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IGREJA E CULTURA/SOCIEDADE
Por: Nayara Santana Naves 11/2015
Ouvi recentemente em uma palestra sobre Igreja e Cultura, ministrada por
Caio Batista, num evento da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil
denominado NITRO, uma fala que parafraseada diz mais ou menos o seguinte:
“O grande problema da igreja é que ela possui a mesma mania da classe média
brasileira e americana: a de querer homogeneizar as pessoas, impondo-lhes um
padrão único. É por essa razão que os de fora da igreja não se encaixam, porque a
igreja criou uma fôrma única para uma sociedade multicultural. A igreja está de fato
atrasada culturalmente. A igreja tem uma mentalidade alienante e distante da
cultura”.1
Quando Caio Batista fala de igreja, ele se refere às diversas instituições
cristãs tomadas como um todo, mas enfoca de modo especial a realidade das
igrejas locais de sua denominação2
. Meu alvo aqui é ampliar o leque, tratando o
termo igreja de modo mais geral. Por igreja entendo a multiplicidade de igrejas
cristãs protestantes locais, que embora inseridas em um contexto cultural, agem
muitas vezes manifestando uma completa alienação e exigência de que a sociedade
a ela se submeta ou então, que acomodaram-se à cultura de modo a perderem a
sua identidade cristã singular.
Um problema existe de fato quando se pensa no tema “Igreja e Cultura” e/ou
“Igreja e Sociedade”, porque a relação existente entre as instituições religiosas que
aqui chamo de igreja e a sociedade (especialmente a urbana e ocidental) como um
todo, quase sempre é polarizada: ou a postura é de acomodação ou é de
dominação. E como sabe-se desde muito tempo, “A virtude está no equilíbrio”.3
Mas
como encontrar tal equilíbrio ideal? No século XXI, com a configuração cultural plural
existente, qual é o caminho equilibrado a ser trilhado pela igreja em sua relação com
a cultura e a sociedade?
1
Paráfrase de algumas falas de Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e
01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP
2
Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB)
3
Frase do filósofo Aristóteles em http://agazetadoacre.com/noticias/a-virtude-esta-no-equilibrio/
Esta pergunta é muito difícil de ser respondida, porque o tema não pode ser
tratado de maneira simplista ou leviana, com afirmações diretas como “deve-se fazer
isso” ou “não deve-se fazer aquilo”. O assunto é complexo e requer análise bem feita
e proposta de caminhos diversos e possíveis, pois o simples fato de propor um
caminho único já seria a repetição de um sério erro cultural: o de ignorar a
pluralidade da sociedade contemporânea.
Pois bem, analisemos a realidade para que possamos caminhar para alguma
proposta de solução. A cultura e a sociedade pós-moderna podem ser resumidas, a
meu ver, em três conceitos centrais: pluralidade, secularização e exaltação da
liberdade individual. Um olhar distraído basta para que se note a presença dessas
três coisas no meio do ambiente cultural dos que vivem no século XXI.
Pluralidade: nunca houve tanta variedade de esteriótipos, opiniões, escolhas
sexuais, gostos culturais, literatura, mercado musical, oferta religiosa, tribos urbanas
e opções pessoais de vida como se vê hoje quando se anda pelas ruas das cidades.
Secularização: Estado laico, repugnância ao discurso moral com argumentação
religiosa no espaço público, razão como critério em vez da revelação, desconfiança
da instituição religiosa, aversão a qualquer discurso religioso de exclusividade são
fatos presentes na sociedade ocidental desde a fixação dos valores iluministas.
Exaltação da liberdade individual: hedonismo, consumismo, uso de entorpecentes,
libertinagem sexual, construções familiares opostas ao conceito tradicional de
família, expressões como “meu corpo, minhas regras”4
, recusa da imposição de
limites sociais morais, sincretismo religioso, fé vivida à parte de uma instituição
religiosa apontam para o monumento erguido à liberdade humana5
.
Este é um breve retrato da sociedade e da cultura existentes hoje no
Ocidente. E a igreja? Como pode ser definida na Pós-Modernidade? Bom, a igreja é
definida no dicionário como: “substantivo feminino que possui alguns significados
(dentre outros): conjunto dos fiéis de uma religião; autoridade eclesiástica, edifício
4
Slogan que se espalhou nas redes sociais e usado pelas frentes do feminismo e da defesa do aborto.
5
C. S. Lewis apud KELLER, p. 66, 2015 chama o inferno de “o maior monumento à liberdade humana”. Achei
que a expressão cabia bem nesta sentença em questão.
dedicado ao culto de qualquer confissão cristã”6
. Um autor cristão define a igreja nos
seguintes termos:
“No Novo Testamento a palavra "Igreja" é traduzida da palavra grega "ekklesia", que
significa um grupo de indivíduos chamados para formar uma reunião ou assembleia.
[...] No Novo Testamento a palavra é mais vulgarmente usada para descrever um
grupo de crentes no Senhor Jesus Cristo. A Igreja não é uma organização, mas um
organismo. Não é uma mera instituição, mas uma unidade viva. É a comunhão de
todos os que nasceram de novo e participam da vida de Cristo e, consequentemente,
estão unidos uns aos outros pelo Espírito-Santo. É uma simples comunhão de
pessoas sem caráter de instituição humana. No Novo Testamento há muitos títulos
descritivos da Igreja”.7
Em termos simplistas, a igreja é, para a sociedade, uma mera
instituição religiosa e para ela mesma, a reunião de todos os (as) discípulos(as) de
Jesus Cristo. Agora pergunto: o que o entendimento desses dois significados do
termo igreja define para nós? Define, a meu ver, dois conceitos centrais: o primeiro
diz que a igreja é um grupo social com identidade particular e exclusiva; e o segundo
diz que a igreja é a reunião de indivíduos da sociedade que se unem em torno da fé
em Jesus Cristo.
Agora que entendemos sucintamente o que é a sociedade e a cultura, e o que
é a igreja, voltemos-nos para a análise do enorme problema apresentado no início
do texto. Na relação “Igreja e Cultura” e “Igreja e Sociedade” têm existido ao longo
do tempo, duas posturas polarizadas: acomodação ou dominação. Como
entendemos esses dois pólos? Acomodação: é o processo pelo qual a igreja
renuncia a sua identidade particular e exclusiva para identificar-se com a cultura e a
sociedade. Nesse processo, Jay Bauman diz que “a igreja simplesmente abraça a
cultura sem avaliar nela o que é bom e o que é ruim”.8
Qual o problema de fazer
isto? O problema reside no fato de que a igreja deixa de ser igreja (segundo as
definições já vistas) quando se permite vivenciar uma fusão com a cultura. Segundo
6
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (consulta online)
7
William McDonald apud © irmaos.net. 1999-2013
8
Fala de Jay Bauman apud Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015
no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP
o Pacto de Lausanne9
, “em todas as culturas humanas existem as marcas da graça
de Deus e as marcas do pecado”; logo, assim como não se pode rejeitar a cultura,
não se pode acolher a cultura sem ressalvas.
Dominação: é o processo pelo qual a igreja se coloca contra a cultura,
considerando-se como cultura à parte que deve ser imposta a todos sem distinção.
Nesse processo, Jay Bauman diz que “a igreja coloca-se como radicalmente contra
a cultura, sentindo-se superior a ela, espiritualizando tudo”.10
Onde está o problema
desta postura? O problema está na postura arrogante da igreja que ignora o fato de
que ela é uma reunião de indivíduos pertencentes à cultura que ela chama de
secular, mas na qual ela está inserida e da qual ela também faz parte. Ao
espiritualizar tudo, a igreja mantém a falsa e ilógica ilusão de que ela, enquanto
igreja, vive numa outra esfera que não a cultural. A citação anterior do Pacto de
Lausanne nos mostra que se na cultura, há marcas tanto da graça como do pecado,
assim como ela não pode ser inteiramente abraçada, ela também não pode ser
julgada e marginalizada.
A igreja precisa encontrar o caminho equilibrado entre esses dois pólos. Tais
extremos têm levado a igreja a fracassar em sua vocação de ser sal da terra e luz do
mundo.11
De um lado, a igreja é irrelevante porque se conforma aos valores da
cultura pós-moderna que visivelmente carece de redenção, visto estar manchada
pelo pecado em todas as dimensões possíveis. De outro lado, a igreja é irrelevante
porque em vez de encarnar-se na cultura como Jesus Cristo se encarnou e habitou
entre nós12
, ela se distancia da cultura com uma postura de julgamento que não lhe
é devida, já que ela foi chamada para amar e servir e não para julgar ou condenar.
Dos autores cristãos que têm se debruçado sobre a temática “Igreja e
Sociedade”, destaco Timothy Keller, pastor da Redeemer Presbyterian Church13
,
9
Menção de Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso
NITRO da IPIB em Sumaré – SP ao Pacto de Lausanne (documento produzido em 1974 em Lausanne I na Suiça).
10
Fala de Jay Bauman apud Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015
no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP
11
Termos emprestados de uma fala de Jesus em Mateus 5.13-16, Novo Testamento, Bíblia Sagrada.
12
João 1.14 referindo-se a Jesus Cristo, Novo Testamento, Bíblia Sagrada.
13
Comunidade localizada no distrito de Manhattan em Nova Iorque nos Estados Unidos.
que possui uma literatura muito interessante, que consegue falar a cristãos e a não-
cristãos, que é embasada biblicamente e ao mesmo tempo inteligível racionalmente,
e que propõe caminhos de interação entre a igreja e a cultura e sociedade.
O livro recém-publicado, denominado em português “Igreja Centrada”14
responde ao problema apresentado no início do texto quando em explana em
muitíssimas páginas, como a igreja pode ser relevante para a cultura sendo fiel ao
Evangelho15
. Em outras palavras, nesaa obra Keller explana a respeito de como a
igreja pode ao mesmo tempo ser centrada no Evangelho e na cultura. Ele desfaz as
polaridades criticando os extremos e propondo a terceira via equilibrada que é o
caminho da relevância cultural. A obra citada merece cuidadoso estudo, visto ser
extensa e profunda.
Para os fins deste pequeno texto, deixo a obra mencionada como
recomendação de aprofundamento da temática, e para não deixar a análise feita
sem nenhuma proposta de caminho para a solução do problema exposto, opto por
brevemente comentar o texto do mesmo autor (Timothy Keller) denominado
“Cristãos e a cultura”. Nesse texto, Keller define a cultura de uma sociedade como “o
conjunto de práticas, atitudes, valores e crenças que estão baseados no
entendimento comum das grandes questões da vida”.16
A seguir, ele comenta as três abordagens adotadas pelos cristãos na relação
da igreja com a cultura e a sociedade: a abordagem conversionista, que deseja
converter o máximo de indivíduos de uma sociedade para que a cultura seja mudada
automaticamente; a abordagem política, que usa o Estado para estabelecer leis
baseadas na teologia cristã, como se isso fosse cristianizar a sociedade (como
ocorreu na Idade Média a partir de Constantino); e a abordagem separatista, que
rejeita a ideia de que os cristãos possam influenciar a cultura. Ao contrário, eles
devem viver dentro das igrejas, separados da cultura externa. Nenhuma dessas
abordagens conseguiu produzir uma sociedade cristã ao longo da história.
14
Publicação da Editora Vida Nova de 2014, livro de 464 páginas com o título em português ”Igreja Centrada”
15
Entenda-se por Evangelho a boa-nova de Jesus Cristo contida nos evangelhos do Novo Testamento.
16
KELLER, 2009, em http://reforma21.org/
Qual é então, o caminho do equilíbrio? Qual a proposta de Timothy Keller, no
texto que está sendo comentado, que responde a questão de que estamos tratando?
Qual é a terceira via que foge da acomodação e da dominação e estabelece uma
relação saudável e relevante entre a igreja e a cultura? Keller começa a sua
proposta mostrando qual o verdadeiro alvo de Deus para este mundo: renovação e
instauração do Reino de Deus entre nós. Ele diz que “O propósito da redenção não
é ajudar indivíduos a fugir desse mundo. É a vinda do Reino de Deus para renovar o
mundo”.17
Assim sendo, a igreja não pode acomodar-se a cultura e a sociedade,
porque precisa ser agente do Reino de Deus sendo sal e luz no meio delas, e
também não pode separar-se da cultura e da sociedade, porque Deus deseja
renovar e não destruir a cultura e a sociedade.
Na prática, o que a igreja, acostumada a tantos anos perambulando pelos
pólos da dominação e da acomodação, pode fazer para trilhar o caminho ideal e
equilibrado? Keller trabalha quatro sentenças que exprimem um caminho de solução
para o problema apresentado no início do texto. Menciono-as aqui: 1) Cristãos
devem viver plenamente na cidade; 2) Cristãos deveriam ser uma contracultura
dinâmica na cidade; 3) Cristãos deveriam ser uma comunidade radicalmente
comprometida com o bem da cidade como um todo; 4) Cristãos deveriam ser um
povo que integra sua fé com seu trabalho. E finaliza falando de seu desejo de que a
Redeemer18
seja parte da renascença do engajamento cultural cristão na cidade
onde está inserida.
O que fica para nós depois dessa exposição toda? Fica a afirmação de que a
relação entre “Igreja e Cultura” e/ou “Igreja e Sociedade” não deve ser nem de
acomodação nem de dominação, por todos os motivos já tratados. Fica o
entendimento das definições da cultura e sociedade pós-modernas e da igreja. Fica
a explanação dos problemas causados pelas posturas polarizadas tomadas pela
igreja ao longo do tempo. Fica a sugestão de estudo do livro “Igreja Centrada” de
Timothy Keller. Fica o caminho de ação proposto por esse autor no texto “Cristãos e
a cultura”. E fica o meu sincero desejo de que sejam profícuas as novas propostas
dos autores cristãos que têm martelado a ideia de uma igreja relevante para a
17
KELLER, 2009, em http://reforma21.org/
18
Ver nota 12
cultura e a sociedade. Que a igreja tenha a consciência de John Wesley de que a
sua paróquia é o mundo19
e que, como recomendou Karl Barth, a igreja ande com a
Bíblia em uma mão e jornal do dia na outra20
. Sejamos relevantes!
19
“Considero o mundo inteiro como a minha paróquia.” ―John Wesley em http://kdfrases.com
20
"É preciso segurar numa mão a Bíblia e na outra o jornal".― Karl Barth em http://teologia-
contemporanea.blogspot.com.br/
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BATISTA, Caio. Palestra “Igreja e Cultura”. Ministrada nos dias 31/10 e
01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré – SP.
BAUMAN, Jay. Palestra “Igreja Missional e seus Desafios”. Ministrada no
Congresso Atos 29 em 2014 no Rio de Janeiro - RJ.
KELLER, Timothy. A fé na era do ceticismo: como a razão explica Deus.
Tradução de Regina Lyra. São Paulo: Vida Nova, 2015. Capítulo 5.
KELLER, Timothy. Cristãos e a cultura. Tradução de Filipe Schulz. Disponível em:
http://reforma21.org/artigos/cristaos-e-a-cultura.html. 2009
Sites, menções e palestras mencionadas nas notas de rodapé ao longo do texto.

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Igreja e Cultura/Sociedade

  • 1. IGREJA E CULTURA/SOCIEDADE Por: Nayara Santana Naves 11/2015 Ouvi recentemente em uma palestra sobre Igreja e Cultura, ministrada por Caio Batista, num evento da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil denominado NITRO, uma fala que parafraseada diz mais ou menos o seguinte: “O grande problema da igreja é que ela possui a mesma mania da classe média brasileira e americana: a de querer homogeneizar as pessoas, impondo-lhes um padrão único. É por essa razão que os de fora da igreja não se encaixam, porque a igreja criou uma fôrma única para uma sociedade multicultural. A igreja está de fato atrasada culturalmente. A igreja tem uma mentalidade alienante e distante da cultura”.1 Quando Caio Batista fala de igreja, ele se refere às diversas instituições cristãs tomadas como um todo, mas enfoca de modo especial a realidade das igrejas locais de sua denominação2 . Meu alvo aqui é ampliar o leque, tratando o termo igreja de modo mais geral. Por igreja entendo a multiplicidade de igrejas cristãs protestantes locais, que embora inseridas em um contexto cultural, agem muitas vezes manifestando uma completa alienação e exigência de que a sociedade a ela se submeta ou então, que acomodaram-se à cultura de modo a perderem a sua identidade cristã singular. Um problema existe de fato quando se pensa no tema “Igreja e Cultura” e/ou “Igreja e Sociedade”, porque a relação existente entre as instituições religiosas que aqui chamo de igreja e a sociedade (especialmente a urbana e ocidental) como um todo, quase sempre é polarizada: ou a postura é de acomodação ou é de dominação. E como sabe-se desde muito tempo, “A virtude está no equilíbrio”.3 Mas como encontrar tal equilíbrio ideal? No século XXI, com a configuração cultural plural existente, qual é o caminho equilibrado a ser trilhado pela igreja em sua relação com a cultura e a sociedade? 1 Paráfrase de algumas falas de Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP 2 Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB) 3 Frase do filósofo Aristóteles em http://agazetadoacre.com/noticias/a-virtude-esta-no-equilibrio/
  • 2. Esta pergunta é muito difícil de ser respondida, porque o tema não pode ser tratado de maneira simplista ou leviana, com afirmações diretas como “deve-se fazer isso” ou “não deve-se fazer aquilo”. O assunto é complexo e requer análise bem feita e proposta de caminhos diversos e possíveis, pois o simples fato de propor um caminho único já seria a repetição de um sério erro cultural: o de ignorar a pluralidade da sociedade contemporânea. Pois bem, analisemos a realidade para que possamos caminhar para alguma proposta de solução. A cultura e a sociedade pós-moderna podem ser resumidas, a meu ver, em três conceitos centrais: pluralidade, secularização e exaltação da liberdade individual. Um olhar distraído basta para que se note a presença dessas três coisas no meio do ambiente cultural dos que vivem no século XXI. Pluralidade: nunca houve tanta variedade de esteriótipos, opiniões, escolhas sexuais, gostos culturais, literatura, mercado musical, oferta religiosa, tribos urbanas e opções pessoais de vida como se vê hoje quando se anda pelas ruas das cidades. Secularização: Estado laico, repugnância ao discurso moral com argumentação religiosa no espaço público, razão como critério em vez da revelação, desconfiança da instituição religiosa, aversão a qualquer discurso religioso de exclusividade são fatos presentes na sociedade ocidental desde a fixação dos valores iluministas. Exaltação da liberdade individual: hedonismo, consumismo, uso de entorpecentes, libertinagem sexual, construções familiares opostas ao conceito tradicional de família, expressões como “meu corpo, minhas regras”4 , recusa da imposição de limites sociais morais, sincretismo religioso, fé vivida à parte de uma instituição religiosa apontam para o monumento erguido à liberdade humana5 . Este é um breve retrato da sociedade e da cultura existentes hoje no Ocidente. E a igreja? Como pode ser definida na Pós-Modernidade? Bom, a igreja é definida no dicionário como: “substantivo feminino que possui alguns significados (dentre outros): conjunto dos fiéis de uma religião; autoridade eclesiástica, edifício 4 Slogan que se espalhou nas redes sociais e usado pelas frentes do feminismo e da defesa do aborto. 5 C. S. Lewis apud KELLER, p. 66, 2015 chama o inferno de “o maior monumento à liberdade humana”. Achei que a expressão cabia bem nesta sentença em questão.
  • 3. dedicado ao culto de qualquer confissão cristã”6 . Um autor cristão define a igreja nos seguintes termos: “No Novo Testamento a palavra "Igreja" é traduzida da palavra grega "ekklesia", que significa um grupo de indivíduos chamados para formar uma reunião ou assembleia. [...] No Novo Testamento a palavra é mais vulgarmente usada para descrever um grupo de crentes no Senhor Jesus Cristo. A Igreja não é uma organização, mas um organismo. Não é uma mera instituição, mas uma unidade viva. É a comunhão de todos os que nasceram de novo e participam da vida de Cristo e, consequentemente, estão unidos uns aos outros pelo Espírito-Santo. É uma simples comunhão de pessoas sem caráter de instituição humana. No Novo Testamento há muitos títulos descritivos da Igreja”.7 Em termos simplistas, a igreja é, para a sociedade, uma mera instituição religiosa e para ela mesma, a reunião de todos os (as) discípulos(as) de Jesus Cristo. Agora pergunto: o que o entendimento desses dois significados do termo igreja define para nós? Define, a meu ver, dois conceitos centrais: o primeiro diz que a igreja é um grupo social com identidade particular e exclusiva; e o segundo diz que a igreja é a reunião de indivíduos da sociedade que se unem em torno da fé em Jesus Cristo. Agora que entendemos sucintamente o que é a sociedade e a cultura, e o que é a igreja, voltemos-nos para a análise do enorme problema apresentado no início do texto. Na relação “Igreja e Cultura” e “Igreja e Sociedade” têm existido ao longo do tempo, duas posturas polarizadas: acomodação ou dominação. Como entendemos esses dois pólos? Acomodação: é o processo pelo qual a igreja renuncia a sua identidade particular e exclusiva para identificar-se com a cultura e a sociedade. Nesse processo, Jay Bauman diz que “a igreja simplesmente abraça a cultura sem avaliar nela o que é bom e o que é ruim”.8 Qual o problema de fazer isto? O problema reside no fato de que a igreja deixa de ser igreja (segundo as definições já vistas) quando se permite vivenciar uma fusão com a cultura. Segundo 6 Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (consulta online) 7 William McDonald apud © irmaos.net. 1999-2013 8 Fala de Jay Bauman apud Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP
  • 4. o Pacto de Lausanne9 , “em todas as culturas humanas existem as marcas da graça de Deus e as marcas do pecado”; logo, assim como não se pode rejeitar a cultura, não se pode acolher a cultura sem ressalvas. Dominação: é o processo pelo qual a igreja se coloca contra a cultura, considerando-se como cultura à parte que deve ser imposta a todos sem distinção. Nesse processo, Jay Bauman diz que “a igreja coloca-se como radicalmente contra a cultura, sentindo-se superior a ela, espiritualizando tudo”.10 Onde está o problema desta postura? O problema está na postura arrogante da igreja que ignora o fato de que ela é uma reunião de indivíduos pertencentes à cultura que ela chama de secular, mas na qual ela está inserida e da qual ela também faz parte. Ao espiritualizar tudo, a igreja mantém a falsa e ilógica ilusão de que ela, enquanto igreja, vive numa outra esfera que não a cultural. A citação anterior do Pacto de Lausanne nos mostra que se na cultura, há marcas tanto da graça como do pecado, assim como ela não pode ser inteiramente abraçada, ela também não pode ser julgada e marginalizada. A igreja precisa encontrar o caminho equilibrado entre esses dois pólos. Tais extremos têm levado a igreja a fracassar em sua vocação de ser sal da terra e luz do mundo.11 De um lado, a igreja é irrelevante porque se conforma aos valores da cultura pós-moderna que visivelmente carece de redenção, visto estar manchada pelo pecado em todas as dimensões possíveis. De outro lado, a igreja é irrelevante porque em vez de encarnar-se na cultura como Jesus Cristo se encarnou e habitou entre nós12 , ela se distancia da cultura com uma postura de julgamento que não lhe é devida, já que ela foi chamada para amar e servir e não para julgar ou condenar. Dos autores cristãos que têm se debruçado sobre a temática “Igreja e Sociedade”, destaco Timothy Keller, pastor da Redeemer Presbyterian Church13 , 9 Menção de Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré – SP ao Pacto de Lausanne (documento produzido em 1974 em Lausanne I na Suiça). 10 Fala de Jay Bauman apud Caio Batista na palestra “Igreja e Cultura” ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré - SP 11 Termos emprestados de uma fala de Jesus em Mateus 5.13-16, Novo Testamento, Bíblia Sagrada. 12 João 1.14 referindo-se a Jesus Cristo, Novo Testamento, Bíblia Sagrada. 13 Comunidade localizada no distrito de Manhattan em Nova Iorque nos Estados Unidos.
  • 5. que possui uma literatura muito interessante, que consegue falar a cristãos e a não- cristãos, que é embasada biblicamente e ao mesmo tempo inteligível racionalmente, e que propõe caminhos de interação entre a igreja e a cultura e sociedade. O livro recém-publicado, denominado em português “Igreja Centrada”14 responde ao problema apresentado no início do texto quando em explana em muitíssimas páginas, como a igreja pode ser relevante para a cultura sendo fiel ao Evangelho15 . Em outras palavras, nesaa obra Keller explana a respeito de como a igreja pode ao mesmo tempo ser centrada no Evangelho e na cultura. Ele desfaz as polaridades criticando os extremos e propondo a terceira via equilibrada que é o caminho da relevância cultural. A obra citada merece cuidadoso estudo, visto ser extensa e profunda. Para os fins deste pequeno texto, deixo a obra mencionada como recomendação de aprofundamento da temática, e para não deixar a análise feita sem nenhuma proposta de caminho para a solução do problema exposto, opto por brevemente comentar o texto do mesmo autor (Timothy Keller) denominado “Cristãos e a cultura”. Nesse texto, Keller define a cultura de uma sociedade como “o conjunto de práticas, atitudes, valores e crenças que estão baseados no entendimento comum das grandes questões da vida”.16 A seguir, ele comenta as três abordagens adotadas pelos cristãos na relação da igreja com a cultura e a sociedade: a abordagem conversionista, que deseja converter o máximo de indivíduos de uma sociedade para que a cultura seja mudada automaticamente; a abordagem política, que usa o Estado para estabelecer leis baseadas na teologia cristã, como se isso fosse cristianizar a sociedade (como ocorreu na Idade Média a partir de Constantino); e a abordagem separatista, que rejeita a ideia de que os cristãos possam influenciar a cultura. Ao contrário, eles devem viver dentro das igrejas, separados da cultura externa. Nenhuma dessas abordagens conseguiu produzir uma sociedade cristã ao longo da história. 14 Publicação da Editora Vida Nova de 2014, livro de 464 páginas com o título em português ”Igreja Centrada” 15 Entenda-se por Evangelho a boa-nova de Jesus Cristo contida nos evangelhos do Novo Testamento. 16 KELLER, 2009, em http://reforma21.org/
  • 6. Qual é então, o caminho do equilíbrio? Qual a proposta de Timothy Keller, no texto que está sendo comentado, que responde a questão de que estamos tratando? Qual é a terceira via que foge da acomodação e da dominação e estabelece uma relação saudável e relevante entre a igreja e a cultura? Keller começa a sua proposta mostrando qual o verdadeiro alvo de Deus para este mundo: renovação e instauração do Reino de Deus entre nós. Ele diz que “O propósito da redenção não é ajudar indivíduos a fugir desse mundo. É a vinda do Reino de Deus para renovar o mundo”.17 Assim sendo, a igreja não pode acomodar-se a cultura e a sociedade, porque precisa ser agente do Reino de Deus sendo sal e luz no meio delas, e também não pode separar-se da cultura e da sociedade, porque Deus deseja renovar e não destruir a cultura e a sociedade. Na prática, o que a igreja, acostumada a tantos anos perambulando pelos pólos da dominação e da acomodação, pode fazer para trilhar o caminho ideal e equilibrado? Keller trabalha quatro sentenças que exprimem um caminho de solução para o problema apresentado no início do texto. Menciono-as aqui: 1) Cristãos devem viver plenamente na cidade; 2) Cristãos deveriam ser uma contracultura dinâmica na cidade; 3) Cristãos deveriam ser uma comunidade radicalmente comprometida com o bem da cidade como um todo; 4) Cristãos deveriam ser um povo que integra sua fé com seu trabalho. E finaliza falando de seu desejo de que a Redeemer18 seja parte da renascença do engajamento cultural cristão na cidade onde está inserida. O que fica para nós depois dessa exposição toda? Fica a afirmação de que a relação entre “Igreja e Cultura” e/ou “Igreja e Sociedade” não deve ser nem de acomodação nem de dominação, por todos os motivos já tratados. Fica o entendimento das definições da cultura e sociedade pós-modernas e da igreja. Fica a explanação dos problemas causados pelas posturas polarizadas tomadas pela igreja ao longo do tempo. Fica a sugestão de estudo do livro “Igreja Centrada” de Timothy Keller. Fica o caminho de ação proposto por esse autor no texto “Cristãos e a cultura”. E fica o meu sincero desejo de que sejam profícuas as novas propostas dos autores cristãos que têm martelado a ideia de uma igreja relevante para a 17 KELLER, 2009, em http://reforma21.org/ 18 Ver nota 12
  • 7. cultura e a sociedade. Que a igreja tenha a consciência de John Wesley de que a sua paróquia é o mundo19 e que, como recomendou Karl Barth, a igreja ande com a Bíblia em uma mão e jornal do dia na outra20 . Sejamos relevantes! 19 “Considero o mundo inteiro como a minha paróquia.” ―John Wesley em http://kdfrases.com 20 "É preciso segurar numa mão a Bíblia e na outra o jornal".― Karl Barth em http://teologia- contemporanea.blogspot.com.br/
  • 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BATISTA, Caio. Palestra “Igreja e Cultura”. Ministrada nos dias 31/10 e 01/11/2015 no Congresso NITRO da IPIB em Sumaré – SP. BAUMAN, Jay. Palestra “Igreja Missional e seus Desafios”. Ministrada no Congresso Atos 29 em 2014 no Rio de Janeiro - RJ. KELLER, Timothy. A fé na era do ceticismo: como a razão explica Deus. Tradução de Regina Lyra. São Paulo: Vida Nova, 2015. Capítulo 5. KELLER, Timothy. Cristãos e a cultura. Tradução de Filipe Schulz. Disponível em: http://reforma21.org/artigos/cristaos-e-a-cultura.html. 2009 Sites, menções e palestras mencionadas nas notas de rodapé ao longo do texto.