GRALHA AZUL
                       GRALHA AZUL
BOLETIM ELETRÔNICO – SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES – PARANÁ – NÚMERO 10 – ABRIL - 2011


                                               SALVA-VIDAS

       Numa    noite tranquila, eu estava relendo, ou melhor, degustando o livro de Érico Veríssimo, O Senhor
Embaixador, e acabei sofrendo de uma ansiedade nada insidiosa, mas aguda e cruel, que poderia ser curada somente
pelo uso de um bom dicionário. A primeira vez foi aos quinze anos e não me lembro de ter sido assaltado por esse
sentimento desesperador. Foi na página 279, jamais esquecerei esse momento do livro e que começou mais ou menos
assim:

Michel Michel, mordomo do Embaixador de Sacramento, Don Gabriel Heliodoro, escreveu no seu diário:

- “Quando há poucos minutos ouvi soar a campainha e fui abrir a porta, tive uma surpresa. Em vez de ver Mme V.,
como esperava, tive diante de mim Mlle F. A., a bela americana loura, que sorria o seu sorriso de anúncio de
dentifrício. "Bon Dieu!"Estão agora os dois lá em cima, possivelmente já despidos e a se rebolcarem no leito
isabelino: a estátua de mármore branco e o fauno de cobre. Esquisito contraste! Gostaria de assistir à cena, metade
por interesse científico e metade por espírito fescenino. "Hêlas!"

         Pronto! O que é “fescenino” e o que é “Hêlas”? Como poderia dormir naquela noite sem saber o sentido
daquele texto. Como poderia olhar para minha mulher e filhos, amigos, parentes e vizinhos e eles suspeitassem que eu
não compreendia o significado de “fescenino”? E “Hêlas”? Olhei para meu criado-mudo e olhei os quatro mini-
dicionários empilhados ao meu lado. Senti-me mais seguro e confiante. Abri o primeiro, nada – o segundo, o terceiro e
nada, adrenalina!! Abrí o quarto – (Mini Aurélio – 8ª.Edição – de comemoração dos 100 anos) e lá estava
“FESCENINO” . Acalmei. Olhei licenciosamente para a janela, porque não ainda não tinha conseguido descobrir o tal
do „Hêlas‟, mas era muito alto, vigésimo andar, resolvi que cincoenta por cento da minha angústia já havia sido
debelada, eu poderia sobreviver para esta nova descoberta num outro dia. Em nenhum léxico encontrei. Mas fui
insistentemente atrás de uma nova descoberta. Na internet, em menos de 30 segundos havia encontrado. Que alívio!
Curado, me senti inteiro novamente. E você, como ficaria nesta situação?




          BOLETIM GRALHA AZUL – OUTUBRO – 2010                                                 PÁGINA 1
HÉLAS - 1881
                                                                           Oscar Wilde (1854–1900)

To drift with every passion till my soul           Vaguear com toda paixão até minh‟alma
Is a stringed lute on which all winds can play,    É um alaúde em que todos os ventos podem tocar
Is it for this that I have given away              Será por isso que eu sigo distante
Mine ancient wisdom, and austere control?          Minha antiga sabedoria e austero controle?


Methinks my life is a twice-written scroll         Parece-me que minha vida é um pergaminho
Scrawled over on some boyish holiday               escrito duas vezes
With idle songs for pipe and virelay,              Rabiscado em algum festejo pueril
Which do but mar the secret of the whole.          Com canções preguiçosas para a flauta e virelai,
                                                   As quais apenas desfiguram o segredo do todo.

Surely there was a time I might have trod          Certamente houve um tempo em que eu poderia trilhar
The sunlit heights, and from life's dissonance     As alturas iluminadas, e as dissonâncias da vida
Struck one clear chord to reach the ears of God.   Dar um claro acorde para alcançar os ouvidos de Deus

                                                   Aquele tempo está morto?
Is that time dead?lo! with a little rod            Reparem com uma pequena vara
I did but touch the honey of romance               Apenas toquei o mel do romance
And must I lose a soul's inheritance?
                                                   E devo perder a herança da minh‟alma?

                                                   (tradução: S.P.)




           BOLETIM GRALHA AZUL – OUTUBRO – 2010                                     PÁGINA 2
Chloris Justen, ex-presidente da Academia Paranaense de Letras, a convite de Roza de Oliveira, Presidente da
   Academia Paranaense da Poesia, proferiu uma palestra com encanto, delizadeza e profundo conhecimento da alma
   huma, foi realmente um presente aos presentes: POESIA – ESSÊNCIA E ALMA.


                    OPINIÃO                                                    7 DE ABRIL DE 2.011!
                                                                     (Minhas Reflexões sobre a “greve” de amanhã...)

           Se nós médicos seguimos o modelo trabalhista perante as administrações dos planos de saúde com os quais temos
   convênios, para exercermos pressões por melhores rendimentos, então assumimos que deles somos empregados e não
   autônomos, independentes prestadores de serviços senhores de nós mesmos? Não seria melhor um desligamento em massa?

           Na minha opinião, a única forma de recuperarmos a dignidade perdida é livrando-nos de quem no-la rouba. Dos planos
   de saúde, no caso. Do mercantilismo profissional. Da escravidão das amarras. Ou das amarras da escravidão e servilismo em que
   nos metemos. Desta armadilha. Ouço desde que nasci um dito popular muito simples: “Não se pode servir a dois senhores!” A
   quem servimos- ao paciente ou ao plano de saúde? Cada um escolhe. Há, entre nós, com toda a certeza, os que servem a um e
   os que servem a outro. É óbvio que não dá para servir aos dois e ainda a nós mesmos.

            Em primeiro lugar precisamos recuperar a nossa dignidade perdida. Aquela em que colocávamos nossa missão acima da
   profissão. Em segundo lugar, a nossa sensibilidade. Aquela que colocava o doente acima dos horários e honorários. Em terceiro,
   a nossa memória, de quando e por que decidimos estudar medicina. Não creio que haja muitos que o tenham feito pensando
   em enriquecer materialmente. Viver dignamente, sim!

            Porisso, ergo a bandeira da Independência profissional, da volta aos velhos tempos! O cidadão pode, em vez de pagar
   aos “planos”, voltar a fazer uma poupança para quando precisar, pois, atualmente, mesmo pagando precisa mendigar para
   conseguir o que precisa. Nós médicos também precisamos e estamos mendigando aos “planos” por melhores s a l á r i o s!!!
   Então é óbvio que há muita gente atravessada neste “meio de campo” ficando com o nosso dinheiro, que não recebemos, e o
   dos pacientes, que pagam e não recebem os serviços necessários.

              Se é que ainda somos uma classe unida, por que não nos pormos à prova? Descredenciamentos em massa?

                                                                                                            Dra. Sônia Braga.
EXPEDIENTE: DIRETORIA 2010-2011. Presidente: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki; 1º Vice-Presidente: Fahed Daher; 2º Vice-Presidente: Sonia Maria Barbosa Braga; 1º.

Secretário: Paulo Maurício Piá de Andrade; 2º Secretário: Maurício Norberto Friedrich; 1º Tesoureiro: Maria Fernanda Caboclo Ribeiro; 2º Tesoureiro: Edival Perrini.

Editor Responsável: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki. Endereço eletrônico: sergiopitaki@gmail.com; fone: 41-9969-1233969-1233



                  BOLETIM GRALHA AZUL – ABRIL – 2011                                                                                  PÁGINA 3

Gralha Azul no. 10 - Sobrames Paraná - Abril 2011

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    GRALHA AZUL GRALHA AZUL BOLETIM ELETRÔNICO – SOCIEDADE BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES – PARANÁ – NÚMERO 10 – ABRIL - 2011 SALVA-VIDAS Numa noite tranquila, eu estava relendo, ou melhor, degustando o livro de Érico Veríssimo, O Senhor Embaixador, e acabei sofrendo de uma ansiedade nada insidiosa, mas aguda e cruel, que poderia ser curada somente pelo uso de um bom dicionário. A primeira vez foi aos quinze anos e não me lembro de ter sido assaltado por esse sentimento desesperador. Foi na página 279, jamais esquecerei esse momento do livro e que começou mais ou menos assim: Michel Michel, mordomo do Embaixador de Sacramento, Don Gabriel Heliodoro, escreveu no seu diário: - “Quando há poucos minutos ouvi soar a campainha e fui abrir a porta, tive uma surpresa. Em vez de ver Mme V., como esperava, tive diante de mim Mlle F. A., a bela americana loura, que sorria o seu sorriso de anúncio de dentifrício. "Bon Dieu!"Estão agora os dois lá em cima, possivelmente já despidos e a se rebolcarem no leito isabelino: a estátua de mármore branco e o fauno de cobre. Esquisito contraste! Gostaria de assistir à cena, metade por interesse científico e metade por espírito fescenino. "Hêlas!" Pronto! O que é “fescenino” e o que é “Hêlas”? Como poderia dormir naquela noite sem saber o sentido daquele texto. Como poderia olhar para minha mulher e filhos, amigos, parentes e vizinhos e eles suspeitassem que eu não compreendia o significado de “fescenino”? E “Hêlas”? Olhei para meu criado-mudo e olhei os quatro mini- dicionários empilhados ao meu lado. Senti-me mais seguro e confiante. Abri o primeiro, nada – o segundo, o terceiro e nada, adrenalina!! Abrí o quarto – (Mini Aurélio – 8ª.Edição – de comemoração dos 100 anos) e lá estava “FESCENINO” . Acalmei. Olhei licenciosamente para a janela, porque não ainda não tinha conseguido descobrir o tal do „Hêlas‟, mas era muito alto, vigésimo andar, resolvi que cincoenta por cento da minha angústia já havia sido debelada, eu poderia sobreviver para esta nova descoberta num outro dia. Em nenhum léxico encontrei. Mas fui insistentemente atrás de uma nova descoberta. Na internet, em menos de 30 segundos havia encontrado. Que alívio! Curado, me senti inteiro novamente. E você, como ficaria nesta situação? BOLETIM GRALHA AZUL – OUTUBRO – 2010 PÁGINA 1
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    HÉLAS - 1881 Oscar Wilde (1854–1900) To drift with every passion till my soul Vaguear com toda paixão até minh‟alma Is a stringed lute on which all winds can play, É um alaúde em que todos os ventos podem tocar Is it for this that I have given away Será por isso que eu sigo distante Mine ancient wisdom, and austere control? Minha antiga sabedoria e austero controle? Methinks my life is a twice-written scroll Parece-me que minha vida é um pergaminho Scrawled over on some boyish holiday escrito duas vezes With idle songs for pipe and virelay, Rabiscado em algum festejo pueril Which do but mar the secret of the whole. Com canções preguiçosas para a flauta e virelai, As quais apenas desfiguram o segredo do todo. Surely there was a time I might have trod Certamente houve um tempo em que eu poderia trilhar The sunlit heights, and from life's dissonance As alturas iluminadas, e as dissonâncias da vida Struck one clear chord to reach the ears of God. Dar um claro acorde para alcançar os ouvidos de Deus Aquele tempo está morto? Is that time dead?lo! with a little rod Reparem com uma pequena vara I did but touch the honey of romance Apenas toquei o mel do romance And must I lose a soul's inheritance? E devo perder a herança da minh‟alma? (tradução: S.P.) BOLETIM GRALHA AZUL – OUTUBRO – 2010 PÁGINA 2
  • 3.
    Chloris Justen, ex-presidenteda Academia Paranaense de Letras, a convite de Roza de Oliveira, Presidente da Academia Paranaense da Poesia, proferiu uma palestra com encanto, delizadeza e profundo conhecimento da alma huma, foi realmente um presente aos presentes: POESIA – ESSÊNCIA E ALMA. OPINIÃO 7 DE ABRIL DE 2.011! (Minhas Reflexões sobre a “greve” de amanhã...) Se nós médicos seguimos o modelo trabalhista perante as administrações dos planos de saúde com os quais temos convênios, para exercermos pressões por melhores rendimentos, então assumimos que deles somos empregados e não autônomos, independentes prestadores de serviços senhores de nós mesmos? Não seria melhor um desligamento em massa? Na minha opinião, a única forma de recuperarmos a dignidade perdida é livrando-nos de quem no-la rouba. Dos planos de saúde, no caso. Do mercantilismo profissional. Da escravidão das amarras. Ou das amarras da escravidão e servilismo em que nos metemos. Desta armadilha. Ouço desde que nasci um dito popular muito simples: “Não se pode servir a dois senhores!” A quem servimos- ao paciente ou ao plano de saúde? Cada um escolhe. Há, entre nós, com toda a certeza, os que servem a um e os que servem a outro. É óbvio que não dá para servir aos dois e ainda a nós mesmos. Em primeiro lugar precisamos recuperar a nossa dignidade perdida. Aquela em que colocávamos nossa missão acima da profissão. Em segundo lugar, a nossa sensibilidade. Aquela que colocava o doente acima dos horários e honorários. Em terceiro, a nossa memória, de quando e por que decidimos estudar medicina. Não creio que haja muitos que o tenham feito pensando em enriquecer materialmente. Viver dignamente, sim! Porisso, ergo a bandeira da Independência profissional, da volta aos velhos tempos! O cidadão pode, em vez de pagar aos “planos”, voltar a fazer uma poupança para quando precisar, pois, atualmente, mesmo pagando precisa mendigar para conseguir o que precisa. Nós médicos também precisamos e estamos mendigando aos “planos” por melhores s a l á r i o s!!! Então é óbvio que há muita gente atravessada neste “meio de campo” ficando com o nosso dinheiro, que não recebemos, e o dos pacientes, que pagam e não recebem os serviços necessários. Se é que ainda somos uma classe unida, por que não nos pormos à prova? Descredenciamentos em massa? Dra. Sônia Braga. EXPEDIENTE: DIRETORIA 2010-2011. Presidente: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki; 1º Vice-Presidente: Fahed Daher; 2º Vice-Presidente: Sonia Maria Barbosa Braga; 1º. Secretário: Paulo Maurício Piá de Andrade; 2º Secretário: Maurício Norberto Friedrich; 1º Tesoureiro: Maria Fernanda Caboclo Ribeiro; 2º Tesoureiro: Edival Perrini. Editor Responsável: Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki. Endereço eletrônico: sergiopitaki@gmail.com; fone: 41-9969-1233969-1233 BOLETIM GRALHA AZUL – ABRIL – 2011 PÁGINA 3