Idade Média: Pensamento Cristão
A patrística
Depoisque ocristianismose consolidoucomoareligiãodoEstadoromano,noséculoXIV,vários
filósofossurgiramcomointuitode explicarmelhorosprincípiosbásicosdocristianismo,muitas
vezes, pouco claros nos escritos evangélicos.
Essesprimeirosteóricosficaramconhecidoscomo“Os Paisda Igreja” e forammais numerosos
no Oriente,refletindoadecadênciaemque se encontravaessaregiãodoImpérioRomano.Por
isso, o conjunto do pensamento desses “Pais” ficou conhecido como Patrística.
Grande parte desse pensamentofoi inspiradonafilosofiade Platãojá que a ideiafundamental
desses primeiros filósofos era provar a existência de Deus para os pagãos. Mas, ao mesmo
tempo, era necessário demonstrar que esse Deus se encarnara na figura de Jesus Cristo. Daí,
uma ideiaque permeiatodopensamento patrísticoseroconceitode Trindade.Se Deuseraum
e não havia outros Deuses, como se explicar a existência de um Filho de Deus?
Os patrísticos recorrem à ideia de um Deus cuja essência é unitária. Mas, como tudo nele é
perfeito – seu “Logus” (a razão) – cria uma identidade própria, que é a pessoa do “Filho”. O
“Filho”nãoé,entretanto,posteriorao Pai,porque sendotãoperfeitoquantooPai,é tãoeterno
quanto ele.
Assim,Jesusé amaterializaçãodesseeternoatode vontade (Verbo)que é Deus.Essarealidade
é maravilhosamente expressa no Capítulo 1 do Evangelho de João, quando se diz que “No
princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”.
Esse “Verbo” se materializa para que o Homem possa penetrar - conhecer até o limite da sua
capacidade – esse Deuse,conhecendo-opossatercomele umarelação,jáque,paraisso,é que
Deus o criou.
Dentre os filósofos patrísticos, o mais importante é
Agostinho de Hipona. Tendo vivido no final do século IV,
Agostinho foi herdeiro de toda a filosofia grega e, sendo
romano, bebeu na fonte do neoplatonismo do fim da
Idade Antiga.Paraele Jesusé ailuminaçãopermanentede
Deussobre a mente humana,já que ele é o próprioDeus.
Assim, Jesus fala com autoridade própria e não como
alguémque interpretao pensamentodivino.Porisso,ele
é operfeitoiluminador.Essaideiade “iluminação”decorre
da visão platoniana, já que um conceito fundamental de
Platão é a ideia de reminiscência.
Portanto, Jesus é aquele capaz de infundir no homem a
ideiade absolutapertençadele aDeus, porque é frutodo
mais completo ato de vontade: o amor.
Deus que ama, “precisa” criar para ter o que amar. Mas
não há sentido em amar sem ser amado, e como não há
amor sem conhecimento, Deus se revela através de seu
Escrevendo na era da Patrística, Santo
Agostinho, como era conhecido, foi um dos
mais importantes filósofos de sua época. Suas
obras são amplamente estudados
atualmente, principalmente na cultura
ocidental.
filho – que é ele próprio encarnado – e que ilumina todo o homem, para que conhecendo a
Deus, o ame.
Assim, o conhecimento supremo é o conhecimento de Deus, todos os outros saberes são
acessóriosaessaessencialidade.Entretanto,comoé impossível aohomemconheceraDeuspor
seusprópriosmeios,cabe aDeusinfundirnohomemodomda fé paraque,mesmoconhecendo
a Deus de forma imperfeita, o ame da forma mais perfeita que puder.
Portanto, a fé supera a razão, já que a razão humana jamais chegará ao conhecimento mais
importante que é oda existênciade Deus.É Deusque dáao homema certezade sua existência
e de seuamorpara com ele,e esse sentimentoé afé.A partir doséculoXI,com“Renascimento
Medieval” surgia a ideia de um Deus como um Logus absoluto, e leva a um questionamento
essencial: se Deus é razão, não poderia a mera lógica humana chegar, pelo menos, a ideia da
existência de Deus?
A escolástica
Nesse momento, essa pergunta começa a ser debatida em círculos
intelectuais, nos Mosteiros e nas recém criadas Universidades.
Por isso,esse movimentoficouconhecidocomo“dasescolas”ou
Escolástica.A Escolásticasurge comAnselmode Cantuária,um
monge que viveu na Inglaterra nos meados do século XI. Sua
obra maisimportante é “Monólogos”,esse escritofoi frutode
desafio dos monges de seu Mosteiro que pedem que ele
demonstre, usando unicamente argumentos racionais, a
existênciade Deus.Anselmousaráumalógicaque,emúltima
análise,nosremeteaAristóteles,que é ada“CausaPrimeira”.
Esse mesmoargumentoseráusadopelomais importante de todos
os escolásticos,Tomásde Aquino.Para ele é lógicoque tudo temuma
causa, mas existe uma “causa”, que por ser a primeira – a
origemde tudo –, não teve causa,portanto,nãoteve princípio.
Se não teve princípio, não terá fim.
Essa causa primeiraé,portanto,o “Ser Essencial”,aquele pelo qual tudoexiste e que,semele,
nada existe oupermanece.Paraele e paraa suaperfeição,todasascoisasconvergem.Porisso,
se ele nãoexistisse,aHistóriaseriaumcírculode eternosrecomeços,semnenhumafinalidade,
senãoo cumprimentodaprópria existência.Portanto,viverseriaumerro,umadesnecessidade
ou um acidente lastimável.Assim, como Deus existe, a vida do ser humano é, na verdade, um
processo, ou seja, uma caminhada até que se chegue à estabilidade absoluta, que é o
conhecimentomaisabsolutoque o homempode ter de Deus. E, dessaforma, obter-se a paz e
a felicidade, pois se chegou ao destino que se sabe que não há mais para onde ir.
Anselmo de Cantuária foi um monge beneditino, o
fundador do escolasticismo. Criador do argumento
ontológico.

Cristianismo

  • 1.
    Idade Média: PensamentoCristão A patrística Depoisque ocristianismose consolidoucomoareligiãodoEstadoromano,noséculoXIV,vários filósofossurgiramcomointuitode explicarmelhorosprincípiosbásicosdocristianismo,muitas vezes, pouco claros nos escritos evangélicos. Essesprimeirosteóricosficaramconhecidoscomo“Os Paisda Igreja” e forammais numerosos no Oriente,refletindoadecadênciaemque se encontravaessaregiãodoImpérioRomano.Por isso, o conjunto do pensamento desses “Pais” ficou conhecido como Patrística. Grande parte desse pensamentofoi inspiradonafilosofiade Platãojá que a ideiafundamental desses primeiros filósofos era provar a existência de Deus para os pagãos. Mas, ao mesmo tempo, era necessário demonstrar que esse Deus se encarnara na figura de Jesus Cristo. Daí, uma ideiaque permeiatodopensamento patrísticoseroconceitode Trindade.Se Deuseraum e não havia outros Deuses, como se explicar a existência de um Filho de Deus? Os patrísticos recorrem à ideia de um Deus cuja essência é unitária. Mas, como tudo nele é perfeito – seu “Logus” (a razão) – cria uma identidade própria, que é a pessoa do “Filho”. O “Filho”nãoé,entretanto,posteriorao Pai,porque sendotãoperfeitoquantooPai,é tãoeterno quanto ele. Assim,Jesusé amaterializaçãodesseeternoatode vontade (Verbo)que é Deus.Essarealidade é maravilhosamente expressa no Capítulo 1 do Evangelho de João, quando se diz que “No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. Esse “Verbo” se materializa para que o Homem possa penetrar - conhecer até o limite da sua capacidade – esse Deuse,conhecendo-opossatercomele umarelação,jáque,paraisso,é que Deus o criou. Dentre os filósofos patrísticos, o mais importante é Agostinho de Hipona. Tendo vivido no final do século IV, Agostinho foi herdeiro de toda a filosofia grega e, sendo romano, bebeu na fonte do neoplatonismo do fim da Idade Antiga.Paraele Jesusé ailuminaçãopermanentede Deussobre a mente humana,já que ele é o próprioDeus. Assim, Jesus fala com autoridade própria e não como alguémque interpretao pensamentodivino.Porisso,ele é operfeitoiluminador.Essaideiade “iluminação”decorre da visão platoniana, já que um conceito fundamental de Platão é a ideia de reminiscência. Portanto, Jesus é aquele capaz de infundir no homem a ideiade absolutapertençadele aDeus, porque é frutodo mais completo ato de vontade: o amor. Deus que ama, “precisa” criar para ter o que amar. Mas não há sentido em amar sem ser amado, e como não há amor sem conhecimento, Deus se revela através de seu Escrevendo na era da Patrística, Santo Agostinho, como era conhecido, foi um dos mais importantes filósofos de sua época. Suas obras são amplamente estudados atualmente, principalmente na cultura ocidental.
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    filho – queé ele próprio encarnado – e que ilumina todo o homem, para que conhecendo a Deus, o ame. Assim, o conhecimento supremo é o conhecimento de Deus, todos os outros saberes são acessóriosaessaessencialidade.Entretanto,comoé impossível aohomemconheceraDeuspor seusprópriosmeios,cabe aDeusinfundirnohomemodomda fé paraque,mesmoconhecendo a Deus de forma imperfeita, o ame da forma mais perfeita que puder. Portanto, a fé supera a razão, já que a razão humana jamais chegará ao conhecimento mais importante que é oda existênciade Deus.É Deusque dáao homema certezade sua existência e de seuamorpara com ele,e esse sentimentoé afé.A partir doséculoXI,com“Renascimento Medieval” surgia a ideia de um Deus como um Logus absoluto, e leva a um questionamento essencial: se Deus é razão, não poderia a mera lógica humana chegar, pelo menos, a ideia da existência de Deus? A escolástica Nesse momento, essa pergunta começa a ser debatida em círculos intelectuais, nos Mosteiros e nas recém criadas Universidades. Por isso,esse movimentoficouconhecidocomo“dasescolas”ou Escolástica.A Escolásticasurge comAnselmode Cantuária,um monge que viveu na Inglaterra nos meados do século XI. Sua obra maisimportante é “Monólogos”,esse escritofoi frutode desafio dos monges de seu Mosteiro que pedem que ele demonstre, usando unicamente argumentos racionais, a existênciade Deus.Anselmousaráumalógicaque,emúltima análise,nosremeteaAristóteles,que é ada“CausaPrimeira”. Esse mesmoargumentoseráusadopelomais importante de todos os escolásticos,Tomásde Aquino.Para ele é lógicoque tudo temuma causa, mas existe uma “causa”, que por ser a primeira – a origemde tudo –, não teve causa,portanto,nãoteve princípio. Se não teve princípio, não terá fim. Essa causa primeiraé,portanto,o “Ser Essencial”,aquele pelo qual tudoexiste e que,semele, nada existe oupermanece.Paraele e paraa suaperfeição,todasascoisasconvergem.Porisso, se ele nãoexistisse,aHistóriaseriaumcírculode eternosrecomeços,semnenhumafinalidade, senãoo cumprimentodaprópria existência.Portanto,viverseriaumerro,umadesnecessidade ou um acidente lastimável.Assim, como Deus existe, a vida do ser humano é, na verdade, um processo, ou seja, uma caminhada até que se chegue à estabilidade absoluta, que é o conhecimentomaisabsolutoque o homempode ter de Deus. E, dessaforma, obter-se a paz e a felicidade, pois se chegou ao destino que se sabe que não há mais para onde ir. Anselmo de Cantuária foi um monge beneditino, o fundador do escolasticismo. Criador do argumento ontológico.