E é nessa valorização da vida que se apoia, por exemplo, a contrariedade à homossexualidade, por não gerar descendência. Também se apoia à noção de corpo resguardado, como foi dito. Pois este corpo (e esta vida que há no corpo) deve ser protegido contra os pecados da carne, a luxúria. Assim, com esta nova ética contrária a tudo o que foi elaborado na Grécia Antiga, o cristianismo se põe com uma nova forma de amar, contrária a que vigorava na época, e que, como já foi dito, se põe como o Amor, mas que mais está relacionado com a paixão, como também já foi explicitado. O poeta português já citado ainda pode nos acrescentar de forma mais visceral a dor e a patologia que é a paixão com os seguintes versos: “Mas conquanto não pode haver desgosto Onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que na alma me tem posto Um não sei quê, que nasce não sei onde; Vem não sei como; e dói não sei porquê.” Luís de Camões
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    21 4. O AMORNA MODERNIDADE Interessante falarmos do amor na Idade Moderna por que este sentimento, da forma que prevaleceu neste período, não iniciou nem findou a sua forma neste espaço de tempo. Porém, foi durante a Modernidade que o amor romântico prevaleceu. Próximo do fim da Idade Média, século XII, surge o “Tratado do Amor Cortês”, de André Capelão. Este escrito vai, finalmente, trazer a mulher para o amor. Vimos até aqui que a mulher não tinha espaço na sociedade. Nem mesmo no amor a mulher poderia se expressar, salvo na mitologia, no mito, na lenda, no que não é real. Por que na realidade, a mulher tinha o seu posto de submissa ao homem, não tinha direito verbalizar ou pensar sobre o amor nem tinha sua forma de amar. Na Idade Média, como sabemos, houve o que foi chamado de Santa Inquisição. É bom lembrarmos que esta ação promovida pela Igreja Católica foi de total devastação não somente para os homens indignos da fé cristã, mas, principalmente, para as mulheres, tidas como bruxas, feiticeiras. As mulheres foram as mais assassinadas nesta época. A figura feminina, então, ganha um estigma diabólico. André Capelão, com o seu livro, tenta resgatar a mulher desta condição de ausência no amor e pacto com o maléfico. Para isso, este autor busca não somente a mulher, de todas as formas que ela poderia ser, mas busca resgatar a Virgem Maria. Contrapondo a mulher bruxa, a mulher diabólica, que tanto a Santa Inquisição queimou nas fogueiras, Capelão vem trazendo a mulher santa, pura, virgem, casta, singela. Prevalecendo aí o machismo, esta mulher vinda do “Tratado do Amor Cortês” era mais divina, menos diabólica e não mais digna que o homem; pois esta nova mulher, nesta nova condição de submissão, estava à mercê dos cortejos masculinos, saindo de uma ausência para se pôr numa posição
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    22 passiva. O relacionamento,então, se dava pela mulher que deveria se deixar levar aos agrados do homem. Logo, com esta passividade da mulher e atividade do homem, o machismo mais uma vez se demarca ao trazer o homem como uma salvação para a mulher. O homem, aí, se torna o objetivo da vida da mulher, pois esse deveria ser o futuro de toda mulher, o casamento. Nesse sentido, esta obra, então, vai abrir precedente para o amor romântico, que vigora com força na Idade Moderna. Capelão abre passagem para este tipo de sentimento quando o seu objetivo de trazer para o palco do amor uma mulher santa acaba sendo falho, esta ideia será um tiro que sai pela culatra. Isto acontece por que Capelão nos traz, com a visão de amor à mulher santa, o amor a uma mulher que não existe. A santidade, a divindade, não está no campo humano. Este pensamento de Capelão tem raiz na crença cristã, que defende a santidade não na vida, por que este, em que estamos, não é o mundo de Deus, mas o mundo divino é o paraíso, o que está para além da vida carnal. Por isso, Capelão, ao instalar a mulher santa no amor, na realidade, põe em jogo uma mulher que não existe, que não é viva, que não é real. Este amor à mulher morta se dá muito explicitamente no conto de Romeu e Julieta. Escrito no meio da Modernidade, século XVI, Romeu, em última instância, se mata por crer que o seu amor morreu. Julieta, ao despertar de sua falsa morte, percebe Romeu falecido e também se mata. O amor (ou a prova de amor), então, se concretiza com a morte. O amor romântico é assim, se habilita no impossível. Outro exemplo de amor romântico se dá já na Idade Contemporânea, mostrando aí o quanto o amor romântico se fixou no ideal de felicidade. É o conto da Branca de Neve, escrito pelos irmãos Grimm, século XIX. Este conto expõe de forma explícita este romantismo. Branca de Neve, um total ideal desta mulher moderna, é, na realidade, uma mulher morta. Só o príncipe, que vem em seu cavalo branco, poderá ressuscitá-la. Branca de Neve, uma mulher doce, casta, gentil, é assassinada pela vilã da estória, a mulher que se diz bela e perversa e que se afirma como tal. Curioso notar também que neste conto a madrasta da Branca de Neve era uma bruxa e foi morta no fim da estória. É
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    23 uma total semelhançacom as mulheres assassinadas pela Igreja na Idade Média. Enquanto à Branca de Neve, mulher perfeita, tem o destino que o amor romântico prevê: o seu homem salvador. Uma mulher medieval para uma estória medieval (apesar deste conto ter sido escrito somente na Contemporaneidade). Uma história macabra de amor romântico aconteceu não há muito tempo, no século XX. Carl von Cosel, médico alemão que atuava num hospital da Flórida, conhece uma paciente chamada Maria Elena Milagros de Hoyos, uma jovem cubana que sofria de tuberculose. Cosel cai de amores por Elena. Porém, pouco tempo depois, esta vem a falecer. Cosel, obsecado por Elena, decide então pagar pelo o seu funeral e pela construção de seu mausoléu. É aí que Cosel demonstra sua fixação por Elena, visitando-a toda noite. Após um tempo, Cosel decide raptar o corpo e levá-lo para a sua própria casa. O médico faz diversas intervenções para que o corpo se mantenha conservado, dentre elas, amarrar os ossos do cadáver com arames e cordas de piano, hidratar os órgãos se decompondo e reconstituir o seu rosto com cera e gesso. Assim, Cosel vive por sete anos com o corpo de sua amada, até que a irmã de Elena desconfia do que acontece e descobre o que o médico fez. Carl é preso, mas, com o pagamento da fiança, é solto. Anos mais tarde, o médico é encontrado morto ao lado de uma estátua de gesso, uma cópia de sua amada Elena. Logo, com todos estes contos, nota-se o quão este amor romântico gera infelicidade ao criar um padrão de amor perfeito, um amor que não existe. É também notória sua impregnação até à Contemporaneidade. Porém, este tipo de amor também muito se assemelha com o amor platônico, que tem como objetivo o amor real que vai para além do mundo sensível, do mundo físico. A diferença era que Platão dizia que deveríamos buscar esse amor, e não que esse amor era acessível. Ao contrário do amor romântico, que não só afirma a possibilidade do amor impossível, o amor perfeito, como o põe como salvação para a felicidade num relacionamento. Ora, ainda educamos nossas crianças com estes mesmos contos já citados e toda novela ou filme considerado bom tem esse final (feliz?) ilusório de amor completo.
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    24 5. O AMORNA CONTEMPORANEIDADE ATÉ OS DIAS ATUAIS O modelo de amor romântico vem se concretizando na Idade Contemporânea. Como foi apontado, muitas produções televisivas e cinematográficas ainda seguem este modelo e obtêm sucesso por isso. Poderíamos ter uma lista infinita de filmes para exemplificar este romantismo, mas podemos nos concentrar em alguns que fizeram e ainda fazem grande sucesso entre os cinéfilos mais românticos. O filme “Um Amor Para Recordar” (2002) conta a história amorosa em que a mocinha morre no final. Na Saga “Crepúsculo” (2008-2013) há um amor entre uma mortal e um vampiro. “Diário de Uma Paixão” (2004) é outro filme que desperta o romantismo em quem assiste, e que está baseado num amor já vivido, pois o desenrolar romântico acontece no passado, já esquecido pela personagem que sofre de Mal de Alzheimer. Não poderíamos também esquecer o filme com recorde de bilheteria do cinema em todo o mundo, “Titanic” (1997), em que o mocinho morre nos braços de sua amada. Vemos que em todos estes filmes citados, que têm um grande público de adoradores, o amor se dá no campo da morte, do impossível, seja pela morte de fato ou pela incapacidade de rememorar o que foi vivido. Este amor no impossível acaba, então, por virar um padrão. Mais: este padrão de amar ganha, obviamente, analisando de onde este surgiu, um teor medieval e moderno, sendo, portanto, um padrão heterossexual e que se evoca por si. Este é o motivo do amor homossexual ou simplesmente a castidade serem ojerizadas nos tempos atuais. Porém, é interessante pensar o amor na Idade Contemporânea pela plasticidade em que ele sobrevive nestes tempos mais atuais. Apesar de sê-lo extremamente plástico, este amor só vem realmente sendo mudado (em sua forma de ser vivida e não em sua essência romântica) nos últimos anos. Comecemos a pensar sobre o prenúncio desta mudança da forma de amar.
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    25 É no séculoXIX que há a invenção da luz elétrica, do telefone e do rádio. Anuncia-se, então, um novo tempo. A tecnologia eletrônica se alia a novos meios de comunicação e informação, avançando cada vez mais rápido, buscando seguir a velocidade da luz. Isto nos acarreta mudanças em nossa percepção e, obviamente, no nosso jeito de amar. As cartas dão lugar aos telefonemas. Os telefonemas, por sua vez, dão lugar ao e-mail. Logo, o e-mail passa a vez para as redes sociais. O telefone perde espaço para o celular. O celular, que inicialmente tinha a única função de ligar, passa, gradativamente, a ter a capacidade de armazenar contatos, mandar mensagens de texto, o envio de imagens, gravar voz, ter câmera fotográfica embutida, acessar a internet e ter dos mais diversos aplicativos. Toda essa evolução muda o nosso ritmo e nos convoca à multifuncionalidade em tempo real. Período pós-guerra, décadas 50, 60 e 70, há uma explosão que nos convida ainda mais para este espírito etéreo de humano. Surge, então, o movimento “paz e amor”, numa contra cultura de dor e morte que a guerra causou. Prega-se aí a liberdade, inclusive do amor. É neste período que surge o chamado “casamento aberto”, em que se tinha uma liberdade, dentro do casamento, para que os cônjuges se relacionassem sexualmente com outros parceiros. Este tipo de relacionamento não vinga, ao menos formalmente falando. Porém, é este tipo de relação que gera, já nos anos 80, 90 e 2000, o poliamor. Designado como um amor livre, em que há a possibilidade de um relacionamento amoroso saudável entre três ou mais pessoas, o poliamor vem se configurando, então, não mais sobre a égide sexual, mas, sim, sentimental. Toda esta liberdade e, como já citado, multifuncionalidade e agilidade humana nestes tempos contemporâneos desemboca, então, num amor cada vez mais efêmero. Hoje em dia não se tem mais o mesmo tempo que se tinha antes para cultivar o amor. Isso também é válido para os produtos que consumimos. Já não se gasta tempo para produzir algo, se compra feito. O capitalismo selvagem da contemporaneidade se vale no amor, quando busca- se um amor perfeito (ideia advinda do romantismo) e já pronto (advindo da
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    26 mania capitalista). Eainda há um adendo, esse amor perfeito e pronto tem que vir rápido, assim como a velocidade que a tecnologia nos impõe. Deste modo, surge o “ficar”. Prática de trocar carícias, beijos e até mesmo acontecer o sexo, porém, de modo casual. Este toma, então, um sentido de um “amor instantâneo e com curto prazo de validade”. Numa tentativa, ainda, de alguns buscarem um amor mais duradouro, este “ficar” surge com força entre os mais jovens, principalmente entre os que estão inseridos na era digital. Pensar em era digital é pensar em algo que é feito a partir do dígito, do ato de digitar, da digital em nossos dedos. Desta era digital surge o mundo virtual, que nada mais é do que um mundo que finge ser, sem ser, mesmo sendo. Quero dizer, este virtual não existe de forma física, porém, ele busca simular o físico e acaba, assim, por adentrar nos ditames das relações no que vai para além do próprio virtual. Assim, com um mundo que se vale sem o físico, é, então, aberta uma nova possibilidade de amar: o amor sem corpo. Neste mundo em que o físico se dispensa (porém, não por absoluto), é possível amar alguém que não está fisicamente com o amante. Então, novos relacionamentos surgem em que os parceiros amorosos não necessariamente moram no mesmo lugar. É possível existir dois amantes que morem em lados opostos do país e se amam sem nunca sequer terem se visto fisicamente, olho a olho, sem nunca terem se tocado. Diego Engenho Novo, proprietário do blog Palavra Crônica, nos esclarece em seu texto “Amar à Distância”, de forma poética, justamente este novo amor sem corpo. Ainda faz um paradigma do que esta possibilidade que se tem nos dias atuais para com o amor pode mobilizar em comparação a uma relação amorosa física. Relatando sobre esta nova ética amorosa, Diego também fala de como este afeto tem novas formas de se demonstrar neste mundo virtual. Que, aliás, é outro ponto para nos deter, sobre a demonstração de afeto que se torna mais sensível, mais delicado.
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    27 Cau e Julianose amam. Juliano e Cau não se desgrudam. Conversam o tempo todo, trocam mensagens pelo celular o dia inteiro. Deixam recadinhos com frases gostosas e sacanas um para o outro, trocam carinho por horas e horas, e depois ainda enviam longos e-mails comentando suas sensações, seus sentimentos, sua vontade de estar ainda mais juntos. Tanto sentimento, quase despista os dois mil quilômetros que os separam. Cau mora perto do mar, Ju sonha com ele. Dalton e Ana Clara se amam. Clarinha e Dalton quase nunca se veem. Pouco conversam, trocam algumas mensagens de texto durante o dia para tomar decisões práticas. Os recadinhos sacanas foram trocados por frases imperativas e não têm mais cheiro de perfume, nem gosto de nada. Assistem TV juntos, por horas e horas, e depois murmuram algum comentário, geralmente sem réplica. Dalton e Ana Clara vivem juntos em um apartamento pequeno no centro da cidade. Cau e Juliano tinham tudo para nunca se conhecerem, mas pela graciosidade da vida, se encontraram, ao acaso. Dalton e Ana cresceram na mesma cidade, frequentavam as mesmas festas, foi fácil se apaixonar. O amor surge em terrenos improváveis, como uma planta delicada que floresce nas pedras. O desamor, na contramão, é cultivado vagarosamente, em solos óbvios, no descuidado diário. O distanciamento no amor acontece nas pequenas coisas que deixamos de fazer e dizer, nos consecutivos desencontros, nas noites mal dormidas. O amor se vai de mãos dadas com a admiração. Já um amor em distância física é alimentado por pequenas delicadezas, por todo e qualquer sintoma da vontade de proximidade. A dificuldade nos ensina a valorizar quem não está por perto, isto é antigo e certo. Ter alguém ao alcance do braço e do abraço nos lança ao risco de nos acostumarmos. Cau e Juliano só se tocam em feriados e datas comemorativas. Dalton e Ana Clara também. Há quem duvide do futuro do amor de Cau, Juliano, Dalton e Ana. Mas, no frigir dos ovos, o que importa é que eles se acreditem. Se o amor pega um trem, avião, táxi, e ainda sobe dois lances de escada, porque não poderia vencer o dia de hoje e atravessar a sala para dar um abraço apertado numa hora imprópria? Cau e Juliano não podem fazê-lo, por enquanto. Cau e Juliano se amam intensamente, mesmo sem se tocarem, mesmo sem se olharem. Enquanto Dalton e Ana, que moram juntos, não demonstram afeto. Vemos aí o quão o amor não depende do corpo, e, talvez, justamente por isso, ele é tão mais eficaz para Cau e Juliano. Este é um ótimo prenúncio para tratarmos do amor na psicanálise. Vejamos o porquê.
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    28 6. O AMORNA PSICANÁLISE Pensarmos o amor na psicanálise não é tarefa árdua por que toda a psicanálise trata justamente do amor. O que é o amor para a psicanálise, então? O sujeito, enquanto tal, contém uma falta. Essa falta é o que nos move, é o que nos faz buscar exatamente o amor. Esta busca de amor advém do complexo de Édipo, em que somos barrados de concretizar o desejo inconsciente do incesto, de nos relacionarmos amorosamente com um dos nossos pais, segundo afirma Freud. Esta lembrança, porém, é recalcada, esquecida, posta para os recônditos inconscientes. O complexo de Édipo é um ponto central na psicanálise, pois é a partir disto que se dá a estrutura psíquica do sujeito e a sua demanda de amor. Passamos agora a analisar esse alguém a quem amamos. Para a psicanálise, nós nunca amamos alguém, uma pessoa. O que amamos é a imagem dessa pessoa, o que ela representa para nós. Temos, então, o nosso objeto de amor. Não se chama de “objeto” por querer coisificar o outro, mas, sim, por que, de fato, nunca conseguiríamos amar por inteiro esse outro. Há sempre algo do outro que escapa desse nosso amor. Logo, o que chamamos de objeto de amor é esta imagem que formamos do amado e que nesta imagem está inscrita as características que nos fazem amá-lo. O amor, então, nada mais é do que um investimento para com este nosso objeto de amor. Isto, para a psicanálise, é chamado de investimento libidinal. Esta libido está relacionada ao afeto, ao cuidado, à dedicação sentimental. Seguindo este raciocínio, percebemos que o outro está sempre a serviço dos nossos desejos. Quero dizer, o outro, o nosso objeto de amor, está, na realidade, me servindo ao amor. O outro que eu amo é o outro que me serve para amar, por que eu amo aquilo que eu percebo que ele tem; mas que, na realidade, este outro pode até nem ter de fato o que eu percebo, mas, por assim eu percebê-lo, eu, então, o amo.
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    29 Lacan falou queamar é querer ser amado, e aí percebemos isto, o quão o outro está ao nosso serviço, pois é algo que está no outro que me faz querê- lo para mim. Amar é querer ser amado por que, de fato, o que queremos é retornar ao estado primário de nossas vidas, ao estado em que éramos bebês, em que nossas mães nos devotavam o total amor e atenção. Este é mais um conceito psicanalítico, o narcisismo. Para a psicanálise, todos somos seres narcísicos. Afinal de contas, se não fôssemos, por exemplo, por que buscaríamos parecer belos? Se não fôssemos narcísicos, por que iríamos buscar nos vestir bem, ao nosso modo? Para Freud, ao nascermos somos “a majestade, o bebê”, pois os bebês são seres narcísicos e que suas mães alimentam este sentimento ao passo que vivem em função de seus filhos. Ao passar do tempo, o bebê começa a perder esta exclusividade. É no complexo de Édipo que isto se encerra, quando, ao se deparar com o incesto e ser barrado nisto, a criança, então, passará o resto da vida buscando ser aceito e amado como antes. É aí que nasce essa busca nos outros desses elementos que nos são parentais, advindo de nossos pais. Pois, ao encontrarmos alguém com essas características, tentaríamos reproduzir o desejo do incesto, já há muito recalcado. Porém, nem sempre o nosso objeto de amor tem elementos que advém de nossos pais. Como veremos a posteriori, também há a possibilidade de buscarmos alguém que se pareça conosco, um espelho, um reflexo nosso para amar. O que está sendo posto neste momento com relevância é o fato do outro ser sempre algo que eu o amo por ele ter não questões dele, mas, sim, exatamente por esta pessoa ter questões que são minhas, que dizem respeito a mim e a minha experiência do complexo de Édipo.
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    30 Diego Engenho Novomais uma vez vem clareando o nosso pensamento com o texto “Adeus Nicolai” e nos demonstrando o quão o outro nos é um objeto de amor e o quanto nós nos aproveitamos deste objeto que é o outro. Adeus, Nicolai. Percebi hoje que saí sem dizê-lo. Percebi só agora, que nossa história acabou, mas não foi encerrada. Até dizer “adeus”, eu permaneço em débito com você. Quebrei a primeira regra da boa educação, me esqueci das palavrinhas mágicas. Educação nunca foi nosso forte. A intensidade não nos deu tempo para as formalidades. O amor é mesmo meio desbocado. Por favor, Nicolai, não perca a doçura com a qual lê Clarice Lispector, nem perca o brilho nos olhos quando é Natal. Por favor, continue pensando longe enquanto cozinha, continue tomando seus banhos demorados, continue se divertindo enquanto lava o carro. Por favor, tenha na agenda mais contatos de amigos que de deliverys. Por favor, viva amores ainda mais loucos. Sim, tem gente bem mais maluca que eu no mercado. Se apaixone perdidamente por um chinês de fala engraçada, um francês refinado e falante e logo depois, se entregue também para um geek cheio de humor. Não se preocupe em entender se é amor ou paixão, você mesmo me ensinou que estas são definições rasas para traduzir a vontade de estar junto ou não. Assim como saí sem dizer “adeus”, você entrou sem pedir licença. Num dia comum, um sábado cinza, você pediu companhia para ir até o supermercado e eu implorei que, por favor, não me deixasse sozinho, nunca mais. Eu nunca soube ser só, Nicolai. E, ironicamente, também nunca aprendi a ser tão seu quanto você queria. Eu não queria ser solitário, nem queria ser teu. Queria ser meu, contigo. Me desculpe. Eu me despedi de você enquanto o carro se afastava do nosso antigo bairro, me despedi enquanto chorava no banho, enquanto comprava roupas novas que você jamais aprovaria. Me despedi enquanto quebrava suas regras, que não se aplicavam mais a mim. Me despedi, quando tive vontade de ligar e não liguei, quando quis responder a você chamando e não o fiz. Me despedi, mas não disse “adeus”, ainda. Digo que saí sem me despedir, porque as últimas palavras mágicas da boa educação, ensinadas por nossas mães, logo após “por favor” ,“com licença “ e “desculpe-me”, não é “adeus”, mas “obrigado”. Obrigado, Pequeno. Adeus, Nicolai.
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    31 Nota-se neste textoque Nicolai usava amorosamente o eu lírico, enquanto este mesmo buscava do mesmo objetivo com Nicolai. Porém, o que não deu certo e fez com que este relacionamento findasse foi que Nicolai não se mostrou como o eu lírico o percebia, enquanto este, ao que parece, correspondia a idealização de objeto de amor de Nicolai. O que fez o sofrimento do eu lírico foi o desinvestimento libidinal no objeto de amor que quebrou sua imagem enquanto idealizada. 6.1. O AMOR PLENAMENTE SENSUAL E O AMOR INIBIDO EM SUA FINALIDADE Freud, em seu escrito “Mal estar na Civilização”, nos traz dois tipos de amor, o amor plenamente sensual e o amor inibido em sua finalidade. O pai da psicanálise nos faz refletir, a priori, que sentimento é esse que chamamos de amor e que o denominamos não somente como sendo as relações familiares e com os amigos, mas também as relações sexuais que se tem com os parceiros nos relacionamentos. Amor plenamente sensual, segundo Freud, é aquele amor genital, que tem como finalidade o prazer sexual. É o amor instintivo, amor animal, selvagem. Enquanto o amor inibido em sua finalidade é este amor sensual, porém, este se mostra sublimado em afeição, em ternura. Este é, então, o amor sensual que se torna dessexualizado, retirado do âmbito sexual. Assim acontece com os amigos e familiares, por exemplo. É o afeto. Logo, para Freud, todo amor é essencialmente sexual, ou, melhor dizendo, sexualizado. Mas devemos pensar sobre o que Freud considera como sexualizado. Este termo não vem no sentido consciente, na forma como o entendemos, mas é uma sexualização da ordem do inconsciente. Freud vinha afirmando que estes dois tipos de amor era que fundava uma família e uma sociedade, ao passo que o amor plenamente sensual vinha com o objetivo de procriação e o amor inibido em sua finalidade, com o objetivo de conservação a partir dos laços sociais, como os vínculos familiares e a amizade.
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    32 6.2. O AMORANACLÍTICO E O AMOR NARCÍSICO Essas são duas formas de amar que Freud traz em sua teoria. Agora ficará ainda mais claro o quão amamos não uma pessoa inteira, mas é algo nela que nos faz amá-la. E, assim, amamos esse outro (ou ilusão do outro) pelo o que ele tem e que queremos para nós ou a nosso desejo. Entendamos o porquê. O amor anaclítico é o sentimento que nos leva a afeiçoar o outro por que nele há elementos que são provenientes de um dos nossos pais e, que, por isso, eu o amo. Esse outro tem características, que pode ser um timbre de voz, o penteado, o perfume, o jeito de andar... enfim, este outro tem algo que pode ser o mais delicado de se perceber, mas que eu, inconscientemente, percebo e o amo por que isto que percebi neste outro e que me faz amá-lo é algo que pertence aos meus pais, meus cuidadores. Logo, o meu desejo, nessa forma de amor anaclítico, é me relacionar amorosamente com um dos meus pais. Mas, como isso me foi proibido enquanto criança (e aí temos o famoso complexo de Édipo), eu passo, então, a vida a buscar uma pessoa, um objeto de amor que me sirva como substituto deste pai ou mãe que eu amo. Este objeto de amor é uma tentativa de realizar o meu desejo de me relacionar com um dos meus pais. Por isso, quem ama de forma anaclítica, sempre ama alguém que tem características parecidas com as de um dos seus pais. Já o amor narcísico, como o próprio nome diz, se refere a autoimagem. No amor narcísico se busca amar alguém que se pareça com o próprio amante. Este objeto de amor, na realidade, deve ser alguém que parece com quem eu penso que sou ou quero ser ou já fui. Logo, quem ama narcisicamente ama, na realidade, a si próprio no outro. O amor narcísico é um amor espelhado, em que se ama o próprio reflexo. Quem ama narcisicamente passa a vida a procurar um reflexo seu, assim como no mito de Narciso, na Mitologia Grega, em que este, que nunca amara ninguém, se apaixonou por seu próprio reflexo no lago. Freud relatava que este é o tipo de amor que se dá mais comumente entre homossexuais, em que, por sua vez, estes têm a característica de um
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    33 narcisismo enaltecido. Nasio,em seu livro “Lições sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise” nos acrescenta em: Colocações de Freud sobre a escolha de objeto de amor entre os homossexuais: eles se tornam o seu próprio objeto sexual, diz Freud, ou seja, “partindo do narcisismo, procuram adolescentes que se pareçam com eles e a quem querem amar como sua mãe os amou”. Amar a si mesmo através de um semelhante é o que Freud chamou de “escolha objetal narcísica”. E ele esclare que todo amor objetal comporta uma parcela de narcisismo. (NASIO, 1997, p. 56) Logo percebemos que Nasio cita que Freud afirma que todo amor objetal tem uma parcela narcísica. Mas o que isso significa? Significa dizer que tanto o amor narcísico quanto o amor anaclítico comporta um quê narcísico, pois estas duas formas de amar buscam no outro questão que não são do amado, mas, sim, do próprio amante. Amar este outro, este objeto de amor, é, antes de tudo, identificar nele questões minhas, seja de mim mesmo ou dos meus pais, e que me faz, então, querê-lo amar. Para a psicanálise, então, amar é uma escolha, mas uma escolha inconsciente, ditatorial, uma escolha de amar que não nos dá direito pleno de escolher se amo ou não, eu simplesmente amo. 6.3. POLIAMOR NA PSICANÁLISE É no sentido do amor ditatorial que o poliamor afunda na teoria psicanalítica. Se somos narcísicos, queremos, então, este amor só para nós, legitimando o nosso pedestal, nossa exclusividade. O ciúme existe, e ele barra essa legalidade do amor ser múltiplo. O sentimento e desejo de posse há para com este outro que é o nosso objeto de amor. Isso impede o amor liberal, o amor harmonioso entre três ou mais pessoas. Este amor sempre será conflituoso, se nos ditames psicanalíticos. O que corrobora é que esta prática até o presente momento não foi aceita pela Lei e nem há rumores para isto, pois, simplesmente, este é um tipo de relacionamento que não se sustenta.
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    34 6.4. O AMORNA CLÍNICA PSICANALÍTICA A clínica da psicanálise só acontece se houver amor. Aquilo que se chama de transferência psicanalítica na clínica, podemos denominá-la de amor. A relação terapêutica se dá numa ponte de não só de confiança, mas de identificação e, em última instância, de amor. Este amor nem sempre aparece desta forma, pode vir como ódio, por exemplo. Mas o amor é quem vai estabelecer esta relação psicoterápica. Assim, surge também o conceito de transferência como peça decisiva no trabalho analítico, em que o analista é substituto das figuras parentais do paciente e é depositário de seu investimento libidinal. Caberá, então ao analista, seguir o caminho dessa libido, utilizando-se dessa confiança depositária, pelo o paciente, nele, para o desenvolvimento do trabalho analítico (Brito & Besset, 2008). Assim, o setting terapêutico se dispõe a ser o seu lugar, no tempo e no espaço, onde as manifestações das fases anteriores são permitidas e desejadas, objetivando que essas sejam trabalhadas (Ferreira, 2006). (SCHLÖSSER, DALFOVO & DELVAN, 2012, p. 569) Logo, amar é admitir uma falta, é afeiçoar o que se perdeu de/em si e se encontrou no outro. Neste caso, no analista. Justamente, é a partir da falta e da ilusão amorosa que é possível o surgimento da transferência. A emergência do fenômeno amoroso define-se como a busca no objeto amoroso – o analista – de algo que ele, o amante, não tem. Sendo assim, nos termos de Miller, “o primeiro valor que se pode dar a ‘eu amo’ é: ‘sinto falta de’” (Miller, 2006a, p. 17). (BRITO & BESSET, 2008, p. 694 – 695) Então, o analista nesta posição de depositário de amor, corre o risco de suscitar amores que saem da égide da terapia e adentram no campo romântico. Este amor é duplamente ilusório, pois ama-se não a percepção daquele sujeito, mas o ato profissional dele, como nos alerta Calligaris em “Cartas a um jovem terapeuta”.
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    35 7. O AMORNO FUTURO Lutero, no século XVI, com a Reforma Protestante, iniciou uma grande onda no sentido de responsabilização do sujeito pelo sujeito. Quero dizer, Lutero, ao ir contra a mais poderosa instituição que já houve, a Igreja Católica, e pregar que a salvação cristã e a leitura da Bíblia deve ser feita não por intermédio da Igreja, mas, sim, pelo próprio fiel, põe aí a noção de responsabilidade que as pessoas devem ter por si. Neste sentido, muitos foram os eventos que se prosseguiram e que avançaram neste sentido. Temos como exemplos a Marcha sobre Versalhes, em 1789, indo contra a monarquia francesa, e todo o desenrolar da Revolução Francesa, findada em 1799, que resultou numa França republicana. Eventos da esquerda liberalista geraram um amor de esquerda liberalista. Essa liberdade veio, mais recentemente, ganhando força com o avanço da tecnologia, a partir dos anos 50, com a propagação mais intensa das tecnologias que priorizam o laço social. Podemos observar que na última metade do século XX a tecnologia avançou principalmente nos meios em que se trata de comunicação. A telefonia ficou cada vez mais moderna e ampla, a internet ficou cada vez mais ágil e expansiva no território mundial, ganhando força o e-mail e as redes sociais. Os celulares foram buscando cada vez mais interatividade instantânea, não se contentando com a possibilidade da fala, mas também ganha o viés das SMS’s, acesso à internet e aplicativos de trocas de mensagens, voz e vídeo. Logo, é importante ressaltarmos o papel do avanço tecnológico. Como já foi dito, a tecnologia avançou principalmente no campo da comunicação. Ou seja, a tecnologia deu primazia aos meios que ligam as pessoas, que as conectam, que as permite se relacionarem de algum modo. Logo, percebe-se com tudo isso que a nossa sociedade ficou cada vez mais horizontalizada. O humano saiu da sombra de uma figura de autoridade, seja a Igreja, o Estado, a polícia ou até mesmo o pai, que já não representa a
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    36 figura de umadéspota parental. Mais: nossa sociedade, horizontalizada, ganha então a necessidade de se relacionar entre si, ganha a necessidade, estando todos num mesmo nível, da comunicação entre si, ratificando ainda mais esta sua horizontalidade. Isto tudo está nos trazendo amores que antes eram tidos como proibidos, imorais, pela Igreja e o Estado. O amor homossexual é um exemplo. Estamos caminhando para um amor cada vez mais livre. Lanço, então, aqui a minha previsão de amor como sendo um sentimento cada vez mais secular, formando relacionamentos cada vez mais frágeis, graças ao capitalismo (vide o capítulo “O amor na Contemporaneidade até os dias atuais”), mas também cada vez mais sinceros. O amor, a meu ver, também será cada vez mais urgente, tomado cada vez mais com importância, criando uma contra cultura do capitalismo selvagem e da violência urbana, que só cresce devido à desigualdade social. O amor, então, vai adentrar no campo político. Já inicia-se este processo, com a união igualitária estável assegurada pela Lei. Com esta nossa sociedade horizontalizada, os preconceitos também cairão em nome do amor. Teremos cada vez mais brancos casando com negros, ricos casando com pobres, pessoas mais velhas casando com pessoas mais novas... E até mesmo o amor sem casamento, por que já não se clama tanto por um amor institucionalizado. As festas de casamento continuarão, cada vez mais pomposas. É o que nos restou da sociedade unitária, em que não se tinha clara a noção de individualidade. Estas festas também continuarão pelo nosso atual desejo de espetáculo, de eventos grandiosos. O amor no futuro me parece ser a mais nova invenção de amor. Ele finalmente não sofrerá mais ecos de nenhuma cultura. Mais igualitário, ele será totalmente novo. Não discriminará nenhum gênero, raça, classe socioeconômica ou condição sexual. O amor ainda será ligado à felicidade, mas isto será, então, um direito de todos.
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    37 8. (DES)CONSIDERAÇÕES FINAIS Oteu amor é uma mentira Que a minha vaidade quer E o meu, poesia de cego Você não pode ver Não pode ver que no meu mundo Um troço qualquer morreu Num corte lento e profundo Entre você e eu O nosso amor a gente inventa Pra se distrair E quando acaba a gente pensa Que ele nunca existiu O nosso amor A gente inventa Inventa O nosso amor A gente inventa Cazuza, “O nosso amor a gente inventa”
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    38 A letra deCazuza é categoricamente clara, o amor é uma mentira, é uma invenção, que nos serve por pura distração. Mais: além distrair, serve para envaidecer. O amor, depois de tudo o que lemos, realmente é uma invenção sócio- histórica muito bonita. Em cada época o amor se entrelaçou no pensamento vigente e se fez valer como o ideal de vida. É, Cazuza, o amor é uma ilusão. Mas que bela ilusão, não?! E quem foi que disse que não devemos acreditar nas ilusões, se esta nos faz mais felizes? Quem foi que disse que o amor, sendo uma mentira, tem que ser desfeito para que busquemos a (triste) realidade? Se a mentira traz felicidade, se não agride, mas só faz o bem... Por que não, então, crer no amor? Esta é uma (des)consideração final por que, apesar de tudo que lemos aqui, nada será capaz de guiar o nosso afeto ao ponto de controlarmos, por que o afeto é livre, o amor tem vida própria. Vive até sem corpo, como vimos. O amor é uma mentira docemente convincente e que todo mundo crê quando sente. Renato Russo sabia a importância que tem o amor para as pessoas. Realmente é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. O amor sempre se deu no campo do impossível, mas os seus prazeres e dores se dão no campo do sensível. O amor é urgente, é agora. Vinícius de Morais corrobora nessa ideia, finalizando brilhantemente a nossa prosa de amor. “Eu possa me dizer do amor (que tive): Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.” Vinícius de Morais, “Soneto de Fidelidade”
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    39 DAS FONTES QUEBEBI A ÁGUA DO AMOR “Amores improváveis”. Tv Brasil. Disponível em: <http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem/episodio/amores- improvaveis#media-youtube-1>. Acessado em 19/10/2013. “O amor nos tempos digitais”. Tv Carta Capital. Disponível em: <http://www.jorgeforbes.com.br/br/imprensa/amor-nos-tempos-digitais2.html> Acessado em 19/10/2013. BRITO, B. P. M. “Amor e saber na experiência analítica”. Revista Mal-Estar e Subjetividade. Fortaleza. Vol. VIII, n. 3. P. 681 – 703. 2008. BULFINCH, T. “O livro de outro da mitologia – Histórias de deuses e heróis”. 11 Ed. Rio de Janeiro. Ediouro. 2000. CALLIGARIS, C. “Cartas a jovem terapeuta”. 1 Ed. Rio de Janeiro. Campus Ed. 2007. COMMELIN, P. “Mitologia Grega e Romana”. Ediouro. FORBES, J. “Aforismos de Jorge Forbes sobre o amor”. Disponível em: <http://www.jorgeforbes.com.br/br/projeto-analise/aforismos-de-jorge-forbes- sobre-o-amor.html>. Acessado em 19/10/2013. FORBES, J. “Um novo amor está no ar”. Disponível em: <http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/um-novo-amor-est%C3%A1-no- ar.html>. Acessado em 19/10/2013. GHIRALDELLI, P. J. “Como a Filosofia Pode Explicar o Amor”. São Paulo, ed 1. Universo dos Livros. 2011.
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