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A SEXUALIDADE DO CASAL
Por: Pr. Elias Coutinho de Macedo
A sexualidade é um dos maiores problemas para o ser humano. Ela é
motivo freqüente de sofrimento familiar, desilusões e frustrações de
vários tipos. Ao mesmo tempo, a sexualidade é algo bastante difícil
de entender.
Seus mecanismos são complexos e, seus problemas, de difícil
resolução. Os princípios expostos a seguir poderão ser de muita
utilidade para a compreensão dos problemas que afligem tanto as pessoas, e para possível
solução dos mesmos.
FUNÇÃO DA SEXUALIDADE
“Assim Deus criou os seres humanos; Ele os criou parecidos com Deus. Ele os criou homem e
mulher e os abençoou dizendo: tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e
a dominem” (Gen 1.27-28a BLH).
A grande maioria das espécies vivas, animais e vegetais, se multiplicam graças à existência
dos dois sexos. Uma das coisas que me emocionou no início da adolescência foi estudar a
sexualidade das plantas observando a flor de maracujá. Podemos dizer que o ser humano,
criado à imagem do seu Criador, é o que possui sexualidade mais evoluída, e Deus ordenou
que ele exercitasse sua vida sexual e, assim, gerasse muitos filhos.
MANTER A UNIÃO DO CASAL
Na espécie humana, os filhos precisam ter os pais juntos por muitos anos, porque seu
processo de crescimento é bastante demorado. Na natureza, como os filhotes crescem em
pouco tempo, os pais não precisam continuar juntos. Por isso, entre os animais, a atividade
sexual é intermitente.
Essa atividade só ocorre em certas épocas, no período denominado cio, que dura apenas o
tempo suficiente para haver acasalamento. Quando passa o cio, os pais se separam: os
filhotes, rapidamente crescidos, não mais precisam de pais juntos. Os animais não praticam
casamento, que é duradouro, mas acasalamento, que é provisório. Então, na espécie humana,
a atração sexual é uma força duradoura que mantém o casal unido, para o bem dos filhos.
Muitos casais que não têm uma boa vida sexual acabam se separando, para prejuízo dos
filhos.
SERVIR DE MODELO PARA A SEXUALIDADE DOS FILHOS
Se os pais, após gerarem filhos, interrompessem seu relacionamento sexual, os filhos não
poderiam dispor de um modelo adequado para a sua própria sexualidade. A atitude dos pais
afeta fundamentalmente a sexualidade dos filhos. Os filhos precisam observar o
comportamento dos pais.
Se estes trocam gestos de carinho, de ternura, de aceitação mútua, eles oferecem aos filhos a
possibilidade de imitá-los quando se tornarem adultos. Se, por outro lado, uma criança tem
pais que não se amam, não dormem juntos, não se desejam, não se tocam, ela terá seu
desenvolvimento sexual prejudicado. Faltou a ela um modelo adequado. Freqüentemente
encontramos pessoas com dificuldades sexuais como reflexo das dificuldades dos seus próprios
pais.
VISÕES DA SEXUALIDADE
A sexualidade é algo tão complexo que facilmente se torna objeto de visões amplamente
distorcidas. Algumas são excessivamente repressoras e outras liberais, libertinas e
promíscuas. Os cristãos precisam ter uma visão que possibilite uma atitude equilibrada, fator
de felicidade e bem-estar.
A DISTORÇÃO GNÓSTICA
Havia, nos dias do Apóstolo Paulo, a popularização da doutrina gnóstica, defensora de uma
total antinomia entre a matéria e o espírito: o espírito era bom, ao passo que a matéria era
totalmente má. O corpo humano era desprezado, considerado como “a prisão infecta da alma”.
Era proibido tudo aquilo que dava prazer. Eles falavam de sexo como sujo e pecaminoso e que
deveria ser evitado. Proibiam o casamento e até mesmo a procriação era considerada como
má.
Esse ensino gnóstico influenciou poderosamente os líderes cristãos como Jerônimo e
Agostinho. Este ensinava, no século IV, que o ideal era o celibato e não o matrimônio, e que a
relação sexual era pecado mesmo dentro do casamento não se excetuando a procriação.
Aconselhava, portanto, que as pessoas, mesmo casadas, deveriam evitar as relações sexuais.
VISÃO ADEQUADA DA SEXUALIDADE
Essa visão encontramos na Bíblia. Gen 4.1 registra: “Conheceu Adão a Eva, sua mulher; ela
concebeu...”. O ato sexual é descrito pelo termo “conhecer”. É uma descrição honrosa e pura,
e não grosseira e agressiva de outros contextos. “Conhecer” descreve, também, a relação
entre o ser humano e o Criador e implica em profunda comunhão.
Em sua clássica orientação sobre vida conjugal o Apóstolo Paulo declarou: “O homem deve
cumprir o seu dever como marido, e a mulher deve cumprir o seu dever como esposa. A
esposa não é dona do seu próprio corpo, pois ele pertence ao marido. Assim também o marido
não é dono do seu próprio corpo, pois este pertence à esposa. Que os dois não se neguem um
ao outro, a não ser que concordem em fazer isso por algum tempo para se dedicarem à
oração.
Mas depois devem ter relações normais, para que Satanás não os tente por não poderem se
dominar” (1 Cor 7.3-5 - BLH).
A partir da passagem acima podemos destacar os seguintes ensinos:
• As carências sexuais são legítimas e devem ser reconhecidas pelo cônjuge.
• Os direitos da realização sexual são iguais tanto para o marido quanto para a esposa. Não é
adequada aquela idéia que entende a obrigação da mulher como a de ter que atender às
necessidades do marido, ficando ela mesmo carente de satisfação sexual.
• A recusa em atender às necessidades sexuais do cônjuge é um ato de injustiça. Significa não
pagar ao outro o que lhe é devido.
• A única condição válida para a privação sexual no casamento é a dedicação à oração, mas
que só deve ser praticada se o marido e a mulher estiverem de acordo, e que seja por tempo
limitado. É bom comentar que um casal portador de uma adequada visão da sexualidade e da
oração, dificilmente sentirá necessidade de excluir uma da outra.
Entendemos que uma visão adequada da vida sexual no casamento inclui uma postura de
respeito e consideração, de tal modo que sejam evitadas práticas consideradas abusivas e
constrangedoras para a mulher ou para o marido.
FATORES DE CRESCIMENTO DA SEXUALIDADE
Pensamos aqui na sexualidade como algo que exige crescimento, que está sujeito a um
processo evolutivo. A felicidade sexual de um casal depende da possibilidade desse processo
de amadurecimento. Ninguém deve esperar maravilhas, já no início do casamento. Vejamos os
fatores envolvidos nessa maturidade sexual.
• Em nível individual, é necessário que haja uma integração entre aspectos físicos e psíquicos
da sexualidade – uma integração do corpo e da mente. Há pessoas possuidoras de um corpo
muito saudável mas que não dispõem de uma disposição mental adequada, porque
interiormente rejeitam a sua sexualidade ou certos aspectos dela.
• Em nível de casal também é necessária uma integração. É preciso que suas personalidades
estejam em harmonia. Muitos casais não de dão bem porque estão mal ajustados um ao outro.
Na realidade, sexo no casamento é um detalhe de um relacionamento global. Toda a vida do
casal está envolvida nisso. Bom relacionamento sexual depende de boa convivência.
• É necessário exercitar a paciência. Maridos jovens tendem a ser mal controlados, não dando
tempo à esposa para sua realização, levando-a a se sentir infeliz. Com o passar dos anos, o
marido tende a se tornar muito mais adequado no seu relacionamento com a esposa, vindo a
dispor do equilíbrio necessário. Por outro lado, as esposas precisam também de tempo para se
integrarem à sua sexualidade e aprenderem a sentir prazer.
Uma pesquisa indica que, entre mulheres sexualmente ativas, as de 15 anos têm uma
proporção de satisfação de 23%. As de 20 anos chegam a 53% e as de 35 anos, alcançam
90% de realização sexual. Isso significa que casais jovens precisam ter paciência para alcançar
a plenitude sexual. Isso leva tempo.
• O casal precisa do máximo de convivência. Alguns casais apresentam certas dificuldades
simplesmente porque não convivem. Veja a recomendação aos maridos israelitas: “Quando um
homem for recém-casado, não sairá à guerra, nem se lhe imporá cargo público; por um ano
inteiro ficará livre na sua casa, para se regozijar com a sua mulher, que tomou” (Deut. 24.5).
Qualquer casal que não tiver alcançado um nível adequado de ajustamento sexual deve
procurar ajuda de um conselheiro ou de um profissional especializado.
DIFICULDADES A VENCER
Não é raro casais apresentarem dificuldades várias no relacionamento sexual repercutindo
negativamente na vida total da família. Essas dificuldades precisam ser reconhecidas e
superadas através de esforço.
CORRIGINDO OS EFEITOS DE UMA EDUCAÇÃO INADEQUADA
Muitas pessoas são vítimas de má educação na área da sexualidade, manifestando, via de
regra, uma negação da mesma. Essa negação consiste em um mecanismo psicológico pelo que
se tenta afastar a realidade da vida sexual. Há casais que se quer conseguem conversar sobre
o assunto.
Uma mulher relatou um sonho no qual ela se via como não possuindo órgãos genitais e se
sentia muito bem. Para ela, a sexualidade era um peso que tinha de carregar.
Má educação também leva as pessoas a verem sujeira e imundícia na experiência sexual. Um
marido se expressou assim: “sabe, Pastor, minha mulher é capaz de lavar fraldas, lavar vaso
sanitário e até cuidar de um cão leprento. Não entendo porque ela tem nojo de mim que sou
limpo e saudável”.
Boa educação sexual dentro da perspectiva cristã nos permitirá ver o sexo como fazendo parte
dos propósitos de Deus para nós, principalmente como força de atração a manter próximos o
marido e a mulher, e como forma sublime de expressar amor. Podemos ver o sexo como coisa
digna e honrosa, porque Deus nos criou assim, sexuados, e tudo o que Deus criou é bom.
SUPERANDO DIFICULDADES ORGÂNICAS
Experiência sexual é, acima de tudo, uma doação mútua do corpo. É dessa forma que o
Apóstolo Paulo trata do assunto em I Co 7.3-5. É no corpo que experimentamos o prazer
sexual. Ora, há inúmeras condições que podem fazer com que o corpo não esteja bem:
cansaço ou esgotamento físico, doenças várias (principalmente aquelas com repercussão
neurológica e circulatória) e mau cuidado do corpo e pouca de higiene.
Uma pessoa casada precisa manter bem o seu corpo através de descanso, exercícios e boa
alimentação. Uma esposa com o corpo cansado, mau cuidado, com excesso de gordura não
costuma ser tão atraente para o marido.
Um marido trabalhando em excesso, esgotado e com um corpo mal tratado tende a se tornar
um parceiro inadequado. Mulheres relatam freqüentemente o esfriamento do interesse pelo
marido que não gosta de tomar banho regularmente. Outras têm se afastado do marido por
causa do mau hálito, dentes mau cuidados ou por apresentarem pelo corpo, lesões não
tratadas.
As pessoas precisam tomar consciência da necessidade de manter o corpo em bom estado a
fim de favorecer o cônjuge. Pois, o Apóstolo ensina a não negar o corpo, mas esse corpo
precisa estar bem.
REMOVENDO DIFICULDADES EMOCIONAIS
O sexo não envolve apenas o corpo, mas também as emoções. Isso significa que a experiência
sexual é física e emocional ao mesmo tempo. Estados emocionais negativos prejudicam o
bem-estar nessa área da vida. Um marido deprimido, irritado, com sentimento de inferioridade
torna-se um mau parceiro sexual.
Uma esposa magoada e rancorosa freqüentemente evita contato mais íntimo com o marido. As
dificuldades se tornam muito maiores se ela cultiva sentimentos de inferioridade em relação ao
próprio corpo. O mesmo acontece se ela pensa negativamente em relação ao marido. É
comum ouvirmos de esposas que deixaram de sentir prazer com o marido quando o mesmo
perdeu o emprego ou ficou endividado.
Para o bem da vida conjugal, estados emocionais inadequados como os acima referidos
precisam ser superados.
CONTROLANDO FATORES EXTERNOS
Algumas barreiras à felicidade conjugal estão localizadas fora da vida da casal e são, muitas
vezes, suficientemente danosas para a vida a dois.
Falta de tempo
Alguns maridos não dispõem de tempo suficiente para dedicar às suas esposas. Alguns
trabalham demais, outros viajam muito e outros estão se dedicando a terceiros, como os
amigos do clube.
Há também esposas que investem muito do seu tempo fora da vida conjugal, seja
trabalhando, seja cuidando de uma mãe doente ou idosa ou se dedicando aos filhos. É preciso
que os cônjuges disponham de tempo para se dedicarem mutuamente a fim de desfrutarem o
melhor das bênçãos do matrimônio.
Falta de privacidade
Alguns casais são prejudicados em sua vida íntima por falta de liberdade para estarem juntos.
Isso ocorre nas situações em que a casa fica muito cheia de parentes ou em que há filhos
dormindo no quarto do casal. Todo casal deve poder desfrutar de adequada privacidade para o
bom desempenho de sua vida a dois.
PRESERVANDO O AMOR
Muitas vezes desaparece aquele amor, aquela atração romântica que levou um casal ao
matrimônio. Esse esfriamento do amor conjugal, via de regra, leva ao distanciamento entre o
marido e a mulher. Isso não é bom. Por esta razão, os cônjuges devem se empenhar em
preservar a atração que um dia os levou a se casarem.
Assim sendo, a mulher deve valorizar o marido e demonstrar respeito por ele, deve ajudá-lo a
se sentir importante. Quanto ao marido, ele deve ser atencioso, gentil e carinhoso para com a
esposa. Deve elogiá-la e notá-la em relação às pequenas coisas. Assim fica mais fácil
preservar o amor e a atração romântica necessários a uma boa vida sexual.
CONCLUSÃO
Os efeitos e dum mal ajustamento sexual dentro do casamento são muito ruins para a vida do
casal e para a família como um todo. Afeta os relacionamentos e o equilíbrio emocional das
pessoas.
Muitas vezes, pode ser um fator desencadeante em um processo de separação, sendo, não
raro, motivo de infidelidade conjugal. Deus deseja que a sexualidade no casamento seja um
fator de bênção e não de maldição. Todas as pessoas casadas são responsáveis para que
assim seja.
******************
Pr. Elias Coutinho de Macedo é médico psiquiatra. Pastor da Igreja Evangélica Batista
Moriá, em São Paulo.

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A sexualidade do casal

  • 1. A SEXUALIDADE DO CASAL Por: Pr. Elias Coutinho de Macedo A sexualidade é um dos maiores problemas para o ser humano. Ela é motivo freqüente de sofrimento familiar, desilusões e frustrações de vários tipos. Ao mesmo tempo, a sexualidade é algo bastante difícil de entender. Seus mecanismos são complexos e, seus problemas, de difícil resolução. Os princípios expostos a seguir poderão ser de muita utilidade para a compreensão dos problemas que afligem tanto as pessoas, e para possível solução dos mesmos. FUNÇÃO DA SEXUALIDADE “Assim Deus criou os seres humanos; Ele os criou parecidos com Deus. Ele os criou homem e mulher e os abençoou dizendo: tenham muitos e muitos filhos; espalhem-se por toda a terra e a dominem” (Gen 1.27-28a BLH). A grande maioria das espécies vivas, animais e vegetais, se multiplicam graças à existência dos dois sexos. Uma das coisas que me emocionou no início da adolescência foi estudar a sexualidade das plantas observando a flor de maracujá. Podemos dizer que o ser humano, criado à imagem do seu Criador, é o que possui sexualidade mais evoluída, e Deus ordenou que ele exercitasse sua vida sexual e, assim, gerasse muitos filhos. MANTER A UNIÃO DO CASAL Na espécie humana, os filhos precisam ter os pais juntos por muitos anos, porque seu processo de crescimento é bastante demorado. Na natureza, como os filhotes crescem em pouco tempo, os pais não precisam continuar juntos. Por isso, entre os animais, a atividade sexual é intermitente. Essa atividade só ocorre em certas épocas, no período denominado cio, que dura apenas o tempo suficiente para haver acasalamento. Quando passa o cio, os pais se separam: os filhotes, rapidamente crescidos, não mais precisam de pais juntos. Os animais não praticam casamento, que é duradouro, mas acasalamento, que é provisório. Então, na espécie humana, a atração sexual é uma força duradoura que mantém o casal unido, para o bem dos filhos. Muitos casais que não têm uma boa vida sexual acabam se separando, para prejuízo dos filhos. SERVIR DE MODELO PARA A SEXUALIDADE DOS FILHOS Se os pais, após gerarem filhos, interrompessem seu relacionamento sexual, os filhos não poderiam dispor de um modelo adequado para a sua própria sexualidade. A atitude dos pais afeta fundamentalmente a sexualidade dos filhos. Os filhos precisam observar o comportamento dos pais. Se estes trocam gestos de carinho, de ternura, de aceitação mútua, eles oferecem aos filhos a possibilidade de imitá-los quando se tornarem adultos. Se, por outro lado, uma criança tem pais que não se amam, não dormem juntos, não se desejam, não se tocam, ela terá seu desenvolvimento sexual prejudicado. Faltou a ela um modelo adequado. Freqüentemente encontramos pessoas com dificuldades sexuais como reflexo das dificuldades dos seus próprios pais. VISÕES DA SEXUALIDADE A sexualidade é algo tão complexo que facilmente se torna objeto de visões amplamente distorcidas. Algumas são excessivamente repressoras e outras liberais, libertinas e promíscuas. Os cristãos precisam ter uma visão que possibilite uma atitude equilibrada, fator de felicidade e bem-estar. A DISTORÇÃO GNÓSTICA Havia, nos dias do Apóstolo Paulo, a popularização da doutrina gnóstica, defensora de uma total antinomia entre a matéria e o espírito: o espírito era bom, ao passo que a matéria era
  • 2. totalmente má. O corpo humano era desprezado, considerado como “a prisão infecta da alma”. Era proibido tudo aquilo que dava prazer. Eles falavam de sexo como sujo e pecaminoso e que deveria ser evitado. Proibiam o casamento e até mesmo a procriação era considerada como má. Esse ensino gnóstico influenciou poderosamente os líderes cristãos como Jerônimo e Agostinho. Este ensinava, no século IV, que o ideal era o celibato e não o matrimônio, e que a relação sexual era pecado mesmo dentro do casamento não se excetuando a procriação. Aconselhava, portanto, que as pessoas, mesmo casadas, deveriam evitar as relações sexuais. VISÃO ADEQUADA DA SEXUALIDADE Essa visão encontramos na Bíblia. Gen 4.1 registra: “Conheceu Adão a Eva, sua mulher; ela concebeu...”. O ato sexual é descrito pelo termo “conhecer”. É uma descrição honrosa e pura, e não grosseira e agressiva de outros contextos. “Conhecer” descreve, também, a relação entre o ser humano e o Criador e implica em profunda comunhão. Em sua clássica orientação sobre vida conjugal o Apóstolo Paulo declarou: “O homem deve cumprir o seu dever como marido, e a mulher deve cumprir o seu dever como esposa. A esposa não é dona do seu próprio corpo, pois ele pertence ao marido. Assim também o marido não é dono do seu próprio corpo, pois este pertence à esposa. Que os dois não se neguem um ao outro, a não ser que concordem em fazer isso por algum tempo para se dedicarem à oração. Mas depois devem ter relações normais, para que Satanás não os tente por não poderem se dominar” (1 Cor 7.3-5 - BLH). A partir da passagem acima podemos destacar os seguintes ensinos: • As carências sexuais são legítimas e devem ser reconhecidas pelo cônjuge. • Os direitos da realização sexual são iguais tanto para o marido quanto para a esposa. Não é adequada aquela idéia que entende a obrigação da mulher como a de ter que atender às necessidades do marido, ficando ela mesmo carente de satisfação sexual. • A recusa em atender às necessidades sexuais do cônjuge é um ato de injustiça. Significa não pagar ao outro o que lhe é devido. • A única condição válida para a privação sexual no casamento é a dedicação à oração, mas que só deve ser praticada se o marido e a mulher estiverem de acordo, e que seja por tempo limitado. É bom comentar que um casal portador de uma adequada visão da sexualidade e da oração, dificilmente sentirá necessidade de excluir uma da outra. Entendemos que uma visão adequada da vida sexual no casamento inclui uma postura de respeito e consideração, de tal modo que sejam evitadas práticas consideradas abusivas e constrangedoras para a mulher ou para o marido. FATORES DE CRESCIMENTO DA SEXUALIDADE Pensamos aqui na sexualidade como algo que exige crescimento, que está sujeito a um processo evolutivo. A felicidade sexual de um casal depende da possibilidade desse processo de amadurecimento. Ninguém deve esperar maravilhas, já no início do casamento. Vejamos os fatores envolvidos nessa maturidade sexual. • Em nível individual, é necessário que haja uma integração entre aspectos físicos e psíquicos da sexualidade – uma integração do corpo e da mente. Há pessoas possuidoras de um corpo muito saudável mas que não dispõem de uma disposição mental adequada, porque interiormente rejeitam a sua sexualidade ou certos aspectos dela. • Em nível de casal também é necessária uma integração. É preciso que suas personalidades estejam em harmonia. Muitos casais não de dão bem porque estão mal ajustados um ao outro. Na realidade, sexo no casamento é um detalhe de um relacionamento global. Toda a vida do casal está envolvida nisso. Bom relacionamento sexual depende de boa convivência. • É necessário exercitar a paciência. Maridos jovens tendem a ser mal controlados, não dando tempo à esposa para sua realização, levando-a a se sentir infeliz. Com o passar dos anos, o
  • 3. marido tende a se tornar muito mais adequado no seu relacionamento com a esposa, vindo a dispor do equilíbrio necessário. Por outro lado, as esposas precisam também de tempo para se integrarem à sua sexualidade e aprenderem a sentir prazer. Uma pesquisa indica que, entre mulheres sexualmente ativas, as de 15 anos têm uma proporção de satisfação de 23%. As de 20 anos chegam a 53% e as de 35 anos, alcançam 90% de realização sexual. Isso significa que casais jovens precisam ter paciência para alcançar a plenitude sexual. Isso leva tempo. • O casal precisa do máximo de convivência. Alguns casais apresentam certas dificuldades simplesmente porque não convivem. Veja a recomendação aos maridos israelitas: “Quando um homem for recém-casado, não sairá à guerra, nem se lhe imporá cargo público; por um ano inteiro ficará livre na sua casa, para se regozijar com a sua mulher, que tomou” (Deut. 24.5). Qualquer casal que não tiver alcançado um nível adequado de ajustamento sexual deve procurar ajuda de um conselheiro ou de um profissional especializado. DIFICULDADES A VENCER Não é raro casais apresentarem dificuldades várias no relacionamento sexual repercutindo negativamente na vida total da família. Essas dificuldades precisam ser reconhecidas e superadas através de esforço. CORRIGINDO OS EFEITOS DE UMA EDUCAÇÃO INADEQUADA Muitas pessoas são vítimas de má educação na área da sexualidade, manifestando, via de regra, uma negação da mesma. Essa negação consiste em um mecanismo psicológico pelo que se tenta afastar a realidade da vida sexual. Há casais que se quer conseguem conversar sobre o assunto. Uma mulher relatou um sonho no qual ela se via como não possuindo órgãos genitais e se sentia muito bem. Para ela, a sexualidade era um peso que tinha de carregar. Má educação também leva as pessoas a verem sujeira e imundícia na experiência sexual. Um marido se expressou assim: “sabe, Pastor, minha mulher é capaz de lavar fraldas, lavar vaso sanitário e até cuidar de um cão leprento. Não entendo porque ela tem nojo de mim que sou limpo e saudável”. Boa educação sexual dentro da perspectiva cristã nos permitirá ver o sexo como fazendo parte dos propósitos de Deus para nós, principalmente como força de atração a manter próximos o marido e a mulher, e como forma sublime de expressar amor. Podemos ver o sexo como coisa digna e honrosa, porque Deus nos criou assim, sexuados, e tudo o que Deus criou é bom. SUPERANDO DIFICULDADES ORGÂNICAS Experiência sexual é, acima de tudo, uma doação mútua do corpo. É dessa forma que o Apóstolo Paulo trata do assunto em I Co 7.3-5. É no corpo que experimentamos o prazer sexual. Ora, há inúmeras condições que podem fazer com que o corpo não esteja bem: cansaço ou esgotamento físico, doenças várias (principalmente aquelas com repercussão neurológica e circulatória) e mau cuidado do corpo e pouca de higiene. Uma pessoa casada precisa manter bem o seu corpo através de descanso, exercícios e boa alimentação. Uma esposa com o corpo cansado, mau cuidado, com excesso de gordura não costuma ser tão atraente para o marido. Um marido trabalhando em excesso, esgotado e com um corpo mal tratado tende a se tornar um parceiro inadequado. Mulheres relatam freqüentemente o esfriamento do interesse pelo marido que não gosta de tomar banho regularmente. Outras têm se afastado do marido por causa do mau hálito, dentes mau cuidados ou por apresentarem pelo corpo, lesões não tratadas. As pessoas precisam tomar consciência da necessidade de manter o corpo em bom estado a fim de favorecer o cônjuge. Pois, o Apóstolo ensina a não negar o corpo, mas esse corpo precisa estar bem. REMOVENDO DIFICULDADES EMOCIONAIS O sexo não envolve apenas o corpo, mas também as emoções. Isso significa que a experiência
  • 4. sexual é física e emocional ao mesmo tempo. Estados emocionais negativos prejudicam o bem-estar nessa área da vida. Um marido deprimido, irritado, com sentimento de inferioridade torna-se um mau parceiro sexual. Uma esposa magoada e rancorosa freqüentemente evita contato mais íntimo com o marido. As dificuldades se tornam muito maiores se ela cultiva sentimentos de inferioridade em relação ao próprio corpo. O mesmo acontece se ela pensa negativamente em relação ao marido. É comum ouvirmos de esposas que deixaram de sentir prazer com o marido quando o mesmo perdeu o emprego ou ficou endividado. Para o bem da vida conjugal, estados emocionais inadequados como os acima referidos precisam ser superados. CONTROLANDO FATORES EXTERNOS Algumas barreiras à felicidade conjugal estão localizadas fora da vida da casal e são, muitas vezes, suficientemente danosas para a vida a dois. Falta de tempo Alguns maridos não dispõem de tempo suficiente para dedicar às suas esposas. Alguns trabalham demais, outros viajam muito e outros estão se dedicando a terceiros, como os amigos do clube. Há também esposas que investem muito do seu tempo fora da vida conjugal, seja trabalhando, seja cuidando de uma mãe doente ou idosa ou se dedicando aos filhos. É preciso que os cônjuges disponham de tempo para se dedicarem mutuamente a fim de desfrutarem o melhor das bênçãos do matrimônio. Falta de privacidade Alguns casais são prejudicados em sua vida íntima por falta de liberdade para estarem juntos. Isso ocorre nas situações em que a casa fica muito cheia de parentes ou em que há filhos dormindo no quarto do casal. Todo casal deve poder desfrutar de adequada privacidade para o bom desempenho de sua vida a dois. PRESERVANDO O AMOR Muitas vezes desaparece aquele amor, aquela atração romântica que levou um casal ao matrimônio. Esse esfriamento do amor conjugal, via de regra, leva ao distanciamento entre o marido e a mulher. Isso não é bom. Por esta razão, os cônjuges devem se empenhar em preservar a atração que um dia os levou a se casarem. Assim sendo, a mulher deve valorizar o marido e demonstrar respeito por ele, deve ajudá-lo a se sentir importante. Quanto ao marido, ele deve ser atencioso, gentil e carinhoso para com a esposa. Deve elogiá-la e notá-la em relação às pequenas coisas. Assim fica mais fácil preservar o amor e a atração romântica necessários a uma boa vida sexual. CONCLUSÃO Os efeitos e dum mal ajustamento sexual dentro do casamento são muito ruins para a vida do casal e para a família como um todo. Afeta os relacionamentos e o equilíbrio emocional das pessoas. Muitas vezes, pode ser um fator desencadeante em um processo de separação, sendo, não raro, motivo de infidelidade conjugal. Deus deseja que a sexualidade no casamento seja um fator de bênção e não de maldição. Todas as pessoas casadas são responsáveis para que assim seja. ****************** Pr. Elias Coutinho de Macedo é médico psiquiatra. Pastor da Igreja Evangélica Batista Moriá, em São Paulo.