1. O “Ponto de partida”

    Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortação
premente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11).
    Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em conta
que essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inês
sobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para que
tivesse propriedades.
    Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer ter
propriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromisso
de amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papa
Gregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se o
seu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e posso
dispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meu
Senhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza,
mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que não
se achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até ser
encontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2).
    Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos da
espiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguir
os passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre?
    São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Francisco
diz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizer
que “Deus é o Amor”.
    Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada.
Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nunca
vamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nesta
terra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer a
pessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai e
Filho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se dar
inteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porque
humana – que não sobra nada.
    Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco e
Clara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre.
    Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres.
Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos
                                      1
Padres chegaram à afirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não é
amoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade.
    Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o Deus
Amor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando o
Amor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade,
quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras:
usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é.
    Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nos
ensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres.
    Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco não
entendia a obediência como um cumprir ordens, mas como um
corresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Francisco
quiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto mais
eles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-se
mais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus.
    Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuo
relacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta de
Jesus Cristo.

                                  ***
   Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somos
sedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em que
vivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal –
com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar.
   Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar.
   Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seus
pais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido e
distribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como uma
virgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês de
Praga, que fora agraciada pela mesma vocação.
   Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos de
que para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade era
entendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como se
ela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro de
mim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre como
uma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido o
ponto de partida.

                                     2
Por essa mesma razão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que
     “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos
     nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança”
     (2CtIn 12).

   A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logo
adiante:
     “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse
     propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao
     Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém
     lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou
     parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração,
     não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre”
     (2CtIn 14,17-18).

   De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera pouco
antes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”:
     “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo
     Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim.
     Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa
     santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de
     maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9).
    Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua
“espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoal
cada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo.
Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo”
(2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5),
exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais belo
entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos,
desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das
angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus,
irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24).
    Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é ser
uma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nas
Sagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que a
precederam, como vamos ver.
    “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinha
dorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudo
aprofundado que queremos fazer.

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Para isso, devemos recordar alguns pontos:
   Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 e
morreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordem
posteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, que
esteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas está
sendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final do
século XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneira
sucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri-
tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre se
conheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios.
Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidade
do movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis-
clariana.
   Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua-
lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais.

                           1.1. Espiritualidade

   A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro,
vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dos
esponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor.
   Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa-
mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele era
o Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: na
revelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficar
conosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma função
que tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e o
Filho.
   Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão que
outras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força que
perpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” até
quando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au-
têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”.
   A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, a
carmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va-
mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dos
esponsais.
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Espiritualidade é um caminho. Precisamos conhecer o próprio caminho
e ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aquele
que disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir os
vestígios de Jesus crucificado e pobre”.

                              1.2. Esponsais

    Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele-
bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a união
mais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente para
falar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu-
manidade e com cada um de nós.
    Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, já
tinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em tempos
mais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como se
quisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Não
é isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa,
é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoas
consagradas” no batismo, também nós somos esposos.
    Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo do
Povo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povo
e como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. O
importante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder a
Deus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco é
de amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foi
sempre envolvido de afeto e de carinho.
    A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e de
toda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque
“Deus vai ser tudo em todos”.

                         1.3. Linguagem simbólica

   Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagem
simbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamento
entre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usando
linguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símbolo
que Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico-
demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisse
expressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes.
                                       5
A palavra símbolo pode ter muitos usos: Há símbolos na matemática e
na química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinal
para reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Por
isso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re-
solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela não
consegue explicar.
   O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente de
todos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seu
mundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando.
Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal.
Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o que
pensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá para
expressar: são inefáveis.

                              1.4. Sol e Lua

    Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossa
relação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. É
histórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-se
muitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério.
Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulher
em segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão é
positiva: dela nasce vida.
    Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre ser
homem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: não
somos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é para
nos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algo
masculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram o
masculino de Sol, e o feminino de Lua.
    Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua
(palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbrio
solar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamente
humana.
    Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol
(palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbrio
lunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamente
humano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente


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humanos quando realizamos interiormente um hierós-gámos, isto é, um
casamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior.
    O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante do
outro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposição
polar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula.
São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, mas
não podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidade
inteira a partir de seu sexo.
    Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em um
relacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus.

                              1.5. Mística

    Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua
incapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidades
secretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar os
olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio
é saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nos
movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não
descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o
homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando
o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele.
    Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e
de que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E o
fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas
explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos
nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que
viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de
Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante.
    Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re-
lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento.
Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser
nada”.

                   1.6. A Trindade e o ser humano

   Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem-
pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas,

                                     7
nosso ser homem-mulher é um especial reflexo da Trindade: do que ama (o
Pai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo).
    O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convite
para se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para o
transcendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em toda
relação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eterno
e infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que a
própria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema de
comunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam em
Deus, a quem buscam juntos e amam juntos.
    Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amor
entre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação de
Deus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vida
na perspectiva da espiritualidade dos esponsais.
    Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamento
desde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Forma
de Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, isto
é, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É uma
proposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramos
outros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que ele
colocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis.
    Os textos são os seguintes:
    a). Forma de Vida
     “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo
     Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida
     de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim
     e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude
     especial, como por eles” (RSC 6,3-4).
   b). Antífona de Nossa Senhora
     “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu-
     lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do
     nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai
     por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os
     santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória
     ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre,
     Amém!”



                                        8
c). Carta aos Fiéis
     “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem
     essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do
     Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do
     Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de
     nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito
     Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos
     quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50).
     Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20),
     pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa
     operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como
     é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal
     esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e
     filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas
     desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13).
                                        ***
   Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou os
diversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez em
quando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos ser
humanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar o
Cristo pobre como uma virgem pobre.

                          1.7. Um cântico de Amor

    A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numa
intensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico.
    Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco.
    Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhe
falaram do Cântico dos Cânticos.
    Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres.
    Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia.
    Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo,
          Vestiu-se de Sol,
          Coroou-se de estrelas,
          Apoiou-se na Lua,
       E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem!
    Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação.
                                           9
A celebração da Encarnação é celebração da morte e da ressurreição.
Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos.
Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos para
celebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade.

   Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa para
sempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado.




                                    10
2. Santa Clara e o Cristo Esposo

   Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o Movimento
Franciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nos
ensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar uma
perspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que,
em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em Jesus
Cristo.
   Vamos considerar três perspectivas:
      1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo.
      2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo.
      3). Clara celebrou o Cristo Esposo.

          2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga

   Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidade
dos esponsais 1.
   Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavras
Esposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões com
que ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo.
   Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês:
       “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que
       guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7).
    Também chama Inês de esposa duas vezes:

   1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância da
Hungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusive
ao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros e
cortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, que
chegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel da
Hungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que havia
um hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com grande
repercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerem
pessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade.
   Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre Jesus
Cristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em uma
virgindade cada vez maior.

                                                    11
“Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração,
    porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12).
    “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe
    do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24).


   Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes:
A primeira:
    “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o
    seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o
    mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo,
    morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20).
   E a segunda:
    “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn
    24).

   E também chama Inês de esposa de Jesus:
    “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei
    dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e
    por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza”
    (2CtIn 1-2).



  Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembrada
como sua esposa:
    “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à
    reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os
    mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei
    dos céus” (3CtIn 1-2).
   Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se refere
necessariamente a Inês:
    “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo
    celeste!” (4CtIn 30).
   Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes:
    “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à
    ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima
    mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa
    do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a

                                         12
minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...”
        (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto
        com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro
        desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele,
        sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas
        das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17).
    Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadas
treze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposo
e esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida que
Jesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outras
expressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta:
        “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande
        humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com
        quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7).
   Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludido
ao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possível
casamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazer
uma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas,
especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falar
de Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento da
espiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nesses
esponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico,
patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade.
Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos.

                              2.2. Clara Esposa de Cristo

   As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara como
Esposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logo
de início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clara
pensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveram
antes que ela entrasse na Ordem:
        “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas
        expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora.
        Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar
        a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez
        homem” (LSC 5,5-6).

  2
      Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210.
                                                   13
Mas é possível que a própria Clara tenha falado inicialmente sobre isso
porque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentes
já achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava o
particular amor que ela tinha por Jesus Cristo:
     “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se,
     desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já
     pudera provar...” (LgV 5 214).
   Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logo
depois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” em
que dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”,
como ela recorda em sua Regra:
     “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de
     vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e
     servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo,
     optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu
     quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado
     diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5).
    Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona do
Ofício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressões
idênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha e
serva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nosso
Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2).
    O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandou
abrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa e
decidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nem
demorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, mas
imediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suas
coisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seu
Esposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente,
com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lhe
especialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e o
voto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3).
    O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial,
para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, a
pertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e por
fora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve,
filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai,
porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2).
                                       14
E também comenta que ela ouviu de verdade e consagrou sua vida a
viver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejados
abraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4).
   Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar da
Mãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa
penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse
Cristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8).
   Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completada
com solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quando
Clara estava no final de sua carreira:
     “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas
     de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras...
     que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a
     cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor
     sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de
     maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o
     tálamo adornado” (LSC 46).
     O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo o
fundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs:
“Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável,
deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no
rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o
corpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20).
     Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe-
chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC
10).
     Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amor
do Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra,
regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre o
seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a que
beijava” (LSC 19).
     Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo,
Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam dela
uma mestra de espiritualidade:
     “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa-
     drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão
     dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu

                                        15
desejo derreteu-a por dentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais
     eternos” (LSC 6).
   Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião,
algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todos
os mosteiros das Damianitas:
     “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro
     que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial”
     (CcNm).

   E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de São
Francisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente,
o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs de
Clara, destacando, entre outras, com a maior admiração:
     “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a
     ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar
     nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo
     Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da
     vida passada...” (1Cel 19).
   Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa de
Cristo, escreveu:
     “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de
     governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam
     na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38).
   Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tanto
que desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa:
     “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto
     e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da
     perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando
     com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24).
     “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato
     carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável
     fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole
     in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm).
   O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsais
com Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara à
esposa do Cântico dos Cânticos 2,5:


                                        16
...suspensa pelo prazer da mente e sentindo-se doce por seus favos,
     enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs,
     apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367).
   Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa:
     “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como
     desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer
     maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial”
     (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma
     forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga.

                   2.3. Clara celebrou Cristo Esposo

    Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde se
descobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar um
exemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nos
meios de comunicação.
    Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriu
ser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável.
Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é uma
realidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nem
uma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável de
onde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de que
venha a faltar.
    Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suas
Irmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano.
Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deus
feito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desse
conhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para ela
mesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade.
    Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensar
que tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papa
Gregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que não
queria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza era
para ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar na
primeira Carta a Inês de Praga.
    Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de Cristo
Esposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveu
cartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada

                                        17
frase dessas cartas, descobrimos como ela voltou incessantemente ao
descobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nos
místicos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisões
muito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinha
escolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com o
que ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossos
horizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e de
felicidade.
    A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sido
incapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre Jesus
Cristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos são
numerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode ser
plenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim:
     “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-
     se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-
     aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja
     contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja
     lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja
     visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o
     esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem
     mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14).
    Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmo
de um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o Cristo
Esposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesma
descoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico de
celebração.
    Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe-
ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Praga
o que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro e
pé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante e
alegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e
“abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é,
cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8),
tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior.

  Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo como
uma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co-
mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em

                                         18
vocês mesmos, ajudando-os a crescer no seu relacionamento pessoal com
Deus na pessoa de Jesus Cristo.

   Proponho algumas reflexões:

   1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca alguma
reação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel,
mesmo que seja só para o seu uso particular?
   2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa de
Jesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não,
você acha que isso não faz falta? Ou está buscando?
   3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca alguma
vontade de cantar?




                                    19
3. Francisco, figura do Esposo

    Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial:
fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocação
única e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres-
ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos.
Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essa
busca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa de
Deus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com o
que o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”.

                   3.1. Francisco, o amigo do Esposo

   “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheiros
do noivo na celebração do casamento. O principal deles era quem
organizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio do
Reino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. Na
Legenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte:
     “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas
     expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora.
     Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar
     a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez
     homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel
     padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda
     ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois
     de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e
     acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus
     (Cf. LSC 5-6, passim)”.
    A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo a
palavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego e
significava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nos
esponsais.
    Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque sempre
rejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor da
união com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin-
cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, a
conhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de

                                       20
maneira única o conhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajuda
dos Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento.
   Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri-
tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceu
que Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es-
ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana.
   Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de
Deus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra-
ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mas
também para crescer nela:
     “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente
     da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que
     agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e
     mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14).
   Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre as
Irmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que ela
ouviu e haveria de seguir para sempre:
     “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para
     conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas
     coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem-
     aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas
     também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus
     nos chamou” (TestCl 15-17).
   E também:
     “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de
     vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e
     servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo,
     optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu
     quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado
     diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5).
   Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele-
mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dos
Frades Menores.
   Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta o
mistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidade
para chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e serva
do Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo

                                        21
seguindo o Evangelho (RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM).
Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do Espírito
Santo”.

   Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco o
seu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens do
seu Testamento.
     “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai
     Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o
     seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os
     imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que
     Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São
     Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e
     graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o
     exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas
     Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl
     6-7).

     “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco,
     fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma
     forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa
     pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos
     sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu
     muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de
     modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis
     jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”.
   Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santa
Pobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”.
Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda
(plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposado
o Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que o
Poverello escreveu na Carta aos Fiéis:
     Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor
     Jesus Cristo (1CtFi 8).

              3.2. Eles viveram uma profunda amizade

   Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender São
Francisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhor
Santa Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois
                                        22
se encontraram em Cristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelo
papa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas:
     “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio
     Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs,
     espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só
     do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas,
     espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou
     apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo
     como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela,
     imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si
     mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa
     autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita
     do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma
     vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes
     Clarianas, págs. 397-398).
    Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos a
impressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observado
entre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendas
populares antigas apresentam os dois como namorados.
    Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain-
da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san-
tidade.
    Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre e
Francisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quando
não tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis.
Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vida
consagrada havia diversos anos.
    João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” de
Jesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre a
amizade espiritual.

                                     3.2.1. O que é a verdadeira amizade?

    Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro”
(Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Os
sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade
como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre
o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu
páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e
                                         23
Cícero deixou uma obra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre a
amizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho
e em Santo Tomás de Aquino.
   Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred de
Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, não
muito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livros
sobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria
da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a
própria essência do mundo que há de vir.
   De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiro
amor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus diz
que seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é
leve está falando do amor fraterno.
   Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas também
o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós a
imagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações e
advertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar a
verdadeira amizade.
   Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveu
antes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas ou
mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas
humanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer
acolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que não
existe amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal.
   Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritual
sempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada um
descobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e ama
melhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi dito
pelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler.
   É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordações
de Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual.

                                    3.2.2. Na amizade com Francisco,
                                Clara viveu a esponsalidade com Deus

   Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual e
carismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fez
eco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a
                                      24
amizade entre Clara e Francisco como fruto do esforço dos dois, mas
também como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e da
Igreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temos
que falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de um
carisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhão
que não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu para
acolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom do
companheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em que
encontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, e
qual é o nosso último destino.
    Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriram
que estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estava
começando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que eles
foram vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro e
puderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas há
oito séculos.
    Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram que
eram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, em
que Deus vai ser tudo em todos.
    A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com uma
amizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só ao
Altíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que se
esvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma-
namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar?
No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizade
entre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com um
coração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso-
lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientes
religiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito de
contradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou de
menos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra-
ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não
“contra” eles.
    Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suas
vidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nós
uma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor,
onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Eles
mostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira

                                     25
muito semelhante à da Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudo
e, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outro
acreditasse nesse caminho.

    Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional da
pertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus em
contraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração e
ao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga,
a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém,
possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meu
coração, que pertence totalmente ao Senhor.
    Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso nos
compreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelou
não soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentro
dele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer que
somos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade com
Deus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionada
com o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial.
    Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizade
um lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é o
espelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e no
qual descansam eternamente unidos.
    Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós como
lar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas,
como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação,
que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que a
profundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário.

             3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco.

   Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo,
descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porque
era um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deus
continuaria a chamar.
   Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitações
que sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. E
escreveu em seu Testamento:


                                      26
“Eu, Clara, serva de Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião,
    embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as
    minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande
    pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas
    depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e
    única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos
    nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que,
    depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de
    maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39).
   Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasião
e que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brecha
que a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhor
lhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 a
aprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e para
mulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco,
a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textos
fundamentais que Francisco lhe dera:
   A “Forma de Vida”, que já vimos acima:
    “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo
    Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida
    de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim
    e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude
    especial, como por eles” (RgCl 6,3-4).
   E a sua “Última Vontade”:
    “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo
    Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o
    fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa
    santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de
    maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9).
   E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras:
    “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos
    observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento
    multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou-
    nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também
    para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também
    elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o
    Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as
    que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a

                                       27
bendizer e louvar a Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer
     o bem no Senhor” (TestC 18-22).
   Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan-
temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor de
sua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de Santa
Clara Virgem:
     “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser
     assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do
     Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio
     menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de
     renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu
     a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a
     virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode
     contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São
     Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a
     cama da moribunda... (LSC 45).
    Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel de
Francisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi-
ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento:
     “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de
     todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde
     que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo
     Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi
     pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44).
   Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a sua
Legenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”.

                             3.3. Cada um por si, mas também juntos,
                eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram

   São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os que
fazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessante
observar que ele não está falando de nossas “penitências” como as
entendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá o
sentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazem
penitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazem
penitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não o
buscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos

                                        28
ditongos ae como oe a leitura de um e que começou a se fazer uma
confusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha o
significado de “agüentar a pena” 3.
   Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na sua
busca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca do
Santo Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo.
Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para o
que Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Eles
precisavam do Esposo.
   Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saber
humilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do que
desejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suas
pretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca um
momento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível que
arranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vida
em transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência com
tudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmo
e se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta no
prestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado a
descobrir Deus como seu Tudo.
   Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse:
       “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar
       tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a
       fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti
       insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma
       grande doçura e uma suavidade imensa”.
     Ele diria no fim da vida:
       “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do
       corpo” (Test 3).
    A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho da
missão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio do
Espírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro,
é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Só
faltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto,
uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o

 3
     Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586.
                                                    29
que ele desejava: viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro.
E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez.
    Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casa
no domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconhecia
o que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixa
levar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES-
tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban-
donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terra
nova, a prometida?
    Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve um
processo de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda-
deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de uma
forma de vida que era uma notável novidade.
    Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado do
movimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, e
também não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o das
beguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheres
reclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço.
    Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás-
tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca-
minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vida
contemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintonia
com as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seu
carisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dos
possíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com a
vida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lo
vivendo-o.
    Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria sua
vocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es-
peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências.
Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam a
buscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação para
Francisco.
    Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham que
chegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoando
o que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, que
define o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fim
de todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de
                                      30
Moisés: também nele se verificou essa nota de “irrealização” no esforço por
chegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que se
começou a caminhar.
   Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem:
        “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e
        sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50).
    É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre e
menor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram para
encontrar a concreta vontade de Deus...
    O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs terem
escolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começa
a forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito.
Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme e
delicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüência
de uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Esses
são os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessa
lembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre o
Espírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexo
fundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa de
Francisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus.
Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador de
Deus em sua vida: Francisco.

    Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve que
discernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é,
na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para os
primeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do que
significa buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesse
itinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara e
Clara para Francisco serão mediação recíproca.
    Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “se
via toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão do
mesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto do
Poverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração o
animaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está


 4
     Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10.
                                          31
indissoluvelmente unida a Francisco e a mensagem evangélica dos dois é
complementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo.
    “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di-
mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, como
testemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez,
sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquanto
trabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonha
em realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5.

                         3.4. Os Cânticos de São Francisco

   No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da-
mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteiro
de Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecido
Cântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó-
brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs.
   Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céu
como a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectos
notáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebra
Jesus Cristo com Clara:
   Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: o
dos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. O
Sol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ou
Frei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs:
Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara,
sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. E
cada Frate forma um par com uma Sora.
   Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também ser
uma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem tem
nome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor e
suportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a
“perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outras
palavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria e
serão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. O
mesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse



 5
     Chiara Augusta Lainatti
                                         32
cântico. Isso pode ser confirmado pelo confronto com a invocação ao
Esposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5):
    “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te
    nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho
    dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te
    dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para
    tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”.




                                       33
4. Clara e os Místicos do seu tempo

    Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe-
riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto de
partida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livre
e crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me-
dievais.
    Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o que
dissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos.
    Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa-
cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do grego
μυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É a
busca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamada
de Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva.
    Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbo
grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não
revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala-
vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer
impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de
força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do
mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não
foge do mistério, vive dele.
    Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e
de que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fato
de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas
explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos
nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que
viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de
Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante.
    Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é
relação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda-
mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou
não vai ser nada”.
    Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Foram
muitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foi
marcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro-

                                      34
fano quanto no religioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dos
autores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério que
sempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. A
terminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova-
dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amor
recíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal-
conjugal.
    Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII?
Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservado
e estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a ser
considerado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges,
ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval.
    Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzida
no Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Os
místicos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân-
tico da Bíblia.
    Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicas
medievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister-
cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, na
maioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podem
ajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumas
mulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in-
fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possível
que Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bons
pregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seu
Processo de Canonização.

            4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara

   Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”,
e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram as
protagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem.
   Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor de
Deus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e os
Autores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dos
Cânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisar
reivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pela
arrogância e agressividade de alguns eclesiásticos.

                                     35
A oposição dessas místicas não é aos homens, mas a uma compreensão
de Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era um
caminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver e
de partilhar o que nelas e para elas significava Deus.
    Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério:
uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e os
levou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se de
qualquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina
(Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva no
Mistério, usando uma simbologia nupcial 6.
    A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor e
das bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor
11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência do
Deus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, as
atividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens,
intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer.
    A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da língua
à gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha de
mulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar a
palavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momento
cultural e religioso de especial importância: a conjunção entre o
pensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração.
       Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de Santa
Clara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentar
algumas personalidades que se destacaram:

                                             4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268)

   Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duas
correntes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Há
uma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor.
   É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimento
a amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e de
Rievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde que
esta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve

  6
    A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER –
D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile.
                                                  36
os ricos dotes naturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muito
sensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade da
amizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo com
Jesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração.
    Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara a
Francisco e Clara a Inês de Praga.
    Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver sua
posição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Seven
manieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta uma
narração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá uma
síntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis in
Deum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne.
    O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à sua
imagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interior
do amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IV
começa a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau V
tornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam na
verdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta união
amorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimento
do gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhuma
inteligência pode compreender.
    Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede a
vida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deus
verdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestra
experimentada nos problemas mais árduos da teologia mística.
    A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi-
nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida e
transformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nas
mulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidade
esponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara.

                          4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294)

   É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerário
espiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por volta
de 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos.
Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com um
progressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica.

                                      37
Ainda beguina, entre 1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht der
Gottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos em
duas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro de
Helfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano.
    Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontrado
mais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igreja
enferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência do
clero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura e
áspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas se
transforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desses
eclesiásticos.
    Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência da
fluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seu
canto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essas
imagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processo
espiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da
“metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch e
Margarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vincula
as quatro.
    Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios da
divindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vida
íntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a mística
visionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo.

                             4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII)

   Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou a
consagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aos
pobres e aos enfermos.
   Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração de
mulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode ter
sofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos de
beguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada no
século XX.
   Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor.
Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural e
metafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmando
também que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade

                                     38
humana. O homem é criado para o amor e para possuir Deus no amor. Para
isso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si e
em plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversos
aspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino em
flamengo e em alemão).
   Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijch
como uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor.
   As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiências
para-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbria
maturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor,
experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: ter
acesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele.
Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e a
alma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela.

                                  4.2. Os cistercienses

    No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foi
o herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deu
forma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários ao
Cântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, na
relação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova ao
homem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da Reforma
Gregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção à
humanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo isso
como uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva.
Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos,
principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamos
destacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx.

                                                                     4.2.1. São Bernardo

4.2.1.1. A centralidade do amor
   Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro de
tudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com o
Criador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é

   7
     Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar o
livro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo,

                                                 39
necessário que o amor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom de
Deus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor que
está em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo.
Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus no
homem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medo
do Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus.
   A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade de
Jesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação do
Espírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu uma
autêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidade
francisclariana.

4.2.1.1.2. O processo
   Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou um
processo que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatro
degraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo:
  1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o
       Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele.
  2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço
       interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça
  3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade
       da alma se amplia.
  4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma
       forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os
       Esponsais.
4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais
   Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dos
Cânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontos
fundamentais:
                                                 “O semelhante busca o seu semelhante”
   Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes a
Deus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal se
fundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe-

Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren,
Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. Buenos
Aires 1981.

                                                  40
fatos diante da criação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhança
perfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne.
   A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos-
trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri-
cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amou
primeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni-
dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não à
natureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas com
esperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deus
acompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. O
Verbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem que
trabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni-
tude, ao matrimônio espiritual.
                                                     “O Beijo da tua boca”
   São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva ao
mistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1).
Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com a
doutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação.
   O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT para
que o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos de
Moisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem os
de Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dos
profetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo para
o qual nascemos.
   O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus se
encarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele.
   No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessa
natureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador.
Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem.
   O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade do
Verbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todos
souberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab e
Herodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade do
Verbo na humanidade.
   Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam ao
mesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardo
apresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos

                                     41
Cânticos representa a união entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. O
amor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do Espírito
Santo é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou e
que representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho.
   A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender com
sabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi-
dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder a
quem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende.
   Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprou
sobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é o
Espírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação na
vida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar-
nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade.
                                                    A “Unidade do espírito”
   Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo também
lembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito com
Ele”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência da
comunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a ser
a pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. O
amor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação na
pessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-la
em um ato de nova criação, de um novo nascimento.
                                                         “A casa espiritual”
    No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde-
jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são o
nosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelas
atitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todo
bem.
    Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegar
à união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma-
esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus,
mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessa
relação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu-
sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus.




                                      42
4.2.2. Guilherme de Saint-Thierry

    Guilherme de Saint-Thierry tem uma visão serena sobre o corpo e sobre
a condição humana do amor 8. É uma visão benévola do simplesmente
humano como suporte e lugar em que o discurso amoroso sobre Deus toma
corpo. Uma amostra está no começo de seu comentário ao Cântico, onde
fala do beijo esponsal como perfume do Amado, um símbolo da união entre
o Esposo divino e a esposa mística. Quando os corpos se beijam unidos
amorosamente, apertam os lábios e unem a respiração (o spiritum) numa
síntese que indica a pessoa inteira.
    A arte de amar é a arte das artes, mas será preciso fazer um caminho de
aproximação e de conversão para a caridade: a vida amorosa com Deus. O
amor é um sentimento natural inato no homem. Criado por Deus, ele
deveria continuar a ser como no início da criação, sem precisar de que
alguém o ensinasse a quem e como deve amar. Mas perdeu isso pelo PE-
cado, e a realidade não é tão inocente: houve um desvio em nossos senti-
mentos. A alma sente-se atraída por seu destino, que é a bem-aventurança,
mas perdeu o caminho e não o encontrará se alguém não o ensinar de novo.
É necessária uma reeducação do amor.
    Ele via o mosteiro como uma “Escola de Amor”: os instrutores eram: o
mestre de noviços, o prior ou o abade. Opunha-se às escolas em que se
ensinava a literatura e a doutrina do amor profano, usando o De arte
amatoria de Ovídio. O mosteiro seria a única verdadeira escola de vida,
envolvendo almas e corpos e transformando a comunidade monástica numa
vida social similar à dos santos no céu. O pensamento deve dar lugar ao
amor, e a ciência à sabedoria. Quando pensamos nas coisas de Deus e a
vontade progride até se transformar em amor, o Espírito Santo se infunde e
vivifica tudo.
    Guilherme vê o Esposo Cristo diante de uma esposa ao mesmo tempo
perfeita e aperfeiçoável: é a esposa das bodas messiânicas que já goza da
alegria de ter sido escolhida pelo Esposo, mas ainda precisa de conversão.
Trata-se do realismo antropológico de toda biografia espiritual, devedora da
graça e condicionada pelo pecado, chamada à unidade do espírito, mas
reconhecendo-se limitada e pecadora para gozar dessa união transformante
e transformada.


   8
     Uma boa apresentação acessível de Guilherme de Sint-Thierry está em J. M. DECHANET, Lettre aux
frères du Mont Dieu (Lettre d’Or), Sources Chrètienes Paris, 1985.

                                                 43
O pensamento teológico e místico de Guilherme é uma narração da
história da semelhança divina: dada por Deus na criação, desfigurada no
pecado, restaurada na redenção. Há uma progressiva ascensão, não uma
volta ao paraíso perdido, mas a penetração numa novidade não suspeitada
nem merecida: a semelhança com Deus que nos abriu para a encarnação,
morte e ressurreição do Filho de Deus. Deus é caridade, quem o amar e
crescer no amor será semelhante a ele.
    Nesse processo há uma intervenção do Espírito Santo: assim como ele
efetua a unidade do espírito no seio da Trindade, significando e sendo a
comunhão amorosa do Pai e do Filho, também realiza no homem que se
abre a sua ação salvífica essa mesma comunhão filial com Deus: o que o
homem não consegue entender nem explicar – mas que em Deus é natureza
– lhe é dado de graça. Já estamos diante da unidade de semelhança, e de
uma unidade de espírito. Os amantes são levados a ser uma só coisa.
    O homem precisa irremediavelmente de Deus, porque sem Ele não pode
entender a si mesmo. As experiências de paz e silêncio, gozo e liberdade,
inteligência e amor, são energias dinâmicas da Trindade dentro de quem é
sua imagem, a pessoa humana.

                                                         4.2.3. Aelredo de Rievaulx

    Aelredo achava possível transformar a abadia numa família de amigos: a
amizade é um tipo particular do Amor, sua rara e perfeita culminação.
Aelredo começa recordando sua juventude: “nada me parecia mais doce,
nada mais saboroso nem mais útil que ser amado e amar”. Ele construiu
uma doutrina sólida sobre o amor e a amizade 9.
    Tem o mérito de propor um caminho de santificação através do amor
humano. Seguiu bastante o “Diálogo da Amizade”, de Cícero e, como ele,
ensinou que a amizade é um dom natural, uma “inclinação da alma”. Mas
introduziu uma novidade: a amizade acontece entre três: os dois amigos e
Cristo: “começa em Cristo, nele se conserva e a ele se dirige”. Se um amigo
se une a outro no espírito de Cristo vem a ser um só coração e uma só alma
com Ele, e se ascender assim do amor à amizade com Cristo, será com ele
um só espírito e um só beijo.
    Sua obra se estrutura em três diálogos. No primeiro trata da essência e
da origem da amizade; no segundo, trabalha a excelência e os limites da

  9
    Ver E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual, em Caridad, Amistad. Buenos Aires
1981.

                                               44
amizade. No terceiro visa a prática: depois de fundamentar o amor e a
amizade em Deus, ensina os passos a seguir na verdadeira amizade: a
escolha, a prova, a admissão e o consenso.
   Em Aelredo temos uma configuração espiritual ou mística do tema da
amizade. No final de sua obra declara a importância de toda amizade
humana como sacramento e antecipação da amizade eterna e divina:
    ...do santo amor com que abraçamos o amigo, somos elevados a aquele amor
    com que abraçamos Cristo, saboreando com prazer o fruto da amizade
    espiritual, cuja plenitude nós esperamos na eternidade, quando desaparecer o
    temor que agora sentimos uns pelos outros... Essa amizade – que aqui só
    podemos admitir para poucos – vai transbordar para todos e de todos se
    voltará para Deus, para que Deus seja tudo em todos”.


   É claro que esse conhecimento dos místicos medievais teria levado
Clara de Assis a descobrir um sentido novo na Palavra de Deus. Ela leu o
Cristo-Esposo à luz do Cântico dos Cânticos, certamente ajudada pelos
pregadores, porque é difícil pensar que ela tivesse uma Bíblia inteira em
São Damião. Por isso, nós vamos nos encontrar com o Santos Padres que
mais chamaram a atenção para o Deus Esposo. E, depois, vamos beber nas
próprias fontes bíblicas – no Cântico e nos Profetas – como Deus quis e
quer vir ao nosso encontro para uma união eterna.




                                       45
5. A Aliança Esponsal nos Santos Padres

   Os místicos medievais beberam nos Santos Padres os fundamentos dos
seus comentários ao Cântico dos Cânticos. Pelo menos os monges tiveram
ampla possibilidade de estudar toda a riqueza da Patrística em suas
bibliotecas. E partilharam os seus conhecimentos através das citações que
apresentaram. Pessoas sem recursos para ter uma biblioteca, como Clara,
podem não ter tido acesso direto aos Padres, pelo menos aos gregos – que
melhor trataram o tema dos esponsais – mas podem ter sido inspiradas a ler
com outra visão os textos bíblicos: além do Cântico, os profetas da Aliança.
   A Espiritualidade dos esponsais, que encontramos no escritos de Santa
Clara, está fundamentada nos Santos Padres, porque foram eles que
mostraram como Jesus era o verdadeiro esposo sonhado e prometido pelo
Antigo Testamento e também abriram para a visão de que Deus não é
apenas o Esposo do Povo Bíblico mas da alma de cada fiel.
   Há diversos testemunhos de que Clara convidava para falar em São
Damião bons pregadores:
     “A testemunha também disse que dona Clara gostava muito de ouvir a
     palavra de Deus. E, embora não tivesse estudado letras, ouvia de boa vontade
     as pregações letradas” (ProcC 10,8).
     “Não tinha formação literária, mas gostava de ouvir os sermões dos letrados,
     sabendo que na casca das palavras ocultava-se o miolo que tinha a sutileza de
     alcançar e o gosto de saborear. De qualquer sermão, conseguia tirar proveito
     para a alma, pois sabia que não vale menos poder recolher de vez em quando
     uma flor de um áspero espinheiro que comer o fruto de uma árvore de
     qualidade” (LSC 37).
   A Bíblia é a revelação do Deus-Amor não criado, que quer partilhar
com os homens a sua infinita felicidade. A história da espiritualidade é a
história dos homens na busca do Amor de Deus, e dos meios que usaram
para isso. A partir dos Santos Padres da Igreja – cristãos ricos da cultura
grega e romana dos primeiros séculos – a Igreja foi estudando o que tinha
sido revelado por Jesus e construindo a sua doutrina e a sua espiritualidade.
   A Carta aos Hebreus diz que não haverá mais revelação porque o Filho
é a manifestação definitiva de Deus. Sua missão redentora está sendo
continuada pelo Espírito Santo. Pentecostes é o tempo da Igreja, em que o
Espírito vai suscitando testemunhas do Ressuscitado que em diferentes

                                        46
situações, desafios e dificuldades narraram as maravilhas de Deus, a salva-
ção recebida para sempre em Jesus Cristo. O período dos “Padres” é a pri-
meira etapa dessa caminhada
    Os “Pais da Igreja”, com suas pregações e escritos, foram decisivos no
desenvolvimento da doutrina e da vida cristã. O seu período, logo em se-
guida ao dos apóstolos, viveu intensamente a organização das comuni-
dades, da vida litúrgica, da promoção do pensamento cristão.
    Foram os Santos Padres que nos ensinaram a ler a Sagrada Escritura “no
Espírito”, isto é, obter uma “inteligência espiritual” dela. Nessa dimensão
religiosa da Escritura há um sentido misterioso, interior, que não é uma
verdade abstrata ou banal, mas um dinamismo que afeta toda a existência.
    Eles mostraram dois sentidos na Bíblia: o literal e o espiritual: a letra
correspondia ao AT e o espírito ao NT, identificando-se com a pessoa de
Jesus. Por isso, tudo que se contava na Antiga Aliança era interpretado da
pessoa de Jesus. Isso dá uma importância especial aos diversos comentários
dos Padres sobre o Cântico dos Cânticos, onde estão os primeiros pontos de
uma teologia e de uma espiritualidade esponsais. Deus é o amante fiel da
esposa infiel, sedenta de seu abraço divino. Não é uma simples alegoria em
um povo que entende a palavra de Deus à letra: é o descobrimento de que
Deus se apaixonou “literalmente” pelo homem, tanto na Igreja como em
cada alma cristã: o eco desse cântico profético vai ressoar na alegria dos
amigos do Esposo que está com eles numa festa que vai chegar à plenitude
na “terra nova”, quando a comunidade estiver preparada para o Esposo.
    Neste nosso trabalho, vamos apresentar apenas Orígenes e São Gregório
de Nissa, os dois santos Padres que trataram explicitamente da Espiri-
tualidade dos Esponsais. Ressaltamos os pontos principais de cada um. Eles
podem nos ajudar a entender melhor a espiritualidade de Santa Clara.

           5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade

   Orígenes é uma das pessoas mais geniais e influentes do Cristianismo.
Foi um ponto alto na espiritualidade e na teologia mística. Por volta do ano
200, a literatura eclesiástica cresceu e teve uma nova orientação. Antes,
condicionada pela tensão entre a Igreja e seus perseguidores, produziu
escritos apologéticos e anti-heréticos. Mas abriu o caminho para um estudo
científico da revelação. No contexto em que viveu Orígenes, a Igreja sentia
que precisava de um sistema de pensamento. Daí surgiu a Escola de
Alexandria, em que Orígenes se destacou. Em Alexandria tinha nascido o

                                      47
helenismo, fusão das culturas oriental, egípcia e grega, que originou uma
nova civilização, e nela se estabeleceu no fim do século I a cultura judaico-
cristã.
    O tema dos esponsais está principalmente nos escritos exegéticos de
Orígenes. Ele insistiu mais no sentido místico da Escritura do que no literal,
usando com freqüência o método alegórico. Nisso foi levado a cometer
alguns erros de interpretação, mas mostrou que teve em alto grau o dom da
penetração espiritual.
    A idéia dos esponsais divinos não é uma novidade cristã. O mundo
pagão conheceu deuses e deusas que se casavam. Já o judeu Fílon de
Alexandria falava de como Deus se unia à alma humana, que recebia uma
semente das virtudes. Para alguns cristãos, a morte tinha um significado
esponsal. A expressão “matrimônio espiritual” aparece pela primeira vez na
literatura cristã entre os adversários de Santo Irineu, e falava sobre Cristo
esposo da Igreja.
    Hipólito, autor do primeiro comentário cristão ao Cântico dos Cânticos,
usou a simbologia esponsal entre Deus e a Igreja, dentro da tradição
hebraica dos esponsais entre Javé e Israel e da leitura paulina dos esponsais
Cristo-Igreja. Quem começou a chamar as virgens cristãs de esposas de
Cristo foi Tertuliano, que também falou dos esponsais entre Deus a alma.
Mas quem tratou mesmo esse tema foi Orígenes, que escreveu no prólogo
ao seu comentário sobre o Cântico dos Cânticos: “estas palavras do Esposo
magnífico e perfeito dirigem-se à alma unida a ele ou à Igreja”. A alma fiel
é esposa porque faz parte da Igreja que é esposa. São Jerônimo disse:
“Orígenes, que em alguns livros superou a todos, no Cântico dos Cânticos
superou a si mesmo”.
    Orígenes sabia unir devoção, capacidade especulativa e paciência ana-
lítica. Teve influências platônicas. Lembrou, ao falar da simbologia espon-
sal, que Platão falou sobre o amor espiritual no “Banquete”. Mas ele mes-
mo falou a partir de uma profunda experiência espiritual.
    Escreveu na primeira Homilia sobre o Cântico: “Freqüentemente – Deus
é testemunha – eu senti o Esposo chegar a mim e ficar comigo; de repente
Ele se afastou e não consegui mais encontrar o que buscava; apareceu outra
vez e eu o segurei, mas ele escapou de novo, e eu continuo a buscá-lo. Ele
faz isso freqüentemente, até que eu o possua de verdade, e suba apoiada em
meu Amado (Ct 8,5)”.
    Tudo que Orígenes escreve sobre a relação esponsal entre Deus e a alma
tem um tom de autobiografia espiritual. É uma experiência mística em que
                                       48
outros autores contaram que, para chegar à união com Deus, sofriam tanto
sua “ausência” quanto sua “presença”. É uma experiência que descobrimos
também em Santa Clara, nas suas Cartas a Inês de Praga,
   Na primeira homilia, Orígenes se pergunta sobre o beijo do Cântico dos
Cânticos e sobre o abraço do livro dos Provérbios: Até quando meu Esposo
vai me mandar beijos através de Moisés e dos profetas? Eu quero tocar sua
boca... Existe um abraço espiritual, e queira o Céu que um abraço mais
forte do Esposo aconteça também com a minha alma, a Esposa, para eu
também poder dizer o que está escrito neste livro: sua esquerda está sob a
minha cabeça, e sua direita me abraçará.

                                5.1.1. Três temas na mística origineana

5.1.1.1. A história como cenário esponsal
    Orígenes concebeu a história como um drama amoroso em que se
desenvolve o casamento entre Cristo e a Igreja, entre Cristo e a alma. Ele
faz uma reconstrução histórico-salvífica do caminho que levará outra vez
aos esponsais perdidos pelo pecado. Então, o Antigo Testamento foi o
noivado entre Israel e Deus, em que a noiva recebeu a visita dos “amigos
do Esposo” (patriarcas e profetas), e mais esporadicamente a visita do
próprio Esposo (nas teofanias vetero-testamentárias como figuras humanas
ou angélicas). O Novo Testamento começa com a Encarnação do Esposo,
que assume um corpo de carne imaculado para poder encontrar a Esposa,
prostrada em um corpo de carne maculado. Mas a união só será perfeita na
visão-encontro celeste, quando se realizar a parábola dos convidados para
as bodas e o Rei unir definitivamente seu Filho com a humanidade glori-
ficada.
    Mas o drama tem um lado negativo: junto ao itinerário matrimonial em
que Cristo-Esposo toma a iniciativa, há um itinerário adúltero feito pela
Igreja/alma-Esposa. Se a união a Cristo é um matrimônio, cada pecado é
uma infidelidade a esse Esposo legítimo e, portanto, um adultério com
Satanás.

5.1.1.2. A ferida de amor

   A literatura esponsal cristã explorou bastante a expressão: “estou ferida
de amor” (Ct 2,5), que foi vinculada a um texto do profeta Isaias: “Fez minha
boca como uma espada afiada; na sombra de sua mão me escondeu; fez-me

                                      49
como seta aguda, em sua aljava me guardou” (Is 49,2). A ferida corresponde à
flecha, e as duas são de amor. Orígenes desenvolveu amplamente esse tema
em várias de suas obras.
    Há um Arqueiro, que pode ser o Pai ou o Filho. A Flecha é sempre o
Filho, mas ele também pode ser representado pela Ferida que produz na
alma fiel. Mas a Esposa ferida é sempre a alma, nunca a Igreja. Há uma
variante “eclesial” da flecha, que pode ser representada por aqueles a quem
Cristo confiou serem portadores de sua Palavra: Moisés, os profetas, os
apóstolos, os pregadores do Evangelho.

5.1.1.3. A fecundidade do esponsal com Cristo

    O tema de conceber e de gerar espiritualmente está em São Paulo e em
alguns Padres precedentes. E também não estaria longe do tema tão querido
no corpus paulino e no corpus joânico da in-habitação de Cristo ou da
própria Trindade na alma do crente.
    Maria é o modelo nessa ação de gerar o Verbo, com uma atitude tipi-
camente materna: toda alma virgem e incorrupta, concebendo do Espírito
Santo para fazer a vontade do Pai, é Mãe de Jesus.
    Esse nascimento de Cristo na alma do crente está vinculado
essencialmente ao acolhimento da Palavra e, em certo sentido assim nasce
Jesus continuamente nas almas. Não se trata de ser um “outro filho” de
Maria, mas de ser o único filho que ela gerou, isto é: de se transformar em
Jesus.
    Isso tudo só é viável se tivermos, como João, a mente de Cristo. É esse
vínculo que Orígenes faz com outro texto paulino: “Nós não recebemos o
espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecer as
graças que Deus nos deu [...]. Porque “quem conheceu a mente do Senhor
para instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Cor 2,12, Jo 1,23).
    Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de
modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas
ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em
que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto
alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação
naquele a quem amamos.
    Mas, ensina Orígenes, nem tudo é concepção de Cristo na alma, porque
também há uma espécie de assassínio quando se comete um pecado. Jesus

                                      50
não pode estar na alma, porque o pecado reduz o espaço. Isso é o que
acontece nas almas tíbias; nas outras ele cresce.
    Por último, Orígenes indica um espaço interior em que Deus põe sua
morada, a palavra usada por São João para indicar o recinto sagrado onde
habita o Senhor, a tenda do encontro que acompanhou Israel, que agora é o
coração do homem. Para ele, o coração é justamente esse centro vital onde
Cristo nasce, cresce e é feliz. Ele usa uma série de imagens que explicitam
essa presença de Deus quando alguém lhe oferece um espaço no santuário
de seu coração: então Jesus passa pelo meio deles e aí repousa com toda a
Trindade.
    São esses os caracteres da teologia esponsal de Orígenes, que descrevem
um processo, um drama em que a liberdade da pessoa se joga como
resposta amorosa a uma proposta de amor: Deus que inicia e conduz uma
história nupcial de salvação, que fere aos que ama com um dardo de amor
até levá-los à plenitude fecunda dos esponsais místicos. São uma língua-
gem e uma experiência que reconheceremos na literatura mística posterior e
até como elementos descritivos de uma forma de vida contemplativa claus-
tral, como a do projeto evangélico de Clara de Assis.

            5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União

    Gregório de Nissa continua a perspectiva da mística esponsal. Sua con-
tribuição para a espiritualidade esponsal comporta o conceito de itinerário e
o conceito de união. São elementos que encontramos principalmente em
suas obras exegéticas, onde ele mais manifesta sua admiração por Orígenes:
na De vita Moysis, e nas quinze homilias In Canticum Canticorum. Cremos
que a chave esponsal da doutrina do nisseno gira em torno da idéia de
progressão, que permite ao crente ir percorrendo um caminho de conver-
são, de assimilação divina, até chegar à união 10.
                                      5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”:
                                         a progressão para a semelhança divina

    O chamado para uma estreita comunhão com Deus, para a vivência
íntima e amorosa com Ele, não é algo natural, ou que se obtém de modo
improvisado e impessoal. É preciso fazer um caminho para chegar ao cume

  10
     Não podemos deixar de chamar a atenção, neste ponto, para o “Itinerário da mente a Deus” escrito
por São Boaventura. Ele trás uma perspectiva “seráfica”, na tentativa de entender o misticismo de São
Francisco. Mas recordamos que esse livro foi escrito depois da morte de Santa Clara.

                                                  51
da vida espiritual; Gregório de Nissa pensou nisso a partir do tema da
imagem como o ponto de partida de toda investigação sobre a mística. De
fato, sendo o cristianismo imitação da natureza divina, indagar sobre o
momento inicial do homem leva a conhecer o projeto de Deus, que se
desenvolve em todo momento de relação do homem com Deus, até o mais
pleno, que é o místico.
    A questão básica é saber como é a imagem do homem à luz de seu
arquétipo primordial, Deus Criador. Esse é o fundamento de sua doutrina,
não só sobre a intuição de Deus, mas também sobre a ascensão mística do
homem. Coroamento de toda a obra da criação, o homem, um microcosmo,
exibe a mesma ordem e harmonia que admiramos no macrocosmo, em toda
a criação. Gregório não faz a distinção típica dos alexandrinos entre ima-
gem e semelhança, como quem entende por semelhança o esforço ético do
homem sobre a imagem; porque as considera sinônimos, indicando assim a
condição de pureza originária do homem. Graças a esta semelhança, o
homem se apresenta como superior a todas as criaturas, pois nenhuma delas
foi feita à semelhança de seu Criador. Para ele, “imagem” é uma expressão
adequada dos dons divinos com que o homem foi dotado, de sua condição
original de perfeição.
    A condição do homem depois do pecado pode ser aperfeiçoada, pode
começar de novo. O simbolismo da água do batismo é simplesmente o
início da nova vida em Cristo, que precisa crescer até a união total, com
uma decidida morte mística que leve o homem à verdadeira ressurreição.
Esse percurso é bem estudado em seu De vita Moysis, um tratado místico
em que ele delineia o seu itinerarium mentis in Deum pessoal, baseando-se
na apresentação do êxodo existencial de Moisés.
    O livro tem duas partes. Na primeira há uma síntese biográfica de
Moisés. Na segunda parte, a principal, faz uma interpretação alegórica de
Moisés, vendo em seu itinerário um paradigma da subida do homem até
Deus.
    Essa itinerância purificadora, que o crente percorre em sua ascensão,
leva-o à fonte de sua imagem, que é Deus, em colaboração com a graça
divina para eliminar paulatinamente toda imperfeição. Nessa abertura
amorosa para a beleza infinita de Deus, a mudança e o devir que mostram a
finitude de todo espírito criado adquire um significado novo, pois, como
diz Gregório, o que pode parecer temível são asas adequadas para o vôo;
seria um dano se não pudéssemos transformar-nos em seres melhores, pois


                                     52
a verdadeira perfeição consiste nisto: nosso crescimento nunca acaba sem
pode ser circunscrito.
   Não se trata de uma luta contra a limitação, mas de colaborar em tudo
com a graça divina. Podemos situar aqui a imagem da sarça ardente e da
tenda, que passariam mais tarde a significar espaços da vida contemplativa.
A sarça ardente é compreendida por Gregório de Nissa como a atitude que
o peregrino para Deus deve ter diante da luz de sua presença. Há escuridão
na alma, mas também existe a luz que se fez alcançável e visível em um
gesto de condescendência divina. O caminho do crente implica uma espécie
de estupor diante dessa luz imerecidamente concedida; um estupor que se
converterá em adoração de Deus e em purificação de tudo que puder
estorvar.
   A tenda do encontro é outra imagem importante do itinerarium. São
duas tendas, a celeste e a terrena, que simbolizam as duas naturezas de
Cristo. É evidente a alusão à tenda encarnada do prólogo do Evangelho de
São João: o Cristo eterno e incriado, quando se fez histórico e criado,
acampou no meio de nós. Gregório diz: “Entre todos, existe um único ser
que existia antes dos tempos e que foi criado nos últimos tempos, mesmo
não tendo necessidade de ser criado no tempo. Como teria necessidade de
um nascimento temporal quem já existia antes dos tempos e dos séculos?
Por nós, que por desconsideração tínhamos sido corrompidos no ser, ele
aceitou ser criado como nós, para levar de volta ao ser o que estava fora do
ser. Este é o Deus unigênito, que em si abraça o universo, e montou sua
tenda entre nós”.
       A perfeição que se busca através de todo o itinerário coincide com a
que Moisés obteve: a amizade de Deus, a contemplação participada de sua
beleza: “esses conselhos sobre a perfeição da vida virtuosa te sugerem, ó
homem de Deus, este nosso breve discurso, descrevendo-te a vida do
grande Moisés como modelo de beleza, pelo que cada um de nós, imitando
sua maneira de viver, reproduza em si a marca da beleza que nos foi
mostrada [...]. Está na hora de olhares o modelo, meu caro, aplicando em
tua vida tudo que consideramos com a interpretação espiritual dos fatos
históricos, e te faças conhecer por Deus e chegues a ser seu amigo”.




                                      53
5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus
                                      que nos transforma em sua imagem
    Na Vida de Moisés, Gregório usa um termo adequado para expressar o
encontro entre Deus e o homem, entre o Amor infinito e o amor criado: a
insaciabilidade. O caminho não tem fim, é inesgotável como Deus.
    Há, então, um progressivo encontro com a Beleza, que é Deus 11. Mas,
como essa ascensão pressupõe uma paulatina assimilação da imagem de
Deus, não pode parar, porque isso significaria ter alcançado o limite de
Deus. E nisso consiste a bem-aventurança.
    É principalmente em suas homilias sobre o Cântico que ele trata da
gradualidade dessa subida para a contemplação da Beleza. A linha é a
mesma de Orígenes, falando da esposa-Igreja e da esposa-alma. Orígenes
tinha determinado três momentos na subida da alma até Deus: a ética, a
física e a teoria, que fazia corresponder aos Provérbios, ao Eclesiastes e ao
Cântico dos Cânticos. Na primeira de suas Homilias sobre o Cântico dos
Cânticos, Gregório retoma essa divisão e relaciona os três livros com as
idades espirituais: a infância – incipientes – (Provérbios); a juventude –
proficientes – (Eclesiastes) – e a maturidade – perfeitos – (Cântico dos
Cânticos).
    A fase dos incipientes se caracteriza pela purificação; é a passagem da
escuridão para a luz, entendida como o desapego dos conceitos errôneos
sobre Deus e o esforço por imitar totalmente a Cristo. Essa fase purifi-
catória termina na apáteia (a despreocupação pelas coisas vãs) e na
parresia (a liberdade sem temor), frutos da confiança em Deus.
    Com os proficientes há uma maior fidelidade na reprodução da imagem
de Cristo na alma, há uma manifestação de Deus de modo misterioso e
obscuro, e se tem uma clara experiência de sua presença. Quanto mais se
avança nesse caminho de perfeição, mais são refletidos na alma os traços de
Cristo, até chegar a reproduzi-los de tal maneira em si mesma que quase
não se distingue da Beleza original. Utiliza a imagem do espelho, de tanta
influência na literatura mística.
    Essa escalada ascensional é um movimento de caridade, pelo qual o
sensível vai sendo substituído pouco a pouco pelo espiritual, sem voltar à
sujeira que se deixou para entrar na presença de Deus. Abrir-se a Deus que
entra, é, conseqüentemente, ver como se afasta o que não é Deus na alma.

   11
      No Processo de Canonização, as Irmãs recordam que Santa Clara saía da oração com o rosto
transfigurado. Como Moisés quando descia do Sinai. A LSC confirma. Cf. ProcC 1,9; 6,3; LSC 20.

                                               54
Finalmente, a última fase corresponde aos perfeitos, cuja maturidade
consiste em ver dentro deles a imagem buscada do esposo amado. Não é
uma visão de Deus, mas um sentimento de presença na realidade da graça.
Essa presença poderia aplacar a sede imensa do Esposo suspirado, mas, na
realidade, gera um novo êxodo.
   É a doce-ferida do amante e do místico de que nos falam tantas páginas
amorosas da história humana, tanto por Deus como por uma pessoa
humana. Gregório usa a metáfora do vinho e do lagar na Homilia 4: no
fundo, Deus é um Esposo que se transforma ao mesmo tempo na sede que
queima e no vinho que sacia. O conhecimento de Deus no espelho da alma
exige a sua purificação até chegar à semelhança de Deus perdida no
pecado. É esse objetivo que estrutura todo o caminho das obras místicas de
Gregório. Na última etapa, a dos perfeitos ou maduros, se caracteriza pela
contemplação unitiva de Deus como Esposo da alma esposa.
   A idéia de que a contemplação transforma na imagem do Esposo
também está em Santa Clara (2CtIn 12) como vamos ver Np cap. 9, sobre a
contemplação. Poderia haver alguma influência de São Gregório de Nissa.
Acreditamos que pelo menos indireta houve, pelas suas reflexões a partir
das pregações de cistercienses.




                                     55
6. O Esposo na Aliança Bíblica

   Através dos místicos, Clara foi levada ao Cântico dos Cânticos e aos
Santos Padres. Através dos Santos Padres passou do Cântico para a Aliança
e redescobriu em uma profundidade maior o Esposo Jesus Cristo. Com o
Jesus Esposo ela “saiu do século” e foi para a plenitude: ser “com a Virgem
Maria coroada”, como tinha dito São Francisco.
   Vamos dividir este capítulo em três grandes seções:
   O Cântico dos Cânticos
   A Aliança e os Profetas
   Jesus é o Esposo

                             6.1. O Cântico dos Cânticos

    Pelas mãos dos santos Padres somos levados – numa leitura do Antigo
Testamento à luz do Novo – ao coração da Bíblia, em que o Cântico dos
Cânticos nos fala da mais profunda união ao Deus infinito que nos ama. Ao
introduzir o seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, Orígenes escreveu:
        “Para mim, Salomão escreveu em forma de drama este epitalâmio, isto é, um
        cântico de casamento, e o cantou como se fosse o de uma noiva que vai se
        casar e está inflamada de amor celeste por seu esposo, que é o Verbo de
        Deus” 12.
   Santa Clara chega a usar essa mesma expressão “inflamada de amor
celeste” certamente porque conheceu o Comentário de Orígenes sobre a
“chama de amor”, pelo menos através de São Bernardo.
   É surpreendente encontrar na Bíblia um livro como o Cântico dos
Cânticos, com seu forte apelo erótico. Mas é bom lembrar o que disse o
rabi Aquibá (+135 dC), defendendo o valor e a pureza desse livro:
        “Que ninguém em Israel diga que o Cântico dos Cânticos torna as mãos
        impuras, pois o mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico dos
        Cânticos foi dado a Israel”.
   Na visão dos sucessivos pactos com Noé, Abraão e Moisés, e dos
esponsais com o Povo, ele é um livro central: comunica que é Deus quem

 12
      ORÍGENES, Comentário ao Cântico dos Cânticos, I,1.
                                                   56
toma a iniciativa de vir como esposo ao encontro da esposa, o Povo. Vamos
destacar dois pontos.

                             6.1.1. O amor é caminho divino do homem

    Lemos nos Provérbios: “Há três coisas que me ultrapassam, e uma
quarta que não compreendo: o caminho da águia no ar, o caminho da
serpente na pedra, o caminho da nave no mar, o caminho do homem na
donzela” (Pr 30,18-19). O amor entre um homem e uma mulher é um
“caminho”, como caminhos são três grandes elementos naturais: o ar, a
terra e a água. Então, podemos pensar que é o quarto elemento: o fogo.
    O amor humano aqui exaltado é uma porta para penetrar no amor
divino. A Bíblia apresenta os traços de Deus em linguagem humana, e
também descreve o homem de acordo com um plano divino: faz uma
antropologia de Deus e uma teologia do homem. Seus textos têm leituras
diversas de acordo com os alegoristas ou com os literalistas
    Para nós, a interpretação simbólica capta o melhor do que foi indicado
por uns e outros, buscando uma harmonia propriamente “simbólica”.
Porque a interpretação literal (erótica ou romântica) é incapaz de acolher o
que a tradição judeu-cristã viu no sinal nupcial, por não deixar um espaço
transcendente para além do amor. E interpretação espiritual peca por não
levar a sério a realidade do texto: o universo amoroso, reduzindo-o a uma
moral para evitar que o espiritual seja “manchado” pelo carnal.

             6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum
     “Grava-me como um selo em teu coração. Como selo no teu braço, porque
     forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; e seus
     ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas
     conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir” (Ct
     8,6-7).

   O amor humano do Cântico dos Cânticos abre-se até vir a ser o símbolo
mais eloqüente para falar de Deus. Sem deixar de ser plenamente humano,
o amor adquire um valor místico que o torna adequado para representar o
amor de Deus. O Cântico dos Cânticos não quer testemunhar apenas um
amor humano, mesmo com toda a sua beleza: ele evoca continuamente algo
mais além no próprio mistério do amor. O livro não enfrenta um
desenvolvimento “religioso” do tema. Apenas sugere, a não ser quando fala
da “chama de Javé”.
                                       57
Seria inadequada uma interpretação literal-erótica, mas os elementos
corpóreos, sexuais e sexuados do livro são importantes. O amor que brota
transparente de um coração apaixonado já é uma realidade divina. O amor
sempre é limpo; não precisa de água benta. Se houver pecados serão
injustiças ou abusos contra a pessoa, como pode acontecer com qualquer
outra coisa sagrada.
    Se as primeiras palavras humanas da Bíblia são o canto admirado do
homem diante daquela que lhe foi dada como ajuda semelhante: “Esta sim,
é osso de meus ossos e carne de minha carne”, o Cântico dos Cânticos seria
uma prolongação desse mesmo êxtase amoroso, celebrado por ele e por ela.
    Nesta concelebração extasiada no jardim do amor, são convocadas
também as criaturas: aqui brilharão o sol e a lua; o amanhecer e o anoitecer
trarão a luz ou o mistério; estarão presentes os perfumes e aromas... e tudo
que pode expressar a embriaguez e a doçura do amor. Todo o poema
amoroso leva a uma expressão característica do amor esponsal: a recíproca
pertença. Diante de Javé, a amada diz: “Meu amado é meu e eu sou dele”.
O Cântico é uma grandiosa e gloriosa benção de Deus sobre o amor
humano, sobre o matrimônio, sobre a ternura. A história de amor narrada
neste livro é uma história precisamente esponsal, cercada e enriquecida de
fascínio apaixonado até uma total consumação transformadora, como
sugere a expressão “chama de Javé”.
    A tradição cristã que se expressa na liturgia e na exegese através dos
séculos leu o Cântico identificando a esposa com a comunidade eclesial e
com cada alma cristã. O maior número de comentários foi no séc. XII. Mas
os comentaristas cristãos, quase sempre monges, nem sempre souberam
respeitar o realismo humano do Cântico. Em vez de lê-lo como símbolo,
converteram-no em alegoria intelectual, que se alimenta do cadáver da
imagem. Esmiuçaram quadros e cenas, para traduzir cada detalhe a um
conceito ou idéia espiritual. Não é esse o caminho.
    Para entrar na espiritualidade de Santa Clara, estamos considerando que
ela – como a esposa do Cântico dos Cânticos – festejou o amor do Esposo
em tudo que escreveu para Inês de Praga, especialmente no “Hino à
Pobreza”, de sua primeira carta, e no “Feliz é você”, da sua quarta Carta. E
que Francisco, o seu companheiro humano da aventura esponsal, também
se arrebatou no “Cântico de Frei Sol” e no cântico “Ouvi pobrezinhas”.
Mas de uma maneira toda especial nos Salmos que criou para o Ofício da
Paixão e em quase todas as suas orações. Eles entraram na torrente dos
cânticos bíblicos.

                                      58
6.2. A Aliança e os Profetas

    O Deus da Bíblia sempre quis estar ligado ao seu Povo por alianças. Na
primeira vez, ao salvar a família de Noé, fez com ele um pacto de Aliança,
e colocou no céu o arco-íris, como símbolo desse pacto (cf Gn 9). Na segunda
vez, fez um pacto de Aliança com Abraão e sua descendência (cf Gn 15-22).
Na terceira vez, levando o Povo para fora do Egito, concluiu com ele mais
um pacto de Aliança com Moisés no Sinai, e lhe deu as tábuas da Lei (cf Ex
19-24). Houve uma história antes desta grande Aliança, e também depois,
como podemos acompanhar nos profetas.

    Os profetas foram mensageiros mandados por Deus ao seu Povo cada
vez que a Aliança era esquecida. Mas, no fundo, a Aliança era sempre uma
mensagem de amor. Deus tinha estabelecido a Aliança por seu amor todo
especial, a Hesed, que falava de ternura, compaixão, algo do que se tentou
traduzir com a palavra grega Éleos ou com a palavra latina Misericórdia.
    Originariamente (como nos casos de Abraão e de Moisés) a aliança
tinha um aspecto jurídico: um pacto entre Javé e seu povo. Os profetas
carregaram-na de afeto. A idéia de aliança dá lugar à formação do povo da
aliança, que permite elaborar o pensamento e as instituições que dão uma
fisionomia particular à sociedade bíblica. O sentimento da presença divina
caracteriza a sociedade hebraica. E esse sentimento corresponde à aliança:
Deus está com Israel. O pecado de Israel foi ter reduzido a aliança a um
privilégio diante dos outros povos, sem penetrar no conhecimento de Deus
e numa existência histórica de acordo com esse conhecimento. E também
ter aproveitado a segurança dessa aliança para adotar os deuses de outros
povos, como Baal, deus da fertilidade em Canaã.
    Por causa dessa infidelidade apareceu o ministério profético: para in-
quietar um Israel esquecido e submetido a povos e divindades estranhas;
admoestar um Israel inclinado à corrupção social contra as classes mais
desfavorecidas; e lutar com Deus em favor de seu povo pecador. Por isso
há um encontro dramático entre os profetas e o povo. Eles deram outra
orientação à aliança: mais que um pacto, é um dom gratuito de Deus; e está
fundada mais na promessa do que no compromisso. É, cada vez mais, uma
relação de amor.


                                      59
Daí nasceu a simbologia esponsal e, conseqüentemente, a exigência da
fidelidade, uma fidelidade que podia resistir às separações que tivessem
acontecido. Por isso, também foi importante no relacionamento entre os
profetas e o Povo o conceito de história, na qual se desenvolvia um
verdadeiro drama. O Deus de Israel era esposo do povo, não de sua terra: o
amor que os une tem uma história; as atenções gratuitas de Deus e o triunfo
de sua misericórdia sobre a infidelidade de seu povo são temas proféticos.
E a pregação profética nunca considerou a hipótese de uma ruptura fatal,
com o divórcio ou o repúdio entre Deus-Esposo e Israel-esposa. Vamos
chamar a atenção para quatro profetas principais: Oséias, Isaias, Jeremias e
Ezequiel.

6.2.1. Oséias

    Foi profeta entre 750-725 AC. Nasceu e cresceu num dos poucos
tempos de esplendor de Israel, mas também enfrentou uma das
circunstâncias mais duras. Corrupção, abusos econômicos e ambigüidades
militares foram destruindo tanto o estado de direito como o relacionamento
entre o Povo e seu Deus. Por isso, Oséias foi duro contra os governantes.
Mas também enfrentou o período mais crítico da idolatria no culto a Baal.
    O estabelecimento na Terra Prometida tinha levado muitos israelitas,
antes pastores, a serem agricultores. Por isso, passaram a pensar que um
Deus de pastores não servia para suas atividades agrícolas e precisavam de
um deus que os ajudasse a cultivar a terra. Foram passando para Baal e para
seus cultos. Javé continuou a ser o Deus do povo, mas quem satisfazia as
necessidades primárias era Baal. Era ele quem dava o pão e a água, a lã e
linho, o vinho e o azeite. Mas Javé era ciumento e não admitia compe-
tições.
    Oséias não comunicou algo revelado: sua vida se fez revelação, Deus
falou no que ele viveu. A eterna fidelidade de Deus torna-se palavra viva
no drama da infidelidade sofrida por Oséias. O profeta foi um esposo
profundamente apaixonado e depois traído, que sofreu cruelmente as infi-
delidades da esposa, a tortura de um coração que experimentou na escu-
ridão as claridades fulgurantes do amor de Deus.
    À luz dessa experiência, Oséias contemplou um Deus que manifesta a
ternura de um esposo cheio de carinho e, ao mesmo tempo, toda a dor de
um amante enganado. É um Deus que suplica, se lamenta, exorta, ameaça,
castiga, se afasta para despertar o desejo de uma volta sincera. Preocupa-se,
duvida se deve castigar e sente a dor de ter tido essa dúvida, cheio de
                                      60
ternura e compaixão. E no fim se acalma, prometendo uma reconciliação
definitiva. Até então, Deus não tinha falado ao homem dessa maneira.

6.2.2. Isaias

    O Primeiro Isaias (1-39) faz uma denúncia da desilusão de Deus, com um
ponto alto no “Poema da vinha”. Supõe uma relação nupcial entre o Senhor
e sua vinha, símbolo de Israel, uma relação cheia de ternura, indicada pela
expressão dodî (meu amado). O profeta se apresenta como o “amigo do
esposo”. A ternura apaixonada de Deus por sua “plantação preferida” se
revela nessa seqüência de iniciativas de amor: “ele a escavou, preparou e
plantou boas cepas; construiu uma torre e cavou um lagar...”. Mas sofreu
uma rejeição, infiel e injusta, que o profeta amigo-do-esposo teve que
registrar com amargura.
    Amor e desilusão são a base desta leitura simbólico-nupcial da história
de Israel e Judá diante um Deus esposo. Quando João retoma essa imagem,
há duas mudanças importantes: a) a vinha já não é o povo, mas o Filho
enviado por Deus, em quem se enxertam os homens; b) em vez de “justiça”
fala em “amor”, que engloba e radicaliza a justiça.
    O Segundo Isaias (40-55) acontece numa situação diferente. Israel está
desterrado na Babilônia e a palavra profética adota um tom de misericórdia.
É o grande poema da volta do desterro. Este autor anônimo do séc. VI AC
define todos os matizes do amor em um tema nupcial de finíssima lírica.
Descreve Israel antes da aliança com Deus como uma mulher estéril, sem
marido, sem filhos. Mas o Senhor apareceu, e foi capaz de superar todo tipo
de esterilidade, capaz de fazer da estéril uma mãe feliz. Israel precisou
ampliar a tenda de sua família.
    O Terceiro Isaias (55-66) se apresenta no meio da pobreza e do desânimo
dos repatriados no período pós-exílio. O canto nupcial deste Isaias está no
capítulo 62. Uma breve antecipação introduz o poema da nova Jerusalém:
o Senhor reveste Israel com o manto nupcial e entra com ele na cena,
solene e gloriosamente: “eu me alegro com meu Deus: porque me vestiu
um traje de gala e me envolveu em um manto de triunfo, como noivo que
se coroa ou noiva que se adorna com suas jóias”.
    Toda esta parábola nupcial se encerra na alegria transbordante de um
Deus-jovem-esposo, que toma por esposa aquela que ele fez com suas
mãos: “Como um jovem se casa com uma donzela, assim te desposa aquele
que te construiu” (Is 62,5).

                                     61
A voz do esposo rompe o silêncio antes de aparecer a estrela da manhã.
Jerusalém se transforma numa esposa impaciente, intensamente dedicada
aos preparativos da festa. O esposo aparece como o sol brilhante: a cidade é
tomada pela luz solar e se vê como uma resplandecente coroa de ouro. A
cidade é a própria coroa que o esposo coloca na cabeça da princesa que vai
receber o “nome novo”: “Já não te chamarão ‘a Abandonada’ nem à tua
terra ‘a Devastada’. Vão te chamar ‘Minha Preferida’ e à tua terra ‘a
Desposada’”.

6.2.3. Jeremias

    Também usou a simbologia esponsal. Ele nasceu em Anatot, da tribo de
Benjamim, em meados do séc. VII AC. Podemos seguir seu itinerário
trágico e comovente. Jeremias percorreu-o apaixonadamente, perdido entre
as saudades dos oráculos de promessa e a presença dos oráculos de ameaça
que Deus lhe impôs; entre a obediência à missão divina e a solidariedade
com seu povo sofredor. Com olhos lúcidos, iluminados por Deus, tem que
ir assistindo ao fracasso sistemático de toda sua vida e atividade.
    A temática esponsal como simbologia aparece nos capítulos 2-3 de seu
livro. O amor de Deus é mostrado em um solilóquio divino dentro de um
grande apelo de Javé a seu povo: amor e fidelidade são indissociáveis, e
atentar contra a fidelidade é tornar sacrílego o próprio amor. O termo hesed
na linguagem bíblica é a virtude da aliança por excelência, e expressa
também a atmosfera de fidelidade amorosa que vincula os namorados,
como Deus não se cansa de mostrar através de Jeremias, porque é um
profeta da ameaça e do castigo, mas também da consolação e da esperança.

6.2.4. Ezequiel

    Ezequiel vivia serenamente seu casamento, e estava apaixonado por sua
esposa, que chamava de “o encanto de meus olhos”. Ela morreu de repente,
e a dor ajudou o profeta a entender o que o esposo-Deus sofria diante do
abandono da esposa-Israel. Israel era como uma jovenzinha selvagem e
abandonada. Deus passou e, com gestos tipicamente esponsais na
simbologia bíblica, apresentou-a como resgatada e engalanada. Ela cor-
respondeu prostituindo-se com toda espécie de traições e abominações.
    A resposta de Deus-esposo é a surpreendente novidade de quem acolhe
sempre numa incansável misericórdia, sem permitir que a história acabe em
traição. Diante dessa atuação amorosa do Deus-esposo, Israel-esposa vol-
                                      62
tará e pedirá perdão a Deus, abrindo um novo e definitivo horizonte de
amor e de fidelidade. Essa seria, em resumo, a mensagem profética em
relação ao tema que nos ocupa.

              6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo

                                   6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo

   A história da salvação chega à meta na revelação de Jesus, Palavra
definitiva de Deus, que vem recapitular o que tinha sido dito no Antigo
Testamento através de tantos mediadores e mensageiros a cada geração
histórica. Na Pessoa de Jesus, Deus abraça o homem (Filho de Deus) e o
homem abraça Deus (Filho do homem). Sua natureza divino-humana
apresenta-nos uma união excepcional, porque na humanidade de Jesus
realiza-se com perfeição tudo que a humanidade histórica (povo e cada
indivíduo) está chamada a viver com seu Criador. Jesus Cristo-Deus é o
Esposo que vem ao encontro da humanidade e, ao mesmo tempo, Jesus
Cristo-homem é essa humanidade esponsal encontrada por seu Criador, a
Cabeça de um corpo que constitui a humanidade nova desposada com a
Trindade.
   Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-11), João apresentou uma cena carregada de
simbolismo esponsal, que culmina numa declaração em que está a chave
simbólica de todo o relato e de sua significação cristológica esponsal:
“Todo mundo serve primeiro o vinho melhor, e quando os convidados já
estão um tanto bêbados, vem com o pior. Tu guardaste até agora o vinho
melhor”. Em Caná fala-se três vezes do vinho e não se diz o nome dos
noivos: o vinho estava associado na literatura profética ao anúncio dos
tempos da restauração messiânica quando Deus desposará seu povo na
fidelidade e no amor. As palavras ditas ao noivo são aplicadas a Jesus:
Jesus fez seu primeiro sinal. Tudo consiste na presença do esposo que
começa a se manifestar.

                                            6.3.2. O amigo do Esposo

   O comportamento de João Batista em relação a Jesus é explicado por
uma figura semítica dos casamentos: o amigo do esposo. Sua missão era
acompanhar o esposo e contribuir para o esplendor da festa.
   Por isso, o amigo “tinha que diminuir para o esposo crescer”. No
contexto nupcial “crescer” alude à benção dada por Deus ao homem em Gn
                                   63
1,28: “Crescei e multiplicai-vos”, indicando a fecundidade da aliança
definitiva inaugurada pelo Messias. João é o amigo do esposo. Com a
chegada de Jesus-Esposo, começa o tempo messiânico e se celebram as
Bodas entre Deus e seu povo.
   Paulo também reivindicou um lugar de amigo do esposo: “tenho ciúmes
de vós, ciúmes de Deus, porque vos prometi a um só marido para
apresentar-vos a Cristo como virgem intacta” (2Cor 11,1-3).

                                           6.3.3. A esposa ouve o Esposo

    A alegria de escutar a voz do Esposo não foi privilégio do Batista: é
parte do discipulado cristão escutar aos pés do mestre, como no modelo
rabínico. Essa é uma nota interessante da vocação cristã contemplativa,
prefigurada em Maria de Betânia, mas que tem seu ponto alto em Maria de
Nazaré. Uma longa tradição viu em Nossa Senhora o elo entre os dois
Testamentos. Ela foi muitas vezes invocada como a filha de Sião, em quem
se cumpriram as profecias messiânicas do Antigo Testamento.
    Nos evangelhos de Lucas e de João, Maria inaugura e antecipa a nova
Salvação. Ela seria a Virgem, a Mãe e a Esposa. O mistério nupcial da
Virgem Mãe se entende especialmente em relação com Aquele que, dentro
do mistério de Deus, é a nupcialidade eterna do Pai e do Filho, e na
economia da salvação é o artífice da aliança esponsal entre Deus e seu
povo. Na figura da Esposa condensa-se o dom acolhido pela Virgem e
realizado na Mãe: o céu desce para a terra e firma suas raízes; a terra
saboreia o amanhã de Deus que lhe foi dado e prometido.
    Dentro da aliança esponsal protagonizada na história salvífica por Deus
e seu povo, Deus e cada pessoa humana, Maria esposa do Paráclito indica
com sua própria vida o mistério nupcial que o Espírito constrói. Podemos
dizer que há uma analogia entre o que o Espírito faz em Maria e o que faz
na Trindade e na história da Igreja, e por isso a esponsalidade da Virgem se
prolonga na história cristã na relação pessoal que cada crente e todo o Povo
de Deus têm com o Espírito Santo: entrega incondicional (fiat), acolhendo a
Palavra, meditando-a no coração, vivendo-a cada dia e dando-a à luz pelo
testemunho da existência. Pavel Evdokimov disse que Maria, pela força do
Espírito Santo, gerou Deus na terra e o homem no céu.




                                      64
6.3.4. A Igreja, Esposa do Verbo

    A Igreja é a “esposa” por excelência, como Jesus é o “esposo”. Maria
faz parte da Igreja e, como tal, participa dessa esponsalidade eclesial. Maria
representa a parte da Igreja que conseguiu viver fielmente a vocação
esponsal. O Senhor quer ver sua Igreja como Esposa bela, digna dele.
Maria é aquela subjetividade capaz de corresponder plenamente, em sua
maneira feminina e conceptiva, à subjetividade masculina de Cristo, pela
graça de Deus. Ela é o espaço eclesial em que Deus se vê correspondido
esponsal-mente. Mas Maria não esgota todo o Povo de Deus. É à Igreja que
corresponde o título de esposa.
    O ponto messiânico mais alto coincide com o cumprimento de todas as
profecias e promessas em torno à figura do Esperado, que aparece como o
Esposo. O tempo cristão com referência à comunidade messiânica –
considerada biblicamente como “Esposa” – é definido como o “tempo do
Esposo”.
    Na carta aos Efésios (Ef 5,21-33), o amor esponsal de Cristo gira em torno
de um texto que costuma ser chamado de “mesa doméstica” porque tem
indicações para a vida de família: os cônjuges, os filhos, os escravos.
Fiquemos com o que diz a respeito dos cônjuges: “Maridos, amai vossas
mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para purificá-la
com o banho da água e da palavra, e consagrá-la, para apresentar uma
Igreja esplêndida, sem mancha nem ruga ou nada semelhante, mas santa e
imaculada”.
    Podemos ler paralelamente 2Cor 11, em que se diferencia o período do
noivado e o casamento: a comunidade de Corinto era só a “noiva” de Jesus-
Esposo; o casamento estava marcado para o dia final. É sempre um
processo. Neste período, Cristo se dá à Igreja, renova sua oferta e seu amor
por ela, santifica-a com os sacramentos, dirige-a pessoalmente para que
chegue a ser sem mancha nem ruga. Cristo é o Esposo, a Igreja é a Esposa,
mas a esponsalidade ainda não é plena. A Igreja é como a jovem que foi
desposada; já está consagrada ao Esposo-Cristo, por quem já entrou no
estado jurídico de casada, mas quando for introduzida na casa do Esposo
estará definitivamente com ele, participando plenamente de sua glória
divina.
    Na mesma linha, podemos encontrar no Apocalipse uma descrição da
relação esponsal entre Cristo e a Igreja. O Apocalipse tem uma visão
dramática e integral da história como um campo de batalha. Nesse campo

                                       65
se apresenta o tempo do Messias-Esposo, que entra na história humana para
encontrar e redimir a Esposa-Igreja infiel, e o tempo do Esposo é, ao
mesmo tempo, o tempo dos ciúmes de Deus em seus dois aspectos de amor
colérico e salvador, sem que isso implique volta a uma imagem de Deus
mais própria do Antigo Testamento.
   O Apocalipse trata disso em dois tempos: primeiro, o amor jovem e
volúvel, generoso e frágil; segundo, a comunhão plena e eterna do Esposo e
da Esposa.
6.3.4.1. O “amor primeiro”, entre a generosidade e a fragilidade
    Cristo-Esposo está sempre presente na vida da comunidade e de cada
cristão: as chamadas cartas às sete igrejas são testemunho dessa solicitude
de Cristo que conhece e acompanha sua Igreja. Vamos ver duas dessas
igrejas: a de Êfeso e a de Laodicéia.
    A carta à comunidade de Êfeso começa com uma descrição elogiosa das
“virtudes” conquistadas por esta igreja. Os cristãos de Êfeso têm um
compromisso real, um amor sincero por Jesus ressuscitado que justifica as
coisas boas que estão fazendo, a ponto de enfrentar provas e dificuldades.
    Mas depois disso há uma quebra, e a comunidade corre o risco de
arruinar suas luzes (será excluída do candelabro, na comunhão das igrejas),
pois esqueceu o primeiro amor. Recordam-se os ciúmes de Deus como um
eco de Oséias, quando Javé também recriminava a infidelidade da esposa
aludindo ao amor da juventude, ao período do deserto.
    Mas o mensageiro de Deus propõe a volta ao primeiro amor usando três
imperativos: lembra-te, converte-te, faz: três atitudes basilares da história
de Israel: recordar.
    Na carta à comunidade de Laodicéia há outro exemplo de como o Res-
suscitado adota um tom exortativo-ameaçador para expressar seus ciúmes
esponsais pela Igreja concreta. Denuncia apaixonadamente o que não é
correspondência amorosa por parte de quem dele tinha recebido tudo. O
delito de Laodicéia não está na falta de amor, mas na tibieza de sua entrega.
Essa situação de indiferença merece a tremenda admoestação: porque és
morno, vou te vomitar de minha boca. Mas a “cólera divina” pertence ao
estilo dos ciúmes de Javé, que é sempre misericordioso.
6.3.4.2. As núpcias últimas e definitivas
   Depois de toda uma história grávida de verdade e de fragilidade na re-
lação da Igreja com Deus, vem o momento escatológico em que se cele-

                                      66
brarão para sempre as Bodas de Cristo-Esposo e da Igreja-Esposa (incluin-
do cada pessoa). O Apocalipse apresenta duas notas sobre essa realidade
final.
   Em primeiro lugar, no capítulo 19, depois de descrever a queda da BA-
bilônia, celebra-se a relação esponsal entre o Cordeiro e a Igreja. A Igreja
deve fazer e vestir um traje especial para o casamento. O linho puro
resplandecente consiste nas “boas obras dos santos”, imagem fundamen-
tada no conceito paulino da relação entre graça e boas obras, que lhe
permite entrar na ceia nupcial
   Em segundo lugar, há uma insistência na dimensão eclesial dessas
núpcias. São núpcias com a cidade santa, a Jerusalém nova, adornada como
noiva para seu noivo. Nenhum cristão é isolado. A comunidade de pessoas,
a comunhão dos santos, supõe uma partilha real da vida como morada
solidária de Deus no meio deles.

                       6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus

   O ser humano, esponsal por natureza, é imagem e semelhança de Deus
que se revelou como comunhão de amor e esponsalidade trinitária.
   Falando de aliança, vimos que nela está a chave para entender a
proposta de Deus de devolver ao homem sua vocação original: viver em
comunhão humana a partir do fiel reflexo da comunhão divina. O êxodo
para a nova aliança vai ser marcado por essa pertença recíproca, afetiva e
efetiva, magnificamente expressa em: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o
meu povo” (Ex 6,7).
   Fala-se da Aliança desde o começo: Deus caminhou na direção do povo,
e o povo na direção de Deus. Deus e cada um de seus filhos foram
concordando. Os gestos e as palavras, os dramas e as esperanças, as
certezas e os temores dos homens foram a ocasião para Deus entrar com
suas obras e ditos, como pudemos ver em Abraão, Moisés, Oséias, Isaias,
Jeremias, Ezequiel e no Cântico dos Cânticos.
   A encarnação do Filho de Deus foi o ponto alto dessa mútua pertença,
quando na Pessoa de Jesus uniram-se Deus e o homem. A nova huma-
nidade inaugurada com Cristo não se esgota nele, que é a cabeça de um
corpo formado por todos e cada um de nós. Deus se revelou aos poucos,
constituiu a Igreja como interlocutora esponsal, mas há dois momentos: um
histórico e outro escatológico. O primeiro é para ir amadurecendo e aumen-


                                      67
tando a pertença esponsal do homem diante de Deus. O segundo será no
fim da história como vimos em São Paulo e no Apocalipse.
    Todo esse percurso termina com uma síntese: “O Espírito e a noiva
dizem: Vem!” (Ap 22,17). Aí está escrito noiva (nynfe) e não esposa. A
experiência complexa que os ouvintes do Apocalipse escutaram na primeira
parte do livro, aprendendo devagar o amor a Cristo, leva-os a colaborar
para sua vinda na história.
    Aqui se inscrevem os três gemidos de que Paulo fala na carta aos
Romanos: o gemido da criação, o gemido de cada homem e mulher, o
gemido do próprio Espírito de Deus. Geme-se porque já se saboreia o final
definitivo, mas ao mesmo tempo se tem a vivência cotidiana do inacabado,
do imperfeito, do que inda não chegou. A Igreja recebeu como noiva as
primícias do Espírito, mas aguarda o momento oportuno.
    Não estamos diante de uma questão abstrata sobre Deus, mas diante de
sua revelação cristológica. A pergunta foi ele quem fez: “quem dizem que
eu sou?... e vós, quem dizeis que eu sou?”. Responder a essa pergunta
reconhecendo em Jesus esse rosto esponsal de Deus foi o que ocupou tantos
cristãos nas melhores páginas místicas, nas maiores obras missionárias, nos
caminhos mais insuspeitos do seguimento do Senhor e do serviço aos
irmãos em quem Ele está presente.
    O encontro com Jesus no claro-escuro da história pessoal e social é o
grande desafio de cada geração. Da disponibilidade da pessoa vai depender,
ao menos em parte, que esse “abismo luminoso” que é Cristo continue a ser
dolorosamente abismático ou se torne um lar pessoal, cuja contemplação
nós já não possamos deixar, por mais que a luz cegue e a profundidade
desassossegue. O encontro com Cristo não é uma meta à que se chega, é
um caminho em que alguém se coloca.
    Desse encontro com Cristo Esposo, contemplado e testemunhado por
cada geração, fala-nos a história da Igreja em todos seus lances vocacionais
dos diferentes caminhos em diferentes carismas. Na história da Igreja
podemos ouvir o contínuo convite do Espírito à Noiva: Vem! Os que
corresponderam a esse chamado geraram uma vida, uma espiritualidade e
uma cultura (arte, literatura, música...) que se integram no horizonte
esponsal da auto-revelação de Deus.
    Ainda vamos continuar nossas reflexões, mas eu proponho desde já que
olhemos para Clara de Assis como uma mulher que – seguindo os passos
de Maria – assumiu ser a Esposa mãe e virgem e até mesmo a Esposa-
Igreja por sua intercessão pela cidade de Assis e pela consciência de ser
                                      68
“auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes do seu
corpo inefável” (3CtIn 8), integrada “à Igreja triunfante e mesmo à militante”
(TestC 75). É aguda a perspectiva de Francisco que, no cântico “Ouvi
pobrezinhas!” viu Clara e suas Irmãs “no céu coroadas como a Virgem
Maria”. Vestida de sol, com a coroa das doze estrelas das tribos do Povo e
com a lua debaixo dos pés.




                                       69
7. Clara saiu para estar com Ele

                            7.1. O “não-lugar”

   Santa Clara não saiu de casa para ir a algum lugar determinado: ela saiu
para estar com o Esposo. Na noite de um Domingo de Ramos, abandonou
sua casa. Na Porciúncula, foi consagrada pelo corte dos cabelos. Nem
dormiu lá: esteve uma semana em um mosteiro de beneditinas. Mas
também não ficou lá. Esteve uns poucos meses em Santo Ângelo de Panço,
com um grupo de leigas, que também estavam na busca de Deus. Passou o
resto da vida – quarenta anos – em São Damião. Mas nunca achou que
fosse lá a sua morada permanente. Era “peregrina e forasteira”. Queria
apenas estar com o Esposo, onde Ele estivesse, enquanto Ele estivesse.
Mais tarde, ela escreveria:
     “As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa
     alguma. E como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor na
     pobreza e na humildade... (RSC 8, 1-2).
    Quando São Francisco foi levado para o meio dos leprosos e teve a
experiência de “usar de misericórdia” com eles, disse que, depois, se
demorou pouco e “saiu do século”. Encontrar-se com Deus, viver a mise-
ricórdia, que é a Hesed hahamin (o Amor que é próprio de Deus, na Bi-
blia), levou-o a “sair do século”. Que quer dizer isso?
    Para nós, hoje, a palavra século significa um período de cem anos. Na
língua latina saeculum referia-se ao tempo que os gregos chamavam de
Crónos = o tempo que pode ser medido. Nossos cronômetros e cronologias
marcam as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos... A ele se opunha
a palavra grega Aión, com uma versão latina que era Aevum, um tempo que
não se mede, sem começo nem fim. Em grego, a palavra Aión é parente de
Aéi, o Sempre.
    Quando São Francisco disse que “saiu do século” quis significar que a
experiência de Deus o levara a sair do tempo dos homens e passar para o
tempo de Deus. Sair do tempo cronológico e passar para o Sempre.
    É interessante que os anacoretas e monges antigos tinham cunhado a
expressão “fuga do mundo”, para expressar sua entrada na vida religiosa.
São Francisco – em um novo estilo de vida religiosa –, não fugiu do mundo
dos homens para uma abadia em algum lugar afastado, nem para uma
                                       70
ermida: ele ficou em Assis. Mas ficou em Assis de outro jeito: já não era
mais um homem movido pelos sonhos dos seus contemporâneos e conci-
dadãos: queria ser um “peregrino e forasteiro”, um cidadão do céu. Não
tinha nesta terra morada permanente; sua casa era a Jerusalém do alto, a
definitiva. Ele era um homem que vivia a comunhão com o Deus Esposo e
que queria fazê-lo presente no mundo que não permanece, que passa.
    Mas ele não podia sair do tempo dos homens sem sair do lugar dos
homens. Ficou em Assis e na Itália do século XIII, mas, na realidade, era
um homem do “não-tempo” e do “não-lugar”, quer dizer: do tempo e do
lugar de Deus. E aprendeu a viver outro tipo de tempo, que a Bíblia ensina
e que era conhecido na cultura grega: o Kairós. Diferentemente do Crónos,
que vai contando o tempo que passa, o Kairós é aquele tempo fugidio, que
passa em um momento e não permanece; é um encontro oportuno e único
entre o tempo de Deus e o tempo dos homens.
    Santo Tomás More, um franciscano secular, deve ter entendido isso
quando criou a palavra Utopia. Formada com o grego “u” (= não) e “topos”
(= lugar) é uma palavra que quer dizer exatamente “não-lugar”. Quem
descobre Deus vê que não tem lugar no “mundo dos homens”, tendo sido
enviado como Jesus e com Jesus para estar nesse lugar. Descobre-se em um
não-lugar. Para sermos completos, descobre-se também no tempo de Deus
ou, diante das outras pessoas, em um “não-tempo”. Não está mais no lugar
e no tempo em que os homens que se esqueceram de Deus estão cons-
truindo o seu próprio mundo.
    Tomás More não era um alienado. A Utopia, nome do livro que ele
escreveu – e uma palavra tão usada até hoje – não era algo impossível,
como muita gente parece pensar. Era um sonho possível: ele deu o nome de
Utopia a um país longínquo, para mostrar que a Inglaterra do seu tempo,
cheia de problemas, podia ser reconstruída com princípios diferentes. E
quem estuda o livro Utopia e conhece melhor Tomás More percebe como
ele se apoiou no “saí do século” de São Francisco.
    A santidade sempre comporta uma “fuga mundi” mesmo quando o
indivíduo – por ter desposado Deus em Jesus Cristo – não sai do meio das
outras pessoas, como aconteceu com Francisco de Assis. Mas também os
que entraram no “não-lugar” e no “não-tempo” abriram o espaço interior
para Deus, acolheram o Deus que é Liberdade e que é Amor, começaram a
enxergar o mundo com os olhos de Deus e, como Jesus Cristo, são envia-
dos de novo ao mundo de todos os homens e mulheres. Não para se


                                     71
identificarem com ele: para o transformarem. “Estão no mundo sem ser do
mundo”.
   Talvez seja mais compreensível, hoje, não falar em “fuga”, mas em
mudança de perspectiva. No “lugar”, amar é possuir ou é responder a uma
necessidade; no “não-lugar” ama-se a partir de Deus, depois de ter acolhido
Deus no espaço interior. Aliás, o “não-lugar” é o jeito de criar o “espaço de
Deus dentro do coração”. É uma outra perspectiva para o amor. A pessoa é
acolhida como parte da presença de Deus e recebe o nosso amor no mesmo
ato em que estamos amando a Deus. Para um amor verdadeiro, é preciso
estar no “não-lugar” e no “não-tempo” de Deus.
   Quando conheceu Jesus Cristo através de São Francisco, Clara teve
consciência nítida de que não tinha mesmo lugar no mundo de seus
parentes e de sua cidade. Digo consciência nítida, porque ela já conhecia
Jesus Cristo numa intimidade muito grande e, desde criança, já estava
dando demonstrações de que era uma pessoa “diferente”. Na medida em
que foi passando para Jesus Cristo, foi ficando em um “não-lugar”. Sim,
porque não se tratava simplesmente de mudar de lugar: todos os lugares
conhecidos eram “lugares dos homens”, não eram o “lugar de Deus”. Havia
até presença de Deus no mundo dos homens, mas o “lugar de Deus” parecia
mesmo ser outra coisa.
   A saída da casa paterna teve para Clara um alto valor simbólico: foi o
momento em que deixou o lugar que não era dela e começou a viver de fato
no “não-lugar” de Deus. São Paulo das Abadessas, Santo Ângelo de Panço,
São Damião... nenhum desses lugares era importante em si mesmo. Eles
eram apenas tentativas de mostrar para Deus, para si mesma e para todas as
pessoas que ela estava saindo do lugar de todo mundo. Nem o mosteiro e
nem mesmo o grupo de Irmãs foram para ela um “lugar” em que podia
estar no mundo. Foram o “não-lugar” de Deus. O que não a impediu, pelo
contrário, levou-a a ser uma amiga da sua cidade.
   O “não-lugar” dela não foi exatamente São Damião, mas o mundo da
contemplação de Jesus Cristo. São Damião, como as outras casas das Irmãs
Pobres era um abrigo simbólico, como já tinha sido o deserto para os
eremitas, como já tinha sido o mosteiro para os monges. A única coisa
importante era que, ao atravessar a porta daquela casa, uma mulher vivia o
sacramento de estar saindo de todos os lugares para entrar no “não-lugar”
de Deus. É provável que Francisco, que também se sentira “sem-lugar”
quando se desvaneceram seus sonhos de riqueza e glória e quando conviveu
com os leprosos, também tenha tido a primeira experiência concreta de

                                      72
“entrar” no não-lugar de Deus ao passar a porta de São Damião e dar de
cara com aquele Crucificado.
                       7.2. Uma situação liminar
    Já ouvimos, muitas vezes, falar de “ritos de passagem”. São as
celebrações que se fazem, por exemplo: para comemorar os quinze anos de
uma garota, a coroação de um rei... Chá de cozinha e despedida de solteiro
são ritos de passagem. Qualquer festa de aniversário é um rito de passagem.
São comemorações em que festejamos uma mudança de situação na vida de
uma pessoa.
    Ora, por trás de todo rito de passagem, há uma situação liminar. Vale a
pena refletir sobre isso. E vai nos ajudar e pensar no que seja um “não-
lugar”, ou um “não-tempo”.
    “Liminar” é um adjetivo da palavra limiar. Limiar é aquela linha que
separa o fora do dentro nas portas. E nós vivemos passando por portas.
    Considere uma casa, com a sua porta: nós podemos estar dentro da casa,
fora da casa, ou passando pela porta. Podemos ficar lá dentro, podemos
ficar lá fora. Mas porta não é lugar de ficar, é lugar de passar.
    Vamos pensar em um exemplo: o casamento. A pessoa pode estar fora e
ser solteira; pode estar dentro e ser casada. Também pode estar na linha da
porta: é noiva. Ser solteira ou casada são situações permanentes; ser noiva é
uma situação transitória, liminar.
    Outro exemplo: uma jovem quis ser religiosa e foi acolhida no “novi-
ciado”. A família pode até dizer: “Minha filha ficou freira”, mas as reli-
giosas vão dizer: “Não, ela só vai ser freira quando professar no fim do
noviciado”. De fato, ela não é mais uma pessoa “leiga” e ainda não é uma
pessoa consagrada, “religiosa”. De certa forma, é uma pessoa “pendurada
no ar”. Está em uma situação liminar.
    Clara, como Francisco, teve uma compreensão bem aguda dessa situa-
ção. Foi por isso que os dois citaram a expressão de São Pedro: “peregrinos
e forasteiros”. Eles não tinham nesta terra sua habitação permanente: eram
cidadãos do céu, mesmo que ainda não houvessem chegado lá.
    Nos ritos mais significativos de passagem costuma-se usar roupas espe-
ciais: roupa de noiva, roupa de rei, roupa de bispo. Servem para simbolizar
o seguinte: na situação liminar, a pessoa despe a roupa da vida anterior, do
lado de fora, para vestir a roupa da vida nova, do lado de dentro. Há um


                                      73
momento em que é extremamente frágil, porque está sem nenhuma roupa.
É uma situação de extrema pobreza, representada pela nudez.
   Quem está no não-lugar, deixou de estar no lugar dos homens e ainda
não se situou totalmente no lugar de Deus. É um “peregrino e forasteiro”,
caminha por este mundo “sem bolsa nem calçado”... suspira por chegar à
sua casa definitiva, mas tem que se soltar totalmente nas mãos de Deus.

                        7.3. Companhia no “Não-Lugar”

    Clara teve companheiras porque “Deus lhe deu Irmãs” como tinha feito
com Francisco. Aliás, uma das primeiras revelações do não-lugar simbo-
lizado em São Damião fora justamente essa: Deus queria encher aquele
“não-lugar” de mulheres que renovariam a Igreja e o mundo. Outras um-
lheres também quiseram estar com Jesus Cristo mesmo perdendo o seu
lugar neste mundo.
    É verdade que, com o tempo, também entraram pessoas que simples-
mente queriam estar ao abrigo de um mundo que lhes parecia difícil ou
hostil, sem nunca vir a ter consciência de que o importante era sair para o
“não-lugar”.
    Clara lutou com todas as forças para manter-se no não-lugar de Deus.
Por isso, com ajuda de Francisco, criou um eremitério ou espaço de reco-
lhimento em São Damião. Quando lhe deu uma “forma de vida” – que,
aliás, foi crescendo com a experiência – quis deixar concreto como é que se
vivia no “não-lugar”. Creio que é nessa perspectiva que devemos entender
tudo que ela escreveu. Era a perspectiva da “Forma de Vida” dada por
Francisco em 1212, tão igual a sua “Antífona de Nossa Senhora”: o lugar
deles era a Trindade, o tempo deles era a Trindade 13.
    Creio que o cardeal Hugolino pode ser considerado um amigo apesar de
também ter sido um dos que não conseguiram entender o “não-lugar” de
Deus, mesmo compreendendo muitas das propostas de Francisco e Clara.
Talvez tenha até querido ajudar sinceramente quando protegeu o seu “não-
lugar” com uma clausura no estilo que ele entendia. Era o que cabia em sua
cabeça de homem do mundo (o mundo eclesiástico, inserido no mundo
social e político dos homens, era decididamente um lugar dos homens).


  13
     Nos escritos de Clara podemos perceber como ela foi vivendo cada vez mais no não-lugar e no não
tempo de Deus. Para dar um exemplo, estou colocando algumas citações de Clara no fim deste capítulo.
Faço isso para que a reflexão sobre o nosso tema possa ser ágil.

                                                  74
7.4. Orar no “Não-lugar”

    Viver a contemplação de Jesus é viver sem cessar no não-lugar. Mas as
pessoas que olham com olhos materiais entendem a contemplação como
mais um tipo de oração (ou de reza): como espaços de tempo ou de lugar
destinados à oração. Tentam determinar e cercar esses espaços porque não
vêem outro jeito de distinguir o “não-lugar” do “lugar”.
    Mas a pessoa que sai para o “não-lugar” está apenas saindo para Deus.
Deixa o “século” como um lugar do mundo construído pelos homens que
não tem lugar para Deus. Mas não vai para outro planeta. Por isso, mesmo
vivendo no mundo de Deus (o “não-lugar”), continua a estar no mundo dos
homens que perderam a liberdade (por não estar caminhando decidida-
mente para Deus), ainda que nunca o considere esse o “seu lugar”.
    Enxergar com os “olhos do espírito” é ver as coisas a partir do “não-
lugar” deste mundo ou, em outras palavras, a partir do lugar de Deus. Foi
nessa perspectiva de um “não-lugar” para as outras pessoas, mas de um
verdadeiro “lugar” de Deus, que Francisco enxergou diferentemente os
sarracenos, os pobres, os ladrões, o lobo de Gúbio.
    Vamos ver alguns exemplos de como, mesmo sem tomar Deus em con-
sideração, muitas vezes nós nos sentimos fora do lugar. Quando chegamos
a um país estrangeiro, olhamos tudo com um olhar diferente, enxergamos
de uma forma que não é a das pessoas que já nasceram e sempre viveram
lá: tudo nos parece estranho, mas os outros nem desconfiam que no meio
deles está alguém que vê tudo diferente. Não sou dali, aquele não é o meu
lugar. Estou em um “não-lugar”. Outro exemplo acontece quando nos
vemos em um ambiente de trabalho ou de vida que nos faz sentir como “um
peixe fora da água”. Naturalmente, esses exemplos são pálidas alusões:
estar no não lugar de Deus é incomparável.
    Francisco e Clara usam a expressão “peregrinos e forasteiros” (cf 1Pd 2,11)
justamente para falar no “não-lugar”. Por isso não se deve estranhar que
Clara, que nunca saiu de São Damião, também se considere uma “peregrina
e forasteira”: ela é do lugar de Deus e por isso está sempre no “não-lugar”
enquanto vive no mundo dos homens.
    O aspecto fundamental da itinerância – um ponto chave da espiritua-
lidade franciscana – não é exatamente ficar mudando de lugar, mas viver
em qualquer lugar sabendo que lugar nenhum é o meu, porque o meu lugar
é o lugar de Deus.


                                       75
Talvez se possa pensar alguma coisa semelhante quanto aos tempos de
oração. Não é questão de eu ter um tempo cortado do tempo dos homens
para me entregar a Deus, ainda que isso possa constituir um bom “exer-
cício”. O contemplativo é uma pessoa que vive sempre “no tempo de
Deus”, de alguma forma vive o “aion” (o eterno, o tempo não medido) no
meio do “crónos” (o tempo humano, que pode ser calculado). Talvez seja
justamente por isso que consegue perceber alguns “kairói” especiais: mo-
mentos em que o tempo de Deus e o tempo dos homens coincidem e em
que, por isso mesmo, a gente consegue fazer passagens do mundo de Deus
para o dos homens.
   A Eucaristia é o grande kairós do tempo de Deus no tempo dos homens.
Evidentemente, só para quem vive o tempo de Deus e está fora do tempo
dos homens, pelo menos de certa forma.
   Essa “certa forma” quer dizer: Estou dentro do “tempo dos homens”
porque nasci neste mundo e nele vou permanecer enquanto não chegar a
minha morte. Também estou dentro do tempo dos homens porque convivo
com eles e tento trazê-los para o tempo de Deus. Mas, enquanto a maioria
vive o curto tempo que passa, eu já estou vivendo o eterno. Recordemos
São João:
    Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o
    amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a concupiscência
    da carne, a concupiscência dos olhos e o estilo de vida orgulhoso - não vem
    do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também as suas
    concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre
    (1Jo 2,15-17). E este é o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida
    está no seu Filho. Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o
    Filho também não tem a vida (1Jo 5,11-12).

                     7.5. O Reino do “Não-Lugar”

    Quando veio anunciar o seu Reino, Jesus quis estabelecer dentro do
lugar e do tempo dos homens uma situação nova em que todos pudéssemos
ir aprendendo a viver o lugar e o tempo de Deus. Ao pé da letra, uma
“igreja” (do grego ekklesía = conjunto dos convocados para uma assem-
bléia) seria um grupo de pessoas que aceitaram o convite de Jesus e pás-
saram a constituir um lugar de Deus no meio dos homens. Os homens de
fora podem não entender isso, mas as pessoas que estão dentro só podem
ser consideradas “chamadas” (de kaléo) se tiverem a consciência de viver
em um “não-lugar” no meio do mundo. Construir o “Reino de Deus é isso”.

                                       76
E Jesus advertiu que o Reino de Deus está entre nós ou dentro de nós, sem
se apresentar com fanfarras.
    Nessa perspectiva, como poderemos falar em “não-lugar” de Deus, em
“não-tempo” de Deus? Parece que os que nunca conseguiram entender nada
disso só podem falar em aspectos pequenos, como “clausura”, “tempos
fortes de oração” ou “horas de contemplação”. E não vão ser as nossas
explicações que vão poder deixar essas coisas claras, porque isso não
depende de compreensão, depende da graça.
   Francisco e Clara se tornaram outros Cristos justamente por isso:
entraram no “não-lugar” e no “não tempo” de Jesus Cristo. Para quem está
no não-lugar e no não-tempo de Jesus Cristo, que valor têm as conquistas,
as riquezas, as vantagens do mundo dos homens? São como areia, são
menos do que pó. Eles gostavam de lembrar isso.
   Os contemplativos não são pessoas que fogem do mundo. Verdadeiros
“contemplativos”, quer vivam em mosteiros quer estejam no meio do
mundo, são pessoas do “não-lugar” e do “não-tempo” que nos fazem viver
desde já a eternidade e a liberdade de Deus.

            7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus

   Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara a exorta a não perder
de vista o seu ponto de partida: ela tinha deixado tudo para seguir Jesus
Cristo e, por isso mesmo, devia abraçar o Cristo pobre como uma virgem
pobre. O texto é muito bonito e diz:
     “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu
     ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o
     deixe (cf. Ct 3,4), mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de
     modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com
     cuidado pelo caminho da bem-aventurança... Se alguém lhe disser outra
     coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer
     contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o
     seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 11-13,17-
     18).

                       7.7. Algumas considerações

    A proposta que estamos fazendo neste capítulo pode ser bastante
surpreendente e nova para muitas pessoas. Como é ampla, e o nosso espaço
é restrito, coloco mais alguns pontos soltos para serem considerados.

                                        77
1. “Os que fazem penitência”, a que São Francisco se refere na Carta
aos Fiéis, são os que passam para o lugar e o tempo de Deus. Da mesma
forma, “os que não fazem penitência” são os que constroem castelos na
areia do mundo dos homens.
    2. O “não-lugar” de Deus é o mundo da interioridade. Somos levados a
nos afirmar natural ou culturalmente no mundo exterior, que é o “mundo
dos homens”. Mas quando conseguimos entrar no mundo interior,
perdemos o pé (ou o interesse) no mundo exterior. Quem perde o interesse
pelo “mundo exterior” deixa de possuir, deixa de mandar, deixa de ser
importante: sente-se feliz de ser pequeno e pobre. Continua nesse mundo,
mas para prestar serviço.
    3. Quem fica pobre (e se sente pequeno) abre espaços na interioridade.
São os espaços de Deus. Então Deus entra com toda a sua liberdade e nos
libera para o não-lugar. Daí nasce a oração interior, o olhar contemplativo,
com os olhos do espírito, para o mundo exterior, do “lugar”. Como esse
olhar parte da Liberdade, que é Deus, é o verdadeiro olhar de entrega. Daí
nasce o verdadeiro Amor.
    4. É um pequeno exemplo, mas talvez ajude a pensar: No meio do
asfalto ou do concreto, que são construções do “mundo dos homens”, às
vezes abre-se uma rachadura por onde brotam sementes que o vento levou
– o mundo de Deus está continuamente misturando o não-lugar com o
lugar, o não-tempo com o nosso tempo. Contemplar é saber perceber isso.
    5. Quando experimenta a pobreza, a pequenez e a solidão interior do ser,
o homem abre os olhos do espírito: volta-se para fora, retorna ao lugar e ao
tempo “dos homens” para transformá-los em lugar e tempo de Deus. O
mundo é transformado pela liberdade do amor.

   Para finalizar, coloco algumas citações dos escritos de Clara em que se
pode sentir sua consciência de estar no “não-lugar” e no “não-tempo” que
nos colocam em Deus sem nos tirar do mundo dos homens.

... para recordar que ela também saiu do século:

       TestC 8 – não só depois de nossa conversão mas também quando estávamos
       na miserável vaidade do século.
... para reforçar que Francisco saiu do século:




                                                   78
TestC 10 – estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado
       plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o
       século,
... nenhum lugar era o seu lugar:

       TestC 52 – Se em algum tempo acontecer que as Irmãs tenham que deixar
       este lugar para se estabelecer em outro, sejam obrigadas, em qualquer lugar
       em que estiverem depois da minha morte, a observar a referida forma de
       pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco.
... no itinerário, e o que importa é a situação definitiva

       TestC 73 – Mas felizes são aqueles a quem foi dado andar por ele e
       perseverar até o fim (cfr. Sl 118,1; Mt 10,22).
       TestC 74 – Tomemos cuidado, portanto, para que, se entramos pelo caminho
       do Senhor, de maneira alguma nos afastemos dele em algum tempo por nossa
       culpa e ignorância,
Inês passou para o tempo e o lugar de Deus

       1CtIn 5-7 – Porque, embora pudésseis gozar, mais do que outros, das pompas
       e honras deste mundo, desposando legitimamente, com a maior glória, o
       ilustre imperador, como teria sido conveniente à vossa excelência e à dele,
       rejeitastes tudo isso e preferistes a santíssima pobreza e as privações
       corporais, com toda a alma e com todo o afeto do coração, tomando um
       esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa
       virgindade sempre imaculada e intacta.
Já começou a viver no aion

       1CtIn 10 – Já estais tomada pelos abraços daquele que ornou vosso peito com
       pedras preciosas e colocou em vossas orelhas pérolas inestimáveis.
       1CtIn 22 pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras,
       preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar
       tesouros no céu que na terra,
Só quando se chega a ser vazio se chega a ter lugar para Deus

       1CtIn 25-16 – Creio firmemente que sabeis que o reino dos céus não é
       prometido e dado pelo Senhor senão aos pobres (cf. Mt 5,3), porque, quando se
       ama uma coisa temporal, perde-se o fruto da caridade. Sabeis que não se
       pode servir a Deus e às riquezas, porque ou se ama a um e se odeia às
       outras, ou serve-se a Deus e desprezam-se as riquezas (cfr. Mt 6,24).
       1CtIn 28 – Sabeis que não dá para ser glorioso no mundo e lá reinar com
       Cristo, e que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico
       subir ao reino do céu (cf. Mat 19,24).

                                                        79
1CtIn 30 – Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais pelas
       eternas, merecer os bens celestes em vez dos terrestres, receber cem por um e
       possuir a vida (cf. Mt 19,29) feliz para sempre!
       2CtIn 19 – Veja como por você ele se fez desprezível e o siga, sendo
       desprezível por ele neste mundo.
       2CtIn 23 – Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte
       na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em
       vez dos perecedores, e viverá pelos séculos dos séculos.
       3CtIn 4 – Ouvi dizer e estou convencida de que você completa
       maravilhosamente o que falta em mim e nas outras Irmãs para seguir os
       passos de Jesus Cristo pobre e humilde.
       3CtIn 15 Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus
       cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor,
O não-lugar de Deus cabe em qualquer lugar

       3CtIn 18-19 – Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os
       céus não podiam conter (cf. 3Re 8,27), mas que ela recolheu no pequeno
       claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.
O aion e a glória cabem em nós

       3CtIn 20-22 – Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que,
       pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do
       que o céu? Pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a
       alma do homem fiel, é maior do que o céu. Pois os céus, com as outras
       criaturas, não podem conter (cf. 2Par 2,6; 3Rs 8,27) o Criador: só a alma fiel é sua
       mansão e sede.
       3CtIn 23 – como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu
       o amarei (Jo 14,21), e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23).
Está sempre pensando no céu. Claro que os olhos dela são os olhos do espírito. Deus está nos santos e
nos anjos...

       4CtIn 8-11 – Pois, como Inês, a outra virgem santa, você desposou de modo
       maravilhoso o Cordeiro imaculado (1Pd 1,19) que tira o pecado do mundo (Jo
       1,29), deixando todas as vaidades desta terra. Feliz, decerto, é você, que pode
       participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração
       àquele cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos
       sacia,...
Ela está correndo para o tempo, lugar e o abraço do encontro com o Infinito:




                                                    80
4 CtIn 31-32 – Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega
       (Ct 2,4), 32 até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me
       abrace (Ct 2,6) toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1).
       4CtIn 30 – Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct
       1,3), ó esposo celeste!

       2CtIn 10-13 – Mas, como uma só coisa é necessária (Lc 10,42), é só isso que
       eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como
       oferenda santa (cfr. Rm 12,1) e agradável. Lembre-se da sua decisão como
       uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que
       você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cfr. Ct 3,4) mas, em rápida
       corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem
       recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da
       bem-aventurança.
O que importa é o não-tempo

       CtEr 5 – Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os
       rumores do mundo que passa como sombra.
Deixar as roupas seculares era sair do século

       RSC 2,12 – Depois, cortados os cabelos em círculo e depostas as roupas
       seculares, dêem-lhe três túnicas e um manto.
Peregrinas e forasteiras, estão no não-tempo

       RSC 8,1-2 – As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem
       coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras (cf. Sl 38,13; 1Pd 2,11) neste
       mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade...
       RSC 8,5-6 – Seja esta a vossa porção, que vos conduz à terra dos vivos (cf. Sl
       141,6).Aderindo totalmente a ela, queridas Irmãs, nada mais queirais possuir
       em perpétuo abaixo do céu, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua
       santíssima Mãe.




                                                81
8. As Irmãs-Esposas

   Quando escreveu a primeira Legenda de São Francisco, Tomás de
Celano destacou entre as qualidades das “Senhoras Pobres” de São Damião
o fato de viverem todas como esposas de Jesus:
       “...Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a
       ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar
       nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor
       pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lem-
       brança da vida passada...” (1Cel 19).
                                                                                        14
   O Papa Inocêncio também as via como Esposas de Jesus                                    , porque
escreveu no seu Privilégio da Pobreza o seguinte:
       “Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao
       Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e
       distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma
       propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez
       pobre, caminho, verdade e vida; e desse propósito não as faz fugir nem a
       privação das coisas; pois a esquerda do esposo celeste está sob a vossa
       cabeça para sustentar a fraqueza de vosso corpo, que submetestes à lei do
       espírito em caridade perfeita. Afinal, aquele que dá de comer às aves do céu
       e veste os lírios do campo não vos há de faltar tanto para a alimentação como
       para a roupa, até que, passando, não vos venha servir na eternidade, quando
       sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude de sua visão” (PrivIn 2-3).
   Gregório IX, ao conceder o seu Privilégio da Pobreza insistiu na mesma
alusão ao Cântico dos Cânticos:
       “Naturalmente, aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios do
       campo não vos faltará para o alimento e a roupa, até que Ele mesmo,



  14
     Chamo a atenção para um fato importante, que não poderei tratar melhor aqui por falta de espaço
para comparar os textos: De maneira geral, os papas e alguns outros escritores parecem entender que as
Irmãs eram “noivas” de Jesus, que só passariam a ser “esposas” na vida eterna. Ao contrário, Clara
parece falar sempre de esposas já neste mundo. Observo que a palavra latina “sponsa”, que deu a nossa
palavra “esposa” = a mulher casada, em latim significava apenas a “comprometida”, ou a noiva. A
mulher casada era chamada “uxor” pelos romanos. Era a “ungidora”, que no cerimônia do casamento
ungia a soleira da porta da casa onde seria sacerdotisa. Dessa palavra só sobrou em português a palavra
“uxoricídio”, o crime de quem mata a esposa. Em grego, noiva é claramente “nynfe”, enquanto esposa
podia ser “gyné” (mulher) a companheira do “anér” (varão), ou “ákoitis”, a companheira do “akóites”.
Essas duas últimas palavras lembram os que dormiam juntos na “kóite”, a cama.

                                                   82
passando, vos sirva na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais
     felizmente na plenitude da visão” (PrivH 1).
  Depois da morte de Santa Clara, também o ministro geral São
Boaventura, escrevendo às Clarissas, viu-as como Esposas de Jesus:
     “Vigiai de tal maneira, com afetos incessantes, fervorosas no espírito da
     devoção, que, quando se ouvir o clamor e chegar o Esposo, possais ir
     fielmente ao seu encontro com as lâmpadas cheias do óleo do amor e da
     alegria, prontas para entrar com ele nas bodas da felicidade eterna, com
     exclusão das virgens loucas. Lá Cristo vai acomodar suas esposas com os
     anjos e os eleitos, e passará para servir-lhes o pão da vida, a carne do
     Cordeiro imolado, o peixe assado na cruz, cozido no fogo do amor em que
     vos amou fervorosamente” (BoCc 5).
   Aliás, é notável o Doutor da Igreja dizer que Jesus vai servir às suas
esposas “o peixe assado na cruz”, numa evidente alusão à lenda do Rei
Pescador, que faz parte do ciclo do Santo Graal. Mas foi São Francisco
quem explicou, de maneira bem original e no que para ele era o cerne da
vida franciscana, o que é sermos esposos:
     “Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso
     Senhor Jesus Cristo” (1CtFi 8).
   E é a essa luz que devemos entender a Forma de Vida que ele deu a
Clara e suas Irmãs logo que elas entraram na Ordem:
     “Desde que por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo
     Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida
     de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim
     mesmo e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma
     solicitude especial, como por eles” (RSC 6,4-6).
   O fato de as damianitas viverem como esposas de Cristo é mais
significativo do que pode parecer a uma primeira vista. O amor de Clara
pelo Cristo Esposo levou-a a criar um “grupo de virgens” (collegium
virginum, dizem as Fontes) original em comparação com outros mosteiros.
Elas eram irmãs de uma maneira nova. Por isso, e por serem franciscanas e
pobres, elas sempre relutaram em aceitar as Regras religiosas de Hugolino
e de Inocêncio IV, ainda que – depois da morte de Clara – a maior parte dos
mosteiros tivesse por fim aceitado a de Alexandre IV até o século XX.
Depois de muitos esforços e de algumas pequenas vitórias, chegaram a
abraçar, em nosso tempo, a Regra de Santa Clara.


                                       83
Vamos desenvolver três pontos sobre as Irmãs-Esposas: a). Como é a
sua vida entre irmãs; b). Qual a sua contribuição para a Igreja; c) sentido
especial de sua clausura.

                  8.1. A vida das clarissas como Irmãs

    Creio que podemos aplicar a todas as Senhoras Pobres – as “Da-
mianitas”, ou as mulheres franciscanas do tempo da Santa – tudo que ela
escreveu para Inês de Praga. Parece claro que ela tenha procurado formar
essa irmã longínqua no mesmo espírito que transmitia habitualmente às que
moravam com ela. Então vamos ver nas Cartas a Inês alguns pontos que
podemos identificar na formação das Irmãs-Esposas de São Damião e de
outros mosteiros:
     1). As clarissas são irmãs porque são Esposas;
     2). Elas refletem umas para as outras o Cristo Espelho;
     3). A Forma de Vida de Santa Clara é para esposas que são irmãs.

                      8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas
     “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração,
     porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, destacada pelo
     esplendor do estandarte da inviolável virgindade e da santíssima pobreza,
     ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com
     amor ardente” (1CtIn 12-13)... e merecestes ser chamada, com quase toda a
     dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai altíssimo e da gloriosa
     Virgem” (1CtIn 24).
   Esses três relacionamentos são os mesmos apontados por São Francisco
na Carta a todos os Fiéis quando fala da relação do fiel cristão com a
Santíssima Trindade:
     “E são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos,
     quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a Jesus Cristo. Somos
     certamente irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está no céu;
     mães, quando o levamos no coração e em nosso corpo pelo amor e a
     consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve
     iluminar os outros com o exemplo” (1CtFi 7-10).
   Mesmo que Santa Clara tenha aprendido isso com Francisco, soube
fazer suas essas palavras e as aplicou de diversas formas no trato com as
Irmãs, na sua sensibilidade materna para com elas, dando um sentido maior
                                         84
ao oficio de abadessa, a partir dessa identidade esponsal que se sente no
testemunho de seus Escritos.
    Quando diz que Inês é mãe e irmã do Senhor Jesus, é evidente que está
recordando a passagem do evangelho em que Jesus disse que eram “meu
irmão, minha irmã e minha mãe... os que põem em prática a palavra de
Deus” (Mt 12,50). Mas quando consideramos as três atribuições juntas não
podemos deixar de pensar na “Forma de Vida” que Francisco tinha dado a
Clara e a suas irmãs, onde recalca o relacionamento delas com cada Pessoa
da Trindade.
    Vejamos os principais textos nas Cartas de Santa Clara:
     “Vossa recompensa será enorme nos céus, e merecestes ser chamada, com
     quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da
     gloriosa Virgem” (1CtIn 23-24).
     “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à
     reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os
     mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei
     dos céus” (3CtIn 1-2).
     “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à
     ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima
     mãe e filha, especial entre todas as outras, eu, Clara, serva indigna de Cristo e
     inútil servidora das suas servas que vivem no mosteiro de São Damião em
     Assis, desejo saúde e que possa cantar o cântico novo diante do trono de
     Deus e do Cordeiro, juntamente com as outras santas virgens, e seguir o
     Cordeiro onde quer que ele vá” (4CtIn 1-3).
   A Legenda de Santa Clara e o Processo de Canonização apresentam
inúmeros exemplos de como Clara cuidava de suas Irmãs. E a Bula de
Canonização diz que ela fazia isso justamente por ser esposa do Senhor:
     “Alegre-se, então, a Mãe Igreja, que gerou e educou essa filha que, como
     progenitora fecunda de virtudes, produziu com seus exemplos muitas
     discípulas da religião, formando-as para o serviço perfeito de Cristo com
     perfeição. Alegre-se também a alegre multidão dos fiéis, porque o Rei e
     Senhor dos céus levou com glória para o seu alto e preclaro palácio a sua
     irmã e companheira, que Ele havia escolhido como esposa. Porque também
     as fileiras dos santos estão festejando juntas, pois, em suas habitações
     celestes, celebram-se as núpcias da noiva real” (cf. Fontes Clarianas pág. 276).
   Clara é mãe como filha da Igreja; sua maternidade é imagem da Mãe
Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É irmã para todos os
crentes, companheira na vocação comum, companheira de viagem e apoio.
                                          85
Assim se indica a idéia da comunidade, da “solidariedade” e da suplência.
É esposa do Senhor e, por isso, motivo de alegria, sinal irradiante de
esperança para a humanidade.
   Pela “Forma de Vida” de São Francisco, todas as Irmãs decidiram ser
esposas do Espírito Santo. E todas são filhas do Pai Eterno. Portanto, irmãs.
Se não fosse pelas Irmãs, “que Deus lhe deu”, Clara poderia ter sido uma
eremita, mesmo em São Damião. Se não fosse pelas Irmãs, não seria
necessária uma Forma de Vida original em tantos pontos.
8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho
   A vida em São Damião supunha um testemunho mútuo das Irmãs que
viviam ali dentro, um testemunho que inflamasse umas às outras e a todos
que pudessem conhecê-las:
     “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho
     para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a
     nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que
     vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou as coisas tão elevadas
     que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os
     outros” (TestC 19-21).
   Elas deviam ser um “espetáculo da santidade”. De fato, ser espelho é
uma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como pó-
demos encontrar em São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e nas
místicas da “Brautmystik”. Nas Cartas e no Testamento de Santa Clara, as
ocorrências são muitas. E, sempre, o espelho é Jesus:
     “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da
     glória” (3CtIn 12).
     “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem
     mancha. “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus
     Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15).
     “Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa
     humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder
     contemplar... Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele
     que, envolto em panos, foi colocado no presépio”. (4CtIn 18-19).
     “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem-
     aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela
     redenção do gênero humano” (4CtIn 22).



                                         86
“E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis
     padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa; assim,
     posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que
     deviam considerar” (4CtIn 23-24).
    Podemos perguntar-nos: por que usavam tantas vezes a simbologia do
espelho? Parece que era sempre para indicar algo profundo, que expressava
alguma coisa além da realidade palpável. Era um sinal eficaz como um
sacramento: tornava alguém presente melhor do que em uma fotografia:
Cristo, Francisco, as Irmãs: todos eram sacramentos vivos em que Clara se
espelhava ou para quem era espelho. E, como o espelho reflete, mostra não
só a figura de outra pessoa, mas também a minha, abre-nos para uma
infinita multiplicação da presença de Deus. E podemos encontrar em todos
os espelhos o rosto do Esposo, de Cristo. E nele nos reconhece. Dando-nos
conta de tudo que é semelhante, e de tudo que está precisando ser
transformado.

             8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs

     Hugolino e Inocêncio IV deram a Clara e suas Irmãs uma “Forma de
Vida” que era uma regra jurídica para “monjas”. As damianitas – e,
certamente, a sua fundadora – nunca as aceitaram de boa vontade. A
“Forma de Vida” de Santa Clara é muito diferente dessas regras e da
posterior que foi imposta por Alexandre IV: ela faz uma proposta de vida a
irmãs muito amadas que se descobriam e se encontravam no amor do único
Esposo. Por sua experiência esponsal, Clara enxergava e criava na sua
fraternidade de São Damião as “doçuras” e “delícias” que – segundo o seu
testemunho – eram gozados pelas que amavam a Deus de verdade (Cf. 3CtIn
14).
     Podemos perceber isso quando confrontamos alguns dos numerosos
pontos em que, com muita sabedoria, Clara se afasta do que lhe tinham
dado Hugolino e Inocêncio:
     – dá mais responsabilidade às Irmãs – trata-as como adultas:
     “Pelo menos uma vez por semana, a abadessa tenha que convocar suas Irmãs
     para um capítulo... E tratem aí, de acordo com todas as Irmãs, o que for
     necessário para a utilidade e o bem do mosteiro, porque muitas vezes o
     Senhor revela à menor o que é melhor” (RSC 4,15-18). “Se alguém, por
     inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa
     deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs” (RSC 2,1). “Se algo for
     enviado a alguém por parentes ou por outros, faça a abadessa que isso lhe
                                       87
seja dado. Se tiver necessidade, ela mesma poderá usá-lo; se não, que o dê
     com caridade a uma Irmã que precise. Mas se lhe for mandado algum
     dinheiro, a abadessa, com o conselho das discretas, faça provê-la do que tiver
     necessidade” (RSC 8,9-11).
   – Abre mais a clausura, admitindo possibilidades de saídas se houver:
     “...um motivo útil, razoável, manifesto e aprovado” (RSC 2,13).
   – Não impõe um hábito estrito, como faziam as Regras de Hugolino e
Inocêncio IV. Limita-se a dizer:
     “E, por amor do santíssimo e queridíssimo Menino deitado no presépio
     envolto em panos pobrezinhos (cf. Lc 2,7.12), e de sua santíssima Mãe,
     admoesto, peço e exorto minhas Irmãs a se vestirem sempre de roupas vis”
     (RSC 2,25).

   – Deixa mais livre o silêncio, que devia ser total e perpétuo nas outras
Regras, e chega a considerar casos em que as Irmãs possam falar com
pessoas de fora:
     “As Irmãs, com exceção das que servem fora do mosteiro, observem o
     silêncio desde a hora de Completas até a Terça. Calem-se também
     continuamente na igreja e no dormitório; no refeitório, só enquanto comem;
     com exceção da enfermaria, em que as Irmãs sempre podem falar
     discretamente para distrair as doentes e cuidar delas. Mas podem insinuar o
     que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa... E
     isso só se faça muito raramente na grade, e de maneira nenhuma na porta. Por
     dentro dessa grade ponha-se um pano, que não será removido a não ser
     quando se prega a palavra de Deus ou quando alguma Irmã falar a alguém”
     (RSC 5, 1-4, 9-10).

   Os testemunhos das Irmãs no Processo de Canonização comprovam
essas liberdades. Da mesma forma, ela também não se importa com muitos
detalhes disciplinares das Regras que tinham sido dadas pelos papas, como
tudo que se referia aos clérigos que podiam entrar na clausura.
   Essa atitude de mãe e irmã foi tão inefável quanto a sua vivência
esponsal: não há palavras para expressar o afeto profundo, puro e
verdadeiro, no que se refere ao Esposo Cristo ou no que se refere às pessoas
que se amam nele, como Clara descreve a Inês em um texto de
“inefabilidade” (cale-se a língua da carne) depois de ter descrito em traços
apaixonados e totalmente pessoais o que supõe o amor esponsal por Cristo:
     “Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do
     espírito. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o

                                          88
afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu
     escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder
     de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 35-37).

                8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas
                     para a Ordem e para a Igreja

   Clara contribuiu pessoalmente – e ainda contribui através de suas Irmãs
– para a vida do mundo, da Igreja e de todo o movimento franciscano
porque sua contemplação esponsal leva-as a se espelhar em Cristo Espelho
de Deus até serem transformadas nele.
   A partir daí se aproximam do homem concreto e da Igreja viva dando-
lhes oportunidade de reconhecer a ternura e a bondade de Deus, um Deus
Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e escuridões que
pode haver nos membros desse grande corpo que representa a humanidade
e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com ela, Clara foi
espelho e exemplo, ícone vivo do que Deus quer de todos seus filhos.
   O Cardeal Hugolino, que foi decididamente um homem de Igreja e
chegou a ser papa, sentiu a força desse reflexo de Deus mesmo em uma
Clara que ainda não tinha passado dos trinta anos de idade e, já quase
octogenário escreveu-lhe:
     “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de
     Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e
     pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para
     que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda
     por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha
     salvação. Estou certo de que conseguirá do sumo Juiz tudo que pedir com
     insistência de tanta devoção e abundância de lágrimas”.
   Mesmo depois de já ter assumido o papado e o nome de Gregório IX,
sentindo a gravidade de seus problemas, voltou a encontrar em Clara e nas
Irmãs consolo e apoio, vistos na missão intercessora da contemplação
esponsal clariana:
     “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião
     de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias
     que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que
     Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos
     com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo,
     como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como
     confiamos, vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas
                                        89
orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu,
    suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio
    de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força
    por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos
    confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para
    os que foram confiados ao nosso governo”.
    Pouco tempo depois, aos 18 de agosto de 1228, fez com que o Cardeal
Reinaldo de Segni, seu sobrinho, enviasse uma carta circular para comu-
nicar a nomeação de um novo visitador e assistente das damianitas, Frei
Filipe Longo. Chamamos a atenção para este texto:
    “Ele (Deus) fez seu vigário na terra aquele que era vosso pai e senhor, cujo
    amor por vós não sofre o desgaste da diminuição, pois consegue crescer
    todos os dias. De fato foi oportuno e conveniente que o Vigário de Cristo
    Esposo, pastor e bispo do rebanho universal do Senhor, também se ligasse
    por amor perpétuo às adolescentes em cujo amor castíssimo apóia-se o
    Esposo”.
   Por muitos, São Francisco é considerado um grande reformador e reju-
venescedor do mundo e da Igreja. Mas podemos dizer que todo o seu
exemplar Movimento Franciscano começou justamente com essas senhoras
de São Damião, como escreveu Clara em seu Testamento:
    “Pois, quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou
    companheiros, estava construindo a igreja de São Damião, em que foi
    visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente
    o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a
    nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde. Pois, nessa
    ocasião, subindo ao muro da igreja, ele disse em voz alta e em francês para
    uns pobres que moravam ali perto: Venham me ajudar na obra do mosteiro de
    São Damião, porque nele ainda haverão de morar umas senhoras cuja vida
    famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial em toda a
    sua santa Igreja” (TestC 9-14).
   Clara ensina Inês e todas as Irmãs a serem esposas. A esposa é espelho
de Jesus. A esposa contempla Jesus. São esposas-irmãs que precisam se
comunicar porque vivem o mesmo Esposo. Cabe às Clarissas de hoje, a
todas as numerosas Irmãs Franciscanas da TOR – e a todo o Movimento
Franciscano – manter atualizado esse serviço à Igreja e ao mundo. De
maneira especial, cabe a elas ajudar os homens do movimento franciscano a
entenderam essa dimensão de um amor pessoal pelo Cristo pessoa.



                                       90
8.3. A clausura das Irmãs de Santa Clara

    As clarissas são as franciscanas de clausura. As clarissas atuais até
fazem voto de clausura. Observo que a palavra clausura é da raiz do verbo
“claudo” = fechar, aparentada com a palavra chave (em latim clauis). Em
latim, é um particípio futuro, significando um lugar que vai ser fechado.
Outra palavra aparentada é claustro, que lembra mais um ambiente fechado.
As Regras de São Bento, de Hugolino e de Inocêncio IV, bem como a de
Santa Clara, não usam a palavra clausura. Nas FONTES CLARIANAS só a
encontramos na procuração dada por Clara e as Irmãs para vender um
terreno, que é chamado de clausura, palavra que indicava que ainda não
tinham feito nenhuma cerca. Clara só usa a palavra claustro para lembrar
que Nossa Senhora recebeu Jesus no “claustro do seu santo seio” (3CtIn 19).
    Em nossos dias, estamos encontrando sérias críticas à clausura das
clarissas, mesmo por parte de franciscanos e franciscanas. Há quem diga
que esse tipo de vida não tem mais sentido e também quem o atribua ao
machismo da Igreja, que sempre teria demonstrado desconfiança em
relação às mulheres religiosas. Muita gente diz que Santa Clara ficou na
clausura por imposição, uma vez que no tempo dela não se entendia outro
tipo de vida religiosa para as mulheres.
    É certo que se podem citar alguns fatos históricos para corroborar
algumas dessas afirmações, mas há muito preconceito. Não é possível fazer
generalizações.
    Não vamos tratar extensamente desse assunto aqui, porque estamos
estudando apenas a espiritualidade de Santa Clara. Vou apresentar
sucintamente a visão de dois autores atuais dos mais abalizados. E concluir
com a minha visão sobre a clausura das clarissas dentro da sua
espiritualidade própria.
   Uma primeira visão muito bem fundamentada é a da estudiosa CLARA
AUGUSTA LAINATI, da ordem das clarissas. Para ela, a clausura é uma
expressão do mistério pascoal, é uma kénosis para uma comunhão: uma
morte para uma vida. É fundamental um artigo que ela publicou na revista
das clarissas Forma Sororum em 1983 15.



  15
     La Clausura: non “mezzo di contemplazione”, ma modo tipico delle Clarisse di esprimere il
mistero pasquale. Una kénosi per una comunione: una morte per una vita, en Forma Sororum 20 (1983)
pp. 201-203.

                                                 91
Ela começa afirmando que a clausura das clarissas não é um meio para
aprofundar a contemplação, pois existem muitos outros meios eficazes para
isso. Para ela, a clausura é um modo típico de Santa Clara para aprofundar
a kénosis (o esvaziamento, cf. Fl 3,5ss) do Senhor Jesus Cristo. Ela vê um
valor na clausura que limita a pessoa no espaço, empobrece suas
possibilidades de ação e movimentação para mergulhar no “vazio” da
criatura com o Cristo crucificado, com o Cristo que fica sozinho na
montanha mas aberto para a contemplação do Pai. Cita São Francisco na
sua Regra para os Eremitérios, onde diz: “No claustro onde moram não
permitam que entre nenhuma pessoa (REr 7).
   Outra visão muito importante é a do estudioso franciscano Jesús SANZ
MONTES, autor de diversas obras fundamentais sobre Santa Clara e as
clarissas 16.
   Para ele, Santa Clara encontrou na clausura de São Damião o “lugar
carismático” para sua opção do seguimento esponsal de Cristo.
   Ele lembra que nem toda vida contemplativa exige a clausura, nem toda
clausura expressa e desenvolve a vida contemplativa, mas pode haver uma
forma de existência cristã em que, por vocação carismática, por divina
inspiração, unam-se as duas realidades. Lembra também que o próprio São
Francisco deu um primeiro passo para a clausura de Clara fundamentado na
sua opção pelo Esposo:
       “...e como se a serva humilde tivesse desposado Cristo diante do leito
      nupcial dessa Virgem, São Francisco mudou-a imediatamente para a igreja de
      São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa”
      (LSC 8).

   Santa Clara escolheria um caminho que implicava ser monástico,
claustral e franciscano, correspondentes à sua vocação para a fraternidade,
a contemplação e a pobreza. A genialidade de Clara está justamente em sua
capacidade de ter unido as duas figuras de Marta e Maria, vivendo sua
vocação claustral aberta ao mundo e ao serviço dos pobres. Sobre a escolha
de vida claustral como modalidade de serviço à Igreja, Clara estava em
sintonia com Francisco e Hugolino.
      No hortus conclusus, na cella vinaria, do São Damião de Clara de Assis,
      desenvolveu-se essa história de seguimento esponsal de Jesus Cristo, como
      um espaço que representava o locus charismaticus de sua vocação eclesial,

   16
      Proponho que se leia especialmente o livro “Illum totaliter diligas – La simbología esponsal como
clave hermenéutica del carisma de Santa Clara de Asís, Roma 2000.

                                                   92
em uma progressiva identificação kenótico-pascoal com Cristo Esposo.
     Definitivamente, Ele é o grande “Tu” por quem Clara iniciou todos os seus
     êxodos, por quem fez todas as suas opções e por quem pacientemente
     aguardou todas as suas esperas, para que fosse brotando uma forma vitae que
     harmonizava todos esses fatores já indicados, e que faziam de seu caminho
     uma novitas capaz de catalizar aquele dilatado movimento feminino que se
     reconheceu no carisma de Francisco de Assis.
   Para concluir, proponho que essas abalizadas opiniões desse dois
autores sejam lidas à luz do que falamos sobre a vida de Clara e suas Irmãs
no não-lugar e no não-tempo. Creio que de fato, a opção das clarissas pela
clausura tem uma luz própria, diferente da “clausura” das “contemplativas”.
Elas estão no seu lugar de esposas de Cristo que se descobrem como irmãs.




                                       93
9. Contemplando o Esposo

    Uma das maiores contribuições de Santa Clara para a espiritualidade
franciscana é certamente a de ser mestra de contemplação.
    Nossa palavra “contemplação” vem do latim cum+templare e recorda
que, no tempo dos romanos, os sacerdotes se colocavam dentro do templo,
numa situação de envolvimento com (cum) o seu ambiente, para descobrir a
vontade dos deuses nos seus auspícios ou augúrios, relacionados com o vôo
dos pássaros (auis, mais tarde lido avis) que conseguiam observar pela
abertura no teto do templo. Isso pressupunha e favorecia um olhar
concentrado e uma busca do sentido divino. Até hoje usamos contemplar
para significar um olhar concentrado, por exemplo, na observação de uma
flor. E dizemos, também, por exemplo, que um regulamento “contempla”
determinada situação, isto é, concentra-se nela, ou a considera. Considerar
vem de observar o conjunto (cum) dos astros (sídera) para descobrir uma
direção.
    O sentido mais estrito de contemplação refere-se a um olhar atento que
descobre Deus na presença de suas ações e de suas obras.
    Ao pé da letra, contemplar não é orar (de os, oris = boca), nem rezar (de
recitare: ler alto ou repetir um texto escrito), mas é um relacionamento ex-
celente com Deus, a quem nós ficamos observando, descobrindo, sabo-
reando. Podemos fazer exercícios de contemplação, mas viver a contem-
plação é ter essa inclinação para “ver Deus” nos seres e nos acon-
tecimentos.
    São Francisco, cujo desejo ardente e apaixonado era ver Deus, a quem
descobria em Jesus Cristo, parece ter sido um dos maiores contemplativos
da história da humanidade. Aliás, é bom lembrar que todo ser humano tem
por natureza o desejo de ver se Deus existe mesmo, de observar onde Ele se
encontra ou como Ele vem a nós, ou como podemos nos encontrar com Ele.
Mas São Francisco não nos deixou nenhum texto ensinando-nos a
contemplar. Clara fez isso.
    Foi através da contemplação que Santa Clara se encontrou com o Cristo
Esposo e se transformou nele. Foi um “processo de cristificação”, que
precisamos entender melhor. Para isso, é bom considerarmos cada vez que
a santa usou a palavra contemplar.


                                      94
Ela fala seis vezes em contemplação, usando sete vezes esse termo.
Estão todas nas Cartas dirigidas a Inês de Praga. Vamos ver melhor:
     “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o
     seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3) feito por sua
     salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o
     corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com
     ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer
     com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribulação vai ter com ele mansão
     celeste nos esplendores dos santos (Sl 109,3). E seu nome, glorioso entre os
     homens, será inscrito no livro da vida (Sl 109,3). Assim, em vez dos bens
     terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste
     eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecíveis, e
     viverá pelos séculos dos séculos” (2CtIn 20-23).
    Ela já condiciona a contemplação a um desejo de imitar Jesus, de segui-
lo. Mas já o trata como um esposo querido e manda considerar o amor que
Ele demonstrou quando sofreu por nós. E mostra que essa contemplação
vai trazer uma mudança muito grande à nossa vida, com conseqüências
para os tempos sem fim.
    Nesse trecho, ela fala do que acontece com quem chega à união com
Jesus. Para ela, aí está a importância da contemplação do Cristo kenótico e
de uma transformação trabalhada nele.
    Como já vimos falando da clausura, esse seguimento de Cristo kenótico
= esvaziado a ponto de ser encontrado como um servo – é um elemento
importante para explicar porque Clara e suas Irmãs quiseram ficar em São
Damião presas, pobremente vestidas, sem nenhum poder e sem nenhuma
importância.
    O trecho seguinte pode ser considerado o mais importante de Santa
Clara sobre a contemplação. Aliás, não sei se outra pessoa escreveu algo
mais claro e positivo sobre o que é contemplar:
     “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da
     glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira,
     pela contemplação, na imagem da divindade. Desse modo também você vai
     experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida,
     que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. Deixe de
     lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e
     ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, aquele cuja beleza o
     sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim.
     Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem
     depois do parto (3CtIn 12-17)”.

                                         95
Neste texto, aparece uma das maiores originalidades da contemplação
de Santa Clara: a contemplação transforma, transforma na imagem da
Divindade, em um outro Cristo. Quem transforma é Deus, mas contemplar
é expor-se à transformação ao olhar de maneira concentrada para Deus (a
eternidade, a glória, a substância divina) através de Jesus que põe Deus ao
nosso alcance sendo um espelho, um esplendor, uma figura da Divindade.
É por causa da transformação – afinal das contas, no único Cristo, porque
não há mais do que um – que a contempladora saboreia a doçura escondida.
O núcleo do olhar contemplativo de Clara está em se colocar inteira diante
de Cristo Esposo até ser transformada nele. É importante observar que a
contemplação une ao Esposo, leva ao prazer de partilhar a visão e o amor
com o Esposo.
   Na quarta carta, Clara tem um texto magnífico – aliás, impossível de ser
traduzido na sua riqueza mais profunda. O que traduzimos por “banquete”
também poderia ser traduzido por “convivência, partilha de vida”, e o amor
apaixonado de Clara nos faz entrever pelo menos um pouco de todo o
prazer que ela já tinha provado saboreando a união com o Esposo:
     “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-
     se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-
     aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja
     contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja
     lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja
     visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o
     esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha
     (4CtIn 9-14)”.

   Neste trecho, aparece outro ponto original da contemplação de Santa
Clara: é uma contemplação que transborda de gratidão, a gratidão por
chegar a ser unida a Deus, que nos encanta, nos apaixona, restaura, sacia,
dá vida, justamente em Jesus, que é seu espelho.
   No texto seguinte, Clara desenvolve o que tinha dito no anterior: Jesus é
o espelho. Mas ela se espelha nele, ela pode perceber o que falta para ser
como ele, é arrastada pelas virtudes pessoais de Jesus. E usando uma
linguagem própria do Cântico dos Cânticos, mostra como se revestir de
Cristo, do Homem novo.
     “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e
     espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e
     exteriormente, vestida e cingida de variedade, ornada também com as flores e
     roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. Pois nesse

                                         96
espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a
     inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça
     de Deus.
     Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em
     panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O
     Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a
     humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e
     as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse
     mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no
     lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4CtIn 15-23)”.
   Ao considerar os momentos mais importantes da vida de Jesus na carne
– do presépio até a cruz –, Clara insiste em outro ponto original: sua
contemplação é um processo constante, em que a pessoa trabalha com
alegria para ser semelhante a Cristo, ou para amar a semelhança que Ele
realiza em nós.
   Na parte final desse mesmo texto, usando apaixonadamente diversas
alusões do Cântico dos Cânticos, Clara chega a pedir “o beijo mais feliz de
tua boca”, aquele que, como ensinou São Bernardo, é o próprio Espírito
Santo passando entre o beijo dela e o beijo de Jesus como o Espírito Santo
é o beijo de amor entre o Pai e o Filho:
     “Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras
     perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto
     amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó
     esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega
     (Ct 2,4), até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace
     toda feliz (Ct 2,6), e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1) (4CtIn 28-32)”.
   É claro que o importante nem é fazer exercícios de contemplação: é
estar unido ao Esposo, é ter descoberto e realizado todas as sedes do nosso
ser humano. É já ser a esposa que clama com o Espírito, que ela já
incorporou totalmente: “Vem, Senhor Jesus, vem!”
   Na despedida dessa última carta, ela sublinha o aspecto fundamental da
amizade e do amor entre as Irmãs, entre nós todos: nós nos encontramos em
profundidade quando nos perdemos na mesma contemplação, na mesma
busca de Jesus.
     “Posta nessa contemplação, lembre-se de sua mãe pobrezinha, sabendo que
     eu gravei sua feliz recordação de maneira indelével no meu coração porque
     você, para mim, é a mais querida de todas” (4CtIn 33-34).


                                            97
Quem se une ao Esposo na contemplação está construindo sua união
com todas as demais pessoas. E a contemplação do Esposo se expressa na
capacidade de enxergá-lo nas outras pessoas. E cada pessoa é tanto mais
querida quanto mais for possível encontrá-la unida ao Esposo. Por isso,
Francisco e Inês de Praga são os maiores amores de Clara.
    Características – A contemplação de Santa Clara – na perspectiva
esponsal – é de caráter afetivo. Mas, é preciso sublinhar alguns pontos bem
específicos: a). é dominada pela gratidão. b). segue um processo de
fidelidade. c). transforma na imagem viva de Deus. d). abre-se para a
fraternidade e para a Igreja.

             9.1. Contemplação dominada pela gratidão

   Seu Testamento começa:
     “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente
     da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais mais temos que
     agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e
     mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestC 2-3).
    E o Benefício que dá sentido a todos os outros é o próprio Jesus Cristo.
    A gratidão é a admiração sem limites por descobrir-se amada por Deus,
por um Deus Esposo, que se dirige a ela de um modo pessoal. Ela quer
“pagar” o amor com amor. É a dimensão agradecida da graça. Clara amplia
o que Francisco dizia: “Nada de vós retenhais para vós mesmos para que os
receba inteiros aquele que inteiro se entrega a vós” (CtOr 29). Ela também
escreveu: “ame totalmente aquele que se entregou inteiro por seu amor”
(3CtIn 15).


               9.2. O processo é de fidelidade crescente.

   Na segunda Carta, ela escreveu:
     “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu
     ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o
     deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que
     seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado
     pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta
     com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho,
     para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do
     Senhor a chamou” (2CtIn 11-14).

                                        98
Ela comunica uma experiência vivida na luta pela fidelidade, pois sofreu
não poucas vezes obstáculos que poderiam ter ameaçado sua adesão ao que
prometera a Cristo Esposo. A segunda Carta foi redigida durante o gene-
ralato de Frei Elias, no meio dos problemas por que estava passando a Pri-
meira Ordem. Foi dentro disso que Clara observou o processo de fidelidade
com todas as suas conseqüências e riscos, convidando Inês a uma adesão
esponsal diante de qualquer insinuação a sugestão inoportuna:
     “Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça sua
     perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua
     veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem
     pobre” (2CtIn 17-18).
   Não era uma fidelidade à norma, mas ao seguimento Jesus pobre e
desprezível:
     “Veja como por você Ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por
     ele neste mundo” (2CtIn 19). Pois concluiu, explicitando melhor a contem-
     plação: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere,
     contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua
     salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o
     corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz” (2CtIn 20).
   Essa fidelidade a inflamava:
     “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha
     do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e
     honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e
     tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó
     esposo celeste!” (4CtIn 27-30).

                   9.3. contemplação transformante

   Quando ensinou o que era contemplação, Clara propôs uma verdadeira
transformação da pessoa amante na pessoa amada:
     “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da
     glória, ponha o coração na figura da substância divina, e transforme-se
     inteira, pela contemplação, na imagem da divindade” (3CtIn 12).
   É o olhar atento, deliciado, constante, aberto e disponível para aquele
que é o espelho, o esplendor, a figura e a imagem da Divindade que nos
absorve. Muitos místicos disseram algo semelhante: contemplar o ícone até
ser em ícone transformado, como sabemos que foi e é vivido pelos monges

                                        99
do Monte Atos, na Grécia, dedicados à confecção de ícones. Eles se
embebem nos ícones e se iluminam no Sol de Deus, acabando eles mesmos
ícones vivos iluminados por essa Luz.
   Como Francisco, que pediu luz interior ao Crucificado de São Damião,
Clara também se tornou luminosa. Seu o olhar de Clara não era exterior ou
passivo; era criador porque ela bebia a luz de Deus. Por isso, foi uma viva
expressão do processo interior que transforma o contemplativo em imagem
daquele a quem contempla com amor.
   Clara fez de sua vida a busca desse “Santo Graal”: a “doçura escon-
dida”, reservada por Cristo para os que o amam. Na quarta carta, no lugar
de doçura ela fala em delícia. A contemplação clariana, delicadamente
esponsal, “é um olhar da alma e do coração para o objeto amado, até ficar
embebidos por seu próprio amor e “aderindo a Ele com todas as fibras da
alma” em que a esposa é passiva sob a ação do Esposo (4CtIn). Tanto o olhar
amoroso inicial como a experiência receptiva em que culmina, são para
santa Clara simplesmente “contemplação”.

     9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja

   O Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, chamou Santa Clara de “anima
ecclesiastica, esposa de Cristo” (FormSor 4-5 1990, 239). A contemplação
clariana, que leva à transformação esponsal não é uma piedade espiritual
que foge do mundo e de seus desafios. Ela evoca a Beleza e o Amor de
Jesus para todos, tem uma missão eclesial.
   Na mesma carta em que deu a Inês de Praga o ensinamento fundamental
do que era contemplação, Clara escreveu este texto notável:
     “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio
     Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável” (3CtIn 8).
    Sua fonte, o Apóstolo, é São Paulo, que também disse que era um
“espelho da glória do Senhor”, e que de fato se espelhou em Cristo até ser
nele também transformado. E também disse que completava e supria o que
faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas
comunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo (cf Rm 16,3;
16,9; 16,21; 1Cor 3,9; 2Cor 8,23; Fp 2,25; 4,3; 1Ts 3,2).
    Sua contemplação não a afastava da Igreja: levava-a a entrar em
comunhão missionária com todos os “gemidos da humanidade e da Igreja,
nos membros que “vacilam e caem”. Numa passagem de seu Testamento,

                                       100
falando com as Irmãs, Clara diz outra coisa muito significativa para sua
visão de Igreja:
     “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho
     para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a
     nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que
     vivem no mundo” (TestC 19-20).
   Clara é mãe de suas irmãs como filha da Igreja; sua maternidade é
imagem da Mãe Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É
irmã para todos os crentes, companheira na vocação comum, companheira
de viagem e apoio. Assim se indica a idéia da comunidade, da “solida-
riedade” e da suplência. É esposa do Senhor e por isso motivo de alegria,
sinal irradiante de esperança para a humanidade.

                   9.5. Uma contemplação iluminada

    Na contemplação, Clara tem um ponto bem interessante de comunhão
com Francisco: Eles contemplam com os olhos. Ambos falam intensamente
de experiências visuais do seu desejo de ver Deus. É nessa linha que vai a
sua contemplação do Cristo Esposo, porque quem o vê está vendo o Pai que
habita numa altitude inacessível.
    Para dar o justo valor a esse particular é bom lembrar que os orientais
falam em contemplação com o uso de todos os sentidos.
    Já recordamos que as Irmãs viam em Clara uma experiência parecida
com a de Moisés, que “via Deus face a face”. Repetimos os textos mais
importantes:
     “Era assídua na oração e contemplação. Quando saía da oração, seu rosto
     parecia mais claro e mais bonito que o sol e suas palavras exalavam uma
     doçura inenarrável, tanto que sua vida parecia toda celestial” (Irmã Amata de
     Corozano em ProcC Iv,4).
     “...quando ela saía da oração as Irmãs se alegravam como se ela estivesse
     vindo do céu” (Irmã Pacífica de Guelfúcio, em ProcC I,9).
   Isso nos faz lembrar que São Francisco chamou de belos os Irmãos Sol,
Lua e estrelas no seu Cântico de Frei Sol, justamente porque eles são
luminosos. E nos faz recordar esta importante citação:
     “Entre todas as criaturas carentes de razão, amava com afeição maior o sol e
     o fogo. Pois dizia: “De manhã, quando nasce o sol, todas as pessoas
     deveriam louvar a Deus que o criou para a nossa utilidade, porque é por ele

                                        101
que nossos olhos são iluminados de o dia. À tarde, quando anoitece, todas as
     pessoas deveriam louvar a Deus pelo irmão fogo, pelo qual nossos olhos se
     iluminam de noite. Pois todos somos como cegos e, por estes nossos dois
     irmãos, o Senhor ilumina nossos olhos. E assim, devemos louvar o Criador
     particularmente por essas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias”
     (EP 119,1-3).
   É evidente que os “olhos iluminados” dos dois eram os “olhos do
espírito” (cf. Adm 1), com os quais eles contemplavam Deus. Por isso, tinham
uma visão diferente de si mesmos, do próximo, das criaturas, do mundo e
da história.
   Como lembra o Evangelho de Lucas:
     “A lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro
     também fica iluminado. Mas, se ele está doente, o corpo também fica na
     escuridão. Portanto, veja bem se a luz que está em você não é escuridão” (Lc
     1134-35).
   Chamo a atenção para o fato de que Clara, como Francisco, deve ter tido
excelentes oportunidades de contemplar famoso ícone do Cristo de São
Damião. Não podemos afirmar que eles tenham tido um conhecimento
teórico da teologia que está por trás dos ícones: a teologia da luz. Mas
devem ter sido influenciados por ela através do ícone.
   A teologia da luz, também chamada de teologia da beleza representa a
santidade de Deus como a Luz. É a luz de Deus que deixa os santos
iluminados de santidade. É na contemplação da luminosidade dos santos
que iconógrafos contemplam a luz que vão passar para os ícones: os seus
quadros. E os fiéis tomam um banho de luz de Deus diante dos ícones.
   Clara e Francisco contemplativos estão passando para nós a Luz da
santidade de Deus.




                                        102
10. “Mãe de Jesus”

    Na FORMA DE VIDA que deu às Irmãs em 1212, Francisco chamou-as de
“esposas do Espírito Santo”. Como já tivemos oportunidade de ver, essa
forma de vida tem um forte paralelo com a ANTÍFONA DE NOSSA SENHORA
do Ofício da Paixão e com a CARTA AOS FIÉIS.
    Nesses outros dois documentos, o santo mantém o “esposa do Espírito
Santo” que, na Carta aos Fiéis, ele explica: “Somos esposos quando, pela
ação do Espírito Santo, une-se a alma fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo”
(1CtFi 8). Mas também diz que somos mães:

     “Somos mães de nosso Senhor Jesus Cristo quando o levamos em nosso
     coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6,20), pelo amor divino e pela consciência
     pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os
     outros com o exemplo. Oh! Como é santo e dileto ter tal irmão e filho,
     agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais desejável do que todas as
     coisas: Nosso Senhor Jesus Cristo!”.
   Dessa forma, entramos em um dos grandes pontos da espiritualidade
franciscana: o grande acontecimento, que é a encarnação de Jesus, continua
a acontecer todos os dias, na Eucaristia e pelo nosso exemplo.
   Queremos fundamentar este capítulo final de nosso trabalho numa
comparação de Clara com a “Esposa do Espírito Santo” do Apocalipse:
aquela que é Maria e que é o Povo, pois “desceu do céu como uma noiva
vestida de sol, coroada de doze estrelas e com a luz embaixo dos pés”. Mas
ela também era a Mãe, porque estava grávida. E com o Espírito Santo
chegará ao fim da história como o Povo Esposa clamando: “Vem, Senhor
Jesus! Vem!”

                    10.1. Clara como a Mãe de Jesus

   Não é tão importante que ela venha “a ser no céu coroada como a
Virgem Maria”, como diz o Cântico de Francisco “Ouvi, pobrezinhas!” O
fato mais importante é que ela se reveste de Cristo, o homem novo, e que
vai mostrando como continuar a dar à luz a imagem de Cristo que está em
nós e em todas as pessoas, especialmente nos irmãos e irmãs mais pró-
ximos.


                                        103
Dessa maneira, Clara pode ser vista na tradição das “ammás”, as mães
espirituais do deserto. De fato, foi isso que ela recordou em sua bênção:
      “E as abençôo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com
      todas as bênçãos com que o Pai das misericórdias (cf. 2Cor 1,3) abençoou e
      abençoará seus filhos e filhas no céu (cf. Ef 1,3) e na terra, e com os quais um
      pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas
      espirituais. Amém” (BSC 11-13).
    A Legenda de Santa Clara confirma essa visão em dois lugares:
      “Sigam os homens esses varões, novos discípulos do Verbo encarnado; as
      mulheres imitem Clara, vestígio da Mãe de Deus e nova guia das mulheres”
      (LSC, Prólogo).

      Hoje, a Igreja rebrota feliz com essas flores geradas por Clara (...) (LSC 11).
      As filhas gratas por sua bondade correspondiam com toda a dedicação.
      Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, (...) e admiravam na esposa de Deus a
      prerrogativa de uma santidade completa (LSC 38).
   É bastante interessante que Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de
São Francisco e autor da Legenda de Santa Clara, que em diversas
oportunidades parece ser um misógino, tenha tido uma visão muito positiva
do papel feminino da mãe, como observou Valéria Fernandes da Silva 17.

   17
      Celano abre possibilidades interessantes para o estudo dos discursos sobre o feminino na Idade
Média, ao identificar seu biografado com um papel que é especificamente feminino. Pois se até então
era comum nos autores eclesiásticos uma supervalorização da virgindade e uma depreciação das
virtudes femininas, Celano simplesmente irá anular qualquer caráter pejorativo na maternidade em seus
textos. Ele irá apresentar um Francisco revestido de uma virtude feminina, a maternidade, que em
nenhum momento será dissociada desse aspecto fundamental e estabelecida como desprovida de
diretivas de gênero.
   A maternidade em Celano não é desprovida de gênero, assexuada como a alma para Santo Agostinho.
Ao contrário, ela é elogiada naquilo que tem de feminino, que, nesse caso, não seria correspondente à
incompletude ou ao mal. Nisso nosso autor irá se aproximar, de certa forma, de Juliana de Norwich,
mística e reclusa inglesa, que no século XIV irá associar Jesus Cristo à figura materna, atribuindo-lhe
qualidades até então tidas como femininas.
   Ao valorizar a maternidade, estado que estava associado ao pecado e a uma vida no saeculum,
valorizando a Maria-Mãe em detrimento da Maria Virgem, um maior número de mulheres puderam se
reconhecer nos exemplos dados por Celano. Cumprindo de certa forma seu papel pedagógico, de
hagiógrafo, suscitando a piedade, a penitência, a devoção e uma vida norteada pelos princípios da vita
vere apostolica.
   Clara representa não só a mãe das Damas Pobres, como também é filha espiritual de Francisco. Da
mesma forma, ela seria identificada com a Mãe de Deus, por ser mãe simbólica e por ser virgem, mas
também seria a esposa do Cristo. Ela é mãe, filha, esposa, virgem; a materialização de Maria de acordo
com os moldes franciscanos.
   VALÉRIA F. DA SILVA, A mãe como modelo de espiritualidade: discutindo o papel da maternidade
nos escritos de Tomás de Celano, in Hagiografia e História, organizado por Andréia Cristina Lopes
Frazão da Silva. Rio de Janeiro 2008.

                                                   104
São Paulo dissera: “Eu... vos gerei em Cristo Jesus (1Cor 4,25). Toda vida
cristã, aberta para Deus, manifesta-O e é portadora de vida. Quem faz isso
está na maior união com Cristo e gera outros Cristos. O que São Francisco
diz na Carta aos Fiéis é uma outra maneira de falar dos Esponsais e de
Esposo-Esposa: falar de como estamos ajudando os outros a serem outros
Cristos e nos tornando nós mesmos outros Cristos. Todo ser humano vindo
a este mundo – se souber olhar pela perspectiva do Evangelho – saberá que
precisa fazer nesta vida um Processo de Cristificação. É assim que se une a
Deus.
    Ser mãe de Jesus Cristo é algo parecido com “optar por uma vida de
acordo com o Evangelho”. São Francisco usou essa expressão na Forma de
Vida para Santa Clara, que é idêntica à sua Antífona de Nossa Senhora
onde, no mesmo lugar, ele coloca “Mãe de Jesus”. Em outras palavras,
“viver o Evangelho” não é apenas pautar-se por orientações dadas por Jesus
e contidas nos quatro livros dos Evangelistas; viver o Evangelho é ser um
outro Cristo, é desenvolver o Cristo de si mesmo e ajudar a nascerem e
crescerem os Cristos que estão em todas as outras pessoas. É por isso que
Francisco e Clara, pessoas sem formalismos e sem rigorismos, têm uma
veneração tão profunda pelas suas Regras. Não as viam como estatutos:
eram uma forma de ser mães de Jesus e de saber ser filhos.
    Ser mãe não é apenas gerar, gestar e dar à luz. Tudo isso é estupendo,
entretanto, mais importante ainda é saber fazer com que os filhos se sintam
totalmente bem acolhidos. Também é saber acompanhar desde os primeiros
passos para que cada um realize em sua vida o que Deus sonhou para ele.
Nosso próprio apostolado perde o sentido quando, mesmo anunciando com
bastante propriedade a Palavra de Deus, esquecemos de ter a melhor
compreensão materna para que o Cristo de cada um possa ser bem
acolhido, possa crescer e amadurecer.

          10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino

   Em Maria está “toda a plenitude da graça” (SdVM). Ela é a fonte cons-
tante da graça porque sua intimidade única com a Trindade faz dela uma
fecundidade espiritual permanente.
   Eva, com Adão, “quis ser como Deus”. Nós somos Adão e Eva que nos
perdemos nessa aventura porque rejeitamos Deus. Maria tornou efetiva
uma dimensão divina que já tínhamos uma vez que fomos criados “à ima-

                                       105
gem e semelhança de Deus”, mas que, na prática, estava sem efeito pelo
afastamento da soberania de Deus.
    Maria não se tornou deusa. Foram as suas atitudes de ser uma filha re-
conhecida do Pai, uma esposa consciente do Espírito Santo e a mãe con-
creta de Jesus que lhe deram a dimensão do divino que nos elevou a uma
vida sobrenatural. Dessa maneira, ela manifestou a ternura de Deus em uma
forma humana, permitindo que nela enxergássemos a ação do Espírito
Santo.
    Para Deus, Maria é o humano. Para nós, Maria é uma visão do divino.
Mas nela há um grande intercâmbio entre o divino e o humano. Nossa
Senhora demonstra como Deus é terno e amoroso. Não muda Deus: muda
nossa experiência de Deus.
    Em geral, costumamos apresentar uma religião longínqua e muito inte-
lectualizada. É preciso ter uma fundamentação solidamente doutrinal, mas
uma comunicação bem fácil, alegre e concreta. Sem fazer antropomorfias
de Deus, temos que ver e demonstrar como nosso Deus, tão teórico e
distante para muitos, pode ser humanizado. Precisamos lembrar que as
próprias palavras Javé, Jesus, Emanuel e Paráclito induzem a ver a presença
de Deus no humano.
    Nossa Senhora deu a Jesus Cristo traços, gestos, atitudes, entonação...
deu-lhe uma natureza humana verdadeira. É preciso lembrar que Nossa
Senhora não acolheu apenas a semente do corpo de Jesus. O Concílio
Vaticano II ensinou, na Lumen Gentium, que Maria Santíssima recebeu o
Verbo de Deus no coração e no corpo (LG 53). E abriu para nós — por obra
de Deus, é claro — a possibilidade de continuar humanizando o divino e
divinizando o humano.
    A Lumen Gentium também ensina que Nossa Senhora não foi mãe e
também virgem, mas foi uma Mãe virginal porque sua maternidade divina
foi certamente de ordem física mas, antes de tudo, foi “uma concepção no
coração pela fé” (LG 63). A virgindade no corpo foi apenas um sinal, um
sacramento da sua virgindade no coração. Que é isso? O fato de ser só de
Deus, sem deixar de ser humana. Aliás, sendo até mais plenamente hu-
mana.
    Quando São Francisco a saúda como “Virgem feita Igreja” mostra-nos
que também nós temos essa virgindade na fé, que prestamos ao Esposo.
Imitando a Mãe de seu Senhor, pela virtude do Espírito Santo, a Igreja
conserva virginalmente uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma sincera
caridade (LG 64). “Como por ela era piedosamente movido para todas as
                                     106
criaturas, especialmente, porém para as almas remidas pelo precioso sangue
de Cristo, quando as via manchadas por alguma sujeira de pecado, deplo-
rava com tanta ternura de comiseração, que todos os dias dava-as à luz
como uma mãe em Cristo” (LM 8,3).
    Nós temos o papel de ajudar as pessoas a serem mais humanas:
é assim que Deus vai continuando a se encarnar

               10.3. Levar Jesus no coração e no corpo

   Santa Clara tem algumas preciosas passagens de suas cartas em que
também ensina como ser mãe de Jesus:
     “Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem
     depois do parto. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os
     céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu
     santo seio e carregou no seu regaço de menina” (3CtIn 17-19).
     “Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim
     também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e
     pobreza, sem dúvida alguma poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo
     casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai
     possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste
     mundo, será mais fortemente seu” (3CtIn 24-26).
    Levar no coração e no corpo é celebrar o fato de que somos imagem e
semelhança, somos palavras originais e filhos adotivos, somos outros
cristos.

                  10.4. Dar à luz pela santa operação

    Com muita beleza e mestria, Clara usa diversas vezes a imagem bíblica
do espelho que, para ela, é Jesus. Ser espelho é uma expressão freqüente na
literatura mística da Idade Média, como podemos encontrar em São Ber-
nardo, Guilherme de Saint-Thierry e nas místicas da “Brautmystik”. Nós a
encontramos nas Cartas e no Testamento de Santa Clara. As citações são as
seguintes:
     “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da
     glória” (3CtIn 12).”
     “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem
     mancha. Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus
     Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15).

                                         107
“Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humil-
     dade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar.
     Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em
     panos, foi colocado no presépio” (4CtIn 18-19).
     “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem-
     aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela
     redenção do gênero humano” (4CtIn 22).
     “E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis
     padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa. Assim,
     posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que
     deviam considerar” (4CtIn 23-24).
     “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho
     para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a
     nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que
     vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que
     em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os
     outros” (TestC 19-21).
    Há uma coincidência em toda esta utilização da simbologia do espelho.
Sempre se usa para indicar algo profundo que tem que recorrer a tal sim-
bologia para expressar alguma coisa além da realidade em si. Isso se chama
sacramentalidade. Cristo, Francisco, as Irmãs... são um sacramento em que
Clara se espelha ou para quem ela é espelho. Precisamente, em um ex-
celente artigo sobre esta questão, Dino Dozzi traçou esta linha de com-
preensão do “espelho de Clara” como sacramento de uma presença. Diz
Dozzi que, nos Escritos de Clara, o espelho se refere a realidades diversas,
mas sempre se trata de pessoas: Cristo, Francisco, Clara, Inês, as primeiras
Irmãs, as Irmãs futuras. Os diversos “espelhos” de que Clara fala estão
relacionados até ser um sacramento, sinal e instrumento do outro, e assim
até chegar ao Espelho por antonomásia que é Cristo.
    Também se pode sublinhar a reciprocidade da presença que está por
baixo. Este espelho torna Cristo presente para Clara, mas também Clara
para Cristo e para si mesma; torna presente Francisco para Clara, mas
também Clara para Francisco; torna presente Clara para Inês, mas também
Inês para Clara; torna presente Clara para as primeiras irmãs. O espelho
como sacramento de uma presença cria contemporaneidade, horizontes
profundos, faz de todos, para além de qualquer barreira cronológica, uma
só família. Deste modo, quem se ensimesma no Espelho de Cristo Esposo,
quem se reflete no espelho fraterno do amigo do Esposo (Francisco),
convida Inês e as Irmãs a ser por sua vez “espelhos vivos”, isto é, sacra-
                                       108
mentos de outra Presença para elas mesmas, para as Irmãs que virão no
futuro, para todos que puderem aproximar-se do mosteiro.
    Mas essa sacramentalidade exemplar (speculum et exemplum), não se
refere unicamente a uma convivência sadia, bela e amável no recolhido
claustro damianita. Há uma exemplaridade que se explica pela missão
eclesial que Clara e as Irmãs receberam, e que, portanto, tem uma projeção
apostólica a partir desse mesmo locus charismaticus. Aqui torna a aparecer
o paralelismo entre Santa Clara e São Paulo. O apóstolo, que falou em ser
“espelho da glória do Senhor”, ele que se espelhou em Cristo até ser nele
também transformado, disse igualmente que completava e supria o que
faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas
comunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo. Esse é o
teor das palavras de Clara a Inês a respeito da intercessão em favor da
Igreja: “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do
próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável”
(3CtIn 8).


                10.5. Com Maria na missão da Igreja

   A contemplação esponsal de Clara e das Irmãs não era uma piedosa fuga
de todos os dramas em que os membros do Corpo inefável de Deus podem
cair. É um binômio entre contemplação esponsal e missão eclesial, que não
só não se opõem, mas se exigem reciprocamente. “A contemplação está
unida à missão, pois na medida em que se realizou o que é Deus, e se
experimentou até que ponto o fato de conhecer e amar a Deus é constitutivo
de um humanismo total e de uma existência completa, nessa medida se
sofre e fica surpreso de que Deus não seja conhecido e não seja amado”.
Por isso podemos afirmar que a delicada, profunda e extensa contemplação
esponsal de Clara, permitiu-lhe entrar em comunhão missionária com todos
os “gemidos” da humanidade e da Igreja, nos membros que vacilam e caem
(cadentium membrorum).
   Esse ardor missionário de partilhar as dores do Corpo de Cristo, levou-a
a curar doenças de Irmãs ou de outros que iam a São Damião com
sofrimentos físicos, psíquicos, e mesmo morais. E houve outro testemunho
eclesial muito concreto: quando os “membros que vacilam” não eram os
enfermos de males físicos, psíquicos ou morais, mas os próprios pastores
que demonstravam fraqueza diante de sua missão. Era ao testemunho da
hierarquia da Igreja que esta mulher, esposa de Cristo, atendia, para

                                     109
sustentá-los em sua missão dentro e à frente da Igreja, esposa de Cristo
também.
   Hugolino nos dá testemunho disso, tanto quando era cardeal, como
quando foi eleito Papa. São dois textos cheios de agradecimento e afeto
para com a esposa Clara, em quem se reconhece como irmã e mãe:
     “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de
     Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e
     pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para
     que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda
     por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha
     salvação. Estou certo de que conseguira do sumo Juiz tudo que pedir com
     insistência de tanta devoção e abundancia de lágrimas”.
     “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião
     de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias
     que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que
     Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos
     com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo,
     como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como
     confiamos vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas
     orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu,
     suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio
     de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força
     por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos
     confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para
     os que foram confiados ao nosso governo”.
   A relação de afeto do Pastor Supremo da Igreja ficou marcada também
em uma chave esponsal na carta circular que o cardeal Reinaldo enviou
nesse mesmo ano de 1228 (datada em 18 de agosto), para comunicar a
nomeação do novo visitador e assistente das damianitas (precioso docu-
mento em que temos um primeiro elenco dos mosteiros das origens cla-
rianas): Frei Filipe Longo. Mas no curso da carta, se diz explicitamente o
que as Irmãs significavam para o Papa: “Ele fez seu vigário na terra aquele
que era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste da
diminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno e
conveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanho
universal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescentes
em cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo”.
   Podemos ver nesse relacionamento entre o Papado e Clara o que o
teólogo H.U. Von Baltasar aplicava ao relacionamento a Igreja e Maria:

                                        110
“Em Maria a Igreja tomou corpo antes de se organizar em Pedro. A Igreja é
     primeiro feminina, e esta prioridade é uma constante que subsiste quando
     recebe seu complemento masculino no ministério eclesiástico [...] E só para
     que não se esqueça dessa feminilidade primordial, só para que seja sempre
     receptáculo e não possessiva e dispositiva, incrustou nela o ministério
     masculino, que representa o Senhor administrador da Igreja, sempre dentro
     dos limites de sua receptividade feminina”.
   Neste sentido há uma complementaridade entre Instituição e Carisma,
entre Pedro e Maria, entre Gregório IX e Clara. Devemos dizer que Santa
Clara representou para seu mundo e para sua Igreja esse espelho em que se
podia reconhecer a ternura e a bondade de Deus, precisamente porque ela
se espelhava no Espelho de Deus, até ser transformada nele.
   Essa foi à missão clariana a partir de uma contemplação esponsal: apro-
ximar ao homem concreto, ao mundo concreto, à Igreja concreta o rosto de
um Deus Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e
escuridões que pode haver nos membros desse grande corpo que representa
a humanidade e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com
ela, Clara foi speculum et exemplum, ícone vivo do que Deus quer de todos
seus filhos. Ela mostrou assim uma pequena porção de terra (porciúncula)
em que verdadeiramente se vivia como cristão. São Damião tornou-se desse
modo um lar aberto para todos: pobres, enfermos, frades, prelados. Cada
qual em sua medida ou necessidade, encontrou em São Damião a benção e
a luz que Deus repartia pelas mãos daquela que foi esposa para Cristo, e
mãe e irmã para todos os que nele amou.
     “Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto
     que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu
     escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder
     de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 36-37).
    Ao finalizar toda esta nossa consideração, é bom recordar um pensa-
mento que encontramos ao estudar Orígenes:
    Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de
modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas
ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em
que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto
alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação na-
quele a quem amamos.
    A alma chega à perfeição quando pode cantar com a Esposa.


                                       111
Índice
1. O “Ponto de partida”........................................................................................................... 1
    1.1. Espiritualidade ............................................................................................................ 4
    1.2. Esponsais .................................................................................................................... 5
    1.3. Linguagem simbólica ................................................................................................. 5
    1.4. Sol e Lua..................................................................................................................... 6
    1.5. Mística ........................................................................................................................ 7
    1.6. A Trindade e o ser humano......................................................................................... 7
    1.7. Um cântico de Amor .................................................................................................. 9
2. Santa Clara e o Cristo Esposo ........................................................................................... 11
    2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga ..................................................... 11
    2.2. Clara Esposa de Cristo.............................................................................................. 13
    2.3. Clara celebrou Cristo Esposo.................................................................................... 17
3. Francisco, figura do Esposo .............................................................................................. 20
    3.1. Francisco, o amigo do Esposo .................................................................................. 20
    3.2. Eles viveram uma profunda amizade ........................................................................ 22
       3.2.1. O que é a verdadeira amizade? ........................................................................ 23
       3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus .............. 24
       3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. ......................................... 26
    3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a
    buscaram ......................................................................................................................... 28
    3.4. Os Cânticos de São Francisco .................................................................................. 32
4. Clara e os Místicos do seu tempo ..................................................................................... 34
    4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara .................................................................. 35
       4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) ........................................................................ 36
       4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294)............................................................ 37
       4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) ................................................................... 38
    4.2. Os cistercienses ........................................................................................................ 39
       4.2.1. São Bernardo .................................................................................................... 39
       4.2.2. Guilherme de Saint-Thierry.............................................................................. 43
       4.2.3. Aelredo de Rievaulx ......................................................................................... 44
5. A Aliança Esponsal nos Santos Padres ............................................................................. 46
    5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade................................................................. 47
       5.1.1. Três temas na mística origineana ..................................................................... 49
    5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União ......................................................... 51
       5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”: a progressão para a semelhança divina .. 51
       5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua
       imagem ....................................................................................................................... 54
6. O Esposo na Aliança Bíblica ............................................................................................ 56
    6.1. O Cântico dos Cânticos ............................................................................................ 56
       6.1.1. O amor é caminho divino do homem ................................................................ 57
       6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum............................................ 57
    6.2. A Aliança e os Profetas ............................................................................................ 59
    6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo........................................................................... 63
       6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo ............................................................................. 63
       6.3.2. O amigo do Esposo .......................................................................................... 63

                                                                     112
6.3.3. A esposa ouve o Esposo ................................................................................... 64
       6.3.4. A Igreja, Esposa do Verbo ............................................................................... 65
       6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus ......................................................... 67
7. Clara saiu para estar com Ele............................................................................................ 70
   7.1. O “não-lugar” ........................................................................................................... 70
   7.2. Uma situação liminar ................................................................................................ 73
   7.3. Companhia no “Não-Lugar” ..................................................................................... 74
   7.4. Orar no “Não-lugar” ................................................................................................. 75
   7.5. O Reino do “Não-Lugar” .......................................................................................... 76
   7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus ............................................................ 77
   7.7. Algumas considerações ............................................................................................ 77
8. As Irmãs-Esposas ............................................................................................................. 82
   8.1. A vida das clarissas como Irmãs ............................................................................... 84
       8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas ..................................................... 84
       8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho......................... 86
       8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs ......................................... 87
   8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas para a Ordem e para a Igreja .............................. 89
9. Contemplando o Esposo ................................................................................................... 94
   9.1. Contemplação dominada pela gratidão ..................................................................... 98
   9.2. O processo é de fidelidade crescente. ....................................................................... 98
   9.3. contemplação transformante ..................................................................................... 99
   9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja ................................................ 100
   9.5. Uma contemplação iluminada ................................................................................ 101
10. “Mãe de Jesus” ............................................................................................................. 103
   10.1. Clara como a Mãe de Jesus................................................................................... 103
   10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino ........................................................... 105
   10.3. Levar Jesus no coração e no corpo ....................................................................... 107
   10.4. Dar à luz pela santa operação ............................................................................... 107
   10.5. Com Maria na missão da Igreja ............................................................................ 109




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Abrace o-cristo-pobre

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    1. O “Pontode partida” Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara fez uma exortação premente: “Não perca de vista seu ponto de partida” (2CtIn 11). Para entender toda a força do que ela quis dizer, é preciso ter em conta que essa carta era uma resposta a uma questão também premente de Inês sobre o que deveria fazer diante de uma ordem recebida do papa para que tivesse propriedades. Para Clara, não era uma questão simples. Para ela, não querer ter propriedades não era uma veleidade: estava no núcleo de seu compromisso de amor pessoal com Jesus Cristo. Alguns anos antes, quando o papa Gregório IX quisera forçá-la a ter propriedades e chegara a dizer: – “Se o seu problema é o voto de pobreza, você sabe que eu sou o papa e posso dispensá-la”, ela dissera com firmeza: – “Não me dispense de seguir o meu Senhor Jesus Cristo!”. Não se tratava de nenhum voto formal de pobreza, mas de viver como Jesus, de ter “os mesmos sentimentos de Jesus, que não se achou grande por ser Deus: pelo contrário, esvaziou-se até ser encontrado como um servo, como um de nós, para nos salvar” (Cf. Fl 2). Desde o começo, é importante deixar bem claro um dos fundamentos da espiritualidade francisclariana: Por que Clara, como Francisco, quer seguir os passos de Jesus Cristo, crucificado e pobre? São João disse que “Deus é Amor”. Ou Deus é o Amor? São Francisco diz que Deus é o Bem, todo o Bem, o sumo Bem... É outra maneira de dizer que “Deus é o Amor”. Amar é dar-se. Quando nós amamos, nos damos à pessoa amada. Mesmo pensando que esse dar-se vai até o fim da vida, sabemos que nunca vamos nos dar totalmente, porque nunca chegaremos – pelo menos nesta terra – a nos conhecer inteiros para nos dar inteiros, nem a conhecer a pessoa amada inteira para nos dar a ela inteira. Mas Deus, o Deus Pai e Filho e Espírito Santo, quando ama se dá inteiro. Se Deus é capaz de se dar inteiro, nós podemos concluir – dentro de nossa maneira limitada porque humana – que não sobra nada. Foi ao pensar que Deus se dá inteiro sem sobrar nada que Francisco e Clara chegaram à conclusão de que Deus é o maior pobre. Uma conseqüência: Quando damos tudo, ficamos plenamente livres. Como São João chegou à grande afirmação “Deus é o Amor”, os Santos 1
  • 2.
    Padres chegaram àafirmação: Deus é a Liberdade. Então, Deus não é amoroso, ele é o próprio Amor. Deus não é livre, ele é a própria Liberdade. Ora, se ele é todo o Amor, sempre que nós amamos vivemos o Deus Amor, partilhamos o seu Amor. Em outras palavras: estamos usando o Amor dele, estamos vivendo o Amor que Ele é. E se ele é toda a Liberdade, quando somos livres partilhamos da sua Liberdade. Em outras palavras: usamos a Liberdade dele, vivemos a Liberdade que Ele é. Outra conseqüência: Quando o Verbo se fez Carne, esvaziou-se para nos ensinar a amar, esvaziou-se para nos ensinar a ser livres. Mais uma conseqüência: percebemos melhor porque Francisco não entendia a obediência como um cumprir ordens, mas como um corresponder ao amor recebido. Entendemos porque Clara e Francisco quiseram seguir com tanto amor o Cristo crucificado e pobre: quanto mais eles amavam, mais se tornavam pobres; quanto mais pobres, tornavam-se mais livres. Pobres como Jesus, livres como Jesus. Foi por isso que eles viveram um esponsal contínuo: um contínuo relacionamento de amor entre a própria pessoa e a pessoa muito concreta de Jesus Cristo. *** Todos nós somos sedentos de amor, não é verdade? Todos nós somos sedentos de liberdade, não é mesmo? Teremos tudo isso na medida em que vivermos o nosso compromisso pessoal – o nosso compromisso esponsal – com Jesus Cristo. Aquele que se esvaziou para nos salvar. Observemos: Salvar é a mesma coisa que libertar. Por seu imenso amor a Jesus Cristo, Clara tinha partido da casa de seus pais sem propriedade alguma, totalmente livre depois de ter vendido e distribuído todos os seus bens, para “abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre”, como escreveu logo adiante na mesma Carta 2 a Inês de Praga, que fora agraciada pela mesma vocação. Compreenderemos melhor essa maneira de dizer se nos lembrarmos de que para Clara – nesse ponto discípula de São Bernardo – virgindade era entendida de uma maneira significativamente diferente da nossa. É como se ela dissesse: “Sou tanto mais virgem quanto mais espaço dou dentro de mim para Deus”. Sua vida era um correr ao encontro do Cristo pobre como uma virgem pobre. Esse haveria de ser o ponto de chegada; já tinha sido o ponto de partida. 2
  • 3.
    Por essa mesmarazão, Clara insiste com Inês, na sua segunda carta, que “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira avance confiante pelo caminho da bem-aventurança” (2CtIn 12). A decisão de Clara é tão segura que ela tem a ousadia de dizer, logo adiante: “Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou... Se alguém lhe disser outra coisa ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça a sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 14,17-18). De fato, essa era a recomendação que São Francisco lhe dera pouco antes de morrer, quando lhe enviou a “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida de pobreza do Altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma, pelo ensinamento de quem quer que seja (RSC 6,7-9). Como as outras três, essa segunda carta de Clara a Inês fala da sua “espiritualidade dos esponsais”, ou do caminho de relacionamento pessoal cada vez mais profundo entre a nossa pessoa e a pessoa de Jesus Cristo. Logo no início, Clara saúda Inês como “esposa digníssima de Jesus Cristo” (2CtIn 1-2). Depois recorda sua união “ao rei no tálamo celeste” (2CtIn 5), exortando-a a “olhar, considerar e contemplar o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). No fim se despede dizendo: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). Realmente, a nota característica da espiritualidade de Santa Clara é ser uma “espiritualidade dos esponsais”, com o mais sólido fundamento nas Sagradas Escrituras, nos Santos Padres e na experiência dos místicos que a precederam, como vamos ver. “Abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre” vai ser a espinha dorsal do “ponto de partida” da espiritualidade de Santa Clara no estudo aprofundado que queremos fazer. 3
  • 4.
    Para isso, devemosrecordar alguns pontos: Santa Clara nasceu em Assis, na Úmbria, Itália, em 1193 ou 1194 e morreu nessa mesma cidade em 1253. Com São Francisco, fundou a Ordem posteriormente chamada “das Clarissas”. É uma santa extraordinária, que esteve durante séculos à sombra de seu conterrâneo mais famoso, mas está sendo redescoberta como uma grande mestra espiritual desde o final do século XX. Neste nosso trabalho, estamos tentando apresentar – de maneira sucinta, mas bem fundamentada – como podemos entender a sua espiri- tualidade. Porque, além de ter colaborado validamente para o que sempre se conheceu por espiritualidade franciscana, ela teve valores muito próprios. Tanto que, a partir do século XX, começou-se a dizer que a espiritualidade do movimento franciscano pode ser chamada de espiritualidade francis- clariana. Nós vamos entendê-la à luz do que a Igreja conhece como espiritua- lidade dos esponsais, falando mesmo em teologia dos esponsais. 1.1. Espiritualidade A palavra espiritualidade vem do latim spiritus, que quer dizer sopro, vento, impulso e, por isso mesmo, já tem um sentido dinâmico. O amor dos esponsais não é parado. Penetra sem cessar no mistério sem fim do Amor. Mas também pensamos claramente no Espírito de que o Antigo Testa- mento já falava: uma força de Deus. Jesus revelou que, na realidade, ele era o Espírito Santo, uma das Pessoas da Trindade. Mais do que isso: na revelação de Jesus, Ele é o Paráclito ou companheiro chamado para ficar conosco e morar em nossos corações. Lá dentro, exerce a mesma função que tem na Trindade: é o turbilhão avassalador do amor entre o Pai e o Filho. Hoje, usamos a expressão espiritualidade até para falar da visão que outras religiões têm sobre Deus. Para nós cristãos, lembra aquela força que perpassa toda a Bíblia, desde quando “a terra era vazia e confusa” até quando a humanidade – e cada um de nós – vai saber dizer no mais au- têntico uníssono com o Espírito Santo: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. A Igreja é rica de “espiritualidades”, como a beneditina, a cisterciense, a carmelita, a inaciana, e falamos até em “espiritualidade conjugal”. Nós va- mos falar mais na “francisclariana”, mas todas elas vivem esse valor dos esponsais. 4
  • 5.
    Espiritualidade é umcaminho. Precisamos conhecer o próprio caminho e ter boa companhia. O caminho que Santa Clara apresenta é Jesus, aquele que disse “Eu sou o caminho”. São Francisco também falava em “seguir os vestígios de Jesus crucificado e pobre”. 1.2. Esponsais Na prática, a palavra Esponsais é um sinônimo de casamento: da cele- bração do compromisso entre um homem e uma mulher. Pode ser a união mais profunda e duradoura entre duas pessoas e, por isso, é excelente para falar do compromisso que o Deus da Bíblia quis estabelecer com a hu- manidade e com cada um de nós. Tertuliano, um dos grandes Padres da Igreja nos primeiros séculos, já tinha dito que as virgens consagradas eram “esposas de Cristo”. Em tempos mais recentes, essa expressão foi mal entendida e ridicularizada, como se quisesse dizer que alguém é uma “mulher de Jesus”, ou algo parecido. Não é isso. Recordo que a raiz da palavra esponsal, como a de esposo ou esposa, é a mesma de responder, responsabilidade, corresponder. E, “pessoas consagradas” no batismo, também nós somos esposos. Recordo também que foi o próprio Deus quem se chamou de Esposo do Povo da antiga e da nova Aliança. E nos convida a ser a esposa, como povo e como indivíduos, sem importar se somos mulheres ou homens. O importante é o compromisso pessoal que assumimos de corresponder a Deus. E não perder de vista que o laço que Deus quer estabelecer conosco é de amor. Mesmo o pacto social que estabeleceu com o povo de Israel foi sempre envolvido de afeto e de carinho. A proposta cristã também vê a realização de toda pessoa humana – e de toda a raça humana – numa união perfeita em que seremos felizes porque “Deus vai ser tudo em todos”. 1.3. Linguagem simbólica Quando falamos em esponsais, estamos usando uma linguagem simbólica: comparamos nosso relacionamento com Deus ao relacionamento entre os esposos. Até quando falamos em espiritualidade estamos usando linguagem simbólica. Dizemos: “é como o spiritus, o vento”. Foi o símbolo que Jesus usou quando conversou sobre o novo nascimento com Nico- demos. O homem sempre procurou usar uma linguagem que lhe permitisse expressar o inefável. Para isso, usa os símbolos. Por isso, inventou as artes. 5
  • 6.
    A palavra símbolopode ter muitos usos: Há símbolos na matemática e na química, na poesia, na mística. O símbolo era originariamente um sinal para reconhecer alguma coisa ou pessoa, e exigia um complemento. Por isso é importante notar: a linguagem simbólica só se aproxima – não re- solve de uma vez – de uma realidade que a ultrapassa e que ela não consegue explicar. O ser humano já foi chamado de “animal que fala”. Nisso é diferente de todos os outros seres e, por isso, pode de alguma maneira recriar seu mundo: o interior e o exterior, dando-lhes nomes, chamando, narrando. Mas é o seu ser inteiro que comunica, até com uma linguagem não verbal. Pode dizer muito mais com um olhar do que com um livro e mostrar o que pensa com um gesto. Mesmo assim, há realidades que não dá para expressar: são inefáveis. 1.4. Sol e Lua Os esponsais de que falamos são uma expressão simbólica em que nossa relação com Deus é comparada à relação entre o homem e a mulher. É histórica e essencial uma tensão entre homem-mulher. O homem sentiu-se muitas vezes vítima de uma mulher tentadora, ou temida por seu mistério. Outras vezes, sentiu-se salvador da mulher frágil. A partir daí, pôs a mulher em segundo lugar, para defender-se ou para defendê-la. Mas a tensão é positiva: dela nasce vida. Os antigos já tinham percebido que há uma diferença grande entre ser homem-mulher e ser macho-fêmea como entre os animais e as plantas: não somos homens e mulheres só para nos reproduzir. Mais que tudo, é para nos relacionar. E o relacionamento pressupõe que haja de parte a parte algo masculino e algo feminino. Em linguagem simbólica, chamaram o masculino de Sol, e o feminino de Lua. Um ser humano Mulher apresenta exteriormente um predomínio da Lua (palavra simbólica para feminino), mas tem interiormente um equilíbrio solar, que permite que ela se relacione com o homem e seja plenamente humana. Um ser humano Homem apresenta exteriormente um predomínio do Sol (palavra simbólica para o masculino), mas tem interiormente um equilíbrio lunar, que permite que ele se relacione com as mulheres e seja plenamente humano. Alguns gregos antigos já tinham dito que somos plenamente 6
  • 7.
    humanos quando realizamosinteriormente um hierós-gámos, isto é, um casamento sagrado entre Sol e Lua que moram em nosso interior. O homem e a mulher não estão um ao lado ao outro, mas um diante do outro, numa oposição que não contradiz, mas afirma o outro. A oposição polar comporta uma reciprocidade que assume o outro, mas não o anula. São duas realidades que não se confundem, não derivam uma da outra, mas não podem ser pensadas isoladamente. Homem e mulher vivem a realidade inteira a partir de seu sexo. Como a Bíblia nos ensina, é nessa linha que podemos pensar em um relacionamento mais objetivo entre cada um de nós e Deus. 1.5. Mística Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapacidade de falar pelo silêncio, pela mística: quer designar realidades secretas da ordem religiosa e moral. Mística vem do grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de palavras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e de que têm um nexo entre eles mesmos, os humanos foram místicos. E o fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é re- lação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofundamento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser nada”. 1.6. A Trindade e o ser humano Assim como as perfeições invisíveis do Criador podem ser contem- pladas em suas obras, especialmente na grandeza e beleza de suas criaturas, 7
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    nosso ser homem-mulheré um especial reflexo da Trindade: do que ama (o Pai), do que é amado (o Filho) e do Amor (o Espírito Santo). O encontro afetivo entre o homem e a mulher carrega em si um convite para se descobrir e se dar progressivamente que inclui uma abertura para o transcendente, porque nos convida a ultrapassar a nós mesmos. Em toda relação amorosa em que há uma abertura para o mundo sobrenatural, eterno e infinito, há uma superação da relação como tal, no sentido de que a própria dinâmica da experiência leva a penetrar em uma forma suprema de comunhão interpessoal: a que acontece entre seres que se comunicam em Deus, a quem buscam juntos e amam juntos. Na Bíblia, Deus mesmo comparou o amor que tem por nós ao amor entre o homem e a mulher. A partir dessa realidade nossa e da revelação de Deus ao seu Povo, vamos olhar a realidade e viver o concreto de nossa vida na perspectiva da espiritualidade dos esponsais. Em Santa Clara, a dimensão trinitária foi posta como um fundamento desde que São Francisco, à sua entrada na Ordem, lhe propôs como “Forma de Vida”, incluída mais tarde por ela no coração da sua Forma de Vida, isto é, da sua Regra, aprovada por uma bula de Inocêncio IV em 1253. É uma proposta que pode ser entendida em sua plenitude quando consideramos outros dois escritos de São Francisco: a Antífona de Nossa Senhora que ele colocou no Ofício da Paixão, e o início da Carta aos Fiéis. Os textos são os seguintes: a). Forma de Vida “Desde quem por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do Santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,3-4). b). Antífona de Nossa Senhora “Santa Virgem Maria, não nasceu nenhuma semelhante a vós entre as mu- lheres neste mundo, filha e serva do altíssimo sumo Rei e Pai celeste, Mãe do nosso santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo: Rogai por nós com São Miguel Arcanjo e todas as virtudes dos céus e todos os santos junto a vosso santíssimo dileto Filho, Nosso Senhor e Mestre! Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre, Amém!” 8
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    c). Carta aosFiéis “Oh! como são bem-aventurados e benditos, eles e elas, enquanto fazem essas coisas e nelas perseveram, porque descansará sobre eles o espírito do Senhor (cf. Is 11,2) e neles fará sua casa e morada (cf. Jo 14,23), e são filhos do Pai celeste (cf. Mt 5,45), cujas obras fazem, e são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt. 12,50). Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus (Mt 12,50). Mães, quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6, 20), pelo amor divino e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo (cf. Mt 5,16). Oh! como é glorioso, santo e grande ter nos céus um Pai! Oh! como é santo ter tal esposo: paráclito, belo e admirável! Oh! como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e sobre todas as coisas desejável: Nosso Senhor Jesus Cristo!” (1CtFi 5-13). *** Não continue a ler este escrito sem ter a certeza que já assimilou os diversos princípios apresentados nesta Introdução. Volte a eles de vez em quando. Não perca de vista o seu ponto de partida. Nós queremos ser humanos: cada um de nós necessita no mais profundo do seu ser abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre. 1.7. Um cântico de Amor A espiritualidade de Clara parte da união com o Cristo Esposo numa intensa comunicação amorosa, que transbordou na forma de um cântico. Ela aprendeu e praticou esse relacionamento cantado com Francisco. Ela se encontrou com a linguagem amorosa nos místicos que lhe falaram do Cântico dos Cânticos. Através dos místicos ela foi encontrar o Cântico nos Santos Padres. Através dos Padres ela foi encontrar o Cântico na Bíblia. Através da Bíblia ela repassou os pactos de aliança como Povo, Vestiu-se de Sol, Coroou-se de estrelas, Apoiou-se na Lua, E clamou com o Espírito: Vem, Senhor Jesus! Vem! Fazendo-o nascer cada dia numa continua atualização da Encarnação. 9
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    A celebração daEncarnação é celebração da morte e da ressurreição. Encarnação, morte e ressurreição continuam porque nós continuamos. Vamos continuar até que todos os humanos estejamos reunidos para celebrar a ceia com o Cristo-Esposo na eternidade. Toda a vida de Clara foi um cântico de amor. Como vai ser a nossa para sempre. Um transbordamento da alegria de amar e de se saber amado. 10
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    2. Santa Clarae o Cristo Esposo Acreditamos que a principal contribuição de Clara para o Movimento Franciscano foi a maneira de ver Deus Esposo em Jesus Cristo e nos ensinar a vivê-lo na sua contemplação transformante. Queremos dar uma perspectiva para a leitura de alguns textos de suas Fontes: observando que, em tudo, Clara celebrou e nos ensinou a celebrar Deus Esposo em Jesus Cristo. Vamos considerar três perspectivas: 1). Santa Clara escreveu a Inês de Praga sobre o Cristo Esposo. 2). As Fontes históricas apresentam Clara como esposa de Cristo. 3). Clara celebrou o Cristo Esposo. 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga Inês de Praga foi a amiga com quem Clara partilhou a sua espirtualidade dos esponsais 1. Vamos apresentar apenas as citações em que Clara usa as palavras Esposo ou Esposa, deixando de lado as numerosas outras expressões com que ele se refere à união pessoal e conjugal com Jesus Cristo. Na Carta I, Clara chama Jesus uma vez de esposo, referindo-se a Inês: “...tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta” (1CtIn 7). Também chama Inês de esposa duas vezes: 1 Inês de Praga, ou da Boêmia, foi filha do rei Otocar I da Boêmia e da rainha Constância da Hungria. Nasceu em 1205 e morreu em 1282. Foi prometida como noiva a diversos príncipes, inclusive ao futuro Henrique VII, que seria imperador. Teve uma educação esmerada, em diversos mosteiros e cortes. Sempre se dedicou às obras de caridade e, depois que conheceu os frades menores, que chegaram à sua cidade em 1225, animada também pelo testemunho de sua prima Santa Isabel da Hungria, decidiu seguir o exemplo das Irmãs de São Damião. Construiu uma grande obra, em que havia um hospital, um mosteiro e uma igreja de São Francisco. Entrou para a Ordem em 1234, com grande repercussão em toda a cristandade. Mesmo sem nunca terem tido a oportunidade de se conhecerem pessoalmente, ela e Clara estabeleceram uma profunda amizade. Das muitas cartas que Clara deve ter escrito, sobraram apenas quatro, cujo tema é sempre Jesus Cristo: Jesus Cristo crucificado, Jesus Cristo pobre, Jesus Cristo esposo. A entrega a ele é feita em uma virgindade cada vez maior. 11
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    “Portanto, irmã caríssima,ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo...” (1CtIn 12). “Merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem (1CtIn 24). Da mesma maneira, na Carta II, Jesus é chamado de esposo duas vezes: A primeira: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz (2CtIn 20). E a segunda: “Adeus, irmã querida, senhora minha pelo Senhor que é seu esposo” (2CtIn 24). E também chama Inês de esposa de Jesus: “Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores, esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza” (2CtIn 1-2). Na Carta III, Jesus não é chamado de Esposo, mas Inês é lembrada como sua esposa: “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). Na Carta IV, Jesus é chamado uma vez de esposo, mas não se refere necessariamente a Inês: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 30). Mas Inês é chamada de esposa de Jesus cinco vezes: “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras...” (4CtIn 1). “Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a 12
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    minha alma ea sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam...” (4CtIn 4). “Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito” (4CtIn 7). “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 15). “Ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei” (4CtIn 17). Em resumo, esposo e esposa em relação a Jesus são palavras usadas treze vezes. Fora das Cartas, Clara não usa nem uma vez os termos esposo e esposa, ainda que deixe claro no Testamento e na Forma de Vida que Jesus é o seu Caminho e o Centro de sua vida. Mas ela usa diversas outras expressões equivalentes para falar do Cristo Esposo, como esta: “Você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 7). Na primeira Carta, ainda seria possível pensar que Clara tivesse aludido ao Cristo esposo simplesmente para fazer uma comparação entre o possível casamento de Inês com o Imperador da Alemanha e sua decisão de se fazer uma religiosa, unindo-se a Cristo. Mas a insistência nas outras cartas, especialmente na quarta, escrita dezenove anos mais tarde, mostra que falar de Jesus Esposo é transmitir à discípula Inês um fundamento da espiritualidade clariana. Bem longe do que pensam os que vêm nesses esponsais uma “sublimação” 2. Clara tem um sólido fundamento bíblico, patrístico e místico para se referir a esse ponto chave de sua espiritualidade. Vamos estudar esse fundamento em outros capítulos. 2.2. Clara Esposa de Cristo As FONTES CLARIANAS são ricas na apresentação de Santa Clara como Esposa de Cristo. Vamos selecionar algumas das principais citações. Logo de início, podemos ter a impressão de que foi São Francisco quem fez Clara pensar em ser esposa de Jesus, nos primeiros encontros que eles tiveram antes que ela entrasse na Ordem: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem” (LSC 5,5-6). 2 Cf. ROBERTO ZAVALONI, A personalidade de Santa Clara de Assis, p. 210. 13
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    Mas é possívelque a própria Clara tenha falado inicialmente sobre isso porque, quando ela e Francisco tiveram os primeiros encontros, os parentes já achavam que ela estava adiando o casamento e ninguém ignorava o particular amor que ela tinha por Jesus Cristo: “Quando os pais quiseram que ela se casasse com um homem, negou-se, desejando os esponsais com Cristo esposo, cujas agradáveis delícias já pudera provar...” (LgV 5 214). Em todo caso, São Francisco insistiu, porque – provavelmente logo depois que ela entrou na Ordem – apresentou-lhe uma “Forma de Vida” em que dizia que Clara e suas Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”, como ela recorda em sua Regra: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Esse texto adquire um valor todo especial comparado com a Antífona do Ofício da Paixão, em que Francisco saúda Nossa Senhora com expressões idênticas às da Forma de Vida, dizendo: “Santa Virgem Maria [...], filha e serva do altíssimo sumo Rei Pai celeste, mãe do santíssimo Senhor nosso Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo...” (OfP ant. 1-2). O próprio Papa Inocêncio IV, na bula Gloriosus Deus, em que mandou abrir o seu Processo de Canonização, mostra que Clara foi generosa e decidida na adesão a Cristo como Esposo: “Não perdeu tempo nem demorou a cumprir prontamente o que lhe deleitava ouvir, mas imediatamente, abnegando a si mesma, a seus parentes e a todas as suas coisas, feita já uma adolescente do reino celestial, elegeu e chamou seu Esposo Jesus Cristo pobre, Rei dos reis, e devotando-se a Ele totalmente, com a mente e o corpo em espírito de humildade, prometeu-lhe especialmente estas duas coisas boas como dote: o dom da pobreza e o voto da castidade virginal” (ProcC Bula, 3). O papa usa uma chave bíblica tomada do Salmo 44, um salmo nupcial, para explicar a atitude de entrega total e exclusiva: a filiação familiar, a pertença a um povo..., isto é, o que constitui uma pessoa por dentro e por fora, fica em suspenso diante do chamado de Deus que convoca: “Ouve, filha, e vê e inclina teu ouvido, esquece teu povo e tua casa de teu pai, porque o Rei desejou tua beleza” (ProcC Bula 2). 14
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    E também comentaque ela ouviu de verdade e consagrou sua vida a viver esses esponsais: “E assim a virgem pudica uniu-se aos desejados abraços do esposo virgem...” (ProcC Bula 4). Ela deu o passo decisivo na igrejinha da Porciúncula, sob o olhar da Mãe de Jesus: “Depois que a humilde serva recebeu as insígnias da santa penitência junto ao altar da bem-aventurada Maria, como se desposasse Cristo junto ao leito da Virgem...” (LSC 8). Pelas Fontes, esse fato foi apenas uma iniciação, aceita e completada com solenidade pela própria Virgem Maria, muitos anos depois, quando Clara estava no final de sua carreira: “...Viu entrar uma porção de virgens vestidas de branco, todas com grinaldas de ouro na cabeça. Entre elas, caminhava uma mais preclara que as outras... que mudava a própria noite em dia luminoso dentro de casa. Ela foi até a cama em que estava a esposa de seu Filho e, inclinando-se com todo amor sobre ela, deu-lhe o mais terno abraço. As virgens trouxeram um pálio de maravilhosa beleza e, estendendo-o, deixaram o corpo de Clara coberto e o tálamo adornado” (LSC 46). O biógrafo mostraria que ela fez dessa união com o Cristo-Esposo o fundamento da vida contemplativa que viveu até o fim com suas Irmãs: “Assim, unida imutavelmente a seu nobre Esposo no mundo mutável, deliciava-se continuamente nas coisas do alto. Firme em virtude estável no rodar versátil, guardando o tesouro da glória em vaso de barro, tinha o corpo na terra e a alma nas alturas” (LSC 20). Sobre isso mesmo, o autor de sua Legenda diria: “A virgem Clara fe- chou-se no cárcere desse lugar apertado por amor ao Esposo celeste” (LSC 10). Nesse “cárcere” ela teve oportunidade de se entregar totalmente ao amor do Esposo: “Muitas vezes, prostrada em oração com o rosto em terra, regava o chão com lágrimas e o acariciava com beijos: parecia ter sempre o seu Jesus entre as mãos, derramando aquelas lágrimas em seus pés, a que beijava” (LSC 19). Comentando que São Francisco a animara aos esponsais com Cristo, Celano fala de sua generosidade e de seu espírito decidido, que fariam dela uma mestra de espiritualidade: “Ouvindo o pai santíssimo, que procedia habilmente como o mais fiel pa- drinho, a jovem não retardou seu consentimento. Abriu-se-lhe então a visão dos gozos celestes, diante dos quais o próprio mundo é desprezível. Seu 15
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    desejo derreteu-a pordentro, seu amor fez com que ansiasse pelos esponsais eternos” (LSC 6). Logo depois de sua morte, durante o velório na igreja de São Damião, algum secretário da Cúria Romana observou em uma carta escrita a todos os mosteiros das Damianitas: “Quando dona Clara, guia, mãe venerável e mestra chamada pelo mensageiro que desagrega a união da carne, voou para o tálamo do Esposo celestial” (CcNm). E ela fez escola, tanto que, pouco depois da canonização de São Francisco, em 1228, quando a Santa ainda tinha 25 anos de vida pela frente, o biógrafo Tomás de Celano enumerou diversas qualidades das Irmãs de Clara, destacando, entre outras, com a maior admiração: “Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lembrança da vida passada...” (1Cel 19). Sobre a admiração das Irmãs pelo exemplo de Clara como esposa de Cristo, escreveu: “Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, respeitavam na mestra o cargo de governo, acompanhavam o procedimento correto da formadora e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade tão completa” (LSC 38). Ela valorizava sua vocação e queria que outras a partilhassem. Tanto que desejou esse mesmo dom para a irmã querida que ficara em casa: “Pedia insistentemente ao Pai da misericórdia que o mundo perdesse o gosto e que Deus fosse doce para Inês, a irmã deixada em casa, mudando-a da perspectiva de um casamento humano para a união de seu amor, desposando com ela, em virgindade perpétua, o Esposo da glória” (LSC 24). “Que casamento solene, que virgindade prolífica, pois, limpa de todo contato carnal, veio a ter tão abundante e numerosa descendência! Admirável fecundidade de um germe que, sem conhecer corrupção, propagou uma prole in-contável, contando com o sopro da inspiração divina!” (CcNm). O autor da Legenda Versificada de Santa Clara sublinha esses esponsais com Cristo em muitas passagens. Destaco duas em que compara Clara à esposa do Cântico dos Cânticos 2,5: 16
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    ...suspensa pelo prazerda mente e sentindo-se doce por seus favos, enlanguescia por seu amor (LgV 5,219). ...pede para ser sustentada com maçãs, apoiada em flores, dizendo qual a causa: “porque morro de amor” (LgV 8,367). Esse autor demonstra não ter entendido o espírito de Clara, mas observa: “Esta comandante sagrada mostrava às senhoras de estirpe real como desprezar os enganos da carne petulante e as delícias do mundo, a não querer maridos que iam morrer, mas, a seu exemplo, desposar o Esposo celestial” (LgV 10, 345). O fato é que ela partilhou os esponsais por ela vividos de uma forma profunda, bonita, cheia de unção, com sua Irmã Inês de Praga. 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo Etimologicamente, celebrar é voltar com freqüência a um lugar onde se descobriu que pode haver algo interessante e proveitoso. Para dar um exemplo, as pessoas célebres são as que aparecem com freqüência nos meios de comunicação. Nós celebramos mistérios. Mistério é uma realidade que se descobriu ser muito importante, que não se conhece toda, que pode ser inesgotável. Ao contrário do que muita gente parece pensar, mistério não é uma realidade proibida, não é uma afirmação que não se pode tirar a limpo nem uma verdade que não dá para compreender. É uma fonte inesgotável de onde podemos tirar água indefinidamente, e dela viver sem receio de que venha a faltar. Santa Clara celebrou o mistério do Cristo Esposo em sua vida, com suas Irmãs, no Santuário de São Damião e nas raízes do movimento franciscano. Ela foi penetrando cada vez mais dentro da revelação do Filho de Deus feito homem, do Deus-Esposo da Bíblia nele revelado, e foi tirando desse conhecimento uma riqueza infinita para viver cada vez melhor, para ela mesma, para as pessoas próximas, para a construção da humanidade. Para dar um exemplo, pelo que ela escreveu e viveu poderíamos pensar que tinha um imenso amor ao seu voto de pobreza. Mas, quando o papa Gregório IX disse que poderia dispensá-la do voto, ela respondeu que não queria ser dispensada de seguir “o meu Senhor Jesus Cristo”. A pobreza era para ela, uma característica do Cristo Esposo, como ela chegou a cantar na primeira Carta a Inês de Praga. Foi a comunicação de que era uma celebrante do mistério de Cristo Esposo que ela quis partilhar com sua amiga Inês quando lhe escreveu cartas tão ricas de conteúdo. De fato, analisando e refletindo sobre cada 17
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    frase dessas cartas,descobrimos como ela voltou incessantemente ao descobrimento do Cristo Esposo na Bíblia, nos Santos Padres da Igreja, nos místicos do seu tempo. E como sempre tirou desse conhecimento decisões muito concretas para caminhar com alegria e proveito no caminho que tinha escolhido. Oitocentos anos depois, ainda podemos nos maravilhar com o que ela descobriu, festejou, partilhou e serve ainda hoje para que nossos horizontes sejam mais abertos e nossa vida mais rica de sentido e de felicidade. A leitura das Cartas a Inês de Praga demonstra que Clara teria sido incapaz de escrever reflexões tão profundas e apaixonadas sobre Jesus Cristo se não as tivesse vivido ela mesma intensamente. Os textos são numerosos. Indico um dos mais interessantes, que, aliás, só pode ser plenamente entendido por quem puder apreciá-lo em latim: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória (Hb 1,3) eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (Sb 7,26)” (4CtIn 9-14). Chamo a atenção para o fato de que o texto acima foi feito com o ritmo de um cântico. Clara transborda de felicidade por ter descoberto o Cristo Esposo e por festejar essa felicidade com uma Irmã que tinha feito a mesma descoberta. Podemos dizer que toda a sua vida foi um cântico de celebração. Nesta reflexão, queremos mostrar como os contemporâneos reconhe- ceram em Clara o brilho do Esposo e como ela celebrou com Inês de Praga o que sempre estivera descobrindo “em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus pés nem recolhiam a poeira, confiante e alegre, avançando com cuidado pelo caminho da felicidade” (cf. 2CtIn 12-13), e “abraçando o Cristo pobre como uma virgem pobre” (cf. 2CtIn 18), isto é, cultivando o vazio interior para que o Cristo kenótico, esvaziado (cf. Fl 2,5-8), tivesse em sua interioridade um espaço cada vez maior. Faço uma proposta aos leitores e leitoras. Não leiam este capítulo como uma simples coleção de dados sobre Santa Clara. Procurem considerar co- mo cada uma das citações e considerações poderiam ter repercussões em 18
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    vocês mesmos, ajudando-osa crescer no seu relacionamento pessoal com Deus na pessoa de Jesus Cristo. Proponho algumas reflexões: 1). Essa linguagem de esponsais, esposo e esposa, provoca alguma reação positiva em você? Você seria capaz de anotá-la em um papel, mesmo que seja só para o seu uso particular? 2). É possível – para você – um relacionamento pessoal com a pessoa de Jesus Cristo? Se sim, como está crescendo esse relacionamento? Se não, você acha que isso não faz falta? Ou está buscando? 3). O seu relacionamento com Deus desperta alegria? Provoca alguma vontade de cantar? 19
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    3. Francisco, figurado Esposo Clara e Francisco não foram companheiros de um modo superficial: fizeram da amizade um lugar de mútua ajuda para encontrar sua vocação única e crescer nela com apaixonada e apaixonante fidelidade. Corres- ponderam a partir do afeto a um desígnio maior do que eles mesmos. Descobriram que eram “amigos” enquanto estavam buscando Deus, e essa busca marcou profundamente sua relação. É uma “amizade por causa de Deus Esposo”, perfeitamente iluminada a partir do sentido esponsal com o que o Evangelho de São João fala do Batista: ser o “amigo do Esposo”. 3.1. Francisco, o amigo do Esposo “Amigos do esposo”, na cultura da Terra Santa, eram os companheiros do noivo na celebração do casamento. O principal deles era quem organizava tudo. João Batista preparou a entrada de Jesus no anúncio do Reino e Francisco preparou Clara para ir ao encontro do Senhor. Na Legenda de Santa Clara Virgem lemos o seguinte: “O pai Francisco exortava-a a desprezar o mundo, mostrando com vivas expressões que a esperança do século é seca e sua aparência enganadora. Instilou em seu ouvido o doce esponsal com Cristo, persuadindo-a a reservar a jóia da pureza virginal para o bem-aventurado Esposo a quem o amor fez homem... Ouvindo o pai santíssimo, que agia habilmente como o mais fiel padrinho, a jovem não retardou seu consentimento... Então, submeteu-se toda ao conselho de Francisco, tomando-o como condutor de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua alma ficou pendente de suas santas exortações, e acolhia num coração caloroso tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus (Cf. LSC 5-6, passim)”. A expressão “padrinho”, no texto das Fontes Clarianas está traduzindo a palavra “paraninfo”, do latim original. Essa palavra vinha do grego e significava justamente aquele que ia ao lado (pará) do noivo (nynphos) nos esponsais. Clara já deveria ter pensado antes na união com Cristo, porque sempre rejeitara a insistência da família para que se casasse. Mas foi o ardor da união com Deus vivida com Francisco que a levou a São Damião e, prin- cipalmente através dos cistercienses apresentados pelo cardeal Hugolino, a conhecer São Bernardo e os outros místicos medievais, a aprofundar de 20
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    maneira única oconhecimento e o amor do Esposo encontrado com a ajuda dos Santos Padres no Novo e no Antigo Testamento. Mais adiante, voltaremos a considerar essas raízes profundas da espiri- tualidade esponsal de Clara. Agora, queremos mostrar como ela reconheceu que Francisco a introduziu nesse caminho, que, com ele, ela viveu a es- ponsalidade divina a partir de uma esponsalidade humana. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus. Clara foi explícita ao dizer como Francisco supôs uma ajuda extra- ordinária, uma mediação única não só para encontrar a vocação, mas também para crescer nela: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia, e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestCl 9-14). Clara atribuiu esse papel mediador a Francisco, que profetizou sobre as Irmãs quando estava restaurando São Damião. Era a voz de Deus, que ela ouviu e haveria de seguir para sempre: “Nisso podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição, através do seu santo. E o nosso bem- aventurado pai Francisco não profetizou isso só a nosso respeito, mas também sobre as outras que haveriam de vir, na santa vocação em que Deus nos chamou” (TestCl 15-17). E também: “... [o bem-aventurado pai,] movido de piedade, escreveu-nos uma forma de vida deste modo: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,2-5). Clara terá o maior cuidado de inserir em sua Regra esses dois ele- mentos: a pobreza e o vínculo espiritual e jurisdicional com a Ordem dos Frades Menores. Há, nesse texto, uma teologia mariana e nupcial em que se ressalta o mistério da Encarnação, ponto alto da revelação de Deus e possibilidade para chegar a ser amigos do Esposo: “para Francisco Clara é filha e serva do Altíssimo Pai celeste e esposa do Espírito Santo, para encarnar Cristo 21
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    seguindo o Evangelho(RgCl VI,3): como Maria, a “virgem feita Igreja” (SVM). Por este paralelismo com Maria, Clara é para Francisco “esposa do Espírito Santo”. Entretanto, para mostrar melhor como Clara reconheceu em Francisco o seu “paraninfo” nos esponsais divinos, vou apresentar mais passagens do seu Testamento. “O Filho de Deus fez-se por nós o Caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo, ele que o amou e o seguiu de verdade”. ...“Por isso, queridas Irmãs, devemos considerar os imensos benefícios que Deus nos concedeu, mas, entre outros, aqueles que Ele se dignou realizar em nós por seu dileto servo, nosso pai São Francisco”... (TestCl 5) “Depois que o Altíssimo Pai, por sua misericórdia e graça, se dignou iluminar meu coração para fazer penitência, segundo o exemplo e o ensino de nosso bem-aventurado pai Francisco com algumas Irmãs que Deus me dera... eu lhe prometi obediência voluntariamente” (TestCl 6-7). “E assim, por vontade de Deus e do nosso bem-aventurado pai Francisco, fomos morar junto da igreja de São Damião... Depois escreveu para nós uma forma de vida, principalmente para que perseverássemos sempre na santa pobreza. E não se contentou em exortar-nos durante a sua vida com muitos sermões e exemplos ao amor e observância da santa pobreza, mas nos deu muitos escritos, para que depois de sua morte não nos desviássemos dela de modo algum, como o Filho de Deus, enquanto viveu neste mundo, não quis jamais afastar-se da santa pobreza... (TestC 30-36 passim)”. Para captarmos o alcance dessas palavras é preciso lembrar que “a santa Pobreza” é o próprio Senhor Jesus Cristo, “que se fez para nós caminho”. Quando escreveu a Forma de Vida, Francisco plantou a sua muda (plantinha) no jardim do Senhor e lembrou que as Irmãs tinham “desposado o Espírito Santo”, palavras que só podem ser entendidas à luz do que o Poverello escreveu na Carta aos Fiéis: Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo (1CtFi 8). 3.2. Eles viveram uma profunda amizade Ficamos sabendo, ultimamente, que não dá mais para entender São Francisco sem conhecer Santa Clara, como não dá para conhecer melhor Santa Clara sem conhecer São Francisco. E isso é verdade porque os dois 22
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    se encontraram emCristo Esposo. É esclarecedor reler o que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis, 1983, dirigindo-se às Clarissas: “É realmente difícil separar estes dois nomes: Francisco e Clara... O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Mas também é uma realidade desta terra... Não se trata só do espírito; nem são nem eram espíritos puros; eram corpos, pessoas, espíritos... Na tradição viva da Igreja, do cristianismo inteiro, não ficou apenas a lenda. Ficou o modo como São Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo; ele via a si mesmo na imagem dela, imagem de Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa mais que perfeita do Espírito Santo, Maria Santíssima... São Francisco descobriu Deus uma vez, mas depois voltou a descobri-lo com Clara ao seu lado” (Ver em Fontes Clarianas, págs. 397-398). Essas palavras são muito oportunas. Colocam nos seus devidos termos a impressão despertada no povo mais simples pelo imenso amor observado entre Francisco e Clara. Romances e filmes modernos, bem como lendas populares antigas apresentam os dois como namorados. Devemos dizer que por diversas razões, eles não foram namorados, ain- da que uma situação dessas não tivesse prejudicado em nada a sua san- tidade. Ainda que suas casas em Assis fossem bem próximas, Clara era nobre e Francisco rico, mas plebeu. Ela teve que sair da cidade em 1198, quando não tinha mais do que quatro anos e Francisco já completara dezesseis. Quando ela voltou, Francisco já estava totalmente dedicado a sua vida consagrada havia diversos anos. João Paulo II disse que tanto Francisco como Clara foram “esposos” de Jesus Cristo e, com isso, nos abriu para uma interessante reflexão sobre a amizade espiritual. 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? Lemos na Bíblia: “Quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro” (Cf. Eclo 6,14), pois só é possível encontrar “um entre mil” (Cf. Eclo 6,6). Os sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro “Ética a Nicômaco”, e 23
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    Cícero deixou umaobra prima no seu “Lélio”, ou “Diálogo sobre a amizade”. Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino. Dentro da Igreja, o grande mestre em amizade foi Santo Aelred de Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, não muito anterior a Santa Clara e a São Francisco. Ele escreveu três livros sobre o assunto, onde ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a própria essência do mundo que há de vir. De fato, se é verdade que “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16), todo verdadeiro amor mostra que Deus está presente. Como Deus é Amor, quando Jesus diz que seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é leve está falando do amor fraterno. Aelred achava que o Amor é não somente a nossa vocação mas também o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós a imagem de Deus. Seus livros são carregados de excelentes indicações e advertências, com as quais vai ensinando como descobrir e cultivar a verdadeira amizade. Ele lembrou que Cícero, um filósofo, orador e político pagão que viveu antes de Cristo ensinou que a amizade era “uma comunhão entre duas ou mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas humanas”. Para ele a caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer acolher, e benevolência queria dizer dar-se, entregar-se. E advertiu que não existe amizade entre pessoas más ou que se unem para fazer o mal. Aelred chega ao ponto alto quando mostra que a amizade espiritual sempre envolve os dois amigos e a pessoa de Jesus Cristo, porque cada um descobre a imagem de Deus no outro e na imagem de Deus conhece e ama melhor o seu amigo. É aí que encontramos o fundamento do que foi dito pelo papa João Paulo II em Assis. É bom reler. É nisso, também, que podemos entender todas as carinhosas recordações de Clara sobre seu amigo Francisco no seu Testamento espiritual. 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus Com Clara abre-se uma perspectiva: sua relação humana, espiritual e carismática com Francisco. É a mediação particular de alguém que se fez eco de outra Voz e transparência de outro Rosto. Vamos apresentar a 24
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    amizade entre Clarae Francisco como fruto do esforço dos dois, mas também como um dom, um carisma, dado em benefício deles mesmos e da Igreja. Sem essa amizade, o carisma não teria acontecido. Por isso, temos que falar de uma complementaridade carismática e ao mesmo tempo de um carisma complementar: Clara e Francisco foram unidos em uma comunhão que não os bloqueou nem aprisionou, mas que os sustentou e abriu para acolher a luz do mundo invisível; cada um foi para o outro o dom do companheiro, que Deus às vezes concede na vida espiritual, em que encontraram a luz que nos lembra de onde viemos, onde está nossa vida, e qual é o nosso último destino. Eles foram companheiros porque quando se encontraram descobriram que estavam na mesma busca: queriam ver Deus. E Deus já estava começando a se revelar para eles na figura de Jesus. Foi assim que eles foram vendo pouco a pouco o Filho Primogênito no rosto um do outro e puderam abrir a estrada larga por onde estão caminhando tantas pessoas há oito séculos. Eles só podiam ser amigos porque no mesmo Cristo descobriram que eram filhos do mesmo Pai. Era a abertura para o amor da eternidade, em que Deus vai ser tudo em todos. A experiência esponsal com Deus pode parecer incompatível com uma amizade entre um homem e uma mulher que se dedicaram a pertencer só ao Altíssimo e não podem possuir ninguém. Será que uma pessoa que se esvaziou interiormente para se encher de Deus ainda permanece huma- namente incompleta e precisa encontrar um parceiro para se complementar? No meio religioso, muitas vezes se acreditou que é incompatível a amizade entre pessoas chamadas a pertencer afetivamente ao Senhor com um coração indiviso. Muitos vêem a amizade como uma espécie de “conso- lação” nas carências afetivas tantas vezes manifestadas em ambientes religiosos: descontentamento habitual, crítica sistemática, espírito de contradição, amargura constante, autoritarismo, sensibilidade de mais ou de menos, inveja, descontrole da sexualidade, etc. Francisco e Clara mostra- ram que pertencemos a Deus “acima” de todos esses problemas, não “contra” eles. Clara e Francisco de Assis, partilhando o tesouro escondido de suas vidas – o arrebatamento de sua mesma busca insaciável –, foram para nós uma parábola viva, expressa numa amizade profunda de verdadeiro amor, onde se juntam o Amor, a amizade humana e a santidade divina. Eles mostraram que nós, os seres humanos, podemos nos amar de uma maneira 25
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    muito semelhante àda Trindade, em que cada Pessoa dá tudo, recebe tudo e, no nosso caso, transforma-se no infinito. Cada um deles fez que o outro acreditasse nesse caminho. Há um tipo de amizade que cresce com a experiência vocacional da pertença a Deus. O celibato não se opõe ao amor exclusivo a Deus em contraposição a toda vinculação afetiva: só se opõe à divisão do coração e ao amor de casal... Por que não seria possível ter um amigo ou uma amiga, a quem dar a vida se necessário? Deus, longe de ser rival de alguém, possibilita tudo. Basta que esse amigo/a não roube um átomo de meu coração, que pertence totalmente ao Senhor. Fomos criados por um Deus que é comunhão de Pessoas, e por isso nos compreendemos em comunhão recíproca de amor. Quando Deus se revelou não soube dizê-lo de outro modo e, contando-nos o que está por dentro dele, descreveu o que está por dentro de nós, que é outro modo de dizer que somos imagem e semelhança dele. A tal ponto chega a proximidade com Deus que Ele escolheu a experiência humana, especialmente a relacionada com o mundo do amor para nos revelar também o seu segredo essencial. Clara e Francisco receberam o dom de fazer de sua história de amizade um lugar para entrar na história de Deus. Essa aventura humana e divina é o espelho do Deus em quem eles acreditaram, a partir do qual se amaram e no qual descansam eternamente unidos. Já que o Deus de Jesus Cristo é relação, Ele foi se revelando a nós como lar acolhedor, como comunidade e família, como comunhão de Pessoas, como Trindade. Essa marca trinitária ficou impressa no coração da criação, que é a obra de Deus Pai que cria pelo Filho no Espírito, de maneira que a profundidade de todas as coisas “sofre” de saudades do amor trinitário. 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. Clara sabia muito bem que a vocação para a união com o Cristo Esposo, descoberto com Francisco, precisava ser preservada para o futuro, porque era um carisma a ser partilhado com as Irmãs e Irmãos que Deus continuaria a chamar. Ela teve a oportunidade de presenciar os grandes problemas e agitações que sacudiram a Ordem dos frades depois da morte de Francisco. E escreveu em seu Testamento: 26
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    “Eu, Clara, servade Cristo e das Irmãs Pobres do mosteiro de São Damião, embora indigna, e verdadeira plantinha do santo pai, considerando com as minhas outras Irmãs a nossa tão alta profissão e o mandamento de tão grande pai, como também a fragilidade de outras, que temíamos em nós mesmas depois do falecimento do nosso pai São Francisco, que era a nossa coluna e única consolação depois de Deus e o nosso apoio, repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária a nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela” (TestC 37-39). Esse Testamento foi escrito provavelmente antes de 1250, numa ocasião e que ela se sentiu à morte e antes de o Papa Inocêncio abrir uma brecha que a animou a escrever a sua Regra, ou “Forma de Vida”. Como o Senhor lhe concedeu mais alguns anos de vida, conseguiu em 1252 e 1253 a aprovação dessa original Regra, a primeira escrita por uma mulher e para mulheres. No Testamento colocou toda a força do seu ardor por Francisco, a figura do Esposo. Na Regra, ela incluiu bem no cerne dois textos fundamentais que Francisco lhe dera: A “Forma de Vida”, que já vimos acima: “Desde que, por inspiração divina, vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim e por meus Frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RgCl 6,3-4). E a sua “Última Vontade”: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir a vida e a pobreza do Altíssimo Senhor nosso Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e nela perseverar até o fim. Rogo-vos, senhoras minhas, e vos aconselho a que vivais sempre nessa santíssima vida e pobreza. Guardai-vos bastante de vos afastardes dela de maneira alguma pelo ensinamento de quem quer que seja” (RSC 6, 7-9). E teve um cuidado materno por suas Irmãs presentes e futuras: “Com que solicitude, então, com que zelo da mente e do corpo devemos observar o que foi mandado por Deus e por nosso pai, para restituir o talento multiplicado, com a colaboração do Senhor! Pois o próprio Senhor colocou- nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros, estamos bem obrigadas a 27
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    bendizer e louvara Deus, dando força ainda maior umas às outras para fazer o bem no Senhor” (TestC 18-22). Mas também pelos companheiros de Francisco, que acorriam constan- temente a ela e, por ocasião de sua morte, estavam até mesmo ao redor de sua cama, como podemos ler em um trecho admirável da Legenda de Santa Clara Virgem: “Mas quando o Senhor agiu mais de perto e já parecia às portas, quis ser assistida por sacerdotes e frades espirituais, para recitarem a paixão do Senhor e suas santas palavras. Aparecendo com eles Frei Junípero, egrégio menestrel do Senhor, que costumava soltar ditos ardentes de Deus, cheia de renovada alegria, ela perguntou se tinha algo novo sobre o Senhor. Ele abriu a boca, deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração, e a virgem de Deus ficou muito consolada com suas parábolas... Quem pode contar o resto sem chorar? Aí estão dois benditos companheiros de São Francisco: um, Ângelo, mesmo triste, consola os tristes; outro, Leão, beija a cama da moribunda... (LSC 45). Na mesma ocasião, conta a Legenda que – confirmando o papel de Francisco como “amigo do esposo” – ela deu uma resposta muito signi- ficativa a um frade que quis consolá-la em seu sofrimento: “Exortada pelo bondoso Frei Reinaldo a ser paciente no longo martírio de todas essas doenças, respondeu com voz mais solta: “Irmão querido, desde que conheci a graça de meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nunca mais pena alguma me foi molesta, nenhuma penitência foi pesada, doença alguma foi dura” (LSC 44). Por isso, ela não se esqueceu dos “filhos” em sua bênção, e a sua Legenda lembra que ela suscitou vocações até entre os rapazes (Cf. LSC 10)”. 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram São Francisco dividiu sua Carta aos Fiéis em duas partes: “Os que fazem penitência” e “Os que não fazem penitência”. Mas é interessante observar que ele não está falando de nossas “penitências” como as entendemos hoje. Ele vai ao cerne da palavra latina “paenitentia”, que dá o sentido de sentir-se em falta, sentir falta. Na sua carta, os que fazem penitência são os que sentem falta de Deus e o buscam, os que não fazem penitência são aqueles que nem se dão conta da falta de Deus e não o buscam. De fato, foi só quando a fonética latina passou a dar tanto aos 28
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    ditongos ae comooe a leitura de um e que começou a se fazer uma confusão com a palavra “poenitentia”, que vinha do grego poiné e tinha o significado de “agüentar a pena” 3. Clara e Francisco foram penitentes porque nunca se saciaram na sua busca de Deus. Como bons filhos do século XIII, eles estavam na busca do Santo Graal, o tesouro da interioridade que daria toda a salvação ao mundo. Os dois tiveram que abandonar sua terra e caminhar, livres de tudo, para o que Deus queria mostrar-lhes. Sua segurança era estar nas mãos dele. Eles precisavam do Esposo. Na vida de Francisco há um momento inicial, marcado por um saber humilde e obscuro: já sabia o que não queria, mas não tinha idéia do que desejava. Até então era ele quem decidia o que fazer, de acordo com suas pretensões e expectativas pessoais. A novidade decisiva que marca um momento forte em uma biografia humana é esta ruptura de nível que arranca a pessoa de seus esconderijos e enganos, para levá-la a uma vida em transparência e verdade. Se Francisco não tivesse tido paciência com tudo o que não estava resolvido em seu coração, teria enganado a si mesmo e se convenceria de que suas perguntas essenciais tinham resposta no prestígio e no poder, no dinheiro e na fama, e jamais teria chegado a descobrir Deus como seu Tudo. Segundo a Legenda dos Três Companheiros, Deus lhe disse: “Francisco, se quiseres conhecer a minha vontade, deverás desprezar e odiar tudo o que carnalmente amaste e desejaste possuir. Depois que começares a fazer isso, as coisas que antes te pareciam suaves e doces serão para ti insuportáveis e amargas, mas das que te causavam horror poderás haurir uma grande doçura e uma suavidade imensa”. Ele diria no fim da vida: “...O que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo” (Test 3). A saída para uma nova terra aconteceu quando ele ouviu o Evangelho da missão na Porciúncula: “... Na mesma hora, pulando de alegria, cheio do Espírito do Senhor, exclamou: “É isso que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que no fundo de meu coração quero pôr em prática” (1Cel 22). Só faltava desenvolver com discernimento eclesial o que tinha descoberto, uma nova forma de vida na qual se haviam unificado o que Deus queria e o 3 Cf. R. Herrera e outros, Los Escritos de San Francisco de Asís, Murcia 1985, pág. 586. 29
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    que ele desejava:viver sua vida e seu destino a partir da vontade do Outro. E isso que fosse ele mesmo pela primeira vez. Com Clara, não foi muito diferente. Será que ela, quando fugiu de casa no domingo de Ramos, também sabia só o que não queria, mas desconhecia o que o Senhor desejava dela? Era a atitude típica do crente que se deixa levar pelo Outro, sem negociar nem combinar nenhum planejamento. ES- tamos no mesmo impasse que já tinha acontecido com Francisco: aban- donar a terra velha, mas ignorar onde e quando poderia pôr os pés na terra nova, a prometida? Ela só conseguiu escrever sua Regra quarenta anos depois. Houve um processo de busca, de êxodos, até ver sancionada a Regra como “verda- deira e autêntica vida cristã”. Não foi simples receber o carisma de uma forma de vida que era uma notável novidade. Ela não se uniria ao monacato tradicional nem ao monacato renovado do movimento cisterciense, tão influente na sua espiritualidade pessoal, e também não se uniria a nenhum dos grupos leigos femininos – como o das beguinas ou outras semelhantes que havia na Itália. E nem às mulheres reclusas que estavam no vale de Espoleto e em Santo Ângelo de Panço. Ela teria que reunir um projeto contemplativo e semelhante ao monás- tico com um estilo de vida franciscano, sem que isso a levasse a um Ca- minho apostólico como o das beguinas. Recebeu uma forma de vida contemplativa e claustral, fraterna e eclesial, pobre, menor... e em sintonia com as opções evangélicas de Francisco: essa era toda a novidade de seu carisma pessoal. Esse carisma não tinha sido acolhido por nenhum dos possíveis caminhos existentes naquele momento: era dado por Deus com a vida de Clara. Agora era preciso reconhecê-lo, abraçá-lo e desenvolve-lo vivendo-o. Clara sabia que seria acompanhada por Francisco, que provocaria sua vocação de desposar Jesus Cristo. Esse foi o ponto de partida desses es- peciais amigos: uma busca de tudo que Deus queria em suas existências. Nesse momento, Francisco é mediação para Clara. Mas eles continuariam a buscar o Rosto desse Esposo divino e, então, Clara seria mediação para Francisco. Clara e Francisco não se detiveram no ponto de partida. Tinham que chegar à terra nova, deixando que Deus fosse completando e aperfeiçoando o que Ele mesmo começara. Há uma atitude de permanente busca, que define o verdadeiro peregrino, quando descobre que a terra anelada no fim de todos nossos passos é só Deus, como se reflete na experiência de 30
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    Moisés: também nelese verificou essa nota de “irrealização” no esforço por chegar a essa terra nunca alcançada, pela qual houve um dia em que se começou a caminhar. Francisco escreveu na Carta a toda a Ordem: “Dai a nós, míseros, fazer, por Vós mesmo o que sabemos que Vós quereis, e sempre querer o que vos apraz” (CtOr 50). É óbvio que isso só é possível quando se assumiu uma postura pobre e menor de querer viver a partir do Outro. Clara e Francisco se ajudaram para encontrar a concreta vontade de Deus... O vínculo entre Clara e Francisco está no fato de ela e suas Irmãs terem escolhido Deus. Este é o valor do “quia” (porque) latino com o que começa a forma vivendi, uma partícula causal que determina todo o resto do escrito. Então, o discurso de Francisco em que se manifesta a entrega firme e delicada a Clara e às Irmãs em seu nome e no dos Irmãos, é a conseqüência de uma entrega prévia de Clara a Deus, feita por inspiração divina. Esses são os termos em que Clara fixa a memória de Francisco, a finalidade dessa lembrança e a mútua fidelidade que dedicaram um ao outro. Entre o Espírito que inspira e Clara que com Ele se desposa, há um nexo fundamental: a mediação de Francisco. Ela faz uma memória da pessoa de Francisco como quem reconhece e agradece nele os benefícios de Deus. Especialmente o Testamento de Clara é uma homenagem ao mediador de Deus em sua vida: Francisco. Clara também exerceu esse papel mediador quando seu Irmão teve que discernir se Deus o queria como contemplativo itinerante ou estável, isto é, na vida apostólica ou na vida retirada. Ela foi, para Francisco e para os primeiros frades, um discernimento em ato, uma parábola viva do que significa buscar e permanecer abraçados à vontade de Deus. E nesse itinerário de mútua ajuda, de amizade no Espírito, Francisco para Clara e Clara para Francisco serão mediação recíproca. Se for certo que Clara era como um “reflexo” de Francisco, e nele “se via toda como em um espelho” 4, não há dúvida de que, na comunhão do mesmo Espírito, a luz da pureza e da pobreza de Clara iluminou o rosto do Poverello, assim como sua recordação e a certeza de sua oração o animaram em momentos de dificuldade e de prova. Por isso, Clara está 4 Cf. ProcC 3,29; 4,16; 6,13; 7,10. 31
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    indissoluvelmente unida aFrancisco e a mensagem evangélica dos dois é complementar. Eram amigos no mesmo Cristo-Esposo. “O caminho franciscano – diz Chiara Augusta Lainati – tem duas di- mensões: a contemplativa, como abertura à Palavra, e a ativa, como testemunho dela. São as duas dimensões do amor, que é, por sua vez, sempre contemplativo e sempre ativo, quando é amor; porque enquanto trabalha, pensa no repouso com o Amado; e quando repousa com ele, sonha em realizar grandes empresas para testemunhá-lo por toda parte” 5. 3.4. Os Cânticos de São Francisco No começo de 1225, São Francisco esteve um bom tempo em São Da- mião, morando em uma cabana junto dos frades, mas ao lado do mosteiro de Santa Clara. Foi nessa oportunidade que ele compôs o conhecido Cântico de Frei Sol e também o menos conhecido cântico Ouví, pó- brezinhas, que dedicou a Clara e as suas Irmãs. Neste último, ele recorda às Irmãs que, um dia, serão “coroadas no céu como a Virgem Maria”. Mas vou chamar a atenção para alguns aspectos notáveis do Cântico do Frei Sol na perspectiva de Francisco que celebra Jesus Cristo com Clara: Em primeiro lugar, observo que o Cântico é celebrado em dois coros: o dos frades e o das Irmãs de Clara: eles estavam ali, no mesmo terreno. O Sol, o Fogo e o Vento recebem o título de Frate: em português Frade ou Frei, não simplesmente irmão (fratello). A Lua, a Terra e a Água são Irmãs: Irmãs Freiras, Sore e não sorelle. No Processo de Canonização de Clara, sua irmã Beatriz se apresenta como Sora Beatrice, sorella di Chiara. E cada Frate forma um par com uma Sora. Em segundo lugar chamo a atenção para o fato de a Morte também ser uma Sora, não uma sorella. Seu par não aparece como um Frate, nem tem nome. Mas está bem determinado: são os “que perdoam por teu amor e suportam em paz enfermidade e tribulações” (Cf. CSol 10-11). Eles têm a “perfeita alegria”, porque “serão coroados” como Jesus. Em outras palavras, todos os que são como Jesus abraçam a morte, cantam de alegria e serão coroados. O companheiro da Irmã Morte é o Frei Jesus, o Esposo. O mesmo Jesus que Francisco convidou para cantar o nome de Deus nesse 5 Chiara Augusta Lainatti 32
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    cântico. Isso podeser confirmado pelo confronto com a invocação ao Esposo feita na Regra não bulada (RNB 23,5): “E porque todos nós, miseráveis e pecadores, não somos dignos de te nomear, imploramos suplicantes que nosso Senhor Jesus Cristo, teu Filho dileto, em quem bem te comprazeste, junto com o Espírito Santo Paráclito te dê graças, como agrada a ti e a ele, por todos, ele que sempre te basta para tudo, por quem tantas coisas nos fizeste. Aleluia”. 33
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    4. Clara eos Místicos do seu tempo Francisco foi o grande companheiro, “o amigo do esposo”, na expe- riência mística de Clara com Jesus Cristo. Ela nunca perdeu esse ponto de partida: abraçar o Cristo cujo amor foi tão grande que o tornou pobre, livre e crucificado. Mas ela também conheceu e aprofundou os místicos me- dievais. Para falar deles, parece-me interessante começar repetindo aqui o que dissemos sobre o misticismo no Capítulo 1, com alguns acréscimos. Diante do mistério que o transborda, o homem expressa sua incapa- cidade de falar pelo silêncio, pela mística. Essa palavra vem do grego μυστικός, mystikós, que indicava a iniciação a um mistério religioso. É a busca da comunhão com uma realidade final, que pode ou não ser chamada de Deus, através de uma experiência direta ou intuitiva. Essa experiência é sentida como incomunicável e sua origem é o verbo grego myo = fechar os olhos ou a boca: para não ver o segredo e para não revelar nada. O silêncio é saudável. Na linguagem do amor, feita de pala- vras e de silêncios, nós nos movemos num modo de falar que pode parecer impreciso para quem não descobriu a precisão da arte, tão carregada de força e de verdade. Nela, o homem se ajoelha para recolher as riquezas do mistério. Celebra-o. Quando o mistério é muito grande, adora. Mas não foge do mistério, vive dele. Desde que tomou consciência das realidades que existem ao seu redor e de que têm um nexo entre eles mesmos, os homens foram místicos. E o fato de muitos terem perdido o uso da mística quando encontraram algumas explicações racionais não acabou com ela. Os místicos cresceram. Vamos nos dedicar, aqui, apenas aos místicos dos tempos antigos e medievais que viveram da revelação bíblica porque queremos que os medievais Clara de Assis e Francisco nos ajudem a viver a mística do século XXI em diante. Para todos esses místicos, o mistério maior é o Amor. E o amor é relação. E nós vamos dar a maior seriedade possível a esse aprofunda- mento. Já foi dito: “O homem do terceiro milênio vai ser um místico ou não vai ser nada”. Nos séculos XII e XIII floresceu na Europa a literatura mística. Foram muitos os autores, quase sempre monges ou monjas. Essa época foi marcada por uma linguagem amorosa especial, usada tanto no amor pro- 34
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    fano quanto noreligioso. O amor cantado pelos trovadores foi o mesmo dos autores espirituais. Místicos e poetas contemplaram juntos o mistério que sempre está por trás do amor: o Infinito. E os místicos foram mais longe. A terminologia é quase comum. A literatura monástica da época dos trova- dores aplicou à relação de amor com Deus a linguagem realista do amor recíproco entre pessoas humanas, de modo especial no âmbito esponsal- conjugal. Como e por que apareceram muitos místicos nos séculos XII e XIII? Seria uma redescoberta feita por monges renovados que tinham conservado e estavam redescobrindo os Santos Padres? São Bernardo chega a ser considerado o último dos Santos Padres. Foram especialmente os monges, ou quem dependeu de sua orientação, que surgiu a mística medieval. Com os místicos medievais, Clara aprendeu a cantar. E foi introduzida no Cântico dos Cânticos. Ela começou ouvindo o cântico dos jograis. Os místicos a levaram aos Santos Padres, que os tinham introduzido ao Cân- tico da Bíblia. Numa visão concisa, quero apresentar um pouco das mulheres místicas medievais e também destacar a contribuição de alguns grandes cister- cienses. Clara parece não ter tido muita influência dessas mulheres que, na maioria, só floresceram no seu tempo ou depois dela. Mas elas podem ajudar a conhecer o que vicejava naquele tempo, pelo menos entre algumas mulheres que deixaram escritos. É mais fácil perceber em Clara a in- fluência dos cistercienses: eles a precederam historicamente e é possível que Clara tenha conhecido suas obras escritas, pelo menos através do “bons pregadores” que ela convidava, conforme o testemunho das Irmãs no seu Processo de Canonização. 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara Algumas mulheres romperam com o mutismo do chamado “sexo fraco”, e inauguraram um espaço (o mosteiro) em que as mulheres eram as protagonistas de suas exigências, de suas expectativas, de sua linguagem. Elas tinham luz própria, próximas do fogo comum que é o Amor de Deus, em cujo abismo se perdiam misticamente como os Santos Padres e os Autores Espirituais que elas mais liam, sempre em torno do Cântico dos Cânticos: a bagagem patrística e monástica foi assumida sem precisar reivindicar nada, apesar da clara misoginia de que tinham sido objeto pela arrogância e agressividade de alguns eclesiásticos. 35
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    A oposição dessasmísticas não é aos homens, mas a uma compreensão de Deus que não correspondia ao que elas intuíam e queriam. Era um caminho diferente, alternativo, na maneira de ver, de entender, de viver e de partilhar o que nelas e para elas significava Deus. Podemos indicar duas vivências legítimas, mas diferentes do Mistério: uma foi desenvolvida pelos místicos renano-flamengos (Wesenmystik) e os levou a um “abandono de Deus” (Gott lassen) no sentido de libertar-se de qualquer imagem de Deus. A outra foi desenvolvida pela mística feminina (Minnemystik ou Brautmystik) e levou a uma penetração afetiva no Mistério, usando uma simbologia nupcial 6. A mística nupcial se refere preferentemente ao simbolismo do amor e das bodas. Cristo é o noivo (como em Jo 3,29) e a alma fiel é a noiva (2Cor 11,2 e Ef 5,25). A mulher mística refere-se principalmente à transcendência do Deus uno. A alma deve superar o mundo material em que está imersa, as atividades que não a deixam chegar à unidade, e também todas as imagens, intermediários e conceitos que mais ocultam Deus que o dão a conhecer. A mulher era prisioneira de uma ética que assimilava o pecado da língua à gula, porta de outros vícios, pecado tanto maior quando provinha de mulheres e elas pretendiam falar em público. Por isso é preciso resgatar a palavra da mulher medieval como expoente e síntese de um momento cultural e religioso de especial importância: a conjunção entre o pensamento e a afetividade, entre a inteligência e o coração. Seria longo fazer uma resenha de todas as mulheres da época de Santa Clara que deixaram alguma coisa escrita. Mas queremos apresentar algumas personalidades que se destacaram: 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) Nessa contemporânea de Santa Clara há uma boa síntese de duas correntes do âmbito feminino medieval: as beguinas e as cistercienses. Há uma biografia dela escrita por um monge que foi seu confessor. É importante em Beatriz o peso que teve em sua vida e amadurecimento a amizade. Estamos na melhor linha cisterciense de Saint-Thierry e de Rievaulx. É destacável a amizade com a beata Ida de Nivelles, desde que esta era noviça. Beatriz não gozou de uma grande personalidade nem teve 6 A bibliografia para este tema não é fácil de encontrar. Por enquanto indicamos P. DINZELBACHER – D.R. BAUER, Movimento religioso e mística femminile. 36
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    os ricos dotesnaturais de sua contemporânea Hadewijch, mas era muito sensível, de temperamento tímido e afetivo, e sentia a necessidade da amizade. E foi isso que dirigiu sua piedade para um encontro afetivo com Jesus, Homem Deus, na eucaristia e no sagrado Coração. Já chamamos a atenção para a destacada amizade que uniu Clara a Francisco e Clara a Inês de Praga. Vamos nos limitar a um escrito de Beatriz em que podemos ver sua posição mística nitidamente afetiva e esponsal. É o breve tratado Seven manieren van Minne (Os sete graus do amor de Deus). Não apresenta uma narração espiritual como a que faz em sua “autobiografia”, mas dá uma síntese do que Beatriz viveu misticamente: é o seu itinerarium cordis in Deum. O elemento ordenador, a estrutura fundante é o amor, a Minne. O I grau fala do desejo ou saudades de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança. Os graus II e III introduzem no dinamismo interior do amor puro que permeia todas as atividades do ser humano. O grau IV começa a descrever as primeiras experiências passivas, que no grau V tornam-se luminosas e ardentes. Os dois últimos graus desembocam na verdadeira união mística, pela qual a alma entra em uma ininterrupta união amorosa (grau VI) que enche de fruição e paz, até chegar ao cumprimento do gozo imediato de Deus, na bem-aventurança eterna, grau que nenhuma inteligência pode compreender. Vemos essa monja cisterciense não só como uma mística que mede a vida espiritual a partir da altura transbordante de uma união com Deus verdadeiramente sentida e gozada, mas também como uma mestra experimentada nos problemas mais árduos da teologia mística. A doutrina mística de Beatriz está fundamente marcada pela preemi- nência do amor, considerado como graça doada, capaz de regenerar a vida e transformá-la até a união com a pessoa amada. São notas muito comuns nas mulheres místicas que se movem neste horizonte de espiritualidade esponsal. Serão familiares quando lermos as cartas de Santa Clara. 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294) É interessante a contribuição desta mística alemã, feita em um itinerário espiritual. Ela começou o seguimento de Cristo em Magdeburgo, por volta de 1230, quando se fez beguina sob a direção espiritual dos dominicanos. Durante quase trinta anos, uniu o serviço aos pobres e doentes com um progressivo crescimento espiritual, que a levou a abraçar a vida monástica. 37
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    Ainda beguina, entre1250 e 1265 escreveu Das fliessende Licht der Gottheit (A luz fluida da Divindade), composta de sete livros escritos em duas partes desiguais e diferenciadas: o último foi escrito no mosteiro de Helfta, depois da morte de Henrique de Halle, seu confessor dominicano. Ela usa um tom acusador, típico de um profetismo feminino encontrado mais tarde em Santa Catarina de Sena, contra os males de uma Igreja enferma em seus pastores. Matilde não poupou críticas à decadência do clero, do Império e mesmo da Ordem Dominicana. É uma crítica dura e áspera quando lembra os pecados dos cônegos luxuriosos, mas se transforma em doce intercessão quando tem visões do tormento desses eclesiásticos. Mas a obra de Matilde é um testemunho de sua profunda experiência da fluida luz de Deus. Encontramos os tons modernos do Minnesang e seu canto de amor, mesmo quando se refere ao Cântico dos Cânticos. Essas imagens amorosas e nupciais são transformadas, interiorizadas no processo espiritual da própria experiência amorosa de Matilde. Se a influência da “metafísica da Essência” é menos acentuada que em Beatriz, Hadewijch e Margarida Porete, o tema do retorno à própria e verdadeira natureza vincula as quatro. Na obra de Matilde espelha-se uma vida abismada nos mistérios da divindade, sua progressiva separação do contingente, para entrar na vida íntima de Deus Trindade e da Encarnação do Filho. Vai deixando a mística visionária para um caráter cada vez mais pessoal e afetivo. 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) Hadewijch pertenceu ao movimento leigo feminino que juntou a consagração a Deus e uma intensa vida espiritual com uma entrega aos pobres e aos enfermos. Esta mística é a grande desconhecida de toda aquela geração de mulheres escritoras dotadas de uma especial graça espiritual. Pode ter sofrido a suspeita de heresia por sua proximidade com alguns grupos de beguinas ou begardos que foram condenados. Só foi um pouco resgatada no século XX. Todo o conjunto de sua doutrina espiritual gira em torno do amor. Passando o amor cavalheiresco, a Minne, para o plano sobrenatural e metafísico, consegue dar-lhe um lugar central na vida interior, afirmando também que o amor é a essência de tudo e o motivo de toda atividade 38
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    humana. O homemé criado para o amor e para possuir Deus no amor. Para isso, todo esforço humano deve estar ao serviço do amor, esquecido de si e em plena submissão à vontade de Deus. Esse amor é celebrado sob diversos aspectos e personificado na dama, rainha, mestra... (amor é feminino em flamengo e em alemão). Escreveu Poemas, Visões e Cartas. Os Poemas consagram Hadewijch como uma das criadoras da poesia flamenga. Têm um único tema: o amor. As Visões são do período juvenil, quando teve algumas experiências para-normais. Há um tom de exuberância, que não encontraremos na sóbria maturidade de suas Cartas. Todas as Visões giram em torno do amor, experimentado com grande prazer a partir de uma vivência unitiva: ter acesso ao segredo íntimo de Deus até chegar a ser uma só coisa com Ele. Aí aparecem temas como a Brautmystik, a união esponsal entre Deus e a alma e a fecundidade resultante de um Deus que nasce nela. 4.2. Os cistercienses No século anterior ao de Clara e Francisco, o movimento cisterciense foi o herdeiro dos Santos Padres na linha da espiritualidade dos esponsais. Deu forma viva aos estudos mantidos pelos mosteiros e, nos comentários ao Cântico dos Cânticos, insistiu na relação Cristo-Igreja e, mais ainda, na relação Cristo-alma. Teve a sensibilidade de dar uma resposta nova ao homem novo e à nova realidade, que estavam surgindo da Reforma Gregoriana. Com os primeiros cistercienses acentuaram-se a devoção à humanidade de Cristo e a experiência unitiva com Ele, entendendo isso como uma união esponsal, tanto na dimensão afetiva como na intelectiva. Esse movimento teve uma forte influência sobre os franciscanos, principalmente através de Santa Clara e do Cardeal Hugolino. Vamos destacar São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e Aelredo de Rievaulx. 4.2.1. São Bernardo 4.2.1.1. A centralidade do amor Na visão de São Bernardo, a união amorosa dos esponsais é o centro de tudo. Toda a sua mística se fundamenta na semelhança do homem com o Criador, precisamente no amor 7. Se Deus é amor e se para conhecê-lo é 7 Para um contacto melhor com São Bernardo só lendo os seus textos em latim. Mas posso indicar o livro de E.GILSON, La Teologia mística di San Bernardo (Milano, 1987). Ver também San Bernardo, 39
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    necessário que oamor esteja em nós, esse amor tem que ser um dom de Deus. Essa é a origem da distinção entre o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. O dom do Amor é o dom do Espírito Santo. Dois sinais permitem reconhecer essa presença amorosa de Deus no homem: o primeiro no amor pelo próximo; o segundo é a ausência de medo do Juízo final e, portanto, uma grande confiança na misericórdia de Deus. A experiência espiritual aprendida na contemplação da humanidade de Jesus, no acento materno da mediação de Maria, na gratuidade da ação do Espírito de Deus e, sobretudo, na misericórdia e ternura divinas, abriu uma autêntica escola espiritual e teve uma salutar influência na espiritualidade francisclariana. 4.2.1.1.2. O processo Para chegar ao Amor dos Esponsais, São Bernardo apresentou um processo que – depois de um esvaziamento interior – leva em quatro degraus à contemplação do Verbo e à união com Deus Esposo: 1). Temos a mesma natureza do Deus que se encarnou. Descobrimos o Amor que é Deus e o amor que está em nós como dom dele. 2). Aprendemos a permanecer na oração durante a prova. O espaço interior é o do coração que se converte e se abre à ação da graça 3). Chegamos ao prazer e à experiência de Deus Esposo, e a interioridade da alma se amplia. 4). Na meta, o espaço já serve só para voar em Deus. É o céu. De alguma forma, estamos transformados no próprio Deus. Realizaram-se os Esponsais. 4.2.1.1.3. Alguns fundamentos do Esponsais Em 86 Sermões que fez para os seus monges sobre o “Cântico dos Cânticos”, São Bernardo apresenta pelo menos quatro interessantes pontos fundamentais: “O semelhante busca o seu semelhante” Criaturas dotadas da capacidade de amar, nós somos semelhantes a Deus, que é o Amor. Por isso, temos sede dele. Toda a mística esponsal se fundamenta numa visão do homem amplamente otimista: Ficamos estupe- Obras completas, vol. V, “Sermones sobre el Cantar de los Cantares”. J.M. de la Torre – I. Aranguren, Madrid 1987.E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual , em Caridad, Amistad. Buenos Aires 1981. 40
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    fatos diante dacriação e queremos apaixonadamente unir-nos à semelhança perfeita de Deus, que é Jesus, o Verbo feito carne. A Encarnação de Jesus é o primeiro chamado de Deus ao pecador mos- trando até que ponto Deus é capaz de se dar a ele, de amá-lo miseri- cordiosamente: “Não fomos nós que o amamos, foi Ele quem nos amou primeiro” (1Jo 4,10). Fazendo-se homem, Deus mostrou ao homem sua digni- dade e seu destino... Mas isso é devido à condescendência divina e não à natureza humana, não à condição humana, que é frágil e precária, mas com esperança pela intervenção gratuita de Cristo em favor da alma. Deus acompanha o homem em seu itinerário, como Pastor bom e solícito. O Verbo dá o primeiro passo para unir a ele a alma infiel: o homem tem que trabalhar a ascética esponsal para chegar à união-visão do Esposo em pleni- tude, ao matrimônio espiritual. “O Beijo da tua boca” São Bernardo trabalha bem a aproximação intelectual e afetiva ao mistério do amor de Deus quando comenta o “Beijo da boca” (Ct 1,1). Relaciona esse osculum oris – ponto alto do matrimônio espiritual – com a doutrina da Trindade, falando em quatro beijos na história da salvação. O primeiro foi quando Deus beijou os homens espirituais do AT para que o desejassem diretamente, sem intermediários. Sem os beijos de Moisés, que gaguejava; sem os de Isaias, que tinha lábios impuros; sem os de Jeremias, que não sabia falar porque era um menino; sem os dos profetas, que eram como mudos, para desejar com veemência o Beijo para o qual nascemos. O segundo beijo foi o de Deus na natureza humana quando Jesus se encarnou. Nenhum de nós é particularmente digno dele. No terceiro beijo, São Bernardo se reconhece digno como parte dessa natureza humana do Senhor: é a grande intervenção amorosa do Criador. Deus (o Verbo) beijou Jesus feito homem. O quarto beijo é quando cada um se reconhece e acolhe a divindade do Verbo revelada na humanidade de Cristo. É o “beijo da paz” que nem todos souberam ou quiseram receber: Simeão e os pastores acolheram; Acab e Herodes não quiseram. Deus beija aqueles que acolhem a divindade do Verbo na humanidade. Observemos que, em um beijo na boca, as duas pessoas atuam ao mesmo tempo, a comunicação é mútua. É no Sermão 8 que São Bernardo apresenta a doutrina mais profunda sobre isso: o beijo do Cântico dos 41
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    Cânticos representa aunião entre o Pai e o Filho no seio da Trindade. O amor no beijo entre o Pai e o Filho é o Espírito Santo. A pessoa do Espírito Santo é um beijo inefável que nenhuma criatura humana experimentou e que representa o conhecimento e amor recíproco entre o Pai e o Filho. A Esposa pede um beijo e o Espírito Santo o dá, para entender com sabedoria e unção. Pedir o beijo do Espírito é desejar entrar nessa intimi- dade divina, nesse conhecimento amoroso que só Deus pode conceder a quem o suplica. É entender o que se ama e amar o que se entende. Bernardo relaciona o beijo de Cant 1,1, com o texto de João: “soprou sobre eles e lhes disse: recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22). O beijo é o Espírito soprado por Jesus em sua Igreja e em cada fiel. A participação na vida divina se fundamenta em nossa relação pessoal com o Verbo encar- nado, que é o lugar de nossa inserção na Trindade. A “Unidade do espírito” Para explicar o mistério do matrimônio espiritual, Bernardo também lembra 1Cor 6, 15-17: “estar unido ao Senhor é ser um só espírito com Ele”, em que a união carnal é comparada à espiritual. É a experiência da comunhão total, transformante e transformada, que faz alguém passar a ser a pessoa amada sem perder a identidade, em total compenetração vital. O amor verdadeiro gera união, comunhão, identificação, transformação na pessoa amada. Também restaura a semelhança originária até consumá-la em um ato de nova criação, de um novo nascimento. “A casa espiritual” No Sermão 46, comentando Ct 1,16-17: “Como é doce, como é verde- jante o nosso leito! Cedros são as vigas de nossa casa e os ciprestes são o nosso teto”, Bernardo fala da beleza da Casa da Igreja: constituída pelas atitudes dos crentes em uma comunidade que expressa o Autor de todo bem. Bernardo tem consciência de que só na vida futura será possível chegar à união completa. Sublinha a condição de “peregrino”, própria da alma- esposa aqui na terra. Insiste mais no aspecto pessoal da relação com Deus, mas não exclui e até trata precisa e brevemente o aspecto comunitário dessa relação. É uma teologia afetiva mais que especulativa. Esse amor é exclu- sivo e inclusivo, como em toda história de amor verdadeiro com Deus. 42
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    4.2.2. Guilherme deSaint-Thierry Guilherme de Saint-Thierry tem uma visão serena sobre o corpo e sobre a condição humana do amor 8. É uma visão benévola do simplesmente humano como suporte e lugar em que o discurso amoroso sobre Deus toma corpo. Uma amostra está no começo de seu comentário ao Cântico, onde fala do beijo esponsal como perfume do Amado, um símbolo da união entre o Esposo divino e a esposa mística. Quando os corpos se beijam unidos amorosamente, apertam os lábios e unem a respiração (o spiritum) numa síntese que indica a pessoa inteira. A arte de amar é a arte das artes, mas será preciso fazer um caminho de aproximação e de conversão para a caridade: a vida amorosa com Deus. O amor é um sentimento natural inato no homem. Criado por Deus, ele deveria continuar a ser como no início da criação, sem precisar de que alguém o ensinasse a quem e como deve amar. Mas perdeu isso pelo PE- cado, e a realidade não é tão inocente: houve um desvio em nossos senti- mentos. A alma sente-se atraída por seu destino, que é a bem-aventurança, mas perdeu o caminho e não o encontrará se alguém não o ensinar de novo. É necessária uma reeducação do amor. Ele via o mosteiro como uma “Escola de Amor”: os instrutores eram: o mestre de noviços, o prior ou o abade. Opunha-se às escolas em que se ensinava a literatura e a doutrina do amor profano, usando o De arte amatoria de Ovídio. O mosteiro seria a única verdadeira escola de vida, envolvendo almas e corpos e transformando a comunidade monástica numa vida social similar à dos santos no céu. O pensamento deve dar lugar ao amor, e a ciência à sabedoria. Quando pensamos nas coisas de Deus e a vontade progride até se transformar em amor, o Espírito Santo se infunde e vivifica tudo. Guilherme vê o Esposo Cristo diante de uma esposa ao mesmo tempo perfeita e aperfeiçoável: é a esposa das bodas messiânicas que já goza da alegria de ter sido escolhida pelo Esposo, mas ainda precisa de conversão. Trata-se do realismo antropológico de toda biografia espiritual, devedora da graça e condicionada pelo pecado, chamada à unidade do espírito, mas reconhecendo-se limitada e pecadora para gozar dessa união transformante e transformada. 8 Uma boa apresentação acessível de Guilherme de Sint-Thierry está em J. M. DECHANET, Lettre aux frères du Mont Dieu (Lettre d’Or), Sources Chrètienes Paris, 1985. 43
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    O pensamento teológicoe místico de Guilherme é uma narração da história da semelhança divina: dada por Deus na criação, desfigurada no pecado, restaurada na redenção. Há uma progressiva ascensão, não uma volta ao paraíso perdido, mas a penetração numa novidade não suspeitada nem merecida: a semelhança com Deus que nos abriu para a encarnação, morte e ressurreição do Filho de Deus. Deus é caridade, quem o amar e crescer no amor será semelhante a ele. Nesse processo há uma intervenção do Espírito Santo: assim como ele efetua a unidade do espírito no seio da Trindade, significando e sendo a comunhão amorosa do Pai e do Filho, também realiza no homem que se abre a sua ação salvífica essa mesma comunhão filial com Deus: o que o homem não consegue entender nem explicar – mas que em Deus é natureza – lhe é dado de graça. Já estamos diante da unidade de semelhança, e de uma unidade de espírito. Os amantes são levados a ser uma só coisa. O homem precisa irremediavelmente de Deus, porque sem Ele não pode entender a si mesmo. As experiências de paz e silêncio, gozo e liberdade, inteligência e amor, são energias dinâmicas da Trindade dentro de quem é sua imagem, a pessoa humana. 4.2.3. Aelredo de Rievaulx Aelredo achava possível transformar a abadia numa família de amigos: a amizade é um tipo particular do Amor, sua rara e perfeita culminação. Aelredo começa recordando sua juventude: “nada me parecia mais doce, nada mais saboroso nem mais útil que ser amado e amar”. Ele construiu uma doutrina sólida sobre o amor e a amizade 9. Tem o mérito de propor um caminho de santificação através do amor humano. Seguiu bastante o “Diálogo da Amizade”, de Cícero e, como ele, ensinou que a amizade é um dom natural, uma “inclinação da alma”. Mas introduziu uma novidade: a amizade acontece entre três: os dois amigos e Cristo: “começa em Cristo, nele se conserva e a ele se dirige”. Se um amigo se une a outro no espírito de Cristo vem a ser um só coração e uma só alma com Ele, e se ascender assim do amor à amizade com Cristo, será com ele um só espírito e um só beijo. Sua obra se estrutura em três diálogos. No primeiro trata da essência e da origem da amizade; no segundo, trabalha a excelência e os limites da 9 Ver E. GOWLAND – M. E. TAMBORINI, La amistad espiritual, em Caridad, Amistad. Buenos Aires 1981. 44
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    amizade. No terceirovisa a prática: depois de fundamentar o amor e a amizade em Deus, ensina os passos a seguir na verdadeira amizade: a escolha, a prova, a admissão e o consenso. Em Aelredo temos uma configuração espiritual ou mística do tema da amizade. No final de sua obra declara a importância de toda amizade humana como sacramento e antecipação da amizade eterna e divina: ...do santo amor com que abraçamos o amigo, somos elevados a aquele amor com que abraçamos Cristo, saboreando com prazer o fruto da amizade espiritual, cuja plenitude nós esperamos na eternidade, quando desaparecer o temor que agora sentimos uns pelos outros... Essa amizade – que aqui só podemos admitir para poucos – vai transbordar para todos e de todos se voltará para Deus, para que Deus seja tudo em todos”. É claro que esse conhecimento dos místicos medievais teria levado Clara de Assis a descobrir um sentido novo na Palavra de Deus. Ela leu o Cristo-Esposo à luz do Cântico dos Cânticos, certamente ajudada pelos pregadores, porque é difícil pensar que ela tivesse uma Bíblia inteira em São Damião. Por isso, nós vamos nos encontrar com o Santos Padres que mais chamaram a atenção para o Deus Esposo. E, depois, vamos beber nas próprias fontes bíblicas – no Cântico e nos Profetas – como Deus quis e quer vir ao nosso encontro para uma união eterna. 45
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    5. A AliançaEsponsal nos Santos Padres Os místicos medievais beberam nos Santos Padres os fundamentos dos seus comentários ao Cântico dos Cânticos. Pelo menos os monges tiveram ampla possibilidade de estudar toda a riqueza da Patrística em suas bibliotecas. E partilharam os seus conhecimentos através das citações que apresentaram. Pessoas sem recursos para ter uma biblioteca, como Clara, podem não ter tido acesso direto aos Padres, pelo menos aos gregos – que melhor trataram o tema dos esponsais – mas podem ter sido inspiradas a ler com outra visão os textos bíblicos: além do Cântico, os profetas da Aliança. A Espiritualidade dos esponsais, que encontramos no escritos de Santa Clara, está fundamentada nos Santos Padres, porque foram eles que mostraram como Jesus era o verdadeiro esposo sonhado e prometido pelo Antigo Testamento e também abriram para a visão de que Deus não é apenas o Esposo do Povo Bíblico mas da alma de cada fiel. Há diversos testemunhos de que Clara convidava para falar em São Damião bons pregadores: “A testemunha também disse que dona Clara gostava muito de ouvir a palavra de Deus. E, embora não tivesse estudado letras, ouvia de boa vontade as pregações letradas” (ProcC 10,8). “Não tinha formação literária, mas gostava de ouvir os sermões dos letrados, sabendo que na casca das palavras ocultava-se o miolo que tinha a sutileza de alcançar e o gosto de saborear. De qualquer sermão, conseguia tirar proveito para a alma, pois sabia que não vale menos poder recolher de vez em quando uma flor de um áspero espinheiro que comer o fruto de uma árvore de qualidade” (LSC 37). A Bíblia é a revelação do Deus-Amor não criado, que quer partilhar com os homens a sua infinita felicidade. A história da espiritualidade é a história dos homens na busca do Amor de Deus, e dos meios que usaram para isso. A partir dos Santos Padres da Igreja – cristãos ricos da cultura grega e romana dos primeiros séculos – a Igreja foi estudando o que tinha sido revelado por Jesus e construindo a sua doutrina e a sua espiritualidade. A Carta aos Hebreus diz que não haverá mais revelação porque o Filho é a manifestação definitiva de Deus. Sua missão redentora está sendo continuada pelo Espírito Santo. Pentecostes é o tempo da Igreja, em que o Espírito vai suscitando testemunhas do Ressuscitado que em diferentes 46
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    situações, desafios edificuldades narraram as maravilhas de Deus, a salva- ção recebida para sempre em Jesus Cristo. O período dos “Padres” é a pri- meira etapa dessa caminhada Os “Pais da Igreja”, com suas pregações e escritos, foram decisivos no desenvolvimento da doutrina e da vida cristã. O seu período, logo em se- guida ao dos apóstolos, viveu intensamente a organização das comuni- dades, da vida litúrgica, da promoção do pensamento cristão. Foram os Santos Padres que nos ensinaram a ler a Sagrada Escritura “no Espírito”, isto é, obter uma “inteligência espiritual” dela. Nessa dimensão religiosa da Escritura há um sentido misterioso, interior, que não é uma verdade abstrata ou banal, mas um dinamismo que afeta toda a existência. Eles mostraram dois sentidos na Bíblia: o literal e o espiritual: a letra correspondia ao AT e o espírito ao NT, identificando-se com a pessoa de Jesus. Por isso, tudo que se contava na Antiga Aliança era interpretado da pessoa de Jesus. Isso dá uma importância especial aos diversos comentários dos Padres sobre o Cântico dos Cânticos, onde estão os primeiros pontos de uma teologia e de uma espiritualidade esponsais. Deus é o amante fiel da esposa infiel, sedenta de seu abraço divino. Não é uma simples alegoria em um povo que entende a palavra de Deus à letra: é o descobrimento de que Deus se apaixonou “literalmente” pelo homem, tanto na Igreja como em cada alma cristã: o eco desse cântico profético vai ressoar na alegria dos amigos do Esposo que está com eles numa festa que vai chegar à plenitude na “terra nova”, quando a comunidade estiver preparada para o Esposo. Neste nosso trabalho, vamos apresentar apenas Orígenes e São Gregório de Nissa, os dois santos Padres que trataram explicitamente da Espiri- tualidade dos Esponsais. Ressaltamos os pontos principais de cada um. Eles podem nos ajudar a entender melhor a espiritualidade de Santa Clara. 5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade Orígenes é uma das pessoas mais geniais e influentes do Cristianismo. Foi um ponto alto na espiritualidade e na teologia mística. Por volta do ano 200, a literatura eclesiástica cresceu e teve uma nova orientação. Antes, condicionada pela tensão entre a Igreja e seus perseguidores, produziu escritos apologéticos e anti-heréticos. Mas abriu o caminho para um estudo científico da revelação. No contexto em que viveu Orígenes, a Igreja sentia que precisava de um sistema de pensamento. Daí surgiu a Escola de Alexandria, em que Orígenes se destacou. Em Alexandria tinha nascido o 47
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    helenismo, fusão dasculturas oriental, egípcia e grega, que originou uma nova civilização, e nela se estabeleceu no fim do século I a cultura judaico- cristã. O tema dos esponsais está principalmente nos escritos exegéticos de Orígenes. Ele insistiu mais no sentido místico da Escritura do que no literal, usando com freqüência o método alegórico. Nisso foi levado a cometer alguns erros de interpretação, mas mostrou que teve em alto grau o dom da penetração espiritual. A idéia dos esponsais divinos não é uma novidade cristã. O mundo pagão conheceu deuses e deusas que se casavam. Já o judeu Fílon de Alexandria falava de como Deus se unia à alma humana, que recebia uma semente das virtudes. Para alguns cristãos, a morte tinha um significado esponsal. A expressão “matrimônio espiritual” aparece pela primeira vez na literatura cristã entre os adversários de Santo Irineu, e falava sobre Cristo esposo da Igreja. Hipólito, autor do primeiro comentário cristão ao Cântico dos Cânticos, usou a simbologia esponsal entre Deus e a Igreja, dentro da tradição hebraica dos esponsais entre Javé e Israel e da leitura paulina dos esponsais Cristo-Igreja. Quem começou a chamar as virgens cristãs de esposas de Cristo foi Tertuliano, que também falou dos esponsais entre Deus a alma. Mas quem tratou mesmo esse tema foi Orígenes, que escreveu no prólogo ao seu comentário sobre o Cântico dos Cânticos: “estas palavras do Esposo magnífico e perfeito dirigem-se à alma unida a ele ou à Igreja”. A alma fiel é esposa porque faz parte da Igreja que é esposa. São Jerônimo disse: “Orígenes, que em alguns livros superou a todos, no Cântico dos Cânticos superou a si mesmo”. Orígenes sabia unir devoção, capacidade especulativa e paciência ana- lítica. Teve influências platônicas. Lembrou, ao falar da simbologia espon- sal, que Platão falou sobre o amor espiritual no “Banquete”. Mas ele mes- mo falou a partir de uma profunda experiência espiritual. Escreveu na primeira Homilia sobre o Cântico: “Freqüentemente – Deus é testemunha – eu senti o Esposo chegar a mim e ficar comigo; de repente Ele se afastou e não consegui mais encontrar o que buscava; apareceu outra vez e eu o segurei, mas ele escapou de novo, e eu continuo a buscá-lo. Ele faz isso freqüentemente, até que eu o possua de verdade, e suba apoiada em meu Amado (Ct 8,5)”. Tudo que Orígenes escreve sobre a relação esponsal entre Deus e a alma tem um tom de autobiografia espiritual. É uma experiência mística em que 48
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    outros autores contaramque, para chegar à união com Deus, sofriam tanto sua “ausência” quanto sua “presença”. É uma experiência que descobrimos também em Santa Clara, nas suas Cartas a Inês de Praga, Na primeira homilia, Orígenes se pergunta sobre o beijo do Cântico dos Cânticos e sobre o abraço do livro dos Provérbios: Até quando meu Esposo vai me mandar beijos através de Moisés e dos profetas? Eu quero tocar sua boca... Existe um abraço espiritual, e queira o Céu que um abraço mais forte do Esposo aconteça também com a minha alma, a Esposa, para eu também poder dizer o que está escrito neste livro: sua esquerda está sob a minha cabeça, e sua direita me abraçará. 5.1.1. Três temas na mística origineana 5.1.1.1. A história como cenário esponsal Orígenes concebeu a história como um drama amoroso em que se desenvolve o casamento entre Cristo e a Igreja, entre Cristo e a alma. Ele faz uma reconstrução histórico-salvífica do caminho que levará outra vez aos esponsais perdidos pelo pecado. Então, o Antigo Testamento foi o noivado entre Israel e Deus, em que a noiva recebeu a visita dos “amigos do Esposo” (patriarcas e profetas), e mais esporadicamente a visita do próprio Esposo (nas teofanias vetero-testamentárias como figuras humanas ou angélicas). O Novo Testamento começa com a Encarnação do Esposo, que assume um corpo de carne imaculado para poder encontrar a Esposa, prostrada em um corpo de carne maculado. Mas a união só será perfeita na visão-encontro celeste, quando se realizar a parábola dos convidados para as bodas e o Rei unir definitivamente seu Filho com a humanidade glori- ficada. Mas o drama tem um lado negativo: junto ao itinerário matrimonial em que Cristo-Esposo toma a iniciativa, há um itinerário adúltero feito pela Igreja/alma-Esposa. Se a união a Cristo é um matrimônio, cada pecado é uma infidelidade a esse Esposo legítimo e, portanto, um adultério com Satanás. 5.1.1.2. A ferida de amor A literatura esponsal cristã explorou bastante a expressão: “estou ferida de amor” (Ct 2,5), que foi vinculada a um texto do profeta Isaias: “Fez minha boca como uma espada afiada; na sombra de sua mão me escondeu; fez-me 49
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    como seta aguda,em sua aljava me guardou” (Is 49,2). A ferida corresponde à flecha, e as duas são de amor. Orígenes desenvolveu amplamente esse tema em várias de suas obras. Há um Arqueiro, que pode ser o Pai ou o Filho. A Flecha é sempre o Filho, mas ele também pode ser representado pela Ferida que produz na alma fiel. Mas a Esposa ferida é sempre a alma, nunca a Igreja. Há uma variante “eclesial” da flecha, que pode ser representada por aqueles a quem Cristo confiou serem portadores de sua Palavra: Moisés, os profetas, os apóstolos, os pregadores do Evangelho. 5.1.1.3. A fecundidade do esponsal com Cristo O tema de conceber e de gerar espiritualmente está em São Paulo e em alguns Padres precedentes. E também não estaria longe do tema tão querido no corpus paulino e no corpus joânico da in-habitação de Cristo ou da própria Trindade na alma do crente. Maria é o modelo nessa ação de gerar o Verbo, com uma atitude tipi- camente materna: toda alma virgem e incorrupta, concebendo do Espírito Santo para fazer a vontade do Pai, é Mãe de Jesus. Esse nascimento de Cristo na alma do crente está vinculado essencialmente ao acolhimento da Palavra e, em certo sentido assim nasce Jesus continuamente nas almas. Não se trata de ser um “outro filho” de Maria, mas de ser o único filho que ela gerou, isto é: de se transformar em Jesus. Isso tudo só é viável se tivermos, como João, a mente de Cristo. É esse vínculo que Orígenes faz com outro texto paulino: “Nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para conhecer as graças que Deus nos deu [...]. Porque “quem conheceu a mente do Senhor para instruí-lo? Mas nós temos a mente de Cristo” (1Cor 2,12, Jo 1,23). Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação naquele a quem amamos. Mas, ensina Orígenes, nem tudo é concepção de Cristo na alma, porque também há uma espécie de assassínio quando se comete um pecado. Jesus 50
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    não pode estarna alma, porque o pecado reduz o espaço. Isso é o que acontece nas almas tíbias; nas outras ele cresce. Por último, Orígenes indica um espaço interior em que Deus põe sua morada, a palavra usada por São João para indicar o recinto sagrado onde habita o Senhor, a tenda do encontro que acompanhou Israel, que agora é o coração do homem. Para ele, o coração é justamente esse centro vital onde Cristo nasce, cresce e é feliz. Ele usa uma série de imagens que explicitam essa presença de Deus quando alguém lhe oferece um espaço no santuário de seu coração: então Jesus passa pelo meio deles e aí repousa com toda a Trindade. São esses os caracteres da teologia esponsal de Orígenes, que descrevem um processo, um drama em que a liberdade da pessoa se joga como resposta amorosa a uma proposta de amor: Deus que inicia e conduz uma história nupcial de salvação, que fere aos que ama com um dardo de amor até levá-los à plenitude fecunda dos esponsais místicos. São uma língua- gem e uma experiência que reconheceremos na literatura mística posterior e até como elementos descritivos de uma forma de vida contemplativa claus- tral, como a do projeto evangélico de Clara de Assis. 5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União Gregório de Nissa continua a perspectiva da mística esponsal. Sua con- tribuição para a espiritualidade esponsal comporta o conceito de itinerário e o conceito de união. São elementos que encontramos principalmente em suas obras exegéticas, onde ele mais manifesta sua admiração por Orígenes: na De vita Moysis, e nas quinze homilias In Canticum Canticorum. Cremos que a chave esponsal da doutrina do nisseno gira em torno da idéia de progressão, que permite ao crente ir percorrendo um caminho de conver- são, de assimilação divina, até chegar à união 10. 5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”: a progressão para a semelhança divina O chamado para uma estreita comunhão com Deus, para a vivência íntima e amorosa com Ele, não é algo natural, ou que se obtém de modo improvisado e impessoal. É preciso fazer um caminho para chegar ao cume 10 Não podemos deixar de chamar a atenção, neste ponto, para o “Itinerário da mente a Deus” escrito por São Boaventura. Ele trás uma perspectiva “seráfica”, na tentativa de entender o misticismo de São Francisco. Mas recordamos que esse livro foi escrito depois da morte de Santa Clara. 51
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    da vida espiritual;Gregório de Nissa pensou nisso a partir do tema da imagem como o ponto de partida de toda investigação sobre a mística. De fato, sendo o cristianismo imitação da natureza divina, indagar sobre o momento inicial do homem leva a conhecer o projeto de Deus, que se desenvolve em todo momento de relação do homem com Deus, até o mais pleno, que é o místico. A questão básica é saber como é a imagem do homem à luz de seu arquétipo primordial, Deus Criador. Esse é o fundamento de sua doutrina, não só sobre a intuição de Deus, mas também sobre a ascensão mística do homem. Coroamento de toda a obra da criação, o homem, um microcosmo, exibe a mesma ordem e harmonia que admiramos no macrocosmo, em toda a criação. Gregório não faz a distinção típica dos alexandrinos entre ima- gem e semelhança, como quem entende por semelhança o esforço ético do homem sobre a imagem; porque as considera sinônimos, indicando assim a condição de pureza originária do homem. Graças a esta semelhança, o homem se apresenta como superior a todas as criaturas, pois nenhuma delas foi feita à semelhança de seu Criador. Para ele, “imagem” é uma expressão adequada dos dons divinos com que o homem foi dotado, de sua condição original de perfeição. A condição do homem depois do pecado pode ser aperfeiçoada, pode começar de novo. O simbolismo da água do batismo é simplesmente o início da nova vida em Cristo, que precisa crescer até a união total, com uma decidida morte mística que leve o homem à verdadeira ressurreição. Esse percurso é bem estudado em seu De vita Moysis, um tratado místico em que ele delineia o seu itinerarium mentis in Deum pessoal, baseando-se na apresentação do êxodo existencial de Moisés. O livro tem duas partes. Na primeira há uma síntese biográfica de Moisés. Na segunda parte, a principal, faz uma interpretação alegórica de Moisés, vendo em seu itinerário um paradigma da subida do homem até Deus. Essa itinerância purificadora, que o crente percorre em sua ascensão, leva-o à fonte de sua imagem, que é Deus, em colaboração com a graça divina para eliminar paulatinamente toda imperfeição. Nessa abertura amorosa para a beleza infinita de Deus, a mudança e o devir que mostram a finitude de todo espírito criado adquire um significado novo, pois, como diz Gregório, o que pode parecer temível são asas adequadas para o vôo; seria um dano se não pudéssemos transformar-nos em seres melhores, pois 52
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    a verdadeira perfeiçãoconsiste nisto: nosso crescimento nunca acaba sem pode ser circunscrito. Não se trata de uma luta contra a limitação, mas de colaborar em tudo com a graça divina. Podemos situar aqui a imagem da sarça ardente e da tenda, que passariam mais tarde a significar espaços da vida contemplativa. A sarça ardente é compreendida por Gregório de Nissa como a atitude que o peregrino para Deus deve ter diante da luz de sua presença. Há escuridão na alma, mas também existe a luz que se fez alcançável e visível em um gesto de condescendência divina. O caminho do crente implica uma espécie de estupor diante dessa luz imerecidamente concedida; um estupor que se converterá em adoração de Deus e em purificação de tudo que puder estorvar. A tenda do encontro é outra imagem importante do itinerarium. São duas tendas, a celeste e a terrena, que simbolizam as duas naturezas de Cristo. É evidente a alusão à tenda encarnada do prólogo do Evangelho de São João: o Cristo eterno e incriado, quando se fez histórico e criado, acampou no meio de nós. Gregório diz: “Entre todos, existe um único ser que existia antes dos tempos e que foi criado nos últimos tempos, mesmo não tendo necessidade de ser criado no tempo. Como teria necessidade de um nascimento temporal quem já existia antes dos tempos e dos séculos? Por nós, que por desconsideração tínhamos sido corrompidos no ser, ele aceitou ser criado como nós, para levar de volta ao ser o que estava fora do ser. Este é o Deus unigênito, que em si abraça o universo, e montou sua tenda entre nós”. A perfeição que se busca através de todo o itinerário coincide com a que Moisés obteve: a amizade de Deus, a contemplação participada de sua beleza: “esses conselhos sobre a perfeição da vida virtuosa te sugerem, ó homem de Deus, este nosso breve discurso, descrevendo-te a vida do grande Moisés como modelo de beleza, pelo que cada um de nós, imitando sua maneira de viver, reproduza em si a marca da beleza que nos foi mostrada [...]. Está na hora de olhares o modelo, meu caro, aplicando em tua vida tudo que consideramos com a interpretação espiritual dos fatos históricos, e te faças conhecer por Deus e chegues a ser seu amigo”. 53
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    5.2.2. Até acontemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua imagem Na Vida de Moisés, Gregório usa um termo adequado para expressar o encontro entre Deus e o homem, entre o Amor infinito e o amor criado: a insaciabilidade. O caminho não tem fim, é inesgotável como Deus. Há, então, um progressivo encontro com a Beleza, que é Deus 11. Mas, como essa ascensão pressupõe uma paulatina assimilação da imagem de Deus, não pode parar, porque isso significaria ter alcançado o limite de Deus. E nisso consiste a bem-aventurança. É principalmente em suas homilias sobre o Cântico que ele trata da gradualidade dessa subida para a contemplação da Beleza. A linha é a mesma de Orígenes, falando da esposa-Igreja e da esposa-alma. Orígenes tinha determinado três momentos na subida da alma até Deus: a ética, a física e a teoria, que fazia corresponder aos Provérbios, ao Eclesiastes e ao Cântico dos Cânticos. Na primeira de suas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos, Gregório retoma essa divisão e relaciona os três livros com as idades espirituais: a infância – incipientes – (Provérbios); a juventude – proficientes – (Eclesiastes) – e a maturidade – perfeitos – (Cântico dos Cânticos). A fase dos incipientes se caracteriza pela purificação; é a passagem da escuridão para a luz, entendida como o desapego dos conceitos errôneos sobre Deus e o esforço por imitar totalmente a Cristo. Essa fase purifi- catória termina na apáteia (a despreocupação pelas coisas vãs) e na parresia (a liberdade sem temor), frutos da confiança em Deus. Com os proficientes há uma maior fidelidade na reprodução da imagem de Cristo na alma, há uma manifestação de Deus de modo misterioso e obscuro, e se tem uma clara experiência de sua presença. Quanto mais se avança nesse caminho de perfeição, mais são refletidos na alma os traços de Cristo, até chegar a reproduzi-los de tal maneira em si mesma que quase não se distingue da Beleza original. Utiliza a imagem do espelho, de tanta influência na literatura mística. Essa escalada ascensional é um movimento de caridade, pelo qual o sensível vai sendo substituído pouco a pouco pelo espiritual, sem voltar à sujeira que se deixou para entrar na presença de Deus. Abrir-se a Deus que entra, é, conseqüentemente, ver como se afasta o que não é Deus na alma. 11 No Processo de Canonização, as Irmãs recordam que Santa Clara saía da oração com o rosto transfigurado. Como Moisés quando descia do Sinai. A LSC confirma. Cf. ProcC 1,9; 6,3; LSC 20. 54
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    Finalmente, a últimafase corresponde aos perfeitos, cuja maturidade consiste em ver dentro deles a imagem buscada do esposo amado. Não é uma visão de Deus, mas um sentimento de presença na realidade da graça. Essa presença poderia aplacar a sede imensa do Esposo suspirado, mas, na realidade, gera um novo êxodo. É a doce-ferida do amante e do místico de que nos falam tantas páginas amorosas da história humana, tanto por Deus como por uma pessoa humana. Gregório usa a metáfora do vinho e do lagar na Homilia 4: no fundo, Deus é um Esposo que se transforma ao mesmo tempo na sede que queima e no vinho que sacia. O conhecimento de Deus no espelho da alma exige a sua purificação até chegar à semelhança de Deus perdida no pecado. É esse objetivo que estrutura todo o caminho das obras místicas de Gregório. Na última etapa, a dos perfeitos ou maduros, se caracteriza pela contemplação unitiva de Deus como Esposo da alma esposa. A idéia de que a contemplação transforma na imagem do Esposo também está em Santa Clara (2CtIn 12) como vamos ver Np cap. 9, sobre a contemplação. Poderia haver alguma influência de São Gregório de Nissa. Acreditamos que pelo menos indireta houve, pelas suas reflexões a partir das pregações de cistercienses. 55
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    6. O Esposona Aliança Bíblica Através dos místicos, Clara foi levada ao Cântico dos Cânticos e aos Santos Padres. Através dos Santos Padres passou do Cântico para a Aliança e redescobriu em uma profundidade maior o Esposo Jesus Cristo. Com o Jesus Esposo ela “saiu do século” e foi para a plenitude: ser “com a Virgem Maria coroada”, como tinha dito São Francisco. Vamos dividir este capítulo em três grandes seções: O Cântico dos Cânticos A Aliança e os Profetas Jesus é o Esposo 6.1. O Cântico dos Cânticos Pelas mãos dos santos Padres somos levados – numa leitura do Antigo Testamento à luz do Novo – ao coração da Bíblia, em que o Cântico dos Cânticos nos fala da mais profunda união ao Deus infinito que nos ama. Ao introduzir o seu Comentário ao Cântico dos Cânticos, Orígenes escreveu: “Para mim, Salomão escreveu em forma de drama este epitalâmio, isto é, um cântico de casamento, e o cantou como se fosse o de uma noiva que vai se casar e está inflamada de amor celeste por seu esposo, que é o Verbo de Deus” 12. Santa Clara chega a usar essa mesma expressão “inflamada de amor celeste” certamente porque conheceu o Comentário de Orígenes sobre a “chama de amor”, pelo menos através de São Bernardo. É surpreendente encontrar na Bíblia um livro como o Cântico dos Cânticos, com seu forte apelo erótico. Mas é bom lembrar o que disse o rabi Aquibá (+135 dC), defendendo o valor e a pureza desse livro: “Que ninguém em Israel diga que o Cântico dos Cânticos torna as mãos impuras, pois o mundo inteiro não é digno do dia em que o Cântico dos Cânticos foi dado a Israel”. Na visão dos sucessivos pactos com Noé, Abraão e Moisés, e dos esponsais com o Povo, ele é um livro central: comunica que é Deus quem 12 ORÍGENES, Comentário ao Cântico dos Cânticos, I,1. 56
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    toma a iniciativade vir como esposo ao encontro da esposa, o Povo. Vamos destacar dois pontos. 6.1.1. O amor é caminho divino do homem Lemos nos Provérbios: “Há três coisas que me ultrapassam, e uma quarta que não compreendo: o caminho da águia no ar, o caminho da serpente na pedra, o caminho da nave no mar, o caminho do homem na donzela” (Pr 30,18-19). O amor entre um homem e uma mulher é um “caminho”, como caminhos são três grandes elementos naturais: o ar, a terra e a água. Então, podemos pensar que é o quarto elemento: o fogo. O amor humano aqui exaltado é uma porta para penetrar no amor divino. A Bíblia apresenta os traços de Deus em linguagem humana, e também descreve o homem de acordo com um plano divino: faz uma antropologia de Deus e uma teologia do homem. Seus textos têm leituras diversas de acordo com os alegoristas ou com os literalistas Para nós, a interpretação simbólica capta o melhor do que foi indicado por uns e outros, buscando uma harmonia propriamente “simbólica”. Porque a interpretação literal (erótica ou romântica) é incapaz de acolher o que a tradição judeu-cristã viu no sinal nupcial, por não deixar um espaço transcendente para além do amor. E interpretação espiritual peca por não levar a sério a realidade do texto: o universo amoroso, reduzindo-o a uma moral para evitar que o espiritual seja “manchado” pelo carnal. 6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum “Grava-me como um selo em teu coração. Como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; e seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir” (Ct 8,6-7). O amor humano do Cântico dos Cânticos abre-se até vir a ser o símbolo mais eloqüente para falar de Deus. Sem deixar de ser plenamente humano, o amor adquire um valor místico que o torna adequado para representar o amor de Deus. O Cântico dos Cânticos não quer testemunhar apenas um amor humano, mesmo com toda a sua beleza: ele evoca continuamente algo mais além no próprio mistério do amor. O livro não enfrenta um desenvolvimento “religioso” do tema. Apenas sugere, a não ser quando fala da “chama de Javé”. 57
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    Seria inadequada umainterpretação literal-erótica, mas os elementos corpóreos, sexuais e sexuados do livro são importantes. O amor que brota transparente de um coração apaixonado já é uma realidade divina. O amor sempre é limpo; não precisa de água benta. Se houver pecados serão injustiças ou abusos contra a pessoa, como pode acontecer com qualquer outra coisa sagrada. Se as primeiras palavras humanas da Bíblia são o canto admirado do homem diante daquela que lhe foi dada como ajuda semelhante: “Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne”, o Cântico dos Cânticos seria uma prolongação desse mesmo êxtase amoroso, celebrado por ele e por ela. Nesta concelebração extasiada no jardim do amor, são convocadas também as criaturas: aqui brilharão o sol e a lua; o amanhecer e o anoitecer trarão a luz ou o mistério; estarão presentes os perfumes e aromas... e tudo que pode expressar a embriaguez e a doçura do amor. Todo o poema amoroso leva a uma expressão característica do amor esponsal: a recíproca pertença. Diante de Javé, a amada diz: “Meu amado é meu e eu sou dele”. O Cântico é uma grandiosa e gloriosa benção de Deus sobre o amor humano, sobre o matrimônio, sobre a ternura. A história de amor narrada neste livro é uma história precisamente esponsal, cercada e enriquecida de fascínio apaixonado até uma total consumação transformadora, como sugere a expressão “chama de Javé”. A tradição cristã que se expressa na liturgia e na exegese através dos séculos leu o Cântico identificando a esposa com a comunidade eclesial e com cada alma cristã. O maior número de comentários foi no séc. XII. Mas os comentaristas cristãos, quase sempre monges, nem sempre souberam respeitar o realismo humano do Cântico. Em vez de lê-lo como símbolo, converteram-no em alegoria intelectual, que se alimenta do cadáver da imagem. Esmiuçaram quadros e cenas, para traduzir cada detalhe a um conceito ou idéia espiritual. Não é esse o caminho. Para entrar na espiritualidade de Santa Clara, estamos considerando que ela – como a esposa do Cântico dos Cânticos – festejou o amor do Esposo em tudo que escreveu para Inês de Praga, especialmente no “Hino à Pobreza”, de sua primeira carta, e no “Feliz é você”, da sua quarta Carta. E que Francisco, o seu companheiro humano da aventura esponsal, também se arrebatou no “Cântico de Frei Sol” e no cântico “Ouvi pobrezinhas”. Mas de uma maneira toda especial nos Salmos que criou para o Ofício da Paixão e em quase todas as suas orações. Eles entraram na torrente dos cânticos bíblicos. 58
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    6.2. A Aliançae os Profetas O Deus da Bíblia sempre quis estar ligado ao seu Povo por alianças. Na primeira vez, ao salvar a família de Noé, fez com ele um pacto de Aliança, e colocou no céu o arco-íris, como símbolo desse pacto (cf Gn 9). Na segunda vez, fez um pacto de Aliança com Abraão e sua descendência (cf Gn 15-22). Na terceira vez, levando o Povo para fora do Egito, concluiu com ele mais um pacto de Aliança com Moisés no Sinai, e lhe deu as tábuas da Lei (cf Ex 19-24). Houve uma história antes desta grande Aliança, e também depois, como podemos acompanhar nos profetas. Os profetas foram mensageiros mandados por Deus ao seu Povo cada vez que a Aliança era esquecida. Mas, no fundo, a Aliança era sempre uma mensagem de amor. Deus tinha estabelecido a Aliança por seu amor todo especial, a Hesed, que falava de ternura, compaixão, algo do que se tentou traduzir com a palavra grega Éleos ou com a palavra latina Misericórdia. Originariamente (como nos casos de Abraão e de Moisés) a aliança tinha um aspecto jurídico: um pacto entre Javé e seu povo. Os profetas carregaram-na de afeto. A idéia de aliança dá lugar à formação do povo da aliança, que permite elaborar o pensamento e as instituições que dão uma fisionomia particular à sociedade bíblica. O sentimento da presença divina caracteriza a sociedade hebraica. E esse sentimento corresponde à aliança: Deus está com Israel. O pecado de Israel foi ter reduzido a aliança a um privilégio diante dos outros povos, sem penetrar no conhecimento de Deus e numa existência histórica de acordo com esse conhecimento. E também ter aproveitado a segurança dessa aliança para adotar os deuses de outros povos, como Baal, deus da fertilidade em Canaã. Por causa dessa infidelidade apareceu o ministério profético: para in- quietar um Israel esquecido e submetido a povos e divindades estranhas; admoestar um Israel inclinado à corrupção social contra as classes mais desfavorecidas; e lutar com Deus em favor de seu povo pecador. Por isso há um encontro dramático entre os profetas e o povo. Eles deram outra orientação à aliança: mais que um pacto, é um dom gratuito de Deus; e está fundada mais na promessa do que no compromisso. É, cada vez mais, uma relação de amor. 59
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    Daí nasceu asimbologia esponsal e, conseqüentemente, a exigência da fidelidade, uma fidelidade que podia resistir às separações que tivessem acontecido. Por isso, também foi importante no relacionamento entre os profetas e o Povo o conceito de história, na qual se desenvolvia um verdadeiro drama. O Deus de Israel era esposo do povo, não de sua terra: o amor que os une tem uma história; as atenções gratuitas de Deus e o triunfo de sua misericórdia sobre a infidelidade de seu povo são temas proféticos. E a pregação profética nunca considerou a hipótese de uma ruptura fatal, com o divórcio ou o repúdio entre Deus-Esposo e Israel-esposa. Vamos chamar a atenção para quatro profetas principais: Oséias, Isaias, Jeremias e Ezequiel. 6.2.1. Oséias Foi profeta entre 750-725 AC. Nasceu e cresceu num dos poucos tempos de esplendor de Israel, mas também enfrentou uma das circunstâncias mais duras. Corrupção, abusos econômicos e ambigüidades militares foram destruindo tanto o estado de direito como o relacionamento entre o Povo e seu Deus. Por isso, Oséias foi duro contra os governantes. Mas também enfrentou o período mais crítico da idolatria no culto a Baal. O estabelecimento na Terra Prometida tinha levado muitos israelitas, antes pastores, a serem agricultores. Por isso, passaram a pensar que um Deus de pastores não servia para suas atividades agrícolas e precisavam de um deus que os ajudasse a cultivar a terra. Foram passando para Baal e para seus cultos. Javé continuou a ser o Deus do povo, mas quem satisfazia as necessidades primárias era Baal. Era ele quem dava o pão e a água, a lã e linho, o vinho e o azeite. Mas Javé era ciumento e não admitia compe- tições. Oséias não comunicou algo revelado: sua vida se fez revelação, Deus falou no que ele viveu. A eterna fidelidade de Deus torna-se palavra viva no drama da infidelidade sofrida por Oséias. O profeta foi um esposo profundamente apaixonado e depois traído, que sofreu cruelmente as infi- delidades da esposa, a tortura de um coração que experimentou na escu- ridão as claridades fulgurantes do amor de Deus. À luz dessa experiência, Oséias contemplou um Deus que manifesta a ternura de um esposo cheio de carinho e, ao mesmo tempo, toda a dor de um amante enganado. É um Deus que suplica, se lamenta, exorta, ameaça, castiga, se afasta para despertar o desejo de uma volta sincera. Preocupa-se, duvida se deve castigar e sente a dor de ter tido essa dúvida, cheio de 60
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    ternura e compaixão.E no fim se acalma, prometendo uma reconciliação definitiva. Até então, Deus não tinha falado ao homem dessa maneira. 6.2.2. Isaias O Primeiro Isaias (1-39) faz uma denúncia da desilusão de Deus, com um ponto alto no “Poema da vinha”. Supõe uma relação nupcial entre o Senhor e sua vinha, símbolo de Israel, uma relação cheia de ternura, indicada pela expressão dodî (meu amado). O profeta se apresenta como o “amigo do esposo”. A ternura apaixonada de Deus por sua “plantação preferida” se revela nessa seqüência de iniciativas de amor: “ele a escavou, preparou e plantou boas cepas; construiu uma torre e cavou um lagar...”. Mas sofreu uma rejeição, infiel e injusta, que o profeta amigo-do-esposo teve que registrar com amargura. Amor e desilusão são a base desta leitura simbólico-nupcial da história de Israel e Judá diante um Deus esposo. Quando João retoma essa imagem, há duas mudanças importantes: a) a vinha já não é o povo, mas o Filho enviado por Deus, em quem se enxertam os homens; b) em vez de “justiça” fala em “amor”, que engloba e radicaliza a justiça. O Segundo Isaias (40-55) acontece numa situação diferente. Israel está desterrado na Babilônia e a palavra profética adota um tom de misericórdia. É o grande poema da volta do desterro. Este autor anônimo do séc. VI AC define todos os matizes do amor em um tema nupcial de finíssima lírica. Descreve Israel antes da aliança com Deus como uma mulher estéril, sem marido, sem filhos. Mas o Senhor apareceu, e foi capaz de superar todo tipo de esterilidade, capaz de fazer da estéril uma mãe feliz. Israel precisou ampliar a tenda de sua família. O Terceiro Isaias (55-66) se apresenta no meio da pobreza e do desânimo dos repatriados no período pós-exílio. O canto nupcial deste Isaias está no capítulo 62. Uma breve antecipação introduz o poema da nova Jerusalém: o Senhor reveste Israel com o manto nupcial e entra com ele na cena, solene e gloriosamente: “eu me alegro com meu Deus: porque me vestiu um traje de gala e me envolveu em um manto de triunfo, como noivo que se coroa ou noiva que se adorna com suas jóias”. Toda esta parábola nupcial se encerra na alegria transbordante de um Deus-jovem-esposo, que toma por esposa aquela que ele fez com suas mãos: “Como um jovem se casa com uma donzela, assim te desposa aquele que te construiu” (Is 62,5). 61
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    A voz doesposo rompe o silêncio antes de aparecer a estrela da manhã. Jerusalém se transforma numa esposa impaciente, intensamente dedicada aos preparativos da festa. O esposo aparece como o sol brilhante: a cidade é tomada pela luz solar e se vê como uma resplandecente coroa de ouro. A cidade é a própria coroa que o esposo coloca na cabeça da princesa que vai receber o “nome novo”: “Já não te chamarão ‘a Abandonada’ nem à tua terra ‘a Devastada’. Vão te chamar ‘Minha Preferida’ e à tua terra ‘a Desposada’”. 6.2.3. Jeremias Também usou a simbologia esponsal. Ele nasceu em Anatot, da tribo de Benjamim, em meados do séc. VII AC. Podemos seguir seu itinerário trágico e comovente. Jeremias percorreu-o apaixonadamente, perdido entre as saudades dos oráculos de promessa e a presença dos oráculos de ameaça que Deus lhe impôs; entre a obediência à missão divina e a solidariedade com seu povo sofredor. Com olhos lúcidos, iluminados por Deus, tem que ir assistindo ao fracasso sistemático de toda sua vida e atividade. A temática esponsal como simbologia aparece nos capítulos 2-3 de seu livro. O amor de Deus é mostrado em um solilóquio divino dentro de um grande apelo de Javé a seu povo: amor e fidelidade são indissociáveis, e atentar contra a fidelidade é tornar sacrílego o próprio amor. O termo hesed na linguagem bíblica é a virtude da aliança por excelência, e expressa também a atmosfera de fidelidade amorosa que vincula os namorados, como Deus não se cansa de mostrar através de Jeremias, porque é um profeta da ameaça e do castigo, mas também da consolação e da esperança. 6.2.4. Ezequiel Ezequiel vivia serenamente seu casamento, e estava apaixonado por sua esposa, que chamava de “o encanto de meus olhos”. Ela morreu de repente, e a dor ajudou o profeta a entender o que o esposo-Deus sofria diante do abandono da esposa-Israel. Israel era como uma jovenzinha selvagem e abandonada. Deus passou e, com gestos tipicamente esponsais na simbologia bíblica, apresentou-a como resgatada e engalanada. Ela cor- respondeu prostituindo-se com toda espécie de traições e abominações. A resposta de Deus-esposo é a surpreendente novidade de quem acolhe sempre numa incansável misericórdia, sem permitir que a história acabe em traição. Diante dessa atuação amorosa do Deus-esposo, Israel-esposa vol- 62
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    tará e pediráperdão a Deus, abrindo um novo e definitivo horizonte de amor e de fidelidade. Essa seria, em resumo, a mensagem profética em relação ao tema que nos ocupa. 6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo 6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo A história da salvação chega à meta na revelação de Jesus, Palavra definitiva de Deus, que vem recapitular o que tinha sido dito no Antigo Testamento através de tantos mediadores e mensageiros a cada geração histórica. Na Pessoa de Jesus, Deus abraça o homem (Filho de Deus) e o homem abraça Deus (Filho do homem). Sua natureza divino-humana apresenta-nos uma união excepcional, porque na humanidade de Jesus realiza-se com perfeição tudo que a humanidade histórica (povo e cada indivíduo) está chamada a viver com seu Criador. Jesus Cristo-Deus é o Esposo que vem ao encontro da humanidade e, ao mesmo tempo, Jesus Cristo-homem é essa humanidade esponsal encontrada por seu Criador, a Cabeça de um corpo que constitui a humanidade nova desposada com a Trindade. Nas Bodas de Caná (Jo 2,1-11), João apresentou uma cena carregada de simbolismo esponsal, que culmina numa declaração em que está a chave simbólica de todo o relato e de sua significação cristológica esponsal: “Todo mundo serve primeiro o vinho melhor, e quando os convidados já estão um tanto bêbados, vem com o pior. Tu guardaste até agora o vinho melhor”. Em Caná fala-se três vezes do vinho e não se diz o nome dos noivos: o vinho estava associado na literatura profética ao anúncio dos tempos da restauração messiânica quando Deus desposará seu povo na fidelidade e no amor. As palavras ditas ao noivo são aplicadas a Jesus: Jesus fez seu primeiro sinal. Tudo consiste na presença do esposo que começa a se manifestar. 6.3.2. O amigo do Esposo O comportamento de João Batista em relação a Jesus é explicado por uma figura semítica dos casamentos: o amigo do esposo. Sua missão era acompanhar o esposo e contribuir para o esplendor da festa. Por isso, o amigo “tinha que diminuir para o esposo crescer”. No contexto nupcial “crescer” alude à benção dada por Deus ao homem em Gn 63
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    1,28: “Crescei emultiplicai-vos”, indicando a fecundidade da aliança definitiva inaugurada pelo Messias. João é o amigo do esposo. Com a chegada de Jesus-Esposo, começa o tempo messiânico e se celebram as Bodas entre Deus e seu povo. Paulo também reivindicou um lugar de amigo do esposo: “tenho ciúmes de vós, ciúmes de Deus, porque vos prometi a um só marido para apresentar-vos a Cristo como virgem intacta” (2Cor 11,1-3). 6.3.3. A esposa ouve o Esposo A alegria de escutar a voz do Esposo não foi privilégio do Batista: é parte do discipulado cristão escutar aos pés do mestre, como no modelo rabínico. Essa é uma nota interessante da vocação cristã contemplativa, prefigurada em Maria de Betânia, mas que tem seu ponto alto em Maria de Nazaré. Uma longa tradição viu em Nossa Senhora o elo entre os dois Testamentos. Ela foi muitas vezes invocada como a filha de Sião, em quem se cumpriram as profecias messiânicas do Antigo Testamento. Nos evangelhos de Lucas e de João, Maria inaugura e antecipa a nova Salvação. Ela seria a Virgem, a Mãe e a Esposa. O mistério nupcial da Virgem Mãe se entende especialmente em relação com Aquele que, dentro do mistério de Deus, é a nupcialidade eterna do Pai e do Filho, e na economia da salvação é o artífice da aliança esponsal entre Deus e seu povo. Na figura da Esposa condensa-se o dom acolhido pela Virgem e realizado na Mãe: o céu desce para a terra e firma suas raízes; a terra saboreia o amanhã de Deus que lhe foi dado e prometido. Dentro da aliança esponsal protagonizada na história salvífica por Deus e seu povo, Deus e cada pessoa humana, Maria esposa do Paráclito indica com sua própria vida o mistério nupcial que o Espírito constrói. Podemos dizer que há uma analogia entre o que o Espírito faz em Maria e o que faz na Trindade e na história da Igreja, e por isso a esponsalidade da Virgem se prolonga na história cristã na relação pessoal que cada crente e todo o Povo de Deus têm com o Espírito Santo: entrega incondicional (fiat), acolhendo a Palavra, meditando-a no coração, vivendo-a cada dia e dando-a à luz pelo testemunho da existência. Pavel Evdokimov disse que Maria, pela força do Espírito Santo, gerou Deus na terra e o homem no céu. 64
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    6.3.4. A Igreja,Esposa do Verbo A Igreja é a “esposa” por excelência, como Jesus é o “esposo”. Maria faz parte da Igreja e, como tal, participa dessa esponsalidade eclesial. Maria representa a parte da Igreja que conseguiu viver fielmente a vocação esponsal. O Senhor quer ver sua Igreja como Esposa bela, digna dele. Maria é aquela subjetividade capaz de corresponder plenamente, em sua maneira feminina e conceptiva, à subjetividade masculina de Cristo, pela graça de Deus. Ela é o espaço eclesial em que Deus se vê correspondido esponsal-mente. Mas Maria não esgota todo o Povo de Deus. É à Igreja que corresponde o título de esposa. O ponto messiânico mais alto coincide com o cumprimento de todas as profecias e promessas em torno à figura do Esperado, que aparece como o Esposo. O tempo cristão com referência à comunidade messiânica – considerada biblicamente como “Esposa” – é definido como o “tempo do Esposo”. Na carta aos Efésios (Ef 5,21-33), o amor esponsal de Cristo gira em torno de um texto que costuma ser chamado de “mesa doméstica” porque tem indicações para a vida de família: os cônjuges, os filhos, os escravos. Fiquemos com o que diz a respeito dos cônjuges: “Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para purificá-la com o banho da água e da palavra, e consagrá-la, para apresentar uma Igreja esplêndida, sem mancha nem ruga ou nada semelhante, mas santa e imaculada”. Podemos ler paralelamente 2Cor 11, em que se diferencia o período do noivado e o casamento: a comunidade de Corinto era só a “noiva” de Jesus- Esposo; o casamento estava marcado para o dia final. É sempre um processo. Neste período, Cristo se dá à Igreja, renova sua oferta e seu amor por ela, santifica-a com os sacramentos, dirige-a pessoalmente para que chegue a ser sem mancha nem ruga. Cristo é o Esposo, a Igreja é a Esposa, mas a esponsalidade ainda não é plena. A Igreja é como a jovem que foi desposada; já está consagrada ao Esposo-Cristo, por quem já entrou no estado jurídico de casada, mas quando for introduzida na casa do Esposo estará definitivamente com ele, participando plenamente de sua glória divina. Na mesma linha, podemos encontrar no Apocalipse uma descrição da relação esponsal entre Cristo e a Igreja. O Apocalipse tem uma visão dramática e integral da história como um campo de batalha. Nesse campo 65
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    se apresenta otempo do Messias-Esposo, que entra na história humana para encontrar e redimir a Esposa-Igreja infiel, e o tempo do Esposo é, ao mesmo tempo, o tempo dos ciúmes de Deus em seus dois aspectos de amor colérico e salvador, sem que isso implique volta a uma imagem de Deus mais própria do Antigo Testamento. O Apocalipse trata disso em dois tempos: primeiro, o amor jovem e volúvel, generoso e frágil; segundo, a comunhão plena e eterna do Esposo e da Esposa. 6.3.4.1. O “amor primeiro”, entre a generosidade e a fragilidade Cristo-Esposo está sempre presente na vida da comunidade e de cada cristão: as chamadas cartas às sete igrejas são testemunho dessa solicitude de Cristo que conhece e acompanha sua Igreja. Vamos ver duas dessas igrejas: a de Êfeso e a de Laodicéia. A carta à comunidade de Êfeso começa com uma descrição elogiosa das “virtudes” conquistadas por esta igreja. Os cristãos de Êfeso têm um compromisso real, um amor sincero por Jesus ressuscitado que justifica as coisas boas que estão fazendo, a ponto de enfrentar provas e dificuldades. Mas depois disso há uma quebra, e a comunidade corre o risco de arruinar suas luzes (será excluída do candelabro, na comunhão das igrejas), pois esqueceu o primeiro amor. Recordam-se os ciúmes de Deus como um eco de Oséias, quando Javé também recriminava a infidelidade da esposa aludindo ao amor da juventude, ao período do deserto. Mas o mensageiro de Deus propõe a volta ao primeiro amor usando três imperativos: lembra-te, converte-te, faz: três atitudes basilares da história de Israel: recordar. Na carta à comunidade de Laodicéia há outro exemplo de como o Res- suscitado adota um tom exortativo-ameaçador para expressar seus ciúmes esponsais pela Igreja concreta. Denuncia apaixonadamente o que não é correspondência amorosa por parte de quem dele tinha recebido tudo. O delito de Laodicéia não está na falta de amor, mas na tibieza de sua entrega. Essa situação de indiferença merece a tremenda admoestação: porque és morno, vou te vomitar de minha boca. Mas a “cólera divina” pertence ao estilo dos ciúmes de Javé, que é sempre misericordioso. 6.3.4.2. As núpcias últimas e definitivas Depois de toda uma história grávida de verdade e de fragilidade na re- lação da Igreja com Deus, vem o momento escatológico em que se cele- 66
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    brarão para sempreas Bodas de Cristo-Esposo e da Igreja-Esposa (incluin- do cada pessoa). O Apocalipse apresenta duas notas sobre essa realidade final. Em primeiro lugar, no capítulo 19, depois de descrever a queda da BA- bilônia, celebra-se a relação esponsal entre o Cordeiro e a Igreja. A Igreja deve fazer e vestir um traje especial para o casamento. O linho puro resplandecente consiste nas “boas obras dos santos”, imagem fundamen- tada no conceito paulino da relação entre graça e boas obras, que lhe permite entrar na ceia nupcial Em segundo lugar, há uma insistência na dimensão eclesial dessas núpcias. São núpcias com a cidade santa, a Jerusalém nova, adornada como noiva para seu noivo. Nenhum cristão é isolado. A comunidade de pessoas, a comunhão dos santos, supõe uma partilha real da vida como morada solidária de Deus no meio deles. 6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus O ser humano, esponsal por natureza, é imagem e semelhança de Deus que se revelou como comunhão de amor e esponsalidade trinitária. Falando de aliança, vimos que nela está a chave para entender a proposta de Deus de devolver ao homem sua vocação original: viver em comunhão humana a partir do fiel reflexo da comunhão divina. O êxodo para a nova aliança vai ser marcado por essa pertença recíproca, afetiva e efetiva, magnificamente expressa em: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Ex 6,7). Fala-se da Aliança desde o começo: Deus caminhou na direção do povo, e o povo na direção de Deus. Deus e cada um de seus filhos foram concordando. Os gestos e as palavras, os dramas e as esperanças, as certezas e os temores dos homens foram a ocasião para Deus entrar com suas obras e ditos, como pudemos ver em Abraão, Moisés, Oséias, Isaias, Jeremias, Ezequiel e no Cântico dos Cânticos. A encarnação do Filho de Deus foi o ponto alto dessa mútua pertença, quando na Pessoa de Jesus uniram-se Deus e o homem. A nova huma- nidade inaugurada com Cristo não se esgota nele, que é a cabeça de um corpo formado por todos e cada um de nós. Deus se revelou aos poucos, constituiu a Igreja como interlocutora esponsal, mas há dois momentos: um histórico e outro escatológico. O primeiro é para ir amadurecendo e aumen- 67
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    tando a pertençaesponsal do homem diante de Deus. O segundo será no fim da história como vimos em São Paulo e no Apocalipse. Todo esse percurso termina com uma síntese: “O Espírito e a noiva dizem: Vem!” (Ap 22,17). Aí está escrito noiva (nynfe) e não esposa. A experiência complexa que os ouvintes do Apocalipse escutaram na primeira parte do livro, aprendendo devagar o amor a Cristo, leva-os a colaborar para sua vinda na história. Aqui se inscrevem os três gemidos de que Paulo fala na carta aos Romanos: o gemido da criação, o gemido de cada homem e mulher, o gemido do próprio Espírito de Deus. Geme-se porque já se saboreia o final definitivo, mas ao mesmo tempo se tem a vivência cotidiana do inacabado, do imperfeito, do que inda não chegou. A Igreja recebeu como noiva as primícias do Espírito, mas aguarda o momento oportuno. Não estamos diante de uma questão abstrata sobre Deus, mas diante de sua revelação cristológica. A pergunta foi ele quem fez: “quem dizem que eu sou?... e vós, quem dizeis que eu sou?”. Responder a essa pergunta reconhecendo em Jesus esse rosto esponsal de Deus foi o que ocupou tantos cristãos nas melhores páginas místicas, nas maiores obras missionárias, nos caminhos mais insuspeitos do seguimento do Senhor e do serviço aos irmãos em quem Ele está presente. O encontro com Jesus no claro-escuro da história pessoal e social é o grande desafio de cada geração. Da disponibilidade da pessoa vai depender, ao menos em parte, que esse “abismo luminoso” que é Cristo continue a ser dolorosamente abismático ou se torne um lar pessoal, cuja contemplação nós já não possamos deixar, por mais que a luz cegue e a profundidade desassossegue. O encontro com Cristo não é uma meta à que se chega, é um caminho em que alguém se coloca. Desse encontro com Cristo Esposo, contemplado e testemunhado por cada geração, fala-nos a história da Igreja em todos seus lances vocacionais dos diferentes caminhos em diferentes carismas. Na história da Igreja podemos ouvir o contínuo convite do Espírito à Noiva: Vem! Os que corresponderam a esse chamado geraram uma vida, uma espiritualidade e uma cultura (arte, literatura, música...) que se integram no horizonte esponsal da auto-revelação de Deus. Ainda vamos continuar nossas reflexões, mas eu proponho desde já que olhemos para Clara de Assis como uma mulher que – seguindo os passos de Maria – assumiu ser a Esposa mãe e virgem e até mesmo a Esposa- Igreja por sua intercessão pela cidade de Assis e pela consciência de ser 68
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    “auxiliar do próprioDeus, sustentáculo dos membros vacilantes do seu corpo inefável” (3CtIn 8), integrada “à Igreja triunfante e mesmo à militante” (TestC 75). É aguda a perspectiva de Francisco que, no cântico “Ouvi pobrezinhas!” viu Clara e suas Irmãs “no céu coroadas como a Virgem Maria”. Vestida de sol, com a coroa das doze estrelas das tribos do Povo e com a lua debaixo dos pés. 69
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    7. Clara saiupara estar com Ele 7.1. O “não-lugar” Santa Clara não saiu de casa para ir a algum lugar determinado: ela saiu para estar com o Esposo. Na noite de um Domingo de Ramos, abandonou sua casa. Na Porciúncula, foi consagrada pelo corte dos cabelos. Nem dormiu lá: esteve uma semana em um mosteiro de beneditinas. Mas também não ficou lá. Esteve uns poucos meses em Santo Ângelo de Panço, com um grupo de leigas, que também estavam na busca de Deus. Passou o resto da vida – quarenta anos – em São Damião. Mas nunca achou que fosse lá a sua morada permanente. Era “peregrina e forasteira”. Queria apenas estar com o Esposo, onde Ele estivesse, enquanto Ele estivesse. Mais tarde, ela escreveria: “As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade... (RSC 8, 1-2). Quando São Francisco foi levado para o meio dos leprosos e teve a experiência de “usar de misericórdia” com eles, disse que, depois, se demorou pouco e “saiu do século”. Encontrar-se com Deus, viver a mise- ricórdia, que é a Hesed hahamin (o Amor que é próprio de Deus, na Bi- blia), levou-o a “sair do século”. Que quer dizer isso? Para nós, hoje, a palavra século significa um período de cem anos. Na língua latina saeculum referia-se ao tempo que os gregos chamavam de Crónos = o tempo que pode ser medido. Nossos cronômetros e cronologias marcam as horas, os dias, as semanas, os meses, os anos... A ele se opunha a palavra grega Aión, com uma versão latina que era Aevum, um tempo que não se mede, sem começo nem fim. Em grego, a palavra Aión é parente de Aéi, o Sempre. Quando São Francisco disse que “saiu do século” quis significar que a experiência de Deus o levara a sair do tempo dos homens e passar para o tempo de Deus. Sair do tempo cronológico e passar para o Sempre. É interessante que os anacoretas e monges antigos tinham cunhado a expressão “fuga do mundo”, para expressar sua entrada na vida religiosa. São Francisco – em um novo estilo de vida religiosa –, não fugiu do mundo dos homens para uma abadia em algum lugar afastado, nem para uma 70
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    ermida: ele ficouem Assis. Mas ficou em Assis de outro jeito: já não era mais um homem movido pelos sonhos dos seus contemporâneos e conci- dadãos: queria ser um “peregrino e forasteiro”, um cidadão do céu. Não tinha nesta terra morada permanente; sua casa era a Jerusalém do alto, a definitiva. Ele era um homem que vivia a comunhão com o Deus Esposo e que queria fazê-lo presente no mundo que não permanece, que passa. Mas ele não podia sair do tempo dos homens sem sair do lugar dos homens. Ficou em Assis e na Itália do século XIII, mas, na realidade, era um homem do “não-tempo” e do “não-lugar”, quer dizer: do tempo e do lugar de Deus. E aprendeu a viver outro tipo de tempo, que a Bíblia ensina e que era conhecido na cultura grega: o Kairós. Diferentemente do Crónos, que vai contando o tempo que passa, o Kairós é aquele tempo fugidio, que passa em um momento e não permanece; é um encontro oportuno e único entre o tempo de Deus e o tempo dos homens. Santo Tomás More, um franciscano secular, deve ter entendido isso quando criou a palavra Utopia. Formada com o grego “u” (= não) e “topos” (= lugar) é uma palavra que quer dizer exatamente “não-lugar”. Quem descobre Deus vê que não tem lugar no “mundo dos homens”, tendo sido enviado como Jesus e com Jesus para estar nesse lugar. Descobre-se em um não-lugar. Para sermos completos, descobre-se também no tempo de Deus ou, diante das outras pessoas, em um “não-tempo”. Não está mais no lugar e no tempo em que os homens que se esqueceram de Deus estão cons- truindo o seu próprio mundo. Tomás More não era um alienado. A Utopia, nome do livro que ele escreveu – e uma palavra tão usada até hoje – não era algo impossível, como muita gente parece pensar. Era um sonho possível: ele deu o nome de Utopia a um país longínquo, para mostrar que a Inglaterra do seu tempo, cheia de problemas, podia ser reconstruída com princípios diferentes. E quem estuda o livro Utopia e conhece melhor Tomás More percebe como ele se apoiou no “saí do século” de São Francisco. A santidade sempre comporta uma “fuga mundi” mesmo quando o indivíduo – por ter desposado Deus em Jesus Cristo – não sai do meio das outras pessoas, como aconteceu com Francisco de Assis. Mas também os que entraram no “não-lugar” e no “não-tempo” abriram o espaço interior para Deus, acolheram o Deus que é Liberdade e que é Amor, começaram a enxergar o mundo com os olhos de Deus e, como Jesus Cristo, são envia- dos de novo ao mundo de todos os homens e mulheres. Não para se 71
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    identificarem com ele:para o transformarem. “Estão no mundo sem ser do mundo”. Talvez seja mais compreensível, hoje, não falar em “fuga”, mas em mudança de perspectiva. No “lugar”, amar é possuir ou é responder a uma necessidade; no “não-lugar” ama-se a partir de Deus, depois de ter acolhido Deus no espaço interior. Aliás, o “não-lugar” é o jeito de criar o “espaço de Deus dentro do coração”. É uma outra perspectiva para o amor. A pessoa é acolhida como parte da presença de Deus e recebe o nosso amor no mesmo ato em que estamos amando a Deus. Para um amor verdadeiro, é preciso estar no “não-lugar” e no “não-tempo” de Deus. Quando conheceu Jesus Cristo através de São Francisco, Clara teve consciência nítida de que não tinha mesmo lugar no mundo de seus parentes e de sua cidade. Digo consciência nítida, porque ela já conhecia Jesus Cristo numa intimidade muito grande e, desde criança, já estava dando demonstrações de que era uma pessoa “diferente”. Na medida em que foi passando para Jesus Cristo, foi ficando em um “não-lugar”. Sim, porque não se tratava simplesmente de mudar de lugar: todos os lugares conhecidos eram “lugares dos homens”, não eram o “lugar de Deus”. Havia até presença de Deus no mundo dos homens, mas o “lugar de Deus” parecia mesmo ser outra coisa. A saída da casa paterna teve para Clara um alto valor simbólico: foi o momento em que deixou o lugar que não era dela e começou a viver de fato no “não-lugar” de Deus. São Paulo das Abadessas, Santo Ângelo de Panço, São Damião... nenhum desses lugares era importante em si mesmo. Eles eram apenas tentativas de mostrar para Deus, para si mesma e para todas as pessoas que ela estava saindo do lugar de todo mundo. Nem o mosteiro e nem mesmo o grupo de Irmãs foram para ela um “lugar” em que podia estar no mundo. Foram o “não-lugar” de Deus. O que não a impediu, pelo contrário, levou-a a ser uma amiga da sua cidade. O “não-lugar” dela não foi exatamente São Damião, mas o mundo da contemplação de Jesus Cristo. São Damião, como as outras casas das Irmãs Pobres era um abrigo simbólico, como já tinha sido o deserto para os eremitas, como já tinha sido o mosteiro para os monges. A única coisa importante era que, ao atravessar a porta daquela casa, uma mulher vivia o sacramento de estar saindo de todos os lugares para entrar no “não-lugar” de Deus. É provável que Francisco, que também se sentira “sem-lugar” quando se desvaneceram seus sonhos de riqueza e glória e quando conviveu com os leprosos, também tenha tido a primeira experiência concreta de 72
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    “entrar” no não-lugarde Deus ao passar a porta de São Damião e dar de cara com aquele Crucificado. 7.2. Uma situação liminar Já ouvimos, muitas vezes, falar de “ritos de passagem”. São as celebrações que se fazem, por exemplo: para comemorar os quinze anos de uma garota, a coroação de um rei... Chá de cozinha e despedida de solteiro são ritos de passagem. Qualquer festa de aniversário é um rito de passagem. São comemorações em que festejamos uma mudança de situação na vida de uma pessoa. Ora, por trás de todo rito de passagem, há uma situação liminar. Vale a pena refletir sobre isso. E vai nos ajudar e pensar no que seja um “não- lugar”, ou um “não-tempo”. “Liminar” é um adjetivo da palavra limiar. Limiar é aquela linha que separa o fora do dentro nas portas. E nós vivemos passando por portas. Considere uma casa, com a sua porta: nós podemos estar dentro da casa, fora da casa, ou passando pela porta. Podemos ficar lá dentro, podemos ficar lá fora. Mas porta não é lugar de ficar, é lugar de passar. Vamos pensar em um exemplo: o casamento. A pessoa pode estar fora e ser solteira; pode estar dentro e ser casada. Também pode estar na linha da porta: é noiva. Ser solteira ou casada são situações permanentes; ser noiva é uma situação transitória, liminar. Outro exemplo: uma jovem quis ser religiosa e foi acolhida no “novi- ciado”. A família pode até dizer: “Minha filha ficou freira”, mas as reli- giosas vão dizer: “Não, ela só vai ser freira quando professar no fim do noviciado”. De fato, ela não é mais uma pessoa “leiga” e ainda não é uma pessoa consagrada, “religiosa”. De certa forma, é uma pessoa “pendurada no ar”. Está em uma situação liminar. Clara, como Francisco, teve uma compreensão bem aguda dessa situa- ção. Foi por isso que os dois citaram a expressão de São Pedro: “peregrinos e forasteiros”. Eles não tinham nesta terra sua habitação permanente: eram cidadãos do céu, mesmo que ainda não houvessem chegado lá. Nos ritos mais significativos de passagem costuma-se usar roupas espe- ciais: roupa de noiva, roupa de rei, roupa de bispo. Servem para simbolizar o seguinte: na situação liminar, a pessoa despe a roupa da vida anterior, do lado de fora, para vestir a roupa da vida nova, do lado de dentro. Há um 73
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    momento em queé extremamente frágil, porque está sem nenhuma roupa. É uma situação de extrema pobreza, representada pela nudez. Quem está no não-lugar, deixou de estar no lugar dos homens e ainda não se situou totalmente no lugar de Deus. É um “peregrino e forasteiro”, caminha por este mundo “sem bolsa nem calçado”... suspira por chegar à sua casa definitiva, mas tem que se soltar totalmente nas mãos de Deus. 7.3. Companhia no “Não-Lugar” Clara teve companheiras porque “Deus lhe deu Irmãs” como tinha feito com Francisco. Aliás, uma das primeiras revelações do não-lugar simbo- lizado em São Damião fora justamente essa: Deus queria encher aquele “não-lugar” de mulheres que renovariam a Igreja e o mundo. Outras um- lheres também quiseram estar com Jesus Cristo mesmo perdendo o seu lugar neste mundo. É verdade que, com o tempo, também entraram pessoas que simples- mente queriam estar ao abrigo de um mundo que lhes parecia difícil ou hostil, sem nunca vir a ter consciência de que o importante era sair para o “não-lugar”. Clara lutou com todas as forças para manter-se no não-lugar de Deus. Por isso, com ajuda de Francisco, criou um eremitério ou espaço de reco- lhimento em São Damião. Quando lhe deu uma “forma de vida” – que, aliás, foi crescendo com a experiência – quis deixar concreto como é que se vivia no “não-lugar”. Creio que é nessa perspectiva que devemos entender tudo que ela escreveu. Era a perspectiva da “Forma de Vida” dada por Francisco em 1212, tão igual a sua “Antífona de Nossa Senhora”: o lugar deles era a Trindade, o tempo deles era a Trindade 13. Creio que o cardeal Hugolino pode ser considerado um amigo apesar de também ter sido um dos que não conseguiram entender o “não-lugar” de Deus, mesmo compreendendo muitas das propostas de Francisco e Clara. Talvez tenha até querido ajudar sinceramente quando protegeu o seu “não- lugar” com uma clausura no estilo que ele entendia. Era o que cabia em sua cabeça de homem do mundo (o mundo eclesiástico, inserido no mundo social e político dos homens, era decididamente um lugar dos homens). 13 Nos escritos de Clara podemos perceber como ela foi vivendo cada vez mais no não-lugar e no não tempo de Deus. Para dar um exemplo, estou colocando algumas citações de Clara no fim deste capítulo. Faço isso para que a reflexão sobre o nosso tema possa ser ágil. 74
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    7.4. Orar no“Não-lugar” Viver a contemplação de Jesus é viver sem cessar no não-lugar. Mas as pessoas que olham com olhos materiais entendem a contemplação como mais um tipo de oração (ou de reza): como espaços de tempo ou de lugar destinados à oração. Tentam determinar e cercar esses espaços porque não vêem outro jeito de distinguir o “não-lugar” do “lugar”. Mas a pessoa que sai para o “não-lugar” está apenas saindo para Deus. Deixa o “século” como um lugar do mundo construído pelos homens que não tem lugar para Deus. Mas não vai para outro planeta. Por isso, mesmo vivendo no mundo de Deus (o “não-lugar”), continua a estar no mundo dos homens que perderam a liberdade (por não estar caminhando decidida- mente para Deus), ainda que nunca o considere esse o “seu lugar”. Enxergar com os “olhos do espírito” é ver as coisas a partir do “não- lugar” deste mundo ou, em outras palavras, a partir do lugar de Deus. Foi nessa perspectiva de um “não-lugar” para as outras pessoas, mas de um verdadeiro “lugar” de Deus, que Francisco enxergou diferentemente os sarracenos, os pobres, os ladrões, o lobo de Gúbio. Vamos ver alguns exemplos de como, mesmo sem tomar Deus em con- sideração, muitas vezes nós nos sentimos fora do lugar. Quando chegamos a um país estrangeiro, olhamos tudo com um olhar diferente, enxergamos de uma forma que não é a das pessoas que já nasceram e sempre viveram lá: tudo nos parece estranho, mas os outros nem desconfiam que no meio deles está alguém que vê tudo diferente. Não sou dali, aquele não é o meu lugar. Estou em um “não-lugar”. Outro exemplo acontece quando nos vemos em um ambiente de trabalho ou de vida que nos faz sentir como “um peixe fora da água”. Naturalmente, esses exemplos são pálidas alusões: estar no não lugar de Deus é incomparável. Francisco e Clara usam a expressão “peregrinos e forasteiros” (cf 1Pd 2,11) justamente para falar no “não-lugar”. Por isso não se deve estranhar que Clara, que nunca saiu de São Damião, também se considere uma “peregrina e forasteira”: ela é do lugar de Deus e por isso está sempre no “não-lugar” enquanto vive no mundo dos homens. O aspecto fundamental da itinerância – um ponto chave da espiritua- lidade franciscana – não é exatamente ficar mudando de lugar, mas viver em qualquer lugar sabendo que lugar nenhum é o meu, porque o meu lugar é o lugar de Deus. 75
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    Talvez se possapensar alguma coisa semelhante quanto aos tempos de oração. Não é questão de eu ter um tempo cortado do tempo dos homens para me entregar a Deus, ainda que isso possa constituir um bom “exer- cício”. O contemplativo é uma pessoa que vive sempre “no tempo de Deus”, de alguma forma vive o “aion” (o eterno, o tempo não medido) no meio do “crónos” (o tempo humano, que pode ser calculado). Talvez seja justamente por isso que consegue perceber alguns “kairói” especiais: mo- mentos em que o tempo de Deus e o tempo dos homens coincidem e em que, por isso mesmo, a gente consegue fazer passagens do mundo de Deus para o dos homens. A Eucaristia é o grande kairós do tempo de Deus no tempo dos homens. Evidentemente, só para quem vive o tempo de Deus e está fora do tempo dos homens, pelo menos de certa forma. Essa “certa forma” quer dizer: Estou dentro do “tempo dos homens” porque nasci neste mundo e nele vou permanecer enquanto não chegar a minha morte. Também estou dentro do tempo dos homens porque convivo com eles e tento trazê-los para o tempo de Deus. Mas, enquanto a maioria vive o curto tempo que passa, eu já estou vivendo o eterno. Recordemos São João: Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o estilo de vida orgulhoso - não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também as suas concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (1Jo 2,15-17). E este é o testemunho: Deus deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho de Deus tem a vida; quem não tem o Filho também não tem a vida (1Jo 5,11-12). 7.5. O Reino do “Não-Lugar” Quando veio anunciar o seu Reino, Jesus quis estabelecer dentro do lugar e do tempo dos homens uma situação nova em que todos pudéssemos ir aprendendo a viver o lugar e o tempo de Deus. Ao pé da letra, uma “igreja” (do grego ekklesía = conjunto dos convocados para uma assem- bléia) seria um grupo de pessoas que aceitaram o convite de Jesus e pás- saram a constituir um lugar de Deus no meio dos homens. Os homens de fora podem não entender isso, mas as pessoas que estão dentro só podem ser consideradas “chamadas” (de kaléo) se tiverem a consciência de viver em um “não-lugar” no meio do mundo. Construir o “Reino de Deus é isso”. 76
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    E Jesus advertiuque o Reino de Deus está entre nós ou dentro de nós, sem se apresentar com fanfarras. Nessa perspectiva, como poderemos falar em “não-lugar” de Deus, em “não-tempo” de Deus? Parece que os que nunca conseguiram entender nada disso só podem falar em aspectos pequenos, como “clausura”, “tempos fortes de oração” ou “horas de contemplação”. E não vão ser as nossas explicações que vão poder deixar essas coisas claras, porque isso não depende de compreensão, depende da graça. Francisco e Clara se tornaram outros Cristos justamente por isso: entraram no “não-lugar” e no “não tempo” de Jesus Cristo. Para quem está no não-lugar e no não-tempo de Jesus Cristo, que valor têm as conquistas, as riquezas, as vantagens do mundo dos homens? São como areia, são menos do que pó. Eles gostavam de lembrar isso. Os contemplativos não são pessoas que fogem do mundo. Verdadeiros “contemplativos”, quer vivam em mosteiros quer estejam no meio do mundo, são pessoas do “não-lugar” e do “não-tempo” que nos fazem viver desde já a eternidade e a liberdade de Deus. 7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus Na sua segunda Carta a Inês de Praga, Santa Clara a exorta a não perder de vista o seu ponto de partida: ela tinha deixado tudo para seguir Jesus Cristo e, por isso mesmo, devia abraçar o Cristo pobre como uma virgem pobre. O texto é muito bonito e diz: “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cf. Ct 3,4), mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança... Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 11-13,17- 18). 7.7. Algumas considerações A proposta que estamos fazendo neste capítulo pode ser bastante surpreendente e nova para muitas pessoas. Como é ampla, e o nosso espaço é restrito, coloco mais alguns pontos soltos para serem considerados. 77
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    1. “Os quefazem penitência”, a que São Francisco se refere na Carta aos Fiéis, são os que passam para o lugar e o tempo de Deus. Da mesma forma, “os que não fazem penitência” são os que constroem castelos na areia do mundo dos homens. 2. O “não-lugar” de Deus é o mundo da interioridade. Somos levados a nos afirmar natural ou culturalmente no mundo exterior, que é o “mundo dos homens”. Mas quando conseguimos entrar no mundo interior, perdemos o pé (ou o interesse) no mundo exterior. Quem perde o interesse pelo “mundo exterior” deixa de possuir, deixa de mandar, deixa de ser importante: sente-se feliz de ser pequeno e pobre. Continua nesse mundo, mas para prestar serviço. 3. Quem fica pobre (e se sente pequeno) abre espaços na interioridade. São os espaços de Deus. Então Deus entra com toda a sua liberdade e nos libera para o não-lugar. Daí nasce a oração interior, o olhar contemplativo, com os olhos do espírito, para o mundo exterior, do “lugar”. Como esse olhar parte da Liberdade, que é Deus, é o verdadeiro olhar de entrega. Daí nasce o verdadeiro Amor. 4. É um pequeno exemplo, mas talvez ajude a pensar: No meio do asfalto ou do concreto, que são construções do “mundo dos homens”, às vezes abre-se uma rachadura por onde brotam sementes que o vento levou – o mundo de Deus está continuamente misturando o não-lugar com o lugar, o não-tempo com o nosso tempo. Contemplar é saber perceber isso. 5. Quando experimenta a pobreza, a pequenez e a solidão interior do ser, o homem abre os olhos do espírito: volta-se para fora, retorna ao lugar e ao tempo “dos homens” para transformá-los em lugar e tempo de Deus. O mundo é transformado pela liberdade do amor. Para finalizar, coloco algumas citações dos escritos de Clara em que se pode sentir sua consciência de estar no “não-lugar” e no “não-tempo” que nos colocam em Deus sem nos tirar do mundo dos homens. ... para recordar que ela também saiu do século: TestC 8 – não só depois de nossa conversão mas também quando estávamos na miserável vaidade do século. ... para reforçar que Francisco saiu do século: 78
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    TestC 10 –estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o século, ... nenhum lugar era o seu lugar: TestC 52 – Se em algum tempo acontecer que as Irmãs tenham que deixar este lugar para se estabelecer em outro, sejam obrigadas, em qualquer lugar em que estiverem depois da minha morte, a observar a referida forma de pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem-aventurado pai Francisco. ... no itinerário, e o que importa é a situação definitiva TestC 73 – Mas felizes são aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar até o fim (cfr. Sl 118,1; Mt 10,22). TestC 74 – Tomemos cuidado, portanto, para que, se entramos pelo caminho do Senhor, de maneira alguma nos afastemos dele em algum tempo por nossa culpa e ignorância, Inês passou para o tempo e o lugar de Deus 1CtIn 5-7 – Porque, embora pudésseis gozar, mais do que outros, das pompas e honras deste mundo, desposando legitimamente, com a maior glória, o ilustre imperador, como teria sido conveniente à vossa excelência e à dele, rejeitastes tudo isso e preferistes a santíssima pobreza e as privações corporais, com toda a alma e com todo o afeto do coração, tomando um esposo da mais nobre estirpe, o Senhor Jesus Cristo, que guardará vossa virgindade sempre imaculada e intacta. Já começou a viver no aion 1CtIn 10 – Já estais tomada pelos abraços daquele que ornou vosso peito com pedras preciosas e colocou em vossas orelhas pérolas inestimáveis. 1CtIn 22 pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras, preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar tesouros no céu que na terra, Só quando se chega a ser vazio se chega a ter lugar para Deus 1CtIn 25-16 – Creio firmemente que sabeis que o reino dos céus não é prometido e dado pelo Senhor senão aos pobres (cf. Mt 5,3), porque, quando se ama uma coisa temporal, perde-se o fruto da caridade. Sabeis que não se pode servir a Deus e às riquezas, porque ou se ama a um e se odeia às outras, ou serve-se a Deus e desprezam-se as riquezas (cfr. Mt 6,24). 1CtIn 28 – Sabeis que não dá para ser glorioso no mundo e lá reinar com Cristo, e que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha que o rico subir ao reino do céu (cf. Mat 19,24). 79
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    1CtIn 30 –Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais pelas eternas, merecer os bens celestes em vez dos terrestres, receber cem por um e possuir a vida (cf. Mt 19,29) feliz para sempre! 2CtIn 19 – Veja como por você ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo. 2CtIn 23 – Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecedores, e viverá pelos séculos dos séculos. 3CtIn 4 – Ouvi dizer e estou convencida de que você completa maravilhosamente o que falta em mim e nas outras Irmãs para seguir os passos de Jesus Cristo pobre e humilde. 3CtIn 15 Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, O não-lugar de Deus cabe em qualquer lugar 3CtIn 18-19 – Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter (cf. 3Re 8,27), mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina. O aion e a glória cabem em nós 3CtIn 20-22 – Quem não tem horror das insídias do inimigo do homem que, pela tentação de glórias passageiras e falazes, tenta aniquilar o que é maior do que o céu? Pois é claro que, pela graça de Deus, a mais digna das criaturas, a alma do homem fiel, é maior do que o céu. Pois os céus, com as outras criaturas, não podem conter (cf. 2Par 2,6; 3Rs 8,27) o Criador: só a alma fiel é sua mansão e sede. 3CtIn 23 – como diz a Verdade: Quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei (Jo 14,21), e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada (Jo 14,23). Está sempre pensando no céu. Claro que os olhos dela são os olhos do espírito. Deus está nos santos e nos anjos... 4CtIn 8-11 – Pois, como Inês, a outra virgem santa, você desposou de modo maravilhoso o Cordeiro imaculado (1Pd 1,19) que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), deixando todas as vaidades desta terra. Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia,... Ela está correndo para o tempo, lugar e o abraço do encontro com o Infinito: 80
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    4 CtIn 31-32– Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), 32 até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace (Ct 2,6) toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1). 4CtIn 30 – Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! 2CtIn 10-13 – Mas, como uma só coisa é necessária (Lc 10,42), é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa (cfr. Rm 12,1) e agradável. Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cfr. Ct 3,4) mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. O que importa é o não-tempo CtEr 5 – Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra. Deixar as roupas seculares era sair do século RSC 2,12 – Depois, cortados os cabelos em círculo e depostas as roupas seculares, dêem-lhe três túnicas e um manto. Peregrinas e forasteiras, estão no não-tempo RSC 8,1-2 – As Irmãs não se apropriem de nada, nem casa, nem lugar, nem coisa alguma. E como peregrinas e forasteiras (cf. Sl 38,13; 1Pd 2,11) neste mundo, servindo ao Senhor na pobreza e na humildade... RSC 8,5-6 – Seja esta a vossa porção, que vos conduz à terra dos vivos (cf. Sl 141,6).Aderindo totalmente a ela, queridas Irmãs, nada mais queirais possuir em perpétuo abaixo do céu, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe. 81
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    8. As Irmãs-Esposas Quando escreveu a primeira Legenda de São Francisco, Tomás de Celano destacou entre as qualidades das “Senhoras Pobres” de São Damião o fato de viverem todas como esposas de Jesus: “...Em terceiro lugar, o lírio da virgindade e da pureza perfuma-as todas, a ponto de esquecerem os pensamentos terrenos e desejarem apenas meditar nos celestiais. Essa fragrância acende em seus corações tão grande amor pelo Esposo eterno, que a plenitude desse sagrado afeto apaga toda lem- brança da vida passada...” (1Cel 19). 14 O Papa Inocêncio também as via como Esposas de Jesus , porque escreveu no seu Privilégio da Pobreza o seguinte: “Como é manifesto, desejando ardentemente dedicar-vos unicamente ao Senhor, abdicastes ao desejo das coisas temporais; por isso, tendo vendido e distribuído tudo aos pobres, proponde-vos a não ter absolutamente nenhuma propriedade, aderindo totalmente aos vestígios daquele que por nós se fez pobre, caminho, verdade e vida; e desse propósito não as faz fugir nem a privação das coisas; pois a esquerda do esposo celeste está sob a vossa cabeça para sustentar a fraqueza de vosso corpo, que submetestes à lei do espírito em caridade perfeita. Afinal, aquele que dá de comer às aves do céu e veste os lírios do campo não vos há de faltar tanto para a alimentação como para a roupa, até que, passando, não vos venha servir na eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude de sua visão” (PrivIn 2-3). Gregório IX, ao conceder o seu Privilégio da Pobreza insistiu na mesma alusão ao Cântico dos Cânticos: “Naturalmente, aquele que alimenta os passarinhos do céu e veste os lírios do campo não vos faltará para o alimento e a roupa, até que Ele mesmo, 14 Chamo a atenção para um fato importante, que não poderei tratar melhor aqui por falta de espaço para comparar os textos: De maneira geral, os papas e alguns outros escritores parecem entender que as Irmãs eram “noivas” de Jesus, que só passariam a ser “esposas” na vida eterna. Ao contrário, Clara parece falar sempre de esposas já neste mundo. Observo que a palavra latina “sponsa”, que deu a nossa palavra “esposa” = a mulher casada, em latim significava apenas a “comprometida”, ou a noiva. A mulher casada era chamada “uxor” pelos romanos. Era a “ungidora”, que no cerimônia do casamento ungia a soleira da porta da casa onde seria sacerdotisa. Dessa palavra só sobrou em português a palavra “uxoricídio”, o crime de quem mata a esposa. Em grego, noiva é claramente “nynfe”, enquanto esposa podia ser “gyné” (mulher) a companheira do “anér” (varão), ou “ákoitis”, a companheira do “akóites”. Essas duas últimas palavras lembram os que dormiam juntos na “kóite”, a cama. 82
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    passando, vos sirvana eternidade, quando sua destra vos abraçará mais felizmente na plenitude da visão” (PrivH 1). Depois da morte de Santa Clara, também o ministro geral São Boaventura, escrevendo às Clarissas, viu-as como Esposas de Jesus: “Vigiai de tal maneira, com afetos incessantes, fervorosas no espírito da devoção, que, quando se ouvir o clamor e chegar o Esposo, possais ir fielmente ao seu encontro com as lâmpadas cheias do óleo do amor e da alegria, prontas para entrar com ele nas bodas da felicidade eterna, com exclusão das virgens loucas. Lá Cristo vai acomodar suas esposas com os anjos e os eleitos, e passará para servir-lhes o pão da vida, a carne do Cordeiro imolado, o peixe assado na cruz, cozido no fogo do amor em que vos amou fervorosamente” (BoCc 5). Aliás, é notável o Doutor da Igreja dizer que Jesus vai servir às suas esposas “o peixe assado na cruz”, numa evidente alusão à lenda do Rei Pescador, que faz parte do ciclo do Santo Graal. Mas foi São Francisco quem explicou, de maneira bem original e no que para ele era o cerne da vida franciscana, o que é sermos esposos: “Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a nosso Senhor Jesus Cristo” (1CtFi 8). E é a essa luz que devemos entender a Forma de Vida que ele deu a Clara e suas Irmãs logo que elas entraram na Ordem: “Desde que por inspiração divina vos fizestes filhas e servas do Altíssimo Sumo Rei Pai celeste e desposastes o Espírito Santo, optando por uma vida de acordo com a perfeição do santo Evangelho, eu quero e prometo, por mim mesmo e por meus frades, ter por vós o mesmo cuidado diligente e uma solicitude especial, como por eles” (RSC 6,4-6). O fato de as damianitas viverem como esposas de Cristo é mais significativo do que pode parecer a uma primeira vista. O amor de Clara pelo Cristo Esposo levou-a a criar um “grupo de virgens” (collegium virginum, dizem as Fontes) original em comparação com outros mosteiros. Elas eram irmãs de uma maneira nova. Por isso, e por serem franciscanas e pobres, elas sempre relutaram em aceitar as Regras religiosas de Hugolino e de Inocêncio IV, ainda que – depois da morte de Clara – a maior parte dos mosteiros tivesse por fim aceitado a de Alexandre IV até o século XX. Depois de muitos esforços e de algumas pequenas vitórias, chegaram a abraçar, em nosso tempo, a Regra de Santa Clara. 83
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    Vamos desenvolver trêspontos sobre as Irmãs-Esposas: a). Como é a sua vida entre irmãs; b). Qual a sua contribuição para a Igreja; c) sentido especial de sua clausura. 8.1. A vida das clarissas como Irmãs Creio que podemos aplicar a todas as Senhoras Pobres – as “Da- mianitas”, ou as mulheres franciscanas do tempo da Santa – tudo que ela escreveu para Inês de Praga. Parece claro que ela tenha procurado formar essa irmã longínqua no mesmo espírito que transmitia habitualmente às que moravam com ela. Então vamos ver nas Cartas a Inês alguns pontos que podemos identificar na formação das Irmãs-Esposas de São Damião e de outros mosteiros: 1). As clarissas são irmãs porque são Esposas; 2). Elas refletem umas para as outras o Cristo Espelho; 3). A Forma de Vida de Santa Clara é para esposas que são irmãs. 8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas “Portanto, irmã caríssima, ou melhor, senhora muito digna de veneração, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, destacada pelo esplendor do estandarte da inviolável virgindade e da santíssima pobreza, ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente” (1CtIn 12-13)... e merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai altíssimo e da gloriosa Virgem” (1CtIn 24). Esses três relacionamentos são os mesmos apontados por São Francisco na Carta a todos os Fiéis quando fala da relação do fiel cristão com a Santíssima Trindade: “E são esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando pelo Espírito Santo une-se a alma fiel a Jesus Cristo. Somos certamente irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está no céu; mães, quando o levamos no coração e em nosso corpo pelo amor e a consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo” (1CtFi 7-10). Mesmo que Santa Clara tenha aprendido isso com Francisco, soube fazer suas essas palavras e as aplicou de diversas formas no trato com as Irmãs, na sua sensibilidade materna para com elas, dando um sentido maior 84
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    ao oficio deabadessa, a partir dessa identidade esponsal que se sente no testemunho de seus Escritos. Quando diz que Inês é mãe e irmã do Senhor Jesus, é evidente que está recordando a passagem do evangelho em que Jesus disse que eram “meu irmão, minha irmã e minha mãe... os que põem em prática a palavra de Deus” (Mt 12,50). Mas quando consideramos as três atribuições juntas não podemos deixar de pensar na “Forma de Vida” que Francisco tinha dado a Clara e a suas irmãs, onde recalca o relacionamento delas com cada Pessoa da Trindade. Vejamos os principais textos nas Cartas de Santa Clara: “Vossa recompensa será enorme nos céus, e merecestes ser chamada, com quase toda a dignidade, de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da gloriosa Virgem” (1CtIn 23-24). “Clara, humílima e indigna servidora de Cristo e serva das senhoras pobres, à reverendíssima senhora em Cristo, sua irmã Inês, a mais amável de todos os mortais, irmã do ilustre rei da Boêmia e, agora, irmã e esposa do sumo Rei dos céus” (3CtIn 1-2). “À outra metade da minha alma, singular sacrário do meu cordial amor, à ilustre rainha, esposa do Cordeiro, Rei eterno, dona Inês, minha caríssima mãe e filha, especial entre todas as outras, eu, Clara, serva indigna de Cristo e inútil servidora das suas servas que vivem no mosteiro de São Damião em Assis, desejo saúde e que possa cantar o cântico novo diante do trono de Deus e do Cordeiro, juntamente com as outras santas virgens, e seguir o Cordeiro onde quer que ele vá” (4CtIn 1-3). A Legenda de Santa Clara e o Processo de Canonização apresentam inúmeros exemplos de como Clara cuidava de suas Irmãs. E a Bula de Canonização diz que ela fazia isso justamente por ser esposa do Senhor: “Alegre-se, então, a Mãe Igreja, que gerou e educou essa filha que, como progenitora fecunda de virtudes, produziu com seus exemplos muitas discípulas da religião, formando-as para o serviço perfeito de Cristo com perfeição. Alegre-se também a alegre multidão dos fiéis, porque o Rei e Senhor dos céus levou com glória para o seu alto e preclaro palácio a sua irmã e companheira, que Ele havia escolhido como esposa. Porque também as fileiras dos santos estão festejando juntas, pois, em suas habitações celestes, celebram-se as núpcias da noiva real” (cf. Fontes Clarianas pág. 276). Clara é mãe como filha da Igreja; sua maternidade é imagem da Mãe Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É irmã para todos os crentes, companheira na vocação comum, companheira de viagem e apoio. 85
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    Assim se indicaa idéia da comunidade, da “solidariedade” e da suplência. É esposa do Senhor e, por isso, motivo de alegria, sinal irradiante de esperança para a humanidade. Pela “Forma de Vida” de São Francisco, todas as Irmãs decidiram ser esposas do Espírito Santo. E todas são filhas do Pai Eterno. Portanto, irmãs. Se não fosse pelas Irmãs, “que Deus lhe deu”, Clara poderia ter sido uma eremita, mesmo em São Damião. Se não fosse pelas Irmãs, não seria necessária uma Forma de Vida original em tantos pontos. 8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho A vida em São Damião supunha um testemunho mútuo das Irmãs que viviam ali dentro, um testemunho que inflamasse umas às outras e a todos que pudessem conhecê-las: “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou as coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros” (TestC 19-21). Elas deviam ser um “espetáculo da santidade”. De fato, ser espelho é uma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como pó- demos encontrar em São Bernardo, Guilherme de Saint-Thierry e nas místicas da “Brautmystik”. Nas Cartas e no Testamento de Santa Clara, as ocorrências são muitas. E, sempre, o espelho é Jesus: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória” (3CtIn 12). “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15). “Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar... Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio”. (4CtIn 18-19). “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem- aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano” (4CtIn 22). 86
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    “E, no fimdesse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa; assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar” (4CtIn 23-24). Podemos perguntar-nos: por que usavam tantas vezes a simbologia do espelho? Parece que era sempre para indicar algo profundo, que expressava alguma coisa além da realidade palpável. Era um sinal eficaz como um sacramento: tornava alguém presente melhor do que em uma fotografia: Cristo, Francisco, as Irmãs: todos eram sacramentos vivos em que Clara se espelhava ou para quem era espelho. E, como o espelho reflete, mostra não só a figura de outra pessoa, mas também a minha, abre-nos para uma infinita multiplicação da presença de Deus. E podemos encontrar em todos os espelhos o rosto do Esposo, de Cristo. E nele nos reconhece. Dando-nos conta de tudo que é semelhante, e de tudo que está precisando ser transformado. 8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs Hugolino e Inocêncio IV deram a Clara e suas Irmãs uma “Forma de Vida” que era uma regra jurídica para “monjas”. As damianitas – e, certamente, a sua fundadora – nunca as aceitaram de boa vontade. A “Forma de Vida” de Santa Clara é muito diferente dessas regras e da posterior que foi imposta por Alexandre IV: ela faz uma proposta de vida a irmãs muito amadas que se descobriam e se encontravam no amor do único Esposo. Por sua experiência esponsal, Clara enxergava e criava na sua fraternidade de São Damião as “doçuras” e “delícias” que – segundo o seu testemunho – eram gozados pelas que amavam a Deus de verdade (Cf. 3CtIn 14). Podemos perceber isso quando confrontamos alguns dos numerosos pontos em que, com muita sabedoria, Clara se afasta do que lhe tinham dado Hugolino e Inocêncio: – dá mais responsabilidade às Irmãs – trata-as como adultas: “Pelo menos uma vez por semana, a abadessa tenha que convocar suas Irmãs para um capítulo... E tratem aí, de acordo com todas as Irmãs, o que for necessário para a utilidade e o bem do mosteiro, porque muitas vezes o Senhor revela à menor o que é melhor” (RSC 4,15-18). “Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs” (RSC 2,1). “Se algo for enviado a alguém por parentes ou por outros, faça a abadessa que isso lhe 87
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    seja dado. Setiver necessidade, ela mesma poderá usá-lo; se não, que o dê com caridade a uma Irmã que precise. Mas se lhe for mandado algum dinheiro, a abadessa, com o conselho das discretas, faça provê-la do que tiver necessidade” (RSC 8,9-11). – Abre mais a clausura, admitindo possibilidades de saídas se houver: “...um motivo útil, razoável, manifesto e aprovado” (RSC 2,13). – Não impõe um hábito estrito, como faziam as Regras de Hugolino e Inocêncio IV. Limita-se a dizer: “E, por amor do santíssimo e queridíssimo Menino deitado no presépio envolto em panos pobrezinhos (cf. Lc 2,7.12), e de sua santíssima Mãe, admoesto, peço e exorto minhas Irmãs a se vestirem sempre de roupas vis” (RSC 2,25). – Deixa mais livre o silêncio, que devia ser total e perpétuo nas outras Regras, e chega a considerar casos em que as Irmãs possam falar com pessoas de fora: “As Irmãs, com exceção das que servem fora do mosteiro, observem o silêncio desde a hora de Completas até a Terça. Calem-se também continuamente na igreja e no dormitório; no refeitório, só enquanto comem; com exceção da enfermaria, em que as Irmãs sempre podem falar discretamente para distrair as doentes e cuidar delas. Mas podem insinuar o que for necessário sempre e em toda parte, brevemente e em voz baixa... E isso só se faça muito raramente na grade, e de maneira nenhuma na porta. Por dentro dessa grade ponha-se um pano, que não será removido a não ser quando se prega a palavra de Deus ou quando alguma Irmã falar a alguém” (RSC 5, 1-4, 9-10). Os testemunhos das Irmãs no Processo de Canonização comprovam essas liberdades. Da mesma forma, ela também não se importa com muitos detalhes disciplinares das Regras que tinham sido dadas pelos papas, como tudo que se referia aos clérigos que podiam entrar na clausura. Essa atitude de mãe e irmã foi tão inefável quanto a sua vivência esponsal: não há palavras para expressar o afeto profundo, puro e verdadeiro, no que se refere ao Esposo Cristo ou no que se refere às pessoas que se amam nele, como Clara descreve a Inês em um texto de “inefabilidade” (cale-se a língua da carne) depois de ter descrito em traços apaixonados e totalmente pessoais o que supõe o amor esponsal por Cristo: “Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o 88
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    afeto que tenhopor você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 35-37). 8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas para a Ordem e para a Igreja Clara contribuiu pessoalmente – e ainda contribui através de suas Irmãs – para a vida do mundo, da Igreja e de todo o movimento franciscano porque sua contemplação esponsal leva-as a se espelhar em Cristo Espelho de Deus até serem transformadas nele. A partir daí se aproximam do homem concreto e da Igreja viva dando- lhes oportunidade de reconhecer a ternura e a bondade de Deus, um Deus Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e escuridões que pode haver nos membros desse grande corpo que representa a humanidade e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com ela, Clara foi espelho e exemplo, ícone vivo do que Deus quer de todos seus filhos. O Cardeal Hugolino, que foi decididamente um homem de Igreja e chegou a ser papa, sentiu a força desse reflexo de Deus mesmo em uma Clara que ainda não tinha passado dos trinta anos de idade e, já quase octogenário escreveu-lhe: “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguirá do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de tanta devoção e abundância de lágrimas”. Mesmo depois de já ter assumido o papado e o nome de Gregório IX, sentindo a gravidade de seus problemas, voltou a encontrar em Clara e nas Irmãs consolo e apoio, vistos na missão intercessora da contemplação esponsal clariana: “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo, como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como confiamos, vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas 89
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    orações, lembrando-se semprede nós, eleveis as piedosas mãos ao céu, suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para os que foram confiados ao nosso governo”. Pouco tempo depois, aos 18 de agosto de 1228, fez com que o Cardeal Reinaldo de Segni, seu sobrinho, enviasse uma carta circular para comu- nicar a nomeação de um novo visitador e assistente das damianitas, Frei Filipe Longo. Chamamos a atenção para este texto: “Ele (Deus) fez seu vigário na terra aquele que era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste da diminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno e conveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanho universal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescentes em cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo”. Por muitos, São Francisco é considerado um grande reformador e reju- venescedor do mundo e da Igreja. Mas podemos dizer que todo o seu exemplar Movimento Franciscano começou justamente com essas senhoras de São Damião, como escreveu Clara em seu Testamento: “Pois, quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou companheiros, estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina, e foi impelido a abandonar totalmente o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde. Pois, nessa ocasião, subindo ao muro da igreja, ele disse em voz alta e em francês para uns pobres que moravam ali perto: Venham me ajudar na obra do mosteiro de São Damião, porque nele ainda haverão de morar umas senhoras cuja vida famosa e santo comportamento vão glorificar nosso Pai celestial em toda a sua santa Igreja” (TestC 9-14). Clara ensina Inês e todas as Irmãs a serem esposas. A esposa é espelho de Jesus. A esposa contempla Jesus. São esposas-irmãs que precisam se comunicar porque vivem o mesmo Esposo. Cabe às Clarissas de hoje, a todas as numerosas Irmãs Franciscanas da TOR – e a todo o Movimento Franciscano – manter atualizado esse serviço à Igreja e ao mundo. De maneira especial, cabe a elas ajudar os homens do movimento franciscano a entenderam essa dimensão de um amor pessoal pelo Cristo pessoa. 90
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    8.3. A clausuradas Irmãs de Santa Clara As clarissas são as franciscanas de clausura. As clarissas atuais até fazem voto de clausura. Observo que a palavra clausura é da raiz do verbo “claudo” = fechar, aparentada com a palavra chave (em latim clauis). Em latim, é um particípio futuro, significando um lugar que vai ser fechado. Outra palavra aparentada é claustro, que lembra mais um ambiente fechado. As Regras de São Bento, de Hugolino e de Inocêncio IV, bem como a de Santa Clara, não usam a palavra clausura. Nas FONTES CLARIANAS só a encontramos na procuração dada por Clara e as Irmãs para vender um terreno, que é chamado de clausura, palavra que indicava que ainda não tinham feito nenhuma cerca. Clara só usa a palavra claustro para lembrar que Nossa Senhora recebeu Jesus no “claustro do seu santo seio” (3CtIn 19). Em nossos dias, estamos encontrando sérias críticas à clausura das clarissas, mesmo por parte de franciscanos e franciscanas. Há quem diga que esse tipo de vida não tem mais sentido e também quem o atribua ao machismo da Igreja, que sempre teria demonstrado desconfiança em relação às mulheres religiosas. Muita gente diz que Santa Clara ficou na clausura por imposição, uma vez que no tempo dela não se entendia outro tipo de vida religiosa para as mulheres. É certo que se podem citar alguns fatos históricos para corroborar algumas dessas afirmações, mas há muito preconceito. Não é possível fazer generalizações. Não vamos tratar extensamente desse assunto aqui, porque estamos estudando apenas a espiritualidade de Santa Clara. Vou apresentar sucintamente a visão de dois autores atuais dos mais abalizados. E concluir com a minha visão sobre a clausura das clarissas dentro da sua espiritualidade própria. Uma primeira visão muito bem fundamentada é a da estudiosa CLARA AUGUSTA LAINATI, da ordem das clarissas. Para ela, a clausura é uma expressão do mistério pascoal, é uma kénosis para uma comunhão: uma morte para uma vida. É fundamental um artigo que ela publicou na revista das clarissas Forma Sororum em 1983 15. 15 La Clausura: non “mezzo di contemplazione”, ma modo tipico delle Clarisse di esprimere il mistero pasquale. Una kénosi per una comunione: una morte per una vita, en Forma Sororum 20 (1983) pp. 201-203. 91
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    Ela começa afirmandoque a clausura das clarissas não é um meio para aprofundar a contemplação, pois existem muitos outros meios eficazes para isso. Para ela, a clausura é um modo típico de Santa Clara para aprofundar a kénosis (o esvaziamento, cf. Fl 3,5ss) do Senhor Jesus Cristo. Ela vê um valor na clausura que limita a pessoa no espaço, empobrece suas possibilidades de ação e movimentação para mergulhar no “vazio” da criatura com o Cristo crucificado, com o Cristo que fica sozinho na montanha mas aberto para a contemplação do Pai. Cita São Francisco na sua Regra para os Eremitérios, onde diz: “No claustro onde moram não permitam que entre nenhuma pessoa (REr 7). Outra visão muito importante é a do estudioso franciscano Jesús SANZ MONTES, autor de diversas obras fundamentais sobre Santa Clara e as clarissas 16. Para ele, Santa Clara encontrou na clausura de São Damião o “lugar carismático” para sua opção do seguimento esponsal de Cristo. Ele lembra que nem toda vida contemplativa exige a clausura, nem toda clausura expressa e desenvolve a vida contemplativa, mas pode haver uma forma de existência cristã em que, por vocação carismática, por divina inspiração, unam-se as duas realidades. Lembra também que o próprio São Francisco deu um primeiro passo para a clausura de Clara fundamentado na sua opção pelo Esposo: “...e como se a serva humilde tivesse desposado Cristo diante do leito nupcial dessa Virgem, São Francisco mudou-a imediatamente para a igreja de São Paulo, para que ficasse lá até que o Altíssimo dispusesse outra coisa” (LSC 8). Santa Clara escolheria um caminho que implicava ser monástico, claustral e franciscano, correspondentes à sua vocação para a fraternidade, a contemplação e a pobreza. A genialidade de Clara está justamente em sua capacidade de ter unido as duas figuras de Marta e Maria, vivendo sua vocação claustral aberta ao mundo e ao serviço dos pobres. Sobre a escolha de vida claustral como modalidade de serviço à Igreja, Clara estava em sintonia com Francisco e Hugolino. No hortus conclusus, na cella vinaria, do São Damião de Clara de Assis, desenvolveu-se essa história de seguimento esponsal de Jesus Cristo, como um espaço que representava o locus charismaticus de sua vocação eclesial, 16 Proponho que se leia especialmente o livro “Illum totaliter diligas – La simbología esponsal como clave hermenéutica del carisma de Santa Clara de Asís, Roma 2000. 92
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    em uma progressivaidentificação kenótico-pascoal com Cristo Esposo. Definitivamente, Ele é o grande “Tu” por quem Clara iniciou todos os seus êxodos, por quem fez todas as suas opções e por quem pacientemente aguardou todas as suas esperas, para que fosse brotando uma forma vitae que harmonizava todos esses fatores já indicados, e que faziam de seu caminho uma novitas capaz de catalizar aquele dilatado movimento feminino que se reconheceu no carisma de Francisco de Assis. Para concluir, proponho que essas abalizadas opiniões desse dois autores sejam lidas à luz do que falamos sobre a vida de Clara e suas Irmãs no não-lugar e no não-tempo. Creio que de fato, a opção das clarissas pela clausura tem uma luz própria, diferente da “clausura” das “contemplativas”. Elas estão no seu lugar de esposas de Cristo que se descobrem como irmãs. 93
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    9. Contemplando oEsposo Uma das maiores contribuições de Santa Clara para a espiritualidade franciscana é certamente a de ser mestra de contemplação. Nossa palavra “contemplação” vem do latim cum+templare e recorda que, no tempo dos romanos, os sacerdotes se colocavam dentro do templo, numa situação de envolvimento com (cum) o seu ambiente, para descobrir a vontade dos deuses nos seus auspícios ou augúrios, relacionados com o vôo dos pássaros (auis, mais tarde lido avis) que conseguiam observar pela abertura no teto do templo. Isso pressupunha e favorecia um olhar concentrado e uma busca do sentido divino. Até hoje usamos contemplar para significar um olhar concentrado, por exemplo, na observação de uma flor. E dizemos, também, por exemplo, que um regulamento “contempla” determinada situação, isto é, concentra-se nela, ou a considera. Considerar vem de observar o conjunto (cum) dos astros (sídera) para descobrir uma direção. O sentido mais estrito de contemplação refere-se a um olhar atento que descobre Deus na presença de suas ações e de suas obras. Ao pé da letra, contemplar não é orar (de os, oris = boca), nem rezar (de recitare: ler alto ou repetir um texto escrito), mas é um relacionamento ex- celente com Deus, a quem nós ficamos observando, descobrindo, sabo- reando. Podemos fazer exercícios de contemplação, mas viver a contem- plação é ter essa inclinação para “ver Deus” nos seres e nos acon- tecimentos. São Francisco, cujo desejo ardente e apaixonado era ver Deus, a quem descobria em Jesus Cristo, parece ter sido um dos maiores contemplativos da história da humanidade. Aliás, é bom lembrar que todo ser humano tem por natureza o desejo de ver se Deus existe mesmo, de observar onde Ele se encontra ou como Ele vem a nós, ou como podemos nos encontrar com Ele. Mas São Francisco não nos deixou nenhum texto ensinando-nos a contemplar. Clara fez isso. Foi através da contemplação que Santa Clara se encontrou com o Cristo Esposo e se transformou nele. Foi um “processo de cristificação”, que precisamos entender melhor. Para isso, é bom considerarmos cada vez que a santa usou a palavra contemplar. 94
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    Ela fala seisvezes em contemplação, usando sete vezes esse termo. Estão todas nas Cartas dirigidas a Inês de Praga. Vamos ver melhor: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3) feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz. Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribulação vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos (Sl 109,3). E seu nome, glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida (Sl 109,3). Assim, em vez dos bens terrenos e transitórios, você vai ter parte na glória do reino celeste eternamente, para sempre, vai ter bens eternos em vez dos perecíveis, e viverá pelos séculos dos séculos” (2CtIn 20-23). Ela já condiciona a contemplação a um desejo de imitar Jesus, de segui- lo. Mas já o trata como um esposo querido e manda considerar o amor que Ele demonstrou quando sofreu por nós. E mostra que essa contemplação vai trazer uma mudança muito grande à nossa vida, com conseqüências para os tempos sem fim. Nesse trecho, ela fala do que acontece com quem chega à união com Jesus. Para ela, aí está a importância da contemplação do Cristo kenótico e de uma transformação trabalhada nele. Como já vimos falando da clausura, esse seguimento de Cristo kenótico = esvaziado a ponto de ser encontrado como um servo – é um elemento importante para explicar porque Clara e suas Irmãs quiseram ficar em São Damião presas, pobremente vestidas, sem nenhum poder e sem nenhuma importância. O trecho seguinte pode ser considerado o mais importante de Santa Clara sobre a contemplação. Aliás, não sei se outra pessoa escreveu algo mais claro e positivo sobre o que é contemplar: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade. Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim. Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto (3CtIn 12-17)”. 95
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    Neste texto, apareceuma das maiores originalidades da contemplação de Santa Clara: a contemplação transforma, transforma na imagem da Divindade, em um outro Cristo. Quem transforma é Deus, mas contemplar é expor-se à transformação ao olhar de maneira concentrada para Deus (a eternidade, a glória, a substância divina) através de Jesus que põe Deus ao nosso alcance sendo um espelho, um esplendor, uma figura da Divindade. É por causa da transformação – afinal das contas, no único Cristo, porque não há mais do que um – que a contempladora saboreia a doçura escondida. O núcleo do olhar contemplativo de Clara está em se colocar inteira diante de Cristo Esposo até ser transformada nele. É importante observar que a contemplação une ao Esposo, leva ao prazer de partilhar a visão e o amor com o Esposo. Na quarta carta, Clara tem um texto magnífico – aliás, impossível de ser traduzido na sua riqueza mais profunda. O que traduzimos por “banquete” também poderia ser traduzido por “convivência, partilha de vida”, e o amor apaixonado de Clara nos faz entrever pelo menos um pouco de todo o prazer que ela já tinha provado saboreando a união com o Esposo: “Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir- se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem- aventurados dos céus admiram sem cessar, cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha (4CtIn 9-14)”. Neste trecho, aparece outro ponto original da contemplação de Santa Clara: é uma contemplação que transborda de gratidão, a gratidão por chegar a ser unida a Deus, que nos encanta, nos apaixona, restaura, sacia, dá vida, justamente em Jesus, que é seu espelho. No texto seguinte, Clara desenvolve o que tinha dito no anterior: Jesus é o espelho. Mas ela se espelha nele, ela pode perceber o que falta para ser como ele, é arrastada pelas virtudes pessoais de Jesus. E usando uma linguagem própria do Cântico dos Cânticos, mostra como se revestir de Cristo, do Homem novo. “Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. Pois nesse 96
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    espelho resplandecem abem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça de Deus. Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa (4CtIn 15-23)”. Ao considerar os momentos mais importantes da vida de Jesus na carne – do presépio até a cruz –, Clara insiste em outro ponto original: sua contemplação é um processo constante, em que a pessoa trabalha com alegria para ser semelhante a Cristo, ou para amar a semelhança que Ele realiza em nós. Na parte final desse mesmo texto, usando apaixonadamente diversas alusões do Cântico dos Cânticos, Clara chega a pedir “o beijo mais feliz de tua boca”, aquele que, como ensinou São Bernardo, é o próprio Espírito Santo passando entre o beijo dela e o beijo de Jesus como o Espírito Santo é o beijo de amor entre o Pai e o Filho: “Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos (Ct 1,3), ó esposo celeste! Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega (Ct 2,4), até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz (Ct 2,6), e me dês o beijo mais feliz de tua boca (Ct 1,1) (4CtIn 28-32)”. É claro que o importante nem é fazer exercícios de contemplação: é estar unido ao Esposo, é ter descoberto e realizado todas as sedes do nosso ser humano. É já ser a esposa que clama com o Espírito, que ela já incorporou totalmente: “Vem, Senhor Jesus, vem!” Na despedida dessa última carta, ela sublinha o aspecto fundamental da amizade e do amor entre as Irmãs, entre nós todos: nós nos encontramos em profundidade quando nos perdemos na mesma contemplação, na mesma busca de Jesus. “Posta nessa contemplação, lembre-se de sua mãe pobrezinha, sabendo que eu gravei sua feliz recordação de maneira indelével no meu coração porque você, para mim, é a mais querida de todas” (4CtIn 33-34). 97
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    Quem se uneao Esposo na contemplação está construindo sua união com todas as demais pessoas. E a contemplação do Esposo se expressa na capacidade de enxergá-lo nas outras pessoas. E cada pessoa é tanto mais querida quanto mais for possível encontrá-la unida ao Esposo. Por isso, Francisco e Inês de Praga são os maiores amores de Clara. Características – A contemplação de Santa Clara – na perspectiva esponsal – é de caráter afetivo. Mas, é preciso sublinhar alguns pontos bem específicos: a). é dominada pela gratidão. b). segue um processo de fidelidade. c). transforma na imagem viva de Deus. d). abre-se para a fraternidade e para a Igreja. 9.1. Contemplação dominada pela gratidão Seu Testamento começa: “Entre outros benefícios que temos recebido e ainda recebemos diariamente da generosidade do Pai de toda misericórdia e pelos quais mais temos que agradecer ao glorioso Pai de Cristo, está a nossa vocação que, quanto maior e mais perfeita, mais a Ele é devida” (TestC 2-3). E o Benefício que dá sentido a todos os outros é o próprio Jesus Cristo. A gratidão é a admiração sem limites por descobrir-se amada por Deus, por um Deus Esposo, que se dirige a ela de um modo pessoal. Ela quer “pagar” o amor com amor. É a dimensão agradecida da graça. Clara amplia o que Francisco dizia: “Nada de vós retenhais para vós mesmos para que os receba inteiros aquele que inteiro se entrega a vós” (CtOr 29). Ela também escreveu: “ame totalmente aquele que se entregou inteiro por seu amor” (3CtIn 15). 9.2. O processo é de fidelidade crescente. Na segunda Carta, ela escreveu: “Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou” (2CtIn 11-14). 98
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    Ela comunica umaexperiência vivida na luta pela fidelidade, pois sofreu não poucas vezes obstáculos que poderiam ter ameaçado sua adesão ao que prometera a Cristo Esposo. A segunda Carta foi redigida durante o gene- ralato de Frei Elias, no meio dos problemas por que estava passando a Pri- meira Ordem. Foi dentro disso que Clara observou o processo de fidelidade com todas as suas conseqüências e riscos, convidando Inês a uma adesão esponsal diante de qualquer insinuação a sugestão inoportuna: “Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre” (2CtIn 17-18). Não era uma fidelidade à norma, mas ao seguimento Jesus pobre e desprezível: “Veja como por você Ele se fez desprezível e o siga, sendo desprezível por ele neste mundo” (2CtIn 19). Pois concluiu, explicitando melhor a contem- plação: “Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz” (2CtIn 20). Essa fidelidade a inflamava: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!” (4CtIn 27-30). 9.3. contemplação transformante Quando ensinou o que era contemplação, Clara propôs uma verdadeira transformação da pessoa amante na pessoa amada: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória, ponha o coração na figura da substância divina, e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade” (3CtIn 12). É o olhar atento, deliciado, constante, aberto e disponível para aquele que é o espelho, o esplendor, a figura e a imagem da Divindade que nos absorve. Muitos místicos disseram algo semelhante: contemplar o ícone até ser em ícone transformado, como sabemos que foi e é vivido pelos monges 99
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    do Monte Atos,na Grécia, dedicados à confecção de ícones. Eles se embebem nos ícones e se iluminam no Sol de Deus, acabando eles mesmos ícones vivos iluminados por essa Luz. Como Francisco, que pediu luz interior ao Crucificado de São Damião, Clara também se tornou luminosa. Seu o olhar de Clara não era exterior ou passivo; era criador porque ela bebia a luz de Deus. Por isso, foi uma viva expressão do processo interior que transforma o contemplativo em imagem daquele a quem contempla com amor. Clara fez de sua vida a busca desse “Santo Graal”: a “doçura escon- dida”, reservada por Cristo para os que o amam. Na quarta carta, no lugar de doçura ela fala em delícia. A contemplação clariana, delicadamente esponsal, “é um olhar da alma e do coração para o objeto amado, até ficar embebidos por seu próprio amor e “aderindo a Ele com todas as fibras da alma” em que a esposa é passiva sob a ação do Esposo (4CtIn). Tanto o olhar amoroso inicial como a experiência receptiva em que culmina, são para santa Clara simplesmente “contemplação”. 9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja O Cardeal Ratzinger, hoje Bento XVI, chamou Santa Clara de “anima ecclesiastica, esposa de Cristo” (FormSor 4-5 1990, 239). A contemplação clariana, que leva à transformação esponsal não é uma piedade espiritual que foge do mundo e de seus desafios. Ela evoca a Beleza e o Amor de Jesus para todos, tem uma missão eclesial. Na mesma carta em que deu a Inês de Praga o ensinamento fundamental do que era contemplação, Clara escreveu este texto notável: “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável” (3CtIn 8). Sua fonte, o Apóstolo, é São Paulo, que também disse que era um “espelho da glória do Senhor”, e que de fato se espelhou em Cristo até ser nele também transformado. E também disse que completava e supria o que faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas comunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo (cf Rm 16,3; 16,9; 16,21; 1Cor 3,9; 2Cor 8,23; Fp 2,25; 4,3; 1Ts 3,2). Sua contemplação não a afastava da Igreja: levava-a a entrar em comunhão missionária com todos os “gemidos da humanidade e da Igreja, nos membros que “vacilam e caem”. Numa passagem de seu Testamento, 100
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    falando com asIrmãs, Clara diz outra coisa muito significativa para sua visão de Igreja: “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo” (TestC 19-20). Clara é mãe de suas irmãs como filha da Igreja; sua maternidade é imagem da Mãe Igreja, que é fecunda, nutre e protege, guia e ensina. É irmã para todos os crentes, companheira na vocação comum, companheira de viagem e apoio. Assim se indica a idéia da comunidade, da “solida- riedade” e da suplência. É esposa do Senhor e por isso motivo de alegria, sinal irradiante de esperança para a humanidade. 9.5. Uma contemplação iluminada Na contemplação, Clara tem um ponto bem interessante de comunhão com Francisco: Eles contemplam com os olhos. Ambos falam intensamente de experiências visuais do seu desejo de ver Deus. É nessa linha que vai a sua contemplação do Cristo Esposo, porque quem o vê está vendo o Pai que habita numa altitude inacessível. Para dar o justo valor a esse particular é bom lembrar que os orientais falam em contemplação com o uso de todos os sentidos. Já recordamos que as Irmãs viam em Clara uma experiência parecida com a de Moisés, que “via Deus face a face”. Repetimos os textos mais importantes: “Era assídua na oração e contemplação. Quando saía da oração, seu rosto parecia mais claro e mais bonito que o sol e suas palavras exalavam uma doçura inenarrável, tanto que sua vida parecia toda celestial” (Irmã Amata de Corozano em ProcC Iv,4). “...quando ela saía da oração as Irmãs se alegravam como se ela estivesse vindo do céu” (Irmã Pacífica de Guelfúcio, em ProcC I,9). Isso nos faz lembrar que São Francisco chamou de belos os Irmãos Sol, Lua e estrelas no seu Cântico de Frei Sol, justamente porque eles são luminosos. E nos faz recordar esta importante citação: “Entre todas as criaturas carentes de razão, amava com afeição maior o sol e o fogo. Pois dizia: “De manhã, quando nasce o sol, todas as pessoas deveriam louvar a Deus que o criou para a nossa utilidade, porque é por ele 101
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    que nossos olhossão iluminados de o dia. À tarde, quando anoitece, todas as pessoas deveriam louvar a Deus pelo irmão fogo, pelo qual nossos olhos se iluminam de noite. Pois todos somos como cegos e, por estes nossos dois irmãos, o Senhor ilumina nossos olhos. E assim, devemos louvar o Criador particularmente por essas e pelas outras criaturas que usamos todos os dias” (EP 119,1-3). É evidente que os “olhos iluminados” dos dois eram os “olhos do espírito” (cf. Adm 1), com os quais eles contemplavam Deus. Por isso, tinham uma visão diferente de si mesmos, do próximo, das criaturas, do mundo e da história. Como lembra o Evangelho de Lucas: “A lâmpada do corpo é o olho. Quando o olho é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado. Mas, se ele está doente, o corpo também fica na escuridão. Portanto, veja bem se a luz que está em você não é escuridão” (Lc 1134-35). Chamo a atenção para o fato de que Clara, como Francisco, deve ter tido excelentes oportunidades de contemplar famoso ícone do Cristo de São Damião. Não podemos afirmar que eles tenham tido um conhecimento teórico da teologia que está por trás dos ícones: a teologia da luz. Mas devem ter sido influenciados por ela através do ícone. A teologia da luz, também chamada de teologia da beleza representa a santidade de Deus como a Luz. É a luz de Deus que deixa os santos iluminados de santidade. É na contemplação da luminosidade dos santos que iconógrafos contemplam a luz que vão passar para os ícones: os seus quadros. E os fiéis tomam um banho de luz de Deus diante dos ícones. Clara e Francisco contemplativos estão passando para nós a Luz da santidade de Deus. 102
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    10. “Mãe deJesus” Na FORMA DE VIDA que deu às Irmãs em 1212, Francisco chamou-as de “esposas do Espírito Santo”. Como já tivemos oportunidade de ver, essa forma de vida tem um forte paralelo com a ANTÍFONA DE NOSSA SENHORA do Ofício da Paixão e com a CARTA AOS FIÉIS. Nesses outros dois documentos, o santo mantém o “esposa do Espírito Santo” que, na Carta aos Fiéis, ele explica: “Somos esposos quando, pela ação do Espírito Santo, une-se a alma fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo” (1CtFi 8). Mas também diz que somos mães: “Somos mães de nosso Senhor Jesus Cristo quando o levamos em nosso coração e em nosso corpo (cf. 1Cor 6,20), pelo amor divino e pela consciência pura e sincera; e o damos à luz pela santa operação, que deve iluminar os outros com o exemplo. Oh! Como é santo e dileto ter tal irmão e filho, agradável, humilde, pacífico, doce, amável e mais desejável do que todas as coisas: Nosso Senhor Jesus Cristo!”. Dessa forma, entramos em um dos grandes pontos da espiritualidade franciscana: o grande acontecimento, que é a encarnação de Jesus, continua a acontecer todos os dias, na Eucaristia e pelo nosso exemplo. Queremos fundamentar este capítulo final de nosso trabalho numa comparação de Clara com a “Esposa do Espírito Santo” do Apocalipse: aquela que é Maria e que é o Povo, pois “desceu do céu como uma noiva vestida de sol, coroada de doze estrelas e com a luz embaixo dos pés”. Mas ela também era a Mãe, porque estava grávida. E com o Espírito Santo chegará ao fim da história como o Povo Esposa clamando: “Vem, Senhor Jesus! Vem!” 10.1. Clara como a Mãe de Jesus Não é tão importante que ela venha “a ser no céu coroada como a Virgem Maria”, como diz o Cântico de Francisco “Ouvi, pobrezinhas!” O fato mais importante é que ela se reveste de Cristo, o homem novo, e que vai mostrando como continuar a dar à luz a imagem de Cristo que está em nós e em todas as pessoas, especialmente nos irmãos e irmãs mais pró- ximos. 103
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    Dessa maneira, Clarapode ser vista na tradição das “ammás”, as mães espirituais do deserto. De fato, foi isso que ela recordou em sua bênção: “E as abençôo em minha vida e depois de minha morte, como posso, com todas as bênçãos com que o Pai das misericórdias (cf. 2Cor 1,3) abençoou e abençoará seus filhos e filhas no céu (cf. Ef 1,3) e na terra, e com os quais um pai e uma mãe espiritual abençoaram e abençoarão seus filhos e filhas espirituais. Amém” (BSC 11-13). A Legenda de Santa Clara confirma essa visão em dois lugares: “Sigam os homens esses varões, novos discípulos do Verbo encarnado; as mulheres imitem Clara, vestígio da Mãe de Deus e nova guia das mulheres” (LSC, Prólogo). Hoje, a Igreja rebrota feliz com essas flores geradas por Clara (...) (LSC 11). As filhas gratas por sua bondade correspondiam com toda a dedicação. Acolhiam o carinho afetuoso da mãe, (...) e admiravam na esposa de Deus a prerrogativa de uma santidade completa (LSC 38). É bastante interessante que Tomás de Celano, o primeiro biógrafo de São Francisco e autor da Legenda de Santa Clara, que em diversas oportunidades parece ser um misógino, tenha tido uma visão muito positiva do papel feminino da mãe, como observou Valéria Fernandes da Silva 17. 17 Celano abre possibilidades interessantes para o estudo dos discursos sobre o feminino na Idade Média, ao identificar seu biografado com um papel que é especificamente feminino. Pois se até então era comum nos autores eclesiásticos uma supervalorização da virgindade e uma depreciação das virtudes femininas, Celano simplesmente irá anular qualquer caráter pejorativo na maternidade em seus textos. Ele irá apresentar um Francisco revestido de uma virtude feminina, a maternidade, que em nenhum momento será dissociada desse aspecto fundamental e estabelecida como desprovida de diretivas de gênero. A maternidade em Celano não é desprovida de gênero, assexuada como a alma para Santo Agostinho. Ao contrário, ela é elogiada naquilo que tem de feminino, que, nesse caso, não seria correspondente à incompletude ou ao mal. Nisso nosso autor irá se aproximar, de certa forma, de Juliana de Norwich, mística e reclusa inglesa, que no século XIV irá associar Jesus Cristo à figura materna, atribuindo-lhe qualidades até então tidas como femininas. Ao valorizar a maternidade, estado que estava associado ao pecado e a uma vida no saeculum, valorizando a Maria-Mãe em detrimento da Maria Virgem, um maior número de mulheres puderam se reconhecer nos exemplos dados por Celano. Cumprindo de certa forma seu papel pedagógico, de hagiógrafo, suscitando a piedade, a penitência, a devoção e uma vida norteada pelos princípios da vita vere apostolica. Clara representa não só a mãe das Damas Pobres, como também é filha espiritual de Francisco. Da mesma forma, ela seria identificada com a Mãe de Deus, por ser mãe simbólica e por ser virgem, mas também seria a esposa do Cristo. Ela é mãe, filha, esposa, virgem; a materialização de Maria de acordo com os moldes franciscanos. VALÉRIA F. DA SILVA, A mãe como modelo de espiritualidade: discutindo o papel da maternidade nos escritos de Tomás de Celano, in Hagiografia e História, organizado por Andréia Cristina Lopes Frazão da Silva. Rio de Janeiro 2008. 104
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    São Paulo dissera:“Eu... vos gerei em Cristo Jesus (1Cor 4,25). Toda vida cristã, aberta para Deus, manifesta-O e é portadora de vida. Quem faz isso está na maior união com Cristo e gera outros Cristos. O que São Francisco diz na Carta aos Fiéis é uma outra maneira de falar dos Esponsais e de Esposo-Esposa: falar de como estamos ajudando os outros a serem outros Cristos e nos tornando nós mesmos outros Cristos. Todo ser humano vindo a este mundo – se souber olhar pela perspectiva do Evangelho – saberá que precisa fazer nesta vida um Processo de Cristificação. É assim que se une a Deus. Ser mãe de Jesus Cristo é algo parecido com “optar por uma vida de acordo com o Evangelho”. São Francisco usou essa expressão na Forma de Vida para Santa Clara, que é idêntica à sua Antífona de Nossa Senhora onde, no mesmo lugar, ele coloca “Mãe de Jesus”. Em outras palavras, “viver o Evangelho” não é apenas pautar-se por orientações dadas por Jesus e contidas nos quatro livros dos Evangelistas; viver o Evangelho é ser um outro Cristo, é desenvolver o Cristo de si mesmo e ajudar a nascerem e crescerem os Cristos que estão em todas as outras pessoas. É por isso que Francisco e Clara, pessoas sem formalismos e sem rigorismos, têm uma veneração tão profunda pelas suas Regras. Não as viam como estatutos: eram uma forma de ser mães de Jesus e de saber ser filhos. Ser mãe não é apenas gerar, gestar e dar à luz. Tudo isso é estupendo, entretanto, mais importante ainda é saber fazer com que os filhos se sintam totalmente bem acolhidos. Também é saber acompanhar desde os primeiros passos para que cada um realize em sua vida o que Deus sonhou para ele. Nosso próprio apostolado perde o sentido quando, mesmo anunciando com bastante propriedade a Palavra de Deus, esquecemos de ter a melhor compreensão materna para que o Cristo de cada um possa ser bem acolhido, possa crescer e amadurecer. 10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino Em Maria está “toda a plenitude da graça” (SdVM). Ela é a fonte cons- tante da graça porque sua intimidade única com a Trindade faz dela uma fecundidade espiritual permanente. Eva, com Adão, “quis ser como Deus”. Nós somos Adão e Eva que nos perdemos nessa aventura porque rejeitamos Deus. Maria tornou efetiva uma dimensão divina que já tínhamos uma vez que fomos criados “à ima- 105
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    gem e semelhançade Deus”, mas que, na prática, estava sem efeito pelo afastamento da soberania de Deus. Maria não se tornou deusa. Foram as suas atitudes de ser uma filha re- conhecida do Pai, uma esposa consciente do Espírito Santo e a mãe con- creta de Jesus que lhe deram a dimensão do divino que nos elevou a uma vida sobrenatural. Dessa maneira, ela manifestou a ternura de Deus em uma forma humana, permitindo que nela enxergássemos a ação do Espírito Santo. Para Deus, Maria é o humano. Para nós, Maria é uma visão do divino. Mas nela há um grande intercâmbio entre o divino e o humano. Nossa Senhora demonstra como Deus é terno e amoroso. Não muda Deus: muda nossa experiência de Deus. Em geral, costumamos apresentar uma religião longínqua e muito inte- lectualizada. É preciso ter uma fundamentação solidamente doutrinal, mas uma comunicação bem fácil, alegre e concreta. Sem fazer antropomorfias de Deus, temos que ver e demonstrar como nosso Deus, tão teórico e distante para muitos, pode ser humanizado. Precisamos lembrar que as próprias palavras Javé, Jesus, Emanuel e Paráclito induzem a ver a presença de Deus no humano. Nossa Senhora deu a Jesus Cristo traços, gestos, atitudes, entonação... deu-lhe uma natureza humana verdadeira. É preciso lembrar que Nossa Senhora não acolheu apenas a semente do corpo de Jesus. O Concílio Vaticano II ensinou, na Lumen Gentium, que Maria Santíssima recebeu o Verbo de Deus no coração e no corpo (LG 53). E abriu para nós — por obra de Deus, é claro — a possibilidade de continuar humanizando o divino e divinizando o humano. A Lumen Gentium também ensina que Nossa Senhora não foi mãe e também virgem, mas foi uma Mãe virginal porque sua maternidade divina foi certamente de ordem física mas, antes de tudo, foi “uma concepção no coração pela fé” (LG 63). A virgindade no corpo foi apenas um sinal, um sacramento da sua virgindade no coração. Que é isso? O fato de ser só de Deus, sem deixar de ser humana. Aliás, sendo até mais plenamente hu- mana. Quando São Francisco a saúda como “Virgem feita Igreja” mostra-nos que também nós temos essa virgindade na fé, que prestamos ao Esposo. Imitando a Mãe de seu Senhor, pela virtude do Espírito Santo, a Igreja conserva virginalmente uma fé íntegra, uma sólida esperança e uma sincera caridade (LG 64). “Como por ela era piedosamente movido para todas as 106
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    criaturas, especialmente, porémpara as almas remidas pelo precioso sangue de Cristo, quando as via manchadas por alguma sujeira de pecado, deplo- rava com tanta ternura de comiseração, que todos os dias dava-as à luz como uma mãe em Cristo” (LM 8,3). Nós temos o papel de ajudar as pessoas a serem mais humanas: é assim que Deus vai continuando a se encarnar 10.3. Levar Jesus no coração e no corpo Santa Clara tem algumas preciosas passagens de suas cartas em que também ensina como ser mãe de Jesus: “Falo do Filho do Altíssimo, que a Virgem deu à luz permanecendo virgem depois do parto. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina” (3CtIn 17-19). “Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que, mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu” (3CtIn 24-26). Levar no coração e no corpo é celebrar o fato de que somos imagem e semelhança, somos palavras originais e filhos adotivos, somos outros cristos. 10.4. Dar à luz pela santa operação Com muita beleza e mestria, Clara usa diversas vezes a imagem bíblica do espelho que, para ela, é Jesus. Ser espelho é uma expressão freqüente na literatura mística da Idade Média, como podemos encontrar em São Ber- nardo, Guilherme de Saint-Thierry e nas místicas da “Brautmystik”. Nós a encontramos nas Cartas e no Testamento de Santa Clara. As citações são as seguintes: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória” (3CtIn 12).” “Pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha. Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto” (4CtIn 14-15). 107
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    “Pois nesse espelhoresplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humil- dade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar. Preste a atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi colocado no presépio” (4CtIn 18-19). “No meio do espelho, considere a humildade, ou, pelo menos, a bem- aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano” (4CtIn 22). “E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa. Assim, posto na árvore da cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar” (4CtIn 23-24). “Pois o próprio Senhor colocou-nos não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que Ele vai chamar para a nossa vocação. Para que também elas sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros” (TestC 19-21). Há uma coincidência em toda esta utilização da simbologia do espelho. Sempre se usa para indicar algo profundo que tem que recorrer a tal sim- bologia para expressar alguma coisa além da realidade em si. Isso se chama sacramentalidade. Cristo, Francisco, as Irmãs... são um sacramento em que Clara se espelha ou para quem ela é espelho. Precisamente, em um ex- celente artigo sobre esta questão, Dino Dozzi traçou esta linha de com- preensão do “espelho de Clara” como sacramento de uma presença. Diz Dozzi que, nos Escritos de Clara, o espelho se refere a realidades diversas, mas sempre se trata de pessoas: Cristo, Francisco, Clara, Inês, as primeiras Irmãs, as Irmãs futuras. Os diversos “espelhos” de que Clara fala estão relacionados até ser um sacramento, sinal e instrumento do outro, e assim até chegar ao Espelho por antonomásia que é Cristo. Também se pode sublinhar a reciprocidade da presença que está por baixo. Este espelho torna Cristo presente para Clara, mas também Clara para Cristo e para si mesma; torna presente Francisco para Clara, mas também Clara para Francisco; torna presente Clara para Inês, mas também Inês para Clara; torna presente Clara para as primeiras irmãs. O espelho como sacramento de uma presença cria contemporaneidade, horizontes profundos, faz de todos, para além de qualquer barreira cronológica, uma só família. Deste modo, quem se ensimesma no Espelho de Cristo Esposo, quem se reflete no espelho fraterno do amigo do Esposo (Francisco), convida Inês e as Irmãs a ser por sua vez “espelhos vivos”, isto é, sacra- 108
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    mentos de outraPresença para elas mesmas, para as Irmãs que virão no futuro, para todos que puderem aproximar-se do mosteiro. Mas essa sacramentalidade exemplar (speculum et exemplum), não se refere unicamente a uma convivência sadia, bela e amável no recolhido claustro damianita. Há uma exemplaridade que se explica pela missão eclesial que Clara e as Irmãs receberam, e que, portanto, tem uma projeção apostólica a partir desse mesmo locus charismaticus. Aqui torna a aparecer o paralelismo entre Santa Clara e São Paulo. O apóstolo, que falou em ser “espelho da glória do Senhor”, ele que se espelhou em Cristo até ser nele também transformado, disse igualmente que completava e supria o que faltava no Corpo de Cristo, e que considerava os irmãos das diversas comunidades fundadas por ele como “colaboradores” em Cristo. Esse é o teor das palavras de Clara a Inês a respeito da intercessão em favor da Igreja: “Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu Corpo inefável” (3CtIn 8). 10.5. Com Maria na missão da Igreja A contemplação esponsal de Clara e das Irmãs não era uma piedosa fuga de todos os dramas em que os membros do Corpo inefável de Deus podem cair. É um binômio entre contemplação esponsal e missão eclesial, que não só não se opõem, mas se exigem reciprocamente. “A contemplação está unida à missão, pois na medida em que se realizou o que é Deus, e se experimentou até que ponto o fato de conhecer e amar a Deus é constitutivo de um humanismo total e de uma existência completa, nessa medida se sofre e fica surpreso de que Deus não seja conhecido e não seja amado”. Por isso podemos afirmar que a delicada, profunda e extensa contemplação esponsal de Clara, permitiu-lhe entrar em comunhão missionária com todos os “gemidos” da humanidade e da Igreja, nos membros que vacilam e caem (cadentium membrorum). Esse ardor missionário de partilhar as dores do Corpo de Cristo, levou-a a curar doenças de Irmãs ou de outros que iam a São Damião com sofrimentos físicos, psíquicos, e mesmo morais. E houve outro testemunho eclesial muito concreto: quando os “membros que vacilam” não eram os enfermos de males físicos, psíquicos ou morais, mas os próprios pastores que demonstravam fraqueza diante de sua missão. Era ao testemunho da hierarquia da Igreja que esta mulher, esposa de Cristo, atendia, para 109
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    sustentá-los em suamissão dentro e à frente da Igreja, esposa de Cristo também. Hugolino nos dá testemunho disso, tanto quando era cardeal, como quando foi eleito Papa. São dois textos cheios de agradecimento e afeto para com a esposa Clara, em quem se reconhece como irmã e mãe: “À caríssima irmã em Cristo e mãe de sua salvação, dona Clara, serva de Cristo, Hugolino, ostiense, indigno e pecador, recomenda-se em tudo que é e pode ser [...] Entrego-lhe minha alma e lhe recomendo meu espírito, para que, como Jesus entregou o espírito a seu Pai na cruz, você também responda por mim no dia do juízo, se não tiver sido solícita e atenta por minha salvação. Estou certo de que conseguira do sumo Juiz tudo que pedir com insistência de tanta devoção e abundancia de lágrimas”. “À dileta filha abadessa e à comunidade das monjas reclusas de São Damião de Assis... [...] como, no meio das numerosas amarguras e infinitas angústias que sem cessar nos afligem, vós sois nossa consolação [...] fareis com que Deus seja glorificado em vós e nos enchereis de gozo, pois vos abraçamos com íntimo amor como filhas prediletas, ou melhor, se podemos dizê-lo, como senhoras, pois são esposas de nosso Senhor. Mas porque, como confiamos vos fizestes um só espírito com Cristo, pedimos que em vossas orações, lembrando-se sempre de nós, eleveis as piedosas mãos ao céu, suplicando insistentemente que Aquele que sabe que nós, colocados no meio de tantos perigos, não podemos agüentar por nossa fragilidade, nos dê força por sua virtude, conceda-nos dar conta tão dignamente do ministério que nos confiou que redunde em glória para Ele, alegria para os anjos e salvação para os que foram confiados ao nosso governo”. A relação de afeto do Pastor Supremo da Igreja ficou marcada também em uma chave esponsal na carta circular que o cardeal Reinaldo enviou nesse mesmo ano de 1228 (datada em 18 de agosto), para comunicar a nomeação do novo visitador e assistente das damianitas (precioso docu- mento em que temos um primeiro elenco dos mosteiros das origens cla- rianas): Frei Filipe Longo. Mas no curso da carta, se diz explicitamente o que as Irmãs significavam para o Papa: “Ele fez seu vigário na terra aquele que era vosso pai e senhor, cujo amor por vós não sofre o desgaste da diminuição, pois consegue crescer todos os dias. De fato foi oportuno e conveniente que o Vigário de Cristo Esposo, pastor e bispo do rebanho universal do Senhor, também se ligasse por amor perpétuo às adolescentes em cujo amor castíssimo apóia-se o Esposo”. Podemos ver nesse relacionamento entre o Papado e Clara o que o teólogo H.U. Von Baltasar aplicava ao relacionamento a Igreja e Maria: 110
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    “Em Maria aIgreja tomou corpo antes de se organizar em Pedro. A Igreja é primeiro feminina, e esta prioridade é uma constante que subsiste quando recebe seu complemento masculino no ministério eclesiástico [...] E só para que não se esqueça dessa feminilidade primordial, só para que seja sempre receptáculo e não possessiva e dispositiva, incrustou nela o ministério masculino, que representa o Senhor administrador da Igreja, sempre dentro dos limites de sua receptividade feminina”. Neste sentido há uma complementaridade entre Instituição e Carisma, entre Pedro e Maria, entre Gregório IX e Clara. Devemos dizer que Santa Clara representou para seu mundo e para sua Igreja esse espelho em que se podia reconhecer a ternura e a bondade de Deus, precisamente porque ela se espelhava no Espelho de Deus, até ser transformada nele. Essa foi à missão clariana a partir de uma contemplação esponsal: apro- ximar ao homem concreto, ao mundo concreto, à Igreja concreta o rosto de um Deus Esposo, amante, doce e luminoso, para todas as amarguras e escuridões que pode haver nos membros desse grande corpo que representa a humanidade e a Igreja. A partir da Igreja, e em filial e real comunhão com ela, Clara foi speculum et exemplum, ícone vivo do que Deus quer de todos seus filhos. Ela mostrou assim uma pequena porção de terra (porciúncula) em que verdadeiramente se vivia como cristão. São Damião tornou-se desse modo um lar aberto para todos: pobres, enfermos, frades, prelados. Cada qual em sua medida ou necessidade, encontrou em São Damião a benção e a luz que Deus repartia pelas mãos daquela que foi esposa para Cristo, e mãe e irmã para todos os que nele amou. “Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas” (4CtIn 36-37). Ao finalizar toda esta nossa consideração, é bom recordar um pensa- mento que encontramos ao estudar Orígenes: Como o Pai gera eterna e continuamente o Filho, o Filho é concebido de modo permanente na alma do crente através de uma vida santa, com boas ações, até chegar à bem-aventurança de uma estreita união com o Filho, em que poderá gozar da visão do Pai como o próprio Cristo o vê. É o ponto alto de um caminho esponsal: chegar à mais completa transformação na- quele a quem amamos. A alma chega à perfeição quando pode cantar com a Esposa. 111
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    Índice 1. O “Pontode partida”........................................................................................................... 1 1.1. Espiritualidade ............................................................................................................ 4 1.2. Esponsais .................................................................................................................... 5 1.3. Linguagem simbólica ................................................................................................. 5 1.4. Sol e Lua..................................................................................................................... 6 1.5. Mística ........................................................................................................................ 7 1.6. A Trindade e o ser humano......................................................................................... 7 1.7. Um cântico de Amor .................................................................................................. 9 2. Santa Clara e o Cristo Esposo ........................................................................................... 11 2.1. Cristo apresentado como Esposo a Inês de Praga ..................................................... 11 2.2. Clara Esposa de Cristo.............................................................................................. 13 2.3. Clara celebrou Cristo Esposo.................................................................................... 17 3. Francisco, figura do Esposo .............................................................................................. 20 3.1. Francisco, o amigo do Esposo .................................................................................. 20 3.2. Eles viveram uma profunda amizade ........................................................................ 22 3.2.1. O que é a verdadeira amizade? ........................................................................ 23 3.2.2. Na amizade com Francisco, Clara viveu a esponsalidade com Deus .............. 24 3.2.3. Sabedoria de Clara depois da morte de Francisco. ......................................... 26 3.3. Cada um por si, mas também juntos, eles sentiram falta da plenitude de Deus e a buscaram ......................................................................................................................... 28 3.4. Os Cânticos de São Francisco .................................................................................. 32 4. Clara e os Místicos do seu tempo ..................................................................................... 34 4.1. As mulheres místicas do tempo de Clara .................................................................. 35 4.1.1. Beatriz de Nazaré (1200-1268) ........................................................................ 36 4.1.2. Matilde de Magdeburgo (1210 – 1294)............................................................ 37 4.1.3. Hadewijch de Amberes (séc. XIII) ................................................................... 38 4.2. Os cistercienses ........................................................................................................ 39 4.2.1. São Bernardo .................................................................................................... 39 4.2.2. Guilherme de Saint-Thierry.............................................................................. 43 4.2.3. Aelredo de Rievaulx ......................................................................................... 44 5. A Aliança Esponsal nos Santos Padres ............................................................................. 46 5.1. Orígenes – História, ferida e fecundidade................................................................. 47 5.1.1. Três temas na mística origineana ..................................................................... 49 5.2. Gregório de Nissa – A caminhada até a União ......................................................... 51 5.2.1. Seu “itinerarium mentis in Deum”: a progressão para a semelhança divina .. 51 5.2.2. Até a contemplação eterna da Beleza de Deus que nos transforma em sua imagem ....................................................................................................................... 54 6. O Esposo na Aliança Bíblica ............................................................................................ 56 6.1. O Cântico dos Cânticos ............................................................................................ 56 6.1.1. O amor é caminho divino do homem ................................................................ 57 6.1.2. A chama do amor. O mistério de um fogo comum............................................ 57 6.2. A Aliança e os Profetas ............................................................................................ 59 6.3. A nova Aliança – Jesus é o Esposo........................................................................... 63 6.3.1. Jesus é o verdadeiro Esposo ............................................................................. 63 6.3.2. O amigo do Esposo .......................................................................................... 63 112
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    6.3.3. A esposaouve o Esposo ................................................................................... 64 6.3.4. A Igreja, Esposa do Verbo ............................................................................... 65 6.3.5. O ser humano existe para desposar Deus ......................................................... 67 7. Clara saiu para estar com Ele............................................................................................ 70 7.1. O “não-lugar” ........................................................................................................... 70 7.2. Uma situação liminar ................................................................................................ 73 7.3. Companhia no “Não-Lugar” ..................................................................................... 74 7.4. Orar no “Não-lugar” ................................................................................................. 75 7.5. O Reino do “Não-Lugar” .......................................................................................... 76 7.6. Onde eu me encontro com a pessoa de Jesus ............................................................ 77 7.7. Algumas considerações ............................................................................................ 77 8. As Irmãs-Esposas ............................................................................................................. 82 8.1. A vida das clarissas como Irmãs ............................................................................... 84 8.1.1. As clarissas são Irmãs porque são Esposas ..................................................... 84 8.1.2. Elas refletem umas para as outras o Cristo Esposo e Espelho......................... 86 8.1.3. A “Forma de Vida” é para Esposas que são Irmãs ......................................... 87 8.2. A contribuição das Irmãs-Esposas para a Ordem e para a Igreja .............................. 89 9. Contemplando o Esposo ................................................................................................... 94 9.1. Contemplação dominada pela gratidão ..................................................................... 98 9.2. O processo é de fidelidade crescente. ....................................................................... 98 9.3. contemplação transformante ..................................................................................... 99 9.4. A contemplação abre para a fraternidade e a Igreja ................................................ 100 9.5. Uma contemplação iluminada ................................................................................ 101 10. “Mãe de Jesus” ............................................................................................................. 103 10.1. Clara como a Mãe de Jesus................................................................................... 103 10.2. Divinizar o humano e humanizar o Divino ........................................................... 105 10.3. Levar Jesus no coração e no corpo ....................................................................... 107 10.4. Dar à luz pela santa operação ............................................................................... 107 10.5. Com Maria na missão da Igreja ............................................................................ 109 113