Aula 1- A condição epistemológica contemporânea (Cópia em conflito de DESKTOP-6BKI60Q 2024-03-08).ppt
1.
Teoria da História
Aula1- A condição epistemológica
contemporânea
Rodrigo Perez
rodrigoperez@ufba.br
2.
Bibliografia
Bibliografia base:
LYOTARD, François.A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio ed, 2009. (Capítulos 3, 8 e
13)
Bibliografia complementar:
DOSSE, François. História do estruturalismo. Tradução de Álvaro Cabral; revisão técnica de Marcia
Mansor D'Alessio. Bauru, SP: Edusc, 2007.
3.
Por este termoquer dizer que cada uma destas diversas categorias de enunciados deve poder ser determinado por
regras que especifiquem suas propriedades e o uso delas que se pode fazer, exatamente como o jogo de xadrez se
define como um conjunto de regras determinam as propriedades das peças, ou o modo conveniente de desloca-las.
pp. 16-Três observações precisam ser feitas a respeito dos jogos de linguagem. A primeira é que as regras não
possuem sua legitimação nelas mesmas, mas constituem um objeto de contrato explícito ou não entre os jogadores
(o que não quer dizer todavia que estes a inventem). A segunda é que na ausência de regras não existe jogo, e que
um lance ou um enunciado que não satisfaça as regras, não pertence ao jogo definido por elas. A terceira
observação acaba de ser inferida: todo enunciado deve ser considerado um lance “efetuado” num jogo
(LYOTARD, 2009, pp. 16-17)
Pois é necessário ao cientista um destinatário que possa, por sua vez, ser um remetente, que seja um parceiro.
Senão, a verificação de seu enunciado é impossível por falta de um debate contraditório, que a não renovação das
competências terminaria por tornar impossível. E não é somente a verdade do seu enunciado, mas sua própria
competência que está em jogo neste debate; pois a competência não é nunca adquirida; ela depende do enunciado
proposto ser ou não considerado discutível numa sequencia de argumentação e refutação entre pares. A verdade do
enunciado e a competência do enunciador são assim submetidos ao assentimento da coletividade de iguais em
competência. É preciso, portanto, formar iguais. A didática assegura essa reprodução. Ela é diferente do jogo
dialético da pesquisa. Resumindo, seu primeiro pressuposto é que o destinatário, o estudante, não sabe o que sabe
o remetente; com efeito, é por essa razão que existe algo a aprender. Se segundo pressuposto é de que ele pode
aprender e se tornar um expert da mesma competência que seu mestre. Esta dupla exigência supõe uma terceira:
existem enunciados a despeito dos quais a troca de argumentos e a administração das provas que foram a
pragmática da pesquisa são considerados como tendo sido suficientes e que podem assim ser transmitidos de saída
a título de verdades indiscutíveis ao ensino. (LYOTARD, 2009, pp. 45-46)
4.
Esta clivagem metodológicaque determina duas grandes espécies de discursos sobre a sociedade provém
do século XIX. A ideia de que a sociedade forma um todo orgânico, sem o que deixa de ser uma sociedade
(e a sociologia não tem mais objeto), dominava o espírito dos fundadores da escola francesa; torna-se mais
precisa com o funcionalismo; assume outra modalidade quando Parsons, nos anos 1950, compara a
sociedade a um sistema auto-regulável. O modelo teórico e mesmo material não é mais o organismo vivo;
ele é fornecido pela cibernética, que lhe multiplica as aplicações durante e ao final da segunda guerra
mundial. (LYOTARD, 2009, p. 20).
Com a ciência moderna, duas novas componentes aparecem na problemática da legitimação. De início, para
responder à questão: como provar a prova?, ou, mais geralmente, quem decide sobre o que é verdadeiro?,
desvia-se da busca metafísica de uma prova primeira ou de uma autoridade transcendente, reconhece-se que
as condições do verdadeiro, isto é, as regras do jogo da ciência, são imanentes a este jogo, e que elas não
podem ser estabelecidas de outro modo a não ser no seio de um debate que já é ele mesmo científico, que
não existe outra prova de que as regras sejam boas, se não o fato de elas formarem o consenso dos experts.
(...) Este modo de interrogar a legitimidade sóciopolítica combina-se com uma nova atitude científica: o
nome do herói é o povo, o sinal de legitimidade seu consenso, a deliberação seu modo de normativação.
Disto resulta infalivelmente a ideia de progresso; ela não representa outra coisa senão o movimento pelo
qual supõe-se que o saber se acumula, mas este movimento estende-se ao novo sujeito sócio-político. O
povo está em debate consigo mesmo sobre o que é justo ou injusto, da mesma maneira que a comunidade
dos cientistas sobre o que é verdadeiro ou falso; o povo acumula as leis civis, como os cientistas acumulam
as leis científicas; o povo aperfeiçoa as regras do seu consenso por disposições constitucionais, como os
cientistas revisam à luz dos seus conhecimentos produzindo novos paradigmas. (LYOTARD, 2009, p. 20)
5.
Nesta transformação, anatureza do saber não permanece intacta. Ele não pode submeter-se aos
novos canais, e manter-se operacional, a não ser que o conhecimento possa ser traduzido em
quantidade de informação. Pode-se então prever que tudo o que no saber constituído não é
traduzível será abandonado e que a orientação das novas pesquisas se subordinará à condição
de tradudibilidade dos resultados eventuais em linguagem de máquina. (...) O antigo princípio
segundo o qual o saber é indissociável da formação (Bildung) do espírito, e mesmo da pessoa,
cai e cairá cada vez mais em desuso (LYOTARD, 2009, p. 05)
6.
Argumento da aula
SegundoFrançois Lyotard, a história do conhecimento é marcada pelo funcionamento de “jogos de
linguagem” (conceito que o autor busca no filósofo alemão Wittgenstein) cujo objetivo é legitimar
politicamente os dispositivos epistêmicos que regem cognitivamente as sociedades humanas. Na antiguidade
clássica, por exemplo, a legitimação do conhecimento se dava deliberadamente pelos valores políticos da vida
em comunidade, seja na aristocracia de letrados de Platão, seja na ética circunstanciada de Aristóteles
(phrónesis). Na idade média, a legitimação era garantida pela promessa do domínio do conhecimento
autorizado por Deus. Na modernidade cartesiano/iluminista, a legitimação era garantida pela afirmação da
viabilidade do conhecimento metodologicamente balizado, dominado por experts, e comprometido com o
progresso. A contemporaneidade, inaugurada na segunda metade do século XX pelos impactos da II Guerra
Mundial, teria inaugurado outra lógica linguística de legitimação, garantida pelas ideias de desempenho,
eficiência e informação. O valor do conhecimento, então, passa a ser definido por sua capacidade em oferecer
informações para os “tomadores de decisão”, que não mais a classe política tradicional, mas sim os chefes das
grandes corporações. “Pós-modernidade”, portanto, para François Lyotard, significa a lógica contemporânea,
marcada pela rejeição ao valores que fundaram a modernidade, especialmente das filosofias progressistas da
história como discursos de legitimação do conhecimento.
A reflexão de François Lyotard nos ajuda a compreender como a contemporaneidade epistemológico rejeitou
todas os paradigmas totalizantes inventados pela modernidade, o que nas ciências sociais, como demonstrou
François Dosse, ganhou a forma do colapso das abordagens estruturalistas. A condição de sobrevivência dos
estruturalismos era, exatamente, a sobrevivência dos valores modernos, da crença no progresso e na
possibilidade de abordagens totalizantes da realidade social. Com o esgotamento desses valores, as ciências
sociais, e a historiografia em particular, redimensionaram suas ambições. Das totalidades estruturais aos
estudos de caso, do cientificismo ao ceticismo, da ciência à retórica, da universalidade aos corpos como
potência semântica, dos grandes projetos coletivos aos lugares de fala cada vez mais particularizados.