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1. O “Ponto de partida”

    Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortação
premente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11).
    Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em conta
que essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inês
sobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para que
tivesse propriedades.
    Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer ter
propriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromisso
de amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papa
Gregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se o
seu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e posso
dispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meu
Senhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza,
mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que não
se achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até ser
encontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2).
    Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos da
espiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguir
os passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre?
    São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Francisco
diz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizer
que “Deus é o Amor”.
    Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada.
Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nunca
vamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nesta
terra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer a
pessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai e
Filho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se dar
inteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porque
humana – que não sobra nada.
    Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco e
Clara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre.
    Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres.
Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos
                                      1
Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não é
amoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade.
    Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o Deus
Amor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando o
Amor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade,
quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras:
usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é.
    Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nos
ensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres.
    Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco não
entendia a obediência como um cumprir ordens, mas como um
corresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Francisco
quiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto mais
eles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-se
mais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus.
    Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuo
relacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta de
Jesus Cristo.

                                  ***
   Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somos
sedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em que
vivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal –
com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar.
   Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar.
   Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seus
pais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido e
distribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como uma
virgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês de
Praga, que fora agraciada pela mesma vocação.
   Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos de
que para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade era
entendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como se
ela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro de
mim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre como
uma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido o
ponto de partida.

                                     2
Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que
     “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos
     nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança”
     (2CtIn 12).

   A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logo
adiante:
     “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse
     propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao
     Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém
     lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou
     parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração,
     não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre”
     (2CtIn 14,17-18).

   De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera pouco
antes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”:
     “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo
     Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim.
     Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa
     santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de
     maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9).
    Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua
“espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoal
cada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo.
Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo”
(2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5),
exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais belo
entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos,
desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das
angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus,
irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24).
    Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é ser
uma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nas
Sagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que a
precederam, como vamos ver.
    “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinha
dorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudo
aprofundado que queremos fazer.

                                         3
Para isso, devemos recordar alguns pontos:
   Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 e
morreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordem
posteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, que
esteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas está
sendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final do
século XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneira
sucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri-
tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre se
conheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios.
Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidade
do movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis-
clariana.
   Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua-
lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais.

                           1.1. Espiritualidade

   A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro,
vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dos
esponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor.
   Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa-
mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele era
o Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: na
revelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficar
conosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma função
que tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e o
Filho.
   Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão que
outras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força que
perpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” até
quando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au-
têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”.
   A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, a
carmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va-
mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dos
esponsais.
                                       4
Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminho
e ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aquele
que disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir os
vestígios de Jesus crucificado e pobre”.

                              1.2. Esponsais

    Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele-
bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a união
mais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente para
falar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu-
manidade e com cada um de nós.
    Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, já
tinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em tempos
mais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como se
quisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Não
é isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa,
é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoas
consagradas” no batismo, também nós somos esposos.
    Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo do
Povo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povo
e como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. O
importante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder a
Deus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco é
de amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foi
sempre envolvido de afeto e de carinho.
    A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e de
toda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque
“Deus vai ser tudo em todos”.

                         1.3. Linguagem simbólica

   Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagem
simbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamento
entre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usando
linguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símbolo
que Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico-
demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisse
expressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes.
                                       5
A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática e
na química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinal
para reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Por
isso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re-
solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela não
consegue explicar.
   O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente de
todos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seu
mundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando.
Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal.
Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o que
pensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá para
expressar: são inefáveis.

                              1.4. Sol e Lua

    Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossa
relação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. É
histórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-se
muitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério.
Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulher
em segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão é
positiva: dela nasce vida.
    Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre ser
homem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: não
somos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é para
nos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algo
masculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram o
masculino de Sol, e o feminino de Lua.
    Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua
(palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbrio
solar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamente
humana.
    Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol
(palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbrio
lunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamente
humano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente


                                      6
humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, um
casamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior.
    O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante do
outro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposição
polar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula.
São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, mas
não podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidade
inteira a partir de seu sexo.
    Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em um
relacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus.

                              1.5. Mística

    Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua
incapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidades
secretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar os
olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio
é saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nos
movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não
descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o
homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando
o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele.
    Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e
de que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E o
fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas
explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos
nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que
viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de
Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante.
    Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re-
lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento.
Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser
nada”.

                   1.6. A Trindade e o ser humano

   Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem-
pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas,

                                     7
nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (o
Pai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo).
    O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convite
para se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para o
transcendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em toda
relação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eterno
e infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que a
própria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema de
comunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam em
Deus, a quem buscam juntos e amam juntos.
    Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amor
entre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação de
Deus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vida
na perspectiva da espiritualidade dos esponsais.
    Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamento
desde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Forma
de Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, isto
é, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É uma
proposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramos
outros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que ele
colocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis.
    Os textos são os seguintes:
    a). Forma de Vida
     “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo
     Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida
     de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim
     e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude
     especial, como por eles” (RSC 6,3-4).
   b). Antífona de Nossa Senhora
     “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu-
     lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do
     nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai
     por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os
     santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória
     ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre,
     Amém!”



                                        8
c). Carta aos Fiéis
     “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem
     essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do
     Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do
     Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de
     nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito
     Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos
     quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50).
     Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20),
     pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa
     operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como
     é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal
     esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e
     filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas
     desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13).
                                        ***
   Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou os
diversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez em
quando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos ser
humanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar o
Cristo pobre como uma virgem pobre.

                          1.7. Um cântico de Amor

    A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numa
intensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico.
    Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco.
    Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhe
falaram do Cântico dos Cânticos.
    Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres.
    Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia.
    Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo,
          Vestiu-se de Sol,
          Coroou-se de estrelas,
          Apoiou-se na Lua,
       E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem!
    Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação.
                                           9
A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição.
Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos.
Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos para
celebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade.

   Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa para
sempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado.




                                    10
2. Santa Clara e o Cristo Esposo

   Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o Movimento
Franciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nos
ensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar uma
perspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que,
em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em Jesus
Cristo.
   Vamos considerar três perspectivas:
      1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo.
      2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo.
      3). Clara celebrou o Cristo Esposo.

          2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga

   Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidade
dos esponsais 1.
   Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavras
Esposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões com
que ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo.
   Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês:
       “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que
       guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7).
    Também chama Inês de esposa duas vezes:

   1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância da
Hungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusive
ao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros e
cortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, que
chegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel da
Hungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que havia
um hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com grande
repercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerem
pessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade.
   Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre Jesus
Cristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em uma
virgindade cada vez maior.

                                                    11
“Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração,
    porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12).
    “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe
    do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24).


   Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes:
A primeira:
    “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o
    seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o
    mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo,
    morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20).
   E a segunda:
    “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn
    24).

   E também chama Inês de esposa de Jesus:
    “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei
    dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e
    por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza”
    (2CtIn 1-2).



  Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembrada
como sua esposa:
    “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à
    reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os
    mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei
    dos céus” (3CtIn 1-2).
   Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se refere
necessariamente a Inês:
    “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo
    celeste!” (4CtIn 30).
   Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes:
    “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à
    ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima
    mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa
    do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a

                                         12
minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...”
        (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto
        com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro
        desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele,
        sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas
        das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17).
    Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadas
treze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposo
e esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida que
Jesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outras
expressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta:
        “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande
        humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com
        quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7).
   Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludido
ao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possível
casamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazer
uma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas,
especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falar
de Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento da
espiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nesses
esponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico,
patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade.
Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos.

                              2.2. Clara Esposa de Cristo

   As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara como
Esposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logo
de início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clara
pensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveram
antes que ela entrasse na Ordem:
        “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas
        expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora.
        Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar
        a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez
        homem” (LSC 5,5-6).

  2
      Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210.
                                                   13
Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre isso
porque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentes
já achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava o
particular amor que ela tinha por Jesus Cristo:
     “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se,
     desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já
     pudera provar...” (LgV 5 214).
   Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logo
depois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” em
que dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”,
como ela recorda em sua Regra:
     “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de
     vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e
     servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo,
     optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu
     quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado
     diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5).
    Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona do
Ofício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressões
idênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha e
serva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nosso
Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2).
    O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandou
abrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa e
decidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nem
demorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, mas
imediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suas
coisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seu
Esposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente,
com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lhe
especialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e o
voto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3).
    O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial,
para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, a
pertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e por
fora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve,
filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai,
porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2).
                                       14
E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida a
viver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejados
abraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4).
   Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar da
Mãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa
penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse
Cristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8).
   Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completada
com solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quando
Clara estava no final de sua carreira:
     “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas
     de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras...
     que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a
     cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor
     sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de
     maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o
     tálamo adornado” (LSC 46).
     O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo o
fundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs:
“Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável,
deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no
rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o
corpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20).
     Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe-
chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC
10).
     Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amor
do Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra,
regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre o
seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a que
beijava” (LSC 19).
     Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo,
Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam dela
uma mestra de espiritualidade:
     “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa-
     drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão
     dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu

                                        15
desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais
     eternos” (LSC 6).
   Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião,
algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todos
os mosteiros das Damianitas:
     “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro
     que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial”
     (CcNm).

   E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de São
Francisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente,
o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs de
Clara, destacando, entre outras, com a maior admiração:
     “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a
     ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar
     nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo
     Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da
     vida passada...” (1Cel 19).
   Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa de
Cristo, escreveu:
     “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de
     governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam
     na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38).
   Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tanto
que desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa:
     “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto
     e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da
     perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando
     com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24).
     “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato
     carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável
     fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole
     in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm).
   O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsais
com Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara à
esposa do Cântico dos Cânticos 2,5:


                                        16
...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos,
     enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs,
     apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367).
   Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa:
     “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como
     desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer
     maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial”
     (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma
     forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga.

                   2.3. Clara celebrou Cristo Esposo

    Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde se
descobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar um
exemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nos
meios de comunicação.
    Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriu
ser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável.
Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é uma
realidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nem
uma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável de
onde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de que
venha a faltar.
    Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suas
Irmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano.
Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deus
feito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desse
conhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para ela
mesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade.
    Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensar
que tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papa
Gregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que não
queria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza era
para ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar na
primeira Carta a Inês de Praga.
    Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de Cristo
Esposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveu
cartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada

                                        17
frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente ao
descobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nos
místicos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisões
muito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinha
escolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com o
que ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossos
horizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e de
felicidade.
    A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sido
incapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre Jesus
Cristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos são
numerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode ser
plenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim:
     “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-
     se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-
     aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja
     contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja
     lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja
     visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o
     esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem
     mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14).
    Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmo
de um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o Cristo
Esposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesma
descoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico de
celebração.
    Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe-
ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Praga
o que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro e
pé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante e
alegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e
“abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é,
cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8),
tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior.

  Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo como
uma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co-
mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em

                                         18
vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal com
Deus na pessoa de Jesus Cristo.

   Proponho algumas reflexões:

   1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca alguma
reação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel,
mesmo que seja só para o seu uso particular?
   2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa de
Jesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não,
você acha que isso não faz falta? Ou está buscando?
   3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca alguma
vontade de cantar?




                                    19
3. Francisco, figura do Esposo

    Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial:
fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocação
única e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres-
ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos.
Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essa
busca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa de
Deus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com o
que o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”.

                   3.1. Francisco, o amigo do Esposo

   “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheiros
do noivo na celebração do casamento. O principal deles era quem
organizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio do
Reino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. Na
Legenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte:
     “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas
     expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora.
     Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar
     a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez
     homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel
     padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda
     ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois
     de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e
     acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus
     (Cf. LSC 5-6, passim)”.
    A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo a
palavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego e
significava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nos
esponsais.
    Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque sempre
rejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor da
união com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin-
cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, a
conhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de

                                       20
maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajuda
dos Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento.
   Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri-
tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceu
que Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es-
ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana.
   Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de
Deus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra-
ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mas
também para crescer nela:
     “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente
     da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que
     agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e
     mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14).
   Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre as
Irmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que ela
ouviu e haveria de seguir para sempre:
     “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para
     conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas
     coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem-
     aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas
     também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus
     nos chamou” (TestCl 15-17).
   E também:
     “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de
     vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e
     servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo,
     optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu
     quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado
     diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5).
   Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele-
mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dos
Frades Menores.
   Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta o
mistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidade
para chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e serva
do Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo

                                        21
seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM).
Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do Espírito
Santo”.

   Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco o
seu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens do
seu Testamento.
     “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai
     Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o
     seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os
     imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que
     Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São
     Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e
     graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o
     exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas
     Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl
     6-7).

     “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco,
     fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma
     forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa
     pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos
     sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu
     muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de
     modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis
     jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”.
   Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santa
Pobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”.
Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda
(plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposado
o Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que o
Poverello escreveu na Carta aos Fiéis:
     Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor
     Jesus Cristo (1CtFi 8).

              3.2. Eles viveram uma profunda amizade

   Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender São
Francisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhor
Santa Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois
                                        22
se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelo
papa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas:
     “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio
     Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs,
     espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só
     do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas,
     espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou
     apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo
     como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela,
     imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si
     mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa
     autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita
     do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma
     vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes
     Clarianas, págs. 397-398).
    Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos a
impressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observado
entre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendas
populares antigas apresentam os dois como namorados.
    Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain-
da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san-
tidade.
    Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre e
Francisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quando
não tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis.
Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vida
consagrada havia diversos anos.
    João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” de
Jesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre a
amizade espiritual.

                                     3.2.1. O que é a verdadeira amizade?

    Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”
(Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Os
sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade
como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre
o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu
páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e
                                         23
Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre a
amizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho
e em Santo Tomás de Aquino.
   Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred de
Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, não
muito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livros
sobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria
da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a
própria essência do mundo que há de vir.
   De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiro
amor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus diz
que seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é
leve está falando do amor fraterno.
   Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas também
o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós a
imagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações e
advertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar a
verdadeira amizade.
   Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveu
antes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas ou
mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas
humanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer
acolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que não
existe amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal.
   Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritual
sempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada um
descobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e ama
melhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi dito
pelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler.
   É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordações
de Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual.

                                    3.2.2. Na amizade com Francisco,
                                Clara viveu a esponsalidade com Deus

   Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual e
carismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fez
eco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a
                                      24
amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mas
também como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e da
Igreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temos
que falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de um
carisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhão
que não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu para
acolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom do
companheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em que
encontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, e
qual é o nosso último destino.
    Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriram
que estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estava
começando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que eles
foram vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro e
puderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas há
oito séculos.
    Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram que
eram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, em
que Deus vai ser tudo em todos.
    A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com uma
amizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só ao
Altíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que se
esvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma-
namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar?
No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizade
entre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com um
coração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso-
lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientes
religiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito de
contradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou de
menos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra-
ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não
“contra” eles.
    Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suas
vidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nós
uma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor,
onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Eles
mostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira

                                     25
muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudo
e, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outro
acreditasse nesse caminho.

    Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional da
pertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus em
contraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração e
ao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga,
a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém,
possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meu
coração, que pertence totalmente ao Senhor.
    Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso nos
compreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelou
não soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentro
dele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer que
somos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade com
Deus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionada
com o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial.
    Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizade
um lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é o
espelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e no
qual descansam eternamente unidos.
    Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós como
lar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas,
como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação,
que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que a
profundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário.

             3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco.

   Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo,
descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porque
era um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deus
continuaria a chamar.
   Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitações
que sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. E
escreveu em seu Testamento:


                                      26
“Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião,
    embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as
    minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande
    pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas
    depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e
    única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos
    nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que,
    depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de
    maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39).
   Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasião
e que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brecha
que a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhor
lhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 a
aprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e para
mulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco,
a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textos
fundamentais que Francisco lhe dera:
   A “Forma de Vida”, que já vimos acima:
    “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo
    Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida
    de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim
    e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude
    especial, como por eles” (RgCl 6,3-4).
   E a sua “Última Vontade”:
    “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo
    Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o
    fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa
    santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de
    maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9).
   E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras:
    “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos
    observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento
    multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou-
    nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também
    para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também
    elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o
    Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as
    que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a

                                       27
bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer
     o bem no Senhor” (TestC 18-22).
   Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan-
temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor de
sua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de Santa
Clara Virgem:
     “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser
     assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do
     Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio
     menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de
     renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu
     a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a
     virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode
     contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São
     Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a
     cama da moribunda... (LSC 45).
    Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel de
Francisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi-
ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento:
     “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de
     todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde
     que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo
     Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi
     pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44).
   Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a sua
Legenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”.

                             3.3. Cada um por si, mas também juntos,
                eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram

   São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os que
fazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessante
observar que ele não está falando de nossas “penitências” como as
entendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá o
sentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazem
penitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazem
penitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não o
buscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos

                                        28
ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer uma
confusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha o
significado de “agüentar a pena” 3.
   Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na sua
busca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca do
Santo Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo.
Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para o
que Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Eles
precisavam do Esposo.
   Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saber
humilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do que
desejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suas
pretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca um
momento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível que
arranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vida
em transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência com
tudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmo
e se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta no
prestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado a
descobrir Deus como seu Tudo.
   Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse:
       “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar
       tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a
       fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti
       insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma
       grande doçura e uma suavidade imensa”.
     Ele diria no fim da vida:
       “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do
       corpo” (Test 3).
    A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho da
missão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio do
Espírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro,
é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Só
faltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto,
uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o

 3
     Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586.
                                                    29
que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro.
E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez.
    Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casa
no domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconhecia
o que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixa
levar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES-
tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban-
donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terra
nova, a prometida?
    Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve um
processo de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda-
deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de uma
forma de vida que era uma notável novidade.
    Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado do
movimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, e
também não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o das
beguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheres
reclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço.
    Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás-
tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca-
minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vida
contemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintonia
com as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seu
carisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dos
possíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com a
vida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lo
vivendo-o.
    Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria sua
vocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es-
peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências.
Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam a
buscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação para
Francisco.
    Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham que
chegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoando
o que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, que
define o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fim
de todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de
                                      30
Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço por
chegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que se
começou a caminhar.
   Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem:
        “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e
        sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50).
    É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre e
menor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram para
encontrar a concreta vontade de Deus...
    O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs terem
escolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começa
a forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito.
Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme e
delicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüência
de uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Esses
são os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessa
lembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre o
Espírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexo
fundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa de
Francisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus.
Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador de
Deus em sua vida: Francisco.

    Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve que
discernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é,
na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para os
primeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do que
significa buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesse
itinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara e
Clara para Francisco serão mediação recíproca.
    Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “se
via toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão do
mesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto do
Poverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração o
animaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está


 4
     Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10.
                                          31
indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois é
complementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo.
    “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di-
mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, como
testemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez,
sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquanto
trabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonha
em realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5.

                         3.4. Os Cânticos de São Francisco

   No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da-
mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteiro
de Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecido
Cântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó-
brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs.
   Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céu
como a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectos
notáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebra
Jesus Cristo com Clara:
   Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: o
dos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. O
Sol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ou
Frei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs:
Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara,
sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. E
cada Frate forma um par com uma Sora.
   Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também ser
uma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem tem
nome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor e
suportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a
“perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outras
palavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria e
serão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. O
mesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse



 5
     Chiara Augusta Lainatti
                                         32
cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação ao
Esposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5):
    “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te
    nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho
    dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te
    dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para
    tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”.




                                       33
4. Clara e os Místicos do seu tempo

    Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe-
riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto de
partida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livre
e crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me-
dievais.
    Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o que
dissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos.
    Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa-
cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do grego
μυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É a
busca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamada
de Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva.
    Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbo
grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não
revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala-
vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer
impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de
força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do
mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não
foge do mistério, vive dele.
    Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e
de que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fato
de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas
explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos
nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que
viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de
Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante.
    Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é
relação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda-
mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou
não vai ser nada”.
    Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Foram
muitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foi
marcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro-

                                      34
fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dos
autores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério que
sempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. A
terminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova-
dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amor
recíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal-
conjugal.
    Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII?
Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservado
e estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a ser
considerado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges,
ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval.
    Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzida
no Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Os
místicos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân-
tico da Bíblia.
    Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicas
medievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister-
cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, na
maioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podem
ajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumas
mulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in-
fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possível
que Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bons
pregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seu
Processo de Canonização.

            4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara

   Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”,
e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram as
protagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem.
   Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor de
Deus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e os
Autores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dos
Cânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisar
reivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pela
arrogância e agressividade de alguns eclesiásticos.

                                     35
A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensão
de Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era um
caminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver e
de partilhar o que nelas e para elas significava Deus.
    Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério:
uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e os
levou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se de
qualquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina
(Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva no
Mistério, usando uma simbologia nupcial 6.
    A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor e
das bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor
11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência do
Deus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, as
atividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens,
intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer.
    A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da língua
à gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha de
mulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar a
palavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momento
cultural e religioso de especial importância: a conjunção entre o
pensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração.
       Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de Santa
Clara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentar
algumas personalidades que se destacaram:

                                             4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268)

   Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duas
correntes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Há
uma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor.
   É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimento
a amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e de
Rievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde que
esta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve

  6
    A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER –
D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile.
                                                  36
os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muito
sensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade da
amizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo com
Jesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração.
    Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara a
Francisco e Clara a Inês de Praga.
    Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver sua
posição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Seven
manieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta uma
narração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá uma
síntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis in
Deum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne.
    O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à sua
imagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interior
do amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IV
começa a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau V
tornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam na
verdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta união
amorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimento
do gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhuma
inteligência pode compreender.
    Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede a
vida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deus
verdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestra
experimentada nos problemas mais árduos da teologia mística.
    A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi-
nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida e
transformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nas
mulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidade
esponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara.

                          4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294)

   É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerário
espiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por volta
de 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos.
Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com um
progressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica.

                                      37
Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht der
Gottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos em
duas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro de
Helfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano.
    Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontrado
mais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igreja
enferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência do
clero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura e
áspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas se
transforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desses
eclesiásticos.
    Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência da
fluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seu
canto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essas
imagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processo
espiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da
“metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch e
Margarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vincula
as quatro.
    Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios da
divindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vida
íntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a mística
visionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo.

                             4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII)

   Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou a
consagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aos
pobres e aos enfermos.
   Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração de
mulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode ter
sofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos de
beguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada no
século XX.
   Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor.
Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural e
metafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmando
também que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade

                                     38
humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Para
isso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si e
em plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversos
aspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino em
flamengo e em alemão).
   Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijch
como uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor.
   As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiências
para-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbria
maturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor,
experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: ter
acesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele.
Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e a
alma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela.

                                  4.2. Os cistercienses

    No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foi
o herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deu
forma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários ao
Cântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, na
relação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova ao
homem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da Reforma
Gregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção à
humanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo isso
como uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva.
Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos,
principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamos
destacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx.

                                                                     4.2.1. São Bernardo

4.2.1.1. A centralidade do amor
   Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro de
tudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com o
Criador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é

   7
     Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar o
livro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo,

                                                 39
necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom de
Deus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor que
está em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo.
Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus no
homem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medo
do Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus.
   A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade de
Jesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação do
Espírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu uma
autêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidade
francisclariana.

4.2.1.1.2. O processo
   Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou um
processo que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatro
degraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo:
  1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o
       Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele.
  2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço
       interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça
  3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade
       da alma se amplia.
  4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma
       forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os
       Esponsais.
4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais
   Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dos
Cânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontos
fundamentais:
                                                 “O semelhante busca o seu semelhante”
   Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes a
Deus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal se
fundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe-

Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren,
Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. Buenos
Aires 1981.

                                                  40
fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhança
perfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne.
   A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos-
trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri-
cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amou
primeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni-
dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não à
natureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas com
esperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deus
acompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. O
Verbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem que
trabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni-
tude, ao matrimônio espiritual.
                                                     “O Beijo da tua boca”
   São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva ao
mistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1).
Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com a
doutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação.
   O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT para
que o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos de
Moisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem os
de Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dos
profetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo para
o qual nascemos.
   O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus se
encarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele.
   No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessa
natureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador.
Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem.
   O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade do
Verbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todos
souberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab e
Herodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade do
Verbo na humanidade.
   Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam ao
mesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardo
apresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos

                                     41
Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. O
amor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do Espírito
Santo é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou e
que representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho.
   A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender com
sabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi-
dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder a
quem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende.
   Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprou
sobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é o
Espírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação na
vida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar-
nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade.
                                                    A “Unidade do espírito”
   Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo também
lembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito com
Ele”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência da
comunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a ser
a pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. O
amor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação na
pessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-la
em um ato de nova criação, de um novo nascimento.
                                                         “A casa espiritual”
    No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde-
jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são o
nosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelas
atitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todo
bem.
    Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegar
à união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma-
esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus,
mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessa
relação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu-
sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus.




                                      42
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Abrace o-cristo-pobre

  • 1. 1. O “Ponto de partida” Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortação premente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11). Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em conta que essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inês sobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para que tivesse propriedades. Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer ter propriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromisso de amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papa Gregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se o seu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e posso dispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meu Senhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza, mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que não se achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até ser encontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2). Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos da espiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguir os passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre? São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Francisco diz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizer que “Deus é o Amor”. Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada. Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nunca vamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nesta terra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer a pessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai e Filho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se dar inteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porque humana – que não sobra nada. Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco e Clara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre. Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres. Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos 1
  • 2. Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não é amoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade. Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o Deus Amor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando o Amor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade, quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras: usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é. Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nos ensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres. Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco não entendia a obediência como um cumprir ordens, mas como um corresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Francisco quiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto mais eles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-se mais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus. Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuo relacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta de Jesus Cristo. *** Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somos sedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em que vivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal – com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar. Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar. Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seus pais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido e distribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês de Praga, que fora agraciada pela mesma vocação. Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos de que para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade era entendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como se ela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro de mim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre como uma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido o ponto de partida. 2
  • 3. Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança” (2CtIn 12). A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logo adiante: “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 14,17-18). De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera pouco antes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9). Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua “espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoal cada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo. Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo” (2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5), exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é ser uma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nas Sagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que a precederam, como vamos ver. “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinha dorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudo aprofundado que queremos fazer. 3
  • 4. Para isso, devemos recordar alguns pontos: Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 e morreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordem posteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, que esteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas está sendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final do século XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneira sucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri- tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre se conheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios. Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidade do movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis- clariana. Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua- lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais. 1.1. Espiritualidade A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro, vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dos esponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor. Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa- mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele era o Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: na revelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficar conosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma função que tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e o Filho. Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão que outras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força que perpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” até quando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au- têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, a carmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va- mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dos esponsais. 4
  • 5. Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminho e ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aquele que disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir os vestígios de Jesus crucificado e pobre”. 1.2. Esponsais Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele- bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a união mais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente para falar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu- manidade e com cada um de nós. Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, já tinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em tempos mais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como se quisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Não é isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa, é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoas consagradas” no batismo, também nós somos esposos. Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo do Povo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povo e como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. O importante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder a Deus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco é de amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foi sempre envolvido de afeto e de carinho. A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e de toda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque “Deus vai ser tudo em todos”. 1.3. Linguagem simbólica Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagem simbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamento entre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usando linguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símbolo que Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico- demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisse expressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes. 5
  • 6. A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática e na química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinal para reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Por isso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re- solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela não consegue explicar. O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente de todos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seu mundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando. Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal. Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o que pensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá para expressar: são inefáveis. 1.4. Sol e Lua Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossa relação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. É histórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-se muitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério. Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulher em segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão é positiva: dela nasce vida. Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre ser homem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: não somos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é para nos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algo masculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram o masculino de Sol, e o feminino de Lua. Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua (palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbrio solar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamente humana. Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol (palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbrio lunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamente humano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente 6
  • 7. humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, um casamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior. O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante do outro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposição polar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula. São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, mas não podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidade inteira a partir de seu sexo. Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em um relacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus. 1.5. Mística Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidades secretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e de que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E o fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re- lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser nada”. 1.6. A Trindade e o ser humano Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem- pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas, 7
  • 8. nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (o Pai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo). O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convite para se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para o transcendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em toda relação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eterno e infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que a própria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema de comunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam em Deus, a quem buscam juntos e amam juntos. Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amor entre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação de Deus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vida na perspectiva da espiritualidade dos esponsais. Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamento desde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Forma de Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, isto é, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É uma proposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramos outros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que ele colocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis. Os textos são os seguintes: a). Forma de Vida “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,3-4). b). Antífona de Nossa Senhora “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu- lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, Amém!” 8
  • 9. c). Carta aos Fiéis “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50). Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13). *** Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou os diversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez em quando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos ser humanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre. 1.7. Um cântico de Amor A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numa intensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico. Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco. Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhe falaram do Cântico dos Cânticos. Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres. Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia. Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo, Vestiu-se de Sol, Coroou-se de estrelas, Apoiou-se na Lua, E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem! Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação. 9
  • 10. A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição. Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos. Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos para celebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade. Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa para sempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado. 10
  • 11. 2. Santa Clara e o Cristo Esposo Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o Movimento Franciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nos ensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar uma perspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que, em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em Jesus Cristo. Vamos considerar três perspectivas: 1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo. 2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo. 3). Clara celebrou o Cristo Esposo. 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidade dos esponsais 1. Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavras Esposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões com que ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo. Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês: “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7). Também chama Inês de esposa duas vezes: 1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância da Hungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusive ao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros e cortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, que chegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel da Hungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que havia um hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com grande repercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerem pessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade. Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre Jesus Cristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em uma virgindade cada vez maior. 11
  • 12. “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12). “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24). Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes: A primeira: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20). E a segunda: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). E também chama Inês de esposa de Jesus: “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza” (2CtIn 1-2). Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembrada como sua esposa: “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se refere necessariamente a Inês: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 30). Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes: “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a 12
  • 13. minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...” (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17). Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadas treze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposo e esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida que Jesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outras expressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta: “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7). Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludido ao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possível casamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazer uma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas, especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falar de Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento da espiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nesses esponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico, patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade. Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos. 2.2. Clara Esposa de Cristo As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara como Esposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logo de início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clara pensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveram antes que ela entrasse na Ordem: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem” (LSC 5,5-6). 2 Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210. 13
  • 14. Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre isso porque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentes já achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava o particular amor que ela tinha por Jesus Cristo: “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se, desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já pudera provar...” (LgV 5 214). Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logo depois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” em que dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”, como ela recorda em sua Regra: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona do Ofício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressões idênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha e serva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2). O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandou abrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa e decidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nem demorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, mas imediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suas coisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seu Esposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente, com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lhe especialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e o voto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3). O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial, para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, a pertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e por fora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve, filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai, porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2). 14
  • 15. E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida a viver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejados abraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4). Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar da Mãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8). Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completada com solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quando Clara estava no final de sua carreira: “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras... que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado” (LSC 46). O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo o fundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs: “Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável, deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o corpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20). Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe- chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC 10). Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amor do Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra, regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre o seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a que beijava” (LSC 19). Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo, Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam dela uma mestra de espiritualidade: “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa- drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu 15
  • 16. desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais eternos” (LSC 6). Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião, algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todos os mosteiros das Damianitas: “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial” (CcNm). E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de São Francisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente, o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs de Clara, destacando, entre outras, com a maior admiração: “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da vida passada...” (1Cel 19). Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa de Cristo, escreveu: “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38). Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tanto que desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa: “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24). “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm). O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsais com Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara à esposa do Cântico dos Cânticos 2,5: 16
  • 17. ...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos, enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs, apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367). Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa: “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial” (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga. 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde se descobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar um exemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nos meios de comunicação. Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriu ser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável. Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é uma realidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nem uma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável de onde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de que venha a faltar. Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suas Irmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano. Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deus feito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desse conhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para ela mesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade. Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensar que tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papa Gregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que não queria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza era para ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar na primeira Carta a Inês de Praga. Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de Cristo Esposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveu cartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada 17
  • 18. frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente ao descobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nos místicos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisões muito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinha escolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com o que ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossos horizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e de felicidade. A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sido incapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre Jesus Cristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos são numerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode ser plenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14). Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmo de um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o Cristo Esposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesma descoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico de celebração. Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe- ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Praga o que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante e alegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e “abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é, cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8), tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior. Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo como uma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co- mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em 18
  • 19. vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Proponho algumas reflexões: 1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca alguma reação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel, mesmo que seja só para o seu uso particular? 2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa de Jesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não, você acha que isso não faz falta? Ou está buscando? 3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca alguma vontade de cantar? 19
  • 20. 3. Francisco, figura do Esposo Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial: fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocação única e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres- ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos. Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essa busca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa de Deus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com o que o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”. 3.1. Francisco, o amigo do Esposo “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheiros do noivo na celebração do casamento. O principal deles era quem organizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio do Reino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. Na Legenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus (Cf. LSC 5-6, passim)”. A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo a palavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego e significava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nos esponsais. Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque sempre rejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor da união com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin- cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, a conhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de 20
  • 21. maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajuda dos Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento. Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri- tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceu que Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es- ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra- ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mas também para crescer nela: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14). Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre as Irmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que ela ouviu e haveria de seguir para sempre: “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem- aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou” (TestCl 15-17). E também: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele- mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dos Frades Menores. Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta o mistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidade para chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e serva do Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo 21
  • 22. seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM). Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do Espírito Santo”. Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco o seu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens do seu Testamento. “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl 6-7). “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”. Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santa Pobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”. Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda (plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que o Poverello escreveu na Carta aos Fiéis: Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo (1CtFi 8). 3.2. Eles viveram uma profunda amizade Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender São Francisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhor Santa Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois 22
  • 23. se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas: “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela, imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes Clarianas, págs. 397-398). Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos a impressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observado entre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendas populares antigas apresentam os dois como namorados. Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain- da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san- tidade. Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre e Francisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quando não tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis. Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vida consagrada havia diversos anos. João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” de Jesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre a amizade espiritual. 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro” (Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Os sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e 23
  • 24. Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre a amizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino. Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred de Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, não muito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livros sobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a própria essência do mundo que há de vir. De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiro amor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus diz que seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é leve está falando do amor fraterno. Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas também o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós a imagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações e advertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar a verdadeira amizade. Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveu antes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas ou mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas humanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer acolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que não existe amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal. Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritual sempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada um descobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e ama melhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler. É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordações de Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual. 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual e carismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fez eco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a 24
  • 25. amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mas também como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e da Igreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temos que falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de um carisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhão que não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu para acolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom do companheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em que encontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, e qual é o nosso último destino. Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriram que estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estava começando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que eles foram vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro e puderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas há oito séculos. Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram que eram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, em que Deus vai ser tudo em todos. A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com uma amizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só ao Altíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que se esvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma- namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar? No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizade entre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com um coração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso- lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientes religiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito de contradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou de menos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra- ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não “contra” eles. Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suas vidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nós uma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor, onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Eles mostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira 25
  • 26. muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudo e, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outro acreditasse nesse caminho. Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional da pertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus em contraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração e ao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga, a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém, possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meu coração, que pertence totalmente ao Senhor. Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso nos compreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelou não soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentro dele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer que somos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade com Deus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionada com o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial. Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizade um lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é o espelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e no qual descansam eternamente unidos. Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós como lar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas, como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação, que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que a profundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário. 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo, descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porque era um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deus continuaria a chamar. Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitações que sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. E escreveu em seu Testamento: 26
  • 27. “Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39). Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasião e que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brecha que a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhor lhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 a aprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e para mulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco, a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textos fundamentais que Francisco lhe dera: A “Forma de Vida”, que já vimos acima: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RgCl 6,3-4). E a sua “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9). E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras: “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou- nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a 27
  • 28. bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor” (TestC 18-22). Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan- temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor de sua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de Santa Clara Virgem: “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda... (LSC 45). Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel de Francisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi- ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento: “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44). Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a sua Legenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”. 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os que fazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessante observar que ele não está falando de nossas “penitências” como as entendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá o sentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazem penitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazem penitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não o buscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos 28
  • 29. ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer uma confusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha o significado de “agüentar a pena” 3. Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na sua busca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca do Santo Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo. Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para o que Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Eles precisavam do Esposo. Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saber humilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do que desejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suas pretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca um momento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível que arranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vida em transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência com tudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmo e se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta no prestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado a descobrir Deus como seu Tudo. Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse: “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa”. Ele diria no fim da vida: “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo” (Test 3). A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho da missão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio do Espírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Só faltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto, uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o 3 Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586. 29
  • 30. que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro. E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez. Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casa no domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconhecia o que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixa levar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES- tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban- donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terra nova, a prometida? Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve um processo de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda- deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de uma forma de vida que era uma notável novidade. Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado do movimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, e também não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o das beguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheres reclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço. Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás- tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca- minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vida contemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintonia com as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seu carisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dos possíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com a vida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lo vivendo-o. Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria sua vocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es- peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências. Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam a buscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação para Francisco. Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham que chegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoando o que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, que define o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fim de todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de 30
  • 31. Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço por chegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que se começou a caminhar. Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem: “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50). É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre e menor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus... O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs terem escolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começa a forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito. Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme e delicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüência de uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Esses são os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessa lembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre o Espírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexo fundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa de Francisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus. Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador de Deus em sua vida: Francisco. Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve que discernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é, na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para os primeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do que significa buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesse itinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara e Clara para Francisco serão mediação recíproca. Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “se via toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão do mesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto do Poverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração o animaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está 4 Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10. 31
  • 32. indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois é complementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo. “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di- mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, como testemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez, sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquanto trabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonha em realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5. 3.4. Os Cânticos de São Francisco No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da- mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteiro de Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecido Cântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó- brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs. Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céu como a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectos notáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebra Jesus Cristo com Clara: Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: o dos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. O Sol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ou Frei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs: Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara, sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. E cada Frate forma um par com uma Sora. Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também ser uma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem tem nome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor e suportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a “perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outras palavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria e serão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. O mesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse 5 Chiara Augusta Lainatti 32
  • 33. cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação ao Esposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5): “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”. 33
  • 34. 4. Clara e os Místicos do seu tempo Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe- riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto de partida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livre e crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me- dievais. Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o que dissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos. Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa- cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do grego μυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É a busca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamada de Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva. Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbo grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala- vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e de que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é relação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda- mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser nada”. Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Foram muitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foi marcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro- 34
  • 35. fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dos autores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério que sempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. A terminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova- dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amor recíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal- conjugal. Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII? Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservado e estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a ser considerado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges, ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval. Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzida no Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Os místicos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân- tico da Bíblia. Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicas medievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister- cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, na maioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podem ajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumas mulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in- fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possível que Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bons pregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seu Processo de Canonização. 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”, e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram as protagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem. Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor de Deus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e os Autores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dos Cânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisar reivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pela arrogância e agressividade de alguns eclesiásticos. 35
  • 36. A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensão de Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era um caminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver e de partilhar o que nelas e para elas significava Deus. Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério: uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e os levou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se de qualquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina (Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva no Mistério, usando uma simbologia nupcial 6. A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor e das bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor 11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência do Deus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, as atividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens, intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer. A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da língua à gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha de mulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar a palavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momento cultural e religioso de especial importância: a conjunção entre o pensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração. Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de Santa Clara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentar algumas personalidades que se destacaram: 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duas correntes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Há uma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor. É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimento a amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e de Rievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde que esta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve 6 A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER – D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile. 36
  • 37. os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muito sensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade da amizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo com Jesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração. Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara a Francisco e Clara a Inês de Praga. Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver sua posição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Seven manieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta uma narração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá uma síntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis in Deum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne. O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interior do amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IV começa a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau V tornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam na verdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta união amorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimento do gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhuma inteligência pode compreender. Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede a vida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deus verdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestra experimentada nos problemas mais árduos da teologia mística. A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi- nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida e transformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nas mulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidade esponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara. 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294) É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerário espiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por volta de 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos. Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com um progressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica. 37
  • 38. Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht der Gottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos em duas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro de Helfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano. Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontrado mais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igreja enferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência do clero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura e áspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas se transforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desses eclesiásticos. Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência da fluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seu canto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essas imagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processo espiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da “metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch e Margarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vincula as quatro. Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios da divindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vida íntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a mística visionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo. 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou a consagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aos pobres e aos enfermos. Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração de mulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode ter sofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos de beguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada no século XX. Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor. Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural e metafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmando também que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade 38
  • 39. humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Para isso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si e em plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversos aspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino em flamengo e em alemão). Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijch como uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor. As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiências para-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbria maturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor, experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: ter acesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele. Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e a alma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela. 4.2. Os cistercienses No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foi o herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deu forma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários ao Cântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, na relação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova ao homem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da Reforma Gregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção à humanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo isso como uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva. Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos, principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamos destacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx. 4.2.1. São Bernardo 4.2.1.1. A centralidade do amor Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro de tudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com o Criador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é 7 Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar o livro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo, 39
  • 40. necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom de Deus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo. Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus no homem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medo do Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus. A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade de Jesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação do Espírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu uma autêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidade francisclariana. 4.2.1.1.2. O processo Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou um processo que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatro degraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo: 1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. 2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça 3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade da alma se amplia. 4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os Esponsais. 4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dos Cânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontos fundamentais: “O semelhante busca o seu semelhante” Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes a Deus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal se fundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe- Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren, Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. Buenos Aires 1981. 40
  • 41. fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhança perfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne. A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos- trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri- cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amou primeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni- dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não à natureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas com esperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deus acompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. O Verbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem que trabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni- tude, ao matrimônio espiritual. “O Beijo da tua boca” São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva ao mistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1). Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com a doutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação. O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT para que o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos de Moisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem os de Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dos profetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo para o qual nascemos. O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus se encarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele. No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessa natureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador. Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem. O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade do Verbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todos souberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab e Herodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade do Verbo na humanidade. Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam ao mesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardo apresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos 41
  • 42. Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. O amor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do Espírito Santo é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou e que representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho. A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender com sabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi- dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder a quem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende. Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprou sobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é o Espírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação na vida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar- nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade. A “Unidade do espírito” Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo também lembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito com Ele”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência da comunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a ser a pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. O amor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação na pessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-la em um ato de nova criação, de um novo nascimento. “A casa espiritual” No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde- jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são o nosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelas atitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todo bem. Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegar à união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma- esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus, mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessa relação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu- sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus. 42