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AS RAÍZES DA VIOLÊNCIA NO BRASIL E COMO COMBATÊ-LA
Fernando Alcoforado*
As inúmeras rebeliões nas penitenciárias que têm ocorrido no Brasil têm levado o
governos federal e estaduais a explicarem o ocorrido como se fossem resultantes da
disputa entre facções pelo tráfico de drogas procurando encobrir as desumanas
condições carcerárias onde os presos se amontoam em espaços insuficientes que
deveriam ser ocupados pela metade dos presos existentes. Esta situação demonstra a
incompetência dos governos que se sucedem no Brasil na gestão do sistema
penitenciário e da segurança pública em geral e do moroso sistema judiciário que
demonstra falta de agilidade no julgamento dos detentos e, desta forma, evitar o
incremento de presos que se multiplicam a cada dia com o avanço da violência contra as
pessoas e o patrimônio.
Cada vez mais, os meios de comunicação deixam explícito que estamos crescentemente
vulneráveis à violência, obrigando-nos a constatar que ela invadiu todas as áreas da vida
e das relações do indivíduo no Brasil. É evidente a preocupação com a violência na
sociedade brasileira atual que se manifesta no crime organizado, na corrupção
generalizada nos diversos órgãos públicos, nos assaltos a cidadãos e bancos, etc. A
violência representa tudo aquilo que fere, destrói, agride ou machuca as pessoas - ações
que não preservam a vida e sim prejudicam o bem estar tanto individual quanto
coletivo. Vivemos em um país que tem como uma das suas características principais a
violência praticada pelo homem contra seus semelhantes.
Nos últimos 30 anos, as vítimas de homicídios no Brasil chegam a mais de 1 milhão de
pessoas. São dados coletados em 27 Unidades Federativas, 33 Regiões Metropolitanas,
27 capitais e 5564 municípios do país, utilizando informações do ministério da saúde,
segurança pública, cartórios, polícia e outros órgãos públicos (Ver o artigo Violência no
Brasil: pior que Iraque, Angola e Afeganistão disponível no website
<http://blogdotas.terra.com.br/2011/12/28/violencia-no-brasil-pior-que-iraque-angola-e-
afeganistao/>).
Para ficar claro o absurdo do número de mortes violentas no Brasil, basta compará-lo
com outros países que vivem situação extrema como Angola, país em guerra civil por
27 anos (550 mil vítimas, praticamente a metade das vítimas por aqui no mesmo
período). Outros conflitos armados recentes, como no Iraque e no Afeganistão, somam
juntos 89 mil mortos até 2007. Ou seja, a guerra no Brasil é mais sangrenta que nesses
países já excessivamente sangrentos do planeta. Outra comparação importante é a do
Brasil com os países escandinavos os quais estão diminuindo os presos e as prisões,
enquanto o Brasil busca aumentar o número de presídios.
Por que Holanda e Suécia estão fechando prisões, enquanto o Brasil está aumentando a
quantidade de presos? Por que Noruega tem baixo índice de reincidência, enquanto são
altos os índices no Brasil? Nos países onde o número de presos está diminuindo, isto
acontece porque a redução da criminalidade resulta de políticas de bem estar social que
proporcionam justiça social e acesso de toda a população à educação de qualidade.
Além disso, a quantidade de presos diminui porque há um enfoque mais compreensivo
em relação ao tema drogas, aplicação de mais penas alternativas, inclusive para
pequenos roubos, para os furtos e lesões não graves etc.
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A educação dos seres humanos e a existência de justiça social, antítese do desumano
sistema capitalista selvagem em vigor no Brasil, são as armas que podem fazer com que
o homem tenha comportamento construtivo e seja capaz de mudar o mundo ao seu redor
e, ao fazer isso, mudar a si mesmo. O combate à violência que se registra no Brasil não
deve se restringir à ação policial, a criação de leis punitivas de delitos e a construção de
penitenciárias. A justiça social e a educação são essenciais para combater a violência no
Brasil.
A percepção de muita gente é a de que a violência representa o predomínio do instinto
animal que possuímos sobre os valores da civilização. Isto explicaria a escalada da
criminalidade em todas as épocas em todo o mundo. Uma das questões mais
importantes para a compreensão do ser humano e para suas diversas dimensões é
entender qual a sua natureza. Seria ela boa ou má? Uma tese defendida, sobretudo na
atualidade, por alguns filósofos e religiosos é a de que o homem seria visceralmente
mau, intrinsecamente perverso e, por natureza, corrupto, enquanto para outros se
fundamenta na convicção da bondade natural do homem.
Freud enfatiza em sua obra os aspectos destrutivos do homem (Ver o artigo de Sonia
Maria Lima de Gusmão sob o título A natureza humana segundo Freud e Rogers
disponível no website <http://www.rogeriana.com/sonia/natureza.htm>). Neste artigo,
Sonia Gusmão afirma que Carl Rogers apresenta uma visão oposta á de Freud, pois ele
acredita que é justamente em um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode
expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, que o torna hostil ou antissocial.
Hobbes, por sua vez, tem a tese central de que o homem é o lobo do próprio homem.
Hobbes procura mostrar que não pode haver sociedade sem governo e sem as sanções
das leis (Ver o artigo de Roger Trigg sob o título A Natureza Humana em
Hobbes disponível no website <http://qualia-esob.blogspot.com.br/2008/03/natureza-
humana-em-hobbes.html>).
A ideia central no pensamento de Rousseau se fundamenta na convicção da bondade
natural do homem e de que os percalços da socialização afastaram o homem de si
próprio lançando-o contra o seu semelhante (Ver o artigo de Dalva de Fatima Fulgeri
sob o título Conceito de natureza humana em Rousseau disponível no website
<http://www.paradigmas.com.br/parad12/p12.6.htm>). Para Marx, por sua vez, os seres
humanos são capazes de mudar o mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si
mesmos (Ver o artigo A Natureza do Homem Segundo Karl Marx disponível no
website <http://nomosofia.blogspot.com.br/2011/10/natureza-do-homem-segundo-karl-
marx.html>).
Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Religiões Orientais e Espiritismo abordam também
a questão da natureza humana. Quanto ao Cristianismo, há a afirmação de que somos
dotados por Deus de vontade livre – ou livre-arbítrio – e que o primeiro impulso de
nossa liberdade dirige-se para o mal e para o pecado, isto é, para a transgressão das leis
divinas de que somos seres fracos, pecadores, divididos entre o bem (obediência a
Deus) e o mal (submissão à tentação demoníaca). O Judaismo, tanto quanto o
Cristianismo, considera a violação de um mandamento divino como um pecado. O
Judaísmo ensina que a Humanidade encontra-se em um estado de inclinação para fazer
o mal e de incapacidade para escolher o Bem em vez do Mal. De acordo com o
Judaismo, o Homem é responsável pelo pecado porque é dotado de uma vontade livre,
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contudo, ele tem uma natureza fraca e uma tendência para o Mal, pois o coração do
Homem é mau desde a sua juventude.
O Islamismo crê que haverá o dia da ressurreição e julgamento do bem e do mal. Neste
grande dia, todos os feitos do homem, seja bem ou mal, serão colocados na balança. Os
muçulmanos que adquiriram suficientes méritos justos e pessoais em favor de Alá irão
para o céu; todos os outros irão para o inferno. As religiões orientais defendem a tese de
que, em geral, a natureza humana é originariamente boa e que ela degenerou por causa
da ignorância, dos desejos ou de sua mente obnubilada, que faz com que se torne
necessária uma disciplina severa para recuperar-lhe a bondade original. Esta é a
principal razão pela qual na ética oriental se advoga uma disciplina severa a fim de
recuperar a virtude original do Homem. Nisso reside a explicação oriental do
aparecimento do mal que seria inteiramente criação do Homem.
Praticamente todos os sistemas religiosos indianos, inclusive o Budismo, e o Taoísmo
na China, atribuem o aparecimento do mal à ignorância do Homem, que dá origem ao
conhecimento falso e a desejos perniciosos. A Filosofia oriental considera que, como o
Homem produz o mal, pode também destruí-lo. O Espiritismo questiona como é
possível que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, seja visceralmente
mau? Como se compreende que o Supremo Arquiteto do Universo haja produzido obras
intrinsecamente imperfeitas e defeituosas? Para os espíritas, o homem é obra inacabada.
O problema do mal, segundo o Espiritismo, resolve-se através do trabalho ingente da
educação do Homem visando transformar as trevas em luz, o vício em virtude, a loucura
em bom senso, a fraqueza em vigor. Para a doutrina dos espíritos o mal é criação do
próprio homem e não tem existência senão temporária, transitória, pois no arranjo maior
da Vida não tem sentido a permanência do mal.
Pelo exposto, constata-se que Freud, Hobbes, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo
convergem em seus pensamentos ao considerar que o ser humano tem uma inclinação
para o Mal os quais são contrapostos aos de Carl Rogers, Rousseau, Marx, religiões
orientais e Espiritismo que defendem a tese de que a sociedade é que o degenera
lançando-o contra o seu semelhante. Enquanto existir a injustiça social extrema
resultante do capitalismo selvagem dominante e a falta de acesso de toda a população à
educação de qualidade, o Brasil continuará convivendo com a violência extrema e o Mal
prevalecendo sobre o Bem.
* Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em
Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor
universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São
Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo,
1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do
desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora
Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era
Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken,
Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia
Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica,
Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico
e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática
Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas,
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Econômicas e Sociais que Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016). E-mail:
falcoforado@uol.com.br. Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net).

As raízes da violência no brasil e como combatê la

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    1 AS RAÍZES DAVIOLÊNCIA NO BRASIL E COMO COMBATÊ-LA Fernando Alcoforado* As inúmeras rebeliões nas penitenciárias que têm ocorrido no Brasil têm levado o governos federal e estaduais a explicarem o ocorrido como se fossem resultantes da disputa entre facções pelo tráfico de drogas procurando encobrir as desumanas condições carcerárias onde os presos se amontoam em espaços insuficientes que deveriam ser ocupados pela metade dos presos existentes. Esta situação demonstra a incompetência dos governos que se sucedem no Brasil na gestão do sistema penitenciário e da segurança pública em geral e do moroso sistema judiciário que demonstra falta de agilidade no julgamento dos detentos e, desta forma, evitar o incremento de presos que se multiplicam a cada dia com o avanço da violência contra as pessoas e o patrimônio. Cada vez mais, os meios de comunicação deixam explícito que estamos crescentemente vulneráveis à violência, obrigando-nos a constatar que ela invadiu todas as áreas da vida e das relações do indivíduo no Brasil. É evidente a preocupação com a violência na sociedade brasileira atual que se manifesta no crime organizado, na corrupção generalizada nos diversos órgãos públicos, nos assaltos a cidadãos e bancos, etc. A violência representa tudo aquilo que fere, destrói, agride ou machuca as pessoas - ações que não preservam a vida e sim prejudicam o bem estar tanto individual quanto coletivo. Vivemos em um país que tem como uma das suas características principais a violência praticada pelo homem contra seus semelhantes. Nos últimos 30 anos, as vítimas de homicídios no Brasil chegam a mais de 1 milhão de pessoas. São dados coletados em 27 Unidades Federativas, 33 Regiões Metropolitanas, 27 capitais e 5564 municípios do país, utilizando informações do ministério da saúde, segurança pública, cartórios, polícia e outros órgãos públicos (Ver o artigo Violência no Brasil: pior que Iraque, Angola e Afeganistão disponível no website <http://blogdotas.terra.com.br/2011/12/28/violencia-no-brasil-pior-que-iraque-angola-e- afeganistao/>). Para ficar claro o absurdo do número de mortes violentas no Brasil, basta compará-lo com outros países que vivem situação extrema como Angola, país em guerra civil por 27 anos (550 mil vítimas, praticamente a metade das vítimas por aqui no mesmo período). Outros conflitos armados recentes, como no Iraque e no Afeganistão, somam juntos 89 mil mortos até 2007. Ou seja, a guerra no Brasil é mais sangrenta que nesses países já excessivamente sangrentos do planeta. Outra comparação importante é a do Brasil com os países escandinavos os quais estão diminuindo os presos e as prisões, enquanto o Brasil busca aumentar o número de presídios. Por que Holanda e Suécia estão fechando prisões, enquanto o Brasil está aumentando a quantidade de presos? Por que Noruega tem baixo índice de reincidência, enquanto são altos os índices no Brasil? Nos países onde o número de presos está diminuindo, isto acontece porque a redução da criminalidade resulta de políticas de bem estar social que proporcionam justiça social e acesso de toda a população à educação de qualidade. Além disso, a quantidade de presos diminui porque há um enfoque mais compreensivo em relação ao tema drogas, aplicação de mais penas alternativas, inclusive para pequenos roubos, para os furtos e lesões não graves etc.
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    2 A educação dosseres humanos e a existência de justiça social, antítese do desumano sistema capitalista selvagem em vigor no Brasil, são as armas que podem fazer com que o homem tenha comportamento construtivo e seja capaz de mudar o mundo ao seu redor e, ao fazer isso, mudar a si mesmo. O combate à violência que se registra no Brasil não deve se restringir à ação policial, a criação de leis punitivas de delitos e a construção de penitenciárias. A justiça social e a educação são essenciais para combater a violência no Brasil. A percepção de muita gente é a de que a violência representa o predomínio do instinto animal que possuímos sobre os valores da civilização. Isto explicaria a escalada da criminalidade em todas as épocas em todo o mundo. Uma das questões mais importantes para a compreensão do ser humano e para suas diversas dimensões é entender qual a sua natureza. Seria ela boa ou má? Uma tese defendida, sobretudo na atualidade, por alguns filósofos e religiosos é a de que o homem seria visceralmente mau, intrinsecamente perverso e, por natureza, corrupto, enquanto para outros se fundamenta na convicção da bondade natural do homem. Freud enfatiza em sua obra os aspectos destrutivos do homem (Ver o artigo de Sonia Maria Lima de Gusmão sob o título A natureza humana segundo Freud e Rogers disponível no website <http://www.rogeriana.com/sonia/natureza.htm>). Neste artigo, Sonia Gusmão afirma que Carl Rogers apresenta uma visão oposta á de Freud, pois ele acredita que é justamente em um contexto coercitivo, onde o indivíduo não pode expandir-se, ou melhor, atualizar o seu potencial, que o torna hostil ou antissocial. Hobbes, por sua vez, tem a tese central de que o homem é o lobo do próprio homem. Hobbes procura mostrar que não pode haver sociedade sem governo e sem as sanções das leis (Ver o artigo de Roger Trigg sob o título A Natureza Humana em Hobbes disponível no website <http://qualia-esob.blogspot.com.br/2008/03/natureza- humana-em-hobbes.html>). A ideia central no pensamento de Rousseau se fundamenta na convicção da bondade natural do homem e de que os percalços da socialização afastaram o homem de si próprio lançando-o contra o seu semelhante (Ver o artigo de Dalva de Fatima Fulgeri sob o título Conceito de natureza humana em Rousseau disponível no website <http://www.paradigmas.com.br/parad12/p12.6.htm>). Para Marx, por sua vez, os seres humanos são capazes de mudar o mundo ao seu redor e, fazendo isso, mudam a si mesmos (Ver o artigo A Natureza do Homem Segundo Karl Marx disponível no website <http://nomosofia.blogspot.com.br/2011/10/natureza-do-homem-segundo-karl- marx.html>). Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Religiões Orientais e Espiritismo abordam também a questão da natureza humana. Quanto ao Cristianismo, há a afirmação de que somos dotados por Deus de vontade livre – ou livre-arbítrio – e que o primeiro impulso de nossa liberdade dirige-se para o mal e para o pecado, isto é, para a transgressão das leis divinas de que somos seres fracos, pecadores, divididos entre o bem (obediência a Deus) e o mal (submissão à tentação demoníaca). O Judaismo, tanto quanto o Cristianismo, considera a violação de um mandamento divino como um pecado. O Judaísmo ensina que a Humanidade encontra-se em um estado de inclinação para fazer o mal e de incapacidade para escolher o Bem em vez do Mal. De acordo com o Judaismo, o Homem é responsável pelo pecado porque é dotado de uma vontade livre,
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    3 contudo, ele temuma natureza fraca e uma tendência para o Mal, pois o coração do Homem é mau desde a sua juventude. O Islamismo crê que haverá o dia da ressurreição e julgamento do bem e do mal. Neste grande dia, todos os feitos do homem, seja bem ou mal, serão colocados na balança. Os muçulmanos que adquiriram suficientes méritos justos e pessoais em favor de Alá irão para o céu; todos os outros irão para o inferno. As religiões orientais defendem a tese de que, em geral, a natureza humana é originariamente boa e que ela degenerou por causa da ignorância, dos desejos ou de sua mente obnubilada, que faz com que se torne necessária uma disciplina severa para recuperar-lhe a bondade original. Esta é a principal razão pela qual na ética oriental se advoga uma disciplina severa a fim de recuperar a virtude original do Homem. Nisso reside a explicação oriental do aparecimento do mal que seria inteiramente criação do Homem. Praticamente todos os sistemas religiosos indianos, inclusive o Budismo, e o Taoísmo na China, atribuem o aparecimento do mal à ignorância do Homem, que dá origem ao conhecimento falso e a desejos perniciosos. A Filosofia oriental considera que, como o Homem produz o mal, pode também destruí-lo. O Espiritismo questiona como é possível que o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, seja visceralmente mau? Como se compreende que o Supremo Arquiteto do Universo haja produzido obras intrinsecamente imperfeitas e defeituosas? Para os espíritas, o homem é obra inacabada. O problema do mal, segundo o Espiritismo, resolve-se através do trabalho ingente da educação do Homem visando transformar as trevas em luz, o vício em virtude, a loucura em bom senso, a fraqueza em vigor. Para a doutrina dos espíritos o mal é criação do próprio homem e não tem existência senão temporária, transitória, pois no arranjo maior da Vida não tem sentido a permanência do mal. Pelo exposto, constata-se que Freud, Hobbes, o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo convergem em seus pensamentos ao considerar que o ser humano tem uma inclinação para o Mal os quais são contrapostos aos de Carl Rogers, Rousseau, Marx, religiões orientais e Espiritismo que defendem a tese de que a sociedade é que o degenera lançando-o contra o seu semelhante. Enquanto existir a injustiça social extrema resultante do capitalismo selvagem dominante e a falta de acesso de toda a população à educação de qualidade, o Brasil continuará convivendo com a violência extrema e o Mal prevalecendo sobre o Bem. * Fernando Alcoforado, 77, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), Energia no Mundo e no Brasil- Energia e Mudança Climática Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015) e As Grandes Revoluções Científicas,
  • 4.
    4 Econômicas e Sociaisque Mudaram o Mundo (Editora CRV, Curitiba, 2016). E-mail: falcoforado@uol.com.br. Possui blog na Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net).