Abaixo seguem diversos artigos extraídos da coluna “reflexão” da revista Ultimato
(www.ultimato.com.br), escritos pelo pastor Ricardo Gondim – Pr. da Igreja Ass. Deus Betesda em
São Paulo SP
Igrejas também morrem
Ricardo Gondim Rodrigues
Na Inglaterra, entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu
corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalhadas pelo largo espaço
lembravam-me um necrotério.
Eu explico o porquê. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos
anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um
grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só
restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos,
donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em
pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue Cristo nos
purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o
avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e
mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar —
pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens
vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a
Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão
patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil. Semelhantemente ao avivamento
wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma
efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de
templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e
televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD’s. Publicam-se revistas e livros.
Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam,
interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na
Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra
pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social.
Os desdobramentos destas constatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária,
ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil?
Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são
diferentes. Lá, houve um forte movimento anti-clerical motivado pela secularização do Estado e
das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de
institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos
antigos avivalistas ingleses.
Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se
mostram de forma exuberante.
A trivialização do sagrado
Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência
teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa
igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de
Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de
expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao
sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente
não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável,
retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo
temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se
fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só
geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico.
Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pelas suas próprias
falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu
nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O
descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande
familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se
nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocando-
o na mesma categoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou
não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus.
O esvaziamento dos conteúdos
Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos
púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias
de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo
teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura
emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas
não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século
XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com
evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou:
"Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados
têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de
atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos".
Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que
só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida?
A mistura de meios e fins
Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa
justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é
meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro
existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do
povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão
visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas
perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo
simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no
templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com
clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão
por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas
igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias
buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A
confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia.
O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem.
As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumemse a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que
as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer
irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te,
e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro,
caso não te arrependas" (Ap 2.5).
Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável.
Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de
profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma
Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo
amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de snooker é um
sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade.
Que Deus nos ajude.
Qual o futuro para os evangélicos brasileiros?
Ricardo Gondim
Muita história separa o primeiro do segundo CBE. Em 1983 os sonhos ainda não haviam morrido,
os muros altos da guerra fria continuavam de pé. Não havia o telescópio Hubble, computadores de
colo ou de bolso, nem telefone celular ou mapeamento genético. Ainda se tocavam discos de vinil.
Naquele tempo, o Saddam Hussein recebia verbas para aumentar o seu exército e tanto o
Pinochet como o Noriega eram considerados bons estadistas. Ninguém sabia quem era o Osama
Bin Laden. Considerava-se a China um país agrícola e atrasado. Ensinavam-nos que a besta do
Apocalipse seria dez países (não mais do que 10) europeus que se juntariam para renascer o
antigo Império Romano. Não existia o eixo do mal e sim o império do mal: a União Soviética e
seus países satélites.
No Brasil, a ditadura militar, asfixiada, procurava fôlego. Ligávamos pontualmente as nossas
televisões no Jornal Nacional, querendo saber a “versão oficial”. Vivíamos sob o manto escuro do
AI 5. Acreditava-se que justiça social era discurso de comunista. Os evangélicos compunham a
minoria silenciosa e impotente do Brasil. Contudo, apoiavam a ditadura e com ela permaneceram
até o apagar da luzes do regime. Pecavam os crentes que não votassem nos partidos da situação.
Mas, em 1983, o Congresso Brasileiro de Evangelização cravou uma estaca em nossa história. Ali
se falou do imperativo da igreja entrar pela porta da Missão Integral. E daí em diante procuramos
colocar maçaneta e azeitar os gonzos nas dobradiças desta porta tão pouco conhecida. Havia,
entretanto outras opções, tais como o adesismo politico.
Poderíamos simplesmente continuar com a atitude subserviente de alguns dos nossos líderes.
Bastaria repetir e ensinar uma frase vergonhosa, que os truculentos militares ouviam ressoar de
dentro das igrejas: “Sim, senhor”. Como também escolher resignarmo-nos à nossa condição de
colônia, fotocopiando as antigas formulações teológicas de nossos irmãos mais ricos e adiantados.
Com dólares fartos, construiríamos aqui filiais dos seus mega-projetos no primeiro mundo.
Vestiríamos ternos bem talhados, ganharíamos passagens para comparecer, (nunca falar) em suas
conferências missionárias. Havia também a porta da teologia da libertação nos prometendo
instrumentais que nos habilitariam a entender e transformar nossas idiossincrasias históricas.
Graças a Deus não optamos por nenhuma delas, e assim começamos a sair da nossa imaturidade
política. Não murchamos como uma colônia e nem embarcamos no neo-panteísmo esotérico que
hoje fascina os antigos marxistas cristãos.
Optamos pela proposta da Missão Integral. Formamos uma frente informal de homens e mulheres
que se propunham a perseguir o sonho de pregar todo o Evangelho a todos os homens e mulheres
em todas as suas circunstâncias. Cheios de medo, atravessamos caminhos estreitos e largos;
tentadores e cheios de ameaças. A cada passo, víamos nascer uma nova manhã, e nela sete
outras portas. Contudo, obstinadamente continuamos procurando nosso caminho. Com o pouco
que sabíamos, lutamos para reverter as injustiças sociais, semear paz e salvar alguns.
Acrescentamos à nossa humanidade uma esperança alvissareira: o reino de Deus está entre nós.
Com o CBEII, a igreja evangélica tem sim o que celebrar. Neste Brasil de dia claro, onde o sol não
conhece amanhecer ou anoitecer e as cores se confundem num branco radiante de constante
verão, testemunhamos sinais históricos do poder do Evangelho. O que celebrar nessa breve,
brevíssima, história?
Construimos nossa agenda missionária com os materiais que dispunhamos. Transfomamos nossas
paixões juvenis em tijolos. Rebocamos paredes com a argamassa de nossa impulsividade
romântica. Caiamos nossas paredes com a determinação de alcançarmos os confins da terra.
Rechaçamos a idéia de que somos um povo inexpressivo, desinteressante e pobre. Assim, fizemos
do caboclo um missionário, do sertanejo um desbravador espiritual e do migrante gaúcho um
plantador de igrejas. Não construímos nossa missão com ouro ou prata, mas com o suor anônimo
dos Silvas, com as mãos fortes das Marias e com os olhos de lince dos Zés Ninguém. Muitas
vezes, semeamos atabalhoadamente, mas com sinceridade.
Geramos pensadores. Não tantos, talvez, mas com densidade invejável. Homens e mulheres que
nos tiraram de nossos guetos denominacionais. Gente que nos ajudou a pular para fora dos fossos
cavados por alguns líderes reacionários e que nos mantinham inimigos de nós mesmos.
Também temos muito o que lamentar em nossa caminhada de vinte anos. Afinal de contas, somos
filhos desta geração. Com ela choramos enlutados a morte das utopias. Viajamos com os nossos
veleiros rumo a um porto que parecia nunca chegar. Sentimos muitas vezes que nossos sonhos
nos abandonavam, assim como a noite abandona o seresteiro na madrugada que se recusa virar
dia. Contemplamos um tempo pálido se repetindo monotonamente. A pós modernidade buscou
nos empurrar para uma história sem sentido. E em inúmeras ocasiões nos sentimos anestesiados.
Com o avivamento do terrorismo, nos sobreveio a sensação de que a história retrocedeu para o
início de uma longa noite. Escuridão povoada de ausências e sem estofos contra a intolerância.
Testemunhamos a superficialização da fé e a exuberância da espiritualidade “pret a porter”,
prometendo um êxtase intimista e imediato. Choramos a perda da dimensão comunitária da fé e o
renascimento do individualismo. Frustramo-nos com a nossa incapacidade de encarnar eticamente
muitos de nossos pressupostos teológicos.
Chegamos ao CBE II necessitando refazer o dever de casa para aprender a elencar novas ênfases
em nossas agendas. Precisamos saber enfatizar, como Jesus Cristo, diferentes dimensões da fé.
Ele ressaltou diferentes verdades em circunstâncias distintas. Numa determinada situação afirmou
que para ser um discípulo seu, as pessoas deveriam abrir mão de alguma coisas (Marcos 8.35,
Lucas 14.26), em outras ocasiões que precisava crer (João 5.24), e com a mesma convicção
declarou a necessidade do fazer (Mateus 25:44-46); como também que confessar era condição
para se entrar no Reino (Mateus 10:32).
Na pós-modernidade o verbo crer perdeu muita relevância. Hoje, as pessoas acreditam em
qualquer coisa. Se continuarmos privilegiando o verbo crer, não conseguiremos mais produzir
verdadeiros discípulos. Proponho que elejamos a Graça como o grande tema do novo milênio e
reaprendamos todo o significado do “Consumatum est”, que Jesus bradou no Calvário. Ensinemos
que Deus já fez tudo o que precisava ser feito para a salvação da humanidade. Zelemos para que
Efésios 2.8-9 não se transforme em um chavão: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé,
e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie”.
Só assim, celebraremos uma dimensão de louvor que não se esforça para agradar a Deus, mas
que festeja o amor de um Deus já agradado de nós; restituiremos ao culto felicidade e gratidão e
não penitência; daremos às nossas orações a certeza que Deus nos ouve com ouvidos carinhosos
e não numa relação de causa e efeito; repetiremos a afirmação de Paulo em Gálatas 2:20: “Logo,
já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo
pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”.
Somente a Graça produzirá pessoas que não almejam integridade para serem queridas de Deus,
porém filhos e filhas amadas, que por isso, desejam ser verdadeiras. Com a Graça não precisamos
orar bem para sermos ouvidos por Deus, mas andaremos confiantes que ele nos ouve sem exigir
explicações. A Graça nos ensinará que não somos salvos porque nos sacrificamos, mas que vale a
pena nos entregarmos pelo ideal do Reino de Deus. Somente a Graça manterá o cristianismo
singular diante de todas as outras espiritualidades das prateleiras religiosas pós-modernas.
Soli Deo Gloria.
Não posso calar
Ricardo Gondim
Não posso calar depois que se completam doze meses de uma das mais desastradas, inoportunas
e arrogantes campanhas militares dos últimos anos. Mais de seiscentos soldados americanos
perderam suas vidas e mais de três mil rapazes e moças dos exércitos da coalizão sofreram
amputações, desfiguramentos faciais e graves ferimentos. Cerca de dez mil civis iraquianos
morreram, entre eles mulheres, idosos e crianças. O caos e anarquia se instalaram no país que
sem um governo legítimo contempla de suas janelas a desintegração social, religiosa e política.
Não posso calar quando os americanos bradam que abriram as portas para um mundo mais
seguro onde os direitos humanos serão respeitados. Afinal de contas conseguiram desalojar do
trono um déspota sanguinário. Será? Não havia no Iraque as tão propaladas armas de destruição
em massa; Saddam Hussein não se equiparava a Hitler e nem o seu exército envelhecido e mal
equipado representava uma ameaça à segurança do mundo, sequer dos Estados Unidos. O
Ministro da Economia dos Estados Unidos, Paul O’Neill, (Treasury Secretary) publicou um livro em
que ele denuncia que a decisão de invadir o Iraque fazia parte dos planos de governo de Bush
antes do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Hoje se sabe que houve má fé tanto dos
serviços secretos ingleses como americanos sobre a ligação do Iraque aos terroristas da Al Qaeda.
Não posso calar mesmo quando dizem que não é elegante tripudiar o erro alheio. Entretanto,
quando se trata de vítimas inocentes, de pais que ainda chorarão a morte de seus filhos e da paz
entre as nações, não se pode consentir silenciosamente. Devemos relembrar os beligerantes, os
militaristas e os homens de mau senso que a guerra não é a solução. E que os que se apressam
em derramar sangue, colhem amargos castigos. Devemos continuar lembrando aos americanos
que não adianta bombardearem o mundo inteiro em busca de terroristas. Assim não se acaba com
o crime – nós os brasileiros aprendemos isso, muito cedo. Quando a polícia invade uma favela e
os esquadrões da morte matam bandidos, não conseguem diminuir em nada os índices de
criminalidade. O mesmo se aplica a bandidos internacionais.
Não posso calar ao me lembrar do apoio que os evangélicos deram a essa malfadada guerra. Onde
os senhores líderes religiosos fundamentalistas lavaram a cara de vergonha quando descobriram
que o presidente deles é um mentiroso? O que disseram de seus púlpitos depois que viram a
fotografia de um menino com os dois braços amputados por uma “bomba inteligente” que também
matou os seus pais? Como dormiram quando ouviram esse menino pedir para morrer sem haver
ainda alcançado a puberdade?
Não posso calar para que as pedras não comecem a clamar. A verdade é que vivemos em um
mundo muito mais perigoso, mais cheio de ódio e mais paranóico. Não quero me calar mesmo
sabendo que minha voz representa pouco. Contudo, sei que de meu grito, permanecerá como
uma vaga lembrança de que nem todos consentiram com a insanidade destes dias.
Soli Deo Gloria
Inquietações imediatas
Pr. Ricardo Gondim Rodrigues
Recentemente participei de um encontro de teólogos, embora não seja teólogo. Ali, espicacei a
chamada igreja evangélica brasileira com seus disparates teológicos e éticos, outros me
acompanharam, igualmente revoltados. Denunciamos as agendas furadas das igrejas
neopentecostais. Um dos participantes chegou a cogitar a convocação de um Concílio para se
definisse qual é o genuíno movimento evangélico, herdeiro da Reforma. Esbravejei mais que todos
contra as excrescências dos neopentecostais.
Voltei para casa e comecei a sentir-me um verdadeiro fariseu. Daqueles que se indignam com um
til e uma vírgula da lei que foi quebrada, mas que faz enormes concessões no essencial.
Inquietei-me por haver pregado em ambientes em que seria inconfortável falar contra a injustiça
social que condena milhões a viverem numa miséria vergonhosa. E para não perturbar, discursei
sobre assuntos esterilizados, insípidos e que não perturbavam a complacência burguesa.
Confesso que continuo calado diante dos grandes debates e não me engajo pelas causas
humanas. É aí que confronto a mim mesmo: Será que me adeqüei ao sistema e acho que já não
posso e nem quero mexer em vespeiros? Sinto-me confortável? Começo a pensar que essas
acomodações éticas não são apenas um desvio de minha própria vida, mas do contexto religioso
em que vivo. Convivo com uma religião rápida e ágil para denunciar o que é de menor
importância, elástica e lenta para detectar o que é inconveniente e sempre silenciosa no
profetismo real e genuíno. Acredito que sequer saibamos o verdadeiro caráter do ofício profético.
A camisa de força da teologia sistemática não me deixa ser criativo, as cataratas espirituais do
dogmatismo secular obscurecem minha visão e o patrulhamento do gueto me ameaça quando
quero pensar com liberdade.
A turma da Teologia ortodoxa se indigna com as aberrações neopentecostais, mas não se ouve
deles uma só denúncia contra o nacionalismo evangélico norte-americano que abençoou uma das
maiores mentiras da humanidade (cadê as armas de destruição em massa do Iraque?), como
matou muita gente inocente, meros efeitos colaterais de uma guerra sem propósito. Não se ouve
nada, apenas um silêncio hesitante.
Participo de um meio que denuncia o Benny Hinn e Kenneth Hagin , mas se cala com o
fundamentalismo de direita do status quo evangélico; tememos confrontar o quintal de famosos
como Franklin Graham, Pat Robertson, John McArthur, Chuck Colson, etc. Quando os militares
dominaram a cena política brasileira, fizemos um acordo tácito com eles. Eles nos deixavam
pregar, realizar nossas campanhas evangelísticas, e nós os deixávamos em paz, torturando nos
porões e enriquecendo as elites. Por que eu tenho dificuldades de me sentar na mesa dos
neopentecostais e não tenho escrúpulos participar da roda dos ricos pastores do primeiro mundo,
que sob o manto do conservadorismo teológico, empurram a agenda da direita conservadora
americana? Eles certamente lêem na cartilha do Bush. A Maioria Moral batalha contra o aborto,
contra os homossexuais, mas defende a pena de morte e apóia o discurso da National Rifle
Association, uma das mais anacrônicas entidades que defende o uso de armas.
Será que nos vemos como guardiões da inerrância, vigilantes da ortodoxia apostólica, contudo
perpetuadores de uma religiosidade cada vez desconexa do mundo real; cada vez mais insípida?
A grande verdade é que nós os evangélicos, continuamos nos especializando no irrelevante. Nossa
agenda não tem o menor desdobramento na luta contra o preconceito racial ou de gênero. Não
alteramos a sorte de milhões de crianças que vivem nas periferias fétidas das metrópoles
brasileiras. Porém, convocamos mais fóruns para discutir nossa identidade evangélica e,
indignados com aqueles que diferem da nossa cartilha teológica, esbravejamos nosso furor
farisaico.
Acredito que há enormes defeitos genéticos em nossa identidade; a cultura que nos formou vinha
com anomalias. Nossa cosmovisão nasceu de uma aberração da natureza espiritual: religião sem
alma. Acabo concluindo: Adoeceram minha alma e eu não me dou conta sequer de que doença
sofro...
Soli Deo Gloria
Quatro episódios e muitas inquietações.
Ricardo Gondim Rodrigues
Primeiro episódio.
A pastora Miriam Silva prometera algumas surpresas para o próximo culto. Na data marcada uma
pequena multidão superlotou o seu auditório em São Paulo. Disputavam lugares até nos
corredores. O ar pastoso do calor não inibia a euforia que passava de pessoa para pessoa. Ondas
de uma eletricidade emocional causavam arrepios em todos. Cantaram-se alguns hinos; todos
convocando os crentes para uma batalha. De repente, as portas que ladeiam a plataforma do
templo se abriram e a pastora Miriam entrou. Vinha acompanhada por alguns dos seus oficiais.
Apareceu trajando um uniforme militar com camuflagem e carregando uma baioneta pendurada
no cinto. Marchou até o centro, sempre rodeada de seus oficiais. Todos igualmente fantasiados. A
voltagem subia a cada hino que se cantava. De repente abriu-se mais uma porta e seis homens
surgiram carregando um caixão de defuntos nos ombros. Os gazofilácios serviram de apoio para
repousarem a urna funerária diante do povo. Agora o frenesi emocional misturava-se à
perplexidade. Tudo se mostrava inusitado demais. A pastora Miriam sacou a baioneta e com ela
em punho começou a pregar o seu sermão. Culpava a cultura romana pelos percalços da nação
brasileira. Afirmou que somos pobres, vivemos no meio da violência e estacionamos em nosso
desenvolvimento devido ao “espírito de Roma”. “Esse espírito”, continuou com a voz afetada, “nos
ensinou a guardar o domingo e batizar crianças. Temos que matar e esfaquear esse espírito, ele
não provém de Deus”. Depois de mais de meia hora condenando o “espírito de Roma”, convocou a
todos no auditório a verificarem se suas próprias vidas também não estariam contaminadas com o
tal espírito. Abriram o caixão e as pessoas trouxeram um papel escrito, indicando de que maneira
estavam maculados por Roma. Quando se aproximavam do caixão, enxergavam-se num espelho
estrategicamente colocado no lugar onde repousaria a cabeça do morto. Depois que todos
depositaram seus pedaços de papel naquele móvel sinistro, repuseram a sua tampa e esperaram o
próximo movimento da pastora. Ela desceu com a baioneta em posição de ataque e logo começou
a esfaquear o caixão com força. Lancetava com tanto furor que lascas de madeira voavam pelo
espaço. Ao terminar com a sua coreografia, deixou claro para o seu auditório que aquilo não fora
apenas uma encenação. Eles haviam presenciado um “ato profético”. Prometeu que depois
daquele evento, Deus reverteria a sorte do Brasil.
Segundo Episódio.
Minha secretária anunciou que o Alexandre Souza já chegara. Pedi então que ele entrasse em meu
escritório, pois queria um aconselhamento pastoral. Aproximou-se cabisbaixo e me encarou
apenas de soslaio, embora apertasse minha mão com firmeza. Notei logo sua timidez. Calculei sua
idade por volta dos 28 anos. Os cabelos bem aparados e penteados para a esquerda chamavam a
atenção pela negritude. Pedi que Alexandre se sentasse. Iniciei nosso diálogo procurando deixá-lo
mais à vontade. Ofereci um copo d’água, que aceitou sem esboçar nenhuma emoção. Achei-o
muito quieto. Pensei na dificuldade daquele aconselhamento. Imaginei que gastaria a maior parte
do tempo perguntando e ouvindo meras respostas monossilábicas. Ledo engano.
Logo que bebeu o primeiro gole, Alexandre me encarou e perdeu toda timidez. – Pastor, começou
sem gaguejar, faço parte da igreja ‘X’ aqui em Fortaleza. Há dois anos estou endemoninhado. –
Vim aqui porque preciso de libertação, emendou. Mostrei-me surpreso: - Endemoninhado? Você
está em pleno controle de suas faculdades mentais, emocionalmente equilibrado e com um
semblante tranqüilo. O que lhe leva a crer que está endemoninhado?
Sua resposta me deixou ainda mais perplexo. – Todas as sextas-feiras eu vou ao culto de quebra
de maldições em minha igreja e faz dois anos que eu caio tomado por demônios em todos os
cultos. Pela voz não parecia indignado, apenas cansado. – O bispo põe a mão sobre minha cabeça
e eu fico agoniado, tenho vontade de tirar a mão dele de cima de mim. É nesse exato momento
que acontece... – O quê? Interrompi. – Fico nervoso, com uma aflição muito grande. Quero tirar a
mão do bispo de cima de mim. Acabo caindo no chão. Lá me dizem que essa aflição é demoníaca.
Questionei-lhe porque o bispo não conseguia libertá-lo totalmente, já que sua possessão se
manifestava semanalmente há dois anos. Explicaram-lhe que esse tipo de demônio é muito
esperto. Quando o expulsavam da mente, corria para o espírito. Do espírito se escondia na
vontade e da vontade pulava para a alma. Desta forma, continuava cativo mesmo já batizado e
mesmo havendo terminado o seu curso sobre plenitude do Espírito Santo. Mostrei-lhe que não era
possesso, apenas um inocente útil. Um joguete nas mãos dos líderes que precisavam de pessoas
sugestionáveis para valorizar os cultos de libertação da sexta-feira.
Terceiro Episódio.
Roberto Pires pastoreia uma igreja no Rio de Janeiro. Certo dia, resolveu agir, indignado com a
violência da cidade. Precisava fazer alguma coisa para reverter a incompetência crônica da polícia.
Não cogitou ações políticas, nem imaginou um programa na igreja que melhorasse a educação
cívica de seus membros. Sequer lhe passou pela cabeça participar de manifestações ou passeatas
exigindo melhor segurança pública. Os óculos teológicos e ideológicos com que enxerga a sua
realidade não lhe permitem essas cogitações. Assim, orava em um culto quando lhe veio uma
idéia que considerou a mais genial de sua vida - tão genial que ele a relatou por anos.
Correu para o seu escritório, abriu a Lista Telefônica e nervosamente procurou pelos “agás”;
queria “helicópteros”. Desejava saber quanto custaria alugar um desses beija-flores mecânicos.
Anotou os valores e levou sua idéia para o culto daquela noite. “Irmãos e irmãs, Deus me deu
uma visão. Preciso que vocês me ajudem a cumpri-la. Deus mandou que eu alugasse um
helicóptero, colocasse um tonel de óleo dentro e ungisse a cidade do Rio de Janeiro”. O auditório
irrompeu em palmas, uma oferta foi levantada e o pastor Roberto Pires naquela semana embarcou
no mais bizarro sobrevôo que o Rio de Janeiro já teve. Latas de óleo eram derramadas para
ungirem a Cidade Maravilhosa. Respingos melados caíram sobre a avenida Rio Branco, na praia de
Copacabana e sobre alguns dos morros mais violentos da cidade. Fora o inconveniente oleoso,
nada aconteceu; meses depois a violência carioca recrudesceu.
Quarto Episódio
O pastor Carlos Feijó voltou para Curitiba depois de uma semana em um seminário de batalha
espiritual. A equipe que ministrou o curso ensinou-lhe a “decretar sua cidade para Deus”. Ali
aprendeu como identificar os limites do seu município e declarar que ele pertence a Jesus Cristo.
Aprendeu mais: Se a igreja não souber reivindicar o que pertence ao Senhor, o diabo continuará
com direitos legais sobre vidas, espalhando miséria. O pastor Carlos passou uma semana
indignado consigo mesmo e com os outros pastores. Por anos não se aperceberam dessa imensa
negligência. Foi para casa e orou. Com lágrimas rolando pelo rosto, se propôs a jejuar. No terceiro
dia do jejum veio-lhe o que também considerou uma brilhante revelação divina. Há muitos anos
aprendera que tanto os leões como os lobos urinam para demarcar o seu território e impedir a
invasão de outros machos. Ele precisava fazer o mesmo, como legítimo representante de Jesus –
o Leão da Tribo de Judá.
Naquela semana, convocou seus parceiros de ministério para saírem pela madrugada urinando em
pontos estratégicos da cidade. Gastaram algumas horas na empreitada. O comboio de carros
percorreu vários quilômetros com muitas paradas. Beberam litros e litros d’água; precisavam de
muita urina para uma cidade tão grande.
Esses quatro episódios descritos são verdadeiros. Todos patéticos! Realmente aconteceram nas
cidades mencionadas. Apenas os nomes e alguns detalhes são fictícios. Ilustram bem o que invade
as igrejas evangélicas no Brasil. Entendo que as pessoas têm o direito constitucional de crerem,
praticarem ou pregarem o que quiserem. Entretanto, não deveriam fazer em nome da fé
protestante e evangélica. Muito sangue já foi derramado, muitas vidas sacrificadas e muitos
missionários afadigados para que testemunhássemos tanta superficialidade.
Além disso, produzem um estrago imensurável em vidas. Muita gente já perdeu a fé. Qualquer
pessoa com um mínimo de senso crítico, depois que passa a euforia e o fanatismo, se sentirá
envergonhada de um dia haver participado de ambientes onde imperam tantas tolices. Acabam
trilhando o caminho do cinismo ou da revolta. Ambos muito trágicos.
Torna-se necessário que aconteçam denúncias internas para que o evangelho não se desfigure em
um “outro evangelho”. Se nos calarmos, mancharemos nosso legado de fé e nos tornaremos
culpados por omissão. Quando a igreja deixa de salgar e passa a ser motivo de chacota, para
nada mais serve senão para ser pisada pelos homens. Há muito joio dentro das igrejas
evangélicas e ele não se parece em nada com o trigo. Pelo contrário, dá-nos vontade de rir e de
chorar ao mesmo tempo. Protestemos, antes que só dê vontade de chorar.
Soli Deo Gloria
Viver sem sonhar não é viver.
Pr. Ricardo Gondim
Terminamos um século confuso, e ao mesmo tempo empolgante, tenso e ao mesmo tempo
divertido, violento e bonito. Na verdade, ele não começa no Reveillon de 1900 para 1901, este
século começou em 1917 quando a Revolução Russa é finalmente vitoriosa. Naquele alvorecer do
século XX o mundo vivia sob a bandeira da modernidade.
A modernidade, mais do que um período histórico, era uma mentalidade. Uma mentalidade que
nasceu de uma confluência de fatores históricos. A modernidade se adensava desde alguns
séculos antes. Quando Nicolau Copérnico, rompia com a visão científica de que o universo era
geocêntrico. Ele propunha que o universo fosse heliocêntrico. Seu arrojo abria caminho para que
Galileu desse um passo ainda mais ousado, o universo nem era geocêntrico, sequer heliocêntrico.
Tanto a terra como o sol não passavam de pequenos ciscos em um cosmo vastíssimo com bilhões
de estrelas. Sua coragem de romper com esse paradigma científico era imensa pois a tutela do
labor científico ainda era do poder religioso. Fazia-se ciência com a chancela do clero. Mas a partir
de Copérnico e Galileu, a igreja perde seu controle sobre o conhecimento científico.
Nesse mesmo tempo histórico, o mundo passaria de uma economia feudal para o modelo do
capitalismo. O mundo pré-moderno se estratificara com a aristocracia, o clero e os miseráveis. A
miséria era glorificada e as virtudes de ser pobre compensadas com o céu. Não havia possibilidade
de ascender socialmente. Lucros e juros soavam como palavras feias. Mas com o advento dos
grandes navegadores e dos mercadores que singravam os mares trazendo iguarias do oriente,
possibilitam com o surgimento dos burgueses, uma classe de ricos que ascendia das camadas
mais pobres. A cosmovisão católica que combatia o lucro e os juros ruía por terra.
Quando Maquiavel escreveu o Príncipe, sopraram novos ventos na política. O conceito de estado
tutelado pelo poder religioso era um paradigma intocado. Mas, cansados de um sistema promíscuo
em que não se sabia corretamente até onde ia o poder do rei e quais eram os limites do poder
papal, cidadãos europeus perceberam que um novo modelo se esboçava. O do estado laico.
Filosoficamente começam aspirações para que renascessem os conceitos dos pensadores gregos.
Que o pensar também não fosse tutelado pelo clero. E, com René Descartes e seu Cogito ergo
sum.: Penso, logo existo. Acontecia uma nova mudança. Se na pré-modernidade o essencial era:
Creio, logo existo. Agora era: Penso.
Foi nesse caldeirão de mudanças que um monge agostiniano, adensava o processo da
modernidade também na religião. Martinho Lutero invocava o direito de pensar as Escrituras
livremente. Cada pessoa seria dona de seus raciocínios. Ele negava à igreja o direito de conduzir e
manipular a interpretação; induzir a compreensão e anúncio do evangelho. A Reforma Protestante
do século XVI representou o anseio da modernidade, inclusive na religião.
Todas essas mudanças levarão a Modernidade a viver o seu apogeu entre os séculos XVII e XIX.
As mudanças eram visíveis, nítidas.
O ser humano passava a ser o centro do universo. Quando Rousseau elaborou seus conceitos
filosóficos sobre o bom selvagem, ele não apenas rompia com o cristianismo agostiniano de que
somos por natureza maus. Ele mostrava filosoficamente que a preocupação da modernidade
centrava-se no bem estar de homens e mulheres.
Assim, a modernidade vive seu apogeu no Iluminismo. A produção artística não era mais voltada
para retratar a beleza do criador, mas a excelência do ser humano. Prevalecia na literatura e nas
artes não mais os contos e as biografias dos santos, mas as tragédias de Shakespeare. O belo era
almejado desde os estudos sobre as proporções do corpo humano. A grandeza de Davi, retratado
por Michelangelo, mostrava a altíssima estima que se tinha do ser humano.
Na política respirava-se uma crescente impaciência com o sistema monárquico que só premiava a
aristocracia. Na revolução francesa, nascia um novo paradigma: a República com os ideais de
Liberdade, fraternidade e igualdade.
A ciência produzia freneticamente querendo melhorar as condições de vida do ser humano. A
revolução industrial, os grandes inventos, e finalmente as linhas de produção prometiam que
finalmente poderíamos viver em um mundo melhor.
A filosofia, de Voltaire, Rousseau, Hegel, o positivismo de Augusto Comte e finalmente Marx,
acreditavam que conseguiriam, através da educação das massas, do progresso, da ordem e de um
sistema inteiramente justo, autenticamente solidário e humano, viabilizar aqui na terra o sonhos
da utopia de Thomas Moore.
O próprio cristianismo passou a usar o instrumental da modernidade para compreender os textos
sagrados. Nasceram os hermeneutas que querendo demonstrar que se não
demitologizarmos (essa é uma expressão de Bultman) os textos, não haveria pontes entre a
religião e a modernidade. A Alta crítica, era a vertente teológica alemã que analisava os textos
bíblicos com o mesmo rigor científico da análise dos textos históricos. Inaugurava-se a teologia do
não, da negação.
A América era o Novo Mundo, lá os peregrinos chegaram com o sonho de torna-lo no Eldorado. O
mundo todo pulsava com um otimismo enorme.
Com a vitória do bolchevistas soviéticos e com o triunfo da revolução russa nascia o primeiro
experimento concreto de viabilização dos ideais de Hegel, Marx. Na Rússia, prometia-se, uma
nação sem estado; lá nasceria o “novo homem” da filosofia de Rousseau. Buscava-se que os ricos
dessem de acordo com a sua abundância e os pobres recebessem de acordo com a sua
necessidade.
Assim, entramos o século XX. Cheios de otimismo. Este seria o século do progresso, do amor. A
ciência abriria fronteiras fantásticas, as massas seriam educadas, o conhecimento universal
acabaria as barreiras entre nações.
E Deus? Extinguindo-se a escuridão e com a luz elétrica conseguiríamos, educando-se as massas
libertar as multidões do misticismo, das superstições. Já não haveria necessidade mais de Deus.
Aquele Deus das religiões oficiais, seria descartado. Nascendo o super homem que Nietsche
sonhava, não haverá mais necessidade de Deus. O Louco, protagonista da filosofia niilista de
Nietsche entrou o século XX gritando: “Deus está morto. Nós o matamos.” Os próprios teólogos
alemães chegaram a elaborar a teologia da morte de Deus.
Albert Camus afirmou que:
“Contrariamente ao que pensam alguns de seus críticos cristãos, Nietzsche não medito o projeto
de matar Deus. Ele o encontrou morto na alma de seu tempo.” Albert Camus.
Mas, a modernidade sofreu o seu primeiro duro golpe com a Primeira Guerra Mundial, que na
verdade não foi tão mundial assim. Foi na verdade uma guerra muito mais européia. Percebeu-se
ali, quão estúpidos somos. A ciência, que deveria ter produzido para o bem estar, agora fabricava
tanques de guerra, utilizava aviões que soltavam bombas. Pela primeira vez, usou-se a guerra
química. Foi nessa guerra que usou-se o gás de mostarda, para matar.
O processo de criação da União Soviética também não foi incruento. Todo aquele sonho de um
mundo bonito, justo. Ruía já no nascedouro. Para se viabilizar no poder, Stalin precisou de fazer
expurgos. Milhões foram mortos, criou-se uma truculenta polícia política, exilavam-se cidadãos
russos em clínicas psiquiátricas e nos famosos Gulags, nos desolados desertos da Sibéria.
Não ouviram o alerta de Engels no final de sua vida:
“As pessoas que se vangloriam de terem feito uma revolução sempre acabam percebendo no dia
seguinte que elas não tinham a menor idéia do que estavam fazendo, e que a revolução feito em
nada se parece com aquela que elas gostariam de ter feito.”
Eduardo Giannetti assim conclui:
“A revolução feita em nome da racionalidade econômica e do fim do Estado enquanto forma de
dominação política redundou no seu contrário: um grotesco hospício econômico comandado por
uma das mais brutais máquinas de repressão e opressão política da era moderna.”
Terminada a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha em ruínas com uma inflação tão alta, que não
havia tempo para se imprimir os dois lados de uma cédula, porque o dinheiro perdia o seu valor.
Enfim, toda a Europa perplexa via o sonho do paraíso do Novo Mundo ruir. O crash da bolsa de
Nova Iorque em 1929, a Grande Depressão econômica que se seguiu, também jogavam dúvidas
sobre o modelo capitalista. Entretanto, tanto os Estados Unidos, como a Alemanha elegiam líderes
de primeira grandeza e que prometiam tirar seus patrícios do pantanal em que se encontravam.
Nos Estados Unidos foi Franklin Delano Roosevelt e na Alemanha foi Adolf Hitler.
Bastaram alguns anos e os dois se mostraram tremendamente eficientes na solução do impasse
de seus países. A modernidade ganhava come eles um novo fôlego. A Alemanha esteticamente
bonita, limpa e saneada era uma potência temida na segunda parte da década de trinta. Os
Estados Unidos, com o New Deal de Roosevelt construía estradas e estabelecia a infra estrutura
para o maior parque industrial do planeta.
Em pouco tempo, entretanto, Hitler mostrou que sua eficiência era patológica. Por detrás do
sonho de transformar a Alemanha em um reino milenar, estava um facínora. Megalomaníaco,
implacável, racista e pervertido sexual, começou a anexar os países da Europa. Intencionava
transformar a Alemanha em um reino universal. Seu militarismo parecia sem limites. Foi um efeito
dominó, Polônia, Holanda, França todos capitularam. Fez um pacto de não agressão com a União
Soviética, embora odiasse os comunistas. O resto a própria história conta. Aliou-se com a Itália e
o Japão formando os países do eixo. Traiu a Stalin, invadindo a Rússia. Começou a bombardear a
Inglaterra. Seu destino selou-se, quando os japoneses cometeram o maior de todos os deslizes,
bombardeando Pearl Harbor, Roosevelt tinha agora o álibi que precisava para entrar na guerra.
Quando chegaram os Yankees, Hitler ganhou um inimigo mortal, o parque industrial americano. A
Alemanha não conseguia vencer a produção das indústrias americanas que fabricavam
freneticamente aviões, tanques, metralhadoras. Supriam os ingleses, os russos e todos os países
aliados.
Hitler,sabendo que estava com a guerra perdida, deu velocidade ao que se chamava na Alemanha
de Solução Final. O extermínio sistemático dos judeus.
Quando finalmente a Europa foi liberada e os russos chegaram em Berlin, 6 milhões de judeus
haviam sido mortos em campos de concentração.
NO pacífico, os japoneses teimavam em não se render. E Hary Truman autoriza que uma bomba
seja usada sobre duas cidades. Hiroshima e Nagasaki, sabe-se hoje que essas duas cidades foram
escolhidas porque estavam intactas e se queria saber qual era o real poder destrutivo das
bombas.
A guerra terminou e o mundo respirou aliviado. Embora estivéssemos sobre os escombros da
Europa, ainda cheirando a fumaça dos campos de extermínio, e apavorados com a bomba
atômica. Finalmente podemos recomeçar o sonho de um mundo melhor. Se agora sabemos que
somos monstros de iniqüidade, (nesse tempo o existencialismo cru de Sartre e Camus são
unanimidade na Europa):
“No auge do irracional, o homem, em sua terra que ele sabe ser de agora em diante solitária, vai
juntar-se aos crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao ‘eu me revolto, logo
existimos’, ele acrescenta, tendo em mente prodigiosos desígnios e a própria morte da revolta: ‘E
estamos sós.’”
Mas o fim da II Guerra Mundial deixa uma réstia de luz da modernidade ainda
brilhando. Prometia-se que ainda era possível sonhar com esse novo mundo.
As Nações se uniram com uma nova organização chamada de Nações Unidas. Teríamos agora a
penicilina, a propulsão a jato, e a energia atômica. Essa energia não é só destrutiva, nos
prometiam. Ela poderia ser domesticada e logo teríamos energia elétrica gratuita. Propagandeavase: Descobrimos o meio de produzir energia tão barata que as indústrias não terão mais que
computar energia como despesa na contabilidade de custos.
Viveu-se nos Estados Unidos, na Europa o que se chamava de “Anos dourados”. As mulheres
agora também trabalhavam. O poder aquisitivo das famílias praticamente dobrou e o parque
industrial que produzia armamentos, continuava num ritmo frenético.
Mas esse sonho de utopia sofreu os primeiros golpes mortais na década de 60. Ergueu-se o muro
em Berlim e novamente a humanidade acordou com o pesadelo de uma guerra que ameaçava a
destruição total da raça humana. Chamava-se de Guerra Fria. Em um impasse em Cuba,
americanos e soviéticos enfrentaram-se, olho no olho, esperando quem piscava primeiro. Sabia-se
que tanto americanos como russos possuíam potencial atômico para acabar com o mundo.
Sentia-se o calafrio de um inverno milenar da radiação, quando anunciou-se experimentos com a
bomba de hidrogênio que para ser detonada necessitava da espoleta de uma bomba atômica. Seu
poder destruidor, milhares de vezes maior do que a bomba usada no Japão, podia aniquilar-nos
completamente.
O jovens que foram criados com a opulência dos anos dourados, revoltaram-se contra aquilo tudo.
O movimento hippie nasceu dizendo basicamente o seguinte: o legado da modernidade fede.
Aturdidos, os americanos choram o assassinato de John Kennedy. Sem entender o porquê os
ingleses viram os seus jovens revoltarem-se contra a monarquia, os costumes, e a religião
racional e lógica dos protestantes europeus. Os hippies elegeram os seus reis, eles eram um
conjunto de rock: Os Beatles. A moda era escapar da realidade tomando LSD, injetando heroína
nas veias e fumando haxixe.
Em 1968, dizem alguns, começa o fim da modernidade. Aquele foi um ano totalmente atípico,
singular. Na Tchecoslováquia houve o primeiro levante contra o poder comunista, Mostrava-se
para o mundo que a felicidade comunista era falsa. Na França, os estudantes se revoltaram contra
o sistema de ensino e foram para as ruas. Paris se transformou numa praça de guerra. Os Estados
Unidos, literalmente atolados no Viet-Nam, estavam divididos. Parecia que uma nova guerra da
Secessão explodiria. Os jovens estavam revoltados. Em 1968 foram assassinados, Martin Luther
King Jr e Robert Kennedy.
A América Latina foi dominada por regimes militares truculentos. Pinochet governava com um
regime perverso no Chile. Viveu-se ao redor do mundo um tempo muito cinzento. A Grécia,
Portugal, Espanha também sofriam com ditadores.
A África libertava-se do colonialismo europeu mas era incapaz de se articular. Respirava-se
violência, perplexidade, medo.
Essas são as marcas dos anos 70.
Os anos 80 se iniciaram com alguns líderes marcando essa década. Ronald Reagan nos Estados
Unidos, Margareth Thatcher na Inglaterra, Gorbatchov na União Soviética, e Khoumeini no Irã.
Eles jogaram as última pás de cal no sonho da modernidade.
Reagan e Thatcher na Inglaterra falavam que a economia sofria porque a presença do estado na
economia é ruim. O estado é perdulário, lento e sua burocracia, perniciosa. Disseram que ele
precisa ser enxuto. Quanto menos a presença do estado melhor. Gorbatchov, na União pregava a
Perestroika e a Glasnost. Eram dois programas necessários para viabilizar o comunismo. Para o
último dos comunistas , o país precisava ser transparente. Essa “transparência” deveria significar,
a humildade de que a União Soviética estava falida. Glasnost era o jargão que buscava uma reestruturação. Enquanto isso, o Khoumeini conseguia encabeçar uma revolução que buscava
demonstrar que o projeto de modernização do Iran com o Xá Reza Pahlevi era, na verdade, um
embuste. O Irã precisava voltar à pre-modernidade islâmica. A teocracia triunfava sobre a
democracia. O clericalismo vencia o laicismo. A fé voltava a tutelar a vida das pessoas.
O Muro de Berlim caiu em 1989. Os protagonistas desta nova revolução foram o movimento do
sindicato de Solidariedade na Polônia, os cristãos na Romênia, Vaclav Havel na Checoslováquia, e
Karol Woytila no Vaticano. Por cause de suas vidas, a União Soviética perdeu o seu domínio sobre
a Europa Oriental e acabou se dissolvendo em 1991.
O mundo também se revoltava contra as propostas científicas do progresso. Chegamos à
conclusão que o planeta terra não conseguia reciclar tantos gases, tanto lixo, tanta devastação.
Se a modernidade preconizava o progresso contínuo, agora pedíamos que não houvesse tanto
progresso.
Sem a modernidade e sem um projeto para o futuro, ficamos no meio do caminho.
Qual o modelo político que desejamos? Os nossos políticos, nossas estruturas democráticas não
são tão democráticas assim.
Qual o modelo econômico? O capitalismo é frágil, perverso (haja vista, a África literalmente
jogada à moscas). Os excluídos do neo-liberalismo.
Que tipo de ser humano nós somos? Negociamos armas e faturamos com a morte, não
conseguimos acabar com os cartéis de drogas, não conseguimos educar as massas para a
felicidade.
Que tipo de religiosidade desejamos? A lógica, racionalmente compreensiva? A oriental? A
esotérica?
A razão perdeu o seu domínio.
O certo e o errado deixaram de ter qualquer referencial externo.
O belo e o feio não têm sentido.
Começamos o século com o apogeu da modernidade, terminaremos com o nascimento da pósmodernidade.
Se a Modernidade foi uma época da lógica e do método, a pós é marcada pela ambigüidade e por
contradições.
Por um lado, gera muita esperança mas por outro gera pavor.
Se por um lado este foi o século de Einstein, Flemming, Sabin, também foi de Menguele.
Se gerou um Churchill, um também gerou Kadaffi, Stalin e Hitler.
Se por um lado valorizou Ghandi, Martin Luther King, e Mandela, também valorizou Mussolini,
Pinochet.
Se por um lado teve um Pavarotti e um Bernstein também teve uma Janis Joplin, uma Madona,
um Michael Jackson.
Se por um lado tem jato, internet, e tomografia computadorizada, suicídio assistido, e cartéis de
cocaína.
Foi o século de Madre Teresa de Calcutá, Billy Graham, C. S Lewis; mas também de Jim Jones,
Maharaji Iogui e do Rev. Moon.
Vivemos hoje na estreita brecha entre a esperança e o desespero.
Não sabemos se vale a pena lutar pelo futuro, ou se é melhor cada qual cuidar de se divertir o
máximo possível.
O tempo que estamos vivendo não é mais o tempo de Sartre mas de Paulo Coelho.
Não é mais o tempo de estadistas, como Lenin, Roosevelt, Churchill, Juscelino, mas de Yeltsin,
Clinton.
A Alta Crítica perdeu espaço, ganharam os carismáticos.
O fundamentalismo evangélico perdeu relevância, ganhou a igreja Universal.
Leonardo Boff parou de defender os pobres e agora defende a natureza.
Na modernidade a filosofia era primordialmente otimista, na pós é cínica.
Na modernidade o estado laico seria árbitro das injustiças humanas, na pós ele deve ser
enxugado por que é perdulário, autoritário, burocrático e corrompido.
Na modernidade o deicídio era a vertente teológica seriamente discutida nas Universidades alemãs
que, através da Alta Crítica, questionavam a integridade dos textos bíblicos e a possibilidade de
um Deus objetivamente verdadeiro. Na pós modernidade discute-se o macro ecumenismo.
Na modernidade, a razão, o método, a o experimento empírico desfaria a ignorância das multidões
e levaria a um mundo sem as superstições místicas da Idade Média que ainda escravizavam as
multidões. Na pós modernidade abre-se o caminho para o saber intuitivo, para a inteligência
emocional, para verdades não racionais.
Na modernidade a tecnociência abriria estradas para um mundo melhor, na pós ela é vilã do
ambiente.
Entre a modernidade e a pós modernidade há duas guerras mundiais e mais de cem milhões de
mortos. Há Stalin, Hitler, Idi Amin, Pol Pot, Auschwitz e Ruanda. Há Hiroshima e Nagasaki. Há
Bangladesh, Índia, Vale do Inhamuns. Há o Tietê, Chernobyl, e o buraco de Ozônio.
A angústia do homem pós-moderno pode bem ser ilustrada na vida daquele personagem que fazia
análise e vivia um dilema todas as vezes que ia para a consulta com seu analista. Se eu chegar
adiantado ele vai pensar que estou ansioso demais, se eu chegar na hora sou um disciplinado
compulsivo e se chegar atrasado estou fugindo dos meus problemas.
86% da classe média dos países ocidentais sofre de stress crônico.
Por outro lado ainda há lágrimas nos casamentos, ainda há sorriso nas crianças, ainda há o
gorjeio dos pássaros, ainda há poetas fazendo poesia, ainda há evangelistas na esquina do Hyde
Park na Inglaterra, igrejas ainda estão sendo plantadas no Rio de Janeiro, ainda se ouve os
tamborins e pandeiros nas igrejas do México. E pelas madrugadas ainda se ouve o clamor dos
crentes em cultos de vigília nas igrejas evangélicas.
Em uma época como essas você e eu fomos chamados. Na confusão pós-moderna que não sabe
discernir bem qual a diferença entre o belo e o feio, entre a verdade e a mentira, entre o vício e a
virtude. Fomos chamados para pregar o evangelho.
Houve um período assim na história de Israel. De acordo com a profecia dada ao rei Ezequias,
muitos anos antes (Isaías 39.6-7) o reino de Judá seria invadido por Nabucodonosor. A
sistemática desobediência do país, a deterioração da moral pública, o enfraquecimento espiritual
do povo, tornou essa profecia irreversível. A Babilônia finalmente invadiu a terra e com um
programa bem elaborado trabalhou para quebrar a espinha dorsal de Israel. Primeiro, promoveu
um êxodo étnico. Esvaziou as cidades. Depois, selecionou os mais capazes para serem re
programados com lavagem cerebral, castrou jovens e vendeu mocinhas para serem concubinas na
Babilônia. O templo, orgulho dos judeus foi destruído e os utensílios sagrados de-sacralizados.
Jeremias profetizou que este período de desolação seria de 70 anos – Jeremias 25.11. Ao terminar
este tempo, os persas ganharam a guerra anexaram os Medos, conquistaram a Babilônia.
Um dos primeiros atos do novo governante, Ciro, depois da captura da Babilônia, foi passar um
edito autorizando os judeus exilados a retornarem à sua própria terra.
Esdras e Neemias trabalharam intensamente para construir as muralhas e o templo. Os vasos
roubados do templo por Nabucodonosor foram devolvidos. Depois deste recomeço a construção do
templo permaneceu desolada por 15 anos.
Havia uma espécie de apatia. Tiveram uma depressão pós-parto. As pessoas se voltaram para
seus empreendimentos pessoais, largaram os seus ideais, perderam o elã. Cada qual voltou-se
para os seus próprios projetos.
A filosofia era mais ou menos a de hoje:
Se que não cuidar do que é meu, quem cuida?
Melhor covarde vivo, que herói morto.
Primeiro o meu, depois o teu.
Nessas circunstâncias Ageu profetizou. Interessante que por 4 vezes veio a ele a voz de Deus.
Capítulo 1.1. Capítulo 2.1 Capítulo 2.10.
Capítulo 2.20.
A primeira palavra que Deus deu a Ageu foi uma denúncia contra o egoísmo, a apatia de sua
geração – 1.1 –11.
Quando há uma desilusão, quando se é obrigado a conviver com a frustração adoece-se:
“A Esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore da vida.” – Prov.
13.12.
Uma das maiores tragédias de nossos dias é a falência dos sonhos e dos ideais. A tarefa de
reconstruir muitas vezes parece tão grande tão difícil que somos jogados numa espécie de torpor
espiritual, existencial.
Sonhar para quê? O negócio e tentar fazer o meu pé de meia.
Eu soube que no período de altíssima inflação na Argentina, alguns sociólogos estudaram os
efeitos da alta inflação sobre o povo. A constatação foi sombria: quanto mais alta subia a inflação
mais as pessoas se mostravam duras, egoístas, menor era a disposição de partilhar.
Eu soube que um dos muros de São Paulo foi pichado com a seguinte frase:
Estou cansado de ações, preciso de promessas.
O cinismo campeia, o deboche e a superficialidade estão em voga.
Christopher Lasch, escreveu um livro que foi catecismo nas Universidades de São Paulo: O Mínimo
Eu. Em que ele defende que o individualismo antes de ser um adoecimento de nossa natureza ele
é um mecanismo de defesa.
O mundo, e particularmente, o Brasil é um país que tira nossas energias para fins improdutivos:
não ser assaltado, não ser furtado na conta de luz, não perder o emprego, não comprar na Encol,
não depositar no Econômico, não se mudar para o Palace I, não comprar remédio falsificado,
vencer a guerra do trânsito, tolerar as longas filas dos bancos, dos postos de saúde, preparar-se
para passar uma velhice pobre.
Para se defender disso tudo, nos voltamos para o imediatismo. Vivemos a geração das grifes, dos
Status Symbols (Bolsas Luis Vinton, carros BMW, condomínios em Miami, grifes de roupas).
Somos a geração de brinquedos caros, mas de alma vazia, sem causas para defender, sem
qualquer projeto que valha a pena morrer por ele.
Interessante que os hippies dos anos 60 se transformaram nos yuppies dos anos 80.
O conceito religioso, deixou de ser uma verdade que abracei ou uma experiência mística
arrebatadora que me encantou, o conceito religioso hoje é utilitário. Instrumentado.
Quando se fala em apologética cristã, não se deve pensar em defender a fé com os mesmos
pressupostos da modernidade. Nossa luta hoje não consiste em defender a verdade do
cristianismo sob o ponto de vista do saber cartesiano, mas defender a fé sob o ponto de vista de
uma geração que já não tem sonhos.
O hedonismo é a filosofia portátil. Vive um imediatismo patológico. Só o presente conta. Homens
e mulheres da pós modernidade vive sem as tradições do passado e sem um projeto do futuro. A
pós modernidade é o túmulo dos modelos cristãos do passado. As pessoas procuram credos
“menos coletivos”, como afirmou Jair Ferreira dos Santos, “mais personalizados (meditações, zenbudismo, yoga, esoterismo, astrologia).
“É que o homem pós-moderno não é religiosos, é psicológico. Pensa mais na expansão da mente
que na salvação da alma. Há toda uma cultura ‘psi’ fazendo a cabeça da moçada: psicanálise,
psicodrama, gestalt, bioenergética, biodança, grio prima e por aí vai. Para não falar no dilúvio de
bolinhas alucinógenos que rola. Nisso tudo, o bom é que a cultura religiosa era culpabilizante,
enquanto a psi é libertadora. Ao sujeito pós-moderno interessa um ego sem fronteiras, não uma
consciência vigilante.” Jair Ferreira dos Santos.
A segunda vez que a voz de Deus vem ao profeta Ageu, conseqüência da primeira é uma
convocação que o povo volte a sonhar, tenha esperança. Volte a lutar, levante novamente suas
flâmulas.
Para terem esperança ele convida o povo a três olhares.
1. Um olhar em perspectiva – v. 3 – Voltem a acreditar que a glória do segundo templo será maior
do que a glória do primeiro.
Esperança de acreditar que ainda vale a penas lutar por um futuro melhor.
Creio que esperança é acreditar que o futuro ainda pode ser melhor. Vivemos em uma geração
sem olhar para horizontes.
“Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou para si uma descrença
em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do
cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram
enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que,
mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que
entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo isso nós perdemos, de
todas essas consolações nascemos órfãos.” F. Pessoa, 289 –Desassossego.
2. Um olhar retrospectivo – v. 5. – Olhem para trás. A sua aliança é inquebrantável.
Aldous Huxley descreveu-se da seguinte maneira:
“Nasci vagando entre dois mundos, um morto e outro incapaz de fazer-se nascer, eu consegui de
maneira curiosa piorar ainda mais os dois.
Em Náusea, Sartre, encarnando o protagonista Roquetim, afirma:
“Estou sozinho, a maioria das pessoas voltaram para seus lares; estão lendo o jornal da tarde e
ouvindo o rádio. O domingo que termina deixou-lhes um gosto de cinzas e seu pensamento se
volta para segunda-feira. Mas para mim não existem segunda-feira nem domingo: existem dias
que se atropelam desordenadamente...Sartre, Náusea, 87.
3. Um olhar prospectivo – v.6-9 – Olhem para cima. Ele continua Deus.
A terceira palavra que vem a palavra a Ageu, ele convoca o povo a uma reforma ética – capítulo
2.10-19.
A pós modernidade nos chama a estudarmos o que significa ética. A nossa apologética passa por
estudarmos o que significa dizer não, quando todos estão dizendo sim. Como podemos, como
dizia
A última vez que a palavra de Deus veio para Ageu, ele foi desafiado a encontrar o eixo histórico,
seu nexo em Deus – 2.20-23.
Ele chama o profeta a avisar ao governador de Judá, Zorobabel a nunca se esquecer que em
última análise está no controle da história é o próprio Deus.
Portanto, devemos nos envolver. O controle da história está nas mãos de Deus. Ele ainda é quem
governa.
Religião é a cocaína do povo.
Ricardo Gondim
Vivi parte de minha adolescência nas décadas de sessenta e setenta. Naqueles anos, os Beatles e
os Rolling Stones reinavam na música. Discutia-se o existencialismo de Sartre nos barzinhos de
Ipanema. As mulheres se libertavam lendo Simone de Beauvoir. Che Guevara inspirava os ideais
revolucionários dos latino-americanos. As drogas se tornaram uma obsessão mundial. Muitos
jovens caminhavam pelas trilhas que começavam em Amsterdã, seguiam pelo Afeganistão e
chegavam à Índia em busca de haxixe. A maconha deixou de ser consumida no submundo da
marginalidade e dominou as universidades das Américas. Tomavam-se doses mínimas de LSD
para viajar por horas no mundo alucinógeno. Os picos de heroína nas veias abreviavam a vida de
milhares.
Os tempos mudaram. A rebeldia dos jovens aquietou-se, os heróis comunistas ruíram, o
consumismo substituiu as antigas aspirações revolucionárias e a “techno music” substituiu o rock.
Aquelas drogas que entorpeciam e deixavam seus usuários num estado zen, foram suplantadas
por outras que ativam, energizam e potencializam. Substituíram-se os tóxicos que causavam
torpor por outros que davam uma sensação de poder e de autonomia. Assim, hoje quase não se
fala mais em heroína ou LSD. As drogas da moda são a cocaína e sua versão mais barata, o crack.
E cresce a busca pelas sintéticas, como o ecstasy, que prometem um melhor desempenho,
inclusive sexual.
A religião também mudou muito. Naqueles anos, predominava entre os jovens o conceito que a
religião servia os interesses das elites, pacificando os oprimidos. Os debates reforçavam o
pensamento de Karl Marx que em 1844 afirmou: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo
tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real”. Marx acreditava
que “a religião é o único suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a
alma de condições desalmadas”. Meus contemporâneos repetiram sua conclusão: “A religião é o
ópio do povo”.
Marx não afirmava que a religião é um narcótico qualquer. Ele a identificava com um entorpecente
poderosíssimo de seus dias: o ópio. As condições sociais perversas da Europa no século XIX
condenavam os trabalhadores a pouco mais que escravos. Marx entendia que as mesmas
condições também produziram uma religião que prometia um mundo melhor só para a próxima
vida. Assim, tanto ele como seus seguidores difundiram que a religião não é apenas uma ilusão,
mas cumpre a função social: de distrair os oprimidos. Por isso, afirmava que a religião é um
narcótico que não apenas alivia a dor do trabalhador, como lhe embriaga, roubando o seu poder
de transformar sua realidade. Para ele, a esperança religiosa era um ópio que prometia felicidade
no porvir, adiando o furor revolucionário. O pior é que ele tinha razão em suas análises. A igreja
de seus dias realmente estava decadente e, aliada à aristocracia, desempenhava exatamente esse
papel anestesiante.
Porém, com a pós-modernidade, a religião já não cumpre essa tarefa entorpecente. No ocidente, a
proposta religiosa vem crescentemente se tornando mais parecida com um outro tóxico: a
cocaína. O neo-liberalismo, pai deste materialismo consumista tão bem representado no fascínio
pelos shoppings e pelas grifes, já entorpece como o ópio. Por outro lado, a religião de hoje
procura excitar e produzir sensações de poder parecidas com a da cocaína.
As igrejas neopentecostais se multiplicam prometendo que as pessoas têm o direito de ser felizes
aqui e agora. Repetem exaustivamente que ninguém precisa transferir para a eternidade o que
pode ser reivindicado já. Insistem na promessa feita a Israel de que o fiel é “cabeça e não cauda”.
E assim o crente que freqüenta os cultos da prosperidade, recebe semanalmente uma injeção de
cocaína espiritual no sangue, fazendo que se sinta o dono do mundo. Nem que seja por apenas
alguns minutos de culto, sonha com tudo o que os seus olhos gulosos viram as empresas de
marketing anunciar na televisão.
As igrejas se transformam em ilhas da fantasia capitalista. Empresários falidos, artistas em fim de
carreira, jogadores de futebol mal-sucedidos, empregados sem qualificação, correm para as
infindáveis campanhas em busca de reverter a pretensa “maldição” que paira sobre suas vidas. E,
depois de espoliados, são devolvidos à dura realidade da vida, obrigados a encarar a rebordosa da
segunda-feira. Dependurados nos trens suburbanos ou numa fila burocrática sofrem triste e
deprimidos como os foliões do carnaval que voltam para seu destino na madrugada da quartafeira de cinza. Enfrentam sozinhos a dura realidade de que não são reis ou rainhas, apenas subempregados; obrigados a viverem com um salário miserável.
A própria definição do que é fé vem sofrendo enormes mudanças. Antigamente entendia-se fé
como uma adesão a um conceito teológico ou mesmo como uma habilidade sensitiva de perceber
o mundo espiritual. Pessoas de fé discerniam as ações de Deus e do mundo espiritual com maior
acuidade. Eram pessoas que confiavam no caráter de Deus, mesmo sem evidências que
comprovassem sua palavra. Hoje se entende fé como uma mera capacidade de instrumentalizar
os poderes de Deus egoisticamente. Por isso, fé e cocaína se parecem muito; dão uma falsa
sensação de poder e geram pessoas artificialmente soberbas. Mas a ressaca tanto da cocaína
como da fé pós-moderna é horrível, pois vem sempre acompanhada de depressão e desengano.
O tóxico religioso de hoje é sempre estimulante. Por isso os novos mercadejadores da fé
precisaram redefinir, inclusive, a pessoa de Deus. A divindade pós-moderna só existe para servir
os caprichos das pessoas. Os cultos se transformaram em centros de aperfeiçoamento e
aprimoramento humano. As igrejas deixaram de ser espaços para se cultuar a divindade,
especializaram-se em ensinar como manipular Deus. As liturgias espiritualizam as técnicas mais
populares de como “liberar o poder de Deus”, “afastar encostos”, “tomar posse dos direitos”,
“conquistar gigantes”. As pessoas se aproximam de Deus cheias de direitos, vontades, acreditando
que são o centro do universo e que tudo e todos lhes devem obrigações. Perde-se o estado de
“maravilhamento”, reverência e submissão ao Eterno.
Assim o propósito de toda atividade religiosa é homocêntrica, nunca teocêntrica. As igrejas
acabam se transformando em balcões de serviços religiosos e a relação do pastor com os fiéis é a
mesma do empresário com o cliente. Redobram-se os esforços de oferecer uma maior gama de
atividades que agradem os clientes que se tornaram ferozes consumidores religiosos e com um
nível de exigência tremenda.
Acredito que a genuína mensagem do evangelho não pode ser comparada ao ópio como fez Marx
e nem à cocaína, como fazem os pregadores da religiosidade pós-moderna.
Jesus Cristo não prometeu um celeste porvir que anestesiava. Seus discípulos foram convocados a
serem o sal da terra, levedarem a massa, enfrentarem os reis poderosos, transformarem a
realidade aqui e agora. Antes que se levante o sol da justiça e que o Senhor volte trazendo
salvação sob suas asas, Ele comissionou sua igreja a enfrentar as estruturas humanas que
produzem a morte e declarar guerra ao próprio inferno. Tampouco, prometeu que nos tornaríamos
os donos do mundo, ricos e prósperos. Fomos chamados para encarnarmos o mesmo sentimento
que houve em Cristo, que sendo em forma de Deus não teve por usurpação ser igual a Deus, mas
tomou a forma de servo, humilhando-se até a morte e morte de cruz.
O culto não deveria ser diminuído e se transformar em um centro de auto-ajuda. Não precisamos
aprender técnicas que nos ajudem a obter o favor de Deus. Precisamos sim aprender celebrar o
seu grande amor de Pai que nos quer bem, apesar de nossa própria pequenez.
Acredito que Marx estava certo quando denunciou o que acontecia com a igreja que se colocava a
serviço das aristocracias. Aquela religião adoecida e morta realmente merecia a pecha de ópio do
povo. Os líderes religiosos que comiam nas mesas dos poderosos e que desdenhavam da sorte
dos miseráveis realmente buscavam entorpecer o povo.
O que se oferece de muitos púlpitos pós-modernos não é o Evangelho de Jesus Cristo, mas mera
cocaína religiosa. E se algum outro filósofo ateu afirmar que essa religião pragmática que se
espalha no ocidente, combina com o narcótico da moda, também seremos obrigados a concordar.
Já se ouve o murmúrio das pedras. Urge que os profetas comecem a falar.
Soli Deo Gloria
Evangelho e cidadania.
Ricardo Gondim
O Brasil enfrenta uma das piores crises de sua história. Uma crise tal que os futuros historiadores
terão dificuldades de explicar como foi possível este país construir uma catástrofe destas
dimensões ao chegar no final do século XX.
Estamos desarticulados socialmente. Os sintomas desta desarticulação se mostram na miséria
que se perpetua nos subúrbios dos grandes centros urbanos, na deseducação das crianças que
são forçadas a estudar em escolas públicas em ruínas; no esvaziamento do campo e na explosão
urbana. Nossa desarticulação social se revela mais exuberante na perda do sentimento de
nacionalidade: vive-se uma descrença em relação ao futuro. Somos o país em que políticos ainda
se elegem promovendo laqueadura de trompas e distribuindo dentaduras. Observa-se a lenta
perda do poder aquisitivo da classe média e nenhuma melhoria para a maioria pobre. Vive-se uma
desigualdade regional. O sul próspero e o norte e nordeste com índices africanos. Convivemos
com o paradoxo de sermos um dos mais ricos países do mundo em terras e ainda assim sermos
um dos mais pobres em nutrição; termos uma enorme quantidade de escolas de medicina e
estarmos classificados de acordo com Organização Mundial de Saúde quanto a saúde pública em
centésimo vigésimo quinto lugar. Segundo dados preliminares do Ministério do Bem Estar Social,
haveria no Brasil, dezenas de milhares de adolescentes prostitutas. Muitas delas acabam
engravidando reproduzindo o ciclo da miséria. Outras, engrossam as sombrias estatísticas de
aborto e mortalidade materna.
Dois em cada dez brasileiros vão dormir com fome.
Trinta e dois milhões de indigentes, pessoas que não conseguem comprar sequer uma cesta
básica.
365 mil crianças abaixo de 5 anos morrem por ano no Brasil vítimas de desnutrição. É mais que 3
estádios do Morumbi.
O Brasil é um país com uma economia doente, sucateada com uma recessão brutal que mantém
os índices de inflação baixos; cartelizada; dependente do protecionismo e subsídio do estado,
refém dos grandes bancos, escrava à especulação do capital estrangeiro. O estado está falido, o
sistema médico e previdenciário dilapidados. O sistema fiscal desmoralizado, perverso, incoerente.
O salário mínimo, um dos mais baixos do mundo. O brasileiro é obrigado a conviver com as mais
altas taxas de juros do planeta. Por conta disto, as estradas brasileiras são esburacadas,
impedindo o fluxo da riqueza para os grandes portos, o trânsito nas grandes capitais é caótico, o
transporte público bagunçado. As cadeias públicas super lotadas, transformaram-se em antros de
criminalidade. As polícias mal pagas e mal equipadas são temidas pelos cidadãos e escarnecidas
pelos bandidos. O estado não tem recursos para cumprir com suas obrigações previstas na
Constituição.
Ecologicamente o Brasil é um desastre. Os rios e florestas destruídos pela exploração
irresponsável de seus recursos naturais. Desequilibramos nosso ecossistema quando
transformamos algumas de nossas lindas cataratas em imensos lagos artificiais. Poluímos nossas
praias pela especulação imobiliária. Continuamos a devastar nossa selva para suprir o guloso
mercado madeireiro do primeiro mundo. O resultado patético vê-se – e cheira-se – por todas
parte: nossos rios são esgotos abertos, alguns de nossos prados se parecem com cenários
lunares. Algumas de nossas montanhas, corroídas pela erosão, são retratos surrealistas de nossa
miséria.
O Brasil é o país da degradação ética. Vive-se aqui a generalização do oportunismo político. Há
conivência com a irresponsabilidade. Como é grande nossa tolerância com a corrupção – grande
ou pequena! A fraude é vista como fato normal. Os interesses corporativos prevalecem sobre os
sociais. Aceitamos, sem perdermos o sono, a coexistência gritante da ostentação com os mais
dramáticos níveis de miséria. A injustiça social no Brasil é uma das mais alarmante do mundo,
sem que haja consternação das elites e das emergentes. Dinheiro que deveria ser destinado a
merenda escolar de crianças é desviado para gordas contas na Suíça. Promessas eleitoreiras se
repetem de tempo em tempo, enquanto nossas cidades estão entulhando-se de desempregados
crônicos – os chamados excluídos. Parece que o deboche diante da tragédia está passando a ser
parte de nossa cultura. O conformismo, a falta de espírito público tanto da classe política da
esquerda como da direita são características de nossa enfermidade ética. Somente aqui a
vergonhosa lei do Gerson nos faz rir e não corar de vergonha.
Por mais que o nosso presidente diga que não, somos uma vergonha, no cenário internacional. Lá
fora nos conhecem como o país da violência generalizada, da corrupção, da devastação da
Amazônia, do assassinato de crianças e de índios. Somos vistos como o país do sexo promíscuo
do carnaval. Muitos europeus lembram-se do Brasil como exportador de travestis.
Aqui neste espaço, nos concerne refletir sobre quais os posicionamentos do evangelho na difícil
tarefa de equipar os brasileiros como atores sociais. Qual o papel da igreja evangélica brasileira?
Ela é povoada de cidadãos da Cidade de Deus? A igreja produz cidadãos também para o aqui e
agora?
É de bom alvitre que se leia neste ponto de nossa reflexão o capítulo 22 de Mateus, dos versículos
15 ao 22.
“Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra.
E enviaram-lhe os discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que
és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares
com quem quer que seja, porque não lhas a aparência dos homens. Dize-nos, pois: que te
parece? É lícito pagar tributo a César ou não? Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia,
respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe
um denário. E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César.
Então, lhes disse: Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se
admiraram e, deixando-o, foram-se.”
Neste texto de Mateus, Jesus já está em Jerusalém e de lá só sairá pela chamada Via Dolorosa. A
multidão o aclama e o clima está se tornando insuportável. Depois de insistir em falar de assuntos
inquietantes, há uma conspiração que tenta surpreender-lhe. Os fariseus se retiraram, a fim de
planejar o modo pelo qual poderiam apanhar Jesus na armadilha de alguma palavra. Decidiram
enviar alguns de seus discípulos, com os herodianos, a fim de propor-lhe uma questão
controvertida a respeito de pagamento de impostos ao imperador romano. Nada sabemos a
respeito dos herodianos, senão o que está registrado aqui. Supõe-se que seriam defensores
judeus de Herodes Antipas, que apoiavam o colaboracionismo aos conquistadores romanos.
Começam com lisonjas. “Mestre, bem sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de
Deus com toda sinceridade. Tu não te preocupas com o que pensam as pessoas, porque não te
interessas por ganhar-lhes o favor. Então diga-nos, é lícito pagar tributo a César, ou não?” Fica
claro como cristal o dilema que propõem a Jesus. Se ele se opusesse ao pagamento de impostos,
estaria em dificuldades com as autoridades civis. Os herodianos o acusariam de tentar incitar uma
rebelião. Se aprovasse o pagamento dos impostos, perderia popularidade. Parecia que não havia
meio de ele responder à pergunta sem sair perdendo.
O imposto a que se referiam era uma taxa per capita obrigatória a cada cidadão a partir da
puberdade até os sessenta e cinco anos. Devia ser pago em moeda romana ao tesouro imperial. O
povo judeu se ressentia do pagamento de tal imposto, porque lembrava a todos que eram
vassalos de uma potência estrangeira que lhes confiscara a terra e, agora, lhes extorquia uma
soma de dinheiro que engordaria os cofres do imperador.”
O texto é da maior importância porque ele nos arremete aos posicionamentos de Jesus Cristo
sobre a difícil questão da cidadania. Sua resposta fornece princípios sobre como a igreja se
comporta quando confrontada com o dilema ideológico. Aqui precisamos abrir um parêntese para
esclarecermos o que entendemos por ideologia.
Ideologia seria a lente que nos capacita a ler nossa realidade, a natureza de nossas estruturas e
quais as possibilidades escatológicas.
A escolha do texto, a observação de como Cristo reagiu não é por acaso. Pois o comportamento
do cristianismo através dos séculos não foi sem tensões, ambigüidades. Como agir, reagir,
comportar-se como cidadãos de dois reinos? Até que ponto é permitida a desobediência civil, a
revolta armada, o exílio?
Ainda na embrionária igreja primitiva esse dilema se apresenta diante de Pedro e João. Acusados
de causar incômodo religioso na monolítica Jerusalém judaica, Pedro reagiu diante do mesmo
Sinédrio que conduziu a condenação de Cristo afirmando em Atos 4.19:
“Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus.”
Pouco tempo depois insistiu em Atos 5.29:
“Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.”
Entretanto, Paulo, quase que contradizendo a postura de Pedro ensina em Romanos 13.1-7:
“Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não
proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele
que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos
condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se
faz o mal. Quere tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a
autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é
sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o
mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas
também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros
de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem
tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.”
Assim, por toda a história, o comportamento dos cristãos em regimes totalitários, sociedades
eticamente adoecidas e em culturas perversas não foi sempre homogêneo. Algumas vezes
pareceu coerente:
Quando a perseguição e martírio dos cristãos era comum no mundo antigo, foi necessário optar
não pela resistência aos regimes, mas ao exílio. Por isso, foram construídas as catacumbas.
Já nos tempos dos gladiadores, Roma já encontrava-se encharcada pelo cristianismo. Foi a
militância dos cristãos que estancou o sangue que jorrava no Coliseu.
Em algumas circunstâncias, os regimes valeram-se dos cristãos para legitimar suas ambições de
conquistas, seus sistemas de dominação e suas guerras sangrentas.
Diz-se que Isabel, a católica cometeu mais atrocidades em nome de sua fé do que Nero jamais
por causa de sua perversão.
Hoje, sabe-se que grande parte do poder religioso calou-se quando Hitler dizimava os judeus, os
ciganos, os homossexuais e os deficientes físicos. Quando não houve conivência, houve um
silêncio cômodo.
Salazar, em Portugal, Franco na Espanha, e os regimes totalitários da América Latina contavam
com o apoio da Cúria.
No Brasil, o regime ditatorial mais longo de nossa história, o que começou em 1964, na verdade
não teria vingado se fosse a Marcha por Deus e pela Família, liderada pela igreja católica. Os
evangélicos calaram-se pelas três décadas. Crente que fosse verdadeiramente, votava na Arena.
Os militares contaram com a obediência serena e meiga dos evangélicos. Enquanto atrocidades
eram cometidas nos porões do Doi Codi e nos porões da repressão, alheios, continuávamos
conduzindo reuniões evangelísticas. Acreditamos que os comunistas eram perigo tão grande, que
deveríamos no unir aos militares por que eles derrotariam as forças do mal.
Em Ruanda, hoje sabe-se a política de extermínio na questão étnicas entre os Tutsis e os Hutus
teve o aval da igreja cristã local.
Eis porque devemos observar o comportamento de Cristo diante do impasse que lhe
apresentaram:
1. O conceito cristão de cidadania dessacraliza os processos políticos.
Ele pergunta, de quem é a efígie na moeda. A resposta obvia é que era de César. Portanto, não há
uma ótica transcendente na leitura daquele regime. O regime de César não é visto como agente
do mal e nem como agente do bem; é visto como uma manifestação dos processos humanos de
condução da história.
Para cristo, os sonhos teocráticos estão esvaziados. Ele edificará um reino que não guerreará
pelos mesmos espaços geográficos que Roma, seu reino não usa a nomenclatura do poder de
César, não aparecerá um novo partido dentro da confusa geo-política palestina do primeiro século.
O evangelho não contempla no socialismo o sonho de concretização do reino. Sequer consegue
ver o capitalismo que faz do dinheiro o seu deus, a possibilidade de encarnar a utopia do novo céu
e da nova terra.
Isso força o cristianismo a interpretar sua realidade histórica à luz da realidade e não do ideal.
Quando se indaga a Cristo se deve pagar impostos a Roma, está embutida na pergunta uma
inquietação: Um povo deve subjugar outro povo. Uma nação poderosa deve extorquir impostos de
outra nação pobre? Não. O ideal não é que isso aconteça, mas o cristianismo não trabalha com
pressupostos do ideal e sim do que é. O ideal é que não se gastasse bilhões na indústria das
armas, o ideal é que o sistema financeiro não premiasse a especulação e sim a produção, o ideal é
que o sistema não se alicerçasse sobre a ganância e sim sobre a solidariedade.
Foi devido a isso que a escravatura não é duramente combatida nas páginas do Novo Testamento.
Na realidade em que foi escrito, a escravatura era amplamente difundida. Os autores mergulhados
na realidade histórica que viveram sem percepção nítida de como aquela situação pudesse ser
revertida não tentam desmoronar o sistema da escravatura, mas lutam para humaniza-lo.
No exercício da sua cidadania o cristão reconhece sua realidade mas não se encaramuja pela
distância entre o que é e o que desejamos que seja. O ideal é que não houvesse meninos
morando nas ruas, chacinados por hordas de justiceiros. O ideal é que não haja traficantes
vendendo crack para os miseráveis que já vivem no inferno. Entre este ideal e o que vemos
quotidianamente há um abismo enorme. O que fazer. O evangelho desafia os cristãos a lutar para
que eles sejam cuidados, que as estruturas que perpetuam esse estado de coisas sejam
derrubadas e que se engatilhem processos que prevenirão outros a caírem nesse caldeirão de
desgraça.
Foi interessante a postura do Ministro da Saúde dos Governos do Jimmy Carter e do George Bush.
Ele, evangélico militante, iniciou uma campanha pela distribuição de preservativos por todos os
Estados Unidos. Confrontado pela Maioria Moral, se não estava legitimando a promiscuidade no
país, ele respondeu: O ideal é que as pessoas vivam uma vida monogâmica, mas antes que esse
ideal se concretize há milhares de pessoas se contaminando com o vírus HIV. Sou ministro da
saúde, não lido com o ideal, tenho que lidar com a dolorosa realidade, portanto, vamos ensinar as
pessoas a usar a camisinha.
O ideal é que não haja abortos. Entretanto, milhares de mulheres estão recorrendo a clínicas de
aborto imundas. Muitas morrem por infecção. O que fazer? Creio que o conceito de cidadania deve
incorporar programas alternativos de adoção, creches antes que as apedrejemos.
2. O exercício da cidadania cristã trabalha dentro dos contornos sociais, sem contudo legitimá-los.
O simples fato de pagar o tributo não significa que o regime opressor de Roma está legitimado por
Cristo. Cristo não admite que suas posturas sejam exploradas por razões políticas, como também
ensinou aos seus discípulos a nunca se valeram das estruturas do poder para alavancar o projeto
do reino.
Francis Schaeffer é que cunhou a expressão co-beligerância. Fazem-se parcerias sem contudo
legitimar.
Quando percebo que a igreja católica levantou uma bandeira digna, como sua luta contra a
exploração sexual de menores, posso me aliar com ela naquela luta, sem que necessariamente
esteja legitimando outros posicionamentos dela como sua mariolatria, o poder papal, etc.
Quando percebo que os sem terra, estão com reivindicações sólidas sobre a reforma agrária e
sobre a injustiça social no campo o evangelho deve ratificar o esforço deles – Há muitos crentes
entre os sem-terra – sem contudo, estar legitimando a invasão de prédios públicos ou estar
solidário a pressupostos socialistas.
Quando o presidente da República desenvolve um projeto de cidadania, um esforço de alfabetizar
os evangélicos devem se posicionar a favor, sem que com isso estejam dizendo que aprovam os
métodos que foram usados para que se ganhassem os votos pela re-eleição.
“Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas
homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e
partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A
indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador e a matéria inerte em
que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha
cidade e defende melhor do que nunca as ais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus
guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja
e, às vezes, os leva a desistir da gesta heróica.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lágrimas de eternos inocentes.
Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhe impôs e impõem
quotidianamente, do que fizeram e, sobretudo, do que não fizeram. E sim que posso ser
inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles
minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo. Sinto nas consciências viris dos que estão comigo
pulsando a atividade da cidade futura que estamos a construir. Vivo, sou militante. Por isso, odeio
quem não toma partido, odeio os indiferentes.”
Antônio Gramsci – 11.02.1917.
3. O exercício da cidadania é encarado no cristianismo, não como uma atividade da redenção mas
da criação.
A função de governar a terra e de administrar foi outorgada no Gênesis antes da queda. O
cristianismo, portanto, não necessita de homens redimidos para que o bem seja promovido.
Está fora o conceito de que o Brasil será melhor quando tivermos o maior número de evangélicos
no poder.
Não, o Brasil estará melhor quando tivermos o maior número de bons políticos exercendo, da
mesma maneira que a aviação brasileira estará melhor quando tivermos melhores pilotos
pilotando nossas aeronaves, da mesma maneira que o nosso programa de desenvolvimento da
física nuclear estará melhor quando tivermos o maior número de bons físicos à frente dos nossos
projetos energéticos.
4. O exercício da cidadania evangélica é ao mesmo tempo uma expressão de amor como
expressão de justiça.
O âmago do evangelho é a busca da justiça em amor. E da proclamação do amor a partir
O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra. Provérbios 21.21.
O exemplo do Bom Samaritano. O fez por um sentimento de amor, talvez não passasse no teste
do politicamente correto. Não houve contestação do sistema, da insegurança. Mas como
expressão do seu profundo amor, a justiça foi exaltada.
Esse é o mistério da encarnação. Cristo ao mesmo tempo dá o que é de Deus e de César. O
transcendente e o imanente encarnam-se. A igreja participa no palco social e constrói um castelo
transcendental. Age no imanente como justiça, porque foi visitada pelo transcendente com amor.
Por isso é que historicamente ela tanto tem um
Desmond Tutu na África do Sul que celebra um culto a Deus orando para que seja desmantelado o
sistema do Aparthaid como sai pelas ruas em passeata pedindo que o regime iníquo caia por
terra.
Um Martin Luther King Jr, que prega o sermão em Atlanta e faz o discurso em Washington.
Um Wilberforce que pastoreia uma igreja e ao mesmo tempo é membro do Parlamento Britânico
que joga por terra o regime escravagista.
Você tem comunidades evangélicas no morro pregando o evangelho e promovendo cursos de
alfabetização. Missionários que dão aula de bíblia e de cuidados de higiene.
Soli Deo Gloria
A mulher samaritana, Coca-Cola e Jesus.
Ricardo Gondim Rodrigues
Às vezes, a gente ouve certas coisas que não aceita, mas não sabe bem o porquê. Só depois de
algum tempo entende. Não foi por mera antipatia que aquela mensagem não desceu bem.
Recordo-me quando ouvi pela primeira vez o paralelo entre Jesus e a Coca-Cola. O pregador,
inflamado de zelo e paixão missionária, afirmava que numa viagem ao interior do Haiti, sob uma
temperatura de mais de 40 graus, sentiu-se aliviado quando parou num quiosque miserável feito
de palha de coqueiros e pôde comprar uma garrafa do mais famoso refrigerante do mundo.
Devidamente refeito depois de beber sua Coca geladinha, perguntou ao dono da venda se já
ouvira falar de Jesus. Ele não sabia de quem se tratava. E o nosso palestrante fez sua analogia,
tentando dar um choque na complacência da igreja ocidental: “A Coca-Cola conseguiu alcançar o
mundo inteiro em menos de um século e a igreja cristã ainda não cumpriu a ordem da Grande
Comissão em mais de 20 séculos!”. Depois daquela primeira exortação, já devo ter escutado essa
mesma comparação uma dúzia de vezes em diversas conferências missionárias. Verdade ou
tolice? Pior. Estou certo que essas ilustrações não são meros simplismos, nascem de grandes erros
teológicos (ou ideológicos?).
Coca-Cola é uma bebida inventada na Geórgia, Estados Unidos, com uma fórmula secreta. Sabese que sua receita original continha alguns ingredientes também encontrados na cocaína, daí o
seu nome. Seus fabricantes nunca intencionaram outro propósito senão matar a sede das
pessoas. A The Coca-Cola Company não convoca ninguém a rever valores do caráter, não
confronta estruturas de morte, não se propõe a aliviar culpa, não revela a eternidade e nem Deus.
Para chegar aos quiosques mais remotos do globo, bastou criar um produto doce e gaseificado.
Investir bilhões em boas estratégias de propaganda, construir fábricas e desenvolver uma boa
rede de distribuição para que o produto chegasse com a mesma qualidade nos pontos de venda.
Tentar comparar a missão da igreja no anúncio do Reino de Deus às estratégias de mercado de
um refrigerante, beira o absurdo. Confunde-se um bem material com uma pessoa e enxerga-se na
mensagem um produto. Os missiólogos sucumbiram à lógica do mercado do novo milênio?
Acreditam mesmo que cumpriremos nossa missão com os instrumentais corporativos? Tudo pode
se tornar um produto?
No Brasil, o esforça-se muito para “vender” o Evangelho. Quase não se usa a mídia para
proclamar os conteúdos do Evangelho. Alardeiam-se os benefícios da fé. Basta observar a
enormidade de tempo gasto divulgando os horários dos cultos, a eficácia da oração, mostrando
que aquela igreja é melhor e que a sua mensagem é a mais forte para resolver todos os
problemas das pessoas. Aborda-se o Evangelho como um produto eficaz e adota-se uma
mentalidade empresarial no seu anúncio. Prometem-se enormes possibilidades. Tratam as pessoas
como clientes e sem constrangimento, anuncia-se que qualquer um pode adquirir esse
determinado benefício com um esforço mínimo. As igrejas se transformam em balcões de serviços
religiosos ou supermercados da fé. A tendência de oferecer cultos diferenciados e as intermináveis
campanhas de milagres demonstram bem esse espírito. Como um supermercado com as gôndolas
recheadas de produtos, as igrejas procuram incrementar os “serviços” ao gosto dos fregueses. Os
pastores dividem os dias da semana com programações atrativas; gastam suas energias
desenvolvendo estratégias que atraiam o maior número de pessoas. Sonham com auditórios
lotados. Campanhas, correntes e demonstrações grotescas de exorcismos e milagres financeiros
se sucedem. As pessoas, por sua vez, se achegam, seduzidos pelas promoções das prateleiras
eclesiásticas.
Esse modelo induz as pessoas a adorarem a Deus por aquilo que ele dá e não por quem é. Não se
anuncia o senhorio de Cristo, apenas os benefícios da fé. Os crentes acabam tratando a Bíblia
como um amuleto e, supersticiosos, continuam presos ao medo. Vive-se uma religião de consumo.
Mas existe outra dimensão ainda mais sutil. Naomi Klein, jornalista canadense, publicou
recentemente “Sem Logo” (Editora Record) para denunciar a tirania das marcas em um planeta
obcecado pelo consumo. Ela defende a tese de que a grandes corporações do mercado global não
vendem apenas os seus produtos, mas a marca. Procuram criar uma filosofia de vida embutida
em seus produtos. Desejam induzir seus consumidores a acreditarem que podem viver um
determinado estilo de vida, desde que comprem aquela marca específica. Assim os fumantes de
Marlboro imaginam personificar o “cowboy” solitário, mesmo morando em um apartamento.
Quando atletas amadores vestem as roupas ou calçam os tênis da Nike, acham que se
transformam em campeões. Gente que vive presa no trânsito apinhado das grandes metrópoles,
ao dirigir jipes com tração nas quatro rodas, sente-se desbravando sertões. Klein declara:
“’Marcas, não produtos!’ tornou-se o grito de guerra de um renascimento do marketing liderado
por uma nova estirpe de empresas que se viam como ‘agentes de significado’ em vez de
fabricantes de produtos. Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um
produto. De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário ao verdadeiro
artigo. A marca e a sua venda adquirem um componente adicional que só pode ser descrito como
espiritual”.
Infelizmente percebe-se o mesmo em determinados círculos cristãos. Querem fazer do Evangelho
uma grife. Como? Primeiro transforma-se um seleto grupo de evangelistas, cantores e pastores
em superestrelas ao estilo de Hollywood. Depois associam seu nome a grandes eventos e dão-lhes
o holofote. Ensinam-lhes habilidades espirituais acima da média. Assim produzem-se ícones
semelhantes aos do mundo do entretenimento. Eles aglutinam multidões, vendem qualquer coisa
e criam novas modas. A indústria fonográfica enriquece, os congressos se enchem, e os novos
astros do mundo “gospel” alavancam suas igrejas.
Jesus dialogou com uma mulher samaritana e ofereceu-lhe uma água viva. A mulher imaginou
essa água com raciocínios concretos. Pensou que ao beber, nunca mais teria sede. Uma água
dessas hoje, devidamente comercializada, seria um tesouro sem preço. “Dá-me dessa água e
assim nunca mais terei que voltar aqui”.
Jesus corrigiu sua linha de pensamento. A água que ele oferecia não era mágica, mas um
relacionamento: filhos e filhas adorando ao Criador em espírito em verdade. Infelizmente muitos
evangélicos brasileiros propagandeiam água mágica. Pretensamente matando a sede de qualquer
um no estalar dos dedos.
O evangelho não é produto ou grife, volto a repetir, mas uma alvissareira notícia. Não deveria se
escravizar às regras do mercado. Ricardo Mariano em sua tese de doutoramento concluiu, para a
vergonha de tantas igrejas neo-pentecostais: “As concessões mágicas feitas pelas igrejas
pentecostais às massas desafortunadas, por certo, não constituem tão-somente meras
concessões... observa-se que a oferta pentecostal de serviços mágicos segue cada vez mais uma
dinâmica empresarial, ditada pela férrea lógica do mercado religioso, que pressiona os diferentes
concorrentes religiosos a acirrarem seu ativismo e a tornarem mais eficazes suas ações e
estratégias evangelísticas”.
Essa mercadoria religiosa caricaturada de evangelho não representa o leito principal da tradição
apostólica. A indústria que encena essa coreografia carismática de muito barulho e pouca eficácia,
não conta com o aval de Deus. Há de se voltar ao anúncio doloroso do arrependimento como
primeira atitude para os candidatos ao Reino. Não se pode, em nome de templos lotados, omitir a
mensagem da cruz. Precisa-se repetir sem medo a mensagem de Jesus: “Se alguém quiser
acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8.34).
Se não voltarmos aos fundamentos do Evangelho, teremos sempre clientes religiosos, nunca
seguidores de Cristo. Faremos proselitismo sem evangelizar. Aumentaremos nossa arrecadação
sem denunciar pecados. Construiremos instituições humanas sem encarnação do Reino de Deus. E
pior, continuaremos confundimos Jesus com Coca-Cola. No Maranhão há um refrigerante de
grande sucesso com a marca Jesus. Entretanto, não se pode desejar alcançar o sucesso
transformando Jesus numa soda e as igrejas em quiosques religiosos.
Que Deus tenha piedade de nós.
Soli Deo Gloria
O fim da história
Ricardo Gondim Rodrigues
Há alguns anos, um obscuro funcionário do Departamento de Estado norte americano propôs que
a história chegara ao fim. O nome de Francis Fukuiama logo se tornou conhecido nos meios
acadêmicos. Seus argumentos causaram enorme furor entre os defensores da dialética histórica.
Ele defendia que o fim das grandes utopias, principalmente o esfacelamento da proposta soviética
de um estado marxista, exauria a possibilidade de se escrever História, com agá maiúsculo.
Estaríamos condenados a um futuro que tediosamente se alongaria numa sucessão de fatos
menores, portanto, uma “historinha”; meros acontecimentos quotidianos.
Ele simplesmente expressava a mentalidade de uma época, também chamada de pósmodernidade. Um contrapé histórico caracterizado pela decepção com as propostas do Iluminismo
europeu e com as afirmações da modernidade. Eram elas: a) o avanço do saber científico; b) o
domínio da natureza pela tecnologia; c) o aumento exponencial da produtividade e da riqueza
material; d) a emancipação das mentes após séculos de opressão religiosa; superstição e
servilismo; e) o progresso e salvação dos povos pelas instituições políticas; f) o aprimoramento
intelectual e moral dos homens por meio da ação conjunta da educação e das leis. Não se aguarda
mais o paraíso proletário sonhado por Marx, o eldorado do capitalismo ocidental ou o mundo feliz
do positivismo em que imperam a “ordem e o progresso”.
Realmente parece que se acabaram os sonhos, que se arriaram as bandeiras apaixonadas das
idéias e que os visionários cederam lugar aos hedonistas. Os grandes ideólogos dos partidos
políticos, acossados nos corredores das universidades, cederam os palcos para os marqueteiros.
Diminuíram as barricadas e trincheiras nas ruas das grandes cidades; os jovens optaram pelos
corredores refrigerados dos shoppings. A China, maior país comunista do planeta, criou um novo
paraíso capitalista, com instituições políticas totalitárias e uma economia de mercado.
Idealistas, idealistas mesmo, restaram os fundamentalistas islâmicos, defensores de um mundo
pré-moderno. Guerreiros dispostos a deitar suas próprias vidas por um estado teocrático.
Vislumbram um mundo homogeneizado pelo Corão e sujeito à disciplina e censura de um
Ministério de Costumes e Tradição que condenaria as mulheres a retrocederem séculos sujeitandoas novamente às mordaças medievais.
Fora esses segmentos islâmicos mais radicais, realmente o mundo carece de sonhos e ideais.
Gabriel Perissé afirma que uma das idéias mais fortes que leu na sua vida encontrava-se pichada
em um tapume e dizia assim: “Se você está tranqüilo é porque está mal informado”.
Entorpecemos nossas consciências com a desinformação. A televisão nivelou-nos por baixo. A
avalanche de novos fatos que se sucedem em um mundo globalizado não nos deixa tempo para a
reflexão. Sucumbimos a um rápido processo de imbecilização. Há uma cultura de consumo que
anestesia o ocidente.
Fernando Pessoa em seu magnífico “Livro do Desassossego”, afirmou que ao herdarmos uma
descrença generalizada tanto no “cristianismo como na igualdade social e na ciência e nos seus
proveitos” acabamos nos contentando em meramente viver. E arremata inclemente: “Ficamos,
pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de só sentir viver. Um barco parece ser um
objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós
encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher”. O veredicto de
Pessoa, mesmo vaticinado há quase cem anos, é doloroso: “Sem ilusões, vivemos apenas do
sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões ... Sem fé, não temos esperança, e sem
esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma
idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia
para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta”.
Melancolicamente também constato que a esperança igualmente anda trôpega entre os cristãos.
Percebo que nos contentamos em repetir dominicalmente nossos cultos. Sujeitamo-nos à ladainha
enfadonha de orações prontas, paliativos espirituais em um mundo inclemente. Acomodamo-nos
silenciosamente em viver contentes por simplesmente existirmos.
Mas algo dentro de mim se revolta. Quero sonhar, não estou contente em viver, por viver, preciso
navegar rumo ao “grande Porto”. Não aceito que a “roda viva” carregue irremediavelmente o
“destino pra lá”. Não aceito viver na fronteira da complacência e do comodismo. Quando Chico
Buarque compôs “Roda Viva” em 1967, expressou o clamor de minha geração: “A gente vai contra
a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que se sente / O quanto deixou de
cumprir”.
Partilho do sentimento de Vaclav Havel, o dramaturgo tcheco: “Esperança não é lutar porque vai
dar certo, mas porque vale a pena”. Tenho esperança, sem saber bem e ao certo como será o
amanhã, mas que vale a pena lutar por ele. Aguardo, sem qualquer prova, um porvir melhor,
menos kafkiano. Acredito na graça comum, distribuída sem acepção, que nos habilita construir um
mundo justo e verdadeiro. O Evangelho é boa nova, contradiz a entropia física e nos convoca
a lutar mesmo que nunca contemplemos qualquer resultado prático.
Decidi que não preciso estoicamente esperar um futuro sombrio. Não me acomodarei à profecia
de mau agouro do Fukuiama. Renovarei, nesse próximo ano, meus ímpetos juvenis e não aceito
que estejamos preparando uma “Gotham City” para os nossos filhos.
Ambiciono encarnar o que Ghandi propôs: “Quero ser no mundo, aquilo que quero ver no mundo”.
Se quiser ver no mundo idéias valerem mais que conveniências, abraçarei minhas convicções com
tanta paixão que renasçam coerências e coragem, paixão e compaixão, ação e ternura. Quero
entregar-me de tal forma aos ideais do Reino que, sem heroísmos quixotescos ou messianismos
inconseqüentes, possa deixar um mundo melhor para a próxima geração.
Escreverei mais e com a convicção de que posso iluminar com minhas palavras. Certo escritor
conta que, quando menino, presenciou uma operação cirúrgica improvisada em sua cidade
pequena, no meio da noite, sobre a mesa de uma farmácia. Era preciso suturar um homem
retalhado, vítima de uma chacina. Operá-lo sem anestesia. E ele, o menino, o futuro escritor, ficou
com a incumbência de segurar o lampião. Tremendo. Assustado. Não podia fazer nada. Mas
iluminava a cena...
Lutarei por ideais, abraçarei causas, romperei com as minhas zonas de conforto. Farei de meu
discurso religioso uma arma que apunhale a mediocridade, desmonte estruturas sociais perversas
e que seja sempre uma contradição ao espírito desta época.
Acreditarei na força da Igreja. Não a institucional, mas naquela que, inaugurada no Pentecostes,
saiu a salgar e a encarnar o Reino de Deus entre as pessoas. Trabalharei para que o corpo de
Cristo não infantilize ou aliene, mas produza o “novo homem” que pode gerar sociedades
solidárias, economias justas e um mundo sem tanto ódio.
Desejo dar-me às pessoas, cultivar amizades. Acreditar que as fagulhas da bondade de Deus na
humanidade ainda prevalecem diante das trevas. Quero aprender a ingenuidade e desaprender a
esperteza. Aumentar minha paciência e diminuir minha aspereza.
Plagiarei sem remorsos as palavras de Jeremias para “trazer à memória o que me pode dar
esperança” – Lm 3.21. Até que “se levante o Sol da Justiça, trazendo salvação em suas asas”. – Ml
4.2. Maranata!
Soli Deo Gloria
Resgatando a brasilidade da nossa fé
Ricardo Gondim Rodrigues
Sempre achei curioso o fato de o código de acesso telefônico para os Estados Unidos ser 01 e o do
Brasil, um longínquo 55. É que, na nova ordem globalizada, eles são a matriz. Merecem o primeiro
lugar até na discagem direta internacional. Já o nosso número pode significar simbolicamente a
distância com que o império nos enxerga.
Os americanos são verdadeiramente a nova matriz do mundo. Possuem um poder militar
amedrontador, que policia os mares, as montanhas e florestas do planeta. Sua moeda é o
referencial financeiro dos mercados. Investem mais dinheiro na ONU que qualquer outro país e
assim podem vetar ou aprovar moções da comunidade internacional. Publicam mais livros, lideram
em investimentos em pesquisa tecnológica e assim possuem o maior número de cientistas
detentores do Prêmio Nobel. Quando queremos nos divertir, assistimos aos filmes que eles
produzem. Quando os países pobres enfrentam apuros financeiros correm para Nova York pedindo
um novo empréstimo. Os americanos são tão poderosos que conhecem pouco o que acontece em
outros países. Eles se bastam. Por isso é que muitos continuam achando que Buenos Aires é a
capital do Brasil e que as cobras ainda passeiam por nossas cidades.
Os brasileiros idolatram a América. Avaliamo-nos, cabisbaixos, como um povinho medíocre
destinado a ser vassalo de uma grande potência. Preferimos suas músicas, embora não
entendamos a letra. Não valorizamos devidamente nossa arte, cultura e história. Milhares já
emigraram para lá. Aceitam lavar pratos e chão de cozinha por dólares tão escassos por aqui.
Achamos que os parques de diversão americanos são mais interessantes que nossas praias de
areia branca com sol quente e água morna.
Recentemente visitei uma famosa faculdade bíblica nos Estados Unidos. Gastei algumas horas na
sua livraria. Maravilhei-me com a quantidade de títulos publicados, encantei-me com a
profundidade teológica e a seriedade com que os diversos temas são abordados. Porém,
entristeci-me ao constatar que não havia nada, em nenhuma prateleira, de autores latinoamericanos. Brasileiros então, nem se fala! Lá na sede do império não se sabe quase nada sobre
os evangélicos latino-americanos, a não ser rumores de que um grande avivamento ocorre por
aqui. Estamos tão distantes da cultura americana como está o Conde Zinzendorf e sua misteriosa
Morávia da realidade atual. Indignei-me quando li o famoso Este Mundo Tenebroso, de Frank
Perreti. A trama do livro é a batalha espiritual que acontece em uma cidadezinha americana do
interior que seria dominada por uma seita da Nova Era. No último capítulo, os demônios são
finalmente vencidos e expulsos. Para onde eles vão? Para o Rio de Janeiro!
Nessa última visita aos Estados Unidos, preocupei-me em assistir aos programas dos
televangelistas, conversar com os evangélicos sobre política e ouvir o conteúdo das pregações.
Espantei-me ao perceber como os programas (principalmente os carismáticos) procuram imitar as
grandes produções hollywoodianas. Os pastores se produzem com gel no cabelo e vestem ternos
caríssimos. Suas esposas, carregadas de maquiagem, parecem personagens de outro planeta.
Algo destoa quando falam do Jesus de Nazaré, que foi simples e viveu uma vida singela. O
conteúdo dos sermões tem duas polegadas de espessura. As megaigrejas são construções
suntuosíssimas, com luminárias de cristal, tapetes maravilhosos e assentos confortabilíssimos.
Financiadas com empréstimos a juros baixos, erguem-se à beira das auto-estradas como símbolos
da parceria de mamom e Jeová, que a cultura americana promove tão bem.
Os evangélicos americanos gostam muito do Partido Republicano. Veneram o seu presidente e
acreditam que a sorte de seu país está ligada à obrigatoriedade da prece nas escolas, à proibição
do aborto e à denúncia do homossexualismo. Não lhes interessa muito a emissão de gás carbônico
na atmosfera (a maior do mundo), o descaso com a epidemia de aids na África e a desigualdade
nas suas relações comerciais com os países miseráveis do planeta. Nenhuma denúncia é ouvida
dos púlpitos americanos quando sobretaxam as importações e subsidiam a sua agricultura, falindo
a economia primária das nações pobres. O american way of life (estilo de vida americano) e o
evangelho são irmãos siameses. Quase impossível de se separarem!
A igreja evangélica brasileira repete o mesmo comportamento do restante de nossa nação.
Também nos vemos com autodesprezo. A grande maioria dos nossos livros é tradução dos bestsellers americanos (alguns rasos e descontextualizados). Traduzimos suas músicas e nos
maravilhamos com o poder espiritual de seus evangelistas. Convidamos pastores americanos para
ministrar em nossos congressos sobre espiritualidade porque os consideramos mais íntimos de
Deus. Eles nos ensinam métodos de crescimento da igreja e alguns chegam por aqui com
pretensa autoridade apostólica, soprando sobre os auditórios para que as pessoas caiam.
Balançam o paletó acreditando que uma onda espiritual sacudirá o povo. A ironia disso tudo é que
aqueles que nos ensinam sobre espiritualidade vêm de subúrbios limpos, moram em casas
calafetadas no inverno e refrigeradas no verão. Nunca presenciaram uma cena de violência
urbana, jamais foram assaltados. Não gastam mais que 15 minutos no trânsito e convivem com
uma congregação com renda per capita de mais de 50 mil dólares por ano. Só porque
conseguiram aumentar sua congregação para mais de 2 mil membros, vêem-se habilitados a nos
ensinar como fazer uma evangelização explosiva. Porque são habilidosos em manipular um
auditório entorpecido pela euforia religiosa, acham que podem nos ensinar uma “nova unção” que
derruba as pessoas no chão.
Eu gostaria de ser mentoreado sobre espiritualidade por um pastor que ora, lê as Escrituras e
medita nelas, a partir da periferia das grandes cidades do Brasil, verdadeiras zonas de guerra.
Porque sou brasileiro, quero ouvir mais dos pastores que cuidam de congregações lotadas de
gente desempregada e aflita com a instabilidade da economia. Porque também convivo com a
dura realidade da violência, quero aprender a aconselhar com pessoas que sabem o que é cuidar
de gente que já testemunhou chacinas ou que já foi assaltada à mão armada.
Prefiro conversar com um desses plantadores de igrejas anônimos que já construíram várias
pequenas igrejas sem recursos a ouvir de teóricos sobre o método gerencial mais eficaz que faz
uma igreja crescer numericamente, mas que nunca plantaram, eles mesmos, uma igreja sequer.
Apesar de sermos ainda muito imaturos e vulneráveis a tantos modismos, o jeito brasileiro de
viver a fé é fantástico. O fervor com que se louva a Deus, por aqui, é contagiante. As diversas
expressões missionárias, mesmo ainda meio indisciplinadas e anárquicas, mostram-se bastante
frutíferas. Haja vista, o pipocar contínuo de igrejas que se estabelecem nas redondezas pobres
das grandes cidades. Sobejam exemplos de missões que alcançam prostitutas e travestis, e que
ninguém valoriza devidamente. Os galpões velhos, os cinemas abandonados, lugares outrora
esquecidos que viraram templos, são espaços simbólicos da incursão evangélica em setores
esquecidos da sociedade.
O Brasil evangélico é um contraponto à complacência cristã do Primeiro Mundo. A nossa taxa de
crescimento é uma das maiores de todo o mundo. Nosso zelo missionário, invejável. A mobilização
da igreja impressiona quem se interessa em estudá-la. Vencemos preconceitos denominacionais
em larga escala e pastores de diferentes tradições convivem sem maiores problemas. A
instabilidade econômica nos forçou a aprender a sobreviver dos dízimos e ofertas semanais. Não
somos uma igreja endividada. Artesanalmente montamos nossos corais. Artesanalmente
estabelecemos centros comunitários em zonas carentes. E artesanalmente tentamos cumprir a
missão integral.
O problema é que, ao reproduzimos na igreja evangélica a mesma baixa auto-estima nacional,
não conseguimos ter mais teólogos com intrepidez de publicar suas reflexões e idéias, mais
pastores que escrevam sobre suas experiências em suas comunidades, mais poetas e escritores
que nos brindem com suas meditações e ficções.
Com tanta riqueza ao nosso redor, sugiro procurarmos não nos embasbacar olhando para a
“matriz” e desejando ser iguais a ela. Resgatemos nossa identidade cristã nacional e façamos de
nossa brasilidade um motivo de orgulho. Desvencilhemo-nos da dependência dos modelos
importados, que podem ter relevância lá, mas que dizem tão pouco para o que vivemos aqui.
Mãos à obra, pastores, seminaristas, cantores, missionários, evangelistas, escritores, poetas e
professores brasileiros. Temos muito que fazer!
Soli Deo Gloria
Carta ao meu Pastor
Ricardo Gondim Rodrigues
Querido Pastor,
Há muito queria escrever-lhe. Confesso que senti-me intimidado por temer que você – vou
chamar-lhe de você – não entendesse minha motivação ao redigir esta carta. Escrevo por amor e
com um grande cuidado por sua vida e seu futuro.
Venho percebendo que você anda tenso. Entendo o seu estresse. Ser pastor nesses dias não é
fácil. Sua atividade vem sendo duramente criticada pelos formadores de opinião. Nota-se uma
antipatia nacional para com os pastores. Ontem, 28 de março de 2000, lendo a Folha de São
Paulo, imaginei como você deve ter se sentido quando o Arnaldo Jabor, escrevendo sobre a
miséria, atacou duramente as igrejas evangélicas: “Quanto faturam as igrejas evangélicas com a
miséria, quanto milhões de dízimos pingam nos bolsos daqueles oportunistas de terno e gravata
que não acreditam em Deus?”
Sei que é perturbador ser rotulado como oportunista. O grande público mal sabe que a grande
maioria dos pastores ganha salários baixos e, como todos os brasileiros, sobrevive heroicamente
numa economia perversa. Às vezes, gostaria de sair em sua defesa. Mostrar que o segmento
evangélico mais visível na televisão faz muito alarde, mas não representa o pulsar da igreja como
um todo. Embora muitos não acreditem, é preciso deixar claro que ainda há pastores que não
fazem conchavos políticos ordinários. Seus ministérios não estão à venda. Para a enorme maioria
de homens e mulheres como você, a causa de Cristo é mais preciosa que projetos pessoais.
Entretanto, não sairei publicamente para defender-lhe. Jesus Cristo afirmou que a sabedoria é
justificada por todos os seus filhos (Lc 7.35). Sua vida basta como testemunho. Continue na
estrada menos trilhada.
Recordo-me daquela experiência que você nos relatou publicamente. Você estava em um mega
evento evangélico. Inquieto com a luta de outros pastores para se sentarem nos primeiros
lugares; percebendo que a maior parte do culto fora dedicado à promoção de cantores
evangélicos; sabendo que grande parte do auditório sairia dali sem qualquer mudança de vida;
revoltado por reconhecer que estruturas sociais perversas deste país permaneceriam intocadas,
você orou: “Deus, quero andar ao lado de gente que te leva a sério.” Deus sempre responde
preces como essa. Continue caminhando ao lado de líderes que não negociam a ética pelo
sucesso, não trocam conteúdos por jargões, não tentam imitar as ações sobrenaturais do Espírito.
Há alguns domingos, você parecia ansioso. Muitas vezes, nossa ansiedade nasce de comparação.
Queremos, inconscientemente o sucesso, a projeção, a respeitabilidade dos outros. Isso, não
acontece somente com os pastores. Empresários, profissionais liberais, atletas, artistas também
caem na armadilha do sucesso. Tentam galgar uma escada imaginária que lhes levará ao triunfo.
Só para descobrirem que encostaram sua escada na parede errada. Nesta corrida perversa não
existem vencedores. Recordo-me de uma citação de Joseph Addison mencionada no livro “Sete
Hábitos Das Pessoas Muito Eficazes (Stephen R. Covey):
“Quando olho para as tumbas dos grandes homens, qualquer resquício de sentimento de inveja
morre dentro de mim; quando leio os epitáfios dos magníficos, todos os desejos desordenados
desaparecem; quando me deparo com o sofrimento dos pais em um túmulo, meu coração se
desmancha de compaixão; quando vejo a tumba dos próprios pais, lembro do quanto é vão
chorarmos por aqueles a que logo seguiremos; quando vejo reis colocados ao lado daqueles que
os depuseram, quando medito sobre os espíritos antagônicos enterrados lado a lado, ou os
homens sagrados que dividiram o mundo com suas discussões e contendas, medito cheio de dor e
surpresa, sobre a pequenez das disputas, facções e debates da humanidade. Quando leio as
variadas datas dos túmulos, algumas recentes, outras de seiscentos anos atrás, penso no grande
Dia, no qual seremos todos contemporâneos, e faremos nossa aparição conjunta.”
Pastor, a sedução pelo aplauso é vã. A disputa por respeitabilidade, inútil. O desejo de ter um
nome se aproxima da mentalidade dos construtores de Babel. Na proposta de Jesus Cristo há
discrição. O sucesso cobra um preço muito alto. Ele mirra nossa alma.
Não se afadigue para ser bem sucedido. Deus não busca desempenho, apenas fidelidade. Ele
jamais lhe comparará a ninguém. Seja tão somente fiel ao que lhe foi confiado. Jesus alicerçou
sua identidade na frase que ouviu antes de iniciar seu ministério: “Este é meu filho amado em
quem me comprazo”. Faça o mesmo. Tome consciência de que é agradável a Deus. Só assim você
não se deixará afetar por elogios ou desprezos. Ás vezes, preocupo-me que você esteja querendo
impressionar outros pastores. Não é preciso. Por causa de Jesus, sabemos que Deus já está
satisfeito conosco.
Semana passada vi-lhe no culto sem paletó e sem gravata. Ninguém se chocou. Pelo contrário,
sentimo-nos mais próximos. Incrível, como nesses pequenos detalhes haja tanto significado.
Gosto de lhe enxergar humano. Recordo-me com detalhes todas as vezes que você, sem temor,
deixou-nos conhecer suas fraquezas. Ajudou-me a perceber que não luto sozinho contra a carne,
o mundo e o diabo. Senti-me fortalecido em saber que somos parceiros de caminhada. Na
verdade, eu andava cansado dos pastores que tentam projetar em suas congregações, uma
imagem de super homens. Tenho pena dos evangelistas, que sem perceberem o ridículo,
enxergam-se como semideuses. Será que não notam como é vaidosa essa moda dos pastores se
darem títulos e, a si mesmos se promoverem? Esqueceram que o discípulo não pode ser maior
que o mestre? Apagaram da lembrança o dia em que a mãe de Tiago e João procurou um lugar de
destaque para seus filhos? Diante de seu pedido afirmou: “Sabeis que os governadores dos povos
os dominam e que os maiorais exercem autoridades sobre eles. Não é assim entre vós; pelo
contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o
primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido,
mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20.20-28). Dispense os títulos, esteja
sempre perto de nós, sua congregação. Aqui você será sempre amado sem precisar de máscara.
Quero, por último, agradecer por seus sermões. Ouço ao rádio e assisto televisão com
regularidade. Sei que não devo, mas faço minhas comparações. Acredito que há uma crise muito
grande nos púlpitos evangélicos. Poucos se atrevem a pregar expositivamente as escrituras. Na
proliferação dos sermões tópicos percebe-se a falta de zelo. Reparei ultimamente, que a maioria
dos sermões rodopia no que Deus pode fazer pelas pessoas. Parece que muitos pastores
perderam a noção da grandeza e majestade de Deus. Apresentam-no como mero cumpridor dos
caprichos humanos. Muito obrigado, pelo seu esmero em nos dar todo o conselho de Deus. Seus
sermões podem destoar. Mas, continue exaltando a Cristo. Ele atrairá as pessoas a si mesmo. Não
caia na tentação de adocicar sua mensagem, tornando o evangelho apenas uma versão simplória
da neurolingüística. A mensagem da cruz pode estar fora de moda, mas ainda é o poder de Deus
salvar todo o que crê.
Você tem honrado o conselho que Paulo deu a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja
oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá
tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as
suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos e se recusarão a dar ouvidos à
verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições,
faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2Tm 4.2-5).
Daqui a cem anos escreverão a história de nossa geração. Nossa comunidade não alcançou a
notoriedade de algumas igrejas mais famosas. Mas a vontade de Deus é que demos fruto e que
nosso fruto permaneça. Não se preocupe. Caminhe de tal forma que você possa dizer no final de
sua jornada: Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7). A história
dirá o resto.
Conte comigo sempre,
Uma ovelha de seu rebanho
Um novo modismo evangélico
Ricardo Gondim Rodrigues
Eu estava no culto em que um pastor alardeou que obturações de ouro seriam dadas por Deus.
Em instantes, as pessoas passaram a examinar umas às outras e pasmas, choravam afirmando
que muitos dentes estavam divinamente restaurados. Presenciei um evangelista norte americano
soprando – pretensamente como Jesus fez em seu ministério – e pessoas sendo jogadas no chão.
Assustei-me com a trivialidade com que alguns pastores relataram seus encontros com anjos.
Estupefato ouvi um novo modo de orar entre os evangélicos; as preces, agora vinham
entrecortadas com ordens, exorcizando demônios. Inquietei-me com uma geração de evangélicos
amedrontados com maldições e pragas. Imperativos que “amarravam” demônios me deixaram
desassossegado.
A igreja evangélica brasileira é muito frágil teologicamente. Por isso sofre com os mais diversos
modismos. Lembro-me que, em um congresso para líderes, fui desafiado a falar sobre qual seria a
próxima moda que varreria a igreja nacional. Recordo-me que precedi minha palestra afirmando
que primeiramente, seria necessário entender que as forças do mercado agem com muita força na
elaboração teológica. Qualquer movimento vindo do exterior e que tenha sido bem sucedido lá,
será copiado. As lideranças evangélicas querem achar o método que alavancará suas
comunidades. Se uma determinado estratégia mostra-se eficaz no exterior, aqui dificilmente se
questionará a teologia que a alicerça. Segundo, o brasileiro é culturalmente místico. Tendemos
aceitar acriticamente propostas teológicas que promovam experiências sobrenaturais. O brasileiro
fascina-se pelo mistério e pela magia. Afirmei naquela palestra também, que, como o mundo pósmoderno, a igreja busca estratégias de resultado imediato.
Acredito que os modismo não podem ser detectados com antecedência. Mas qualquer que seja a
próxima onda, a igreja precisa estabelecer alguns princípios. Eles ajudarão que se embarque em
novidades sem discernimento crítico.
A teologia da Cruz.
Paulo escreveu a sua epístola aos Gálatas, preocupado que houvesse acréscimos à cruz. Os
fariseus convertidos queriam que, além da doutrina da redenção, se acrescentassem alguns
preceitos essenciais ao judaísmo, como a circuncisão. Sua carta procurava enaltecer a total
suficiência do sacrifício de Cristo. Ele acreditava que qualquer acréscimo à expiação de Cristo não
apenas enfraquecia as bases do Cristianismo, como anulava-as. ”Eu, porém, irmãos, se ainda
prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo está desfeito o escândalo da cruz”–
Gálatas 5.11.
Não seriam os movimentos de “Cura Interior” que se alastram nas igrejas evangélicas um
enfraquecimento da doutrina do novo nascimento? Recebi de um leitor do Ultimato um formulário
com quatorze páginas de um seminário de cura interior ministrado em várias igrejas pelo Brasil. O
seminário é para cristãos que ainda carregam seqüelas do passado de pecado. A pessoa passa por
uma longa sabatina, revolvendo toda a sua vida e procurando encontrar aberturas espirituais no
passado que tragam maldições no presente. Buscam ser exaustivos e chegam às raias da
paranóia. Indagam se a pessoa comeu cocada no dia em que se celebra Cosme e Damião, se os
seus pais ou avós freqüentaram reuniões de cultos afro brasileiros. Querem saber se a pessoa
sonha freqüentemente com “negros” em um flagrante preconceito que fere, inclusive a
Constituição. Há encontros em que se praticam regressões até a vida intra uterina. Pede-se à
pessoa que visualize o esperma do pai encontrando-se com o óvulo da mãe e que detecte sinais
de maldição que tenha desdobramentos em sua vida presente. Mesmo aceitando que haja escolas
da psicologia que advoguem a regressão como técnica terapêutica. Ela é inaceitável como prática
espiritual. Não há como negar que uma pessoa convertida ainda pode carregar seqüelas
emocionais, traumas psicológicos e até desequilíbrios psíquicos. Entretanto, é inadmissível que um
cristão nascido de novo ainda necessite “quebrar” maldições de sua vida passada. A Bíblia contém
inúmeros textos afirmando o contrário: “Não vos lembreis das cousas passadas, nem considereis
as antigas...Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e de teus
pecados não me lembro”- Isaías 43.18,25. “Pois perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus
pecados jamais me lembrarei”- Jeremias 31.34. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente
sereis livres”- João 8.36. “E assim, se alguém está Cristo, é nova criatura, as cousas antigas já
passaram; eis que tudo se fez novo”- 2 Coríntios 5.17. Mas uma cousa faço: esquecendo-me das
cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo,
para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”- Filipenses 3.13-14. Sessões de
cura interior são inócuas para preservar qualquer pessoa espiritualmente, danosas na gestação de
autênticos discípulos e um horror como cura psicológica. Alguém que se submeteu a uma sessão
de “Cura Interior” corre o risco de entrar em uma paranóia espiritual e descobrir que continua
sofrendo com seus traumas psicológicos, e pode facilmente se desesperar pois foi-lhe prometido
que Deus a curaria instantaneamente.
O Evangelho Antropocêntrico.
Desde a Modernidade e com o apogeu do Iluminismo, homens e mulheres subiram em um
pedestal. O mundo ocidental acredita que merecemos ser felizes e que tudo deve gravitar em
torno de nos tornar plenos. Inclusive Deus. Devido a essa visão, aprendemos um conceito
religioso egoísta. Entendemos como evangelho o anúncio de um Deus que nos faça bem. Que
esteja ao nosso dispor. Assim, nossas preces se resumem a pedir. Queremos que nosso louvor
seja agradável a nós mesmos. Compreendemos conversão como uma descoberta que nos fez mais
felizes. Hoje, muitos evangélicos aprenderam a “reivindicar” direitos e “decretar” bênçãos.
Recentemente vi um adesivo colado no vidro do carro de um crente que pedia: “Dê uma chance
para Deus.” Quem será que necessita de uma chance? Deus ou homens e mulheres que se
rebelaram contra Deus que é amoroso e bom? Estarrecido, soube que há encontros evangélicos
onde as pessoas aprendem a “liberar” perdão para Deus. É o cúmulo! Inverteram-se os papéis.
Deus agora precisa ser perdoado? Urge voltar ao anúncio do Reino em que ele é Senhor Soberano
e amorosamente estende sua graça para todos.
Atalhos.
Tanto as forças do mercado como a tecnologia pós moderna condicionam esta geração ao
imediatismo. Acredita-se que tudo pode ser resolvido no estalar de dedos. As propagandas na
televisão conseguem solucionar os problemas de limpeza de uma casa, garantem seguro médico,
prometem férias felizes, dão-nos prestígio. Tudo em 30 segundos. Buscamos também resolver
nossos dilemas espirituais em rápidos momentos de um culto. Infantilmente acreditamos que
bastam alguns momentos de êxtase espiritual para subirmos os penosos degraus da maturidade
cristã. Paulo admitiu que necessitava mais do que surtos de adrenalina espiritual: “mas esmurro o
meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a
ser desqualificado”- I Coríntios 9.27. Não há atalhos na escola de Deus. Nada substitui o
discipulado. Nenhum método suplantaria a igreja como comunidade terapêutica. Experiências com
Deus se acumulam com amargas derrotas e felizes triunfos. Dia a dia aprende-se a fidelidade de
Deus. Devemos olhar com cautela ministérios que prometem que em um simples final de semana
os imaturos serão transformados em líderes capazes. É potencialmente desastroso montar uma
estrutura eclesiástica em técnicas tão velozes.
Os modismos são sinais dos tempos. Para não sermos levados por todo vento de doutrina,
portemo-nos como os bereanos, conferindo com as escrituras todas as novidades que surgem no
cenário religioso. Acreditemos que passarão os céus e a terra, mas a sua Palavra permanecerá.
Soli Deo Gloria
A ditadura dos tolerantes
Ricardo Gondim Rodrigues
Há algum tempo recebi o convite para participar de um programa de debates, recém iniciado pela
MTV onde abordariam a questão do homossexualismo. Aceitei o convite com certa hesitação.
Minha paixão pela polêmica, porém, me impediu de dizer não. Nos bastidores, antes de ir ao ar,
percebi que seria minoria mais uma vez (embora seja pentecostal e corintiano). Sentei-me à
mesa, rodeado por um “drag queen” e uma ativa militante do movimento lésbico. Mal o programa
começou e já se percebia claramente que ele visava uma apologia do homossexualismo (ou
homossexualidade, como querem os politicamente corretos). Cada um dos mais de quinze
painelistas se revezava em defender a prática homossexual como uma questão de preferência e
não de ética. Finalmente, a apresentadora do programa perguntou minha opinião.
Pausadamente, procurando me esquivar da pecha de fundamentalista e homofóbico, expus o que
penso ser um consenso do pensamento evangélico: “Cremos em um Deus criador e preservador
de todo o universo. Ele, além de possuir pessoalidade, preocupa-se com a felicidade de toda a sua
criação. Dele provém uma lei moral que fornece os parâmetros do comportamento humano e por
ser exterior a nós, não se molda às nossas preferências.” “De acordo com essa lei moral,”
continuei com o mesmo tom de voz, “nós evangélicos, entendemos o homossexualismo como um
pecado, uma perversão moral.” Bastaram essas palavras. O tempo fechou. Quase todos ao redor
da mesa falavam, cada qual subindo um pouco seu tom de voz. Alguns, quase que
descontrolados, proferiam palavrões. Sarcasticamente, confesso, perguntei: “Afinal de contas esse
espaço não é plural? Por que não posso manifestar meu ponto de vista, assim como os senhores
expõem os seus? Se vocês pregam a tolerância, porque tanta intolerância ao meu ponto de vista?”
Meu sarcasmo não deu resultado. Cada vez que tentava falar, me abafavam aos gritos.
A modernidade sempre se gabou de respeitar os diferentes. Voltaire, arauto do Iluminismo, dizia:
“Devemos tolerar-nos mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à
mutabilidade, ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura dirá ao caniço
vizinho, vergado em sentido contrário: ‘Rasteja a meu modo, miserável, ou farei um requerimento
para que te arranquem e te queimem’?” Por que mesmo anunciando o respeito à opinião do outro,
a Modernidade patrocinou a Revolução Francesa? Por que o estado marxista promoveu o expurgo
de Stalin? Por que na Alemanha, berço dos maiores filósofos e teólogos, aconteceu o Holocausto?
Se a modernidade é tão tolerante com o diferente, por que tanta intolerância?
Entendamos um pouco da Modernidade. Primeiro, ela valorizava o método. A tolerância para com
a razão, para a prova “irrefutável”, tornou-se desnecessária. Sponville afirma: “Quando a verdade
é conhecida com certeza, a tolerância não tem objeto.” Ele e todos os filósofos da modernidade
crêem que os cientistas necessitam não de tolerância, mas de liberdade. Os fatos, provenientes da
observação empírica, impõem-se. Refutá-los é negar a razão. Como a ciência não depende de
opiniões, ela não necessita de tolerância, mas de respeito. Depois, a Modernidade também é
naturalista. Só trabalha com um sistema fechado em que matéria, energia, tempo e chance são as
únicas variáveis consideradas. Portanto, verdade deve ficar contida nesses elementos. Como
filosofar, é pensar sem provas, e provar faz parte do paradigma da Modernidade, a filosofia
(também a teologia) é tolerada desde que obedeça as regras da abordagem científica e
naturalista. Nesse sistema, somente os céticos ao transcendente como Hume e Bultmann recebem
qualquer reconhecimento. O resto é descartado como irrelevante. Terceiro, a Modernidade é
universalista. Aceita que seus achados transcendem ao tempo e ao espaço. Devido a essa visão é
que a modernidade, de acordo com D. A Carlson, adotou a dialética Marxista da história, a teoria
Hegeliana do espírito universal, a visão pós-Iluminista do progresso e a teologia liberal que aceita
como factível apenas o que é julgado racional e “científico”. Aqueles que se recusarem à ditadura
da Modernidade, são imediatamente rotulados: medievais, supersticiosos, reacionários. A
tolerância da Modernidade se restringe aos limites impostos por ela; quem fugir deles percebe
rapidamente sua intransigência. Mas, voltemos ao programa da MTV.
Por que tanta intolerância à ética judeu-cristã? Por que tanto incômodo à cosmovisão religiosa? O
problema reside nos pressupostos transcendentais. O cristianismo baseia-se na revelação de uma
lei moral, outorgada por um Deus que não pode ser definido como parte de minha humanidade
(humanismo), reduzido a uma energia (naturalismo) ou mera projeção mítica (neurose freudiana).
A premissa cristã que propõe a revelação do transcendente como um valor epistemológico, bate
de frente com a modernidade. O cristão sabe que sabe por revelação. Pedro já asseverava no
primeiro século: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana;
entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20).
Na Modernidade, a verdade religiosa não é factível, é questão de opinião. Nunca ninguém está
absolutamente certo sobre os assuntos espirituais. Portanto, religião não pode participar do
debate público; deve manter-se reduzida à arena dos juízos; não é demonstrável nem refutável.
A revelação da lei moral de Deus, caso aceita, obrigaria as pessoas a obedecê-la, acabando com a
noção de preferência. A Modernidade propõe que a lei moral seja uma construção humana,
restrita à cultura e ao tempo de sua elaboração; caso aceitasse que provém de Deus,
reconheceria que todos, em todas as épocas, deveriam obedecê-la.
Sponville diz que uma ditadura imposta pela força é um despotismo; se ela se impõe pela
ideologia, um totalitarismo. O problema da Modernidade é que, mesmo sem querer, vem se
tornando cada dia mais déspota e totalitária. Não somente rechaça os valores da ética cristã,
como tenta forçar seus pressupostos como únicas opções válidas, por serem cientificamente
irrefutáveis. O homossexualismo, por exemplo, é hoje discutido como uma questão de mutação do
código genético, descartando a moral. Os militantes gays conseguiram manter o debate no nível
“científico”. Nessa esfera, basta provar uma alteração nos genes e está tudo resolvido: O
homossexual foi programado, na evolução, para agir daquele modo e não há como interferir em
suas “preferências”. Mas o pleito homossexual é pequeno diante das implicações dessa forma de
intolerância.
Carlson propõe em seu livro The Gagging of God (O Amordaçar de Deus) que experimentamos
uma nova espécie de intolerância. Em sociedades relativamente livres e abertas, a tolerância mais
nobre é aquela exercitada para com as pessoas, mesmo quando se discorda de seus pontos de
vista. “Essa robusta tolerância para com as pessoas, mesmo quando há forte desacordo às suas
idéias, gera uma medida de civilidade no debate público, mesmo quando a discussão é
apaixonada.” Para Carlson, o ocidente vive uma tolerância de idéias, não mais de pessoas.
O resultado de se adotar esse novo tipo de tolerância é que há menos discussão dos méritos de
idéias conflitantes, e menor civilidade. Há menos discussão porque a tolerância de idéias diversas,
exige que evitemos criticar as pessoas por adotarem aquelas idéias. Assim, a Modernidade vai
admitindo excentricidades, loucuras, e comportamentos bizarros. Ninguém tem o direito de dizer
nada sobre o comportamento de ninguém. Só há problema quando qualquer idéia tenta provar
sua superioridade sobre qualquer outra. Imediatamente, o mundo cai. Exclusividade é intolerável
na modernidade, principalmente no campo religioso. A palavra proselitismo (na sua concepção
técnica) virou palavrão. Cada um na sua. Desde que você não se intrometa com o meu estilo de
vida. Ninguém precisa mudar, pois todas as opções religiosas, morais, éticas, filosóficas são
válidas, não porque sejam verdadeiras, mas porque todas são igualmente questionáveis. Voltaire
dizia: “O que é tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e erros;
perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices (grifo meu), é esta a primeira lei da natureza.”
O resultado disso tudo é um mundo cada vez mais inconseqüente quanto à sua ética, cada vez
mais secularizado e cada vez mais intolerante para com a fé cristã, que continua com um discurso
exclusivista e proselitista.
Saí do programa da MTV dizendo para mim mesmo. “Incrível como os liberais são
fundamentalistas na defesa do seus posicionamentos. Intolerantes! Não aceitam, que seus pontos
de vista sejam questionados por outros que pensam diferentemente. Talvez tenham medo de
estar errados. ”
Ricardo Gondim Rodrigues
Eu, mulher
Ricardo Gondim Rodrigues
Antes, preciso apresentar-me. Há dezoito anos convertida, estou totalmente comprometida com
minha igreja local. Sou mãe de dois filhos lindíssimos, amo o meu marido e, como todas as
mulheres, vivo a tensão entre o meu lar e minhas aspirações profissionais. Trabalho como diretora
do departamento de recursos humanos de um grande hospital. Lido diariamente com enfermeiras,
médicos e cirurgiões competentíssimos, contabilistas, técnicos em informática.
Resolvi escrever sobre minhas inquietações por não entender o porquê das discriminações que
sofro na minha igreja e denominação. Sinto que a grande maioria das igrejas insiste em tentar
perenizar um preconceito contra as mulheres, mesmo depois de um século com tantas conquistas
femininas.
Espero que minhas palavras aqui sejam doces e que eu não esteja gerando ainda mais rancores e
divisões entre homens e mulheres. Acredito que algo precisa acontecer urgentemente. Sabe-se
que a maioria dos membros de qualquer igreja é feminina, concorda-se que a grande força
missionária evangélica é composta de mulheres. Todo pastor admitirá que o ministério da oração
em suas congregações é largamente impulsionado pelas irmãs. As Escolas Dominicais, o trabalho
de assistência social, visitação e a evangelização pessoal de suas comunidades depende em muito
das Martas e Marias que se desdobram em oração e muita atividade.
Não entendo o porquê, depois de tanto fruto, tanta dedicação, as igrejas insistam na antiga
interpretação bíblica de que a mulher induziu o homem a pecar e, portanto, deve manter-se
sempre em segundo plano. Também, não sei porque os homens não enxerguem que na insistência
em alijar as mulheres, prestam um desfavor ao reino de Deus. Temos tanto para contribuir. Com
certeza nossa presença não precisa ser sempre vista como uma tentação, um perigo aos homens.
O meu pastor promoveu um simposium sobre as mulheres no ministério e algumas pessoas
abandonaram nossa comunidade. Alegaram que ele havia aberto um precedente perigoso e que
na história do cristianismo, todas as vezes que mulheres foram içadas à posição de liderança,
houve apostasia. Senti-me rasgada em minha dignidade. Vi a imagem de Deus em mim
achincalhada. Mesmo com tanta dor, não quero que minha escrita aqui se transforme em um mero
desabafo, gostaria de pedir aos meus irmãos e irmãs que meditem comigo sobre a mulher, não
como um segundo plano de Deus, mas como parte de seu lindíssimo propósito eterno.
Será que precisamos insistir na tese de que a mulher foi a única culpada pela queda? Repetiremos
sempre a desculpa esfarrapada de Adão: de que a mulher o induziu ao erro? Creio que já
caminhamos o suficiente na teologia para entendermos que a nossa humanidade, tanto homens
como mulheres, é susceptível ao pecado e que nossa fraqueza precisa ser solidariamente
assumida? Parece-me que as perspectivas teológicas masculinas que dominaram o pensar por
tantos milênios colocaram sobre o personagem feminino um peso maior. Creio que o pecado,
considerado como ruptura de toda relação com Deus e com os seres humanos; tem a dimensão
da fraqueza, bem como de orgulho, pois nega a nossa responsabilidade humana e agride o
propósito de nossa criação. Insisto em afirmar que o pecado não possui gênero, não é masculino
nem feminino, mas é um desvio de nossa humanidade.
Ouço com freqüência o argumento de que o papel da mulher na igreja deve ser o da submissão e
da obediência. Cansei de ouvir que há inúmeros (?) textos em que a Bíblia ordena que as
mulheres sejam submissas. Longe de mim questionar a submissão como uma virtude cristã. O
que me inquieta é que esse mandamento se restrinja às mulheres. Será que a mansidão e a
humildade não deveriam ser virtudes almejadas por todos, sem distinção de gênero? Concordo
com Simone de Beauvoir, quando afirma que o dualismo macho/fêmea é um preconceito a ser
ultrapassado. Acredito que não há essências eternas masculinas e femininas. Creio que todos
devemos almejar um mundo em que as mulheres sejam acolhidas juntamente com os homens na
fraternidade integral. Acredito que o exemplo de Jesus deve ser imitado por todos: “Tende em vós
o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de
Deus, não julgou como usurpação ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a
forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana a si
mesmo se humilhou...” Fp 2.5-8.
Quantas vezes eu e outras irmãs de nossa comunidade fomos esquecidas nos processos de
decisão. Alegam que as mulheres são ótimas “obreiras” mas estão espiritualmente impedidas de
exercerem liderança. Argumenta-se que Jesus só escolheu homens para participarem do colégio
apostólico. Já tentaram me consolar, afirmando-me que eu devo me resignar a servir, pois no
reino de Deus maiores são os que servem e não os que mandam. Como lamento essas
abordagens. Dizem para nós que se ele só chamou homens, portanto, as mulheres precisam
entender o princípio de que os do sexo masculino devem exercitar liderança. Mas, como leiga,
pergunto: Ele também não chamou só judeus para serem do seu colégio apostólico? Os pastores e
líderes cristãos usurpam o ministério, por serem incircuncisos? Lógico que não. Acredito que o
texto de I Pedro 2.4-5 e 9, precisa ser lido sem que se leve em conta macho ou fêmea, judeu ou
grego:
“Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus
eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual
para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por
intermédio de Jesus Cristo...Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de
propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das
trevas para a sua maravilhosa luz.”
Quando nos ensinam que maior é o que serve e não o que manda, também questiono: Por que os
homens não dão o exemplo então, abrindo mão do poder para que as que mulheres que sempre
serviram experimentem liderar, mesmo que sem grandes galardões?
Escuto também a tese de que Deus escolheu vir ao mundo como homem e não como mulher.
Nessa argumentação, entendo que há uma sugestão muito sutil de que ele seria menor se optasse
ser mulher. Anne Carr escreveu sobre A Mulher na Igreja (Editora Temas e Debates) e cita June
O’Connor, sua afirmação precisa ser ouvida por nós:
“Homens e mulheres são igualmente feitos à imagem e semelhança de Deus, são chamados à
responsabilidade e à salvação em Cristo, são um em Cristo (como gregos e judeus, escravos e
senhores), nisso não há nenhuma significação teológica definitiva ao caráter masculino de Jesus.
A sua identidade masculina é considerada como um traço de sua pessoa, e não como uma
condição necessária à encarnação. Embora a masculinidade de Jesus não tenha nenhuma
significação teológica intrínseca, tem de fato, segundo a opinião geral, “uma significação social
simbólica”. Porque Jesus sapa as estruturas predominantes das relações humanas e dos
fundamentos sobre os quais assenta a sociedade de sua época, saber: a família patriarcal grecoromana do século I, que favorece o homem.”
Acredito que não diminuiríamos nossos conceitos a respeito de nosso Senhor se resgatássemos
algumas metáforas bem femininas. Ele não tem receios de dizer que como uma galinha busca
ajuntar seus pintinhos assim ele buscou a Jerusalém (Mt 23.37). Não se envergonha de comparar
Deus a uma mulher que varre a casa para encontrar sua moeda – Lc 15.8-10. Não se sente menor
quando diz que o reino de Deus é como o fermento que uma mulher tomou e escondeu em três
medidas de farinha, até tudo ficar levedado – Mt 13.33. Em sociedades patriarcais referir-se a
Deus sempre como Ele, coloca a teologia em sintonia cultural, mas não define ou sequer delimita
nossa compreensão da essência espiritual de Deus que não pode ser identificada como macho,
sequer fêmea.
Alguns rechaçam o clamor feminino. Acreditam que estamos reivindicando dominar sobre os
homens. Não queremos ser cabeça, não desejamos controlar. Pelo contrário, desejamos que não
haja domínio de ninguém senão o do Senhor sobre todos. Queremos apenas que o clamor de
Paulo em Gálatas 3.27-28 ressoe sem preconceitos nas mais diversas igrejas: Pois todos os que
fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há escravo
nem homem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo.”
Acredito que um dia as igrejas deixarão de ser o último reduto onde as mulheres ainda sofrem
preconceitos. Assim como eu, elas já exercem cargos na liderança de estados, municípios; estão à
frente de grande empresas; julgam nos tribunais e até reinam sobre alguns países. Neste dia,
estaremos mais próximos de sermos a igreja que ele sonhou. Por enquanto, sonhemos juntos.
Soli Deo Gloria
Medo dos escândalos
Ricardo Gondim Rodrigues
Morro de medo a cada escândalo que sacode o Brasil. Ao saber das notícias vou logo indagando: –
Meu Deus, será que há algum evangélico envolvido? A lista de escândalos é antiga e grande.
Suficiente para incontáveis sobressaltos. Desde a última Constituinte, quando diversos
parlamentares evangélicos abertamente negociaram seus votos em troca de benefícios, começou
nosso enrubescimento. Na votação dos cinco anos para estender o mandato do então presidente,
outros foram seduzidos por concessões de rádio. O seqüestro a filha do Silvio Santos veio com
uma intrigante coincidência: tanto a seqüestrada como seqüestrador eram evangélicos. Ele
desviado e ela membro ativa de uma comunidade. Recordo-me do meu constrangimento quando
assisti o principal telejornal do país mostrar cenas de um pastor pedindo maldição de Deus sobre
um técnico de futebol que estaria maltratando um jogador evangélico. Como tem sido perturbador
saber que há evangélicos envolvidos com planos de saúde falsos, consórcios fajutos para compra
de casas e carros. Mudei do rubor para a palidez com a denúncia de uma escola de teologia
prometendo diplomas sem que houvesse aprovação do Ministério da Educação e Cultura. O Brasil
é tão pródigo em casos feios, que freqüentemente me encontro tenso imaginando qual é o
próximo evangélico sendo investigado.
Entendo que os evangélicos, com mais presença na sociedade aparecerão mais na mídia, com
exemplos bons e ruins. Os escândalos em si constrangem, mas não surpreendem, pois o próprio
Jesus afirmou que é mister o surgimento deles. A história do cristianismo não é só marcada com o
sangue dos mártires, mas também com testemunhos trágicos de corrupção e maldade. O que
mais causa espanto é que os próprios evangélicos não se antecipem nessas denúncias.
Falta-nos um jornalismo investigativo. Não possuímos bons meios de comunicação que denunciem
profeticamente os males que nascem da própria comunidade evangélica.
Quando Adolf Hitler subiu ao poder alavancado por um partido truculento, o diário de Munique
mobilizou uma equipe de jornalistas destemidos e denunciou os atos violentos e arbitrários dos
nazistas. Quando o regime militar se instalou no Brasil, alguns jornais, entre eles a Folha de São
Paulo, tentavam incansavelmente burlar a censura para denunciar o autoritarismo do regime.
Quando Richard Nixon tentou esconder o escândalo da invasão do partido democrata no edifício do
Watergate, Bob Woodward e o Washington Post não lhe davam tréguas mostrando as entranhas
apodrecidas do poder executivo norte-americano. Quando Fernando Collor e seus asseclas
quiseram fazer da presidência da república uma organização mafiosa, as revistas Isto É e Veja se
revezavam com furos de reportagem capitaneando um furor unânime: eles romperam as
fronteiras éticas mais flexíveis da política brasileira. Israel tentou impedir os jornalistas e
repórteres das principais agências de notícias de cobrirem os eventos da recente guerra, pois
temiam serem expostos em sua sanha de destruir o povo palestino, invadindo cidades e matando
civis indiscriminadamente.
A liberdade de imprensa e principalmente o jornalismo investigativo funcionam como uma espécie
de corregedoria do grande público. Quando remexem os porões e os bastidores sujos, geram
medo nos desonestos e dão ao público a sensação de que os valores éticos serão obedecidos.
Toda e qualquer sociedade necessita de veículos que fiscalizem as suas ações e que seja livre para
publicar e expor o que acontece de internamente. A liberdade de imprensa é um dos pressupostos
mais sagrados da democracia.
Infelizmente, a imprensa evangélica não conseguiu ainda produzir um jornalismo isento,
independente e sério. Publicam-se boas revistas de cunho inspirativo e reflexivo (a Ultimato, por
exemplo). Escrevem-se boletins teológicos também com boa densidade. Já circulam, inclusive,
periódicos semanais com notícias, receitas de bolo, moda, e até fofoca dos crentes. Mas faltamnos jornalistas proféticos e pior, falta espaço para eles se expressarem.
A igreja, como toda instituição social, necessita ser fiscalizada, cobrada e investigada.
Lamentavelmente os evangélicos convivem com um espírito corporativista imenso. Acredita-se
que denunciar um irmão é um crime hediondo. Tememos citar nomes. Quando a teologia da
prosperidade começou a se enraizar no Brasil, publicou-se um livro que citava, já na capa, os
responsáveis por essas aberrações doutrinárias. O autor sofreu ostracismo e a editora, duríssimas
críticas. Entretanto, a Bíblia contém vários exemplos de pessoas expostas quando cometeram
erros morais ou doutrinários. Paulo não hesitou em chamar a atenção de Pedro quando se
mostrou incoerente em seu comportamento diante dos Fariseus e dos gentios – Gálatas 2. 11.
Também afirmou que a linguagem de Himeneu e Fileto corroía como um câncer, pois pregavam
que a ressurreição já se realizou – 2Tm 2.17; expôs a Demas que tendo amado o presente século,
o abandonara – 2Tm 4.10; e não temeu revelar o nome de Alexandre, o latoeiro, que lhe causara
muitos males – 2Tm 4.14.
Há uma idéia errada que os erros da igreja não podem ser publicados sob o risco de perder o
testemunho na sociedade. Mas o que é mal feito acaba sendo conhecido de qualquer maneira.
Cristo prometeu que tudo o que estiver escondido será alardeado de cima dos telhados. Deus
então levanta os profetas seculares e a igreja perde a oportunidade de mostrar sua intolerância
com o pecado.
Será que nunca teremos nenhum meio de comunicação com coragem de se antecipar aos grandes
escândalos que vez por outra nascem na igreja evangélica? Criemos estruturas em nossas igrejas,
denominações e, principalmente nos seminários, para que Deus levante jovens jornalistas.
Carecemos de vozes com coragem de expor o maquiavelismo que usa de fins legítimos para
justificar meios indignos. Precisamos urgentemente de bons escritores que relatem como
acontecem os conchavos entre políticos inescrupulosos e pastores iludidos pela adulação dos
poderosos. Somente com um jornalismo independente e sem patrulhamentos ideológicos
saberemos o que acontece nas tesourarias eclesiásticas e nos procedimentos contábeis das
grandes denominações.
As pedras clamarão se o juízo não começar na casa de Deus. Mas aí será tarde demais. O ímpio
escarnecerá e todos padecerão sob a mesma suspeita.
Padre Antônio Vieira dizia que a cegueira do juízo e do amor-próprio é muito maior do que a
cegueira dos olhos. “A cegueira dos olhos faz que não vejamos as cousas; a cegueira do amorpróprio faz que as vejamos diferentes do que são, que é muito maior cegueira”. O enorme
crescimento evangélico brasileiro gera um clima ufanista, porém um bom jornalismo poderia curar
esse mal.
Se não curar, pelo menos teremos menos sobressaltos quando lermos o jornal de amanhã.
Soli Deo Gloria
A falta que fazem os profetas
Ricardo Gondim Rodrigues
Confesso que não gostava de ler os profetas da Bíblia. Sempre os considerei rígidos demais,
exageradamente metafóricos e confusos. Em meus primeiros anos como cristão, não sabia situálos historicamente. Lê-los, me entediava.
Minha primeira simpatia pelos profetas veio quando fui desafiado ver o coração paterno de Deus
nas páginas do Antigo Testamento. Reli a Bíblia toda. Recordo-me do impacto quando percebi,
pela primeira vez, que a saga bíblica resume-se em mostrar um pai em busca de seus filhos.
Entendi a profundidade da interpretação que os antigos rabinos de Israel davam ao dilúvio. Depois
de insistir cento e vinte anos com os seus filhos, Deus viu a dureza de seus corações, chorou por
quarenta dias e quarenta noites e suas lágrimas cobriram a terra. Aprendi sobre a paciência e
longanimidade divina em tolerar momentos históricos perversos. Consegui, finalmente, estudar os
profetas sem considerá-los grosseiros.
Mas, apaixonei-me mesmo pelos escritos dos profetas quando li Abraham J. Heschel, rabino que
tornou-se unanimidade por sua abordagem sobre o coração amoroso de Deus em meio a um
judaísmo inclemente. Seu livro, The Prophets é um libelo da literatura judaica.
Heschel introduz-nos aos profetas mostrando que eles não foram meros microfones que
amplificavam e decodificavam o falar de Deus, mas gente com uma cultura, temperamento e
individualidade. A tarefa do profeta não se resumia em transmitir o ponto de vista divino. Ele era
o referencial do povo. O profeta em Israel não vaticinava apenas. Ele era também poeta,
pregador, patriota, crítico social. Iniciavam suas profecias com juízo mas sempre concluíam com
esperança e redenção.
O profeta não repetia jargões, não perpetuava o que já fora dito, mas pensava fora dos
paradigmas. Não era convencional. A mágica de suas palavras vinha de sua intuição, de seu
inconformismo e da largura de seus anseios. Inúmeras vezes a linguagem do profeta foi
hiperbólica. O exagero era uma maneira de mostrar sua angústia, seu desespero de não se
acovardar diante do iminente fracasso nacional.
Meu apetite em ler os profetas fez nascer em mim o desejo de vê-los entre nós. Entendo que o
ministério profético com autoridade canônica foi até João Batista (Mt 11.13). Sei também que o
dom carismático da profecia (I Co 12) resume-se à função tríplice que Paulo nos deu em I
Coríntios 14. 3: edificar, exortar e consolar. Creio que o ministério profético que desejo não seja
um título ou cargo. Sinto que a igreja evangélica brasileira, tem bons evangelistas, excelentes
estrategistas eclesiásticos, já demonstramos alguma maturidade teológica, mas ainda somos
carentes de líderes com a verve profética.
O movimento evangélico brasileiro necessita de homens como Martin Luther King Jr um dos mais
autênticos profetas do século XX. Sua vida, tantos anos depois de sua morte, continua
impressionando pela coerência, bravura e profundo compromisso com os valores do reino de
Deus.
Li sua autobiografia e confesso que senti o meu coração desafiado por esse homem que viveu,
falou e lutou como um profeta para os americanos mas cuja vida inspira todas as nações.
Ele nasceu em 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia, foi ordenado como pastor batista em
25 de janeiro de 1948. Decidiu que jamais se curvaria às leis segregacionais do sul dos Estados
Unidos quando assumiu a igreja que seu pai pastoreava, a Dexter Avenue Church em
Montgomery, Alabama.
Nesta cidade aconteceu o grande boicote às companhias de ônibus. Rosa Parks, uma costureira de
quarenta e dois anos, recusou-se ceder seu lugar dentro de um ônibus a um homem mais jovem
que ela e foi presa. Um movimento se organizou na cidade e King Jr foi eleito por unanimidade o
seu presidente. Depois de várias vezes preso, de sofrer atentados como uma bomba que foi
jogada no alpendre de sua casa em 27 de janeiro de 1957, ele passou um mês na Índia,
aprendendo os princípios de não-violência usados por Ghandi, na resistência ao imperialismo
Britânico. Aplicou-os nos Estados Unidos e conseguiu vencer a tirania e o ódio com amor.
Em 28 de agosto de 1963, King Jr, subiu os degraus do Memorial de Lincoln para fazer o seu mais
famoso discurso, I Have a Dream. Sua voz ecoava por todo o mundo enquanto a paixão de um
profeta se derramou por seu povo. Era o coração de Deus que pedia que os homens não fossem
julgados pela cor de sua pele, mas pelos conteúdos do caráter. Sua vida impressionou tanto que
em 10 de dezembro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz.
Lendo-o, juntei alguns de seus pensamentos, reproduzo-os aqui para que notemos a falta que os
profetas fazem.
Homens e mulheres vivendo em comunidade.
“Quando o indivíduo não é mais um verdadeiro participante e não percebe sua responsabilidade
para com sua sociedade, os conteúdos da democracia se esvaziam. Quando a cultura se degrada e
a vulgaridade é entronizada; quando o sistema social não constrói segurança, mas induz o medo,
inexoravelmente o indivíduo é impelido a se isolar completamente desta sociedade sem alma. Este
é o processo que produz alienação – talvez a mais insidiosa característica da sociedade
contemporânea.”
A grandeza dos ideais:
“A medida de um homem não se ele afirma em tempos de conforto e conveniência, mas repousa
nos seus posicionamentos em tempos de desafios e controvérsias.”.
“A coragem encara o medo e, portanto, dele se assenhora. A covardia reprime o medo, e
portanto, dele se torna escrava. Homens corajosos nunca perdem o elã pela vida mesmo que a
situação que vivam seja sem brilho; covardemente, homens esmagados pelas incertezas da vida
perdem o desejo de viver. Devemos constantemente erguer diques de coragem para deter as
inundações do medo.”
O próximo:
“A maioria daqueles que vivem na América rica ignora os que vivem na América pobre; ao
fazerem isso, os ricos americanos terão que eventualmente enfrentar a pergunta que Eichmann
preferiu ignorar: Qual a minha responsabilidade pelo bem estar do meu próximo? Ignorar o mal é
tornar-se cúmplice dele. “
Deus e religião
“A ciência investiga; a religião interpreta. A ciência fornece o conhecimento que dá poder; a
religião fornece a sabedoria que dá controle. A ciência lida com os fatos, a religião lida
primordialmente com os valores. As duas não são rivais. Elas se complementam. A ciência ajuda a
religião a não cair no vale paralisante da irracionalidade e do obscurantismo. A religião previne a
ciência de despencar no pântano do materialismo obsoleto e do niilismo moral.”
Em 4 de abril de 1968 uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo, sua vida
continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King, Jr, não pode ser
esquecido da geração evangélica deste novo milênio.
Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não
nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Gente, cuja voz troveje ira contra a
iniqüidade e a injustiça, mas nunca falem sem a ternura de Deus. Que o mote de Luther King Jr I have a dream - ecoe entre as paredes das igrejas, para que nunca deixemos de sonhar em
tempos de imediatismos.
Jesus mandou que orássemos pedindo mais obreiros para a sua seara. Minha prece é que ele
mande mais profetas.
Soli Deo Gloria
Se eu fosse mais velho!
Ricardo Gondim Rodrigues
Não estou com pressa de envelhecer. Meu pai padece há anos de uma doença que lhe deixou senil
e caquético. A velhice me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade
típica dos jovens, como me tornarei mais vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim
espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens.
Estou ansioso para que chegue o tempo de poder dizê-las.
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgarem a fama em nome de Deus. Contaria
que já presenciei o desespero de alguns, almejando se destacarem como referenciais de sua
geração para depois descerem do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os
bastidores da algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras para-eclesiásticas e como me
enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um
deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que
chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta sem o glamour
do mundo, que preferissem a senda do Calvário. Pediria que optassem por beber o cálice do
Senhor a desejarem os loiros da glória humana.
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais, que eles perigam
chegar no topo sem alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como ridículos e fúteis.
Candidamente, contaria casos de traição, logro e delação nas reuniões secretas de algumas
cúpulas religiosas. Pediria para fugirem da ganância pela autoridade institucional. Ensinaria a
desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima
com Deus.
Se eu fosse mais velho.
Diria aos mais jovens que não se iludissem com o academicismo. Eu lhes revelaria como alguns
acadêmicos usam da sua erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de mostrar que
muita bibliografia citada em rodapés, vem da uma vaidade boba. Algumas pessoas buscam se
mostrar mais cultas do que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas insuportáveis
no contacto pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância,
indiferença e muita, muita soberba. Contudo, eu lhes pediria para serem amigos dos livros. Pediria
que lessem muito e diversificadamente; que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria:
“Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno
proceder, as suas obras. A Sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica,
indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. (Tg
3.13,17).
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias
nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e
que não adianta se apressar nos primeiros anos. Relataria os exemplos de tantos que se
arrebentaram antes da linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e filhos no
afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os anos da meia idade, já se encontravam
estressados e cansados! Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um pastor
dizer que só não saía do ministério porque, já muito velho, não sabia como retornar ao mercado
de trabalho. Pediria que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no parque, de
lerem livros que não fossem úteis ao ministério, de curtirem a sua mulher e de praticarem algum
esporte. Eu lhes pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus,
perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno.
Basearia minha mensagem na afirmação de que é possível, pastor ou evangelista, ganhar o
mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a
auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar poesia e de cantar canções de ninar. Enfim, perder a
alma!
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual e as demonstrações
exuberantes do poder carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas americanos, que
muitos acreditam super ungidos, passam a tarde na piscina do hotel em que se hospedam, antes
de encenarem a sua super espiritualidade em mega eventos. Não temeria denunciar alguns que se
trancam nos seus aposentos, assistindo filmes na televisão e logo depois subirem às plataformas
com o ar de santos da última hora. Não hesitaria alardear, que muito daquilo que se rotula como
demonstração de poder espiritual, nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma
falsa euforia religiosa.
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria
tantos exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do
sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Tantos pastores naufragaram em adultério
porque se sentiram sós. Não possuíam amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores, sem
um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda. Incentivaria a desenvolverem
amizades, preferivelmente fora de seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos
com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria que são fiéis as feridas feitas
por aquele que ama.
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina
e novidades eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas
visitações de Deus. Vermelho de vergonha, lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus
estava trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitando ao ridículo de investigarem a
boca uns dos outros e depois, ao confundirem as restaurações amareladas de material de baixa
qualidade, com ouro, saírem proclamando um milagre de Deus. Relataria a pobreza doutrinária
daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual. Ensinaram as mulheres a
vigiarem mais durante a menstruação, porque há demônios que se alimentam daquele tipo de
sangue. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito principal do Evangelho, à Doutrina dos
Apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.
Se eu fosse mais velho.
Eu diria aos jovens para não procurarem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de
alguns líderes de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria vários
exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no sofrido Brasil, o modelo de igrejas
abastadas dos subúrbios americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria para não
ficarem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e maneirismos dos outros, pois
acabarão sem identidade. Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não ensinarmos
com a destreza de Paulo, nos portarmos com a ousadia de Pedro, ou escrevermos com o mesmo
amor de João. Deus nos pedirá contas apenas por não termos vivido nossa própria identidade.
Se eu fosse mais velho.
Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que ele
tem para fazer através de nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos.
Melancolicamente falaria que na velhice, muitos sentem saudade dos tempos que poderiam ter
sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que
na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próximo e não escolheram a
melhor parte, como fez Maria.
Eu deveria esperar para dizer essas coisas quando estivesse mais velho. Por impetuosidade acabei
dizendo antes do tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora.
Soli Deo Gloria
Não quero ser apóstolo !
Ricardo Gondim Rodrigues
Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos
folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e
procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente,
fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma
certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a
anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem
quero. Meu desejo agora é ser semi-deus”. Apóstolo agora está virando arroz de festa e meu
ministério é tão especial que somente este título cabe a mim”. Um outro chiste que corre entre os
pastores é que se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve
um ministério apostólico seria um “arcanjo”.
Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem
falsa humildade, que não eu teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero
que minha ambição por sucesso ou prestígio, que é pecado, se transforme em choça.
Admito que os apóstolos constam entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo
em Efésios 4.11. Não há como negar que os apóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro
lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curar, socorros, governos,
variedades de línguas. Mas, resigno-me contente à minha simples posição de pastor. Já que nem
todos são apóstolos, nem todos profetas, nem todos mestres ou operadores de milagres, como
consta na epístola aos Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro.
Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer
dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete
“apóstolo” ou “apostolado”. Usemos a Enciclopédia Histórico-Teológico da Igreja Cristã, das
Edições Vida Nova: “O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde
ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas
epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em Português, é uma transliteração da palavra grega
apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de
enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora,
apostellein enfatiza os elementos da comissão – a autoridade de quem envia e a responsabilidade
diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual
age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este”.
Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos
mais próximos de Jesus, também receberam esse título. O número de apóstolos parecia fixo,
porque fazia um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se referia a apenas doze tronos
na era vindoura (Mateus 19.28; cf Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse
uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a
preencher esse número. Mas na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para
selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (Atos12.2). As exigências para
que alguém se qualificasse ao apostolado, com o passar do tempo, não podiam mais se cumprir:
“É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus
andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às
alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição” (Atos 2.21-22).
Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais
de I Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros e não a novos apóstolo.
Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na
defesa de seu apostolado em I Coríntios 15.9, ele afirmou que foi testemunha da ressurreição
(vira o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhecia que era um abortivo (nascido fora de
tempo). “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo,
pois persegui a igreja de Deus” (15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que
os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados
por ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus.
O que preocupa nos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Tem a ver com a nossa natureza
que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que fez do sucesso uma filosofia ministerial. Há
uma corrida frenética acontecendo nas igrejas de quem é o maior, quem está na vanguarda da
revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao
título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar
enormes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são
ricos.
Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito
principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido desapercebida
de Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos
pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e
dos santos homens que me precederam e que não conheceram as tentações dos mega eventos,
do culto espetáculo e da vã-glória da fama. Não quero ser apóstolo, porque não acho que
precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem
estatus. Aliás, estou disposto, inclusive a abrir mão de ser chamado, pastor, se isso representar
uma graduação e não uma vocação ao serviço.
Não desdenho as pessoas, sinto apenas um enorme pesar em perceber que a ambiência
evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos a ostentação de títulos,
cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são
especiais, aceitam os aplausos que vêm dos homens e se esquecem que não foi esse o espírito
que norteou o ministério de Jesus de Nazaré.
Ele nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico
o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Porque me chamas bom? Ninguém é
bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17-18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para
os seus filhos. Jesus aproveitou o mal estar causado, para ensinar: “Sabeis que os governadores
dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós;
pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser
ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20.25-28).
Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para termos ministérios bem
sucedidos, mas para continuarmos o ministério de Jesus, amigo dos pecadores, compassivo com
os pobres e identificado com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular
conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes
empresas religiosas, não é pertencer aos altos graus das hierarquias religiosas. Pastorear é
conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da
família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do
Espírito Santo. Pastorear é ser fiel à todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na
Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama.
Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter
mega igrejas, busquem ser achados despenseiros fieis dos mistérios de Deus. Não se encantem
com o brilho deste mundo, busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o
ineditismo, busquem manejar bem a palavra da verdade; aquela mesma que Timóteo ouviu de
Paulo e que deveria transmitir a homens fieis e idôneos que por sua vez instruiriam a outros.
Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza
terrena e pecaminosa das pessoas, preguem a mensagem do Calvário.
Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer
com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o
ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em
semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se
obediente até à morte e morte de cruz” (2.5-8).
Soli Deo Gloria
O clamor de um novo convertido
Ricardo Gondim Rodrigues
Meu nome é Iuri. Curso pós-graduação em ciências sociais. Defenderei minha tese dentro de mais
seis meses. Há um ano experimentei uma autêntica revolução interior. Converti-me ao
cristianismo em uma igreja evangélica. Falei de revolução porque, à semelhança dos processos
revolucionários, minha experiência de conversão deu-se com violência.
Depois de convertido, visitei várias igrejas evangélicas. Familiarizei-me com as sutis diferenças de
uma a outra denominação. Hoje, depois de batizado e membro de uma comunidade local, desejo
expor como era minha percepção dos evangélicos antes de converter-me. Depois, desejo ainda,
externar minhas reações, como novo convertido, ao que aprendi sobre o mundo evangélico em
minha peregrinação buscando uma igreja.
Cresci em um lar católico nominal. Durante toda minha infância, não me recordo uma vez sequer
que meu pai tenha freqüentado uma missa. Minha mãe ainda nos relatou de seu passado em um
colégio de freiras. Obviamente sua abordagem foi negativa. Cresci distante do mundo religioso. No
segundo grau, quando estudei história, ouvi sempre dos professores que a igreja, notoriamente a
cristandade ocidental fora responsável por séculos de obscurantismo, perseguições étnicas,
guerras religiosas estúpidas. Quando ingressei na faculdade, creio ter entrado em igrejas apenas
duas vezes. Em um casamento, e na missa de sétimo dia de um amigo. No casamento nada
entendi do que o sacerdote falava e no ofício fúnebre, ainda sob o impacto da morte de meu
companheiro, nada ouvi e nada guardei de tudo o que aconteceu. Nunca entrei em uma igreja
evangélica. Conhecia os evangélicos apenas pela capas da revista Veja e dos vários escândalos
envolvendo alguns líderes de igrejas nacionalmente reconhecidas.
Conheci o primeiro evangélico no terceiro ano de faculdade. Roberto participou de um debate
sobre cidadania e compromisso ético. Confesso que no momento em que usou da palavra, cheio
de preconceitos, achei que falaria muita asneira e que, valendo-se de um discurso reacionário e
antiquado, seria ridículo. Mas, seus argumentos foram despretenciosamente simples, organizados
e academicamente coerentes. Citou suas fontes, falou com autoridade. Algo me atraiu no discurso
daquele jovem. Procurei-o para conversarmos.
Tornamo-nos amigos. Depois de uma longa amizade, Roberto convidou-me a participar de um
encontro de um grupo da Aliança Bíblica Universitária. Discutimos muitas vezes sobre a validade
da fé, sobre o adoecimento do cristianismo nos corredores das instituições religiosas. Expus
abertamente minha indiferença ao clero que se locupleta com as esmolas das elites. Perguntei se
a igreja não se envergonha do que fez aos índios latino americanos. Insisti em querer saber onde
estavam os discípulos de Cristo quando os judeus eram queimados na inquisição espanhola.
O Roberto e tantos outros do grupo da ABU engajaram-se numa autêntica peleja, buscando
responder minhas inúmeras inquietações. Numa determinada tarde de sábado, alguém me
perguntou se eu já lera a Bíblia. Envergonhado, respondi que não. Eu discutia e falava de um
assunto sem estar familiarizado com seus pressupostos básicos. Pedi que me dessem uma Bíblia.
Acrescentei que não desejava um exemplar com comentários de ninguém, eu mesmo queria tirar
minhas conclusões do texto. Comecei em Mateus e quando terminei o capítulo sete, com o
término do Sermão do Monte, meus argumentos e minha zanga já haviam caído por terra. Ainda
em conflito, numa autêntica guerra dentro de minha alma, rendi-me ao Espírito de Cristo. Torneime um cristão resoluto, apesar de toda minha inquietação.
Depois que tornei pública minha decisão de tornar-me um seguidor de Cristo, pedi ao Roberto que
me levasse a conhecer o universo evangélico. Ainda bem que minha conversão deu-se no secreto
do meu quarto, pois o que testemunhei nas diversas igrejas que visitei me assustou.
A primeira igreja que visitei era bem tradicional. A sua formalidade litúrgica me surpreendeu.
Percebi que a sua maneira de cultuar a Deus fora importada de sua matriz no estrangeiro. O coral
cantava as mesmas músicas que sua sede, o pastor falava com o mesmo tom de voz e até a
ordem do culto obedecia uma lógica estrangeira. Perguntei-me a mim mesmo porque os pastores
insistiam em serem meras réplicas de um modelo de fora. A beleza do cristianismo não está em
sua catolicidade? O jeito de cultuar a Deus não deve ser o nosso jeito? As músicas que esses
estrangeiros trouxeram eram antigas canções das tavernas e bares da Europa e dos Estados
Unidos. Porque as expressões culturais de nosso povo devem ser menosprezadas? O que mais me
inquietava nesse tradicionalismo litúrgico era a incoerência de seus líderes se dizerem filhos do
iluminismo; se gabarem de sua tolerância, bradarem uma ecumenicidade radical, mas na hora de
praticarem tudo isso, eram bitolados e restritivos.
Em minha busca por uma igreja, visitei várias denominações pentecostais. A princípio me encantei
com o fervor dos seus membros. Pareciam-me entusiasmados pelo Senhor que serviam. Havia
uma santa anarquia na liturgia. Mas, qual não foi minha decepção, quando compareci a reunião
que chamaram de culto de doutrina. Achei que refletiriam sobre um tema da Bíblia e se
aprofundariam nele. Tudo o que ouvi foi proibições. O patrulhamento mental que se procurava
exercer sobre as pessoas assustou-me. Na verdade, escandalizei-me. Jamais imaginei que havia
tanta mesquinhez no cristianismo. Ainda não consigo imaginar que o Deus criador e sustentador
do universo esteja fiscalizando o tamanho do cabelo das mulheres ou se indignando com os
meninos jogando futebol.
O fervor do mundo pentecostal me levou a procurar algumas igrejas que mantivessem o mesmo
perfil carismático mas em melhor sintonia com os tempos que vivemos. Visitei o mundo neopentecostal. A igreja que freqüentei era nova, seus pastores vestiam-se com ternos bem talhados,
o culto ágil. Mais uma vez, me decepcionei muito. Acredito que não fosse o cuidado de meu
pequeno grupo de universitários que se reunia no campus, eu não teria permanecido na fé. Mal
pude acreditar quando um pregador falou no púlpito que o verdadeiro cristáo sabe colocar Deus
no canto da parede e reivindicar os seus direitos. Espantei-me com a paranóia que o mundo
espiritual gera nas pessoas. Quantas vezes ouvi sermões desconectados do texto bíblico, repletos
de chavões e vazios de conteúdos. Vi tantas pessoas lotando os templos neo-pentecostais mas em
uma profunda crise de identidade. Acredito que esses grupos prejudicam muito o testemunho
cristão na sociedade.
Hoje pertenço uma igreja que acredita nas contemporaneidade dos dons espirituais, bastante
missionária e profética em sua caminhada. Procuramos ser autênticos em nossas expressões de
espiritualidade. Meu pastor não é um líder carismático que se distanciou da comunidade, mas um
amigo e parceiro de sonhos. Acreditamos que a reflexão bíblica deve ser um exercício tanto da
mente como do espírito.
O que escrevi aqui visa ajudar os pastores. Desejo expressar como pensa um jovem universitário
hoje. Sem querer assumir uma posição presunçosa, quero deixar alguns conselhos aos líderes
cristãos.
1)
As pessoas não se interessarão pelos conteúdos da mensagem do evangelho apenas pela
publicidade que se faz na mídia. Quanto mais dinheiro se gasta na mídia, mais as pessoas acham
que o mundo evangélico é uma armadilha de aproveitadores quer se valem da boa índole do povo.
As igrejas devem concentrar esforços em gerar homens e mulheres com um testemunho de vida
contagiante. Somente o seu entusiasmo e sua abundante vida despertarão outros a quererem
conhecer mais de Deus.
2)
Quanto mais parecido for o pastor de um empresário, menos as pessoas se interessarão em
ouvi-lo. Quanto mais humano e integro, maior será sua credibilidade. As pessoas buscam
lideranças espirituais e não gerenciais. Por favor, pastores, não esqueçam do conselho de Pedro:
“Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente,
como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos
que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.” I Pedro 5.2-3
3)
As igrejas precisam ser espaços comunitários. As igrejas não existem para perpetuar a
instituição e nem como balcão de serviços religiosos. Elas não podem estar a serviço dos desejos
megalomaníacos de seus líderes. Igreja é lugar de afeto. Lugar onde o amor de Deus se adensa
nas pessoas e se multiplica no próximo. O culto precisa se expressar com liberdade, racionalidade,
fervor, e acima de tudo companheirismo. O cristianismo é pessoal mas só se concretiza em
comunidades, por isso é que Jesus afirmou que ele edificaria uma “eklésia”, ou seja, uma
assembléia, uma família, um organismo vivo.
Hoje, acredito que há outros jovens como eu que se curvariam diante de Jesus Cristo. Só não o
fazem porque há muito preconceito e muita resistência ao evangelho. Se nós reconhecêssemos
nos parcela de culpa em afastar as pessoas de Cristo, já seria um bom começo. Aquele que
converte uma vida é sábio. Peçamos, portanto, sabedoria para o povo de Deus. Eu estou disposto
a fazer minha parte para que sejamos sal e luz.
Soli Deo Gloria
Por que eu nunca me converteria?
Ricardo Gondim Rodrigues
“Pois que vantagem há em suportar açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês
suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus”.
Alguns de nós se fôssemos a certas e determinadas igrejas, jamais nos converteríamos ao
Cristianismo, porque em algumas igrejas - seja ela evangélica ou católica - há um desprezo ao
pensar e alguns de nós sentimos a necessidade de saber o porquê das coisas e rejeitamos a idéia
de que alguma coisa seja empurrada “goela abaixo” sem que tenhamos a oportunidade de
argumentar. Muitos de nós não nos converteríamos jamais em uma igreja que diz: “Creia porque
estou lhe dizendo, não queira saber de nada, somente aceite”. Um lugar onde se exige uma
obediência cega, onde você não pode questionar, onde o senso crítico e o bom senso são calados.
Se você foi a uma dessas igrejas e não se converteu, parabéns, eu também não me converteria,
você tem toda razão de reagir como reagiu.
Uma igreja que possui um debate muito pequeno, voltado para questiúnculas, ênfases sem valor,
questões medíocres, se mulher deve usar cabelo comprido ou curto, se pode esmalte vermelho ou
azul ou de cor nenhuma, a questão é que o mundo não está e não ficará pendente por causa
disso, muito menos Jesus morreu na Cruz e os mártires da igreja adubaram o solo de Roma com
sangue para que nos dias de hoje tenhamos em pauta questões como essas. Muitos de nós
também não nos converteríamos por não tolerar ambientes piegas, de frases prontas, onde se diz,
por exemplo: “Se você está feliz, diga Amém.
- Todos a uma só voz: Amém!
- Não ouvi direito, diga novamente!
- Todos, agora mais alto e pausado: Amém!
- Agora sim vocês estão felizes”.
Ora, se você está feliz, você está feliz, mas se está triste, está triste, não existe erro nenhum em
estar triste, não deve haver manipulação, ou “forçar a barra”.
Ou então ambientes que são muito simplistas, o sujeito tem um problema e tenta-se resolver o
problema dele com uma resposta simplista, com um jargão que se aprende, do tipo: “Está
amarrado em nome de Jesus!”.
Embora o Evangelho em si seja simples, não é simplista.
Depois de tudo isso, acredito que você tem uma pergunta, e a sua pergunta é: “Então porque
“cargas d’água” você se converteu?”
A resposta para a sua pergunta encontra-se no versículo bíblico introdutório (I Pe 2:20)
Existe sim uma linha divisória entre Cristianismo e prática religiosa, seja ela qual for.
Em primeiro lugar, eu me converti porque a mensagem do Evangelho que me apresentaram era
racional e lógica o suficiente para satisfazer o meu intelecto, mas também era poderosa o
suficiente para impactar de tal forma a minha vida. Uma mensagem que me deu a resposta a
algumas perguntas que todos os seres humanos fazem, independente da nacionalidade e do grau
de cultura, perguntas do tipo: “Quem é Deus? De onde veio a maldade? O que é a vida? Para
onde vou, porque estou aqui?”
São perguntas que carregamos conosco e estamos buscando respostas para elas. Eu me converti
ao Evangelho de Jesus Cristo porque ninguém tem melhores respostas a essas perguntas do que
esta mensagem.
Quem sou eu?
Charles Darwin tentou explicar através da teoria da evolução, que dizia que somos descendentes
dos macacos, para a filosofia naturalista e cientista, é apenas um acidente cósmico, para o
sistema oriental hindu e budista somos meras partículas de um deus etéreo, uma concepção
panteísta, para o sistema espírita kardecista somos espíritos aprisionados em corpos cumprindo a
nossa lei do karma, mas para os cristãos a resposta é contundente, bonita e nobre, somos a
imagem de um Deus que com amor, meticulosamente nos projetou no seu próprio coração.
Porque existe a maldade?
Não há resposta mais contundente e racional do que a do Cristianismo. Por que existem tantos
estupros? Por que existe tanto tráfico de drogas? Por que as clínicas psiquiátricas estão
abarrotadas de pessoas devastadas pela malignidade da civilização?
No conceito oriental o mal e o bem se fundem numa só coisa, no conceito espírita o mal é uma
questão de aperfeiçoamento, no conceito cristão o mal e mais do que tudo isso, é uma
decorrência de estarmos distantes de um Deus pessoal,fonte de todo o tipo de bondade e
benignidade, a bondade existe no universo não como fonte de um acidente, mas como fonte de
um Deus que é eternamente bom e justo, e a nossa bondade vem à medida que estamos
“plugados” nesse Deus, mas quando estamos desligados dele , somos passiveis de malignidade , e
o resultado desse desligamento gera em nós a capacidade de nos tornarmos “monstros” de
iniqüidades e essa monstruosidade vem da nossa independência de Deus.
E por último, ninguém conseguiu falar de Redenção de uma forma tão coerente, tão justa e tão
intelectualmente lúcida do que essa Mensagem. “Porque Deus amou o ser humano de tal forma
que deu ao sacrifício seu único Filho, Jesus Cristo, para que todo aquele que Nele – Jesus Cristo –
crer e reconhecer o seu sacrifício na Cruz do Calvário seja Redimido e tenha a Vida Eterna”.
(João 3:16). Que Deus nos ajude.
Soli Deo Gloria
A cultura pop chegou para ficar?
Ricardo Gondim Rodrigues
Operado de uma simples hérnia, vi-me obrigado a uma razoável quarentena em casa. Com
bastante tempo à minha disposição resolvi, por um dia, mergulhar no mundo televisivo. Liguei
minha Sony e com o controle remoto na mão viajei, via cabo, às diversas opções oferecidas pela
mídia eletrônica. À noite, senti-me vencido. O que assisti não era lazer, tampouco cultura. Era
pura perca de tempo. Cada dia mais me espanto com a superficialidade de minha geração. Na
televisão, os noticiários estão cada vez mais rasos; evitam os temas relevantes, fogem da
discussão imparcial. A "ratinização" dos programas de auditório chega a agredir o bom senso. A
dramaturgia das novelas é um acinte à arte teatral. Os diálogos são patéticos. Bons atores são
logo substituídos por moças e rapazes bonitinhos. Não sabendo representar, mecanicamente
repetem scripts. Os programas infantis, nada educam. Simplesmente enchem os cofres de suas
apresentadoras que nada têm na cabeça e que ensinam comportamentos éticos, no mínimo
questionáveis.
Na música, as letras medíocres, para fazer sucesso, necessitam apelar para sentidos ambíguos. Os
rebolados das dançarinas tentam compensar a rima pobre. Os grandes poetas e músicos se
esforçam, mas parecem carecer da inspiração de tempos não muito antigos quando escreviam e
cantavam com maestria.
Os filmes, fazendo apologia da violência, exploram o macabro e o terror. Não conseguem criar
tramas inteligentes. Mostram-se diante de nossas telas produções com enredos repetitivos,
direção mal feita; claramente produzidos para dar lucro. Filmes destituídos do ideal de fazer arte.
As revistas que entulham as bancas e os livros que aparecem nas listas dos best-sellers são
risíveis sob o ponto de vista literário.
Os estudiosos de nossos tempos dizem que uma das características da pós-modernidade é a
falência da chamada "alta cultura" e a emergência da "cultura pop". Por "alta cultura" devemos
entender como o esforço humano de dar estrutura à vida. É a complexa produção humana que
inclui o saber, crenças, arte, moral, leis, costumes e todas as expressões humanas.
A "cultura pop" fortaleceu-se com a massificação dos meios de comunicação. A indústria da
informação e do lazer que oferece um franco acesso ao conhecimento, vagarosamente nivelou a
produção cultural por baixo. Hoje, poucos conhecem Shakespeare, nunca leram Dostoievski, mal
saberiam mencionar algum livro de Machado de Assis ou de Graciliano Ramos. Rapazes e moças
detestariam uma ópera de Wagner ou de Carlos Gomes. A grande maioria nunca leu Carlos
Drummond e nem sabe dizer quem foi Fernando Pessoa. Em compensação, conhece bem os filmes
de Van Damme e do Bruce Willis. Gosta de ler Paulo Coelho e canta as músicas do Tchan. Meninos
e meninas ainda cantarolam as letras dos Mamonas Assassinas. Diariamente acompanham a
novela das oito dando-lhe índices de audiência acima de cinqüenta pontos. Adolescentes deliram
com a mocinha vestida em roupas íntimas, insinuando cenas de sado-masoquismo.
O ocidente termina o século vinte impregnado de uma "cultura pop" que Richard Hamilton, artista
inglês, conseguiu descrever como: "dirigida às massas, compreensível sem exigir reflexão,
facilmente substituível por outra emoção, produzida às pressas, sensual, glamorosa, aética e
sempre visando o máximo de lucro."
A produção cultural do ocidente empobreceu. Daí a pertinência do lamento de T. S. Eliot: "Onde
está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Os ciclos do céu em vinte séculos
nos levaram para mais longe de Deus e mais próximos do pó."
Mais triste é constatar que a igreja também foi afetada por essa cultura de massas. Primeiro nos
Estados Unidos, depois na Europa e agora na América Latina, há uma forte tendência a
transformar a igreja em "big business". Pior, "big business" do lazer espiritual.
Pastores e padres abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos
papéis: animadores de auditórios e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em mero
palco. A igreja, simples platéia. O clero arremedou a fama dos artistas. Com estilos de vida
extravagantes e caros inebriam as multidões que também almejam galgar a celebridade.
Outros viram-se como empresários, vestiram-se como empresários e, pasme, contrataram
guarda-costas armados para serem protegidos. Acham-se seqüestráveis. Os cultos já não estão
centrados na máxima de João Batista – importa que ele cresça e que eu diminua. Sermões podem
ser facilmente confundidos com palestras de neurolingüística. Cantores e "artistas" se atropelam
querendo renome e gordos cachês. O cristianismo ocidental não conseguiu salgar, perdeu o sabor
e conformou-se em ser raso. Os vendilhões do templo voltaram e armaram suas tendas.
Infelizmente atraem-se grandes multidões não pela força argumentativa do evangelho, mas pelo
bem concatenado marketing. Impressionam-se as platéias pela capacidade de aproximar a
linguagem religiosa da "cultura pop" e não por propor conteúdos sólidos de vida. Até pouco
tempo, as igrejas neo-pentecostais acreditavam que seu descomunal crescimento vinha de uma
bênção especial de Deus sobre suas novas propostas de prosperidade. Hoje, a explosão pop do
catolicismo já atrai multidões tão enormes quanto as dessas bem sucedidas igrejas evangélicas.
Prova-se assim que qualquer credo, ou confissão religiosa que souber promover um culto com as
mesmas características da "cultura pop", também experimentará um crescimento vertiginoso.
Sempre que a igreja começou a percorrer uma senda perigosa e a aproximar-se dos sistemas
doentes que deveria denunciar, houve fortes movimentos contrários. Quando Roma parecia estar
à venda e o clero católico se emaranhou com o poder dos reis, as ordens monásticas apareceram.
Quando Tetzel vendeu indulgências, prometendo menos sofrimento no purgatório em troca de
algumas moedas, Lutero protestou. Quando a igreja protestante se institucionalizou e perdeu
relevância, surgiram os anabatistas propondo a separação radical da igreja e do estado. Quando a
rigidez teológica tentava sufocar a ação de Deus, os pentecostais levantaram-se mostrando que
ele age como quer e não respeita as sistematizações humanas.
Precisamos de novos movimentos de reforma e protesto dentro do cristianismo ocidental. Os
desafios de hoje requerem que os pastores voltem a "apascentar o rebanho de Deus, tendo
cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto"
(I Pe 5.2). Que as igrejas sejam espaços de fraternidade onde nos revestimos como "eleitos de
Deus, santos, e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de
mansidão, de longanimidade" (Cl 3.12).
Diante do estrelismo, os pastores precisam optar pela discrição; reaprender a ser singelos de
coração. Devem lembrar-se de uma citação antiga: "A glória é como um círculo n’água que nunca
deixa de aumentar, até que por força de seu próprio crescimento dispersa-se em nada".
O crescimento numérico das igrejas engana. Tem mais a ver com fenômenos sociais que uma
legítima ação do Espírito Santo. Líderes religiosos devem evitar essa corrida insana de
notoriedade. A riqueza e popularidade de alguns nada significam nas realidades espirituais.
Euclides da Cunha advertia em Os Sertões: "Se um grande homem pode impor-se a um grande
povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor
as multidões tacanhas". Deixemos que o apóstolo Paulo fale novamente aos nossos corações:
"Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E na verdade, tenho também por
perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, pelo qual
sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo"
(Fp 3.7-8).
A igreja será sal e luz, somente quando caminhar na rota inversa das tendências de sua geração e
mostrar-se simples em suas ambições. Caso contrário, continuará dizendo a si mesma: “Estou rica
e abastada e não preciso de coisa alguma”. Mas ouvirá de Cristo: "Não sabes que tu és infeliz,
sim, miserável, pobre cega e nua”.

Que Deus nos ajude a comprar ouro refinado pelo fogo para nos enriquecer, vestiduras brancas
para nos vestir, a fim de não ser manifesta a vergonha da nossa nudez. Compremos colírio para
ungir os nossos olhos e vejamos" (Ap. 3.17-18).
Soli Deo Gloria
Reflexões sobre o forte crescimento evangélico
Ricardo Gondim Rodrigues
“Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes, que as digam: morrerão os católicos sem
confissão, nem sacramentos: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de S.
Jerônimo, e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegrar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e
Lutero, beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias do Portugueses: e
chegaremos a estado, que se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que
seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois, isto se há de sofrer,
Deus meu?” (itálico)
Padre Antônio Vieira, preocupado com o avanço holandês e a aparente apatia portuguesa para
com o Brasil, pregou um sermão bombástico em 1640. Deu-lhe um título não menos agressivo:
Sermão Pelo Bom Sucesso Das Armas De Portugal contra as da Holanda.
Ele já temia em priscas eras que o “pérfido calvinista” se multiplicasse na colônia de sua
majestade. O sermão de Vieira, na verdade é uma oração a Deus. Temendo que os holandeses
calvinistas se identifiquem com o povo mais que os católicos, rezou assim: “Que dirá o tapuia
bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição de
nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do batismo sem mais
doutrina? Não há dúvida, que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de
vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e
a dos Holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos sendo como eles. A seita do herege
torpe e brutal, concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura da vida, que foi
a origem e o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do
gentilismo..” (itálico)
Hoje, sem o catastrofismo medieval de Vieira, os altares católicos não foram invadidos por milícias
protestantes e nem se deixou de celebrar o natal. Nenhum católico precisa morrer sem se
confessar. Entretanto, o crescimento protestante – por meio do segmento evangélico pentecostal é
grandioso, como ele bem previu e temeu. As igrejas se multiplicam nas periferias das grandes
cidades, os templos estão todos lotados. A agressividade evangelística não arrefece. Com a
pentecostalização das igrejas denominacionais históricas – Luteranas, Presbiterianas, Anglicanas,
Metodistas, Congregacionais, etc. – o protestantismo de origem reformada também cresce
assustadoramente. A presença evangélica já é tão notória que os intelectuais da academia
dissertam sobre ela. Faz-se notícia na mídia e continua incomodando a cúria católica romana.
As igrejas evangélicas não se multiplicam isentas de problemas e dificuldades. Por serem
comunidades humanas há idiossincrasias e virtudes; beleza e vício. Por estarem situadas
historicamente no tempo e na cultura copiam os erros da sua época. É mister que no frenesi do
crescimento, vozes se levantem para alertar os evangélicos que eles não serão a igreja dominante
do Brasil, como Vieira sonhava para os católicos e temia que copiássemos.
A idéia de que temos a obrigação de tornar o Brasil evangélico é tão anacrônica como a fala de
Vieira. Não podemos acreditar que repousa sobre nossos ombros o dever de banir todas as
expressões não evangélicas de nossa cultura. Esse discurso é mera coreografia religiosa que
impressiona apenas nas liturgias internas. Por outro lado, quando realmente levado a sério,
descamba para um fanatismo reacionário e intolerante.
Também, há a ameaça do capitalismo selvagem. Os evangélicos – bem como a própria igreja
católica – convivem com uma cultura dominada pela cosmovisão pós-moderna do capitalismo
neoliberal. Nessa sociedade técnica, a religião torna-se pragmática e a piedade é
instrumentalizada para satisfação pessoal. Devemos, portanto, tomar extremo cuidado de não cair
no hábito de ver a Deus como se fosse uma máquina em que botões são apertados. A maior
tentação para a igreja é que ela passe a ser uma organização gerida de acordo com as técnicas
empresariais.
Visito ocasionalmente igrejas evangélicas do hemisfério norte. Em uma delas, impressionei-me
como os pastores se despiram de suas roupas pastorais. Assumiram o papel de executivos da fé.
Seus escritórios parecem-se com os escritórios das grandes multinacionais; cercam-se de
assessores, e se reúnem regularmente em reuniões de planejamento. Nos Estados Unidos,
proliferam-se as igrejas estabelecidas sobre um marketing bem planejado. Sobram palestrantes
ensinando como lubrificar as engrenagens administrativas de suas comunidades. Uma gama
enorme de especialistas em crescimento de igreja palestram sobre como tornar o louvor adequado
ao auditório – a orações devem ser mais curtas, as músicas mais comunicativas aos ouvidos
sensíveis daqueles que não conhecem a Deus. Para esses empresários da fé, se providenciarmos
bons estacionamentos, cadeiras confortáveis, ar condicionado, um bom berçário para os recémnascidos e uma excelente lanchonete, conseguiremos lotar nossos santuários e aumentar a
arrecadação mensal. Por mais bem intencionados que estejam, nenhum deles parece entender
que lidamos com valores espirituais e não gerenciais. Nosso desafio não é o de lotar os auditórios,
mas de inspirar corações a amar a Deus.
A perspectiva da igreja evangélica tornar-se uma maioria – em muitas cidades brasileiras já
existem mais evangélicos por domingo nos cultos que católicos nas missas – pode ofuscar o
perigo de que estamos sucumbindo ao pragmatismo. A pergunta que se faz no mundo moderno é:
funciona? Os gregos buscavam o conhecimento para compreender; os judeus queriam o
conhecimento para reverenciar, mas o homem pós-moderno quer o conhecimento para manipulálo. Lembro-me de como os fundamentalistas acusavam – injustamente – os pentecostais de
valorizarem as emoções acima da verdade. Hoje sim vale perguntar se o neo pentecostalismo –
teologia da confissão positiva e teologia da prosperidade – não hierarquiza o que é útil acima da
verdade.
Os evangélicos crescem rapidamente. Mas ainda somos muito indisciplinados. Temos grandes
ideais mas faltam-nos normas; temos esperança, mas carecemos de direção espiritual; temos fé
mas falta-nos temperança; temos coragem mas falta-nos discrição e humildade.
O mais estranho paradoxo que acontece na igreja evangélica brasileira é que ela possui uma vida
exuberante mas é pobre em sua teologia, tem fé mas não consegue aprofundar-se na sua
intimidade com Deus. A não ser que seu desempenho externo reflita uma vida profundamente
arraigada no amor de Deus, sua piedade apodrecerá e suas boas intenções sucumbirão.
A única resposta que poderíamos dar ao Padre Antônio Vieira sobre tão exuberante crescimento
da Igreja evangélica no Brasil é que crescemos a despeito de nós mesmos. Sabemos apenas que
sua graça é mais abundante em tempos em que falhamos muito. O próprio Vieira quando viu os
pecados de seus pares naquele Brasil ainda tão provinciano e mesquinho, rezou assim: “..E como
sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do
Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos
grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses
mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo dado por Vós mesmo para
mais convencer vossa bondade.”
E a nós só resta dizer, Amém.
Soli Deo Gloria
O coração e chamas do verdadeiro evangelista
Ricardo Gondim Rodrigues
Não existe história, apenas biografias. A frase não é minha, mas quero tomá-la emprestada de
quem a usou pela primeira vez, para referir-me a John Wesley, um dos meus heróis. Sua biografia
é impressionante. Wesley ainda permanece como um dos ícones legendários da história universal
e eclesiástica. A ele cabem as mesmas palavras proferidas pelo grande Rui Barbosa à beira do
túmulo de Machado de Assis: “Para os eleitos do mundo das idéias a miséria está na decadência, e
não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra”. A excelência de Wesley, sua
vida, idealismo, vigor e acima de tudo, paixão pela mensagem da cruz, lhe preservam no panteão
dos grandes heróis pós-Atos. Entre os dezenove filhos de Samuel e Susana Wesley, foi ele,
ladeado por seu irmão Charles, quem mais se destacou como estadista, reformista e avivalista.
Quero resgatar a sua maior paixão, evangelizar.
O dia 24 de maio de 1738 marcou sua peregrinação espiritual. Wesley participava de uma reunião
da Sociedade Missionária dos Morávios quando seu “coração foi aquecido de modo estranho”.
Wesley, inflamado por sua experiência com o Espírito Santo, saiu pregando a salvação pela fé. A
igreja anglicana daqueles dias, sacramentalista e engessada, não demorou a fechar as portas para
Wesley. Daí, ele e os metodistas que o acompanhavam, partiram para a pregação ao ar livre. Uma
quebra de paradigmas para os seus dias.
Mesmo depois de séculos após sua morte, mesmo depois de inúmeras obras escritas na tentativa
de entendê-lo, mesmo depois dos processos de institucionalização e secularização de enormes
segmentos da igreja metodista, mesmo depois que muitas instituições de ensino metodista se
contaminaram com a teologia liberal, Wesley permanece como o grande referencial de fé,
santidade e compromisso com o reino de várias denominações cristãs ao redor do mundo. A ele
atribui-se, inclusive, o arcabouço teológico que possibilitou o crescimento do movimento
pentecostal.
Conheci um pouco da vida de Wesley nas histórias que se contam a seu respeito. Quantos
quilômetros viajou a cavalo, quantos sermões pregou em vida e seu impacto social na Inglaterra.
Os historiadores concordam que o avivamento evangélico do século XVIII poupou o reino britânico
de uma revolução sangrenta como a francesa.
Eu morava nos Estados Unidos em 1979 quando li “The Burning Heart – John Wesley: Evangelist”,
escrito por A. Skevington Wood (Bethany Fellowship, 1978). Wood, pastor da Igreja Metodista de
Southlands em York, Inglaterra, estudioso da vida e obra de Wesley inquietou-se por notar que
havia pouquíssima literatura sobre sua paixão evangelística. Falou-se muito sobre a vida de
Wesley, sua ética e seu compromisso social e teológico. Mas, segundo Wood, são poucos os que
percebem que o propósito maior pelo qual Deus levantou seu servo foi para evangelizar a
consciência de uma nação.
Qual o segredo deste homem que viajou mais de duzentos e cinqüenta mil milhas a pé, de
carruagem ou a cavalo, pregou mais de quarenta mil sermões, e ainda encontrou tempo para
escrever cerca de duzentos e cinqüenta livros? Qual era a sua paixão maior? O que o motivava
com tamanha força de vontade? Wesley amava a mensagem da cruz e acreditava que nela estava
o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê.
Wesley, primeiramente, se decepcionou com os seus esforços rigorosos e ascéticos de produzir,
por si mesmo, a paz interior. Não encontrava o sentido existencial de sua missão. Triste e abatido,
voltou-se para aquele que poderia lhe dar sossego de alma, Jesus Cristo.
Tentara ser um missionário nos Estados Unidos. Com um zelo digno dos melhores religiosos
partiu, no navio Simmonds em 14 de outubro de 1735, com o objetivo de evangelizar os índios da
Geórgia. Mal sabia que Deus tinha outros planos. O que Deus queria fazer em Wesley era maior
do que tinha para fazer através dele. A cópia de uma carta escrita por Wesley a bordo do
Simmonds só foi descoberta recentemente. Seu conteúdo revela como estava perturbado. “Em
vão tenho fugido da mim mesmo para a América. Ainda choro sob o intolerável peso de minha
miséria. Se ainda não me arrependi deste projeto é porque nada espero da Inglaterra ou do
paraíso. Aonde for levarei o meu inferno comigo...”
Ainda a bordo conheceu alguns missionários morávios e depois que chegou à Geórgia, conversou
com August Gottlieb Spangenberg que depois do conde Zinzendorf era a segunda pessoa na
sociedade dos Morávios. Quando pediu ajuda sobre sua obra missionária Spangenberg foi direto
na jugular: “O Espírito de Deus testifica com o seu espírito que você é filho de Deus?” Wesley se
espantou com a linguagem direta e sem rodeios do outro missionário. Spangenberg continuou
como numa rajada de metralhadora: “Você conhece Jesus Cristo?” Wesley engasgou: “Sei que ele
é o salvador do mundo.” Seu interlocutor não lhe dava tréguas e fustigou mais uma vez:
“Verdade,” concordou Spangenberg, “mas você sabe se ele já lhe salvou?” A hesitação de Wesley
chegava a ser vergonhosa: “Espero que ele tenha morrido para me salvar”. Spangenberg
pressionava com a mesma intensidade: “Você sabe disso com certeza?” Sem coragem para falar,
Wesley apenas resmungou: “Sei, sim”. Anos depois, confessou em seu diário que aquele “sei,
sim”, foram palavras vãs.
Depois que voltou para a Inglaterra, sentindo-se derrotado e triste, Wesley nasceu como
verdadeiro filho de Deus, no memorável 24 de maio de 1738, aniversário espiritual de um dos
mais completos evangelistas de toda a história do cristianismo. O marco foi tão significativo que
Wesley afirmou: “acabaram-se todas as disputas.” No prefácio de sua narrativa de conversão, ele
nos conta que dois alicerces marcaram o dia em que finalmente Cristo tornou-se seu salvador: “1)
renunciar de forma absoluta, minhas obras ou minha justiça, que me serviam de base para
salvação; 2) acrescentar ao viver todos os meios da graça: oração, dependência completa no
sangue que Cristo derramou por mim, confiança nele como o meu Cristo, minha única justiça,
santificação e redenção” (grifo original).
Os evangélicos brasileiros precisam redescobrir Wesley. Ele pode nos ajudar a nos
desvencilharmos de uma cultura excessivamente pragmática. As demandas do mundo urbanizado
em que o tempo se torna cada vez mais exíguo. Com menos tempo para cuidarmos de nossa
alma, acabamos consumidos pelas engrenagens da máquina religiosa e apenas papagaiando
jargões que há muito perderam o sentido ou a profundidade. A avidez com que Wesley lia, sua
sede de conhecer, deram-lhe uma profundidade teológica impressionante. Quão distante do
evangelista pós-moderno que se especializa em superficialidades, se contenta em produzir
emotividade instantânea e vive da sua dramaturgia. Necessitamos devolver a boa teologia ao
conceito evangelístico. Os pregoeiros da justiça precisam ser mais densos, precisam chamar o seu
auditório a entender, internalizar e viver as verdades bíblicas.
“Meu chão é a Bíblia,” Wesley declarou certa vez. “Sim, eu sigo a Bíblia em todos os assuntos,
grandes ou pequenos. Ela é a pedra de apoio em que os cristãos examinam todas as revelações,
reais ou supostas.” Aconselhou seus evangelistas: “Nunca aceitem nada sem testar... não creiam
em nada que não tenha sido claramente confirmado por passagens das escrituras...”
Wesley era pregador da graça. Embora, a primeira geração de metodistas tenha sido de homens e
mulheres comprometidos com santidade e o texto de Hebreus 12.14 (Segui a paz com todos e a
santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor) fosse o lema de milhões, ninguém jamais
esqueceu a Graça. Wesley alinhava-se à Reforma protestante e enfatizava a Sola Gratia e Sola
Fide. Em junho de 1738, pregou um sermão em Oxford e afirmou: “A mesma graça livre nos
concede hoje vida, respiração e tudo mais, pois não há nada que somos ou temos ou fazemos que
não provenha da mão de Deus. ‘Todas as nossas obras, tu, oh Deus as fazes por nós’. Assim, elas
são tantas outras manifestações de livre misericórdia, e toda justiça encontrada no homem, será
também uma dádiva de Deus. Então como o pecador fará expiação pelo menor de seus pecados?
Com suas próprias obras? Não. Ainda que estas sejam muitas ou sejam santas, não provêm dele,
mas senão de Deus...Se, portanto, os pecadores acharem graça diante de Deus, é ‘graça sobre
graça’...´Pela graça então sois salvos, mediante a fé’. A graça é a fonte e a fé a condição da
salvação.”
A igreja evangélica distancia-se muito da Reforma protestante e afasta-se muito do pensar
wesleyano ao calcar sua prática evangelística sobre sacrifícios, penitências e boas obras
(principalmente dízimos e ofertas) para se “alcançar o favor de Deus.” Quando ouço programas de
rádio ou de televisão ensinando técnicas de oração, campanhas sucessivas de como receber o que
desejamos de Deus, lamento que o esforço de heróis da fé escorra na sarjeta de um paganismo
disfarçado. Tantos movimentos evangélicos atuais não podem mais falar da graça sem muitos
senões. Evangelistas bem sucedidos não são aqueles que atraem multidões, mas aqueles que
sabem explicar a justificação de pecadores pela graça.
Wesley foi dono de um currículo invejável. Tudo o que fez, entretanto poderia ser resumido
apenas como um homem à frente do seu tempo. Rompeu paradigmas, amou os excluídos e
pregou a graça. Viveu apaixonadamente anunciando a mensagem que mais admirava: o Calvário.
Os evangélicos brasileiros, inclusive os metodistas, precisam redescobrir John Wesley. Seu legado
não apenas enriquece como pode ajudar a vivermos um cristianismo com o coração aquecido.
Soli Deo Gloria

O cristão é pessimista?
Ricardo Gondim Rodrigues
"O discurso do pastor foi desanimador e pessimista. Afinal de contas, o emprego dele depende do
pessimismo." Ouvi essas sentenças como reação a um discurso que proferi em uma entidade
filantrópica. O tema que me foi apresentado era: A realidade do mundo e a expectativa evangélica
para o futuro. Embora esse comentário sobre minha palestra tenha me deixado triste, compreendi
que ele não se dirigia apenas a mim. Representava muito mais uma resposta secularizada à visão
cristã de mundo. A expectativa evangélica do futuro parece, em um primeiro instante, muito
negativa.
Cristo previu um cenário bem cru para os últimos dias. Independente da interpretação que se dê
para alguns textos como Mateus 24 e Lucas 21, vê-se claramente que Jesus não foi ufanista
quanto ao futuro da humanidade. Seu vaticínio previa uma falência do sistema ecológico
(terremotos, o sol se escurecendo, a lua não dando sua claridade etc.); crises econômicas (fome);
conflitos políticos (guerras e rumores de guerra); abalo na família (pai se levantando contra filho);
barafunda religiosa (falsos profetas, falsos cristos, perseguição); frouxidão moral (multiplicação da
iniqüidade, esfriamento do amor).
Depois de Cristo, os pagãos também acusaram os primeiros cristãos de "odiar a raça humana". E
Paulo não poupa palavras. Escrevendo para seu discípulo Timóteo, anteviu um futuro nebuloso:
"Sabe porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão dias difíceis; pois os homens serão egoístas,
avarentos, jactanciosos, arrogantes, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis,
caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes
amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma da piedade, negando-lhe, entretanto, o
poder" (2Tm 3.1-5).
Passados quase 2.000 anos, vale perguntar: "a escatologia cristã é pessimista?".
Só neste século experimentamos duas guerras mundiais, centenas de conflitos em menor escala e
mais de 150 milhões de mortos. A cobiça humana arrasou com florestas, dizimou espécies
animais, poluiu rios, destruiu a camada de ozônio. A sofisticação dos sistemas políticos foram
incapazes de amenizar as injustiças sociais; um terço da humanidade ainda vive em miséria
absoluta. Os cartéis do tóxico tornaram-se poderosas forças econômicas e políticas. Pode-se
continuar relatando desgraças ad infinitum: aborto, ódio étnico e religioso, indústria da
pornografia infantil, chuva ácida, minas que mutilaram homens, mulheres e crianças etc. Antes de
ter sido acusado por sua mulher de cometer incesto com uma de suas filhas adotivas, o cineasta
Woody Allen declarou: "Mais do que em qualquer outra época, estamos numa encruzilhada. Um
dos caminhos leva à catástrofe e ao mais terrível desespero. O outro leva à extinção total. Vamos
rezar para que façamos a escolha correta". Norman Brown, escritor americano, conseguiu ser
ainda mais seco: "Até a sobrevivência da humanidade é hoje uma esperança utópica".
O cristianismo não colore o futuro de tons bonitos porque, ao contrário do Iluminismo - que
imaginava as pessoas como naturalmente boas -, ele insiste na doutrina da queda - todos estão
presos ao pecado. Alienados de Deus, homens e mulheres continuarão gerando sistemas
perversos. Há alguns anos, acompanhei um fotógrafo norte-americano que documentava a dura
realidade da miséria nordestina. Ele já trabalhara para o Washington Post, cobrindo a guerra do
Vietnam e conhecia as iníquas entranhas do poder político. Desiludido, sua conclusão sobre a
humanidade coincide com a dos evangelhos. "Parece que há forças invisíveis governando os
destinos da humanidade; por mais que nos esforcemos e sonhemos com um mundo mais bonito,
somos impelidos para a guerra, para a corrupção e para a desgraça", lamentava ele. O
cristianismo reconhece que sistemas adoecem, que estruturas se satanizam, que gerações inteiras
se corrompem, mas identifica o pecado pessoal como a fonte de todos os males. "Porque do
coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos
testemunhos, blasfêmias" (Mt 15.19). Sem arrependimento e regeneração do indivíduo, a
escatologia cristã será sempre cética quanto ao futuro. João Batista começou pregando que o
machado está posto à raiz da árvore (Mt 3.10), portanto, se as pessoas não forem regeneradas
pelo poder do Espírito Santo, não conseguirão jamais gestar um futuro promissor.
A escatologia cristã parece ser pessimista também porque espera uma intervenção radical de
Deus na história. Os apóstolos questionaram a Cristo antes do dia de Pentecostes: "Senhor, será
este o tempo em que restaures o reino a Israel?" (At 1.6). Desde então a literatura cristã está
farta de idéias apocalípticas. Tanto nos escritos de Paulo, Pedro, João, como nos anseios das
comunidades primitivas - que clamavam "Maranata" - acreditava-se que a volta de Cristo seria
eminente. Todas as gerações esperavam que Cristo voltasse para julgar os ímpios, erradicar a
maldade e estabelecer seu reino milenar na Terra. Essa expectativa é sintomática. Indica que a
comunidade cristã jamais acreditou que as utopias futuras dessem certo. Mesmo em períodos
históricos em que houve grande envolvimento político, os cristãos esperaram a invasão
apocalíptica do próprio Deus. Thomas More imaginou a ilha da Utopia, Chardin pregou a evolução
do ser humano e Marx propôs uma sociedade altruísta e sem desiguais. Os cristãos, entretanto,
embora insistindo no envolvimento de cidadãos na militância política para diminuir o avanço do
mal e demonstrar lampejos do reino futuro aqui na Terra, acreditam que só haverá justiça e paz
quando Cristo voltar e implantar seu reino. Certa vez, C. S. Lewis disse que na hora em que o
autor de uma peça entra no palco do teatro é sinal de que acabou-se o espetáculo.
A escatologia cristã, porém, não se enxerga como pessimista. Primeiro, porque não se frustra com
o irrealizável, mas se concentra no que pode ser feito. Não se acomoda, mas antecipa em vidas e
comunidades o reino de justiça que ainda está por vir. Forma espaços de vida em meio ao caos.
Gera esperança contra a própria esperança. O cristão não é niilista, porque acredita nos
desdobramentos da regeneração. Se o coração depravado é potencialmente capaz de
monstruosidade, o regenerado pode produzir ondas de bondade com poder de alterar leis, países,
gerações inteiras. Robinson Cavalcanti, meu vizinho aqui na Ultimato, faz-nos pensar nos
desdobramentos de um cristianismo integral. A missão do cristão regenerado é: "Expor toda a
Palavra, interceder por todos os problemas, apoiar todas as vocações, edificar todos os fiéis,
combater todo o mal". Cavalcanti continua sonhando com a possibilidade de concretizar a utopia
realizável do Reino com "cristãos que amam não só de palavras, mas de atos. Atos filantrópicos,
atos que apóiem projetos em comunidades carentes, atos que lutem por atacar as causas
estruturais de opressão. Igrejas proféticas, cristãos engajados, movimentos de inspiração
evangélica. Homens novos comprometidos com um novo mundo, antecipando novidades no
mundo: sinais do Reino, marcas do Reino, antecipação do Reino".
Na igreja de Tessalônica espalhou-se uma heresia apocalíptica. Alguns diziam que Cristo já voltara
e que de nada adiantava trabalhar ou ter planos futuros, porque o seu reino seria implantado sem
a interferência humana. Outros afirmavam que Ele ainda não tinha voltado, mas que estava às
portas. Diziam também que não era mais necessário nenhum projeto humano, pois na sua volta,
tudo redundaria em nada. Paulo os corrigiu escrevendo as duas epístolas aos tessalonicenses.
Nelas, ele lembra que a volta de Cristo não deve provocar acomodação, indiferença mas um
compromisso com a vida. "O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma
e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Ts
5.23).
A profecia cristã não é pessimista, ela convoca os cristãos a se engajarem antecipando e
demonstrando lampejos do Reino e a se santificarem esperando "novos céus e nova terra, nos
quais habita a justiça" (2 Pe 3.13). Vem, Senhor Jesus.
Soli Deo Gloria
Um sonho inquietante
Ricardo Gondim Rodrigues
Exausto, deitei-me já tarde. O silêncio da madrugada fria convidava-me para uma noite de sono
profundo. Aquela seria uma noite curta pois antes do sol nascer já teria que estar em pé
novamente. Noites curtas são geralmente sem sonhos. Deito-me e antes que perceba, as horas se
passaram céleres. Ontem, entretanto, não foi assim. Sonhei a noite inteira.
Sonhei que estava em um culto com o auditório lotado. A reunião iniciou-se com uma oração
muito mecânica. Apresentou-se logo um grupo musical gospel. Nos primeiros acordes, notei que
faltava talento e sobravam decibéis. A letra era paupérrima, toda a música concentrava-se em
repetir um refrão: “O leão de Judá derrotou o outro leão perigoso.” A multidão foi ao delírio com o
término da apresentação que todos chamaram de “louvorzão.” Gritava e movia-se em um frenesi
alucinante. O líder do culto, levantou-se e ensinou as pessoas uma coreografia que, segundo ele,
derrotaria o diabo. Todos, como se estivessem com espadas na mão, passaram a encenar uma
batalha de esgrima. Terminada a “batalha” foram gastos mais de quarenta minutos no
levantamento das ofertas. O ambiente tornou-se constrangedor. Tudo foi feito para aumentar a
contribuição. Desde ameaças a promessas de que receberiam cem vezes mais. As ofertas
resolveriam todos os problemas das pessoas. De acordo com o valor dado, o câncer
desapareceria, os problemas conjugais se resolveriam. A oferta seria a chave para uma vida plena
e feliz.
O preletor daquela noite, levantou-se para pregar e, por cerca de cinqüenta minutos, falou sobre
assuntos diversos sem, contudo conduzir uma linha de raciocínio, sem qualquer compromisso de
expor a Bíblia. Parecia não haver se preparado. Falava, falava, deixando que suas divagações o
conduzissem a um próximo pensamento, que nem ele próprio sabia qual era. Meu sonho me
perturbava. Transformava-se em um pesadelo.
De repente, vi ao meu lado, participando daquele culto, para minha absoluta surpresa, quatro
personagens históricos: Martinho Lutero, João Calvino, João Wesley e Charles Finney. Mal podia
acreditar que um dia estaria cultuando a Deus ao lado de tão ilustres personalidades do mundo
protestante. Em meu sonho, eu fui apresentado a eles pelo sueco Gunar Vingren, fundador do
pentecostalismo no Brasil. Todos pareciam se conhecer há muito, havia uma familiaridade entre
eles. Contudo, embora estivéssemos participando de um mesmo culto, todos mostravam-se
igualmente inquietos. O clima era desconfortável. Mesmo sonhando, lembro-me de como o
músculo de minha face tremia diante da honra de apertar a mão de cada um deles. Muitas
perguntas vieram à minha mente. Curiosidades, esclarecimentos, dúvidas que precisavam ser
sanadas. Mas, ao contrário, eles é que começaram a me questionar.
Lutero estava indignado pelo que parecia uma volta da igreja à Época Medieval das relíquias, dos
amuletos e das indulgências. Queria saber o que aconteceu aos protestantes para estarem
novamente acreditando que sal grosso “afasta mal olhado”, que copo d’água traz bênçãos.
Perguntou-me como a igreja passou a acreditar em maldição familiar.
Expliquei-lhe que a igreja brasileira convive com uma cultura muito mística. Falei da herança
católica medieval, depois disse que os índios brasileiros eram animistas e ainda tracei um
cuidadoso curso da religiosidade africana e como ela se contextualizou. Lutero, porém, veemente,
mostrou-me os efeitos devastadores que as relíquias tiveram em seus dias e que somos
justificados pela fé. Para ele, a Palavra deveria ser suficiente para produzir fé e que não
precisamos de “pontos de contato” para que o poder de Deus flua em nós.
Calvino, interveio em minha conversa com Lutero. Ele também estava revoltado. Sua maior
preocupação era entender o porquê de tanto descaso com a Bíblia. Ele não entendia como nos
separamos tanto da Reforma que transformou o conceito de culto. Calvino me falava que até o
avanço dos protestantes na Europa, cultuar a Deus, resumia-se em se assistir a um ritual. A
liturgia era mais importante que a exposição do texto sagrado. Mas os reformadores, segundo ele
me dizia, lutaram muito para que as pessoas apreendessem que a melhor maneira de cultuar a
Deus é conhecendo e vivendo os princípios eternos de Deus. Concluiu me mostrando que o púlpito
antigamente ficava deslocado em um lugar de menor importância e que o altar é que era central.
Só no protestantismo, o púlpito passou a ocupar o lugar mais central do templo. Tentei mostrarlhe que estamos em uma sociedade viciada em imagens. Que o nosso nível de atenção hoje é
mínimo. Falei-lhe dos vídeo clips, da superficialidade cultural que a televisão produz. Ouviu-me
com atenção, mas parece não ter aceitado minha explicação.
Wesley estava aturdido. Em meu sonho, ele me dizia que percebia por aquele culto que havia
muitos chavões mas pouco compromisso ético na igreja. Por duas vezes, me perguntou: “Será
possível conduzir a obra de Deus apenas prometendo triunfo, sem jamais questionar a vocação
profética da igreja? Wesley não entendeu a interpretação de textos do Antigo Testamento,
prometendo que os crentes foram postos por cabeça e não por cauda. Será que a igreja
evangélica não sabe que o “grão de trigo precisa morrer para produzir muitos frutos?” Insistia me
indagando: Não somos chamados para sermos sal da terra e luz do mundo antes que nos
preocuparmos com riqueza e poder? Novamente tentei explicar. Mas, eu próprio estava
envergonhado e minha explicação foi vã.
No sonho, Charles Finney, também se aproximava de mim querendo entender o que se passava.
Falou-me de como eram os cultos evangelísticos de seus dias e de como as pessoas encaravam o
novo nascimento. Mostrou-me que o apelo para as pessoas se converterem foi uma quebra de
paradigmas. Ele fazia o apelo para que as pessoas que estavam “ansiosas” por salvação tivessem
um tempo para refletir e saber se realmente desejavam um compromisso real com Cristo. Que o
novo nascimento era uma decisão importantíssima que as pessoas faziam em resposta à graça.
Sua inquietação com o culto de meus sonhos vinha da maneira tão trivial que as pessoas
encaravam a conversão e o discipulado. Finney dizia-me que o cristianismo moderno está se
esvaziando de seus conteúdos e que em breve muitos não saberão sequer explicar o que lhes
aconteceu na conversão.
Gunnar Vingren, que me apresentou aos outros ilustres personagens, não aceitava que todo o
sacrifício dos pioneiros do movimento pentecostal desmoronasse em uma teologia tão imediatista.
Ele dizia que não há pentecostes sem a cruz. Com um sotaque sueco, disse-me: - Meu filho, não
há experiências com o Espírito Santo sem zelo missionário, sem paixão evangelística.
Comecei a suar e meu sono tornou-se atribulado. Estava rodeado com uma grande nuvem de
testemunhas, e todos tinham o semblante preocupado. Acordei.
Sem conseguir voltar para a cama, orei. Em minha prece, pedi que Deus levante uma igreja
evangélica no Brasil comprometida em ter apenas a Bíblia como regra de fé e de prática. Pedi que
Deus levante pastores que cuidem do povo como rebanho de Deus e não como um investimento
que pode ser capitalizado no futuro. Orei para que os seminaristas não confundam sucesso com
um ministério aprovado por Deus. Supliquei a Deus que nos faça uma igreja solidária com os
miseráveis, profética na defesa dos indignos e misericordiosa com os pecadores.
Os sonhos são interessantes. Muitas vezes mostram o que não queremos ver. Talvez, a maior
necessidade da igreja seja olhar-se criticamente. Se fecharmos os olhos para a trivialização do
sagrado, para a falta de compromissos éticos e proféticos, para a transformação do culto em
espetáculo, não só nos condenamos a sermos irrelevantes para a nossa geração como
envergonharemos muita gente que já deu a sua vida pela causa de Cristo.
Que Deus nos ajude.
Soli Deo Gloria
O forte crescimento evangélico brasileiro
Ricardo Gondim Rodrigues
Na Inglaterra, entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu
corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalShadas pelo largo espaço
lembravam-me um necrotério.
Eu explico o porquê. Aquele salãso havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos
anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um
grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só
restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos,
donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em
pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue Cristo nos
purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o
avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e
mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar —
pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens
vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a
Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão
patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil. Semelhantemente ao avivamento
wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma
efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de
templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e
televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD’s. Publicam-se revistas e livros.
Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam,
interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na
Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra
pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social.
Os desdobramentos destas constatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária,
ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil?
Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são
diferentes. Lá, houve um forte movimento anti-clerical motivado pela secularização do Estado e
das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de
institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos
antigos avivalistas ingleses.
Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se
mostram de forma exuberante.
A trivialização do sagrado
Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência
teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa
igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de
Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de
expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao
sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente
não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável,
retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo
temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se
fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só
geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico.
Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pelas suas próprias
falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu
nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O
descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande
familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se
nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocandoo na mesma categoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou
não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus.
O esvaziamento dos conteúdos
Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos
púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias
de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo
teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura
emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas
não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século
XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com
evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou:
"Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados
têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de
atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos".
Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que
só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida?
A mistura de meios e fins
Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa
justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é
meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro
existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do
povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão
visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas
perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo
simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no
templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com
clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão
por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas
igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias
buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A
confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia.
O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem.
As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumemse a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que
as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer
irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te,
e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro,
caso não te arrependas" (Ap 2.5).
Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável.
Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de
profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma
Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo
amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de snooker é um
sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade. Que Deus
nos ajude.
Soli Deo Gloria.
Orgulho de ser evangélico
Ricardo Gondim Rodrigues
Gosto de correr pelas ruas de São Paulo com uma camiseta que adquiri em Recife. Ostento com
letras garrafais em meu peito a frase: Orgulho de ser nordestino. Em uma parede de meu
apartamento emoldurei a foto de meu pai. Dos tempos em que jogou futebol pelo Corintians. Sua
postura de braços cruzados, com todo time, diante de um Pacaembu lotado, me envaidecem.
Sinto orgulho de seu porte atlético, sua confiança de campeão. Dele, orgulho-me ainda de ter sido
preso político. Não abriu mão de suas convicções para agradar os militares de 1964. Guardo
também vários outros orgulhos. Principalmente o de ser evangélico.
Quando me converti em minha adolescência, encantei-me com o desprendimento de homens e
mulheres crentes. Abriam mão de suas manhãs dominicais para se dedicarem a jovens como eu –
sem qualquer berço religioso. Queriam que eu aprendesse a Bíblia. Lembro-me afetuosamente
daquele presbítero que passava na porta de minha casa e me levava aos cultos. Devotava-me o
mesmo carinho que a seus filhos. Não conseguia entender porque mais de 40 pessoas gastavam
até três horas em uma determinada noite para ensaiarem o coral. Só para cantar dois hinos no
domingo à noite. Boquiaberto, compareci a uma escola bíblica em uma favela. Jovens como eu
abriam mão de suas tardes de domingo para ensinarem a Bíblia a crianças carentes. Orgulho-me
saudosamente de haver engatinhado na fé em uma igreja presbiteriana.
Anos depois, passei a orgulhar-me de ser pentecostal. Minha primeira incursão no mundo
pentecostal aconteceu em uma campanha evangelística; cena tão comum dos primórdios do
movimento. O palanque consistia em um tablado de madeira apoiado sobre tambores de óleo
vazios. O grupo musical tocava hinos que estimulavam a fé. Enfaticamente cantavam: “Conta para
Jesus, onde é a tua dor. Ele te ajuda a carregar a Cruz. Com insistência ora. Que tu vais vencer. O
que tu precisas, conta para Jesus.” O pregador levantou-se e proferiu um sermão veemente,
evangelístico, bíblico. Prometeu que ao final de sua prédica faria duas orações. A primeira para
que pessoas pudessem se converter. A segunda pelos enfermos. Depois que terminou o evento,
saí orgulhoso com a intrepidez e coragem daquele jovem evangelista. Parecia desafiar o inferno,
queria povoar o céu. Acreditava em um Deus de milagres.
Orgulho-me também de ter alicerçado minha fé no ambiente da Aliança Bíblica Universitária.
Sentávamos no chão, com a Bíblia no colo e, com o famosíssimo Método Induzido de Estudo,
mergulhávamos na Palavra. As horas se passavam, confrontávamos o que sabíamos sobre Deus
com os argumentos de nossos professores universitários. A ABU, marco importantíssimo na
história evangélica brasileira, me deixa embevecido.
Meu orgulho evangélico, entretanto, não me impede de perceber as idiossincrasias do movimento.
Há tantas distorções, imaturidades e desvios no evangelicalismo nacional. Por um lado, a igreja
ainda está presa ao fundamentalismo norte-americano. Ainda copia a moralidade ianque. O cânon
da literatura evangélica ainda é dos Estados Unidos. Em alguns redutos mais conservadores ainda
se beija a mão de gringo. Há algum tempo eu e outros brasileiros, fomos convidados para pregar
em uma conferência. Dividiríamos o tempo com alguns nomes expressivos da igreja evangélica
norte americana. O tratamento que recebemos e como eles se comportaram foi sintomático.
Começando pelo hotel. Eles hospedaram-se em um cinco estrelas. Nós, em um com categoria de
pensão. Na hora em que falaram evidenciou-se o colonialismo. Embora pastores e lideres de
expressão nacional estivessem no auditório, falavam-nos como se fôssemos alunos adolescentes
numa classe de catecúmenos.
No outro extremo, os evangélicos brasileiros vêm construindo a sua identidade sem raízes
históricas. Embora já possuirmos uma identidade bem brasileira, desprezamos o labor teológico de
séculos. Assim tornamo-nos vulneráveis ao sincretismo. Refratários às heresias. Cismáticos,
vamos nos expandindo anarquicamente. Hoje, infelizmente as igrejas se multiplicam nos
arredores das grandes cidades por meros caprichos de seus líderes. Desprovidos de projetos, sem
percepção nítida de sua razão de ser, novos líderes vão abrindo novas comunidades que acabam
enveredando por práticas bizarras.
Há muitos erros no modelo evangélico. Entretanto, ele não está falido. Historicamente ainda
somos adolescentes. A presença evangélica no Brasil ainda não tem 150 anos (O primeiro casal
protestante de caráter permanente, Sarah e Robert Kalley, chegou no Brasil em 10 de maio de
1855). Ainda cometeremos muitos deslizes até que cheguemos a uma maturidade histórica. Se a
igreja evangélica neste país tem perdido alguns valores da ética protestante, ela tem conseguido
enormes avanços em outras dimensões da Reforma. O sacerdócio universal de todos os crentes,
por exemplo.
No Brasil, a igreja evangélica caminha com os leigos. Enquanto algumas lideranças
denominacionais perdem tempo com a política interna. Homens e mulheres sobem os morros,
embrenham-se pelos igarapés amazônicos, varam os sertões nordestinos com a paixão de
evangelizar. Orgulho-me de já ter pregado em cultos familiares conduzidos na calçada. A mesa da
cozinha, coberta com uma toalha e ornada com um buquê de flores artificiais, serve de púlpito.
Falei com o microfone dando choque. Minha voz amplificada numa corneta de som chiando. Sem
instrumento musical algum, desafinados, cantamos sobre o Calvário: “Foi na cruz, foi na cruz,
onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus. Foi ali pela fé, que meus olhos abri e agora
me alegro em sua luz.” Quando viajo pela redondezas das grandes cidades observo famílias
caminhando a pé pelos acostamentos das estradas. Identifico os crentes e com os olhos
marejados de lágrimas, sinto-me orgulhoso. O pai de paletó e gravata carrega a Bíblia
orgulhosamente contra o peito. Segura a mão de um filho. A esposa, seguindo com mais dois
outros filhos. O Evangelho lhes dá uma dignidade que as estruturas sociais iníquas lhes impedem
de ter. Percebo-os felizes. Altivos, vão cultuar a Deus.
Tenho orgulho de missionários transculturais. Já me encontrei com verdadeiras heroínas e heróis
trabalhando pela causa de Cristo em circunstâncias dificílimas. Gente que investe o melhor de
seus anos na Índia, Moçambique, Peru, Filipinas, Sibéria. Às vezes, ouço críticas aos modelos
evangélicos partindo de pessoas que sempre desfrutaram as benesses do evangelho. Carecem de
legitimidade. O modelo com que nossos missionários trabalham talvez não seja ideal, mas dentro
de suas possibilidades e do que sabem, eles excedem. Orgulho-me das missionárias solteiras, dos
pilotos que voam pela Amazônia, dos lingüistas que investem décadas na tradução de Bíblias, dos
médicos e dentista que abriram mão da possibilidade de ficarem ricos para alcançarem os pobres.
Há fidalguia no sacrifício dos heróis da fé contemporâneos.
Sinto orgulho dos professores de pequenos seminários e institutos bíblicos deste país. Por todo o
Brasil há pequenos centros de formação teológica. Geralmente ocupam as mal equipadas salas da
Escola Dominical. Louvo a Deus por esses professores que gastam suas noites semanais
lecionando para rapazes e moças. Muitos não recebem salário algum. Desdobram-se para que os
livros de teologia sistemática, história da igreja, pneumatologia sejam conhecidos de seus pupilos.
A igreja evangélica brasileira é ao mesmo tempo uma construção social e espiritual. Jesus
afirmou: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Chamou para si a
responsabilidade de edificar sua igreja. Também nos convocou amorosamente para sermos seus
parceiros. Eis a razão de haver ao mesmo tempo tanta beleza e imperfeição. Nesta ambigüidade
devemos nos arrepender de nossos defeitos e celebrar nossa beleza. Creio na fidelidade de Deus.
Ele terminará a boa obra que começou em nós. Acredito que ainda vamos amadurecer e nos
aprimorarmos no projeto do Reino. Estou disposto a investir minha vida pela Igreja. Pensando
bem, creio que vou mandar fazer uma camiseta: Orgulho de ser evangélico.
Soli Deo Gloria

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  • 1.
    Abaixo seguem diversosartigos extraídos da coluna “reflexão” da revista Ultimato (www.ultimato.com.br), escritos pelo pastor Ricardo Gondim – Pr. da Igreja Ass. Deus Betesda em São Paulo SP Igrejas também morrem Ricardo Gondim Rodrigues Na Inglaterra, entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalhadas pelo largo espaço lembravam-me um necrotério. Eu explico o porquê. Aquele salão havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos, donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue Cristo nos purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar — pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil. Semelhantemente ao avivamento wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD’s. Publicam-se revistas e livros. Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam, interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social. Os desdobramentos destas constatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária, ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil? Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são diferentes. Lá, houve um forte movimento anti-clerical motivado pela secularização do Estado e das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos antigos avivalistas ingleses. Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se mostram de forma exuberante. A trivialização do sagrado Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico. Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pelas suas próprias falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocando-
  • 2.
    o na mesmacategoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus. O esvaziamento dos conteúdos Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou: "Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos". Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida? A mistura de meios e fins Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas igrejas já não sabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia. O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem. As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumemse a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (Ap 2.5). Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável. Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de snooker é um sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade. Que Deus nos ajude. Qual o futuro para os evangélicos brasileiros? Ricardo Gondim Muita história separa o primeiro do segundo CBE. Em 1983 os sonhos ainda não haviam morrido, os muros altos da guerra fria continuavam de pé. Não havia o telescópio Hubble, computadores de colo ou de bolso, nem telefone celular ou mapeamento genético. Ainda se tocavam discos de vinil. Naquele tempo, o Saddam Hussein recebia verbas para aumentar o seu exército e tanto o Pinochet como o Noriega eram considerados bons estadistas. Ninguém sabia quem era o Osama Bin Laden. Considerava-se a China um país agrícola e atrasado. Ensinavam-nos que a besta do Apocalipse seria dez países (não mais do que 10) europeus que se juntariam para renascer o
  • 3.
    antigo Império Romano.Não existia o eixo do mal e sim o império do mal: a União Soviética e seus países satélites. No Brasil, a ditadura militar, asfixiada, procurava fôlego. Ligávamos pontualmente as nossas televisões no Jornal Nacional, querendo saber a “versão oficial”. Vivíamos sob o manto escuro do AI 5. Acreditava-se que justiça social era discurso de comunista. Os evangélicos compunham a minoria silenciosa e impotente do Brasil. Contudo, apoiavam a ditadura e com ela permaneceram até o apagar da luzes do regime. Pecavam os crentes que não votassem nos partidos da situação. Mas, em 1983, o Congresso Brasileiro de Evangelização cravou uma estaca em nossa história. Ali se falou do imperativo da igreja entrar pela porta da Missão Integral. E daí em diante procuramos colocar maçaneta e azeitar os gonzos nas dobradiças desta porta tão pouco conhecida. Havia, entretanto outras opções, tais como o adesismo politico. Poderíamos simplesmente continuar com a atitude subserviente de alguns dos nossos líderes. Bastaria repetir e ensinar uma frase vergonhosa, que os truculentos militares ouviam ressoar de dentro das igrejas: “Sim, senhor”. Como também escolher resignarmo-nos à nossa condição de colônia, fotocopiando as antigas formulações teológicas de nossos irmãos mais ricos e adiantados. Com dólares fartos, construiríamos aqui filiais dos seus mega-projetos no primeiro mundo. Vestiríamos ternos bem talhados, ganharíamos passagens para comparecer, (nunca falar) em suas conferências missionárias. Havia também a porta da teologia da libertação nos prometendo instrumentais que nos habilitariam a entender e transformar nossas idiossincrasias históricas. Graças a Deus não optamos por nenhuma delas, e assim começamos a sair da nossa imaturidade política. Não murchamos como uma colônia e nem embarcamos no neo-panteísmo esotérico que hoje fascina os antigos marxistas cristãos. Optamos pela proposta da Missão Integral. Formamos uma frente informal de homens e mulheres que se propunham a perseguir o sonho de pregar todo o Evangelho a todos os homens e mulheres em todas as suas circunstâncias. Cheios de medo, atravessamos caminhos estreitos e largos; tentadores e cheios de ameaças. A cada passo, víamos nascer uma nova manhã, e nela sete outras portas. Contudo, obstinadamente continuamos procurando nosso caminho. Com o pouco que sabíamos, lutamos para reverter as injustiças sociais, semear paz e salvar alguns. Acrescentamos à nossa humanidade uma esperança alvissareira: o reino de Deus está entre nós. Com o CBEII, a igreja evangélica tem sim o que celebrar. Neste Brasil de dia claro, onde o sol não conhece amanhecer ou anoitecer e as cores se confundem num branco radiante de constante verão, testemunhamos sinais históricos do poder do Evangelho. O que celebrar nessa breve, brevíssima, história? Construimos nossa agenda missionária com os materiais que dispunhamos. Transfomamos nossas paixões juvenis em tijolos. Rebocamos paredes com a argamassa de nossa impulsividade romântica. Caiamos nossas paredes com a determinação de alcançarmos os confins da terra. Rechaçamos a idéia de que somos um povo inexpressivo, desinteressante e pobre. Assim, fizemos do caboclo um missionário, do sertanejo um desbravador espiritual e do migrante gaúcho um plantador de igrejas. Não construímos nossa missão com ouro ou prata, mas com o suor anônimo dos Silvas, com as mãos fortes das Marias e com os olhos de lince dos Zés Ninguém. Muitas vezes, semeamos atabalhoadamente, mas com sinceridade. Geramos pensadores. Não tantos, talvez, mas com densidade invejável. Homens e mulheres que nos tiraram de nossos guetos denominacionais. Gente que nos ajudou a pular para fora dos fossos cavados por alguns líderes reacionários e que nos mantinham inimigos de nós mesmos. Também temos muito o que lamentar em nossa caminhada de vinte anos. Afinal de contas, somos filhos desta geração. Com ela choramos enlutados a morte das utopias. Viajamos com os nossos veleiros rumo a um porto que parecia nunca chegar. Sentimos muitas vezes que nossos sonhos nos abandonavam, assim como a noite abandona o seresteiro na madrugada que se recusa virar dia. Contemplamos um tempo pálido se repetindo monotonamente. A pós modernidade buscou nos empurrar para uma história sem sentido. E em inúmeras ocasiões nos sentimos anestesiados. Com o avivamento do terrorismo, nos sobreveio a sensação de que a história retrocedeu para o início de uma longa noite. Escuridão povoada de ausências e sem estofos contra a intolerância.
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    Testemunhamos a superficializaçãoda fé e a exuberância da espiritualidade “pret a porter”, prometendo um êxtase intimista e imediato. Choramos a perda da dimensão comunitária da fé e o renascimento do individualismo. Frustramo-nos com a nossa incapacidade de encarnar eticamente muitos de nossos pressupostos teológicos. Chegamos ao CBE II necessitando refazer o dever de casa para aprender a elencar novas ênfases em nossas agendas. Precisamos saber enfatizar, como Jesus Cristo, diferentes dimensões da fé. Ele ressaltou diferentes verdades em circunstâncias distintas. Numa determinada situação afirmou que para ser um discípulo seu, as pessoas deveriam abrir mão de alguma coisas (Marcos 8.35, Lucas 14.26), em outras ocasiões que precisava crer (João 5.24), e com a mesma convicção declarou a necessidade do fazer (Mateus 25:44-46); como também que confessar era condição para se entrar no Reino (Mateus 10:32). Na pós-modernidade o verbo crer perdeu muita relevância. Hoje, as pessoas acreditam em qualquer coisa. Se continuarmos privilegiando o verbo crer, não conseguiremos mais produzir verdadeiros discípulos. Proponho que elejamos a Graça como o grande tema do novo milênio e reaprendamos todo o significado do “Consumatum est”, que Jesus bradou no Calvário. Ensinemos que Deus já fez tudo o que precisava ser feito para a salvação da humanidade. Zelemos para que Efésios 2.8-9 não se transforme em um chavão: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie”. Só assim, celebraremos uma dimensão de louvor que não se esforça para agradar a Deus, mas que festeja o amor de um Deus já agradado de nós; restituiremos ao culto felicidade e gratidão e não penitência; daremos às nossas orações a certeza que Deus nos ouve com ouvidos carinhosos e não numa relação de causa e efeito; repetiremos a afirmação de Paulo em Gálatas 2:20: “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. Somente a Graça produzirá pessoas que não almejam integridade para serem queridas de Deus, porém filhos e filhas amadas, que por isso, desejam ser verdadeiras. Com a Graça não precisamos orar bem para sermos ouvidos por Deus, mas andaremos confiantes que ele nos ouve sem exigir explicações. A Graça nos ensinará que não somos salvos porque nos sacrificamos, mas que vale a pena nos entregarmos pelo ideal do Reino de Deus. Somente a Graça manterá o cristianismo singular diante de todas as outras espiritualidades das prateleiras religiosas pós-modernas. Soli Deo Gloria. Não posso calar Ricardo Gondim Não posso calar depois que se completam doze meses de uma das mais desastradas, inoportunas e arrogantes campanhas militares dos últimos anos. Mais de seiscentos soldados americanos perderam suas vidas e mais de três mil rapazes e moças dos exércitos da coalizão sofreram amputações, desfiguramentos faciais e graves ferimentos. Cerca de dez mil civis iraquianos morreram, entre eles mulheres, idosos e crianças. O caos e anarquia se instalaram no país que sem um governo legítimo contempla de suas janelas a desintegração social, religiosa e política. Não posso calar quando os americanos bradam que abriram as portas para um mundo mais seguro onde os direitos humanos serão respeitados. Afinal de contas conseguiram desalojar do trono um déspota sanguinário. Será? Não havia no Iraque as tão propaladas armas de destruição em massa; Saddam Hussein não se equiparava a Hitler e nem o seu exército envelhecido e mal equipado representava uma ameaça à segurança do mundo, sequer dos Estados Unidos. O Ministro da Economia dos Estados Unidos, Paul O’Neill, (Treasury Secretary) publicou um livro em que ele denuncia que a decisão de invadir o Iraque fazia parte dos planos de governo de Bush antes do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Hoje se sabe que houve má fé tanto dos serviços secretos ingleses como americanos sobre a ligação do Iraque aos terroristas da Al Qaeda. Não posso calar mesmo quando dizem que não é elegante tripudiar o erro alheio. Entretanto, quando se trata de vítimas inocentes, de pais que ainda chorarão a morte de seus filhos e da paz entre as nações, não se pode consentir silenciosamente. Devemos relembrar os beligerantes, os
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    militaristas e oshomens de mau senso que a guerra não é a solução. E que os que se apressam em derramar sangue, colhem amargos castigos. Devemos continuar lembrando aos americanos que não adianta bombardearem o mundo inteiro em busca de terroristas. Assim não se acaba com o crime – nós os brasileiros aprendemos isso, muito cedo. Quando a polícia invade uma favela e os esquadrões da morte matam bandidos, não conseguem diminuir em nada os índices de criminalidade. O mesmo se aplica a bandidos internacionais. Não posso calar ao me lembrar do apoio que os evangélicos deram a essa malfadada guerra. Onde os senhores líderes religiosos fundamentalistas lavaram a cara de vergonha quando descobriram que o presidente deles é um mentiroso? O que disseram de seus púlpitos depois que viram a fotografia de um menino com os dois braços amputados por uma “bomba inteligente” que também matou os seus pais? Como dormiram quando ouviram esse menino pedir para morrer sem haver ainda alcançado a puberdade? Não posso calar para que as pedras não comecem a clamar. A verdade é que vivemos em um mundo muito mais perigoso, mais cheio de ódio e mais paranóico. Não quero me calar mesmo sabendo que minha voz representa pouco. Contudo, sei que de meu grito, permanecerá como uma vaga lembrança de que nem todos consentiram com a insanidade destes dias. Soli Deo Gloria Inquietações imediatas Pr. Ricardo Gondim Rodrigues Recentemente participei de um encontro de teólogos, embora não seja teólogo. Ali, espicacei a chamada igreja evangélica brasileira com seus disparates teológicos e éticos, outros me acompanharam, igualmente revoltados. Denunciamos as agendas furadas das igrejas neopentecostais. Um dos participantes chegou a cogitar a convocação de um Concílio para se definisse qual é o genuíno movimento evangélico, herdeiro da Reforma. Esbravejei mais que todos contra as excrescências dos neopentecostais. Voltei para casa e comecei a sentir-me um verdadeiro fariseu. Daqueles que se indignam com um til e uma vírgula da lei que foi quebrada, mas que faz enormes concessões no essencial. Inquietei-me por haver pregado em ambientes em que seria inconfortável falar contra a injustiça social que condena milhões a viverem numa miséria vergonhosa. E para não perturbar, discursei sobre assuntos esterilizados, insípidos e que não perturbavam a complacência burguesa. Confesso que continuo calado diante dos grandes debates e não me engajo pelas causas humanas. É aí que confronto a mim mesmo: Será que me adeqüei ao sistema e acho que já não posso e nem quero mexer em vespeiros? Sinto-me confortável? Começo a pensar que essas acomodações éticas não são apenas um desvio de minha própria vida, mas do contexto religioso em que vivo. Convivo com uma religião rápida e ágil para denunciar o que é de menor importância, elástica e lenta para detectar o que é inconveniente e sempre silenciosa no profetismo real e genuíno. Acredito que sequer saibamos o verdadeiro caráter do ofício profético. A camisa de força da teologia sistemática não me deixa ser criativo, as cataratas espirituais do dogmatismo secular obscurecem minha visão e o patrulhamento do gueto me ameaça quando quero pensar com liberdade. A turma da Teologia ortodoxa se indigna com as aberrações neopentecostais, mas não se ouve deles uma só denúncia contra o nacionalismo evangélico norte-americano que abençoou uma das maiores mentiras da humanidade (cadê as armas de destruição em massa do Iraque?), como matou muita gente inocente, meros efeitos colaterais de uma guerra sem propósito. Não se ouve nada, apenas um silêncio hesitante. Participo de um meio que denuncia o Benny Hinn e Kenneth Hagin , mas se cala com o fundamentalismo de direita do status quo evangélico; tememos confrontar o quintal de famosos como Franklin Graham, Pat Robertson, John McArthur, Chuck Colson, etc. Quando os militares dominaram a cena política brasileira, fizemos um acordo tácito com eles. Eles nos deixavam pregar, realizar nossas campanhas evangelísticas, e nós os deixávamos em paz, torturando nos porões e enriquecendo as elites. Por que eu tenho dificuldades de me sentar na mesa dos
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    neopentecostais e nãotenho escrúpulos participar da roda dos ricos pastores do primeiro mundo, que sob o manto do conservadorismo teológico, empurram a agenda da direita conservadora americana? Eles certamente lêem na cartilha do Bush. A Maioria Moral batalha contra o aborto, contra os homossexuais, mas defende a pena de morte e apóia o discurso da National Rifle Association, uma das mais anacrônicas entidades que defende o uso de armas. Será que nos vemos como guardiões da inerrância, vigilantes da ortodoxia apostólica, contudo perpetuadores de uma religiosidade cada vez desconexa do mundo real; cada vez mais insípida? A grande verdade é que nós os evangélicos, continuamos nos especializando no irrelevante. Nossa agenda não tem o menor desdobramento na luta contra o preconceito racial ou de gênero. Não alteramos a sorte de milhões de crianças que vivem nas periferias fétidas das metrópoles brasileiras. Porém, convocamos mais fóruns para discutir nossa identidade evangélica e, indignados com aqueles que diferem da nossa cartilha teológica, esbravejamos nosso furor farisaico. Acredito que há enormes defeitos genéticos em nossa identidade; a cultura que nos formou vinha com anomalias. Nossa cosmovisão nasceu de uma aberração da natureza espiritual: religião sem alma. Acabo concluindo: Adoeceram minha alma e eu não me dou conta sequer de que doença sofro... Soli Deo Gloria Quatro episódios e muitas inquietações. Ricardo Gondim Rodrigues Primeiro episódio. A pastora Miriam Silva prometera algumas surpresas para o próximo culto. Na data marcada uma pequena multidão superlotou o seu auditório em São Paulo. Disputavam lugares até nos corredores. O ar pastoso do calor não inibia a euforia que passava de pessoa para pessoa. Ondas de uma eletricidade emocional causavam arrepios em todos. Cantaram-se alguns hinos; todos convocando os crentes para uma batalha. De repente, as portas que ladeiam a plataforma do templo se abriram e a pastora Miriam entrou. Vinha acompanhada por alguns dos seus oficiais. Apareceu trajando um uniforme militar com camuflagem e carregando uma baioneta pendurada no cinto. Marchou até o centro, sempre rodeada de seus oficiais. Todos igualmente fantasiados. A voltagem subia a cada hino que se cantava. De repente abriu-se mais uma porta e seis homens surgiram carregando um caixão de defuntos nos ombros. Os gazofilácios serviram de apoio para repousarem a urna funerária diante do povo. Agora o frenesi emocional misturava-se à perplexidade. Tudo se mostrava inusitado demais. A pastora Miriam sacou a baioneta e com ela em punho começou a pregar o seu sermão. Culpava a cultura romana pelos percalços da nação brasileira. Afirmou que somos pobres, vivemos no meio da violência e estacionamos em nosso desenvolvimento devido ao “espírito de Roma”. “Esse espírito”, continuou com a voz afetada, “nos ensinou a guardar o domingo e batizar crianças. Temos que matar e esfaquear esse espírito, ele não provém de Deus”. Depois de mais de meia hora condenando o “espírito de Roma”, convocou a todos no auditório a verificarem se suas próprias vidas também não estariam contaminadas com o tal espírito. Abriram o caixão e as pessoas trouxeram um papel escrito, indicando de que maneira estavam maculados por Roma. Quando se aproximavam do caixão, enxergavam-se num espelho estrategicamente colocado no lugar onde repousaria a cabeça do morto. Depois que todos depositaram seus pedaços de papel naquele móvel sinistro, repuseram a sua tampa e esperaram o próximo movimento da pastora. Ela desceu com a baioneta em posição de ataque e logo começou a esfaquear o caixão com força. Lancetava com tanto furor que lascas de madeira voavam pelo espaço. Ao terminar com a sua coreografia, deixou claro para o seu auditório que aquilo não fora apenas uma encenação. Eles haviam presenciado um “ato profético”. Prometeu que depois daquele evento, Deus reverteria a sorte do Brasil. Segundo Episódio. Minha secretária anunciou que o Alexandre Souza já chegara. Pedi então que ele entrasse em meu escritório, pois queria um aconselhamento pastoral. Aproximou-se cabisbaixo e me encarou apenas de soslaio, embora apertasse minha mão com firmeza. Notei logo sua timidez. Calculei sua idade por volta dos 28 anos. Os cabelos bem aparados e penteados para a esquerda chamavam a atenção pela negritude. Pedi que Alexandre se sentasse. Iniciei nosso diálogo procurando deixá-lo
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    mais à vontade.Ofereci um copo d’água, que aceitou sem esboçar nenhuma emoção. Achei-o muito quieto. Pensei na dificuldade daquele aconselhamento. Imaginei que gastaria a maior parte do tempo perguntando e ouvindo meras respostas monossilábicas. Ledo engano. Logo que bebeu o primeiro gole, Alexandre me encarou e perdeu toda timidez. – Pastor, começou sem gaguejar, faço parte da igreja ‘X’ aqui em Fortaleza. Há dois anos estou endemoninhado. – Vim aqui porque preciso de libertação, emendou. Mostrei-me surpreso: - Endemoninhado? Você está em pleno controle de suas faculdades mentais, emocionalmente equilibrado e com um semblante tranqüilo. O que lhe leva a crer que está endemoninhado? Sua resposta me deixou ainda mais perplexo. – Todas as sextas-feiras eu vou ao culto de quebra de maldições em minha igreja e faz dois anos que eu caio tomado por demônios em todos os cultos. Pela voz não parecia indignado, apenas cansado. – O bispo põe a mão sobre minha cabeça e eu fico agoniado, tenho vontade de tirar a mão dele de cima de mim. É nesse exato momento que acontece... – O quê? Interrompi. – Fico nervoso, com uma aflição muito grande. Quero tirar a mão do bispo de cima de mim. Acabo caindo no chão. Lá me dizem que essa aflição é demoníaca. Questionei-lhe porque o bispo não conseguia libertá-lo totalmente, já que sua possessão se manifestava semanalmente há dois anos. Explicaram-lhe que esse tipo de demônio é muito esperto. Quando o expulsavam da mente, corria para o espírito. Do espírito se escondia na vontade e da vontade pulava para a alma. Desta forma, continuava cativo mesmo já batizado e mesmo havendo terminado o seu curso sobre plenitude do Espírito Santo. Mostrei-lhe que não era possesso, apenas um inocente útil. Um joguete nas mãos dos líderes que precisavam de pessoas sugestionáveis para valorizar os cultos de libertação da sexta-feira. Terceiro Episódio. Roberto Pires pastoreia uma igreja no Rio de Janeiro. Certo dia, resolveu agir, indignado com a violência da cidade. Precisava fazer alguma coisa para reverter a incompetência crônica da polícia. Não cogitou ações políticas, nem imaginou um programa na igreja que melhorasse a educação cívica de seus membros. Sequer lhe passou pela cabeça participar de manifestações ou passeatas exigindo melhor segurança pública. Os óculos teológicos e ideológicos com que enxerga a sua realidade não lhe permitem essas cogitações. Assim, orava em um culto quando lhe veio uma idéia que considerou a mais genial de sua vida - tão genial que ele a relatou por anos. Correu para o seu escritório, abriu a Lista Telefônica e nervosamente procurou pelos “agás”; queria “helicópteros”. Desejava saber quanto custaria alugar um desses beija-flores mecânicos. Anotou os valores e levou sua idéia para o culto daquela noite. “Irmãos e irmãs, Deus me deu uma visão. Preciso que vocês me ajudem a cumpri-la. Deus mandou que eu alugasse um helicóptero, colocasse um tonel de óleo dentro e ungisse a cidade do Rio de Janeiro”. O auditório irrompeu em palmas, uma oferta foi levantada e o pastor Roberto Pires naquela semana embarcou no mais bizarro sobrevôo que o Rio de Janeiro já teve. Latas de óleo eram derramadas para ungirem a Cidade Maravilhosa. Respingos melados caíram sobre a avenida Rio Branco, na praia de Copacabana e sobre alguns dos morros mais violentos da cidade. Fora o inconveniente oleoso, nada aconteceu; meses depois a violência carioca recrudesceu. Quarto Episódio O pastor Carlos Feijó voltou para Curitiba depois de uma semana em um seminário de batalha espiritual. A equipe que ministrou o curso ensinou-lhe a “decretar sua cidade para Deus”. Ali aprendeu como identificar os limites do seu município e declarar que ele pertence a Jesus Cristo. Aprendeu mais: Se a igreja não souber reivindicar o que pertence ao Senhor, o diabo continuará com direitos legais sobre vidas, espalhando miséria. O pastor Carlos passou uma semana indignado consigo mesmo e com os outros pastores. Por anos não se aperceberam dessa imensa negligência. Foi para casa e orou. Com lágrimas rolando pelo rosto, se propôs a jejuar. No terceiro dia do jejum veio-lhe o que também considerou uma brilhante revelação divina. Há muitos anos aprendera que tanto os leões como os lobos urinam para demarcar o seu território e impedir a invasão de outros machos. Ele precisava fazer o mesmo, como legítimo representante de Jesus – o Leão da Tribo de Judá. Naquela semana, convocou seus parceiros de ministério para saírem pela madrugada urinando em pontos estratégicos da cidade. Gastaram algumas horas na empreitada. O comboio de carros percorreu vários quilômetros com muitas paradas. Beberam litros e litros d’água; precisavam de
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    muita urina parauma cidade tão grande. Esses quatro episódios descritos são verdadeiros. Todos patéticos! Realmente aconteceram nas cidades mencionadas. Apenas os nomes e alguns detalhes são fictícios. Ilustram bem o que invade as igrejas evangélicas no Brasil. Entendo que as pessoas têm o direito constitucional de crerem, praticarem ou pregarem o que quiserem. Entretanto, não deveriam fazer em nome da fé protestante e evangélica. Muito sangue já foi derramado, muitas vidas sacrificadas e muitos missionários afadigados para que testemunhássemos tanta superficialidade. Além disso, produzem um estrago imensurável em vidas. Muita gente já perdeu a fé. Qualquer pessoa com um mínimo de senso crítico, depois que passa a euforia e o fanatismo, se sentirá envergonhada de um dia haver participado de ambientes onde imperam tantas tolices. Acabam trilhando o caminho do cinismo ou da revolta. Ambos muito trágicos. Torna-se necessário que aconteçam denúncias internas para que o evangelho não se desfigure em um “outro evangelho”. Se nos calarmos, mancharemos nosso legado de fé e nos tornaremos culpados por omissão. Quando a igreja deixa de salgar e passa a ser motivo de chacota, para nada mais serve senão para ser pisada pelos homens. Há muito joio dentro das igrejas evangélicas e ele não se parece em nada com o trigo. Pelo contrário, dá-nos vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo. Protestemos, antes que só dê vontade de chorar. Soli Deo Gloria Viver sem sonhar não é viver. Pr. Ricardo Gondim Terminamos um século confuso, e ao mesmo tempo empolgante, tenso e ao mesmo tempo divertido, violento e bonito. Na verdade, ele não começa no Reveillon de 1900 para 1901, este século começou em 1917 quando a Revolução Russa é finalmente vitoriosa. Naquele alvorecer do século XX o mundo vivia sob a bandeira da modernidade. A modernidade, mais do que um período histórico, era uma mentalidade. Uma mentalidade que nasceu de uma confluência de fatores históricos. A modernidade se adensava desde alguns séculos antes. Quando Nicolau Copérnico, rompia com a visão científica de que o universo era geocêntrico. Ele propunha que o universo fosse heliocêntrico. Seu arrojo abria caminho para que Galileu desse um passo ainda mais ousado, o universo nem era geocêntrico, sequer heliocêntrico. Tanto a terra como o sol não passavam de pequenos ciscos em um cosmo vastíssimo com bilhões de estrelas. Sua coragem de romper com esse paradigma científico era imensa pois a tutela do labor científico ainda era do poder religioso. Fazia-se ciência com a chancela do clero. Mas a partir de Copérnico e Galileu, a igreja perde seu controle sobre o conhecimento científico. Nesse mesmo tempo histórico, o mundo passaria de uma economia feudal para o modelo do capitalismo. O mundo pré-moderno se estratificara com a aristocracia, o clero e os miseráveis. A miséria era glorificada e as virtudes de ser pobre compensadas com o céu. Não havia possibilidade de ascender socialmente. Lucros e juros soavam como palavras feias. Mas com o advento dos grandes navegadores e dos mercadores que singravam os mares trazendo iguarias do oriente, possibilitam com o surgimento dos burgueses, uma classe de ricos que ascendia das camadas mais pobres. A cosmovisão católica que combatia o lucro e os juros ruía por terra. Quando Maquiavel escreveu o Príncipe, sopraram novos ventos na política. O conceito de estado tutelado pelo poder religioso era um paradigma intocado. Mas, cansados de um sistema promíscuo em que não se sabia corretamente até onde ia o poder do rei e quais eram os limites do poder papal, cidadãos europeus perceberam que um novo modelo se esboçava. O do estado laico. Filosoficamente começam aspirações para que renascessem os conceitos dos pensadores gregos. Que o pensar também não fosse tutelado pelo clero. E, com René Descartes e seu Cogito ergo sum.: Penso, logo existo. Acontecia uma nova mudança. Se na pré-modernidade o essencial era: Creio, logo existo. Agora era: Penso. Foi nesse caldeirão de mudanças que um monge agostiniano, adensava o processo da modernidade também na religião. Martinho Lutero invocava o direito de pensar as Escrituras
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    livremente. Cada pessoaseria dona de seus raciocínios. Ele negava à igreja o direito de conduzir e manipular a interpretação; induzir a compreensão e anúncio do evangelho. A Reforma Protestante do século XVI representou o anseio da modernidade, inclusive na religião. Todas essas mudanças levarão a Modernidade a viver o seu apogeu entre os séculos XVII e XIX. As mudanças eram visíveis, nítidas. O ser humano passava a ser o centro do universo. Quando Rousseau elaborou seus conceitos filosóficos sobre o bom selvagem, ele não apenas rompia com o cristianismo agostiniano de que somos por natureza maus. Ele mostrava filosoficamente que a preocupação da modernidade centrava-se no bem estar de homens e mulheres. Assim, a modernidade vive seu apogeu no Iluminismo. A produção artística não era mais voltada para retratar a beleza do criador, mas a excelência do ser humano. Prevalecia na literatura e nas artes não mais os contos e as biografias dos santos, mas as tragédias de Shakespeare. O belo era almejado desde os estudos sobre as proporções do corpo humano. A grandeza de Davi, retratado por Michelangelo, mostrava a altíssima estima que se tinha do ser humano. Na política respirava-se uma crescente impaciência com o sistema monárquico que só premiava a aristocracia. Na revolução francesa, nascia um novo paradigma: a República com os ideais de Liberdade, fraternidade e igualdade. A ciência produzia freneticamente querendo melhorar as condições de vida do ser humano. A revolução industrial, os grandes inventos, e finalmente as linhas de produção prometiam que finalmente poderíamos viver em um mundo melhor. A filosofia, de Voltaire, Rousseau, Hegel, o positivismo de Augusto Comte e finalmente Marx, acreditavam que conseguiriam, através da educação das massas, do progresso, da ordem e de um sistema inteiramente justo, autenticamente solidário e humano, viabilizar aqui na terra o sonhos da utopia de Thomas Moore. O próprio cristianismo passou a usar o instrumental da modernidade para compreender os textos sagrados. Nasceram os hermeneutas que querendo demonstrar que se não demitologizarmos (essa é uma expressão de Bultman) os textos, não haveria pontes entre a religião e a modernidade. A Alta crítica, era a vertente teológica alemã que analisava os textos bíblicos com o mesmo rigor científico da análise dos textos históricos. Inaugurava-se a teologia do não, da negação. A América era o Novo Mundo, lá os peregrinos chegaram com o sonho de torna-lo no Eldorado. O mundo todo pulsava com um otimismo enorme. Com a vitória do bolchevistas soviéticos e com o triunfo da revolução russa nascia o primeiro experimento concreto de viabilização dos ideais de Hegel, Marx. Na Rússia, prometia-se, uma nação sem estado; lá nasceria o “novo homem” da filosofia de Rousseau. Buscava-se que os ricos dessem de acordo com a sua abundância e os pobres recebessem de acordo com a sua necessidade. Assim, entramos o século XX. Cheios de otimismo. Este seria o século do progresso, do amor. A ciência abriria fronteiras fantásticas, as massas seriam educadas, o conhecimento universal acabaria as barreiras entre nações. E Deus? Extinguindo-se a escuridão e com a luz elétrica conseguiríamos, educando-se as massas libertar as multidões do misticismo, das superstições. Já não haveria necessidade mais de Deus. Aquele Deus das religiões oficiais, seria descartado. Nascendo o super homem que Nietsche sonhava, não haverá mais necessidade de Deus. O Louco, protagonista da filosofia niilista de Nietsche entrou o século XX gritando: “Deus está morto. Nós o matamos.” Os próprios teólogos alemães chegaram a elaborar a teologia da morte de Deus. Albert Camus afirmou que: “Contrariamente ao que pensam alguns de seus críticos cristãos, Nietzsche não medito o projeto de matar Deus. Ele o encontrou morto na alma de seu tempo.” Albert Camus.
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    Mas, a modernidadesofreu o seu primeiro duro golpe com a Primeira Guerra Mundial, que na verdade não foi tão mundial assim. Foi na verdade uma guerra muito mais européia. Percebeu-se ali, quão estúpidos somos. A ciência, que deveria ter produzido para o bem estar, agora fabricava tanques de guerra, utilizava aviões que soltavam bombas. Pela primeira vez, usou-se a guerra química. Foi nessa guerra que usou-se o gás de mostarda, para matar. O processo de criação da União Soviética também não foi incruento. Todo aquele sonho de um mundo bonito, justo. Ruía já no nascedouro. Para se viabilizar no poder, Stalin precisou de fazer expurgos. Milhões foram mortos, criou-se uma truculenta polícia política, exilavam-se cidadãos russos em clínicas psiquiátricas e nos famosos Gulags, nos desolados desertos da Sibéria. Não ouviram o alerta de Engels no final de sua vida: “As pessoas que se vangloriam de terem feito uma revolução sempre acabam percebendo no dia seguinte que elas não tinham a menor idéia do que estavam fazendo, e que a revolução feito em nada se parece com aquela que elas gostariam de ter feito.” Eduardo Giannetti assim conclui: “A revolução feita em nome da racionalidade econômica e do fim do Estado enquanto forma de dominação política redundou no seu contrário: um grotesco hospício econômico comandado por uma das mais brutais máquinas de repressão e opressão política da era moderna.” Terminada a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha em ruínas com uma inflação tão alta, que não havia tempo para se imprimir os dois lados de uma cédula, porque o dinheiro perdia o seu valor. Enfim, toda a Europa perplexa via o sonho do paraíso do Novo Mundo ruir. O crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, a Grande Depressão econômica que se seguiu, também jogavam dúvidas sobre o modelo capitalista. Entretanto, tanto os Estados Unidos, como a Alemanha elegiam líderes de primeira grandeza e que prometiam tirar seus patrícios do pantanal em que se encontravam. Nos Estados Unidos foi Franklin Delano Roosevelt e na Alemanha foi Adolf Hitler. Bastaram alguns anos e os dois se mostraram tremendamente eficientes na solução do impasse de seus países. A modernidade ganhava come eles um novo fôlego. A Alemanha esteticamente bonita, limpa e saneada era uma potência temida na segunda parte da década de trinta. Os Estados Unidos, com o New Deal de Roosevelt construía estradas e estabelecia a infra estrutura para o maior parque industrial do planeta. Em pouco tempo, entretanto, Hitler mostrou que sua eficiência era patológica. Por detrás do sonho de transformar a Alemanha em um reino milenar, estava um facínora. Megalomaníaco, implacável, racista e pervertido sexual, começou a anexar os países da Europa. Intencionava transformar a Alemanha em um reino universal. Seu militarismo parecia sem limites. Foi um efeito dominó, Polônia, Holanda, França todos capitularam. Fez um pacto de não agressão com a União Soviética, embora odiasse os comunistas. O resto a própria história conta. Aliou-se com a Itália e o Japão formando os países do eixo. Traiu a Stalin, invadindo a Rússia. Começou a bombardear a Inglaterra. Seu destino selou-se, quando os japoneses cometeram o maior de todos os deslizes, bombardeando Pearl Harbor, Roosevelt tinha agora o álibi que precisava para entrar na guerra. Quando chegaram os Yankees, Hitler ganhou um inimigo mortal, o parque industrial americano. A Alemanha não conseguia vencer a produção das indústrias americanas que fabricavam freneticamente aviões, tanques, metralhadoras. Supriam os ingleses, os russos e todos os países aliados. Hitler,sabendo que estava com a guerra perdida, deu velocidade ao que se chamava na Alemanha de Solução Final. O extermínio sistemático dos judeus. Quando finalmente a Europa foi liberada e os russos chegaram em Berlin, 6 milhões de judeus haviam sido mortos em campos de concentração. NO pacífico, os japoneses teimavam em não se render. E Hary Truman autoriza que uma bomba seja usada sobre duas cidades. Hiroshima e Nagasaki, sabe-se hoje que essas duas cidades foram escolhidas porque estavam intactas e se queria saber qual era o real poder destrutivo das
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    bombas. A guerra terminoue o mundo respirou aliviado. Embora estivéssemos sobre os escombros da Europa, ainda cheirando a fumaça dos campos de extermínio, e apavorados com a bomba atômica. Finalmente podemos recomeçar o sonho de um mundo melhor. Se agora sabemos que somos monstros de iniqüidade, (nesse tempo o existencialismo cru de Sartre e Camus são unanimidade na Europa): “No auge do irracional, o homem, em sua terra que ele sabe ser de agora em diante solitária, vai juntar-se aos crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao ‘eu me revolto, logo existimos’, ele acrescenta, tendo em mente prodigiosos desígnios e a própria morte da revolta: ‘E estamos sós.’” Mas o fim da II Guerra Mundial deixa uma réstia de luz da modernidade ainda brilhando. Prometia-se que ainda era possível sonhar com esse novo mundo. As Nações se uniram com uma nova organização chamada de Nações Unidas. Teríamos agora a penicilina, a propulsão a jato, e a energia atômica. Essa energia não é só destrutiva, nos prometiam. Ela poderia ser domesticada e logo teríamos energia elétrica gratuita. Propagandeavase: Descobrimos o meio de produzir energia tão barata que as indústrias não terão mais que computar energia como despesa na contabilidade de custos. Viveu-se nos Estados Unidos, na Europa o que se chamava de “Anos dourados”. As mulheres agora também trabalhavam. O poder aquisitivo das famílias praticamente dobrou e o parque industrial que produzia armamentos, continuava num ritmo frenético. Mas esse sonho de utopia sofreu os primeiros golpes mortais na década de 60. Ergueu-se o muro em Berlim e novamente a humanidade acordou com o pesadelo de uma guerra que ameaçava a destruição total da raça humana. Chamava-se de Guerra Fria. Em um impasse em Cuba, americanos e soviéticos enfrentaram-se, olho no olho, esperando quem piscava primeiro. Sabia-se que tanto americanos como russos possuíam potencial atômico para acabar com o mundo. Sentia-se o calafrio de um inverno milenar da radiação, quando anunciou-se experimentos com a bomba de hidrogênio que para ser detonada necessitava da espoleta de uma bomba atômica. Seu poder destruidor, milhares de vezes maior do que a bomba usada no Japão, podia aniquilar-nos completamente. O jovens que foram criados com a opulência dos anos dourados, revoltaram-se contra aquilo tudo. O movimento hippie nasceu dizendo basicamente o seguinte: o legado da modernidade fede. Aturdidos, os americanos choram o assassinato de John Kennedy. Sem entender o porquê os ingleses viram os seus jovens revoltarem-se contra a monarquia, os costumes, e a religião racional e lógica dos protestantes europeus. Os hippies elegeram os seus reis, eles eram um conjunto de rock: Os Beatles. A moda era escapar da realidade tomando LSD, injetando heroína nas veias e fumando haxixe. Em 1968, dizem alguns, começa o fim da modernidade. Aquele foi um ano totalmente atípico, singular. Na Tchecoslováquia houve o primeiro levante contra o poder comunista, Mostrava-se para o mundo que a felicidade comunista era falsa. Na França, os estudantes se revoltaram contra o sistema de ensino e foram para as ruas. Paris se transformou numa praça de guerra. Os Estados Unidos, literalmente atolados no Viet-Nam, estavam divididos. Parecia que uma nova guerra da Secessão explodiria. Os jovens estavam revoltados. Em 1968 foram assassinados, Martin Luther King Jr e Robert Kennedy. A América Latina foi dominada por regimes militares truculentos. Pinochet governava com um regime perverso no Chile. Viveu-se ao redor do mundo um tempo muito cinzento. A Grécia, Portugal, Espanha também sofriam com ditadores. A África libertava-se do colonialismo europeu mas era incapaz de se articular. Respirava-se violência, perplexidade, medo.
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    Essas são asmarcas dos anos 70. Os anos 80 se iniciaram com alguns líderes marcando essa década. Ronald Reagan nos Estados Unidos, Margareth Thatcher na Inglaterra, Gorbatchov na União Soviética, e Khoumeini no Irã. Eles jogaram as última pás de cal no sonho da modernidade. Reagan e Thatcher na Inglaterra falavam que a economia sofria porque a presença do estado na economia é ruim. O estado é perdulário, lento e sua burocracia, perniciosa. Disseram que ele precisa ser enxuto. Quanto menos a presença do estado melhor. Gorbatchov, na União pregava a Perestroika e a Glasnost. Eram dois programas necessários para viabilizar o comunismo. Para o último dos comunistas , o país precisava ser transparente. Essa “transparência” deveria significar, a humildade de que a União Soviética estava falida. Glasnost era o jargão que buscava uma reestruturação. Enquanto isso, o Khoumeini conseguia encabeçar uma revolução que buscava demonstrar que o projeto de modernização do Iran com o Xá Reza Pahlevi era, na verdade, um embuste. O Irã precisava voltar à pre-modernidade islâmica. A teocracia triunfava sobre a democracia. O clericalismo vencia o laicismo. A fé voltava a tutelar a vida das pessoas. O Muro de Berlim caiu em 1989. Os protagonistas desta nova revolução foram o movimento do sindicato de Solidariedade na Polônia, os cristãos na Romênia, Vaclav Havel na Checoslováquia, e Karol Woytila no Vaticano. Por cause de suas vidas, a União Soviética perdeu o seu domínio sobre a Europa Oriental e acabou se dissolvendo em 1991. O mundo também se revoltava contra as propostas científicas do progresso. Chegamos à conclusão que o planeta terra não conseguia reciclar tantos gases, tanto lixo, tanta devastação. Se a modernidade preconizava o progresso contínuo, agora pedíamos que não houvesse tanto progresso. Sem a modernidade e sem um projeto para o futuro, ficamos no meio do caminho. Qual o modelo político que desejamos? Os nossos políticos, nossas estruturas democráticas não são tão democráticas assim. Qual o modelo econômico? O capitalismo é frágil, perverso (haja vista, a África literalmente jogada à moscas). Os excluídos do neo-liberalismo. Que tipo de ser humano nós somos? Negociamos armas e faturamos com a morte, não conseguimos acabar com os cartéis de drogas, não conseguimos educar as massas para a felicidade. Que tipo de religiosidade desejamos? A lógica, racionalmente compreensiva? A oriental? A esotérica? A razão perdeu o seu domínio. O certo e o errado deixaram de ter qualquer referencial externo. O belo e o feio não têm sentido. Começamos o século com o apogeu da modernidade, terminaremos com o nascimento da pósmodernidade. Se a Modernidade foi uma época da lógica e do método, a pós é marcada pela ambigüidade e por contradições. Por um lado, gera muita esperança mas por outro gera pavor. Se por um lado este foi o século de Einstein, Flemming, Sabin, também foi de Menguele. Se gerou um Churchill, um também gerou Kadaffi, Stalin e Hitler. Se por um lado valorizou Ghandi, Martin Luther King, e Mandela, também valorizou Mussolini, Pinochet. Se por um lado teve um Pavarotti e um Bernstein também teve uma Janis Joplin, uma Madona, um Michael Jackson. Se por um lado tem jato, internet, e tomografia computadorizada, suicídio assistido, e cartéis de cocaína. Foi o século de Madre Teresa de Calcutá, Billy Graham, C. S Lewis; mas também de Jim Jones, Maharaji Iogui e do Rev. Moon.
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    Vivemos hoje naestreita brecha entre a esperança e o desespero. Não sabemos se vale a pena lutar pelo futuro, ou se é melhor cada qual cuidar de se divertir o máximo possível. O tempo que estamos vivendo não é mais o tempo de Sartre mas de Paulo Coelho. Não é mais o tempo de estadistas, como Lenin, Roosevelt, Churchill, Juscelino, mas de Yeltsin, Clinton. A Alta Crítica perdeu espaço, ganharam os carismáticos. O fundamentalismo evangélico perdeu relevância, ganhou a igreja Universal. Leonardo Boff parou de defender os pobres e agora defende a natureza. Na modernidade a filosofia era primordialmente otimista, na pós é cínica. Na modernidade o estado laico seria árbitro das injustiças humanas, na pós ele deve ser enxugado por que é perdulário, autoritário, burocrático e corrompido. Na modernidade o deicídio era a vertente teológica seriamente discutida nas Universidades alemãs que, através da Alta Crítica, questionavam a integridade dos textos bíblicos e a possibilidade de um Deus objetivamente verdadeiro. Na pós modernidade discute-se o macro ecumenismo. Na modernidade, a razão, o método, a o experimento empírico desfaria a ignorância das multidões e levaria a um mundo sem as superstições místicas da Idade Média que ainda escravizavam as multidões. Na pós modernidade abre-se o caminho para o saber intuitivo, para a inteligência emocional, para verdades não racionais. Na modernidade a tecnociência abriria estradas para um mundo melhor, na pós ela é vilã do ambiente. Entre a modernidade e a pós modernidade há duas guerras mundiais e mais de cem milhões de mortos. Há Stalin, Hitler, Idi Amin, Pol Pot, Auschwitz e Ruanda. Há Hiroshima e Nagasaki. Há Bangladesh, Índia, Vale do Inhamuns. Há o Tietê, Chernobyl, e o buraco de Ozônio. A angústia do homem pós-moderno pode bem ser ilustrada na vida daquele personagem que fazia análise e vivia um dilema todas as vezes que ia para a consulta com seu analista. Se eu chegar adiantado ele vai pensar que estou ansioso demais, se eu chegar na hora sou um disciplinado compulsivo e se chegar atrasado estou fugindo dos meus problemas. 86% da classe média dos países ocidentais sofre de stress crônico. Por outro lado ainda há lágrimas nos casamentos, ainda há sorriso nas crianças, ainda há o gorjeio dos pássaros, ainda há poetas fazendo poesia, ainda há evangelistas na esquina do Hyde Park na Inglaterra, igrejas ainda estão sendo plantadas no Rio de Janeiro, ainda se ouve os tamborins e pandeiros nas igrejas do México. E pelas madrugadas ainda se ouve o clamor dos crentes em cultos de vigília nas igrejas evangélicas. Em uma época como essas você e eu fomos chamados. Na confusão pós-moderna que não sabe discernir bem qual a diferença entre o belo e o feio, entre a verdade e a mentira, entre o vício e a virtude. Fomos chamados para pregar o evangelho. Houve um período assim na história de Israel. De acordo com a profecia dada ao rei Ezequias, muitos anos antes (Isaías 39.6-7) o reino de Judá seria invadido por Nabucodonosor. A sistemática desobediência do país, a deterioração da moral pública, o enfraquecimento espiritual do povo, tornou essa profecia irreversível. A Babilônia finalmente invadiu a terra e com um programa bem elaborado trabalhou para quebrar a espinha dorsal de Israel. Primeiro, promoveu um êxodo étnico. Esvaziou as cidades. Depois, selecionou os mais capazes para serem re programados com lavagem cerebral, castrou jovens e vendeu mocinhas para serem concubinas na Babilônia. O templo, orgulho dos judeus foi destruído e os utensílios sagrados de-sacralizados. Jeremias profetizou que este período de desolação seria de 70 anos – Jeremias 25.11. Ao terminar este tempo, os persas ganharam a guerra anexaram os Medos, conquistaram a Babilônia. Um dos primeiros atos do novo governante, Ciro, depois da captura da Babilônia, foi passar um edito autorizando os judeus exilados a retornarem à sua própria terra.
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    Esdras e Neemiastrabalharam intensamente para construir as muralhas e o templo. Os vasos roubados do templo por Nabucodonosor foram devolvidos. Depois deste recomeço a construção do templo permaneceu desolada por 15 anos. Havia uma espécie de apatia. Tiveram uma depressão pós-parto. As pessoas se voltaram para seus empreendimentos pessoais, largaram os seus ideais, perderam o elã. Cada qual voltou-se para os seus próprios projetos. A filosofia era mais ou menos a de hoje: Se que não cuidar do que é meu, quem cuida? Melhor covarde vivo, que herói morto. Primeiro o meu, depois o teu. Nessas circunstâncias Ageu profetizou. Interessante que por 4 vezes veio a ele a voz de Deus. Capítulo 1.1. Capítulo 2.1 Capítulo 2.10. Capítulo 2.20. A primeira palavra que Deus deu a Ageu foi uma denúncia contra o egoísmo, a apatia de sua geração – 1.1 –11. Quando há uma desilusão, quando se é obrigado a conviver com a frustração adoece-se: “A Esperança que se adia faz adoecer o coração, mas o desejo cumprido é árvore da vida.” – Prov. 13.12. Uma das maiores tragédias de nossos dias é a falência dos sonhos e dos ideais. A tarefa de reconstruir muitas vezes parece tão grande tão difícil que somos jogados numa espécie de torpor espiritual, existencial. Sonhar para quê? O negócio e tentar fazer o meu pé de meia. Eu soube que no período de altíssima inflação na Argentina, alguns sociólogos estudaram os efeitos da alta inflação sobre o povo. A constatação foi sombria: quanto mais alta subia a inflação mais as pessoas se mostravam duras, egoístas, menor era a disposição de partilhar. Eu soube que um dos muros de São Paulo foi pichado com a seguinte frase: Estou cansado de ações, preciso de promessas. O cinismo campeia, o deboche e a superficialidade estão em voga. Christopher Lasch, escreveu um livro que foi catecismo nas Universidades de São Paulo: O Mínimo Eu. Em que ele defende que o individualismo antes de ser um adoecimento de nossa natureza ele é um mecanismo de defesa. O mundo, e particularmente, o Brasil é um país que tira nossas energias para fins improdutivos: não ser assaltado, não ser furtado na conta de luz, não perder o emprego, não comprar na Encol, não depositar no Econômico, não se mudar para o Palace I, não comprar remédio falsificado, vencer a guerra do trânsito, tolerar as longas filas dos bancos, dos postos de saúde, preparar-se para passar uma velhice pobre. Para se defender disso tudo, nos voltamos para o imediatismo. Vivemos a geração das grifes, dos Status Symbols (Bolsas Luis Vinton, carros BMW, condomínios em Miami, grifes de roupas). Somos a geração de brinquedos caros, mas de alma vazia, sem causas para defender, sem qualquer projeto que valha a pena morrer por ele. Interessante que os hippies dos anos 60 se transformaram nos yuppies dos anos 80. O conceito religioso, deixou de ser uma verdade que abracei ou uma experiência mística arrebatadora que me encantou, o conceito religioso hoje é utilitário. Instrumentado.
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    Quando se falaem apologética cristã, não se deve pensar em defender a fé com os mesmos pressupostos da modernidade. Nossa luta hoje não consiste em defender a verdade do cristianismo sob o ponto de vista do saber cartesiano, mas defender a fé sob o ponto de vista de uma geração que já não tem sonhos. O hedonismo é a filosofia portátil. Vive um imediatismo patológico. Só o presente conta. Homens e mulheres da pós modernidade vive sem as tradições do passado e sem um projeto do futuro. A pós modernidade é o túmulo dos modelos cristãos do passado. As pessoas procuram credos “menos coletivos”, como afirmou Jair Ferreira dos Santos, “mais personalizados (meditações, zenbudismo, yoga, esoterismo, astrologia). “É que o homem pós-moderno não é religiosos, é psicológico. Pensa mais na expansão da mente que na salvação da alma. Há toda uma cultura ‘psi’ fazendo a cabeça da moçada: psicanálise, psicodrama, gestalt, bioenergética, biodança, grio prima e por aí vai. Para não falar no dilúvio de bolinhas alucinógenos que rola. Nisso tudo, o bom é que a cultura religiosa era culpabilizante, enquanto a psi é libertadora. Ao sujeito pós-moderno interessa um ego sem fronteiras, não uma consciência vigilante.” Jair Ferreira dos Santos. A segunda vez que a voz de Deus vem ao profeta Ageu, conseqüência da primeira é uma convocação que o povo volte a sonhar, tenha esperança. Volte a lutar, levante novamente suas flâmulas. Para terem esperança ele convida o povo a três olhares. 1. Um olhar em perspectiva – v. 3 – Voltem a acreditar que a glória do segundo templo será maior do que a glória do primeiro. Esperança de acreditar que ainda vale a penas lutar por um futuro melhor. Creio que esperança é acreditar que o futuro ainda pode ser melhor. Vivemos em uma geração sem olhar para horizontes. “Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou para si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.” F. Pessoa, 289 –Desassossego. 2. Um olhar retrospectivo – v. 5. – Olhem para trás. A sua aliança é inquebrantável. Aldous Huxley descreveu-se da seguinte maneira: “Nasci vagando entre dois mundos, um morto e outro incapaz de fazer-se nascer, eu consegui de maneira curiosa piorar ainda mais os dois. Em Náusea, Sartre, encarnando o protagonista Roquetim, afirma: “Estou sozinho, a maioria das pessoas voltaram para seus lares; estão lendo o jornal da tarde e ouvindo o rádio. O domingo que termina deixou-lhes um gosto de cinzas e seu pensamento se volta para segunda-feira. Mas para mim não existem segunda-feira nem domingo: existem dias que se atropelam desordenadamente...Sartre, Náusea, 87. 3. Um olhar prospectivo – v.6-9 – Olhem para cima. Ele continua Deus. A terceira palavra que vem a palavra a Ageu, ele convoca o povo a uma reforma ética – capítulo 2.10-19. A pós modernidade nos chama a estudarmos o que significa ética. A nossa apologética passa por estudarmos o que significa dizer não, quando todos estão dizendo sim. Como podemos, como dizia
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    A última vezque a palavra de Deus veio para Ageu, ele foi desafiado a encontrar o eixo histórico, seu nexo em Deus – 2.20-23. Ele chama o profeta a avisar ao governador de Judá, Zorobabel a nunca se esquecer que em última análise está no controle da história é o próprio Deus. Portanto, devemos nos envolver. O controle da história está nas mãos de Deus. Ele ainda é quem governa. Religião é a cocaína do povo. Ricardo Gondim Vivi parte de minha adolescência nas décadas de sessenta e setenta. Naqueles anos, os Beatles e os Rolling Stones reinavam na música. Discutia-se o existencialismo de Sartre nos barzinhos de Ipanema. As mulheres se libertavam lendo Simone de Beauvoir. Che Guevara inspirava os ideais revolucionários dos latino-americanos. As drogas se tornaram uma obsessão mundial. Muitos jovens caminhavam pelas trilhas que começavam em Amsterdã, seguiam pelo Afeganistão e chegavam à Índia em busca de haxixe. A maconha deixou de ser consumida no submundo da marginalidade e dominou as universidades das Américas. Tomavam-se doses mínimas de LSD para viajar por horas no mundo alucinógeno. Os picos de heroína nas veias abreviavam a vida de milhares. Os tempos mudaram. A rebeldia dos jovens aquietou-se, os heróis comunistas ruíram, o consumismo substituiu as antigas aspirações revolucionárias e a “techno music” substituiu o rock. Aquelas drogas que entorpeciam e deixavam seus usuários num estado zen, foram suplantadas por outras que ativam, energizam e potencializam. Substituíram-se os tóxicos que causavam torpor por outros que davam uma sensação de poder e de autonomia. Assim, hoje quase não se fala mais em heroína ou LSD. As drogas da moda são a cocaína e sua versão mais barata, o crack. E cresce a busca pelas sintéticas, como o ecstasy, que prometem um melhor desempenho, inclusive sexual. A religião também mudou muito. Naqueles anos, predominava entre os jovens o conceito que a religião servia os interesses das elites, pacificando os oprimidos. Os debates reforçavam o pensamento de Karl Marx que em 1844 afirmou: “O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real”. Marx acreditava que “a religião é o único suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas”. Meus contemporâneos repetiram sua conclusão: “A religião é o ópio do povo”. Marx não afirmava que a religião é um narcótico qualquer. Ele a identificava com um entorpecente poderosíssimo de seus dias: o ópio. As condições sociais perversas da Europa no século XIX condenavam os trabalhadores a pouco mais que escravos. Marx entendia que as mesmas condições também produziram uma religião que prometia um mundo melhor só para a próxima vida. Assim, tanto ele como seus seguidores difundiram que a religião não é apenas uma ilusão, mas cumpre a função social: de distrair os oprimidos. Por isso, afirmava que a religião é um narcótico que não apenas alivia a dor do trabalhador, como lhe embriaga, roubando o seu poder de transformar sua realidade. Para ele, a esperança religiosa era um ópio que prometia felicidade no porvir, adiando o furor revolucionário. O pior é que ele tinha razão em suas análises. A igreja de seus dias realmente estava decadente e, aliada à aristocracia, desempenhava exatamente esse papel anestesiante. Porém, com a pós-modernidade, a religião já não cumpre essa tarefa entorpecente. No ocidente, a proposta religiosa vem crescentemente se tornando mais parecida com um outro tóxico: a cocaína. O neo-liberalismo, pai deste materialismo consumista tão bem representado no fascínio pelos shoppings e pelas grifes, já entorpece como o ópio. Por outro lado, a religião de hoje procura excitar e produzir sensações de poder parecidas com a da cocaína. As igrejas neopentecostais se multiplicam prometendo que as pessoas têm o direito de ser felizes aqui e agora. Repetem exaustivamente que ninguém precisa transferir para a eternidade o que
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    pode ser reivindicadojá. Insistem na promessa feita a Israel de que o fiel é “cabeça e não cauda”. E assim o crente que freqüenta os cultos da prosperidade, recebe semanalmente uma injeção de cocaína espiritual no sangue, fazendo que se sinta o dono do mundo. Nem que seja por apenas alguns minutos de culto, sonha com tudo o que os seus olhos gulosos viram as empresas de marketing anunciar na televisão. As igrejas se transformam em ilhas da fantasia capitalista. Empresários falidos, artistas em fim de carreira, jogadores de futebol mal-sucedidos, empregados sem qualificação, correm para as infindáveis campanhas em busca de reverter a pretensa “maldição” que paira sobre suas vidas. E, depois de espoliados, são devolvidos à dura realidade da vida, obrigados a encarar a rebordosa da segunda-feira. Dependurados nos trens suburbanos ou numa fila burocrática sofrem triste e deprimidos como os foliões do carnaval que voltam para seu destino na madrugada da quartafeira de cinza. Enfrentam sozinhos a dura realidade de que não são reis ou rainhas, apenas subempregados; obrigados a viverem com um salário miserável. A própria definição do que é fé vem sofrendo enormes mudanças. Antigamente entendia-se fé como uma adesão a um conceito teológico ou mesmo como uma habilidade sensitiva de perceber o mundo espiritual. Pessoas de fé discerniam as ações de Deus e do mundo espiritual com maior acuidade. Eram pessoas que confiavam no caráter de Deus, mesmo sem evidências que comprovassem sua palavra. Hoje se entende fé como uma mera capacidade de instrumentalizar os poderes de Deus egoisticamente. Por isso, fé e cocaína se parecem muito; dão uma falsa sensação de poder e geram pessoas artificialmente soberbas. Mas a ressaca tanto da cocaína como da fé pós-moderna é horrível, pois vem sempre acompanhada de depressão e desengano. O tóxico religioso de hoje é sempre estimulante. Por isso os novos mercadejadores da fé precisaram redefinir, inclusive, a pessoa de Deus. A divindade pós-moderna só existe para servir os caprichos das pessoas. Os cultos se transformaram em centros de aperfeiçoamento e aprimoramento humano. As igrejas deixaram de ser espaços para se cultuar a divindade, especializaram-se em ensinar como manipular Deus. As liturgias espiritualizam as técnicas mais populares de como “liberar o poder de Deus”, “afastar encostos”, “tomar posse dos direitos”, “conquistar gigantes”. As pessoas se aproximam de Deus cheias de direitos, vontades, acreditando que são o centro do universo e que tudo e todos lhes devem obrigações. Perde-se o estado de “maravilhamento”, reverência e submissão ao Eterno. Assim o propósito de toda atividade religiosa é homocêntrica, nunca teocêntrica. As igrejas acabam se transformando em balcões de serviços religiosos e a relação do pastor com os fiéis é a mesma do empresário com o cliente. Redobram-se os esforços de oferecer uma maior gama de atividades que agradem os clientes que se tornaram ferozes consumidores religiosos e com um nível de exigência tremenda. Acredito que a genuína mensagem do evangelho não pode ser comparada ao ópio como fez Marx e nem à cocaína, como fazem os pregadores da religiosidade pós-moderna. Jesus Cristo não prometeu um celeste porvir que anestesiava. Seus discípulos foram convocados a serem o sal da terra, levedarem a massa, enfrentarem os reis poderosos, transformarem a realidade aqui e agora. Antes que se levante o sol da justiça e que o Senhor volte trazendo salvação sob suas asas, Ele comissionou sua igreja a enfrentar as estruturas humanas que produzem a morte e declarar guerra ao próprio inferno. Tampouco, prometeu que nos tornaríamos os donos do mundo, ricos e prósperos. Fomos chamados para encarnarmos o mesmo sentimento que houve em Cristo, que sendo em forma de Deus não teve por usurpação ser igual a Deus, mas tomou a forma de servo, humilhando-se até a morte e morte de cruz. O culto não deveria ser diminuído e se transformar em um centro de auto-ajuda. Não precisamos aprender técnicas que nos ajudem a obter o favor de Deus. Precisamos sim aprender celebrar o seu grande amor de Pai que nos quer bem, apesar de nossa própria pequenez. Acredito que Marx estava certo quando denunciou o que acontecia com a igreja que se colocava a serviço das aristocracias. Aquela religião adoecida e morta realmente merecia a pecha de ópio do povo. Os líderes religiosos que comiam nas mesas dos poderosos e que desdenhavam da sorte dos miseráveis realmente buscavam entorpecer o povo.
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    O que seoferece de muitos púlpitos pós-modernos não é o Evangelho de Jesus Cristo, mas mera cocaína religiosa. E se algum outro filósofo ateu afirmar que essa religião pragmática que se espalha no ocidente, combina com o narcótico da moda, também seremos obrigados a concordar. Já se ouve o murmúrio das pedras. Urge que os profetas comecem a falar. Soli Deo Gloria Evangelho e cidadania. Ricardo Gondim O Brasil enfrenta uma das piores crises de sua história. Uma crise tal que os futuros historiadores terão dificuldades de explicar como foi possível este país construir uma catástrofe destas dimensões ao chegar no final do século XX. Estamos desarticulados socialmente. Os sintomas desta desarticulação se mostram na miséria que se perpetua nos subúrbios dos grandes centros urbanos, na deseducação das crianças que são forçadas a estudar em escolas públicas em ruínas; no esvaziamento do campo e na explosão urbana. Nossa desarticulação social se revela mais exuberante na perda do sentimento de nacionalidade: vive-se uma descrença em relação ao futuro. Somos o país em que políticos ainda se elegem promovendo laqueadura de trompas e distribuindo dentaduras. Observa-se a lenta perda do poder aquisitivo da classe média e nenhuma melhoria para a maioria pobre. Vive-se uma desigualdade regional. O sul próspero e o norte e nordeste com índices africanos. Convivemos com o paradoxo de sermos um dos mais ricos países do mundo em terras e ainda assim sermos um dos mais pobres em nutrição; termos uma enorme quantidade de escolas de medicina e estarmos classificados de acordo com Organização Mundial de Saúde quanto a saúde pública em centésimo vigésimo quinto lugar. Segundo dados preliminares do Ministério do Bem Estar Social, haveria no Brasil, dezenas de milhares de adolescentes prostitutas. Muitas delas acabam engravidando reproduzindo o ciclo da miséria. Outras, engrossam as sombrias estatísticas de aborto e mortalidade materna. Dois em cada dez brasileiros vão dormir com fome. Trinta e dois milhões de indigentes, pessoas que não conseguem comprar sequer uma cesta básica. 365 mil crianças abaixo de 5 anos morrem por ano no Brasil vítimas de desnutrição. É mais que 3 estádios do Morumbi. O Brasil é um país com uma economia doente, sucateada com uma recessão brutal que mantém os índices de inflação baixos; cartelizada; dependente do protecionismo e subsídio do estado, refém dos grandes bancos, escrava à especulação do capital estrangeiro. O estado está falido, o sistema médico e previdenciário dilapidados. O sistema fiscal desmoralizado, perverso, incoerente. O salário mínimo, um dos mais baixos do mundo. O brasileiro é obrigado a conviver com as mais altas taxas de juros do planeta. Por conta disto, as estradas brasileiras são esburacadas, impedindo o fluxo da riqueza para os grandes portos, o trânsito nas grandes capitais é caótico, o transporte público bagunçado. As cadeias públicas super lotadas, transformaram-se em antros de criminalidade. As polícias mal pagas e mal equipadas são temidas pelos cidadãos e escarnecidas pelos bandidos. O estado não tem recursos para cumprir com suas obrigações previstas na Constituição. Ecologicamente o Brasil é um desastre. Os rios e florestas destruídos pela exploração irresponsável de seus recursos naturais. Desequilibramos nosso ecossistema quando transformamos algumas de nossas lindas cataratas em imensos lagos artificiais. Poluímos nossas praias pela especulação imobiliária. Continuamos a devastar nossa selva para suprir o guloso mercado madeireiro do primeiro mundo. O resultado patético vê-se – e cheira-se – por todas parte: nossos rios são esgotos abertos, alguns de nossos prados se parecem com cenários lunares. Algumas de nossas montanhas, corroídas pela erosão, são retratos surrealistas de nossa miséria. O Brasil é o país da degradação ética. Vive-se aqui a generalização do oportunismo político. Há conivência com a irresponsabilidade. Como é grande nossa tolerância com a corrupção – grande ou pequena! A fraude é vista como fato normal. Os interesses corporativos prevalecem sobre os
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    sociais. Aceitamos, semperdermos o sono, a coexistência gritante da ostentação com os mais dramáticos níveis de miséria. A injustiça social no Brasil é uma das mais alarmante do mundo, sem que haja consternação das elites e das emergentes. Dinheiro que deveria ser destinado a merenda escolar de crianças é desviado para gordas contas na Suíça. Promessas eleitoreiras se repetem de tempo em tempo, enquanto nossas cidades estão entulhando-se de desempregados crônicos – os chamados excluídos. Parece que o deboche diante da tragédia está passando a ser parte de nossa cultura. O conformismo, a falta de espírito público tanto da classe política da esquerda como da direita são características de nossa enfermidade ética. Somente aqui a vergonhosa lei do Gerson nos faz rir e não corar de vergonha. Por mais que o nosso presidente diga que não, somos uma vergonha, no cenário internacional. Lá fora nos conhecem como o país da violência generalizada, da corrupção, da devastação da Amazônia, do assassinato de crianças e de índios. Somos vistos como o país do sexo promíscuo do carnaval. Muitos europeus lembram-se do Brasil como exportador de travestis. Aqui neste espaço, nos concerne refletir sobre quais os posicionamentos do evangelho na difícil tarefa de equipar os brasileiros como atores sociais. Qual o papel da igreja evangélica brasileira? Ela é povoada de cidadãos da Cidade de Deus? A igreja produz cidadãos também para o aqui e agora? É de bom alvitre que se leia neste ponto de nossa reflexão o capítulo 22 de Mateus, dos versículos 15 ao 22. “Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra. E enviaram-lhe os discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não lhas a aparência dos homens. Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não? Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário. E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição? Responderam: De César. Então, lhes disse: Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se.” Neste texto de Mateus, Jesus já está em Jerusalém e de lá só sairá pela chamada Via Dolorosa. A multidão o aclama e o clima está se tornando insuportável. Depois de insistir em falar de assuntos inquietantes, há uma conspiração que tenta surpreender-lhe. Os fariseus se retiraram, a fim de planejar o modo pelo qual poderiam apanhar Jesus na armadilha de alguma palavra. Decidiram enviar alguns de seus discípulos, com os herodianos, a fim de propor-lhe uma questão controvertida a respeito de pagamento de impostos ao imperador romano. Nada sabemos a respeito dos herodianos, senão o que está registrado aqui. Supõe-se que seriam defensores judeus de Herodes Antipas, que apoiavam o colaboracionismo aos conquistadores romanos. Começam com lisonjas. “Mestre, bem sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus com toda sinceridade. Tu não te preocupas com o que pensam as pessoas, porque não te interessas por ganhar-lhes o favor. Então diga-nos, é lícito pagar tributo a César, ou não?” Fica claro como cristal o dilema que propõem a Jesus. Se ele se opusesse ao pagamento de impostos, estaria em dificuldades com as autoridades civis. Os herodianos o acusariam de tentar incitar uma rebelião. Se aprovasse o pagamento dos impostos, perderia popularidade. Parecia que não havia meio de ele responder à pergunta sem sair perdendo. O imposto a que se referiam era uma taxa per capita obrigatória a cada cidadão a partir da puberdade até os sessenta e cinco anos. Devia ser pago em moeda romana ao tesouro imperial. O povo judeu se ressentia do pagamento de tal imposto, porque lembrava a todos que eram vassalos de uma potência estrangeira que lhes confiscara a terra e, agora, lhes extorquia uma soma de dinheiro que engordaria os cofres do imperador.” O texto é da maior importância porque ele nos arremete aos posicionamentos de Jesus Cristo sobre a difícil questão da cidadania. Sua resposta fornece princípios sobre como a igreja se comporta quando confrontada com o dilema ideológico. Aqui precisamos abrir um parêntese para esclarecermos o que entendemos por ideologia.
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    Ideologia seria alente que nos capacita a ler nossa realidade, a natureza de nossas estruturas e quais as possibilidades escatológicas. A escolha do texto, a observação de como Cristo reagiu não é por acaso. Pois o comportamento do cristianismo através dos séculos não foi sem tensões, ambigüidades. Como agir, reagir, comportar-se como cidadãos de dois reinos? Até que ponto é permitida a desobediência civil, a revolta armada, o exílio? Ainda na embrionária igreja primitiva esse dilema se apresenta diante de Pedro e João. Acusados de causar incômodo religioso na monolítica Jerusalém judaica, Pedro reagiu diante do mesmo Sinédrio que conduziu a condenação de Cristo afirmando em Atos 4.19: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus.” Pouco tempo depois insistiu em Atos 5.29: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens.” Entretanto, Paulo, quase que contradizendo a postura de Pedro ensina em Romanos 13.1-7: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Quere tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.” Assim, por toda a história, o comportamento dos cristãos em regimes totalitários, sociedades eticamente adoecidas e em culturas perversas não foi sempre homogêneo. Algumas vezes pareceu coerente: Quando a perseguição e martírio dos cristãos era comum no mundo antigo, foi necessário optar não pela resistência aos regimes, mas ao exílio. Por isso, foram construídas as catacumbas. Já nos tempos dos gladiadores, Roma já encontrava-se encharcada pelo cristianismo. Foi a militância dos cristãos que estancou o sangue que jorrava no Coliseu. Em algumas circunstâncias, os regimes valeram-se dos cristãos para legitimar suas ambições de conquistas, seus sistemas de dominação e suas guerras sangrentas. Diz-se que Isabel, a católica cometeu mais atrocidades em nome de sua fé do que Nero jamais por causa de sua perversão. Hoje, sabe-se que grande parte do poder religioso calou-se quando Hitler dizimava os judeus, os ciganos, os homossexuais e os deficientes físicos. Quando não houve conivência, houve um silêncio cômodo. Salazar, em Portugal, Franco na Espanha, e os regimes totalitários da América Latina contavam com o apoio da Cúria. No Brasil, o regime ditatorial mais longo de nossa história, o que começou em 1964, na verdade não teria vingado se fosse a Marcha por Deus e pela Família, liderada pela igreja católica. Os evangélicos calaram-se pelas três décadas. Crente que fosse verdadeiramente, votava na Arena. Os militares contaram com a obediência serena e meiga dos evangélicos. Enquanto atrocidades eram cometidas nos porões do Doi Codi e nos porões da repressão, alheios, continuávamos conduzindo reuniões evangelísticas. Acreditamos que os comunistas eram perigo tão grande, que
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    deveríamos no uniraos militares por que eles derrotariam as forças do mal. Em Ruanda, hoje sabe-se a política de extermínio na questão étnicas entre os Tutsis e os Hutus teve o aval da igreja cristã local. Eis porque devemos observar o comportamento de Cristo diante do impasse que lhe apresentaram: 1. O conceito cristão de cidadania dessacraliza os processos políticos. Ele pergunta, de quem é a efígie na moeda. A resposta obvia é que era de César. Portanto, não há uma ótica transcendente na leitura daquele regime. O regime de César não é visto como agente do mal e nem como agente do bem; é visto como uma manifestação dos processos humanos de condução da história. Para cristo, os sonhos teocráticos estão esvaziados. Ele edificará um reino que não guerreará pelos mesmos espaços geográficos que Roma, seu reino não usa a nomenclatura do poder de César, não aparecerá um novo partido dentro da confusa geo-política palestina do primeiro século. O evangelho não contempla no socialismo o sonho de concretização do reino. Sequer consegue ver o capitalismo que faz do dinheiro o seu deus, a possibilidade de encarnar a utopia do novo céu e da nova terra. Isso força o cristianismo a interpretar sua realidade histórica à luz da realidade e não do ideal. Quando se indaga a Cristo se deve pagar impostos a Roma, está embutida na pergunta uma inquietação: Um povo deve subjugar outro povo. Uma nação poderosa deve extorquir impostos de outra nação pobre? Não. O ideal não é que isso aconteça, mas o cristianismo não trabalha com pressupostos do ideal e sim do que é. O ideal é que não se gastasse bilhões na indústria das armas, o ideal é que o sistema financeiro não premiasse a especulação e sim a produção, o ideal é que o sistema não se alicerçasse sobre a ganância e sim sobre a solidariedade. Foi devido a isso que a escravatura não é duramente combatida nas páginas do Novo Testamento. Na realidade em que foi escrito, a escravatura era amplamente difundida. Os autores mergulhados na realidade histórica que viveram sem percepção nítida de como aquela situação pudesse ser revertida não tentam desmoronar o sistema da escravatura, mas lutam para humaniza-lo. No exercício da sua cidadania o cristão reconhece sua realidade mas não se encaramuja pela distância entre o que é e o que desejamos que seja. O ideal é que não houvesse meninos morando nas ruas, chacinados por hordas de justiceiros. O ideal é que não haja traficantes vendendo crack para os miseráveis que já vivem no inferno. Entre este ideal e o que vemos quotidianamente há um abismo enorme. O que fazer. O evangelho desafia os cristãos a lutar para que eles sejam cuidados, que as estruturas que perpetuam esse estado de coisas sejam derrubadas e que se engatilhem processos que prevenirão outros a caírem nesse caldeirão de desgraça. Foi interessante a postura do Ministro da Saúde dos Governos do Jimmy Carter e do George Bush. Ele, evangélico militante, iniciou uma campanha pela distribuição de preservativos por todos os Estados Unidos. Confrontado pela Maioria Moral, se não estava legitimando a promiscuidade no país, ele respondeu: O ideal é que as pessoas vivam uma vida monogâmica, mas antes que esse ideal se concretize há milhares de pessoas se contaminando com o vírus HIV. Sou ministro da saúde, não lido com o ideal, tenho que lidar com a dolorosa realidade, portanto, vamos ensinar as pessoas a usar a camisinha. O ideal é que não haja abortos. Entretanto, milhares de mulheres estão recorrendo a clínicas de aborto imundas. Muitas morrem por infecção. O que fazer? Creio que o conceito de cidadania deve incorporar programas alternativos de adoção, creches antes que as apedrejemos. 2. O exercício da cidadania cristã trabalha dentro dos contornos sociais, sem contudo legitimá-los. O simples fato de pagar o tributo não significa que o regime opressor de Roma está legitimado por Cristo. Cristo não admite que suas posturas sejam exploradas por razões políticas, como também
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    ensinou aos seusdiscípulos a nunca se valeram das estruturas do poder para alavancar o projeto do reino. Francis Schaeffer é que cunhou a expressão co-beligerância. Fazem-se parcerias sem contudo legitimar. Quando percebo que a igreja católica levantou uma bandeira digna, como sua luta contra a exploração sexual de menores, posso me aliar com ela naquela luta, sem que necessariamente esteja legitimando outros posicionamentos dela como sua mariolatria, o poder papal, etc. Quando percebo que os sem terra, estão com reivindicações sólidas sobre a reforma agrária e sobre a injustiça social no campo o evangelho deve ratificar o esforço deles – Há muitos crentes entre os sem-terra – sem contudo, estar legitimando a invasão de prédios públicos ou estar solidário a pressupostos socialistas. Quando o presidente da República desenvolve um projeto de cidadania, um esforço de alfabetizar os evangélicos devem se posicionar a favor, sem que com isso estejam dizendo que aprovam os métodos que foram usados para que se ganhassem os votos pela re-eleição. “Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes. A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador e a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, o fosso que circunda a velha cidade e defende melhor do que nunca as ais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e, às vezes, os leva a desistir da gesta heróica. Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lágrimas de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhe impôs e impõem quotidianamente, do que fizeram e, sobretudo, do que não fizeram. E sim que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo. Sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsando a atividade da cidade futura que estamos a construir. Vivo, sou militante. Por isso, odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.” Antônio Gramsci – 11.02.1917. 3. O exercício da cidadania é encarado no cristianismo, não como uma atividade da redenção mas da criação. A função de governar a terra e de administrar foi outorgada no Gênesis antes da queda. O cristianismo, portanto, não necessita de homens redimidos para que o bem seja promovido. Está fora o conceito de que o Brasil será melhor quando tivermos o maior número de evangélicos no poder. Não, o Brasil estará melhor quando tivermos o maior número de bons políticos exercendo, da mesma maneira que a aviação brasileira estará melhor quando tivermos melhores pilotos pilotando nossas aeronaves, da mesma maneira que o nosso programa de desenvolvimento da física nuclear estará melhor quando tivermos o maior número de bons físicos à frente dos nossos projetos energéticos. 4. O exercício da cidadania evangélica é ao mesmo tempo uma expressão de amor como expressão de justiça. O âmago do evangelho é a busca da justiça em amor. E da proclamação do amor a partir O que segue a justiça e a bondade achará a vida, a justiça e a honra. Provérbios 21.21. O exemplo do Bom Samaritano. O fez por um sentimento de amor, talvez não passasse no teste do politicamente correto. Não houve contestação do sistema, da insegurança. Mas como
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    expressão do seuprofundo amor, a justiça foi exaltada. Esse é o mistério da encarnação. Cristo ao mesmo tempo dá o que é de Deus e de César. O transcendente e o imanente encarnam-se. A igreja participa no palco social e constrói um castelo transcendental. Age no imanente como justiça, porque foi visitada pelo transcendente com amor. Por isso é que historicamente ela tanto tem um Desmond Tutu na África do Sul que celebra um culto a Deus orando para que seja desmantelado o sistema do Aparthaid como sai pelas ruas em passeata pedindo que o regime iníquo caia por terra. Um Martin Luther King Jr, que prega o sermão em Atlanta e faz o discurso em Washington. Um Wilberforce que pastoreia uma igreja e ao mesmo tempo é membro do Parlamento Britânico que joga por terra o regime escravagista. Você tem comunidades evangélicas no morro pregando o evangelho e promovendo cursos de alfabetização. Missionários que dão aula de bíblia e de cuidados de higiene. Soli Deo Gloria A mulher samaritana, Coca-Cola e Jesus. Ricardo Gondim Rodrigues Às vezes, a gente ouve certas coisas que não aceita, mas não sabe bem o porquê. Só depois de algum tempo entende. Não foi por mera antipatia que aquela mensagem não desceu bem. Recordo-me quando ouvi pela primeira vez o paralelo entre Jesus e a Coca-Cola. O pregador, inflamado de zelo e paixão missionária, afirmava que numa viagem ao interior do Haiti, sob uma temperatura de mais de 40 graus, sentiu-se aliviado quando parou num quiosque miserável feito de palha de coqueiros e pôde comprar uma garrafa do mais famoso refrigerante do mundo. Devidamente refeito depois de beber sua Coca geladinha, perguntou ao dono da venda se já ouvira falar de Jesus. Ele não sabia de quem se tratava. E o nosso palestrante fez sua analogia, tentando dar um choque na complacência da igreja ocidental: “A Coca-Cola conseguiu alcançar o mundo inteiro em menos de um século e a igreja cristã ainda não cumpriu a ordem da Grande Comissão em mais de 20 séculos!”. Depois daquela primeira exortação, já devo ter escutado essa mesma comparação uma dúzia de vezes em diversas conferências missionárias. Verdade ou tolice? Pior. Estou certo que essas ilustrações não são meros simplismos, nascem de grandes erros teológicos (ou ideológicos?). Coca-Cola é uma bebida inventada na Geórgia, Estados Unidos, com uma fórmula secreta. Sabese que sua receita original continha alguns ingredientes também encontrados na cocaína, daí o seu nome. Seus fabricantes nunca intencionaram outro propósito senão matar a sede das pessoas. A The Coca-Cola Company não convoca ninguém a rever valores do caráter, não confronta estruturas de morte, não se propõe a aliviar culpa, não revela a eternidade e nem Deus. Para chegar aos quiosques mais remotos do globo, bastou criar um produto doce e gaseificado. Investir bilhões em boas estratégias de propaganda, construir fábricas e desenvolver uma boa rede de distribuição para que o produto chegasse com a mesma qualidade nos pontos de venda. Tentar comparar a missão da igreja no anúncio do Reino de Deus às estratégias de mercado de um refrigerante, beira o absurdo. Confunde-se um bem material com uma pessoa e enxerga-se na mensagem um produto. Os missiólogos sucumbiram à lógica do mercado do novo milênio? Acreditam mesmo que cumpriremos nossa missão com os instrumentais corporativos? Tudo pode se tornar um produto? No Brasil, o esforça-se muito para “vender” o Evangelho. Quase não se usa a mídia para proclamar os conteúdos do Evangelho. Alardeiam-se os benefícios da fé. Basta observar a enormidade de tempo gasto divulgando os horários dos cultos, a eficácia da oração, mostrando que aquela igreja é melhor e que a sua mensagem é a mais forte para resolver todos os problemas das pessoas. Aborda-se o Evangelho como um produto eficaz e adota-se uma mentalidade empresarial no seu anúncio. Prometem-se enormes possibilidades. Tratam as pessoas como clientes e sem constrangimento, anuncia-se que qualquer um pode adquirir esse
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    determinado benefício comum esforço mínimo. As igrejas se transformam em balcões de serviços religiosos ou supermercados da fé. A tendência de oferecer cultos diferenciados e as intermináveis campanhas de milagres demonstram bem esse espírito. Como um supermercado com as gôndolas recheadas de produtos, as igrejas procuram incrementar os “serviços” ao gosto dos fregueses. Os pastores dividem os dias da semana com programações atrativas; gastam suas energias desenvolvendo estratégias que atraiam o maior número de pessoas. Sonham com auditórios lotados. Campanhas, correntes e demonstrações grotescas de exorcismos e milagres financeiros se sucedem. As pessoas, por sua vez, se achegam, seduzidos pelas promoções das prateleiras eclesiásticas. Esse modelo induz as pessoas a adorarem a Deus por aquilo que ele dá e não por quem é. Não se anuncia o senhorio de Cristo, apenas os benefícios da fé. Os crentes acabam tratando a Bíblia como um amuleto e, supersticiosos, continuam presos ao medo. Vive-se uma religião de consumo. Mas existe outra dimensão ainda mais sutil. Naomi Klein, jornalista canadense, publicou recentemente “Sem Logo” (Editora Record) para denunciar a tirania das marcas em um planeta obcecado pelo consumo. Ela defende a tese de que a grandes corporações do mercado global não vendem apenas os seus produtos, mas a marca. Procuram criar uma filosofia de vida embutida em seus produtos. Desejam induzir seus consumidores a acreditarem que podem viver um determinado estilo de vida, desde que comprem aquela marca específica. Assim os fumantes de Marlboro imaginam personificar o “cowboy” solitário, mesmo morando em um apartamento. Quando atletas amadores vestem as roupas ou calçam os tênis da Nike, acham que se transformam em campeões. Gente que vive presa no trânsito apinhado das grandes metrópoles, ao dirigir jipes com tração nas quatro rodas, sente-se desbravando sertões. Klein declara: “’Marcas, não produtos!’ tornou-se o grito de guerra de um renascimento do marketing liderado por uma nova estirpe de empresas que se viam como ‘agentes de significado’ em vez de fabricantes de produtos. Segundo o velho paradigma, tudo o que o marketing vendia era um produto. De acordo com o novo modelo, contudo, o produto sempre é secundário ao verdadeiro artigo. A marca e a sua venda adquirem um componente adicional que só pode ser descrito como espiritual”. Infelizmente percebe-se o mesmo em determinados círculos cristãos. Querem fazer do Evangelho uma grife. Como? Primeiro transforma-se um seleto grupo de evangelistas, cantores e pastores em superestrelas ao estilo de Hollywood. Depois associam seu nome a grandes eventos e dão-lhes o holofote. Ensinam-lhes habilidades espirituais acima da média. Assim produzem-se ícones semelhantes aos do mundo do entretenimento. Eles aglutinam multidões, vendem qualquer coisa e criam novas modas. A indústria fonográfica enriquece, os congressos se enchem, e os novos astros do mundo “gospel” alavancam suas igrejas. Jesus dialogou com uma mulher samaritana e ofereceu-lhe uma água viva. A mulher imaginou essa água com raciocínios concretos. Pensou que ao beber, nunca mais teria sede. Uma água dessas hoje, devidamente comercializada, seria um tesouro sem preço. “Dá-me dessa água e assim nunca mais terei que voltar aqui”. Jesus corrigiu sua linha de pensamento. A água que ele oferecia não era mágica, mas um relacionamento: filhos e filhas adorando ao Criador em espírito em verdade. Infelizmente muitos evangélicos brasileiros propagandeiam água mágica. Pretensamente matando a sede de qualquer um no estalar dos dedos. O evangelho não é produto ou grife, volto a repetir, mas uma alvissareira notícia. Não deveria se escravizar às regras do mercado. Ricardo Mariano em sua tese de doutoramento concluiu, para a vergonha de tantas igrejas neo-pentecostais: “As concessões mágicas feitas pelas igrejas pentecostais às massas desafortunadas, por certo, não constituem tão-somente meras concessões... observa-se que a oferta pentecostal de serviços mágicos segue cada vez mais uma dinâmica empresarial, ditada pela férrea lógica do mercado religioso, que pressiona os diferentes concorrentes religiosos a acirrarem seu ativismo e a tornarem mais eficazes suas ações e estratégias evangelísticas”. Essa mercadoria religiosa caricaturada de evangelho não representa o leito principal da tradição apostólica. A indústria que encena essa coreografia carismática de muito barulho e pouca eficácia,
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    não conta como aval de Deus. Há de se voltar ao anúncio doloroso do arrependimento como primeira atitude para os candidatos ao Reino. Não se pode, em nome de templos lotados, omitir a mensagem da cruz. Precisa-se repetir sem medo a mensagem de Jesus: “Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Marcos 8.34). Se não voltarmos aos fundamentos do Evangelho, teremos sempre clientes religiosos, nunca seguidores de Cristo. Faremos proselitismo sem evangelizar. Aumentaremos nossa arrecadação sem denunciar pecados. Construiremos instituições humanas sem encarnação do Reino de Deus. E pior, continuaremos confundimos Jesus com Coca-Cola. No Maranhão há um refrigerante de grande sucesso com a marca Jesus. Entretanto, não se pode desejar alcançar o sucesso transformando Jesus numa soda e as igrejas em quiosques religiosos. Que Deus tenha piedade de nós. Soli Deo Gloria O fim da história Ricardo Gondim Rodrigues Há alguns anos, um obscuro funcionário do Departamento de Estado norte americano propôs que a história chegara ao fim. O nome de Francis Fukuiama logo se tornou conhecido nos meios acadêmicos. Seus argumentos causaram enorme furor entre os defensores da dialética histórica. Ele defendia que o fim das grandes utopias, principalmente o esfacelamento da proposta soviética de um estado marxista, exauria a possibilidade de se escrever História, com agá maiúsculo. Estaríamos condenados a um futuro que tediosamente se alongaria numa sucessão de fatos menores, portanto, uma “historinha”; meros acontecimentos quotidianos. Ele simplesmente expressava a mentalidade de uma época, também chamada de pósmodernidade. Um contrapé histórico caracterizado pela decepção com as propostas do Iluminismo europeu e com as afirmações da modernidade. Eram elas: a) o avanço do saber científico; b) o domínio da natureza pela tecnologia; c) o aumento exponencial da produtividade e da riqueza material; d) a emancipação das mentes após séculos de opressão religiosa; superstição e servilismo; e) o progresso e salvação dos povos pelas instituições políticas; f) o aprimoramento intelectual e moral dos homens por meio da ação conjunta da educação e das leis. Não se aguarda mais o paraíso proletário sonhado por Marx, o eldorado do capitalismo ocidental ou o mundo feliz do positivismo em que imperam a “ordem e o progresso”. Realmente parece que se acabaram os sonhos, que se arriaram as bandeiras apaixonadas das idéias e que os visionários cederam lugar aos hedonistas. Os grandes ideólogos dos partidos políticos, acossados nos corredores das universidades, cederam os palcos para os marqueteiros. Diminuíram as barricadas e trincheiras nas ruas das grandes cidades; os jovens optaram pelos corredores refrigerados dos shoppings. A China, maior país comunista do planeta, criou um novo paraíso capitalista, com instituições políticas totalitárias e uma economia de mercado. Idealistas, idealistas mesmo, restaram os fundamentalistas islâmicos, defensores de um mundo pré-moderno. Guerreiros dispostos a deitar suas próprias vidas por um estado teocrático. Vislumbram um mundo homogeneizado pelo Corão e sujeito à disciplina e censura de um Ministério de Costumes e Tradição que condenaria as mulheres a retrocederem séculos sujeitandoas novamente às mordaças medievais. Fora esses segmentos islâmicos mais radicais, realmente o mundo carece de sonhos e ideais. Gabriel Perissé afirma que uma das idéias mais fortes que leu na sua vida encontrava-se pichada em um tapume e dizia assim: “Se você está tranqüilo é porque está mal informado”. Entorpecemos nossas consciências com a desinformação. A televisão nivelou-nos por baixo. A avalanche de novos fatos que se sucedem em um mundo globalizado não nos deixa tempo para a reflexão. Sucumbimos a um rápido processo de imbecilização. Há uma cultura de consumo que anestesia o ocidente. Fernando Pessoa em seu magnífico “Livro do Desassossego”, afirmou que ao herdarmos uma descrença generalizada tanto no “cristianismo como na igualdade social e na ciência e nos seus proveitos” acabamos nos contentando em meramente viver. E arremata inclemente: “Ficamos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de só sentir viver. Um barco parece ser um
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    objeto cujo fimé navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontramo-nos navegando, sem a idéia do porto a que nos deveríamos acolher”. O veredicto de Pessoa, mesmo vaticinado há quase cem anos, é doloroso: “Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões ... Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma idéia do futuro, também não temos uma idéia de hoje, porque o hoje, para o homem de ação, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta conosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta”. Melancolicamente também constato que a esperança igualmente anda trôpega entre os cristãos. Percebo que nos contentamos em repetir dominicalmente nossos cultos. Sujeitamo-nos à ladainha enfadonha de orações prontas, paliativos espirituais em um mundo inclemente. Acomodamo-nos silenciosamente em viver contentes por simplesmente existirmos. Mas algo dentro de mim se revolta. Quero sonhar, não estou contente em viver, por viver, preciso navegar rumo ao “grande Porto”. Não aceito que a “roda viva” carregue irremediavelmente o “destino pra lá”. Não aceito viver na fronteira da complacência e do comodismo. Quando Chico Buarque compôs “Roda Viva” em 1967, expressou o clamor de minha geração: “A gente vai contra a corrente / Até não poder resistir / Na volta do barco é que se sente / O quanto deixou de cumprir”. Partilho do sentimento de Vaclav Havel, o dramaturgo tcheco: “Esperança não é lutar porque vai dar certo, mas porque vale a pena”. Tenho esperança, sem saber bem e ao certo como será o amanhã, mas que vale a pena lutar por ele. Aguardo, sem qualquer prova, um porvir melhor, menos kafkiano. Acredito na graça comum, distribuída sem acepção, que nos habilita construir um mundo justo e verdadeiro. O Evangelho é boa nova, contradiz a entropia física e nos convoca a lutar mesmo que nunca contemplemos qualquer resultado prático. Decidi que não preciso estoicamente esperar um futuro sombrio. Não me acomodarei à profecia de mau agouro do Fukuiama. Renovarei, nesse próximo ano, meus ímpetos juvenis e não aceito que estejamos preparando uma “Gotham City” para os nossos filhos. Ambiciono encarnar o que Ghandi propôs: “Quero ser no mundo, aquilo que quero ver no mundo”. Se quiser ver no mundo idéias valerem mais que conveniências, abraçarei minhas convicções com tanta paixão que renasçam coerências e coragem, paixão e compaixão, ação e ternura. Quero entregar-me de tal forma aos ideais do Reino que, sem heroísmos quixotescos ou messianismos inconseqüentes, possa deixar um mundo melhor para a próxima geração. Escreverei mais e com a convicção de que posso iluminar com minhas palavras. Certo escritor conta que, quando menino, presenciou uma operação cirúrgica improvisada em sua cidade pequena, no meio da noite, sobre a mesa de uma farmácia. Era preciso suturar um homem retalhado, vítima de uma chacina. Operá-lo sem anestesia. E ele, o menino, o futuro escritor, ficou com a incumbência de segurar o lampião. Tremendo. Assustado. Não podia fazer nada. Mas iluminava a cena... Lutarei por ideais, abraçarei causas, romperei com as minhas zonas de conforto. Farei de meu discurso religioso uma arma que apunhale a mediocridade, desmonte estruturas sociais perversas e que seja sempre uma contradição ao espírito desta época. Acreditarei na força da Igreja. Não a institucional, mas naquela que, inaugurada no Pentecostes, saiu a salgar e a encarnar o Reino de Deus entre as pessoas. Trabalharei para que o corpo de Cristo não infantilize ou aliene, mas produza o “novo homem” que pode gerar sociedades solidárias, economias justas e um mundo sem tanto ódio. Desejo dar-me às pessoas, cultivar amizades. Acreditar que as fagulhas da bondade de Deus na humanidade ainda prevalecem diante das trevas. Quero aprender a ingenuidade e desaprender a esperteza. Aumentar minha paciência e diminuir minha aspereza. Plagiarei sem remorsos as palavras de Jeremias para “trazer à memória o que me pode dar esperança” – Lm 3.21. Até que “se levante o Sol da Justiça, trazendo salvação em suas asas”. – Ml 4.2. Maranata! Soli Deo Gloria
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    Resgatando a brasilidadeda nossa fé Ricardo Gondim Rodrigues Sempre achei curioso o fato de o código de acesso telefônico para os Estados Unidos ser 01 e o do Brasil, um longínquo 55. É que, na nova ordem globalizada, eles são a matriz. Merecem o primeiro lugar até na discagem direta internacional. Já o nosso número pode significar simbolicamente a distância com que o império nos enxerga. Os americanos são verdadeiramente a nova matriz do mundo. Possuem um poder militar amedrontador, que policia os mares, as montanhas e florestas do planeta. Sua moeda é o referencial financeiro dos mercados. Investem mais dinheiro na ONU que qualquer outro país e assim podem vetar ou aprovar moções da comunidade internacional. Publicam mais livros, lideram em investimentos em pesquisa tecnológica e assim possuem o maior número de cientistas detentores do Prêmio Nobel. Quando queremos nos divertir, assistimos aos filmes que eles produzem. Quando os países pobres enfrentam apuros financeiros correm para Nova York pedindo um novo empréstimo. Os americanos são tão poderosos que conhecem pouco o que acontece em outros países. Eles se bastam. Por isso é que muitos continuam achando que Buenos Aires é a capital do Brasil e que as cobras ainda passeiam por nossas cidades. Os brasileiros idolatram a América. Avaliamo-nos, cabisbaixos, como um povinho medíocre destinado a ser vassalo de uma grande potência. Preferimos suas músicas, embora não entendamos a letra. Não valorizamos devidamente nossa arte, cultura e história. Milhares já emigraram para lá. Aceitam lavar pratos e chão de cozinha por dólares tão escassos por aqui. Achamos que os parques de diversão americanos são mais interessantes que nossas praias de areia branca com sol quente e água morna. Recentemente visitei uma famosa faculdade bíblica nos Estados Unidos. Gastei algumas horas na sua livraria. Maravilhei-me com a quantidade de títulos publicados, encantei-me com a profundidade teológica e a seriedade com que os diversos temas são abordados. Porém, entristeci-me ao constatar que não havia nada, em nenhuma prateleira, de autores latinoamericanos. Brasileiros então, nem se fala! Lá na sede do império não se sabe quase nada sobre os evangélicos latino-americanos, a não ser rumores de que um grande avivamento ocorre por aqui. Estamos tão distantes da cultura americana como está o Conde Zinzendorf e sua misteriosa Morávia da realidade atual. Indignei-me quando li o famoso Este Mundo Tenebroso, de Frank Perreti. A trama do livro é a batalha espiritual que acontece em uma cidadezinha americana do interior que seria dominada por uma seita da Nova Era. No último capítulo, os demônios são finalmente vencidos e expulsos. Para onde eles vão? Para o Rio de Janeiro! Nessa última visita aos Estados Unidos, preocupei-me em assistir aos programas dos televangelistas, conversar com os evangélicos sobre política e ouvir o conteúdo das pregações. Espantei-me ao perceber como os programas (principalmente os carismáticos) procuram imitar as grandes produções hollywoodianas. Os pastores se produzem com gel no cabelo e vestem ternos caríssimos. Suas esposas, carregadas de maquiagem, parecem personagens de outro planeta. Algo destoa quando falam do Jesus de Nazaré, que foi simples e viveu uma vida singela. O conteúdo dos sermões tem duas polegadas de espessura. As megaigrejas são construções suntuosíssimas, com luminárias de cristal, tapetes maravilhosos e assentos confortabilíssimos. Financiadas com empréstimos a juros baixos, erguem-se à beira das auto-estradas como símbolos da parceria de mamom e Jeová, que a cultura americana promove tão bem. Os evangélicos americanos gostam muito do Partido Republicano. Veneram o seu presidente e acreditam que a sorte de seu país está ligada à obrigatoriedade da prece nas escolas, à proibição do aborto e à denúncia do homossexualismo. Não lhes interessa muito a emissão de gás carbônico na atmosfera (a maior do mundo), o descaso com a epidemia de aids na África e a desigualdade nas suas relações comerciais com os países miseráveis do planeta. Nenhuma denúncia é ouvida dos púlpitos americanos quando sobretaxam as importações e subsidiam a sua agricultura, falindo a economia primária das nações pobres. O american way of life (estilo de vida americano) e o evangelho são irmãos siameses. Quase impossível de se separarem! A igreja evangélica brasileira repete o mesmo comportamento do restante de nossa nação.
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    Também nos vemoscom autodesprezo. A grande maioria dos nossos livros é tradução dos bestsellers americanos (alguns rasos e descontextualizados). Traduzimos suas músicas e nos maravilhamos com o poder espiritual de seus evangelistas. Convidamos pastores americanos para ministrar em nossos congressos sobre espiritualidade porque os consideramos mais íntimos de Deus. Eles nos ensinam métodos de crescimento da igreja e alguns chegam por aqui com pretensa autoridade apostólica, soprando sobre os auditórios para que as pessoas caiam. Balançam o paletó acreditando que uma onda espiritual sacudirá o povo. A ironia disso tudo é que aqueles que nos ensinam sobre espiritualidade vêm de subúrbios limpos, moram em casas calafetadas no inverno e refrigeradas no verão. Nunca presenciaram uma cena de violência urbana, jamais foram assaltados. Não gastam mais que 15 minutos no trânsito e convivem com uma congregação com renda per capita de mais de 50 mil dólares por ano. Só porque conseguiram aumentar sua congregação para mais de 2 mil membros, vêem-se habilitados a nos ensinar como fazer uma evangelização explosiva. Porque são habilidosos em manipular um auditório entorpecido pela euforia religiosa, acham que podem nos ensinar uma “nova unção” que derruba as pessoas no chão. Eu gostaria de ser mentoreado sobre espiritualidade por um pastor que ora, lê as Escrituras e medita nelas, a partir da periferia das grandes cidades do Brasil, verdadeiras zonas de guerra. Porque sou brasileiro, quero ouvir mais dos pastores que cuidam de congregações lotadas de gente desempregada e aflita com a instabilidade da economia. Porque também convivo com a dura realidade da violência, quero aprender a aconselhar com pessoas que sabem o que é cuidar de gente que já testemunhou chacinas ou que já foi assaltada à mão armada. Prefiro conversar com um desses plantadores de igrejas anônimos que já construíram várias pequenas igrejas sem recursos a ouvir de teóricos sobre o método gerencial mais eficaz que faz uma igreja crescer numericamente, mas que nunca plantaram, eles mesmos, uma igreja sequer. Apesar de sermos ainda muito imaturos e vulneráveis a tantos modismos, o jeito brasileiro de viver a fé é fantástico. O fervor com que se louva a Deus, por aqui, é contagiante. As diversas expressões missionárias, mesmo ainda meio indisciplinadas e anárquicas, mostram-se bastante frutíferas. Haja vista, o pipocar contínuo de igrejas que se estabelecem nas redondezas pobres das grandes cidades. Sobejam exemplos de missões que alcançam prostitutas e travestis, e que ninguém valoriza devidamente. Os galpões velhos, os cinemas abandonados, lugares outrora esquecidos que viraram templos, são espaços simbólicos da incursão evangélica em setores esquecidos da sociedade. O Brasil evangélico é um contraponto à complacência cristã do Primeiro Mundo. A nossa taxa de crescimento é uma das maiores de todo o mundo. Nosso zelo missionário, invejável. A mobilização da igreja impressiona quem se interessa em estudá-la. Vencemos preconceitos denominacionais em larga escala e pastores de diferentes tradições convivem sem maiores problemas. A instabilidade econômica nos forçou a aprender a sobreviver dos dízimos e ofertas semanais. Não somos uma igreja endividada. Artesanalmente montamos nossos corais. Artesanalmente estabelecemos centros comunitários em zonas carentes. E artesanalmente tentamos cumprir a missão integral. O problema é que, ao reproduzimos na igreja evangélica a mesma baixa auto-estima nacional, não conseguimos ter mais teólogos com intrepidez de publicar suas reflexões e idéias, mais pastores que escrevam sobre suas experiências em suas comunidades, mais poetas e escritores que nos brindem com suas meditações e ficções. Com tanta riqueza ao nosso redor, sugiro procurarmos não nos embasbacar olhando para a “matriz” e desejando ser iguais a ela. Resgatemos nossa identidade cristã nacional e façamos de nossa brasilidade um motivo de orgulho. Desvencilhemo-nos da dependência dos modelos importados, que podem ter relevância lá, mas que dizem tão pouco para o que vivemos aqui. Mãos à obra, pastores, seminaristas, cantores, missionários, evangelistas, escritores, poetas e professores brasileiros. Temos muito que fazer! Soli Deo Gloria
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    Carta ao meuPastor Ricardo Gondim Rodrigues Querido Pastor, Há muito queria escrever-lhe. Confesso que senti-me intimidado por temer que você – vou chamar-lhe de você – não entendesse minha motivação ao redigir esta carta. Escrevo por amor e com um grande cuidado por sua vida e seu futuro. Venho percebendo que você anda tenso. Entendo o seu estresse. Ser pastor nesses dias não é fácil. Sua atividade vem sendo duramente criticada pelos formadores de opinião. Nota-se uma antipatia nacional para com os pastores. Ontem, 28 de março de 2000, lendo a Folha de São Paulo, imaginei como você deve ter se sentido quando o Arnaldo Jabor, escrevendo sobre a miséria, atacou duramente as igrejas evangélicas: “Quanto faturam as igrejas evangélicas com a miséria, quanto milhões de dízimos pingam nos bolsos daqueles oportunistas de terno e gravata que não acreditam em Deus?” Sei que é perturbador ser rotulado como oportunista. O grande público mal sabe que a grande maioria dos pastores ganha salários baixos e, como todos os brasileiros, sobrevive heroicamente numa economia perversa. Às vezes, gostaria de sair em sua defesa. Mostrar que o segmento evangélico mais visível na televisão faz muito alarde, mas não representa o pulsar da igreja como um todo. Embora muitos não acreditem, é preciso deixar claro que ainda há pastores que não fazem conchavos políticos ordinários. Seus ministérios não estão à venda. Para a enorme maioria de homens e mulheres como você, a causa de Cristo é mais preciosa que projetos pessoais. Entretanto, não sairei publicamente para defender-lhe. Jesus Cristo afirmou que a sabedoria é justificada por todos os seus filhos (Lc 7.35). Sua vida basta como testemunho. Continue na estrada menos trilhada. Recordo-me daquela experiência que você nos relatou publicamente. Você estava em um mega evento evangélico. Inquieto com a luta de outros pastores para se sentarem nos primeiros lugares; percebendo que a maior parte do culto fora dedicado à promoção de cantores evangélicos; sabendo que grande parte do auditório sairia dali sem qualquer mudança de vida; revoltado por reconhecer que estruturas sociais perversas deste país permaneceriam intocadas, você orou: “Deus, quero andar ao lado de gente que te leva a sério.” Deus sempre responde preces como essa. Continue caminhando ao lado de líderes que não negociam a ética pelo sucesso, não trocam conteúdos por jargões, não tentam imitar as ações sobrenaturais do Espírito. Há alguns domingos, você parecia ansioso. Muitas vezes, nossa ansiedade nasce de comparação. Queremos, inconscientemente o sucesso, a projeção, a respeitabilidade dos outros. Isso, não acontece somente com os pastores. Empresários, profissionais liberais, atletas, artistas também caem na armadilha do sucesso. Tentam galgar uma escada imaginária que lhes levará ao triunfo. Só para descobrirem que encostaram sua escada na parede errada. Nesta corrida perversa não existem vencedores. Recordo-me de uma citação de Joseph Addison mencionada no livro “Sete Hábitos Das Pessoas Muito Eficazes (Stephen R. Covey): “Quando olho para as tumbas dos grandes homens, qualquer resquício de sentimento de inveja morre dentro de mim; quando leio os epitáfios dos magníficos, todos os desejos desordenados desaparecem; quando me deparo com o sofrimento dos pais em um túmulo, meu coração se desmancha de compaixão; quando vejo a tumba dos próprios pais, lembro do quanto é vão chorarmos por aqueles a que logo seguiremos; quando vejo reis colocados ao lado daqueles que os depuseram, quando medito sobre os espíritos antagônicos enterrados lado a lado, ou os homens sagrados que dividiram o mundo com suas discussões e contendas, medito cheio de dor e surpresa, sobre a pequenez das disputas, facções e debates da humanidade. Quando leio as variadas datas dos túmulos, algumas recentes, outras de seiscentos anos atrás, penso no grande Dia, no qual seremos todos contemporâneos, e faremos nossa aparição conjunta.” Pastor, a sedução pelo aplauso é vã. A disputa por respeitabilidade, inútil. O desejo de ter um nome se aproxima da mentalidade dos construtores de Babel. Na proposta de Jesus Cristo há discrição. O sucesso cobra um preço muito alto. Ele mirra nossa alma.
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    Não se afadiguepara ser bem sucedido. Deus não busca desempenho, apenas fidelidade. Ele jamais lhe comparará a ninguém. Seja tão somente fiel ao que lhe foi confiado. Jesus alicerçou sua identidade na frase que ouviu antes de iniciar seu ministério: “Este é meu filho amado em quem me comprazo”. Faça o mesmo. Tome consciência de que é agradável a Deus. Só assim você não se deixará afetar por elogios ou desprezos. Ás vezes, preocupo-me que você esteja querendo impressionar outros pastores. Não é preciso. Por causa de Jesus, sabemos que Deus já está satisfeito conosco. Semana passada vi-lhe no culto sem paletó e sem gravata. Ninguém se chocou. Pelo contrário, sentimo-nos mais próximos. Incrível, como nesses pequenos detalhes haja tanto significado. Gosto de lhe enxergar humano. Recordo-me com detalhes todas as vezes que você, sem temor, deixou-nos conhecer suas fraquezas. Ajudou-me a perceber que não luto sozinho contra a carne, o mundo e o diabo. Senti-me fortalecido em saber que somos parceiros de caminhada. Na verdade, eu andava cansado dos pastores que tentam projetar em suas congregações, uma imagem de super homens. Tenho pena dos evangelistas, que sem perceberem o ridículo, enxergam-se como semideuses. Será que não notam como é vaidosa essa moda dos pastores se darem títulos e, a si mesmos se promoverem? Esqueceram que o discípulo não pode ser maior que o mestre? Apagaram da lembrança o dia em que a mãe de Tiago e João procurou um lugar de destaque para seus filhos? Diante de seu pedido afirmou: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridades sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos” (Mt 20.20-28). Dispense os títulos, esteja sempre perto de nós, sua congregação. Aqui você será sempre amado sem precisar de máscara. Quero, por último, agradecer por seus sermões. Ouço ao rádio e assisto televisão com regularidade. Sei que não devo, mas faço minhas comparações. Acredito que há uma crise muito grande nos púlpitos evangélicos. Poucos se atrevem a pregar expositivamente as escrituras. Na proliferação dos sermões tópicos percebe-se a falta de zelo. Reparei ultimamente, que a maioria dos sermões rodopia no que Deus pode fazer pelas pessoas. Parece que muitos pastores perderam a noção da grandeza e majestade de Deus. Apresentam-no como mero cumpridor dos caprichos humanos. Muito obrigado, pelo seu esmero em nos dar todo o conselho de Deus. Seus sermões podem destoar. Mas, continue exaltando a Cristo. Ele atrairá as pessoas a si mesmo. Não caia na tentação de adocicar sua mensagem, tornando o evangelho apenas uma versão simplória da neurolingüística. A mensagem da cruz pode estar fora de moda, mas ainda é o poder de Deus salvar todo o que crê. Você tem honrado o conselho que Paulo deu a Timóteo: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério” (2Tm 4.2-5). Daqui a cem anos escreverão a história de nossa geração. Nossa comunidade não alcançou a notoriedade de algumas igrejas mais famosas. Mas a vontade de Deus é que demos fruto e que nosso fruto permaneça. Não se preocupe. Caminhe de tal forma que você possa dizer no final de sua jornada: Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2Tm 4.7). A história dirá o resto. Conte comigo sempre, Uma ovelha de seu rebanho Um novo modismo evangélico Ricardo Gondim Rodrigues Eu estava no culto em que um pastor alardeou que obturações de ouro seriam dadas por Deus. Em instantes, as pessoas passaram a examinar umas às outras e pasmas, choravam afirmando que muitos dentes estavam divinamente restaurados. Presenciei um evangelista norte americano soprando – pretensamente como Jesus fez em seu ministério – e pessoas sendo jogadas no chão.
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    Assustei-me com atrivialidade com que alguns pastores relataram seus encontros com anjos. Estupefato ouvi um novo modo de orar entre os evangélicos; as preces, agora vinham entrecortadas com ordens, exorcizando demônios. Inquietei-me com uma geração de evangélicos amedrontados com maldições e pragas. Imperativos que “amarravam” demônios me deixaram desassossegado. A igreja evangélica brasileira é muito frágil teologicamente. Por isso sofre com os mais diversos modismos. Lembro-me que, em um congresso para líderes, fui desafiado a falar sobre qual seria a próxima moda que varreria a igreja nacional. Recordo-me que precedi minha palestra afirmando que primeiramente, seria necessário entender que as forças do mercado agem com muita força na elaboração teológica. Qualquer movimento vindo do exterior e que tenha sido bem sucedido lá, será copiado. As lideranças evangélicas querem achar o método que alavancará suas comunidades. Se uma determinado estratégia mostra-se eficaz no exterior, aqui dificilmente se questionará a teologia que a alicerça. Segundo, o brasileiro é culturalmente místico. Tendemos aceitar acriticamente propostas teológicas que promovam experiências sobrenaturais. O brasileiro fascina-se pelo mistério e pela magia. Afirmei naquela palestra também, que, como o mundo pósmoderno, a igreja busca estratégias de resultado imediato. Acredito que os modismo não podem ser detectados com antecedência. Mas qualquer que seja a próxima onda, a igreja precisa estabelecer alguns princípios. Eles ajudarão que se embarque em novidades sem discernimento crítico. A teologia da Cruz. Paulo escreveu a sua epístola aos Gálatas, preocupado que houvesse acréscimos à cruz. Os fariseus convertidos queriam que, além da doutrina da redenção, se acrescentassem alguns preceitos essenciais ao judaísmo, como a circuncisão. Sua carta procurava enaltecer a total suficiência do sacrifício de Cristo. Ele acreditava que qualquer acréscimo à expiação de Cristo não apenas enfraquecia as bases do Cristianismo, como anulava-as. ”Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo está desfeito o escândalo da cruz”– Gálatas 5.11. Não seriam os movimentos de “Cura Interior” que se alastram nas igrejas evangélicas um enfraquecimento da doutrina do novo nascimento? Recebi de um leitor do Ultimato um formulário com quatorze páginas de um seminário de cura interior ministrado em várias igrejas pelo Brasil. O seminário é para cristãos que ainda carregam seqüelas do passado de pecado. A pessoa passa por uma longa sabatina, revolvendo toda a sua vida e procurando encontrar aberturas espirituais no passado que tragam maldições no presente. Buscam ser exaustivos e chegam às raias da paranóia. Indagam se a pessoa comeu cocada no dia em que se celebra Cosme e Damião, se os seus pais ou avós freqüentaram reuniões de cultos afro brasileiros. Querem saber se a pessoa sonha freqüentemente com “negros” em um flagrante preconceito que fere, inclusive a Constituição. Há encontros em que se praticam regressões até a vida intra uterina. Pede-se à pessoa que visualize o esperma do pai encontrando-se com o óvulo da mãe e que detecte sinais de maldição que tenha desdobramentos em sua vida presente. Mesmo aceitando que haja escolas da psicologia que advoguem a regressão como técnica terapêutica. Ela é inaceitável como prática espiritual. Não há como negar que uma pessoa convertida ainda pode carregar seqüelas emocionais, traumas psicológicos e até desequilíbrios psíquicos. Entretanto, é inadmissível que um cristão nascido de novo ainda necessite “quebrar” maldições de sua vida passada. A Bíblia contém inúmeros textos afirmando o contrário: “Não vos lembreis das cousas passadas, nem considereis as antigas...Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e de teus pecados não me lembro”- Isaías 43.18,25. “Pois perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei”- Jeremias 31.34. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”- João 8.36. “E assim, se alguém está Cristo, é nova criatura, as cousas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo”- 2 Coríntios 5.17. Mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”- Filipenses 3.13-14. Sessões de cura interior são inócuas para preservar qualquer pessoa espiritualmente, danosas na gestação de autênticos discípulos e um horror como cura psicológica. Alguém que se submeteu a uma sessão de “Cura Interior” corre o risco de entrar em uma paranóia espiritual e descobrir que continua sofrendo com seus traumas psicológicos, e pode facilmente se desesperar pois foi-lhe prometido que Deus a curaria instantaneamente.
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    O Evangelho Antropocêntrico. Desdea Modernidade e com o apogeu do Iluminismo, homens e mulheres subiram em um pedestal. O mundo ocidental acredita que merecemos ser felizes e que tudo deve gravitar em torno de nos tornar plenos. Inclusive Deus. Devido a essa visão, aprendemos um conceito religioso egoísta. Entendemos como evangelho o anúncio de um Deus que nos faça bem. Que esteja ao nosso dispor. Assim, nossas preces se resumem a pedir. Queremos que nosso louvor seja agradável a nós mesmos. Compreendemos conversão como uma descoberta que nos fez mais felizes. Hoje, muitos evangélicos aprenderam a “reivindicar” direitos e “decretar” bênçãos. Recentemente vi um adesivo colado no vidro do carro de um crente que pedia: “Dê uma chance para Deus.” Quem será que necessita de uma chance? Deus ou homens e mulheres que se rebelaram contra Deus que é amoroso e bom? Estarrecido, soube que há encontros evangélicos onde as pessoas aprendem a “liberar” perdão para Deus. É o cúmulo! Inverteram-se os papéis. Deus agora precisa ser perdoado? Urge voltar ao anúncio do Reino em que ele é Senhor Soberano e amorosamente estende sua graça para todos. Atalhos. Tanto as forças do mercado como a tecnologia pós moderna condicionam esta geração ao imediatismo. Acredita-se que tudo pode ser resolvido no estalar de dedos. As propagandas na televisão conseguem solucionar os problemas de limpeza de uma casa, garantem seguro médico, prometem férias felizes, dão-nos prestígio. Tudo em 30 segundos. Buscamos também resolver nossos dilemas espirituais em rápidos momentos de um culto. Infantilmente acreditamos que bastam alguns momentos de êxtase espiritual para subirmos os penosos degraus da maturidade cristã. Paulo admitiu que necessitava mais do que surtos de adrenalina espiritual: “mas esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”- I Coríntios 9.27. Não há atalhos na escola de Deus. Nada substitui o discipulado. Nenhum método suplantaria a igreja como comunidade terapêutica. Experiências com Deus se acumulam com amargas derrotas e felizes triunfos. Dia a dia aprende-se a fidelidade de Deus. Devemos olhar com cautela ministérios que prometem que em um simples final de semana os imaturos serão transformados em líderes capazes. É potencialmente desastroso montar uma estrutura eclesiástica em técnicas tão velozes. Os modismos são sinais dos tempos. Para não sermos levados por todo vento de doutrina, portemo-nos como os bereanos, conferindo com as escrituras todas as novidades que surgem no cenário religioso. Acreditemos que passarão os céus e a terra, mas a sua Palavra permanecerá. Soli Deo Gloria A ditadura dos tolerantes Ricardo Gondim Rodrigues Há algum tempo recebi o convite para participar de um programa de debates, recém iniciado pela MTV onde abordariam a questão do homossexualismo. Aceitei o convite com certa hesitação. Minha paixão pela polêmica, porém, me impediu de dizer não. Nos bastidores, antes de ir ao ar, percebi que seria minoria mais uma vez (embora seja pentecostal e corintiano). Sentei-me à mesa, rodeado por um “drag queen” e uma ativa militante do movimento lésbico. Mal o programa começou e já se percebia claramente que ele visava uma apologia do homossexualismo (ou homossexualidade, como querem os politicamente corretos). Cada um dos mais de quinze painelistas se revezava em defender a prática homossexual como uma questão de preferência e não de ética. Finalmente, a apresentadora do programa perguntou minha opinião. Pausadamente, procurando me esquivar da pecha de fundamentalista e homofóbico, expus o que penso ser um consenso do pensamento evangélico: “Cremos em um Deus criador e preservador de todo o universo. Ele, além de possuir pessoalidade, preocupa-se com a felicidade de toda a sua criação. Dele provém uma lei moral que fornece os parâmetros do comportamento humano e por ser exterior a nós, não se molda às nossas preferências.” “De acordo com essa lei moral,” continuei com o mesmo tom de voz, “nós evangélicos, entendemos o homossexualismo como um pecado, uma perversão moral.” Bastaram essas palavras. O tempo fechou. Quase todos ao redor da mesa falavam, cada qual subindo um pouco seu tom de voz. Alguns, quase que descontrolados, proferiam palavrões. Sarcasticamente, confesso, perguntei: “Afinal de contas esse espaço não é plural? Por que não posso manifestar meu ponto de vista, assim como os senhores expõem os seus? Se vocês pregam a tolerância, porque tanta intolerância ao meu ponto de vista?”
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    Meu sarcasmo nãodeu resultado. Cada vez que tentava falar, me abafavam aos gritos. A modernidade sempre se gabou de respeitar os diferentes. Voltaire, arauto do Iluminismo, dizia: “Devemos tolerar-nos mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade, ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura dirá ao caniço vizinho, vergado em sentido contrário: ‘Rasteja a meu modo, miserável, ou farei um requerimento para que te arranquem e te queimem’?” Por que mesmo anunciando o respeito à opinião do outro, a Modernidade patrocinou a Revolução Francesa? Por que o estado marxista promoveu o expurgo de Stalin? Por que na Alemanha, berço dos maiores filósofos e teólogos, aconteceu o Holocausto? Se a modernidade é tão tolerante com o diferente, por que tanta intolerância? Entendamos um pouco da Modernidade. Primeiro, ela valorizava o método. A tolerância para com a razão, para a prova “irrefutável”, tornou-se desnecessária. Sponville afirma: “Quando a verdade é conhecida com certeza, a tolerância não tem objeto.” Ele e todos os filósofos da modernidade crêem que os cientistas necessitam não de tolerância, mas de liberdade. Os fatos, provenientes da observação empírica, impõem-se. Refutá-los é negar a razão. Como a ciência não depende de opiniões, ela não necessita de tolerância, mas de respeito. Depois, a Modernidade também é naturalista. Só trabalha com um sistema fechado em que matéria, energia, tempo e chance são as únicas variáveis consideradas. Portanto, verdade deve ficar contida nesses elementos. Como filosofar, é pensar sem provas, e provar faz parte do paradigma da Modernidade, a filosofia (também a teologia) é tolerada desde que obedeça as regras da abordagem científica e naturalista. Nesse sistema, somente os céticos ao transcendente como Hume e Bultmann recebem qualquer reconhecimento. O resto é descartado como irrelevante. Terceiro, a Modernidade é universalista. Aceita que seus achados transcendem ao tempo e ao espaço. Devido a essa visão é que a modernidade, de acordo com D. A Carlson, adotou a dialética Marxista da história, a teoria Hegeliana do espírito universal, a visão pós-Iluminista do progresso e a teologia liberal que aceita como factível apenas o que é julgado racional e “científico”. Aqueles que se recusarem à ditadura da Modernidade, são imediatamente rotulados: medievais, supersticiosos, reacionários. A tolerância da Modernidade se restringe aos limites impostos por ela; quem fugir deles percebe rapidamente sua intransigência. Mas, voltemos ao programa da MTV. Por que tanta intolerância à ética judeu-cristã? Por que tanto incômodo à cosmovisão religiosa? O problema reside nos pressupostos transcendentais. O cristianismo baseia-se na revelação de uma lei moral, outorgada por um Deus que não pode ser definido como parte de minha humanidade (humanismo), reduzido a uma energia (naturalismo) ou mera projeção mítica (neurose freudiana). A premissa cristã que propõe a revelação do transcendente como um valor epistemológico, bate de frente com a modernidade. O cristão sabe que sabe por revelação. Pedro já asseverava no primeiro século: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo” (2 Pe 1.20). Na Modernidade, a verdade religiosa não é factível, é questão de opinião. Nunca ninguém está absolutamente certo sobre os assuntos espirituais. Portanto, religião não pode participar do debate público; deve manter-se reduzida à arena dos juízos; não é demonstrável nem refutável. A revelação da lei moral de Deus, caso aceita, obrigaria as pessoas a obedecê-la, acabando com a noção de preferência. A Modernidade propõe que a lei moral seja uma construção humana, restrita à cultura e ao tempo de sua elaboração; caso aceitasse que provém de Deus, reconheceria que todos, em todas as épocas, deveriam obedecê-la. Sponville diz que uma ditadura imposta pela força é um despotismo; se ela se impõe pela ideologia, um totalitarismo. O problema da Modernidade é que, mesmo sem querer, vem se tornando cada dia mais déspota e totalitária. Não somente rechaça os valores da ética cristã, como tenta forçar seus pressupostos como únicas opções válidas, por serem cientificamente irrefutáveis. O homossexualismo, por exemplo, é hoje discutido como uma questão de mutação do código genético, descartando a moral. Os militantes gays conseguiram manter o debate no nível “científico”. Nessa esfera, basta provar uma alteração nos genes e está tudo resolvido: O homossexual foi programado, na evolução, para agir daquele modo e não há como interferir em suas “preferências”. Mas o pleito homossexual é pequeno diante das implicações dessa forma de intolerância. Carlson propõe em seu livro The Gagging of God (O Amordaçar de Deus) que experimentamos uma nova espécie de intolerância. Em sociedades relativamente livres e abertas, a tolerância mais
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    nobre é aquelaexercitada para com as pessoas, mesmo quando se discorda de seus pontos de vista. “Essa robusta tolerância para com as pessoas, mesmo quando há forte desacordo às suas idéias, gera uma medida de civilidade no debate público, mesmo quando a discussão é apaixonada.” Para Carlson, o ocidente vive uma tolerância de idéias, não mais de pessoas. O resultado de se adotar esse novo tipo de tolerância é que há menos discussão dos méritos de idéias conflitantes, e menor civilidade. Há menos discussão porque a tolerância de idéias diversas, exige que evitemos criticar as pessoas por adotarem aquelas idéias. Assim, a Modernidade vai admitindo excentricidades, loucuras, e comportamentos bizarros. Ninguém tem o direito de dizer nada sobre o comportamento de ninguém. Só há problema quando qualquer idéia tenta provar sua superioridade sobre qualquer outra. Imediatamente, o mundo cai. Exclusividade é intolerável na modernidade, principalmente no campo religioso. A palavra proselitismo (na sua concepção técnica) virou palavrão. Cada um na sua. Desde que você não se intrometa com o meu estilo de vida. Ninguém precisa mudar, pois todas as opções religiosas, morais, éticas, filosóficas são válidas, não porque sejam verdadeiras, mas porque todas são igualmente questionáveis. Voltaire dizia: “O que é tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices (grifo meu), é esta a primeira lei da natureza.” O resultado disso tudo é um mundo cada vez mais inconseqüente quanto à sua ética, cada vez mais secularizado e cada vez mais intolerante para com a fé cristã, que continua com um discurso exclusivista e proselitista. Saí do programa da MTV dizendo para mim mesmo. “Incrível como os liberais são fundamentalistas na defesa do seus posicionamentos. Intolerantes! Não aceitam, que seus pontos de vista sejam questionados por outros que pensam diferentemente. Talvez tenham medo de estar errados. ” Ricardo Gondim Rodrigues Eu, mulher Ricardo Gondim Rodrigues Antes, preciso apresentar-me. Há dezoito anos convertida, estou totalmente comprometida com minha igreja local. Sou mãe de dois filhos lindíssimos, amo o meu marido e, como todas as mulheres, vivo a tensão entre o meu lar e minhas aspirações profissionais. Trabalho como diretora do departamento de recursos humanos de um grande hospital. Lido diariamente com enfermeiras, médicos e cirurgiões competentíssimos, contabilistas, técnicos em informática. Resolvi escrever sobre minhas inquietações por não entender o porquê das discriminações que sofro na minha igreja e denominação. Sinto que a grande maioria das igrejas insiste em tentar perenizar um preconceito contra as mulheres, mesmo depois de um século com tantas conquistas femininas. Espero que minhas palavras aqui sejam doces e que eu não esteja gerando ainda mais rancores e divisões entre homens e mulheres. Acredito que algo precisa acontecer urgentemente. Sabe-se que a maioria dos membros de qualquer igreja é feminina, concorda-se que a grande força missionária evangélica é composta de mulheres. Todo pastor admitirá que o ministério da oração em suas congregações é largamente impulsionado pelas irmãs. As Escolas Dominicais, o trabalho de assistência social, visitação e a evangelização pessoal de suas comunidades depende em muito das Martas e Marias que se desdobram em oração e muita atividade. Não entendo o porquê, depois de tanto fruto, tanta dedicação, as igrejas insistam na antiga interpretação bíblica de que a mulher induziu o homem a pecar e, portanto, deve manter-se sempre em segundo plano. Também, não sei porque os homens não enxerguem que na insistência em alijar as mulheres, prestam um desfavor ao reino de Deus. Temos tanto para contribuir. Com certeza nossa presença não precisa ser sempre vista como uma tentação, um perigo aos homens. O meu pastor promoveu um simposium sobre as mulheres no ministério e algumas pessoas abandonaram nossa comunidade. Alegaram que ele havia aberto um precedente perigoso e que na história do cristianismo, todas as vezes que mulheres foram içadas à posição de liderança, houve apostasia. Senti-me rasgada em minha dignidade. Vi a imagem de Deus em mim achincalhada. Mesmo com tanta dor, não quero que minha escrita aqui se transforme em um mero
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    desabafo, gostaria depedir aos meus irmãos e irmãs que meditem comigo sobre a mulher, não como um segundo plano de Deus, mas como parte de seu lindíssimo propósito eterno. Será que precisamos insistir na tese de que a mulher foi a única culpada pela queda? Repetiremos sempre a desculpa esfarrapada de Adão: de que a mulher o induziu ao erro? Creio que já caminhamos o suficiente na teologia para entendermos que a nossa humanidade, tanto homens como mulheres, é susceptível ao pecado e que nossa fraqueza precisa ser solidariamente assumida? Parece-me que as perspectivas teológicas masculinas que dominaram o pensar por tantos milênios colocaram sobre o personagem feminino um peso maior. Creio que o pecado, considerado como ruptura de toda relação com Deus e com os seres humanos; tem a dimensão da fraqueza, bem como de orgulho, pois nega a nossa responsabilidade humana e agride o propósito de nossa criação. Insisto em afirmar que o pecado não possui gênero, não é masculino nem feminino, mas é um desvio de nossa humanidade. Ouço com freqüência o argumento de que o papel da mulher na igreja deve ser o da submissão e da obediência. Cansei de ouvir que há inúmeros (?) textos em que a Bíblia ordena que as mulheres sejam submissas. Longe de mim questionar a submissão como uma virtude cristã. O que me inquieta é que esse mandamento se restrinja às mulheres. Será que a mansidão e a humildade não deveriam ser virtudes almejadas por todos, sem distinção de gênero? Concordo com Simone de Beauvoir, quando afirma que o dualismo macho/fêmea é um preconceito a ser ultrapassado. Acredito que não há essências eternas masculinas e femininas. Creio que todos devemos almejar um mundo em que as mulheres sejam acolhidas juntamente com os homens na fraternidade integral. Acredito que o exemplo de Jesus deve ser imitado por todos: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação ser igual a Deus, antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana a si mesmo se humilhou...” Fp 2.5-8. Quantas vezes eu e outras irmãs de nossa comunidade fomos esquecidas nos processos de decisão. Alegam que as mulheres são ótimas “obreiras” mas estão espiritualmente impedidas de exercerem liderança. Argumenta-se que Jesus só escolheu homens para participarem do colégio apostólico. Já tentaram me consolar, afirmando-me que eu devo me resignar a servir, pois no reino de Deus maiores são os que servem e não os que mandam. Como lamento essas abordagens. Dizem para nós que se ele só chamou homens, portanto, as mulheres precisam entender o princípio de que os do sexo masculino devem exercitar liderança. Mas, como leiga, pergunto: Ele também não chamou só judeus para serem do seu colégio apostólico? Os pastores e líderes cristãos usurpam o ministério, por serem incircuncisos? Lógico que não. Acredito que o texto de I Pedro 2.4-5 e 9, precisa ser lido sem que se leve em conta macho ou fêmea, judeu ou grego: “Chegando-vos para ele, a pedra que vive, rejeitada, sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa, também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo...Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.” Quando nos ensinam que maior é o que serve e não o que manda, também questiono: Por que os homens não dão o exemplo então, abrindo mão do poder para que as que mulheres que sempre serviram experimentem liderar, mesmo que sem grandes galardões? Escuto também a tese de que Deus escolheu vir ao mundo como homem e não como mulher. Nessa argumentação, entendo que há uma sugestão muito sutil de que ele seria menor se optasse ser mulher. Anne Carr escreveu sobre A Mulher na Igreja (Editora Temas e Debates) e cita June O’Connor, sua afirmação precisa ser ouvida por nós: “Homens e mulheres são igualmente feitos à imagem e semelhança de Deus, são chamados à responsabilidade e à salvação em Cristo, são um em Cristo (como gregos e judeus, escravos e senhores), nisso não há nenhuma significação teológica definitiva ao caráter masculino de Jesus. A sua identidade masculina é considerada como um traço de sua pessoa, e não como uma condição necessária à encarnação. Embora a masculinidade de Jesus não tenha nenhuma
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    significação teológica intrínseca,tem de fato, segundo a opinião geral, “uma significação social simbólica”. Porque Jesus sapa as estruturas predominantes das relações humanas e dos fundamentos sobre os quais assenta a sociedade de sua época, saber: a família patriarcal grecoromana do século I, que favorece o homem.” Acredito que não diminuiríamos nossos conceitos a respeito de nosso Senhor se resgatássemos algumas metáforas bem femininas. Ele não tem receios de dizer que como uma galinha busca ajuntar seus pintinhos assim ele buscou a Jerusalém (Mt 23.37). Não se envergonha de comparar Deus a uma mulher que varre a casa para encontrar sua moeda – Lc 15.8-10. Não se sente menor quando diz que o reino de Deus é como o fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até tudo ficar levedado – Mt 13.33. Em sociedades patriarcais referir-se a Deus sempre como Ele, coloca a teologia em sintonia cultural, mas não define ou sequer delimita nossa compreensão da essência espiritual de Deus que não pode ser identificada como macho, sequer fêmea. Alguns rechaçam o clamor feminino. Acreditam que estamos reivindicando dominar sobre os homens. Não queremos ser cabeça, não desejamos controlar. Pelo contrário, desejamos que não haja domínio de ninguém senão o do Senhor sobre todos. Queremos apenas que o clamor de Paulo em Gálatas 3.27-28 ressoe sem preconceitos nas mais diversas igrejas: Pois todos os que fostes batizados em Cristo, vos revestistes de Cristo. Não há judeu nem grego; não há escravo nem homem livre, não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo.” Acredito que um dia as igrejas deixarão de ser o último reduto onde as mulheres ainda sofrem preconceitos. Assim como eu, elas já exercem cargos na liderança de estados, municípios; estão à frente de grande empresas; julgam nos tribunais e até reinam sobre alguns países. Neste dia, estaremos mais próximos de sermos a igreja que ele sonhou. Por enquanto, sonhemos juntos. Soli Deo Gloria Medo dos escândalos Ricardo Gondim Rodrigues Morro de medo a cada escândalo que sacode o Brasil. Ao saber das notícias vou logo indagando: – Meu Deus, será que há algum evangélico envolvido? A lista de escândalos é antiga e grande. Suficiente para incontáveis sobressaltos. Desde a última Constituinte, quando diversos parlamentares evangélicos abertamente negociaram seus votos em troca de benefícios, começou nosso enrubescimento. Na votação dos cinco anos para estender o mandato do então presidente, outros foram seduzidos por concessões de rádio. O seqüestro a filha do Silvio Santos veio com uma intrigante coincidência: tanto a seqüestrada como seqüestrador eram evangélicos. Ele desviado e ela membro ativa de uma comunidade. Recordo-me do meu constrangimento quando assisti o principal telejornal do país mostrar cenas de um pastor pedindo maldição de Deus sobre um técnico de futebol que estaria maltratando um jogador evangélico. Como tem sido perturbador saber que há evangélicos envolvidos com planos de saúde falsos, consórcios fajutos para compra de casas e carros. Mudei do rubor para a palidez com a denúncia de uma escola de teologia prometendo diplomas sem que houvesse aprovação do Ministério da Educação e Cultura. O Brasil é tão pródigo em casos feios, que freqüentemente me encontro tenso imaginando qual é o próximo evangélico sendo investigado. Entendo que os evangélicos, com mais presença na sociedade aparecerão mais na mídia, com exemplos bons e ruins. Os escândalos em si constrangem, mas não surpreendem, pois o próprio Jesus afirmou que é mister o surgimento deles. A história do cristianismo não é só marcada com o sangue dos mártires, mas também com testemunhos trágicos de corrupção e maldade. O que mais causa espanto é que os próprios evangélicos não se antecipem nessas denúncias. Falta-nos um jornalismo investigativo. Não possuímos bons meios de comunicação que denunciem profeticamente os males que nascem da própria comunidade evangélica. Quando Adolf Hitler subiu ao poder alavancado por um partido truculento, o diário de Munique mobilizou uma equipe de jornalistas destemidos e denunciou os atos violentos e arbitrários dos nazistas. Quando o regime militar se instalou no Brasil, alguns jornais, entre eles a Folha de São Paulo, tentavam incansavelmente burlar a censura para denunciar o autoritarismo do regime.
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    Quando Richard Nixontentou esconder o escândalo da invasão do partido democrata no edifício do Watergate, Bob Woodward e o Washington Post não lhe davam tréguas mostrando as entranhas apodrecidas do poder executivo norte-americano. Quando Fernando Collor e seus asseclas quiseram fazer da presidência da república uma organização mafiosa, as revistas Isto É e Veja se revezavam com furos de reportagem capitaneando um furor unânime: eles romperam as fronteiras éticas mais flexíveis da política brasileira. Israel tentou impedir os jornalistas e repórteres das principais agências de notícias de cobrirem os eventos da recente guerra, pois temiam serem expostos em sua sanha de destruir o povo palestino, invadindo cidades e matando civis indiscriminadamente. A liberdade de imprensa e principalmente o jornalismo investigativo funcionam como uma espécie de corregedoria do grande público. Quando remexem os porões e os bastidores sujos, geram medo nos desonestos e dão ao público a sensação de que os valores éticos serão obedecidos. Toda e qualquer sociedade necessita de veículos que fiscalizem as suas ações e que seja livre para publicar e expor o que acontece de internamente. A liberdade de imprensa é um dos pressupostos mais sagrados da democracia. Infelizmente, a imprensa evangélica não conseguiu ainda produzir um jornalismo isento, independente e sério. Publicam-se boas revistas de cunho inspirativo e reflexivo (a Ultimato, por exemplo). Escrevem-se boletins teológicos também com boa densidade. Já circulam, inclusive, periódicos semanais com notícias, receitas de bolo, moda, e até fofoca dos crentes. Mas faltamnos jornalistas proféticos e pior, falta espaço para eles se expressarem. A igreja, como toda instituição social, necessita ser fiscalizada, cobrada e investigada. Lamentavelmente os evangélicos convivem com um espírito corporativista imenso. Acredita-se que denunciar um irmão é um crime hediondo. Tememos citar nomes. Quando a teologia da prosperidade começou a se enraizar no Brasil, publicou-se um livro que citava, já na capa, os responsáveis por essas aberrações doutrinárias. O autor sofreu ostracismo e a editora, duríssimas críticas. Entretanto, a Bíblia contém vários exemplos de pessoas expostas quando cometeram erros morais ou doutrinários. Paulo não hesitou em chamar a atenção de Pedro quando se mostrou incoerente em seu comportamento diante dos Fariseus e dos gentios – Gálatas 2. 11. Também afirmou que a linguagem de Himeneu e Fileto corroía como um câncer, pois pregavam que a ressurreição já se realizou – 2Tm 2.17; expôs a Demas que tendo amado o presente século, o abandonara – 2Tm 4.10; e não temeu revelar o nome de Alexandre, o latoeiro, que lhe causara muitos males – 2Tm 4.14. Há uma idéia errada que os erros da igreja não podem ser publicados sob o risco de perder o testemunho na sociedade. Mas o que é mal feito acaba sendo conhecido de qualquer maneira. Cristo prometeu que tudo o que estiver escondido será alardeado de cima dos telhados. Deus então levanta os profetas seculares e a igreja perde a oportunidade de mostrar sua intolerância com o pecado. Será que nunca teremos nenhum meio de comunicação com coragem de se antecipar aos grandes escândalos que vez por outra nascem na igreja evangélica? Criemos estruturas em nossas igrejas, denominações e, principalmente nos seminários, para que Deus levante jovens jornalistas. Carecemos de vozes com coragem de expor o maquiavelismo que usa de fins legítimos para justificar meios indignos. Precisamos urgentemente de bons escritores que relatem como acontecem os conchavos entre políticos inescrupulosos e pastores iludidos pela adulação dos poderosos. Somente com um jornalismo independente e sem patrulhamentos ideológicos saberemos o que acontece nas tesourarias eclesiásticas e nos procedimentos contábeis das grandes denominações. As pedras clamarão se o juízo não começar na casa de Deus. Mas aí será tarde demais. O ímpio escarnecerá e todos padecerão sob a mesma suspeita. Padre Antônio Vieira dizia que a cegueira do juízo e do amor-próprio é muito maior do que a cegueira dos olhos. “A cegueira dos olhos faz que não vejamos as cousas; a cegueira do amorpróprio faz que as vejamos diferentes do que são, que é muito maior cegueira”. O enorme crescimento evangélico brasileiro gera um clima ufanista, porém um bom jornalismo poderia curar esse mal.
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    Se não curar,pelo menos teremos menos sobressaltos quando lermos o jornal de amanhã. Soli Deo Gloria A falta que fazem os profetas Ricardo Gondim Rodrigues Confesso que não gostava de ler os profetas da Bíblia. Sempre os considerei rígidos demais, exageradamente metafóricos e confusos. Em meus primeiros anos como cristão, não sabia situálos historicamente. Lê-los, me entediava. Minha primeira simpatia pelos profetas veio quando fui desafiado ver o coração paterno de Deus nas páginas do Antigo Testamento. Reli a Bíblia toda. Recordo-me do impacto quando percebi, pela primeira vez, que a saga bíblica resume-se em mostrar um pai em busca de seus filhos. Entendi a profundidade da interpretação que os antigos rabinos de Israel davam ao dilúvio. Depois de insistir cento e vinte anos com os seus filhos, Deus viu a dureza de seus corações, chorou por quarenta dias e quarenta noites e suas lágrimas cobriram a terra. Aprendi sobre a paciência e longanimidade divina em tolerar momentos históricos perversos. Consegui, finalmente, estudar os profetas sem considerá-los grosseiros. Mas, apaixonei-me mesmo pelos escritos dos profetas quando li Abraham J. Heschel, rabino que tornou-se unanimidade por sua abordagem sobre o coração amoroso de Deus em meio a um judaísmo inclemente. Seu livro, The Prophets é um libelo da literatura judaica. Heschel introduz-nos aos profetas mostrando que eles não foram meros microfones que amplificavam e decodificavam o falar de Deus, mas gente com uma cultura, temperamento e individualidade. A tarefa do profeta não se resumia em transmitir o ponto de vista divino. Ele era o referencial do povo. O profeta em Israel não vaticinava apenas. Ele era também poeta, pregador, patriota, crítico social. Iniciavam suas profecias com juízo mas sempre concluíam com esperança e redenção. O profeta não repetia jargões, não perpetuava o que já fora dito, mas pensava fora dos paradigmas. Não era convencional. A mágica de suas palavras vinha de sua intuição, de seu inconformismo e da largura de seus anseios. Inúmeras vezes a linguagem do profeta foi hiperbólica. O exagero era uma maneira de mostrar sua angústia, seu desespero de não se acovardar diante do iminente fracasso nacional. Meu apetite em ler os profetas fez nascer em mim o desejo de vê-los entre nós. Entendo que o ministério profético com autoridade canônica foi até João Batista (Mt 11.13). Sei também que o dom carismático da profecia (I Co 12) resume-se à função tríplice que Paulo nos deu em I Coríntios 14. 3: edificar, exortar e consolar. Creio que o ministério profético que desejo não seja um título ou cargo. Sinto que a igreja evangélica brasileira, tem bons evangelistas, excelentes estrategistas eclesiásticos, já demonstramos alguma maturidade teológica, mas ainda somos carentes de líderes com a verve profética. O movimento evangélico brasileiro necessita de homens como Martin Luther King Jr um dos mais autênticos profetas do século XX. Sua vida, tantos anos depois de sua morte, continua impressionando pela coerência, bravura e profundo compromisso com os valores do reino de Deus. Li sua autobiografia e confesso que senti o meu coração desafiado por esse homem que viveu, falou e lutou como um profeta para os americanos mas cuja vida inspira todas as nações. Ele nasceu em 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia, foi ordenado como pastor batista em 25 de janeiro de 1948. Decidiu que jamais se curvaria às leis segregacionais do sul dos Estados Unidos quando assumiu a igreja que seu pai pastoreava, a Dexter Avenue Church em Montgomery, Alabama. Nesta cidade aconteceu o grande boicote às companhias de ônibus. Rosa Parks, uma costureira de quarenta e dois anos, recusou-se ceder seu lugar dentro de um ônibus a um homem mais jovem que ela e foi presa. Um movimento se organizou na cidade e King Jr foi eleito por unanimidade o seu presidente. Depois de várias vezes preso, de sofrer atentados como uma bomba que foi
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    jogada no alpendrede sua casa em 27 de janeiro de 1957, ele passou um mês na Índia, aprendendo os princípios de não-violência usados por Ghandi, na resistência ao imperialismo Britânico. Aplicou-os nos Estados Unidos e conseguiu vencer a tirania e o ódio com amor. Em 28 de agosto de 1963, King Jr, subiu os degraus do Memorial de Lincoln para fazer o seu mais famoso discurso, I Have a Dream. Sua voz ecoava por todo o mundo enquanto a paixão de um profeta se derramou por seu povo. Era o coração de Deus que pedia que os homens não fossem julgados pela cor de sua pele, mas pelos conteúdos do caráter. Sua vida impressionou tanto que em 10 de dezembro de 1964, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Lendo-o, juntei alguns de seus pensamentos, reproduzo-os aqui para que notemos a falta que os profetas fazem. Homens e mulheres vivendo em comunidade. “Quando o indivíduo não é mais um verdadeiro participante e não percebe sua responsabilidade para com sua sociedade, os conteúdos da democracia se esvaziam. Quando a cultura se degrada e a vulgaridade é entronizada; quando o sistema social não constrói segurança, mas induz o medo, inexoravelmente o indivíduo é impelido a se isolar completamente desta sociedade sem alma. Este é o processo que produz alienação – talvez a mais insidiosa característica da sociedade contemporânea.” A grandeza dos ideais: “A medida de um homem não se ele afirma em tempos de conforto e conveniência, mas repousa nos seus posicionamentos em tempos de desafios e controvérsias.”. “A coragem encara o medo e, portanto, dele se assenhora. A covardia reprime o medo, e portanto, dele se torna escrava. Homens corajosos nunca perdem o elã pela vida mesmo que a situação que vivam seja sem brilho; covardemente, homens esmagados pelas incertezas da vida perdem o desejo de viver. Devemos constantemente erguer diques de coragem para deter as inundações do medo.” O próximo: “A maioria daqueles que vivem na América rica ignora os que vivem na América pobre; ao fazerem isso, os ricos americanos terão que eventualmente enfrentar a pergunta que Eichmann preferiu ignorar: Qual a minha responsabilidade pelo bem estar do meu próximo? Ignorar o mal é tornar-se cúmplice dele. “ Deus e religião “A ciência investiga; a religião interpreta. A ciência fornece o conhecimento que dá poder; a religião fornece a sabedoria que dá controle. A ciência lida com os fatos, a religião lida primordialmente com os valores. As duas não são rivais. Elas se complementam. A ciência ajuda a religião a não cair no vale paralisante da irracionalidade e do obscurantismo. A religião previne a ciência de despencar no pântano do materialismo obsoleto e do niilismo moral.” Em 4 de abril de 1968 uma bala assassina silenciou esse profeta de Deus. Contudo, sua vida continua inspirando milhões de homens e mulheres. Martin Luther King, Jr, não pode ser esquecido da geração evangélica deste novo milênio. Que ele nos inspire a desejar mais profetas na igreja. Precisamos de homens e mulheres que não nos deixem acostumados com a ordem natural das coisas. Gente, cuja voz troveje ira contra a iniqüidade e a injustiça, mas nunca falem sem a ternura de Deus. Que o mote de Luther King Jr I have a dream - ecoe entre as paredes das igrejas, para que nunca deixemos de sonhar em tempos de imediatismos. Jesus mandou que orássemos pedindo mais obreiros para a sua seara. Minha prece é que ele mande mais profetas. Soli Deo Gloria Se eu fosse mais velho! Ricardo Gondim Rodrigues
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    Não estou compressa de envelhecer. Meu pai padece há anos de uma doença que lhe deixou senil e caquético. A velhice me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a impetuosidade típica dos jovens, como me tornarei mais vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas proibidas aos jovens. Estou ansioso para que chegue o tempo de poder dizê-las. Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de galgarem a fama em nome de Deus. Contaria que já presenciei o desespero de alguns, almejando se destacarem como referenciais de sua geração para depois descerem do trem fatigados e destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os bastidores da algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras para-eclesiásticas e como me enojei com a petulância de alguns evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”. Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta sem o glamour do mundo, que preferissem a senda do Calvário. Pediria que optassem por beber o cálice do Senhor a desejarem os loiros da glória humana. Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que ambicionam subir os degraus denominacionais, que eles perigam chegar no topo sem alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como ridículos e fúteis. Candidamente, contaria casos de traição, logro e delação nas reuniões secretas de algumas cúpulas religiosas. Pediria para fugirem da ganância pela autoridade institucional. Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com Deus. Se eu fosse mais velho. Diria aos mais jovens que não se iludissem com o academicismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da sua erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de mostrar que muita bibliografia citada em rodapés, vem da uma vaidade boba. Algumas pessoas buscam se mostrar mais cultas do que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas insuportáveis no contacto pessoal e que eles também padecem dos mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita, muita soberba. Contudo, eu lhes pediria para serem amigos dos livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente; que usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “Quem dentre vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria, mediante condigno proceder, as suas obras. A Sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento”. (Tg 3.13,17). Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma maratona e que não adianta se apressar nos primeiros anos. Relataria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e filhos no afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os anos da meia idade, já se encontravam estressados e cansados! Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um pastor dizer que só não saía do ministério porque, já muito velho, não sabia como retornar ao mercado de trabalho. Pediria que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no parque, de lerem livros que não fossem úteis ao ministério, de curtirem a sua mulher e de praticarem algum esporte. Eu lhes pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que, para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem na afirmação de que é possível, pastor ou evangelista, ganhar o mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a capacidade de amar poesia e de cantar canções de ninar. Enfim, perder a alma! Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que não desejassem o espalhafato espiritual e as demonstrações exuberantes do poder carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas americanos, que muitos acreditam super ungidos, passam a tarde na piscina do hotel em que se hospedam, antes de encenarem a sua super espiritualidade em mega eventos. Não temeria denunciar alguns que se trancam nos seus aposentos, assistindo filmes na televisão e logo depois subirem às plataformas
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    com o arde santos da última hora. Não hesitaria alardear, que muito daquilo que se rotula como demonstração de poder espiritual, nasce de uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia religiosa. Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno minado e cheio de armadilhas. Contaria tantos exemplos de ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder. Tantos pastores naufragaram em adultério porque se sentiram sós. Não possuíam amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores, sem um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda. Incentivaria a desenvolverem amizades, preferivelmente fora de seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama. Se eu fosse mais velho. Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as igrejas com pretensas visitações de Deus. Vermelho de vergonha, lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus estava trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitando ao ridículo de investigarem a boca uns dos outros e depois, ao confundirem as restaurações amareladas de material de baixa qualidade, com ouro, saírem proclamando um milagre de Deus. Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os evangélicos na paranóia da guerra espiritual. Ensinaram as mulheres a vigiarem mais durante a menstruação, porque há demônios que se alimentam daquele tipo de sangue. Imploraria que se mantivessem fiéis ao leito principal do Evangelho, à Doutrina dos Apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário. Se eu fosse mais velho. Eu diria aos jovens para não procurarem imitar ninguém. Lamentaria a tentativa patética de alguns líderes de quererem ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria vários exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no sofrido Brasil, o modelo de igrejas abastadas dos subúrbios americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria para não ficarem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e maneirismos dos outros, pois acabarão sem identidade. Eu mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não ensinarmos com a destreza de Paulo, nos portarmos com a ousadia de Pedro, ou escrevermos com o mesmo amor de João. Deus nos pedirá contas apenas por não termos vivido nossa própria identidade. Se eu fosse mais velho. Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em nós é muito maior que aquela que ele tem para fazer através de nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos. Melancolicamente falaria que na velhice, muitos sentem saudade dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está próximo e não escolheram a melhor parte, como fez Maria. Eu deveria esperar para dizer essas coisas quando estivesse mais velho. Por impetuosidade acabei dizendo antes do tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito agora. Soli Deo Gloria Não quero ser apóstolo ! Ricardo Gondim Rodrigues Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente, fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semi-deus”. Apóstolo agora está virando arroz de festa e meu ministério é tão especial que somente este título cabe a mim”. Um outro chiste que corre entre os
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    pastores é quese no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um “arcanjo”. Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem falsa humildade, que não eu teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero que minha ambição por sucesso ou prestígio, que é pecado, se transforme em choça. Admito que os apóstolos constam entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.11. Não há como negar que os apóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas. Mas, resigno-me contente à minha simples posição de pastor. Já que nem todos são apóstolos, nem todos profetas, nem todos mestres ou operadores de milagres, como consta na epístola aos Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro. Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete “apóstolo” ou “apostolado”. Usemos a Enciclopédia Histórico-Teológico da Igreja Cristã, das Edições Vida Nova: “O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em Português, é uma transliteração da palavra grega apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora, apostellein enfatiza os elementos da comissão – a autoridade de quem envia e a responsabilidade diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este”. Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos mais próximos de Jesus, também receberam esse título. O número de apóstolos parecia fixo, porque fazia um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se referia a apenas doze tronos na era vindoura (Mateus 19.28; cf Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a preencher esse número. Mas na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (Atos12.2). As exigências para que alguém se qualificasse ao apostolado, com o passar do tempo, não podiam mais se cumprir: “É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição” (Atos 2.21-22). Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais de I Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros e não a novos apóstolo. Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na defesa de seu apostolado em I Coríntios 15.9, ele afirmou que foi testemunha da ressurreição (vira o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhecia que era um abortivo (nascido fora de tempo). “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados por ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus. O que preocupa nos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Tem a ver com a nossa natureza que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que fez do sucesso uma filosofia ministerial. Há uma corrida frenética acontecendo nas igrejas de quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar enormes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos. Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido desapercebida de Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e
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    dos santos homensque me precederam e que não conheceram as tentações dos mega eventos, do culto espetáculo e da vã-glória da fama. Não quero ser apóstolo, porque não acho que precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem estatus. Aliás, estou disposto, inclusive a abrir mão de ser chamado, pastor, se isso representar uma graduação e não uma vocação ao serviço. Não desdenho as pessoas, sinto apenas um enorme pesar em perceber que a ambiência evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos a ostentação de títulos, cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são especiais, aceitam os aplausos que vêm dos homens e se esquecem que não foi esse o espírito que norteou o ministério de Jesus de Nazaré. Ele nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17-18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para os seus filhos. Jesus aproveitou o mal estar causado, para ensinar: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mateus 20.25-28). Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para termos ministérios bem sucedidos, mas para continuarmos o ministério de Jesus, amigo dos pecadores, compassivo com os pobres e identificado com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos graus das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel à todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama. Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter mega igrejas, busquem ser achados despenseiros fieis dos mistérios de Deus. Não se encantem com o brilho deste mundo, busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o ineditismo, busquem manejar bem a palavra da verdade; aquela mesma que Timóteo ouviu de Paulo e que deveria transmitir a homens fieis e idôneos que por sua vez instruiriam a outros. Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza terrena e pecaminosa das pessoas, preguem a mensagem do Calvário. Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (2.5-8). Soli Deo Gloria O clamor de um novo convertido Ricardo Gondim Rodrigues Meu nome é Iuri. Curso pós-graduação em ciências sociais. Defenderei minha tese dentro de mais seis meses. Há um ano experimentei uma autêntica revolução interior. Converti-me ao cristianismo em uma igreja evangélica. Falei de revolução porque, à semelhança dos processos revolucionários, minha experiência de conversão deu-se com violência. Depois de convertido, visitei várias igrejas evangélicas. Familiarizei-me com as sutis diferenças de uma a outra denominação. Hoje, depois de batizado e membro de uma comunidade local, desejo expor como era minha percepção dos evangélicos antes de converter-me. Depois, desejo ainda, externar minhas reações, como novo convertido, ao que aprendi sobre o mundo evangélico em minha peregrinação buscando uma igreja.
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    Cresci em umlar católico nominal. Durante toda minha infância, não me recordo uma vez sequer que meu pai tenha freqüentado uma missa. Minha mãe ainda nos relatou de seu passado em um colégio de freiras. Obviamente sua abordagem foi negativa. Cresci distante do mundo religioso. No segundo grau, quando estudei história, ouvi sempre dos professores que a igreja, notoriamente a cristandade ocidental fora responsável por séculos de obscurantismo, perseguições étnicas, guerras religiosas estúpidas. Quando ingressei na faculdade, creio ter entrado em igrejas apenas duas vezes. Em um casamento, e na missa de sétimo dia de um amigo. No casamento nada entendi do que o sacerdote falava e no ofício fúnebre, ainda sob o impacto da morte de meu companheiro, nada ouvi e nada guardei de tudo o que aconteceu. Nunca entrei em uma igreja evangélica. Conhecia os evangélicos apenas pela capas da revista Veja e dos vários escândalos envolvendo alguns líderes de igrejas nacionalmente reconhecidas. Conheci o primeiro evangélico no terceiro ano de faculdade. Roberto participou de um debate sobre cidadania e compromisso ético. Confesso que no momento em que usou da palavra, cheio de preconceitos, achei que falaria muita asneira e que, valendo-se de um discurso reacionário e antiquado, seria ridículo. Mas, seus argumentos foram despretenciosamente simples, organizados e academicamente coerentes. Citou suas fontes, falou com autoridade. Algo me atraiu no discurso daquele jovem. Procurei-o para conversarmos. Tornamo-nos amigos. Depois de uma longa amizade, Roberto convidou-me a participar de um encontro de um grupo da Aliança Bíblica Universitária. Discutimos muitas vezes sobre a validade da fé, sobre o adoecimento do cristianismo nos corredores das instituições religiosas. Expus abertamente minha indiferença ao clero que se locupleta com as esmolas das elites. Perguntei se a igreja não se envergonha do que fez aos índios latino americanos. Insisti em querer saber onde estavam os discípulos de Cristo quando os judeus eram queimados na inquisição espanhola. O Roberto e tantos outros do grupo da ABU engajaram-se numa autêntica peleja, buscando responder minhas inúmeras inquietações. Numa determinada tarde de sábado, alguém me perguntou se eu já lera a Bíblia. Envergonhado, respondi que não. Eu discutia e falava de um assunto sem estar familiarizado com seus pressupostos básicos. Pedi que me dessem uma Bíblia. Acrescentei que não desejava um exemplar com comentários de ninguém, eu mesmo queria tirar minhas conclusões do texto. Comecei em Mateus e quando terminei o capítulo sete, com o término do Sermão do Monte, meus argumentos e minha zanga já haviam caído por terra. Ainda em conflito, numa autêntica guerra dentro de minha alma, rendi-me ao Espírito de Cristo. Torneime um cristão resoluto, apesar de toda minha inquietação. Depois que tornei pública minha decisão de tornar-me um seguidor de Cristo, pedi ao Roberto que me levasse a conhecer o universo evangélico. Ainda bem que minha conversão deu-se no secreto do meu quarto, pois o que testemunhei nas diversas igrejas que visitei me assustou. A primeira igreja que visitei era bem tradicional. A sua formalidade litúrgica me surpreendeu. Percebi que a sua maneira de cultuar a Deus fora importada de sua matriz no estrangeiro. O coral cantava as mesmas músicas que sua sede, o pastor falava com o mesmo tom de voz e até a ordem do culto obedecia uma lógica estrangeira. Perguntei-me a mim mesmo porque os pastores insistiam em serem meras réplicas de um modelo de fora. A beleza do cristianismo não está em sua catolicidade? O jeito de cultuar a Deus não deve ser o nosso jeito? As músicas que esses estrangeiros trouxeram eram antigas canções das tavernas e bares da Europa e dos Estados Unidos. Porque as expressões culturais de nosso povo devem ser menosprezadas? O que mais me inquietava nesse tradicionalismo litúrgico era a incoerência de seus líderes se dizerem filhos do iluminismo; se gabarem de sua tolerância, bradarem uma ecumenicidade radical, mas na hora de praticarem tudo isso, eram bitolados e restritivos. Em minha busca por uma igreja, visitei várias denominações pentecostais. A princípio me encantei com o fervor dos seus membros. Pareciam-me entusiasmados pelo Senhor que serviam. Havia uma santa anarquia na liturgia. Mas, qual não foi minha decepção, quando compareci a reunião que chamaram de culto de doutrina. Achei que refletiriam sobre um tema da Bíblia e se aprofundariam nele. Tudo o que ouvi foi proibições. O patrulhamento mental que se procurava exercer sobre as pessoas assustou-me. Na verdade, escandalizei-me. Jamais imaginei que havia tanta mesquinhez no cristianismo. Ainda não consigo imaginar que o Deus criador e sustentador do universo esteja fiscalizando o tamanho do cabelo das mulheres ou se indignando com os
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    meninos jogando futebol. Ofervor do mundo pentecostal me levou a procurar algumas igrejas que mantivessem o mesmo perfil carismático mas em melhor sintonia com os tempos que vivemos. Visitei o mundo neopentecostal. A igreja que freqüentei era nova, seus pastores vestiam-se com ternos bem talhados, o culto ágil. Mais uma vez, me decepcionei muito. Acredito que não fosse o cuidado de meu pequeno grupo de universitários que se reunia no campus, eu não teria permanecido na fé. Mal pude acreditar quando um pregador falou no púlpito que o verdadeiro cristáo sabe colocar Deus no canto da parede e reivindicar os seus direitos. Espantei-me com a paranóia que o mundo espiritual gera nas pessoas. Quantas vezes ouvi sermões desconectados do texto bíblico, repletos de chavões e vazios de conteúdos. Vi tantas pessoas lotando os templos neo-pentecostais mas em uma profunda crise de identidade. Acredito que esses grupos prejudicam muito o testemunho cristão na sociedade. Hoje pertenço uma igreja que acredita nas contemporaneidade dos dons espirituais, bastante missionária e profética em sua caminhada. Procuramos ser autênticos em nossas expressões de espiritualidade. Meu pastor não é um líder carismático que se distanciou da comunidade, mas um amigo e parceiro de sonhos. Acreditamos que a reflexão bíblica deve ser um exercício tanto da mente como do espírito. O que escrevi aqui visa ajudar os pastores. Desejo expressar como pensa um jovem universitário hoje. Sem querer assumir uma posição presunçosa, quero deixar alguns conselhos aos líderes cristãos. 1) As pessoas não se interessarão pelos conteúdos da mensagem do evangelho apenas pela publicidade que se faz na mídia. Quanto mais dinheiro se gasta na mídia, mais as pessoas acham que o mundo evangélico é uma armadilha de aproveitadores quer se valem da boa índole do povo. As igrejas devem concentrar esforços em gerar homens e mulheres com um testemunho de vida contagiante. Somente o seu entusiasmo e sua abundante vida despertarão outros a quererem conhecer mais de Deus. 2) Quanto mais parecido for o pastor de um empresário, menos as pessoas se interessarão em ouvi-lo. Quanto mais humano e integro, maior será sua credibilidade. As pessoas buscam lideranças espirituais e não gerenciais. Por favor, pastores, não esqueçam do conselho de Pedro: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho.” I Pedro 5.2-3 3) As igrejas precisam ser espaços comunitários. As igrejas não existem para perpetuar a instituição e nem como balcão de serviços religiosos. Elas não podem estar a serviço dos desejos megalomaníacos de seus líderes. Igreja é lugar de afeto. Lugar onde o amor de Deus se adensa nas pessoas e se multiplica no próximo. O culto precisa se expressar com liberdade, racionalidade, fervor, e acima de tudo companheirismo. O cristianismo é pessoal mas só se concretiza em comunidades, por isso é que Jesus afirmou que ele edificaria uma “eklésia”, ou seja, uma assembléia, uma família, um organismo vivo. Hoje, acredito que há outros jovens como eu que se curvariam diante de Jesus Cristo. Só não o fazem porque há muito preconceito e muita resistência ao evangelho. Se nós reconhecêssemos nos parcela de culpa em afastar as pessoas de Cristo, já seria um bom começo. Aquele que converte uma vida é sábio. Peçamos, portanto, sabedoria para o povo de Deus. Eu estou disposto a fazer minha parte para que sejamos sal e luz. Soli Deo Gloria Por que eu nunca me converteria? Ricardo Gondim Rodrigues “Pois que vantagem há em suportar açoites recebidos por terem cometido o mal? Mas se vocês suportam o sofrimento por terem feito o bem, isso é louvável diante de Deus”. Alguns de nós se fôssemos a certas e determinadas igrejas, jamais nos converteríamos ao
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    Cristianismo, porque emalgumas igrejas - seja ela evangélica ou católica - há um desprezo ao pensar e alguns de nós sentimos a necessidade de saber o porquê das coisas e rejeitamos a idéia de que alguma coisa seja empurrada “goela abaixo” sem que tenhamos a oportunidade de argumentar. Muitos de nós não nos converteríamos jamais em uma igreja que diz: “Creia porque estou lhe dizendo, não queira saber de nada, somente aceite”. Um lugar onde se exige uma obediência cega, onde você não pode questionar, onde o senso crítico e o bom senso são calados. Se você foi a uma dessas igrejas e não se converteu, parabéns, eu também não me converteria, você tem toda razão de reagir como reagiu. Uma igreja que possui um debate muito pequeno, voltado para questiúnculas, ênfases sem valor, questões medíocres, se mulher deve usar cabelo comprido ou curto, se pode esmalte vermelho ou azul ou de cor nenhuma, a questão é que o mundo não está e não ficará pendente por causa disso, muito menos Jesus morreu na Cruz e os mártires da igreja adubaram o solo de Roma com sangue para que nos dias de hoje tenhamos em pauta questões como essas. Muitos de nós também não nos converteríamos por não tolerar ambientes piegas, de frases prontas, onde se diz, por exemplo: “Se você está feliz, diga Amém. - Todos a uma só voz: Amém! - Não ouvi direito, diga novamente! - Todos, agora mais alto e pausado: Amém! - Agora sim vocês estão felizes”. Ora, se você está feliz, você está feliz, mas se está triste, está triste, não existe erro nenhum em estar triste, não deve haver manipulação, ou “forçar a barra”. Ou então ambientes que são muito simplistas, o sujeito tem um problema e tenta-se resolver o problema dele com uma resposta simplista, com um jargão que se aprende, do tipo: “Está amarrado em nome de Jesus!”. Embora o Evangelho em si seja simples, não é simplista. Depois de tudo isso, acredito que você tem uma pergunta, e a sua pergunta é: “Então porque “cargas d’água” você se converteu?” A resposta para a sua pergunta encontra-se no versículo bíblico introdutório (I Pe 2:20) Existe sim uma linha divisória entre Cristianismo e prática religiosa, seja ela qual for. Em primeiro lugar, eu me converti porque a mensagem do Evangelho que me apresentaram era racional e lógica o suficiente para satisfazer o meu intelecto, mas também era poderosa o suficiente para impactar de tal forma a minha vida. Uma mensagem que me deu a resposta a algumas perguntas que todos os seres humanos fazem, independente da nacionalidade e do grau de cultura, perguntas do tipo: “Quem é Deus? De onde veio a maldade? O que é a vida? Para onde vou, porque estou aqui?” São perguntas que carregamos conosco e estamos buscando respostas para elas. Eu me converti ao Evangelho de Jesus Cristo porque ninguém tem melhores respostas a essas perguntas do que esta mensagem. Quem sou eu? Charles Darwin tentou explicar através da teoria da evolução, que dizia que somos descendentes dos macacos, para a filosofia naturalista e cientista, é apenas um acidente cósmico, para o sistema oriental hindu e budista somos meras partículas de um deus etéreo, uma concepção panteísta, para o sistema espírita kardecista somos espíritos aprisionados em corpos cumprindo a nossa lei do karma, mas para os cristãos a resposta é contundente, bonita e nobre, somos a imagem de um Deus que com amor, meticulosamente nos projetou no seu próprio coração. Porque existe a maldade? Não há resposta mais contundente e racional do que a do Cristianismo. Por que existem tantos estupros? Por que existe tanto tráfico de drogas? Por que as clínicas psiquiátricas estão abarrotadas de pessoas devastadas pela malignidade da civilização?
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    No conceito orientalo mal e o bem se fundem numa só coisa, no conceito espírita o mal é uma questão de aperfeiçoamento, no conceito cristão o mal e mais do que tudo isso, é uma decorrência de estarmos distantes de um Deus pessoal,fonte de todo o tipo de bondade e benignidade, a bondade existe no universo não como fonte de um acidente, mas como fonte de um Deus que é eternamente bom e justo, e a nossa bondade vem à medida que estamos “plugados” nesse Deus, mas quando estamos desligados dele , somos passiveis de malignidade , e o resultado desse desligamento gera em nós a capacidade de nos tornarmos “monstros” de iniqüidades e essa monstruosidade vem da nossa independência de Deus. E por último, ninguém conseguiu falar de Redenção de uma forma tão coerente, tão justa e tão intelectualmente lúcida do que essa Mensagem. “Porque Deus amou o ser humano de tal forma que deu ao sacrifício seu único Filho, Jesus Cristo, para que todo aquele que Nele – Jesus Cristo – crer e reconhecer o seu sacrifício na Cruz do Calvário seja Redimido e tenha a Vida Eterna”. (João 3:16). Que Deus nos ajude. Soli Deo Gloria A cultura pop chegou para ficar? Ricardo Gondim Rodrigues Operado de uma simples hérnia, vi-me obrigado a uma razoável quarentena em casa. Com bastante tempo à minha disposição resolvi, por um dia, mergulhar no mundo televisivo. Liguei minha Sony e com o controle remoto na mão viajei, via cabo, às diversas opções oferecidas pela mídia eletrônica. À noite, senti-me vencido. O que assisti não era lazer, tampouco cultura. Era pura perca de tempo. Cada dia mais me espanto com a superficialidade de minha geração. Na televisão, os noticiários estão cada vez mais rasos; evitam os temas relevantes, fogem da discussão imparcial. A "ratinização" dos programas de auditório chega a agredir o bom senso. A dramaturgia das novelas é um acinte à arte teatral. Os diálogos são patéticos. Bons atores são logo substituídos por moças e rapazes bonitinhos. Não sabendo representar, mecanicamente repetem scripts. Os programas infantis, nada educam. Simplesmente enchem os cofres de suas apresentadoras que nada têm na cabeça e que ensinam comportamentos éticos, no mínimo questionáveis. Na música, as letras medíocres, para fazer sucesso, necessitam apelar para sentidos ambíguos. Os rebolados das dançarinas tentam compensar a rima pobre. Os grandes poetas e músicos se esforçam, mas parecem carecer da inspiração de tempos não muito antigos quando escreviam e cantavam com maestria. Os filmes, fazendo apologia da violência, exploram o macabro e o terror. Não conseguem criar tramas inteligentes. Mostram-se diante de nossas telas produções com enredos repetitivos, direção mal feita; claramente produzidos para dar lucro. Filmes destituídos do ideal de fazer arte. As revistas que entulham as bancas e os livros que aparecem nas listas dos best-sellers são risíveis sob o ponto de vista literário. Os estudiosos de nossos tempos dizem que uma das características da pós-modernidade é a falência da chamada "alta cultura" e a emergência da "cultura pop". Por "alta cultura" devemos entender como o esforço humano de dar estrutura à vida. É a complexa produção humana que inclui o saber, crenças, arte, moral, leis, costumes e todas as expressões humanas. A "cultura pop" fortaleceu-se com a massificação dos meios de comunicação. A indústria da informação e do lazer que oferece um franco acesso ao conhecimento, vagarosamente nivelou a produção cultural por baixo. Hoje, poucos conhecem Shakespeare, nunca leram Dostoievski, mal saberiam mencionar algum livro de Machado de Assis ou de Graciliano Ramos. Rapazes e moças detestariam uma ópera de Wagner ou de Carlos Gomes. A grande maioria nunca leu Carlos Drummond e nem sabe dizer quem foi Fernando Pessoa. Em compensação, conhece bem os filmes de Van Damme e do Bruce Willis. Gosta de ler Paulo Coelho e canta as músicas do Tchan. Meninos e meninas ainda cantarolam as letras dos Mamonas Assassinas. Diariamente acompanham a novela das oito dando-lhe índices de audiência acima de cinqüenta pontos. Adolescentes deliram com a mocinha vestida em roupas íntimas, insinuando cenas de sado-masoquismo.
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    O ocidente terminao século vinte impregnado de uma "cultura pop" que Richard Hamilton, artista inglês, conseguiu descrever como: "dirigida às massas, compreensível sem exigir reflexão, facilmente substituível por outra emoção, produzida às pressas, sensual, glamorosa, aética e sempre visando o máximo de lucro." A produção cultural do ocidente empobreceu. Daí a pertinência do lamento de T. S. Eliot: "Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos com o conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos com a informação? Os ciclos do céu em vinte séculos nos levaram para mais longe de Deus e mais próximos do pó." Mais triste é constatar que a igreja também foi afetada por essa cultura de massas. Primeiro nos Estados Unidos, depois na Europa e agora na América Latina, há uma forte tendência a transformar a igreja em "big business". Pior, "big business" do lazer espiritual. Pastores e padres abandonaram sua vocação de portadores de boas novas. Assumiram novos papéis: animadores de auditórios e levantadores de fundos. O púlpito transformou-se em mero palco. A igreja, simples platéia. O clero arremedou a fama dos artistas. Com estilos de vida extravagantes e caros inebriam as multidões que também almejam galgar a celebridade. Outros viram-se como empresários, vestiram-se como empresários e, pasme, contrataram guarda-costas armados para serem protegidos. Acham-se seqüestráveis. Os cultos já não estão centrados na máxima de João Batista – importa que ele cresça e que eu diminua. Sermões podem ser facilmente confundidos com palestras de neurolingüística. Cantores e "artistas" se atropelam querendo renome e gordos cachês. O cristianismo ocidental não conseguiu salgar, perdeu o sabor e conformou-se em ser raso. Os vendilhões do templo voltaram e armaram suas tendas. Infelizmente atraem-se grandes multidões não pela força argumentativa do evangelho, mas pelo bem concatenado marketing. Impressionam-se as platéias pela capacidade de aproximar a linguagem religiosa da "cultura pop" e não por propor conteúdos sólidos de vida. Até pouco tempo, as igrejas neo-pentecostais acreditavam que seu descomunal crescimento vinha de uma bênção especial de Deus sobre suas novas propostas de prosperidade. Hoje, a explosão pop do catolicismo já atrai multidões tão enormes quanto as dessas bem sucedidas igrejas evangélicas. Prova-se assim que qualquer credo, ou confissão religiosa que souber promover um culto com as mesmas características da "cultura pop", também experimentará um crescimento vertiginoso. Sempre que a igreja começou a percorrer uma senda perigosa e a aproximar-se dos sistemas doentes que deveria denunciar, houve fortes movimentos contrários. Quando Roma parecia estar à venda e o clero católico se emaranhou com o poder dos reis, as ordens monásticas apareceram. Quando Tetzel vendeu indulgências, prometendo menos sofrimento no purgatório em troca de algumas moedas, Lutero protestou. Quando a igreja protestante se institucionalizou e perdeu relevância, surgiram os anabatistas propondo a separação radical da igreja e do estado. Quando a rigidez teológica tentava sufocar a ação de Deus, os pentecostais levantaram-se mostrando que ele age como quer e não respeita as sistematizações humanas. Precisamos de novos movimentos de reforma e protesto dentro do cristianismo ocidental. Os desafios de hoje requerem que os pastores voltem a "apascentar o rebanho de Deus, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto" (I Pe 5.2). Que as igrejas sejam espaços de fraternidade onde nos revestimos como "eleitos de Deus, santos, e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade" (Cl 3.12). Diante do estrelismo, os pastores precisam optar pela discrição; reaprender a ser singelos de coração. Devem lembrar-se de uma citação antiga: "A glória é como um círculo n’água que nunca deixa de aumentar, até que por força de seu próprio crescimento dispersa-se em nada". O crescimento numérico das igrejas engana. Tem mais a ver com fenômenos sociais que uma legítima ação do Espírito Santo. Líderes religiosos devem evitar essa corrida insana de notoriedade. A riqueza e popularidade de alguns nada significam nas realidades espirituais. Euclides da Cunha advertia em Os Sertões: "Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas". Deixemos que o apóstolo Paulo fale novamente aos nossos corações:
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    "Mas o quepara mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E na verdade, tenho também por perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, pelo qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo" (Fp 3.7-8). A igreja será sal e luz, somente quando caminhar na rota inversa das tendências de sua geração e mostrar-se simples em suas ambições. Caso contrário, continuará dizendo a si mesma: “Estou rica e abastada e não preciso de coisa alguma”. Mas ouvirá de Cristo: "Não sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre cega e nua”. Que Deus nos ajude a comprar ouro refinado pelo fogo para nos enriquecer, vestiduras brancas para nos vestir, a fim de não ser manifesta a vergonha da nossa nudez. Compremos colírio para ungir os nossos olhos e vejamos" (Ap. 3.17-18). Soli Deo Gloria Reflexões sobre o forte crescimento evangélico Ricardo Gondim Rodrigues “Não haverá missas, nem altares, nem sacerdotes, que as digam: morrerão os católicos sem confissão, nem sacramentos: pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de S. Jerônimo, e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegrar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero, beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias do Portugueses: e chegaremos a estado, que se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: Menino, de que seita sois? Um responderá, eu sou calvinista; outro, eu sou luterano. Pois, isto se há de sofrer, Deus meu?” (itálico) Padre Antônio Vieira, preocupado com o avanço holandês e a aparente apatia portuguesa para com o Brasil, pregou um sermão bombástico em 1640. Deu-lhe um título não menos agressivo: Sermão Pelo Bom Sucesso Das Armas De Portugal contra as da Holanda. Ele já temia em priscas eras que o “pérfido calvinista” se multiplicasse na colônia de sua majestade. O sermão de Vieira, na verdade é uma oração a Deus. Temendo que os holandeses calvinistas se identifiquem com o povo mais que os católicos, rezou assim: “Que dirá o tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o índio inconstante, a quem falta a pia afeição de nossa fé? Que dirá o etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do batismo sem mais doutrina? Não há dúvida, que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa fé é falsa, e a dos Holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal, concorda mais com a brutalidade do bárbaro: a largueza e soltura da vida, que foi a origem e o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo..” (itálico) Hoje, sem o catastrofismo medieval de Vieira, os altares católicos não foram invadidos por milícias protestantes e nem se deixou de celebrar o natal. Nenhum católico precisa morrer sem se confessar. Entretanto, o crescimento protestante – por meio do segmento evangélico pentecostal é grandioso, como ele bem previu e temeu. As igrejas se multiplicam nas periferias das grandes cidades, os templos estão todos lotados. A agressividade evangelística não arrefece. Com a pentecostalização das igrejas denominacionais históricas – Luteranas, Presbiterianas, Anglicanas, Metodistas, Congregacionais, etc. – o protestantismo de origem reformada também cresce assustadoramente. A presença evangélica já é tão notória que os intelectuais da academia dissertam sobre ela. Faz-se notícia na mídia e continua incomodando a cúria católica romana. As igrejas evangélicas não se multiplicam isentas de problemas e dificuldades. Por serem comunidades humanas há idiossincrasias e virtudes; beleza e vício. Por estarem situadas historicamente no tempo e na cultura copiam os erros da sua época. É mister que no frenesi do crescimento, vozes se levantem para alertar os evangélicos que eles não serão a igreja dominante do Brasil, como Vieira sonhava para os católicos e temia que copiássemos. A idéia de que temos a obrigação de tornar o Brasil evangélico é tão anacrônica como a fala de
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    Vieira. Não podemosacreditar que repousa sobre nossos ombros o dever de banir todas as expressões não evangélicas de nossa cultura. Esse discurso é mera coreografia religiosa que impressiona apenas nas liturgias internas. Por outro lado, quando realmente levado a sério, descamba para um fanatismo reacionário e intolerante. Também, há a ameaça do capitalismo selvagem. Os evangélicos – bem como a própria igreja católica – convivem com uma cultura dominada pela cosmovisão pós-moderna do capitalismo neoliberal. Nessa sociedade técnica, a religião torna-se pragmática e a piedade é instrumentalizada para satisfação pessoal. Devemos, portanto, tomar extremo cuidado de não cair no hábito de ver a Deus como se fosse uma máquina em que botões são apertados. A maior tentação para a igreja é que ela passe a ser uma organização gerida de acordo com as técnicas empresariais. Visito ocasionalmente igrejas evangélicas do hemisfério norte. Em uma delas, impressionei-me como os pastores se despiram de suas roupas pastorais. Assumiram o papel de executivos da fé. Seus escritórios parecem-se com os escritórios das grandes multinacionais; cercam-se de assessores, e se reúnem regularmente em reuniões de planejamento. Nos Estados Unidos, proliferam-se as igrejas estabelecidas sobre um marketing bem planejado. Sobram palestrantes ensinando como lubrificar as engrenagens administrativas de suas comunidades. Uma gama enorme de especialistas em crescimento de igreja palestram sobre como tornar o louvor adequado ao auditório – a orações devem ser mais curtas, as músicas mais comunicativas aos ouvidos sensíveis daqueles que não conhecem a Deus. Para esses empresários da fé, se providenciarmos bons estacionamentos, cadeiras confortáveis, ar condicionado, um bom berçário para os recémnascidos e uma excelente lanchonete, conseguiremos lotar nossos santuários e aumentar a arrecadação mensal. Por mais bem intencionados que estejam, nenhum deles parece entender que lidamos com valores espirituais e não gerenciais. Nosso desafio não é o de lotar os auditórios, mas de inspirar corações a amar a Deus. A perspectiva da igreja evangélica tornar-se uma maioria – em muitas cidades brasileiras já existem mais evangélicos por domingo nos cultos que católicos nas missas – pode ofuscar o perigo de que estamos sucumbindo ao pragmatismo. A pergunta que se faz no mundo moderno é: funciona? Os gregos buscavam o conhecimento para compreender; os judeus queriam o conhecimento para reverenciar, mas o homem pós-moderno quer o conhecimento para manipulálo. Lembro-me de como os fundamentalistas acusavam – injustamente – os pentecostais de valorizarem as emoções acima da verdade. Hoje sim vale perguntar se o neo pentecostalismo – teologia da confissão positiva e teologia da prosperidade – não hierarquiza o que é útil acima da verdade. Os evangélicos crescem rapidamente. Mas ainda somos muito indisciplinados. Temos grandes ideais mas faltam-nos normas; temos esperança, mas carecemos de direção espiritual; temos fé mas falta-nos temperança; temos coragem mas falta-nos discrição e humildade. O mais estranho paradoxo que acontece na igreja evangélica brasileira é que ela possui uma vida exuberante mas é pobre em sua teologia, tem fé mas não consegue aprofundar-se na sua intimidade com Deus. A não ser que seu desempenho externo reflita uma vida profundamente arraigada no amor de Deus, sua piedade apodrecerá e suas boas intenções sucumbirão. A única resposta que poderíamos dar ao Padre Antônio Vieira sobre tão exuberante crescimento da Igreja evangélica no Brasil é que crescemos a despeito de nós mesmos. Sabemos apenas que sua graça é mais abundante em tempos em que falhamos muito. O próprio Vieira quando viu os pecados de seus pares naquele Brasil ainda tão provinciano e mesquinho, rezou assim: “..E como sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos pecados, muitos e grandes, são um novo e poderoso motivo dado por Vós mesmo para mais convencer vossa bondade.” E a nós só resta dizer, Amém. Soli Deo Gloria
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    O coração echamas do verdadeiro evangelista Ricardo Gondim Rodrigues Não existe história, apenas biografias. A frase não é minha, mas quero tomá-la emprestada de quem a usou pela primeira vez, para referir-me a John Wesley, um dos meus heróis. Sua biografia é impressionante. Wesley ainda permanece como um dos ícones legendários da história universal e eclesiástica. A ele cabem as mesmas palavras proferidas pelo grande Rui Barbosa à beira do túmulo de Machado de Assis: “Para os eleitos do mundo das idéias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra”. A excelência de Wesley, sua vida, idealismo, vigor e acima de tudo, paixão pela mensagem da cruz, lhe preservam no panteão dos grandes heróis pós-Atos. Entre os dezenove filhos de Samuel e Susana Wesley, foi ele, ladeado por seu irmão Charles, quem mais se destacou como estadista, reformista e avivalista. Quero resgatar a sua maior paixão, evangelizar. O dia 24 de maio de 1738 marcou sua peregrinação espiritual. Wesley participava de uma reunião da Sociedade Missionária dos Morávios quando seu “coração foi aquecido de modo estranho”. Wesley, inflamado por sua experiência com o Espírito Santo, saiu pregando a salvação pela fé. A igreja anglicana daqueles dias, sacramentalista e engessada, não demorou a fechar as portas para Wesley. Daí, ele e os metodistas que o acompanhavam, partiram para a pregação ao ar livre. Uma quebra de paradigmas para os seus dias. Mesmo depois de séculos após sua morte, mesmo depois de inúmeras obras escritas na tentativa de entendê-lo, mesmo depois dos processos de institucionalização e secularização de enormes segmentos da igreja metodista, mesmo depois que muitas instituições de ensino metodista se contaminaram com a teologia liberal, Wesley permanece como o grande referencial de fé, santidade e compromisso com o reino de várias denominações cristãs ao redor do mundo. A ele atribui-se, inclusive, o arcabouço teológico que possibilitou o crescimento do movimento pentecostal. Conheci um pouco da vida de Wesley nas histórias que se contam a seu respeito. Quantos quilômetros viajou a cavalo, quantos sermões pregou em vida e seu impacto social na Inglaterra. Os historiadores concordam que o avivamento evangélico do século XVIII poupou o reino britânico de uma revolução sangrenta como a francesa. Eu morava nos Estados Unidos em 1979 quando li “The Burning Heart – John Wesley: Evangelist”, escrito por A. Skevington Wood (Bethany Fellowship, 1978). Wood, pastor da Igreja Metodista de Southlands em York, Inglaterra, estudioso da vida e obra de Wesley inquietou-se por notar que havia pouquíssima literatura sobre sua paixão evangelística. Falou-se muito sobre a vida de Wesley, sua ética e seu compromisso social e teológico. Mas, segundo Wood, são poucos os que percebem que o propósito maior pelo qual Deus levantou seu servo foi para evangelizar a consciência de uma nação. Qual o segredo deste homem que viajou mais de duzentos e cinqüenta mil milhas a pé, de carruagem ou a cavalo, pregou mais de quarenta mil sermões, e ainda encontrou tempo para escrever cerca de duzentos e cinqüenta livros? Qual era a sua paixão maior? O que o motivava com tamanha força de vontade? Wesley amava a mensagem da cruz e acreditava que nela estava o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. Wesley, primeiramente, se decepcionou com os seus esforços rigorosos e ascéticos de produzir, por si mesmo, a paz interior. Não encontrava o sentido existencial de sua missão. Triste e abatido, voltou-se para aquele que poderia lhe dar sossego de alma, Jesus Cristo. Tentara ser um missionário nos Estados Unidos. Com um zelo digno dos melhores religiosos partiu, no navio Simmonds em 14 de outubro de 1735, com o objetivo de evangelizar os índios da Geórgia. Mal sabia que Deus tinha outros planos. O que Deus queria fazer em Wesley era maior do que tinha para fazer através dele. A cópia de uma carta escrita por Wesley a bordo do Simmonds só foi descoberta recentemente. Seu conteúdo revela como estava perturbado. “Em vão tenho fugido da mim mesmo para a América. Ainda choro sob o intolerável peso de minha miséria. Se ainda não me arrependi deste projeto é porque nada espero da Inglaterra ou do paraíso. Aonde for levarei o meu inferno comigo...”
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    Ainda a bordoconheceu alguns missionários morávios e depois que chegou à Geórgia, conversou com August Gottlieb Spangenberg que depois do conde Zinzendorf era a segunda pessoa na sociedade dos Morávios. Quando pediu ajuda sobre sua obra missionária Spangenberg foi direto na jugular: “O Espírito de Deus testifica com o seu espírito que você é filho de Deus?” Wesley se espantou com a linguagem direta e sem rodeios do outro missionário. Spangenberg continuou como numa rajada de metralhadora: “Você conhece Jesus Cristo?” Wesley engasgou: “Sei que ele é o salvador do mundo.” Seu interlocutor não lhe dava tréguas e fustigou mais uma vez: “Verdade,” concordou Spangenberg, “mas você sabe se ele já lhe salvou?” A hesitação de Wesley chegava a ser vergonhosa: “Espero que ele tenha morrido para me salvar”. Spangenberg pressionava com a mesma intensidade: “Você sabe disso com certeza?” Sem coragem para falar, Wesley apenas resmungou: “Sei, sim”. Anos depois, confessou em seu diário que aquele “sei, sim”, foram palavras vãs. Depois que voltou para a Inglaterra, sentindo-se derrotado e triste, Wesley nasceu como verdadeiro filho de Deus, no memorável 24 de maio de 1738, aniversário espiritual de um dos mais completos evangelistas de toda a história do cristianismo. O marco foi tão significativo que Wesley afirmou: “acabaram-se todas as disputas.” No prefácio de sua narrativa de conversão, ele nos conta que dois alicerces marcaram o dia em que finalmente Cristo tornou-se seu salvador: “1) renunciar de forma absoluta, minhas obras ou minha justiça, que me serviam de base para salvação; 2) acrescentar ao viver todos os meios da graça: oração, dependência completa no sangue que Cristo derramou por mim, confiança nele como o meu Cristo, minha única justiça, santificação e redenção” (grifo original). Os evangélicos brasileiros precisam redescobrir Wesley. Ele pode nos ajudar a nos desvencilharmos de uma cultura excessivamente pragmática. As demandas do mundo urbanizado em que o tempo se torna cada vez mais exíguo. Com menos tempo para cuidarmos de nossa alma, acabamos consumidos pelas engrenagens da máquina religiosa e apenas papagaiando jargões que há muito perderam o sentido ou a profundidade. A avidez com que Wesley lia, sua sede de conhecer, deram-lhe uma profundidade teológica impressionante. Quão distante do evangelista pós-moderno que se especializa em superficialidades, se contenta em produzir emotividade instantânea e vive da sua dramaturgia. Necessitamos devolver a boa teologia ao conceito evangelístico. Os pregoeiros da justiça precisam ser mais densos, precisam chamar o seu auditório a entender, internalizar e viver as verdades bíblicas. “Meu chão é a Bíblia,” Wesley declarou certa vez. “Sim, eu sigo a Bíblia em todos os assuntos, grandes ou pequenos. Ela é a pedra de apoio em que os cristãos examinam todas as revelações, reais ou supostas.” Aconselhou seus evangelistas: “Nunca aceitem nada sem testar... não creiam em nada que não tenha sido claramente confirmado por passagens das escrituras...” Wesley era pregador da graça. Embora, a primeira geração de metodistas tenha sido de homens e mulheres comprometidos com santidade e o texto de Hebreus 12.14 (Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor) fosse o lema de milhões, ninguém jamais esqueceu a Graça. Wesley alinhava-se à Reforma protestante e enfatizava a Sola Gratia e Sola Fide. Em junho de 1738, pregou um sermão em Oxford e afirmou: “A mesma graça livre nos concede hoje vida, respiração e tudo mais, pois não há nada que somos ou temos ou fazemos que não provenha da mão de Deus. ‘Todas as nossas obras, tu, oh Deus as fazes por nós’. Assim, elas são tantas outras manifestações de livre misericórdia, e toda justiça encontrada no homem, será também uma dádiva de Deus. Então como o pecador fará expiação pelo menor de seus pecados? Com suas próprias obras? Não. Ainda que estas sejam muitas ou sejam santas, não provêm dele, mas senão de Deus...Se, portanto, os pecadores acharem graça diante de Deus, é ‘graça sobre graça’...´Pela graça então sois salvos, mediante a fé’. A graça é a fonte e a fé a condição da salvação.” A igreja evangélica distancia-se muito da Reforma protestante e afasta-se muito do pensar wesleyano ao calcar sua prática evangelística sobre sacrifícios, penitências e boas obras (principalmente dízimos e ofertas) para se “alcançar o favor de Deus.” Quando ouço programas de rádio ou de televisão ensinando técnicas de oração, campanhas sucessivas de como receber o que desejamos de Deus, lamento que o esforço de heróis da fé escorra na sarjeta de um paganismo disfarçado. Tantos movimentos evangélicos atuais não podem mais falar da graça sem muitos senões. Evangelistas bem sucedidos não são aqueles que atraem multidões, mas aqueles que sabem explicar a justificação de pecadores pela graça.
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    Wesley foi donode um currículo invejável. Tudo o que fez, entretanto poderia ser resumido apenas como um homem à frente do seu tempo. Rompeu paradigmas, amou os excluídos e pregou a graça. Viveu apaixonadamente anunciando a mensagem que mais admirava: o Calvário. Os evangélicos brasileiros, inclusive os metodistas, precisam redescobrir John Wesley. Seu legado não apenas enriquece como pode ajudar a vivermos um cristianismo com o coração aquecido. Soli Deo Gloria O cristão é pessimista? Ricardo Gondim Rodrigues "O discurso do pastor foi desanimador e pessimista. Afinal de contas, o emprego dele depende do pessimismo." Ouvi essas sentenças como reação a um discurso que proferi em uma entidade filantrópica. O tema que me foi apresentado era: A realidade do mundo e a expectativa evangélica para o futuro. Embora esse comentário sobre minha palestra tenha me deixado triste, compreendi que ele não se dirigia apenas a mim. Representava muito mais uma resposta secularizada à visão cristã de mundo. A expectativa evangélica do futuro parece, em um primeiro instante, muito negativa. Cristo previu um cenário bem cru para os últimos dias. Independente da interpretação que se dê para alguns textos como Mateus 24 e Lucas 21, vê-se claramente que Jesus não foi ufanista quanto ao futuro da humanidade. Seu vaticínio previa uma falência do sistema ecológico (terremotos, o sol se escurecendo, a lua não dando sua claridade etc.); crises econômicas (fome); conflitos políticos (guerras e rumores de guerra); abalo na família (pai se levantando contra filho); barafunda religiosa (falsos profetas, falsos cristos, perseguição); frouxidão moral (multiplicação da iniqüidade, esfriamento do amor). Depois de Cristo, os pagãos também acusaram os primeiros cristãos de "odiar a raça humana". E Paulo não poupa palavras. Escrevendo para seu discípulo Timóteo, anteviu um futuro nebuloso: "Sabe porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão dias difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma da piedade, negando-lhe, entretanto, o poder" (2Tm 3.1-5). Passados quase 2.000 anos, vale perguntar: "a escatologia cristã é pessimista?". Só neste século experimentamos duas guerras mundiais, centenas de conflitos em menor escala e mais de 150 milhões de mortos. A cobiça humana arrasou com florestas, dizimou espécies animais, poluiu rios, destruiu a camada de ozônio. A sofisticação dos sistemas políticos foram incapazes de amenizar as injustiças sociais; um terço da humanidade ainda vive em miséria absoluta. Os cartéis do tóxico tornaram-se poderosas forças econômicas e políticas. Pode-se continuar relatando desgraças ad infinitum: aborto, ódio étnico e religioso, indústria da pornografia infantil, chuva ácida, minas que mutilaram homens, mulheres e crianças etc. Antes de ter sido acusado por sua mulher de cometer incesto com uma de suas filhas adotivas, o cineasta Woody Allen declarou: "Mais do que em qualquer outra época, estamos numa encruzilhada. Um dos caminhos leva à catástrofe e ao mais terrível desespero. O outro leva à extinção total. Vamos rezar para que façamos a escolha correta". Norman Brown, escritor americano, conseguiu ser ainda mais seco: "Até a sobrevivência da humanidade é hoje uma esperança utópica". O cristianismo não colore o futuro de tons bonitos porque, ao contrário do Iluminismo - que imaginava as pessoas como naturalmente boas -, ele insiste na doutrina da queda - todos estão presos ao pecado. Alienados de Deus, homens e mulheres continuarão gerando sistemas perversos. Há alguns anos, acompanhei um fotógrafo norte-americano que documentava a dura realidade da miséria nordestina. Ele já trabalhara para o Washington Post, cobrindo a guerra do Vietnam e conhecia as iníquas entranhas do poder político. Desiludido, sua conclusão sobre a humanidade coincide com a dos evangelhos. "Parece que há forças invisíveis governando os destinos da humanidade; por mais que nos esforcemos e sonhemos com um mundo mais bonito, somos impelidos para a guerra, para a corrupção e para a desgraça", lamentava ele. O cristianismo reconhece que sistemas adoecem, que estruturas se satanizam, que gerações inteiras se corrompem, mas identifica o pecado pessoal como a fonte de todos os males. "Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias" (Mt 15.19). Sem arrependimento e regeneração do indivíduo, a escatologia cristã será sempre cética quanto ao futuro. João Batista começou pregando que o
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    machado está postoà raiz da árvore (Mt 3.10), portanto, se as pessoas não forem regeneradas pelo poder do Espírito Santo, não conseguirão jamais gestar um futuro promissor. A escatologia cristã parece ser pessimista também porque espera uma intervenção radical de Deus na história. Os apóstolos questionaram a Cristo antes do dia de Pentecostes: "Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?" (At 1.6). Desde então a literatura cristã está farta de idéias apocalípticas. Tanto nos escritos de Paulo, Pedro, João, como nos anseios das comunidades primitivas - que clamavam "Maranata" - acreditava-se que a volta de Cristo seria eminente. Todas as gerações esperavam que Cristo voltasse para julgar os ímpios, erradicar a maldade e estabelecer seu reino milenar na Terra. Essa expectativa é sintomática. Indica que a comunidade cristã jamais acreditou que as utopias futuras dessem certo. Mesmo em períodos históricos em que houve grande envolvimento político, os cristãos esperaram a invasão apocalíptica do próprio Deus. Thomas More imaginou a ilha da Utopia, Chardin pregou a evolução do ser humano e Marx propôs uma sociedade altruísta e sem desiguais. Os cristãos, entretanto, embora insistindo no envolvimento de cidadãos na militância política para diminuir o avanço do mal e demonstrar lampejos do reino futuro aqui na Terra, acreditam que só haverá justiça e paz quando Cristo voltar e implantar seu reino. Certa vez, C. S. Lewis disse que na hora em que o autor de uma peça entra no palco do teatro é sinal de que acabou-se o espetáculo. A escatologia cristã, porém, não se enxerga como pessimista. Primeiro, porque não se frustra com o irrealizável, mas se concentra no que pode ser feito. Não se acomoda, mas antecipa em vidas e comunidades o reino de justiça que ainda está por vir. Forma espaços de vida em meio ao caos. Gera esperança contra a própria esperança. O cristão não é niilista, porque acredita nos desdobramentos da regeneração. Se o coração depravado é potencialmente capaz de monstruosidade, o regenerado pode produzir ondas de bondade com poder de alterar leis, países, gerações inteiras. Robinson Cavalcanti, meu vizinho aqui na Ultimato, faz-nos pensar nos desdobramentos de um cristianismo integral. A missão do cristão regenerado é: "Expor toda a Palavra, interceder por todos os problemas, apoiar todas as vocações, edificar todos os fiéis, combater todo o mal". Cavalcanti continua sonhando com a possibilidade de concretizar a utopia realizável do Reino com "cristãos que amam não só de palavras, mas de atos. Atos filantrópicos, atos que apóiem projetos em comunidades carentes, atos que lutem por atacar as causas estruturais de opressão. Igrejas proféticas, cristãos engajados, movimentos de inspiração evangélica. Homens novos comprometidos com um novo mundo, antecipando novidades no mundo: sinais do Reino, marcas do Reino, antecipação do Reino". Na igreja de Tessalônica espalhou-se uma heresia apocalíptica. Alguns diziam que Cristo já voltara e que de nada adiantava trabalhar ou ter planos futuros, porque o seu reino seria implantado sem a interferência humana. Outros afirmavam que Ele ainda não tinha voltado, mas que estava às portas. Diziam também que não era mais necessário nenhum projeto humano, pois na sua volta, tudo redundaria em nada. Paulo os corrigiu escrevendo as duas epístolas aos tessalonicenses. Nelas, ele lembra que a volta de Cristo não deve provocar acomodação, indiferença mas um compromisso com a vida. "O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Ts 5.23). A profecia cristã não é pessimista, ela convoca os cristãos a se engajarem antecipando e demonstrando lampejos do Reino e a se santificarem esperando "novos céus e nova terra, nos quais habita a justiça" (2 Pe 3.13). Vem, Senhor Jesus. Soli Deo Gloria Um sonho inquietante Ricardo Gondim Rodrigues Exausto, deitei-me já tarde. O silêncio da madrugada fria convidava-me para uma noite de sono profundo. Aquela seria uma noite curta pois antes do sol nascer já teria que estar em pé novamente. Noites curtas são geralmente sem sonhos. Deito-me e antes que perceba, as horas se passaram céleres. Ontem, entretanto, não foi assim. Sonhei a noite inteira. Sonhei que estava em um culto com o auditório lotado. A reunião iniciou-se com uma oração muito mecânica. Apresentou-se logo um grupo musical gospel. Nos primeiros acordes, notei que faltava talento e sobravam decibéis. A letra era paupérrima, toda a música concentrava-se em repetir um refrão: “O leão de Judá derrotou o outro leão perigoso.” A multidão foi ao delírio com o término da apresentação que todos chamaram de “louvorzão.” Gritava e movia-se em um frenesi alucinante. O líder do culto, levantou-se e ensinou as pessoas uma coreografia que, segundo ele,
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    derrotaria o diabo.Todos, como se estivessem com espadas na mão, passaram a encenar uma batalha de esgrima. Terminada a “batalha” foram gastos mais de quarenta minutos no levantamento das ofertas. O ambiente tornou-se constrangedor. Tudo foi feito para aumentar a contribuição. Desde ameaças a promessas de que receberiam cem vezes mais. As ofertas resolveriam todos os problemas das pessoas. De acordo com o valor dado, o câncer desapareceria, os problemas conjugais se resolveriam. A oferta seria a chave para uma vida plena e feliz. O preletor daquela noite, levantou-se para pregar e, por cerca de cinqüenta minutos, falou sobre assuntos diversos sem, contudo conduzir uma linha de raciocínio, sem qualquer compromisso de expor a Bíblia. Parecia não haver se preparado. Falava, falava, deixando que suas divagações o conduzissem a um próximo pensamento, que nem ele próprio sabia qual era. Meu sonho me perturbava. Transformava-se em um pesadelo. De repente, vi ao meu lado, participando daquele culto, para minha absoluta surpresa, quatro personagens históricos: Martinho Lutero, João Calvino, João Wesley e Charles Finney. Mal podia acreditar que um dia estaria cultuando a Deus ao lado de tão ilustres personalidades do mundo protestante. Em meu sonho, eu fui apresentado a eles pelo sueco Gunar Vingren, fundador do pentecostalismo no Brasil. Todos pareciam se conhecer há muito, havia uma familiaridade entre eles. Contudo, embora estivéssemos participando de um mesmo culto, todos mostravam-se igualmente inquietos. O clima era desconfortável. Mesmo sonhando, lembro-me de como o músculo de minha face tremia diante da honra de apertar a mão de cada um deles. Muitas perguntas vieram à minha mente. Curiosidades, esclarecimentos, dúvidas que precisavam ser sanadas. Mas, ao contrário, eles é que começaram a me questionar. Lutero estava indignado pelo que parecia uma volta da igreja à Época Medieval das relíquias, dos amuletos e das indulgências. Queria saber o que aconteceu aos protestantes para estarem novamente acreditando que sal grosso “afasta mal olhado”, que copo d’água traz bênçãos. Perguntou-me como a igreja passou a acreditar em maldição familiar. Expliquei-lhe que a igreja brasileira convive com uma cultura muito mística. Falei da herança católica medieval, depois disse que os índios brasileiros eram animistas e ainda tracei um cuidadoso curso da religiosidade africana e como ela se contextualizou. Lutero, porém, veemente, mostrou-me os efeitos devastadores que as relíquias tiveram em seus dias e que somos justificados pela fé. Para ele, a Palavra deveria ser suficiente para produzir fé e que não precisamos de “pontos de contato” para que o poder de Deus flua em nós. Calvino, interveio em minha conversa com Lutero. Ele também estava revoltado. Sua maior preocupação era entender o porquê de tanto descaso com a Bíblia. Ele não entendia como nos separamos tanto da Reforma que transformou o conceito de culto. Calvino me falava que até o avanço dos protestantes na Europa, cultuar a Deus, resumia-se em se assistir a um ritual. A liturgia era mais importante que a exposição do texto sagrado. Mas os reformadores, segundo ele me dizia, lutaram muito para que as pessoas apreendessem que a melhor maneira de cultuar a Deus é conhecendo e vivendo os princípios eternos de Deus. Concluiu me mostrando que o púlpito antigamente ficava deslocado em um lugar de menor importância e que o altar é que era central. Só no protestantismo, o púlpito passou a ocupar o lugar mais central do templo. Tentei mostrarlhe que estamos em uma sociedade viciada em imagens. Que o nosso nível de atenção hoje é mínimo. Falei-lhe dos vídeo clips, da superficialidade cultural que a televisão produz. Ouviu-me com atenção, mas parece não ter aceitado minha explicação. Wesley estava aturdido. Em meu sonho, ele me dizia que percebia por aquele culto que havia muitos chavões mas pouco compromisso ético na igreja. Por duas vezes, me perguntou: “Será possível conduzir a obra de Deus apenas prometendo triunfo, sem jamais questionar a vocação profética da igreja? Wesley não entendeu a interpretação de textos do Antigo Testamento, prometendo que os crentes foram postos por cabeça e não por cauda. Será que a igreja evangélica não sabe que o “grão de trigo precisa morrer para produzir muitos frutos?” Insistia me indagando: Não somos chamados para sermos sal da terra e luz do mundo antes que nos preocuparmos com riqueza e poder? Novamente tentei explicar. Mas, eu próprio estava envergonhado e minha explicação foi vã. No sonho, Charles Finney, também se aproximava de mim querendo entender o que se passava.
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    Falou-me de comoeram os cultos evangelísticos de seus dias e de como as pessoas encaravam o novo nascimento. Mostrou-me que o apelo para as pessoas se converterem foi uma quebra de paradigmas. Ele fazia o apelo para que as pessoas que estavam “ansiosas” por salvação tivessem um tempo para refletir e saber se realmente desejavam um compromisso real com Cristo. Que o novo nascimento era uma decisão importantíssima que as pessoas faziam em resposta à graça. Sua inquietação com o culto de meus sonhos vinha da maneira tão trivial que as pessoas encaravam a conversão e o discipulado. Finney dizia-me que o cristianismo moderno está se esvaziando de seus conteúdos e que em breve muitos não saberão sequer explicar o que lhes aconteceu na conversão. Gunnar Vingren, que me apresentou aos outros ilustres personagens, não aceitava que todo o sacrifício dos pioneiros do movimento pentecostal desmoronasse em uma teologia tão imediatista. Ele dizia que não há pentecostes sem a cruz. Com um sotaque sueco, disse-me: - Meu filho, não há experiências com o Espírito Santo sem zelo missionário, sem paixão evangelística. Comecei a suar e meu sono tornou-se atribulado. Estava rodeado com uma grande nuvem de testemunhas, e todos tinham o semblante preocupado. Acordei. Sem conseguir voltar para a cama, orei. Em minha prece, pedi que Deus levante uma igreja evangélica no Brasil comprometida em ter apenas a Bíblia como regra de fé e de prática. Pedi que Deus levante pastores que cuidem do povo como rebanho de Deus e não como um investimento que pode ser capitalizado no futuro. Orei para que os seminaristas não confundam sucesso com um ministério aprovado por Deus. Supliquei a Deus que nos faça uma igreja solidária com os miseráveis, profética na defesa dos indignos e misericordiosa com os pecadores. Os sonhos são interessantes. Muitas vezes mostram o que não queremos ver. Talvez, a maior necessidade da igreja seja olhar-se criticamente. Se fecharmos os olhos para a trivialização do sagrado, para a falta de compromissos éticos e proféticos, para a transformação do culto em espetáculo, não só nos condenamos a sermos irrelevantes para a nossa geração como envergonharemos muita gente que já deu a sua vida pela causa de Cristo. Que Deus nos ajude. Soli Deo Gloria O forte crescimento evangélico brasileiro Ricardo Gondim Rodrigues Na Inglaterra, entrei em um salão de snooker sentindo náuseas. A vertigem que invadiu meu corpo foi diferente de tudo que já sentira antes. As mesas verdes espalShadas pelo largo espaço lembravam-me um necrotério. Eu explico o porquê. Aquele salãso havia sido a nave de uma igreja, que definhou através dos anos, até ser vendido. O pastor que me levou nessa insólita visita relatou que na Inglaterra há um grande número de igrejas que morreram lentamente. Devido aos altos custos de manutenção, só restava ao remanescente negociá-las. Os maiores compradores, segundo ele, são os muçulmanos, donos de lojas de antigüidades e, infelizmente, de bares e boates. Vendo o púlpito talhado em pedra com inscrições de textos bíblicos — "Pregamos a Cristo crucificado"; "O sangue Cristo nos purifica de todo pecado" —, voltei no tempo e lembrei-me de que aquela igreja, fundada durante o avivamento wesleyano, já fora um espaço de muita vitalidade espiritual. As placas de granito e mármore, ainda fixadas nas paredes, mostravam que naquele altar — então balcão do bar — pregaram pastores e missionários ilustres. Imaginei aquele grande espaço, hoje cheio de homens vazios, lotado de pessoas ansiosas por participarem do mover de Deus que varria toda a Inglaterra. Perguntei a mim mesmo: "o que levou essa congregação a morrer de forma tão patética?". Nesses meus solilóquios, pensei no Brasil. Semelhantemente ao avivamento wesleyano, experimentamos um crescimento numérico nas igrejas brasileiras. Há uma efervescência religiosa em nosso país. As periferias das grandes cidades estão apinhadas de templos evangélicos, todos repletos. Grandes denominações compram estações de rádio e televisão. Cantores evangélicos gravam e vendem muitos CD’s. Publicam-se revistas e livros. Comercializam-se bugigangas religiosas nas várias livrarias, que também se multiplicam, interligadas pelo sistema de franquias. Por outro lado, diferentemente do que aconteceu na Inglaterra, o despertamento religioso brasileiro tem uma consistência doutrinária rala, demonstra pouca preocupação ética e um mínimo de impacto social.
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    Os desdobramentos destasconstatações são preocupantes. Se, com toda a firmeza doutrinária, ética e disciplina anglo-saxônica aquelas igrejas morreram, o mesmo pode acontecer no Brasil? Infelizmente sim. As razões que implodiram inúmeras congregações européias, obviamente são diferentes. Lá, houve um forte movimento anti-clerical motivado pela secularização do Estado e das universidades. A teologia liberal minou o ânimo evangelístico e os processos de institucionalização do que era apenas um movimento jogaram a última pá de cal nos sonhos dos antigos avivalistas ingleses. Quais os perigos que ameaçam o futuro do movimento evangélico brasileiro? Alguns já se mostram de forma exuberante. A trivialização do sagrado Visitar qualquer igreja evangélica no Brasil é oportunidade para perceber uma forte tendência teológica e litúrgica na busca de uma divindade que se molde aos contornos teológicos dessa igreja e que ofereça apoio aos anseios e caprichos pessoais. Faltam temor e espanto diante de Deus. O único medo é o do pastor: de que a oferta não cubra as despesas e os seus planos de expansão. A cultura evangélica nacional está fomentando uma atitude muito displicente quanto ao sagrado. O deus que está a serviço de seu povo para lhes cumprir todos os desejos certamente não é o Deus da exortação de Hebreus 12.28-29: "Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e santo temor; porque o nosso Deus é fogo consumidor". O tom de voz exigente e determinante como se fala com Deus hoje deixa a dúvida quanto a quem é o senhor de quem. As experiências que só geram arrepios pelo corpo são relatadas como se Deus fosse apenas um estimulante químico. Certos pastores dizem falar e ouvir a voz de Deus — para serem contraditos pelas suas próprias falsas profecias — sem levar em conta que "Deus não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão". Os milagres, aumentados pela manipulação, revelam uma falta de temor. O descaso com o sagrado é uma faca de dois gumes. Se, por um lado, demonstra grande familiaridade, por outro, gera complacência. Complacência e enfado são sinônimos entre si. Se nos acostumarmos com o mistério de Deus e trivializarmos sua presença, acabaremos colocandoo na mesma categoria de nossos encontros mais corriqueiros, daqueles que podem ser adiados ou não, dependendo de nossas conveniências. Acabaremos entediados de Deus. O esvaziamento dos conteúdos Uma das marcas mais patéticas do tempo em que vivemos é a repetição maçante de jargões nos púlpitos evangélicos. Frases de efeito são copiadas e multiplicadas nos sermões. Algumas, vazias de conteúdo, criam êxtases sem nenhum desdobramento. Servem para esconder o despreparo teológico e a falta de esmero ministerial. Manipulam-se os auditórios, eleva-se a temperatura emotiva dos cultos, mas não se cria um enraizamento de princípios. Gera-se um falso júbilo, mas não se fornecem ferramentas para criar convicções espirituais. Hannah Arendet, filósofa do século XX, ao comentar sobre o fato de que Eichmann, nazista, braço direito de Hitler, respondeu com evasivas às interrogações do tribunal de guerra que o julgava sobre seus crimes, afirmou: "Clichês, frases feitas, adesões a condutas e códigos de expressão convencionais e padronizados têm a função socialmente reconhecida de nos proteger da realidade, ou seja, da exigência de atenção do pensamento feita por todos os fatos e acontecimentos". Qual será o futuro dessa geração que se contenta com um papagaiar contínuo de frases ocas que só prometem prosperidade, vitória sobre demônios e triunfo na vida? A mistura de meios e fins Por anos, combateu-se a idéia de que os fins justificavam os meios, porque essa premissa justificava comportamentos aéticos. Hoje, o problema aprofundou-se. Não se sabe mais o que é meio e o que é fim. Não se sabe mais se a igreja existe para levantar dinheiro ou se o dinheiro existe para dar continuidade à igreja. Canta-se para louvar a Deus ou para entretenimento do povo? Publicam-se livros como negócio ou para divulgar uma idéia? Os programas de televisão visam popularizar determinado ministério ou a proclamação da mensagem? As respostas a essas perguntas não são facilmente encontradas. Cristo não virou as mesas dos cambistas no templo simplesmente porque eles pretendiam prestar um serviço aos peregrinos que vinham adorar no templo. Ele detectou que os meios e os fins estavam confusos e que já não se discernia com clareza se o templo existia para mercadejar ou se mercadejava para ajudar no culto. A obsessão por dinheiro, a corrida desenfreada por fama e prestígio, a paixão por títulos, revelam que muitas
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    igrejas já nãosabem se existem para faturar. Muitos líderes já não gastam suas energias buscando um auditório que os ouça, mas procuram uma mensagem que segure o seu auditório. A confusão de meios e fins mata igrejas por asfixia. O livro do Apocalipse mantém a advertência, muitas vezes desapercebida, de que igrejas morrem. As sete igrejas ali mencionadas — inclusive a irrepreensível Filadélfia — acabaram-se. Resumemse a meros registros históricos. Não podemos achar abrigo na promessa de Mateus 16 — de que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja — para justificar qualquer irresponsabilidade. O livro do Apocalipse adverte: "Lembra-te, pois, de onde caíste arrepende-te, e volta à prática das primeiras obras; e se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas" (Ap 2.5). Crescer numericamente não imuniza a igreja de perigos. Pelo contrário, torna-a mais vulnerável. Resta perguntar: Será que agora, famosos e numericamente profusos, não estamos precisando de profetas? Será que o tão propalado avivamento evangélico brasileiro não necessita de uma Reforma? Aprendamos com a história. Um pequeno desvio hoje pode tornar-se um abismo amanhã. Imaginar que podemos condenar nossas igrejas a se tornarem bares de snooker é um sonho horrível. Porém, se não fizermos algo, esse pesadelo pode se tornar realidade. Que Deus nos ajude. Soli Deo Gloria. Orgulho de ser evangélico Ricardo Gondim Rodrigues Gosto de correr pelas ruas de São Paulo com uma camiseta que adquiri em Recife. Ostento com letras garrafais em meu peito a frase: Orgulho de ser nordestino. Em uma parede de meu apartamento emoldurei a foto de meu pai. Dos tempos em que jogou futebol pelo Corintians. Sua postura de braços cruzados, com todo time, diante de um Pacaembu lotado, me envaidecem. Sinto orgulho de seu porte atlético, sua confiança de campeão. Dele, orgulho-me ainda de ter sido preso político. Não abriu mão de suas convicções para agradar os militares de 1964. Guardo também vários outros orgulhos. Principalmente o de ser evangélico. Quando me converti em minha adolescência, encantei-me com o desprendimento de homens e mulheres crentes. Abriam mão de suas manhãs dominicais para se dedicarem a jovens como eu – sem qualquer berço religioso. Queriam que eu aprendesse a Bíblia. Lembro-me afetuosamente daquele presbítero que passava na porta de minha casa e me levava aos cultos. Devotava-me o mesmo carinho que a seus filhos. Não conseguia entender porque mais de 40 pessoas gastavam até três horas em uma determinada noite para ensaiarem o coral. Só para cantar dois hinos no domingo à noite. Boquiaberto, compareci a uma escola bíblica em uma favela. Jovens como eu abriam mão de suas tardes de domingo para ensinarem a Bíblia a crianças carentes. Orgulho-me saudosamente de haver engatinhado na fé em uma igreja presbiteriana. Anos depois, passei a orgulhar-me de ser pentecostal. Minha primeira incursão no mundo pentecostal aconteceu em uma campanha evangelística; cena tão comum dos primórdios do movimento. O palanque consistia em um tablado de madeira apoiado sobre tambores de óleo vazios. O grupo musical tocava hinos que estimulavam a fé. Enfaticamente cantavam: “Conta para Jesus, onde é a tua dor. Ele te ajuda a carregar a Cruz. Com insistência ora. Que tu vais vencer. O que tu precisas, conta para Jesus.” O pregador levantou-se e proferiu um sermão veemente, evangelístico, bíblico. Prometeu que ao final de sua prédica faria duas orações. A primeira para que pessoas pudessem se converter. A segunda pelos enfermos. Depois que terminou o evento, saí orgulhoso com a intrepidez e coragem daquele jovem evangelista. Parecia desafiar o inferno, queria povoar o céu. Acreditava em um Deus de milagres. Orgulho-me também de ter alicerçado minha fé no ambiente da Aliança Bíblica Universitária. Sentávamos no chão, com a Bíblia no colo e, com o famosíssimo Método Induzido de Estudo, mergulhávamos na Palavra. As horas se passavam, confrontávamos o que sabíamos sobre Deus com os argumentos de nossos professores universitários. A ABU, marco importantíssimo na história evangélica brasileira, me deixa embevecido. Meu orgulho evangélico, entretanto, não me impede de perceber as idiossincrasias do movimento.
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    Há tantas distorções,imaturidades e desvios no evangelicalismo nacional. Por um lado, a igreja ainda está presa ao fundamentalismo norte-americano. Ainda copia a moralidade ianque. O cânon da literatura evangélica ainda é dos Estados Unidos. Em alguns redutos mais conservadores ainda se beija a mão de gringo. Há algum tempo eu e outros brasileiros, fomos convidados para pregar em uma conferência. Dividiríamos o tempo com alguns nomes expressivos da igreja evangélica norte americana. O tratamento que recebemos e como eles se comportaram foi sintomático. Começando pelo hotel. Eles hospedaram-se em um cinco estrelas. Nós, em um com categoria de pensão. Na hora em que falaram evidenciou-se o colonialismo. Embora pastores e lideres de expressão nacional estivessem no auditório, falavam-nos como se fôssemos alunos adolescentes numa classe de catecúmenos. No outro extremo, os evangélicos brasileiros vêm construindo a sua identidade sem raízes históricas. Embora já possuirmos uma identidade bem brasileira, desprezamos o labor teológico de séculos. Assim tornamo-nos vulneráveis ao sincretismo. Refratários às heresias. Cismáticos, vamos nos expandindo anarquicamente. Hoje, infelizmente as igrejas se multiplicam nos arredores das grandes cidades por meros caprichos de seus líderes. Desprovidos de projetos, sem percepção nítida de sua razão de ser, novos líderes vão abrindo novas comunidades que acabam enveredando por práticas bizarras. Há muitos erros no modelo evangélico. Entretanto, ele não está falido. Historicamente ainda somos adolescentes. A presença evangélica no Brasil ainda não tem 150 anos (O primeiro casal protestante de caráter permanente, Sarah e Robert Kalley, chegou no Brasil em 10 de maio de 1855). Ainda cometeremos muitos deslizes até que cheguemos a uma maturidade histórica. Se a igreja evangélica neste país tem perdido alguns valores da ética protestante, ela tem conseguido enormes avanços em outras dimensões da Reforma. O sacerdócio universal de todos os crentes, por exemplo. No Brasil, a igreja evangélica caminha com os leigos. Enquanto algumas lideranças denominacionais perdem tempo com a política interna. Homens e mulheres sobem os morros, embrenham-se pelos igarapés amazônicos, varam os sertões nordestinos com a paixão de evangelizar. Orgulho-me de já ter pregado em cultos familiares conduzidos na calçada. A mesa da cozinha, coberta com uma toalha e ornada com um buquê de flores artificiais, serve de púlpito. Falei com o microfone dando choque. Minha voz amplificada numa corneta de som chiando. Sem instrumento musical algum, desafinados, cantamos sobre o Calvário: “Foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus. Foi ali pela fé, que meus olhos abri e agora me alegro em sua luz.” Quando viajo pela redondezas das grandes cidades observo famílias caminhando a pé pelos acostamentos das estradas. Identifico os crentes e com os olhos marejados de lágrimas, sinto-me orgulhoso. O pai de paletó e gravata carrega a Bíblia orgulhosamente contra o peito. Segura a mão de um filho. A esposa, seguindo com mais dois outros filhos. O Evangelho lhes dá uma dignidade que as estruturas sociais iníquas lhes impedem de ter. Percebo-os felizes. Altivos, vão cultuar a Deus. Tenho orgulho de missionários transculturais. Já me encontrei com verdadeiras heroínas e heróis trabalhando pela causa de Cristo em circunstâncias dificílimas. Gente que investe o melhor de seus anos na Índia, Moçambique, Peru, Filipinas, Sibéria. Às vezes, ouço críticas aos modelos evangélicos partindo de pessoas que sempre desfrutaram as benesses do evangelho. Carecem de legitimidade. O modelo com que nossos missionários trabalham talvez não seja ideal, mas dentro de suas possibilidades e do que sabem, eles excedem. Orgulho-me das missionárias solteiras, dos pilotos que voam pela Amazônia, dos lingüistas que investem décadas na tradução de Bíblias, dos médicos e dentista que abriram mão da possibilidade de ficarem ricos para alcançarem os pobres. Há fidalguia no sacrifício dos heróis da fé contemporâneos. Sinto orgulho dos professores de pequenos seminários e institutos bíblicos deste país. Por todo o Brasil há pequenos centros de formação teológica. Geralmente ocupam as mal equipadas salas da Escola Dominical. Louvo a Deus por esses professores que gastam suas noites semanais lecionando para rapazes e moças. Muitos não recebem salário algum. Desdobram-se para que os livros de teologia sistemática, história da igreja, pneumatologia sejam conhecidos de seus pupilos. A igreja evangélica brasileira é ao mesmo tempo uma construção social e espiritual. Jesus afirmou: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja.” Chamou para si a
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    responsabilidade de edificarsua igreja. Também nos convocou amorosamente para sermos seus parceiros. Eis a razão de haver ao mesmo tempo tanta beleza e imperfeição. Nesta ambigüidade devemos nos arrepender de nossos defeitos e celebrar nossa beleza. Creio na fidelidade de Deus. Ele terminará a boa obra que começou em nós. Acredito que ainda vamos amadurecer e nos aprimorarmos no projeto do Reino. Estou disposto a investir minha vida pela Igreja. Pensando bem, creio que vou mandar fazer uma camiseta: Orgulho de ser evangélico. Soli Deo Gloria