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Número 05 — Jan 2025
AMPLITUDE
ISSN 2966-2400
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SUMÁRIO
Revista Amplitude - Número 05 - Jan 2025
ISSN: 2966-2400
Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .03
Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 04
Ensaio: A admiração artística-filosófica em Palavrantiga e Povia /
Anderson C. Sandes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 05
Conto: O Segredo dos Presentes / Paul Flucke . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 08
Conto: A Multiplicação / Eduardo Eiji Araki . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 09
Poeta em Destaque: Luiz Guilherme Libório . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
Crônica: O Amor acredita em todas as coisas, ou A História de uma Re-
vista / Steve Stephens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13
Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Hot Spots: Liev Tolstoi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .16
Conto: A Velhinha do San Andrés / Jorge F. Isah . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
Crônica: Amor e Paixão / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19
Conto: Oração / Ageu Magalhães . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .20
Crônica: Aprendizado / Carlos Nejar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
Games / A história da Wisdow Tree . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
Conto: O Feijão e o Silêncio / Lucas Roberto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22
Especial / Revistas de Literatura cristã? Sim, elas existem! . . . . . . . . . . . . . 26
Conto: Cócegas Existenciais / Tiago Lyra de Carvalho. . . . . . . . . . . . . . . . 27
Águas Vivas: O melhor da poesia evangélica em antologia . . . . . . . . . . 29
Jardim dos Clássicos: Irmãs Brontë . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
Galeria: Yongsung Kim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
HQ: PictoBíblia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Resenha / livro / Um nó na garganta desde o princípio do mundo . . .47
Pharmacia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48
Download . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49
Cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .50
Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
Edições anteriores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52
CAPA: Yongsung Kim, “He Leadeth Me”.
AMPLITUDE é uma revista de
cultura evangélica, com foco princi-
pal em ficção e poesia. Mas nosso
leitmotiv, nosso motivo de ser e de
existir, é a arte cristã em geral:
Transitamos por música, cinema,
fotografia, artes plásticas e quadri-
nhos. Publicamos artigos, estudos
literários, crônicas e resenhas.
Nossa intenção diz respeito àque-
la despretensiosa excelência dos
humildes. Nosso porto de partida e
porto de chegada é Cristo. Nosso
objetivo é fomentar a reflexão e a
expressão, AMPLIAR visões, entre-
ter com valores cristãos, comunicar
a verdade e o belo e estimular o
engajamento artístico/intelectual
entre nossos irmãos. Nosso preço é
nenhum: a revista circula gratuita-
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Você gostaria de saber mais
sobre Jesus Cristo e a obra que
Ele realizou em favor da huma-
nidade? Conheça as 4 Leis Es-
pirituais.
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Janeiro de 2025: temos já 1/4 de século XXI transcor-
rido, desterrados em meio à virtualização de tudo — ho-
mens, objetos, lugares, logo animais — ; enquanto a crise
climática solapa todas as latitudes da Terra, a ameaça de
uma nova Grande Guerra, com iniciais assim mesmo, em
maiúsculas, ruge no horizonte. Em meio ao caos, ulula a
antiga promessa, com cada vez mais potência, urgência,
certeza: ELE vem!
Chegamos à nosso quinto número, e agora contamos
com ISSN (International Standard Serial Number), o có-
digo internacional que demarca as publicações seriadas.
Nesta edição, Amplitude traz contos de Ageu Maga-
lhães, Eduardo Eiji Araki, Jorge F. Isah, Lucas Roberto,
Paul Flucke e Tiago Lyra de Carvalho.
Na seção Poeta em Destaque, a voz da vez é a de Luiz
Guilherme Libório, paulistano radicado nas Minas Gerais
e que, do alto de seus 30 anos, tem entregado uma muito
boa literatura – ensaios, estudos, romance – cujo destaque
é a poesia.
Em Jardim dos Clássicos, a poesia da maior família de
romancistas da literatura, as irmãs Brontë.
Falamos também sobre duas revistas que, cada qual à
sua maneira, têm aberto espaço para a literatura cristã, a
De Higgs e a Bulunga.
Rememoramos o projeto Águas Vivas, coleção antoló-
gica que celebrou, em seus cinco volumes, a obra de poe-
tas evangélicos contemporâneos. E publicamos uma sele-
ção de poemas de cada volume da antologia.
Em Hot Spots, um pouco da sabedoria desconcertante
de Liev Tolstoi.
No mais, as seções tradicionais aqui estão: Parlatorium,
Pharmacia, HQ, Galeria, Games e Notas Culturais.
Compartilhe esta revista, docemente gratuita, com
quantos você puder.
Sammis Reachers, editor
Editorial
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Seja Forte
Maltbie Davenport Babcock
Seja forte!
Não estamos aqui para brincar, sonhar, vadiar;
Temos trabalho duro a fazer e fardos para carregar;
Não evite a luta — enfrente-a; ela é uma dádiva de Deus.
Seja forte!
Não diga, "Os dias são ruins. De quem é a culpa?"
Nem cruze as mãos nem abaixe a cabeça — oh, vergonha!
Levante-se, fale alto, e bravamente, em nome de Deus.
Seja forte!
Não importa o quão enraizado está o erro,
Quão dificilmente se desenvolve a batalha, quão longo é o dia,
Não se entregue — continue a lutar! Amanhã, você cantará.
In Meus Textos Favoritos, de Norman Vincent Peale
Orar
Telina Cleine
1 Ts 5:17
Ao acordar
Ao trabalhar
Ao descansar
Ao respirar
Sem cessar
Legado da Morte
na Colina
Jorge F. Isah
Tirou as ataduras
Nem ferida e cicatrizes
Somente a alma pura
Αγάπη (Agápi)
Sammis Reachers
Amor, ente totipotente
Res extra-commercium
Dia poderoso e sem preço
Rigoroso como a Morte
Ou um beijo absoluto:
Fragorosa
Ocupaçao de tudo
Paraíso Perdido
Renato Melo
IV
Os filhos da Queda andam por aí sem travessia,
tecendo nos olhos, torpor; nos sentidos,
sangria.
V
Entre a terra e o entorno, vocábulos.
Nos olhares dos homens, saudades de Casa
em suas línguas, coágulos:
- As ruas estão cobertas de gente
que sangra por dentro!
Desde então, os fracos e os pobres em tormento
tangem caídos ao relento, sua solidão.
XI
Bem aventurados são os que choram
quando no peito se arvoram
saudades de Casa.
In O Sol posto no rosto (2024)
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A admiração artística-filosófica
em Palavrantiga e Povia
Anderson C. Sandes
Todos têm um pouco de poeta e de filósofo —
e de doido, diria minha mãe. Na cultura ociden-
tal as relações entre poesia e filosofia já foram
amplamente discutidas, desde Aristóteles e, cla-
ro, antes dele. Por questões semânticas, tome-
mos também por “poeta” o artista de modo ge-
ral, o criador. E por “poesia” entendamos a arte
em geral, a criação artística.
É dado que a poesia seja mais antiga que a filo-
sofia, sendo parida e nutrida a segunda pela pri-
meira, ora relacionando-se, ora competindo
saudavelmente e até em guerra mortal (vide Só-
crates). O inevitável é que, unidas ou brigando,
estão sempre lado a lado. Mesmo que Platão
quisesse banir a poesia de sua cidade, utilizou-
se dela lindamente para favorecer sua tese. Sidney e Shelley precisaram defender a poesia em suas
épocas, pujantes em filosofia. Esperto mesmo foi Rafael Sanzio, que as pintou na mesma sala, até o
teto, a Escola de Atenas e o Parnaso — juntamente com alegorias da teologia e da justiça, na Sala da
Assinatura, Vaticano.
Celeumas cabeçudas à parte, detenhamo-nos, pois, à grande semelhança entre poesia e filosofia,
matrizes de todas as artes e ciências: ambas partem da admiração, da surpresa, da contemplação
amorosa. São demasiadas humanas, como estabelecemos, todos são meio poetas e filósofos — e
doidos, não olvidem mamãe. O que diferencia os poetas e filósofos dos demais é a resposta à admi-
ração. Artistas e filósofos reagem de modo diferente das massas quando admirados: uns escrevem
livros, outros pintam ou esculpem, outros, ainda, moldam a própria vida e fazem discípulos. Suas
obras são dotadas em menor ou maior grau de admiração, mas sempre a conterá em plano de fun-
do, que seja.
O maior terror para artistas e filósofos é um embotamento da vida, um enegrecer no olhar con-
templador, uma surdez para a marcha musical do universo. O embotamento é a lepra dos contem-
pladores amorosos.
Vejamos os versos de uma canção do músico italiano Giuseppe Povia, “Quando I Bambini Fanno
Oh” — traduzida:
Quando as crianças fazem uau!
Que maravilha! Que maravilha!
Mas que bobo veja só, olha só!
Eu me envergonho um pouco
Já não sei mais fazer “uau!”
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Na canção o eu lírico traz as crianças como esse contemplador amoroso, que sentem a admiração,
as maravilhas, enquanto ele mesmo se envergonha de não maravilhar-se mais. Fazer “uau” é a ad-
miração. Para as crianças tudo é motivo de “uau”, pois são novas em um mundo velho, cheio de es-
pantos a serem desbravados.
O eu lírico compara as crianças a poetas que fantasiam — assim como fez Freud em “O poeta e o
fantasiar” (1908). E segue:
E cada coisa nova é uma surpresa
Até quando chove
E as crianças fazem: Uau, olha que chuva!
A admiração é mesmo demasiada humana, independentemente da idade e de todo o resto. As pa-
lavras da canção ecoam em desfecho: “Quero voltar a fazer uau! Quero voltar a fazer uau!” Aqui te-
mos o artista perante certo embotamento e, de modo surpreendente, admirado com sua falta de
admiração, e disso fez arte. Filosófico, não? — e um pouco de doido.
Se os primeiros filósofos (e cientistas, por que não?) não respondessem à admiração perante a
chuva, coisa tão vulgar em nosso dia a dia, não teríamos alcançado a compreensão do ciclo da água,
acreditando ainda em algum mito sobre um deus da chuva ou coisa do tipo. Sim, mitos criados por
poetas, mas sem ressentimento…
As admirações são inesgotáveis. O nome da música que evoco agora sugere bem essa ideia: “Tudo
que eu vi não é tudo o que eu preciso aprender”, composta por Marcos Almeida, da banda Palavran-
tiga.
A premissa da música compartilha da sinceridade infantil e vulnerável das crianças: “Estou aqui,
meu Senhor / Bem sincero serei”. Aqui o lirismo é de grandeza espiritual, o homem em busca do
sublime conhecimento. O embotamento na caminhada espiritual esfria a relação com o divino, cau-
sando dor no eu lírico, que clama por mais sensibilidade para admirar:
Dá-me um coração
Que ainda tem sede de Ti
Dá-me um coração
Que ainda tem fome de Ti
Podemos ver na música um reconhecimento à dessensibilização perante a vida, a perdição da sur-
presa que dá sentido ao contemplador amoroso:
Eu preciso andar
Também me surpreender outra vez
Como sugere o título da obra, por mais que seja visto, não será o necessário para o contemplador
que tem sede e fome, e quando o objeto de contemplação é Deus, nem se fala. O mundo está cheio
de admiração e admiradores, sejam artistas, filósofos — doidos? — ou não artistas e filósofos, de-
pende da resposta às admirações. Fato é que, a surdez para a marcha musical do universo é pre-
núncio da marcha fúnebre do espírito humano, criado para admirar:
“Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus — o seu eterno poder e a sua natureza divina —
têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são
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indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe renderam graças. Pelo
contrário, os seus pensamentos tornaram-se fúteis, e o coração insensato deles se obscureceu. Embora eles afir-
mem ser sábios, tornaram-se tolos”.
Romanos 1:20-22 NVI
Ouçamos a marcha ordenadora, traduzamo-la aos espíritos cansados, demasiados humanos. Eis o
chamado para a “grande comissão”, aos artistas, filósofos — doidos? — ou não:
Ide! Admirai-vos e respondei!
Anderson C. Sandes é pedagogo, poeta, cronista, ensaísta e autor de Baseado em Fardos Reais; Arte e Guerra
Cultural: preparação para tempos de crise; organizador da Antologia Quando Tudo Transborda. Seus principais
temas de estudo são: arte poética, história da literatura e estética. É membro ativo da Igreja Adventista do Sétimo
Dia desde 2010, tendo passado por alguns cargos, como Ministério da Comunicação, Sonoplastia e liderança local
da ADRA (Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais). Site: www.andersonsandes.com.br
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O Segredo dos Presentes
Paul Flucke
A historia de que Gaspar, Melquior e Baltazar le-
varam presentes ao rei recem-nascido tem sido
contada ao longo dos seculos. Ah, voce
vai dizer, todos conhecem essa his-
toria. Eles levaram ouro, incenso
e mirra. E assim que a historia e
contada. Mas ela esta incomple-
ta. Ouça o restante. Voce vai
conhecer o segredo dos pre-
sentes.
Os que estavam mais proximos,
viram o primeiro dos tres visitan-
tes parar na porta: era Gaspar, um
homem rico trajando uma bela capa de
veludo enfeitada com peles de excelente qualidade.
Antes de Gaspar parar ali, eles nao podiam ver que
era o anjo Gabriel quem guardava o lugar santo.
— Todos os que entrarem devem ter um presente
para oferecer — disse Gabriel a Gaspar.
Levantando com esforço a linda caixa pesada,
Gaspar disse:
— Eu trouxe barras do mais fino ouro.
— Seu presente — disse Gabriel — precisa ser
algo que faça parte de voce, algo que seja precioso
a sua alma.
— Foi exatamente o que eu trouxe — disse Gas-
par.
Porem, quando se ajoelhou para depositar o ouro
diante do bebe, ele parou e endireitou o corpo. Em
sua mao nao havia ouro, mas sim um martelo. A
cabeça grosseira e preta do martelo era maior que
a mao de um homem; seu cabo, de madeira robus-
ta, tinha o comprimento do antebraço de um ho-
mem. Gaspar começou a gaguejar, completamente
aturdido.
O anjo disse suavemente:
— O que voce tem nas maos e o martelo de sua
ganancia, usado para destruir a riqueza daqueles
que trabalham arduamente para voce poder levar
uma vida de ostentaçao e construir uma mansao
para morar, enquanto seus servos moram em
choupanas.
Envergonhado, Gaspar abaixou a cabeça e fez
mençao de partir. Mas Gabriel impediu-lhe a passa-
gem:
— Nao, voce nao ofereceu seu presente.
— Um presente como este? — disse Gaspar,
horrorizado. — Ele nao e digno de um
rei!
— Foi por isso que voce veio —
disse Gabriel. — Nao pode levar
o presente de volta. E pesado
demais. Deixe-o aqui para que
voce nao seja destruído por ele.
— Mas como? Essa criança nao
tem condiçoes de levanta-lo do
chao — protestou Gaspar.
— Ele e o unico que pode — replicou o
anjo.
Perto da porta, estava Melquior, o sabio que tinha
barba comprida e rugas na testa para evidenciar
sua sabedoria. Ele tambem parou diante da porta.
— O que voce trouxe? — perguntou Gabriel.
— Incenso, a fragrancia das terras secretas e dos
tempos passados — respondeu Melquior.
— Seu presente — advertiu Gabriel — precisa ser
algo que seja precioso a sua alma.
Melquior ajoelhou-se reverentemente e pegou um
frasco de prata de dentro de seu manto. Mas o fras-
co em sua mao ja nao era de prata. Era tosco e
manchado, feito de argila comum. Atonito, ele tirou
a tampa do frasco e cheirou o conteudo.
— E vinagre! — resmungou Melquior.
— E disso que voce e feito — disse Gabriel. —
Amargura. O vinho azedo de uma vida que se dete-
riorou por causa da inveja e do odio que voce car-
rega dentro de si, lembranças de magoas antigas,
ressentimentos acumulados e raiva latente. Voce
buscou sabedoria, mas encheu sua vida de veneno.
Melquior curvou os ombros, desviou o olhar e
tentou esconder o frasco de argila. Gabriel tocou o
braço de Melquior:
— Espere. voce precisa deixar seu presente aqui.
Melquior deu um longo suspiro de sofrimento.
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— Mas este e um presente desprezível — ele pro-
testou. — E se a criança leva-lo a boca?
— Voce deve deixar essa preocupaçao a cargo do
ceu — replicou Gabriel. — La, ate o vinagre e util.
O terceiro visitante apresentou-se: Baltazar, líder
de muitas legioes e flagelo de cidades muradas. Ele
segurava uma caixa de metal.
— Eu trouxe mirra — ele disse —, a recompensa
mais preciosa de minha conquista mais arrojada.
Muitos lutaram e morreram por causa disso, a
essencia da mais rara erva.
— E ela e a essencia de sua vida? — perguntou
Gabriel.
O soldado inclinou-se para a frente, curvou a ca-
beça ate quase toca-la no chao e apresentou seu
presente. Mas o que ele depositou aos pes do bebe
era a sua lança.
— Nao pode ser! — ele murmurou com voz rouca.
— Algum inimigo deve ter feito um feitiço.
— Isso e mais verdadeiro do que voce pensa —
disse Gabriel. — Mil inimigos fizeram feitiços con-
tra voce e transformaram sua alma em uma lança.
Vivendo apenas para vencer, voce foi vencido. Cada
batalha que voce ganha leva a outra, e assim por
diante.
Baltazar pegou a lança e virou-se para sair.
— Nao posso deixar isso aqui.
— Tem certeza? — perguntou Gabriel.
— Claro — murmurou o guerreiro. — Ele e um
bebe. A lança pode espetar sua carne.
— Voce deve deixar esse medo a cargo do ceu —
replicou Gabriel.
Existe outra historia que conta que eles foram vis-
tos mais uma vez, anos depois, em uma colina soli-
taria nos arredores de Jerusalem. Mas nao se preo-
cupe. Esse e um fardo que o ceu toma conta como
so o ceu pode fazer.
No livro Histórias para o Coração. Org. de Alice
Gray. United Press, 2001.
A multiplicação
Eduardo Eiji Araki
— Está escurecendo, precisamos ir embora
— disse o homem observando a multidão
espalhada pela praia à beira do Mar da
Galileia.
Pequenos barcos estavam ancorados
próximos à praia rasa. O vento soprava
do mar trazendo frescor para a tarde
quente. Milhares de pessoas vinham ao en-
contro com o homem que chamavam de messias.
— Precisamos dar uma oferta antes de irmos — res-
pondeu a mulher remexendo a bolsa. — Isaac, meu
filho! Venha aqui.
Um garoto de cerca de 12 anos se aproximou.
— Tome, leve esta oferta — disse a mulher entre-
gando um embrulho ao menino. — Onde está Jesus?
O homem apontou para o alto da colina — Lá em
cima, cercado pelos seus discípulos.
A mulher observou o grupo que se concentrava ao
redor do messias — Parecem preocupados, estão ges-
ticulando. Isaac, leve esta oferta para aqueles homens.
O menino disparou com o embrulho nas
mãos, os pés ágeis subiam rapidamente a
trilha. Seu tamanho permitia que passas-
se facilmente pela multidão.
— O que você enviou como oferta? —
perguntou o marido.
— Cinco pães e dois peixes.
— Era toda nossa comida. O que comeremos agora?
— reclamou o homem.
— Deus proverá — respondeu a esposa observando
seu filho desaparecer em meio à multidão.
Eduardo Eiji Araki, 53 anos, membro da Igreja As-
sembleia de Deus de Jundiaí há 10 anos.
Atualmente resido em Jundiaí, SP. Casado e com um
casal de filhos.
Perfil do Instagram @eearaki
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Luiz Guilherme Libório Alves da Silva, nascido
em 1994, é natural de Bebedouro (SP) e reside atu-
almente em Belo Horizonte (MG). Formado em
Letras pela UFMG, atua como Tech Writer. É au-
tor de seis livros publicados. "Sol e Tempesta-
de" (2024), sua obra mais recente, reúne poemas,
contos, o livro de filosofia "O século dos inveja-
dos" e um romance inacabado.
Muitos de seus textos podem ser lidos em seu blog,
https://luizliborio.blogspot.com/
Luiz Guilherme Libório
Autodescrição aos 30 anos
De óculos, sou homem branco.
Sou careca. Asceta, nem tanto.
O mundo não me deve nada
nem eu nada devo ao mundo.
Nem fui eu a construir a arca
nem fui eu a circundar o muro.
Entre mortos e feridos
fui meu poeta favorito.
Entre doentes e saudáveis
vivi 30 tempos cantáveis.
De óculos, escrevi uns livros.
Careca e anônimo, eu os vivo.
Amei e amo. Sou e fui amado.
E embora eu pressinta olhares
irados e ternos vindos do mato
não sou lido, lindo, nem odiado.
Também, acho, não sou lerdo.
Tenho barba, um bárbaro afeto
e com metro e noventa de altura
quase tenho minha própria lua.
Sob sol e tempestade, 30 anos!
Meu rosto, trovão de espanto,
agradece, Senhor, o entretanto.
Amor, jardim flanqueado pelo vento
Amor, jardim flanqueado pelo vento
às vésperas da tempestade: as flores
e os frutos de seus verdes se abrem
em aberto coração à espera de águas
nesta tarde. Amor, jardim, aguardas
nas bocas habitadas pela sede dentro
contra a infecção da seca o advento
de Deus retornando para renová-las.
Poeta em Destaque
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Luiz Guilherme Libório
Ressurreição
O breu em nós não compreendia
a vinda da luz pela voz do Verbo
nem compreendíamos o deserto
erigido pelo Leão que ruge o dia
tal qual o negror em nós não via
o véu que se rasga no furor certo
- nós não tínhamos olhos quietos
o suficiente para ver Quem rugia!
Então houve o retorno que recria.
Então compreendemos nosso elo
da cruz central ao ver o ressurecto
no trinitário sorriso do terceiro dia.
Justa
"E, como aos homens está ordenado morrerem uma
vez, vindo depois disso o juízo" - Hebreus 9:27
– Eu venho da Nação da Memória
com seu estandarte na mão.
Venho da terra cujas glórias
vêm do passado. E você?
– Eu não.
Eu venho da Nação da Esperança
trazendo seu terrível brasão.
Venho da terra cuja história
é o futuro que avança. E você?
– Eu não.
Vou à Nação do Esquecer
buscar alguma compaixão.
Vou à terra cuja vitória
e guerra é morrer. E você?
– Eu também.
– Então somos irmãos.
Recentemente Luiz lançou Sol e Tempestade, espécie de
“obra reunida”, contendo em seu corpo nada menos que
seis livros publicados pelo autor. É ele quem nos esclarece:
"Viola dos 30 Anos" é feito de poemas.
"Para Michele" reúne textos dedicados à minha esposa.
"Pés de Bronze, Voz de Águas" traz ensaios sobre a Bí-
blia.
"Prosas Gerais" é feito de (quem diria) textos soltos em
prosa.
"O Século dos Invejados" é o meu livro de Filosofia publi-
cado originalmente em 2023.
Para encerrar, "Fragmentos do Templário" traz um ro-
mance inacabado.
Para adquirir o livro (disponível pela Uiclap), clique
AQUI.
Oratórios Ipês
Eu quis adornar de palavras
o meu país pra quê? Já há ipês.
Em dificuldades de pouca chuva
o ipê em vendavais flore, embora.
Finais de junho, às vezes, pipas
decorando árvores quase secas.
Eu quis fingir flores na língua.
Pra quê? Há ipês. Alguns
rosa-melodia, cor no beijo
da esposa, outros ouro-sim
ou branco-sal e roxo-sol.
Ipês (vivos) faço de oratório.
E agradeço no haver ipês
o anúncio de Deus haver
quando neles ajo meus olhos.
INSTRUÇÕES PARA SER LIVRE
O melhor que pode ocorrera um homem é que ele precise de pouco para
ser livre. O que é pouco? O pouco é um muito pequeno relativo: minús-
culos resquícios de borboleta há em tudo, por exemplo, o que é um
enorme todo construído de pequenas asas. Primeiro, um sentir na sali-
va o sol líquido. Segundo, espichar bem amplo os ossos ao acordar. Vo-
cês já viram os que trabalham muito? Sem tempo pra não ter tempo?
Os olhos secos sem ver a saliva boa na lambida amiga dos cachorros?
Para ser livre, inclusive, ser sobretudo cachorro, com os pelos no vento,
quarando depois do almoço, um eterno estar pronto pra ir, um eterno
voltar pra lar gotejando carinho. O melhor que pode ocorrer a um ho-
mem é que ele seja um cão. - Do livro Instruções (Penalux, 2018).
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Luiz Guilherme Libório
Cantiga de ninar para o ansioso
Por mais que pareça urgente
inventar a fome futura
a ansiedade, o pão da loucura
não alimenta o presente.
Por mais que pareça urgente
arquitetar a masmorra futura
a ansiedade, chave de loucura
não liberta o presente.
Descansa, então, homem
do grilhão limoso das horas.
Deus alimenta seu hoje
libertou seu ontem
e te guardará
para além da aurora.
O smartphone
Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.
Embora vibre como as coisas vivas
pulsam sob a pele que lhes cobre
o smartphone não respira, embora
haja ar dentro dele que se move.
Este morto cetro plano, fino, quadrado
feito de quinas e plástico, de luz e aço
possui esquinas macias
como macia não é a vida
e como macia é a sua tela ao tato.
Macios são seus olhos filmando
os rostos macilentos mas filtrados
com macias câmeras cujo pastoreio
consiste em fazer belo o feio
e mutilar dos corpos o errado.
Como se aos homens fosse agora dado
o cetro de governar mundos inteiros
e fosse ordenado a eles como pagamento
que não governassem mais a si mesmos
- o smartphone reina e é reinado.
O rei mantém essa coroa como refém
sendo igualmente refém dela o coroado.
Eis o cetro cujo controle é ser também
ele próprio controlado.
O elogio das artes: dança
Das artes, a dança e a unica que so existe no agora.
E a unica arte tunica, que voa no vento.
Mesmo a musica, tao ao vivo, e suas partituras.
Mesmo o teatro e a sua literatura.
Mas a dança e a escultura do corpo vivo.
A dança e a arquitetura do corpo vivo.
O poema em suor e ossos.
A dança e síncrona, sempre.
Talvez a que menos se assemelhe as outras
em ser afeita aos museus.
Acho a dança o contrario do museu.
O museu e tunica que guarda para revelar.
A dança e tunica que revela para guardar.
Ambos se movem, e verdade, sob os olhos.
Mas so a dança e levada pelo vento.
O elogio das artes: música
Dentro do ventre materno estavas.
Estavas porque voce, musica, e das artes a unica
que mesmo feita fora percebe-se dentro.
O cheiro do som espalha-se atraves.
Atraves dos anos.
Atraves dos muros.
Atraves da tempestade.
Atraves, tambem, das paredes do utero.
Erudita, popular, universal.
Talvez por isso tao torturada, tao retalhada.
Tuas costas em sangue, teu dorso de sonho
rasgado pelos que te cantam sem te amar.
Musica, quanto te devo.
Rainha, princesa, prisioneira.
Do desprezo de amor dos ondes.
Do amor de desprezo dos quandos.
Pouco pedes, musica, tudo das.
Embala os orfaos entre os teus seios.
Eu te amo, musica, eu te amo de um amor
doente de nao poder compo-la.
Em perfume, cordas, sopro, percussao.
Calices de consolo, de alegria e tristeza.
Nada tenho com o que presentea-la.
Nada.
Mas tudo o que tenho, musica, te dou.
Tudo.
Isto e, o meu silencio.
13
O Amor acredita em todas
as coisas,
ou
A História de uma Revista
Steve Stephens
Em 1910, DeWitt Wallace desenvolveu
uma ideia nova para uma revista.
Consistia de uma coleçao de artigos
condensados, a qual ele deu o
nome de Reader’s Digest [Seleções].
DeWitt eleborou um exemplar de
amostra e o enviou a todas as
editoras do país. Ninguem
demostrou interesse. DeWitt ficou
terrivelmente desanimado.
Por volta da mesma epoca, ele conheceu
Lila Bell Acheson, filha de um pastor presbiteriano.
Em breve, ambos se apaixonaram perdidamente.
Lila acreditou no sonho de DeWitt. Nao permitiu
que ele desistisse e o incentivou a prosseguir com
sua ideia maravilhosa de publicar a revista.
Encorajado pela confiança que Lila depositava nele,
DeWitt enviou uma circular pelo correio a todas as
pessoas consideradas assinantes em potencial.
Em outubro de 1921, Lila casou-se com DeWitt.
Ao retornarem da lua de mel, eles encontraram
uma pilha de cartas de pessoas interessadas em
assinar a revista. Juntos, ele trabalharam no
Volume 1, Numero 1, que foi publicado em
fevereiro de 1922. DeWitt incluiu Lila Bell Acheson
como co- fundadora, co-editora e co-proprietaria. A
revista expandiu-se ao longo dos anos. Agora,
impressa em pelo menos 35 idiomas, Reader’s
Digest e a revista de maior vendagem no mundo
inteiro*.
DeWitt e Lila foram mais que marido e mulher,
foram amigos verdadeiros. Incentivaram
a apoiaram um ao outro. Acreditaram
um no outro. Trabalharam lado a lado
para concretizar seu sonho, e sempre
se respeitaram mutuamente. DeWitt
disse certa vez:
— Foi Lila quem transformou a
revista em realidade.
Imagino que Lila tenha dito o mesmo a
respeito de DeWitt.
Sim, o amor acredita em todas as coisas. Ele
idealiza sonhos praticamente impossíveis ,
incentiva enquanto estao sendo levados adiante e
aplaude quando se tornam realidade.
* A nível de numero de exemplares, as revistas de maior
circulaçao sao as das Testemunhas de Jeova (Despertai! e
A Sentinela, mas as mesmas sao distribuídas gratuitamente
na maior parte dos casos. A revista comercial de maior
circulaçao atualmente, embora restrita em sua maior parte
ao publico dos EUA, e a AARP Magazin.
Notas Culturais
 O irmão Otoniel Melo, através de seu canal no Youtube, declama diversos poemas de autores clássicos de
nossa fé, como Mário Barreto França e Myrtes Mathias. E o canal abre espaço ainda para pregações, hinos e
também salmos declamados. Conheça, se inscreva e prestigie o canal. Acesse AQUI.
 No Prêmio Areté 2024, iniciativa da Associação de Editores Cristãos que celebra a produção editorial
cristã/evangélica mainstream no Brasil, o livro História do Antigo Testamento em versos de Cordel (Ed. Geo-
gráfica), de Fábio Sombra, foi o vencedor na categoria Crônicas, Contos e Poesia. Confira AQUI.
 Já na categoria Ficção e Romance, as princesas, sempre elas, venceram com Corajosas: Os Contos das
Princesas nada encantadas, de Maria S. Araújo et al (Ed. Mundo Cristão). Confira AQUI.
 Em dezembro, o mundialmente renomado grafiteiro, muralista e artista plástico Eduardo KOBRA inaugu-
rou em São Paulo a obra “Jesus”, bem como falou sobre sua relação de fé com Aquele que lhe estendeu a mão
em seus muitos fundos-de-poço. Assista ao vídeo AQUI.
 O ator e quadrinista Felipe Folgosi lançou campanha no Catarse para a impressão de sua oitava revista
em quadrinhos autoral, “O Prédio”. Confira AQUI.
14
Assim como uma vela
acende outra e pode
acender milhares de ou-
tras velas, um coraçao
ilumina outro e pode ilu-
minar milhares de outros
coraçoes.
O conhecimento mais im-
portante e aquele que
guia o modo pelo qual
voce leva a sua vida.
Procure os melhores ho-
mens dentre aqueles que
sao espezinhados.
Qualquer feito realizado
apenas para alcançar a
gloria e sempre mau, se-
jam quais forem suas
consequencias. O feito
motivado igualmente pe-
lo desejo de atingir o
bem e alcançar a gloria e
indiferente. Um feito e
realmente bom so quan-
do sua motivaçao e o
cumprimento da lei de
Deus.
Quanto mais uma pessoa
acreditar em Deus, me-
nos ela tera medo das outras.
So o engano precisa ser apoiado em argumentos
elaborados. A verdade sempre se mantem sozinha.
Sua vida pode ser ceifada a qualquer momento;
portanto, sua vida deveria ter um objetivo profun-
do, um significado que nao dependa de ser ela bre-
ve ou longa.
Nao alcançamos a liberdade buscando a liberdade,
mas sim a verdade. A liberdade nao e um fim, mas
uma consequencia.
E preciso estendermos a nossa volta uma grande
teia de amor, assim como as aranhas estendem a
teia para apanhar o que lhes passa ao alcance. Em
vez, porem, de agir como o animal, que destroi e
aniquila, detenhamos o que passa, unicamente pa-
ra consolar e fazer o bem.
O unico prazer verdadeiro e o da atividade criado-
ra.
A verdadeira felicidade esta na propria casa, entre
as alegrias puras da famí-
lia.
Os ricos farao de tudo pe-
los pobres, menos descer
de suas costas.
Esta em meu poder servir
a Deus ou nao o servir.
Servindo-o, acrescento ao
meu proprio bem e ao
bem de todo o universo.
Nao o servindo, abro mao
do meu proprio bem e
privo o mundo do bem
que estava em meu poder
criar.
Cada um pensa em mudar
a humanidade, mas nin-
guem pensa em mudar-se
a si mesmo.
Se queres ser universal,
começa por pintar a tua
aldeia.
A sociedade so pode ser
aprimorada por meio de
auto sacrifício.
So poderemos melhorar o
mundo distribuindo a
verdadeira fe entre todos
os povos.
O bem do homem e o amor, como o da planta e a
luz.
‘O que fazer?’, e o que se perguntam, em unanimi-
dade, os poderosos e os subjugados, os revolucio-
narios e os ativistas sociais, entendendo sempre
com essa questao o que os outros devem fazer; nin-
guem se pergunta quais sao as suas proprias obri-
gaçoes.
O segredo da felicidade nao e fazer sempre o que
se quer, mas querer sempre o que se faz.
Procure as causas dos infortunios pelos quais a hu-
manidade sofre. Passe alem das causas obvias, para
buscar as de raiz, e inevitavelmente havera de des-
cobrir que a causa mais basica, mais importante, de
todos e de cada um dos problemas da natureza, e a
debilidade de uma fe que nasce de uma atitude fal-
sa em relaçao ao mundo e sua origem.
liev
tolstoi
O romancista russo Liev (também dito
Lev, Leon, Leão) Tolstoi nasceu em 1828,
na pequena vila de Yasnaya Polyana.
Para além de sua obra literária que se con-
figura como uma das maiores já criadas,
Tolstoi ganhou fama como pacifista e pen-
sador. Suas ideias, que versam do anarquis-
mo ao vegetarianismo, iam de encontro ao
status quo vigente, mesmo entre institui-
ções cristãs, algumas das quais ele denun-
ciava como não vivendo o verdadeiro cris-
tianismo, conforme pregado por Cristo no
Sermão da Montanha (Mateus caps. 5 a 7).
Ana Karenina, Guerra e Paz e Ressurreição
são considerados seus maiores romances.
As frases aqui publicadas foram extraídas
do e-book 100 Frases de Liev Tolstoi (que
pode ser baixado gratuitamente AQUI).
15
A alegria de fazer o bem e
a unica felicidade verda-
deira.
Em vao milhares e milha-
res de homens, aglomera-
dos em um pequeno espaço, procuravam maltratar
a terra em que viviam, esmagando de pedras o so-
lo, para que nada germinasse; em vao arrancavam
impiedosamente o arbusto que crescia e derriba-
vam as arvores; em vao escureciam o ar com fuma-
ça e petroleo; em vao enxotavam aves e animais: a
primavera, mesmo na cidade, era ainda e sempre, a
primavera. O sol brilhava com esplendor; a vegeta-
çao, reverdecida, voltava a crescer, tanto nos gra-
mados como entre as lajes do calçamento, de onde
tinha sido arrancada; as betulas, os alamos, as ce-
rejeiras espalmavam suas folhas umidas e perfu-
madas, os botoes das tílias, ja intumescidos, esta-
vam quase a florescer; pardais, pombas e gralhas,
trabalhavam alegremente na construçao dos ni-
nhos; acima dos muros, zumbiam as moscas e as
abelhas, radiantes de gozar novamente o calor do
sol. Tudo era alegria: plantas, animais, insetos e
crianças, em esplendido concerto. Os homens, so-
mente os homens, continuavam a enganar-se e a
torturar a si proprios, e aos outros. Somente os ho-
mens desprezavam aquilo que era sagrado e su-
premo: nao viam aquela manha de primavera, nem
a beleza divina do mundo, criado para a alegria de
todos os seres vivos, e para a todos dispor a uniao
e a paz e ao amor. Para eles so era importante e
sagrado aquilo que haviam inventado para instru-
mento de mutuo engano e tortura.
O objetivo da vida e o de ex-
pressar o amor em todas as
suas manifestaçoes.
Se um coraçao e grande, ne-
nhuma ingratidao o fecha,
nenhuma indiferença o cansa.
As grandes obras de arte somente sao grandes por
serem acessíveis e compreendidas por todos.
Todo mundo e capaz de se lembrar de um momen-
to, que e universal, comum a todos, talvez da pri-
meira infancia, no qual desejou amar a tudo e a to-
dos – seu pai, sua mae, seus irmaos, os maus, um
cao, um gato, a grama – e quis que todo o mundo se
sentisse bem, todo o mundo se sentisse feliz; mais
ainda, quando quis fazer algo de especial para que
todos pudessem ser felizes, mesmo com seu sacri-
fício pessoal, mesmo dando sua vida para que to-
dos pudessem se sentir felizes e alegres. Este senti-
mento e o sentimento do amor, e e preciso voltar a
ele, pois ele e a vida de cada um de nos.
Ataque-me — eu mesmo faço isto —, mas ataque a
mim, em vez de culpar o caminho que sigo e que
indico a todos aqueles que me perguntam onde
acho que ele esteja. Se conheço o caminho de casa
e ando por ele embriagado, o caminho nao deixa de
ser certo simplesmente porque ando por ele cam-
baleante! Se nao e o caminho correto, entao mostre
-me um outro; mas se cambaleio e perco o cami-
nho, voce deve me ajudar, deve manter-me na sen-
da da verdade, assim como eu mesmo estou dis-
posto a ajuda-lo.
Liev tolstoi
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16
Mateus Ma’ch’adö
O sol despontou atras da vinha,
quando me dei conta
do sonho que se tornou desejo;
tua anca repousando em minha coxa.
E o mundo se tornou uma janela,
por onde eu olhava, la estava ela
com tua nudez transfigurando
os dias do início da Criaçao.
Branca, tua pele que me toca;
a nevoa no cume dos montes.
Um povo viu o mar em dois se abrir;
eu vi o mar se abrir entre as tuas pernas
como se abrisse translucidas portas.
Caminhei pelo teu chao de carne;
em teu sulco mais profundo
uma vela acesa queimando estrelas.
Quente, os seios que abrigam o meu rosto;
homens se afogaram no diluvio, enlameados.
Minha inclinaçao para o mal rasgou o veu;
agora meus olhos sangram diante de tanta beleza.
Com minha boca colada no teu peito, me afogo;
teus mamilos sao camafeus de sal marinho
revelando rosas selvagens em relevo;
as coroas, rosarios de planetas incandescentes.
Teus olhos, o brilho cristalino de uma clepsidra,
reflete o azul, o mel, o claro castanho e o verde;
foge de mim, se esconde, a cor dos teus olhos.
As mulheres no meio do povo ja me honraram
depois das batalhas, dançando e cantando pelas ruas:
"Saul matou os seus milhares,
porém Davi, os seus dez milhares.”
Ja derrotei gigantes com uma funda
e alguns seixos de rio corrente,
mas agora me vejo prostrado;
minha testa em teu ventre macio.
Ja matei um urso com garras de ferro,
mas agora sou derrotado pela delicadeza
de teus dedos finos; teu pulso e um graveto.
Agarrei a juba de um leao e o sufoquei
com minhas maos de pastor ainda menino,
mas fui laçado pelos teus longos cabelos.
Eu machuquei o coraçao de D’us;
o que me resta e cobrir-me de cinzas
e escrever meu salmo de arrependimento:
Tem misericórdia de mim, ó Deus,
apaga as manchas de minha rebeldia.
Fazei de mim, Senhor, não o teu servo,
que cuida da tua montaria e dos teus cavalos,
ou como o copeiro que cuida do teu banquete,
mas fazei de mim, Senhor, o teu escravo
que limpa a lama dos teus calçados e lava teus pés
com as lágrimas de um coração contrito.
Sobre a cama flutua teu corpo procurando o meu;
uma duna de sal, uma femea de leopardo das neves.
Sobre a cama ondula teu corpo sustentando o meu;
uma tamareira ao vento, um jardim suspenso.
Teu sussurro, esturro da leoparda em alvoroço;
teus gemidos, a cantilena da femea do chacal.
Teu corpo, forno de argila ardente esperando
assar o pao;
fornalha que me alimenta com teu fogo branco, brando;
Teu colo e uma despensa, um cesto, um ninho de pomba.
Tua boca tem gosto de trigo, leite e mel, vinho
encorpado;
um fio de escarlate escorre dos labios, do halito o
incenso.
Teus dedos respingam azeite, ha farinha debaixo das
unhas;
as maos sao dois calices, teus peitos, duas botijas de fino
couro.
O teu corpo e como um lagar oferecendo os teus frutos;
teu abraço, uma prensa destilando oleo em gotas de luz.
Olhar para a encarnaçao da beleza,
nao com prazer, mas com remorso,
maior castigo na terra nao ha.
Sou Davi, rei, poeta e homem de guerra;
pobre criatura feita de po, ilusao e miseria.
Minha maior batalha e o casamento do ceu e do inferno
dentro de mim.
Davi - algumas horas depois de ter se deitado com Batsheva
17
A VELHINHA DO SAN ANDRÉS
Jorge F. Isah
O mundo é mal, dizem alguns, enquanto comem
caviar, lagostas e bebem um Domaine Leroy
Chambertin Grand Cru, de U$ 4.000,00
a garrafa. Só se for para as ovas
do Huso Huso, dos crustáceos
decápodes ou das pobres vitis
viniferas. Na verdade, o
mundo não é mal. O
problema é ter gente só
pensando o mal e buscando o
mal, enquanto dizem querer o
bem. Como aquela galerinha que
vive falando em paz, amor, na opressão
das codorninhas antes dos ovos eclodirem,
enquanto no silêncio dos fones Beats e segura em
seu quarto, maquina esquartejar e atear fogo na
inofensiva velhinha no GTA San Andrés. Não
obstante, alguém pode questionar ser mal um
ataque puramente virtual onde não existem vítimas
reais? Claro que não. Seria um absurdo. Mas uma
semente daninha, se cair no terreno certo, virará
uma árvore dos capetas.
Certa vez, ouvi de um amigo a seguinte história:
— Estávamos eu, minha esposa e meus filhos no
velório da irmã da tia da amiga de minha mulher. Ela
morrera muito jovem e prematuramente. O filho
mais velho tinha doze anos. Nos sentimos abalados
com a notícia, a despeito de esperar o fim trágico
havia algum tempo, já que a doença era incurável.
Pois bem, eu não conhecia a quase totalidade das
pessoas do lugar, e como minha filha estivesse
muito triste, ela se aproximou, encostou-se em
mim, e abracei-a, consolando-a. Nisso, chegaram
algumas mulheres e conversaram com a minha
esposa. Eu não sabia quem eram, mas presumi, pela
tristeza, serem parentes. Ficaram lá um tempo; e no
ambiente de comoção, talvez por descuido, não
fizemos as apresentações.
Fez uma parada estratégica, como se estivesse
buscando na memória a melhor versão ou a versão
certa, e prosseguiu:
— Então, uma das mulheres, a que mais me
observava (desde a chegada, fixou-se em mim,
descaradamente), cochichou algo. Minha mulher
virou-se, e sorriu encabulada:
“Este é o meu marido e a minha filha”.
A amiga pareceu assustar-se sem, contudo,
demonstrar qualquer sinal de embaraço. Olhou-me,
novamente de alto a baixo, e disse:
“Ah, bom, pensei que fosse mais
um velho safado enrabichado
por uma garotinha”.
— Fiquei tão chocado que
não disse nada. Apenas
imaginei: que raios levou esta
mulher a pensar tal coisa?...
Devia ser um recalque, trauma
ou simplesmente estupidez.
No fundo, todos esses elementos
têm origem no mal, normalmente da própria
pessoa. Se você não procurar, não encontra. E
mesmo se procurar, pode não encontrar. Mas se
insistir na busca, por certo, mesmo que não
encontre, arrumará um jeito de crer que encontrou.
Assim é boa parte das pessoas que pensam
maliciosamente e as veem nas atitudes mais
inocentes e castas. Nada é mais deletério do que os
pensamentos delas, muito mais do que a produção
necessária para entupir a latrina.
Outro dia, um velho, ostensivamente, olhava uma
adolescente em vestes sumárias. Ao ponto de a
garota se incomodar, trocar de lugar, e ficar de
longe esguelhando-o. Ele não se importou, e
manteve-se fixado nela. Por fim, ela desistiu e saiu
porta afora. Então, ele se virou para mim e disse:
— Viu aquilo?
— Não. O quê?
— Ora, essas meninas não sabem mais como se
portar em ambiente público. Vestem-se como
prostitutas, e não respeitam ninguém.
Eu verdadeiramente não queria aquela conversa.
Mas não me contive, tal a dissimulação do velho
gagá.
— E o senhor, sabe?
— Sabe o quê?!! – ele estava intrigado, quase
assustado, e sem me entender.
— Portar-se em público?
— Ora, como ousa! Sabe com quem está falando?
— Não, não sei. E o senhor, sabe?
18
Esperou um instante. Os olhos indecisos e a língua
claudicante. Por fim, respondeu:
— Não, não sei... Quem você é?
— Sou o homem que vejo um hipócrita a metros
de distância, mas um canalha posso senti-lo a
quilômetros.
Levantei-me, e saí da poltrona onde estava. Do seu
lugar, ele me encarou. Até que foi chamado. A
secretária do proctologista ao vê-lo, disse
sardônica:
— Por aqui de novo, seu Mário?... — E lhe deu um
tapinha nas costas – Desse jeito, vou ter de arrumar
um cantinho para o senhor.
— Ora, ora, menina, não carece, não carece...
Entrou sorridente, talvez sem entender, talvez
entendendo, talvez sem aceitar, talvez aceitando as
formulações da enfermeira ou simplesmente a
fingir-se de morto. De minha parte, estava aliviado
de não receber tratamento tão íntimo, mesmo da
equipe oftalmológica.
É o que sempre digo, a despeito do pecado
original, da natureza caída do homem, ainda resta
muito do “imago dei” em cada um de nós e, por
isto, existe bondade nas pessoas, talvez não o
suficiente, talvez em módicas porções, mas capaz
de nos fazer lembrar do que somos, do que não
somos, do que deveríamos ser e não podemos ser,
mas é sempre Deus a nos mostrar como seremos,
se para o bem ou para o mal, é ele quem nos
mostra, nos guia e nos orienta e sustém no caminho
para o bem. É uma discussão longa, que este exíguo
espaço não permite, mas o fato consiste em: se
procurar o mal, o encontrará até mesmo nas coisas
boas e saudáveis da vida. Se procurar o bem, é
possível que do próprio mal Deus faça o bem, e
você se surpreenda.
Surpreso ou não, existem os incapazes de ver
além dos próprios olhos, de enxergar além de si
mesmo e, por isso, ninguém ou nada jamais
prestará. Os niilistas foram tão eficientes em
espalhar seus dogmas, seu pessimismo além do
próprio ceticismo e derrota que mesmo a vitória
lhes caindo nos colos a tratarão como inimiga,
venenosa, absurda e sem sentido. Se um deles, não
segundo a realidade ou as exigências da vida, mas
segundo a descrença utópica ou melhor, a
relutância absoluta, estivesse se afogando e lhe
dessem uma boia salva-vidas, ele a recusaria, ciente
de não haver nada em seus princípios a consentir
com tamanha nulidade. E, ainda por cima,
acusariam o bombeiro, a tentar resgatá-lo, de
astênico e covarde.
Certa vez, um jovem foi vendido como escravo por
seus irmãos. O seu nome era José. Acabou levado
para a casa de um importante figurão em um país
distante. Lá, em uma série de encadeamentos
providenciais, acabou por ganhar a confiança do rei.
Ao se antecipar e prever tempos difíceis, de fome e
escassez, e tomar atitudes e medidas para o reino
não sofrer as agruras da penúria, se tornou primeiro
-ministro ou algo parecido. Durante a miséria da
região, sem saber, seus irmãos migraram para esse
país em busca de alimento, já que era o único
preparado para atender as necessidades não
somente do reino mas dos vizinhos ao seu redor.
Quando perceberam que o segundo homem mais
importante era o seu irmão, entregue como escravo
na adolescência, imaginaram que seria o momento
de vingança e que estariam literalmente ferrados.
Não esperavam por misericórdia, mas justiça. Não
esperavam perdão, mas sentença. Muito menos
afeição. Nada além do castigo.
Então, o primeiro-ministro ao vê-los, chorou,
abraçou-os, mandou alimentá-los, trocar-lhes as
roupas, e fazer uma festa. Estarrecidos com aquela
situação inesperada, a recepção incompreensível,
mas ainda temerosos, ouviram de José: “Vós bem
intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou
para bem, para fazer como se vê neste dia, para
conservar muita gente com vida.”
Você pode se lamentar e dizer: ninguém presta!...
Este mundo não vale nada!... Mas, na verdade, você
é apenas medroso, um poltrão a lançar por todos os
lados, e sobre todos, os seus receios e pavores, e
repudiar o antídoto resumido nestas palavras: amar
e fazer o bem.
Por incapacidade, escolha ou fingimento, atear
fogo ou esquartejar inocentes no GTA certamente é
o seu jeito de dizer: dane-se!
Principalmente, a si mesmo.
Jorge F. Isah é jornalista, escritor e editor. Autor de
“A Bula do Placebo”, entre outros títulos, disponíveis
na Amazon.
19
Julia Lemos
Jesus, depois de sua trajetória de intensos três anos e de ter, no final, consumado sua paixão legou-nos seu
amor eternal.
Não foi recebido por seu povo, não lhe mereceu a honra, a não ser pelos mais próximos. Impossível um an-
darilho que pregava pelos desertos e nas aldeias segregadas de Israel ser considerado pela fina estirpe da
classe sacerdotal, e muito menos pelos potentados romanos, que acerca dele só ouviam dizer dos
tumultos.
Vinha de uma família de artesãos da madeira nos arrabaldes de Belém. Além do mais,
fazia-se acompanhar por gente sem posição social, incluindo os semiletrados pescadores,
e em contrapartida, os maiorais de seu povo frequentavam as coortes governamentais.
Seu estilo de vida poderia ser comparado ao de um 'hippie', mas era surpreen-
dente em atitudes e desconcertante nas suas respostas, sempre levando o interlocu-
tor a enxergar a si mesmo.
Quem era este homem que também se fazia acompanhar de publicanos e
pecadores (?) Gente considerada a escória da sociedade, propagando suas ideias
a partir de um grupo formado de pessoas simples ou de cobradores de impostos
e a quem ele um dia formou sua base apostólica; (já outros, seus seguidores
mais destacados, não o podiam admitir publicamente).
Mas o andarilho sem formosura aparente ainda se autointitulava filho
de Deus! Era aos olhos da elite sacerdotal judaica um impostor e um blasfe-
mo, por isto acharam um meio de condená-lo a morte em vista das leis vigen-
tes.
A arma estava engatilhada, as feridas expostas, as mentes confusas por-
que o homem transformara água em vinho, repreendia ventos e aplacava tem-
pestades andando por sobre o mar! Alimentara multidões de pão e de peixe
sem gastar nenhum denário; curava os enfermos e as mulheres que sangravam,
cegos enxergavam, paralíticos voltavam a andar, mudos a falar, e o mais espeta-
cular de tudo: os mortos ressurgiam para a vida!
Afinal, o que era aquilo?!
Era Deus aparecendo com o nome definitivo de seu único filho: Jesus Cristo.
Aquele que havia sido prometido desde a mais remota história de Israel, mas que apa-
receu no mundo em um formato que contrariava todas as expectativas.
Era Ele, o Deus criador de tudo, dono do ouro e da prata e das maravilhas do univer-
so, expressando sua intensa, incomensurável paixão pelos homens, que agora fazia um corte
na história dos israelitas, desta vez feito cativos pelos gentios.
O próprio Senhor do universo visitava a terra em humanidade plena, amando os homens até
a loucura e completa tormenta!
O percurso de Jesus foi consumado na cruz e desde então o amor tornou-se vincado pelo sangue.
A nossa paixão deve ser alquimicamente transformada em amor, pois que toda paixão traz em si as marcas
do sofrimento e da crueldade. Já o amor é a única saída, o bálsamo purificador. O amor é a paixão tornada subli-
me.
E penetra toda a atmosfera... Desce do céu e sobe da terra em um vai e vem que a tudo rega, floresce e
frutifica.
O amor está no meio dos vapores que sobem do abismo. Juntos, paixão e amor vencem o mundo.
20
ORAÇÃO
Ageu Magalhães
Lucas e Marina estavam perdidos na
floresta há horas e o dia já começava
a escurecer. Subitamente, no meio
da mata fechada, encontraram uma
pequena gruta. Ali poderia ser um
local para passarem a noite. Entra-
ram na gruta para avaliar se seria se-
gura. Estreita no início, a gruta foi se
abrindo depois de alguns metros até tornar-
se uma grande caverna. Havia um lindo lago no
meio, árvores e pássaros. A visão era espetacular.
Um local belo, mágico e sobrenatural. Eles ficaram
ali, boquiabertos, apreciando a visão e, de repente,
uma paz inexplicável invadiu seus corações. As pre-
ocupações por estarem perdidos simplesmente de-
sapareceram e agora suas mentes estavam calmas,
serenas e tranquilas. A sensação de bem-estar era
inebriante. A harmonia, a segurança e a quietude
envolveram suas almas. Aquele local parecia um
cantinho do céu. Agora eles não queriam
mais sair de lá...
O conto é simbólico, mas o que eles
sentiram é real. A caverna se chama
“oração”...
O Reverendo Ageu Magalhães é pastor da
Igreja Presbiteriana de Vila Guarani (igreja federada
a Igreja Presbiteriana do Brasil), diretor do Seminário
Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da
Conceição.
Aprendizado
Carlos Nejar
O primeiro aprendizado é o de estar
vivo. Depois o de aprender a ver, sen-
tindo. Depois ligar as palavras ao mun-
do e elas à consciência de poder mudá
-lo. Depois na solidariedade, relação
entre as pessoas, o convívio, a prece-
dência da ordem da vida sobre a das coi-
sas. E a descoberta do homem não somente
como um animal político, amoroso, metafísico ou
poético. Mas a de um ser que só pode repousar no
Absoluto.
O ofício do poeta é o tentar definir as coisas. E ao
tentarmos, somos por elas definidos. Ou devorados.
Sim, o poeta lida com matérias ígneas. Ou se arrisca
na luta contra as feras palavras. O que sobra ou se
salva é o poema. O que o poeta desconhece, o poema
sabe. E é mais que um ofício: é uma vocação irresistí-
vel para o abismo de Deus.
Assim, não existe rotina na criação. Cada metáfora
é uma existência inteira. Cada poema é o início da
eternidade. Porque o poeta é alguém que sabe en-
tender as palavras. E elas o reconhecem,
procuram. E o exprimem. Há que vigiar,
testemunhar. Permanecer de pé diante
do Filho do Homem.
Não é chefe de nada. Apenas de sua
nobre, fraterna linguagem. Como Cid
Campeador, retém junto a si “as compa-
nheiras espadas”.
In Caderno de Fogo (Escrituras, 2002)
Carlos Nejar é poeta, ficcionista, tradutor e crítico
literário brasileiro, membro da Academia Brasileira de
Letras.
21
A história da Wisdom Tree
Fundada em 1988 com o no-
me de Color Dreams, esta
softhouse desenvolvedora de
jogos cristãos, foi uma das maio-
res produtoras de jogos não li-
cenciados para o NES (Nintendo
ntertainment System, o popular
Nintendinho 8bits), tendo, assim como a TENGEN, desen-
volvido uma alternativa para burlar o chip de bloqueio da
Nintendo. Entretanto, devido ao descontentamento da
Nintendo, que não recebia receita dos jogos da Color Dre-
ams, das ameaças de não distribuir mais seus jogos aos
varejistas que vendessem estes games não licenciados e
das críticas pela qualidade duvidosa de seus jogos, a em-
presa começou a considerar a possibilidade de criar jogos
bíblicos e entrar no mercado "gospel", algo ainda não ex-
plorado no ramo dos videogames. E acertou em cheio,
criando um novo gênero de jogos, livrando-se da pressão
da Nintendo que, pelas políticas de bom relacionamento
com pais e grupos religiosos não moveu nenhuma ação
judicial contra ela e, diferentemente da Tengen e da AVE
(do jogo Wally Bear and the No Gang), pôde vender livre-
mente seus jogos, sem concorrência alguma, nas livrarias
cristãs que, além de livros e Bíblias, também vendiam fil-
mes e música cristã. E agora, pela primeira vez, jogos bíbli-
cos. Vale ressaltar aqui que, diferente do que alguns acu-
sadores afirmam, a Wisdom Tree não cometeu nenhum
crime e não violou nenhuma lei, apenas não se submeteu
ao império que a Nintendo criou e deu um "jeitinho" para
sobreviver.
David Sheff, autor do livro "Os Mestres do Jogo", que
conta a história da Nintendo, afirmou sobre o caso:
"Havia, no entanto, um produtor não licenciado a quem
Lincoln provavelmente não perseguiria: Wisdom Tree,
cujos jogos eram baseados em aventuras bíblicas, como
Noah's Ark, Save Baby Moses e David Versus Goliath. As
manchetes, NINTENDO PROCESSA CRIADOR DO BEBÊ
MOISÉS, por exemplo, fariam até mesmo o descolado
chefe de relações públicas da Nintendo, Bill White, ter
horríveis pesadelos." Segundo o site Ninten-
do.fandom.com, existem relatos conflitantes sobre os mo-
tivos reais da mudança da Color Dreams para Wisdom
Tree e a criação dos jogos bíblicos. Alguns dizem que Dan
Lawton, fundador da empresa, fez isso mais por brincadei-
ra do que por piedade e
religiosidade, mas que,
Mike Wilson, outro en-
volvido, era professor de
escola bíblica dominical e
foi quem sugeriu a ideia.
De fato, independente
disso, a Wisdom Tree
sobreviveu às pressões
da Nintendo e deixou sua
marca na história, sobre-
vivendo até hoje e tor-
nando-se famosa por ser a única empresa a lançar um jogo
não oficial para o Super Nintendo nos Estados Unidos, o,
no mínimo curioso, "Super Noah's Ark 3D", um FPS (tiro
em primeira pessoa) feito em cima da engine do jogo Wol-
fenstein 3D.
Antes da mudança de foco e público alvo, a Color Dre-
ams lançou 15 jogos não licenciados para o Nes. A maioria
dos jogos bíblicos foram adaptações destes, com sprites
modificados, personagens, cenários e diálogos alterados
para tornarem-se mais acessíveis aos cristãos, músicas
substituídas por hinos cristãos e músicas clássicas e versí-
culos e perguntas bíblicas incluídos durante a jogatina.
Outros jogos novos foram feitos do zero, já dentro da te-
mática bíblica, mas sempre inspirados em clássicos conhe-
cidos. Depois, vários destes games receberam ports para o
Mega Drive com gráficos levemente melhorados.
A Wisdom Tree existe até hoje, seus jogos estão dispo-
níveis na STEAM e, além disso, alguns dos seus cartuchos
ainda são vendidos em parceria com a PIKO Interactive e
em emuladores variados.
King of Kings, Spiritual Warfare, Noah’s Ark, Exodus
(NES) são alguns de seus jogos. E os caras lançaram até
uma Bíblia para o Game Boy!
Luiz Miguel Gianeli é pastor,
missionário e escritor. Está à frente
do projeto Muito Além dos
Videogames, que objetiva falar de
games a partir de uma perspectiva
cristã.
O presente texto foi extraído da
revista Muito Além dos Videogames
Edição Extra 2, focada em jogos de
temática cristã. A revista pode ser
baixada gratuitamente, AQUI.
GAMES Luiz Miguel Gianeli
22
O FEIJÃO E O SILÊNCIO
Lucas Roberto
Rio de Janeiro, 1942
— Alô.
— Mister Lessa?
— Fala, MacArthur.
— Tem planos para esse noite?
— Estava terminando um capítulo.
O que sugere?
— Esquece o trabalho, vamos
tomar umas.
— Não sei, não, a Elsie já
preparou o jantar.
— Let’s go, man! Passo aí em
20 minutes. Bye!
— Elsie! Querida, não vou ficar
pro jantar. Não espere por mim,
vou sair com o chefe gringo. — Deu
um beijo no pequeno Ivan e saiu.
***
— Well, well, Mister Lessa. O diretoria está impres-
sionada com seus textos. Sua agilidade é impressio-
nante.
— É a vontade de terminar logo o serviço pra vol-
tar pros meus livros. — Orígenes deu sua icônica
gargalhada. — E você, já se acostumou com a mi-
nha terra?
— Oh yes. Que país! A comida é fresca, as praias
são lindas...
— Não se esqueça das mulheres.
— Copacabana não me deixar esquecer. Que país!
MacArthur bebeu o último gole de sua cerveja e
pediu mais uma rodada pro garçom, enquanto Orí-
genes acendia outro cigarro, e estava ainda no pri-
meiro copo. MacArthur queria mudar de assunto,
mas pediu que a conversa seguisse em inglês, a fim
de não ter mal-entendidos (o que será traduzido,
para o alívio do leitor).
— Orígenes, você é um homem religioso?
— Leio a Bíblia com frequência.
— Pois bem, e o que acha de Hitler?
— Um louco. E pensar que o Vargas arrasta uma
asinha para aquele canalha.
— E se eu te dissesse que o buraco é mais embai-
xo?
— Como assim?
— A mídia ainda não sabe o que está acontecendo
nos bastidores dessa guerra.
— Você diz das teorias da conspiração?
— Não são teorias, Orígenes. — Nesse momento,
MacArthur fez uma pausa dramática,
olhando nos olhos do amigo, pronto
para revelar algo. — Você precisa
saber de algumas coisas.
— Eu acho é que você já está
bêbado com a terceira rodada.
— Orígenes tentou aliviar o
clima tenso, sem sucesso.
— Não estou, confie em mim.
A questão é que não vim para o
Brasil para assumir o Departamen-
to de Publicidade e Propaganda. Es-
tou numa missão do Governo Americano.
— E eu estou inventando a pólvora. — Orígenes
gargalhou novamente.
— Preciso que você leve a sério essa conversa, Sr.
Lessa. — MacArthur mostrou seu distintivo e pas-
saporte diplomático como prova do que estava ale-
gando. — Estou aqui porque coisas terríveis estão
acontecendo na Europa e a polícia secreta de Hitler
se infiltrou em nosso governo. Minha missão é re-
crutar um agente confiável para interceptar nossos
informantes. E, hoje à tarde, indiquei seu nome no
meu relatório.
— O que? Por que eu? Tenho mulher e filho pe-
queno. Enfim consegui estabilizar minha vida de-
pois da prisão. Com certeza, há melhores opções!
— Não, não há. Você tem experiência em guerra,
teve treinamento militar.
— Foram só alguns meses, e eu nem sequer dei
um tiro!
— Seu romance de sucesso e suas propagandas
mirabolantes são a desculpa perfeita de uma promo-
ção para Nova Iorque.
— Já disse que não. Nada disso me torna a pessoa
“perfeita”.
— Lessa, nosso maior informante é uma rede de
resistência de clérigos. E você foi seminarista. Vo-
23
cês falam a mesma língua.
— Larguei o seminário no segundo ano e estou
afastado da Igreja há mais de uma década.
— Por Deus, Lessa, se não por você, faça isso pe-
lo seu pai!
— Não coloque meu pai nisso, ainda sinto a perda
dele.
— Muitos sacerdotes, como ele, estão dando a vi-
da para tentar impedir aquele maldito de
seguir com a guerra. Eles também
têm família. E te digo mais, se os
fatos forem confirmados, aquele
homem é um diabo. Seu pai
jamais hesitaria diante dessa
necessidade.
— Eu não sou o meu pai.
— Mas é mais parecido com
ele do que imagina. Aquele que
sabe fazer o bem e não o faz, peca.
Orígenes deu um murro na mesa.
— Não venha com discurso moralista pra
cima de mim... — Abaixou a cabeça e respirou fun-
do. Voltou o olhar para o colega e disse: — Se eu
aceitasse... como funcionaria?
— Você vai pra Nova Iorque como correspon-
dente da NBC. Nós conseguiremos alguns nomes
de destaque para você entrevistar, e, dentre essa
gente, teremos nossos informantes.
— Mas e o risco?
— Não há motivos para se preocupar. Uma equi-
pe te monitorará 24 horas. Colocaremos um dos
nossos agentes à paisana para acompanhar sua es-
posa sempre que ela sair. Vocês estarão em boas
mãos. E veja os bônus, além de ajudar a acabarmos
com essa maldita guerra, você e sua esposa alavan-
carão suas carreiras.
— Quanto tempo isso duraria?
— Não mais que um ano.
— Um ano!?
— Sim, não podemos simplesmente encaixá-lo
entre os grandes da noite para o dia. Você precisa
ganhar destaque de forma natural, como ganharia
pelos próprios méritos. A diferença é que daremos
uma mãozinha, nada mais que isso. O que me diz?
— Preciso falar com minha esposa. Não posso
tomar essa decisão sem consultar a Elsie.
— Fale sobre a oferta de emprego e os benefícios,
mas ela não pode saber sobre a missão. É muito ar-
riscado. Nem ela e nem ninguém pode saber.
— Ninguém? Nunca?
— Para a sua segurança, é melhor que não. — Ma-
cArthur deu o último gole na cerveja, enquanto Orí-
genes não havia tocado na sua. — Você tem 24 ho-
ras para me dar a resposta. Seu voo está agendado
para a próxima semana.
— Mas hoje já é sexta-feira.
— Então é melhor se apressar.
***
— Alô, MacArthur.
— Yes.
— Que horas é o voo?
Nova Iorque, 1942
Frequentar eventos religiosos se tornou parte da
estratégia de Orígenes para encontrar líderes da re-
sistência. Sua tática consistia em cifrar suas conver-
sas através de passagens bíblicas, a fim de proteger
as identidades e garantir que as informações perma-
necessem seguras. Cada encontro era uma mistura
de tensão, pela constante sensação de ser seguido, e
a adrenalina das informações que vinham à tona.
Os tentáculos nazistas se infiltravam pelo governo,
tornando difícil saber em quem se podia confiar.
Prisões de colegas de trabalho eram frequentes, sob
a suspeita de serem agentes duplos. A cada momen-
to, Orígenes verificava o perímetro ao seu redor pa-
ra garantir que não estava sendo seguido. Não havia
mais paz.
Cartas anônimas e telefonemas mudos lançavam
dúvidas sobre a segurança do casal, tornando cada
passo em falso uma possível sentença de morte. À
medida que Orígenes se aproximava de montar o
quebra-cabeça, maiores eram as ameaças. Sua casa
era frequentemente revirada, simulando assaltos,
mas ele sabia que estavam em busca das pastas in-
terceptadas destinadas a MacArthur. A possibilidade
de escutas implantadas adicionava outra camada de
insegurança. Apesar do perigo iminente para sua
24
família, Orígenes sabia a necessidade de completar
sua missão.
***
— Alô.
— ...
— Posso ouvir sua respiração!
— ...
— Nazista desgraçado, eu sei que você está me
ouvindo. Ouça bem o que vou dizer. Agora que o
meu país entrou na Guerra, vocês já eram, enten-
deu? Já eram, agora a cobra vai fumar!
***
— Aqui está o envelope do Reverendo Bonhoef-
fer sobre a “Operação 7”.
— Graças a Deus, eles estão conseguindo trans-
portar os judeus para áreas seguras. E como ele es-
tá?
— Disse que voltará para a Alemanha. Avisei que
era loucura, mas ele não quis me ouvir, disse que
seu lugar era ao lado dos seus irmãos. Não posso
dizer que não entendo ele, mas ainda acho suicídio
ir direto pro olho do furacão.
— Há coisas entre o Céu e a Terra que nossa vã
filosofia não consegue explicar, meu caro. E que
cara é essa?
— Meu nome está correndo na boca dos infiltra-
dos. Ligaram de novo em casa, de madrugada. —
Orígenes deu um longo bocejo e fez uma careta ao
tomar o café que tinha pegado na cantina. — Essa
guerra tem acabado comigo, e a Elsie não se sente
segura naquela casa, pensando que fomos assaltados
todas aquelas vezes. Além disso, não suporto o café
daqui, parece água de enxurrada. Tenho que voltar
pro Brasil, MacArthur.
— Você ainda não completou sua missão.
— Como não? Já me encontrei com os principais
líderes da resistência, entrevistei Sinclair Lewis,
Langston Hughes, John Steinbeck. Todos ajudaram
com informações preciosas. Além disso, Alan Tu-
ring já decifrou o código dos nazistas. Quem mais
falta?
— Sir Charles Spencer.
— Quem?
— Charles Chaplin. Prometo que será sua última
missão.
— Você quer que eu entreviste o grande Chaplin?
— Já incluí seu nome na coletiva que ele dará na
cidade, na próxima semana. Tome, esse é o endere-
ço.
— Depois disso, estou liberado?
— Tem minha palavra.
***
O coração de Orígenes estava acelerado, à espera
da grande estrela do cinema. O sr. Chaplin chegou
atrasado, mas, simpático com os jornalistas que o
aguardavam, respondeu às perguntas que previa-
mente haviam sido combinadas, algumas fotos fo-
ram tiradas, e nada mais. Ao se despedir, Chaplin
entregou um papelzinho discretamente para Lessa,
ao apertar sua mão. Nele, estava um endereço e ho-
rário.
Lessa chegou ao local no horário marcado. O en-
dereço era de um barracão maltratado pelo tempo,
mas que serviria para a troca de informações e des-
pistar possíveis espiões. Ao contrário do primeiro
encontro, Charlie já o esperava.
— Senhor Chaplin, é um prazer! Sou Oríg...
— Orígenes Lessa, conheço o senhor; li seu livro
“O Feijão e o Sonho”. Devo dizer que gostei muito.
— Me sinto honrado, também devo dizer que
achei genial “O Grande Ditador”. Ousado e genial.
— Muito obrigado. Por favor, sente-se. Estou
finalizando minha turnê antinazista, que me deu a
oportunidade de receber informações valiosas de
refugiados e espiões alemães. Meu nome está na lis-
ta negra de Hitler, mas isso não me impediu de co-
lher as informações que MacArthur pediu. Lessa,
não sei o quanto você está a par dos absurdos de
Hitler, mas, para olhar esse dossiê, você terá que ser
forte.
— MacArthur pediu informações sobre os cam-
pos de extermínio, certo?
— Isso mesmo, mas a coisa é pior do que imagi-
návamos.
— O que pode ser pior que campos de concentra-
ção?
— Eles chamam de “Solução Final”, veja com
seus próprios olhos.
25
Ao abrir aquele dossiê, Orígenes não acreditou no
que seus olhos viam. Não havia apenas cópias de
documentos oficiais, mas fotos de pilhas de corpos,
fornos e valas. Um silêncio pairou por alguns minu-
tos, enquanto Orígenes via aquelas imagens que ja-
mais sairiam de sua cabeça.
— Meu Deus, o que aconteceu com a raça huma-
na?! — Tamanho era o choque, que Orígenes vomi-
tou diante daquelas imagens nefastas.
— Eu disse que precisava ter estômago. Por isso, a
urgência de entregar esta pasta para MacArthur ain-
da hoje. Proteja isso com a sua vida, precisamos de-
ter Hitler imediatamente.
Ainda meio atordoado pela chocante revelação,
Orígenes, com passos vacilantes e a mente inundada
pelas imagens terríveis, dirigiu-se diretamente ao
escritório para se encontrar com MacArthur. A sen-
sação era de que os olhos de Hitler o observavam,
como se o próprio mal estivesse acompanhando seu
trajeto.
Ao abrir a porta, a atmosfera pesada do escritório
parecia saber as notícias devastadoras que viriam.
MacArthur, ao ver Orígenes suando frio, conduziu-
o à sua sala.
No centro do escritório, a mesa de MacArthur exi-
bia o dossiê aberto, revelando as horripilantes ima-
gens e documentos que detalhavam a “Solução Fi-
nal” nazista. Os olhos de MacArthur estavam es-
tampados com horror e incredulidade diante daque-
la brutalidade. O silêncio era ensurdecedor. As pala-
vras pareciam ter fugido diante daquela revelação
profana. Finalmente, MacArthur quebrou o silêncio,
gaguejando e com a voz embargada:
— Era muito pior do que eu imaginava — disse,
com os olhos fixos na pasta, e então encarou Oríge-
nes: — Este é o ponto de virada. Você trouxe mais
do que informações cruciais; isso será o fator deter-
minante para vencermos a guerra. O mundo saberá
da monstruosidade que estamos enfrentando. E vo-
cê foi o mensageiro corajoso que trouxe essa verda-
de à luz. Sabia que estava certo em te escolher.
Em um gesto de gratidão, MacArthur estendeu a
mão para Orígenes, que, com o alívio da missão
cumprida, devolveu o gesto solene. Aquele momen-
to, por mais angustiante que fosse, marcou o início
de uma reviravolta nos eventos cruciais da guerra.
Rio de Janeiro, 1945
— Estamos aqui no lançamento do livro “Ok,
América”, de Orígenes Lessa, que é um compilado
das entrevistas que ele fez em 1942 nos Estados
Unidos. Orígenes, o que você pode nos dizer sobre
o seu novo livro?
— Foi minha pequena contribuição na luta univer-
sal contra o nazismo.
Após a entrevista, Orígenes acendeu um cigarro e
começou a refletir em tudo o que havia acontecido,
enquanto Elsie dava banho no pequeno Ivan:
— “Pequena contribuição”, mal sabem o preço
que me custou. Afinal, como pode existir um Deus,
quando toda essa barbárie estoura na nossa cara? É
engraçado nossa habilidade de fugir da culpa. Brin-
camos de deuses (ou demônios), mas jogamos a res-
ponsabilidade nas costas alheias. É irônico. É sádi-
co.
Então uma lágrima surgiu em meio à fumaça, ao
lembrar-se do último sermão de seu pai: “Quando
vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na
Terra?”.
_____________
Este conto é uma ficção histórica baseada em eventos reais
da vida do escritor brasileiro Orígenes Lessa. Orígenes, imor-
tal da Academia Brasileira de Letras, foi filho de pastor
presbiteriano, mantendo durante toda a sua vida uma relação
algo conturbada com a fé protestante.
_____________
Lucas Roberto é presbiteriano, Bacharel em Teologia,
licenciado em Pedagogia e História. Autor de seis livros sobre
vida cristã, filosofia e literatura fantástica. E-mail: lucasro-
berto125@hotmail.com
Conto extraído do livro Entre Segredos e Len-
çóis: uma antologia misteriosa, organizado por A.
Narcizo e Lucas Roberto (Lençóis Paulista: Ed. dos Auto-
res, 2024).
26
REVISTAS DE LITERATURA CRISTÃ?
SIM, ELAS EXISTEM!
Uma revista é, mais que uma simples e periódica plataforma de veiculação de informações,
uma maneira de ver o mundo. Sua proposta editorial, as crenças e valores que ela se arroga são
construtores de cultura, tanto a sua quanto a dos leitores que a ela tenham acesso.
Se em 2024 Amplitude retomou suas atividades, ela não está sozinha nos campos e meandros
da literatura cristã. Conheça duas outras revistas literárias que, com propostas diversas, encan-
tam, provocam e divertem a partir de uma cosmovisão cristã.
A primeira delas é a Bulunga. Atualmente em seu nú-
mero 37, BULUNGA é uma revista de literatura e humor de
periodicidade mensal que veicula, a cada edição, contos,
crônicas, entrevistas, poemas e resenhas.
Tocada pelo editor Michel Salomão, conta em suas filei-
ras com o combativo escritor Jorge F. Isah, que é também
um colaborador de Amplitude.
Transitando pelos mais variados temas da história e do
cotidiano, Bulunga consegue instigar e provocar de manei-
ra agradável, além de municiar seus leitores com farta do-
se de humor, cura possível para nossos tempos conturba-
dos.
Leia gratuitamente as edições de Bulunga no site:
https://bulunga.com/
E em outubro de 2024 assistimos ao nascimento da Re-
vista de Higgs. Seu nome é inspirado na famosa “partícula
de Deus”, ou o bóson de Higgs. O nome não é em vão: o
foco da revista é a ficção científica, bem como a fantasia.
Além de contos, De Higgs publica poemas, resenhas e en-
trevistas. Tocada pelas mãos dos editores Eduardo Y.
Nishitani e João G. Moreira, De Higgs conta com um cor-
po de colaboradores e, a partir de seu segundo número,
está aberta para a colaboração de interessados, através
de edital de publicação.
Conheça e leia as edições da revista em seu site:
https://revista-de-higgs.webnode.page/
27
Cócegas Existenciais
Um Conto de Natal
Tiago Lyra de Carvalho
Já passava do meio dia. Era véspera
de Natal e Suzana estava toda atare-
fada preparando a ceia.
Ela esperava ansiosa pela
visita de seus filhos, Rodolfo e
Rafael.
Rodolfo estava morando na
Suíça havia oito anos e Rafael,
um pouco mais longe: na Nova
Zelândia.
Ela era viúva de Anor, marido e pai
dedicado e que se foi cedo, devido a pro-
blemas de câncer de pele. Na época, Rodolfo tinha
quatorze e Rafael, apenas onze anos.
Suzana quando muito foi visitar Rodolfo duas ve-
zes e Rafael, apenas uma. As passagens a cada ano se
encontravam mais caras.
Mas naquele Natal seria diferente. Os filhos viriam
de seus países para passar o Natal com dona Suzana e
com eles as noras e os netos que aquela mulher ardia
por dentro em abraçar.
O ano era 1995 e até a comunicação por telefone
era difícil e cara. Porém, aquele Natal seria mágico e
diferente.
Suzana estava radiante e fazia tudo com primor. A
ceia teria peru, arroz com passas, bacalhau frito no
azeite português e de sobremesa uma bela ambrosia,
pavê de chocolate e, claro, as famosas rabanadas que
eram tradição de sua família.
Até a lareira ela acendeu. A árvore de Natal antiga
que fora testemunha de muitos natais naquela casa
estava estupenda e junto com as bolinhas, Suzana
pendurou as fotos dos meninos quando criança. Ela
amava aquelas recordações.
Lembranças que formavam quem ela se tornara.
A nostalgia tomava conta e a cada hora que passa-
va, um suspiro de alegria tomava conta daquela mu-
lher. A cada micro fração de segundos, ela era tomada
pelas memórias de momentos marcantes que teve
com o marido e as crianças. As orações, os cultos do-
mésticos e as inúmeras panquecas que Sr Anor fazia
todo domingo pela manhã: elas eram recheadas de
mel e geleia de morango.
A alegria sempre fora mola mestra daquela
casa.
A casa sempre fora perfumada
pelo bom ar do contentamento.
Muitas histórias compartilha-
das à mesa.
Depois da morte do marido,
Suzana deu conta de tudo, tra-
balhava e educava os meninos
que logo se tornaram rapazes e
saíram do ninho.
Rodolfo fez direito em Niterói e Rafael
foi ser mergulhador da Marinha. Eles eram os
orgulhos daquela alma que naquele Natal de 1995 se
encontraria mais uma vez a completude de si.
São raros esses momentos…mas são doces e leves
e nos fazem cócegas…são muitas vezes fugidios e por
isso que são únicos e especiais.
Quando Rodolfo foi para a Europa e lá formou fa-
mília, uma dor muito forte já tinha adentrado naquele
peito que – mesmo aos lamentos pela partida do filho
mais velho – mantinha-se de pé e agradecia a Deus
todos os dias pela oportunidade de ter um filho bem
sucedido e feliz na Europa.
Mas, quando o mais novo lhe deu a notícia sobre a
Nova Zelândia, ela desabou. Era uma quarta-feira, ela
estava no culto de orações da pequena igreja que era
membra desde 1919, quando criança, e onde conhe-
ceu e se casou com Sr Anor, lá pelos anos 20, na regi-
ão serrana do estado do Rio de Janeiro.
Chegava um telefonema do Rafael, naquela quarta-
feira fria de julho, o qual morava em Santa Catarina,
pois servia a Marinha em um quartel de lá.
Aquela pobre alma manteve a compostura, fingiu
alegria suprema para o filho – ao telefone da igreja –
mas, assim que colocou o telefone no gancho, desa-
bou e naquela noite teve que dormir junto de sua ami-
ga mais chegada que irmã. Sua amiga era Dalva,
28
esposa do Reverendo Adalberto, ministro de Deus
naquela igreja há muitos anos e que fora um grande
amigo e companheiro de seu finado marido Sr. Anor,
estando com ele até os últimos momentos de vida,
quando em uma tarde de Semana Santa, entregou seu
espírito e partiu para próximo de Cristo com quem ele
mantinha íntima relação todos os dias, por meio de
suas orações sinceras.
O Sr. Anor foi realmente uma pessoa dedicada às
coisas celestes.
Suzana não parava e planejou tudo. Tudo seria
maravilhoso. Os filhos tinham chegadas previstas para
a tarde do dia 24 e Suzana pagou um dinheiro a mais
para Cristina ajudar.
Cristina era quem limpava a casa de Suzana três
vezes por semana. Suzana não aguentava mais limpar
aquela casa sozinha. O corpo não aguentava.
O lugar era lindo, ficava em uma colina e cercada
de vegetação da Mata Atlântica da serra do Rio de
Janeiro. Todavia, a casa era grande demais para ela,
que, desde muito já estava amiga da solidão, era ela e
a casa, a casa e ela, mas junto dela havia ali suas
eternas recordações que a acompanhavam em cada
cômodo aparentemente vazio.
O jardim da casa era estupendo com hortênsias,
costelas de adão, bougainvilles, cerejeiras e muito
mais e contava com um pomar com limões, caquis,
laranjas e belas tangerinas.
Suzana amava o jardim e entendia que assim como
a vida, os relacionamentos e principalmente a família
ele ,necessitava de amor, cuidado e paciência para
que um dia os frutos pudessem ser colhidos.
E naquele dia eles seriam, pois seus filhos estariam
ali e o coração acelerava a cada olhada no relógio de
parede…o mesmo de sempre…aquela outra
testemunha viva de cada momento daquela casa.
Quantas batidas, quantos dias e quantas rotinas
diárias ele observou atentamente. Quantas risadas,
quantos almoços ao redor daquela grande mesa que
Dona Suzana fazia questão de sempre deixar
convidativa.
Já eram três da tarde e ela se sentou na varanda e
pegou as fotos dos meninos…as famosas fotos do
Natal de 1943. Aqueles rostos macios dos meninos, e
o olhar amoroso de Sr. Anor a fizeram chorar naquele
instante. Ela se lembrou das últimas palavras de seu
amado esposo, quando já internado no hospital com o
câncer avançado: “Querida, não chores, Deus é mais
glorificado em você quando você mais se satisfaz e
está feliz nele”.
Se deu conta ali, do maravilhoso mistério que é
viver… que é estar em total sintonia com o Criador.
Agradeceu a Deus imensamente por tudo que
conquistara e gritou alto, com toda a força do seu ser
– tão forte que até assustou Cristina que estava na
cozinha fritando rabanadas.
Eis o que aquela Senhora de 86 anos gritava com
toda consciência de uma vida bem vivida em total
sintonia com seu desejo; ainda que inúmeras
conjunturas a tenham atravessado durantes esses
anos todos, lá estava ela, de pé, firme, naquela
véspera de Natal de 1995, naquela mesma casa,
fincada em uma junção abrupta de nexos causais de
memórias que a traspassaram naquele breve
instante… tudo aquilo a fez gritar… Ela já sentia que
seu fim estava próximo, e são nesses instantes que
reside a mais alta filosofia de uma alma em
particular… aquela de carne e osso que sabe que foi
testemunha de tudo que viveu… foi um grito sincero:
— Jesus, não ouso pedir nada a ti. Tenho tudo e
muito mais do que sempre sonhei!
Ao abrir os olhos sincronizados com o término
daquele enorme grito de sinceridade, viu
instantaneamente o rosto dos seus filhos no portão.
Se sentiu completa e plena e surfou a maior e última
onda de leveza e harmonia da sua vida.
São cócegas existenciais assim que nos fazem
flutuar…
E, depois daquele Natal, a narrativa daquela linda
família se findava, pois nada dura para sempre, mas
sempre renasce ao nascer em muitas outras vidas e,
nesta história em particular: pela Europa e Oceania.
Tiago Lyra de Carvalho é Doutorando em Ciências
Jurídicas pela Pontifícia Universidade Católica da
Argentina. Licenciado em Letras e em Filosofia, é
Bacharel em Direito e Especialista Previdenciário no
RPPS do Estado do Rio de Janeiro.
29
Águas Vivas
No ano de 2006, nascia o blog Poesia Evangélica. Naquele momento se iniciava a “explosão” dos blogs,
cujo ápice deu-se ali pelos anos de 2008 a até, talvez, 2012. O objetivo do blog era—e permanece até hoje o
mesmo—divulgar a grande produção de poetas evangélicos de ontem e de hoje, reconhecidos ou iniciantes.
Logo uma outra iniciativa nos ocorreu: A realização de uma antologia reunindo de sete a dez autores
apenas, por vez; uma antologia bianual, que, a cada dois anos, apresentasse a boa literatura evangélica/
protestante a um público ávido e que não contava com nada parecido no gênero. Assim nascia, no ano de
2009, a antologia Águas Vivas.
Em Águas Vivas, reunimos a voz experimentada de poetas laureados à voz de jovens iniciantes nos me-
andros poéticos, promissores e já de forte expressão; poetas oriundos das mais diversas correntes denomi-
nacionais. O objetivo, além de divulgar nossas letras, era ainda incentivar a produção, a um tempo insuflan-
do conteúdo e ampliando o espaço de publicação, tão escasso na seara literária evangélica, notadamente
em sua vertente dedicada à ars poetica.
Desde a primeira edição, apresentamos, junto aos autores brasileiros, a obra de excelentes poetas
evangélicos portugueses, e até mesmo uma autora moçambicana. Assim, Águas Vivas celebrava uma dupla
fraternidade, a dos cristãos situados em três continentes, e a da lusofonia.
O talento em comum era aqui o eixo axial a unir poetas tão díspares em estilo, que operam nas mais
variadas frequências poéticas, e que, juntos, dão o tom democrático que sempre norteou a antologia.
Águas Vivas chegou a cinco volumes, totalizando mais de 600 páginas de poesia cristã, na forma dee-
books gratuitos.
A iniciativa foi descontinuada por diversos fatores, desde a dificuldade de pesquisa e edição, passando
pelo apelo de outros projetos a demandar as forças deste editor. O risco calculado de publicar neófitos tam-
bém foi experimentado em toda a sua temeridade, com lições: alguns dos divulgados não permaneceram
nos caminhos de Cristo, infelizmente.
30
Águas Vivas
Mas, quem sabe a iniciativa Águas Vivas não possa ser retomada?
Aqui apresentamos, bem como disponibilizamos para download gratuito, as cinco edições da antologia.
E, ao longo das páginas seguintes, oferecemos uma seleção de poemas retirados de cada um dos cinco volu-
mes de Águas Vivas.
Águas Vivas Volume 1 (2009).
Poetas: Brissos Lino, Gilberto Celeti, Giovanni C. A. de Araújo,
Israel Belo de Azevedo, J. T. Parreira, Josué Ebenézer, Luiz Flor
dos Santos, Noélio Duarte, Sammis Reachers, Wolodimir Bo-
ruszewski (Wolô).
Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google
Drive, CLIQUE AQUI.
Águas Vivas Volume 2 (2011).
Poetas: Antônio Costta, Fabiano Medeiros, Flávio Américo,
Florbela Ribeiro, Jorge Pinheiro, Norma Penido, Rui Miguel
Duarte.
Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Goo-
gle Drive, CLIQUE AQUI.
31
Águas Vivas
Águas Vivas Volume 3 (2013).
Poetas: Francisco Carlos Machado, George Vinhas Gonçalves, Heloí-
sa Zachello, John Lennon da Silva, Julia Lemos, Manuel Adriano Ro-
drigues, Silvino Netto, Sol Andreazza.
Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Dri-
ve, CLIQUE AQUI.
Águas Vivas Volume 4 (2015).
Poetas: J. F. Aguiar, Luciano dos Anjos, Maria Isabel Gonçalves, Marvin
Cross, Patrícia Costa, Roberto Celestino, Romilda Gomes, Rosa Leme.
Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Drive,
CLIQUE AQUI.
Águas Vivas Volume 5 (2017).
Poetas: Carla Julia, Jorge F. Isah, Junior Fernandes, Karla Fernandes,
Natanael Santos, Newton Messias, Samuel Pinheiro.
Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Drive,
CLIQUE AQUI.
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Águas Vivas Volume 1
SALMO 23
José Brissos Lino
“O Senhor é o meu pastor”.
Escuto. Mas o uivar dos lobos não me
assusta.
Nem o rumor do vento
porque o meu olhar se me alonga
para os pastos verdejantes
e as águas tranquilas.
O bardo onde vivo refrigera-me
(já nem sei o que sejam veredas errantes).
A lã de que sou vestido é branca,
e só de alegria o peito me salta
porque a mesa em que me sento é farta
e os meus inimigos se espantam comigo.
FAZER O OUTRO FELIZ
Gilberto Celeti
Vou um dia prestar contas
Do que fiz, do que não fiz;
Negligenciar ajuda,
Quando alguém diz: me acuda!
Para um crente não condiz.
O serviço mais humilde
Que é prestado a um infeliz,
Há de ser recompensado,
Quando for analisado,
Pelo sábio e bom juiz.
E o critério está bem claro,
Jesus mesmo é quem o diz:
Eu, Jesus, sou atendido,
Se ajudado ou preterido.
Esta é a sua diretriz.
Vou fazer meu semelhante
Entender que o bem lhe quis.
Não serei jamais omisso
Com amor farei o serviço
Quero vê-lo bem feliz.
CORAGEM DO CASAMENTO
Israel Belo de Azevedo
Das decisões, casar é delas a maior.
Compartilhar todas noites a mesma cama
na promessa de trocas tecidas de amor
é coragem para quem profundamente ama.
Das decisões, ficar casado é a melhor,
porque é querer para o outro toda a estima,
ver defeitos, mas as virtudes no alto pôr.
É baixar a voz quando tenso está o clima.
O amor é de Deus, como o mais belo poema,
dele e nosso, que juntos criamos com paixão
se o cultivo das diferenças for um lema...
que aqueça a todo instante o nosso coração.
O casamento, ainda que a razão trema,
é plano de Deus para a nossa salvação.
O BOM SAMARITANO
J. T. Parreira
Tive fome de pão e puseste a minha mesa
numa toalha em linho derramada
a sede, tive-a como um dia quente
a ondular entre os lábios e a água
e ungiste meu corpo com um óleo
quando a noite oxidou as minhas chagas
estive ao frio e teus vestidos coloriram
a palidez da minha carne nua
e na tua cama inclinei os meus ouvidos
os teus móveis abriram gavetas
para os meus cristais de chuva.
ONDE A GLÓRIA DO POETA?
Josué Ebenézer
A formiga altiva, a folha levanta,
Mas não se verga ao peso de seu labor.
No pedreiro, o tijolo, é esboço de planta
Que ergue o imaginário do construtor.
Quem sou eu com meus poemas e palavras,
Canções que ergo sem sequer usar as
mãos?
Onde a glória dos poemas que são lavras,
Pepitas de ouro, não sentimentos vãos?
Hei de cantar meus versos, proferir canções.
Dedilhar arpejos dest’alma efervescente,
Erguendo mansões ou choupanas nos
corações.
Só não desistirei de ser poeta nunca,
Pois a glória do poeta é dessa gente
Que a poesia põe sorriso em alma adunca.
ALGO MAIS
Wolô
Antes mesmo que eu fosse alguém
Tu me amaste e me disseste: - Vem!
Mesmo sendo eu tão rebelde e vão
Tu me amaste e me estendeste a mão
Já me deste tanto amor e paz
Que eu só te peço uma coisinha mais
Pra que eu possa cumprir a minha parte
Ensina-me Senhor a amar-te
33
Águas Vivas Volume 2
O MAIOR AMOR
Rui Miguel Duarte
“Ninguém tem maior amor do que este,
de dar alguém a sua vida pelos
seus amigos”
Evangelho segundo João 15:13
Cada manhã que o dia me desperta
é uma noite mais que me adormece
o fôlego e ao peito me dá quebranto
Cada manhã que os teus olhos em
orvalho me veem
é uma noite mais que me oculta
a face por trás do véu da tua face
Cada manhã que o sol põe flores róseas
nas minhas mãos
é uma noite mais que me desvenda
de todo o corpo
frutos vermelhos para o teu contenta-
mento
SONETO PARA A MOCIDADE
Antonio Costta
Como é belo o esplendor da mocidade,
Que caminha radiante mundo afora!
Sem pensar que ela um dia vai embora,
Dela vamos, em breve, ter saudade!
Voltai-vos ao Senhor –ó mocidade!
Nesta vida nem tudo há de ser flores.
Restam espinhos espalhando dores
Na estrada estreita da felicidade.
A vida é poça d’água que evapora!
Nascemos ontem, somos jovens agora,
E a velhice nos aguarda na esquina...
Atentai, mocidade, a tudo isto!
A melhor parte é dar-se a Jesus Cristo
Enquanto a vida é bela e cristalina.
ESPELHO RELIGIÃO
Fabiano Medeiros
Trago ao fundo, pra quem vê,
A tristura que dissimulo,
A perene sensação do que sou.
Ostento, contudo, ao menos perspicaz
A alegria que rotulo,
A fugaz sensação que não sou.
Trago ao fundo pra que vejam...
Levo junto, na fachada,
O incorrutível procedimento,
O que presumo ser e não sou.
Revelo, contudo, ao mais agudo,
O pérfido encantamento,
O terror do que sou.
Levo juntos, na fachada...
Trago e levo,
Ao fundo e na fachada,
O pavor,
O terror,
Dessa farsada...
SOB UM NOVO AMANHECER
Florbela Ribeiro
Caminho cautelosamente
sob o campo
de um novo amanhecer.
Por ele,
proliferam ervaçais que eu,
incansavelmente,
arranco pela raiz.
Mas ao Amor,
e somente ao Amor permito
o esparzir,
e o assenhorear-se,
da minha solidão.
SAMARITANA
Jorge Pinheiro
Vai, samaritana, vai!
Vai
e conta a toda a gente
que as notas da desdita
não mais serão tangidas
Vai, samaritana, vai!
Vai e conta aos teus
― no grupo dos indiferentes
― no monte dos zombadores
que o ar da comiseração
deixou de ser respirado.
Vai, samaritana,
e conta a todo o mundo
que as pedras do desânimo
já não ferem tuas carnes
porque foram removidas.
Vai, samaritana,
e pelas praças e becos
ergue alto a tua voz
porque o barro da vergonha
na água do amargor
amassado, cozido e ressequido
jaz desfeito
em pedaços espalhado.
Vai!
E alça tua fronte
erguida
ao novel escárnio e zombaria
de quem te não quer escutar
que no poço de Sicar
enterraste o mau viver.
Vai!
E mostra no canto das aves
na simplicidade
das coisas simples
que a poeira maldita
da proscrição
jaz amordaçada
aos pés de uma luz
nova
real
e tangível
34
Águas Vivas Volume 3
ONDE ENCONTRAR JESUS
George Gonsalves
Quando nascestes
te procurei em um palácio
estavas em um estábulo
Quando crescestes
te procurei em uma academia
estavas em uma carpintaria
Tentei te encontrar entre os puros
estavas entre prostitutas e publicanos
Entre os poderosos,
mas estavas com os pobres e oprimidos
Quando morrestes
visitei o panteão dos heróis
Estavas em uma cruz,
entre malfeitores...
AO MENOS POR UM MOMENTO
Heloísa Helena Zachello
“Põe guarda, Senhor, à minha boca;
vigia a porta dos meus lábios”
Salmo 4, versículo 3.
Quando a conversa mingua,
percebo que minha língua
já não possui mais a íngua
pelo meu muito falar.
O furor se desvanece,
o fogo se desaquece,
o sangue logo se esquece
de ferver, de borbulhar.
Minha ira vai-se embora,
sem que eu a bote fora;
De vergonha ela se cora,
pois não me faz mais pecar.
Daí surge o pensamento
junto ao conhecimento
de saber que no momento,
o melhor foi me calar!
“Quem retém as palavras possui
o conhecimento... Até o estulto
quando se cala, é tido por sábio.”
Provérbios l7: 27 e 28.
CARTA AOS CORÍNTIOS
Manuel Adriano Rodrigues
Por vezes regressamos
às palavras
onde fomos felizes.
Éramos outros
quando a nossa boca ainda não
tinha fissuras
nem esconderijos.
Um território livre
de dicionários
onde os pássaros podiam poisar
em cada reticência
do nosso pensamento.
Foi ali que inventámos o beijo
a eternidade
e o girassol.
E a alegria do verbo amar
sem metáforas
era o nosso grande poder.
O CHORO DA NOITE E A ALEGRIA DA
MANHÃ
Salmos 30:5
Silvino Netto
Ah! Quão amargas as lágrimas
Que correm de minhas noites
Escuras de dor!
Noites que inundam a alma
Nos encontros desencontrados
Dos sonhos pesados
De expectativas e desilusões!
Noites intermináveis!
Noites sem pernoites.
Noites de temporais que não passam
E me escondem dos olhos
A luz do sol da manhã...
Para onde vão as lágrimas
Que saem de mim
Nas noites escuras de minha dor?
As lágrimas de minha alma triste, sombria,
Encontram abrigo em poços vazios
Que se transformam em fontes inesgotáveis
De águas doces
Que correm em filetes
Para refrigerar a minha alma
Na escuridão de minha noite.
Pois, ainda que o choro dure uma noite
A alegria vem pela manhã.
Quão doces e bem-vindas
As lágrimas que voltam
De minhas noites de dor.
Elas ganham força,
Tornam-se correntes crescentes
E banham as margens tórridas
Do meu ser...
Lágrimas de volta,
Fazem rebrotar as sementes de fé,
Paciência, perseverança...
Escondidas no fundo da noite.
Lágrimas de volta
Refletem a luz da manhã,
O brilho do sol,
Na escuridão de meus olhos,
Fazem-me ver os frutos
Que nascem da noite escura:
Árvores frondosas
Cujas folhas não caem
E dão o seu fruto
Na estação própria!
Bendito o choro da noite,
Pois, é certo,
A alegria vem pela manhã!
35
Águas Vivas Volume 4
A FRONTEIRA ENTRE A VIDA E MORTE
Roberto Celestino
Numa cruz numa beira de estrada
Em um laço no final da corda,
Em um sono que não mais acorda
Numa bala que foi deflagrada.
Em um parto onde começa a vida
Em um leito onde a vida é quem parte,
Desenhada está em qualquer parte
Uma linha onde finda a corrida.
Na doença que causa a dor,
Em um lago que a vida afogou
Numa faca que causa um corte.
Ela existe embora não vemos
Muito embora também passaremos,
Na fronteira, entre a vida e a morte.
INEGOCIAVELMENTE
Patrícia Costa
A derme dos dias
sente o t e m p o
Que sem explicação ou documento
segue seu rumo.
Quem prende,
perde.
Quem solta,
veste.
E é como o vento
que corre o mundo
desobedecendo calendários
e estações.
MULTIFORME
Marvin Cross
Leve a mensagem
É leve a mensagem
Eleve a mensagem
A mensagem é leve
A mensagem: eleve
É, leve a mensagem
Leve a mensagem leve
Eleve a mensagem leve
A mensagem eleve
É a mensagem leve
A mensagem, leve
A mensagem? É leve.
É leve
Eleve
Leve
SONHOS DO AMOR
Luciano dos Anjos
Sigo pelas ruas
Com a cabeça nas nuvens
Escalando estrelas
E plagiando o voo dos pássaros
As pedras que me ofertam
Transformo em poesia
Na foz do meu silêncio
Nasce sempre um novo salmo
Meu coração é um menino
Só quer falar de amor.
DOCE SOM
Rosa Leme
Voz leve, mansa.
Sua voz é amor,
O som.
Ser mãe é um Dom!
Sua voz,
Sua voz é o canto em verso
É a rima em prosa...
Sua voz transmite amor,
Sua voz é leve como o toque
Da fina neblina nas pétalas da flor...
Como sua voz é formosa!
Sua voz é suave, cheirosa
Como o desabrochar de uma rosa.
Sua voz,
É como o grito sem eco,
Como a essência do silêncio...
Como a meiguice da paz.
Sua voz,
Sua voz é deleite...
É como o sussurrar lento
E suave do vento...
Sua voz é divina!
Cheia de graça...
Sua calma traz sossego
Traz paz na minha alma.
Muitas filhas têm procedido virtuosamente,
Mas tu és, de todas, a mais excelente!
(Provérbios 31:29)
36
Águas Vivas Volume 5
DESEJOS
Karla Fernandes
Quero crer como Maria,
Mas sou como Sara que ria.
Quero pregar como Paulo,
Mas acuso como Saulo.
Quero viver o que José viveu,
Mas sem sofrer o que ele sofreu.
Quero ver como João,
Mas sem experimentar a prisão.
Que Jesus de mim tenha misericórdia.
Que não haja entre nós discórdia.
Que eu seja como Ele é!
Que eu me humilhe e Ele cresça!
Que em mim o mundo O conheça!
Que eu seja um exemplo de fé!
A FORÇA DO SILÊNCIO
Natanael Gonçalves
Porque alçar a voz
Se é no silêncio
Que se ouve o murmúrio do riacho?
Porque gritar
Se é calando
Que encontramos
O caminho para o diálogo
E a compreensão?
Porque o burburinho das gentes,
Se é melhor ouvir o trinar das aves,
E o sussurrar do vento
A perpassar por entre os jardins,
Beijando as pétalas das rosas?
Porque o ruído das discórdias
Se é melhor aceitar
O convite das pedras
Que na sua quietude
Acolhem a pancada das ondas
E oferecem momentos
De intensa e
Proveitosa reflexão?
Porque falar se há tempo para tudo?
Inclusive para se calar
Porque gritar
Se é no silêncio que
Ouve-se a voz da alma
E o palpitar do coração de Deus?
A TERRA PROMETIDA
Carla Júlia Machaieie
Crescem-nos as túnicas
Crescem-nos os murmúrios
Cresce-nos a senda
Cresce-nos o desespero.
Nos embalamos em mhalamhalas*
Tapamos as chagas da vida
Com Band-aid João 3:16
Em rochosos pensamentos
Encontramos um que nos de água
Matamos a morte
Com goles de vida eterna.
* Louvores e cânticos. É também o nome
de um hinário tradicional utilizado por
igrejas evangélicas moçambicanas.
ECCE HOMO
Newton Messias
O que faz de um homem um homem:
marcar um encontro com o inimigo
em lugar deserto
à noite
sozinhos
olhar em seus olhos
demoradamente
sentir a fervura
a memória
o golpe
a ira acumulada
sacar do bolso a arma:
uma flor
depois atirar:
perdoo você
enterrar o corpo do outro
num abraço
e sair pra vida
livre
MÃOS II
Samuel Pinheiro
imola
também as mãos
no altar
como se fossem
um cordeiro sem mácula
imolar as mãos
ser sal
imolar as mãos
ser espigas
imolar as mãos
ser seara...
HOLOCAUSTO DE VIDA
37
Jardim dos Clássicos
A família Brontë foi uma usina de talentos. Se O Morro dos Ventos Uivantes,
clássico de Emily Brontë (1818-1848) é conhecido universalmente, suas duas irmãs, Anne
(1820-1849) e Charlotte (1816-1855), também eram profícuas escritoras, cujas novelas e ro-
mances seguem lidos e apreciados até os dias de hoje. Criadas num sadio isolamento na al-
deia de Thorton, Inglaterra, povoado de livros e sob os auspícios de uma educação moral
conservadora, as Brontë lutaram à sua maneira contra o preconceito a que as mulheres
estavam submetidas; para burlar resistências, escreveram sob pseudônimos neutros ou
masculinos. E todas eram também poetas. Escrevendo sob pseudônimos masculinos
(Acton, Currer e Ellis Bell), em 1846 publicaram seus poemas num único volume.
Aqui, uma pequena seleção de poemas extraídos do livro Poemas Escolhidos das Irmãs
Brontë, na tradução de Otavio Albano (Lafonte, 2024).
O livro pode ser adquirido AQUI.
A Oração do Descrente
Anne Brontë (Acton Bell)
Poder Eterno, da terra e do ar!
Invisível, mas por todo lado avistado,
Remoto, mas habitando em todo lugar,
Silencioso, em todo som escutado;
Se algum dia Seu ouvido piedoso se tenha curvado
Ao chamado de miseráveis mortais,
E se, de fato, Seu Filho foi enviado
A salvar perdidos como eu, pecadores iguais:
Então, ouça-me agora, aqui, em prostração,
Elevo-Lhe meu coração, meu olhar,
E toda a minh'alma ascende em oração
AH, DÊ-ME FÉ... desato a chorar.
Sem ter em meu coração certo fulgor,
Não poderia erguer esta fervorosa oração;
Mas, ah, transmita uma luz com mais vigor
E dela torne-me parte, em Sua Compaixão.
Se a fé comigo estiver, minha vida é abençoada;
Em dia minha noite mais escura vem ela tornar;
Mas, mesmo sempre contra o peito apertada,
Muitas vezes sinto-a resvalar.
Então, meu espírito afunda, frio e escuro,
Ao ver a luz da minha vida me abandonar;
E todos os demônios do Inferno, juro,
Da angústia do meu coração vêm desfrutar.
O que farei, se todo o meu agir,
Meu esperar, meu amor tiverem sido em vão,
Se, lá no alto, nenhum Deus existir,
Para me ouvir e me abençoar na oração?
Se tudo de vã ilusão não passar,
Se a morte for um eterno dormir,
Se meu chamado secreto ninguém escutar,
Nem meu pranto silencioso ouvir!
Ah, ajude-me, Deus! Pois o Senhor, somente,
Pode minha alma perturbada aliviar;
Não a abandone: ela é sua, exclusivamente,
Mesmo fraca, deseja sempre acreditar.
Ah, essas dúvidas cruéis trate de afastar;
E faça-me saber que o Senhor é Deus!
Uma fé, dia e noite, a brilhar,
Vai aliviar todos os fardos meus.
Se eu acredito que Jesus morreu,
E, despertando, ressuscitou para no alto reinar;
Então, todo Pecado, Orgulho e Desalento meu
À Paz, à Esperança e ao Amor devem renunciar.
E toda abençoada palavra Dele, por fim,
Transmitirão força e santa exultação;
Um escudo de segurança sobre mim,
Uma fonte de consolo em meu coração.
38
Jardim dos Clássicos
Meu Consolador
Emily Brontë (Ellis Bell)
Bem, você falou, mas ainda não ensinou
Uma estranha ou nova sensação;
Apenas um pensamento latente despertou,
Um raio de sol coberto por nuvens levou
A brilhar em total expansão.
No fundo, em minh'alma a se esconder,
Tal luz, dos homens, está protegida.
Mas continua a brilhar... mesmo com sombras a não mais ver,
Seu suave raio não pode conter...
Na vizinhança da sombria guarida.
Acaso não me irritei, nesses caminhos tenebrosos,
Por ter que longamente sozinha caminhar?
Ao meu redor, miseráveis proferindo louvores jubilosos,
Ou uivando acerca de seus dias horrorosos,
E, cada um, o Frenesi a pronunciar...
Uma irmandade de melancolia,
Seus sorrisos, tristes como um suspirar;
Cuja loucura a cada dia me enlouquecia,
Distorcendo em agonia
A felicidade diante de meu olhar!
Assim fiquei eu, no sol do Céu glorificado
E no Inferno, em seu resplandecer;
Meu espírito sorveu um tom misturado,
Do canto do serafim, do demônio o uivado;
E o que minha alma tem suportado
Somente ela é capaz de dizer!
Como um ar suave, por sobre o mar,
Pela tormenta agitado, em pleno torpor,
Uma brisa morna, que vem aos poucos degelar,
A neve, que em alguma folha insiste em tombar;
Não... que coisa doce pode a você se igualar,
Meu atencioso Consolador?
Ainda assim, um pouco mais você há de falar,
Acalme esse humor da irritação;
E, quando o coração bravio manso se tornar,
Por outro sinal não há de buscar,
Mas a lágrima em meu rosto pode deixar
Como prova da minha gratidão!
39
Jardim dos Clássicos
O Missionário
Charlotte Brontë (Currer Bell)
Corte, navio, corte o mar britânico,
Busque o vasto e livre plano oceânico;
Deixe as cenas da Inglaterra, o céu tão seu,
Desate, rompa dela os laços, navegue ao léu.
Leve-me a um clima longínquo, diferente,
Onde a vida muda, ágil, rapidamente.
Ação quente, trabalho sem cessar,
Irá mexer, revirar, o solo do espírito cavar;
Raízes frescas plantarão, sementes novas semearão,
Até que novos jardins logo brotarão,
Livre das ervas daninhas que agora ali estão...
Mero amor humano, egoísta transtorno,
Que, acalentado, haveria de me deter.
Seguro o arado, não há retorno,
Que, então, eu lute para esquecer.
Mas as costas da Inglaterra à vista ainda estão,
E os ingleses céus de suave azulão
Curvam-se sobre seu mar protetor.
Da Lembrança não posso me antepor;
Devo, então, outra vez com firmeza encarar
E essa angustiante tarefa reiterar.
Casado com o lar... do lar devo fugir
Temendo mudanças... mudanças devo produzir;
Amante da comodidade... no trabalho vou mergulhar;
Da calma entusiasta... turbulência vou procurar:
A Natureza, o ultrajante Fado,
Conflito selvagem agitam em meu coração;
E tal combate será feroz, arrastado,
Até que o dever traga conciliação.
Que outro laço ainda me tem atado
Ao passado divorciado, abandonado?
Ainda fumegante, jaz em meu coração
O fogo de grande imolação,
Aço sagrado que ainda não se apagou, afinal,
Mas há pouco atingiu minha vontade carnal,
Minha esperança de vida, primeira e última alegria,
Aquilo a que me apegava, agarrando-me com galhardia;
O que desesperadamente desejava reter,
O que renunciei com dor na alma, a sofrer;
O que... quando o vi, atingido pelo machado, expirar...
Não me deixou mais nenhuma alegria na terra brotar;
Um homem desolado... mas agora, com firmeza,
Eu confirmo aquele voto de Jefté, sem fraqueza:
Devo recuar, temer, dar de fuga sinal?
Foi o que fez Cristo quando a árvore fatal,
Diante dele, ergueu-se no Calvário, afinal?
Foi longo combate, árduo, mas vencido,
E o que fiz foi com justiça decidido.
Mas, Helen, do seu amor por fim desviei,
Quando mais por seu coração o meu clamou, bem sei;
Desafiei suas lágrimas, seu desprezar...
Mais fácil seria a dor da morte suportar.
Helen, você não poderia comigo partir,
Eu não... não ousaria por você aqui seguir!
Ao longe, ouvi alguém reclamar,
Era o selvagem de além-mar;
E o som bárbaro sobrepujou a exclamação
Arrancada pela agonia da paixão;
E, mesmo quando, com o mais amargo pranto
Que já verti, turvou-se então minha visão,
Ainda, com a perspectiva clara do espanto,
Vi o império do Inferno, perversidade e vastidão,
Nas margens de cada rio indiano se espalhando
E todos os reinos da Ásia ocultando.
Lá, o fraco sob o forte é pisoteado,
Vive para sofrer... e morrer sem credulidade;
Lá, o Mal é o credo de todo pagão prelado,
E a Extorsão, a Luxúria e a Crueldade
Esmagam nossa raça perdida... e enchem até verter
O cálice amargo do humano sofrer;
E eu... que guardo a fé curadora,
A crença benigna do Filho de Maria,
Hei de ignorar a dor do meu irmão, agora,
E, egoísta, evitá-lo no dia a dia?
Eu... que sobre o joelho materno,
Na infância, a palavra de Cristo li,
Recebi seu legado de paz eterno,
Sua santa regra de ação ouvi;
Eu... em cujo coração, sensação sagrada
Do amor de Jesus, desde cedo sentido;
De sua benevolência pura e agraciada,
Seu sentimento pela culpa, acolhido;
Seu zelo de pastor pela ovelha errante,
Por todos os seres, fracos, tristes, a tremer,
Sua paixão profunda, misericórdia perseverante
Pela angústia humana, pelo seu sofrer;
Eu... educado desde a infância nessa tradição...
Ousaria facilmente recuar, hesitar,
Continua 
40
Jardim dos Clássicos
Ao ser chamado a curar a doente condição
Daqueles desolados, longe do lar?
Na escuridão, no reino e sombras da Morte,
Nações, tribos e impérios insistem em jazer,
Mas mesmo para eles a luz da Fé, com sorte,
Seu sombrio céu acabará por irromper:
E que a mim pertença incitar
Que ergam suas cabeças ao episódio terreno,
E saibam aquele alvorecer celebrar
Que anuncia Cristo, o Nazareno.
Eu sei como o Inferno lançará o véu
Sobre suas frontes e olhos velados
E esmagará a cabeça erguida ao léu,
Tentando encontrar os céus laureados;
Eu sei que guerra o demónio vai travar
Contra o soldado da Cruz em sua missão,
Que ousa enfrentar sua fúria sem parar
E trabalhará por sua derrota e desilusão.
Sim, duro e terrível o labor
Daquele que pisa em solo exterior,
A videira do evangelho decidido a plantar,
Onde tiranos governam, com escravos a lamentar;
Ansioso por elevar a luz da religião
Até as sombras mais espessas da noite da razão,
Escondem o falso deus e o rito da enganação;
Imprudente o sangue missionário,
Derramado na selva e no ermo solitário,
Deixou, no ar mais impiedoso,
O gemido profundo do homem... a prece do mártir,
glorioso.
Conheço meu destino... apenas peço
Força para cumprir a nobre missão que expresso;
Desejando o espírito, que a carne, enfim
Receba renovada força para um novo fim.
Que sol ardente ou vento mortal
Não prevaleçam sobre uma mente leal;
Que tormentos estranhos ou a morte mais cruel
Não pisoteiem a verdade nem destruam a crença fiel.
Mesmo que gotas de sangue tenham de mim brotado,
Assim como brotaram no Getsêmani do passado,
Que seja bem-vinda a angústia, que há de me gerar
Mais força para trabalhar... mais talento para salvar.
E, ah, se breve há de ser meu destino,
Se mão hostil ou clima assassino
Encurte meu caminho... sobre minha sepultura,
Senhor, que sua colheita oscile com ternura.
Para que eu possa a cultura introduzir,
Deixando aos outros a foice inserir;
Se a semente mais rápido brotar,
Que meu sangue regue o que semear!
O quê? Cheguei alguma vez a tremer,
E temi a Deus aquele sangue oferecer?
O quê? O amor covarde, à vida, assim,
Fez-me recuar da justa luta sem fim?
As paixões humanas, os humanos receios,
Acaso me separaram daqueles Pioneiros
Cuja tarefa é, primeiro, marchar e então traçar
Os caminhos para nossa raça avançar?
Assim tem sido; mas, Senhor, dê-me o prazer
De agora, firme em Sua palavra, permanecer!
Protegido pelo elmo da salvação,
Escudado pela fé e da verdade blindado,
Sorrir quando nos abate a provação,
No fogo do sofrimento, manter-se aprumado!
Os redutos mais fortes do inferno hei de derrubar,
Mesmo quando a última dor me agitar o peito,
Quando a morte de mártir vier me coroar,
Chamando-me para Jesus, seu repouso, seu leito.
Então, para minha recompensa derradeira...
Então, para a palavra que alegra a terra inteira...
Então, a voz do Pai... do Espírito... do Filho:
"Servo de Deus, você tudo fez com brilho!"
Anne, Emily e Charlotte Brontë. Quadro do seu irmão
Branwell (c. 1834). Ele pintou-se entre as irmãs, mas reti-
rou a imagem mais tarde para não sobrecarregar o qua-
dro.
41
Galeria Yongsung Kim
O sul coreano Yongsung Kim é um cristão devoto e
ama profundamente seu Salvador Jesus Cristo. No iní-
cio da idade adulta, ele se preocupou muito com o
propósito da vida e como poderia ajudar a tornar o
mundo um lugar melhor. Então, como resultado de
muita oração e reflexão, ele decidiu dedicar sua vida à
glória de Deus. Yongsung Kim faz isso por meio de sua
arte, imagens e pinturas de Jesus Cristo, que ajudam
outros a se lembrarem de suas origens divinas e desti-
no eterno. Yongsung adora pintar imagens de Cristo, e
suas pinturas criam muita esperança e alegria em um
mundo de escuridão e dor.
O foco principal da arte de Yongsung Kim é Jesus Cris-
to e Seu papel como O Bom Pastor e Messias. Ele se
esmera em criar arte na forma de pinturas e imagens
de Jesus Cristo que sejam brilhantes e bonitas, permi-
tindo que outros vislumbrem o verdadeiro caráter de
Jesus. Algumas das pinturas mais notáveis de
Yongsung Kim são A Mão de Deus, Caminhando sobre
as Águas, Calma e Estrelas, Com Todo o Teu Coração e
Abraço Calmante.
Website do artista: https://yongsungkimart.com/
“Deep Waters”
42
Galeria
Yongsung
Kim “He
Leadeth
Me
”.
“Dancing
on
Waterr”.
43
“O lado direito”
“Dez Virgens”
“The
Hand
of
God”
“Calm
and
Stars”
Galeria
Yongsung
Kim
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H
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PictoBíblia é um projeto do desenhista e ilustrador Augusto Marques,
cujo objetivo é levar conhecimento bíblico e teológico às pessoas.
Instagram: @pictobiblia
Site: https://www.pictobiblia.com.br
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Resenhas
LIVRO / Um nó na garganta desde o princípio do mundo– Poesia – Renato Melo
Renato Souza de Melo carrega o peso de dois sacerdócios; pastor e poeta. Calejado
pela Palavra, ele ainda segue na luta com a palavra do cotidiano interior e exterior.
Neste belo volume, o título revela não apenas a sua, mas a condição de toda a humani-
dade desde o princípio; um nó na garganta. Toda crise existencial nasce de um impasse
espiritual que reflete, inclusive, na relação com a natureza; há poemas flagrantes co-
mo: Moldura, Raízes nuas e Harmonias.
O homem tem que se dar conta das próprias contradições, das tensões da própria exis-
tência e seguir caminhando, ainda que seja, como escreveu o autor:
Com simplicidade volto para casa brincando na morte da tarde sempre tão instável
quanto o vento.
O leitor atento perceberá, ainda que de forma sutil, a luta travada na arena da linguagem; é o papel de todo poe-
ta que se preze, ao menos daquele que busca com sinceridade o cerne da poesia. Jacó lutou com D’us até o ama-
nhecer. Ainda não posso dizer se esse é o caso do Renato Melo, ou se virá a ser, mas escrever poesia em nível mais
elevado é o mesmo que lutar com D’us; para receber uma benção é preciso ser ferido, marcado por D’us, e isso cos-
tuma acontecer antes do amanhecer ou, como já escreveu o poeta João da Cruz, durante a noite escura da alma. O
poeta é ferido pela linguagem e marcado através da poesia, muitas vezes a mudança se dá no próprio nome. Seja
como for, é sempre a ação do Verbo sobre a carne, ou seja, sobre a condição humana.
Renato Melo, consciente da árdua jornada, do sacerdócio assumido, segue em ascendência, livro após livro; o pre-
sente volume é uma reunião de poemas mais antigos e também de trabalhos recentes que, ao meu ver, parece uma
síntese da obra do autor até o presente momento. Um nó na garganta desde o princípio do mundo é prova dessa
maturidade que, naturalmente acontece aos poucos, com trabalho incansável e tempo. Tal maturidade, nem sem-
pre linear, pode ser encontrada em poemas como Imagens de hoje, Mutilação I e II, Incompreensões, além do poe-
ma Terra Fértil com sua sentença certeira: a palavra antes de nascer é fome.
A palavra, lapidada em poesia, ao nascer é mana, pão do céu, mas antes de nascer não pode ser outra coisa, senão
fome. Renato Melo conhece as duas. Mateus Ma’ch’adö
48
PHARMACIA
A Palavra é leite que alimenta (1 Pe 2.2),
A vida que nos foi transmitida (1 Pe 1.23);
É o mantimento de que precisamos (Jr 15.16),
Na paz e também na contenda (1 Jo 2.14).
A Palavra é alimento que molda (At 20.32)
O homem interior (Ef 3.16);
Ela o torna forte e ousado (Jl 2.11),
Para vencer do inimigo o furor (Ap 12.11).
A Palavra é doçura do mel (Sl 119.103)
Mais refinado e puro (Sl 18.30);
Ela nos enche de gozo pleno (1 Ts 1.6),
Imaculado e seguro (Sl 93.5).
A Palavra é fonte viva (S1 36.9)
Toda pura e cristalina (Sl 12.6);
Ela faz a alma voar (Is 40.31),
E o amado Cristo alcançar (1 Pe 2.4-6).
A Palavra é rio (Is 33.21),
Largo, amplo e profundo (Sl 65.9);
O amor de Deus nela brilha (Jr 31.3),
E a alma preserva do mundo (Jd 21).
A Palavra é fogo ardente (Jr 20.9),
Que a alma faz inflamar (Sl 39.3);
E a eleva às coisas do Alto (Cl 3.1),
Enquanto aqui embaixo está (Pv 15.24).
A Palavra é lâmpada que alumia (Sl 119.105)
As veredas escuras da vida (Pv 6.23);
Guiando-nos em segurança (Is 58.11)
Para o Reino da luz divina (SI 43.3).
A Palavra é conselho seguro (Sl 73.24)
Para mapear o caminho (SI 119.9).
Para ela devemos olhar (Tg 1.25),
E dela os passos jamais desviar (SI 119.11).
A Palavra é espelho que brilha (Tg 1.25),
E que nos faz contemplar (Jó 42.5,6)
Toda a obscuridade do eu (Rm 7.18);
E da carne a impureza sem par (Is 64.6).
A Palavra é martelo (Jr 23.29)
Capaz de o coração quebrar (2 Rs 22.11-13).
Sua força ninguém faz cessar (Jo 5.25),
A alma ela faz abalar (Jr 23.9).
A Palavra é bálsamo para curar (Sl 107.20)
O coração quebrantado (Sl 147.3);
Nova vida, força e zelo (Jo 6.63)
Dia a dia vem acrescentar (1 Rs 18.1).
A Palavra é cinto seguro (Ef 6.14)
Capaz de os lombos cingir (Lc 12.35);
Ela dá forças para cumprir (Sl 18.39)
Aquilo que a Verdade ordenar (1 Pe 1.13).
A Palavra é espada do Espírito (Ef 6.17)
Afiada como o puro aço (Hb 4.12),
Para palavras profanas matar (1 Ts 2.13),
E com poder nos purificar (At 19.20).
A Palavra é descanso para o peregrino (Is 50.10),
Enquanto aqui embaixo está (Is 50.4 - RV);
Ela o ajuda a caminhar (Sl 119.54),
E o guia até ao céu chegar (2 Co 5.8 - RV).
A Palavra é precioso tesouro (S1 139.17)
Repleto de joias sem par (2 Pe 1.4);
Seu valor não se pode estimar (Jó 28.16)
Nem a nada na terra comparar (Sl 119.72).
No livro 500 Esboços de Estudos Bíblicos
(Graça Editorial)
A PALAVRA DE DEUS PARA OS SEUS FILHOS
F. E. Marsh
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ALMANAQUE DO MOBILIZADOR MISSIONÁRIO – Mais de 1.000 pá-
ginas de recursos para ampliar a consciência missionária de sua
igreja, grupo e família.
Esboços de sermões/estudos bíblicos – Ilustrações – Dinâmicas –
Peças teatrais – Poemas-
Ao longo dos anos, temos publicado livros gratuitos, compilações
tais como: Teatro Missionário; Poesia Missionária (3 volumes); Hinário
Hinos Missionários; Dinâmicas Missionárias; Sermões Missioná-
rios; Ilustrações Missionárias e até Citações Missionárias (ufa!). Assim,
seria o presente livro um apanhado do melhor de cada uma das co-
letâneas anteriores? De maneira alguma! Temos aqui ape-
nas MATERIAIS INÉDITOS, inéditos no sentido de não terem entrado
nos volumes citados; gêneros que por si só dariam para com-
por novas obras individuais, mas que achamos por bem reunir num
único volume. Um compêndio, um manual, um almanaque.
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AS MAIS BELAS FRASES DE NATAL - 150 Citações - Apesar de toda a
bagagem científica e filosófica acumulada, guerras seguem seu curso,
volumosas ou restritas, envolvendo grandes e pequenas nações. A cri-
se climática, até há pouco contestada por negacionistas, lança seu
horror nos quatro cantos da Terra, com duras consequências – princi-
palmente para os mais pobres. A ameaça de novas pandemias paira,
sombria, sobre todos os habitantes desta fragmentada aldeia global.
Em meio a esse turbilhão de problemas e questionamentos, o Natal é
um refrigério, um momento de reequilíbrio de forças e afetos, de re-
união e alegria.
Coligidas de diversos autores, reunimos aqui frases de luz, alegria e
sabedoria sobre esta data que congrega a todos nós, em maior ou
menor grau, na busca de um conforto, uma trégua de paz, memória e
acolhimento.
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150 FRASES DE SOREN KIERKEGAARD - Complexo, arguto, irônico,
poético, multiplamente genial: Assim foi o dinamarquês, nascido em
Copenhague, Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855).
Seu entendimento profundo do cristianismo o levou a ser um crítico
da igreja de seu tempo, pois Kierkegaard sabia que a verdadeira vi-
vência da fé cristã era um salto – oneroso ao máximo – dentro do
absurdo, salto paradoxal (pois a fé é a superação da racionalidade)
que significava a única oportunidade de transcender tal absurdo ru-
mo ao absoluto, e o ápice a que o homem poderia almejar, dentro
dos três estágios existenciais propostos pelo pensador: o estético, o
ético e o religioso.
Sua vasta obra, desenvolvida através de pseudônimos que dialogam
entre si, tem influenciado pensadores e artistas das mais variadas
correntes, desde seu advento. Não sem razão ele é considerado o
pai do Existencialismo.
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The King of Kings: A nova animação da Angel Studios
A Angel Studios (a mesma de O Som da Liberdade) está
prestes a lançar uma nova animação que promete emocio-
nar e inspirar o público. Intitulada "The King of Kings", a
produção é uma adaptação livre da obra "The Life of Our
Lord" de Charles Dickens. Com estreia marcada para 11 de
abril de 2025, o filme conta com um elenco de vozes este-
lar, incluindo Kenneth Branagh, Uma Thurman, Mark Ha-
mill, Pierce Brosnan, Roman Griffin Davis, Forest Whitaker,
Ben Kingsley e Oscar Isaac.
A trama segue a história de Charles Dickens, um jovem
autor que narra a vida de Jesus Cristo para seu filho Walter. Através da imaginação vívida de Walter, o público é
convidado a caminhar ao lado de Jesus, testemunhando seus milagres, enfrentando suas provações e compreen-
dendo seu sacrifício final. A animação busca redescobrir o poder duradouro da esperança, do amor e da redenção
através dos olhos de uma criança.
Produzido e dirigido por Seong-ho Jang, "The King of Kings" é uma das apostas da Angel Studios para o próxi-
mo ano. A empresa adquiriu os direitos globais de distribuição do filme e está preparando um lançamento especi-
al para a Páscoa de 2025. O teaser oficial do filme foi lançado em novembro de 2024, gerando grande expectativa
entre os fãs de animações e histórias religiosas.
Com uma combinação de talento, narrativa envolvente e uma mensagem poderosa, "The King of Kings" tem
tudo para se tornar um sucesso de bilheteria e um clássico moderno. A Angel Studios convida todos a embarcar
nesta jornada emocionante e a redescobrir a história de Jesus de uma maneira totalmente nova.
Nova adaptação de "As Crônicas de Nárnia" promete surpreender
A icônica saga de fantasia "As Crônicas de Nárnia", escrita por C.S.
Lewis, está prestes a ganhar uma nova adaptação cinematográfica,
desta vez sob a direção da aclamada cineasta Greta Gerwig, conheci-
da por seus trabalhos em "Adoráveis Mulheres" e "Barbie". A produ-
ção, que está sendo supervisionada pela Netflix, promete trazer uma
perspectiva original e inovadora para a amada série de livros.
Em entrevista recente, a produtora Amy Pascal revelou que as fil-
magens do primeiro longa estão programadas para começar em julho
de 2025. Pascal destacou que a abordagem de Gerwig será "uma vi-
são totalmente nova para As Crônicas de Nárnia" e descreveu a pers-
pectiva da diretora como "muito rock and roll". Embora ainda não
tenha sido divulgado qual livro será adaptado primeiro, há especula-
ções de que "O Sobrinho do Mago" possa ser o escolhido para iniciar
o novo universo cinematográfico.
A nova adaptação de "As Crônicas de Nárnia" já está gerando grande expectativa entre os fãs da saga. A série
de livros, que já vendeu mais de 100 milhões de cópias e foi traduzida para mais de 47 idiomas, continua a encan-
tar gerações de leitores ao redor do mundo. Com a promessa de uma abordagem fresca e inovadora, a adaptação
de Gerwig tem tudo para se tornar um sucesso tanto entre os fãs antigos quanto entre novos espectadores.
A estreia do primeiro filme está prevista para dezembro de 2026 na Netflix, e há rumores de que a produção
também possa ser lançada nos cinemas e em IMAX. Com uma equipe talentosa e uma visão criativa, a nova adap-
tação de "As Crônicas de Nárnia" promete trazer a magia e a aventura da série de livros para uma nova geração
de espectadores. Resta saber se a cosmovisão cristã da obra será mantida ou obnubilada...
CINEMA
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Parlatorium
"Marca a hora, o relógio;
mas, o que marca a eternidade?"
Walt Whitman
“Na arte que utiliza lixo, destaca-se o potencial
de fazer o desprezível falar. A melhor tradição
bíblica, sugere-nos que a mensagem pode vir
de onde estão os deserdados.”
Emílio Eigenheer
" Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritual-
mente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas
sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer
de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na mono-
tonia.
Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível
que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo” [.. ] Pode ser que
ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e
nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser
mera recorrência; pode ser um bis teatral."
G. K. Chesterton
"Nossa vida é que
deve ser obra de ar-
te viva. Somos li-
vres. Somos livres
para criar, contan-
to que não nos es-
queçamos que so-
mos escravos de
Cristo."
Francis A. Schaeffer
" A linguagem humana é nossa tentativa de na-
vegar pela linguagem de Deus; somos nós cor-
rendo por entre as linhas de seu poema épico".
N. D. Wilson
“O poeta deve ser um
Professor de esperança.”
Jean Giono
“Para pensar sobre Deus
não leio os teólogos,
leio os poetas.”
Rubem Alves
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Amplitude 5 - Revista Cristã de Literatura e Artes.pdf

  • 1.
    1 Número 05 —Jan 2025 AMPLITUDE ISSN 2966-2400
  • 2.
    2 SUMÁRIO Revista Amplitude -Número 05 - Jan 2025 ISSN: 2966-2400 Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . .03 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 04 Ensaio: A admiração artística-filosófica em Palavrantiga e Povia / Anderson C. Sandes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 05 Conto: O Segredo dos Presentes / Paul Flucke . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 08 Conto: A Multiplicação / Eduardo Eiji Araki . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 09 Poeta em Destaque: Luiz Guilherme Libório . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Crônica: O Amor acredita em todas as coisas, ou A História de uma Re- vista / Steve Stephens . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .13 Notas Culturais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13 Hot Spots: Liev Tolstoi . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Poesia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .16 Conto: A Velhinha do San Andrés / Jorge F. Isah . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Crônica: Amor e Paixão / Julia Lemos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .19 Conto: Oração / Ageu Magalhães . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .20 Crônica: Aprendizado / Carlos Nejar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20 Games / A história da Wisdow Tree . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Conto: O Feijão e o Silêncio / Lucas Roberto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .22 Especial / Revistas de Literatura cristã? Sim, elas existem! . . . . . . . . . . . . . 26 Conto: Cócegas Existenciais / Tiago Lyra de Carvalho. . . . . . . . . . . . . . . . 27 Águas Vivas: O melhor da poesia evangélica em antologia . . . . . . . . . . 29 Jardim dos Clássicos: Irmãs Brontë . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 Galeria: Yongsung Kim . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41 HQ: PictoBíblia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44 Resenha / livro / Um nó na garganta desde o princípio do mundo . . .47 Pharmacia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48 Download . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49 Cinema . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .50 Parlatorium . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 Edições anteriores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .52 CAPA: Yongsung Kim, “He Leadeth Me”. AMPLITUDE é uma revista de cultura evangélica, com foco princi- pal em ficção e poesia. Mas nosso leitmotiv, nosso motivo de ser e de existir, é a arte cristã em geral: Transitamos por música, cinema, fotografia, artes plásticas e quadri- nhos. Publicamos artigos, estudos literários, crônicas e resenhas. Nossa intenção diz respeito àque- la despretensiosa excelência dos humildes. Nosso porto de partida e porto de chegada é Cristo. Nosso objetivo é fomentar a reflexão e a expressão, AMPLIAR visões, entre- ter com valores cristãos, comunicar a verdade e o belo e estimular o engajamento artístico/intelectual entre nossos irmãos. Nosso preço é nenhum: a revista circula gratuita- mente, no democrático formato pdf. Nosso e-mail: sreachers@gmail.com Instagram: @revistaamplitude Facebook: www.facebook.com/RevistaAmplitude Blog: www.revistaamplitude.blogspot.com.br Edição, diagramação e revisão: Sammis Reachers Imagens: Copilot (Microsoft), a IA amiga, e uns sites por aí. Você gostaria de saber mais sobre Jesus Cristo e a obra que Ele realizou em favor da huma- nidade? Conheça as 4 Leis Es- pirituais.
  • 3.
    3 Janeiro de 2025:temos já 1/4 de século XXI transcor- rido, desterrados em meio à virtualização de tudo — ho- mens, objetos, lugares, logo animais — ; enquanto a crise climática solapa todas as latitudes da Terra, a ameaça de uma nova Grande Guerra, com iniciais assim mesmo, em maiúsculas, ruge no horizonte. Em meio ao caos, ulula a antiga promessa, com cada vez mais potência, urgência, certeza: ELE vem! Chegamos à nosso quinto número, e agora contamos com ISSN (International Standard Serial Number), o có- digo internacional que demarca as publicações seriadas. Nesta edição, Amplitude traz contos de Ageu Maga- lhães, Eduardo Eiji Araki, Jorge F. Isah, Lucas Roberto, Paul Flucke e Tiago Lyra de Carvalho. Na seção Poeta em Destaque, a voz da vez é a de Luiz Guilherme Libório, paulistano radicado nas Minas Gerais e que, do alto de seus 30 anos, tem entregado uma muito boa literatura – ensaios, estudos, romance – cujo destaque é a poesia. Em Jardim dos Clássicos, a poesia da maior família de romancistas da literatura, as irmãs Brontë. Falamos também sobre duas revistas que, cada qual à sua maneira, têm aberto espaço para a literatura cristã, a De Higgs e a Bulunga. Rememoramos o projeto Águas Vivas, coleção antoló- gica que celebrou, em seus cinco volumes, a obra de poe- tas evangélicos contemporâneos. E publicamos uma sele- ção de poemas de cada volume da antologia. Em Hot Spots, um pouco da sabedoria desconcertante de Liev Tolstoi. No mais, as seções tradicionais aqui estão: Parlatorium, Pharmacia, HQ, Galeria, Games e Notas Culturais. Compartilhe esta revista, docemente gratuita, com quantos você puder. Sammis Reachers, editor Editorial
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    4 Seja Forte Maltbie DavenportBabcock Seja forte! Não estamos aqui para brincar, sonhar, vadiar; Temos trabalho duro a fazer e fardos para carregar; Não evite a luta — enfrente-a; ela é uma dádiva de Deus. Seja forte! Não diga, "Os dias são ruins. De quem é a culpa?" Nem cruze as mãos nem abaixe a cabeça — oh, vergonha! Levante-se, fale alto, e bravamente, em nome de Deus. Seja forte! Não importa o quão enraizado está o erro, Quão dificilmente se desenvolve a batalha, quão longo é o dia, Não se entregue — continue a lutar! Amanhã, você cantará. In Meus Textos Favoritos, de Norman Vincent Peale Orar Telina Cleine 1 Ts 5:17 Ao acordar Ao trabalhar Ao descansar Ao respirar Sem cessar Legado da Morte na Colina Jorge F. Isah Tirou as ataduras Nem ferida e cicatrizes Somente a alma pura Αγάπη (Agápi) Sammis Reachers Amor, ente totipotente Res extra-commercium Dia poderoso e sem preço Rigoroso como a Morte Ou um beijo absoluto: Fragorosa Ocupaçao de tudo Paraíso Perdido Renato Melo IV Os filhos da Queda andam por aí sem travessia, tecendo nos olhos, torpor; nos sentidos, sangria. V Entre a terra e o entorno, vocábulos. Nos olhares dos homens, saudades de Casa em suas línguas, coágulos: - As ruas estão cobertas de gente que sangra por dentro! Desde então, os fracos e os pobres em tormento tangem caídos ao relento, sua solidão. XI Bem aventurados são os que choram quando no peito se arvoram saudades de Casa. In O Sol posto no rosto (2024)
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    5 A admiração artística-filosófica emPalavrantiga e Povia Anderson C. Sandes Todos têm um pouco de poeta e de filósofo — e de doido, diria minha mãe. Na cultura ociden- tal as relações entre poesia e filosofia já foram amplamente discutidas, desde Aristóteles e, cla- ro, antes dele. Por questões semânticas, tome- mos também por “poeta” o artista de modo ge- ral, o criador. E por “poesia” entendamos a arte em geral, a criação artística. É dado que a poesia seja mais antiga que a filo- sofia, sendo parida e nutrida a segunda pela pri- meira, ora relacionando-se, ora competindo saudavelmente e até em guerra mortal (vide Só- crates). O inevitável é que, unidas ou brigando, estão sempre lado a lado. Mesmo que Platão quisesse banir a poesia de sua cidade, utilizou- se dela lindamente para favorecer sua tese. Sidney e Shelley precisaram defender a poesia em suas épocas, pujantes em filosofia. Esperto mesmo foi Rafael Sanzio, que as pintou na mesma sala, até o teto, a Escola de Atenas e o Parnaso — juntamente com alegorias da teologia e da justiça, na Sala da Assinatura, Vaticano. Celeumas cabeçudas à parte, detenhamo-nos, pois, à grande semelhança entre poesia e filosofia, matrizes de todas as artes e ciências: ambas partem da admiração, da surpresa, da contemplação amorosa. São demasiadas humanas, como estabelecemos, todos são meio poetas e filósofos — e doidos, não olvidem mamãe. O que diferencia os poetas e filósofos dos demais é a resposta à admi- ração. Artistas e filósofos reagem de modo diferente das massas quando admirados: uns escrevem livros, outros pintam ou esculpem, outros, ainda, moldam a própria vida e fazem discípulos. Suas obras são dotadas em menor ou maior grau de admiração, mas sempre a conterá em plano de fun- do, que seja. O maior terror para artistas e filósofos é um embotamento da vida, um enegrecer no olhar con- templador, uma surdez para a marcha musical do universo. O embotamento é a lepra dos contem- pladores amorosos. Vejamos os versos de uma canção do músico italiano Giuseppe Povia, “Quando I Bambini Fanno Oh” — traduzida: Quando as crianças fazem uau! Que maravilha! Que maravilha! Mas que bobo veja só, olha só! Eu me envergonho um pouco Já não sei mais fazer “uau!”
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    6 Na canção oeu lírico traz as crianças como esse contemplador amoroso, que sentem a admiração, as maravilhas, enquanto ele mesmo se envergonha de não maravilhar-se mais. Fazer “uau” é a ad- miração. Para as crianças tudo é motivo de “uau”, pois são novas em um mundo velho, cheio de es- pantos a serem desbravados. O eu lírico compara as crianças a poetas que fantasiam — assim como fez Freud em “O poeta e o fantasiar” (1908). E segue: E cada coisa nova é uma surpresa Até quando chove E as crianças fazem: Uau, olha que chuva! A admiração é mesmo demasiada humana, independentemente da idade e de todo o resto. As pa- lavras da canção ecoam em desfecho: “Quero voltar a fazer uau! Quero voltar a fazer uau!” Aqui te- mos o artista perante certo embotamento e, de modo surpreendente, admirado com sua falta de admiração, e disso fez arte. Filosófico, não? — e um pouco de doido. Se os primeiros filósofos (e cientistas, por que não?) não respondessem à admiração perante a chuva, coisa tão vulgar em nosso dia a dia, não teríamos alcançado a compreensão do ciclo da água, acreditando ainda em algum mito sobre um deus da chuva ou coisa do tipo. Sim, mitos criados por poetas, mas sem ressentimento… As admirações são inesgotáveis. O nome da música que evoco agora sugere bem essa ideia: “Tudo que eu vi não é tudo o que eu preciso aprender”, composta por Marcos Almeida, da banda Palavran- tiga. A premissa da música compartilha da sinceridade infantil e vulnerável das crianças: “Estou aqui, meu Senhor / Bem sincero serei”. Aqui o lirismo é de grandeza espiritual, o homem em busca do sublime conhecimento. O embotamento na caminhada espiritual esfria a relação com o divino, cau- sando dor no eu lírico, que clama por mais sensibilidade para admirar: Dá-me um coração Que ainda tem sede de Ti Dá-me um coração Que ainda tem fome de Ti Podemos ver na música um reconhecimento à dessensibilização perante a vida, a perdição da sur- presa que dá sentido ao contemplador amoroso: Eu preciso andar Também me surpreender outra vez Como sugere o título da obra, por mais que seja visto, não será o necessário para o contemplador que tem sede e fome, e quando o objeto de contemplação é Deus, nem se fala. O mundo está cheio de admiração e admiradores, sejam artistas, filósofos — doidos? — ou não artistas e filósofos, de- pende da resposta às admirações. Fato é que, a surdez para a marcha musical do universo é pre- núncio da marcha fúnebre do espírito humano, criado para admirar: “Pois, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus — o seu eterno poder e a sua natureza divina — têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são
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    7 indesculpáveis; porque, tendoconhecido a Deus, não o glorificaram como Deus nem lhe renderam graças. Pelo contrário, os seus pensamentos tornaram-se fúteis, e o coração insensato deles se obscureceu. Embora eles afir- mem ser sábios, tornaram-se tolos”. Romanos 1:20-22 NVI Ouçamos a marcha ordenadora, traduzamo-la aos espíritos cansados, demasiados humanos. Eis o chamado para a “grande comissão”, aos artistas, filósofos — doidos? — ou não: Ide! Admirai-vos e respondei! Anderson C. Sandes é pedagogo, poeta, cronista, ensaísta e autor de Baseado em Fardos Reais; Arte e Guerra Cultural: preparação para tempos de crise; organizador da Antologia Quando Tudo Transborda. Seus principais temas de estudo são: arte poética, história da literatura e estética. É membro ativo da Igreja Adventista do Sétimo Dia desde 2010, tendo passado por alguns cargos, como Ministério da Comunicação, Sonoplastia e liderança local da ADRA (Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais). Site: www.andersonsandes.com.br Anuncie aqui seu produto ou evento.
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    8 O Segredo dosPresentes Paul Flucke A historia de que Gaspar, Melquior e Baltazar le- varam presentes ao rei recem-nascido tem sido contada ao longo dos seculos. Ah, voce vai dizer, todos conhecem essa his- toria. Eles levaram ouro, incenso e mirra. E assim que a historia e contada. Mas ela esta incomple- ta. Ouça o restante. Voce vai conhecer o segredo dos pre- sentes. Os que estavam mais proximos, viram o primeiro dos tres visitan- tes parar na porta: era Gaspar, um homem rico trajando uma bela capa de veludo enfeitada com peles de excelente qualidade. Antes de Gaspar parar ali, eles nao podiam ver que era o anjo Gabriel quem guardava o lugar santo. — Todos os que entrarem devem ter um presente para oferecer — disse Gabriel a Gaspar. Levantando com esforço a linda caixa pesada, Gaspar disse: — Eu trouxe barras do mais fino ouro. — Seu presente — disse Gabriel — precisa ser algo que faça parte de voce, algo que seja precioso a sua alma. — Foi exatamente o que eu trouxe — disse Gas- par. Porem, quando se ajoelhou para depositar o ouro diante do bebe, ele parou e endireitou o corpo. Em sua mao nao havia ouro, mas sim um martelo. A cabeça grosseira e preta do martelo era maior que a mao de um homem; seu cabo, de madeira robus- ta, tinha o comprimento do antebraço de um ho- mem. Gaspar começou a gaguejar, completamente aturdido. O anjo disse suavemente: — O que voce tem nas maos e o martelo de sua ganancia, usado para destruir a riqueza daqueles que trabalham arduamente para voce poder levar uma vida de ostentaçao e construir uma mansao para morar, enquanto seus servos moram em choupanas. Envergonhado, Gaspar abaixou a cabeça e fez mençao de partir. Mas Gabriel impediu-lhe a passa- gem: — Nao, voce nao ofereceu seu presente. — Um presente como este? — disse Gaspar, horrorizado. — Ele nao e digno de um rei! — Foi por isso que voce veio — disse Gabriel. — Nao pode levar o presente de volta. E pesado demais. Deixe-o aqui para que voce nao seja destruído por ele. — Mas como? Essa criança nao tem condiçoes de levanta-lo do chao — protestou Gaspar. — Ele e o unico que pode — replicou o anjo. Perto da porta, estava Melquior, o sabio que tinha barba comprida e rugas na testa para evidenciar sua sabedoria. Ele tambem parou diante da porta. — O que voce trouxe? — perguntou Gabriel. — Incenso, a fragrancia das terras secretas e dos tempos passados — respondeu Melquior. — Seu presente — advertiu Gabriel — precisa ser algo que seja precioso a sua alma. Melquior ajoelhou-se reverentemente e pegou um frasco de prata de dentro de seu manto. Mas o fras- co em sua mao ja nao era de prata. Era tosco e manchado, feito de argila comum. Atonito, ele tirou a tampa do frasco e cheirou o conteudo. — E vinagre! — resmungou Melquior. — E disso que voce e feito — disse Gabriel. — Amargura. O vinho azedo de uma vida que se dete- riorou por causa da inveja e do odio que voce car- rega dentro de si, lembranças de magoas antigas, ressentimentos acumulados e raiva latente. Voce buscou sabedoria, mas encheu sua vida de veneno. Melquior curvou os ombros, desviou o olhar e tentou esconder o frasco de argila. Gabriel tocou o braço de Melquior: — Espere. voce precisa deixar seu presente aqui. Melquior deu um longo suspiro de sofrimento.
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    9 — Mas estee um presente desprezível — ele pro- testou. — E se a criança leva-lo a boca? — Voce deve deixar essa preocupaçao a cargo do ceu — replicou Gabriel. — La, ate o vinagre e util. O terceiro visitante apresentou-se: Baltazar, líder de muitas legioes e flagelo de cidades muradas. Ele segurava uma caixa de metal. — Eu trouxe mirra — ele disse —, a recompensa mais preciosa de minha conquista mais arrojada. Muitos lutaram e morreram por causa disso, a essencia da mais rara erva. — E ela e a essencia de sua vida? — perguntou Gabriel. O soldado inclinou-se para a frente, curvou a ca- beça ate quase toca-la no chao e apresentou seu presente. Mas o que ele depositou aos pes do bebe era a sua lança. — Nao pode ser! — ele murmurou com voz rouca. — Algum inimigo deve ter feito um feitiço. — Isso e mais verdadeiro do que voce pensa — disse Gabriel. — Mil inimigos fizeram feitiços con- tra voce e transformaram sua alma em uma lança. Vivendo apenas para vencer, voce foi vencido. Cada batalha que voce ganha leva a outra, e assim por diante. Baltazar pegou a lança e virou-se para sair. — Nao posso deixar isso aqui. — Tem certeza? — perguntou Gabriel. — Claro — murmurou o guerreiro. — Ele e um bebe. A lança pode espetar sua carne. — Voce deve deixar esse medo a cargo do ceu — replicou Gabriel. Existe outra historia que conta que eles foram vis- tos mais uma vez, anos depois, em uma colina soli- taria nos arredores de Jerusalem. Mas nao se preo- cupe. Esse e um fardo que o ceu toma conta como so o ceu pode fazer. No livro Histórias para o Coração. Org. de Alice Gray. United Press, 2001. A multiplicação Eduardo Eiji Araki — Está escurecendo, precisamos ir embora — disse o homem observando a multidão espalhada pela praia à beira do Mar da Galileia. Pequenos barcos estavam ancorados próximos à praia rasa. O vento soprava do mar trazendo frescor para a tarde quente. Milhares de pessoas vinham ao en- contro com o homem que chamavam de messias. — Precisamos dar uma oferta antes de irmos — res- pondeu a mulher remexendo a bolsa. — Isaac, meu filho! Venha aqui. Um garoto de cerca de 12 anos se aproximou. — Tome, leve esta oferta — disse a mulher entre- gando um embrulho ao menino. — Onde está Jesus? O homem apontou para o alto da colina — Lá em cima, cercado pelos seus discípulos. A mulher observou o grupo que se concentrava ao redor do messias — Parecem preocupados, estão ges- ticulando. Isaac, leve esta oferta para aqueles homens. O menino disparou com o embrulho nas mãos, os pés ágeis subiam rapidamente a trilha. Seu tamanho permitia que passas- se facilmente pela multidão. — O que você enviou como oferta? — perguntou o marido. — Cinco pães e dois peixes. — Era toda nossa comida. O que comeremos agora? — reclamou o homem. — Deus proverá — respondeu a esposa observando seu filho desaparecer em meio à multidão. Eduardo Eiji Araki, 53 anos, membro da Igreja As- sembleia de Deus de Jundiaí há 10 anos. Atualmente resido em Jundiaí, SP. Casado e com um casal de filhos. Perfil do Instagram @eearaki
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    10 Luiz Guilherme LibórioAlves da Silva, nascido em 1994, é natural de Bebedouro (SP) e reside atu- almente em Belo Horizonte (MG). Formado em Letras pela UFMG, atua como Tech Writer. É au- tor de seis livros publicados. "Sol e Tempesta- de" (2024), sua obra mais recente, reúne poemas, contos, o livro de filosofia "O século dos inveja- dos" e um romance inacabado. Muitos de seus textos podem ser lidos em seu blog, https://luizliborio.blogspot.com/ Luiz Guilherme Libório Autodescrição aos 30 anos De óculos, sou homem branco. Sou careca. Asceta, nem tanto. O mundo não me deve nada nem eu nada devo ao mundo. Nem fui eu a construir a arca nem fui eu a circundar o muro. Entre mortos e feridos fui meu poeta favorito. Entre doentes e saudáveis vivi 30 tempos cantáveis. De óculos, escrevi uns livros. Careca e anônimo, eu os vivo. Amei e amo. Sou e fui amado. E embora eu pressinta olhares irados e ternos vindos do mato não sou lido, lindo, nem odiado. Também, acho, não sou lerdo. Tenho barba, um bárbaro afeto e com metro e noventa de altura quase tenho minha própria lua. Sob sol e tempestade, 30 anos! Meu rosto, trovão de espanto, agradece, Senhor, o entretanto. Amor, jardim flanqueado pelo vento Amor, jardim flanqueado pelo vento às vésperas da tempestade: as flores e os frutos de seus verdes se abrem em aberto coração à espera de águas nesta tarde. Amor, jardim, aguardas nas bocas habitadas pela sede dentro contra a infecção da seca o advento de Deus retornando para renová-las. Poeta em Destaque
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    11 Luiz Guilherme Libório Ressurreição Obreu em nós não compreendia a vinda da luz pela voz do Verbo nem compreendíamos o deserto erigido pelo Leão que ruge o dia tal qual o negror em nós não via o véu que se rasga no furor certo - nós não tínhamos olhos quietos o suficiente para ver Quem rugia! Então houve o retorno que recria. Então compreendemos nosso elo da cruz central ao ver o ressurecto no trinitário sorriso do terceiro dia. Justa "E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo" - Hebreus 9:27 – Eu venho da Nação da Memória com seu estandarte na mão. Venho da terra cujas glórias vêm do passado. E você? – Eu não. Eu venho da Nação da Esperança trazendo seu terrível brasão. Venho da terra cuja história é o futuro que avança. E você? – Eu não. Vou à Nação do Esquecer buscar alguma compaixão. Vou à terra cuja vitória e guerra é morrer. E você? – Eu também. – Então somos irmãos. Recentemente Luiz lançou Sol e Tempestade, espécie de “obra reunida”, contendo em seu corpo nada menos que seis livros publicados pelo autor. É ele quem nos esclarece: "Viola dos 30 Anos" é feito de poemas. "Para Michele" reúne textos dedicados à minha esposa. "Pés de Bronze, Voz de Águas" traz ensaios sobre a Bí- blia. "Prosas Gerais" é feito de (quem diria) textos soltos em prosa. "O Século dos Invejados" é o meu livro de Filosofia publi- cado originalmente em 2023. Para encerrar, "Fragmentos do Templário" traz um ro- mance inacabado. Para adquirir o livro (disponível pela Uiclap), clique AQUI. Oratórios Ipês Eu quis adornar de palavras o meu país pra quê? Já há ipês. Em dificuldades de pouca chuva o ipê em vendavais flore, embora. Finais de junho, às vezes, pipas decorando árvores quase secas. Eu quis fingir flores na língua. Pra quê? Há ipês. Alguns rosa-melodia, cor no beijo da esposa, outros ouro-sim ou branco-sal e roxo-sol. Ipês (vivos) faço de oratório. E agradeço no haver ipês o anúncio de Deus haver quando neles ajo meus olhos. INSTRUÇÕES PARA SER LIVRE O melhor que pode ocorrera um homem é que ele precise de pouco para ser livre. O que é pouco? O pouco é um muito pequeno relativo: minús- culos resquícios de borboleta há em tudo, por exemplo, o que é um enorme todo construído de pequenas asas. Primeiro, um sentir na sali- va o sol líquido. Segundo, espichar bem amplo os ossos ao acordar. Vo- cês já viram os que trabalham muito? Sem tempo pra não ter tempo? Os olhos secos sem ver a saliva boa na lambida amiga dos cachorros? Para ser livre, inclusive, ser sobretudo cachorro, com os pelos no vento, quarando depois do almoço, um eterno estar pronto pra ir, um eterno voltar pra lar gotejando carinho. O melhor que pode ocorrer a um ho- mem é que ele seja um cão. - Do livro Instruções (Penalux, 2018).
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    12 Luiz Guilherme Libório Cantigade ninar para o ansioso Por mais que pareça urgente inventar a fome futura a ansiedade, o pão da loucura não alimenta o presente. Por mais que pareça urgente arquitetar a masmorra futura a ansiedade, chave de loucura não liberta o presente. Descansa, então, homem do grilhão limoso das horas. Deus alimenta seu hoje libertou seu ontem e te guardará para além da aurora. O smartphone Como se aos homens fosse agora dado o cetro de governar mundos inteiros e fosse ordenado a eles como pagamento que não governassem mais a si mesmos - o smartphone reina e é reinado. Embora vibre como as coisas vivas pulsam sob a pele que lhes cobre o smartphone não respira, embora haja ar dentro dele que se move. Este morto cetro plano, fino, quadrado feito de quinas e plástico, de luz e aço possui esquinas macias como macia não é a vida e como macia é a sua tela ao tato. Macios são seus olhos filmando os rostos macilentos mas filtrados com macias câmeras cujo pastoreio consiste em fazer belo o feio e mutilar dos corpos o errado. Como se aos homens fosse agora dado o cetro de governar mundos inteiros e fosse ordenado a eles como pagamento que não governassem mais a si mesmos - o smartphone reina e é reinado. O rei mantém essa coroa como refém sendo igualmente refém dela o coroado. Eis o cetro cujo controle é ser também ele próprio controlado. O elogio das artes: dança Das artes, a dança e a unica que so existe no agora. E a unica arte tunica, que voa no vento. Mesmo a musica, tao ao vivo, e suas partituras. Mesmo o teatro e a sua literatura. Mas a dança e a escultura do corpo vivo. A dança e a arquitetura do corpo vivo. O poema em suor e ossos. A dança e síncrona, sempre. Talvez a que menos se assemelhe as outras em ser afeita aos museus. Acho a dança o contrario do museu. O museu e tunica que guarda para revelar. A dança e tunica que revela para guardar. Ambos se movem, e verdade, sob os olhos. Mas so a dança e levada pelo vento. O elogio das artes: música Dentro do ventre materno estavas. Estavas porque voce, musica, e das artes a unica que mesmo feita fora percebe-se dentro. O cheiro do som espalha-se atraves. Atraves dos anos. Atraves dos muros. Atraves da tempestade. Atraves, tambem, das paredes do utero. Erudita, popular, universal. Talvez por isso tao torturada, tao retalhada. Tuas costas em sangue, teu dorso de sonho rasgado pelos que te cantam sem te amar. Musica, quanto te devo. Rainha, princesa, prisioneira. Do desprezo de amor dos ondes. Do amor de desprezo dos quandos. Pouco pedes, musica, tudo das. Embala os orfaos entre os teus seios. Eu te amo, musica, eu te amo de um amor doente de nao poder compo-la. Em perfume, cordas, sopro, percussao. Calices de consolo, de alegria e tristeza. Nada tenho com o que presentea-la. Nada. Mas tudo o que tenho, musica, te dou. Tudo. Isto e, o meu silencio.
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    13 O Amor acreditaem todas as coisas, ou A História de uma Revista Steve Stephens Em 1910, DeWitt Wallace desenvolveu uma ideia nova para uma revista. Consistia de uma coleçao de artigos condensados, a qual ele deu o nome de Reader’s Digest [Seleções]. DeWitt eleborou um exemplar de amostra e o enviou a todas as editoras do país. Ninguem demostrou interesse. DeWitt ficou terrivelmente desanimado. Por volta da mesma epoca, ele conheceu Lila Bell Acheson, filha de um pastor presbiteriano. Em breve, ambos se apaixonaram perdidamente. Lila acreditou no sonho de DeWitt. Nao permitiu que ele desistisse e o incentivou a prosseguir com sua ideia maravilhosa de publicar a revista. Encorajado pela confiança que Lila depositava nele, DeWitt enviou uma circular pelo correio a todas as pessoas consideradas assinantes em potencial. Em outubro de 1921, Lila casou-se com DeWitt. Ao retornarem da lua de mel, eles encontraram uma pilha de cartas de pessoas interessadas em assinar a revista. Juntos, ele trabalharam no Volume 1, Numero 1, que foi publicado em fevereiro de 1922. DeWitt incluiu Lila Bell Acheson como co- fundadora, co-editora e co-proprietaria. A revista expandiu-se ao longo dos anos. Agora, impressa em pelo menos 35 idiomas, Reader’s Digest e a revista de maior vendagem no mundo inteiro*. DeWitt e Lila foram mais que marido e mulher, foram amigos verdadeiros. Incentivaram a apoiaram um ao outro. Acreditaram um no outro. Trabalharam lado a lado para concretizar seu sonho, e sempre se respeitaram mutuamente. DeWitt disse certa vez: — Foi Lila quem transformou a revista em realidade. Imagino que Lila tenha dito o mesmo a respeito de DeWitt. Sim, o amor acredita em todas as coisas. Ele idealiza sonhos praticamente impossíveis , incentiva enquanto estao sendo levados adiante e aplaude quando se tornam realidade. * A nível de numero de exemplares, as revistas de maior circulaçao sao as das Testemunhas de Jeova (Despertai! e A Sentinela, mas as mesmas sao distribuídas gratuitamente na maior parte dos casos. A revista comercial de maior circulaçao atualmente, embora restrita em sua maior parte ao publico dos EUA, e a AARP Magazin. Notas Culturais  O irmão Otoniel Melo, através de seu canal no Youtube, declama diversos poemas de autores clássicos de nossa fé, como Mário Barreto França e Myrtes Mathias. E o canal abre espaço ainda para pregações, hinos e também salmos declamados. Conheça, se inscreva e prestigie o canal. Acesse AQUI.  No Prêmio Areté 2024, iniciativa da Associação de Editores Cristãos que celebra a produção editorial cristã/evangélica mainstream no Brasil, o livro História do Antigo Testamento em versos de Cordel (Ed. Geo- gráfica), de Fábio Sombra, foi o vencedor na categoria Crônicas, Contos e Poesia. Confira AQUI.  Já na categoria Ficção e Romance, as princesas, sempre elas, venceram com Corajosas: Os Contos das Princesas nada encantadas, de Maria S. Araújo et al (Ed. Mundo Cristão). Confira AQUI.  Em dezembro, o mundialmente renomado grafiteiro, muralista e artista plástico Eduardo KOBRA inaugu- rou em São Paulo a obra “Jesus”, bem como falou sobre sua relação de fé com Aquele que lhe estendeu a mão em seus muitos fundos-de-poço. Assista ao vídeo AQUI.  O ator e quadrinista Felipe Folgosi lançou campanha no Catarse para a impressão de sua oitava revista em quadrinhos autoral, “O Prédio”. Confira AQUI.
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    14 Assim como umavela acende outra e pode acender milhares de ou- tras velas, um coraçao ilumina outro e pode ilu- minar milhares de outros coraçoes. O conhecimento mais im- portante e aquele que guia o modo pelo qual voce leva a sua vida. Procure os melhores ho- mens dentre aqueles que sao espezinhados. Qualquer feito realizado apenas para alcançar a gloria e sempre mau, se- jam quais forem suas consequencias. O feito motivado igualmente pe- lo desejo de atingir o bem e alcançar a gloria e indiferente. Um feito e realmente bom so quan- do sua motivaçao e o cumprimento da lei de Deus. Quanto mais uma pessoa acreditar em Deus, me- nos ela tera medo das outras. So o engano precisa ser apoiado em argumentos elaborados. A verdade sempre se mantem sozinha. Sua vida pode ser ceifada a qualquer momento; portanto, sua vida deveria ter um objetivo profun- do, um significado que nao dependa de ser ela bre- ve ou longa. Nao alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade nao e um fim, mas uma consequencia. E preciso estendermos a nossa volta uma grande teia de amor, assim como as aranhas estendem a teia para apanhar o que lhes passa ao alcance. Em vez, porem, de agir como o animal, que destroi e aniquila, detenhamos o que passa, unicamente pa- ra consolar e fazer o bem. O unico prazer verdadeiro e o da atividade criado- ra. A verdadeira felicidade esta na propria casa, entre as alegrias puras da famí- lia. Os ricos farao de tudo pe- los pobres, menos descer de suas costas. Esta em meu poder servir a Deus ou nao o servir. Servindo-o, acrescento ao meu proprio bem e ao bem de todo o universo. Nao o servindo, abro mao do meu proprio bem e privo o mundo do bem que estava em meu poder criar. Cada um pensa em mudar a humanidade, mas nin- guem pensa em mudar-se a si mesmo. Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. A sociedade so pode ser aprimorada por meio de auto sacrifício. So poderemos melhorar o mundo distribuindo a verdadeira fe entre todos os povos. O bem do homem e o amor, como o da planta e a luz. ‘O que fazer?’, e o que se perguntam, em unanimi- dade, os poderosos e os subjugados, os revolucio- narios e os ativistas sociais, entendendo sempre com essa questao o que os outros devem fazer; nin- guem se pergunta quais sao as suas proprias obri- gaçoes. O segredo da felicidade nao e fazer sempre o que se quer, mas querer sempre o que se faz. Procure as causas dos infortunios pelos quais a hu- manidade sofre. Passe alem das causas obvias, para buscar as de raiz, e inevitavelmente havera de des- cobrir que a causa mais basica, mais importante, de todos e de cada um dos problemas da natureza, e a debilidade de uma fe que nasce de uma atitude fal- sa em relaçao ao mundo e sua origem. liev tolstoi O romancista russo Liev (também dito Lev, Leon, Leão) Tolstoi nasceu em 1828, na pequena vila de Yasnaya Polyana. Para além de sua obra literária que se con- figura como uma das maiores já criadas, Tolstoi ganhou fama como pacifista e pen- sador. Suas ideias, que versam do anarquis- mo ao vegetarianismo, iam de encontro ao status quo vigente, mesmo entre institui- ções cristãs, algumas das quais ele denun- ciava como não vivendo o verdadeiro cris- tianismo, conforme pregado por Cristo no Sermão da Montanha (Mateus caps. 5 a 7). Ana Karenina, Guerra e Paz e Ressurreição são considerados seus maiores romances. As frases aqui publicadas foram extraídas do e-book 100 Frases de Liev Tolstoi (que pode ser baixado gratuitamente AQUI).
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    15 A alegria defazer o bem e a unica felicidade verda- deira. Em vao milhares e milha- res de homens, aglomera- dos em um pequeno espaço, procuravam maltratar a terra em que viviam, esmagando de pedras o so- lo, para que nada germinasse; em vao arrancavam impiedosamente o arbusto que crescia e derriba- vam as arvores; em vao escureciam o ar com fuma- ça e petroleo; em vao enxotavam aves e animais: a primavera, mesmo na cidade, era ainda e sempre, a primavera. O sol brilhava com esplendor; a vegeta- çao, reverdecida, voltava a crescer, tanto nos gra- mados como entre as lajes do calçamento, de onde tinha sido arrancada; as betulas, os alamos, as ce- rejeiras espalmavam suas folhas umidas e perfu- madas, os botoes das tílias, ja intumescidos, esta- vam quase a florescer; pardais, pombas e gralhas, trabalhavam alegremente na construçao dos ni- nhos; acima dos muros, zumbiam as moscas e as abelhas, radiantes de gozar novamente o calor do sol. Tudo era alegria: plantas, animais, insetos e crianças, em esplendido concerto. Os homens, so- mente os homens, continuavam a enganar-se e a torturar a si proprios, e aos outros. Somente os ho- mens desprezavam aquilo que era sagrado e su- premo: nao viam aquela manha de primavera, nem a beleza divina do mundo, criado para a alegria de todos os seres vivos, e para a todos dispor a uniao e a paz e ao amor. Para eles so era importante e sagrado aquilo que haviam inventado para instru- mento de mutuo engano e tortura. O objetivo da vida e o de ex- pressar o amor em todas as suas manifestaçoes. Se um coraçao e grande, ne- nhuma ingratidao o fecha, nenhuma indiferença o cansa. As grandes obras de arte somente sao grandes por serem acessíveis e compreendidas por todos. Todo mundo e capaz de se lembrar de um momen- to, que e universal, comum a todos, talvez da pri- meira infancia, no qual desejou amar a tudo e a to- dos – seu pai, sua mae, seus irmaos, os maus, um cao, um gato, a grama – e quis que todo o mundo se sentisse bem, todo o mundo se sentisse feliz; mais ainda, quando quis fazer algo de especial para que todos pudessem ser felizes, mesmo com seu sacri- fício pessoal, mesmo dando sua vida para que to- dos pudessem se sentir felizes e alegres. Este senti- mento e o sentimento do amor, e e preciso voltar a ele, pois ele e a vida de cada um de nos. Ataque-me — eu mesmo faço isto —, mas ataque a mim, em vez de culpar o caminho que sigo e que indico a todos aqueles que me perguntam onde acho que ele esteja. Se conheço o caminho de casa e ando por ele embriagado, o caminho nao deixa de ser certo simplesmente porque ando por ele cam- baleante! Se nao e o caminho correto, entao mostre -me um outro; mas se cambaleio e perco o cami- nho, voce deve me ajudar, deve manter-me na sen- da da verdade, assim como eu mesmo estou dis- posto a ajuda-lo. Liev tolstoi www.cafemissionario.com Contribua com a obra missionária
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    16 Mateus Ma’ch’adö O soldespontou atras da vinha, quando me dei conta do sonho que se tornou desejo; tua anca repousando em minha coxa. E o mundo se tornou uma janela, por onde eu olhava, la estava ela com tua nudez transfigurando os dias do início da Criaçao. Branca, tua pele que me toca; a nevoa no cume dos montes. Um povo viu o mar em dois se abrir; eu vi o mar se abrir entre as tuas pernas como se abrisse translucidas portas. Caminhei pelo teu chao de carne; em teu sulco mais profundo uma vela acesa queimando estrelas. Quente, os seios que abrigam o meu rosto; homens se afogaram no diluvio, enlameados. Minha inclinaçao para o mal rasgou o veu; agora meus olhos sangram diante de tanta beleza. Com minha boca colada no teu peito, me afogo; teus mamilos sao camafeus de sal marinho revelando rosas selvagens em relevo; as coroas, rosarios de planetas incandescentes. Teus olhos, o brilho cristalino de uma clepsidra, reflete o azul, o mel, o claro castanho e o verde; foge de mim, se esconde, a cor dos teus olhos. As mulheres no meio do povo ja me honraram depois das batalhas, dançando e cantando pelas ruas: "Saul matou os seus milhares, porém Davi, os seus dez milhares.” Ja derrotei gigantes com uma funda e alguns seixos de rio corrente, mas agora me vejo prostrado; minha testa em teu ventre macio. Ja matei um urso com garras de ferro, mas agora sou derrotado pela delicadeza de teus dedos finos; teu pulso e um graveto. Agarrei a juba de um leao e o sufoquei com minhas maos de pastor ainda menino, mas fui laçado pelos teus longos cabelos. Eu machuquei o coraçao de D’us; o que me resta e cobrir-me de cinzas e escrever meu salmo de arrependimento: Tem misericórdia de mim, ó Deus, apaga as manchas de minha rebeldia. Fazei de mim, Senhor, não o teu servo, que cuida da tua montaria e dos teus cavalos, ou como o copeiro que cuida do teu banquete, mas fazei de mim, Senhor, o teu escravo que limpa a lama dos teus calçados e lava teus pés com as lágrimas de um coração contrito. Sobre a cama flutua teu corpo procurando o meu; uma duna de sal, uma femea de leopardo das neves. Sobre a cama ondula teu corpo sustentando o meu; uma tamareira ao vento, um jardim suspenso. Teu sussurro, esturro da leoparda em alvoroço; teus gemidos, a cantilena da femea do chacal. Teu corpo, forno de argila ardente esperando assar o pao; fornalha que me alimenta com teu fogo branco, brando; Teu colo e uma despensa, um cesto, um ninho de pomba. Tua boca tem gosto de trigo, leite e mel, vinho encorpado; um fio de escarlate escorre dos labios, do halito o incenso. Teus dedos respingam azeite, ha farinha debaixo das unhas; as maos sao dois calices, teus peitos, duas botijas de fino couro. O teu corpo e como um lagar oferecendo os teus frutos; teu abraço, uma prensa destilando oleo em gotas de luz. Olhar para a encarnaçao da beleza, nao com prazer, mas com remorso, maior castigo na terra nao ha. Sou Davi, rei, poeta e homem de guerra; pobre criatura feita de po, ilusao e miseria. Minha maior batalha e o casamento do ceu e do inferno dentro de mim. Davi - algumas horas depois de ter se deitado com Batsheva
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    17 A VELHINHA DOSAN ANDRÉS Jorge F. Isah O mundo é mal, dizem alguns, enquanto comem caviar, lagostas e bebem um Domaine Leroy Chambertin Grand Cru, de U$ 4.000,00 a garrafa. Só se for para as ovas do Huso Huso, dos crustáceos decápodes ou das pobres vitis viniferas. Na verdade, o mundo não é mal. O problema é ter gente só pensando o mal e buscando o mal, enquanto dizem querer o bem. Como aquela galerinha que vive falando em paz, amor, na opressão das codorninhas antes dos ovos eclodirem, enquanto no silêncio dos fones Beats e segura em seu quarto, maquina esquartejar e atear fogo na inofensiva velhinha no GTA San Andrés. Não obstante, alguém pode questionar ser mal um ataque puramente virtual onde não existem vítimas reais? Claro que não. Seria um absurdo. Mas uma semente daninha, se cair no terreno certo, virará uma árvore dos capetas. Certa vez, ouvi de um amigo a seguinte história: — Estávamos eu, minha esposa e meus filhos no velório da irmã da tia da amiga de minha mulher. Ela morrera muito jovem e prematuramente. O filho mais velho tinha doze anos. Nos sentimos abalados com a notícia, a despeito de esperar o fim trágico havia algum tempo, já que a doença era incurável. Pois bem, eu não conhecia a quase totalidade das pessoas do lugar, e como minha filha estivesse muito triste, ela se aproximou, encostou-se em mim, e abracei-a, consolando-a. Nisso, chegaram algumas mulheres e conversaram com a minha esposa. Eu não sabia quem eram, mas presumi, pela tristeza, serem parentes. Ficaram lá um tempo; e no ambiente de comoção, talvez por descuido, não fizemos as apresentações. Fez uma parada estratégica, como se estivesse buscando na memória a melhor versão ou a versão certa, e prosseguiu: — Então, uma das mulheres, a que mais me observava (desde a chegada, fixou-se em mim, descaradamente), cochichou algo. Minha mulher virou-se, e sorriu encabulada: “Este é o meu marido e a minha filha”. A amiga pareceu assustar-se sem, contudo, demonstrar qualquer sinal de embaraço. Olhou-me, novamente de alto a baixo, e disse: “Ah, bom, pensei que fosse mais um velho safado enrabichado por uma garotinha”. — Fiquei tão chocado que não disse nada. Apenas imaginei: que raios levou esta mulher a pensar tal coisa?... Devia ser um recalque, trauma ou simplesmente estupidez. No fundo, todos esses elementos têm origem no mal, normalmente da própria pessoa. Se você não procurar, não encontra. E mesmo se procurar, pode não encontrar. Mas se insistir na busca, por certo, mesmo que não encontre, arrumará um jeito de crer que encontrou. Assim é boa parte das pessoas que pensam maliciosamente e as veem nas atitudes mais inocentes e castas. Nada é mais deletério do que os pensamentos delas, muito mais do que a produção necessária para entupir a latrina. Outro dia, um velho, ostensivamente, olhava uma adolescente em vestes sumárias. Ao ponto de a garota se incomodar, trocar de lugar, e ficar de longe esguelhando-o. Ele não se importou, e manteve-se fixado nela. Por fim, ela desistiu e saiu porta afora. Então, ele se virou para mim e disse: — Viu aquilo? — Não. O quê? — Ora, essas meninas não sabem mais como se portar em ambiente público. Vestem-se como prostitutas, e não respeitam ninguém. Eu verdadeiramente não queria aquela conversa. Mas não me contive, tal a dissimulação do velho gagá. — E o senhor, sabe? — Sabe o quê?!! – ele estava intrigado, quase assustado, e sem me entender. — Portar-se em público? — Ora, como ousa! Sabe com quem está falando? — Não, não sei. E o senhor, sabe?
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    18 Esperou um instante.Os olhos indecisos e a língua claudicante. Por fim, respondeu: — Não, não sei... Quem você é? — Sou o homem que vejo um hipócrita a metros de distância, mas um canalha posso senti-lo a quilômetros. Levantei-me, e saí da poltrona onde estava. Do seu lugar, ele me encarou. Até que foi chamado. A secretária do proctologista ao vê-lo, disse sardônica: — Por aqui de novo, seu Mário?... — E lhe deu um tapinha nas costas – Desse jeito, vou ter de arrumar um cantinho para o senhor. — Ora, ora, menina, não carece, não carece... Entrou sorridente, talvez sem entender, talvez entendendo, talvez sem aceitar, talvez aceitando as formulações da enfermeira ou simplesmente a fingir-se de morto. De minha parte, estava aliviado de não receber tratamento tão íntimo, mesmo da equipe oftalmológica. É o que sempre digo, a despeito do pecado original, da natureza caída do homem, ainda resta muito do “imago dei” em cada um de nós e, por isto, existe bondade nas pessoas, talvez não o suficiente, talvez em módicas porções, mas capaz de nos fazer lembrar do que somos, do que não somos, do que deveríamos ser e não podemos ser, mas é sempre Deus a nos mostrar como seremos, se para o bem ou para o mal, é ele quem nos mostra, nos guia e nos orienta e sustém no caminho para o bem. É uma discussão longa, que este exíguo espaço não permite, mas o fato consiste em: se procurar o mal, o encontrará até mesmo nas coisas boas e saudáveis da vida. Se procurar o bem, é possível que do próprio mal Deus faça o bem, e você se surpreenda. Surpreso ou não, existem os incapazes de ver além dos próprios olhos, de enxergar além de si mesmo e, por isso, ninguém ou nada jamais prestará. Os niilistas foram tão eficientes em espalhar seus dogmas, seu pessimismo além do próprio ceticismo e derrota que mesmo a vitória lhes caindo nos colos a tratarão como inimiga, venenosa, absurda e sem sentido. Se um deles, não segundo a realidade ou as exigências da vida, mas segundo a descrença utópica ou melhor, a relutância absoluta, estivesse se afogando e lhe dessem uma boia salva-vidas, ele a recusaria, ciente de não haver nada em seus princípios a consentir com tamanha nulidade. E, ainda por cima, acusariam o bombeiro, a tentar resgatá-lo, de astênico e covarde. Certa vez, um jovem foi vendido como escravo por seus irmãos. O seu nome era José. Acabou levado para a casa de um importante figurão em um país distante. Lá, em uma série de encadeamentos providenciais, acabou por ganhar a confiança do rei. Ao se antecipar e prever tempos difíceis, de fome e escassez, e tomar atitudes e medidas para o reino não sofrer as agruras da penúria, se tornou primeiro -ministro ou algo parecido. Durante a miséria da região, sem saber, seus irmãos migraram para esse país em busca de alimento, já que era o único preparado para atender as necessidades não somente do reino mas dos vizinhos ao seu redor. Quando perceberam que o segundo homem mais importante era o seu irmão, entregue como escravo na adolescência, imaginaram que seria o momento de vingança e que estariam literalmente ferrados. Não esperavam por misericórdia, mas justiça. Não esperavam perdão, mas sentença. Muito menos afeição. Nada além do castigo. Então, o primeiro-ministro ao vê-los, chorou, abraçou-os, mandou alimentá-los, trocar-lhes as roupas, e fazer uma festa. Estarrecidos com aquela situação inesperada, a recepção incompreensível, mas ainda temerosos, ouviram de José: “Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar muita gente com vida.” Você pode se lamentar e dizer: ninguém presta!... Este mundo não vale nada!... Mas, na verdade, você é apenas medroso, um poltrão a lançar por todos os lados, e sobre todos, os seus receios e pavores, e repudiar o antídoto resumido nestas palavras: amar e fazer o bem. Por incapacidade, escolha ou fingimento, atear fogo ou esquartejar inocentes no GTA certamente é o seu jeito de dizer: dane-se! Principalmente, a si mesmo. Jorge F. Isah é jornalista, escritor e editor. Autor de “A Bula do Placebo”, entre outros títulos, disponíveis na Amazon.
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    19 Julia Lemos Jesus, depoisde sua trajetória de intensos três anos e de ter, no final, consumado sua paixão legou-nos seu amor eternal. Não foi recebido por seu povo, não lhe mereceu a honra, a não ser pelos mais próximos. Impossível um an- darilho que pregava pelos desertos e nas aldeias segregadas de Israel ser considerado pela fina estirpe da classe sacerdotal, e muito menos pelos potentados romanos, que acerca dele só ouviam dizer dos tumultos. Vinha de uma família de artesãos da madeira nos arrabaldes de Belém. Além do mais, fazia-se acompanhar por gente sem posição social, incluindo os semiletrados pescadores, e em contrapartida, os maiorais de seu povo frequentavam as coortes governamentais. Seu estilo de vida poderia ser comparado ao de um 'hippie', mas era surpreen- dente em atitudes e desconcertante nas suas respostas, sempre levando o interlocu- tor a enxergar a si mesmo. Quem era este homem que também se fazia acompanhar de publicanos e pecadores (?) Gente considerada a escória da sociedade, propagando suas ideias a partir de um grupo formado de pessoas simples ou de cobradores de impostos e a quem ele um dia formou sua base apostólica; (já outros, seus seguidores mais destacados, não o podiam admitir publicamente). Mas o andarilho sem formosura aparente ainda se autointitulava filho de Deus! Era aos olhos da elite sacerdotal judaica um impostor e um blasfe- mo, por isto acharam um meio de condená-lo a morte em vista das leis vigen- tes. A arma estava engatilhada, as feridas expostas, as mentes confusas por- que o homem transformara água em vinho, repreendia ventos e aplacava tem- pestades andando por sobre o mar! Alimentara multidões de pão e de peixe sem gastar nenhum denário; curava os enfermos e as mulheres que sangravam, cegos enxergavam, paralíticos voltavam a andar, mudos a falar, e o mais espeta- cular de tudo: os mortos ressurgiam para a vida! Afinal, o que era aquilo?! Era Deus aparecendo com o nome definitivo de seu único filho: Jesus Cristo. Aquele que havia sido prometido desde a mais remota história de Israel, mas que apa- receu no mundo em um formato que contrariava todas as expectativas. Era Ele, o Deus criador de tudo, dono do ouro e da prata e das maravilhas do univer- so, expressando sua intensa, incomensurável paixão pelos homens, que agora fazia um corte na história dos israelitas, desta vez feito cativos pelos gentios. O próprio Senhor do universo visitava a terra em humanidade plena, amando os homens até a loucura e completa tormenta! O percurso de Jesus foi consumado na cruz e desde então o amor tornou-se vincado pelo sangue. A nossa paixão deve ser alquimicamente transformada em amor, pois que toda paixão traz em si as marcas do sofrimento e da crueldade. Já o amor é a única saída, o bálsamo purificador. O amor é a paixão tornada subli- me. E penetra toda a atmosfera... Desce do céu e sobe da terra em um vai e vem que a tudo rega, floresce e frutifica. O amor está no meio dos vapores que sobem do abismo. Juntos, paixão e amor vencem o mundo.
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    20 ORAÇÃO Ageu Magalhães Lucas eMarina estavam perdidos na floresta há horas e o dia já começava a escurecer. Subitamente, no meio da mata fechada, encontraram uma pequena gruta. Ali poderia ser um local para passarem a noite. Entra- ram na gruta para avaliar se seria se- gura. Estreita no início, a gruta foi se abrindo depois de alguns metros até tornar- se uma grande caverna. Havia um lindo lago no meio, árvores e pássaros. A visão era espetacular. Um local belo, mágico e sobrenatural. Eles ficaram ali, boquiabertos, apreciando a visão e, de repente, uma paz inexplicável invadiu seus corações. As pre- ocupações por estarem perdidos simplesmente de- sapareceram e agora suas mentes estavam calmas, serenas e tranquilas. A sensação de bem-estar era inebriante. A harmonia, a segurança e a quietude envolveram suas almas. Aquele local parecia um cantinho do céu. Agora eles não queriam mais sair de lá... O conto é simbólico, mas o que eles sentiram é real. A caverna se chama “oração”... O Reverendo Ageu Magalhães é pastor da Igreja Presbiteriana de Vila Guarani (igreja federada a Igreja Presbiteriana do Brasil), diretor do Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo José Manoel da Conceição. Aprendizado Carlos Nejar O primeiro aprendizado é o de estar vivo. Depois o de aprender a ver, sen- tindo. Depois ligar as palavras ao mun- do e elas à consciência de poder mudá -lo. Depois na solidariedade, relação entre as pessoas, o convívio, a prece- dência da ordem da vida sobre a das coi- sas. E a descoberta do homem não somente como um animal político, amoroso, metafísico ou poético. Mas a de um ser que só pode repousar no Absoluto. O ofício do poeta é o tentar definir as coisas. E ao tentarmos, somos por elas definidos. Ou devorados. Sim, o poeta lida com matérias ígneas. Ou se arrisca na luta contra as feras palavras. O que sobra ou se salva é o poema. O que o poeta desconhece, o poema sabe. E é mais que um ofício: é uma vocação irresistí- vel para o abismo de Deus. Assim, não existe rotina na criação. Cada metáfora é uma existência inteira. Cada poema é o início da eternidade. Porque o poeta é alguém que sabe en- tender as palavras. E elas o reconhecem, procuram. E o exprimem. Há que vigiar, testemunhar. Permanecer de pé diante do Filho do Homem. Não é chefe de nada. Apenas de sua nobre, fraterna linguagem. Como Cid Campeador, retém junto a si “as compa- nheiras espadas”. In Caderno de Fogo (Escrituras, 2002) Carlos Nejar é poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras.
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    21 A história daWisdom Tree Fundada em 1988 com o no- me de Color Dreams, esta softhouse desenvolvedora de jogos cristãos, foi uma das maio- res produtoras de jogos não li- cenciados para o NES (Nintendo ntertainment System, o popular Nintendinho 8bits), tendo, assim como a TENGEN, desen- volvido uma alternativa para burlar o chip de bloqueio da Nintendo. Entretanto, devido ao descontentamento da Nintendo, que não recebia receita dos jogos da Color Dre- ams, das ameaças de não distribuir mais seus jogos aos varejistas que vendessem estes games não licenciados e das críticas pela qualidade duvidosa de seus jogos, a em- presa começou a considerar a possibilidade de criar jogos bíblicos e entrar no mercado "gospel", algo ainda não ex- plorado no ramo dos videogames. E acertou em cheio, criando um novo gênero de jogos, livrando-se da pressão da Nintendo que, pelas políticas de bom relacionamento com pais e grupos religiosos não moveu nenhuma ação judicial contra ela e, diferentemente da Tengen e da AVE (do jogo Wally Bear and the No Gang), pôde vender livre- mente seus jogos, sem concorrência alguma, nas livrarias cristãs que, além de livros e Bíblias, também vendiam fil- mes e música cristã. E agora, pela primeira vez, jogos bíbli- cos. Vale ressaltar aqui que, diferente do que alguns acu- sadores afirmam, a Wisdom Tree não cometeu nenhum crime e não violou nenhuma lei, apenas não se submeteu ao império que a Nintendo criou e deu um "jeitinho" para sobreviver. David Sheff, autor do livro "Os Mestres do Jogo", que conta a história da Nintendo, afirmou sobre o caso: "Havia, no entanto, um produtor não licenciado a quem Lincoln provavelmente não perseguiria: Wisdom Tree, cujos jogos eram baseados em aventuras bíblicas, como Noah's Ark, Save Baby Moses e David Versus Goliath. As manchetes, NINTENDO PROCESSA CRIADOR DO BEBÊ MOISÉS, por exemplo, fariam até mesmo o descolado chefe de relações públicas da Nintendo, Bill White, ter horríveis pesadelos." Segundo o site Ninten- do.fandom.com, existem relatos conflitantes sobre os mo- tivos reais da mudança da Color Dreams para Wisdom Tree e a criação dos jogos bíblicos. Alguns dizem que Dan Lawton, fundador da empresa, fez isso mais por brincadei- ra do que por piedade e religiosidade, mas que, Mike Wilson, outro en- volvido, era professor de escola bíblica dominical e foi quem sugeriu a ideia. De fato, independente disso, a Wisdom Tree sobreviveu às pressões da Nintendo e deixou sua marca na história, sobre- vivendo até hoje e tor- nando-se famosa por ser a única empresa a lançar um jogo não oficial para o Super Nintendo nos Estados Unidos, o, no mínimo curioso, "Super Noah's Ark 3D", um FPS (tiro em primeira pessoa) feito em cima da engine do jogo Wol- fenstein 3D. Antes da mudança de foco e público alvo, a Color Dre- ams lançou 15 jogos não licenciados para o Nes. A maioria dos jogos bíblicos foram adaptações destes, com sprites modificados, personagens, cenários e diálogos alterados para tornarem-se mais acessíveis aos cristãos, músicas substituídas por hinos cristãos e músicas clássicas e versí- culos e perguntas bíblicas incluídos durante a jogatina. Outros jogos novos foram feitos do zero, já dentro da te- mática bíblica, mas sempre inspirados em clássicos conhe- cidos. Depois, vários destes games receberam ports para o Mega Drive com gráficos levemente melhorados. A Wisdom Tree existe até hoje, seus jogos estão dispo- níveis na STEAM e, além disso, alguns dos seus cartuchos ainda são vendidos em parceria com a PIKO Interactive e em emuladores variados. King of Kings, Spiritual Warfare, Noah’s Ark, Exodus (NES) são alguns de seus jogos. E os caras lançaram até uma Bíblia para o Game Boy! Luiz Miguel Gianeli é pastor, missionário e escritor. Está à frente do projeto Muito Além dos Videogames, que objetiva falar de games a partir de uma perspectiva cristã. O presente texto foi extraído da revista Muito Além dos Videogames Edição Extra 2, focada em jogos de temática cristã. A revista pode ser baixada gratuitamente, AQUI. GAMES Luiz Miguel Gianeli
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    22 O FEIJÃO EO SILÊNCIO Lucas Roberto Rio de Janeiro, 1942 — Alô. — Mister Lessa? — Fala, MacArthur. — Tem planos para esse noite? — Estava terminando um capítulo. O que sugere? — Esquece o trabalho, vamos tomar umas. — Não sei, não, a Elsie já preparou o jantar. — Let’s go, man! Passo aí em 20 minutes. Bye! — Elsie! Querida, não vou ficar pro jantar. Não espere por mim, vou sair com o chefe gringo. — Deu um beijo no pequeno Ivan e saiu. *** — Well, well, Mister Lessa. O diretoria está impres- sionada com seus textos. Sua agilidade é impressio- nante. — É a vontade de terminar logo o serviço pra vol- tar pros meus livros. — Orígenes deu sua icônica gargalhada. — E você, já se acostumou com a mi- nha terra? — Oh yes. Que país! A comida é fresca, as praias são lindas... — Não se esqueça das mulheres. — Copacabana não me deixar esquecer. Que país! MacArthur bebeu o último gole de sua cerveja e pediu mais uma rodada pro garçom, enquanto Orí- genes acendia outro cigarro, e estava ainda no pri- meiro copo. MacArthur queria mudar de assunto, mas pediu que a conversa seguisse em inglês, a fim de não ter mal-entendidos (o que será traduzido, para o alívio do leitor). — Orígenes, você é um homem religioso? — Leio a Bíblia com frequência. — Pois bem, e o que acha de Hitler? — Um louco. E pensar que o Vargas arrasta uma asinha para aquele canalha. — E se eu te dissesse que o buraco é mais embai- xo? — Como assim? — A mídia ainda não sabe o que está acontecendo nos bastidores dessa guerra. — Você diz das teorias da conspiração? — Não são teorias, Orígenes. — Nesse momento, MacArthur fez uma pausa dramática, olhando nos olhos do amigo, pronto para revelar algo. — Você precisa saber de algumas coisas. — Eu acho é que você já está bêbado com a terceira rodada. — Orígenes tentou aliviar o clima tenso, sem sucesso. — Não estou, confie em mim. A questão é que não vim para o Brasil para assumir o Departamen- to de Publicidade e Propaganda. Es- tou numa missão do Governo Americano. — E eu estou inventando a pólvora. — Orígenes gargalhou novamente. — Preciso que você leve a sério essa conversa, Sr. Lessa. — MacArthur mostrou seu distintivo e pas- saporte diplomático como prova do que estava ale- gando. — Estou aqui porque coisas terríveis estão acontecendo na Europa e a polícia secreta de Hitler se infiltrou em nosso governo. Minha missão é re- crutar um agente confiável para interceptar nossos informantes. E, hoje à tarde, indiquei seu nome no meu relatório. — O que? Por que eu? Tenho mulher e filho pe- queno. Enfim consegui estabilizar minha vida de- pois da prisão. Com certeza, há melhores opções! — Não, não há. Você tem experiência em guerra, teve treinamento militar. — Foram só alguns meses, e eu nem sequer dei um tiro! — Seu romance de sucesso e suas propagandas mirabolantes são a desculpa perfeita de uma promo- ção para Nova Iorque. — Já disse que não. Nada disso me torna a pessoa “perfeita”. — Lessa, nosso maior informante é uma rede de resistência de clérigos. E você foi seminarista. Vo-
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    23 cês falam amesma língua. — Larguei o seminário no segundo ano e estou afastado da Igreja há mais de uma década. — Por Deus, Lessa, se não por você, faça isso pe- lo seu pai! — Não coloque meu pai nisso, ainda sinto a perda dele. — Muitos sacerdotes, como ele, estão dando a vi- da para tentar impedir aquele maldito de seguir com a guerra. Eles também têm família. E te digo mais, se os fatos forem confirmados, aquele homem é um diabo. Seu pai jamais hesitaria diante dessa necessidade. — Eu não sou o meu pai. — Mas é mais parecido com ele do que imagina. Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, peca. Orígenes deu um murro na mesa. — Não venha com discurso moralista pra cima de mim... — Abaixou a cabeça e respirou fun- do. Voltou o olhar para o colega e disse: — Se eu aceitasse... como funcionaria? — Você vai pra Nova Iorque como correspon- dente da NBC. Nós conseguiremos alguns nomes de destaque para você entrevistar, e, dentre essa gente, teremos nossos informantes. — Mas e o risco? — Não há motivos para se preocupar. Uma equi- pe te monitorará 24 horas. Colocaremos um dos nossos agentes à paisana para acompanhar sua es- posa sempre que ela sair. Vocês estarão em boas mãos. E veja os bônus, além de ajudar a acabarmos com essa maldita guerra, você e sua esposa alavan- carão suas carreiras. — Quanto tempo isso duraria? — Não mais que um ano. — Um ano!? — Sim, não podemos simplesmente encaixá-lo entre os grandes da noite para o dia. Você precisa ganhar destaque de forma natural, como ganharia pelos próprios méritos. A diferença é que daremos uma mãozinha, nada mais que isso. O que me diz? — Preciso falar com minha esposa. Não posso tomar essa decisão sem consultar a Elsie. — Fale sobre a oferta de emprego e os benefícios, mas ela não pode saber sobre a missão. É muito ar- riscado. Nem ela e nem ninguém pode saber. — Ninguém? Nunca? — Para a sua segurança, é melhor que não. — Ma- cArthur deu o último gole na cerveja, enquanto Orí- genes não havia tocado na sua. — Você tem 24 ho- ras para me dar a resposta. Seu voo está agendado para a próxima semana. — Mas hoje já é sexta-feira. — Então é melhor se apressar. *** — Alô, MacArthur. — Yes. — Que horas é o voo? Nova Iorque, 1942 Frequentar eventos religiosos se tornou parte da estratégia de Orígenes para encontrar líderes da re- sistência. Sua tática consistia em cifrar suas conver- sas através de passagens bíblicas, a fim de proteger as identidades e garantir que as informações perma- necessem seguras. Cada encontro era uma mistura de tensão, pela constante sensação de ser seguido, e a adrenalina das informações que vinham à tona. Os tentáculos nazistas se infiltravam pelo governo, tornando difícil saber em quem se podia confiar. Prisões de colegas de trabalho eram frequentes, sob a suspeita de serem agentes duplos. A cada momen- to, Orígenes verificava o perímetro ao seu redor pa- ra garantir que não estava sendo seguido. Não havia mais paz. Cartas anônimas e telefonemas mudos lançavam dúvidas sobre a segurança do casal, tornando cada passo em falso uma possível sentença de morte. À medida que Orígenes se aproximava de montar o quebra-cabeça, maiores eram as ameaças. Sua casa era frequentemente revirada, simulando assaltos, mas ele sabia que estavam em busca das pastas in- terceptadas destinadas a MacArthur. A possibilidade de escutas implantadas adicionava outra camada de insegurança. Apesar do perigo iminente para sua
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    24 família, Orígenes sabiaa necessidade de completar sua missão. *** — Alô. — ... — Posso ouvir sua respiração! — ... — Nazista desgraçado, eu sei que você está me ouvindo. Ouça bem o que vou dizer. Agora que o meu país entrou na Guerra, vocês já eram, enten- deu? Já eram, agora a cobra vai fumar! *** — Aqui está o envelope do Reverendo Bonhoef- fer sobre a “Operação 7”. — Graças a Deus, eles estão conseguindo trans- portar os judeus para áreas seguras. E como ele es- tá? — Disse que voltará para a Alemanha. Avisei que era loucura, mas ele não quis me ouvir, disse que seu lugar era ao lado dos seus irmãos. Não posso dizer que não entendo ele, mas ainda acho suicídio ir direto pro olho do furacão. — Há coisas entre o Céu e a Terra que nossa vã filosofia não consegue explicar, meu caro. E que cara é essa? — Meu nome está correndo na boca dos infiltra- dos. Ligaram de novo em casa, de madrugada. — Orígenes deu um longo bocejo e fez uma careta ao tomar o café que tinha pegado na cantina. — Essa guerra tem acabado comigo, e a Elsie não se sente segura naquela casa, pensando que fomos assaltados todas aquelas vezes. Além disso, não suporto o café daqui, parece água de enxurrada. Tenho que voltar pro Brasil, MacArthur. — Você ainda não completou sua missão. — Como não? Já me encontrei com os principais líderes da resistência, entrevistei Sinclair Lewis, Langston Hughes, John Steinbeck. Todos ajudaram com informações preciosas. Além disso, Alan Tu- ring já decifrou o código dos nazistas. Quem mais falta? — Sir Charles Spencer. — Quem? — Charles Chaplin. Prometo que será sua última missão. — Você quer que eu entreviste o grande Chaplin? — Já incluí seu nome na coletiva que ele dará na cidade, na próxima semana. Tome, esse é o endere- ço. — Depois disso, estou liberado? — Tem minha palavra. *** O coração de Orígenes estava acelerado, à espera da grande estrela do cinema. O sr. Chaplin chegou atrasado, mas, simpático com os jornalistas que o aguardavam, respondeu às perguntas que previa- mente haviam sido combinadas, algumas fotos fo- ram tiradas, e nada mais. Ao se despedir, Chaplin entregou um papelzinho discretamente para Lessa, ao apertar sua mão. Nele, estava um endereço e ho- rário. Lessa chegou ao local no horário marcado. O en- dereço era de um barracão maltratado pelo tempo, mas que serviria para a troca de informações e des- pistar possíveis espiões. Ao contrário do primeiro encontro, Charlie já o esperava. — Senhor Chaplin, é um prazer! Sou Oríg... — Orígenes Lessa, conheço o senhor; li seu livro “O Feijão e o Sonho”. Devo dizer que gostei muito. — Me sinto honrado, também devo dizer que achei genial “O Grande Ditador”. Ousado e genial. — Muito obrigado. Por favor, sente-se. Estou finalizando minha turnê antinazista, que me deu a oportunidade de receber informações valiosas de refugiados e espiões alemães. Meu nome está na lis- ta negra de Hitler, mas isso não me impediu de co- lher as informações que MacArthur pediu. Lessa, não sei o quanto você está a par dos absurdos de Hitler, mas, para olhar esse dossiê, você terá que ser forte. — MacArthur pediu informações sobre os cam- pos de extermínio, certo? — Isso mesmo, mas a coisa é pior do que imagi- návamos. — O que pode ser pior que campos de concentra- ção? — Eles chamam de “Solução Final”, veja com seus próprios olhos.
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    25 Ao abrir aqueledossiê, Orígenes não acreditou no que seus olhos viam. Não havia apenas cópias de documentos oficiais, mas fotos de pilhas de corpos, fornos e valas. Um silêncio pairou por alguns minu- tos, enquanto Orígenes via aquelas imagens que ja- mais sairiam de sua cabeça. — Meu Deus, o que aconteceu com a raça huma- na?! — Tamanho era o choque, que Orígenes vomi- tou diante daquelas imagens nefastas. — Eu disse que precisava ter estômago. Por isso, a urgência de entregar esta pasta para MacArthur ain- da hoje. Proteja isso com a sua vida, precisamos de- ter Hitler imediatamente. Ainda meio atordoado pela chocante revelação, Orígenes, com passos vacilantes e a mente inundada pelas imagens terríveis, dirigiu-se diretamente ao escritório para se encontrar com MacArthur. A sen- sação era de que os olhos de Hitler o observavam, como se o próprio mal estivesse acompanhando seu trajeto. Ao abrir a porta, a atmosfera pesada do escritório parecia saber as notícias devastadoras que viriam. MacArthur, ao ver Orígenes suando frio, conduziu- o à sua sala. No centro do escritório, a mesa de MacArthur exi- bia o dossiê aberto, revelando as horripilantes ima- gens e documentos que detalhavam a “Solução Fi- nal” nazista. Os olhos de MacArthur estavam es- tampados com horror e incredulidade diante daque- la brutalidade. O silêncio era ensurdecedor. As pala- vras pareciam ter fugido diante daquela revelação profana. Finalmente, MacArthur quebrou o silêncio, gaguejando e com a voz embargada: — Era muito pior do que eu imaginava — disse, com os olhos fixos na pasta, e então encarou Oríge- nes: — Este é o ponto de virada. Você trouxe mais do que informações cruciais; isso será o fator deter- minante para vencermos a guerra. O mundo saberá da monstruosidade que estamos enfrentando. E vo- cê foi o mensageiro corajoso que trouxe essa verda- de à luz. Sabia que estava certo em te escolher. Em um gesto de gratidão, MacArthur estendeu a mão para Orígenes, que, com o alívio da missão cumprida, devolveu o gesto solene. Aquele momen- to, por mais angustiante que fosse, marcou o início de uma reviravolta nos eventos cruciais da guerra. Rio de Janeiro, 1945 — Estamos aqui no lançamento do livro “Ok, América”, de Orígenes Lessa, que é um compilado das entrevistas que ele fez em 1942 nos Estados Unidos. Orígenes, o que você pode nos dizer sobre o seu novo livro? — Foi minha pequena contribuição na luta univer- sal contra o nazismo. Após a entrevista, Orígenes acendeu um cigarro e começou a refletir em tudo o que havia acontecido, enquanto Elsie dava banho no pequeno Ivan: — “Pequena contribuição”, mal sabem o preço que me custou. Afinal, como pode existir um Deus, quando toda essa barbárie estoura na nossa cara? É engraçado nossa habilidade de fugir da culpa. Brin- camos de deuses (ou demônios), mas jogamos a res- ponsabilidade nas costas alheias. É irônico. É sádi- co. Então uma lágrima surgiu em meio à fumaça, ao lembrar-se do último sermão de seu pai: “Quando vier o Filho do Homem, porventura, achará fé na Terra?”. _____________ Este conto é uma ficção histórica baseada em eventos reais da vida do escritor brasileiro Orígenes Lessa. Orígenes, imor- tal da Academia Brasileira de Letras, foi filho de pastor presbiteriano, mantendo durante toda a sua vida uma relação algo conturbada com a fé protestante. _____________ Lucas Roberto é presbiteriano, Bacharel em Teologia, licenciado em Pedagogia e História. Autor de seis livros sobre vida cristã, filosofia e literatura fantástica. E-mail: lucasro- berto125@hotmail.com Conto extraído do livro Entre Segredos e Len- çóis: uma antologia misteriosa, organizado por A. Narcizo e Lucas Roberto (Lençóis Paulista: Ed. dos Auto- res, 2024).
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    26 REVISTAS DE LITERATURACRISTÃ? SIM, ELAS EXISTEM! Uma revista é, mais que uma simples e periódica plataforma de veiculação de informações, uma maneira de ver o mundo. Sua proposta editorial, as crenças e valores que ela se arroga são construtores de cultura, tanto a sua quanto a dos leitores que a ela tenham acesso. Se em 2024 Amplitude retomou suas atividades, ela não está sozinha nos campos e meandros da literatura cristã. Conheça duas outras revistas literárias que, com propostas diversas, encan- tam, provocam e divertem a partir de uma cosmovisão cristã. A primeira delas é a Bulunga. Atualmente em seu nú- mero 37, BULUNGA é uma revista de literatura e humor de periodicidade mensal que veicula, a cada edição, contos, crônicas, entrevistas, poemas e resenhas. Tocada pelo editor Michel Salomão, conta em suas filei- ras com o combativo escritor Jorge F. Isah, que é também um colaborador de Amplitude. Transitando pelos mais variados temas da história e do cotidiano, Bulunga consegue instigar e provocar de manei- ra agradável, além de municiar seus leitores com farta do- se de humor, cura possível para nossos tempos conturba- dos. Leia gratuitamente as edições de Bulunga no site: https://bulunga.com/ E em outubro de 2024 assistimos ao nascimento da Re- vista de Higgs. Seu nome é inspirado na famosa “partícula de Deus”, ou o bóson de Higgs. O nome não é em vão: o foco da revista é a ficção científica, bem como a fantasia. Além de contos, De Higgs publica poemas, resenhas e en- trevistas. Tocada pelas mãos dos editores Eduardo Y. Nishitani e João G. Moreira, De Higgs conta com um cor- po de colaboradores e, a partir de seu segundo número, está aberta para a colaboração de interessados, através de edital de publicação. Conheça e leia as edições da revista em seu site: https://revista-de-higgs.webnode.page/
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    27 Cócegas Existenciais Um Contode Natal Tiago Lyra de Carvalho Já passava do meio dia. Era véspera de Natal e Suzana estava toda atare- fada preparando a ceia. Ela esperava ansiosa pela visita de seus filhos, Rodolfo e Rafael. Rodolfo estava morando na Suíça havia oito anos e Rafael, um pouco mais longe: na Nova Zelândia. Ela era viúva de Anor, marido e pai dedicado e que se foi cedo, devido a pro- blemas de câncer de pele. Na época, Rodolfo tinha quatorze e Rafael, apenas onze anos. Suzana quando muito foi visitar Rodolfo duas ve- zes e Rafael, apenas uma. As passagens a cada ano se encontravam mais caras. Mas naquele Natal seria diferente. Os filhos viriam de seus países para passar o Natal com dona Suzana e com eles as noras e os netos que aquela mulher ardia por dentro em abraçar. O ano era 1995 e até a comunicação por telefone era difícil e cara. Porém, aquele Natal seria mágico e diferente. Suzana estava radiante e fazia tudo com primor. A ceia teria peru, arroz com passas, bacalhau frito no azeite português e de sobremesa uma bela ambrosia, pavê de chocolate e, claro, as famosas rabanadas que eram tradição de sua família. Até a lareira ela acendeu. A árvore de Natal antiga que fora testemunha de muitos natais naquela casa estava estupenda e junto com as bolinhas, Suzana pendurou as fotos dos meninos quando criança. Ela amava aquelas recordações. Lembranças que formavam quem ela se tornara. A nostalgia tomava conta e a cada hora que passa- va, um suspiro de alegria tomava conta daquela mu- lher. A cada micro fração de segundos, ela era tomada pelas memórias de momentos marcantes que teve com o marido e as crianças. As orações, os cultos do- mésticos e as inúmeras panquecas que Sr Anor fazia todo domingo pela manhã: elas eram recheadas de mel e geleia de morango. A alegria sempre fora mola mestra daquela casa. A casa sempre fora perfumada pelo bom ar do contentamento. Muitas histórias compartilha- das à mesa. Depois da morte do marido, Suzana deu conta de tudo, tra- balhava e educava os meninos que logo se tornaram rapazes e saíram do ninho. Rodolfo fez direito em Niterói e Rafael foi ser mergulhador da Marinha. Eles eram os orgulhos daquela alma que naquele Natal de 1995 se encontraria mais uma vez a completude de si. São raros esses momentos…mas são doces e leves e nos fazem cócegas…são muitas vezes fugidios e por isso que são únicos e especiais. Quando Rodolfo foi para a Europa e lá formou fa- mília, uma dor muito forte já tinha adentrado naquele peito que – mesmo aos lamentos pela partida do filho mais velho – mantinha-se de pé e agradecia a Deus todos os dias pela oportunidade de ter um filho bem sucedido e feliz na Europa. Mas, quando o mais novo lhe deu a notícia sobre a Nova Zelândia, ela desabou. Era uma quarta-feira, ela estava no culto de orações da pequena igreja que era membra desde 1919, quando criança, e onde conhe- ceu e se casou com Sr Anor, lá pelos anos 20, na regi- ão serrana do estado do Rio de Janeiro. Chegava um telefonema do Rafael, naquela quarta- feira fria de julho, o qual morava em Santa Catarina, pois servia a Marinha em um quartel de lá. Aquela pobre alma manteve a compostura, fingiu alegria suprema para o filho – ao telefone da igreja – mas, assim que colocou o telefone no gancho, desa- bou e naquela noite teve que dormir junto de sua ami- ga mais chegada que irmã. Sua amiga era Dalva,
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    28 esposa do ReverendoAdalberto, ministro de Deus naquela igreja há muitos anos e que fora um grande amigo e companheiro de seu finado marido Sr. Anor, estando com ele até os últimos momentos de vida, quando em uma tarde de Semana Santa, entregou seu espírito e partiu para próximo de Cristo com quem ele mantinha íntima relação todos os dias, por meio de suas orações sinceras. O Sr. Anor foi realmente uma pessoa dedicada às coisas celestes. Suzana não parava e planejou tudo. Tudo seria maravilhoso. Os filhos tinham chegadas previstas para a tarde do dia 24 e Suzana pagou um dinheiro a mais para Cristina ajudar. Cristina era quem limpava a casa de Suzana três vezes por semana. Suzana não aguentava mais limpar aquela casa sozinha. O corpo não aguentava. O lugar era lindo, ficava em uma colina e cercada de vegetação da Mata Atlântica da serra do Rio de Janeiro. Todavia, a casa era grande demais para ela, que, desde muito já estava amiga da solidão, era ela e a casa, a casa e ela, mas junto dela havia ali suas eternas recordações que a acompanhavam em cada cômodo aparentemente vazio. O jardim da casa era estupendo com hortênsias, costelas de adão, bougainvilles, cerejeiras e muito mais e contava com um pomar com limões, caquis, laranjas e belas tangerinas. Suzana amava o jardim e entendia que assim como a vida, os relacionamentos e principalmente a família ele ,necessitava de amor, cuidado e paciência para que um dia os frutos pudessem ser colhidos. E naquele dia eles seriam, pois seus filhos estariam ali e o coração acelerava a cada olhada no relógio de parede…o mesmo de sempre…aquela outra testemunha viva de cada momento daquela casa. Quantas batidas, quantos dias e quantas rotinas diárias ele observou atentamente. Quantas risadas, quantos almoços ao redor daquela grande mesa que Dona Suzana fazia questão de sempre deixar convidativa. Já eram três da tarde e ela se sentou na varanda e pegou as fotos dos meninos…as famosas fotos do Natal de 1943. Aqueles rostos macios dos meninos, e o olhar amoroso de Sr. Anor a fizeram chorar naquele instante. Ela se lembrou das últimas palavras de seu amado esposo, quando já internado no hospital com o câncer avançado: “Querida, não chores, Deus é mais glorificado em você quando você mais se satisfaz e está feliz nele”. Se deu conta ali, do maravilhoso mistério que é viver… que é estar em total sintonia com o Criador. Agradeceu a Deus imensamente por tudo que conquistara e gritou alto, com toda a força do seu ser – tão forte que até assustou Cristina que estava na cozinha fritando rabanadas. Eis o que aquela Senhora de 86 anos gritava com toda consciência de uma vida bem vivida em total sintonia com seu desejo; ainda que inúmeras conjunturas a tenham atravessado durantes esses anos todos, lá estava ela, de pé, firme, naquela véspera de Natal de 1995, naquela mesma casa, fincada em uma junção abrupta de nexos causais de memórias que a traspassaram naquele breve instante… tudo aquilo a fez gritar… Ela já sentia que seu fim estava próximo, e são nesses instantes que reside a mais alta filosofia de uma alma em particular… aquela de carne e osso que sabe que foi testemunha de tudo que viveu… foi um grito sincero: — Jesus, não ouso pedir nada a ti. Tenho tudo e muito mais do que sempre sonhei! Ao abrir os olhos sincronizados com o término daquele enorme grito de sinceridade, viu instantaneamente o rosto dos seus filhos no portão. Se sentiu completa e plena e surfou a maior e última onda de leveza e harmonia da sua vida. São cócegas existenciais assim que nos fazem flutuar… E, depois daquele Natal, a narrativa daquela linda família se findava, pois nada dura para sempre, mas sempre renasce ao nascer em muitas outras vidas e, nesta história em particular: pela Europa e Oceania. Tiago Lyra de Carvalho é Doutorando em Ciências Jurídicas pela Pontifícia Universidade Católica da Argentina. Licenciado em Letras e em Filosofia, é Bacharel em Direito e Especialista Previdenciário no RPPS do Estado do Rio de Janeiro.
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    29 Águas Vivas No anode 2006, nascia o blog Poesia Evangélica. Naquele momento se iniciava a “explosão” dos blogs, cujo ápice deu-se ali pelos anos de 2008 a até, talvez, 2012. O objetivo do blog era—e permanece até hoje o mesmo—divulgar a grande produção de poetas evangélicos de ontem e de hoje, reconhecidos ou iniciantes. Logo uma outra iniciativa nos ocorreu: A realização de uma antologia reunindo de sete a dez autores apenas, por vez; uma antologia bianual, que, a cada dois anos, apresentasse a boa literatura evangélica/ protestante a um público ávido e que não contava com nada parecido no gênero. Assim nascia, no ano de 2009, a antologia Águas Vivas. Em Águas Vivas, reunimos a voz experimentada de poetas laureados à voz de jovens iniciantes nos me- andros poéticos, promissores e já de forte expressão; poetas oriundos das mais diversas correntes denomi- nacionais. O objetivo, além de divulgar nossas letras, era ainda incentivar a produção, a um tempo insuflan- do conteúdo e ampliando o espaço de publicação, tão escasso na seara literária evangélica, notadamente em sua vertente dedicada à ars poetica. Desde a primeira edição, apresentamos, junto aos autores brasileiros, a obra de excelentes poetas evangélicos portugueses, e até mesmo uma autora moçambicana. Assim, Águas Vivas celebrava uma dupla fraternidade, a dos cristãos situados em três continentes, e a da lusofonia. O talento em comum era aqui o eixo axial a unir poetas tão díspares em estilo, que operam nas mais variadas frequências poéticas, e que, juntos, dão o tom democrático que sempre norteou a antologia. Águas Vivas chegou a cinco volumes, totalizando mais de 600 páginas de poesia cristã, na forma dee- books gratuitos. A iniciativa foi descontinuada por diversos fatores, desde a dificuldade de pesquisa e edição, passando pelo apelo de outros projetos a demandar as forças deste editor. O risco calculado de publicar neófitos tam- bém foi experimentado em toda a sua temeridade, com lições: alguns dos divulgados não permaneceram nos caminhos de Cristo, infelizmente.
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    30 Águas Vivas Mas, quemsabe a iniciativa Águas Vivas não possa ser retomada? Aqui apresentamos, bem como disponibilizamos para download gratuito, as cinco edições da antologia. E, ao longo das páginas seguintes, oferecemos uma seleção de poemas retirados de cada um dos cinco volu- mes de Águas Vivas. Águas Vivas Volume 1 (2009). Poetas: Brissos Lino, Gilberto Celeti, Giovanni C. A. de Araújo, Israel Belo de Azevedo, J. T. Parreira, Josué Ebenézer, Luiz Flor dos Santos, Noélio Duarte, Sammis Reachers, Wolodimir Bo- ruszewski (Wolô). Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Drive, CLIQUE AQUI. Águas Vivas Volume 2 (2011). Poetas: Antônio Costta, Fabiano Medeiros, Flávio Américo, Florbela Ribeiro, Jorge Pinheiro, Norma Penido, Rui Miguel Duarte. Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Goo- gle Drive, CLIQUE AQUI.
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    31 Águas Vivas Águas VivasVolume 3 (2013). Poetas: Francisco Carlos Machado, George Vinhas Gonçalves, Heloí- sa Zachello, John Lennon da Silva, Julia Lemos, Manuel Adriano Ro- drigues, Silvino Netto, Sol Andreazza. Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Dri- ve, CLIQUE AQUI. Águas Vivas Volume 4 (2015). Poetas: J. F. Aguiar, Luciano dos Anjos, Maria Isabel Gonçalves, Marvin Cross, Patrícia Costa, Roberto Celestino, Romilda Gomes, Rosa Leme. Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Drive, CLIQUE AQUI. Águas Vivas Volume 5 (2017). Poetas: Carla Julia, Jorge F. Isah, Junior Fernandes, Karla Fernandes, Natanael Santos, Newton Messias, Samuel Pinheiro. Para baixar o arquivo do e-book (em formato pdf) pelo Google Drive, CLIQUE AQUI.
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    32 Águas Vivas Volume1 SALMO 23 José Brissos Lino “O Senhor é o meu pastor”. Escuto. Mas o uivar dos lobos não me assusta. Nem o rumor do vento porque o meu olhar se me alonga para os pastos verdejantes e as águas tranquilas. O bardo onde vivo refrigera-me (já nem sei o que sejam veredas errantes). A lã de que sou vestido é branca, e só de alegria o peito me salta porque a mesa em que me sento é farta e os meus inimigos se espantam comigo. FAZER O OUTRO FELIZ Gilberto Celeti Vou um dia prestar contas Do que fiz, do que não fiz; Negligenciar ajuda, Quando alguém diz: me acuda! Para um crente não condiz. O serviço mais humilde Que é prestado a um infeliz, Há de ser recompensado, Quando for analisado, Pelo sábio e bom juiz. E o critério está bem claro, Jesus mesmo é quem o diz: Eu, Jesus, sou atendido, Se ajudado ou preterido. Esta é a sua diretriz. Vou fazer meu semelhante Entender que o bem lhe quis. Não serei jamais omisso Com amor farei o serviço Quero vê-lo bem feliz. CORAGEM DO CASAMENTO Israel Belo de Azevedo Das decisões, casar é delas a maior. Compartilhar todas noites a mesma cama na promessa de trocas tecidas de amor é coragem para quem profundamente ama. Das decisões, ficar casado é a melhor, porque é querer para o outro toda a estima, ver defeitos, mas as virtudes no alto pôr. É baixar a voz quando tenso está o clima. O amor é de Deus, como o mais belo poema, dele e nosso, que juntos criamos com paixão se o cultivo das diferenças for um lema... que aqueça a todo instante o nosso coração. O casamento, ainda que a razão trema, é plano de Deus para a nossa salvação. O BOM SAMARITANO J. T. Parreira Tive fome de pão e puseste a minha mesa numa toalha em linho derramada a sede, tive-a como um dia quente a ondular entre os lábios e a água e ungiste meu corpo com um óleo quando a noite oxidou as minhas chagas estive ao frio e teus vestidos coloriram a palidez da minha carne nua e na tua cama inclinei os meus ouvidos os teus móveis abriram gavetas para os meus cristais de chuva. ONDE A GLÓRIA DO POETA? Josué Ebenézer A formiga altiva, a folha levanta, Mas não se verga ao peso de seu labor. No pedreiro, o tijolo, é esboço de planta Que ergue o imaginário do construtor. Quem sou eu com meus poemas e palavras, Canções que ergo sem sequer usar as mãos? Onde a glória dos poemas que são lavras, Pepitas de ouro, não sentimentos vãos? Hei de cantar meus versos, proferir canções. Dedilhar arpejos dest’alma efervescente, Erguendo mansões ou choupanas nos corações. Só não desistirei de ser poeta nunca, Pois a glória do poeta é dessa gente Que a poesia põe sorriso em alma adunca. ALGO MAIS Wolô Antes mesmo que eu fosse alguém Tu me amaste e me disseste: - Vem! Mesmo sendo eu tão rebelde e vão Tu me amaste e me estendeste a mão Já me deste tanto amor e paz Que eu só te peço uma coisinha mais Pra que eu possa cumprir a minha parte Ensina-me Senhor a amar-te
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    33 Águas Vivas Volume2 O MAIOR AMOR Rui Miguel Duarte “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” Evangelho segundo João 15:13 Cada manhã que o dia me desperta é uma noite mais que me adormece o fôlego e ao peito me dá quebranto Cada manhã que os teus olhos em orvalho me veem é uma noite mais que me oculta a face por trás do véu da tua face Cada manhã que o sol põe flores róseas nas minhas mãos é uma noite mais que me desvenda de todo o corpo frutos vermelhos para o teu contenta- mento SONETO PARA A MOCIDADE Antonio Costta Como é belo o esplendor da mocidade, Que caminha radiante mundo afora! Sem pensar que ela um dia vai embora, Dela vamos, em breve, ter saudade! Voltai-vos ao Senhor –ó mocidade! Nesta vida nem tudo há de ser flores. Restam espinhos espalhando dores Na estrada estreita da felicidade. A vida é poça d’água que evapora! Nascemos ontem, somos jovens agora, E a velhice nos aguarda na esquina... Atentai, mocidade, a tudo isto! A melhor parte é dar-se a Jesus Cristo Enquanto a vida é bela e cristalina. ESPELHO RELIGIÃO Fabiano Medeiros Trago ao fundo, pra quem vê, A tristura que dissimulo, A perene sensação do que sou. Ostento, contudo, ao menos perspicaz A alegria que rotulo, A fugaz sensação que não sou. Trago ao fundo pra que vejam... Levo junto, na fachada, O incorrutível procedimento, O que presumo ser e não sou. Revelo, contudo, ao mais agudo, O pérfido encantamento, O terror do que sou. Levo juntos, na fachada... Trago e levo, Ao fundo e na fachada, O pavor, O terror, Dessa farsada... SOB UM NOVO AMANHECER Florbela Ribeiro Caminho cautelosamente sob o campo de um novo amanhecer. Por ele, proliferam ervaçais que eu, incansavelmente, arranco pela raiz. Mas ao Amor, e somente ao Amor permito o esparzir, e o assenhorear-se, da minha solidão. SAMARITANA Jorge Pinheiro Vai, samaritana, vai! Vai e conta a toda a gente que as notas da desdita não mais serão tangidas Vai, samaritana, vai! Vai e conta aos teus ― no grupo dos indiferentes ― no monte dos zombadores que o ar da comiseração deixou de ser respirado. Vai, samaritana, e conta a todo o mundo que as pedras do desânimo já não ferem tuas carnes porque foram removidas. Vai, samaritana, e pelas praças e becos ergue alto a tua voz porque o barro da vergonha na água do amargor amassado, cozido e ressequido jaz desfeito em pedaços espalhado. Vai! E alça tua fronte erguida ao novel escárnio e zombaria de quem te não quer escutar que no poço de Sicar enterraste o mau viver. Vai! E mostra no canto das aves na simplicidade das coisas simples que a poeira maldita da proscrição jaz amordaçada aos pés de uma luz nova real e tangível
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    34 Águas Vivas Volume3 ONDE ENCONTRAR JESUS George Gonsalves Quando nascestes te procurei em um palácio estavas em um estábulo Quando crescestes te procurei em uma academia estavas em uma carpintaria Tentei te encontrar entre os puros estavas entre prostitutas e publicanos Entre os poderosos, mas estavas com os pobres e oprimidos Quando morrestes visitei o panteão dos heróis Estavas em uma cruz, entre malfeitores... AO MENOS POR UM MOMENTO Heloísa Helena Zachello “Põe guarda, Senhor, à minha boca; vigia a porta dos meus lábios” Salmo 4, versículo 3. Quando a conversa mingua, percebo que minha língua já não possui mais a íngua pelo meu muito falar. O furor se desvanece, o fogo se desaquece, o sangue logo se esquece de ferver, de borbulhar. Minha ira vai-se embora, sem que eu a bote fora; De vergonha ela se cora, pois não me faz mais pecar. Daí surge o pensamento junto ao conhecimento de saber que no momento, o melhor foi me calar! “Quem retém as palavras possui o conhecimento... Até o estulto quando se cala, é tido por sábio.” Provérbios l7: 27 e 28. CARTA AOS CORÍNTIOS Manuel Adriano Rodrigues Por vezes regressamos às palavras onde fomos felizes. Éramos outros quando a nossa boca ainda não tinha fissuras nem esconderijos. Um território livre de dicionários onde os pássaros podiam poisar em cada reticência do nosso pensamento. Foi ali que inventámos o beijo a eternidade e o girassol. E a alegria do verbo amar sem metáforas era o nosso grande poder. O CHORO DA NOITE E A ALEGRIA DA MANHÃ Salmos 30:5 Silvino Netto Ah! Quão amargas as lágrimas Que correm de minhas noites Escuras de dor! Noites que inundam a alma Nos encontros desencontrados Dos sonhos pesados De expectativas e desilusões! Noites intermináveis! Noites sem pernoites. Noites de temporais que não passam E me escondem dos olhos A luz do sol da manhã... Para onde vão as lágrimas Que saem de mim Nas noites escuras de minha dor? As lágrimas de minha alma triste, sombria, Encontram abrigo em poços vazios Que se transformam em fontes inesgotáveis De águas doces Que correm em filetes Para refrigerar a minha alma Na escuridão de minha noite. Pois, ainda que o choro dure uma noite A alegria vem pela manhã. Quão doces e bem-vindas As lágrimas que voltam De minhas noites de dor. Elas ganham força, Tornam-se correntes crescentes E banham as margens tórridas Do meu ser... Lágrimas de volta, Fazem rebrotar as sementes de fé, Paciência, perseverança... Escondidas no fundo da noite. Lágrimas de volta Refletem a luz da manhã, O brilho do sol, Na escuridão de meus olhos, Fazem-me ver os frutos Que nascem da noite escura: Árvores frondosas Cujas folhas não caem E dão o seu fruto Na estação própria! Bendito o choro da noite, Pois, é certo, A alegria vem pela manhã!
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    35 Águas Vivas Volume4 A FRONTEIRA ENTRE A VIDA E MORTE Roberto Celestino Numa cruz numa beira de estrada Em um laço no final da corda, Em um sono que não mais acorda Numa bala que foi deflagrada. Em um parto onde começa a vida Em um leito onde a vida é quem parte, Desenhada está em qualquer parte Uma linha onde finda a corrida. Na doença que causa a dor, Em um lago que a vida afogou Numa faca que causa um corte. Ela existe embora não vemos Muito embora também passaremos, Na fronteira, entre a vida e a morte. INEGOCIAVELMENTE Patrícia Costa A derme dos dias sente o t e m p o Que sem explicação ou documento segue seu rumo. Quem prende, perde. Quem solta, veste. E é como o vento que corre o mundo desobedecendo calendários e estações. MULTIFORME Marvin Cross Leve a mensagem É leve a mensagem Eleve a mensagem A mensagem é leve A mensagem: eleve É, leve a mensagem Leve a mensagem leve Eleve a mensagem leve A mensagem eleve É a mensagem leve A mensagem, leve A mensagem? É leve. É leve Eleve Leve SONHOS DO AMOR Luciano dos Anjos Sigo pelas ruas Com a cabeça nas nuvens Escalando estrelas E plagiando o voo dos pássaros As pedras que me ofertam Transformo em poesia Na foz do meu silêncio Nasce sempre um novo salmo Meu coração é um menino Só quer falar de amor. DOCE SOM Rosa Leme Voz leve, mansa. Sua voz é amor, O som. Ser mãe é um Dom! Sua voz, Sua voz é o canto em verso É a rima em prosa... Sua voz transmite amor, Sua voz é leve como o toque Da fina neblina nas pétalas da flor... Como sua voz é formosa! Sua voz é suave, cheirosa Como o desabrochar de uma rosa. Sua voz, É como o grito sem eco, Como a essência do silêncio... Como a meiguice da paz. Sua voz, Sua voz é deleite... É como o sussurrar lento E suave do vento... Sua voz é divina! Cheia de graça... Sua calma traz sossego Traz paz na minha alma. Muitas filhas têm procedido virtuosamente, Mas tu és, de todas, a mais excelente! (Provérbios 31:29)
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    36 Águas Vivas Volume5 DESEJOS Karla Fernandes Quero crer como Maria, Mas sou como Sara que ria. Quero pregar como Paulo, Mas acuso como Saulo. Quero viver o que José viveu, Mas sem sofrer o que ele sofreu. Quero ver como João, Mas sem experimentar a prisão. Que Jesus de mim tenha misericórdia. Que não haja entre nós discórdia. Que eu seja como Ele é! Que eu me humilhe e Ele cresça! Que em mim o mundo O conheça! Que eu seja um exemplo de fé! A FORÇA DO SILÊNCIO Natanael Gonçalves Porque alçar a voz Se é no silêncio Que se ouve o murmúrio do riacho? Porque gritar Se é calando Que encontramos O caminho para o diálogo E a compreensão? Porque o burburinho das gentes, Se é melhor ouvir o trinar das aves, E o sussurrar do vento A perpassar por entre os jardins, Beijando as pétalas das rosas? Porque o ruído das discórdias Se é melhor aceitar O convite das pedras Que na sua quietude Acolhem a pancada das ondas E oferecem momentos De intensa e Proveitosa reflexão? Porque falar se há tempo para tudo? Inclusive para se calar Porque gritar Se é no silêncio que Ouve-se a voz da alma E o palpitar do coração de Deus? A TERRA PROMETIDA Carla Júlia Machaieie Crescem-nos as túnicas Crescem-nos os murmúrios Cresce-nos a senda Cresce-nos o desespero. Nos embalamos em mhalamhalas* Tapamos as chagas da vida Com Band-aid João 3:16 Em rochosos pensamentos Encontramos um que nos de água Matamos a morte Com goles de vida eterna. * Louvores e cânticos. É também o nome de um hinário tradicional utilizado por igrejas evangélicas moçambicanas. ECCE HOMO Newton Messias O que faz de um homem um homem: marcar um encontro com o inimigo em lugar deserto à noite sozinhos olhar em seus olhos demoradamente sentir a fervura a memória o golpe a ira acumulada sacar do bolso a arma: uma flor depois atirar: perdoo você enterrar o corpo do outro num abraço e sair pra vida livre MÃOS II Samuel Pinheiro imola também as mãos no altar como se fossem um cordeiro sem mácula imolar as mãos ser sal imolar as mãos ser espigas imolar as mãos ser seara... HOLOCAUSTO DE VIDA
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    37 Jardim dos Clássicos Afamília Brontë foi uma usina de talentos. Se O Morro dos Ventos Uivantes, clássico de Emily Brontë (1818-1848) é conhecido universalmente, suas duas irmãs, Anne (1820-1849) e Charlotte (1816-1855), também eram profícuas escritoras, cujas novelas e ro- mances seguem lidos e apreciados até os dias de hoje. Criadas num sadio isolamento na al- deia de Thorton, Inglaterra, povoado de livros e sob os auspícios de uma educação moral conservadora, as Brontë lutaram à sua maneira contra o preconceito a que as mulheres estavam submetidas; para burlar resistências, escreveram sob pseudônimos neutros ou masculinos. E todas eram também poetas. Escrevendo sob pseudônimos masculinos (Acton, Currer e Ellis Bell), em 1846 publicaram seus poemas num único volume. Aqui, uma pequena seleção de poemas extraídos do livro Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë, na tradução de Otavio Albano (Lafonte, 2024). O livro pode ser adquirido AQUI. A Oração do Descrente Anne Brontë (Acton Bell) Poder Eterno, da terra e do ar! Invisível, mas por todo lado avistado, Remoto, mas habitando em todo lugar, Silencioso, em todo som escutado; Se algum dia Seu ouvido piedoso se tenha curvado Ao chamado de miseráveis mortais, E se, de fato, Seu Filho foi enviado A salvar perdidos como eu, pecadores iguais: Então, ouça-me agora, aqui, em prostração, Elevo-Lhe meu coração, meu olhar, E toda a minh'alma ascende em oração AH, DÊ-ME FÉ... desato a chorar. Sem ter em meu coração certo fulgor, Não poderia erguer esta fervorosa oração; Mas, ah, transmita uma luz com mais vigor E dela torne-me parte, em Sua Compaixão. Se a fé comigo estiver, minha vida é abençoada; Em dia minha noite mais escura vem ela tornar; Mas, mesmo sempre contra o peito apertada, Muitas vezes sinto-a resvalar. Então, meu espírito afunda, frio e escuro, Ao ver a luz da minha vida me abandonar; E todos os demônios do Inferno, juro, Da angústia do meu coração vêm desfrutar. O que farei, se todo o meu agir, Meu esperar, meu amor tiverem sido em vão, Se, lá no alto, nenhum Deus existir, Para me ouvir e me abençoar na oração? Se tudo de vã ilusão não passar, Se a morte for um eterno dormir, Se meu chamado secreto ninguém escutar, Nem meu pranto silencioso ouvir! Ah, ajude-me, Deus! Pois o Senhor, somente, Pode minha alma perturbada aliviar; Não a abandone: ela é sua, exclusivamente, Mesmo fraca, deseja sempre acreditar. Ah, essas dúvidas cruéis trate de afastar; E faça-me saber que o Senhor é Deus! Uma fé, dia e noite, a brilhar, Vai aliviar todos os fardos meus. Se eu acredito que Jesus morreu, E, despertando, ressuscitou para no alto reinar; Então, todo Pecado, Orgulho e Desalento meu À Paz, à Esperança e ao Amor devem renunciar. E toda abençoada palavra Dele, por fim, Transmitirão força e santa exultação; Um escudo de segurança sobre mim, Uma fonte de consolo em meu coração.
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    38 Jardim dos Clássicos MeuConsolador Emily Brontë (Ellis Bell) Bem, você falou, mas ainda não ensinou Uma estranha ou nova sensação; Apenas um pensamento latente despertou, Um raio de sol coberto por nuvens levou A brilhar em total expansão. No fundo, em minh'alma a se esconder, Tal luz, dos homens, está protegida. Mas continua a brilhar... mesmo com sombras a não mais ver, Seu suave raio não pode conter... Na vizinhança da sombria guarida. Acaso não me irritei, nesses caminhos tenebrosos, Por ter que longamente sozinha caminhar? Ao meu redor, miseráveis proferindo louvores jubilosos, Ou uivando acerca de seus dias horrorosos, E, cada um, o Frenesi a pronunciar... Uma irmandade de melancolia, Seus sorrisos, tristes como um suspirar; Cuja loucura a cada dia me enlouquecia, Distorcendo em agonia A felicidade diante de meu olhar! Assim fiquei eu, no sol do Céu glorificado E no Inferno, em seu resplandecer; Meu espírito sorveu um tom misturado, Do canto do serafim, do demônio o uivado; E o que minha alma tem suportado Somente ela é capaz de dizer! Como um ar suave, por sobre o mar, Pela tormenta agitado, em pleno torpor, Uma brisa morna, que vem aos poucos degelar, A neve, que em alguma folha insiste em tombar; Não... que coisa doce pode a você se igualar, Meu atencioso Consolador? Ainda assim, um pouco mais você há de falar, Acalme esse humor da irritação; E, quando o coração bravio manso se tornar, Por outro sinal não há de buscar, Mas a lágrima em meu rosto pode deixar Como prova da minha gratidão!
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    39 Jardim dos Clássicos OMissionário Charlotte Brontë (Currer Bell) Corte, navio, corte o mar britânico, Busque o vasto e livre plano oceânico; Deixe as cenas da Inglaterra, o céu tão seu, Desate, rompa dela os laços, navegue ao léu. Leve-me a um clima longínquo, diferente, Onde a vida muda, ágil, rapidamente. Ação quente, trabalho sem cessar, Irá mexer, revirar, o solo do espírito cavar; Raízes frescas plantarão, sementes novas semearão, Até que novos jardins logo brotarão, Livre das ervas daninhas que agora ali estão... Mero amor humano, egoísta transtorno, Que, acalentado, haveria de me deter. Seguro o arado, não há retorno, Que, então, eu lute para esquecer. Mas as costas da Inglaterra à vista ainda estão, E os ingleses céus de suave azulão Curvam-se sobre seu mar protetor. Da Lembrança não posso me antepor; Devo, então, outra vez com firmeza encarar E essa angustiante tarefa reiterar. Casado com o lar... do lar devo fugir Temendo mudanças... mudanças devo produzir; Amante da comodidade... no trabalho vou mergulhar; Da calma entusiasta... turbulência vou procurar: A Natureza, o ultrajante Fado, Conflito selvagem agitam em meu coração; E tal combate será feroz, arrastado, Até que o dever traga conciliação. Que outro laço ainda me tem atado Ao passado divorciado, abandonado? Ainda fumegante, jaz em meu coração O fogo de grande imolação, Aço sagrado que ainda não se apagou, afinal, Mas há pouco atingiu minha vontade carnal, Minha esperança de vida, primeira e última alegria, Aquilo a que me apegava, agarrando-me com galhardia; O que desesperadamente desejava reter, O que renunciei com dor na alma, a sofrer; O que... quando o vi, atingido pelo machado, expirar... Não me deixou mais nenhuma alegria na terra brotar; Um homem desolado... mas agora, com firmeza, Eu confirmo aquele voto de Jefté, sem fraqueza: Devo recuar, temer, dar de fuga sinal? Foi o que fez Cristo quando a árvore fatal, Diante dele, ergueu-se no Calvário, afinal? Foi longo combate, árduo, mas vencido, E o que fiz foi com justiça decidido. Mas, Helen, do seu amor por fim desviei, Quando mais por seu coração o meu clamou, bem sei; Desafiei suas lágrimas, seu desprezar... Mais fácil seria a dor da morte suportar. Helen, você não poderia comigo partir, Eu não... não ousaria por você aqui seguir! Ao longe, ouvi alguém reclamar, Era o selvagem de além-mar; E o som bárbaro sobrepujou a exclamação Arrancada pela agonia da paixão; E, mesmo quando, com o mais amargo pranto Que já verti, turvou-se então minha visão, Ainda, com a perspectiva clara do espanto, Vi o império do Inferno, perversidade e vastidão, Nas margens de cada rio indiano se espalhando E todos os reinos da Ásia ocultando. Lá, o fraco sob o forte é pisoteado, Vive para sofrer... e morrer sem credulidade; Lá, o Mal é o credo de todo pagão prelado, E a Extorsão, a Luxúria e a Crueldade Esmagam nossa raça perdida... e enchem até verter O cálice amargo do humano sofrer; E eu... que guardo a fé curadora, A crença benigna do Filho de Maria, Hei de ignorar a dor do meu irmão, agora, E, egoísta, evitá-lo no dia a dia? Eu... que sobre o joelho materno, Na infância, a palavra de Cristo li, Recebi seu legado de paz eterno, Sua santa regra de ação ouvi; Eu... em cujo coração, sensação sagrada Do amor de Jesus, desde cedo sentido; De sua benevolência pura e agraciada, Seu sentimento pela culpa, acolhido; Seu zelo de pastor pela ovelha errante, Por todos os seres, fracos, tristes, a tremer, Sua paixão profunda, misericórdia perseverante Pela angústia humana, pelo seu sofrer; Eu... educado desde a infância nessa tradição... Ousaria facilmente recuar, hesitar, Continua 
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    40 Jardim dos Clássicos Aoser chamado a curar a doente condição Daqueles desolados, longe do lar? Na escuridão, no reino e sombras da Morte, Nações, tribos e impérios insistem em jazer, Mas mesmo para eles a luz da Fé, com sorte, Seu sombrio céu acabará por irromper: E que a mim pertença incitar Que ergam suas cabeças ao episódio terreno, E saibam aquele alvorecer celebrar Que anuncia Cristo, o Nazareno. Eu sei como o Inferno lançará o véu Sobre suas frontes e olhos velados E esmagará a cabeça erguida ao léu, Tentando encontrar os céus laureados; Eu sei que guerra o demónio vai travar Contra o soldado da Cruz em sua missão, Que ousa enfrentar sua fúria sem parar E trabalhará por sua derrota e desilusão. Sim, duro e terrível o labor Daquele que pisa em solo exterior, A videira do evangelho decidido a plantar, Onde tiranos governam, com escravos a lamentar; Ansioso por elevar a luz da religião Até as sombras mais espessas da noite da razão, Escondem o falso deus e o rito da enganação; Imprudente o sangue missionário, Derramado na selva e no ermo solitário, Deixou, no ar mais impiedoso, O gemido profundo do homem... a prece do mártir, glorioso. Conheço meu destino... apenas peço Força para cumprir a nobre missão que expresso; Desejando o espírito, que a carne, enfim Receba renovada força para um novo fim. Que sol ardente ou vento mortal Não prevaleçam sobre uma mente leal; Que tormentos estranhos ou a morte mais cruel Não pisoteiem a verdade nem destruam a crença fiel. Mesmo que gotas de sangue tenham de mim brotado, Assim como brotaram no Getsêmani do passado, Que seja bem-vinda a angústia, que há de me gerar Mais força para trabalhar... mais talento para salvar. E, ah, se breve há de ser meu destino, Se mão hostil ou clima assassino Encurte meu caminho... sobre minha sepultura, Senhor, que sua colheita oscile com ternura. Para que eu possa a cultura introduzir, Deixando aos outros a foice inserir; Se a semente mais rápido brotar, Que meu sangue regue o que semear! O quê? Cheguei alguma vez a tremer, E temi a Deus aquele sangue oferecer? O quê? O amor covarde, à vida, assim, Fez-me recuar da justa luta sem fim? As paixões humanas, os humanos receios, Acaso me separaram daqueles Pioneiros Cuja tarefa é, primeiro, marchar e então traçar Os caminhos para nossa raça avançar? Assim tem sido; mas, Senhor, dê-me o prazer De agora, firme em Sua palavra, permanecer! Protegido pelo elmo da salvação, Escudado pela fé e da verdade blindado, Sorrir quando nos abate a provação, No fogo do sofrimento, manter-se aprumado! Os redutos mais fortes do inferno hei de derrubar, Mesmo quando a última dor me agitar o peito, Quando a morte de mártir vier me coroar, Chamando-me para Jesus, seu repouso, seu leito. Então, para minha recompensa derradeira... Então, para a palavra que alegra a terra inteira... Então, a voz do Pai... do Espírito... do Filho: "Servo de Deus, você tudo fez com brilho!" Anne, Emily e Charlotte Brontë. Quadro do seu irmão Branwell (c. 1834). Ele pintou-se entre as irmãs, mas reti- rou a imagem mais tarde para não sobrecarregar o qua- dro.
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    41 Galeria Yongsung Kim Osul coreano Yongsung Kim é um cristão devoto e ama profundamente seu Salvador Jesus Cristo. No iní- cio da idade adulta, ele se preocupou muito com o propósito da vida e como poderia ajudar a tornar o mundo um lugar melhor. Então, como resultado de muita oração e reflexão, ele decidiu dedicar sua vida à glória de Deus. Yongsung Kim faz isso por meio de sua arte, imagens e pinturas de Jesus Cristo, que ajudam outros a se lembrarem de suas origens divinas e desti- no eterno. Yongsung adora pintar imagens de Cristo, e suas pinturas criam muita esperança e alegria em um mundo de escuridão e dor. O foco principal da arte de Yongsung Kim é Jesus Cris- to e Seu papel como O Bom Pastor e Messias. Ele se esmera em criar arte na forma de pinturas e imagens de Jesus Cristo que sejam brilhantes e bonitas, permi- tindo que outros vislumbrem o verdadeiro caráter de Jesus. Algumas das pinturas mais notáveis de Yongsung Kim são A Mão de Deus, Caminhando sobre as Águas, Calma e Estrelas, Com Todo o Teu Coração e Abraço Calmante. Website do artista: https://yongsungkimart.com/ “Deep Waters”
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    43 “O lado direito” “DezVirgens” “The Hand of God” “Calm and Stars” Galeria Yongsung Kim
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    44 H q PictoBíblia é umprojeto do desenhista e ilustrador Augusto Marques, cujo objetivo é levar conhecimento bíblico e teológico às pessoas. Instagram: @pictobiblia Site: https://www.pictobiblia.com.br
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    47 H q Resenhas LIVRO / Umnó na garganta desde o princípio do mundo– Poesia – Renato Melo Renato Souza de Melo carrega o peso de dois sacerdócios; pastor e poeta. Calejado pela Palavra, ele ainda segue na luta com a palavra do cotidiano interior e exterior. Neste belo volume, o título revela não apenas a sua, mas a condição de toda a humani- dade desde o princípio; um nó na garganta. Toda crise existencial nasce de um impasse espiritual que reflete, inclusive, na relação com a natureza; há poemas flagrantes co- mo: Moldura, Raízes nuas e Harmonias. O homem tem que se dar conta das próprias contradições, das tensões da própria exis- tência e seguir caminhando, ainda que seja, como escreveu o autor: Com simplicidade volto para casa brincando na morte da tarde sempre tão instável quanto o vento. O leitor atento perceberá, ainda que de forma sutil, a luta travada na arena da linguagem; é o papel de todo poe- ta que se preze, ao menos daquele que busca com sinceridade o cerne da poesia. Jacó lutou com D’us até o ama- nhecer. Ainda não posso dizer se esse é o caso do Renato Melo, ou se virá a ser, mas escrever poesia em nível mais elevado é o mesmo que lutar com D’us; para receber uma benção é preciso ser ferido, marcado por D’us, e isso cos- tuma acontecer antes do amanhecer ou, como já escreveu o poeta João da Cruz, durante a noite escura da alma. O poeta é ferido pela linguagem e marcado através da poesia, muitas vezes a mudança se dá no próprio nome. Seja como for, é sempre a ação do Verbo sobre a carne, ou seja, sobre a condição humana. Renato Melo, consciente da árdua jornada, do sacerdócio assumido, segue em ascendência, livro após livro; o pre- sente volume é uma reunião de poemas mais antigos e também de trabalhos recentes que, ao meu ver, parece uma síntese da obra do autor até o presente momento. Um nó na garganta desde o princípio do mundo é prova dessa maturidade que, naturalmente acontece aos poucos, com trabalho incansável e tempo. Tal maturidade, nem sem- pre linear, pode ser encontrada em poemas como Imagens de hoje, Mutilação I e II, Incompreensões, além do poe- ma Terra Fértil com sua sentença certeira: a palavra antes de nascer é fome. A palavra, lapidada em poesia, ao nascer é mana, pão do céu, mas antes de nascer não pode ser outra coisa, senão fome. Renato Melo conhece as duas. Mateus Ma’ch’adö
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    48 PHARMACIA A Palavra éleite que alimenta (1 Pe 2.2), A vida que nos foi transmitida (1 Pe 1.23); É o mantimento de que precisamos (Jr 15.16), Na paz e também na contenda (1 Jo 2.14). A Palavra é alimento que molda (At 20.32) O homem interior (Ef 3.16); Ela o torna forte e ousado (Jl 2.11), Para vencer do inimigo o furor (Ap 12.11). A Palavra é doçura do mel (Sl 119.103) Mais refinado e puro (Sl 18.30); Ela nos enche de gozo pleno (1 Ts 1.6), Imaculado e seguro (Sl 93.5). A Palavra é fonte viva (S1 36.9) Toda pura e cristalina (Sl 12.6); Ela faz a alma voar (Is 40.31), E o amado Cristo alcançar (1 Pe 2.4-6). A Palavra é rio (Is 33.21), Largo, amplo e profundo (Sl 65.9); O amor de Deus nela brilha (Jr 31.3), E a alma preserva do mundo (Jd 21). A Palavra é fogo ardente (Jr 20.9), Que a alma faz inflamar (Sl 39.3); E a eleva às coisas do Alto (Cl 3.1), Enquanto aqui embaixo está (Pv 15.24). A Palavra é lâmpada que alumia (Sl 119.105) As veredas escuras da vida (Pv 6.23); Guiando-nos em segurança (Is 58.11) Para o Reino da luz divina (SI 43.3). A Palavra é conselho seguro (Sl 73.24) Para mapear o caminho (SI 119.9). Para ela devemos olhar (Tg 1.25), E dela os passos jamais desviar (SI 119.11). A Palavra é espelho que brilha (Tg 1.25), E que nos faz contemplar (Jó 42.5,6) Toda a obscuridade do eu (Rm 7.18); E da carne a impureza sem par (Is 64.6). A Palavra é martelo (Jr 23.29) Capaz de o coração quebrar (2 Rs 22.11-13). Sua força ninguém faz cessar (Jo 5.25), A alma ela faz abalar (Jr 23.9). A Palavra é bálsamo para curar (Sl 107.20) O coração quebrantado (Sl 147.3); Nova vida, força e zelo (Jo 6.63) Dia a dia vem acrescentar (1 Rs 18.1). A Palavra é cinto seguro (Ef 6.14) Capaz de os lombos cingir (Lc 12.35); Ela dá forças para cumprir (Sl 18.39) Aquilo que a Verdade ordenar (1 Pe 1.13). A Palavra é espada do Espírito (Ef 6.17) Afiada como o puro aço (Hb 4.12), Para palavras profanas matar (1 Ts 2.13), E com poder nos purificar (At 19.20). A Palavra é descanso para o peregrino (Is 50.10), Enquanto aqui embaixo está (Is 50.4 - RV); Ela o ajuda a caminhar (Sl 119.54), E o guia até ao céu chegar (2 Co 5.8 - RV). A Palavra é precioso tesouro (S1 139.17) Repleto de joias sem par (2 Pe 1.4); Seu valor não se pode estimar (Jó 28.16) Nem a nada na terra comparar (Sl 119.72). No livro 500 Esboços de Estudos Bíblicos (Graça Editorial) A PALAVRA DE DEUS PARA OS SEUS FILHOS F. E. Marsh
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    49 download ALMANAQUE DO MOBILIZADORMISSIONÁRIO – Mais de 1.000 pá- ginas de recursos para ampliar a consciência missionária de sua igreja, grupo e família. Esboços de sermões/estudos bíblicos – Ilustrações – Dinâmicas – Peças teatrais – Poemas- Ao longo dos anos, temos publicado livros gratuitos, compilações tais como: Teatro Missionário; Poesia Missionária (3 volumes); Hinário Hinos Missionários; Dinâmicas Missionárias; Sermões Missioná- rios; Ilustrações Missionárias e até Citações Missionárias (ufa!). Assim, seria o presente livro um apanhado do melhor de cada uma das co- letâneas anteriores? De maneira alguma! Temos aqui ape- nas MATERIAIS INÉDITOS, inéditos no sentido de não terem entrado nos volumes citados; gêneros que por si só dariam para com- por novas obras individuais, mas que achamos por bem reunir num único volume. Um compêndio, um manual, um almanaque. PARA BAIXAR O SEU EXEMPLAR PELO GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI. AS MAIS BELAS FRASES DE NATAL - 150 Citações - Apesar de toda a bagagem científica e filosófica acumulada, guerras seguem seu curso, volumosas ou restritas, envolvendo grandes e pequenas nações. A cri- se climática, até há pouco contestada por negacionistas, lança seu horror nos quatro cantos da Terra, com duras consequências – princi- palmente para os mais pobres. A ameaça de novas pandemias paira, sombria, sobre todos os habitantes desta fragmentada aldeia global. Em meio a esse turbilhão de problemas e questionamentos, o Natal é um refrigério, um momento de reequilíbrio de forças e afetos, de re- união e alegria. Coligidas de diversos autores, reunimos aqui frases de luz, alegria e sabedoria sobre esta data que congrega a todos nós, em maior ou menor grau, na busca de um conforto, uma trégua de paz, memória e acolhimento. PARA BAIXAR O SEU EXEMPLAR PELO GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI. 150 FRASES DE SOREN KIERKEGAARD - Complexo, arguto, irônico, poético, multiplamente genial: Assim foi o dinamarquês, nascido em Copenhague, Søren Aabye Kierkegaard (1813 – 1855). Seu entendimento profundo do cristianismo o levou a ser um crítico da igreja de seu tempo, pois Kierkegaard sabia que a verdadeira vi- vência da fé cristã era um salto – oneroso ao máximo – dentro do absurdo, salto paradoxal (pois a fé é a superação da racionalidade) que significava a única oportunidade de transcender tal absurdo ru- mo ao absoluto, e o ápice a que o homem poderia almejar, dentro dos três estágios existenciais propostos pelo pensador: o estético, o ético e o religioso. Sua vasta obra, desenvolvida através de pseudônimos que dialogam entre si, tem influenciado pensadores e artistas das mais variadas correntes, desde seu advento. Não sem razão ele é considerado o pai do Existencialismo. PARA BAIXAR O SEU EXEMPLAR PELO GOOGLE DRIVE, CLIQUE AQUI. E-BOOKS GRATUITOS
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    50 The King ofKings: A nova animação da Angel Studios A Angel Studios (a mesma de O Som da Liberdade) está prestes a lançar uma nova animação que promete emocio- nar e inspirar o público. Intitulada "The King of Kings", a produção é uma adaptação livre da obra "The Life of Our Lord" de Charles Dickens. Com estreia marcada para 11 de abril de 2025, o filme conta com um elenco de vozes este- lar, incluindo Kenneth Branagh, Uma Thurman, Mark Ha- mill, Pierce Brosnan, Roman Griffin Davis, Forest Whitaker, Ben Kingsley e Oscar Isaac. A trama segue a história de Charles Dickens, um jovem autor que narra a vida de Jesus Cristo para seu filho Walter. Através da imaginação vívida de Walter, o público é convidado a caminhar ao lado de Jesus, testemunhando seus milagres, enfrentando suas provações e compreen- dendo seu sacrifício final. A animação busca redescobrir o poder duradouro da esperança, do amor e da redenção através dos olhos de uma criança. Produzido e dirigido por Seong-ho Jang, "The King of Kings" é uma das apostas da Angel Studios para o próxi- mo ano. A empresa adquiriu os direitos globais de distribuição do filme e está preparando um lançamento especi- al para a Páscoa de 2025. O teaser oficial do filme foi lançado em novembro de 2024, gerando grande expectativa entre os fãs de animações e histórias religiosas. Com uma combinação de talento, narrativa envolvente e uma mensagem poderosa, "The King of Kings" tem tudo para se tornar um sucesso de bilheteria e um clássico moderno. A Angel Studios convida todos a embarcar nesta jornada emocionante e a redescobrir a história de Jesus de uma maneira totalmente nova. Nova adaptação de "As Crônicas de Nárnia" promete surpreender A icônica saga de fantasia "As Crônicas de Nárnia", escrita por C.S. Lewis, está prestes a ganhar uma nova adaptação cinematográfica, desta vez sob a direção da aclamada cineasta Greta Gerwig, conheci- da por seus trabalhos em "Adoráveis Mulheres" e "Barbie". A produ- ção, que está sendo supervisionada pela Netflix, promete trazer uma perspectiva original e inovadora para a amada série de livros. Em entrevista recente, a produtora Amy Pascal revelou que as fil- magens do primeiro longa estão programadas para começar em julho de 2025. Pascal destacou que a abordagem de Gerwig será "uma vi- são totalmente nova para As Crônicas de Nárnia" e descreveu a pers- pectiva da diretora como "muito rock and roll". Embora ainda não tenha sido divulgado qual livro será adaptado primeiro, há especula- ções de que "O Sobrinho do Mago" possa ser o escolhido para iniciar o novo universo cinematográfico. A nova adaptação de "As Crônicas de Nárnia" já está gerando grande expectativa entre os fãs da saga. A série de livros, que já vendeu mais de 100 milhões de cópias e foi traduzida para mais de 47 idiomas, continua a encan- tar gerações de leitores ao redor do mundo. Com a promessa de uma abordagem fresca e inovadora, a adaptação de Gerwig tem tudo para se tornar um sucesso tanto entre os fãs antigos quanto entre novos espectadores. A estreia do primeiro filme está prevista para dezembro de 2026 na Netflix, e há rumores de que a produção também possa ser lançada nos cinemas e em IMAX. Com uma equipe talentosa e uma visão criativa, a nova adap- tação de "As Crônicas de Nárnia" promete trazer a magia e a aventura da série de livros para uma nova geração de espectadores. Resta saber se a cosmovisão cristã da obra será mantida ou obnubilada... CINEMA
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    51 Parlatorium "Marca a hora,o relógio; mas, o que marca a eternidade?" Walt Whitman “Na arte que utiliza lixo, destaca-se o potencial de fazer o desprezível falar. A melhor tradição bíblica, sugere-nos que a mensagem pode vir de onde estão os deserdados.” Emílio Eigenheer " Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritual- mente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na mono- tonia. Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo” [.. ] Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um bis teatral." G. K. Chesterton "Nossa vida é que deve ser obra de ar- te viva. Somos li- vres. Somos livres para criar, contan- to que não nos es- queçamos que so- mos escravos de Cristo." Francis A. Schaeffer " A linguagem humana é nossa tentativa de na- vegar pela linguagem de Deus; somos nós cor- rendo por entre as linhas de seu poema épico". N. D. Wilson “O poeta deve ser um Professor de esperança.” Jean Giono “Para pensar sobre Deus não leio os teólogos, leio os poetas.” Rubem Alves
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