UNIVERSIDADE LA SALLE RJ

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS




                 “ISLAMISMO 2.0”

                       SO




                JANAÍNA MACHADO




                  RIO DE JANEIRO

                   JUNHO/2006
JANAÍNA MACHADO




                                 ISLAMISMO 2.0




Este é o trabalho final de Janaína Machado de Oliveira, aluna do curso de Pós-
graduação em Relações Internacionais, da Universidade La Salle de Niterói, Rio de
Janeiro. O professor Carlos Frederico Coelho foi escolhido pela aluna como
orientador e receberá o trabalho de conclusão do curso para avaliação.




                          Rio de Janeiro, 01 / 08 /2011




                          Professor Orientador Específico
Este trabalho é dedicado a minha mãe,
Juranda Machado e in memorian ao
meu pai, Haroldo José de Oliveira.
“O Ocidente tem o relógio, o Oriente tem
o tempo...”.


                 Ditado popular iraniano
RESUMO



Machado, Janaína. Islamismo 2.0
Prof. Orientador Específico: Carlos Frederico Coelho
Rio de Janeiro: UNILASALLE 2011
Relatório de Conclusão de Estágio.


      O presente trabalho pretende comprovar, por meio de reportagens publicadas
em jornais, revistas, livros e material pesquisado via Internet, que o Islamismo e os
países tipicamente muçulmanos, já no século XXI, ainda resistem às modernidades
introduzidas pelo crescente avanço tecnológico criado especificamente pelo mundo
ocidental e à globalização. Apesar disso, jovens muçulmanos com menos de 25
anos, em recentes levantes, em países islâmicos, mostraram ao mundo que a
resistência impera somente em alguns países e essencialmente por causa de seus
governantes e seus ditadores. Milhares foram às ruas protestar contra seus
governos munidos de ferramentas modernas, criadas pelo ocidente, para questionar
a política, a religião, a cultura, a submissão e a crescente repressão imposta pela
tradição autoritária dos aiatolás. Não desejam mais repressão, falta de liberdade de
expressão, ditadura, torturas, prisões, pobreza e diversas mazelas frequentemente
divulgadas pela imprensa com relação aos seus países. Pela primeira vez o mundo
viu uma Revolução supostamente dita como Digital, onde tudo era divulgado via
Twitter, YouTube, Facebook, celular e outras ferramentas que pudessem acessar a
Internet. Estes jovens depois de muito tempo não tiveram medo de enfrentar a
milícia subordinada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma polícia criada
para proteger, mas que pratica a vigilância e a opressão a toda à população, pronta
para denunciar qualquer iraniano que não apoie o governo.
      O Choque de Civilizações, a divisão entre o Ocidente e o Oriente e, o porquê
do mundo muçulmano ser movido pelo ódio em relação aos países ocidentais
também será tratado neste trabalho. Teremos como base de estudo um único país
que passou por muitas transformações, golpes, revoluções e recentes protestos: o
Irã. Este país presenciou a Revolução Islâmica de 1979, tem um complicado
relacionamento com os Estados Unidos e presenciou um recente levante, no mês de
junho de 2009 que sacudiu os iranianos e mundo.
O uso das redes sociais foi fundamental para que os jovens fossem às ruas
mostrar à sua revolta e a verdadeira face do Islã e do atual Irã. O poder de Alá
sucumbiu à modernidade e apareceu um novo Islamismo, movido pela força da web
2.0.




Palavras-chaves:    Choque   do   Oriente   e   Ocidente,   Modernização, Avanço
Tecnológico, Globalização, Revolução Islâmica, Islã, Irã, Estados Unidos,Redes
Sociais, Web 2.0.
SUMÁRIO


1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................08

1.1 UMA BREVE HISTÓRIA DO ISLÃ......................................................................15

1.2 O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES ........................................................................22

1.3 A DIFICULDADE DO ISLAMISMO A MODERNIZAÇÃO.....................................32


2 IRÃ - HISTÓRIA E A SUA RELAÇÃO COM OS ESTADOS UNIDOS.....................40

2.1 IRÃ E SUAS REVOLUÇÕES...............................................................................54

2.2 A REVOLUÇÃO 2.0 - UM MUNDO DE CONTRADIÇÕES..................................63

3 A CIVILIZAÇÃO NA ERA 2.0...................................................................................76

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................88

5 REFERÊNCIAS.......................................................................................................96
APRESENTAÇÃO



DO ACADÊMICO:
Nome: Janaina Machado de Oliveira
Endereço: Rua São João nº 171/ 102 Bloco A Centro Niterói
Email: janaina.machado@planobconsultoria.com        Fone: 21 93384330
Empresa onde trabalha: Plano B Consultoria Empresarial e Assessoria de
Imprensa
Setor: Sócia-diretora
Ramo de Atividade: Consultoria Empresarial, Comunicação, Mídias e Redes
Sociais e Assessoria de Imprensa.
8

      1. INTRODUÇÃO



      No dia 11 de setembro de 2001, o mundo testemunhou uma das maiores
mudanças no curso da história. Três pontos diferentes e estratégicos dos Estados
Unidos, são atacados simultânea e inesperadamente. Milhares de vidas se perderam.
Um dos maiores símbolos americanos, o World Trade Center, as duas Torres
Gêmeas, localizada no sul da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York, caem como
se fossem folhas de papel picado. O Pentágono, localizado na capital Washington,
tem uma de suas partes destruídas e um avião da United Airlines, cai em uma área
florestal da Pensilvânia, matando todos a bordo. Um terror que ficaria marcado não
somente na memória dos americanos, mas em todas as civilizações. Não haverá,
decerto, uma explicação tangível e aceitável para o ocorrido.


      O horror se espalhou pelo mundo no momento em que as terríveis cenas foram
transmitidas ao vivo pela TV. Tudo parou. O autor dos atentados, o rico saudita,
Osama Bin Laden com a ajuda do grupo terrorista islâmico Al Qaeda não poderia
imaginar que o plano seria tão perfeito e visto ao vivo por bilhões de pessoas.


      O mundo naquela manhã de 11 de setembro de 2001 havia acordado para a
sua “primeira guerra do século XXI”. Foi assim que o Ex-presidente George W. Bush
falaria sobre os atentados em sua primeira declaração oficial. Uma “Cruzada” em
defesa da “civilização”. Havíamos começado a travar uma “Guerra ao Terror” e o
Oriente seria classificado definitivamente como o “Eixo do Mal”.


      Esta cruzada sempre será lembrada por cenas terríveis, nascidas antes,
durante e depois do 11 de setembro. O mundo já havia presenciado um primeiro
ataque as Torres Gêmeas, no ano de 1993. Um carro bomba explodiu na garagem de
uma das Torres ferindo milhares de americanos e matando muitos agentes do
Federal Bureau Investigation (FBI) que trabalhavam nos andares superiores da
área atingida.


      Este atentando foi o primeiro de muitos que teriam sucesso e que acabaram
por criar uma xenofobia contra qualquer muçulmano. Velho, adulto, homem, mulher,
9

ou criança são atacados e todos os lugares, principalmente nos Estados Unidos.
Durante o governo de George W. Bush, dezenas de muçulmanos suspeitos de
terrorismo são presos e levados para interrogatórios em Guantánamo, na ilha de
Cuba. Iraquianos são humilhados e torturados nas prisões de Abu Ghraib, em Bagdá.
O mundo passa a ter uma visão distorcida do islamismo, dos muçulmanos e de todo o
Oriente Médio.


           O orientalista Bernard Lewis, que criou o termo “Choque de Civilizações” e
inadequadamente apropriado após o primeiro ataque de 1993, pelo escritor Samuel
Huntington, explica claramente essa expressão:


                                     “(...) delinear a visão de um mundo dividido em conjunto
                                     geo-culturais       fechados       sobre      as     próprias      certezas
                                                    1
                                     absolutas.”


           O futuro da humanidade começa a depender do êxito ou do fracasso coletivo
em lidar com a dificuldade da coexistência entre as diferenças existentes entre o
Ocidente e o Oriente. Mas tanto o Ex-presidente Bush, quanto os políticos ocidentais,
têm feito grandes esforços para deixar claro que esta atual “Guerra”, e na qual as
grandes potências estão envolvidas, é apenas contra o terrorismo. De acordo com
Osama Bin Laden, descrito em um dos livros de Bernard Lewis, a guerra não é contra
o terrorismo:


                                     “Para eles e seus seguidores, essa é uma guerra religiosa,
                                     uma guerra do Islã contra os infiéis e, portanto,
                                     inacreditavelmente, contra os Estados Unidos, a maior
                                     potência do mundo infiel.” 2


           Os discursos de Bin Laden, sempre foram referentes à história e aos infiéis. O
seu vídeo de 7 de outubro de 2001, logo após os atentados de 11 de setembro,
refere-se à “humilhação e desgraça” e as pessoas, às quais ele se dirigia,
entenderam perfeitamente qual o fato histórico citado pelo terrorista.

1
    Magnoli, Demétrio, “Terror Global”, São Paulo, PubliFolha, Série 21, pág. 7, 2008.
2
    Lewis, Bernard, “A Crise do Islã - Guerra Santa e Terror Profano”, Rio de Janeiro, Zahar Editor pág.11, 2003.
10

        Ele fazia referência à perda do sultanato otomano, o último dos grandes
impérios muçulmanos restantes, em 1918 para os britânicos e franceses, assim como
as antigas províncias otomanas de língua árabe, que separadas deram origem a
novas “nações”, que ganharam outros nomes e fronteiras. São elas: Iraque, Palestina
e Líbano. Mais tarde os britânicos dividiram a Palestina, criando uma divisão entre as
duas margens do Jordão. A parte oriental transformou-se em Jordânia e a margem
ocidental Cisjordânia. Até hoje área nervosa do Oriente e geradora de grandes
conflitos.


        A Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Pau-
lo (UNIFESP), Cristina Soreanu Pecequilo, em seu artigo “A estranheza da democra-
cia” 3, escrito para o site Carta Maior explica que um dos termos mais utilizados na
retórica da política internacional, ao lado de paz e guerra, é democracia. Segundo a
professora traduzida e manipulada pelos mais diferentes interesses e grupos políti-
cos, a palavra pode ser levada a extremos como ao justificar a invasão norte-
americana ao Iraque em 2003 ou a Guerra Contra o Terror de 2001 do Afeganistão
em 2001. Ela explica que para os Estados Unidos, trata-se de motivação de uso cor-
rente para legitimar intervenções externas para o seu público interno e que ultrapassa
fronteiras. Mesmo com o patente unilateralismo de George W. Bush, alguns veículos
e analistas chegaram a definir este momento como o início de uma “Primavera dos
Povos” para o Oriente Médio, similar a 1989 na Europa Oriental.

        E sabemos que democracia não existe na maioria dos países muçulmanos.
Quase todos são governados por ditadores a mais de três décadas para revolta da
população, subjugando-os a repressões, maus-tratos, prisões indevidas, pobreza, má
qualidade de vida, falta de trabalho entre outros graves problemas.


        Esta nova “Guerra” impôs para a humanidade um desafio mais urgente do que
o fundamentalismo islâmico. Este “Choque de Civilizações” poderia ter sido evitado
de várias formas, sem xenofobia, sem “Cruzada” e sem “Guerra ao Terror”. Poderia

3
 Pecequilo,Cristina Soreanu, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, artigo;
“A estranheza da democracia” , site Carta Maior, de 12/02/2011.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17431
11

ser evitado se as grandes potências, principalmente os Estados Unidos se
propusessem a um diálogo aberto com os países islâmicos.


          Para os fundamentalistas islâmicos, que aparentemente estão liderando e
controlando a luta anti-imperialista e que mostra este fascínio pelo terror, nos diz
muito sobre a degeneração de correntes de esquerda que não conseguem esconder
sua profunda hostilidade à democracia e ao Ocidente. Os atentados, as revoltas, são
revelações claras de uma nova sociedade que está surgindo e que não quer mais
viver sob o véu da intolerância, criada por xiitas e sunitas.


          Podemos evitar este choque desde que ambos os lados façam concessões e
esforços necessários. Isto é possível? Há esforços praticados por ambas as partes?
Fica muito claro que é necessário muito exercício de compreensão de ambos os
lados. Alguém tem que ceder.


                                   “Ao Ocidente, cabe entender como a riqueza histórica do
                                   mundo muçulmano se vincula à sua ira atual - e como o
                                   próprio mundo ocidental é cúmplice, de certa forma, da
                                   crise contemporânea do islã. Um entendimento da
                                   dinâmica interna do mundo muçulmano, assim como de
                                   sua interação com os povos vizinhos, constitui o primeiro
                                   passo para desenhar políticas mais compassivas, e mais
                                   efetivas, frente a ele.” 4


          O Ocidente, - mais para os americanos do que para os europeus-, a unidade
básica da organização humana é a nação. Isto virtualmente é considerado um país.
Nesta totalidade está incluída a religião. Já os muçulmanos, tendem a ver não uma
nação subdividida em grupos religiosos, mas sim, uma religião subdivida em nações.
Segundo Bernard Lewis, em seu livro, “A Crise do Islã”, de 2003, páginas 14 e 15
este pensamento ou esta formação de Estados-nações, que compõem o “Oriente
Moderno”, podem ser observadas a partir do tempo de dominação imperial anglo-
francesa e que se seguiram à derrota do Império Otomano. Muitos outros países
surgiram com novos nomes: Turquia; Irã, antiga Pérsia; Paquistão, uma invenção do

4
    Demant, Peter; “O Mundo Muçulmano”, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004
12

século XX que foi designado um país inteiramente definido por sua religião e lealdade
islâmicas. Um país que fez por muito tempo parte do território indiano e que se
preocupou entre muitas outras coisas com a sucessão do Talibã e seus sucessores
no vizinho Afeganistão.


      Muito aconteceu no século XX e XXI e este “Choque de Civilizações” que
poderia ser evitado, tem se acirrado com novos eventos e novas guerras, sem
justificativas e sem aprovações do Conselho de Segurança da ONU. Após os ataques
de 11 de setembro, o mundo assiste a uma perseguição que não tem fim, mesmo
com a morte do terrorista Osama Bin Laden, em 1º de maio de 2011 e seus terroristas
formadores do grupo Al Qaeda.


      Para justificar a sua “Guerra ao Terror” e a sua “Cruzada”, o Ex-presidente
norte-americano, George W. Bush mandou tropas do exército americano invadir o
Iraque, com o objetivo de instaurar um novo governo e a democracia. Para isso,
perseguiu incansavelmente o ditador Saddam Hussein, antes aliado dos americanos.
O Iraque foi invadido com a justificativa de que no país havia armas químicas, que
poderiam acabar com a paz mundial. Nada foi achado e nada foi provado. Onze anos
depois, uma república ainda não foi instaurada no Iraque e o Ex-ditador, Saddam
Hussein, capturado pelos soldados americanos, foi enforcado após um curto
julgamento por crimes de guerra cometidos contra seu próprio povo e a humanidade.


      Sem conseguir controlar seus soldados, o mundo assistiu via satélite
atrocidades cometidas nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, praticadas pelo
exército americano. Os Estados Unidos mostravam definitivamente que o controle
estava sendo perdido.


      Democracia está à palavra da nova geração islâmica. Eles estão mudando o
mundo e chamando a atenção para o Oriente Médio de uma forma completamente
diferente da ocorrida no século XX. Seus desejos e sua formação são diferentes de
seus pais e dos religiosos que comandam com pulsos firmes os principais países
islâmicos. Os jovens muçulmanos de hoje estão com menos de 25 anos, não
vivenciaram com a intensidade de seus pais a Guerra do Irã-Iraque, a Revolução
Islâmica do Irã de 1979; os conflitos na Palestina e em Israel ou qualquer tipo de
13

atrocidades ocorridas em seus países. Esses jovens estão fazendo história, estão
querendo melhores condições de vida e trabalho. Seus países ricos em petróleo
podem proporcionar isto para eles a partir do momento que instaurarem uma
democracia.


      Sem armas, apenas munidos de celulares, internet, mídias sociais e redes
sociais o Irã, o Egito, a Tunísia e outros países do Oriente, fazem sua revolução. Por
meio destas ferramentas, conseguiram marcar encontros em praças públicas e
protestaram na frente de milhões de pessoas que o assistiam e o apoiavam via
internet. Seus gritos, seus apelos foram “Twittados”.        Gritam por injustiças e
reclamam por votos não computados em eleições presidenciáveis. O mundo até
então não tinha visto com tanta intensidade a voz desses jovens reclamando e
reivindicando seus direitos.


      Pela primeira vez o mundo viu o verdadeiro poder das redes sociais e o que
ela pode ajudar a fazer. Nem mesmo países tão seculares, fechados e com religiões
tão severas resistiram aos apelos destes jovens. O primeiro forte levante foi no Irã. A
Revolução Verde foi completamente twittada, apesar de todos os esforços dos
clérigos xiitas do Irã e do atual Presidente, Marmoud Ahmadinejad para tirar os jovens
da rua. O governo cortou a Internet ou qualquer tipo de acesso com o mundo exterior.
Não queriam que o mundo soubesse o que estava acontecendo em Teerã.
Ahmadinejad pode não ter saído da presidência fraudulenta como ficou explicitado, os
jovens muçulmanos munidos de celulares mostrou ao mundo que podem gritar mais
alto do que balas, pauladas e prisões praticadas pelos soldados Barsij, a polícia que
vigia e controla os iranianos.


      Os jovens iranianos deram vozes a outros mostrando a possibilidade de irem
às ruas e reivindicar direitos negados pelo governo. Diretos simples que podem
chegar com a democracia, a separação do Estado/religião. Mas, como o Oriente
Médio está conseguindo suplantar anos de tradicionalismo e adotar novas
ferramentas e dar a palavra a jovens que aparentemente “não” seguem as leis
islâmicas? Qual o relacionamento existente entre Estados Unidos e Irã? Por que o
Oriente tem tanto ódio do Ocidente? Estas e muitas outras questões serão levantadas
ao longo desse trabalho. Trataremos de forma breve o nascimento do Islã até os
14

acontecimentos de hoje, acompanhados pela Web 2.0. Apesar de muitos países do
Oriente Médio terem participado de recentes levantes clamando por democracia e
utilizando ferramentas da Web 2.0, focaremos o presente trabalho no Irã.
15

        1.1 UMA BREVE HISTÓRIA DO ISLÃ


        O Islã é a terceira religião monoteísta, revelada após o cristianismo e judaísmo.
Em árabe, Islã significa “Submissão a Deus”. É uma religião que nasceu com data e
local definido: na península Árabe, na atual Arábia Saudita, no século VII, no ano de
622. Conta à tradição muçulmana que a palavra de Deus foi transmitida em árabe,
pelo arcanjo Gabriel ao profeta Maomé, nascido no ano de 570 d.c., exatamente na
cidade de Meca, na Arábia desértica, uma área povoada por judeus e cristãos que
viviam instalados nesta região e sobretudo, por beduínos politeístas, povo que
venerava mais de 300 ídolos, reunidos na Caaba5. De acordo com os relatos
históricos dos muçulmanos, este santuário foi erguido por Adão e destruído durante o
Dilúvio. Abraão, considerado o ancestral de todos os árabes, reconstruiu o Santuário
com a ajuda de seu filho Ismael, instalando em seu ponto mais sagrado a Pedra
Negra.


        O Islamismo é o legado do profeta Maomé. É uma religião inspirado no
cristianismo, no judaísmo. Maomé desafiou os poderosos, unificou os árabes e criou
uma civilização fértil, complexa e acima de tudo, bela.


        Maomé nasceu em um clã que pertencia à tribo Koraishitas, uma das mais
poderosas estabelecidas em Meca. Perdeu os pais muito cedo e seu nascimento é
envolvido de fatos extraordinários. Já sob a guarda de seu tio paterno e a caminho da
Síria em uma caravana, chefiada pelo seu primo Ali, Maomé foi abordado pelo monge
Bahirá que o reconheceu de seus sonhos como o homem que portava uma auréola e
que era o enviado de Deus, o profeta que anunciaria o Livro Santo, o Alcorão ou
Corão6. Quando Maomé se aproximava dos 40 anos, no ano de 611 d.c., o Arcanjo
Gabriel apareceu ao profeta ditando uma série de preceitos e ordenando-lhe que
retransmitisse as palavras escutadas. Foi a partir daí que se seguiram as pregações
com instruções para a crença e a conduta do seguidor da nova religião.


        O Corão não fala somente de fé, mas também como o muçulmano deve
compreender aspectos sociais e políticos. As revelações estão divididas em 114
5
 Santuário dos muçulmanos em Meca
6
 Livro Sagrado dos muçulmanos que reúne todas as revelações de Deus, pelo Arcanjo Gabriel para o profeta
Maomé.
16

suratas (capítulos) com diversos versículos que vão de 3 a 286. Tornou-se um livro
de difícil entendimento, pois foi todo escrito em árabe formal. Uma coletânea de
diversos discursos do profeta Maomé, conhecido como hadith, formam um
complemento para a leitura do Corão: a Sunna. A linguagem mais clara e fluente
facilita a compreensão. Mesmo assim, como os registros foram realizados por
pessoas diferentes, existem muitas divergências em relação aos ensinamentos do
profeta. Muitas interpretações são dadas até hoje, o que dificulta e até mesmo, torna
a religião um pouco temida no Ocidente, pois as contradições da hadith provocaram
uma expansão dos conceitos do Islã ao incorporar tradições e doutrinas sobre a
sociedade e justiça. Estes conceitos são importantes na formação da cultura islâmica,
não ficando restrita à religião.


       Nos islamismo não há mediação entre o homem e o divino, como ocorre no
cristianismo com a figura de Jesus Cristo. Com isto, a religião islâmica ganha uma
força ainda maior para os muçulmanos, pois a palavra de Deus é direta e o Corão
papel central nesta divulgação dos ensinamentos divinos para o Islã. No uso ritual dos
muçulmanos, o Corão nunca foi traduzido do árabe. Eles fazem questão que seja
recitado na língua original, preservando assim, as palavras de Deus.


       No início Maomé e um pequeno grupo de seguidores foram perseguidos por
grupos rivais deixando a cidade de Meca e rumando a Medina. Esta migração ficou
conhecida como Hégira e inaugura o islamismo, marcando assim o início de seu
calendário. Esta migração não foi impedimento para que a religião islâmica e a
palavra de Maomé fossem abafadas. As revelações de Deus ao profeta conquistaram
adeptos em ritmo bem acelerado.


                            “O Islã é uma religião (din), com tudo o que este termo
                            implica (crença, ritual, normas, consolação, etc.), ao
                            mesmo tempo em que é uma comunidade (umma) e um
                            modo de viver ou tradição (sunna) que regulariza todos os
                            aspectos da vida: o indivíduo e as etapas de seu
                            desenvolvimento; a educação; as relações entre homens e
17

                                   mulheres; a vida familiar e comunal; o comércio, a justiça e
                                   a filosofia.”7


          Para melhor entender a religião islâmica, tudo gira em torno de um sistema
jurídico-religioso total: a xaria (Shari’a), que quer dizer, o caminho certo. Tudo
baseado em fontes sagradas, nos primórdios do islamismo. O desenvolvimento nunca
cessou e o islamismo reage a qualquer circunstância nova que é imposta a religião.


          Por ser tão complexa foi criada uma classe de prestígio. Legistas-intérpretes
especializados em traduzir e entender o Corão, os ulemás (ulama). Não tem papel do
clero institucionalizado da Igreja Católica: são apenas intérpretes e mediadores.


          No islamismo não há separação entre religião e política. Por muito tempo,
quando a comunidade de Medina era regida por Maomé, não existia separação entre
o Estado e Igreja, facilmente transferida para o Estado-Império Muçulmano.


          O Islã parece uma religião simples, com muitos dogmas e obrigações e
proibições que devem ser sempre cumpridas pelo muçulmano. Os deveres do povo
muçulmano se sustentam em cinco pilares.


          A primeira obrigação é a Shahada (testemunho), quando o muçulmano realiza
a sua confissão efetuando assim, a sua conversão à religião islâmica. É o momento
em que o crente irá declarar a sua devoção única a Deus, ao todo-poderoso e aceita
Maomé como o profeta. Neste momento fica claro para o muçulmano convertido de
que há uma invencível distância entre o Criador e a criatura. O islamismo é
extremamente severo com crenças em espíritos, santos e imagens e não consegue
entender a Trindade. Mas aceitam a existência de anjos e demônios. Para eles Deus
é oniciente, onipresente, inato e eterno. A função do homem/mulher religioso (a) é
entregar-se e servir a Deus. Nada consegue se relacionar a Deus, inclusive o profeta
Maomé, pois até mesmo ele enquanto homem era mortal e devia obediência
absoluta. Quando a morte chega para o muçulmano, finalmente chega o dia do



7
    Demant, Peter - O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004
18

julgamento e é neste momento que Deus aceitará os bons seguidores no paraíso,
enquanto os maus serão levados e condenados a viverem no inferno.


      O muçulmano praticante reza cinco vezes ao dia. Esta obrigação é conhecida
como Salat. Os muçulmanos são sempre chamados para a recitação do Corão pelo
muezzin, sua voz hoje, é escutada por toda a cidade, via autofalantes e uma
gravação substituiu os chamados ao vivo. Quando é feito pessoalmente o muezzin
se posiciona no manara, a torre da mesquita principal da cidade. É o momento de
veneração a Deus. A submissão é incondicional e as graças alcançadas derivam de
Deus e porque ele quis dar ao religioso. A Salat pode ser feita individualmente, porém
o preferencial é que seja realizada de forma coletiva. A sexta-feira para o muçulmano
representa o domingo dos cristãos, quando todos se reúnem na mesquita para a
realização de uma oração comunal. Os homens rezam no salão principal e as
mulheres em outras. São proibidos de se misturarem nos momentos de oração. Elas
devem sempre entrar com a cabeça coberta e realizar suas orações da mesma
forma, apenas os sapatos podem ser retirados e deixados a porta como respeito a
mesquita e principalmente a Deus.


      A terceira obrigação é conhecida como Zakat, que quer dizer esmola. Tem o
mesmo significado do Tzadaká judaico e o dízimo do cristão. O muçulmano deve
reservar uma parcela de sua renda para os pobres, refeições comunais e outras
atividades com relação à assistência social. Este é o momento em que o islâmico
demonstra solidariedade formando a ummah, formando a coletividade.


      O quarto pilar ou a quarta obrigação é o Ramadan. Durante um mês, todos os
muçulmanos devem jejuar como forma de purificação e acesso a Deus. A abstinência
ocorre durante um mês inteiro, pois é a comemoração que o muçulmano faz pelo
recebimento do Alcorão. O jejum vai desde o nascer até o por do sol. É proibido beber
incluindo água, comer, ter relações sexuais. Não é somente um momento árduo para
o crente islâmico, pois se celebra com alegria e muitas festas familiares que
acontecem assim que anoitece e podem ir até o nascer do sol.


      O quinto e último pilar é o Hajj. Significa que todo muçulmano deve realizar
pelo menos uma vez na vida uma peregrinação a Meca e seus Santuários. É a
19

simbologia da crença suprema a Deus. Historiadores relatam que na Idade Média
esta peregrinação era difícil e perigosa, mas muitos, até hoje, conseguem fazer esta
viagem oriundos de todos os países muçulmanos.


      Em todas as obras pesquisadas o conceito de jihad foi citado e deve ser
explicado. A palavra vem sendo traduzida como “Guerra Santa”, ou ainda no seu
sentido mais primitivo, na raiz da palavra: “combate na senda de Deus contra si
mesmo a fim de se aperfeiçoar”, mas na verdade, ela quer dizer “esforço em favor a
Deus”. A partir do momento que o indivíduo e a comunidade são islâmicos, todos
assumem um compromisso com a religião. Ela rege o que todos fazem de acordo
com a palavra de Deus, disseminada pelo profeta Maomé. A história revela que a
primeira jihad ocorreu por volta de 623 quando Maomé travou batalhas contra os
habitantes de Meca por não obter provisões. Com o passar dos séculos, muitos
muçulmanos passaram a usar a Jihad para a luta ou militância. Uma “guerra santa
contra os infiéis”.


      Maomé morreu quando a maior parte da Arábia já havia se convertido ao
islamismo. O seu tenente ou suplente califa (khalifa) tinha autoridade militar, jurídica
e religiosa sobre a comunidade (umma). Até os dias de hoje não há separação entre
religião-política. Mas, concluímos que o islamismo é muito mais do que um conjunto
de crenças. Conseguimos observar que há semelhanças na maneira de viver entra as
mais distantes sociedades muçulmanas.


      A maioria ocidental e grande parte dos muçulmanos costuma ver o islamismo
como uma religião imutável através dos tempos e completamente estagnada. Para
que possamos entender melhor o que aconteceu com o islã, os historiadores
dividiram esquematicamente em quatro fases o desenvolvimento do islamismo.


      A primeira fase acontece nos séculos VII a XI, quando os árabes expandiram o
Islã pelo Oriente Médio e África do Norte. Um período em que se estabelece o mais
extenso Estado do mundo e onde se desenvolveu uma das civilizações mais
avançadas e originais. Considerada pelos estudiosos como a fase clássica do
islamismo.
20

        A segunda fase acontece ainda no século XI ao XIV, quando o Islã sofre ações
desfavoráveis no Oriente Médio, mas consegue realizar sua expansão na Ásia
Central e Índia. Esta fase é a Idade Média Muçulmana.


        A terceira fase se concentra no século XV ao XVIII quando o Islã vê a
renovação do dinamismo acontecer devido a uma série de eficientes muçulmanos.
Fase conhecida como o “Império da Pólvora”, denominado desta forma por possuir
supremacia na fabricação e utilização de canhões. Era a época do Império Otomano
no Oriente Médio, o safávida no Irã, os grão-mughals na Índia, entre muitos outros.


        A quarta fase acontece pelo século XIX e a primeira metade do século XX
quando o mundo muçulmano cai nas mãos das potências europeias. Marcada
principalmente por tentativas de descolonização e por momentos em que ocorre um
confronto do Islã com as modernidades ocidentais. Uma época que perdura até o
momento onde o Ocidente cobra do Oriente uma reavaliação do islamismo, do mundo
muçulmano e de um novo equilíbrio para que se possa haver uma melhor convivência
mundial.


        Vale citar que os muçulmanos são divididos em três grupos desde os ocorridos
nos 37 anos da hégira8, de acordo com o calendário maometano. São os xiitas (o
segundo maior grupo dentro da religião, concentrando 10% dos muçulmanos), os
kharijitas (do árabe kharaja, “sair”, nome atribuído ao primeiro cisma do Islã, ocorrido
aproximadamente no ano de 657 da era cristã), formando apenas 1% e por fim, os
sunitas, formando quase 90% da população muçulmana.


        Grande parte dos sunitas acredita que o nome refere-se à Suna. Dois
caminhos foram estabelecidos pelos muçulmanos para explicar a razão da palavra
sunita. O primeiro está baseado nos preceitos estabelecidos na primeira fase do islã
no século XVIII a partir dos ensinamentos do profeta Maomé e de quatro califas
ortodoxos próximos a ele. A segunda explicação seria de que a palavra sunita
significa “caminho moderado”, defendendo a tese de que o sunismo faz parte de um
grupo que trabalha a moderação, o diálogo e sempre voltado para posições bem mais

8
 Do árabe hijra, “emigração”, quando acontece a partida de Maomé de Meca para Medina, em 622, e corresponde
ao ano inicial do calendário muçulmano, calculado de acordo com o segundo ciclo lunar.
21

neutras do que as tomadas pelos xiitas e kharidijas, considerados extremamente
radicais e fundamentalistas.


      O Corão/Alcorão apresenta uma complexidade de interpretação religiosa-
política que ultrapassou os séculos e o Islã inclui em seus versículos muito mais do
que crenças. Existem muitas semelhanças na maneira de viver e nas sociedades dos
muçulmanos mesmo elas estando em diferentes partes do mundo.


      Quando Maomé morreu, aos 63 anos de idade, a maior parte da Arábia já era
muçulmana. Um século depois, o islamismo era praticado da Espanha até a China.
Na virada do segundo milênio, a religião tornou-se a mais praticada do mundo, com
1,3 bilhão de adeptos, um quinto da população mundial, aproximadamente 20% da
humanidade. A religião se concentra em grande parte na África Ocidental seguindo
até Indonésia, passa pelo Oriente Média e Índia. Na maioria destes países, os
muçulmanos fazem parte da maioria da população local.


      Foram muitas mudanças através dos séculos, muitas batalhas, muitas
distorções ocorridas a respeito da religião islâmica. Podemos dizer que a história nos
revelou que o Islã é uma religião, uma lei, uma moral, um estilo de vida, uma cultura
para seus fiéis seguidores.


      As pesquisas nos revelaram que o Islã sempre acabou por se considerar o
dono da verdade absoluta, nem que o fiel tenha que disseminá-la usando a palavra
ou a espada. Maomé é visto até hoje pelos seus seguidores como um líder perfeito a
ser atingido. Nos séculos XVII e XVIII a expansão do islamismo foi feito através de
batalhas, eram as conquistas em nome da fé. Foi um período de expansão militar que
acabou por se estabilizar, firmando-se por um crescimento gradual, descrito como na
maior parte de forma pacífica, feito através do boca a boca. É inegável que o
islamismo é portador de uma vasta cultura disseminada através dos séculos.
22

      1.2 O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES


      Não há duvidas que o mundo hoje, no século XXI está dividido entre Nós e
Eles. O Nós são os Ocidentais e o Eles sã os Orientais.


      A história mundial sempre foi marcada por uma série de divisões e destacamos
como as mais recentes a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial que
deixou marcas profundas na civilização. Não que depois destas grandes guerras,
ainda durante o século XX e início do século XXI os olhos humanos não tenham
registrados conflitos, guerras, revoltas. O homem é capaz de cometer atos bárbaros.
Este é um fato triste de se constatar. Genocídios foram cometidos depois do
Holocausto, que ocorreu durante a Segunda Grande Guerra, que também foi capaz
de jogar duas bombas atômicas contra o Japão. Ruanda, Kosovo, são alguns dos
exemplos de genocídios ocorridos no final do século XX, assim como as milhares de
mortes, ocorridos devido a invasão da União Soviética ao Afeganistão; Guerra do
Golfo, Irã X Iraque e os recentes conflitos internos e externos em muitos países
espalhados por esta imensidão terrestre. . a Guerra Fria. Eram os Estados Unidos
contra a União Soviética, quer dizer, Ocidente contra os Comunistas.


      O mundo sempre esteve em grande alerta e fortes ameaças. Após a Segunda
Guerra, esta vigília aumentou devido a Guerra Fria entre Estados Unidos e União
Soviética. O medo de um ataque nuclear de ambos os lados mexeu com os nervos e
a imaginação até mesmo dos mais céticos. Durante 45 anos a famosa Cortina de
Ferro foi a maior linha divisória que marcou a Europa. Ela com o tempo foi se
movendo para o leste e acentuando e mantendo de um lado a separação da
Cristandade Ocidental e do outro lado os povos muçulmanos e ortodoxos do outro.


      A Guerra Fria acabou e os comunistas “desapareceram”, acordos foram
assinados, mas o medo de um ataque nuclear ainda persiste agora vindo de outros
lugares que insistem em enriquecer urânio quando esta tarefa na mão de países e
ditadores pode-se tornar uma arma fatal para a paz mundial.


      Nos dias de hoje, principalmente após o 11 de setembro de 2001, o mundo se
dividiu entre o Ocidente e Oriente. Desta vez, esta divisão absurda, carregada de
23

intolerância cultural e religiosa vem reforçada com armamentos bélicos bem mais
poderosos. Os dois lados parecem estar separados por uma linha invisível. Não há
possibilidade alguma de ultrapassagem. Onze anos após os atentados terroristas aos
Estados Unidos, um menor passo em falso pode ser motivo para conflitos, invasões
territoriais, perseguições, prisões, bombardeios e destruições de cidades e
populações principalmente no Oriente Médio. Uma intolerância muitas vezes repetida
no curso da história como podemos observar no histórico da formação do Oriente
Médio, América, Ásia, África e Europa. Não somente os muçulmanos sofreram:
judeus, cristãos, budistas, africanos, árabes, aborígenes, vietnamitas, mongóis,
chineses, japoneses, mexicanos, etc..


        O curso da política mundial acabou por realizar estas transformações e muitas
divisões econômicas, sociais, políticas, religiosas. Mas, no século XXI o mundo
consegue sentir com mais evidência a divisão existente entre o Oriente e o Ocidente.


                                 “Pela primeira vez na História, a política mundial é, ao
                                 mesmo        tempo,      multipolar      e    multicivilizacional.     A
                                 modernização econômica e social não está produzindo
                                 nem      uma     civilização     universal     de    qualquer       modo
                                 significativo, nem a ocidentalização das sociedades, não-
                                 ocidentais.”9


        Mas o que realmente define civilização? Muitos estudiosos definem civilização
no singular outros no plural como relatado no livro de Samuel P. Huntington, O
“Choque das Civilizações”. Segundo o autor, a definição surgiu por meio dos
pensadores franceses, no século XVIII, Este conceito apareceu em oposição ao
“barbarismo”. Um modo de criar uma linha divisória entre a sociedade privada e a
primitiva, entre a urbana e alfabetizada. No século XIX, este conceito foi utilizado
fornecendo para a sociedade as diferenças sociais. A sociedade europeia se
empenhou por muito tempo a desenvolver e elaborar critérios que envolviam o
intelecto, a diplomacia e a política para realizar a clara separação com os não-
europeus. Este foi um modo encontrado para que os europeus pudessem julgar os


9
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 19
24

não-europeus e assim, eles serem aceitos como membros de um sistema totalmente
controlado pelos civilizados. Esta forma de julgamento de civilizado e não civilizado,
europeu e não europeu acabou por fazer com que as pessoas falassem mais em
civilizações, utilizando o a palavra no plural.


                                “Isto significa “renunciar à civilização definida como um
                                ideal, ou melhor, como o ideal”, e um afastamento da
                                pressuposição de que havia um único padrão para o que
                                era civilizado, “confinado a umas poucas pessoas ou
                                grupos privilegiados, a “elite” da humanidade”. (...) Em
                                suma, a civilização no singular, “perdeu um pouco do seu
                                encanto”, e uma civilização no sentido plural podia na
                                realidade ser bastante não civilizada no sentido singular”.10


        A civilização e a cultura acabam se referindo ao estilo de vida de um povo. As
duas compõem os valores, as normas, as instituições, as gerações e seu modo de
pensar. Podemos dizer que civilização é uma coletânea composta de características e
fenômenos culturais. Uma civilização nunca terá um começo e nem um fim. Desde a
Pré-história que civilização forma um agrupamento de pessoas e sua forma cultural.
Foi esta forma de agrupamento que começou a diversificação e distinguir os seres
humanos dos demais seres vivos existentes. Depois surgiram outros elementos de
separação como a religião, a história, a língua, os costumes, os valores, etc..


        Passou também a não ter começos e fins. Os povos existentes costumam
redefinir suas identidades, acabam mudando com o tempo as suas definições e
formas. As culturas existentes interagem e se superpõem.


        Muitos estudos mostram que o equilíbrio de poder entra as muitas civilizações
está se modificando. Com a recente derrubada das Bolsas conseguimos perceber
que poucos foram os países que ficaram ilesos ao recente desequilíbrio da economia
mundial. O Ocidente sofreu muito com este desequilíbrio, principalmente os Estados
Unidos. As civilizações asiáticas expandiram e continuam expandindo o seu poderio
10
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 45
25

econômico, militar e político. O Islã aproveitou esta oportunidade para uma explosão
demográfica o que acabou causando uma desestabilização para os países islâmicos
e seus vizinhos, encontrando um modo e se reafirmar, não somente para os não
ocidentais, o valor de sua cultura.


        A religiosidade na maior parte do mundo demarca a diferença entre as
sociedades e principalmente a civilização. Estas diferenças em desenvolvimento
político e econômico mostram com nitidez as desigualdades culturais.


        O Choque entre Oriente e Ocidente fica cada vez mais acentuado quando
observamos que as sociedades que compartilham afinidades culturais acabam se
relacionando e cooperando uma com as outras. Neste contexto, conseguimos
observar que o Ocidente mostra pretensões universalistas cada vez maiores como
explica Samuel P. Huntigton:


                                “As pretensões universalistas do Ocidente o levam cada
                                vez mais para o conflito com outras civilizações, de forma
                                mais grave com o Islã e a China. Enquanto isso, em nível
                                local, guerras de linha de fratura, basicamente entre
                                muçulmanos e não muçulmanos geram “o agrupamento de
                                países afins”, a ameaça de uma escala ampla e, por
                                conseguinte, os esforços dos Estados-núcleos para deter
                                estas guerras. ”11


        Sabemos que para deter estas guerras globais e com equipamentos bélicos
cada vez mais sofisticados depende exclusivamente dos líderes mundiais. É dever
destes líderes aceitar a natureza multicivilizacional que o mundo acabou formando.
Uma cooperação é imprescindível para manter a ordem e uma abertura de diálogo de
ambos os lados.


        Após a Guerra Fria as distinções deixaram de ser ideológicas, políticas ou
econômicas. Elas hoje são definidas pela cultura e a cada ano que avança esta

11
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 19
26

distinção segue o rumo para a religiosidade. O agrupamento está voltando ao
passado quando a sociedade se dividia em religião, idioma, história, valores,
costumes e instituições.


                                “À medida que aumenta seu poder e autoconfiança, as
                                sociedades não ocidentais cada vez mais afirmam seus
                                próprios valores culturais e repudiam aqueles que lhes
                                foram impostos pelo Ocidente. Henry Kissinger observou
                                que “o sistema internacional do século XXI (...) conterá
                                pelo menos seis potências principais – os Estados Unidos,
                                a Europa, a China, o Japão, a Rússia e, provavelmente a
                                Índia – bem como a multiplicidade de países de tamanho
                                médio e menor”. 12


        Os países referidos por Kissinger fazem parte das cinco maiores civilizações
mundiais e são diferentes entre si. Mas, ele nos alerta para um detalhe altamente
importante:     alguns      países     islâmicos      estão    localizados      geograficamente      e
estrategicamente em cima das maiores reservas petrolíferos mundiais, como é o caso
do Irã e da Arábia Saudita. Estes países não podem e não devem ser deixados de
fora. São importantes para a economia mundial. Kissinger chama a atenção para que
as potências ocidentais “carimbem o passaporte” desses fortes Estados de influência
em assuntos mundiais. Eles devem ser ouvidos, as rivalidades e diferenças devem
ser esquecidas. No momento o diálogo ainda não acontece. São raros os encontros
para apertos de mãos entre Ocidentais e Orientais – no caso específico, países
islâmicos. Infelizmente sabemos que este conselho não está sendo seguido. No
mundo do século XXI o que importa é a política local, que forma a política da etnia e,
a política mundial é a política das civilizações. Este tipo de atitude cria um vácuo, uma
ruptura entre os povos e faz surgir uma forte rivalidade entre as nações. A rivalidade
das superpotências é substituída pelo Choque das Civilizações.


        Dois mundos, uma tendência que se repete por meio da história mundial.
Muitos escritores, jornalistas, antropólogos, sociólogos dizem em seus estudos que


12
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 21
27

sempre existirá uma expectativa de um mundo único ao final de grandes conflitos,
mas o curso da história nos mostram fatos inversos. Sempre aparece o Nós e Eles, a
civilização     e     os     bárbaros,      a     civilização     ocidental      e     os     religiosos
fanáticos/fundamentalistas. Cada vez mais os estudos são voltados para análises
divisórias: Oriente x Ocidente. Mais saibam:


                                “Os muçulmanos tradicionalmente dividem o mundo em
                                Dar Al-Islam e Dar Al-Harb, o reino da paz e o reino da
                                guerra. Essa distinção se refletiu –e, num certo sentido, se
                                inverteu – ao fim da Guerra Fria por estudiosos norte-
                                americanos que dividiram o mundo em “zonas de paz” e
                                “zonas de agitação”.13


        Todos os livros e reportagens pesquisadas reconhecem que há a existência de
uma civilização islâmica distinta. Ela se originou na Península Arábica, por volta do
século VII d.c., espalhando rapidamente pelo norte da África e Península Ibérica, bem
como na direção do leste da Ásia Central, tanto pelo subcontinente como pelo
Sudeste Asiático. Isto acabou por formar dentro do Islã muitas culturas distintas, pois
passou por diversas civilizações como a árabe, turca, persa e malaia.


        Com o passar do tempo e da história era natural o Ocidente ter uma visão
deturpada do Islã, achando que os muçulmanos são violentos. Esta percepção
errônea do islamismo vem de muitos séculos e a história atribui este erro à rápida
expansão que o Império Islâmico experimentou nos seus primeiros cem anos.


                                “Para cristãos e judeus conquistados, e para nações
                                europeias, muitas delas ainda em formação, não há dúvida
                                de que o Islã era uma religião que se expandiam pela
                                espada. Afinal, para que os conquistados permanecessem
                                vivos só havia duas opções: ou a conversão ou o
                                pagamento de um tributo extra (...). Para quem vivia uma
                                situação assim (morte ou conversão ou tributo), não havia

13
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 33
28

                                     outra conclusão senão a de que o Islã, Estado e Religião
                                     expandiam-se pela força.” 14


           Esta expansão realizada pela força não é reconhecida pelos muçulmanos. A
expansão pela espada era feita pelo califado, pelo Império islâmico. O Ocidente tinha
que entender que a religião proíbe conversões forçadas.


           Muitos ficam se perguntando se haverá algum dia o respeito mútuo entre o
Ocidente e Oriente. No momento a resposta é inconclusiva. Com a morte do maior
terrorista de todos os tempos, Osama Bin Laden, em 1º maio de 2011, o mundo ficou
em alerta máximo. A civilização muçulmana, completamente dividida entre os ideais
do terrorista e a palavra divina do Corão, avisou que represálias podem acontecer. De
uma minoria, mas que poderá fazer bons estragos na civilização Ocidental.


           Por muitos anos, o Ocidente e o Islã realizaram intercâmbios nas ciências,
medicina, na matemática, na astrologia na filosofia, nas artes e principalmente na
ética da guerra. Sim, este tempo existiu. Uma convivência pacífica entre ambos os
lados.


           Historicamente a civilização ocidental é a europeia, mas na era moderna a
civilização é a euro-americano ou do Atlântico Norte. É uma definição utilizada por
muitos escritores. O Japão está incluído nesta definição, apesar de ser uma
civilização bem mais antiga do que a norte-americana e fora do continente ocidental.
Sua recuperação pós-Segunda Guerra Mundial foi uma das razões desta
superpotência entrar no hall das civilizações ocidentais.


                                     “Durante a expansão europeia, as civilizações andina e
                                     mesoamericana, foram eliminadas, as civilizações indianas
                                     e islâmicas, juntamente com a África foram subjugadas, e a
                                     China foi invadida e subordinada à influência Ocidental.
                                     Somente as civilizações russa, japonesa e etíope, todas
                                     três governadas por autoridades imperiais, altamente
                                     centralizadas, foram capazes de resistir ao ataque do


14
     Kamel, Ali, “Sobre o Islã”, 2007, Editora Nova Fronteira, pág.124,
29

                                Ocidente e manter uma autêntica existência independente.
                                Durante      400     anos,     as     relações     intercivilizacionais
                                consistiram na subordinação de outras sociedades à
                                civilização ocidental.”15


        O choque prevalece, com culturas, religiões, políticas, economias e ideologias
diferentes. A prepotência do Ocidente de achar que tudo gira ao seu redor piora
substancialmente este problema. Os ocidentais acham que o Oriente está estagnado
e de que o progresso é inevitável. Recusam-se a esta implantação. Não é preconceito
ou ilusão de que este choque é existente. Os termos Cruzada, Guerra ao Terror, Eixo
do Mal, criaram uma absurda intolerância em civilizações milenares que não sabemos
se, algum dia irão conseguir recuperar a sua ideologia, dignidade, diretos e
democracia. Este choque faz com que todos busquem uma perspectiva mais ampla
com o objetivo de compreender os grandes conflitos culturais em que o mundo está
passando pós o 11 de setembro. Há uma multiplicidade de civilizações que devem ser
consideradas e observadas. Elas não devem ser perdidas nas áreas do deserto como
muitos antropólogos, filósofos e sociólogos apregoam em seus livros e entrevistas.


        No século XXI o islamismo, o cristianismo e o judaísmo são as três maiores
religiões da civilização. Partilham do mesmo ancestral, o profeta Abraão, um dos
filhos de Noé que sobreviveu ao dilúvio. Mas, os filhos de Abraão, com todas estas
afinidades, continuam se estranhando a ponto de termos muitas separações, muita
xenofobia e muitos loucos como Bin Laden fazendo do terror a sua religião, do
extremismo uma crença, atraindo milhares de seguidores dispostos a matar em nome
de Deus.


        Caso não houvesse tantos obstáculos agravados pelo 11 de setembro, as três
maiores religiões poderiam conviver em harmonia, sem precisar entender os textos
sagrados ao pé da letra. Entendê-las desta forma é uma loucura que acaba
exacerbando o que há de pior no indivíduo, em vez de mostrar o que há de melhor.


        O islamismo teve um período muito rico e seu maior crescimento foi em um


15
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 58
30

tempo em que os religiosos islâmicos não tinham total poder sobre a vida e o dia a
dia de suas comunidades e viam o Corão como um livro criado pelo homem. Por este
motivo, poderia haver diversas interpretações e não seguido cegamente.


        Este tipo de pensamento não era visto como heresia e sim como a melhor
forma de se ver um livro considerado sagrado pelos muçulmanos. Foram momentos
em que o Oriente Médio viveu a liberdade. Esta fase só voltou a acontecer no final do
século XIX e início do século XX quando o Oriente Médio viveu uma nova onda de
criação artística. O cinema, a música, a literatura e, toda a cultura islâmica foi
reverenciada pelo mundo.


        Na década de 30, no centro dos Estados Unidos, os americanos veem a sua
primeira nação islâmica nascer, por meio de Wallace Fard Muhammad, que se dizia a
reencanação de Alá. Era considerado por muitos como o “Salvador da Raça Negra”.
Este líder ficou mundialmente famoso como Malcom X. Em meio a segregação racial
americana, este líder criou o islamismo americanizado. O que já era confuso acabou
piorando. Malcom X, de ex-fumante, de ex-bebedor e ex-cristão foi assassinado por
pistoleiros da Nação do Islã.


        Hoje a população muçulmana é bem mais jovem e tem mais filhos do que a
média mundial. Deve crescer 35% nos próximos 20 anos, podendo chegar a 2,2
bilhões de pessoas. Em países de maioria islâmica a taxa de fecundidade é de 2,9
filhos por mulher, quase o dobro do índice das nações ocidentais desenvolvidas. Em
algumas regiões islâmicas, como nos territórios palestinos e no Iêmen, os jovens
formam três quartos da população. Cerca de seis em cada 10 habitantes do Oriente
Médio têm menos de 30 anos. Na Europa, a média é de quatro em cada dez. Isto
significa que a população da muçulmana é bem mais jovem do que a europeia. A
população urbana nos países islâmicos cresce 3,1% ao ano, enquanto no restante do
mundo o índice é de 1,8%. * 16


        E os números não param por aí. No continente americano 0,5% são
muçulmanos. Na Europa 5%, na África Subsaariana o índice é de 30%, na Ásia 24%


16
  Fonseca, Ana Cláudia; Teixeira Duda e Carvalho, Julia, Revista Veja, Edição 2216, ano 44, nº19, 11 de maio de
2011, Editora Abril, pág 102
31

e no Oriente Médio e Norte da África 91%.


                                “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez
                                a força central, que motiva e mobiliza as pessoas. É pura
                                arrogância pensar que, porque o comunismo soviético
                                desmoronou, o Ocidente ganhou o mundo para sempre e
                                que os muçulmanos, os chineses, os indianos e outros vão
                                se precipitar para abraçar o liberalismo ocidental como a
                                única alternativa. A divisão da Humanidade em termos de
                                Guerra Fria acabou há muito tempo. As divisões mais
                                fundamentais da Humanidade em termos de etnia, religiões
                                e civilizações permanecem e geram novos conflitos” 17




        Concluímos que é preciso conhecer o islamismo em profundidade para
entender melhor a religião e a cultura. A Religião nestes países não é separada do
Estado. Para os líderes mundiais e para nós, ocidentais, esta questão é de difícil
compreensão. A abertura de diálogo é fundamental. Sem a conversa entre estes
governantes dificilmente haverá uma possível conciliação entre Ocidente e Oriente.
Muitos podem discordar e achar que esta separação é inexistente, mas basta estudar,
acompanhar os fatos históricos e os passos da política mundial para perceber que ela
divide o mundo em duas civilizações. O preconceito é latente, mas o elo perdido deve
ser recuperado. A Cruzada, a Guerra ao Terror já levou muitas vidas inocentes. Este
jogo político deve exterminar definitivamente o termo Eixo do Mal. Tanto o Ocidente
quanto o Oriente podem voltar a conviver harmoniosamente sem nenhum Choque de
Civilizações.




17
 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora
Objetiva, pág. 79
32

      1.3. A DIFICULDADE DO ISLAMISMO A MODERNIZAÇÃO



      Foram muitos os motivos que fizeram o Ocidente a assumir a liderança de todo
o processo de modernização mundial, tanto da sociedade ocidental quanto das não
ocidentais. Os estudiosos apontam diversos fatores para tanta rejeição a
modernidade e a globalização.


      Existem milhares de “Islãs”, - fundamentalistas xiitas ou sunitas, wahhabitas,-
muitas variações de valores compatíveis com a modernidade. O cerne de todo o
problema está na profunda rejeição que o mundo muçulmano tem com relação ao
Ocidente. A estrutura Ocidental de conhecimento, baseada em poder, acabou por
criar uma imagem artificial, longe do que realmente parece verdade e hostil ao
islamismo. Esta imagem vem fomentada de um projeto de dominação que aparece
após as independências formais dos Estados muçulmanos. O próprio Islã acabou por
criar o problema. A história apresenta muitas intervenções ocidentais, muitas
oportunidades e desvantagens. Grandes autores como Bernard Lewis, Daniel Pipes e
Martin Kramer, apontam em seus livros que os muçulmanos não souberam aproveitar
estas oportunidades. Com isso, o mundo muçulmano parece permanecer preso em
um círculo vicioso de rancor, autopiedade e ódio, regada de teorias conspiratórias e
cheia de atentados terroristas em nome de Deus.


      Os orientalistas, como são chamados os que acreditam nesta teoria, acham
que o Islã é algo irredutível, que sua época de glória foi na Idade Média e que nunca
mais conseguiu se renovar e muito menos, incorporar soluções modernas para que a
sociedade muçulmana pudesse progredir.


      Com tudo isto os muçulmanos tem pagado um alto preço, pois as
consequências vêm por meio de muitos reveses históricos. Os orientalistas dizem que
os muçulmanos vivem presos em uma estrutura de pensamento que insiste na
superioridade dos próprios valores. Além disso, é incapaz de explicar as repetidas
derrotas do Islã. Culpam então, o mundo exterior, o Ocidente, por todas as
infelicidades e mazelas.
33

      Para que haja uma modernização no mundo muçulmano é necessário então,
uma reforma islâmica. Somente desta forma, os orientalistas apontam que poderia ser
possível os Estados Muçulmanos alcançar a tão sonhada democratização e
modernização clamada hoje nas marchas realizadas pelos jovens. Mas isto
possivelmente não irá acontecer, por mais que haja conflitos armados e não armados.
A situação tende então a piorar a cada conflito, que atraia mais e mais jovens, pois
fica evidenciado uma pseudo-solução para o islamismo.


      Além dos orientalistas há um grupo conhecido como externalistas que
sustentam em seus estudos que, as responsabilidades da não modernização das
sociedades muçulmanas devem ser minimizadas. Sustentam que tanto a desunião
quanto a existência de estruturas autoritárias é resultado de intromissões ocidentais.


      As causas reais são indefinidas e são sustentadas por séculos de erros
cometidos tanto pelo mundo Ocidental e Oriental. Sendo ou não causas internas e
externas o grande problema é que o Oriente Médio ainda passa por muitas
dificuldades e a região é considerada um barril de pólvora pronta para explodir tanto
em pequenos quanto grandes conflitos. O que acontece naquela região são
informações desencontradas fruto de erros de ambos os lados. No meio há um ódio
crescente que separa estas civilizações que poderiam conviver e desfrutar de muito
mais avanços do que poderiam ter.


      Há tanta turbulência no mundo muçulmano, montada em uma estrutura global
e desequilibrada firmada em poder e riqueza, que o Ocidente se julga no direito de
intervir militar e economicamente. Veremos mais adiante muitos e muitos fatores. A
lista é longa, fundamentalismo, terrorismo, petróleo. Diariamente jornais, revistas,
internet divulgam matérias que tentam convencer que o mundo muçulmano é o pior
buraco negro do mundo, esquecendo-se de sua riqueza histórica e de seu povo que
luta por melhores condições de vida e trabalho. As novas gerações muçulmanas
estão tentando mostrar que este buraco negro não é realmente o que parece ser.


      Temos certeza sim de que o mundo muçulmano vive uma crise generalizada,
regada ou não por justiça e que está afetando o restante do mundo. Por este motivo,
que muitas vezes, o Ocidente reage à necessidade de intervir para que a crise não
34

mergulhe o mundo em problemas mais graves. O diálogo é necessário, mas muitas
vezes o Ocidente partiu primeiramente para a força sem ao menos saber qual
realmente era o problema. A postura Ocidental em relação ao mundo muçulmano
muitas vezes é de não praticar o diálogo, apesar de que tentar o diálogo com
ditadores e fundamentalistas religiosos ser uma perda de tempo para ambos os lados.


      A modernização envolve muitos fatores como industrialização, urbanização,
crescimento dos níveis de alfabetização, educação entre muitos outros. A
modernização é produto do crescimento do processo científico e isto começou a
ocorrer no século XVIII. Este conhecimento foi primordial para que as sociedades
pudessem se desenvolver e moldar os seus próprios processos. Além disso, com o
passar do tempo, estes processos foram se aperfeiçoando e ajudando as sociedades
que antes eram primitivas e viviam em processos primitivos a tornarem-se modernas.
Mas os valores, educação, conhecimento, cultura diferem de sociedade para
sociedade. Mesmo assim, à medida que outras sociedades adquirem processos
semelhantes à cultura ocidental acabou por se transformar em cultura universal do
mundo.


      Este é um dos pontos fortemente rejeitados pelos líderes políticos, intelectuais
e religiosos do Oriente. Esta rejeição foi gradativa e com a chegada do século XX,
com surgimento dos avanços tecnológicos, culturais, de comunicação, transportes e
agora, com o advento da globalização, é quase impossível manter a modernização
longe da civilização. A interdependência global acabou por gerar altos custos para as
sociedades que prefere esta exclusão. O mundo é predominantemente moderno e a
globalização e os avanços tecnológicos do final do século XX e início do século XXI
aumentaram a interligação.


      No Oriente Médio e principalmente nas sociedades islâmico-muçulmanas, os
fundamentalistas são os que mais rejeitam a modernidade. Os religiosos
fundamentalistas veem na modernização e ocidentalização o abandono às tradições
islâmicas. O escritor Bernard Lewis, faz diversas perguntas em seu livro “O que Deu
Errado no Oriente Médio”, da Editora Zahar, de 2002, pois não podemos enxergar a
causa das mudanças na relação Oriente e Ocidente devido a um declínio do Oriente
Médio, mas sim a um surto Ocidental. Na visão do grande autor, o Ocidente
35

aumentou sua riqueza e seu poder por causa de suas descobertas, movimento
científico, revoluções industriais, tecnológicas, econômicas e políticas. Muitos
estudiosos se perguntam por que os avanços científicos ocorreram na Europa e não
nos domínios ricos e avançados e esclarecidos do islamismo? É um jogo de
acusações que não tem limites e são encontrados não fora, mas dentro da sociedade.
Um dos maiores alvos é a religião e especificamente o Islã. Mas devemos lembrar
que, na Idade Média os maiores progressos ocorreram não no Ocidente que formava
a cultura mais nova, e não estava também nas culturas mais antigas do Oriente, e
sim, no seio do mundo islâmico que estava bem no meio delas.


           Apesar de tudo isto, infelizmente hoje, observamos em alguns países islâmicos
vivendo ainda em um mundo medieval, em um grau limitado de liberdade quando
comparados com os ideais modernos e com práticas modernas nas democracias
mais avançadas. Muitas são as perguntas e muitas são as respostas que
encontramos para a rejeição do islamismo ao mundo moderno, a globalização, a
ocidentalização. E, não há razão para esta total rejeição, uma vez que o Islã foi
pioneiro à ciência, ao desenvolvimento econômico, à liberdade. Os muçulmanos
costumam culpar este “atraso” aos fundamentalistas e o fundamentalismo muçulmano
nada mais é do que uma reação contra a modernidade.


                                    “(...) os fracassos e deficiências dos países islâmicos
                                    modernos se devem ao fato de que adotaram noções e
                                    práticas estrangeiras. Abandonaram o Islã autêntico (...). O
                                    Clero Islâmico são responsáveis pela persistência de
                                    crenças e práticas que podem ter sido criativas e
                                    progressistas mil anos atrás, mas hoje não são uma coisa
                                    e nem outra.” 18


           A religião na forma fundamentalista está intimamente ligada com a situação de
pobreza. Notamos isto em países como o Afeganistão e o Paquistão, onde o regime
Talibã tem fortes raízes desde a expulsão dos russos das terras afegãs. O
fundamentalismo afasta estes povos da riqueza lembrando que deve ser descartada
para dedicação a Deus, sem a dependência de bens materiais. O fundamentalismo

18
     Lewis, Bernard, O que deu errado no Oriente Médio?, 2002, Editora Zahar, pág, 180 e 181.
36

resgata valores pré-capitalistas e não-materiais que se adéquam perfeitamente a
situação de pobreza que a maioria se encontra. Neste ponto reside a honra,
obediência, solidariedade e ajuda mútua. Além disso, o mundo muçulmano e o
islamismo não separa o Estado da Religião. Ambos fazem parte de um único pilar,
presidindo aí a teocracia.


      O fundamentalismo prega o afastamento das tentações ocidentais, uma clara
defesa ideológica. Tudo que vem do Ocidente é permissivo como o sexo, às drogas,
ao álcool e o consumismo. Mobiliza a ira que vem se alimentando por anos pela
desigualdade, escancara a ausência de oportunidades e as humilhações oriundas de
anos e anos. Estas emoções acabam sendo canalizadas para a luta contra o
Ocidente e confirmadas pela religião. Esta ira se aproveita e se alimenta do
antiocidentalismo.


      O islamismo é uma religião com forte mensagem social e política. Passa aos
seus seguidores autoconfiança e tem uma forte história de resistência que se perdura
até os dias de hoje, principalmente contra imposições estrangeiras. Não é surpresa
que a região, por não aceitar a modernização, a globalização, a consumismos
ocidentais, passa por fortes crises demográficas, socioeconômicas e ideológicas que
acaba colocando o Oriente Médio em uma situação geopolítica de inferioridade em
relação ao Ocidente. São derrotas sucessivas por causa de milhares de propostas
emancipatórias. Existe uma união entre a ideologia oposicionista que realiza a
politização da religião islâmica, grupos sociais alienados e fanáticos que encontram
nisto tudo, um novo sentido e uma nova ordenação.


                             “O   fundamentalismo    muçulmano      se   explica   pela
                             coincidência de determinados fatores quase inevitáveis,
                             seu desdobramento e o desfecho eventual de sua luta
                             contra o Ocidente estão ainda em aberto. (...) As escolhas
                             a serem feitas nestes tempos de encontro com o islamismo
37

                                   influenciarão o curso da humanidade nas décadas
                                   futuras”.19


           Estudiosos também apontam a descriminação sexual muçulmano e a desprezo
as mulheres colocando-as em uma posição inferior na sociedade. O mundo islâmico
concentrou todas as suas energias em educar a outra metade, enquanto mulheres e
mães continuavam analfabetas e tiranizadas. Este tipo de educação tende criar uma
sociedade arrogante ou submissa, completamente incapaz de ser livre e aberta.


           A submissão, tirania e o desrespeito aos direitos humanos nos países árabes é
outro ponto de forte discussão nos países Ocidentais. Existe uma união entre a baixa
produtividade e alta taxa de natalidade no Oriente Médio. Esta união acaba
produzindo uma população que cresce com bastante rapidez, lotada de homens
jovens desempregados, sem instrução e frustrados. Indicadores das Nações Unidas e
de muitas outras autoridades apontam os países muçulmanos com graves problemas
também em educação e tecnologia e estão ficando cada vez mais atrasados com
relação ao Ocidente.


             Todos estes fatores estão associados à modernização e a globalização, e
estão afetando profundamente a maioria dos países do mundo muçulmano. No
século XXI países muçulmanos vivem abaixo da linha da pobreza, com graves
problemas econômicos, apesar da riqueza petrolífera. Países regidos por regimes
teocráticos e outros por democracias disfarçadas por governos comandados por
ditadores que servem propósitos aos países ocidentais que estão apenas
interessados nas riquezas escondidas nas profundezas de suas terras. Riquezas
estas que o ocidente enfrenta escassez e que foi a estrela principal do crescimento
econômico mundial: o petróleo, a commodity mais comercializada do mundo. Cerca
de 68% das reservas mundiais conhecidas ficam no Oriente Médio, quase todas
localizadas na região do Golfo Pérsico. O controle, o acesso e influência em relação
ao petróleo do Oriente Médio são fundamentais para a política mundial. Muitos
conflitos e guerras tiveram origem por causa desta disputa, mesmo que não tenha
ficado explicitado o motivo.



19
     Demant, Peter , O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2004, pág. 330.
38

      Mesmo com a falta de modernização na maioria de seus países, o Oriente
Médio sempre está no centro do cenário internacional e após o 11 de setembro esta
visibilidade ficou ampliada. Isto também faz com que as potências mundiais atuem
com força aliando-se a governantes tiranos e inescrupulosos. Moderno ou não,
globalizado ou não, enquanto o petróleo for importante para as grandes potências e
para a economia mundial, haverá o interesse nos países muçulmanos.


      As questões de penetração e alienação cultural estão completamente vivas em
muitas regiões do mundo muçulmano, onde é o único em que a cultura religiosa tem
se transformado em ideologia fundamentalista não somente de forma defensiva, mas
que inclui em todo este pacote uma reivindicação pela primazia mundial contra o
Ocidente. Uma nova e perigosa ordem global, espalhada por fundamentalistas
religiosos e apoiado por terroristas, baseadas em uma suposta superioridade do Islã.


      Na maioria dos países muçulmanos há a violação dos Diretos Humanos.
Embora tudo isto ocorra, o fundamentalismo acontece de formas variadas e em graus
de violência diferenciados. Foi a forma alternativa encontrada pelo islamismo para
atacar de forma assertiva a supremacia Ocidental.


      O fracasso da modernidade nos países islâmicos é amplamente discutido pelas
autoridades como também pelos povos islâmicos. A população muçulmana está cada
vez mais consciente do que está acontecendo em seus países e sabe das grandes
diferenças existentes entre viver em um mundo livre, moderno e globalizado. Sabem
o que existe, o que se passa além de suas fronteiras. Mas, muitas vezes são
obrigados a conviver com a repressão, a falta de liberdade de expressão existente em
seus países.


      Os crescentes conflitos ocorridos recentemente nos países do Oriente Médio,
de 2009 a 2011, são resultados desta repressão, da raiva contida e claramente
dirigida aos seus governantes. Esta nova geração não viveu a forte repressão vivida
por seus avós e pais durante o século XX e início do século XXI, mas são capazes de
irem até o fim para tentar tirar os falsos governantes democratas que usam o poder
de forma egoísta e tirânica. É fato que muitos gritam pelas ruas que querem
democracia e falem sobre o fracasso da modernidade em seus países.
39

      É fato, o Ocidente não sabe ainda lidar com o Islã, a xenofobia, a visão de não
modernidade e globalização. Como se o Ocidente e o Oriente fossem dois planetas
em rota de colisão. Os terroristas e fundamentalistas religiosos, que se consideram
bons, únicos e autênticos muçulmanos, só agravaram esta situação. Já os norte-
americanos provocaram este ódio crescente para que o maior ataque terrorista da
história fosse calculado e realizado daquela forma.


      O islamismo não prega a violência. Não existe dentro do Islã fatores que
afirmam que a religião é mais violenta do que outras. Existem muçulmanos que
abraçam a xaria como uma base de ordem social e esta ramificação deseja a
segurança física e psicológica. Não aceitam as severidades interpretadas pelas leis
islâmicas dos fundamentalistas, que rejeitam a modernidade, a globalização, afastam
seus jovens de uma vida melhor e prega o terror, a vigilância como forma de manter
as tradições anunciadas pelo Profeta.


      Os jovens de hoje tem um preço alto a pagar, mas estão lutando para que tudo
isto possa mudar mantendo-se as tradições religiosas, assim como aconteceu com o
judaísmo e o cristianismo. A luta pela democracia é apenas o primeiro passo
considerado por estes jovens, um caminho real para abraçar definitivamente a
modernidade.


      O Islã ainda não fracassou, não aceitando a modernidade. Estes jovens que
protestam nas ruas e conseguem criar movimentos contra todas as ditaduras
passadas, certamente sabem que o caminho ainda é longo e que apoiados por
ferramentas ocidentais como as redes sociais, podem e tem muito que fazer. Eles
sabem que especificamente esta modernidade ocidental tem mais valor do que uma
AK-47 antes, empunhada por seus pais e avós.
40

      2. IRÃ - HISTÓRIA E A SUA RELAÇÃO COM OS ESTADOS UNIDOS


      A República Islâmica do Irã é um dos locais no Oriente Médio onde o mundo
parece ter parado em um tempo remoto. Tempo este, quando os bazaris – antigos
comerciantes-, dominavam a economia da antiga Pérsia. O Irã é considerado por o
berço da civilização. Em suas terras viveram astrônomos, matemáticos, cientistas,
artistas, mestres da ciência. Suas descobertas foram divulgadas quando os árabes
islamizaram todo o Oriente Médio. Neste enigmático e atraente país, temido hoje por
grandes potências, que reprime a sua população, rica em petróleo e pobre em
emprego, surgiu a primeira religião monoteísta por volta de 1000 a.C.


      Desde 1979, o Irã é terra dos aiatolás. O país dos mantos negros (chador) que
cobrem as mulheres, da língua farsi falado na província da Fars. Seu idioma é uma
variante do alfabeto assírio até o século VII, mas com a dominação árabe, os
iranianos assumiram o alfabeto árabe com pequenas modificações. É o único país
com um regime xiita. Herdeiro direto do antigo Império Persa, o Irã é um dos países
com um peso econômico considerável para o mundo muçulmano, pois está situado
em cima de uma dos maiores poços de petróleo do mundo, com um grande potencial
energético em gás e desenvolvimento nuclear, este último, causando grandes
desconfortos em líderes mundiais do século XXI.


      Independente de toda a sua história, o Irã dos tempos modernos cresce
desordenadamente como qualquer país que tem uma capital conhecida e intensa
como Teerã. Este país do Oriente Médio conta com uma população de mais de 70
milhões de habitantes e têm suas fronteiras divididas com países historicamente tão
importantes quanto ele. Conhecido como a Terra do Meio, o Irã ao norte faz divisa
com a Armênia, o Azerbaijão, o Turquemenistão e o Mar Cáspio. Ao leste faz fronteira
com o Afeganistão e o Paquistão, a oeste com o Iraque e a Turquia e ao sul, com o
Golfo de Amã e o Golfo Pérsico.


      Até o ano de 1935, o Irã ainda era conhecido como Pérsia e carregava o peso
de sua importância histórica. Foi do Império à teocracia. Um território de imperadores
famosos. Em 559 a.C, Ciro, o Grande, funda o Império Persa, conquista a Babilônia e
liberta os judeus da escravidão. Com Dario, Rei dos Reis, os iranianos conquistaram
41

expansão territorial e poderio político. Xerxes filho e sucessor de Dario, comandou
uma grande invasão a Grécia em 480 a.C, levando sob seu comando 180 mil
homens. Na época foi considerado o maior exercito já visto na Europa. No ano de 334
a.C, Alexandre, O Grande invadiu a Pérsia saqueando Persépolis. As famosas ruínas
de Persépolis são testemunhas da beleza e da grandeza que um dia foi a Pérsia.
Durante o seu apogeu a Pérsia, que chegou a conquistar o mundo antigo, formou
uma das civilizações mais prósperas e sofisticadas da Mesopotâmia.


      Na Idade Média foi invadido por mongóis, um grupo que teve sua formação na
Ásia Central, no século XIII, por Genghis Khan. Eles devastaram o Irã nos anos
seguintes de 1220. Quando os mongóis perderam o controle da situação este poder
passou então para às mãos da dinastia revolucionária Safávida, que tinha como
crença o xiismo. Adotar o xiismo foi um passo muito importante para a formação da
nação iraniana. Ismail I, que se proclamou Xá em 1501 e declarou o xiismo como
religião oficial do Estado, ergueu um império dez anos depois denominado: os
Safávidas. A vertente de que o xiismo não é um mero ato religioso perdura até os dias
de hoje no Irã. Na época, se estendeu da Ásia Central a Bagdá e das montanhas
geladas do Cáucaso as areias do Golfo Pérsico.


      O grande apogeu do Império Safávida aconteceu entre os anos de 1587 a
1629, durante os 40 anos do reinando de Abbas, também conhecido como o Grande.
Neste tempo, a cultura iraniana alcançou o seu maior reconhecimento. Abbas
conseguiu unificar o povo, construiu estradas para atrair mercadores europeus e criou
oficinas para produzir seda e cerâmica. A história iraniana nos conta que desde o
século IX, os intelectuais que viviam em terras persas haviam explorado o mundo
islâmico à procura de cientistas, filósofos e sábios. Criou a coleta de impostos,
montando uma competente rede burocrática, organizando o país que já vinha em
desordem desde os tempos de Ciro e Dario, dois mil anos antes de sua chegada.


      Apesar de obter um grande avanço durante a dinastia de Abbas, a sua forma
brutal de governar foi sob torturas e execuções. O seu modelo de governo casou
desordem, cobiça e morte entre as nações vizinhas ao Irã. Houve um longo período
de lutas e anarquias entre as tribos. Muitos outros imperadores vieram depois de
Abbas, como Xá Nadir, conhecido como um dos últimos grandes líderes históricos do
42

Irã, assassinado em 1747 e os Qajar, provenientes de um tribo turca do Mar Cáspio
que governaram o Irã do final do século XVII até o ano de 1925.


        No ano de 1804 os ingleses ajudam os persas na guerra contra a Rússia e
passam a influenciar o país. O Xá Muzzafar AL-Din, em 1901 concede aos ingleses a
exploração do petróleo. Vinte anos depois Xá Reza Khan toma o poder e começa a
modernização da Pérsia.


        Adriana Carranca e Mônica Camargo relatam em seu livro, “O Irã, sob o
Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”20, da Editora Globo, 2010, que a seus
reis tacanhos e corruptos cabe à culpa pela decadência que se abateu sobre o povo
iraniano. Enquanto a maior parte do mundo avançava para a modernidade, o Irã da
dinastia Qajar estagnava. O Irã era rota de cobiça para as grandes potências que não
tiravam os olhos desta terra. Já o jornalista do New York Times, Stephen Kinzer,
citado no livro das jornalistas brasileiras, escreveu um estudo sobre a Operação Ajax
- que derrubou o governo democrático do Irã, em 1953, articulado pelos Estados
Unidos e Inglaterra -, como sendo o responsável por modificar definitivamente os
rumos históricos do Irã. O que se conclui de todas as dinastias é que cada uma delas
deixaram profundas marcas neste país de mais de quatro mil anos.


        O Irã político e espiritual surgiu durante o reinado de Ismail I. Aceitando o
xiismo, os iranianos estavam aceitando o islamismo, mesmo que não fosse da forma
desejada pelos sunitas. Na política a posição do xiismo, como para o zoroastrismo, os
governantes só tem o direito de exercer o poder de forma justa.


                                  “Essa crença conferiu às massas xiitas, e por extensão aos
                                  seus líderes religiosos, força para promover a debacle do
                                  regime       laico,     construindo        o    paradoxo        de      uma
                                  modernização autoritária e religiosa jamais prevista por
                                  nenhum manual de teoria política.”21



20
   Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág 68
21
   Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág. 55
43

        No século XXI, os xiitas compõem o segundo maior número de adeptos do Islã,
depois dos sunitas. O Irã é um dos Estados mais antigos do mundo. Estas terras já
geraram milhares de filmes, estudos e livros. Foram séculos e séculos de uma rica
história de conquistas, guerras, conflitos e revoluções. Um pouco antes dos Aiatolás
dominarem o Irã, o país passou por um processo pioneiro com a Revolução
Constitucionalista de 1906 e a nacionalização da indústria petrolífera implantada por
Mohammed Mossaddegh em 1951. Foram dois fatos considerados importantíssimos
não somente para o país, como também, para a história mundial. A devolução do
petróleo para o povo iraniano custou o cargo político a Mossaddegh. Ele pagou um
preço bem alto por esta nacionalização. O livro “Todos os Homens do Xá – O Golpe
Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, de Stephen Kinzer,
Editora Bertrand Brasil, 2003, conta em detalhes o complô armado entre os Estados
Unidos e a Inglaterra. Um golpe que derrubou o governo democrático de Mossaddegh
e implantou no Irã uma longa e tenebrosa ditadura comandada pelo Xá Mohammed
Reza.


        O Xá Reza obteve por um bom tempo apoio dos ocidentais, mas foi derrubado
por um movimento popular que era contra à crescente secularização da sociedade e
principalmente à forte corrupção que estava sendo acobertada por sua temida polícia
política, os Savaks. O Irã passou por momentos de grande tensão, assim como
estava acontecendo em países do terceiro mundo – Brasil, Argentina, Chile. O ano de
1964 foi marcado com a expulsão do Aiatolá Khomeini, que se exilou na Turquia,
seguindo depois para Najaf, cidade considerada santa aos xiitas, ao sul de Bagdá, no
Iraque e por fim, para a França após duras críticas ao modo como Reza Pahlavi
conduzia o país. Seus discursos eram ouvidos clandestinamente por seus seguidores
no Irã, sendo reproduzidos em fitas cassete. Durante este período o país passou por
greves na administração pública, a interrupção da extração em seus cobiçados poços
de petróleo, produto principal de sua base econômica.


        O ano de 1979 foi marcado por uma das maiores Revoluções Islâmicas no
mundo muçulmano. Em 16 de janeiro de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi e sua
família real fogem para o exílio abrindo assim as portas para a volta do Aiatolá
Ruhollah Khomeini. O processo foi lento, mas muito bem planejado, pois o Aiatolá
precisou apenas de 10 dias no país para tomar o poder. No dia 10 de fevereiro,
44

Khomeini provocou uma mudança definitiva da ordem política e social no Irã. Foram
momentos de intensa luta armada dentro de terras iranianas, onde unidades do
exército, fiéis ao Aiatolá e a velha Guarda Imperial do Xá, se enfrentaram. Pelas ruas
os homens faziam barricadas e se vestiam para morrer pela causa islâmica. As
mulheres abandonaram as roupas ocidentais e cobriam-se com seus chadores. A
Revolução deixou 200 mortos, acarretou invasões a diversos prédios públicos e
provocou a soltura de 11 mil detentos da prisão de Evin,O resultado se deu na noite
de 2 de abril de 1979, quando foi proclamada a Primeira República Islâmica do
mundo. Uma tentativa de reproduzir o regime vigente na Arábia do profeta Maomé.


      Uma revolução e um novo regime com nuances ideológicas apoiado por
comunistas, liberais e mollah - camponeses armados com paus e pedras. Até
muçulmanos sunitas e xiitas juntaram-se a causa tendo apoio de judeus, cristãos,
ateus unidos a favor da revolução.


      Não havia uma programação concreta. Naquele momento, o que os iranianos
desejavam era obter uma liberdade por meios de atos democráticos. O sonho durou
pouco, o idealismo de liberdade e democracia sofreram mudanças radicais. No poder,
o Aiatolá modificou o discurso. Estudantes viram escolas e universidades serem
fechadas para que o ensino pudesse ser adaptado de acordo com a sharia, a lei
islâmica. As mulheres foram obrigadas a cobrir os cabelos em público. Uma
democracia e uma liberdade prometida e que acabou não sendo exercida ao longo
dos anos. Ao longo destes 30 anos pós-revolução, o Irã se manteve a maior parte do
tempo fechado para o mundo ocidental.


      A inimizade e a falta de diálogo com os Estados Unidos e Irã, quer dizer,
Ocidente contra Oriente, dura a mais de 30 anos. Não há respeito entre Estados
Unidos e Teerã. O jornalista Stephen Kinzer, ex-repórter do New York Times,
concedeu em janeiro de 2011, uma entrevista ao jornalista Jorge Pontual, para o
Programa Milênio, do canal GloboNews, analisando o passado, presente e o futuro
desta tão conturbada relação envolvendo os dois países.


      Para o jornalista americano, a melhor maneira encontrada por ele para este
conflito é os Estados Unidos trocarem os velhos aliados, no caso Israel e Arábia
45

Saudita. Seriam necessários novos parceiros, no caso o Irã e a Turquia. Isto deveria
ser feito rapidamente antes que aconteça mais uma guerra. Kinzer afirma que os
Estados Unidos devem reconhecer os erros do passado e quem sabe reencontrar um
sentimento democrático até pró-americano do povo iraniano.


        Os conflitos se tornaram maiores quando iranianos começaram a sequestrar
diplomatas americanos. Isto acabou por forçar o povo americano a se perguntar o
porquê destes sequestros estarem acontecendo, pois até então os norte-americanos
não sabiam do golpe articulado pela CIA, junto com o governo britânico, para tirar o
premier Mossadegh do poder, antes da Revolução Iraniana de 1979. Kinzer ressalta
em sua entrevista que um lado desta história ficou por muito tempo obscuro para o
povo americano. Esta falta de diálogo e incompreensão com o povo iraniano acabou
por ser acentuada a cada dia.


                                  “Esta crise dos reféns, deixou marcas profundas em uma
                                  geração        de       formuladores       das      políticas     externas
                                  americanas.         A     reação     da     crise     aos       reféns    foi
                                  essencialmente: “Eles não tinham motivos para fazerem
                                  isto. São selvagens, niilistas bárbaros, que, sem motivo,
                                  estão fazendo sofrer nossos concidadãos.” Para os
                                  americanos era o que parecia. Não imaginávamos que
                                  alguns iranianos, tinham motivos para ter raiva de nós.
                                  Para os americanos, até hoje, as relações Estados Unidos-
                                  Irã, começam e terminam em 1979-1980. Foi quando elas
                                  começaram e não avançaram mais.”22


        Os americanos esqueceram que para o lado iraniano, os fatos poderiam ser
bem diferentes e que isto poderia mudar completamente o curso das relações
internacionais entre o Ocidente e o Oriente.




22
  Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as
Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News,
Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
46

                                  “As relações entre Irã-Estados Unidos e seus conflitos
                                  começaram em 1953, quando Mohammed Mossadegh foi
                                  derrubado pela CIA. Desde as crises dos reféns, alguns
                                  dos     sequestrados         escreveram        artigos      e    memórias
                                  contando         o    porquê    fizeram      tudo    aquilo.     Só     hoje
                                  conseguimos descobrir que eles tinham um motivo. Os
                                  iranianos não eram apenas niilistas, tinham algo bem claro
                                  em mente. Estavam pensando no que havia acontecido em
                                  1953. O que aconteceu então? O povo iraniano obrigou o
                                  Xá a fugir. Mas, os agentes da Cia, trabalhando nos porões
                                  da    embaixada          americana,      organizaram         o   golpe      e
                                  trouxeram o Xá de volta. Então, 25 anos depois, em 1979,
                                  o     Xá   foi       obrigado   a    fugir   de     novo.       Os    jovens
                                  revolucionários iranianos pensaram: “Vai acontecer tudo de
                                  novo. Os agentes da CIA nos porões da embaixada
                                  americana, vão organizar outro golpe para trazê-lo de
                                  volta. Não podemos deixar isto acontecer.” Foi por este
                                  motivo que eles invadiram a embaixada. Mas, só depois de
                                  muitos anos que os americanos ficaram sabendo o que os
                                  Estados Unidos tinham feito no Irã, em 1953. Foram
                                  grandes danos que eles nem desconfiavam. Esta foi a
                                  causa da crise dos reféns e de todos os conflitos
                                  subsequentes entre os dois países.” 23


        A crise dos reféns durou 444 dias. Foi considerado um marco do rompimento
entre Estados Unidos e Irã. O sequestro de 52 cidadãos americanos durou de 1979 a
198, dentro da Embaixada dos Estados Unidos por seguidores de Khomeini que
contavam com sua anuência. A crise dos reféns acabou por eleger o republicano
Ronald Reagan, nas eleições presidenciais americanas no ano de 1980 e o fatídico
isolamento internacional do Irã. Esse isolamento foi carregado de acusações de que
os Aiatolás por terem interesse de disseminar a Revolução Islâmica pelo mundo

23
  Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as
Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News,
Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
47

árabe passaram também a patrocinar grupos terroristas e radicais. Isso nunca foi
provado.


        É difícil de acreditar que antes do golpe de 1953, que ficou tão marcado na
mente dos iranianos, que este povo poderia ser pró-americano. Mas o golpe, ajudado
pelos ingleses que controlavam a exploração do petróleo, por meio de uma empresa
anglo-iraniana, foi o estopim para a quebra de uma amizade que durou quase toda a
primeira metade do século XX. Um período em que britânicos, franceses e russos,
exploravam, saqueavam, oprimiam o Irã, enquanto os Estados Unidos estavam ali
para ajudá-los. Por este motivo, havia o sentimento pró-americano no Irã. Um povo
que recebia de braços abertos os médicos, as enfermeiras, os professores
americanos que desejam apenas ajudá-los. Os Estados Unidos eram vistos pelos
iranianos como uma nação perfeita, ideal para ser copiada. A mudança brusca
acabou ocorrendo no ano de 1953. De lá para cá tudo foi completamente diferente o
tratamento da política externa entre ambos os países. Apesar de o povo iraniano
acolher de braços abertos os americanos que desejarem visitar o seu país, os seus
líderes não conseguem dialogar. O atual presidente Ahmadinejad, é intolerante e
indesejado no cenário internacional.


        Podemos afirmar que a cultura pop, musical e a Internet, esta última bloqueada
por causa das manifestações ocorridas em junho de 2009, são muito difundidas no
Irã, proporcionando um avanço cultural muito importante para o povo iraniano.
Segundo Stephen Kinzer, os Estados Unidos têm o que muitos iranianos querem,
uma sociedade de sucesso, com uma “economia próspera”*24, na qual as pessoas
possam viver em liberdade e se realizar. Os jovens iranianos desejam exatamente
isto para eles, melhor qualidade de vida, empregos, liberdade de expressão,
democracia, e sabem que merecem isto porque estudam, são cultos, trabalham muito
para que estes desejos sejam realizados. Em muitos países do Oriente Médio este
tipo de pensamento não é bem visto. Vão de encontro à sharia, contras as leis
islâmicas.




*24 Não podemos afirmar que esta economia é tão próspera nos dias de hoje. Com a crise econômica mundial, a
economia americana entrou em colapso e segundo, o jornal “O Globo” edição de 15 de julho de 2011, o governo
americano apresenta uma dívida de US$ 14,3 trilhões. Para honrar seriam necessários vários cortes internos.
48

        Devemos lembrar neste trabalho que a ideia de democracia no Irã tem mais de
100 anos. A constituição Iraniana ainda é nova, e eles levaram bastante tempo para
aprender os partidos políticos, o que é parlamento, eleição, como acontece uma
votação e o como poderiam ser aplicadas as leis iranianas. Muitos países no Oriente
Médio não sabem como é uma constituição e apesar do Irã ter um regime religioso
opressivo, a sua sociedade tem pensamentos profundamente democráticos. Os
iranianos demonstram que é o único país do Oriente Médio, que apesar de todo o
fundamentalismo religioso, consegue “mentalmente” ou desejam separar o Estado da
Religião. A democracia não é um estado imposto por regimes externos ou internos. O
Irã parece ser o único país do Oriente Médio, a saber, separar plenamente esta
questão. Aprenderam que democracia não é depositar o voto na urna, é
principalmente tentar entender e aprender os problemas de sua própria sociedade e
saber resolvê-los.


                         “O Irã foi um país que levou vários anos desenvolvendo uma
                         consciência        democrática        e    decidiram       sozinhos       que     era
                         exatamente isto que queriam”. 25


        A política externa americana e até mesmo a mundial está presa a paradigmas
que devem ser transpassados, isto se torna um grande problema na relação entre o
Ocidente e Oriente Médio. O ambiente estratégico no Oriente Médio mudou
radicalmente. A política externa mundial deve ficar atenta, pois sabemos da existência
de ameaças assustadoras e também muitas oportunidades que devem ser
aproveitadas. Mas, infelizmente nada ainda foi feito pelo Ocidente.


        Segundo o diplomata Mohamed Elbaradei, Prêmio Nobel da Paz de 2005,
autor do livro “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, as
suas impressões com relação aos problemas enfrentados entre Estados Unidos e Irã
são bem parecidos com as dos jornalistas Stephen Kinzer e Robert Fisk. Ele relata
que a percepção americana do regime iraniano, como uma gang de radicais irascíveis

25
  Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as
Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News,
Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
49

tinha raízes emocionais e profundas, que remontavam à crise dos reféns de 1979 a
1981. Para os iranianos, o sentimento de que os Estados Unidos personificam o
“Grande Satã” era antigo e vinha desde o golpe arquitetado pela Cia e que derrubou
Mossadegh.


                                 “Em ambas as capitais, as discussões sobre as relações
                                 entre os dois países geralmente eram envoltas por
                                 elementos de fervor ideológico e até político”26


        O Ocidente esqueceu a história mundial e mais ainda, de que o Irã é um dos
países mais antigos do mundo, com uma forte identidade e história e como qualquer
país, com uma grande sensibilidade às interferências estrangeiras.


        Para os durões do governo Bush, a simples ideia dos Estados Unidos se
envolver com o Irã representava um comprometimento moral. O objetivo final de Bush
era a mudança do regime.


                                 “(...) em 2007, a catástrofe da Guerra do Iraque fez um
                                 ataque militar contra o Irã não parecer uma opção viável,
                                 pelo menos naquele momento. Por isso criou-se um plano
                                 B: uma política de sanções e isolamento destinada a fazer
                                 o Irã se dobrar sob pressão, especialmente a questão
                                 nuclear.     As     sanções       serviram       para     expressar       o
                                 descontentamento da comunidade internacional, mas, em
                                 minha opinião, não poderiam resolver a questão”. 27


        O Irã se dobra aos desejos dos Estados Unidos era um sonho do governo
americano, mas não coincide com a realidade. Muito trabalho foi feito para tentar
sabotar todos os esforços europeus no sentido de se retomar o diálogo com o Irã,
especialmente com relação ao enriquecimento de urânio. Quando esta possibilidade


26
   Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011,
pág. 277.
27
   Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011,
pág. 277.
50

se tornava possível, os americanos bloqueavam o caminho. Para o diplomata
Mohamed Elbaradei não existe o nós contra eles e insiste em uma necessidade de
uma diplomacia inesgotável.


       Kinzer ressalta que líderes ocidentais deveriam ampliar a agenda com o Irã.
Não apenas discutir embargos econômicos caso eles não revejam seu programa
nuclear. Mas, a maioria dos políticos ocidentais acredita que se o Irã não restringir o
seu projeto nuclear não há possibilidade de diálogo. Não há como abrir concessão ao
Irã.


       O preconceito estabelecido não deixa os políticos e líderes externos verem os
enormes    pontos   estratégicos   que   possivelmente     abriria   portas   e   mudaria
definitivamente a história entre estes países. Poderia acabar ou melhorar o Choque
de Civilizações existente entre Ocidente e Oriente. O que está em jogo é a política
internacional e como os dois lados poderão ganhar quando chegar o final do século
XXI. Não podemos negar que o mundo criou uma predisposição com relação ao Irã e
outros países do Oriente Médio. O Ocidente acha que qualquer coisa dita por países
orientais e especialmente vindo do Irã, é uma armadilha.


       O mundo precisa de parceiros na região do Oriente Médio e eles devem ser
escutados. O problema explicado nas reportagens lidas durante a pesquisa mostra
que os Estados Unidos, na maioria das vezes estão no comando dos diálogos
internacionais, não estão acostumados a ajustar e mudar sua política de dialogo. A
grande dúvida para o jornalista Stephen Kinzer e até mesmo para o renomado
correspondente internacional do jornal britânico Independent, Robert Fisk, é saber
qual seria o parceiro ideal para este tipo de negociação. Esta pergunta jornalistas,
especialistas e políticos fazem constantemente. Sabem que para se ter esta parceria
é necessário buscar países com uma sociedade parecida entre si. Irã e Turquia são
países islâmicos do Oriente Médio com uma longa experiência democrática. Os
líderes mundiais devem perceber que, as políticas estratégicas de longo prazo,
possam ser paralelas as de seus países.


       Não há dúvidas que há uma grande inimizade entre Estados Unidos e Irã e isto
abala inteiramente o eixo Ocidente e Oriente. Anos atrás, Estados Unidos e China
51

assinaram um acordo com o objetivo de acabarem com a inimizade existente entre as
duas partes. Um documento simples, conhecido como o Comunicado de Xangai,
escrito por diplomatas, em três partes e assinado depois entre os dois países. Muitas
portas foram abertas, em especial a econômica. Stephen Kinzer em entrevista ao
Programa Milênio28 é um dos que compactuam com a ideia de se fazer algo parecido
entre Estados Unidos e Irã. Kinzer acha que somente desta forma, se conseguirá
acabar com a inimizade entre os dois países. Basta somente que haja uma agenda e
isto certamente seria um excelente começo para diálogos entre estes dois
importantes países. Os norte-americanos sabem que estão lidando com um regime
repressor, que brutaliza sua sociedade e que luta a todo instante por seus direitos. Os
iranianos não querem que sua sociedade e seu governo, fiquem isolados do mundo.
Este ponto de vista se apresenta claro nos livro e reportagens de Stephen Kinzer,
Robert Fisk e de Bernard Lewis.


                                   “Os Estados Unidos deveriam negociar com o regime
                                  existente hoje, no Irã. Mas, os norte-americanos não
                                  podem ignorar os direitos democráticos dos iranianos.
                                  Qualquer acordo precisa de componentes democráticos e
                                  um dos modelos existentes são os Acordos de Helsinque
                                  que foram benéficos para todas as partes. Os países do
                                  bloco soviético gostaram porque tiveram reconhecidas a
                                  sua legitimidade e segurança. Os norte-americanos
                                  gostaram porque o Acordo conferiu direitos democráticos
                                  às pessoas. Algo parecido deveria ser feito.” 29


        Este seria o ideal esperado pela civilização. Mas, diante dos últimos
acontecimentos no Oriente Médio, onde um novo conflito e revolta faz daquela área



28
  Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as
Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News,
Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
29
  Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as
Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News,
Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
52

um local de total instabilidade, o sonho de ver líderes islâmicos conversando e
apertando as mãos e selando acordos de paz e cooperação, é algo distante.


      O Oriente Médio “parece” uma área sem controle. As grandes potências
julgam-se no direito de invadir suas terras e impor a força suas ordens e ideias, sem
respeitar direitos, religião, cultura, sociedade. Não se consegue ver em um breve
futuro o que pode acontecer. Cada dia é um grande desafio. Resta apenas controlar o
descontrole no Oriente Médio. Esta instabilidade, fez do mundo muçulmano um local
temido pelo Ocidente. Não conseguimos ver no momento um diálogo entre Ocidente
e Oriente, apesar dos esforços realizados pelo Conselho de Segurança da ONU. Mas
possivelmente, os bloqueios realizados pelos americanos para que este diálogo
nunca aconteça e relatados pelo diplomata Mohamed Elbaradei, podem estar
prejudicando um novo acontecimento global.


      Quanto ao Irã, o diálogo parece estar cada vez mais distante. A intransigência
de seu atual presidente Ahmadinejad leva os iranianos a perder as esperanças tanto
em relação ao impasse criado por sua política interna e externa. O discurso é
autoritário, teocrático, sem negociação. Uma preocupação constante dos líderes e
diplomatas mundiais, pois o Irã é um forte país no Oriente Médio. Ahmadinejad sabe
que detém este poder e usa a sua figura para intimidação. A teimosia em desenvolver
enriquecimento de urânio para bens pacíficos, o claro patrocínio de terroristas é uma
preocupação mundial. Estes fatores enterram os sonhos dos jovens iranianos que
desejam o reconhecimento de seu valor, de sua cultura e de seu país, ainda que ele
seja governado por líderes opressores que desrespeitam direitos humanos e se
negam a terem um diálogo mundial.


      O sonho de um diálogo foi retomado com a eleição de Barack Obama, no dia 4
de novembro de 2008, como novo presidente dos Estados Unidos. Ahmadinejad
chegou a enviar cumprimentos a Obama pela vitória e expressando a esperança por
“mudanças importantes, justas e reais nas políticas e nas ações”. Foi a primeira
realizada deste tipo a um presidente norte-americano, recém-eleito, desde a
Revolução Iraniana de 1979.


      No discurso de posse as esperanças foram renovadas:
53

                                  “Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a
                                  seguir, baseado no interesse e no respeito mútuo. Para
                                  aqueles líderes de todo o mundo que buscam semear o
                                  conflito, ou jogar a culpa dos problemas de suas
                                  sociedades no Ocidente, saibam que seu povo irá julgá-los
                                  pelo que conseguirem construir, não pelo que destroem.” 30




30
  Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em Tempos Traiçoeiros”, Editora, Leya, 2011,
pág. 325.- Discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a sua posse no dia 20 de janeiro de
2009.
54

      2.1 O IRÃ E SUAS REVOLUÇÕES


      A Revolução de 1979 no Irã, ocorrida há quase 30 anos, aconteceu quando o
povo iraniano passava por um estado de extrema pobreza e ao mesmo tempo fartura
representada pela Dinastia Pahlavi. O governo praticava um regime político brutal e
ao mesmo tempo esbanjador. O povo reagia a este tipo de política resistindo a toda à
injustiça cometida pelo governo, lutando por igualdade social. Sonhavam em ter um
líder moral que pudesse expressar todas as queixas dos iranianos, diferente da visão
do governo que os regia. Sabiam que o regime Pahlavi não era o ideal. Em 1978, os
protestos começaram, mas o governo regente reagiu de forma violenta contra todas
as manifestações e isto só fez aumentar ainda mais os protestos.


      Muitos iranianos perderam suas vidas lutando contra as forças de segurança
que compareceram as ruas com o objetivo de reprimir os protestos. Acompanhando
os acontecimentos, o Xá Reza Pahlavi propôs acordos, mas nenhum foi aceito. Já
sem vontade de governar devido ao estado avançado do câncer, o Xá preferiu deixar
o Irã rumo ao exílio, acompanhado de sua família. O Aiatolá Khomeini retornava
então, de seu exílio, para transformar o Irã na primeira República Teocrática Islâmica.
O Irã deixava de ser um governo monárquico pró-Ocidente para encarara dias de
Revolução, carregado de elementos que envolviam, não somente a religião, mas
também a insurgência de um povo que se viu diante da intervenção de países como
Inglaterra e os Estados Unidos.


      A Revolução trouxe com ela leis conservadoras do Islã. O poder religioso no
país dos Aiatolás. Era a criação da história da única teocracia do mundo moderno, em
que os preceitos do Islã ditam as leis. Somando-se a tudo isto a teocracia trouxe
grave violação aos Diretos Humanos, apoio a grupos terroristas, um polêmico e
conturbado programa nuclear que os governantes insistem em dizer que não existe.
Com a Revolução de 1979 também chegou outra repressão, pois a Guarda
Revolucionária dissolvia reuniões de grupos que eram contrários à liderança do
Aiatolá Khomeini. Muitos foram levados às prisões de Evin e executados por não
concordarem com os ideais do Líder Supremo.
55

      Todos estes fatores reunidos foram suficientes para o rompimento, após a
Revolução, dos laços diplomáticos existentes entre o Irã e os Estados Unidos.
Durante estes 30 anos foram inúmeras as tentativas de diálogo, mas a situação se
agravou pós 11 de setembro durante o governo do ex-presidente americano George
W. Bush, que incluiu o Irã no “Eixo do Mal”.


      O país vive até os dias de hoje em uma crescente repressão, levando os
iranianos a terem uma vida dupla. É um povo desconfiado nas ruas e ocidentalizado
entre quatro paredes. Isto tudo porque a Revolução foi carregada de pontos
controversos que misturam: modernidade e tradição, ocidentalização e religião.


      Antes de acontecer a primeira grande Revolução Iraniana, que a transformou
em República Islâmica do Irã, fatos importantes viam ocorrendo no país desde o início
do século. Por volta de 1903, foi descoberta pela primeira vez petróleo na região. O
ouro negro, como o petróleo também é conhecido, foi motivo para o Irã viver em
situação semicolonial formada pela Grã-Bretanha, que passou a controlar a
exploração por meio da criação da Companhia de Petróleo Anglo-Persa (APOC).
Nesta época, o Irã ainda era conhecido como Pérsia e suas terras foram divididas em
zonas de influência entre a Grã-Bretanha e a Rússia. Com a chegada da Segunda
Guerra Mundial, o Irã passou a despertar interesse socioeconômico dos Estados
Unidos.


      As relações amistosas entre o Ocidente e o Irã ocorreram após golpe militar de
1925, arquitetado pelo general Reza Pahlavi (*1879 a †1944). Durou até o ano de
1979. A oposição ao Xá Reza Pahlavi cresceu na década de 40, quando as tropas de
Hitler tentaram invadir o Irã. Esta situação abriu caminho para que a Grã-Bretanha e a
União Soviética ocupassem o Irã com o objetivo de defender os poços petrolíferos.
Para tentar preservar a Dinastia Pahlavi, já abalada por causa dos confrontos pelos
campos petrolíferos, o general Pahlavi, no ano de 1941, renunciou em favor de seu
filho Mohammad Reza Pahlavi (*1919 a †1980). O governo de Mohammad durou até
o ano de 1979 e foi definido como monárquico constitucional. Ele dividiu o poder com
o Parlamento (Majilis).
56

        Em 1951, Mohammad Mossadegh foi nomeado primeiro-ministro, ocupando o
cargo após um breve período de estabilidade. Mas, durante três anos também
acumulou outro cargo, o de presidente do Comitê do Petróleo no Parlamento.


                                  “A Dinastia Pahlavi caracterizou-se por diversos fatores,
                                  como a relação próxima com o Ocidente, o difícil
                                  intercâmbio com os árabes devido à identidade persa
                                  islâmica, o projeto de criação da potência regional e a falta
                                  de democracia e agenda social. Isto acabou gerando uma
                                  sequência de crises.”31


        A família real Pahlavi inseriu na sociedade iraniana o que eles muito gostavam:
o jeito ocidental de ser e a secularização. Uma atitude que desagradou o clero
muçulmano tradicionalista. O banimento do uso do véu para as mulheres foi motivo
de muitas discussões e confrontos.


        Em uma de suas tentativas de ocidentalizar os iranianos, Reza Pahlavi colocou
em prática a reforma agrária, permitiu que as mulheres votassem e aprofundou a
secularização. Foram 20 anos seguidos, onde os iranianos assistiram a uma tentativa
de modernização. Estava formada a Revolução Branca no Irã, o que permitiu ao Xá
ser reconhecido pelos mais religiosos como: Inimigo do Islã. Apesar de toda esta
modernização e principalmente aproximação com os Estados Unidos, Grã-Bretanha e
principalmente Israel, o clero acabou por protestar inúmeras vezes na cidade sagrada
de Qom, pelos atos do Xá. O Aiatolá – o mais alto grau na hierarquia islâmica -
Ruhollah Khomeini (* 1900 a †1989) comandou os movimentos contra a
modernização e ocidentalização, organizando protestos que chegaram a causar
greves que foram reprimidas de forma violenta pelo país. O Aiatolá Khomeini fazia
severas críticas ao governo e a vida luxuosa que o Xá e sua família levava. Este
movimento acabou se rebelando contra Khomeini que foi preso e exilado de 1965 a
1978. Passou seus primeiros anos no Iraque e depois na França. Mas, mesmo no
exílio, ele não ficou calado. Seus discursos chegavam ao Irã e sua voz não foi calada.


31
  Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os
30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17,
Editora Escala, 2009, pág. 32
57

O propósito era abrir os olhos do povo que tiveram os seus direitos e sua cidadania
abafada pelo processo de ocidentalização.


                                  “Aos olhos do Aiatolá, os americanos eram capazes de
                                  transformar um aliado em seu mais novo inimigo, e vice-
                                  versa, do dia para a noite, dependendo dos interesses
                                  políticos vigentes. E a única arma contra isso seria uma
                                  ameaça atômica”. 32


        Após o exílio do Aiatolá e dos movimentos comandados por ele, o Irã passou
por um período de trégua em sua política interna. Os planos de modernidade, antes
realizados pelo Xá, tiveram continuidade. Além disso, o aumento do petróleo pela
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), criada em 1960, trouxe
estabilidade econômica ao Irã. O dinheiro que o país ganhava, com a venda dos
barris de petróleo, foi utilizado para dar avanço à industrialização. Houve crescimento
na população, urbanização e melhora na condição de vida dos iranianos. A
aproximação com os Estados Unidos gerou a compra de armamentos, mas também
contradições internas, o que levou a violação de direitos humanos. A modernização
para o Xá era sinônimo de criação e realização de um sonho: A Grande Civilização do
Irã, tornando-o o maior e mais poderoso país do Oriente Médio.


        Nesta época o Irã era a quinta maior potência econômica do mundo, fator hoje
distante no século XXI. Por causa deste sonho, as condições de vida dos iranianos
começaram a ser deixadas de lado. A década de 70 foi marcada pela falta de
infraestrutura para o povo que não recebia salários dignos por seu trabalho e serviços
básicos como alimentação, saúde e educação. Todos estes fatores foram esquecidos.


        Em 1946, o Irã presenciou em suas terras as primeiras disputas pelo petróleo.
Tropas soviéticas permaneceram no Irã para proteger os campos e também para
apoiar o Partido socialista Tudeh, criado durante o período da Segunda Guerra, no
ano de 1941.


32
  Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág. 102 e 103
58

                                  “Ao lado do clero, o Tudeh foi uma força de oposição ao Xá
                                  e desempenhou papel significativo: enquanto os mulás
                                  (líderes religiosos das mesquitas) detinham o apoio das
                                  massas rurais e defendiam a agenda conservadora, o
                                  Tudeh era urbano e moderno.”33


        Isto não acabou com as tensões existentes no Irã. Mossadegh tentou
apaziguar os problemas ocorridos. O maior deles, a União Soviética e a Grã-Bretanha
não sabiam que Mossadegh tinha ideias nacionalistas com relação aos campos
petrolíferos e o seu controle. Ele era totalmente contra a exploração do petróleo pelos
ingleses e inteiramente a favor da nacionalização dos campos. Pensando desta
forma, Mossadegh criou a Companhia Nacional Iraniana de Petróleo (NIOC). A
história relata que os anglo-saxões ficaram revoltados com esta atitude e mais ainda,
com a formação da Companhia. O que estava em jogo naquele momento eram os
benefícios que a Grã-Bretanha perderia com formação da Companhia de Petróleo
Iraniana. Foi decretado então, embargo ao Irã.


        A situação se agravou quando os Estados Unidos, por meio da Central de
Inteligência Americana (CIA) arquitetou juntamente com a M16 (agência britânica) a
conhecida Operação Ajax. O objetivo desta operação foi a retomada do fornecimento
de petróleo. Com o golpe, as duas potências conseguiram derrubar Mossadegh e
devolveram ao Xá Mohammad Reza Pahlavi o poder. O Xá sendo aliado do Ocidente
ajudaria muito a intervenção americana e anglo-saxão em terras iranianas. Mas, ao
contrário de tudo que se pensava, no ano de 1957, o Xá acabou adotando um
governo repressivo, criando a polícia secreta Savak. A ocidentalização estava saindo
dos trilhos para os iranianos. Época de se calar, esconder e não lutar para não
desaparecer.


        Mossadegh havia cometido um único erro dentro de seu governo, o de tentar
nacionalizar o petróleo. Este foi um motivo grave para a irritação dos britânicos que
controlavam junto com os iranianos a extração do petróleo. Apesar de ter sido criada


33
  Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os
30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17,
Editora Escala, 2009, pág. 32
59

durante o governo de Mossadegh e representar a nacionalização do petróleo
iraniano, o NIOC foi mantido durante todo o governo do Xá Reza Pahlavi. O ocorreu
na verdade, foi a redistribuição e de forma desigual o controle da companhia entre o
Irã e um consórcio, formado pelos norte-americanos, britânicos, franceses e
holandeses.


        A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mudou a postura
tanto do Irã quanto dos grandes produtores de petróleo do mundo. Esta mudança
veio acontecer somente dez anos depois após a criação da organização, mas os
produtores aprenderam a necessidade de buscar ganhos com sua produção.


        A crise do petróleo em 1973, agravada pela Guerra do Yom Kippur - guerra dos
Estados Árabes com Israel, o declínio dos Estados Unidos e a recessão dos países
em desenvolvimento econômico -, só veio a agravar a situação iraniana.


                                  “Essa política encontrou seu limite entre 1976/1977, com a
                                  crescente oposição da população iraniana e a perda do
                                  apoio dos Estados Unidos. O então presidente americano,
                                  Jimmy Carter (1977 a 1981), reverteu as políticas
                                  implantadas por Nixon, privando o Irã de ajuda.”34


        Durante este conturbado período na economia e política externa do Irã, o Xá
adoeceu confirmando-se o diagnóstico de câncer. Seu estado de saúde piorou
bastante com as resoluções de Carter. O seu afastamento para tratamento abriu as
portas para a revolução. Em 1978 houve um grande declínio em todos os setores no
governo iraniano. O povo enfrentava desgastes sociais, políticos e econômico, o que
levou o governo a intensificar sua ação antioposição.


        As manifestações se acentuaram na cidade sagrada de Qom, pois os iranianos
estavam revoltados com o governo do Xá. Mais de mil pessoas morreram
participando deste movimento. Era apenas o começo. Mais adiante, ocorreu a

34
  Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os
30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17,
Editora Escala, 2009, pág. 34
60

conhecida Sexta-Feira Negra, quando em setembro de 1978 houve uma forte
repressão em que os iranianos reivindicavam contra o governo do Xá. As
reclamações eram constantes, greves gerais paralisavam o país. A sociedade sofreu
um forte abalo financeiro.


      O   povo    não   simpatizava    mais   com    o   Xá.   Liberais,   socialistas   e
fundamentalmente o clero islâmico, estavam totalmente insatisfeitos com o governo
ocidentalista de Mohammad Reza Pahlavi. Era a vez de se reunir sob a liderança do
carismático e populista Aiatolá Khomeini. Sua volta foi muito apoiada pelos religiosos
moderados. Dentro deste apoio, encontravam-se os combatentes que praticavam a
jihad – a luta islâmica – (Mujahedin), os guerrilheiros de ideologia marxista e islâmica
(Fedayian-e-Khalk) e a burguesia (bazaar).


      Khomeini do exílio queria que o povo recuperasse sua própria identidade, o
orgulho de ser muçulmano e iraniano, que pudesse ter autonomia política. O Aiatolá
achava que tudo poderia ser recuperado por meio da religião, mas era necessário
que o povo iraniano voltasse a adotar a sharia, as leis islâmicas do Alcorão. Somente
com a volta ao respeito religioso o Aiatolá dizia que o povo poderia reconstruir uma
sociedade de forma mais justa. Seria dono de seu próprio destino, sem ser mais
explorado por potências mundiais.


      O forte movimento suplicado por Khomeini em seus discursos resultou em um
isolamento do Xá. Em janeiro de 1979, Reza Pahlavi fugiu para o exílio morrendo
pouco tempo depois. Enquanto não se articulava a volta de Khomeini - que mandava
seus discursos inflamados, porém ditos em uma voz calma e suave -, o governo
iraniano ficou sob a guarda do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar. Durante algum
tempo ele tentou manter os ideais do Xá, mas em fevereiro de 1979, menos de um
mês depois da partida de Reza Pahlavi e sua família, o Aiatolá Khomeini retornou do
exílio, significando assim, o fim da Dinastia Pahlavi e do regime de modernização.


      Esta transição foi um momento conturbado no Irã, tanto política, econômica e
socialmente. De fevereiro a abril de 1979, o país passou por vários confrontos até ser
proclamada a República Islâmica do Irã. Os conflitos ocorriam por causa da uma
divisão existente entre os opositores do Aiatolá, que tinham uma visão do poder de
61

acordo com a sharia. Outros setores ainda se encontravam divididos quanto a este
movimento.


      Foi um período de repressão intensa nas terras iranianas. O partido Tudesh e
outros criados durante o antigo regime foram banidos. Com a consolidação de sua
liderança e do clero, Khomeini subiu ao poder na segunda fase da revolução.
Formou-se assim, uma nova estrutura de poder, agora descrita na Constituição de
1979. Eram novos tempos nas relações internacionais entre os países do Oriente,
principalmente com o Irã.


      Estava também formada no Irã a união entre Estado e religião, subordinada ao
Líder Supremo, o Aiatolá Khomeini. O sistema social, político e judiciário respondiam
ao Aiatolá que tinha a função de chefe de Estado e total autoridade religiosa (faqih).
Além disso, também respondiam a sua autoridade o poder Executivo, as Forças
Armadas, a política interna e externa, a declaração de guerra ou paz e o controle da
mídia. Enfim, a palavra final de tudo o que acontecia no Irã era dada pelo Aiatolá
Khomeini. O presidente realiza seu trabalho como o segundo homem mais importante
do país. É eleito pela maioria do voto popular, com sufrágio universal. O presidente é
responsável por implantar a Constituição e chefiar o Executivo.


      O Líder Supremo é auxiliado por um Conselho de Guardiões, formado por 12
juristas, sendo seis deles indicados pelo próprio Aiatolá e os outros seis pelo líder do
judiciário. Um Conselho poderoso, com ampla autoridade para interpretar a
Constituição de acordo com as leis islâmicas. O poder deste Conselho é tão forte
que, o Líder Supremo, dá total autoridade para que eles examinem, autorizem ou
impugnem candidaturas e cargos eletivos. O Conselho e o Líder Supremo controlam
todo o sistema iraniano.


      O Irã sendo governado pelo Aiatolá Khomeini prometeu disseminar a
Revolução Islâmica. Com isso, Guardas Revolucionários foram encaminhados ao
Líbano para apoiar fortemente os xiitas do Hezbollah – um grupo partidário,
revolucionário e fundamentalista islâmico, e o Hamas, na Palestina. Esta “onda
verde”, como é conhecida até hoje, foi temida pelas grandes potências, levando os
soviéticos a invadir, em 1979, o Afeganistão. Os Talibãs conquistaram apoio político
62

dos afegãos, mas não possuíam condições suficientes para derrotar o governo que
era apoiado por Moscou. Como a Guerra Fria estava no auge, no final da década de
70, os Estados Unidos acabou apoiando o seu atual inimigo, o Talibã. Este apoio foi
tanto material quanto financeiro.


      Mas muito ainda estava por vir. Esta Revolução Islâmica foi à primeira de um
momento tão grave e delicado que surgiria depois para o povo iraniano. Aproveitando
um momento de fraqueza dos iranianos, o Iraque invadiu o Irã, traindo o acordo feito
entre os dois países em 1975 de compartilhar a navegação no Shatt al-Arab. Foram
oito anos de uma guerra terrível, acabando com a vida de mais de 330 mil, onde até
mesmo armas químicas foram utilizadas. As exportações de petróleo foram cortadas,
fato que arrasou a economia do Irã.


      Foram anos de desgaste na economia, na política, que arrasaram também, a
vida da população, inclusive as de baixa renda. Isto obrigou o Irã a decretar um
cessar-fogo. Um momento interpretado por Khomeini, nos primeiros meses da guerra,
como fraqueza dos iranianos, levando o Líder Supremo a decretar a morte de
milhares de presos políticos. Os números de mortos, divulgado pela ONU, pode ter
chegado há mais de 30 mil.


      Mas, uma nova revolução estava por vir. Uma Revolução liderada pelos filhos
da Revolução de 1979. Eles deixavam à famosa AK-47, empunhada antes por seus
pais, avós e tios, para usar a modernidade e avanços tecnológicos do momento:
Internet, celulares e redes sociais. Uma nova “onda verde” cresceria entre os jovens
iranianos do século XXI. Eles mostrariam ao mundo como era possível fazer o maior
levante da história usando somente a ponta dos dedos.
63

      2.2. A REVOLUÇÃO 2.0


      No Irã e talvez, nada no Oriente Médio, tenha sido tão forte quanto a
Revolução Islâmica de 1979. Esta foi seguida da Guerra entre Irã X Iraque, Guerra do
Golfo e a invasão soviética ao Afeganistão. Mas, muitos acontecimentos ainda
estavam por vir e que chocariam o mundo após 11 de setembro. O Oriente Médio
ficou completamente estigmatizado por causa dos ataques terroristas e a resposta do
Ocidente veio rapidamente por meio de ataques aos governos muçulmanos. Se antes
não havia diálogo com o Irã e Iraque, depois do 11 de setembro um acordo entre as
partes, virou um sonho distante.


      O governo americano foi ofendido, subestimado. No mesmo instante o Oriente
sofreu fortes retaliações de quase todo o Ocidente. Estava formado definitivamente o
“Eixo do Mal” e os muçulmanos tiveram que enfrentar uma forte “Guerra ao Terror”.


      A despeito das invasões ao Afeganistão e ao Iraque, realizadas pelos Estados
Unidos, com aliados de peso e sem permissão do Conselho de Segurança da ONU, o
Irã continuava seguindo sua vida sob o véu da repressão. O Irã deve ser um dos
poucos países que lidam com o dualismo entre a vida pública e privada, entre a
aparência e a realidade do dia a dia, entre o que se mostra e o que realmente se faz.


                          “Os iranianos tem lidado com essa dicotomia há mil anos e
                          aprendido a conviver com ela. Só que sempre que o
                          governo é mais restritivo, a diferença entre o jeito que as
                          pessoas agem nos ambientes públicos e privados se
                          expande. O contraste é mais óbvio nas duas últimas
                          gerações: no tolerante governo dos Pahlavi, a classe
                          média obteve liberdades expostas nas ruas – até o véu
                          fora proibido. Mas, desde que a Revolução Islâmica
                          empossou um regime teocrático em 1979, período coroado
                          pelos últimos cinco anos linha-dura de Mohamoud
64

                                    Ahmadinejad, o país regrediu socialmente, ao menos em
                                    público. Um Irã de duas faces.” 35


        Este tipo regime autoritário, teocrático, formado desde a Revolução de 1979,
só poderia gerar consequências no futuro. Nasceu daí uma geração que para
sobreviver, se esconde entre quatro paredes. São jovens que tem consciência da
grande necessidade de se separar o Estado, as pessoas e a religião. Sabem que é
um sonho longínquo, que a teocracia é o poder do Irã, que os Aiatolás são os
senhores da lei, da religião e das palavras. O problema é que não desejam mais viver
em um regime que os priva de uma qualidade de vida melhor, onde as mulheres
estudam, conseguem seus diplomas, mas nunca poderão trabalhar em igualdade
com o homem, ainda mais em um cargo público. Os iranianos apresentam duas
personalidades, uma que se mostra publicamente seguindo todos os preceitos e leis
do Irã e o verdadeiro jovem, aquele que tem desejos de ser livre, morar em um país
democrático e sem repressão.


        O cotidiano dos iranianos é de culto ao Aiatolá, da propaganda anti-Estados
Unidos, de fala baixa, gestos contidos, mulheres de roupas longas e negras e
discussões sobre política e religião feitas em sussurros. Mas nas reuniões
escondidas, entre jovens do sexo masculino e feminino, a grande preocupação girar
em torno do desemprego que está cada vez maior em um país rico, que vive da
exportação do petróleo, o óleo mais desejado do Ocidente.


        Esta insatisfação latente não duraria muito tempo. A nova geração, filhos dos
jovens da Revolução Islâmica de 1979, ficou atenta aos movimentos populares em
países muçulmanos. O mundo iria conhecer a Epidemia da Liberdade. A Revista Isto
É, da Editora Três, de 2 de março de 2011, abriu sua matéria dizendo:




35
  Daryaee, Touraj, professor de história iraniana, em entrevista ao jornalista William Vieira, para Revista Carta
Capital, ano XV, nº601, 23 de junho de 2010, Editora Confiança, página 54.
65

                                  “Como um saudável vírus, protestos contra ditaduras
                                  opressivas espalham-se pelo mundo árabe, causando
                                  transformações imprevisíveis em uma região marcada pela
                                  repressão, a pobreza e a brutalidade” 36


        O que o governo iraniano não sabia, era de que nenhum regime islâmico
estava imune ao vírus da liberdade. Por muitos e muitos anos os países do Oriente
Médio, leia-se o Irã - de quem estamos fazendo uma análise -, foi governado por
regimes políticos centralizadores, corruptos e falsos democráticos. O Irã nunca
escondeu o regime teocrático e repressor. Jovens se viram diante da falta de
perspectivas, de um futuro promissor e principalmente de uma estagnação
econômica, apesar de estarem vivendo em terras ricas em petróleo. A maioria dos
jovens iranianos de hoje, tem acesso diário à Internet, gostam da modernidade e
anseiam por democracia. Não era possível esconder a inquietação desta jovem
população muçulmana. Estes anseios acabaram por se propagar por sociedades
islâmicas exaustas pela obediência forçada pelos Aiatolás, Talibã, pela sharia. Jovens
forçados a regimes equipados com instrumentos altamente repressores.


        O estopim para o Levante do Irã, a maior rebelião popular iraniana desde a
Revolução Islâmica de 1979, se deu após a rápida apuração dos votos da eleição
presidencial do dia 12 de junho de 2009. A imensa vantagem de Mahmoud
Ahmadinejad levantaram as suspeitas e denúncias de uma fraude na sua reeleição. A
insatisfação dos eleitores foi imediatamente vista em um levante avassalador que
surpreendeu o mundo. Milhares de jovens iranianos foram às ruas reclamar pelos
seus votos. Esta vitória de Ahmadinejad não poderia ser aceita. Em poucas horas, os
jovens armados não de AK-47, como visto anteriormente na Revolução Islâmica de
1979, chamaram a atenção do mundo pelo o que estava acontecendo no Irã. Foram
as ruas, munidos de uma arma, que até então o governo teocrático desconhecia a
sua força: a Internet, celulares e as redes sociais. Em poucas horas, por meio do
Twitter e do Facebook (duas das mais populares redes sociais do mundo), os jovens
marcaram as manifestações. Os celulares, com acesso à Internet filmaram tudo e
publicaram para o mundo, via YouTube (outra famosa rede social para divulgação de
vídeos) as manifestações e a revolta quanto a fraude nas eleições. Os jovens
36
  Sequeira, Cláudio Dantas e Villameá, Luiza, matéria de capa da Revista Isto É, “A Epidemia da Liberdade”,
Editora Três, ano 35, nº2155, 2 de março de 2011, pág.80.
66

iranianos perguntavam como era possível Ahmadinejad ter sido reeleito duas horas
depois do fechamento das urnas.


      O triunfo do presidente reeleito foi divulgado pelas agências de notícias
iranianas com um resultado de 63% contra 33% para o adversário, o ex-primeiro-
ministro Mir Houssein Mousavi. Apesar de não ter sido um candidato nem um pouco
carismático, ele ganhou o apoio dos jovens, reformistas e das mulheres de classe
média, principalmente moradores dos grandes centros urbanos. O povo se revoltou,
pois sabia que uma vez que os votos são preenchidos à mão, era impossível contar
mais de 40 mil votos em menos de duas horas em todo o Irã. Estimulados por esta
fraude nas eleições presidencial saíram às ruas, perguntando onde estavam os seus
votos. Foram apoiados e instigados por Mousavi, que acusou o governo de cometer
irregularidades em massa.


      No momento em que opositor pediu uma nova eleição, foi dada a senha para
que o país marcasse uma nova manifestação. Como um tsunami o Irã entrou em
convulsão. O repúdio ao Ahmadinejad desta vez não ficou reprimido atrás do chador,
entre quatro paredes ou por meio de conversas sussurradas. Jovens gritavam pelas
ruas “Morte ao Ditador”, se referindo ao presidente reeleito. Em pouquíssimo tempo e
com a força das redes sociais, a palavra de ordem evoluiu para “Morte ao Aiatolá”, em
referência ao Aiatolá Ali Khamenei. O líder Supremo do Irã relatou satisfeito que a
vitória de Ahmadinejad era uma “benção divina”.


      Estava claro, não somente para o mundo, mas também para os iranianos, as
fissuras políticas que o país estava passando. Foi um momento em que o país
mostrou possíveis fissuras e mudanças na república clerical xiita, um dos regimes
mais opressores e fechados do islamismo.


      O mundo voltou os olhos e as lentes para o Irã e o Ocidente questionava onde
esta manifestação poderia parar. Afinal, com um governo xiita, tão repressor, este tipo
de manifesto não poderia acabar muito bem. Os jornalistas que realizavam a
cobertura das eleições e das manifestações estavam atentos e esperavam para
qualquer instante uma retaliação violenta do governo. Centenas de jovens marcharam
pelas ruas de Teerã, durante toda uma semana sem medo da forte repressão que não
67

tardou a chegar promovida pela polícia ou por integrantes de uma milícia islâmica,
totalmente apoiada pelo presidente e pela república clerical xiita: a Basij, uma força
paramilitar composta por voluntários à paisana, que não apresentam medo algum em
prender, torturar e entregar qualquer iraniano que não siga a sharia do Alcorão e
principalmente, as ordens do Aiatolá Khamenei. Não foi surpresa para o Ocidente e
muito menos para os iranianos saber que políticos, oposicionistas, manifestantes,
jornalistas acabaram presos e levados para os porões da prisão em Evin, nos
arredores de Teerã. Jornais foram censurados, universidades fechadas e comícios
proibidos. Como o clero xiita não sabia como lidar com a internet e o que ela poderia
provocar resolveram bloquear sites e a não renovaram as permissões de jornalistas
estrangeiros para permaneceram em Teerã. Os correspondentes estrangeiros não
poderiam mais escrever, filmar ou fotografar. O Irã se fechou para o mundo e para os
observadores.


                                 “O que explica esta erupção iraniana? Grande parte dela
                                 se    deve     a    figura    de Ahmadinejad.           Carismático         e
                                 profundamente conservador. Esse engenheiro civil de 52
                                 anos foi eleito presidente pela primeira vez em 2005 com
                                 uma      plataforma      moralista,      baseada      no     combate        à
                                 corrupção e na defesa intransigente dos valores morais da
                                 Revolução Islâmica, que teriam sido abalados pelo breve
                                 período de liberalização do regime durante os mandatos do
                                 antecessor, Mohammad Khatami, entre 1997 e 2005.”37


        O que o mundo não desconfiava é que esta “Revolução 2.0” – como muitos a
estavam chamando -, modificaria a visão que o Ocidente tinha em relação aos jovens
muçulmanos. Revoltados com a falsa democracia, com a repressão, com o
desemprego, qualidade de vida, fraudes e oportunidades futuras, os jovens iranianos
preferiram usar o que tinham em seu poder: no lugar de armas de fogo a rede
mundial e redes sociais para dizer ao mundo o que estava acontecendo no Irã e no
Oriente Médio. Além da fraude nas eleições e por trás das manifestações organizadas
via Facebook e Twitter, havia uma grande disputa de poder entre os Aiatolás, os
aliados de Ahmadinejad ou de Mousavi. De disputa em disputa, os jovens não tinham
37
  Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009,
pág. 97.
68

o interesse em saber quem disputava o que no governo do Irã. Os confrontos foram
fortes e geraram cenas de horror. Alguns jovens morreram como a iraniana Neda
Soltan, após ter sua morte filmada via celular e divulgada para o mundo inteiro, via
agências de notícias e YouTube. A despeito das brigas e apoios internos para as
eleições, os jovens não se intimidaram. O intrincado e único sistema de poder, em
que as regras supostamente democráticas estão condicionadas a fé islâmica poderia
ter qualquer desfecho. Diplomatas ocidentais preferiram se calar diante do “Levante
2.0” dos jovens iranianos. Qualquer opinião poderia piorar a crise e a situação em que
o país se encontrava. Em nota oficial, o governo iraniano, tratou de acusar o Ocidente
e a imprensa sionista mundial que estava sempre desafiando o regime.


        Apesar da recontagem parcial dos votos sugerida pelo Conselho de Guardiães,
formado por 12 membros encarregados de fiscalizar a eleição, e de um suposto
convite à reconciliação, o Aiatolá Khamenei durante um sermão realizado na
Universidade de Teerã, advertiu claramente os jovens e oposicionistas caso
continuassem com as manifestações. Eles seriam os únicos responsáveis pelo caos
nas ruas da capital iraniana e por um derramamento de sangue.


        Apesar de todos os protestos, Ahmadinejad foi oficialmente declarado
presidente reeleito do Irã, com total apoio de Khamenei que rejeitou a denuncia de
fraude. O Líder Supremo continuou tendo apoio das forças militares, deixando claro
que não haveria um golpe contra o regime teocrático do Aiatolá. E apesar de todas as
advertências de derramamento de sangue e violência, os jovens não estavam
dispostos a recuar das manifestações via Twitter e Facebook e muito menos nas
ruas.


        O herói improvável, Hossein Mousavi, virou líder da revolta iraniana. Os jovens
Twittaram sem parar na rede social e furavam todos os bloqueios impostos pelo
governo. Suas mensagens foram postadas por meio de um desvio de Proxy
(servidor). Jornalistas, ativistas internacionais e jovens do mundo inteiro ajudaram os
iranianos nesta luta verde, cor que simbolizou a “Revolução 2.0” no Irã. A cor da
revolução foi escolhida por Mousavi que usou o verde em sua campanha para
simbolizar a esperança.
69

                                 “Façam um esforço para mostrar ao mundo, serenamente,
                                 o que está se passando nas entranhas agitadas do Irã”. 38


        Neste Levante a Internet e as redes sociais tiveram uma força jamais vista. A
Nova Revolução contou com a participação de jovens em sua maioria com menos de
25 anos. Todos plugados na Internet, divulgando nas redes sociais a fraude, as
marchas e a revolta para além das fronteiras do antigo Império Persa.


        O Levante teve assim, proporções globais. Com 70 milhões de habitantes, o Irã
conta com 23 milhões de pessoas com acesso à rede e 45 milhões de celulares. Em
apenas uma semana os iranianos conseguiram: receber orientações via Facebook
pelo opositor Mir Hossein Moussavi; ver políticos oposicionistas e manifestantes
presos; ter Sites bloqueados; jornais censurados e TVs sob controle estatal; comícios
proibidos; universidades fechadas e uma forte e crescente corrente digital anti-
Ahmadinejad.


        Apesar de alguns saldos contra, não houve desânimo. A primeira resposta
positiva veio da maior empresa americana de buscas online, o Google, dono da rede
YouTube. Pela primeira vez abriu-se uma exceção e imagens da violência foram
postadas e veiculadas no site. As cenas com a polícia agredindo e matando os
manifestantes, foram postadas no YouTube e links adicionados no Twitter. O site de
imagens registrou mais de três mil vídeos com os protestos e as cenas violência
feitas pela milícia Basij.


        O Twitter se cobriu de verde em todo o mundo em solidariedade aos
manifestantes iranianos e a rede torna-se o único meio de informação. Mais de 220
mil mensagens foram postadas por hora no Twitter contendo a palavra Irã. Da noite
para o dia o hashtag (palavras importantes antecedidas do símbolo #) #IranElection
foram as mais postadas nesta rede social. As manifestações iranianas superaram a
do astro pop Michael Jackson, que morreu durante o Levante.




38
  Zahra Rahnavard, mulher de Mirhossein Mousavi, líder da oposição no Irã, Evelin Guilherme e Mendonça,
Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 101.
70

           Em um único dia, mais de 2,25 milhões de blogs espalhados pelo mundo
trataram das manifestações e das fraudes nas eleições. Os iranianos estavam
conseguindo o que queriam: chamar bastante atenção.


           Com todos estes números o governo iraniano se sentiu acuado, mas mesmo
assim voltou a tentar calar os jovens. A Manifestação/Rebelião/Levante ou Revolução
2.0 foi reprimida. Alguns jovens saíram das ruas para sussurrar seus medos nas
redes sociais. Com a oposição nas ruas de Teerã e o governo usando as únicas
armas que tinham - a força e a censura -, era de se esperar que os “sussurros feitos
no Twitter crescessem para tornar-se um protesto, um grito e, finalmente um clamor
que tomou conta da blogosfera e terminou por criar um movimento mundial de
solidariedade aos iranianos.” 39


                                     “A maior evidência da importância política do Twitter foi
                                     dada quando um funcionário do Departamento de Estado
                                     americano, Jared Cohen, mandou um e-mail para a direção
                                     do Twitter com um pedido especial: será que eles
                                     poderiam adiar a manutenção do sistema que tiraria a rede
                                     social do ar por algumas horas? Parece que o Twitter está
                                     tendo um papel muito importante em um momento crucial
                                     no Irã. A direção do Twitter concordou imediatamente com
                                     o pedido” 40


           O Twitter, naquele momento, se tornou a principal ferramenta por ser uma rede
social rápida; pelos fatos serem passados em 140 caracteres; as mensagens saírem
em segundos; os “twitteiros” - como são chamados os usuários desta rede -, estarem
por toda parte e, para ter acesso a informação, basta um celular com SMS ou um
computador conectado a Internet. Os manifestantes sentiram que cada usuário do
Twitter se tornou um repórter em potencial.




39
     Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 102
40
     Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 103
71

           Para controlar estes usuários só tirando a Internet e a telefonia celular do ar.
Impossível o governo ter este tipo de controle da informação nos tempos de muitos
avanços tecnológicos.


                                     “Por mais que fotos de Teerã chegassem pelo site de fotos
                                     Flickr, por mais que o YouTube expusesse de forma
                                     irrefutável as imagens de violência, foi sobretudo por meio
                                     do Twitter que a informação foi propagada e a resistência
                                     organizada. (...) sites foram usados também (...) para
                                     difundir palavras de ordem e orientações práticas entre os
                                     manifestantes. Onde se concentrar, onde estava a polícia,
                                     quem havia sido preso, o que estava ocorrendo em outras
                                     cidades.” 41


           Os @Rebeldes, como ficaram conhecidos os jovens iranianos que foram as
ruas, carregados de celulares e Twittaram sem parar, ganharam popularidade e
abriram portas para muitas outras manifestações no Oriente Médio. Sabendo desta
possibilidade muitos jornalistas ajudaram os manifestantes na divulgação. O Twitter
é ferramenta de cobertura jornalística informal, um fenômeno recente e ainda
estudado pelos profissionais de comunicação. Uma rede social que tem forte impacto,
pois o que é publicado aparece rápido na rede. A intensidade de uma publicação no
Twitter é como publicar uma mensagem para o mundo.


                                     “(...) é quase impossível deter as mídias sociais online. Se
                                     um dos serviços é bloqueado, há sempre outro disponível
                                     e semelhante para substituí-lo. A Internet não tem território.
                                     A única maneira de evitar que a informação circule é
                                     interromper o serviço de Internet no país.”42


           E foi exatamente o que o governo iraniano fez. Travou uma batalha declarada
contra a Internet, jornalistas, ativistas e manifestantes. Manipulou fotos via Photoshop

41
     Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 104
42
  Recuero, Raquel, especialista em redes sociais e professora da Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande
do Sul, em entrevista a Revista Época, de 22 de junho de 2009, nº579, Editora Globo, pág, 106.
72

(software próprio para fotografia), passou contrainformação e tentaram a todo custo
cortar a banda larga para que tudo pudesse ser derrubado. O trabalho da Companhia
de Comunicação de Dados do Irã recebeu a ordem do governo de deixar apenas fluir
o necessário. Ficou lenta, diminuindo o fluxo de dados pelo país.


      Os iranianos sabiam que esta atitude seria tomada e esperavam repressão
pior. Censura era apenas o início de uma batalha e para driblar os censores os
usuários que estivessem fora do Irã foram orientados a se registrar na rede como se
estivessem acessando o Twitter de dentro do país. Foi uma forma encontrada para
confundir o governo e principalmente os censores que estavam tentando aprender a
utilizar estes avanços tecnológicos.


      A Revolução destes jovens está sendo feita de outra maneira apesar de serem
vigiados por todos os lugares que estejam. As jornalistas Adriana Carranca e Marcia
Camargos relatam em seu livro “O Irã sob o Chador”, que basta passear pelas ruas
de Teerã e olhar para os prédios ou para cima que certamente pinturas sobre a
Revolução de 1979, figuras do Aiatolá Khomeini e o Aiatolá Khamenei estão expostas
por todos os lados. Além dos líderes supremos, os jovens e toda a população do Irã
podem ver pinturas ou fotos dos jovens soldados iranianos mortos na Guerra entre Irã
e Iraque. O governo com estas pinturas tentam sensibilizar os jovens a alistarem-se
na Guarda Revolucionária e convocando-os para novos martírios. O sacrifício é uma
prova de fé e muito presente no xiismo.


      E, apesar da forte campanha feita pelo governo iraniano, ano a ano este
alistamento tem diminuído. Eles não se identificam com os ideais impostos pelo
governo, não se identificam com os barbudos Aiatolás e seus heroísmos, muito
menos, compartilham dos mesmos inimigos. Não há diálogo com o atual governo. A
Revolução de 1979 são memórias que devem ser deixadas para trás e eles
compartilham fortemente este pensamento ao viverem como qualquer outro jovem
ocidental. Gostam de passear em shoppings centers, buscam conhecer as novidades
dos aplicativos de celulares; qual a rede social do momento e qual a operadora de
celular que poderá lhes fornecer as melhores ferramentas. Segundo as jornalistas
brasileiras, estes jovens estão preocupados com os testes de inglês e sua
73

proficiência, somente desta forma, poderão estudar no exterior e quem sabe, obter
um futuro promissor.


        Esta geração não presenciou o golpe a Mossadegh, articulado pela Cia e Grã-
Bretanha, deste modo o antiamericanismo não faz parte de sua essência e sim do
passado de suas famílias. Não é a Revolução desta geração. O mundo em que vivem
é globalizado e inteiramente conectado à internet, estão sempre lendo sites e blogs,
fazem amizades com jovens fora do Irã via rede social, trocam músicas, filmes e
informações com iranianos que vivem fora do país. Apesar de toda a repressão, eles
conseguem fazer isto entre quatro paredes. Jovens que levam vida dupla para
aprenderem e se modernizarem.


                                  (...) Eles são a nova – e até há pouco tempo desconhecida
                                  face do Irã. (...) O governo iraniano não fazia ideia do
                                  potencial da tecnologia moderna para reunir virtualmente
                                  as massas – e mobilizá-las fisicamente. Na visão dos
                                  clérigos, essa população saiu do controle e constituiu um
                                  risco ao regime, talvez o maior desde a guerra contra o
                                  Iraque. Os religiosos no poder se referem aos nascidos
                                  após a Revolução Islâmica como “a geração perdida”.
                                  Apreensivo com os caminhos da república em fase dessa
                                  ameaça, o governo tenta manter os jovens sob controle
                                  cada vez mais rigoroso. ”43


        É comum no Irã encontrarmos muitos bloqueiros terem suas URL (endereços
de site, blog, fotografia, redes sociais na Internet) bloqueados. Eles reabrem suas
páginas com novos endereços e começam novamente os seus trabalhos de liberdade
de expressão, apesar da proibição severa do país. Mas com a Internet, este tipo de
expressão tornou-se ferramenta fácil, sem que possam mostrar quem realmente eles
são. Mesmo dominando as redes sociais e tendo a Internet como forte aliada em suas
manifestações, muitos jovens iranianos sentem medo. Protestos ocorreram nas



43
  Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág.133
74

universidades, mas são sempre abafadas pelas mãos pesadas da polícia e do
governo de Ahmadinejad.


      Os jovens iranianos vivem sob a modernidade, globalização, os textos do
Alcorão e a leia islâmica. Desde 1979, música alta é proibida, paquera pública, sexo
antes do casamento, álcool e cigarro, minissaia, roupas justas, cabelos à mostra,
tatuagem entre muitas outras proibições são atentamente observados pelos Basij.


      Eles sofrem com a mão pesada do regime e tentam a todo custo burlar este
tipo de repressão que oscila de acordo com as condições econômicas e sociais do
Irã. A nova geração passou a notar que este tipo de repressão se tornava constante
de acordo com estas condições. Em seus protestos nas ruas de Teerã, em junho de
2009, os jovens pediam um líder para as novas gerações. Apesar de não se
identificarem com as antigas manifestações Da Revolução de 1979, estes jovens
desejam um líder com o mesmo carisma e capacidade de liderança vista no antigo
Aiatolá Khomeini que conseguiu mobilizar milhares e milhares de iranianos. Mas sem
realização de um governo opressor como acabou se tornando. Acreditava-se com a
nova eleição presidencial que Mousavi tinha este carisma e esta liderança, surgiu
como uma nova esperança e uma alternativa, mas até mesmo os jovens se
enganaram, pois este possível líder não conseguiu manter a mobilização por muito
tempo após as manifestações.


      Sabemos que regimes ditatoriais costumam desrespeitar os Diretos Humanos.
Mulheres, crianças e jovens costumam sofrer muito em países fundamentalistas e
teocráticos como o Irã, Afeganistão, entre outros. Vozes como a Nobel da Paz, a
iraniana Shirin Ebadi, conseguem se fazer ouvir, mesmo tendo que enfrentar o forte
controle do governo xiita. Os setenta mil blogs existentes no Irã são escritos no
idioma farsi e escrito por mulheres. Elas dominam as redes sociais e influenciam
amigos do sexo masculino a seguirem o mesmo caminho para que mudanças
possam surgir no meio da repressão.


      Toda esta inquietação no Irã e no Oriente Médio ainda é nova para eles e para
o mundo. As consequências são imprevisíveis para todos. Os iranianos e outros
jovens que lutam contra regimes ditatoriais sabem que a luta é árdua, requer
75

coragem, uma estrutura de organização social sólida, fato que muitos países não
possuem. O Twitter e todas as outras redes sociais foram utilizados para levar as
vozes e os desejos destes jovens. Eles sabiam que não derrubaria Ahmadinejad. E foi
o que aconteceu. As redes sociais, blogs, sites são meios utilizados para documentar
os fatos ocorridos e não liderar. Estes jovens sabem que não irão consertar as
profundas mazelas do Oriente Médio.


        Eles ainda possuem o sonho democrático. Não desejam e não querem virar
prisioneiros de um sistema ideológico. Os iranianos não conseguiram derrubar
Ahmadinejad, mas abriram portas para outros países no Oriente Médio como Egito,
Líbia, Síria, Tunísia que tiveram seus ditadores derrubados pela força e pelo sonho
destes jovens ricos e pobres, modernos ou não, globalizados ou não, que souberam
utilizar as redes sociais, a Internet e seus celulares para tirar do poder forças
autoritárias e corruptas que governavam por mais de 30 anos.


                                  “Achavam que ficaríamos quietos? Estamos fartos”44


        Esta declaração anônima consegue refletir exatamente tudo o que um jovem
de hoje no Oriente Médio está sentindo. Eles têm as vozes, as armas, a liderança, a
união. Falta a coragem de enfrentar a terrível repressão e censura imposta pelo
fundamentalismo islâmico aplicado em seus países.




44
  Jovem iraniano, não identificado pelos jornalistas correspondentes da Revista Época, de 22 de junho de 2009,
Editora Globo, pág. 104.
76

       3. A CIVILIZAÇÃO NA ERA 2.0


       Estamos na Era da Experiência, da Ruptura, de novas mudanças culturais, de
grandes avanços tecnológicos. Este é o século XXI, somos a civilização que sofreu as
consequências desta mudança. Uma Civilização 2.0.


       Tudo aconteceu rapidamente. Poucos conseguiram perceber o ocorrido.
Fomos absorvendo as mudanças com o passar dos dias, experimentando todas as
novidades oferecidas pela tecnologia, pela modernidade e principalmente pela
Internet. As modificações foram profundas em todos os cenários: economia,
educação, cultura, política, etc..


       Mesmo com todas as restrições estas mudanças atropelaram tanto a
civilização Ocidental quanto a Oriental. É impossível nos dias de hoje, pensar em um
jovem de qualquer nacionalidade: americano, brasileiro, russo, turco, indiano, inglês,
francês, muçulmano, não ser possuidor de uma página na internet, um blog, ter ativa
participação em redes sociais ou terem celulares de última geração. Mesmo os jovens
que vivem sob-restrições impostas por governos ditatoriais e fundamentalistas.
Equipamentos modernos muitas vezes são comprados por vias escusas para que
eles possam estar informados e por dentro de tudo o que acontece no mundo.


       Em pleno século XXI ficar fora da rede, estar desconectado é como viver
isolado do mundo. Significa não ter amigos, não saber das últimas novidades que
acontecem em tempo real, é ser considerado um estranho para toda a sociedade que
agora se relaciona intensamente de forma virtual. A Internet derrubou fronteiras,
mesmo nos países que ainda resistem aos avanços e as rupturas impostas pela
tecnologia digital.


       A civilização como um todo, ainda esta sofrendo uma forte transformação. A
sociedade está passando por um processo profundo no modo como nos
relacionamos e trocamos mensagens. Uma transformação que marca a ruptura da
civilização, fazendo uma divisória entre o antes e depois da Internet, Mídias e Redes
Sociais.
77

      O surgimento comercial da Internet, em 1990 criou um vendaval na vida do ser
humano. Acelerou o dia e abriu horizontes inimagináveis. O futuro ficou distante, pois
ele acontece a cada momento com o aparecimento de novos avanços tecnológicos. O
mundo está na ponta dos dedos, a um clique do famoso www (World Wide Web) -,
abriu para o homem, deixando o


      Como a Revolução Industrial modificou o mundo, a Revolução Tecnológica, a
Internet e suas ferramentas são um fenômeno que transformaram o mundo e a
civilização. Um fenômeno estudado e discutido inesgotavelmente nesta Nova Era.
Estamos em uma fase onde precisamos produzir mais e cada vez melhor, com toda
esta inovação radical. Novas mudanças no modelo de gestão, de comunicação, de
marketing, de atendimento ao consumidor, de informação, economia, política,
medicina, estão sofrendo com todo este avanço. Houve um aumento na
competitividade mundial. Há riscos e oportunidades oferecidas por esta tecnologia.
Ainda estudamos onde estamos e para onde vamos. Levamos um susto a cada
descoberta.


      A Internet abarca um conjunto de novas tecnologias de comunicação, e em sua
grande maioria de forma participativa. São tecnologias e ferramentas cada vez mais
rápidas e populares. Vivemos uma hiperconexão em rede, onde não estamos apenas
conectados uns os outros, mas também participando, compartilhando informações e
conhecimentos a todo instante.


      A Internet mudou conceitos, amizades, leituras, estudos, pesquisas, jogos,
compras. Antes visitávamos uma loja para comprar uma roupa, um sapato, um
eletrodoméstico, um livro. Agora, basta acessar a Internet, escolher o site de
preferência para comprar o produto desejado.


      Também mudou o modo de mandarmos cartas. Antes se precisava de papel,
caneta, envelope e selo. O @, símbolo tipográfico utilizado para localização,
endereço, ou referência de uma pessoa na Internet, modificou o modo de mandarmos
as nossas cartas. Por meio de um endereço eletrônico pode-se mandar um e-mail
(carta eletrônica) para qualquer parte do mundo, para um destinatário que tenha
também uma conta. Este modo de enviar/trocar mensagem é rápida, instantânea e
78

derrubou a necessidade ir aos Correios, comprar selos para o envio de cartas. Locais
que levavam dias para receber uma mensagem, agora recebem em instantes. Foi
uma das maiores revoluções criadas pela Internet no início da hiperconexão. Uma
verdadeira ruptura que chocou e levou pânico as empresas dos Correios. Com esta
evolução havia uma forte ameaça no emprego dos carteiros. Houve uma queda
significativa deste serviço, mas ele ainda persiste, pois muitas pessoas não se
adaptaram as modernidades impostas pela tecnologia e escrever e mandar cartas
para entes queridos, utilizando os meios antigos ainda é o único modo para manter a
comunicação.


      Ao mesmo tempo em que toda a civilização está interligada, milhões de
pessoas também se conectam diariamente em sites de relacionamento mesmo não
se conhecendo pessoalmente. Um webcam (câmera própria que transmite som e
imagem via internet) faz o papel da aproximação de conhecidos e desconhecidos
deste imenso mundo virtual.


      Para nossos avós uma estranha forma de relacionamento. O namoro de mãos
dadas foi substituído por salas de bate-papos, sites de relacionamento. As famílias
que antes se juntavam em longos almoços de domingo não fazem mais isto. Elas se
reúnem em frente ao computador para conversar, trocar ideias com amigos, comentar
uma notícia.


      São as consequências da Web 2.0, termo criado pela empresa O’Reilly Media,
do empresário Tim O’Reilly, sendo o mais difundido dentro da indústria de tecnologia
como sinônimo de sites colaborativos. Mudamos o modo como lemos jornais,
revistas, livros, a forma de ir ao cinema, e ainda, a maneira como escutamos rádio e a
mais nova música do ídolo pop. Pela Internet, baixamos filmes, seriados, programas
de jornais e revistas, os últimos lançamentos da indústria-fonográfica. Segundo o
famoso escritor Andrew Keen, em seu livro “O Culto ao Amador”, da Editora Zahar, de
2007, as mais avançadas ferramentas tecnológicas, como blog, redes sociais,
YouTube e a pirataria digital, destruíram nossa economia, cultura e valores. Chega a
ser um forte radicalismo, mas se acompanharmos o pensamento do autor, não deixa
de haver um fundo de verdade no que o ele defende.
79

           Tudo mudou e em muito pouco tempo. O mundo teve que absorver
rapidamente todos estes avanços. Muitos autores chegam a dizer que esta Nova Era
Tecnológica, Cultural e da Comunicação, gera mais informação do que o ser humano
é capaz de absorver durante o dia.


                                    “Nossa cultura está se transformando em uma rede de
                                    banalidades e desinformação em que qualquer um pode
                                    falar o que quiser, sem preocupação com a relevância ou a
                                    veracidade das informações. (...) O impacto que isto pode
                                    ter na sociedade é assustador. Nossas mais valiosas
                                    instituições culturais – em particular na música e a mídia
                                    impressa – estão perdendo espaço para uma avalanche de
                                    conteúdo amador, gratuito, gerado pelo próprio usuário.”45


           Keen comprova em seu livro, que famosas lojas americanas, especializadas
em vender discos, acabaram por falir, assim como jornais e revistas foram forçados a
demitir profissionais devido a esta Nova Era da Informação e as muitas ferramentas
criadas para a divulgação de notícias. Qualquer um de posse de um computador
conectado a rede mundial, esteja onde estiver, pode ser um “jornalista” em potencial.


           Foi um período que ainda se prolonga em que muitas gravadoras também
passaram e passam dificuldades por causa da facilidade em se baixar músicas via
Internet, tanto em alta como em baixa velocidade. Nascia assim à pirataria, uma nova
categoria de “ladrões”. Com o surgimento da banda larga - acesso via internet por
meio de um modem ligado ao computador e a linha telefônica -, qualquer usuário
além de baixar as músicas pode baixar filmes recém-lançados nos cinemas e
seriados que acabaram de ir ao ar nas emissoras de televisão. Segundo Andrew
Keen, os engravatados de Hollywood se juntaram para que o problema não se
alastrasse como ocorreu com a indústria fonográfica. Eles tentaram minimizar os
downloads - baixar um arquivo da Internet -, de filmes recém-lançados a todo custo.
Mas, ainda enfrentam problemas, pois os aplicativos para baixar os arquivos são cada
vez mais aperfeiçoados. Assim, como o vinil viu sua morte decretada pelo cd, o
videocassete via a sua morte com a chegada do DVD, a Internet de uma só tacada

45
     Keen, Andrew, O Culto ao Amador, Editora Zahar, 2007, orelha do livro.
80

decretou a morte de todos. Incluindo na lista mortes anunciadas como a TV, rádio,
jornais, revistas. Uma cibercultura que ameaça o império e a fortuna de grandes
produtores, donos de empresas de comunicação, estúdios, etc., que não estão
preparados para a constante renovação.


           A civilização está revendo conceitos e valores, além do olhar que tinha para
enxergar o passado. Este momento de reflexão possibilitará construir e nos preparar
para um futuro melhor. Poderá nos ajudar a entender qual o verdadeiro papel que
cada um tem na atual história da civilização globalizada e moderna. A única certeza
no momento é que este avanço, em um pouco mais de 10 anos está apenas
começando:


                                      “Estamos vivendo a abertura de um novo espaço de
                                      comunicação,         e    cabe      apenas       a    nós     explorar   as
                                      potencialidades mais positivas deste espaço no plano
                                      econômico, político, cultural e humano. Que teremos que
                                      compreendê-lo, pois a verdadeira questão não é ser contra
                                      ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças, qualitativas
                                      na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da
                                      extensão das novas redes de comunicação para a vida
                                      social e cultura. Apenas desta forma seremos capazes de
                                      desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma
                                      perspectiva humanista”. 46


           Não temos dúvida que o mundo está totalmente on-line. Em pouco tempo
navegamos pela web 1.0, para a 2.0 e já estamos entrando na fase 3.0. Estas fases
foram marcadas como a web da literatura para a da participação, da estática para a
dinâmica, de uma única via para de duas, para uma web de páginas que hoje abriga
uma web como plataforma, da reação para a participação, do discurso para a
conversação. A Web 3.0 será marcada pela semântica e total interação e esta
transição já pode ser sentida. Esses termos, utilizados pelo mundo cibernético
servem para mostrar e conceituar as fases em que a Internet e a civilização tem



46
     Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, orelha da contra capa, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.
81

passado nestes últimos anos. A velocidade que esta hiperconexão tem provocado e a
adaptação que todos tiveram que fazer em suas vidas e trabalhos.


        Na Web 2.0, fase em que nos encontramos atualmente, foi possível, por meio
de avanços tecnológicos, novas ferramentas e plataformas a interação através da
criação de blogs, vídeos e redes sociais. Pela Web 2.0 não consumimos apenas
conteúdo com na fase anterior, agora pode-se publicar vídeos, fotos em ferramentas
participativas em sites que se tornaram febres mundiais e canais de comunicação
como YouTube, redes sociais como Orkut, Facebook, MySpace,etc.


        É também a era da Velocidade Vertiginosa, sem controle do que é publicado e
muito menos de sua qualidade. As empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos,
onde ocorreram os maiores avanços tecnológicos e onde abriga as maiores
empresas que hoje dominam o mercado como o Google, Yahoo, Microsoft, Apple,
Facebook, Cisco, IBM, Twitter, viram a necessidade de criarem filtros e a validação
dos conteúdos para que pudesse se ter um ambiente confiável de busca das
informações.


                                  “A partir do momento em que a banda larga de acesso à
                                  Internet se popularizou, a plataforma da Web 2.0 tornou-se
                                  viável e aplicações on-line participativas tornaram-se
                                  possíveis. Observaram-se a proliferação das redes sociais
                                  on-line e sua adoção ao redor do planeta, já que se tornou
                                  comum as pessoas “estarem” on-line o tempo todo,
                                  permitindo assim, sua formação. ”47


        Além de todos os termos gerados com o avanço tecnológico, a cada dia a
civilização se depara com um novo. A Web 2.0 também se permitiu cunhar: A Era da
Busca. As plataformas de buscas criadas pela Google, Yahoo e Bing – os mais
famosos -, permitem acessar qualquer tipo de informação necessária. Desde
restaurantes até a formação de árvores genealógicas de uma família. O mundo
conectado de hoje não consegue se imaginar sem estes mecanismos de busca. É tão

47
  Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição,
2010, pág.83.
82

importante que a palavra Google já faz parte de uma dos dicionários mais famosos do
mundo para a língua inglesa, o Webster´s Collegiate Dictionary. Google agora é
oficialmente um verbo, assim como outras palavras usadas diariamente pelos milhões
e milhões de internautas conectados no mundo como: deletar quer dizer apagar,
refresh é atualizar, assim como muitas outras fazem parte do nosso cotidiano.


        São impactos sofridos e que muitos países ainda se recusam a ingressar. Esta
modernização e globalização desenfreada provocada por esta Nova Era foi
intensificada pelas redes sociais. Esta forma de interação, sem respeitar qualquer
hierarquia social, sem tempo ou espaço, impactou o comportamento humano. Todos
estão igualados dentro desta grande rede. Os números crescem e mudam a cada dia.
De acordo com o site UOL, pertencente ao grupo Folha de São Paulo temos os
seguintes números em 2010: 48


                107 trilhões - a quantidade de e-mails enviados em 2010 em todo o
                mundo;


                262 bilhões foi a quantidade de spams (mensagens comerciais não
                desejadas pelo destinatário) por dia no mundo em 2010. O número
                corresponde a 89,1% de todos os e-mails;


                A Internet tem dois bilhões de usuários ativos no mundo;


                São 25 terabytes (quantidade de dados) de informações armazenadas
                todos os dias nos servidores do Facebook, considerado hoje o maior
                site de relacionamento no mundo;


                Na América Latina, há 111,4 milhões de internautas com mais de 15
                anos e, no Brasil, por volta de 40 milhões;




48
  Site UOL Notícias Tecnologia (2011) ,
http://tecnologia.uol.com.br/album/numros_tecnologia_album.jhtl#fotonav=2
83

31,279 milhões de brasileiros têm o Orkut (outro site de relacionamento).
Um alcance de 78%;


45 horas é o tempo médio de navegação mensal do brasileiro. A média
mundial é de 22,4 horas;


Se considerarmos aplicativos como Skype e MSN (Messenger), ambos
aplicativos de voz e vídeo que permitem realizar conversas de voz,
vídeo e dados, a média de navegação do brasileiros sobe para 65 horas
mensais;


Dois bilhões de visualizações por dia: essa é a audiência do YouTube
no mundo, considerando todos os vídeos;


Todos os dias são postados (inseridas) 100 milhões de fotos no
Facebook;


O Google realiza 88 bilhões de buscas todos os dias;


53 bilhões foi a quantidade de acessos a sites que possuem conteúdos
piratas;


10,3 bilhões é a marca de aplicativos baixados na AppStore, da Apple.
Para Android – novo sistema operacional -, o número chega a 5,8
bilhões;


As pessoas compartilham mais de 30 bilhões de posts (entre links,
álbuns de fotos, histórias, etc.) todos os meses no Facebook;


US$ 13 milhões foi o valor mais alto pago por um domínio de internet, o
sex.com;
84

                   207 milhões é a quantidade de linhas de celular no Brasil, são mais
                   celulares do que pessoas. 82% dos assinantes possuem linhas Pré-
                   pagas;


                   O ser humano consegue armazenar até 295 exabytes de dados em
                   todos os dispositivos eletrônicos no mundo. O equivalente a 404 bilhões
                   de CDs (CDR – cd para gravação);


                   A cada segundo, são enviadas 200 mil SMS (Short Messaging Service),
                   mensagens curtas no mundo. Se adotarmos a média de US$ 0,7 por
                   mensagem, são movimentados US$ 812 mil por minuto só em SMS;


                   140 milhões é a media de Twitter - mídia social de sucesso em formato
                   de microblog no formato de 140 caracteres -;


                   As pessoas passam em média 700 bilhões de minutos por mês no
                   Facebook;


                   A estimativa é que o tráfego mundial da Internet em 2014 seja de 767
                   exabytes, o equivalente a 16 bilhões de DVDs ou 399 quatrilhões de
                   mensagens de texto (SMS).


E as informações comparativas são cada vez mais interessantes:


                                                                                                                 49
                   O vídeo Social Media Revolution 2 Refresh, divulgado no YouTube
                   mostra as maiores transformações e os impactos que a redes sociais
                   tem causado pelo mundo:50


                   Mais de 50% da população tem menos de 30 anos de idade e 96%
                   desse público usa redes sociais;

49
     YouTube, Social Media Revolution 2 Refresh (revisado), http://www.youtube.com/watch/v=sIFYPQjYhv9,
50
  Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição,
2010, pág. 85 e 86
85

O Facebook supera o Google no tráfego de acesso semanal nos
Estados Unidos;


Anos necessários para se alcançar 50 milhões de usuários: rádio (38
anos), TV (13 anos), Internet (4 anos), iPod (3 anos);


O Facebook adicionou mais de 200 milhões de usuários em menos de
um ano;


Os aplicativos do IPhone - celular da Apple -, com total acesso a
aplicativos da Internet, alcançaram a marca de um bilhão em nove
meses;


Se o Facebook fosse um país, seria o terceiro maior do mundo, atrás da
China e índia;


80% das empresas usam as mídias sociais para a contratação e 95%
delas, o LinkedIn, site de relacionamento profissional;


O segundo maior buscador do mundo é o YouTube;


A Wikipédia - a maior biblioteca do mundo na Internet -, tem mais de 15
milhões de artigos – estudos mostram que são mais precisos do que a
Enciclopédia Britânica e 78% deles não são em inglês;


Existem mais de 200 milhões de blogs e 34% dos blogs postam opiniões
sobre produtos e marcas;


78% dos consumidores confiam nas recomendações de amigos sociais,
enquanto apenas 14% confiam em propaganda;


24 entre 25 dos grandes jornais do mundo estão experimentando taxas
recordes de diminuição de circulação;
86

             A Rússia tem a audiência de mídias sociais mais engajada, com
             visitantes gastando 6,6 horas, sendo 1.307 página em média por mês
             (visitante), sendo a Vkontakte.ru a rede social mais popular.


      Os números são impressionantes e crescem a cada dia. São números
mutantes. É uma Era Mutante. É um processo de transformação da web, ligada às
melhorias das tecnologias que surgiram na última década, em que as redes sociais se
tornaram protagonistas desta mudança, além da busca, da mobilidade, da
geolocalização e principalmente, o tempo real. O que mais impressiona é que guerras
e conflitos podem ser assistidos em tempo real, como se todos estivessem
participando dela, in loco. São fatores que estão presentes na transformação da vida
da civilização, modificando cenários, economias, políticas, comunicação, etc.. Um dos
fatores mais discutidos nos últimos tempos foi o fenômeno da cauda longa.


      Estudado e analisado por Chris Anderson, em 2006, o fenômeno permite a
existência simultânea da oferta de todo o tipo de produtos. Pode ser na web, de forma
intangível, sem se importar com o tamanho e da demanda que ele proporciona, tanto
para venda quanto para procura. A cauda longa nos mostrou que no mundo virtual
não há limitações, podemos ter na web incontáveis produtos para compra e venda à
nossa disposição. Infelizmente muitos fenômenos acarretam problemas e o da cauda
longa criou-se exatamente a dificuldade de se encontrar o que se precisa no meio de
tantas possibilidades expostas em milhares de sites na web. São milhões de opções
ao mesmo tempo. Quem acabou lucrando mais com este fenômeno foram os sites de
busca, pois o ser humano tem a necessidade de filtrar as informações para realizar as
compras e vendas desejadas.


      E sabemos que quanto mais temos opções, maior será a demora da escolha,
pois este processo vai necessitar de análise. Acarreta angústia da dúvida e não
felicidade e o pior, menos liberdade.


      A geolocalização também faz parte destas mudanças. É considerado um
fenômeno da mobilidade. Em alguns países este tipo de serviço ainda é caro
deixando as classes C, D e E de fora da explosão do marketing móbile, que precisa
de conexões 3G, acesso á banda larga. Os preços ainda são altos impossibilitando o
87

acesso. Esta tecnologia cresceu por causa do GPS (Global Positioning System ou
geoposicionamento por satélite) ligada a conexão móbile à internet e que permite a
interação das pessoas de acordo com sua proximidade ou posição geográfica. O
mais popular atualmente é o site o Foursquare, onde o internauta faz entradas e
saídas de lugares frequentados por eles.


           São inúmeras as tendências e elas estão surgindo a cada instante com todos
os avanços da tecnologia moderna e da globalização. O homem está cada vez mais
ligado a estas tecnologias que agilizam, organizam, criam relacionamentos e
aproximam. São tecnologias interativas de informação e comunicação que evoluíram
ao longo do tempo e ajudam, por meio da banda larga a acelerar o processo de
divulgação tornando tudo em tempo real.


           Agora tudo o que vale é a informação instantânea. Uma notícia leva apenas
alguns segundos para se propagar nas redes sociais, blogs e jornais em formato
digital. A comunicação em rede é feita de muitos para muitos e nunca de uma única
forma. Por este motivo, a propagação é rápida. Um colapso do tempo e do espaço na
divulgação da informação. Cada pessoa no mundo passa a ser um transmissor de
notícias via redes sociais e blogs. É o aumento da intensidade da informação, ela é
incontável e também é incontável o número de fontes e origens.


           As mentes estão conectadas e esta teoria é fato. A civilização entrou para este
mundo e não há mais volta. Estamos assistindo a uma transformação radical nas
culturas humanas que nenhum autor de ficção científica ousou prever. Vivemos em
uma cultura globalizada e cibernética. E como afirma Pierre Lévy, em seu livro
“Cibercultura”:


                                      “Vivemos em um mundo universal totalizante”51.




51
     Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, pág. 258, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.
88

      4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


      Do tempo em que o profeta Maomé escutou as palavras divinas até os dias de
hoje, os meios de comunicação mudaram vertiginosamente. São incontáveis as
transformações. Entre todos estes avanços, o mundo foi se modificando, passando
por revoluções e guerras que dividiram povos e crenças em países, línguas e
continentes. Terras foram descobertas e exploradas. Povos escravizados, realezas e
impérios erguidos e destruídos. Foram muitas as mudanças e os fatos que mudaram
a história para sempre e com pontos marcantes.


      Um dos mais significativos e, relatado em todo este trabalho, foi à distinção
entre Ocidente e Oriente e principalmente, o maior ataque terrorista que dividiu a
história no antes e depois. Nenhum livro de história deixará de contar para as futuras
gerações o 11 de setembro, quando o Word Trade Center, o maior símbolo de
grandeza dos Estados Unidos, foi derrubado por terroristas muçulmanos após um
perfeito plano arquitetado por Osama Bin Laden, chefe da organização terrorista Al-
Qaeda. Foram mais de três mil mortes.


      Não importa agora qual será o meio que estas novas gerações conhecerão a
história, por e-book - livro eletrônico -, em tablets, computadores, livros impressos,
contadores de história ou educadores. Será sempre passada e repassada, estudada,
lembrada e relembrada. Hoje, as novas gerações estão nos ensinando que a história,
conhecimento e informação devem ser compartilhados e está além do lápis e papel.


      A história é um dos meios de transmissão, é reflexo claro do crescimento do
mundo, um meio em que conseguimos saber dos fatos que marcaram nossa
civilização que chegou a um estágio de crescimento global e de total integração por
causa de um dos maiores avanços tecnológico criado pelo homem: a Internet.


      A comunicação é tudo e o mundo soube utilizar muito bem este meio para
reverberar por séculos os acontecimentos. Ocorreram muitas separações ao longo do
tempo. Elas são fortes e inconfundíveis. Dividiram povos e crenças religiosas,
idiomas, culturas, desenvolvimento econômico, social e principalmente político. Este
último provocando duras consequências em algumas nações, pois diálogos foram
89

cortados entre os mais importantes chefes de Estados do mundo. Vimos assim,
diminuir as chances de paz entre nações e a piora da situação de jovens que hoje
clamam por melhores condições de trabalho, qualidade de vida e um governo
democrático justo para que possam continuar a terem esperanças em seus países.


       A evolução foi marcada por símbolos, pinturas, cartas, livros, telégrafo,
fotografia, telefone, rádio, televisão. O homem foi a Lua, realizou por várias vezes
viagens especiais, o mundo passou por duas grandes Guerras Mundiais, genocídios
incontáveis, revoluções. Fatos que marcaram civilizações e modificaram o mundo.


       Hoje com a Internet, os fatos históricos não estão perdidos e muito menos
esquecidos. Ao contrário, são estudados e comentados, com opiniões repletas de
profundo conhecimento     de   jovens,   professores, mestres, doutores,    sempre
interessados em compartilhar e repassar este conhecimento e informação. O que
esperamos além da internet, ninguém pode prever, mas concluímos com este
trabalho que os avanços estão sendo realizados em uma velocidade que nem a luz
consegue acompanhar. Que a civilização ainda passará por muitas outras
modificações e rupturas e cada vez mais o homem terá que se adaptar as
transformações exigidas por estas descobertas.


       E são com esta tecnologia, a Internet, que jovens muçulmanos estão
conseguindo fazer com que o mundo escute os seus desejos. Não querem mais que
o Ocidente os enxergue como uma civilização ultrapassada, gangue de radicais
irascíveis e muito menos terroristas. Eles não querem também ser vistos como um
povo cultural e socialmente atrasado. Uma discriminação que se espalhou e acabou
tornando-se uma xenofobia incontrolável por qualquer homem, mulher, criança ou
idoso muçulmano. O Ocidente esqueceu a força e o poder que o Oriente teve na
formação do mundo, esqueceu sua história e sua contribuição para o crescimento da
civilização.


       Engana-se quem olha para o Irã como uma nação estagnada só porque ela é
comandada de forma teocrática, por um conselho clerical formada por Aiatolás e que
tem um presidente nada popular mundialmente. Sua forma de governar é observada
de perto pelas grandes potências mundiais.
90

                                  “Dentro de um contexto histórico de longa duração, os 30
                                  anos do regime islâmico representam um período curto,
                                  muito curto, para qualquer julgamento. Seus ancestrais
                                  dominaram impérios por duzentos, trezentos, quinhentos
                                  anos. E ainda que se tome a conjuntura recente, o
                                  observador atento verá mudanças profundas na era pós-
                                  revolução de 1979, a começar pela demografia.”52


        O Irã do século XXI é uma nação jovem com menos de 25 anos. É uma nação
de blogueiros, milhares de usuários do Twitter, presente fortemente nas redes
sociais, com 23 milhões de acesso à Internet e 45 milhões de celulares disponíveis
para realizar qualquer tipo de manifestações. Uma nação de mulheres universitárias,
que podem estudar, conseguir um diploma universitário e até mesmo conseguir o
PhD, mas que depois se tornam apenas mães e esposas. Este é um dos motivos das
insatisfações, principalmente das jovens iranianas fortemente presentes nas
manifestações de junho de 2009 na capital Teerã. Não foi somente a rápida contagem
de votos e a declaração de que Ahmadinejad estava confirmado como presidente do
Irã. Este foi o estopim que acabou por levar os jovens às ruas, trouxe à tona, todas as
angustias e insatisfações que tomam conta das mentes destes jovens. Estas
mulheres universitárias trabalham fora, mas não ocupam altos cargos, dirigem e
protestam como a estudante de música Neda Soltan que morreu pelo que acreditava.
Os iranianos com menos de 25 anos querem um país livre, democrático, com
princípios éticos, separando religião do Estado, sem que a lei islâmica possa
administrar e vigiar seus passos e pensamentos.


        Eles respeitam sua cultura e religião, mas querem esta separação para que
possam viver melhor no mundo de hoje completamente modernizado e globalizado.
No Irã do século XXI existe uma sociedade pulsante, que movimenta o país e o
empurra para frente.


                                  “Um caldeirão fervilhante, no qual se misturam ingredientes
                                  como história, nacionalismo, juventude, determinação,


52
  Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág.228
91

                                  orgulho, superação, desejo de mudanças, sonhos, e o
                                  deslumbramento com o mundo que se tornou pequeno e
                                  próximo pelas telas do computador.”53


        Foi uma Revolução Digital? Ela ganhou este nome e ficou popularizada desta
forma. Revolução Digital porque usaram as ferramentas mais avançadas da Internet,
os celulares de última geração e as redes sociais estavam no meio do furacão de um
levante que sacudiu o mundo.


        O que aconteceu no Irã nos dias das manifestações nas ruas de Teerã foi
definido por muitos por Rebelião 2.0, apesar de muitos estudiosos discordarem do
fato. Mas, não podemos deixar de observar que talvez tenha realmente sido a
primeira da história e certamente, a maior desde que a Internet tornou-se uma rede
popular e mundialmente usada e famosa. Os estudiosos em comunicação nunca
haviam presenciado uma manifestação tão forte até então feito por meio de uma
ferramenta de comunicação de massa.


        Jovens muçulmanos ergueram seus celulares e enfrentaram sem medo a
Guarda Revolucionária. Esta foi a “arma” dos iranianos em junho de 2009.
Fotografavam, gravavam e postavam tudo o que enxergavam pela frente. Reuniões
foram marcadas em 140 caracteres, manifestações tiveram seus pontos de encontro
divulgados em redes sociais e SMS. Um Levante que pelo lado dos jovens não teve o
barulho de um único tiro e sim o som do clique das máquinas digitais. Eles preferiram
a tecnologia e a ponta dos dedos para informar ao mundo à luta que estavam
travando e o que estava realmente acontecendo em seu país. Os iranianos
mostraram um potencial que até então o Ocidente ainda não tinha notado: a força
avassaladora das redes sociais. Eles souberam utilizar o que a tecnologia e seus
avanços proporcionam. Fizeram sim, uma Nova Revolução no Irã e mostraram que
possuem voz, capazes de qualquer coisa, até mesmo o sacrifício para conquistar os
sonhos de uma democracia justa e liberdade de expressão.




53
  Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora
Globo, 2010, pág.229
92

      Revolução não se faz em redes sociais, se faz nas ruas. Mas, podemos dizer
que o Twitter, Facebook, YouTube e celulares ampliam as vozes e transportam a
informação de uma forma que os pais desses jovens não tiveram na Revolução
Islâmica de 1979. Os iranianos do século XXI conseguiram enxergar que as AK-47
deveriam ser aposentadas, a “arma” principal era o celular e as redes sociais para
que eles pudessem se reunir e mostrar aos Aiatolás e ao Ahmadinejad que estavam
insatisfeitos e que fariam barulho por toda aquela insatisfação e todos aqueles anos
de repressão. Mostraram que sabiam mais do que o governo dominar estes avanços,
estavam à frente da polícia repressora e que eram capazes de muito mais do que o
ocorrido em 1979. A “arma” deles era mais poderosa e atingia muito mais rápido do
que se poderia imaginar. A Internet tem um poder que eles sabiam e que os
governantes desconheciam. Esta foi a grande vantagem desta Revolução.


      Eles conseguiram realizar a maior manifestação pública jamais vista no Irã
desde 1979. Foi uma revolução de massa que acuou o governo. As redes sociais não
conseguem consertar as profundas mazelas provocadas pelo governo iraniano ou até
mesmo em outros países que também utilizaram as redes sociais para marcar
encontros e protestar contra seus governos ditatoriais. Assim como o Irã, todo o
Oriente Médio está passando por profundas mazelas que incluem frustrações
políticas e econômicas.


      As mídias e redes sociais ajudaram a tornar as queixas mais urgentes e
difíceis de serem ignoradas, apesar da censura à Internet no Irã ser altíssima.
Segundo um ranking da liberdade na Internet, realizada entre 37 países pelos
Estados Unidos, em 2010, o Irã ficou com a pontuação máxima, cerca de 89% de
repressão . Mesmo assim, os @rebeldes, como ficaram conhecidos, perceberam que
suas vozes poderiam ser ouvidas em grande escala. Qualquer notícia poderia se
espalhada rapidamente, falariam com muitas pessoas ao “mesmo tempo” e,
proporcionava para eles relativa liberdade de expressão.


      Apesar    de   terem   cunhado    o   termo   “Revolução    Twitter”,   muitos
sobrecarregaram de expectativas às asas desta rede social. O microblog pareceu a
panaceia antiditaduras.
93

                                    “Houve uma sobrevalorização do Twitter. O país contou
                                    com menos de 1.000 usuários ativos. O maior volume de
                                    informações propagadas no microblog veio do Ocidente, de
                                    pessoas que não estavam no local. Quando alguém
                                    comentou que havia 700.000 pessoas protestando em
                                    frente a uma mesquita, descobriu-se que apenas cerca de
                                    7.000 pessoas compareceram”.54


           Se estas informações são ou não verdadeiras, não importa. Eles estavam
presentes nas praças e nas redes trocando informações e pressionando o governo.


           Ferramentas ou não, os iranianos e qualquer jovem não poderá nunca
esquecer que as redes sociais são apenas ferramentas, meios de comunicação
tecnológico que permite se fazer ouvir, pois uma mensagem postada no Twitter, foi
postada para o mundo e não para um círculo de amigos ou uma pequena
comunidade. Por este motivo, que as manifestações do Irã ganharam rapidamente o
mundo.


           Um dos maiores ganhos foi à modificação de postura da rede de TV Al
Jazeera, a mais importante do Oriente Médio. Abriu conta no Twitter, no Facebook, e
nada escapou de seus correspondentes internacionais. As mídias e redes sociais
atuaram na coordenação de informações e, assim, assumiram relevância nestas
situações.


                                    “A revolução não é digital (...) são apenas ferramentas.
                                    Permitem que as pessoas organizem e comuniquem seus
                                    pensamentos de maneira mais eficiente (...) Pode ser
                                    usada pelos dois lados do conflito.”55


           E foi o que aconteceu. Mas, para estes jovens, isto não foi importante. Após as
manifestações nas ruas de Teerã, a vida voltou ao seu curso normal no Irã, mas eles


54
     Pesquisador iraniano, Hamid Tehrani, Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo
55
     Eric Schmidt, Ex-presidente do Google, entrevista Revista Veja, 2 de março de 2011.
94

deixaram marcas profundas e a sensação de que a qualquer momento eles podem
voltar a fazer barulho para que o governo e o mundo voltem a escutá-los. Não foi
muito barulho por nada. Eles ensinaram tanto ao Oriente quanto ao Ocidente que é
possível ir às ruas e protestar contra governos ditatoriais, repressão e todo tipo de
corrupção. Esta última para sobreviver décadas atrás de décadas move os pilares
econômicos e sociais do mundo globalizado, humilhando seus povos e tirando o
direito de oportunidade de uma vida digna e melhor. Mostraram para o Ocidente como
utilizar de forma consciente os últimos avanços tecnológicos. As manifestações em
massa agora são apenas iniciativas individuais e como dizem as jornalistas Adriana
Carranca e Márcia Camargos, permanecerão até que os iranianos encontrem um
caminho comum. As transformações que os iranianos querem não são encontradas
no Twitter ou Facebook e sim na realização de seus desejos. O tabuleiro tanto das
relações internacionais quanto nacionais são bem complexas. O jogo é tenso, mas os
jovens iranianos não perdem a esperança e eles já conseguiram mostrar para o
mundo e ao seu governo que estão insatisfeitos e entendem de avanços
tecnológicos. Apesar das proibições e o nível de repressão aumentar eles possuem
“armas poderosas” que espalham as suas palavras, apesar de também saberem que
Internet não é garantia de democracia e que, estas ferramentas podem provocar não
apenas vendavais contra ditaduras, mas também brisas para democracias.


      Mas este é o Islamismo 2.0. Jovens muçulmanos apaixonados por redes
sociais, por tecnologia, cinema, cultura, arte, música, tanto quanto o jovem ocidental.
Amam tecnologia, celulares modernos, chats e todas as modernidades que o
Ocidente utiliza sem a preocupação e medo.


      A diferença entre estes jovens são os anseios e os desejos. Os planos de vida
podem ser diferentes, mas concluímos com toda certeza que os jovens orientais
sabem muito mais o valor da liberdade de expressão do que um jovem ocidental. Isto
eleva o grau de preocupação com o seu futuro. Esta falta de liberdade de expressão
acentua o poder e a vontade de uso das redes sociais. Mesmo com a milícia Basij
trabalhando de perto para o governo e totalmente infiltrados em todos os locais
possíveis e imagináveis, estes jovens não se intimidaram e fizeram a sua
manifestação, a sua Revolução Digital. Em vez de balas os iranianos dispararam
95

palavras em redes sociais e assim, puderam ser ouvidos pelo mundo, inclusive o
Ocidental.


           E para finalizar este trabalho, concluímos que as redes sociais ajudaram e
continuarão           a     ajudar      manifestações,          no     crescimento         profissional,       no
compartilhamento de conhecimento e informação de qualquer jovem e civilização. E
como diz o escritor e consultor canadense, Don Tapscott em seu livro “A hora da
geração digital”:


                                     “Isso não quer dizer que a tecnologia anda instigando
                                     levantes populares pelo mundo. Apenas mudou o modo
                                     como elas são feitas. (...) Antigamente saiam colando
                                     cartazes em postes, agora usam redes sociais.”56




56
     Tapscott, Don, “A Hora da Geração Digital”, Editora A Negócios, capítulo 11, Em defesa do futuro, 2010.
96

         5 REFERÊNCIAS


1
    Magnoli, Demétrio, Terror Global, São Paulo, PubliFolha, Série 21, pág. 7, 2008.
2
    Lewis, Bernard, A Crise do Islã - Guerra Santa e Terror Profano, Rio de Janeiro, Zahar Editor pág.11,
2003.


3
     Pecequilo, Cristina Soreanu, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São
Paulo,       artigo;   “A   estranheza    da    democracia”,     site     Carta   Maior,   de   12/02/2011.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17431



4 Demant, Peter; O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004
5
    Santuário dos muçulmanos em Meca

6
    Livro Sagrado dos muçulmanos que reúne todas as revelações de Deus, pelo Arcanjo Gabriel para o
profeta Maomé.

7
    Demant, Peter - O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004

8
     Do árabe hijra, “emigração”, quando acontece a partida de Maomé de Meca para Medina, em 622, e
corresponde ao ano inicial do calendário muçulmano, calculado de acordo com o segundo ciclo lunar.


9 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 19

10
      Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 45

11
     Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 19

12
     Huntington, Samuel P.,O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 21

13
     Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 33

14
     Kamel, Ali, “Sobre o Islã”, 2007, Editora Nova Fronteira, pág.124,

15
     Huntington, Samuel P., O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 58
97

16
    Fonseca, Ana Cláudia; Teixeira Duda e Carvalho, Julia, Revista Veja, Edição 2216, ano 44, nº19, 11
de maio de 2011, Editora Abril, pág. 102

17
      Huntington, Samuel P., O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996,
Editora Objetiva, pág. 79

18
     Lewis, Bernard, O que deu errado no Oriente Médio?, 2002, Editora Zahar, pág, 180 e 181.


19 Demant, Peter, O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2004, pág. 330.

20
     Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág 68

21
     Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág. 55

22
    Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano
no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista
da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648

23
     Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano
no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista
da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648

 24
*     Não podemos afirmar que esta economia é tão próspera nos dias de hoje. Com a crise econômica
mundial, a economia americana entrou em colapso e segundo, o jornal “O Globo” edição de 15 de julho
de 2011, o governo americano apresenta uma dívida de US$ 14,3 trilhões. Para honrar seriam
necessários vários cortes internos.

25
    Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano
no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista
da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648

26
    Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora,
Leya, 2011, pág. 277.

27
    Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora,
Leya, 2011, pág. 277.
98

28
     Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano
no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista
da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648

29
     Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano
no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista
da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648

30
      Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em Tempos Traiçoeiros”, Editora,
Leya, 2011, pág. 325.- Discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a sua
posse no dia 20 de janeiro de 2009.

31
 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao
Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e
Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32

32
     Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág. 102 e 103

33
     Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao
Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e
Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32

34
     Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao
Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e
Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 34

35
     Daryaee, Touraj, professor de história iraniana, em entrevista ao jornalista William Vieira, para
Revista Carta Capital, ano XV, nº601, 23 de junho de 2010, Editora Confiança, página 54.

36
     Sequeira, Cláudio Dantas e Villameá, Luiza, matéria de capa da Revista Isto É, “A Epidemia da
Liberdade”, Editora Três, ano 35, nº2155, 2 de março de 2011, pág.80.

37
 Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de
2009, pág. 97.

38
     Zahra Rahnavard, mulher de Mirhossein Mousavi, líder da oposição no Irã, Evelin Guilherme e
Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 101.

39
     Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 102
99

40
     Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 103

41
 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 104

42
     Recuero, Raquel, especialista em redes sociais e professora da Universidade Católica de Pelotas,
no Rio Grande do Sul, em entrevista a Revista Época, de 22 de junho de 2009, nº579, Editora Globo,
pág, 106.

43
 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág.133

44
     Jovem iraniano, não identificado pelos jornalistas correspondentes da Revista Época, de 22 de junho
de 2009, Editora Globo, pág. 104.

45
     Keen, Andrew, O Culto ao Amador, Editora Zahar, 2007, orelha do livro.

46
 Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, orelha da contra capa, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.

47
 Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª
edição, 2010, pág.83.

48
     Site UOL Notícias Tecnologia (2011) ,
http://tecnologia.uol.com.br/album/numros_tecnologia_album.jhtl#fotonav=2

49
     YouTube, Social Media Revolution 2 Refresh (revisado),
http://www.youtube.com/watch/v=sIFYPQjYhv9,

50
     Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª
edição, 2010, pág. 85 e 86

51
     Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, pág. 258, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.

52
     Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág.228

53
     Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”,
Editora Globo, 2010, pág.229

54
 Pesquisador iraniano, Hamid Tehrani, Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo

55
 Eric Schmidt, Ex-presidente do Google, entrevista Revista Veja, 2 de março de 2011.
100

56
     Tapscott, Don, “A Hora da Geração Digital”, Editora A Negócios, capítulo 11, Em defesa do futuro,
2010.

Islamismo 2.0 monografia janaína machado versão final - revisada

  • 1.
    UNIVERSIDADE LA SALLERJ CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS “ISLAMISMO 2.0” SO JANAÍNA MACHADO RIO DE JANEIRO JUNHO/2006
  • 2.
    JANAÍNA MACHADO ISLAMISMO 2.0 Este é o trabalho final de Janaína Machado de Oliveira, aluna do curso de Pós- graduação em Relações Internacionais, da Universidade La Salle de Niterói, Rio de Janeiro. O professor Carlos Frederico Coelho foi escolhido pela aluna como orientador e receberá o trabalho de conclusão do curso para avaliação. Rio de Janeiro, 01 / 08 /2011 Professor Orientador Específico
  • 3.
    Este trabalho édedicado a minha mãe, Juranda Machado e in memorian ao meu pai, Haroldo José de Oliveira.
  • 4.
    “O Ocidente temo relógio, o Oriente tem o tempo...”. Ditado popular iraniano
  • 5.
    RESUMO Machado, Janaína. Islamismo2.0 Prof. Orientador Específico: Carlos Frederico Coelho Rio de Janeiro: UNILASALLE 2011 Relatório de Conclusão de Estágio. O presente trabalho pretende comprovar, por meio de reportagens publicadas em jornais, revistas, livros e material pesquisado via Internet, que o Islamismo e os países tipicamente muçulmanos, já no século XXI, ainda resistem às modernidades introduzidas pelo crescente avanço tecnológico criado especificamente pelo mundo ocidental e à globalização. Apesar disso, jovens muçulmanos com menos de 25 anos, em recentes levantes, em países islâmicos, mostraram ao mundo que a resistência impera somente em alguns países e essencialmente por causa de seus governantes e seus ditadores. Milhares foram às ruas protestar contra seus governos munidos de ferramentas modernas, criadas pelo ocidente, para questionar a política, a religião, a cultura, a submissão e a crescente repressão imposta pela tradição autoritária dos aiatolás. Não desejam mais repressão, falta de liberdade de expressão, ditadura, torturas, prisões, pobreza e diversas mazelas frequentemente divulgadas pela imprensa com relação aos seus países. Pela primeira vez o mundo viu uma Revolução supostamente dita como Digital, onde tudo era divulgado via Twitter, YouTube, Facebook, celular e outras ferramentas que pudessem acessar a Internet. Estes jovens depois de muito tempo não tiveram medo de enfrentar a milícia subordinada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), uma polícia criada para proteger, mas que pratica a vigilância e a opressão a toda à população, pronta para denunciar qualquer iraniano que não apoie o governo. O Choque de Civilizações, a divisão entre o Ocidente e o Oriente e, o porquê do mundo muçulmano ser movido pelo ódio em relação aos países ocidentais também será tratado neste trabalho. Teremos como base de estudo um único país que passou por muitas transformações, golpes, revoluções e recentes protestos: o Irã. Este país presenciou a Revolução Islâmica de 1979, tem um complicado relacionamento com os Estados Unidos e presenciou um recente levante, no mês de junho de 2009 que sacudiu os iranianos e mundo.
  • 6.
    O uso dasredes sociais foi fundamental para que os jovens fossem às ruas mostrar à sua revolta e a verdadeira face do Islã e do atual Irã. O poder de Alá sucumbiu à modernidade e apareceu um novo Islamismo, movido pela força da web 2.0. Palavras-chaves: Choque do Oriente e Ocidente, Modernização, Avanço Tecnológico, Globalização, Revolução Islâmica, Islã, Irã, Estados Unidos,Redes Sociais, Web 2.0.
  • 7.
    SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................08 1.1 UMABREVE HISTÓRIA DO ISLÃ......................................................................15 1.2 O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES ........................................................................22 1.3 A DIFICULDADE DO ISLAMISMO A MODERNIZAÇÃO.....................................32 2 IRÃ - HISTÓRIA E A SUA RELAÇÃO COM OS ESTADOS UNIDOS.....................40 2.1 IRÃ E SUAS REVOLUÇÕES...............................................................................54 2.2 A REVOLUÇÃO 2.0 - UM MUNDO DE CONTRADIÇÕES..................................63 3 A CIVILIZAÇÃO NA ERA 2.0...................................................................................76 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS....................................................................................88 5 REFERÊNCIAS.......................................................................................................96
  • 8.
    APRESENTAÇÃO DO ACADÊMICO: Nome: JanainaMachado de Oliveira Endereço: Rua São João nº 171/ 102 Bloco A Centro Niterói Email: janaina.machado@planobconsultoria.com Fone: 21 93384330 Empresa onde trabalha: Plano B Consultoria Empresarial e Assessoria de Imprensa Setor: Sócia-diretora Ramo de Atividade: Consultoria Empresarial, Comunicação, Mídias e Redes Sociais e Assessoria de Imprensa.
  • 9.
    8 1. INTRODUÇÃO No dia 11 de setembro de 2001, o mundo testemunhou uma das maiores mudanças no curso da história. Três pontos diferentes e estratégicos dos Estados Unidos, são atacados simultânea e inesperadamente. Milhares de vidas se perderam. Um dos maiores símbolos americanos, o World Trade Center, as duas Torres Gêmeas, localizada no sul da ilha de Manhattan, na cidade de Nova York, caem como se fossem folhas de papel picado. O Pentágono, localizado na capital Washington, tem uma de suas partes destruídas e um avião da United Airlines, cai em uma área florestal da Pensilvânia, matando todos a bordo. Um terror que ficaria marcado não somente na memória dos americanos, mas em todas as civilizações. Não haverá, decerto, uma explicação tangível e aceitável para o ocorrido. O horror se espalhou pelo mundo no momento em que as terríveis cenas foram transmitidas ao vivo pela TV. Tudo parou. O autor dos atentados, o rico saudita, Osama Bin Laden com a ajuda do grupo terrorista islâmico Al Qaeda não poderia imaginar que o plano seria tão perfeito e visto ao vivo por bilhões de pessoas. O mundo naquela manhã de 11 de setembro de 2001 havia acordado para a sua “primeira guerra do século XXI”. Foi assim que o Ex-presidente George W. Bush falaria sobre os atentados em sua primeira declaração oficial. Uma “Cruzada” em defesa da “civilização”. Havíamos começado a travar uma “Guerra ao Terror” e o Oriente seria classificado definitivamente como o “Eixo do Mal”. Esta cruzada sempre será lembrada por cenas terríveis, nascidas antes, durante e depois do 11 de setembro. O mundo já havia presenciado um primeiro ataque as Torres Gêmeas, no ano de 1993. Um carro bomba explodiu na garagem de uma das Torres ferindo milhares de americanos e matando muitos agentes do Federal Bureau Investigation (FBI) que trabalhavam nos andares superiores da área atingida. Este atentando foi o primeiro de muitos que teriam sucesso e que acabaram por criar uma xenofobia contra qualquer muçulmano. Velho, adulto, homem, mulher,
  • 10.
    9 ou criança sãoatacados e todos os lugares, principalmente nos Estados Unidos. Durante o governo de George W. Bush, dezenas de muçulmanos suspeitos de terrorismo são presos e levados para interrogatórios em Guantánamo, na ilha de Cuba. Iraquianos são humilhados e torturados nas prisões de Abu Ghraib, em Bagdá. O mundo passa a ter uma visão distorcida do islamismo, dos muçulmanos e de todo o Oriente Médio. O orientalista Bernard Lewis, que criou o termo “Choque de Civilizações” e inadequadamente apropriado após o primeiro ataque de 1993, pelo escritor Samuel Huntington, explica claramente essa expressão: “(...) delinear a visão de um mundo dividido em conjunto geo-culturais fechados sobre as próprias certezas 1 absolutas.” O futuro da humanidade começa a depender do êxito ou do fracasso coletivo em lidar com a dificuldade da coexistência entre as diferenças existentes entre o Ocidente e o Oriente. Mas tanto o Ex-presidente Bush, quanto os políticos ocidentais, têm feito grandes esforços para deixar claro que esta atual “Guerra”, e na qual as grandes potências estão envolvidas, é apenas contra o terrorismo. De acordo com Osama Bin Laden, descrito em um dos livros de Bernard Lewis, a guerra não é contra o terrorismo: “Para eles e seus seguidores, essa é uma guerra religiosa, uma guerra do Islã contra os infiéis e, portanto, inacreditavelmente, contra os Estados Unidos, a maior potência do mundo infiel.” 2 Os discursos de Bin Laden, sempre foram referentes à história e aos infiéis. O seu vídeo de 7 de outubro de 2001, logo após os atentados de 11 de setembro, refere-se à “humilhação e desgraça” e as pessoas, às quais ele se dirigia, entenderam perfeitamente qual o fato histórico citado pelo terrorista. 1 Magnoli, Demétrio, “Terror Global”, São Paulo, PubliFolha, Série 21, pág. 7, 2008. 2 Lewis, Bernard, “A Crise do Islã - Guerra Santa e Terror Profano”, Rio de Janeiro, Zahar Editor pág.11, 2003.
  • 11.
    10 Ele fazia referência à perda do sultanato otomano, o último dos grandes impérios muçulmanos restantes, em 1918 para os britânicos e franceses, assim como as antigas províncias otomanas de língua árabe, que separadas deram origem a novas “nações”, que ganharam outros nomes e fronteiras. São elas: Iraque, Palestina e Líbano. Mais tarde os britânicos dividiram a Palestina, criando uma divisão entre as duas margens do Jordão. A parte oriental transformou-se em Jordânia e a margem ocidental Cisjordânia. Até hoje área nervosa do Oriente e geradora de grandes conflitos. A Professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Pau- lo (UNIFESP), Cristina Soreanu Pecequilo, em seu artigo “A estranheza da democra- cia” 3, escrito para o site Carta Maior explica que um dos termos mais utilizados na retórica da política internacional, ao lado de paz e guerra, é democracia. Segundo a professora traduzida e manipulada pelos mais diferentes interesses e grupos políti- cos, a palavra pode ser levada a extremos como ao justificar a invasão norte- americana ao Iraque em 2003 ou a Guerra Contra o Terror de 2001 do Afeganistão em 2001. Ela explica que para os Estados Unidos, trata-se de motivação de uso cor- rente para legitimar intervenções externas para o seu público interno e que ultrapassa fronteiras. Mesmo com o patente unilateralismo de George W. Bush, alguns veículos e analistas chegaram a definir este momento como o início de uma “Primavera dos Povos” para o Oriente Médio, similar a 1989 na Europa Oriental. E sabemos que democracia não existe na maioria dos países muçulmanos. Quase todos são governados por ditadores a mais de três décadas para revolta da população, subjugando-os a repressões, maus-tratos, prisões indevidas, pobreza, má qualidade de vida, falta de trabalho entre outros graves problemas. Esta nova “Guerra” impôs para a humanidade um desafio mais urgente do que o fundamentalismo islâmico. Este “Choque de Civilizações” poderia ter sido evitado de várias formas, sem xenofobia, sem “Cruzada” e sem “Guerra ao Terror”. Poderia 3 Pecequilo,Cristina Soreanu, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, artigo; “A estranheza da democracia” , site Carta Maior, de 12/02/2011. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17431
  • 12.
    11 ser evitado seas grandes potências, principalmente os Estados Unidos se propusessem a um diálogo aberto com os países islâmicos. Para os fundamentalistas islâmicos, que aparentemente estão liderando e controlando a luta anti-imperialista e que mostra este fascínio pelo terror, nos diz muito sobre a degeneração de correntes de esquerda que não conseguem esconder sua profunda hostilidade à democracia e ao Ocidente. Os atentados, as revoltas, são revelações claras de uma nova sociedade que está surgindo e que não quer mais viver sob o véu da intolerância, criada por xiitas e sunitas. Podemos evitar este choque desde que ambos os lados façam concessões e esforços necessários. Isto é possível? Há esforços praticados por ambas as partes? Fica muito claro que é necessário muito exercício de compreensão de ambos os lados. Alguém tem que ceder. “Ao Ocidente, cabe entender como a riqueza histórica do mundo muçulmano se vincula à sua ira atual - e como o próprio mundo ocidental é cúmplice, de certa forma, da crise contemporânea do islã. Um entendimento da dinâmica interna do mundo muçulmano, assim como de sua interação com os povos vizinhos, constitui o primeiro passo para desenhar políticas mais compassivas, e mais efetivas, frente a ele.” 4 O Ocidente, - mais para os americanos do que para os europeus-, a unidade básica da organização humana é a nação. Isto virtualmente é considerado um país. Nesta totalidade está incluída a religião. Já os muçulmanos, tendem a ver não uma nação subdividida em grupos religiosos, mas sim, uma religião subdivida em nações. Segundo Bernard Lewis, em seu livro, “A Crise do Islã”, de 2003, páginas 14 e 15 este pensamento ou esta formação de Estados-nações, que compõem o “Oriente Moderno”, podem ser observadas a partir do tempo de dominação imperial anglo- francesa e que se seguiram à derrota do Império Otomano. Muitos outros países surgiram com novos nomes: Turquia; Irã, antiga Pérsia; Paquistão, uma invenção do 4 Demant, Peter; “O Mundo Muçulmano”, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004
  • 13.
    12 século XX quefoi designado um país inteiramente definido por sua religião e lealdade islâmicas. Um país que fez por muito tempo parte do território indiano e que se preocupou entre muitas outras coisas com a sucessão do Talibã e seus sucessores no vizinho Afeganistão. Muito aconteceu no século XX e XXI e este “Choque de Civilizações” que poderia ser evitado, tem se acirrado com novos eventos e novas guerras, sem justificativas e sem aprovações do Conselho de Segurança da ONU. Após os ataques de 11 de setembro, o mundo assiste a uma perseguição que não tem fim, mesmo com a morte do terrorista Osama Bin Laden, em 1º de maio de 2011 e seus terroristas formadores do grupo Al Qaeda. Para justificar a sua “Guerra ao Terror” e a sua “Cruzada”, o Ex-presidente norte-americano, George W. Bush mandou tropas do exército americano invadir o Iraque, com o objetivo de instaurar um novo governo e a democracia. Para isso, perseguiu incansavelmente o ditador Saddam Hussein, antes aliado dos americanos. O Iraque foi invadido com a justificativa de que no país havia armas químicas, que poderiam acabar com a paz mundial. Nada foi achado e nada foi provado. Onze anos depois, uma república ainda não foi instaurada no Iraque e o Ex-ditador, Saddam Hussein, capturado pelos soldados americanos, foi enforcado após um curto julgamento por crimes de guerra cometidos contra seu próprio povo e a humanidade. Sem conseguir controlar seus soldados, o mundo assistiu via satélite atrocidades cometidas nas prisões de Abu Ghraib e Guantánamo, praticadas pelo exército americano. Os Estados Unidos mostravam definitivamente que o controle estava sendo perdido. Democracia está à palavra da nova geração islâmica. Eles estão mudando o mundo e chamando a atenção para o Oriente Médio de uma forma completamente diferente da ocorrida no século XX. Seus desejos e sua formação são diferentes de seus pais e dos religiosos que comandam com pulsos firmes os principais países islâmicos. Os jovens muçulmanos de hoje estão com menos de 25 anos, não vivenciaram com a intensidade de seus pais a Guerra do Irã-Iraque, a Revolução Islâmica do Irã de 1979; os conflitos na Palestina e em Israel ou qualquer tipo de
  • 14.
    13 atrocidades ocorridas emseus países. Esses jovens estão fazendo história, estão querendo melhores condições de vida e trabalho. Seus países ricos em petróleo podem proporcionar isto para eles a partir do momento que instaurarem uma democracia. Sem armas, apenas munidos de celulares, internet, mídias sociais e redes sociais o Irã, o Egito, a Tunísia e outros países do Oriente, fazem sua revolução. Por meio destas ferramentas, conseguiram marcar encontros em praças públicas e protestaram na frente de milhões de pessoas que o assistiam e o apoiavam via internet. Seus gritos, seus apelos foram “Twittados”. Gritam por injustiças e reclamam por votos não computados em eleições presidenciáveis. O mundo até então não tinha visto com tanta intensidade a voz desses jovens reclamando e reivindicando seus direitos. Pela primeira vez o mundo viu o verdadeiro poder das redes sociais e o que ela pode ajudar a fazer. Nem mesmo países tão seculares, fechados e com religiões tão severas resistiram aos apelos destes jovens. O primeiro forte levante foi no Irã. A Revolução Verde foi completamente twittada, apesar de todos os esforços dos clérigos xiitas do Irã e do atual Presidente, Marmoud Ahmadinejad para tirar os jovens da rua. O governo cortou a Internet ou qualquer tipo de acesso com o mundo exterior. Não queriam que o mundo soubesse o que estava acontecendo em Teerã. Ahmadinejad pode não ter saído da presidência fraudulenta como ficou explicitado, os jovens muçulmanos munidos de celulares mostrou ao mundo que podem gritar mais alto do que balas, pauladas e prisões praticadas pelos soldados Barsij, a polícia que vigia e controla os iranianos. Os jovens iranianos deram vozes a outros mostrando a possibilidade de irem às ruas e reivindicar direitos negados pelo governo. Diretos simples que podem chegar com a democracia, a separação do Estado/religião. Mas, como o Oriente Médio está conseguindo suplantar anos de tradicionalismo e adotar novas ferramentas e dar a palavra a jovens que aparentemente “não” seguem as leis islâmicas? Qual o relacionamento existente entre Estados Unidos e Irã? Por que o Oriente tem tanto ódio do Ocidente? Estas e muitas outras questões serão levantadas ao longo desse trabalho. Trataremos de forma breve o nascimento do Islã até os
  • 15.
    14 acontecimentos de hoje,acompanhados pela Web 2.0. Apesar de muitos países do Oriente Médio terem participado de recentes levantes clamando por democracia e utilizando ferramentas da Web 2.0, focaremos o presente trabalho no Irã.
  • 16.
    15 1.1 UMA BREVE HISTÓRIA DO ISLÃ O Islã é a terceira religião monoteísta, revelada após o cristianismo e judaísmo. Em árabe, Islã significa “Submissão a Deus”. É uma religião que nasceu com data e local definido: na península Árabe, na atual Arábia Saudita, no século VII, no ano de 622. Conta à tradição muçulmana que a palavra de Deus foi transmitida em árabe, pelo arcanjo Gabriel ao profeta Maomé, nascido no ano de 570 d.c., exatamente na cidade de Meca, na Arábia desértica, uma área povoada por judeus e cristãos que viviam instalados nesta região e sobretudo, por beduínos politeístas, povo que venerava mais de 300 ídolos, reunidos na Caaba5. De acordo com os relatos históricos dos muçulmanos, este santuário foi erguido por Adão e destruído durante o Dilúvio. Abraão, considerado o ancestral de todos os árabes, reconstruiu o Santuário com a ajuda de seu filho Ismael, instalando em seu ponto mais sagrado a Pedra Negra. O Islamismo é o legado do profeta Maomé. É uma religião inspirado no cristianismo, no judaísmo. Maomé desafiou os poderosos, unificou os árabes e criou uma civilização fértil, complexa e acima de tudo, bela. Maomé nasceu em um clã que pertencia à tribo Koraishitas, uma das mais poderosas estabelecidas em Meca. Perdeu os pais muito cedo e seu nascimento é envolvido de fatos extraordinários. Já sob a guarda de seu tio paterno e a caminho da Síria em uma caravana, chefiada pelo seu primo Ali, Maomé foi abordado pelo monge Bahirá que o reconheceu de seus sonhos como o homem que portava uma auréola e que era o enviado de Deus, o profeta que anunciaria o Livro Santo, o Alcorão ou Corão6. Quando Maomé se aproximava dos 40 anos, no ano de 611 d.c., o Arcanjo Gabriel apareceu ao profeta ditando uma série de preceitos e ordenando-lhe que retransmitisse as palavras escutadas. Foi a partir daí que se seguiram as pregações com instruções para a crença e a conduta do seguidor da nova religião. O Corão não fala somente de fé, mas também como o muçulmano deve compreender aspectos sociais e políticos. As revelações estão divididas em 114 5 Santuário dos muçulmanos em Meca 6 Livro Sagrado dos muçulmanos que reúne todas as revelações de Deus, pelo Arcanjo Gabriel para o profeta Maomé.
  • 17.
    16 suratas (capítulos) comdiversos versículos que vão de 3 a 286. Tornou-se um livro de difícil entendimento, pois foi todo escrito em árabe formal. Uma coletânea de diversos discursos do profeta Maomé, conhecido como hadith, formam um complemento para a leitura do Corão: a Sunna. A linguagem mais clara e fluente facilita a compreensão. Mesmo assim, como os registros foram realizados por pessoas diferentes, existem muitas divergências em relação aos ensinamentos do profeta. Muitas interpretações são dadas até hoje, o que dificulta e até mesmo, torna a religião um pouco temida no Ocidente, pois as contradições da hadith provocaram uma expansão dos conceitos do Islã ao incorporar tradições e doutrinas sobre a sociedade e justiça. Estes conceitos são importantes na formação da cultura islâmica, não ficando restrita à religião. Nos islamismo não há mediação entre o homem e o divino, como ocorre no cristianismo com a figura de Jesus Cristo. Com isto, a religião islâmica ganha uma força ainda maior para os muçulmanos, pois a palavra de Deus é direta e o Corão papel central nesta divulgação dos ensinamentos divinos para o Islã. No uso ritual dos muçulmanos, o Corão nunca foi traduzido do árabe. Eles fazem questão que seja recitado na língua original, preservando assim, as palavras de Deus. No início Maomé e um pequeno grupo de seguidores foram perseguidos por grupos rivais deixando a cidade de Meca e rumando a Medina. Esta migração ficou conhecida como Hégira e inaugura o islamismo, marcando assim o início de seu calendário. Esta migração não foi impedimento para que a religião islâmica e a palavra de Maomé fossem abafadas. As revelações de Deus ao profeta conquistaram adeptos em ritmo bem acelerado. “O Islã é uma religião (din), com tudo o que este termo implica (crença, ritual, normas, consolação, etc.), ao mesmo tempo em que é uma comunidade (umma) e um modo de viver ou tradição (sunna) que regulariza todos os aspectos da vida: o indivíduo e as etapas de seu desenvolvimento; a educação; as relações entre homens e
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    17 mulheres; a vida familiar e comunal; o comércio, a justiça e a filosofia.”7 Para melhor entender a religião islâmica, tudo gira em torno de um sistema jurídico-religioso total: a xaria (Shari’a), que quer dizer, o caminho certo. Tudo baseado em fontes sagradas, nos primórdios do islamismo. O desenvolvimento nunca cessou e o islamismo reage a qualquer circunstância nova que é imposta a religião. Por ser tão complexa foi criada uma classe de prestígio. Legistas-intérpretes especializados em traduzir e entender o Corão, os ulemás (ulama). Não tem papel do clero institucionalizado da Igreja Católica: são apenas intérpretes e mediadores. No islamismo não há separação entre religião e política. Por muito tempo, quando a comunidade de Medina era regida por Maomé, não existia separação entre o Estado e Igreja, facilmente transferida para o Estado-Império Muçulmano. O Islã parece uma religião simples, com muitos dogmas e obrigações e proibições que devem ser sempre cumpridas pelo muçulmano. Os deveres do povo muçulmano se sustentam em cinco pilares. A primeira obrigação é a Shahada (testemunho), quando o muçulmano realiza a sua confissão efetuando assim, a sua conversão à religião islâmica. É o momento em que o crente irá declarar a sua devoção única a Deus, ao todo-poderoso e aceita Maomé como o profeta. Neste momento fica claro para o muçulmano convertido de que há uma invencível distância entre o Criador e a criatura. O islamismo é extremamente severo com crenças em espíritos, santos e imagens e não consegue entender a Trindade. Mas aceitam a existência de anjos e demônios. Para eles Deus é oniciente, onipresente, inato e eterno. A função do homem/mulher religioso (a) é entregar-se e servir a Deus. Nada consegue se relacionar a Deus, inclusive o profeta Maomé, pois até mesmo ele enquanto homem era mortal e devia obediência absoluta. Quando a morte chega para o muçulmano, finalmente chega o dia do 7 Demant, Peter - O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004
  • 19.
    18 julgamento e éneste momento que Deus aceitará os bons seguidores no paraíso, enquanto os maus serão levados e condenados a viverem no inferno. O muçulmano praticante reza cinco vezes ao dia. Esta obrigação é conhecida como Salat. Os muçulmanos são sempre chamados para a recitação do Corão pelo muezzin, sua voz hoje, é escutada por toda a cidade, via autofalantes e uma gravação substituiu os chamados ao vivo. Quando é feito pessoalmente o muezzin se posiciona no manara, a torre da mesquita principal da cidade. É o momento de veneração a Deus. A submissão é incondicional e as graças alcançadas derivam de Deus e porque ele quis dar ao religioso. A Salat pode ser feita individualmente, porém o preferencial é que seja realizada de forma coletiva. A sexta-feira para o muçulmano representa o domingo dos cristãos, quando todos se reúnem na mesquita para a realização de uma oração comunal. Os homens rezam no salão principal e as mulheres em outras. São proibidos de se misturarem nos momentos de oração. Elas devem sempre entrar com a cabeça coberta e realizar suas orações da mesma forma, apenas os sapatos podem ser retirados e deixados a porta como respeito a mesquita e principalmente a Deus. A terceira obrigação é conhecida como Zakat, que quer dizer esmola. Tem o mesmo significado do Tzadaká judaico e o dízimo do cristão. O muçulmano deve reservar uma parcela de sua renda para os pobres, refeições comunais e outras atividades com relação à assistência social. Este é o momento em que o islâmico demonstra solidariedade formando a ummah, formando a coletividade. O quarto pilar ou a quarta obrigação é o Ramadan. Durante um mês, todos os muçulmanos devem jejuar como forma de purificação e acesso a Deus. A abstinência ocorre durante um mês inteiro, pois é a comemoração que o muçulmano faz pelo recebimento do Alcorão. O jejum vai desde o nascer até o por do sol. É proibido beber incluindo água, comer, ter relações sexuais. Não é somente um momento árduo para o crente islâmico, pois se celebra com alegria e muitas festas familiares que acontecem assim que anoitece e podem ir até o nascer do sol. O quinto e último pilar é o Hajj. Significa que todo muçulmano deve realizar pelo menos uma vez na vida uma peregrinação a Meca e seus Santuários. É a
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    19 simbologia da crençasuprema a Deus. Historiadores relatam que na Idade Média esta peregrinação era difícil e perigosa, mas muitos, até hoje, conseguem fazer esta viagem oriundos de todos os países muçulmanos. Em todas as obras pesquisadas o conceito de jihad foi citado e deve ser explicado. A palavra vem sendo traduzida como “Guerra Santa”, ou ainda no seu sentido mais primitivo, na raiz da palavra: “combate na senda de Deus contra si mesmo a fim de se aperfeiçoar”, mas na verdade, ela quer dizer “esforço em favor a Deus”. A partir do momento que o indivíduo e a comunidade são islâmicos, todos assumem um compromisso com a religião. Ela rege o que todos fazem de acordo com a palavra de Deus, disseminada pelo profeta Maomé. A história revela que a primeira jihad ocorreu por volta de 623 quando Maomé travou batalhas contra os habitantes de Meca por não obter provisões. Com o passar dos séculos, muitos muçulmanos passaram a usar a Jihad para a luta ou militância. Uma “guerra santa contra os infiéis”. Maomé morreu quando a maior parte da Arábia já havia se convertido ao islamismo. O seu tenente ou suplente califa (khalifa) tinha autoridade militar, jurídica e religiosa sobre a comunidade (umma). Até os dias de hoje não há separação entre religião-política. Mas, concluímos que o islamismo é muito mais do que um conjunto de crenças. Conseguimos observar que há semelhanças na maneira de viver entra as mais distantes sociedades muçulmanas. A maioria ocidental e grande parte dos muçulmanos costuma ver o islamismo como uma religião imutável através dos tempos e completamente estagnada. Para que possamos entender melhor o que aconteceu com o islã, os historiadores dividiram esquematicamente em quatro fases o desenvolvimento do islamismo. A primeira fase acontece nos séculos VII a XI, quando os árabes expandiram o Islã pelo Oriente Médio e África do Norte. Um período em que se estabelece o mais extenso Estado do mundo e onde se desenvolveu uma das civilizações mais avançadas e originais. Considerada pelos estudiosos como a fase clássica do islamismo.
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    20 A segunda fase acontece ainda no século XI ao XIV, quando o Islã sofre ações desfavoráveis no Oriente Médio, mas consegue realizar sua expansão na Ásia Central e Índia. Esta fase é a Idade Média Muçulmana. A terceira fase se concentra no século XV ao XVIII quando o Islã vê a renovação do dinamismo acontecer devido a uma série de eficientes muçulmanos. Fase conhecida como o “Império da Pólvora”, denominado desta forma por possuir supremacia na fabricação e utilização de canhões. Era a época do Império Otomano no Oriente Médio, o safávida no Irã, os grão-mughals na Índia, entre muitos outros. A quarta fase acontece pelo século XIX e a primeira metade do século XX quando o mundo muçulmano cai nas mãos das potências europeias. Marcada principalmente por tentativas de descolonização e por momentos em que ocorre um confronto do Islã com as modernidades ocidentais. Uma época que perdura até o momento onde o Ocidente cobra do Oriente uma reavaliação do islamismo, do mundo muçulmano e de um novo equilíbrio para que se possa haver uma melhor convivência mundial. Vale citar que os muçulmanos são divididos em três grupos desde os ocorridos nos 37 anos da hégira8, de acordo com o calendário maometano. São os xiitas (o segundo maior grupo dentro da religião, concentrando 10% dos muçulmanos), os kharijitas (do árabe kharaja, “sair”, nome atribuído ao primeiro cisma do Islã, ocorrido aproximadamente no ano de 657 da era cristã), formando apenas 1% e por fim, os sunitas, formando quase 90% da população muçulmana. Grande parte dos sunitas acredita que o nome refere-se à Suna. Dois caminhos foram estabelecidos pelos muçulmanos para explicar a razão da palavra sunita. O primeiro está baseado nos preceitos estabelecidos na primeira fase do islã no século XVIII a partir dos ensinamentos do profeta Maomé e de quatro califas ortodoxos próximos a ele. A segunda explicação seria de que a palavra sunita significa “caminho moderado”, defendendo a tese de que o sunismo faz parte de um grupo que trabalha a moderação, o diálogo e sempre voltado para posições bem mais 8 Do árabe hijra, “emigração”, quando acontece a partida de Maomé de Meca para Medina, em 622, e corresponde ao ano inicial do calendário muçulmano, calculado de acordo com o segundo ciclo lunar.
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    21 neutras do queas tomadas pelos xiitas e kharidijas, considerados extremamente radicais e fundamentalistas. O Corão/Alcorão apresenta uma complexidade de interpretação religiosa- política que ultrapassou os séculos e o Islã inclui em seus versículos muito mais do que crenças. Existem muitas semelhanças na maneira de viver e nas sociedades dos muçulmanos mesmo elas estando em diferentes partes do mundo. Quando Maomé morreu, aos 63 anos de idade, a maior parte da Arábia já era muçulmana. Um século depois, o islamismo era praticado da Espanha até a China. Na virada do segundo milênio, a religião tornou-se a mais praticada do mundo, com 1,3 bilhão de adeptos, um quinto da população mundial, aproximadamente 20% da humanidade. A religião se concentra em grande parte na África Ocidental seguindo até Indonésia, passa pelo Oriente Média e Índia. Na maioria destes países, os muçulmanos fazem parte da maioria da população local. Foram muitas mudanças através dos séculos, muitas batalhas, muitas distorções ocorridas a respeito da religião islâmica. Podemos dizer que a história nos revelou que o Islã é uma religião, uma lei, uma moral, um estilo de vida, uma cultura para seus fiéis seguidores. As pesquisas nos revelaram que o Islã sempre acabou por se considerar o dono da verdade absoluta, nem que o fiel tenha que disseminá-la usando a palavra ou a espada. Maomé é visto até hoje pelos seus seguidores como um líder perfeito a ser atingido. Nos séculos XVII e XVIII a expansão do islamismo foi feito através de batalhas, eram as conquistas em nome da fé. Foi um período de expansão militar que acabou por se estabilizar, firmando-se por um crescimento gradual, descrito como na maior parte de forma pacífica, feito através do boca a boca. É inegável que o islamismo é portador de uma vasta cultura disseminada através dos séculos.
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    22 1.2 O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES Não há duvidas que o mundo hoje, no século XXI está dividido entre Nós e Eles. O Nós são os Ocidentais e o Eles sã os Orientais. A história mundial sempre foi marcada por uma série de divisões e destacamos como as mais recentes a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial que deixou marcas profundas na civilização. Não que depois destas grandes guerras, ainda durante o século XX e início do século XXI os olhos humanos não tenham registrados conflitos, guerras, revoltas. O homem é capaz de cometer atos bárbaros. Este é um fato triste de se constatar. Genocídios foram cometidos depois do Holocausto, que ocorreu durante a Segunda Grande Guerra, que também foi capaz de jogar duas bombas atômicas contra o Japão. Ruanda, Kosovo, são alguns dos exemplos de genocídios ocorridos no final do século XX, assim como as milhares de mortes, ocorridos devido a invasão da União Soviética ao Afeganistão; Guerra do Golfo, Irã X Iraque e os recentes conflitos internos e externos em muitos países espalhados por esta imensidão terrestre. . a Guerra Fria. Eram os Estados Unidos contra a União Soviética, quer dizer, Ocidente contra os Comunistas. O mundo sempre esteve em grande alerta e fortes ameaças. Após a Segunda Guerra, esta vigília aumentou devido a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. O medo de um ataque nuclear de ambos os lados mexeu com os nervos e a imaginação até mesmo dos mais céticos. Durante 45 anos a famosa Cortina de Ferro foi a maior linha divisória que marcou a Europa. Ela com o tempo foi se movendo para o leste e acentuando e mantendo de um lado a separação da Cristandade Ocidental e do outro lado os povos muçulmanos e ortodoxos do outro. A Guerra Fria acabou e os comunistas “desapareceram”, acordos foram assinados, mas o medo de um ataque nuclear ainda persiste agora vindo de outros lugares que insistem em enriquecer urânio quando esta tarefa na mão de países e ditadores pode-se tornar uma arma fatal para a paz mundial. Nos dias de hoje, principalmente após o 11 de setembro de 2001, o mundo se dividiu entre o Ocidente e Oriente. Desta vez, esta divisão absurda, carregada de
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    23 intolerância cultural ereligiosa vem reforçada com armamentos bélicos bem mais poderosos. Os dois lados parecem estar separados por uma linha invisível. Não há possibilidade alguma de ultrapassagem. Onze anos após os atentados terroristas aos Estados Unidos, um menor passo em falso pode ser motivo para conflitos, invasões territoriais, perseguições, prisões, bombardeios e destruições de cidades e populações principalmente no Oriente Médio. Uma intolerância muitas vezes repetida no curso da história como podemos observar no histórico da formação do Oriente Médio, América, Ásia, África e Europa. Não somente os muçulmanos sofreram: judeus, cristãos, budistas, africanos, árabes, aborígenes, vietnamitas, mongóis, chineses, japoneses, mexicanos, etc.. O curso da política mundial acabou por realizar estas transformações e muitas divisões econômicas, sociais, políticas, religiosas. Mas, no século XXI o mundo consegue sentir com mais evidência a divisão existente entre o Oriente e o Ocidente. “Pela primeira vez na História, a política mundial é, ao mesmo tempo, multipolar e multicivilizacional. A modernização econômica e social não está produzindo nem uma civilização universal de qualquer modo significativo, nem a ocidentalização das sociedades, não- ocidentais.”9 Mas o que realmente define civilização? Muitos estudiosos definem civilização no singular outros no plural como relatado no livro de Samuel P. Huntington, O “Choque das Civilizações”. Segundo o autor, a definição surgiu por meio dos pensadores franceses, no século XVIII, Este conceito apareceu em oposição ao “barbarismo”. Um modo de criar uma linha divisória entre a sociedade privada e a primitiva, entre a urbana e alfabetizada. No século XIX, este conceito foi utilizado fornecendo para a sociedade as diferenças sociais. A sociedade europeia se empenhou por muito tempo a desenvolver e elaborar critérios que envolviam o intelecto, a diplomacia e a política para realizar a clara separação com os não- europeus. Este foi um modo encontrado para que os europeus pudessem julgar os 9 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 19
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    24 não-europeus e assim,eles serem aceitos como membros de um sistema totalmente controlado pelos civilizados. Esta forma de julgamento de civilizado e não civilizado, europeu e não europeu acabou por fazer com que as pessoas falassem mais em civilizações, utilizando o a palavra no plural. “Isto significa “renunciar à civilização definida como um ideal, ou melhor, como o ideal”, e um afastamento da pressuposição de que havia um único padrão para o que era civilizado, “confinado a umas poucas pessoas ou grupos privilegiados, a “elite” da humanidade”. (...) Em suma, a civilização no singular, “perdeu um pouco do seu encanto”, e uma civilização no sentido plural podia na realidade ser bastante não civilizada no sentido singular”.10 A civilização e a cultura acabam se referindo ao estilo de vida de um povo. As duas compõem os valores, as normas, as instituições, as gerações e seu modo de pensar. Podemos dizer que civilização é uma coletânea composta de características e fenômenos culturais. Uma civilização nunca terá um começo e nem um fim. Desde a Pré-história que civilização forma um agrupamento de pessoas e sua forma cultural. Foi esta forma de agrupamento que começou a diversificação e distinguir os seres humanos dos demais seres vivos existentes. Depois surgiram outros elementos de separação como a religião, a história, a língua, os costumes, os valores, etc.. Passou também a não ter começos e fins. Os povos existentes costumam redefinir suas identidades, acabam mudando com o tempo as suas definições e formas. As culturas existentes interagem e se superpõem. Muitos estudos mostram que o equilíbrio de poder entra as muitas civilizações está se modificando. Com a recente derrubada das Bolsas conseguimos perceber que poucos foram os países que ficaram ilesos ao recente desequilíbrio da economia mundial. O Ocidente sofreu muito com este desequilíbrio, principalmente os Estados Unidos. As civilizações asiáticas expandiram e continuam expandindo o seu poderio 10 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 45
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    25 econômico, militar epolítico. O Islã aproveitou esta oportunidade para uma explosão demográfica o que acabou causando uma desestabilização para os países islâmicos e seus vizinhos, encontrando um modo e se reafirmar, não somente para os não ocidentais, o valor de sua cultura. A religiosidade na maior parte do mundo demarca a diferença entre as sociedades e principalmente a civilização. Estas diferenças em desenvolvimento político e econômico mostram com nitidez as desigualdades culturais. O Choque entre Oriente e Ocidente fica cada vez mais acentuado quando observamos que as sociedades que compartilham afinidades culturais acabam se relacionando e cooperando uma com as outras. Neste contexto, conseguimos observar que o Ocidente mostra pretensões universalistas cada vez maiores como explica Samuel P. Huntigton: “As pretensões universalistas do Ocidente o levam cada vez mais para o conflito com outras civilizações, de forma mais grave com o Islã e a China. Enquanto isso, em nível local, guerras de linha de fratura, basicamente entre muçulmanos e não muçulmanos geram “o agrupamento de países afins”, a ameaça de uma escala ampla e, por conseguinte, os esforços dos Estados-núcleos para deter estas guerras. ”11 Sabemos que para deter estas guerras globais e com equipamentos bélicos cada vez mais sofisticados depende exclusivamente dos líderes mundiais. É dever destes líderes aceitar a natureza multicivilizacional que o mundo acabou formando. Uma cooperação é imprescindível para manter a ordem e uma abertura de diálogo de ambos os lados. Após a Guerra Fria as distinções deixaram de ser ideológicas, políticas ou econômicas. Elas hoje são definidas pela cultura e a cada ano que avança esta 11 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 19
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    26 distinção segue orumo para a religiosidade. O agrupamento está voltando ao passado quando a sociedade se dividia em religião, idioma, história, valores, costumes e instituições. “À medida que aumenta seu poder e autoconfiança, as sociedades não ocidentais cada vez mais afirmam seus próprios valores culturais e repudiam aqueles que lhes foram impostos pelo Ocidente. Henry Kissinger observou que “o sistema internacional do século XXI (...) conterá pelo menos seis potências principais – os Estados Unidos, a Europa, a China, o Japão, a Rússia e, provavelmente a Índia – bem como a multiplicidade de países de tamanho médio e menor”. 12 Os países referidos por Kissinger fazem parte das cinco maiores civilizações mundiais e são diferentes entre si. Mas, ele nos alerta para um detalhe altamente importante: alguns países islâmicos estão localizados geograficamente e estrategicamente em cima das maiores reservas petrolíferos mundiais, como é o caso do Irã e da Arábia Saudita. Estes países não podem e não devem ser deixados de fora. São importantes para a economia mundial. Kissinger chama a atenção para que as potências ocidentais “carimbem o passaporte” desses fortes Estados de influência em assuntos mundiais. Eles devem ser ouvidos, as rivalidades e diferenças devem ser esquecidas. No momento o diálogo ainda não acontece. São raros os encontros para apertos de mãos entre Ocidentais e Orientais – no caso específico, países islâmicos. Infelizmente sabemos que este conselho não está sendo seguido. No mundo do século XXI o que importa é a política local, que forma a política da etnia e, a política mundial é a política das civilizações. Este tipo de atitude cria um vácuo, uma ruptura entre os povos e faz surgir uma forte rivalidade entre as nações. A rivalidade das superpotências é substituída pelo Choque das Civilizações. Dois mundos, uma tendência que se repete por meio da história mundial. Muitos escritores, jornalistas, antropólogos, sociólogos dizem em seus estudos que 12 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 21
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    27 sempre existirá umaexpectativa de um mundo único ao final de grandes conflitos, mas o curso da história nos mostram fatos inversos. Sempre aparece o Nós e Eles, a civilização e os bárbaros, a civilização ocidental e os religiosos fanáticos/fundamentalistas. Cada vez mais os estudos são voltados para análises divisórias: Oriente x Ocidente. Mais saibam: “Os muçulmanos tradicionalmente dividem o mundo em Dar Al-Islam e Dar Al-Harb, o reino da paz e o reino da guerra. Essa distinção se refletiu –e, num certo sentido, se inverteu – ao fim da Guerra Fria por estudiosos norte- americanos que dividiram o mundo em “zonas de paz” e “zonas de agitação”.13 Todos os livros e reportagens pesquisadas reconhecem que há a existência de uma civilização islâmica distinta. Ela se originou na Península Arábica, por volta do século VII d.c., espalhando rapidamente pelo norte da África e Península Ibérica, bem como na direção do leste da Ásia Central, tanto pelo subcontinente como pelo Sudeste Asiático. Isto acabou por formar dentro do Islã muitas culturas distintas, pois passou por diversas civilizações como a árabe, turca, persa e malaia. Com o passar do tempo e da história era natural o Ocidente ter uma visão deturpada do Islã, achando que os muçulmanos são violentos. Esta percepção errônea do islamismo vem de muitos séculos e a história atribui este erro à rápida expansão que o Império Islâmico experimentou nos seus primeiros cem anos. “Para cristãos e judeus conquistados, e para nações europeias, muitas delas ainda em formação, não há dúvida de que o Islã era uma religião que se expandiam pela espada. Afinal, para que os conquistados permanecessem vivos só havia duas opções: ou a conversão ou o pagamento de um tributo extra (...). Para quem vivia uma situação assim (morte ou conversão ou tributo), não havia 13 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 33
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    28 outra conclusão senão a de que o Islã, Estado e Religião expandiam-se pela força.” 14 Esta expansão realizada pela força não é reconhecida pelos muçulmanos. A expansão pela espada era feita pelo califado, pelo Império islâmico. O Ocidente tinha que entender que a religião proíbe conversões forçadas. Muitos ficam se perguntando se haverá algum dia o respeito mútuo entre o Ocidente e Oriente. No momento a resposta é inconclusiva. Com a morte do maior terrorista de todos os tempos, Osama Bin Laden, em 1º maio de 2011, o mundo ficou em alerta máximo. A civilização muçulmana, completamente dividida entre os ideais do terrorista e a palavra divina do Corão, avisou que represálias podem acontecer. De uma minoria, mas que poderá fazer bons estragos na civilização Ocidental. Por muitos anos, o Ocidente e o Islã realizaram intercâmbios nas ciências, medicina, na matemática, na astrologia na filosofia, nas artes e principalmente na ética da guerra. Sim, este tempo existiu. Uma convivência pacífica entre ambos os lados. Historicamente a civilização ocidental é a europeia, mas na era moderna a civilização é a euro-americano ou do Atlântico Norte. É uma definição utilizada por muitos escritores. O Japão está incluído nesta definição, apesar de ser uma civilização bem mais antiga do que a norte-americana e fora do continente ocidental. Sua recuperação pós-Segunda Guerra Mundial foi uma das razões desta superpotência entrar no hall das civilizações ocidentais. “Durante a expansão europeia, as civilizações andina e mesoamericana, foram eliminadas, as civilizações indianas e islâmicas, juntamente com a África foram subjugadas, e a China foi invadida e subordinada à influência Ocidental. Somente as civilizações russa, japonesa e etíope, todas três governadas por autoridades imperiais, altamente centralizadas, foram capazes de resistir ao ataque do 14 Kamel, Ali, “Sobre o Islã”, 2007, Editora Nova Fronteira, pág.124,
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    29 Ocidente e manter uma autêntica existência independente. Durante 400 anos, as relações intercivilizacionais consistiram na subordinação de outras sociedades à civilização ocidental.”15 O choque prevalece, com culturas, religiões, políticas, economias e ideologias diferentes. A prepotência do Ocidente de achar que tudo gira ao seu redor piora substancialmente este problema. Os ocidentais acham que o Oriente está estagnado e de que o progresso é inevitável. Recusam-se a esta implantação. Não é preconceito ou ilusão de que este choque é existente. Os termos Cruzada, Guerra ao Terror, Eixo do Mal, criaram uma absurda intolerância em civilizações milenares que não sabemos se, algum dia irão conseguir recuperar a sua ideologia, dignidade, diretos e democracia. Este choque faz com que todos busquem uma perspectiva mais ampla com o objetivo de compreender os grandes conflitos culturais em que o mundo está passando pós o 11 de setembro. Há uma multiplicidade de civilizações que devem ser consideradas e observadas. Elas não devem ser perdidas nas áreas do deserto como muitos antropólogos, filósofos e sociólogos apregoam em seus livros e entrevistas. No século XXI o islamismo, o cristianismo e o judaísmo são as três maiores religiões da civilização. Partilham do mesmo ancestral, o profeta Abraão, um dos filhos de Noé que sobreviveu ao dilúvio. Mas, os filhos de Abraão, com todas estas afinidades, continuam se estranhando a ponto de termos muitas separações, muita xenofobia e muitos loucos como Bin Laden fazendo do terror a sua religião, do extremismo uma crença, atraindo milhares de seguidores dispostos a matar em nome de Deus. Caso não houvesse tantos obstáculos agravados pelo 11 de setembro, as três maiores religiões poderiam conviver em harmonia, sem precisar entender os textos sagrados ao pé da letra. Entendê-las desta forma é uma loucura que acaba exacerbando o que há de pior no indivíduo, em vez de mostrar o que há de melhor. O islamismo teve um período muito rico e seu maior crescimento foi em um 15 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 58
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    30 tempo em queos religiosos islâmicos não tinham total poder sobre a vida e o dia a dia de suas comunidades e viam o Corão como um livro criado pelo homem. Por este motivo, poderia haver diversas interpretações e não seguido cegamente. Este tipo de pensamento não era visto como heresia e sim como a melhor forma de se ver um livro considerado sagrado pelos muçulmanos. Foram momentos em que o Oriente Médio viveu a liberdade. Esta fase só voltou a acontecer no final do século XIX e início do século XX quando o Oriente Médio viveu uma nova onda de criação artística. O cinema, a música, a literatura e, toda a cultura islâmica foi reverenciada pelo mundo. Na década de 30, no centro dos Estados Unidos, os americanos veem a sua primeira nação islâmica nascer, por meio de Wallace Fard Muhammad, que se dizia a reencanação de Alá. Era considerado por muitos como o “Salvador da Raça Negra”. Este líder ficou mundialmente famoso como Malcom X. Em meio a segregação racial americana, este líder criou o islamismo americanizado. O que já era confuso acabou piorando. Malcom X, de ex-fumante, de ex-bebedor e ex-cristão foi assassinado por pistoleiros da Nação do Islã. Hoje a população muçulmana é bem mais jovem e tem mais filhos do que a média mundial. Deve crescer 35% nos próximos 20 anos, podendo chegar a 2,2 bilhões de pessoas. Em países de maioria islâmica a taxa de fecundidade é de 2,9 filhos por mulher, quase o dobro do índice das nações ocidentais desenvolvidas. Em algumas regiões islâmicas, como nos territórios palestinos e no Iêmen, os jovens formam três quartos da população. Cerca de seis em cada 10 habitantes do Oriente Médio têm menos de 30 anos. Na Europa, a média é de quatro em cada dez. Isto significa que a população da muçulmana é bem mais jovem do que a europeia. A população urbana nos países islâmicos cresce 3,1% ao ano, enquanto no restante do mundo o índice é de 1,8%. * 16 E os números não param por aí. No continente americano 0,5% são muçulmanos. Na Europa 5%, na África Subsaariana o índice é de 30%, na Ásia 24% 16 Fonseca, Ana Cláudia; Teixeira Duda e Carvalho, Julia, Revista Veja, Edição 2216, ano 44, nº19, 11 de maio de 2011, Editora Abril, pág 102
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    31 e no OrienteMédio e Norte da África 91%. “No mundo moderno, a religião é uma força central, talvez a força central, que motiva e mobiliza as pessoas. É pura arrogância pensar que, porque o comunismo soviético desmoronou, o Ocidente ganhou o mundo para sempre e que os muçulmanos, os chineses, os indianos e outros vão se precipitar para abraçar o liberalismo ocidental como a única alternativa. A divisão da Humanidade em termos de Guerra Fria acabou há muito tempo. As divisões mais fundamentais da Humanidade em termos de etnia, religiões e civilizações permanecem e geram novos conflitos” 17 Concluímos que é preciso conhecer o islamismo em profundidade para entender melhor a religião e a cultura. A Religião nestes países não é separada do Estado. Para os líderes mundiais e para nós, ocidentais, esta questão é de difícil compreensão. A abertura de diálogo é fundamental. Sem a conversa entre estes governantes dificilmente haverá uma possível conciliação entre Ocidente e Oriente. Muitos podem discordar e achar que esta separação é inexistente, mas basta estudar, acompanhar os fatos históricos e os passos da política mundial para perceber que ela divide o mundo em duas civilizações. O preconceito é latente, mas o elo perdido deve ser recuperado. A Cruzada, a Guerra ao Terror já levou muitas vidas inocentes. Este jogo político deve exterminar definitivamente o termo Eixo do Mal. Tanto o Ocidente quanto o Oriente podem voltar a conviver harmoniosamente sem nenhum Choque de Civilizações. 17 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 79
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    32 1.3. A DIFICULDADE DO ISLAMISMO A MODERNIZAÇÃO Foram muitos os motivos que fizeram o Ocidente a assumir a liderança de todo o processo de modernização mundial, tanto da sociedade ocidental quanto das não ocidentais. Os estudiosos apontam diversos fatores para tanta rejeição a modernidade e a globalização. Existem milhares de “Islãs”, - fundamentalistas xiitas ou sunitas, wahhabitas,- muitas variações de valores compatíveis com a modernidade. O cerne de todo o problema está na profunda rejeição que o mundo muçulmano tem com relação ao Ocidente. A estrutura Ocidental de conhecimento, baseada em poder, acabou por criar uma imagem artificial, longe do que realmente parece verdade e hostil ao islamismo. Esta imagem vem fomentada de um projeto de dominação que aparece após as independências formais dos Estados muçulmanos. O próprio Islã acabou por criar o problema. A história apresenta muitas intervenções ocidentais, muitas oportunidades e desvantagens. Grandes autores como Bernard Lewis, Daniel Pipes e Martin Kramer, apontam em seus livros que os muçulmanos não souberam aproveitar estas oportunidades. Com isso, o mundo muçulmano parece permanecer preso em um círculo vicioso de rancor, autopiedade e ódio, regada de teorias conspiratórias e cheia de atentados terroristas em nome de Deus. Os orientalistas, como são chamados os que acreditam nesta teoria, acham que o Islã é algo irredutível, que sua época de glória foi na Idade Média e que nunca mais conseguiu se renovar e muito menos, incorporar soluções modernas para que a sociedade muçulmana pudesse progredir. Com tudo isto os muçulmanos tem pagado um alto preço, pois as consequências vêm por meio de muitos reveses históricos. Os orientalistas dizem que os muçulmanos vivem presos em uma estrutura de pensamento que insiste na superioridade dos próprios valores. Além disso, é incapaz de explicar as repetidas derrotas do Islã. Culpam então, o mundo exterior, o Ocidente, por todas as infelicidades e mazelas.
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    33 Para que haja uma modernização no mundo muçulmano é necessário então, uma reforma islâmica. Somente desta forma, os orientalistas apontam que poderia ser possível os Estados Muçulmanos alcançar a tão sonhada democratização e modernização clamada hoje nas marchas realizadas pelos jovens. Mas isto possivelmente não irá acontecer, por mais que haja conflitos armados e não armados. A situação tende então a piorar a cada conflito, que atraia mais e mais jovens, pois fica evidenciado uma pseudo-solução para o islamismo. Além dos orientalistas há um grupo conhecido como externalistas que sustentam em seus estudos que, as responsabilidades da não modernização das sociedades muçulmanas devem ser minimizadas. Sustentam que tanto a desunião quanto a existência de estruturas autoritárias é resultado de intromissões ocidentais. As causas reais são indefinidas e são sustentadas por séculos de erros cometidos tanto pelo mundo Ocidental e Oriental. Sendo ou não causas internas e externas o grande problema é que o Oriente Médio ainda passa por muitas dificuldades e a região é considerada um barril de pólvora pronta para explodir tanto em pequenos quanto grandes conflitos. O que acontece naquela região são informações desencontradas fruto de erros de ambos os lados. No meio há um ódio crescente que separa estas civilizações que poderiam conviver e desfrutar de muito mais avanços do que poderiam ter. Há tanta turbulência no mundo muçulmano, montada em uma estrutura global e desequilibrada firmada em poder e riqueza, que o Ocidente se julga no direito de intervir militar e economicamente. Veremos mais adiante muitos e muitos fatores. A lista é longa, fundamentalismo, terrorismo, petróleo. Diariamente jornais, revistas, internet divulgam matérias que tentam convencer que o mundo muçulmano é o pior buraco negro do mundo, esquecendo-se de sua riqueza histórica e de seu povo que luta por melhores condições de vida e trabalho. As novas gerações muçulmanas estão tentando mostrar que este buraco negro não é realmente o que parece ser. Temos certeza sim de que o mundo muçulmano vive uma crise generalizada, regada ou não por justiça e que está afetando o restante do mundo. Por este motivo, que muitas vezes, o Ocidente reage à necessidade de intervir para que a crise não
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    34 mergulhe o mundoem problemas mais graves. O diálogo é necessário, mas muitas vezes o Ocidente partiu primeiramente para a força sem ao menos saber qual realmente era o problema. A postura Ocidental em relação ao mundo muçulmano muitas vezes é de não praticar o diálogo, apesar de que tentar o diálogo com ditadores e fundamentalistas religiosos ser uma perda de tempo para ambos os lados. A modernização envolve muitos fatores como industrialização, urbanização, crescimento dos níveis de alfabetização, educação entre muitos outros. A modernização é produto do crescimento do processo científico e isto começou a ocorrer no século XVIII. Este conhecimento foi primordial para que as sociedades pudessem se desenvolver e moldar os seus próprios processos. Além disso, com o passar do tempo, estes processos foram se aperfeiçoando e ajudando as sociedades que antes eram primitivas e viviam em processos primitivos a tornarem-se modernas. Mas os valores, educação, conhecimento, cultura diferem de sociedade para sociedade. Mesmo assim, à medida que outras sociedades adquirem processos semelhantes à cultura ocidental acabou por se transformar em cultura universal do mundo. Este é um dos pontos fortemente rejeitados pelos líderes políticos, intelectuais e religiosos do Oriente. Esta rejeição foi gradativa e com a chegada do século XX, com surgimento dos avanços tecnológicos, culturais, de comunicação, transportes e agora, com o advento da globalização, é quase impossível manter a modernização longe da civilização. A interdependência global acabou por gerar altos custos para as sociedades que prefere esta exclusão. O mundo é predominantemente moderno e a globalização e os avanços tecnológicos do final do século XX e início do século XXI aumentaram a interligação. No Oriente Médio e principalmente nas sociedades islâmico-muçulmanas, os fundamentalistas são os que mais rejeitam a modernidade. Os religiosos fundamentalistas veem na modernização e ocidentalização o abandono às tradições islâmicas. O escritor Bernard Lewis, faz diversas perguntas em seu livro “O que Deu Errado no Oriente Médio”, da Editora Zahar, de 2002, pois não podemos enxergar a causa das mudanças na relação Oriente e Ocidente devido a um declínio do Oriente Médio, mas sim a um surto Ocidental. Na visão do grande autor, o Ocidente
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    35 aumentou sua riquezae seu poder por causa de suas descobertas, movimento científico, revoluções industriais, tecnológicas, econômicas e políticas. Muitos estudiosos se perguntam por que os avanços científicos ocorreram na Europa e não nos domínios ricos e avançados e esclarecidos do islamismo? É um jogo de acusações que não tem limites e são encontrados não fora, mas dentro da sociedade. Um dos maiores alvos é a religião e especificamente o Islã. Mas devemos lembrar que, na Idade Média os maiores progressos ocorreram não no Ocidente que formava a cultura mais nova, e não estava também nas culturas mais antigas do Oriente, e sim, no seio do mundo islâmico que estava bem no meio delas. Apesar de tudo isto, infelizmente hoje, observamos em alguns países islâmicos vivendo ainda em um mundo medieval, em um grau limitado de liberdade quando comparados com os ideais modernos e com práticas modernas nas democracias mais avançadas. Muitas são as perguntas e muitas são as respostas que encontramos para a rejeição do islamismo ao mundo moderno, a globalização, a ocidentalização. E, não há razão para esta total rejeição, uma vez que o Islã foi pioneiro à ciência, ao desenvolvimento econômico, à liberdade. Os muçulmanos costumam culpar este “atraso” aos fundamentalistas e o fundamentalismo muçulmano nada mais é do que uma reação contra a modernidade. “(...) os fracassos e deficiências dos países islâmicos modernos se devem ao fato de que adotaram noções e práticas estrangeiras. Abandonaram o Islã autêntico (...). O Clero Islâmico são responsáveis pela persistência de crenças e práticas que podem ter sido criativas e progressistas mil anos atrás, mas hoje não são uma coisa e nem outra.” 18 A religião na forma fundamentalista está intimamente ligada com a situação de pobreza. Notamos isto em países como o Afeganistão e o Paquistão, onde o regime Talibã tem fortes raízes desde a expulsão dos russos das terras afegãs. O fundamentalismo afasta estes povos da riqueza lembrando que deve ser descartada para dedicação a Deus, sem a dependência de bens materiais. O fundamentalismo 18 Lewis, Bernard, O que deu errado no Oriente Médio?, 2002, Editora Zahar, pág, 180 e 181.
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    36 resgata valores pré-capitalistase não-materiais que se adéquam perfeitamente a situação de pobreza que a maioria se encontra. Neste ponto reside a honra, obediência, solidariedade e ajuda mútua. Além disso, o mundo muçulmano e o islamismo não separa o Estado da Religião. Ambos fazem parte de um único pilar, presidindo aí a teocracia. O fundamentalismo prega o afastamento das tentações ocidentais, uma clara defesa ideológica. Tudo que vem do Ocidente é permissivo como o sexo, às drogas, ao álcool e o consumismo. Mobiliza a ira que vem se alimentando por anos pela desigualdade, escancara a ausência de oportunidades e as humilhações oriundas de anos e anos. Estas emoções acabam sendo canalizadas para a luta contra o Ocidente e confirmadas pela religião. Esta ira se aproveita e se alimenta do antiocidentalismo. O islamismo é uma religião com forte mensagem social e política. Passa aos seus seguidores autoconfiança e tem uma forte história de resistência que se perdura até os dias de hoje, principalmente contra imposições estrangeiras. Não é surpresa que a região, por não aceitar a modernização, a globalização, a consumismos ocidentais, passa por fortes crises demográficas, socioeconômicas e ideológicas que acaba colocando o Oriente Médio em uma situação geopolítica de inferioridade em relação ao Ocidente. São derrotas sucessivas por causa de milhares de propostas emancipatórias. Existe uma união entre a ideologia oposicionista que realiza a politização da religião islâmica, grupos sociais alienados e fanáticos que encontram nisto tudo, um novo sentido e uma nova ordenação. “O fundamentalismo muçulmano se explica pela coincidência de determinados fatores quase inevitáveis, seu desdobramento e o desfecho eventual de sua luta contra o Ocidente estão ainda em aberto. (...) As escolhas a serem feitas nestes tempos de encontro com o islamismo
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    37 influenciarão o curso da humanidade nas décadas futuras”.19 Estudiosos também apontam a descriminação sexual muçulmano e a desprezo as mulheres colocando-as em uma posição inferior na sociedade. O mundo islâmico concentrou todas as suas energias em educar a outra metade, enquanto mulheres e mães continuavam analfabetas e tiranizadas. Este tipo de educação tende criar uma sociedade arrogante ou submissa, completamente incapaz de ser livre e aberta. A submissão, tirania e o desrespeito aos direitos humanos nos países árabes é outro ponto de forte discussão nos países Ocidentais. Existe uma união entre a baixa produtividade e alta taxa de natalidade no Oriente Médio. Esta união acaba produzindo uma população que cresce com bastante rapidez, lotada de homens jovens desempregados, sem instrução e frustrados. Indicadores das Nações Unidas e de muitas outras autoridades apontam os países muçulmanos com graves problemas também em educação e tecnologia e estão ficando cada vez mais atrasados com relação ao Ocidente. Todos estes fatores estão associados à modernização e a globalização, e estão afetando profundamente a maioria dos países do mundo muçulmano. No século XXI países muçulmanos vivem abaixo da linha da pobreza, com graves problemas econômicos, apesar da riqueza petrolífera. Países regidos por regimes teocráticos e outros por democracias disfarçadas por governos comandados por ditadores que servem propósitos aos países ocidentais que estão apenas interessados nas riquezas escondidas nas profundezas de suas terras. Riquezas estas que o ocidente enfrenta escassez e que foi a estrela principal do crescimento econômico mundial: o petróleo, a commodity mais comercializada do mundo. Cerca de 68% das reservas mundiais conhecidas ficam no Oriente Médio, quase todas localizadas na região do Golfo Pérsico. O controle, o acesso e influência em relação ao petróleo do Oriente Médio são fundamentais para a política mundial. Muitos conflitos e guerras tiveram origem por causa desta disputa, mesmo que não tenha ficado explicitado o motivo. 19 Demant, Peter , O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2004, pág. 330.
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    38 Mesmo com a falta de modernização na maioria de seus países, o Oriente Médio sempre está no centro do cenário internacional e após o 11 de setembro esta visibilidade ficou ampliada. Isto também faz com que as potências mundiais atuem com força aliando-se a governantes tiranos e inescrupulosos. Moderno ou não, globalizado ou não, enquanto o petróleo for importante para as grandes potências e para a economia mundial, haverá o interesse nos países muçulmanos. As questões de penetração e alienação cultural estão completamente vivas em muitas regiões do mundo muçulmano, onde é o único em que a cultura religiosa tem se transformado em ideologia fundamentalista não somente de forma defensiva, mas que inclui em todo este pacote uma reivindicação pela primazia mundial contra o Ocidente. Uma nova e perigosa ordem global, espalhada por fundamentalistas religiosos e apoiado por terroristas, baseadas em uma suposta superioridade do Islã. Na maioria dos países muçulmanos há a violação dos Diretos Humanos. Embora tudo isto ocorra, o fundamentalismo acontece de formas variadas e em graus de violência diferenciados. Foi a forma alternativa encontrada pelo islamismo para atacar de forma assertiva a supremacia Ocidental. O fracasso da modernidade nos países islâmicos é amplamente discutido pelas autoridades como também pelos povos islâmicos. A população muçulmana está cada vez mais consciente do que está acontecendo em seus países e sabe das grandes diferenças existentes entre viver em um mundo livre, moderno e globalizado. Sabem o que existe, o que se passa além de suas fronteiras. Mas, muitas vezes são obrigados a conviver com a repressão, a falta de liberdade de expressão existente em seus países. Os crescentes conflitos ocorridos recentemente nos países do Oriente Médio, de 2009 a 2011, são resultados desta repressão, da raiva contida e claramente dirigida aos seus governantes. Esta nova geração não viveu a forte repressão vivida por seus avós e pais durante o século XX e início do século XXI, mas são capazes de irem até o fim para tentar tirar os falsos governantes democratas que usam o poder de forma egoísta e tirânica. É fato que muitos gritam pelas ruas que querem democracia e falem sobre o fracasso da modernidade em seus países.
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    39 É fato, o Ocidente não sabe ainda lidar com o Islã, a xenofobia, a visão de não modernidade e globalização. Como se o Ocidente e o Oriente fossem dois planetas em rota de colisão. Os terroristas e fundamentalistas religiosos, que se consideram bons, únicos e autênticos muçulmanos, só agravaram esta situação. Já os norte- americanos provocaram este ódio crescente para que o maior ataque terrorista da história fosse calculado e realizado daquela forma. O islamismo não prega a violência. Não existe dentro do Islã fatores que afirmam que a religião é mais violenta do que outras. Existem muçulmanos que abraçam a xaria como uma base de ordem social e esta ramificação deseja a segurança física e psicológica. Não aceitam as severidades interpretadas pelas leis islâmicas dos fundamentalistas, que rejeitam a modernidade, a globalização, afastam seus jovens de uma vida melhor e prega o terror, a vigilância como forma de manter as tradições anunciadas pelo Profeta. Os jovens de hoje tem um preço alto a pagar, mas estão lutando para que tudo isto possa mudar mantendo-se as tradições religiosas, assim como aconteceu com o judaísmo e o cristianismo. A luta pela democracia é apenas o primeiro passo considerado por estes jovens, um caminho real para abraçar definitivamente a modernidade. O Islã ainda não fracassou, não aceitando a modernidade. Estes jovens que protestam nas ruas e conseguem criar movimentos contra todas as ditaduras passadas, certamente sabem que o caminho ainda é longo e que apoiados por ferramentas ocidentais como as redes sociais, podem e tem muito que fazer. Eles sabem que especificamente esta modernidade ocidental tem mais valor do que uma AK-47 antes, empunhada por seus pais e avós.
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    40 2. IRÃ - HISTÓRIA E A SUA RELAÇÃO COM OS ESTADOS UNIDOS A República Islâmica do Irã é um dos locais no Oriente Médio onde o mundo parece ter parado em um tempo remoto. Tempo este, quando os bazaris – antigos comerciantes-, dominavam a economia da antiga Pérsia. O Irã é considerado por o berço da civilização. Em suas terras viveram astrônomos, matemáticos, cientistas, artistas, mestres da ciência. Suas descobertas foram divulgadas quando os árabes islamizaram todo o Oriente Médio. Neste enigmático e atraente país, temido hoje por grandes potências, que reprime a sua população, rica em petróleo e pobre em emprego, surgiu a primeira religião monoteísta por volta de 1000 a.C. Desde 1979, o Irã é terra dos aiatolás. O país dos mantos negros (chador) que cobrem as mulheres, da língua farsi falado na província da Fars. Seu idioma é uma variante do alfabeto assírio até o século VII, mas com a dominação árabe, os iranianos assumiram o alfabeto árabe com pequenas modificações. É o único país com um regime xiita. Herdeiro direto do antigo Império Persa, o Irã é um dos países com um peso econômico considerável para o mundo muçulmano, pois está situado em cima de uma dos maiores poços de petróleo do mundo, com um grande potencial energético em gás e desenvolvimento nuclear, este último, causando grandes desconfortos em líderes mundiais do século XXI. Independente de toda a sua história, o Irã dos tempos modernos cresce desordenadamente como qualquer país que tem uma capital conhecida e intensa como Teerã. Este país do Oriente Médio conta com uma população de mais de 70 milhões de habitantes e têm suas fronteiras divididas com países historicamente tão importantes quanto ele. Conhecido como a Terra do Meio, o Irã ao norte faz divisa com a Armênia, o Azerbaijão, o Turquemenistão e o Mar Cáspio. Ao leste faz fronteira com o Afeganistão e o Paquistão, a oeste com o Iraque e a Turquia e ao sul, com o Golfo de Amã e o Golfo Pérsico. Até o ano de 1935, o Irã ainda era conhecido como Pérsia e carregava o peso de sua importância histórica. Foi do Império à teocracia. Um território de imperadores famosos. Em 559 a.C, Ciro, o Grande, funda o Império Persa, conquista a Babilônia e liberta os judeus da escravidão. Com Dario, Rei dos Reis, os iranianos conquistaram
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    41 expansão territorial epoderio político. Xerxes filho e sucessor de Dario, comandou uma grande invasão a Grécia em 480 a.C, levando sob seu comando 180 mil homens. Na época foi considerado o maior exercito já visto na Europa. No ano de 334 a.C, Alexandre, O Grande invadiu a Pérsia saqueando Persépolis. As famosas ruínas de Persépolis são testemunhas da beleza e da grandeza que um dia foi a Pérsia. Durante o seu apogeu a Pérsia, que chegou a conquistar o mundo antigo, formou uma das civilizações mais prósperas e sofisticadas da Mesopotâmia. Na Idade Média foi invadido por mongóis, um grupo que teve sua formação na Ásia Central, no século XIII, por Genghis Khan. Eles devastaram o Irã nos anos seguintes de 1220. Quando os mongóis perderam o controle da situação este poder passou então para às mãos da dinastia revolucionária Safávida, que tinha como crença o xiismo. Adotar o xiismo foi um passo muito importante para a formação da nação iraniana. Ismail I, que se proclamou Xá em 1501 e declarou o xiismo como religião oficial do Estado, ergueu um império dez anos depois denominado: os Safávidas. A vertente de que o xiismo não é um mero ato religioso perdura até os dias de hoje no Irã. Na época, se estendeu da Ásia Central a Bagdá e das montanhas geladas do Cáucaso as areias do Golfo Pérsico. O grande apogeu do Império Safávida aconteceu entre os anos de 1587 a 1629, durante os 40 anos do reinando de Abbas, também conhecido como o Grande. Neste tempo, a cultura iraniana alcançou o seu maior reconhecimento. Abbas conseguiu unificar o povo, construiu estradas para atrair mercadores europeus e criou oficinas para produzir seda e cerâmica. A história iraniana nos conta que desde o século IX, os intelectuais que viviam em terras persas haviam explorado o mundo islâmico à procura de cientistas, filósofos e sábios. Criou a coleta de impostos, montando uma competente rede burocrática, organizando o país que já vinha em desordem desde os tempos de Ciro e Dario, dois mil anos antes de sua chegada. Apesar de obter um grande avanço durante a dinastia de Abbas, a sua forma brutal de governar foi sob torturas e execuções. O seu modelo de governo casou desordem, cobiça e morte entre as nações vizinhas ao Irã. Houve um longo período de lutas e anarquias entre as tribos. Muitos outros imperadores vieram depois de Abbas, como Xá Nadir, conhecido como um dos últimos grandes líderes históricos do
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    42 Irã, assassinado em1747 e os Qajar, provenientes de um tribo turca do Mar Cáspio que governaram o Irã do final do século XVII até o ano de 1925. No ano de 1804 os ingleses ajudam os persas na guerra contra a Rússia e passam a influenciar o país. O Xá Muzzafar AL-Din, em 1901 concede aos ingleses a exploração do petróleo. Vinte anos depois Xá Reza Khan toma o poder e começa a modernização da Pérsia. Adriana Carranca e Mônica Camargo relatam em seu livro, “O Irã, sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”20, da Editora Globo, 2010, que a seus reis tacanhos e corruptos cabe à culpa pela decadência que se abateu sobre o povo iraniano. Enquanto a maior parte do mundo avançava para a modernidade, o Irã da dinastia Qajar estagnava. O Irã era rota de cobiça para as grandes potências que não tiravam os olhos desta terra. Já o jornalista do New York Times, Stephen Kinzer, citado no livro das jornalistas brasileiras, escreveu um estudo sobre a Operação Ajax - que derrubou o governo democrático do Irã, em 1953, articulado pelos Estados Unidos e Inglaterra -, como sendo o responsável por modificar definitivamente os rumos históricos do Irã. O que se conclui de todas as dinastias é que cada uma delas deixaram profundas marcas neste país de mais de quatro mil anos. O Irã político e espiritual surgiu durante o reinado de Ismail I. Aceitando o xiismo, os iranianos estavam aceitando o islamismo, mesmo que não fosse da forma desejada pelos sunitas. Na política a posição do xiismo, como para o zoroastrismo, os governantes só tem o direito de exercer o poder de forma justa. “Essa crença conferiu às massas xiitas, e por extensão aos seus líderes religiosos, força para promover a debacle do regime laico, construindo o paradoxo de uma modernização autoritária e religiosa jamais prevista por nenhum manual de teoria política.”21 20 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág 68 21 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág. 55
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    43 No século XXI, os xiitas compõem o segundo maior número de adeptos do Islã, depois dos sunitas. O Irã é um dos Estados mais antigos do mundo. Estas terras já geraram milhares de filmes, estudos e livros. Foram séculos e séculos de uma rica história de conquistas, guerras, conflitos e revoluções. Um pouco antes dos Aiatolás dominarem o Irã, o país passou por um processo pioneiro com a Revolução Constitucionalista de 1906 e a nacionalização da indústria petrolífera implantada por Mohammed Mossaddegh em 1951. Foram dois fatos considerados importantíssimos não somente para o país, como também, para a história mundial. A devolução do petróleo para o povo iraniano custou o cargo político a Mossaddegh. Ele pagou um preço bem alto por esta nacionalização. O livro “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, de Stephen Kinzer, Editora Bertrand Brasil, 2003, conta em detalhes o complô armado entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Um golpe que derrubou o governo democrático de Mossaddegh e implantou no Irã uma longa e tenebrosa ditadura comandada pelo Xá Mohammed Reza. O Xá Reza obteve por um bom tempo apoio dos ocidentais, mas foi derrubado por um movimento popular que era contra à crescente secularização da sociedade e principalmente à forte corrupção que estava sendo acobertada por sua temida polícia política, os Savaks. O Irã passou por momentos de grande tensão, assim como estava acontecendo em países do terceiro mundo – Brasil, Argentina, Chile. O ano de 1964 foi marcado com a expulsão do Aiatolá Khomeini, que se exilou na Turquia, seguindo depois para Najaf, cidade considerada santa aos xiitas, ao sul de Bagdá, no Iraque e por fim, para a França após duras críticas ao modo como Reza Pahlavi conduzia o país. Seus discursos eram ouvidos clandestinamente por seus seguidores no Irã, sendo reproduzidos em fitas cassete. Durante este período o país passou por greves na administração pública, a interrupção da extração em seus cobiçados poços de petróleo, produto principal de sua base econômica. O ano de 1979 foi marcado por uma das maiores Revoluções Islâmicas no mundo muçulmano. Em 16 de janeiro de 1979, o Xá Mohammad Reza Pahlavi e sua família real fogem para o exílio abrindo assim as portas para a volta do Aiatolá Ruhollah Khomeini. O processo foi lento, mas muito bem planejado, pois o Aiatolá precisou apenas de 10 dias no país para tomar o poder. No dia 10 de fevereiro,
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    44 Khomeini provocou umamudança definitiva da ordem política e social no Irã. Foram momentos de intensa luta armada dentro de terras iranianas, onde unidades do exército, fiéis ao Aiatolá e a velha Guarda Imperial do Xá, se enfrentaram. Pelas ruas os homens faziam barricadas e se vestiam para morrer pela causa islâmica. As mulheres abandonaram as roupas ocidentais e cobriam-se com seus chadores. A Revolução deixou 200 mortos, acarretou invasões a diversos prédios públicos e provocou a soltura de 11 mil detentos da prisão de Evin,O resultado se deu na noite de 2 de abril de 1979, quando foi proclamada a Primeira República Islâmica do mundo. Uma tentativa de reproduzir o regime vigente na Arábia do profeta Maomé. Uma revolução e um novo regime com nuances ideológicas apoiado por comunistas, liberais e mollah - camponeses armados com paus e pedras. Até muçulmanos sunitas e xiitas juntaram-se a causa tendo apoio de judeus, cristãos, ateus unidos a favor da revolução. Não havia uma programação concreta. Naquele momento, o que os iranianos desejavam era obter uma liberdade por meios de atos democráticos. O sonho durou pouco, o idealismo de liberdade e democracia sofreram mudanças radicais. No poder, o Aiatolá modificou o discurso. Estudantes viram escolas e universidades serem fechadas para que o ensino pudesse ser adaptado de acordo com a sharia, a lei islâmica. As mulheres foram obrigadas a cobrir os cabelos em público. Uma democracia e uma liberdade prometida e que acabou não sendo exercida ao longo dos anos. Ao longo destes 30 anos pós-revolução, o Irã se manteve a maior parte do tempo fechado para o mundo ocidental. A inimizade e a falta de diálogo com os Estados Unidos e Irã, quer dizer, Ocidente contra Oriente, dura a mais de 30 anos. Não há respeito entre Estados Unidos e Teerã. O jornalista Stephen Kinzer, ex-repórter do New York Times, concedeu em janeiro de 2011, uma entrevista ao jornalista Jorge Pontual, para o Programa Milênio, do canal GloboNews, analisando o passado, presente e o futuro desta tão conturbada relação envolvendo os dois países. Para o jornalista americano, a melhor maneira encontrada por ele para este conflito é os Estados Unidos trocarem os velhos aliados, no caso Israel e Arábia
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    45 Saudita. Seriam necessáriosnovos parceiros, no caso o Irã e a Turquia. Isto deveria ser feito rapidamente antes que aconteça mais uma guerra. Kinzer afirma que os Estados Unidos devem reconhecer os erros do passado e quem sabe reencontrar um sentimento democrático até pró-americano do povo iraniano. Os conflitos se tornaram maiores quando iranianos começaram a sequestrar diplomatas americanos. Isto acabou por forçar o povo americano a se perguntar o porquê destes sequestros estarem acontecendo, pois até então os norte-americanos não sabiam do golpe articulado pela CIA, junto com o governo britânico, para tirar o premier Mossadegh do poder, antes da Revolução Iraniana de 1979. Kinzer ressalta em sua entrevista que um lado desta história ficou por muito tempo obscuro para o povo americano. Esta falta de diálogo e incompreensão com o povo iraniano acabou por ser acentuada a cada dia. “Esta crise dos reféns, deixou marcas profundas em uma geração de formuladores das políticas externas americanas. A reação da crise aos reféns foi essencialmente: “Eles não tinham motivos para fazerem isto. São selvagens, niilistas bárbaros, que, sem motivo, estão fazendo sofrer nossos concidadãos.” Para os americanos era o que parecia. Não imaginávamos que alguns iranianos, tinham motivos para ter raiva de nós. Para os americanos, até hoje, as relações Estados Unidos- Irã, começam e terminam em 1979-1980. Foi quando elas começaram e não avançaram mais.”22 Os americanos esqueceram que para o lado iraniano, os fatos poderiam ser bem diferentes e que isto poderia mudar completamente o curso das relações internacionais entre o Ocidente e o Oriente. 22 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
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    46 “As relações entre Irã-Estados Unidos e seus conflitos começaram em 1953, quando Mohammed Mossadegh foi derrubado pela CIA. Desde as crises dos reféns, alguns dos sequestrados escreveram artigos e memórias contando o porquê fizeram tudo aquilo. Só hoje conseguimos descobrir que eles tinham um motivo. Os iranianos não eram apenas niilistas, tinham algo bem claro em mente. Estavam pensando no que havia acontecido em 1953. O que aconteceu então? O povo iraniano obrigou o Xá a fugir. Mas, os agentes da Cia, trabalhando nos porões da embaixada americana, organizaram o golpe e trouxeram o Xá de volta. Então, 25 anos depois, em 1979, o Xá foi obrigado a fugir de novo. Os jovens revolucionários iranianos pensaram: “Vai acontecer tudo de novo. Os agentes da CIA nos porões da embaixada americana, vão organizar outro golpe para trazê-lo de volta. Não podemos deixar isto acontecer.” Foi por este motivo que eles invadiram a embaixada. Mas, só depois de muitos anos que os americanos ficaram sabendo o que os Estados Unidos tinham feito no Irã, em 1953. Foram grandes danos que eles nem desconfiavam. Esta foi a causa da crise dos reféns e de todos os conflitos subsequentes entre os dois países.” 23 A crise dos reféns durou 444 dias. Foi considerado um marco do rompimento entre Estados Unidos e Irã. O sequestro de 52 cidadãos americanos durou de 1979 a 198, dentro da Embaixada dos Estados Unidos por seguidores de Khomeini que contavam com sua anuência. A crise dos reféns acabou por eleger o republicano Ronald Reagan, nas eleições presidenciais americanas no ano de 1980 e o fatídico isolamento internacional do Irã. Esse isolamento foi carregado de acusações de que os Aiatolás por terem interesse de disseminar a Revolução Islâmica pelo mundo 23 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
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    47 árabe passaram tambéma patrocinar grupos terroristas e radicais. Isso nunca foi provado. É difícil de acreditar que antes do golpe de 1953, que ficou tão marcado na mente dos iranianos, que este povo poderia ser pró-americano. Mas o golpe, ajudado pelos ingleses que controlavam a exploração do petróleo, por meio de uma empresa anglo-iraniana, foi o estopim para a quebra de uma amizade que durou quase toda a primeira metade do século XX. Um período em que britânicos, franceses e russos, exploravam, saqueavam, oprimiam o Irã, enquanto os Estados Unidos estavam ali para ajudá-los. Por este motivo, havia o sentimento pró-americano no Irã. Um povo que recebia de braços abertos os médicos, as enfermeiras, os professores americanos que desejam apenas ajudá-los. Os Estados Unidos eram vistos pelos iranianos como uma nação perfeita, ideal para ser copiada. A mudança brusca acabou ocorrendo no ano de 1953. De lá para cá tudo foi completamente diferente o tratamento da política externa entre ambos os países. Apesar de o povo iraniano acolher de braços abertos os americanos que desejarem visitar o seu país, os seus líderes não conseguem dialogar. O atual presidente Ahmadinejad, é intolerante e indesejado no cenário internacional. Podemos afirmar que a cultura pop, musical e a Internet, esta última bloqueada por causa das manifestações ocorridas em junho de 2009, são muito difundidas no Irã, proporcionando um avanço cultural muito importante para o povo iraniano. Segundo Stephen Kinzer, os Estados Unidos têm o que muitos iranianos querem, uma sociedade de sucesso, com uma “economia próspera”*24, na qual as pessoas possam viver em liberdade e se realizar. Os jovens iranianos desejam exatamente isto para eles, melhor qualidade de vida, empregos, liberdade de expressão, democracia, e sabem que merecem isto porque estudam, são cultos, trabalham muito para que estes desejos sejam realizados. Em muitos países do Oriente Médio este tipo de pensamento não é bem visto. Vão de encontro à sharia, contras as leis islâmicas. *24 Não podemos afirmar que esta economia é tão próspera nos dias de hoje. Com a crise econômica mundial, a economia americana entrou em colapso e segundo, o jornal “O Globo” edição de 15 de julho de 2011, o governo americano apresenta uma dívida de US$ 14,3 trilhões. Para honrar seriam necessários vários cortes internos.
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    48 Devemos lembrar neste trabalho que a ideia de democracia no Irã tem mais de 100 anos. A constituição Iraniana ainda é nova, e eles levaram bastante tempo para aprender os partidos políticos, o que é parlamento, eleição, como acontece uma votação e o como poderiam ser aplicadas as leis iranianas. Muitos países no Oriente Médio não sabem como é uma constituição e apesar do Irã ter um regime religioso opressivo, a sua sociedade tem pensamentos profundamente democráticos. Os iranianos demonstram que é o único país do Oriente Médio, que apesar de todo o fundamentalismo religioso, consegue “mentalmente” ou desejam separar o Estado da Religião. A democracia não é um estado imposto por regimes externos ou internos. O Irã parece ser o único país do Oriente Médio, a saber, separar plenamente esta questão. Aprenderam que democracia não é depositar o voto na urna, é principalmente tentar entender e aprender os problemas de sua própria sociedade e saber resolvê-los. “O Irã foi um país que levou vários anos desenvolvendo uma consciência democrática e decidiram sozinhos que era exatamente isto que queriam”. 25 A política externa americana e até mesmo a mundial está presa a paradigmas que devem ser transpassados, isto se torna um grande problema na relação entre o Ocidente e Oriente Médio. O ambiente estratégico no Oriente Médio mudou radicalmente. A política externa mundial deve ficar atenta, pois sabemos da existência de ameaças assustadoras e também muitas oportunidades que devem ser aproveitadas. Mas, infelizmente nada ainda foi feito pelo Ocidente. Segundo o diplomata Mohamed Elbaradei, Prêmio Nobel da Paz de 2005, autor do livro “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, as suas impressões com relação aos problemas enfrentados entre Estados Unidos e Irã são bem parecidos com as dos jornalistas Stephen Kinzer e Robert Fisk. Ele relata que a percepção americana do regime iraniano, como uma gang de radicais irascíveis 25 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
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    49 tinha raízes emocionaise profundas, que remontavam à crise dos reféns de 1979 a 1981. Para os iranianos, o sentimento de que os Estados Unidos personificam o “Grande Satã” era antigo e vinha desde o golpe arquitetado pela Cia e que derrubou Mossadegh. “Em ambas as capitais, as discussões sobre as relações entre os dois países geralmente eram envoltas por elementos de fervor ideológico e até político”26 O Ocidente esqueceu a história mundial e mais ainda, de que o Irã é um dos países mais antigos do mundo, com uma forte identidade e história e como qualquer país, com uma grande sensibilidade às interferências estrangeiras. Para os durões do governo Bush, a simples ideia dos Estados Unidos se envolver com o Irã representava um comprometimento moral. O objetivo final de Bush era a mudança do regime. “(...) em 2007, a catástrofe da Guerra do Iraque fez um ataque militar contra o Irã não parecer uma opção viável, pelo menos naquele momento. Por isso criou-se um plano B: uma política de sanções e isolamento destinada a fazer o Irã se dobrar sob pressão, especialmente a questão nuclear. As sanções serviram para expressar o descontentamento da comunidade internacional, mas, em minha opinião, não poderiam resolver a questão”. 27 O Irã se dobra aos desejos dos Estados Unidos era um sonho do governo americano, mas não coincide com a realidade. Muito trabalho foi feito para tentar sabotar todos os esforços europeus no sentido de se retomar o diálogo com o Irã, especialmente com relação ao enriquecimento de urânio. Quando esta possibilidade 26 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011, pág. 277. 27 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011, pág. 277.
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    50 se tornava possível,os americanos bloqueavam o caminho. Para o diplomata Mohamed Elbaradei não existe o nós contra eles e insiste em uma necessidade de uma diplomacia inesgotável. Kinzer ressalta que líderes ocidentais deveriam ampliar a agenda com o Irã. Não apenas discutir embargos econômicos caso eles não revejam seu programa nuclear. Mas, a maioria dos políticos ocidentais acredita que se o Irã não restringir o seu projeto nuclear não há possibilidade de diálogo. Não há como abrir concessão ao Irã. O preconceito estabelecido não deixa os políticos e líderes externos verem os enormes pontos estratégicos que possivelmente abriria portas e mudaria definitivamente a história entre estes países. Poderia acabar ou melhorar o Choque de Civilizações existente entre Ocidente e Oriente. O que está em jogo é a política internacional e como os dois lados poderão ganhar quando chegar o final do século XXI. Não podemos negar que o mundo criou uma predisposição com relação ao Irã e outros países do Oriente Médio. O Ocidente acha que qualquer coisa dita por países orientais e especialmente vindo do Irã, é uma armadilha. O mundo precisa de parceiros na região do Oriente Médio e eles devem ser escutados. O problema explicado nas reportagens lidas durante a pesquisa mostra que os Estados Unidos, na maioria das vezes estão no comando dos diálogos internacionais, não estão acostumados a ajustar e mudar sua política de dialogo. A grande dúvida para o jornalista Stephen Kinzer e até mesmo para o renomado correspondente internacional do jornal britânico Independent, Robert Fisk, é saber qual seria o parceiro ideal para este tipo de negociação. Esta pergunta jornalistas, especialistas e políticos fazem constantemente. Sabem que para se ter esta parceria é necessário buscar países com uma sociedade parecida entre si. Irã e Turquia são países islâmicos do Oriente Médio com uma longa experiência democrática. Os líderes mundiais devem perceber que, as políticas estratégicas de longo prazo, possam ser paralelas as de seus países. Não há dúvidas que há uma grande inimizade entre Estados Unidos e Irã e isto abala inteiramente o eixo Ocidente e Oriente. Anos atrás, Estados Unidos e China
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    51 assinaram um acordocom o objetivo de acabarem com a inimizade existente entre as duas partes. Um documento simples, conhecido como o Comunicado de Xangai, escrito por diplomatas, em três partes e assinado depois entre os dois países. Muitas portas foram abertas, em especial a econômica. Stephen Kinzer em entrevista ao Programa Milênio28 é um dos que compactuam com a ideia de se fazer algo parecido entre Estados Unidos e Irã. Kinzer acha que somente desta forma, se conseguirá acabar com a inimizade entre os dois países. Basta somente que haja uma agenda e isto certamente seria um excelente começo para diálogos entre estes dois importantes países. Os norte-americanos sabem que estão lidando com um regime repressor, que brutaliza sua sociedade e que luta a todo instante por seus direitos. Os iranianos não querem que sua sociedade e seu governo, fiquem isolados do mundo. Este ponto de vista se apresenta claro nos livro e reportagens de Stephen Kinzer, Robert Fisk e de Bernard Lewis. “Os Estados Unidos deveriam negociar com o regime existente hoje, no Irã. Mas, os norte-americanos não podem ignorar os direitos democráticos dos iranianos. Qualquer acordo precisa de componentes democráticos e um dos modelos existentes são os Acordos de Helsinque que foram benéficos para todas as partes. Os países do bloco soviético gostaram porque tiveram reconhecidas a sua legitimidade e segurança. Os norte-americanos gostaram porque o Acordo conferiu direitos democráticos às pessoas. Algo parecido deveria ser feito.” 29 Este seria o ideal esperado pela civilização. Mas, diante dos últimos acontecimentos no Oriente Médio, onde um novo conflito e revolta faz daquela área 28 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 29 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio”, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648
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    52 um local detotal instabilidade, o sonho de ver líderes islâmicos conversando e apertando as mãos e selando acordos de paz e cooperação, é algo distante. O Oriente Médio “parece” uma área sem controle. As grandes potências julgam-se no direito de invadir suas terras e impor a força suas ordens e ideias, sem respeitar direitos, religião, cultura, sociedade. Não se consegue ver em um breve futuro o que pode acontecer. Cada dia é um grande desafio. Resta apenas controlar o descontrole no Oriente Médio. Esta instabilidade, fez do mundo muçulmano um local temido pelo Ocidente. Não conseguimos ver no momento um diálogo entre Ocidente e Oriente, apesar dos esforços realizados pelo Conselho de Segurança da ONU. Mas possivelmente, os bloqueios realizados pelos americanos para que este diálogo nunca aconteça e relatados pelo diplomata Mohamed Elbaradei, podem estar prejudicando um novo acontecimento global. Quanto ao Irã, o diálogo parece estar cada vez mais distante. A intransigência de seu atual presidente Ahmadinejad leva os iranianos a perder as esperanças tanto em relação ao impasse criado por sua política interna e externa. O discurso é autoritário, teocrático, sem negociação. Uma preocupação constante dos líderes e diplomatas mundiais, pois o Irã é um forte país no Oriente Médio. Ahmadinejad sabe que detém este poder e usa a sua figura para intimidação. A teimosia em desenvolver enriquecimento de urânio para bens pacíficos, o claro patrocínio de terroristas é uma preocupação mundial. Estes fatores enterram os sonhos dos jovens iranianos que desejam o reconhecimento de seu valor, de sua cultura e de seu país, ainda que ele seja governado por líderes opressores que desrespeitam direitos humanos e se negam a terem um diálogo mundial. O sonho de um diálogo foi retomado com a eleição de Barack Obama, no dia 4 de novembro de 2008, como novo presidente dos Estados Unidos. Ahmadinejad chegou a enviar cumprimentos a Obama pela vitória e expressando a esperança por “mudanças importantes, justas e reais nas políticas e nas ações”. Foi a primeira realizada deste tipo a um presidente norte-americano, recém-eleito, desde a Revolução Iraniana de 1979. No discurso de posse as esperanças foram renovadas:
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    53 “Para o mundo muçulmano, buscamos um novo caminho a seguir, baseado no interesse e no respeito mútuo. Para aqueles líderes de todo o mundo que buscam semear o conflito, ou jogar a culpa dos problemas de suas sociedades no Ocidente, saibam que seu povo irá julgá-los pelo que conseguirem construir, não pelo que destroem.” 30 30 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em Tempos Traiçoeiros”, Editora, Leya, 2011, pág. 325.- Discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a sua posse no dia 20 de janeiro de 2009.
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    54 2.1 O IRÃ E SUAS REVOLUÇÕES A Revolução de 1979 no Irã, ocorrida há quase 30 anos, aconteceu quando o povo iraniano passava por um estado de extrema pobreza e ao mesmo tempo fartura representada pela Dinastia Pahlavi. O governo praticava um regime político brutal e ao mesmo tempo esbanjador. O povo reagia a este tipo de política resistindo a toda à injustiça cometida pelo governo, lutando por igualdade social. Sonhavam em ter um líder moral que pudesse expressar todas as queixas dos iranianos, diferente da visão do governo que os regia. Sabiam que o regime Pahlavi não era o ideal. Em 1978, os protestos começaram, mas o governo regente reagiu de forma violenta contra todas as manifestações e isto só fez aumentar ainda mais os protestos. Muitos iranianos perderam suas vidas lutando contra as forças de segurança que compareceram as ruas com o objetivo de reprimir os protestos. Acompanhando os acontecimentos, o Xá Reza Pahlavi propôs acordos, mas nenhum foi aceito. Já sem vontade de governar devido ao estado avançado do câncer, o Xá preferiu deixar o Irã rumo ao exílio, acompanhado de sua família. O Aiatolá Khomeini retornava então, de seu exílio, para transformar o Irã na primeira República Teocrática Islâmica. O Irã deixava de ser um governo monárquico pró-Ocidente para encarara dias de Revolução, carregado de elementos que envolviam, não somente a religião, mas também a insurgência de um povo que se viu diante da intervenção de países como Inglaterra e os Estados Unidos. A Revolução trouxe com ela leis conservadoras do Islã. O poder religioso no país dos Aiatolás. Era a criação da história da única teocracia do mundo moderno, em que os preceitos do Islã ditam as leis. Somando-se a tudo isto a teocracia trouxe grave violação aos Diretos Humanos, apoio a grupos terroristas, um polêmico e conturbado programa nuclear que os governantes insistem em dizer que não existe. Com a Revolução de 1979 também chegou outra repressão, pois a Guarda Revolucionária dissolvia reuniões de grupos que eram contrários à liderança do Aiatolá Khomeini. Muitos foram levados às prisões de Evin e executados por não concordarem com os ideais do Líder Supremo.
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    55 Todos estes fatores reunidos foram suficientes para o rompimento, após a Revolução, dos laços diplomáticos existentes entre o Irã e os Estados Unidos. Durante estes 30 anos foram inúmeras as tentativas de diálogo, mas a situação se agravou pós 11 de setembro durante o governo do ex-presidente americano George W. Bush, que incluiu o Irã no “Eixo do Mal”. O país vive até os dias de hoje em uma crescente repressão, levando os iranianos a terem uma vida dupla. É um povo desconfiado nas ruas e ocidentalizado entre quatro paredes. Isto tudo porque a Revolução foi carregada de pontos controversos que misturam: modernidade e tradição, ocidentalização e religião. Antes de acontecer a primeira grande Revolução Iraniana, que a transformou em República Islâmica do Irã, fatos importantes viam ocorrendo no país desde o início do século. Por volta de 1903, foi descoberta pela primeira vez petróleo na região. O ouro negro, como o petróleo também é conhecido, foi motivo para o Irã viver em situação semicolonial formada pela Grã-Bretanha, que passou a controlar a exploração por meio da criação da Companhia de Petróleo Anglo-Persa (APOC). Nesta época, o Irã ainda era conhecido como Pérsia e suas terras foram divididas em zonas de influência entre a Grã-Bretanha e a Rússia. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, o Irã passou a despertar interesse socioeconômico dos Estados Unidos. As relações amistosas entre o Ocidente e o Irã ocorreram após golpe militar de 1925, arquitetado pelo general Reza Pahlavi (*1879 a †1944). Durou até o ano de 1979. A oposição ao Xá Reza Pahlavi cresceu na década de 40, quando as tropas de Hitler tentaram invadir o Irã. Esta situação abriu caminho para que a Grã-Bretanha e a União Soviética ocupassem o Irã com o objetivo de defender os poços petrolíferos. Para tentar preservar a Dinastia Pahlavi, já abalada por causa dos confrontos pelos campos petrolíferos, o general Pahlavi, no ano de 1941, renunciou em favor de seu filho Mohammad Reza Pahlavi (*1919 a †1980). O governo de Mohammad durou até o ano de 1979 e foi definido como monárquico constitucional. Ele dividiu o poder com o Parlamento (Majilis).
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    56 Em 1951, Mohammad Mossadegh foi nomeado primeiro-ministro, ocupando o cargo após um breve período de estabilidade. Mas, durante três anos também acumulou outro cargo, o de presidente do Comitê do Petróleo no Parlamento. “A Dinastia Pahlavi caracterizou-se por diversos fatores, como a relação próxima com o Ocidente, o difícil intercâmbio com os árabes devido à identidade persa islâmica, o projeto de criação da potência regional e a falta de democracia e agenda social. Isto acabou gerando uma sequência de crises.”31 A família real Pahlavi inseriu na sociedade iraniana o que eles muito gostavam: o jeito ocidental de ser e a secularização. Uma atitude que desagradou o clero muçulmano tradicionalista. O banimento do uso do véu para as mulheres foi motivo de muitas discussões e confrontos. Em uma de suas tentativas de ocidentalizar os iranianos, Reza Pahlavi colocou em prática a reforma agrária, permitiu que as mulheres votassem e aprofundou a secularização. Foram 20 anos seguidos, onde os iranianos assistiram a uma tentativa de modernização. Estava formada a Revolução Branca no Irã, o que permitiu ao Xá ser reconhecido pelos mais religiosos como: Inimigo do Islã. Apesar de toda esta modernização e principalmente aproximação com os Estados Unidos, Grã-Bretanha e principalmente Israel, o clero acabou por protestar inúmeras vezes na cidade sagrada de Qom, pelos atos do Xá. O Aiatolá – o mais alto grau na hierarquia islâmica - Ruhollah Khomeini (* 1900 a †1989) comandou os movimentos contra a modernização e ocidentalização, organizando protestos que chegaram a causar greves que foram reprimidas de forma violenta pelo país. O Aiatolá Khomeini fazia severas críticas ao governo e a vida luxuosa que o Xá e sua família levava. Este movimento acabou se rebelando contra Khomeini que foi preso e exilado de 1965 a 1978. Passou seus primeiros anos no Iraque e depois na França. Mas, mesmo no exílio, ele não ficou calado. Seus discursos chegavam ao Irã e sua voz não foi calada. 31 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32
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    57 O propósito eraabrir os olhos do povo que tiveram os seus direitos e sua cidadania abafada pelo processo de ocidentalização. “Aos olhos do Aiatolá, os americanos eram capazes de transformar um aliado em seu mais novo inimigo, e vice- versa, do dia para a noite, dependendo dos interesses políticos vigentes. E a única arma contra isso seria uma ameaça atômica”. 32 Após o exílio do Aiatolá e dos movimentos comandados por ele, o Irã passou por um período de trégua em sua política interna. Os planos de modernidade, antes realizados pelo Xá, tiveram continuidade. Além disso, o aumento do petróleo pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), criada em 1960, trouxe estabilidade econômica ao Irã. O dinheiro que o país ganhava, com a venda dos barris de petróleo, foi utilizado para dar avanço à industrialização. Houve crescimento na população, urbanização e melhora na condição de vida dos iranianos. A aproximação com os Estados Unidos gerou a compra de armamentos, mas também contradições internas, o que levou a violação de direitos humanos. A modernização para o Xá era sinônimo de criação e realização de um sonho: A Grande Civilização do Irã, tornando-o o maior e mais poderoso país do Oriente Médio. Nesta época o Irã era a quinta maior potência econômica do mundo, fator hoje distante no século XXI. Por causa deste sonho, as condições de vida dos iranianos começaram a ser deixadas de lado. A década de 70 foi marcada pela falta de infraestrutura para o povo que não recebia salários dignos por seu trabalho e serviços básicos como alimentação, saúde e educação. Todos estes fatores foram esquecidos. Em 1946, o Irã presenciou em suas terras as primeiras disputas pelo petróleo. Tropas soviéticas permaneceram no Irã para proteger os campos e também para apoiar o Partido socialista Tudeh, criado durante o período da Segunda Guerra, no ano de 1941. 32 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág. 102 e 103
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    58 “Ao lado do clero, o Tudeh foi uma força de oposição ao Xá e desempenhou papel significativo: enquanto os mulás (líderes religiosos das mesquitas) detinham o apoio das massas rurais e defendiam a agenda conservadora, o Tudeh era urbano e moderno.”33 Isto não acabou com as tensões existentes no Irã. Mossadegh tentou apaziguar os problemas ocorridos. O maior deles, a União Soviética e a Grã-Bretanha não sabiam que Mossadegh tinha ideias nacionalistas com relação aos campos petrolíferos e o seu controle. Ele era totalmente contra a exploração do petróleo pelos ingleses e inteiramente a favor da nacionalização dos campos. Pensando desta forma, Mossadegh criou a Companhia Nacional Iraniana de Petróleo (NIOC). A história relata que os anglo-saxões ficaram revoltados com esta atitude e mais ainda, com a formação da Companhia. O que estava em jogo naquele momento eram os benefícios que a Grã-Bretanha perderia com formação da Companhia de Petróleo Iraniana. Foi decretado então, embargo ao Irã. A situação se agravou quando os Estados Unidos, por meio da Central de Inteligência Americana (CIA) arquitetou juntamente com a M16 (agência britânica) a conhecida Operação Ajax. O objetivo desta operação foi a retomada do fornecimento de petróleo. Com o golpe, as duas potências conseguiram derrubar Mossadegh e devolveram ao Xá Mohammad Reza Pahlavi o poder. O Xá sendo aliado do Ocidente ajudaria muito a intervenção americana e anglo-saxão em terras iranianas. Mas, ao contrário de tudo que se pensava, no ano de 1957, o Xá acabou adotando um governo repressivo, criando a polícia secreta Savak. A ocidentalização estava saindo dos trilhos para os iranianos. Época de se calar, esconder e não lutar para não desaparecer. Mossadegh havia cometido um único erro dentro de seu governo, o de tentar nacionalizar o petróleo. Este foi um motivo grave para a irritação dos britânicos que controlavam junto com os iranianos a extração do petróleo. Apesar de ter sido criada 33 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32
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    59 durante o governode Mossadegh e representar a nacionalização do petróleo iraniano, o NIOC foi mantido durante todo o governo do Xá Reza Pahlavi. O ocorreu na verdade, foi a redistribuição e de forma desigual o controle da companhia entre o Irã e um consórcio, formado pelos norte-americanos, britânicos, franceses e holandeses. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), mudou a postura tanto do Irã quanto dos grandes produtores de petróleo do mundo. Esta mudança veio acontecer somente dez anos depois após a criação da organização, mas os produtores aprenderam a necessidade de buscar ganhos com sua produção. A crise do petróleo em 1973, agravada pela Guerra do Yom Kippur - guerra dos Estados Árabes com Israel, o declínio dos Estados Unidos e a recessão dos países em desenvolvimento econômico -, só veio a agravar a situação iraniana. “Essa política encontrou seu limite entre 1976/1977, com a crescente oposição da população iraniana e a perda do apoio dos Estados Unidos. O então presidente americano, Jimmy Carter (1977 a 1981), reverteu as políticas implantadas por Nixon, privando o Irã de ajuda.”34 Durante este conturbado período na economia e política externa do Irã, o Xá adoeceu confirmando-se o diagnóstico de câncer. Seu estado de saúde piorou bastante com as resoluções de Carter. O seu afastamento para tratamento abriu as portas para a revolução. Em 1978 houve um grande declínio em todos os setores no governo iraniano. O povo enfrentava desgastes sociais, políticos e econômico, o que levou o governo a intensificar sua ação antioposição. As manifestações se acentuaram na cidade sagrada de Qom, pois os iranianos estavam revoltados com o governo do Xá. Mais de mil pessoas morreram participando deste movimento. Era apenas o começo. Mais adiante, ocorreu a 34 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 34
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    60 conhecida Sexta-Feira Negra,quando em setembro de 1978 houve uma forte repressão em que os iranianos reivindicavam contra o governo do Xá. As reclamações eram constantes, greves gerais paralisavam o país. A sociedade sofreu um forte abalo financeiro. O povo não simpatizava mais com o Xá. Liberais, socialistas e fundamentalmente o clero islâmico, estavam totalmente insatisfeitos com o governo ocidentalista de Mohammad Reza Pahlavi. Era a vez de se reunir sob a liderança do carismático e populista Aiatolá Khomeini. Sua volta foi muito apoiada pelos religiosos moderados. Dentro deste apoio, encontravam-se os combatentes que praticavam a jihad – a luta islâmica – (Mujahedin), os guerrilheiros de ideologia marxista e islâmica (Fedayian-e-Khalk) e a burguesia (bazaar). Khomeini do exílio queria que o povo recuperasse sua própria identidade, o orgulho de ser muçulmano e iraniano, que pudesse ter autonomia política. O Aiatolá achava que tudo poderia ser recuperado por meio da religião, mas era necessário que o povo iraniano voltasse a adotar a sharia, as leis islâmicas do Alcorão. Somente com a volta ao respeito religioso o Aiatolá dizia que o povo poderia reconstruir uma sociedade de forma mais justa. Seria dono de seu próprio destino, sem ser mais explorado por potências mundiais. O forte movimento suplicado por Khomeini em seus discursos resultou em um isolamento do Xá. Em janeiro de 1979, Reza Pahlavi fugiu para o exílio morrendo pouco tempo depois. Enquanto não se articulava a volta de Khomeini - que mandava seus discursos inflamados, porém ditos em uma voz calma e suave -, o governo iraniano ficou sob a guarda do primeiro-ministro Shapour Bakhtiar. Durante algum tempo ele tentou manter os ideais do Xá, mas em fevereiro de 1979, menos de um mês depois da partida de Reza Pahlavi e sua família, o Aiatolá Khomeini retornou do exílio, significando assim, o fim da Dinastia Pahlavi e do regime de modernização. Esta transição foi um momento conturbado no Irã, tanto política, econômica e socialmente. De fevereiro a abril de 1979, o país passou por vários confrontos até ser proclamada a República Islâmica do Irã. Os conflitos ocorriam por causa da uma divisão existente entre os opositores do Aiatolá, que tinham uma visão do poder de
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    61 acordo com asharia. Outros setores ainda se encontravam divididos quanto a este movimento. Foi um período de repressão intensa nas terras iranianas. O partido Tudesh e outros criados durante o antigo regime foram banidos. Com a consolidação de sua liderança e do clero, Khomeini subiu ao poder na segunda fase da revolução. Formou-se assim, uma nova estrutura de poder, agora descrita na Constituição de 1979. Eram novos tempos nas relações internacionais entre os países do Oriente, principalmente com o Irã. Estava também formada no Irã a união entre Estado e religião, subordinada ao Líder Supremo, o Aiatolá Khomeini. O sistema social, político e judiciário respondiam ao Aiatolá que tinha a função de chefe de Estado e total autoridade religiosa (faqih). Além disso, também respondiam a sua autoridade o poder Executivo, as Forças Armadas, a política interna e externa, a declaração de guerra ou paz e o controle da mídia. Enfim, a palavra final de tudo o que acontecia no Irã era dada pelo Aiatolá Khomeini. O presidente realiza seu trabalho como o segundo homem mais importante do país. É eleito pela maioria do voto popular, com sufrágio universal. O presidente é responsável por implantar a Constituição e chefiar o Executivo. O Líder Supremo é auxiliado por um Conselho de Guardiões, formado por 12 juristas, sendo seis deles indicados pelo próprio Aiatolá e os outros seis pelo líder do judiciário. Um Conselho poderoso, com ampla autoridade para interpretar a Constituição de acordo com as leis islâmicas. O poder deste Conselho é tão forte que, o Líder Supremo, dá total autoridade para que eles examinem, autorizem ou impugnem candidaturas e cargos eletivos. O Conselho e o Líder Supremo controlam todo o sistema iraniano. O Irã sendo governado pelo Aiatolá Khomeini prometeu disseminar a Revolução Islâmica. Com isso, Guardas Revolucionários foram encaminhados ao Líbano para apoiar fortemente os xiitas do Hezbollah – um grupo partidário, revolucionário e fundamentalista islâmico, e o Hamas, na Palestina. Esta “onda verde”, como é conhecida até hoje, foi temida pelas grandes potências, levando os soviéticos a invadir, em 1979, o Afeganistão. Os Talibãs conquistaram apoio político
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    62 dos afegãos, masnão possuíam condições suficientes para derrotar o governo que era apoiado por Moscou. Como a Guerra Fria estava no auge, no final da década de 70, os Estados Unidos acabou apoiando o seu atual inimigo, o Talibã. Este apoio foi tanto material quanto financeiro. Mas muito ainda estava por vir. Esta Revolução Islâmica foi à primeira de um momento tão grave e delicado que surgiria depois para o povo iraniano. Aproveitando um momento de fraqueza dos iranianos, o Iraque invadiu o Irã, traindo o acordo feito entre os dois países em 1975 de compartilhar a navegação no Shatt al-Arab. Foram oito anos de uma guerra terrível, acabando com a vida de mais de 330 mil, onde até mesmo armas químicas foram utilizadas. As exportações de petróleo foram cortadas, fato que arrasou a economia do Irã. Foram anos de desgaste na economia, na política, que arrasaram também, a vida da população, inclusive as de baixa renda. Isto obrigou o Irã a decretar um cessar-fogo. Um momento interpretado por Khomeini, nos primeiros meses da guerra, como fraqueza dos iranianos, levando o Líder Supremo a decretar a morte de milhares de presos políticos. Os números de mortos, divulgado pela ONU, pode ter chegado há mais de 30 mil. Mas, uma nova revolução estava por vir. Uma Revolução liderada pelos filhos da Revolução de 1979. Eles deixavam à famosa AK-47, empunhada antes por seus pais, avós e tios, para usar a modernidade e avanços tecnológicos do momento: Internet, celulares e redes sociais. Uma nova “onda verde” cresceria entre os jovens iranianos do século XXI. Eles mostrariam ao mundo como era possível fazer o maior levante da história usando somente a ponta dos dedos.
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    63 2.2. A REVOLUÇÃO 2.0 No Irã e talvez, nada no Oriente Médio, tenha sido tão forte quanto a Revolução Islâmica de 1979. Esta foi seguida da Guerra entre Irã X Iraque, Guerra do Golfo e a invasão soviética ao Afeganistão. Mas, muitos acontecimentos ainda estavam por vir e que chocariam o mundo após 11 de setembro. O Oriente Médio ficou completamente estigmatizado por causa dos ataques terroristas e a resposta do Ocidente veio rapidamente por meio de ataques aos governos muçulmanos. Se antes não havia diálogo com o Irã e Iraque, depois do 11 de setembro um acordo entre as partes, virou um sonho distante. O governo americano foi ofendido, subestimado. No mesmo instante o Oriente sofreu fortes retaliações de quase todo o Ocidente. Estava formado definitivamente o “Eixo do Mal” e os muçulmanos tiveram que enfrentar uma forte “Guerra ao Terror”. A despeito das invasões ao Afeganistão e ao Iraque, realizadas pelos Estados Unidos, com aliados de peso e sem permissão do Conselho de Segurança da ONU, o Irã continuava seguindo sua vida sob o véu da repressão. O Irã deve ser um dos poucos países que lidam com o dualismo entre a vida pública e privada, entre a aparência e a realidade do dia a dia, entre o que se mostra e o que realmente se faz. “Os iranianos tem lidado com essa dicotomia há mil anos e aprendido a conviver com ela. Só que sempre que o governo é mais restritivo, a diferença entre o jeito que as pessoas agem nos ambientes públicos e privados se expande. O contraste é mais óbvio nas duas últimas gerações: no tolerante governo dos Pahlavi, a classe média obteve liberdades expostas nas ruas – até o véu fora proibido. Mas, desde que a Revolução Islâmica empossou um regime teocrático em 1979, período coroado pelos últimos cinco anos linha-dura de Mohamoud
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    64 Ahmadinejad, o país regrediu socialmente, ao menos em público. Um Irã de duas faces.” 35 Este tipo regime autoritário, teocrático, formado desde a Revolução de 1979, só poderia gerar consequências no futuro. Nasceu daí uma geração que para sobreviver, se esconde entre quatro paredes. São jovens que tem consciência da grande necessidade de se separar o Estado, as pessoas e a religião. Sabem que é um sonho longínquo, que a teocracia é o poder do Irã, que os Aiatolás são os senhores da lei, da religião e das palavras. O problema é que não desejam mais viver em um regime que os priva de uma qualidade de vida melhor, onde as mulheres estudam, conseguem seus diplomas, mas nunca poderão trabalhar em igualdade com o homem, ainda mais em um cargo público. Os iranianos apresentam duas personalidades, uma que se mostra publicamente seguindo todos os preceitos e leis do Irã e o verdadeiro jovem, aquele que tem desejos de ser livre, morar em um país democrático e sem repressão. O cotidiano dos iranianos é de culto ao Aiatolá, da propaganda anti-Estados Unidos, de fala baixa, gestos contidos, mulheres de roupas longas e negras e discussões sobre política e religião feitas em sussurros. Mas nas reuniões escondidas, entre jovens do sexo masculino e feminino, a grande preocupação girar em torno do desemprego que está cada vez maior em um país rico, que vive da exportação do petróleo, o óleo mais desejado do Ocidente. Esta insatisfação latente não duraria muito tempo. A nova geração, filhos dos jovens da Revolução Islâmica de 1979, ficou atenta aos movimentos populares em países muçulmanos. O mundo iria conhecer a Epidemia da Liberdade. A Revista Isto É, da Editora Três, de 2 de março de 2011, abriu sua matéria dizendo: 35 Daryaee, Touraj, professor de história iraniana, em entrevista ao jornalista William Vieira, para Revista Carta Capital, ano XV, nº601, 23 de junho de 2010, Editora Confiança, página 54.
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    65 “Como um saudável vírus, protestos contra ditaduras opressivas espalham-se pelo mundo árabe, causando transformações imprevisíveis em uma região marcada pela repressão, a pobreza e a brutalidade” 36 O que o governo iraniano não sabia, era de que nenhum regime islâmico estava imune ao vírus da liberdade. Por muitos e muitos anos os países do Oriente Médio, leia-se o Irã - de quem estamos fazendo uma análise -, foi governado por regimes políticos centralizadores, corruptos e falsos democráticos. O Irã nunca escondeu o regime teocrático e repressor. Jovens se viram diante da falta de perspectivas, de um futuro promissor e principalmente de uma estagnação econômica, apesar de estarem vivendo em terras ricas em petróleo. A maioria dos jovens iranianos de hoje, tem acesso diário à Internet, gostam da modernidade e anseiam por democracia. Não era possível esconder a inquietação desta jovem população muçulmana. Estes anseios acabaram por se propagar por sociedades islâmicas exaustas pela obediência forçada pelos Aiatolás, Talibã, pela sharia. Jovens forçados a regimes equipados com instrumentos altamente repressores. O estopim para o Levante do Irã, a maior rebelião popular iraniana desde a Revolução Islâmica de 1979, se deu após a rápida apuração dos votos da eleição presidencial do dia 12 de junho de 2009. A imensa vantagem de Mahmoud Ahmadinejad levantaram as suspeitas e denúncias de uma fraude na sua reeleição. A insatisfação dos eleitores foi imediatamente vista em um levante avassalador que surpreendeu o mundo. Milhares de jovens iranianos foram às ruas reclamar pelos seus votos. Esta vitória de Ahmadinejad não poderia ser aceita. Em poucas horas, os jovens armados não de AK-47, como visto anteriormente na Revolução Islâmica de 1979, chamaram a atenção do mundo pelo o que estava acontecendo no Irã. Foram as ruas, munidos de uma arma, que até então o governo teocrático desconhecia a sua força: a Internet, celulares e as redes sociais. Em poucas horas, por meio do Twitter e do Facebook (duas das mais populares redes sociais do mundo), os jovens marcaram as manifestações. Os celulares, com acesso à Internet filmaram tudo e publicaram para o mundo, via YouTube (outra famosa rede social para divulgação de vídeos) as manifestações e a revolta quanto a fraude nas eleições. Os jovens 36 Sequeira, Cláudio Dantas e Villameá, Luiza, matéria de capa da Revista Isto É, “A Epidemia da Liberdade”, Editora Três, ano 35, nº2155, 2 de março de 2011, pág.80.
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    66 iranianos perguntavam comoera possível Ahmadinejad ter sido reeleito duas horas depois do fechamento das urnas. O triunfo do presidente reeleito foi divulgado pelas agências de notícias iranianas com um resultado de 63% contra 33% para o adversário, o ex-primeiro- ministro Mir Houssein Mousavi. Apesar de não ter sido um candidato nem um pouco carismático, ele ganhou o apoio dos jovens, reformistas e das mulheres de classe média, principalmente moradores dos grandes centros urbanos. O povo se revoltou, pois sabia que uma vez que os votos são preenchidos à mão, era impossível contar mais de 40 mil votos em menos de duas horas em todo o Irã. Estimulados por esta fraude nas eleições presidencial saíram às ruas, perguntando onde estavam os seus votos. Foram apoiados e instigados por Mousavi, que acusou o governo de cometer irregularidades em massa. No momento em que opositor pediu uma nova eleição, foi dada a senha para que o país marcasse uma nova manifestação. Como um tsunami o Irã entrou em convulsão. O repúdio ao Ahmadinejad desta vez não ficou reprimido atrás do chador, entre quatro paredes ou por meio de conversas sussurradas. Jovens gritavam pelas ruas “Morte ao Ditador”, se referindo ao presidente reeleito. Em pouquíssimo tempo e com a força das redes sociais, a palavra de ordem evoluiu para “Morte ao Aiatolá”, em referência ao Aiatolá Ali Khamenei. O líder Supremo do Irã relatou satisfeito que a vitória de Ahmadinejad era uma “benção divina”. Estava claro, não somente para o mundo, mas também para os iranianos, as fissuras políticas que o país estava passando. Foi um momento em que o país mostrou possíveis fissuras e mudanças na república clerical xiita, um dos regimes mais opressores e fechados do islamismo. O mundo voltou os olhos e as lentes para o Irã e o Ocidente questionava onde esta manifestação poderia parar. Afinal, com um governo xiita, tão repressor, este tipo de manifesto não poderia acabar muito bem. Os jornalistas que realizavam a cobertura das eleições e das manifestações estavam atentos e esperavam para qualquer instante uma retaliação violenta do governo. Centenas de jovens marcharam pelas ruas de Teerã, durante toda uma semana sem medo da forte repressão que não
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    67 tardou a chegarpromovida pela polícia ou por integrantes de uma milícia islâmica, totalmente apoiada pelo presidente e pela república clerical xiita: a Basij, uma força paramilitar composta por voluntários à paisana, que não apresentam medo algum em prender, torturar e entregar qualquer iraniano que não siga a sharia do Alcorão e principalmente, as ordens do Aiatolá Khamenei. Não foi surpresa para o Ocidente e muito menos para os iranianos saber que políticos, oposicionistas, manifestantes, jornalistas acabaram presos e levados para os porões da prisão em Evin, nos arredores de Teerã. Jornais foram censurados, universidades fechadas e comícios proibidos. Como o clero xiita não sabia como lidar com a internet e o que ela poderia provocar resolveram bloquear sites e a não renovaram as permissões de jornalistas estrangeiros para permaneceram em Teerã. Os correspondentes estrangeiros não poderiam mais escrever, filmar ou fotografar. O Irã se fechou para o mundo e para os observadores. “O que explica esta erupção iraniana? Grande parte dela se deve a figura de Ahmadinejad. Carismático e profundamente conservador. Esse engenheiro civil de 52 anos foi eleito presidente pela primeira vez em 2005 com uma plataforma moralista, baseada no combate à corrupção e na defesa intransigente dos valores morais da Revolução Islâmica, que teriam sido abalados pelo breve período de liberalização do regime durante os mandatos do antecessor, Mohammad Khatami, entre 1997 e 2005.”37 O que o mundo não desconfiava é que esta “Revolução 2.0” – como muitos a estavam chamando -, modificaria a visão que o Ocidente tinha em relação aos jovens muçulmanos. Revoltados com a falsa democracia, com a repressão, com o desemprego, qualidade de vida, fraudes e oportunidades futuras, os jovens iranianos preferiram usar o que tinham em seu poder: no lugar de armas de fogo a rede mundial e redes sociais para dizer ao mundo o que estava acontecendo no Irã e no Oriente Médio. Além da fraude nas eleições e por trás das manifestações organizadas via Facebook e Twitter, havia uma grande disputa de poder entre os Aiatolás, os aliados de Ahmadinejad ou de Mousavi. De disputa em disputa, os jovens não tinham 37 Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 97.
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    68 o interesse emsaber quem disputava o que no governo do Irã. Os confrontos foram fortes e geraram cenas de horror. Alguns jovens morreram como a iraniana Neda Soltan, após ter sua morte filmada via celular e divulgada para o mundo inteiro, via agências de notícias e YouTube. A despeito das brigas e apoios internos para as eleições, os jovens não se intimidaram. O intrincado e único sistema de poder, em que as regras supostamente democráticas estão condicionadas a fé islâmica poderia ter qualquer desfecho. Diplomatas ocidentais preferiram se calar diante do “Levante 2.0” dos jovens iranianos. Qualquer opinião poderia piorar a crise e a situação em que o país se encontrava. Em nota oficial, o governo iraniano, tratou de acusar o Ocidente e a imprensa sionista mundial que estava sempre desafiando o regime. Apesar da recontagem parcial dos votos sugerida pelo Conselho de Guardiães, formado por 12 membros encarregados de fiscalizar a eleição, e de um suposto convite à reconciliação, o Aiatolá Khamenei durante um sermão realizado na Universidade de Teerã, advertiu claramente os jovens e oposicionistas caso continuassem com as manifestações. Eles seriam os únicos responsáveis pelo caos nas ruas da capital iraniana e por um derramamento de sangue. Apesar de todos os protestos, Ahmadinejad foi oficialmente declarado presidente reeleito do Irã, com total apoio de Khamenei que rejeitou a denuncia de fraude. O Líder Supremo continuou tendo apoio das forças militares, deixando claro que não haveria um golpe contra o regime teocrático do Aiatolá. E apesar de todas as advertências de derramamento de sangue e violência, os jovens não estavam dispostos a recuar das manifestações via Twitter e Facebook e muito menos nas ruas. O herói improvável, Hossein Mousavi, virou líder da revolta iraniana. Os jovens Twittaram sem parar na rede social e furavam todos os bloqueios impostos pelo governo. Suas mensagens foram postadas por meio de um desvio de Proxy (servidor). Jornalistas, ativistas internacionais e jovens do mundo inteiro ajudaram os iranianos nesta luta verde, cor que simbolizou a “Revolução 2.0” no Irã. A cor da revolução foi escolhida por Mousavi que usou o verde em sua campanha para simbolizar a esperança.
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    69 “Façam um esforço para mostrar ao mundo, serenamente, o que está se passando nas entranhas agitadas do Irã”. 38 Neste Levante a Internet e as redes sociais tiveram uma força jamais vista. A Nova Revolução contou com a participação de jovens em sua maioria com menos de 25 anos. Todos plugados na Internet, divulgando nas redes sociais a fraude, as marchas e a revolta para além das fronteiras do antigo Império Persa. O Levante teve assim, proporções globais. Com 70 milhões de habitantes, o Irã conta com 23 milhões de pessoas com acesso à rede e 45 milhões de celulares. Em apenas uma semana os iranianos conseguiram: receber orientações via Facebook pelo opositor Mir Hossein Moussavi; ver políticos oposicionistas e manifestantes presos; ter Sites bloqueados; jornais censurados e TVs sob controle estatal; comícios proibidos; universidades fechadas e uma forte e crescente corrente digital anti- Ahmadinejad. Apesar de alguns saldos contra, não houve desânimo. A primeira resposta positiva veio da maior empresa americana de buscas online, o Google, dono da rede YouTube. Pela primeira vez abriu-se uma exceção e imagens da violência foram postadas e veiculadas no site. As cenas com a polícia agredindo e matando os manifestantes, foram postadas no YouTube e links adicionados no Twitter. O site de imagens registrou mais de três mil vídeos com os protestos e as cenas violência feitas pela milícia Basij. O Twitter se cobriu de verde em todo o mundo em solidariedade aos manifestantes iranianos e a rede torna-se o único meio de informação. Mais de 220 mil mensagens foram postadas por hora no Twitter contendo a palavra Irã. Da noite para o dia o hashtag (palavras importantes antecedidas do símbolo #) #IranElection foram as mais postadas nesta rede social. As manifestações iranianas superaram a do astro pop Michael Jackson, que morreu durante o Levante. 38 Zahra Rahnavard, mulher de Mirhossein Mousavi, líder da oposição no Irã, Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 101.
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    70 Em um único dia, mais de 2,25 milhões de blogs espalhados pelo mundo trataram das manifestações e das fraudes nas eleições. Os iranianos estavam conseguindo o que queriam: chamar bastante atenção. Com todos estes números o governo iraniano se sentiu acuado, mas mesmo assim voltou a tentar calar os jovens. A Manifestação/Rebelião/Levante ou Revolução 2.0 foi reprimida. Alguns jovens saíram das ruas para sussurrar seus medos nas redes sociais. Com a oposição nas ruas de Teerã e o governo usando as únicas armas que tinham - a força e a censura -, era de se esperar que os “sussurros feitos no Twitter crescessem para tornar-se um protesto, um grito e, finalmente um clamor que tomou conta da blogosfera e terminou por criar um movimento mundial de solidariedade aos iranianos.” 39 “A maior evidência da importância política do Twitter foi dada quando um funcionário do Departamento de Estado americano, Jared Cohen, mandou um e-mail para a direção do Twitter com um pedido especial: será que eles poderiam adiar a manutenção do sistema que tiraria a rede social do ar por algumas horas? Parece que o Twitter está tendo um papel muito importante em um momento crucial no Irã. A direção do Twitter concordou imediatamente com o pedido” 40 O Twitter, naquele momento, se tornou a principal ferramenta por ser uma rede social rápida; pelos fatos serem passados em 140 caracteres; as mensagens saírem em segundos; os “twitteiros” - como são chamados os usuários desta rede -, estarem por toda parte e, para ter acesso a informação, basta um celular com SMS ou um computador conectado a Internet. Os manifestantes sentiram que cada usuário do Twitter se tornou um repórter em potencial. 39 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 102 40 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 103
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    71 Para controlar estes usuários só tirando a Internet e a telefonia celular do ar. Impossível o governo ter este tipo de controle da informação nos tempos de muitos avanços tecnológicos. “Por mais que fotos de Teerã chegassem pelo site de fotos Flickr, por mais que o YouTube expusesse de forma irrefutável as imagens de violência, foi sobretudo por meio do Twitter que a informação foi propagada e a resistência organizada. (...) sites foram usados também (...) para difundir palavras de ordem e orientações práticas entre os manifestantes. Onde se concentrar, onde estava a polícia, quem havia sido preso, o que estava ocorrendo em outras cidades.” 41 Os @Rebeldes, como ficaram conhecidos os jovens iranianos que foram as ruas, carregados de celulares e Twittaram sem parar, ganharam popularidade e abriram portas para muitas outras manifestações no Oriente Médio. Sabendo desta possibilidade muitos jornalistas ajudaram os manifestantes na divulgação. O Twitter é ferramenta de cobertura jornalística informal, um fenômeno recente e ainda estudado pelos profissionais de comunicação. Uma rede social que tem forte impacto, pois o que é publicado aparece rápido na rede. A intensidade de uma publicação no Twitter é como publicar uma mensagem para o mundo. “(...) é quase impossível deter as mídias sociais online. Se um dos serviços é bloqueado, há sempre outro disponível e semelhante para substituí-lo. A Internet não tem território. A única maneira de evitar que a informação circule é interromper o serviço de Internet no país.”42 E foi exatamente o que o governo iraniano fez. Travou uma batalha declarada contra a Internet, jornalistas, ativistas e manifestantes. Manipulou fotos via Photoshop 41 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 104 42 Recuero, Raquel, especialista em redes sociais e professora da Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em entrevista a Revista Época, de 22 de junho de 2009, nº579, Editora Globo, pág, 106.
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    72 (software próprio parafotografia), passou contrainformação e tentaram a todo custo cortar a banda larga para que tudo pudesse ser derrubado. O trabalho da Companhia de Comunicação de Dados do Irã recebeu a ordem do governo de deixar apenas fluir o necessário. Ficou lenta, diminuindo o fluxo de dados pelo país. Os iranianos sabiam que esta atitude seria tomada e esperavam repressão pior. Censura era apenas o início de uma batalha e para driblar os censores os usuários que estivessem fora do Irã foram orientados a se registrar na rede como se estivessem acessando o Twitter de dentro do país. Foi uma forma encontrada para confundir o governo e principalmente os censores que estavam tentando aprender a utilizar estes avanços tecnológicos. A Revolução destes jovens está sendo feita de outra maneira apesar de serem vigiados por todos os lugares que estejam. As jornalistas Adriana Carranca e Marcia Camargos relatam em seu livro “O Irã sob o Chador”, que basta passear pelas ruas de Teerã e olhar para os prédios ou para cima que certamente pinturas sobre a Revolução de 1979, figuras do Aiatolá Khomeini e o Aiatolá Khamenei estão expostas por todos os lados. Além dos líderes supremos, os jovens e toda a população do Irã podem ver pinturas ou fotos dos jovens soldados iranianos mortos na Guerra entre Irã e Iraque. O governo com estas pinturas tentam sensibilizar os jovens a alistarem-se na Guarda Revolucionária e convocando-os para novos martírios. O sacrifício é uma prova de fé e muito presente no xiismo. E, apesar da forte campanha feita pelo governo iraniano, ano a ano este alistamento tem diminuído. Eles não se identificam com os ideais impostos pelo governo, não se identificam com os barbudos Aiatolás e seus heroísmos, muito menos, compartilham dos mesmos inimigos. Não há diálogo com o atual governo. A Revolução de 1979 são memórias que devem ser deixadas para trás e eles compartilham fortemente este pensamento ao viverem como qualquer outro jovem ocidental. Gostam de passear em shoppings centers, buscam conhecer as novidades dos aplicativos de celulares; qual a rede social do momento e qual a operadora de celular que poderá lhes fornecer as melhores ferramentas. Segundo as jornalistas brasileiras, estes jovens estão preocupados com os testes de inglês e sua
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    73 proficiência, somente destaforma, poderão estudar no exterior e quem sabe, obter um futuro promissor. Esta geração não presenciou o golpe a Mossadegh, articulado pela Cia e Grã- Bretanha, deste modo o antiamericanismo não faz parte de sua essência e sim do passado de suas famílias. Não é a Revolução desta geração. O mundo em que vivem é globalizado e inteiramente conectado à internet, estão sempre lendo sites e blogs, fazem amizades com jovens fora do Irã via rede social, trocam músicas, filmes e informações com iranianos que vivem fora do país. Apesar de toda a repressão, eles conseguem fazer isto entre quatro paredes. Jovens que levam vida dupla para aprenderem e se modernizarem. (...) Eles são a nova – e até há pouco tempo desconhecida face do Irã. (...) O governo iraniano não fazia ideia do potencial da tecnologia moderna para reunir virtualmente as massas – e mobilizá-las fisicamente. Na visão dos clérigos, essa população saiu do controle e constituiu um risco ao regime, talvez o maior desde a guerra contra o Iraque. Os religiosos no poder se referem aos nascidos após a Revolução Islâmica como “a geração perdida”. Apreensivo com os caminhos da república em fase dessa ameaça, o governo tenta manter os jovens sob controle cada vez mais rigoroso. ”43 É comum no Irã encontrarmos muitos bloqueiros terem suas URL (endereços de site, blog, fotografia, redes sociais na Internet) bloqueados. Eles reabrem suas páginas com novos endereços e começam novamente os seus trabalhos de liberdade de expressão, apesar da proibição severa do país. Mas com a Internet, este tipo de expressão tornou-se ferramenta fácil, sem que possam mostrar quem realmente eles são. Mesmo dominando as redes sociais e tendo a Internet como forte aliada em suas manifestações, muitos jovens iranianos sentem medo. Protestos ocorreram nas 43 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.133
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    74 universidades, mas sãosempre abafadas pelas mãos pesadas da polícia e do governo de Ahmadinejad. Os jovens iranianos vivem sob a modernidade, globalização, os textos do Alcorão e a leia islâmica. Desde 1979, música alta é proibida, paquera pública, sexo antes do casamento, álcool e cigarro, minissaia, roupas justas, cabelos à mostra, tatuagem entre muitas outras proibições são atentamente observados pelos Basij. Eles sofrem com a mão pesada do regime e tentam a todo custo burlar este tipo de repressão que oscila de acordo com as condições econômicas e sociais do Irã. A nova geração passou a notar que este tipo de repressão se tornava constante de acordo com estas condições. Em seus protestos nas ruas de Teerã, em junho de 2009, os jovens pediam um líder para as novas gerações. Apesar de não se identificarem com as antigas manifestações Da Revolução de 1979, estes jovens desejam um líder com o mesmo carisma e capacidade de liderança vista no antigo Aiatolá Khomeini que conseguiu mobilizar milhares e milhares de iranianos. Mas sem realização de um governo opressor como acabou se tornando. Acreditava-se com a nova eleição presidencial que Mousavi tinha este carisma e esta liderança, surgiu como uma nova esperança e uma alternativa, mas até mesmo os jovens se enganaram, pois este possível líder não conseguiu manter a mobilização por muito tempo após as manifestações. Sabemos que regimes ditatoriais costumam desrespeitar os Diretos Humanos. Mulheres, crianças e jovens costumam sofrer muito em países fundamentalistas e teocráticos como o Irã, Afeganistão, entre outros. Vozes como a Nobel da Paz, a iraniana Shirin Ebadi, conseguem se fazer ouvir, mesmo tendo que enfrentar o forte controle do governo xiita. Os setenta mil blogs existentes no Irã são escritos no idioma farsi e escrito por mulheres. Elas dominam as redes sociais e influenciam amigos do sexo masculino a seguirem o mesmo caminho para que mudanças possam surgir no meio da repressão. Toda esta inquietação no Irã e no Oriente Médio ainda é nova para eles e para o mundo. As consequências são imprevisíveis para todos. Os iranianos e outros jovens que lutam contra regimes ditatoriais sabem que a luta é árdua, requer
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    75 coragem, uma estruturade organização social sólida, fato que muitos países não possuem. O Twitter e todas as outras redes sociais foram utilizados para levar as vozes e os desejos destes jovens. Eles sabiam que não derrubaria Ahmadinejad. E foi o que aconteceu. As redes sociais, blogs, sites são meios utilizados para documentar os fatos ocorridos e não liderar. Estes jovens sabem que não irão consertar as profundas mazelas do Oriente Médio. Eles ainda possuem o sonho democrático. Não desejam e não querem virar prisioneiros de um sistema ideológico. Os iranianos não conseguiram derrubar Ahmadinejad, mas abriram portas para outros países no Oriente Médio como Egito, Líbia, Síria, Tunísia que tiveram seus ditadores derrubados pela força e pelo sonho destes jovens ricos e pobres, modernos ou não, globalizados ou não, que souberam utilizar as redes sociais, a Internet e seus celulares para tirar do poder forças autoritárias e corruptas que governavam por mais de 30 anos. “Achavam que ficaríamos quietos? Estamos fartos”44 Esta declaração anônima consegue refletir exatamente tudo o que um jovem de hoje no Oriente Médio está sentindo. Eles têm as vozes, as armas, a liderança, a união. Falta a coragem de enfrentar a terrível repressão e censura imposta pelo fundamentalismo islâmico aplicado em seus países. 44 Jovem iraniano, não identificado pelos jornalistas correspondentes da Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo, pág. 104.
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    76 3. A CIVILIZAÇÃO NA ERA 2.0 Estamos na Era da Experiência, da Ruptura, de novas mudanças culturais, de grandes avanços tecnológicos. Este é o século XXI, somos a civilização que sofreu as consequências desta mudança. Uma Civilização 2.0. Tudo aconteceu rapidamente. Poucos conseguiram perceber o ocorrido. Fomos absorvendo as mudanças com o passar dos dias, experimentando todas as novidades oferecidas pela tecnologia, pela modernidade e principalmente pela Internet. As modificações foram profundas em todos os cenários: economia, educação, cultura, política, etc.. Mesmo com todas as restrições estas mudanças atropelaram tanto a civilização Ocidental quanto a Oriental. É impossível nos dias de hoje, pensar em um jovem de qualquer nacionalidade: americano, brasileiro, russo, turco, indiano, inglês, francês, muçulmano, não ser possuidor de uma página na internet, um blog, ter ativa participação em redes sociais ou terem celulares de última geração. Mesmo os jovens que vivem sob-restrições impostas por governos ditatoriais e fundamentalistas. Equipamentos modernos muitas vezes são comprados por vias escusas para que eles possam estar informados e por dentro de tudo o que acontece no mundo. Em pleno século XXI ficar fora da rede, estar desconectado é como viver isolado do mundo. Significa não ter amigos, não saber das últimas novidades que acontecem em tempo real, é ser considerado um estranho para toda a sociedade que agora se relaciona intensamente de forma virtual. A Internet derrubou fronteiras, mesmo nos países que ainda resistem aos avanços e as rupturas impostas pela tecnologia digital. A civilização como um todo, ainda esta sofrendo uma forte transformação. A sociedade está passando por um processo profundo no modo como nos relacionamos e trocamos mensagens. Uma transformação que marca a ruptura da civilização, fazendo uma divisória entre o antes e depois da Internet, Mídias e Redes Sociais.
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    77 O surgimento comercial da Internet, em 1990 criou um vendaval na vida do ser humano. Acelerou o dia e abriu horizontes inimagináveis. O futuro ficou distante, pois ele acontece a cada momento com o aparecimento de novos avanços tecnológicos. O mundo está na ponta dos dedos, a um clique do famoso www (World Wide Web) -, abriu para o homem, deixando o Como a Revolução Industrial modificou o mundo, a Revolução Tecnológica, a Internet e suas ferramentas são um fenômeno que transformaram o mundo e a civilização. Um fenômeno estudado e discutido inesgotavelmente nesta Nova Era. Estamos em uma fase onde precisamos produzir mais e cada vez melhor, com toda esta inovação radical. Novas mudanças no modelo de gestão, de comunicação, de marketing, de atendimento ao consumidor, de informação, economia, política, medicina, estão sofrendo com todo este avanço. Houve um aumento na competitividade mundial. Há riscos e oportunidades oferecidas por esta tecnologia. Ainda estudamos onde estamos e para onde vamos. Levamos um susto a cada descoberta. A Internet abarca um conjunto de novas tecnologias de comunicação, e em sua grande maioria de forma participativa. São tecnologias e ferramentas cada vez mais rápidas e populares. Vivemos uma hiperconexão em rede, onde não estamos apenas conectados uns os outros, mas também participando, compartilhando informações e conhecimentos a todo instante. A Internet mudou conceitos, amizades, leituras, estudos, pesquisas, jogos, compras. Antes visitávamos uma loja para comprar uma roupa, um sapato, um eletrodoméstico, um livro. Agora, basta acessar a Internet, escolher o site de preferência para comprar o produto desejado. Também mudou o modo de mandarmos cartas. Antes se precisava de papel, caneta, envelope e selo. O @, símbolo tipográfico utilizado para localização, endereço, ou referência de uma pessoa na Internet, modificou o modo de mandarmos as nossas cartas. Por meio de um endereço eletrônico pode-se mandar um e-mail (carta eletrônica) para qualquer parte do mundo, para um destinatário que tenha também uma conta. Este modo de enviar/trocar mensagem é rápida, instantânea e
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    78 derrubou a necessidadeir aos Correios, comprar selos para o envio de cartas. Locais que levavam dias para receber uma mensagem, agora recebem em instantes. Foi uma das maiores revoluções criadas pela Internet no início da hiperconexão. Uma verdadeira ruptura que chocou e levou pânico as empresas dos Correios. Com esta evolução havia uma forte ameaça no emprego dos carteiros. Houve uma queda significativa deste serviço, mas ele ainda persiste, pois muitas pessoas não se adaptaram as modernidades impostas pela tecnologia e escrever e mandar cartas para entes queridos, utilizando os meios antigos ainda é o único modo para manter a comunicação. Ao mesmo tempo em que toda a civilização está interligada, milhões de pessoas também se conectam diariamente em sites de relacionamento mesmo não se conhecendo pessoalmente. Um webcam (câmera própria que transmite som e imagem via internet) faz o papel da aproximação de conhecidos e desconhecidos deste imenso mundo virtual. Para nossos avós uma estranha forma de relacionamento. O namoro de mãos dadas foi substituído por salas de bate-papos, sites de relacionamento. As famílias que antes se juntavam em longos almoços de domingo não fazem mais isto. Elas se reúnem em frente ao computador para conversar, trocar ideias com amigos, comentar uma notícia. São as consequências da Web 2.0, termo criado pela empresa O’Reilly Media, do empresário Tim O’Reilly, sendo o mais difundido dentro da indústria de tecnologia como sinônimo de sites colaborativos. Mudamos o modo como lemos jornais, revistas, livros, a forma de ir ao cinema, e ainda, a maneira como escutamos rádio e a mais nova música do ídolo pop. Pela Internet, baixamos filmes, seriados, programas de jornais e revistas, os últimos lançamentos da indústria-fonográfica. Segundo o famoso escritor Andrew Keen, em seu livro “O Culto ao Amador”, da Editora Zahar, de 2007, as mais avançadas ferramentas tecnológicas, como blog, redes sociais, YouTube e a pirataria digital, destruíram nossa economia, cultura e valores. Chega a ser um forte radicalismo, mas se acompanharmos o pensamento do autor, não deixa de haver um fundo de verdade no que o ele defende.
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    79 Tudo mudou e em muito pouco tempo. O mundo teve que absorver rapidamente todos estes avanços. Muitos autores chegam a dizer que esta Nova Era Tecnológica, Cultural e da Comunicação, gera mais informação do que o ser humano é capaz de absorver durante o dia. “Nossa cultura está se transformando em uma rede de banalidades e desinformação em que qualquer um pode falar o que quiser, sem preocupação com a relevância ou a veracidade das informações. (...) O impacto que isto pode ter na sociedade é assustador. Nossas mais valiosas instituições culturais – em particular na música e a mídia impressa – estão perdendo espaço para uma avalanche de conteúdo amador, gratuito, gerado pelo próprio usuário.”45 Keen comprova em seu livro, que famosas lojas americanas, especializadas em vender discos, acabaram por falir, assim como jornais e revistas foram forçados a demitir profissionais devido a esta Nova Era da Informação e as muitas ferramentas criadas para a divulgação de notícias. Qualquer um de posse de um computador conectado a rede mundial, esteja onde estiver, pode ser um “jornalista” em potencial. Foi um período que ainda se prolonga em que muitas gravadoras também passaram e passam dificuldades por causa da facilidade em se baixar músicas via Internet, tanto em alta como em baixa velocidade. Nascia assim à pirataria, uma nova categoria de “ladrões”. Com o surgimento da banda larga - acesso via internet por meio de um modem ligado ao computador e a linha telefônica -, qualquer usuário além de baixar as músicas pode baixar filmes recém-lançados nos cinemas e seriados que acabaram de ir ao ar nas emissoras de televisão. Segundo Andrew Keen, os engravatados de Hollywood se juntaram para que o problema não se alastrasse como ocorreu com a indústria fonográfica. Eles tentaram minimizar os downloads - baixar um arquivo da Internet -, de filmes recém-lançados a todo custo. Mas, ainda enfrentam problemas, pois os aplicativos para baixar os arquivos são cada vez mais aperfeiçoados. Assim, como o vinil viu sua morte decretada pelo cd, o videocassete via a sua morte com a chegada do DVD, a Internet de uma só tacada 45 Keen, Andrew, O Culto ao Amador, Editora Zahar, 2007, orelha do livro.
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    80 decretou a mortede todos. Incluindo na lista mortes anunciadas como a TV, rádio, jornais, revistas. Uma cibercultura que ameaça o império e a fortuna de grandes produtores, donos de empresas de comunicação, estúdios, etc., que não estão preparados para a constante renovação. A civilização está revendo conceitos e valores, além do olhar que tinha para enxergar o passado. Este momento de reflexão possibilitará construir e nos preparar para um futuro melhor. Poderá nos ajudar a entender qual o verdadeiro papel que cada um tem na atual história da civilização globalizada e moderna. A única certeza no momento é que este avanço, em um pouco mais de 10 anos está apenas começando: “Estamos vivendo a abertura de um novo espaço de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades mais positivas deste espaço no plano econômico, político, cultural e humano. Que teremos que compreendê-lo, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças, qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultura. Apenas desta forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva humanista”. 46 Não temos dúvida que o mundo está totalmente on-line. Em pouco tempo navegamos pela web 1.0, para a 2.0 e já estamos entrando na fase 3.0. Estas fases foram marcadas como a web da literatura para a da participação, da estática para a dinâmica, de uma única via para de duas, para uma web de páginas que hoje abriga uma web como plataforma, da reação para a participação, do discurso para a conversação. A Web 3.0 será marcada pela semântica e total interação e esta transição já pode ser sentida. Esses termos, utilizados pelo mundo cibernético servem para mostrar e conceituar as fases em que a Internet e a civilização tem 46 Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, orelha da contra capa, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.
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    81 passado nestes últimosanos. A velocidade que esta hiperconexão tem provocado e a adaptação que todos tiveram que fazer em suas vidas e trabalhos. Na Web 2.0, fase em que nos encontramos atualmente, foi possível, por meio de avanços tecnológicos, novas ferramentas e plataformas a interação através da criação de blogs, vídeos e redes sociais. Pela Web 2.0 não consumimos apenas conteúdo com na fase anterior, agora pode-se publicar vídeos, fotos em ferramentas participativas em sites que se tornaram febres mundiais e canais de comunicação como YouTube, redes sociais como Orkut, Facebook, MySpace,etc. É também a era da Velocidade Vertiginosa, sem controle do que é publicado e muito menos de sua qualidade. As empresas do Vale do Silício, nos Estados Unidos, onde ocorreram os maiores avanços tecnológicos e onde abriga as maiores empresas que hoje dominam o mercado como o Google, Yahoo, Microsoft, Apple, Facebook, Cisco, IBM, Twitter, viram a necessidade de criarem filtros e a validação dos conteúdos para que pudesse se ter um ambiente confiável de busca das informações. “A partir do momento em que a banda larga de acesso à Internet se popularizou, a plataforma da Web 2.0 tornou-se viável e aplicações on-line participativas tornaram-se possíveis. Observaram-se a proliferação das redes sociais on-line e sua adoção ao redor do planeta, já que se tornou comum as pessoas “estarem” on-line o tempo todo, permitindo assim, sua formação. ”47 Além de todos os termos gerados com o avanço tecnológico, a cada dia a civilização se depara com um novo. A Web 2.0 também se permitiu cunhar: A Era da Busca. As plataformas de buscas criadas pela Google, Yahoo e Bing – os mais famosos -, permitem acessar qualquer tipo de informação necessária. Desde restaurantes até a formação de árvores genealógicas de uma família. O mundo conectado de hoje não consegue se imaginar sem estes mecanismos de busca. É tão 47 Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição, 2010, pág.83.
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    82 importante que apalavra Google já faz parte de uma dos dicionários mais famosos do mundo para a língua inglesa, o Webster´s Collegiate Dictionary. Google agora é oficialmente um verbo, assim como outras palavras usadas diariamente pelos milhões e milhões de internautas conectados no mundo como: deletar quer dizer apagar, refresh é atualizar, assim como muitas outras fazem parte do nosso cotidiano. São impactos sofridos e que muitos países ainda se recusam a ingressar. Esta modernização e globalização desenfreada provocada por esta Nova Era foi intensificada pelas redes sociais. Esta forma de interação, sem respeitar qualquer hierarquia social, sem tempo ou espaço, impactou o comportamento humano. Todos estão igualados dentro desta grande rede. Os números crescem e mudam a cada dia. De acordo com o site UOL, pertencente ao grupo Folha de São Paulo temos os seguintes números em 2010: 48 107 trilhões - a quantidade de e-mails enviados em 2010 em todo o mundo; 262 bilhões foi a quantidade de spams (mensagens comerciais não desejadas pelo destinatário) por dia no mundo em 2010. O número corresponde a 89,1% de todos os e-mails; A Internet tem dois bilhões de usuários ativos no mundo; São 25 terabytes (quantidade de dados) de informações armazenadas todos os dias nos servidores do Facebook, considerado hoje o maior site de relacionamento no mundo; Na América Latina, há 111,4 milhões de internautas com mais de 15 anos e, no Brasil, por volta de 40 milhões; 48 Site UOL Notícias Tecnologia (2011) , http://tecnologia.uol.com.br/album/numros_tecnologia_album.jhtl#fotonav=2
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    83 31,279 milhões debrasileiros têm o Orkut (outro site de relacionamento). Um alcance de 78%; 45 horas é o tempo médio de navegação mensal do brasileiro. A média mundial é de 22,4 horas; Se considerarmos aplicativos como Skype e MSN (Messenger), ambos aplicativos de voz e vídeo que permitem realizar conversas de voz, vídeo e dados, a média de navegação do brasileiros sobe para 65 horas mensais; Dois bilhões de visualizações por dia: essa é a audiência do YouTube no mundo, considerando todos os vídeos; Todos os dias são postados (inseridas) 100 milhões de fotos no Facebook; O Google realiza 88 bilhões de buscas todos os dias; 53 bilhões foi a quantidade de acessos a sites que possuem conteúdos piratas; 10,3 bilhões é a marca de aplicativos baixados na AppStore, da Apple. Para Android – novo sistema operacional -, o número chega a 5,8 bilhões; As pessoas compartilham mais de 30 bilhões de posts (entre links, álbuns de fotos, histórias, etc.) todos os meses no Facebook; US$ 13 milhões foi o valor mais alto pago por um domínio de internet, o sex.com;
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    84 207 milhões é a quantidade de linhas de celular no Brasil, são mais celulares do que pessoas. 82% dos assinantes possuem linhas Pré- pagas; O ser humano consegue armazenar até 295 exabytes de dados em todos os dispositivos eletrônicos no mundo. O equivalente a 404 bilhões de CDs (CDR – cd para gravação); A cada segundo, são enviadas 200 mil SMS (Short Messaging Service), mensagens curtas no mundo. Se adotarmos a média de US$ 0,7 por mensagem, são movimentados US$ 812 mil por minuto só em SMS; 140 milhões é a media de Twitter - mídia social de sucesso em formato de microblog no formato de 140 caracteres -; As pessoas passam em média 700 bilhões de minutos por mês no Facebook; A estimativa é que o tráfego mundial da Internet em 2014 seja de 767 exabytes, o equivalente a 16 bilhões de DVDs ou 399 quatrilhões de mensagens de texto (SMS). E as informações comparativas são cada vez mais interessantes: 49 O vídeo Social Media Revolution 2 Refresh, divulgado no YouTube mostra as maiores transformações e os impactos que a redes sociais tem causado pelo mundo:50 Mais de 50% da população tem menos de 30 anos de idade e 96% desse público usa redes sociais; 49 YouTube, Social Media Revolution 2 Refresh (revisado), http://www.youtube.com/watch/v=sIFYPQjYhv9, 50 Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição, 2010, pág. 85 e 86
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    85 O Facebook superao Google no tráfego de acesso semanal nos Estados Unidos; Anos necessários para se alcançar 50 milhões de usuários: rádio (38 anos), TV (13 anos), Internet (4 anos), iPod (3 anos); O Facebook adicionou mais de 200 milhões de usuários em menos de um ano; Os aplicativos do IPhone - celular da Apple -, com total acesso a aplicativos da Internet, alcançaram a marca de um bilhão em nove meses; Se o Facebook fosse um país, seria o terceiro maior do mundo, atrás da China e índia; 80% das empresas usam as mídias sociais para a contratação e 95% delas, o LinkedIn, site de relacionamento profissional; O segundo maior buscador do mundo é o YouTube; A Wikipédia - a maior biblioteca do mundo na Internet -, tem mais de 15 milhões de artigos – estudos mostram que são mais precisos do que a Enciclopédia Britânica e 78% deles não são em inglês; Existem mais de 200 milhões de blogs e 34% dos blogs postam opiniões sobre produtos e marcas; 78% dos consumidores confiam nas recomendações de amigos sociais, enquanto apenas 14% confiam em propaganda; 24 entre 25 dos grandes jornais do mundo estão experimentando taxas recordes de diminuição de circulação;
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    86 A Rússia tem a audiência de mídias sociais mais engajada, com visitantes gastando 6,6 horas, sendo 1.307 página em média por mês (visitante), sendo a Vkontakte.ru a rede social mais popular. Os números são impressionantes e crescem a cada dia. São números mutantes. É uma Era Mutante. É um processo de transformação da web, ligada às melhorias das tecnologias que surgiram na última década, em que as redes sociais se tornaram protagonistas desta mudança, além da busca, da mobilidade, da geolocalização e principalmente, o tempo real. O que mais impressiona é que guerras e conflitos podem ser assistidos em tempo real, como se todos estivessem participando dela, in loco. São fatores que estão presentes na transformação da vida da civilização, modificando cenários, economias, políticas, comunicação, etc.. Um dos fatores mais discutidos nos últimos tempos foi o fenômeno da cauda longa. Estudado e analisado por Chris Anderson, em 2006, o fenômeno permite a existência simultânea da oferta de todo o tipo de produtos. Pode ser na web, de forma intangível, sem se importar com o tamanho e da demanda que ele proporciona, tanto para venda quanto para procura. A cauda longa nos mostrou que no mundo virtual não há limitações, podemos ter na web incontáveis produtos para compra e venda à nossa disposição. Infelizmente muitos fenômenos acarretam problemas e o da cauda longa criou-se exatamente a dificuldade de se encontrar o que se precisa no meio de tantas possibilidades expostas em milhares de sites na web. São milhões de opções ao mesmo tempo. Quem acabou lucrando mais com este fenômeno foram os sites de busca, pois o ser humano tem a necessidade de filtrar as informações para realizar as compras e vendas desejadas. E sabemos que quanto mais temos opções, maior será a demora da escolha, pois este processo vai necessitar de análise. Acarreta angústia da dúvida e não felicidade e o pior, menos liberdade. A geolocalização também faz parte destas mudanças. É considerado um fenômeno da mobilidade. Em alguns países este tipo de serviço ainda é caro deixando as classes C, D e E de fora da explosão do marketing móbile, que precisa de conexões 3G, acesso á banda larga. Os preços ainda são altos impossibilitando o
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    87 acesso. Esta tecnologiacresceu por causa do GPS (Global Positioning System ou geoposicionamento por satélite) ligada a conexão móbile à internet e que permite a interação das pessoas de acordo com sua proximidade ou posição geográfica. O mais popular atualmente é o site o Foursquare, onde o internauta faz entradas e saídas de lugares frequentados por eles. São inúmeras as tendências e elas estão surgindo a cada instante com todos os avanços da tecnologia moderna e da globalização. O homem está cada vez mais ligado a estas tecnologias que agilizam, organizam, criam relacionamentos e aproximam. São tecnologias interativas de informação e comunicação que evoluíram ao longo do tempo e ajudam, por meio da banda larga a acelerar o processo de divulgação tornando tudo em tempo real. Agora tudo o que vale é a informação instantânea. Uma notícia leva apenas alguns segundos para se propagar nas redes sociais, blogs e jornais em formato digital. A comunicação em rede é feita de muitos para muitos e nunca de uma única forma. Por este motivo, a propagação é rápida. Um colapso do tempo e do espaço na divulgação da informação. Cada pessoa no mundo passa a ser um transmissor de notícias via redes sociais e blogs. É o aumento da intensidade da informação, ela é incontável e também é incontável o número de fontes e origens. As mentes estão conectadas e esta teoria é fato. A civilização entrou para este mundo e não há mais volta. Estamos assistindo a uma transformação radical nas culturas humanas que nenhum autor de ficção científica ousou prever. Vivemos em uma cultura globalizada e cibernética. E como afirma Pierre Lévy, em seu livro “Cibercultura”: “Vivemos em um mundo universal totalizante”51. 51 Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, pág. 258, 3ª edição de 2010, Copyright 1997.
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    88 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Do tempo em que o profeta Maomé escutou as palavras divinas até os dias de hoje, os meios de comunicação mudaram vertiginosamente. São incontáveis as transformações. Entre todos estes avanços, o mundo foi se modificando, passando por revoluções e guerras que dividiram povos e crenças em países, línguas e continentes. Terras foram descobertas e exploradas. Povos escravizados, realezas e impérios erguidos e destruídos. Foram muitas as mudanças e os fatos que mudaram a história para sempre e com pontos marcantes. Um dos mais significativos e, relatado em todo este trabalho, foi à distinção entre Ocidente e Oriente e principalmente, o maior ataque terrorista que dividiu a história no antes e depois. Nenhum livro de história deixará de contar para as futuras gerações o 11 de setembro, quando o Word Trade Center, o maior símbolo de grandeza dos Estados Unidos, foi derrubado por terroristas muçulmanos após um perfeito plano arquitetado por Osama Bin Laden, chefe da organização terrorista Al- Qaeda. Foram mais de três mil mortes. Não importa agora qual será o meio que estas novas gerações conhecerão a história, por e-book - livro eletrônico -, em tablets, computadores, livros impressos, contadores de história ou educadores. Será sempre passada e repassada, estudada, lembrada e relembrada. Hoje, as novas gerações estão nos ensinando que a história, conhecimento e informação devem ser compartilhados e está além do lápis e papel. A história é um dos meios de transmissão, é reflexo claro do crescimento do mundo, um meio em que conseguimos saber dos fatos que marcaram nossa civilização que chegou a um estágio de crescimento global e de total integração por causa de um dos maiores avanços tecnológico criado pelo homem: a Internet. A comunicação é tudo e o mundo soube utilizar muito bem este meio para reverberar por séculos os acontecimentos. Ocorreram muitas separações ao longo do tempo. Elas são fortes e inconfundíveis. Dividiram povos e crenças religiosas, idiomas, culturas, desenvolvimento econômico, social e principalmente político. Este último provocando duras consequências em algumas nações, pois diálogos foram
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    89 cortados entre osmais importantes chefes de Estados do mundo. Vimos assim, diminuir as chances de paz entre nações e a piora da situação de jovens que hoje clamam por melhores condições de trabalho, qualidade de vida e um governo democrático justo para que possam continuar a terem esperanças em seus países. A evolução foi marcada por símbolos, pinturas, cartas, livros, telégrafo, fotografia, telefone, rádio, televisão. O homem foi a Lua, realizou por várias vezes viagens especiais, o mundo passou por duas grandes Guerras Mundiais, genocídios incontáveis, revoluções. Fatos que marcaram civilizações e modificaram o mundo. Hoje com a Internet, os fatos históricos não estão perdidos e muito menos esquecidos. Ao contrário, são estudados e comentados, com opiniões repletas de profundo conhecimento de jovens, professores, mestres, doutores, sempre interessados em compartilhar e repassar este conhecimento e informação. O que esperamos além da internet, ninguém pode prever, mas concluímos com este trabalho que os avanços estão sendo realizados em uma velocidade que nem a luz consegue acompanhar. Que a civilização ainda passará por muitas outras modificações e rupturas e cada vez mais o homem terá que se adaptar as transformações exigidas por estas descobertas. E são com esta tecnologia, a Internet, que jovens muçulmanos estão conseguindo fazer com que o mundo escute os seus desejos. Não querem mais que o Ocidente os enxergue como uma civilização ultrapassada, gangue de radicais irascíveis e muito menos terroristas. Eles não querem também ser vistos como um povo cultural e socialmente atrasado. Uma discriminação que se espalhou e acabou tornando-se uma xenofobia incontrolável por qualquer homem, mulher, criança ou idoso muçulmano. O Ocidente esqueceu a força e o poder que o Oriente teve na formação do mundo, esqueceu sua história e sua contribuição para o crescimento da civilização. Engana-se quem olha para o Irã como uma nação estagnada só porque ela é comandada de forma teocrática, por um conselho clerical formada por Aiatolás e que tem um presidente nada popular mundialmente. Sua forma de governar é observada de perto pelas grandes potências mundiais.
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    90 “Dentro de um contexto histórico de longa duração, os 30 anos do regime islâmico representam um período curto, muito curto, para qualquer julgamento. Seus ancestrais dominaram impérios por duzentos, trezentos, quinhentos anos. E ainda que se tome a conjuntura recente, o observador atento verá mudanças profundas na era pós- revolução de 1979, a começar pela demografia.”52 O Irã do século XXI é uma nação jovem com menos de 25 anos. É uma nação de blogueiros, milhares de usuários do Twitter, presente fortemente nas redes sociais, com 23 milhões de acesso à Internet e 45 milhões de celulares disponíveis para realizar qualquer tipo de manifestações. Uma nação de mulheres universitárias, que podem estudar, conseguir um diploma universitário e até mesmo conseguir o PhD, mas que depois se tornam apenas mães e esposas. Este é um dos motivos das insatisfações, principalmente das jovens iranianas fortemente presentes nas manifestações de junho de 2009 na capital Teerã. Não foi somente a rápida contagem de votos e a declaração de que Ahmadinejad estava confirmado como presidente do Irã. Este foi o estopim que acabou por levar os jovens às ruas, trouxe à tona, todas as angustias e insatisfações que tomam conta das mentes destes jovens. Estas mulheres universitárias trabalham fora, mas não ocupam altos cargos, dirigem e protestam como a estudante de música Neda Soltan que morreu pelo que acreditava. Os iranianos com menos de 25 anos querem um país livre, democrático, com princípios éticos, separando religião do Estado, sem que a lei islâmica possa administrar e vigiar seus passos e pensamentos. Eles respeitam sua cultura e religião, mas querem esta separação para que possam viver melhor no mundo de hoje completamente modernizado e globalizado. No Irã do século XXI existe uma sociedade pulsante, que movimenta o país e o empurra para frente. “Um caldeirão fervilhante, no qual se misturam ingredientes como história, nacionalismo, juventude, determinação, 52 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.228
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    91 orgulho, superação, desejo de mudanças, sonhos, e o deslumbramento com o mundo que se tornou pequeno e próximo pelas telas do computador.”53 Foi uma Revolução Digital? Ela ganhou este nome e ficou popularizada desta forma. Revolução Digital porque usaram as ferramentas mais avançadas da Internet, os celulares de última geração e as redes sociais estavam no meio do furacão de um levante que sacudiu o mundo. O que aconteceu no Irã nos dias das manifestações nas ruas de Teerã foi definido por muitos por Rebelião 2.0, apesar de muitos estudiosos discordarem do fato. Mas, não podemos deixar de observar que talvez tenha realmente sido a primeira da história e certamente, a maior desde que a Internet tornou-se uma rede popular e mundialmente usada e famosa. Os estudiosos em comunicação nunca haviam presenciado uma manifestação tão forte até então feito por meio de uma ferramenta de comunicação de massa. Jovens muçulmanos ergueram seus celulares e enfrentaram sem medo a Guarda Revolucionária. Esta foi a “arma” dos iranianos em junho de 2009. Fotografavam, gravavam e postavam tudo o que enxergavam pela frente. Reuniões foram marcadas em 140 caracteres, manifestações tiveram seus pontos de encontro divulgados em redes sociais e SMS. Um Levante que pelo lado dos jovens não teve o barulho de um único tiro e sim o som do clique das máquinas digitais. Eles preferiram a tecnologia e a ponta dos dedos para informar ao mundo à luta que estavam travando e o que estava realmente acontecendo em seu país. Os iranianos mostraram um potencial que até então o Ocidente ainda não tinha notado: a força avassaladora das redes sociais. Eles souberam utilizar o que a tecnologia e seus avanços proporcionam. Fizeram sim, uma Nova Revolução no Irã e mostraram que possuem voz, capazes de qualquer coisa, até mesmo o sacrifício para conquistar os sonhos de uma democracia justa e liberdade de expressão. 53 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.229
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    92 Revolução não se faz em redes sociais, se faz nas ruas. Mas, podemos dizer que o Twitter, Facebook, YouTube e celulares ampliam as vozes e transportam a informação de uma forma que os pais desses jovens não tiveram na Revolução Islâmica de 1979. Os iranianos do século XXI conseguiram enxergar que as AK-47 deveriam ser aposentadas, a “arma” principal era o celular e as redes sociais para que eles pudessem se reunir e mostrar aos Aiatolás e ao Ahmadinejad que estavam insatisfeitos e que fariam barulho por toda aquela insatisfação e todos aqueles anos de repressão. Mostraram que sabiam mais do que o governo dominar estes avanços, estavam à frente da polícia repressora e que eram capazes de muito mais do que o ocorrido em 1979. A “arma” deles era mais poderosa e atingia muito mais rápido do que se poderia imaginar. A Internet tem um poder que eles sabiam e que os governantes desconheciam. Esta foi a grande vantagem desta Revolução. Eles conseguiram realizar a maior manifestação pública jamais vista no Irã desde 1979. Foi uma revolução de massa que acuou o governo. As redes sociais não conseguem consertar as profundas mazelas provocadas pelo governo iraniano ou até mesmo em outros países que também utilizaram as redes sociais para marcar encontros e protestar contra seus governos ditatoriais. Assim como o Irã, todo o Oriente Médio está passando por profundas mazelas que incluem frustrações políticas e econômicas. As mídias e redes sociais ajudaram a tornar as queixas mais urgentes e difíceis de serem ignoradas, apesar da censura à Internet no Irã ser altíssima. Segundo um ranking da liberdade na Internet, realizada entre 37 países pelos Estados Unidos, em 2010, o Irã ficou com a pontuação máxima, cerca de 89% de repressão . Mesmo assim, os @rebeldes, como ficaram conhecidos, perceberam que suas vozes poderiam ser ouvidas em grande escala. Qualquer notícia poderia se espalhada rapidamente, falariam com muitas pessoas ao “mesmo tempo” e, proporcionava para eles relativa liberdade de expressão. Apesar de terem cunhado o termo “Revolução Twitter”, muitos sobrecarregaram de expectativas às asas desta rede social. O microblog pareceu a panaceia antiditaduras.
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    93 “Houve uma sobrevalorização do Twitter. O país contou com menos de 1.000 usuários ativos. O maior volume de informações propagadas no microblog veio do Ocidente, de pessoas que não estavam no local. Quando alguém comentou que havia 700.000 pessoas protestando em frente a uma mesquita, descobriu-se que apenas cerca de 7.000 pessoas compareceram”.54 Se estas informações são ou não verdadeiras, não importa. Eles estavam presentes nas praças e nas redes trocando informações e pressionando o governo. Ferramentas ou não, os iranianos e qualquer jovem não poderá nunca esquecer que as redes sociais são apenas ferramentas, meios de comunicação tecnológico que permite se fazer ouvir, pois uma mensagem postada no Twitter, foi postada para o mundo e não para um círculo de amigos ou uma pequena comunidade. Por este motivo, que as manifestações do Irã ganharam rapidamente o mundo. Um dos maiores ganhos foi à modificação de postura da rede de TV Al Jazeera, a mais importante do Oriente Médio. Abriu conta no Twitter, no Facebook, e nada escapou de seus correspondentes internacionais. As mídias e redes sociais atuaram na coordenação de informações e, assim, assumiram relevância nestas situações. “A revolução não é digital (...) são apenas ferramentas. Permitem que as pessoas organizem e comuniquem seus pensamentos de maneira mais eficiente (...) Pode ser usada pelos dois lados do conflito.”55 E foi o que aconteceu. Mas, para estes jovens, isto não foi importante. Após as manifestações nas ruas de Teerã, a vida voltou ao seu curso normal no Irã, mas eles 54 Pesquisador iraniano, Hamid Tehrani, Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo 55 Eric Schmidt, Ex-presidente do Google, entrevista Revista Veja, 2 de março de 2011.
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    94 deixaram marcas profundase a sensação de que a qualquer momento eles podem voltar a fazer barulho para que o governo e o mundo voltem a escutá-los. Não foi muito barulho por nada. Eles ensinaram tanto ao Oriente quanto ao Ocidente que é possível ir às ruas e protestar contra governos ditatoriais, repressão e todo tipo de corrupção. Esta última para sobreviver décadas atrás de décadas move os pilares econômicos e sociais do mundo globalizado, humilhando seus povos e tirando o direito de oportunidade de uma vida digna e melhor. Mostraram para o Ocidente como utilizar de forma consciente os últimos avanços tecnológicos. As manifestações em massa agora são apenas iniciativas individuais e como dizem as jornalistas Adriana Carranca e Márcia Camargos, permanecerão até que os iranianos encontrem um caminho comum. As transformações que os iranianos querem não são encontradas no Twitter ou Facebook e sim na realização de seus desejos. O tabuleiro tanto das relações internacionais quanto nacionais são bem complexas. O jogo é tenso, mas os jovens iranianos não perdem a esperança e eles já conseguiram mostrar para o mundo e ao seu governo que estão insatisfeitos e entendem de avanços tecnológicos. Apesar das proibições e o nível de repressão aumentar eles possuem “armas poderosas” que espalham as suas palavras, apesar de também saberem que Internet não é garantia de democracia e que, estas ferramentas podem provocar não apenas vendavais contra ditaduras, mas também brisas para democracias. Mas este é o Islamismo 2.0. Jovens muçulmanos apaixonados por redes sociais, por tecnologia, cinema, cultura, arte, música, tanto quanto o jovem ocidental. Amam tecnologia, celulares modernos, chats e todas as modernidades que o Ocidente utiliza sem a preocupação e medo. A diferença entre estes jovens são os anseios e os desejos. Os planos de vida podem ser diferentes, mas concluímos com toda certeza que os jovens orientais sabem muito mais o valor da liberdade de expressão do que um jovem ocidental. Isto eleva o grau de preocupação com o seu futuro. Esta falta de liberdade de expressão acentua o poder e a vontade de uso das redes sociais. Mesmo com a milícia Basij trabalhando de perto para o governo e totalmente infiltrados em todos os locais possíveis e imagináveis, estes jovens não se intimidaram e fizeram a sua manifestação, a sua Revolução Digital. Em vez de balas os iranianos dispararam
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    95 palavras em redessociais e assim, puderam ser ouvidos pelo mundo, inclusive o Ocidental. E para finalizar este trabalho, concluímos que as redes sociais ajudaram e continuarão a ajudar manifestações, no crescimento profissional, no compartilhamento de conhecimento e informação de qualquer jovem e civilização. E como diz o escritor e consultor canadense, Don Tapscott em seu livro “A hora da geração digital”: “Isso não quer dizer que a tecnologia anda instigando levantes populares pelo mundo. Apenas mudou o modo como elas são feitas. (...) Antigamente saiam colando cartazes em postes, agora usam redes sociais.”56 56 Tapscott, Don, “A Hora da Geração Digital”, Editora A Negócios, capítulo 11, Em defesa do futuro, 2010.
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    96 5 REFERÊNCIAS 1 Magnoli, Demétrio, Terror Global, São Paulo, PubliFolha, Série 21, pág. 7, 2008. 2 Lewis, Bernard, A Crise do Islã - Guerra Santa e Terror Profano, Rio de Janeiro, Zahar Editor pág.11, 2003. 3 Pecequilo, Cristina Soreanu, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo, artigo; “A estranheza da democracia”, site Carta Maior, de 12/02/2011. http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17431 4 Demant, Peter; O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004 5 Santuário dos muçulmanos em Meca 6 Livro Sagrado dos muçulmanos que reúne todas as revelações de Deus, pelo Arcanjo Gabriel para o profeta Maomé. 7 Demant, Peter - O Mundo Muçulmano, São Paulo, Editora Contexto,, Introdução, 2004 8 Do árabe hijra, “emigração”, quando acontece a partida de Maomé de Meca para Medina, em 622, e corresponde ao ano inicial do calendário muçulmano, calculado de acordo com o segundo ciclo lunar. 9 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 19 10 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 45 11 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 19 12 Huntington, Samuel P.,O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 21 13 Huntington, Samuel P. , O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 33 14 Kamel, Ali, “Sobre o Islã”, 2007, Editora Nova Fronteira, pág.124, 15 Huntington, Samuel P., O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 58
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    97 16 Fonseca, Ana Cláudia; Teixeira Duda e Carvalho, Julia, Revista Veja, Edição 2216, ano 44, nº19, 11 de maio de 2011, Editora Abril, pág. 102 17 Huntington, Samuel P., O Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, 1996, Editora Objetiva, pág. 79 18 Lewis, Bernard, O que deu errado no Oriente Médio?, 2002, Editora Zahar, pág, 180 e 181. 19 Demant, Peter, O Mundo Muçulmano, Editora Contexto, 2004, pág. 330. 20 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág 68 21 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág. 55 22 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 23 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 24 * Não podemos afirmar que esta economia é tão próspera nos dias de hoje. Com a crise econômica mundial, a economia americana entrou em colapso e segundo, o jornal “O Globo” edição de 15 de julho de 2011, o governo americano apresenta uma dívida de US$ 14,3 trilhões. Para honrar seriam necessários vários cortes internos. 25 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 26 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011, pág. 277. 27 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em tempos Traiçoeiros”, E#ditora, Leya, 2011, pág. 277.
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    98 28 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 29 Kinzer, Stephen, jornalista e escritor do livro: “Todos os Homens do Xá – O Golpe Norte-Americano no Irã e as Raízes do Terror no Oriente Médio, Editora Bertand Brasil, 2003, em entrevista ao jornalista da Globo News, Jorge Pontual, para o Programa Milênio, janeiro de 2011, com inserção no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=JYsxSFZa648 30 Elbaradei, Mohamed, “A Era da Ilusão – A Diplomacia Nuclear em Tempos Traiçoeiros”, Editora, Leya, 2011, pág. 325.- Discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, durante a sua posse no dia 20 de janeiro de 2009. 31 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32 32 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág. 102 e 103 33 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 32 34 Pecequilo, Cristina Soreanu, artigo da professora de Relações Internacionais da Unesp, “Do Xá ao Aiatolá – os 30 anos da Revolução Iraniana”, publicada na Revista Leituras da História – Ciência e Vida, Ano II, nº 17, Editora Escala, 2009, pág. 34 35 Daryaee, Touraj, professor de história iraniana, em entrevista ao jornalista William Vieira, para Revista Carta Capital, ano XV, nº601, 23 de junho de 2010, Editora Confiança, página 54. 36 Sequeira, Cláudio Dantas e Villameá, Luiza, matéria de capa da Revista Isto É, “A Epidemia da Liberdade”, Editora Três, ano 35, nº2155, 2 de março de 2011, pág.80. 37 Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 97. 38 Zahra Rahnavard, mulher de Mirhossein Mousavi, líder da oposição no Irã, Evelin Guilherme e Mendonça, Ricardo, “O Levante do Irã”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 101. 39 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 102
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    99 40 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 103 41 Pereira, Rafael, “Rebelião 2.0”, Revista Época, nº 579, de 22 de junho de 2009, pág. 104 42 Recuero, Raquel, especialista em redes sociais e professora da Universidade Católica de Pelotas, no Rio Grande do Sul, em entrevista a Revista Época, de 22 de junho de 2009, nº579, Editora Globo, pág, 106. 43 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.133 44 Jovem iraniano, não identificado pelos jornalistas correspondentes da Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo, pág. 104. 45 Keen, Andrew, O Culto ao Amador, Editora Zahar, 2007, orelha do livro. 46 Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, orelha da contra capa, 3ª edição de 2010, Copyright 1997. 47 Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição, 2010, pág.83. 48 Site UOL Notícias Tecnologia (2011) , http://tecnologia.uol.com.br/album/numros_tecnologia_album.jhtl#fotonav=2 49 YouTube, Social Media Revolution 2 Refresh (revisado), http://www.youtube.com/watch/v=sIFYPQjYhv9, 50 Gabriel, Martha, Marketing na Era Digital – Conceitos, Plataforma e Estratégias, Editora Novatec, 1ª edição, 2010, pág. 85 e 86 51 Lévy, Pierre, Cibercultura, Editora 34, pág. 258, 3ª edição de 2010, Copyright 1997. 52 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.228 53 Carranca, Adriana e Camargos, Márcia, “O Irã sob o Chador – Duas brasileiras no país dos aiatolás”, Editora Globo, 2010, pág.229 54 Pesquisador iraniano, Hamid Tehrani, Revista Época, de 22 de junho de 2009, Editora Globo 55 Eric Schmidt, Ex-presidente do Google, entrevista Revista Veja, 2 de março de 2011.
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    100 56 Tapscott, Don, “A Hora da Geração Digital”, Editora A Negócios, capítulo 11, Em defesa do futuro, 2010.