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SCENA
ABRIL-JUNHO 2024
Nº 04
ANO 2
C R Í T I C A
"Nous aimons la verité, nous aimons Dieu,
nous aimons tous les hommes." - Jacques Maritain
F I L O S O F I A | L I T E R A T U R A | A R T E S | C U L T U R A
Héctor
Rondón
Llovera
Editorial
Com alegria apresentamos nossa 4ª edição de Scena Crítica, a 1ª de seu Ano 2,
com a convicção de que prosseguimos apresentando um material que goza de
qualidade editorial e mais importante, mantendo-nos coerentes com nossa linha
editorial.
Na ocasião dos 60 anos dos acontecimentos de 1964 que marcaram
profundamente o Brasil, apresentamos uma carta de Alceu Amoroso Lima à sua
filha Madre Maria Tereza na ocasião dos acontecimentos de 31 de março. Esta
correspondência íntima nos ajuda a compreender melhor o posicionamento e o
diagnóstico de nosso patrono sobre a conjuntura daquele ano que ainda não
encontrou o seu ocaso na vida nacional.
Com alegria divulgamos os novos textos selecionados para nossa praça literária
que, felizmente, tem sido bastante concorrida. Alegramo-nos com os novos
colaboradores e prosseguimos incentivando o envio de novos artigos para as
próximas edições.
Procuramos ao máximo da continuidade a nossas colunas já costumeiras e
também recebemos novas colaborações que esperamos se tornem cada vez mais
frequentes. Colaborações de amigos e, especialmente, de ilustres apreciadores
dos textos de nossa jovem empreitada editorial que mui generosamente conosco
trabalham.
Nas incertezas e vicissitudes deste ano de 2024 que já se apresenta tão
turbulento na sucessão de seus eventos, alegramo-nos em poder lançar esta nova
edição neste período pascal, tendo no horizonte nossa única e fundamental
certeza: a fé e esperança no testemunho do Ressuscitado que nos inspira e move.
Filipe F. Machado
Editor
Scena Crítica é uma publicação
trimestral, sem fins lucrativos
scenacritica@gmail.com
scenacritica.com
instagram.com/scenacritica
Editor
Filipe Machado
Colaboradores desta edição
Ana Braga-Henebry
André Marcelo Soares
Bárbara Bedôr
Barbara Lima
Eduardo Silva
Eduardo Villar
Giselle Nogueira
Júlia Rocha
Lívia Foresto
Lizédar Baptista
Magali Guimarães
Ir. Martina Braga
Tiago Cavalcante
Ybeane Moreira
Scena Crítica
Filosofia, literatura, artes, cultura
Abril-junho 2024 | Scena Crítica 2
SCENA
S
Há um ano
Há um ano surgia a revista Scena Crítica. O editorial
daquela primeira edição falava de um projeto para
promover “um espaço para a reunião de ideias que
pareciam diversas, mas que, no entanto, encontravam-se
motivadas por uma intuição comum.” As três edições do
ano 1 procuraram primar por esse plano de ação. E,
conferindo o conteúdo e os nomes já que passaram
nessas páginas, parece que até aqui obteve-se êxito.
Esta primeira edição do ano 2 prossegue na mesma linha,
trazendo nomes já conhecidos destas páginas, mas
também novos nomes que agregam ricamente ao espaço
que a revista propõe abrir. Logo de início destacamos a
presença de dois nomes que marcaram a literatura no séc.
XX e cujo legado é gigantesco para o nosso hoje: G.K.
Chesterton, trazido pela Ir. Martina Braga OSB em seu
artigo Corção, Chesterton e o common sense; e D.
Marcos Barbosa, o monge poeta e imortal da Academia
Brasileira de Letras, cuja obra é trazida aos nosso dias por
Ana Braga-Henebry em seu texto D. Marcos Barbosa e
sua poesia.
Ainda no campo da literatura, Eduardo Silva, com suas
Crônicas de um tempo peculiar, traz a experiência com
a leitura da obra de Jon Fosse, ganhador do prêmio Nobel
de literatura de 2023. Fosse, aliás, retorna na coluna Livro
Aberto, onde Gisele Nogueira apresenta com maestria o
livro Brancura, publicado semestre passado no Brasil.
Cumprindo sua proposta de trazer ao presente textos
passados de valor atemporal, a coluna Vox Patroni, fazen-
do memória dos 60 anos do golpe militar de 1964, traz a
carta de Alceu Amoroso Lima a sua filha, onde, como
testemunha ocular daquele 31 de março, comenta a
situação que então se instaurara no país.
No tópico filosofia, esta edição traz o pensador
dinamarquês Søren Kierkegaard, no texto O que resta ao
homem? Ensaio moral sobre a angústia, de Filipe
Machado. Também Santo Agostinho, em diálogo com a
ciência moderna, é convocado no artigo de Tiago
Cavalcante, A eternidade em Santo Agostinho e o
espaço-tempo da Física Moderna. O diálogo entre
filosofia e música, a partir da teroria mimética do francês
René Girard, é apresentado por Eduardo Villar no texto
Você consegue ouvi-lo chamando? Jolene e a verdade
romanesca do desejo.
Ainda vivendo as alegrias pascais, que se estendem até a
Solenidade de Pentecostes, Bárbara Bedôr convida a uma
profunda meditação sobre A jornada da Páscoa. Júlia
Rocha, por sua vez, evocando de Alceu Valença a São
Paulo, vê a o tempo pascal na ótica do Recomeçar.
Filipe Machado retorna no Caderno de Cinema, com a
ação na imagem, guiado por Giles Deleuze. André Marcelo
retoma o tema Bioética e o processo de secularização.
Nossa praça de divulgação literária, a Ágora, cada dia
mais concorrida, traz quatro nomes promissores: na
poesia, Ybeane Campos Moreira, Magali Guimarães e
Lizédar Baptista; na prosa, Lívia Foresto.
Boa leitura!
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Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Í N D I C E
Crônicas de um tempo peculiar, pág. 6
Um Nobel
Recomeçar, pág. 24
D. Marcos Barbosa e sua poesia, pág. 20
Ágora, pág. 16
Praça de divulgação literária
Vox patroni, pág. 7
31 de março de 1964
Você consegue ouvi-lo chamando?, pág. 18
Jolene e a verdade romanesca do desejo
A jornada da Páscoa, pág. 25
In Scena, pág. 28
O que resta ao homem?, pág. 9
Ensaio moral sobre a angústia
Livro aberto, pág. 15
Brancura
Caderno de cinema, pág. 23
Ação na imagem
A eternidade em Santo Agostinho e o espaço-
tempo da Física Moderna, pág. 26
Bioética e o processo de secularização, pág. 27
Corção, Chesterton e o common sense, pág. 10
"[...] Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um
susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que
deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender
da possibilidade de assimilação desses resíduos."
G U S T A V O C O R Ç Ã O
ez ou outra os amigos ouvem minha queixa de que
não encontro autores vivos para ler. Talvez seja
mais uma das minhas hipérboles retóricas, como
gosta de dizer certo conhecido, mas basta entrar numa
livraria e perceber como é necessário estômago para
enfrentar a literatura de gosto no mínimo duvidoso que se
produz em nossos dias. E ainda assim, por mais que goste
muito dos meus autores defuntos, sinto falta de me
entusiasmar com a literatura de alguém que ainda
caminhe nesta terra de vivos. E parece que 2024 quis logo
no início me dar esse presente.
Um dia desses, caminhando ao largo pelo centro da
metrópole carioca, depois de ter visitado o circuito de
sebos já muito meu conhecido, decidi entrar numa das
poucas livrarias que ainda não sucumbiram à crise do
setor. Lançando meu costumeiro olhar de descrédito para
a bancada de novidades disposta logo na entrada, eis que
o anjo da literatura se me iluminou a mente. Lembrei-me
de um autor – vivo! – que havia chamado minha atenção e
parecia merecer que eu transpusesse a necrópole dos
escritores para espiar os literatos que ainda estão debaixo
do sol.
Confesso que o que primeiro me chamou atenção no
norueguês Jon Fosse não foi tanto o Nobel de literatura
com que foi laureado em dezembro passado, mas o
epíteto que lhe deram as agências de notícia: o de que é
um “escritor católico”. Acho que, ao menos no Brasil, essa
expressão já não aparece desde que morreu Alceu
Amoroso Lima em 1983, nosso maior representante desse
espécime raro. O fato é que isso me aguçou a curiosidade
acerca de Jon Fosse. Claro que não sou ingênuo, e não
creio que o simples fato de ser católico torne alguém um
escritor excelente; há pagãos de escrita primorosa e católi-
CRÔNICAS DE UM
TEMPO PECULIAR
Um Nobel
Eduardo Silva, graduado em
História pela UFRRJ e em Filosofia
pela PUC-Rio, encaminha os
estudos também para a literatura e
a teologia, sempre a partir de um
diálogo entre o pensamento
tomista e as diversas correntes
contemporâneas.
6
V
cos de literatura medíocre. Mas Fosse conseguiu congregar
os dois de maneira no mínimo satisfatória. Ao conceder ao
escritor de 64 anos a mais alta premiação literária, a
Academia Sueca indicou que suas obras “dão voz ao
indizível.”
Foi essa a referência que me fez recordar naquela tarde, na
livraria no centro do Rio, o nome de Fosse. Sua obra já vem
traduzida aqui e ali no Brasil por alguns tradutores heroicos
que empreendem a tarefa hercúlea de traduzir do
norueguês, e mais ainda, de um dialeto menos usual
utilizado por Fosse que tem fortes raízes no antigo nórdico.
Na livraria tinha apenas uma das três obras traduzidas até
agora. E era justamente a obra mais recente do escritor,
publicada por ele no ano passado. Chama-se Brancura.
A obra é curta, apenas 60 páginas. Lê-se de um fôlego e,
aliás, o romance não é senão um fôlego de pensamento da
personagem. Um homem sai a dirigir sem rumo, até que se
vê preso com o carro numa estreita estrada numa floresta
escura. Já aqui percebe-se a referência dantesca de quem,
“no meio do caminho da vida, tendo perdido o rumo
verdadeiro”, se vê “em selva escura.” Porém, ao invés de
encontrar, como Dante na Divina Comédia, o leopardo, a
loba e o leão, o protagonista se vê num encontro consigo e
seu fluxo de pensamento que faz toda a narrativa do livro. E
é nesse fluxo que encontra a silhueta branca, definida pela
personagem como “A brancura”.
Lido o breve romance em dois dias, no terceiro não tive outra
opção. Entusiasmado com a pérola encontrada, fui a outra
livraria buscar mais uma ostra fossiana. Dessa vez me deparo
com o romance É a Ales, publicado pela Companhia das
Letras no ano passado. Não me decepcionei. Se uma floresta
nórdica é o ambiente-personagem de Brancura, É a Ales é
ambientado num típico fiorde norueguês. Passado, presente,
vivos, mortos, todos encontram ali seu lugar. A centralidade
do tempo – com o ontem e o hoje convivendo no cenário –
tem um quê de proustiano. Até a madeleine encontra seu
lugar, transmutada na touca bege da avó. Se Brancura tem
o fluxo de pensamento marcado pela narrativa em primeira
pessoa, a narrativa em terceira pessoa de É a Ales nada
perde desse fluxo narrativo característico da escrita de Jon
Fosse.
Essas duas obras são apenas uma pequena ponta do
profundo iceberg que é o trabalho literário do escritor
norueguês. Sua dramaturgia original é muito celebrada, com
peças encenadas em diversos países. Sua obra de maior
fôlego, terminada há pouco, é Septologia, romance em sete
partes com publicação no Brasil prometida para o próximo
ano pela editora Fósforo, a mesma que acaba de editar
Brancura e já anunciou a publicação de A casa de barcos.
Este ano ainda sairá Trilogia, outra obra de grande
aclamação, pela Companhia das Letras.
Enfim me rendi a um autor vivo. E pudera. Não só a
Academia Sueca, mas até mesmo o Papa se rendeu a Jon
Fosse. Em carta enviada a ele por ocasião da recepção do
Nobel de Literatura, o Pontífice indicou que a capacidade da
obra de Fosse “de evocar a graça, a paz e o amor de Deus
Todo-Poderoso no nosso mundo, tantas vezes obscurecido,
enriquecerá certamente a vida daqueles que compartilham
a peregrinação da fé.”
“Escrever é em si uma forma de pedir perdão. Eu penso que
sim. E provavelmente é oração também.” Essas são palavras
de Fosse numa entrevista recente. Desde que o católico
François Mauriac ganhou o Nobel de Literatura em 1952 não
se via tanta esperança assim na literatura de inspiração
católica.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Vox patroni
dando voz aos que nos precederam
31 DE MARÇO DE 1964
Alceu Amoroso Lima
7 Scena Crítica | Abril-junho 2024
D
nova era dos golpes e contragolpes, passando a perna no
Carlos Lacerda e desapontando todos aqueles que nele viam
um dos esteios da legalidade por meios legais. Pois ele, como
acontece com todos os golpistas, proclama que a legalidade
gera a subversão, quando a legalidade (Jango) ameaça
subverter a legalidade.
Jogo de palavras bem bolado que já inspirou o golpe do Lott
em 1955 (?) quando fez o tal “retorno à legalidade
constitucional” (não me lembro bem os termos) através da
ilegalidade inconstitucional do golpe de 11 de novembro.
O MP está agora na mesma linha. Daí o golpe militar em
defesa da “legalidade”, isto é, procurando justificar os meios
pelos fins. E a esta hora o inefável cardeal do Rio estará
aplaudindo o golpe, como acaba de justificar o uso do “rosário
em cerimônias cívicas”… O cúmulo. Entendam-se – cerimônias
cívicas que estejam de acordo com suas próprias preferências
políticas. No caso: o mais obscurantista reacionarismo. Vemos
que esse chefe do Sumaré toma esta ou aquela atitude mas
isso não me espanta. [...]
Como estamos apenas no início de um movimento subversivo
que se compara aos de 31 ou 32, ainda é difícil fazer qualquer
prognóstico. De momento, o que há de é que se definem as
posições . O Jango, isto é, o Executivo, ainda não deu mesmo
o passo inicial nesses, na esfera jurídica, que é, decerto, o
“estado de sítio”. Verdade é que o “sítio” deveria ser declarado
pelo Congresso e este dificilmente o concederá, pois a
maioria está contra o governo federal, já que o PSD, ao que se
diz, se juntará à UDN em Minas e possivelmente no Congresso
Federal também. Já o JK deitou também manifesto, deixando
entrever que está com o golpe de MP e dizendo que a
“legalidade está onde estão a ordem e a disciplina”, conceito
extremamente elástico de legalidade, pois, de lado a lado, se
alega que há ordem e disciplina.
Legalidade é o governo legalmente constituído e em
exercício. Fora daí são sofismas sobralícios que servem para
todas as revoluções. Aliás o Sobral apoiou a Revolução de 31
como provocou a de Lott (55?), com o seu conceito de que a
ameaça à legalidade é um motivo justo para o ataque militar
ao governo, isto é – o golpe preventivo. Sou totalmente
contrário a essa teoria e penso que toda ruptura com a
ordem jurídica dominante é uma ilegalidade e portanto não
pode ser aceita pelos que se dizem legalistas. Concordo que
não devemos ter a superstição do legalismo e que nem toda
revolução é ilegítima, segundo a mais clássica teoria tomista
(veja meu livro Política quando se ocupa do problema da
revolução). Mas acontece que, por motivos não filosóficos ou
morais (ou seja: até que ponto é lícita uma revolução e o
golpe é uma contra-revolução ou o início de uma revolução
completa) – mas, por motivos histórico-sociais e políticos,
considero que todo golpe é inconveniente e até
contraproducente. Pode ser moralmente lícito e ter motivos
políticos certos (o Jango realmente tem feito um péssimo
governo e se mostrou tão dúbio e hesitante, ultimamente, que
realmente cometeu um suicídio político e terá jogado o Brasil
na guerra civil com o apoio da oposição).
A esta cabe culpa ainda maior no que está ocorrendo, pois
podia perfeitamente ter atraído o Jango ou pelo menos
entrando em composição com ele, para que se fizessem as
reformas legalmente, pelo Congresso, mesmo que não tão
radicais, como ele quer, nem tão sumárias como querem as
bases econômicas (latifundiários e ricos em geral), esses dois
grandes partidos do centro burguês e liberal, a UDN e o PSD,
que ora se juntam (todo o indica), contra as esquerdas,
radicalizadas ou não.
E no momento, o radicalismo direita-esquerda vai
transformar-se em governo e revolução, esta nas mãos da
direita. Quer dizer que estamos com um golpe direitista e
uma revolução direitista em início, semelhante a que se deu
na Espanha, em que as esquerdas representavam a legalidade
e as Direitas é que levantaram a bandeira da rebelião, que
acabou vencendo e lançando a Espanha, há 25 anos, na mais
cruel ditadura direitista, embora a pouco amenizada pelo
próprio tempo, mas nem por isso menos totalitária.
Aqui se está dando o mesmo. São as direitas que dão o golpe,
com o Magalhães Pinto à esta. E o Adhemar e o Lacerda de
reboque. Ironia… Não estou longe mesmo de crer que, no
fundo, o MP tomou a iniciativa do golpe para fazer a revolução
antes que o influído, estou certo. [...]
O San Thiago, que está muito bem informado, e esteve no
Palácio das Laranjeiras com o Jango até de madrugada, me
diz que as forças que estão com o governo legal parece que
são fortes: o II Exército. São Paulo está dividido, e as forças
aquarteladas no vale do Paraíba são fiéis (?) ao Jango. (É triste
a gente ter de ficar ao lado desse triste personagem cujos
malabarismos , somados ao reacionarismo da oposição, d
eram nisso: a guerra civil , como em 1931, reintroduziu neste
Brasil que começava a ter fama no estrangeiro de saber
resolver pacificamente suas crises.) Só tenho uma esperança: é
que o povo – soldados, oficiais – o povo brasileiro não é de
briga. De modo que os próprios arreganhos militares não
duram muito. Portanto é possível que, dentro de poucos dias,
esteja tudo clareado. Mas o próprio San Thiago confessa que
Desgraçadamente rompeu-se de novo a
continuidade civil do nosso governo e a solução foi
transferida para a área militar. E por quem? Pelo
nosso amigo Magalhães Pinto, que inicia assim a
Abril-junho 2024 | Scena Crítica 8
LIMA, Alceu Amoroso. Cartas do
pai: de Alceu Amoroso Lima para
sua filha madre Maria Tereza. São
Paulo: Instituto Moreira Salles, 2003,
p. 365-370.
há muitas probabilidades de triunfo do golpe. E será então
um triunfo direitista “que atrasará por 20 anos o progresso do
Brasil”, diz-me o San Thiago . E digo eu: “Nos recolocará no
clima de tensão constante entre elite e povo”.
Acho também que o movimento saíra vitorioso e com isso o
Lacerda poderá tirar a sardinha com a mão do gato, pois
numa eleição, ele tem chance, mas… não contra o JK. E este já
se colocou também do lado do golpe, que prevê vitorioso, de
modo que será também um sério competidor. E o MP que, no
caso da vitória possível do golpe direitista (como venceu o de
1931 ecomo venceu o de 1955), terá sido o chefe civil da
revolução, se contentará em ser o chefe do governo provisório
que substituirá Jango? Este, a meu ver, está fraco e o seu
“dispositivo militar” vai fracassar. Teremos então o exílio do
Jango, como o de Washington Luís. Minas à testa da revolução
de 64, como esteve à testa da de 31, com o Olegário Maciel. E
o pobre do Magalhães Pinto quem sabe fazendo o mesmo
papel do Olegário Maciel, tirando sardinhas para os outros e
desapontando seus amigos. Triste fim de qualquer modo. E
mais triste ainda é que, realmente, tanto da parte do governo,
como da oposição, tudo falhou desta vez, no sentido de
manter o prestígio e a fama de saber resolver crises sem
sangue, como é a nossa lei histórica. [...]
Mais uma vez se confirma o meu prognóstico (desculpe este
“eu não dizia?”… mas isto é cá entre nós) de que nada temos a
temer do comunismo, ao menos por ora, mas sim do
militarismo e do golpismo. Tenho me fartado de dizer isto e a
primeira vez que me lembro de ter dito foi em Córdoba (sic)
na Argentina, quando o bispo de nome francês (creio que
monsenhor Lafitous) me perguntou, em 1937, (foi em Córdoba
ou foi em Buenos Aires?), se havia mesmo o risco de uma
vitória comunista no Brasil. E eu respondi, para surpresa dele,
que não acreditava absolutamente em golpe comunista, no
Brasil. Muito menos vitorioso (tinha havido um em 1935e por
isso é que os argentinos estavam pondo as barbas de molho
antes que o Péron as raspasse…).
Desde então – há portanto 27 anos – repito o meu slogan: Não
temo o comunismo no Brasil mas temo o militarismo e o
golpismo direitista , ou esquerdista não-comunista.
E estamos em um típico golpe direitista. Com grande
probabilidades de vencer, pois o anticomunismo substancial
do povo brasileiro vem sendo muito habitualmente explicado
pelos políticos e pelos… cardeais golpistas e reacionários… e
pelas boas senhoras ultimamente alucinadas e psicopatizadas
pelos slogans: “Deus, Família, Liberdade”, e apavoradas com as
ameaças nos seus prédios e nas suas fazendas.
Não há o menor perigo comunista , mesmo que este golpe
mineiro não triunfe. Mas como creio que ele triunfará –
embora contra meu apoio, pois considero, repito, desastrosa
toda solução militar para problemas civis - o que teremos
pela frente é a vitória de um anticomunismo feroz, de um
reacionarismo estúpido e… paradoxalmente, uma grande
vantagem para a doutrina social da Igreja, que continuamos a
pregar, como se nada fosse. Dirá você, como assim? Então o
reacionarismo lacerdista ou o oportunismo juscelinista ou o
adesismo pintista, triunfantes, como provavelmente o serão,
se confundem com a doutrina social da Igreja? Não.
Mas acontece que, se triunfar o golpe direitista, como creio,
imediatamente, desaparecerá o pavor do comunismo das
senhoras amedrontadas. Para essas boas senhoras os
comunistas são antropófagos. Bem, com a vitória do direitismo
lacerdista, juscelinista ou pintista – imediatamente desaparece
o pânico do comunismo pois a polícia durante algum tempo
se encarregará de meter no xadrez e no cabo de borracha os
comunistas sem colarinho, e os Lacerdas se encarregarão de
fechar ,todos os sindicatos operários e de expulsar e exilar os
líderes de colarinho. As boas senhoras voltarão aos seus bailes,
às suas boîtes, aos seus vestidos de 200 contos ou então aos
meios piedosos dos seus terços na igreja ou diante da imagem
do Sagrado Coração em casa ou aos seus tricôs e aos seus
aluguéis e cupons de debêntures… E com isso os mais espertos,
adiantados ou… de bons sentimentos, voltarão a achar que há
uma doutrina social da Igreja, que poderá talvez… etc., etc e tal
, e então voltaremos ter quem nos ouça, prevenindo que só
essa doutrina… etc., etc e tal.
Será um retrocesso, uma perda de tempo, será uma
marginalização do Brasil, mas…
Mas… o Brasil vencerá a nova crise, mesmo que no momento o
direitismo venha a triunfar, como creio que o fará, contra a
minha vontade sem dúvida, fora das minhas magras tentativas
de combater todo direitismo, assim como todo esquerdismo,
contra o meu ridículo Apelo à paz, na última hora, de que não
me arrependo nem me envergonho, pois estava nitidamente
na minha linha de pensamento e continuarei a sustentá-la,
seja qual for o resultado dessa luta inglória que o
conservadorismo mineiro lançou, transferindo a luta política
da área civil para a área militar. […]
À saída americana, dois casais em mesas diferentes vieram
falar com dom Hélder, comentar que os “brotos” já tinham
pedido seu parecer sobre a “marcha” de amanhã, que agora
não sei se se realizará e provavelmente será adiada para o dia
da vitória da revolução.
Deixei-o no São Joaquim para o encontro de hoje – almoço na
Nunciatura – que ficou naturalmente adiado de mais um dia
ou sine die. De tarde, a atmosfera na cidade era de pólvora e
de véspera de revolução como em 31 ou 37. Há por perto de
nosso apartamento o “dispositivo militar” do Lacerda em plena
“campanha”. Soldados da Polícia Militar com metralhadoras,
sacos de areia, barricadas, telefone de campanha, um
acampamento de guerra!
Subimos para Petrópolis sem incidentes e à noite as notícias
se agravaram pelo rádio, mas ainda hoje de manhã eu saí para
descer ao Rio. Já desisti, porém, com medo de não poder subir
logo mais, e deixar Mamãe sozinha. Aos 70, já não posso dar-
me ao luxo de ir para a chefatura de polícia, como em 1931, ver
cair um governo.
Eis aí. Voltamos ao clima de 22 ou 45 ou mesmo 55, por culpa…
de mim mesmo antes de tudo, pois se tivesse minha voz o
mínimo de ressonância, nem a oposição nem o governo teriam
chegado ao ponto que chegaram.
Mas, depois de mim, os grandes culpados foram antes de tudo
os grandes jornais, a começar pelo Jornal do Brasil. Recebi
ontem uma carta do Celso, com certeza me explicando a
atitude violentamente antigovernista do jornal. Ainda não abri.
Nem abrirei tão cedo. Depois ainda, a oposição, e acima dela –
os ricos, os latifundiários, os privilegiados, que se levantaram
contra as reformas pacíficas e realistas (como seriam ela, pois
nada se faz contra a realidade) e empunharam hipocritamente
a bandeira do anticomunismo para proteger seus interesses
pecuniários. Ponha tudo isso numa panela e uma pitada de
despeito do MP em face do Lacerda e de sua vontade de
“entrar na história” etc., e temos os proclamas deste desastre.
Mas.. tudo acabará bem. Aleluia! Se colocarmos tudo nas mãos
de Deus.
Se há uma coisa patente no ambiente da contempora-
neidade é certamente uma ideia sempre presente de
mal-estar, de angústia. Este mal-estar se revela no interior do
coração dos homens, e ao mesmo tempo estende-se ao
campo das relações humanas, especialmente das relações
amorosas. Será o velho mal-estar na civilização rastreado
pela psicanálise ou é um particular deste momento histórico
do homem ocidental?
No alvorecer do existencialismo, o luterano dinamarquês
Kierkegaard abordou sistematicamente o tema da angústia
em sua obra O conceito de angústia de 1844. Contrariando o
sistema hegeliano em voga naqueles anos, o filósofo
dinamarquês busca localizar a existência humana em total
singularidade, distanciando-se da ideia de territorializar o
indivíduo em um sistema universal como pretendiam os
hegelianos.
Pois, feito este recorte passamos a procurar localizar seu
“conceito de angústia”. A ideia central é a angústia como
condição permanente da vida do homem. A angústia está
posta relacionando-se com objeto nulo, ou seja, com o
nada. A angústia não é o ânimo do homem ao rela-
cionar-se com o que lhe molesta, mas é condi-
ção in natura do espírito humano.
9
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
A indiferença reinante hodiernamente parece, em certa
medida, ser fruto de uma atitude canalha diante da vida.
Não se trata aqui de uma canalhice ordinária, mas de uma
canalhice esclarecida. É esclarecida por estar permeada de
ideais modernos como: igualdade, liberdade de consciência,
igualitarismo religioso, igualitarismo entre os sexos…
Veja, não quero aqui fazer juízo de valor sobre nenhum
desses delicados temas. O que quero demonstrar é que,
na verdade, tudo isso acaba por servir de adorno para um
véu sob o qual todos querem se esconder, que é o manto da
hipocrisia, da indiferença e não raramente de um certo
complexo de superioridade diante daqueles que nos
precederam na história, como se houvesse um processo de
evolução dos sentimentos e dos valores que compõem e
confrontam nossa humanidade.
Voltando ao nosso filósofo dinamarquês, enfrentemos o
embate entre a inocência e a ignorância. É importante notar
que a ignorância aqui é completamente diversa da que
tratamos nos parágrafos anteriores. A ideia de inocência
em Kierkegaard está condicionada ao ponto em que o
homem toma consciência da existência. A partir do
momento em que se toma consciência ele faz seu salto
qualitativo [3], ou seja, o momento que o homem sai da
inocência para o pecado.
O que resta ao homem?
Ensaio moral sobre a angústia
A angústia que está posta na inocência,
primeiro não é uma culpa e, segundo, não
é um fardo, um sofrimento que não se
possa harmonizar com a felicidade da
inocência. Obsevando-se as crianças,
encontra-se nelas a angústia como u-
ma busca do aventuroso, do monstruo-
so, do enigmático. Que haja crianças
nas quais ela não se encontra nada
prova, pois o animal também não a
tem, e quanto menos espírito, menos
angústia.[1]
Ora, entenda-se esse espírito como cons-
ciência e essa progressão em “quanto me-
nos espírito, menos angústia”, como toma-
da de consciência progressiva. Se verificará,
assim, uma relação corpóreo-psíquica que
relacionando-se geram uma síntese de acor-
do com o espírito:
Que a angústia apareça é aquilo ao redor do que
tudo gira. O homem é uma síntese do psíquico e do
corpóreo, porém uma síntese é inconcebível quando os
dois termos não se põem de acordo num terceiro. Este
terceiro é o espírito.[2]
Chegamos a um ponto que me toca particularmente. Esta
progressão proporcional entre a tomada de consciência e a
angústia é, sem sombra de dúvidas, uma constatação
simples de se alcançar. É mais atormentado o homem que
toma mais consciência da realidade que o cerca, que dos
demais que por embotamento ou fraqueza de caráter, não
possuem as faculdades necessárias ou optaram por não
tomarem consciência e consequentemente não dividirem a
responsabilidade sobre os problemas do mundo que os
cerca.
Outro cenário mais grave é sobre aqueles que tomando
consciência sobre o mundo que os cerca assumem a postura
de não tomar parte com os problemas e graves questões que
pairam sobre a existência humana. Sobre estes, acho que
vale o arquétipo rodrigueano de canalhas.
Este arquétipo desenvolvido na literatura de Nelson
Rodrigues e que merece ainda ser muito mais desenvolvido é
uma belíssima chave de leitura para a questão: logrará muito
mais êxito na vida, nos relacionamentos, especialmente na
vida amorosa aquele que por puro cinismo e comodidade
optar por parecer alheio às angústias que compõem a vida
tanto no seu caráter individual ou social.
Com o primeiro pecado, entrou o pecado no
mundo. Exatamente do mesmo modo vale
isso a respeito do primeiro pecado de
qualquer homem posterior, que com este o
pecado entra no mundo. Dizer, contudo, que
não existia pecado antes do pecado de Adão,
é uma reflexão não apenas inteiramente
casual e sem relevância no que concerne ao
pecado em si, como também totalmente
destituída de significado e de direito de
tornar maior o pecado de Adão ou menor o
primeiro pecado de qualquer outro ser
humano.[4]
Após a culpa original, e fazendo justiça
ao texto kierkegaardiano ela está em
suspenso, não há mais espaço para ale-
gação de inocência. O homem conhece
na sua existência individual o pecado e,
portanto, goza de todos os instrumentos
para fazer acepção em suas escolhas mo-
rais. Não seria por isso mesmo a existência
mais dramática e angustiante?
A angústia não está disposta, como já dise-
semos, para um objeto concreto. A angústia
está disposta para um nada, é como uma condi-
ção da alma humana, consequência de ser dotada
de razão (espírito). Onde então se poderia encontrar
uma resolução, ou melhor, um consolo para solucionar
este imbróglio?
O ponto de inflexão hodierno é que não partimos mais da
mesma percepção sobre esta questão. Na verdade, não nos é
mais do nosso interesse compreender o processo da
existência individual, muito menos de qualquer mediação
metafísica ainda que esta apresente-se como mero plano de
fundo para fundamentar uma tese que busque dar conta do
problema.
[1] KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis, RJ: Vozes,
2015. 3ª ed. P. 46; [2] Ibidem, p. 47; [3] Expressão cunhada por
Kierkegaard para designar o momento que o homem passa a optar
pelo bem e pelo mal.; [4] KIERKEGAARD, op. cit., p. 33
Com especialização em roteiro pela
Escola de Cinema Darcy Ribeiro,
Filipe Machado é bacharel em
filosofia pela PUC-Rio e licenciado
em História. Atualmente suas
pesquisas estão centradas nos
autores que compuseram a cena
intelectual católica do século XX
com especial ênfase em Gustavo
Corção.
.
Eu era ainda pequena quando pela primeira vez me
deparei com o escritor inglês G. K. Chesterton. Esse
primeiro encontro foi um episódio corriqueiro, em
dia chuvoso de verão, que em nada me fez pressentir a
importância que o autor teria na minha vida. Buscando
alguma coisa para ler, eu examinava distraída as obras sérias
que meu pai tinha na sua estante, quando dei com a curiosa
capa de um livro na qual um homem gordo, de costas, com
seu chapéu, capa e bengala, ia andando por um campo,
seguido por um boi folgazão.
O título da obra só em parte explicava o desenho: Três
Alqueires e uma Vaca. Quem seria, no entanto, o homem
gordo? Não era o autor, porque esse eu conhecia bem.
Gustavo Corção, o ‘tio Gustavo’, como dizíamos na família,
tinha sido grande amigo e mentor dos meus pais nos bons
tempos da Revista A Ordem e do Centro Dom Vital. Aqui eu
estava em casa. Mas ficava o homem gordo. Busquei na
minha memória de menina uma semelhança com os
personagens que eu sabia terem acompanhado meus pais
naqueles anos de 1950. A capa - embora não o chapéu, é
verdade - me dava a ideia de um monge: Dom Marcos
Barbosa, Dom Lourenço Prado, Dom Ireneu Penna do
Mosteiro de São Bento do Rio? Não, definitivamente nenhum
deles correspondia à caricatura...
Folheando as páginas, dei com o nome do Chesterton. Mas o
nome não me disse nada naquele momento. Fechei o livro
com um sorriso, pensando que o Corção e o meu pai
também gostavam de livros divertidos, além dos de Filosofia
e Religião. E, no entanto, aquela figura bonachona, que
parecia passear pelos seus três alqueires e conversar
amistosamente com a sua amiga bovina, nunca me saiu da
memória. Ela tinha não sei o quê de simpática, de bondosa,
fazia a gente se sentir à vontade. Mais do que isso, o
homem gordo e tranquilo transmitia algo de verdadeiro, de
livre, de genuíno...
Anos depois, já longe do culto e piedoso ninho paterno, em
outro continente e imersa no secularismo frio da sociedade
europeia moderna, aquela caricatura me acompanhava,
como um retrato de pessoa querida, de cima da minha mesa
de trabalho. Ao lado dela, eu pendurara uma foto de João
Paulo II e outra de Jacques Maritain e, aos colegas que
passavam, parecia ridículo que eu buscasse inspiração ao
mesmo tempo num papa, num acadêmico e num desenho
de criança. Eu, no entanto, sabia melhor. Eu agora
compreendia os três alqueires e o homem gordo de capa e
chapéu tinha se tornado um dos meus grandes mestres.
Naquela época eu me debatia com os esforços da minha
tese doutoral sobre aquele mesmo ‘tio Gustavo’, herói da
minha juventude, e tinha sido ele, o Corção, a me apresentar
os seus dois grandes mestres. Se Maritain me olhava da sua
foto com a solidez e a segurança de um professor que me
conduzia pelos caminhos do pensamento cristão, o homem
gordo era o amigo querido no qual eu encontrava
companhia alegre e cheia de fé em meio a um mundo
materialista e duro. O próprio Corção descreve o efeito desse
dois autores na sua conversão:
Corção, Chesterton
e o common sense
10
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
O motivo dessa ‘recuperacão da infância’ que traz consigo
libertação e confiança, pode ser elucidado pela expressão
inglesa que talvez defina toda a mensagem do Chesterton: o
‘common sense’. Aqui já sentimos a dificuldade de não ler o
Chesterton no original. A língua era para ele um instrumento
tão perfeito de trabalho que qualquer tradução, por melhor
que seja, deixa sempre a desejar. ‘Common sense’, nesse
caso, não pode obviamente ser traduzido por ‘senso comum’,
que indica, em português, algo que é simplesmente tido pela
maioria das pessoas como verdadeiro, sem que
necessariamente o seja. ‘Common sense’ seria melhor
traduzido por ‘bom senso’, ou seja, essa espécie de intuição
muito humana, que nos vem da Lei Natural - e portanto de
Deus - e que nos faz distinguir aquilo que é bom, genuíno,
autêntico, saudável, real, verdadeiro. Nesse sentido profundo
em que Chesterton usa a expressão, ‘common sense’
equivale à normalidade humana integral, ao equilíbrio da
inteligência e da emoção, da experiência e da virtude, ao
bom amor de si mesmo que se espelha no amor ao próximo,
e tudo isso iluminado pela luz clara da fé. O ‘common sense’
de Chesterton significa o antídoto por excelência contra toda
tentação e manipulação ideológicas. Daí a ‘libertação’ citada
por Corção.
Percebe-se de cara em Chesterton, por trás de uma aparente
irreverência ou leveza no escrever, uma presença filosófica de
fôlego. O livro de capa engraçada que eu descobrira na
estante do meu pai era, ao contrário do que eu pensara
então, um livro sério, extraordinariamente sério. O homem de
“Chesterton trouxe-me uma libertação, uma recuperação da
infância, encheu-me da confiança que mais tarde, pela
misericórdia de Deus, seria vestida de Esperança; Maritain
trouxe-me a retificação da inteligência e encheu-me da
outra confiança que se vestiria de Fé. (CORÇÃO, 1955).
.
Chesterton foi muitas vezes assinalado como o escritor dos
paradoxos. De fato, a arte de descobrir e expressar a
verdade a partir de coisas que aparentemente se opõe é
uma constante na sua obra. Uma lista dos seus paradoxos
tomaria páginas e páginas. Citemos apenas alguns dos
mais conhecidos.
Sobre Fé e Religião:
11
capa e chapéu nos dá lições profundas de Filosofia e de
Teologia. É um amigo, modesto e humilde - no verdadeiro
sentido da palavra, de pés firmemente fincados no chão da
realidade - que nos estende a mão e nos oferece aquele
amor vivo e quente que tem sua origem em Deus. Cheio da
segurança serena de quem sabe o segredo das coisas, ele nos
convida a enfrentar a confusão do relativismo moral e do
secularismo moderno com o sorriso sábio e alegre de quem
vive ancorado nas coisas do céu.
Gilbert Keith Chesterton nasceu em Londres em 1874 e
cresceu numa típica família anglicana. Na escola e depois na
Universidade, destacou-se como aluno original em Literatura,
Arte e Jornalismo, mas nunca se graduou em nenhuma
dessas áreas. Personalidade extremamente afável, bem-
humorada e genial, ele logo adquiriu um numeroso círculo
de amigos, entre os quais muitos dos grandes nomes do
mundo cultural inglês da sua época. Depois de publicar
livros de poesia e de cultivar por um tempo a vida boêmia da
juventude, ele conseguiu, por bondade de um amigo, um
emprego num jornal londrino. Assim iniciou-se a carreira de
escritor, cronista, crítico literário e artístico que ele iria
desenvolver entusiasticamente por toda a vida.
Em 1901, Chesterton casou-se com Frances Blogg; o casal
nunca pode ter filhos mas viveu em doce harmonia,
celebrada por amigos e conhecidos, até a morte dele aos
sessenta e dois anos. Em 1922, escritor consagrado e tendo já
por muitos anos cortejado e defendido a Igreja nas suas
obras, Chesterton deu finalmente o passo definitivo e se fez
católico. O famoso dramaturgo George Bernard Shaw
criticou-o numa carta: “Gilbert, você foi longe demais!”
Chesterton respondeu-lhe:
Tornar-se católico não significa parar de pensar, mas
aprender a pensar. No momento em que paramos de
atacar a Igreja, começamos a sentir sua atração. Assim que
paramos de gritar, começamos a ouvir com prazer. E logo
que tentamos ser sinceros, começamos a gostar.
(CHESTERTON, 2014).
Chesterton era um autor extremamente prolífico, às vezes
mesmo prolixo, que se divertia em defender um argumento
com uma série de exemplos. A impressão que se tem, apesar
da alta qualidade literária do texto, é a de que ele escrevia
como falava - sua prosa é como uma simples continuação de
uma conversa de amigos num pub inglês. Seus livros somam
mais de oitenta, além de centenas de crônicas, artigos e
poesias. Seus interesses se debruçavam sobre os
acontecimentos do dia, como é típico de um jornalista, mas
esses acontecimentos ele os via através da ótica profunda do
seu bom senso, como é típico de um verdadeiro filósofo. Sem
jamais apresentar-se ou mesmo pretender ser nada mais do
que jornalista - uma ardente veracidade é a primeira
prerrogativa do seu estilo - Chesterton tornou-se um dos
maiores pensadores do seu tempo. Acerca da sua biografia
de Santo Tomás, por exemplo, escreveu Étienne Gilson, um
dos principais estudiosos tomistas do século XX: “Considero-
o, sem comparação possível, o melhor livro já escrito sobre
Santo Tomás. Nada menos que a genialidade pode explicar
tal conquista.” (CHESTERTON, 1986).
A influência de Chesterton cresce mais e mais com o passar
dos anos. Nos países de língua inglesa ele é um autor
consagrado, responsável por um sem número de conversões
e inspirador de todo tipo de associações e revistas
intelectuais. A partir dos Estados Unidos seu pensamento
influenciou uma grande parte da intelectualidade católica
latino-americana nas décadas anteriores ao Concílio
Vaticano II. Hoje em dia há um forte renascimento do
interesse pela sua obra também no resto da Europa. Observo
esse fenômeno com curiosidade aqui onde moro, na
Alemanha, país onde a poderosa tradição intelectual oscila
geralmente entre o cinismo e o idealismo e tende sempre
para uma glorificação orgulhosa da razão abstrata, e por isso
mesmo pode lucrar muito com o humanismo realista e são
do autor inglês. Corção explicava assim, dez anos depois da
morte do inglês, a causa da repercussão da sua obra:
“Chesterton está crescendo. O mundo que o perdeu não
avaliou a justa medida do que perdia. Não dei pelo seu
desaparecimento, mas senti, com a impetuosa evidência de
uma janela aberta, o seu aparecimento. A obra de
Chesterton não é destinada a uma dúzia de indivíduos com
certas afinidades temperamentais: é uma obra comum. Se
alguém teve e manteve uma inquebrantável confiança no
entendimento, foi ele. Sua grandeza é extensa e intensa:
extensa, pela enorme área de assuntos que a sua obra
cobriu; intensa pela força, pela viril energia com que aderiu,
infatigavelmente, ao verdadeiro humanismo. O mundo de
hoje está atravancado de falsificações. Chesterton é fiel à
humanidade do homem. Sua mensagem é rica e variada,
mas há nela uma nota insistente que tem a simplicidade, a
monotonia e a inexaurabilidade de um bom-dia. Suas
descobertas não são suas: Deus e a humanidade as
fizeram.” (CORÇÃO, 1946).
“A dificuldade de explicar porque sou católico é que há dez
mil razões que se resumem todas numa só razão: que o
catolicismo é verdadeiro.”
“Nem a razão nem a fé morrerão jamais; os homens é que
morrem se são privados delas.”
“A coisa mais incrível sobre os milagres é que eles
acontecem.”
“Os enigmas de Deus são mais satisfatórios do que as
soluções do homem.”
“A Bíblia nos diz para amarmos o nosso próximo e também
para amarmos os nossos inimigos; provavelmente porque
geralmente são as mesmas pessoas.”
“O homem da verdadeira tradição religiosa compreende
duas coisas: liberdade e obediência. A primeira significa
saber o que você realmente quer. A segunda significa saber
em quem você realmente confia.”
“Deus é como o sol; você não pode olhar para ele, mas sem
ele você não enxerga nada.”
“Jesus prometeu três coisas aos seus discípulos: que eles
não precisariam jamais ter medo, que eles seriam
absurdamente felizes e que eles estariam sempre metidos
em problemas.”
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
.
Chesterton critica ele mesmo, no entanto, a busca do
paradoxo pelo paradoxo. O que ele busca é encontrar a
verdade por trás das aparências, algo, segundo ele,
desprezado pela onipresença ideológica na literatura
moderna:
12
Sobre Política e Sociedade:
“Uma sociedade está em decadência quando o bom
(common) senso se torna incomum.”
“Só acreditando em Deus é que podemos criticar o
Governo. Uma vez abolido Deus, o Governo
se tornará deus.”
“O mundo moderno se dividiu em conservadores e
progressistas. O negócio dos progressistas é continuar
cometendo erros. A função dos conservadores é evitar que
os erros sejam corrigidos.”
“Há menos diferença do que muitos supõem entre o
sistema socialista ideal, em que as grandes empresas são
geridas pelo Estado, e o atual sistema capitalista, em que o
Estado é gerido pelas grandes empresas.”
“Os pobres por vezes opuseram-se a ser mal governados; os
ricos simplesmente sempre se opuseram a ser governados.”
“A pura doutrina do progresso é a melhor de todas as
razões para não ser progressista.”
“Os ladrões respeitam a propriedade. Eles apenas desejam
que a propriedade se torne sua para que possam respeitá-
la mais perfeitamente.”
Sobre o Racionalismo e o Relativismo modernos:
“Não tenha a mente tão aberta a ponto de seu cérebro cair
fora dela.”
“Os homens que só acreditam em si mesmos estão todos
em asilos de loucos.”
“Um homem não sabe o que está dizendo até saber o que
não está dizendo.”
“A imaginação não gera insanidade. Exatamente o que gera
a insanidade é a razão. Os poetas não enlouquecem, mas os
jogadores de xadrez sim.”
“Quando os acadêmicos modernos começam a usar a razão,
geralmente descubro que eles não possuem nenhuma.”
“A razão é em si uma questão de fé. É um ato de fé afirmar
que nossos pensamentos têm alguma relação com a
realidade.”
“O teórico que começa com uma teoria falsa e depois vê a
realidade a partir dessa sua lógica é o inimigo mais
perigoso da razão humana.”
Sobre o Mundo Moderno:
“Controle da Natalidade é tudo menos controle. Ele só
existe porque as pessoas não querem se
controlar.”
“O homem moderno parece ser capaz de grandes virtudes,
mas não de pequenas virtudes; é capaz de desafiar seu
torturador, mas não de moderar seus impulsos.”
“O problema de se concentrar demais em preservar a saúde
do corpo é que é muito difícil fazer isso sem destruir a
saúde da mente.”
“O feminismo é uma ideia confusa de que as mulheres são
livres quando servem os seus empregadores, mas escravas
quando ajudam os seus maridos.”
“Para ser inteligente o suficiente para conseguir muito
dinheiro, é preciso ser estúpido o suficiente para desejá-lo.”
“O jornalismo consiste em grande parte em dizer ‘Lord
Jones morreu’ a pessoas que nunca
souberam que Lord Jones estava vivo em primeiro lugar.”
Sobre virtudes:
“As falácias não deixam de ser falácias porque se tornam
moda.”
“Todos nós respeitamos calorosamente a humildade - nas
outras pessoas.”
“Alguns homens nunca se sentem pequenos; estes são os
que realmente o são.”
Sobre literatura:
“Um bom romance nos conta a verdade sobre seu herói; um
mau romance nos conta a verdade sobre seu autor.”
“Os contos de fadas são verdadeiros – não porque nos
dizem que os dragões existem, isso todos sabem, mas
porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados.”
A reflexão moderna, que se torna cada vez mais irrefletida,
tem este defeito especial entre muitos outros: não
compreende a independência intelectual. Não enfrenta os
fatos, e se alguém aponta um fato de maneira
desinteressada, acusa-o de proferir um paradoxo e de
sempre tentar provar um argumento próprio.”
(CHESTERTON, 1986).
Chesterton nos traz de volta, como diz o Corção, a
segurança simples e clara que tínhamos em criança de
que existe uma Verdade e de que essa Verdade não nasce
de nós mesmos. Ela é, por outro lado, alcançável - embora
não inteiramente explicável - pelo nosso entendimento e
por isso vale a pena buscá-la com todas as forças da nossa
alma. Décadas depois da sua morte, em meio à sociedade
loucamente relativista e secularizada que ele previu, dois
grandes papas definiriam com o seu brilhantismo
acadêmico a antiga doutrina escolástica que Chesterton
apontava com o seu bom-senso:
“Um olhar atento à Encíclica Fides et ratio (de João Paulo II)
permite compreender (que) a Encíclica caracteriza-se pela
sua grande abertura diante da razão, principalmente num
período em que se supõe a sua debilidade. Desejei também
eu defender a força da razão e a sua capacidade de
alcançar a verdade, apresentando mais uma vez a fé como
uma peculiar forma de conhecimento, graças à qual nos
abrimos à verdade da Revelação. Lê-se na Encíclica que é
necessário ter confiança nas capacidades da razão humana
e não propor metas demasiado modestas: É a fé que
impele a razão a sair de seu isolamento e a arriscar-se de
bom grado por tudo aquilo que é belo, bom e verdadeiro."
(BENTO XVI, 2008).
Chesterton foi um paladino da fé e arriscou a sua razão de
bom grado - de muito bom grado, com uma alegria quase
irreverente - por tudo o que é belo, bom e verdadeiro. As
suas centenas de publicações se referem todas a esse
objetivo maior. E, paradoxalmente, como ele mesmo diria,
é esse objetivo maior que dá a elas a sua imensa liberdade
e o seu perene frescor.
Fiel à busca sincera da Verdade, Chesterton escreveu sobre
praticamente todos os assuntos pertinentes à vida
contemporânea, além dos clássicos, e também sobre
literatura e arte, história e religião, família e economia. É
impossível aqui resumir sequer a grandes traços a sua obra
e, por outro lado, tentar analisá-la de forma seca e técnica
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
.
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significa inevitavelmente tirar dela o brilho e a vida. Com
Chesterton é necessário ler e reler, ruminar, discutir, rir,
sobretudo conversar e, sempre que possível, na língua
original. A título de mera prova que provoque o gosto, aqui
vão algumas citações das suas obras mais conhecidas.
Em Ortodoxia, talvez seu mais importante livro, no qual
esclarece a sua conversão:
Se você discutir com um louco, é extremamente provável
que você leve a pior; pois, em muitos aspectos, sua mente
se move ainda mais rapidamente por não ser atrasada pelas
coisas que vêm do bom senso. Ele não é prejudicado pelo
senso de humor ou pela caridade, ou pelas certezas mudas
da experiência. O louco não é o homem que perdeu a
razão. Ele perdeu todo o resto e ficou só com a razão.
(CHESTERTON, 1986).
Em Divorce vs. Democracy:
A família é a prova final da liberdade; porque a família é a
única coisa que o homem faz livremente para si e por si.
Outras instituições devem, em grande parte, ser feitas para
ele por estranhos, sejam elas despóticas ou democráticas.
Mas não há outra forma de organizar a humanidade que
possa dar à pessoa humana a liberdade e a dignidade que
a família lhe dá.” (CHESTERTON, 1986).
Já não estamos num mundo em que se considera
necessário ser normal. A maioria dos homens não está mais
correndo para os extremos, mas apenas deslizando para os
extremos; e até mesmo atingindo os extremos mais
violentos sendo quase inteiramente passivos. Não podemos
mais confiar nem mesmo no homem normal para valorizar
e proteger a sua própria normalidade.” (CHESTERTON, 1986)
Um capítulo à parte na obra do Chesterton são as famosas
histórias de detetive do Padre Brown, das quais várias
adaptações cinematográficas foram feitas, inclusive uma
atual de grande sucesso pela BBC inglesa. O Padre Brown -
um alter ego do próprio Chesterton - passa, aos olhos do
mundo, completamente despercebido. Sacerdote católico de
batina surrada, discreto e desajeitado, modesto e distraído,
sempre irritantemente atento a detalhes que aos outros
soam completamente banais ou mesmo ridículos, o Padre
Brown é tido pelas pessoas a sua volta - sobretudo pelos seus
arqui-inimigos, os homens racionalistas e cheios da sua
própria importância - como o exemplo definitivo da
ignorância e da credulidade infantil do Catolicismo. E, no
entanto, o Padre Brown descobre, pelo seu simples bom
senso e com uma facilidade quase nonchalante, os crimes
mais difíceis e escondidos.
O Padre Brown nos indica o remédio que Chesterton propõe
ao problema da secularização da nossa sociedade
contemporânea. A solução não está absolutamente, segundo
ele - e aqui ouvimos um eco das palavras do nosso Papa
Francisco - na agressão verbal, na luta ideológica, nas
discussões acadêmicas, nem muito menos na racionalização
da fé. Chesterton é, muitas vezes, crítico e irônico, mas nunca
recorre ao sarcasmo, à polêmica amarga e muito menos à
condenação orgulhosa. Tudo isso significaria exatamente
permanecer no mesmo círculo vicioso, usar as mesmas
armas do inimigo ou confiar demais na razão humana. A
explosão que quebra esse círculo vicioso e que, só ela, traz a
verdadeira liberdade, ele nos ensina, é a graça de Deus, é a
conversão de vida, real e humilde, é o humanismo verdadeiro
que nasce da fé. A isso ele chama o verdadeiro bom senso. O
seu caminho é o caminho do Santo: o testemunho alegre e
corajoso da caridade verdadeira e viva. Voltemos ao Corção
que relata, influenciado pelo Chesterton, o júbilo realista e
concreto da sua conversão:
E ainda na mesma obra:
O novo rebelde é um cético e não confia inteiramente em
nada. Ele não tem lealdade; portanto, ele nunca poderá ser
realmente um revolucionário. Como político, ele grita que a
guerra é uma perda de vidas e, depois, como filósofo, que
toda a vida é uma perda de tempo. Ele vai primeiro a uma
reunião política, onde reclama que os homens são tratados
como se fossem animais; depois segue para uma reunião
científica, onde ele defende que os homens são realmente
animais. No seu livro sobre política, ele ataca os homens
por atropelarem a moralidade; em seu livro sobre ética ele
ataca a moralidade por atropelar os homens. Portanto, o
rebelde moderno tornou-se praticamente inútil para todos
os propósitos da revolta. (CHESTERTON, 1986).
Em The Everlasting Man, obra sobre o Cristo:
O cristianismo morreu muitas vezes na História e
ressuscitou de novo, pois tem um Deus que conhece o
caminho para sair do túmulo. Quanto à opinião geral de
que a Igreja foi desacreditada por isso ou por aquilo,
poderiam muito bem dizer que a Arca foi desacreditada
pelo Dilúvio. Quando o mundo vai mal, isso prova na
realidade que a Igreja está certa. A Igreja é justificada, não
porque os seus filhos não pecam, mas exatamente porque
pecam. (CHESTERTON, 1986).
Em Heretics:
A verdade, é claro, tem necessariamente que ser mais
estranha que a ficção, pois a ficção fomos nós que a
criamos para nos servir. Quando Cristo estabeleceu a Sua
grande sociedade, Ele não escolheu como pedra angular
nem o brilhante Paulo nem o místico João, mas um
impulsivo, um esnobe, um covarde – em uma palavra, um
homem comum. E sobre esta pedra Ele construiu a Sua
Igreja, e as portas do Inferno não prevaleceram contra ela.
Todos os impérios e reinos falharam, por causa desta
fraqueza inerente e contínua, de terem sido fundados por
homens fortes e sobre homens fortes que acreditavam em
si mesmos. Mas a Igreja de Deus foi fundada sobre um
homem fraco que acreditava em Deus e, por essa razão, é
indestrutível. (CHESTERTON, 1986)
Em What’s Wrong with the World, numa passagem que
profetiza a sociedade de hoje:
A superprodução intelectual, educacional, psicológica e
artística, tal como a superprodução econômica, ameaça o
bem-estar da civilização contemporânea. As pessoas são
inundadas, cegadas, ensurdecidas e mentalmente
paralisadas por uma enxurrada de exterioridades vulgares,
não lhes deixando tempo para lazer, pensamento ou
criação a partir de dentro de si mesmas. (...) A raiz da maior
parte da liberdade moderna está no medo. Não é que
sejamos ousados demais para suportar regras; na verdade,
somos demasiado tímidos para assumir responsabilidades.”
(CHESTERTON, 1986).
Em Tremendous Trifles:
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
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Dois amigos que se encontram são companheiros de
jornada, sentem-se impelidos para uma maravilhosa
aventura. São peregrinos. Sentem no ar um cheiro
penetrante de mar largo, um aroma de bosques orvalhados:
sentem o perfume da Vinha do Senhor. Amigo! De onde virá
esse cheiro de vinho quente e capitoso? Se nossa religião
fosse feita somente de bom sentimento e de saudade,
ficaríamos rezando em casa ou iríamos chorar nos
cemitérios. Quem ouviu a boa notícia da fé e a promessa da
esperança tem de ir, tem de caminhar, tem de atravessar a
soleira duma porta. E junto do altar conhecerá que Deus
nos entrega tudo, como entregou seu próprio Filho na
Cruz.” (CORÇÃO, 1955).
Numa famosa citação atribuída a ele, Chesterton diz que
quando os homens deixam de acreditar em Deus, passam a
acreditar em qualquer coisa, mesmo nas mais absurdas. O
realismo dessas palavras foi visto no Nazismo e no
Comunismo do século XX - regimes que Chesterton
profetizou mas não viveu para experimentar - e certamente
na ameaçadora confusão ideológica e moral dos nossos dias.
Uma reação de insegurança nos deprime muitas vezes em
meio a nossa sociedade materialista. E, às vezes, temos
medo... A solução nos dá de novo o próprio Chesterton, pela
boca do Padre Brown. Num episódio sobre um aristocrata
misterioso que usava uma peruca da qual todos tinham
pavor, o Padre Brown, que sabia bem que a peruca era falsa
e escondia, na verdade, um crime, exige do homem que a
arranque e revele assim o seu segredo:
Ir. Martina Braga é monja
beneditina e doutora pela
Universidade de Navarra. Foi
professora de História e Doutrina
Social da Igreja no Rio, em
Petrópolis e em Niterói. É autora de
Lições de Gustavo Corção
(Quadrante, 2017).
“Se eu fizesse isso”, disse o duque em voz baixa, “você e
tudo o que você acredita, e tudo pelo qual você vive, seriam
os primeiros a tremer e perecer!”
“A Cruz de Cristo está entre mim e o mal”, respondeu com
serena autoridade o Padre Brown. “Confesse o seu crime.
Tudo o que vive só de mistério nasce do mistério da
iniquidade. Porque o verdadeiro Deus se fez carne e
habitou entre nós.” (CHESTERTON, 2021).
*Adaptações e traduções minhas
BENTO XVI. Discurso na Pontifícia Universidade
Lateranense. Roma, 2008
CHESTERTON, Gilbert K. A Incredulidade do Padre Brown.
Lisboa: Aletheia, 2021.
_____. The Catholic Church and Conversion. San Francisco:
Ignatius, 2014.
_____. The Collected Works of G.K. Chesterton. San
Francisco: Ignatius, 1986.
CORÇÃO, Gustavo. A Descoberta do Outro. Rio de Janeiro:
Agir, 1955.
_____. Três Alqueires e uma Vaca. Rio de Janeiro: Agir, 1946.
Os escritores Bernard Shaw e Hilaire Belloc acompanhados de Chesterton
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
laçam, mas de uma maneira fluida e dinâmica.
A história começa com o protagonista dirigindo sem rumo,
embrenhando cada vez mais o coração de uma vasta floresta,
escura e fria. A densa escuridão da floresta, que serve como
pano de fundo para a narrativa, é mais do que um mero
cenário; mas um espelho do seu mundo interior. Perdido nesse
ambiente escuro e buscando desesperadamente uma saída,
ele inicia uma jornada de autoconhecimento, tentando dar
sentido aos seus movimentos internos, que ele próprio
descreve como confusos e desordenados.
Livro aberto
BRANCURA
Jon Fosse
espelha a complexidade da mente humana e proporciona ao
leitor uma experiência imersiva através dos pensamentos do
narrador-protagonista, numa fronteira tênue entre realidade e
imaginação. A técnica utilizada por Fosse permite a construção
de um texto não linear, onde memórias e percepções se entre-
15
FOSSE, Jon. Brancura. São Paulo: Fósforo, 2024.
Giselle Nogueira é bibliotecária,
formada em Biblioteconomia pela
UNIRIO, e pós-graduada em Gestão
de Projetos pela Universidade
Cândido Mendes
B
protagonista, mas que permeia toda a natureza humana, que
eleva o elóquio da obra a um nível profundo de contemplação.
No entanto, “Brancura” vai além de ser apenas uma viagem
interior, é também uma reflexão poética sobre a condição
humana e a busca incessante por uma vida de sentido e
significado em um mundo de incertezas. Por meio da
escuridão opressiva da floresta e dos encontros reveladores do
protagonista, também somos convidados a atravessar um
labirinto de dúvidas e emoções, onde a única saída é enfrentar
a escuridão ao redor e avançarmos rumo ao desconhecido, a
fim de encontrarmos nossa própria “brancura”, símbolo de
esperança e redenção.
essa figura enigmática representa algo (ou alguém) de
natureza divina, que o próprio narrador questiona ser um anjo,
ou até mesmo Deus, e que diz “estou aqui, sempre estou,
sempre estou aqui”, e o protagonista observa “[...] era quase
como se essa voz carregasse em si algo que se pudesse chamar
de amor.”.
Desse ponto em diante, o protagonista experimenta uma
mudança fundamental em sua percepção do ambiente ao
redor. Aos poucos, o sentimento de solidão cede espaço a uma
certeza; a de que ele não mais caminho sozinho: “agora já não
está aquele breu como antes, um breu como a noite mais
escura, porque até então eu não sabia por onde ia, não que
saiba agora, mas pelo menos posso ver onde ponho os pés.”. É
essa busca espiritual, vivida através da experiência pessoal do
rancura, de Jon Fosse, é uma jornada envolvente
através dos caminhos da psique. O autor utiliza o
fluxo de consciência como técnica narrativa, que
No decorrer do livro, a jornada é marcada por encontros que
não são meros acasos, mas momentos de revelação e
confronto, que funcionam como uma tentativa de buscar
dentro de si as respostas para os dilemas que o assombram.
Um desses encontros aparece na forma de uma silhueta
branca e luminosa: a “brancura”, que dá título à obra, trazendo
consigo um lampejo de luz (e esperança) em meio a escuridão
que cerca a personagem. Ao avançar na leitura, vemos que
“A voz diz: você tem que ir para casa.
Eu digo: mas não consigo
encontrar o caminho de casa.
A voz diz: você se perdeu [...]
e é por isso que viemos ajudá-lo.”.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Além de poeta, Magali Guimarães é doutora
em psicologia e professora na Universidade de
Brasília/DF. Autora dos livros Vida em Versos e
Aldravias Desvairadas.
Dangerioso homem
(inspirado em um poema de Drummond)
Dangerioso homem,
que dono deste mundo proclamaste,
horrendas lutas travaste,
milhões de faces destruíste,
milhões de lares e sonhos roubaste!
A natureza? Exterminaste!
Poluíste os mares em que dantes navegaste!
Ah, dangerioso homem,
não basta o que fizeste à Terra?!
Irás agora para marte!?
Sacralidade
Na vastidão do tempo, a secularização se
insinua,
Um sopro que desfaz os laços com a
divindade,
A humanidade, em sua jornada, se desnuda,
Despindo-se das amarras da sacralidade.
Antes, os deuses povoavam os céus e a terra,
Cada evento, cada suspiro, era uma ode ao
divino,
Mas agora, a razão ergue-se, soberana e
austera,
E o mistério se dissipa, num mundo mais
cristalino.
Templos erguidos ao éter, agora são ruínas,
As preces ecoam apenas como ecos do
passado,
O homem busca respostas em suas próprias
minas,
E o sagrado se esconde, em recantos
abandonados.
A secularização, qual mar revolto e voraz,
Arrasta consigo tradições e crenças
ancestrais,
Mas no vácuo que se abre, há também uma
paz,
A liberdade de escolha, dos caminhos
imortais.
Não é o fim da espiritualidade, apenas uma
mudança,
Um novo olhar sobre o mistério que nos
envolve,
Na secularização, há espaço para esperança,
Em um mundo onde o sagrado em cada um
se resolve.
Ybeane Campos Moreira, membro 0872 da
Academia Internacional de Literatura Brasileira
(AILB), autora dos livros Eu, Poesia, Pedro e as
letras do Alfabeto e Eu, tu,ela, nós mulheres.
Percebo que minha vida fazia mais sentido
Quando eu ainda tinha certezas
Retas e vazias como o minimalismo
Um pouco enojado de tudo
No fim percebi que buscava
Algo além do mínimo
Jamais esquecerei
Do sonho que vivi
Entre Maravilhas do Mundo Antigo
E megalofobia provocada
Pelo horizonte de Detroit tentando me engolir
Quando encontrava as curvas do art nouveau
Reverberações da Belle Époque no período
hodierno
Escondido em brumas da ilusão
Enquanto dormia na penumbra
Em seu hostil e criativo inverno
Sempre quis achar
Que não seria uma coisa ridícula
Mesmo eu sendo uma planta torta
Assimétrica e amarelada
Que nasceu buscando a luz
Que resta na sombra dos prédios
Criatura, cujo passado, a assombra
O serafim de aura violeta
Era o fruto proibido
Que fulgurava na copa frondosa
Da árvore que segura o firmamento
Apaixonei-me pela essência
De algo que tocaria o céu
Porque sou um mato rasteiro
Que cresceu ao léu
Drama Urbano
Brasília é um grito da arquitetura
Sonho e pesadelo de Niemeyer
Sua prima Goiânia
É art déco em uma citadina partitura
Na pós-modernidade
Varrem para baixo do tapete
O nosso necessário primitivismo
A magia descoberta na tenra idade
Num cômodo escuro do subconsciente humano
Há uma longa mesa com forro branco
E, em cima dela, um pires com uma vela
Cuja chama luta para não se apagar
L’étoile froide d’espoir
Est couvré par une voile
De la tendre minuit noir
Mergulhando nos lagos de quartzo
Mesclados à areia e à terra
De outros minerais que formam o mármore
Vendo o sol atrás do insulfilm
Sentindo a água cair
Renascendo no chuveiro
Ágοrα
Praça de divulgação literária
16
Lizédar Baptista é autor de Pureza & Kali
Yuga (2023), Véus Ao Vento (2023), Flores
Cósmicas (2021) assim como de outros livros de
poesia.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
17
Tribulação de poeira e sol
Lívia Foresto
"Meu filho, temos que partir”.
É assim que meu pai me acorda enquanto o céu sequer está laranja.
Ele é um homem que cuidaria com preocupação de cada gota de
suor que transpira, não são poucas.
Eu apanho minhas coisas rapidamente, animado pela nossa viagem.
Conosco vão mais dois sujeitos, um magro com cavidades ossudas
na bochecha que nunca tinha visto antes, o outro já tinha nos
acompanhado por essas andanças que meu pai inventa, ele era
mais alto e mais cheinho.
Antes de nos despedir, vejo o homem desconhecido preparar o
jumento de carga com uma intimidade que nem eu sei se tenho. Lá
longe, minha mãe e meu pai conversam, não presto muita atenção,
estou mais interessado em ver o pão, água, lenha sendo catados e
acomodados nas costas do animal, itens precisamente necessários
para quando passamos dias longe.
Finalmente deixamos nossa moradia pra trás, não sei ainda onde
papai pretende nos levar, quando pergunto, ele demora para
responder e apenas me dá uma dura de como tenho que ser mais
paciente.
Empoeirado, transpirando a terra que nós mesmos levantamos, o
consolo que tanto eu quando os moços recebemos é de que
devemos oferecer a Deus nosso sofrimento. Eu penso, mas não digo
minha revolta com deus e essa mania de querer ver os outros aflitos.
Olho pro homem de rosto conhecido e tento decifrar se ele
concorda comigo.
Quando a noite chega, com frio, fazemos uma pequena fogueira,
temos que economizar madeira para o resto da viagem.
De noite, olho para meu pai, e ele está com a mesma testa de
quando acordado, cheia de pele caída em pensamentos que
parecem fazer cobranças até nos sonhos. Os outros dois homens por
alguma razão fazem muito barulho dormindo. Fico observando as
estrelas com os olhos ardendo levemente por estar perto do fogo.
Primeira viagem que papai não fala muito, penso que devemos
estar atrás de uma missão de exímia importância, porque, até
quando está de costas para nós, ele parece repreender nossas
conversas simplórias. Mesmo com toda essa tensão caminhando
conosco, sempre que peço mais detalhes sobre o que estamos
fazendo, só recebo sermão pela minha ansiedade.
Cresci com essa queixa, sobre como questiono muito, me preocupo
muito, penso muito. “Tudo será conforme Deus prover”, é isso que
ouço.
O homem ossudo, acredito eu que por ser novo, passa a viajar
calado, cedeu ao comportamento coativo de meu pai. O outro fala
comigo em alguns momentos, agora acredito mais que ele
compartilhe de minha irritação profana com a poeira e o sol.
Na última noite eu também fiquei olhando para a testa enrugada
de meu pai, prestei tanta atenção nos sulcos que ali estavam
formados que nem notei que logo abaixo seus olhos estavam
abertos. Ele estava perto de mim, esticou o braço e segurou a minha
mão, sorriu só com os lábios. Adormeceu com os dedos
entrelaçados nos meus e um rosto mais tranquilo, não muito,
apenas um pouco mais tranquilo.
O dia seguinte passou exatamente igual aos outros, na verdade
todos os dias pareceram o mesmo, com uma eternidade de calor,
terra e orações em agradecimento por tudo que Deus proporciona.
Paramos, eu fiquei olhando para meus pés, doíam por causa da
caminhada e do solo quente, minhas sandálias tinham se
arrebentado de tanto andar. Distraído com a dor que não conseguia
entregar a deus como prova de meu amor, escutei meu pai
mandando os outros dois homens ficarem por ali com o jumento.
Eu e ele continuamos a andar, ele carregava o saco de lenha, acho
que ele trouxe um pouco para caso de anoitecer enquanto
estivermos separados.
As mesmas rugas que observava durante a madrugada se
intensificam quando meu pai fecha os olhos para orar. Espero com a
paciência tão exigida de mim e então ele começa a andar como
quem sabe exatamente aonde tem que ir.
Mais caminhada, terra e calor até que paramos e meu pai prepara
com pedras uma espécie de mesa improvisada. Ele pede ajuda com
o saco de lenha, lado a lado, nós a enfileiramos dessa vez temos que
acomodá-las de forma que a superfície mais lisa fique voltada para
cima.
Depois, por horas, papai fica ajoelhado chorando e rezando, foi aí
que perguntei se vamos sacrificar uma ovelha a Deus. Ele fica mais
alguns minutos calado como quem quer que seu momento íntimo
seja respeitado. Eu me ajoelho ao seu lado, cansado daquele tédio,
decido experimentar daquela devoção.
Ele me abraça aprovando meu gesto. Fico feliz de deixá-lo
orgulhoso.
O abraço é quente, um calor gostoso que faz eu me aninhar. Papai
começa a mexer em algo que não sei o que é, mas não me
preocupo. O abraço fica mais forte. Fica mais quente. Quente como
toda a viagem. Ele continua mexendo em algo, mas agora passa a
mão no meu corpo. Então, sinto uma aspereza me roçando. Demoro
a perceber uma corda. Ele continua me circulando.
Prende meus pulsos colados um no outro e faz o mesmo nos meus
tornozelos. Meu corpo, se debatendo como pode, é carregado até o
altar que eu mesmo ajudei a construir.
“Isaque, a vontade de Deus é soberana”.
Gostaria de ter seu texto divulgado na
Ágora? Confere lá no nosso site
(scenacritica.com) as regras para
submissão. Poemas, cronicas, contos,
resenhas, todos tem espaço em nossa
praça de divulgação literária.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Você consegue ouvi-lo chamando?
G
O ser amado (objeto no triângulo mimético) é posto em
segundo plano, quase esquecido, não tendo valor por suas
características intrínsecas, mas por estar na direção
apontada pela divindade de Jolene. É apenas um
coadjuvante, sem nome e atributos claros, transformado
em desejável pela mediadora.
Nota-se, assim, com clareza, nessa peça musical, a intuição
fundamental da teoria mimética, no sentido de que sem
conflito não há desejo. O processo de formação deste,
portanto, é revelado, ardendo nas entranhas da
subjetividade do eu lírico. O objeto apenas toma forma e
contornos, quando o sujeito vislumbra, de forma mais ou
menos consciente, a possibilidade de perdê-lo.
A interpretação angustiada e verossímil da mesma canção
por Jack White, vocalista da banda White Stripes,
demonstra um desespero patente, com gritos histéricos,
guitarra distorcida e pratos barulhentos, ao entoar o
refrão, em que repete quatro vezes o nome da rival.
Implora para que não coloque em prática seu desejo (sua
arma e potência, que arrasta com sua autossuficiência um
eu-lírico vulnerável), “ apenas porque ela pode”.
Em nenhum momento, o ser amado tem seus atributos
descritos ou valorizados, mas apenas os da mediadora,
numa bela sequência de versos. Ao descrever seus cabelos
como “fios flamejantes cacheados”, mostra a intensidade
de seu desejo que arde, com a chama violenta da
rivalidade de uma mediação interna (mímesis conflitual),
ao afirmar que não pode com ela competir. Percebe-se,
assim, na penumbra, a mudança de perspectiva do
modelo amado para obstáculo detestado. Seu desejo é
apenas o duplo de um outro: “Minha felicidade depende
de você/ E de qualquer coisa que decida fazer, Jolene”.
18
Jolene e a verdade romanesca do desejo
"O indivíduo torna-se veículo de um significado
que lhe escapa."
“O individualismo é uma mentira formidável.”
irard, inclassificável pela interdisciplinaridade, Imortal da
Academia Francesa de Letras, em sua obra prima Mentira
Romântica e Verdade Romanesca aponta a centralidade
do caráter gregário e da dimensão de alteridade do desejo. Ao
demonstrar que a imitação disfarça a liberdade na eleição dos
objetos de interesse, elucida fenômenos como a moda, o
marketing, o consumo, as eleições políticas, os comportamentos,
o pensamento e a cultura.
A verdade é romanesca por ser grotesca e desagradável, ao
contrário da visão romântica, idealista e solipsista (Freud e
Descartes). O desejo é uma relação, dessa forma, sempre
imitativo, porque a confirmação de que se está perseguindo o
objeto certo é a percepção de que seu oponente está buscando
a mesma coisa. Um aponta o objeto para o outro, percebendo
que promoveu a eleição certa, com base na intensidade do
desejo do outro. Sua matriz está na cópia e imitação de um
paradigma que autoriza. Aristóteles, em sua Poética, ratifica: “O
homem se diferencia de outras formas de vida por usar a
capacidade de imitação”.
A teoria mimética revela, assim, o colapso da visão do eu
autônomo, afirmando, ao contrário, uma estrutura de existência
lábil, instável e mutante. Joga luzes no lado escuro e
evanescente do desejo, reagindo à sua celebração romântica ou
liberal.
Dolly Parthon, em um folk contido do início dos anos 70, na
versão original da canção popular Jolene, ilustra com didatismo
as engrenagens da estrutura triangular do desejo (sujeito,
modelo/mediador e objeto) e seu caráter romanesco. A fórmula
básica do desejo
não pode ser
compreendida
como A deseja B,
mas sim, A
deseja B porque
C direcionou sua
atenção para ele.
O eu lírico
(sujeito)
encontra-se,
totalmente,
passivo e
subjugado por
Jolene
(modelo/mediad
ora), Sol ao redor
do qual um astro
menor orbita. Ao
ansiar absorver e
assimilar o
mediador, busca
fundir-se a outra
para vencer uma
repugnância de
si.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Já o eu lírico da canção Desire de Alela Diane, alquebrado
pelos deveres e responsabilidades normais da vida
cotidiana, observa uma não tão jovem personagem. Leve
em seus descaminhos, procurando resposta a uma “coceira
existencial”, avidez sem forma, nos desejos de um grupo
de referência (“clã sombrio”/“Ela se parece como se em
1995”).
O videoclipe da canção é interpretado pela própria
compositora e cantora, que representa tanto o eu lírico
observador quanto a personagem principal. Naquele
papel, canta sem maquiagem, de cara limpa, de cima de
um prédio, demonstrando distância e sobriedade. Já neste,
vaga sem rumo feito uma cigana ébria, deslizando entre
cidades e noitadas, com maquiagem pesada, salto alto e
cabelos desgrenhados.
O refrão simples e marcante da canção, soletra a palavra
desejo, como se fosse um outdoor com luz neon piscando
em qualquer capital, com seus objetos de consumo a
serem definidos, posteriormente, com produtos
massificados. Além disso, pergunta ao ouvinte se ele está
percebendo o mesmo chamado misterioso que a
personagem. A verdade é que nem mesmo ela consegue
ouvir com nitidez, pois esse desejo varia conforme as
modas e caprichos do momento (“Ooh, ela está
procurando por algo/ Está girando e circulando”). Tem seus
contornos definidos quando validados pelo tecido social
mimético de seu grupo de referência (mediador): “Ela está
perdida, perdida, perdida”.
Vislumbra-se aqui, portanto, da mesma forma que na
canção anterior, o desejo não como fruto de uma
individualidade (mentira romântica), mas como forma de
alienação (verdade romanesca). A teoria mimética, por
consequência, contraria o mainstream da Psicanálise
Cultural, com conceitos de autoestima e narcisismo,
trazendo à tona neologismos miméticos como
“heteroestima” e “interindividualidade”.
19
Eduardo Villar é advogado, formado
pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro e pela Escola de
Magistratura. Escreve sobre teoria
mimética e cultura.
Em suma, em termos girardianos, pode-se dizer: “Nem
sequer sabemos qual é o nosso desejo. Pedimos a outras
pessoas que nos digam. Gostaríamos que viessem do nosso
eu mais profundo, das nossas profundezas pessoais, mas se
viessem não seriam desejos. O desejo é sempre por algo do
qual sentimos falta”. Em termos teológicos, Santo
Agostinho, por sua vez, sintetiza em suas Confissões:
“Nossos corações estão inquietos, até que descansem em
Vós”.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Dom Marcos Barbosa e sua poesia
C
cionado entre mais de 200 inscrições em todo o mundo e
foi traduzido para inglês, francês, espanhol e alemão. Esse
sucesso incentivou Dom Marcos a publicar sua poesia. Em
1961 apareceu a primeira edição de sua coleção de
poemas Poemas do Reino de Deus. A segunda e o terceira
edições vieram em 1980, sendo que a terceira edição,
publicada pela Livraria José Olímpico do Rio de Janeiro,
coleciona a sua obra poética até 1980. Dois outros volumes
de versos de Dom Marcos apareceram posteriormente:
Nossos Amigos os Santos é uma meditação, em verso e
em prosa, sobre vários santos da Igreja Católica.
Congonhas, que apareceu em edição limitada em 1986, é
um volume de fotografias de Hugo Leal acompanhadas
por poesia de Dom Marcos que celebra a grande
realização artística do escultor do século XVIII, o arquiteto
e escravo liberto Aleijadinho.
Para finalizar esse pequeno resumo da vida e obra de Dom
Marcos devo adicionar a tristeza que sinto ao notar a
ausência completa de exemplares de sua obra disponíveis
no Brasil. Com exceção de sua obra de tradução no
Pequeno Príncipe, não há livro algum de sua autoria
disponível no mercado. Aqui fica a minha esperança que
isso seja remediado brevemente.
20
resci na nossa casa grande no Cosme Velho ouvindo a
poesia de Dom Marcos Barbosa. Mamãe lia o Cântico de
Núpcias quando a ocasião pedia, daquele jeito dela
maravilhoso de recitar a poesia no qual as palavras do monge
amigo nos pareciam tão vivas. No Natal sempre ouvíamos seus
versos de Dom Marcos sobre a Árvore de Natal, e o soneto
famoso A Flor do Tanque era recitado em qualquer tempo do
ano. Ainda pequena eu imaginava aquela flor no claustro, a
“branca Ofélia”... e assim, antes de conhecer Shakespeare, ou de
saber os pormenores da vida religiosa do claustro, minha mente
se expandia com a beleza das palavras do
monge poeta.
Quando me vi nos Estados Unidos fazendo
mestrado, foram minhas traduções-de-
cabeceira dos Poemas do Reino de Deus
para meu marido que me deram a idea de
estudar a poesia de Dom Marcos aqui na
terra natal de meu marido. Escrevi para ele,
que era amicíssimo de papai e mamãe, e
que tinha me batizado, como a muitos de
meus dez irmãos. Ele concordou e me
ajudou durante o processo da minha tese
de mestrado e por isso sou eternamente
grata. Foi assim que eu estudei melhor e
apreciei o valor de Dom Marcos e de sua
poesia.
Dom Marcos Barbosa OSB, poeta, tradutor,
dramaturgo e acadêmico, nasceu Lauro de
Araújo Barbosa em 12 de setembro de 1915,
na cidade de Cristina, no sul do estado de
Minas Gerais. Depois de completar ensino
médio em Itajubá, mudou-se para o Rio de
Janeiro em 1934 para estudar Direito na
Faculdade Nacional de Direito. Durante a
faculdade, participou da Ação Universitária
Católica e do Centro Dom Vital, dois dos
vários movimentos sociais e intelectuais
católicos no Brasil durante as décadas de
1930 e 1940. No Centro Dom Vital, Dom
poética baseada em traduções dos
Salmos feitas a partir do hebraico original
pelo jesuíta Ernesto Vogt S.J., usada hoje
me vários mosteiros do Brasil. Os elogios
da crítica foram abundantes: "Numerosas
são as traduções dos Salmos em nossa
língua. A versão [de Dom Marcos], porém,
é a única que preserva nesses poemas
antigos seu caráter de hinos, apropriado
para ser lido em voz alta em cadência ou
cantado em coro, obedecendo à
acentuação rítmica das sílabas, que lhes
dá beleza especial.”
Apesar da grande aclamação da crítica
ao seu trabalho, o carioca comum por
várias décadas do século XX conhecia
Dom Marcos não pelas suas traduções e
peças teatrais, mas pelas suas crônicas
publicadas no Jornal do Brasil. Além
disso, era conhecido pela transmissão do
programa radiofônico Encontro Marcado
que ia ao ar duas vezes por dia na Rádio
Jornal do Brasil, de 1959 até 1993.
O poeta Dom Marcos teve ampla
exposição pela primeira vez em 1955,
quando se realizou a XXXVI Congresso
Eucarístico Internacional no Rio de
Janeiro. A letra que Dom Marcos enviou
para o Hino oficial do Congresso foi sele-
Thomas Merton sugeriu que Dom Marcos teve "algo da
inspiração vinha das grandes abadias beneditinas inglesas da
Idade Média, a idade de ouro das peças milagrosas". Dom
Marcos foi comparado com Gil Vicente, Calderón de la Barca e
Anchieta.
Como tradutor, Dom Marcos trouxe ao Brasil diversas obras e
autores significativos da literatura francesa como Paul Claudel,
François Mauriac, e o livro famosíssimo de Saint-Exupéry, O
Pequeno Príncipe. Num trabalho de tradução de sucesso
singular, Dom Marcos forneceu uma interpretação literária e
Vital, Dom Marcos conheceu Alceu Amoroso Lima (sob o
pseudônimo de Tristão de Athayde), o grande ativista,
ensaísta e crítico social católico, tornando-se seu
secretário particular.
Nesse período, Dom Marcos foi editor da revista A Ordem,
órgão principal do Centro Dom Vital. Ao concluir o curso
de Direito, começou a cursar licenciatura em Artes
Liberais. Em 1940 ele interrompeu seus estudos para
ingressar no Mosteiro de São Bento do Rio. Dom Marcos foi
ordenado sacerdote em 1946. Voltou a escrever e, em 1947,
apareceu seu primeiro livro, Teatro, uma coleção de peças
curtas (autos) com temática religiosa. O livro recebeu
ampla aclamação da crítica e performances populares em
todo Brasil. Teatro foi responsável por reviver a arte
adormecida de teatro litúrgico no Brasil.
Ao todo, Dom Marcos publicou cinco volumes de autos.
Antônio Carlos Villaça observou: "Através do seu teatro
litúrgico [Dom Marcos] consegue cumprir a missão mais
delicada: levar a Liturgia ao povo, numa linguagem
atrativa e moderna.... [Sua linguagem não é] uma língua
estranha, fechada, distante do homem simples. [Sua a
linguagem universal da Igreja, a linguagem dos Salmos…. "
Em carta a Dom Marcos, o escritor norte-americano
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
21
A poesia de D. Marcos
A poesia de Dom Marcos abrange os complexos temas de amor,
morte, mistério e casamento com mensagens simples e diretas,
mesmo que líricas. Dom Marcos não refinava a inspiração
original, era um poeta de ocasião. Seus poemas não se
desenvolveram durante um longo período de tempo, mas eram
sua experiência religiosa transformada em verso.
De ocasião ou não, os poemas de Dom Marcos possuem uma
qualidade única de música. Ele era um poeta lírico, seja
trabalhando como tradutor ou como escritor. Isso é um ponto
comum entre todos os críticos à sua obra. Antônio Carlos Villaça,
no prefácio da edição de 1985 de Nossos Amigos, Os Santos,
escreveu: "Dom Marcos é antes e acima de tudo, um poeta. Sim,
o cronista, o dramaturgo, o tradutor, o pregador, tudo nele está
unido ao puro poeta lírico e está impregnado de real poesia, isto
é, a emoção unida à tranquilidade."
O que torna sua poesia tão única é sua capacidade de falar
sobre os mistérios mais intrínsecos da fé em linguagem acessível
a todos. Seus poemas não são produtos de uma busca exaustiva
pela expressão perfeita. Dom Marcos fala simples e diretamente.
Cântico de Núpcias, muito conhecido no Brasil, originou-se
numa homilia para uma celebração de casamento. Este trecho
mostra a clareza e lirismo da linguagem de Dom Marcos:
Será nossa leitura à luz da mesma lâmpada,
aqueceremos as mãos ao mesmo fogo
e veremos em silêncio desabrochar no jardim
a primeira rosa da Primavera.
Iremos depois nos descobrindo nos filhos que crescem,
e não mais saberemos distinguir em cada um
os meus traços e os teus,
o meu e o teu gesto,
e então nos tornaremos parecidos.
E nem o mundo nem a guerra nem a morte,
nada mais poderá separar-nos,
pois seremos mais que nunca,
em cada filho,
uma só carne
e um só coração.
A beleza de sua poesia não está no exagerado simbolismo, nem
na intensidade semântica, mas na música, no ritmo e nos sons
harmônicos, quase ondulantes, das palavras que ele escolhe.
Estes não são poemas sobrecarregados; eles são poemas feitos
num único rascunho. O valor, a beleza da poesia de Dom Marcos
reside justamente na sua leveza:
Bem debaixo, Senhor, da tua asa,
coloca a nossa casa.
Nossa mesa abençoa, e o leito, e o linho,
guarda o nosso caminho.
Brote, em torno, o jardim, frutos e flores,
em nossa boca, louvores.
Conserva pura a fonte de cristal,
longe o pecado e o mal.
Repele o incêndio, a peste, a inundação,
reine a paz e a união.
Bem haja na janela o azul do dia,
na parede, Maria.
Encontre a noite quieta a luz acesa,
quente sopa na mesa.
Batam à porta o pobre e o viajor,
e tu mesmo, Senhor.
Tranquilo seja o sono sob a cruz
que a outro sol conduz.
Este poema, intitulado Oração da Família, exemplifica temas
frequentemente presentes na poesia de Dom Marcos: imagens
de jardim, fonte, cristal, a tranquilidade. O leitor nunca tem a
impressão de estar em contato com um poema elaborado, mas
sim com os momentos puros e espontâneos de uma alma
humana. Dom Marcos alcança, em seus versos descomplicados,
resultados pelos quais muitos se esforçariam em vão.
A poesia de Dom Marcos não tem caráter social ou intenção
política, assim como a maioria das expressões de arte no meio
cultural do Brasil do século XX. Ele faz a Palavra de Deus
acessível às pessoas; ele é popular no sentido mais verdadeiro,
alcançando todas as classes sociais com suas palavras, através
de sua poesia, seu programa diário de rádio. Ele não faz isso com
uma abordagem ideológica, mas porque ele é padre por opção
e poeta por acidente. Explicando a origem de seus poemas em
Poemas do Reino de Deus, Dom Marcos observa que sua obra
poética vem de sua entrega ao serviço de Deus e é este serviço,
diz ele, que ele escolhe, em vez do serviço de literatura.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
22
A poesia de Dom Marcos reside em outro nível, um mais alto
daquele de seus contemporâneos Portinari, Di Cavalcanti,
Clarice Lispector, Hector Babenco. Embora viveu separado, num
mosteiro no coração do Rio, seus temas raramente tocam a
realidade social deste mundo como eventos políticos fatos
históricos. Os aspectos mundanos da sociedade moderna não
desempenham papel algum em seus versos. Pelo contrário,
Dom Marcos explora como esse mundo efêmero faz parte do
mundo eterno. Um de seus versos mais populares reflete a
simplicidade do quotidiano que ele usa para nos trazer sempre
para cima: Varredor que varres a rua, / tu varres o Reino de
Deus.
O próprio Dom Marcos oferece uma justificativa para seus temas
da vida quotidiana, que ele trouxe tão belamente na imagem do
varredor de ruas: "Não é com todos esses que se constrói o Reino
de Deus: mortes, casamentos, aniversários, noivados, e uma flor
que se abre no claustro?" E natureza também, como neste
aclamado poema, talvez sua obra-prima:
Vós, que amais a natureza,
é preciso vir para vê-la,
recém-brotada das águas,
como no céu uma estrela!
Ontem mesmo nada havia,
dissimulado botão;
ergue agora no cristal
a sua branca ascensão.
Nasce no jardim do claustro,
não na terra, mas no tanque;
vai vendo abrirem-se as outras
de um aquático palanque.
E tem gestos de oriente
a coroa estilizada,
pondo brancas sombras de anjos
na superfície irisada.
Vide vê-la! Oh, não podeis:
pois foi nascer na clausura
e já bóia, branca Ofélia,
nas águas da sepultura.
Tão depressa brota o poema
de efêmera duração;
mal risca de leve a vida
o anseio do coração...
Este poema, intitulado A Flor do Tanque, é uma destilação de
todos os seus temas, imagens e linguagem. A própria vida
monástica é a causa para o poema, a ocasião para seus
pensamentos melancólicos que são a essência do poema. O
autor usa metáforas para refletir a beleza que há em sua vida,
isso fica claro quando ele afirma: você, que ama a natureza, não
pode vir vê-la, a flor nasceu no claustro, cuja entrada é proibida
para o mundo lá fora. E a flor, efêmera, branca Ofélia, só existe
nos olhos de Dom Marcos. Somente seus versos a trazem ao
mundo exterior.
Dom Marcos escolhe imagens que estejam de acordo com a
natureza frágil daquilo que ele quer expressar. Em “A Flor do
Tanque”, ele usa a imagem de uma frágil flor branca de vida
curta para simbolizar essa fragilidade. A senso de transição e
efemeridade também estão presentes: uma flor que
brevemente desabrocha, o nascimento do poema, e os anseios
do coração--unidos na transitoriedade. Esse sentido não é
retratado negativamente. O aspecto transitório da natureza e da
nossa experiência dela são vistas como lições dolorosas, mas
catárticas, anunciando a vida eterna. Dom Marcos transcende o
acontecimento mundano de um lírio já se decompondo no
tanque do claustro para nos dar uma meditação com profundo
lirismo, beleza, tristeza, amor.
Dom Marcos recebeu vários prêmios literários e foi eleito
membro da Academia Brasileira de Letras em 1980. Mas ele é
"antes e acima de tudo um poeta", diz Antonio Carlos Villaça
quando Nossos Amigos, Os Santos, um livro de sonetos, foi
publicado em 1985. Ele continua: "Sim, o cronista, o teatrólogo, o
tradutor, o pregador ou sermonista, tudo nele se vincula ao puro
poeta lírico e está impregnado de verdadeira poesia, isto é, a
emoção unida à tranquilidade."
Meu trabalho de mestrado na University of Texas foi o de
traduzir muitos dos poemas de Dom Marcos Barbosa para o
inglês e comentar sobre o processo de tradução. Espero ter
ainda a chance de escrever sobre esse trabalho nas páginas de
Scena Critica.
D. Marcos Barbosa, sentado à direita, na Academia Brasileira de Letras, ao lado de
Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Austregésilo de Athayde e outros imortais
Ana Braga-Henebry, M.A., cresceu
no Rio e fez mestrado nos EUA
onde conheceu seu marido e criou
sete filhos. Escreve para vários
periódicos sobre literatura, vida
católica e homeschooling. É autora
de uma biografia para crianças
sobre o geneticista Venerável
Jerome Lejeune, a ser publicada
pela Word On Fire em maio de
2024.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
A partir da leitura de alguns gêneros, de modo especial do
cinema norte-americano, Deleuze intuirá determinadas leis que
regem a imagem-ação. A primeira delas se refere à imagem-ação
como representação orgânica no conjunto da cena.[2]
A imagem-ação é estrutural, levando em conta a situação e o
meio que a envolve. Pois, ela ao mesmo tempo que se afirma pela
personagem, afirma-se também através do espaço social e
geográfico. Ela envolve várias potências simultaneamente, que
efetivam propriamente a ação.
Ela promove, a partir da perspectiva do tempo, a alternância
entre os momentos de contração e dilatação, como se preparasse
uma grande respiração entre os momentos de maior êxtase e
relaxamento, promovendo a chamada montagem alternada, que
comporta figuras convergentes ou concorrentes.
A segunda lei da imagem-ação diz respeito à passagem da
situação a situação transformada que se dá por intermédio da
ação. O synsigno se contrai em um duelo no qual as potências,
que ele atualiza, se distribuem de outro modo.
A terceira lei, parece ser o contrário da segunda. Deleuze a
batizou de lei de Bazin, fazendo referência ao cítico francês, de
Cahiers du Cinemá, André Bazin.[3] No sentido em que o crítico
afirmava que se duas ações independentes confluem para
produzir um mesmo efeito, acaba-se por gerar um momento em
que não é mais possível distingui-los, pois encontram-se em uma
“simultaneidade irredutível”.[4]
Deleuze via na imagem-ação, uma inspiração para um cinema
que privilegia o comportamento, na medida em que o
comportamento é uma ação que inspira a transformação, ou seja,
a passagem de uma situação à outra.[5] Assim como Merlau Ponty
via nesta dinâmica da situação um elemento de intercessão
relativo ao romance moderno, à psicologia e ao cinema.[6]
Há ainda na imagem-ação, um aspecto que parece subversivo ao
que se conceituou inicialmente. Se primariamente, se atém à
fórmula semiótica de Pierce, ou seja, da situação à ação (SAS’),
pode-se trilhar o caminho contrário, evidentemente, da ação à
situação, rumo a uma nova situação. A ação que desvela a
situação, no sentido em que o avançar da ação, se dá de modo
velado, revelando a situação de modo ambíguo.[7]
No último capítulo de Cinema – a imagem-movimento, Deleuze
irá debruçar-se sobre a crise da imagem-ação, que consiste em
tratar do conceito peirciano de terceiridade, que se refere ao
“mental”, conceito que se dá sempre em referência a outros, ou
seja, um terceiro que remete-se a um segundo termo, por
intermédio de um ou mais termos.[8]
A terceiridade não se apresenta como uma novidade para o
cinema, bem compreendido, no sentido, de que não há uma
adição artificial deste conceito, ou seja, o conceito peirciano vem
classificar algo que já estava presentificado, desde os primórdios
do cinema moderno.
O cinema sempre comportou dentro de sua estrutura narrativa
“extra e infra-ações”, que não poderia estar ausentes da
montagem, sem desfigurar o filme, mas pelo contrário a vocação
do cinema para a mudança sempre inspirou os autores a desejar
limitar a unidade da ação.[9]
[1] OLIVEIRA, Leonardo. Filosofia e cinema em Deleuze: Da imagem-movimento às condições de sua superação.
Pandora Brasil, p. 1-13, setembro, 2011.; [2] DRIGO, Maria. Imagem cinematográfica e pensamento: a imagem-
percepção na confluência das teorias de Deleuze e Pierce. E-compos, 19, p. 1-18, 2016; [3] “[…] A imagem-ação, ou
representação orgânica tem dois polos, ou melhor, dois signos, um que remete sobretudo ao orgânico e o outro
ao ativo ou ao funcional. Chamamos o primeiro synsign, conformando-nos parcialmente a Peirce: o synsigno é
um conjunto de qualidades-potências enquanto atualizadas num meio, num estado de coisas ou num espaço-
tempo determinados.” (DELEUZE, Gilles, 2018, p. 221); [4] This sort of image is the most prevalent structure of
cinematic works in most places of the world due to its narrative nature. If the realm of affection-image is
idealism, the realm of action-image would be realism. Action-image is divided into large form and small form
with composition signs and separated genesis. Actionimage is the activity domain of quality and power […]
(FASAYI, Golnaz; AKRAMI, Musa. Gilles Deleuze: Beyond Peirce’s Semiotics.. Journal of Philosophical
Investigations, 11, p. 16-36, 2012.); [5] DELEUZE, Gilles. A imagem movimento. São Paulo: Editora 34, 2018, p. 221;
[6] “O meio atualiza sempre várias qualidades e potências. Nelas ele opera uma síntese global, ele próprio é
ambiência ou o englobante, enquanto as qualidades e as potências tornam-se forças no meio. O meio e suas
forças se encurvam, agem sobre a personagem, lançam-lhe um desafio e constituem uma situação na ela é
apanhada.”(Ibid., p. 219-220); [7] Ibid., p. 220; [8] Ibid., p. 233; [9] BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo:
Editora Brasiliense, p. 15; [4] DELEUZE, Gilles, op, cit., p. 235; Ibid.,p. 238; [10] MERLEAU-PONTY, Maurice. O
cinema e a nova psicologia. São Paulo: Ed. Graal, 1983, p. 108; [11] DELEUZE, Gilles. op. cit., p. 245 [12] Ibid., p.
293; [13] Ibid., p. 305
CADERNO
CINEMA
23
Ação na imagem
o tratar das variedades da imagem-movimento,
Deleuze irá conceituar a “imagem-ação”, que encontra
uma relação íntima com a percepção, na medida em
que se compreende identificação entre o movimento executado
e percebido.[1]
A imagem-ação é um correspondente da filosofia semiótica de
Pierce, mais especificamente um correspondente ao “synsigno”,
o englobante. Pierce aplica sua classificação dos signos, de
acordo com a sua relação com os fenômenos, desse modo
obtém-se as relações de: primeiridade, que diz respeito aquilo
que ainda não encontra referência, o quali-signo; a segunda
seria referida à imagem-ação, pois está em relação ao fenômeno
a secundidade, o synsigno, que o é por causa de outro, ou seja,
que o é por conta de uma interação, de uma ação.[2][3]
A secundidade, ou seja, a imagem-ação é o tipo prevalente da
imagem-movimento, no modo universal de fazer cinema;
contudo, reside no cinema norte-americano uma maior
prevalência desta opção semi-ótica, justamente por sua
identificação com um certo realismo, que naturalmente
relaciona-se melhor com a ação e seus efeitos, derivado do estilo
clássico de narrativa.[4]
DE
A
Com especialização em roteiro pela
Escola de Cinema Darcy Ribeiro,
Filipe Machado é bacharel em
filosofia pela PUC-Rio e licenciado
em História. Atualmente suas
pesquisas estão centradas nos
autores que compuseram a cena
intelectual católica do século XX
com especial ênfase em Gustavo
Corção.
Abril-junho 2024 | Scena Crítica
Na imagem-ação reside um fator diferencial, que é uma certa
identificação com o realismo, já que as pulsões e os afetos
aparecem sob a forma da expressão de emoções e sentimentos.
[5] Não é uma exclusividade do realismo, como ressalta Deleuze,
pois já encontrava espaço em outros movimentos precedentes,
como o expressionismo alemão, contudo, irá encontrar seu
cume, de modo especial, no realismo e em seus
desdobramentos, como o neorrealismo italiano.
No caso do expressionismo, as pulsões aparecem expressas não
tanto na misancene, mas no espaço social e geográfico, através
do jogo de sombras que é tão característico do movimento. Um
exemplo claro está na filmografia do alemão Fritz Lang,
especialmente em Metrópole, de 1920, onde o sombreamento
dá significado a expressão de um sentimento que é transmitido
a partir de uma ambientação social, que reverbera no espaço
físico. [6]
Há na imagem-ação, um movimento duplo de contração e
dilatação, entre o meio e o personagem. O meio exerce sua ação
sobre a personagem, de modo a constituir uma ação que a
envolva, esta por sua vez responde com uma reação ao meio, de
modo a moldar-se ou modificar o meio. Daí advém a
decorrência de uma modificação ou restauração de uma
situação. Cria-se, então, um par, entre a ação modificada e a
personagem, que a tornam correlatos e antagônicos, este é o
conjunto que caracteriza a imagem-ação. [1]
A partir da leitura de alguns gêneros, de modo especial do
cinema norte-americano, Deleuze intuirá determinadas leis que
regem a imagem-ação. A primeira delas se refere à imagem-
ação como representação orgânica no conjunto da cena.[2]
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  • 1. SCENA ABRIL-JUNHO 2024 Nº 04 ANO 2 C R Í T I C A "Nous aimons la verité, nous aimons Dieu, nous aimons tous les hommes." - Jacques Maritain F I L O S O F I A | L I T E R A T U R A | A R T E S | C U L T U R A Héctor Rondón Llovera
  • 2. Editorial Com alegria apresentamos nossa 4ª edição de Scena Crítica, a 1ª de seu Ano 2, com a convicção de que prosseguimos apresentando um material que goza de qualidade editorial e mais importante, mantendo-nos coerentes com nossa linha editorial. Na ocasião dos 60 anos dos acontecimentos de 1964 que marcaram profundamente o Brasil, apresentamos uma carta de Alceu Amoroso Lima à sua filha Madre Maria Tereza na ocasião dos acontecimentos de 31 de março. Esta correspondência íntima nos ajuda a compreender melhor o posicionamento e o diagnóstico de nosso patrono sobre a conjuntura daquele ano que ainda não encontrou o seu ocaso na vida nacional. Com alegria divulgamos os novos textos selecionados para nossa praça literária que, felizmente, tem sido bastante concorrida. Alegramo-nos com os novos colaboradores e prosseguimos incentivando o envio de novos artigos para as próximas edições. Procuramos ao máximo da continuidade a nossas colunas já costumeiras e também recebemos novas colaborações que esperamos se tornem cada vez mais frequentes. Colaborações de amigos e, especialmente, de ilustres apreciadores dos textos de nossa jovem empreitada editorial que mui generosamente conosco trabalham. Nas incertezas e vicissitudes deste ano de 2024 que já se apresenta tão turbulento na sucessão de seus eventos, alegramo-nos em poder lançar esta nova edição neste período pascal, tendo no horizonte nossa única e fundamental certeza: a fé e esperança no testemunho do Ressuscitado que nos inspira e move. Filipe F. Machado Editor Scena Crítica é uma publicação trimestral, sem fins lucrativos scenacritica@gmail.com scenacritica.com instagram.com/scenacritica Editor Filipe Machado Colaboradores desta edição Ana Braga-Henebry André Marcelo Soares Bárbara Bedôr Barbara Lima Eduardo Silva Eduardo Villar Giselle Nogueira Júlia Rocha Lívia Foresto Lizédar Baptista Magali Guimarães Ir. Martina Braga Tiago Cavalcante Ybeane Moreira Scena Crítica Filosofia, literatura, artes, cultura Abril-junho 2024 | Scena Crítica 2 SCENA S
  • 3. Há um ano Há um ano surgia a revista Scena Crítica. O editorial daquela primeira edição falava de um projeto para promover “um espaço para a reunião de ideias que pareciam diversas, mas que, no entanto, encontravam-se motivadas por uma intuição comum.” As três edições do ano 1 procuraram primar por esse plano de ação. E, conferindo o conteúdo e os nomes já que passaram nessas páginas, parece que até aqui obteve-se êxito. Esta primeira edição do ano 2 prossegue na mesma linha, trazendo nomes já conhecidos destas páginas, mas também novos nomes que agregam ricamente ao espaço que a revista propõe abrir. Logo de início destacamos a presença de dois nomes que marcaram a literatura no séc. XX e cujo legado é gigantesco para o nosso hoje: G.K. Chesterton, trazido pela Ir. Martina Braga OSB em seu artigo Corção, Chesterton e o common sense; e D. Marcos Barbosa, o monge poeta e imortal da Academia Brasileira de Letras, cuja obra é trazida aos nosso dias por Ana Braga-Henebry em seu texto D. Marcos Barbosa e sua poesia. Ainda no campo da literatura, Eduardo Silva, com suas Crônicas de um tempo peculiar, traz a experiência com a leitura da obra de Jon Fosse, ganhador do prêmio Nobel de literatura de 2023. Fosse, aliás, retorna na coluna Livro Aberto, onde Gisele Nogueira apresenta com maestria o livro Brancura, publicado semestre passado no Brasil. Cumprindo sua proposta de trazer ao presente textos passados de valor atemporal, a coluna Vox Patroni, fazen- do memória dos 60 anos do golpe militar de 1964, traz a carta de Alceu Amoroso Lima a sua filha, onde, como testemunha ocular daquele 31 de março, comenta a situação que então se instaurara no país. No tópico filosofia, esta edição traz o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard, no texto O que resta ao homem? Ensaio moral sobre a angústia, de Filipe Machado. Também Santo Agostinho, em diálogo com a ciência moderna, é convocado no artigo de Tiago Cavalcante, A eternidade em Santo Agostinho e o espaço-tempo da Física Moderna. O diálogo entre filosofia e música, a partir da teroria mimética do francês René Girard, é apresentado por Eduardo Villar no texto Você consegue ouvi-lo chamando? Jolene e a verdade romanesca do desejo. Ainda vivendo as alegrias pascais, que se estendem até a Solenidade de Pentecostes, Bárbara Bedôr convida a uma profunda meditação sobre A jornada da Páscoa. Júlia Rocha, por sua vez, evocando de Alceu Valença a São Paulo, vê a o tempo pascal na ótica do Recomeçar. Filipe Machado retorna no Caderno de Cinema, com a ação na imagem, guiado por Giles Deleuze. André Marcelo retoma o tema Bioética e o processo de secularização. Nossa praça de divulgação literária, a Ágora, cada dia mais concorrida, traz quatro nomes promissores: na poesia, Ybeane Campos Moreira, Magali Guimarães e Lizédar Baptista; na prosa, Lívia Foresto. Boa leitura! I T I N E R Á R I O I T I N E R Á R I O 3 Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 4. Í N D I C E Crônicas de um tempo peculiar, pág. 6 Um Nobel Recomeçar, pág. 24 D. Marcos Barbosa e sua poesia, pág. 20 Ágora, pág. 16 Praça de divulgação literária Vox patroni, pág. 7 31 de março de 1964 Você consegue ouvi-lo chamando?, pág. 18 Jolene e a verdade romanesca do desejo A jornada da Páscoa, pág. 25 In Scena, pág. 28 O que resta ao homem?, pág. 9 Ensaio moral sobre a angústia Livro aberto, pág. 15 Brancura Caderno de cinema, pág. 23 Ação na imagem A eternidade em Santo Agostinho e o espaço- tempo da Física Moderna, pág. 26 Bioética e o processo de secularização, pág. 27 Corção, Chesterton e o common sense, pág. 10
  • 5. "[...] Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos." G U S T A V O C O R Ç Ã O
  • 6. ez ou outra os amigos ouvem minha queixa de que não encontro autores vivos para ler. Talvez seja mais uma das minhas hipérboles retóricas, como gosta de dizer certo conhecido, mas basta entrar numa livraria e perceber como é necessário estômago para enfrentar a literatura de gosto no mínimo duvidoso que se produz em nossos dias. E ainda assim, por mais que goste muito dos meus autores defuntos, sinto falta de me entusiasmar com a literatura de alguém que ainda caminhe nesta terra de vivos. E parece que 2024 quis logo no início me dar esse presente. Um dia desses, caminhando ao largo pelo centro da metrópole carioca, depois de ter visitado o circuito de sebos já muito meu conhecido, decidi entrar numa das poucas livrarias que ainda não sucumbiram à crise do setor. Lançando meu costumeiro olhar de descrédito para a bancada de novidades disposta logo na entrada, eis que o anjo da literatura se me iluminou a mente. Lembrei-me de um autor – vivo! – que havia chamado minha atenção e parecia merecer que eu transpusesse a necrópole dos escritores para espiar os literatos que ainda estão debaixo do sol. Confesso que o que primeiro me chamou atenção no norueguês Jon Fosse não foi tanto o Nobel de literatura com que foi laureado em dezembro passado, mas o epíteto que lhe deram as agências de notícia: o de que é um “escritor católico”. Acho que, ao menos no Brasil, essa expressão já não aparece desde que morreu Alceu Amoroso Lima em 1983, nosso maior representante desse espécime raro. O fato é que isso me aguçou a curiosidade acerca de Jon Fosse. Claro que não sou ingênuo, e não creio que o simples fato de ser católico torne alguém um escritor excelente; há pagãos de escrita primorosa e católi- CRÔNICAS DE UM TEMPO PECULIAR Um Nobel Eduardo Silva, graduado em História pela UFRRJ e em Filosofia pela PUC-Rio, encaminha os estudos também para a literatura e a teologia, sempre a partir de um diálogo entre o pensamento tomista e as diversas correntes contemporâneas. 6 V cos de literatura medíocre. Mas Fosse conseguiu congregar os dois de maneira no mínimo satisfatória. Ao conceder ao escritor de 64 anos a mais alta premiação literária, a Academia Sueca indicou que suas obras “dão voz ao indizível.” Foi essa a referência que me fez recordar naquela tarde, na livraria no centro do Rio, o nome de Fosse. Sua obra já vem traduzida aqui e ali no Brasil por alguns tradutores heroicos que empreendem a tarefa hercúlea de traduzir do norueguês, e mais ainda, de um dialeto menos usual utilizado por Fosse que tem fortes raízes no antigo nórdico. Na livraria tinha apenas uma das três obras traduzidas até agora. E era justamente a obra mais recente do escritor, publicada por ele no ano passado. Chama-se Brancura. A obra é curta, apenas 60 páginas. Lê-se de um fôlego e, aliás, o romance não é senão um fôlego de pensamento da personagem. Um homem sai a dirigir sem rumo, até que se vê preso com o carro numa estreita estrada numa floresta escura. Já aqui percebe-se a referência dantesca de quem, “no meio do caminho da vida, tendo perdido o rumo verdadeiro”, se vê “em selva escura.” Porém, ao invés de encontrar, como Dante na Divina Comédia, o leopardo, a loba e o leão, o protagonista se vê num encontro consigo e seu fluxo de pensamento que faz toda a narrativa do livro. E é nesse fluxo que encontra a silhueta branca, definida pela personagem como “A brancura”. Lido o breve romance em dois dias, no terceiro não tive outra opção. Entusiasmado com a pérola encontrada, fui a outra livraria buscar mais uma ostra fossiana. Dessa vez me deparo com o romance É a Ales, publicado pela Companhia das Letras no ano passado. Não me decepcionei. Se uma floresta nórdica é o ambiente-personagem de Brancura, É a Ales é ambientado num típico fiorde norueguês. Passado, presente, vivos, mortos, todos encontram ali seu lugar. A centralidade do tempo – com o ontem e o hoje convivendo no cenário – tem um quê de proustiano. Até a madeleine encontra seu lugar, transmutada na touca bege da avó. Se Brancura tem o fluxo de pensamento marcado pela narrativa em primeira pessoa, a narrativa em terceira pessoa de É a Ales nada perde desse fluxo narrativo característico da escrita de Jon Fosse. Essas duas obras são apenas uma pequena ponta do profundo iceberg que é o trabalho literário do escritor norueguês. Sua dramaturgia original é muito celebrada, com peças encenadas em diversos países. Sua obra de maior fôlego, terminada há pouco, é Septologia, romance em sete partes com publicação no Brasil prometida para o próximo ano pela editora Fósforo, a mesma que acaba de editar Brancura e já anunciou a publicação de A casa de barcos. Este ano ainda sairá Trilogia, outra obra de grande aclamação, pela Companhia das Letras. Enfim me rendi a um autor vivo. E pudera. Não só a Academia Sueca, mas até mesmo o Papa se rendeu a Jon Fosse. Em carta enviada a ele por ocasião da recepção do Nobel de Literatura, o Pontífice indicou que a capacidade da obra de Fosse “de evocar a graça, a paz e o amor de Deus Todo-Poderoso no nosso mundo, tantas vezes obscurecido, enriquecerá certamente a vida daqueles que compartilham a peregrinação da fé.” “Escrever é em si uma forma de pedir perdão. Eu penso que sim. E provavelmente é oração também.” Essas são palavras de Fosse numa entrevista recente. Desde que o católico François Mauriac ganhou o Nobel de Literatura em 1952 não se via tanta esperança assim na literatura de inspiração católica. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 7. Vox patroni dando voz aos que nos precederam 31 DE MARÇO DE 1964 Alceu Amoroso Lima 7 Scena Crítica | Abril-junho 2024 D nova era dos golpes e contragolpes, passando a perna no Carlos Lacerda e desapontando todos aqueles que nele viam um dos esteios da legalidade por meios legais. Pois ele, como acontece com todos os golpistas, proclama que a legalidade gera a subversão, quando a legalidade (Jango) ameaça subverter a legalidade. Jogo de palavras bem bolado que já inspirou o golpe do Lott em 1955 (?) quando fez o tal “retorno à legalidade constitucional” (não me lembro bem os termos) através da ilegalidade inconstitucional do golpe de 11 de novembro. O MP está agora na mesma linha. Daí o golpe militar em defesa da “legalidade”, isto é, procurando justificar os meios pelos fins. E a esta hora o inefável cardeal do Rio estará aplaudindo o golpe, como acaba de justificar o uso do “rosário em cerimônias cívicas”… O cúmulo. Entendam-se – cerimônias cívicas que estejam de acordo com suas próprias preferências políticas. No caso: o mais obscurantista reacionarismo. Vemos que esse chefe do Sumaré toma esta ou aquela atitude mas isso não me espanta. [...] Como estamos apenas no início de um movimento subversivo que se compara aos de 31 ou 32, ainda é difícil fazer qualquer prognóstico. De momento, o que há de é que se definem as posições . O Jango, isto é, o Executivo, ainda não deu mesmo o passo inicial nesses, na esfera jurídica, que é, decerto, o “estado de sítio”. Verdade é que o “sítio” deveria ser declarado pelo Congresso e este dificilmente o concederá, pois a maioria está contra o governo federal, já que o PSD, ao que se diz, se juntará à UDN em Minas e possivelmente no Congresso Federal também. Já o JK deitou também manifesto, deixando entrever que está com o golpe de MP e dizendo que a “legalidade está onde estão a ordem e a disciplina”, conceito extremamente elástico de legalidade, pois, de lado a lado, se alega que há ordem e disciplina. Legalidade é o governo legalmente constituído e em exercício. Fora daí são sofismas sobralícios que servem para todas as revoluções. Aliás o Sobral apoiou a Revolução de 31 como provocou a de Lott (55?), com o seu conceito de que a ameaça à legalidade é um motivo justo para o ataque militar ao governo, isto é – o golpe preventivo. Sou totalmente contrário a essa teoria e penso que toda ruptura com a ordem jurídica dominante é uma ilegalidade e portanto não pode ser aceita pelos que se dizem legalistas. Concordo que não devemos ter a superstição do legalismo e que nem toda revolução é ilegítima, segundo a mais clássica teoria tomista (veja meu livro Política quando se ocupa do problema da revolução). Mas acontece que, por motivos não filosóficos ou morais (ou seja: até que ponto é lícita uma revolução e o golpe é uma contra-revolução ou o início de uma revolução completa) – mas, por motivos histórico-sociais e políticos, considero que todo golpe é inconveniente e até contraproducente. Pode ser moralmente lícito e ter motivos políticos certos (o Jango realmente tem feito um péssimo governo e se mostrou tão dúbio e hesitante, ultimamente, que realmente cometeu um suicídio político e terá jogado o Brasil na guerra civil com o apoio da oposição). A esta cabe culpa ainda maior no que está ocorrendo, pois podia perfeitamente ter atraído o Jango ou pelo menos entrando em composição com ele, para que se fizessem as reformas legalmente, pelo Congresso, mesmo que não tão radicais, como ele quer, nem tão sumárias como querem as bases econômicas (latifundiários e ricos em geral), esses dois grandes partidos do centro burguês e liberal, a UDN e o PSD, que ora se juntam (todo o indica), contra as esquerdas, radicalizadas ou não. E no momento, o radicalismo direita-esquerda vai transformar-se em governo e revolução, esta nas mãos da direita. Quer dizer que estamos com um golpe direitista e uma revolução direitista em início, semelhante a que se deu na Espanha, em que as esquerdas representavam a legalidade e as Direitas é que levantaram a bandeira da rebelião, que acabou vencendo e lançando a Espanha, há 25 anos, na mais cruel ditadura direitista, embora a pouco amenizada pelo próprio tempo, mas nem por isso menos totalitária. Aqui se está dando o mesmo. São as direitas que dão o golpe, com o Magalhães Pinto à esta. E o Adhemar e o Lacerda de reboque. Ironia… Não estou longe mesmo de crer que, no fundo, o MP tomou a iniciativa do golpe para fazer a revolução antes que o influído, estou certo. [...] O San Thiago, que está muito bem informado, e esteve no Palácio das Laranjeiras com o Jango até de madrugada, me diz que as forças que estão com o governo legal parece que são fortes: o II Exército. São Paulo está dividido, e as forças aquarteladas no vale do Paraíba são fiéis (?) ao Jango. (É triste a gente ter de ficar ao lado desse triste personagem cujos malabarismos , somados ao reacionarismo da oposição, d eram nisso: a guerra civil , como em 1931, reintroduziu neste Brasil que começava a ter fama no estrangeiro de saber resolver pacificamente suas crises.) Só tenho uma esperança: é que o povo – soldados, oficiais – o povo brasileiro não é de briga. De modo que os próprios arreganhos militares não duram muito. Portanto é possível que, dentro de poucos dias, esteja tudo clareado. Mas o próprio San Thiago confessa que Desgraçadamente rompeu-se de novo a continuidade civil do nosso governo e a solução foi transferida para a área militar. E por quem? Pelo nosso amigo Magalhães Pinto, que inicia assim a
  • 8. Abril-junho 2024 | Scena Crítica 8 LIMA, Alceu Amoroso. Cartas do pai: de Alceu Amoroso Lima para sua filha madre Maria Tereza. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2003, p. 365-370. há muitas probabilidades de triunfo do golpe. E será então um triunfo direitista “que atrasará por 20 anos o progresso do Brasil”, diz-me o San Thiago . E digo eu: “Nos recolocará no clima de tensão constante entre elite e povo”. Acho também que o movimento saíra vitorioso e com isso o Lacerda poderá tirar a sardinha com a mão do gato, pois numa eleição, ele tem chance, mas… não contra o JK. E este já se colocou também do lado do golpe, que prevê vitorioso, de modo que será também um sério competidor. E o MP que, no caso da vitória possível do golpe direitista (como venceu o de 1931 ecomo venceu o de 1955), terá sido o chefe civil da revolução, se contentará em ser o chefe do governo provisório que substituirá Jango? Este, a meu ver, está fraco e o seu “dispositivo militar” vai fracassar. Teremos então o exílio do Jango, como o de Washington Luís. Minas à testa da revolução de 64, como esteve à testa da de 31, com o Olegário Maciel. E o pobre do Magalhães Pinto quem sabe fazendo o mesmo papel do Olegário Maciel, tirando sardinhas para os outros e desapontando seus amigos. Triste fim de qualquer modo. E mais triste ainda é que, realmente, tanto da parte do governo, como da oposição, tudo falhou desta vez, no sentido de manter o prestígio e a fama de saber resolver crises sem sangue, como é a nossa lei histórica. [...] Mais uma vez se confirma o meu prognóstico (desculpe este “eu não dizia?”… mas isto é cá entre nós) de que nada temos a temer do comunismo, ao menos por ora, mas sim do militarismo e do golpismo. Tenho me fartado de dizer isto e a primeira vez que me lembro de ter dito foi em Córdoba (sic) na Argentina, quando o bispo de nome francês (creio que monsenhor Lafitous) me perguntou, em 1937, (foi em Córdoba ou foi em Buenos Aires?), se havia mesmo o risco de uma vitória comunista no Brasil. E eu respondi, para surpresa dele, que não acreditava absolutamente em golpe comunista, no Brasil. Muito menos vitorioso (tinha havido um em 1935e por isso é que os argentinos estavam pondo as barbas de molho antes que o Péron as raspasse…). Desde então – há portanto 27 anos – repito o meu slogan: Não temo o comunismo no Brasil mas temo o militarismo e o golpismo direitista , ou esquerdista não-comunista. E estamos em um típico golpe direitista. Com grande probabilidades de vencer, pois o anticomunismo substancial do povo brasileiro vem sendo muito habitualmente explicado pelos políticos e pelos… cardeais golpistas e reacionários… e pelas boas senhoras ultimamente alucinadas e psicopatizadas pelos slogans: “Deus, Família, Liberdade”, e apavoradas com as ameaças nos seus prédios e nas suas fazendas. Não há o menor perigo comunista , mesmo que este golpe mineiro não triunfe. Mas como creio que ele triunfará – embora contra meu apoio, pois considero, repito, desastrosa toda solução militar para problemas civis - o que teremos pela frente é a vitória de um anticomunismo feroz, de um reacionarismo estúpido e… paradoxalmente, uma grande vantagem para a doutrina social da Igreja, que continuamos a pregar, como se nada fosse. Dirá você, como assim? Então o reacionarismo lacerdista ou o oportunismo juscelinista ou o adesismo pintista, triunfantes, como provavelmente o serão, se confundem com a doutrina social da Igreja? Não. Mas acontece que, se triunfar o golpe direitista, como creio, imediatamente, desaparecerá o pavor do comunismo das senhoras amedrontadas. Para essas boas senhoras os comunistas são antropófagos. Bem, com a vitória do direitismo lacerdista, juscelinista ou pintista – imediatamente desaparece o pânico do comunismo pois a polícia durante algum tempo se encarregará de meter no xadrez e no cabo de borracha os comunistas sem colarinho, e os Lacerdas se encarregarão de fechar ,todos os sindicatos operários e de expulsar e exilar os líderes de colarinho. As boas senhoras voltarão aos seus bailes, às suas boîtes, aos seus vestidos de 200 contos ou então aos meios piedosos dos seus terços na igreja ou diante da imagem do Sagrado Coração em casa ou aos seus tricôs e aos seus aluguéis e cupons de debêntures… E com isso os mais espertos, adiantados ou… de bons sentimentos, voltarão a achar que há uma doutrina social da Igreja, que poderá talvez… etc., etc e tal , e então voltaremos ter quem nos ouça, prevenindo que só essa doutrina… etc., etc e tal. Será um retrocesso, uma perda de tempo, será uma marginalização do Brasil, mas… Mas… o Brasil vencerá a nova crise, mesmo que no momento o direitismo venha a triunfar, como creio que o fará, contra a minha vontade sem dúvida, fora das minhas magras tentativas de combater todo direitismo, assim como todo esquerdismo, contra o meu ridículo Apelo à paz, na última hora, de que não me arrependo nem me envergonho, pois estava nitidamente na minha linha de pensamento e continuarei a sustentá-la, seja qual for o resultado dessa luta inglória que o conservadorismo mineiro lançou, transferindo a luta política da área civil para a área militar. […] À saída americana, dois casais em mesas diferentes vieram falar com dom Hélder, comentar que os “brotos” já tinham pedido seu parecer sobre a “marcha” de amanhã, que agora não sei se se realizará e provavelmente será adiada para o dia da vitória da revolução. Deixei-o no São Joaquim para o encontro de hoje – almoço na Nunciatura – que ficou naturalmente adiado de mais um dia ou sine die. De tarde, a atmosfera na cidade era de pólvora e de véspera de revolução como em 31 ou 37. Há por perto de nosso apartamento o “dispositivo militar” do Lacerda em plena “campanha”. Soldados da Polícia Militar com metralhadoras, sacos de areia, barricadas, telefone de campanha, um acampamento de guerra! Subimos para Petrópolis sem incidentes e à noite as notícias se agravaram pelo rádio, mas ainda hoje de manhã eu saí para descer ao Rio. Já desisti, porém, com medo de não poder subir logo mais, e deixar Mamãe sozinha. Aos 70, já não posso dar- me ao luxo de ir para a chefatura de polícia, como em 1931, ver cair um governo. Eis aí. Voltamos ao clima de 22 ou 45 ou mesmo 55, por culpa… de mim mesmo antes de tudo, pois se tivesse minha voz o mínimo de ressonância, nem a oposição nem o governo teriam chegado ao ponto que chegaram. Mas, depois de mim, os grandes culpados foram antes de tudo os grandes jornais, a começar pelo Jornal do Brasil. Recebi ontem uma carta do Celso, com certeza me explicando a atitude violentamente antigovernista do jornal. Ainda não abri. Nem abrirei tão cedo. Depois ainda, a oposição, e acima dela – os ricos, os latifundiários, os privilegiados, que se levantaram contra as reformas pacíficas e realistas (como seriam ela, pois nada se faz contra a realidade) e empunharam hipocritamente a bandeira do anticomunismo para proteger seus interesses pecuniários. Ponha tudo isso numa panela e uma pitada de despeito do MP em face do Lacerda e de sua vontade de “entrar na história” etc., e temos os proclamas deste desastre. Mas.. tudo acabará bem. Aleluia! Se colocarmos tudo nas mãos de Deus.
  • 9. Se há uma coisa patente no ambiente da contempora- neidade é certamente uma ideia sempre presente de mal-estar, de angústia. Este mal-estar se revela no interior do coração dos homens, e ao mesmo tempo estende-se ao campo das relações humanas, especialmente das relações amorosas. Será o velho mal-estar na civilização rastreado pela psicanálise ou é um particular deste momento histórico do homem ocidental? No alvorecer do existencialismo, o luterano dinamarquês Kierkegaard abordou sistematicamente o tema da angústia em sua obra O conceito de angústia de 1844. Contrariando o sistema hegeliano em voga naqueles anos, o filósofo dinamarquês busca localizar a existência humana em total singularidade, distanciando-se da ideia de territorializar o indivíduo em um sistema universal como pretendiam os hegelianos. Pois, feito este recorte passamos a procurar localizar seu “conceito de angústia”. A ideia central é a angústia como condição permanente da vida do homem. A angústia está posta relacionando-se com objeto nulo, ou seja, com o nada. A angústia não é o ânimo do homem ao rela- cionar-se com o que lhe molesta, mas é condi- ção in natura do espírito humano. 9 Abril-junho 2024 | Scena Crítica A indiferença reinante hodiernamente parece, em certa medida, ser fruto de uma atitude canalha diante da vida. Não se trata aqui de uma canalhice ordinária, mas de uma canalhice esclarecida. É esclarecida por estar permeada de ideais modernos como: igualdade, liberdade de consciência, igualitarismo religioso, igualitarismo entre os sexos… Veja, não quero aqui fazer juízo de valor sobre nenhum desses delicados temas. O que quero demonstrar é que, na verdade, tudo isso acaba por servir de adorno para um véu sob o qual todos querem se esconder, que é o manto da hipocrisia, da indiferença e não raramente de um certo complexo de superioridade diante daqueles que nos precederam na história, como se houvesse um processo de evolução dos sentimentos e dos valores que compõem e confrontam nossa humanidade. Voltando ao nosso filósofo dinamarquês, enfrentemos o embate entre a inocência e a ignorância. É importante notar que a ignorância aqui é completamente diversa da que tratamos nos parágrafos anteriores. A ideia de inocência em Kierkegaard está condicionada ao ponto em que o homem toma consciência da existência. A partir do momento em que se toma consciência ele faz seu salto qualitativo [3], ou seja, o momento que o homem sai da inocência para o pecado. O que resta ao homem? Ensaio moral sobre a angústia A angústia que está posta na inocência, primeiro não é uma culpa e, segundo, não é um fardo, um sofrimento que não se possa harmonizar com a felicidade da inocência. Obsevando-se as crianças, encontra-se nelas a angústia como u- ma busca do aventuroso, do monstruo- so, do enigmático. Que haja crianças nas quais ela não se encontra nada prova, pois o animal também não a tem, e quanto menos espírito, menos angústia.[1] Ora, entenda-se esse espírito como cons- ciência e essa progressão em “quanto me- nos espírito, menos angústia”, como toma- da de consciência progressiva. Se verificará, assim, uma relação corpóreo-psíquica que relacionando-se geram uma síntese de acor- do com o espírito: Que a angústia apareça é aquilo ao redor do que tudo gira. O homem é uma síntese do psíquico e do corpóreo, porém uma síntese é inconcebível quando os dois termos não se põem de acordo num terceiro. Este terceiro é o espírito.[2] Chegamos a um ponto que me toca particularmente. Esta progressão proporcional entre a tomada de consciência e a angústia é, sem sombra de dúvidas, uma constatação simples de se alcançar. É mais atormentado o homem que toma mais consciência da realidade que o cerca, que dos demais que por embotamento ou fraqueza de caráter, não possuem as faculdades necessárias ou optaram por não tomarem consciência e consequentemente não dividirem a responsabilidade sobre os problemas do mundo que os cerca. Outro cenário mais grave é sobre aqueles que tomando consciência sobre o mundo que os cerca assumem a postura de não tomar parte com os problemas e graves questões que pairam sobre a existência humana. Sobre estes, acho que vale o arquétipo rodrigueano de canalhas. Este arquétipo desenvolvido na literatura de Nelson Rodrigues e que merece ainda ser muito mais desenvolvido é uma belíssima chave de leitura para a questão: logrará muito mais êxito na vida, nos relacionamentos, especialmente na vida amorosa aquele que por puro cinismo e comodidade optar por parecer alheio às angústias que compõem a vida tanto no seu caráter individual ou social. Com o primeiro pecado, entrou o pecado no mundo. Exatamente do mesmo modo vale isso a respeito do primeiro pecado de qualquer homem posterior, que com este o pecado entra no mundo. Dizer, contudo, que não existia pecado antes do pecado de Adão, é uma reflexão não apenas inteiramente casual e sem relevância no que concerne ao pecado em si, como também totalmente destituída de significado e de direito de tornar maior o pecado de Adão ou menor o primeiro pecado de qualquer outro ser humano.[4] Após a culpa original, e fazendo justiça ao texto kierkegaardiano ela está em suspenso, não há mais espaço para ale- gação de inocência. O homem conhece na sua existência individual o pecado e, portanto, goza de todos os instrumentos para fazer acepção em suas escolhas mo- rais. Não seria por isso mesmo a existência mais dramática e angustiante? A angústia não está disposta, como já dise- semos, para um objeto concreto. A angústia está disposta para um nada, é como uma condi- ção da alma humana, consequência de ser dotada de razão (espírito). Onde então se poderia encontrar uma resolução, ou melhor, um consolo para solucionar este imbróglio? O ponto de inflexão hodierno é que não partimos mais da mesma percepção sobre esta questão. Na verdade, não nos é mais do nosso interesse compreender o processo da existência individual, muito menos de qualquer mediação metafísica ainda que esta apresente-se como mero plano de fundo para fundamentar uma tese que busque dar conta do problema. [1] KIERKEGAARD, Søren. O conceito de angústia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. 3ª ed. P. 46; [2] Ibidem, p. 47; [3] Expressão cunhada por Kierkegaard para designar o momento que o homem passa a optar pelo bem e pelo mal.; [4] KIERKEGAARD, op. cit., p. 33 Com especialização em roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Filipe Machado é bacharel em filosofia pela PUC-Rio e licenciado em História. Atualmente suas pesquisas estão centradas nos autores que compuseram a cena intelectual católica do século XX com especial ênfase em Gustavo Corção.
  • 10. . Eu era ainda pequena quando pela primeira vez me deparei com o escritor inglês G. K. Chesterton. Esse primeiro encontro foi um episódio corriqueiro, em dia chuvoso de verão, que em nada me fez pressentir a importância que o autor teria na minha vida. Buscando alguma coisa para ler, eu examinava distraída as obras sérias que meu pai tinha na sua estante, quando dei com a curiosa capa de um livro na qual um homem gordo, de costas, com seu chapéu, capa e bengala, ia andando por um campo, seguido por um boi folgazão. O título da obra só em parte explicava o desenho: Três Alqueires e uma Vaca. Quem seria, no entanto, o homem gordo? Não era o autor, porque esse eu conhecia bem. Gustavo Corção, o ‘tio Gustavo’, como dizíamos na família, tinha sido grande amigo e mentor dos meus pais nos bons tempos da Revista A Ordem e do Centro Dom Vital. Aqui eu estava em casa. Mas ficava o homem gordo. Busquei na minha memória de menina uma semelhança com os personagens que eu sabia terem acompanhado meus pais naqueles anos de 1950. A capa - embora não o chapéu, é verdade - me dava a ideia de um monge: Dom Marcos Barbosa, Dom Lourenço Prado, Dom Ireneu Penna do Mosteiro de São Bento do Rio? Não, definitivamente nenhum deles correspondia à caricatura... Folheando as páginas, dei com o nome do Chesterton. Mas o nome não me disse nada naquele momento. Fechei o livro com um sorriso, pensando que o Corção e o meu pai também gostavam de livros divertidos, além dos de Filosofia e Religião. E, no entanto, aquela figura bonachona, que parecia passear pelos seus três alqueires e conversar amistosamente com a sua amiga bovina, nunca me saiu da memória. Ela tinha não sei o quê de simpática, de bondosa, fazia a gente se sentir à vontade. Mais do que isso, o homem gordo e tranquilo transmitia algo de verdadeiro, de livre, de genuíno... Anos depois, já longe do culto e piedoso ninho paterno, em outro continente e imersa no secularismo frio da sociedade europeia moderna, aquela caricatura me acompanhava, como um retrato de pessoa querida, de cima da minha mesa de trabalho. Ao lado dela, eu pendurara uma foto de João Paulo II e outra de Jacques Maritain e, aos colegas que passavam, parecia ridículo que eu buscasse inspiração ao mesmo tempo num papa, num acadêmico e num desenho de criança. Eu, no entanto, sabia melhor. Eu agora compreendia os três alqueires e o homem gordo de capa e chapéu tinha se tornado um dos meus grandes mestres. Naquela época eu me debatia com os esforços da minha tese doutoral sobre aquele mesmo ‘tio Gustavo’, herói da minha juventude, e tinha sido ele, o Corção, a me apresentar os seus dois grandes mestres. Se Maritain me olhava da sua foto com a solidez e a segurança de um professor que me conduzia pelos caminhos do pensamento cristão, o homem gordo era o amigo querido no qual eu encontrava companhia alegre e cheia de fé em meio a um mundo materialista e duro. O próprio Corção descreve o efeito desse dois autores na sua conversão: Corção, Chesterton e o common sense 10 Abril-junho 2024 | Scena Crítica O motivo dessa ‘recuperacão da infância’ que traz consigo libertação e confiança, pode ser elucidado pela expressão inglesa que talvez defina toda a mensagem do Chesterton: o ‘common sense’. Aqui já sentimos a dificuldade de não ler o Chesterton no original. A língua era para ele um instrumento tão perfeito de trabalho que qualquer tradução, por melhor que seja, deixa sempre a desejar. ‘Common sense’, nesse caso, não pode obviamente ser traduzido por ‘senso comum’, que indica, em português, algo que é simplesmente tido pela maioria das pessoas como verdadeiro, sem que necessariamente o seja. ‘Common sense’ seria melhor traduzido por ‘bom senso’, ou seja, essa espécie de intuição muito humana, que nos vem da Lei Natural - e portanto de Deus - e que nos faz distinguir aquilo que é bom, genuíno, autêntico, saudável, real, verdadeiro. Nesse sentido profundo em que Chesterton usa a expressão, ‘common sense’ equivale à normalidade humana integral, ao equilíbrio da inteligência e da emoção, da experiência e da virtude, ao bom amor de si mesmo que se espelha no amor ao próximo, e tudo isso iluminado pela luz clara da fé. O ‘common sense’ de Chesterton significa o antídoto por excelência contra toda tentação e manipulação ideológicas. Daí a ‘libertação’ citada por Corção. Percebe-se de cara em Chesterton, por trás de uma aparente irreverência ou leveza no escrever, uma presença filosófica de fôlego. O livro de capa engraçada que eu descobrira na estante do meu pai era, ao contrário do que eu pensara então, um livro sério, extraordinariamente sério. O homem de “Chesterton trouxe-me uma libertação, uma recuperação da infância, encheu-me da confiança que mais tarde, pela misericórdia de Deus, seria vestida de Esperança; Maritain trouxe-me a retificação da inteligência e encheu-me da outra confiança que se vestiria de Fé. (CORÇÃO, 1955).
  • 11. . Chesterton foi muitas vezes assinalado como o escritor dos paradoxos. De fato, a arte de descobrir e expressar a verdade a partir de coisas que aparentemente se opõe é uma constante na sua obra. Uma lista dos seus paradoxos tomaria páginas e páginas. Citemos apenas alguns dos mais conhecidos. Sobre Fé e Religião: 11 capa e chapéu nos dá lições profundas de Filosofia e de Teologia. É um amigo, modesto e humilde - no verdadeiro sentido da palavra, de pés firmemente fincados no chão da realidade - que nos estende a mão e nos oferece aquele amor vivo e quente que tem sua origem em Deus. Cheio da segurança serena de quem sabe o segredo das coisas, ele nos convida a enfrentar a confusão do relativismo moral e do secularismo moderno com o sorriso sábio e alegre de quem vive ancorado nas coisas do céu. Gilbert Keith Chesterton nasceu em Londres em 1874 e cresceu numa típica família anglicana. Na escola e depois na Universidade, destacou-se como aluno original em Literatura, Arte e Jornalismo, mas nunca se graduou em nenhuma dessas áreas. Personalidade extremamente afável, bem- humorada e genial, ele logo adquiriu um numeroso círculo de amigos, entre os quais muitos dos grandes nomes do mundo cultural inglês da sua época. Depois de publicar livros de poesia e de cultivar por um tempo a vida boêmia da juventude, ele conseguiu, por bondade de um amigo, um emprego num jornal londrino. Assim iniciou-se a carreira de escritor, cronista, crítico literário e artístico que ele iria desenvolver entusiasticamente por toda a vida. Em 1901, Chesterton casou-se com Frances Blogg; o casal nunca pode ter filhos mas viveu em doce harmonia, celebrada por amigos e conhecidos, até a morte dele aos sessenta e dois anos. Em 1922, escritor consagrado e tendo já por muitos anos cortejado e defendido a Igreja nas suas obras, Chesterton deu finalmente o passo definitivo e se fez católico. O famoso dramaturgo George Bernard Shaw criticou-o numa carta: “Gilbert, você foi longe demais!” Chesterton respondeu-lhe: Tornar-se católico não significa parar de pensar, mas aprender a pensar. No momento em que paramos de atacar a Igreja, começamos a sentir sua atração. Assim que paramos de gritar, começamos a ouvir com prazer. E logo que tentamos ser sinceros, começamos a gostar. (CHESTERTON, 2014). Chesterton era um autor extremamente prolífico, às vezes mesmo prolixo, que se divertia em defender um argumento com uma série de exemplos. A impressão que se tem, apesar da alta qualidade literária do texto, é a de que ele escrevia como falava - sua prosa é como uma simples continuação de uma conversa de amigos num pub inglês. Seus livros somam mais de oitenta, além de centenas de crônicas, artigos e poesias. Seus interesses se debruçavam sobre os acontecimentos do dia, como é típico de um jornalista, mas esses acontecimentos ele os via através da ótica profunda do seu bom senso, como é típico de um verdadeiro filósofo. Sem jamais apresentar-se ou mesmo pretender ser nada mais do que jornalista - uma ardente veracidade é a primeira prerrogativa do seu estilo - Chesterton tornou-se um dos maiores pensadores do seu tempo. Acerca da sua biografia de Santo Tomás, por exemplo, escreveu Étienne Gilson, um dos principais estudiosos tomistas do século XX: “Considero- o, sem comparação possível, o melhor livro já escrito sobre Santo Tomás. Nada menos que a genialidade pode explicar tal conquista.” (CHESTERTON, 1986). A influência de Chesterton cresce mais e mais com o passar dos anos. Nos países de língua inglesa ele é um autor consagrado, responsável por um sem número de conversões e inspirador de todo tipo de associações e revistas intelectuais. A partir dos Estados Unidos seu pensamento influenciou uma grande parte da intelectualidade católica latino-americana nas décadas anteriores ao Concílio Vaticano II. Hoje em dia há um forte renascimento do interesse pela sua obra também no resto da Europa. Observo esse fenômeno com curiosidade aqui onde moro, na Alemanha, país onde a poderosa tradição intelectual oscila geralmente entre o cinismo e o idealismo e tende sempre para uma glorificação orgulhosa da razão abstrata, e por isso mesmo pode lucrar muito com o humanismo realista e são do autor inglês. Corção explicava assim, dez anos depois da morte do inglês, a causa da repercussão da sua obra: “Chesterton está crescendo. O mundo que o perdeu não avaliou a justa medida do que perdia. Não dei pelo seu desaparecimento, mas senti, com a impetuosa evidência de uma janela aberta, o seu aparecimento. A obra de Chesterton não é destinada a uma dúzia de indivíduos com certas afinidades temperamentais: é uma obra comum. Se alguém teve e manteve uma inquebrantável confiança no entendimento, foi ele. Sua grandeza é extensa e intensa: extensa, pela enorme área de assuntos que a sua obra cobriu; intensa pela força, pela viril energia com que aderiu, infatigavelmente, ao verdadeiro humanismo. O mundo de hoje está atravancado de falsificações. Chesterton é fiel à humanidade do homem. Sua mensagem é rica e variada, mas há nela uma nota insistente que tem a simplicidade, a monotonia e a inexaurabilidade de um bom-dia. Suas descobertas não são suas: Deus e a humanidade as fizeram.” (CORÇÃO, 1946). “A dificuldade de explicar porque sou católico é que há dez mil razões que se resumem todas numa só razão: que o catolicismo é verdadeiro.” “Nem a razão nem a fé morrerão jamais; os homens é que morrem se são privados delas.” “A coisa mais incrível sobre os milagres é que eles acontecem.” “Os enigmas de Deus são mais satisfatórios do que as soluções do homem.” “A Bíblia nos diz para amarmos o nosso próximo e também para amarmos os nossos inimigos; provavelmente porque geralmente são as mesmas pessoas.” “O homem da verdadeira tradição religiosa compreende duas coisas: liberdade e obediência. A primeira significa saber o que você realmente quer. A segunda significa saber em quem você realmente confia.” “Deus é como o sol; você não pode olhar para ele, mas sem ele você não enxerga nada.” “Jesus prometeu três coisas aos seus discípulos: que eles não precisariam jamais ter medo, que eles seriam absurdamente felizes e que eles estariam sempre metidos em problemas.” Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 12. . Chesterton critica ele mesmo, no entanto, a busca do paradoxo pelo paradoxo. O que ele busca é encontrar a verdade por trás das aparências, algo, segundo ele, desprezado pela onipresença ideológica na literatura moderna: 12 Sobre Política e Sociedade: “Uma sociedade está em decadência quando o bom (common) senso se torna incomum.” “Só acreditando em Deus é que podemos criticar o Governo. Uma vez abolido Deus, o Governo se tornará deus.” “O mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. A função dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos.” “Há menos diferença do que muitos supõem entre o sistema socialista ideal, em que as grandes empresas são geridas pelo Estado, e o atual sistema capitalista, em que o Estado é gerido pelas grandes empresas.” “Os pobres por vezes opuseram-se a ser mal governados; os ricos simplesmente sempre se opuseram a ser governados.” “A pura doutrina do progresso é a melhor de todas as razões para não ser progressista.” “Os ladrões respeitam a propriedade. Eles apenas desejam que a propriedade se torne sua para que possam respeitá- la mais perfeitamente.” Sobre o Racionalismo e o Relativismo modernos: “Não tenha a mente tão aberta a ponto de seu cérebro cair fora dela.” “Os homens que só acreditam em si mesmos estão todos em asilos de loucos.” “Um homem não sabe o que está dizendo até saber o que não está dizendo.” “A imaginação não gera insanidade. Exatamente o que gera a insanidade é a razão. Os poetas não enlouquecem, mas os jogadores de xadrez sim.” “Quando os acadêmicos modernos começam a usar a razão, geralmente descubro que eles não possuem nenhuma.” “A razão é em si uma questão de fé. É um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade.” “O teórico que começa com uma teoria falsa e depois vê a realidade a partir dessa sua lógica é o inimigo mais perigoso da razão humana.” Sobre o Mundo Moderno: “Controle da Natalidade é tudo menos controle. Ele só existe porque as pessoas não querem se controlar.” “O homem moderno parece ser capaz de grandes virtudes, mas não de pequenas virtudes; é capaz de desafiar seu torturador, mas não de moderar seus impulsos.” “O problema de se concentrar demais em preservar a saúde do corpo é que é muito difícil fazer isso sem destruir a saúde da mente.” “O feminismo é uma ideia confusa de que as mulheres são livres quando servem os seus empregadores, mas escravas quando ajudam os seus maridos.” “Para ser inteligente o suficiente para conseguir muito dinheiro, é preciso ser estúpido o suficiente para desejá-lo.” “O jornalismo consiste em grande parte em dizer ‘Lord Jones morreu’ a pessoas que nunca souberam que Lord Jones estava vivo em primeiro lugar.” Sobre virtudes: “As falácias não deixam de ser falácias porque se tornam moda.” “Todos nós respeitamos calorosamente a humildade - nas outras pessoas.” “Alguns homens nunca se sentem pequenos; estes são os que realmente o são.” Sobre literatura: “Um bom romance nos conta a verdade sobre seu herói; um mau romance nos conta a verdade sobre seu autor.” “Os contos de fadas são verdadeiros – não porque nos dizem que os dragões existem, isso todos sabem, mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados.” A reflexão moderna, que se torna cada vez mais irrefletida, tem este defeito especial entre muitos outros: não compreende a independência intelectual. Não enfrenta os fatos, e se alguém aponta um fato de maneira desinteressada, acusa-o de proferir um paradoxo e de sempre tentar provar um argumento próprio.” (CHESTERTON, 1986). Chesterton nos traz de volta, como diz o Corção, a segurança simples e clara que tínhamos em criança de que existe uma Verdade e de que essa Verdade não nasce de nós mesmos. Ela é, por outro lado, alcançável - embora não inteiramente explicável - pelo nosso entendimento e por isso vale a pena buscá-la com todas as forças da nossa alma. Décadas depois da sua morte, em meio à sociedade loucamente relativista e secularizada que ele previu, dois grandes papas definiriam com o seu brilhantismo acadêmico a antiga doutrina escolástica que Chesterton apontava com o seu bom-senso: “Um olhar atento à Encíclica Fides et ratio (de João Paulo II) permite compreender (que) a Encíclica caracteriza-se pela sua grande abertura diante da razão, principalmente num período em que se supõe a sua debilidade. Desejei também eu defender a força da razão e a sua capacidade de alcançar a verdade, apresentando mais uma vez a fé como uma peculiar forma de conhecimento, graças à qual nos abrimos à verdade da Revelação. Lê-se na Encíclica que é necessário ter confiança nas capacidades da razão humana e não propor metas demasiado modestas: É a fé que impele a razão a sair de seu isolamento e a arriscar-se de bom grado por tudo aquilo que é belo, bom e verdadeiro." (BENTO XVI, 2008). Chesterton foi um paladino da fé e arriscou a sua razão de bom grado - de muito bom grado, com uma alegria quase irreverente - por tudo o que é belo, bom e verdadeiro. As suas centenas de publicações se referem todas a esse objetivo maior. E, paradoxalmente, como ele mesmo diria, é esse objetivo maior que dá a elas a sua imensa liberdade e o seu perene frescor. Fiel à busca sincera da Verdade, Chesterton escreveu sobre praticamente todos os assuntos pertinentes à vida contemporânea, além dos clássicos, e também sobre literatura e arte, história e religião, família e economia. É impossível aqui resumir sequer a grandes traços a sua obra e, por outro lado, tentar analisá-la de forma seca e técnica Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 13. . 13 significa inevitavelmente tirar dela o brilho e a vida. Com Chesterton é necessário ler e reler, ruminar, discutir, rir, sobretudo conversar e, sempre que possível, na língua original. A título de mera prova que provoque o gosto, aqui vão algumas citações das suas obras mais conhecidas. Em Ortodoxia, talvez seu mais importante livro, no qual esclarece a sua conversão: Se você discutir com um louco, é extremamente provável que você leve a pior; pois, em muitos aspectos, sua mente se move ainda mais rapidamente por não ser atrasada pelas coisas que vêm do bom senso. Ele não é prejudicado pelo senso de humor ou pela caridade, ou pelas certezas mudas da experiência. O louco não é o homem que perdeu a razão. Ele perdeu todo o resto e ficou só com a razão. (CHESTERTON, 1986). Em Divorce vs. Democracy: A família é a prova final da liberdade; porque a família é a única coisa que o homem faz livremente para si e por si. Outras instituições devem, em grande parte, ser feitas para ele por estranhos, sejam elas despóticas ou democráticas. Mas não há outra forma de organizar a humanidade que possa dar à pessoa humana a liberdade e a dignidade que a família lhe dá.” (CHESTERTON, 1986). Já não estamos num mundo em que se considera necessário ser normal. A maioria dos homens não está mais correndo para os extremos, mas apenas deslizando para os extremos; e até mesmo atingindo os extremos mais violentos sendo quase inteiramente passivos. Não podemos mais confiar nem mesmo no homem normal para valorizar e proteger a sua própria normalidade.” (CHESTERTON, 1986) Um capítulo à parte na obra do Chesterton são as famosas histórias de detetive do Padre Brown, das quais várias adaptações cinematográficas foram feitas, inclusive uma atual de grande sucesso pela BBC inglesa. O Padre Brown - um alter ego do próprio Chesterton - passa, aos olhos do mundo, completamente despercebido. Sacerdote católico de batina surrada, discreto e desajeitado, modesto e distraído, sempre irritantemente atento a detalhes que aos outros soam completamente banais ou mesmo ridículos, o Padre Brown é tido pelas pessoas a sua volta - sobretudo pelos seus arqui-inimigos, os homens racionalistas e cheios da sua própria importância - como o exemplo definitivo da ignorância e da credulidade infantil do Catolicismo. E, no entanto, o Padre Brown descobre, pelo seu simples bom senso e com uma facilidade quase nonchalante, os crimes mais difíceis e escondidos. O Padre Brown nos indica o remédio que Chesterton propõe ao problema da secularização da nossa sociedade contemporânea. A solução não está absolutamente, segundo ele - e aqui ouvimos um eco das palavras do nosso Papa Francisco - na agressão verbal, na luta ideológica, nas discussões acadêmicas, nem muito menos na racionalização da fé. Chesterton é, muitas vezes, crítico e irônico, mas nunca recorre ao sarcasmo, à polêmica amarga e muito menos à condenação orgulhosa. Tudo isso significaria exatamente permanecer no mesmo círculo vicioso, usar as mesmas armas do inimigo ou confiar demais na razão humana. A explosão que quebra esse círculo vicioso e que, só ela, traz a verdadeira liberdade, ele nos ensina, é a graça de Deus, é a conversão de vida, real e humilde, é o humanismo verdadeiro que nasce da fé. A isso ele chama o verdadeiro bom senso. O seu caminho é o caminho do Santo: o testemunho alegre e corajoso da caridade verdadeira e viva. Voltemos ao Corção que relata, influenciado pelo Chesterton, o júbilo realista e concreto da sua conversão: E ainda na mesma obra: O novo rebelde é um cético e não confia inteiramente em nada. Ele não tem lealdade; portanto, ele nunca poderá ser realmente um revolucionário. Como político, ele grita que a guerra é uma perda de vidas e, depois, como filósofo, que toda a vida é uma perda de tempo. Ele vai primeiro a uma reunião política, onde reclama que os homens são tratados como se fossem animais; depois segue para uma reunião científica, onde ele defende que os homens são realmente animais. No seu livro sobre política, ele ataca os homens por atropelarem a moralidade; em seu livro sobre ética ele ataca a moralidade por atropelar os homens. Portanto, o rebelde moderno tornou-se praticamente inútil para todos os propósitos da revolta. (CHESTERTON, 1986). Em The Everlasting Man, obra sobre o Cristo: O cristianismo morreu muitas vezes na História e ressuscitou de novo, pois tem um Deus que conhece o caminho para sair do túmulo. Quanto à opinião geral de que a Igreja foi desacreditada por isso ou por aquilo, poderiam muito bem dizer que a Arca foi desacreditada pelo Dilúvio. Quando o mundo vai mal, isso prova na realidade que a Igreja está certa. A Igreja é justificada, não porque os seus filhos não pecam, mas exatamente porque pecam. (CHESTERTON, 1986). Em Heretics: A verdade, é claro, tem necessariamente que ser mais estranha que a ficção, pois a ficção fomos nós que a criamos para nos servir. Quando Cristo estabeleceu a Sua grande sociedade, Ele não escolheu como pedra angular nem o brilhante Paulo nem o místico João, mas um impulsivo, um esnobe, um covarde – em uma palavra, um homem comum. E sobre esta pedra Ele construiu a Sua Igreja, e as portas do Inferno não prevaleceram contra ela. Todos os impérios e reinos falharam, por causa desta fraqueza inerente e contínua, de terem sido fundados por homens fortes e sobre homens fortes que acreditavam em si mesmos. Mas a Igreja de Deus foi fundada sobre um homem fraco que acreditava em Deus e, por essa razão, é indestrutível. (CHESTERTON, 1986) Em What’s Wrong with the World, numa passagem que profetiza a sociedade de hoje: A superprodução intelectual, educacional, psicológica e artística, tal como a superprodução econômica, ameaça o bem-estar da civilização contemporânea. As pessoas são inundadas, cegadas, ensurdecidas e mentalmente paralisadas por uma enxurrada de exterioridades vulgares, não lhes deixando tempo para lazer, pensamento ou criação a partir de dentro de si mesmas. (...) A raiz da maior parte da liberdade moderna está no medo. Não é que sejamos ousados demais para suportar regras; na verdade, somos demasiado tímidos para assumir responsabilidades.” (CHESTERTON, 1986). Em Tremendous Trifles: Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 14. 14 Dois amigos que se encontram são companheiros de jornada, sentem-se impelidos para uma maravilhosa aventura. São peregrinos. Sentem no ar um cheiro penetrante de mar largo, um aroma de bosques orvalhados: sentem o perfume da Vinha do Senhor. Amigo! De onde virá esse cheiro de vinho quente e capitoso? Se nossa religião fosse feita somente de bom sentimento e de saudade, ficaríamos rezando em casa ou iríamos chorar nos cemitérios. Quem ouviu a boa notícia da fé e a promessa da esperança tem de ir, tem de caminhar, tem de atravessar a soleira duma porta. E junto do altar conhecerá que Deus nos entrega tudo, como entregou seu próprio Filho na Cruz.” (CORÇÃO, 1955). Numa famosa citação atribuída a ele, Chesterton diz que quando os homens deixam de acreditar em Deus, passam a acreditar em qualquer coisa, mesmo nas mais absurdas. O realismo dessas palavras foi visto no Nazismo e no Comunismo do século XX - regimes que Chesterton profetizou mas não viveu para experimentar - e certamente na ameaçadora confusão ideológica e moral dos nossos dias. Uma reação de insegurança nos deprime muitas vezes em meio a nossa sociedade materialista. E, às vezes, temos medo... A solução nos dá de novo o próprio Chesterton, pela boca do Padre Brown. Num episódio sobre um aristocrata misterioso que usava uma peruca da qual todos tinham pavor, o Padre Brown, que sabia bem que a peruca era falsa e escondia, na verdade, um crime, exige do homem que a arranque e revele assim o seu segredo: Ir. Martina Braga é monja beneditina e doutora pela Universidade de Navarra. Foi professora de História e Doutrina Social da Igreja no Rio, em Petrópolis e em Niterói. É autora de Lições de Gustavo Corção (Quadrante, 2017). “Se eu fizesse isso”, disse o duque em voz baixa, “você e tudo o que você acredita, e tudo pelo qual você vive, seriam os primeiros a tremer e perecer!” “A Cruz de Cristo está entre mim e o mal”, respondeu com serena autoridade o Padre Brown. “Confesse o seu crime. Tudo o que vive só de mistério nasce do mistério da iniquidade. Porque o verdadeiro Deus se fez carne e habitou entre nós.” (CHESTERTON, 2021). *Adaptações e traduções minhas BENTO XVI. Discurso na Pontifícia Universidade Lateranense. Roma, 2008 CHESTERTON, Gilbert K. A Incredulidade do Padre Brown. Lisboa: Aletheia, 2021. _____. The Catholic Church and Conversion. San Francisco: Ignatius, 2014. _____. The Collected Works of G.K. Chesterton. San Francisco: Ignatius, 1986. CORÇÃO, Gustavo. A Descoberta do Outro. Rio de Janeiro: Agir, 1955. _____. Três Alqueires e uma Vaca. Rio de Janeiro: Agir, 1946. Os escritores Bernard Shaw e Hilaire Belloc acompanhados de Chesterton Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 15. laçam, mas de uma maneira fluida e dinâmica. A história começa com o protagonista dirigindo sem rumo, embrenhando cada vez mais o coração de uma vasta floresta, escura e fria. A densa escuridão da floresta, que serve como pano de fundo para a narrativa, é mais do que um mero cenário; mas um espelho do seu mundo interior. Perdido nesse ambiente escuro e buscando desesperadamente uma saída, ele inicia uma jornada de autoconhecimento, tentando dar sentido aos seus movimentos internos, que ele próprio descreve como confusos e desordenados. Livro aberto BRANCURA Jon Fosse espelha a complexidade da mente humana e proporciona ao leitor uma experiência imersiva através dos pensamentos do narrador-protagonista, numa fronteira tênue entre realidade e imaginação. A técnica utilizada por Fosse permite a construção de um texto não linear, onde memórias e percepções se entre- 15 FOSSE, Jon. Brancura. São Paulo: Fósforo, 2024. Giselle Nogueira é bibliotecária, formada em Biblioteconomia pela UNIRIO, e pós-graduada em Gestão de Projetos pela Universidade Cândido Mendes B protagonista, mas que permeia toda a natureza humana, que eleva o elóquio da obra a um nível profundo de contemplação. No entanto, “Brancura” vai além de ser apenas uma viagem interior, é também uma reflexão poética sobre a condição humana e a busca incessante por uma vida de sentido e significado em um mundo de incertezas. Por meio da escuridão opressiva da floresta e dos encontros reveladores do protagonista, também somos convidados a atravessar um labirinto de dúvidas e emoções, onde a única saída é enfrentar a escuridão ao redor e avançarmos rumo ao desconhecido, a fim de encontrarmos nossa própria “brancura”, símbolo de esperança e redenção. essa figura enigmática representa algo (ou alguém) de natureza divina, que o próprio narrador questiona ser um anjo, ou até mesmo Deus, e que diz “estou aqui, sempre estou, sempre estou aqui”, e o protagonista observa “[...] era quase como se essa voz carregasse em si algo que se pudesse chamar de amor.”. Desse ponto em diante, o protagonista experimenta uma mudança fundamental em sua percepção do ambiente ao redor. Aos poucos, o sentimento de solidão cede espaço a uma certeza; a de que ele não mais caminho sozinho: “agora já não está aquele breu como antes, um breu como a noite mais escura, porque até então eu não sabia por onde ia, não que saiba agora, mas pelo menos posso ver onde ponho os pés.”. É essa busca espiritual, vivida através da experiência pessoal do rancura, de Jon Fosse, é uma jornada envolvente através dos caminhos da psique. O autor utiliza o fluxo de consciência como técnica narrativa, que No decorrer do livro, a jornada é marcada por encontros que não são meros acasos, mas momentos de revelação e confronto, que funcionam como uma tentativa de buscar dentro de si as respostas para os dilemas que o assombram. Um desses encontros aparece na forma de uma silhueta branca e luminosa: a “brancura”, que dá título à obra, trazendo consigo um lampejo de luz (e esperança) em meio a escuridão que cerca a personagem. Ao avançar na leitura, vemos que “A voz diz: você tem que ir para casa. Eu digo: mas não consigo encontrar o caminho de casa. A voz diz: você se perdeu [...] e é por isso que viemos ajudá-lo.”. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 16. Além de poeta, Magali Guimarães é doutora em psicologia e professora na Universidade de Brasília/DF. Autora dos livros Vida em Versos e Aldravias Desvairadas. Dangerioso homem (inspirado em um poema de Drummond) Dangerioso homem, que dono deste mundo proclamaste, horrendas lutas travaste, milhões de faces destruíste, milhões de lares e sonhos roubaste! A natureza? Exterminaste! Poluíste os mares em que dantes navegaste! Ah, dangerioso homem, não basta o que fizeste à Terra?! Irás agora para marte!? Sacralidade Na vastidão do tempo, a secularização se insinua, Um sopro que desfaz os laços com a divindade, A humanidade, em sua jornada, se desnuda, Despindo-se das amarras da sacralidade. Antes, os deuses povoavam os céus e a terra, Cada evento, cada suspiro, era uma ode ao divino, Mas agora, a razão ergue-se, soberana e austera, E o mistério se dissipa, num mundo mais cristalino. Templos erguidos ao éter, agora são ruínas, As preces ecoam apenas como ecos do passado, O homem busca respostas em suas próprias minas, E o sagrado se esconde, em recantos abandonados. A secularização, qual mar revolto e voraz, Arrasta consigo tradições e crenças ancestrais, Mas no vácuo que se abre, há também uma paz, A liberdade de escolha, dos caminhos imortais. Não é o fim da espiritualidade, apenas uma mudança, Um novo olhar sobre o mistério que nos envolve, Na secularização, há espaço para esperança, Em um mundo onde o sagrado em cada um se resolve. Ybeane Campos Moreira, membro 0872 da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB), autora dos livros Eu, Poesia, Pedro e as letras do Alfabeto e Eu, tu,ela, nós mulheres. Percebo que minha vida fazia mais sentido Quando eu ainda tinha certezas Retas e vazias como o minimalismo Um pouco enojado de tudo No fim percebi que buscava Algo além do mínimo Jamais esquecerei Do sonho que vivi Entre Maravilhas do Mundo Antigo E megalofobia provocada Pelo horizonte de Detroit tentando me engolir Quando encontrava as curvas do art nouveau Reverberações da Belle Époque no período hodierno Escondido em brumas da ilusão Enquanto dormia na penumbra Em seu hostil e criativo inverno Sempre quis achar Que não seria uma coisa ridícula Mesmo eu sendo uma planta torta Assimétrica e amarelada Que nasceu buscando a luz Que resta na sombra dos prédios Criatura, cujo passado, a assombra O serafim de aura violeta Era o fruto proibido Que fulgurava na copa frondosa Da árvore que segura o firmamento Apaixonei-me pela essência De algo que tocaria o céu Porque sou um mato rasteiro Que cresceu ao léu Drama Urbano Brasília é um grito da arquitetura Sonho e pesadelo de Niemeyer Sua prima Goiânia É art déco em uma citadina partitura Na pós-modernidade Varrem para baixo do tapete O nosso necessário primitivismo A magia descoberta na tenra idade Num cômodo escuro do subconsciente humano Há uma longa mesa com forro branco E, em cima dela, um pires com uma vela Cuja chama luta para não se apagar L’étoile froide d’espoir Est couvré par une voile De la tendre minuit noir Mergulhando nos lagos de quartzo Mesclados à areia e à terra De outros minerais que formam o mármore Vendo o sol atrás do insulfilm Sentindo a água cair Renascendo no chuveiro Ágοrα Praça de divulgação literária 16 Lizédar Baptista é autor de Pureza & Kali Yuga (2023), Véus Ao Vento (2023), Flores Cósmicas (2021) assim como de outros livros de poesia. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 17. 17 Tribulação de poeira e sol Lívia Foresto "Meu filho, temos que partir”. É assim que meu pai me acorda enquanto o céu sequer está laranja. Ele é um homem que cuidaria com preocupação de cada gota de suor que transpira, não são poucas. Eu apanho minhas coisas rapidamente, animado pela nossa viagem. Conosco vão mais dois sujeitos, um magro com cavidades ossudas na bochecha que nunca tinha visto antes, o outro já tinha nos acompanhado por essas andanças que meu pai inventa, ele era mais alto e mais cheinho. Antes de nos despedir, vejo o homem desconhecido preparar o jumento de carga com uma intimidade que nem eu sei se tenho. Lá longe, minha mãe e meu pai conversam, não presto muita atenção, estou mais interessado em ver o pão, água, lenha sendo catados e acomodados nas costas do animal, itens precisamente necessários para quando passamos dias longe. Finalmente deixamos nossa moradia pra trás, não sei ainda onde papai pretende nos levar, quando pergunto, ele demora para responder e apenas me dá uma dura de como tenho que ser mais paciente. Empoeirado, transpirando a terra que nós mesmos levantamos, o consolo que tanto eu quando os moços recebemos é de que devemos oferecer a Deus nosso sofrimento. Eu penso, mas não digo minha revolta com deus e essa mania de querer ver os outros aflitos. Olho pro homem de rosto conhecido e tento decifrar se ele concorda comigo. Quando a noite chega, com frio, fazemos uma pequena fogueira, temos que economizar madeira para o resto da viagem. De noite, olho para meu pai, e ele está com a mesma testa de quando acordado, cheia de pele caída em pensamentos que parecem fazer cobranças até nos sonhos. Os outros dois homens por alguma razão fazem muito barulho dormindo. Fico observando as estrelas com os olhos ardendo levemente por estar perto do fogo. Primeira viagem que papai não fala muito, penso que devemos estar atrás de uma missão de exímia importância, porque, até quando está de costas para nós, ele parece repreender nossas conversas simplórias. Mesmo com toda essa tensão caminhando conosco, sempre que peço mais detalhes sobre o que estamos fazendo, só recebo sermão pela minha ansiedade. Cresci com essa queixa, sobre como questiono muito, me preocupo muito, penso muito. “Tudo será conforme Deus prover”, é isso que ouço. O homem ossudo, acredito eu que por ser novo, passa a viajar calado, cedeu ao comportamento coativo de meu pai. O outro fala comigo em alguns momentos, agora acredito mais que ele compartilhe de minha irritação profana com a poeira e o sol. Na última noite eu também fiquei olhando para a testa enrugada de meu pai, prestei tanta atenção nos sulcos que ali estavam formados que nem notei que logo abaixo seus olhos estavam abertos. Ele estava perto de mim, esticou o braço e segurou a minha mão, sorriu só com os lábios. Adormeceu com os dedos entrelaçados nos meus e um rosto mais tranquilo, não muito, apenas um pouco mais tranquilo. O dia seguinte passou exatamente igual aos outros, na verdade todos os dias pareceram o mesmo, com uma eternidade de calor, terra e orações em agradecimento por tudo que Deus proporciona. Paramos, eu fiquei olhando para meus pés, doíam por causa da caminhada e do solo quente, minhas sandálias tinham se arrebentado de tanto andar. Distraído com a dor que não conseguia entregar a deus como prova de meu amor, escutei meu pai mandando os outros dois homens ficarem por ali com o jumento. Eu e ele continuamos a andar, ele carregava o saco de lenha, acho que ele trouxe um pouco para caso de anoitecer enquanto estivermos separados. As mesmas rugas que observava durante a madrugada se intensificam quando meu pai fecha os olhos para orar. Espero com a paciência tão exigida de mim e então ele começa a andar como quem sabe exatamente aonde tem que ir. Mais caminhada, terra e calor até que paramos e meu pai prepara com pedras uma espécie de mesa improvisada. Ele pede ajuda com o saco de lenha, lado a lado, nós a enfileiramos dessa vez temos que acomodá-las de forma que a superfície mais lisa fique voltada para cima. Depois, por horas, papai fica ajoelhado chorando e rezando, foi aí que perguntei se vamos sacrificar uma ovelha a Deus. Ele fica mais alguns minutos calado como quem quer que seu momento íntimo seja respeitado. Eu me ajoelho ao seu lado, cansado daquele tédio, decido experimentar daquela devoção. Ele me abraça aprovando meu gesto. Fico feliz de deixá-lo orgulhoso. O abraço é quente, um calor gostoso que faz eu me aninhar. Papai começa a mexer em algo que não sei o que é, mas não me preocupo. O abraço fica mais forte. Fica mais quente. Quente como toda a viagem. Ele continua mexendo em algo, mas agora passa a mão no meu corpo. Então, sinto uma aspereza me roçando. Demoro a perceber uma corda. Ele continua me circulando. Prende meus pulsos colados um no outro e faz o mesmo nos meus tornozelos. Meu corpo, se debatendo como pode, é carregado até o altar que eu mesmo ajudei a construir. “Isaque, a vontade de Deus é soberana”. Gostaria de ter seu texto divulgado na Ágora? Confere lá no nosso site (scenacritica.com) as regras para submissão. Poemas, cronicas, contos, resenhas, todos tem espaço em nossa praça de divulgação literária. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 18. Você consegue ouvi-lo chamando? G O ser amado (objeto no triângulo mimético) é posto em segundo plano, quase esquecido, não tendo valor por suas características intrínsecas, mas por estar na direção apontada pela divindade de Jolene. É apenas um coadjuvante, sem nome e atributos claros, transformado em desejável pela mediadora. Nota-se, assim, com clareza, nessa peça musical, a intuição fundamental da teoria mimética, no sentido de que sem conflito não há desejo. O processo de formação deste, portanto, é revelado, ardendo nas entranhas da subjetividade do eu lírico. O objeto apenas toma forma e contornos, quando o sujeito vislumbra, de forma mais ou menos consciente, a possibilidade de perdê-lo. A interpretação angustiada e verossímil da mesma canção por Jack White, vocalista da banda White Stripes, demonstra um desespero patente, com gritos histéricos, guitarra distorcida e pratos barulhentos, ao entoar o refrão, em que repete quatro vezes o nome da rival. Implora para que não coloque em prática seu desejo (sua arma e potência, que arrasta com sua autossuficiência um eu-lírico vulnerável), “ apenas porque ela pode”. Em nenhum momento, o ser amado tem seus atributos descritos ou valorizados, mas apenas os da mediadora, numa bela sequência de versos. Ao descrever seus cabelos como “fios flamejantes cacheados”, mostra a intensidade de seu desejo que arde, com a chama violenta da rivalidade de uma mediação interna (mímesis conflitual), ao afirmar que não pode com ela competir. Percebe-se, assim, na penumbra, a mudança de perspectiva do modelo amado para obstáculo detestado. Seu desejo é apenas o duplo de um outro: “Minha felicidade depende de você/ E de qualquer coisa que decida fazer, Jolene”. 18 Jolene e a verdade romanesca do desejo "O indivíduo torna-se veículo de um significado que lhe escapa." “O individualismo é uma mentira formidável.” irard, inclassificável pela interdisciplinaridade, Imortal da Academia Francesa de Letras, em sua obra prima Mentira Romântica e Verdade Romanesca aponta a centralidade do caráter gregário e da dimensão de alteridade do desejo. Ao demonstrar que a imitação disfarça a liberdade na eleição dos objetos de interesse, elucida fenômenos como a moda, o marketing, o consumo, as eleições políticas, os comportamentos, o pensamento e a cultura. A verdade é romanesca por ser grotesca e desagradável, ao contrário da visão romântica, idealista e solipsista (Freud e Descartes). O desejo é uma relação, dessa forma, sempre imitativo, porque a confirmação de que se está perseguindo o objeto certo é a percepção de que seu oponente está buscando a mesma coisa. Um aponta o objeto para o outro, percebendo que promoveu a eleição certa, com base na intensidade do desejo do outro. Sua matriz está na cópia e imitação de um paradigma que autoriza. Aristóteles, em sua Poética, ratifica: “O homem se diferencia de outras formas de vida por usar a capacidade de imitação”. A teoria mimética revela, assim, o colapso da visão do eu autônomo, afirmando, ao contrário, uma estrutura de existência lábil, instável e mutante. Joga luzes no lado escuro e evanescente do desejo, reagindo à sua celebração romântica ou liberal. Dolly Parthon, em um folk contido do início dos anos 70, na versão original da canção popular Jolene, ilustra com didatismo as engrenagens da estrutura triangular do desejo (sujeito, modelo/mediador e objeto) e seu caráter romanesco. A fórmula básica do desejo não pode ser compreendida como A deseja B, mas sim, A deseja B porque C direcionou sua atenção para ele. O eu lírico (sujeito) encontra-se, totalmente, passivo e subjugado por Jolene (modelo/mediad ora), Sol ao redor do qual um astro menor orbita. Ao ansiar absorver e assimilar o mediador, busca fundir-se a outra para vencer uma repugnância de si. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 19. Já o eu lírico da canção Desire de Alela Diane, alquebrado pelos deveres e responsabilidades normais da vida cotidiana, observa uma não tão jovem personagem. Leve em seus descaminhos, procurando resposta a uma “coceira existencial”, avidez sem forma, nos desejos de um grupo de referência (“clã sombrio”/“Ela se parece como se em 1995”). O videoclipe da canção é interpretado pela própria compositora e cantora, que representa tanto o eu lírico observador quanto a personagem principal. Naquele papel, canta sem maquiagem, de cara limpa, de cima de um prédio, demonstrando distância e sobriedade. Já neste, vaga sem rumo feito uma cigana ébria, deslizando entre cidades e noitadas, com maquiagem pesada, salto alto e cabelos desgrenhados. O refrão simples e marcante da canção, soletra a palavra desejo, como se fosse um outdoor com luz neon piscando em qualquer capital, com seus objetos de consumo a serem definidos, posteriormente, com produtos massificados. Além disso, pergunta ao ouvinte se ele está percebendo o mesmo chamado misterioso que a personagem. A verdade é que nem mesmo ela consegue ouvir com nitidez, pois esse desejo varia conforme as modas e caprichos do momento (“Ooh, ela está procurando por algo/ Está girando e circulando”). Tem seus contornos definidos quando validados pelo tecido social mimético de seu grupo de referência (mediador): “Ela está perdida, perdida, perdida”. Vislumbra-se aqui, portanto, da mesma forma que na canção anterior, o desejo não como fruto de uma individualidade (mentira romântica), mas como forma de alienação (verdade romanesca). A teoria mimética, por consequência, contraria o mainstream da Psicanálise Cultural, com conceitos de autoestima e narcisismo, trazendo à tona neologismos miméticos como “heteroestima” e “interindividualidade”. 19 Eduardo Villar é advogado, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Escola de Magistratura. Escreve sobre teoria mimética e cultura. Em suma, em termos girardianos, pode-se dizer: “Nem sequer sabemos qual é o nosso desejo. Pedimos a outras pessoas que nos digam. Gostaríamos que viessem do nosso eu mais profundo, das nossas profundezas pessoais, mas se viessem não seriam desejos. O desejo é sempre por algo do qual sentimos falta”. Em termos teológicos, Santo Agostinho, por sua vez, sintetiza em suas Confissões: “Nossos corações estão inquietos, até que descansem em Vós”. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 20. Dom Marcos Barbosa e sua poesia C cionado entre mais de 200 inscrições em todo o mundo e foi traduzido para inglês, francês, espanhol e alemão. Esse sucesso incentivou Dom Marcos a publicar sua poesia. Em 1961 apareceu a primeira edição de sua coleção de poemas Poemas do Reino de Deus. A segunda e o terceira edições vieram em 1980, sendo que a terceira edição, publicada pela Livraria José Olímpico do Rio de Janeiro, coleciona a sua obra poética até 1980. Dois outros volumes de versos de Dom Marcos apareceram posteriormente: Nossos Amigos os Santos é uma meditação, em verso e em prosa, sobre vários santos da Igreja Católica. Congonhas, que apareceu em edição limitada em 1986, é um volume de fotografias de Hugo Leal acompanhadas por poesia de Dom Marcos que celebra a grande realização artística do escultor do século XVIII, o arquiteto e escravo liberto Aleijadinho. Para finalizar esse pequeno resumo da vida e obra de Dom Marcos devo adicionar a tristeza que sinto ao notar a ausência completa de exemplares de sua obra disponíveis no Brasil. Com exceção de sua obra de tradução no Pequeno Príncipe, não há livro algum de sua autoria disponível no mercado. Aqui fica a minha esperança que isso seja remediado brevemente. 20 resci na nossa casa grande no Cosme Velho ouvindo a poesia de Dom Marcos Barbosa. Mamãe lia o Cântico de Núpcias quando a ocasião pedia, daquele jeito dela maravilhoso de recitar a poesia no qual as palavras do monge amigo nos pareciam tão vivas. No Natal sempre ouvíamos seus versos de Dom Marcos sobre a Árvore de Natal, e o soneto famoso A Flor do Tanque era recitado em qualquer tempo do ano. Ainda pequena eu imaginava aquela flor no claustro, a “branca Ofélia”... e assim, antes de conhecer Shakespeare, ou de saber os pormenores da vida religiosa do claustro, minha mente se expandia com a beleza das palavras do monge poeta. Quando me vi nos Estados Unidos fazendo mestrado, foram minhas traduções-de- cabeceira dos Poemas do Reino de Deus para meu marido que me deram a idea de estudar a poesia de Dom Marcos aqui na terra natal de meu marido. Escrevi para ele, que era amicíssimo de papai e mamãe, e que tinha me batizado, como a muitos de meus dez irmãos. Ele concordou e me ajudou durante o processo da minha tese de mestrado e por isso sou eternamente grata. Foi assim que eu estudei melhor e apreciei o valor de Dom Marcos e de sua poesia. Dom Marcos Barbosa OSB, poeta, tradutor, dramaturgo e acadêmico, nasceu Lauro de Araújo Barbosa em 12 de setembro de 1915, na cidade de Cristina, no sul do estado de Minas Gerais. Depois de completar ensino médio em Itajubá, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1934 para estudar Direito na Faculdade Nacional de Direito. Durante a faculdade, participou da Ação Universitária Católica e do Centro Dom Vital, dois dos vários movimentos sociais e intelectuais católicos no Brasil durante as décadas de 1930 e 1940. No Centro Dom Vital, Dom poética baseada em traduções dos Salmos feitas a partir do hebraico original pelo jesuíta Ernesto Vogt S.J., usada hoje me vários mosteiros do Brasil. Os elogios da crítica foram abundantes: "Numerosas são as traduções dos Salmos em nossa língua. A versão [de Dom Marcos], porém, é a única que preserva nesses poemas antigos seu caráter de hinos, apropriado para ser lido em voz alta em cadência ou cantado em coro, obedecendo à acentuação rítmica das sílabas, que lhes dá beleza especial.” Apesar da grande aclamação da crítica ao seu trabalho, o carioca comum por várias décadas do século XX conhecia Dom Marcos não pelas suas traduções e peças teatrais, mas pelas suas crônicas publicadas no Jornal do Brasil. Além disso, era conhecido pela transmissão do programa radiofônico Encontro Marcado que ia ao ar duas vezes por dia na Rádio Jornal do Brasil, de 1959 até 1993. O poeta Dom Marcos teve ampla exposição pela primeira vez em 1955, quando se realizou a XXXVI Congresso Eucarístico Internacional no Rio de Janeiro. A letra que Dom Marcos enviou para o Hino oficial do Congresso foi sele- Thomas Merton sugeriu que Dom Marcos teve "algo da inspiração vinha das grandes abadias beneditinas inglesas da Idade Média, a idade de ouro das peças milagrosas". Dom Marcos foi comparado com Gil Vicente, Calderón de la Barca e Anchieta. Como tradutor, Dom Marcos trouxe ao Brasil diversas obras e autores significativos da literatura francesa como Paul Claudel, François Mauriac, e o livro famosíssimo de Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe. Num trabalho de tradução de sucesso singular, Dom Marcos forneceu uma interpretação literária e Vital, Dom Marcos conheceu Alceu Amoroso Lima (sob o pseudônimo de Tristão de Athayde), o grande ativista, ensaísta e crítico social católico, tornando-se seu secretário particular. Nesse período, Dom Marcos foi editor da revista A Ordem, órgão principal do Centro Dom Vital. Ao concluir o curso de Direito, começou a cursar licenciatura em Artes Liberais. Em 1940 ele interrompeu seus estudos para ingressar no Mosteiro de São Bento do Rio. Dom Marcos foi ordenado sacerdote em 1946. Voltou a escrever e, em 1947, apareceu seu primeiro livro, Teatro, uma coleção de peças curtas (autos) com temática religiosa. O livro recebeu ampla aclamação da crítica e performances populares em todo Brasil. Teatro foi responsável por reviver a arte adormecida de teatro litúrgico no Brasil. Ao todo, Dom Marcos publicou cinco volumes de autos. Antônio Carlos Villaça observou: "Através do seu teatro litúrgico [Dom Marcos] consegue cumprir a missão mais delicada: levar a Liturgia ao povo, numa linguagem atrativa e moderna.... [Sua linguagem não é] uma língua estranha, fechada, distante do homem simples. [Sua a linguagem universal da Igreja, a linguagem dos Salmos…. " Em carta a Dom Marcos, o escritor norte-americano Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 21. 21 A poesia de D. Marcos A poesia de Dom Marcos abrange os complexos temas de amor, morte, mistério e casamento com mensagens simples e diretas, mesmo que líricas. Dom Marcos não refinava a inspiração original, era um poeta de ocasião. Seus poemas não se desenvolveram durante um longo período de tempo, mas eram sua experiência religiosa transformada em verso. De ocasião ou não, os poemas de Dom Marcos possuem uma qualidade única de música. Ele era um poeta lírico, seja trabalhando como tradutor ou como escritor. Isso é um ponto comum entre todos os críticos à sua obra. Antônio Carlos Villaça, no prefácio da edição de 1985 de Nossos Amigos, Os Santos, escreveu: "Dom Marcos é antes e acima de tudo, um poeta. Sim, o cronista, o dramaturgo, o tradutor, o pregador, tudo nele está unido ao puro poeta lírico e está impregnado de real poesia, isto é, a emoção unida à tranquilidade." O que torna sua poesia tão única é sua capacidade de falar sobre os mistérios mais intrínsecos da fé em linguagem acessível a todos. Seus poemas não são produtos de uma busca exaustiva pela expressão perfeita. Dom Marcos fala simples e diretamente. Cântico de Núpcias, muito conhecido no Brasil, originou-se numa homilia para uma celebração de casamento. Este trecho mostra a clareza e lirismo da linguagem de Dom Marcos: Será nossa leitura à luz da mesma lâmpada, aqueceremos as mãos ao mesmo fogo e veremos em silêncio desabrochar no jardim a primeira rosa da Primavera. Iremos depois nos descobrindo nos filhos que crescem, e não mais saberemos distinguir em cada um os meus traços e os teus, o meu e o teu gesto, e então nos tornaremos parecidos. E nem o mundo nem a guerra nem a morte, nada mais poderá separar-nos, pois seremos mais que nunca, em cada filho, uma só carne e um só coração. A beleza de sua poesia não está no exagerado simbolismo, nem na intensidade semântica, mas na música, no ritmo e nos sons harmônicos, quase ondulantes, das palavras que ele escolhe. Estes não são poemas sobrecarregados; eles são poemas feitos num único rascunho. O valor, a beleza da poesia de Dom Marcos reside justamente na sua leveza: Bem debaixo, Senhor, da tua asa, coloca a nossa casa. Nossa mesa abençoa, e o leito, e o linho, guarda o nosso caminho. Brote, em torno, o jardim, frutos e flores, em nossa boca, louvores. Conserva pura a fonte de cristal, longe o pecado e o mal. Repele o incêndio, a peste, a inundação, reine a paz e a união. Bem haja na janela o azul do dia, na parede, Maria. Encontre a noite quieta a luz acesa, quente sopa na mesa. Batam à porta o pobre e o viajor, e tu mesmo, Senhor. Tranquilo seja o sono sob a cruz que a outro sol conduz. Este poema, intitulado Oração da Família, exemplifica temas frequentemente presentes na poesia de Dom Marcos: imagens de jardim, fonte, cristal, a tranquilidade. O leitor nunca tem a impressão de estar em contato com um poema elaborado, mas sim com os momentos puros e espontâneos de uma alma humana. Dom Marcos alcança, em seus versos descomplicados, resultados pelos quais muitos se esforçariam em vão. A poesia de Dom Marcos não tem caráter social ou intenção política, assim como a maioria das expressões de arte no meio cultural do Brasil do século XX. Ele faz a Palavra de Deus acessível às pessoas; ele é popular no sentido mais verdadeiro, alcançando todas as classes sociais com suas palavras, através de sua poesia, seu programa diário de rádio. Ele não faz isso com uma abordagem ideológica, mas porque ele é padre por opção e poeta por acidente. Explicando a origem de seus poemas em Poemas do Reino de Deus, Dom Marcos observa que sua obra poética vem de sua entrega ao serviço de Deus e é este serviço, diz ele, que ele escolhe, em vez do serviço de literatura. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 22. 22 A poesia de Dom Marcos reside em outro nível, um mais alto daquele de seus contemporâneos Portinari, Di Cavalcanti, Clarice Lispector, Hector Babenco. Embora viveu separado, num mosteiro no coração do Rio, seus temas raramente tocam a realidade social deste mundo como eventos políticos fatos históricos. Os aspectos mundanos da sociedade moderna não desempenham papel algum em seus versos. Pelo contrário, Dom Marcos explora como esse mundo efêmero faz parte do mundo eterno. Um de seus versos mais populares reflete a simplicidade do quotidiano que ele usa para nos trazer sempre para cima: Varredor que varres a rua, / tu varres o Reino de Deus. O próprio Dom Marcos oferece uma justificativa para seus temas da vida quotidiana, que ele trouxe tão belamente na imagem do varredor de ruas: "Não é com todos esses que se constrói o Reino de Deus: mortes, casamentos, aniversários, noivados, e uma flor que se abre no claustro?" E natureza também, como neste aclamado poema, talvez sua obra-prima: Vós, que amais a natureza, é preciso vir para vê-la, recém-brotada das águas, como no céu uma estrela! Ontem mesmo nada havia, dissimulado botão; ergue agora no cristal a sua branca ascensão. Nasce no jardim do claustro, não na terra, mas no tanque; vai vendo abrirem-se as outras de um aquático palanque. E tem gestos de oriente a coroa estilizada, pondo brancas sombras de anjos na superfície irisada. Vide vê-la! Oh, não podeis: pois foi nascer na clausura e já bóia, branca Ofélia, nas águas da sepultura. Tão depressa brota o poema de efêmera duração; mal risca de leve a vida o anseio do coração... Este poema, intitulado A Flor do Tanque, é uma destilação de todos os seus temas, imagens e linguagem. A própria vida monástica é a causa para o poema, a ocasião para seus pensamentos melancólicos que são a essência do poema. O autor usa metáforas para refletir a beleza que há em sua vida, isso fica claro quando ele afirma: você, que ama a natureza, não pode vir vê-la, a flor nasceu no claustro, cuja entrada é proibida para o mundo lá fora. E a flor, efêmera, branca Ofélia, só existe nos olhos de Dom Marcos. Somente seus versos a trazem ao mundo exterior. Dom Marcos escolhe imagens que estejam de acordo com a natureza frágil daquilo que ele quer expressar. Em “A Flor do Tanque”, ele usa a imagem de uma frágil flor branca de vida curta para simbolizar essa fragilidade. A senso de transição e efemeridade também estão presentes: uma flor que brevemente desabrocha, o nascimento do poema, e os anseios do coração--unidos na transitoriedade. Esse sentido não é retratado negativamente. O aspecto transitório da natureza e da nossa experiência dela são vistas como lições dolorosas, mas catárticas, anunciando a vida eterna. Dom Marcos transcende o acontecimento mundano de um lírio já se decompondo no tanque do claustro para nos dar uma meditação com profundo lirismo, beleza, tristeza, amor. Dom Marcos recebeu vários prêmios literários e foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 1980. Mas ele é "antes e acima de tudo um poeta", diz Antonio Carlos Villaça quando Nossos Amigos, Os Santos, um livro de sonetos, foi publicado em 1985. Ele continua: "Sim, o cronista, o teatrólogo, o tradutor, o pregador ou sermonista, tudo nele se vincula ao puro poeta lírico e está impregnado de verdadeira poesia, isto é, a emoção unida à tranquilidade." Meu trabalho de mestrado na University of Texas foi o de traduzir muitos dos poemas de Dom Marcos Barbosa para o inglês e comentar sobre o processo de tradução. Espero ter ainda a chance de escrever sobre esse trabalho nas páginas de Scena Critica. D. Marcos Barbosa, sentado à direita, na Academia Brasileira de Letras, ao lado de Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Austregésilo de Athayde e outros imortais Ana Braga-Henebry, M.A., cresceu no Rio e fez mestrado nos EUA onde conheceu seu marido e criou sete filhos. Escreve para vários periódicos sobre literatura, vida católica e homeschooling. É autora de uma biografia para crianças sobre o geneticista Venerável Jerome Lejeune, a ser publicada pela Word On Fire em maio de 2024. Abril-junho 2024 | Scena Crítica
  • 23. A partir da leitura de alguns gêneros, de modo especial do cinema norte-americano, Deleuze intuirá determinadas leis que regem a imagem-ação. A primeira delas se refere à imagem-ação como representação orgânica no conjunto da cena.[2] A imagem-ação é estrutural, levando em conta a situação e o meio que a envolve. Pois, ela ao mesmo tempo que se afirma pela personagem, afirma-se também através do espaço social e geográfico. Ela envolve várias potências simultaneamente, que efetivam propriamente a ação. Ela promove, a partir da perspectiva do tempo, a alternância entre os momentos de contração e dilatação, como se preparasse uma grande respiração entre os momentos de maior êxtase e relaxamento, promovendo a chamada montagem alternada, que comporta figuras convergentes ou concorrentes. A segunda lei da imagem-ação diz respeito à passagem da situação a situação transformada que se dá por intermédio da ação. O synsigno se contrai em um duelo no qual as potências, que ele atualiza, se distribuem de outro modo. A terceira lei, parece ser o contrário da segunda. Deleuze a batizou de lei de Bazin, fazendo referência ao cítico francês, de Cahiers du Cinemá, André Bazin.[3] No sentido em que o crítico afirmava que se duas ações independentes confluem para produzir um mesmo efeito, acaba-se por gerar um momento em que não é mais possível distingui-los, pois encontram-se em uma “simultaneidade irredutível”.[4] Deleuze via na imagem-ação, uma inspiração para um cinema que privilegia o comportamento, na medida em que o comportamento é uma ação que inspira a transformação, ou seja, a passagem de uma situação à outra.[5] Assim como Merlau Ponty via nesta dinâmica da situação um elemento de intercessão relativo ao romance moderno, à psicologia e ao cinema.[6] Há ainda na imagem-ação, um aspecto que parece subversivo ao que se conceituou inicialmente. Se primariamente, se atém à fórmula semiótica de Pierce, ou seja, da situação à ação (SAS’), pode-se trilhar o caminho contrário, evidentemente, da ação à situação, rumo a uma nova situação. A ação que desvela a situação, no sentido em que o avançar da ação, se dá de modo velado, revelando a situação de modo ambíguo.[7] No último capítulo de Cinema – a imagem-movimento, Deleuze irá debruçar-se sobre a crise da imagem-ação, que consiste em tratar do conceito peirciano de terceiridade, que se refere ao “mental”, conceito que se dá sempre em referência a outros, ou seja, um terceiro que remete-se a um segundo termo, por intermédio de um ou mais termos.[8] A terceiridade não se apresenta como uma novidade para o cinema, bem compreendido, no sentido, de que não há uma adição artificial deste conceito, ou seja, o conceito peirciano vem classificar algo que já estava presentificado, desde os primórdios do cinema moderno. O cinema sempre comportou dentro de sua estrutura narrativa “extra e infra-ações”, que não poderia estar ausentes da montagem, sem desfigurar o filme, mas pelo contrário a vocação do cinema para a mudança sempre inspirou os autores a desejar limitar a unidade da ação.[9] [1] OLIVEIRA, Leonardo. Filosofia e cinema em Deleuze: Da imagem-movimento às condições de sua superação. Pandora Brasil, p. 1-13, setembro, 2011.; [2] DRIGO, Maria. Imagem cinematográfica e pensamento: a imagem- percepção na confluência das teorias de Deleuze e Pierce. E-compos, 19, p. 1-18, 2016; [3] “[…] A imagem-ação, ou representação orgânica tem dois polos, ou melhor, dois signos, um que remete sobretudo ao orgânico e o outro ao ativo ou ao funcional. Chamamos o primeiro synsign, conformando-nos parcialmente a Peirce: o synsigno é um conjunto de qualidades-potências enquanto atualizadas num meio, num estado de coisas ou num espaço- tempo determinados.” (DELEUZE, Gilles, 2018, p. 221); [4] This sort of image is the most prevalent structure of cinematic works in most places of the world due to its narrative nature. If the realm of affection-image is idealism, the realm of action-image would be realism. Action-image is divided into large form and small form with composition signs and separated genesis. Actionimage is the activity domain of quality and power […] (FASAYI, Golnaz; AKRAMI, Musa. Gilles Deleuze: Beyond Peirce’s Semiotics.. Journal of Philosophical Investigations, 11, p. 16-36, 2012.); [5] DELEUZE, Gilles. A imagem movimento. São Paulo: Editora 34, 2018, p. 221; [6] “O meio atualiza sempre várias qualidades e potências. Nelas ele opera uma síntese global, ele próprio é ambiência ou o englobante, enquanto as qualidades e as potências tornam-se forças no meio. O meio e suas forças se encurvam, agem sobre a personagem, lançam-lhe um desafio e constituem uma situação na ela é apanhada.”(Ibid., p. 219-220); [7] Ibid., p. 220; [8] Ibid., p. 233; [9] BAZIN, André. O cinema: ensaios. São Paulo: Editora Brasiliense, p. 15; [4] DELEUZE, Gilles, op, cit., p. 235; Ibid.,p. 238; [10] MERLEAU-PONTY, Maurice. O cinema e a nova psicologia. São Paulo: Ed. Graal, 1983, p. 108; [11] DELEUZE, Gilles. op. cit., p. 245 [12] Ibid., p. 293; [13] Ibid., p. 305 CADERNO CINEMA 23 Ação na imagem o tratar das variedades da imagem-movimento, Deleuze irá conceituar a “imagem-ação”, que encontra uma relação íntima com a percepção, na medida em que se compreende identificação entre o movimento executado e percebido.[1] A imagem-ação é um correspondente da filosofia semiótica de Pierce, mais especificamente um correspondente ao “synsigno”, o englobante. Pierce aplica sua classificação dos signos, de acordo com a sua relação com os fenômenos, desse modo obtém-se as relações de: primeiridade, que diz respeito aquilo que ainda não encontra referência, o quali-signo; a segunda seria referida à imagem-ação, pois está em relação ao fenômeno a secundidade, o synsigno, que o é por causa de outro, ou seja, que o é por conta de uma interação, de uma ação.[2][3] A secundidade, ou seja, a imagem-ação é o tipo prevalente da imagem-movimento, no modo universal de fazer cinema; contudo, reside no cinema norte-americano uma maior prevalência desta opção semi-ótica, justamente por sua identificação com um certo realismo, que naturalmente relaciona-se melhor com a ação e seus efeitos, derivado do estilo clássico de narrativa.[4] DE A Com especialização em roteiro pela Escola de Cinema Darcy Ribeiro, Filipe Machado é bacharel em filosofia pela PUC-Rio e licenciado em História. Atualmente suas pesquisas estão centradas nos autores que compuseram a cena intelectual católica do século XX com especial ênfase em Gustavo Corção. Abril-junho 2024 | Scena Crítica Na imagem-ação reside um fator diferencial, que é uma certa identificação com o realismo, já que as pulsões e os afetos aparecem sob a forma da expressão de emoções e sentimentos. [5] Não é uma exclusividade do realismo, como ressalta Deleuze, pois já encontrava espaço em outros movimentos precedentes, como o expressionismo alemão, contudo, irá encontrar seu cume, de modo especial, no realismo e em seus desdobramentos, como o neorrealismo italiano. No caso do expressionismo, as pulsões aparecem expressas não tanto na misancene, mas no espaço social e geográfico, através do jogo de sombras que é tão característico do movimento. Um exemplo claro está na filmografia do alemão Fritz Lang, especialmente em Metrópole, de 1920, onde o sombreamento dá significado a expressão de um sentimento que é transmitido a partir de uma ambientação social, que reverbera no espaço físico. [6] Há na imagem-ação, um movimento duplo de contração e dilatação, entre o meio e o personagem. O meio exerce sua ação sobre a personagem, de modo a constituir uma ação que a envolva, esta por sua vez responde com uma reação ao meio, de modo a moldar-se ou modificar o meio. Daí advém a decorrência de uma modificação ou restauração de uma situação. Cria-se, então, um par, entre a ação modificada e a personagem, que a tornam correlatos e antagônicos, este é o conjunto que caracteriza a imagem-ação. [1] A partir da leitura de alguns gêneros, de modo especial do cinema norte-americano, Deleuze intuirá determinadas leis que regem a imagem-ação. A primeira delas se refere à imagem- ação como representação orgânica no conjunto da cena.[2]