Calendário do mês de julho 2010by Rosely Lira
Suavidade Pousa a tua cabeça doloridaTão cheia de quimeras, de ideal,Sobre o regaço brando e maternalDa tua doce Irmã compadecida.Hás-de contar-me nessa voz tão qu'ridaA tua dor que julgas sem igual,E eu, pra te consolar, direi o malQue à minha alma profunda fez a Vida.E hás-de adormecer nos meus joelhos...E os meus dedos enrugados, velhos,Hão-de fazer-se leves e suaves...Hão-de pousar-se num fervor de crente,Rosas brancas tombando docemente,Sobre o teu rosto, como penas de aves...Florbela Espanca01 de julho
Via Láctea “Ora (direis) ouvir estrelas! CertoPerdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,Que, para ouvi-las, muita vez despertoE abro as janelas, pálido de espanto...E conversamos toda a noite, enquantoA via láctea, como um pálio aberto,Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora! "Tresloucado amigo!Que conversas com elas? Que sentidoTem o que dizem, quando estão contigo?"E eu vos direi: "Amai para entendê-las:Pois só quem ama pode ter ouvidoCapaz de ouvir e de entender estrelas".Olavo Bilac 02 de julho
O eterno insatisfeitoShantih percorria as cidades pregando a palavra de Deus, quando um homem veio procurá-lo para que curasse seus males.“Trabalhe. Alimente-se. E louve a Deus”, respondeu Shantih.“Acontece que quando como minha barriga queima com azia. Quando bebo, minha garganta arde com a bebida. Quando rezo, sinto que Deus não me escuta. E quando trabalho, sinto minhas costas que doem com o peso da lavoura”, disse o homem.“Então busque outra pessoa para ensiná-lo”.O homem foi embora, revoltado. Shantih comentou com os que ouviram a conversa.“Ele tinha duas formas de encarar cada coisa, e escolheu sempre a pior. Quando morrer, é possível que também reclame do frio dentro do túmulo”.03 de julho
De um lado cantava o sol  De um lado cantava o sol,do outro, suspirava a lua.No meio, brilhava a tuaface de ouro, girassol!  Ó montanha da saudadea que por acaso vim:outrora, foste um jardim,e és, agora, eternidade!De longe, recordo a corda grande manhã perdida.Morrem nos mares da vidatodos os rios do amor?  Ai! celebro-te em meu peito,em meu coração de sal,Ó flor sobrenatural,grande girassol perfeito!  Acabou-se-me o jardim!Só me resta, do passado,este relógio douradoque ainda esperava por mim . . .Cecília Meireles 04 de julho
Ensinamento Minha mãe achava estudoa coisa mais fina do mundo.Não é.A coisa mais fina do mundo é o sentimento.Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,ela falou comigo:"Coitado, até essa hora no serviço pesado".Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente,Não me falou em amor.Essa palavra de luxo.Adélia Prado05 de julho
Dá-me a tua mãoDá-me a tua mão:  Vou agora te contar  como entrei no inexpressivo  que sempre foi a minha busca cega e secreta.  De como entrei  naquilo que existe entre o número um e o número dois,  de como vi a linha de mistério e fogo,  e que é linha sub-reptícia.  Entre duas notas de música existe uma nota,  entre dois fatos existe um fato,  entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam  existe um intervalo de espaço,  existe um sentir que é entre o sentir  - nos interstícios da matéria primordial  está a linha de mistério e fogo  que é a respiração do mundo,  e a respiração contínua do mundo  é aquilo que ouvimos  e chamamos de silêncio.  Clarice Lispector06 de julho
Ontem à noiteOntem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever... Marguerite Duras07 de julho
O homem não amaJamais o seu peito mais duro que o aço,Palpita a não ser a louca ambição.Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,Que todas as belas vassalas lhe são!Mais falso que a brisa que as flores bafeja,Se mil forem belas... a mil finge amar...Assim um já disse, e assim fazem todos,Embora não queiram jamais confessar,Cruéis, como Nero, são todos os homens!Ateiam as chamas de ardente paixão,Depois... observam, sorrindo, os estragos...E dizem, covardes! que têm coração!!Luiza Amélia de Queiroz08 de julho
Minha cor Minha flor Minha cara Quarta estrela Letras, três Uma estrada Não sei se o mundo é bom Mas ele ficou melhor Quando você chegou E perguntou: Tem lugar pra mim? Espatódea Gineceu Cor de pólen Sol do dia Nuvem branca Sem sardas Não sei se o mundo é bom Mas ele ficou melhor Quando você chegou E explicou O mundo pra mim Não sei se esse mundo tá são Mas pro mundo que eu vim já não era Meu mundo não teria razão  Se não fosse a Zoé. Nando Reis09 de julho
“Assim como a mão tem o poder de esconder o sol, a mediocridade tem o poder de esconder a luz interior. Não culpe os outros por sua própria incompetência.”10 de julho
Algo existeAlgo existe num dia de verão,No lento apagar de suas chamas,Que me impele a ser solene.Algo, num meio-dia de verão,Uma fundura - um azul - uma fragrância,Que o êxtase transcende.Há, também, numa noite de verão,Algo tão brilhante e arrebatadorQue só para ver aplaudo -E escondo minha face inquiridoraReceando que um encanto assim tão trêmuloE sutil, de mim se escape.Emily Dickinson11 de julho
Vimos chegar as andorinhasconjugarem-se às estrelasimpacientarem-se os ventosAgoraesperemos o verão do teu nascimentotranqüilos, preguiçososTão inseparáveis as nossas fomesTão emaranhadas as nossas veiasTão indestrutíveis os nossos sonhosEspera-te um nomebreve como um beijoe o reino ilimitadodos meus braçosViráscomo a luz maiorno solstício de junhoRosa Lobato de Faria12 de julho
“... Os meus passos no caminho são como os passos da lua: vou chegando, vais fugindo, minha alma é a sombra da tua.” Cecília Meireles 13 de julho
“Nha terra é quelpiquininoÉ São Vicente é que di meu" Nas praiasDa minha infânciaMorrem barcosDesmantelados.Fantasmas De pescadoresContrabandistasDesaparecidosEm qualquer vagaNem eu sei onde.E eu sou a mesmaTenho dez anosBrinco na areiaEmpunho os remos...Canto e sorrio...A embarcaçãoPara o mar!É para o mar!...E o pobre barcoO barco tristeCansado e frioNão se moveu...Yolanda Morazzo 14 de julho
“Porque o que não se compreende é geralmente interpretado mal, distorcidamente, e aquilo que se vê sem pureza interior deixa em seu lugar um terrível vazio para a alma. De que valeria a um profano contemplar os Mistérios?Somente geraria confusão,um caminho seguro até a loucura e ao cepticismo.Mais vale mostrar-lhes as coisas ao seu alcance, pois não sentirá o vazionem abraçará o erro, mas antes,aproveitará ao máximo as suas potencialidades espirituais;Daí a utilidade das religiões exotéricas.O gigante não pode calçar a sandália do anão, nem a este lhe serve a daquele.Jorge Angel Livraga15 de julho
JURA SECRETA Só uma coisa me entristece O beijo de amor que não roubei A jura secreta que não fiz A briga de amor que eu não causei Nada do que posso me alucina Tanto quanto o que não fiz Nada do que eu quero me suprime Do que por não saber ainda não quis Só uma palavra me devora Aquela que meu coração não diz Só o que me cega, o que me faz infeliz É o brilho do olhar que eu não sofri. Sueli Costa/Abel Silva 16 de julho
Quero escrever o borrão vermelho de sanguecom as gotas e coágulos pingandode dentro para dentro.Quero escrever amarelo-ourocom raios de translucidez.Que não me entendampouco-se-me-dá.Nada tenho a perder.Jogo tudo na violênciaque sempre me povoou,o grito áspero e agudo e prolongado,o grito que eu,por falso respeito humano,não dei.Mas aqui vai o meu berrome rasgando as profundas entranhasde onde brota o estertor ambicionado.Quero abarcar o mundocom o terremoto causado pelo grito.O clímax de minha vida será a morte.Quero escrever noçõessem o uso abusivo da palavra.Só me resta ficar nua:nada tenho mais a perder.Clarice Lispector17 de julho
Esse olhar paradosem hoje nem passadoEsse olhar sem esperacomo canto presoem boca entreabertaEsse olhar cansadodesfeitosem jeitonão grita não choraEsse olhar desarmadocomo barco sem lemeExisteNão posso ignorá-lo!Eugénia Tabosa 18 de julho
Somos donos do que calamos e escravos do que falamos.Jorge Angel Livraga19 de julho
Passam no teu olhar nobres cortejos,Frotas, pendões ao vento sobranceiros,Lindos versos de antigos romanceiros,Céus do Oriente, em brasa, como beijos,Mares onde não cabem teus desejos;Passam no teu olhar mundos inteiros,Todo um povo de heróis e marinheiros,Lanças nuas em rútilos lampejos;Passam lendas e sonhos e milagres!Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,Em centelhas de crença e de certeza!E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,Amor, julgo trazer dentro de mimUm pedaço da terra portuguesa.Florbela  Espanca20 de julho
Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço. Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines, viemos do outro lado da cidade  com nossos olhos espantados,  nossas almas trançadas, nossos corpos submissos e escancarados.   De mãos ávidas e vazias, de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,  de corações amarrados de repulsa, descemos atraídas pelas luzes da cidade,  acenando convites aliciantes  como sinais luminosos na noite. Viemos ... Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,  do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,  do doer espáduas todo o dia vergadas  sobre sedas que outras exibirão,  dos vestidos desbotados de chita,  da certeza terrível do dia de amanhã  retrato fiel do que passou,  sem uma pincelada verde forte  falando de esperança. Noémia de Souza21 de julho
Às seis da tarde as mulheres choravam no banheiro.Não choravam por isso ou por aquilochoravam porque o pranto subia garganta acima,mesmo se os filhos cresciam com boa saúde,se havia comida no fogoe se o marido lhes dava do bom e do melhor.Choravam porque no céu,além do basculante,o dia se punhaporque uma ânsia, uma dor, uma gasturaera só o que sobrava dos seus sonhos.Agora, às seis da tarde,as mulheres regressam do trabalho,o dia se põe,os filhos crescem,o fogo esperae elas não podem não querem chorar na condução.Marina Colasanti22 de julho
Canção do Amor-Perfeito O tempo seca a beleza.seca o amor, seca as palavras.Deixa tudo solto, leve,desunido para semprecomo as areias nas águas.O tempo seca a saudade,seca as lembranças e as lágrimas.Deixa algum retrato, apenas,vagando seco e vaziocomo estas conchas das praias.O tempo seca o desejoe suas velhas batalhas.Seca o frágil arabesco,vestígio do musgo humano,na densa turfa mortuária.Esperarei pelo tempocom suas conquistas áridas.Esperarei que te seque,não na terra, Amor-Perfeito,num tempo depois das almas.Cecília Meireles23 de julho
Até quando terás, minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?Cecília Meireles24 de julho
Não tem volta Se você vai por muito tempovocê nunca volta.Você retorna,Você contornamas não tem voltaa estrada te sopra pro altopra outro ladoenquantoaquele tempovai mudando.Aí, de quandoem quando você lembraaquele beijo,aquele medo,mas você sabeque tudo ficou antigoe você não voltanem com escoltanem amarradoporque o passadojá te perdeue o perigomuda mesmo de endereçoNão existe pretexto.O dia mudouo carteiro não veioo principio é o meioe você retornamas não tem volta.Zélia Duncan25 de julho
Canção do berço vazio Canção do berço vazionunca a ninguém acalenta,nenhuma voz a cantou.Canção de lábios cerradosque estremeceu no silênciomuito antes de ter princípio.Canção de peito oprimidoque não encontra palavrasporque nem o berço existe.Ah! quem sonhara acalantos,fontes escorrendo leitepara inconcebidos anjos?Num país irmão da noitecanção da loucura mansapara ouvidos que não ouvem...Canção do berço vazioentrecortada de pratose de risos escondidos...Lá do outro lado do mundo canção sem nenhum sentidopobre louca está cantando.Henriqueta Lisboa26 de julho
A laranjeiraPerfumada laranjeira,Linda assim dessa maneira,Sorrindo à luz do arrebol,Toda em flores, branca toda- Parece a noiva do SolPreparada para a boda.E esposa do Sol, que a adora,Com que cuidados divinosCurva ela os ramos, agora!E entre as folhas abrigados,Seus filhos, frutos dourados,Parecem sois pequeninos.Júlia Lopes de Almeida27 de julho
Sou de vidroMeus amigos sou de vidroSou de vidro escurecidoEncubro a luz que me habitaNão por ser feia ou bonitaMas por ter assim nascidoSou de vidro escurecidoMas por ter assim nascidoNão me atinjam não me toquemMeus amigos sou de vidroSou de vidro escurecidoTenho fumo por vestidoE um cinto de escuridãoMas trago a transparência Envolvida no que digoMeus amigos sou de vidroPor isso não me maltratemNão me quebrem não me partamSou de vidro escurecidoTenho fumo por vestidoMas por assim ter nascidoNão por ser feia ou bonitaEnvolvida no que digoEncubro a luz que me habita.Lídia Jorge28 de julho
Frutos e floresMeu amado me dizque sou como maçãcortada ao meio.As sementes eu tenhoé bem verdade.E a simetria das curvasTive um certo ruborna pele lisaque não seise ainda tenho.Mas se em abril florescea macieiraeu maçã feitae pra lá de maduraainda me desdobroem brancas florescada vez que sua facame traspassa.Marina Colasanti 29 de julho
Que este amor não me cegue nem me sigaQue este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua de estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.Hilda Hilst 30 de julho
Estou aqui não porque deva estar, não porque me sinto cativo nesta situação, mas porque prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo.Richard Bach31 de julho

Calendário julho 2010_rosely

  • 1.
    Calendário do mêsde julho 2010by Rosely Lira
  • 2.
    Suavidade Pousa atua cabeça doloridaTão cheia de quimeras, de ideal,Sobre o regaço brando e maternalDa tua doce Irmã compadecida.Hás-de contar-me nessa voz tão qu'ridaA tua dor que julgas sem igual,E eu, pra te consolar, direi o malQue à minha alma profunda fez a Vida.E hás-de adormecer nos meus joelhos...E os meus dedos enrugados, velhos,Hão-de fazer-se leves e suaves...Hão-de pousar-se num fervor de crente,Rosas brancas tombando docemente,Sobre o teu rosto, como penas de aves...Florbela Espanca01 de julho
  • 3.
    Via Láctea “Ora(direis) ouvir estrelas! CertoPerdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,Que, para ouvi-las, muita vez despertoE abro as janelas, pálido de espanto...E conversamos toda a noite, enquantoA via láctea, como um pálio aberto,Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora! "Tresloucado amigo!Que conversas com elas? Que sentidoTem o que dizem, quando estão contigo?"E eu vos direi: "Amai para entendê-las:Pois só quem ama pode ter ouvidoCapaz de ouvir e de entender estrelas".Olavo Bilac 02 de julho
  • 4.
    O eterno insatisfeitoShantihpercorria as cidades pregando a palavra de Deus, quando um homem veio procurá-lo para que curasse seus males.“Trabalhe. Alimente-se. E louve a Deus”, respondeu Shantih.“Acontece que quando como minha barriga queima com azia. Quando bebo, minha garganta arde com a bebida. Quando rezo, sinto que Deus não me escuta. E quando trabalho, sinto minhas costas que doem com o peso da lavoura”, disse o homem.“Então busque outra pessoa para ensiná-lo”.O homem foi embora, revoltado. Shantih comentou com os que ouviram a conversa.“Ele tinha duas formas de encarar cada coisa, e escolheu sempre a pior. Quando morrer, é possível que também reclame do frio dentro do túmulo”.03 de julho
  • 5.
    De um ladocantava o sol  De um lado cantava o sol,do outro, suspirava a lua.No meio, brilhava a tuaface de ouro, girassol!  Ó montanha da saudadea que por acaso vim:outrora, foste um jardim,e és, agora, eternidade!De longe, recordo a corda grande manhã perdida.Morrem nos mares da vidatodos os rios do amor?  Ai! celebro-te em meu peito,em meu coração de sal,Ó flor sobrenatural,grande girassol perfeito!  Acabou-se-me o jardim!Só me resta, do passado,este relógio douradoque ainda esperava por mim . . .Cecília Meireles 04 de julho
  • 6.
    Ensinamento Minha mãeachava estudoa coisa mais fina do mundo.Não é.A coisa mais fina do mundo é o sentimento.Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,ela falou comigo:"Coitado, até essa hora no serviço pesado".Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente,Não me falou em amor.Essa palavra de luxo.Adélia Prado05 de julho
  • 7.
    Dá-me a tuamãoDá-me a tua mão:  Vou agora te contar  como entrei no inexpressivo  que sempre foi a minha busca cega e secreta.  De como entrei  naquilo que existe entre o número um e o número dois,  de como vi a linha de mistério e fogo,  e que é linha sub-reptícia.  Entre duas notas de música existe uma nota,  entre dois fatos existe um fato,  entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam  existe um intervalo de espaço,  existe um sentir que é entre o sentir  - nos interstícios da matéria primordial  está a linha de mistério e fogo  que é a respiração do mundo,  e a respiração contínua do mundo  é aquilo que ouvimos  e chamamos de silêncio.  Clarice Lispector06 de julho
  • 8.
    Ontem à noiteOntemà noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever... Marguerite Duras07 de julho
  • 9.
    O homem nãoamaJamais o seu peito mais duro que o aço,Palpita a não ser a louca ambição.Supõe-se - orgulhoso - que é soberano,Que todas as belas vassalas lhe são!Mais falso que a brisa que as flores bafeja,Se mil forem belas... a mil finge amar...Assim um já disse, e assim fazem todos,Embora não queiram jamais confessar,Cruéis, como Nero, são todos os homens!Ateiam as chamas de ardente paixão,Depois... observam, sorrindo, os estragos...E dizem, covardes! que têm coração!!Luiza Amélia de Queiroz08 de julho
  • 10.
    Minha cor Minhaflor Minha cara Quarta estrela Letras, três Uma estrada Não sei se o mundo é bom Mas ele ficou melhor Quando você chegou E perguntou: Tem lugar pra mim? Espatódea Gineceu Cor de pólen Sol do dia Nuvem branca Sem sardas Não sei se o mundo é bom Mas ele ficou melhor Quando você chegou E explicou O mundo pra mim Não sei se esse mundo tá são Mas pro mundo que eu vim já não era Meu mundo não teria razão Se não fosse a Zoé. Nando Reis09 de julho
  • 11.
    “Assim como amão tem o poder de esconder o sol, a mediocridade tem o poder de esconder a luz interior. Não culpe os outros por sua própria incompetência.”10 de julho
  • 12.
    Algo existeAlgo existenum dia de verão,No lento apagar de suas chamas,Que me impele a ser solene.Algo, num meio-dia de verão,Uma fundura - um azul - uma fragrância,Que o êxtase transcende.Há, também, numa noite de verão,Algo tão brilhante e arrebatadorQue só para ver aplaudo -E escondo minha face inquiridoraReceando que um encanto assim tão trêmuloE sutil, de mim se escape.Emily Dickinson11 de julho
  • 13.
    Vimos chegar asandorinhasconjugarem-se às estrelasimpacientarem-se os ventosAgoraesperemos o verão do teu nascimentotranqüilos, preguiçososTão inseparáveis as nossas fomesTão emaranhadas as nossas veiasTão indestrutíveis os nossos sonhosEspera-te um nomebreve como um beijoe o reino ilimitadodos meus braçosViráscomo a luz maiorno solstício de junhoRosa Lobato de Faria12 de julho
  • 14.
    “... Os meuspassos no caminho são como os passos da lua: vou chegando, vais fugindo, minha alma é a sombra da tua.” Cecília Meireles 13 de julho
  • 15.
    “Nha terra équelpiquininoÉ São Vicente é que di meu" Nas praiasDa minha infânciaMorrem barcosDesmantelados.Fantasmas De pescadoresContrabandistasDesaparecidosEm qualquer vagaNem eu sei onde.E eu sou a mesmaTenho dez anosBrinco na areiaEmpunho os remos...Canto e sorrio...A embarcaçãoPara o mar!É para o mar!...E o pobre barcoO barco tristeCansado e frioNão se moveu...Yolanda Morazzo 14 de julho
  • 16.
    “Porque o quenão se compreende é geralmente interpretado mal, distorcidamente, e aquilo que se vê sem pureza interior deixa em seu lugar um terrível vazio para a alma. De que valeria a um profano contemplar os Mistérios?Somente geraria confusão,um caminho seguro até a loucura e ao cepticismo.Mais vale mostrar-lhes as coisas ao seu alcance, pois não sentirá o vazionem abraçará o erro, mas antes,aproveitará ao máximo as suas potencialidades espirituais;Daí a utilidade das religiões exotéricas.O gigante não pode calçar a sandália do anão, nem a este lhe serve a daquele.Jorge Angel Livraga15 de julho
  • 17.
    JURA SECRETA Sóuma coisa me entristece O beijo de amor que não roubei A jura secreta que não fiz A briga de amor que eu não causei Nada do que posso me alucina Tanto quanto o que não fiz Nada do que eu quero me suprime Do que por não saber ainda não quis Só uma palavra me devora Aquela que meu coração não diz Só o que me cega, o que me faz infeliz É o brilho do olhar que eu não sofri. Sueli Costa/Abel Silva 16 de julho
  • 18.
    Quero escrever oborrão vermelho de sanguecom as gotas e coágulos pingandode dentro para dentro.Quero escrever amarelo-ourocom raios de translucidez.Que não me entendampouco-se-me-dá.Nada tenho a perder.Jogo tudo na violênciaque sempre me povoou,o grito áspero e agudo e prolongado,o grito que eu,por falso respeito humano,não dei.Mas aqui vai o meu berrome rasgando as profundas entranhasde onde brota o estertor ambicionado.Quero abarcar o mundocom o terremoto causado pelo grito.O clímax de minha vida será a morte.Quero escrever noçõessem o uso abusivo da palavra.Só me resta ficar nua:nada tenho mais a perder.Clarice Lispector17 de julho
  • 19.
    Esse olhar paradosemhoje nem passadoEsse olhar sem esperacomo canto presoem boca entreabertaEsse olhar cansadodesfeitosem jeitonão grita não choraEsse olhar desarmadocomo barco sem lemeExisteNão posso ignorá-lo!Eugénia Tabosa 18 de julho
  • 20.
    Somos donos doque calamos e escravos do que falamos.Jorge Angel Livraga19 de julho
  • 21.
    Passam no teuolhar nobres cortejos,Frotas, pendões ao vento sobranceiros,Lindos versos de antigos romanceiros,Céus do Oriente, em brasa, como beijos,Mares onde não cabem teus desejos;Passam no teu olhar mundos inteiros,Todo um povo de heróis e marinheiros,Lanças nuas em rútilos lampejos;Passam lendas e sonhos e milagres!Passa a Índia, a visão do Infante em Sagres,Em centelhas de crença e de certeza!E ao sentir-se tão grande, ao ver-te assim,Amor, julgo trazer dentro de mimUm pedaço da terra portuguesa.Florbela Espanca20 de julho
  • 22.
    Somos fugitivas detodos os bairros de zinco e caniço. Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines, viemos do outro lado da cidade  com nossos olhos espantados,  nossas almas trançadas, nossos corpos submissos e escancarados.   De mãos ávidas e vazias, de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,  de corações amarrados de repulsa, descemos atraídas pelas luzes da cidade,  acenando convites aliciantes  como sinais luminosos na noite. Viemos ... Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,  do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,  do doer espáduas todo o dia vergadas  sobre sedas que outras exibirão,  dos vestidos desbotados de chita,  da certeza terrível do dia de amanhã  retrato fiel do que passou,  sem uma pincelada verde forte  falando de esperança. Noémia de Souza21 de julho
  • 23.
    Às seis datarde as mulheres choravam no banheiro.Não choravam por isso ou por aquilochoravam porque o pranto subia garganta acima,mesmo se os filhos cresciam com boa saúde,se havia comida no fogoe se o marido lhes dava do bom e do melhor.Choravam porque no céu,além do basculante,o dia se punhaporque uma ânsia, uma dor, uma gasturaera só o que sobrava dos seus sonhos.Agora, às seis da tarde,as mulheres regressam do trabalho,o dia se põe,os filhos crescem,o fogo esperae elas não podem não querem chorar na condução.Marina Colasanti22 de julho
  • 24.
    Canção do Amor-PerfeitoO tempo seca a beleza.seca o amor, seca as palavras.Deixa tudo solto, leve,desunido para semprecomo as areias nas águas.O tempo seca a saudade,seca as lembranças e as lágrimas.Deixa algum retrato, apenas,vagando seco e vaziocomo estas conchas das praias.O tempo seca o desejoe suas velhas batalhas.Seca o frágil arabesco,vestígio do musgo humano,na densa turfa mortuária.Esperarei pelo tempocom suas conquistas áridas.Esperarei que te seque,não na terra, Amor-Perfeito,num tempo depois das almas.Cecília Meireles23 de julho
  • 25.
    Até quando terás,minha alma, esta doçura, este dom de sofrer, este poder de amar, a força de estar sempre – insegura – segura como a flecha que segue a trajetória obscura, fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?Cecília Meireles24 de julho
  • 26.
    Não tem voltaSe você vai por muito tempovocê nunca volta.Você retorna,Você contornamas não tem voltaa estrada te sopra pro altopra outro ladoenquantoaquele tempovai mudando.Aí, de quandoem quando você lembraaquele beijo,aquele medo,mas você sabeque tudo ficou antigoe você não voltanem com escoltanem amarradoporque o passadojá te perdeue o perigomuda mesmo de endereçoNão existe pretexto.O dia mudouo carteiro não veioo principio é o meioe você retornamas não tem volta.Zélia Duncan25 de julho
  • 27.
    Canção do berçovazio Canção do berço vazionunca a ninguém acalenta,nenhuma voz a cantou.Canção de lábios cerradosque estremeceu no silênciomuito antes de ter princípio.Canção de peito oprimidoque não encontra palavrasporque nem o berço existe.Ah! quem sonhara acalantos,fontes escorrendo leitepara inconcebidos anjos?Num país irmão da noitecanção da loucura mansapara ouvidos que não ouvem...Canção do berço vazioentrecortada de pratose de risos escondidos...Lá do outro lado do mundo canção sem nenhum sentidopobre louca está cantando.Henriqueta Lisboa26 de julho
  • 28.
    A laranjeiraPerfumada laranjeira,Lindaassim dessa maneira,Sorrindo à luz do arrebol,Toda em flores, branca toda- Parece a noiva do SolPreparada para a boda.E esposa do Sol, que a adora,Com que cuidados divinosCurva ela os ramos, agora!E entre as folhas abrigados,Seus filhos, frutos dourados,Parecem sois pequeninos.Júlia Lopes de Almeida27 de julho
  • 29.
    Sou de vidroMeusamigos sou de vidroSou de vidro escurecidoEncubro a luz que me habitaNão por ser feia ou bonitaMas por ter assim nascidoSou de vidro escurecidoMas por ter assim nascidoNão me atinjam não me toquemMeus amigos sou de vidroSou de vidro escurecidoTenho fumo por vestidoE um cinto de escuridãoMas trago a transparência Envolvida no que digoMeus amigos sou de vidroPor isso não me maltratemNão me quebrem não me partamSou de vidro escurecidoTenho fumo por vestidoMas por assim ter nascidoNão por ser feia ou bonitaEnvolvida no que digoEncubro a luz que me habita.Lídia Jorge28 de julho
  • 30.
    Frutos e floresMeuamado me dizque sou como maçãcortada ao meio.As sementes eu tenhoé bem verdade.E a simetria das curvasTive um certo ruborna pele lisaque não seise ainda tenho.Mas se em abril florescea macieiraeu maçã feitae pra lá de maduraainda me desdobroem brancas florescada vez que sua facame traspassa.Marina Colasanti 29 de julho
  • 31.
    Que este amornão me cegue nem me sigaQue este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua de estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o meu Senhor habita o rutilante escuro De um suposto de heras em alto muro. Que este amor só me faça descontente E farta de fadigas. E de fragilidades tantas Eu me faça pequena. E diminuta e tenra Como só soem ser aranhas e formigas. Que este amor só me veja de partida.Hilda Hilst 30 de julho
  • 32.
    Estou aqui nãoporque deva estar, não porque me sinto cativo nesta situação, mas porque prefiro estar contigo a estar em qualquer outro lugar no mundo.Richard Bach31 de julho