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A volta do espectro de Malthus
Ainda é preciso verificar se as previsões pessimistas de Malthus estão se tornando
realidade ou se simplesmente estão sendo adiadas
por Jeffrey Sachs
Em 1798 Thomas Robert Malthus fez uma previsão famosa que ganhos de curto prazo nos padrões
de vida, inevitavelmente seriam desestabilizados à medida que o crescimento da população mundial
superasse a produção de alimentos, e assim levando os padrões de vida a voltar aos níveis de
subsistência. "Estamos condenados pela tendência de a população crescer em progressão
geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética”, comentava na época.
Durante 200 anos, economistas afirmaram que Malthus ignorou o avanço tecnológico, o que teria
permitido que a curva de crescimento da população se mantivesse à frente da curva de alimentos. O
argumento é que a produção de alimentos pode na verdade crescer geometricamente porque além
da terra, a produção depende também do know-how. Com os avanços na produção de sementes,
nutrientes do solo, reposição de nutrientes - como fertilizantes químicos - , irrigação, mecanização e
outros, os suprimentos de alimentos podem permanecer bem à frente da curva de crescimento da
população. Em outras palavras, os avanços tecnológicos em todos seus aspectos - agricultura,
energia, uso da água, manufatura, controle de doenças, gerenciamento de informação, transporte,
comunicações - permitem que a produção de alimentos cresça mais rápido que a população.
Um outro fator, ao que tudo indica, que solapa o argumento de Malthus é a transição demográfica.
De acordo com essa transição, as sociedades passam de condições em que altos índices de
fertilidade são, a grosso modo, compensados por altos índices de mortalidade, para condições de
baixos índices fertilidade, com baixas taxas de mortalidade. Malthus não contava com os avanços na
saúde pública, planejamento familiar e métodos modernos de contracepção, que juntamente com a
urbanização e outras tendências, resultariam num declínio acentuado nas taxas de fertilidade
chegando até abaixo da “taxa de substituição” de 2,1 filhos por casal. Talvez a população do mundo
tenha revertido sua tendência de crescimento em progressão geométrica.
As críticas ao pessimismo de Malthus resistiram por lo ngo tempo. De fato, quando eu estudava
economia, o raciocínio de Malthus era alvo de galhofa, considerado por meus mestres como exemplo
de previsão ingênua totalmente equivocada. Além disso, desde a época de Malthus, os salários
médios no mundo todo aumentaram em pelo menos uma ordem de grandeza, de acordo com
analistas econômicos, apesar de a população ter aumentado de cerca de 800 milhões em 1798 para
6,7 bilhões atualmente.
Alguns economistas chegaram ao ponto de afirmar que o alto crescimento das populações teria sido
a maior razão para a melhoria de padrão de vida, e não um entrave. De acordo com essa
interpretação, a octuplicação no aumento da população desde 1798 fez crescer proporcionalmente o
número de gênios, além disso, são os gênios os responsáveis pelos avanços globais da humanidade.
Costuma-se dizer que uma grande população é tudo de que se precisa para promover o progresso.
Na verdade o espectro de Malthus não foi exorcizado — ao contrário, longe disso. O aumento de
know-how não só permitiu obter mais saídas para as mesmas entradas, mas também melhorou
nossa capacidade de vasculhar a Terra em busca de mais entradas. Essa primeira revolução
industrial começou com a utilização de combustíveis fósseis, particularmente o carvão, através das
máquinas a vapor de Watt.
A humanidade estava presa a depósitos geológicos de energia solar primordial, armazenada na
forma de carvão, petróleo e gás para atender suas necessidades modernas. Aprendemos a escavar
minerais em locais mais profundos, pescar com re des maiores, mudar o curso de rios para formar
canais e represas, nos apoderar de mais habitats de outras espécies e derrubar florestas com
ferramentas mais poderosas para limpar grandes áreas. Inúmeras vezes, não conseguimos mais por
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menos, mas ao contrário sempre, mais por mais, convertendo ricas histórias de capital natural em
altos fluxos de consumo atual. Boa parte do que chamamos de “lucro” - no sentido lato do valor
agregado à atividade econômica - é na verdade uma redução ou uma perda do capital natural.
E embora o planejamento familiar e os métodos contraceptivos tenham de fato assegurado um baixo
índice de fertilidade em muitas partes do mundo, a taxa de fertilidade geral permanece em 2,6,
muito acima da taxa de substituição. A África subsaariana - região mais pobre do mundo - ainda
tem uma taxa geral de fertilidade de 5,1 filhos por mulher, e a população global continua a crescer a
uma taxa de cerca de 79 milhões por ano, com o maior aumento nos locais ma is pobres. De acordo
com previsões de fertilidade média da Divisão de População das Nações Unidas, estamos em vias de
atingir 9,2 bilhões de pessoas na metade do século.
Se de fato continuarmos a consumir uma quantidade desmedida de petróleo e tivermos falta de
alimentos, se reduzirmos as reservas fósseis de água do subsolo e destruirmos as florestas restantes
e devastarmos os oceanos e enchermos a atmosfera com gases do efeito estufa, que pode provocar
descontrole no clima da Terra com elevação do nível dos oceanos, poderemos estar confirmando a
maldição de Malthus, embora tudo isso possa ser evitado. A idéia que know-how aprimorado e
redução voluntária de fertilidade possam sustentar um crescente nível de ganhos para o mundo
parece correto, mas somente se futuras tecnologias nos permitirem economizar o capital natural e
não apenas encontrar maneiras mais inteligentes de reduzi-lo, de forma mais barata e rápida.
Nas próximas décadas teremos que migrar para energia solar e energia nuclear segura, uma vez
que ambas fornecem, em princípio, energia limpa - se compararmos com a energia atual -
adequadamente vinculadas a tecnologias aprimoradas e controles sociais. O know-how terá que ser
aplicado a automóveis com alto rendimento (alta quilometragem por litro), agricultura com
reaproveitamento da água e edifícios verdes que reduzam fortemente o consumo de energia.
Teremos que repensar as dietas modernas e os projetos urbanos para conseguir estilos de vida mais
saudáveis que também rejeitem padrões de consumo intensivo de energia. E teremos que ajudar a
África e outras regiões a acelerar a transição demográfica para níveis de fertilidade de substituição,
a fim de estabilizar a população global em torno de 8 bilhões.
Não há nada, num cenário sustentável como esse que viole as restrições de recursos ou
disponibilidade de energia da Terra. No entanto, ainda não estamos seguindo essa trajetória
sustentável, e os sinais do mercado atual não estão nos conduzindo por esse caminho. Precisamos
de novas políticas para movimentar o mercado de forma sustentável - por exemplo, taxando o
carbono para reduzir emissões de gases do efeito estufa - e para promover progressos tecnológicos
em economia de recursos e não em mineração de recursos. Precisamos de novas políticas que
reconheçam a importância de uma estratégia de crescimento sustentável e mobilização global para
consegui-la.
Será que Malthus foi derrotado? Depois de dois séculos, realmente ainda ninguém sabe.

A volta do espectro de malthus

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    1 A volta doespectro de Malthus Ainda é preciso verificar se as previsões pessimistas de Malthus estão se tornando realidade ou se simplesmente estão sendo adiadas por Jeffrey Sachs Em 1798 Thomas Robert Malthus fez uma previsão famosa que ganhos de curto prazo nos padrões de vida, inevitavelmente seriam desestabilizados à medida que o crescimento da população mundial superasse a produção de alimentos, e assim levando os padrões de vida a voltar aos níveis de subsistência. "Estamos condenados pela tendência de a população crescer em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética”, comentava na época. Durante 200 anos, economistas afirmaram que Malthus ignorou o avanço tecnológico, o que teria permitido que a curva de crescimento da população se mantivesse à frente da curva de alimentos. O argumento é que a produção de alimentos pode na verdade crescer geometricamente porque além da terra, a produção depende também do know-how. Com os avanços na produção de sementes, nutrientes do solo, reposição de nutrientes - como fertilizantes químicos - , irrigação, mecanização e outros, os suprimentos de alimentos podem permanecer bem à frente da curva de crescimento da população. Em outras palavras, os avanços tecnológicos em todos seus aspectos - agricultura, energia, uso da água, manufatura, controle de doenças, gerenciamento de informação, transporte, comunicações - permitem que a produção de alimentos cresça mais rápido que a população. Um outro fator, ao que tudo indica, que solapa o argumento de Malthus é a transição demográfica. De acordo com essa transição, as sociedades passam de condições em que altos índices de fertilidade são, a grosso modo, compensados por altos índices de mortalidade, para condições de baixos índices fertilidade, com baixas taxas de mortalidade. Malthus não contava com os avanços na saúde pública, planejamento familiar e métodos modernos de contracepção, que juntamente com a urbanização e outras tendências, resultariam num declínio acentuado nas taxas de fertilidade chegando até abaixo da “taxa de substituição” de 2,1 filhos por casal. Talvez a população do mundo tenha revertido sua tendência de crescimento em progressão geométrica. As críticas ao pessimismo de Malthus resistiram por lo ngo tempo. De fato, quando eu estudava economia, o raciocínio de Malthus era alvo de galhofa, considerado por meus mestres como exemplo de previsão ingênua totalmente equivocada. Além disso, desde a época de Malthus, os salários médios no mundo todo aumentaram em pelo menos uma ordem de grandeza, de acordo com analistas econômicos, apesar de a população ter aumentado de cerca de 800 milhões em 1798 para 6,7 bilhões atualmente. Alguns economistas chegaram ao ponto de afirmar que o alto crescimento das populações teria sido a maior razão para a melhoria de padrão de vida, e não um entrave. De acordo com essa interpretação, a octuplicação no aumento da população desde 1798 fez crescer proporcionalmente o número de gênios, além disso, são os gênios os responsáveis pelos avanços globais da humanidade. Costuma-se dizer que uma grande população é tudo de que se precisa para promover o progresso. Na verdade o espectro de Malthus não foi exorcizado — ao contrário, longe disso. O aumento de know-how não só permitiu obter mais saídas para as mesmas entradas, mas também melhorou nossa capacidade de vasculhar a Terra em busca de mais entradas. Essa primeira revolução industrial começou com a utilização de combustíveis fósseis, particularmente o carvão, através das máquinas a vapor de Watt. A humanidade estava presa a depósitos geológicos de energia solar primordial, armazenada na forma de carvão, petróleo e gás para atender suas necessidades modernas. Aprendemos a escavar minerais em locais mais profundos, pescar com re des maiores, mudar o curso de rios para formar canais e represas, nos apoderar de mais habitats de outras espécies e derrubar florestas com ferramentas mais poderosas para limpar grandes áreas. Inúmeras vezes, não conseguimos mais por
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    2 menos, mas aocontrário sempre, mais por mais, convertendo ricas histórias de capital natural em altos fluxos de consumo atual. Boa parte do que chamamos de “lucro” - no sentido lato do valor agregado à atividade econômica - é na verdade uma redução ou uma perda do capital natural. E embora o planejamento familiar e os métodos contraceptivos tenham de fato assegurado um baixo índice de fertilidade em muitas partes do mundo, a taxa de fertilidade geral permanece em 2,6, muito acima da taxa de substituição. A África subsaariana - região mais pobre do mundo - ainda tem uma taxa geral de fertilidade de 5,1 filhos por mulher, e a população global continua a crescer a uma taxa de cerca de 79 milhões por ano, com o maior aumento nos locais ma is pobres. De acordo com previsões de fertilidade média da Divisão de População das Nações Unidas, estamos em vias de atingir 9,2 bilhões de pessoas na metade do século. Se de fato continuarmos a consumir uma quantidade desmedida de petróleo e tivermos falta de alimentos, se reduzirmos as reservas fósseis de água do subsolo e destruirmos as florestas restantes e devastarmos os oceanos e enchermos a atmosfera com gases do efeito estufa, que pode provocar descontrole no clima da Terra com elevação do nível dos oceanos, poderemos estar confirmando a maldição de Malthus, embora tudo isso possa ser evitado. A idéia que know-how aprimorado e redução voluntária de fertilidade possam sustentar um crescente nível de ganhos para o mundo parece correto, mas somente se futuras tecnologias nos permitirem economizar o capital natural e não apenas encontrar maneiras mais inteligentes de reduzi-lo, de forma mais barata e rápida. Nas próximas décadas teremos que migrar para energia solar e energia nuclear segura, uma vez que ambas fornecem, em princípio, energia limpa - se compararmos com a energia atual - adequadamente vinculadas a tecnologias aprimoradas e controles sociais. O know-how terá que ser aplicado a automóveis com alto rendimento (alta quilometragem por litro), agricultura com reaproveitamento da água e edifícios verdes que reduzam fortemente o consumo de energia. Teremos que repensar as dietas modernas e os projetos urbanos para conseguir estilos de vida mais saudáveis que também rejeitem padrões de consumo intensivo de energia. E teremos que ajudar a África e outras regiões a acelerar a transição demográfica para níveis de fertilidade de substituição, a fim de estabilizar a população global em torno de 8 bilhões. Não há nada, num cenário sustentável como esse que viole as restrições de recursos ou disponibilidade de energia da Terra. No entanto, ainda não estamos seguindo essa trajetória sustentável, e os sinais do mercado atual não estão nos conduzindo por esse caminho. Precisamos de novas políticas para movimentar o mercado de forma sustentável - por exemplo, taxando o carbono para reduzir emissões de gases do efeito estufa - e para promover progressos tecnológicos em economia de recursos e não em mineração de recursos. Precisamos de novas políticas que reconheçam a importância de uma estratégia de crescimento sustentável e mobilização global para consegui-la. Será que Malthus foi derrotado? Depois de dois séculos, realmente ainda ninguém sabe.